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Londres


ÉRICA LOPES

Londres Do amor nascia a incerteza

1º edição SÃO PAULO, 2012


D

uvida da luz dos astros,

De que o sol tenha calor, Duvida atĂŠ da verdade, Mas confia em meu amor. - William Shakespeare (Hamlet - Ato II, Cena II)


PRÓLOGO Eu nunca pensei muito sobre o amor, nem na forma que ele viria até mim. Aquele era apenas mais um dia chuvoso. Tudo parecia tão calmo, mas, ao fitar seus olhos comecei a entender o significado da palavra amor, e tocá-lo foi como sentir um pedaçinho do paraíso. Eu não sabia a grandiosidade de um beijo e muito menos a força que tinha e ao beijá-lo algo me dizia que estava correndo perigo, mas eu queria mais. Um simples beijo pode virar sua vida de cabeça para baixo... Os dias foram passando e juntos construímos o que se chama amor em nenhum momento eu pensei em ser feliz, a felicidade foi consequência. E com ela trouxe algumas imperfeições, tais como: Pressa, medo e indecisão. Tínhamos pressa. Talvez porque já imaginávamos o que estava por vir. E em certos momentos tivemos medo. Medo de perder um ao outro. E esse medo transformou-se em indecisão. Eu tinha duas escolhas: Continuar ao seu lado, mesmo sabendo que haveria dificuldades, ou passar o resto da minha vida condenada pela culpa. Uma escolha errada muda toda a história...


O AMOR é encontrar alguém para compartilhar, dividir e somar, pois o verdadeiro amor nos deixa melhor do que somos. Mas não pense, que tudo são rosas. Lembre-se, a mais bela rosa, têm espinhos. É preciso saber que existem desafios e diversidades. Costumo dizer, que o amor está acima de qualquer entendimento. E é inútil tentar entende-lo, existem sentimentos que não precisa ser compreendidos.

Se quiser saber o que é o amor, Sinta. Só tome cuidado, porque ele é imprevisível, e de uma forma inesperada, eu encontrei o meu.


1. Destino ou coincidência? A vida nos ensinou que o amor não consiste em olhar um para o outro, mas sim olhar juntos para fora na mesma direção. - Antoine Saint- Exupéry

E

u tinha esperança que no final do dia o sol pudesse abraçar um pouco a cidade.

Ainda não me acostumei com clima gelado de Londres, o céu a maior parte do tempo está coberto por nuvens. Eu amava o calor, amava o Brasil, mas aqui seria minha segunda casa, ou melhor, será minha casa durante algum tempo. E terei que me acostumar. O que não é difícil, Londres é uma cidade simplesmente fascinante. Moro com Sofia, no apartamento que era de seu pai. Além de ser minha amiga de infância ela é minha grande companheira e confidente. Ganhamos uma bolsa de estudos para pós-graduação e viemos parar aqui, não pensem que foi fácil chegar onde estamos. Foram anos consecutivos de muito estudo e muito esforço. Mas uma coisa tenho certeza, vir para Londres não foi mera coincidência – foi destino! Era aproximadamente seis da manhã quando o relógio despertou, senti a mão de Sofia me sacudir. —Clara, acorde. É hora de irmos. —Hein? Eu gemi. Que horas são? Perguntei reprimindo um bocejo. —Hora de irmos! —Por favor, Só mais cinco minutos — disse cobrindo minha cabeça com o cobertor. Uma das coisas que eu mais odiava era acordar cedo e, chegar atrasada — dois desejos impossíveis de conciliar. Escutei Sofia bater a porta e então me vesti rapidamente, arrumei minhas coisas, peguei minha pasta de trabalhos e sai apressada. E ainda se não bastasse o atraso, os elevadores aquele dia estavam em manutenção e, eu não tinha me dando conta. —Vamos elevador! Eu exclamava sozinha. —Senhorita Giombelly? Chamou Edward, (mais conhecido como Eddie) o nosso vizinho.


— Sim Eddie? —Os elevadores estão em manutenção, ele disse com um risinho. —Droga! Pensei alto. Sabe aquele dia que tudo parece dar errado? No início eu pensei assim, mas depois meu pensamento foi outro. A verdade era que aqueles cincos minutos mudaram completamente minha vida. O que parecia ser mais um dia rotineiro, tornou-se cheio de surpresas. Desci as escadas com pressa, (como se tivesse outra opção). Ofegante descia degrau por degrau, parei duas ou três para respirar e continuei. O que eu não imaginava que perto dali, alguém tinha voltado para Londres. O que seria isso? Obra do destino ou apenas coincidência? Eu, Clara, tenho uma tese sobre destino e coincidência. Destino é quando alguém especial cruza o nosso caminho, e a partir desse encontro descobrimos o real significado da palavra amor. Coincidência é estar na hora certa e no mesmo lugar que alguém, e a partir daquele momento o destino é que vai dizer se aquela pessoa irá permanecer na sua vida. Se for destino ou coincidência estava prestes a descobrir. Desesperada descia as escadas e naquele exato momento ele acabara de colocar os pés no prédio. Por causa da pressa, acabei pisando em falso no último degrau e por conta disso, acabamos nos esbarrando. Todos os meus papéis voaram pelo ar, abaixamos ao mesmo tempo para apanhá-los e nossos olhares se cruzaram – senti meu corpo estremecer, meu coração palpitava, minha respiração acelerava. Por que estava sentindo aquela sensação de plenitude? Não conseguia pensar em nada, naquele momento só tinha olhos para ele. Ele é incrivelmente lindo para ser verdade, alto, pele branca, olhos e cabelos escuros, lábios graciosamente lindos e um sorriso... Um sorriso que me tirava o chão.

—Você está bem? Perguntou preocupado. —S-sim, gaguejei, me desculpe, por ser tão desastrada, disse sem graça. —Que isso, não foi nada, disse ele dando aquele sorriso que tirava o fôlego. Você está realmente bem? Machucou-se? Perguntou paternalmente. —Estou bem, muito obrigada! Agora preciso ir, disse levantando. —Ei! Acho que isso é seu...

Sai sem olhar para trás, na verdade não era minha vontade — estava mais do que atrasada. Queria continuar ali, perguntar seu nome, seu telefone, ou somente ficar olhando-o sem dizer nada. Como alguém que mal conhecia conseguia tirava minha concentração? Quem era ele? Pensei, Já dentro do metrô e outra realidade me esperava. Cheguei quase no fim da aula de psicologia social, tentei passar despercebida, mas o senhor James fez questão de lembrar que estava atrasada, sorri sem graça e tentei aproveitar alguns segundos que ainda restavam da aula. Porém, era inútil — relutei com todas as minhas forças para prestar atenção, no entanto só conseguia pensar naquele sorriso. Por duas ou três vezes, não lembro muito bem, o senhor James chamou minha atenção. Eu não via á hora de me encontrar com Sofia para dizer como minha manhã tinha sido animada. Finalmente, a aula havia acabado. —Estão dispensados por hoje, por favor, coloquem suas análises em cima de minha mesa. Disse o senhor James. Análise? Onde será que estava a minha? Na tentativa de encontrá-la revirei minha pasta, bolsa, e nada. Sem graça, confessei ao senhor James que havia deixado em casa. Compreensivo, deixo-me em entregar na próxima aula. Além daquele sorriso, algo martelava minha cabeça. Onde teria deixado minha análise? Eu jurava que ela estava na minha pasta. Terei que passar algumas horas na frente do computador analisando a teoria de Ivan Petrovich, mais conhecido como Pavlov. Eu


tentei fazer a experiência que ele fez com seu cachorro, como o meu cachorro Peter, mas, não deu muito certo. Faltou um pouco de paciência da minha parte. Esperei Sofia na cantina da universidade, animada assim que me viu sorriu. —Chegou muito atrasada moçinha? Ela perguntou. —Nem me fala, cheguei quase no final da aula. Na verdade, eu adoraria me atrasar todos os dias... Confessei com sorriso largo no rosto. — O que aconteceu? Ela perguntou curiosa. —Esbarrei literalmente em um cara incrivelmente lindo essa manhã, suspirei. —Que manhã agitada, cuidado para não se apaixonar, avisou. —Sofia, não o conheço, lembrei. —É, isso é verdade. Concordou. Mudando de assunto, hoje à noite vou jantar na casa do meu pai. Vamos? Assim ficamos juntas e eu não tenho que aturar a mulher dele sozinha. Meu pai vai gostar de vê-la, ele te adora. —Não posso, tenho que fazer minha análise, não vai ser tão difícil assim aturá-la! Estimulei. —Por favor? Implorou ela. —Desculpe-me Sofi, mas realmente não vai dar. Entrando em nosso prédio encontramos Eddie e sua esposa Teresa. Eddie é um senhor de cinquenta anos, alto, cabelos grisalhos, pele corada e lindos olhos azuis. Ele e sua esposa são amigos de Otávio, pai de Sofia e Ruth sua madrasta. Quando o pai de Sofia, não estava por perto, ele e Teresa nos ajudavam no que fosse preciso. Moramos no mesmo andar, e isso facilitava as coisas. Sofia percebendo minha empolgação com o cara do sorriso bonito, perguntou a Eddie se tínhamos moradores novos no prédio. E ele confirmou nossas suspeitas, pois nunca vi aquele sorriso passeando pelos corredores. Descobrimos que eles eram nossos vizinhos. Eles. Isso mesmo, no plural. Antes de descer do elevador testei meu hálito, olhei no espelho para me certificar se estava bonita, na esperança de revê-lo, porém, foi inútil. Entrei no nosso apartamento, nem sei se é certo, usar o pronome “nosso”. Afinal, o apartamento era de Sofia. Ela fazia questão de dizer que era nosso. Que seja entrei frustrada, realmente acreditava que poderia vê-lo novamente. Vendo-o, ou não, a vida tinha que continuar. E que tal começar procurando minha análise comportamental? O problema era que tinha revirado o apartamento de cabeça pra baixo e nada, já não sabia o que fazer. Sem animo, sentei-me na frente do computador e comecei a escrever algumas linhas. Sofia prestou sua solidariedade me desejando boa sorte. —Então, como estou? Perguntou antes de sair. —Vai jantar mesmo com seu pai? —Vou por quê? Hesitou ela. —Você está uma gata, observei. —Quem sabe no caminho não encontro meu príncipe encantado? E antes de abrir a porta alfinetou. —Levanta desde sofá e vai tomar um banho você está horrível! —Obrigada! A sinceridade de Sofia é indiscutível. —Beijos... Têm comida na geladeira, tchauzinho! —Boa sorte! Sofia é do tipo perua, claro no bom sentido. Adora vestir-se bem, está sempre ligada na moda e nas “tendências”, palavra que usa muito. Ela não pode ver um sapato alto ou uma bolsa que fica


enlouquecida. Eu faço a linha, básica. Uso pouca maquiagem e não ligo muito para moda, aliás, costumo dizer: faço minha própria moda. Quando preciso, peço algumas dicas. Seguindo seu conselho, resolvi tomar um banho para relaxar. Enchi a banheira com água quente e fiquei deitada no meio da espuma cantarolando uma musiquinha que tinha ouvido um dia desses no rádio, quando finalmente, estava conseguindo relaxar a campainha tocou. Quem poderia estragar meu banho de espuma? Enrolei-me na toalha e fui ver quem era. Eu não tenho costume de olhar no olho mágico antes de abrir a porta. Sofia vive dizendo que qualquer dia desses seremos assaltadas. Abrir a porta foi à melhor coisa que fiz nos últimos tempos, meu coração deu algumas cambalhotas, depois caiu no chão. Ele olhou de baixo para cima, como se estivesse analisando cada parte do meu corpo. Totalmente sem graça, eu disse “Oi” meio sem jeito. Extremamente educado ele desculpou-se envergonhado: — Desculpe-me, eu não sabia... — Eu que lhe devo desculpas - interrompi. Ficamos nos olhando por um tempo, até que ele quebrou o silêncio. —Acho que isso é seu, disse entregando um envelope. —Não acredito! Exclamei colocando minhas mãos sobre meus lábios. Estava procurando isso que nem louca! —Pela manhã você saiu correndo e deixou cair no chão tentei chamá-la... —Me desculpe, eu estava atrasada, confessei. —Tudo bem, tranquilizou-me abrindo novamente aquele sorriso que tirava o fôlego. —Nem sei como agradecer, seu nome é... —Oh claro! Nem me apresentei Adam Phillip, prazer em conhecê-la! Ele estendeu a mão. —Clara Giombelly, prazer em conhecê-lo também, disse apertando sua mão macia. Adam Phillip, nome de príncipe. E tudo que queria era ser a princesa do castelo dele. Ao tocar sua mão, senti um arrepio dos pés a cabeça. Não conseguia descrever exatamente o que estava sentindo, uma mistura de sentimento passava como uma descarga elétrica pelo meu corpo. Por falar em corpo, não ficava bem uma moça conversar com seu vizinho na porta de seu apartamento apenas de toalha, não é mesmo? Se bem, que passaria horas e mais horas, somente olhando para aquele sorriso, sem me preocupar com que os outros iriam falar. Mas o bom senso obrigava-me a se despedir. —Preciso entrar, não é legal ficar conversando com você de toalha, o que nossos vizinhos irão pensar? Disse envergonhada. Adam, muito obrigada mais uma vez, dei um sorriso. —Só obrigado? Brincou. (na verdade, ele merecia um beijo daqueles de cinema, pensei comigo mesma). —Eu salvei sua vida Clara! Brincou novamente. —Realmente tenho que confessar que salvou, admiti com um risinho. —Janta comigo amanhã? Ele pediu. —Amanhã? Perguntei surpresa, queria dizer sim, mas o deixei insistir. —Por favor? Implorou ele. —Está bem, dei um sorriso sem graça. —Passo aqui as oito para pegá-la. Boa noite! E não acorde atrasada! Lembrou, sorrimos simultaneamente. Fechei a porta e pulei no sofá como uma criança de seis anos que acabara de ganhar uma Barbie de presente de Natal. Terminei de tomar meu banho, sentei no sofá para esperar por Sofia.


Porque ele conseguia tirar todo o ar que me rodeava? Há coisas na vida difíceis de explicar, umas delas é o amor. Eu falei amor? Meu Deus! Devo está enlouquecendo. Já passava das dez, esperava por Sofia ansiosamente, da janela vi o carro de seu pai deixá-la na frente do prédio. Esperar o elevador para Sofia nunca foi tão divertido aquele dia. Love is the air... Distraída aguardando o elevador seus olhos fixaram como um zoom os dois pares de olhos azuis que pareciam um oceano profundo, com as mãos no bolso o rapaz aproximou-se: —Boa noite! Ela pensara que anjos só existissem no céu e porque ele estava ali? Às vezes, os anjos fazem uma visitinha na terra... —Boa noite! Ela disse com risinho convidativo. —Você mora aqui? Perguntou o rapaz dentro do elevador. —E-eu? Ela gaguejou. Moro e você? Oh meu Deus! Exclamou ela. — Que pergunta idiota não é? Desculpe-me. Ela achara-se uma perfeita estúpida, por fazer uma pergunta tão óbvia. Ele muito educado respondeu, — Não foi idiota sua pergunta e, se eu tivesse passado aqui para visitar um amigo? Ele sorriu e ela sentiu uma onda de alívio. —Eu já morei aqui com um amigo, ficamos um tempo fora e agora resolvemos voltar. Disse o rapaz. Os dois pares de olhos azuis fitavam com interesse os dois pares de amêndoas. Com um sorriso no rosto, eles entraram nos seus respectivos apartamentos. Destino ou coincidência? Sofia abriu a porta e veio logo perguntando por que ainda estava acordada, extremamente empolgada confessei que precisava contar algo, ela também parecia aventada, foi logo dizendo que acabara de encontrar um príncipe perdido no elevador. —Sofia, escute! Pedi. —O que foi? Ela parou de tagarelar. —Sabe quem esteve aqui? —O cara que te deixou assim? Como cara de boba? Será que estava transparecendo demais minha empolgação? —O nome dele é Adam! Corrigi. —Já falou que quer fazer amor com ele? Zombou ela. —Claro que não, eu não quero, quer dizer... Não sei... Disse confusa. —Amanhã tenho um encontro com ele! Confessei animada. —Que rápida! Brincou novamente, isso é porque não quer, imagina se quisesse... Ela deu um sorriso malicioso. Caímos na risada que nem duas adolescentes que acabavam de ser convidadas para sair com os garotos mais lindos da escola. Eu não sei o que estava acontecendo comigo, no fundo estava gostando. Adam! Esse é seu nome; ele é diferente de tudo que vi até agora. Talvez porque seja único.


“O que nos faz se apaixonar por alguém? Um sorriso, o calor dos beijos... Um abraço apertado, o toque das mãos... A paixão não tem uma forma exata, simplesmente nos apaixonamos. E quando percebemos não temos como escapar. Apaixonar-se é algo fantástico e muitas vezes perigoso.”

Londres - Do amor nascia a incerteza  

Este é apenas um poema de amor... Escrito em um pedaço de papel (...) Durante uma viagem para Londres Clara Giombelly percebe que para sua f...