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ESCOLA SECUNDÁRIA DE FONSECA BENEVIDES

O ADEUS AOS MISTERES DE LISBOA

COLETÂNEA DE CONTOS DOS ALUNOS DO 11º PQ

Trabalho Coletivo Realizado no Âmbito da Disciplina de Português

2013/2014


PREÂMBULO O livro «Sonhei com um país onde todos chegavam a Mestres. Começava cada qual por fazer a caneta e o aparo com que se punha à escuta do universo; em seguida, fabricava desde a matéria-prima o papel onde ia assentando as confidências que recebia diretamente do universo; depois, descia até ao fundo dos rochedos por causa da tinta negra dos chocos; gravava letra por letra o tipo com que compunha as palavras; e arrancava da árvore a prensa onde apertava com segurança as descobertas para irem ter com os outros. Era assim que neste país todos chegavam a Mestres. Era assim que os Mestres iam escrevendo as frases que hão-de salvar a humanidade.» A Invenção do Dia Claro, Almada Negreiros

Desenganem-se aqueles que procuram, neste modesto livro de contos, um momento alto da literatura. Vão sim, ver a fragilidade de um discurso algo vacilante, iluminado por ténues raios luminosos do raiar de uma escrita autónoma. Aceitámos o desafio da nossa BE, escrever sobre Lisboa, e num labor entusiasta foram tomando corpo os contos fantásticos e policiais; são pequenos grandes escritores, sem peias que sobrevoaram Lisboa, qual corvos em bando para compreenderem a cidade do século XIX, as velhas profissões, a vida real e quotidiana. Colocaram-se como seres pensantes e sensíveis, num lugar que é realmente o nosso, com toda a sua ingenuidade, a sua inexperiência, é certo, mas toda a sua verdade e entusiasmo. A aventura “ por mares nunca dantes navegados”. Deliciem-se!

Prof.ª Manuela Silva

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O Assassino da Madragoa Vanessa Neto

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adragoa é um bairro popular de Lisboa, junto à foz do Tejo, cujo nome deriva da presença, em tempos, do convento das Madres de Goa.

À beira do Tejo, Madragoa sempre foi um local de cruzamento de raças e culturas diferentes, sem distinção. Albergava os negros que amanhavam os campos e dava abrigo aos pescadores que fainavam no rio. Na memória dos mais velhos ecoa, ainda, o pregão das varinas, Oh, viva da costa! Antes do terramoto, no século XVIII, o bairro tinha o nome de Moçambo e não era mais do que uma pequena póvoa habitada essencialmente, por pessoas de origem africana. De entre muitas obras arquitetónicas da Madragoa, destaca-se o palácio dos Duques de Aveiro, a casa dos Marqueses de Abrantes e a mais antiga, e, modesta das capelas lisboetas é a dos Santos Mártires. Aí, há quem diga que Gil Vicente deu início ao teatro português. Na época, uma das profissões mais comum deste bairro, era a de pescador. Quando não estava no mar, andava pelas redondezas com as calças de xadrez pelos joelhos, descalço, muitas vezes acompanhando a mulher, a varina, de saia comprida e avental, com a canastra à cabeça que apregoava: «Ó freguesa! Olha o peixe, olha o peixe vivinho! Ó viva da costa!» Madragoa manteve-se um bairro simples, até há pouco tempo, com um aspeto muito acolhedor. Num dia de nuvens negras no céu, de tempestade intensa, uma imensa escuridão, assobiava o vento norte, o bairro estava quase submerso com tanta chuva, os homens não partiram para o mar, reuniram-se numa taberna em ameno convívio. As explorações de petróleo começaram no princípio do século XX. Atrás de si trouxeram o desenvolvimento tecnológico, os barcos a motor, as fábricas à beira rio, que, lentamente, mas, ininterruptamente, foram provocando a escassez de certas espécies aquáticas. Os pescadores foram os primeiros a sentir as consequências do flagelo. Assim, o trabalho tornouse pouco rentável, e a imaginação humana começou a trabalhar, pois os engenhos tornaram-se mais sofisticados e o peixe era retirado do mar por outros processos que dispensavam a profissão tradicional do pescador num bote. O pescador, como até aí era visto, já não servia, era dispensável! As redes eram mais finas, havia já toda uma técnica para pescar. Mais uma vez, a tecnologia e a sofisticação, sem lama nas botas, nem sangue nas mãos, matou uma antiga profissão. João Pena, um dos chefes de uma enorme frota de pesca, lançou para o ar, no meio da conversa acalorada, - a vossa profissão tem “ os dias contados, comecem a pensar ir trabalhar para a fábrica, o futuro é outro - … Acrescentou: - Não me admiro que daqui a uns tempos a profissão de pescador desapareça da nossa Lisboa.

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Um dos pescadores sentiu-se intimidado e replicou: - Os peixes! Estão quase todos mortos, dos que pesquei, cinco vieram mortos e apenas um está vivo. Isto é um desastre! - Respondeu o pescador muito triste e desorientado. - Há uma equipa a trabalhar aqui na fábrica … de sei lá o quê… talvez eles tenham a resposta certa. – Disse Alexandre, o filho do pescador. - Isto não fica assim! Madragoa precisa de peixe! O povo precisa de peixe… esses exploradores hão-de “cair do cavalo!” - Bramiu a multidão furiosa, disposta a destruir toda a instalação das fábricas, causando um grande barulho lá no bairro. Estava uma confusão tremenda! - Vamos acabar com estes malditos exploradores que estão a dar cabo do nosso peixe, nosso bem comum! - Gritaram todos OS que lá se encontravam. Mas não havia nada a fazer, a pesca na Madragoa já não se fazia sentir, contavam-se, pelos dedos, os pescadores. O povo acabou por se conformar com aquilo, mas a tristeza tomou conta dos seus rostos, principalmente daquele pobre pescador que andava sempre com a cabeça baixa e os olhos pregados ao chão. As varinas eram poucas nas ruas… maldita tecnologia que devastou tão belas profissões e tomou conta da tranquilidade de tantas pessoas que trabalhavam dia após dia. Eles conseguiram, as fábricas fizeram ali a sua casa. Pobres pescadores, pobre população, pobre humanidade… matam e destroem até à última gota, e levam com eles inúmeras profissões.

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O Padeiro da Mouraria Raquel Pimenta

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cordei exaltada com um som estranho, repentino, algo que me despertou de imediato. Havia adormecido ao som das guitarras tão bem acompanhadas pelos fadistas, tão singulares. A madrugada já estava calma. O silêncio, finalmente, chegara depois de uma noite em que o fado ecoou pelos becos e ruelas da Mouraria. Levantei-me num ápice, como quem acorda de um pesadelo, descalça, sem vestir qualquer coisa que me pudesse consolar naquela madrugada que logo constatei tão gélida. Naquele momento, a única coisa que realmente me interessava era de facto a origem daquele som que tanto me perturbara. Corri até à sala que tinha vista privilegiada para todo o bairro, inclusive para o local que parecia ser o escolhido para aquele ruído bizarro. Bruscamente, abri as cortinas e reparei que mais pessoas se tinham apercebido do mesmo que eu. O bairro inteiro encontrava-se num estranho aparato. Àquela hora todos deveriam estar a repousar da noite passada. - Morreu! Morreu! – Exclamava alguém do outro lado da rua. - Não é possível! Nunca vi nada assim … – declarava um idoso. - Nunca pensei! – concluiu a minha vizinha do lado. - Não vejas filho! Vai para dentro! – Dizia uma mãe. O cenário era assustador. Nunca antes presenciara tal situação. As pessoas estavam mais do que nunca, espantadas, desesperadas e transtornadas. Olhei para o chão e percebi que estava uma pá muito grande juntamente com pó no chão. Eram vestígios do padeiro. O que lhe teria acontecido? Estaria desaparecido ou talvez… morto?! Corri para a porta e logo pude perceber que não tinha o pão fresquinho e saboroso que, como de costume, deveria estar pendurado na minha porta. Tinha de acabar com as perguntas, e esclarecer as dúvidas. A realidade esperava-me e tinha de encará-la fosse de que maneira fosse, mais tarde ou mais cedo iria ter as respostas que tanto ansiava. Bastavam apenas alguns passos, para chegar à longa escadaria que percorria o caminho, até ao local para onde todas as atenções estavam viradas. Nunca estivera tão curiosa por descobrir a verdadeira razão de todo aquele aparato. Vesti um casaco e calcei os chinelos, e dei por mim no meio da multidão. Comecei a apanhar a conversa no ar. Consegui perceber que ninguém sabia ao certo o que teria acontecido ao padeiro. Todos opinavam. Uns diziam que tinha sido um assalto que tinha corrido mal, outros interrogavam-se sobre o estado mental do padeiro. Afinal, porque estaria a sua pá no chão? No entanto, os factos apontavam para o seu desaparecimento, por qualquer razão não identificada. - A porta está a abrir-se! – Alguém exclamou. Sem tempo para reações, a cesta do padeiro apareceu caída aos nossos pés. Alguma pessoa estava dentro da padaria, pois o cesto tinha sido atirado lá de dentro. Quem seria? O medo e o 3


pânico instalaram-se. Agora todos estavam preocupados em nomear o corajoso que iria entrar naquela padaria. Como ninguém se decidia, a minha voz acabou por tomar forças sozinha, e disse: - Eu vou… - Tu! – Espantavam-se os vizinhos. - Sim. Vão ficar a discutir e nunca vamos chegar a um consenso, portanto, vou lá eu. Qualquer coisa, eu grito. Ainda ouvi alguém pedir-me para não ir sozinha, que poderia ser perigoso. Mas eu estava decidida e concentrada naquilo que tinha de fazer. Dirigi-me, tristemente, para a porta, apercebime que o cheiro a pão fresquinho, tão singular daquela zona, naquele dia era imperceptível. Coloquei a mão na maçaneta da porta para a rodar. Sentia as minhas pulsações a mil e o meu coração aos pulos. O mais próximo daquilo tinha sido quando recebi a minha primeira negativa. Mesmo assim, nada era comparável àquele momento. Algo prendeu a maçaneta. Estavam a abrila. Afastei-me e fiquei parada, a preparar-me para o que aí viria – o pior. Era o padeiro. Aparentava estar abatido, parecia ter estado a chorar. Olhou para mim e disse baixinho: - Acabou! Trancou a porta, agarrou na pá e no cesto que estavam caídos, como que a despedir-se de tudo e de todos. - Espere! – Ganhei coragem e impedi-o de dar início ao seu caminho - Como? – Olhou para mim com os olhos entristecidos. - O que se passa Senhor Augusto? Hoje não deixou o seu pãozinho tão saboroso para eu poder tomar o meu pequeno-almoço – declarei, tentando criar alguma alegria. Virou-se para trás, tirou de uma sacola, e estendeu-me dois pequenos pães e esclareceu: - É tudo o que me resta. Adeus. Corri atrás dele e gritei: - Espere! O padeiro parecia não querer saber de mais nada e continuou o seu caminho com os olhos fixos, presos ao chão. Concluí que, assim, não iria a lado nenhum. Por isso, tomei a decisão, tinha de ser convincente, tinha de encontrar a explicação. Corri o mais que pude e consegui colocar-me à sua frente. - Por favor, explique-me o que se passa – pedi com muita dificuldade, ainda estava cansada da corrida. - Há-de perceber … – declarou. Respirei fundo e resolvi falar de outra forma: - Olhe, Senhor Augusto, peço imensa desculpa. Hoje, acordei sobressaltada com um barulho. 4


Todos ficámos preocupados. Não sei se já reparou, mas o bairro inteiro está pasmado ali ao fundo a tentar perceber o sucedido. Estamos todos preocupados, e o senhor não é capaz de dar uma explicação coerente às pessoas que sempre o receberam tão bem. Finalmente, retirou os olhos do chão, olhou para mim, olhou para a multidão, que ficou perplexa. Avançou para o centro, onde todos se encontravam. - Acho que merecem uma explicação. As novas leis obrigam a novas condições novas de higiene e eu não tenho dinheiro para as cumprir. - Mas nós gostamos do seu pão de qualquer forma – afirmou uma criança. O padeiro sorriu, pela primeira vez, desde que ali chegara, fez-lhe uma festa no cabelo e disse: - Não há volta a dar. Acabou aqui. – E estendeu-lhe um bolo - Gostei muito da oportunidade de vos dar o pequeno-almoço diariamente, de ver muitas pessoas a crescer e a criar as suas famílias. É com muita pena e saudades que abandono esta profissão. - Até um dia, – dizendo isto, seguiu o seu caminho, que eu havia interrompido. Desta vez, ninguém disse nada. Todos ficaram parados. Nem mesmo eu consegui dizer algo. Achei que era a vez de deixá-lo seguir o seu rumo. Todos regressaram às suas casas, sem nada dizerem. Estávamos já a meio da manhã. Tive uma ideia. Tinha de recordar aquele momento de outra forma. Coloquei as duas bolas de pão à minha porta, de forma a parecer igual a todos os outros dias, fui deitar-me, adormeci e quando acordei fui buscar o meu pequeno-almoço. Uma das minhas lágrimas caiu, molhando o saco onde estava o pão. Era assim que eu ia recordar aquele dia. A profissão de padeiro, na Mouraria, estava morta.

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A Leiteira do Bairro da Ajuda Eduarda Martins

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lho pela janela entreaberta, mais uma manhã, o céu parece meio tristonho, já se veem os habituais barcos, com os habituais pescadores a tentar a sua sorte, já não se ouvem as crianças como se ouviam. Agora, só se ouve a construção das novas casas e das minhas naturais inimigas: as mercearias! Parece que crescem como ervas daninhas que não se conseguem arrancar. Adoram roubar-me os clientes. Neste bairro da Ajuda, ainda resistem algumas quintas. Depois de muito tentar arranjar coragem para enfrentar o dia, acabei por sair e confrontei-me, de imediato, com uma MERCEARIA irritantemente CHEIA, ainda por cima vendem aquele leite que parece ter anos, aquele novo leite em pó. “Como pode alguém ter coragem de dar isto a uma criança?” Mas eu sou uma pessoa teimosa, que não desiste depressa, por isso instalei-me mesmo à frente da mercearia e apregoei “OLHA, O LEITE FRESQUINHO!” “VEIO DIRETAMENTE DA VACA!” “OLHA, O LEITE QUE É RICO!”. Bem, resumindo, demorei pelo menos umas três horas a aperceber-me que não vinha ninguém, nenhum cliente. Todos passavam, olhavam para o leite e suspiravam. “Mas o que é que estava a passar?” Como não sou de desistir, peguei no meu estaminé e fui tentar a minha sorte noutro lugar. Instalei-me onde eu e a minha mãe costumávamos estar, e tentei mais uma vez “OLHA, O LEITE FRESQUINHO!”. Mas, então, não é que veio a dona de uma daquelas mercearias e começou a ralhar: - Mas “vossemecê” é teimosa! Não desiste! Não vê que ninguém vai comprar esse leite! Saia já daqui! Mude de profissão! Eu, sinceramente, fiquei a pensar no que ela disse, quando cheguei a casa, cansada até à alma, mas sem um tostão no bolso. Aquela frase estava a roer-me por dentro: “Será que aquela mulher teria razão? …”; “Será que mudar seria a solução? …” No dia seguinte, acordei determinada, “vou abrir uma mercearia!”- vendi as minhas vacas a uma vacaria, que me iria providenciar leite da sua marca. Não sou uma pessoa de desistir, mas sei pensar, tenho consciência que a profissão acabou.

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A Modista de Campo de Ourique Maria Freitas

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ia 7 de Junho de 1997, no bairro de Campo de Ourique, estava um belo dia de primavera, o bairro estava calmo e as pessoas espreitavam pelas janelas. Como típico bairro antigo lisboeta, existiam várias modistas, e uma delas era a mais conhecida por fazer vestidos de noiva, belos e esplendorosos. Certo dia, fizeram-lhe uma encomenda muito especial - um vestido de noiva em cetim e rendas finas -, ficou entusiasmada, aliás, como ficava sempre. Iniciou o seu trabalho vagaroso e diligente. Primeiro tirou as medidas, depois adquiriu os materiais, acarinhou-os para os poder começar a talhar e a compor. Algum tempo depois, a primeira prova, um leve esboço daquilo que seria o trabalho final. A jovem noiva provou-o, mas impaciente, movimentava-se para um lado e para o outro e perguntava: - Vai ficar assim? - Não… - Respondia a modista pacientemente. - A menina não vê que é a primeira prova. Temos que cosê-lo à máquina. Ainda falta muito. A noiva continuou a mostrar-se impaciente, apesar de faltarem muitos meses para o casamento, queria vê-lo já pronto, como nas montras da loja. Naquelas, onde se entra, se experimenta e compra-se logo. Já está! A mãe tinha insistido para o mandar confecionar, era mais barato e acabava por ser original, único, não haveria outro parecido tal como o seu futuro marido. Afinal num casamento queremos sempre ser únicos. Marcou-se a 2ª, a 3ª provas e todos os encontros para os ajustes. Joana, como se chamava a noiva, em todas as provas assumiu uma atitude incorreta, desafiadora, desagradável e, por vezes, provocatória. Dizia estar farta, saturada, tudo aquilo era antiquado, queria ser moderna,… sempre indiferente ao trabalho meticuloso da modista que procurava satisfazer-lhe todos os caprichos. Quando o vestido ficou concluído, pendurou-o num cabide. Cobria a parede como se fosse uma enorme nuvem branca. Esteve assim um dias, meses, talvez anos à espera que a cliente o fosse buscar, mas ela não apareceu. A jovem, pouco antes do vestido ficar pronto, afirmou, perentoriamente, que não gostava daquele modelo, tinha visto numa loja um muito mais giro, como ela dizia. Persuadiu a mãe a comprá-lo, e disse, friamente, à pobre modista que já não queria aquele “mono”, assim o designou. A modista, humilde e desiludida, incapaz de reivindicar a despesa que tinha feito com os materiais, o esforço, a dedicação e o amor que tinha colocado naquela obra, decidiu, num esforço 7


derradeiro, terminá-la. Seria, talvez, a obra com que culminava a sua profissão. Até não acabava mal! Pensava ela, engolindo as lágrimas. Assim, morreu mais uma profissão artesanal, às mãos de todos aqueles que deixaram de ter tempo e paciência.

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A Modista de Campolide Karen Mendonça

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á era tarde e o ar da noite, fresco e suave, era como um indício de que as nuvens carregadas trariam uma desgraça. Os absolutistas e os liberais guerreavam entrincheirados nos redutos de Campolide. Assassinatos tenebrosos assombravam a cidade, além da guerra à volta, dos soldados mortos no campo de batalha, pessoas vulgares morriam todas as noites no grande bairro de Campolide. Estive durante todo o tempo entre eles, servia-os e fazia os trabalhos mais difíceis. Nunca pensariam que tudo começou por mim. Estava disfarçada, pois, afinal, quem iria desconfiar da criada? Comecei por eliminar a modista da rua do Arco, levei “as minhas patroas” a uma nova loja que se situava nos arredores da cidade e possuía ainda um atrativo bastante convincente: “preços mais baixos!” Pouco depois, já toda a vizinhança sabia da “tal loja”. Às dezoito horas, reuniram-se todos num café onde, por acaso, se aperceberam da ausência da modista que já não era vista há algum tempo. O senhor Gomes do armazém perguntou: - Onde está a menina Marques? E, as senhoras trocaram olhares constrangidos, o que chamou a atenção das pessoas que por ali estavam, tendo em conta que elas eram provavelmente a causa do desaparecimento da modista. Naquela noite, no café, decidi, para surpresa de todos, contar que tinha escutado os gritos desesperados da modista. Tinha presenciado a sua agonia lenta, morte já anunciada e o seu desaparecimento repentino. Acrescentei: - Ontem, ao final do dia, a menina Marques estava à espera que a Dona Maria fechasse a loja, e, por acaso, quis o destino que eu, ao passar, a ouvisse gritar: - Por favor, não me faça mal… eu prometo retirar a minha loja do bairro! Fui testemunha e, em parte, causadora de tal crime. - Confesso, não foi a D. Maria, a dona da loja, que a matou, fui eu! Eu matei-a quando a impedi de usar os tecidos, as rendas, a lã, os dedais, as tesouras… Matei-a de solidão, de desespero e de dor. As senhoras, desajeitadas, conscientes de serem cúmplices desta desgraça e a razão pela qual a modista teve que abandonar a profissão, voltaram os olhares para mim, mas desviando-os, logo em seguida, como sinal de remorso. Senti necessidade de me justificar, afinal era um crime, embora não punível à face da lei. - As máquinas atraíram-me, as fábricas de confeção eram um sonho, as lojas, com as suas enormes montras, um mundo. Além disso, não gostava da sua antipatia, quando trabalhei para 9


ela. Por vezes, maltratada, trabalhava até altas horas, o salário era escasso, contudo, confesso, depois da obra concluída era um orgulho. - Ouvi-a dizer que apenas pessoas da alta sociedade eram dignas das suas criações. Acredito que tenha sido esse o móbil utilizado por mim. Pela Justiça do meu amado Campolide, fica aqui o meu testemunho do assassinato de uma das modistas de bairro.

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As Varinas do Bairro Alto Carla Monteiro

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dia estava muito mau. Chovia intensamente e a atmosfera estava enevoada. Era uma noite muito fria e húmida, a chuva caía nas telhas das casas e escorria pelos canos de esgoto. O chão das calçadas cheirava mal por causa da acumulação dos lixos e das fezes dos animais. O barulho das carroças e o chilrear dos pássaros, os cães que ladravam sem parar, e as nuvens de fumo sobre as enormes chaminés das fábricas provocavam uma enorme poluição. De todos os habitantes, era o povo quem mais sofria. Moravam em casas sem condições de habitação, trabalhavam muito e não tinham, por isso, uma vida facilitada. O dia começou com um sol brilhante, nem parecia que na noite anterior o tempo tinha estado tão detestável. Os habitantes começaram logo pela manhã a trabalhar, havia uma enorme correria no bairro e todas as pessoas queriam exercer a sua atividade. A vendedeira de peixe - a varina - saiu à rua, logo cedo, para vender carapau. Vai de porta em porta, de beco em beco a apregoar “olhó carapau fresquiiiiinho!”. Era assim que fazia todos os dias, percorrendo todo o bairro para poder obter o sustento da família. O domingo era um dia especial naquela época. Era um dia de festa, de descanso, de ir à igreja, de adoração a Deus. Quase ninguém trabalhava. Vindo da missa como de costume, alguns habitantes do bairro reuniam-se numa taberna para conversar sobre as questões do bairro. O assunto era as novas tecnologias que estavam a surgir para facilitarem a mão-de-obra. Eles nem tinham consciência do que ia acontecer, e no meio da conversa apareceu uma questão, o senhor João perguntou aos colegas: - Não sei como é que a varina aqui do bairro consegue, sendo que são um bocadinho caros, vender tantos carapaus por dia? - Pois… e eu não sei, não sei não… como é que ela consegue vender mesmo sendo caro. Respondeu o senhor José que não gostava muito de gastar dinheiro, era muito poupadinho, era mesmo um “mão de vaca”, como diziam os habitantes do bairro. - Eu acho que isto deveria mudar, e vai mudar! - Comentou o senhor Augusto que estava de passagem pela taberna e ouviu a conversa. - Como é que isso vai mudar se não temos outra alternativa? Perguntou outra vez o senhor João com um ar surpreendido. O senhor José insistiu também: - Como é que o senhor sabe que esta situação vai mudar? - Eu ouvi dizer que vai abrir um novo local de venda só para peixe, nacional e internacional, com frigoríficos, nem sei bem como são… e até mais barato do que o que a varina vende. – Confidenciou o senhor Fernando que tinha acabado de chegar, mas ainda ouviu parte da conversa. 11


- Seria muito bom, o bairro está a precisar de novos comércios. - Exclamou o senhor José. Dias depois, a vendedeira de peixe saiu à rua, como sempre, para apregoar o seu peixe de porta em porta e de beco em beco, mas quase ninguém queria comprar porque a loja de que se falava já tinha aberto. Desde aquele dia foi uma desgraça total. Ninguém queria negociar com a varina porque, naquela nova loja que abriu, vendia-se o peixe por metade do preço. Pouco tempo depois, a varina acabou por abandonar o seu negócio. Morto às mãos das novas tecnologias e do progresso!

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As Lavadeiras de Benfica Joana Correia

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uma manhã sombria e triste de Inverno, numa zona limítrofe da cidade - Benfica.

A chuva caía violentamente através do desfiladeiro das montanhas, o vento da noite agitou-lhe a manga da camisa. O céu cheio de nuvens e intensamente negro, a luz era tão pouca. Só se avistavam prédios, estradas, multidões e muito barrulho. Com o avanço das novas tecnologias e as águas a correr nas torneiras dentro de casa, as pessoas não queriam ter trabalho, consequentemente começaram a comprar máquinas de lavar. Já quase ninguém se lembra de quem tratava da roupa das freguesas, essas mulheres tão robustas e mães de numerosas famílias, que carregavam as trouxas às costas ou em carroças, andavam por caminhos sinuosos e difíceis da vida. Um jovem de olhos grandes e melancólicos, uma face toda branca do frio dos invernos, com uma das mãos metida no bolso de um velho paletó, cor de pinhão, a outra vergando contra o chão uma bengalinha envernizada, entra no café. O dono, desconfiado, vai até à porta. O jovem aproximou-se do dono e disse: - Não acha tão estranho esta mulher ainda ter tanto trabalho, nos dias de hoje? O dono do café pergunta: - Porque é que diz isso? - É cá uma ideia minha, não quero adiantar muito o assunto. No dia seguinte, a lavadeira estava de saída para trabalhar, mas é interrompida pelo marido que a chama: - Mariaaa! Achas que ainda vale a pena ires trabalhar? É um trabalho muito árduo e cansativo, não é vida para ti. E já não me parece que alguém aqui das redondezas precise dos teus serviços, já todos têm máquinas de lavar em casa e canalizações… Maria fica pensativa…, e diz: - Manel, eu já andava a pensar em mudar de profissão, até vi uma mercearia a precisar de uma empregada, mas não queria deixar esta profissão… - Maria, vamos lá à mercearia ver então o emprego! - Manel, obrigada por me apoiares. As máquinas de lavar que vieram invadir as nossas casas tiraram o emprego a estas mulheres, mas, naturalmente, apareceram muitas outras profissões, mais industrializadas, que ajudaram o país a evoluir. 13


Acácio, o Alfaiate e Sapateiro do Castelo de S. Jorge Mariana Branco

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ra o Acácio, o alfaiate..., e que alfaiate! Muito pobre, mas igualmente bondoso. Era uma zona pobre e pobremente frequentada. As pessoas andavam, habitualmente, rotas e descalças por ali...

O Acácio encarregava-se de não deixar que tal acontecesse... Que senhor..., que alma caridosa..., que anjo... Contava os tostões todos os dias para uma sopa e uma carcaça para o almoço, mas nem por isso deixava de improvisar algum agasalho para que um pobre não morresse de frio... Os únicos trabalhos que ia conseguindo eram para as senhoras “finas”, moradoras na baixa, pois não só tinha um coração de ouro, como também tinha umas mãos de oiro. Era conhecido pelo excelente trabalho que executava, apesar de não ser bem pago. Quando surgia um casamento, algum fato de noivo para criar, conseguia ir jantar à “tasca do castelo”, com a mulher, apesar dos problemas circulatórios que ela tinha. Movimentava-se com muita dificuldade, a pobre D. Ludovina, trabalhadora toda a vida, até esta lhe ter pregado uma partida. Era costureira. Os dois, viviam numa casa de pedra humilde, forrada a madeira por dentro. Uma casa? Um armazém? Possuía apenas uma divisão, que fazia de sala, quarto, casa de jantar, cozinha, casa de banho e local de trabalho. À entrada da casa, via - se à esquerda uma mesa e duas cadeiras de madeira já desconjuntadas. À direita a cozinha, duas bancadas e uma panela. Em frente, um sofá roto, perto da lareira, ao lado de uma cama de casal com uma colcha cheia de remendos. Para trabalhar, usava a mesa de jantar e, uma vez que a casa não tinha janelas, para que tivesse luz, deixava a porta aberta... ah, tinha também uma mesinha aos pés da cama onde ele e a mulher podiam deixar os sapatos. Como se tudo isto não fosse humilde, honesto e bondoso que chegasse, tratava de todos gatos da zona e, quando era caso disso, dos cães também. Que homem!... homem?! SENHOR! Fazia-se vestir com uma camisola de alças, um polo e um blazer a condizer com as calças. Os sapatos eram de cabedal, já gastos na sola, mas ainda bons, pelo que dizia! A D. Ludovina tinha um vestido de manga à cava, mas fazia-se sempre acompanhar de um avental. Quanto aos sapatos, uns chinelos de quarto facilitavam-lhe a deslocação. Todos os dias a rotina era a mesma. Por volta das seis, estava acordado. Passava o corpo por água com um pano molhado numa bacia, vestia-se e ia dar resposta às encomendas que tinha, quando as tinha...

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Por volta das oito horas, acordava a D. Ludovina. Tratava de fazer o pequeno-almoço para os dois, pão duro com compota, dada pela vizinha Alice em troca de serviços do alfaiate. Cerca da uma hora, almoçavam uma sopa. À tarde uma ou outra bolacha de água e sal e, com sorte, ao jantar pão com sardinha. E, assim, era a rotina deste velho e humilde casal. Até ao dia... Era meio-dia e quarenta e oito, e a D. Ludovina permanecia na cama. Acácio ficou intrigado. O mais tardar, às nove horas acordava! Algo não estava certo e Acácio foi ver o que se passava. Até que entendeu, tinha chegado a hora, o momento e a altura... A D. Ludovina já não estava mais com ele... estava branca e bem morta... o mundo desabou... Era o amor que tinha pela mulher e a sua companhia que o mantinha vivo, todos os dias, naquela miséria... O que se veio a confirmar, mais tarde, pelos vizinhos próximos... Acácio deixara de comer, de trabalhar, de se lavar..., perdera a vontade de viver... Seis dias depois da morte da dona Ludovina, Acácio estava deitado ao lado do cadáver da sua mulher..., branco..., e bem morto!...

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O Amolador do Bairro Alto David Ferreira

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céu carregado de nuvens negras sugeria que, a qualquer momento, haveria tempestade. As ruas cheias de nevoeiro e as casas mais pareciam assombradas..., parecia um bairro tenebroso e sombrio.

O Amolador atravessa as ruas do Bairro, soltando uma certa tristeza e angústia, como companhia, apenas, o som nostálgico da sua gaita-de-beiços. De vez em quando, surgia um ou outro cliente, mas raramente isso acontecia, porque os preços das facas e das tesouras eram iguais, ou até inferiores, ao preço que custava afiá-las… Naquele dia, o Amolador parecia mais sujo do que o habitual. Estava, possivelmente, nos últimos dias da sua profissão. Os clientes escasseavam, desapareciam lentamente, volatilizavam-se como o éter. O Amolador caminhava com o seu veículo já gasto e praticamente sem forças para o movimentar, até que passa pelo café de uma senhora com cerca de trinta anos, com uma farta cabeleira e de olhos azuis penetrantes, que afirma: - Até me admiro como é que este senhor ainda trabalha por aqui. O dinheiro que ele ganha nem dá para a sua subsistência … Triste com a situação do amolador, tira da sua carteira uma moeda de 20 reis e põe-na na algibeira do pobre homem. O tempo foi correndo. Certo dia, alguém, ao virar a esquina de uma das estreitas ruas do Bairro Alto, reparou que a gaita-de-beiços do Amolador estava caída no chão e, então, pensou que algo se passava. Ficou a pensar que o amolador tinha desistido da sua profissão, ou porque tinha aberto para aqueles lados uma nova loja onde se fabricavam e se vendiam facas, ou porque algo se passava na “cabeça” do amolador, frustrado e zangado por a loja estar cheia de clientes e ele raramente ter apenas um único por dia. Sabia-se que sentia uma vontade enorme de que aquela loja fechasse para que os clientes voltassem para ele. O mistério atraiu a curiosidade dos moradores, alguém se dispôs a revelar aquele misterioso acontecimento: a gaita-de-beiços, caída por terra e o seu dono, inexplicavelmente, desaparecido. O sapateiro que permanecia no seu posto de trabalho, sentado num banquinho, já com pouca clientela, ouviu o desabafo do amigo Amolador, há alguns dias atrás. Farto da sua vida e da morte lenta da sua profissão, teve uma ideia altamente perigosa, algo que nunca tinha imaginado na sua vida. Decidiu matar o dono da loja para que a sua profissão renascesse. Ao final do dia, quando o dono da loja de facas estava a fechar, tranquilamente, o seu estabelecimento, cruzou-se com o amolador. Parecia estar ali à sua espera, quando este o convida a ir até à taberna da D. Micas, para beberem um copito e darem “dois dedos de conversa”. Apesar 16


de admirado, acedeu. Caminham pelas ruas estreitas do bairro, o Amolador leva-o a um beco sem saída, e, de seguida, retira a sua faca e tenta espetá-la, mesmo em cheio, no coração do lojista. As as forças traem-no, até que a faca se vira contra ele, e espetasse-lhe no coração. Teve morte imediata. O lojista, embora um pouco consternado, ficou aliviado porque tinha, assim, garantido a sua vida e a continuidade do seu trabalho. O amolador, esse, deixou de encantar o bairro com o seu som melodioso, logo pela manhã.

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O Ferrador do Número 9 Daniel Cruz

C

hovia sobre a estrada serpenteante, na rádio música melancólica ecoava pela noite escura, o ar frio e malévolo assobiava por entre os prédios altos de encontro ao cadáver estendido na calçada do bairro.

Num dos prédios vivia um ferrador, sozinho e esquecido. De manhã, foi encontrado à porta do prédio onde vivia, com o seu corpo lívido, mãos ásperas e barba por fazer, mas no entanto, quase que sorridente, ninguém o reconheceu. O polícia destacado sugeriu ser um sem-abrigo, tendo o resto dos seus colegas, tal como os vizinhos do pobre esquecido, concordado, contudo houve um homem que discordou, o senhorio. - Esse homem é o do número nove! - Exclamou o senhorio do prédio. No dia anterior, o senhorio tinha andado a recolher o dinheiro da renda, das doze portas, havia uma sobre a qual ele se intrigava, quando era dia de pagar a renda, encontrava sempre um envelope, à frente da porta, com o dinheiro certo no chão, quase que esquecido. O número nove era o número misterioso. Nunca tinha posto a vista no inclino do número nove, pensou o senhorio, mas naquele dia, enquanto recolhia o envelope, a porta abriu-se e, de lá, saiu um homem bastante sorridente. Contudo, nos seus olhos quase que se refletia a sua pobre e lastimosa história. Intrigado sobre este homem misterioso, começou a conversar para descobrir mais sobre esta personagem tão solitária, sorridente e tão enigmática. Após alguns minutos de conversa, o senhorio teve a certeza. Esta não era uma pessoa normal, à frente dele estava um homem extremamente inteligente, com a experiência e conhecimento que qualquer pessoa desejaria. Ao despedirem-se, o homem do número nove, ainda de nome desconhecido para o senhorio, exclamou: - O esperto só acredita em metade, e o génio sabe em que metade deve acreditar. Depois disto, o homem do número nove saiu à rua e levou um tiro!...

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Os Artesãos de Alcântara Gianina Lima

A

lcântara, no século XIX, apresenta características peculiares. Vários acontecimentos e tradições únicas e exclusivas ocorreram neste bairro. Tudo começou devido ao terramoto que abalou, no século passado, grande parte da cidade de Lisboa e atingiu esta zona no coração. A enorme industrialização que invadiu o bairro com as suas gigantescas fábricas também ameaçou os artesãos. É um grande bairro! O rio Tejo, tem uma das suas margens na Avenida de Ceuta. Como o rio anda por perto, ali mesmo na Avenida de Ceuta, Alcântara tem muita humidade. De manhã muito cedo, na calada da madrugada, com os seus matizes multicolores, vê-se Alcântara como uma grande ilha rodeada de água… vêem-se os barcos, os navios a atracarem no porto, pessoas aos magotes, umas bem-dispostas e prontas para viver mais um dia, outras malhumoradas, sem um “pingo” de esperança para viver a vida em grande, na sua plenitude. Ao ver essas pessoas sem vontade de viver, até fico admirada, como elas acordam, logo pela madrugada, e não mudam o seu dia com um lindo nascer do sol e as suas múltiplas tonalidades. O bairro tem casas velhas, outras novas, as carroças na rua. Os velocípedes e os automóveis são para as pessoas importantes. Por isso são escassos, nas ruas de Alcântara. Este vai e vem das pessoas para o trabalho, o cheirinho a pão, logo pela manhã, os brados dos trabalhadores que concorrem nas ruas para venderem os seus produtos e chamarem a atenção dos fregueses… “ Oh, Viva da costa!”; “Carapau fresquinho! “Quem quer figos quem quer almoçar!”. Vêem-se turistas a circular pelas ruas, a conhecer novas tradições, novas artes, pratos típicos… Começam a germinar as fábricas como cogumelos gigantes - indústria química (sabão, velas de estearina, azeite, óleos e até uma fábrica de chocolate). Alcântara é isto, é viver um dia de cada vez sem pensar no amanhã! A indústria artesanal é uma das profissões mais comum em Alcântara, são designados por Artesãos. À medida que o tempo passa, as coisas vão mudando e começa a surgir a indústria mecânica que “mata” a indústria artesanal, porque as pessoas já não dão importância aos produtos manufaturados, tais como malas, cestos, bandejas, jarros de barro, loiças, enfim uma panóplia de artigos modelados e confecionados pelas mãos de quem sabe e ama a sua arte. A população de Alcântara, e não só, começa a dar importância à indústria mecânica, aos produtos feitos nas fábricas, por vários operadores e máquinas, passando por diversos processos, e, num só dia fazem milhões de produtos iguais por baixo custo. Em comparação, a indústria artesanal é mais morosa, com as suas artes, com todos os seus pormenores, a marca da individualidade. Por isso são mais caros, pois a manufatura demora muito tempo, e as pessoas já não têm “tempo”, nem paciência para esperar. Na indústria artesanal, trabalham tanto homens como mulheres. Estas vestem saias longas com camisolas curtas e lencinhos na cabeça, andam muitas vezes curvadas pelo peso das cestas, ou porque o trabalho a isso as obriga. Os homens usam calções, camisas, bonés e andam descalços pelas ruas de Alcântara a vender os seus lindos produtos artesanais. Já na indústria mecânica, os 19


trabalhadores usam uniformes. Como é que as pessoas já não valorizam a indústria artesanal? Uma vez que é um trabalho humilde, de muita diligência e amor? Já não entendo as pessoas … realmente, isto é uma grande injustiça! Neste processo de destruição, pouco antes de “morrer” a indústria artesanal, a senhora que serve capilé fresquinho, no quiosque do largo, comentou com voz sonora: - Estou muito admirada, como é que certas profissões ainda existem! Um cliente, que por ali se encontrava, resolveu confirmar a admiração da proprietária do quiosque: - Acho que a indústria artesanal devia acabar, morrer, desaparecer do mapa, porque os produtos que eles fazem, embora sejam de muito boa arte, demoram muito tempo a confecionar. Além disso são muito caros! - Mas porque dizes isso? - Oh, mulher! Olhe! Primeiro porque os clientes já não têm paciência para tanta demora e mesmo que os produtos sejam belíssimos, são muito caros; para além disso, já não se dá muito valor aos trabalhos feitos à mão. - Minha senhora, desculpe lá que lhe diga, mas esta profissão tem que morrer. Para que conste, as pessoas agora estão a dar valor à indústria mecânica que é muito mais rápida e eficaz. - Pois…, concordo consigo. - Eles hão de encontrar algum trabalho para fazer, ou mesmo trabalhar na indústria mecânica, só que aí tinham que aprender a trabalhar com várias máquinas… - Não ia ser pera doce, não!… - Bom, a conversa está boa, mas, vou ter que ir andando pela sombra… - Diga - me quanto é o capilezinho, se faz favor? - Ora, são 2 reis. - Está aqui. Muito obrigado e tenha uma boa tarde! - Obrigada e igualmente! Passados os dias, escuridões viram claridade e luz vira trevas, até que chegou o grande dia! O dia da morte da indústria artesanal. Como a indústria artesanal tremia, temia, e rezava para não morrer. Chegou a pedir à indústria mecânica para não a matar, queria continuar a viver, longas jornadas nas ruas e ruelas de Alcântara. Mas mesmo pedindo rogando, suplicando,não houve palavra de misericórdia que impedisse a indústria mecânica de matar a indústria artesanal. Foi uma pena, uma aflição quando se ouviu um grande barulho, uma só dor, uma só tortura, com muita frieza e muita solidão. Morre a indústria artesanal com uma grande tristeza. Mas nunca será esquecida. Desce à terra 20


com toda a sua dignidade, deixando uma enorme melancolia. A indústria mecânica começa a ser valorizada, faz muito sucesso, porém deixa muitos desempregados que pouco a pouco, começam a sentir apertos de vária ordem. Destes acontecimentos trágicos, a indústria fabril tornou-se a grande estrela, mas causou muitos prejuízos e trouxe pobres. Pouco tempo depois, ainda havia vestígios dos nossos artesãos, aqui e além, completamente dilacerados. Uma noite alta, em pleno coração de Alcântara, uma voz brotou dos confins da terra, fez-se ouvir por todo o bairro, gritos, uivos que aterrorizam a indústria mecânica, ou seja, o espírito da indústria artesanal continuava vivo. - Porque que és tão egoísta e interesseira? - Explica-me! - Já não existia espaço para ti, as pessoas já não davam valor aos teus produtos… - Por tua culpa, morri, caí no desemprego e nas maiores desgraças. - Vida de pobre é mesmo um contratempo… - Causa-me muita ira e repugnância pela maneira como me eliminaste, mas já que estou no paraíso, já não posso fazer nada, ao menos olharei por ti e conferirei sempre se fazes um bom trabalho, não te darei um minuto de paz, e quem sabe, um dia ressuscitar-me-ão e, talvez nesse momento, me saibam dar o devido valor. - Fica bem e bom serviço! Ah! Ah! Assim, Alcântara continuou a viver um dia de cada vez e sem pensar no amanhã… Carpe diem!

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Morte em Alfama Adriana Silva

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ivo no bairro mais antigo e típico da cidade de Lisboa, que é a nossa grandiosa Alfama.

Hoje, acordei e decidi observar todos os locais do bairro e os acontecimentos que nele surgem. Podemos ver que Alfama, desde sempre, esteve ligada ao mar, porém não circulam somente os pescadores e as suas mulheres - as varinas. Profissões comuns nestes tempos em que vivemos - século XIX. De diversas partes do mundo vêm numerosos estrangeiros visitar o gracioso castelo de S. Jorge e a Igreja de S. Vicente de Fora. Alguns ficam muito sérios a olhar para nós bairristas, pois as nossas ruas são muito peculiares e estreitas. Parece que os pequenos prédios se beijam lá no cimo, e daí falarmos todos uns com os outros, sem receio do ouvido alheio. Aqui, todos sabemos a vida uns dos outros, basta acontecer para se ficar a saber. Olhem, esperem! Daqui consigo ver na margem do rio Tejo, que me revela uma atmosfera enevoada, uma multidão a observar os diversos barcos sombrios. Mas… algo se está a passar? Bem vou lá ver! Eis!… Então, não é que vem, na minha direção, aos brados e com uma enorme aflição a D. Maria. - A que se deve essa angústia? – Perguntei eu, admirado. - Ai! Não queira saber – numa voz chorosa -, morreu! - Quem? Inquiri, admirado e chocado com este acontecimento tão terrível. E ela respondeu-me com uma voz de choro, um olhar profundamente abatido e um ar desgostoso - o meu marido! Foi aí que percebi o enorme desespero daquela mulher. O seu marido, o Sr. Alberto, um dos melhores pescadores do nosso bairro e arredores. Mas com a minha indiscrição, não intencional, perguntei-lhe como se tinha dado o caso. Recebi como resposta: - Um envenenamento! Dei-lhe os meus sentimentos e, de seguida, fui até ao café da Dª. Lurdes, onde já se comentava o acontecimento, sempre com certos acrescentos e diversas versões. Por mais incrível que pareça, não existia qualquer tipo de testemunha concreta. Apenas uma varina que ouviu o Sr. Alberto gritar. Passadas umas boas horas, apareceu um dos capitães dos barcos sombrios, que revelou ter surgido uma possível prova do crime. Ficámos todos a olhar para o indivíduo que trazia enrolado, num pano, um copo que dizia ter sido o último que o Sr. Alberto usou para beber o vinho da segunda refeição do seu dia. Continha certos vestígios de veneno. Daí retirarmos a ideia de homicídio. 22


Todas as suspeitas indicavam para a atual cozinheira do navio, a Dª. Ana. Em tempos idos, tinha sido uma das melhores, ou até mesmo a melhor das varinas do bairro, devido à pesca do seu falecido marido, Após a morte deste, a sua venda de peixe foi decaindo e o sucesso foi cada vez mais reduzindo. Invejava, dia após dia, a D. Maria, e por isso, vingou-se da vida, acabando com a suposta rivalidade do marido. Depois de chegarmos a esta conclusão, denunciámo-la. Os agentes foram averiguar o caso e a suspeita foi confirmada. Assim sendo, foi condenada a prisão perpétua. A D. Maria com a fiel dedicação, que dentro dela permanecia, a seu marido, decidiu mudar de profissão e … a profissão de varina morreu.

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Índice

Índice O Assassino da Madragoa .................................................................................................... 1 O Padeiro da Mouraria ........................................................................................................ 3 A Leiteira do Bairro da Ajuda ............................................................................................... 6 A Modista de Campo de Ourique ......................................................................................... 7 A Modista de Campolide ...................................................................................................... 9 As Varinas do Bairro Alto ................................................................................................... 11 As Lavadeiras de Benfica .................................................................................................... 13 Acácio, o Alfaiate e Sapateiro do Castelo de S. Jorge ........................................................... 14 O Amolador do Bairro Alto................................................................................................. 16 O Ferrador do Número 9 .................................................................................................... 18 Os Artesãos de Alcântara ................................................................................................... 19 Morte em Alfama .............................................................................................................. 22

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O Adeus aos Misteres de Lisboa