Haja Saúde [Abril 2018]

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Escola de Medicina Universidade do Minho

Revista Semestral Gratuita N.˚4 · Abril 2018

Diretor João Lima

Haja Saúde


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FICH A TÉCNICA

Proprietário e Editor Alumni Medicina

Diretor João Lima

Morada Escola de Medicina Universidade do Minho Campus de Gualtar, 4710–057 Braga, PT

Editor-Chefe Jorge Machado

N.º de Registo na ERC 126906 Depósito Legal 431999/17 Periodicidade Semestral Tiragem 250 exemplares

Co-Editores Diogo Cruz, Joana Novais dos Santos, Rosélia Lima Sede de Redação Escola de Medicina Universidade do Minho Campus de Gualtar, 4710–057 Braga, PT Estatuto editorial disponível no endereço www.hajasaude.org

Redatores Cecília Leão, Diogo Cruz, Gonçalo Torres, Inês Candeias, Joana Novais dos Santos, Joana Palha, João Dourado, João Lima, Jorge Machado, José Manuel Mendes, Pedro Morgado, Pedro Peixoto, Rita Araújo, Rosélia Lima, Sara Leão Fotografias João Dias, João Rodrigues, WAPA, NEMUM

Design Editorial OOF Design Ilustrações Marina Mota Impressão Gráfica Nascente Travessa Comendador Alberto Sousa, Lote 15 4805-668 Sande, Guimarães

www.hajasaude.org


Í N DIC E

NOTÍCI AS

PE S S OA S

O PI N I ÃO

TEMAS

Doentes simulados ajudam na formação de futuros médicos Vítor Hugo Pereira, coordenador do LAC, destaca o “papel diferenciador” do laboratório na formação médica dos estudantes —9

Jorge Pedrosa Diretor do Instituto de Investigação em Ciências da Vida e da Saúde menciona a criação de três novas estruturas para o futuro do ICVS: uma estrutura de apoio à inovação, uma associação sem fins lucrativos e a criação de uma plataforma de interface entre a academia e o tecido produtivo, a indústria

Domínios Verticais – formação humanista e comprazimento José Manuel Mendes — 52

E o prémio vai para… Jorge Machado resume a última noite dos Óscares

Humanidades na formação médica Cecília Leão relata que a medicina personalizada do hoje e do amanhã é uma medicina dicotómica — 54

Igualdade? Joana Novais dos Santos

E N T R E V I S TA

Alternativas para a Medicina Pedro Morgado — 55

Cuidados paliativos colocam Escola de Medicina na vanguarda da formação médica — 15 Promoção da saúde e prevenção da doença na comunidade são prioridades — 21 Minho Medical Meeting — 25 Estudantes levam medicina até África — 29 XVI Tomada de posse dos órgãos sociais do NEMUM — 33 10 anos da primeira graduação do curso de Medicina — 37

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CINEMA

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HUMOR

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O algodão amargo de Stella Diogo Cruz introduz a sonoridade de Stella Donnelly M Ú SI CA

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O sexo da igualdade Rosélia Lima refere que vivemos numa falsa luta pela igualdade entre os sexos — 56

O Cego de Sevilha – um romance de Robert Wilson Inês Candeias

Um Portugal pleno Pedro Peixoto critica a igualdade de género em Portugal — 58

Desporto, sim. Sem alongamentos, não! Sara Leão

L I T E R AT U R A

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DESPORTO

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E DI TOR I A L Ainda antes do sinal da aula inaugural do curso de medicina, já a Escola de Medicina (na altura de Ciências da Saúde) dava um sinal claro da sua missão em termos de aposta de oferta avançada através de um programa internacional de cursos avançados que incidia, nos primeiros anos, na investigação biomédica. A estes passos iniciais, e com a criação do Instituto de Investigação em Ciências da Vida e Saúde, e o recrutamento de novos docentes e investigadores, a oferta passou de cerca de 5-10 cursos iniciais para mais de 40-50 cursos e workshops por ano (em 2016/2017 os cursos foram frequentados por 1103 participantes, 80% dos quais médicos; 10% provenientes de instituições estrangeiras).

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EDITOR I A L

A formação pós-graduada na Escola de seus trabalhos em instituições parceiras e Medicina/Instituto de Investigação em no número apreciável de participantes esCiências da Vida (EM/ICVS) caracteriza-se trangeiros nos cursos de formação avanpela sua flexibilidade e diversidade, o que çada ministrados na EM/ICVS; —Assunção da responsabilidade da possibilita, a cada momento, a adaptação aos desafios permanentes que se colocam EM/ICVS como agente promotores da na investigação científica médica e biomé- formação médica contínua, do treino e retreino de competências clínicas e de dica. Alguns aspetos caracterizadores: —Uma oferta formal de cursos de 2º e investigação; —Ligação, e reconhecimento, dos 3º ciclos, especificamente o mestrado e o doutoramento em Ciências da Saúde (in- Alumni Medicina, o que se tem traduzicluindo uma vertente direcionada para a do na concretização de diversas iniciatiinteração com o ambiente empresarial), o vas de formação pós-graduada, algumas doutoramento em Medicina (que inclui direcionadas especificamente a internos o percurso pioneiro em Portugal MD/ de especialidade, com o devido reconhePhD, que permite a interrupção do curso cimento pelos colégios da especialidade e de medicina para realização do doutora- sociedades internacionais; —Reconhecimento e motivação de mento, em parceria com as Universidades de Columbia e de Thomas Jefferson, nos patrocinadores científicos e técnicos, EUA) e o doutoramento em Envelheci- que projetam, com contribuições várias mento e Doenças Crónicas (em parceria (incluindo equipamento de vanguarda) com a Faculdade de Medicina da Uni- a qualidade da formação pós-graduada versidade de Coimbra e a Faculdade de ministrada. Pretende-se que esta dinâmica de cresCiências Médicas da Universidade Nova de Lisboa). São cursos de espetro largo cimento e de afirmação continue a consoque permitem ao estudante adequar as lidar-se através de certificação nacional escolhas temáticas aos seus interesses e e internacional das iniciativas de forexperiência prévia. Os doutoramentos mação pós-graduada que a Escola/ICVS receberam a chancela de Programas de proporcionam às comunidades médica e Doutoramento da Fundação para a Ciên- biomédica. Comprometemo-nos, assim, cia e Tecnologia, em candidaturas compe- a mobilizar o entusiasmo e empenho de titivas com avaliação internacional. Neste docentes, investigadores, alunos, ex-alumomento, a EM/ICVS tem 32 estudantes nos, técnicos, colaboradores e patrocinadores, no cumprimento desta missão. de mestrado e 96 de doutoramento; A missão de formação pós-graduada e —Modelos formativos adequados à exigência dos tempos, focados na inves- contínua da EM/ICVS tem uma dinâmica tigação, recorrendo a metodologias de de crescimento que se tem consolidado ensino/aprendizagem centradas nos es- e afirmado. Pretende-se agora aumentar tudantes e na aprendizagem de compe- essa visibilidade através de reconhecitências, em ambiente tecnologicamente mento que pode ser obtido por certificações nacionais e internacionais. de vanguarda; —Mobilidade e promoção das colaborações com instituições nacionais e estrangeiras no centro da formação, traduzido na considerável percentagem de Joana Palha estudantes dos programas formais de 2º Vice-presidente da e 3º ciclos que desenvolvem parte dos Escola de Medicina

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Nesta edição, vamos debruçar-nos sobre o tema Igualdade de Género, pois consideramos que, apesar do esforço que tem sido feito de forma a combater as desigualdades ser grande, elas ainda existem e manifestam-se das mais variadas maneiras.

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E DI TOR I A L

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EDITOR I A L

João Lima Diretor da revista Haja Saúde

Passado mais um ano de trabalho, chega uma nova direção do Haja Saúde, constituída por mim, diretor da revista e presidente do conselho de administração, pelo Jorge Machado como editor-chefe, pelo Diogo Cruz, Rosélia Lima e Joana Novais dos Santos como coeditores, e a Rita André Teles como tesoureira. Sendo este um jornal feito pelos alunos de Medicina, em conjunto com a Escola de Medicina e a Alumni Medicina, tentaremos cada vez mais trazer temas que sejam do interesse de alunos, ex-alunos, professores, funcionários da Escola de Medicina, e investigadores. Gostava de deixar aqui o desafio a todos os alunos de Medicina de colaborarem connosco numa próxima edição. Na equipa do Haja Saúde serão sempre bem recebidos e terão sempre lugar para expressar livremente as vossas opiniões. Nesta edição, vamos debruçar-nos sobre o tema Igualdade de Género, pois consideramos que, apesar do esforço que tem sido feito de forma a combater as desigualdades ser grande, elas ainda

existem e manifestam-se das mais variadas maneiras. Desta forma, faz parte do nosso papel enquanto médicos e futuros médicos tentar mitigar estas diferenças, contribuído para um bem-estar emocional e social dos diferentes géneros. Para terminar, gostaria de agradecer ao Gonçalo Cunha, ex-presidente do conselho de administração do Haja Saúde e diretor da revista pelo trabalho feito o ano passado. Por último, mas não menos importante, deixo o meu sincero obrigado ao nosso público, e àqueles que se interessam e apoiam o Haja Saúde.


NOTÍCI AS

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NO T ÍC I A S “a definição de medicina paliativa “vai mudar”, evoluindo para uma “medicina de conforto global” que atue em fases mais precoces da doença. “Isto na prática acontece pouco”

Doentes simulados ajudam na formação de futuros médicos Vítor Hugo Pereira, coordenador do LAC, destaca o “papel diferenciador” do laboratório na formação médica dos estudantes —9 Cuidados paliativos colocam Escola de Medicina na vanguarda da formação médica — 15 Promoção da saúde e prevenção da doença na comunidade são prioridades — 21

— Miguel Julião

Minho Medical Meeting — 25 Cuidados paliativos colocam Escola de Medicina na vanguarda da formação médica — 15

Estudantes levam medicina até África — 29 XVI Tomada de posse dos órgãos sociais do NEMUM — 33 10 anos da primeira graduação do curso de Medicina — 37


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Doentes simulados ajudam na formação de futuros médicos L A B OR ATÓR IO DE A P T I D ÕE S C L Í N IC A S

T EX TO R ITA A R AÚJO


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A Escola de Medicina assinalou no final de 2017 os 15 anos do Laboratório de Aptidões Clínicas (LAC) e os 10 anos do programa de Pacientes Estandardizados, numa cerimónia que contou com a presença de vários colaboradores do laboratório. No mesmo dia, o LAC promoveu, em conjunto com a Alumni Medicina e a Take the Wind, uma atividade de simulação dirigida aos alunos do Mestrado Integrado em Medicina. A Sim-Arena juntou sete equipas numa competição com o objetivo de resolver diversos cenários de simulação clínica em ambientes diferentes. Os cenários foram construídos com o recurso a doentes estandardizados e a simuladores de alta fidelidade, treinando as competências técnicas, raciocínio e comunicação clínica.

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Os pacientes estandardizados são pesO Laboratório de Aptidões Clínicas (LAC) é uma valência inovadora da Escola de soas comuns que simulam determinada Medicina (EM) da Universidade do Mi- doença ou sintoma, promovendo o enconnho e desempenha um papel central na tro dos alunos de medicina com “doentes” formação dos futuros médicos, promo- treinados em diferentes situações da právendo um ambiente protegido, contro- tica clínica, num cenário realista próximo lado e seguro no qual os alunos podem ao de um consultório ou enfermaria. A treinar competências clínicas. Vítor Hugo Escola recorre ao programa de pacientes Pereira, coordenador deste laboratório e estandardizados não só para o treino de docente da EM, destaca o “papel diferen- gestos clínicos, mas também para o ensiciador” do LAC na formação médica dos no de competências de comunicação, num estudantes, sublinhando o contributo ambiente controlado e protegido, seguro valioso para a “melhoria da prestação de para o doente. Estes encontros são monitorizados em tempo real por um procuidados de saúde à população”. A abordagem da educação médica fessor com experiência, seguindo-se um praticada na Escola de Medicina foca- período de feedback individualizado. Os -se na aquisição de competências atra- alunos têm oportunidade de praticar a vés de uma aprendizagem ativa e da forma como falam com o doente, simuprática clínica. O apoio desta estrutura lando consultas com pacientes agressivos é fundamental para a formação pré e e agitados, praticando a comunicação pós-graduada a partir de três valências de más notícias, ou mesmo a colheita diferenciadoras: uma plataforma muito de um consentimento informado. “Estes vasta de manequins para treino de gestos cenários permitem que os alunos recebam clínicos; um sólido programa de pacien- um feedback sobre o que correu bem e o tes estandardizados; e o recurso a simu- que correu menos bem no debriefing que ocorre depois das sessões. ladores de alta-fidelidade.

Laboratório de Aptidões Clínicas


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“Conseguimos oferecer aos nossos estudantes um portfólio significativo de gestos e cenários clínicos que permitem treinar o exame físico, comunicação, raciocínio clínico ou gestos mais específicos, como a ecografia à cabeceira do doente”. —Vítor Hugo Pereira


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Esta fase de discussão conta com a par- nicação clínica. O inAnestesia – Introticipação do doente estandardizado e de dução à Anestesiologia Clínica foi o prioutros alunos que estiveram a assistir ao meiro curso de formação para internos a desempenho do colega”, explica Vítor fazer uso da estrutura do LAC, em 2011. Todos os anos, durante uma semana, os Hugo Pereira. O facto de os alunos poderem repetir médicos recém-admitidos na especiao gesto clínico promove um acompanha- lidade de anestesiologia deslocam-se à mento da progressão do seu desempe- Escola de Medicina da Universidade do nho. “Isto é muito importante, porque os Minho para aprender os fundamentos estudantes de medicina contactam dire- teóricos indispensáveis e as competêntamente com os doentes nos hospitais e cias técnicas básicas para a prática clínicentros de saúde e têm que conquistar ca. O LAC dá também apoio aos cursos autonomia na realização de alguns ges- de formação para internos de Psiquiatria tos clínicos e na colheita da história clí- e Neurologia. Finalmente, o LAC desennica. Só assim estarão preparados para a volve também atividades de investigação, prática de medicina em diferentes con- com particular incidência no treino de comunicação e na avaliação de competextos”, considera o docente. O programa de pacientes estandar- tências clínicas. O atual coordenador do LAC conta dizados conta, atualmente, com a colaboração de cerca de meia centena de que teve oportunidade de participar nas pessoas e perto de 70 histórias clínicas atividades aqui promovidas numa dupla validadas, que funcionam de guião para capacidade: enquanto estudante e, agora, como docente. “O balanço que faço os doentes simulados. Na formação pré-graduada do Mes- é muito positivo nas duas perspetivas”, trado Integrado em Medicina, o LAC afirma. E explica: “Conseguimos oferedá apoio no treino de suporte básico de cer aos nossos estudantes um portfólio vida, na aprendizagem das técnicas de significativo de gestos e cenários clínicos exame físico e entrevista clínica, gestos e que permitem treinar o exame físico, cotécnicas complementares e no treino de municação, raciocínio clínico ou gestos competências de comunicação. Do pri- mais específicos, como a ecografia à cameiro ao sexto anos do curso, os alunos beceira do doente”. Em jeito de balanço têm contacto com o laboratório de apti- dos últimos 15 anos, Vítor Hugo Pereidões clínicas em contexto de aulas, mas ra destaca as melhorias na qualidade também em sessões extracurriculares. do ensino da medicina, nomeadamente O LAC está também presente nos mo- porque, “com a ajuda dos alunos, temos mentos de avaliação, nomeadamente nos conseguido estandardizar aquilo que enexames clínicos estruturados e objetivos sinamos em diferentes sessões por dife(OSCE, na sigla em inglês) realizados no rentes monitores”. terceiro e sexto anos do curso. No ensino pós-graduado, o laboratório de aptidões clínicas contribui para a formação continuada de profissionais de saúde, através de cursos de formação de internos (alguns incluídos no plano de formação do internato) e de formação avançada, bem como com um programa de formação em competências de comu-

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Cuidados paliativos colocam Escola de Medicina na vanguarda da formação médica "A M E DIC I N A DE E XC E L Ê NC I A É A M E DIC I N A D O S P OR M E NOR E S "

T EX TO R ITA A R AÚJO


NOTÍCI AS

Miguel Julião é professor da Escola de Medicina da Universidade do Minho e há 15 anos que dedica a sua prática clínica aos cuidados paliativos, uma competência reconhecida pela Ordem dos Médicos. Em 2017 foi distinguido com o Clinical Impact Award da Associação Europeia de Cuidados Paliativos, um dos principais prémios mundiais na área. É doutorado em Ciências e Tecnologias da Saúde – Cuidados Paliativos pela Universidade de Lisboa e especialista em medicina geral e familiar. Centra a investigação em cuidados paliativos, cuidados em fim de vida, sofrimento psicossocial, dignidade e humanização. Tem cerca de 40 artigos em revistas científicas internacionais.

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A Escola de Medicina (EM) da Universida- Nesse âmbito, a EM disponibiliza também de do Minho tornou-se pioneira em Por- cursos pós-graduados na área abertos a tugal ao incluir a formação em Medicina grupos profissionais além dos médicos. Os alunos passam a contactar com Paliativa no curso de Mestrado Integrado em Medicina. A par da Faculdade de Me- a medicina paliativa a partir do 2.º ano dicina da Universidade de Lisboa, a EM do curso, na unidade curricular de Dointegra, desde o ano letivo 2016/2017, os mínios Verticais. São chamados a refletir cuidados paliativos na formação obriga- sobre a dignidade humana e a dignidatória dos estudantes de medicina. “Somos de em medicina, o desejo antecipado de pioneiros. Estas duas universidades no morte ou a eutanásia, para enumerar alpaís asseguram que o ensino pré-gradua- guns dos temas. Os cuidados paliativos do tem obrigatoriamente cuidados palia- estão também integrados nas unidades tivos ensinados e com avaliação”, explica curriculares de Residência em MediciMiguel Julião, responsável pelo ensino da na e Residência em Cirurgia, abordando Medicina Paliativa na Escola de Medicina. questões ligadas ao controlo sintomático Esta formação resulta de um proto- em fim de vida ou o reconhecimento clícolo assinado entre a Escola de Medi- nico da morte. Com esta formação, espera-se que os cina e o Ministério da Saúde e tem em vista a formalização da implementação alunos adquiram algumas competências de formação especializada em cuidados humanas, nomeadamente a “aproximapaliativos nos curricula académicos. O ção ao outro”. “Não gosto de pensar que objetivo é que este tipo de formação es- o melhor tecnicamente não possa ser o pecializada se alargue a outros grupos melhor humanamente. Por que é que nos profissionais da saúde, que poderão fa- ensinam e nos põem, como sociedade, zer subespecializações nesta área – é o esta dicotomia brutal entre a técnica ou a compaixão?”, questiona Miguel Julião. caso dos enfermeiros ou dos psicólogos.

Miguel Julião


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– sobretudo na área da oncologia – são O que é a Medicina Paliativa? Miguel Julião diz que “há muito a ideia excluídos das unidades da rede nacional de que a medicina paliativa só intervém de cuidados paliativos. “Para mim isto é em final de vida”. Embora esse aspeto surreal, sobretudo com a evidência que continue a ser “essencial”, o docente temos atualmente”, lamenta. Esta questão não é alheia à própria defende que a medicina paliativa é uma “medicina integrada, tecnicamente aper- organização da Rede Nacional de Cuidafeiçoada, de controlo sintomático físico dos Paliativos, que foi criada em 2012 e e psicossocial, e de apoio espiritual”. E faz parte da Rede Nacional de Cuidados este apoio reflete-se não só no doente, Continuados Integrados. “A rede não mas também naqueles que o rodeiam. “A funciona bem, mas já funcionou muito nossa relação primordial é com a pessoa pior. Vai melhorando ano após ano”, redoente, mas a família é um elemento es- conhece Miguel Julião. Ainda assim, o investigador admite sencial. E na medicina paliativa fazemos um acompanhamento pós-morte às pes- que a rede nacional “continua a ter coisas maravilhosas”, tais como o sistema soas, aos enlutados”, explica. O especialista em cuidados paliativos de referenciação e as unidades de refedefende a intervenção precoce em medi- rência para os cuidados paliativos. “Mas cina paliativa, contrariando o preconceito depois há o problema de não existirem de que esta apenas serve um propósito no unidades suficientes, não existirem equifinal da vida. Para isso, baseia-se na evi- pas suficientes nem gente com formação dência científica que mostra que “a me- suficiente dedicada a isto”, explica. Também aqui, Miguel Julião defendicina paliativa é uma medicina de controlo de sintomas”, pelo que “quanto mais de que deve haver uma mudança: “Tem precocemente entrar na vida das pessoas, de se mudar a mentalidade para que maior a sobrevida e maior o ganho”. Nes- os profissionais possam referenciar as te sentido, Miguel Julião considera que pessoas atempadamente”. No entanto, a definição de medicina paliativa “vai admite que estas mudanças vão demomudar”, evoluindo para uma “medicina rar a acontecer e que o esforço que as de conforto global” que atue em fases universidades estão a fazer para que os mais precoces da doença. “Isto na prática estudantes reconheçam os cuidados paacontece pouco”, critica Julião. E explica liativos “como uma necessidade e como que, atualmente, os doentes com con- uma realidade” só se vai refletir daqui a sultas marcadas ou tratamentos ativos 10 ou 15 anos.

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“quanto mais precocemente entrar na vida das pessoas, maior a sobrevida e maior o ganho” —Miguel Julião “Isto é um problema da sociedade, não é só dos médicos”

Miguel Julião entende que as questões relacionadas com o fim de vida e com os cuidados paliativos são mais do que um problema médico ou académico, são “primordialmente um problema social”. “Isto é um problema da sociedade, não é só dos médicos”, justifica o professor. Este tema ganha relevância com a recente discussão pública sobre o fim de vida e, mais concretamente, a eutanásia. Acerca desta questão, Miguel Julião diz que “abordamos o assunto muitas vezes de uma forma enviesada”. “Ainda temos de discutir imenso, não estamos a pensar o assunto na raiz”, alerta. “Eu tenho a minha crença como pessoa, mas essa fica à porta quando eu visto o papel de investigador. Tenho de olhar para aquilo que as pessoas nos têm dito e para aquilo que a evidência revela, apesar de podermos ter opiniões religiosas, políticas, ou sociais, diferentes”, afirma o investigador. E, a este propósito, a investigação demonstra que a maioria dos doentes em fim de vida que têm

sofrimento elevado (social, psicológico e físico) não tem uma elevada prevalência de desejo de antecipação de morte. “Quando olhamos para aquelas pessoas que de facto têm um desejo mantido, grave, de antecipação de morte, que pensam nisso, que têm planos feitos, e vamos estudar os efeitos potenciadores, encontramos: elevada prevalência de depressão, elevada sensação de ser um fardo sobre o outro, elevado isolamento social…”, explica Julião. De facto, a investigação nesta área mostra que existem fatores agravantes que fazem com que as pessoas expressem uma vontade de morrer mais cedo. Assim, Miguel Julião entende que, antes de se falar sobre eutanásia, deve haver uma reflexão conjunta sobre a saúde mental e o acompanhamento global das pessoas (incluindo aqui a Medicina Paliativa). “A medicina tem de mudar para a proximidade”, defende o especialista, concluindo que “a medicina de excelência é a medicina dos pormenores”, do pormenor de “estar e de sentir o outro”.


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Promoção da saúde e prevenção da doença na comunidade são prioridades D OM Í N IO DE I N V E S T IG AÇ ÃO E M SAÚ DE DA S P OPU L AÇ ÕE S

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“Um dos grandes objetivos deste domínio é que a nossa investigação em saúde transvase e que tenha repercussões na população local” —Margarida Correia-Neves

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O Instituto de Investigação em Ciências da Vida e Saúde (ICVS) tem um novo domínio de investigação em Saúde das Populações. Coordenado pela investigadora Margarida Correia-Neves, este domínio conta com a participação de mais de duas dezenas de investigadores doutorados e alunos de doutoramento e inclui trabalhos nas seguintes áreas: epidemiologia e saúde pública; intervenções e prevenção em saúde; sistemas informáticos em saúde; política e economia de saúde; bioestatística e modulação matemática de dados complexos. “Um dos grandes objetivos deste domínio é que a nossa investigação em saúde transvase e que tenha repercussões na população local”, explica Margarida Correia-Neves. Espera-se, assim, que a investigação aqui desenvolvida contribua não só para a criação de conhecimento, mas também para a criação de ferramentas que possam ser usadas pelas

autoridades e agentes de saúde de forma a melhorar as políticas de saúde. Entre os objetivos deste novo domínio de investigação contam-se a vigilância epidemiológica das determinantes e resultados em saúde a nível regional, através da criação de um observatório de saúde; o apoio ao desenvolvimento de estratégias de intervenção de promoção da saúde e prevenção da doença; a gestão de dados que apoiem as recomendações para melhoria da promoção da saúde, desempenho dos cuidados de saúde e gestão dos serviços de saúde; e a criação de estratégias para financiar e regulamentar atividades que contribuam para um melhor sistema de cuidados de saúde.


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Minho Medical Meeting BE C OM E T H E D O C TOR YOU WA N T TO BE

T EX TO GONÇA LO TOR R ES


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O Minho Medical Meeting é sem dúvida um dos ex‑libris do Núcleo de Estudantes de Medicina da Universidade do Minho.

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O MinhoMedicalMeeting (MMM) é sem dúvida um dos ex-libris do Núcleo de Estudantes de Medicina da Universidade do Minho (NEMUM) e admito um carinho especial por esta atividade. É curioso que tenha entrado na minha vida quando um dia analisava uma tabela de critérios de seriação para intercâmbios clínicos no site da Associação Nacional de Estudantes de Medicina (ANEM). Ao aperceber-me dos pontos que podia ganhar, inscrevi-me na Comissão Organizadora do MMM, sendo coordenador de Workshop em 2016 e Vice-Presidente em 2017. Não imaginava o quanto este projeto me iria dar. Pela sua dimensão mediática e complexidade logística, a organização de um congresso constitui um dos desafios mais entusiasmantes no mundo do associativismo. É uma experiência que recomendo a todos os que tenham a coragem (e loucura) para tentar. Para uma pequena contextualização histórica, o MMM foi criado em janeiro de 2009 por um grupo de finalistas da Escola de Medicina da Universidade do Minho, que organizou a 1.ª edição subordinada ao tema ‘’Dor’’, tendo a coordenação do congresso sido assumida pelo NEMUM em outubro do mesmo ano. Um projeto pioneiro em Portugal, o MMM vê-se agora acompanhado por congressos concorrentes que, munidos de invejáveis orçamentos, apresentam anualmente investigadores de Oxford, Cambridge, Harvard ou MIT e mesmo Prémios Nobel.

Faltava, por vezes, fazer a ponte entre a ciência laboratorial e a nossa realidade clínica hospitalar. Assim, esta 10.ª edição era a oportunidade para o nosso congresso se diferenciar dos restantes e ser verdadeiramente pensado por estudantes e para estudantes de medicina. Sob o lema “Become the doctor you want to be”, a edição de 2017 bateu todos os recordes: foram mais de 10 horas de palestras, 32 workshops e 200 participantes naquela que se tornou numa das maiores atividades organizadas em 15 anos de NEMUM. De realçar a criação das Life Talks (um conceito verdadeiramente inovador) e a reformulação completa da imagem do MMM. Pessoalmente, ficarão para sempre as memórias de reuniões online até de madrugada a definir temas, horários, estratégias de fundraising e divulgação, ou até mesmo a ementa dos almoços. Ficam também as experiências de carreira do professor Fernando Nobre, as conversas com o professor Eduardo Barroso ou as cirurgias do professor Gentil Martins… Termino, dizendo que tudo isto apenas foi possível graças à dedicação de uma magnífica equipa que, ao longo de meses, se dedicou a materializar o que inicialmente não passava de uma ambição utópica. De referir o papel fulcral da Task Force incansável durante os três dias. A todos vocês, o meu sincero agradecimento, e aos que agora continuam o nosso sonho, boa sorte!


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Estudantes levam medicina até África VOLU N TA R I A D O : PROJ E TO P ORTA NOVA

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O projeto Porta Nova surgiu da vontade de alguns estudantes de medicina do quarto ano e do apoio da Escola de Medicina, nomeadamente dos docentes Margarida Correia-Neves e Pedro Morgado. Nuno Madureira, estudante do 4.º ano do Mestrado Integrado em Medicina, é um dos dinamizadores desta iniciativa, que consiste num projeto de voluntariado em África, nomeadamente, Nampula, em Moçambique; Bafatá, na Guiné Bissau; e Dundo, em Angola. Os voluntários farão uma estadia de cinco a seis semanas, durante o Verão, e o projeto inclui uma vertente hospitalar e outra humanitária. Estão previstas 11 vagas, contando já com os quatro alunos impulsionadores do projeto (Carolina Lopes, Nuno Madureira, Duarte Batista e José Nuno Ferreira, todos do 4.º ano). Os alunos dos anos não-clínicos ficaram excluídos da candidatura a voluntário, uma vez que uma das vertentes do projeto é hospitalar. A escolha dos voluntários foi feita através do preenchimento de formulários com questões práticas e a entrega de uma carta de motivação, sendo que o trabalho anterior como voluntário foi valorizado. Tiveram ainda o apoio do Centro Missionário da Arquidiocese de Braga, que ajudou a avaliar as candidaturas.

Um dos objetivos do projeto é criar pontes entre os hospitais e as universidades dos países anfitriões e os de cá. “Neste primeiro ano, o objetivo é levar os voluntários, trabalhar com eles, definir as missões e conhecer os sítios”, explica Nuno Madureira. Um dos pontos-chave é a formação, pois pretendem “preparar os voluntários de forma teórica e prática”. A formação passa, por exemplo, por transmitir noções sobre nutrição, tendo especial atenção aos alimentos característicos destes países; sobre noções culturais e religiosas, e sobre como se comportar e como lidar com as diferenças. O Porta Nova tem contactado todo o tipo de organizações e os estudantes reconhecem que esta é a parte mais difícil de alcançar. “O maior apoio é por parte da Escola e isso para nós significa muito”, reconhece Nuno Madureira. Ainda assim, Carolina Lopes reforça que são precisos “mais patrocínios”. Os alunos destacam ainda o apoio do Núcleo de Estudantes de Medicina da Universidade do Minho e da comunidade de estudantes por ele representado, por ter acolhido este projeto como uma secção autónoma e tornar possível a concretização do projeto já este ano de 2018.


N ONTOÍT CÍICAISA S

“Neste primeiro ano, o objetivo é levar os voluntários, trabalhar com eles, definir as missões e conhecer os sítios” —Nuno Madureira

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XVI Tomada de posse dos órgãos sociais do NEMUM

T EX TO JOÃO DOUR A DO

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“O NEMUM tem agora 15 anos. 15 anos de história, de inovação. De crescimento. Hoje cai nas nossas mãos o compromisso de o fazer continuar a crescer” —Mariana Silva


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Os órgãos sociais do Núcleo de Estudantes de Medicina da Universidade do Minho (NEMUM) para o mandato de 2018 tomaram posse em dezembro de 2017, no auditório Zulmira Simões da Escola de Medicina. A cerimónia foi presidida por Margarida Casal, vice-reitora para a Educação da Universidade do Minho, e contou com os discursos da presidente cessante, Mar Mateus da Costa, e da presidente empossada, Mariana Silva. Mar Mateus da Costa recordou o percurso realizado pela sua equipa, destacando a décima edição do Minho Medical Meeting, o sucesso da Aldeia Feliz e da Corrida e Caminhada Vital Contra o AVC, bem como do Hospital dos Bonequinhos, para enumerar algumas das atividades promovidas. A nova presidente da direção, Mariana Silva, relembrou o início do seu percurso

no associativismo e projetou o novo capítulo que agora começa a escrever: “O NEMUM tem agora 15 anos. 15 anos de história, de inovação. De crescimento. Hoje cai nas nossas mãos o compromisso de o fazer continuar a crescer”. A sessão solene terminou com um porto de honra no átrio da Escola de Medicina, seguida de uma atuação da Tuna de Medicina da Universidade do Minho.


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10 anos da primeira graduação do curso de Medicina


NOTÍCI AS

No dia 8 de outubro de 2017 assinalaram-se os 10 anos da primeira graduação do curso de Medicina da Universidade do Minho.

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NOTÍCI AS

Esta foi uma oportunidade para reunir o primeiro grupo de estudantes da Escola de Medicina e as suas famílias num almoço-convívio que decorreu no restaurante Panorâmico.

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PE S S OA S “Eu diria que o problema que o ICVS teve na sua criação, e que continua a ter, é não haver uma estrutura de financiamento e de gestão da rede de ciência e tecnologia que acomode a dimensão da estrutura científica que existe em Portugal. ” — Jorge Pedrosa

Entrevista ao Diretor do Instituto de Investigação em Ciências da Vida e da Saúde — página seguinte

Jorge Pedrosa Diretor do Instituto de Investigação em Ciências da Vida e da Saúde menciona a criação de três novas estruturas para o futuro do ICVS: uma estrutura de apoio à inovação, uma associação sem fins lucrativos e a criação de uma plataforma de interface entre a academia e o tecido produtivo, a indústria E N T R E V I S TA

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Jorge Pedrosa E N T R E V I S TA AO DI R E TOR D O I NS T I T U TO DE I N V E S T IG AÇ ÃO E M C I Ê NC I A S DA V I DA E DA SAÚ DE

T EX TO R ITA A R AÚJO E JOÃO LIM A


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“É muito importante apoiar a investigação fundamental, básica. É aquela que não tem uma aplicação imediata. Acredito que o instituto só pode ser interessante para desenvolver aplicações se tiver um investimento forte na investigação básica. Muitas vezes isto é feito em parceria com outras instituições ou com empresas. Mesmo o trabalho que é feito ao nível do 2CA vem de empresas internacionais ou nacionais que se associam a nós. Nos 15 anos do ICVS, temos uma fase inicial mais voltada para a ciência fundamental, temos uma fase intermédia em que começaram a aparecer patentes, e acho que estamos a chegar a uma fase em que vai começar a haver um boom maior de soluções para os doentes.” —Jorge Pedrosa

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ICVS promove investigação “desde o tubo de ensaio até ao doente”

O Instituto de Investigação em Ciências da Vida e da Saúde (ICVS) celebra 15 anos de existência em 2018. Este marco será assinalado entre 3 e 6 de abril com diversas atividades dirigidas ao público interno, mas também à comunidade. Os 15 anos deram o mote para uma entrevista com Jorge Pedrosa, diretor do Instituto, investigador na área da microbiologia e infeção e docente na Escola de Medicina, que faz um “balanço positivo” do percurso feito até agora. O ICVS está organizado em quatro domínios de investigação (Microbiologia e Infeção, Neurociências, Ciências Cirúrgicas, e Saúde das Populações) e tem como missão produzir conhecimen-

to, aplicá-lo e fazer formação avançada, através dos diversos programas doutorais. Destes 15 anos, Jorge Pedrosa destaca alguns marcos importantes, como a criação dos primeiros programas doutorais, o lançamento da primeira spin-off, a criação do Centro Clínico Académico-Braga e do laboratório Associado ICVS/3B’s, ou a captação do primeiro projeto internacional. Nesta entrevista, o diretor do ICVS sublinha a importância da parceria com os 3B’s e deixa uma palavra de agradecimento a todos os colaboradores do Instituto, desde os investigadores aos docentes da Escola de Medicina, estudantes dos vários níveis de graduação e funcionários que trabalham no ICVS.


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spin-offs

HAJA SAÚDE Quais foram os maiores obstáculos na criação do ICVS? JORGE PEDROSA Um instituto de investigação competitivo que faça avançar o conhecimento e promova inovação tem dificuldades constantes, não apenas necessariamente na sua formação. O principal desafio continua a existir, porque é basicamente responder a uma mudança muito grande do tecido científico que há em Portugal nos últimos anos. A realidade da investigação em Portugal hoje é completamente diferente do que era há 20 anos. Foi dado um salto qualitativo e quantitativo enorme. Isto, aliás, é reconhecido internacionalmente, pelas taxas de crescimento do número de doutorados, número de artigos… O problema é que a estrutura que apoia e financia a investigação tem tido dificuldade em acompanhar este crescimento. Há 20, 30 anos criaram-se as bolsas de doutoramento, que era uma coisa que não existia. Ao fim de uns anos, começou a haver mais doutorados em Portugal e não havia saídas profissionais para eles.

Então criou-se as bolsas de pós-doutoramento, que foram usadas por alguns investigadores durante muitos anos sem qualquer espécie de segurança ou de vínculo à instituição. Criaram-se, então, os investigadores FCT, que são uns programas de cinco anos. Mas cada uma destas fases foi sempre um parto muito difícil. Penso que esse sistema, e esta dificuldade, não está ainda completamente resolvida. Há contratos de investigadores de vários tipos, mas não há uma coisa muito importante que nós chamamos de tenure [vínculo da carreira académica]. Eu diria que o problema que o ICVS teve na sua criação, e que continua a ter, é não haver uma estrutura de financiamento e de gestão da rede de ciência e tecnologia que acomode a dimensão da estrutura científica que existe em Portugal. Continuo a achar que não há ainda capacidade suficiente para acomodar todas as pessoas e financiá-las. Qual é a boa notícia? Durante todo este processo, as instituições portuguesas têm-se tornado mais competitivas em financiamento externo, nomeadamente europeu.


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patentes e protótipos (2013-2017)

O novo diploma do emprego científico proposto pelo Governo não vem colmatar estas dificuldades? É uma tentativa de resposta a uma realidade, que é a do aumento do número de doutores em Portugal – que não é ainda suficiente. Eu penso que tem aspetos positivos, alguns dos quais não estão ainda completamente clarificados. Houve agora um concurso para investigadores, que é o retomar do investigador FCT. Tem a vantagem de ter mais um nível, que vai enquadrar o chamado investigador júnior. Houve o anúncio do lançamento de um concurso institucional para investigadores, em que as instituições como o ICVS podem candidatar-se a um pacote de vagas, o que também é positivo. Vamos ver quais são os envelopes financeiros associados a tudo isto. É muito importante dizer que a Escola de Medicina tem apoiado o ICVS ao longo dos tempos, e neste caso em concreto a EM já anunciou que vai fazer uma coisa muito inovadora: vai abrir, já este ano, carreiras de investigação no sentido clássico, com vínculo.

Como avalia o panorama da investigação científica em Portugal? Avalio de forma muito positiva, no sentido em que houve uma progressão fantástica nos últimos anos. Lamento e acompanho sempre a preocupação dos sobressaltos frequentes que existem de cada vez que se atinge um novo patamar de excelência e uma nova conquista, de se ter que penar à espera de soluções para se poder avançar para a próxima etapa. E tenho uma convicção profunda de que as entidades responsáveis, o Governo, têm de entender que a criação deste corpo muito maior de doutorados capazes, bem formados, tem de ser acompanhada de um aumento do envelope financeiro que lhes permita alavancar esse conhecimento. Também é verdade que as coisas não podem ser feitas apenas pelo Estado. As empresas têm de incorporar mais doutores, mas têm também de perceber que essa incorporação lhes traz mais-valias.


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artigos científicos publicados em revistas internacionais (2013-2017)

De que forma é que os alunos de Medicina beneficiam da associação do ICVS à Escola de Medicina? O treino de um estudante em metodologias de investigação e o seu envolvimento na forma de pensar um problema, colocar uma hipótese e testá-la de forma científica, e a objetividade por trás disso [é muito importante]. Para as equipas de investigação, [o benefício] é terem alguém que vai enriquecer a equipa, não só com capacidade de trabalho, mas também com ideias novas, unbiased. E que poderá ser um futuro colaborador quando acaba o curso e vai para o hospital, isso é muito importante nesta área – fazer investigação que seja útil para o doente. Em termos institucionais, a EM fez uma aposta, desde a sua criação, no ICVS, uma aposta forte. Há uma série muito grande de apoios que a Escola dá ao ICVS – a meu ver de forma inteligente, porque nenhuma escola médica sem uma forte componente de investigação produz médicos de qualidade e tem capacidade de afirmação nacional e internacional.

Como compara a relação do ICVS com a EM com a relação de outras escolas médicas com os seus institutos de investigação? Há um aspeto que eu penso que distingue o ICVS e a sua relação com a Escola, que é a própria existência física do ICVS no edifício da Escola de Medicina. Isso foi pensado desde o princípio e é muito importante. É mais fácil para o estudante de medicina que quer fazer investigação apenas atravessar o corredor e tornar-se membro da equipa. E há um grau de ligação muito grande entre o ICVS e a Escola e o Centro Clínico Académico, e isso é muito importante. Na investigação, nós conseguimos fazer o trajeto completo, desde o tubo de ensaio até ao doente. Conseguimos pensar numa nova molécula, testá-la em cultura de células, testá-la em cultura de tecidos, no modelo animal e, eventualmente, chegar a uma fase de ensaio clínico, em humanos. Qualquer escola médica que se queira afirmar terá de o fazer através da investigação.


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investigadores integrados no ICVS, 91 dos quais são investigadores doutorados (Dados de 31 de dezembro 2017)

Qual o papel do ICVS na reforma curricular do curso de Mestrado Integrado em Medicina? A reforma do currículo está numa fase muito inicial. Um dos aspetos fundamentais prende-se com ser um processo muito integrador, em que se quer que participem os investigadores, os docentes, mas também os estudantes, os stakeholders, associações de doentes e profissionais de saúde. Nesse processo integrador, o ICVS vai estar envolvido. Um dos grupos de trabalho [criado no âmbito da reforma curricular] vai olhar só para a investigação – como está inserida no currículo e como queremos que seja integrada. As instituições de ensino superior, como a Escola de Medicina e o ICVS, têm também alguma responsabilidade social, de criar conhecimento que se possa transformar em riqueza. O que, no caso biomédico, tem ainda o grande desígnio de que permite criar ferramentas profiláticas ou terapêuticas para as pessoas, ou seja, contribuir para o bem-estar da população.

Quais os objetivos do ICVS para o futuro? A criação de três novas estruturas. Uma estrutura de apoio à inovação, uma associação sem fins lucrativos que vai promover a inovação no ICVS e na Escola. Vai promover o aparecimento de empresas spin-offs e, captando parte dos lucros que essas empresas vão gerar, reinvestir todos esses lucros em favor da inovação. A criação de uma plataforma de interface entre a academia e o tecido produtivo, a indústria, que vai colocar em contacto o investigador e quem a pode vir a aplicar. E, por último, a criação de um centro de cuidados de saúde familiares com um perfil de desenvolvimento e investigação ligado à universidade.


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OPI N I ÃO “A medicina do cuidar do todo que é muito mais do que a cura e o tratamento” — Cecília Leão

Domínios Verticais – formação humanista e comprazimento José Manuel Mendes — 52 Humanidades na formação médica Cecília Leão relata que a medicina personalizada do hoje e do amanhã é uma medicina dicotómica — 54 Alternativas para a Medicina Pedro Morgado — 55

Humanidades na Formação Médica — 64

O sexo da igualdade Rosélia Lima refere que vivemos numa falsa luta pela igualdade entre os sexos — 56 Um Portugal pleno Pedro Peixoto critica a igualdade de género em Portugal — 58


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Domínios Verticais – Formação Humanista e Comprazimento José Manuel Mendes


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Desde o princípio. Convocando, decerto, Abel Salazar ou, mais atrás, Ribeiro Sanches, único português na Enciclopédie, o Professor Pinto Machado concebeu, nos cursos da Escola de Ciências da Saúde, hoje de Medicina, um feixe de isotopias transversais visando conferir aos estudantes, na véspera do exercício profissional, horizontes de cultura e enriquecimento pessoal, ética e socialmente vinculado. Anos volvidos, muito pela acção da Professora Cecília Leão, o projecto assume, nos planos curricular e de experiência plurimódica, a evidência de que todo o antagonismo entre Ciência e Humanidades repousa num erro há muito demonstrado. É hoje ancilose. Ou fátua imponderação. Estabelecer enlaces metodológicos dos saberes que a licenciatura incorpora, promove, induz, e os “domínios verticais”, da Literatura às Artes Plásticas, do Cinema à Filosofia, à Música e ao empreendimento criativo, não desnatura ou fragiliza o ensino ministrado. Antes o amplia, avigora, insere na comunidade dos homens com quanto nela estua de complexidade e desafio. Um médico nunca verdadeiramente o será, mesmo exímio numa especialização adquirida, no divórcio da realidade que lhe circunda os actos quotidianos: diagnóstico, terapêutica – uma busca dialógica de assentimentos e instâncias de esclarecimento, lucidez, vontade, ajustada emoção. Para já nem aludir às margens do seu múnus na esfera pública. Margens que são centro afinal, eixos e marcadores de uma personalidade que se deseja aprimorável pelos contextos familiar, convivial, lúdico, auto-(re)construtivo. Margens propícias às apetências que em si crepitam. Basta identificar, reconhecer, fruir a obra dos que, ao longo da História, se cumpriram, de modo complementar, nos hospitais, consultórios ou (um exemplo apenas) frentes de batalha e na escrita, pelas telas, folhas de acaso e palcos, numa construção de universos que se moldam no pendor representativo tanto como na evasão e em realizações de teor inovatório, ruptural até. Daí a textura dos Domínios Verticais, fusão do rigor académico nas abordagens culturais/científicas e do comprazimento, hermenêutica e meditação, uma estruturação informativa e o desempenho livre de cada um dos alunos, integrados em dinâmicas de grupo. Em síntese, o que vem sendo efectuado exprime com eloquência a energia rizomática da lição do Professor Pinto Machado: viagens e dilucidações impressivas por contos de Miguel Torga e Nicolai Gogol, romances e novelas de Fernando Namora e Leon Tolstói – como poderiam ser de Sinclair Lewis, José Cardoso

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Pires, Anton Tchekhov, António Lobo Antunes, Philip Roth, Journal d’un médecin de campangne (Jacques Chauviré), Memories of Amnesia (Lawrence Shainberg), referidos sem critério de exaustividade -, filmes de Charles Chaplin (Limelight) e Milos Forman (One flew Over the Cuckoo’s Nest) – sem prejuízo dos ainda por acolher, convocando a participação de docentes da Escola, debates ético-deontológicos e sobre matérias que tangem a actualidade legislativa em contraversão - Testamento Vital, Eutanásia, tratamentos paliativos e questões do fim de vida, as novíssimas vias para a gestação, epigenética e uso de canabinóides sob escrutínio multidisciplinar, saúde e espiritualidade -, envolvendo convidados de vulto, os Professores Daniel Serrão (essa saudade), Walter Osswald e Anselmo Borges, a título ilustrativo. Algumas iniciativas emergentes, oficinas de escrita, leitura e dramaturgia, ementas literárias - roteiros gastronómicos com ingredientes estéticos, sabores que visam predicar a meditação, na sua riqueza relacional e subjectiva -, edições de poesia, prosa narrativa e ensaio, tenderão a aprofundar-se na plenitude da sua seiva expansiva. Constituem, mais do que aprendizagem, o investimento num destino, de certa maneira imaterial (o corpus artístico não se consuma à revelia de lugares de transcendência), inscrito na (a)ventura de existir. Por isso irão acentuar-se, cientes do entusiasmo dos discentes e orientadores das sessões, sob coordenação de inexcedível mérito e sensibilidade.


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Humanidades na Formação Médica Cecília Leão

A medicina personalizada do hoje e do amanhã é uma medicina dicotómica, por um lado, assente na evidência científica, no método, na doença; mas, por outro, é uma medicina centrada na pessoa e na sua narrativa, na sua experiência global, na sua pessoalidade. À medida que o conhecimento e a tecnologia avançam, o diagnóstico, a análise e os tratamentos estão muito mais a cargo da tecnologia biomédica, dos computadores, de dispositivos e robôs; os médicos e outros profissionais de saúde terão que necessariamente migrar, também e cada vez mais, para uma medicina mais atenta às questões éticas, relacionais e emocionais. Neste contexto, para além do imprescindível conhecimento biomédico e treino clínico, é necessário: – Promover uma medicina mais atenta às questões éticas, que prepare o futuro médico para a tomada de decisões na prática clínica. Tanto mais que a sociedade de hoje é fortemente marcada pelo número crescente de idosos, pelo sofrimento, pela solidão, pelas questões de início e de fim de vida. As pessoas deixaram de ter conhecimento sobre a morte, pelo que é urgente resgatar a naturalidade do fenómeno da morte. É o que tentamos fazer nos Domínios Verticais, através das artes e lições de medicina forense e cuidados paliativos; – Lutar por uma medicina relacional, na qual é necessária permeabilidade ao outro, ao que este conta sobre si, ao que lhe interessa e a quem é. Tal como somos bons e excelentes através do conhecimento biomédico na auscultação/exame objetivo, temos que ser também excelentes na auscultação do sofrimento. A auscultação do outro necessita, acima de tudo, de disponibilidade do médico, não se deixando vencer pelo fantasma da pressão temporal; – Perceber que a medicina do hoje e do amanhã é também a medicina da dignidade humana. Nesta conceção, o entendimento do sofrimento não se pode alhear da totalidade da pessoa. E, neste contexto, como lidar com a solidão? Como lidar com o sofrimento? A dor é aliviada, mas o sofrimento o que é? O conhecimento destas vertentes humanas é escasso. Sabemos pouco sobre a natureza das próprias feridas. Esta é a medicina do cuidar do todo, que é muito mais do que a cura e o tratamento. É para esta medicina que a Escola de Medicina da UMinho procura preparar os seus estudantes, implementando uma formação médica holística, assente no modelo antropológico centrado na pessoa e não unidireccionalmente na doença, o que ganha expressão máxima na designação, também dada aos Domínios Verticais pelo professor Pinto Machado: “Tomar o pulso à vida”, tendo como objetivo final a formação de “Bons Médicos e Médicos Bons”.


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Alternativas para a Medicina Pedro Morgado

Ao longo dos últimos séculos, a Medicina conheceu um extraordinário desenvolvimento que se deveu, em grande parte, aos avanços do conhecimento baseado na evidência científica. No princípio, toda a Medicina era “tradicional”. Foi o método científico que revolucionou a Medicina (e toda a Sociedade), fazendo crescer de forma exponencial a compreensão dos fenómenos químicos, físicos e biológicos bem como o conhecimento acerca das doenças e de possíveis formas de tratamento. Paradoxalmente, ao mesmo tempo que dispomos de tratamentos altamente eficazes para doenças anteriormente fatais, assistimos à emergência de um movimento social que pretende propor “alternativas” à Medicina baseada na evidência científica. Não conseguindo tratar doenças, este movimento opera, exclusivamente, na atenuação do sofrimento daqueles que se encontram doentes, afastando-os dos tratamentos que são eficazes e entregando-os ao avanço inexorável das suas doenças. Este fenómeno compõe-se de ingredientes sobre os quais importa refletir no sentido de melhorarmos a prática e a formação clínicas. A promoção das alternativas à Medicina assenta, invariavelmente, numa leitura sensacionalista da realidade, baseia-se em dados errados ou erradamente apresentados e suporta-se em vieses de análise e interpretação dos factos. O remédio obtém-se através da promoção da literacia em ciência e em saúde. Uma sociedade com níveis mais elevados de literacia é uma sociedade que compreende os fundamentos do conhecimento baseado na evidência científica e que o questiona e discute de forma livre e informada. A adesão às alternativas à Medicina alimenta-se da atenção que é prestada à narrativa do doente, às suas crenças acerca da doença e ao seu sofrimento subjetivo. O remédio obtém-se através da humanização da Medicina, colocando o doente no centro da formação e da prática médicas. É por isso que a capacidade de comunicar de forma correta, gerir adequadamente emoções, construir conjuntamente narrativas explicativas, integrar crenças e partilhar decisões com o doente não podem continuar a ser perspetivadas como “soft skills”. São competências nucleares para uma Medicina que garante condições para colocar o conhecimento baseado na evidência científica ao serviço dos cuidados de que os doentes necessitam.


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O Sexo da Igualdade Rosélia Lima

Parece-me um contrassenso enorme no paradigma social atual que, quanto mais se aborda a questão da igualdade entre os sexos, mais a temática é segregada entre ambos. Isto é, ninguém quer dar o braço a torcer, e todos procuram a manutenção do seu papel de vítima e mártir. Se alguém levanta uma questão sobre determinado problema prevalente nos seus ipsis genitalia, logo surge o contra-argumento que, por sua vez, o outro sexo tem um problema diferente, de forma a anular a discussão inicial. Para dar um exemplo prático do que vejo a acontecer, se alguém levanta a questão da diferença salarial para um mesmo trabalho, logo outra pessoa desvaloriza o seu problema porque a taxa de suicídio é maior nos homens, e vice-versa. Ou seja, as tuas calças rasgaram, mas o meu pente partiu e, portanto, o meu problema é prioritário ao teu. Discussões marcadas por esta (falta de) categoria perdem toda e qualquer validade porque ambas as perspetivas não são mutuamente exclusivas. Sendo concomitantes, existem, e ambas devem ser abordadas, e mais importante, solucionadas. No entanto, assisto continuamente a um “bate-bocas” sem fim, em que no final cada um fica para seu lado e a diferença salarial e taxas de suicídio continuam a existir tal como antes. Isto explica-se – a meu ver – pelo facto de vivermos numa falsa luta pela igualdade entre os sexos. Entendo que, em discussões desta problemática, as pessoas cingem-se a dividir as desigualdades e os preconceitos por sexo, com uma solução para esse mesmo sexo, esquecendo que pode ser uma preocupação que atinge ambos. Exemplificando, avaliemos a discriminação que muitas mulheres dizem sentir no mundo de trabalho, quando querem ou conseguem um cargo com mais responsabilidade e visibilidade. Ou porque não foi selecionada por ser mulher e, portanto, só por esse motivo a entendem como menos capaz para a execução das tarefas necessárias, ou porque, se conseguiu, “subiu na horizontal”, que nunca na vida teria o mérito suficiente para o ter atingido com a sua inteligência e ética de trabalho. Isto acontece de facto, infelizmente, e é um problema que não pode ser ignorado, da mesma forma que não pode ser insondada a discriminação que alguns homens dizem sentir quando escolhem certas profissões, sejam elas enfermeiro, florista e cabeleireiro, entre outras, porque sendo percecionados como trabalhos associados às mulheres, estes homens profissionais não são entendidos como “verdadeiros homens”, ou sofrem com a assunção pejorativa que são homossexuais, o que no fundo vai ao encontro do preconceito anterior.


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Ora, tanto quanto sei, não existe qualquer evidência Aceito que talvez não devesse ter argumentado a que correlacione a profissão escolhida com o nível de importância da higiene com o seu futuro potencial de masculinidade (se é que é quantificável), nem tampou- galã, não sabemos sequer se ele terá esse interesse, mas co com a orientação sexual, e, mesmo que existisse tal confesso que me chocou a sua resposta ríspida, fria e, pesquisa, tenho séria dificuldade em entender a sua sobretudo, cheia de convicção. É assustador pensar que crianças prestes a entrar na adolescência, onde toda a pertinência na sociologia. Ou seja, tanto para dizer o seguinte: o preconceito no sua personalidade vai ser posta à prova, partem para mundo de trabalho existe, é um facto, e é uma realida- tal aventura com a conceção prévia e a generalização de para ambos os sexos. Como tal, é um problema que do interesse dos seus pares, principalmente quando é precisa de ser solucionado. Então, por que não partir algo tão errado (na maior parte das vezes) e materialisdesta premissa e utilizar os argumentos acima como ta. Tenho medo que, caso ele manifeste interesse numa meros exemplos, em vez de continuar este conflito en- relação com uma rapariga, lhe importe mais o dinheiro tre pénis e vaginas e ver quem fica por cima (e não no que tem na carteira e não a gentileza e a inteligência de que é dotado. É uma situação doentia para ele porque bom sentido)? Da forma que falei no emprego, poderia ter escolhido causa uma falha brutal na perceção do sexo oposto e tantos outros assuntos. O assédio e abuso sexual é algo no desenvolvimento da própria autoestima, e doentia que, pessoalmente, me tem dado diversas cefaleias de para ela, porque é colocada numa posição redutora, o tensão. Escandalizo-me com a ignorância deliberada que por si também terá o seu efeito na sua autoestima. de factos que, embora relevantes, não preenchem os Gostava muito que este panorama se invertesse. Que interesses de determinada agenda e, portanto, num uma criança, numa situação de divórcio, fosse entreassunto desta magnitude social, são deitados ao lixo. gue à figura parental mais competente, e não à que Sabe-se atualmente que o abuso sexual é um crime é tida como tal, por defeito, devido ao seu sexo. Que que vitimiza transversalmente ambos os sexos, todas um candidato fosse escolhido para um trabalho com as orientações sexuais e faixas etárias. Por esta lógica, base no seu currículo e competência, e que o seu sexo e embora a totalidade das pessoas esteja protegida não fosse um fator a considerar. Que alguém pudespor lei perante esse cenário, as campanhas de preven- se escolher a sua profissão com base no que gosta e é ção centram-se num grupo restrito de potenciais víti- vocacionado e não porque é expectável devido ao seu mas: mulheres heterossexuais jovens. A minha crítica sexo. Que uma pessoa se sinta livre de preconceitos e neste ponto não se cinge ao facto de dar a conhecer protegida para manifestar as suas emoções, chorar ou as horríveis memórias que estas raparigas enfrentam, expressar o seu desagrado com determinada situação assim com as injustiças a que estão sujeitas, mas sim sem que a sua vivência fosse desvalidada devido ao seu por não se incluírem outros casos, outros contextos, sexo. Que o sexo de cada um apenas determine a nossa quando é conhecido que existem. Como sociedade, anatomia, e não interfira com o acesso de cada indivíteríamos mais a ganhar na luta contra o abuso sexual duo a direitos e deveres básicos, como sejam o respeito, se elementos representativos da vasta quantidade de a dignidade, o amor, o consentimento e a justiça. vítimas pudessem ter tempo de antena e partilhar a sua história. No mínimo, que lhes fosse dado o respeito básico de ser incluídos nas estatísticas, o que muitas vezes não acontece. Receio que esta tendência crescente de privilégios atirados à cara e ideias mal concebidas se perpetue. Um destes dias estava a falar com o filho de 11 anos de uma amiga minha, que, como bem conjeturamos, tem as glândulas sudoríparas a funcionar a todo o vapor e, ao falar com ele, de modo a convencê-lo a usar desodorizante, disse-lhe que as pessoas se sentem mais atraídas por um rapaz se ele tiver higiene e cheirar bem, do que se for propriamente bonito, ao que ele me responde “As mulheres só querem saber de um homem com dinheiro!”.


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Um Portugal Pleno Pedro Peixoto


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À priori poderíamos pensar que em Portugal atingi- A meu ver, estamos primeiramente perante um promos, já, a plena igualdade de género; no entanto, tal blema de educação, do qual somos primeiros resestá ainda muito longe da realidade. Atendamos ao ponsáveis. Começa desde cedo, na diferenciação de ranking elaborado, em outubro de 2017, pelo Insti- quais são os brinquedos adequados para cada sexo; tuto Europeu para a Igualdade de Género (EIGE), no ou dos desportos; ou dos livros; ou das disciplinas. qual Portugal se encontra muito abaixo da média da E começa em cada um de nós que damos substrato União Europeia, principalmente no que concerne ao para que estas ideias proliferem. Numa última nota, tempo que a mulher tem de dedicar às tarefas domés- tem sido feito algum esforço no sentido de contraticas, ao poder que exerce na sociedade, e às discre- riar esta situação, com a criação de medidas artipâncias salariais e risco de pobreza. Apesar da eviden- ficiais promovendo o empoderamento da mulher, te melhoria nas últimas décadas, parece permanecer como sejam os regimes de quotas nas listas apreseno dogma do velho regime, no qual o lema Deus, Pá- tadas a vários órgãos políticos. Trata-se de um passo tria e Família preconizava uma mulher - dona de casa, importante, na medida em que é um símbolo culobediente ao marido e subserviente à sociedade, sem tural em que a mulher se pode rever como símbolo verdadeiro poder de decisão sobre a mesma. Não pre- de poder. Muito provavelmente teremos de aplicar cisamos de muito para observarmos esta enorme dis- regras semelhantes de uma forma muito mais abrancrepância. Reparemos no PSI-20, o principal índice gente por toda a sociedade. No entanto, não se trata, de empresas cotadas em bolsa de valores em Portugal, a meu ver, de discriminação positiva, mas antes de no qual, em maio de 2016, apenas 1 dos 18 CEOs era nivelamento social. Não podemos permitir um Pormulher. Tal torna-se mais estranho se considerarmos tugal em que aproveitamos apenas 50% de todo o que, desde 1986, o número de mulheres a frequentar potencial. Assim, começa no nosso dia-a-dia a alteo ensino superior foi sempre maior que o número de ração de comportamento e hábitos que, por muito homens; mais incrível ainda, em número superior aos enraizados que estejam, não deixam de ser menos homens nas áreas de ciências sociais, comércio e di- nocivos para a nossa realização enquanto sociedade. reito, o que julgaríamos mais facilmente estar relacionado com um maior acesso a posições de topo. Num olhar rápido sobre a nossa área, medicina, também vemos que as posições de poder estão maioritariamente concentradas nas mãos de homens. Atendendo aos vários serviços clínicos do Hospital de Braga, verificamos que na enorme maioria a sua direção está concentrada nas mãos de homens, mesmo que desde 2010 a maioria dos médicos em Portugal seja do sexo feminino. As diferenças estão lá, e certamente vão perdurar. Existem vários motivos para estas enormes disparidades. Não quero aqui deixar a ideia de que estamos perante apenas uma discriminação unilateral da mulher pelo homem. Na verdade, muito se deve à forma como nós, enquanto sociedade, distribuímos tarefas entre os géneros e de como não proporcionamos condições para que ambos atinjam o seu máximo potencial. Num país que não assegura ensino pré-escolar integral a todas as crianças, que não protege o absentismo laboral devido a doença das crianças, em que é possível uma empresa contratar homens em detrimento de mulheres por as últimas poderem ser mães, muito há ainda que fazer. A lista de problemas afigura-se, ainda, imensa, mas está essencialmente ligada à forma patriarcal como nos comportamos enquanto sociedade.


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TEM AS “Originou-se, do outro lado do globo, uma onda que promete rebentar com dócil violência na sonoridade indie atual. Stella Donnelly, oriunda da Austrália, disse‑nos “olá” em 2017 com um pequeno EP de nome Trush Metal.”

E o prémio vai para… Jorge Machado resume a última noite dos Óscares CINEMA

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Igualdade? Joana Novais dos Santos HUMOR

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O algodão amargo de Stella Diogo Cruz introduz a sonoridade de Stella Donnelly M Ú SI CA

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O Cego de Sevilha – um romance de Robert Wilson Inês Candeias L I T E R AT U R A

— Diogo Cruz

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Desporto, sim. Sem alongamentos, não! Sara Leão DESPORTO

— 68 O algodão amargo de Stella — 66


TEMAS

E o prémio vai para… Jorge Machado Centenas de celebridades encheram novamente o Dolby Theatre na madruga de 4 de março para comemorar a nonagésima entrega dos prémios da Academia ou, como são mundialmente conhecidos, os Óscares. A noite mais glamorosa do ano não se trata apenas da entrega de prémios ou homenagens àqueles que mais se destacaram na área do cinema no último ano: é toda

CINEMA

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uma celebração da magia do cine- Original. Apesar de ser para muima, uma noite de emoções onde tos uma grande surpresa, Guilleros filmes passam da tela para mo del Toro sempre se destacou cima do palco e onde as celebri- pela sua criatividade e imaginação dades aproveitam para tecer as fora da caixa, tendo-nos trazido suas opiniões e críticas sobre os já grandes obras do cinema como assuntos mais marcantes da in- “O Labirinto do Fauno”, que nem sequer chegou a ser nomeado para dústria do cinema e do mundo. O grande vencedor da noite foi melhor filme em 2007. Quanto a o filme de Guillermo del Toro, a “Forma da Água”, a história foca“Forma da Água”, que arrecadou -se no amor entre uma muda inquatro óscares das treze catego- terpretada por Sally Hawkings, rias para as quais foi nomeado, nomeada para melhor atriz, e um dos quais o de Melhor Filme, Me- deus anfíbio raptado das florestas lhor Realizador, Melhor Direção da Amazónia em plena guerra fria de Arte e Melhor Banda Sonora para estudos científicos. Um filme


TEMAS

absolutamente deslumbrante e apaixonante que nos relembra o quão egoístas e desatentos da dor alheia somos, sobretudo quando os outros não conseguem exprimir por palavras aquilo que sentem. Parecia então natural que, após ser nomeado para todas as categorias técnicas e para as de interpretação, acabaria por ganhar o Óscar de Melhor Filme, num ano marcado pela necessidade de as vítimas de abuso sexual se chegarem à frente e falarem para que se possa fazer justiça. O resto da cerimónia foi bastante previsível e, para mim, um pouco aborrecida. Jimmy Kimmel fez um excelente trabalho como apresentador, mas foi mais do mesmo do ano passado, tendo faltado um pouco de ousadia e medo de arriscar da sua parte. Os discursos foram todos sobre o mesmo e, por momentos, pensei em desligar a televisão de tão cansado que estava. Excetuando alguns, como o de Guillermo del Toro, focaram-se sobretudo nos casos de abuso sexual que foram denunciados no último ano em Hollywood, na desigualdade no mundo do cinema entre homens e mulheres e no racismo. Não sou contra as celebridades aproveitarem estes momentos para se exprimirem, mas muitas vezes chegou ao ridículo de os vencedores e apresentadores simplesmente dizerem alguma coisa só para dizer que falaram do tema, mesmo que não sentissem nada do que estavam a dizer e parecessem puras marionetes a repetir-se. Outra coisa que me deixou incomodado foi a constante referência ao filme “Pantera Negra” deste ano como um filme que desafiou o racismo e acabou com os preconceitos, como se isso fosse o objetivo do filme, que não o

CINEMA

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era de todo. É um filme, por sinal síssima ex-patinadora Tonya Harmuito bom, de super-heróis em ding no filme “Eu, Tonya”. Um filque as personagens calharam de me que passou despercebido nos ser negras. E acho que isso é que prémios deste ano, mas que foi, deve ser ambicionado, não uma na minha opinião, um dos melhoindústria de cinema que tenha de res e muito graças à interpretação estar sempre focada em contratar de Margot. A cena em que ela se minorias para os melhores papéis prepara para a sua atuação nos mas uma indústria onde seja in- Jogos Olímpicos em frente ao esdiferente quem desempenha os pelho é provavelmente das cenas melhores papéis, seja homem ou mais fortes e sentimentais que vi mulher, negro ou branco, homos- nos últimos tempos a nível de interpretação e merece muito mais sexual ou heterossexual. É difícil para mim difícil esco- do que aquilo que teve. Agora que a época de prémios lher o ponto alto da noite, sobretudo quando não existiram assim está terminada, resta-nos ver ou muitos que se destacaram, mas, se rever os filmes vencedores e amo tivesse de fazer, escolhia a entre- bicionar pelos próximos. Pelo ga do Óscar de Melhor Argumento menos este ano não se engaram a Original, que por acaso é o prémio entregar nenhum Óscar. que mais valorizo, para Jordan Peele no filme “Get Out”. Para quem ainda não viu este filme, deve-o fazer imediatamente. É um filme que parece começar com uma simples história de amor e termina num filme de suspense aterrorizador. A trama é a mais inteligente e bem estruturada do ano, se não da década, onde tudo na história, desde as falas ao simples rodar de uma colher, conduz para o clímax final da história e onde o racismo é encarado de uma forma absolutamente genial e completamente diferente daquilo que sempre o fora. Um louvor também para Roger Deakins que, após catorze nomeações, ganhou finalmente o Óscar de Melhor Cinematografia no filme “Blade Runner 2049”. Por outro lado, o momento que menos gostei na noite foi a entrega do Óscar de Melhor Atriz a Frances Mcdormad para o seu papel em “Três Cartazes à Beira da Estrada”. Não que não o merecesse ou que não fosse a grande favorita por parte de todos, mas, neste ano, gostava mesmo que o Óscar fosse para Margot Robbie pela sua interpretação da famo-


TEMAS

HUMOR

Igualdade? Joana Novais dos Santos Igualdade de Géneros: expressão composta pelas palavras Igualdade, sinónimo de equidade, e Género, vocábulo que se refere a um agrupamento de seres que têm características idênticas. De modo aligeirado, a Igualdade de Géneros traduz a busca por equidade de género em questões sociais, de trabalho e de chefia. Em novembro de 2016, Donald Trump foi eleito Presidente dos Estados Unidos da América. Depois de, ao longo dos anos e ao longo da sua campanha, ter deixado bem claro que repudia as mulheres, foi organizada uma marcha, a Marcha das Mulheres, onde elas se afirmaram, mostrando o desprezo que sentem em relação ao seu presidente. Aqui se reavivou a luta das mulheres iniciada em 1960. No ano de 2017, o mundo de Holywood foi abalado pelos escândalos de assédio sexual que acabaram por reafirmar que a luta das mulheres voltou para ficar. Para muitos, esta situação servirá como ponto de partida de uma mudança cultural que acaba com décadas de abuso e com as desigualdades de género no mundo do trabalho. Já a opinião do presidente americano Donald Trump é muito clara: “Ao todo são 26 mil casos de assédio sexual não reportados e apenas 258 condenações. O que é que estes génios estavam à espera quando decidiram pôr homens e mulheres a trabalhar juntos?”. Na sequência desta luta por um Mundo Melhor em Holywood, a 75.ª edição dos Globos de Ouro ficou marcada pelos vestidos pretos que todas as mulheres poderosas do mundo do cinema usaram como forma de protesto. Inesque-

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Donald Trump: “Mulheres, tecível foi também o discurso de Oprah Winfrey quando se tornou mos de tratá-las como se fossem na primeira mulher negra a re- m****”. Oprah Winfrey: “Não é uma ceber o Prémio Cecil B. DeMille, que todos os anos homenageia história que afeta apenas a indúsuma personalidade que tenha tria do entretenimento. É algo contribuído de forma excecional que transcende a cultura, geopara o mundo do entretenimento. grafia, raça, religião, política ou Em 2017, a vencedora do prémio local de trabalho”. Donald Trump: "Eu vou consfoi Meryl Streep e o seu discurso ficou marcado pelas duras críti- truir um grande muro, e nincas a Donald Trump. Claro que o guém constrói muros melhor que presidente americano, fã número eu, acredite. E vou construí-lo um do twitter, não se conteve e lá sem gastar”. E era neste momento que publicou “Meryl Streep, uma das atrizes mais sobrevalorizadas de Oprah Winfrey revelaria a sua Hollywood, não me conhece, mas vontade de se tornar a próxima atacou-me na noite passada nos Presidente dos Estados Unidos. Mas, mais uma vez, não iria ficar Globos de Ouro. Ela é uma...” Agora imaginemos que, duran- sem resposta. Era isto que Trump te o seu discurso, Oprah Winfrey diria: “Se a Oprah Winfrey não estava num diálogo com Donald consegue satisfazer o marido, o Trump. Conseguem imaginar? Eu que é que a faz achar que pode consigo. Acho que seria mais ou satisfazer a América?” menos assim: Oprah Winfrey: “Estou especialmente orgulhosa e inspirada por todas as mulheres que foram corajosas o suficiente para contar as suas histórias pessoais”. Donald Trump: “Sabem, realmente pouco interessa o que elas escrevem, desde que tenham um belo e bonito rabo. Mas tem de ser jovem e bonito”. Oprah Winfrey: “Por isso, nesta noite, quero expressar a minha gratidão a todas as mulheres que aguentaram anos de abusos e maus tratos porque, tal como a minha mãe, tinham filhos para alimentar, contas para pagar e sonhos para realizar". Donald Trump: “Eu gosto de crianças, mas quer dizer, eu não faria nada para tratar delas. Eu dou dinheiro e elas que tomem conta”. Oprah Winfrey: “Durante muito tempo, as mulheres não foram ouvidas nem eram credíveis se ousassem dizer a verdade perante esses homens poderosos”.


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HUMOR

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TEMAS

O algodão amargo de Stella Diogo Cruz Originou-se, do outro lado do globo, uma onda que promete rebentar com dócil violência na sonoridade indie atual. Stella Donnelly, oriunda da Austrália, disse-nos “olá” em 2017 com um pequeno EP de nome Trush Metal. A produção conta apenas com 5 faixas, mas não nos deixemos enganar por dimensões. Apesar de curto, Stella carregou-o de emoção e preencheu-o com a sua voz harmoniosa. Durante a audição, não podemos deixar de reparar na dureza do conteúdo cantado, mas isto é servido com um timbre de uma brandura tal que nos faz suspirar pelos próximos trabalhos da artista. Stella Donnelly abre o álbum com Mechanical Bull, um tema no qual é gritante o caráter da australiana. Esta expressa a sua vontade de se isolar numa relação que a sufoca, prometen-

MÚSICA

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do arremessar o indivíduo às suas todo este pensamento retrógracostas como um “touro mecânico” do é posto debaixo de fogo pela caso o mesmo se alongue na sua melúria de Stella. Nos restantes estadia. Já sensibilizados para a temas, as farpas deixadas por recarência de travões na língua da lacionamentos falhados são exintérprete, somos transpostos ploradas por Stella. Sentimos uma para o epicentro de uma questão, empatia, de origem desconhecida, lamentavelmente, ainda contro- pela sua arte. Breves foram os versa. No segundo tema, Stella nossos momentos com ela, mas fala-nos sobre a história de uma longa se adivinha a sua permaamiga vítima de violação. Intitu- nência no grupo restrito de vozes lou-o, ironicamente, de Boys Will que instantaneamente nos tocam. Be Boys. Aqui é evidente a crítica Trush Metal foi rampa de lançadesmedida à cultura de violação mento que Stella desenhou, não que ainda persiste um pouco por para ser longa, mas sim inclinada toda a sociedade que apelidamos e intensa, servindo o propósito de “civilizada”. Essa mesma cul- de a projetar, com eficácia e nota tura está subtilmente espelhada artística, para voos mais altos e no nosso dia-a-dia e basta uma etéreos. Voos esses da qual pode rápida visita aos comentários a ser dona e senhora se continuar a notícias do género nas redes so- prendar o seu público com trabaciais para constatá-lo. A intérpre- lhos do género. te coloca o seu dedo mesmo sobre a ferida ao citar os argumentos proferidos transversalmente por todos os defensores deste conceito social. “Por que estava ela sozinha, usando a sua t-shirt tão descida?”, “As mulheres violam-se sozinhas”,


TEMAS

O Cego de Sevilha – um romance de Robert Wilson Inês Candeias A nossa mente é, muitas vezes, confrontada com erros, desilusões e arrependimentos que marcaram tão profundamente a nossa vida e o nosso caminho enquanto almas que assombram para sempre o nosso íntimo. Cada ser humano consegue, de forma excecional e singular, fazer um malabarismo incerto entre essas inquietantes assombrações e a paz interior que todos desejam alcançar. Mas vamos refletir um pouco. Ninguém no mundo exterior, normalmente, se apercebe desta luta devido ao enorme esforço que cada um faz para passar despercebido, mas, acima de tudo, graças às gigantes tentativas de esconder no mais profundo subconsciente que tais assombrações algum dia aconteceram, numa tentativa falhada de apagar ou alterar o passado.

LITERATURA

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A verdade é esta. Ninguém conse- para o detetive, quer para os leitogue apagar o passado, mas tam- res, inicialmente faz-nos pensar se bém ninguém consegue saber os realmente há pessoas capazes de segredos mais escuros e sombrios tanto horror e violência. À medida que avançamos na viagem interde outrem. Durante a semana santa em temporal, vamo-nos apercebendo Sevilha, um empresário de reno- de que como é fácil, ao longo da me é encontrado atado, amorda- vida de cada ser humano, criar moçado e morto em frente ao seu mentos de mágoa e destruição. Viajando entre passado e pretelevisor. As feridas autoinfligidas deixam perceber a luta que travou sente, através de narrações de famipara evitar o horror das imagens liares das vítimas e diários de uma que foi forçado a ver. Robert Wil- época que parece ter sido esquecison inicia aqui uma narrativa ex- da, apercebemo-nos das alterações traordinária acerca de segredos dais quais o ser humano é capaz em macabros e crimes antigos que prol da riqueza e do poder. Sem nunca conseguir pousar o nos leva numa viagem pelo nosso subconsciente. O que é que podia livro, os leitores sentem-se possuíser tão terrível que causasse tan- dos para ler as páginas seguintes e to horror? Na voz de Javier Fal- tentar montar o puzzle tão incricón, um habitualmente desapai- velmente subtil nas pistas deixaxonado detetive de homicídios, das, mas, ao mesmo tempo, incerconseguimos montar um quadro to, irresistível e surpreendente. perfeito sobre aquilo que muitas vezes tentamos esconder e esquecer, mas que nunca poderá ser refeito ou alterado. Este primeiro homicídio, invulgar, característico, desafiante, quer


TEMAS

Desporto, sim. Sem alongamentos, não! Sara Leão Boas, pessoal! Nesta edição decidi abordar um tema bastante importante, mas muitas vezes esquecido na hora do treino: os alongamentos. Quer seja no início ou no fim do treino, este tipo de exercícios tem imensos benefícios: – Relaxamento dos músculos – Prevenção de lesões – Melhora a coordenação e o equilíbrio – Permite movimentos mais soltos e fáceis – Aumenta a potência e velocidade em cada exercício – Ativação da circulação Mas não se esqueçam que temos limites e que forçar o alongamento pode causar lesões nos músculos e tendões. Com o tempo, a flexibilidade vai aumentar e, se feita com regularidade, acaba por nos permitir uma maior amplitude de movimentos e maior facilidade em executar certos exercícios. Para não nos esquecermos de nenhuma parte do corpo, sugiro que comecem pela cabeça ou pelos pés, numa sequência descendente ou ascendente, respetivamente. Por isso, tentem repetir cada alongamento cerca de 20 segundos. E não se esqueçam de repetir para o lado contrário nos exercícios em que se alonga cada lado em separado. Bom treino!

DESPORTO

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Melhorar os cuidados de saúde através da formação e da geração de conhecimento e valor EDITOR I A L

A formação pós-graduada na Escola de seus trabalhos em instituições parceiras e Medicina/Instituto de Investigação em no número apreciável de participantes esCiências da Vida (EM/ICVS) caracteriza-se trangeiros nos cursos de formação avanpela sua flexibilidade e diversidade, o que çada ministrados na EM/ICVS; —Assunção da responsabilidade da possibilita, a cada momento, a adaptação aos desafios permanentes que se colocam EM/ICVS como agente promotores da na investigação científica médica e biomé- formação médica contínua, do treino e retreino de competências clínicas e de dica. Alguns aspetos caracterizadores: —Uma oferta formal de cursos de 2º e investigação; —Ligação, e reconhecimento, dos 3º ciclos, especificamente o mestrado e o doutoramento em Ciências da Saúde (in- Alumni Medicina, o que se tem traduzicluindo uma vertente direcionada para a do na concretização de diversas iniciatiinteração com o ambiente empresarial), o vas de formação pós-graduada, algumas doutoramento em Medicina (que inclui direcionadas especificamente a internos o percurso pioneiro em Portugal MD/ de especialidade, com o devido reconhePhD, que permite a interrupção do curso cimento pelos colégios da especialidade e de medicina para realização do doutora- sociedades internacionais; —Reconhecimento e motivação de mento, em parceria com as Universidades de Columbia e de Thomas Jefferson, nos patrocinadores científicos e técnicos, EUA) e o doutoramento em Envelheci- que projetam, com contribuições várias mento e Doenças Crónicas (em parceria (incluindo equipamento de vanguarda) com a Faculdade de Medicina da Uni- a qualidade da formação pós-graduada versidade de Coimbra e a Faculdade de ministrada. Pretende-se que esta dinâmica de cresCiências Médicas da Universidade Nova de Lisboa). São cursos de espetro largo cimento e de afirmação continue a consoque permitem ao estudante adequar as lidar-se através de certificação nacional escolhas temáticas aos seus interesses e e internacional das iniciativas de forexperiência prévia. Os doutoramentos mação pós-graduada que a Escola/ICVS receberam a chancela de Programas de proporcionam às comunidades médica e Doutoramento da Fundação para a Ciên- biomédica. Comprometemo-nos, assim, cia e Tecnologia, em candidaturas compe- a mobilizar o entusiasmo e empenho de titivas com avaliação internacional. Neste docentes, investigadores, alunos, ex-alumomento, a EM/ICVS tem 32 estudantes nos, técnicos, colaboradores e patrocinadores, no cumprimento desta missão. de mestrado e 96 de doutoramento; A missão de formação pós-graduada e —Modelos formativos adequados à exigência dos tempos, focados na inves- contínua da EM/ICVS tem uma dinâmica tigação, recorrendo a metodologias de de crescimento que se tem consolidado ensino/aprendizagem centradas nos es- e afirmado. Pretende-se agora aumentar tudantes e na aprendizagem de compe- essa visibilidade através de reconhecitências, em ambiente tecnologicamente mento que pode ser obtido por certificações nacionais e internacionais. de vanguarda; —Mobilidade e promoção das colaborações com instituições nacionais e estrangeiras no centro da formação, traduzido na considerável percentagem de Joana Palha estudantes dos programas formais de 2º Vice-presidente da e 3º ciclos que desenvolvem parte dos Escola de Medicina www.med.uminho.pt

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TEMAS

Haja Saúde www.hajasaude.org Desporto, sim. Sem alongamentos, não! Sara Leão

Boas, pessoal! Nesta edição decidi abordar um tema bastante importante, mas muitas vezes esquecido na hora do treino: os alongamentos. Quer seja no início ou no fim do treino, este tipo de exercícios tem imensos benefícios: – Relaxamento dos músculos – Prevenção de lesões – Melhora a coordenação e o equilíbrio – Permite movimentos mais soltos e fáceis – Aumenta a potência e velocidade em cada exercício – Ativação da circulação Mas não se esqueçam que temos limites e que forçar o alongamento pode causar lesões nos músculos e tendões. Com o tempo, a flexibilidade vai aumentar e, se feita com regularidade, acaba por nos permitir uma maior amplitude de movimentos e maior facilidade em executar certos exercícios. Para não nos esquecermos de nenhuma parte do corpo, sugiro que comecem pela cabeça ou pelos pés, numa sequência descendente ou ascendente, respetivamente. Por isso, tentem repetir cada alongamento cerca de 20 segundos. E não se esqueçam de repetir para o lado contrário nos exercícios em que se alonga cada lado em separado. Bom treino!

DESPORTO

Alumni Medicina www.alumnimedicina.com

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