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Luana Guimarães, Ivan de Sá e Simone Borges

A Vida Pela TV

São Paulo Novembro, 2010


1ª edição Luana Guimarães, Ivan de Sá e Simone Borges Nome do Livro: A Vida pela TV São Bernardo do Campo: Escritório de Mídia, 2010. ISBN: XXXX Literatura Brasileira Todos os direitos desta edição reservados a Luana Guimarães, Ivan de Sá e Simone Borges Copyright 2010 by Luana Guimarães, Ivan de Sá e Simone Borges Editora: Escritório de Mídia Rua Jônio, 12, sala 17 09750-340 – São Bernardo do Campo – SP Telefone: (11) 4123-8159


A Vida Pela TV


Agradecimentos Esta obra não existiria sem a palavra de todos aqueles que nos narraram a história... Aqueles que obrigamos a dar um mergulho de fôlego nas suas recordações, fatos, datas, anedotas, testemunhos e impressões. Diante disso, queremos agradecê-los. São eles, por ordem alfabética: Ana Rosa (atriz) Alcina de Toledo (dramaturga) Álvaro de Moya (vice - presidente da Pró TV) Arnaldo Ferraz (jornalista) André San (jornalista) Carlos Miranda (ator) Canarinho (comediante) Carlos Nascimento (jornalista e apresentador) Cid Moreira (apresentador) Elmo Francfort (diretor de comunicação da Pró TV) João Restife (comediante) Jonas Melo (ator) Léa Camargo (atriz)


Lisa Negri (atriz) Luciana Bandeira (assessora de imprensa da Pr贸 TV) Mauro Alencar (doutor em teledramaturgia pela USP) Maria Isabel (professora de cultura brasileira) Patr铆cia Mayo (atriz) Rita Okamura (pesquisadora e dramaturga) S么nia Maria Dorce (advogada) Tatiana Belinky (escritora de programa infantil)


Também agradecemos, em especial, pela generosidade, conselhos, orientação, tempo, aos professores José Alves Trigo, orientador e cordenador do curso de jornalismo, Tânia Trajano e Eduardo Rocha. E pedimos desculpas àqueles que, talvez, tenhamos esquecidos de mencionar aqui...


Sumário Apresentação Capítulo 1: Heroína dos pioneiros Capítulo 2: Vida nasce para a vida Capítulo 3: Tupi: amor, pioneirismo e o primeiro beijo Capítulo 4: Pró TV, o museu que cuida da TV


Apresentação A escolha do tema do nosso primeiro e decisivo livro para a nossa formação em jornalismo não foi o maior problema. Afinal, em nossas cabeças algo estava muito claro: o tema do livro precisava estar relacionado à cultura. O importante era passar uma boa mensagem para quem lesse esta obra. Algumas ideias vieram (incluindo sobre os fãs do seriado Chaves), até chegarmos ao tema de fazer uma homenagem aos ex-funcionários da TV Tupi de São Paulo. Seriam histórias em formato de perfil, contando como está a vida de algumas figuras importantes na história da primeira emissora da América Latina. Pensamos: “Não vamos fazer com os consagrados, ainda presentes na mídia”. Na realidade, todo mundo sabe como está a vida de Hebe Camargo, por exemplo. Ela também é uma exfuncionária da Tupi, que hoje continua na ativa apresentando seu programa no SBT. O mesmo vale para o Lima Duarte. Ele faz grandes novelas com atuações memoráveis. Não sabíamos por onde começar. Onde acharíamos esses tais ex-funcionários? A ideia era muito oportuna, pois em 2010 a TV completa 60 anos de vida e a Tupi 30 anos de morte. Enviamos e-mails para alguns jornalistas na área de cultura e entretenimento. Então, um jornalista chamado Ruvin Singal indicou o nome de Vida Alves, afirmando que ela conhecia e tinha o contato de quantos artistas nós achássemos necessário. O contato com Vida Alves foi feito e logo sua assessora de 13


imprensa, Luciana Bandeira, nos respondeu. Nossa primeira entrevista estava agendada. Vida foi muito atenciosa e a Pró TV (Associação dos Pioneiros e Incentivadores da Televisão Brasileira) nos encantou. Muitos acervos e objetos interessantíssimos. A história dela era cativante. A mulher que deu o primeiro beijo na novela Sua Vida me Pertence (1951, TV Tupi) e que mais tarde se tornaria a presidente de uma instituição. Percebemos as dificuldades de Vida em manter o museu da televisão de pé. Então decidimos: o nosso livro iria contar a história da Pró TV. Mas nos demos conta de que além da bela história, Vida Alves, como presidente da instituição, tem uma trajetória incrivelmente rica. Chegamos à conclusão que para contar a história da Pró TV, precisávamos, primeiro, relatar a história da Vida. Novamente, enviamos um e-mail para Luciana perguntando se Vida nos autorizava a escrever a biografia dela. Ela aceitou. Conversamos novamente para obtermos informações mais aprofundadas de alguns assuntos que ficaram vagos no primeiro encontro. A cada palavra de Vida, percebíamos o quanto essa mulher é inteligente e influenciou a televisão. Ela não foi apenas atriz. Escreveu, produziu, apresentou programas e exerceu com competência a profissão de jornalista. Não havia erro, fizemos a melhor escolha. Vida Alves não apenas ganhou uma biografia, mas também virou representante de uma legião de excelentes profissionais pioneiros pouco lembrados e valorizados pela mídia. Alguns podem pensar: “Eles estão generalizando”. Na realidade, sempre que comentamos com alguém sobre a nossa biografia, as pessoas geralmente

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falam: “Vida Alves? Não conheço”. Ou dizem: “Ah, a mulher do primeiro beijo”. Esse livro tem por objetivo contar a história de um grande talento que realiza um trabalho incrível a frente de uma instituição sem recursos e espaço adequado. Vida luta para manter a memória da televisão viva. Nós, com esta obra, também. No fim, conseguimos fazer tudo aquilo que planejávamos de início. Contamos a história de alguns ex-funcionários da Tupi, alguns em forma de perfil e outros inseridos na trajetória da emissora fundada por Assis Chateaubriand. O mais importante: fizemos uma profunda investigação sobre a razão de alguns pioneiros da TV não receberem a valorização merecida. E, claro, em todo momento citamos a Pró TV para que o público tenha um maior conhecimento da instituição. Quem sabe, no futuro, o museu da televisão esteja em um grande espaço? A biografia de Vida Alves é uma homenagem aos 60 anos da televisão no Brasil. Não esperem ler adiante uma biografia convencional e cronológica, pois a história de Vida é contada de uma forma diferente.

Os autores, Luana, Ivan e Simone.

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1 Heroína dos pioneiros “A vida sem luta é um mar morto no centro do organismo universal.” Machado de Assis


Sábado, 18 de setembro de 2010, noite fria, mas para uma pessoa em especial, o clima era outro: bem quente. Uma senhora loira, de cabelos curtos, bem escovados, vestida com saia e casaquinho dourado. Sentada o tempo todo, levantava-se toda vez que alguém mencionava o seu nome. Sempre sorrindo, aliás, possuía um sorriso muito franco, verdadeiro e espontâneo. Se a mídia não tivesse divulgado, provavelmente poucos telespectadores saberiam que aquele era o dia do aniversário da televisão. Em 2010, a TV completou 60 anos. A festa foi organizada pela Pró TV - Associação dos Pioneiros e Incentivadores da Televisão Brasileira e foi realizada no Memorial da América Latina, localizado na Barra Funda, em São Paulo. O local já foi palco de inúmeros eventos. Entre eles, o Miss Brasil 2010, transmitido pela Rede Bandeirantes de Televisão. O Memorial foi arquitetado e desenhado pelo incrível Oscar Niemayer. Um lugar grande, com mais de 12 portões de entrada, um estacionamento com capacidade para inúmeros carros e cartazes de exposições de eventos futuros. Para entrar no evento de aniversário pelos 60 anos da televisão, visualizamos, na entrada principal, uma multidão. Havia profissionais da imprensa, telespectadores comuns, convidados dos homenageados da festa e artistas convidados. Estava uma loucura, todos querendo entrar. “Eu tenho o convite”, dizia uma pessoa. “Sou amigo do homenageado”, dizia outra. No meio disso, uma moça vestida de terno preto e calça social da mesma cor, olhava para as pessoas permitindo ou 19


não a entrada delas. Chegou o jornalista Leão Lobo, bem mais alto e forte pessoalmente do que na TV. Entrou na festa sem maiores dificuldades. De repente, uma jovem loira, de vestido preto e curto chegou para auxiliar. Mesmo assim, o tumulto não diminuía. Estávamos ficando agoniados. Os profissionais da imprensa, com câmeras, entravam e nós não. Até que a tal moça de terno preto nos viu e disse: “Vocês podem entrar”. Entramos e um senhor, que estava angustiado para entrar na festa, pediu: “Faz de conta que estou com vocês. Eu só quero ver um amigo”, afirmou. Na entrada, uma sala grande e muito bonita. Com algumas mesas com copos, sofazinhos brancos e pequenos. Estava tudo calmo. De longe, ainda víamos a moça que nos deixou entrar bem agitada. Mas lá dentro não, tudo caminhava na maior tranquilidade. Para entramos no palco principal do evento, tínhamos que subir uma longa rampa de cor azul. Fomos até a rampa, um segurança nos olhou e não disse nada. Subimos nela e chegamos até uma porta grande, uma senhora nos olhou e sorriu. Não entendemos nada e entramos. Chegamos ao auditório principal com muitos lugares que estavam sendo preenchidos. No alto, as cadeiras eram simples. Embaixo, as cadeiras, de cor preta, eram confortáveis e numeradas. O conforto para os convidados estava garantido. Além disso, assim como em qualquer teatro ou cinema, havia alguns degraus nas laterais de cada cadeira. Mas esses degraus eram traiçoeiros, pois algumas pessoas tropeçavam neles. Próximos ao palco, havia muitos jornalistas. Algumas repórteres vestidas de forma inadequada, com vestidos curtíssimos, 20


entrevistavam personalidades da televisão. De repente, localizamos a pessoa mais interessada no evento. Ela estava sentada. Aproximamo-nos e perguntamos: “Qual é a expectativa para a festa?”. Ela nos disse: “Está demorando muito para começar, estou ficando nervosa”. Tentamos acalmála, afirmando ser normal o atraso nestes grandes eventos. A pessoa de quem estamos falando é Vida Alves, a senhora de saia e casaquinho dourado, a grande homenageada da noite. Vida tem 82 anos, possui uma história de destaque na televisão. Mas a maior importância dela, está no trabalho à frente da Pró TV. O museu da televisão está localizado na casa dela no bairro do Sumaré. Neste dia, após quinze anos da inauguração do museu, finalmente uma notícia mudaria os rumos da instituição, da qual Vida é presidente. A festa começou, havia dois telões, um em cada canto. Para a nossa surpresa, havia duas plateias. A segunda, do outro lado do palco. Mas muitos se questionavam se ali era uma plateia ou só um espelho nos refletindo. Porém, quando os apresentadores entravam e se desdobravam para falar para ambos os públicos, percebemos que, sim, eram duas plateias. O jornalista Marcelo Tás, mais badalado do que nunca por causa do programa CQC (Custe o que Custar, da Bandeirantes), dividia a apresentação da homenagem aos 60 anos da televisão com a não tão conhecida Thais Alves. Logo, Marcelo explicou para o público que Thais, vestida com um longo vestido vermelho, era filha de Vida Alves. Vários artistas entravam no 21


palco, contavam histórias, mas não perdiam a oportunidade de falar sobre Vida Alves. Lima Duarte contou a história do surgimento da TV, do jeito dele, repleto de emoção e talento, que o torna um pioneiro privilegiado, por nunca estar afastado das novelas. Lolita Rodrigues arrancou risadas do público ao contar a história do hino da televisão. Wilma Bentivegna, mesmo debilitada, emocionou a plateia cantando a música interpretada por ela no dia da inauguração da Tupi. E, assim, o evento seguiu sob olhares atentos de Vida Alves *** Alguns personagens importantes para a história da televisão não podiam, nesta festa tão importante, deixar de falar algo sobre o evento e, claro, sobre Vida Alves. Cid Moreira, tão pioneiro quanto Vida, apesar da aparência cansada, ainda tem disposição para ir a grandes eventos como a festa dos 60 anos da TV. O dono do “boa noite” mais famoso do Brasil e de uma voz unicamente grave, definiu Vida de forma rápida:

“A Vida é uma pessoa sensacional e foi a garota mais saidinha da época. Afinal, deu o primeiro beijo na TV”.

Já Ana Rosa, atriz de inúmeras novelas, falou sobre Vida Alves de forma mais prolongada. Convidada para o evento, Ana carregava o título de atriz que mais novelas fez na história da

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televisão. Muito simpática e elegante, acabou de se formar na faculdade, no curso de cinema.

“A Vida sempre foi muito simpática e carinhosa. Ela faz um trabalho de resgatar a história da TV. E isso é muito importante para nós da classe artística.”

Ana se lembrou da boa convivência que tinha com profissionais como Márcia Real, Laura Cardoso e Lima Duarte. E disse admirar o fato deles ainda estarem na ativa, trabalhando. Para a atriz cada ator deveria escrever suas memórias e publicar, caso contrário, eles acabariam caindo no esquecimento.

“Vejam o Cassiano Gabus Mendes; Geraldo Vietri, grande diretor; Walter Avancini, maravilhoso. Infelizmente, daqui a pouco ninguém vai se lembrar de profissionais como eles. Por isso, aplaudo Vida Alves de joelhos, por seu grande trabalho na Pró TV”.

Ana declarou que nestes 60 anos de TV, algo que ela gostava muito eram as conversas com os colegas de televisão na Padaria Real, próxima à sede da Tupi, no bairro do Sumaré.

“Quando entrei em 1964 na televisão, eu me reunia com 23


vários colegas de profissão e alguns deles se questionavam em relação à vinda da telenovela diária: ‘Será que esse gênero vai perdurar?”.

O jornalista e âncora do Jornal do SBT, Carlos Nascimento, confessou: só veio ao evento por causa de Vida Alves. O jornalista afirmou que Vida se comunicou com ele por e-mail, mas que ele hesitou em ir, pois modestamente não se considerava um elemento importante na história da televisão.

“Estou aqui por causa do respeito que tenho por Vida. Essa festa é dela”, afirmou acrescentando: “Vida Alves, além de ter sido uma atriz importante para a história da televisão pelo que já fez, continua sendo importante por aquilo que está fazendo”.

Carlos disse admirar o fato de Vida, aos 82 anos, ter a energia de organizar uma festa como a dos 60 anos da televisão.

“Ter o cuidado para fazer este show com esta vitalidade não é para qualquer um”, declarou o jornalista.

O comediante Canarinho, alegre e muito bem humorado, homenageou a televisão cantando Parabéns pra Você.

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“A televisão está fazendo 60 anos. Vale dizer que ela tem vida própria, tem Vida Alves”, afirmou.

Para Canarinho, se não fosse por Vida, não haveria a festa pelos 60 anos da TV, reunindo diversos pioneiros. O comediante declarou que já trabalhava com humor desde 1947, ou seja, três anos antes da TV surgir. Com mais de 80 anos de idade, Canarinho afirmou ser muito grato ao público, que até hoje das suas piadas no programa humorístico A Praça é Nossa.

“Tive o prazer de balançar o berço da televisão. Graças ao Manoel da Nóbrega, tornei-me ator, produtor e diretor de televisão. Agradeço ao público pela felicidade de alegrar a todos vocês”.

O ator Jonas Melo estava sentado em uma das últimas cadeiras da plateia. Revelou que não queria ser reconhecido e muito menos assediado pela mídia. Mesmo assim, não se importou em falar sobre a festa e Vida Alves.

“Estou muito feliz em estar no evento dos 60 anos da TV. Vida Alves é um expoente para a história da televisão brasileira”.

Jonas tem 36 anos de televisão. Não chegou a trabalhar na 25


Tupi, mas reconhece o esforço de Vida Alves para manter viva a memória da televisão.

“É brilhante o que ela faz, realmente, é uma criatura fantástica. Vida tem um respeito muito grande pelos pioneiros que, praticamente, fundaram a TV Tupi”.

Tatiana Belinky, uma das grandes escritoras de histórias infantis para a televisão, ao lado de seu marido, Julio Gouveia, recebeu uma bela homenagem na festa. Mesmo na cadeira de rodas, Tatiana estava alegre no evento.

“Essa festa está muito bonita. A Vida é quem está dando vida a tudo isso, por isso, eu a parabenizo.”

Tatiana declarou que, no começo, as emissoras contratavam muitos atores de teatro. “Trabalhei na Tupi e, antes, já fazia teatro há três anos”, contou a autora da primeira adaptação do livro Sítio do Pica-pau Amarelo de Monteiro Lobato para a TV. Durante o evento, as personalidades se apresentavam. Wanderléia, Sílvio de Abreu, Regina Duarte, Gabriela Duarte, Eva Wilma, entre outros. Abaixo do auditório, havia um coquetel para os convidados, oferecido pela Rede Bandeirantes. Eram servidos: sopa, salgados exóticos, doces e refrigerantes. A

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todo momento, garçonetes serviam os convidados. Jornalistas, mesmo trabalhando no evento, não perdiam a oportunidade de ‘fazer uma boquinha’. Afinal, ninguém é de ferro. *** Por falar neles, os jornalistas, muitos estavam no coquetel para ter um lugar mais silencioso para gravarem as suas passagens (a fala do repórter com a sua imagem). José Armando Vennuci, jornalista e colunista da rádio Jovem Pan, estava enérgico, gravando a sua reportagem e falando sobre o evento. Mas as coisas não aparentavam estar indo tão bem, pois ele voltava a gravação a todo o momento. Sua expressão irritada era evidente. Na festa havia jornalistas vips - aqueles que podiam entrar no camarim do show. Um jovem repórter do SBT era um destes vips. Entrava e saía do local sempre. Havia nele um ar de arrogância, na maneira como andava e olhava. Poderia ser apenas impressão. Afinal, nem sabíamos o nome do rapaz. Aliás, rapaz com jeito de ter uns 18 anos de idade, pois usava o cabelo todo espetado e tinha um rosto de criança. Outra presença na área exclusiva, era uma jovem jornalista da Rede Record - elegante, como uma celebridade da televisão. Mas havia uma contradição entre esses jornalistas vips, e os não vips, aqueles que não tinham acesso aos camarins. A forma como estavam vestidos era completamente diferente. Uma jornalista estava sentada na plateia vestida com um jeans simples, com uma blusa de frio semelhante a um moletom. Ela anotava todas as informações durante as apresentações do evento, anotava e curtia a festa. Quando Wilma Bentivegna cantou, a jovem não

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se controlou e disse para outra repórter sentada ao lado dela: “Viu só? Já estou chorando”. Já os fotógrafos estavam no chão na beirada do palco, registrando cada instante da festa. Todos muitos despojados, mas demonstrando levar muito a sério a profissão. Quando Ceará, humorista do programa Pânico na TV, da RedeTV, chegou com a festa em andamento, imaginamos: “Ele vai entrar homenageando o Sílvio Santos, outro grande pioneiro da televisão”. Apesar de ter surgido vestido como o personagem, ele entrou na área vip e de lá não saiu. O mesmo ocorreu com Oscar Filho, comediante e repórter do CQC. Ele também não saiu da área vip. Vida Alves não quis saber desta história de vips: em nenhum momento ela ficou no camarim. Isso quer dizer que ela gosta mesmo é do contato com o público. Para ela, assistir ao evento era mais importante do que qualquer aparição nos mais populares programas de TV. *** No palco, chegou o momento mais aguardado pela plateia: Hebe Camargo foi anunciada. Chegou sorridente e muito bem vestida, aliás, era uma das artistas mais bem vestidas da comemoração. Começou contanto a história que a impediu de estar na inauguração da TV Tupi. De acordo com ela, foi por causa de um namorado, pois resolveu sair com ele. Engraçada como sempre, olhou para onde Vida estava sentada e a chamou de lindinha e gracinha (como já era de se esperar). Comentou sobre a necessidade de existir um museu destinado para a televisão. Chamou o governador de São Paulo em exercício, 28


Alberto Goldman, para subir ao palco. Em seguida, foi a vez do prefeito da capital, Gilberto Kassab. Como de costume, Hebe com toda a sua força e carisma, pressionou os dois políticos para dizer se iriam ou não ajudar na construção do museu da televisão em um espaço que, obviamente, não fosse a casa de Vida Alves. Neste momento, Vida levantou-se ansiosa. Era o momento mais esperado por ela nos últimos 15 anos. Um “não” seria impossível de se ouvir. Qual seria a resposta? *** Existem pessoas que pensam mais nos outros do que em si mesmas. Os heróis são definidos, nas histórias de ficção, mais ou menos assim. Nossa heroína possui uma missão nada fácil. Aliás, uma missão que já durava quinze anos. Ver a televisão no futuro é pensar o quanto ela foi gloriosa no passado. Em um tempo, em que fazer TV era arte, novidade e entusiasmo, por quem apenas queria entreter as pessoas. Foi pensando nesse passado, que Vida Alves decidiu fundar o museu da televisão. Sua finalidade: preservar a memória da TV. Vida Alves relatou que, a princípio, o objetivo de criar uma associação era o de apenas juntar uns amigos para recordar um tempo tão mágico e maravilhoso dos primórdios da televisão no Brasil. No salão de sua casa, Vida organizava reuniões apenas, mas o projeto cresceu. E a Pró TV, nome atual da instituição, ganhou vida.

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Vida Alves é a autêntica porta-voz daqueles que muitos consideram ultrapassados para continuar trabalhando na televisão. Precisa haver muita coragem para manter, dentro de sua casa, um museu, pois a Pró TV ainda não encontrou um espaço adequado. Além disso, o Brasil, infelizmente, é um país sem memória. Como a própria Vida diz de forma muito consciente e segura:

“Não temos o hábito de guardar as coisas como povo da Europa. Nós (brasileiros) somos menos ligados. O que passou, passou. Planta-se uma raiz. Os pioneiros são a raiz”.

Ela defende os pioneiros da TV com unhas e dentes, como uma guerreira. Ela sabe que muitos deles precisam desse apoio, porque a mídia tem o péssimo hábito de explorar, em programas sensacionalistas, a dor de quem não está mais na televisão. Para Vida, existem dois tipos de pioneiros: aqueles que se deram bem e até hoje estão presentes na televisão e os que sobrevivem apenas de uma pequena ajuda do INSS. Obviamente, os pioneiros “pobres” são os que mais colaboram com a Pró TV: “Somos divididos assim: existem aqueles que se deram bem e enriqueceram. Os pobres se encontram e lastimam a vida passada”, lamenta Vida. Vida ainda tem um olhar juvenil. É vaidosa: mantém os cabelos loiros, curtos, e bem penteados. Sem contar sua educação e

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doçura. Mas é bem detalhista e exigente com quem ama. Há dentro da Pró TV um respeito muito grande por ela. Além disso, o amor pela TV Tupi e sua memória a motivam a ter em sua equipe muitos ex-funcionários da emissora, fundada pelo empresário Assis Chateaubriand. Será que muitas pessoas, que de fato amam a história da televisão, nunca se questionaram como estaria a vida destes ex-funcionários da Tupi de São Paulo? Essas pessoas que trabalham ao lado de Vida Alves tiveram elevada importância para a história da TV. Alguém sabe, por caso, quem é Sônia Maria Dorce, Léa Camargo, Patrícia Mayo, João Restiffe e Lisa Negri? Certamente, Vida gostaria muito que todos nós soubéssemos. Ela os trouxe para a sua batalha. No livro que escreveu sobre a TV Tupi, publicado pela editora Aplauso em 2002, Vida divide sua história de amor pela emissora com o depoimento de vários pioneiros. Por isso, nada mais justo do que conhecer esses pioneiros colaboradores da Pró TV. Aqueles que também estão com a Vida de forma única e incondicional: em nome da memória da televisão. *** Contem sempre com a Léa Vida Alves alerta: “A Léa adora contar histórias”. Vida está coberta de razão, Léa Camargo atriz pioneira da televisão e hoje colaboradora da Pró TV, tem sempre uma boa história para

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contar. Principalmente, do tempo que era funcionária da Tupi. Uma delas é sobre os bastidores da primeira versão da novela Mulheres de Areia (1973). “Eu gravava a novela Mulheres de Areia em uma prainha, e tínhamos que estar na praia muito cedo. Um dia resolvi ir com uma perua, ao invés do carro. Então encontrei o pessoal da área técnica no bar, reclamando do cansaço das gravações. Eles diziam: “Pra que ir para casa, já que daqui a pouco vamos ter que ir trabalhar de novo”. Eu buzinei, querendo oferecer uma carona, eles não aceitaram. Buzinei de novo, e nada. Mas depois não teve jeito, aceitaram a minha carona. Eu dirigi levando um monte de gente da equipe técnica”, contou aos risos. Léa também relatou o desdobramento dessa história: “No dia seguinte, o Carlos Zara, que era o diretor artístico da novela, me chamou. Me deu uma bronca. Eu contei o que houve. Mas deu tudo certo, pois o Zara não fez nada comigo. Porém, sempre quando o ônibus atrasava para nos levar até o local das gravações, o povo gritava: ‘Pede carona para a Léa’”. A carreira de Léa Camargo, como ela mesma diz, “aconteceu por caso”. De acordo com a atriz, era estudante de educação física do colégio Pinheiros. Quem gostava de artes era a sua irmã: “Minha irmã gostava de dançar. Quando a professora dela foi para a escola de Artes Dramáticas Alfredo Mesquita, afirmou ser interessante minha irmã fazer aulas de teatro. Assim melhoraria sua expressão”. Léa contou que as aulas seriam à noite e seu pai, que era o 32


presidente da Associação dos Jornalistas e crítico de arte, não permitia que sua irmã fosse sozinha ao Alfredo Mesquita. Léa, portanto, foi forçada a acompanhá-la. Mas nunca algo forçado fez tão bem a uma pessoa, pois Léa se tornou aluna da escola, descobrindo sua verdadeira vocação. Teve aulas com grandes mestres do teatro, como a atriz Cacilda Becker. “Na escola tinha aula de mitologia grega, a Cacilda Becker dava aula de comédia. Eu não gostava disso no começo. Dormia nas aulas. Depois de um tempo, minha irmã saiu e eu continuei e até casei com um colega”, disse às gargalhadas. De acordo com Léa, da primeira turma do Alfredo Mesquita, apenas oito pessoas continuaram. Depois foi para a companhia de teatro TBC e, mais tarde, para a Rede Tupi. A memória de Léa é boa. Quando é questionada sobre seu melhor personagem na TV, ela se refere a Etelvina como a mais marcante. Etelvina era uma dona de casa enganada pelo marido malandro na novela Barba Azul, de Ivani Ribeiro. Em 1985, na Rede Globo, a trama ganhou uma nova versão intitulada A Gata Comeu. Barba Azul foi exibida pela Tupi em 1974. Naquela época a situação da emissora já não era boa, mas Léa gosta de se lembrar dos bons tempos do canal pioneiro. Léa afirmou que no começo de sua carreira televisiva ela se apresentava no canal com a sua companhia, Teatro dos Três Leões. Ela explicou que cada emissora era especializada em uma área. “A Record se dedicava aos musicais, ao humorismo, ao esporte,

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pois tinha grandes cronistas como o Leônidas da Silvia. Já a Tupi era o canal dos grandes teatros.” Depois de participar das montagens teatrais da Tupi, Léa foi para a TV Paulista e depois para a Record. Mas acabou voltando como contratada para a Tupi. Ela afirmou que sua relação com a emissora era maravilhosa. Porém, não só na Tupi. “Antes era tudo uma família. Antigamente, na Record, todos íamos à casa da Nair Belo, pois tinha jantares, conversas. Uma verdadeira reunião de amigos de trabalho. Até hoje, os pioneiros se tratam como irmãos. O que valia antes, mesmo sem a qualidade técnica, nas novelas era o talento dos artistas”. Léa disse que o fechamento da Tupi em julho de 1980 foi triste, mas não aconteceu por acaso. Era algo que todos já esperavam. A atriz contou que trabalhava na emissora sem receber. E definiu o canal de Assis Chateaubriand: “A Tupi era um grande presente embrulhado em uma folha de jornal”. Léa é polêmica, pois diz o que pensa. Mostra ter uma personalidade forte. Quando foi questionada sobre o que pensa da televisão de hoje, não poupou críticas: “Vejo a televisão atualmente, com muita tristeza. Na verdade eu não consigo mais assistir”. Ela confessou assistir alguns programas de entrevista e programas nas emissoras a cabo. A maior crítica de Léa é com a falta de criatividade em criar 34


coisas novas e interessantes para a televisão. A atriz disse acreditar que há falta de interesse em se produzir uma boa programação: “A TV não lança caras novas, tantas companhias de teatro repletas de talento e as emissoras repetindo os mesmos nomes nas novelas”. Assim como Vida Alves, Léa defende os pioneiros da TV. Para ela, atualmente, os atores mais velhos nunca protagonizam uma novela. Ela comentou o caso do ator Luis Gustavo, galã e protagonista da histórica Beto Rockfeller (1968). Mas que hoje interpreta papéis secundários. “Nos EUA, os veteranos são extremamente valorizados.” Léa admitiu que existem pioneiros no Brasil privilegiados como Tony Ramos e Antonio Fagundes. A atriz, em mais uma crítica à televisão, afirmou que as novelas de hoje são muito passageiras. Para ela, custa alguém lembrar-se do galã da última novela das nove. Léa guarda com muito carinho sua época na Tupi e tem um pensamento semelhante ao de Vida sobre o fato de no seu tempo não existir um astro ou uma estrela nos bastidores. “Nós, os pioneiros da TV, não fazíamos questão de salários altos, não tinha briga para isso como tem hoje.” A Pró TV entrou na vida de Léa em uma época em que ela sentia muita falta da televisão. Ela contou que a atriz Geórgia Gomide ofereceu um chá na sua casa para rever os amigos. Naquele dia, estavam presentes a atriz Laura Cardoso, Patrícia Mayo e Vida Alves. 35


“Naquele chá, a Patrícia Mayo que já trabalhava na Pró TV, me disse que ia ao museu uma vez por semana organizar as fotos para colocá-las no computador. Então, a Geórgia teve a ideia de eu ir ajudar neste trabalho, pois sei mexer em computador.” Vida aceitou Léa sem problemas, pois era mais uma colega pioneira se juntando a ela na luta pela preservação da memória da televisão. Léa começou trabalhando às quintas- feiras, mas percebeu que Vida precisava de muita ajuda. Aos poucos, começou a frequentar diariamente a Pró TV. Léa disse acreditar que a classe artística não entendeu o significado da Pró TV, mas com a digitalização do acervo e com os 60 anos da televisão, as coisas vão melhorar para a instituição. “Tem vindo bastante gente visitar a Pró TV para conhecer a história da televisão”. A atriz afirmou que a Pró TV não é reconhecida como deveria, por falta de verba e apoio da mídia. “A memória, se não identificar, morre. Por isso, a Pró TV é importante, mas para ter valorização depende muito dos políticos.” Léa acha que a falta de espaço da Pró TV nos grande meios de comunicação se deve ao fato de as empresas não se interessarem por “gente velha”. “As emissoras sempre querem o bonitinho, o lindinho. Para piorar, o brasileiro nunca quer saber de nada.” Léa Camargo é uma pessoa consciente da posição do pioneiro 36


da televisão. É necessária muita luta para os brasileiros não se esquecerem daqueles que são de imensa importância para a memória da TV. Léa é autêntica e verdadeira, generaliza em algumas de suas declarações. Porém, um pouco dessa sua fúria é coerente, pois vê de perto as dificuldades de Vida Alves em manter de pé a Pró TV. Mesmo assim, não perde a alegria Ela se define como uma pessoa feliz, porém, sem esquecer-se de declarar que muitos colegas da Tupi morreram de tristeza e desgosto. Agora, será que voltaria a atuar em novelas? “Depende, se for em um bom canal e um bom personagem, sim. Mas, se for lixo, não”, afirmou de forma espontânea. *** Um belo, mas com muito talento Lisa explica que não é sempre que vai à Pró TV: “Só vou quando tem reunião. Mesmo assim estou sempre à disposição da Vida”. Ela esteve no elenco da novela O Segredo de Laura, escrita por Vida. Elisa Biondi, verdadeiro nome de Lisa Negri, sempre teve a beleza como aliada. Porém, não era apenas um rosto bonito. Além, do talento para atuar, possuía uma personalidade muito forte. A bela Lisa começou sua carreira como modelo. Participava 37


de desfiles nos programas de auditório da Tupi. A moça foi criada em um colégio interno, após a morte do seu pai. Após esse período, sua beleza chamou a atenção de um costureiro. Começava a sua carreira de modelo, que inclui trabalhos com o estilista Denner. Lisa, em participações na Tupi, chamou a atenção de Cassiano Gabus Mendes. Ele, de cara, resolveu transformá-la em atriz, por sua beleza. “Fui fazer um teste. Eu até brinquei que não era atriz e, sim, manequim, que nunca havia estudado para atuar. Mesmo assim, me chamaram para fazer uma comédia chamada Telha de Aranha.” Lisa Negri aceitou o desafio, apesar do risco. Afinal, até hoje, muitas modelos são vítimas de preconceito por trabalharem na TV como atrizes. E declara que estudou muito para aprimorar o seu trabalho. O importante é o talento. E isso, Lisa tem de sobra. A jovem participou ao lado de Geraldo Vietri do programa TV de Comédia. Fez diversas novelas. “Só no meu currículo tenho cerca de vinte novelas.” Depois resolveu ir morar por um tempo na Itália, para se aprimorar ainda mais como atriz. Mas sua volta a fez ficar de frente com uma triste realidade: Lisa viu a Tupi falir. “Foi um choque o fechamento da Tupi, pois era a minha segunda casa.” Após isso, ela foi trabalhar na Rede Globo. Mas Lisa não

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possui boas lembranças da emissora carioca. De acordo com ela, sua passagem pelo canal foi tão ruim, que se desiludiu com a televisão. Por isso, afastou-se dela. “Depois que trabalhei na Globo, cheguei à conclusão que não queria mais fazer televisão. Decepcionei-me muito, já não era a mesma coisa. Na Globo, um quer pisar no tapete do outro. Na Tupi era uma família. Isso é o essencial no trabalho.” Lisa ainda conta que trabalhou na Globo na novela Presídio de Mulheres, escrita por Mário Alves. A trama, de acordo com ela, tinha cenas consideradas pela censura da época “sensuais demais”, por isso foi censurada. A atriz afirma que o autor ficou chocado e nunca comentou sobre o assunto. De acordo com ela, ele a adorava. Mas quando se reencontraram, após dez anos, a ignorou. “Ele falou comigo como tivéssemos nos visto há meia hora. Mas fazia dez anos que não o via. Depois desse dia, nunca mais vi o Mário.” Lisa resolveu se dedicar ao teatro. Viajou ao lado do ator Casaré com o espetáculo Marido, Matriz e Filial. Voltou à TV e fez parte do elenco da segunda versão da novela As Pupilas do Senhor Reitor (1995) no SBT. Pela admiração e amizade que possui por Vida, resolveu ir trabalhar na Pró TV. Lisa admira muito o trabalho de Vida Alves na entidade. Seus olhos brilham quando fala do museu da televisão. “É um lugar muito bom. E tem todo esse material maravilhoso 39


que a Vida põe a disposição do público. Vários estudantes ficam encantados com o nosso acervo. A Pró TV é um ambiente de muita cultura.” Mesmo quando é para responder se a Pró TV e os pioneiros da televisão são valorizados, Lisa alfineta a Rede Globo. Demonstrando que mesmo depois de muitos, ainda guarda mágoas da Vênus Platinada: “Não somos valorizados, pois a mídia não quer saber da gente, só da Globo. Essa emissora é um lixo, porque inflacionou o mercado de uma forma única, portanto, acha que só ela sabe fazer as coisas. A Globo não valoriza o talento. A maioria dos jovens precisam dos velhos para segurar a onda na televisão”. Lisa comentou a festa dos 60 anos da TV, organizada por Vida. Generalizou, afirmando que os jornalistas convidados não deram importância ao evento. “Os jornalistas recebem convites, mas nenhum vai. Não interessa para eles fotografarem e filmarem os pioneiros, pois são velhos. Mas são pessoas que fizeram história na TV”, afirmou, para depois, mais uma vez, criticar a Globo. “Esse desinteresse acontece, pois não é a Globo quem está organizando a festa em comemoração aos 60 anos da TV.” Apesar das críticas pesadas, repletas de mágoa e rancor contra a Rede Globo, Lisa possui uma bonita história na TV. E luta pelo reconhecimento da Pró TV, pela consideração aos pioneiros e a Vida Alves, com que tem uma ótima relação desde a novela O Segredo da Laura. Lisa define quem é Vida Alves:

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“Uma mãezona. Vida é uma pessoa muito boa, que se dedica muito à Pró TV”. ***

Á minha mestra com carinho

Patrícia começou sua carreira na televisão com apenas 15 anos de idade. Sem experiência e técnica, tornou-se atriz graças à compreensão e paciência dos seus colegas. Vida Alves é considerada por ela uma verdadeira mestra, na qual Patrícia se espelha e de quem tem admiração até hoje. “Vida é uma pessoa especial. Tive um contato grande com ela no começo da minha carreira. Vida não é só atriz, sempre foi uma pessoa à frente de seu tempo.” Patrícia conta que seu nome verdadeiro é Rosa Maria Legário da Costa. Antes de começar sua carreira na TV, quando ainda era Rosa, gostava de ler muitas revistas que falavam sobre televisão. “Eu gostava muito de televisão. Lia muito naquele tempo. Na época, duas revistas eram muito populares: Sete Dias e São Paulo na TV. Além disso, cursava o curso técnico de secretariado na faculdade Mackenzie. Mas o destino daquela jovem mudou ao ver um anúncio, que dizia que Geraldo Vietri precisava de “ingênuas” para trabalhar na TV. Patrícia nos explica melhor essa história. “Um dia vi um cartaz que dizia: ‘Geraldo Vietri precisa de ingênuas’. Naquele tempo, na TV era muito comum a utilização 41


desses jargões”, explicou. Patrícia resolveu abandonar tudo em nome do sonho de poder trabalhar na TV. De acordo com ela, foi incentivada por sua mãe a abandonar o curso de secretariado. Rosa Maria Legário da Costa se tornou Patrícia Mayo em 1963. Com apenas 15 anos de idade, Patrícia passou no teste para integrar o elenco do programa TV de Comédia da Tupi. Depois, passou a fazer parte do elenco de várias produções da emissora. Sem nenhuma experiência no teatro, Patrícia, na televisão, teve que aprender tudo na prática. “Eu aprendi com os meus colegas, que foram meus professores. Lima Duarte, Cláudio Marzo, Geórgia Gomide, Laura Cardoso e Suzana Viera, que considero meus ídolos particulares. Eu aprendi me posicionar em frente às câmeras, me considero uma pessoa privilegiada.” A jovem Patrícia integrou o elenco da novela O Segredo de Laura, escrita por Vida Alves. A trama contava a história de uma jovem que tinha duas personalidades. Patrícia ainda atuou nas novelas O Sorriso de Helena, Fábrica de Bruxas e As Rosas dos Ventos. Patrícia declarou que foi muito feliz na Tupi. Gostava tanto da emissora, que mesmo quando o canal não estava bem financeiramente, fazia questão de se manter fiel à Rede Tupi. Várias emissoras entre elas a Rede Globo estavam crescendo. Por ser jovem e talentosa, recebia ótimas propostas, mas recusava todas.

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“Recebia outros convites, mas eu era muito tímida. Estava completamente voltada para a Tupi. Depois, eu fico pensando que na televisão você precisa aprender a administrar a sua carreira.” Patrícia não pensava no lado financeiro. Não se importava de ficar em um canal que lhe devia muitos pagamentos. Além disso, conheceu, se apaixonou e casou com um dos diretores da emissora, Luiz Gallon. Ela confessa que ele foi o grande amor da sua vida. “Eu não nasci para ser estrela. Não entendo nada de contratos e administração.” Mas Patrícia confessa que hoje, com mais experiência, talvez agisse de forma diferente. A atriz trabalhou na Tupi de 1963 a 1980. Fez parte inclusive do elenco da novela Como Salvar meu Casamento, trama que foi interrompida antes do fim. Patrícia contou o que sentiu quando a emissora faliu: “Fiquei muito triste. Muitos funcionários ficaram na rua, alguns até foram chamados para trabalharem na TVS, mas não deu certo. Muita gente, assim como eu, não recebeu nada. Só em 1990, uma juíza conseguiu uma indenização para nós”. Patrícia conta que Luiz Gallon ficou muito doente por causa da falência da Tupi. E resume a emissora com uma frase dita por Vida Alves: “A Tupi, como a Vida gosta de dizer, era como um formigueiro que alguém pisou e tudo foi se espalhando”.

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Patrícia se afastou da televisão para se dedicar aos filhos. Retornou em 1996. Voltou a sentir o gosto da fama em 2002, quando fez parte do elenco da novela Canavial de Paixões, exibida no SBT. “Essa novela tinha uma proposta muito simples, mas veja o que causou. Muitos ainda lembram e dizem: ‘Olha, você foi a madrinha da protagonista’.” Portanto, Patrícia é uma pioneira privilegiada. Pois, se vista, será certamente reconhecida. Além disso, não tem nada contra a televisão de hoje. Acha que as mudanças são naturais. “A televisão vive um novo momento. Ela é uma indústria, ninguém tem muito tempo como antigamente. Antes ficávamos uma semana dentro dos estúdios. Agora a gente chega, decora o texto e grava em quatro meses. No SBT é assim.” Patrícia acha boa a aceleração de hoje da TV. Para ela, nada disso impede que as pessoas tenham um bom relacionamento. “Tem muita coisa boa na televisão de hoje. Em relação à programação de antigamente, fica a saudade de um momento.” Seu destino voltou a se cruzar com o de Vida quando, durante o lançamento de um livro, foi convidada para trabalhar na Pró TV. Aceitou em nome da consideração quem tem pela atriz e por ser uma amiga querida. “Uma vez fui a uma entrega de livros e o Elmo (Francfort, diretor de comunicação da Pró TV) me chamou para ajudar a Vida na Pró TV. Comecei como voluntária, fazendo coisas

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simples. Depois, veio um patrocínio e comecei a ganhar profissionalmente de acordo com as normas dos museus internacionais”, contou Patrícia, que está muito empolgada com a digitalização dos acervos do museu da televisão: “Já foram digitalizadas mais de duas mil fotos. Esse trabalho me dá um prazer muito grande”. Para Patrícia, o grande problema da Pró TV não é reconhecimento, mas sim a falta de divulgação. A atriz declara que isso acontecia no começo, pois a luta era apenas de Vida Alves. Conforme outros pioneiros se juntaram a ela, a situação começou a melhorar. Patrícia pensa que seria necessário haver uma união da outras emissoras em nome da memória da TV. Em um raro momento, alfineta a Rede Globo: “O que deveria existir é uma união para que essa memória não se apague. E não fazer como a Rede Globo que tem a própria memória que comemora os 45 anos de existência, ignorando a história da TV”. Patrícia é uma pessoa tranquila e de muita sorte, pois garantiu espaço nas novelas atualmente. Ensina aos mais jovens o que aprendeu com os mais velhos. Incluindo Vida Alves, sua grande inspiração, tanto como pessoa e como profissional. E deixa um recado para os veteranos da televisão: “Quem está de fora da TV não se amargure. Vibre com as conquistas dos jovens e não deixem a história morrer”. A Pró TV pode ainda não ser reconhecida, porém Patrícia luta ao lado de sua mestra. Um dos seus ídolos de menina iniciante 45


na TV. *** No rastro de Mazzaropi Ele não é apenas mais um pioneiro da televisão, mas sim alguém muito especial, que trabalhou ao lado de um dos maiores comediantes do Brasil, Mazzaropi. João Restiffe é um senhor muito doce e simpático. Aos 85 anos, possui uma incrível sabedoria sobre os anos em que trabalhou na TV. Em 1948, o comunicativo filho de comerciante conheceu Mazzaropi. Nasceu entre eles uma grande amizade. Passaram a trabalhar juntos em diversas peças de comédia. “Foi ele quem me convidou para estar na inauguração da Tupi. Eu me lembro como se fosse hoje, Mazzaropi me falou assim: ‘Não vamos ganhar nada. Se eles gostarem, nós ficamos’. No fim, trabalhei dez anos na emissora.” Na Tupi, João foi o coadjuvante de Mazzaropi na atração de humor Rancho Alegre. Mas o comediante não se importava em ser a ‘escada’ de Mazzaropi. Tanto que essa oportunidade na TV lhe rendeu um convite especial de Cassiano Gabus Mendes. “O Cassiano me pediu para montar um espetáculo na TV Tupi às segundas-feiras. O Grande Teatro Tupi ficou muitos anos no ar, levando grandes nomes do teatro, como o da Cacilda Becker.” João se lembra ainda das participações que teve no Bola do Dia e em vários outros programas da Tupi. No cinema, fez história 46


ao participar de vários filmes da Companhia Vera Cruz. “O que mais me marcou, com certeza, foi Dona Violante Miranda, pois contracenei ao lado da Dercy Gonçalves. Ela era demais e muito divertida”, disse aos risos. Após muitos anos dedicados à televisão e ao cinema, João resolveu se afastar da mídia por conta própria. Porém, nunca se desligou da telinha, pois acabou se envolvendo com a Pró TV. João considera Vida uma verdadeira diva da televisão. Mas lamenta o fato dela não ser reconhecida como de fato merece. “A Vida Alves passou em primeiro lugar em Direito, na melhor faculdade da América do Sul. Mesmo assim, muitos nem sabem que ela existe e o que fez pela história da televisão.” O comediante é um homem calmo, sereno e doce. Mas quando é para falar sobre a Pró TV e a realidade dos pioneiros da televisão, ele se transforma. Sobre o museu da televisão, João afirma: “Não somos valorizados, pois estamos no Brasil. Aqui tudo é ao contrário. Enfrentamos essa luta há 15 anos. Há quase duas décadas queremos montar o museu em um lugar que não seja a casa da Vida”, afirmou para depois voltar abrir um sorriso como se estivesse bravo por ter se irritado. João Restiffe é um homem com muita história. Nem todas ele consegue contar, mas sua importância deve ser registrada. Ele se zanga, porém, não possui uma revolta a ponto de prejudicar suas oito e meia décadas de vida.

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*** Indiazinha: Símbolo da Tupi Sônia Maria Dorce e Vida Alves têm muita coisa em comum. Começaram praticamente juntas na TV e ambas são formadas em Direito. A única diferença é que Sônia exerce a profissão e é atual diretora jurídica da Pró TV. Além disso, elas iniciaram suas carreiras ainda crianças no mesmo programa de rádio O Clube do Papai Noel. Filha do diretor artístico da Rádio Tupi, Francisco Dorce, Sônia contou que declamava poemas longos. E por ser uma criança graciosa chamou a atenção dos diretores da TV Tupi, sendo que um deles era seu pai. No dia da inauguração da Tupi, a advogada afirmou que Assis Chateaubriand fez uma brincadeira com ela. Colocou um cocar de índio na cabeça dela só para ver como ficava, porém gostou tanto que a colocou para ser a primeira imagem do primeiro canal de televisão da América Latina. Sônia anunciava a chegada da emissora, tornando-se a indiazinha, símbolo da Tupi. Sônia passou a fazer parte de inúmeras novelas da Tupi. Foi a primeira criança a brilhar na televisão, comparada à estrela mirim americana, Shirley Temple. Quando vemos, na TV uma menina simpática e talentosa como, por exemplo, a Klara Castanho (a Rafaela da novela Viver a Vida), é interessante saber que Sônia foi a menina de ouro precursora de tantos outros astros mirins. “Realmente o fato de eu ser criança tornava a minha presença importante na Tupi. Tanto que antes de alguma novela, na qual

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estava no elenco, vinha uma frase que dizia o seguinte: ‘Sônia Maria Dorce em...’, então começava a novela.” Em 1951, Sônia estrelou uma novela chamada Mãos Dadas. A advogada se lembra até hoje de como se divertia ao lado do diretor Andrade. Mas se divertia ainda mais com a repercussão de sua personagem com o público, pois ela interpretava uma menina órfã. “As pessoas achavam que eu realmente não tinha mãe. Muitos enviavam cartas, querendo me adotar.” Sônia recorda-se de como a vinda da televisão modificou a vida das pessoas por ser uma novidade. Ela diz que, por ser um aparelho caro, nem todos tinham, portanto, muitos iam assistir à programação da Tupi na casa do vizinho. Na casa dela, essa situação era muito comum. “Naquela época nasceu uma figura que hoje já nem existe mais, os televizinhos. Quando meu pai comprou o aparelho de TV, ele chamou todos os vizinhos para irem assisti-la na minha casa”, contou, explicando como era essa união das pessoas com relação à televisão. “Os televizinhos iam às casas de quem tinha televisão, tomavam café, e quando terminavam os programas falavam: ‘Obrigado, amanhã eu volto’.”. O pai de Sônia, de acordo com ela, era o seu tutor e cuidava da sua carreira. A pequena Sônia encarava seu trabalho com muita seriedade, mas fazia tudo brincando. Porém, Francisco Dorce sempre a alertava: “Ele me dizia: ‘Ou você faz, ou você não faz. Se for para fazer 49


mais ou menos, não faça’”. Sônia afirmou que não se sentia inibida diante das câmeras, pois no rádio também costumava se apresentar diante do público. A emoção daquela pequena atriz era imensa. Apesar da responsabilidade, ela conseguia decorar os textos, apresentar-se ao vivo e ainda brincar e estudar. “Eu não era obrigada a nada. Essa responsabilidade de trabalhar e estudar entrou de forma muito natural na minha vida. Não tinha privilégio, por ser criança na TV. Era uma menina normal que levava bronca como qualquer outra.” Sônia afirmou que nunca se sentiu uma estrela, portanto, cresceu sem nenhum tipo de problema por ser uma artista mirim. Conforme foi crescendo, passou a observar os outros artistas da Tupi. Nisso, observou a inteligência de Vida Alves. E como já estava cansando do mundo televisivo... “Quando veio o videoteipe, a televisão começou a me cansar. Os técnicos no começo não sabiam mexer no equipamento. E quando eles acertavam, os artistas erravam. Aquilo de ficar esperando horas para gravar, para mim, era muito cansativo.” Por isso, Sônia resolveu percorrer outro caminho. Observava o quanto a vida acadêmica poderia ser importante na sua vida. Ela afirmou que admirava os advogados da Tupi, como Claudio de Lima e Homero Sílvia. Mas foi Vida Alves a responsável por definir o que, de fato, ela gostaria de fazer. Como Vida era formada em Direito, Sônia pensou ser essa a sua profissão perfeita.

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“A Vida foi um paradigma na minha vida, pois era uma pessoa inteligente e estudiosa. Ela tinha um diferencial, entre as outras atrizes. Além de atuar, ela escrevia programas de TV e, claro, o fato de ser formada em Direito, pois as pessoas do meio da televisão se acomodam, não estudam, por isso acabam ficando ignorantes. Mas esse não é o caso da Vida, não gostaria que fosse o meu também.” Sônia Maria Dorce seguiu, fielmente, sua musa inspiradora. Formou-se na Faculdade de Direito do Largo São Francisco (USP). Em 1979, já estagiava no escritório dos Diários Associados até fazer parte efetivamente da área jurídica da empresa. Quando a Tupi faliu, Sônia, mesmo distante da TV por causa da nova profissão, sentiu muito. “Foi triste, por causa da falência da Tupi, ver tantos profissionais perder seus direitos trabalhistas. Apesar de ter casado na época, continuei acompanhando os meus amigos.” Sônia manteve contato com Vida Alves e, por ser advogada, tornou-se assessora jurídica da instituição. A advogada declarou admirar a tecnologia da televisão, porém criticou o nível da programação televisiva atualmente. E para isso, ela já tem um culpado: “No começo, a televisão não tinha esse negócio de Ibope. Antes, era tudo feito pela arte. Hoje as emissoras precisam servir ao patrocinador. As grandes empresas é que bancam a maioria dos programas”. Sônia também diz que, como a televisão se tornou um

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instrumento popular, precisou adequar a sua programação para este público. Por isso, a queda na qualidade. Sobre a valorização dos pioneiros, a advogada acha que a TV só valoriza os jovens. “Ser pioneiro em um mundo onde as pessoas só se preocupam com os jovens é difícil. Estamos falando de memória, mas o Brasil é um país ridículo nesse ponto. Quando a pessoa fica velha acaba sendo esquecida”, afirmou. Ela também confessou: “A Globo quis se unir à Pró TV várias vezes, mas se nos agregássemos a ela, então, seríamos os pioneiros da Rede Globo e não da televisão brasileira” , diz, sobrando mais uma vez críticas à Rede Globo de Televisão. Hoje, Sônia é uma séria advogada interessada em defender a Pró TV, em nome da admiração que sempre sentiu por Vida Alves. A amizade das duas pioneiras é tão grande, que Vida escreveu o prefácio da biografia de Sônia publicada, em 2008, pela editora Aplauso. Aliás, essa mesma editora, coordenada pelo crítico de cinema Rubens Edward Filho, tem feito um interessante trabalho em resgatar a história de diversos artistas brasileiros, que deixaram uma bela marca em 60 anos de TV. Sônia Maria Dorce foi uma delas, a indiazinha da Tupi. Abaixo trecho extraído do prefácio do livro A Queridinha do Meu Bairro, escrito por Vida Alves.

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“Este é um momento de felicidade para mim, pois começo a escrever o prefácio deste livro de Sonia Maria Dorce – A Queridinha do Meu Bairro. Ser escolhida para prefaciar um trabalho é sempre uma honra... Mas de Sonia Maria, ainda mais. É que a conheço há muitos anos, desde que era uma menininha, e sempre a admirei” (Dorce Maria Sonia- A Queridinha do Meu Bairro, Editora Aplauso, 2008 - São Paulo)

Vida é assim. Um grande talento, uma grande mulher, uma grande heroína. Pois, todos esses pioneiros que se empenham pela Pró TV, também tem como missão fazer algo por esta profissional tão diferenciada. Muitos deles possuem mágoa, com uma realidade sem brilho, após anos de trabalho. Já outros nada têm contra a TV de hoje. Porém, todos acusam a Rede Globo por esta desvalorização dos pioneiros da televisão. Mas o telespectador é quem tem que estar atento e consciente sobre o que vê à sua volta.

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2 Vida nasce para a Vida “Choramos ao nascer porque chegamos a este imenso cenário de dementes.” William Shakespeare


O pai de Vida Alves, Heitor, era um carioca amante de poesia, apesar de ser formado em engenharia. Por ironia do destino, a tuberculose o fez abandonar a cidade maravilhosa, indo parar na pacata Serra da Mantiqueira, em São Paulo. Parece história de novela, mas Heitor conheceu a jovem Amélia, apaixonou-se por ela e, melhor, foi correspondido. Heitor Alves e Amélia Scarpa Guedes, filha de fazendeiros, casaram-se. Tiveram cinco filhos: Helle, Poema, Homem, Ritmo e Vida. Nomes bem diferentes. Vida explicou que foi por causa do gosto de seu pai por poesia. Heitor nunca exerceu sua função de formação, acabou se tornando professor. Vida contou que ele conhecia muitos poetas. Um deles, o inesquecível Carlos Drummond de Andrade. Infelizmente, a tuberculose venceu Heitor e ele morreu. Amélia lutou muito pela vida do marido. Gastou tudo o que tinha. Por isso, após sua morte, passou a ter dificuldades financeiras. Ficou apenas oito anos casada. Sozinha, pobre e com cinco filhos, desistiu de tudo em Minas. Partiu com os filhos para a casa de sua mãe, em São Paulo. A pequena Vida, na casa de sua avó, começou a manifestar sua veia artística. Na época, imitava a cantora Carmem Miranda. Ela e sua irmã Helle brincavam de teatro. Enquanto isso, Amélia conseguiu um emprego público e batalhava para conseguir uma bolsa de estudos para seus filhos. Para conseguir a vaga era necessário fazer uma prova. Apenas Helle e Vida, por serem mais velhas, lutavam por uma bolsa de

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estudos. “A Helle era muito inteligente e ia bem nas provas. Já eu não, pois ficava muito nervosa. Mas minha mãe, implorando, conseguiu uma vaga para mim”, recordou às gargalhadas. No fim, Vida conseguiu estudar com bolsa de estudos durante todo o primário, ginásio e colegial. Ao mesmo tempo, encantava-se com o o mundo do rádio, que já virava febre entre os brasileiros. *** Na rádio Difusora, Homero Silvia, grande radialista da época, apresentava um programa infantil chamado Clube do Papai Noel, onde as crianças cantavam. De acordo com Vida, Homero, por ser gordinho e barbudo, era comparado ao bom velhinho. Vida, aos nove anos, como amava cantar, teve seu primeiro contato com o rádio neste programa. Aos doze anos, Vida, junto com suas irmãs, viu no rádio uma boa oportunidade de ajudar sua mãe nas despesas de casa. Por isso, foram fazer um teste na Rádio São Paulo para fazerem parte do elenco de algum rádio teatro: “Era como se fosse novela, mas era teatro”, recordou Vida. Poema conseguiu passar em um teste e foi contratada. Vida teve que esperar a sua vez: “Eu esperei mais um pouco e fui chamada para ganhar um cachê de 10 mil cruzeiros. Eu acho, pois real não era, e nem cruzado novo. Poderia ser réis? Bom, não me lembro”, alegou

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meio confusa. Por ter uma voz aguda, ganhou um papel masculino na rádio novela A Vingança do Judeu. Seu personagem se chamava Rauzinho. Não havia como Vida esquecer-se deste personagem, pois sofreu com as gozações dos seus colegas de escola. Ainda na infância, fez mais três novelas interpretando personagens pequenos. Então seu destino cruzou com o de Oduvaldo Vianna, diretor que introduziu da Argentina a rádio novela no Brasil. Vida diz que Oduvaldo trabalhava na época com grandes escritores. Entre eles, o autor Dias Gomes. Aos 15 anos, Vida Alves passou a fazer parte da equipe da Rádio Panamericana, a atual Jovem Pan, e Viana foi seu primeiro diretor profissional. Mas depois de um tempo, Oduvaldo saiu da Panamericana e foi para a Rádio Tupi de São Paulo. Levando com ele, os astros mais importantes do rádio. Vida, por ser inexperiente, ficou de fora: “O galã e a estrela foram com ele para a Difusora. Eu fiquei meio perdida. Passei por várias outras emissoras, sofri muito”, lembrou Vida. Entre as emissoras de rádio em que Vida trabalhou e foi demitida, estão: Rádio Cosmos, Rádio Cruzeiro do Sul, Standard Propaganda, e Rádio Cultura. Em 1947, Vida, enfim, faria um teste para a Rádio Tupi. Havia na ocasião um belo homem com voz de trovão que mais parecia uma versão brasileira do ator americano Clark Gable, astro do filme E o Vento Levou (1939). Seu nome, Walter Foster, diretor artístico do teste. Além

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dele, quem cuidava da parte técnica do som era um tal de Lima Duarte. Vida passou no teste, sendo contratada pelo galã Foster. Ao mesmo tempo, realizava o sonho de sua mãe e entrou para a faculdade, no curso de advocacia, na conceituada Faculdade do Largo São Francisco. Amélia achava bonito ver os filhos formados. Questionada sobre se gostava de estar na faculdade, Vida afirma: “Não. A minha mãe achava bonito e eu obedecia. Meu prazer de verdade era o rádio.” Vida não prestava atenção nas aulas na faculdade. A jovem apenas pensava na sua carreira dentro da Rádio Tupi. Seu maior prazer, enquanto os professores explicavam a matéria, era escrever. Estava determinada a mostrar seu talento além do de atuar. Por isso, persistiu para que os seus roteiros fossem aceitos. Tornou-se redatora e autora de radionovelas, escrevendo catorze no total. Então, surge a pergunta: como Vida conseguia estudar e ir bem nas provas da faculdade? “Passava nas provas estudando na última hora.” *** Em 1949 começaram uns burburinhos, que apontavam para a vinda da televisão para o Brasil. O dono da Rádio Tupi, Assis Chateaubriand, seria o responsável por esta grande empreitada. Difícil alguém nunca ter ouvido falar nele. Chatô, como era

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conhecido, foi o primeiro grande empresário brasileiro a ser dono de um conglomerado no mundo da comunicação, os Diários Associados. Além de emissoras de rádio, o jornalista era dono de jornais e revistas. Entre eles, uma das mais importantes da história: a revista O Cruzeiro. Vida lembra-se dele com muito respeito. Para firmar seu monopólio, Chatô resolveu que iria implantar de qualquer forma a televisão no Brasil, a primeira da América Latina. Mesmo desacreditado, utilizando-se de métodos nada ortodoxos, ele conseguiu o que tanto queria. Sua primeira emissora se chamou Tupi, assim como a Rádio. Vida relatou que, na época, começou uma criteriosa seleção para ver quem da Rádio Difusora iria trabalhar na Tupi. “Aos poucos, foram sendo separadas as pessoas que trabalhariam na rádio e as outras que iriam para a televisão. Muitos ainda preferiam a rádio, porque só era a voz e já tinham reconhecimento na área. Alguns como não eram bonitos, mas tinham uma boa voz, ficavam de fora. Ou seja, a questão da beleza já existia.” Vida não foi selecionada para estar no dia da inauguração da TV Tupi, nem para integrar o elenco da emissora. Mas não foi, porque não a quiseram. Ela conta que, na época, um fato inesperado aconteceu. Vida encantou um engenheiro italiano que veio ao Brasil instalar a torre de transmissão da Tupi. Giani Gasperinetti e Vida Alves viveram uma verdadeira passione. Eles se casaram em 1949. No dia da inauguração da TV Tupi 61


de S達o Paulo, em 18 de setembro de 1950, Vida afirma que assistiu, gr叩vida, da plateia, a primeira transmiss達o da TV Tupi de S達o Paulo.

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3 Tupi: Amor, pioneirismo e o primeiro beijo “Fácil é abraçar, apertar as mãos, beijar de olhos fechados. Difícil é sentir a energia que é transmitida. Aquela que toma conta do corpo como uma corrente elétrica quando tocamos a pessoa certa.” Carlos Drummond de Andrade


“Você é parente de índio?”, perguntou Assis Chateaubriand para Vida Alves. Essa pequena pergunta ficou gravada na cabeça da pioneira. Para Vida Alves, Assis Chateaubriand era um homem importante, preocupado com a sua emissora. Vida acredita que a relação dos grandes donos das empresas de comunicação com os seus funcionários, hoje é bem diferente. “Hoje, a maioria dos funcionários das grandes empresas nem sabe quem é o dono. Às vezes, o Chatô passava pelo corredor e falava comigo.” Quando se pensa em Tupi e em Vida Alves na Tupi, logo vem à cabeça o primeiro beijo dado em uma novela. Pior, muitos pensam que sua trajetória na emissora está restrita a isso. No dia da inauguração da TV Tupi, Vida apenas assistiu, porém, já era previsto por conta de sua beleza, personalidade e carisma que faria parte do elenco do canal de Chatô. Na década de 1950, Vida Alves era uma jovem linda de vinte e poucos anos. Tinha os cabelos pretos, usava uma franja que era moda na época. Ela usava lentes de contato para escurecer seus olhos. Na televisão, assim como no rádio, prestava atenção em tudo. Afinal, não queria ficar restrita a ser apenas a moça bonita das novelas. Vida contou que começou na Tupi no programa TV de Vanguarda. O amor de Vida Alves pela Tupi é tão grande que gerou um livro chamado TV Tupi: Uma História de Amor, publicado 65


em 2002 pela editora Aplauso. Todos os pioneiros da televisão sentem um carinho especial pelo primeiro canal brasileiro. Muitos atores que vemos na telinha, como Tony Ramos, começaram na emissora de Chateaubriand. Imagine a mentalidade das pessoas em uma época onde a única fonte de entretenimento, fora da intelectualidade dos livros, era o rádio. Nele, tudo se ouvia e nada se via. Por isso, a possibilidade de ver toda a magia dos artistas cantando e representando, empolgou muito as pessoas. Em princípio, como já foi dito no primeiro capítulo por Sônia Maria Dorce, a TV era destinada à elite. Quem não tinha ia à casa do vizinho assisti-la. Telespectador, termo tão comum para nós, era completamente estranho para as pessoas em 1950. A televisão do início era um programa de rádio com imagens. Afinal, o jeito de se fazer TV estava sendo testado. Mesmo assim, como todos os pioneiros, incluindo a própria Vida, afirmaram ao longo deste livro, havia muita vontade de se fazer arte para os espectadores, unindo qualidade e entretenimento. “Era tudo melhor, mesmo sem os recursos de hoje. Cada um se entregava. Se tivesse que ir carregar a mesa, eu carregava. Como carreguei. Cada um colaborava como podia”, afirmou Vida. A Tupi, como Léa Camargo afirmou, era a responsável pelas grandes encenações teatrais ao vivo. A TV de Vanguarda era uma atração, onde se apresentava ao vivo textos clássicos do teatro, obras de grandes dramaturgos. Havia também o TV de Comédia, aos domingos, com textos mais leves e divertidos. No jornalismo, Repórter Esso fez história. A atração já existia no 66


rádio e migrou, em 1953, para a televisão. Quando a Tupi faliu em 1980, Vida não estava mais na emissora, mas declarou ter ficado triste pelos profissionais que ainda trabalhavam no canal. Porém, já previa o inevitável. Por mais que a Tupi fosse um sonho, o pesadelo da falta de controle e organização de quem a administrava, matou a primeira emissora da América Latina. No programa TV de Vanguarda, ela fez diversos personagens. O mais marcante foi a protagonista de Madame Butterfly. A história era de uma jovem que se apaixonava por um oficial de guerra. Para essa produção, Vida conta que interpretava uma chinesa por causa de seus cabelos negros e olhar profundo e expressivo, digno dessa personagem tão forte. A empolgação foi tamanha que a produção comprou para ela um lindo figurino de seda. Atitude nada comum na época, pois antigamente a atriz afirma que não existiam figurinos na televisão. “A gente trazia roupas da nossa casa”, contou. O clima para essa encenação era ótimo. Mas havia um problema: “O diretor na época era o J. Silvestre, extremamente exigente. A roupa que me compraram era linda, de seda. Além disso, eu tinha que usar uma piteira. Eu nunca fumei. E pensei: ‘Meu Deus o que eu faço?’”, ela estava aflita. Quando o dia da encenação chegou, Vida, mesmo nervosa, sabia que precisava arrasar. Subiu no palco, e encarou a piteira como algo a mais para a sua personagem. Não podia decepcionar, pois era essa sua primeira protagonista. Mas...

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“No dia, notei que havia um movimento estranho na hora em que estava em cena. Só ouvia alguém falar, ‘aproxima só o rosto’. Quando acabou, me falaram que as minhas calças estavam abertas e caíram. Eu havia me esquecido de abotoá-la”. Se o câmera não tivesse focalizado apenas o seu rosto, Vida Alves seria a primeira atriz da história da televisão seminua. Mas o destino quis que Vida fosse a primeira em outra coisa. No primeiro beijo da história da TV. *** Vida sempre teve um respeito grande por Walter Foster. Afinal, ele era seu chefe já tinha uma carreira consolidada no rádio, por isso veio para a televisão com grande prestígio. Além de ser um grande profissional, era um homem muito bonito. Ele escreveu a história da novela Sua Vida me Pertence, em 1951. Aliás, quando se fala nessa novela, as pessoas geralmente só falam do primeiro beijo. Será que não existe curiosidade em saber como era a sua história? Para ter ocorrido o tal beijo entre Vida e Foster, precisamos entender o porquê desta ação. Vida Alves afirmou que o enredo se Sua Vida me Pertence girava em torno de um triângulo amoroso. Era ela, Walter e Lia de Aguiar. Vida revelou que era uma espécie de vilã que roubava o namorado da mocinha e se casava com o galã. Isso já mostra ousadia por parte de Foster já que, raramente, nas novelas, a vilã fica com o mocinho. A presidente da Pró TV afirmou ainda que Walter Foster foi inteligente ao desenvolver uma história

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simples, porém moderna e ágil. “A novela, ao contrário do cinema e do teatro, foi entrando mais devagar. O Walter, muito esperto, escreveu um texto moderno em três cenários. A televisão destinou para a novela um espaço pequeno. A história se passava em um escritório e no jardim. Onde eu era a terceira pessoa na vida de um casal. Roubava o namorado da mocinha.” O beijo entre sua personagem e o de Forster causou grande impacto, mas não foi maior do que a vergonha de Vida Alves por ter beijado o homem que tanto admirava. Mesmo assim, entende que aquele ato na época era necessário. “Esse beijo quebrou um paradigma. Foi uma demonstração de coragem. Não me orgulhava muito. Eu dizia: ‘Nossa eu fui importantinha’. Todo mundo só falava desse beijo.” Vida Alves não acha que a sua carreira ficou rotulada por causa do primeiro beijo. ‘Não é o meu caso. Estou em uma posição diferente. Sou presidente de uma associação. Poderia ter sido estigmatizada, mas não fui.” Durante muitos anos, Vida não se orgulhava de ter sido a atriz do primeiro beijo na TV. Mas sua neta a fez mudar totalmente de opinião. Por causa dela, percebeu sua imensa importância para parte da história da televisão. “Um dia a professora da minha neta estava com um livro, o Almanaque do Tio Patinhas. Ela abriu o livro e disse. ‘Olha essa

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é a Vida Alves, que deu o primeiro beijo da TV’. Minha neta levantou e falou, ‘essa é a minha avó’. A partir disso, passei a ficar orgulhosa desse ato.” Vida Alves e Walter Forster, mesmo depois da novela, continuaram amigos. Moraram em residências próximas no bairro do Sumaré. Com certeza, eles foram o primeiro grande par romântico da televisão. Vida resumiu sua relação com Foster: “Era um grande amigo, eu o respeitava. Considerava meu chefe. Morri de vergonha daquele beijo, mas foi beijo técnico”, disse para não haver perigo de haver especulações sobre um possível relacionamento entre eles. Mas sobre o beijo técnico, Vida garante que desde os primórdios da telenovela, ele já existia. Porém, hoje as coisas já são bem diferentes. “O importante antigamente no beijo era simular. Cada um agora beija como quer.” *** O carinho que João Lorêdo, diretor e redator de programas como Fantástico, sente por Vida Alves é imenso. Em seu livro sobre a história da televisão, Era uma vez... A Televisão, ele dedica um capítulo sobre ela. Lorêdo destaca as semelhanças profissionais de Vida e Walter Foster. De acordo com o livro, ambos fizeram muito pela história da televisão e ainda protagonizaram o primeiro beijo em uma novela. João comenta da preocupação de Vida em relação ao seu

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marido, Giani, por causa do beijo em Foster. Mas no fim tudo ocorreu como deveria. No livro, João ainda revela que Foster estava na dúvida se deveria ou não colocar o tal beijo na cena com Vida Alves. Porém, quem o convenceu de acordo com a publicação, foi o apresentador Ivon Curi.

“Coube a Ivon Curi, que na época tinha um programa todo seu na Tupi, dar o incentivo definitivo a Walter, dizendo que ele tinha de fazê-lo, porque além de não haver problemas, embora causasse algum impacto, ele teria o mérito de passar para a história da TV como o responsável pelo ‘primeiro beijo’ mostrado na TV, o que de fato aconteceu” (Lorêdo João. Era uma vez... A Televisão,1999 - Editora Alegro).

Onze anos após o lançamento do livro, a opinião de Lorêdo pouco mudou. E define Vida Alves de uma forma especial: “Vida é uma grande amiga. Levantou a bandeira da Pró TV. Com isso, ela honra, perpetua e enobrece a nossa profissão”. João Lorêdo é irmão de Jorge Lorêdo, o Zé Bonintinho. Foi um renomado diretor de televisão. Estreou na Tupi produzindo e dirigindo no Rio de Janeiro as propagandas ao vivo. João trabalhava como publicitário na Standard Propaganda no Rio, no departamento de rádio e televisão. Ele afirma que a agência tinha como cliente o sorvete Kibon, que patrocinava na Tupi

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um programa chamado Teatrinho Kibon. “Eu dirigia também o teatro de amadores do Mabe em um colégio do Rio de Janeiro. Daí foi um pulo para a Tupi. Levei o grupo para um concurso, ganhamos e eu fui convidado a dirigir o Departamento de Comerciais ao vivo da emissora. Entrei na Tupi no dia 10 de outubro de 1951.” Experiente como diretor de teatro, começou a ensaiar garotas bonitas e simpáticas para mostrarem determinados produtos para as propagandas na TV. “Foi disso que nasceram as garotas propaganda no Rio”, recordou afirmando ter sido este um grande momento na sua carreira na TV. Lorêdo conta que criou e dirigiu diversos programas na Tupi. Entre eles, Clube dos Morcegos, que era uma atração com histórias de terror. Black and White, um show humorístico e o programa Flávio Cavalcante. Em sua trajetória na emissora, Lorêdo possui uma história bem curiosa. “No programa Teatro Policial, dirigido por Bob Chust. Um diretor havia sido assistente de Orson Welles. Eu contracenava com o ator Roberto Durval que era muito realista nas suas representações. Ele tinha que fingir que me dava um soco. Só que ele deu prá valer. Pegou na ponta do queixo e eu desmaiei e o programa saiu do ar.” Sobre sua relação com Vida Alves na época, Lorêdo declarou que a admirava por sua beleza e personalidade. Mas o que o fascinava mesmo, era a inteligência dela por criar programas 72


como Tribunal do Coração. O que motivou Lorêdo a escrever o livro Era uma vez... A Televisão foi justamente a mesma motivação que fez Vida Alves fundar a Pró TV. A falta de memória das pessoas em relação aos pioneiros da TV. “Eu estava em um jantar com o Boni e um jovem diretor da Globo, citei o nome de Chianca de Garcia, um grande diretor português, consagrado diretor dos shows internacionais do Cassino da Urca e dos grandes teleteatros da Tupi. O jovem diretor disse que nunca tinha ouvido falar dele”, afirmou sem citar o nome do tal jovem diretor. “Antes que eu também ficasse esquecido, resolvi escrever o livro.” Lorêdo chegou a outra triste conclusão, após sua conversa com Boni: “Temos que reconhecer: a nova safra da televisão, em sua maioria, desconhece e não se interessa pelos pioneiros”. Para Lorêdo, a televisão mudou muito. Ele afirma que antes as pessoas estavam aprendendo a fazer televisão. Já hoje... “É muito mais fácil, em virtude do avanço da tecnologia Em compensação, a criatividade foi para o espaço. Eu assisto a tudo, para saber o que eles estão fazendo.” Lorêdo trabalha com muita garra e disposição. Formado em psicologia, já foi professor de matemática, português e geografia.

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“O trabalho para mim é como um vírus. Fiz 80 anos agora, em 4 de julho, e não sei parar. Estou escrevendo livros e projetos de programas para as emissoras. Creio que é de família, porque o Jorge Lorêdo, meu irmão, já fez 85 e continua firme na Praça é Nossa todas as semanas.” Mas nem só as pessoas mais próximas a Vida Alves na década de 1950 conhecem e reconhecem sua importância na TV Tupi. Graças à Rede Tupi, Alcina de Toledo ganhou amizades eternas. Se não fosse pela emissora, não seria amiga de pessoas como Janete Clair (1923-1983), a maior autora de novelas do Brasil. Com Vida Alves, a relação de Alcina era distante. A dramaturga explica que Vida tinha uma personalidade forte, por isso na década de 1950 não eram amigas. Na realidade, o motivo desta distância se chamava Sarita Campos. Alcina de Toledo foi uma famosa autora de rádio novela. Começou como secretária da famosa redatora Sarita Campos, na Rádio Tupi. Quando a TV Tupi inaugurou, era uma curiosa funcionária da rádio Tupi interessada pelo agito da estreia da emissora. Alcina, além de tudo, sempre teve amizade com muitos atores recém saídos do rádio para a TV. Uma delas Yara Lins. No dia da inauguração, Yara foi a responsável por anunciar o primeiro programa da Tupi. “Yara era muito minha amiga. Ela estava muito nervosa, pois tinha que falar os prefixos de todas as emissoras afiliadas.” Esse nervosismo fez com que Alcina ajudasse a compor o visual de Yara no dia da inauguração da Tupi:

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“Ela era muito bonita, mas estava desarrumada. Afinal não ligava para a aparência, porém, na TV, era necessário ligar sim”. A escritora declara que colocou na amiga uma echarpe no cabelo (para os que não sabem é algo que se coloca em volta do pescoço como um cachecol). “Foi linda a sua participação”, afirmou emocionada. No dia da inauguração, Alcina se recordou de haver muitas cadeiras para as pessoas assistirem a primeira transmissão, dentro de um imenso auditório. “Eu era muito jovem e ficava emocionada assim como todos estavam no dia da inauguração.” Alcina era o braço direito de uma mulher conhecida por seu gênio difícil. Vida Alves escrevia roteiros para a TV, assim como Sarita. Alcina trabalhava para Sarita. E Vida, aparentemente, não gostava dela. “A Vida não era muito ligada a Sarita, pois ela era uma pessoa muito autoritária, as pessoas tinham muito medo dela. Muitos dentro da Tupi sabiam que a Vida era uma menina evoluída, estudante de Direito. Ela não aceitava muito esse jeito da Sarita.” Alcina afirmou que saiu algumas vezes com Vida Alves para jantares com os outros colegas da Tupi. Ambas tinham muitos amigos em comum como Laura Cardoso e Lia de Aguiar. E moravam em residências próximas no bairro do Sumaré. A dramaturga chegou a ter certa amizade com Poema, irmã de Vida. Mas não tinha jeito, apenas a Pró TV uniria estas duas

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pioneiras. “Vida Alves recuperou a memória da televisão, realiza o mais belo trabalho que uma pioneira pode fazer.” Em 1952, Dermival Costa Lima saiu da Tupi indo para a Rádio Nacional. Alcina foi com ele. Mesmo assim, continuou mantendo a amizade com muitos funcionários da emissora de Chateaubriand. Mais tarde, mudou-se para a Rede Globo de Televisão. Recebeu incentivo de Sarita e Dermival para escrever novelas. “Quando Sarita estava cansada e não queria escrever roteiros para os programas de rádio eu era quem escrevia. Mesmo saindo no fim com o nome dela”. Com experiência em roteiros de rádio, Alcina teve seu talento reconhecido quando escreveu suas duas primeiras novelas em 1964: Uma Sombra em Minha Vida e Cadeia de Cristal. A novelista escreveu essas novelas em emissoras diferentes. Algo que não podia. Contratada da Globo, mas também trabalhava na Excelsior. “A novela que escrevi na Excelsior tinha Tarcísio Meira e Glória Menezes no elenco. Lembro-me que a Glória não gostou do final da sua personagem, pois ela ficava com o mocinho.” Alcina declarou não gostaria de escrever uma novela atualmente, pois a forma de se construir um folhetim para a televisão mudou muito. “Antes, nós autores escrevíamos sozinhos. Já fui diversas vezes

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na casa da Janete (Clair) e, mesmo doente, escrevia suas novelas sozinha, sentada com sua máquina de escrever. Às vezes, era ela de um lado e o Dias Gomes (marido de Janete) do outro. Hoje, existe uma equipe grande ao extremo para escrever um capítulo que é uma imensa página de em média 60 folhas.” Alcina revelou que na década de 1980, quando Janete estava muito doente, foi convidada para assumir a novela Eu Prometo. Não aceitou e Glória Perez assumiu o lugar da autora de sucessos como Irmãos Coragem (1970) e Selva de Pedra (1972). Alcina não é uma mulher ambiciosa. Hoje, aos 81 anos, mora em um apartamento simples no bairro de Pinheiros. Nele, há várias fotos de seus inúmeros netos de quem tem muito orgulho. Há uma televisão, com um aparelho de DVD, com alguns filmes em cima dele, incluindo um vídeo do trabalho da filha de Alcina como atriz. No centro da sala, há muitos livros. Aliás, esse centro é de vidro onde ela coloca seu cinzeiro (pois ela fuma). O quarto é pequeno, com espaço suficiente para sua cama e um guarda-roupa. Já o espaço do banheiro é tão curto que nem o lavatório cabe, ficando ao lado de fora em um corredor com acesso à cozinha. Alcina é uma mulher muito simpática e gentil que faz um ótimo bolo de cenoura com cobertura de chocolate. Ela diz que sente falta, principalmente, da Tupi, mas acha natural a evolução que a TV sofreu nos últimos anos. “Tudo tem que evoluir. Não sou saudosista, mas é claro que eu com 80 anos vou achar melhor a TV do meu tempo.” Mesmo com certa dificuldade para ouvir, como uma boa novelista, possui um excelente censo crítico. “Acho que essa 77


novela tem muita comédia pastelão”, disse sobre o remake de Tititi, escrita por Maria Adelaide Amaral para o horário das sete na Rede Globo. “Não sei para que isso, se eles estavam mortos... Não gostei”, disse sobre o final do seriado americano Lost. Alcina acompanhou o trabalho de Vida de longe. Declarou ter visto o seu crescimento dentro da televisão. Seu reencontro com Vida Alves ocorreu por causa da Pró TV. Alcina citou a importância de Vida para a instituição. Reconheceu que nos tempos da Tupi era uma profissional diferenciada. “Vida foi mesmo muito especial para a Tupi. Mas não por causa do beijo em Sua Vida me Pertence. Era estudada, fazia direito. Na época sua personalidade era algo brilhante, pena que não notei isso na época. Porém, reconheço hoje.” Alcina declarou que o beijo em Sua Vida me Pertence não causou o escândalo nos espectadores como dizem. “Nem todos tinham televisão, pois os aparelhos eram destinados para a elite. Não me lembro de nenhum agito em relação a esse beijo.” De certa forma, Alcina tem razão. O primeiro beijo, mesmo que singelo foi visto por poucos telespectadores que tinham TV. Esse gesto teve uma repercussão maior com o passar dos anos. Hoje, ela e Vida Alves são boas amigas. “Visito a Pró TV quando posso. Vou a reuniões e frequento alguns chás.” Protagonista daquela que foi considerada “a primeira novela 78


brasileira”, Vida Alves tem muita coisa em comum com o próximo pioneiro. Ele foi, simplesmente, o grande herói de muitos homens e meninos, e fez muitas meninas e mulheres suspirarem pelo seu charme. Protagonizou a primeira série gravada em externas (fora do tradicional estúdio com cenário) da TV brasileira. Hoje é um senhor muito simpático e atencioso que luta, assim como Vida, pela preservação da memória da TV. Os mais velhos já devem ter adivinhado. A pessoa descrita acima é Carlos Miranda, o Vigilante Rodoviário. Aos 77 anos, ostenta uma excelente aparência. Em uma famosa feira de automóvel (Fashion Car, no Anhembi em São Paulo, realizada em agosto de 2010), Carlos vestido como seu personagem, colaborava para a preservação da memória da TV ao lado do carro original da série. Um modelo antigo, amarelo, mas que encantava os mais nostálgicos. A vida de Carlos, que mora, atualmente, em Águas da Prata, interior de São Paulo, é rodar o país com sua parceira, a assessora de imprensa e amiga, Maria Helena, expondo o carro do Vigilante Rodoviário, vendendo produtos do personagem e tirando fotos com os fãs, reveladas na hora e autografadas, ao preço de cinco reais. Muitos curiosos querem conhecer o ídolo. Conversam com ele, que atende a todos. Maria Helena se preocupa, pois como ele já não é mais jovem, precisa se cuidar. “Ele tem alguns problemas de saúde, mas, se deixar, passa o dia sem comer. Por isso preciso ficar sempre atenta”, afirmou de forma maternal. Carlos não se importa em repetir sempre as mesmas coisas nos 79


eventos em que participa aos jornalistas, quando abordado. E como ele é abordado! “Ele não tem a dimensão do quanto é importante”, afirmou Maria Helena. Ele sempre diz: “Faço isso pela memória da TV”. Foi assim que falou para as jornalistas da Band e da Rede Globo, no primeiro dia do evento para carros antigos no salão do Anhembi. Carlos afirma que é uma pessoa que luta pelas causas nobres, assim como seu personagem na clássica série exibida no início da década de 1960. Por isso, pensa que a causa de Vida Alves com a Pró TV é nobre. “Além de ser uma pioneira, ela pensa na preservação do passado da televisão. Vida Alves chegou à frente com a Pró TV. Isso uniu muito os pioneiros das mais diversas emissoras”, afirmou Carlos. Vida era estrela das grandes encenações no TV de Vanguarda, já Carlos era estrela do primeiro filme rodado na TV. Ele sempre foi ator de teatro e disse acreditar que nunca faria cinema. Carlos Miranda começou sua carreira aos 15 anos de idade, no circo. Depois, foi trabalhar no primeiro estúdio de dublagem do Brasil e fazia teatro no Sesi. Começou no estúdio como office-boy e após seis anos se tornou gerente. Em 1949, um ano antes de a televisão ser implantada, ele já era ator de cinema da produtora Maristela. De acordo com Carlos, Alfredo Palácio e Ari Fernandes, que trabalhavam com ele na Maristela, criaram a história do Vigilante Rodoviário em 1962. A intenção era criar um seriado 80


para os brasileiros, já que na época havia alguns programas com modelos importados. Com a série criada, Carlos, Alfredo e Ari foram atrás de patrocínio nas emissoras. Primeiro na Record e depois na TV Rio, mas não obtiveram sucesso e não tinham como bancar o seriado. A proposta do Vigilante Rodoviário era ousada e existia o risco de o público acostumado com os programas ao vivo não se adequar com uma série feita como se fosse um filme. “Brasileiro é complicado. Modernidade demora em chegar e pegar, mas quando as pessoas se acostumam, o sucesso é garantido”, afirmou Carlos A Tupi foi a única emissora que arriscou na ousadia proposta pelo seriado. O patrocínio da marca de chocolates Nestlé também ajudou, porém, naquele tempo, era comum os programas serem patrocinados por grandes marcas do mercado. A TV se alimentava (e se alimenta até hoje) disso, dos patrocinadores. “Um publicitário chamado Norton tinha o contato da Nestlé e pediu para assistir ao piloto do episódio do Vigilante. Ele se interessou pela tentativa de se fazer filme na TV. Assim que terminou de ver, perguntou quanto custava.” Carlos conta que o seriado tinha a vantagem de ser brasileiro. O Rin-Tin-Tin, grande sucesso americano da época, custava o dobro do que foi oferecido para o Vigilante Rodoviário. “O Norton me garantiu que iria apostar na gente. Nesse dia

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tomamos um porre”, contou aos risos. Começava então a fase da escolha do elenco. Vários testes foram feitos e ninguém parecia apto a interpretar o vigilante. Havia algo de errado e isso poderia comprometer a série. Até que a esposa de um dos diretores do seriado sugeriu o nome de Carlos para o teste. “Ela disse que, como eu já era ator, poderia tentar fazer o teste para o seriado. Fui fazer e ver no que ia dar.” Manoel Carlos e Álvaro de Moya, que formavam uma comissão, não tiveram dúvidas: Carlos tinha que ser o Vigilante Rodoviário. Depois, pensaram no animal para acompanhar o vigilante. Vários foram cogitados, entre eles macaco e papagaio. Mas ninguém pensou no mais óbvio: no cachorro, considerado melhor amigo do homem. “Até que um dia vi a propaganda dos Móveis de Aço Fiel e o Lobo era a marca deste anúncio. Pensei: ‘Tem que ser um cachorro Lobo’”, recordou. A produção do seriado achou o tal cachorro Lobo, em Suzano, região metropolitana de São Paulo. Mas havia um problema, o nome do animal era King. “Um seriado totalmente brasileiro não pode ter um cachorro com nome estrangeiro”, disse. “Uma vez, estávamos indo embora quando o verdadeiro dono do cachorro o chamou. Ele gritou ‘King’ e o bicho nem reagiu. Mas quando eu, que estava a 12 metros, chamei ‘Lobo’

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ele correu para os meus braços”, afirmou demonstrando o afeto especial do cão com ele. Antes de o seriado ir ao ar, Carlos afirmou ter enfrentado outras dificuldades como conseguir uma viatura para o seu personagem. “Às vezes, subornava o motorista de uma viatura para poder conseguir filmar”, recordou Carlos. No dia do lançamento da série, foi feita uma grande festa na Tupi. Na ocasião, com a presença de muita gente, Homero Silva, diretor da emissora, teve uma grande e ousada ideia. Ideia essa que sempre é lembrada nas comemorações de aniversário da televisão. “Neste dia fizemos uma encenação. O rádio da Polícia Rodoviária dizia: ‘Atenção: fugitivos da polícia, nas proximidades do bairro do Sumaré’. O Lobo reagiu e os dois bandidos vestidos de presidiários surgiram. Bati neles e os prendi. Foi um sucesso esse lançamento.” Exibido às quartas-feiras, após o Repórter Esso, Vigilante Rodoviário atingiu uma grande audiência e era exibido nas outras cidades por emissoras afiliadas a Tupi. “Era muito complicado, pois não tinha TV via satélite. As coisas funcionavam da seguinte forma: o rolo de fita saía de São Paulo de avião e chegava ao Rio de Janeiro para a série ser exibida na quinta, depois voava para Belo Horizonte, para a série ser exibida na sexta. No sábado, era a vez de Salvador.”

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Carlos salientou a importância do Vigilante Rodoviário para a história da TV. E como trabalhava muito com cenas externas (fora do estúdio) quase não conseguia conviver com Vida Alves. Mas, mesmo ainda não sendo funcionário da Tupi, disse se lembrar da repercussão do primeiro beijo na novela Sua Vida me Pertence. Voltando para a série, Carlos contou uma história interessante sobre o sucesso do Vigilante. Na década de 1950, e mais tarde na de 1990, houve um seriado de muito sucesso que se chamava Lassie, que contava as aventuras de uma cadela e seu dono, um menino de 12 anos. O criador de Lassie, em 1980, teve um encontro com Carlos Miranda quando esteve no Brasil. Carlos conta que falou para Eric Knight da série brasileira, Vigilante Rodoviário. O rapaz não deu muita importância. Mas para o destemido Vigilante, era importante mostrar para Eric a primeira série rodada em película no Brasil. “Como o dono do hotel, o Roberto, era meu fã, ele me deixou entrar com um projetor de cinema. Mostrei para o Eric Knight e ele ficou impressionado”, afirmou sem saber se Lassie foi inspirada nas aventuras do Vigilante com o cão Lobo. Vigilante Rodoviário passou em várias emissoras e não só na Tupi. Atualmente, o canal Brasil passa a série. Mesmo assim, Carlos é muito grato à Rede Tupi de Televisão. “A equipe deu tudo de si para que a série desse certo. O patrocínio da Nestlé também ajudou, mas sou grato mesmo à Tupi, pois foi ela quem abriu as portas para o seriado.”

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O Vigilante Rodoviário teve 38 episódios e todo esse sucesso fez Carlos seguir a mesma profissão de seu personagem que também se chamava Carlos. O ator também virou vigilante rodoviário e entrou para o Guiness book como o primeiro ator a virar literalmente o personagem. O cão fiel Lobo morreu aos 15 anos em 1971 e, claro, sua morte foi muito sentida pelo dono. Voltando para sua relação com Vida Alves, Carlos disse acreditar que sua maior importância para a Tupi está refletida com o que faz na Pró TV. Aliás, diz que a instituição ajudou a unir os pioneiros da Tupi. E revelou: “Luto até hoje, pois sempre quando tenho uma oportunidade, digo para algumas pessoas do governo de São Paulo da necessidade de haver um museu da televisão. Afinal, a TV tem uma audiência maior que a de qualquer outro meio de comunicação”. Carlos participa dos eventos da Pró TV. “Vou sempre fardado como o meu personagem”, disse sempre muito animado. Sobre o que pensa da programação da televisão de hoje, afirmou: “Digo o que eu disse para a Xuxa em uma entrevista há três anos: Ela me perguntou qual a diferença da TV que eu fazia para a de hoje. Simples a resposta. Sou da época em que os profissionais criavam os programas. Hoje só se compra, já vem pronto. E isso não é falta de talento, mas sim de criatividade”. Carlos citou que na época da Tupi as cenas de briga não só do Vigilante Rodoviário, mas de outras séries e programas, eram de verdade, mesmo sem os recursos de hoje. 85


“Naquela época cavamos com a unha para fazer uma TV de qualidade.” Carlos Miranda, sempre quando está em um evento, aparece vestido com a roupa do vigilante. E uma curiosidade: a jaqueta que ele usa hoje, que também faz parte do adereço do Vigilante Rodoviário, é a original da série que tanto encantou o público. Infelizmente, por não ter registrado o nome Vigilante Rodoviário, ele não pode utilizá-lo. Na chamada do seu estande no Anhembi estava escrito ‘Eterno Vigilante’. Maria Helena explica que eles precisam pagar para usar a marca e vender os produtos como o nome original da série. Mesmo assim, Carlos Miranda contribui para a preservação da memória da televisão. Porém, acha que Vida Alves é a maior lutadora em nome desta causa. “A Tupi foi a precursora de tudo, por isso precisava de uma pessoa para conservar isso. Vida Alves é a pessoa certa. Vontade por parte dela e de todos não falta para a Pró TV crescer, pois todo mundo corre atrás. Não pode depender só da Vida.” *** João, Alcina e Carlos são pioneiros da Tupi que contaram suas histórias e relataram a relação que tinham (e têm) com Vida Alves. Isso faz com que alguns viajem no tempo, já outros conheceram um pouco de como as coisas funcionavam na primeira emissora da América Latina. Mas agora precisamos ouvir os especialistas. Um doutor em teledramaturgia e um jornalista especializado em TV para avaliarem a importância, de uma forma mais

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técnica, o canal de Assis Chateaubriand e, consequentemente, a participação de Vida na história da televisão. Mauro Alencar, doutor especializado em teledramaturgia brasileira e latino americana da USP (Universidade de São Paulo) e autor do livro A Hollywood Brasileira – Panorama da Telenovela Brasileira, gosta muito de falar sobre Vida Alves. Ele reconhece o valor e a importância dela para a história das novelas no Brasil. “Vida Alves liderou o elenco, ao lado de Walter Foster, da primeira novela ao vivo e não diária da televisão brasileira, Sua Vida Me Pertence, levada ao ar a partir de 21 de dezembro de 1951. Além disso, protagonizou, para a época, uma gigantesca ousadia, com Walter Foster, o primeiro beijo da televisão brasileira no último capítulo da novela”, disse ele com precisão em relação às datas dos acontecimentos. Alencar revelou que Vida Alves também foi a primeira protagonista feminina de uma novela diária, em 1966, ao lado das atrizes Aracy Balabanian, Eva Wilma e Cleyde Yáconis. A trama que se chamava O Amor Tem Cara de Mulher. Era uma adaptação de Cassiano Gabus Mendes para o texto do argentino Nené Cascallar. “Bastam estes dois exemplos para mostrar o quanto as atividades e o pioneirismo de Vida são de grande valia na construção do gênero telenovela.” Alencar citou que na época do primeiro beijo na novela Sua Vida me Pertence nem o fotógrafo queria registrar a cena. E

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ainda afirmou que Vida e Foster foram o primeiro grande casal da teledramaturgia brasileira. Sobre um o panorama das novelas de hoje com as da época de Vida Alves, ele declarou: “Eram novelas tão interessantes quanto são as de hoje, pois retratavam o momento social no qual estavam inseridas”. Mauro Alencar comentou a força de Sua Vida me Pertence para a carreira de Vida Alves: “Ela ficou, sim, marcada por causa da trama. Por ser a primeira produção em capítulos de uma novela brasileira, ainda que exibida dois dias por semana, terças e quintas”. O jornalista André San, blogueiro do UOL Televisão (TeleVisão), redator e editor-chefe do jornal Folha da Ilha Solteira, também opinou sobre a importância de Vida Alves para a história da televisão: “Vida Alves foi uma das grandes pioneiras da nossa TV. Ela foi a estrela da primeira telenovela da TV brasileira, Sua Vida me Pertence, e ainda a protagonista do  primeiro beijo  da teledramaturgia brasileira, nesta mesma trama. Ela mesma disse em entrevistas que foi apenas um singelo selinho que Walter Foster e ela trocaram no capítulo final da novela. E que a cena foi um escândalo! Vida Alves participou de várias outras novelas e teleteatros nos primórdios da televisão brasileira”. Para ele, Vida Alves, assim como muitos pioneiros, sofre por não ter espaço nas novelas. Mas alguns pioneiros como Lima Duarte, Lolita Rodrigues e Laura Cardoso são privilegiados.

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“Vemos em plena atividade medalhões como Hebe Camargo, Silvio Santos e Raul Gil, por exemplo, além de Lima Duarte e Lolita Rodrigues, estes dois últimos pioneiros de fato, já que estavam presentes na inauguração da televisão brasileira.” André San disse acreditar que existe um espaço maior para os pioneiros animadores de auditório como Sílvio Santos: “No caso dos animadores de auditório, ainda há espaço para eles na emissora onde trabalham, aliás, todos estão no SBT hoje em dia. Fato curioso se lembrarmos que o SBT se construiu sobre os escombros da TV Tupi, embora seja nítido que já não alcancem o mesmo frisson de antes. O que é natural, pois a tendência  é que a televisão se renove, embora calcada  nos mesmos pilares do início”. Voltando para a parte das histórias e saindo das opiniões dos especialistas, Vida Alves assim como no rádio, procurou fazer outras coisas na Tupi além de atuar. Escreveu o seriado Ciranda Cirandinha, mas não pensem que ele tem algo haver com Ciranda Cirandinha exibido pela Rede Globo em 1978. “O meu seriado contava histórias de meninos e meninas que brincavam na rua e aprontavam muito”. Vida escreveu também a novela O Segredo de Laura, trama que já foi citada pelas atrizes Patrícia Mayo e Lisa Negri, que estiveram no elenco da produção. Vida atuou ainda em mais algumas novelas. Porém, um sonho antigo estava prestes a se realizar. O de apresentar um programa de TV.

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*** Inquieta como atriz, inquieta como roteirista, Vida precisava alcançar novos horizontes na sua carreira. De acordo com ela, a faculdade de direito a inspirou a escrever o seu programa de maior sucesso, O Tribunal do Coração. A atração usava um caso verídico e fazia uma espécie de julgamento. Nele, o réu, como nos júri, era considerado culpado ou inocente. Vida explicou que no seu programa nada ocorria de forma combinada (prática comum nos programas atualmente). “O réu era um ator ou uma atriz qualquer. Tinha dois finais: culpado ou inocente. As pessoas mandavam cartas e eu adaptava. O programa tinha 40 minutos para a história, e mais 40 para o julgamento.” Vida podia não prestar atenção nas aulas, mas sabia muito bem como eram os julgamentos. Tribunal do Coração era um exemplo de como funcionava um júri. “No programa, havia advogado de defesa, juiz, promotor e sete jurados. Quando o programa chegava próximo do fim, as pessoas levantavam uma tabela escrita: culpado ou inocente.” Ela afirmou que na atração, vez ou outra, havia algumas brigas. Porém, nada comparado às discussões ocorridas em programas como o do Ratinho, por exemplo. Vida lembrou de uma interessante história contada em Tribunal do Coração: “Uma moça, apaixonada pelo marido, se entregou ao médico 90


para que este cuidasse do esposo doente com tuberculose. Não tem como condenar essa mulher”. O programa Tribunal do Coração ganhou diversos prêmios. Até hoje, a atração serve de inspiração para outros programas do gênero, como Tribunal da Justiça, apresentado por Marcelo Rezende na Rede Bandeirantes de Televisão. Esse programa tem exatamente a mesma proposta do programa de Vida: pegar um caso real e julgá-lo como se fosse um tribunal de verdade. Depois do sucesso de Tribunal do Coração, Vida apresentou o Tribunal da Mulher. Ela contou que, mais tarde, foi convidada para ser comentarista do jornal Edição Extra. “Eu fazia um comentário, escrito por mim, sobre determinada notícia sem o teleprompter (as falas dos âncoras e comentaristas escritas em uma tela). Por isso, digo que fui jornalista também.” Vida falou que foi jornalista com muito orgulho, pois, como comentarista, se interessou pela área. O interesse cresceu tanto, que ela passou a fazer reportagens para o Edição Extra na Tupi. Uma delas, no extinto Carandiru. A atriz ficou três dias convivendo com os presidiários. Apesar de ter ficado impressionada, afirma não ter sido desrespeitada em nenhum momento. “Ganhei vários presentes dos presidiários e assisti a missas também”. Mas a reportagem que realmente emocionou Vida foi realizada na AACD:

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“Fui fazer uma matéria sobre crianças deficientes. Estava esperando para entrevistar uma pessoa, quando uma menina me pediu para apertar os pinos de sua prótese. Não sabia o que fazer, mas ajudei. Essa matéria me rendeu uma placa do presidente da AACD na época”. Questionada se nunca pensou em fazer faculdade de jornalismo, Vida afirmou: “Nunca pensei. Poderia ter me registrado no sindicato, mas por preguiça minha não fiz isso. Porém, me considero jornalista, sim”, reafirmou. Vida Alves acumulou as funções de apresentadora e jornalista na Excelsior, Record, TV Gazeta e na Rádio Mulher. Seu foco como profissional da área de comunicação sempre foi a prestação de serviço. Ajudar os outros, sem apelação. Além disso, nunca gostou de trabalhar como jornalista e apresentadora com coisas óbvias. Por exemplo, detesta os formatos das atrações destinadas às mulheres. Culinária e moda são coisas que Vida não curte. “Para mim, não existe isso de universo feminino. Pois, se for para focar culinária e moda, não faço.” Vida sempre gostou de apresentar programas inteligentes, que discutiam temas considerados polêmicos para a época, como o divórcio e o terceiro sexo. Quando se afastou da televisão, Vida, junto com sua filha Thais Alves, jornalista e consultora de comunicação da rádio

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Jovem Pan, contratadas pela empresa Arno, rodaram o país dando aulas de comunicação. “Viajamos o Brasil, aplicando aulas de comunicação para muitos políticos”, contou sem revelar quem eram esses “políticos”. Com as aulas de comunicação, Vida entrou para o mundo empresarial, fundando a Vida Comunicação. Vida poderia ter se acomodado nas funções de atriz e redatora, mas não. Quando se formou em direito, usou essa formação para elaborar o programa Tribunal da Mulher. Depois, virou comentarista e, encantada pelo mundo das reportagens, fez um trabalho como jornalista, mesmo sem o diploma. Então, virou empresária. Aliás, esse seu lado empresária é fundamental para ela comandar com tanta fibra à Pró TV.

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4 Pró TV: Museu que cuida da TV “Se as coisas são inatingíveis... Ora! Não é motivo para não querê-las... Que tristes os caminhos, se não fora a presença distante das estrelas!” Mário Quintana


O sentimento de fazer algo pela memória da TV veio por meio da morte de Cassiano Gabus Mendes, em 1993. Diretor pioneiro da Tupi, autor de inúmeros sucessos na teledramaturgia, ele provocou em Vida Alves uma reflexão sobre como ficaria o passado da televisão no futuro. Em 1995, ano no qual a Pró TV surgiu, a modernidade oriunda da internet e dos celulares caminhava a passos curtos e era pouco citada. Mas a mentalidade do telespectador, já estava mudando. Vida temia essa mudança. Ela se reuniu com alguns colegas pioneiros. Nessas reuniões, sugeriram o nascimento do museu da televisão. E quem iria comandá-lo? Não podia ser outra que não fosse Vida Alves. Assim começava a luta da Pró TV. Aliás, a sigla da instituição nem Pró TV era, mas sim APITE (o significado é o mesmo: Associação dos Pioneiros e Incentivadores da Televisão Brasileira). A ideia do museu, na realidade, foi crescendo com o tempo. Pois, no começo, eram feitos chás e reuniões com alguns pioneiros saudosos de um tempo tão marcante para a televisão. Para conhecermos melhor a história da Pró TV, precisamos conhecer dois jovens aliados de Vida Alves: Elmo Francfort Ankerkrone, atualmente na produção do programa Todo Seu, da TV Gazeta, apresentado por Ronnie Von; e Luciana Bandeira, conhecida como Lú. Lú convive com Vida Alves desde quando tinha 14 anos de idade. Hoje ela tem 26 anos e é assessora de imprensa de Vida e da Pró TV. É uma amiga fiel da pioneira. Já Francfort entrou aos poucos na entidade. Ele é o atual diretor de comunicação do museu da televisão. Os três possuem uma afinidade muito 97


grande. É um trio verdadeiramente especial. “Formamos um trio fantástico. A gente se entende muito bem. É claro que, às vezes, discordamos de algumas coisas, mas no fim sempre chegamos a um consenso”, afirmou Lú. Nos momentos de dificuldade da Pró TV, que não são poucos, Francfort e Luciana estão sempre ao lado de Vida para animá-la. Incentivando- a com novas ideias. Tudo pela Pró TV. Tudo por Vida Alves. “Mesmo quando ocorre dela desanimar, percebo uma garra nela fora do normal”, contou Lú, com muita admiração. Luciana Bandeira é uma jovem de estatura baixa, morena de cabelos escuros, que possui um rosto muito angelical. Não aparenta os 26 anos que tem. Se alguém precisa do contato da Vida Alves ou de algum outro artista, é a com a Luciana que deve falar. Lú começou aos 14 anos como auxiliar de escritório. Aos poucos, foi começando a cuidar da parte dos eventos. “E como aqui é uma associação pequena, acabo fazendo de tudo um pouco. Mas não vejo nenhum problema nisso.” Luciana agenda as visitas das pessoas interessadas em conhecer a Pró TV e também agenda as entrevistas com os jornalistas interessados em conversar com a “dona” Vida, forma como Lú sempre se refere à Vida Alves. A Pró TV se localiza na rua Vargem do Cedro, bairro do Sumaré. Mesmo bairro onde ficavam as antigas instalações da Rede Tupi (hoje funciona a MTV Brasil).

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Na rua da casa de Vida Alves, há muitas residências e pouco movimento. Quando perguntamos às pessoas que moram próximas à casa de Vida, poucos sabem que ali funciona um museu. Os poucos, que sabem, moram quase ao lado da residência da pioneira. A casa onde funciona a Pró TV é antiga, pois Vida mora há muitos anos no mesmo lugar. O portão é cor creme e fechado, mas com visão para as escadas, com acesso para a casa. Na entrada, é possível avistar um quintal com os pisos desgastados e um corredor para os fundos da casa. O museu começa com uma porta bem na entrada da casa de Vida Alves. Nela, está pendurado um desenho com o símbolo da Tupi e da Pró TV. Luciana recebe as pessoas e, quando entramos, o mundo mágico da televisão se inicia. Nas paredes, quadros com imagens antigas da televisão. Uma das fotos mais belas é da atriz Eva Wilma como Raquel, personagem interpretada por ela na primeira versão da novela Mulheres de Areia, exibida na Tupi. Além das fotos, câmeras antigas premiam os que realmente gostam de televisão. Há todos os tipos delas, inclusive, a que foi usada na primeira transmissão. Ao redor da sala de espera da Pró TV, há alguns bonecos. Um deles é uma curiosa versão de um índio símbolo da Tupi. Todas as ilustrações e câmeras estão acompanhadas de textos explicativos. No fim deste espaço, há um sofá pequeno e preto. Do lado esquerdo, fica a sala de Vida Alves e do lado direito, a

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sala de Lú e de outros colaboradores. A sala de Vida Alves é a típica sala da presidência: mesa larga com diversas cadeiras ao redor, com um assento especial, no centro, onde apenas Vida pode sentar. No local, há um bebedouro e mais algumas fotos antigas. Em uma estante, há objetos usados em programas de TV, como o gravador utilizado por Lucas Silva e Silva da clássica série da TV Cultura Mundo da Lua, exibida entre 1991 e 1992. O que mais chama a atenção é a quantidade de troféus exibidos na estante. Todos conquistados pelo programa Tribunal do Coração. Vida fala deles com muito orgulho. E fala com esse mesmo orgulho do diploma da faculdade de Direito. “Olhem ali o meu diploma de graduação em direito”, disse não sossegando até olharmos para o papel pendurado na parede. Vida, outra vez, lembrou que ela nem gostava do curso. Na sala de Vida, há uma porta com acesso a um pequeno almoxarifado. Nele, estão os acervos em vídeo de toda uma história da televisão. Quando as emissoras precisam deles, é para a Pró TV que pedem. Na sala onde Lú fica, há algumas mesas. E o clima é como se ali funcionasse um escritório. Perto da mesa de Luciana, existe um mural com as atividades da Pró TV. A assessora de Vida Alves explicou qual é a época do ano mais agitada para a instituição. “Em setembro, por causa do aniversário da televisão, ocorrem muitos eventos”, afirmou Lú.

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Qualquer pessoa pode se associar à Pró TV, explicou a assessora. A maioria das pessoas que se interessa pela entidade é formada por estudantes de comunicação. No espaço da casa de Vida Alves destinado à Pró TV ainda há mais duas escadas. Descendo, temos acesso a um salão grande com cadeiras e na parede imagens dos programas infantis das décadas de 1950 até 2000. Nesse espaço acontecem reuniões, almoços e chás com os funcionários do museu e pioneiros associados. Em uma prateleira, livros de autoria de Vida Alves e obras sobre a história da televisão estão à disposição para quem deseja comprar. Todos publicados pela editora Aplauso. Subindo as escadas, há duas salas onde ficam algumas pessoas que trabalharam na TV Cultura. Uma delas Rita Okamura, de quem falaremos mais adiante. Algo curioso nessas escadas é que nos degraus estão escritos os nomes das emissoras de TV. Percebeu? A casa de Vida Alves é um verdadeiro labirinto. A parte que fica a sala com televisão, quarto e banheiro se localiza no final daquelas escadarias que comentamos ter avistado pelo lado de fora da residência. Mas é evidente que uma senhora de 82 anos, por mais disposição que tenha, não sobe aquelas escadas do lado de fora para ir até o seu canto fora da Pró TV. Deve existir outra saída com acesso a isso. Porém, Vida não revelou qual é. Aliás, Vida confessou a vergonha que tinha ao dizer para as pessoas que a sua casa é o museu da televisão. 101


“Antes eu dizia: ‘eu já volto’, mas na verdade estava indo descansar na minha casa. Hoje já não tenho esses problemas.” Luciana não mora com Vida Alves. Vida, na realidade, vive sozinha, mas há também uma senhora, casada e com filhos, que ajuda a presidente da Pró TV, fazendo comida e limpando a casa. A relação de Vida e Luciana é algo com mãe e filha. Foi Vida quem incentivou Lú a fazer faculdade de propaganda e publicidade. A jovem não estava disposta a encarar os estudos. “Disse para ela: ‘Onde já se viu uma menina tão inteligente não querer fazer faculdade?’. Agora ela já tem armas para navegar para quando quiser me abandonar”. Vida falou dessa forma, mas não quer perder Lú. E nem Lú quer se afastar de Vida. “Dona Vida e eu temos uma sintonia muito grande. Esse foi o meu primeiro emprego e me ensinou muito. A Vida é como se fosse uma mãe, pois não é só minha chefe, converso com ela sobre outros assuntos e recebo bons e sábios conselhos”. Luciana afirmou que Vida tem mais disposição do que ela para muitas coisas. Sobre a valorização da Pró TV, afirmou: “Falta verba para a Pró TV se mudar para um lugar melhor. E as pessoas que conhecem a instituição, a valorizam. Mas o que a dona Vida mais quer é um lugar maior. Pois, ela cede a sua casa por falta de alternativa”. Lú disse acreditar que os eventos ocorridos no aniversário da 102


televisão podem ajudar a melhorar a situação da Pró TV. Pelo menos durante certo período. A jovem não perde as esperanças: “Acredito que com a festa dos 60 anos da TV as coisas podem melhorar. Pois no ano passado fizemos um evento no Memorial da América Latina e teve bastante repercussão com a presença de algumas autoridades e atores famosos, como Tony Ramos e Lima Duarte”. Luciana revelou saber que a luta de Vida Alves é longa. “Não é fácil manter uma instituição, são várias promessas e reuniões e nada acontece. Mas sempre digo para a Vida: ‘Dona Vida, senhora já fez muito pela Pró TV’”. A jovem acredita que a digitalização do acervo da Pró TV irá ajudar a deixar a instituição mais conhecida. Como foi relatado, os profissionais do museu estão otimistas. Além disso, de acordo com Lú, existe um mailing (uma lista) com mais de 400 artistas. “Alguns artistas ajudam financeiramente a Pró TV, mas não é algo fácil de acontecer.” Lú revelou que a imprensa procura pela Pró TV apenas para falar com Vida Alves sobre “o primeiro beijo”. E não com a mulher presidente da Pró TV. Porém, mesmo sendo uma pessoa extremamente útil para o museu, a própria Luciana admite: “Elmo é a pessoa mais indicada para contar de fato e cronologicamente a história da Pró TV. Eu opino nos eventos e o Elmo participa na parte da história. Falo para ele: ‘Você deveria ter nascido no dia da televisão’, falo isso, pois ele sabe tudo”. 103


Elmo Francfort, além de produtor e diretor de comunicação da Pró TV, é um pesquisador da história da televisão. Escreveu o livro sobre a história da Rede Manchete, sua emissora preferida, e outro sobre a TV Gazeta. Conhece a história da televisão. A família de Francfort é de pioneiros da TV. O tio dele trabalhou na TV Paulista e depois na Tupi. Já sua mãe era produtora pioneira no Paraná da TV Paraná. Todos os seus irmãos seguiram carreira na televisão. “Comecei aos 13 anos de idade”, conta Francfort, hoje com 28. “Quando tem reunião de família podemos montar até um programa de TV com tanta gente que trabalha na televisão.” Em 2000, Francfort, com apenas 18 anos, descobriu o site da Pró TV e ficou fascinado. “Fiquei com uma ideia na cabeça: ‘Alguém precisa preservar a história da televisão’”, afirmou. Francfort procurou o contato da Pró TV e se ofereceu para ajudar no site. De cara, conquistou a confiança de Vida Alves. Havia entre eles uma coincidência: “Eu e a Vida fazemos aniversário no mesmo dia (15 de abril)”. Francfort contou em detalhes o que ocorreu no dia do seu aniversário em 2002: foi ao lançamento do livro de Vida Alves e ela estava doente. Mesmo assim, estava no evento por pura determinação. E uma frase dita por ele mudaria totalmente a sua vida. “Eu falei para a Vida em relação à Pró TV: ‘Essa luta não é só 104


sua, é nossa’. Por que eu disse isso? Após esse episódio, passei a frequentar as reuniões. Arrumei novamente o site.” Francfort estava cada vez mais envolvido pela Pró TV, amando e admirando Vida Alves. Mesmo trabalhando em outros lugares, o destino dele era dentro da Pró TV. “Comecei a catalogar os arquivos da Pró TV. Iniciei uma busca por objetos antigos da história da televisão para ampliar o museu.” A função de Francfort era essa: organizar o site e correr atrás de raridades para o museu. Mas logo ganhou uma nova função. Certa vez, três estudantes de jornalismo da Cásper Líbero foram à Pró TV, curiosos para conhecer a história da televisão. Francfort teve a brilhante ideia de contar para Karina, Danilo e André (nome dos alunos, que Francfort jamais esquece) a história cronológica da TV. Vida, de acordo com Francfort, gostou tanto que pediu para ele fazer o trabalho de monitoria dentro do museu. Sempre que vinha um visitante, Francfort organizava um roteiro para explicar como os fatos se sucederam na fantástica história da televisão. “Eu criei um roteiro contando a história da TV. A Vida pediu para eu mostrar a ela e ele foi aprovado. Até hoje esse roteiro é utilizado.” Depois disso, Francfort começou a se envolver com os eventos. Ele explicou que, antes de entrar na Pró TV, Vida conseguiu

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um acordo com a Secretaria de Cultura para a realização de um evento por ano no dia do aniversário da televisão. As festas ocorriam no Teatro São Pedro. Francfort revelou que os eventos lotavam. Além disso, afirmou existir uma placa da Pró TV neste teatro. Em 2001, uma notícia inesperada poderia acabar com os sonhos e pretensões da Pró TV. A morte de um dos colaboradores que ajudava com uma boa verba para o museu. Essa situação fez com que Vida anunciasse o fechamento da instituição. Para vocês entenderem melhor, a Pró TV, como já foi explicado, tinha a sigla Apite quando foi inaugurada em 1995. Quando a televisão fez 50 anos em 2000, houve uma grande festa no Teatro São Pedro. Essa comemoração trouxe muitas esperanças para Vida, em relação ao museu. No ano seguinte, a instituição mudou de nome, se transformou na Pró TV. Muitos ainda achavam que a instituição ainda se chamava Apite. Nome considerado ruim por Francfort. Por isso, a mudança. A situação da Pró TV estava muito complicada. Em 2004, os salários de alguns colaboradores estavam atrasados. E a ajuda não vinha. “Uma empresa apoiava, mas depois tirava o apoio”, afirmou Francfort. Francfort também contou que Vida fez uma reunião com a diretoria da Pró TV e anunciou: “Temos que nos reciclar”. Para evitar o fechamento, Vida acreditava na evolução do conceito da instituição. Francfort entendeu perfeitamente o que a presidente

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do museu queria dizer. “Houve o declínio, mas ressurgimos. A Pró TV passou a olhar para o futuro, para as novas mídias, criando novas possibilidades de divulgação.” Francfort foi o principal idealizador dessas mudanças. Criou o jornal da instituição. Aliás, esse jornal é divulgado mensalmente para os colaboradores do museu. São oito páginas em formato de folheto. Na publicação, há histórias de pioneiros, lista dos artistas aniversariantes do mês, fotos dos eventos e necrológico. Francfort cuida da diagramação e dos textos. Vida também escreve para o jornal. Luciana, ao lado de Francfort, conseguiu produzir eventos para a Pró TV em 2005. Naquele ano, para comemorar os 55 anos da televisão, Francfort teve uma ideia. Nos antigos estúdios da Tupi, foi recriado o cenário do dia da inauguração, com participação os pioneiros que lá estiveram em 1950. Foi tudo do mesmo jeito. Os pioneiros falaram da mesma forma. Foi um momento emocionante para os presentes. “Existem resquícios do primeiro dia. Até a placa sinalizando a luz era igual. O refletor continuava o mesmo. Essa encenação mexeu com todo mundo. Veio muita gente assistir ao evento. A partir de então, começamos a crescer de novo”, afirmou Francfort. No evento, Yara Lins não controlou as lágrimas e Wilma Bentivegna (mesmo cantando em playback) emocionou todos cantando a canção interpretada por ela na inauguração da TV.

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Wilma e Vida choraram juntas e abraçadas. Esse evento, além de trazer novas esperanças para a Pró TV, fez Vida retornar para a televisão. Mesmo que em um canal de pouca expressão. Entre os anos de 2006 e 2008, ela apresentou no canal UHF 48, o NGT, o programa TV História. Nele, Vida contava a história da televisão, Francfort produzia a atração, que servia para divulgação. Francfort também idealizou o programa especial em comemoração aos 56 anos da TV a aproveitou para fazer uma homenagem aos 50 anos da inauguração da TV Paulista. Além do TV História, Francfort criou a comunidade da Pró TV no site de relacionamentos Orkut. Com isso, jovens que gostam de televisão passaram a ser atraídos pela curiosidade de saber como é o museu da televisão, que não tem a repercussão do badalado museu do futebol, por exemplo. Quando o TV História acabou, um jovem telespectador, membro da comunidade da Pró TV, sentiu falta da atração, apresentada por Vida. Francfort revelou que este internauta viu no GC (créditos) do Programa Ronnie Von, o nome dele. Entrou em contato pelo Orkut, pedindo a volta do programa. Francfort é um rapaz repleto de energia e boas ideias. Um jovem talentoso, que trabalha tanto por algo tão incerto como a Pró TV. Mesmo tendo uma pessoa como Vida no comando, geralmente, pessoas da idade dele (28 anos) querem aproveitar a juventude, ganhar dinheiro, pois os jovens são ambiciosos e anseiam por um futuro rápido e promissor. Na Pró TV, não só

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Francfort, mas também Luciana, ganham pouco, mas mesmo assim estão satisfeitos Francfort, podemos arriscar dizer, é a alma da Pró TV, pois nem sempre Vida pode ter as melhores ideias para alavancar o seu projeto de preservar a memória da TV. Em 2007, o rapaz inaugurou o chá das quartas, reunindo pioneiros. Ele fazia esses encontros para relembrar as conversas, nas décadas iniciais da TV, que ocorriam da padaria Real, que, como já foi dito, ficava próxima à antiga sede da Tupi, no Sumaré. “Muitos contavam suas histórias e se emocionavam”, disse. *** Francfort conseguiu o apoio de uma pessoa muito importante, Rita Okamura, que na época trabalhava na TV Cultura. Ela se interessou pela causa da instituição e sua presença na Pró TV trouxe o apoio de algumas emissoras de TV entre elas, a Band, RedeTV e o SBT. Em princípio foram essas as emissoras, porém, a Abert (Associação das Emissoras de Rádio e Televisão) brigou por causa deste apoio e apenas RedeTV e Band permaneceram apoiando a Pró TV. Rita é uma oriental muito vaidosa. Tem os cabelos curtos, veste-se de forma elegante e discreta. Trabalhou por 30 anos na TV Cultura como diretora e produtora de alguns programas da emissora. É uma pessoa que luta totalmente em favor da cultura. Além disso, é pesquisadora da história da teledramaturgia no Brasil. “Quando a TV Cultura fez 30 anos, conheci vários pioneiros 109


da TV, por causa de um programa especial que ocorreu na emissora”, contou Rita Para ela, a TV Cultura, por ser uma emissora sem grandes fins comerciais, sempre se preocupou em trazer ao público uma programação sofisticada. Em 2007, Okamura resolveu criar o centro de memória da Fundação Padre Anchieta. “Pedi para me deixarem fazer isso e deixaram. Viajei para vários países da Europa para descobrir como se deve fazer uma grande e interessante fundação”. Com esse centro de memória, que tinha como objetivo manter vivo o passado dos 30 anos da Cultura, ela se aproximou da Pró TV. “Na época, Vida tentou se associar à Cultura. Percebi o quanto a Pró TV precisava de apoio e resolvi ajudar”. Em princípio, Rita resolveu fazer algo que ninguém da instituição havia pensando. Como na Pró TV há muitos acervos, várias emissoras, quando precisavam, pediam para o museu. Vendo essa situação, Okamura decidiu cobrar das emissoras uma mensalidade para usarem o acervo da Pró TV. Isso serviu para valorizar a instituição perante as emissoras brasileiras. “Consegui essa mensalidade com a Band. Com a Globo, eu tentei, mas foi complicado. Por isso não deu certo.” Rita começou a fazer alguns trabalhos para Vida Alves. E assim como Francfort e Lú, ela também ficou cada vez mais envolvida com a Pró TV. Mesmo ainda trabalhando no Centro de Pesquisa

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da TV Cultura, enxergava muitas semelhanças entre a emissora e a instituição. “A Pró TV é uma instituição neutra e a TV Cultura também era uma instituição neutra sem fins lucrativos.” Depois de 30 anos trabalhando na TV Cultura, Rita foi mandada embora. Ela tem uma razão para essa demissão. “A Cultura começou a vender horário para propagandas e virou concorrente de outras emissoras. Hoje, o único lugar neutro relacionado à televisão é a Pró TV.” Francfort, sabendo da importância de Rita, desde que começou a colaborar com a Pró TV, chamou-a para ficar definitivamente na instituição. Com isso, a pesquisadora se aproximou ainda de mais de Vida Alves. “Vibrei muito quando ela conseguiu entrar para o cadastro dos museus brasileiros.” Para Rita, as pessoas até sabem que a Pró TV existe, mas como ela diz é ‘cada um no seu quintal’. As emissoras querem ter seu centro de memória, porém de forma individual. Como pesquisadora, Rita acha que a programação atual da televisão está muito repetitiva. Além disso, critica a compra excessiva de programas de canais estrangeiros, como os realities shows. “A televisão de hoje é medíocre. Nos programas, os cenários são sempre os mesmos. Não é algo bonito de se ver.”

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Rita pensa que televisão é hábito. Nem sempre se presta atenção em tudo que se passa na telinha, pois o espectador geralmente está fazendo outra coisa, como ler jornal enquanto a TV está ligada. O que mais deixa a pesquisadora revoltada é quando os canais copiam programas de outras emissoras. Para ela, nunca copiam de forma bem feita. “Pode copiar, mas copia bem feito. O formato do Bambalalão (programa infantil de sucesso da TV Cultura nas décadas de 1980 e 90) foi copiado por algumas emissoras comerciais. Mas nunca tão bem feito como o original.” Para melhorar a qualidade da televisão atualmente, Rita diz que é necessário se inspirar no passado para poder melhorar o futuro. “Na TV Cultura, tinha o respaldo de alguém especializado, em alguma área. Por isso, não havia o perigo da qualidade da programação ser baixa. Hoje, na televisão, apenas as novelas se salvam.” Sobre a valorização da Pró TV, Rita disse acreditar que os jovens estão aceitando melhor os mais velhos. Por isso, vê neles uma boa possibilidade de aproximação para ajudar a instituição. “O museu da televisão é a história do Brasil. Aliás, parte da história do Brasil foi transmitida pela televisão.” Sobre Vida Alves, Rita afirmou que, como pesquisadora, sempre soube da sua importância na história da teledramaturgia. Tornaram-se boas amigas, mas Okamura acha Vida mais importante em outros aspectos do que na sua carreira na Tupi. 112


“Vida Alves é muito mais importante pelas funções acumuladas ao longo de sua carreira, como escrever novelas, por exemplo. Sem contar sua formação cultural. Afinal, quem iria aceitar fazer um museu na sua própria casa?”. *** O grande problema para Francfort é quando surge um jornalista para entrevistar Vida. Como Lú afirmou, a maioria deles só quer saber da atriz do primeiro beijo na novela Sua Vida me Pertence. Francfort se irrita muito, pois alguns destes jornalistas não pesquisam quem de fato é Vida Alves. “Os críticos precisam conhecer melhor a Pró TV. Comecei fazer o meio campo para os jornalistas conhecerem mais a instituição.” Francfort afirma que uma jornalista do Estadão, simplesmente, achou um absurdo fazer uma matéria sobre a Pró TV. Por quê? Simplesmente, por falta de conhecimento e de respeito com Vida Alves. “Ela disse: ‘Como assim divulgar um evento da Pró TV? Pensei que isso não existia mais desde 2000?’. Uma outra jornalista perguntou o que Vida tinha feito depois do primeiro beijo da novela.” Por causa dessas situações, Francfort passou a informar os jornalistas antes de qualquer entrevista com Vida Alves. Por isso, fez pós-graduação em jornalismo empresarial (ele é graduado em rádio e TV). Mesmo assim, alguns constrangimentos persistiram. 113


“Uma vez, um repórter da TV Aparecida veio até a Pró TV conversar com a Sônia Maria Dorce e com a Vida. O problema é que ele só perguntava para a Vida e não deixava a Sônia falar. A Vida me fez passar as informações da Sônia para ver se esse repórter perguntava algo para ela.” Francfort, com suas ideias, fez com que Vida entrasse para o mundo da internet. No site da Pró TV, que já passou por muitas reformulações, além de informações sobre a instituição, há um blog escrito pela própria Vida. E mais: biografias dos muitos artistas presentes no site oficial da instituição são também escritas pela presidente. “Vida me dizia: ‘Não inventa Francfort, pois eu não entendo nada dessas ferramentas’. Eu a convenci de que a sua participação no site é extremamente importante para aproximá-la do público.” Vida, de acordo com Francfort, que a conhece muito, recusase a pedir ajuda em programas de TV, principalmente, nos mais sensacionalistas. Em 2004, Francfort esteve com Vida, quando ela voltou à teledramaturgia. Foi uma participação especial na minissérie Um Só Coração, de Maria Adelaide Amaral, na Rede Globo, interpretando ela mesma. Nessa participação, a Globo precisou da Pró TV, pois somente a instituição possuía a primeira câmera da inauguração da televisão. “Tive que me deslocar com a Vida de São Paulo para o Rio de Janeiro, onde a minissérie foi gravada. Depois, voltei para São Paulo para poder trazer a câmera que a Globo tanto precisava.”

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A Pró TV, além de ter feito Francfort ser o braço direito de Vida, estimulou o jovem profissional a escrever livros. Com o apoio da Imprensa Oficial, a editora Aplauso passou a fazer parte da Pró TV. Francfort, por sua vez, consolidou sua outra função: pesquisador da história da televisão. Francfort escreve para a editora Aplauso a biografia de algumas emissoras. A primeira foi a Manchete (Aconteceu, Virou História), emissora do jornalista Adolf Bloch (19081995), depois escreveu sobre a TV Gazeta. Mas, o carinho que tem pela Manchete é mais especial. Tanto que é o fundador da comunidade no Orkut da emissora, extinta em 1999. “Quando criei a comunidade da Manchete muitos me perguntavam se ela iria voltar. O público saudosista acha que essa comunidade pode trazer de volta a emissora. Eu escrevia a biografia da Manchete pelo lado pessoal. Desde garoto, gostava do ambiente da televisão. Se havia uma emissora na qual eu queria trabalhar, essa emissora era a Manchete.” Francfort revela que, quando a Manchete faliu, cogitou-se a volta da Tupi, pois seria um pagamento pelas afiliadas da Tupi, que foram fechadas em 1980, de maneira injusta. “O governo perseguia o Assis Chateaubriand. Em 1980, todas as concessões das emissoras afiliadas a Tupi foram cassadas, mesmo não tendo nada a ver com a confusão causada pelas dívidas nas sedes principais em São Paulo e no Rio de Janeiro. Uma nova concessão seria uma forma de compensar.” Na Pró TV, não se vê quase nada da Manchete. A maioria do

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acervo é da Tupi. Há também coisas da TV Cultura. Sem contar as fotos dos inúmeros profissionais da televisão. Mas, Francfort, com a permissão de Vida Alves, queria trazer um objeto especial do canal de Adolf Bloch. “Em uma reunião da Pró TV, falei para a Lú do meu desejo de ter o M prateado da Manchete e trazê-lo para o museu. Essa minha vontade, obviamente, chegou aos ouvidos da Vida. Ela me alertou que não tinha espaço, pois a casa dela não era grande o suficiente para um objeto daquele porte. Mas cismei em ter aquele M.” Mesmo assim, Vida não fez objeções. Francfort descobriu que o tal M estava sendo leiloado e tentou adquiri-lo. Porém, o alerta de Vida o fez desistir de comprar o objeto. “As pessoas acham que a Pró TV não precisa de ajuda. Eu lutei até o último momento para ter aquele M. Mas no fim ele foi vendido”, disse de forma melancólica. A tristeza pelo M prateado não durou muito, pois ele conseguiu, com muita luta, o antigo refletor da Tupi. “Mesmo sem dinheiro, quando vi aquele refletor, pensei: ‘Preciso dele’. Andei de ônibus com ele até a Pró TV, mas valeu a pena só de ver a felicidade da Vida ao ver não só o refletor, mas também as mais diversas doações de acervos.” Francfort diz que buscava todas essas doações, de ônibus, em lugares bem distantes. Todo esse esforço o fez ficar conhecido, provocando um grande reconhecimento.

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“Eu sou pesquisador da história da televisão. Virei fonte para muitos livros de pesquisa como do Mauro Alencar. O Rixa (Ricardo Xavier, roteirista do Vídeo Show e autor do livro Almanaque da TV) fez o prefácio do meu livro sobre a Manchete.” Esse rapaz de estatura mediana, moreno, gordinho, de fala mansa encontrou uma afinidade sem igual com Vida Alves: a paixão por televisão. Francfort fez e trouxe coisas para a Pró TV, fundamentais para o futuro da instituição. Vida Alves tem na Pró TV uma equipe forte. Francfort, o conhecedor da história da televisão; Lú, assessora de imprensa; e claro todos os seis ex- funcionários da Tupi (Sônia Maria Dorce, Lisa Negri, João Restiffe, Léa Camargo e Patrícia Mayo) já mencionados e com suas histórias contadas. Todos eles questionaram não só a pouca importância dada para Vida, mas também a falta de valorização para a entidade e para os pioneiros da televisão. Quando falamos pioneiros, queremos dizer aqueles que não estão na novela da Globo como o Lima Duarte, Tony Ramos e Laura Cardoso. Referimo-nos aos que são pouco lembrados. Esses que só aparecem na mídia em ocasiões esporádicas. O vice-presidente da Pró TV pode hoje não ser mais tão lembrado, mas teve uma significativa importância na história da televisão, assim como todos os pioneiros presentes nesta obra. Se não citarmos, esse detalhe pode ser esquecido pelo leitor. Esta não é a nossa intenção.

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Álvaro de Moya é considerado um dos maiores nomes da Excelsior, emissora inaugurada em 1963 e fechada em 1970. Seu trabalho no extinto canal é visto como algo arrojado e moderno para a época. Grande fã de histórias e desenhos em quadrinhos é considerado um mestre nesta área. Álvaro trabalhou em outras emissoras de televisão além da Excelsior, entre elas, a Globo, Bandeirantes, Cultura e Tupi. Foi no canal pioneiro que ele conheceu Vida Alves, mas não teve tempo para conviver muito com ela, pois mal começou na Tupi e já estava indo para a TV Paulista (Globo São Paulo atualmente). O vice-presidente da Pró TV e diretor cultural da associação, Álvaro, hoje com 80 anos de idade, escreveu, em 2004, um livro para a editora Aplauso (Glória in Excelsior) contando a história da Excelsior. Assim como todos, ele luta pela valorização da memória da televisão, porém enxerga as coisas de forma realista, contextualizando cada uma de suas críticas. Para ele, a Excelsior iniciou o processo de popularização da TV no Brasil. “A TV Excelsior foi a primeira emissora em rede do país. Essa foi uma das novidades. A Excelsior enterrou o período da televisão local, que era muito forte, e começou um processo de tornar a televisão mais popularesca, que é a televisão que nós vemos hoje. Apesar disso, a Excelsior trouxe uma programação radicalmente brasileira. Estávamos imitando o cinema americano, mas ao mesmo tempo reinventado essa linguagem a partir da nossa

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cultura.” Para Álvaro, o processo iniciado pela Excelsior era natural. Logo, a televisão encontraria a sua identidade, porém, ela se popularizou de uma forma que acabou se perdendo. “O Brasil começou muito cedo a se comunicar com a televisão. O público brasileiro se identificou com a TV mais do que com o cinema. Com a televisão, as pessoas passaram a apreciar a música popular e o futebol. A TV englobou as maiores paixões dos brasileiros.” Álvaro falou sobre a linguagem da televisão no início, explicando como ela era baseada no rádio. E afirmou que “a base da televisão foram os sucessos dos programas das mais diversas emissoras de rádio”. “A linguagem da nossa TV foi muito baseada no rádio popular, desde a Rádio Nacional, no Rio de Janeiro, até a Tupi. Tudo que tinha sido sucesso nas emissoras de rádio até 1950, foi adaptado para a televisão. A música popular brasileira foi para a televisão e a radionovela virou a famosa telenovela”. Para Álvaro, o formato da telenovela começou a ser desenhado pela TV Tupi com o programa TV de Vanguarda. De acordo com ele, essa atração consagrou uma geração de atores, atrizes e diretores. Mais tarde, o gênero se consolidaria na Excelsior, a primeira emissora a exibir uma novela diária (2-5499 Ocupado). O diretor disse acreditar que a televisão carece de qualidade e conteúdo. E coloca Vida Alves como a maior representante de uma safra que praticamente deixou de existir na telinha.

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“O principal problema da TV de hoje é a falta de conteúdo. As telenovelas e minisséries tratam apenas de assuntos relacionados com a ação social, sendo que a função da dramaturgia é de apenas entreter. Vida Alves foi uma das atrizes que vieram do rádio para a televisão. Ela sempre foi ótima porque já sabia interpretar. Antigamente, na televisão, os atores tinham que acertar de primeira. Hoje, as pessoas erram, pois sabem que pode gravar novamente.” Álvaro aponta uma direção para a televisão melhorar: “Se receber um conteúdo melhor, os telespectadores podem agir de forma diferente em relação à cultura”. Para ele, o museu da televisão, além de fazer parte da história, é essencialmente importante para a cultura brasileira. “O caminho da TV brasileira deveria ser esse, fazer uma coisa popular e acreditar que o povo gosta de coisas bonitas e bem feitas, mas com conteúdo.” Ele também falou sobre sua relação com a Pró TV e Vida Alves: “O sonho de Vida Alves de realizar o museu da televisão é uma determinação que está dando certo. Esse espaço busca preservar a memória dos pioneiros da televisão. Foi por isso que aceitei fazer parte da equipe da instituição. Quem fez televisão não foi nenhum desses que estão aí hoje, mas Vida Alves, Cassiano Gabus Mendes, entre outros”.

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*** Álvaro de Moya tocou em uma questão importante: como a televisão é um meio de informação cultural, instituições como a Pró TV relacionada à cultura, pode ser valorizada com uma facilidade maior, dependendo da melhora do conteúdo televisivo. Será? Para o jornalista Arnaldo Ferraz, editor chefe do jornal Leitura Dinâmica da RedeTV, a falta de memória em relação aos pioneiros está ligada aos maus hábitos dos telespectadores. Inclusive, ele acredita que o governo tem culpa por permitir que as emissoras públicas vendam espaço para publicidade. “O incentivo que o governo oferece para a preservação da memória pode existir, mas é significativo e não é suficiente. A TV Cultura e a TV Brasil, emissoras do governo, viraram comerciais. Perderam o objetivo inicial que seria um trabalho de instituição.” Outro fator que compromete a valorização da memória televisiva, de acordo com Ferraz, é o egoísmo das emissoras, pois elas criam suas próprias instituições e fundações. Apesar de achar uma iniciativa legal, disse acreditar que isso afasta ainda mais a possibilidade de existir um museu que conta a história de todas as emissoras de televisão. “O brasileiro não tem esse hábito de preservar a memória, de ver a sua importância. Cabe a cada um conscientizar as pessoas a preservar essa memória”, afirmou o jornalista. Ferraz afirmou que a sociedade deve valorizar o passado cultural e não a televisão. Se a TV influencia negativamente,

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cabe às pessoas mudarem essa realidade. O jornalista declara que os meios de comunicação são rotativos. “Cada nova tecnologia vai devorando a outra. Por exemplo: o rádio perdendo posição para a própria televisão. E agora a televisão perdendo espaço para a Internet. Pois as informações chegam de forma mais avançada do que na TV.” Ferraz revela que no seu curso de mestrado fez um trabalho relatando o processo de regionalização da televisão brasileira. O objetivo era ver como as pessoas estavam sentindo a televisão em cidades menores, no interior. “A forma como as emissoras foram se difundindo e a importância que tiveram no interior, esse era o meu trabalho. Ou seja, as pessoas não estavam só querendo ver as notícias que a televisão transmitia. Isso tem a ver com memória, porque a televisão foi criando e deixando de ser monopolista da informação. Com o tempo, a TV percebeu que os espectadores ditavam as informações.” Ferraz disse crer no poder das pessoas em transformar a sociedade. Para ele, essa é a chave para haver uma valorização do passado televisivo e da Pró TV também. “Não é a televisão que manda nas pessoas, são as pessoas que mandam na televisão. Trabalhamos muito em função do que o público quer ver. A memória está inserida nesse processo. São as pessoas que preservam isso, de querer pedir para falar mais do seu bairro, da sua região, pedir destaque em certo assunto, enfim é a sociedade que se organiza.”

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O jornalista André San conhece a Pró TV por meio de matérias em jornais e pela própria televisão. E valoriza muito esta iniciativa de Vida Alves. “É um trabalho de suma importância, já que a evolução da televisão diz muito sobre a evolução do país como um todo. Existem verdadeiros tesouros na história da TV que não ficaram registrados, seja pela falta  do videoteipe, que não existia no início, ou até  pela falta de interesse na época em se registrar. Isso porque, provavelmente, os envolvidos não faziam ideia da dimensão que ganharia a televisão e, assim, também não faziam ideia de que estavam fazendo história. Com tão poucos registros, fica a memória de pessoas como Vida Alves, que participaram ativamente da construção da nossa TV. Sendo assim, é bastante válido o trabalho da atriz.” André San afirma que a falta de conhecimento das pessoas em relação a Pró TV está relacionada à falta de divulgação da entidade. O jornalista diz já ter lido matérias sobre Vida, mas nem todas comentam sobre a Pró TV. Ele admite que é raro ver algo sobre o museu.  “Creio que nem seja pouco caso da mídia com relação ao Pró TV, e sim falta de hábito, vamos dizer assim, dos brasileiros em geral, de resgatar sua própria memória. As pessoas, de modo geral, não estão acostumadas ou habituadas, a resgatar valores do passado para compreender o presente. É uma discussão que envolve outras esferas, como educação e cultura. Felizmente, existem aqueles que se interessam e se esforçam para manter viva a história da TV, sejam pioneiros engajados como Vida Alves ou

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pesquisadores que se debruçam sobre o tema.” A professora de Cultura Brasileira da Uniesp (União das Instituições Educacionais do Estado de São Paulo) Maria Isabel Nocera disse acreditar que a massificação da televisão é causa desta falta de valorização dos pioneiros e de entidades como a Pró TV. Ela afirmou que a TV, antes, era pautada por temas relacionados à cultura. “Antigamente, tinha teatro na TV, que trazia cultura e informação. Hoje, a televisão virou um produto de comunicação de massa. Telespectadores, infelizmente, se apegam à ignorância passada nos veículos de comunicação de massa.” Maria Isabel afirmou que os brasileiros são muito apegados à cultura norte-americana e isso foi matando, de acordo com ela, a nossa própria identidade. Líder do movimento Sosaci (Sociedade Observadora de Saci), que se declara contra o halloween, comemoração estrangeira comemorada no Brasil. A professora defende o folclore brasileiro com seus personagens e histórias, como a do Saci Pererê. “A falta de memória das pessoas começa pelo fato delas desprezarem a própria história, pois os jovens, por exemplo, não se interessam pelo nosso folclore. Porém, na história cultural dos EUA há um interesse profundo.” A professora culpa o governo, que no processo de redemocratização do país não soube valorizar os bens culturais. Ela acredita que os interesses políticos são a causa de uma mudança brusca na sociedade.

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“O museu da televisão comandado por uma pioneira da importância de Vida Alves, seria ótimo. Mas o problema é que a Vida não é uma pessoa ligada aos interesses políticos. Ou seja, ela não possui garantia em termos de verbas e poder para conseguir construir o museu que tanto deseja.” Participante dos movimentos estudantis de 1968, Maria Isabel disse crer que as pessoas, principalmente os jovens, precisam voltar a ter um sentimento de ideologia e mudança. “O museu da televisão poderia ser também um instrumento crítico para haver mudanças neste meio de comunicação, tão voltado hoje para a cultura da erotização. Infelizmente, caíram os valores do País.” *** Vida tem muitas coisas em comum com a sua equipe da Pró TV. Todos são exigentes e críticos da atual realidade da televisão, como demonstraram ao longo deste livro. Léa critica a TV aberta. Patrícia, mesmo achando a evolução da televisão natural, sabe que o momento para os pioneiros não é o esperado. João Restiffe, boa praça, transforma-se quando é para falar da Pró TV e da televisão atual. Sônia Maria Dorce culpa os anunciantes pelo atual panorama televisivo. Já Lisa Negri demonstra um ressentimento muito grande com a Rede Globo. Vida também, mas de uma forma mais amena, critica a TV do presente. Por exemplo, não consegue entender o fascínio das pessoas em relação a um dos maiores fenômenos da televisão atualmente. Os realities shows. Traduzindo, show da realidade, liderados pelo Big Brother Brasil. 125


Programas como o BBB colocam pessoas desconhecidas para disputar um prêmio equivalente a um milhão e meio de reais. Para quem viu, viveu, e venceu muitos obstáculos no mundo da televisão, essa realidade é lamentável. Vida nem pensa muito na hora de dizer o que acha sobre estes programas. Com muita tranquilidade afirma: “Não gosto, pois a pessoa se dispõe a falar mal, a se exibir de uma forma menosprezada.” Para se construir uma carreira é preciso talento, determinação e sorte. Ser bonito e atraente pode até ser bom, porém, é apenas consequência de um bom trabalho. E arte é fundamental. Vida sabe disso. “Eu sou a favor da arte, ou pelo menos quando se tenta fazer.” Vida foi uma profissional diferenciada por ser uma pessoa inteligente a ponto de criar grandes programas como Tribunal do Coração. Escreveu novelas, como O Segredo de Laura. Foi a protagonista do primeiro beijo, mas esse não foi o seu único trabalho. Vida nem gosta de ser tão associada à sua participação na novela Sua Vida me Pertence. Detalhista, se for para brigar com alguém que ama, ela briga. Não teme ser verdadeira. Mas sua forma de criticar é doce e, ao mesmo tempo, rígida. Quando comentamos com Francfort que Vida é uma pessoa muito calma, o rapaz dando uma risadinha sem graça, disse: “Vocês é que pensam. Ela é muito exigente”.

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Por falar novamente em Francfort, ele que já era uma pessoa com grande conhecimento em televisão, admite: por causa de Vida e da Pró TV, esses conhecimentos aumentaram. Ele também tem uma opinião em relação aos realities shows. “Os realities shows são o nome da televisão de hoje. Ontem, eram as novelas. Cada época é uma época.” Mesmo não vivendo os primeiros anos da TV, ele pensa que a programação de antes em termos de conteúdo era melhor. Chegou a essa conclusão de tanto ver os acervos da Pró TV, junto às inúmeras conversas com Vida Alves, além da saudade que sempre sentiu da Rede Manchete. “A TV ficou mais popular. Na verdade, ela ainda está se descobrindo. A televisão é como um adolescente, pois não é adulto, mas também não é criança. O satélite ficou mais acessível, a TV se transformou em rede. Ninguém percebeu o caminho que ela estava levando. Nesse tempo surgem os canais de UHF e, mais tarde, a TV a cabo.” Francfort disse pensar que a TV precisa se reinventar e citou o programa Login, apresentado por Fábio Azevedo, na TV Cultura, como um bom exemplo de interatividade, pois Fábio conversa com o público pela Web Cam. Francfort ainda fez uma novela interativa pela web, no canal da internet ALTV, com Patrícia Mayo “É como a Vida sempre diz: televisão é como o tempo, ela vai e volta.”

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Vida sempre cita que nada é para sempre. Sabe das mudanças que a televisão necessita a cada década. Mas isso não significa esquecimento do espectador em relação aos pioneiros. “A televisão tem esse negócio de imediatismo. O que passou, passou”, disse Francfort em frase semelhante à de Vida Alves. No dia do evento dos 60 anos da televisão, Francfort estava com uma expressão tensa. Muito ocupado, não falava com os jornalistas. Ficou nos bastidores para verificar se tudo estava em ordem. Sônia Maria Dorce, com um longo vestido branco, subiu ao palco do Memorial da América Latina. Esteve ao lado de Lima Duarte. Contou a história de sua participação como indiazinha na inauguração da Tupi da mesma forma relatada aqui nesta obra.Lú Bandeira era a tal moça agitada de terno e calça preta. Seu agito era com o alvoroço do público e da imprensa na entrada do evento. Deixou-nos entrar na festa, pois nos conhecia. Aliás, como assessora de imprensa da Vida Alves, nos fez entrar em contato com ela, marcando todos os encontros. Dessa vez, não pode ocorrer como aconteceu em 2000. A festa foi muito linda, repleta de personalidades. Mas, no fim, restaram promessas, promessas e promessas. Nada aconteceu. A Pró TV não pode mais ficar dez anos esperando (quando a TV fizer 70 anos) novas expectativas serem alimentadas e nada acontecer. Além disso, com esses eventos, tudo para na instituição. Francfort afirma que durante os preparativos da festa, as visitas à instituição são suspensas. Tudo em prol do evento. 128


Além da memória da televisão, um museu seria importante para resgatar momentos históricos que só vimos na telinha. É como Rita Okamura disse: “A TV registrou a história do Brasil”. Se não fosse por ela, não teríamos visto a chegada do homem à Lua e nem o assassinato do presidente John Kennedy, muito menos os inúmeros festivais, que revelaram talentos da música como Caetano Veloso, Gilberto Gil, e Chico Buarque. As novelas, por mais criticadas, possuem uma grande iniciativa de discussão em relação a temas ligados à cidadania. Então, por que não haver um museu da televisão? Seria pelas razões ditas por Maria Isabel? Seria porque Vida Alves é apenas Vida, uma mulher sem as ambiciosas intenções de empresários, proprietários de outros museus existentes no País? Essas perguntas foram feitas a todos os personagens deste livro e ninguém consegue compreender o desinteresse pelo museu da televisão. Isso, provavelmente, irá mudar. A reposta de Alberto Goldman, governador de São Paulo até início de 2011, e do prefeito Gilberto Kassab foi positiva no evento dos 60 anos da TV. Disseram que vão ajudar na construção do museu da televisão. Vida Alves radiante, não conteve a euforia e vibrou muito. No fim do evento dos 60 anos da TV, Vida foi chamada para subir ao palco e disse algumas palavras: “Agradeço a todos que me ajudaram neste evento e, principalmente, a este elenco de qualidade, que subiu ao palco. Eu sou a mãezona de todos vocês”, afirmou para, em seguida,

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dizer uma pequena frase irônica: “Eu não sou uma emissora de televisão, mas na próxima encarnação serei a Rede Globo”. Alguns meios de comunicação repercutiram a festa, falando sobre Vida e a Pró TV. Citaram, evidentemente, que a presidente da instituição foi a responsável pelo primeiro beijo na TV. Mas a essa altura nada importava. Vida Alves está repleta de boas esperanças, pois desta vez o aniversário da televisão teve uma dimensão maior. A promessa da construção do museu foi feita diante de muitas pessoas e da maior apresentadora da televisão brasileira, Hebe Camargo. “O museu da televisão poderia se chamar museu Vida Alves”, afirmou Elmo Francfort. Ele tem razão, afinal, Vida lutou e luta até hoje pelos pioneiros. Mas, independentemente do nome, o importante é que a vontade de Vida Alves seja feita. Queremos que esse museu nasça, seja valorizado, assim como Vida e todos os pioneiros, presentes ou não nesta obra.

“Sonho que se sonha só. É só um sonho que se sonha só. Mas sonho que se sonha junto é realidade.” (Prelúdio, música preferida de Vida Alves, interpretada e composta por Raul Seixas, pionerio do rock nacional)

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A vida pela TV  

Livro, biografia sobre Vida Alves - autores: Luana Guimarães, Ivan de Sá e Simone Borges