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Mês Fevereiro nº 8

Um poema cheio de emoção e significado

Há objectos que guardam em si muito sentimento

Uma história profunda de cheia de duplos significados

Uma opinião interessante sobre a situação política


Índice e destaques

Índice Editorial………………………………..…3 As Nossas Sugestões……………….5

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Destaques Histórias Narrativas História de uma Guitarra – História de uma guitarra muito especial

Histórias Narrativas História de uma guitarra…………6 O Amor é Forte e não Teme a Morte………………………………………15  Hotel e os seus Segredos A Dama da Música…………………..20 Histórias Poéticas Reflexo de mim……………………….27 Serão saudades, para sempre…29 Impossibilidade………………………31 Guimarães………………………………33 Ruas de Guimarães…………………35 Críticas e Sátiras Oh Meu Partido que Lanças tristezas no País……………………….36 Regras para Trabalhos Enviados………………………………….38

O Amor é Forte e não Teme a Morte Uma história profunda de cheia de duplos significados

Histórias Poéticas Reflexo de mim – Um poema cheio de sentimentos profundos

Serão saudades, para sempre - Um poema cheio de emoção e significado Guimarães – Um poema que descreve a cidade onde Portugal nasceu

Críticas ou Sátiras Oh Meu Partido que Lanças tristezas no País - uma crítica política com um ponto de vista que nos faz pensar

Ficha Técnica: Mês de Fevereiro n.º8 via internet – ebook Editora e Proprietária: Marta Sousa Revisora: Patrícia Lopes Redacção: Marta Sousa, Malfada Ferreira, Ruy Crespo Filho, Flávio Pereira, Ana Catarina Zhang, Ana Maria Teixeira Grafismo: Marta Sousa, Ana Maria Teixeira (Imagens de “Guimarães” e “Ruas de Guimarães”) e Ruy Crespo Filho (imagens de “O Amor é Forte e não Teme a Morte”) Interdita a reprodução para fins lucrativos ou comerciais dos textos Escrita e interdita Criativaa reprodução sem a indicação do respectivo nome do autor.


Editorial

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Na Revista Escrita Criativa nº 8 contamos mais uma vez com valiosas participações e sentimos cada vez mais o apoio de nossos leitores, a revista nº 6 foi lida aproximadamente 5000 vezes. Agradecemos o vosso apoio e divulgação. Este mês como imagem deste editorial coloco a minha fotografia, acredito que muitos de vós estejam curiosos para saber quem iniciou este projecto. Neste mês contamos com as participações de Ana Catarina Zhang, Ruy Crespo Filho, Mafalda Ferreira, Flávio Pereira e Ana Maria Teixeira. Ana Catarina Zhang traz-nos um poema com sentimentos muito profundos e uma interessante história sobre uma guitarra muito especial. Ruy Crespo Filho desvendou mais um pouco a história do seu livro na sua história/poema que contém partes que já foram desvendadas na Revista Escrita Criativa, para quem ficou curioso vale a pena ler e reler. Mafalda Ferreira traz-nos um Escrita Criativa


4 poema cheio de sentimento e de significado. Temos ainda, uma crítica política com um ponto de vista deveras intrigante e interessante que nos faz pensar de Flávio Pereira. Por fim, temos mais uns interessantes poemas sobre a cidade de Guimarães trazidos por Ana Maria Teixeira. Esperemos que gostem da Revista Escrita Criativa de Fevereiro e que nos enviem as suas opiniões para asnossashistorias@hotmail.com

Marta Sousa

Escrita Criativa


As Nossas Sugestões

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Dom Casmurro de Machado de Assis

Ao referir o autor deste livro não é preciso dizer muito mais, não é verdade? Considerado como um grande escritor na Literatura brasileira, o nome Machado de Assis fala por si. Mas mesmo assim coloco como sugestão este livro, não só pela sua história simples mas absolutamente deliciosa mas também pelos comentários mordazes do narrador/personagem que nos prendem, nos divertem e por vezes nos confundem ao parecer falar directamente connosco. Pura e simplesmente um clássico a não perder, uma boa história para descontrair mas também para nos fazer reflectir.

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Histórias Narrativas

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História de uma guitarra (Primeira parte)

David ainda dormia naquela manhã fria de Inverno. A mãe entrou devagarinho no quarto e sussurrou: - Acorda, filho. Daqui a nada temos de ir. Era hoje o grande dia. Pouco tempo depois, mãe e filho já estavam a caminho. A rua estava coberta sob um imaculado manto branco. O ar gélido penetrava-lhes nos pulmões. Contudo, isso não tirou a boa disposição de David. A viagem foi curta, demorou cerca de vinte minutos. Entraram na loja e sentiram logo o seu ar quente e acolhedor. - Demora o tempo que precisares, querido – disse a mãe. David deambulou pela loja, a ver se algo lhe agradava. Afinal, não é todos os dias que se compra uma guitarra. A sua primeira guitarra. O empregado da loja viu-os e ofereceu-se para ajudar.

- Tinhas alguma guitarra em mente? - Bem, eu estava a pensar numa Fender... – respondeu ele, timidamente. História de uma Guitarra

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7 - Tens bom gosto, rapaz. É uma boa marca. Temos aqui uma. Podes experimentar. Eu também era uma das guitarras ali penduradas. E estava desejosa de atrair a atenção daquele rapazinho. Ser usada, de novo. Ele esteve imenso tempo à procura da guitarra certa e, quando já estava quase a desistir, olhou para mim. - E esta aqui? - Ah essa é uma Fender Stratocaster.* O modelo do Jimmi Hendrix – respondeu o empregado com entusiasmo. Deve ter havido alguma química entre nós, porque quando dei por mim, estava eu no banco de trás do carro, a caminho do meu novo lar. Nos dias seguintes, eu e o David tornámo-nos inseparáveis. Ele trouxe os seus amigos de liceu, a família. Era a menina dos olhos dele. Às vezes, era difícil para a mãe lidar com o barulho lá de casa. “Mas valeu a pena”, pensou ela, enquanto olhava para o ar de felicidade do filho. Os anos foram passando e, claro, David também foi crescendo. Entrou para a faculdade, fez novos amigos e conheceu a namorada. Passei mais tempo no canto do quarto por causa dos seus * modelo de guitarra eléctrica desenhada por Leo Fender, George Fullerton e Freddie Tavares, em 1954 História de uma Guitarra

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8 estudos. Mas, sempre que podia, ele vinha tocar. É como se precisasse de mim para estar equilibrado. E eu dele, claro. Ver o meu rapazinho crescer deixava-me orgulhosa; ver o menino que olhou para mim, pela primeira vez, com aquele ar sonhador a tornar-se num grande homem. Mas a minha felicidade não durou muito mais tempo. Afinal, tudo tem um fim... até mesmo para uma guitarra.

(Segunda parte)

A vida de David deu uma grande reviravolta, nos anos seguintes. Para começar, a mudança de casa. Eu, que passava a maior parte do tempo no cantinho do seu quarto, agora estava dentro de uma mala e transportavam-me para aqui e acolá. Mas não era a única. Já vos disse que agora tenho irmãos? O David comprou mais algumas guitarras. Incluindo uma Gibson.** No entanto, o motivo desta confusão toda era outro. Se eu tinha agora irmãos, o David ia ter um filho. A namorada, que agora era sua mulher, estava grávida. E a barriga crescia a olhos vistos. Carolina olhou em redor. Afinal, era este o seu novo lar. ** marca de guitarra – A companhia Gibson Guitar Corporation foi fundada em finais da década de 1890.

História de uma Guitarra

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9 - A casa é linda... perfeita para o nosso filhote crescer! David sorriu. - É verdade... já o estou a imaginar a correr por aí, a brincar. A casa tinha também um sótão. E era aí onde eu ia ficar. Eu e o todo o equipamento de música dele. David passava algumas horas a tocar ou simplesmente a escrever, não fosse ele um escritor. A grande surpresa aconteceu meses depois, quando rebentaram as águas à Carolina. - David!! Temos de ir para o hospital depressa! O seu marido ajudou-a a entrar no carro. - Respira fundo, querida. O parto correu bem e minutos depois, o pequeno João veio ao mundo. Podia acabar a minha história por aqui e dizer que fomos felizes para sempre. Mas não foi bem assim. Dois anos depois do João ter nascido, surgiram alguns problemas financeiros. O novo romance de David não estava a vender muito bem e o ordenado da Carolina não era suficiente para cobrir as despesas. Certo dia, David estava no sótão a abrir algumas cartas. A grande maioria eram contas. “Tenho de fazer algo...” pensou ele. Encontrava-se tão absorto nas suas preocupações que nem reparou na presença de Carolina. - Más notícias?

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10 - O quê? - Estás com uma cara... David suspirou. - Nada de mais... só contas. A sua esposa abraçou-o e deu-lhe um beijo na testa. - Se for preciso fazer horas extraordinárias lá no trabalho... - Não! Eu trato disto, não te preocupes. Vou arranjar um solução para nós. A verdade é que arranjou. Começou por vender alguns do seus equipamentos de música: amplificadores, pedais e por fim... as guitarras. Sabia como lhe custava fazer isso. Vender uma guitarra era como perder um pedacinho de si próprio. Sim, ele ficava destroçado, o sótão ficou mais vazio. Enquanto isso, trabalhava numa nova história. Alguns meses depois, o seu grande amigo Pedro veio lá a casa comprar uma guitarra. Nunca mais me esqueci desse dia. - Tens aqui boas guitarras. - É verdade... – respondeu David, meio nostálgico. De repente, o Pedro estacou à minha frente e perguntou: - Gosto desta! Quanto é que queres por ela? David engoliu em seco. - Bem....

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11 - Vá lá, pago-te o dobro por ela. Nem queria acreditar no que estava a ouvir. Pior ainda, quando vi o meu rapazinho a ponderar o assunto. Eu que o vi crescer. Uns minutos depois, estava eu no carro do Pedro. Ia para longe do meu lar. Se pudesse chorar, seria isso mesmo que faria. Mas era apenas uma guitarra. Um mero objecto que pode ser facilmente descartado, tal como aconteceu.

(Terceira e última parte)

Carolina acabava de dar o jantar ao filho. Olhou para David e suspirou. - Eu sei que ela significava muito para ti... O seu marido apoiou a cabeça entre as mãos. - Sim... é que eu pensava que o dinheiro ia ajudar. - E ajuda. Mas não estamos assim tão mal... eu também podia vender algumas coisas. É só uma fase má, querido... David acenou. - Bem, vou-me deitar. A ver se amanhã escrevo mais algumas páginas do novo livro. - Sim, vai descansar. Eu subo já.

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12 “Isto não vai ficar assim durante muito mais tempo, ou não me chamo Carolina Ribeiro!”, disse para si mesma. No dia seguinte, Carolina foi até a casa do Pedro. - Carol, que surpresa! Como estás? - Olá, Pedro. Na verdade, não estou muito bem... - Que se passa? Por favor, entra. Sentaram-se os dois na sala. - Queres beber alguma coisa? - Não, estou bem assim. Obrigada. Houve um breve silêncio. Depois, Carolina começou. - Eu queria-te pedir um favor. - Sim, diz. Ela endireitou-se no sofá e prosseguiu. - A guitarra que compraste ao David... eu gostaria de a ter de volta. Pedro olhou surpreso para ela. - Ouve, eu sei que não é muito correcto o que estou a fazer. O David não sabe que vim aqui sequer. Mas eu não suporto ver o meu marido naquele estado. Nós estamos com alguns problemas financeiros e ele só queria ajudar. Mas... era a primeira guitarra dele. - Eu... não imaginava que as coisas estavam tão más. Podiam ter falado comigo. Eu vou lá buscá-la. Dá-me só uns minutos.

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13 - Obrigada, Pedro... muito obrigada! E foi assim que regressei a casa. David nem queria acreditar. Abraçou a esposa com tanta força que ela até refilou: - Ai! Estás-me esmagar! - disse, rindo-se. Depois, olhou para mim e disse: - Nunca mais nos vamos separar. Prometo. E manteve a sua promessa. Anos depois, o novo livro de David chegou às livrarias. E, desta vez, foi um sucesso. Talvez vocês já estivessem à espera disso. Certa vez, numa entrevista perguntaram-lhe: - O que tem a dizer sobre o seu livro anterior? - Bem... – sorriu – foi só uma fase má. Todos nós temos isso, não é? Sim, as coisas estavam bem agora. David voltou a comprar guitarras e outros equipamentos de música. Ah! Quase me esquecia! A Carolina está grávida, de novo. Desta vez, de uma menina. Vai chamar-se Sofia. Aguardamos todos ansiosos a chegada deste novo membro da família. 

História de uma Guitarra

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14 David Ribeiro faleceu aos 87 anos. Para muitos, perdeu-se um escritor. Para Carolina, perdeu-se um companheiro de vida. Para o João e a Sofia, perdeu-se um pai. Mas para mim... eu perdi o meu rapazinho. Aquele que me escolheu. É estranho ver como a vida humana é tão... passageira. Deixou muitas saudades... sem dúvida. Mas nem tudo é mau. Adivinhem quem se tornou num guitarrista? O João. Agora é ele o meu rapazinho. Faz-me lembrar o pai... No entanto, não julguem que sou infeliz. A casa do João é uma festa, agora que o pequeno Rui nasceu. Será que ele também vai ser um guitarrista?

Ana Catarina Zhang

História de uma Guitarra

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15 O AMOR É FORTE E NÃO TEME A MORTE

Portugal-1585

Santa Inquisição

Monte Estercário ( Local da execução)

( RETRATO DE ARIADNE)

Ariadne voltou à face para o céu. A estrela solitária ficou com luz intensa. Começou a girar rasgando o céu fazendo chover pingos de luzes sobre o monte da rosa crucificada em X. Ariadne fechou os olhos. Em silencio orou:

Que essa água viva de luz Leve para bem longe do meu coração O que foi ressentimento em minha vida. Eu vi a pedra do mais puro cristal se dividir Pela espada dos meus rancores e incompreensões. Um cristal partido não pode ser a perda do meu tudo.

O amor é Forte e não Teme a Morte

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16 As luzes da esperança dos que se amam Não podem morrer jamais em pedaços. O amor só pode existir por inteiro. Que seja o meu ultimo desejo: a unidade sagrada! Os que se amam não podem viver infinitamente em círculos e em metades.

O vento sul começa a varrer os entulhos do passado e do presente. Depois o silencio. O vento leste arranca as flores das acácias encobrindo o monte da cruz em X. As borboletas voam e encobrem o corpo nu de Ariadne. O Mago aparece e fala:

O MAGO DE SANTA ANA

Meu grande amor... Ao longo de nossas vidas Meu coração tem enfrentado muitos Invernos! Caminhei por tantos caminhos a tua procura.... As sementes das minhas flores eu plantei e reguei. Tal qual uma roseira o amor não molha as folhas Mais as raízes profundas. Deixa-me beijar novamente o teu ventre

O amor é Forte e não Teme a Morte

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17 Ele já me fartou com o mais delicioso dos vinhos que já tomei.

ARIADNE

Há séculos te aguardei solitária em tantos jardins! Caminhos... Também caminhei. Procurei em tantas faces a tua face! Dos lábios que beijei o teu eu procurei! No deserto dos meus apelos e das minhas dores O teu nome em vão eu gritei! E o nosso jardim com as flores das videiras Tornou-se um triste bosque de espinhos. Mesmo que eu entregue o meu corpo para ser queimado

O amor é Forte e não Teme a Morte

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18 Se não tiver amor, nada serei.

O MAGO DE SANTA ANA

Mulher da minha vida de tantos nomes A mais bela rosa acaba de renascer dos espinhos! Levanta-te! O nosso inverno já passou. As chuvas cessaram O meu sol vai raiar Para com tua lua se reencontrar O teu umbigo é como taça redonda Que não me falta água nem o vinho. Vejamos se florescem as vides... Se brotam as romeiras... Ali te darei o meu amor. Beijaste-me na vida E abraçaste-me na morte. Agora põe como selo entre os teus seios Esta rosa vermelha que te dou. Eu sou principio O fogo que renova a natureza inteira ( INRI )

O amor é Forte e não Teme a Morte

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19 Vem! O amor é forte e não teme a morte!

RETRATO DO MAGO DE SANTA ANA- AUTOR RUY CRESPO FILHO

O amor é Forte e não Teme a Morte

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20

O Hotel e os seus Segredos A Dama da Música Num hotel muito importante e imponente que de certeza que já ouviram falar antes e que ocupa uma avenida inteira com cem quartos, 30 suites, Spa, ginásio e um centro comercial incluído, já ouviram falar? Claro, eu já sabia. Pois ele hoje está aqui para contar outra das suas interessantes histórias requintadas com aqueles detalhes que escapam às empregadas mais “cuscas”. As suas paredes tudo sabem e tudo ouvem. Hoje vem-nos falar de uma dama, uma senhora prestigiada que é venerada como diva da música. Apesar de o seu dom para música esta senhora, Lana de seu nome, chorava todas as noites e por vezes até dias! “Ah! como ela é chorona!” pensava a sua empregada pessoal, Clotilde. Por várias vezes esta perguntou o porquê de todo aquele choro mas nunca obteve resposta. Nunca ninguém soube porque uma mulher com tanto sucesso chorava tanto. As suposições eram mais que muitas como devem imaginar.

Hotel e os seus Segredos – Dama da Música

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21 No dia que a nossa história realmente começa, Lana desesperada entrou no seu quarto e gritou aos prantos: - Vou desistir! A empregada deduziu logo que Lucinda queria se matar. Ela tentou falar o mais calmo possível: - Não desista! Há tudo tão bom naquilo que faz aqui! – Quase suplicou. - Mas faz-me sentir tão mal… - quase gritou. - Viver faz-lhe sentir mal, minha senhora? – Perguntou Clotilde já sem perceber o que Lana queria dizer. - Viver? Não, - abanou a cabeça como não soubesse o que a empregada estava a pensar – cantar é o que me faz mal. Eu não consigo. As pessoas esperam tanto de mim e… e eu pura e simplesmente não sei corresponder às suas expectativas… - Como assim minha senhora?! – surpreendeu-se Clotilde. - A maioria das pessoas que me elogia e me venera é para pela minha voz mas também porque pensa que este foi o meu sonho e que lutei por ele e que venci. A verdade é que eu não sei fazer outra coisa senão cantar, por isso, quando os meus pais pediam eu cantava e participava em concursos… mas a verdade é que eu não me sinto bem em público… algumas pessoas são rudes demais, tratam-me como não merecesse a fama que tenho, outras adoram-

Hotel e os seus Segredos – Dama da Música

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22 me demasiado como eu fosse mais que humana! Eu não consigo corresponder às suas expectativas! Eu apenas quero que as pessoas sintam a minha música, que vibrem com ela e que lhes toque no seu coração…eu não sou importante… - Mas minha senhora, a senhora é o que transmite os sentimentos da música! Se a senhora tem dúvidas e tristezas na sua música, por muito boa que a sua voz seja, ela só vai transmitir isso, a musica é muito mais que um mero som ou que uma mera letra, é a entoação é a sensação que é transmitida em cada timbre da voz do cantor. Lana olhou para Clotilde admirada. Por instantes, até as lágrimas esqueceram-se de cair dos seus olhos pelo seu espanto. Há tantos anos trabalhava com aquela mulher e nunca tinha sentido tanta sabedoria nas suas palavras. Há quantos anos a conhecia? Desde o seu primeiro prémio, sim…Há dez anos… Ela própria se admirava quanto tempo ficara a pensar na sua timidez na sua dificuldade de se expressar em público que nunca tinha reparado naquela empregada que cuidava mais dela do que a sua própria mãe. - Clotilde acredita mesmo no que me disse? - Claro que sim, minha senhora, aliás eu sei que é assim. É tristeza que eu sinto em cada música sua apesar da sua tristeza tocar o mundo, não deixa de ser tristeza.

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23 - Mas como? Como melhoro deste mal-estar presente sempre que estou em público? Eles exigem a perfeição tanto na minha vida privada como pública e eu não consigo… eu tento mas é difícil… há sempre uma falha… acabo por os desiludir de uma forma ou de outra… - concluiu Lana e as suas lágrimas voltaram a lembrar a razão da sua existência e voltaram a escorrer sem controlo. Clotilde não disse nada. Olhou para Lana que parecia uma criança à espera do castigo da mãe por ter feito algo mal. Pensou numa resposta que fizesse ela compreender que não fizera nada de errado. Depois de alguns minutos respondeu: - Minha senhora não tem que ligar para o que dizem, para todos a senhora parece perfeita e mesmo assim há sempre pessoas que conseguem colocar defeitos ou encontrar os erros mínimos que faz. O problema não está em a minha senhora não ser perfeita, o problema está em tentar ser perfeita. - Como assim? As pessoas não querem que eu seja perfeita? – Perguntou Lana sem compreender. - Não é o que as pessoas querem que a senhora tem que se preocupar mas, sim, o que a senhora pode dar. Ninguém pode dar perfeição, ninguém é perfeito e até mesmo as coisas não o são quanto mais as pessoas! O que está errado, o que está a deixar nessa tristeza toda é a minha senhora tentar com tanta força uma coisa que

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24 não pode ser. Só se for o que realmente é, sem tentar impressionar os outros ao mostrar uma pessoa que a senhora não é. Podem haver pessoas que não gostem de si mas as pessoas que serão suas fãs serão fãs da verdadeira Lana, a dama da música. E não da senhora perfeita que chora todas as noites e ninguém sabe porquê. - Mas se eu não conseguir? – Perguntou Lana ainda receosa. - Minha senhora como pode não conseguir ser o que é? Apenas não se esforce demasiado, deixe-se ir, descontraia e não peça tanto de si própria. Já havia muito tempo que Clotilde não via um sorriso tão sincero como o que Lana lhe mostrou. Lana sem nenhuma razão abraçou-a e agradeceu como uma criança agradece quando a mãe dá-lhe a boneca favorita. Apesar de tudo, Clotilde sabia que não iria ser fácil. 

Durante os dias seguintes Lana andou pensativa e parecia ainda mais indecisa do que habitual. Parecia não saber o como ser si própria, como obedecer ao que o seu coração, parecia que não sabia o que queria realmente fazer. Enervou-se mais e fugiu de todas as entrevistas e de todas pessoas que queriam falar com ela. Chegou

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25 mesmo a adiar concertos e só foi àqueles que já estavam confirmados. Nesses concertos parecia sentir cada letra da música e isso fez com que o público delirasse como nunca se viu antes. Nas notícias por todo o Hotel ouviam-se notícias do mais fantástico espectáculo da Dama da Música. Apesar disso naquela noite Clotilde ouviu Lana chorar no quarto como antes… não exactamente como antes… era mais estridente, mais aflitivo. Ela descobrira como queria cantar mas ainda não sabia a pessoa que queria demonstrar ou que era e esse era o seu impasse. Pouco depois disso Lana tirou férias, fez um “retiro espiritual” como pediu a Clotilde para dizer a todos que perguntavam por ela no Hotel. Durante esse tempo ela refugiou-se num centro de Yoga e relaxou e meditou naquilo que realmente era ou queria ser. Quando saiu de lá tinha outra luz. Nos concertos radiava esta nova energia enganava-se e pedia ajuda do público, este cantava com ela e se fosse possível dir-se-ia que teve mais sucesso ainda. Mas vamos retomar o dia que voltou de férias quando Lana chegou ao seu quarto abraçou Clotilde que muito timidamente abraçou-a também. - Minha senhora não devia fazer isto que eu sou sua empregada. – Repreendeu Clotilde.

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26 - Clotilde, não quero que me trate por “minha senhora” para si de hoje em diante sou Lana e para mim a Clotilde é mais que uma empregada é a minha amiga por isso não se sinta envergonhada por me abraçar. – Disse com um sorriso Clotilde ficou tão comovida que desta vez foi ela a abraçá-la. - A minha senhora, quer dizer, a Lana cresceu, está mais forte agora, não sei qual foi o tratamento que lhe deram mas foi bom! – Disse a empregada com a voz abafada de emoção. - Clotilde, não foram eles que me fizeram bem, foi a Clotilde que me ajudou ao dizer para me aceitar da forma que sou. Obrigada. A partir daquele dia Lana e a sua empregada Clotilde partiram do Hotel e continuaram com a sua pelo mundo da música com muitas críticas boas e más mas sempre com a cabeça erguida e com a força que só a verdade pode ter.

E assim fechamos mais uma história do Hotel famoso que tudo sabe… e que tem muito mais histórias para desvendar…

Marta Sousa

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Histórias Poéticas

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Reflexo de mim Olhar para ti é quase como olhar-me ao espelho. Vejo-me por dentro e por fora.

Sei quem tu és. Somos iguais, como duas gotículas de água, como dois irmãos gémeos.

Temos o mesmo sangue, o mesmo veneno, a correr pelas veias. Somos duas faces da mesma moeda.

És como uma bússola que me orienta, que indica sempre o caminho certo e o que fazer.

Reflexo de mim

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28 Nem imaginas como sinto a falta de olhar para o meu reflexo‌

De olhar para nĂłs.

Ana Catarina Zhang

Reflexo de mim

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29

Serão saudades, para sempre

Ainda me mantêm acordada pela noite Ainda guardam de mim tantos momentos Tantos quantos os sentimentos. Vêem de mansinho e sussurram ao ouvido Cada lembrança de tempo Cada pedaço de vida, E todos os passos dados com o coração Rumo aos sonhos vividos com paixão.

Ternura deixada em versos Carinho ao lembrar cada rosto Nostalgia que o corpo sente E acolhe num abraço. Tanto tempo vivido ao lado de gente Que o meu sorriso deixava viver, Tanto tempo partilhado com gente Que com a vida soube crescer.

Não ouvi os passos que se aproximavam E escreviam um rumo novo

Serão Saudades, para sempre

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30 Deixei a porta entreaberta A quem sabia que um dia me viria buscar, E a gente que comigo versos escreveu Segue com o tempo o destino que é seu Travam-se batalhas de olhos vendados Contam-se os passos nesse campo armadilhado. E no coração de um poema Deixo as lágrimas em cada verso E no coração de quem essa gente abriga Ficam as saudades, sentimento eterno. Mafalda Ferreira

Serão Saudades, para sempre

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31

Impossibilidade

Corrida sem sentido Em busca daquele lugar Que sabemos que iremos chegar Mas ao chegar Nada está lá A corrida parou E nada ficou Tudo recomeçou.

Corrida infinita à procura de um lugar Fazemos o que os outros fazem Fazemos aquilo que julgamos mal, Antes, Mas para chegar àquele lugar…

Impossibilidade

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32

Aquele lugar merece tudo?

Aquele lugar nos dará paz?

Chegaremos lá?

Tanto se perde nesta vida, Às vezes até mesmo ela e quando vemos Estamos naquela rotina estúpida Que todos fazem Tentando chegar Mas nunca mais lá chegam

Valerá a pena?

Marta Sousa

Impossibilidade

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33

GUIMARÃES

O pintor deu vida à minha cidade. Com mestria usou o pincel E com simplicidade Imortalizou-a em papel.

Cada página em livro impressa É uma visita guiada Pelas ruas mais ilustres, sem pressa. Desta cidade muito amada.

Também eu quero imortalizar a nossa amizade Que é preciosa tal como a minha cidade, Também em papel eu a quero registar Só que em verso pois não sei pintar.

Guimarães

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34 E sempre que me quiseres visitar Abre o livro em qualquer monumento, Sentirรกs o meu caminhar Pela minha cidade a todo o momento.

Ana Maria Teixeira

Guimarรฃes

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35

RUAS DE GUIMARÃES As nossas ruas são Formosas São Formosas e famosas! Por cronistas e realizadores procuradas, Por todos nós muito amadas!

De tal modo as amamos Que com vasos as enfeitamos De amores-perfeitos no verão E no Inverno flores do Japão!

Nós que todos os dias as revisitamos Na nossa fugaz rotina Esquecemos o quanto as apreciamos!

Como é agradável por elas caminhar E sentir a paixão repentina De quem as vem visitar!

Ana Maria Teixeira

Ruas de Guimarães

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Críticas ou Sátiras

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Oh meu partido que tantas tristezas lanças no país

És destemido mas o Portugal não está feliz Tanta injustiça e mágoa por ti derramada Tanta fúria por ti provocada Onde parará tal ilustre país?

Deixaste que o dinheiro se nos fosse roubado Deixas que nossos salários destinem nosso fado Daqueles que tenho medo não sei em quem votar Olho para o país e Portugal não sabe falar

Sendo assim, então, falo eu Promessas são feitas, olhos são trocados Juros são lucros dos endividados Que já não podem pagar a crise a este pais Porque o governo deixa o povo falido e infeliz

Sem ter que comer o beneficio é vosso Sem ter que fazer, façais vós Temo o fim de um Portugal de coragem Oh Meu Partido que tantas tristezas lanças no País Escrita Criativa


37 Receio o inicio do fim da nossa voz

Talvez uma ditadura seja agora esperada Se não o é que estais vós a fazer Comeis da maça podre ainda a apodrecer Porque de vocês governo não sobrará nada

Flávio Pereira

Oh Meu Partido que tantas tristezas lanças no País Escrita Criativa


Regras para Trabalhos Enviados

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- A Escrita Criativa não se responsabiliza pelo conteúdo que é publicado a responsabilidade é única e exclusivamente dos seus autores. - A Escrita Criativa publica os trabalhos dos autores tendo como o limite a capacidade da revista, caso haja demasiados trabalhos enviados alguns poderão não ser publicados ou poderão ser publicados no número seguinte. - O limite de tamanho dos trabalhos recebidos é de vinte páginas A5 com letra a tamanho 11, se os trabalhos não respeitarem estas indicações poderão não ser aceites. - A Escrita Criativa não aceita trabalhos com conteúdo sexual explícito. - Por norma só será publicado um trabalho por pessoa em cada número, podendo haver excepções por falta de trabalhos. - A Escrita Criativa não corrige erros ortográficos nem faz alterações às obras enviadas, se for enviado algum trabalho com erros ortográficos poderá ser enviado de volta para correcção ou não ser aceite. - A Escrita Criativa só aceita trabalhos escritos em português.

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39 - Trabalhos com expressões noutras línguas deverão ter uma nota no fim a dizer o seu significado, caso isto não aconteça poderão não ser aceites. - Trabalhos com direitos de autor registados na Sociedade Portuguesa de Autores deverão informar a SPA antes de enviar os seus textos para a Revista Escrita Criativa. A Revista Escrita Criativa publica somente textos autorizados pelos autores.

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Escrita Criativa

Escrita Criativa nº 8  

A Revista Escrita Criativa é uma revista literária que publica histórias de todos que gostam de escrever e para todos aqueles ler histórias...

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