Issuu on Google+

Cirandeiro Ano II –Edição Temática 01 - 2014

EDUCAÇÃO CONTEXTUALIZADA Jeito de ser e de transformar Entrevista com Paulo Giovani, um dos principais militantes da Educação Contextualizada no sertão cearense. Pg 02

Desde que um homem popularmente conhecido como Dom Fragoso chegou às terras do Sertão dos InhamúnsCrateús, na década de 60 do século passado, as pastorais sociais e a igreja vêm estimulando o estudo da realidade. Militantes depois reforçavam tal visão quando ingressavam nas faculdades de educação, mas a distância entre teoria e prática no modo de ser das escolas só deixou de ser angustiante quando foi feito contato com membros do Instituto Regional da Pequena Agropecuária Aplicada (IRPAA). Então a proposta de uma “Educação Contextualizada para Convivência com o Semiárido” perdeu aquela fragmentação típica de sonhos que se sonha dormindo e passou a ganhar recheio de concretude. A Cáritas Diocesana de Crateús se orgulha de acompanhar tais passos desde o início.

Não apenas educandas/os mas toda comunidade é motivada a conhecer as limitações da própria região onde naturalmente se chove pouco, e a partir de pesquisas e outros frutos da busca por conhecimento propõe-se soluções para a convivência harmônica com o bioma local; aproveitar as potencialidades e valorizar a cultura local. Aí, de um lugar marcado pela falta d’água surgem alternativas de armazenamento e produção agroecológica que são modelo para o Brasil.

Eis que o mundo Passou a ser visto a partir do próprio local. Questionar materiais didáticos que fazem opção por mostrar uva ao invés de siriguela passou a ser práxis comunitária, e não apenas de teóricos na academia. Não apenas conteúdos de livros, mas de CONTEXTUALIZAR DIA-DIA toda informação trazida via-satélite aos lares brasileiros reproduzindo estigmas Desde o começo a proposta não era competir com programas vindos de do sertão passou a ser desconstruída. cima para baixo para aumentar os Mas para além de questionar, a criação recursos da educação básica. No diádo núcleo da Rede de Educação para o logo com secretarias municipais e Semiárido (RESAB) local em 2003 pas- com educadoras/es a proposta foi sou a propor concretamente uma Edu- ganhando vida. Mais importante para cação Contextualizada. a Cáritas Diocesana de Crateús e ao

núcleo local da RESAB não era convencer as secretarias municipais, mas principalmente a própria comunidade. A partir de estudos que levam em consideração as várias dimensões da aprendizagem, comunidade, sindicatos, foram se envolvendo com a proposta de culminância em culminância, ao ponto de, em Tamboril, onde a proposta é aplicada há sete anos ininterruptamente a comunidade exigir a “Educação Contextualizada” para qualquer candidato posteriormente eleito. Para quem é educador ou educadora, ver famílias exigirem qualidade na educação de forma autônoma é um pedacinho do céu. Quase ficção. Educação que transborda os muros das escolas, que reflete raça, etnia, relação de gênero e a própria realidade e agrega todas/os na mesma ciranda é um privilégio para a maioria das pessoas no Brasil. Para os sertanejos dos Inhamúns, cada vez mais é um direito exigido. Sonho deliciosamente real.


PÁGINA 2

Cirandeiro PAULO GIOVANI FALA DA EDUCAÇÃO CONTEXTUALIZADA Um sonho sonhado por ele e por muitas outras pessoas se tornando real dia-dia

Como você conheceu a Educação Con- RESAB a experiência de ser assessor. Dessa maneira atuei textualizada? em Tauá, Ipaporanga e QuiteriPrimeiro contato que tive foi nas pastorais onópolis como formador de sociais, quando estudávamos a realidade educadores. local. Depois na faculdade de pedagogia quando além de Paulo Freire me aprofun- Por que após esse tempo a proposta dei na Crítica Social dos Conteúdos de ainda não é política municipal consoDermeval Saviani. Em termos mais consis- lidada? tentes, porém, quando passei a fazer parte É um desafio muito grande trabalhar a da RESAB, em 2003. proposta porque a gente nunca tem a Como você enquanto educador experi- certeza de que haverá continuidade. Mesmo onde fazemos parceria, ainda enciou a proposta? não é de maneira integral. Nem mesmo Enquanto educador da rede municipal fiz em Tamboril, onde há mais avanço, pois uma experiência muito pessoal, já que ape- lá atingimos 100% da zona rural, mas nas por dois anos algumas escolas de Cra- não atuamos na urbana. Encontramos teús viveram o projeto. É muito difícil, resistência no início também de educamas sempre procurei contextualizar os doras/es. Podemos dizer que proposta conteúdos mesmo com o currículo e o plenamente colocada em prática é na plano político-pedagógico impostos sem Escola Família Agrícola Dom Fragoso, levar em consideração a identidade local. que serve de modelo para toda a região. De maneira mais sistemática vivencio na Quais os frutos e as perspectivas?

É bom ver a comunidade se apaixonando pela proposta, assim como professoras/es. Concretamente as famílias conhecem e têm acesso a zoneamento econômico, preservação ambiental, tecnologias de convivência com o semiárido, isso tudo a partir das escolas enquanto lugar de mudança concreta. Perspectivas temos com o patrocínio da Petrobras, porque quando as secretarias dos cinco municípios beneficiados percebem que podem apoiar a proposta sem gastar praticamente nada temos a chance de encantar mais. Pra isso é fundamental o apoio de pastorais sociais como a CDC, de sindicatos, etc. Entrevista concedida por Paulo Giovani, de 46 anos. Co-fundador da RESAB local e coordenador pedagógico da EMEF Francisca Machado, em Crateús.

LINHA DO TEMPO DA EDUCAÇÃO CONTEXTUALIZADA

EXPEDIENTE O Cirandeiro é uma publicação da Cáritas Diocesana de Crateús. Edição: Eraldo Paulino/ Fotos: Arquivos da CDC/ Info: Ozeni Torres

O Projeto “Educação Contextualizada no Sertão do Ceará é patrocinada por:


Cirandeiro 01/2014 - Edição temática Educação Contextualizada