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circulação e consumo de bens simbólicos, tal qual se dá na realidade, constitui seu objeto, sendo que o momento econômico é o que diz respeito aos meios e o político, aos fins.

UMA PEDAGOGIA DA OPRESSÃO Iremos

agora

investigar

as

sutilezas

da

ação

ideológica

das

infotelecomunicações, com ênfase na indústria cultural, dialogando com um estudo clássico do sistema escolar, desenvolvido por Bourdieu e Passeron. Em “A Reprodução” (1975), esses autores questionam a centralidade da indústria cultural na formação do “habitus”, atribuindo primeiro à família e em seguida à escola uma posição de antecedência determinante naquilo que pouco depois viria a ser chamado de recepção midiática: Constata-se [...] a ingenuidade que há em colocar o problema da eficiência diferencial das diferentes instâncias de violência simbólica (por exemplo, família, escola, meios de comunicação modernos etc.) abstraindo, como os servidores do culto de toda a autoridade da Escola ou os profetas da onipotência das “comunicações de massa”, o fato da irreversibilidade dos processos de aprendizagem, que faz com que o habitus adquirido na família esteja no princípio da recepção e da assimilação da mensagem escolar, e que o hábito adquirido na escola esteja no princípio do nível de recepção e do grau de assimilação das mensagens produzidas e difundidas pela indústria cultural [...]. (BOURDIEU e PASSERON, 1975, p. 54)

Mais ou menos na mesma época, Marcuse – que poderia ter sido um possível alvo do tratamento irônico empregado por Bourdieu e Passeron em relação aos “profetas da onipotência das comunicações de massa”, devido à sua crítica implacável à indústria cultural enquanto fazedora de um “homem unidimensional” – dizia mais ou menos o mesmo que eles sobre a não centralidade da mídia enquanto agente de “controle social”: A nossa insistência na profundidade e eficácia desses controles é passível da objeção de que superestimamos grandemente o poder de doutrinação dos “meios de informação” e de que as pessoas sentiriam e satisfariam por si as necessidades que lhes são agora impostas. A objeção foge ao âmago da questão. O precondicionamento não começa com a produção em massa de rádio e televisão e com a centralização de seu controle. As criaturas entram nessa fase já sendo de há muito receptáculos precondicionados [...] (MARCUSE, 1973, p. 28-9) 5

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