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GRL PWR

Novembro 2016 Ano 01 No 01 Natal/RN

RELACIONAMENTO

Precisamos falar sobre o Porn Revenge, quando imagens íntimas caem na internet (P. 8)

PARTO HUMANIZADO Confira entrevista com a doula e defensora do parto domiciliar Andressa Oliveira (P. 14)


bem vinda à

GRL PWR Feminismo pra quem?

Precisamos falar sobre feminismo! Mas feminismo para quem? Na primeira edição da Revista GRL PWR, resultado de uma avaliação da matéria de Jornalismo Impresso, ministrada pela Profª Dra. Aparecida Ramos, debate-se o funcionamento do feminismo em suas diversas vertentes. Ser feminista, em resumo, é lutar pela liberdade da mulher de ser e agir como quiser, com a condição de tomar decisões sobre o próprio corpo. Entretanto, o feminismo não é um só. As ações que ajudam uma mulher branca a atingir sua liberdade, não são as que ajudam uma mulher negra, e certamente, estas não são as que ajudam uma lésbica, ou uma mulher trans. Todas as mulheres vivem realidades diferentes e, por isso, escolheu-se falar de cada versão do feminismo que, ao somar suas batalhas, lutam para que em suas diferenças todas mulheres atinjam um patamar onde a igualdade e liberdade seja uma realidade. Muito se avançou nas últimas décadas, mas ainda é importante seguir em frente cada vez mais. A Revista GRL PWR com certeza seguirá. Além da matéria de capa, abordamos diversas pautas de interesse das mulheres, tentando sempre explicar como o feminismo é importante para a construção de uma sociedade melhor. Boa leitura!

NESTA EDIÇÃO OPINIÃO: Garçom, toca Simone e Simaria 05 AGORA É QUE SÃO ELAS Meninas que ocupam espaços “masculinos” 06 RELACIONAMENTO Precisamos falar sobre “porn revenge” 08 CAPA Feminismo pra quem? 10 ENTREVISTA O parto humanizado de Andressa 14 ARTE DAS MINAS Confira nosso guia cultural 16 SOCIEDADE Conheça o projeto Transforme-se 17 VAMOS DEBATER Religião e feminismo: pode? 18

EQUIPE Diretora de Arte Érika Oliveira Executiva de Negócios Isabel Jales Reportagem Laís Fernandes, Tainá Rodrigues Editora-chefe Érika Oliveira

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Garçom, toca Simone e Simaria CANTORAS SERTANEJAS DÃO AULA DE REPRESENTATIVIDADE AO DISCUTIR PAUTAS FEMINISTAS EM SUAS LETRAS OPINIÃO GUILHERME GUEDES/TMDQA “Não se cale. Denuncie. Ligue 180”. A chamada, escrita em texto branco sobre fundo preto, poderia pertencer a um videoclipe hipotético de “Maria da Vila Matilde”, canção interpretada por Elza Soares em A Mulher do Fim do Mundo. Na música, Elza clama, com o característico timbre rasgado, que o companheiro do eu-lírico feminino da música “vai se arrepender de levantar a mão pra [ela]”. Poderíamos ver a frase estampar algo na identidade visual de MC Carol, funkeira carioca conhecida por “Meu Namorado É Maior Otário” (“meu namorado é mó otário / ele lava minhas calcinhas / se ficar cheio de marra mando ele pra cozinha”). Mas nem um, nem outro. Me surpreendi ao ver o letreiro descrito lá em cima encerrando “Ele Bate Nela”, clipe lançado em maio de 2014 pela dupla sertaneja Simone e Simaria. Eu nunca tinha ouvido falar nas duas até pouquíssimo tempo atrás, apesar das dezenas de milhões de visualizações que os clipes das duas colecionam no YouTube. Simone e Simaria são representantes de uma nova geração da música sertaneja onde cantoras e duplas femininas têm cada vez mais espaço de protagonismo no mercado, e não só isso: voz ativa e de importante impacto social. Além delas, Maiara e Maraisa, Marília Mendonça, Paula Mattos, Bruna Viola e muitas outras. Uma geração de mulheres muitas vezes de origem pobre, e que mesmo sem levantarem explicitamente a bandeira do feminismo e evitarem associações com a atuação política de maneira geral, são agentes da representatividade. Uma safra de cantoras cada vez mais próximas do protagonismo no mercado fonográfico, amplamente dominado por cantores e duplas masculinas ao longo das últimas décadas. É chegada a primavera das mulheres no mercado musical. O sertanjeto é o estilo musical de maior alcance do país: feito sim para consumo massificado a qualquer custo, com letras frequentemente questionáveis que ironizam o alcoolismo, o assédio e que promovem a manutenção do machismo. Aproxima-se, assim, do funk pop de Biel, estilo que também sofre de muitos problemas similares. Mas quando vemos uma geração inteira de mulheres ocupando lugares antes exclusivos a homens, é preciso reconhecer o início de uma mudança ampla que toma força aos poucos. Ídolos são espelhos para os milhões de fãs que os seguem, e por isso, representatividade importa. É bonito ver que além de Liniker, As Bahias e a Cozinha Mineira, Karol Conká e Rico Dalasam, as transformações começam a chegar aos cantos do Brasil onde as discussões do palanque virtual não chegam. Não seria o máximo ver um cantor sertanejo assumidamente gay gritar versos sofridos de amor? Ou uma dupla trans que dê visibilidade aos homens e às mulheres trans do interior do país, onde o sertanejo predomina? Não seria o máximo se o funk e o pop deixassem de lado a misoginia para promover o respeito, mesmo quando prega a diversão e o descompromisso? É essencial que tenhamos referências empoderadoras quando ligamos a TV, acessamos a internet ou frequentamos um festival. Pelo mesmo motivo, é louvável que o público e a indústria fonográfica comecem, ainda que lentamente, a compreender que na nossa sociedade não há mais espaço para outros como Biel. Acabou.

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Agora é que são elas!

CADA VEZ MAIS, MULHERES OCUPAM LUGARES TIDOS COMO MASCULINOS E MOSTRAM QUE NÃO EXISTE SEXO FRÁGIL REPORTAGEM LAÍS FERNANDES

O que aconteceu em 1968, nos Estados Unidos, foi um marco na história da luta pela igualdade de gênero no mundo. Quando mulheres se uniram e atearam fogo em seus sutiãs, elas estavam chamando atenção para uma problemática que precisa ser debatida por toda sociedade. Elas estavam reivindicando seus espaços de direito em uma sociedade enraizada pelo comportamento machista. O ano de 1968 parece que não acabou, porque alguns de seus comportamentos são vistos até hoje, quando em pleno século 21 mulheres ainda lutam pela simples liberdade de fazer o que gostam como praticar esportes culturalmente masculinos, jogar videogames ou exercer a profissão de sua escolha. Hoje elas são engenheiras, taxistas e serventes em obras lutando para que a concepção de fragilidade seja aos poucos modificada. Essa batalha vem, em parte, do chamado Movimento Feminista, que surgiu em 1848 na Convenção dos Direitos da Mulher em Nova York, como explica a advogada e pesquisadora, Isabella Lauar (foto ao lado),

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no livro “Trilha Evolutiva da Mulher: da dominação de gênero aos caminhos emancipatórios”. Segundo ela, estamos vivenciando desde o final de 2014 a 4ª onda do Movimento Feminista, nome dado pelos pesquisadores de gêneros e direitos das mulheres. O que está acontecendo é uma disseminação de debates sobre temas femininos na internet para difundir e atingir o maior número de pessoas. A questão sobre a imersão da mulher em áreas majoritariamente masculinas é uma bandeira recorrente, denunciando a desigualdade de gênero ainda fluente no mundo. “Essa construção cultural, apoiada

no machismo imperante, faz gerar o tabu de que as mulheres não podem ingressar no mercado de trabalho, na profissão que desejarem e de que existem áreas especialmente femininas”, explica a advogada Isabella Lauar. Felizmente, temos inúmeros exemplos de mulheres se destacando em atividades ditas masculinas, para inspirar nossas leitoras, colhemos depoimentos de três jovens que vivenciam essa realidade e superam os machismos diários. Isabela Venter (21), que é gamer; Débora Caravina (21): estudante de Engenharia Mecânica; e Victoria Praxedes (21) que integra a seleção feminina de futebol da UFRN.

Isabella Lauar, autora de “Trilha Evolutiva da mulher: da dominação de gênero aos caminhos emancipatórios”


Isabela Venter (21): gamer

A dominância masculina é bastante perceptível dentro do mundo dos games, apesar de alguns jogos estarem tentando se voltar para o público feminino adicionando personagens femininas fortes e independentes. Já aconteceu do meu próprio irmão, que jogava o mesmo jogo que eu na época, não acreditar que eu havia conseguido os intens por raids e sim porque algum "nerd" tinha dado para mim porque sou mulher.

Débora Caravina (21): estudante de Eng. Mecânica

Desde quando entrei na universidade, logo fiz questão de participar do projeto Car-kará Baja, onde eu tive a oportunidade de planejar, projetar e executar a construção de um protótipo off road. Passei um pouco mais de um ano na equipe, a maior parte sendo a única menina, e os meninos não pegavam mais leve comigo por ser mulher, tive que sujar muito as mãos, carregar pesos, virar madrugadas trabalhando. Ainda assim somos obrigadas a escutar de professores coisas como ‘vocês só pegaram carona no trabalho dos meninos’.

Victoria Praxedes (21): jogadora de futebol

Muitas das vezes eu e meu time tivemos a oportunidade de mostrar que apesar de sermos mulheres, nós somos muito capazes de vencer um time masculino. Só digo uma coisa: erga sua cabeça, mete o pé e vai na fé, se o futebol é sua paixão. Siga seu coração e mostre do que você é capaz dentro e fora de campo, usando também a inteligência e sendo superior a qualquer tipo de preconceito.

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“Um trauma para a vida inteira. Caiu na internet, não tem mais volta”. É como resume Valquíria (nome fictício), uma jovem de 26 anos de idade que teve seu cotidiano transformado depois que um ex-namorado enviou por e-mail para várias pessoas um vídeo em que os dois apareciam fazendo sexo, além de uma foto em que a moça é exposta em situação íntima, deitada em uma cama. Ela pediu para ter a identidade preservada sob o receio de sofrer novamente os ataques que enfrentou seis anos atrás. Valquíria conta que havia acabado de entrar na universidade, em 2010, quando foi surpreendida pela primeira agressão. “Eu notei que eu passava nos corredores da universidade e as pessoas cochichavam, olhando para mim. Meses antes de passar no vestibular, ela tinha acabado um namoro que manteve durante a adolescência. “Mas não houve conflito durante o término, parecia que estava tudo bem”, lembra. Até que ela começou a namorar um colega de curso. O motivo dos cochichos Valquíria só descobriu quando o novo namorado a mostrou. “Ele disse: ‘olha o que mandaram para mim”. Havia uma foto antiga postada em um site em que ela aparecia deitada em uma cama, com roupas íntimas. Valquíria tinha 16 anos na época que tirou a foto. “E no site tinha os dizeres: ‘prostitutas brasileiras, seu dinheiro nunca é suficiente”, revela. Foi a primeira investida do ex para tentar atingi-la.

“Revenge Porn”

PRECISAMOS FALAR SOBRE 8

“Porn Revenge”


REPORTAGEM RAFAEL BARBOSA/NOVO Um vídeo com cenas íntimas é postado na internet, viraliza e ganha as redes sociais. A filmagem não teve autorização para ser divulgada, porém o Estado não tem controle sobre a difusão do material. Essa história é comum a várias vítimas do chamado “Porn Revenge”, quando conteúdo de cunho íntimo é propagado na rede de computadores como uma forma de agressão a determinada pessoa. Valquíria* conseguiu identificar três pessoas, todas universitárias, que estavam divulgando o link do site com a fotografia. Processou as três. “Mas aí não tinha jurisdição sobre isso. Fui em uma delegacia e disseram que eu tinha que procurar a delegacia do meu bairro. Fui até lá e disseram que, como era um site em São Paulo, eu precisava ir à Polícia Federal. Fui à Polícia Federal e disseram que não resolviam, que eu tinha que ir ao Juizado Especial. Fui ao Juizado Especial e disseram que também não resolviam, que eu tinha que procurar a Defensoria Pública. Chegou uma hora que eu fiquei cansada. Você é a vítima, quer ter o direito, mas ninguém lhe ajuda”, relatou. No Juizado Especial, com apoio da Defensoria, Valquíria conseguiu dar andamento ao processo contra as três pessoas que divulgavam a foto. De todo modo, a punição que lhes foi imposta foi um acordo que as proibia de permanecer difundindo o material. “Acabou que serviu de alguma coisa, porque correu na universidade que eles tinham sido processados. Ninguém sabe no que deu, mas souberam que foram processados”, acrescenta. Valquíria diz que ainda conseguiu extrair efeitos positivos da situação, apesar da leve punição. “Esses processos de Porn Revenge, quando você pune o responsável, você está punindo possíveis responsáveis.

Porque muita gente não tem consciência de que isso é um crime, de que eles são cúmplices”, avisa. Com relação ao site que veiculava a imagem, a jovem nunca conseguiu fazer com que a fotografia fosse tirada do ar. “Até o próprio site sair do ar ela ficou lá”, reclama. O episódio passou e Valquíria acreditava que estava livre da situação. “Como passou o tempo e não tinha nada demais na foto, era mais na montagem da foto, eu não me preocupei tanto”. Todavia, o pesadelo tornou a acontecer um ano depois.

Vazamento de filme íntimo na internet

Passados quase 12 meses desde que teve uma foto divulgada no site, Valquíria foi contatada por uma amiga que lhe trazia outra desagradável surpresa. O ex-namorado agora divulgara uma filmagem em que ele aparecia com ela fazendo sexo. “Minha amiga me disse ‘tem um vídeo aqui e acho que é você no vídeo”, lembra. “Era eu no vídeo. Era um vídeo do meu ex-namorado, de quando eu tinha uns 18 ou 19 anos de idade, em que eu aparecia transando com ele”, detalhou Valquíria. A jovem diz que se viu em situação ainda mais delicada, logo depois de sair de outra que já a havia castigado socialmente. “Eu lembro do vídeo, que a gente fez na época. Mas eu não lembrava se ele tinha guardado, eu não tinha. Eu não tinha, ele tinha, o vídeo vazou. Então foi ele, mas eu não tinha como provar que foi ele, não tinha como provar quem compartilhou”, conta. Valquíria recorda que, mais uma vez, quando tomou conhecimento da exposição já tinha muita gente próxima que havia visto a filmagem. “Gente que saía comigo, que me conhecia. E a minha amiga disse que quem tinha mandado mandou por e-mail, e no e-mail tinha todo mundo para quem ele encaminhou”, lamentou.

O então namorado de Valquíria, que era o mesmo da época em que ela teve a foto difundida na internet, tomou conhecimento da nova exposição e não a apoiou. Valquíria encontrou suporte emocional em casa, através da mãe dela, que a ajudou a superar a situação. “Quando você sofre esse tipo de coisa, precisa ter o suporte jurídico, mas principalmente o suporte emocional. Porque o emocional é o que faz a galera se matar, mudar de escola, perder emprego, perder o sentido da vida. Não é o fato de ter um vídeo veiculado na internet, é o olhar das pessoas, é o que mais machuca”, enfatizou. “É uma tortura frequente”, classificou Valquíria, relatando que, sempre que vai participar de palestras ou atividades profissionais que envolvem muitas pessoas, fica pensando se os presentes viram o vídeo e estão olhando para ela e lembrando da filmagem. “A nossa sociedade é muito machista, no sentido de ter um vídeo de um homem e uma mulher transando, mas é feio pra ela. O cara é o garanhão”, critica. Neste segundo caso, ela tentou ainda iniciar um novo processo, mas foi vencida pelo cansaço e a dificuldade imposta pela incipiência de investigações relacionadas a esse tipo de crime. A jovem agora procura promover debates nas redes sociais e também em eventos organizados em diferentes espaços para levantar a discussão sobre o Porn Revenge, na tentativa de mudar a cultura sobre o tema. Valquíria, hoje com 26 anos, é noiva. A moça diz que o homem com quem se relaciona nunca a recriminou pelos crimes dos quais ela foi vítima. Com relação ao ex que divulgou o vídeo e a foto, ela diz que conseguiu superar o ódio que sentia dele. “Não sei como, mas consegui. Hoje só sinto pena”. O homem continua solto, não sofreu qualquer punição.

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Feminismo pra quem? REPORTAGEM ÉRIKA OLIVEIRA, ISABEL JALES LAÍS FERNANDES TAINÁ RODRIGUES Foi durante a segunda onda do feminismo, durante os anos 60, que o movimento ganhou força no Brasil. Na mesma época que acontecia a luta pela redemocratização, as mulheres iam para a rua em busca do direito ao voto e outras reivindicações. Só que havia um problema: enquanto as mulheres brancas, de classe alta, lutavam por direitos iguais, as mulheres negras lutavam por direitos básicos. Nesse cenário, as diferentes vertentes no feminismo surgiram para tratar as pautas de cada grupo separadamente, uma vez que uma mulher trans negra e uma mulher cis branca, por exemplo, possuem necessidades diferentes. A princípio, trataremos de apenas três vertentes: o feminismo negro, o feminismo plus size e o feminismo LGBT. Feminismo negro O movimento chegou no Brasil durante os anos 80. Foi percebido que os problemas das mulheres negras iam além de questões de gênero, isso porque ela sofre uma opressão dupla: por ser mulher e por sua cor. O problema da mulher negra se encontrava na falta de represen

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O FEMINISMO NÃO É UM SÓ. PARA AJUDAR DIFERENTES MULHERES, SÃO NECESSÁRIAS DIFERENTES VERTENTES; SEPARAMOS TRÊS PRA TE EXPLICAR MELHOR

tação pelos movimentos sociais hegemônicos. “A discussão somente sobre gênero não contempla a realidade de mulheres negras, pois o viés étnico racial e de classe são de extrema importância para nós. Enquanto feministas brancas lutavam pelo direito ao trabalho, mulheres negras carregavam histórias de trabalhos forçados, inclusive nas casas dessas mulheres brancas”, diz a militante do movimento negro AFRA Amanda Raquel. A partir dessa percepção, a conscientização a respeito das diferenças femininas foi ganhando cada vez mais corpo. Feminismo plus size Apesar de ser uma vertente muitas vezes esquecida, o feminismo para as plus size está em ascensão pela necessidade de empoderar as gordas e de falar para a sociedade que esse tipo de corpo é tão merecedor de respeito quantos os outros. É preciso fazer um recorte significativo sobre a mulher gorda e tratar de um feminismo que coloque a gordofobia como pauta importante em suas demandas. Entrevistamos Jadeanny Arruda, estudante de jornalismo da UFRN, que levou anos para aceitar seu corpo como é e agora comemora sua primeira ida a praia usando um biquini. “Isso é muito de aceitação. No fim, o importante é você se sentir bem”, diz.

Feminismo LGBT O Movimento Feminista LGBT levanta bandeiras de luta pela intervenção do Estado no controle de casos de crimes relacionados ao gênero e a criminalização tanto da homofobia, lesbofobia e transfobia, quanto do feminicídio. Jéssica Petrovna é lésbica e diz que nunca se sentiu oprimida dentro dos coletivos que participou. “Entretanto essa não é a realidade de todas as pessoas LGBT dentro do movimento, considerando que as mulheres bi e pansessuxais continuam sendo invisibilizadas e as mulheres trans continuam sendo abjetificadas”, declara. Além disso, para a comunidade lésbica, a questão da saúde é uma pautas extremamente carentes de atenção no feminismo: “A camisinha feminina, por exemplo, é voltada para o sexo heterossexual, anatomicamente pensado para penetração do penis. As recomendações médicas para prevenir DSTs entre mulheres do mesmo sexo costumam ser métodos improvisados e desconfortáveis, como uso de plásticos e luvas. Devido a falta de métodos eficazes e a falta de acesso aos preservativos, a maior parte as relações sexuais entre mulheres acontecem sem proteção”, revela.


Pras negras, “

Durante a faculdade de Ciências Sociais, eu fui reconstruindo minha identidade negra e entrei no processo de transição capilar [deixar o cabelo crescer para cortar toda a parte que foi alterada com química], porque eu alisava o cabelo desde os 7 anos de idade. Blogs e sites falando sobre a transição me foram de grande ajuda e a partir daí fui conhecendo mais sobre a negritude e o movimento de lutas das mulheres negras. Antes de me informar, eu cuidava da minha estética visando o padrão branco, inconsciente de que isso era um processo de negação a quem eu sou. Eu preferia até que me chamassem de “morena” em vez de negra. Junto desse processo de reconhecimento estético, veio a tona a necessidade de lutar por essa identidade que nos é negada. Amanda Raquel, 24 anos Raquel,negro 24 anos MilitanteAmanda do movimento Militante do movimento negro Afra no RN Afra no RN


pras meninas plus size

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Eu venho de uma família que a maioria das pessoas tem sobrepeso. Então, eu sempre me habituei a usar maiô, porque eu não me sentia confortável de vestir biquíni e as pessoas ficarem me olhando na praia. Não era vergonha, eu só não queria ser encarada. Esse ano, senti essa nova vontade, mas continuava achando que talvez não fosse feito para mim, apesar de achar muito bonito em outras pessoas, inclusive em modelos plus size. Comentei com a minha mãe que queria ter um biquíni, mesmo que fosse só para deixar no guarda-roupa mesmo. Ela conhece uma pessoa que costura esse tipo de peça e me ajudou com isso. Mas até colocar o biquíni e ir a praia existe um longo caminho... Eu tinha perdido 5kg, decidi provar o modelo, mandei fotos para amigos e eles me incentivaram a ir a praia para estrear. Eu ficava pensando que todos iam olhar para mim, mas estava me sentindo muito bonita e a minha vontade era muito maior do que a reocupação com a opinião das pessoas. Fomos à praia e foi uma sensação única e libertadora. Eu me senti muito confortável, confiante e segura do que estava fazendo. No fim, o importante é você se sentir bem." Jadeanny Arruda, 23, Estudante de jornalismo na UFRN


e pras LGBT! “

As mulheres lesbicas são culturalmente invisibilizadas ao longo da história. Mesmo quando a população LGBT é representada pela cultura de massa, isso se restringe a participação de homens gays. Devido a falta de visibilidade, a imagem da mulher lésbica é moldada por uma série de estereótipos e preconceitos, dentre eles a ideia de que a mulher lesbica tem um comportamento ou vestuário tido como masculino. Por outro lado, as mulheres lésbicas que adotam um vestuário tido como masculino sofrem com a pressão estetica da sociedade e da família. O movimento feminista prega que as mulheres possam ser livres para se comportar ou vestir da forma que se sentem mais a vontade e que as mulheres não sejam oprimidas com base em em padrões esteticos pré estabelecidos. Dessa forma, o movimento feminista ajuda no sentido de desconstruir um padrão estetico que é imposto arbitrariamente e desenvolver a autoestima das mulheres para que elas possam se sentir mais a vontade para se vestir da forma que sentem-se melhor e mais bonita.

Jéssica Petrovna, 20 anos Lésbica e militante do movimento feminista

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NUM BRASIL ONDE 80% DOS PARTOS DA REDE PRIVADA SÃO CESÁREAS, ENTREVISTAMOS ANDRESSA OLIVEIRA, DOULA E MILITANTE DO PARTO HUMANIZADO

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Parir é natural!

REPORTAGEM TAINÁ RODRIGUES “O parto não é apenas um evento fisiológico, mas também histórico, social, cultural e até espiritual para algumas mulheres”. A afirmação é de Andressa Oliveira, psicóloga, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, doula e militante pela humanização do parto no Brasil. Em entrevista, ela explica sobre o que se entende por parto humanizado, porque se tornou militante e conta um pouco das próprias experiências. GP: O que se entende por parto humanizado? AO: O que a gente chama aqui no Brasil de “parto humanizado” é a assistência ao parto que engloba três coisas: evidências científicas, ou seja, todos os procedimentos e as formas de atendimentos devem ser respaldados em estudos de qualidade; consideração à autonomia da mulher no processo e, por fim, o fato de que o parto não é apenas um evento fisiológico, mas também histórico, social, cultural e até espiritual para algumas mulheres. Como você conheceu esse método? Eu ouvi falar sobre a humanização do parto quando eu engravidei da minha filha. Soube de casos de violência obstétrica e, então, comecei estudos e pesquisas para entender mais.


Por que se tornou uma defensora? Primeiramente, por ter engravidado e estudado sobre o assunto. Percebi que só tive um parto respeitoso e seguro porque eu tive condições financeiras, fui atrás de informações e profissionais que apoiassem a causa. Toda mãe precisa ter acesso a informações de qualidade para de fato tomar decisões, o que não acontece nos dias atuais. Grande parte da população brasileira não tem acesso mínimo à leitura de qualidade e não tem dinheiro para bancar uma equipe humanizada. Eu tomei consciência dessa triste realidade no Brasil: somos o país campeão de cesárias no mundo, chegamos a um índice de mais de 80% de cesárias na rede privada e temos um índice muito alto de morte materna. No Brasil, temos basicamente dois cenários: o da cesariana e o do parto normal cheio de intervenções desnecessárias. Por esses fatores, eu me interessei em continuar estudando a causa e fiz curso de doula posteriormente. Qual a diferença entre parto humanizado, parto domiciliar e parto hospitalar? O parto humanizado respeita o tripé que falamos anteriormente. Essa assistência humanizada ao parto pode acontecer em casa, no hospital, independente do lugar. Nunca vivenciei um parto hospitalar - tenho uma única filha e ela nasceu em um parto domiciliar planejado -, mas sei diferenciá-lo por ter acompanhado casos de gestantes como doula. A diferença está na mudança de ambientes. Quais são os perigos de partos hospitalares? O parto é um evento fisiológico e natural, mas no ambiente hospitalar é encarado como uma possível doença. A mulher geralmente fica a mercê de muitas intervenções e cada intervenção aumenta o risco do trabalho de parto. No Brasil, o

processo é muito centrado na figura do médico, que, consequentemente, tem uma formação muito centrada na patologização dos processos naturais e nas intervenções cirúrgicas. Existem acontecimentos bem corriqueiros. Uso de ocitocina sem prescrição e de anestesia sem necessidade que aumentam o risco do trabalho de parto desnecessariamente. A questão do parto hospitalar é que ele é muito engessado, tem todos os horários e procedimentos de rotina a serem seguidos, além de que a autonomia da mulher ficar um pouco prejudicada.

O parto não é um evento patológico, a mulher tem plena capacidade de fazer escolhas e ser protagonista no acontecimento.

Você acha que a forma como parto humanizado é divulgado causa receio nas pessoas? Ultimamente, a humanização do parto tem ganhado uma visibilidade maior, mas ainda é muito restrito a classe média e classe alta. Mas sim, é divulgado de uma maneira equivocada. Muita gente acha que o parto humanizado é frescura, que a gestante quer aparecer. Mas toda questão é porque as mulheres estão morrendo. Esses índices de morte e de sequelas em função de cirurgias cesarianas e intervenções desnecessárias são muito altos. O movimento de humanização do parto quer melhorar a assistência ao parto, independente de ser domiciliar ou hospitalar. A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda é que a mulher tenha o seu parto no lugar que ela se sente mais segura. Pode ser domiciliar

ou numa casa de parto, contanto que ela esteja dentro dos critérios para parto de baixo risco ou risco habitual, tenha uma rede de assistência próxima e seja assistida por um profissional qualificado. Não é apenas querer e contratar um médico, como muitos pensam. Existe toda uma avaliação que é feita e é muito criteriosa. Qual a importância da doula? Eu tive uma no meu parto e é realmente essencial. O profissional que faz o pré-natal geralmente não trata as questões do trabalho de parto e do parto. Então, as mulheres chegam sem nenhuma informação sobre como isso vai acontecer. A doula fornece informações, conversa sobre a fisiologia da gravidez e do trabalho de parto, os mecanismos do parto, como acontece, as fases, melhores posições etc. Além disso, no trabalho de parto, a doula presta apoio físico e emocional. É como se fosse uma acompanhante treinada que vai estar ali, o tempo inteiro, para o que a gestante precisar. Estudos científicos já falam dos aspectos positivos e cada vez mais são consideradas como um avanço essencial para o parto. O que você indicaria para quem tem mais interesse em saber sobre? Indico primeiramente os documentários, como o titulado “O Renascimento do Parto” e o da pesquisa “Nascer no Brasil”, da Fiocruz, assim como os artigos da mesma pesquisa. Para quem quer informações sobre Natal, eu aconselho a procurar a Associação Potiguar de Doulas ou o Movimento pela Humanização do Parto e Combate a Violência Obstétrica. A Associação realiza rodas de gestantes mensais no Parque das Dunas onde são tratados temas relativos à gravidez e pode-se encontrar outras mães, gestantes e profissionais interessadas no tema.

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PRA OUVIR: LUÍSA E OS ALQUIMISTAS (RN) - COBRA CORAL (2016) Vinda do circo e da dança, Luisa Guedes reuniu em volta de si uma trupe fogosa para chamar de sua e cometer este trabalho. Por lá tem Gabriel Souto (Dusouto) no comando da máquina dando certeza de grooves certeiros, melodias bem trançadas e uma dança te esperando em cada faixa. Tem reggae, tem bregapop, tem chilliouts e tem charme e elegância cantadas de forma certeira em bom português e na linguagem universal poética do francês, inglês ou espanhol, sempre com uma vibe cigana. Comece ouvindo Camaleão, Brechó e Avec Plaisir.

Arte das Minas

POR: ÉRIKA OLIVEIRA

PRA ASSISTIR: GILMORE GIRLS (2000) A aclamada série estrelada por Lauren Graham e Alexis Bledel ganhou popularidade mundial na sua estreia, nos anos 2000. Criada por Amy Sherman-Palladino, a história da mãe e filha Gilmore não poderia ser mais atual: Lorelai engravida na adolescência, sai da casa dos pais e cria Rory sozinha. O desenrolar da série é sobre crises familiares entre Lorelai e a mãe, o crescimento de Rory e os pequenos dramas de uma cidade de interior. Comece pelas 7 temporadas antes de assistir o especial de quatro episódios que a Netflix lançou recentemente.

PRA LER: BANDEIRA DE TRAPOS - THEMIS LIMA (2014) Quando uma mulher resolve viajar sozinha, muitas são as exclamações de espanto e expressões de desaprovação. A autora Themis Lima deve ter encarado algumas dessas quando resolveu viajar pelo coração da América Latina. Em seu primeiro livro-reportagem, lançado pela Editora Tribo (RN), ela nos apresenta os países por onde passa por sua característica mais forte: seu povo. Disponível para venda em loja.editoratribo.com.br. Comece pelo capítulo que quiser, todas as histórias são encantadoras.

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Costurando esperanças PROJETO DE RESSOCIALIZAÇÃO POSSIBILITA AULAS DE ARTESANATO PARA APENADAS DO COMPLEXO DR. JOÃO CHAVES REPORTAGEM E FOTO ÉRIKA OLIVEIRA Bolsas e acessórios customizados e decorados com fuxico, bordado e outras referências ao artesanato nordestino. Esses são os principa produtos desenvolvidos pelas apenadas que participam do Transforme-se, projeto de ressocialização que funciona há 11 anos no Pavilhão Feminino do Complexo Penal Dr. João Chaves. “Quando eu cheguei lá, eu ouvi muitas meninas dando graças a Deus que elas iam ter alguma coisa para fazer”, conta Efigênia Cruz, coordenadora do projeto. Apesar do patrocínio da Cosern e o apoio do Governo do Estado, através da Lei Câmara Cascudo e da Secretaria de Justiça (Sejuc), que colaboram financeiramente, o projeto precisa de doações de banners acadêmicos para a produção das 180 internas que participam de aulas de artesanato sustentável e manufatura de acessórios por remissão de pena. O trabalho funciona de modo personalizado: “Cada ano a gente escolhe um tema, e no ano passado foi sobre Frida Kahlo, que rendeu a campanha Transforme-se em Frida, onde a gente fez bonecas de Frida e convidava as pessoas para se fantasiar e apoiar o projeto nas redes sociais”, relembra Efigênia.

De acordo com a coordenadora, essa foi uma forma de mostrar que dentro do presídio “não tem só baderna”. Além das aulas de artesanato, o projeto leva para o presídio palestras com psicólogos, especialistas em saúde coletiva e em empreendedorismo. “A gente tenta ensinar como elas podem vender os produtos, para tentar fazer com que não percam o foco quando saírem. Eu digo às meninas que não dá rios de dinheiro, mas o retorno

é maior porque não leva para o mau caminho e ela não vai correr perigo ao trabalhar com isso”, conta. A prova de que funciona é que a ex-participante Glória Messias, após conseguir a liberdade, tornou-se uma divulgadora do Transforme-se em feiras como a Brasil Mostra Brasil e Fiart com a venda de suas próprias bolsas, que tem na produção o trabalho terceirizado de outras ex-apenadas.

Bonecas produzidas pelas apenadas durante a campanha Transforme-se em Frida

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Da esq. para dir.: as amigas Sarah, Kivia, Heloísa e Ingrid. FOTO: Arquivo Pessoal

Vamos debater É POSSÍVEL SER CRISTÃ E FEMINISTA? REPORTAGEM TAINÁ RODRIGUES Salve-se quem puder das possíveis polêmicas geradas ao se jogar a palavra “feminismo” dentro de um grupo da igreja. Enquanto a religião preza pelo respeito às tradições, o feminismo tem uma luta bem mais revolucionária. Mas em alguns casos, ambos podem ter objetivos semelhantes, especialmente quando se pensa na prática religiosa mais jovial, que tem crescido nos últimos tempos. E então, fica aquele questionamento: dá para conciliar feminismo e religião? Em um grupo do Whatsapp com algumas colegas da igreja, joguei esse questionamento. Não faltaram opiniões. “Dá para conciliar em alguns pontos, mas não em todos.

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O nome ‘feminismo’ também é usado para muita manobra política, é preciso sempre analisar. Mas que todos queremos mais justiça às mulheres, isso não é duvida. E a Bíblia não oprime a mulher, como muitos fazem questão de falar”, argumentou Letícia Rodrigues, de 26 anos. O debate também se estendeu as religiões que são menos predominantes no Brasil e foi observado que no cristianismo é mais fácil ter essa relação. “O cristianismo e o feminismo conversam muito bem, pois os dois pregam justiça e igualdade social. Mas no islamismo, por exemplo, não vejo como seria possível conciliar”, afirmou Sarah Cavalcanti, de 23 anos. Dentre as participantes da discussão, a empatia com a maior parte das causas feministas foi unânime. Apesar de alguns pontos ainda serem delicados, como por exemplo, a descriminalização do

aborto, elas se identificam com pontos da luta e reconhecem que a religião pode ser um empecilho para alcançar os objetivos. “Por muito tempo a religião em si foi usada pela sociedade para oprimir a mulher, mas por se ter embasamento em contextos isolados da Bíblia”, opinou Ingrid Ferreira, de 20 anos. Além disso, todas elas admitem que o feminismo é mal julgado nas igrejas, mas as opiniões divergem sobre a razão. “Acredito que seja mal visto pela raiz, pelo modo como surgiu”, completou. Questionadas se elas já sofreram com algum caso de machismo dentro de ambientes religiosos, todas se sentem abençoadas por não, mas afirmam que já testemunharam casos, inclusive em outros ambientes, como local de trabalho. “Sou cristã-calvinista há 13 anos e nunca me senti oprimida ou desrespeitada. Muito pelo contrário, sempre fui incentivada a ocupar posições de liderança. Obviamente, há muito machismo na igreja sim, mas isso não é culpa da religião e sim da religiosidade”, relata Letícia. Sobre se reconhecer feminista, é um ponto delicado em geral. Muitas sentem receio das vertentes que a palavra pode alcançar, outras medo dos julgamentos de amigos e familiares e algumas até por não se acharem conhecedoras do assunto o suficiente. “Não me considero feminista porque não estudei a fundo, não tenho embasamento para levantar essa bandeira como cristã. Mas vou me aprofundar mais, sim. Até porque o feminismo tem aberto muito meus olhos para atitudes machistas que eu cresci achando normal e hoje já não acho mais”, afirmou Heloisa Santos, de 21 anos. “Eu gosto do movimento porque ele não diz que a mulher deve fazer tal coisa. Ele defende a liberdade de escolha da mulher e respeito as suas decisões”, concluiu Sarah.


Revista GRL PWR  

Revista feita como atividade avaliativa para a disciplina de Jornalimo Impresso do DECOM da UFRN.

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