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Entrevista a José Rodrigues, secretário nacional para o Ambiente e Sustentabilidade

«O Escutismo consegue, apesar das mudanças dos tempos, acompanhar aquilo que é o foco importante para os jovens.» José Rodrigues, escuteiro desde 1977, define-se como uma pessoa pronta e alerta para todas as mudanças. Por isso, aceitar este novo desafio, e para uma área que lhe é particularmente querida como o ambiente e a sustentabilidade, acabou por facilitar a sua decisão. Convidamo-vos a conhecer melhor o José Rodrigues e as prioridades da sua vasta secretaria. Susana Micaela Santos | Chefe de redação smicaela@escutismo.pt Fotos: João Matos, Gonçalo Vieira e José Rodrigues

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Quem é o José Rodrigues? O José Rodrigues é casado, tem dois filhos que são escuteiros marítimos, assim como a minha esposa também é Dirigente marítima, uma casa de escuteiros portanto. Nasci em Lourenço Marques, Moçambique, vim novo para Portugal e acho que isso definiu o meu perfil de estar sempre pronto e alerta para todas as mudanças. Essa necessidade de nos adaptarmos a novos espaços, a novas pessoas, culturas e ideias, acho que fui moldado um pouco por este percurso inicial de vida. Acabei por ir parar a Moscavide e é lá que em 1977 sou dos primeiros elementos a inscrever-se para o futuro agrupamento que ainda estava no início, o 582 de Moscavide. Aqui começa o meu envolvimento com o Escutismo e a descoberta desta grande jornada e desta grande aventura. Fiz todo o meu percurso por lá, da promessa de Explorador, até à promessa de Dirigente. Mais tarde começo a colaborar na Junta Regional e depois envolvi-me em várias atividades da Junta Central. Mais tarde, após um período de afastamento, dá-se a feliz coincidência quando regresso de ir morar num novo espaço na cidade de Lisboa, o Parque das Nações, onde se estava a criar uma nova paróquia. Acabei por regressar ao ativo e começar uma nova aventura completamente diferente, abracei a causa do Escutismo marítimo, no Agr. 1100, do Parque das Nações. Quais as motivações para te candidatares e porquê para a área do Ambiente e Sustentabilidade? São curiosidades engraçadas. No primeiro momento que vim para a Junta Central, integrar o Departamento de Ambiente, estávamos numa fase inicial de se falar nas questões ambientais. O pensamento e conhecimento as consequências da nossa ação na natureza vai mudando com o tempo, portanto é importante trazermos para dentro da associação o conhecimento científico, o desenvolvimento que se faz dentro da área da Biologia, da investigação ambiental que nos permite ter cuidados mais acertados e preocupações mais cuidadas em determinadas áreas. Envolvi-me 20 | Flordelis

em muitas coisas a nível nacional e local, passei pela Mesa do Conselho Nacional e, de facto, os últimos tempos no Conselho Fiscal e Jurisdicional Nacional foram desafios também interessantes, com características totalmente diferentes. Quando o Ivo me fez o convite para integrar a equipa que estava a organizar, tinha consciência das necessidades que envolvem esta função, da ocupação de tempo, da necessidade de envolvimento intenso, mas por outro lado foi uma coincidência interessante voltar a estar nesta área. A associação deu um salto qualitativo na produção de informação e de documentação disponível para as oportunidades educativas, criámos protocolos interessantes com muitas instituições e associações que nos permitem ter um leque de oportunidades para os jovens, mas há sempre caminho a fazer. Durante muito tempo falou-se sempre na tónica de ambiente, e a própria secretaria chamava-se Ambiente e Prevenção. Foi

uma decisão logo inicial que esta secretaria passassesse a chamar-se Ambiente e Sustentabilidade, e passa muito por aqui eu ter aceitado este desafio. Porque existe um novo desafio em termos ambientais. Existem então novos desafios a nível ambiental? Nas últimas décadas preocupámo-nos com uma certa cultura ambiental, de percebermos os impactos dos nossos comportamentos, as consequências das nossas atitudes, e foi bastante importante este percurso que foi feito, está na hora de darmos outra consistência à forma como fazemos as coisas. Esta consistência acontece quando encaixamos tudo isto na óptica sustentabilidade, temos de ter cada vez mais consciência da integridade e ética dos nossos atos, como atuamos perante a natureza, os nossos pequenos gestos do dia a dia, para ajuda a minimizar as alterações climáticas, que são cada vez mais preocupantes. Existe uma panóplia de

«A associação deu um salto qualitativo na produção de informação e de documentação [...].»


«[...] no primeiro momento que vim para a Junta Central, vim integrar o Departamento de Ambiente, estávamos numa fase inicial de se falar nas questões ambientais [...].»

situações, que se interligam, a preocupação agora não pode ser só o conceito que tínhamos de um meio ambiente como um espaço na natureza em que nos preocupamos em estar e proteger, mas também nos preocupamos, no nosso dia a dia, com os nossos comportamentos e atitudes. Fala-nos um pouco sobre as tuas áreas de intervenção. É uma secretaria bastante vasta e isso leva-nos a que a constituição das equipas seja feita de forma cuidada, com pessoas com qualidade e capacidades, o que vai ser determinante para desempenharmos um bom trabalho. Começando pelo que pode ser mais diferenciador, o Departamento de Ambiente. Há aqui vários protocolos que já estão em marcha e que vão permitir disponibilizar alguns cursos de formação ambiental, ou pelo menos permitir o acesso a alguns desses cursos que são importantes para a associação. Vamos dar passos muito concretos para conseguir incluir dentro daquilo que já era feito e

muito bem, continuar a criar oportunidades educativas que sejam um portefólio de opções e possibilidades para que os nossos jovens consigam desenvolver a sua consciencialização e a sua sensibilização para estas questões ambientais integrando tudo isto na questão da sustentabilidade. Em relação aos centros escutistas, depois de um processo bastante importante, o de conseguirmos catalogar e diferenciar os muitos espaços de acampamento existentes. Estamos agora numa fase diferente, a classificação, a organização, a dinamização e especialmente a sua divulgação. Temos de dar passos seguros em relação à divulgação internacional, encontramo-nos num momento excelente em que Portugal está na moda lá fora. Na área dos centros escutistas, há um objetivo muito claro da secretaria, que é criar condições, não sei se ainda neste mandato, é difícil de dizer, que será a criação de uma base náutica nacional. Em relação à Proteção Civil, além do que já se fazia nas operações de Fátima, preten-

de-se ainda nesta área, que tem muito que ver com o apoio aos centros, a elaboração dos planos de segurança e evacuação dos centros. Há um trabalho que se pretende estender às bases, para que nos próprios agrupamentos haja esta preocupação com os planos de segurança e evacuação. Na área do Radioescutismo há uma atividade emblemática que se vai manter que é o Jota Joti, mas há uma série de componentes a fazer nesta vertente do radioescutismo lhe dar alguma visibilidade. Depois temos outro meio que a associação ainda não conhece em profundidade e não disfruta dele, falo especificamente do museu, que é um espaço já com uma qualidade acima da média, espaço em que a nossa História está muito bem retratada, um local onde podemos fazer uma visita e ficar a conhecer quer a História do CNE, quer do Escutismo. Depois temos a Casa Nacional Escutista de Fátima (CNEF), que é uma estrutura que está situada muito próxima do santuário, bem localizada, que tem umas condições excecionais para acolher os nossos jovens, quer seja em secção, em Patrulha ou em agrupamento. Antes de fazermos uma divulgação mais massificada daquele espaço, estamos a fazer um trabalho preparatório, por forma a termos uma oferta pedagógica no CNEF espaço, quer seja na área da Espiritualidade, momentos de oração e de reflexão, utilizando o espaço privilegiado que temos. Em relação à Drave, tem já uma dinâmica muito própria e disponibilizando oportunidades para os nossos Caminheiros e Companheiros poderem fazer o seu percurso evolutivo na IV Secção, um espaço que permite quer individualmente, quer em equipa fazer um processo de evolução, reflexão e introspeção, é um espaço de excelência para todos os Caminheiros e Companheiros, que devem pelo menos uma vez no seu percurso na secção passar por lá. Por fim, o Campo Nacional de Atividades Escutistas (CNAE) é um espaço sobejamente conhecido por todos, fica o desafio de fazermos com que o CNAE possa ir mais além e ter uma oferta e oportunidades de atividades fora do Acanac, como já acontece com o Tecoree, uma atividade de referência para a III Secção.

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Quais as prioridades da tua secretaria? Claramente aquela que tem um impacto pedagógico mais forte nos nossos jovens tem a ver com o Departamento de Ambiente e está relacionada com fazermos novas parcerias e novos protocolos que possam dar outras oportunidades aos nossos jovens. Ou seja, criar novos desafios nesta área aumentando um pouco o leque do que já temos de oferta. Existem já algumas coisas a caminho, como é o caso do protocolo com o Jardim Zoológico, outra iniciativa que queremos desenvolver com a recolha de óleos. Relativamente aos centros escutistas, gostava de lançar o desafio aos vários centros a nível nacional que é o de realizarem um open day com todas as forças de segurança e prevenção das duas regiões, por forma a que se desenvolva um dia em campo com a dupla componente, de dar a conhecer de uma forma informal o nosso centro a estas entidades, além disso é uma forma de também conseguirmos recolher os seus inputs que podem ser uma mais-valia dada a sua experiência, dando pequenos conselhos para pequenas intervenções que podem melhorar substancialmente a qualidade e a segurança dos nossos espaços. Outra coisa que a secretaria pretende promover é a criação de um fundo de apoio aos centros escutistas. Poderá ser modesto nesta primeira fase, mas pretendemos no futuro fazer um esforço para que esse fundo seja mais significativo, para que os centros se possam candidatar e receber este apoio. Outra das propostas identificava o aumento do número de centros nacionais e a promoção dos centros que existem em conjunto com as regiões. Como vês o trabalho desenvolvido nos centros e parques escutistas? E quais são as suas principais necessidades? Com a pressão a nível legislativo e de regulamentação, foi necessário criar estes espaços para desenvolver as nossas atividades escutistas no campo e na natureza, esta necessidade levou a aparecerem variadíssimos locais de acampamento com características diferentes. Este foi o tempo 22 | Flordelis

de encontrar os espaços adequados, e sem esse trabalho realizado nada agora poderia ser feito. A realidade atual é que já temos uma representatividade geográfica bastante interessante. Estamos a fazer esta entrevista no dia em que comemora o Dia da Floresta. Hoje mesmo está a ser proposto um decreto-lei em que uma série de terrenos a nível nacional que vão ser disponibilizados para associações, câmaras municipais, organizações que possam de alguma forma gerir os espaços. Podemos estar a nível local atentos a oportunidades possam surgir. Outra componente importante é termos consciência que os recursos são escassos,

podemos ter o centro em funcionamento, mas para termos uma oferta com qualidade precisamos de ter um staff, uma manutenção permanente de uma série de equipamentos. Estamos a começar a perceber que em algumas zonas já temos uma oferta muito intensa de espaços. Assim temos de olhar com um cuidado acrescido para a abertura de novos espaços. Outro capítulo é identificar quais as zonas do nosso país onde se possa encontrar espaços e ver as suas potencialidades de forma a ser um centro diferenciador.

«Baden-Powell deixou uma mensagem que é basilar para tudo: "Deixar o mundo um pouco melhor do que o encontramos", serve para todas as circunstâncias [...].»


Quais são as condições que consideras importantes para o desenvolvimento de uma base náutica e qual a importância da sua existência? A minha sensibilidade como escuteiro marítimo identifica a necessidade desta base, mas considero que é uma lacuna para todos este espaço não existir. Quando falava há pouco na aposta em centro diferenciadores, um com estas características não existe. A base náutica tem desde logo muito que ver com o Escutismo marítimo, mas nem de perto nem de longe se cinge para fazer atividades com escuteiros marítimos. O que se pretende é encontrar um espaço com qualidade e condições, e essencialmente com segurança, para que se possam fazer atividades náuticas, para todos os escuteiros, e não só os marítimos. O Escutismo marítimo em Portugal deu um salto qualitativo e tem vindo a crescer nos últimos anos. Mas para garantirmos que continuamos a ter este caminho delineado, a questão da formação dos adultos e a preparação dos Caminheiros/Companheiros nesta fase final é muito importante. Por isso esta base tem igualmente em vista ser um local de formação, além disso ser um local com uma oferta diferente acho que o torna mais apelativo. A frase tão conhecida de B-P «Deixar o mundo um pouco melhor do que o encontraste» passa também por termos escuteiros cada vez mais informados sobre o uso dos recursos naturais e do impacto ambiental que provocamos? Tudo hoje está interligado, a globalização é uma realidade que está à nossa porta, temos de aprender a viver com esse mundo. A questão é que hoje em dia, temos acesso a toda a informação, de uma série de canais e de oportunidades, pelo que começa a surgir outra questão que é a de começarmos a ter filtros e a cingirmo-nos ao que realmente é importante. O Escutismo consegue, apesar das mudanças dos tempos, acompanhar aquilo que é o foco importante para os jovens. Esta

oportunidade do conhecimento técnico, oportunidades de estarem em contacto com a natureza, de trabalhar em pequenos grupos e a sociabilização que isso provoca, dando uma resposta quase em contraciclo ao que hoje em dia é a individualização, o Escutismo dá "uma pedrada no charco" em tudo isto, de trabalharmos em equipa e em grupo, de termos desafios coletivos, conseguir levar os nossos jovens para o campo e desfrutarem da natureza e do que ela nos oferece. Mas tudo isto nos dá responsabilidades acrescidas, ou seja, hoje fala-se em ambiente, antes falava-se em ecologia, e muito antes destas premissas todas Baden-Powell deixou uma mensagem que é basilar para tudo: «Deixar o mundo um pouco melhor do que o encontramos» serve para todas as circunstâncias. A responsabilidade que ele nos deixou é que quando saímos de um acampamento ninguém perceba que esteve lá a decorrer um acampamento de escuteiros – esta é a importância de sabermos viver em sustentabilidade. Quase que a frase dá um salto geracional e chega aos dias de hoje com uma mensagem basilar que é respeitarmos a natureza, saber utilizá-la, porque a seguir a nós outros vão querer usufruir deste planeta onde vivemos, e para isso temos de ter cuidado nas atitudes e nos comportamentos.

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"Quem é Quem?" na Junta Central - José Rodrigues  

Esta semana vamos conhecer melhor o atual secretário nacional para o Ambiente e Sustentabilidade, José Rodrigues e as prioridades da sua vas...

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