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A História do Natal Com a chegada do Natal começam os rituais. Costumes que enchem de alegria o ambiente, mas que muitas vezes não entendemos ou mal interpretamos.

Este texto visa esclarecer o que são e de onde vem os contos e rituais do Natal.

Pesquisa de Ernesto Kramer

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ERNESTO KRAMER COMPARTILHAR MEUS LIVROS NÃO É PIRATARIA

2k14

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Conteúdo O Natal

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A Estrela de Belém

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Os Reis Magos

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A Árvore

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Papai Noel

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O Natal O dia 25 de dezembro festeja-se o Natal em grande parte da cristandade, exceto na Igreja Ortodoxa. Atualmente é uma festa mais profana que religiosa. É tempo de grande atividade comercial, baseada no intercâmbio de presentes. Também é ocasião de reuniões e comilanças familiares e de grandes bebedeiras. Nos países da América Latina, de arraigada tradição católico-romana, celebra-se especialmente a “Noite Boa” o dia 24 de dezembro, com uma ceia familiar para a qual se preparam uma diversidade de pratos, sobremesas e bebidas tradicionais. Também se acostuma assistir à Missa do Galo e celebrar com a queima de fogos artificiais. No século II da Era Cristã (100 anos depois do nascimento de Jesus), os cristãos só comemoravam a Páscoa de Ressurreição. Consideravam irrelevante o momento do nascimento de Jesus e desconheciam absolutamente quando poderia ter acontecido. 6


Durante os séculos seguintes começou a aflorar o desejo de celebrar o natalício duma forma clara e diferenciada. Alguns teólogos, se baseando num texto dos Evangelhos, propuseram datá-lo em datas tão díspares como 6 e 10 de janeiro, 25 de março, 15 e 20 de abril, 20 e 25 de maio, entre algumas outras. O papa Fabian (236 – 250) decidiu acabar com tanta especulação e qualificou de sacrílegos os que tentarem determinar a data de nascimento do nazareno. A igreja Armênia fixa o nascimento de Jesus o dia 6 de janeiro. Outras igrejas orientais – dos egípcios, gregos e etíopes – propõem o dia 8 de janeiro. No Concílio de Nicéa (ano 325) declara-se oficialmente que Jesus é uma divindade, dado que o pai e o filho são a mesma coisa. Então se decidiu fixar o natalício durante o solstício de inverno do hemisfério norte. Nessa data o povo festejava o nascimento de várias deidades romanas, germanas, egípcias e de outras culturas. As celebrações pagãs, cultos muito populares arraigados nas pessoas há milhares de anos, não conseguiam ser prescritas ou erradicadas pelos cristãos. 7


Durante o pontificado de Libério (352 – 366), a noite do 24 ao 25 de dezembro tomou-se como “data imutável”. Nesse dia os romanos celebravam o Natalis Sol Invictis, ou Nascimento do Sol Invicto. É a mesma data na qual, até hoje, os povos ao norte do Equador festejam a chegada do Solstício de Inverno. As igrejas católicas orientais seguem comemorando o Natal no dia 6 de janeiro. Com a instauração do Natal, no Ocidente também se popularizou a celebração dos aniversários das pessoas comuns, ainda que as paróquias européias só começassem a registrar as datas de nascimento de seus fregueses no século XII. No princípio, o Natal teve um caráter humilde e camponês. A partir do século VIII começou a se celebrar com a pompa litúrgica que chegou até hoje, refletindo a riqueza que a igreja do Vaticano começava a acumular. Progressivamente foi criada a iluminação e a decoração dos templos, os cantos, leituras e encenações, como as representações ao ar livre do nascimento no portal de Belém, o famoso presépio. 8


A tradição tem nos levado a acreditar que Jesus nasceu no primeiro ano da Era Cristã, o que realmente não é assim. Atendo-nos aos únicos dados mencionados sobre o particular nas escrituras consideradas sagradas, as informações resenhadas por seus biógrafos são vagas e contraditórias. Mateus e Lucas situaram o domicílio habitual em dois lugares diferentes e distantes entre si: Belém (Judéia) e Nazaré (Galiléia). O próprio Lucas relata em seu texto o nascimento de Jesus em duas datas diferentes, uma no ano 6 ou 7 a.C. A outra no ano 4 d.C. Desta forma, o mesmo evangelista, nas quatro primeiras páginas de seu texto, coloca o nascimento em duas datas separadas entre si por 10 anos. Mateus fixou o nascimento “nos dias do rei Herodes” (Mt 2,1) e, portanto, antes do ano 4 a.C., durante o qual morreu o monarca judeu. Os principais estudiosos da atualidade datam o nascimento de Jesus entre os anos 9 e 5 a.C., havendo um maior consenso ao redor dos anos 7 ou 6 a.C. O situam no contexto da população judia da Palestina. Pensam que ele residiu em Nazaré (Galiléia) até a idade de 30 anos, pouco mais ou menos, trabalhando no ofício familiar de 9


marceneiro e pedreiro. Depois deixa tudo para ir ao encontro de João Batista, para logo iniciar o curto período (arredor de 3 anos) de vida pública que relatam os Evangelhos. O lugar exato do nascimento de Jesus não se sabe, já que os evangelistas não mencionam ou não são claros ao respeito. Uma tradição tardia deu por certa a suposição de que o nascimento teve lugar numa das muitas cavernas caliças que existem perto de Belém. Aconteceu o nascimento, segundo tradição católica, enquanto seus pais estavam refugiados numa caverna que continha um presépio por todo mobiliário. Estando aparentemente sem meios materiais, expostos ao frio do inverno, aparecem na cena dois personagens infaltáveis nos presépios: o boi e o jegue. Com seu alento esquentaram devotamente a criança recém nascida. Isto é aceito pela igreja, a pesar de que não figura em nenhum dos Evangelhos oficialmente aceitos. Só é comentado no Evangelho Apócrifo (não oficial) denominado Pseudo-Mateus, do qual provém o relato no qual está baseado o presépio que adorna as árvores de Natal e é devotamente cultuado em igrejas do mundo todo. 10


Esse presépio, aliás, é hoje complementado com uma infinidade de animais diversos, qual arca de Noé, incorporando bichos e personagens míticos das diversas culturas penetradas pelo credo cristão. Mateus conta a concepção de Jesus (Mt 1, 18-25) da seguinte forma: Maria e José estavam desposados mas ainda não conviviam. Maria era virgem e se achou grávida, inseminada pelo Espírito Santo. José era homem justo e não quis denunciá-la como adúltera, mas resolveu repudiá-la em segredo. Enquanto refletia sobre isto, apareceu-lhe um anjo quem lhe disse não temer de receber Maria, sua esposa, na sua casa, pois a obra da concepção era do tal espírito. Também lhe recomendou dar o nome de Jesus ao filho, porque este ia salvar todo seu povo de seus pecados. E José fez o que o anjo pediu. José, o marceneiro, é um dos homens mais injustamente tratados pela história cristã. Nas primitivas representações da família de Jesus aparecia como um homem jovem, forte, sem barba. Como consequência do início do culto a Maria, a figura do marceneiro foi postergada e relegada ao papel de encarregado de aprovisionar alimento à família. Junto a esse processo também se lhe fez 11


envelhecer até a senectude, de forma que, sendo já nulo seu vigor, não fosse obstáculo nem sombra de suspeita que impedisse proclamar a virgindade perpétua de Maria; a pesar dos outros seis filhos que tiveram juntos. Marcos e João nem se preocupam pelo nascimento. As diferenças que aparecem nos relatos de Mateus e Lucas podem se dever a que ambos jamais se conheceram e escreveram suas obras em terras e momentos muito diferentes (Egito e Roma respectivamente). Adornaram suas narrações se inspirando em lendas e mitos já existentes, mas que gozavam de prestígio diferente em um e outro lugar. Mateus tingiu de orientalismo o nascimento, enquanto Lucas adaptou-se a tradições míticas que eram mais críveis na capital do Império Romano. As diferenças mais notáveis são as omissões no relato de Lucas da estrela de Belém, dos Reis Magos, entre outras; enquanto isso aparece em Mateus. Este, por seu lado, omite o canto que os anjos fazem aos pastores para que fossem adorar o pretenso Cristo. 12


A Estrela de Belém O único que menciona a estrela é Mateus. Diz que precedia uns magos, até que parou em cima do lugar onde estava o menino Jesus recém nascido. Já na antiguidade defendeu-se a estrela como verdadeira. O teólogo Orígenes (c. 185 – 253) dizia que estava próxima à natureza dos cometas. Muitas hipóteses apareceram para explicar o “milagre da estrela de Belém”, tratando o fato como um fenômeno astronômico real. Algumas hipóteses apontam o brilhante planeta Venus, mas este já era conhecido desde muito antes daquele tempo; dificilmente poderia ser tomado como algo extraordinário. Outros assinalaram o passo de um cometa, como o Halley, mas este havia transitado por nosso Sistema Solar o ano 11 a.C., bastante antes da data provável do nascimento. Tem também aqueles que atribuem a “estrela” a uma supernova, que é a explosão dum sol que deixa uma luz brilhante que pode ser vista durante meses, até de dia. Mas não há registros históricos dessa época ao respeito. Só existem antecedentes nos anos 135 a.C. e 173 d.C. 13


A opinião mais razoável e aceita foi proposta pelo astrônomo Johannes Kepler em 1606. Para ele, a estrela dos magos não foi outra coisa que a rara tríplice conjunção da Terra com os planetas Júpiter e Saturno, estando o Sol passando por Piscis. Nesta conjunção os planetas apareceram como um só, tornando-se uma luz mais brilhante. Os cálculos de Kepler determinaram o acontecimento do fenômeno se deu no ano 7 a.C., o que resulta compatível com as datas assinalas ao nascimento de Jesus mencionadas antes neste texto. Mas faltou explicar como esse fato poderia indicar uma caverna na Palestina. Um evento como este aconteceu em 1940-41 e só voltará a se dar em 2198. Kepler conhecia os comentários sobre o profeta Daniel, escritos em 1497 por Arbabanel, um sábio judeu. Segundo este, o fenômeno teria acontecido no nascimento de Moisés e teria lugar outra vez no nascimento do Messias. Arbabanel acreditava que a liberação trazida pelo messias ia se efetivar de acordo com o versículo (24, 17 Números) da Bíblia, que diz: “de Jacó se levantará uma estrela e de Israel surgirá um cetro.” 14


Talvez o relator do Evangelho segundo Mateus não fez mais de que aproveitar, com intenção mística ou por outros interesses, aquele acontecimento cósmico. A explicação mais simplista consiste naturalmente em acreditar que Deus criou uma estrela que guiasse os magos e, uma vez cumprida a sua missão, desapareceu tão rápida e misteriosamente como tinha sido criada.

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Os Reis Magos No evangelho de Mateus conta-se que “Nascido Jesus em Belém de Judéia, em tempo do rei Herodes, uns magos que vinham do oriente apresentaram-se em Jerusalém, dizendo: “Onde está e rei dos judeus que nasceu? Vimos sua estrela no oriente e viemos a adorá-lo”. O rei Herodes, sobressaltado, convocou todos os Sumos Sacerdotes e os escribas do povo, para se informar do lugar onde havia de nascer aquele rei. A informação que recebeu foi: “Em Belém, porque assim está escrito pelas palavras do profeta: Tu, Belém na terra de Judá, não és a menor entre os principais clãs de Judá; porque de ti sairá um caudilho que apascentará o meu povo de Israel.” Então Herodes chamou aparte os magos e, por seus dados, determinou o tempo de aparição da estrela. Depois os enviou a Belém, pedindo-lhes que retornassem com informação sobre a criança, a fim de ir adorá-la. Os magos puseram-se a caminho depois de ouvir o rei. A estrela que tinham visto no oriente ia à frente deles, até que parou em cima do 16


lugar onde estava a criança. Com imensa alegria entraram na casa, onde encontraram a mãe e o filho. Prostrados, lhe adoraram e abriram seus cofres, oferecendo presentes de ouro, incenso e mirra. Avisados em sonhos, não voltaram onde Herodes, retirando-se em direção ao seu país por outro caminho (Mt 2, 1-12). Ao ler isto só se sabe que os magos eram vários, não sabemos o número; que adoraram o nenê Jesus ofertando presentes; e após de um sonho voltaram a sua pátria. Como então passaram de magos a reis, ou a sábios em outras versões? Magos de quê? Reis de onde e por quê? No texto de Mateus não se responde a nada disso, nem no resto do Novo Testamento. Em princípio, seu número era indeterminado. As representações artísticas são as que foram dando seu atual número e aparência. No século III eram representados como sendo dois. Nas catacumbas romanas, até o século IV, apareciam 2 a 4 magos, segundo os casos. A meia dúzia também não faltou em algumas pinturas. Nas igrejas síria e armênia defendeu-se a dúzia de magos, alegando que eles prefiguravam os doze apóstolos e representavam 17


cada uma das doze tribos de Israel. Para a igreja copta (Egito) eram sessenta e citavam o nome de uma dúzia deles. No primeiro quarto do século II, o citado Orígenes afirmou que os magos tinham sido somente três, sendo que Mateus só se refere a três presentes. No século IV, de modo progressivo, começou a prevalecer a quantidade de três. Durante os primeiros séculos só foram magos. O “reis magos” vêm depois. Como a prática da magia estava proibida pelos textos bíblicos, o conceito de “magos” adquiriu um sentido pejorativo. Não se considerou edificante que sujeitos de tão duvidosa reputação deambulassem pelo portal de Belém. Magia só poderia ser praticada por Deus e isso era chamado “milagre”. No século II essa imagem foi abolida pelo teólogo Quinto Tertuliano (c. 160 – 220), quem foi o primeiro a denominá-los “reis”. Afirmou que “os magos eram reis do oriente”. Ninguém tinha afirmado isso antes dele, mas era um detalhe sem importância para um cristão ciente de seu dever. 18


Os nomes dos magos só aparecem no século VI. São mencionados num mosaico bizantino do ano 520, aproximadamente, localizado em Ravena, Itália. Nele figura uma lenda sobre os três magos que diz: “+SCS Balthassar +SCS Melchior +SCS Gaspar”; isso é “sagradíssimos e veneradíssimos Baltasar, Melchior, Gaspar.” O primeiro é Baltasar, de 30 a 40 anos de idade, com barba escura, leva em suas mãos um recipiente para mirra. Melchior, de 20 a 25 anos e sem barba, leva uma bandeja para incenso. Gaspar, com mais de 50 anos, cabelo e barba longos e brancos, apresenta um balaio com ouro. Todos são brancos; ainda nenhum deles se converteu em preto. Outra descrição dos reis Magos vem do erudito teólogo anglosaxão Beda o Venerável (675 – 735), que disse assim: “O primeiro dos magos foi Melchior, um ancião de longa cabeleira branca e barba comprida. Foi ele que ofereceu o ouro, símbolo da realeza divina. O segundo, chamado Gaspar, era um jovem imberbe, de pele branca e rosa, quem honrou Jesus oferecendo-lhe incenso, símbolo da divindade. O terceiro, chamado Baltasar, de pele morena (não negro), testemunhou 19


oferecendo-lhe mirra, que significava que o filho do homem devia morrer”. Os nomes que lhes foram assinados são tão arbitrários e fictícios como os que receberam em outros lugares do orbe cristão: Apellicom, Amerim e Serakin entre os gregos; Kagpha, Badalima e Badadakharida na Síria; Ator, Sater e Paratoras na Etiópia; mais outros em diferentes lugares. Suas supostas idades não são menos irreais e mudavam substancialmente em função dos gostos particulares de cada artista que os representava. Finalmente, no século XV, Petrus de Natibulus determinou que Melchior tivesse 6o anos, Gaspar 40 e Baltasar 20. Baltasar não foi negro até o século XVI, quando as novas necessidades ecumênicas da igreja católica a levaram a implantar um simbolismo inédito. Os três magos foram identificados com os três filhos de Noé (Sem, Cam e Jafet). Segundo o Velho ou Antigo Testamento representavam as três partes do mundo e as três raças humanas que o povoavam, como se acreditava naqueles dias. 20


Desta forma, Melchior o ancião passou a simbolizar os europeus como filhos de Jafet; Gaspar representaria os semitas da Ásia; Baltasar personificaria os africanos, filhos de Cam. Ameríndios, chineses, japoneses tiveram que ser ignorados porque não mais se podiam inventar novos reis magos e, menos ainda, inventar novos filhos a Noé. A única tentativa foi uma pintura portuguesa na qual o rei negro Baltasar foi pintado como um chefe índio do Amazonas. No Ocidente, a festa dos reis Magos não se comemorou até o século V. Escolheu-se o dia 6 de janeiro para comemorar a Epifania, a manifestação de Jesus a través dos Reis Magos, seu batizo no Jordão e o milagre do vinho nas bodas de Canaã. A tradição dos reis Magos como generosos provedores de brinquedos e presentes para as crianças é relativamente recente e só foi adotada em alguns países latinoamericanos. Os reis só começaram a trazer presentes às crianças em meados do século XIX. Seus presentes limitavam-se a coisas de uso relacionadas com a vida cotidiana. 21


Gaspar era o encarregado de repartir guloseimas, mel e frutas frescas. Melchior era mais prático e entregava roupa e calçado. Baltasar tinha o pior papel, se ocupando da criançada mais arteira, deixando-lhe carvão como presente, símbolo do pensamento racista. Para poder levar a cabo seu trabalho com justiça, os reis Magos dispunham da ajuda e colaboração de uns duendes que espiavam as crianças e contavam a seus chefes até os mais mínimos detalhes de seu comportamento. Este costume exige que as crianças coloquem seus sapatos bem limpos junto à cama, para receber neles, durante a madrugada, os presentes dos Magos. Também tem que deixar palha ou capim e água para os camelos.

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A Árvore de Natal O pinheiro é outro elemento, proveniente de culturas ditas pagãs, que foi incorporado aos rituais cristãos. Ele não perde as folhas no inverno e por isso é considerado símbolo da imortalidade, da vida eterna, desde tempos imemoriais, muito anteriores ao cristianismo e à própria religião judaica. Os antigos o reverenciavam e havia diversos costumes, rituais e crenças ligadas aos pinheiros. Especialmente proliferavam em latitudes mais ao norte do centro produtor de religião no Oriente Médio. Seguindo a antiga tática “se não puderes combater uma crença, então incorporá-la às próprias conveniências”, também este símbolo foi acrescentado aos rituais natalinos. Há alguns séculos, durante a Idade Média, pinheiros começaram a ser enfeitados em algumas localidades da Europa central. Logo isso se estendeu mais para o norte. O próximo passo foi cortar galhos para colocá-los dentro das casas, com enfeites mais caros e luxuosos. A estrela de Belém começou a aparecer no topo, às vezes representada por um cometa. 23


Hoje essas árvores de Natal são, maiormente, feitas de materiais não naturais, geralmente plásticos derivados do petróleo. As luzes, antes feitas com velas, deixaram lugar aos pisca-piscas elétricos feitos na China. Presentes pequenos podem ser pendurados nos galhos, enquanto os maiores são acomodados a seu pé. Frequentemente também se acomoda um presépio embaixo deles. Qualquer significado mais antigo está apagado da memória das pessoas e a árvore só serve como elemento decorativo.

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Papai Noel O antecessor do papai Noel foi um bispo na Ásia Menor no século IV, santo em boa parte da Europa desde a Idade Média, gnomo em Nova Iorque de meados do século XIX. Viu-se forçado a viajar por meio mundo antes de poder se encontrar a si mesmo na maravilhosa imaginação dos outros. O processo de metamorfose que levou o bispo Nicolau da Ásia Menor ao gorducho barbudo vestido de vermelho e branco, que traz presentes para todos, é tão ou mais fantástico e apaixonante que sua própria lenda. São Nicolau nasceu ao redor do ano 280 em Patara, uma cidade do antigo distrito de Lícia, no sudoeste da atual Turquia. Era filho duma família abastada e teve boa educação. À morte dos pais encaminhouse a uma vida religiosa, ingressando no mosteiro de Sion. Foi ordenado sacerdote aos 19 anos por seu tio, o arcebispo de Myra, a quem substituiu depois de sua morte. Grande defensor dos dogmas católicos, faleceu sendo arcebispo de Myra, perto do ano 350. 25


Foi chamado “bispo da crianças” e foi muito popular por sua grande generosidade e amabilidade com os mais necessitados. A estes legou sua fortuna pessoal. Sua fama estendeu-se muito além das fronteiras de sua região e começou a ser protagonista de grande quantidade de lendas. Sãolhe atribuídas saídas noturnas para ajudar prostitutas a deixar sua profissão e repartir presentes entre quem mais precisava. Até milagres lhes são atribuídos, como acalmar uma tempestade e ressuscitar um marinheiro egípcio. Dentre os relatos lendários sobre São Nicolau destacam-se duas histórias: uma, conhecida como a “das três irmãs”, é a base sobre a qual se construiu o mito que o converterá em generoso repartidor de presentes. A outra, chamada “dos três irmãos”, lhe fez credor ao título de patrono protetor das crianças. A primeira lenda conta o seguinte: Em Patara, cidade do santo, tinha três meninas que não podiam casar, já que o pai estava arruinado e não tinha dinheiro para os dotes. Por isso tinha decidido vendê-las a medida que alcançassem a idade de ser desposadas. O santo Nicolau deu 26


dinheiro, secretamente, às três, quando chegavam à idade matrimonial. Segundo a lenda, para manter o segredo arremessava uma bolsa com ouro pela janela, acertando uma meia que a menina em questão pendurava na chaminé para secar. A terceira menina o flagrou e reconheceu, pelo qual ficou famoso. Na segunda lenda, o santo estava de viagem e parou numa pousada para pernoitar. Enquanto descansava sonhou que um terrível crime era cometido nessa hospedaria: três irmãos muito jovens e ricos, que também estavam pernoitando no lugar, tinham sido assassinados pelo dono a fim de roubar-lhes os pertences. Nicolau acordou, encarou o pousadeiro e o obrigou a confessar o crime. Não era o primeiro, pois já havia feito a mesma coisa com outros clientes. Ele troçava, cozinhava e servia os corpos como se fossem porco em salmoura, para outros clientes comerem. Como os três jovens ainda não tinham sido retalhados, eles foram ressuscitados pelo santo. Estas e muitas outras lendas lhe deram fama na Europa. Os vikings o adotaram como santo patrono. Deles passou à Rússia, onde se converteu em santo 27


nacional em começos do século X. Sua fama se estendeu quando seus ossos foram roubados de Myra por uns marinheiros que os levaram para a cidade de Bari, na Itália, e os colocaram na igreja do santo Estevão. Apenas chegado já começou a operar milagres e sua fama se espalhou por toda a Europa. Desde meados do século XIII, são Nicolau repartia os presentes e brinquedos durante a noite do 5 ao 6 de dezembro. Depois da Contrareforma católica (1545 – 1563) surgiu outro personagem: o menino Jesus foi encomendado de fazer esse trabalho. O avanço dessa tradição forçou o santo Nicolau passar a entregar seus presentes o dia 25 de dezembro. A bela missão de entregar presentes às crianças no Natal foi adotada em toda Europa. O personagem encarregado de fazé-lo foi se desenvolvendo a partir da figura básica do santo medieval, misturada com retalhos de diferentes lendas locais. Como os gnomos, o Pai Inverno Nórdico, a Bruxa Boa Italiana e vários outros. Assim nasceram, por exemplo, os lendários Kolya (Rússia), Niklas (Áustria e Suíça), Pezel-Nichol (Baviera), Semiklaus(Tirol), Svaty Mikulas (Tchequia 28


e Eslováquia), Sinter Klaas (Países Baixos), Father Christmas (Grã Bretanha), Santa Claus (E.U.A.), Pére Noël (França) e outras muitas variantes do mito básico. Mas aquele gorducho de barba branca, vestido com roupa vermelha e branca, que dirige um trenó de oito renas transportando um saco cheio de presentes, o devemos às tradições holandesas e a escritores e desenhistas de Nova Iorque. A tradição de São Nicolau arraigou-se em forma especialmente intensa nos países Baixos, a partir do século XIII. Chegou-se a nomeá-lo Santo Protetor de Amsterdã. Por aqueles dias era representado vestido com ornamentos eclesiásticos, com barba branca, montado num jegue, levando um saco ou um balaio com presentes para as crianças boas e um feixe de varas para os desobedientes. Mais tarde, lá pelo século XVII, começou a chegar num barco chamado “Spanje” (Espanha), sempre acompanhado do fiel servente mouro Zwarte Piet (Pedro o Preto). Este era um personagem sempre sorridente, que levava um saco cheio de guloseimas suficientemente grande para que, uma vez vazio, 29


pudesse comportar todas as crianças que tinham mau comportamento. O saco era enviado à Espanha, um castigo horrível naquela época quando havia sangrentas guerras entre aqueles dois povos. Essa tradição cruzou o Atlântico no século XVII, com os colonos holandeses que foram se instalar no promissório litoral da América do Norte. Fundaram Nova Amsterdã, que logo viria ser Nova Iorque. Nessa transferência Pedro o Negro ficou no velho continente, desaparecendo das festas posteriores. Washington Irving, amante do folclore europeu, escreveu sua “História de Nova Iorque” em 1809. Nela descreve a chegada do santo em cada véspera do dia 6 de dezembro. Não mais usava as roupagens de bispo e deixou de montar um cavalo branco – que já havia aparecido no lugar do jegue – para chegar num cavalo voador. Foi tão popular a raiz deste relato, que até os colonos ingleses festejaram a celebração holandesa. O nome foi derivando de São Nicolau, ou Sinter Klaas, até acabar pronunciado como Santa Claus pelos angloparlantes. Tinha nascido um novo personagem, mas ainda faltavam outros detalhes para se converter no atual gorducho bonachão. 30


O seguinte passo na transformação ocorreu o dia 23 de dezembro de 1823, quando apareceu um poema, num jornal de Nova Iorque, titulado “Um relato sobre a vida de São Nicolau”. Somente em 1862 soube-se que tinha sido escrito por Clement C. Moore, professor de estudos bíblicos nessa cidade. Neste poema incrementou o comportamento mágico expressado por Irving e fez a história mais crível. Trocou o trenó puxado pelo cavalo alado, por outro puxado por renas. Descreveu o papai Noel como um sujeito alegre, bonzão, gordo e baixinho, assemelhando-o a um gnomo. O mais decisivo foi que Moore situou a chegada de Santa na vigília do Natal, ao invés do 6 de dezembro. Graças a esse empurrão, Irving criou uma sociedade literária em honor ao santo, em 1835. A imagem do gordo Santa Claus foi detalhada ao máximo pelo desenhista Thomas Nast, quem publicou ilustrações na revista “Harpers” nos Natais de 1860 até 1880. Nast agregou detalhes como a oficina no Pólo Norte e sua vigilância sobre as crianças boas e más em todo o planeta. Foi ele quem deu a cor vermelha às roupagens de pele. 31


A final do século XIX e começos do XX, o costume do santo Nicolau foi reinventado em Nova Iorque e foi se alastrando pela Europa inteira. Fundou as bases na Grã Bretanha, passando pra França, Espanha e também grande parte da América Latina, com os nomes de Father Christmas, Pére Noël, Papá Noel, Papai Noel, etc. Na realidade não fez mais que se adaptar aos antigos costumes de repartição de presentes, sempre presentes na história da humanidade. Finalmente, em 1931, foi a Coca Cola que lhe deu seu atual aspecto. A empresa encomendou a Haldon Sundblom que remodelasse o Santa Claus de Nast, para sua campanha publicitária do Natal desse ano. Ele criou um Santa Claus mais alto, ainda mais gorducho, mais simpático, de olhos maliciosos, chispantes e amigáveis, longa barba e grande bigode, com pelos brancos, sedosos e agradáveis. A vestimenta manteve as cores vermelho e branco, por serem as cores da empresa, mas o traje ficou mais luxuoso e atrativo. À imaginação de todas essas pessoas deve-se o nosso atual repartidor de presentes. Na realidade, não fez mais que readaptar antigos costumes que se 32


embaralharam em diversos lugares do planeta. Atualmente afirma-se que é oriundo de Hveragerti, segundo os islandeses. Os noruegueses dizem que vive na cidade de Drammen. Os finlandeses juram que nasceu e mora em Rovaniemi. Todas elas são cidades turísticas centradas na exploração desse fato. Segundo os islandeses, há vários séculos que um primitivo Santa Claus – chamado “Julemand” por eles -, vestido com peles de rena, deixava presentes entalhados em osso ou madeira, nas portas das casas onde tivesse uma criança. Mas agora aquele gigante generoso mora num morro perto de Rovaniemi, há mais de 400 anos. Por aqui todos sabemos que Papai Noel mora no Pólo Norte, com muitos duendes que lhe ajudam a fabricar todos os presentes que lhe pedem as crianças do mundo inteiro. Essa imensa oficina hoje também é assistida por grandes indústrias multi ou supranacionais, que faturam alto durante este sagrado evento. Boa parte da repartição hoje ainda é feita a bordo dum trenó voador, puxado por sete renas. Estas são chamadas pelos nomes de Dançarino, Pulador, 33


Bajulador, Piadista, Alegre e Veloz, todos eles liderados pelo Reno, aquele de nariz vermelho, que foi o último a se incorporar ao grupo. Outros dizem que são oito e se chamariam Doner e Cupid – os que ficam mais perto do Papai Noel – Blitzer e Comet, Vixen e Prancer, mais Dasher e Dancer. Aquilo que se comenta, que os presentes de Natal são deixados pelos pais da criançada, é uma terrível mentira que deve ficar desmascarada com esta breve e séria biografia do Papai Noel ou como vocês quiserem chamá-lo. Um trabalho pró-científico préacadêmico que apresento a você.

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A História do Natal  

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