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O que importa reter aqui da posição de Marcuse é o fato de ele, sem reproduzir a caricatura dos que pensam a indústria cultural em termos de “onipotência”, enfatizar e denunciar com veemência a função ideológica da “igualação das distinções de classe” operada pelos “meios de informação”: [...] a diferença decisiva está no aplanamento do contraste (ou conflito) entre as necessidades dadas e as possíveis, entre as satisfeitas e as insatisfeitas. Aí, a chamada igualação das distinções de classe revela sua função ideológica. Se o trabalhador e seu patrão assistem ao mesmo programa de televisão e visitam os mesmos pontos pitorescos, se a datilógrafa se apresenta tão atraentemente pintada quanto a filha do patrão, se o negro possui um Cadillac, se todos lêem o mesmo jornal, essa assimilação não indica o desaparecimento de classes, mas a extensão com que as necessidades e satisfações que servem à preservação do Estabelecimento é compartilhada pela população subjacente. (idem, ibidem)

É oportuno atualizar essa denúncia a um modo insidioso de controle social, que opera sob a aparência da mais ampla liberdade, destacando uma especificidade central da ação ideológica da indústria cultural, no sentido de efetuar no imaginário social um “aplanamento do contraste (ou conflito) entre as necessidades dadas e as possíveis, entre as satisfeitas e as insatisfeitas”, demonstrando que é aí que “a chamada igualação das distinções de classe revela sua função ideológica”, na “extensão com que as necessidades e satisfações que servem à preservação do Estabelecimento é compartilhada pela população subjacente.” Em outros termos, trata-se da captura da subjetividade das classes dominadas pelas classes dominantes. Se as infotelecomunicações (doravante ITCs) atuais, que envolvem e remodelam as indústrias culturais convencionais, aprofundam e intensificam esse processo, anteriormente operado, em escala comparativamente mais modesta, pelas últimas, a pergunta que se poderia fazer hoje à argumentação de Bourdieu e Passeron, na medida em que situam as “comunicações de massa” em uma posição secundária em relação à prioridade, ou antecedência, da família e, em seguida, da escola na formação do habitus, é: o mesmo vale para uma época na qual as ITCs – cujo raio de abrangência é bem superior ao da indústria cultural

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