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Os desafios de Santana do Araguaia, no Pará. Este é o tema da última reportagem da série sobre a nova fronteira agrícola do Brasil.

42 Soja

Condições climáticas extremas (tempo quente e seco no Sul e chuvas fortes no Centro-Oeste) derrubam a safra 2013/14

48 Entrevista

Diretor-executivo da Andef, Eduardo Daher expõe problemas da indústria brasileira de agroquímicos e rebate críticas ao setor.

52 Agrishow 20

Matéria de capa

Agro DBO antecipa novidades em máquinas e implementos agrícolas, tecnologia e serviços à disposição do público na feira deste ano.

Artigos 10 – Rogério Arioli critica a opção de plantio de soja na segunda safra

A estiagem que assolou o Centro-Sul do Brasil no início do ano afetou o desenvolvimento dos cafeeiros em várias regiões, quebrou a produção e prejudicou a qualidade dos grãos, com reflexos na próxima safra.

26 – Décio Gazzoni reclama apoio e crédito para a agricultura familiar 34 – Daniel Glat discorre sobre o avanço da Ciência de Dados nos EUA 36 – Amilcar Centeno oferece dicas para quem quer comprar tratores 38 – Evaristo de Miranda e José M. da Costa questionam a reserva legal 66 – Fábio Lamonica avalia direitos e deveres sobre sucessão familiar

Seções Do leitor.............................................................. 6 Ponto de Vista.................................................10 Notícias da terra.............................................12

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Análise de mercado......................................58 Novidades no campo...................................60 Biblioteca da terra..........................................63 Calendário de eventos.................................64

Wanderlei Dias Guerra

28 Especial

Ariosto Mesquita

Sumário


Do Leitor BAHIA A Agro DBO é uma revista com informações atualizadas e bem redigidas para quem tem interesse no agronegócio. Bruna Rafaela Nogueira Itapetininga MATO GROSSO Excelente revista, me mantém informado do que vem acontecendo no Brasil e no mundo. Muito boa. Pedro Amaro Augusto Sapezal

Recebemos vários telefonemas e e-mails de pessoas interessadas no subsolador descrito no artigo “A produtividade está na profundidade”, publicado na edição de fevereiro. Selecionamos alguns deles e os agrupamos no box abaixo porque os leitores, de estados diferentes, buscavam a mesma resposta. O tema de maior repercussão – especialmente nos meios acadêmico e político de São Paulo – foi provocado, porém, pela reportagem “Institutos sucateados”, da edição de março. Leia na página ao lado, na seção correspondente ao estado de São Paulo, os comentários a respeito, a contestação da Secretaria da Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo às denúncias publicadas e a resposta do autor da matéria em questão, o jornalista José Maria Tomazela. A reportagem inserida nas páginas 52 e 53, intitulada “A produtividade está na profundidade”, relata sobre um subsolador adubador com duas hastes. É possível me enviar o e-mail ou o site da empresa que produz este equipamento? Tenho interesse em conhecê-lo, pois já trabalhei com o equipamento Mafes, similar ao da reportagem, porém com mecanismos de aplicação diferentes. Desde já agradeço a atenção. Aguardo retorno. Carla Eloize Carducci Curitibanos (SC) Gostaria de receber as seguintes informações: 1 – Quais empresas comercializam ou adaptam implementos para aplicações de corretivos em profundidade, tal qual o da foto da

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MATO GROSSO DO SUL Li a edição nº 52 e a achei interessante, especialmente a matéria que trata de Santana do Araguaia, cujas pessoas mencionadas são minhas conhecidas, bem como já estive pessoalmente no local, pois tenho uma propriedade “mais ou menos idêntica” no Tocantins, não muito longe dali. Li a matéria da edição nº 53, “Soja no cascalho”, que é o caso da minha propriedade em Dois Irmãos do Tocantins (TO), e também gostei muito. Adão Russi de Oliveira Chapadão do Sul NR: O leitor faz referência às duas primeiras matérias da série de três sobre a nova fronteira agrícola brasileira, o Vale do Araguaia, no sudeste do Pará: a “A epopeia de um pioneiro”, publicada na edição de fevereiro (nº 52) e ”Soja no cascalho”, da edição de março (nº 53). O município de Santapágina 52 da edição de fevereiro; 2 – Quais empresas comercializam o calcário com Ca e Mg na forma de óxido e com PRNT adequado à correção sugerida no mesmo artigo? Elio Darci Kissmann Chapadão do Sul (MS) Estamos interessados na tecnologia e na máquina que ilustra a reportagem de Ronaldo Cabrera. Para maiores esclarecimentos, necessitamos de um contato com ele. Ficaremos gratos se puderem nos fornecer o contato Rose Marie Trein Dourados (MS) Como engenheiro, agricultor e pecuarista, fiquei muito interessado

na do Araguaia, citado pelo leitor, é o epicentro desta nova fronteira agrícola, base dos produtores rurais que vêm transformando a região, antes voltada apenas à criação extensiva de gado, agora celeiro de produção de grãos. A terceira e última matéria da série pode lida na presente edição, a partir da página 28. MINAS GERAIS Uma revista com credibilidade, informações de mercado e de tecnologia atuais, com futuro interessante. Kazuhiro Nomura Uberlândia PARANÁ Muito boa, a revista Agro DBO; bem atualizada e com entrevistas interessantes. Gustavo Alves Scaranello Jandaia do Sul RIO GRANDE DO SUL Revista com material científico de muita qualidade credibilidade; ferramenta muito útil para qualquer profissional vinculado ao agronegócio. Gilmar Luiz Mumbach Cerro Largo RONDÔNIA Eu, como extensionista rural e proprietário, considero a Agro DBO de valiosa importância pelo nível das matérias e depoimentos de assinantes. Luiz Gonzaga Barbosa da Costa Porto Velho no artigo publicado pelo Ronaldo. Gostaria de ter mais informações sobre a técnica, os equipamentos utilizados, os produtos e, se possível, o endereço do Ronaldo Cabrera para mais informações sobre o assunto. Sou assinante há muitos anos da DBO. Espero um retorno de Vs.Ss. Luiz Antonio Massafera Araraquara (SP) NR: Prezados leitores. Conforme indicação de nosso colaborador Ronaldo Cabrera (ronaldocabrera@yahoo. com.br), autor do artigo em questão, intitulado “A produtividade está na profundidade”, a marca do citado subsolador-adubador é Kamaq (Araras/ SP) e o produto com 180% PRNT é da Oxyfertil.


SÃO PAULO Parabéns por esta excelente matéria. É um absurdo o que está acontecendo em São Paulo. Inaceitável. Roberto Rodrigues São Paulo NR: O leitor acima, Roberto Rodrigues, ex-Ministro da Agricultura, e os quatro leitores subsequentes (Xico Graziano, ex-Secretário da Agricultura de São Paulo; Hélio Casale, engenheiro agrônomo, ex-Delegado Regional da Secretaria da Agricultura em Catanduva; Roseli B. Torres, pesquisadora do Herbário IAC e presidente da APqC – Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo; Rubens Iamanaka, da Cati-Avaré; e José Alberto Caram de Souza-Dias, pesquisador científico do IAC) se referem à reportagem intitulada “Institutos sucateados”, publicada na edição de março, na qual o repórter José Maria Tomazela denuncia a situação de penúria em institutos de pesquisa e extensão rural de São Paulo por falta de verbas, reposição de quadros, achatamento salarial e outros problemas. Excelente matéria. Realista, triste, necessária. Xico Graziano São Paulo Não imagino onde o repórter conseguiu tanta informação. Nenhuma mentira. Ainda carrego uma pontinha de orgulho de ter servido à Secretaria da Agricultura de São Paulo como Delegado Regional da Região de Catanduva. Na época, um outro governo, outra Secretaria. Lástima. Hélio Casale São Paulo Em nome da Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo, APqC, agradeço a excelente

reportagem e todo o seu empenho em trazer à luz o drama que vivemos nestes anos todos. Os Institutos de Pesquisa de São Paulo realmente estão à beira da falência, infelizmente, e não é por falta de mobilização dos seus pesquisadores e de tentativas infrutíferas de sensibilizar os sucessivos governos do estado, inclusive com passeatas na porta do Palácio dos Bandeirantes, no MASP e discussões exaustivas na ALESP. Roseli B. Torres Herbário IAC – Centro de Recursos Genéticos Vegetais Campinas Parabéns pela reportagem, Tomazela. Ela retrata exatamente a atual situação dos institutos do Estado de São Paulo. Rubens K. Iamanaka Avaré Parabéns pelas matérias da Agro DBO – revista de leitura obrigatório no mundo do agronegócio. A matéria do colega Tomazela sobre a triste situação dos Institutos de pesquisa, como Agronômico, Biológico e de Extensão CATI – Defesa expressa e detalhada com exemplos o que diz o título. Ao ler, nota-se que não há no artigo apenas palavras escritas, mas sons de lamentos. Ouve-se gritos e gemidos do sentimento da dor do autor e de todos quem vivem a triste realidade. Faço coro nesse grito de alerta e de socorro para a necessidade urgente de contratação de pesquisador científico para reativar o Laboratório de Microscopia Eletrônica (parado há vários anos por falta de contratação de especialista na área) e de outro pesquisador científico para pesquisas no desenvolvimento de diagnose de viroses via técnicas biológicas, imunológicas e moleculares. São áreas que existiam na ex-seção de virologia do IAC, atual Centro de Pesquisa e Desenvolvimento de Fitossani-

dade do IAC . São áreas de pesquisa com resultados inéditos gerados, registrados, publicados (Brasil e exterior) – transferiram importantes conhecimentos em viroses de diferentes culturas. Geraram contribuições técnico-científica e práticas, solucionando problemas. Contribuíram de forma efetiva na formação de técnicos – especialistas em fitovirologia. A ex-seção de virologia, que contava com mais de 10 pesquisadores científicos na década de 60-meados de 70, foi perdendo e chegando hoje a ter apenas dois, com mais de 35 anos de dedicação. Vale ressaltar que a ex-seção de virologia do IAC foi uma das únicas citadas pela FAO (Agricultura das Nações Unidas) nas décadas de 1970-80 como modelo exemplar para o estudo e desenvolvimento da fitovirologia, a ser seguido mundialmente. Com tanta ameaça de novas pragas e, particularmente, novas viroses (quarentenárias e exóticas), na eminência de serem introduzidas no Brasil, com potencial de desastre – perdas enormes nas culturas de cana-de-açúcar, batata, mandioca, hortaliças, plantas florestais e frutíferas, não tem como justificar a não contratação de especialistas nessas funções. São área de ciências consideradas pró-DEFESA DA PÁTRIA, mais do que DEFESA VEGETAL. Como continuar assistindo, solicitando, conclamando, lamentando, porém, nunca se conformando ou se calando frente a essa triste realidade. Trabalho como o de vocês, de jornalismo sério e independente, encoraja, dá força para lutarmos contra a maré. José Alberto Caram de Souza-Dias Campinas (SP) A seguir, a resposta oficial da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, enviada pela Assessora de Comunicação, Marina Mantovani. Como nos é facultativo, reduzimos o teor ao que consideramos essencial: “Com relação à reportagem publicada na DBO, verificamos uma série de inverdades com relação à Apta – Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios e à Cati – Coordenadoria de Assistência Técnica Integral. A começar pelo título “Institutos Sucateados”. O termo normalmente está associado à algo imprestável, sem valor, com estruturas destruídas, sem condições de uso. Pois bem. Os institutos aos quais a reportagem se refere foram alvo de investimentos superiores a R$ 77 milhões entre 2008 e 2013.

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Do Leitor Recursos aplicados pelo Governo do Estado em modernização, equipamentos e obras. Outros R$ 33 milhões vieram do PAC Pesquisa (2008-2010) via Embrapa, cujos recursos ainda estão sendo aplicados em obras, reformas, equipamentos. A FAPESP investe cerca de R$ 8-9 milhões por ano. Outros R$ 40 milhões por ano vêm da iniciativa privada, destinado a custeio de projetos. De 2008 a 2013, foram investidos, via Finep, R$ 19 milhões, para investimentos e custeio específico para projetos. Os investimentos em infraestrutura proporcionaram adequação e modernização de laboratórios, ações exigidas para obtenção de acreditação e/ou certificação das unidades. Dentre os investimentos realizados, deve-se destacar a modernização da frota, que tinha idade média de 15 anos. Com os novos recursos, a idade média caiu para 8 anos, com redução de despesas para manutenção dos veículos. No caso da Helicoverpa armigera, vale dizer que não é função do Instituto Biológico fazer a coleta de insetos, mas sim de analisar todas as amostras enviadas por particulares ou técnicos da CDA. Mesmo assim, a Secretaria de Agricultura e Abastecimento montou uma expedição técnico científica para fazer coleta de amostras suspeitas da praga, e os resultados serão conhecidos em breve. Com relação às declarações do pesquisador Dr. Raul Moreira, ou são de má fé, ou refletem total desconhecimento do que se passa nos Institutos. Esclarecemos que o IAC conta, no Centro de Frutas, com 8 pesquisadores, e mais 7 nos Polos Regionais. Quando ele se refere ao Polo de Negócios, está se referindo aos 14 Polos Regionais de Pesquisa, que abrigam também 18 Unidades Regionais, entre estações e laboratórios. Todas essas unidades têm um contingente de 182 pesquisadores, responsáveis por 420 projetos de pesquisa ao ano, nas diferentes áreas de interesse do Estado e das regiões onde estão localizados. Não temos a menor ideia de onde surgiu o termo Polo de Negócios. Quanto às declarações do Dr. Joaquim Adelino, presidente da APqC, não temos como confirmar se há 20-25 anos a unidade de Monte Alegre tinha 100 experimentos de campo. Hoje, os pesquisadores da unidade, que são 7, são responsáveis por 26 projetos de pesquisa e colaboram com outros 35 projetos liderados por pesquisadores

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de outros institutos. Ou seja, o Polo é responsável pela execução de 61 projetos de pesquisa, o que não é pouco”. A seguir, a resposta do autor da reportagem em questão, José Maria Tomazela. Ele teve acesso à integra do texto enviado pela Assessoria de Comunicação da Secretaria de Agricultura e Abastecimento de São Paulo: Não há “inverdades” na reportagem, baseada em depoimentos de pesquisadores e técnicos renomados da própria Secretaria, em documentos encaminhados ao governador Geraldo Alckmin, à Assembleia Legislativa e à Secretaria, e na constatação direta feita pela reportagem. O título “Institutos Sucateados” reflete com exatidão o quadro relatado pelas fontes citadas e confirmado por este repórter que, há quase trinta anos, acompanha de perto a agropecuária paulista. A Secretaria teve a oportunidade de se manifestar durante a elaboração da reportagem, recebendo por e-mail, ponto por ponto, as principais questões abordadas, mas não o fez. Mesmo agora, a Secretaria não responde às questões mais relevantes tratadas na reportagem, como a falta de funcionários para funções básicas, como a simples capina de um cafezal tomado pelo mato, ou a descarga de um caminhão de sementes, a faxina de uma sala, ou mesmo a vigilância das unidades, sem contar a falta de agrônomos nas Casas da Agricultura. É óbvio que a falta desses profissionais compromete os trabalhos de pesquisa e extensão. Os números só agora apresentados pela pasta confirmam a reportagem. São 346 funcionários para atender 21 unidades do DSMM, incluindo o órgão central em Campinas, ou seja, média de apenas 16,5 funcionários por unidade. Tomando por base a Fazenda Ataliba Leonel, núcleo de produção de sementes em Manduri, tem-se que esses servidores atendem uma estrutura com 3.375 hectares, sendo 1.673 hectares de área cultivada (480 hectares irrigados com pivôs centrais), 140 hectares de reflorestamento com essências exóticas, 1.324 hectares de mata nativa e áreas de proteção ambiental, 67 hectares de estradas, açudes e demais benfeitorias, e 174 hectares de pastagem para criação de bovinos. Tudo isso a ser administrado, cultivado, mantido e preservado por um quadro médio de 16,5 funcionários,

incluindo o diretor, pesquisadores, técnicos, tratoristas, mecânicos, faxineiros, cozinheira, jardineiros, capinadores, braçais e seguranças. O número em atividade será menor se forem considerados servidores em férias ou afastados por doença, abono ou licenças. Os números confirmam também a subutilização da estrutura da Secretaria no Estado. Nas 14 unidades de produção de sementes, foram cultivados nas safras de 2013, apenas 1.790 hectares, incluindo a área dos cooperados. A Secretaria não informou qual a área total disponível nessas 14 unidades, mas apenas uma delas, a Ataliba Leonel, em Manduri, tem 1.643 hectares cultiváveis. A Secretaria informou ter investido R$ 177 milhões em sua rede em cinco anos, a partir de 2008, aí incluídos os recursos provenientes do governo federal, de órgãos de fomento e da iniciativa privada. A média é de R$ 35,4 milhões por ano e grande parte desse recurso é para custeio da máquina. Para comparação, apenas no primeiro bimestre de 2014, as exportações do agronegócio paulista totalizaram R$ 7,7 bilhões. Os números apresentados atestam também a dependência cada vez maior do órgão estadual das parcerias com as prefeituras que, embora produzam bons resultados, em alguns casos subordinam os técnicos da Secretaria a interesses políticos locais, como pontua a reportagem. O entrevistado Sylmar Denucci é o atual diretor do DSMM de Águas de Santa Bárbara, e não da unidade de Manduri, e nisso tem razão a Secretaria. Porém, Denucci esteve durante 17 anos, até recentemente, à frente da Fazenda Ataliba Leonel, em Manduri, e a conhece como ninguém. As informações passadas pelo pesquisador Raul Moreira foram confirmadas por outros pesquisadores e servidores. O fato de a instituição ter “o maior número de normas e procedimentos credenciados” no País, não a exime de apresentar os problemas relatados na reportagem. Grande parte desses resultados de que, agora, a Secretaria se vangloria, certamente se deve ao trabalho de pesquisadores como estes que, em sua resposta, a Pasta desqualifica. José Maria Tomazela, Jornalista AgroDBO se reserva o direito de editar/resumir as mensagens recebidas devido à falta de espaço.


Carta ao leitor

D

efinitivamente, as condições climáticas observadas desde janeiro último determinaram o andamento e os resultados não apenas da safra de grãos em todo o país. Como relata a matéria de capa desta edição da Agro DBO, “Lavoura torrada”, do jornalista Rogério Furtado, as previsões são de quebra de safra do café na próxima colheita a partir de maio, na safra 2014, com reflexos sobre a safra de 2015, pois o cafeeiro, como planta perene, guardará em sua memória genética os danos e estresses sofridos com a falta de água e o calor excessivo. Como desgraça pouca é bobagem, a reportagem mostra os problemas agravados pela presença intensa da broca do café, que obrigou o Governo Federal a decretar o “Estado de emergência” para a cultura, em Minas Gerais, maior produtor brasileiro da rubiácea. Outros maus humores climáticos, entretanto, estão também apontados na matéria “E o clima levou...”, autoria da jornalista Marianna Peres, em que registra a safra de grãos prejudicada pelas chuvas, que exageraram no Centro-Oeste, e faltaram no Sul e Sudeste, determinando queda de produção, de produtividade, e de renda, mesmo com os preços da soja mostrando vigor nas bolsas de commodities. Trazemos ainda nesta edição a terceira e última reportagem da trilogia “A Nova Fronteira Agrícola”, autoria do jornalista Ariosto Mesquita, mostrando os desafios de logística enfrentados pelos pioneiros do sudeste do Pará, em Santana do Araguaia. É interessante a leitura do artigo do engenheiro agrônomo Evaristo Eduardo de Miranda e do jurista José Maria da Costa, que apresentam conclusões sobre o Código Florestal, ao explicar que a grande maioria dos proprietários rurais está desobrigada de recompor a polêmica área de Reserva Legal, desde que as áreas de mata natural desmatadas no passado tenham sido feitas dentro das leis então vigentes. Como cada caso é um caso, é recomendável que os leitores analisem sua situação, ao pé da lei. Na entrevista do mês (Eduardo Daher: “Agricultor não rasga dinheiro”) os agricultores podem conhecer a visão da indústria de agroquímicos através do diretor-executivo da Andef, Associação Nacional de Defesa Vegetal. Uma boa notícia espalhou-se de Brasília aos quatro cantos do agronegócio brasileiro em março último com a indicação e posse como Ministro da Agricultora do gaúcho Neri Geller, um autêntico profissional das lavouras mato-grossenses, fato que traz otimismo a seus pares e a todos que militam na cadeia alimentar. Desejamos sucesso e capacidade de condução política ao novo ministro, que é de competência reconhecida, pois o agronegócio precisa muito de um interlocutor junto aos poderes decisórios brasilienses. Aos que desejarem manifestar suas opiniões, sugerimos enviar e-mail para redacao@agrodbo.com.br Richard Jakubaszko

é uma publicação mensal da DBO Editores Associados Ltda. Diretor Responsável Demétrio Costa Editor Executivo Richard Jakubaszko Editor José Augusto Bezerra Conselho Editorial Décio Gazzoni, Demétrio Costa, Evaristo Eduardo de Miranda, Hélio Casale, José Augusto Bezerra e Richard Jakubaszko Redação/Colaboradores Amilcar Centeno, Ariosto Mesquita, Daniel Glat, Décio Luiz Gazzoni, Evaristo Eduardo de Miranda, Fábio Lamonica Pereira, José Maria da Costa, Marianna Peres, Rogério Arioli Silva e Rogério Furtado. Arte Editor Edgar Pera Editoração Edson Alves e Célia Rosa Coordenação Gráfica Walter Simões Marketing/Comercial Gerente: Rosana Minante Departamento Comercial Andrea Canal, Marlene Orlovas, Tereza Helena Virginia e Vanda Motta Circulação Gerente: Edna Aguiar ISSN 2317-7780 Impressão Log&Print Gráfica e Logística S.A. Capa: Thomaz Vita Neto/Pulsar Imagens DBO Editores Associados Ltda Diretores: Daniel Bilk Costa, Odemar Costa e Demétrio Costa Rua Dona Germaine Burchard, 229 Perdizes, São Paulo, SP 05002-900 - Tel. (11) 3879-7099 redacao@agrodbo.com.br www.agrodbo.com.br

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Ponto de vista

Risco não calculado O plantio soja-soja nas safras de verão e safrinha é irresponsabilidade, conforme a experiência e as pesquisas apontam. Rogério Arioli Silva *

Rotação soja-soja irá trazer problemas ao solo

S

* O autor é engenheiro agrônomo e produtor rural em Mato Grosso

ão muitas as informações indicando que inúmeros produtores semearam uma segunda safra de soja em vários estados do Brasil. Estimulados pelo valor do grão da oleaginosa e pela liquidez que a mesma possui, além de cansados da histórica gangorra nos preços do milho, esses produtores mostraram-se dispostos a correr o risco da chamada “safrinha”. Se as consequências dessa prática imediatista ficassem apenas dentro das propriedades dos tomadores do risco a mesma seria até certo ponto administrável. Todavia não é isso que ocorre. Ao deixar de lado a visão agronômica do processo produtivo, priorizando apenas e tão somente a perspectiva caolha do lucro imediato, é bem possível que se esteja caminhando para um modelo que não se sustente no longo prazo. Apesar das generosas safras que o

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país tem obtido - embora problemas pontuais sempre aconteçam face ao tamanho do seu território, é inegável que os custos de produção não param de crescer, principalmente pela necessidade de intensificação do pacote tecnológico adotado no campo. Antes, era possível lucrar-se produzindo 40 sacas de soja por ha, atualmente, quem produzir menos de 52 sacas, principalmente na região Centro-Oeste, tem prejuízo, em função dos altos custos da lavoura. A cada ano aparece um novo desafio. Percevejos, moscas brancas, helicoverpas, falsas-medideiras, são algumas das pragas que disputam o lugar nos pesadelos dos produtores rurais. O controle das doenças fúngicas requer esforço hercúleo que, além da competência na escolha dos produtos eficientes, precisa da colaboração do clima. Nesta safra de 2013/14, em decorrência do excesso

de chuvas, novamente a ferrugem asiática deixou um rastro de destruição em lavouras plantadas um pouco mais tarde. Toda essa pressão de doenças aconteceu mesmo com três, quatro ou cinco aplicações de fungicidas. Quantas aplicações de inseticidas foram necessárias para controlar o fantasma da Helicoverpa armigera? Quantas serão necessárias para livrar a soja da pressão de pragas e doenças se a rotação ou sucessão de culturas for abandonada pela decisão irresponsável do cultivo da mesma cultura sucessivamente? É inegável que ninguém consegue manter-se numa atividade sem que haja rentabilidade para isso, entretanto, é ilusório fazer a conta da lucratividade considerando-se apenas o próximo cultivo. A visão da atividade agrícola precisa ser do processo produtivo como um todo e não apenas das safras isoladamente. Nem sempre a perspectiva de lucro que se


apresenta num momento se mantém logo a seguir, graças aos inúmeros fatores envolvidos, umbilicalmente ligados à oferta e demanda dos produtos. A rede de informações que circula on line pelos mercados tem a capacidade de modificar as tendências de preços, desmentindo sistematicamente toda e qualquer previsão de resultados. Nesse ambiente moderno, onde a especulação faz parte do jogo, torna-se ainda mais necessário o planejamento de longo prazo das atividades do campo. A pesquisa agropecuária está cada vez mais pressionada para responder às demandas de novas pragas e doenças. Produtos desenvolvidos pelas empresas para proteção das plantas a cada ano possuem uma vida mais curta, e residual menor, como resultado da pressão a que estão sendo submetidos. Novos princípios ativos de inseticidas e fungici-

das custam milhões de dólares para chegar ao mercado e, se não forem manejados de maneira responsável, certamente perderão a guerra para os mecanismos de resistência desenvolvidos pelas pragas, doenças e ervas daninhas. No final das contas, quanto menor a vida útil de um novo produto maior será seu custo

um desafio constante e passa pelo necessário bom senso de todos os envolvidos. É preciso que alguns produtores, que ainda resistem em aceitar a opinião de técnicos e consultores, modifiquem sua postura, caminhando em direção a uma visão mais abrangente da atividade produtiva. O resultado de uma agri-

É ilusório fazer a conta da lucratividade considerando-se apenas o próximo cultivo. para a sociedade, com desdobramentos que penalizarão produtores num primeiro momento e consumidores logo a seguir. Isto sem levar ainda em consideração o custo ambiental, que é intangível, mas vital para a atividade da agricultura. A sustentabilidade da agricultura tropical – agricultura que hoje em dia usa altíssima tecnologia – é

cultura moderna e diversificada, alicerçada nos pilares básicos preconizados pela pesquisa – seja pública ou privada, é do interesse de todos os brasileiros. A imensa maioria dos produtores já absorveu essa visão responsável do processo produtivo. Aqueles poucos que ainda não a aceitaram serão bem-vindos no momento em que o fizerem.

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Notícias da Terra Safra I

Conab reduz projeções de safra

O

Brasil deverá colher este ano 188,7 milhões de toneladas de grãos, dos quais 88,5 milhões de soja, de acordo com o sexto levantamento da Conab, divulgado no mês passado. Em janeiro, a instituição previu 193,6 e 90,1 milhões/t, respectivamente, mas não computou as perdas em produtividade decorrentes da estiagem do início do ano no sul do país e do excesso de chuvas em Mato Grosso e outras regiões em fevereiro, como fez agora. De qualquer forma, as estimativas atuais indicam produção recorde tanto em grãos quanto em soja – na safra 2013/13, o Brasil produziu 187,4 milhões/t de grãos e 81,5 milhões/t de soja. A área total destinada ao plantio deve chegar a 55 milhões de hectares, 4% maior que a da safra passada (53,3 milhões/ha). O levantamento foi feito entre 16 e 22 de fevereiro.

Safra II

IBGE prevê 190,3 milhões/t

A

safra nacional de cereais, leguminosas e oleaginosas será de 190,3 milhões de toneladas, superando em 1,1% o total colhido no ano passado, de acordo com a segunda estimativa do IBGE, divulgada no mês passado. Comparativamente ao levantamento de janeiro, a queda é de 3,6 milhões/t (-1,8%). Em relação a 2013, a produção de soja deve crescer 8,3% e a de arroz, 6,3%. No caso do milho, a expectativa é de quebra de 7%. No que se refere à área plantada, a de soja deverá crescer 6,4% e a de arroz, 1,2%, com decréscimo de 1,2% na lavoura de milho. As três culturas – soja, arroz e milho - representam 92,5% da produção estimada e 85,5% dos 55,1 milhões de hectares a área a ser colhida. No total, a área plantada este ano crescerá 4,3% frente à de 2013 (52,8 milhões/ha).

Safra IV

Desempenhos variáveis

E Safra III

Perspectivas por região

E

ntre as regiões brasileiras, a produção estimada de cereais, leguminosas e oleaginosas apresenta a seguinte distribuição, conforme o IBGE: Centro-Oeste, 78,9 milhões de toneladas; Sul, 70,7; Sudeste, 18,7; Nordeste, 16,7 e Norte, 5,2. No cotejo com a safra passada, os pesquisadores apontam aumento de 0,6% no Centro-Oeste, 40,1% no Nordeste e 5,6% no Norte. No Sul e

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no Sudeste, a produção deverá cair 3,2% e 5,6%, respectivamente, em relação à safra 2012/13. O estado de Mato Grosso permanece como o maior produtor de grãos do país, com 23,9% de participação, seguido pelo Paraná, com 17,6%, e pelo Rio Grande do Sul, com 16,2%. Os três estados responderão por 57,7% do total nacional previsto.

ntre os 26 principais produtos pesquisados pelo IBGE em fevereiro,12 apresentaram variação positiva no percentual estimado de produção, comparativamente à safra passada: mamona (367,3%), feijão 1ª safra (61,9%), algodão (11,9%), café conilon (11,9%), feijão 2ª safra (10,4%), mandioca (10,3%), soja (8,3%), batata-inglesa 2ª safra (6,9%), arroz (6,3%), sorgo (6,3%), batata-inglesa 1ª safra (1,4%) e cana-de-açúcar (0,7%). Com variação negativa foram 14 produtos: cevada (-17,3%), amendoim 2ª safra (-15,7%), trigo (-15,5%), triticale (-13%), milho 2ª safra (-9,5%), aveia (-9,2%), amendoim 1ª safra (-8%), cacau (-4,2%), feijão 3ª safra (-3,6%), milho 1ª safra (-3,4%), café arábica (-3,2%), cebola (-2,4%), batata-inglesa 3ª safra (-2,3%) e laranja (-0,7%).


Notícias da Terra Exportações I

Recorde em soja

D

ados da Secex – Secretaria de Comércio Exterior, órgão do Ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior mostram que o Brasil exportou 2,8 milhões de toneladas de soja em fevereiro, volume recorde para o mês e quase três vezes maior do que o

Safra V

Baixa generalizada

embarcado no mesmo período de 2013. Segundo a Secex, o preço médio caiu para US$ 497 por tonelada, contra US$ 538 em fevereiro de 2013. Mesmo assim, o Brasil faturou US$ 1,4 bilhão, ante R$ 517 milhões em fevereiro do ano passado, graças ao maior volume exportado.

Exportações II

Saldo de US$ 9,42 bilhões

A

ssim como o fizeram a Conab e o IBGE, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA, na sigla em inglês) e várias consultorias reduziram as respectivas projeções sobre a safra brasileira de soja, em decorrência de problemas climáticos. O relatório de oferta e demanda do USDA de março prevê 88,5 milhões de toneladas (em fevereiro, eram 90). A Safras & Mercado rebaixou suas estimativas para 86,1 milhões/t (antes, previra 91,8); a Agroconsult, 89,2 (90,8): a Céleres, 84,9 (89,2); e a Ag Rural, 86 (87).

A

balança comercial do agronegócio brasileiro fechou fevereiro com superavit de US$ 5 bilhões, conforme dados do Ministério da Agricultura – o setor vendeu o equivalente a US$ 6,39 bilhões no exterior e gastou US$ 1,37 bilhão em compras. No primeiro bi-

mestre de 2014, a balança acumula saldo positivo de US$ 9,42 bilhões. Mesmo assim, houve queda de 4,8% nas exportações. As vendas externas subiram 1,4%, enquanto as compras no exterior cresceram 6,3% na comparação com igual período do ano passado.

Safra VI

Queda anunciada

E

m relação à safra brasileira de milho, o USDA manteve praticamente inalterada a estimativa anterior, de 70 milhões de toneladas, abaixo, portanto, dos números projetados pela Conab e pelo IBGE. De acordo com o 6º levantamento da companhia, a safra de verão chegará a 31,4 milhões/t (9,1% a menos, em relação a safra passada) e a de inverno, 43,7 milhões/t (6,8% menor), somando 75,1 milhões/t. O IBGE prevê número próximo ao da Conab: somadas as duas safras, a produção nacional de milho será de 74,9 milhões/t (o instituto anunciou 74.945.373 toneladas, 7% inferior ao total colhido em 2013, de 80.547.039 toneladas), com decréscimo estimado de 1,2% na área plantada.

VBP

Reavaliação para baixo

E

m 2014, o VBP - Valor Bruto da Produção da agropecuária brasileira deverá crescer 2,1% em relação a 2013 e alcançar R$ 438,4 bilhões, conforme reavaliação da Assessoria de Planejamento Estratégico do Ministério da Agricultura. Em fevereiro, a previsão indicava R$ 444,5 bilhões. A queda deve-se, sobretudo, às perdas por problemas climáticos nas lavouras e à redução nos preços do frango (-16,8%), leite (-6,6%) e ovos (-35,3%) - a carne bovina evitou queda maior, com aumento de 14,2% em relação ao ano passado. Mesmo assim, o VBP da pecuária cairá 1,6%. O agrícola crescerá 4,1% sobre 2013. abril 2014 – Agro DBO | 13


Notícias da Terra Cana I

Potencial desperdiçado

C

onforme a ANP – Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis, seria possível aumentar a oferta de etanol no país se houvesse mais cana para processar. A indústria sucroalcooleira, alega, em contrapartida, que produzir mais etanol na atual conjuntura exige investimentos em infraestrutura, ampliação e/ou renovação de canaviais e muitas empresas, pelo menos por enquanto, não tem condições de fazê-lo. Dados da agência mostram que a capacidade instalada para produção de etanol (tanto anidro quanto hidratado) é maior do que a produção recorde registrada na safra 2013/214, que deve atingir cerca de 12 bilhões de litros de anidro e 15 bilhões/l de hidratado. No caso do anidro, a capacidade apontada pela

ANP é de 101 milhões de litros diários, contra os 70 milhões/dia efetivamente produzidos. No caso do hidratado, a ANP registra uma capacidade instalada de 198 milhões/litros/ dia, bem superior aos 90 milhões de litros produzidos na safra 2013/14. Ainda de acordo com a ANP, a capacidade de estocagem de etanol nas usinas autorizadas a operar no país é de 17 bilhões/l em 2.200 tanques, o que representa mais de 60% de toda a produção de etanol da safra 2013/14. Essa estrutura, segundo informe da agência, é fundamental para garantir estabilidade do abastecimento, especialmente durante a entressafra, já que a capacidade de estocagem nas distribuidoras de combustíveis é de natureza operacional, para, no máximo, duas semanas de suprimento.

Cana III

Moagem 11,9% maior

A

moagem de cana-de-açúcar até o final de fevereiro chegou a 596,2 milhões de toneladas na região Centro-Sul do Brasil, 11,9% acima do total processado no mesmo período no ano passado, de acordo com dados da Unica – União da Indústria de Cana-de-açúcar. A entidade ainda não tinha computado os números relativos a março. Do total processado até fevereiro, 54,7% foram destinados à produção de etanol. A produção do combustível chegou a 25,5 bilhões de litros, 19,6% acima do obtido na safra anterior. As perspectivas, em relação ao ciclo 2014/15, são de ligeira queda na produção, devido ao impacto da estiagem do ínicio do ano sobre os canaviais.

Cana II

Bioenergia na África

U

m grupo composto por pesquisadores brasileiros, norte-americanos e holandeses vai se reunir no começo de abril em Moçambique e na África do Sul com representantes de instituições voltadas ao desenvolvimento socioeconômico da África para discutir o potencial de produção de etanol de cana-de-açúcar. “A produção de bioenergia nesses países ainda é muito pequena”, diz Luís Augusto Barbosa Cortez, professor da Feagri – Faculdade de Engenharia Agrícola e pesquisador do Nipe – Núcleo Interdisciplinar de Planejamento Energético da Unicamp, em entrevista à Agência Fapesp. “A África do Sul, no entanto, já é a maior produtora de cana do continente, voltada em sua maior parte para a produção de açúcar e com volume equivalente ao produzido no Nordeste do Brasil – cerca de 20 milhões de toneladas/ano. Moçambique produz 3,6 milhões t de cana-de-açúcar em 47,4 mil hectares e tem grande potencial para expandir o cultivo para a produção de etanol”. De acordo com estimativas, o mundo possui hoje 440 milhões de hectares de terra para uso agrícola ainda disponíveis, dos quais aproximadamente 60% estão localizados na América Latina (150 milhões/ha no Brasil). Os 40% restantes estão na África.

14 | Agro DBO – abril 2014


Notícias da Terra Seguro I

Recorde de sinistros

N

os dez primeiros dias de fevereiro, mais de dois mil avisos de sinistro (média de 200 por dia) foram feitos ao grupo segurador Banco do Brasil e Mapfre, que detém 70% do mercado de seguros rurais no país. A maioria refere-se a ocorrências nos estados do Paraná, São Paulo, Rio Grande do Sul, Mato Grosso, Minas Gerais e Goiás. “Desde a safra 2004/5 não tínhamos uma quantidade tão grande de sinistros comunicados. Este número é quase o dobro dos avisos recebidos no mesmo período de 2013, e 250% maior que o de 2012, quando houve a seca que originou 5 mil sinistros e R$ 180 milhões em prejuízo”, recorda Luis Carlos Guedes Pinto, diretor de seguros Rurais do BB e Mapfre e ex-ministro da Agricultura. “A seca este ano foi mais grave do que se pensava”, declarou. Além do comportamento climático atípico nesta safra e das condições de campo nas diversas regiões afetadas, o número de sinistros comunicados decorre também do aumento das contratações. Nas safras de 2011/12 e 2012/13, para o BB Seguro Agrícola, o número total de apólices contratadas variou de 25 mil a 27 mil, contra 40 mil na safra atual. O grupo estima pagar R$ 275 milhões em indenizações a 5 mil produtores rurais de 13 estados.

Seguro II

Orientação aos segurados

O

s produtores rurais devem considerar alguns procedimentos para viabilizar o atendimento das seguradoras em caso de perdas na lavoura por estiagem e outras causas: após a comunicação de perdas, é agendada a vistoria por um engenheiro agrônomo credenciado. Normalmente são realizadas duas vistorias: uma logo após a comunicação de perdas; outra no período da colheita O segurado ou seu representante legal deve assinar laudos de inspeção de danos (preliminar e final). Caso discorde do teor do documento, deverá declarar no próprio laudo as razões para a discordância. O produtor precisa apresentar notas fiscais de compra dos insumos utilizados na área segurada. Essas notas deverão estar em nome do segurado e da propriedade. O segurado se obriga a comunicar a data do início da colheita com antecedência de 15 (quinze) dias para permitir o agendamento das vistorias pelos peritos. O produtor não deve iniciar a colheita sem a autorização do perito (engenheiro agrônomo indicado pela seguradora).

Nutrição

Investigação de eficiência

O

Cesb – Comitê Estratégico Soja Brasil lançou novo protocolo de pesquisas para investigar a eficiência da utilização conjugada de nitrogênio (N), fósforo (P), potássio (K) e enxofre (S) no aumento da produtividade de soja em várias regiões do país. Embora o nitrogênio já tenha sido objeto de pesquisa do primeiro protocolo da Rede de Pesquisas, o nutriente será analisado novamente, desta vez juntamente com as outras substâncias. O objetivo do Cesb é avaliar se a cultura está tendo limitações de algum macronutriente, além de verificar a geração de benefícios técnicos e econômicos a partir de adubações adicionais realizadas na leguminosa em diferentes épocas e fontes. “Na última edição do Desafio Nacional de Máxima Produtividade de Soja, as três áreas que alcançaram maiores índices de produção ficaram aproximadamente 124% acima da média nacional(48,9 sacas/ha). Este resultado nos obrigou a repensar sobre as tecnologias tradicionais recomendadas por entidades de agronegócio”, explica Orlando Martins, presidente da entidade. “A partir daí, resolvemos prospectar com profundidade métodos inovadores no plantio da soja relacionado à utilização dos macronutrientes N, P, K e S”. abril 2014 – Agro DBO | 15


Notícias da Terra Café I

Vendas boas, receita ruim

A

s exportações brasileiras de café verde cresceram 27,5% em fevereiro deste ano, em relação a fevereiro do ano passado. Foram embarcadas 2,5 milhões de sacas, ante 1,9 milhão no mesmo período de 2013, segundo levantamento do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil. O arábica entra nesta conta com 2,37 milhões de sacas e o conilon, com 143,2 mil, número aparentemente inexpressivo, se comparado ao anterior. No entanto, as vendas de conilon representam alta de 273% frente a fevereiro do ano passado. Em receita, as exportações brasileiras apresentaram queda de 9,7%, fechando o mês em US$ 386,4 milhões. Em relação ao ano-safra, foram comercializadas 21,9 milhões de sacas entre julho de 2013 e fevereiro de 2014, quantidade 7,5% superior à registrada no mesmo período na safra passada. A receita foi de US$ 3,2 bilhões.

Café II

Terra arrasada

E

m fevereiro, 2014 ainda se apresentava como um ano fatídico aos olhos dos cafeicultores paranaenses. Para muitos, só faltava a pá de cal para sepultar a cultura no estado. Nos últimos anos, eles enfrentaram uma série de problemas, incluindo geadas negras, estiagem prolongada e altas temperaturas, com reflexos na produtividade nesta e nas próximas safras. Segundo estimativas da Secretaria de Agricultura, a produção deve cair 67% este ano, compa-

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rativamente a 2013. O Paraná deve colher 32,9 mil toneladas em 2014, o equivalente a 550 mil sacas de 60 quilos. No ano passado, a produção rendeu 99,7 mil toneladas, ou 1,6 milhão de sacas. A cafeicultura ocupava 97,6 mil hectares no estado na safra 2008/9. Atualmente, cobre apenas 34,7 mil ha. Em fevereiro último, os preços começaram, porém, a reagir. Em março, houve quem reconsiderasse a decisão de erradicar de vez suas lavouras.

Café III

Bem mais que cafeína

E

studo da Universidade Federal do Rio de Janeiro mostra que a cafeína, ao contrário do que muita gente pensa, não é prevalente no café. Na verdade, participa com concentrações de 1% a 2,5 % apenas. O grão é composto por inúmeras substâncias químicas, vitaminas, minerais, polissacarídeos, gorduras, aminoácidos e antioxidantes como os ácidos clorogênicos, por exemplo. Segundo a pesquisadora Adriana Farah, os ácidos clorogênicos pertencem à mesma classe dos antioxidantes do vinho e são comumente encontrados nos grãos verdes de café na proporção de 5% a 9%, bem maior, portanto, que a da cafeína. O teor de tais ácidos na bebida e, consequentemente, sua capacidade antioxidante, depende, porém, de uma série de fatores, tais como genética, processamento pós-colheita, método e grau de torrefação, tamanho das partículas do café moído e do método de preparo da bebida.


Notícias da Terra Fitossanidade I

Emergência contra a broca

C

onforme medida publicada no Diário Oficial da União de 13/3, o Ministério da Agricultura decretou estado de emergência fitossanitária em Minas Gerais, em função do risco de surto da praga Hypothenemus hampei (a broca-de-café) nos cafezais do estado. Segundo especialistas, a broca pode comprometer seriamente a produtividade nas lavouras, já afetadas pela estiagem de janeiro e fevereiro. Antes, os produtores rurais conseguiam controlá-la graças à aplicação de agroquímicos à base de endosulfan. O uso da substância, porém, foi proibido pela Anvisa, que, até o fechamento desta edição, não havia acatado nenhum dos pedidos de registro de substâncias substituta. O estado de emergência anula trâmites burocráticos usuais, facilitando a importação e uso de outros produtos (OBS: leia matéria sobre café na página 20).

Cotonicultura

Mais algodão

D Fitossanidade II

Helicoverpa armigera sob ataque

A

Embrapa Soja comprovou em estudos a campo que vários tipos de nematoides e parasitoides estão infectando lagartas da espécie Helicoverpa armigera, “ajudando”, portanto, a controlar a praga e a diminuir os prejuízos decorrentes. “A presença deles é muito importante para o equilíbrio das lavouras, à medida que a safra vai se desenvolvendo, pois com manejo adequado a tendência é a população de inimigos naturais da Helicoverpa crescer”, explica a pesquisadora Clara Beatriz Hoffmann-Campo. Na região de Mauá da Serra, no norte do estado do Paraná, 30% das amostras de lagartas coletadas estavam infectadas. “Em algum momento – e ainda não sabemos quando e como – a Helicoverpa é infectada por nematoides e para-

sitoides, principalmente moscas da família Tachinidae, que se desenvolvem no interior da lagarta e, ao completar seu desenvolvimento, matam o inseto. Na opinião da pesquisadora, é fundamental rever as estratégias de controle e ter uma visão mais ampliada do sistema de produção. “Temos assistido pragas migrarem de uma cultura para outra, índices crescentes de insetos com resistência a produtos químicos, pragas secundárias se tornando um problema crítico. Não há outro caminho a não ser uma mudança profunda de postura. O controle de pragas tem que ser feito a partir de recomendações do manejo integrado de pragas, ou seja, a partir do monitoramento e da evolução de sua ocorrência e, nunca, de forma calendarizada”.

e acordo com a Conab, a produção nacional de algodão em pluma deve chegar a 1,64 milhão de toneladas na safra 2013/14. Ou seja, 333 mil toneladas a mais. O levantamento registra crescimento de 22% da área destinada ao cultivo no Brasil. Ao todo, 1,09 milhão de hectares foram reservados para os algodoais, com incremento de 197,8 mil hectares em relação à safra anterior. Em 2012/13, área total destinada à cultura foi de 894,3 mil ha. Em Mato Grosso, maior produtor do país, muitos agricultores optaram por plantar soja sobre soja, contra todas as recomendações agronômicas, ou algodão no lugar do milho segunda safra, ampliando assim a área plantada. A Bahia também plantou mais e, diferentemente do que aconteceu em outros estados, as perdas decorrentes da estiagem do início do ano serão pequenas, segundo estimativas da Aiba – Associação de Agricultores e Irrigantes da Bahia. Na época, as plantas estavam no início do ciclo vegetativo. Além disso, o algodão é mais tolerante a deficits hídricos, comparativamente à soja. abril 2014 – Agro DBO | 17


Notícias da Terra Milho

Produção espantosa

A

colheita do híbrido P1630H na propriedade da família Dallazen, de Palmeira das Missões (RS), surpreendeu os produtores durante a Expodireto Cotrijal, realizada no mês passado em Não-Me-Toque (RS). Atingiu produtividade média de 411,6 sacos por hectare. Álvaro Beck, da DuPont Pioneer salientou que, dos 4.500 ha cultivados por Dallazen, 1.200 são irrigados por pivô central e, destes, 750 foram de milho nesta safra. Para a adubação e manejo do milho, Álvaro diz que o produtor utilizou 7 ton/ha de esterco aviário, 400 kg/ha de 12-3020, 100 kg/ha de cloreto, 500 kg/ha de ureia super N (duas aplicações a lanço), duas aplicações de fungicida e duas de inseticida. Em condições normais, e com a irrigação disponível na área, os resultados foram excelentes: atingiram médias entre 255 e 270 sc/ha. Porém, o destaque está em aproximadamente 7 ha de terra onde há o transpasse de pivôs, ou seja, a área é duplamente irrigada. Diante deste fato e, acreditando no potencial genético do híbrido, Dallazen resolveu fazer um experimento: au-

mentou os níveis de adubação. Utilizou cerca de 650 kg/ha de adubo no plantio, 200 kg/ha de cloreto e 750 kg/ha de ureia super N (50% a mais do que no restante da área). Surpreendendo até mesmo quem estava acompanhando a lavoura de perto, a área atingiu incríveis 411,6 sacos por ha de produtividade. Álvaro relata: “Foi uma colheita impressionante! Plantada com espaçamento de 45 cm entre linhas e com população inicial de 88 mil plantas, as espigas

se cruzavam, impedindo a passagem pela lavoura!”. Hoje, o produtor está decidido a buscar uma média de 330 sacas/ha para a próxima safra, e acredita que alcançar esta produtividade é possível, já que em áreas de pivôs na propriedade já são colhidas médias de 270 sc/ha. Para isto, foi necessário associar genética, insumos de qualidade, irrigação e, principalmente, tecnologia de manejo, itens considerados essenciais pelo produtor, além de planejamento.

dos 497 municípios gaúchos, contribui de forma significativa para o desenvolvimento do estado. Segundo ela, a certificação só foi possível porque o pedido de isenção do pagamento das contribuições foi feito em 2003 e analisado à luz da lei vigente à época. “Pela legislação atual, a Ascar não se enquadraria mais como entidade de assistência social”, declarou a ministra. Um grupo de trabalho formado por representantes dos governos federal e estadual deverá pro-

por uma reforma estatutária à instituição, adequada a atual política nacional de assistência social. Desde 1977, a Ascar atua em conjunto com a Emater gaúcha, formando a Emater/RS-Ascar. Na edição de fevereiro deste ano, a Agro DBO publicou reportagem do jornalista Glauco Menegheti mostrando, justamente, a agonia da instituição, que atende cerca de 250 mil famílias no estado. Ameaçada de liquidação por dívidas trabalhistas, ela corria o risco de fechar as portas.

Assistência técnica

Salva pelo gongo

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Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome concedeu em 11/3 o Certificado de Entidade Beneficente de Assistência Social (Cebas-Filantropia) para a Ascar – Associação Sulina de Crédito e Assistência Rural, isentando-a do pagamento de contribuições sociais até 2017. “A Ascar tem uma atuação muito relevante no Rio Grande do Sul”, reconheceu a ministra Tereza Campello, destacando que a entidade, com mais de 50 anos de atuação e presente em 493

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Notícias da Terra Pirataria

Falsificação de agroquímicos

Pedágio na 163

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O

e acordo com o Sindiveg – Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal, 2013 foi um divisor de águas na questão da falsificação e contrabando de agroquímicos no Brasil. Até 2010, os produtos falsificados representavam 5% das apreensões. No ano passado, esse número saltou para 50%, equiparando-se ao de produtos contrabandeados. Em 2013, as apreensões somaram 34,6 toneladas, 166% a mais em relação a 2012. A maioria dos casos ocorreu nos estados do Rio Grande do Sul, São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Paraná. O Sindiveg lembra que os delitos de produção, transporte, compra, venda e utilização de agro-

químicos contrabandeados ou pirateados são considerados crimes de sonegação, contrabando e descaminho, também enquadrados na Lei dos Crimes Ambientais. A campanha nacional contra os defensivos ilegais mantém um serviço “disque-denúncia” através do número 0800-940-7030. A ligação é gratuita, o denunciante não é identificado e as informações são repassadas à polícia.

termo de concessão do trecho de 850,9 km da BR-163 (da divisa de Mato Grosso do Sul com Mato Grosso até Sinop, no chamado nortão mato-grossense, foi assinado no mês passado pela presidente Dilma Roussef. Válido por 30 anos, o contrato é da Odebrecht S/A, vencedora do leilão realizado em novembro do ano passado com proposta de pedágio R$ 2,638 para cada 100 km rodados. A concessionária tem como obrigação duplicar 453,6 kmquilômetros. O restante já foi duplicado ou está em fase de duplicação, sob responsabilidade do Dnit – Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes.

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Lavoura chocha Estiagem quebra a produção de café no sul de Minas Gerais e outras regiões do país e lança dúvidas sobre a colheita em 2015

Rogério Furtado

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Thomaz Vita Neto/Pulsar Imagens

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egar amostras de café recém-colhidas e jogá-las em recipientes com água virou coqueluche nas regiões produtoras de Minas Gerais desde março último. Nesse “ordálio” do café, o resultado é sempre o mesmo. Verde ou maduro, o café bom vai para o fundo. Frutos de qualidade no mínimo duvidosa boiam. Podem estar podres por dentro, vazios ou serem malformados. Esses últimos contêm apenas uma semente ou apresentam espaços entre a casca e os grãos em formação. Dos “condenados” nos “julgamentos pela água” se destacam os cafés de lavouras novas. Nos testes, a fração de seus frutos que boia supera por larga margem a dos que vão ao fundo. Os plantios recentes são minoritários no conjunto do parque cafeeiro, e mais suscetíveis às influências do clima. Mesmo assim, dos testes emerge um sinal inequívoco de quebra de safra, produzida por seca sem precedentes. Jamais faltaram chuvas na região no período de janeiro a março, segundo o agrônomo André Luiz Alvarenga Garcia, pesquisador da Fundação Procafé, de Varginha (MG). Os dados pluviométricos coletados pela entidade são eloquentes. No sul de Minas, para o desenvolvimento normal das lavouras não irrigadas, as precipitações devem ficar ao redor de 630mm no 1º trimestre do ano, conforme as médias históricas. Mas, até a primeira quinzena de março, em alguns locais as chuvas acumuladas ficaram ao redor de 100mm. Especulações em torno da colheita a ser iniciada em abril já sacudiam o mercado em meados de janeiro. As cotações do café dispararam desde a faixa de R$ 260,00/280,00 a saca e alcançaram o patamar de R$ 500,00 por saca em março, quando foram contidas por notícia do IBGE: a quebra da safra brasileira de café arábica seria de 1,4% em relação ao ciclo 2012/13. No levantamento anterior, divulgado em janeiro, o órgão previa 1,9% de queda para a produção. Naquele mês, a Conab anunciou que previa redução de maior amplitude, na faixa de 1,98% a 8,38%. Contudo, as perdas serão conhecidas em toda a sua extensão só ao final da colheita, no segundo semestre deste ano. Até lá, qualquer projeção não passa de chute, segundo Garcia, da Procafé. De fato, alguns aspectos da cultura devem ser levados em conta se o objetivo é fazer previsões mais acuradas. O ciclo do café, da floração ao amadurecimento do fruto, dura em média 220 dias. Se as floradas principais ocorrerem em fins de setembro (foi o que se viu em 2013), os frutos sadios se desenvolverão a partir de dezembro. Em março, ainda conterão mais de 90% de água. O crescimento dos grãos se dará em abril, na fase final de maturação do fruto, em consequência de importantes transformações de certos compostos em seu interior – açúcares, principalmente. Portanto, as perdas nas lavouras poderiam ser melhor dimensionadas só por meio de amostragens feitas depois de abril. Para dificultar um pouco mais abril 2014 – Agro DBO | 21


Capa

as projeções, os plantios apresentavam irregularidades acima da média. O cenário mudava de um lugar para outro conforme os índices pluviométricos registrados, associados à capacidade do solo de reter água. As lavouras de 1ª a 3ª safras, de raízes menos profundas, eram as mais afetadas. Vistas de longe, em geral aparentavam bom aspecto, com folhagem verde e carregadas de frutos. De perto, já acusavam os efeitos da seca e das temperaturas elevadas do verão. Inclusive alto índice de frutos maduros. Vistosos por fora, mas vazios por dentro. As folhas começavam a amarelar no lado das plantas voltado para o sol da tarde, que fustiga o solo com maior intensidade. Mas o excesso de calor afeta os cafeeiros indistintamente. De acordo com o agrônomo Antônio Carlos Ferreira Freire, que assessora cafeicultores há mais de 30 anos na região, no primeiro trimestre do ano houve vários dias em que as temperaturas médias ficaram entre 25ºC e 27ºC, boas para o conilon, mas limitantes para o desenvolvimento normal do café arábica. Em qualquer cafeeiro dessa espécie, a partir de 23ºC/24ºC, a eficiência da fotossíntese diminui 10% a cada elevação de um grau na temperatura.

Antônio Carlos testa a integridade dos graãos de café: os bons afundam.

O ABC do controle da broca começa com a retirada da maior quantidade possível de frutos da lavoura e prossegue com manejo integrado

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Há outros fatores negativos. Freire lembra que durante meses as previsões meteorológicas teimaram em surgir como miragens nas telas dos computadores. De início eram promissoras, mas nas datas indicadas como as de maior probabilidade de chuvas, as nuvens se dispersavam. As precipitações, muito irregulares, foram localizadas. E os programas de adubação, se cumpridos, podem não ter tido a eficácia desejável. Com chuvas fortes, parte do adubo escorre para as entrelinhas. Ali irá alimentar o mato, que os cafeicultores costumam deixar crescer para proteger o solo da erosão nas áreas em declive. Sem chuvas, sob sol forte, o nitrogênio, que tem a ureia como principal fonte, tende a se volatilizar. Em ambos os casos há aumento de custos sem a contrapartida do aumento da produção. Freire aguarda prejuízos. Para ele não valerá a pena colher em certas áreas, onde até 80% dos grãos boiaram na água. E mais: as plantas, por natureza, em circunstâncias adversas, antecipam a maturação dos frutos. “É o que se vê hoje. Com o amadurecimento acelerado, os frutos tenderão a cair logo. Café de chão, se houver alguma coisa dentro, será pior em termos de qualidade”. Impacto na próxima safra E o café da próxima safra deverá ser menor, segundo outro veterano observador da cena cafeeira, funcionário de empresa exportadora com representação em Varginha. Ou seja, será preciso mais do produto para encher uma saca. O tamanho do grão não afetará a qualidade da bebida. Se houver chuvas na época da colheita, sim. Isso aconteceu em 2012 e 2013, nos meses de maio e junho. Foram chuvas volumosas e prolongadas. Em tais circunstâncias, o processo de secagem se acelera e os frutos caem e mofam. Os fungos também contaminam a produção ainda pendente nos cafeeiros. Quanto à quebra da safra, esse profissional ressalva: a situação não é catastrófica, há muitas lavouras em condições normais de produção no sul e no centro-oeste mineiros,


Vistas de longe, as lavouras apresentam bom aspecto. De perto, porém, acusam logo os efeitos da seca e das altas temperaturas. o que torna qualquer previsão temerária. A conjuntura também suscita preocupações com a produção de 2015. Nos meses cruciais de janeiro a março se dá o enchimento dos frutos e o crescimento do cafeeiro. Do prolongamento dos ramos surgirá a safra seguinte. Neste ano, os ramos estão mais curtos e mais finos, com folhas menores – prenúncio de problemas à frente, diz Garcia, pesquisador da Procafé. Isso não é tudo. Garcia explica que a sobrevivência dos cafeeiros requer armazenamento de água no solo próximo de 100mm até maio/junho. Dessa forma, as plantas poderão suportar deficit de 100 a 150mm até agosto, sem sofrer grande estresse. “Choveu 40mm na primeira quinzena de março. Se tivermos outro tanto até o final do mês, e se nos meses seguintes chover conforme a média histórica da região, ainda teremos problemas sérios. Passaremos de 250mm de deficit hídrico em algumas áreas. Será melhor termos mais um inverno atípico, chuvoso. Se a seca perdurar, o déficit comprometerá a produção de 2015. A quebra será grande mesmo em solos bons”. Outra incógnita chama a atenção: a seca inédita do início do ano, que afetou a cafeicultora em várias regiões produtoras, principalmente no Paraná e Minas Gerais, terá provocado algum desequilíbrio nas plantas? “Ainda não sabemos que efeitos as altas temperaturas e a escassez de água podem ter tido sobre as gemas do cafeeiro. Em que medida a diferenciação celular dará origem a gemas florais ou vegetativas na próxima primavera. Nunca vivenciamos uma situação assim. Tomara que não haja mais contrarie-

dades. Os produtores, é óbvio, não gostam de clima úmido na colheita. Mas, em vista das circunstâncias, penso que todos agora rezam pedindo chuvas no período”, diz Garcia. A decretação de estado de emergência em Minas Gerais (leia box abaixo) devido ao risco de surto da broca-do-café alcançou a praça de Varginha, atenta aos movimentos dos preços no mercado e ao estado dos cafezais, prejudicados pela seca. Agrônomos, corretores e outros profissionais do setor se declararam surpreendi-

As perdas reais na lavoura cafeeira só serão mensuradas nos próximos meses

Alerta nos cafezais A ordem é frustrar o banquete do besouro Hypothenemus hampeii. Em 13 de março último, o Ministério da Agricultura decretou estado de emergência fitossanitária em Minas Gerais, por conta da iminência de um surto da broca-do-café, uma das pragas mais destrutivas da lavoura. A medida tem relação com a novela do endosulfan, inseticida considerado até agora o mais poderoso adversário do minúsculo Hypothenemus hampeii, besouro cujas larvas têm apetite essencial pelos grãos de café em formação. Como se recorda, o endosulfan terminou banido finalmente do país em 31 de julho de 2013, no encerramento de um processo iniciado anos antes. Segundo muitos, já foi tarde, pois além de matar insetos, mata outros bichos

com a mesma eficiência. Humanos inclusive, ainda que a longo prazo. Não é à toa que sua produção, importação e vendas são proibidas também em muitos países. Porém, até agora novos atores não foram autorizados a substituir esse pesticida. Naturalmente, o combate às pragas não pode parar. Várias substâncias estão à espera de aprovação das autoridades federais para entrar no palco. A decretação do estado de emergência fitossanitária deverá acelerar a liberação de tais produtos.

Besouros em plena ação: cafeicultores esperam a liberação de substitutos do endosulfan no combaté à broca.

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Capa dos pelo anúncio e não levaram a ameaça da broca a sério. Mas ela é real e a providência do Ministério veio em boa hora, diz André Garcia, pesquisador da Fundação Procafé, que tem avaliado o grau de infestação da praga em diversas lavouras, como parte da análise da eficiência de produtos candidatos à sucessão do endolsulfan. Garcia explica que a mecanização da colheita pode se tornar aliada involuntária da broca. Isso porque as máquinas colhedoras não apanham 100% dos frutos, e o repasse pode não compensar em termos de custo. Catar as sobras, inclusive o café que fica no chão, não sai barato. Como esse trabalho de baixo rendimento nem sempre é feito, a mesa fica posta para o besouro e suas larvas. Bem nutridos e protegidos no interior dos frutos abandonados, os coleópteros adultos se entregam com entusiasmo à multiplicação da espécie. Nessa atividade, o clima às vezes também ajuda os besouros. Em 2013, o inverno chuvoso atrapalhou as operações dos levantadores de café, equipamentos que sopram, juntam e erguem o produto do chão. Os frutos remanescentes, como era de esperar, viraram morada dos besouros. Depois, como é próprio dos insetos, a broca tem o ciclo de reprodução estimulado por temperaturas elevadas, a exemplo das que foram registradas início de 2014. Ou seja, as condições estavam dadas para uma possível irrupção da praga. Um perigo para os lucros: ao abrir galerias nos grãos, a broca desclassifica e torna mais leve o café. O ABC do controle vem sendo repisado pelos técnicos há tempos. Começa com a retirada da maior quantidade possível dos frutos da lavoura e prossegue com o manejo integrado: o monitoramento periódico dos plantios revela o grau de infestação nos talhões e indica o momento certo para a aplicação de inseticidas. O melhor é abater a fêmea do besouro na chamada época de trânsito – período em que ela se desloca dos frutos maduros para o frutos em formação.  Uma sólida barreira defensiva requer o emprego de outras táticas. Por exemplo: na colheita, a

André Garcia (abaixo, à esq) diz que, depois da seca, os cafeicultores estão pedindo chuvas. Archimedes Coli Neto completa: “E dinheiro”

depender da arquitetura da planta e da maturação dos frutos, existe uma combinação ótima entre a velocidade de deslocamento da máquina, a intensidade da vibração das palhetas que derrubam o café e o número de passadas. O ajuste fino dessas três variáveis assegura o melhor rendimento em cada situação. O uso de hormônios para a maturação também é recomendado. Permite escalonar a colheita e encurta o período das operações de campo. Evitam-se, assim, as chuvas da primavera. Elas dificultam a ação das máquinas que resgatam o café do chão. Centro nervoso Minas tem capitais para vários gostos. A do fumo de rolo, a do pé-de-moleque e assim por diante. Varginha cultiva seu “ET”, enquanto defende o título de capital nacional do café. Não exagera. A produção do município é pequena, mas na cidade funcionam mais de cem empresas dedicadas a comerciar o produto, diz Archimedes Coli Neto, presidente do Centro do Comércio de Café do Estado de Minas Gerais. Os negócios realizados ali envolvem mais da metade da produção mineira, a maior do país, e para lá convergem os interesses de mais de 300 municípios do estado, que têm a economia sustentada pela cafeicultura. Varginha

Mudanças em curso O clima vem mudando de forma gradual no Sul de Minas há mais de uma década. De maneira geral, os períodos chuvosos ficaram um pouco mais curtos e as chuvas, intensas, são acompanhadas de ventos fortes e granizo. Mas o volume total das precipitações está em declínio. Além disso, estiagens de 10 a 15 dias, prejudiciais para as plantas jovens, costumam ocorrer em janeiro e fevereiro. Em vista desses fatores nega-

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tivos, o uso da irrigação ganhará impulso no cinturão cafeeiro do sul e do centro-oeste mineiros, diz o agrônomo Antônio Carlos Freire. “Até agora costumávamos irrigar as lavouras para suprir o deficit de água provocado por veranicos, cuja duração parece estar aumentando. Para fazermos a adubação, por exemplo. Mas a fertirrigação se torna cada vez mais necessária. Tem seu custo, mas é muito eficiente. Nas áreas que acompanho, as

experiência se iniciaram há quatro anos. Em uma delas, um talhão irrigado produziu 7 litros por pé na primeira safra. Em outro, de sequeiro, conseguimos 1,5 litro. Ambos foram plantados na mesma época, com sementes do mesmo lote. Só vejo um obstáculo à difusão do método: a oferta de água terá de aumentar via reservatórios a serem construídos nas próprias fazendas. Nem todos estão perto de represas como a de Furnas”.


Especialistas afirmam que, na próxima safra, o fruto será menor. Os cafeicultores precisarão de mais grãos para encher uma saca.

Ramos de cafeeiro novo, com grãos malformados e maturação desuniforme.

exporta por meio de um porto seco, e conta com representações de diversos organismos públicos e privados relacionados com a cafeicultura. Portanto se encontra em posição privilegiada para acompanhar o mundo do café, que está sempre em movimento, e onde há pouca coisa sedimentada, como estão alguns mecanismos de financiamento às lavouras e à comercialização. “A maioria dos produtores tem crédito e se financia normalmente através do Funcafé, em operações de custeio e estocagem”, diz Coli Neto. Na Corretora Thesi, André Nicolas Lounine acrescenta: “Os produtores também recorrem às CPRs. E muitos fecham contratos a termo com exportadores e indústrias. Nessa modalidade tradicional de negócios, restrita aos que têm bom cadastro, não há pagamento antecipado. As operações envolvem até 30% da produção estimada por técnicos das empresas compradoras, que visitam as fazendas. Esse é o limite convencional das transações”.    Mas não há limites para a cafeicultura quando se trata de inovar. É uma questão de sobrevivência, pois a concorrência dá indícios inquietantes de aumentar no mercado mundial. “Vários países têm condições climáticas ideais para a produção do café e grande oferta de mão de obra barata. Alguns já começaram a trabalhar nessa linha. Inclusive a China”, comenta André Garcia, da Fundação Procafé. Coli Neto acrescenta: “Bons preços estimulam o produtor a investir. Isso não é novidade. No entanto, o produtor faz o que pode. Mesmo com as dificuldades dos anos recentes, em Minas a produtividade do parque cafeeiro aumentou, graças a variedades melhores, mais resistentes. Os cafeicultores têm corrigido as lavouras.

Substituem plantios de menor rendimento e adotam novas técnicas de manejo. Essa é uma tendência que se observa em todo o país”. Mas não existe um retrato fiel do que se passa no campo. Em matéria de estatísticas, a cafeicultura transita numa zona de penumbra. “Os dados de que dispomos do parque cafeeiro de cada município, por exemplo, estão desatualizados. Mas já apresentamos alguns projetos destinados a clarear esse quadro ao Consórcio Brasileiro de Pesquisa do Café e a outras fontes de financiamentos. Está previsto inclusive o uso de imagens de satélite para se fazer um levantamento dos tipos de lavoura e a área que ocupam”, diz Garcia. A Procafé de fato se agita. Promove anualmente o Congresso Brasileiro de Pesquisas Cafeeiras, cursos de atualização para agrônomos e presta serviços a agricultores e empresas. Por ser uma entidade privada, não está submetida ao peso da burocracia suportado por instituições públicas de pesquisa. Diz Garcia: “Com nossas parceiras, a Embrapa é uma delas, conseguimos estabelecer e dar continuidade aos projetos. Contamos também com um quadro de voluntários. São pesquisadores aposentados, que começaram a trabalhar no antigo Instituto Brasileiro do Café. A Fundação tem lançado cultivares mais resistentes e produtivas, que exigem aplicações menores de agroquímicos. As pesquisas se estendem ao manejo e nutrição dos cafezais. Disputamos recursos dos órgãos de fomento, mas dependemos sobretudo de empresas do agronegócio. Testamos e avaliamos a eficiência de seus produtos. Hoje temos mais de 150 pesquisas em andamento em vários campos experimentais”. abril 2014 – Agro DBO | 25


Política Agrícola

A hora da agricultura familiar Falta a conquista de lucro para os pequenos produtores, para fixá-los à terra. Mas precisa também de assistência técnica. Décio Luiz Gazzoni *

O ano de 2014, conforme a FAO, é da Agricultura Familiar.

É

* O autor é engenheiro agrônomo, pesquisador da Embrapa Soja, e membro do Conselho Editorial da Agro DBO.

enorme a importância social e econômica da agricultura familiar, particularmente no sudeste asiático e na África, onde impera a pobreza rural. Mas, é igualmente muito importante na China (o país mais populoso do mundo) e na União Europeia (o bloco mais rico do mundo). Nos países andinos, onde as restrições topográficas e climáticas, notadamente o deficit hídrico, impedem a agricultura extensiva, cresce a importância da agricultura familiar. Portanto, nenhuma surpresa no fato de a FAO declarar 2014 a agricultura familiar como o tema central deste ano. A agricultura familiar enfrenta inúmeros desafios. As pequenas propriedades dispõem de menos opções de cultivo ou criação. Por exemplo, com margens reduzidas, o cultivo de grãos é arriscado, exceção feita àqueles de alto valor, como os feijões. Ou, então, se a produtividade for muito alta e o custo muito baixo, o que implica utilizar a melhor tecnologia disponível, com assistência técnica adequada. Difi-

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cilmente os pequenos agricultores familiares dispõem de assistência técnica adequada e de condições de absorção e implementação da tecnologia. Muitas vezes a formação deficiente ou dificuldades de crédito impedem o agricultor de utilizar a melhor tecnologia. Os assentamentos de reforma agrária deveriam apoiar e proteger o agricultor familiar, porém, muitas das suas necessidades básicas não são atendidas. Desapropriar e distribuir terra é tarefa fácil se cotejado com os desafios que se antepõem a partir do momento em que o agricultor se instala na área e precisa produzir. Nos últimos 30 anos, a mecanização nas grandes lavouras obteve avanços memoráveis, porém, pela baixa dimensão da área explorada, normalmente as máquinas e implementos disponíveis no mercado são superdimensionados para a pequena propriedade. A solução passa por políticas públicas que favoreçam o associativismo e o cooperativismo, ou patrulhas meca-

nizadas, que possibilitem resolver os problemas de cada comunidade. É visível a crescente dificuldade de contratação de mão de obra na área rural – seja por agricultores familiares ou outras categorias. Mas, quem tem restrições para mecanizar sua lavoura, enfrenta dificuldades maiores para levar avante o seu negócio. O conjunto de ameaças, o desincentivo, a falta de perspectivas, e a percepção de que as melhores oportunidades estão no meio urbano e não na propriedade familiar, tem esvaziado cada vez mais o campo, criando um hiato geracional, conduzindo à concentração de área, conforme os velhos agricultores familiares se aposentam e os descendentes não pretendem continuar na atividade. Essa talvez seja a síntese dos desafios a serem enfrentados. É preciso que a sociedade urbana se conscientize que o encolhimento da agricultura familiar significará contrair fortemente a produção de hortaliças, leite, frutas, flores, café, vinho, entre outros alimentos. Menor oferta significa desabastecimento e preços cada vez mais altos. Antes que o problema atinja graves proporções, e a sociedade tenha que pagar um alto preço se a agricultura familiar encolher, cada um de nós tem um papel a desempenhar neste ano de 2014, o ano da agricultura familiar. Seja contribuindo com a discussão, com ideias, sugestões, propostas, encaminhamentos, ou participando ativamente de ações que busquem apoiar e reforçar o agricultor familiar, um importante agente do desenvolvimento social e econômico.


INFORME TÉCNICO

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Especial A nova fronteira agrícola Parte III

À sombra de um colapso Ainda preso ao passado, o município de Santana do Araguaia tenta resolver desafios para se firmar como polo de produção agrícola do sudeste do Pará. Ariosto Mesquita

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Fotos: Ariosto Mesquita

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ense num volume de cargas equivalente a 35 mil caminhões carregados com 23 toneladas de grãos cada um, circulando por uma rodovia sucateada e cruzando uma cidade que não cumpre a legislação de trânsito. Este é o fluxo previsto para o escoamento de 600 mil toneledas do nordeste de Mato Grosso e 210 mil do município de Santana do Araguaia, no sudeste do Pará, pela BR-158 rumo aos portos da região norte do Brasil num período de 100 dias – de fevereiro a maio de 2014. Os cálculos são do sindicato rural de Santana do Araguaia, com base em uma estimativa de que pelo menos 810 mil toneladas de grãos passarão pelo município nesta safra. Para a temporada 2014/15, a previsão mais conservadora é de que este fluxo se eleve em pelo menos 30%. Já o Movimento Pró Logística, ligado à Aprosoja – Associação dos Produtores de Soja e Milho do Mato Grosso calcula uma demanda ainda maior para a BR-158 na região de Santana do Araguaia: escoamento de mais de dois milhões de toneladas de grãos no próximo ciclo. “Além do aumento considerável de nossa produção agrícola, os grãos produzidos a partir da Região dos Baianos, no Mato Grosso, entre os vales do Xingu e Araguaia, começaram a seguir para o Norte do Brasil com maior intensidade graças às novas opções de terminais que iniciam suas operações este ano”, avalia o presidente do sindicato, Edenilson Sebastião Bocchi. Em Santana, a colheita e o escoamento estão concentrados no período que vai de fevereiro a maio em função da utilização de cultivares de ciclo mais longo. A possibilidade de fracionamento deste transporte ao longo do ano é descartada por ele, diante da baixa capacidade de estocagem na região: “Alguns grupos empresariais e agricultores investiram

em armazenagem para esta safra e, mesmo assim, a capacidade em Santana está atualmente limitada a 70 mil toneladas de grãos”. Bocchi teme por um eventual apagão logístico diante das limitadas condições de trafegabilidade das rodovias, sobretudo a BR-158, principal via de ligação de Mato Grosso com o Norte e o Nordeste brasileiros: “Nossa estrutura rodoviária é vergonhosa; houve um sucateamento viário do município por gestões passadas e o estado da BR-158 é lamentável. Além disso, estes números se referem somente ao fluxo de grãos. Além dele, temos ainda o transporte de gado, carne industrializada, matéria prima, insumos, madeira, etc.” Segundo seus cálculos, perto de 180 caminhões bitrem circularam diariamente em 2013 pela BR-158 dentro do município, transportando cargas diversas. São veículos com capacidade para até 37 toneladas de carga útil, tradicionalmente compostos por sete eixos. “O tráfego de veículos pequenos também é grande; algo em torno de 350 carros de passeio/dia”. Sucateamento O investimento em infraestrutura logística se faz necessário e é justificado pelo retorno que a agricultura já traz para a economia do Pará – sobretudo na região de Santana do Araguaia. De acordo com dados do IBGE, o valor bruto de produção apenas com a soja no estado mais do que dobrou em dois anos, pulando de R$ 149,8 milhões em 2010 para R$ 353.5 milhões em 2012. A partir da divisa com o Mato Grosso até a área urbana de San-

Localização espacial do município de Santana do Araguaia

tana do Araguaia (extensão de 112 km), a BR-158 reúne mais baixos do que altos. Apesar de asfaltada, tem sua pavimentação totalmente comprometida em diversos trechos com buracos, ondulações, desníveis e erosões. Caminhões comuns, bitrens e rodotrens dançam pelas pistas para escapar de verdadeiras armadilhas que podem terminar por danificar pneus e suspensão. Em contrapartida, aumentam os riscos de acidentes. A rodovia conta com raros trechos de acostamento e, quando existem, invariavelmente estão com parte ou totalmente tomados por matagais. A sinalização vertical, por vezes, está escondida em meio à vegetação. Passada a área urbana, a banda norte da rodovia, entre Santana do Araguaia e Redenção (190 km) consegue ser ainda pior. Em vários trechos a impressão que se tem é que o asfalto danificado foi retirado, priorizando o tráfego sobre pista de terra. Os efeitos do excesso de cargas sobre a pista ficam claros nas deformações que surgem sistematicamente ao longo do trajeto. Também fica patente o fato de que a BR-158 não foi planejada, em toda a sua extensão no Pará, para o volume de cargas que atualmen-

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Especial

Trecho da BR-158, na divisa de Mato Grosso com o Pará, a 113 km do núcleo urbano de Santana do Araguaia, mas já dentro do município.

te suporta e que tende a aumentar significativamente nas próximas safras. Nos buracos, deformações e erosões, é possível ver a fina camada de asfalto aplicada na estrada. Este quadro ficou ainda mais desnudo recentemente, quando, em 27 de fevereiro último, a cabeceira da ponte sobre o rio Campo Alegre ruiu, interrompendo o tráfego de veículos por muito tempo. “Os próprios usuários providenciaram pedras para

preencher o buraco que se formou, liberando o tráfego, mesmo que provisoriamente”, conta o agricultor Jocelito Krug, um dos diversos produtores impedidos de chegar à cidade durante mais de 15 horas. Com a interdição, a unidade industrial do JBS simplesmente suspendeu os abates por todo o dia, uma vez que seus funcionários, residentes na área urbana do município, não conseguiram

chegar ao trabalho. O mesmo problema passaram outras empresas com negócios do outro lado do rio, como armazéns graneleiros e diversas fazendas. Muitas tiveram de interromper a colheita da safra durante todo o dia 27. O rompimento da cabeceira de ponte também cancelou o dia de campo para demonstração de novas cultivares, organizado pela Fundação Chapadão, marcado para as 9 horas do dia 27 na fazenda Santa Fé. “Nosso pesquisador e fitotecnista, Jefferson Luis Anselmo que veio de Mato Grosso do Sul e já estava na cidade, não conseguiu chegar à propriedade”, conta o diretor executivo da Fundação, Edson Borges. Ação radical “Nas últimas décadas, Santana do Araguaia dedicava-se apenas à criação de gado, atividade com trânsito de carga é infinitamente menor do que a agricultura”, ressalta Bocchi, que também agricultor e pecuarista (leia box abaixo). Nos

Investimentos em produção e logística

Edenilson Bocchi: Família amplia sua capacidade de estocagem e investe em serviços para terceiros.

Quando não está cuidando dos interesses dos 54 produtores associados ao sindicato, Edenilson Bocchi ajuda a administrar, com sua família, o Grupo Bocchi, hoje um dos mais importantes da agropecuária araguaiense, com cinco fazendas totalizando 22 mil hectares. Diante dos problemas

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de logística, ele decidiu investir em armazenagem de grãos. Até a temporada 2012/13, o grupo conseguia guardar até seis mil toneladas por safra. No ciclo 2013/2014, ampliou esta capacidade para 21 mil toneladas (30% da capacidade de estocagem do município). Com esta estrutura, além de prestar serviço para terceiros, pretende reter parte da produção para comercialização posterior. Dessa forma, pode escoar bom volume após o período de movimentação de safra e ainda vislumbrar preços mais vantajosos quando a oferta geral de soja estiver mais baixa. A família Bocchi é natural do Paraná, mas desde 1995 possui forte atividade agrícola no Mato Grosso, especialmente na região de Sorriso, onde administra 7 mil hectares de

lavoura. Em 2004, adquiriu 14 mil hectares de terra do antigo grupo Manah, batizando a fazenda com este mesmo nome. Atualmente, das cinco propriedades apenas duas – as fazendas Savana, de 2,6 mil hectares, e a Santa Tereza, de 1,4 mil – não trabalham com agricultura, mantendo o foco em pecuária de corte. As demais estão em ampliação da área agrícola através da reforma de pastagens, tendo a soja como cultura principal. Além de 2,2 mil ha cultivados na fazenda Manah, a família planta mais 500 na fazenda Espírito Santo (1,8 mil ha) e 1.600 ha na fazenda Cristo Rei (de 2,2 mil ha). O grupo detém 15 mil cabeças de gado de corte (nelore) espalhadas pelas cinco propriedades.


Apesar do desenvolvimento derivado da expansão agrícola, a região de Santana do Araguaia ainda é tida como “terra sem lei”.

Ronda policial, placas de advertência e guarita na entrada da fazenda: três exemplos do aparato de segurança na região

últimos dois anos, entretanto, o salto agrícola é de extremo impacto. A prefeitura do município estima que a área cultivada aumentou quatro vezes neste período, passando de 15 mil hectares na safra 2011/12 para 60 mil hectares no ciclo 2013/14. Para Bocchi, somente uma ação radical pode viabilizar a rodovia para o escoamento de grãos. “Sua reforma já está licitada, mas a BR158 tem de ser totalmente refeita; um recapeamento seria apenas uma solução paliativa. Além disso, pelo que eu sei, a reforma das pontes não está prevista”, lamenta. As pontes, na verdade, formam o grande gargalo do trecho de 190 km entre Santana e Redenção. Quase todas são de metal e foram instaladas décadas atrás pelo Exército Brasileiro como soluções temporárias e acabaram se tornando estruturas definitivas. Hoje estão estruturalmente condenadas por deterioração e apresentam um elevado grau de risco para tráfego de automóveis e caminhões. A exigência da redução de velocidade para transpô-las atraiu assaltantes para o trecho da estrada. Atualmente, depois de muitos assaltos, mortes e acidentes, é quase regra não trafegar entre Santana e Redenção durante as noites. Já seria de extremo impacto este fluxo de cargas cruzar a área urbana de qualquer município sem a devida estrutura viária para tal. No entanto, as particularidades de Santana do Araguaia fazem do problema

um desafio ainda maior. Na cidade não há obediência às leis básicas de trânsito. São veículos sem placas, percursos na contramão, ausência de semáforos, parca sinalização e uma enorme frota de motocicletas, usadas por condutores (maiores e menores) sem capacetes. “Enquanto aumenta o volume de cargas agrícolas atravessando a cidade pela rodovia, nossos motociclistas circulam sem proteção, aumentando riscos de acidentes fatais; é urgente um amplo programa de reeducação em segurança de trânsito. As autoridades têm de fazer com que a lei seja cumprida”, desabafa o presidente do Sindicato Rural, Edenilson Bocchi. Terra sem lei Em Santana do Araguaia (como em outras cidades do Norte e Nordeste brasileiros) a “ordem” é não pilotar motocicletas utilizando capacetes. A argumentação é a de que este item de segurança funciona como uma espécie de máscara para assaltantes, além de facilitar o crime de latrocínio (roubo seguido de morte). Na esteira deste hábito quase cultural, outras irregularidades são comuns

e seguem impunes, como a condução sem a habilitação e a circulação de motos sem emplacamento. Com isso tornou-se praticamente impossível o controle sobre procedência e monitoramento legal destes veículos. Diz-se na cidade ser comum a compra financiada de motos na vizinha Redenção e o não pagamento das prestações. Uma inadimplência na certeza da impunidade. Mesmo com a dificuldade da obtenção de dados reais, números do Denatran - Departamento Nacional de Trânsito de 2012 evidenciavam a ‘febre’ das duas rodas em Santana: 5.771 motocicletas e motonetas, 728 automóveis de passeio, 466 caminhonetes e 181 caminhões. Os dados indicam oito motos para cada carro de passeio. Em todo o Brasil, no mesmo ano, eram 626.022 motos e motonetas e 42.682.049 automóveis, uma relação de 0,014 moto para cada carro. A própria secretária de Agricultura de Santana do Araguaia, Franciele Brandão, admite: “É uma cidade sem lei. É um Brasil que o Brasil não conhece”. Depois de amargar ela própria um longo período de depressão (efeito do impacto pro-

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Especial Sucateamento das estradas, falta de mão-de-obra, infraestrutura precária: Santana do Araguaia tem muitos problemas pela frente. enfrenta. “Falar eu falo. Mostrar eu mostro. O que fazer mais? As coisas por aqui demoram a acontecer. Quando vamos a Belém em busca de alguma solução para Santana do Araguaia, somos sempre os últimos da fila. Os políticos sabem do crescimento da região, mas fazem vista grossa. O impacto do volume de cargas passando pela cidade será muito mais intenso na próxima safra. Caso não se encontre soluções, temo pelo pior”, avisa.

Lavouras devem render 210 mil toneladas de grãos em Santana do Araguaia nesta safra, com perspectivas de crescimento nos próximos anos.

vocado por sua mudança do interior de Minas Gerais para o extremo sudeste do Pará) a engenheira agrônoma reconhece que os problemas gerados pelo aumento do tráfego de cargas pesadas e o descumprimento das leis de trânsito na cidade já são visíveis. Apesar de não possuir levantamento oficial, afirma: “Quase todos os dias temos vítimas fatais na cidade e isso infelizmente vai aumentar; aqui as crianças pilotam motos! Um absurdo!”. Natural de Passos, MG, Franciele não esconde as dificuldades técnicas, culturais e políticas que terá de enfrentar para contornar o problema como secretária de Agricultura, função assumida em janeiro de 2013. “Estou com um pepino nas mãos, tenho consciência disso; caso ocorra alguma tragédia, a culpa cairá sobre a agricultura”, avisa. Uma intensa reeducação de trânsito para

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a população seria, segundo ela, uma alternativa para minimizar o problema. “Mas qual político não vai pensar duas vezes antes de se indispor com o cidadão, obrigando-o a usar capacete?”, questiona. Por outro lado, ela teme que uma ação educacional de trânsito se mostre ineficiente diante de um policiamento que detém um habitual método. “A polícia é estadual e o que vai acontecer se eu circular de moto utilizando capacete? Certamente serei abordada sob o risco de ser uma assaltante, uma criminosa. E isso aqui tem precedentes históricos. Os grandes assaltos a banco, por exemplo, sempre foram executados por pessoas em motos com capacetes”, relata. A secretária torce para o fim do escoamento da atual safra sem maiores contratempos. Em seguida vai tentar encaminhar soluções, mesmo ciente das barreiras que

Qualificação deficiente Na opinião de Franciele, a formação de mão-de-obra é outro grande desafio de Santana do Araguaia, município com 63.031 habitantes (estimativa IBGE/2013). Não fosse a atuação dos instrutores do Senar – Serviço Nacional de Aprendizagem Rural e do Senai - Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial, que se dispõem a percorrer 1.255 km a partir de Belém para ministrar cursos de qualificação e capacitação de mão-de-obra na cidade, seria o caos. Bocchi classifica tais profissionais como heróis. “Ganham, em média R$ 16,00/hora e, com este dinheiro, devem arcar com as despesas de hospedagem e alimentação. São oito horas/dia de remuneração. Durante cinco dias úteis, totalizaria uma remuneração de R$ 640,00/semana. Este cenário é inviável; quem virá diante destas condições? Qual é o perfil deste instrutor?”, questiona. Franciele sonha com o dia em que todos tenham acesso à qualificação profissional atualizada, de base tecnológica, envolvendo manejo de pragas, manutenção e regulagem de plantadeiras e pulverizadores e técnica operacional automatizada. Atualmente, segundo ela, os instrutores ensinam detalhes operacionais sobre uma determinada máquina e os aprendizes encon-


Franciele Brandão: “Gente sem capacete e motos sem placas. Esse é apenas um exemplo da falta de respeito às leis”.

tram outras no campo, muito mais modernas e, tecnologicamente, mais complexas e eficientes. “Passo muito tempo do meu trabalho procurando instrutores adequados junto ao Senar. Dos três que já vieram enquanto estou à frente da Secretaria um era desinformado, ultrapassado. Outros dois eram mais jovens e tinham certo conhecimento de automação e GPS, por exemplo. Na verdade, o pessoal daqui não quer subir em trator comum, e sim naquele automático que ele encontra nas fazendas”, relata. Santana do Araguaia ainda terá de avançar significativamente tam-

bém no aspecto de sanidade alimentar. De acordo com Franciele, a carne comercializada em açougues da cidade não passa por qualquer tipo de serviço de inspeção, seja ele federal (SIF), estadual (SIE) ou municipal (SIM). “Os dois matadouros que funcionam por aqui são clandestinos e hoje, pelas condições que funcionam, eu não liberaria SIM para nenhum deles, pois não vou ser conivente com erros”, admite. Segundo ela, a oferta clandestina, mais barata, inibe a aquisição de carne diretamente do frigorífico JBS, que atua na cidade. Resta ao consumidor uma alternativa: “Quem é mais

consciente e tem condições, compra caixas de carne no frigorífico e estoca em casa”. Ela também acredita que a educação nas escolas do município precisa abordar outros enfoques profissionais diante de uma nova realidade econômica local. “Os educadores falam ainda muito sobre a existência de ouro nas fazendas, resquício da época de mineração no Pará, sobretudo de Serra Pelada; muitos incentivam alunos a fazerem cursos de extrativismo mineral, praticamente ignorando os resultados econômicos e sustentáveis dos modernos sistemas integrados de produção agropecuária”.

Jazida garante calcário O tráfego de produtos de lavoura pela malha rodoviária de Santana do Araguaia só não é mais impactante graças à existência de uma jazida de calcário localizada na fazenda Santa Fé (58 mil hectares). A exploração é feita pela empresa Calpará, do Grupo Cabrera (propriedade do ex-ministro da Agricultura, Antônio Cabrera Mano Filho). Em 2013, foram produzidas 55 mil toneladas. A jazida, fica próxima às principais fazendas do município ao sul da área urbana, o que reduz o tráfego de caminhões carregados com o insumo pela cidade. Em média, para cada hectare de abertura de área agrícola ou

de reforma de pastagem com a lavoura, utiliza-se cerca de três toneladas de calcário. Só o produtor Jocelito Krug, que arrendou 6.000 ha na própria fazenda Santa Fé para produção de grãos, necessita de aproximadamente cinco mil toneladas/ano para aplicar em 1.500 ha/ano de pasto degradado, adaptando a área para lavoura. O uso de calcário é fundamental quando o solo apresenta acidez acentuada ou níveis tóxicos. Neste quadro, as raízes encontram dificuldades de penetração na terra e são inibidas em seu desenvolvimento por não absorverem nutrientes. Com

sua aplicação busca-se a regulação do PH, a neutralização da toxidez, a oferta de cálcio e magnésio além do aumento da disponibilidade de macro e micro nutrientes no solo, facilitando a germinação e o desenvolvimento das plantas.

Detalhe da jazida de calcário da Calpará, não muito longe da sede do município.

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Tecnologia

A ciência de dados na agricultura Chega ao mercado agrícola americano a nova geração de inteligência de estatística e informações: tudo pela produtividade. Daniel Glat *

M

* O autor é engenheiro agrônomo, consultor e produtor rural em Tocantins.

ais de 15 anos depois da introdução das sementes transgênicas nos EUA, e do impacto técnico e econômico que elas causaram, tudo indica que uma nova onda tecnológica está emergindo por lá. A Monsanto, líder e pioneira de biotecnologia para agricultura, e a Pioneer, sua concorrente direta no mercado de sementes a nível mundial, parecem estar investindo pesado nessa direção. Essa nova onda tecnológica é baseada em “Data Science”, ou ainda, Ciência de Dados: a ideia é a de combinar grandes quantidades de informações vindas da agricultura de precisão, principalmente os mapas de produtividade, com dados climáticos, dados acumulados de pesquisas agronômicas, dados de fertilidade e topografia de solo, e processá-los sob enorme capacidade informática e analítica, para oferecer informações e recomendações customizadas para cada

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produtor, em cada talhão da propriedade, antes e durante a safra. A Monsanto criou uma plataforma de negócios chamada Field Integrated System – Sistema Integrado de Campo – cujo objetivo é justamente fornecer ao produtor orientações técnicas detalhadas, talhão a talhão; o primeiro produto dessa plataforma, o Field Script, está sendo lançado comercialmente em 2014 nos EUA, comercializado pela rede Dekalb de distribuidores; trata-se de um aplicativo que pode ser conectado diretamente no monitor da plantadeira e que, baseado nos mapas de produtividade e de fertilidade de solo, e no banco de dados de ensaios e recomendações dos agrônomos da empresa, fornece orientações de híbridos e de taxas variáveis de semeadura para cada um deles, em cada ponto da propriedade. Talvez a prova mais contundente dessa guinada de direção está na aquisição que a Monsanto fez no fi-

nal de 2013, por volta de US$ 1bilhão de dólares, do Climate Corporation, um empresa fundada por executivos oriundos do Google, especializados em gerenciamento de dados meteorológicos. Essa empresa era focada na venda de seguro contra eventos climáticos, ou seja, produtores e outros interessados (campos de golfe, concertos ao ar livre etc.) podiam entrar no site e comprar apólices de seguro, por exemplo, contra mais de 10 dias com temperaturas acima de 40C, ou mais de 7 dias sem chuva, ou mais de 10 mm de chuva em dia de um grande evento; em segundos a empresa era capaz de definir o preço da apólice, combinando dados meteorológicos de mais de 2 milhões de locais, com os principais modelos de previsões climáticas, com mais de 150 bilhões de amostragens de solo, gerando 10 trilhões de datapoints de simulações climáticas, uma brincadeira que requer gerenciar e analisar 50 terabytes de dados continuamente (1 terabyte = 1 trilhão de bytes = 1000 gigabytes). Isso é a essência da Ciência de Dados para agricultura: processar e analisar “zilhões” de dados simultaneamente, das mais variadas fontes, e com isso obter recomendações práticas para cada talhão de cada propriedade; segundo Hugh Grant, CEO da Monsanto, o objetivo é construir “a mais avançada plataforma tecnológica da indústria agrícola combinando dados climáticos de cada localidade com modelagem de dados agronômicos e simulações climáticas de alta resolução para prover uma série de produtos ligados ao monitoramento da lavoura, recomendações agronômicas e gerenciamento de risco”. A Monsanto


acredita que os produtos originados dessa plataforma terão um potencial de mercado de mais de US$ 20 bilhões de dólares no futuro. A Dupont / Pioneer também lançou recentemente uma nova plataforma de negócios, o Encirca Services, cujo objetivo é prover “inteligência personalizada para ajudar o produtor tomar decisões com maior embasamento e assim maximizar o potencial produtivo de cada hectare de sua operação”. O Encirca Services visa trazer soluções em 4 grandes áreas: Rentabilidade, Conveniência, Sustentabilidade e Gerenciamento de risco. O primeiro produto dessa plataforma, o EncircaView permite que o produtor faça todas as anotações e observações de campo de forma georreferenciada e compartilhe observações feita por outros produtores e agrônomos da região.

Além disso, a Pioneer anunciou recentemente uma parceria com a John Deere para troca de informações entre os seus softwares de modelagem agronômica e recomendação técnica com os monitores de colheita e de plantio com taxa variável da John Deere. Também anunciou, em fevereiro de 2014, uma parceria com a DTN / Progressive Farmer, empresa focada em informações e inteligência de mercado, para fornecer aos produtores recomendações agronômicas durante a safra baseadas em dados climáticos coletados na propriedade ou no município, combinados com previsões climáticas e modelagem agronômica; há planos também de lançar aplicativos com uma série de facilidades e novidades para produtores acessarem e operarem no mercado de grãos. Jim Borel, VP de Agricultura e Nutrição da Dupont, revelou recentemente,

em coletiva aos investidores, que espera que as vendas desses serviços customizados de informações gerem por volta de US$ 500 milhões de dólares anualmente para a empresa nos anos vindouros. Monsanto e Pioneer foram responsáveis por importantes saltos tecnológicos com a introdução dos transgênicos, e do desenvolvimento de híbridos e variedades com as novas ferramentas de melhoramento genético, como os marcadores moleculares, os duplos haploides, e outros, que tiveram grande impacto na rentabilidade dos produtores e na produção mundial de grãos. É no mínimo curiosa a aparente mudança de foco dessas duas grandes empresas. Temos que observar com atenção essa nova onda tecnológica que está emergindo no meio oeste americano.

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Mecanização

Você precisa de um novo trator? O autor sugere algumas práticas simples para que se possa medir a necessidade de comprar um trator adicional na fazenda. Amílcar Centeno *

T

erminada a safra, dinheiro no bolso, é hora de planejar o futuro e, como em todo bom momento, também é hora de investir para melhorar seu negócio! Um dos principais investimentos é aquele feito em máquinas agrícolas, que normalmente representam o segundo maior ativo das propriedades agrícolas, logo após o valor da terra. Dentre os equipamentos, o trator é peça fundamental no sistema de mecanização, pois além do seu alto custo, também influencia significativamente a performance dos

que se planta uma segunda safra, dependendo do tamanho da área plantada, o plantio da segunda safra pode ser mais crítico do que o plantio da safra de verão, uma vez que a janela de plantio fica muito apertada entre a colheita da safra de verão e as chuvas do final da safra. Nas lavouras de cana, quase sempre é o transporte da cana no campo, no apoio às colhedoras de cana, que se estende por vários meses e é crítica para manter a usina em funcionamento. No caso de pomares, na maioria dos casos a operação crítica é a pulveriza-

Antes de mais nada, é preciso identificar qual é a operação de trabalho crítica.

* O autor é engenheiro agrícola e especialista em máquinas agrícolas.

implementos tracionados. Portanto, antes de investir num equipamento novo, avalie cuidadosamente se você realmente necessita de um novo trator. Parece uma pergunta óbvia, mas o assunto merece reflexão, pois são muitas as alternativas. Antes de mais nada, é preciso identificar qual é a operação de trabalho crítica, a que define a necessidade de novos tratores na propriedade. No caso do plantio de grãos, normalmente este gargalo é o preparo do solo, quando se trabalha com plantio convencional, ou a operação de plantio da safra de soja no verão, no caso do plantio direto. Nas propriedades em

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ção, que é feita de forma repetitiva e precisa ser realizada com rapidez para controlar pragas e doenças. Avalie cada uma de suas operações e veja para qual delas você realmente necessitará de um maior número tratores. Esta é sua operação crítica. Identificado gargalo, a primeira avaliação a ser feita é medir com que eficiência estão sendo utilizados os seus tratores na execução desta operação crítica. Calcule a eficiência de campo da operação, que corresponde à percentagem do tempo em que o equipamento está de fato realizando trabalho e o tempo total disponível para a operação ao longo de um certo período de tempo. Fatores que di-

minuem esta eficiência são as paradas para abastecer o trator com combustível, a plantadeira com adubo e semente, paradas para manutenções e o tempo de manobras nas cabeceiras da lavoura. Nos tratores equipados com computadores de bordo, normalmente é possível obter este dado diretamente do computador. Quando não se dispõe deste equipamento, basta colocar um observador com dois cronômetros na beira da lavoura. Dispara-se o primeiro cronômetro e deixa-se este rodando até o final das medições, enquanto o segundo cronômetro é parado toda vez que o trator erguer o implemento, acionando-o novamente quando o implemento voltar a operar efetivamente. A divisão do tempo do segundo cronômetro pelo tempo do primeiro cronômetro mostrará a eficiência de campo atual. Em condições de uso adequado, a eficiência deve estar acima dos 80%, porém não é difícil observarmos eficiências tão baixas quanto 40%. Isto significa que apenas otimizando o uso dos tratores atuais poderíamos dobrar sua eficiência e evitar o investimento em uma nova unidade. Isto pode ser feito utilizando-se medidas que incluem: • Fazer uma boa manutenção preventiva na entressafra, de modo a reduzir o tempo parado para manutenções corretivas durante as operações. Algumas vezes é possível observar máquinas de


menor porte, mas em boas condições de manutenção, cobrirem uma área maior no final do dia do que máquinas maiores, mas em condições precárias de manutenção. No caso dos tratores, esta abordagem deve incluir também os implementos que ele traciona, afinal, quando o implemento para, todo o conjunto para, e não faz o menor sentido prejudicar a performance de uma máquina cara como o trator em função da falta de investimento em implementos de muito menor custo. Por outro lado, muitas paradas para manutenção podem indicar que está na hora de trocar o equipamento por outro mais novo.

• Estabelecer uma boa logística de campo, de modo a reduzir os tempos com manobras e colocar os pontos de reabastecimento em locais rapidamente acessíveis e com bons dispositivos de reabastecimento. Não desista de insistir neste ponto até que suas operações de reabastecimento estejam parecidas com os pit stops das equipes de fórmula 1. Esta pode ser também uma das medidas mais efetivas para otimizar a eficiência das operações de transporte, pulverização e colheita. • No caso das operações de plantio, uma solução que aumenta a eficiência da operação é separar a aplicação do adubo da operação de plantio, aplicando o adubo na entressafra, quando se dispõe de ampla janela de operação e podem ser utilizados equipamentos de alta capacidade, como os distribuidores a lanço. Isto pode aumentar em muito a eficiência do plantio, pois na maior parte das vezes a plantadeira-adubadeira para em função do sistema de adubo, seja para reabastecer

(normalmente um volume muito maior do que o de sementes), seja para desbloquear/desentupir o sistema em função da baixa qualidade do fertilizante. Em situações extremas, mais de 80% do tempo de parada da plantadeira se deve ao sistema de adubo, e não ao sistema de sementes. Normalmente estas e outras alternativas de aumento da eficiência das operações envolvem custos e investimentos muito menores do que aqueles para a aquisição de uma nova máquina, portanto avalie-as com muito cuidado. Além de avaliar e otimizar ao extremo a sua eficiência de campo, outra medida que tem dado resultados expressivos é o uso de pilotos automáticos nos tratores. Muitas vezes pensamos na aquisição desses dispositivos para melhorar a precisão da operação, porém o seu maior impacto está na ampliação da jornada diária de trabalho. Isto se deve ao fato de ser muito difícil operar as máquinas à noite, pois o reflexo dos

faróis na poeira bloqueia totalmente a visão do tratorista. Com o uso do piloto automático é possível operar em 3 turnos, 24 horas por dia, 7 dias por semana, principalmente nas operações mais críticas, como o preparo do solo ou o plantio. Muitos agricultores operam dessa forma e mais do que dobram a capacidade de trabalho dos tratores e plantadeiras. Dessa forma, em vez de investir numa nova máquina, é preferível investir num piloto automático e aumentar significativamente a capacidade de suas máquinas atuais. Um piloto automático custa de 15% a 20% do preço de um trator de 180 hp. Além disso, com esta solução é possível colocar muito mais horas de operação por ano na mesma máquina, o que dilui significativamente os custos fixos. Isto mais do que compensa o investimento nos pilotos automáticos, incluindo o custo do sinal diferencial e com os operadores adicionais para os 3 turnos de trabalho. Caso a decisão seja pela reposição de seus tratores atuais, vale a pena avaliar o ponto econômico de troca destes equipamentos. Este ponto é aquele número de horas acumuladas de operação em que as despesas de manutenção tornam-se maiores do que os custos fixos do equipamento. Este ponto varia conforme a situação de cada propriedade, mas normalmente ocorre entre as 5 e 6 mil horas de trabalho. Após estas análises e avaliações, se sua decisão seja de fato trocar ou adquirir novos equipamentos, então precisamos passar à etapa seguinte, que é a da seleção do trator mais adequado para sua propriedade. Isto envolve uma nova avaliação e decisão, que abordaremos em nosso artigo do próximo mês. abril 2014 – Agro DBO | 37


Código florestal

Acabou a exigência de reserva legal? A legislação estabelece que quem desmatou dentro da lei então vigente não está obrigado a recompor uma Reserva Legal. Evaristo Eduardo de Miranda 1 José Maria da Costa 2

S

im, acabou a exigência de reserva legal para grande parte dos produtores rurais em todo o Brasil, que podem agora proceder à regularização ambiental de seus imóveis mesmo sem possuir áreas destinadas à reserva legal, sobretudo nas regiões no Sul, Sudeste, Nordeste e Centro Oeste. A necessidade efetiva de possuir a reserva legal deve ser o primeiro assunto examinado pelo proprietário, antes mesmo de pensar em se inscrever no Cadastro Rural Ambiental, o CAR. O novo Código

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Florestal, a Lei 12.651/2012, eliminou a exigência de recomposição, compensação ou regeneração da reserva legal quando o desmatamento ocorreu em conformidade com a lei de seu tempo para toda e qualquer propriedade rural. Em seu art. 12, a Lei 12.651 estabeleceu que todo imóvel rural deve manter área com cobertura de vegetação nativa, a título de reserva legal, mas excetua os casos previstos em seu artigo 68. E o art. 68 é claríssimo: “Os proprietários ou possuidores de imóveis rurais que

realizaram supressão de vegetação nativa respeitando os percentuais de Reserva Legal previstos pela legislação em vigor à época em que ocorreu a supressão são dispensados de promover a recomposição, compensação ou regeneração para os percentuais exigidos nesta Lei”. E esse é o caso da imensa maioria das propriedades rurais. Quais eram as leis vigentes nas diferentes datas em que ocorreram desmatamentos na agricultura brasileira? O assunto não é tão complexo como parece. Ele deveria


compor as explicações das Secretarias Estaduais de Meio Ambiente ao orientarem os produtores quanto à regularização ambiental e ao preenchimento do CAR. Deveria. Não está sendo assim. As orientações, cartilhas e guias propostos aos produtores sequer mencionam a existência do artigo 68. É como se todos os agricultores estivessem obrigados a possuir 20%, 35% ou 80% de seu imóvel como reserva legal. Reserva legal e biomas O caso mais simples a ser considerado é o dos imóveis em áreas de cerrados. Quem ocupou os cerrados até julho de 1989, mesmo que tenha desmatado integralmente seu imóvel, está desobrigado da exigência da reserva legal. Até essa data só havia exigência de reserva legal em formações florestais. A Lei 7.803, de 18.07.1989, ao alterar o Código Florestal, acresceu o parágrafo 3º ao art. 16 do Código Florestal de 1965, como segue: “Aplica-se às áreas de cerrado a reserva legal de 20% para todos os efeitos de lei”. Ou seja: exigência legal nova, que não existia antes. Ora, grande parte da expansão da cana-de-açúcar em São Paulo, entre os anos 80 e 90, ocorreu em cerrados. Basta ao produtor do-

cumentar sua situação histórica e, pelos termos da própria lei, estará desobrigado de cadastrar no CAR uma área de reserva legal em seu imóvel. Já nas florestas, existem três grandes situações em termos de legislação: antes de 1934, de 1934 a 2000 e de 2000 até o novo Código Florestal. A primeira legislação efetiva sobre percentuais de preservação florestal data dos anos 30, o chamado Código Florestal de 1934, destinado a regulamentar “florestas existentes no território nacional”. Quem desmatou antes dessa data está “isento” da reserva legal. E são muitos casos e regiões de ocupação secular, principalmente ao longo do século XIX. Na vigência do Decreto 23.793, de 1934 a 1965, permitia-se a derrubada de três quartas partes das terras cobertas de matas; impunha-se a preservação de 25% de tais matas; incluíam-se, nesse percentual a ser resguardado, as áreas de preservação permanente; a base de cálculo para o que se haveria de preservar eram as matas existentes, e não a área total do imóvel. Em 1965, a situação foi alterada pela Lei 4.771. Seu art. 16 dizia: “nas regiões Leste Meridional, Sul e Centro-Oeste, esta na parte sul,

as derrubadas de florestas nativas, primitivas ou regeneradas, só serão permitidas, desde que seja, em qualquer caso, respeitado o limite mínimo de 20% da área de cada propriedade com cobertura arbórea localizada, a critério da autoridade competente”. Em resumo, de 1965 a 2000 impôs-se a preservação de 20% da área da propriedade com cobertura arbórea localizada; a base de cálculo para incidência do percentual a ser preservado, mais uma vez, era a área da propriedade com cobertura arbórea, e não toda e qualquer área do imóvel. Em 2000, com a Medida Provisória 1.956-50, em redação repetida por aquelas que se lhe seguiram até a MP 2.166, modificou-se o teor do art. 16 do Código Florestal de 1965. Além das florestas e das áreas de cerrado anteriormente protegidas, ampliou-se o conceito de reserva florestal legal para abranger também as outras formas de vegetação nativa. O passado é imprevisível? As novas exigências não são retroativas. A obrigação de preservar os cerrados só foi instituída pela Lei 7.803 de 1989, e a de resguardar as outras formas de vegetação nativa

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Código florestal As novas exigências não são retroativas. A obrigação de preservar os cerrados só foi instituída pela Lei 7.803 de 1989. foi introduzida pela Medida Provisória 2.166 de 2000. O mesmo vale para as florestas com suas legislações pertinentes. A base de cálculo passou a ser um percentual em relação à área do imóvel, apenas com o Código Florestal de 2012. Qualquer das exigências de Reserva Legal deve ser observada apenas e sempre em relação ao futuro. Ninguém pode se comportar no presente prevendo uma legislação futura. Para fazer retroagir esses dispositivos, o Ministério Público moveu ações judiciais contra produtores rurais em todo o país, acolhidas, em parte, em instâncias do Judiciário. Diante desse questionamento, a Sociedade Rural Brasileira (SRB), apresentou junto ao Supremo Tribunal Federal (STF) a Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 4.495 questionando se o art. 44 do Código Florestal de 1965 trazia a obrigação de recompor, compensar ou regenerar a Reserva Legal a todos os proprietários.

Diante da nova Lei Florestal, o Ministro relator Marco Aurélio de Mello, em 26.08.2013, reconheceu a perda de objeto da ADI 4.495. Não apenas pela revogação da lei questionada, mas também pela assimilação dos argumentos da SRB na ação pelo art. 68 da nova lei: “A Lei nº 4.771, de 1965, com alterações posteriores, foi revogada pela Lei nº 12.651, de 2012, vindo o artigo 68 dela constante a regular a matéria no sentido buscado pela requerente.” Essa manifestação do Ministro relator do STF reiterou aos poderes públicos a necessidade de respeito aos desmatamentos legais ocorridos com a observância da legislação da época da supressão. No que pese a afirmação do dramaturgo Nelson Rodrigues de que no Brasil “até o passado é imprevisível”. Quem esclarecerá os agricultores? A exegese do novo Código, tal como proposta por secretarias de

As novidades sobre reserva legal Além de reiterar a legalidade da supressão da vegetação natural em conformidade com a legislação do tempo em que ocorreu, o atual Código Florestal traz outras determinações relevantes no caso da Reserva Legal: 1. Dispensa a obrigação de sua averbação no Cartório de Registro de Imóveis, determinando apenas o dever do “registro da reserva legal no CAR”; 2. Considera como reserva legal a vegetação nativa porventura existente no imóvel em 22.07.2008, seja qual for esse percentual, nos imóveis rurais com até quatro módulos fiscais; 3. Define várias formas de recompor a reserva legal, admite o plantio associado de

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espécies exóticas em até 50%, além da regeneração natural; 4. Admite o cômputo das áreas de preservação permanente no porcentual de reserva legal exigido, em cada bioma; 5 - Aprova a exploração para autoconsumo, sem burocracia, e até o uso comercial da reserva legal. 6 – A nova lei definiu um tratamento privilegiado para os imóveis com até quatro módulos fiscais (4,6 milhões de casos e 88% dos imóveis existentes). A reserva legal para esses pequenos agricultores será constituída pela vegetação nativa existente na propriedade, qualquer que seja sua localização ou extensão, seja um hectare, ou apenas uma árvore ou nada.

meio ambiente e até por consultores e juristas da área rural, parece ignorar a existência do art. 68 do novo Código Florestal. Na orientação de como preencher o CAR, ele deveria ser o primeiro tópico considerado, mas às vezes nem aparece. Isso vai desorientar os produtores e levá-los a cumprir com ônus e exigências ambientais indevidas. Por que os secretários estaduais de agricultura não atuam nesse tema com a área ambiental? Em todos os casos, os fatos históricos, os documentos existentes – em particular fotos aéreas, imagens orbitais, mapas etc. – trabalhados com geotecnologias e métodos de gestão territorial, permitem de forma inequívoca atestar o desmatamento em conformidade com a lei do tempo. Analisar em bases técnicas a situação da reserva legal em cada imóvel rural e os vários cenários e possibilidades em cada caso interessa a milhões de produtores. Como tratar e equacionar a questão da reserva legal? Quando valeria a pena recorrer à unificação do cômputo das áreas de reserva legal com as de preservação permanente? Quais as opções de definição de uso das terras no imóvel que trarão maiores bônus e menores ônus para o agricultor ao realizar seu futuro cadastro ambiental? Como no caso da declaração de imposto de renda, pela primeira vez os agricultores estarão declarando seus bens ambientais. Mais do que apressá-los a se inscreverem no CAR, é urgente orientá-los sobre como avaliar a regularização ambiental de seus imóveis. Os autores são: 1 Engenheiro agrônomo, doutor em ecologia, pesquisador da Embrapa e membro do Conselho Editorial da Agro DBO. 2 Ex-magistrado, advogado, mestre e doutorando em Direito pela PUC-SP.


Soja

E o clima levou... Condições meterológicas extremas impactaram, por mais um ciclo, a produção brasileira de grãos, derrubando a safra 2013/14 Marianna Peres

C

huva demais em Mato Grosso, maior produtor nacional de soja e chuva de menos no Paraná, vice-campeão de produção. Esses são apenas dois exemplos de como o clima interferiu novamente – e negativamente –, sobre o resultado da safra 2013/14. As apostas em torno de uma produção de 90 milhões de toneladas não se concretizaram, os Estados Unidos mantiveram a liderança na aprodução mundial do grão e, semana após semana, as estimativas nacionais foram revisadas para baixo. Mesmo assim, a produ-

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ção deve fechar como a maior já colhida no Brasil. O recorde nacional está garantido, mas a renda de quem produz foi novamente posta em xeque e, para muitos, não há motivo para comemorar. À primeira vista, o ano-safra parece ter repetido 2012/13, mas dessa vez não foi a Helicoverpa armigera a vilã dos rendimentos e, sim, São Pedro, pouco generoso este ano com os sojicultores brasileiros. Projeções de quanto o clima ‘roubou’ do bolso dos produtores ainda são contas difíceis de fechar. Afinal, a perda em Mato Grosso é “mais

financeira”, ou seja, mais individualizada, em razão dos descontos que as cargas de soja avariadas receberam quando da entrega às tradings. Alguns lotes continham até 25% de umidade – o permitido é de até 14%. Apesar de o estado enfrentar a pior condição de colheita já vivenciada nas últimas décadas, a safra 2013/14 de soja deve fechar o ano com rendimento médio de 53 sacas por hectare, ante a previsão anterior de 54 sacas/ha. Em decorrência da estiagem prolongada e altas temperaturas no início do ano e chuvas fortes em algumas regiões em fevereiro e março,


Foto Wanderlei Dias Guerra

Mato Grosso, Paraná e Bahia podem deixar de injetar em suas economias cerca de R$ 4 bilhões, cifra que se refere somente às perdas nas lavouras de soja. De Mato Grosso, seriam cerca de R$ 500 milhões; na Bahia, R$ 838 bilhões; e no Paraná, o maior prejuízo: R$ 2,5 bilhões. O produtor Altemar Kroling sentiu na pele os efeitos das chuvas incessantes em Mato Grosso durante o pico de colheita, a partir de 15 de fevereiro. Ele, que planejava colher 54 sacas/ha, como disse à Agro DBO na edição de julho do ano passado, fechou com

53 ao finalizar a colheita, no dia 18 de março, Kroling colheu em todas as áreas cultivadas, mas perdeu tempo à espera de uma janela climática com mais tempo para a colheita. “Cada semana de atraso significa quatro sacas a menos de rendimento. Mesmo apostando em 54 sacas, minhas lavouras tinham potencial para 57. Colhi tudo, mas perdi no peso, em função da demora em retirar o grão das lavouras dessecadas. Nós nos armamos contra a Helicoverpa, mas quem ditou o ritmo da safra foi o clima”. As sacas a menos por hectare tiraram

R$ 290 mil do faturamento do produtor, considerando o preço em 18 de março (data da entrevista à Agro DBO) na região de Diamantino (208 quilômetros ao norte de Cuiabá), onde fica sua fazenda. Em sua opinião, a safra foi boa no geral, considerando os investimentos para controlar a Helicoverpa e a ferrugem asiática. Kroling admite, porém, certa frustração: “Perdi pouco em volume, mas muito em dinheiro. Meu custo aumentou entre 18% e 22% (ele ainda não tinha contabilizado todos os gastos com insumos)”. Segundo ele, os ganhos com

Lavoura inundada em Mato Grosso: chuvas impediram a entrada das colheitadeiras, atrasando a colheita e reduzindo a qualidade dos grãos.

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Soja

Altemar Kroling, passando o pano branco na lavoura para contar insetospraga: na colheita, ele perdeu pouco em volume, “mas muito em dinheiro”.

rugem e Helicoverpa, mas o grande problema foi o clima. Até chegar a 50% da área colhida, tínhamos uma safra espetacular; bateríamos todos os recordes de produção e de produtividade. E então vieram as chuvas, um fator fora do nosso controle”. O gestor do Imea – Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária, Daniel Latorraca, rememora sustos e perdas em decorrência de ataques da mosca branca e da lagarta falsa-medideira nos meses de janeiro e fevereiro. “Apesar dessas ocorrências, foram as chuvas intensas e ininterruptas que tiraram parte da produtividade e da renda do estado”. Latorraca lembra que, no ano passado, os mato-grossenses também sofreram com chuvas fortes durante o período de colheita, mas de maneira diversa. “A conjuntura era diferente. Plantamos muito cedo e tiramos grandes volume de

Wanderlei Dias Guerra

Apesar dos problemas, como o da lavoura encharcada (abaixo), Mato Grosso vai ofertar 26,1 milhões de toneladas de soja este ano, 13% a mais do que no ano passado.

a valorização da soja em fevereiro e março não compensaram as perdas por avarias nos grãos. “Comercializei cerca de 70% da safra no mercado futuro e pouco pude aproveitar dessa alta, Para isso, os bons preços tem de se manter até eu terminar de cumprir os contratos e começar a vender o que de fato é meu e não foi negociado antecipadamente”. Como explica, no ano passado, nesse mesmo período – meados de março – a cotação da região era de R$ 44,00 e agora, R$ 50,00 a saca. Em geral, a primeira quinzena de março fechou com picos de preços de até R$ 61,00 a saca, dependendo da praça. O presidente da Aprosoja/MT –Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso, Carlos Fávaro, endossa a avaliação de Kroling. “Sem sombra de dúvidas, entramos nessa safra com muito medo das pragas e doenças, especialmente fer-

soja muito cedo – entre 15 de janeiro e 15 de fevereiro –, antes que as chuvas se concentrassem sobre as lavouras. Em 2014, as estratégias mudaram. “Para este ano, se plantou soja de forma mais cadenciada, para se ter mais janelas entre as chuvas no período de colheita. A opção este ano foi a de focar mais na soja; no ano passado, o foco foi o milho. Conforme o gestor do Imea, no inicio de janeiro todos apostavam num rendimento médio de 56 sacas por hectare, em razão do pleno desenvolvimento das lavouras. Em meados de março, trabalhavam com a expectativa de 53 sacas, número que, segundo ele, provavelmente seria mantido até o fim da colheita – em 21 de março, pouco mais de 90% da área plantada já fora colhida. Na opinião de Latorraca, Mato Grosso vai bater mais um recorde ao ofertar mais de 26,1 milhões de toneladas, quase 13% mais que o recorde anterior”.

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Estiagem no Sul Ao contrário do que ocorreu em Mato Grosso e outras regiões do Centro-Oeste, o problema nos estados do sul do Brasil foi a falta de chuva. Como destaca o Deral – Departamento de Economia Rural, órgão da Secretaria da Agricultura e Abastecimento do Paraná, o clima foi e será determinante no resultado final da safra de grãos no estado. Até 20 de março, cerca de 80% da área plantada estava colhida. O coordenador do Deral, Marcelo Garrido, explica que a seca ocorrida em janeiro e fevereiro induziu perdas de 12% na produção estimada. “A produtividade esperada de 3.380 kg/ha caiu para 2.950 kg/ha e estes números ainda podem se alterar com o andamento da colheita”. De acordo com estimativas da Conab, divulgadas em março, a área semeada com grãos no Paraná aumentou 5,4%, chegando a 5,1 milhões de hectares, mas a produção deverá recuar 7,7%, passando de 15,9 milhões de toneladas


Wanderlei Dias Guerra

Em janeiro, Mato Grosso esperava colher 56 sacas por hectare. Em março, trabalhava na expectativa de fechar a safra em 53.

para 14,7 milhões. “Entre pragas e doenças, o clima (a estiagem prolongada, com altas temperaturas) é o que mais deu trabalho aqui no estado”. Garrido alega, contudo, que, apesar da frustração geral com a quebra na produção e, consequentemente, do menor volume ofertado, os ânimos mantinham-se elevados. Afinal, as cotações da soja permaneciam em patamares compensadores”. Em meados de março, com 39% da safra de soja já comercializada, o mercado oferecia R$ 64,00 pela saca – em março do ano passado, o preço médio recebi-

do pelo produtor foi de R$ 53,33”. No Rio Grande do Sul, os problemas climáticos não foram tão severos como os registrados no Paraná, na avaliação do economista-chefe da Farsul – Federação da Agricultura e Pecuária do Rio Grande do Sul, Antônio da Luz. “Tivemos um período de 15 dias de calor realmente muito intenso combinado com baixa umidade do ar. Apesar disso, estamos esperando colher a maior safra de soja da história do estado. Tivemos uma área plantada de soja 10,7% maior”. Nos últimos 10 anos, 470,2 mil hectares

utilizados como pastagem foram convertidos para o plantio de soja. Somente em 2014, outros 84,2 mil hectares de pastos foram direcionados para a agricultura, sem falar no milho e no arroz, que também cederam áreas à soja nesta safra. “Mesmo que tenhamos perdas em alguns municípios, o aumento de área deve compensá-las e assegurar produção agregada maior que a de 2013. Alguns municípios tiveram perdas de até 70%. Por outro lado, há regiões em que um produtor tirou 78 sacas de soja (sem irrigação) e outro, com lavoura a três quilô-

No Sul do Brasil, as chuvas não foram tão intensas quanto em Mato Grosso: gaúchos e paranaenses contabilizaram, porém, perdas altas devido a estiagem prolongada e altas temperaturas.

Polêmica na segunda safra Com a valorização do preço do milho a partir de janeiro, houve um recuo na intenção de cultivar soja sobre soja na proporção que a Aprosoja/MT havia mensurado em outubro passado, de um milhão de hectares. “O milho foi ganhando certa viabilidade e essa vontade (de fazer segunda safra de soja como forma de melhorar a renda e cobrir o solo) foi arrefecida; estimamos agora cerca de 120 mil hectares, um recorde em termos de safrinha”, destaca Carlos Fávaro. Segundo levantamento da instituição, tal área é seis vezes superior à da safra pas-

sada. O Paraná também expandiu a segunda safra com a leguminosa, contra todas as recomendações agronômicas (Leia Ponto de Vista, na página 10). Conforme o Deral, a área aumentou 40%, passando de 81 mil hectares na safra 2012/13 para 113,5 mil neste ciclo. Para o coordenador da Comissão de Defesa Sanitária Vegetal do Ministério da Agricultura em Mato Grosso, Wanderlei Dias Guerra, o plantio de soja sobre soja vai expor as lavouras ao ataque de pragas e doenças na safra 2014/15, em função da mesma cultura suceder o

plantio da próxima. “Isso é uma tragédia”, afirma. “Os produtores têm de entender em definitivo que, para a safrinha de soja, eles vão sacrificar a soja principal”. Em sua opinião, é um problema seríssimo, devido à redução na eficácia dos defensivos. “Temos cerca de seis fungicidas no mercado que ainda funcionam de formar regular contra a ferrugem, por exemplo. A safrinha de soja amplia em três vezes a necessidade de aplicações de fungicidas; então nós vamos acelerar três vezes a perda de eficácia desses poucos produtos que temos no mercado”.

abril 2014 – Agro DBO | 45


Soja “No Rio Grande do Sul, o que vai mexer com a renda do produtor não é o clima, não é a lagarta ou a ferrugem, mas, sim, a logística”

Fotos Wanderlei Dias Guerra

Efeitos das chuvas em Mato Grosso: vagens além do ponto de colheita, porque as máquinas não puderam entrar na lavoura, e germinação por excesso de umidade.

metros de distância, colheu 25 por falta de chuvas”. Para Antônio da Luz, o ponto negativo da safra – e que vai mexer na renda do produtor gaúcho - não é a lagarta, não é o clima, nem tampouco a ferrugem, e sim, a logística. “O custo do frete no estado foi o que mais aumentou (26,5%), contra 22,4% em Mato Grosso e 22,8% no Paraná, percentuais absurdos, que tiraram muito da renda do produtor. Nesse ano, as estradas estão ainda piores e o preço do combustível maior, sem contar o deficit de 10 mil caminhoneiros no país, boa parte deles gaúchos”.Em Goiás, a estiagem impactou fortemente a região sudoeste entre 15 de dezembro e 15 de janeiro. Depois, recrudesceu em fevereiro, afetando prati-

Além dos estragos derivados do clima e da incidência de pragas e doenças, os produtores contam perdas com frete, 26,5% mais caro no Rio Grande do Sul, 22,8% no Paraná e 22,4% no Mato Grosso.

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camente todo o estado. “As perdas variaram de 15% a 25% da safra, dependendo da região. É um prejuízo muito elevado”, avalia, comparando com a média nacional, estimada entre 6% e 10%”. Para Cristiano Palavro, consultor técnico do Senar no estado, além dos estragos decorrentes da seca, os produtores de Goiás contabilizaram gastos elevados para controlar doenças e pragas. Na Bahia, a seca também frustrou os produtores. A expectativa inicial era de repetir a produtividade média alcançada na temporada 2010/11, de 56 sacas de soja, a maior até então, mas os primeiros hectares colhidos revelaram rendimento médio de 44 sacas. O assessor de agronegócios da Aiba – Associação de Agricultores e Irri-

gantes da Bahia, Luiz Stahlke, lembra que, mesmo assim, a produção será maior que a do ano passado – a média no ciclo 2012/13 foi de 35,7 sacas. “Há um aparente ganho nesta safra que, no entanto, não compensa as perdas passadas nem a alta dos custos. A safra será melhor, mas a rentabilidade, não”, lamenta. Cerca de 50% da produção foi comercializada no mercado futuro. Em meados de março, o preço era de R$ 59 no oeste baiano, ante R$ 50 há um ano. A esperança dos baianos se volta agora para o algodão, que deu sinais de rendimento de 270 arrobas, abrindo possibilidade de recorde de produção na cultura e, consequentemente, incremento na renda dos produtores. A seca afetou bastante a lavoura de soja, mas não muito a de algodão – plantado em dezembro, passou pela seca na fase vegetativa, em que é mais resistente às intempéries, e por isso se desenvolveu muito bem. De novo, as lagartas O risco maior na Bahia, segundo Luiz Stahlke, está na Helicoverpa armigera e outras pragas, que causaram prejuízos milionários no ano passado. “Nós aprendemos a lidar com a lagarta na marra. Entre erros e acertos, reduzimos as aplicações na soja de sete para quatro, mas temos a lavoura de algodão em fase de desenvolvimento e, na medida em que a soja e o milho forem deixando o solo, as lagartas e demais pragas dessas culturas vão migrar para a pluma”. No ano passado, segundo ele, a quantidade mínima de aplicação contra a Helicoverpa no algodão foi de 15. “Será que novamente teremos de passar por isso?” No Mato Grosso do Sul, a Aprosoja/MS estima produtividade de 44 sacas de soja por hectare, que devem resultar em uma produção de 5,96 milhões de tonela-


das, superior à do ciclo passado, de 5,8 milhões de toneladas. “Os agricultores cumpriram com seu papel de monitoramento contínuo das lavouras e conseguiram controlar pragas e doenças nas plantações de soja, o que tem refletido na qualidade do grão colhido. Já o clima, foge da gerência do produtor e será responsável pela queda de aproximadamente 9% da produção estimada (6,4 milhões de toneladas)”, explica o presidente da entidade, Maurício Saito. Conforme dados do Siga – Sistema de Informações Geográficas do Agronegócio, até a última quinzena de março, o estado colhera 90% da safra prevista, o equivalente a 1,98 milhão de hectares dos 2,2 milhões destinados ao cultivo da oleaginosa. Os trabalhos de colheita devem ser encerrado neste mês de abril, devido ao plantio tardio na região de Chapadão do Sul.

Na reta final da colheita de soja, carro-chefe da agricultura nacional, o presidente da Aprosoja Brasil, Glauber Silveira, afirma que esta safra deixa uma lição: “O custo do controle da Helicoverpa deu resultado, mas saiu muito caro para o produtor brasileiro. Na Argentina, por exemplo, é de US$ 6 por hectare e aqui, de US$ 50 a US$ 60. Antes, gastávamos com defensivos de US$ 10 a US$ 12. Segundo estudo

do Imea, se a safra 2014/15 começasse hoje, estaria inviabilizada no estado, já que o preço futuro relativo a maio/2015 estava abaixo de US$ 12 por bushel e esse valor não sustenta a produção mato-grossense, devido ao elevado custo de produção e transporte. Conforme a instituição, a nova safra demandaria investimentos médios de R$ R$ 2.677,76 por hectare, 14,5% mais que a atual.

Segundo o Imea, a próxima safra deve demandar investimentos 14,5% maiores que os deste ciclo.

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Entrevista

“Agricultor não rasga dinheiro”.

A

Andef, Associação Nacional de Defesa Vegetal, é a entidade representativa no Brasil das empresas multinacionais fabricantes de agrotóxicos, e pertence ao sistema CropLife, existente em todo o mundo. Seu diretor-executivo há mais de quatro anos, que responde ao Conselho de Administração, é o administrador de empresas e publicitário Eduardo Daher, um profissional ligado há 40 anos a atividades da cadeia do agronegócio, tendo sido antes de sua entrada na Andef, por vários anos, diretor-executivo da Anda, Associação Nacional de Difusão de Adubos. De forma pragmática, demonstrando notável percepção política, Daher concedeu entrevista para Agro DBO, conduzida pelo editor-executivo Richard Jakubaszko, onde explica, justifica e esgrima habilmente contra as acusações e críticas feitas ao setor de agroquímicos que encontram ressonâncias sensacionalistas na mídia e em áreas do governo ligadas ao meio ambiente e à saúde. Agro DBO – A indústria brasileira de agroquímicos continua campeã mundial de vendas? Isso é bom ou ruim? Daher – Quando a gente analisa o volume e a sequência de vendas dos últimos cinco anos, efetivamente, o faturamento das indústrias do setor tem crescido de forma expressiva. É bom pelo faturamento, mas é ruim devido a ataques e críticas ao agro, especialmente de grupos inimigos do capitalismo. Agro DBO – Quais as explicações para esse campeonato? Daher – A primeira explicação deve-se ao clima tropical, que propicia a existência de maior volume de pragas, doenças e ervas daninhas, comparado aos países temperados, e a segunda característica 48 | Agro DBO – abril 2014

é que temos uma expansão de área de plantios, na medida em que o Brasil se tornou o segundo maior exportador de alimentos e ainda somos o terceiro maior produtor de alimentos do mundo. Com isto, do ponto de vista econômico, se a medida é por recursos financeiros, aí o câmbio é um fator importante. Tenho particular orgulho de dizer que o Brasil representou em 2013, segundo especialistas internacionais da área, na ordem de 20% do mercado mundial, e 75% do mercado latino-americano. Agora, somos líder de mercado apenas um ponto pequeno adiante dos EUA. Mas temos de convir que no Brasil exista um consumo maior porque, sendo um país tropical, fazemos duas safras por ano, enquanto nossos competidores fazem uma

safra por ano, e em áreas irrigadas fazemos cinco safras a cada dois anos. Então, falando em volumes é isso, o que é bom do ponto de vista econômico, mas do ponto de vista de reputação os nossos desafetos, aqueles que desejam dramaticamente atacar o setor de agroquímicos, eles cometem delírios contábeis ao dividir, por exemplo, litros de produtos utilizados por número de habitantes de Mato Grosso, e aí concluem que é consumo de 5,2 litros per capita. Ora, isso é absolutamente irreal, pouco verdadeiro e ideologicamente tendencioso. Agro DBO – Onde está o erro dessa estatística? Daher – Em nenhum lugar do mundo se usa esse tipo de indicador, é uma referência ilusória e


distorcida. Ao mesmo tempo, sabemos que o produtor rural é racional, ele faz contas, e não rasga dinheiro, ele não despeja agrotóxico nas lavouras, ele não desperdiça dinheiro. Essa, em minha opinião, é a maior ofensa quando se trata de divulgar o Brasil como campeão mundial do uso de agroquímicos, pois pressupõe que o agricultor seja pouco inteligente. Normalmente, em média, a nossa pizza no gráfico de vendas é de 1/3 herbicidas, 1/3 inseticidas e 1/3 fungicidas. No ano de 2013 o consumo de inseticidas foi de 42% por causa da lagarta Helicoverpa, que foi um fator determinante nesse consumo. Em anos anteriores, como em 2011/12, a ferrugem da soja aumentou o consumo de fungicidas. Agro DBO – Qual o maior problema da indústria dos agroquímicos para trazer novas tecnologias ao Brasil? Burocracia, legislação? Daher – Os dois, o marco regulatório do setor não acompanhou o desenvolvimento do agro brasileiro. Claro que o marco regulatório é reflexo da legislação, mas a legislação já é antiga, a lei é de 1989, e o decreto de regulamentação é de 2002, o que significa dizer que essas coisas têm de ser atualizadas. Como fator complicador, nós somos mais regidos por portarias, decretos, comunicados, instruções normativas. Por quê? Porque justamente essa legislação foi se tornando defasada. O marco regulatório federal do setor está extremamente burocratizado, com um fato agravante, porque no caso brasileiro temos 3 órgãos pertencentes a 3 setores diferentes (ministérios da Agricultura, Saúde e Meio Ambiente). Ou seja, a diferença entre nós e nossos competidores, como os EUA, Canadá ou Argentina, é que, na hora de produzir alimentos para o mundo nós temos de ir a 3 guichês, enquanto os outros países vão a um lugar só.

Agro DBO – O episódio da lagarta Helicoverpa, e as dificuldades burocráticas e judiciais, para se liberar a Emamectina para controle dessa praga, em que pé está? Daher – Ainda está muito confuso, embora do ponto de vista emergencial que foi decretado temos essa possibilidade de liberação em 7 estados, embora Minas Gerais tenha retroagido. Devemos lembrar que a lagarta apareceu como problema no algodão no sudoeste da Bahia. Na realidade, essa molécula, na revisão bibliográfica desta praga, que é uma praga quarentenária, devia estar por aí, mas tinha a sua população controlada, por razões que ainda se desconhece. Na hora em que entrou em descontrole o que se fez foi buscar na bibliografia internacional a sua história. Nesta se explica que a Helicoverpa armigera aparece como problema em 1999 na Austrália, e o controle da praga se deu com essa molécula, que está aprovada em 37 países e já é um produto genérico, pois a patente está vencida. A mesma lagarta voltou a aparecer como grande problema em 2002 na Índia. Lá o caso foi mais dramático que no Brasil ou Austrália, porque a unidade de produção é de minifúndios, de 1 a 2 hectares, o produtor ia dormir e no dia seguinte tinha perdido toda a sua produção de algodão, o que gerou uma série de suicídios por causa dos prejuízos. Saiu isso na mídia internacional, e foi parar na bibliografia do produto, até aí uma espécie de “ficha corrida” de delegacia policial. Como sempre, no Brasil essas coisas acontecem de forma atabalhoada e sem planejamento. Quando saiu a decisão emergencial, autorizando a importação da Emamectina, aparece a denúncia de que na bibliografia de 2007 ela não tinha sido aprovada na toxicologia do marco regulatório brasileiro, que é uma das medidas pelas quais a Anvisa é responsável. A partir daí a questão agronômica foi judicializada, o Ministério Público travou

tudo através de ações de seus procuradores, mesmo com o produto já importado e estocado no Brasil. Até o momento esse processo está muito complicado, pois temos a judicialização nos três níveis, federal, estadual e municipal, e isso traz problemas aos produtores e à indústria. Agro DBO – E a proibição do Endosulfan, como a indústria vê essa atitude, sem que exista um substituto à altura para o controle da broca do café, por exemplo? Daher – Da mesma forma que aconteceu com o Metamidofós, com proibições previamente anunciadas, por diversas vezes mitigadas, e quando saiu a proibição definitiva deixou os produtores sem alternativas para controle eficiente e econômico de pragas como a broca, o que gerou um enorme desconforto. O responsável pelas proibições é o Ministério Público, e o maior prejudicado é o produtor. A indústria não tinha alternativa, teve de aceitar as decisões judiciais. Já o Mapa, Ministério da Agricultura, acabou sendo blindado pelas circunstâncias, porque a decisão judicial é soberana, apesar de haver ainda recursos em andamento, de uma empresa nacional (Nota da redação: Fersol), pendentes de novas decisões judiciais nas instâncias superiores, que são sempre demoradíssimas. Agro DBO – Decretos de “Emergências sanitárias” para problemas previsíveis seriam um reconhecimento do governo para os entraves burocráticos? Daher – É claro que sim, mas o Marco Regulatório sofre com isso. Na mesma medida em que o Mapa criou essa alternativa, ela acaba visceralmente desagradando os seus parceiros na análise de liberação dos produtos. É um dos problemas burocráticos que nos foi perguntado antes, sobre a eficiência da interatividade de órgãos abril 2014 – Agro DBO | 49


Entrevista

distintos, pois o Mapa tem a responsabilidade da análise da eficácia agronômica. Já a avaliação do impacto ambiental é atribuição do Ministério do Meio Ambiente, através do Ibama, enquanto o Ministério da Saúde tem a análise de possíveis impactos toxicológicos por intermédio da Anvisa. Na hora em que se desequilibra o triângulo equilátero da burocracia gera-se um desconforto que provoca atrasos nas decisões, mesmo na emergência, e a coisa fica complicadíssima quando entra o Ministério Público nesse processo, o que aconteceu, como vimos, no caso da Emamectina. A indústria de agroquímicos deseja esse rigor regulatório, mas gostaria que ele fosse eficiente, ágil e equilibrado. Agro DBO – Existem novas tecnologias da indústria de agroquímicos que estão travadas pela burocracia governamental? Daher – Na realidade existe um total de 21 produtos novos, são moléculas inéditas no Brasil, que estão inscritas e não estão sendo liberadas, pela morosidade do processo regulatório. Ou seja, precisa acelerar o processo. Mas veja, quando falo em novas moléculas, não estou falando de 21 produtos, estou falando de molé50 | Agro DBO – abril 2014

culas, e de apenas uma delas derivam dezenas de produtos com formulações diferentes. Portanto, dessas 21 moléculas podem surgir centenas de produtos. Veja a nossa ótica qual é, nós trabalhamos com remédios para plantas. Podem chamar de agrotóxico, por razões legais, nós entendemos e respeitamos a lei, embora a lei não seja respeitada quando determina que se deva aprovar uma nova molécula em 120 dias. Mas, de qualquer forma, remédio para plantas tem o foco de que a planta é um ser vivo, e de que ela precisa de proteção, inclusive, com rotação de produtos usados, para que se minimize o aparecimento de resistências em insetos. Ora, na medida em que a gente tem um marco regulatório ineficiente isso atinge e preocupa o produtor rural, além de trazer prejuízos a ele e também à indústria. Agro DBO – A Anvisa declarou em março último de que aprovou 19 produtos no primeiro bimestre de 2014, enquanto que no mesmo período de 2013 tinha aprovado 3, ou seja, afirma que acelerou os processos. Daher – Não há mérito nenhum nisso. Primeiro, é uma obrigação da administração pública. Em

segundo, fazendo uma conta objetiva, se a gente pegar 19 produtos e multiplicar por 6 bimestres teremos 114 aprovações no final deste ano. Isso é muito próximo ao número de aprovações de 2013, quando foram 110 aprovações, e é menor do que em 2012. Hoje temos 1.136 produtos com pedidos de aprovação tramitando na burocracia e por esse raciocínio levaríamos 10 anos ou mais para ter essas liberações, o que é inadmissível. Felizmente, o Governo Federal hoje reconhece isso e quer resolver o problema. Prova disso é que o novo ministro da Agricultura, Neri Geller, ao assumir o cargo no dia 18 de março, em pronunciamento público, colocou essa questão no seu discurso como prioridade, a necessidade de acelerar o processo de aprovação de novas moléculas para controlar os problemas que afligem os agricultores. Agro DBO – Qual é a explicação da Andef para as acusações de que no Brasil usamos produtos proibidos em outros países? Daher – A explicação é que, primeiro, a palavra “proibido” não é correta. Existem produtos em reanálise, e que a imprensa divulga como produtos proibidos. E isso existe também no Brasil. Uma segunda coisa é que a competência química e tecnológica, a propriedade intelectual de algumas dessas moléculas, de empresas europeias e americanas, é que lá eles não plantam muitas das nossas culturas e lavouras, e nem têm os mesmos alvos biológicos, sejam insetos, doenças ou ervas daninhas. Na Europa praticamente não se planta soja, e nem tem ferrugem da soja, lá não existe café e nem cana-de-açúcar, ou feijão e algodão, então, por que registrar produtos lá para esse controle? Na verdade, essa acusação é muito grave. Em audiências públicas, e isso tem a ver com o Marco Regulatório, deveria


A planta é um ser vivo, e precisa de proteção, com rotação de produtos, para que se minimize o aparecimento de resistências. se perguntar “que lavouras eles plantam e que problemas fitossanitários eles têm”. Não quero exigir a contrapartida, mas já afirmei publicamente que a questão deveria ser: se proibido lá, proibido aqui, então, por isonomia eu aceito o desafio, e eu quero saber se aprovado lá, é aprovado aqui também. Mas aí me falam, “não, isso eu não sei, a gente precisa fazer uma avaliação do caso brasileiro”. Fora isso, há casos em que na Europa ou EUA muitos produtos antigos foram substituídos por outros mais modernos, mas os modernos ainda não chegaram aqui, ainda estamos com os antigos e que lá fora já saíram de linha, e não se pediu um novo registro, e aí catalogam esses produtos como proibidos. Se se proíbe uma coisa, mas não se deixa outra mais moderna ocupar o mesmo espaço, acabamos rediscutindo o Endosulfan. Há ainda o caso das minor crops (Nota da redação: hortaliças, além de frutas tropicais), que acabam sendo dramaticamente prejudicadas. Nesses casos temos dezenas de solicitações de extensão de usos de produtos, já registrados em outras culturas, mas que têm uma morosidade incrível para liberação. Aí surgem as denúncias na mídia, e muitas vezes são mentiras montadas deliberadamente,

de que determinado alimento está contaminado por produto proibido ou irregular, e do qual o pimentão tem sido a maior vítima. Mesmo que tenham usado um agrotóxico autorizado para tomate. Agro DBO – Onde está o problema para as sucessivas denúncias de contaminação de alimentos por agrotóxicos? São críticas fundamentadas? Daher – São críticas não fundamentadas, porque se embaralham propositalmente as estatísticas. Estamos tomando providências para esclarecer e resolver isso. É claro que esse tipo de denúncia afeta a indústria, mas afeta também as redes de supermercados, as feiras-livres, gera pânico na dona de casa e, pior, traz prejuízos enormes ao pequeno produtor, que nada tem a ver com a denúncia. Inversamente ao que se diz, o Brasil é o 3º maior produtor de hortaliças do mundo, mas aqui se consome 1/3 do que se consome per capita na Espanha, por exemplo, em plena crise econômica. Ou seja, do ponto de vista da dieta e do consumo de hortaliças, estimula-se a população ao não consumo de hortaliças, isso é um crime, ao se embaralhar essas informações. Para piorar, como raciocínio, digo que essas denúncias atingem de forma mais C M

direta o pequeno agricultor, a chamada agricultura familiar, que o Governo Federal tenta estimular. Tem uma história incrível, de um produtor de pimentão daqui de São Paulo, que contou esse fato no Mapa, dois anos atrás. Ele disse que não precisa de ninguém para dizer se o pimentão dele é bom ou irregular, porque o primeiro consumidor desse pimentão é a própria família dele. Mas ele teve devolvido, pelo supermercado, dois caminhões cheios de pimentão, na semana posterior à denúncia, e o engradado de madeira dos pimentões valia mais quando vazio do que cheio. Esse produtor não quebrou, mas passou muitas dificuldades, enquanto outros quebraram. Não é justo isso. Aqui na Andef temos uma equipe permanente de especialistas para treinar gente em cooperativas, escolas e comunidades, através de cursos de treinamento, para o correto uso dos defensivos. Em contrapartida, o Governo Federal, ou mesmo os estaduais, não têm assistência técnica, com honrosas exceções (Nota da redação: a Epamig em MG, Acaresc em SC, Incaper no ES e Ascar no RS), e por isso surgem algumas notícias de mau uso, que nunca deveriam ser generalizadas, como faz a míforma sensacionalista. Ydia, CMdeMY CY CMY K

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Agrishow 2014

Novidades não vão faltar Agro DBO garimpou informações entre os expositores da 21ª mostra de Ribeirão Preto (SP), e antecipa alguns desses lançamentos. Richard Jakubaszko

T

udo indica que a 21ª edição da Agrishow de Ribeirão Preto (SP), que se realiza de 28 de abril a 2 de maio próximos, deve ser cheia de novidades para agradar a todos os visitantes, prevendo-se, ainda, recordes em vendas e de visitação, conforme anunciado pelo presidente da mostra, Maurílio Biagi Filho. Nesta reportagem Agro DBO registra algumas das novidades que o leitor poderá conhecer durante a mostra.

Aplicativo para uso de agrotóxicos

Pelo tablet ou celular, os agricultores brasileiros vão poder controlar a quantidade de agrotóxicos

52 | Agro DBO – abril 2014

aplicados na lavoura. A Embrapa desenvolveu um aplicativo denominado Gotas, para uso em dispositivos móveis, que visa facilitar o trabalho no campo. O Gotas é um programa de computador que auxilia a calibrar a deposição de pulverizações dos produtos fitossanitários, para que seja mais eficiente, evitando o desperdício. Já disponível em versão para computadores, que pode ser baixada pela internet, o Gotas agora terá uma versão mobile. Desenvolvido pela Embrapa Meio Ambiente (Jaguariúna, SP) e pela Embrapa Informática Agropecuária (Campinas, SP), o Gotas é de acesso gratuito. As duas versões

O Gotas é um aplicativo para controle de uso de agrotóxicos

estão disponíveis na Rede AgroLivre, no site https://repositorio. agrolivre.gov.br/projects/gotas Além dos programas, os produtores também terão acesso a um manual de uso, que orienta sobre especificações técnicas do software.


“O Gotas foi desenvolvido para auxiliar os agricultores a obterem parâmetros adequados de deposição de agrotóxicos nos alvos desejados”, explica o pesquisador Aldemir Chaim, da Embrapa Meio Ambiente, um dos idealizadores da ferramenta. A tecnologia é recomendada como uma das ações para o controle da Helicoverpa armigera, praga que vem causando sérios prejuízos à agricultura brasileira.

Monitoramento agrometeorológico

Para facilitar o monitoramento agrometeorológico da produção agrícola, a Embrapa Informática (Campinas, SP) e o Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura, da Universidade Estadual de Campinas (Cepagri/Unicamp) desenvolvem uma nova versão do sistema Agritempo www.agritempo.gov.br A pesquisadora da Embrapa Informática, Luciana Alvim Santos Romani, explica que a plataforma computacional é flexível: “além de recursos que vão permitir visualizar melhor o sistema em celulares e tablets, ele será apresentado em português, inglês, francês e espanhol”. O Agritempo é um sistema de monitoramento que permite acesso gratuito às informações meteorológicas e agrometeorológicas de todo o Brasil. Resultado de parceria entre várias instituições, é um consórcio que organiza e administra dados de um conjunto de mais

necessidade de altos conhecimentos técnicos, com baixa manutenção. A proposta é a irrigação de plantas no momento certo, evitando desperdício de água.

VANTs

de 1.400 estações meteorológicas espalhadas pelo País. Criado em 2003, o sistema está sendo aperfeiçoado para uma versão mais interativa, com novas funcionalidades. Entre os novos recursos tecnológicos destaca-se o uso de ferramentas de WebGis que permitem a geração personalizada de uma série de mapas de previsão e monitoramento, além de gráficos de dados históricos, de acordo com critérios selecionados pelo usuário, como período e região desejada.

Agritempo, plataforma computacional flexível, para celulares e tablets.

Embrapa Instrumentação mostra tecnologias

Sensores de baixo custo para irrigação, que permitem economia de mais de 50% no consumo de água, veículos aéreos não tripulados (VANTs) e softwares para gestão e monitoramento de culturas, são os destaques da Embrapa Instrumentação, de São Carlos (SP), na Agrishow. Os sensores podem ser utilizados por agricultores que cultivam plantas em vasos e em jardins. São simples e possibilitam o manejo de irrigação de forma direta, sem

A Embrapa vai mostrar dois modelos comerciais equipados com câmeras e transmissores, ferramentas utilizadas na captação de imagens de propriedades agrícolas. As imagens são usadas para facilitar o levantamento topográfico, obtenção de mapas detalhados da lavoura, identificar os pontos dos terrenos que estão sujeitos à erosão, localizar pragas na lavoura, detectar diversas deficiências, dentre outras. Os dados captados são analisados por softwares desenvolvidos pela Embrapa Instrumentação para processamento das imagens. Esses softwares estão disponíveis para download gratuito no site http://labimagem.cnpdia.embrapa.br/ Os programas já foram licenciados para uma empresa, que adicionou novas funcionalidades aos sistemas, e serão demonstradas para os visitantes.

AFSoft

VANTs, equipamentos de inspeção de lavouras serão cada vez mais comuns.

Software para análise foliar que permite analisar imagens digitais de folhas capturadas com a utilização de câmeras fotográficas digitais, scanners ou câmeras de vídeo. Possibilita a análise e quantificação automática de deficiências nutricionais, incidência de doenças e ataque de insetos em culturas, a partir da imagem digital da folha.

abril 2014 – Agro DBO | 53


Agrishow 2014 De acordo com Xavier, a IACSP97-4039 tem ampla adaptação em diversas regiões do Brasil. “Destaca-se por adaptar-se em todo o Centro-Sul do Brasil, com desempenho excelente para início de safra também nas regiões Centro-Oeste do País e Norte de São Paulo, em solos restritivos”, diz.

Feijão Milênio, o grande lançamento do IAC

Cana IAC duas novas variedades que devem surpreender

Feijão Milênio, deve ser a vedete do IAC.

FieldAgro

O FieldAgro é um software de coleta de dados georreferenciados e mapeamento da propriedade e cultura envolvida. Voltado para agricultura de precisão, pode ser utilizado junto a aeronaves quando o objetivo é obter imagens aéreas ou em máquinas agrícolas e veículos para captura de imagens em solo. Entre as aplicações estão a demarcação da propriedade, coleta de amostras georreferenciadas e inspeção e controle de operações.

Novas cultivares de cana IAC

Materiais têm alto teor de sacarose e mantêm alta produtividade durante toda a safra. Duas novas cultivares de cana-de-açúcar do IAC, Instituto Agronômi-

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Amendoim IAC OL3 com benefícios aos consumidores e agricultores

co de Campinas, foram lançadas em novembro de 2013. São a IACSP97-4039 e a IACSP96-7569. “As duas cultivares são precoces, portanto, de grande interesse para a indústria sucroenergética, que tem no início e no final da safra seus momentos mais críticos na qualidade de matéria-prima e da produtividade”, diz Marcos Guimarães de Andrade Landell, pesquisador e líder do Programa Cana IAC, da Secretaria de Agricultura do Estado de São Paulo. “A cultivar IACSP97-4039 tem perfil para mudar a história da cana no início da safra em razão da precocidade, da qualidade e do longo período útil de industrialização”, diz o pesquisador. Segundo o pesquisador do IAC, Mauro Alexandre Xavier, o alto teor de sacarose do início ao final da safra associado à alta produtividade atribui um perfil que normalmente não acontece com essa intensidade.

O diferencial da cultivar IAC Milênio não está restrito a uma característica, mas ao pacote tecnológico composto por qualidade de grão de alto padrão no mercado, com caldo espesso e alto rendimento de panela, alta produtividade, porte ereto, que viabiliza colheita mecânica, resistência à antracnose e à murcha de Fusarium. A qualidade do grão de alto padrão do IAC Milênio é a mesma do IAC Alvorada, lançado em 2008, que apresenta grãos claros e inteiros após o cozimento. Entretanto, o IAC Alvorada é suscetível à murcha de Fusarium e, por essa razão, hoje só é produzido em áreas novas do feijoeiro, onde não há infestação da doença ou em propriedades com alta tecnologia. O IAC Alvorada seria um dos feijões mais plantados no Brasil, se não fosse a suscetibilidade à doença. O IAC Milênio é recomendado para a época das águas (colheita de novembro até meados de janeiro) e da seca (colheita em março e abril) nos estados de São Paulo, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Mato Grosso do Sul. Em 2014, a recomendação será estendida para Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso e Rio de Janeiro. “Chegar à cultivar mil com um material de feijão, adaptado a várias regiões, é muito significativo para o IAC, por se tratar de um alimento muito presente na dieta do brasileiro, além de ser um grão carioca, o mais consumido no Brasil e que foi gerado pelo IAC”, avalia Carbonell.


Muita tecnologia embarcada poderá ser observada pelos visitantes na Agrishow, além das tradicionais demonstrações de campo. As sementes estarão disponíveis para as empresas multiplicadoras a partir do final deste ano.

Novo amendoim IAC com alto teor de ácido oleico

O material tem o dobro de vida útil na prateleira e contribui para o aumento do bom colesterol nos consumidores; é ainda 10% mais produtiva e ideal para o cultivo em rotação com a cana. A nova variedade de amendoim IAC OL 3, produz grãos com alto teor de ácido oleico, do produto e contribui para a redução da taxa de triglicérides. Os grãos da nova variedade desenvolvida pelo IAC são considerados “alto oleicos” porque apresentam 70% a 80% deste ácido. Nos materiais tradicionais, esse valor é de 40% a 50%. O amendoim IAC OL 3 tem produtividade média de 4.500 kg/ ha, com potencial produtivo para 7 mil kg/ha do produto em casca. O porte rasteiro do material permite a colheita mecânica, com o perfeito enleiramento das plantas na linha e sem a necessidade de mão de obra para a operação.

A Jacto renova a Adubadora Uniport 3000 NPK

“O modelo, tradicional na lavoura canavieira, ganha versão para as culturas de algodão e cereais com 15 linhas para aplicações de fertilizantes na entrelinha de plantios de 0,9 m de espaçamento”, informa Wanderson Tosta, Gerente de Planejamento de Produtos da Jacto. “As novas barras permitem aplicar fertilizantes na entrelinha das culturas ou aplicação em área total com o uso de defletores. Os pneus são mais estreitos (13,6 x 38”) do que os da versão para uso na lavoura canavieira e possuem abrelinhas, próprios para o trabalho nestas culturas”, informa. Outros benefícios do equipamento nas culturas de algodão e grãos são: Precisão na dosagem: os erros de dosagem ficam na casa de 1% contra 5% a 7% dos equipamentos a disco.  Facilidade operacional: calibração eletrônica com ajustes na dosagem do fertilizante a partir da cabine. Uniformidade de distribuição. Flexibilidade nas aplicações: a

Testes para pilotos virtuais são comuns na Agrishow

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aplicação de fertilizante é feita na entrelinha da cultura sem causar danos às plantas, ou em área total, bastando substituir os pingentes por defletores.  Taxa Variável: aplicações em taxa variável racionalizam o uso de insumo, diminuindo os custos de adubação por ha. Maior disponibilidade: vão livre de 1,35 m para cana e 1,25 m para algodão e grãos permite aplicações mais tardias sem causar danos às plantas. Ampliação da jornada de trabalho: com a aplicação do adubo usando o conceito de transporte pneumático, pode-se aplicar o mesmo quando há orvalho nas primeiras horas da manhã ou à

• A Uniport 3000 à esquerda e à direita o fruteiro da linha de tratores estreitos da Valtra

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Agrishow 2014

Enfardadeira da New Holland, importada da Bélgica

Carlito Eckert, promete na Agrishow a colheitadeira Classe 8, da Massey.

noite, e também sob a condição de ventos mais fortes, o que amplia a jornada de trabalho.

Valtra mostra portfólio de produtos

Na Agrishow, os visitantes poderão conferir de perto a Série A Geração II, Série A Fruteiro, o modelo BH180 Geração III e a plataforma Valtra HiTech BP Seed Pneumática.

Silosbolsa tornaram-se coqueluche no Brasil Central

A Valtra lança a segunda geração dos tratores da linha leve, a Série A GII e a Série A Fruteiro, com design mais moderno, produtos desenvolvidos para o segmento de tratores estreitos, agora com quatros modelos, o A650F (66CV), A750F (78cv), A850F (86cv) e o mais potente trator do segmento, o A950F de 95cv. “A Série A Fruteiro veio para mudar o conceito de tratores estreitos do mercado. Oferecem plataforma totalmente plana e alavancas laterais, que aumentam o conforto e facilidade na operação”, comenta Winston Quintas, do Marketing de Tratores da Valtra. A Valtra lança também a plantadeira série HiTechSeed Pneumática, cujo diferencial é a distribuição pneumática acoplada ao equipamento, evitando danos às sementes e melhor germinação para uma lavoura mais uniforme e produtiva. “Os implementos da série SEED são para agricultores que fazem adubação a lanço, não utilizando adubo no momento de semeadura”. Com isso, a máquina não precisa de reservatório de adubo e sobra mais espaço para o reservatório de sementes, que é maior nesta máquina.

New Holland lança enfardadora

A New Holland levará à Agrishow a enfardadora BigBaler 1290, fabricada na planta de Zedelgem, na Bélgica . “Esta enfardadora é adequada a todo o tipo de aplicação, tanto para a produção de feno e pré-secado quanto para o recolhi-

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mento da palha de cana-de-açúcar, basta escolher a configuração mais adequada”, explica o especialista de Marketing, Alison D’Andrea. Os fardos da BigBaler possuem seção de 120 x 90 cm podendo chegar a 2,50 m de comprimento. Se comparado ao modelo anterior, a enfardadora apresenta aumento de produtividade de até 20%, além de uma melhoria da densidade de até 5% dos fardos. Ela é indicada para o mercado de biomassa, grandes produtores e frotistas.

Silobolsa

A Ipesa do Brasil, pioneira do mercado de Silobolsa, participa pela primeira vez na Agrishow e realiza o lançamento de seu mais novo produto, o Ipesasilo Nova Geração. Segundo a empresa, é o único silobolsa do mercado composto por 5 camadas reforçadas e com versões de até 75 metros de comprimento. A linha de produtos Ipesa inclui ainda o IpesaSilo de 5 e 6 pés, o Silobolsa indicado para armazenamento de grãos úmidos e silagem; o IpesaSilo de 9 pés – para armazenamento de grãos secos e fertilizantes, e ainda o Ipesa Manta, lona de dupla face (branca e preta ) para cobertura de silagem em silos do tipo trincheira e de superfície.

Massey Ferguson mostra novo design

A Massey mostra o novo design dos tratores MF 4200 e a plantadeira MF 500 S, versão de plantadeira só sementes com dosador pneumático. Para Carlito Eckert, Diretor Comercial da Massey, as novidades vêm de encontro às necessidades do produtor rural brasileiro, que busca máquinas maiores e com tecnologia embarcada, sem se descuidar do conforto. A nova plantadeira MF 500 S, agrega a opção dos dosadores pneumáticos na versão somente para sementes. A série é apresentada com as novas linhas pneumáti-


cas de plantio, que oferecem trabalho eficaz mesmo em solos irregulares. “A principal característica é a precisão na deposição da semente, tanto em profundidade como no espaçamento entre as mesmas, garantindo maior uniformidade na germinação devido a um sistema de limitadores que garantem copiar as irregularidades do solo nas mais diversas condições”, explica Eduardo Amendola, Gerente de Marketing de Pulverizadores e Implementos da Massey Ferguson. Conforme nos adiantou um diretor da empresa, a Massey vai lançar na Agrishow a nova colheitadeira Classe 8 (para grãos).

especialista da Krone, o acessório PreChop utilizado é responsável por realizar uma picagem do material, antes do processo de enfardamento. “A granulometria média fica entre 50 e 70 mm, sendo o único processo que permite a queima simultânea do material, sem necessidade de rotores estacionários na Usina, explica o Diretor Comercial da marca no Brasil, Rafael Bouwman”.

Superflot Radial é destaque da Titan Pneus

LS Tractor

Por conta de um cenário favorável na safra de grãos 2013/14 André Rorato, diretor comercial da LS Mtron, empresa sulcoreana proprietária da marca de tratores LS Tractor, informou que a empresa vai apresentar os seus diferenciais tecnológicos e, pela primeira vez, toda a linha de produtos já nacionalizada, apta para ter financiamentos via Finame. Os modelos destacados para a feira são os P100, P 90 e P80 cabinado, P100, P90 e P80 R, U60 cabinado, U60, R60, R50 e G40.

Biomassa

O Grupo Bouwman que representa no Brasil a alemã Krone, com um reconhecido expertise internacional na produção de fardos para biomassa, para queima em fornos e substituição da madeira, lança na Agrishow a Big Pack 1290 HDP II sugar cane. Em uma usina paulista de cana, quatro máquinas modelo BiG Pack 1290 HDP XC equipadas com PreChop estão trabalhando para enfardar a palha da cana, resolvendo o problema de escassez e aumento do custo da matéria prima original, o bagaço, para geração de energia. Ao mesmo tempo, a usina livra-se do excesso de palhada no campo, fator causador de vários problemas na cultura. Segundo o

Pneu com menor compactação para todo tipo de máquina.

Indicado para transbordos de cana e implementos e eixos trativos de caminhão, novo modelo é ideal para reduzir a compactação do solo. A Titan Pneus – detentora da marca Goodyear Farm Tires – lança o Superflot Radial, desenvolvido para minimizar a compactação do solo causada por equipamentos agrícolas cada vez maiores e mais pesados. A Titan também apresentará os pneus radiais 710/70R38 DT924, para tratores acima de 140CV, 380/80R38 DT800, para pulverizadores autopropelidos, e o 600/65R28 DT824, utilizado tanto na dianteira de tratores como na traseira de colhedoras, além do novo modelo diagonal 400/60-15.5 Superflot II, indicado para implementos agrícolas e plantadoras. A redação da Agro DBO não recebeu em tempo de incluir nesta reportagem informações de diversos fabricantes que irão expor na Agrishow, mas apresentaremos essas novidades na edição de junho próximo.

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Análise de mercado

Os caminhos do arroz O fundamento de maior influência no comportamento dos preços na comercialização desta safra será a demanda por produto para exportação

C

omo se esperava, a comercialização da safra 2012/13 de arroz se caracterizou pela maior estabilidade dos preços no mercado doméstico. O Indicador Esalq/BM&FBovespa (posto Rio Grande do Sul) flutuou ao longo do ano dentro de uma faixa bastante estreita, entre R$ 36,90 (em 24/1/2014) e o piso em R$30,61/SC (em 26/3/2013). No ano anterior, esta diferença chegou a R$ 13,87 (entre R$ 25,52 e R$ 39,39). Esta menor volatilidade se deu pela consolidação de níveis de suporte e resistência fortes e por não ter havido nenhum choque de oferta ou de demanda capaz de provocar o rompimento de algum desses limites.

Tivemos uma safra em volume adequado para atender a demanda do mercado e, com o crescimento da cultura da soja como atividade complementar de tradicionais orizicultores, a oferta passou a ocorrer de forma mais equilibrada, reduzindo a pressão baixista nos primeiros meses do ano comercial. Ao mesmo tempo, a demanda internacional se manteve ativa ao longo de todo o ano, intensificando a sua participação em momentos de baixa e reestabelecendo a condição de equilíbrio. Entre outubro e dezembro do ano passado, 140 mil toneladas (base casca) por mês foram escoadas para o mercado externo e esse movimento chegou a motivar um período de

valorização, que logo perdeu fôlego à medida que o preço se aproximava de uma condição de inviabilidade para exportação. O governo federal foi sensato na sua intervenção. A oferta de estoque público ocorreu em momentos e intensidades estratégicas, desovando um produto que já passava a ser problema, num momento em que a dificuldade de abastecimento começava a ameaçar a continuidade do atendimento do mercado externo. Tendo Venezuela e Cuba como os principais destinos, o Brasil exportou 1,2 milhão de toneladas, 18% a menos em relação ao ano anterior, mas 235,5 mil toneladas acima do volume importado. Para

Trigo –

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Os valores continuaram firmes em março no mercado brasileiro, apesar da baixa liquidez. Segundo levantamento do Cepea, só havia lotes disponíveis para negociação no Rio Grande do Sul, obrigando a indústria a comprar no exterior. Boa parte dos triticultores – tradicionalmente, produtores de grãos em geral – preferiu se dedicar a colheita e venda de soja e milho, deixando o trigo para depois, à espera de preços ainda melhores. No curto prazo, a tendência ainda é altista.

* Em 17/3, o Indicador Cepea/Esalq registrou R$ 788,15 por tonelada, mercado disponível, à vista (o valor à prazo é descontado pela taxa NPR), posto Paraná.

ALGODÃO – Os preços entraram em queda em março e continuaram caindo até a terceira semana do mês. No dia 25, o Indicador Cepea/ Esalq contabilizava recuo de 2,35% na parcial mensal. A queda nos estoques norte-americanos e os problemas climáticos no Mato Grosso (excesso de chuva) e na Bahia (estiagem) podem prejudicar o desenvolvimento das lavouras, pressionando as cotações para cima.

* Em 17/3, o Indicador Cepea/Esalq registrou R$ 221,71 centavos de real por libra-peso.

soja – As cotações cairam em março, pressionadas pelo avanço na colheita, e os negócios refluíram. Segundo pesquisadores do Cepea, os vendedores evitaram negociações de pronta entrega, apostando na estocagem, no aumento da demanda e, por conseguinte, na venda a preços maiores. No final do mês, as cotações reagiram na Bolsa de Chicago, influenciadas por notícias de aperto nos estoques norte-americanos. No curto prazo, a tendência é altista.

* Em 17/3, o Indicador Cepea/Esalq/BM&FBovespa registrou R$ 72,24 por saca de 60 kg, posto Paranaguá, descontado o prazo de pagamento pela taxa CDI/Cetip.


Análise de mercado este ano, a tendência é de continuidade da relação equilibrada entre a oferta e a demanda, com preço médio ligeiramente superior ao registrado no ano anterior. Sem dúvida alguma, o fundamento que mais deve influenciar o comportamento do preço na comercialização desta safra será a demanda por produto para exportação. O escoamento de aproximadamente 4,7 milhões de toneladas (base casca) para o mercado externo nos últimos três anos foi fundamental para enxugar um excedente que estaria até agora pressionando negativamente os preços. Além de enxugar a oferta, a exportação tem se mostrado capaz de catalisar movimentos de alta nas cotações também por estabelecer referências altas nas praças próximas ao porto exercendo influencia inclusive nas negociações para o mercado doméstico. Neste ano, a expectativa é de que as dificuldades logísticas serão superadas e os embarques devem se

* Em 17/3, o Indicador Café Arábica Cepea/Esalq registrou R$ 469,91 por saca de 60 kg, bica corrida, tipo 6, bebida dura para melhor, posto cidade de São Paulo.

intensificar a partir de agora. Dados históricos têm mostrado que a balança comercial brasileira de arroz acumula saldos positivos em períodos de cotações inferiores a US$15.5 e a referência atual de preço em dólar vem oscilando entre US$14 e US$14,5. Três pontos precisam ser acompanhados com atenção: comportamento dos preços no mercado doméstico, câmbio e conduta comercial dos principais concorrentes. Na ausência de qualquer evento que cause um desequilíbrio muito grande na relação entre oferta e demanda, trabalhamos com a expectativa de preços flutuando entre US$ 13,5 e US$ 16, sendo está expectativa de valorização do preço médio no ano compensada pela tendência de valorização do dólar em relação ao real. Tiago Sarmento Barata Analista de mercado de arroz da Agrotendências Consultoria em Agronegócios

Arroz – O preços do arroz em casca seguiram trajetória de queda de fevereiro para março e continuaram em linha descendente, com ligeira reação na terceira semana do mês passado, apesar da pressão para baixo derivada da colheita, então em pleno vapor. De maneira geral, por necessidade de fazer caixa, os rizicultores gaúchos e catarinenses aumentam a oferta do produto entre março e abril, no auge da colheita, pressionando, portanto, as cotações. No curto prazo, a tendência continua baixista. No médio, o comportamento dos preços dependerá muito das exportações.

* Em 17/3, o Indicador Arroz em Casca Esalq/Bolsa Brasileira de Mercadorias – BM&FBovespa registrou R$ 33,69 à vista por saca de 50kg, tipo 1, posto indústria Rio Grande do Sul.

CAFÉ – As cotações do arábica entraram em março em alta – chegaram a R$ 469,91 em 17/3, como se vê no quadro ao lado. No entanto, perderam sustentação e despencaram. O Indicador Cepea/Esalq registrou R$ 393,91 no dia 26. Dada a demanda – e à perspectiva de baixa produção na safra em curso –, ainda há margem para reação no curto prazo. O comportamento dos preços só será definido, porém, quando as perdas na lavoura forem dimensionadas com exatidão. MILHO – Os preços reagiram no início de mar-

Fonte: Cepea – www.cepea.esalq.usp.br

* Em 17/3, o Indicador Esalq/BM&FBovespa r egistrou R$ 33,37 por saca de 60kg, descontado o prazo de pagamento pela taxa CDI/Cetip.

ço, mas depois seguiram em rota de queda – pelo menos até 26/3, data do fechamento da revista. O mercado trabalha, porém, com perspectiva de quebra na safra e na safrinha, em função da opção os produtores por soja ou algodão em sucessão à cultura de verão, o que pode elevar as cotações. Paralelamente a isso, a tendência é de leve valorização no mercado internacional e, consequentemente, preços melhores no mercado doméstico.

AÇÚCAR –

* Em 17/3, o Indicador Açúcar Cristal Cepea/Esalq registrou R$ 51,66 por saca de 50 kg, com ICMS (7%), posto São Paulo.

As cotações seguiram firme em março, com ligeira oscilação no final do mês. De maneira geral, o volume negociado no mercado spot paulista foi pequeno – o setor sucroalcooleiro ainda vivia a entressafra de cana. Algumas usinas começaram a moer, porém para atender prioritariamente a demanda por etanol – os preços do combustível seguiam trajetória de alta no mês passado. No curto prazo, as cotações do cristal devem continuar estáveis, com pequenas variações.

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Novidades no campo Semeadora para curvas de nível

A Kuhn mostrou na Expodireto Cotrijal 2014, realizada no mês passado em Não-Me-Toque (RS), vários modelos de semeadoras, uma das quais a PDM PG 1500 Flex, desenvolvida para lavouras que necessitam de curvas de nível com grande elevação. Segundo a empresa, o grau de articulação entre os módulos da máquina permite uma flutuação diferenciada em relação aos sistemas encontrados no mercado. Outra vantagem: a altura do ponto de articulação, com variação mínima no espaçamento das linhas. Essas características, associadas ao sistema pantográfico, possibilitam plantio uniforme nos terrenos mais acidentados. Por ser uma máquina leve, demanda menos potência do trator.

Cultivares da Biotrigo chegam ao campo

Também presente na Expodireto, a Biotrigo apresentou três novas cultivares de trigo – TBIO Mestre, TBIO Alvorada e TBIO Sinuelo –, lançadas no ano passado, mas que só agora estão chegando às mãos dos agricultores. A Mestre, de alto rendimento e excelente qualidade industrial, é descendente de um trigo americano, reconhecido mundialmente pela sua qualidade industrial. A Alvorada une o ciclo precoce à alta produtividade e qualidade, com ótima resistência a giberela e germinação na espiga. A Sinuelo se destaca pela excelente sanidade e segurança, ciclo mais longo, resistência a acamamento e o mais elevado rendimento de grãos do mercado, segundo a empresa.

Combate à ferrugem asiática

Lançamento recente da Syngenta, o fungicida Elatus tem como base a nova molécula Solatenol, também desenvolvida pela empresa, misturada com o fungicida Amistar. Conforme André Savino, Diretor de Soja da Syngenta, a nova tecnologia oferece um modo de ação de amplo espectro e excelente controle sobre a ferrugem asiática. “Os extensivos testes que realizamos mostram que o Elatus proporciona ganhos e benefícios impressionantes”, afirmou. Segundo ele, o novo fungicida é parte fundamental do portfólio de soluções integradas da empresa. “É uma das mais importantes inovações já produzidas para o controle da ferrugem asiática na soja”.

Armadilha solar contra lagartas

Pesquisadores da UFRB – Universidade Federal do Recôncavo da Bahia criaram a “Armadilha Solar Autônoma” para combater a Helicoverpa armigera e outros insetos-praga. Conforme o professor Denes Vidal, um de seus idealizadores, o invento tem vida útil de 11 anos e não exige manutenção frequente, bastando trocar a bateria a cada 18 meses. “É um capturador de insetos que utiliza energia solar para carregar uma bateria que, por sua vez, aciona uma lâmpada que atrai insetos. Atualmente, as armadilhas luminosas utilizam energia elétrica para acionar a lâmpada, o que limita o seu uso, uma vez que precisam de fios condutores”, explica o professor. De acordo com ele, sua armadilha cobre 100 hectares. O custo de instalação é de R$ 6 mil, com garantia de 25 anos.

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Pneu “garra-sete” arrozeiro

A Titan Pneus, detentora da marca Goodyear Farm Tires, apresentou na Expodireto Cotrijal a nova medida 18.4-26 do modelo Super Arrozeiro II, desenvolvida para tratores, colheitadeiras e implementos de áreas alagadas. De acordo com Leandro Pavarin, gerente de vendas da empresa no Brasil, o desenho da banda de rodagem, do tipo “garra-sete”, facilita a autolimpeza e reduz a patinação, proporcionando maior agarre e alto torque em solos inconsistentes, o que contribui para a redução do consumo de combustível. Em sua opinião, tais características são fundamentais para que o produtor possa aproveitar toda eficiência das máquinas na lavoura de arroz. Completam a linha as medidas 14.9-24 e 23.1-26 do Super Arrozeiro e 18.4-30 e 20.8-38 do Super Arrozeiro II, para várias aplicações na cultura do arroz.


Realização

CO OPA - DF

Feira Internacional dos Cerrados

O Mundo do Agronegócio NO CORAÇÃO DO BRASIL Novidades tecnológicas Empresas de insumos agrícolas e pecuários, máquinas e implementos agrícolas

13 a 17

maio 2014

Instituições nacionais e internacionais Pavilhão internacional

Entrada franca BR 251 km 05 PAD-DF - Brasília - DF

Seminários e eventos técnicos

Espaço de Valorização da Agricultura Familiar - EVAF

Rodada internacional de negócios

Instituições financeiras

Dia de Campo sobre Tecnologias ABC

www.agrobrasilia.com.br

Coordenação

Patrocínio

CO OPA - DF

BANCO DE BRASÍLIA

Apoio

Secretaria de Agricultura e Desenvolvimento Rural

Ministério do Desenvolvimento Agrário

Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento


Biblioteca da terra Micropropagação de plantas

Atlas de solos

Quatro anos após a publicação da primeira edição, a Embrapa Mandioca e Fruticultura apresenta nova edição do livro Aspectos práticos da micropropagação de plantas, redigido por 37 profissionais, com edição técnica dos pesquisadores Tatiana Góes Junghans e Antônio da Silva Souza. A obra aborda protocolos da micropropagação de espécies de importância socioeconômica como abacaxi, açaí, banana, mandioca, uva, cana-de-açúcar, helicônias, antúrios e orquídeas, bem como estruturação e organização de biofábricas. Com 407 páginas, custa R$ 50,00, mais as despesas de postagem. Os interessados devem contatar a Embrapa através do fone (61) 3448-4236 ou do site www.embrapa.br/livraria.

Resultado de parceria entre cientistas de vários países

(o conteúdo relativo ao Brasil foi produzido pela Embrapa Solos), o Atlas de Solos da América Latina e Caribe apresenta a diversidade de solos no continente e nas ilhas caribenhas, a relação entre os tipos de solos e as funções que eles exercem, as inter-relações com o clima nas respectivas regiões, o papel do solo na segurança alimentar, estratégias para preservação e conservação. Mais da metade dos 576 milhões de hectares de terra arável na América Latina são afetados por processos de degradação por desmatamento, exploração excessiva e alterações climáticas, entre outras causas.

Tudo sobre o mamoeiro

Outra publicação da coleção 500 Perguntas 500 Respostas, o livro relaciona as principais dúvidas sobre mamão. Todas as questões foram coletadas em feiras agropecuárias, seminários, dias de campo e por meio de cartas e mensagens eletrônicas enviadas ao SAC – Serviço de Atendimento ao Cidadão da Embrapa Mandioca e Fruticultura por produtores rurais, estudantes, técnicos e profissionais. Em sua segunda edição, o livro tem 170 páginas e custa R$ 12,60, além dos gastos com Correio. Os pedidos devem ser encaminhados à Livraria Embrapa através do fone (61) 34484236 ou via site: www.embrapa.br/livraria.

O Atlas foi feito para o público

Aromáticas e condimentadas

em geral, educadores e autoridades públicas que lidam com assuntos re-

lacionados ao meio ambiente, agricul-

Lançamento recente da Embrapa Hortaliças, o livro Plantas Aromáticas e Condimentares – Uso Aplicado na Horticultura divide-se em quatro capítulos. O primeiro trata das características morfológicas, químicas e da diversidade de uso destas plantas. O segundo, da propagação e cultivo. O terceiro aborda procedimentos nos períodos de coleita e pós-colheita. O último, aspectos relacionados à extração, composição química, mercado e aplicação de óleos essenciais. Com edição técnica a cargo das pesquisadoras Lenita Lima Haber, bióloga, e Flávia Maria V. T. Clemente, agrônoma, o livro está disponível para venda na Embrapa Informação Tecnológica. Acesse www.vendasliv.sct. embrapa.br ou ligue para (61) 3448-4126 e/ou (61) 3448-4008.

tura e sociedade. Repleto de mapas e ilustrações coloridas, está disponível para download em www.eusoils.jrc. ec.europa.eu/library/maps/LatinAmerica_Atlas/Documents/LAC.pdf. Pedidos de cópias impressas podem ser encaminhados à livraria da União Europeia via site: www.bookshop.europa.eu/en/home.

Proteção de plantas

Organizado pelos professores Edson Luiz Lopes Baldin, Ricardo Toshio Fujihara, Adriana Zanin Kronka e Eduardo Negrisoli, e pelas pós-graduandas Patrícia Leite Cruz e Amanda Rodrigues de Souza, o livro Tópicos Especiais em Proteção de Plantas atualiza conhecimentos científicos em entomologia, fitopatologia, nematologia e tecnologia de aplicação de defensivos. Além da apresentação de agentes prejudiciais às lavouras, traz técnicas auxiliares em diagnose e manejo fitossanitário, respeitando-se os limites entre a eficiência almejada e a preservação dos agroecossistemas. Com 164 páginas, custa R$ 25.00. Para comprá-lo, basta entrar em contato com a Fepaf – Fundação de Estudos e Pesquisas Agrícolas e Florestais pelo e-mail publicacoes@fepaf.org.br.

abril 2014 – Agro DBO | 63


Calendário de eventos

ABRIL

7

12º TecnoShow Comigo

De 7 a 11 – Rio Verde (GO) Fone: (64) 3611-1650 E-mail: secretariageral@ tecnoshowcomigo.com.br

8

5º SNTM/Seminário Nacional de Tomate de Mesa

– De 8 a 9 – Campus Taquaral/

Teatro Unimed (Rodovia do Açúcar, Km 156) – Piracicaba (SP) Fone: (62) 3241-3939 E-mail: tomate@wineventos.com.br

13

7ª Parecis SuperAgro – De 13 a 16 – Campo Novo do Parecis (MT) – Fone: (65) 3382-2491 Site: parecissuperagro.com.br

22

Sucronor/6ª Mostra Sucroenergética da Região Nordeste – De 22 a

25 – Centro de Convenções de Pernambuco – Olinda (PE) – Site: www.sucronor.com.br – E-mail: contato@reedmultiplusnews.com.br

23

15º Encontro Nacional de Micotoxinas – De 23

a 25 – Anfiteatro da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos da Universidade de São Paulo – Pirassununga (SP) Fone: (19) 3422-2755 E-mail: cdt@fealq.org.br

23

7º Simpósio Nacional de Biocombustíveis – De 23

Site: www.fenasoja.com.br E-mail: fenasoja@fenasoja.com.b

MAIO

6

Agrotins/14ª Feira de Tecnologia Agropecuária do Tocantins – De 6 a 10 Centro Agrotecnológico – Palmas (TO) – Fone: (63) 3218-2112 Site: www.agrotins.to.gov.br E-mail: agrotins@seagro.to.gov.br

13

Senace 2014/XXVI Seminário Nacional de Cebola e XVII Seminário de Cebola do Mercosul – De 13 a 15

– Mansão Country House – Brasília (DF) – Fone: (19) 3243-0396

13

AgroBrasília 2014/7ª Feira de Tecnologias e Negócios – De 13 a 17 – Parque Tecnológico Ivaldo Cenci (BR-251, km 5, sentido BrasíliaUnaí – Brasília (DF) – Fone: (61) 3339.6516 – Site: www. agrobrasilia.com.br – E-mail: agrobrasilia@agrobrasilia.com.br

19

3º Encontro Brasileiro de Silvicultura – De 19 a

20 – Royal Palm Plaza – Campinas (SP) – Site: www.expoforest.com. br/silvicultura

20

Fenarroz 2014/Feira Nacional do Arroz – De 20 a 25 – Parque de Exposições

a 25 - Centro de Eventos do Hotel Paiaguás – Cuiabá (MT) Fone: (21) 2224-4480 E-mail: abqeventos@abq.org.br

Ivan Tavares – Cachoeira do Sul (RS) – Fone: (51) 3722-2425 – Site: www.fenarroz.com.br E-mail: fenarroz@fenarroz.com.br

25

21

Fenasoja/20ª Feira Nacional da Soja – De

25 a 4/5 – Parque Municipal de Exposições Alfredo Leandro Carlson – Santa Rosa (RS)

64 | Agro DBO – abril 2014

Expoforest 2014/Feira Florestal Brasileira – De 21 a 23 – Mogi-Guaçu (SP)

-Fone: (41) 3079-1088 – E-mail: expoforest@expoforest.com.br

28 – Agrishow 2014/Feira Internacional de Tecnologia Agrícola em Ação – De 28/4 a 2/5 – Polo Regional de Desenvolvimento Tecnológico dos Agronegócios do Centro-Leste – Ribeirão Preto (SP) – Fone: (11) 3017-6807 – E-mail: visitante.agrishow@ btsmedia.biz Maior feira agrícola da América Latina – e uma das maiores do mundo, com 440 hectares de área – a Agrishow aperfeiçoou este ano a sistemática de regionalização adotada na edição passada, agrupando expositores de um mesmo segmento de mercado, de forma que os visitantes – agricultores, agrônomos, pesquisadores, empresários, qualquer pessoa interessada, enfim – não percam tempo. Promovida pela Abag, Abimaq, Anda e SRB, é a principal vitrine do agronegócio brasileiro, palco de lançamentos de equipamentos, tecnologias e da tradicional dinâmica de campo – demonstrações práticas de máquinas e implementos. Em 2013, a Agrishow movimentou R$ 2,6 bilhões em vendas, valor 15% superior ao de 2012, reuniu 790 marcas expositoras e atraiu 150 mil visitantes do país e do exterior.

27

Bahia Farm Show/10ª Feira de Tecnologia Agrícola e Negócios – De 27 a 31 – Complexo Bahia Farm Show – Luís Eduardo Magalhães (BA) – Site: www.bahiafarmshow.com.br – E-mail: aiba@aiba.org.br

28

Hortitec 2014/21ª Exposição Técnica de Horticultura, Cultivo Protegido e Culturas Intensivas – De 28

a 30 – Expoflora – Holambra (SP) Fone: (19) 3802-4196 Site: www.hortitec.com.br E-mail: (19) 3802-4196

29

Seminário Nacional de Aviação Agrícola.- De 29

a 30 – Aeroporto Municipal Nero

Moura – Cachoeira do Sul (RS) Fone: (51) 8182-1716 E-mail: babila@aviacaoagricola.com

JUNHO

3

VI Simpósio Sul de PósColheita de Grãos – De 3 a 6 de junho – Associação Atlética e Recreativa Alfa-Aara – Chapecó (SC) – Fone: (43) 3345-3079 – Site: www,abrapos.com.br – E-mail:abrapos@abrapos.org.br

5

Bio Brazil Fair/Biofach América Latina/10ª Feira Internacional de Produtos Orgânicos e Agroecologia

De 5 a 8 – Pavilhão da Bienal Cicillo Matarazzo – São Paulo (SP) Site: www.biobrazilfair.com.br E-mail: biobrazilfair@francal.com.br

24

Fispal Café/9ª Feira de Negócios para o Setor Cafeeiro – De 24 a 27 Expo Center Norte – São Paulo (SP) – Site: fispalcafe.com.br E-mail:visitante.fc@btsmedia.biz


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abril 2014 – Agro DBO | 65


Legislação

Holding agropecuária Existem formas seguras de conduzir a sucessão familiar e a transmissão de patrimônio a herdeiros reduzindo custos e impostos. Fábio Lamonica Pereira *

T

em sido frequente a realização de cursos e palestras que tratam de temas relativos à proteção patrimonial, transferência do legado ainda em vida, formas de sucessão do negócio familiar etc. Nesse contexto é possível eleger uma forma segura e prática de gerir o patrimônio familiar por meio da criação de uma empresa conhecida como holding de caráter familiar ou agropecuário, sendo esta a atividade principal.

trato de arrendamento de uma área rural para determinado sócio. Entretanto, alguns cuidados devem ser tomados (sempre com o auxílio de um contador experiente). Havendo incorporação de determinado bem imóvel por valor maior que o de aquisição haverá incidência de ganho de capital de 15% sobre a diferença apurada. Quanto ao Imposto de Transmissão de Bens Inter vivos – ITBI, em regra não há incidência para a integralização do capital social. A

Em caso de morte, a transmissão dos bens estará total ou parcialmente efetivada.

*O autor é advogado, especialista em Direito do Agronegócio

Trata-se de processo previsto em lei e comumente utilizado por grupos empresariais e também por famílias que pretendem utilizar os diversos benefícios legais para a organização e otimização de seu negócio. Com a crescente profissionalização das atividades relacionadas ao agronegócio, torna-se interessante a análise de viabilidade de utilização de tal modelo. Na prática, a família cria uma empresa. O capital da sociedade é integralizado com o patrimônio transferido pela família (bens imóveis, móveis etc.). O contrato social é elaborado de maneira que sejam estipulados os poderes de administração, função e remuneração de cada um dos sócios. Tanto os pais quanto os filhos passam a integrar o capital social detendo determinada quantidade de cotas da empresa, participando nos resultados. Com tal estrutura é possível, por exemplo, que a sociedade firme con-

66 | Agro DBO – abril 2014

exceção se dá quando a atividade principal da empresa estiver voltada para a “venda ou locação de propriedade imobiliária ou a cessão de direitos relativos à sua aquisição”. Deve-se observar a legislação de cada município. Há incidência de Imposto de Renda, cuja alíquota depende do enquadramento societário, que, todavia, é significativamente menor que a tributação devida pela pessoa física. A sociedade ainda fica obrigada ao pagamento de valores devidos em função do Programa de Integração Social – PIS e Contribuição para Financiamento da Seguridade Social – COFINS e Contribuição Social Sobre o Lucro Líquido – CSLL. O Imposto sobre Transmissão Causa Mortis e Doação – ITCMD é calculado sobre o valor da cota, observada a legislação pertinente a cada Estado.

Em caso de morte, contudo, a transmissão dos bens estará total ou parcialmente efetivada, o que reduzirá as complicações relativas ao processo de inventário. O contrato social deverá, todavia, obedecer às regras do Direito de Família quanto à distribuição patrimonial. Nesse sentido, os pais devem reservar o usufruto vitalício bem como tomar o cuidado de inserir estipulações que assegurem o controle da sociedade e preservem o patrimônio transmitido pelo prazo ali estipulado, como cláusulas de impenhorabilidade (o bem não pode ser penhorado), incomunicabilidade (o bem fica restrito ao patrimônio do beneficiário) e inalienabilidade (que o bem não pode ser alienado por determinado tempo). A fim de preservar a continuidade da atividade familiar é preciso fazer constar do contrato regras claras quanto à transferência de cotas, especialmente em relação a terceiros. Assim, desde que seja formada uma estrutura social coesa e que observe as características e necessidades dos sócios, a administração patrimonial por meio de uma holding pode levar a grande economia quanto ao pagamento de impostos, aumento da transparência e efetividade da gerência patrimonial; com isso, há um planejamento sucessório com redução de possíveis atritos entre herdeiros, além da possibilidade de efetiva proteção patrimonial. Outras formas legais e relevantes são ainda comentadas no livro “Meu filho, um dia tudo isso será teu”, da Editora UFV – Universidade Federal de Viçosa-MG.


Agro ed 54  

Revista Agro DBO - Ed 54 - Abril/2014

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