__MAIN_TEXT__
feature-image

Page 1

edição

B

JORNAL DA BROTERO

REFUGIADOS A ARTE COMO FAROL PRODE - PROJETO DE DESIGN E ROBÓTICA AI, ESSA LÍNGUA!

DEZ

18


18 B

EDITORIAL

,

INDICE

BREVES 3 - Participação da ESAB no concurso Ibero-Americano de Informática, por Pascoal Albuquerque 4 - Entrega de Diplomas GRUPO DISCIPLINAR DE BIOLOGIA 5 - As “Minhas” Olimpíadas, por Viktoriya Shkatova ROTEIRO PEDAGÓGICO 7 - Eminӧnȕ e o Bairro do Bazar, por Aires Antunes Diniz TEMA DE CAPA 9 - Refugiados somos todos nós, por João Sá 10 - A Crise dos Refugiados, Problemas e Soluções, por Pedro Falcão 12 - Olhar o sofrimento dos outros, por Maria Helena Dias Loureiro GRUPO DISCIPLINAR DE FILOSOFIA 14 - O pensamento que “com-vida” a pensar, por Helena Gonçalves GRUPO DISCIPLINAR DE PORTUGUÊS, ESPANHOL E FRANCÊS 16 - A lágrima, por Hugo Antunes (11º 1A) 17 - Amor e morte, por Hugo Antunes (11º 1A) 18 - Ai, Essa Língua!, por Núcleo de Estágio de Português CULTURA E LAZER 19 - Eu sei que existes, por Graça Alves BIBLIOTECA 20 - A Arte como Farol, por Miguel Tobback (10º PM) 21 - A Arte como Farol na Biblioteca Escolar, por Carla Fernandes - A visita ao Museu Nacional Machado de Castro, por Marciano Rodrigues (11º 3B) 22 - Ciência e Contraceção, por Carla Fernandes Dia Mundial da Alimentação, por Carla Fernandes 23 - Mestres da palavra, por Carla Fernandes - Centro Social São José, por Ana Semedo e Natacha Miranda (10º PM) 24 - Instituto Português de Oncologia de Coimbra, por Inês Ferreira, Laura Costa e Tiago Rodrigues (10º PM) 25 - Projeto Ler + Jovem, por Carla Fernandes PROJETOS 26 - Colaboração ESAB-FPCEUC-UFPB, por Pascoal Albuquerque e José Jassuipe Morais - Notícias do Gabinete de Projetos - Estágios Internacionais, por Francisca Cabo e Manuela Areias 27 - PRODE, por João Sá EDUCAÇÃO ESPECIAL 28 - Eu “Cei” Comer, por José Rêgo GABINETE DO ALUNO 29 - Sessões de informação e sensibilização no âmbito do tráfico de seres humanos (TSH), por Gabinete do Aluno - Prevenção e combate à violência doméstica, por Joana Lapo, Estagiária do Gabinete do Aluno ANTIGOS PROFESSORES 30 - Dr. Antonino Henriques, diretor da Brotero, por Aires Antunes Diniz CULTURA E LAZER 31 - Tarde de Outono, por Manuela Areias 32 - Vim de outro lugar, por Manuela Areias - Há sangue irracional a correr, por Graça Alves

B 2

P

ermitam que me dirija, em primeiro lugar, aos alunos que frequentam este ano pela primeira vez a Escola Avelar Brotero, desejando, em meu nome e de toda a comunidade escolar, que não se arrependam da vossa opção. Podem contar com o nosso apoio e dedicação. O tema deste jornal, “Os Refugiados”, é muito oportuno, pois todos os dias vemos imagens que, forçosamente, não nos podem deixar indiferentes. Muitos adultos e crianças, mas também jovens como vocês, correm risco de vida para alcançarem alguma segurança e a possibilidade de reorganizarem a sua vida. São pessoas que perderam tudo, muitos deles os próprios pais. Perderam, também, a sua Escola e a possibilidade de poderem aprender. Temos, todos os que usufruímos de uma Escola com todas as condições, a obrigação de refletir sobre a situação em que se encontram e a possibilidade de a ultrapassar. Por isso, e caso sejamos chamados a receber alunos migrantes, devemos, contribuir para a sua integração normal na Escola e na nossa sociedade. Não nos podemos esquecer dos milhões de portugueses que tiveram, embora por outras razões, de emigrar e que foram recebidos noutros países. Para terminar, desejo a toda a comunidade educativa um bom Natal e um 2016 feliz.

O Diretor da ESAB,

MANUEL CARLOS ESTEVES DA FONSECA REDAÇÃO: António Marques (Coordenador) Emília Melo Fernanda Madeira Hélia Marques Isabel Sá José Vieira Pedro Falcão josé ponciano capa E DESIGN: JOSÉ PONCIANO (12º 2B)

Nota da redação: As fotografias que acompanham os artigos são da responsabilidade dos respetivos autores


BREVES

Participação

da ESAB no Concurso Ibero-Americano de Informática por Correspondência 2015 e nas Olimpíadas Internacionais de Informática 2015

N

a sequênciadoapuramentorealizado em 23 de maio, no Departamento de Ciências de Computadores da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, os quatro alunos portugueses, entre os quais o aluno da ESAB, Gonçalo Paredes, do 12.º C (11.º 1B, em 2014-2015), participaram no Concurso Ibero-Americano de Informática por Correspondência (CIIC), uma prova destinada a preparar os melhores alunos de vários países da América Latina e da Península Ibérica para as Olimpíadas Internacionais de Informática (OII).

Foram ainda obtidas duas medalhas de bronze pelos alunos Fábio Colaço e João Lago.

Os 4 alunos que representaram Portugal no CIIC 2015 e nas OII 2015 foram:

Gonçalo Paredes – 11.º ano da Escola Secundária Avelar Brotero (Coimbra); José Correia – 12.º ano da Escola Secundária da Amadora; João Lago – 12.º ano do Colégio Internato dos Carvalhos (Vila Nova de Gaia); Fábio Colaço – 12.º ano do Agrupamento de Escolas do Forte da Casa (Vila Franca de Xira). O Gonçalo Paredes obteve uma medalha de prata para Portugal (que ficou perto do ouro).

Entre 26 de julho e 2 de agosto, decorreram em Almaty, no Cazaquistão, as 27 as Olimpíadas Internacionais de Informática (OII). Desde 1991, que a Associação para a Promoção e Desenvolvimento da Sociedade da Informação (APDSI) organiza as Olimpíadas Nacionais de Informática (ONI), selecionadoras e preparatórias para as OII. Nesta segunda participação consecutiva nas OII, o Gonçalo alcançou o 167.º lugar em 322 concorrentes de todo o mundo (ficou a 3 pontos da medalha de bronze, numa escala de pontuação de 0 a 600). A nível nacional, foi o 1.º classificado dos quatro participantes portugueses. No ano anterior (OII realizadas em Taipei, Taiwan), o Gonçalo alcançou o 259.º lugar.

B 3


BREVES De salientar que, de todos os países que participaram no CIIC 2015, apenas o Brasil conseguiu medalhas (dois bronzes) nas OII 2015.

O professor dinamizador felicita o Gonçalo Paredes pelos resultados alcançados no CIIC e nas OII, bem como agradece à direção e aos professores que possibilitaram esta participação.

Pascoal Albuquerque

DIPLOMAS

D

ENTREGA DE DIPLOMAS

ecorreu, na passada 6ª feira, dia 27 de novembro, a cerimónia de entrega dos diplomas de Mérito Académico a cento e oito alunos da Escola. Foram também distinguidas, com o Prémio de Mérito, as três melhores alunas que concluíram o Ensino Secundário. Foram, ainda, entregues 22 Diplomas de Quadro de Honra António Augusto Gonçalves* a alunos que se distinguiram nas seguintes áreas: Desporto, Associação de Estudantes, Delegados de Turma, Escolíadas e Concurso da DECO. Os diplomas foram entregues pela Presidente do Conselho Geral, Diretor, Subdiretora, Presidente da

B 4


GRUPO DISCIPLINAR DE BIOLOGIA Associação de Pais e Encarregados de Educação, Presidente da Associação de Estudantes, Diretores Diretores de Turma e Professores. No auditório estiveram presentes Pais e Encarregados de Educação, bem como antigos e atuais alunos da Escola. A Escola é frequentada por 845 alunos dos Cursos Científico-Humanísticos e por 550 alunos de Cursos Profissionais. Frequentam o Ensino Noturno 30 alunos do Curso EFA e 200 alunos do Ensino Recorrente. * Primeiro professor da Escola, em janeiro de 1884. A Direção da ESAB

AS “MINHAS” OLIMPÍADAS

T

Tudo começou em Dezembro de 2014, quando a professora chegou à sala com uma folha com informações sobre as Olimpíadas de Biologia. Lembro-me de nos ter incentivado a participar, de ter dito que, quem sabe, até podíamos ganhar uma viagem. Quem diria, na altura, que ia mesmo acontecer? Na verdade nunca acreditei que conseguisse chegar tão longe. Esforcei-me, dei o meu melhor tanto em casa a estudar, como nas duas primeiras provas e, felizmente, o trabalho compensou: alguns meses depois (que duraram anos) vieram os resultados e eu soube que tinha passado à final. Foi um tanto assustador, saber que teria de aprender imensas coisas em pouco tempo, mas o apoio não faltou e rapidamente chegou o dia. Estava nervosíssima, não conhecia ninguém, estava à espera que o ambiente fosse hostil, que

as pessoas fossem competitivas ao ponto de não falarem entre si. Estava mais do que enganada. Nunca tinha visto tanto espírito de entreajuda como ali. Nesse dia, percebi algo que me ajudou no resto do meu percurso: eu não era a única sem experiência. Para minha felicidade, os resultados das finais não tardaram a sair e não podia ter ficado mais feliz, quando soube que estava entre os 10 melhores do 11º ano. Até à cerimónia eu nem imaginava que havia ficado em primeiro lugar, por isso, quando fui a última a ser chamada ao palco, fiquei sem palavras. Pensava que tinha atingido o ponto alto, que já tinha o melhor, quando voltei a ouvir o meu nome. Desta vez o meu futuro professor anunciou que eu seria uma das quatro pessoas que iria representar Portugal nas IX Olimpíadas Ibero-Americanas de Biologia, em El Salvador. Esta foi talvez das maiores surpresas da minha vida. Como em qualquer competição, esta também necessitava de um conjunto de treinos de preparação. Embora ter treinos implicasse ter aulas durante as férias, eu diverti-me realmente nesse período de tempo, tudo graças aos meus novos “colegas”, que rapidamente se transformaram em amigos. Percebi que, sem eles, nada do que vivi teria sido o mesmo. Eles, melhor do que ninguém, percebiam o que sentia, porque estavam a passar pelo mesmo.

B

5


GRUPO DISCIPLINAR DE BIOLOGIA

Delegação Portuguesa: Doutor José Matos, Viktoriya Shkatova, José Bouta Matos, Leandro Silva, Sílvia Lopes e Profa Paula Castelhano

Finalmente, no fim do Verão de 2015, a grande viagem chegou. Foram 10 longas horas enfiada num avião…estava mais do que ansiosa para chegar ao destino. As primeiras pessoas que conheci foram os nossos vizinhos espanhóis. Aí, deparei-me com uma das maiores dificuldades que tive durante toda viagem: comunicar. Acontece que as Olimpíadas Ibero-Americanas são destinadas aos países latinos e aos países ibéricos e, como tal, a devastadora maioria dos competidores fala espanhol (escusado será dizer que não pertenço a essa maioria). Felizmente, todos eram bastante amigáveis e faziam um esforço para falar devagar (ainda assim, ao 2º dia, optei por falar em inglês, que me pareceu mais cómodo e rápido). Mais uma vez, para minha surpresa e dos meus colegas, antes e durante os dias das provas reinava um clima de entreajuda, não só entre membros do mesmo país, mas também entre pessoas de países diferentes. Lembro-me que o teste prático me correu bastante mal, mas ali estavam os meus colegas tanto de Portugal, como dos outros países para me apoiar e distrair. Evidentemente que esta viagem não se resumiu apenas a provas. Nos dias de pausa e enquanto esperávamos pelos resultados, tivemos a oportunidade de conhecer o país que nos acolhera.

Foi uma experiência extremamente enriquecedora: conheci uma cultura totalmente diferente das culturas europeias, um país com uma história única e a uma natureza lindíssima. Mas tudo o que é bom chega ao fim, esta experiência não foi exceção. Na realidade, após uma semana repleta de emoções, novas amizades, novos saberes, eu já não estava ansiosa pelos resultados. Estava muito cansada, mas era um cansaço bom, agradável, de quem deu e aproveitou ao máximo. Eu estava preparada para tudo, mas não pude esconder a felicidade quando fui chamada para receber a minha Menção Honrosa. Estava ali o reconhecimento do meu trabalho. O momento mais difícil de toda a viagem foi a despedida, porque sabia que era inevitável. Tinha criado novos amigos fora, mas os meus próximos e a minha vida continuavam cá, em Portugal. Tinha agora pela frente uma longa viagem de regresso, que me pareceu menos demorada, talvez por estar cansada. Embora ainda hoje sinta saudades daquele país que me acolheu e das pessoas que me rodeavam, é bom estar de volta, nas mãos de quem mais se importa comigo, sabendo que guardarei esta experiência na minha memória, para o resto da vida.

VIKTORIYA SHKATOVA, 12º 1C

B 6


.. Eminonu`` e o Bairro do Bazar

C

omo me acontece quase sempre, só à beira do último minuto comprei um guia de viagem para me elucidar sobre Istambul, onde iria decorrer o ISCHE 37 (International Standing Conference for History of Education), cujo tema central era a Cultura e a Educação. Tinha duas comunicações para fazer e, à chegada, tinha também uma surpresa: ia presidir a uma das sessões. Foi o que me causou alguma apreensão, dada a minha pouca fluência de inglês, a língua franca no Congresso. Mas tudo correu bem, mostrando-se infundados os meus receios. Para chegar a Istambul tive de atravessar o agora pouco amigável aeroporto de Frankfurt, pois estava sob imposição de mais regras de segurança por ir sair do espaço Schengen. Não houve sobressaltos e, à chegada a Istambul, tinha a esperar-me a simpatia do povo turco. No hotel, o Antik, não descuraram nada. Sabiam o meu nome e tinham colocado no meu quarto uma prenda, um texto de boas-vindas, e o convite para ver a cisterna, que é onde o mesmo assenta, tratando-se de um museu para onde se vai por um corredor que é simultaneamente uma galeria de arte.

ROTEIRO PEDAGÓGICO “Simpatia” foi também a marca da minha estadia, apesar de alguns dos comerciantes me tentarem enganar nos preços. Mas tal é o rosto do Grande Bazar, de onde saí sem dinheiro. Porém, isso não é só culpa deles. Outros, noutros lugares, me “depenaram” sem conversarem comigo nem me darem nada em troca.

O hotel tinha uma vista maravilhosa para o Mar da Mármara e logo que acordei fui vê-lo. Todavia, umas inestéticas construções próximas impediam-me que o visse de perto. Do mesmo modo, a limitação da viagem que fiz com os meus colegas de congresso não deu para o observar. Eram só luzes e mais luzes que criavam um ambiente mágico, onde se escondiam todas as feiuras de uma cidade, na qual há alguma degradação urbana, como entrevi. Mas o melhor do passeio foi a conversa com os amigos que reencontramos e, assim, deixei de “ver” o mar que liga/separa a Europa da Ásia. A conversa era amiga e estimulante, por isso não me queixo nem penso no que perdi. Só desejo voltar, pois, por falta de tempo, restringi o meu passeio a Eminonu, uma das partes de Istambul.

B 7


ROTEIRO PEDAGÓGICO No meu passeio vagabundo, pude ver como os achados arqueológicos são o timbre de uma cidade, que na verdade são três cidades: Bizâncio, Constantinopla e Istambul. São as marcas da cultura grega que encontrei no restaurante cheio de jovens, notando-se até a presença de alguns véus de que, por vezes, se desembaraçaram. Encontramos também traços da cultura romana e árabe, esta última marcando a paisagem com as muitas mesquitas, pois encontrei-as a cada momento. A mesma realidade vêmo-la espalhada pela Europa e pela Ibéria, onde vivemos. E disso me dá conta Vicente de Pereda em 1942. Encontrei vestígios, ou melhor, testemunhos de arte grega ou romana por todo o lado e, espalhados na rua principal, há achados arqueológicos que mostram como uma cidade dinâmica e amiga convive com o seu passado de forma natural. Reparei no modo flexível como circulavam as mercadorias em ruas íngremes e engarrafadas. É agora tempo de dizer que durante este Congresso, onde se misturaram velhos e funcionais edifícios universitários, convivi com amigos de já longa data em inglês, francês e português. Foram dias intensos de troca de ideias, reencontrei amizades, todas feitas de conversas curtas de ano para ano, procurando sempre a melhor das hipóteses para o diálogo. Mas, nada disso nos preocupou. Apenas desejamos manter uma convivente cooperação em que ficamos mais ricos em saber após uma sessão em que ouvimos e debatemos ideias. Nem sequer nos preocupamos com o facto de que bem perto decorria uma guerra entre a barbárie e a civilização, que ninguém consegue identificar e muito menos perceber. Preocupava-nos bem mais o drama da Grécia à beira de ser triturada por um capitalismo que, cruelmente, propõe só mais austeridade, tal como Eça nos fala da “terapêutica” proposta para os males do nosso século XIX: economias. Preocupávamo-nos, nós, investigadores portugueses, com o pouco apoio que temos para realizar o nosso trabalho. No entanto, a visita final à Fire Tower, após uma subida de muitos degraus, dava-nos como prémio do nosso labor uma vista magnífica de uma cidade, que era, e é, afinal, traço de união entre a Europa e a Ásia, a sempre renovada esperança de um Mundo de Paz entre os homens. Referência: PEREDA, Vicente de - Estilos Arquitectónicos: su conocimiento y distinción, M. Aguilar, Editor, Madrid, 1942.

B 8

Aires Antunes Diniz


TEMA DE CAPA

Refugiados H somos todos nós

á ideias fáceis, outras difíceis. Umas fáceis de explicar, outras difíceis de compreender. Há ideias certeiras. Há ideias complicadas. Um refugiado pertence às primeiras. Basta olhar para nós para perceber. Uns são altos, outros baixos e outros médios; uns homens, outros mulheres e outros também; uns fracos, outros fortes e outros não; uns são claros, outros morenos e outros alguém; uns têm certezas, outros dúvidas e outros querem saber.

Vivemos e queremos viver. Precisamos de segurança, alimento e algo mais. Queremos esse direito. Temos o dever. Todos tivemos pai e mãe, nem todos filho ou irmão. Ou... talvez não! Todos estamos ligados por um bater de coração Refugiados são pessoas, que vieram procurar. Como nós, querem viver, sem precisar de saltar. Porque não podem querer?

Porque são de outro país? Serão de outro planeta? Porque falam outra língua? E nós, não falamos também? Porque têm outra religião? E quem nenhuma tem? Porque têm outros pais ou avós? E os nossos quem são? Quem é o refugiado? Será o migrante? Este é um ser vago, que muda de país, de região. Refugiado é quem se viu forçado. Quem procura abrigo e protecção. Quer algum conforto, paz, o que é bastante. Não somos todos refugiados. Mas poderemos ser. Não somos todos refugiados. Mas andamos a correr. Não somos todos refugiados. Mas nem sempre podemos escolher. Não somos todos refugiados? Queremos todos viver.

JOÃO SÁ (Não escreve de acordo com a nova grafia)

Unnamed_Fotografia de Daniel Etter para o The New York Times (http://goo.gl/mZ1zMM)

B 9


TEMA DE CAPA

A crise dos refugiados: problemas e soluções

S

ó este ano milhares de pessoas atravessaram o Mediterrâneo em barcos sobrelotados depois de viagens de semanas ou meses em fuga de perseguições, guerras – como a da Síria – ou de uma vida sem perspetivas de futuro. Nesta viagem de fuga, calculam-se já, neste momento, cerca de 3511 mortos e desaparecidos com o naufrágio dos barcos em que seguiam para a Europa.

3511 MORTOS Atualmente, refugiados e imigrantes continuam a chegar à Europa, sobretudo às ilhas gregas, fazendo-se já uma triagem das dezenas de milhares de pessoas que continuam a chegar às fronteiras da União Europeia. Por várias razões, e talvez por intolerância, nos países Balcãs – Sérvia, Croácia, Macedónia e Eslovénia – já só deixam passar as suas fronteiras, sírios, afegãos e iraquianos. Os imigrantes oriundos de África e da Ásia são mandados para trás, sendo apenas recebidos aqueles que fogem dos países em guerra no Médio Oriente e os do Afeganistão. A necessidade daquela triagem aos milhares de refugiados que chegaram e continuam a chegar à Europa – este ano só e até ao momento presente foram cerca de 900 000, segundo os números das Nações Unidas – foi mencionado pela primeira vez pela chanceler alemã com o argumento de que a Europa não pode absorver toda a gente e que é preciso dar prioridade aqueles que precisam mesmo de refúgio.

B 10

Estes milhares de seres humanos que estão em fuga sujeitam-se, entretanto, a traficantes e passadores para atravessarem o Mar Mediterrâneo e passarem a salto as fronteiras da União Europeia. Por outro lado, o destino de muitos dos refugiados é serem acolhidos em campos de refugiados, fechados e inseguros, sobrelotados e sem condições sanitárias adequadas a seres humanos. São acolhidos sem terem qualquer perspetiva de uma solução duradoura para o seu refúgio. Entretanto, alguns países europeus começaram já a restringir e a criar dificuldades ao acolhimento de refugiados. Em Portugal, pelo contrário, entende-se que a situação dos refugiados é de emergência humanitária e, por isso, deve-se acolher calorosa e solidariamente as pessoas que estão em risco. Segundo o CPR – Conselho Português para os Refugiados – adiar as situações e atrasar as soluções só vai contribuir para o agravamento do problema humanitário. Assim, ainda segundo aquele organismo português, devem ser criadas todas as condições urgentemente para acolher os refugiados, dando-lhes uma vida digna. Os sírios e os afegãos que fogem para as ilhas gregas, tentam depois, sempre por terra, atravessar a Grécia, a Macedónia, a Sérvia e a Hungria, para alcançar a Alemanha como destino final: aí, muitos têm familiares, existindo também comunidades significativas com afinidades linguísticas e culturais. O movimento nessa rota intensificou-se muito nos últimos meses, com milhares de pessoas, incluindo muitas mulheres e crianças, a forçar as barreiras policiais e de arame farpado. Muitos destes refugiados estão


fisicamente exaustos e psicologicamente traumatizados, com necessidade de assistência humanitária e médica, especialmente os mais vulneráveis como as pessoas doentes, mulheres grávidas, idosos e crianças. Torna-se, por isso, imperativo que estas pessoas refugiadas sejam humanamente tratadas e tenham a assistência fundamental garantida, defende o ACNUR – Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados. Esta organização apela também às autoridades dos diferentes países europeus para gerirem as suas fronteiras com humanidade e de acordo com as suas obrigações internacionais e humanitárias. Para o ACNUR, a unidade da família e a proteção de pessoas com necessidades específicas, devem estar asseguradas. É imperativo que surja uma resposta europeia a este problema baseada na solidariedade e no respeito pela humanidade.

Um grave problema relacionado com este fluxo anormal de refugiados aos países europeus é a passagem para a Europa de terroristas do Estado Islâmico. Dois dos terroristas que se fizeram explodir em França, a 13 de novembro, e que causaram o terror naquela noite em Paris, passaram pela Grécia em outubro, seguindo a mesma rota de inúmeros sírios refugiados. É, por isso, inadiável que o poder político de cada país e as forças de segurança internacionais e nacionais se unam num mesmo combate a esse flagelo do terrorismo que, atualmente, assola a Europa. Irremediavelmente, é cada vez mais difícil, agora com este fluxo de imigrantes e de refugiados, controlar a entrada em território nacional de membros terroristas do Estado Islâmico.

Temos de ter consciência de que este problema não pode ser resolvido isoladamente por cada país, tornando-se assim urgente uma cooperação internacional a nível europeu.

Terminando, cremos que a integração local nos países de acolhimento, possivelmente com um direito de residência permanente, para que possam viver em paz e refazer as suas vidas, tanto a nível pessoal como social e económico, pode ser uma solução duradoura para a situação dos refugiados que, assim, tenham uma vida garan tida com perspetivas de futuro.

Pedro Falcão

B 11


TEMA DE CAPA

“Olhar o sofrimento dos outros”

H

á fotografias de que, vistas uma vez que seja, nunca mais nos esquecemos. Nem precisamos de as ver de novo. Basta alguém falar naquele beijo no meio de Paris, ou naquela execução no meio de Saigão. Esta, de que aqui partilho um detalhe, pertence a um tipo de fotografia que Susan Sontag, num pequeno livro publicado em 2003, Regarding the Pain of Others,1 identificaria como herdeira de uma longa tradição do chamado fotojornalismo. Neste ensaio alargado, que, não por acaso, não contém uma única fotografia, Sontag traça o percurso do interesse da fotografia pelo horror e a morte, desde as captadas por Roger Fenton, fotógrafo britânico, e um dos primeiros fotógrafos de guerra, pouco depois da “Carga da Brigada Ligeira”, na Guerra da Crimeia, até às registadas, na década de noventa do século passado, durante a limpeza étnica perpetrada nos Balcãs, passando pelas tiradas, entre outros, por Mathew Brady, durante a Guerra Civil Americana, por Robert Capa, durante a Guerra Civil Espanhola, as dos campos de extermínio nazi, de que Buchenwald e Auschwitz são os mais conhecidos exemplos, Hiroshima, a fome na Índia e no Biafra, a guerra de novo, desta vez no Vietname, e o genocídio levado a cabo pelos Khmer Rouge, no Camboja. Numa sociedade de espetáculo como aquela em que, há muito, a nossa se tornou, Susan Sontag desconfia do valor da fotografia como elemento, ao mesmo tempo perturbador e mobilizador das

B 12

consciências daquelas e daqueles que assistem ao horror, sentados no sofá, ou entre garfadas, ou entre anúncios ao novo modelo de carro, iPad ou telemóvel, ou mesmo antes, ou logo a seguir, ao último escândalo amoroso, financeiro ou político. Pensa ela que esta exposição excessiva a imagens de extrema violência, real, leva muitas pessoas a ter uma reação que, repetidamente, se ouviu, e ainda se ouve, nos telejornais, logo após o 11 de Setembro, e que é ecoada em cada mortífero atentado, ou desastre natural, em solo ocidental ou que tem ocidentais como vítimas, ainda que não exclusivas: “Parecia um filme! Era tudo tão irreal...” No noticiar destes acontecimentos não faltam as estratégias das narrativas fílmicas, não falta o fundo musical, a voz off, a câmara lenta e outros efeitos especiais do medium. A associação destes dois fatores, isto é, as condições de visionamento e a familiaridade das imagens, leva a que Susan Sontag, embora reconheça na fotografia um potencial de denúncia decisiva, como aconteceu, por exemplo, com os relatos da Guerra do Vietname e dos massacres nela perpetrados por os que sempre nos habituámos a ver (porque assim fomos habituados) como “os bons”, não acredite que seja através dela que, verdadeiramente, se mudarão consciências ou que se porá, alguma vez, fim às guerras e aos seus horrores.


É de guerras concretas e muito reais, com todo o rol de miséria e sofrimento que sempre as acompanham, que milhares de homens, mulheres e crianças fogem, há um ano. Vêm pelo Mediterrâneo ou pelo sudeste europeu e tentam deixar para trás a Síria e o Iraque; a Eritreia, a Nigéria, a Somália, o Sudão e a Gâmbia; o Afeganistão, o Paquistão e o Bangladesh; a Sérvia, o Kosovo e a Albânia.

Entre elas,

Aylan Kurdi DE 3 ANOS, SÍRIO, PASSOU A FAZER PARTE DOS NOSSOS PESADELOS

Que espécie de mãe, perguntava-se, põe uma criança tão pequena num bote e se lança aos perigos conhecidos, noticiados, do mar? Houve, de imediato, quem respondesse: aquela que se sente mais segura no mar e na sua incerteza, do que na terra e na certeza de uma vida sem futuro. Durante dias, jornais, revistas, televisões sujeitaram o corpo morto de Aylan Kurdi à mais abjeta das violações, num exercício de voyeurismo pornográfico2 que os media reservam para uns corpos e nunca para outros. Também nas redes socias, milhares de pessoas multiplicaram os posts com a fotografia tirada na praia turca, frequentemente argumentando que o faziam, tal como em outras circunstâncias (recentemente as atrocidades cometidas pelo chamado estado islâmico), para denunciar, para acordar consciências

enclausuradas num estado de “savage torpor”, como Sontag refere, citando Wordsworth. Se no caso das redes sociais a inutilidade desta replicação é tornada mais evidente, pelo modo como estabelecemos as redes de comunicação, isto é, com pessoas que connosco partilham modos de viver e de ver o mundo, no que toca aos outros meios de comunicação, a situação tem outros contornos, nem sempre edificantes e que lembram a noção adiantada por Simone Weil, em 1940, de que a violência transforma todos os que com ela contactam em objetos. Em comum, a vacuidade do aparentemente nobre objetivo de informar, já que, nas palavras de Sontag, estas imagens apenas “reiteram, simplificam, agitam, criam a ilusão de consenso”. De facto, a renovação e perpetuação da “abominação e barbárie” 3 assim denunciadas e exibidas leva a crer que as reações imediatas, histriónicas e sentimentais não produzem efeitos visíveis de mudança ou de desejo efetivo de mudança, de questionamento das origens, razões e persistência das guerras, das suas ramificações, dos interesses nelas investidos, e dos proveitos delas retirados.

Mas alguma coisa se alcança com a repetição em looping da violência extrema: como tristemente temos observado desde o dia 13 de novembro último, ter “em casa” o horror que se banalizou noutras paragens mais longínquas, mesmo que estes corpos sejam tratados com o pudor e a discrição que merecem e todos deveriam ter, assegura o estado mais ou menos generalizado de desconfiança e medo relativamente a todas e a todos que não são exatamente “como nós”. E o medo, como é sabido, é sempre mau conselheiro.

Maria Helena Dias Loureiro 1 Disponível em linha: http://monoskop.org/ images/a/a6/Sontag_Susan_2003_Regarding_the_Pain_of_Others.pdf. 2 Sobre este olhar libidinoso, Susan Sontag afirma: “the appetite for pictures showing bodies in pain is as keen, almost, as the desire for ones that show bodies naked”. 3 “You, Sir, call them "horror and disgust." We also call them horror and disgust...War, you say, is an abomination; a barbarity; war must be stopped at whatever cost. And we echo your words. War is an abomination; a barbarity; war must be stopped.” Excerto de uma carta de Virginia Woolf a um advogado londrino que lhe tinha pedido um comentário a fotografias enviadas pelo governo republicano espanhol e que representavam corpos despedaçados depois de ataques das tropas franquistas.

B 13


GRUPO DISCIPLINAR DE FILOSOFIA

O Pensamento que “com-vida” a Pensar - 1/2 Este espaço destina-se a apresentar breves notas de ideias alimentadas por obras, filósofos, correntes teóricas, pensadores, textos ou extratos de textos que estimulam o pensamento. Não pretende ser exaustivo sobre as temáticas apresentadas, mas apenas incentivar, levar a pensar, pôr em demanda (no sentido de K. Jaspers, “estar a caminho…”). São pequenos reflexos de reflexões mais desenvolvidas, de outros filósofos. Desta feita, com os filósofos Jacques Derrida e Emanuel Lévinas, a propósito da noção de hospitalidade, abordamos o conceito convocado para o problema dos refugiados.

A

hospitalidade constitui uma problemática central no pensamento do filósofo Jacques Derrida. Assinale-se a existência de poucas aproximações a esta temática ao longo da história da filosofia. Porém, sendo poucas, são muito significativas. As imagens que nos invadem da realidade dos refugiados, obriga a repensar o “outro”, o homem, a mulher, a criança que abandonam tudo para protegerem as suas vidas, num autêntico “salto” – não para o abismo- mas para a estranheza e insegurança que uma situação desconhecida causa. No pensamento ocidental, encontramos configurado o direito de asilo, de acolhimento aos que fogem de guerras e perseguições injustas. Este direito encontra-se consagrado nas Constituições e países democráticos, que, como Portugal, possuem algumas e manifestamente insuficientes infraestruturas para esse propósito (que, na situação atual se revelam escassas).

B 14

Desde 1951 que o direito de asilo existe a nível internacional e tal deve-se, fundamentalmente, à experiência das duas grandes guerras mundiais. Curiosamente, “ironia do destino”, a atual Síria, foi, na segunda guerra mundial, um dos países que acolheram judeus e muitos daqueles que fugiram da Alemanha nazi. Em termos de reflexão, Jacques Derrida é o filósofo que centra a ética e a justiça no conceito de hospitalidade. Neste aspeto partilha com Lévinas o primado da ética no pensamento. Este último, de família judia proveniente da Lituânia, viveu a experiência de refugiado, ao longo da sua vida, primeiro na Rússia e depois em França, onde se estabeleceu. O pensamento de Derrida e Lévinas está ligado à ontologia da relação, quer isto dizer que o fundamental se foca no postulado: o ser é relação. Este princípio do ser como sendo essencialmente relacional, traduz-se no entendimento de que a verdadeira e mais genuína realidade é o ser com o outro onde se insere a relação social e todas as relações interpessoais.


Daqui decorre que o ser, em geral, não é dado de uma vez por todas, o ser não é substância, essência definida apriori. O postulado do ser como relação, dá o primado à relação de pertença ao mundo, aos outros e através desta tónica na sociabilidade, a realidade é antes de mais, a construção social e cultural, o sentido resultante da relação com o outro. Nesta linha de ideias, a camada mais profunda do sujeito-eu não é o pensamento, mas a relação originária eu-tu. O ser é abertura ao outro, ao mundo, é diálogo, implica uma dinâmica própria, um processo, pois ao interagir modela-se reciprocamente. Em traços largos, a ontologia da relação reflete o espaço onde o ser se descobre e desenvolve o sentido da sua humanidade. Assim, em pleno século XX, a exigência de repensar e “resignificar” o outro aparece como uma exigência no contexto pós nazismo. A tarefa de romper com a conceção do outro entendido enquanto duplo do eu-sujeito, ou prolongamento do “eu” - pressuposto na relação de espelho -, o outro tomado como representação, que redunda em que o outro nada mais é do que o “mesmo”, o outro objetivado ou representação mental, foi o pressuposto dominante no decurso da história. Mas, a filosofia nomeadamente, pós as duas guerras mundiais, reclama a reivindicação do outro como ser diferente de mim, exterior, o outro tomado enquanto tal, por si mesmo, o que significa pensar o outro como diferença, em suma, na sua alteridade. Quer isto

dizer que o outro é detentor de uma singularidade, densidade, uma situação particular, que o torna único, irredutível, e que deve ser tratado como um fim em si mesmo (pessoa em Kant), relativamente ao qual recai o imperativo moral da hospitalidade. Este posicionamento filosófico exige o afastamento do primado do outro marcado pela estranheza, ser de ameaça, ou inimigo (estas categorias são da ordem do político). Em contraste, com esta conceção do outro, Lévinas afirma o primado do outro enquanto “rosto”, o primado da ética sobre o político. Esta categoria do rosto, pretende colocar em primeira instância, a relação de empatia entre o eu e o outro, estabelecendo um corte com as categorias mentais de associação outro-estranho-estrangeiro, relativamente ao qual o “eu” se terá de defender, apriori. Ora, interessa clarificar que esta relação de estranheza constitui uma experiência derivada e não originária, ou seja, é algo posterior, é um segundo momento, e não o momento constitutivo de formação do “eu”. Neste sentido a expressão de Jean Paul Sartre, “o inferno são os outros” enquadra-se na conceção de poder, de domínio ou objetivação decorrente da relação dual sujeito-objeto (e esquece a relação originária ou primordial).

Para a ontologia da relação, o “outro” faz parte intrínseca da minha constituição como ser humano, a humanidade forma-se, e desenvolve-se porque a vida relacional é a experiência imediata, direta, presencial, que é condição de todas as experiências qualitativas possíveis, profundamente ambíguas e ambivalentes, de encontros e desencontros. Lévinas tinha bem presente a experiência do nazismo, daí que a forma consequente de ultrapassar essa experiência - da qual ele e a sua família foram vítimas - é, doravante, o primado do outro como rosto, e deste modo inverter o pressuposto de outro objetivado, pelo pressuposto do outro na sua alteridade. Nesta linha de ideias a ontologia da relação pretende superar o princípio da desconfiança pelo primado da confiança originária. Assim, a relação pessoal eu-tu, na sua espontaneidade, que é algo singular, como o rosto e expressividade de cada um, o seu reconhecimento, na sua diversidade – cultural, social, étnica, …- são a prioridade ética do pensamento filosófico. O outro é uma subjetividade como eu, ao relacionar-me face a face, desencadeia uma relação de empatia própria da relação imediata, uma identificação espontânea que inaugura a intersubjetividade. Lévinas está convicto que enquanto o “eu” sujeito vir o outro enquanto outro, isto é, enquanto rosto, torna-se impossível destruir o outro - como sucede na xenofobia, racismo e genocídio.

Helena Gonçalves

B 15


GRUPO DISCIPLINAR DE português, ESPANHOL E FRANCÊS

A Lágrima “Agora e na hora da nossa morte” Que dizem ser a certeza da vida De todos, azarados e com sorte, Sem se saber o quão vai ser comprida. Sabemos que vem, de sul ou de norte, Sabemos que vem, lenta ou de investida Mas sem pensar pomo-nos à defesa E somos apanhados de surpresa. Cedo ou tarde, à noite ou de madrugada, Aparece sem estarmos à espera. Traz consigo uma lágrima pesada, Traz consigo uma dor forte, severa. Traz memórias e lembrança aliada A essa saudade pura e sincera, E que entristece a forma de viver Sem alguém que não voltamos a ver Vem p’ra desafinar um instrumento Que canta triste e só, a melodia. Vem para furtar ao pobre o sustento, Vem tapar para sempre a luz ao dia. E rouba magia a cada momento Onde antes só existia alegria. Cada pessoa sente a solidão Pela partida triste de um irmão. Cada um de nós sente-se impotente Mas potente na verdade é a dor, Ainda que ela fique mais ausente Quando essa lágrima por fim se for. E de novo sorrir, seguir em frente, Lavar os olhos e tirar o ardor, Para que do paladar alterado Desapareça esse sabor salgado.

B 16

Hugo Antunes 11º 1A


Amor de Morte

Em cada dia, um dia passa, Sem se querer que o tempo passe. Mas o tempo, em segredo, traça Versos de amor na nossa face.

São cartas sem destinatário Que nunca vêm devolvidas. Tocam um silêncio solitário De vidas cheias mas perdidas.

Ai

Quem as recebe aparece Com um olhar meigo de pavores, Sorriso afável que perece, Olor doce de maus odores. Só quem as recebe conhece Que p’lo tempo morre de amores.

Hugo Antunes, 11º 1A

, essa língua!

J

á em tempos remotos da nossa língua era frequente o uso de abreviaturas na escrita, situação que prevalece nos dias de hoje, nas mais diversas formas de comunicação. O fenómeno está de tal maneira generalizado que tem levado a língua portuguesa a viajar “por mares nunca d’antes navegados”. Desde o tradicional SMS, passando pelo Messenger do Facebook até à mais recente aplicação Whatsapp, encontramos um vasto repertório destes “exemplares linguísticos”, viva representação da “preguicite” que parece ter assolado a sociedade. “Tará” a crise económica ligada à economia de expressão da língua? É certo que nos dias de hoje, o nosso quotidiano está embrenhado num ritmo frenético que nos obriga a dar respostas a várias solicitações de forma célere. Assim, “pq”, “tá”, “sff”, “tou”, “tive”, “amt”, “adrt”, “bjs” parecem traduzir a conhecida “lei do menor esforço”.

No entanto, também na oralidade é frequente encontrarmos alguns “lapsos linguísticos”. Entre os mais comuns estão fizestes e hades, em vez de fizeste e hás de. Há outros, mas estes começam a ser de tal forma frequentes, que a sua utilização parece começar a estar bastante generalizada e enraizada, não reconhecendo, em alguns casos, a forma correta devido à interiorização da forma incorreta. Seja como for, não podemos esquecer que são os falantes que atualizam a língua através do seu uso e, sejamos francos, nem tudo é mau! A língua também se adapta às novas realidades. Exemplo disto são os novos vocábulos criados para designar novas realidades, fruto da criatividade do falante e dos processos de criação vocabular existentes na língua.

B 17


GRUPO DISCIPLINAR DE português, ESPANHOL E FRANCÊS

CULTURA E LAZER

Desta forma, encontramos palavras novas que primam pela originalidade e que espelham bem as constantes mutações a que as línguas estão sujeitas, sobretudo na literatura e na publicidade. É o caso da campanha publicitária da Worten para esta quadra natalícia. Para chamar à atenção para as novas tradições fruto do desenvolvimento tecnológico, lançou mão dos processos de criação vocabular, dando lugar a formas verdadeiramente originais para designar novas realidades. Assim, temos a Natelfie (Natal+Selfie) para nos dar conta de que as selfies fazem parte das novas tradições de Natal e a Consolada (Consoada+Consola) para fazer referência aos torneios de consola que as crianças fazem nas reuniões familiares da Consoada. A WiFácil (Wi-fi+Fácil) designa a facilidade para o acesso constante à internet e o Frisépio (Frigorífico+Presépio) que alude aos encontros, não à volta do presépio, mas sim à volta do frigorífico. Verdadeiros exemplos da originalidade dos falantes que atestam que a nossa língua está “bem viva e de boa saúde”. Porém, não se esqueçam que a nossa língua merece continuar a ser trovada, qual trovador trova à sua dama, por todos nós, pois ela própria é uma “bela dama com mais de 800 anos”.

EU SEI QUE TU EXISTES B 18

Votos de um Feliz Natal para todos.

eu sei que tu existes embora vivas oculto nas correntes macias e confortáveis do veludo diário das manhãs que te vestem eu sei que tu existes porque vejo o teu olhar livre como o vento a devorar horizontes de luz e a transportar paraísos platónicos

Núcleo de Estágio de Português, Ana Belém Angela Pªereira Ana Sebastião

que colheste nos sonhos da noite brincas às escondidas fora de ti mas eu vejo-te porque não sou lúcida e a minha demência vê para além dos meus olhos quando deixares de te esconder no silêncio da tua voz renascerás e verás de novo reinventar-se o dia da primavera eterna

GRAÇA ALVES


biblioteca

“AcomoArte farol” “A Arte como farol” é uma atividade criada pelo CACP (Círculo de Artes Plásticas de Coimbra), o Jazz ao Centro Clube e a Casa da Esquina. O projeto “Ler+ Jovem” da Escola Secundária de Avelar Brotero associou-se a esta iniciativa, em que a turma 10ºPM está inserida. As sessões programadas visam, como o farol, iluminar-nos, ou seja, permitir-nos ver com olhos de ver/ler e entender, refletir e sentir a arte. As sessões da Dr.ª Magda Henriques com a nossa turma têm sido realizadas com boa vontade e empenho, quer pela parte da coordenadora, como pela parte dos alunos. Elas consistem essencialmente na visualização de obras de arte, sejam elas fotografias, pinturas, textos, etc. e na sua discussão pelo uso da palavra, levando cada aluno o seu tempo e mostrando o seu ponto de vista. No diálogo e na troca de ideias nunca nada está incorreto, desde que o aluno defenda e explique a sua resposta. Analisa-se cada peça, seja ela uma fotografia ou uma frase, até não haver mais nada para dizer… Nas sessões que vamos tendo, saltamos por alguns dos pontos da Bienal de Arte Contemporânea Anozero. Nesses pontos estão em exposição obras de arte, em locais de património cultural. O que aprendemos aqui são o tipo de coisas que não se aprende na escola, e são o tipo de “aula” que os alunos gostam, devido ao facto de poderem estar à vontade e de serem livres de expressar as suas ideias. Ao fim de duas sessões do projeto continuo a olhar o mesmo, mas vejo muito mais.

no Museu Machado de Castro – dimensão artística do Projeto Ler+ Jovem “Toda a arte é atópica”.

Miguel Tobback, 10º PM

B 19


biblioteca

“AcomoArte biblioteca farol”

SESSÃO

na

escolar

Os “flashes” do 11.º 3B A sessão de trabalho foi muito interessante, ao contrário do que nós pensávamos. Serviu para aumentar a nossa cultura e o modo de ver as coisas. João Marques e Pedro Saraiva Foi uma palestra muito apelativa Maxim Kulik e Daniela Mendes Adorei a forma como a professora se expressou e a sua maneira de ver as coisas. João França e André Ventura Uma palestra que pensávamos que era uma chatice tornou-se bastante gratificante. Rodrigo Júlio e Tatiana Madeira Proporcionou-nos um momento de aprendizagem descontraído. Fátima e Joana Gostámos muito da forma inovadora como nos conseguiu cativar André Amado e Gustavo Vieira Surpreendeu-nos. A professora era cativante e conseguiu pôr todos a participar. Mariana Sá e Marciano Rodrigues Adorámos a forma como a professora Magda interagiu connosco. Foi bastante simpática e muito amável. Mariana Lopes e Mariana Rodrigues Atividade interativa e interessante, graças à motivação da linda professora Magda. Jorge e Adriana

B 20

A visita

ao Museu Nacional Machado de Castro (MNMC) Em primeiro lugar, agradecemos imenso a oportunidade de visitar o MNMC e o fantástico trabalho em que fomos envolvidos. O método utilizado foi cativante, pois conseguiu captar a nossa atenção perante objetos e pessoas, uma vez que -nos despertou sentimentos a que normalmente nós não prestaríamos atenção. Na segunda parte da visita, no submundo do criptopórtico romano, experimentei o medo que se liga a um espaço fechado habitado pelas trevas. Nas paredes vazias e nos focos a brilhar, no escuro, senti que nos foi contada uma história, a história de figuras ocultas que vivem na escuridão que só brilham para quem quer parar e descobrir. Talvez fosse esse o objetivo final: fazer aperceber-nos de que há mais do que aquilo que se vê e do ruído à nossa volta. Marciano Rodrigues, 11.º 3B


Ciência e Contraceção

Saber + O

s comportamentos sexuais de risco são enfoque da educação para a saúde nas escolas. Assim sendo, de 24 de novembro a 4 de dezembro, a ESAB assinalou as “Semanas da Contraceção”, incluídas no Mês da Ciência dinamizado pela Biblioteca Escolar em parceria com o Gabinete do Aluno. No dia 24 de novembro, Dia Mundial da Ciência e Dia Nacional da Cultura Científica, deu-se início às exposições na Biblioteca Escolar, designadamente as dedicadas ao escritor Miguel Torga (médico e homem de letras) e à contraceção. As turmas inscritas vieram acompanhadas dos respetivos professores para realizar as suas aprendizagens nesta área que tanto relevo adquire nos seus comportamentos diários. Foi ainda dinamizado um jogo didático, intitulado de “Trivial da Contraceção”, que permitiu consolidar conhecimentos. Ainda no dia 24 de novembro, como convidado para o Mês da Ciência, deslocou-se à nossa escola o Doutor António Piedade, bioquímico de formação, que, após um percurso inicial de investigação científica laboratorial, tem desenvolvido uma intensa e diversificada atividade de comunicador de ciência em órgãos de comunicação social e em instituições como o Museu da Ciência da Universidade de Coimbra, o Exploratório Infante D. Henrique, o Centro Ciência Viva Rómulo de Carvalho, entre outras. Veio apresentar aos nossos alunos uma comunicação subordinada ao tema “A Investigação Científica que mudou os nossos hábitos”.

Dia Mundial

da Alimentação

Hábitos Saudáveis e Solidariedade

&

A escola é considerada um contexto privilegiado de promoção de boas práticas aos adolescentes. Assim sendo, o Gabinete do Aluno, que integra uma estagiária de Mestrado em Ciências da Educação, em conjunto com a Biblioteca Escolar, apostaram, no dia 16 de outubro, numa atividade comemorativa do Dia Mundial da Alimentação. A alimentação saudável foi a temática escolhida e exposta através de um vídeo promocional. Não podia faltar a famosa Roda dos Alimentos. A grande roda que se desenhou no átrio da escola e para a qual alunos e restante comunidade escolar contribuíram com géneros alimentícios, que posteriormente foram doados ao SASE da escola, permitiu criar algum conforto a famílias carenciadas. No átrio da escola foi possível fazer-se a medição do Índice de Massa Corporal. Para que as boas práticas alimentares não sejam esquecidas, foi disponibilizado um criativo folheto informativo que alunos e professores não desperdiçaram, colocando-o nas portas dos seus ambientes de trabalho. A Professora Bibliotecária, Carla Fernandes

Dado que existem métodos contracetivos que também protegem das Infeções Sexualmente Transmissíveis, associou-se a esta iniciativa a comemoração do Dia Mundial da Luta Contra a Sida (1 de dezembro). Na segunda semana (1 a 4 de dezembro), o corredor entre o bar dos alunos e a biblioteca foi ocupado exclusivamente com informação e recursos, com o objetivo de prevenção dos comportamentos de risco e promoção de estratégias de saúde sexual. Biblioteca Escolar e Gabinete do Aluno

B 21


biblioteca

Mestres da Palavra sessões de leitura com a comunidade adulta As sessões de leitura no Centro Social São José e no Instituto Português de Oncologia de Coimbra são preparadas nos workshops realizados pela atriz Adriana Campos e os alunos são acompanhados pelas docentes da disciplina de Português às respetivas instituições. A primeira sessão deste ano foi dedicada aos textos de caráter autobiográfico, a partir de escritos de José Saramago, sob o título de Cartografia do EU. A tarefa consistiu em desenhar o fio da vida, relembrando memórias, partilhando e construindo sentidos uns com/e os outros.

DESENHAR O FIO DA VIDA

como num sismógrafo da alma “Do novelo emaranhado da memória, da escuridão dos nós cegos, puxo um fio que me aparece solto./ Devagar o liberto, de medo que se desfaça entre os dedos. / É um fio longo, verde e azul, com cheiro de limos, e tem a macieza quente do lodo vivo. / É um rio. / Corre-me nas mãos, agora molhadas. / Toda a água me passa entre as palmas abertas, e de repente não sei se as águas nascem de mim, ou para mim fluem. / Continuo a puxar, não já memória apenas, mas o próprio corpo do rio. (…) Haverá o grande silêncio primordial quando as mãos se juntarem às mãos. / Depois saberei tudo.” Protopoema, José Saramago, in Provavelmente Alegria, Caminho, 1987, 3.ª edição.

B 22

“Não se sabe tudo, nunca se saberá tudo, mas há horas em que somos capazes de acreditar que sim, talvez porque nesse momento nada mais nos podia caber na alma, na consciência, na mente, naquilo que se queira chamar ao que nos vai fazendo mais ou menos humanos. Olho de cima da ribanceira a corrente que mal se move, a água quase estagnada, e absurdamente imagino que tudo voltaria a ser o que foi se nela pudesse voltar a mergulhar a minha nudez da infância, se pudesse retomar nas mãos que tenho hoje a longa e húmida vara ou os sonoros remos de antanho, e impelir, sobre a lisa pele da água, o barco rústico que conduziu até às fronteiras do sonho um certo ser que fui e que deixei encalhado algures no tempo.” As Pequenas Memórias, José Saramago.

Centro Social

São José A primeira sessão deste ano foi dedicada aos textos de caráter autobiográfico, a partir de escritos de José Saramago, sob o título de Cartografia do EU. A tarefa consistiu em desenhar o fio da vida, relembrando memórias, partilhando e construindo sentidos uns com/e os outros.No dia 4 de novembro, quarta-feira, tivemos a oportunidade de participar numa sessão

de leitura integrada no Projeto Ler+ Jovem “À Sombra das Palavras”. Depois de almoço saímos da escola e dirigimo-nos ao Centro Social São José, onde passamos uma tarde muito agradável a conviver e a fazer atividades com os utentes. Acreditamos que a partir de agora vamos dar mais valor aos idosos que nos rodeiam, porque, após algum tempo de convívio apercebemo-nos de que eles são felizes com um pouco do nosso tempo. Permanecendo naquele edifício durante o dia, necessitam da companhia de outras pessoas e de propostas criativas para os ajudar a passar o tempo. Foi isso que nós fizemos com a leitura de excertos de José Saramago e a atividade de escrita e pensamento “Cartografia do EU”. Com esta atividade, não só melhoramos as nossas capacidades comunicativas como também ficamos a conhecer um pouco mais do que os idosos pensam sobre si próprios e as suas vidas. Para as próximas visitas vamos já com grande expectativa! Ana Semedo, nº1, Joana Crisóstomo, nº4 Natacha Miranda, nº7 - 10º PDM


Instituto Português

de Oncologia de Coimbra

i

nscrevemo-nos no projeto ”Ler +Jovem - À Sombra das Palavras” a pensar que ia ser apenas ler para pessoas adultas, mas estávamos plenamente enganados e na sessão de preparação percebemos logo isso.

Alunos do 10º PM a dinamizar a atividade no Hotel de Dia do IPO

A sessão de preparação foi dinamizada pela atriz Adriana Campos, uma jovem, muito simpática, muito divertida e que nos deixou muito à vontade. O que mais gostamos foi não haver certo nem errado. A Adriana é muito comunicativa e tem sempre solução para tudo. Este workshop serviu de preparação para o que íamos fazer na quarta-feira seguinte, no IPO e no Centro Social de S. José. Éramos 7 alunos, 2 professoras de Português e a atriz, mas dividimo-nos e no nosso grupo ficaram 4 alunos e a professora Carla Fernandes. No dia 11 de novembro fomos então ao IPO, conforme previsto. Chegamos à sala de estar, onde iria decorrer a sessão, e, num ápice, a sala ficou cheia. A professora deu início à sessão. Lemos excertos do livro “As Pequenas Memórias” de José Saramago e os utentes fizeram as atividades que tínhamos preparado. Fomos ajudando também os que não conseguiam ou não sabiam escrever... No final, deixámos no IPO alguns livros emprestados pela Biblioteca da nossa escola, para quem estivesse interessado em ler. Julgamos que estas atividades são importantes tanto no aspeto humano como para que as pessoas possam perceber o importante que é ler e o quanto se pode aprender com a leitura. Gostamos muito e estamos bastante ansiosos para a próxima sessão sobre a poesia. Juntem-se a este projeto que vale mesmo a pena! Inês Ferreira, nº 8, Laura Costa, nº 18, Tiago Rodrigo Tomaz, nº 24 – 10º PM

B 23


biblioteca

Projeto Ler+

Jovem em marcha na Avelar Brotero

N

a sequência da avaliação realizada, em julho último, junto das instâncias superiores do Ministério da Educação e Ciência (Plano Nacional de Leitura, em articulação com a Rede de Bibliotecas Escolares), o Projeto “Ler+ Jovem - À Sombra das Palavras”, promovido pela Escola Secundária de Avelar Brotero desde 2013, foi validado e obteve este ano novo financiamento. Para tal, contámos com os testemunhos recolhidos em entrevistas, (em formato vídeo, realizados pelos alunos do Curso Profissional de Multimédia, nas diferentes instituições), com a voz dos alunos participantes e com o empenho da direção da ESAB na construção do poster e na disponibilização dos recursos humanos e materiais mobilizados para o Encontro de Escolas Ler+ Jovem, realizado um julho último, na Escola Secundária Eça de Queirós, em Lisboa.

Este ano o Projeto surge renovado, com uma nova proposta de trabalho, incluindo três dimensões: a literária (“Os Mestres da Palavra”), a científica (“A Navalha de Ockham”) e a artística (“Toda a arte é atópica”).

B 24

As sessões de leitura terão continuidade, à imagem dos anos anteriores, no Centro Social São José e no Instituto de Oncologia de Coimbra Francisco Gentil. Com base no projeto de leitura realizado na disciplina de Português, os jovens darão o corpo e a voz aos textos escolhidos, visando ilustrar pormenores, refletir temas de interesse e usando de outras formas de expressão artística. Relativamente esta dimensão literária, “Mestres da Palavra”, que pressupõe levar os alunos a fazer a promoção de leitura junto de grupos de adultos locais, iniciaram-se já as sessões preparatórias e a intervenção nas duas instituições. Trata-se de uma atividade extracurricular, não enquadrada no horário letivo, a desenvolver às quartas-feiras, dois dias por mês. Nesta atividade estão representados os professores da disciplina de Português e os alunos voluntários das turmas selecionadas (10º PM e 10º PACPDM). Contudo, o grupo de trabalho está aberto à participação de todos os alunos da escola, bastando para tanto que se dirijam à Biblioteca Escolar, onde poderão recolher toda a informação necessária e aderir ao projeto de imediato. Os workshops “Dar Voz às Palavras” são dinamizados, às quartas- feiras (em datas pré-estabelecidas), pela atriz Adriana Campos. Na sequência do que tem sido feito nos anos anteriores, prosseguiremos no esforço de formarmos os nossos alunos para sentir o texto e expressar a palavra. Estes momentos de trabalho com uma profissional da arte dramática ajudam a preparar as sessões de leitura nas instituições que nos recebem, bem como as atividades que exigem uma maior exposição, dirigidas à comunidade em geral. Muitas vezes a leitura é aliada à escrita, numa fase inicial, para favorecer a apropriação do texto por parte do aluno. Depois surge o trabalho de dar vida ao texto. Com o propósito de descobrir que as palavras escritas são, antes de mais,


um diálogo. Assim, em cada encontro, tentamos introduzir o gesto e a ação, desvendando sentidos e dando corpo às palavras. As atividades a desenvolver ao longo do ano letivo no Museu da Ciência da Universidade de Coimbra terão como base temas científicos, em diferentes áreas, que serão debatidos a partir de leituras. Interessa, nestas sessões pontuais, refletir sobre várias dimensões do conhecimento científico e retirar dele algumas conclusões e explicações básicas. Partiremos do princípio de Guilherme de Ockham "Se em tudo o mais forem idênticas as várias explicações de um fenómeno, a mais simples é a melhor". Estas sessões terão a colaboração da nossa voluntária de leitura, a Dr.ª Cristina Miranda, licenciada em Bioquímica. A dimensão artística partiu do pressuposto de Roland Barthes (O Prazer do Texto, 1996), segundo o qual o texto, no momento da sua produção, é um sistema desordenado que precisa do leitor para organizar os seus sentidos e, posteriormente, estabelecer inferências. O mesmo se aplica ao domínio de toda a obra de arte. O jogo entre o seu autor e o leitor constrói-se pelo preenchimento de espaços vazios que existem dentro da própria essência do objeto artístico. Se o ato da leitura faz despertar a apreensão imediata e sensível das coisas, distanciando-se de doutrinas de linguagens ideológicas, então qualquer obra coloca esse desafio a quem a “lê”. O estímulo da descodificação é fascinante, mas também árduo e requer a aquisição de competências básicas e treino.

O contacto frequente com o preenchimento de espaços do objeto artístico [seja ele qual for], fazendo emergir a razão crítica e a semiótica do(s) textos(s), é condição essencial para fazer despertar essa capacidade nos nossos jovens. É nesta linha de pensamento de que é possível construir a partir da atopia que o Círculo de Artes Plásticas de Coimbra (CAPC) trabalhará com as turmas do projeto, numa programação sequencial, no sentido de favorecer leituras simbólicas do mundo artístico. Porque a arte do nosso tempo se constrói sobre a arte de outros tempos, porque o conhecimento do passado pode permitir uma melhor compreensão do presente e a atenção ao presente pode ajudar a revelar o passado, deambularemos entre tempos diferentes. O encontro pessoal, único, e imprevisível com a obra de arte será valorizado mas não prescindimos do exercício da palavra a partir e sobre ela, lembrando sempre que o objeto artístico está para além de qualquer discurso, é sempre outra coisa. As sessões serão dinamizadas em parceria com o Projeto LINHAS (resultante de uma cooperação entre o CAPC, o Jazz ao Centro e a Casa da Esquina).

O Serviço educativo do CAPC propõe a promoção de olhares múltiplos sobre a contemporaneidade, através da experiência multidisciplinar da arte (entre as artes visuais, a música, o teatro…), para que a familiarização com as práticas artísticas do nosso tempo possa contribuir para uma maior disponibilidade perante a diversidade e a diferença. “Que a estranheza possa ser impulsionadora da curiosidade e do exercício crítico, ou seja, da análise séria porque fundamentada, e não se fique pela frequente reação de rejeição perante o que não se conhece.” (SECAPC). Os trabalhos tiveram já o seu início. Nos meses de outubro e novembro decorreram as sessões com a coordenadora do Serviço Educativo do Círculo de Artes Plásticas de Coimbra (CAPC), Magda Henriques, com a atividade “A Arte como Farol”. As turmas inscritas (10º PM e 11º 3B) participaram na Bienal de Arte Contemporânea “Anozero”. Com base num plano sistemático de desenvolvimento de capacidades associadas à leitura, os alunos também irão colaborar, pontualmente, em ações desenvolvidas com o Museu da Ciência da Universidade de Coimbra (MCUC) e nos serviços de cultura da Câmara Municipal de Coimbra, designadamente a Biblioteca Municipal de Coimbra (BMC). Consulte o site do Projeto em http://sombrapalavras.brotero.pt/ e o Blogue da Biblioteca da Brotero http://bbrotero.blogspot. pt/ , onde atualizaremos toda a informação ao longo do ano letivo. A Professora Bibliotecária, Carla Fernandes

B 25


projetos

Colaboração

ESAB-FPCEUC-UFPB

N

a sequência da visita realiza da à Escola Secundária de Avelar Brotero (ESAB), em 25 de outu bro de 2012, e dos trabalhos de pesquisa, na antiga biblioteca, efetuados em outubro de 2013 e agosto de 2015, o Professor Doutor José Jassuipe Morais, da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) – Brasil, encontra-se a desenvolver trabalhos no âmbito de um pós-doutoramento, orientado pelo Professor Doutor António Gomes Ferreira, diretor da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra (FPCEUC), com a colaboração do professor Pascoal Albuquerque.

Da esquerda para a direita: Manuel Carlos Esteves da Fonseca (diretor da ESAB), José Jassuipe Morais e Pascoal Albuquerque Pascoal Albuquerque

O seu estudo centra-se no Ensino Técnico e Profissional em Portugal e no Brasil, sob o título “ESCOLA SECUNDÁRIA DE AVELAR BROTERO: ensino técnico-profissional em Portugal como espaço de circulação de ideias para o Brasil (1945-1996)”. O objetivo da investigação visa compreender o ensino técnico-profissional a partir de diferentes modelos sob influência da circulação de ideias e produção cultural na experiência Portugal-Brasil e suas identidades culturais partilhadas. O Professor Jassuipe agradece toda a ajuda prestada pelo diretor da ESAB, docentes e antigos professores, alunos e pessoal não docente da ESAB.

B 26

José Jassuipe Morais

Notícias do Gabinete de Projetos Estágios Internacionais

Encontra-se em preparação a candidatura para a Ação1 de mobilidade, ao abrigo do Programa Erasmus+, que, a ser aprovada, permitirá enviar para estágios no estrangeiro alunos dos Cursos Profissionais, no próximo ano letivo. Informação relativa a essa mobilidade foi já enviada aos respetivos diretores de curso e diretores de turma. Seguidamente, a equipa responsável pelo Gabinete de Projetos deslocar-se-á às turmas dos 11º e 12º anos dos Cursos Profissionais para prestar informações quanto à seleção dos candidatos e operacionalização do projeto.


Paralelamente, em parceria com a organização ROC Midden, de Utrecht, Holanda, está a decorrer o estágio de um estudante holandês (Koen Speet) na empresa SIRMAF, em Taveiro, que terá a duração de 10 semanas, terminando a 28 de janeiro de 2016. A Equipa do Gabinete de Projetos, Francisca Cabo Manuela Areias

O prémio foi entregue na cerimónia realizada no âmbito do Dia da Programação e Robótica (http://www.dge.mec.pt/codeweek), no dia 17 de outubro de 2015, em Lisboa.

JOÃO SÁ O clube de Programação, Robótica e Design (PRODE) da Brotero foi distinguido, em conjunto com outras duas escolas a nível nacional, com o prémio para os três melhores resultados do concurso para clubes de programação e robótica promovido durante o ano letivo 2014/2015 pela Direção-Geral da Educação (DGE). Participaram neste concurso 104 clubes de programação e robótica, dos quais 63 foram apoiados pela DGE. Entre estes, após comparação dos resultados, foram premiadas três escolas: Escola Secundária de Avelar Brotero, em Coimbra; Escola Secundária de Amares, em Braga; Agrupamento de Escolas de São Gonçalo, em Torres Vedras.

B 27


educação especial

Eu “CEI”

comer! O Dia Mundial da Alimentação foi o pretexto!

Após a realização de uma atividade alusiva ao referido dia e procurando dar resposta ao repto lançado pela professora bibliotecária, um grupo de alunos com Currículo Específico Individual (CEI) propôs-se dinamizar semanalmente um espaço na Biblioteca da Escola: “Eu ‘CEI’ comer!”.

B 28

No âmbito da área curricular das Tecnologias da Informação e Comunicação e integrado no seu Plano Individual de Transição, o Vasco, o Tiago e o Miguel escolhem um produto alimentar, pesquisam, selecionam e recolhem informação e, com a ajuda do professor, editam documentos que virão a ser colocados num expositor à entrada da Biblioteca. Para além de uma breve descrição do produto da semana, há também espaço para algumas curiosidades e para uma receita culinária. Assim, e para além de se explorarem e abordarem conteúdos relacionados com a aplicação funcional das TIC, os alunos sentem que o seu trabalho é útil para a restante comunidade escolar.

José Rêgo


gabinete do aluno

Sessões de Informação

e Sensibilização no âmbito do Tráfico de Seres Humanos (TSH)

na Escola Secundária Avelar Brotero

A

EME Centro (Equipa Multidisciplinar Especializada para Assistência a Vítimas de Tráfico, da Região Cen tro), da APF Centro (Associação para o Planeamento da Família) levou a cabo, no passado dia 29 de setembro de 2015, três sessões de informação e sensibilização no âmbito do Tráfico de Seres Humanos, mediante solicitação do Gabinete do Aluno da Escola Secundária Avelar Brotero, em Coimbra. Estas sessões abrangeram um total de 106 alunos do ensino secundário (dos quais 70 alunos do género feminino e os restantes 36 do masculino), pertencentes a 4 turmas do 12º ano (1A,1B, 1C e 1D).

Prevenção e Combate

Violência Doméstica

Com uma duração média de 45 minutos, estas sessões, de caráter gratuito, permitiram sensibilizar os alunos para o fenómeno do TSH, bem como dotá-los de conhecimentos e ferramentas para prevenir o mesmo.

à

na ESAB No dia 25 de novembro, Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres, realizou-se uma sessão de sensibilização alusiva ao tema, dinamizada pela Associação para o Planeamento da Família (APF) e que teve como público-alvo cinco turmas, cujos diretores manifestaram interesse em proporcionar aos respetivos alunos. Ainda nesse dia, no período da tarde, os professores participaram numa formação sobre “Educação Sexual”, dinamizada pela mesma entidade.

Uma vez que não foi possível envolver mais turmas na palestra dinamizada pela APF e porque a equipa multidisciplinar ligada ao serviço de violência doméstica do CHUC se mostrou disponível para o efeito, estão já agendadas sessões sobre “Violência no Namoro”, direcionadas para todas as turmas do 10.º ano (Cursos Científico-Humanísticos e Profissionais), a iniciar no segundo período. Esta atividade envolve também a equipa EPS/ Gabinete do Aluno e os SPO da escola.

Gabinete do Aluno

Outros temas poderão ser abordados por estes profissionais em turmas cujos diretores de turma/responsáveis pelos projetos de Educação para a Saúde pretendam envolver os seus alunos, a saber: “Violência na Família”, “Bullying”, “Noite sem Trauma” e “Igualdade de Género”. A equipa EPS fica, pois, a aguardar solicitações para agendamentos futuros.

Joana Lapo, Estagiária do Gabinete do Aluno

B 29


antigos professores

Dr.

ANTONINO HENRIQUES Diretor da Brotero

U

m passeio calmo numa feira de velharias na Guarda levou-me a comprar um livro de António Matoso e Antonino Henriques com o título Formação Corporativa, publicado em 1959, pela Livraria Sá da Costa, já em 3ª edição, e destinado ao ensino técnico profissional.. Eram aí, os dois autores, identificados como professores do Ensino Técnico. Logo que pude li o livro, escrito numa linguagem serena e pedagógica, onde estes dois professores explicavam com clareza o funcionamento institucional do regime salazarista, de que foram intelectuais destacados. Mesmo assim, neste livro, deram um retrato fiel do sistema corporativo que, naturalmente, interessava aos alunos do ensino técnico que iriam viver com ele (se o 25 de Abril não tivesse acontecido). Também em manuais como o Compêndio de história geral e pátria: ensino técnico profissional, António Gonçalves Matoso e Antonino Henriques mostram a isenção possível perante o regime salazarista, apresentando a forma como era possível escrever quase de forma rigorosa num tempo politicamente amordaçado. Demonstrando leituras, os dois autores davam sempre uma sólida e bem alicerçada visão cultural sobre o devir histórico da Humanidade. Também o seu livro de História acaba assim: “Terminada a contenda, Portugal, conduzido pelos seus ideais de paz e de liberdade, coloca-se abertamente ao lado dos países atlânticos e cristãos, no único desejo de ajudar o Mundo a encontrar a concórdia, o entendimento e a felicidade de todos os homens” . Mostravam dessa forma, contra a realidade vivida, os seus ideais democráticos. Procurando dados sobre Antonino Henriques na Internet, descobri que tinha nascido na Moura Morta em 1918, de origem modesta, que nunca renegou .

B 30

Tinha aí uma Quinta aonde levava os seus colegas, como me contou um antigo aluno da Escola António Arroio, o professor Francisco António Figueira Lagarto, que foi professor de Cerâmica na Brotero, fazendo assim renascer um curso emblemático da Escola, que começou como Escola de Desenho Industrial em 1884 e onde foram professores António Augusto Gonçalves, Charles Lepierre e Leopoldo Battistini. Corrijo a data de nascimento para 5 de maio de 1917, entre outras informações, com base no seu processo individual de professor . Resumo, por isso, o que li para dizer que, como professor, esteve na Escola Ferreira Borges, Patrício dos Prazeres, Machado de Castro, António Arroio, Afonso Domingues e, finalmente, na Escola Industrial e Comercial Brotero. Licenciado em Histórico-filosóficas e com o curso de Ciências Pedagógicas, fez o exame de Estado para professor efetivo do 10.º Grupo em junho de 1949. Foi depois Professor Metodólogo na Escola Comercial Veiga Beirão e em 1967 na Escola Técnica de Avelar Brotero, onde foi diretor desde 2 de agosto de 1965 até ao 25 de Abril de 1974. Note-se que foi nomeado em 16 de junho de 1972, de novo, diretor da Escola Técnica Avelar Brotero. Já tinha sido diretor da Escola Técnica Eugénio dos Santos de 9 de novembro de 1956 a 2 de agosto de 1965 de onde veio para a Brotero.


Descobri também no processo referido que, como ilustre Poiarense, foi um elemento ativo na “Criação da Escola Preparatória do Doutor Daniel Matos”, em Vila Nova de Poiares, sendo isso reconhecido pelo Presidente da Câmara José Morais, em 4 de setembro de 1969. Era assim um paladino do desenvolvimento regional do Alto Distrito de Coimbra que, deste modo, fez incluir na modernidade através da criação do Ensino Técnico. Antes e depois do 25 de Abril, pelas conversas que tive com colegas um pouco mais velhos, fiquei a saber do rigor com que tratava das questões disciplinares na Escola, mas também da delicadeza com que tratava todos: colegas, funcionários e alunos. Fiquei ainda a saber que nunca obstaculizou, nem sequer proibiu as reuniões dos Grupos de Estudo, que se iam efetuando na Brotero, mesmo sabendo que não eram bem vistas pelo regime que serviu.

TARDE DE OUTONO

Questionado pelo poder do Estado Novo através de uma circular confidencial que Augusto Ataíde, então Subsecretário da Juventude e Desportos de Marcelo Caetano, enviou às direções de todas as Escolas sobre a existência deste grupo que antecipava em si os novos tempos do sindicalismo e da luta de classes na Escola que dirigia, respondeu que não sabia da existência de professores da Escola pertencentes a esse grupo e mostrou lealmente a resposta aos professores em causa. Era, na verdade, um colega muito leal e isso foi reconhecido e afirmado por gente bem desafeta do regime salazarista. Honra lhe seja feita. 1- António Matoso e Antonino Henriques – História Geral e Pátria, II Volume: Idade Moderna e Contemporânea, Livraria Sá da Costa, Lisboa, s/data, p. 305. 2- http://mouramorta.blogspot.pt/2008/10/dr-antonino-henriques-um-homem-da-moura.html, acesso em 4 de novembro de 2015. 3- Arquivo da Escola Secundária Avelar Brotero, Processo Individual do Docente Antonino Henriques, nº 2397.

Aires Antunes Diniz

Folhas dispersas Caídas no chão. Folhas que o vento levanta Em voos frenéticos . Mas logo caem, vencidas, cansadas. Folhas caídas que gritam, que lutam impotentes. Folhas velhas, cativas da sua dor.

Folhas caídas de ramos outrora em flor. Pisadas, perdidas. Rasgadas, esquecidas. Corpos sem alma na busca perpétua do eterno amor.

MANUELA AREIAS

CULTURA E LAZER

Foi, depois do 25 de Abril, professor da Escola do Magistério Primário de Coimbra, onde esteve destacado desde o ano letivo de 1975-1976 até à aposentação em 1987. Não admira que lhe fosse reconhecido oficialmente mérito educacional, com um “Público Louvor” publicado no DR., II Série de 20/11/1987, pois foi um grande impulsionador do ensino técnico nos concelhos circunvizinhos. Isto foi o que descobri quando estive em Arganil como economista e na Lousã como professor. Sei ainda que teve um importante papel na criação da Escola Comercial e Industrial de Cantanhede.


VIM DE OUTRO LUGAR

Sou da Síria, do Iraque, Da Somália ou do Sudão. Não importa a minha cor. Nem sequer a religião. Não tenho casa, escola, Vizinhos, nenhum amigo. A roupa é grande, usada, Serve-me apenas de abrigo. As noites são pesadelos. As manhãs tardam demais. Não vejo aves no céu. Os dias passam iguais. No país onde me encontro, Fico triste, sem sorrir. Falam palavras estranhas. Tenho pressa de partir. Sou apenas uma criança. Não consigo perceber. Só preciso d’um abraço E depois… adormecer.

MANUELA AREIAS

há sangue irracional a correr há sangue irracional a correr nas mãos construtoras dos homens as casas são paraísos perdidos com caveiras entre os escombros no meio de jardins moribundos o medo já não se esconde nas casas mas no vento que corre cinzento e ágil por entre o fumo à procura do azul as fardas penduradas no solo para sempre contam histórias de alegria e esperança de crianças a ser homens grandes crescendo em baloiços que rangem para o céu esquecidos no tempo e os destroços são sonhos abandonados dos paraísos proibidos um gato perdido mia desesperadamente assustado com a terra assombrada por um demónio qualquer indistinto que enlouqueceu as mãos inteligentes dos homens as bombas acariciam a terra como beijos e os foragidos trazem fome de paz no andar e sonhos no olhar reconstrutor na mão de cada foragido há uma flor que desabrocha deserta

GRAÇA ALVES

Escola Secundária Avelar Brotero Rua Dom Manuel I, Coimbra 3030-320

http://www.brotero.pt | http://issuu.com/esab125 http://jornaisescolares.dge.mec.pt/2013/06/19/jornal-da-brotero

Profile for Escola Secundária de Avelar Brotero

Jornal da Brotero Nº 18 - dezembro 2015  

Refugiados

Jornal da Brotero Nº 18 - dezembro 2015  

Refugiados

Profile for esab125
Advertisement

Recommendations could not be loaded

Recommendations could not be loaded

Recommendations could not be loaded

Recommendations could not be loaded