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“clássica” – estão mais presentes e começam a atuar mais cedo na história de vida de cada um do que nos anos 1960 e 70? A resposta deve ser negativa, na medida em que vivemos em uma época na qual as sociedades humanas, globalmente interconectadas, têm suas atividades vitais – econômicas, científicas, educacionais, militares, lúdicas etc. – visceralmente vinculadas às ITCs, presentes virtualmente em todas as partes, na forma

de

informação,

espetáculo,

publicidade,

jogos,

sistemas

de

armazenamento, busca e transmissão de dados etc. As ITCs atuam inclusive sobre a família e sobre a escola, convertendo-se estas últimas, gradualmente, em elos de transmissão secundários da ação ideológica opressora do capital, primariamente mediada pelas ITCs, cuja razão de fundo é contribuir nos planos ideológico, psíquico (afetivo, emocional) e econômico para a reprodução ampliada do capital, seja diretamente, mediante o estímulo ao consumo em geral, e a venda de bens simbólicos e suportes para o seu consumo, seja indiretamente, enquanto “aparelho ideológico”. Nesse caso, poderíamos traçar um paralelo entre a ação ideológica do capital, mediada pelas ITCs, com a ação pedagógica [AP] “anônima e difusa” responsável pela “formação do habitus cristão na Idade-Média”, conforme sustentam Bourdieu e Passeron. A eficácia desta AP se devia sobretudo ao fato de os sujeitos envolvidos não perceberem o que estava acontecendo, pois o trabalho pedagógico em curso não se mostrava como tal: Um TP [trabalho pedagógico] é tanto mais tradicional quanto ele é (1) menos delimitado como prática específica e autônoma e (2) quanto é exercido por instâncias nas funções mais totais e indiferenciadas, isto é, quando se reduz mais completamente a um processo de familiarização no qual o mestre transmite inconscientemente pela conduta exemplar princípios que ele não domina conscientemente a um receptor que os interioriza inconscientemente. Ao termo, como se vê nas sociedades tradicionais, todo o grupo e todo o meio ambiente como sistema das condições materiais de existência, enquanto são dotados de significação simbólica que lhes confere um poder de imposição, exercem sem agentes especializados nem momentos especificados uma AP [ação pedagógica] anônima e difusa (por exemplo, formação do habitus cristão, na Idade Média, através do calendário das festas como catecismo e a organização do espaço cotidiano ou os objetos simbólicos como o livro de piedade). (BOURDIEU e PASSERON, op.cit., p. 58)6

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