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Érica Christieh

Um amor para vida toda


Introdução Para mim não é tarefa fácil falar de uma obra que mexeu tanto comigo. Obra esta que desperta quem a lê. Em um primeiro contato com o livro, pode parecer nada mais que um simples clichê, mas o livro não é o que parece, em suas páginas estão escritas palavras de determinação e fé. Acreditar naquilo que não se pode ver, mas sim sentir. Ou seja, em outras palavras estamos falando de Deus. O ser divino e Criador de tudo e todas as coisas que existem no Universo. A obra tem uma mensagem poderosa e, mesmo para aquele que não crê, como eu fui um dia, ficará se questionando sobre a vida em sua totalidade. Não é somente religião, a filosofia e a ciência também dão as caras nesse livro, que podemos dizer que é um reflexo de nossa própria existência como seres humanos e que não podemos renegar aquilo que somos na essência. Não é fácil para um homem acreditar e seguir uma determinada doutrina, pelo menos para minha pessoa, normalmente fazemos o que gostamos de fazer, sem que religião alguma se interponha entre a doutrina e o doutrinado. De certa forma a religião em si, além de doutrinar o indivíduo, faz com que o mesmo enxergue aquilo que ele próprio não conseguira enxergar. Não se dá a importância que a religião tem em uma sociedade, apesar de toda sua complexidade e às vezes subjetividade em segui-la de forma disciplinada e verdadeiramente casta. Eu espero que o livro mude a forma de enxergar Deus e os mistérios do Universo guardados a sete chaves, assim como aconteceu em meu âmago e serei sempre grato à autora por tal feito, realizado nessa minha efêmera existência como ser humano neste planeta a que chamamos de Terra. A mudança de pensamento que em minha pessoa se fez, somente fora possível depois de ter lido o livro e refletido exaustivamente o seu conteúdo inteligente, que conta com argumentos coerentes e transmitidos de forma sublime pela autora. Fui fisgado nesse anzol filosófico religioso e científico que de certa forma me tornou uma pessoa melhor. Luciano Otaciano


Dedicado com carinho aos ateus!


Você crê que há somente um Deus? Ótimo! Os demônios também creem e tremem.

(Tiago 2,19)


Capítulo um

Já havia algumas horas que Alicia não dormia mais. Permaneceu deitada, de olhos fechados, mantendo a cabeça enfiada sob os lençóis. Encheu os pulmões de ar ao se dar conta da importância daquele dia. Por alguns segundos deixou a imaginação se manifestar do jeito mais brilhante possível. Mas precisou parar e voltar à realidade. Levantou-se cedo, antes do resto da família. Olhando pela janela que ficava em frente à sua cama, contemplou o céu azul. Poucos raios de sol adentravam o ambiente e aquilo lhe deixava imperturbável. Arrumou-se em silêncio e se esgueirou para fora do quarto sem ser percebida. Já no andar inferior, sorriu sozinha, agradecendo novamente a Deus por aquele dia promissor. E à Alicia nada restou senão maravilhar-se diante das oportunidades que lhe apareciam tão grandiosamente. Mas mesmo enquanto contemplava a ideia de crescer ainda mais como profissional, lhe aterrorizava as mudanças que ocorreriam. Seriam, de fato, muitas e de dimensões desproporcionais ao que imaginou em toda a vida. Sua história tomava um rumo bem maior do que sonhou um dia, mas um preço seria pago. Um preço alto e doloroso demais. Para começar, sabia que os infortúnios de sua adolescência não eram nada que poderia se orgulhar. Era uma desajuizada e inconsequente. Qual jovem não foi um dia? Quais não cometera erros por sua imaturidade e rebeldia? Mas como a graça da vida são as surpresas que encontramos pelo caminho, Alicia também encontrou o seu, que de todo o modo mudou completamente a sua história. Por um segundo sua expressão mudou, suavizando-se ainda mais ante a lembrança da menina que fora um dia e aquela a qual se tornara hoje. Inteligente, responsável, profissional, passível ao próximo. Jamais teria conseguido uma nova vida assim com os próprios esforços, foi preciso muito mais para que isso viesse a acontecer. Conhecer alguém bem melhor que ela. Conhecer a Cristo. Alicia cresceu sendo filha única de um casamento que nem sempre fora feliz. Tinha uma mãe terna e forte o bastante para ser o seu exemplo pelo resto da vida. Presenciou-a lutando contra os seus maiores medos sozinha e vencer todos eles. Naquela época, ela jamais se deu conta de como Ana foi vital para manter aquela família de pé por tanto tempo. Se ela não tivesse lutado com bravura, será que ainda estariam todos ali, tão bem e tão felizes? Certamente não, e pensar nos seus pais depois de tudo aquilo lhe causava um enorme aperto no peito. Sabia que a partir daquele dia tudo seria diferente, e ela sentiria falta deles, talvez não mais do que eles sentiriam a ausência dela. O coração de Alicia acelerou quando imaginou todos sentindo a mesma saudade feroz que ela já sentia naquele momento. Sob certos aspectos, ela era agora uma jornalista internacional, a moça serena e determinada de sempre, indo morar em outro país para alcançar seus mais loucos objetivos como profissional e acima de tudo como humana. Alguém gritou o seu nome lá fora. Pegou sua bolsa e colocou o blazer branco que lhe caía muito bem. Caminhou até a porta sentindo-se, pela primeira vez naquele dia, mais relaxada. Ela era magra, de média estatura, sorridente. Seus olhos cinza davam um realce a mais aos cabelos


vermelhos e longos. Era persuasiva e falante. E ninguém podia negar que por detrás daquele rosto cheio de graça havia também um cérebro tão potente quanto uma bomba atômica. Alicia observou com os seus olhos cinza através do vidro escuro do carro e sorriu enquanto abria a porta e entrava. — Bom dia, Ahléx – ela o cumprimentou e o encarou com os olhos calorosos, aconchegantes. — Como você está? — Com medo – disse ela, franzindo a testa para Ahléx. Sua expressão se fechou de tristeza e anseio. – Estou tentando fazer o que é melhor. — Eu sei que sim – as palavras explodiram em seus ouvidos cheias de certeza. – Não se preocupe, ainda falta algumas horas antes disso. Eu ainda posso aproveitar o dia ao seu lado. Alicia notou um olhar distante no rosto amigo. Um olhar que há muito não via. Como seria possível que Ahléx não se sentisse indiferente à sua partida? Era normal que só de pensar na distância ele se sentisse tão mal assim. — Por favor – simplesmente olhou para ele com a dor estampada nos olhos –, não torne as coisas mais difíceis para mim, Ahléx. — Desculpe, Alicia – sua voz ficou embargada. Houve uma pausa longa em que ele deixou o amor por aquela amizade gritar dentro do seu peito. – Eu sei que… sei melhor do que ninguém que tudo isso que está acontecendo na sua vida é importante para o seu crescimento profissional e pessoal como cristã. Um pedaço meu irá junto com você. E quando sentir-se só, agarre-se a ele. — Sempre! – seus olhos se encheram de lágrimas e houve uma explosão de sentimentos dentro dela. – Ah, Ahléx, dá para acreditar? — Sem sombras de dúvidas. E merecidamente você conseguiu – mas estranhamente enquanto ele falava lembrou-se de como tudo isso havia chegado àquele ponto, como Alicia havia se tornado especial e extremamente importante na sua vida. – Por que será que crescer dói tanto? — A dor nem sempre é algo ruim. Acredite nisso. Mas ele se calou. A angústia parou de vez bem no meio da garganta, formando um nó quase sufocante. Seu olhar se perdeu diante do enorme congestionamento que se formava à sua frente. O céu começou a ficar mais claro, sem nuvens, de modo que Ahléx já não tinha certeza se era a umidade do ar ou o suor que estava ensopando a sua roupa. A atmosfera do ar em Brasília parecia abafar tudo, cobrindo o som ensurdecedor dos carros que pareciam querer ir todos para o mesmo local. Isso fervilhava ainda mais a cabeça de Alicia, mesmo que ela não estivesse atrás do volante. Ele imaginou que os pensamentos dela talvez estivessem vagando desordenadamente, porque ela parecia bem distante. Queria lhe dizer algo a mais, mas teve dificuldade de se expressar sem causar nela mais dor ainda por estar partindo. — Vou levá-la ao aeroporto. — Claro! – um choque invadiu o coração de Alicia. Já não havia mais filas de carro à sua frente e a BR 020 estava tranquila naquele ponto. – Acreditei que não queria prolongar a despedida.


— E perder isso? O seu sonho ganhando asas? – sentiu-se intenso, cheio de emoção. – Por nada. Quero que seja feliz. Alicia e Ahléx chegaram à sede do jornal a “Voz do povo” meia hora antes do horário normal. Despediram-se e cada um seguiu para o seu setor. Aquele era o auge da vida de dois profissionais, duas pessoas inteligentes, divertidas e responsáveis. Alicia Rodrigues era o tipo de mulher que muitos gostariam de conhecer. Era alguém empolgante, sonhadora e linda. Ahléx era um homem gracioso em busca de novos amores. Procurava por alguém que arrebatasse o seu coração e que lhe fizesse desejar ardentemente essa pessoa pelo resto de sua vida. Profissional na área da música e produção. Um homem alto, loiro e sedutor. Talentoso, profissional e absorto no que fazia. Enquanto Ahléx se dirigia à sua sala, lembrou-se de como havia chegado ali; como, por uma questão de prazer carnal, tudo na sua vida fora mudado. Antes, quase nada lhe satisfazia plenamente. Fora um rapaz namorador que levava a vida sem grandes compromissos e sentia-se feliz por ser assim. Mas em um dia comum, Alicia apareceu em seu caminho fazendo-o ver a vida de uma maneira muito diferente do que estava acostumado a viver. Era a garota mais linda que conhecera e teimosa demais para o seu gosto. Tão inteligente e determinada que o fazia querer estar sempre perto dela. Ele bem que tentou conquistá-la, mas Alicia foi irredutível, e dizia que já existia uma linda amizade entre eles. E foi o que se enraizou com o tempo, e ele era imensamente grato por ela ter aparecido em sua vida e lhe mostrado o verdadeiro amor. Tinha um bom emprego, estudara na melhor faculdade e ainda tinha alguém para chamar de amiga. Além do maravilhoso Jesus, nunca houvera outra pessoa como ela em sua vida. Tinha um profundo respeito e carinho por tudo o que Alicia representava. Era como a irmã que ele nunca tivera, o exemplo que muitos deveriam seguir. — Preciso que edite e divulgue isso para mim. Alicia levantou o olhar para a mulher e lançou um sorriso enquanto pegava uma dúzia de papéis da sua mão. — Ainda me lembro de quando você chegou aqui no jornal – Carla Silva, editora-chefe do jornal, estava diante de Alicia com o seu jeito autoritário, mas com um tom de voz de profunda tristeza. – Aquela menina franzina que eu olhei e não dei muito futuro, mas que me surpreendeu com tanto talento e determinação. Alicia levantou-se e a encarou emocionada. — Sinto muito por perder uma grande funcionária. — Eu sei – deu um branco em seus pensamentos. Fechou os olhos, refletiu. Organizou os sentimentos e voltou a falar. – A funcionária inevitavelmente partirá, mas a amiga, essa ficará para sempre. — Tome cuidado – Carla sorriu, mas com os olhos aflitos. – Não deixe de nos dar notícias. — A minha mãe já me alertou sobre essas coisas – Alicia sorriu –, suspeito que há um complô aqui. Ela brincou para ver se assim amenizava um pouco a dor da partida. — Admiro a sua coragem de abandonar tudo para ir morar em outro país, com outras culturas, realizando aquilo que mais ama.


— Vocês não se cansam de me fazer chorar? – Alicia voltou a sentar enquanto seu coração disparava ao pensar nas palavras de Carla. – Apesar de tudo, vai valer a pena. — Nunca duvidamos disso – Carla ouvia seu coração batendo e procurou coragem para seguir sem ela. – Agora faça o que te pedi e me entregue assim que puder. — Pode deixar. Pela última vez farei porque amo muito isso tudo. Alicia estreitou os olhos pensativa, sentindo um nó sufocar sua garganta assim que Carla se retirou. Ela gostava de trabalhar ali. Retratou notícias das mais diversas possíveis sobre a vida e o meio político de Brasília. Aquilo estava em seu sangue, impregnado em cada canto da sua jornada. Ela fez parte da própria história contada por ela. Mas nada podia se comparar ao que viria em seguida. De fato, era corajosa por abandonar uma vida inteira tão bem construída para morar em outro país, com outra cultura, outras pessoas. Esse era o resultado dos seus esforços, da sua dedicação ao jornalismo verdadeiro e real. Havia sonhado com um emprego igual àquele há muito tempo, em um país como o México, em um meio de comunicação tão importante na América latina como O Jornal. Tudo era um sonho, que de algum modo ela ainda não sabia explicar como de fato aconteceu. Talvez um dia ela encontrasse as respostas de como foi parar lá assim, tão inesperadamente. As passagens haviam sido compradas. Sua hospedagem já reservada e a dona do jornal dizia aguardar ansiosamente para conhecêla. De certo tinha a mão de Deus no meio de tudo isso, e se não houvesse sua mão, pelo menos um único dedo haveria. Enfim, o dia passara e já era noite. O céu estava tomado de tons azul-marinho e preto entrelaçados perfeitamente. O trânsito estava um caos novamente. Alicia olhava para as luzes dos carros que andavam lentamente, mas não se importou com o congestionamento. Ahléx se mantinha calado, lançando um olhar questionador uma vez ou outra, tentando pelo menos uma vez imaginar o que ela tanto pensava. Era como se a vida estivesse ficando para trás junto àquela estrada, e tudo fosse sendo criado de novo em outro lugar e com novas pessoas. Seus pensamentos já estavam no México, mesmo que seu corpo ainda pertencesse ali. Acordou sabendo que aquele dia seria de uma despedida dolorosa a todos, e que choraria sem reclamar. Que seria árduo encerrar a etapa no emprego que lhe abriu tantos horizontes, dando-lhe tantas oportunidades. Que a partida atingiria quem ela mais amava. E quando a saudade apertasse ela sentiria vontade de voltar, desistir, mas que jamais esqueceria os motivos que a levaram até lá. Lá vêm lágrimas de novo! Chegou em casa quase uma hora depois e estavam todos reunidos. Mesmo assim pediu para não prolongar tanto as despedidas. Não houve jantar, nem brindes, nada que a fizesse chorar mais do que o necessário, apenas por ligeiros minutos se acalmou nos braços de seus pais e chorou em silêncio. Entrou no carro de Ahléx e partiu. Deu-lhe um longo abraço antes de fazer o check-in. Aquilo não era um adeus. Em breve ela estaria de volta. — Cuide de todos por aqui – Alicia estava feliz e queria que Ahléx também estivesse. – Em breve estarei de volta. — Boa sorte – murmurou estarrecido. – Dê notícias quando chegar.


Ela apenas balançou com a cabeça enquanto se afastava dele. Logo Ahléx não a viu mais. Alicia entrou no avião e sentou na sua poltrona classe A. Estava indo para o México, ela mal podia esperar.


Capítulo dois Miguel Hernandes estava vivendo um daqueles dias raros e felizes, que nada poderia sair errado. Toda a banda Nueva Generación sentia-se assim. Seria o segundo DVD gravado ao vivo e com um público de sessenta e cinco mil pessoas. Faltava ainda duas horas para o show e o L.A Coliseum, nos Estados Unidos, encontrava-se lotado. A banda formada por ele, Gabriele Mendes, Cláudia Duram e Pablo Fagundes e mais cinco músicos, era sucesso no mundo todo. ― Cinco minutos para a entrevista. A voz do produtor ecoou nos quatro cantos do camarim e eles se dirigiram para a sala de entrevistas. Era sempre cansativo para Miguel responder a tantas perguntas que muitas vezes nem faziam sentido para ele, mas aos vinte e três anos, o jovem era uma das estrelas mais bem pagas do México. A estreia da turnê naquela noite lhe renderia um cachê de 140 mil dólares por show. Era rico, famoso e cortejado pelas mulheres mais belas do mundo, que dariam tudo para dividir um único drinque com ele ou qualquer um da banda naquela noite quente de Los Angeles. Não demorou muito e eles logo se dirigiam ao palco e o show começou. Como de costume, cantavam com a alma, com atitude cheias de gratidão, como se suas vidas estivessem inteiras naquele palco. Ao fim da última canção, imóveis no centro do palco e sob a luz prateada do refletor, foram aplaudidos de pé por mais de cinco minutos entre lágrimas, gritos e histeria. Antes de desaparecerem por detrás da enorme cortina, agradeceram o carinho dos fãs e se retiraram em direção ao hotel em que estavam hospedados. Conhecidos no mundo inteiro, carregavam multidões de fãs por onde passavam. Era uma banda de quatro jovens talentosos, mas ninguém podia negar que era Miguel o mais aclamado e amado de todos eles. Poderia dizer que foi o fundador daquele sonho, o incentivador, mesmo que antes houvesse também uma história de sucesso por trás do caminho que escolhera para a vida. Ele tinha consciência de que a causa do seu estrondoso sucesso como cantor, além da voz indiscutivelmente incrível, residia no seu talento como ator que fora um dia. No seu charme, no seu carisma, na imagem pública que construíra como galã. Apesar do despeito que criara algumas empresas sensacionalistas sobre a imagem de Miguel, os patrocinadores disputavam a banda a peso de ouro. No dia seguinte o grupo embarcou no seu avião particular já sabendo sobre os rumores da noite passada. A notícia procedia, segundo os jornais e revistas a passagem da banda por Hollywood havia sido um sucesso. O celular vibrou silencioso. Miguel olhou identificando o número. Atendeu dizendo algumas palavras sem grande ardor. A chamada se encerrou e ele desligou o aparelho com a expressão contrariada. Fechou os olhos para não chorar enquanto ouvia Pablo questionando-o. — Adivinho sem grandes dificuldades, que era a namorada ausente com quem estava falando ao telefone.


Os olhos de Pablo concentram-se nos dele de forma provocativa. Apesar dos comentários, Miguel não se importava se ele estaria certo ou não. Aquele baixinho, de mechas acobreadas e olhos negros, mesmo tendo descendência alemã estava longe de se parecer com um nazista torturador. — Por que ainda atende os telefonemas dela? — Porque ainda existe um compromisso entre nós dois. Miguel sentiu um aperto no peito ao se lembrar de Helen, enquanto Pablo soltava uma risada profunda e gutural. — Vocês conhecem as desculpas; o trabalho nunca a deixa ter um tempo livre e quando eu ligo nunca conversamos como deve ser. Eu nunca pensei que chegaríamos a esse ponto. —Você contou essa mesma desculpa na semana passada – Pablo disse, sem demonstrar emoção ao sofrimento do amigo. – Nós trabalhamos mais do que ela e sempre temos tempo para tudo, Miguel. — Ela é uma renomada jornalista. — E você um cantor mundialmente famoso. Quer mesmo comparar? — Vamos mudar de assunto – Miguel o encarou sério. – Esse não é o relacionamento dos meus sonhos, mas nos amamos e isso já deve bastar. — Exatamente como eu previa – ele insistiu. – Deveria terminar tudo com ela. Miguel sorriu ignorando completamente Pablo. Limpou a garganta e se ajeitou na poltrona. — Bem, se você não consegue manter a boca fechada – ele o encarou com um sorriso sinistro, – como anda o seu lance com a Gabriele? — Está maluco, Miguel? – ele não gostou do modo como Miguel o olhava. – Não existe lance algum entre ela e eu. Não se cansa de saber disso? — Ficou assustado, cuate?1 – continuava a sorrir. – Não fique. O que estou cansado de saber é que vocês se amam. — Não, meu brother! – Pablo parou por um momento enquanto engolia a seco. – Essa possibilidade só existe na sua cabeça, e não quero falar sobre isso. — Podemos falar sobre mim e os meus problemas, mas nunca sobre os seus? — São casos totalmente diferentes. — São? – Miguel segurou forte em seu ombro, enquanto ele desviava o olhar para a janela do avião e observava o vento reunindo forças por detrás do vidro. – Sofremos por amar demais, aceite isso. — Eu a amava antes de me trair – ele disse cautelosamente para que Gabi não os ouvisse, dirigindo o olhar para Miguel mais uma vez. — Já faz tanto tempo que pensei ter superado isso. — Superei, só não esqueci. — A Gabriele ou a traição? — Não preciso responder a isso. Acabarei ofendendo o meu melhor amigo. Miguel parou sorrindo, contemplando se deveria responder. Calaram-se.

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Cuate: amigo


Pablo fechou os olhos para esquecer, no entanto seus pensamentos foram tomados mais uma vez por Gabi. Em silêncio se lamentou por aquilo, lamentou que mais uma vez Miguel insistia em levá-lo ao passado, onde prometera nunca mais colocar os pés. Era um lugar ruim e sombrio que afligia profundamente seu coração. O lugar onde ele fora feliz nos braços da mulher que amou, mas essa mesma mulher que jurou uma vida inteira ao seu lado o enganou, o feriu, traindo da maneira mais improvável possível. Este era o lugar que ele evitava sempre voltar, porque já era bastante tolerável trabalhar com ela quase vinte e quatro horas por dia, pelos seus fãs e por amor a banda. Manter um diálogo amigável com sua colega de palco em frente aos holofotes e câmeras não era tão difícil assim, mas nada além do que isso acontecia entre eles. Evitava falar com ela em ocasiões diferentes, porque no final sempre acabava voltando a recordar o que ela lhe fizera e isso sempre terminava em brigas. *** Depois de horas de voo a banda estava na Cidade do México novamente. O apartamento onde o grupo morava, que ocupava todo o último andar do prédio, nunca pareceu tão aconchegante como naquele dia. Tinha uma sala ampla, com um sofá de canto azul-celeste e uma mesa simples de centro. Havia uma TV cinquenta polegada embutida na parede e muitos pôsteres pendurados enfeitavam o restante do ambiente. Contavam com quatro quartos e uma sala de ensaios com as paredes de espelho. Queriam ter tempo para descansar, mas não houve escapatórias naquele dia. O produtor da banda mal adentrou o ambiente e bombardeou os garotos com suas novidades. — Amanhã terá um evento aqui na cidade e vocês foram convidados a participar. — Resumindo – Pablo disse, – somos obrigados a ir. — Eu sei que você está de saco cheio dessa fama, Pablo – disse Fernando, com sarcasmo, – mas seja grato por essas pessoas desejarem a presença de vocês nesse coquetel. Ah! Hotel México City, o melhor e mais bem frequentado da cidade. Continue as queixas. — Eu não sei como dizer isso com jeitinho – Cláudia tirava as botas fazendo uma cara de insatisfação, – mas sempre enfatizamos essas questões das apresentações particulares. E não gostamos disso. — Terão pessoas influentes que fazem questão da presença de vocês – Fernando pegou a sua mala e olhou para os garotos. – Não quero contestações. — Nossa opinião não vale muito quando a decisão é sua, não é mesmo? – Pablo irritou-se com Fernando. — Eu sou o produtor de vocês e esse é o meu trabalho – ele disse, virando-se para partir. – Já está tudo pronto para amanhã. Me agradeçam depois. — Ah, nossa! – Miguel não concordou. – Posso perguntar onde todo esse espetáculo se encaixa na nossa agenda lotada? — Vocês acham que voltaram para Cidade do México por qual motivo? — Nós não estamos exatamente de acordo – Gabriele elevou a voz, – mas concordo com o Fernando. Não custa nada tentar.


— Alguém sensata nesse grupo – nos rostos deles ainda restava um desconforto. – Depois nos falamos. — Espere aí… – protestou Pablo mais uma vez, porém Fernando partiu, batendo fortemente a porta entre eles. Queriam discutir sobre aquilo, fazer uma reunião qualquer e dizer que não iriam, mas estavam cansados demais e não ousaram tentar. *** Miguel dormia quando o seu celular tocou. — Alô – disse, sonolento. ― Oi meu amor, ainda estou esperando vir me ver – a voz soou do outro lado da linha cheia de afeto. ― Ah! É você Helen. ― Isso mesmo – respondeu ela. – Surpreso? ― Sim, poderia ser diferente? – Miguel passou a mão sobre o rosto e levantou. Havia tido um sono leve e de pouca duração. ― Senti sua falta – a voz de Helen tinha um timbre forte, mas conversando com Miguel ficou repleta de suavidade. – Preciso te ver. ― Você fala de um jeito tão enfático. Isso é algo importante que eu deveria ainda lembrar? ― Bom, eu poderia me zangar com você agora mesmo por esses comentários sem cabimento, mas não vamos discutir os motivos que você já conhece tão bem. ― Não, eu os desconheço – Miguel disse bruscamente, tentando não alterar o tom de voz. – Pelo menos nenhum grande motivo para você me esquecer durante duas semanas. ― Eu não me esqueci de você, Miguel – Helen parou por um instante e respirou fundo controlando os seus impulsos. – Sinceramente, eu não quero entrar nesse assunto, não pelo telefone. ― Uma longa temporada de um mês longe, deveria ser o bastante para entrarmos em assuntos bem mais graves do que esse, não acha? ― Não. Só quero vê-lo, será que posso? ― Está bem, então – concedeu ele. ― Até logo. Uma pequena ruga marcou a sua testa ao desligar o telefone. Dirigiu-se ao banheiro, ficando debaixo do chuveiro por longos minutos, pensando em tudo que vivera com ela por todos aqueles anos. Enumerou as dezenas de coisas estúpidas e imperdoáveis que havia feito por aquele amor, que por algum tempo havia sido recíproco. O descontentamento de seus pais com o namoro era um deles. Seis longos meses era o tempo em que ele já não se comunicava mais com sua família, de certo pelo egoísmo e arrogância de Helen. A história era dolorosamente real demais para recordar. Bastou uma única vez a sua presença na casa onde crescera, para causar um desentendimento entre ela e sua mãe. Helena a expulsou sem hesitar de sua casa. Naquele tempo Miguel se sentiu extremamente ofendido com a atitude da mãe e disse


que nunca mais voltaria ali, e assim cumpriu sua palavra. Desde então muitas coisas haviam mudado, tantas que Miguel temia profundamente que Helena estivesse com a razão, quando dizia que Helen não era a mulher ideal para ele. Conheceram-se quando Helen ainda era uma estagiária jornalista que tinha a missão de entrevistá-lo. A princípio, Miguel a achou uma menina ousada e linda a ponto de deixá-lo muito atraído por sua beleza, um encontro casual de trabalho. Mas depois de trocarem números de telefones e se falarem várias vezes, ficou louco por ela. Helen tinha um sorriso sincero e uma mente sensacional, lotada de sonhos que simplesmente o encantou. Começaram a namorar e logo a mídia fez de Helen uma menina famosa. No começo eles burlavam a hora do trabalho para ficarem juntos, passeavam às escondidas no parque, iam ao cinema, conversavam como o dia estava lindo. Mas tudo foi caindo na rotina, as oportunidades de crescer foram aparecendo, até Miguel ter a desastrosa ideia de colocá-la no melhor jornal do México. Foi o seu grande erro! Já não havia mais tempo para estarem juntos, já não havia nenhum interesse de Helen em largar o trabalho para ficar com ele. O emprego se tornou o mais importante e se passaram três longos anos, cada vez se afastando mais. Ela estava sendo o oposto de quando a conheceu. O sucesso que ganhou em pouco tempo no jornal subiu à sua mente e destruiu a menina formidável a qual ele havia se apaixonado. Tornou-se uma mulher impaciente e arrogante, e esses foram os únicos adjetivos que todos conseguiam enxergar nela nos últimos anos. Se questionou muitas vezes os motivos que ainda o prendiam a ela. Talvez porque Miguel ainda acreditava neles, acreditava naquele amor. Porque ainda lhe restava um pouco de esperança das coisas entre eles mudarem. Era muito perturbador para ele se lembrar dela e sentir-se extremamente indiferente. Quando Miguel finalmente terminou de se arrumar e saiu do seu quarto, sentiuse desanimado, pelo motivo de se encontrar com Helen. O que ele realmente achava estranho era não querer conversar com ela sobre absolutamente nada. As desculpas que escutaria já lhe cansavam a mente e destruíam o coração. Lá fora o tempo estava encantador, dando vontade apenas de ficar olhando para o céu, deitado sob a sombra de uma árvore, imaginando as formas das nuvens. Miguel saiu com o seu carro do prédio e percebeu logo que o trânsito estava tranquilo. Tinha dias em que os carros se estendiam em um congestionamento parecendo não ter fim. Miguel detestava os tráfegos das grandes cidades, mas conseguiu chegar ao jornal bem mais rápido do que imaginava. Entrou no enorme prédio e pegou o elevador que zunia em alta velocidade. Vigésimo andar. A porta se abriu e Miguel já estava em frente à sala de Helen. Pediu para que a secretária bem-arrumada e sorridente avisasse que ele estava ali. Helen o atendeu. Ela era alta, cabelo negro, muito atraente, de uma postura exuberante de extremo rigor, mas sorriu para ele com simpatia. Vestida com o mais elegante terno vermelho e camisa branca que Miguel já viu. ― Oi – ela disse, projetando o corpo em sua direção, o abraçando em seguida. Olhou para ela por um minuto sem dizer nada. O seu rosto formou uma expressão incompreensiva, desejando nunca ter decidido ir até lá. ― Como você está? – ela voltou a dizer ao cruzar com o seu olhar.


― Bem, dentro do possível – Helen o fitou, tentando adivinhar ao menos o que ele estava pensando. – Por que não ligou antes? ― Quantas perguntas Miguel, parece até um interrogatório. – Ela tentou fugir da confusão que aquilo seria, caso o respondesse com sinceridade. ― Tenho pensado muito nisso – o rosto de Miguel se fechou. – Ao contrário de você, eu ainda não aprendi a fingir que tudo está bem quando não está. ― Olha, amor, não acho uma boa ideia discutirmos agora. ― Ótimo! – disse ele simplesmente. – Marque um horário para mim aí na sua agenda sempre lotada então, e depois eu volto para conversarmos. ― Ah não, Miguel – Helen engoliu em seco enquanto colocava uma mecha de cabelo atrás da orelha. – Você e o seu sarcasmo irritante. ― Não há sarcasmo, só mudanças que você mesmo começou. ― Eu não mudei com você – sua voz saiu quase como um grito. – O problema é que você me cobra mais do que o meu próprio trabalho. ― O que está querendo dizer? ― Estou querendo dizer… – ela o fitou nervosa e impaciente. – Que não estou disposta a ceder às suas vontades. ― O quê? – ele ergueu as sobrancelhas, nem um pouco satisfeito. – Eu jamais te cobrei algo assim. ― Não é o que parece, porque para mim é o que você está fazendo agora – ela falou friamente, o tratando como costumava tratar os seus empregados, perigosamente arrogante. – Às vezes eu tenho uma leve impressão de que você deseja que eu largue o jornal para me aventurar com você e a sua bandinha mundo afora. Só assim eu daria a atenção que você tanto deseja. ― O seu desinteresse nesse relacionamento já ultrapassou o bom senso. ― Nesse ponto descordo de você, amorzinho – Helen o olhou seriamente. – Somos pessoas com profissões diferentes, as quais cobram muito do nosso tempo. É normal não ficarmos juntos o tempo todo. ― Obrigado por me abrir os olhos em relação a isso, e me fazer perceber que estou perdido. É inútil continuar acreditando que pode ser diferente, ou, pelo menos, voltar a ser o que foi um dia. ― Você está falando sério? - seu estômago revirou. – Eu amo você. ― Não, o que você ama de fato é o seu trabalho – Miguel sentiu-se um idiota por ser tão intolerante e por estar ali, tentando mostrar o que ela já sabia. – É esse mundo de exortação que eu mesmo te enfiei. ― Somos bem parecidos então – ela alterou a voz. – A Nueva Generación também fascina você. Por eles você faria bem mais do que por nós dois. ― Como é? – Miguel riu, esperando que ela lembrasse que foi aquele namoro o motivo da separação com seus pais. Inútil, ela não lembraria. – Eu poderia enumerar as dezenas de coisas idiotas que eu já fiz por você, por essa droga de relacionamento. Coisas que me arrependo só de pensar. ― Por que não tenta então? – fitou-o bem nos olhos, chamando para a briga. Ela estava zangada e os seus olhos fervilhavam de raiva.


― Não vale a pena – Miguel falou seriamente. Durante três anos achou que a conhecia, mas ali naquele momento teve a certeza que ela não era o que ele pensava. – Você sabe que está errada. ― Você trabalha tanto quanto eu. ― Talvez – as palavras saíram como uma ameaça e desapontamento. – Agora eu só preciso aprender a pôr minha carreira acima de quem eu amo, para me igualar a você. Miguel a olhou pela última vez e deu de ombros, cansado das mesmas desculpas que nunca resolviam nada. Dirigiu-se ao pátio de alimentação e pensou nas várias formas de como aquilo poderia terminar pior. Fechou os olhos e tentou afastar as lembranças. Pensou por longos minutos em como poderia resolver aquilo, mas não encontrou nenhuma saída segura. Ele a amara tanto que chegou ao ponto de quase casar com ela duas vezes. ― Desculpa – a voz lhe suou com sinceridade. Miguel abriu os olhos e lá estava Helen fazendo algo raro e incomum. – Esse é o preço que eu pago por namorar o queridinho do México. Miguel arqueou as sobrancelhas em silêncio. Mesmo que ela reconhecesse seus erros continuava a afirmar que a culpa ainda era dos dois. Observava ela e pensava consigo mesmo se Helen estava sendo irracional ou excessivamente idiota. ― Quero sair amanhã à noite. Helen o olhou, esperando que aquilo fosse um acordo de paz. ― Não posso – disse Miguel impassível. – Tenho um compromisso o dia inteiro. ― Não pode ser mais importante do que nós dois. ― Por que não? – Miguel se perguntou como havia se apaixonado por alguém tão cínica. – A partir de hoje vou dar a mesma importância ao meu trabalho, como você dá ao seu. ― Então é assim? ― Sim. Aprenda a lidar com o seu egoísmo – observou sua expressão, na esperança de ver um estremecimento de decepção e arrependimento, mas nada aconteceu. ― Não sou egoísta – Helen o olhou furiosa. – Mas se essa é a questão, vou pôlo em prática. Assunto encerrado. Miguel a observou sair e voltar para a sede do Jornal. Não olhou para trás e nem demonstrou arrepender-se e voltar para pedir desculpas. Sumiu entre o movimento intenso de pessoas. Continuava pensando sobre essas coisas no caminho de volta para casa. Conquistara tantas coisas e deixou muitas outras para trás. Tinha o que muitos sonhavam em ter. Era bonito, rico e famoso, e sabia que pagava um preço por isso, pois sentia que não era completamente feliz. Pensara na longa conversa a qual teve com Helen e na repugnância que sentia todas as vezes que ouvia a sua voz. Viu-se obrigado a tomar uma decisão depois daquela conversa cansativa e irritante. Concluiu em poucos minutos que já não havia motivos óbvios para sustentar a esperança de vê-la mudar em relação a eles dois, aquilo estava acabando com o que restava do seu coração. Porque no final não sobrou mais respeito nem admiração um com o outro. Era impossível continuar.


Chegou ao apartamento já tarde da noite. Estava em total silêncio. Ele foi para o seu quarto e tentou dormir, mas sua mente continuava vagando. Estava perplexo com tanta estupidez. Tentou esquecer se repreendendo pelas bobagens que já fizera. O tempo não poderia voltar mais, mas Miguel poderia fazer tudo diferente dali em diante, começando em nunca mais se apaixonar de novo.


Capítulo três O dia ainda clareava quando Alicia desembarcou na Cidade do México. A beleza do céu – mesmo que ainda muito cedo – propulsionava a impressão de calor, mas a capital do México não estava tão quente como em Brasília. Alicia sentiu-se agradecida por ter alguém esperando-a no saguão do aeroporto, que a direcionou a um carro estacionado em um dos terminais. Por que esse lugar faz tanto frio? Alicia encolheu os braços abraçando a si mesma, enquanto um vento gelado ia de encontro à sua pele. Ninguém a avisou que aquela era uma temporada de frio no México. O termômetro marcava oito graus e ela nunca sentira um inverno tão castigador. O rapaz que a recebeu foi muito caloroso em sua recepção, dando as boasvindas ao México em nome da Sra. Rivera – o nome de uma das donas do jornal que ela trabalharia. — Vai descobrir que a cidade é realmente adorável – comentou. — Espero que sim! – ela falou, enquanto esboçava um sincero sorriso para ele e entrava no carro sob um intenso frio. Lá dentro era mais confortável e quente. O motorista ligou o carro e seguiu, enquanto Alicia vestia o casaco mais quente que tinha. Não ousou abrir a janela do carro, dava para observar tudo dali. A claridade do dia se revelava depressa. Em poucos minutos ela já estava no centro da grande cidade. Alicia admirava os prédios requintados, cheios da cultura maia. Prédios históricos e ricos em detalhes. A cidade do México tinha a terceira maior aglomeração de pessoas no mundo inteiro e era a segunda maior cidade da América. Ela observou com admiração o Palácio nacional que tinha uma arquitetura ostensiva de forma harmoniosa e elegante. Não pretendia perder nenhum detalhe daquela cidade encantadora, mesmo que o carro onde estava passasse rapidamente por cada monumento. Chegaram ao hotel em menos de meia hora e Alicia ainda se encontrava fascinada pelo colorido, exótico e sedutor México. Ela foi levada à recepção do hotel com chão de mármore. Alguém a ajudou com suas bagagens e enquanto se identificava com uma jovem morena, outra mulher informou: — Sua bagagem será levada para o seu quarto no décimo quinto andar. Dentro de uma hora a Sra. Rivera irá recebê-la. Ela concordou com um gesto de cabeça, não querendo gastar muito o seu bom espanhol. Pegou a chave do seu quarto e caminhou lentamente em direção ao elevador. Abriu a sua bolsa e pegou o celular, enquanto apertava o botão e esperava a porta abrir na companhia de três belos rapazes. Havia dez chamadas não atendidas e um turbilhão de mensagens na sua caixa eletrônica. Algumas de sua mãe e o resto de Ahléx. Será que ele não sabia que levava horas para chegar ao México? A porta do elevador se abriu e Alicia entrou junto com os três rapazes desconhecidos. Eles a olhavam de relance sem


disfarçar seu encantamento por ela. Percebendo de imediato, logo se questionou por que tinha que causar esse efeito nas pessoas? Por que tinha que ser tão bela? Seu rosto esquentou rapidamente, quando lançou o olhar para eles. O elevador parou no sétimo andar, a porta se abriu e os rapazes saíram deixando Alicia desnorteada. Agora ela estava sozinha e se viu sorrindo daquela situação. Voltou a atenção para o celular, e enquanto o elevador se movia rapidamente, ela digitou uma pequena mensagem e enviou para mãe. “Já cheguei. Estou bem. Depois eu ligo!” O elevador parou novamente no décimo quinto andar. Caminhou pelo largo corredor e parou em frente à porta do quarto 210. Guardou o celular, abriu a porta e entrou. Ficou embevecida com o conforto e a beleza do cômodo. A cama era duas vezes maior que a sua, e possuía o mais fino lençol cor de vinho. Tinha um sofá de couro marrom e atrás dele uma varanda que dava a vista da melhor parte da cidade. Foi em direção ao banheiro e percebeu que ele parecia maior do que o quarto que ela tinha no Brasil. Com um armário de madeira maciça e a banheira mais linda que já vira. Precisava tomar um banho naquele banheiro. Entrou debaixo do chuveiro e sentiu todo o seu corpo se contorcer de dor e cansaço. Seus olhos ardiam de sono, mas convenceu a si mesma que ela não poderia dormir ainda. Enxugou-se e vestiu um vestido rosa claro de mangas cumpridas. Calçou o mais elegante salto alto que tinha. Penteou os cabelos longos cor de fogo e os deixou soltos. Maquiou-se levemente e esperou ser chamada pela Sra. Rivera. Uma mistura de ansiedade e medo recaiu sobre ela. Ainda sentada no sofá de couro marrom tentou vencer o cansaço. Não estava preparada para uma conversa profissional àquela altura. Se de fato tivesse uma, seria um fracasso total. Seu corpo estava cansado e consequentemente sua mente não respondia. O telefone do quarto tocou. Alicia ouviu uma voz feminina do outro lado avisando que a Sra. Rivera estava à sua espera. Percorreu o mesmo caminho de volta e andou em direção ao enorme saguão do hotel. Havia várias pessoas, cadeiras, mesas. Teve certeza que algo muito importante estava prestes a acontecer ali. — Senhorita Rodriguez? Alicia se virou e deparou com uma mulher alta e elegante. Ela estava vestida de preto, tinha o cabelo loiro muito curto, usava batom vermelho e pequenos brincos de argola. — Sou a Sra. Rivera – estendeu a mão para ela. – Estou feliz em conhecê-la. Controle-se. Ela sorriu, afastando todo o sentimentalismo exacerbado por estar, enfim, ali. — Muito prazer Sra. Rivera. — Me chame de Letícia. Pode ser, Alicia? — Claro – disse, com a voz tensa. — Espero que tenha sido bem tratada por todos. — Sim – ela observava um rapaz que trazia microfones e colocava em um palco já montado no final do enorme saguão. – Quando começo a trabalhar? – Desviou o olhar para o dela novamente.


— Em breve – Letícia segurou em uma de suas mãos e a conduziu para uma pequena sala ao lado da recepção. – Só vim aqui para lhe cumprimentar. Não se preocupe, amanhã conversamos. Alicia sorriu com discrição para não demonstrar a ela o alívio em ouvir aquilo. — Como queira, Letícia. Houve uma pausa longa, entre um suspiro e outro da Sra. Rivera ao analisar as horas no relógio. — Hoje à noite haverá um coquetel aqui – disse com desdém. – Dei ordens para que além desse infortúnio, nada mais atrapalhe o seu descanso. — Ah, claro. Não se preocupe com isso. As duas se analisaram por um momento. — Preciso ir. Sentiu o calor do seu abraço, mas Letícia não sorriu. Se retirou em passos largos para fora do hotel e Alicia apenas a observou pensativa, se questionando se conseguiria dormir pelo resto do dia, antes do coquetel daquela noite. Percebeu que o dia passou rápido lá fora quando despertou do seu sono. Encontrou ao lado da cama um lanche bem brasileiro. Bolo de cenoura com cobertura de chocolate. Sua barriga gemeu ao sentir o cheiro bom do bolo. Sua mente viajou até a mãe. Inevitavelmente já sentia saudades de casa. O sabor tão familiar do bolo a encheu de nostalgia. Era uma questão de tempo até se acostumar com aquele mundo novo e cheio de expectativas que a esperava. Treinaria esse lado emotivo para não fraquejar. Então abriu sua bagagem e tirou de lá o que considerava mais precioso entre seus pertences. A Bíblia Sagrada. Abriu no Salmo 92, versículos 1 e 2. Como é bom render graças ao Senhor e cantar louvores ao teu nome, ó altíssimo, anunciar de manhã o seu amor leal e de noite a tua fidelidade. Essa era a razão de estar ali. Proclamar a Palavra de Deus através do jornalismo sempre fora seu objetivo desde o início. Deus sabia o quanto ela estava feliz por aquilo, o quanto para ela era importante saber que todos aqueles que cruzassem o seu caminho ouviriam, pelo menos uma única vez, o nome de Jesus. Pegou o seu computador e acessou a internet do próprio hotel. Abriu os seus emails e Ahléx já havia deixado centenas de recados para ela. Pensou em todas as conversas iguais àquelas que teriam ao longo da sua jornada ali. Lembrou-se de suas intermináveis preocupações antes da viagem; dos seus conselhos, da falta que ele faria. Ela jamais o acusaria de ser intrometido, por querer saber tudo sobre sua jornada. De qualquer modo ela o deixaria ter acesso a cada passo seu longe de casa. Queria que ele fosse parte da sua vida, muito mais agora que estavam tão distantes. O respondeu com paciência, contando detalhadamente como se encontrava apaixonada por tudo o que via. Não se deu conta o quanto o tempo passou rápido lá fora, e mais uma vez quando percebeu já era noite. Sentiu fome. As orientações dadas a ela era que, assim que desejasse algo, ligasse para a recepção e lhe seria concedido. Ela discou o número e o telefone chamou por várias vezes.


Ninguém atendeu. Ela tentou mais uma vez e esperou, o telefone chamou insistentemente e ninguém atendeu. Questionou-se como seria possível que não houvesse nenhum funcionário disponível naquele hotel tão luxuoso. Afastou as perguntas sem respostas da mente, levantando-se e indo para fora do quarto, disposta a fazer aquele favor a si mesma. Pegou novamente o elevador, lembrando-se do coquetel que teria naquela noite. Talvez estivesse aí o motivo dos telefones não serem atendidos. Todos estavam ocupados demais para atendê-la. Era compreensível, concluiu ela. O elevador se abriu e havia mais pessoas do que ela imaginara. Moças elegantes, vestidas nos mais finos e belos vestidos de gala, rapazes de terno e gravata e garçons que entravam e saíam do enorme saguão com bandejas cheias de comida e champanhe. Alicia se viu olhando para o local lotado de pessoas, que pareciam se divertir entre uma taça de vinho e outra. Observou músicos em cima de um palco, e então se recordou do seu plano e voltou ao seu destino. Ela não tinha a mínima ideia de onde ficava a cozinha do hotel. Viu um rapaz segurando uma bandeja vazia passar por ela e virar um corredor depois da recepção. O seguiu discretamente, mesmo sabendo que o mínimo que deveria fazer era solicitar a ele que sua refeição fosse levada até o seu quarto. Não haveria tempo para aquilo e ela não fazia a mínima questão de exigir isso de qualquer um que fosse. Seguiu por um corredor estreito, enquanto observava o rapaz adentrar o lugar que ela acreditou ser a cozinha. Desviou o olhar por um breve segundo, enquanto se certificava que não havia ninguém atrás dela, e quando se virou, se chocou de frente com alguém que ela não soube identificar. O impacto não foi forte, mas suficiente para fazer Alicia quase perder o equilíbrio e cair. Toda vergonha recaiu sobre ela ao se dar conta do ocorrido. Desastre total! Sua blusa ficou molhada de um líquido de cor escura que cheirava a álcool. Uma raiva de si mesma subiu a mente. Como conseguia ser tão desastrada? Como não percebeu a presença daquela pessoa ali? Levantou instantaneamente o olhar já preparada para se retratar. Acreditou ser um garçom. Ah meu Deus. Não era nenhum garçom ou alguém parecido com um. O seu rosto ferveu quando seus olhos se encontraram com a beleza daquele rapaz. Sua respiração saltou do seu estado normal. Ela podia ouvir o próprio coração pulsar desenfreadamente sob o peito. O observava, notando que estava nervoso e com uma expressão contrariada no rosto. Com sua cabeça baixa, de olhos arregalados observava a blusa também manchada. Ele resmungou alguma coisa baixinho levantando a cabeça rapidamente, a fuzilando com o olhar. Se ele estava bem-vestido, isso ela já havia reparado, mas foi o brilho do seu olhar que a calou, paralisando-a de admiração, de medo ou vergonha. Uma mistura de sentimentos a invadiu. Aqueles olhos verdes fizeram seu corpo inteiro estremecer. Que vergonha. O rapaz de olhos verdes causou uma sensação estranha em Alicia ao encará-la. Uma sensação que ela jamais havia experimentado. A sensação mais gostosa da sua vida. Como ele era lindo.


Profile for Érica Christieh

Um amor para vida toda primeiras impressões  

Alicia é uma jovem cristã que recebe uma proposta para trabalhar em um importante jornal, na Cidade do México. Realizando o sonho de jornali...

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