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INTRODUÇÃO

[...] as organizações de mídia projetam-se, a um só tempo, como agentes discursivos, com uma proposta de coesão ideológica em torno da globalização, e como agentes econômicos proeminentes nos mercados mundiais, vendendo os produtos e intensificando a visibilidade de seus anunciantes. Evidenciar esse duplo papel e suas interfaces parece-me fundamental para entendermos a sua forte incidência na atualidade. (MORAES, 2003, p. 191)

O presente artigo propõe uma perspectiva crítica da indústria cultural contemporânea2 articulada em um duplo registro: como porta-voz do capital e instância destacada de seu processo de reprodução ampliada. Em outras palavras, trata-se de cruzar dois níveis de estudo da indústria cultural: 1) o ideológico, isto é, a indústria cultural enquanto instância mediadora socialmente hegemônica de visões de mundo, não só no nível discursivo mas também no sensível, referente às simpatias e aversões; e 2) o econômico, ou a indústria cultural enquanto sistema produtor de mercadorias e de consumidores. Para fundamentar esta perspectiva, partimos do seguinte raciocínio de Marx: A produção [...] produz não só o objeto mas também o modo do consumo, não apenas objetivamente, mas também subjetivamente. Assim a produção cria o consumidor. (3) A produção não somente fornece um material para a necessidade, mas também uma necessidade pelo material. [...] O objeto de arte – como qualquer outro produto – cria um público que é sensível à arte e aprecia a beleza. A produção então não somente cria um objeto para o sujeito, mas também um sujeito para o objeto. Então a produção produz o consumo (1) criando o material para o consumo; (2) determinando os modos de consumo; e (3) criando os produtos, inicialmente apresentados pela produção como objetos, na forma de uma necessidade sentida pelo consumidor. Produz assim o objeto de consumo, o modo de consumo e o motivo do consumo. [...] 3

Trazendo esta reflexão para o campo contemporâneo da comunicação, nos parece útil substituir, ainda que provisoriamente, o conceito “indústria cultural” por um outro, cunhado por Dênis de Moraes: infotelecomunicações. Qual a razão disso? O reconhecimento das profundas alterações registradas no campo da comunicação em decorrência das chamadas convergências tecnológica e

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