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Edmundo Fernandes

Outras ATITUDES

r e d i s c u t i n d o

a l g u m a s

i d e i a s


Edmundo Fernandes

Outras ATITUDES rediscutindo algumas ideias

outubro/2013


Projeto gráfico e diagramação Edmundo Fernandes Impressão e acabamento Gráfica Toinho di Sousa

SILVA , Edmundo Fernandes C. da. Outras Atitudes: rediscutindo algumas ideias. Gráfica ToinhodiSousa, Recife, 2013. Todos os direitos reservados, no Brasil, por Edmundo Fernandes Cavalcante da Silva, Rua Augusto Cavalcante, 268, Jaguaribe, Escada-PE.


Se alguém rezar pedindo paciência, Acha que Deus dará paciência ou Deus Dará a oportunidade de ser paciente?... Se pedindo coragem, Deus nos dá coragem ou oportunidade de sermos corajosos?... Se alguém pede que a família seja mais unida, acha que Deus une a família com amor e alegria ou dá a eles a oportunidade de se amarem?... Trecho do filme «A volta do topo poderoso»


SUMÁRIO APRESENTAÇÃO / 7 INTRODUÇÃO / 9 A CRISE GLOBAL / 13 Será uma questão de natureza? / 20 O PODER EMANA DO POVO / 27 O papel do Estado na nova sociedade / 27 A participação das pessoas no poder / 32 A SOLUÇÃO ESTÁ NA EDUCAÇÃO? / 37 Esclarecimentos iniciais / 37 Repensar nossas práticas pedagógicas / 37 A educação como engrenagem do capital / 43 O apelo revolucionário da educação / 45 O financiamento da educação / 48 O PAPEL DA CULTURA / 55 O conceito de cultura / 59 Buscando a solidariedade de muitos / 64 QUE ALTERNATIVA ? / 69 O QUE TEMOS PELA FRENTE / 83 UMA VISÃO AMPLIADA DA VIDA / 91 REFERÊNCIAS / 98


APRESENTAÇÃO Em 1993 escrevi o texto “Propondo a construção de uma nova sociedade”. Um trabalho amador, com primários equívocos de edição e absolutamente desatento às técnicas e padrões literários. As falhas cometidas não foram intencionais; foram consequências da falta de informação e conhecimento. Tenho a clareza, no entanto, de que tais erros não reduzem o significado da obra. As “boas intenções”, ideias, questionamentos e sugestões ali descritos, esboçavam, no mínimo, uma vontade de sugerir que as pessoas conversassem sobre o cotidiano, as dificuldades, as possibilidades e alternativas para se construir um novo caminho e enfrentar os desafios vividos pela sociedade atual. Hoje, vinte anos depois de sua publicação, decidi reescrevêlo. Rediscutir os seus princípios e estabelecer um novo debate a partir de um cenário econômico, político, social, cultural e ético, ainda mais complexo. Naquele ano, ainda marcado pelos primeiros passos na redemocratização do Brasil, eu sonhava com um debate ampliado, que ganhasse as escolas, as ruas, as mesas de bares, os encontros de jovens... Estas coisas que geralmente se espera quando lançamos uma ideia própria, que consideramos nova e que imaginamos mudar o mundo. Isto não ocorreu. E hoje, duas décadas depois, é possível que também não aconteça. Mas, independente do tempo, muitos 7


(assim como eu) ainda acreditam numa vida mais justa e menos desigual. E, por isso mesmo, nós todos, que alimentamos o espírito irrequieto dos jovens, ainda sonhamos com a retomada do caminho e a construção dessa nova sociedade. Para efeito didático, o recorte de trechos da edição anterior e a sua rediscussão, podem sugerir ao leitor os passos necessários para uma melhor reflexão sobre o que dissemos no passado e o que analisamos no presente. Dessa forma, desejo, sinceramente que você, leitor ou leitora, não abandone este livro antes de chegar a sua última página. Uma ótima leitura para todos e todas.

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INTRODUÇÃO Como agora, 1993 foi um ano que antecedia a Copa do Mundo. Enquanto o Brasil se preparava para erguer o tetracampeonato mundial no ano seguinte o país assistia, perplexo, à chacina de oito moradores de rua em frente à Igreja da Candelária, no Rio de Janeiro. No mesmo ano, emboscadas, explosões, lançamento de mísseis, armas nucleares e operações militares se espalhavam pelo mundo, numa desenfreada tentativa de demonstração de força e poder. No Brasil, o surgimento da organização criminosa PCC dividiu espaço na mídia com a realização do plebiscito sobre a forma do sistema de governo no país. Resultado: o povo escolheu o presidencialista como melhor forma de organização do estado. Drogas, corrupção e assassinatos ilustravam os noticiários daquele ano. PC Farias e Fernando Collor dominavam as cenas da política. Na música, Banda Beijo, Ultraje a Rigor, Kid Abelha, Skank, Roberta Miranda, Ivan Lins e tantos outros subiam ao palco para encantar os brasileiros. As duplas sertanejas já interpretavam grandes sucessos. Os solos de “Kenny G” eram espalhados pelo mundo ao som de músicas que ainda hoje são escutadas em eventos formais. No violão, Adriana Calcanhoto interpretava “Mentiras”. 9


ano, publicada pelo então governador Joaquim Francisco, garantia o pagamento de meia-entrada para estudantes regularmente matriculados nas escolas de primeiro, segundo e terceiro graus das redes públicas e particulares do estado. Em Escada, os fatos eram corriqueiros. Na política, o prefeito José Mário Leite, eleito pelo PT, enfrentava o descontentamento do partido, que no mesmo ano sugeriu sua desfiliação. Parte do livro “Propondo a construção de uma nova sociedade”, foi pensada, planejada e digitada no Centro de Processamento de Dados da Prefeitura (claro: depois do expediente). Os recursos técnicos eram bem elementares, mas suficientes. O carnaval daquele ano homenageou o artista escadense Cícero Dias. Além destes, outros tantos fatos também marcaram o ano de 1993. Depois de um breve resumo de alguns fatos ocorridos naquele período, pense rápido e responda: o que vivemos no mundo de hoje é muito diferente do que refletíamos duas décadas atrás? Se naquela época o mundo e as pessoas passavam por incertezas, o que dizer na atualidade? Ao discutir a crise global, a educação, a cultura, o papel do estado, o capitalismo, o socialismo, o poder da juventude, a defesa da vida e os desafios que temos pela frente, sugiro que os temas aqui pontuados sejam misturados a outras tantas ideias que preocupam a humanidade, mas que certamente não estão contempladas neste trabalho. Espero que as linhas aqui traçadas sejam capazes de estabelecer um debate próspero, efetivo e objetivo sobre estas e outras questões que, cedo ou tarde, farão parte do nosso ideário.

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“Os modelos não são os mesmos e as referências menos sólidas. As ações são muito mais voltadas para o mundo do interesse capital e consumista do que para a histórica necessidade social e humana”. (página 13)


A CRISE GLOBAL Não restam dúvidas de que um processo de insegurança no mundo vem se agravando a cada dia. Na economia, por exemplo, o tempo é de absoluta instabilidade financeira. Nações poderosas, que a elas jamais se impunham sobressaltos, vivem diariamente inconstâncias econômicas e financeiras que, via de regra, implicam em ajustes que, consequentemente, penalizam a grande maioria da população. Segundo relatório da Associação Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal do Brasil – ANFIP, a recessão atual é diferente das anteriores. Além da dimensão global, a crise destruiu trilhões de dólares em ativos financeiros, afetando empresas e famílias. [...] e os níveis de consumo das famílias somente voltarão à normalidade depois da recuperação dos empregos, da renda, e dos altos níveis de endividamento. 1

O professor J. Carlos de Assis destaca que a crise originouse de um bacanal especulativa nos Estados Unidos e na Europa e os trilhões de dólares emprestados e rolados no mercado virtual revelaram-se impagáveis. Diante da quebra iminente, o Governo norte-americano, isto é, o Tesouro e o FED 2 intervieram no mercado para salvar os bancos ilíquidos. A crise financeira privada migrou para a Europa, forçando os governos locais a também intervirem para salvar os bancos. Aqui não reside a dúvida de que as corporações financeiras, 13


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para salvar a “pele e os ossos” não pensarão duas vezes antes de se aliarem para não perderem seu capital. Ao povo restaria apenas assistir. 3 Relatório da Organização Internacional do Trabalho (2013) alerta: o fosso entre ricos e pobres na maioria dos países de baixa e média renda continua a ser grande. Muitas famílias que conseguiram elevar-se acima da linha de pobreza estão em risco de voltar à situação anterior.

E mais: as desigualdades de renda aumentaram entre 2010 e 2011 em 14 das 26 economias avançadas pesquisadas, incluindo a França, Dinamarca, Espanha e Estados Unidos. Os níveis de desigualdade em sete dos restantes 12 países foram ainda maiores do que antes do início da crise.

Poderíamos aqui relembrar dezenas e até centenas de fragmentos de textos que questionam as boas intenções da “mão invisível” do mercado. Mas não o faremos. Não é o objetivo principal deste trabalho. É antes, a tentativa de colocar à mesa os tópicos de uma discussão que, sabemos, será bem longa. As variáveis que conduziram o mundo a esta situação são inúmeras. Aqui se entrelaçam questões políticas, sociais, econômicas, culturais e outras mais. Não há um erro isolado ou um culpado específico. Há muitos erros e muitos culpados. E este não é um problema de bairro, cidade, estado ou nação. A crise é global. Na política, por exemplo, apenas uma afirmativa parece óbvia: os padrões são os mesmos. Pessoas de todos os países, agregados em vários partidos, alguns com intenções positivas e outros com interesses absolutamente criminosos, se engalfinham em disputas que, na maioria das vezes, tem como pano de 14


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fundo a conquista do poder. Não estou fazendo (de maneira alguma) apologia ao fim dos partidos ou instituições políticas. Até porque sou filiado ao Partido dos Trabalhadores desde 1991 e não me arrependo disso. E tenho ciência de que qualquer partido é “meio” e não “fim” em si mesmo. Mas o uso e abuso de siglas partidárias para benefícios de pessoas ou grupos, sobretudo para favorecer o aumento dos seus patrimônios financeiro e político, são evidentes e incalculáveis. Neste caso, a autoridade política supera os interesses da população e do seu território. É certo que as agremiações partidárias e a própria política nasceram dessa necessidade de convergir pensamentos – e assim divergir dos demais grupos – para estabelecer o que nos meios chamamos de “hegemonia”4. Ou seja, a prevalência do pensamento da maioria sobre a chamada minoria. Essa disputa, que teoricamente, buscaria o bem comum, praticamente estabelece uma peleja que alcança as raias da inimizade e do recorrente confronto entre os pares. Isso acontece porque os conceitos deixam de ser solidários e a disputa passa a ser pela imposição das ideias de cada grupo. Por consequência, o conflito cega e o bem comum passa a figurar em segundo plano. Mészáros, ao refletir o poder do Estado, em seu livro “Para 5 Além do Capital” , relembra escrito de Marx Quanto mais poderoso é o Estado e, portanto, quanto mais político é um país, tanto menos está disposto a procurar no princípio do Estado, portanto no atual ordenamento da sociedade, do qual o Estado é a expressão ativa, autoconsciente e oficial, o fundamento dos males sociais e compreender-lhes o princípio geral. O intelecto político é político exatamente na medida em que pensa dentro dos limites da política. Quanto mais agudo ele é, quanto mais vivo,

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tanto menos é capaz de compreender os males sociais.

Na economia, talvez a tecnologia seja a experiência mais alterada nestes vinte anos. A velocidade com que são modificados os passos na criação e recriação do sofisticado universo dos aparelhos tecnológicos é inacreditável. E a julgar pelos novos artefatos em projetos, a velocidade conduzirá a sociedade para uma situação ainda mais instável. Celulares, smartphones, i-phone, ipad, notebooks, ultrabooks, tablets, são alguns dos elementos incorporados ao nosso cotidiano que compõem esse complexo processo de instabilidade e inconstância econômica. Segundo análise de alguns futuristas, que apostam na tecnologia para o futuro, em 2020 haverá mais dispositivos eletrônicos do que pessoas conectadas; a transferência de dados será 44 vezes maior do que hoje; e a velocidade da banda largar aumentará 20 vezes. Em 2030, um disco rígido será capaz de armazenar 600 anos de vídeo com qualidade de DVD, tocando sem parar; a velocidade do processamento dos computadores será a mesma do cérebro humano e a velocidade de conexão nas residências poderá chegar a 100Gbps. Do lado social, o que se vislumbra é uma batalha desigual pela sobrevivência. Espera-se um aumento significativo da população mundial, sobretudo na Ásia e África. A expectativa é que a população do planeta passe de 8,3 bilhões em 2030 para 9 bilhões 6 em 2050 . Em texto publicado no final de maio, pela Revista Carta Mai7 or , o diagnóstico não parece ser tão próspero: A fome está de volta numa sociedade que imaginava tê-la erradicado com a exuberância da política agrícola do pós-guerra, associada à rede de proteção do Estado social. [...] Que meio milhão de

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pessoas passem fome no coração financeiro da Europa, como informa o correspondente em Londres, Marcelo Justo, nesta pág, deveria ser suficiente para afastar as ilusões na 'solução ortodoxa' para a crise sistêmica do capitalismo desregulado.

A tecnologia, como sabemos, é um processo natural e necessário para a compreensão e intervenção no mundo em que vivemos. A partir dela, é possível comemorar os avanços na medicina, na indústria, na agricultura e na educação. A internet é um dos veículos mais incríveis de comunicação criados neste século. A descoberta de alternativas ao petróleo, a previsão de catástrofes ou até mesmo a recuperação de nações a partir da tecnologia é um exemplo claro de que tal fenômeno é indispensável à humanidade. Tem sido assim desde o início dos tempos. Mas a essência da vida não é a tecnologia. Ela é apenas um meio; um elemento. A vida e os seres que nela existem são mais importantes que qualquer veículo de última geração. São os seres humanos a condição de existência do cristianismo e não os milhões de aparelhos celulares que motivam a competição no mundo do mercado. Refletindo sobre a “Nova Natureza do Processo Tecnológico”, Leonardo Boff, no livro Civilização Planetária8 evidencia um dos fatores que contribuem para o fortalecimento das contradições: O aparelho produtivo informatizado e robotizado produz mais e melhor e com quase nenhum trabalho humano. A produção excede as necessidades dos países ricos. Desfez-se a conexão produção versus necessidade. A questão é nunca deixar de produzir cada vez mais. Em razão desta lógica devem-se suscitar, mesmo artificialmente, necessidades para satisfazê-las mediante uma maior produção.

Esse paradoxo estabelecido entre o grande desenvolvimen 17


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to das “coisas” e a persistência do descaso com as condições humanas têm gerado a “queima” de neurônios de muitos, sejam acadêmicos ou sábios do senso comum. E as respostas se difundem. Muitas delas são desprovidas de objetividade. Seria prudente, diante deste paradoxo, refletir sobre as vias do comando: somos nós que estamos dominando a tecnologia e tornando-a parte comum do nosso dia a dia, ou seremos nós comandados pelo mundo dos bits, de forma suave, a ponto dela se tornar indispensável em nossas vidas? Estamos remando ou sendo levadas pelas “belas” ondas da modernidade? Em meio à duvida, a humanidade segue na trilha do consumo, obedecendo as regras impostas pelos grupos econômicos. É certo, no entanto, que parte da sociedade já se mostra descontente com essa lógica e alguns reagem à obediência cega. Muitas vezes as reações beiram à agressividade inexplicável. Aqui no Brasil, por exemplo, durante a releitura e rediscussão desse trabalho, um movimento, que teve início em São Paulo, pela redução das passagens de ônibus coletivo, ampliou-se de forma tão excepcional que gerou debate dos mais variados. 9 Pablo Villaça , em seu texto postado em 15 de junho, deixou bem claro que os gritos do povo brasileiro foram além da revolta contra o aumento de R$ 0,20 centavos nas passagens do transporte coletivo na capital paulista. As mobilizações ganharam as ruas de todo país, num exercício claro da democracia. No entanto, ele pondera a “dispersão dos objetivos”: Assim, puxei papo com vários jovens e observei atentamente os cartazes que carregavam: 'Pela humanização das prostitutas!', 'O corpo é meu! Legalizem o aborto!', 'Fora, Lacerda!', 'Viva o casamento gay!', 'Passe Livre já!', “Passagem a 2,80 é assalto!”, “Pelo fim da PM no Brasil!”, “Cadê a Dilma da guerrilha?”, “Fuck you, PSTU!”, “Aécio NEVER!”, “Não à Copa no Brasil!”

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Em artigo publicado em 28 de junho10, Frei Betto, escritor, autor de grandes exemplares brasileiros como “A Mosca Azul – reflexão sobre o poder” e “Batismo de Sangue”, destacou que as autoridades estavam desafiadas a “deixarem a torre de marfim, largarem os binóculos centrados nas eleições de 2014 e pisarem na realidade”. E conclui: O óbvio, entretanto, é a falta de esperança desses jovens que carecem de utopias e, quando não se refugiam nas drogas, não sabem ainda como transformar sua indignação e revolta em propostas e programas políticos.

Os objetivos de toda mobilização não podem e não devem ser balizados apenas por estes poucos fragmentos aqui citados. Mas estas considerações devem fazer parte de nossa reflexão sobre os passos que estão sendo dados na busca do ideário popular: Relembremos: “Os acontecimentos por mais contestáveis que possam ser, são consequências lógicas de fatos precedentes. Na verdade, o que acontece em nosso meio, nos bairros, nas periferias, nos mais distantes interiores, bem como nos grandes centros urbanos do nosso país, e atualmente no mundo inteiro, está intrinsecamente ligado pelos mais diversos fatores”. (página 13) O Papa Francisco, durante entrevista a uma emissora de TV 11, criticando a idolatria do dinheiro no mundo atual destacou os idosos e jovens como dois extremos que separam o pensamento central do mundo capitalista desumano. Dada a sua profundidade e sensibilidade, faço questão de 19


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traduzir os termos dessa conversa. Quando reina no mundo a feroz idolatria do dinheiro, se concentra muito no centro, e as pontas da sociedade, os extremos, são mal atendidos, não são cuidados, são descartados. Até agora vimos claramente como se descartam os idosos. Há toda uma filosofia para descartar os idosos. Não servem. Não produzem. Os jovens também não produzem muito. É uma carga que precisa ser formada. O que estamos vendo agora é que esta ponta, a dos jovens, está em vias de ser descartada. O alto percentual de desemprego entre os jovens na Europa é alarmante. Não vou enumerar os países da Europa, mas vou citar dois exemplos de dois países da Europa com problemas sérios de desemprego. Um tem um índice de desemprego de 25%. Mas nesse país, o índice de desemprego juvenil é de 43% a 44%. (...) Outro país tem um índice de 30 pontos percentuais de desemprego geral, enquanto o desemprego entre os jovens já passou de 50%. Nós vemos um fenômeno de jovens descartados, então para sustentar esse modelo político mundial, estamos descartando os extremos, curiosamente, os que são promessa para o futuro, porque o futuro quem nos vai dar são os jovens, que seguirão adiante, e os idosos que precisam transferir sabedoria aos jovens. Descartando ambos, o mundo desaba.

Notem que o que dissemos há vinte anos nos coloca diante do óbvio: estamos vivendo e assistindo às consequências das nossas atitudes. Interferir ou não é decisão de cada um. E se a decisão é interferir, que seja por completo e não apenas por um ato.

Será uma questão de natureza? O conceito de sistema, seja ele de qualquer natureza, é algo complexo, que exige dedicação quase que exclusiva no pensar e 20


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no agir. Em certos casos, estes projetos incluem variáreis que estão muito além de nossa capacidade racional. Podem envolver, por exemplo, a natureza humana. Vou tentar ser mais objetivo: será que no mundo persiste a desigualdade, que divide milenarmente as classes sociais entre pobres e ricos, porque é uma questão da natureza humana? Será que a atitude de “passar por cima do outro” é impossível de ser separada da nossa natureza? É possível que estas perguntas e suas respostas escorram para o mundo da filosofia, o que nos levaria a um aprofundamento demasiado desta questão. Mas, repito, não é nosso objetivo agora. Mas refletir sobre estes e outros temas acredito ser fundamental. Se descobrir os culpados pela crise atual é tarefa dificílima e, quem sabe, quase impossível, talvez o diálogo mantido por Paulo Freire com alunos camponeses12 possa nos ajudar a descobrir de quem não é a culpa pelos problemas atuais. Depois de um breve e importantíssimo jogo de perguntas e respostas com seus alunos do EJA, que embora terminado com empate, os camponeses ainda se viam menores em conhecimento do que o professor. Paulo Freire perguntara, estrategicamente: ‒ Por que eu sei e vocês não sabem? ‒ O senhor sabe porque é doutor. Nós, não. ‒ Exato, eu sou doutor. Vocês não. Mas, por que eu sou doutor e vocês não? ‒ Porque Foi à escola, tem leitura, tem estudo e nós, não. ‒ E por que fui à escola? ‒ Porque seu pai pôde mandar o senhor à escola. O nosso, não. ‒ E por que os pais de vocês não puderam mandar vocês à escola? ‒ Porque eram camponeses como nós. ‒ E o que é ser camponês? ‒ É não ter educação, posses, trabalhar de sol a sol sem direitos, sem esperança de um dia melhor. 21


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‒ E por que ao camponês falta tudo isso? ‒ Porque Deus quer. ‒ E quem é Deus? ‒ É o pai de nós todos. ‒ E quem é pai nesta reunião?

Olhando o grupo atentamente, Paulo Freire perguntou a um dos camponeses: ‒ Quantos filhos você tem? ‒ Três.

Nesse exato momento, o diálogo esperava apenas a última pergunta do professor que vai revelar para aqueles camponeses – e agora para nós – o que muitos ainda não foram capazes de entender. ‒ Você seria capaz de sacrificar dois deles, submetendo-os a sofrimento para que o terceiro estudasse, com vida boa, no Recife? Você seria capaz de amar assim? ‒ Não. ‒ Se você, homem de carne e osso, não é capaz de fazer uma injustiça desta, como é possível entender que Deus o faça? Será mesmo que Deus é um fazedor dessas coisas?

Conclusão: ‒ Não. Não é Deus o fazedor disso tudo. É o patrão! Pelo transcorrer desse diálogo me parece bastante claro que o discurso de atribuir a Deus a culpa por muitos dos males é absolutamente utilizado para legitimar as injustiças e, assim sendo, quem o fizer, ainda que inconscientemente, tende a conduzir as pessoas para o desânimo, à aceitação passiva das desigualdades e, consequentemente, descrente no futuro.

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É preciso, portanto, evidenciar que não haverá mudanças nas relações atuais se predominar este desencanto com um mundo melhor.

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“A empolgada retórica constitucional de que “o poder emana do povo” (apesar da importância histórica da tese), reduz a participação da comunidade brasileira ao simples (embora importante) exercício da democracia representativa (só é útil em tempo de voto)”. (página 22)


O PODER NASCE DO POVO A Constituição Federal de 1988, já revisada em vários dos seus artigos, estabelece logo em seu preâmbulo que é responsabilidade do Estado [...] assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida, na ordem interna e internacional, com a solução pacífica das controvérsias [...]

Aqui fica evidente que qualquer cidadão ou cidadã tem direito a todos os serviços oferecidos pelo Estado. Portanto, esta é uma garantia constitucional. Dessa forma a União, os Estados e os Municípios têm o dever, garantido em lei, de preservar a integridade do cidadão. Teoricamente isto parece perfeito. No entanto, na vida real, as questões são bem muito mais distintas. Pela falta de formação técnica na área jurídica, não me debruçarei sobre as especificidades do direito. Usarei apenas o poder cidadão para refletir alguns dos principais questionamentos feitos pela comunidade. O papel do Estado na nova sociedade Escrevi que, com o passar dos anos 27


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“o Estado começou a ser cultuado como o principal determinante do modo de vida do povo, e não mais como um instrumento responsável pela organização deste. O Estado não mais apresenta-se como subordinado aos cidadãos da pátria, mas estes é que são manipulados por aquele”. (página 22) “o Estado só será um instrumento de partilha, de melhor estruturação da sociedade, preservando e mantendo os direitos individuais e coletivos, desde que, nele, o poder político esteja compromissado com tais princípios básicos”. (página 22) “Todas as instâncias organizativas precisam cada vez mais descentralizar as decisões e eliminar as estruturas piramidais que formam a hierarquia da obediência. Tudo isto é parte de um conceito dominador”. (página 40) Se analisarmos os governos nos últimos anos perceberemos que a lógica comum é o Estado impor à sociedade os seus planejamentos. Ao povo cabe seguir as regras. Como o poder é representativo, então fica justificada as imposições de projetos que na maioria das vezes não seria a prioridade da população. A regra pode até funcionar quando o gestor tem “boas intenções”. No entanto, sem a fiscalização dos principais interessados, as reais intenções manipuladoras, porém maquiadas, encontram o espaço propício para seu o fortalecimento. Creio que este pode ter sido um dos motivos que gerou a revolta de parcela dos jovens brasileiros que ousaram sair às ruas. Como dissemos, o Estado pode e deve ser instrumento fundamental e indispensável nesse processo de construção de uma 28


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nova realidade social. Infelizmente, sobre ele resistem inúmeros gargalos que precisam ser discutidos e corrigidos com a interversão da sociedade. Corporativismo, falta de atenção às pessoas, concepção privada e não pública dos serviços, cultura da corrupção e tramas políticas são algumas das práticas que maculam a relação entre o Estado e as pessoas. No que se refere às lutas corporativas, notamos os sindicatos sem projetos claros de gestão. O único foco ainda é a remuneração, as horas extras, os adicionais dos servidores. Depois de mais de vinte anos de luta sindical, as discussões entre os servidores não avançaram nas questões sociais. Parte deles é insensível ao sofrimento de toda sociedade. O importante é receber o salário a cada final do mês. Foi isso o que dissemos há vinte anos. “Talvez, da mesma forma como no passado, a base da sustentação organizativa da sociedade atual seja muito mais a necessidade do que a consciência. Não é a convicção dos ideais revolucionários e transformadores que movimenta a sociedade para a integração dos quadros organizativos, mas a necessidade de buscar a melhoria de vida e a defesa de suas sobrevivências”. (página 28) Em destaque, reafirmo o que escrevi naquele ano: “o movimento sindical precisa entender que, sendo um dos poucos segmentos organizados, de representatividade nacional, tem a possibilidade de propor o início de uma discussão que saia dos moldes fixos das campanhas salariais e dos limites corporativos, e alcance os gritos, muitas vezes silenciados, dos miseráveis deste pais”. (página 23)

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A corrupção beira o absurdo nas instâncias públicas. Tráfico de influência, desvio de merenda, protecionismo, abuso de poder, peculato, propinas, falsificação de documentos, licitações combinadas e tantas outras práticas corruptoras são atitudes presentes no serviço público. E tudo isso não tem origem entre os servidores, mas, principalmente, a partir de quem governa. Mais da metade da população mundial considera que a corrupção se agravou nos últimos dois anos e que os partidos e governos possuem grande parte da culpa neste aspecto, apontou uma pesquisa da ONG Transparência Internacional (TI) divulgada recentemente. Em uma escala de um a cinco - de "não é um problema em absoluto" a "é um problema muito sério"- a corrupção obteve uma pontuação média de 4,1, segundo o oitavo Barômetro Global da Corrupção da TI, que entrevistou 114 mil pesso13 as de 107 países . Como dissemos, repetimos: “não podemos continuar aceitando o direcionamento de nossas vidas por alguns poucos, autoconceituados de responsáveis pelo poder político. Toda a sociedade precisa tomar parte diretamente nas organizações institucionais”. (página 26) Uma das premissas essenciais na mudança de postura de gestão, que saia dos moldes impostos pelo capitalismo, é a chegada ao poder de uma nova ordem, desta vez, participativa. Sem a efetiva conquista deste espaço de valor político estrutural, as ideias alternativas terão muitas dificuldades de serem implantadas. Não entendo aqui a estrutura do poder como espaço legitimador das desigualdades nem como embrião das tramas políticas sórdidas. Vejo, sim, que as instituições existentes são caras à sociedade

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e à democracia. Por isso devem ser preservadas. Mas esta manutenção deve enquadrar como crime hediondo qualquer forma de corrupção, seja ela ativa ou passiva. No entanto, para que isso aconteça, estas instituições precisam garantir o quanto antes a ampliação do controle social. Istivam Mésáros, no seu livro “Para Além do Capital”, ao tratar da necessidade do controle social14 afirma que A política é transformada em mero instrumento de grosseira manipulação completamente desprovida de qualquer plano global e de uma finalidade própria.

Lá em 1993, dissemos que um dos grandes desafios para a construção da nova sociedade seria “entender que por trás da política está o real interesse das elites de se perpetuarem no direcionamento das nações. E esta manipulação toma corpo através, evidentemente, das instituições existentes no país”. Algo bem parecido com o que dissera Mésáros, mas sem a pretensão de chegarmos ao topo do conhecimento científico que ele detém. Na contramão da luta contra os males da política, parece existir no seio da sociedade atual um misto de desejo de moralização da coisa pública e, ao mesmo tempo, a vontade de se “dar bem” e ganhar as coisas sem muito esforço. Este ambiente é literalmente perfeito e favorável á corrupção. Além disso, dissemos também: “nenhum conceito na sociedade atual, torna-se livre das investidas do processo manipulador. E, assim sendo, nossa imediata conclusão é que a política passou a ser um tipo de poder indispensável na extensão do domínio”. (página 21) “este é o grande desafio: entender que por trás da política está o real interesse das elites de se perpetu31


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toma corpo através, evidentemente, das instituições existentes no país”. (página 21) As administrações públicas podem e devem se transformar em exemplo de ações democráticas e participativas que conduzam a sociedade ao reconhecimento de uma prática verdadeiramente socialista. Para isso são necessárias: vontade política, sensibilidade social e competência técnica para implantar as ações essenciais a esta nova sociedade. Por isso, dissemos que “a alternativa a esta lógica incontestável é outra lógica ainda mais evidente: ou estamos dispostos a combater a desorganização, assumindo o papel de agentes transformadores, ou sentemo-nos cada um de nós no aconchegado comodismo, congelando em nossa consciência as fases inúteis do nosso aprendizado”. (página 61) “Sem dúvida alguma, vencer o medo e os conflitos interiores é decisivamente importante no querer mudar o coletivo. Porém, vencidos os confrontos individuais, apresenta-se o segundo desafio, tão importante quanto o primeiro: unir as ideias de transformação num só conjunto estratégico, buscando definir os objetivos coletivos em táticas e processos de organização, necessários no confronto com aqueles que resolveram conservar os elencos dominadores”. (página 61) A participação das pessoas no poder O primeiro LP lançado pelo cantor pernambucano Nando Cordel, que tive a honra de escutá-lo ao lado do padre Geraldo Leite 32


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Bastos, padrinho do cantor, tem uma música que, não raro, utilizo em conversas e reflexões sobre a importância do poder popular. A letra diz: Se o boi soubesse da força que tem Não puxava carroça E a abelha da dor da picada Não roubavam seu mel

Ao tempo em que a música alegra nossos ouvidos, em estilo genuinamente pernambucano, ela destaca a importância da força que o povo tem, mas que não percebe ou, se percebe, não a exerce. Talvez se, ao invés de música, a letra fosse revelada enquanto poesia, o sentimento implícito na obra do autor fosse mais valorizado. Mais compreendido. Mais adiante, o pernambucano revela parte do seu sonho: Como era bom que toda semente crescesse E a razão pudesse sempre dominar E essa paz fosse que nem uma criança Andasse solta feito a noite de luar. Se na inveja colocasse um cabresto Na ambição colocasse um cortador Na violência uma espora amolada Deixasse a rédea solta na mão do amor.

Ouso, inclusive, arriscar que a “razão” proposta pelo autor não se refere à frieza dos cálculos tão alimentados pelos capitalistas. Mas sugere não ser racional a convivência passiva com tantas desigualdades no mundo. É pena que as ideias contidas nesta melodia não façam sucesso nas rádios nem nos corações de muitas pessoas. Esta música, certamente ficou enterrada no tempo e na mente de alguns. Contra esse sonho, persistem milhões de brasileiros e 33


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pendente dessa onda pessimista, ainda sobrevivam milhões de “surfistas da esperança”.

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“Há que se ressaltar claramente a importância que possuem os educadores, tanto no aspecto de repassar didaticamente aqueles ensinamentos tão necessários ao meio social, mas, sobretudo, de construir junto com ele um relacionamento harmonioso, que promova idealizar para a convivência coletiva o respeito ao ser humano”. (página 59)


A SOLUÇÃO ESTÁ NA EDUCAÇÃO? Esclarecimentos iniciais Em 1993 a responsabilidade de escrever sobre educação foi assumida pelo amigo Sebastião Ferreira de Araujo (Tão). Naquela época, Tão já era solidário com a indignação de muitos brasileiros com o sistema educacional vigente e sua vocação para os caminhos da educação era bem mais evidente que a minha. Eu trabalhava como datilógrafo na Prefeitura Municipal de Escada e não tinha (confesso) a menor pretensão de me enveredar pelos caminhos do magistério. Essa história mudou, seis meses depois do lançamento do livro, quando fui convocado para o cargo de professor de matemática, depois de aprovação em concurso público. A partir dali, tinha a chance de por em prática o discurso escrito recentemente naquela parceria. Hoje, o exercício do magistério por quase vinte anos me dá a certeza de que a educação é ponto nevrálgico na construção de uma sociedade diferente. Vinte anos depois daquele encontro, entendo que a rediscussão dos conceitos e das ideias que compõem a educação, esse complexo sistema de formação das pessoas, seja algo necessário e inadiável. Repensar nossas práticas pedagógicas O acervo disponível para os que desejam entender um pouco mais do processo educacional no Brasil é vasto. Os conteúdos 37


Outras Atitudes

produzidos pelos maiores escritores da área compõem uma bibliografia que garante o devido equilíbrio entre quantidade e qualidade. Mas não seremos extensos. Comecemos pelo relato da U N E S C O no documento 15 “Abrindo Espaços: Educação e Cultura para a Paz” . Refletindo sobre a condição humana, o relatório considera que o ser humano é a um só tempo físico, biológico, psíquico, cultural, social e histórico. Esta unidade complexa é tratada pela educação de forma desintegrada por intermédio das disciplinas. A educação deve fazer com que cada um tome conhecimento de sua identidade comum a todos os outros humanos. Assim, a condição humana deveria ser o objeto essencial de todo o ensino. É preciso reunir os conhecimentos dispersos nas ciências da natureza, nas ciências humanas, na literatura e na filosofia para se obter uma visão integrada da condição humana.

Paulo Freire, descrevendo sobre a Pedagogia da Esperança, nos diz que a “esperança é necessária, mas não é suficiente. Ela, só, não ganha a luta. Mas sem ela a luta fraqueja e titubeia”. Ainda sobre a esperança, o educador é mais incisivo com relação aos professores: Uma das tarefas do educador ou educadora progressiva, através da analise política, séria e correta, é desvelar as possibilidades, não importam os obstáculos, para a esperança, sem a qual pouco podemos fazer.

Infelizmente, muitos educadores estão descrentes. Uma das práticas mais comuns entre professores durante o horário do intervalo é trocar informações sobre experiências vividas em suas salas de aula. Nas conversas, é prática constante reforçar, de forma banalizada, a teoria de que “os alunos não querem nada”. Aqui o erro é meramente unilateral. Não existe coresponsabilidade. Geralmente os professores e a escola não se sentem cul 38


Estará na educação a nossa esperança?

pados nesse processo. A culpa, sim, é dos alunos que aos 12, 13 ou 14 anos deveriam ficar quietos enquanto o mestre revela os conteúdos programáticos. O ser humano (o aluno, é claro), por este prisma, não é reconhecido como “um só tempo físico, biológico, psíquico, cultural, social e histórico”, que mistura e sobrevive com seus conflitos. É visto em separado como desinteressado e absolutamente irresponsável com o seu tempo. As sentenças são, quase sempre, generalizadas no imaginário destes professores que tendem a se sentir desestimulados e a não buscar caminhos didáticos alternativos. Como, em linha geral, os alunos nada querem e as coisas já estão definidas, por que perder tempo com preparação de aulas e uso de recursos diferenciados? Mário Sergio Cortella em palestra intitulada “Não nascemos 16 prontos” faz uma comparação simples, porém de profundidade filosófica, que me obriga aqui destacar. Cortella define como bobagem a afirmação de que “uma pessoa quanto mais ela vive, mais velha ela fica”. Para ele, este conceito vale para objetos como fogão, sapato, geladeira, que nascem prontos e vão se gastando. E ele expõe a contradição: Para que alguém quanto mais vivesse, mais velho ficasse, teria que ter nascido pronto e ir se gastando. Gente nasce não pronta e vai se fazendo.

Note que no caso dos professores durante o intervalo não há uma autocrítica sobre o que provoca o desestímulo do aluno em sala. Há apenas uma via de mão única em que a culpa recai, constantemente, sobre o lado mais fraco: o aluno. Mas essa prática é clássica. Vamos relembrar Raul Seixas na música “Por quem os sinos dobram”. Ele escreve:

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É sempre mais fácil achar que a culpa é do outro Evita o aperto de mão de um possível aliado, é... Convence as paredes do quarto, e dorme tranquilo Sabendo no fundo do peito que não era nada daquilo.

Assistindo ao programa Café Filosófico, mediado também por Cortella, uma pergunta me deixou curioso: “por que uma aula dura 50 minutos”? Confesso que nunca havia pensado nisso. Logo em seguida veio a resposta: no início do século XX a psicologia fez um estudo na área de educação e descobriu que este seria o tempo médio de concentração de uma criança sem perder a atenção. Estudo refeito recentemente indica que hoje em dia, a capacidade de atenção de uma criança, sem perder o foco, é de seis minutos. Segundo Cortella, o tempo de apresentação de um desenho animado na televisão, por exemplo, acompanha essa lógica. E então: como garantir a atenção de uma criança ou adolescentes, durante duas aulas de 50 minutos se o tempo de atenção dela, numa sociedade impaciente como a nossa, é de apenas 6 minutos? Eis aqui um grande desafio que precisa de resposta. E as respostas devem surgir acompanhadas de ações objetivas. Não há como alterar os atuais caminhos da educação se todos não estiverem dispostos a reconhecer, humildemente, que erram. Todos, indistintamente. Talvez esta seja uma premissa reveladora para quem, de fato, quer mudar sua pratica pedagógica. A partir desse primeiro e difícil passo, temos a segunda barreira: assumindo nossas deficiências e incapacidades, precisamos nos entregar a um novo processo de aprendizado. Desta vez com olhar perceptivo de que o aluno não é estabelecido em pedaços. Como já citamos, “o ser humano é a um só tempo físico, biológico, psíquico, cultural, social e histórico” e é dessa forma que 40


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deve ser educado. Nos últimos anos, por exigência do “mercado” e dos interesses do mundo capitalista, ganha força o conceito de que os alunos devem ter uma formação técnica, qualificada, eficiente, competente. Mas o que é uma educação com estas qualidades? Temos vários exemplos de pessoas que são “tecnicamente” qualificadas, mas sem qualquer sensibilidade com a natureza, por exemplo. Pessoas contratadas por empresas, com saber técnico reconhecido, apenas para expandir os lucros inerentes ao capitalismo. Existem pessoas capazes de proferir de forma belíssima uma palestra sobre a humanidade, mas são incapazes de abraçar um dos seus ouvintes. Neste caso, a formação técnica não o fez uma pessoa melhor. Ou seja, a formação de um aluno hipoteticamente completo precisaria do equilíbrio entre sua aprendizagem técnica e sua formação pessoal. E depois, como avaliar este aluno? Dissemos naquele ano que “a sociedade atual sendo responsável pela formação e educação da sociedade futura, construirá ainda mais desequilíbrios em cada elemento e no meio coletivo, se utilizarem das mesmas técnicas formadoras do seu passado”. (página 61) Nosso objetivo naquele momento era afirmar que para a construção de uma nova prática pedagógica seria necessário se desfazer daquilo que impede essa nova construção. Preconceitos, falta de humildade, soberba, orgulho e apego material são elementos que precisam ser separados em um novo ideário formador. Desfeitos, minimamente, estes laços, que impedem o avanço 41


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de uma atuação educadora alternativa, nasce agora o compromisso com o conhecimento. Todos os professores precisam entender que o mundo caminha em descompasso com a vivência escolar. Todas as vezes que converso com professores sobre recursos tecnológicos nas escolas, não raro eles ou elas afirmam que em suas casas, os filhos e filhas já dominam o celular e o controle remoto de forma mais fácil e tranquila do que os paisprofessores. Existem professores que recorrem frequentemente à ajuda de terceiros para receber os seus salários nos caixas eletrônicos. Alguns ainda não dominam os passos e as informações interativas destas máquinas. O problema é que esse processo trava, se fixa no diagnóstico, sem criar o próximo passo: a alternativa. Se existe o problema, o professor deve buscar solucioná-lo e não entregá-lo para que outras pessoas o resolva. Se o professor se limitar ao diagnóstico ele já perdeu o poder desafiador, fundamental no processo ensino aprendizagem. Entre os anos 2003 e 2004 participei simultaneamente de dois cursos de especialização. Um pela Universidade Federal de Pernambuco, direcionado ao processo de Avaliação Matemática e outro de Educação Matemática, pela Faculdade de Vitória de Santo Antão – FAINTVISA. Nos dois trabalhos, o foco estabelecido para a análise era a capacidade dos professores e das escolas públicas em lhe dar com as tecnologias educacionais. A hipótese era de que os professores naquele ano não tinham a formação necessária para o uso de recursos tecnológicos na educação e muito menos para a avaliação dos seus alunos. Tanto no que se refere à identificação pessoal com estas tecnologias quanto ao uso delas em suas respectivas salas de aula. 42


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A hipótese foi confirmada. No entanto, para além dos diagnósticos, precisamos pensar no que fazer para mudar este quadro. A educação como engrenagem do capital Dentro dos padrões estabelecidos pelo capitalismo para o aumento da produção, o Brasil tem avançado significativamente nos últimos anos. Com o objetivo de não se afundar dentro da própria crise mantida pelo mundo capitalista, há uma frequente adesão dos países à lógica de crescimento, pois, caso não entre nesta ciranda, condenará sua nação à derrocada. Em alguns casos (senão em todos) as receitas fornecidas pelos órgãos financeiros internacionais já estão prontas. Todas elas ajustadas às necessidades estabelecidas pelo mundo capital. O que se vê, por exemplo, em Pernambuco nos últimos anos é um crescimento significativo da oferta de mão de obra, sobretudo na indústria e na construção civil. Isso demanda um discurso de desenvolvimento que contagia grande massa de jovens, todos ávidos por sobreviverem de sua própria renda. Por falta de qualificação e formação profissional, muitos destes jovens não conseguem uma vaga nos empregos disponíveis e, para impedir a marginalidade e adequar essa mão de obra às exigências do mercado, as escolas, por sua vez, se veem condicionadas a criar espaço sde qualificação técnica e profissional. O discurso se encaixa de forma surpreendente e inquestionável. É exatamente nas entrelinhas desse processo que as coisas acontecem. Sem perceber, a escola garante, não só a sobrevivência do capital, mas se transforma em peça chave nesse processo de dominação. O simples acesso de qualquer cidadão à escola não é elemento suficiente para torná-lo livre e emancipado. No máximo poderemos afirmar que ele terá acesso a uma parte do conhecimento. 43


Outras Atitudes

Mas o grande desafio é torná-lo cidadão do mundo, capaz de se apropriar dos elementos que nele existem, não como objetos para seu uso, mas como parte de sua vida. No livro “A Educação para Além do Capital”, István Mészáros estabelece: A educação institucionalizada, especialmente nos últimos 150 anos, serviu – no seu todo – ao propósito de não só fornecer os conhecimentos e o pessoal necessário a máquina produtiva em expansão do sistema do capital, como também gerar e transmitir um quadro de valores que legitima os interesses dominantes.

Ao fixar seus objetivos no acesso ao trabalho, a escola possibilita o ingresso destas pessoas no mercado – uma necessidade do capital – mas não pode garantir que estes mesmos cidadãos sejam pessoas conscientes da importância da harmonia entre os seus semelhantes. E não se trata apenas do humano, mas de todos os seres vivos do planeta. Muitos destes trabalhadores e trabalhadoras, de posse do dinheiro conseguido pelo benefício do emprego, utilizarão estes recursos para produzir ações que geram menos harmonia no seio da sociedade. Consumo de drogas, exploração sexual de menores, homofobia, preconceito racial e falta de ética com seus semelhantes são algumas destas atitudes nefastas. Relatório de Desenvolvimento Humano, produzido no Brasil pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento – Pnud entre os anos 2009/2010, aponta diretrizes e ações para a melhoria na qualidade da educação. Segundo o relatório, Os mecanismos pelos quais esse processo se desenvolve passam por maior engajamento moral de pais, professores e diretores; obrigam que a escola seja repensada como espaço de convivência; e estimulam a formação de valores públicos e de vida que façam da experiência escolar não somente um mecanismo para a criação de 44


Estará na educação a nossa esperança?

oportunidades iguais na vida (e portanto, para a justiça social), mas para a realização do que há de melhor no ser humano.17

Ao afirmar isso, o documento não só reconhece que a visão da escola não pode se limitar apenas a garantir o acesso, mas sugere ampliar esse horizonte para entender o ambiente escolar como espaço de formação completa do ser humano. O apelo revolucionário da educação “[...] sem a verdadeira educação de um povo, todo e qualquer ato organizador está condicionado à manipulação por aqueles que detêm o poder”. (página 60) Nenhuma outra instituição tem tanto poder de reunir as pessoas, todos os dias, durante várias horas e dispostas a ouvir e aprender, quanto a educação. O público nas escolas é garantido. O espaço e os meios estão disponíveis. O que falta é acertar o conteúdo e as posturas dentro de toda a diversidade cultural de formação dos professores e dos alunos. E aqui não podemos tratar a educação apenas do ponto de vista de nossa cidade. No mundo atual, em que tudo parece não ter mais fronteiras, a escola e a educação não podem ser pensadas e planejadas apenas com o olhar micro. Esta é uma dimensão importante. Mas ela só não basta. Há que se ampliar nossos horizontes. Precisamos descobrir juntos com os nossos alunos e alunas que a internet, por exemplo, é uma rede virtual, de caráter irreversível, que possibilita o intercâmbio e a partilha das ideias, dos pensamentos e das práticas, de uma maneira nunca vista até então. E cada vez mais esta rede se espalha e cria adeptos, principalmente entre os jovens. Os alunos precisam assimilar a ideia de que a competição deve ceder espaços para a solidariedade, a compreensão, a tole 45


Outras Atitudes

rância, o companheirismo e outros sentimentos capazes de orientá-los na vida a tomar atitudes necessárias ao bem da humanidade. A educação tem esse papel. Pesquisa recente, liderada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – IPEA, indica que 85,2% dos jovens brasileiros, num universo de 11.430 entrevistados, se declararam preocupa18 dos com a educação . Mas isto deve ser feito com um olhar crítico, identificado com a nossa cultura e nossa a realidade. Digo isto porque nesse processo, certamente alguns tentarão, através da imposição disfarçada, empurrar “goela abaixo” as suas vontades. O professor Cristovam Buarque19, atualmente senador da república, fez um discurso em uma universidade dos Estados Unidos, em 2001, que ao lê-lo, pela primeira vez, confesso que chorei. Ele foi questionado sobre a internacionalização da Amazônia. Mas o estudante americano, com o intuito de expô-lo à contradição, pediu que respondesse como humanista e não como brasileiro. A resposta foi fantástica e faço questão de transcrevêla. Se a Amazônia, sob uma ótica humanista deve ser internacionalizada, internacionalizemos também as reservas de petróleo do mundo inteiro. O petróleo é tão importante para o bem estar da humanidade quanto a Amazônia. [...] Da mesma forma, o capital financeiro dos países ricos deveria ser internacionalizado. Se a Amazônia é uma reserva para todos os seres humanos ela não pode ser queimada pela vontade de um dono, ou de um país. Queimar a Amazônia é tão grave quanto o desemprego provocado pelas decisões arbitrárias dos especuladores globais. [...] Antes mesmo da Amazônia, eu gostaria de ver a internacionalização de todos os grandes museus do mundo. O Louvre não deve

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pertencer apenas à França. [...] não se pode deixar que esse patrimônio cultural, como o patrimônio natural Amazônico, possa ser manipulado e destruído pelo gosto de um proprietário ou de um país. [...] Assim como Paris, Veneza, Roma, Londres, Rio de Janeiro, Brasília, Recife, cada cidade, com sua beleza específica, sua história do mundo, deveria pertencer ao mundo inteiro. Internacionalizemos todos os arsenais nucleares dos EUA. Até porque eles já demonstraram que são capazes de usar essas armas, provocando uma destruição milhares de vezes maior do que as lamentáveis queimadas feitas nas florestas do Brasil. Internacionalizemos as crianças, tratando-as, todas elas, não importando o país onde nasceram [...] Quando os dirigentes tratarem as crianças pobres do mundo como um patrimônio da humanidade, eles não deixarão que elas trabalhem quando deveriam estudar; que morram quando deveriam viver.

E finaliza: “Como humanista, aceito defender a internacionalização do mundo. Mas, enquanto o mundo me tratar como brasileiro, lutarei para que a Amazônia seja nossa. Só nossa”.

Perdoem-me a longa transcrição do texto. Mas neste momento de reflexão sobre o olhar crítico na educação que pretendemos difundir com os nossos alunos, acredito que esta leitura só pode nos ajudar. Para Algusto Cury, considerado pela Folha de São Paulo como o autor mais lido da década, afirmou que a educação está doente formando pessoas doentes para uma sociedade doente, porque não refina estes códigos da inteligência [...] infelizmente a educação tornou-se superficializante. Falamos do

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Outras Atitudes

mundo de fora, mas nos calamos sobre o mundo de dentro”20.

Parece-me eloquente a reflexão sugerida por Cury em sua entrevista. Quantas vezes, como educadores, conversamos com nossos alunos sobre questões e problemas que permeiam a vida de cada um deles? Quando sentenciamos que “os alunos nada querem com a vida” e não nos dispomos a pensar curiosamente para descobrir o que está por traz das atitudes, corremos o risco de condenar injustamente. Pré-concebemos e, comodamente, pré-julgamos. Se assim o fazemos, estaremos sendo injustos. E educação para a nova sociedade pressupõe justiça e não o contrário. Certo dia o Padre Fábio de Melo falou sobre “a capacidade de ler nos avessos”. O religioso considera que “a sensibilidade para identificar nos avessos é fundamental para conhecer o lado que se manifesta das coisas”. E completa: “Se eu não fizer a leitura dos avessos daquela situação eu não serei capaz de entendêla”. De certa forma, o que é refletido pelo padre nos põe em alerta quanto aos pré-conceitos que muitos educadores alimentam sobre seus alunos. É preciso olhar o que está por trás (os avessos) da vida de cada aluno. Se isso acontecer, deixamos a visão tecnicista de repassar conteúdos deslocados e passamos para uma postura de educação humanista interagindo com as pessoas. O financiamento da educação Uma questão não abordada no texto de 1993 trata do financiamento público para a educação básica. Dada a amplitude do tema e sua complexidade, gostaria de me deter exclusivamente a algumas questões inerentes ao município de Escada. A justificativa é bastante simples: a partir dessa análise pontual, poderemos identificar, objetivamente, se os erros na execução das finanças repercutem na qualidade da escola e do ensino que temos. 48


Estará na educação a nossa esperança?

hipótese é que esta premissa seja verdadeira. De 1993 a dezembro de 1997, os recursos da educação em todo país eram depositados na conta única das prefeituras, inclusive de Escada. Com a aprovação da Lei n.º 9.424, de 24 de dezembro de 1996, o governo federal instituiu o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério (FUNDEF). Um conjunto de normas que destinavam recursos específicos para a educação fundamental no país. A criação do Fundef possibilitou uma maior interferência da sociedade civil no processo de fiscalização dos recursos. Muitos professores entendiam a nova lei como uma ferramenta mais próxima dos interesses da educação. Alguns sindicatos apostavam na ideia de que tudo não passava de uma manobra política para iludir e legitimar as irregularidades praticadas pelos gestores. Em Escada, o Conselho Municipal do Fundef só foi garantido no início do ano 2000. O trabalho ainda era incipiente e sem muitos efeitos legais. Foi somente a partir de 2004 que as ações começaram a sem bem mais objetivas. A partir das análises de folhas de pagamento, extratos bancários, notas fiscais, contratos, recibos, empenhos, mapas funcionais e outros documentos, os professores começaram a descobrir as primeiras irregularidades. Diversos relatórios foram editados e denunciaram um conjunto significativo de problemas. Dentre eles, destacamos: manipulação irregular nas diversas contas da prefeitura, tentativa de prejudicar os trabalhos do conselho, movimentação de contas sem o devido acompanhamento, falta de transparência com a documentação, pagamento e aquisição de material sem permissão, fracionamento em licitação, contratação e pagamento de servidores temporários de forma irregular, locação de veículos 49


Outras Atitudes

através de empresas fantasmas e outros mais. Todas estas irregularidades só puderam ser verificadas com a participação e acompanhamento da sociedade civil organizada. Não fossem estas brechas criadas para fiscalização, todas estas e outras tantas manobras estariam enterradas. Certamente pouca (ou nenhuma) punição, caberia aos gestores. Sabedores da nova arma social, os gestores trataram imediatamente de cooptar os membros ou garantir maioria em suas escolhas. De fato, a quantidade de conselhos que começam a se formar para fiscalizar todos os recursos públicos, aliada à absoluta falta de formação para neles atuarem e o desinteresse em participar destes órgãos, provocam distorções que na maioria das vezes beneficiam os gestores corruptos. Mas isso não é motivo para negar a participação dos maiores interessados: a sociedade civil organizada. O que cabe agora, especialmente aos sindicatos e aos órgãos de apoio social, é se aprofundar no estudo técnico; saber discernir no amontoado de documentos complexos o que está correto e o que se caracteriza como desvio, ilegalidade e crime contra o dinheiro público. Os Tribunais de Contas, Ministério Público e a própria Secretaria de Educação podem e devem ajudar a sociedade a exercer de forma efetiva a competência e o poder da maioria. Com as devidas comprovações legais, os relatórios e pareceres emitidos pelos conselhos devem ser publicados para garantir o acesso público a estes detalhes. É um direito da sociedade. Outro problema que nutre os interessados em desviar os recursos da educação é o tempo de julgamento das contas. Uma série de recursos jurídicos travam os processos e as condenações daqueles que desviam o dinheiro da educação. Escada é exemplo disso: comprovadas as irregularidades na prestação de contas de 2006, o processo só chegou ao Tribunal de Justiça do Estado em 50


Estará na educação a nossa esperança?

2008 e até agosto de 2013 ainda não havia julgamento definitivo. É preciso, portanto, mais celeridade no rito processual. Seguir estes passos não possibilitará alterar a lógica da corrupção com o dinheiro público. Mas tenho a certeza de que se conhecimento for democratizado e as pessoas estiverem dispostas a intervirem no processo, novos passos serão dados na busca de uma gestão mais eficiente. Isto é possível, viável e necessário.

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“Não restam dúvidas de que o processo de manipulação e dominação, [...] refletem [...] no modo de pensar do nosso povo. É como se no cérebro dessa grande maioria, poucas informações fossem consultadas, resultando, na incapacidade do entendimento e no desequilíbrio emocional. E dessa forma o poder de domínio sobre esta grande massa é bem mais viável”. (página 33)


O papel da cultura

O PAPEL DA CULTURA Os anos 90 – quanto eu já respirava os trinta anos de idade – foi bastante fértil na composição de músicas que revelavam os ideias aprendidos, sobretudo, na ACO 21 e no convívio com o padre Geraldo. Certo dia, saí de Escada para Recife com o objetivo de visitar a exposição “Viúvas da Seca”, que acontecia na Galeria Metropolitana, no centro do Recife. O que vi, provocou a mesma indignação que fizera com que anos antes tivesse escrito “Rebeldia”. Em outra parceria com Sebastião Ferreira, fiz então o seguinte poema com o título “Viúvas da Seca” que, mais tarde, seria cantado no Festival de Música da Universidade Católica de Pernambuco, pelo grande parceiro Edy Levino. Vou fazer do meu canto oração Pra que todos escutem o pedido Desse povo do nordeste partido Que precisa de urgente solução Venham todos pra grande procissão Acordando o nordeste pra mudar Esta sina de enterros a passar Pois ninguém neste chão suporta a fera E a porteira da vida nos espera Pras viúvas da seca vou cantar Esperança é seu nome sua história Tá na simples maneira de vestir 55


Outras Atitudes

Subvida tentando resistir Acordando o morcego da memória Da janela uma vista tão inglória A espera aumenta a solidão E a batida rasgando o coração Entristece a cama já vazia A loucura nos olhos principia Nas viúvas da seca e do sertão Quase sempre a panela tá vazia E a parede segura sua fé É a certeza esperança da mulher Que se faz renascer todos os dias De manhã reza um terço pra Maria Mão na enxada e corre pro roçado Nunca esquece os seus filhos do lado Vai plantando na terra outra estação Mas a dor é o parto desse chão Pras viúvas da seca e do arado Só espero que entendas minha senhora Sou teu filho, te amo e vou ficar Te ofereço meu canto, meu sonhar Minha luta e o desejo que embora Sendo apenas um gozo na memória Refloresça unidos na magia De um nordeste em perfeita romaria Com as viúvas da seca do sertão Mude a história tão rica em contramão Pra dançar livremente a cantoria

Em janeiro de 2013, depois de uma longa jornada de oposição e proposição alternativa aos órgãos do poder público, fui convidado a exercer o cargo de titular na Secretaria Executivo de Cultura de Escada, num governo liderado pelo socialista Lucré 56


O papel da cultura

cio Gomes. A tarefa não seria fácil. Tinha convicção disso. Primeiro, porque a administração eleita, embora formada por uma ampla união de partidos, não tinha o viés socialistas defendido pelo PT. Segundo, porque a cultura no município fora condicionada a ser vivida enquanto eventos de massa. Não havia legislação sobre a proteção e preservação do patrimônio histórico do município; a Associação Multicultural dos Artistas Escadenses (AMAE), que propunha garantir apoio aos fazedores de cultura da cidade estava desarticulada. A cultura nem era racional nem apaixonada. Ela flutuava entre as vontades e decisões do prefeito anterior e os interesses comerciais por trás das contratações. Um erro capitalista que provocou uma regressão histórica de caráter imensurável. O princípio da disputa eleitoral superava os projetos e as políticas públicas na área cultural. As tradições populares, num curto espaço de tempo, foram enterradas para dar espaço à cultura das massas. O foco das atividades foi centralizado e a vontade do prefeito se sobrepôs ao desejo do povo. Importante aqui esclarecer que essa disputa política não era permeada pelas ideias, mas pelo grito; não se baseava nos caminhos da razão, mas se sobrepunha no desequilíbrio emocional das pessoas. Escadenses perderam a tranquilidade; muitos deixaram a amizade; e a influência do poder “externo” ganhou força contra os filhos da mesma terra. Uma mistura de amor e ódio se espalhou nos corações e criou uma barreira que somente o tempo poderá desfazer. Leonardo Boff, em 1999, ao reescrever e refletir sobre “A Oração de São Francisco” citou: Santo Agostinho projetou sua concepção da história universal sobre essas duas forças poderosas: o amor que leva até à morte do eu por causa do outro e o ódio que leva à morte do outro por casa 57


Outras Atitudes

do eu. O amor funda a Cidade de Deus, onde os humanos se sentem integrados como um grande útero. O ódio funda a cidade de Satanás, onde os humanos se entredevoram como numa prisão.

Mas, independente dessa rivalidade exagerada e do descaso com a cultura da cidade, entendemos naquele momento que o maior desafio seria reunir as pessoas e discutir uma simples pergunta de resposta absolutamente complexa: o que nós queremos para a cultura de Escada? Não cabia mais a simples crítica sobre o poder público. Competia agora colocar em prática a teoria e o aprendizado de anos na Ação Católica Operária; de décadas de conhecimento no exercício do magistério; a responsabilidade de honrar as parcerias firmadas com amigos que já se foram – citamos aqui Vicente Fernandes, João Fragoso, Padre Geraldo e Edelazil Mendes – e outros que ainda persistem os quais não citarei para não cometer injustiças. Ainda que o cargo de Secretario Executivo não possibilitasse a capacidade ampla de redirecionar o papel do “Estado” ao qual nos referimos, era um espaço que dava asas à imaginação e ao exercício de uma pequena parcela de poder. Existia o risco iminente de um prejuízo político caso não fosse possível implantar as ideias que movimentavam minha mente. Mas entre correr o risco ou deixar que as coisas continuassem do mesmo jeito, optei pela primeira alternativa. Além do mais, tenho a impressão de que a cultura tem uma dimensão tão significativa de formação das pessoas que entendo como equívoco transformá-la em apêndice da educação. Maioria dos municípios desenvolvidos já reconhece a cultura com uma diversidade tão grande de produções e criatividade que a ela não cabe somente o papel de suporte educacional. Mas acredito que o tempo tratará de alterar essa forma.

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O papel da cultura

O conceito de cultura O conceito de cultura é vasto e complexo. Sabemos disso e temos a clareza de que sua definição vai além dos limites do conhecimento, da arte, das crenças, da lei, da moral, dos costumes, dos hábitos e das aptidões. A cultura se inter-relaciona com todos os segmentos da sociedade. Quando a postura das nossas escolas é ter um professor no quadro e dezenas de alunos sentados, enfileirados e com o olhar direcionado ao professor, isso é um comportamento e, portanto, cultural. Se estamos numa fila de banco e passamos horas sem atendimento e não reclamamos, isso é um comportamento nosso e, da mesma forma, é uma atitude (ou falta dela) cultural. Quando diante de uma situação difícil declaramos que “a coisa tá preta!” é uma forma embutida de estabelecer, culturalmente, um preconceito enraizado em nossa formação. Quando políticos saem vitoriosos de uma campanha eleitoral porque “beneficiaram” o povo com doações ou vantagens diretas, temos a clara revelação de uma cultura paternalista na qual as pessoas esperam que os outros façam por elas. A exposição do corpo da mulher vinculado a alguma marca ou produto, já se estabeleceu como fator decisivo para a expansão do mercado no início do século XXI. Seria possível que todas as pessoas trabalhassem a noite e descansassem durante o dia? Claro que sim. Mas, tradicionalmente (e, portanto, culturalmente), escolheu-se a noite para o descanso. Sai, inclusive, mais barato. Quando uma igreja abre mão do seu patrimônio histórico e se entrega aos caprichos da suposta “modernidade”, estampando o brilho dos porcelanatos, isto deve-se ao conceito atual de que as pessoas só se interessam pelo novo e “belo” e, neste caso, o 59


Outras Atitudes

antigo é feio, inadequado ao tempo e, portanto, condenado à destruição. As redes sociais, por exemplo, alteraram de forma significativa o comportamento das pessoas. Sair de casa sem o celular transformou-se numa situação complicadíssima na vida de bilhões de pessoas. Se no meu tempo de criança as brincadeiras socializavam os equipamentos, hoje, pelo contrário, o equipamento individualiza as crianças e as pessoas se relacionam muito mais virtualmente do que presencialmente. Todos estes fenômenos são culturais. Se numa casa existem aparelhos de TV espalhados por todos os cômodos, isto deve-se a uma cultura que individualiza o conjunto familiar, isola as pessoas e desfaz o principal grupo que dá sustentação à história e à tradição. Isto, por mais simples que pareça, trás graves consequências para a sociedade. E, da mesma forma, também é cultural. Se quiséssemos, passaríamos horas descrevendo fatos, ações, comportamentos e estilos que têm relação direta com as mudanças culturais da sociedade contemporânea. Percebam que o universo cultural perpassa toda a realidade vivida por cada um de nós. Cada gesto, cada atitude, cada postura é fruto de uma variável cultural. O que se precisa discutir nesse fenômeno é se as mudanças de comportamentos da atualidade contribuem para a melhoria de vida no planeta. Quais atitudes sugerem melhorias no convívio da humanidade? Nas comemorações dos 139 anos de emancipação política de Escada em 2012, por exemplo, a prefeitura contratou duas atrações “importadas” que, sozinhas, levaram R$ 300 mil reais dos cofres do município: a banda “Saia Rodada”, que custou R$ 120 mil e o grupo “Parangolé”, que subtraiu nada menos que R$ 180 mil. 60


O papel da cultura

É certo que o público, diante do grande evento de “cultura de massa” quedou-se extasiado de tanta alegria e, certamente brindaram a noite como se fosse a última. Mas não foi. Terminadas as duas apresentações, Escada ficou mais pobre. Sem os R$ 300 mil, sem as atrações do momento e com uma juventude absolutamente passiva diante no tempo. Pergunta: Qual o investimento mais útil para cumprir a responsabilidade social e cultural do poder público: gastar R$ 300 mil com duas horas de apresentação de uma banda que está no topo das paradas musicais, ou financiar um projeto de um ano que terá como resultado a formação de pelo menos uma centena de crianças e jovens? Para aqueles que gostam, peço desculpas. Mas considero aquele gasto – e tantos outros com o mesmo perfil – um crime contra o patrimônio público. No mesmo ano os investimentos em Patrimônio Histórico e Artístico, Fomento ao Trabalho, Empregabilidade, Proteção e Benefício ao Trabalhador, Assistência ao Portador de Deficiência, Habitação Rural, Saneamento Básico Rural e Urbano, Desenvolvimento Científico, Promoção da Produção Vegetal e Animal e outros tantos investimentos essenciais foram reduzidos a zero. Repito: zero!22 O gasto com assistência ao idoso foi de R$ 6 mil reais durante o ano todo. Se um terço dos R$ 300 mil, levados pelas atrações de fora, fossem destinados aos idosos de dentro da cidade, Escada teria hoje uma das melhores políticas públicas do estado de atenção aos cidadãos e cidadãs da melhor idade. E destaco: o questionamento aqui é simplesmente financeiro. Não estou levando em consideração os apelos sexuais das bandas (ou bundas); não trato das letras que enxovalham a imagem da mulher; não cito o estímulo à bebida que quase sempre está associado aos momentos de entretenimento propostos por 61


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estes grupos estilizados. O argumento é puramente lógico-financeiro: se coubesse a um pai ou mãe de família, com um mínimo de respeito e amor aos seus filhos, decidir onde investir essa quantia, não tenho a menor dúvida de que a preferência seria pela formação musical das crianças; seria pela qualificação dos jovens; por mais recursos para os portadores de deficiência; optariam por ter ruas saneadas; ficariam felizes em ver seus filhos e filhas mostrando em feiras de conhecimentos a capacidade científica de sua amada prole. E aqui destaco outra preocupação: o maior problema destes estilos não está naquilo que é aparente; está no que não se vê; no que não se percebe e que se fortalece no subconsciente das pessoas. Ao invés de cultura de massa, o poder público deveria financiar de forma significativa a cultura popular. A cultura que nasce das ruas, do povo, das famílias. E Pernambuco é bastante rico nesse aspecto. É preciso estabelecer, portanto, diferenças entre cultura e entretenimento. Não há como falar dessa cultura popular sem reconhecer a inteligência, a dedicação e a capacidade radical de Ariano Suassuna. Certamente a partir dele o conceito de cultura em Pernambuco e no mundo tem outro valor; outra visão. Suassuna, como ninguém, deixa claro em toda sua obra que as pessoas devem separar a cultura de massa da cultura popular. Para ele, “cultura de massa não é o mesmo que cultura popular”. Ainda que de forma geral, mas com um conceito enraizado em seus estudos, o paraibano conclui. A cultura é uma coisa muito importante para o país e para o povo. Se a gente abre mão da nossa cultura, a gente abre mão da nossa identidade e a gente pode perder até a nossa independência.

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O papel da cultura

A I Conferência Municipal de Cultura de Escada, realizada nos dias 07 e 08 de agosto de 2013, no prédio da FAESC, foi um marco – e ainda será reconhecida como tal – na vida cultural de Escada. Não porque reuniu uma grande quantidade de artistas (compareceram 173 pessoas), mas porque abriu espaço para a democratização do debate sobre a produção cultural no município. As propostas surgidas durante o processo, nascidas tanto das mentes de jovens estudantes como dos sonhos de antigos protagonistas da cultura local, alinharam todos os pensamentos na necessidade de se fazer cultura para a formação do ser humano. De certa forma, percebi durante plenária de apresentação dos resultados, um pouco da sugestão que fiz nos escritos de vinte anos atrás: “todos os movimentos organizativos precisam debater os novos caminhos e os novos horizontes. E precisam ter a convicção de que a mudança não partirá das elites e muito menos dos profissionais da política. A mudança será obra da sociedade, a partir do momento em que esta entender as suas capacidades, ocupar os espaços de forma organizada e assumir o compromisso revolucionário”. (página 29) Mesmo que resumidas às poucas discussões sobre cultura, o momento de integração social, de união das ideias, possibilitou o exercício prático do que tinha apenas por teoria nos ideais do passado. Todos nós temos clareza de que a simples realização da conferência não será suficiente para alterar os caminhos da cultura. Mas sem dúvida o primeiro passo fora dado. Compete agora a todos (e não apenas ao poder público) fiscalizar as ações propostas durante o evento. E creio que isso será possível se as pessoas 63


Outras Atitudes

reconhecerem a importância da cultura na formação da sociedade.

Buscando a solidariedade de muitos A participação direta das pessoas em um governo não diminui a importância do poder instituído. Ela amplia esse significado na medida em que democratiza as decisões sobre a coisa pública. Ora, se é o povo quem elege os governantes e parlamentares, esse mesmo povo tem a capacidade e o dever de ajudar, de decidir o que os eleitos devem fazer. O povo não exercerá o papel de “ajudante”, de “colaborador” dos governos. Ele será peça essencial e indispensável nessa engrenagem. Eu creio que em nossas cidades as pessoas interessadas em construir caminhos alternativos para a gestão pública deveriam se reunir para elaborar propostas concretas de ação. Vou dar um exemplo. Se juntássemos cinco pessoas para discutir teórica e praticamente o papel da cultura, estaríamos criando uma pequena rede que, caso queira, se institucionalizaria enquanto grupo e o resultado dessa discussão seria a elaboração de uma carta com as principais diretrizes para a cultura local. Claro: cinco pessoas não podem e não devem determinar o que milhares de outros devem ou não fazer. Mas, democraticamente, é permitido a este grupo revelar seus pensamentos e ideias. Isto é constitucional. Até aí, do ponto de vista material, o que se tem é apenas um papel redigido e assinado por estas pessoas. No entanto, a partir do universo das ideias, temos um conjunto de aspirações que, certamente, serão absorvidas por muitos. Outros desejos se agregarão às proposições ali definidas. Detalhe importante: para que o planejado seja efetivamente executado, o grupo não pode se dispersar. A reunião, a discus64


O papel da cultura

a construção das propostas, a elaboração do documento, a realização do fórum e a entrega às autoridades locais são passos que compõem apenas o início da empreitara. Entre este passo e a consecução dos objetivos há uma enorme distância, que tende a diminuir à proporção que os objetivos forem sendo alcançados. Entendamos que, como disse há vinte anos, “se todas as táticas e estratégias são pensadas por homens, a capacidade de reversão desse processo é possível acontecer também por atitudes de homens, mulheres e crianças, todos ativos nesta mesma coletividade. Se esta situação deve-se aos raciocínios inteligentes de alguns humanos, outros homens podem, dessa forma, reverter esse quadro”. (página 35) Convém aqui destacar que os passos seguintes nessa tarefa devem ser discutidos e pensados pelos atores no processo. Como sabemos, não há remédio pronto nem caminhos definidos. Há horizonte, que embora pareça nunca o alcançarmos, sempre caminhados em sua direção. E se já fora dado o primeiro passo de organização e planejamento das estratégias, agora a exigência é que as reivindicações estabelecidas pela comunidade entrem na pauta das autoridades constituídas. Não da forma que estes culturalmente desejam, mas no tamanho e nas condições que o consenso permite.

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“apesar da hegemonia do pensamento capitalista e suas contradições históricas, parcela da sociedade conseguir propor uma outra forma de sistema, desvinculado da filosofia do acumulo e da competição, mas integrado no pensamento da socialização da vida”. (página 15)


QUE ALTERNATIVA? Não é pretensão minha discutir neste livro a complexa ideia do capitalismo ou do socialismo. Não o farei. Seria presunçoso demais de minha parte achar que um professor de matemática do ensino fundamental, com pouquíssima formação teórica sobre história, economia ou sociologia, pudesse questionar aqui os princípios básicos de um dilema tão secular. No entanto, dentro do processo de rediscussão das condições da sociedade atual e do desejo de encontrar novos caminhos, não podemos prescindir de considerar os erros que mantém a lógica do consumo como referência de vida para a humanidade. Se não me é possível, portanto, avaliar teoricamente o conjunto das ideias e proposições marxistas sobre o capital, e muito menos as múltiplas facetas do capitalismo mutante, não me parece incorreto, ou mesmo proibido, reconhecer que a sociedade atual persiste no erro de viver para si e não para todos. Neste caso, o pensamento e a fé cristã, que me são caros pela formação e identidade histórica, é que me garantem o direito de, pelo menos, dialogar sobre o tema. As consequências dos erros produzidos pela sociedade do consumo estão postas e quanto a elas não há o que questionar. O escritor, jornalista, dramaturgo, contista, romancista e poeta português, José Saramago, durante entrevista à Folha de 23 São Paulo , quando questionado sobre sua opção pelo comunismo, afirmou que o mundo está errado e que alguma coisa deve 69


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ser feita para modificá-lo. Um dos retrados dos erros cometidos por este sistema perverso é a fome. Na tentativa de contribuir com esta discussão e propor alternativas, Leonardo Boff estabelece quatro “erres” no combate à sociedade consumista24: reduzir os objetos de consumo, reutilizar os que já temos usado, reciclar os produtos dando-lhes outro fim e finalmente rejeitar o que é oferecido pelo marketing com fúria ou sutilmente para ser consumido.

Para o teólogo, a fome é uma constante em todas as sociedades históricas. Hoje, entretanto, ela assume dimensões vergonhosas e simplesmente cruéis. Revela uma humanidade que perdeu a compaixão e a piedade. Erradicar a fome é um imperativo humanístico, ético, social e ambiental. Uma pré-condição mais imediata e possível de ser posta logo em prática é um novo padrão de consumo.

O recifense, Josué de Castro25, compreende que a “fome é, conforme tantas vezes tenho afirmado, a expressão biológica de males sociológicos”. Quanto a estas evidências, o Papa João Paulo II, na Carta 26 Encíclica Redemptor hominis , de 1979, ratifica a necessidade de se repensar e recriar uma alternativa aos problemas econômicos atuais. O sumo pontífice entendeu que não será fácil avançar, porém, neste difícil caminho, no caminho da indispensável transformação das estruturas da vida econômica, se não intervier uma verdadeira conversão das mentes, das vontades e dos corações. A tarefa exige a aplicação decidida de homens e de povos livres e solidários.

Portanto, os atuais mecanismos de defesa do capitalismo não estão resolvendo – e não resolverão – o problema milenar e

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Que alternativa?

inaceitável da fome. Em 1993 afirmei que “[...] a sociedade precisa assumir seus compromissos diante da situação atual. E nesta luta não existe meio termo: ou se discorda da miséria, ou se torna favorável a ela; ou se propõe o início de um novo pensamento socializante, ou continua-se a aplaudir a exclusão social do momento e o consumo supérfluo afrontando as necessidades básicas”. (página 54) Mesmo considerando que as coisas não estão postas apenas na dualidade entre bom ou ruim; branco ou preto; certo ou errado, não me parece sensato desfazer o que disse no passado. Há momentos em que é necessária uma atitude radical para que as pessoas percebam os caminhos que estão sendo trilhados. Na opção por este novo caminhar, dois versos do canto reli27 gioso “Eu Acredito”, disponível no livro Loas e Lamentos , resume um pouco um dos conceitos indispensáveis para a mudança na filosofia econômica: a solidariedade. Quando os pequenos acreditarem no seu bem-estar comum, sentindo a necessidade que padece em cada um, unidos em Jesus Cristo nós todos seremos um.

Em Romanos (14-15) reforçamos esta teoria: Mas, se por causa da comida se contrista teu irmão, já não andas conforme o amor. Não destruas por causa da tua comida aquele por quem Cristo morreu.

Mas os passos para a construção desse novo ideário pressupõem muitas reflexões e outras tantas ações. István Mészáros28, 71


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durante entrevista no programa Roda Viva, disse ter plena consciência de que não podemos passar automaticamente desta sociedade para outra que seja viável. Sua tese revela que é preciso encontrar as ligações, os meios que tornem a transformação possível. Em junho de 2012, durante a realização da Rio+20, vários documentos foram aprovados e que podem estar caminhando nesse sentido. Em um deles, Bruno Pinheiro, Camila Mello e Thia29 go Alexandre Moraes são objetivos. “Na economia, estão em xeque o uso de combustíveis fósseis e a produção em larga escala. A desigualdade, as mudanças climáticas, o esgotamento da natureza, a mercantilização da vida, a injustiça ambiental são características estruturais desse modelo”, afirmam os escritores. De forma propositiva, o documento sugere grande responsabilidade da juventude nesse processo de reinterpretação e revisão da lógica de vida no planeta. E sugere: Os movimentos de juventude são ainda mais importantes porque as transformações profundas que o mundo precisa passam por conflitos internos da geração contemporânea de jovens. O instante atual é chave.

O desemprego é outro enorme desafio para os idealizadores de uma nova sociedade. “Cerca de 73,4 milhões de jovens entre 15 e 24 anos estão desempregados no mundo”, diz estudo divulgado pela Organização Internacional do Trabalho - OIT. Conforme o documento, o “número para 2013 é 3,5 milhões maior em relação a 2007, quando 11,7% dos jovens estavam desempregados, e está perto dos níveis alcançados no pior momento da crise 30 econômica, em 2009” . Não há dúvidas de que o modelo econômico atual não tem respostas para os grandes problemas que parecem se agravar no século XXI. Este diagnóstico, que embora tecnicamente seja com

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Que alternativa?

plexo, produz efeitos indiscutíveis no nosso dia a dia. O grande problema – e aqui revela-se a responsabilidade de todos – é de como pensar uma economia alternativa. Durante todo o período de vida e sobrevida das práticas capitalistas, o que ainda resta são nações colonizadas e exploradas. Aqui ratificamos a incapacidade de vir a ser, a liberdade do mercado, a política mais indicada para encontrar soluções para a crise atual. Se as experiências de regimes socialistas no mundo se fundaram em erros – e graves –, então o caso não é fincar em sua simples negação. Há que repensá-lo, rediscuti-lo, recria-lo e desta vez com as devidas correções. Sobre os erros do socialismo soviético, Mészáros aponta parte deles, que podem e devem ser analisados na elaboração de uma nova proposta de sistema. Ele revela que Lenin e os bolcheviques esperavam que a revolução russa fosse seguida por outras revoluções. Acreditavam que o grande atraso da sociedade poderia ser corrigido por estas mesmas sociedades. Neste caso os líderes da revolução acreditavam em algo sobre o que não tinham nenhum controle.

Intelectuais cubanos em histórica discussão sobre “O socialismo no século XXI” e, na busca pela definição dos próximos passos, mantêm um discurso incisivo e crítico contra a lógica capitalista. 31 Segundo relato de Juan Luis Martín Chávez os três homens mais ricos do mundo têm um maior rendimento do que os 48 países mais pobres. A humanidade está ameaçada pela degradação ambiental em grande escala. Desertificação ameaça 250 milhões de pessoas, ou um terço da superfície da Terra (4.000 milhões de hectares). Vastas somas são desperdiçados nos braços, enquanto 1,2 bilhão de pessoas vivem no limite da fome. Ele deu o número de armas mundiais totais gastos US $ 1,1 trilhões, com a 73


Outras Atitudes

contabilidade EUA por 48 por cento da produção mundial de armas.

Sob uma guerra ideológica capitalista sistemática, sobretudo capitaneada pelos Estados Unidos, a nação cubana se vê no desafio de encontrar o “meio termo” entre a lógica cruel do acúmulo e o princípio da socialização dos direitos. Portanto, eis aqui uma primeira ideia: desenvolver uma nova postura diante do planeta pressupõe o conhecimento profundo dos erros praticados em posturas anteriores. Com os equívocos cometidos nas experiências socialistas, o mundo parece desprovido de alternativas para a sociedade atual. No entanto, não surgirá essa alternativa a qual buscamos se não houver reflexão sobre a necessidade da construção dela. E “ao passo em que se fragmentam os discursos do mundo competitivo, sempre se discute o socialismo como sendo a outra via desse embate”. É razoável deduzir que o que escrevemos em 1993 parece não estar totalmente errado ou fora de uso. Ao afirmar que “a sociedade precisa assumir seus compromissos diante da situação atual” comungamos com milhões de pessoas no mundo que exigem e acreditam num sistema diferenciado. A sociedade precisa dar forma aos seus anseios e pensamentos; dizer algo; fazer alguma coisa. O evangelho de Jesus Cristo, quando trata dos Atos dos Apóstolos (4:32-35), nos dá uma pista real da viabilidade de uma sociedade mais justa, onde a utopia encontra reforço nas palavras de Deus. Lá está escrito: 32

E era um o coração e a alma da multidão dos que criam, e ninguém dizia que coisa alguma do que possuía era sua própria, mas todas as coisas lhes eram comuns. 33

E os apóstolos davam, com grande poder, testemunho da ressurreição do Senhor Jesus, e em todos eles havia abundante graça.

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Que alternativa? 34

Não havia, pois, entre eles necessitado algum; porque todos os que possuíam herdades ou casas, vendendo-as, traziam o preço do que fora vendido, e o depositavam aos pés dos apóstolos. 35

E repartia-se a cada um, segundo a necessidade que cada um tinha.

Este mesmo texto fora, inclusive, citado pelo escritor Ariano Suassuna em artigo publicado na Folha de São Paulo em fevereiro do ano 2000 e disponibilizado no site da Academia Brasileira 32 de Letras . Ariano, com toda autoridade e sabedoria popular que lhe é atribuída mundo a fora, foi mais incisivo: eu, católico, posso dizer ... que Deus, segundo visto por João 23 e por outros que pensam como eu, é cristão, católico e socialista.

Em carta enviada ao primeiro-ministro britânico David Cameron, por ocasião do G8 na Irlanda do Norte (17-18 de junho de 2013) o Papa Francisco é iluminado ao escrever que o dinheiro e os outros instrumentos políticos e econômicos devem servir, e não governar, tendo presente que a solidariedade gratuita e abnegada é, de maneira aparentemente paradoxal, a chave do bom funcionamento econômico global.

Portanto, independente da competência ou incapacidade de analisar as economias, sirvo-me de caminho para reafirmar pensamento de Frei Betto quando diz que o socialismo rima com emancipação humana, soberania nacional e, sobretudo felicidade pessoal, como acentuava Che Guevara. No capitalismo, exalta-se a competitividade e suporta-se a lógica de que a felicidade de uns decorre da infelicidade de muitos. É a vertente ética, enraizada na solidariedade, que torna o socialismo radicalmente diferente.

Se para o dominicano o cenário se mostra evidente, não menos transparente deve ser aos nossos olhos. O necessário, no 75


Outras Atitudes

entanto é que “estejamos dispostos a assumir nosso papel, nossa tarefa de atuantes incondicionais na luta pela vida partilhada; sair do cômodo eu e, efetivamente, levantar a bandeira da ampliação das lutas e necessidades fundamentais de todos; convir a impossibilidade da permanência na desumana trilha surgida”. (página 16) Quando escrevi que “desigualdade não é e nunca foi do agrado de Deus e muito menos do pensamento cristão” quis exatamente, com amparo da fé, defender que se o sistema econômico atual sobrevive a partir da conservação e da ampliação das desigualdades, então ele não será capaz de garantir um reino de justiça. Ainda citando o Papa Francisco e, recorrendo a ele para ampliar o grito dos excluídos, me solidarizo com a igreja quando diz que “falta uma ética humanista em todo mundo. Estamos falando de um problema mundial”. Em determinado momento, o Papa Francisco recorreu a São Tomaz de Aquino, e relembrou uma fábula de um sábio rabino para evidenciar os erros do descaso com o ser humano. O rabino medieval, do século XII, explicava assim: Qual era o problema da Torre de Babel? Por que houve o castigo Divino? Para construir a torre era preciso fabricar os tijolos. Usar o barro, cortar a palha, amassá-lo, secá-los, colocá-los no forno e depois levá-los ao alto da torre para ir construindo. Se caía um tijolo era uma catástrofe nacional. Se caía um operário nada acontecia. Hoje há crianças que não têm o que comer no mundo. Crianças que morrem de fome, de desnutrição. Há doentes que não têm acesso a tratamento. Homens e mulheres que são mendigos de rua e morrem de frio no inverno. Há crianças que não têm educação. Nada 76


Que alternativa?

disso é notícia. Mas quando as bolsas de algumas capitais caem 3 ou 4 pontos, isso é tratado como uma grande catástrofe. Entende? Este é o drama do humanismo desumano que estamos vivendo.

No texto “Marxismo e natureza humana”, Valério Arcary33 explica que muitos dos seguidores do liberalismo sempre buscavam – e ainda buscam – justificar a desigualdade social como fenômeno decorrente da natureza humana. Uma explicação científica para o ditado popular que reflete a ideia de que as coisas estão assim porque Deus quer. Ele descreve: A rivalidade entre os homens e a disputa pela riqueza seriam um destino incontornável. Um impulso egoísta ou uma atitude comodista, uma ambição insaciável ou uma avareza incorrigível definiriam a nossa condição. Eis o fatalismo: o individualismo seria, finalmente, a essência da natureza humana. E a organização política e social deveria se adequar à imperfeição humana. E resignarse. Uma humanidade dominada pela mesquinhez, pela ferocidade, ou pelo medo precisaria de uma ordem política disciplinada, portanto, repressiva, que organizasse os limites de suas lutas internas como uma forma de “redução de danos”. Resumindo e sendo brutal: o direito ao enriquecimento seria a recompensa dos mais empreendedores, ou mais corajosos, ou mais capazes e seus herdeiros. A propriedade privada não seria a causa da desigualdade, mas uma consequência da desigualdade natural.

E não são poucos os que pactuam dessa lógica. Existem pessoas que trabalham manhã, tarde e noite e continuariam pela madrugada se assim fossem capazes de acumular mais dinheiro. Nestes casos, a família é secundarizada e o supérfluo se sobrepõe ao necessário. 77


Outras Atitudes

Nesse diapasão, a maldade seria consequência do individualismo e indiferença “natural” dos seres humanos. Sei que existem pessoas que tocam fogo em seus semelhantes e que comemoram tal atrocidade; que no mundo inteiro, mães são capazes de jogar crianças recém-nascidas no lixo; que muitos não suportam ver o sucesso dos outros e que, por conta disso, alimentam a inveja, um dos pecados capitais; que a maldade é parte deste mundo e que isto não é um fenômeno contemporâneo. Mas tudo isso não faz parte do senso comum. Nenhum dos fatos aqui narrados são vistos e recebidos de forma tranquila. Muitos se revelam contrários, se indignam, protestam diante de atitudes como as que descrevemos. Isso mostra que o mau não é aceito pela maioria dos seres humanos. E também essa lógica é defendida por muitos. Acredito, inclusive, que o ser humano como natureza do bem, pode ser compreendido por você, que alcançou a leitura deste capítulo. E, para os cristãos, o argumento é bem simples: se de fato acreditamos que Deus fez o homem a sua imagem e semelhança, e que a natureza de Deus é bondade, por que haveria de ser o homem diferente? Discordar disso é, por consequência, discordar da existência do próprio Deus. Se é verdade que a maldade existe e é praticada por muitos, não é menos verdade que a solidariedade de outros busca impedir o sofrimento e comprova a natureza bondosa do ser humano. Se é verdade que milhares de capitalistas do mundo buscam desenfreadamente o acúmulo de suas posses, também não é menos verdade afirmar que cidadãos do mesmo mundo se doam para ajudar os outros sem pensar na recompensa material. 34 Rafael Azzi, em seu texto “O mito do capital natural” , ao tratar dos chamados neurônios-espelhos, afirma que eles tornam fluida a fronteira entre nós e os outros; são a origem da empatia, que é a capacidade de nos colocar no lugar de outra pes 78


Que alternativa?

soa. Pode-se dizer que, ao observar alguém sorrindo, imediatamente nos sentimos impelidos a sorrir também. Quando percebemos alguém que está em uma situação que causa dor, a reação natural é partilhar o sentimento de dor alheia.

Entendo que essa natureza do bem tem sido modificada, influenciada e manipulada por pessoas que não admitem a descoberta de um caminho alternativo. Espero, inclusive, que o pensamento otimista que tento repassar neste livro seja capaz de contagiar você a permitir que, juntos, possamos trilhar os novos caminhos em busca de uma saída pra a humanidade.

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“Os desafios para a construção desta nova sociedade estão cada vez mais presentes e é preciso se ter uma certeza: já não temos mais tempo para esperar”. (página 65)


O QUE TEMOS PELA FRENTE? O refrão do hino “O Profeta”35, cantado no período quaresmal da Igreja Católica, reafirma uma necessidade básica da humanidade: Tenho que gritar, Tenho que arriscar Ai de mim se não o faço Como escapar de ti, como calar Se tua voz arde em meu peito! Se tomarmos por ensinamento a revolução contida no refrão do hino, teremos a convicção de que não é a espera o remédio para a construção dessa nova sociedade que desejamos. Bem sabemos que os caminhos alternativos nem sempre são empolgantes. O mais comum e mais cômodo é continuar vivendo e fazendo o que muitos fazem. Não é producente “nadar contra a corrente”, dizem uns; “Se não podes vencer o inimigo, te junta a ele”, revela outra máxima popular; “Ruim com ele. Pior sem ele”, cedem confessos outros populares às investidas dos poderosos. Por outro lado, também sobrevivem – felizmente – muitos esperançosos. Pessoas que persistem na confiança, se mantêm perseverantes e não cedem à fatalidade ou ao desestímulo. Outros “Paulos Freires” se entregando à pedagogia da esperança. Quero aproveitar para dividir com vocês um pedaço da esperança vivida na década de 90 aqui em Escada. Numa bela 83


Outras Atitudes

parceria construída com o amigo Sebastião Ferreira, lançamos a música “Rebeldia”, um misto de poesia e fé que seria interpretada por Edy Levino, o grande “Do Doce”, no festival de música Canta Nordeste. A música ficou classificada entre as dez melhores de Pernambuco. Dedico aqui a letra da música a todas e todos devotos da esperança. Ouvi, ouvi um gritar de luta Eu vi, vida vai chegar Ouvi, ouvi justa rebeldia Eu vim, eu vim pra ficar Eu já toquei o canto do divino Já fui riso pra menino Já dancei baião Mas sempre vejo o fim de tantas vidas Sem o pão e sem a terra Quanta maldição! Escrevo um verso, faço a cantoria Esperança é o que vadia No meu coração. E vou seguindo a minha utopia Espalhando a mensagem Junto à construção No altar da noite bela Ouço o choro de Maria Que consola a longa espera Enquanto não chega o dia Vê se desperta, povo brasileiro 84


O que temos pela frente?

Que esses homens do dinheiro Não têm solução Parte pra luta, junta a tua gente Que a mudança dessa história Tá na nossa mão Sonha comigo, esse sonho lindo Enfeitado com a alegria De toda nação A criança, o pai, a mãe amada Todo o povo reunido Canta esse refrão: No altar da noite bela Vejo o riso de Maria É o final da longa espera Começou nossa alegria O sentimento exposto nesta letra e em sua melodia não é parte isolada do pensamento do mundo. Outros tantos artistas da vida comungam dessa mesma esperança que ousamos demonstrar nos últimos 20 anos. Citemos como exemplo dois deles: Cristóvam Buarque e Nelson Mandela. Buarque, na tentativa de simplificar o sonho e facilitar sua compreensão, escreveu: Lute pelos direitos daqueles que ainda não nasceram. Não aceite deixarmos para eles um mundo pior do que o que recebemos de nossos antepassados. Faça o possível para que no mundo deles haja mais flores, mais harmonia, as baleias continuem donas do mar ainda azul, os pássaros donos do céu ainda azul, e os seres humanos continuem falando em todos os seus idiomas, e com mais entendimento. Reaja ao 85


Outras Atitudes

suicídio que parece tomar conta da humanidade36. Em seu discurso de posse em 1994, o líder sul africano Nelson Mandela nos dá sinais dos possíveis caminhos a serem trilhados e destaca que nossas atitudes podem servir de luz para outras pessoas. Revejam o texto: Nos perguntamos: 'Quem sou eu para ser brilhante, atraente, talentoso e incrível?' Na verdade, quem é você para não ser tudo isso?...Bancar o pequeno não ajuda o mundo. Não há nada de brilhante em encolher-se para que as outras pessoas não se sintam inseguras em torno de você. E à medida que deixamos nossa própria luz brilhar, inconscientemente damos às outras pessoas permissão para fazer o mesmo. O Papa Francisco nos escreve que os vários e graves desafios econômicos e políticos que o mundo contemporâneo enfrenta exigem uma corajosa mudança de atitudes, que restitua ao fim (a pessoa humana) e aos meios (a economia e a política), o lugar que lhes é próprio. Para exercer esse novo pensamento alternativo, é preciso transformar a nossa prática individualista; respeitar os princípios éticos da vida, propondo a todos o direito de nela viver e conviver; construir em conjunto com os explorados e excluídos as ações concretas nas áreas de saúde, educação, habitação, lazer, e todos os outros princípios necessários do viver dignamente, com vistas a redefinir a nossa real utopia de sociedade. Da mesma forma que em 1993, refaço os questionamentos que moviam e ainda movem os desejos de muitos em construir

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O que temos pela frente?

uma sociedade melhor: “Quem ajudará na construção de uma alternativa de vida? De onde surgirá a esperança que move os caminhos da transformação de nossa realidade? [...] Você gostaria de participar da construção de uma nova sociedade? Você é capaz de perder o seu desânimo histórico e acreditar na possibilidade de transformar essa miséria, através de procedimentos lícitos por parte de homens e mulheres, justos? Se todas estas pessoas juntassem suas capacidades e inteligências, num mesmo objetivo, acredita que todos definiriam, se assim quisessem, um novo caminhar, trilhando mais rapidamente para o horizonte da esperança e, por assim dizer, da utopia? (página 35) Ainda que estas respostas não sejam alcançadas ao final deste livro, a reflexão sobre elas pode nos ajudar a entender que as coisas não acontecerão se ficarmos apenas esperando que Deus resolva por nós. A responsabilidade é de todos.

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“Os determinantes caminhos da "modernidade" são condutores liderando a corrida dos interesses pessoais que, em assim permanecendo, terminará por erguer como troféu, a taça carregada do sangue de tantas vidas” (página 14)


UMA VISÃO AMPLIADA DA VIDA Em carta direcionada ao Papa Francisco, durante a jornada Mundial da Juventude, que passou pelo Brasil em julho de 2013, o dominicano Frei Betto, de forma poética e acima de tudo cristã, profetiza e revela a consciência embutida na vontade de cada um de nós: Os jovens esperam da Igreja uma comunidade alegre, despojada, sem luxos e ostentações, capaz de refletir a face do Jovem de Nazaré, e na qual o amor encontre sempre a sua morada. Este não é apenas um pedido. É antes de qualquer coisa, o clamor que todo ser humano – embora não demonstre –, deseja para suas vidas. O conceito de vida aqui defendido pressupõe a visão de “interdependência e interligação entre todos os seres” 37 estabelecida na Carta da Terra . Entende o conjunto da obra: Terra, ser vivo e humanidade. Leonado Boff é um daqueles brasileiros que difundem o conceito de vida amplo, não limitado apenas aos seres humanos. Ele sugere que O bem-estar não pode ser apenas social, mas tem de ser também sociocósmico. Ele tem que atender aos demais seres da natureza, como as águas, as plantas, os animais, os micro organismo, pois todos juntos constituem a comunidade 91


Outras Atitudes

planetária, na qual estamos inseridos, e sem os quais nós mesmos não viveríamos. Este novo conceito está em perfeita sintonia com as “Metas do Milênio”. O documento, publicado pela Organização das Nações Unidas (O N U ) em 2000, ao analisar os maiores problemas mundiais, propôs oito jeitos de mudar o mundo: 1. Erradicar a extrema pobreza e a fome 2. Atingir o ensino básico universal 3. Promover a igualdade entre os sexos e a autonomia das mulheres 4. Reduzir a mortalidade infantil 5. Melhorar a saúde materna 6. Combater o HIV/Aids, a malária e outras doenças 7. Garantir a sustentabilidade ambiental 8. Estabelecer uma Parceria Mundial para o Desenvolvimento Essa nova postura vai exigir do ser humano uma mudança significativa no jeito de ver, pensar e viver em nosso planeta. A “Carta da Terra” é mais uma tentativa, destacada por Leonardo 38 Boff, no livro Civilização Planetária , para fixar objetivamente os princípios a serem seguidos pela humanidade na busca dessa nova convivência: I RESPEITAR E CUIDAR DA COMUNIDADE DA VIDA 1. Respeitar a terra e a vida em toda sua diversidade. 2. Cuidar da comunidade da vida com compreensão, compaixão e amor; 3. Construir sociedades democráticas que sejam justas, participativas, sustentáveis e pacíficas;

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Uma visão ampliada da vida

futuras gerações. II INTEGRIDADE ECOLÓGICA 5. Proteger e restaurar a integridade dos sistemas ecológicos da Terra, com especial preocupação pela diversidade biológica e pelos processos naturais que sustentam a vida; 6. Prevenir o dano ao ambiente como o melhor método de proteção ambiental e, quando o conhecimento for limitado, assumir uma postura de precaução; 7. Adotar padrões de produção, consumo e reprodução que protejam as capacidades regenerativas da Terra, os direitos humanos e o bem-estar comunitário; 8. Avançar o estudo da sustentabilidade ecológica e promotor a troca aberta e a ampla aplicação do conhecimento adquirido. III JUSTIÇA SOCIAL E ECONOMIA 9. Erradicar a pobreza como um imperativo ético, social e ambiental; 10. Garantir que as atividades e instituições econômicas em todos os níveis promovam o desenvolvimento humano de forma equitativa e sustentável; 11. Afirmar a igualdade e a equidade de gênero como prérequisitos para o desenvolvimento sustentável e assegurar o acesso universal “a educação, “a assistência de saúde e as oportunidades econômicas; 12. Defender, sem discriminação, os direitos de todas as pessoas a um ambiente naural e social capaz de assegurar a dignidade humana, a saúde corporal e o bem-estar espiritual, concedendo especial atenção aos direitos dos povos indígenas e minorias. 93


Outras Atitudes

IV DEMOCRACIA, NÃO VIOLÊNCIA E PAZ 13. Fortalecer as instituições democráticas em todos os níveis e proporcionar-lhes transparência e prestação de contas no exercício do governo, participação inclusiva na tomada de decisões e no acesso a justiça; 14. Integrar, na educação formal e na aprendizagem ao longo da vida, os conhecimentos, valores e habilidades necessárias para um modo de vida sustentável; 15. Tratar todos os seres vivos com respeito e consideração; 16. Promover uma cultura de tolerância, não violência e paz. O que se estabelece nestes princípios pode parecer meio romântico, ou até mesmo utópico. Mas não sairemos dos caminhos atuais se não nos ousarmos refletir um mundo a partir de uma nova perspectiva, menos racional, porém não fantasiosa; menos rígida, porém não tão dispersa; na verdade, precisa ser balizada por atitudes livres das amarras impostas pela sociedade. 39 Tenho a impressão de que o filme americano “Avatar” , apesar de ter utilizado dinheiro do acúmulo e ser produzido pela maior nação que detém o poder capitalista, tem esse viés. Localizado numa perspectiva temporária que vai além de um século do nosso tempo, sugere a relação dos “Na'vi” com a natureza. Estabelece essa sinergia entre todas as vidas. Simbolicamente, o centro da vida para os nativos é uma árvore. Talvez fosse sensato a todos os humanos o direito de sair do planeta terra e contemplá-lo de longe e de lá perceber que nós 40 “não vivemos sobre a terra. Nós somos terra” . A música “What a Wonderful World”, entoada por Louis Armstrong em 1967, também revela traços de uma humanidade amorosa, esperançosa e otimista com relação ao futuro. Sua tradução é poética:

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Uma visão ampliada da vida

Que Mundo Maravilhoso Eu vejo as árvores verdes, rosas vermelhas também Eu as vejo florescer para mim e você E eu penso comigo... que mundo maravilhoso Eu vejo os céus tão azuis e as nuvens tão brancas O brilho abençoado do dia, e a escuridão sagrada da noite E eu penso comigo... que mundo maravilhoso As cores do arco-íris, tão bonitas no céu Estão também nos rostos das pessoas que se vão Vejo amigos apertando as mãos, dizendo: "como você vai?" Eles realmente dizem: "eu te amo!" Eu ouço bebês chorando, eu os vejo crescer Eles aprenderão muito mais que eu jamais saberei E eu penso comigo... que mundo maravilhoso Sim, eu penso comigo... que mundo maravilhoso O mundo, sobretudo as pessoas que nele ainda viverão por longos anos, clama por uma nova forma de convivência e de relações humanas que não se reduza apenas a acumular e desfrutar, sem limites, dos seus benefícios. Parafraseando o Papa Francisco, é possível afirmar que as nações assistem perplexas ao cuidado com as coisas e o recorrente descaso com os seres vivos. Segundo matéria publicada pela Folha de São Paulo41 As pessoas mais pobres dos países ricos tiveram mais risco de passar por um episódio de depressão, tendência que não foi observada nas nações mais pobres

Isto não significa, por dedução simples, que as pessoas 95


Outras Atitudes

busca aqui dizer que é melhor ser pobre para ficar livre da depressão. Significa dizer que enquanto mais detentor do capital, mais fragilizado ficará o ser humano às condições de insegurança impostas pelo regime do acúmulo. E que, portanto, imaginar sua perda tem gerado problemas sérios na sociedade. Estudo revela que França, Estados Unidos, Holanda e Nova Zelândia lideram, em percentual, os primeiros episódios de depressão em pessoas com média de idade até 28 anos. A mesma matéria compara oito países considerados em desenvolvimento: Brasil, Ucrânia, Colômbia, Líbano, África do Sul, Índia, México e China. Dentre estes, o Brasil lidera com 18,4% de casos semelhantes entre pessoas com idade média de 24 anos. O documento, no entanto, faz questão de destacar que no Brasil os dados só foram coletados na Grande São Paulo. O que se presume, é a redução destes índices, caso sejam incluídas as estimativas rurais ou de outras regiões do país. Ainda que sejam feitas as devidas ponderações, não devem suscitar alívio imaginar que centenas de milhares jovens estão enfrentando transtornos mentais que podem se tornar irreparáveis, se mantidos os rumos definidos pelo “mundo moderno”. Esse processo de reformulação das ideias e das práticas exigirá (e muito) de cada um de nós. De todos, indistintamente: dos mais idosos, exigirá prudência e paciência para discernir que a responsabilidade deve ser partilhada por todos; dos jovens, para reconhecerem que depositar horas em frente às máquinas estáticas ou mesmo em baladas gratuitas não os tornará menos alienados do que o pedaço do mundo que tentam lhe impor. Como dissemos em 1993, reafirmamos:

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“Construir uma nova sociedade significa colocar em campo o debate e o confronto das ideias; expor nossos pensamentos como forma alternativa de reflexão; abandonar as estradas da omissão infrutífera; mostrar que, sendo parte do coletivo, temos o direito e o poder de interferir nos rumos da história”. (página 36)

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REFERÊNCIAS BISPO, Carlos Roberto e outros. Crise Financeira Mundial: impactos sociais e no mercado de trabalho /, Juliano Sander M u s s e , F l á v i o T o n e l l i Va z , F l o r i a n o J o s é M a r t i n s (Organizadores). Brasília: 2009 ANFIP, 200 p. BOFF, Leonardo. Civilização planetária : desafios à sociedade e ao cristianismo. Rio de Janeiro : Sextante, 2003. BOFF, Leonardo. A Oração de São Francisco : uma mensagem de paz para o mundo atual. Rio de Janeiro : Sextante, 1999. BUARQUE, Cristovam. Reaja. Editora: Garamond. Brasília, setembro, 2011. CURY, Augusto Jorge. O futuro da humanidade. São Paulo: Arqueiro, 2005. FREIRE, Paulo. Pedagogia da esperança: um reencontro com a Pedagogia do oprimido. Editora: Paz e terra. Rio de Janeiro, 1992. MÉSZÁROS, István. Para Além do Capital: Rumo a uma teoria da transição. Editora: Boitempo. 1ª Edição. São Paulo, 2002. M ÉS Z ÁR O S , István. A educação para além do capital ; [tradução Isa Tavares]. – 2 ed. – São Paulo : Boitempo, 2008. SILVA , Edmundo Fernandes C. da. Avaliação da aprendizagem matemática com apoio de computadores: possibilidades e desafios. UFPE, Recife, 2004. SILVA , Edmundo Fernandes C. da. Laboratório de Matemática: uma análise sobre o uso das novas tecnologias no ensino de matemática numa escola rural do Município de

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Escada-PE, Faintvisa, Vitória de Santo Antão, 2003. 100 discursos históricos brasileiros / organização Carlos Fogueiredo – Belo Horizonte: Editora Leitura, 2003. ASSIS, J. Carlos de. Por que a Europa do euro afunda na crise que ela própria alimenta. Disponível em <http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm? materia_id=21114>, acessado em 20 de julho de 2013. JUNIOR, Durval Ramos. Tudo o que você pode esperar da tecnologia até 2030. Disponível em <http://www.tecmundo.com.br/previsoes/5085-tudo-o-quevoce-pode-esperar-da-tecnologia-ate-2030.htm> Acessado em 20 de julho de 2013. BETTO, Frei. Boas-vindas ao Papa Chico. Disponível em <http://leonardoboff.wordpress.com/2013/07/18/boas-vindas-aopapa-chico-frei-betto/> acessado em 20 de julho de 2013.

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NOTAS 1

(*) Economista, professor de Economia Internacional da UEPB, autor, entre outros livros, do recém-lançado “A Razão de Deus”, pela editora Civilização Brasileira. Esta coluna sai também nos sites Brasilianas e Rumos do Brasil, e, às terças, no jornal carioca “Monitor Mercantil”. 2 Banco Central dos Estados Unidos é o FED. FED significa Federal Reserve System, mas é muitas vezes abreviadamente designado por Federal Reserve. 3 http://www.oit.org.br/content/recuperacao-desigual-do-emprego-e-desafio-paramaioria-dos-paises 4 É denominada hegemonia a supremacia de uma entidade sobre outras de igual tipo. 5 “Como poderia o Estado Fenecer?”, ver página 564. 6 http://www1.folha.uol.com.br/folha/dinheiro/ult91u395708.shtml 7 http://www.cartamaior.com.br/templates/ postMostrar.cfm?blog_id=6&post_id=1257 8 Ver página 15 9 http://www4.cinemaemcena.com.br/diariodebordo/?p=3050 10 http://www.brasildefato.com.br/node/13378 11 Ver Entrevista Globo News, divulgada em 28 de julho de 2013. 12 Pedagogia da Esperança, página 25. 13 http://noticias.terra.com.br/mundo/europa/ong-maioria-cre-que-corrupcaoaumentou-globalmente-desde2011,fdb80699fa0cf310VgnCLD2000000ec6eb0aRCRD.html 14 Ver página 1001 do livro “Para Além do Capital” 15 Publicado pela Unesco Brasil em 2001 (http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/ue000060.pdf) 16 https://www.youtube.com/watch?v=89BMhivvRFE 17 Ver página 215. 18

http://www.ipea.gov.br/portal/index.php?option=com_content&view=article&id=1902 8&Itemid=2 19 Educador e político, nascido em Pernambuco, doutor em economia, foi reitor da universidade de Brasília e governador do Distrito Federal. 20 http://www.youtube.com/watch?v=yHUq9NgMQtM 21 Ação Católica Operária, atualmente denominada Movimento dos Trabalhadores Cristãos (MTC) 22 www.contaspublicas.caixa.gov.br Acessado em 25 de julho de 2013. 23 https://www.youtube.com/watch?v=Q7U7Q4fqEXI 24 http://www.leonardoboff.com/site/vista/2008/maio09.htm 25 Influente médico, nutrólogo, professor, geógrafo, cientista social, político, escritor, ativista brasileiro que dedicou sua vida ao combate à fome. 100


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http://www.vatican.va/roman_curia/pontifical_councils/corunum/documents/rc_pc_co runum_doc_04101996_world-hunger_po.html 27 Página 60, cântico 125. 28 István Mészáros é um filósofo húngaro e está entre os mais importantes intelectuais marxistas da atualidade. Professor emérito da Universidade de Sussex, na Inglaterra, onde ensinou filosofia por 15 anos, anteriormente foi também professor de Filosofia e Ciências Sociais na Universidade de York, durante 4 anos. 29 http://rio20.net/pt-br/documentos/injustica-geracional/ 30 http://g1.globo.com/concursos-e-emprego/noticia/2013/05/desemprego-atinge-734milhoes-de-jovens-no-mundo-diz-estudo-da-oit.html. Acessado em 25 de julho de 2013. 31 Conferência informada por Alan Woods em 7 de janeiro de 2011. Ver http://www.luchadeclases.org/internacional/america-latina/cuba/377-intelectuaiscomunistas-cubanos-discutem-futuro-do-socialismo.html 32 http://www.academia.org.br/abl/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=2886&sid=434 33 Professor no IF/SP (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo. Ver site http://outraspalavras.net/posts/sobre-marxismo-e-natureza-humana/ 34 http://outraspalavras.net/posts/o-mito-do-capitalismo-natural/ 35 Nº 26 no livro Loas e Lamentos, lançado pelo Pe. Geraldo Leite Bastos, primeiramente em 1973, no Distrito de Ponte dos Carvalhos, Cabo de Santo Agostinho e em 1984 em nossa querida Escada. 36 Ver página 35 do livro “Reaja” 37 A Carta da Terra é uma declaração de princípios éticos fundamentais para a construção, no século 21, de uma sociedade global justa, sustentável e pacífica, publicada no ano 2000. 38 Ver página 115 39 Avatar é um filme americano de ficção científica de 2009, escrito e dirigido por James Cameron, e estrelado por Sam Worthington, Zoë Saldaña,Michelle Rodriguez, Sigourney Weaver e Stephen Lang. O filme, que foi produzido pela Lightstorm Entertainment e distribuído pela 20th Century Fox, tem seu enredo localizado no ano 2154 e é baseado em um conflito em Pandora, uma das luas de Polifemo, um dos três planetas gasososfictícios que orbitam o sistema Alpha Centauri. Em Pandora, os colonizadores humanos e os Na'vi, nativos humanoides, entram em guerra pelos recursos do planeta e a continuação da existência da espécie nativa.4 O título do filme refere-se aos corpos Na'vi-humanos híbridos, criados por um grupo de cientistas através de engenharia genética, para interagir com os nativos de Pandora. 40 Em Civilização Planetária, PP. 51 41 Ver “Países ricos têm maiores índices de depressão, diz pesquisa”, publicação em 10/08/2011, http://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/953244-paises-ricos-tem101


CARACTERÍSTICAS DESTE LIVRO: Formato: 14 x 20 cm Tipologia: Palatino Linotype Papel: ofsete 75g/m2 (miolo) Couche Fosco 180g/m2 (capa) Impressão: Toinho di Sousa 1ª Edição: 2013


Edmundo Fernandes Cavalcante da Silva é professor de Matemática do Ensino Fundamental de uma escola pública do município de Escada. É Especialista em Avaliação e Educação Matemática pela Universidade Federal de Pernambuco e pela Faculdade de Vitória de Santo Antão. Filiado ao Partido dos Trabalhadores desde 1991, é Membro Honorário da Academia Escadense de Letras (AELE). Artista e compositor, tem atuado de forma decisiva na luta em defesa da cultura popular.

Outrasatitudes rediscutindo algumas ideias  

Livro de autoria de Edmundo Fernandes Cavalcante da Silva, residente na rua Augusto Cavalcante, 268, Jaguaribe, Escada-PE

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