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Sumário

8 Energia

Evaristo de Miranda alerta, em Ponto de Vista, sobre a revolução mundial provocada pelo gás de xisto e seu impacto na matriz energética atual.

20 Manejo

Especialistas recomendam aos produtores rurais a adoção de culturas opcionais ao milho no planejamento da safra de inverno.

38 Safra

Mato-grossenses soltaram as plantadeiras em setembro, abrindo os trabalhos de plantio da safra 2013/14 de grãos no país.

42 Soja

Começou a colheita nos lavrados de Roraima, o estado mais setentrional do Brasil, com grande parte das lavouras situadas no hemisfério norte.

26 46 Café

Matéria de capa

Bem mais produtiva do que a convencional, embora mais cara, a agricultura irrigada cobre áreas cada vez maiores no Brasil e só não se expande mais por causa das restrições ambientais e dificuldades para obtenção de outorga de uso da água.

A competitividade crescente no mercado exige uma análise minuciosa da atividade, principalmente nos itens de maior custo.

48 Entrevista

Um dos maiores produtores de algodão do país, Walter Horita fala dos preparativos para a próxima safra e do mercado futuro da soja e do milho.

Artigos 44 – Rogério Arioli lamenta o fato de o Brasil não tratar o campo com respeito 45 – Ulisses Antuniassi reclama dos preconceitos contra a aviação agrícola 53 – Décio Gazzoni defende o monitoramento das metas do Plano ABC 54 – Daniel Glat analisa o potencial do Brasil como produtor de alimentos 68 – Fábio Lamonica recomenda atenção ao texto em contratos internacionais

Seções Do leitor............................................................. 4 Ponto de vista.................................................. 8 Notícias da terra............................................10 Opinião.............................................................36 Política...............................................................50

Deu na imprensa..........................................56 Análise de mercado.....................................58 Novidade no campo....................................60 Calendário de eventos................................62 Biblioteca da terra.........................................63 outubro 2013 – Agro DBO | 3


Do Leitor

BAHIA Excelente! A melhor publicação destinada ao agronegócio do Brasil. Parabéns! Adailson H.M. de Oliveira Itabuna MARANHÃO Um banho de conhecimento no profissional agrário. Sandy Rachel Gusmão Pereira São Luis É uma revista simples, direta no conteúdo, muito interessante. Ezídio Kohler Alto Parnaíba MATO GROSSO É muito atraente e traz dados atualizados sobre o agronegócio. Luiz Paulo Anese Querência MATO GROSSO DO SUL Muito bem feita, bastante completa e informativa ao leitor. Rodrigo Elias de Oliveira Dourados MINAS GERAIS O assunto bioestimulantes não é novo, mas a matéria na revista Agro DBO é. Traz informações importantes do setor, representado aqui no Brasil pela Abisolo. Na Europa, a entidade que comanda o setor e representa 28 empresas fundadoras chama-se Ebic (European Biostimulants Industry Council), mais conhecido por Consorcio Europeu da Indústria de Bioestimulantes. Em

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novembro passado, o Ebic realizou seu primeiro congresso mundial na França, apresentando novidades científicas e tecnológicas. Um passo importante foi definir e normatizar produtos e efeitos. Uma das normas estabelece oito principais categorias de bioestimulantes, segundo Patrick Du Jardin (2012): algas, aminoácidos, antitranspirantes, complexo organo-minerais, elementos químicos benéficos, minerais inorgânicos (fosfitos), quina e quitosano, substâncias húmicas. De todos, os mais promissores são: algas, ácidos húmicos, aminoácidos, ácido salicílico e silicatos. As principais funções dos bioestimulantes são: 1 – melhorar a resistência a estresse abiótico; 2 – potencializar as defesas da planta contra pragas e doenças; 3 – melhorar a nodulação; 4 – melhorar o crescimento de raízes e brotos; 5 – aumentar a floração; 6 – melhorar o rendimento; 7 – melhorar o desenvolvimento radicular e absorção mineral. Considerando minha experiência profissional (no Brasil e na América Central), posso afirmar que há bons resultados a campo com enraizadores e uso de fosfitos com cobre, potássio, zinco, etc. Estes produtos melhoram o vigor, aumentam a resistência a patógenos quando aplicados junto com fungicidas e nutrem a planta. No caso de algas, contêm vários tipos de hormônios naturais, vitaminas, aminoácidos, nutrientes e outros compostos. João Romero Ouro Fino NR: O leitor se refere à matéria “Tecnologias e milagres”, publicada na edição de setembro, sobre avanços notáveis em nutrição de plantas. Um dos entrevistados, José Guerra, presidente da empresa LBE Biotecnologia, sediada em São José (SC), trabalha com síntese de aminoácidos, usando moléculas de produtos orgânicos. Esta seção traz comentário dos professores Fernando Penteado Cardoso e Odo Primavesi sobre o assunto. Trata-se de uma revista bastante interessante, a qual aborda com bastante precisão assuntos de grande importância no cenário agrícola. Paulo Sérgio Mariano Bueno Brandão

PARANÁ Ótima revista, com atualização de tudo o que está ocorrendo na área rural no país e no exterior. Ravely Coltre dos Santos Juranda Sou estudante de agronomia na Universidade Estadual de Londrina e filho de produtor rural. Acho a revista muito interessante, pois aborda os principais assuntos do agronegócio, com informações atualizadas e concretas, as quais auxiliam profissionais, estudantes e produtores e nos mantêm informados sobre o agronegócio globalizado. Felipe Hugo Mossini Londrina PIAUÍ Gosto muito de revistas que fazem uma abordagem mais técnica e profunda, como é o caso da Agro DBO. Jailson de Sousa Lima Floriano RIO GRANDE DO SUL Acho (a revista Agro DBO) muito interessante. Possui um enfoque nos principais assuntos que estão em pauta na área agrícola. Isabel Fernandes Burtet Ijui RONDÔNIA Muito boa, com assuntos atuais e muita informação relevante. Douglas Idalgo da Silva Rolim de Moura SÃO PAULO Segundo o prof. Mello Moraes, meu professor de química agrícola na Esalq em 1935, o processo de síntese da amônia é o maior invento da humanidade, pois veio assegurar a alimentação de vários bilhões de seres humanos. Haber & Bosch conseguiram juntar um átomo de nitrogênio com três de hidrogênio em ambiente de altíssima temperatura e pressão, na presença de platina (ou substituto moderno). Curioso é que seus inventores estavam procurando um nitrato sintético que substituísse o natural, até então indispensável para fabricar pólvora e ganhar guerras. Só que essa fabulosa reação química acontece sem rumor no ambiente da clorofila, a partir dos gases atmosféricos contendo carbono e oxigênio, da


água contendo hidrogênio, de alguns nutrientes vindos do solo e da energia na forma de luz solar. Poucos se dão conta do esforço gigantesco que vem sendo dispendido para reproduzir a fotossíntese, até agora sem sucesso, a não ser o mencionado maior invento da amônia.  Se o cristianismo admite os milagres do maná e do vinho, então tudo é possível para os crentes, sendo lícito admitir que, de repente, os cientistas venham a reproduzir em laboratório o processo natural da fotossíntese, seja como invento humano ou como milagre. Fernando Penteado Cardoso São Paulo Conheci a revista numa cooperativa, gostei da linha editorial e, principalmente, do conteúdo técnico das matérias. José Carlos Muniz Assis Toda tecnologia para funcionar bem necessita de uma planta bem estabelecida. Ou seja, um solo com condições mínimas de matéria orgânica diversificada, nutrientes e aeração. Em hidroponia, bom manejo de temperatura e umidade do ar e um balanço adequado de nutrientes e o fornecimento continuo de oxigênio. Já testei algas (de uma empresa canadense) em 1975 (teve resultados em café em viveiro), trabalhei com adubos foliares (nos anos 70), contendo aminoácidos (na Basf), e vi resultados de substancias húmicas, em trabalhos realizados na Espanha, nos anos 60-70. Já testei micro-organismos (produto austríaco, no inicio dos anos 70) para inocular sementes e fixar N de forma não simbiótica (sim, não simbioticamente; esses micro-organismos de vida livre existem naturalmente em solos biologicamente ativos, ou em todas as partes vivas da planta). Em realidade, com bom manejo de solo, manejo de material orgânico diversificado, rotações de cultura e tudo o mais que a técnica agronômica atual recomenda, cria-se condições de umidade e temperatura e de pH adequados para que micro-organismos (incluindo algas cianofíceas ou azuis) atuem de forma adequada, quelatizando nutrientes (com aminoácidos e outras substancias orgânicas), melhorando a nutrição das sementes e das plantas, e dando

condições às plantas reagirem extraordinariamente à aplicação de insumos foliares em períodos de estresse ambiental (como veranicos, geada). Assim, esses produtos podem trazer resultados extraordinários, e em outros casos ausência de resultados, ou mesmo resultados negativos (embora o efeito, por exemplo, do adubo foliar, tenha sido positivo. Explico: Em período de veranico prolongado, o adubo foliar que apliquei estimulou a retenção de flores e frutinhos em café e soja (adubo nitrogenado em soja), e a produção piorou - menor peso de 1000 sementes, ou a planta de café morreu de seca fisiológica). Faltou dar continuidade ao tratamento e mais ainda, condições adequadas de manejo de solo e raízes em profundidade. Um fato que precisa ser lembrado é que o uso intenso de fertilizantes, reduz o volume radicular (efeito de salinidade, falta de necessidade da planta explorar mais solo para encontrar nutrientes e outros) e, em caso de estresse como veranico, geralmente ocorre um desequilíbrio na parte aérea/volume radicular e a planta sofre ou mesmo seca. A saúde do sistema radicular é primordial. Odo Primavesi São Paulo Queria parabenizar a revista pelo artigo Campo Vazio, da edição de agosto de 2013. O autor (o articulista Rogério Arioli Silva, agrônomo e produtor rural em Mato Grosso) consegue claramente expor as dificuldades do homem do campo e ainda enfocar um novo aspecto, que é o respeito ao direito de propriedade que o governo atual insiste em desrespeitar. Obrigado pelo espaço e parabéns pela revista, que já considero a melhor no segmento. Bruno Bonafini Jaboticabal TOCANTINS Já recebi várias edições da Agro DBO. Acho uma revista fantástica, sempre nos trazendo as mais novas tecnologias e notícias sobre o mundo agro. João Paulo Matos Bezerra Brejinho de Nazaré AgroDBO se reserva o direito de editar/resumir as mensagens recebidas devido à falta de espaço.

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Carta ao leitor

M

udanças podem ser boas ou ruins. Trazemos informações consistentes na presente edição da Agro DBO que podem ser preocupantes para uns e estimulantes para outros. Trata-se da evolução e entrada no mercado do gás de xisto, a nova e mais barata fonte de energia fóssil, que já provocou perdas nos preços do carvão, ameaça o petróleo no médio prazo, e também o etanol de milho nos EUA, além do nosso etanol de cana. O leitor encontrará detalhes dessas perspectivas no artigo “Descréditos de carbono”, de Evaristo de Miranda e na entrevista exclusiva com o produtor Walter Horita. Como matéria de capa, Agro DBO traz uma interessante e profunda análise sobre a irrigação no Brasil, autoria do jornalista José Maria Tomazela, e de como os ambientalistas e órgãos de regulação e fiscalização dessa área andam tratando os agricultores. Na reportagem do jornalista Ariosto Mesquita, “Hora de diversificar” o leitor encontrará alternativas para o plantio de grãos de inverno, no ano que vem, pois tudo o que se fizer nesta safra de verão poderá direcionar novos caminhos na safrinha. A jornalista Marianna Peres assina a reportagem sobre as perspectivas de diversos produtores do Brasil Central para a próxima safra de verão, e quais as estratégias de plantio que cada um tem projetado para enfrentar as inúmeras dificuldades, como ataques das pragas e os altos custos de produção. O jornalista Glauco Meneguethi descobriu e nos reporta que em Roraima começaram a colher a soja agora em setembro, plantada em abril/ maio deste ano, pois lá eles estão no Hemisfério Norte. Já o engenheiro agrônomo Hélio Casale nos mostra o “Safra zero” no café, uma estratégia de poda radical no cafezal para reduzir em termos definitivos as agruras da bienalidade da rubiácea. Portanto, informação de qualidade e atualidade para o leitor, análise abalizada, “escrita por quem é do ramo para quem também é do ramo”. Conteúdo que, esperamos que você, leitor, valorize aderindo ao sistema de assinatura paga da Agro DBO, implantado desde duas edições atrás. Sua adesão ao sistema pago é a garantia de continuar recebendo a revista em casa, com informações que valem a pena ler. Aos que desejarem manifestar suas opiniões sugerimos enviar e-mail para redacao@agrodbo.com.br

é uma publicação mensal da DBO Editores Associados Ltda. Diretor Responsável Demétrio Costa Editor Executivo Richard Jakubaszko Editor José Augusto Bezerra Conselho Editorial Décio Gazzoni, Demétrio Costa, Evaristo Eduardo de Miranda, Hélio Casale, José Augusto Bezerra e Richard Jakubaszko Redação/Colaboradores Ariosto Mesquita, Daniel Glat, Décio Luiz Gazzoni, Evaristo Eduardo de Miranda, Fábio Lamonica Pereira, Glauco Menegheti, José Maria Tomazela, Marianna Peres, Paulo Molinari, Rogério Arioli Silva e Ulisses Antuniassi. Arte Editor Edgar Pera Editoração Edson Alves e Célia Rosa Coordenação Gráfica Walter Simões Marketing Gerente: Rosana Minante Departamento Comercial Naira Barelli, Andrea Canal, Marlene Orlovas e Vanda Motta

Richard Jakubaszko

Circulação Gerente: Edna Aguiar ISSN 2317-7780 Impressão Log&Print Gráfica e Logística S.A. Capa: Foto Arquivo Valley DBO Editores Associados Ltda Diretores: Daniel Bilk Costa, Odemar Costa e Demétrio Costa Rua Dona Germaine Burchard, 229 Perdizes, São Paulo, SP 05002-900 - Tel. (11) 3879-7099 redacao@agrodbo.com.br www.agrodbo.com.br

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Ponto de vista

Descréditos de carbono O gás de xisto derruba o mercado de CO2, substitui o carvão e obriga o mundo a repensar suas políticas e programas de geração de energia. Evaristo E. de Miranda *

O * O autor é engenheiro agrônomo, doutor em ecologia, pesquisador da Embrapa e membro do Conselho Editorial da Agro DBO

planeta buscava um substituto para o petróleo. Parece ter encontrado: o gás de xisto e o carvão mineral. O crescimento da produção norte-americana do gás de xisto mudou o panorama da geração de energia. Esse gás substitui a cada dia mais carvão, cujo excedente é exportado para a Europa a baixo preço. Isso derrubou o preço do carvão em todo o mundo, principalmente na Ásia. O mundo se prepara para trocar um combustível fóssil por outro, mais abundante e barato. As termoelétricas europeias a carvão mineral aumentam seus lucros. Sobra carvão e com preços tão baixos, empresas como a norueguesa Statkraft, a alemã E·ON, a checa CEZ e a britânica SSE fe-

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cham e hibernam centrais a gás, incluindo plantas moderníssimas. Os lucros caíram mais de 90% no primeiro semestre de 2013, em usinas com ciclo combinado de gás. A RWE, maior geradora da Alemanha, obtém 62% de sua produção do carvão mineral e incrementou a produção em 16% em 2012. A Xstrata, a maior empresa exportadora de carvão mineral, baixou em 17,3% seus contratos para a geradora Tohoku do Japão. Depois de Fukushima, o Japão substitui a energia elétrica atômica pelo carvão. O adicional de emissões de CO2, tanto no Japão como na Alemanha, pelo fechamento das usinas atômicas, é enorme. O uso do carvão aumentou as emissões de CO2 na União Europeia (UE), tão engajada no

discurso ambiental. Os países europeus não cumpriram as metas de redução de CO2, previstas no Protocolo de Kyoto, apesar da crise econômica e da substituição de sua produção industrial pela China. A importação de carvão estadunidense pela Europa cresceu 23% e atingiu 66,4 milhões de toneladas em 2012. Nos 27 países da UE, a geração de energia a partir de carvão ultrapassou o gás e atingiu seu nível máximo dos últimos 17 anos. O chamado mercado de carbono, essencialmente europeu, veio abaixo. Sobram quotas de carbono e ninguém se interessa. Em abril, o Parlamento Europeu votou uma sentença de morte ao mercado de carbono: rejeitou limitar as autorizações de emissões de CO2


proposta pela Comissão Europeia. Uma tonelada de CO2 valia 30 euros em 2008. Caiu para 2,75 euros, seu nível histórico mais baixo. Para completar, a European Union Emissions Trading Scheme envolveu-se em escândalos, como roubo de licenças de emissão de CO2 e fraudes fiscais. O descrédito do mercado de carbono freou investimentos em alternativas de geração de energia. A UE aliviou as exigências ambientais para a indústria, face à crise econômica. Ocorre uma renacionalização da política climática e o abandono da política de Bloco. No futuro, os EUA exportarão gás de xisto em volume suficiente para mudar o panorama mundial. A reserva americana é suficiente para abastecer o mercado por mais de 100 anos, segundo cálculos da Administração de Informação sobre Energia. O avanço tecnológico na extração do gás de xisto prossegue e deve reduzir diversos problemas ambientais, como a contaminação hídrica e as emissões de metano. As 48 reservas de gás de xisto estão em 28 estados americanos e 26 estão em exploração. Na Pensilvânia, Nova York, Ohio e Virgínia Ocidental, há 6 mil poços em operação, só na formação geológica Marcellus. O gás de xisto, menos poluente, deslocará o carvão na geração de energia elétrica no EUA, onde metade da eletricidade ainda é gerada

em térmicas a carvão. Em 2012, ele gerou US$ 238 bilhões, cerca de 1,7 milhão empregos e US$ 62 bilhões em impostos, além de efeitos indiretos obtidos pela redução dos preços de eletricidade, gás e produtos químicos. O gás de xisto já substitui o diesel em ônibus e caminhões. São poucos postos com o combustível nos EUA, mas a rede de gasodutos já tem 38 mil quilômetros. O gás será um combustível cada vez mais competitivo e, ao levar ao túmulo o mercado de carbono, talvez carregue junto o sonho do etanol como commodity internacional, destinando-o a ser, basicamente, um produto de consumo interno nos países produtores. Se tanto. Como essa nova realidade interfere na política brasileira de produção de biocombustíveis? E no mercado internacional de etanol? Uma equipe da Embrapa Gestão Territorial estuda seus impactos na agroenergia, mas o alcance da mudança pode ser muito maior. Devido à produção crescente de gás de xisto nos EUA e seu baixo preço, companhias brasileiras já suspenderam projetos de construção de hidrelétricas na América Central. Em outras situações, a energia hidrelétrica poderá perder competitividade com a termoelétrica. O gás de xisto pode afetar o futuro Pré-Sal. Já é real a fuga de investimentos produtivos no setor petroquímico do Brasil para

os EUA, onde o preço da matéria prima e da energia é menor. Apesar de a Agência Nacional do Petróleo ter marcado o primeiro leilão de blocos de gás de xisto para o fim de outubro, ainda falta o país conhecer e dominar a tecnologia envolvida nessa exploração. Muitos no agronegócio brasileiro discutem combustíveis renováveis, redução das emissões de CO2, pegadas de carbono, agricultura de baixo carbono e propõem programas ambientais em cenários ultrapassados. A era da energia fóssil está longe de acabar. Esses cenários viraram carvão. O Brasil está destinado a compensar e fixar o carbono emitido pela China e países desenvolvidos? Deve renunciar ao Pré-Sal e à exploração de suas reservas de gás de xisto? Os carbonários do carbono ignoram os impactos desse gás e das novas tecnologias e mudanças associadas a ele. A surpreendente emergência do gás de xisto ilustra o quanto é fundamental a inovação tecnológica e desafia o planejamento nacional. Ao ser alertado sobre o possível esgotamento das reservas de petróleo pela intensidade de sua exploração, uma autoridade saudita declarou: a prioridade é vender as reservas antes da emergência de novas tecnologias. A Idade da Pedra não acabou por falta de pedra.

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Notícias da Terra Safra I

Safra II

A

A

Colheita farta safra 2012/13 de grãos deve fechar em 187,1 milhões de toneladas, 12,6% acima do obtido na safra passada (166,20 milhões), de acordo com o 12º levantamento da Conab, divulgado em 10/9. Tal incremento deve-se, principalmente, às culturas de soja e milho segunda safra, que cresceram 22,7% (15,05 milhões de toneladas) e 18,1% (7,07 milhões), respectivamente. Quanto às lavouras, as estimativas indicam área plantada de 53,34 milhões de hectares, 4,8% maior (2,46 milhões/ha a mais) do que a cultivada no ciclo anterior, de 50,89 milhões de hectares. O destaque também foi para a soja, que passou de 25,04 para 27,72 milhões de hectares, e para o milho segunda safra, de 7,62 para quase 9 milhões de hectares. Somando primeira e segunda safras, o milho ocupa 15,90 milhões de hectares, 4,8% a mais.

Projeções empatadas oitava estimativa do IBGE sobre a safra nacional de cereais, leguminosas e oleaginosas indica produção de 187,3 milhões de toneladas, 15,7% maior que a do ciclo anterior (161,9 milhões de toneladas) e 0,3% menor do que o previsto em julho. A área colhida este ano (52,7 milhões de hectares) deverá crescer 8% frente a do ano passado (48,8 milhões de hectares) – o levantamento foi feito em agosto; os números ainda não esta-

vam fechados. As três principais culturas – soja, milho e arroz – responderão por 92,7% da produção e 86,1% da lavoura. Em relação a 2012, a produção de soja deve crescer 23,8%, a de milho, 13,3%, e a de arroz, 2,7%. A soja atingiu novo recorde, chegando a 81,3 milhões de toneladas. A produção nacional de milho totalizou 80,7 milhões de toneladas (por pouco, não superou a de soja) e a de arroz, 11,7 milhões de toneladas.

Safra III

Produção por regiões

C

onforme o IBGE, o Centro-Oeste do Brasil produzirá 78,4 milhões de toneladas de cereais, leguminosas e oleaginosas na safra 2012/13; o Sul, 72,4; o Sudeste, 19,7; o Nordeste, 12,2; e o Norte, 4,6. Em relação ao ciclo anterior, a produção deverá crescer 10,8% no Centro-Oeste, 31,1% no Sul, 2,3% no Sudeste e 2,7% no Nordeste, com queda de 3,2% na região norte. Mato Grosso permanecerá como o maior produtor nacional de grãos, com 24,% de participação, seguido pelo Paraná, com 19,6%, e Rio Grande do Sul, com 15,7%. Juntos, os três estados respondem por 59,8% da produção brasileira.

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Safra IV

Variação positiva

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ntre os 26 produtos selecionados pelo IBGE, 16 apresentam perspectivas de crescimento de produção este ano, comparativamente a 2012: amendoim 1ª safra (11,2%), arroz (2,7%), aveia (8,2%), batata-inglesa 1ª safra (2,5%), batata-inglesa 2ª safra (4,7%), cacau (2,4%), cana-de-açúcar (10,3%), cevada (7,2%), feijão 2ª safra (19,0%), feijão 3ª safra (2,6%), milho 1ª safra (3,7%), mi-

lho 2ª safra (21,6%), soja (23,8%), sorgo (2,3%), trigo (16,5%) e triticale (4,9%). Com variação negativa, o instituto relacionou os seguintes produtos: algodão herbáceo em caroço (31,9%), amendoim 2ª safra (11,3%), batata-inglesa 3ª safra (16,2%), café arábica (4,6%), café conilon (14,5%), cebola (7,0%), feijão 1ª safra (7,2%), laranja (5,7%), mamona (41,1%) e mandioca (9,4%).


Notícias da Terra Safra V

Brasil X Estados Unidos

A

safra brasileira de soja deverá superar a norte-americana em pouco mais de dois milhões de toneladas na temporada 2013/14, segundo projeções do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA, na sigla em inglês), divulgados nos mês passado. Os norte-americanos devem colher 85,7 milhões de toneladas (o relatório de agosto indicava 88,6 milhões/t) devido as expectativas de produtividade menor, especialmente no oeste do cinturão de grãos, região mais afetada pela estiagem em agosto e setembro. O USDA elevou as estimativas para o Brasil (de 85 milhões/t em agosto para 88 em setembro) Na safra passada, os EUA produziram 82,06 milhões de toneladas, contra 82 milhões de toneladas do Brasil.

Exportações I

Exportações II

E

A

Milho para os EUA m menos de três anos, as vendas de milho para norte-americanos passaram de 6,7 toneladas (US$ 35,6 mil) para 982,9 mil toneladas (US$ 284,37 milhões), segundo dados da SRI/Mapa – Secretaria de Relações Internacionais do Agronegócio do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. O incremento deve-se à seca que assolou os EUA no ano passado – uma das piores dos últimos 50 anos -, e quebrou a safra na temporada 2012/13. Os norte-americanos esperavam 375,7 milhões de toneladas, mas colheram “apenas” 272,4 milhões, conforme balanço final do USDA. O fator pesou no mercado internacional e favoreceu outros países, como o Brasil. Este ano, porém, as exportações para lá devem refluir. Apesar da estiagem em agosto passado, a expectativa (até meados de setembro, pelo menos, quando fechávamos esta edição) era de recuperação da produção anterior ou próxima dela, anulando a necessidade de importação, Nos primeiros oito meses de 2013, as vendas externas de milho brasileiro totalizaram US$ 3,28 bilhões, alta de 104,2% sobre o mesmo período do ano passado. Os principais compradores, além dos Estados Unidos, foram a Coreia do Sul (US$ 573,49 milhões), Japão (US$ 538,5 milhões), Taiwan (US$ 257,03 milhões) e Egito (US$ 240,94 milhões).

Negócios em alta s vendas externas do agronegócio brasileiro aumentaram 10,3% de janeiro a agosto deste ano e atingiram a cifra de US$ 69,04 bilhões, 10,3% a mais em relação aos US$ 62,57 bilhões exportados no mesmo período de 2012. Os cinco principais setores exportadores foram: 1 – Complexo soja, com US$ 24,1 bilhões; 2 – Carnes (US$11 bilhões); 3 – Complexo sucroalcoo-

leiro (US$ 9,1 bilhões); 4 – Produtos florestais (US$ 6,4 bilhões); e 5 – Cereais, farinhas e preparações (US$ 4 bilhões). Em agosto, as exportações foram de US$ 10,17 bilhões, 15,4% acima do obtido no mesmo mês, no ano passado. A China permanece como o principal mercado comprador, à frente dos Estados Unidos e da Comunidade Europeia.

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Notícias da Terra VBP

Valorização conjunta

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Economia

Motor do desenvolvimento

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studo da assessoria econômica da Farsul – Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul, apresentado na Expointer, revela que cada R$ 1,00 investido na agropecuária gera R$ 0,66 e na indústria de processamento, apenas R$ 0,20. Para o presidente do Sistema Farsul, Carlos Sperotto, isto derruba os argumentos dos que classificam a agricultura

como atividade primária, de baixo valor agregado. “Um grão de soja movimenta a pesquisa, as indústrias de maquinário, química, farmacêutica, eletrônica, além de serviços especializados. A empresa rural não é uma atividade inicial, mas, sim, um estágio importante que faz girar a economia. É o motor do desenvolvimento”, afirmou.

PIB

Faturamento maior

Agroquímicos

Recorde em vendas

O

A

s vendas de defensivos agrícolas no Brasil cresceram 30% no primeiro semestre deste ano, comparativamente ao mesmo período de 2012, atingindo o nível recorde de 6,7 bilhões de reais, segundo levantamento da Andef – Associação Nacional de Defesa Vegetal. De maneira geral, os negócios do primeiro semestre são mais fracos do que no segundo, mas neste ano os produtores anteciparam as compras com o objetivo de “travar” custos, em função da escalada da moeda norte-americana frente ao real – boa parte da matéria-prima usada na produção de defensivos é importada. No ano, a expectativa da An12 | Agro DBO – outubro 2013

evantamento da AGE/Mapa – Assessoria de Gestão Estratégica do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento indica que o VBP – Valor Bruto de Produção da agropecuária brasileira deve alcançar R$ 411, 9 bilhões em 2013, valor 9,7% superior ao de 2012. Os dados englobam os resultados da agricultura e da pecuária, o que, na opinião do ministro Antônio Andrade, traduz melhor a realidade do agronegócio no país. “Isto (o VBP conjunto) permitirá trazer um aperfeiçoamento às estatísticas agropecuárias brasileiras, devido à importância da pecuária na formação da renda”, disse ele. O VBP previsto para a agricultura este ano é de R$ 276 bilhões, 10,3% maior do que no ano passado. Na pecuária, é de R$ 135,9 bilhões, elevação de 8,6% no mesmo período.

def é de crescimento de 8% a 10% nas vendas, diz Eduardo Daher, diretor-executivo da entidade. Ele revelou que a infestação de lagartas do gênero Helicoverpa nas lavouras brasileiras causou perdas bilionárias na última safra e mudou o padrão de vendas de defensivos no primeiro semestre. Antes, os fungicidas costumavam dominar as vendas. Agora, os inseticidas vem se destacando.

PIB – Produto Interno Bruto do agronegócio nacional fechou o primeiro semestre de 2013 com alta de 3,13% em relação ao mesmo período do ano passado. Segundo levantamento da CNA – . Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil e do Cepea – Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada, o comportamento do PIB do setor primário (agropecuária) foi puxado pela elevação de faturamento, preços e aumento da produção. Considerando a atividade “da porteira pra dentro”, a agricultura cresceu 5,61%. A pecuária apresentou elevação de 7,06% e o setor de insumos, 4,07%. No outro prato da balança, os itens adubos/ fertilizantes e rações caíram 3,34% e 1,33%, respectivamente.


Notícias da Terra Etanol

Nordeste puxa a demanda

E

stimativa da consultoria Datagro indica que os consumidores do Norte e Nordeste do Brasil, especialmente os nordestinos, devem continuar alimentando a demanda nacional por combustível e, consequentemente, por etanol, tanto na mistura com gasolina (anidro) como na venda direta nos postos de abastecimento (hidratado). O consumo de gasolina B, com mistura obrigatória de etanol ani-

dro de 25%, cresceu 56,6% nas regiões Norte e Nordeste de 2009 até junho passado, enquanto o crescimento nacional ficou em 26,8%. O consumo de combustível na metade norte do país tem crescido não só como resultado das políticas de distribuição de renda, como também da expansão da fronteira agrícola na região, segundo Plinio Nastari, presidente da Datagro.

Estocagem

Corrida por armazéns

D

iante da escassez de armazéns para guardar a produção de grãos, um número crescente de agricultores vêm investindo na construção e/ou aquisição de silos, silos-bag e depósitos adaptados na propriedade ou em parceria com produtores vizinhos, na expectativa de contornar o problema e negociar no momento mais oportuno, quando os preços lhes favorecerem. Estudos recentes mostram que nos Estados Unidos, Argentina, França e outros países, a estocagem na fazenda representa de 30% a 60% da safra. No Brasil, não passa de 5%. “Os produtores descobriram que a compra de equipamentos de armazenagem de sementes e secagem resultam em custo final menor e garantia de lucro maior na venda, pois conseguem aproveitar os melhores preços”, diz Nazareno Di Giovanni, diretor-superintendente da Industrial Pajé, sediada em Araranguá (PR). Uma das maiores fabricantes de produtos para armazenagem agrícola, a empresa criou em agosto um terceiro turno para atender o crescimento da demanda. “Aumentamos nossa capacidade produtiva em 40% no primeiro

semestre e o faturamento cresceu 60% no mesmo período”, informa Di Giovanni. Em sua opinião, a procura por sistemas de armazenagem reflete o maior volume de financiamentos governamentais destinados ao setor, em especial os créditos oferecidos com juros mais baixos (Finame) “Antes, a maioria dos produtores se preocupava mais com a compra de sementes, máquinas agrícolas e caminhões. Agora, eles passaram a ver os armazéns e os centros de distribuição como ativos capazes de aumentar a rentabilidade da operação agrícola, evitar desperdício e melhorar a qualidade dos grãos”.

Biodiesel

A soja lidera com folga

A

produção de biodiesel atingiu 1,4 bilhão de litros no primeiro semestre deste ano, 12,9% acima do total produzido no mesmo período no ano passado. De acordo com a Abiove – Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais, é um volume recorde para os seis primeiros meses do ano. O Rio Grande do Sul foi o principal produtor, com 29,5% de toda a oferta do biocombustível, à frente de Goiás, com 20,5%, e Mato Grosso, com 15,4%. O óleo de soja é a matéria-prima mais utilizada, com 74% de participação, seguido pelo sebo bovino (19%) e óleo de algodão (2%). As demais fontes respondem pelos 5% restantes, com destaque para o óleo de fritura, que já representa 1% de toda produção nacional. O óleo de soja, sozinho, já seria capaz de suprir a demanda adicional para este ano. Das 81,6 milhões de toneladas de soja que devem ser produzidas no ano, dois milhões serão direcionadas para a produção de biodiesel. outubro 2013 – Agro DBO | 13


Notícias da Terra Café I

Alta em ano de baixa bienalidade

O

Brasil deve colher em 2013 a maior safra de café já produzida em ano de baixa bienalidade, segundo projeções da Conab. As projeções indicam 47,5 milhões de sacas de 60 kg de café beneficiado (arábica e robusta), 6,46% (3,28 mihões de sacas) a menos em relação a 2012, ano de alta bienalidade, quando foram colhidas 50,8 milhões. Estimada em 36,67 milhões de sacas, a produção de arábica corresponde a 77,2% do total produzido no país. A de conilon deve alcançar 10,88 milhões, 22,8% do total. O estudo mostra também que a diferença de pro-

dução entre os anos de alta e baixa bienalidade está diminuindo gradativamente. “Este fato se deve à maior utilização da mecanização, aliada às inovações tecnológicas, às exigências do mercado, à qualidade do produto e à boa gestão da atividade”, esclarece o pesquisador Silvio Porto, da Conab. Em relação à área plantada no país, a cultura do café totaliza 2,3 milhões de hectares, 0,74% menor que a da safra passada (17.205 hectares a menos). Minas Gerais concentra a maior área plantada, com 1,2 milhões de hectares, 98,8% dos quais ocupados com arábica.

Café II

Bom peso na balança

D

e janeiro a agosto, o café brasileiro foi o sexto item da pauta das exportações brasileiras, com 5,1% de participação, atrás do complexo soja, das carnes, do complexo sucroalcooleiro, produtos florestais, cereais, farinha e preparações. As exportações renderam US$ 3,5 bilhões em faturamento, referentes a 20,1 milhões de sacas. Os números integram o Informe Estatístico do Café, atualizado mensalmente pela Secretaria de Produção e Agroenergia do Ministério da Agricultura. Maior produtor e exportador do mundo, o Brasil detém (considerando, no caso, o período de janeiro a julho deste ano) 26,4% do mercado internacional. Os principais compradores são a Alemanha, os Estados Unidos, a Itália e o Japão. De acordo com o informativo, o consumo projetado para o mercado interno este ano equivale a 21 milhões de sacas.

Café IV

Leilões concorridos

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Café III

Política de enxugamento

O

diretor-executivo da OIC – Orga­nização Internacional do Café, Robério Oliveira Silva, elogiou a decisão do governo brasileiro de aumentar os estoques públicos em resposta à queda dos preços mundiais. No entanto, alertou – em carta publicada ao final da conferência anual da entidade, realizada no mês passado em Belo Horizonte (MG) –, que não devem ser repetidos os erros do passado que conduziram a excesso de oferta e distorções do mercado.

14 | Agro DBO – outubro 2013

Os preços de referência do café arábica caíram 30% desde 2012 e estão em cerca de metade dos registrados em 2011, quando superaram três dólares por libra-peso. Em agosto, o governo brasileiro anunciou um programa de reconfiguração dos estoques através de contratos de opção de venda e anunciou que compraria três milhões de sacas em três leilões diferentes. Os estoques públicos do Brasil abarcam 1,6 milhão de sacas, de acordo com a Conab.

primeiro dos leilões da Conab rendeu R$ 1,4 milhão, valor equivalente a 8.565 títulos adquiridos, de um total de 10 mil. Participaram produtores e cooperativas dos estados da Bahia, Espírito Santo, Minas Gerais, Paraná e São Paulo. O Contrato de Opção de Venda garante ao agricultor vender, futuramente, o produto para o governo a preços pré-fixados e justos, caso o mercado privado de preços, para aquele momento futuro, não esteja favorável ao comércio. Por meio deste instrumento, o produtor rural fica protegido contra eventuais riscos de queda nos preços futuros no mercado privado.


Notícias da Terra Irrigação II

Quitação de dívidas

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Irrigação I

Crédito especial para o Nordeste

O

Ministério da Integração Nacional destinou R$ 195,5 milhões para o FNE Irrigação – Programa de Financiamento à Agropecuária Irrigada, com prazo máximo do financiamento de até 15 anos para investimentos fixos. A linha de crédito é destinada a agricultores da área de atuação da Sudene – Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste, que abrange os noves estados da região e os municípios do norte de Minas Gerais e Espírito Santo. O público-alvo são agricultores – pessoas físicas ou jurídicas – cooperativas, associações formalmente constituídas e SPEs – sociedades de propósito específico. As operações de investimentos fixos poderão ser financiadas em um prazo máximo de 15 anos

(incluindo até quatro anos de carência). Para investimentos semifixos, até 10 anos (incluindo até três anos de carência), e para projetos público-privados, até 20 anos (incluindo até cinco anos de carência). São considerados investimentos fixos obras para instalação ou ampliação do empreendimento. Já os semifixos englobam a aquisição de equipamentos. A taxa de juros é de 4,12% ao ano (para operações contratadas entre 01/07/2013 e 31/12/2013) e o bônus de adimplência sobre os encargos financeiros de 15%, que serão concedidos desde que a parcela da dívida seja paga até a data do respectivo vencimento (OBS: leia reportagem sobre irrigação na página 26).

Normatização

Sucos legítimos partir de janeiro de 2015, os néctares de laranja e de uva deverão conter, no mínimo. 40% de suco da fruta (o legítimo sumo extraído da fruta, natural, não misturado com outros líquidos), conforme decisão do Mapa, publicada no Diário Oficial da União em 12/9. Atualmente, a quantidade mínima de suco em néctar exigida é de 30% e, no caso de fruta ou vegetal com acidez, não de-

ve ser inferior a 20%. O objetivo da instrução normativa é aumentar o teor nos néctares de laranja e de uva gradativamente, de modo a não prejudicar os consumidores nem a indústria. Assim, fica definido que o setor produtivo terá 16 meses para se adaptar à exigência de 40% e mais 12 meses (até janeiro de 2016) para elevar o teor mínimo para 50%. ,

A

ove mil produtores rurais de perímetros irrigados mantidos pela Codevasf – Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba terão seus nomes retirados do Cadin – Cadastro Informativo de Créditos não Quitados do Setor Público Federal, por um período de 12 meses, conforme iniciativa do Ministério da Integração Nacional. Desse total, cinco mil são pequenos agricultores que cultivam em áreas de seis hectares, em média. A maior parte das dívidas está relacionada à utilização de infraestrutura de irrigação de uso comum, tarifa conhecida como K1, e à titularidade de lotes. Com a medida, eles ganham novas oportunidades para investir em suas plantações A expectativa do governo federal é de que tenham acesso a cerca de R$ 400 milhões em crédito e ampliem a produção em 20 mil hectares. Hoje, a soma dos débitos dos agricultores com nome no Cadin chega a R$ 107 milhões.

Sementes

Padrões de qualidade Após oito meses em consulta pública, a proposta de atualização de padrões para a produção e comercialização de sementes de amendoim, arroz preto, arroz vermelho, aveia branca e aveia amarela, canola, centeio, cevada, ervilha, gergelim, mamona, juta, linho, painço, tabaco e outras espécies não contempladas com padrão específico foi transformada em Instrução Normativa (IN 45/2013) e publicada no Diário Oficial da União em 19/9. outubro 2013 – Agro DBO | 15


Notícias da Terra Logística I

Produtores reivindicam o caminho do Araguaia

O

s integrantes do Estradeiro Aprosoja voltaram preocupados a Cuiabá (MT), após percorrerem 4.700 quilômetros de estradas federais e estaduais em Mato Grosso, Pará, Tocantins e Goiás. A caravana, composta por produtores rurais, representantes da entidade, do Movimento Pró-Logística e da Agrosatélite (empresa do grupo Agroconsult que monitora a atividade agrícola através de imagens de satélite), tinha como objetivo básico avaliar as condições de produção agrícola no Vale do Araguaia e

de escoamento das safras pela BR158, especialmente no trecho que liga o município de Barra do Garças (MT) a Marabá (PR). O vale abriga, hoje, 1,2 milhão de hectares de lavouras e dispõe de 3,2 milhões de hectares de pastagens, conversíveis para cultivo de grãos, algodão e outras culturas. Na opinião dos “estradeiros”, a região do Araguaia, considerada por muitos como o “Vale dos Esquecidos”, pode se tornar uma das regiões mais importantes do Centro-Oeste graças à abundância de

terras disponíveis para agricultura. O problema maior é, justamente, o transporte. A BR-158 está em péssimas condições, com muitos trechos em terra (lama, quando chove). Os agricultores sonham com o dia em que a rodovia estiver 100% pavimentada, quando então poderão direcionar a produção para o porto de Marabá, a 500 quilômetros da região. Atualmente, a maior parte da produção do Araguaia vai para o porto de Santos, a mais de 1.700 quilômetros de distância.

Logística III

Frete em debate

S

Logística II

Promessa para 2015

U

m dos participantes do painel sobre logística do Fórum do Agronegócio, o diretor geral do DNIT – Departamento Nacional de Infraestrutura de Transporte, Jorge Fraxe, anunciou que a BR 163 estará totalmente concluída até 2015. Ele explicou que o trecho mato-grossense da rodovia está praticamente consolidado, restando a pavimentação de mil quilômetros no estado do Pará. A conclusão

16 | Agro DBO – outubro 2013

vai possibilitar o acesso aos portos do norte do país, reivindicação recorrente dos produtores rurais do Centro-Oeste. “O Norte é de fato o melhor caminho para Mato Grosso acessar o mercado consumidor internacional”, reconhece Fraxe – com 3.467 km de extensão, a BR163 liga Tenente Portela (RS) a Santarém (PA), cortando Mato Grosso ao meio, no sentido norte-sul.

e a infra-estrutura de produção, armazenamento e transporte de grãos estivesse à altura do esforço e vontade dos produtores rurais, o estado de Mato Grosso poderia injetar US$ 7 bilhões na economia brasileira até 2023, quando a produção nacional alcançará 100 milhões de toneladas de grãos, segundo projeções do Imea – Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária. Os dados foram apresentados pelo produtor rural e ex-prefeito de Água Boa, Maurício Tonhá, no painel sobre logística do Fórum Brasil Central do Agronegócio, realizado no mês passado em Sinop, no médio-orte do estado. Em sua exposição, Tonhá ressaltou a grande disparidade de custos com frete: Em Mato Grosso, é de, aproximadamente, US$ 133 por tonelada, e no Paraná, US$ 43, considerando o transporte até o porto de Paranaguá, no litoral panaense. Para escoar soja de Sinop até a China, maior compradora do grão, gasta-se US$ 190 por tonelada transportada, enquanto os argentinos gastam US$ 102, ou seja, US$ 88 a menos.


Notícias da Terra Feira

Agritechnica 2013, a maior do mundo.

R

ealiza-se de 12 a 16 de novembro próximo a Agritechnica 2013, em Hannover, Alemanha. Serão 2.200 expositores de 46 países, tornando essa a mostra de tecnologia agrícola mais importante do mundo, e que apresenta uma programação técnica internacional. De acordo com a DLG (Deutsche Landwirtschafts-Gesellschaft / Sociedade Alemã de Agricultura), a organizadora da Agritechnica, vê-se no momento uma participação 10% maior do que o recorde da edição de 2011. A área de exposição aumentou em 15%, ocupando agora 23 hectares, divididos em galpões fechados e climatizados, e áreas de demonstração. Para os fabricantes, ela é o ponto de encontro especial do setor: “é o lugar onde os produtores rurais, do mundo intei-

ro, no ramo da indústria, comércio e instituições de pesquisa, e consultorias. se encontram”, informa a DLG. Participação de outros países Pela primeira vez, mais da metade dos expositores vem de fora da Alemanha. A maioria dos 1.100 expositores estrangeiros inscritos – um aumento de cerca de

20% na comparação com 2011 – é procedente da própria Europa. Além disso, a feira contará com a participação oficial de mais 19 países organizados em estandes. Na edição 2011 da feira, que é bienal, 419.000 visitantes, sendo 100.000 vindos do exterior, tiveram a oportunidade de ficar por dentro do que acontece no setor. Com programação técnica de alto nível, marcada por grande variedade de eventos, congressos e fóruns, a Agritechnica é o lugar para conferir as tendências tecnológicas, e debater todas as questões prementes do futuro da agricultura e das técnicas agrícolas. A revista Agro DBO irá visitar a Agritechnica 2013 e na edição de dezembro faremos uma reportagem com o que de principal vai acontecer na feira. Para quem deseja visitar ou quer mais informações consulte o site www.agritechnica.com (o site tem recursos em vários idiomas, inclusive em português).

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outubro 2013 – Agro DBO | 17


Notícias da Terra Pesquisa

Drones no campo

P

esquisadores do Departamento de Engenharia de Biossistemas da Esalq – Escola Superior de Agricultura Luis de Queiroz, de Piracicaba (SP) estão testando VANTs – Veículos Aéreos Não Tripulados, ou “drones” (zangão, em inglês), para capturar imagens do campo, em estudos sobre agricultura de precisão. O primeiro vôo foi realizado na Fazenda Areão, da Esalq, sob orientação do professor Rubens Duarte Coelho (foto ao lado), coordenador do projeto. Criados para fins militares nos EUA, os drones passaram a ser utilizados em várias áreas civis na úlima década. “No setor agrícola especificamente, a grande vanta-

gem é a precisão com que se pode detectar e monitorar grandes áreas quase que em tempo real. É uma realidade de sensoriamento remoto nunca antes imaginada, com alta definição e alta frequência de captura das imagens aéreas”, justifica o professor Coelho. O drone pode fazer fotos de seis hectares de área, voando a 300 de metros, limite máximo de altura autorizado para voo não tripulado. “As imagens podem ser captadas a qualquer hora do dia e inúmeras vezes em um mesmo dia. Diminuindo-se a altitude, aumenta-se ainda mais a resolução”, explica o professor. Por enquanto, as aplicações priorizam áreas de pesquisa e cultivos tecnificados como cana-de-açúcar, café, citros, uva e horta-

liças. “Esperamos desenvolver nos próximos anos aplicações desta nova tecnologia visando à detecção da variabilidade espacial do estresse hídrico no campo, deficiências nutricionais, falta de uniformidade de aplicação de água em sistemas de irrigação, danos foliares causados por pragas e doenças”, comenta.

Silvicultura

Concessões para exploração da floresta

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ais de um milhão de hectares de florestas na Amazônia poderão ser explorados a partir de 2014. O SRB – Serviço Florestal Brasileiro lançou o terceiro edital deste ano de concessão florestal numa área de 360 mil hectares em Altamira, no Pará, para a exploração sustentável de madeira. Anteriormente, o SRB já lançara os editais das florestais nacionais do Crepori e do Amana, também no Pará, com 740 mil hectares. O objetivo das concessões é ordenar a atividade madeireira e promover uma economia florestal de base sustentável, com madeira legal, de origem rastreada, aumentar a oferta de empregos e elevar a renda e a arrecadação regionais. Para que se tornem concessionários, os empresários têm de participar de concorrência pública. Os contratos de concessão têm validade de 40 anos. Atualmente, o SRB tem 200 mil hectares sob licenciamento. As concessões das florestas nacionais do Jamari, em Rondônia, e de Saracá-Taquera, no Pará, já estão em plena operação. Os contratos da Floresta Nacional de Jacundá, também em Rondônia, foram assinados, mas ainda estão na fase de implantação, em que os concessionários fazem inventário florestal e plano de manejo.

18 | Agro DBO – outubro 2013


Manejo

Hora de diversificar Especialistas insistem na importância da rotação de culturas e adoção de cultivos opcionais ao milho no planejamento da safra de inverno Ariosto Mesquita

Lavouras nas cercanias de Londrina (PR): o momento certo para planejar a safra de inverno é agora, quando se inicia o plantio da safra de verão.

M

20 | Agro DBO – outubro 2013

ve para produzir milho segunda safra provavelmente vai diminuir um pouco. Logicamente, ainda depende de alguns fatores externos, mas a tendência é essa”. A observação é do pesquisador Carlos Pitol, da Fundação MS e está em sintonia com o que vem apontando o mercado. Na primeira quinzena de setembro, a consultoria Safras & Mercados estimou queda de 5,5% para a segunda safra de milho em 2014, em relação à deste ano. A previsão dos analistas é de uma área plantada de 7,55 milhões de hectares, contra 7,99 milhões de hectares em 2013, mesmo com uma tendência de aumento de área no Nordeste. O preço instável e,

muitas vezes, abaixo do custo de produção, é um dos vilões da história. Em 18 de setembro, o valor médio recebido pelos produtores pela saca de 60 quilos oscilava em cada região produtora. Era de R$ 22,50 em Itapetininga (SP), R$ 17,50 em Cascavel (PR), R$16,00 em São Gabriel do Oeste (MS) e R$ 8,00 em Sorriso (MT), conforme levantamento feito na ocasião junto à instituições dos quatro estados (IEA/Cati/Sima/Imea/Granos). “O que aconteceu nos últimos anos? O produtor se afunilou muito na produção de soja/milho safrinha em função do bom momento das duas culturas. Melhorou as produtividades, mas o custo de produção

,,

al começou o cultivo da safra de verão 2013/14, pesquisadores, técnicos e especialistas já acionaram o alerta para a safra de inverno 2014 no centro-sul brasileiro. O aviso é direto: quem apostar em apenas uma cultura, sobretudo no milho, pode sair no prejuízo. Pelo menos quatro fatores alimentam este pensamento: o desgaste das terras pelos seguidos anos de plantios de apenas duas culturas em sucessão (soja e milho), a instabilidade de mercado, a volatilidade do preço do milho e seu alto custo de produção.“O próximo ano será diferente dos últimos. O estímulo que sempre se te-


também ficou alto”, lembra Pitol. No Mato Grosso, a Aprosoja calcula em R$ 16,39 o investimento do produtor para produzir uma saca de 60 quilos de milho na segunda safra em 2014. Este quadro fez com que organizações de pesquisa do Rio Grande do Sul, Paraná e Mato Grosso do Sul se unissem em uma ofensiva para tentar incentivar o agricultor a planejar adequadamente a segunda safra, que, em boa parte do Centro-Sul, começa a ser plantada entre janeiro e fevereiro. O caminho, de acordo com os pesquisadores, é apostar na rotação de cultivos e no plantio diversificado de culturas de inverno. “É importante observar o zoneamento agrícola; o milho safrinha só é viável se for semeado dentro dos dois primeiros meses do ano. Depois disso, complica. E quem planta toda a sua soja com variedades precoces para abrir janela rápida para milho está apostando todas as suas fichas em um só jogador. É neste ponto que o risco aumenta e muito”. A observação foi feita para produtores e funcionários de fazendas pelo pesquisador José Salvador Folini, especialista em manejo do solo e da cultura da Embrapa Soja, durante dia de campo em áreas experimentais de culturas de inverno da Fundação MS em Maracaju (MS), no início de setembro. O encontro

foi focado em orientações sobre cultivos viáveis em alternativa ao milho para áreas agrícolas com clima subtropical: Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e partes do Mato Grosso do Sul e São Paulo. A iniciativa reuniu instituições como Embrapa Soja, Fundação MS, Iapar – Instituto Agronômico do Paraná, Embrapa Trigo, Embrapa Agropecuária Oeste e CCGL – Cooperativa Central Gaúcha Ltda. A sugestão de Folini é a diversificação das culturas de inverno com segurança. Neste ponto, segundo ele, é fundamental plantar soja de forma escalonada, observando os ciclos das variedades. “Um pouco

O trigo tem futuro atraente: as grandes cooperativas estão montando moinhos e já sinalizam que serão compradoras.

Plantações de centeio e aveia (abaixo, da esq. para a dir.): alternativas viáveis em sucessão à soja.

no começo e outro tanto no final de outubro, fechando com uma última semeadura em novembro”, exemplifica. Com este escalonamento, as cultivares da oleaginosa estarão prontas para a colheita em períodos distintos, algumas só no final de março. “Neste caso o produtor tem a opção de entrar com o trigo”, diz o pesquisador. Sobre um eventual risco de se fazer plantio de uma cultura à véspera dos meses secos, Folini tranquiliza: “O trigo é bem rústico para suportar a seca; não precisamos ficar tão apavorados como no cultivo de milho safrinha”. Outra virtude, segundo ele, é sua tolerância a baixas temperaturas, comum nestes estados. Sobre eventuais problemas mercadológicos do trigo (dificuldade de liquidez), ele lembra que a agricultura cooperada vem suprindo eventual déficit de demanda. “Tanto no Paraná quanto no Mato Grosso do Sul, as grandes cooperativas estão montando moinhos e, se ainda não estão adquirindo, já sinalizam que serão compradoras de trigo”, conta. Esta situação evidencia que o próprio agricultor – através da cooperativa – começa a comprar o que ele próprio produziu. “Afinal, o produtor é um investidor”, salienta. Virtudes agronômicas Com relação a preço, o pesquisador Márcio Akira Ito, da Embrapa Trigo e Embrapa Agropecuária Oeste, garante que o trigo compete bem com o milho. Em experimentos realizados na região de Dourados (MS), ele comprovou virtudes agronômicas do trigo na preparação para a safra de verão. “Como cultura de inverno, vem funcionando bem para a supressão de plantas daninhas, sobretudo a buva. A palhada de trigo tem cobertura melhor do que a palhada de milho; além disso, o trigo tem efeito alelopático (impede o crescimento) sobre plantas infestantes”, revela. O trigo já teve grande peoutubro 2013 – Agro DBO | 21


Manejo

Nabo forrageiro, triticale e grãos de crambe (acima, da esq. para a dir.): culturas testadas e aprovadas em várias regiões do país.

netração no Centro-Oeste. Na década de 1980, a região sul de Mato Grosso do Sul dispunha de 400 mil hectares de lavouras. No último ciclo de cultivo, segundo a Conab, o espaço dedicado à cultura em terras sul-mato-grossenses não passou de 15 mil hectares. Os estados do sul lideraram o cultivo: Rio Grande do Sul (976 mil hectares), Paraná (773,8 mil) e Santa Catarina (67 mil). Ao que tudo indica, áreas devem ser reabertas no centro-sul do país. A CCGL, com sede em Cruz Alta (RS), aposta nesta

expansão através dos chamados “multiplicadores” – em geral, agricultores espalhados pelos estados brasileiros. “Estamos difundindo variedades adaptadas e testadas para diversas regiões”, ressalta Niomar Deminski, representante técnico de vendas da cooperativa. Os pesquisadores indicam outras opções de plantio de inverno para o Centro-Oeste e Sul do Brasil como crambe, nabo forrageiro, centeio e aveia. A primeira é especialidade do agrônomo, pesquisador e diretor-executivo da Funda-

ção MS, Renato Roscoe. Segundo ele, o grão tem ciclo muito curto (90 dias) e boa tolerância a pragas e à seca e, por isso mesmo, é adequado para a segunda safra. “O cultivo de crambe é de baixo risco, ideal para rotação de culturas e pode ser comercializado para a indústria química, no processamento (farelo) para alimentação de ruminantes, além de ter bom desempenho na produção de biodiesel”, salienta. O nabo forrageiro foi bem utilizado em regiões onde an-

Quadro de culturas Benefícios para o solo

Tolerância

Utilização comercial

TRIGO

Eficiente cobertura, maior supressão de plantas daninhas, redução de perdas de umidade por evaporação, proteção contra erosões, condições para proliferação de microorganismos inimigos naturais de pragas e doenças;

Ao déficit hídrico e baixas temperaturas;

Farináceos em geral, sobretudo pão.

CRAMBE

Ciclagem de nutrientes

Seca e a pragas

Óleo para produção de biodiesel e diversas utilizações industriais (lubrificantes, ligas plásticas, isolante de transformadores)

Seca, frio, acidez do solo e baixa fertilidade

Alimentação animal, pasto apícola e produção de biodiesel

NABO FORRAGEIRO Descompactação, reciclagem de nutrientes e cobertura para plantio direto

TRITICALE

Cobertura vegetal mesmo em áreas de baixa fertilidade e com solos arenosos

Seca, acidez do solo

Alimentação animal e humana (massas de pizzas, biscoitos, etc)

CENTEIO

Cobertura para anteceder leguminosas (não é considerada boa antecessora para o milho).

Acidez do solo, baixa fertilidade e seca

Pastejo, fenação e alimentação humana (pães, farinha, cerveja, uísque, vodca, etc.)

AVEIA BRANCA

Cobertura para plantio direto, adubação verde, bloqueio de plantas invasoras

Seca e geadas

Alimentação animal (pastejo, silagem e fenação) e alimentação humana (farinha, bolos, biscoito, pães, granola, etc.)

Fontes: Fundação MS, Conab 2013, Embrapa Trigo, Embrapa Agropecuária Oeste

22 | Agro DBO – outubro 2013


Além do trigo, os pesquisadores indicam triticale, aveia, centeio, crambe e nabo forrageiro como alternativas ao milho nas lavouras de inverno.

Três especialistas em defesa da diversificação: Carlos Pitol, Juliano Schmaedecke e José Salvador Folini (da esq. para a dir.)

teriormente se cultivava milho verão e hoje são ocupadas com soja em sucessão com o milho segunda safra. “Agora, ele volta a ser procurado pela indústria para o processamento de biodiesel, além de dar bons resultados em cobertura de solos e ser uma ótima opção para a reciclagem de nutrientes, sobretudo nitrogênio e potássio”, avalia Pitol. Graças às suas raízes robustas, o nabo forrageiro também é opção para a descompactação superficial de solos. O fitotecnista da Fundação

MS também indica a utilização da aveia como opção de diversificação na segunda safra. “Seu cultivo ajudou a elevar a qualidade do plantio direto no Brasil; é importante na melhoria da qualidade do solo e sua produção pode ser voltada comercialmente para o mercado de sementes e para a indústria alimentícia”, ressalta. Também há a opção de se cultivar a aveia para obter retorno financeiro no pastejo de bovinos. De acordo com Pitol, cada hectare pode produzir de três a

quatro arrobas de carne/ano, ou permitir a oferta de quatro a cinco toneladas/ano de feno, ideal para a alimentação de ruminantes durante os meses mais secos. Em geral, a aveia preta é utilizada mais como forrageira, enquanto a aveia branca é voltada para a indústria alimentícia. Qualidade do solo O centeio é um grão “histórico”, presente em páginas bíblicas e em relatos científicos sobre a evolução da alimentação humana. Foi bastante cultivado na região sul do país antes da entrada da aveia. “Apesar de poucas variedades disponíveis no mercado, é tolerante à acidez, resistente à seca e ideal para algumas áreas em processo de melhoria de fertilidade; pode ser utilizado como alternativa para cobertura de solo, pastejo e comercialização do grão, sobretudo

Produtividade média

Custo médio de produção

Preço médio de mercado

40 sacas de 60 kg/ha na região de Dourados, MS (considerando custo de produção e solos corrigidos)

R$ 1,2 mil/ha (considerando depreciação de máquinas, implementos, edificações, custo de oportunidade, etc.);

R$ 35,00/saca de 60 kg. Pontualmente, pela atual escassez (meados de setembro), existem negociações de até R$ 900,00 a tonelada – aproximadamente R$ 54,00/saca de 60 kg.

Entre 1.000 a 1.500 kg/ha ou 16,6 a 25 sacas de 60 kg/ha

R$ 300,00 a R$ 350,00 (ha)

R$ 700,00 a R$ 800,00 (média de R$32,00 a saca de 60 kg – R$/ha)

500 a 800 quilos/ha (8,3 a 13,3 sacas de 60 kg/ha)

Entre R$ 50,00/ha a R$ 85,00/ha (o preço varia dependendo da região e do valor do frete das sementes).

Cerca de R$ 800,00 a tonelada ou R$ 48,00/saca 60 kg.

40,6 sacas de 60 kg/ha

R$ 800 a R$ 1000/ha

Entre 70 e 80% do preço do trigo

26,8 sacas de 60 kg/ha

R$ 600,00 a R$ 800,00/ ha

Aproximadamente R$ 600,00 a tonelada ou R$ 36,00 a saca de 60 kg.

35,6 sacas/ha

R$ 500,00/ha

R$ 380,00/tonelada ou R$ 22,80/saca de 60 kg

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Manejo Produtor em Sidrolândia (MS), Juliano Schmaedecke busca resultados agronômicos através da melhoria do solo e boa cobertura vegetal. para panificação”, observa Pitol. A partir do cruzamento do centeio e do trigo, o homem criou o triticale, outro grão também indicado como opção para cultivo de inverno. Proporciona boa cobertura vegetal mesmo em áreas de baixa fertilidade e em solos arenosos. É utilizado na alimentação animal e também pode servir para a fabricação de pães, biscoitos e massas. Como é um híbrido, possui características intermediárias. Em relação ao trigo, o riticale é mais resistente a solos ácidos e de baixa fertilidade e à seca, de acordo com Pitol. “Por outro lado, é mais sensível a doenças durante os anos chuvosos e sua farinha para panificação é inferior”, observa o pes-

quisador. Comparado ao centeio, o triticale é mais produtivo. “No entanto é menos resistente a solos ácidos e à seca e seu grão tem menor valor comercial”, completa. Diante do quadro de mercado para o milho e das opções de cultivos de inverno, o agricultor Juliano Schmaedecke decidiu interromper a série de cultivos exclusivos em sucessão, de soja/ milho com braquiária, que vinha fazendo nos últimos anos na Fazenda Estrela, em Sidrolândia (MS), a 60 quilômetros de Campo Grande. Dos seus 2,5 mil hectares de lavoura, vai reservar 520 hectares, considerados por ele como de menor fertilidade, para o cultivo de aveia e braqui-

13a CONFERÊNCIA INTERNACIONAL DATAGRO SOBRE AÇÚCAR E ETANOL O Maior Evento do Calendário Sucroenergético Mundial Diversificação, Biotecnologia e Logística - na rota do futuro

ária solteira. “Estou pensando mais em melhorar a qualidade da terra e elevar o índice de matéria orgânica disponível através de boa cobertura”, explica. Schmaedecke também vislumbra retorno econômico com a aveia e obtenção de melhor condicionamento de solo. “Todos os anos temos veranicos e a nossa única dúvida é saber quantos serão; neste aspecto, a braquiária permite melhor estabilidade e segurança ao meu sistema de produção”, avalia o agricultor, que teve produtividade de 53 sacas de soja por hectare na safra verão 2012/13 e uma média de 96 sacas de milho por hectare na segunda safra este ano.

Serão debatidos os principais desafios e as oportunidades do setor sucroenergético, entre eles: SAFRA BRASIL - AVALIAÇÃO DA PRODUÇÃO NO BRASIL EM 2013/14 E PERSPECTIVAS PARA 2014/15 A VISÃO DO MERCADO MUNDIAL PELA LENTE DOS TRADERS LOGÍSTICA - INOVAÇÕES E DESAFIOS ETANOL NOS EUA BIODIGESTÃO DE RESÍDUOS AGRÍCOLAS, NOVA FRONTEIRA ENERGÉTICA

21 e 22

Outubro, 2013

São Paulo

Tradução Simultânea

+ 700 participantes

+ 33 países

+ 40 palestrantes

Alguns palestrantes e debatedores já confirmados:

Evento Técnico do Sugar & Ethanol Dinner Brasil 2013

PETER BARON

Organização Internacional do Açúcar Patrocinadores

BOYDEN GRAY

Embaixador norte-americano para UE Realização/Curadoria

RICARDO DORNELLES

ELIZABETH FARINA

Ministério de Minas e Energia

Site Parceiro

Apoio

UNICA

JULIO FONTANA

Rumo Logistica

Apoio Especial

BIOMASS ENERGY RESEARCH INSTITUTE

Media Partner

www.datagroconferences.com.br / conferencia@datagro.com.br / +55 11 4193 4031

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Impasse no campo Cansados das restrições ambientais, produtores rurais pedem que a irrigação seja declarada atividade de interesse social ou utilidade pública. José Maria Tomazela

Q

uando o agricultor Rudelvi Bombarda decidiu transferir sua área de produção, em Primavera do Leste (MT), para o município de São Desidério, no oeste da Bahia, em 2004, ele e o irmão Cédrich procuraram uma região de pouca chuva para controlar a aplicação de água nas lavouras através da irrigação. A melancia, um dos principais produtos, não se dá bem com água em excesso perto da colheita. Os Bombarda se fixaram a 150 km da Serra dos Tocantins, onde as estiagens acontecem todo ano e não se produz sem irrigar. A escassez de rios perenes na região é compensada por uma riqueza no subsolo: o imenso aquífero Urucuia, com água abundante e acessível. O projeto dos irmãos previa a instalação de doze pivôs centrais, em dois módulos de seis pivôs cada,

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além da estrutura de máquinas, equipamentos e benfeitorias. “Procuramos um local propício para irrigação, com água suficiente, topografia plana, solo de fácil correção para se tornar fértil, energia, clima bom e muita luminosidade”, conta Rudelvi. Eles só não contavam com os entraves na concessão de outorga para uso da água, travada pela burocracia. Quase dez anos depois, apenas quatro pivôs operam em cada módulo e novos projetos de ampliação foram adiados. “As leis e normas foram criadas para organizar e desenvolver o setor agropecuário, mas, na prática, penalizam e desestimulam os empreendimentos”, disse o agricultor. Antes considerada um luxo, a irrigação artificial cobre áreas cada vez maiores na agricultura brasileira. As mudanças climáticas e a alta nos preços das commodities têm levado os produtores a ampliar os


investimentos em sistemas de irrigação. As culturas irrigadas produzem, por baixo, pelo menos o dobro que as de sequeiro. O controle sobre a água permite ao produtor ter mais safras por ano, produzir em períodos de preços mais altos e colher produtos com maior qualidade. O Brasil pode dobrar a atual produção de grãos, por exemplo, sem ampliar a área de cultivo, apenas com mais irrigação. O problema está na falta ou indisponibilidade de água para alavancar essa expansão. Para captar água, o agricultor precisa da outorga, o instrumento pelo qual o poder público autoriza o uso dos recursos hídricos à pessoa física ou jurídica. A outorga diz onde, quando e quanto de água o agricultor pode retirar do manancial para uso na propriedade. Em áreas com maior número de irrigantes e com baixa disponibilidade de

água, as restrições para novas outorgas são maiores. É o que ocorre no oeste da Bahia. As licenças para furar poços no aquífero Urucuia estão praticamente suspensas. Antes, era possível perfurar um poço a 700 m de outro, mas agora a distância mínima é de 2,5 km. As outorgas, que valiam por cinco anos, já precisam ser renovadas a cada quatro. “Até a renovação está difícil e muito demorada”, conta Rudelvi. O produtor sentiu na própria pele a diferença que a irrigação faz no resultado da produção na última safra, quando teve que desligar um pivô sobre a lavoura de algodão por problemas no poço. A área que ficou sem irrigação produziu 146 arrobas de pluma por hectare, enquanto a gleba com pivô operando produziu 256 arrobas. As duas áreas receberam o mesmo pacote tecnológico e o único diferencial foi a irrigação. “Isso outubro 2013 - Agro DBO | 27


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prova o quanto irrigar se tornou essencial para o produtor. Com a diferença no resultado, em uma ou duas safras ele paga o investimento.” O oeste da Bahia foi uma das regiões mais castigadas pela seca na safra 2012/13, com prejuízos de R$ 3 bilhões, segundo a Faeb – Federação de Agricultura e Pecuária da Bahia, dos quais metade na produção de grãos e metade na fruticultura. De acordo com o diretor de Agronegócio da Aiba – Associação de Agricultores e Irrigantes da Bahia, Ernani Sabai, o prejuízo não foi maior porque, apenas na região de Barreiras, já são 116 mil hectares irrigados por cerca de 1.100 pivôs. A área irrigada só não é maior pela dificuldade de obter outorga para novos irrigantes. “Há um discurso de que a água está escasseando, mas não se apresenta um estudo que comprove isso”, reclama. Segundo ele, enquanto nas áreas de sequeiro só se produz uma safra por ano, nas irrigadas é possível fazer 2,4 safras anuais. “A diferença é brutal, por isso

A área irrigada por pivôs no oeste da Bahia é de116 mil hectares, o que representa apenas 5% do total plantado na região.

a grande demanda de novas outorgas, mas que não é atendida.” Sabai assegura que a região tem boa disponibilidade de água em afluentes do rio São Francisco e nas bacias dos rios Cariranha, Grande e Corrente, que são perenes. Houve casos de mananciais que secaram, mas eram canais de escoamento dos fluxos da chuva. “Não vejo razão para deixar de autorizar a irrigação. A agricultura aqui é empresarial e a imensa maioria, 98% ou mais, respeitam as outorgas e cumprem a legislação ambiental.” A Aiba está propondo ao Inema – Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos da Bahia e à ANA – Agência Nacional de Águas a concessão de outorga sazonal para irrigação durante o período de chuvas no oeste baiano. De acordo com o diretor de Águas, José Cisino Lopes, é comum ocorrerem veranicos, com períodos de estiagem de até vinte dias, na estação chuvosa, quando sobra vazão nos rios e reservatórios. “É água que vai irrigar o mar”, brinca ele. Como 90% dos irrigantes fazem captação de superfície, haveria melhor aproveitamento da abundância dos rios nesse período. “Com a outorga para fazer a irrigação só nesses veranicos, seria possível duplicar a área irrigada e aumentar muito a produção.” Para Lopes, a medida ajudaria os agricultores enquanto o estudo sobre a disponibilidade hídrica do aquífero Urucuia não é concluído. A falta desse estudo, segundo ele, é usada para se negar novas outorgas. “Como não temos águas superficiais em boa situação, isso gera uma enorme demanda reprimida. Fala-se que o aquífero baixou, mas para irrigar 116 mil hectares estamos usando apenas 5% da capacidade.” De acordo com a ANA, a versão final dos estudos hidrogeológicos e de vulnerabilidade do aquífero Urucuia foi analisada por uma comissão formada

Nono Etipsum

Rudelvi Bombarda reclama das dificuldades para obter a outorga: “Até a renovação é difícil”

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Segundo estudo da ANA – Agência Nacional de Águas, o Brasil possui 30 milhões de hectares aptos para irrigação por representantes dos Estados assentados sobre o manancial – Tocantins, Maranhão, Piauí, Bahia, Goiás e Minas Gerais – e devolvida à empresa relatora para ajustes. O estudo servirá de base para um plano de gestão comum a todos os estados, garantindo uso racional do recurso, sem comprometer a disponibilidade da água. Além da agricultura, as águas servem para saneamento básico, lazer e indústria. O aquífero é exclusivamente brasileiro e exerce influência na vazão das bacias dos rios São Francisco e Tocantins. A região vai sediar, de 13 a 18 de outubro, no município de Luiz Eduardo Magalhães, o XXIII Conird – Congresso Nacional de Irrigação e Drenagem para discutir os gargalos e avanços da agricultura irrigada no Brasil. Pesquisadores, especialistas, profissionais e empresários do setor, além de autoridades, debaterão o desenvolvimento de tecnologias para o uso sustentável da água. Paralelamente aos seminários e oficinas, haverá exposição e demonstração de máquinas e equipamentos de irrigação, além de atividades de campo Entre as principais demandas do setor estão a fixação de tarifas especiais de energia elétrica para irrigação e declaração da irrigação agrícola como atividade de interesse social ou de utilidade pública. Uma resolução do Conama – Conselho Nacional do Meio Ambiente permite intervenções de baixo impacto em APPs – Áreas de Preservação Permanente em projetos que tenham uma dessas características. Os defensores da ideia consideram que, por permitir um grande aumento na produção de alimentos, a irrigação é atividade, no mínimo, de interesse social. Potencial inexplorado De 2006 a 2010, a área agrícola irrigada no Brasil aumentou um milhão de hectares, chegando a 5,4 milhões, crescimento de 20%, segundo números da ANA. Desse total, 2,6 milhões de hectares são usados na produção de grãos, principalmente arroz (1,13 milhão), soja (624 mil), milho (559 mil), feijão (315 mil) e trigo (58 mil). Apesar do crescimento, o Brasil está muito distante de atingir o potencial da irrigação. A agência estima haver no país 30 milhões de hectares aptos a serem irrigados. A maior área está na região Norte (14,6 milhões), seguida do Centro-Oeste (4,9 milhões), Sul (4,5 milhões), Sudeste (4,2 milhões) e Nordeste (1,3 milhão). Esse território será mapeado pelo estudo ‘Tendências e Oportunidades da Agricultura Irrigada no Brasil’ que irá compor o Plano Diretor Nacional de Irrigação. A iniciativa é coordenada pela Senir – Secretaria Nacional de Irrigação, ógão do Ministério da Integra-

ção Nacional. Os estados de Ceará, Bahia, Espírito Santo e Pernambuco serão os próximos a receber os técnicos, como já ocorreu em Minas Gerais, Rio Grande do Sul e São Paulo. Conforme o secretário Miguel Ivan, o plano será uma ferramenta para a nova Política Nacional de Irrigação, aprovada no início deste ano pelo Congresso Nacional e sancionada pela presidente Dilma Rousseff. A norma traz diretrizes sobre como os governos devem trabalhar a irrigação. A média de lavouras irrigadas em território nacional cresce 180 mil hectares por ano, quando o ideal seria dobrar essa taxa para estar em compasso com o crescimento na demanda mundial de alimentos sem a necessidade de abrir novas fronteiras agrícolas. Dados da Agência mostram ainda que a cana-de-açúcar tem a maior área irrigada no país, com 3,8 milhões de hectares, incluída a irrigação de salvamento, feita uma vez por ano após o corte para “salvar” a soca. Os principais grãos brasileiros, como a soja e o milho, são produzidos quase totalmente em áreas de sequeiro. No caso da soja, a irrigação cobre apenas 2,3% da área total e, no milho, 7,1%. Em algumas regiões, o governo incentiva o aumento nas áreas irrigadas. No Rio Grande do Sul, após os problemas das secas recentes, o governo estadual lançou o programa Mais Água, Mais Renda, facilitando a licença ambiental e a outorga prévia para açudes com até dez hectares e áreas a serem irrigadas de até 100 hectares. O governo oferece financiamento em condições especiais para a implantação ou ampliação dos sistemas. Estudo da Secretaria da Agricultura, Pecuária e Agronegócio mostra que nas áreas irrigadas a produção de milho triplicou e a de feijão e soja mais que dobrou nos últimos

Áreas de pivô central no oeste da Bahia: dos 5,4 milhões de hectares irrigados no país, 2,6 são usados na produção de grãos.

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Aspersão convencional em área de batata em Minas Gerais: o uso regular da água é obrigatório em culturas de alto risco

Especialista no setor, o professor Everardo Mantovani alerta: “Irrigação não é consumo, mas uso da água”

dez anos, em comparação com as áreas sem irrigação. Além do arroz, que é irrigado por inundação, o estado irriga apenas 105 mil hectares dos mais de cinco milhões ocupados por outras culturas, como soja, milho, fumo, feijão e hortícolas. O Ministério da Integração Nacional destinou R$ 195,5 milhões (dentro do FNE Irrigação – Programa de Financiamento à Agropecuária Irrigada) para agricultores da área de abrangência da Sudene – Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste, que inclui os nove estados da região e, ainda, municípios do norte do Espírito Santo e Minas Gerais. O valor é referente a 2013, com prazo de financiamento de até 15 anos. O objetivo é impulsionar o uso da técnica. “Estamos tratando a irrigação como algo estratégico para o Nordeste”, afirmou o secretário nacional de Irrigação, Miguel Ivan. Minas Gerais também está facilitando a construção de barragens pelos produtores. Em estados do Nordeste, o Ministério da Integração Social autorizou que produtores dos perímetros irrigados mantidos pela Codevasp – Companhia de Desenvolvimento dos

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Vales do São Francisco e do Parnaíba sejam retirados do cadastro de créditos não quitados e voltem a usar a estrutura de irrigação de uso comum, além de liberar crédito para ampliação da área irrigada. O uso regular de água torna-se obrigatório em culturas de alto risco, como frutas, verduras, legumes e flores. O problema é que a irrigação agrícola utiliza muita água. São necessários, por exemplo, dois mil litros para produzir um quilo de arroz em casca, lembrando que, no Sul, a cultura é viabilizada em terrenos inundados. Recentemente, a organização de proteção ao meio ambiente Fundo Mundial para a Natureza (WWF, na sigla em inglês) chegou a publicar um cálculo alarmista, segundo o qual seriam necessários 140 litros de água para produzir uma simples xícara de café. Novos conceitos O professor Everardo Mantovani, especialista em irrigação da UFV – Universidade Federal de Viçosa alerta para os mitos que cercam a questão, lembrando que irrigação não é consumo, mas uso da água. O líquido não usado pela planta retorna para o lençol freático mesmo quando há evaporação, nesse caso através das chuvas. De acordo com o professor, houve realmente no passado um período de grande descontrole na irrigação e o irrigante ficou com fama de desperdiçador de água. “Esse conceito mudou e já se entende que restringir o uso da água além do necessário é limitar a produção de alimentos.” Para Mantovani, o Brasil tem um papel importante no suprimento da demanda mundial de alimentos nas próximas décadas e irrigar as lavouras é o caminho mais direto para aumentar a produtividade na safra e ampliar o potencial produtivo ao longo do ano. Uma lavoura irrigada produz de duas a três vezes mais que a mesma área em sequeiro. Para evitar desperdício – até porque, em muitas áreas, a mesma água serve para abastecimento humano –, as empresas desenvolveram


De 10 anos para cá, a irrigação no Brasil evoluiu do simples lançamento de água para um sistema de gestão planejada. sistemas de manejo da irrigação, dando à planta apenas a água de que ela precisa. As novas tecnologias permitem que os equipamentos que molham também sirvam para levar nutrientes às plantas e aplicar defensivos nas lavouras. O pesquisador conta que, de dez anos para cá, a irrigação no Brasil saiu do mero lançamento ocasional de água nas culturas para um sistema de gestão planejado para dosar a aplicação de água, fornecer nutrientes à planta e proteger o solo. Ele considera o pivô central uma das formas mais eficientes de irrigar as áreas maiores. O país tem 1,2 milhão de hectares irrigados com esse sistema, também chamado de irrigação por aspersão autopropelido, sendo que, destes de 20 a 25% têm sistema de gestão. As áreas mais desenvolvidas estão ao redor de Brasília e no leste de Goiás, no Cerrado mineiro, no Cerrado baiano e no interior de São Paulo, especialmente no Vale do Paranapanema e na região de Guaíra. Outro 1,2 milhão de hectares é irrigado pelo sistema convencional, com predominância do sistema de aspersão com carretel, mas apenas 5% fazem uso da gestão. Há ainda 800 mil hectares com irrigação localizada, via micro-aspersão ou gotejamento, sistemas tecnificados, com taxa de gestão entre 13 a 15%. Na média, de 13 a 15% da área irrigada no País usam sistemas modernos de irrigação, segundo a estimativa de Mantovani. Nessas áreas avança o uso da quimirrigação – aplicação de fertilizantes e defensivos durante a irrigação – que impõe maior tecnificação do processo. “Mas é preciso haver gestão, pois a irrigação mal feita acarreta a perda dos nutrientes”, alerta. De acordo com o especialista, na última década, a visão do agricultor em relação à irrigação também mudou. O investimento para molhar uma lavoura era considerado quase um luxo pelo agricultor. Mantovani concorda que o custo é elevado: uma volta no pivô central pode custar até R$ 2 mil. “Tínhamos a tecnologia, mas havia dificuldade de aplicá-la no campo por haver resistência quanto ao custo.” Segundo ele, foi necessário comprovar que o investimento dá resultado econômico. “A cada um real que se investe em gestão, há um retorno de dois a três reais no quesito energia e de 10 a 16 reais em todo o processo.” Entre os benefícios, está o maior controle fitossanitário, pois a gestão da irrigação torna o tratamento de doenças mais efetivo. O censo oficial do IBGE de 2010 destacou os municípios de Cristalina (GO) e Petrolina e São Desidério (BA) como os detentores dos maiores PIBs Agropecuários do país. Esses municípios, segundo o pesquisador, têm como característica comum a forte

Gotejamento em canteiro de melancia: o Brasil abriga 1,2 milhão de hectares de área sob irrigação convencional.

presença da irrigação em seu setor produtivo. “Além da utilização da irrigação como instrumento de desenvolvimento econômico, outros setores da cadeia produtiva no setor urbano, como indústria, serviços e comércios, são ampliados e aprimorados.” Mantovani não vê um modelo único de irrigação para cada propriedade e conta que os produtores estão aproveitando o maior poder aquisitivo para ter um mix de sistemas. “O uso do pivô central cresceu muito por ser um sistema móvel e mais barato, mas para certas culturas a irrigação por gotejamento, por exemplo, apresenta mais eficiência.” Nos pomares, uma mangueira com gotejadores por linha de plantas é suficiente para dar à frutífera toda água de que a planta necessita sem desperdício. Um pé de laranja em pleno desenvolvimento precisa de 120 litros de água por dia. O gotejamento é muito usado nas culturas de café, um dos principais produtos brasileiros de exportação. Maior produtor mundial, o país cultiva 2,3 milhões de hectares. Tradicionalmente, a cafeicultura se desenvolveu em regiões ecológicas propícias ao cultivo sem irrigação. Com o avanço do café para regiões consideradas marginais ao seu cultivo quanto às necessidades hídricas, como as do Cerrado mineiro e o Oeste baiano, a irrigação passou a ser indispensável. Os primeiros projetos de irrigação datam de 1997 em regiões do Triângulo Mineiro (Araguari e Monte Carmelo) e da Alta Mogiana Paulista (Franca). Desde então, houve grandes avanços nas técnicas de manejo e nos equipamentos de controle agronômico da irrigação. A fertirrigação – aplicação de fertilizantes solúveis pela água de irrigação – fornece os nutrientes para o crescimento vegetativo e para a carga de frutos necessária à produção esperada e para a formação do es-

outubro 2013 - Agro DBO | 31


Capa Irrigantes criaram uma rede de informações meteorológicas em tempo real em São Paulo para subsidiar a tomada de decisões toque necessário para o ano seguinte. Permite, ainda, controlar a concentração de minerais nas imediações do sistema radicular da planta. Análises de solo e foliar garantem os ajustes para se obter o resultado desejado. A nutrição via solo é planejada em conjunto com a aplicação de cobertura e tratos fitossanitários. O sistema de nutrição da planta por gotejamento foi patenteado pela Netafim Brasil. Segundo a empresa, é adaptável aos tipos de solo, topografia e qualidade dos recursos hídricos das diferentes regiões e culturas brasileiras. As conclusões do primeiro relatório de avaliação nacional do PBMC – Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas, divulgado em agosto, mostram que o clima no Brasil nas próximas décadas deverá ser mais quente em todas as regiões do país, com variações entre um e seis graus em relação ao fim do século 20. No mesmo período, deverá diminuir significativamente a ocorrência de chuvas em grande parte das regiões central, norte e nordeste. Nas regiões sul e sudeste, haverá um aumento no número de precipitações. Uma das conclusões é de que os eventos extremos de secas e estiagens prolongadas, principalmente nas regiões de

A região de Cristalina (GO) possui a maior concentração de pivôs do país, com 1.600 unidades

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novas fronteiras agrícolas, como o Cerrado, a Caatinga e a Amazônia, devem aumentar. As mudanças nos padrões de precipitação nas diferentes regiões do país, causadas pelas mudanças climáticas, deverão ter impactos diretos na agricultura, na geração e distribuição de energia e nos recursos hídricos, já que a água deve se tornar mais rara no Norte e Nordeste e mais abundante no Sul e Sudeste ao longo do século. A vulnerabilidade dos sistemas hídricos tem levado produtores rurais e empresas do agronegócio a tratar a possibilidade de irrigar como um dos fatores que mais pesam na decisão de compra de áreas para agricultura. De acordo com o professor Mantovani, consultor na área e criador de uma empresa de irrigação, não se fecha a aquisição sem duas certezas: a de que existe água suficiente e de que as outorgas têm alto grau de confiabilidade. Embora os órgãos que administram o uso da água comecem a entender essa exigência, nas principais regiões agrícolas do País, no entanto, os recursos hídricos escasseiam e as licenças para captar água visando ao aumento de áreas irrigadas, ou são negadas, ou demoram demais. É o que ocorre na região de Cristalina, em Goiás, que hoje detém uma das maiores concentrações de pivôs centrais do País. São 1.600 pivôs de todos os tamanhos, cobrindo uma área de 230 mil hectares com 34 culturas – do feijão à maçã – sem contar a cana-de-açúcar. O estado foi um dos pioneiros em cadastro de irrigantes. Mesmo assim, uma outorga nova não sai em menos de dois anos, garante o produtor Alécio Maróstica, presidente do Sindicato Rural de Cristalina, no extremo leste do Estado, divisa com Minas Gerais. Ele irriga 70 hectares de feijão e soja com pivô e está na fila para ampliar a área irrigada para 200 hectares. “Tenho estrutura e mercado para a expansão, mas falta a água”, disse Na região, o conflito pela água envolve os irrigantes e a construção da hidrelétrica de Batalha, no rio São Marcos. “Se temos de priorizar a hidrelétrica, que vai gerar energia, é preciso dar alternativa para que o irrigante não fique sem água”, defende Maróstica. O sindicato está propondo a construção de pequenas barragens nas propriedades rurais para reter uma parte da água da chuva. “Nesta região de Goiás chove bem durante seis meses, de outubro a março, período em que chega a haver um excedente de 400 milímetros de água por hectare. Se parte dessa água for reservada, podemos ter irrigação disponível de abril a setembro.” Na última safra, em que a seca se manifestou com mais intensidade, enquanto nas áreas de sequeiro os produtores não chegavam a 30 sacas por hectare, as culturas


irrigadas renderam 75 sacas na média por hectare. No milho, muitos não irrigantes perderam tudo, mas quem tinha a cultura sob pivô colheu média de 170 sacas por hectare. “Se o objetivo é produzir alimentos e obter renda, não se pode abrir mão da água”, afirmou o presidente do sindicato. Na região, a irrigação tem outro papel importante: as frutas de caroço precisam da seca para sofrer o estresse hídrico necessário para a produção. Na hora certa, é preciso interromper o stress com o fornecimento de água. Economia no consumo No estado de São Paulo, a Aspipp – Associação do Sudoeste Paulista de Irrigantes e Plantio na Palha, com sede no distrito de Campos de Holambra, em Paranapanema, desenvolve projetos de manejo da irrigação e já obtém resultados na economia de até 40% no consumo de água. O projeto criou uma rede de informações meteorológicas em tempo real para subsidiar a tomada de decisões do irrigante. O produtor Jacobus Derkes já suspendeu a irrigação em lavoura de algodão ao ser informado sobre a chegada de frentes frias com uma semana de antecedência. Ao medir a umidade do solo, ele chegou à conclusão de que, quando a planta se ressentisse da falta de água, já poderia estar chovendo. Situada na bacia de conservação do Alto Paranapanema, a região não é crítica em água, por isso as outorgas são concedidas sem muita demora. “O trabalho da Associação é preventivo e tem foco num cenário futuro”, informa o presidente Luiz Fernando Doneux. A entidade, ligada à Cooperativa Holambra, tem 126 associados com mais de 40 mil hectares irrigados no sudoeste paulista, valor que representa 78% da área de cultivo com grãos e algodão. A região é destaque em plantio direto na palha, executado em 100% da área. As culturas de grãos são quase todas irrigadas com pivôs, enquanto na produção

de frutas de caroço prevalece o sistema de irrigação por gotejamento. “A possibilidade de obtenção de 2,5 safras por ano, contra 1,5 nas culturas de sequeiro é uma das vantagens mais claras”, explica Doneux. O maior número de safras anuais permite antecipar a oferta de produtos no mercado e obter melhores preços. “O maior risco para a agricultura é a seca e, neste sentido, a irrigação funciona como um seguro, garantindo na pior das hipóteses o retorno do investimento na agricultura.” Em palestra recente, o presidente da Cooperativa Holambra, Simon Veldt, lembrou que dois períodos marcantes para a instituição tiveram a água como protagonista. “Em 1983 choveu 40 dias sem parar entre maio e junho, trazendo grandes prejuízos na colheita. Os estragos com a erosão foram decisivos para que os produtores procurassem uma solução para a erosão no plantio direto.” Toda a área cultivada pelos cooperados adota essa tecnologia. Dois anos depois, houve um período extremamente seco, com graves perdas nas lavouras, um ano decisivo para o início da irrigação com pivôs em Campos de Holambra, recordou. “Para nós, neste clima instável, a irrigação é uma segurança na falta de chuvas, ajudando não só a superar os veranicos como também a planejar as culturas.” De acordo com Veldt, os agricultores devem estar atentos para o risco de haver redução na disponibilidade desse bem. Nas próximas décadas, o triângulo com vértices em São Paulo, Campinas e Sorocaba deve se tornar a maior conurbação do estado, chegando a 30 milhões de habitantes, uma população que vai precisar de muita água limpa. “Já existe estudo de bombeamento da água da nossa bacia do Paranapanema para abastecer esta área no futuro. A outorga nos dá certa segurança de poder continuar usando a água, mas provavelmente num futuro não tão distante não serão concedidas novas outorgas na região.

A irrigação é mais cara, porém, mais eficiente, e ajuda o produtor a planejar com segurança.

outubro 2013 - Agro DBO | 33


Opinião

Guerra de informações sobre queimadas Com frequência exasperante, os mitos são repetidos na mídia e avalizados por cientistas que desconhecem a realidade da Amazônia Richard Jakubaszko

Não existem árvores de grande porte nas queimadas na Amazônia

I

ndependentemente de se entrar no mérito sobre a polêmica questão a respeito de haver ou não aquecimento e mudanças climáticas, e, portanto, a imperiosa necessidade de se reduzir a emissão dos tais gases de efeito estufa (GEE), como preconizam os ambientalistas, existem sobre as queimadas realizadas na Amazônia mitos falaciosos que precisam ser esclarecidos. Estes mitos, com frequência exasperante, são repetidos pela mídia e avalizados por cientistas que desconhecem a realidade amazônica. São ambientalistas, jornalistas e pesquisadores, que não saem de seus gabinetes refrigerados, e que jamais visitaram a floresta amazônica. Por desconhecerem a

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realidade amazônica fantasiam sobre as causas dessas queimadas. A mais recente falácia está numa matéria da Agência Fapesp – Fundação de Amparo à Pesquisa de São Paulo, assinada pelo jornalista Elton Alisson, e como se encontra sob o patrocínio da Agência Fapesp entidade pública de São Paulo, já que o artigo foi publicado no site da agência (http://agencia.fapesp.br/17903) somente por isso merece de nossa parte os necessários reparos e críticas. O referido artigo inicia afirmando que “O consumo interno do Brasil e as exportações de soja, carne bovina e outros produtos primários provenientes da Amazônia são responsáveis por mais da metade das taxas de desmata-

mento e, consequentemente, das emissões de gases de efeito estufa (GEE) registradas pelo bioma”. Assim, o artigo parte de um “senso comum”, sobre o “ato criminoso” dos desmatamentos e das queimadas, para insinuar que produzir alimentos destinados à exportação ou ao mercado interno é feito apenas por ganância. O autor, e suas fontes, pesquisadores da FEA/USP, financiados pela Fapesp, desconhecem que a soja é uma cultura 100% mecanizada, seja no preparo do solo, na adubação e semeadura, no manejo das ervas daninhas, pragas e doenças, e ainda na colheita, e que esses equipamentos são de altíssimo custo de aquisição e operacional, que usam sofisticadas


tecnologias, e são incapazes de trabalhar em áreas com presença de tocos de árvores aflorando a cada metro de distância de forma irregular. O que isso significa? Significa que a soja não desmata e não provoca queimadas na Amazônia. Tudo pelo simples fato de que os tocos de árvores que foram derrubadas, são remanescentes com suas respectivas raízes, permanecem no solo por no mínimo 5 a até 15 anos, eis que nenhum trator mesmo que equipado com esteiras tem capacidade de destocar esses tocos antes que apodreçam. E isso leva em média 10 anos, dependendo da espécie, porte e idade da árvore. Portanto, quem desmata na Amazônia são madeireiros, em busca do dinheiro fácil, que é dividido no caminho com fiscais inescrupulosos. Mas as madeireiras levam apenas as árvores de maior porte, pois possuem alto valor agregado. As madeireiras deixam para trás as de menor porte que serão aproveitadas na sequência por carvoeiros e seus filhos, para produzir carvão destinado às empresas produtoras de alumínio, indústrias que demandam alto consumo de energia. Se presos, os carvoeiros respondem por crime de “trabalho escravo”, na verdade o único crime de que podem ser acusados, pois trabalham em família pelo sustento da vida. Mas esses carvoeiros são classificados como “agricultores-carvo-

eiros”, e os produtores rurais “levam a culpa”, mais uma vez, como antes, quando foram “desmatadores”, sem de fato terem feito o desmatamento. Posseiros, na sequência, iniciam o plantio de pequenas áreas de pastagens, ou mesmo de arroz e depois feijão, semeados na matraca manual, pois as máquinas ainda não conseguem trabalhar com tantos tocos aflorando o solo. Antes de realizar esse plantio os posseiros tiveram de eliminar através de queimadas a capoeira, mato de média estatura, que aflora na região devido ao alto volume de chuvas. Em dois anos no máximo os posseiros abandonam a área desmatada, porque a baixa produtividade não compensa nem a semente reservada para replantio. Vendem ou repassam a área. Aparece nova capoeira nesse meio tempo. O pecuarista de porte médio que adquire essa área tem de limpar esse mato e recorre, por falta de opções, a nova queimada. É mais fácil e mais barato do que aplicar herbicidas. Estes só seriam possíveis se houvesse condições de adentrar na área algum trator tracionando pulverizadores, mas os tocos, ainda rijos, alguns com sinais de rebrota, impedem esse processo. De novo a queimada da capoeira, um fogaréu de cerca de 5 minutos se feito na época das secas, mas que os satélites registram como uma imensa queimada, que “desmata a Amazônia virgem e indomável”. Portanto, são delírios contábeis de am-

bientalistas e técnicos de gabinete as acusações feitas pelos pesquisadores da Fapesp, de que a soja seja a responsável por desmatamentos e pelas queimadas da Amazônia. Uma lavoura de soja somente terá condições de ser implantada em áreas de floresta Amazônica, no mínimo 10 a 15 anos após o início de seu desmatamento pelos madeireiros. Convenhamos que, acusar e criminalizar sojicultores pelo desmatamento, depois de todo esse tempo, é no mínimo inverossímil, além de falacioso, afora demonstrar um total desconhecimento dos pesquisadores envolvidos sobre o que seja fazer agricultura. A Fapesp, como entidade pública de financiamento e incentivo de pesquisas, deveria, em nossa opinião, regulamentar as opiniões emanadas dos pesquisadores que financia e dos divulgadores dessas pesquisas de gabinete, especialmente temas polêmicos ou de conotação e influência política. A Embrapa, por exemplo, em cada uma de suas unidades espalhadas pelo Brasil, possui um comitê editorial e científico que direciona seus pesquisadores, não no sentido de censura, mas de unidade e coerência de pensamento, e de verossimilhança. Nada é publicado, seja artigo, livro ou resultado de pesquisa, sem passar pelo crivo do comitê. Seria um bom exemplo a ser seguido Fapesp. Ajudaria a explicar o que há por trás da guerra de informações sobre as queimadas.

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Safra

Corrida contra o tempo

Produtores de Mato Grosso anteciparam o plantio de soja para colher em janeiro e aproveitar as janelas do milho e do algodão Marianna Peres

A

s primeiras lavouras de soja da safra 2013/14 já estão germinando no Mato Grosso. Desde o dia 15 de setembro, com o fim do vazio sanitário – período de 90 dias em que é proibido plantar ou manter plantas vivas de soja -, e com a chegada das primeiras chuvas, ainda que esparsas e irregulares, os produtores matogrossenses retomaram os trabalhos no campo em praticamente todos as regiões. A pressa em dar o start da nova safra nacional tem como objetivo aproveitar ao máximo o novo ano-safra e fazer duas grandes lavouras num mesmo calendário agrícola. Em Mato Grosso, muitos agricultores geralmente plantam soja precoce “no pó” (em terra seca, antes do período chuvoso) para, numa corrida contra o tempo, colher a oleaginosa em janeiro e plantar algodão ou milho segunda safra ao mesmo tempo. Ao contrário do que ocorreu nas duas últimas safras, quando priorizaram o milho, que estava com preços em alta e ótimas perspectivas de mercado, este ano vão (os que têm 38 | Agro DBO – outubro 2013

estrutura para tanto) optar pelo algodão, mudando, portanto, o foco na cultura de segunda safra. Até o fechamento desta edição, o Imea Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária não dispunha de balanço a respeito, mas as intenções até então declaradas de plantio confirmavam esta tendência. Na safra 2012/13, a área plantada com algodão recuou mais de 30% em Mato Grosso e, com oferta menor, as perspectivas de mercado são mais atrantes que as do milho. Em 20 de setembro, quando as precipitações ainda seguiam irregulares em Mato Grosso, a semeadura de soja alcançava 0,3% da área prevista de 8,27 milhões de hectares, de acordo com o primeiro levantamento de safra do Imea. O pico do plantio está atrelado necessariamente à frequência e regularidade das chuvas, o que, de acordo com o histórico local, só ocorre em meados de outubro. No entanto, tão logo terminou o vazio sanitário, as plantadeiras entraram em campo nos municípios de Sapezal, Campo Verde, Lucas do Rio Verde, Nova

Mutum, Sinop, Vera, Brasnorte, Itaúba, Sorriso, Ipiranga do Norte, Santa Rita do Trivelato, Campos de Júlio, Campo Novo do Parecis, Diamantino, Tangará da Serra e Primavera do Leste, mais focadas no alinhamento correto para maior eficiência da semeadura do que com o intuito de plantar. Em pequenas porções, as lavouras foram semeadas sob pivô, especialmente em Primavera do Leste e Campo Verde (sul do estado) e em Lucas do Rio Verde e Nova Mutum (ao norte). Exatamente no dia 15 de setembro, a Amaggi (a divisão agro do grupo André Maggi, uma das maiores empresas do segmento no país), deu a largada do ciclo 2013/14 na fazenda de Sapezal, a 470 quilômetros a noroeste de Cuiabá. A precocidade do plantio visa garantir uma janela adequada e segura ao algodão, cultura que terá forte expansão nesta safra na Amaggi. O grupo planta grãos e algodão em 12 fazendas, todas em Mato Grosso. O planejamento da maior empresa de agronegócio do estado se justifica nos números. Como explica o diretor da Amag-


Fotos Andrea Côrtes

Plantadeira em ação no município de Sinop, no médio-norte matogrossense

gi, Pedro Valente, a expectativa em relação à produção é fechar a soja com incremento de 13% em relação à safra passada e ampliar as lavouras de algodão em 173%. O milho será a única cultura em retração, devido às más perspectivas de mercado – grosso modo, a baixa rentabilidade prevista não justifica altos investimentos em tecnologia de produção. A área de milho deve cair 23% ante a safra passada. Da safra 2011/12 para a 2012/13, foi a cultura que mais ganhou espaço nas fazendas do grupo – passou de 52,1 mil/ha para 73,9 mil hectares. Com relação à área

Quem plantou logo após o fim do período de vazio sanitário em Mato Grosso viu a soja germinar alguns dias depois

total para a safra 2013/14 nas três culturas (soja, algodão e milho), a expectativa do grupo é de um aumento de aproximadamente 12%. Na última safra, a Amaggi fechou o ciclo com 129,03 mil hectares de soja, 73,95 mil de milho e 10,43 mil de algodão, totalizando 213,14 mil hecares. Em relação à produtividade, a Amaggi espera incrementar o rendimento da soja em 6,5%, já que, na safra passada, caiu de 56,1 sacas/ha para 53. O algodão deve manter rendimento de 278,37 arrobas/ha. O milho, que chegou a 101,97 sacas por hectares, não deverá repetir o mesmo rendimento. No calendário deste ano, o grupo planejava plantar soja a partir de primeiro de outubro na fazenda Tanguro, localizada em Querência, a 945 quilômetros ao nordeste de Cuiabá. A propriedade é uma espécie de xodó da empresa, pois está localizada em uma área de transição entre o Cerrado e a floresta amazônica e fica de porteira aberta a pesquisadores e ecologistas. “Com os investimentos em agricultura de precisão e qualificação do pessoal, a Tanguro mantém o equilíbrio entre produtividade e preservação. De um total de 82 mil hectares, pouco mais de 35 mil são utilizados comercialmente, produzindo soja e milho. O restante é mantido como reserva ecológica, preservada ou em processo de recuperação”, completa Valente – o grupo vem investindo pesadamente am agricultura de precisão. No

ano passado, 38% da área foi semeado sob tal tecnologia. A meta é contemplar 60% do total semeado nesta nova safra, segundo ele. O presidente do Sindicato Rural de Sinop (503 quilômetros ao norte de Cuiabá), Leonildo Bares, não cedeu à tentação de antecipar o plantio. Nem as chuvas registradas após o fim do vazio sanitário nem a movimentação dos vizinhos, nem mesmo o fato de estar com todos os insumos comprados e entregues, afastou-o dos planos iniciais. Como conta, choveu sobre a região desde o início da segunda quinzena de setembro – precipitações de 80, 100 e 110 milímetros (mm). “Eu mesmo tive três chuvas seguidas na mesma semana – 10, 12 e 30 mm -, volume suficiente para soltar o plantio. Mesmo assim, mantive meu calendário, só vou plantar depois das chuvas do dia 25”. Escolha lógica A opção de Bares está fundamentada na matemática pura e simples, como ele mesmo definiu. “Faço isso porque sair de forma tão precoce limita a produtividade, e quem sai com plantio cedo é porque quer fazer safrinha com o milho, mas não há preços para justificar você perder cinco a seis sacas de soja pela precocidade para dar espaço ao milho após a colheita. Essa opção hoje {de antecipar o plantio da soja para fazer segunda safra com milho} é economicamente inviável”. Em cifras, essa perda de

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Safra

Foto Andrea Côrtes

A temporada 2013/14 começou de maneira acanhada porque as vendas no mercado futuro não deslancharam como os produtores esperavam

Leonildo Bares examina o teor de umidade do solo antes do plantio: “É preciso fazer tudo para não errar”.

sacas decorrentes da precocidade significa redução de R$ 250 a R$ 300 por hectare na soja, valores que o milho não cobre. “Vou fazer safrinha de milho sim, pois o benefício do cereal vem de forma indireta pelos benefícios ao solo”. Bares tem sua estratégia “fazer tudo para não errar”. Para ele, são fundamentais para o sucesso da safra: investir no solo, comprar bem, produzir bem (fator que tem o clima como determinante) e vender bem. “Quem atua dentro desses princípios, minimiza o risco”. O

produtor vai manter a cobertura dos seus 750 hectares com sementes transgênica (9144 Monsoy e TMG 132). A estimativa é colher cerca de 36 mil a 40 mil sacas, com média de 55 sacas/ha. A estratégia se baseia na obediência à janela ideal de plantio (em Mato Grosso, vai de 5/10 a 5/11) para assegurar a produtividade e depois fazer segunda safra na área que der para ser coberta dentro da janela do milho ou do algodão. “Não se planta milho só para vender o grão. Plantamos para fazer reciclagem de solo. A altura que a espiga dá no pé é exatamente igual à profundidade da raiz. Como o potássio e o nitrogênio vão embora rapidamente e a soja tem raiz de, no máximo, 40 centímetros, o adubo que foi embora, a soja não pega mais. Quando se usa o milho na rotação, ele capta esses nutrientes, porque tem raiz mais profunda, e os traz de volta e deixa na palhada (plantio direto). Uma parte vai embora no cereal e a outra fica na matéria orgânica e beneficia a soja. A palhada tem alto teor de fertilidade. Essa opção pelo milho ainda ajuda

Largada queimada A necessidade em cumprir o calendário agrícola com safra e segunda safra, ou seja, fazer a chamada ‘safra cheia’, fez com que alguns produtores ‘queimassem a largada’ e dessem início à semeadurao antes do fim do vazio sanitário, como foi registrado em Nova Mutum (262 quilômetros ao norte de Cuiabá), município aonde as chuvas chegaram primeiro. O Indea - Instituto Nacional de Defesa Agropecuária recebeu três denúncias de plantio antecipado, cerca de quatro a

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cinco dias antes do fim do período de proibição. A confirmação dos casos se deu pela germinação das plantas antes do dia 15. Conforme o Indea/MT, o produtor será notificado e poderá pagar uma multa de duas UPF’s por hectare plantado. Como o vazio não permite plantas vivas de soja de 15 de junho a 15 de setembro, os sojicultores se utilizam da seguinte estratégia: plantam até dois dias antes do fim do Vazio para que no emergir da planta o Vazio tenha terminado.

a descompactar o solo e se quebra o ciclo de mato e das pragas”. A região de Sinop reúne 10 municípios produtores em um raio de 100 quilômetros, com cerca de 800 mil hectares cultivados. A produtividade média é de 58 sacas/ha, contra 51 no estado. “Se eu plantar fora da janela, meu rendimento vai cair para patamares de Mato Grosso. De 51 para 58 são menos sete sacas. Vendendo entre R$ 45 e R$ 50, perco de R$ 250 a R$ 300. Então pergunto: faz sentido perder isso na soja para plantar milho?.” Bares faz questão de dizer que o cereal não é um bom negócio agora, mas a segunda safra não está, nunca esteve e nem estará ameaçada. “A agricultura é cíclica; o que não vai bem neste ano, pode ir bem no outro”. Conjunção favorável Mato Grosso espera uma colheita de mais de 25 milhões de toneladas de soja e o Brasil, 85. Para o presidente da Aprosoja/ MT – Associação dos Produtores de Soja e Milho do Estado de Mato Grosso, Carlos Fávaro, a nova safra mato-grossense segue incerta sob o ponto de vista da rentabilidade e começou com mais sorte do que juízo. O temor em relação à renda é porque os custos de produção aumentaram cerca de 27% no estado de uma safra para a outra (de R$ 1.900/ha para R$ 2.430/ha, segundo estudo do Imea) e o preço médio da saca deve cair em relação ao da safra 2012/13. “Mais uma vez, nosso maior gargalo, a infraestrutura logística, não foi resolvido, e isso toma toda a competitividade do setor. Tivemos sorte porque, novamente, temos outro ano com seca nos EUA – não tão severa como no ano passado –, ao mesmo momento em que houve uma desvalorização do real; o dólar valorizou e tornou o mercado atrativo


Foto Fran Dal’Maso

e remunerador, movimentando o mercado futuro em setembro”. Se o período pré-plantio da soja fosse uma corrida de atletismo, poderíamos dizer que, no sprint final da competição, os competidores mato-grossenses se deram bem. A cautela, motivada mais pela falta de perspectivas em relação à rentabilidade do que pela segurança, fez o mercado futuro quase que paralisar de julho a agosto no estado. Quem ficou à espreita conseguiu reverter o cenário de possível prejuízo em razão da confirmação da menor safra de soja nos EUA e da manutenção de taxa de câmbio valorizada frente ao real. “Valeu à pena esperar. Atingi média de US$ 22, ante oferta de no máximo US$ 18”, disse Fávaro. Até meados de agosto, segundo ele, a conta era negativa, ou seja, o valor da saca não cobria os custos de produção e dava prejuízo. “Depois disso, a valorização cambial e a confirmação

de perdas climáticas nos Estados Unidos elevaram os futuros para US$ 22, US$ 23, para os compromissos dolarizados, e cerca de R$ 50 para os compromissos em reais”. Como explica, os produtores têm, em geral, 70% das suas despesas com a lavoura em dólar e 30% em real, para quitação de encargos trabalhistas e folha de pagamento. Os insumos são dolarizados. Apesar do certo ânimo no sprint final, as vendas antecipadas da nova safra, em Mato Grosso, acumulavam até meados de setembro – em percentual de comercialização – o menor desempenho das últimas três safras para o período, e com um agravante: com o plantio já iniciado. A safra 2013/14 começou de maneira atípica no estado porque as vendas não deslancharam. Da produção estimada para este ciclo, 38% estavam vendidas até a virada de agosto para setembro, chegando a 40% em meados de setembro. No ano passado,

Mato Grosso espera colher pelo menos 25 milhões de toneladas de soja e o Brasil, 85.

Com chuvas insuficientes, houve quem plantasse sob pivô para garantir o desenvolvimento da lavoura.

quando os preços acima das médias históricas empurraram os produtores para os negócios futuros, a safra tinha início com mais de 61% da estimativa vendida. Em 2011, as travas respondiam por 48% do total esperado e em 2010, 36,2%, conforme o banco de dados do Imea. Apesar da diferença anual em quase 23 pontos percentuais (p.p.), os analistas chamam à atenção para o histórico dos últimos cinco anos. Nesse período, a média atual corresponde à série: O Imea mostra que no mês de agosto os preços futuros internos, em Mato Grosso, tiveram aumento de mais de 15% na média local. Ainda assim, a elevação mensal não foi muito forte, pois os produtores estavam à espera do relatório de oferta e demanda do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA, na sigla em inglês), que apontou queda na safra de soja americana – de 88,6 milhões de toneladas (previsão de agosto) para 85,7. O quadro, porém, não mudou muito, porque o USDA elevou a estimativa para o Brasil (de 85 para 88 milhões de toneladas), mantendo, portanto, os estoques finais no mesmo patamar. Mesmo que os preços e as margens sigam abaixo das estimativas, a safra começou em Mato Grosso sob clima de otimismo. De agora em diante, as questões climática e fitossanitária serão decisivas para o resultado final. outubro 2013 – Agro DBO | 41


Soja

Safra invertida Na contramão do que ocorre em quase todo o país, começou a colheita em Roraima, o mais setentrional dos estados brasileiros. Glauco Menegheti

M

uma área agricultável de um milhão de hectares, sobretudo no bioma Cerrado. Apesar de integrar a Amazônia Legal, onde é preciso manter 80% da mata nativa original como reserva legal, o índice, no estado, é de 50%, por concessão da União – cerca de 70% do território são ocupados com terras indígenas, propriedades do Exercito, parques nacionais e outras áreas protegidas. Apesar do solo arenoso, a pluviometria, a amplitude térmica e a alta luminosidade fazem com que a produtividade média, de 3,6 mil quilos por hectare (60 sacas), seja superior à nacional. Técnicos da Embrapa acreditam que seja possível produzir até 85 sacas/ha na maior parte das terras disponíveis, boa parte das quais situadas no hemisfério norte. Há dez anos, quando a saga da soja foi iniciada no estado, a produção por hecEides Antonelli

Vista geral dos lavrados de Roraima, área de grande potencial para produção agrícola

ato Grosso, o primeiro estado a realizar a semeadura de soja no país, começou o plantio mais cedo este ano. A maioria dos sojiculores do país inicia o cultivo em outubro ou, dependendo da região, novembro. Em Roraima, ao contrário, a colheita já começou. Com apenas 12,5 mil hectares cultivados (um “talhão”, considerando os padrões mato-grossenses, mas crescente em relação às áreas plantadas nos últimos anos), os produtores rurais de Roraima começaram a colher soja em setembro, à frente, inclusive, dos norte-americanos, cuja colheita se inicia em outubro. Estados Unidos e Roraima – não custa lembrar – ficam no hemisfério norte. As vantagens comparativas do estado têm sido aproveitadas pelos agricultores, ainda que muito aquém do seu potencial. Existe

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tare ficava em torno de 25 sacas. O clima único também imprime diferenças no grão. A variedade Tracajá, desenvolvida pela Embrapa, produz mais óleo e proteína em Roraima do que no Pará, no Maranhão e em outras regiões do Norte e do Nordeste. “Isso está relacionado aos fatores edafoclimáticos de Roraima”, explica o pesquisador da Embrapa Roraima, Wellington do Ó, também secretário adjunto de agricultura. Em maio, quando os sojicultores brasileiros estão concluindo a colheita, os roraimenses iniciam a semeadura. De acordo com do Ó, este é o mês ideal para a tarefa, quando se pode plantar com segurança, sendo que os produtores têm uma janela de plantio estreita, de 30 dias. O calendário de chuva da região é de maio a setembro. Depois, não cai um pingo d’água. “A precipitação média anual é de 1.700 milímetros”, explica do Ó. Além da safra invertida, Roraima é um oásis da produção convencional de soja no país. O único comprador regional, a Aliança Agrícola do Cerrado S.A., uma filial da empresa russa Sodrugestivo, escolheu comprar apenas grãos não modificados geneticamente, pelos quais os produtores ganham prêmios, o que não acontece na maior parte das regiões produtoras do país. Enquanto no Rio Grande do Sul, o preço da saca de soja de 60 quilos gira em torno de R$ 66,00, em Roraima o valor atingiu R$ 70,00 em meados de setembro. O preço da soja acima da média nacional se deve a uma vantagem competitiva: a da logística. Saindo da região produtora,


Pragas e doenças Em Roraima, diferentemente do que acontece no restante do país, a semeadura da maioria dos plantios ocorre netre o final de abril e o início de maio e permanece no campo até setembro, período de maior precipitação pluviométrica, com temperaturas variando de 22 a 35 ºC. Estas condições são favoráveis à ocorrência de doenças típicas dos plantios

de soja na região amazônica, como a mela (Rhizoctonia solani) e antracnose (Colletotrichum truncatum). O principal problema do manejo de doenças na cultura da soja em Roraima é o plantio sucessivo na mesma área, que pode, ao longo dos anos, aumentar a incidência e severidade das doenças. Também não se pode desprezar o poder de deslocamento da Helicoverpa armigera. Exames comprovaram a ação da lagarta em plantações de soja nos municípios de Boa Vista e Bonfim. No caso da antracnose, a Embrapa recomenda que em áreas de primeiro plantio, a primeira medida de controle é o uso de sementes sadias. O tratamento com fungicidas é recomendado em lotes que apresentem mais de 5% de sementes infectadas. Em áreas de plantios sucessivos de soja e com histórico de ocorrência da antracnose, recomenda-se realizar pulverização

Genor Luiz Faccio, fazendo ajustes para colher soja. Ele planta 1.2 mil hectares de arroz irrigado e soja e quer dobrar a área no ano que vem.

Eides Antonelli

situada no raio de 100 quilômetros da capital Boa Vista, a oleaginosa é transportada por 700 km até o porto de Itacoatiara, a 270 quilômetros de Manaus. Dali, é enviado para diferentes destinos por via marítima. “É uma vantagem e tanto”, afirma o produtor Genor Luiz Faccio, natural de Erechim (RS), radicado em Roraima há 34 anos. Ele foi um dos agricultores que perderam terras na reserva indígena Raposa Serra do Sol, de 1,7 milhão de hectares, localizada na região nordeste do estado – em 2005, por decisão judicial, os agricultores que a ocupavam foram obrigados a abandoná-la, deixando para trás lavouras, anos de trabalho e parte do patrimônio acumulado. Faccio cultiva atualmente 1,2 mil hectares de arroz irrigado e soja nas imediações de Boa Vista, a capital. Escaldado com a perda de terras, ele reclama que a questão fundiária não está bem resolvida no estado, mas comemora as condições para o plantio. Na primeira safra já é possível alcançar produtividade média de 60 sacas/ha, o que muito sojicultor profissional mato-grossense não consegue. Há projeções para duplicar a área de soja na próxima safra, pela demanda da empresa russa e leis estaduais de incentivo, com isenção de ICMS nas aquisições de insumos e máquinas agrícolas. Roraima conta também com área de arroz irrigado de 15 mil a 18 mil hectares, segundo do Ó, com altos índices de produtividade. “São feitas duas safras por ano”, explica.

Condições locais de clima e solo e variedades adaptadas permitem altos índices de produtividade na soja e outras culturas em Roraima

com o fungicida sistêmico a base do ingrediente ativo difenoconazol no estádio de canivetinho (R3-fase inicial de formação de vagens). Caso ocorra reaparecimento dos sintomas da doença, fazer uma 2º pulverização após 15 dias. A mela é considerada uma doença limitante ao cultivo da soja na região amazônica e vem ocorrendo frequentemente em Roraima. Os sintomas da doença podem ocorrer nas folhas, haste e vagens das plantas, onde são observadas manchas de formato irregular, escuras e delimitadas por uma borda avermelhada. Com o progresso da doença, ocorre a união das manchas, que deixa o tecido com aspecto de queimado e frequentemente observa-se o crescimento micelial do fungo, semelhante a uma teia branca. Quando a doença ocorre nas vagens ainda em formação há a visualização do aspecto melado da doença, que corresponde ao apodrecimento do tecido. Os primeiros sintomas são observados nas folhas mais próximas ao solo; posteriormente, a doença progride para a parte superior da planta. Apesar de a mela ser detectada na maioria dos plantios de soja no estado, não se observa incidência alta de vagens com a doença e morte de plantas. Segundo explicações técnicas, um dos fatores de controle é a adoção da cultivar Tracajá, que apresenta boa tolerância à doença. outubro 2013 – Agro DBO | 43


Artigo

Ambiente insustentável A realidade é muito mais inóspita do que seria recomendada a uma nação que anseia consolidar-se como potência agrícola Rogério Arioli Silva *

O

otimismo exacerbado pos-sui considerável potencial de provocar problemas tanto quanto o excesso de pessimismo. Uma visão excessivamente fora da realidade provoca ilusões e estas nem sempre tem seu lugar no mundo real, onde as coisas efetivamente acontecem. Este introito se faz necessário no momento em que ainda não é possível vislumbrar os reais rumos que serão tomados em relação ao futuro da agropecuária brasileira. Os produtores rurais brasileiros normalmente estão imbuídos de uma visão extremamente otimista do futuro. Graças a isso, as fronteiras agrícolas foram desbravadas e, desde os pri-

ideológico de alguns governantes, que comparam o produtor rural de hoje com o latifundiário improdutivo e especulador do passado. O custo de produção da maioria das lavouras têm crescido de maneira recorrente, resultando numa lucratividade líquida que se equilibra em uma linha muito tênue entre lucro e prejuízo. No caso da segunda safra deste ano, embora esta tenha ocorrido dentro de certa normalidade climática, alguns produtos, entre eles o milho, pelo seu preço extremamente defasado, conferiu lucratividade mínima ao produtor e, em alguns casos, até mesmo prejuízo. A próxima safra de soja será capaz de proporcionar boas margens, em condições nor-

“O Brasil não trata o campo com a dignidade necessária para induzir o desenvolvimento”

* O autor é engenheiro agrônomo e produtor rural em Mato Grosso

meiros tempos, através dos vários ciclos econômicos ocorridos (cana, café, arroz, soja, gado, etc.), o país interiorizou-se distribuindo riqueza pelos sertões. Apesar de todas as dificuldades provocadas pela letargia do estado, que sempre se mostra caudatário em relação aos investimentos privados (estes, ancorados pela pesquisa e pelo empreendedorismo), a agricultura tropical consolida-se a cada ano que passa, provocando surpresas agradáveis na imensa maioria das vezes. Todavia, existem indicadores que demonstram não haver, por parte das políticas públicas, a consolidação de um ambiente de tranquilidade para que a produção deslanche sem os sobressaltos provocados pelo ranço

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mais de clima, dependendo do local analisado. Aqueles que produzem mais perto dos portos e dos centros de consumo, trabalharão com boas margens. Quem se localiza na região central do país, entretanto, terá de buscar altas produtividades para obter renda. Esse fantasma dos altos custos e baixas margens causa preocupação a todos os que fizeram seus investimentos em máquinas e equipamentos através das convidativas linhas de crédito ofertadas. A tomada de decisão para a realização de investimentos nas propriedades rurais tem sido um exercício de futurologia. Deixar de investir pode ser um caminho sem volta principalmente pela necessidade de realizar as atividades agrícolas

no momento certo, este cada vez mais exíguo e importante. Por outro lado, investir, assumindo dívidas, também pode se tornar uma decisão equivocada se as margens futuras permanecerem estreitando-se. Não bastasse toda essa aflição, característica de quem é desafiado a empreender quando as regras não são muito claras, existe também a ameaça constante das legislações ambientais, trabalhistas e, agora de maneira mais contundente, do direito de propriedade. Os conflitos provocados pelas ampliações de reservas indígenas atingiu tal magnitude nos últimos meses, que merece um debate à parte, desideologizado e despreconceituoso. Não se deve dar voz a quem diz fazer justiça social com o que é dos outros, mas não está disposto à mesma grandiosidade filantrópica com o patrimônio próprio. A preocupação com a qualidade de vida de povos primitivos (às vezes, nem tanto) definitivamente não faz parte da pauta gananciosa dos que defendem ampliações de reservas de maneira desmesurada, impondo a miséria a muitos produtores rurais despejados de maneira inconsequente. A realidade do ambiente onde se encontra inserido o produtor rural brasileiro é, portanto, muito mais inóspita e insegura do que seria desejado. Embora o país siga necessitando do superávit agropecuário para fechar suas contas, não parece tratar o setor agrícola com a dignidade necessária e recomendável para provocar um desenvol vimento pleno.


Artigo

Desconstruindo mitos O autor relaciona equívocos nas críticas frequentes dirigidas às aplicações aéreas de agroquímicos nas lavouras brasileiras Ulisses R. Antuniassi *

P

eriodicamente ocorre a publicação de informações dando conta da potencial ineficiência da aplicação aérea de defensivos. Misturando interpretações errôneas, distorções de conceitos ou puro desconhecimento técnico, artigos e reportagens afirmam categoricamente que a aplicação aérea é uma ferramenta extremamente ineficaz pelo fato de que “somente 1% do produto aplicado atinge o alvo. Os 99% restantes vão para o ar, água e solo”. Um dos casos

atua neste ramo, como os professores e pesquisadores da área de tecnologia de aplicação dos defensivos, por exemplo, esse tipo de mito não encontra respaldo. O princípio é básico: se de fato houvesse uma técnica com perdas de 99%, a mesma dificilmente seria eficaz no controle de pragas e doenças, e por isso nenhum agricultor se disporia a usá-la. Não é o que ocorre atualmente com a aviação agrícola, que é tratada como indispensável por diversos setores do agronegócio brasileiro.

A aviação agrícola é considerada indispensável por diversos setores do agronegócio brasileiro

* O autor é engº agrônomo e Professor Titular do Departamento de Engenharia Rural, FCA/UNESP, Botucatu/SP.

clássicos desse tipo de desinformação ocorreu no ano passado, quando uma reportagem de jornal que tratava do uso de defensivos no Brasil envolveu professores e pesquisadores de universidades, os quais citavam essa “ineficiência” como justificativa para defender a proibição da aplicação aérea no país. O interessante dessa reportagem era a citação de uma cadeia de artigos científicos que comprovariam a hipótese, citando nomes de pesquisadores renomados a até uma tese de doutorado sobre o tema. É certo que na comunidade acadêmica que de fato

Mas, fica a pergunta: como haveria então uma tese que comprovaria o mito? Uma busca rápida pelas bibliotecas científicas virtuais nos coloca rapidamente contato com a tal tese de doutorado. Na verdade, trata-se de um trabalho sobre química analítica que não aborda (nem de perto) as aplicações aéreas. Na introdução do trabalho, a autora apresenta a tradução literal de uma frase publicada em outro artigo, com a seguinte redação: “De fato, estima-se que apenas 0,1% do agrotóxico aplicado nas plantações atinja realmente o alvo definido...”. Portanto, não coube à autora da

tese a afirmação. Ainda, enquanto a reportagem de jornal citava “somente 1%”, a frase da tese citada referencia “0,1 %”, o que reforça ainda mais a cadeia de desinformação. Entretanto, é possível buscar a informação original. O tal artigo citado na tese tratava o assunto igualmente como uma “citação da citação” (reprodução da opinião de terceiros), sem qualquer referência à aviação agrícola. E um pouco mais de busca nos fez encontrar finalmente a origem do mito, num artigo publicado na década de 1980. Neste artigo, professores de uma universidade americana opinavam de maneira crítica ao controle químico de pragas, e a tal citação do valor (“apenas 0,1%”) não tinha fundamentação científica. Portanto, não se tratava de pesquisa. Os autores apresentavam na verdade cálculos teóricos da quantidade de inseticida que uma determinada lagarta poderia comer, sem qualquer referência direta sobre a deriva nas aplicações. Portanto, o mito usado para combater a aviação agrícola foi originado de um artigo que nem sequer tratava do assunto. Essa cadeia de “citações das citações” nos faz refletir sobre o uso equivocado da informação dita como “de base científica”. O fato de um pesquisador citar uma fonte não necessariamente torna a informação verdadeira. Muito menos a torna científica. É esse tipo de cuidado que devem ter os formadores de opinião, os legisladores e a imprensa em geral para evitar a propagação de mitos, cujo impacto pode ser muito prejudicial ao agronegócio e ao país como um todo. outubro 2013 – Agro DBO | 45


Café

Safra zero Para se manter competitivo, é preciso uma análise profunda da empresa cafeeira, especialmente nos itens de alto custo, como colheita e adubação. Hélio Casale e Eric Miranda de Abreu *

Colheita no pano: fazer safra zero implica em manejar a lavoura de modo a acentuar a bienalidade.

P

ara se manter competitivo no agronegócio café, é necessária uma análise profunda nos diversos segmentos da empresa cafeeira, principalmente nos itens que representam os maiores custos, a colheita e a adubação, racionalizando-os. Fazer safra zero implica em manejar a lavoura de maneira a acentuar a bienalidade, ou seja, zerar a colheita no ano de safra baixa, manejando parte das lavouras fazendo a colheita e o esqueletamento simultaneamente. Essa prática não é nova, mas vem recebendo aprimoramento. Essa iniciativa tem por finalidade básica a redução de custos sem afetar o principal. Um velho ditado popular deve ser lembrado: “Em dia de tormenta no mar, baixe as velas e espere a tormenta passar”. Estamos vivendo dias de preços deprimidos, muito próximos do ponto mínimo

46 | Agro DBO – outubro 2013

de equilíbrio, justamente por termos tratado bem das lavouras nos tempos de bons preços. O resultado está aí: boas produções por dois anos seguidos, mercado abastecido, preços caindo, lei da oferta e da procura acionada, alimentada pelos espíritos oportunistas e predadores. A escassez de mão de obra para a colheita manual do café, assim como o crescente aumento do custo de produção e os baixos preços de mercado do café, principalmente nas regiões com topografia mais acidentada, leva a uma crescente busca da substituição de mão de obra por máquinas adaptadas às diferentes topografias. Os cafeicultores estão atentos, enfrentando a situação, criando saídas para se manterem na atividade. O Brasil estará produzindo este ano, segundo dados atualizados da Conab, cerca de 47,54 milhões de sacas e o estado de Minas

Gerais, o maior produtor, com seus 1,24 milhão de hectares de cafezais, deverá produzir cerca de 25,43 milhões de sacas, ou seja, 53,49 % do total. No Sul de Minas, a região com topografia mais acidentada e mais dependente de mão de obra, a produção deverá atingir os 12 milhões de sacas, 25% da produção nacional. Vale lembrar que 50 sacas geram um emprego direto e outros três indiretos. Cada hectare ocupado com cafeeiros gera anualmente, em média, 114 serviços diretos e 2,2 hectares gera um emprego indireto. Considerando esses números, temos em Minas Gerais aproximadamente um milhão de empregos diretos e três milhões de empregos indiretos ligados à cultura do cafeeiro. O Brasil cafeeiro, ou o agronegócio café, segundo dados da Organização Internacional do Café, é responsável por 8,4 milhões de


empregos diretos e indiretos. No ano de 2012, só a cafeicultura mineira respondeu por 3,8 bilhões de dólares nas exportações. Mesmo assim, não vem recebendo a devida atenção das autoridades governamentais. No Sul de Minas, onde predomina a agricultura familiar, o custo de produção chega a ser 50% maior se comparado com os gastos dos cafeicultores de regiões com melhor topografia, onde a maioria das práticas são mecanizadas, como por exemplo, a Mogiana, no estado de São Paulo, e o Cerrado. O manejo das lavouras no sistema Safra Zero, onde a colheita e a poda de esqueletamento são feitas simultaneamente, tanto nos cultivos de montanha como nos de topografia mais amena, deve ser considerado como uma prática que leva à redução substancial de custos. O sistema engloba duas das principais operações em uma, ou seja, poda de esqueletamento ou desponte dos ramos laterais ainda com frutos, derrubando tudo sobre panos estendidos na área da sub-copa dos cafeeiros. Depois de recolhido, o material é levado para uma batedeira/ abanadeira que faz a separação dos grãos, dos galhos e folhas, e ainda faz a abanação dos grãos. Ao final da operação, tem-se a lavoura podada e a colheita realizada. Geralmente, é recomendado um decote apical leve para ajustar a altura ideal das plantas. Nada de desbrota, nem de brotos saídos no tronco nem no ponteiro. Vai haver uma auto-competição, ficando o ramo mais vigoroso e mais bem implantado, o que significa outra redução de custo, sabendo-se que

Eric Abreu, coordenador técnico do Grupo Abreu, de Três Pontas, na região sul de Minas Gerais, e o professor Fábio Moreira da Silva, da Universidade Federal de Lavras (MG), avaliaram o custo do sistema Safra Zero em diversas lavouras, comparando-o com o do sistema tradicional, na safra 2012/13. Fazendas

Sistema de colheita

Parreiral

Poda simultânea Tradicional

Lajinha

Poda simultânea Tradicional

Parreiral

Poda simultânea Tradicional

Lajinha

Poda simultânea Tradicional

Malvinas

Poda simultânea Tradicional

Sacas/ ha 44 50 60 80 100

não é fácil, nem barato, levar uma lavoura devidamente desbrotada. Cafeeiro gosta de dar em ramos novos. Por outro lado, a parte da planta que fica na metade escondida do solo, com as raízes, também se renova. A planta como um todo se regenera, se recompõe. A lavoura fica irreconhecível depois de dois ciclos de poda. Normalmente, a cada dois anos, o homem imita a natureza, apenas acentuando a quebra de produção no ano de baixa, levando-a a zero. No planejamento anual, é preciso definir as áreas que entrarão no sistema Safra Zero, para serem colhidas o mais cedo e rápido possível, pois estima-se que a cada mês de atraso na poda, a perda na colheita seguinte é da ordem de 10%. Considerações finais: durante a realização da colheita, tanto no sistema Safra Zero, quanto no tradicional, de derriça no chão, foram

R$ total/ha

R$ por saca

% redução

2,680,00

60,90

55,3

4.162,00

94,59

2.680,00

53,60

4.416,25

88,32

2.680,00

44,66

4.598,50

76,64

2.680,00

33,50

5.998,00

74,97

2.680,00

26,80

7.397,50

73,97

Cafeeiro podado (abaixo, à esqueda), em manejo com podadeira trapezoidal e depois da poda.

Dia/ homen

% Redução D/H

22

191

64 64,7

22

200

66 71,6

22

173

60 123,8

22

259

79 176

22

259

79

observados os rendimentos para posterior análise de custos. A colheita realizada no sistema Safra Zero compreendeu as seguintes operações: distribuição dos panos, poda da lavoura, repasse, recolhimento, transporte, enleiramento de ramos nos carreadores, recolhimento e debulha dos ramos com abanação mecânica. Já no sistema tradicional, foram realizadas as seguintes operações: derriça no pano, abanação e acondicionamento em sacos e poda posterior. A tabela acima mostra que o custo da saca de café no sistema tradicional varia de R$ 73,97 a R$ 94,59 reais, dependendo da produtividade, enquanto que no sistema de colheita com poda simultânea fica entre R$ 26,80 e 60,90 a saca de café beneficiado. * Hélio Casale é Engº agrônomo, cafeicultor e consultor, além de membro do Conselho Editorial de Agro DBO. Eric Miranda de Abreu é Engº agrônomo e cafeicultor.

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Entrevista

A agricultura vai mudar Agro DBO: Como está a agricultura do Oeste da Bahia? Horita: Faz dois anos que temos tido estiagens, e a safra 2012/13 foi agravada pelo problema da Helicoverpa, especialmente no algodão, mas também na soja e milho, com perdas na produção e redução na produtividade, sendo 20% a menos na soja, 15% no milho e uns 20% no algodão, além do aumento de custos.

Fotos Richard Jakubaszko

Agro DBO: E o que você vai fazer na próxima safra? Horita: Vou aumentar uns 5 mil hectares o plantio de soja, com total de 47 mil em soja, 35 mil ha de algodão e 13 mil ha de milho, total de 93 mil ha.

A

experiência do produtor médio demonstra que é sempre interessante saber o que os líderes do setor e os maiores produtores irão fazer e o que pensam eles. Isso se constitui numa importante referência do que se deve fazer na própria lavoura. Dentro desse espírito, Richard Jakubaszko, editor executivo da Agro DBO, entrevistou por o engenheiro agrônomo e produtor rural Walter Horita, do Oeste da Bahia, um dos gigantes brasileiros no plantio de grãos (soja, algodão e milho), para conhecer sua opinião e saber como ele se prepara para a próxima safra. De lambuja, Horita comenta sobre as suas preocupações com o futuro da soja e milho, face ao futuro desequilíbrio que pode ocorrer nesses mercados diante da assustadora perspectiva que se apresenta com a produção de gás de xisto nos Estados Unidos. 48 | Agro DBO – outubro 2013

Agro DBO: Como tem sido a negociação no Oeste da Bahia com os ambientalistas e órgão de regulação para a questão de irrigação? Horita: Tem sido normal, dentro do possível, estabelecemos no passado uma série de critérios, e hoje obtemos a outorga sem maiores problemas, mas com demoras pela burocracia, e desde que se cumpram as regras elas são mantidas. Eu não sou irrigante, mas na Aiba – Associação dos Agricultores Irrigantes da Bahia, muitos agricultores têm se queixado dos órgãos públicos de fiscalização. Agro DBO: O maior problema da Bahia na safra 2012/13 esteve na irrigação ou na lagarta? Horita: Na safra 2012/13, sim, foi a lagarta, mas o problema é que a lagarta continua aí, e vai continuar a incomodar. O que acontece é que o agricultor não estava preparado, e em se tratando de uma praga nova ninguém estava sabendo de nada, de como combater


“Vai faltar semente, não houve tempo, desde a liberação pela China para importação, para se reproduzir sementes para todos.” a lagarta. Para a próxima safra já vamos entrar com uma estratégia de manejo diferente, com maior uso de inseticidas e ainda com o uso de variedades transgênicas, resistentes à lagarta. Agro DBO: Vai haver sementes para todos? Horita: Isso é uma parte do problema, não vai ter semente suficiente para todas as áreas e culturas na próxima safra. A Monsanto acredita que só na safra 2014/15 haverá equilíbrio na oferta. Em algodão, por exemplo, só teremos 10% de sementes GM para toda a área de plantio. Isso nos deixa apreensivos, é claro. Então, vamos ter que caprichar nos controles químicos, no manejo, no momento certo de aplicação dos inseticidas, já que agora conhecemos um pouco mais sobre a dinâmica de reprodução, e os hábitos da lagarta, dos ciclos do adulto, tudo isso vai ajudar a minimizar os prejuízos, mas ainda teremos perdas. Agro DBO: Também na soja, com a Intacta RR2 os problemas são semelhantes ao do algodão? Vai faltar semente? Horita: Não há dúvida, vai faltar semente, não houve tempo, desde a liberação pela China para importação, para que se reproduzisse sementes para todos. A Bahia, por exemplo, planta 1,2 milhão de ha de soja, e deve ser atendida com a nova variedade, pelos meus cálculos, em apenas 10% da área de soja. Nas minhas propriedades, de 47 mil ha previstos de soja só conseguimos 10% da área para plantio com GM da Intacta. Agro DBO: E preço da soja, na sua visão, como vai ficar? Horita: Eu estava com um pouco

de receio em relação ao preço da soja, mas agora acho que está mais tranquilo, acho que teremos boas perspectivas de preços, apesar da elevação dos custos de produção no Brasil. Vai ganhar algum dinheiro quem tiver produtividade acima da média. A tendência da soja é de uma pequena queda na produção mundial por causa dos problemas de clima nos EUA, e o preço do bushel deve oscilar entre US$ 12.50 e 13.00 que são suportáveis para nós. Agro DBO: E no algodão? Horita: Vai ficar nessa faixa de US$ 0,80 a US$ 0,85 centavos por libra peso, o que também é razoável. O algodão é o meu principal negócio, e a gente procura fazer da melhor maneira possível. Na safra 2012/13 tivemos média de 267 arrobas por ha, por causa da Helicoverpa. Mas a nossa média normal é na faixa de 300 a 320 arrobas por ha. Agro DBO: O milho tem sofrido enormes oscilações de preços. Os EUA podem até reduzir a produção de etanol de milho, por causa da produção do gás de xisto, que ameaça provocar baixa nos preços do petróleo. Como você vê essa questão? Horita: É preocupante, porque se o milho tiver grande redução de uso como matéria prima para produção de etanol, esse milho será desviado para o consumo humano, e também como ração, e isso vai desequilibrar o mercado. São 120 milhões de toneladas, é quase duas vezes a produção do Brasil. Se baixar demais o preço, os produtores de milho vão migrar para o plantio da soja, e aí a oferta de soja cresce e o preço cai. Esse é o grande perigo. Desajusta tudo. No meu caso, só o algodão é que se salva.

Agro DBO: Quando isso começa a acontecer? Horita: Acho que na safra 2014 nos EUA, com reflexos na nossa safra de 2014/15. É um fantasma que a gente tem de analisar direitinho, até porque o gás de xisto não vai substituir e baratear o petróleo de uma hora pra outra, isso vai ser um processo de mudanças, acelerado, mas gradativo. Antes precisamos saber o que os EUA vão fazer com as suas usinas de produção de etanol de milho, pois as plantas industriais estão lá, produzindo etanol e gerando empregos. O futuro vai nos dizer se eles vão continuar acelerando com esse programa do etanol de milho. Se cair o consumo de 120 para 80 milhões de toneladas/ano, não deve trazer maiores problemas, mas se reduzir drasticamente pode complicar o mercado, e piorar muito. Essa nova matriz energética, que é barata pra caramba, vai mudar muita coisa, e a agricultura também vai mudar.

Horita, em 2011 quando ainda era presidente da Aiba.

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Política Desinformação e ideologia

problema é que ninguém sabe o que é sustenta“bilidade”, Omaior afirmou Maurício Antônio Lopes, presidente da Embrapa, durante apresentação no 2º Fórum de Agronegócios, evento do Lide – Grupo de Líderes Empresariais, em Campinas (SP), relizado no dia 21 de setembro último. Ele comentou as barreiras do país quanto à

complexidade, informações e relacionamentos em prol da sustentabilidade no agronegócio. A lógica aplicada pelo presidente da Embrapa mostra o quanto andam politizados os simpósios, congressos e workshops realizados no Brasil, pois a sustentabilidade foi o tema da grande maioria deles nos últimos anos.

Barreiras para a armazenagem inda no 2º Fórum de AgroneA gócios, Márcio Portocarrero, diretor-executivo daAbrapa – Associação Brasileira dos Produtores de Algodão, disse que “o Brasil cria barreiras para ele mesmo. Devemos ser mais arrojados, caso contrário, ficaremos para trás”, afirmou sobre a demora na regulariza-

ção dos agroquímicos. “Além disso, precisamos de programas de armazenagem efetivamente colocados em prática para evitar o desperdício, pois não temos alternativas modernas”, completou, politizando o assunto, que foi a maior encrenca dos produtores na 2ª safra, especialmente no Mato Grosso.

Burocracia ideológica A demora na aprovação de novidades para o agro também foi um dos assuntos abordados no painel, para solucionar “os nós dos insumos”, no 2º Fórum de Agronegócios, com exposição de Alexandre Mendonça de Barros, sócio-diretor da MB Agro. Ele resumiu a dificuldade em três pontos fortes para o agronegócio no Brasil: agroquímica, biotecnologia e fertilizantes. “Hoje somos a quarta maior agricultura do mundo e a única tropical. A demora dos órgãos responsáveis para aprovação de novas moléculas atrasa o Brasil no uso de tecnologias mais avançadas para a proteção das lavouras”, explica. Hoje, a demora média para a liberação de novos registros pelos órgãos responsáveis (Mapa, Ibama e Anvisa) é de 7 anos. O 2º Fórum Nacional de Agronegócios é promovido pelo Lide – Grupo de Líderes Empresariais, presidido por João Doria Jr., e pelo Lide Agronegócios, liderado por Roberto Rodrigues, Coordenador do Centro de Agronegócios da Fundação Getúlio Vargas.

Roberto Rodrigues na política?

C

omenta-se à boca pequena que o ex-ministro da Agricultura anda sendo assediado pelo Partido dos Trabalhadores (PT), para sair candidato a vice-governador do estado de São Paulo, na futura chapa do ainda ministro da Saúde, Alexandre Padilha. O argumento dos adeptos dessa ideia é que o ex-ministro traria votos para o PT originários do agro, onde o partido não possui força eleitoral, Com

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isso, neutralizaria apoio ao PSDB no interior do estado paulista. SP vem sendo governado pelos tucanos há mais de 18 anos consecutivos, e nunca foi governado pelo PT. É bom lembrar que Roberto Rodrigues é filho do Dr. Antoninho Rodrigues Fº, que foi secretário da Agricultura, presidente da OCB e vice-governador de SP. Será que as origens paternas conseguirão convencer Roberto a virar político?


A logística ineficiente no MT

A

economia mato-grossense poderia receber mais de US$ 3 bilhões anualmente do agronegócio se a logística fosse eficiente. Se Mato Grosso tivesse uma logística à altura do esforço e vontade dos produtores, poderia economizar US$ 70 por tonelada produzindo os atuais 45 milhões de toneladas de grãos e, assim, injetaria na economia anualmente mais de US$ 3,150 bilhões. Os dados foram apresentados no Fórum Brasil Central do Agronegócio dia 20 de agosto, em Sinop. O diretor do Dnit – Departamento Nacional de Infraestrutura de Transporte, general Jorge Fraxe, palestrante no painel, falou que o Brasil não tem a cultura de planejar ações. “Só assim teremos como saber a dimensão do sistema logístico, pois é muito mais que uma estrada e um caminhão”, frisou. Sobre a necessidade de planejar o futuro, ele disse que os produtores precisam de uma estratégia de guerra para sobreviver e fomentar a produção. Isso tudo porque a infraestrutura logística do estado não

acompanha sua vocação. No Brasil, o sistema de transporte é feito com apenas 13% de hidrovias, 25% de ferrovias e 58% por rodovias, que possui o maior custo. Ainda segundo o diretor-geral do Dnit, agora é o momento de se avaliar a duplicação da BR-163 e de outras rodovias. Para um melhor planejamento, Fraxe anunciou que serão implantados 320 pontos eletrônicos para registrar o número de caminhões que passam pela rodovia. A questão indígena e a extensão

territorial são apontados como motivos da demora em se viabilizar muitos programas de pavimentação. Mesmo assim, o general Fraxe entende que “o Brasil está fazendo o planejamento no tempo certo do seu desafio”. Um dos produtores rurais presentes ao fórum de Sinop, e que não quis se identificar, acrescentou que “nós produtores sabemos planejar a nossa lavoura, fora dela é com o Dnit, eles é que precisam saber e gostar de planejar”.

Fiscais federais agropecuários em greve

A

tividades estão suspensas em todo país por tempo indeterminado. Categoria também realizou protestos para denunciar o caos administrativo e as indicações políticas no Ministério da Agricultura. O ANNFA Sindical –Sindicato Nacional dos Fiscais Federais Agropecuários anunciou greve geral, com a paralisação das atividades em todo território nacional, desde 29 de agosto. A categoria está em estado de “greve de ocupação” – atendendo somente os casos emergenciais. Entre as indicações políticas de profissionais de fora do quadro de servidores do Mapa, está a do veterinário do setor privado Flávio

Braile Turquino, para o Dipoa – Departamento de Inspeção de Produtos de Origem Animal, e o advogado Rodrigo Figueiredo, para a Secretaria de Defesa Agropecuária. Para o sindicato, o cargo de Secretário de Defesa Agropecuária está no radar de partidos políticos e entidades do setor produtivo disputam sua indicação há vários anos. Segundo o presidente do ANFFA Sindical, 2.950 fiscais atuam em todo país. Ele ressaltou que o número necessário deveria ser de 10 mil pessoas e esse déficit compromete a qualidade dos alimentos que chegam à mesa dos consumidores, pois não há como trabalhar

de forma eficaz com o quadro atual. A categoria reivindica a volta do processo seletivo para ocupação de cargos e funções de chefia no Mapa. Dia 30/8, os fiscais realizaram uma ação de doação de sangue durante todo o dia. Em São Paulo, Capital, fiscais federais agropecuários distribuíram bananas. Em Salvador, em ato simbólico, realizaram o enterro do Mapa. Em Brasília, 4 toneladas de frango foram distribuídas com o carimbo do SIF – Serviço de Inspeção Federal, em frente à sede do Mapa. A expectativa dos fiscais é usar a política com ironia, mas com ações humanitárias, para derrubar politicagens. outubro 2013 – Agro DBO | 51


Política Procurador proíbe plantio da batata

A

Procuradoria da República no município de Joaçaba (SC), por meio do procurador Flávio Pavlov da Silveira, proibiu o plantio de batata no sistema convencional, em tecnologia recomendada por técnicos. O procurador emitiu a Recomendação nº 5, de 19/7/2013, em decorrência do plantio de batata no município de Água Doce (SC). A alegação é que a cultura da batata é atacada por diversas pragas e por isso gera “degradação paisagística da região”, e o sistema técnico recomendado para o plantio de batatas “prejudica o meio ambiente”. Para o procurador, o plantio tem que ser orgânico. Pela Recomendação nº 5, ele exige licença ambiental através da Fatma, e esta determina a não aplicação de agroquímicos. O

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procurador, que se intitula conhecedor do assunto, não levou em conta que a batata só pode ser plantada em áreas novas, sem cultivo anterior, por ser atacada por doenças do solo que inviabilizam o plantio contínuo e por isso o solo de Água Doce é propício para esta cultura. O deputado federal Valdir Colatto (PMDB-SC) fez a denúncia

na tribuna da Câmara dos Deputados e considerou um absurdo que um procurador se envolva no plantio de batatas, sem ter conhecimento de causa. Portanto, não é apenas a política, mas o judiciário também ajuda a travar a evolução do agro, desta feita usando desculpas ambientais.


Artigo

Sustentabilidade agrícola Nosso colunista alerta para a necessidade de revigoramento do Plano ABC e monitoramento constante das metas estabelecidas Décio Luiz Gazzoni *

N

a safra 2012/13 produzimos 184 milhões de toneladas (Mt) de grãos, em 53 milhões de hectares (Mha). O Mapa projeta até 275 Mt para 2022/23. Se a produtividade atual for mantida, precisaríamos mais 26Mha. Na prática, temos que fazer um enorme esforço para que o crescimento de 50% na produção de grãos resulte de um crescimento de 35-40% na produtividade, e apenas 10-15% de acréscimo de área. E temos ótimos exemplos onde nos mirar para que isto ocorra. Transcorria o ano de 2009 e os preparativos para a Conferência da ONU sobre Mudança do Clima em Copenhague (COP-15) se encaminhavam para um fracasso. Apesar

que ocorreriam ao longo desta década. Do total, 25% viriam de reduções de desmatamento, 5-6% de melhoria nos sistemas agrícolas e 6-8% do setor de energia. No segmento agrícola foi criado o Plano ABC, no bojo da Lei 12.187/2009 (Lei da Política Nacional sobre Mudança do Clima), cuja ambição maior era demonstrar que o agronegócio brasileiro pode, no espaço de uma década, não apenas reduzir as emissões em 130-160 Mt de CO2 equivalente, como tornar-se uma atividade capaz de mitigar seus impactos. Para tanto, seis tecnologias são incentivadas: recuperação de pastagens degradadas, integração lavoura-pecuária-floresta, plantio direto na palha, fixação

“É preciso reavaliar o papel do BNDES como principal agente financiador do Plano ABC”

* O autor é engenheiro agrônomo, pesquisador da Embrapa Soja.

dos sinais previsíveis de catástrofes decorrentes das mudanças climáticas globais, cada país olhava para os seus interesses e não para o planeta, esperando que outro país tomasse uma atitude para reduzir as emissões de gases de efeito estufa (GEE), matriz geradora das mudanças. Foi quando o Brasil decidiu encaminhar uma proposta corajosa. De alguma maneira participei das definições, pois assessorava o ministro Mangabeira Unger na Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República. Mas a proposta tem as digitais de um dos maiores experts sobre o tema, o Dr. Eduardo Assad (Embrapa). O Brasil propôs reduzir, voluntariamente, 36-39% das emissões

biológica de nitrogênio, plantio de florestas e tratamento de dejetos. O Plano ABC dispõe de uma linha de crédito do Mapa, financiada pelo BNDES, com juros de 5% ao ano. O volume de crédito inicial (2010) foi de R$2 bilhões, tendo sido de R$3,4 bilhões na última safra, 40% dos quais efetivamente transformados em contratos com produtores. Apesar dos benefícios ambientais, técnicos e econômicos, o Plano ainda não atingiu sua potencialidade, com contratações inferiores a 50% das previsões iniciais. Estudo recente da FGV aponta como razões deficiências na assistência técnica aos produtores e fortes desequilíbrios regionais: o Centro Oeste do país

recebeu 16% dos recursos, o Sul 23% e o Sudeste 46% enquanto o Norte e Nordeste ficaram com 9% dos financiamentos. Decorridos 30% do período para sua execução, o Plano ABC necessita de um revigoramento. O Dr. Assad, um dos formuladores do plano, propõe concentrar os financiamentos em 535 municípios (112 na Amazônia) em que a taxa de lotação de gado nas pastagens seja muito baixa. O objetivo é aproveitar melhor as áreas já antropizadas e reduzir a pressão por desmatamento. Além da maior oferta de assistência técnica, o Dr. Assad pleiteia um programa de monitoramento para acompanhar o cumprimento das metas, o que inclui a formação de uma rede privada de laboratórios para estabelecer a linha base do estoque de carbono nos solos e a criação de um Laboratório Virtual Multi-institucional de Mudanças Climáticas, cuja missão seria coordenar o monitoramento das ações. Finalmente, é necessário reavaliar o papel do BNDES como principal agente financiador do ABC. Do total de projetos contratados até janeiro de 2013, apenas 14% foram executados pelo banco, contra 86% pelo Banco do Brasil, apesar de o BNDES deter a maior parte dos recursos. A explicação para a baixa execução pode passar pelo alto custo de operação do banco para conceder pequenos financiamentos, além da baixa capilaridade de atendimento nos municípios. Solucionados os entraves, o Plano ABC será um dos ícones da sustentabilidade do agronegócio brasileiro. outubro 2013 – Agro DBO | 53


Artigo

Celeiros do mundo O colunista avalia os países com maior capacidade para atender o crescimento da demanda mundial por alimentos Daniel Glat *

M

uito se fala da necessidade de se alimentar o mundo, de que seremos um planeta de 9 bilhões em 2050 querendo comer mais e melhor. Sabemos que isso é missão para agropecuária mundial, e brasileira em particular, que além do desafio de produzir cada vez mais alimentos, produz ainda fibras têxteis e cada vez mais energia renovável. Mas afinal, quais são os alimentos mais consumidos no mundo, e que países produzem e continuarão produzindo esses alimentos? As estatísticas da FAO (Faostat,11/12) nos dá importantes pistas nesse sentido. A tabela 1 mostra toneladas colhidas das principais culturas plantadas no mundo. A cana de açúcar é a cultura de maior tonelagem colhida, mas boa parte de sua produção é para etanol, ou convertido a açúcar numa taxa de 1:10. Todas as outras principais culturas são base da alimentação humana e animal - cereais, as plantas com tubércuTabela 1 – As 10 maiores culturas Produção (MI/t) cana de açúcar

* O autor é engenheiro agrônomo, consultor e produtor rural em Tocantins.

1,773

milho

875

arroz

718

trigo

675

batata

368

beterraba açucareira

269

mandioca

256

soja

253

cevada

132

batata doce

102

Fonte: FAOSTAT

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los e oleaginosas, que são complementados por frutas, hortaliças, temperos e condimentos. O milho, o cereal mais colhido do mundo, é usado para alimentação humana na África e América Latina (milho branco), para etanol nos EUA, mas sua principal utilização é para o arraçoamento animal; junto com o farelo de soja é a base nutricional da produção de proteína animal. O trigo é a cultura de maior área plantada no mundo e o arroz é a cultura de maior valor total de produção. A tabela 2 mostra o ranking dos principais produtores mundiais das principais culturas, e na tabela 3 os maiores produtores de carne e leite. Importante ressaltar que a grande maioria da produção mundial fica no país de origem; 3% da batata, 5% do arroz, 12% do milho e 22% do trigo foram exportados em 2011; a exceção das grandes culturas é a soja produzida na América do Norte e do Sul que em grande parte abastece a gigantesca necessidade chinesa.

Observando esses números não é difícil concluir que o mundo tem 4 grandes “celeiros”: China, Índia, EUA e Brasil. Os dois primeiros, os “celeiros asiáticos”, com populações acima de 1 bilhão de pessoas, e agricultura baseada em mini e micros produtores, tem grande preocupação Tabela 2 – Maiores produtores de culturas para alimentação humana/animal (MI/t 2011/12) Milho

Batata

EUA

273

China

86

China

208

Índia

45

Brasil

72

Russia

29

Arroz

Mandioca

China

205

Nigéria

54

Índia

205

Indonésia

24

69

Brasil

Indonésia

Trigo

23 Soja

China

120

EUA

82

Índia

95

Brasil

65***

EUA

61

Argentina

52

*** em 2013 produção brasileira muito próxima a EUA Fonte: FAOSTAT


com a segurança alimentar, e praticamente tudo que produzem é para o mercado interno. China e Índia, além de liderarem a produção mundial de arroz, trigo e batata, são ainda, nessa ordem, os maiores produtores mundiais de algodão, alho, cebola, brócolis e couve flor; a China é também o maior produtor mundial de carnes brancas, e ainda lidera a produção de tomate, maçã, pera, uva e melancia. Apesar de toda sua produção agropecuária, a China – secundada pelos países da Europa – é o maior importador mundial de alimentos. Isso mostra o impacto que a multiplicação de crescimento de população por crescimento econômico tem na demanda por alimentos... Os EUA lideram a produção de proteína animal sendo número um na produção de carne bovina,

frango e leite, além de maior produtor de milho e soja, juntamente com Brasil. O Brasil, além de estar entre os 3 maiores produtores de carnes, e disputar com os EUA a liderança da soja, é o maior produtor mundial de açúcar, café, e suco de laranja; apesar de nossa logística caótica, temos a vocação nata para exportação agropecuária, e somos juntamente com EUA e Europa (27 países) os maiores exportadores agropecuários do planeta. Em termos de autossuficiência, continuamos apenas grandes importadores de trigo, cultura que há décadas desafia a competência agronômica tropical brasileira. Essa respeitável posição entre os maiores produtores mundiais; o impressionante crescimento tecnológico das últimas décadas; nossa

Tabela 3 – Maiores produtores de proteína animal (MI/t ou MI/lts) Frango

Bovinos

EUA

16,7

EUA

11,9

China

13,2

Brasil

9,3

Brasil

12,6

Europa

7,8

9,5

China

5,5

Europa Suinos

Leite (MI l)

China

49,5

EUA

88,6

Europa

22,5

India

52,5

EUA

10,2

Brasil

33,2

Brasil

3,2

Russia

31,7

gigantesca capacidade de gerar excedentes exportáveis; e a maior área disponível para expansão agrícola, faz do Brasil a vedete dos celeiros mundiais, e, segundo a FAO, somos o país de onde deverá vir 40% do aumento mundial da oferta de alimentos nas próximas décadas.

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Deu na imprensa

Biodiesel: ainda vale a pena?

S

ob pressão dos produtores de biodiesel, o governo estuda ampliar a mistura de óleos vegetais no diesel vendido no país, que têm capacidade ociosa suficiente para dobrar o patamar atual, de 5%. A mudança está em estudo pelo Ministério de Minas e Energia (MME) e, segundo fonte, pode ser apreciada em reunião do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) ainda este ano. Ao mesmo tempo em que tem potencial para reduzir as importações de diesel, com impacto positivo no caixa da Petrobras, a medida é vista com desconfiança por especialistas, diante da perspectiva de repasse do custo aos consumidores.

bustíveis. Pelas contas de Minelli, a empresa vende a R$ 1,40 por litro, no Brasil, o diesel que importa a R$ 1,84 por litro. Apenas no segundo trimestre de 2013, a área de abastecimento da companhia teve prejuízo de R$ 2,5 bilhões com a venda de gasolina e diesel mais baratos no mercado interno. De acordo com dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), o Brasil tem hoje capacidade de produção superior a 7 bilhões de litros de biodiesel por ano. Em 2012, a produção do combustível chegou a 2,7 bilhões de litros. Todo o biodiesel vendido nos postos é adquirido em leilões realizados pela agência

Atualmente, 80% do biodiesel consumido no país tem como matéria-prima o óleo de soja O mercado esperava que o tema fosse avaliado na última reunião do CNPE, realizada em junho. A expectativa agora, segundo fonte ligada à área energética, é que seja incluído na pauta do próximo encontro, previsto para dezembro. A proposta em análise prevê a ampliação dos atuais 5% para 7%, mistura conhecida como B7. A Associação dos Produtores de Biodiesel do Brasil (Aprobio) argumenta que a medida ajuda a minimizar as perdas da Petrobras com a importação de diesel, que somaram 6,3 bilhões de litros entre janeiro e julho de 2013, alta de 29,3% com relação ao mesmo período de 2012. “Estamos importando 20% do consumo de diesel do país, com prejuízos à Petrobras”, comenta o diretor superintendente da Aprobio, Júlio Minelli. De fato, a estatal vem sofrendo com a defasagem dos preços internos com relação às cotações internacionais dos com56 | Agro DBO – outubro 2013

reguladora e depois repassado às distribuidoras de combustíveis. No último leilão, o preço médio do produto ficou em R$ 1,85 por litro, sem considerar os impostos - valor equivalente ao pago pela Petrobras pelo diesel importado “Há, evidentemente, uma capacidade de produção acima da demanda, mas a decisão final cabe ao CNPE. No que depende da ANP, responsável pela fiscalização e do abastecimento, é possível fazer (o aumento da mistura)”, diz o diretor da ANP Florival Carvalho. Consultado, o MME informou que realiza “de maneira permanente estudos sobre o estágio atual e perspectivas para o futuro do programa de biodiesel” e que só vai se pronunciar após a conclusão dos estudos. O professor da Universidade Federal de Itajubá (Unifei) e especialista em biocombustíveis, Luiz Augusto Horta, contesta a afirmação de que o aumento da mistura

traria ganhos ao país. “O biodiesel é mais caro do que o diesel de petróleo vendido pela Petrobras. Alguém vai ter que pagar essa conta”, argumenta Horta, que foi diretor da ANP. Ele acrescenta que, para produzir um litro de biodiesel de soja (principal matéria-prima usada no país), é necessário, pelo menos, 0,5 litro de diesel de petróleo. “Não é a fonte mais eficiente do ponto de vista energético.” Horta defende uma reavaliação das políticas para o biodiesel antes de qualquer decisão sobre aumento da mistura. “O Brasil deu um passo importante na criação do programa, mas à medida que o tempo passa, é preciso aprimoramento”, opina. Criado em 2004, o programa do biodiesel tinha perspectiva de atingir o percentual de 5% na mistura apenas em 2013. O crescimento inesperado da capacidade de produção, porém, levou o governo a antecipar a meta para 2010. Desde então, mantém-se no mesmo patamar, embora os investimentos em ampliação da capacidade venham crescendo. Mas, ao contrário do previsto inicialmente, não foram pequenos agricultores e, sim, grandes produtores que garantiram a oferta do combustível. Atualmente, 80% do biodiesel consumido no país tem como matéria-prima o óleo de soja, principal produto da agroindústria brasileira. “É preciso incentivar matérias-primas mais adequadas”, afirma Horta, citando a palma como exemplo. A segunda principal fonte é o sebo de boi, segundo a ANP. O insumo possui grande eficiência energética, porém, a capacidade de criação de gado é limitada. A Aprobio diz que o impacto, no preço final, de um aumento na mistura de biodiesel é pequeno, em torno de R$ 0,016 por litro. E cobra


mais previsibilidade do governo com relação ao crescimento da demanda. “Quando o governo antecipou para 2010 a mistura de 5%, sinalizou que haveria novos aumentos. Houve bastante investimento em ampliação da capacidade”, diz Minelli. Hoje, 70 usinas estão autorizadas a produzir biodiesel no país. Em agosto, a ANP autorizou a construção de três novas unidades e a ampliação de outras cinco. Além dos leilões da ANP, os produtores podem vender o produto diretamente a consumidores que optaram por usar o produto em percentuais maiores do que o obrigatório. Mais caro, o óleo de mamona não é usado pelo setor. A mamona, principal bandeira do lançamento do Programa Nacional do Biodiesel, ainda no governo Luiz Inácio Lula da Silva, não vingou como matéria-prima para a produção de combustível. A notícia, no entanto, não chega a ser ruim, uma vez que o óleo extra-

ído da mamona é vendido a preços bem mais altos para outras indústrias, como as de tintas, lubrificantes e de cosméticos, por exemplo. A mamona tem usos muito mais nobres. O óleo de mamona hoje custa em torno de R$ 5 mil a tonelada, enquanto o óleo de soja sai a R$ 2 mil”, diz o diretor da Aprobio, Júlio Minelli. O objetivo do governo era incentivar a agricultura familiar, garantindo geração de emprego e renda em regiões mais pobres do país, mas hoje o produto não figura na lista das principais fontes de produção de biodiesel. Destino diferente deve ter a cultura de palmas, considerada uma das matérias-primas mais eficientes para a produção de combustíveis. Embora ainda não tenha participação relevante, a oleaginosa tem grande potencial de crescimento, diante de investimentos de empresas como a Vale e a Petrobras. A primeira tem um grande projeto no Pará, com o objetivo de

produzir combustível para abastecer as composições que transportam sua produção de minério de ferro. “A vantagem das palmas é que são culturas permanentes, não precisam de plantio anual”, diz o professor da Universidade Federal de Itajubá (Unifei), Luiz Augusto Horta, especialista em biocombustíveis. “É como a cana, que é plantada uma vez e garante cinco colheitas”, compara. A cultura de palma, porém, leva sete anos até atingir a maturidade. De acordo com dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), além da soja, palma e do sebo bovino, a produção brasileira de biodiesel tem como matérias-primas a gordura de porco e de frango, no Sul, o óleo de algodão, no Nordeste, e óleo de fritura usado, principalmente, no Sudeste. Nicola Pamplona Fonte: Brasil Econômico/18/09/13

A situação crítica das abelhas Você pode agradecer a Apis mellifera, melhor conhecida como abelha melífera européia, por uma a cada três porções de alimento consumidas por dia. Desde os pomares de amêndoas do centro da Califórnia – aonde cada primavera, bilhões de abelhas vindas de todo os EUA migram com o objetivo de polinizar a cultura multibilionária – aos campos de mirtilo de Maine, as abelhas são os operários não remunerados e anônimos do sistema agrícola americano, adicionando mais de US$ 15 bilhões à produção agrícola a cada ano. Em junho, a loja Whole Foods em Rhode Island, como parte de uma campanha que destacava a importância das abelhas melíferas, retirou, temporariamente, da seção de hortifrúti todos

os alimentos que dependiam de polinizadores. De 453 itens, 237 foram retirados, incluindo maçã, limão, abobrinha e outras cucurbitáceas. As abelhas melíferas “representam

a cola que mantém o nosso sistema agrícola unido,” escreveu a jornalista Hannah Nirdhaus em seu livro em 2011, The Beekeeper’s Lament. E agora, a cola está falhando. Em meados de 2006, os apicultores comerciais começaram a notar algo estranho: suas abelhas estavam desaparecendo. Os apicultores abririam suas colmeias e as encontrariam cheias de favo de mel, cera, e o próprio mel, porém desprovidas de abelhas. Como os relatórios vindos dos apicultores estavam cada vez mais numerosos, os cientistas inventaram um termo apocalíptico apropriado para o mal misterioso: Desordem do Colapso das Colônias (DCC). Fonte: Por Bryan Walsh. Revista Time, 19/8/2013

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Análise de mercado

Recuperação de estoques A característica do mercado de milho em 2013 é de atenção total às condições climáticas e às projeções de safra divulgadas ao longo do ano

A

colheita avança nos EUA, a safra europeia já está no mercado, a China tem safra recorde e o mercado parece não dispor de acomodação. A nova estimativa do USDA aponta safra recorde de 352 milhões/t naquele país, com salto nos estoques finais para 47 milhões/t. Este contexto reflete uma dificuldade real para os preços voltarem a subir na Bolsa de Chicago e ainda apontam para o rompimento dos US$ 4.00/bushel na medida do avanço da colheita. Outros indicadores foram também importantes, como a elevação do estoque mundial para 151,42 milhões/t, o mais elevado desde 2001. O mercado de milho não ofereceu sinais po-

sitivos para os preços no curto prazo e talvez somente encontre variáveis positivas quando os preços cederem de forma definitiva e o mercado oferecer sinais de que a demanda estará sendo retomada. Se a América do Sul apresentar um bom arranque inicial de plantio, os preços da soja poderão se acalmar na Bolsa de Chicago e agir mais intensamente na baixa do milho. Com problemas na soja na América do Sul no plantio, a situação poderá ser explosiva novamente para a soja e talvez carregar os preços do milho em 2014. Por enquanto, o quadro climático para o ciclo 2013/14 é de neutralidade segundo os principais meteorologistas. O mercado de mi-

lho precisará de fatos novos para reverter este quadro de pressão nas cotações externas com reflexos no quadro interno. Neste momento, com algumas variáveis como câmbio e clima na safra norte-americana perdendo força na formação altista de preços, a questão passa a ser o clima na América do Sul. Os preços internos do milho estão acima da paridade de exportação. Este é um destaque problemático para um país que precisa urgente esvaziar seus excedentes antes da entrada da próxima safra de verão. Pelo perfil de plantio no Mato Grosso, o estado terá já que estar com armazéns desocupados para a entrada de uma super-safra de soja em ja-

Trigo –

Fatores diversos sustentaram os preços em julho, agosto e início de setembro, entre os quais problemas climáticos nos EUA e Argentina, tradicionais fornecedores dos moinhos brasileiros. No entanto, o movimento de alta perdeu força na segunda semana do mês, com o avanço da colheita no Brasil e o aumento da oferta de trigo da Comunidade Européia e da Ásia a preços mais baixos. Segundo analistas, a tendência é baixista no curto prazo.

* Em 18/9, o Indicador Cepea/Esalq registrou R$ 968,90 por tonelada, mercado disponível, à vista (o valor à prazo é descontado pela taxa NPR), posto Paraná.

ALGODÃO – As cotações da pluma entraram setembro em queda, pressionadas pela paridade de exportação e pela taxa cambial. Levantamento do Cepea mostra que, assim como ocorreu com o açúcar, o mercado interno remunerou mais que o externo. A tendência ainda é baixista, devido ao excedente doméstico. A longo prazo, porém, as cotações devem reagir. Os primeiros levantamento sobre a safra 2013/14 indicam, inclusive, aumento na área plantada.

* Em 18/9, o Indicador Cepea/Esalq registrou R$ 213,71 centavos de real por libra-peso.

ARROZ –

Mantendo a tendência observada nos últimos meses, as cotações do arroz em casca permaneceram estáveis na primeira quinzena de setembro, na casa dos R$ 34,00, com ligeiras oscilações para baixo. A liquidez foi pequena no período, mesmo com o enxugamento derivado do leilão realizado na segunda semana. O preço médio do leilão foi inferior ao esperado, induzindo a retração nos negócios. A tendência é de estabilidade, com reação a médio prazo.

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* Em 18/9, o Indicador Arroz em Casca Esalq/Bolsa Brasileira de Mercadorias – BM&FBovespa registrou R$ 33,97 à vista por saca de 50kg, tipo 1, posto indústria Rio Grande do Sul.


Análise de mercado neiro próximo. Porém, os armazéns ainda estão lotados de milho, ainda há estoques de milho com Pepro que o produtor não vende. Este é um contexto que precisa ser avaliado. O mercado interno não tem se beneficiado dos subsídios concedidos à comercialização do milho. O quadro que mais preocupa é a dificuldade do governo recompor os estoques reguladores para 2014 (nesse momento, não passam de 590 mil toneladas). Continuamos a incentivar a exportação antes de beneficiar os consumidores internos e sem garantir um estoque estratégico regulador. Outra distorção: muitos produtores estão retendo milho nos armazéns além do necessário. Com os novos números da safra dos EUA, parece difícil uma chance perfeita para que o mercado interno realize preços melhores até março. O produtor tem fixado pouco, está capitalizado e parece não perceber os graves problemas que vêm à frente. O Brasil exportou 8,84 milhões/t entre fevereiro/2013 e agosto/2013.

MILHO – Após ligeira alta no final de agosto, os preços recuaram em setembro, pressionados por vários fatores ao mesmo tempo: desvalorização do dólar ante o real, queda das cotações no mercado internacional, grande oferta interna e necessidade dos produtores de reduzir estoques e fazer caixa para pagar as dívidas de custeio que venciam no final do mês – afinal, eles finalizaram a colheita da segunda safra, iniciaram o plantio da safra 2013/14 e precisavam pagar as dívidas de custeio. A demanda para produção de ração não foi suficiente para alterar o cenário. No curto prazo, a tendência é de baixa.

* Em 18/9, o Indicador Esalq/BM&FBovespa registrou R$ 24,85 por saca de 60kg, descontado o prazo de pagamento pela taxa CDI/Cetip.

Setembro deverá confirmar a expectativa com perto de 3 milhões/t embarcadas. Iremos para uma totalização de 11,8 milhões/t. A questão realmente está entre outubro e janeiro. São quatro meses que não tem o mesmo perfil de embarque de agosto e setembro. Outubro ainda poderá ser bom. Novembro e dezembro, apenas residuais. Será difí-

cil para o Brasil encontrar liquidez após a colheita nos EUA. Por isso, é importante que o produtor acelere suas vendas; os preços internos estão acima da paridade de exportação e uma colheita recorde nos EUA está começando. Paulo Molinari Analista da CMA/Safras&Mercado

Fonte: Cepea – www.cepea.esalq.usp.br

CAFÉ – As cotações do arábica seguiram em

* Em 18/9, o Indicador Café Arábica Cepea/Esalq registrou R$ 268,17 por saca de 60 kg, bica corrida, tipo 6, bebida dura para melhor, posto cidade de São Paulo.

queda na primeira quinzena de setembro. O Indicador Cepea/Esalq do tipo 6, bebida dura para melhor, fechou em 18/9 a R$ 268,17, o menor patamar desde 13/11/2009. Na parcial do mês (até o dia 18), a baixa foi de 5,85%. Na semana seguinte, recuaram ainda mais, fechando a R$ 266,63. A tendência continua mbaixista. As primeiras floradas do ciclo 2014/15 já começaram a abrir e as perspectivas são de safra grande.

* Em 18/9, o Indicador Açúcar Cristal Cepea/Esalq registrou R$ 45,24 por saca de 50 kg, com ICMS (7%), posto São Paulo.

açúcar – Sucessivas altas no mercado interno até a terceira quinzena de setembro ajudaram a sustentar os preços, com remuneração acima do obtido com exportações. Na segunda-feira, 23/9, o Indicador Cepea/Esalq (mercado paulista) fechou a R$ 46,01, confirmando a linha altista – na parcial de 18/9, o Indicador registrou R$ 45,24, bem acima do fechamento na virada de agosto para setembro (R$ 43,99). A tendência é de estabilização. soja – Após preços recordes em 2012, es-

* Em 18/9, o Indicador Cepea/Esalq/BM&FBovespa registrou R$ 73,68 por saca de 60 kg, posto Paranaguá, descontado o prazo de pagamento pela taxa CDI/Cetip.

perava-se valores baixos a esta altura do ano, comparativamente, mas a relação custos x receita continua favorável ao produtor. Com esse quadro, os sojicultores iniciaram o plantio da safra 2013/14 em clima de otimismo e aumentaram a área plantada. Se o clima não atrapalhar, teremos safra recorde no ano que vem. No curto prazo, a tendência é de estabilidade. A longo prazo, é de queda.

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Novidades no campo Opção para cobertura de solo

A Embrapa aproveitou a visibilidade oferecida pela Expointer, realizada de 24 de agosto a 1º de setembro em Esteio (RS), para lançar novidades, entre as quais o milheto BRS 1503, com alto teor de proteína, capacidade de rebrota e tolerância à seca. Adaptada à região sul do país, a cultivar apresenta resistência a diversos nematoides, a exemplo do Meloidogyne javanica, do Meloidogyne incognita e do Pratylenchus brachyurus. Segundo os pesquisadores que a desenvolveram, é uma excelente opção para cobertura do solo. Para o manejo, eles indicam profundidade de semeadura entre 0,25 e 1 cm, espaçamento entre linhas de 30 cm, densidade de plantio de até 200 mil plantas por hectare, plantio no verão e pastejo quando a planta estiver com 50 a 60 cm. Para saber onde encontrar sementes do BRS 1503, entre em contato com o escritório da Embrapa Produtos e Mercado em Passo Fundo (RS) através do fone (54) 33113666 ou do e-mail spm.epfb@embrapa.br.

Soja para áreas de várzea

Vegetais com peixes

A Sansuy mostrou no 4º Bunkyo Rural, realizado no mês passado em Mogi das Cruzes (SP) novidades tecnológicas em aquaponia, método de produção que integra a hidroponia com a piscicultura. A empresa expôs seu “vinitank”, tanque circular com capacidade variável (de 5 mil a 100 mil litros de água) para criação de peixes, camarões, ostras, mexilhões, etc. A água utilizada passa por filtros especiais que recuperam sua qualidade, sendo, em seguida, bombeada para fertilizar e nutrir hortas e/ou lavouras hidropônicas. Ao reciclar os nutrientes dos peixes para as plantas, a aquaponia também contribui para a produção de alimentos com menor impacto ambiental. O custo é baixo, segundo a empresa, porque não necessita de escavação.

O Irga – Instituto Rio Grandense do Arroz, em parceria com a CCGL, lançou na Expointer sua primeira cultivar de soja destinada às áreas de várzeas do Rio Grande do Sul: a Tecirga 6070RR, indicada para rotação com arroz irrigado. A pesquisadora do Irga, Claudia Lange, lembra que a oleaginosa, pertencente a uma família botânica distinta da família do arroz, garante, por meio do cultivo intercalado, a quebra de dominância de plantas daninhas que afetam a orizicultura, principalmente o arroz vermelho. A soja também contribui para melhoria da fertilidade do solo, o que beneficia o estabelecimento de plantas de cobertura e de pastagens de inverno, facilitando a adoção da integração lavourapecuária, e viabilizando o plantio direto no cultivo do arroz irrigado.

Supermilho da Embrapa

A Embrapa apresenta a BRS 4104, cultivar de milho com teor de pró-vitamina A (carotenoides) quatro vezes maior do que o encontrado em variedades comuns do cereal. Além de saudável, rica em energia, vitaminas e fibras, como praticamente todas as espécies de milho, a nova cultivar também mostra excelente desempenho no campo. Desenvolvido pelo Centro de Pesquisa de Milho e Sorgo da Embrapa, registrou médias de produtividade de 5.600 quilos por hectare, segundo Paulo Evaristo de Oliveira Guimarães, pesquisador da instituição. Ele lembra que, por ser uma variedade, as sementes podem ser plantadas na safra seguinte, ao contrário do que ocorre com os híbridos tradicionais. “É mais uma vantagem da BRS 4014”, ressalta o pesquisador.

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Novidades no campo Algodão resistente

Em parceria com a Fundação Bahia e a Fundação Goiás, a Embrapa lançou quatro cultivares de algodão com tolerância ao herbicida glifosato (Roundup Ready Flex) durante o 9º Congresso Brasileiro do Algodão, realizado em setembro, em Brasília (DF). As novas cultivares (BRS 368RF, BRS 369RF, BRS 370RF e BRS 371RF, desenvolvidas com tecnologia da Monsanto) permitem o uso do glifosato em qualquer fase do desenvolvimento do algodoeiro, sem gerar danos às plantas, conforme o pesquisador Camilo Morello, da Embrapa Algodão. Segundo ele, a expectativa em cultivos de primeira safra é de produtividade média acima de 4.500 kg/ha de algodão com caroço, com percentual de pluma em torno de 40 %. Em segunda safra, mais de 3.300 kg/ha de algodão com caroço e percentual de pluma em torno de 38 %. A comercialização será feita por licenciados, sob a coordenação da Embrapa Produtos e Mercado. Para saber onde encontrar sementes das novas cultivares, acesse a página eletrônica www.embrapa.br/cultivares.

Made in Japan

Promessa de proteção

A Monsanto apresentou oficialmente, no 9º Congresso Brasileiro do Algodão, a tecnologia Bollgard® II Roundup Ready Flex, que, segundo a empresa, confere proteção contra as principais pragas do algodão como o curuquerê do algodoeiro (Alabama argillacea), a lagarta rosada (Pectinophora gossypiella), a lagarta da maçã(Heliothis virescens), a falsa medideira (Chrysodeixis includens), as lagartas do complexo Spodoptera (Spodoptera spp) e as lagartas da espiga ou da maçã (Helicoverpa spp). A preservação e a sustentabilidade da tecnologia dependem do cumprimento das recomendações de Manejo de Resistência de Insetos (MRI) pelos produtores, alerta a empresa.

A Sun Patiens foi uma das atrações da 22ª Expo Aflord, feira promovida no município de Arujá (SP) pela Associação dos Floricultores da região da Via Dutra. Segundo os organizadores, é a maior feira de flores do estado de São Paulo em variedade de espécies. A flor é uma versão da Impatiens, conhecida dos brasileiros, originária da Nova Guiné, utilizada apenas em lugares sombreados, sem incidência direta da luz do sol. A Sun Patiens, cujas primeiras mudas chegaram recentemente ao Brasil após 10 anos de melhoramento genético no Japão, tem como característica exatamente o contrário. É resistente a calor intenso, podendo ser cultivada durante todo o ano. Os cuidados incluem muita claridade, sol pleno, pouca adubação e hidratação com regas diárias no verão e de 2 a 3 dias no inverno.

Adeus, cavadeira; adeus, enxadão.

Foi assim, com tais expressões de alívio, que o cafeicultor Hélio Casale, membro do Conselho Editorial da revista Agro DBO, experimentou o amostrador de solo desenvolvido pelo agrônomo e também cafeicultor Dercy Pavão, consultor na região de Franca (SP). É um equipamento simples, mas funcional, como tantos outros nascidos da inventividade do agricultor brasileiro. Trata-se de uma parafusadeira comum, movida a bateria, à qual se acopla uma broca com limitador de profundidade, com um recolhedor de terra na base. A foto ao lado dá uma ideia da engenhoca. Para montá-la, basta uma broca sextavada de pelo menos 80 centímetros, um anteparo para servir de limitador e marcar a profundidade desejada e um recipiente adaptado para recolher a terra, além da parafusadeira.

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Calendário de eventos

OUTUBRO

8

ABTCP 2013/46º Congresso e Exposição Internacional de Celulose e Papel De 8 a 10 – Transamérica Expo Center – São Paulo (SP) – Site: www. abtcp2013.org.br

11

4ª Exposição Nacional de Híbridos de Orquídeas

De 11 a 13 – Parque de Feiras e Exposições Wanderley Agostinho Burmann – Ijuí (RS) – Site: www. expoijuifenadi.com.br – E-mail: secretaria@aciijui.com.br

13

XXIII Conird/Congresso Nacional de Irrigação e Drenagem De 13 a 18 – Luís Eduardo Magalhães (BA) – Fone: (71) 2102-6600 – Site: www.conird.com.br – E-mail: conird@gt5.com.br

14

X Encontro Brasileiro de Substâncias Húmicas

De 14 a 18 – Embrapa Arroz e Feijão (Fazenda Capivara) – Santo Antônio de Goiás (GO) – Fone: (62) 3533-2107 – E-mails: cnpaf.xebsh@embrapa.br ou cnpaf.xebsh@gmail.com

14

IX CBSAF/Congresso Brasileiro de Sistemas Agroflorestais De 14 a 18 – Centro de Convenções Luis Eduardo Magalhães – Ilhéus (BA) – Fone: (73) 3633-6899 – E-mail: sbsaf@cabruca.org.br

20

XX Congresso Internacional do Trigo

De 20 a 22 – Hotel Transamérica – Salvador (BA) – Site: www.abitrigo.com.br

20

46° Congresso Brasileiro de Fitopatologia

De 20 a 25 – Centro de Convenções

62 | Agro DBO – outubro 2013

da Universidade Federal de Ouro Preto – Ouro Preto (MG) – Fone: (31) 3552-3700 – E-mail: rpd@rpdconsultoria.com.br

21

SBIAgro 2013/IX Congresso Brasileiro de Agroinformática De 21 a 25 – Cuiabá (MT) – Site: www.ufmt.br/sbiagro2013 – E-mail: sbiagro2013@ic.ufmt.br

NOVEMBRO

4

26ª Reunião Anual do Instituto Biológico

De 4 a 7 – São Paulo (SP) – Fone: (11) 3879-3355 – E-mail: fundepag@fundepag.br

5

8º Congresso Internacional de Bioenergia/ 6ª BIOTechFair – Feira Internacional de Tecnologia em Bioenergia e Biocombustível De 5 a 7 – Centro de Exposições Imigrantes – São Paulo (SP) – E-mail: contato@bioenergia.net.br

6

2ºCBE/ Congresso Brasileiro de Eucalipto

De 6 a 7 – Centro de Exposições Imigrantes – São Paulo (SP) – Fone: (11) 3324-5986 – E-mail: cbe@ congressoeucalipto2013.com.br

17

XX Simpósio Brasileiro de Recursos Hídricos

De 17 a 22 – Bento Gonçalves (RS) Fone: (51) 3493-2233 – E-mail: xxsbrh@abrh.org.br

19

XXVIII CBA/Congresso Brasileiro de Agronomia

De 19 a 22 – Centro de Eventos Pantanal – Cuiabá (MT) – Fone: (65) 3315-3052 E-mail: cba2013@aeamt.org.br

21 – 13ª Conferência Internacional Datagro sobre Açúcar e Etanol – De 21 a 22/10 – Hotel Grand Hyatt – São Paulo (SP) – Fone: (11) 4193 4031– E-mail: conferencia@datagro. com.br Um dos mais importantes eventos do mundo no setor sucronergético, a 13ª Conferência Internacional Datagro sobre Açúcar e Etanol tem como tema básico “Diversificação, Biotecnologia e Logística – na rota do futuro”. No ano passado, participaram mais de 700 convidados de 33 países. Cerca de 40 palestrantes vão conduzir debates sobre a oferta atual de açúcar e etanol, perspectivas para a safra 2014/15 de cana, produção de etanol de segunda geração, utilização de resíduos agrícolas (nova fronteira energética), posicionamento estratégico da indústria brasileira, perspectivas de mercado, o futuro do setor e outros temas.

25

8º Congresso Brasileiro de Agroecologia

De 25 a 28 – Centro de Eventos da PUC – Pontifícia Universidade Católica – Porto Alegre (RS) – E-mail: sec-cba@emater.tche.br

26

12º Seminário Nacional de Milho Safrinha

De 26 a 28 – Auditório da Universidade Federal da Grande Dourados – Dourados (MS) – Fone: (67) 3416-9740 – E-mail: cpao.milho-safrinha-2013@ embrapa.br

27

Renex South America/ Feira Internacional de Energias Renováveis – De 27 a 29

Centro de Eventos da FIERGS – Federação da Indústria do Estado do Rio Grande do Sul – Porto Alegre (RS) – Fone: (41) 3027-6707 – Site: www.renex-southamerica.com.br

29

39º Congresso Brasileiro de Pesquisas Cafeeiras De

29 a 1/12 – Espaço Cultural da Urca – Poços de Caldas (MG) Fone: (35) 3214-1411 – Site: www. fundacaoprocafe.com.br – E-mail: contato@fundacaoprocafe.com.br

DEZEMBRO

3

24ª FNA/Feira Nacional de Artesanato – De 3 a 8 –

Expominas – Belo Horizonte (MG) – Site: www.feiranacionaldeartesanato. com.br

9

22ªJornada de Atualização em Agricultura de Precisão

De 9 a 13 – Campus da Esalq Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz – Piracicaba (SP) – Fone: (19) 3417-6604 – E-mail: cdt@fealq.org.br


Biblioteca da Terra Tratos no algodoeiro

Sabedoria antiga

A FMC aproveitou o 9º Congresso Brasileiro do Algodão, realizado em Brasília, para divulgar o Manual de Identificação de Doenças do Algodoeiro. Compilado por Paulo Edimar Saran, a obra traz gráficos e tabelas relacionando as principais doenças da cultura, como vermelhão, mosaico, mela, murcha de fusarium, pinta preta, mofo branco, ramularia e ferrugem, períodos de ocorrência e estruturas infectadas. O pesquisador dedica uma ou duas páginas, ilustradas com fotos, para cada doença, descrevendo causas, sintomas, meios de transmissão e disseminação, para ajudar o produtor a identificá-las, avaliar o estágio de cada uma delas e definir como controlá-las. O manual pode ser acessado através do link www.fmcdireto.com.br/portal/manuais.

▶pesquisador da Embrapa Organizado pelo

Acre, Moacir Haverroth, o livro Etnobiologia e Saúde de Povos Indígenas reúne excertos de pesquisas científicas nas áreas de etnologia, antropologia e botânica, mas pode interessar muito a produtores rurais, estudantes e profissionais de agronomia. Afinal, a etnobiologia trata, justamente, da interação dos seres humanos (no caso, os índios) com o mundo natural ao redor, ou seja, com a terra, o solo, as plantas, os bichos etc. O livro traz informações sobre as espécies vegetais mais utilizadas, sistemas de produção e manejo de alimentos, segurança alimentar, relações culturais e costumes práticos, entre outros temas. Publicado com apoio financeiro do Instituto Brasil Plural, coordenado pela professora e pesquisadora E. Jean Langdon, da Universidade Federal de Santa Catarina, pode ser adquirido pelo site  www.nupeea.com. O preço de capa é R$ 40,00.

Solo para viticultura

O livro Os Solos do Vale dos Vinhedos nasceu do projeto Desenvolvimento de Indicações Geográficas e Alerta Vitícola para o Arranjo Produtivo Local de Viticultura do Rio Grande do Sul (APL Vinhos). “Com os dados oferecidos, considerando as características dos solos da região, é possível definir as cultivares de uva mais aptas a obter resultados de excelência nesta ou naquela área”, diz o pesquisador Carlos Alberto Flores, um de seus autores. Lançado no mês passado, o livro está disponível para download gratuito em www.cnpuv.embrapa.br/publica/livro/solosvv/ e em www.ecologia.ufrgs.br/labgeo

Produção orgânica

Lançado pela Editora Esplendor, de Curitiba (PR), o livro Alimentos Orgânicos no Brasil – História, Cultura e Gastronomia é, segundo os autores (os jornalistas Eduardo Sganzerla e Rafael Moro Martins e o fotógrafo Diego Singh), um estudo de caso sobre a agricultura orgânica. Traz um panorama do setor; desvenda as diferenças entre produtos orgânicos, biodinâmicos ou de outras correntes agroecológicas; analisa os processos de certificação aceitos no país e relata casos bem sucedidos de produção país afora, desde 1970, data de inauguração da Estância Demetria em Botucatu (SP), primeira experiência em produção orgânica no Brasil. Com 208 páginas e dezenas de fotos, custa R$ 80,00 e pode ser encomendado através do site www.esplendorbrasil.com.br

Planejamento de safra

O Iapar - Instituto Agronômico do Paraná lançou boletim técnico sobre as cultivares de milho disponíveis no mercado, de autoria dos pesquisadores Pedro Sentaro Shioga, Antonio Carlos Gerage, Pedro Mário de Araújo, Adriano de Paiva Custódio e Rodolfo Bianco. Eles avaliaram 15 cultivares convencionais e 34 com tecnologia Bt (variedades geneticamente modificadas para resistência às lagartas). Produzida pelo Iapar em parceria com a Fapeagro, a publicação custa R$ 5,00 e pode ser adquirida através do site www.iapar.br. Quem quiser, pode baixá-la gratuitamente em formato PDF.

64 | Agro DBO – outubro 2013


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outubro 2013 – Agro DBO | 65


Legislação

Acordos internacionais O colunista aponta cuidados básicos na definição das cláusulas contratuais, destacando os itens principais a serem observados. Fábio Lamonica Pereira *

C

om a crescente profissionalização dos produtores rurais, torna-se comum o contato com transações cada vez mais complexas como operações em bolsa de valores, contratos de compra e venda para o fim de travar preços e até mesmo transações internacionais. Por contratos internacionais, entende-se aquele em que há ao menos um ponto de ligação entre as normas de dois ou mais países como, por exemplo, uma das partes ter domicílio no Brasil e a outra no Chile. São diversas as cláusulas que compõe um contrato internacional, sendo que se deve atentar

em seu domicílio, provável ponto de localização de seu patrimônio. Além disso, é comum a instituição de convenção de arbitragem (em nosso país, regulada pela Lei nº 9307/96) em que as partes concordam em submeter os litígios eventuais ao juízo arbitral. Nesse caso, estipula-se qual legislação ou conjunto de regras de determinado órgão institucional ou entidade especializada nortearão a decisão. O juízo arbitral nada mais é do que a solução de conflitos (que digam respeito a direitos patrimoniais) por meio extrajudicial. Trata-se de mecanismo que permite maior celeridade (o prazo legal máximo é de seis meses) para a

O juízo arbitral nada mais é do que a solução de conflitos por meio extrajudicial.

*O autor é advogado, especialista em Direito do Agronegócio

para escolha do idioma (o contrato poderá ser redigido em mais de uma língua), o produto a ser comercializado e suas características, as condições de entrega, o preço e condições de pagamento, previsão de multa para o caso de descumprimento, etc. Ponto essencial diz respeito à lei a ser aplicada ao caso, uma vez que as partes têm domicílio em nações diferentes. Via de regra, aplica-se a legislação do país de residência do vendedor, o que facilita o cumprimento do ajuste por parte do comprador (o pagamento do preço nas condições contratuais ajustadas) bem como eventual ressarcimento ou indenização por parte do vendedor, visto que eventual ação seria julgada

66 | Agro DBO – outubro 2013

solução dos conflitos sem que seja necessário recorrer ao judiciário e aguardar indefinidamente por uma solução. Veja que a arbitragem possibilita a solução de conflitos por meio de profissionais especializados no assunto o que limita a possibilidade de soluções discrepantes ou injustas. Além disso, é assegurado o sigilo acerca de todo o processo de análise e julgamento. Havendo acordo válido quanto à solução de conflitos mediante o juízo arbitral, a parte não poderá, posteriormente, optar por propor ação judicial. Neste caso o juiz extinguirá o processo por expressa disposição legal. O Poder Judiciário somente pode ser acionado nos casos

previstos na própria lei de arbitragem, basicamente quando a sentença arbitral é nula, conforme art. 32 da Lei 9307/96: “É nula a sentença arbitral se: I - for nulo o compromisso; II - emanou de quem não podia ser árbitro; III não contiver os requisitos do art. 26 desta Lei; IV - for proferida fora dos limites da convenção de arbitragem; V - não decidir todo o litígio submetido à arbitragem; VI - comprovado que foi proferida por prevaricação, concussão ou corrupção passiva; VII - proferido fora do prazo, respeitado o disposto no art. 12, inciso III, desta Lei; e VIII - forem desrespeitados os princípios de que trata o art. 21, § 2º, desta Lei”. As negociações por meio de contratos internacionais geram maiores dividendos aos produtores exportadores na medida em que possibilitam a fixação de preços mais atrativos, além de possibilitar a diminuição da ação de intermediários, desde que sejam adotadas as precauções necessárias de maneira a evitar ou reduzir o impacto de possíveis litígios.


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Revista Agro DBO - Ed 49-Outubro/2013  

Bem mais produtiva do que a convencional, embora mais cara, a agricultura irrigada cobre áreas cada vez maiores no Brasil e só não se expand...

Revista Agro DBO - Ed 49-Outubro/2013  

Bem mais produtiva do que a convencional, embora mais cara, a agricultura irrigada cobre áreas cada vez maiores no Brasil e só não se expand...

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