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associação fóruns do campo lacaniano

Stylus revista de psicanálise

Stylus

Rio de Janeiro

nº18

p.1-192

abril 2009


© 2009, Associação Fóruns do Campo Lacaniano (AFCL/EPFCL-Brasil) Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta revista poderá ser reproduzida ou transmitida, sejam quais forem os meios empregados, sem permissão por escrito.

Stylus Revista de Psicanálise É uma publicação semestral da Associação Fóruns do Campo Lacaniano/Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano – Brasil. Rua Goethe, 66 – 2o andar. Botafogo. Rio de Janeiro, RJ Brasil. CEP 22281-020 - revistastylus@yahoo.com.br

Comissão de Gestão da Afcl/Epfcl- Brasil Diretora: Sonia Alberti Secretária: Georgina Cerquise Tesoureira: Consuelo de Almeida Equipe de Publicação de Stylus Ana Laura Prates Pacheco (coordenadora) Ângela Mucida Conrado Ramos Leandro Santos Maria Helena Martinho Paulo Rona Silvana Pessoa Assessoria de Edição deste Número Dominique Fingermann Indexação Index Psi periódicos (BVS-Psi) www.bvs.psi.org.br Editoração Eletrônica 113dc Design+Comunicação Tiragem 500 exemplares

Conselho Editorial Andréa Fernandes (UFBA/EPFCL-Salvador) Ângela Diniz Costa (EPFCL-BH) Ângela Mucida (Newton Paiva/EPFCL-BH) Angélia Teixeira (UFBA/EPFCL-Salvador) Bernard Nominé (EPFCL-Pau) Clarice Gatto (FIOCRUZ/EPFCL-RJ) Conrado Ramos (PUC-SP/EPFCL-SP) Christian Ingo Lentz Dunker (USP/EPFCL-SP) Daniela Scheinkman-Chatelard (UNB/EPFCL-Brasília) Edson Saggese (IPUB/UFRJ-RJ) Eliane Schermann (EPFCL) Elisabete Thamer (Doutoranda da Sorbonne-Paris) Eugênia Correia Krutzen (Psicanalista-Natal) Gabriel Lombardi (UBA/EPFCL-Buenos Aires) Graça Pamplona (EPFCL-Petrópolis) Helena Bicalho (USP/EPFCL-SP) Henry Krutzen (Psicanalista/Natal) Kátia Botelho (PUC-MG/ EPFCL-BH) Luiz Andrade (UFPB/EPFCL-Paraíba) Marie-Jean Suret (U. Toulouse le Mirail-Toulouse) Nina Araújo Leite (UNICAMP/Escola de Psicanálise de Campinas) Raul Albino Pacheco Filho (PUC-SP/EPFCL-SP) Sonia Alberti (UERJ/EPFCL-RJ) Vera Pollo (PUC-RJ/UVA/EPFCL-RJ)

FICHA CATALOGRÁFICA

STYLUS: revista de psicanálise, n. 18, abril 2009

Rio de Janeiro: Associação Fóruns do Campo Lacaniano Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano – Brasil - 17x24 cm Resumos em português e em inglês em todos os artigos. Periodicidade semestral. ISSN 1676-157X 1. Psicanálise. 2. Psicanalistas – Formação. 3. Psiquiatria social. 4. Psicanálise lacaniana. Psicanálise e arte. Psicanálise e literatura. Psicanálise e política. CDD: 50.195

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sumário 7 editorial: Ana Laura Prates Pacheco

ensaios 13 25 33 41

Gabriel Lombardi: O compromisso e o encontro Antonio Quinet: Tempo de laiusar Dominique Fingermann: O “tempo” de uma análise. Maria Vitoria Bittencourt: O inconsciente: trabalhador ideal

trabalho crítico com os conceitos 51 61 73 89 115

Bernard Nominé: O tempo: um objeto lógico Sonia Alberti: Tempo e entropia Ângela Mucida: Sob a persistência do real: memória e tempo Ronaldo Torres: Lacan e o grupo de Klein: tempos do sujeito na experiência analítica Maurício Castejón Hermann: A banda de moebius e o tempo do sujeito para a construção da fantasia inconsciente

direção do tratamento

135 Susy Roizin: O tempo do sujeito-criança do inconsciente 147 Pablo Peusner: Sobre a antecipação na clínica psicanalítica lacaniana com crianças (Voltar ao futuro)

entrevista

155 Dominique Fingermann: V Encontro Internacional: um movimento de “Fórum” (por Silvana Pessoa e Ana Laura Prates Pacheco)

resenhas

165 Sandra Leticia Berta: Por causa da questão Resenha do livro O sujeito na psicanálise de Freud a Lacan: da questão do sujeito ao sujeito em questão, Antonio Godino Cabas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar ed., 2009. 173 Lou de Resende: (Maria Lúcia de Resende Chaves): Costura de um retrato para o álbum do futuro. Resenha do livro Escrita de uma memória que não se apaga – Envelhecimento e velhice, Ângela Mucida. Belo Horizonte: Autêntica, 2009. 177 Érico Nogueira: Eles só pensam “naquilo”. Resenha do livro Falo no jardim: Priapeia grega, Priapeia latina, João Angelo Oliva Neto. São Paulo: Ateliê Editorial, 2006. Stylus Rio de Janeiro nº 18 p. 1-192 abril 2009

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contents 7 editorial: Ana Laura Prates Pacheco essays

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Gabriel Lombardi: The meeting (appointment) and the encounter Antonio Quinet: Time to dare-laios Dominique Fingermann: Psychonalysis “tempo” Maria Vitoria Bittencourt: The unconscious: ideal worker

critical paper with the concepts

Bernard Nominé: The time: a logical object Sonia Alberti: Time and entropy Ângela Mucida: Under the persistence of the real: memory and time Ronaldo Torres Lacan and the Klein Group: Times of the subject in psychoanalytical experience 115 Maurício Castejón Hermann: The Möbius band and the subject’s time to build the unconscious fantasy

51 61 73 89

the direction of the treatment

135 Susy Roizin: The time of the subject-child of the unconscious 147 Pablo Peusner: About anticipation in lacanian psychoanalytical clinic with children (Back to the future)

interview

155 Dominique Fingermann: V International Meeting: a “Forum” movement (by Silvana Pessoa e Ana Laura Prates Pacheco)

reviews

165 Sandra Leticia Berta: Because of the question Review of the book O sujeito na psicanálise de Freud a Lacan: da questão do sujeito ao sujeito em questão, Antonio Godino Cabas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar ed., 2009. 173 Lou de Resende: (Maria Lúcia de Resende Chaves): Sewing a picture for a future photo álbum Review of the book Escrita de uma memória que não se apaga – Envelhecimento e velhice, Ângela Mucida. Belo Horizonte: Autêntica, 2009. 177 Érico Nogueira: Eles só pensam “naquilo”. Review of the book Falo no jardim: Priapeia grega, Priapeia latina, João Angelo Oliva Neto. São Paulo: Ateliê Editorial, 2006. Stylus Rio de Janeiro nº 18 p. 1-192 abril 2009

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Editorial Em julho de 2008, a comunidade psicanalítica da Internacional dos Fóruns do Campo Lacaniano e de sua Escola – a EPFCL – reuniu-se na cidade de São Paulo para o V Encontro Internacional do Campo Lacaniano. Foram apresentados, nesse Encontro, 80 trabalhos de diversos países, apresentados em plenárias ou mesas simultâneas, em torno do tema: “Os tempos do sujeito do inconsciente: a psicanálise no seu tempo e o tempo da psicanálise”. A Revista Stylus 17 (novembro de 2008) – cujo tema foi O tempo na psicanálise – publicou vários textos apresentados no V Encontro. Neste Stylus 18, damos continuidade a esse trabalho, reunindo outros tantos textos de colegas de vários países e estados do Brasil, que ofereceram sua contribuição teórica e clínica sobre a questão do tempo. No texto de apresentação do V Encontro, chamado “Atualidade”, Colette Soler afirmava: “A questão aberta por esse tema não é simplesmente clínica. Uma clínica do tempo é possível, sem dúvida, mas para dizer a verdade, ela não está mais por ser feita, pois já se encontra bem balizada pelo ensino de Lacan. Tempo do sujeito que se ‘hystoriza’ puxado entre antecipação e retroação: tempo próprio de cada estrutura clínica, que marca com seu selo a temporalidade universal do sujeito e cuja tipicidade já é o índice de um real, conforme elas se ‘hystorizam’ ou não: ‘tempo lógico’ de produção de uma conclusão a partir do ‘não sabido’, produção cuja duração, incalculável, é própria de cada analisante, o que leva a pensar que, por mais lógico que seja esse tempo, ele é algo não só lógico, participando antes de um real que se manifesta na ‘textura’ do tempo. O ponto crucial de nosso tempo hoje está, porém, noutro lugar, mais ético que clínico: o que uma análise sempre longa pode prometer ao homem apressado pela civilização? Efeitos terapêuticos às vezes e mesmo frequentemente rápidos, sem dúvida alguma, contrariamente ao que se crê. Mas, além disso, ‘o tempo necessário’, conforme a expressão de Lacan, permitiria produzir um novo sujeito?” Trata-se de uma questão da mais alta relevância, e que nos convoca a pensar sobre a atualidade da psicanálise em nosso mundo

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contemporâneo. Nessa mesma direção, Dominique Fingermann – que foi Presidente do V Encontro e é colaboradora de Stylus 18 – reafirma a importância desse tema no editorial da revista eletrônica Heteridade 7. “Quando, no mundo globalizado, o tempo transformou-se em mercadoria – ‘Time is Money’ -, quando a ciência, a tecnologia e o mercado juntam-se para nos fazer ganhar tempo a qualquer preço, a psicanálise persiste e insiste na manutenção de sua via. Suas vias e desvios proporcionam uma experiência do tempo na contramão da experiência subjetiva do “tempo que passa”, inflacionada pelos tempos que correm. Entre o ‘Já foi!’ e o ‘Pode ser?’, o tempo que a consciência apreende é a sucessão irreversível do passado ao futuro, passando pelo instante presente, sempre fugidio e inapreensível. As modalidades subjetivas desse a priori temporal de toda experiência declinam a vivência do tempo com matizes que vão da nostalgia até a esperança, com versões “patológicas” conhecidas como angústia, mania, melancolia, tédio que testemunham uma maneira outra de vivenciar o tempo.Os ‘tempos que correm’ e sua ciência implacável, pretendem remediar essas modalidades existenciais e os afetos consequentes. A psicanálise preconiza outro tratamento: dar-se um tempo.” A entrevistada de Stylus 18 é justamente Dominique Fingermann, que testemunha sobre a importância da diversidade dos trabalhos apresentados, “pois isso indica que nós conseguimos produzir um autêntico campo epistêmico a partir das elaborações dos psicanalistas (“práxis da teoria”). No entanto, se essa diversidade é necessária, ela não é suficiente. Precisamos ter prova de uma orientação comum: a orientação pela ética da psicanálise regulada a partir do encontro com o real.” A Stylus 18 pretende, através dos textos aqui publicados, contribuir para a continuidade dessa diversidade e qualidade desse debate. Na seção “Ensaios”, temos quatro textos extremamente originais sobre nosso tema: Gabriel Lombardi o trabalha pela via da distinção entre cita e encuentro que deu muito o que pensar a nosso tradutor. Antonio Quinet propõe uma leitura original do Édipo,

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Dominique Fingermann relaciona o movimento da análise com o tempo na música e Maria Vitoria Bittencourt recupera o sonho como a via régia do inconsciente. Na seção “Trabalho crítico com os conceitos”, contamos com a excelência do trabalho de Bernard Nominé que trata o tempo como um objeto lógico. Sonia Alberti produz um minucioso estudo sobre a aproximação entre o conceito de entropia na física e na psicanálise. Angela Mucida avança em sua pesquisa sobre a memória e o tempo, Maurício Hermann trabalha a relação entre a banda de Moebius e a fantasia inconsciente e Ronaldo Torres propõe uma rigorosa articulação entra o ‘grupo de Klein’ revisitado por Lacan e os tempos do sujeito na experiência psicanalítica. Na seção “Direção do tratamento”, Susy Roizin apresenta um caso clínico para tratar do tempo do sujeito do inconsciente. E Pablo Peusner propõe um instigante debate a respeito da ‘antecipação’ na clínica psicanalítica lacaniana com crianças. Na seção “Resenhas”, Sandra Berta nos apresenta o importantíssimo livro de Antonio Godino Cabas – O sujeito na psicanálise de Freud a Lacan: da questão do sujeito ao sujeito em questão – que recupera com um incrível senso de oportunidade, o conceito de sujeito para a psicanálise. Lou de Resende resenha o livro de nossa colega Angela Mucida – Escrita de uma memória que não se apaga – Envelhecimento e velhice – que prossegue trabalhando com esse tema fundamental, a partir da psicanálise. E Érico Nogueira escreve sobre o livro Falo no Jardim: Priapeia Grega, Priapeia Latina, do latinista João Angelo Oliva Neto que nos ajuda a compreender as inspirações freudianas para o conceito de falo. Em nome da Equipe Editorial de Stylus, desejo a todos uma ótima leitura, com o tempo necessário para fazer traço e laço. Ana Laura Prates Pacheco

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ensaios

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O compromisso e o encontro Gabriel Lombardi Existe, para nós, aquilo que não se escolhe: muitas vezes sentimos, e com razão, que é muito pouco o que depende de nós mesmos, de nossa vontade consciente ou inconsciente; Colette Soler falou disso há alguns anos no Rio de Janeiro. Pois bem, sem dúvida é nessa estreita margem de liberdade que nos resta o local onde reside o que para cada um de nós é decisivo, o núcleo ético de nosso ser, ali onde o pulsional pode conjugar-se, ou não, com o desejo que vem do Outro. Por isso em nossa vocação, no amor, em nossa condição de seres livres, um pouco livres, não escolhemos o que ocorre na modalidade do necessário. Enquanto psicanalistas, tampouco buscamos aí a etiologia dos sintomas. A história e a clínica da psicanálise sugerem fortemente que o que chamamos de causa, causa do sintoma, causa subjetiva, não responde ao regime do necessário, senão a outras coordenadas lógico-temporais. A causalidade que nos interessa, e que nos interessa no gozo como ponto de enlace do desejo do Outro, é a que ocorre “por acidente”, como dizemos em termos aproximados, e talvez seja melhor dizer “por trauma”, por descontinuidade, por ruptura temporal que marca um antes e um depois. Ocorre como por acaso, de um modo não programado. Para considerar as causas acidentais, Lacan1 se inspirou no segundo livro da Física no qual Aristóteles explica que a causalidade por acidente se ordena em dois registros diferentes do ser: o evento que ocorre em um ser incapaz de escolha é denominado autómaton, o evento que ocorre em um ser que seja capaz de escolher é denominado túkhe; termo que usualmente se traduz para o espanhol como “fortuna”, mas que Lacan, sob a influência de Freud, prefere traduzir como rencontre, encontro ou reencontro. O exemplo de túkhe que propõe Aristóteles é o seguinte: um homem teria podido, se o soubesse, dirigir-se a determinado lugar para recuperar uma soma em dinheiro, justo quando seu devedor recebe uma soma considerável. Chega ao local exatamente no momento oportuno, mas não com essa finalidade, senão por acaso. Por acidente lhe ocorre que tendo chegado aí, chega também para reunir-se com o devedor e encontrar o dinheiro que lhe era devido. E não porque venha a esse lugar frequentemente ou necessariamente,

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1 Lacan, O Seminário, livro

11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964/1990).

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ocorre por acaso algo que ele desejava, e se ativa assim uma escolha em um momento inesperado, por um efeito de fortuna, um efeito de encontro acidental de algo desejado. O verbo tukhêin significa então estar presente no lugar e no momento oportuno para encontrar alguém ou algo que talvez não se esperasse conscientemente, mas se desejava encontrar. Antecipa a dimensão do inconsciente. Qual é, para nós, a importância do que ocorre por acidente, por trauma? O que extrai do necessário, dando lugar à escolha, que é o ato essencial do ser falante?

O compromisso e o encontro O exemplo de Aristóteles tem a virtude de descrever um encontro sem compromisso prévio, sem rendez-vous agendado. A clínica da neurose nos acostumou, por outro lado, aos exemplos de compromissos sem encontro: o compromisso foi marcado, mas o encontro não se produz, falha, é postergado, deixa-se passar a ocasião. A tensão essencial que faz da neurose uma patologia do tempo, uma defasagem entre o desejo e o ato, se expressa cotidianamente na brecha lógico-temporal entre compromisso e encontro. Um esclarecimento para este Rendez-vous multilíngue: os termos “compromisso” e “encontro” se recobrem parcialmente, mas podem ser diferenciados em algumas línguas: espanhol, francês, inglês e também se pode contrapor o termo latino cito ao grego tukhêin.

2 Um exemplo de Tucídides

em suas Crônicas da Guerra do Peloponeso: Tés hekástou bouléseos te kaì dóxen tukhêin (responder ao desejo e à expectativa de cada um).

3 Lacan, O Seminário: Problemas cruciais da psicanálise (1964-65/inédito). 16

Compromisso

Encontro

Cita

Encuentro

Rendez-vous

Rencontre

Appointement

Meeting/ Encounter

Citote (imperativo: rendez-vous!)

Tunkhano (encontrar por acaso)

Cito: chamar, fazer vir

Tukhêin: responder ao desejo e à expectativa.2

Em seu seminário Problemas Cruciais para a Psicanálise Lacan3 dá um exemplo de compromisso tomado da teoria do signo de Piero tempo na psicanálise II


ce: “cinco vasos na janela com a cortina puxada para a esquerda”, cujo significado, segundo o linguista, seria: estarei sozinha às cinco. Lacan observa, no entanto, que não se trata de um signo que constitua uma mensagem unívoca. O que quer dizer “sozinha às cinco”? Remetamo-nos à aula de 5 de maio de 1965 para a preciosa análise que ali se realiza: sozinha, seule, significa também única, somente para ele, o único que recebe a mensagem diante dos olhares cegos da vizinhança. Retenhamos somente este comentário nosográfico de Lacan: quem receber este signo responderá de um modo diferente de acordo com seu tipo clínico; no caso do psicótico a atenção recai sobre a mensagem e seu lekton, o perverso se interessa pelo desejo em jogo e o segredo possuído, o neurótico põe a ênfase no encontrar, ou melhor dizendo, reencontrar o objeto. O neurótico enfatiza o que os estoicos chamavam tunkhánon, mas com a seguinte particularidade no que se refere ao encontro: para frustrá-lo. De fato, as diferentes neuroses podem ser entendidas como formas diversas de evitar o encontro, de faltar ao compromisso com o desejo. O hiato acentuado por elas entre compromisso e encontro as distingue de outros tipos clínicos, destacando a defasagem temporal que separa o sujeito de seu ato, revelando essa ordem causal descrita por Freud e antes vislumbrada por Aristóteles, na qual o perdido e o desejado foram esquecidos e só se reencontram acidentalmente. Quando, ainda assim, alguma vez o encontro ocorre é, de maneira geral, completamente ignorado pelo sujeito, ou então é considerado como um mau encontro, um acontecimento a destempo; muito cedo para o histérico, muito tarde para o melancólico, o obsessivo, por sua vez, emprega uma estratégia temporal mista para faltar ao encontro: antecipa tarde. Em qualquer caso trata-se de um acontecimento a destempo que de todo modo leva a marca do desconhecimento. Os sonhos de desencontro são típicos da neurose, e é fácil encontrar neles exemplos que ilustram bastante bem essa evitação que é essencial nesse tipo clínico. Uma paciente solteira, atraente ainda que não tão jovem, procura a análise justamente por não conseguir encontrar um homem que ao mesmo tempo seja interessante e que ainda não esteja casado. Relata dois sonhos frequentes em sua vida

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antes de começar sua análise. No primeiro sonho está em sua casa, entrincheirada, rodeada de índios. “Que susto!” - diz em tom infantilizado. No segundo sonho sai de sua casa, mas como um espírito, sem que os outros possam vê-la, um espírito sem corpo. “Fico encantada!”, comenta, divertida. As estratégias de desencontro são diversas na neurose. É típico da histeria ceder a corporeidade a Outra mulher, assim como faz parte das estratégias do obsessivo realizar o desejo sem que se note, de contrabando. Mas se prestamos atenção, podemos perceber que as técnicas de desencontro nas neuroses situam-se eminentemente sobre o eixo do tempo. A espera, a programação, o aborrecimento, a antecipação fora de tempo, o demasiado tarde, o demasiado cedo, a falta ao compromisso sem dar-se conta e pelos mais diversos motivos e inclusive a urgência subjetiva desorientada são algumas das modalidades de encobrimento do tempo nas neuroses. A intervenção analítica tratará de reintroduzir o tempo como coordenada ética, como chamado à finitude, feito a partir do único ponto de transcendência que resta ao ser falante: o desejo do Outro, desejo que cabe ao analista encarnar.

O ato do analista Esta tensão essencial que faz da neurose uma patologia do tempo, esta brecha temporal entre compromisso e encontro, se apresenta também na cura psicanalítica, pondo à prova a eficácia do tratamento. Por causa dela a psicanálise não se reduz à aplicação de um método que se atenha a encontros rotineiros. A psicanálise tem um método, aquele que prescreve a regra fundamental freudiana, mas o cumprimento desse método depende da autorização que confere ao analisante, a cada vez, o ato do psicanalista, ato que há de responder à lógica do encontro, com o que ela implica de oxímoro. Lacan o disse magistralmente em seu seminário O desejo e sua interpretação: 4 Lacan, O Seminário: O

desejo e sua interpretação (1958-59/inédito, aula de 1o de julho de 1959).

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A análise não é uma simples reconstituição do passado, não é tampouco uma redução a normas preestabelecidas, não é um epos, não é um ethos; eu a compararia com um relato tal, que o relato mesmo seja o lugar do encontro daquilo que se trata no relato4.

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Evocarei aqui o exemplo de outra paciente que relata sua interpretação de um sintoma duradouro, mas já desaparecido, a bulimia, como um sintoma da falta de intervenção de seu pai, 60 anos mais velho do que ela, em algumas situações precisas de sua infância e adolescência, situações dominadas pelos caprichos da mãe. Curiosamente, o diz em tom de censura, como se essa censura se dirigisse atualmente ao analista, pelo que eu me autorizo a dizer-lhe, sem ocultar certo incômodo: - “Você esperaria que eu interviesse no passado antes que esta análise comece?” - “Não, não! Eu não diria ‘esperaria’, eu esperava uma intervenção, mas ela não chegou, e por certo, agora é tarde, tive que cortar eu mesma essas situações com meu sintoma, e depois tive que terminar eu sozinha com meu sintoma quando me encontrei diante do limite do sangue no vômito. Bem, sua intervenção chega tarde!” Acrescenta com raiva. “Que quer que eu faça?” Mais adiante consegue matizar: “Está tudo mal, mas de todas as formas creio que aqui poderei elaborar e talvez já esteja elaborando de outra maneira isso que me ocorreu, essa falta de intervenção que me forçou a ter que ajeitar eu mesma as coisas.” Esta vinheta ilustra para mim um encontro analítico, neste caso pela reedição que o analisante teve que realizar diante da falta de intervenção do Outro, com a diferença, nesta reedição, que o analista encarna agora uma causa mais desejável do que aquela que animou a instalação ou o desaparecimento do sintoma-acting bulímico. As tesouras da interpretação analítica melhoram, sem dúvida, o instrumental precário que o sujeito encontrou anos antes para cortar: os limites impostos ao sujeito pelo corpo, a angústia diante do sangue. Agora o analista chega demasiado tarde à sua vida, é verdade, mas ao acolher seu pedido anacrônico traz alívio ao sofrimento e dialetiza as posições libidinais da analisante. Os pedidos do neurótico são sempre anacrônicos, o que há de particular neste caso é que esse traço temporal nesta oportunidade não foi camuflado. Para sua concepção do ato psicanalítico, Lacan se inspirou em On Transference5, um texto em que Winnicott sustenta que em determinados momentos do tratamento analítico o analista deve: “... permitir que o passado do paciente seja presente”, para reviver esse

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5 Winnicott, D. On

Transference. Este precioso texto é citado por Lacan no Discurso na Escola Freudiana de Paris (1967), in: Outros Escritos (2003, p. 280).

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momento em que a criança, no momento do corte disruptivo em que deveria ter experimentado fúria, não encontrou o Outro diante do qual fazê-lo. O relato atual ao analista não poderia realizar-se verdadeiramente sem que esta fúria se manifestasse. Somente se esta vez ela não só se revela mas também se realiza, o analisante pode encontrar o Outro de uma maneira diferente do que através da assunção de um falso self - máscara que repete e assinala aquele desencontro primeiro.

A clínica freudiana do encontro A Psicologia da Vida Cotidiana de Freud oferece ao psicanalista a possibilidade de sensibilizar-se em relação à clínica do encontro. Trata-se de um texto maravilhosamente enredado nos golpes da fortuna, naquilo que ocorre como por acaso, nos pequenos atos que se afirmam tanto mais fortemente como atos na medida em que representam falhas no fazer. A divergência entre o compromisso e o encontro foi particularmente ali objeto de observações e comentários. Tomemos o exemplo de um encontro milagroso com uma pessoa em quem justamente estávamos pensando, um exemplo “simples e de fácil interpretação”, segundo o próprio autor: Alguns dias depois de me outorgarem o título de professor, que confere considerável autoridade nos Estados de organização monarquista, ia eu passeando pelo centro da cidade quando, de repente, meus pensamentos se voltaram para uma fantasia infantil de vingança dirigida contra determinado casal. Meses antes, eles me haviam chamado para ver sua filhinha, em quem surgira um interessante sintoma obsessivo logo depois de um sonho. Interessei-me muito pelo caso, cuja gênese eu acreditava discernir; entretanto, minha oferta de tratamento foi recusada pelos pais, e eles me deram a entender que estavam pensando em consultar uma autoridade estrangeira que realizava curas pelo hipnotismo. Eu fantasiava que, após o fracasso total dessa tentativa, os pais me rogavam que instituísse meu tratamento, dizendo que agora tinham plena confiança em mim, etc. Eu, no entanto, respondia: “Ah, sim, agora vocês têm confiança em mim, agora que também me tornei professor. O título nada fez por alterar minhas

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aptidões; se vocês não puderam usar meus serviços enquanto eu era docente, também podem prescindir como professor.” — Nesse ponto, minha fantasia foi interrompida por um sonoro “Bom dia, senhor professor!” e quando ergui os olhos, vi que passava por mim exatamente o mesmo casal de quem eu acabara de me vingar mediante a recusa de sua proposta. Uma reflexão imediata destruiu a impressão de algo milagroso. Eu estivera andando em direção ao casal por uma rua larga, reta e quase deserta; a cerca de vinte passos deles, erguera o olhar por um momento, vislumbrara de relance suas figuras imponentes e os reconhecera, mas afastara essa percepção — seguindo o modelo de uma alucinação negativa — pelas razões emocionais que então se efetivaram na fantasia surgida de modo aparentemente espontâneo6.

Não se trata, neste exemplo, de um encontro com alguém em quem Freud estava pensando conscientemente; os pensamentos aí se produzem mais como consequência de uma percepção prévia. Este exemplo nos mostra outro traço que caracteriza os fatos fundamentais da psicanálise: as coordenadas do encontro e do desencontro não necessariamente são percebidas pela consciência, e como em outras manifestações do inconsciente, frequentemente podem ser situadas entre a percepção e a consciência, depois da percepção, mas precedendo a consciência. A alteração anti-intuitiva da ordem causal é típica destes “fatos” que na verdade são atos, como também ocorre nas premonições oníricas que “se cumprem”; se cumprem, explica Freud, apenas pela inversão da sequência temporal dos fatos. Um encontro sem compromisso prévio responde às coordenadas de uma escolha inconsciente, na qual o ser falante se expressa fora do domínio egoico. O voluntário no ser falante não se reduz à vontade consciente.

6 Freud, Sobre a psicopatologia da vida cotidiana (1901/1996, pp. 258-9).

Nossa política de Escola A distinção entre compromisso e encontro pode ser relevante não só na clínica da psicanálise, mas também em sua política. Como designação de uma reunião internacional, o termo rendez-vous (cita, compromisso agendado) é mais prudente que renStylus Rio de Janeiro nº 18 p. 1-192 abril 2009

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contre (encuentro, encontro) porque nada garante efetivamente que em um compromisso haja encontro e, menos ainda, que o que se encontra seja o esperado. Em todo caso, o desejo que pode animar alguns não poderia cumprir-se no registro do necessário, sem dar lugar ao que do desejo, em um ser capaz de escolha, se realiza no modo da túkhe. O “Encontro” de 1998, por exemplo, assim foi chamado, mas não houve propriamente um encontro, ou pelo menos, não houve um bom encontro. Isso ilustra este traço estrutural do encontro, que responde a uma temporalidade que não obece ao programa, o tempo da escolha.

7 Lacan, O Seminário, livro

3: as psicoses (1955-56/1985, aula de 13 de junho de 1956).

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O compromisso (cita) que nos convoca em modo imperativo (citote/rendez-vous!) é uma convocatória que pode facilitar ou não o encontro. Comentando a distinção entre tu és o que me seguirás −Tu es celui que me suivra(s)− com ou sem “s”, Lacan mostrou que há diferentes maneiras de citar ao Outro, de chamá-lo, é diferente convidá-lo a partir do desejo do que dar-lhe instruções como a um autômato7. O compromisso opera na modalidade do necessário, mas o encontro só se produz em seres capazes de escolha e na modalidade da contingência. A ética da psicanálise incita a perceber o que se encontra de real, e o que se encontra de real não necessariamente é um bom encontro, às vezes se apresenta sob a forma do que decepciona, do fracasso e, inclusive, da crise. Haverá nestes primeiros dias de julho de 2008, em São Paulo, um encontro? Isto não está garantido de antemão. Coincidiremos na história que aqui se elabora, a história que, segundo dizia Heine, é a profecia do passado? Que fizemos nestes dez anos? Que esperamos para os próximos? Os que comparecemos a esse compromisso (cita, rendez-vous) enfrentamos, por exemplo, a pergunta: qual é a regulamentação que necessitamos? Aproveito para deixar aqui minha opinião, que acredito ser coerente com o que acabei de expor. A regulamentação que necessitamos é a mínima necessária para assegurar o ato analítico em suas diferentes incidências: em intensão, facilitando o o tempo na psicanálise II


funcionamento dos dispositivos específicos da Escola que dão lugar a opções reais desde a perspectiva da psicanálise; em extensão, facilitando o acesso do psicanalista a outros contextos nos quais ele tenha a chance de fazer de seus compromissos profissionais, ocasiões de encontro psicanalítico.

Tradução: Luis Guilherme Coelho Mola Revisão: Conrado Ramos

Referências bibliográficas FREUD, S. (1901). Sobre a psicopatologia da vida cotidiana. Trad. sob a direção de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1996. (Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, vol. VI). LACAN, J. O Seminário, livro 3: as psicoses (1955-56). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985. LACAN, J. O Seminário: O desejo e sua interpretação (1958-59). Inédito. LACAN, J. O Seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1990. LACAN, J. O Seminário: Problemas cruciais da psicanálise (196465). Inédito. LACAN, J. (1967). Discurso na Escola Freudiana de Paris. In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003.

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Resumo A tensão essencial que faz da neurose uma patologia do tempo, uma defasagem entre o desejo e o ato, expressa-se cotidianamente na brecha lógico-temporal entre compromisso e encontro. O compromisso foi pactado pelo neurótico, mas o encontro não se produz, falha, se posterga ou se deixa passar a ocasião. Essa brecha lógicotemporal entre compromisso e encontro se apresenta também na cura psicanalítica, pondo à prova a eficácia do tratamento. Por causa dela a psicanálise não se reduz à aplicação de um método que se atenha a um compromisso rotineiro, nem a um final programável. Para fazer lugar para o desejo em um ser capaz de escolha, a psicanálise tem que realizar-se no modo do encontro (túkhe) e não do compromisso, do ato e não da tarefa programada. A distinção entre compromisso e encontro pode ser relevante não apenas na clínica da psicanálise, mas também na sua política. Como designação de uma reunião internacional, o termo “compromisso”, “rendez-vous”, é mais prudente que “encontro” ou “rencontré”, porque ninguém garante que efetivamente em um compromisso haja encontro, e menos ainda que o que se encontra seja o esperado.

Palavras-Chave Compromisso, encontro, túkhe, desejo, ato, tempo.

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Abstract The essential tension which makes neurosis a time pathology, a mismatch between the desire and the act is expressed in everyday life in the logical time gap between appointment and encounter. The meeting, the appointment has been agreed by the neurotic, but the encounter does not occur, fails, is postponed or the opportunity is missed. This logical time gap between appointment and encounter is also present in the psychoanalytical cure, putting the effectiveness of the treatment to the test. For this reason psychoanalysis is not simply the application of a method which sticks to a routine appointment, nor to a programmed conclusion. To be receptive to desire in a being capable of choice, psychoanalysis must take place in the encounter mode and not in that of the appointment, or in other words, the act not the planned task. The distinction between appointment and encounter may be relevant not only in clinical psychoanalysis but also in the politics of psychoanalysis. It is wiser to call an international conference a “meeting”, “rendezvous”, rather than an “encounter” or “rencontre”, as there is no guarantee that in a meeting there is an encounter and much less that one encounters there what one expects.

Keywords Appointment, encounter, túkhe, desire, act, time.

Recebido 23/04/2009

Aprovado 30/06/2009

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Tempo de Laiusar Antonio Quinet Estamos em tempos de Pai real. A figura representativa do Pai simbólico, aquele que une o desejo com a lei, que barra o gozo devastador da Mãe, o pai normativizador que protege e apazigua, esse pai está desaparecendo na aletosfera espessa produzida pela fumaça do desmatamento da subjetividade no mundo contemporâneo. De nada adianta lamentar o declínio da autoridade paterna, acusar o pai de humilhado, impotente e desdentado e receber o que todos já sabem que quem é o escravo da família é o papai. A figura paterna que tem emergido de seu obscuro anonimato é o Pai real, “o grande fodedor”1, como diz Lacan, o pai sacana fora da lei, gozador, que trata os filhos como objeto. Temos como exemplos recentes o austríaco Joseph Fritzl, mantendo em carceragem sua filha por 18 anos, nela engendrando seus próprios filhos; e o pai violento, possuído por uma ignorância feroz, como o pai de Izabela, que auxiliado pela madrasta num ato insano a atirou pela janela abaixo. Nossa sociedade contemporânea parece viver o mito de Totem e Tabu às avessas: o desmoronamento da Lei simbólica deixa aberto o caminho para o retorno do cadáver vivificado do pai morto, o Urvater, figuração do Pai real, como pai gozador da horda primitiva, tirânico abusador e assassino. O assassinato do pai e sua substituição simbólica por um totem fizeram Freud dizer que no início era o ato – no início da civilização era o ato. Nesses tempos de barbárie contemporânea o que faz aparição não é o ato dos filhos impondo a Lei e sim os atos desmedidos do Pai real que faz a sua lei – lei do gozo – fora de qualquer Lei do campo do Outro. Retomemos o mito de Édipo à luz do pai real e de Totem e Tabu. Quem é o pai de Édipo? Na verdade, ele teve dois pais: o pai biológico Laio, rei de Tebas, que ele não conheceu e sem saber o matou; e Pólibo, que o criou em Corinto. Mas é Laio, que aparece como Pai real cuja desmedida constitui a Até, a desgraça, a maldição dos Labdácidos e que será transmitida e paga por três gerações: o próprio Laio, Édipo e seus filhos Etéocles, Polinice, Antígona e Ismênia. Laio é filho de Lábdaco, rei de Tebas e quando este é assassinado, ele é levado aos 2 anos de idade para a Frígia sendo recebido pelo rei Pélops que o adota. Laio tem também dois pais. Pélops tem um filho, Crísipo, o qual, ao chegar na adolescência, é entregue a

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Lacan. O Seminário, livro 7 (1959-60/1991, p. 368).

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2 Lacan. O Seminário: RSI (1974-1975, lição de 17 de dezembro de 1974).

3Ibid

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Laio para educá-lo. Este se apaixona pelo menino e o rapta e Pélops lança, então, a maldição: “se tiveres um filho ele te matará e toda tua descendência desgraçada será”. Daí vem a maldição e toda a história cujo desdobramento está na peça de Sófocles. A desmedida de Laio não foi ter tido relações com Crísipo, pois a relação pedagógica erastes-erômenos era aceita como uma relação pedófila normal de amante-amado, professor-aluno na qual o saber não é transmitido sem Eros. A hybris de Laio foi tê-lo sequestrado e com isso ter rompido as leis da hospitalidade e traído aquele que o acolhera. A maldição de Pélops para Laio é o que o faz furar os pés de seu filho Édipo e mandar matá-lo. Na minha interpretação, Édipo não quis saber do crime do pai e nem de sua tentativa de assassinato. Ele, em sua investigação, foi até o ponto em que descobre que matou o pai e que a mulher com quem está é sua mãe. Mas não vai além disso, pois não quis saber da maldição herdada e da desmedida paterna. Se compararmos o desenvolvimento trágico da investigação de Édipo sobre sua origem, como o fazem Freud e Lacan, com o percurso de uma análise podemos dizer com Lacan que se Édipo tivesse tido tempo de laiousar ele talvez não tivesse tido o desfecho que teve. Lacan introduz esse comentário sobre a peça de Sófocles Édipo Rei no seminário RSI quando aponta que o furo do simbólico, correspondente ao recalque originário, é a morte. A peste, diz Lacan, é isso: a morte é para todos. “É preciso que a peste se propague em Tebas para que esse ‘todos’ cesse de ser de puro simbólico e passe a ser imaginável. É preciso que cada um se sinta concernido pela presença da peste”2. Esta é, portanto, o real do furo do simbólico imaginarizado – peste que é o desdobramento da calamidade provocada pela Esfinge, outra figura da morte e da Até, desgraça, dos Labdácidas. Édipo, continua Lacan, só matou o pai por não ter se dado o tempo de Laiusar. Se o tivesse feito, o tempo que fosse preciso, teria sido o tempo de uma análise, pois era para isso que ele estava na estrada.3 Laiuser em francês é derivado de lalue, que significa discurso, fala, peroração no jargão das Escolas. User em francês significa utilizar e também gastar, usar até acabar como uma sola de sapato que

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de tanto se usar vai gastando e acaba. Na análise é preciso tempo para usar e gastar o pai real. Tempo para se ir para além do desejo de salvar o pai, defrontar-se com seu crime e vencer a ordem de ignorância feroz. Passando do mito à estrutura: é preciso tempo para se haver com o impossível do furo do simbólico lá onde jaz o gozo do pai real imaginarizado, uma vez que pai real e pai imaginário tendem a se imiscuir um no outro. É o pai que aparece como abusador e criminoso na histeria e na neurose obsessiva cujo gozo se sintomatiza no filho. É o pai de tal paciente do hospital que a espancava quando ainda bebê ela chorava e que hoje seu sintoma é um choro sem fim e sem razão; ou o pai militar que colaborou com a ditadura militar de tal outra analisante que faz de seu corpo um palco de torturas, ou o pai fiscal do imposto de renda de um obsessivo que se enriqueceu ilicitamente deixando para o filho a dívida do eterno desemprego. O neurótico prefere salvar o pai a se deparar com sua canalhice; ele prefere sofrer com seu sintoma a saber do crime do pai e suas consequências. Prefere, como Édipo, se sentir culpado de seus atos a desvelar a desmedida do gozo paterno. Deparar-se com o real do pai é confrontar-se com a consequência da falta radical do Outro, ou seja, o gozo mortífero para além do desamparo. E para isso é preciso Laio-usar – gastar o Laio de cada um. A posição do pai real, segundo Lacan4, está articulada em Freud como um impossível e não é surpreendente, diz ele, que encontremos sem cessar o pai imaginário. É uma dependência necessária, estrutural. É o que vemos na figura do fantasma do pai: o espectro do cadáver vivo, como o pai do Homem dos ratos que apesar de morto lhe aparece vivo no meio da noite, e o pai de Hamlet, que além de aparecer, tem fala. O espectro é o habitante dessa zona entre-duasmortes, campo de gozo, do Hades ao inferno, onde penam as almas pecadoras e criminosas à espera da segunda morte. “Sou o espírito de teu pai e vivo errante noite e dia até que a podridão de meus crimes seja queimada e purificada” – diz o pai de Hamlet no início da peça. As mitologias criaram esse habitat para o pai real. Mas quem queima é o filho. Ele arde por causa dos pecados do pai, como diz Lacan.5 Pai, não vês que estou queimando por causa de teus pecados? E o espectro do pai de Hamlet lhe diz que “a menor de minhas

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4 Lacan. O Seminário, livro 17: O avesso da psicanálise (1969-70/1992).

5 Lacan. O Seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964/1990).

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6 Strauss. Trèfle: Bulletin

de L’association Freud Avec Lacan (1999, p. 48).

7 O Seminário, livro 17, op. cit., p. 159.

8 Lacan. Télévision (1974, p. 35).

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faltas angustiaria tua alma, gelaria teu jovem sangue e teus olhos saltariam das órbitas como os astros de suas esferas...” Os crimes do pai são de um real que não cessa de não se dizer para o filho e, no entanto, insiste e se tornam um sintoma do filho – como a dívida do pai do homem dos ratos e o gozo oral do pai de Dora. O espectro recobre, mascara, vela e também desvela o pai real ou o real do Pai. O espectro é a encenação da articulação entre o pai real e o pai imaginário. É o que se encontra, como diz Marc Strauss6, na fantasia de Bate-se numa criança em que as cenas veem ao sujeito petrificar, cristalizar um excesso como um ciframento primeiro, uma representação do inominável do gozo. Não importa se é efetivamente do gozo do Pai que se trata ou do gozo imaginarizado do Pai e sim do dispositivo que o sujeito emprega para endossar um gozo que se apresenta a ele como exterior, vindo do Outro. O pai do crime não é o pai da lei, o Nome-do-Pai. O pai estuprador, ladrão, assassino, são figuras do pai imaginário que dá forma à hybris do pai: o gozo desmedido. A desmedida do pai com seu real é aquilo que o filho, com força, não quer saber. O homem é como Édipo, filho de Laio – ele não quis saber da desmedida paterna. No lugar do pai real existe, diz Lacan7, a ordem de uma ignorância feroz. Há uma interdição: “Está excluído que se analise o pai real, diz Lacan em Televisão, o melhor que se pode é o manto de Noé, quando o pai é imaginário”8. Um dia Noé se embriagou e ficou nu em sua tenda. Um de seus filhos, Chan, o viu e foi chamar os outros dois que, ao chegar, taparam os olhos e o cobriram com um manto para esconder a nudez paterna e saíram de costas. Estes se salvaram e toda a descendência de Chan foi amaldiçoada. O que Noé fazia nu na tenda, jamais saberemos, mas sem dúvida era algo da ordem de um gozo que filho algum poderia em tempo algum ver ou saber. Toda nudez do pai será castigada... no filho. O pai que mata o filho é abordado por Lacan a partir do sacrifício de Isaac por seu pai Abraão, comentado por Kierkegaard descrito em Temor e tremor em que descreve quatro variações do mito que se diversificam a partir do ponto em que Deus diz a Abraão: “sacrifica teu filho, mate-o”. É na primeira que ele descreve a tenta-

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tiva de filicídio. Abraão agarrou Isaac pelo peito, jogou-o no chão e gritou: “Estúpido! Crês tu que sou um pai? Não, não sou teu pai. Sou um idólatra! Crês que estou obedecendo a um mandato divino? Não. Faço isso somente porque me dá vontade e porque me inunda de prazer!”. Abraão aparece como o pai real que diria: “Vou te matar por puro gozo!”. “Então Isaac exclamou, angustiado: ‘Deus de Abraão, tende piedade de mim! Sê meu pai, já não tenho outro neste mundo!’. Abraão se dirigiu a Ele, dizendo: Senhor onipotente, receba minha humilde ação de agradecimento, pois é mil vezes melhor que meu filho acredite que sou um monstro do que perca a fé em ti”9. O pai monstro, capaz de matar o filho nem que seja por amor a Deus, é o que é transmitido ao filho como seu pecado. É a propósito dessa passagem de Kierkegaard que Lacan diz no Seminário XI que o que se herda é o pecado do pai. Isaac herda o crime do pai de ter desejado matá-lo. Eis a herança de Isaac e também a de Édipo. Diferentemente de Abraão, que no mito judaico-cristão recebe a ordem de Deus de matar o filho predileto como prova de seu amor, Laio ele mesmo decide matar seu filho Édipo para evitar que este o mate segundo a maldição oracular, fura-lhe então os pés e o entrega a um pastor para ser jogado no lixão do monte Citéron. O Urvater de Totem e tabu, Noé com sua nudez, o Deus de Abraão, Yavé, com sua ignorância feroz e Laio são figuras imaginarizadas e míticas do pai real. Édipo carrega em seu nome e em seu corpo a marca do crime do pai. A ferida causada por seu pai ao furar-lhe os tornozelos para pendurá-lo como um animal e expô-lo, e o edema que ocasionou foi o que lhe deu o apelido de Óidipous, de oiden, edema nos pés. O apelido virou nome próprio e a ferida deixou-lhe coxo. Seu pé carrega um saber (oida) sobre o crime do pai do qual Édipo não quis saber. A esfinge, como aponta Jean-Pierre Vernant, enunciava o enigma dos pés e equivocava com seu nome: “tetrapous, dipous, tripous” disse ela para Óidipous que ao dizer o homem como resposta suprimiu, como diz Lacan10, o suspense da verdade. A verdade sobre a castração e o gozo de Laio – o pai real se manifesta em Édipo como aquele que determina a Até família dos Labdácidos do qual ele e sua descendência são herdeiros e também se manifesta como ignorância feroz: mandamento superegoico de não-saber. Eis

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9 Kierkegaard. Temor e tremor (2004, p. 22).

10 O Seminário, livro 17, op. cit., p. 113.

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porque para além do desejo de saber que o impulsiona a querer investigar sua origem, Édipo é possuído pela paixão da ignorância. Aliás, não será a força dessa paixão que faz Lacan dizer que finalmente não existe desejo de saber algum? O que Édipo ignora é que seu nome é uma letra que cifra um gozo, o gozo do Outro paterno: o “x” da função do synthoma, ou seja, uma escrita do gozo do Inconsciente. Óidipous, Pé Inchado é o signo do gozo do Pai que desejou matá-lo e do qual ele não quis saber; Óidipous, Pé-que-sabe é a letra que confere a marca do saber do real, saber do crime do pai da origem da Até dos Labdácidas – móvel do filicídio que faz de Édipo o objeto rejeitado pelo Outro – é o selo de seu ser de dejeto. Rejeitado pelos pais e, no final da peça de Sófocles, ao se apagar como sujeito, pelo Outro social, que representa Tebas. Óidipous não acredita em seu ser de synthoma, não acredita que ele seja capaz de um dizer, pois ele não quer saber que se trata aí de uma cifra do gozo. Eis porque erra em sua ignorância e fica escravizado pelo gozo do Pai, servo do destino. Édipo está preso à ignoerrância. O crime do pai real, como gozo desmedido, é transmitido como erro trágico que o filho carrega como óidipous com seu sintoma no pé. Por um lado encontramos a herança da castração que se transmite de pai para filho: Lábdaco, o manco; Laio, o torto; e Édipo, pé inchado. Por outro lado, há a transmissão da maldição que Édipo herda como lote do gozo do pai inscrito em seu nome e seu corpo. Essa letra é o nome do gozo do pai real. O nome que condensa o gozo inscrito no enigma da Esfinge que Óidipous não ouviu. O tempo da análise é o tempo de Laiusar: tempo de laio-ousar – tempo de ter a ousadia de se confrontar com o crime e o gozo desmedido e ectópico do sujeito, que ele localiza no lugar do vazio do Outro – lugar topológico da desmedida do Pai real. É preciso tempo de peroração para o sujeito gastá-lo o suficiente para que se revele o que é: um nada esvaziado de gozo. O tempo de Laiusar é o tempo de olhar para os pés, ouvir os pés e pensar com os pés.

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Referências bibliográficas KIERKEGAARD, S. Temor e tremor. São Paulo: Abril Cultural, 2004. LACAN, J. O Seminário, livro 7: a ética da psicanálise (1959-60). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1991. LACAN, J. O Seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1990. LACAN, J. O Seminário, livro 17: o avesso da psicanálise (19691970). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1992. LACAN, J. Télévision. Paris: Seuil, 1974. LACAN, J. O Seminário: RSI (1974-1975): lição de 17 de dezembro de 1974. Inédito. STRAUSS, M. Les issues du transfert. In Trèfle: Bulletin de L'association Freud Avec Lacan. França, vol.1, n.2 1999.

Resumo O artigo inicia com a discussão da emergência, na contemporaneidade, da figura do pai real, articulada ao desmoronamento da Lei simbólica. Em seguida, analisa o mito de Édipo à luz do pai real, para destacar, na passagem do mito à estrutura, a função do gozo do pai na produção de sintomas do neurótico. O neurótico, assim, é aquele que prefere salvar o pai e nada saber dos crimes deste. O artigo conclui afirmando que o tempo da análise é o tempo de laiousar, tempo que Édipo não se deu por não levar a investigação de sua origem até os crimes de Laio, seu pai. É preciso tempo para se confrontar com o gozo desmedido do sujeito, para gastá-lo o suficiente até que se revele o que é: um nada esvaziado de gozo.

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Palavras-chave Pai real, mito de Édipo, tempo da análise.

Abstract The article begins with a discussion about the appearance, nowadays, of the real father-figure, bound to the downfall of the symbolic Law. Next, it analyzes the Oedipus myth seen through the prism of the real father, in order to point out, at the passage from myth to structure, the function of the father’s jouissance in producing the neurotic’s symptoms. Thus the neurotic is the one who prefers to save the father and know nothing of his crimes. The article ends with the affirmation that the duration of the analysis corresponds to the time to dare-laios, the time Oedipus did not give himself, the time to trace the investigation of his background to his origins in Laio, his father’s, crimes. It takes time to behold the subject’s boundless jouissance, to let it waste enough to show itself for what it is: nothing, emptied of jouissance.

Key words Real father, Oedipus myth, duration of the analysis.

Recebido 28/04/2009

Aprovado 01/07/2009

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O “tempo” de uma análise Dominique Fingermann 1 - O “Tempo” em música é o movimento característico com o qual se executa uma obra musical, é o seu ritmo, o seu “andamento”. Os movimentos [adágio, andante, moderato] são definidos pela duração de uma nota batida certo número de vezes por minuto. É essa distribuição de uma duração em uma sequência de intervalos regulares, tornados sensíveis pelo retorno periódico de algum marco, que produz o ritmo de uma sequência musical. Por extensão o “Tempo” é o ritmo do desenrolamento de uma ação (filme, obra literária) do começo ao fim. Com sequências melódicas, pausas, arranjos harmônicos [simultâneos], disposição regular de tempos fortes, contratempos e contrapontos, repartição dos acentos, e cesuras, o ritmo faz a obra. O “tempo”, o andamento, faz a obra ao explorar e atravessar as suas possíveis modulações via repartição de descontinuidade, num fluxo contínuo. A cadência, repartição da descontinuidade no fluxo contínuo (de sons, imagens, significantes) recorta instantes, distribuindo silêncios e evidenciando sequências, parece produzir a efetivação, progressiva e irremediável, do ponto de conclusão. Passado este ponto, qualquer música seria litania fastidiosa. Da mesma forma, o andamento de uma análise do começo até o fim resulta do seu “tempo”, recortando instantes que isolam sequências, que produzem consequências. O “Tempo”, conduzido pela batuta do desejo do analista, produz o tempo de uma análise, a medida de sua duração. A cadência da entrada do analista – nos ditos do sujeito – condiciona uma descontinuidade que produz, em ato, no final das contas, o limite, a conclusão, fazendo da “série sem fim dos ditos uma sequência finita”1. Por isso “Il faut le temps2” um tempo é necessário, para extrair do tempo que passa o tempo que falta e o transformar no tempo que resta.3 A temporalidade peculiar e necessária de uma análise permite passar de um tempo perdido até o tempo encontrado. Não o tempo “re-encontrado”, isto é, o tempo que se encontra numa análise não é o tempo da busca do tempo perdido, é o tempo encontrado enquanto encontro com o Real, é o tempo achado, com o qual a gente “topa” como “trouvaille”4.

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1 Soler. O tempo que falta (2008). 2 Lacan. Radiofonia (1970/2003, p. 425). Lacan nesse texto explora o “cristal da língua” que repercute a etimologia latina de fallire e fallere, e espirra em todos os sentidos, do equívoco de “il faut” do verbo “falloir” (é necessário) ao “il faut” do verbo “faillir”: falhar, faltar, passando por faux (falso) e faux (foice do tempo). 3 Referência ao título da obra de Giorgio Agamben, Le temps qui reste (Paris, Éditions Payot & Rivages, 2004). 4 Marcel Proust. À la re-

cherche du temps perdu: Paris, Éditions Gallimard, 1987.

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5 Freud. Novas conferências introdutórias sobre psicanálise (1932/1996).

6 Ibid., Conferência XXXI: A dissecção da personalidade psíquica, p. 79 (itálicos meus).

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2 - Desde o início, desde as entrevistas preliminares, uma análise revela uma estranha temporalidade. Embora a fala, que se desdobra e se descobre aí quase que imediatamente, tenha uma estrutura temporal diacrônica e esteja se desenvolvendo na forma linear da sucessividade, desde as primeiras voltas nos ditos, abre-se uma temporalidade atordoante para quem chega desprevenido e fica aturdido. Um tempo “sem pé nem cabeça” inaugura-se aí, já que nessa ficção que artificia a verdade do sujeito, o presente se anuncia atropelado por um futuro suposto, formatado por um passado hipotético que nunca foi. Muitas vezes, nessa estranha temporalidade, reminiscências, novela familiar, sintoma, repetição traumática parecem dar notícias de um tempo que não passa. O tempo do cronos – que devora sua cria: os instantes evanescentes, na medida em que eles nascem – não é suficiente para explicar essa temporalidade que Freud descobriu no fundamento e no funcionamento dos processos inconscientes, intemporais – diz ele. É que os traços mnêmicos inscrevem algo que não tem registro – a vivência real. As “formações do inconsciente”, retorno do recalcado, não cessam de escrever, essa falha na origem que não cessa, de não se inscrever. Em 1932, nas Novas Conferências, Freud aponta para a incidência da clínica psicanalítica sobre essa, supostamente inegável, intemporalidade5. O progresso na clínica psicanalítica não pode se reduzir à leitura e à descoberta do desejo indestrutível, mas, como aponta e aposta Freud nessa conferência, uma análise deve conduzir um sujeito a outra vivência do tempo que passa. Curiosamente, ele lamenta, então, não ter explorado melhor essa característica do inconsciente, na teoria e, consequentemente, na clínica: Muitíssimas vezes, tive a impressão de que temos feito muito pouco uso teórico desse fato, estabelecido além de qualquer dúvida, da inalterabilidade do reprimido com o passar do tempo. Isto parece oferecer um acesso às mais profundas descobertas. E, infelizmente, eu próprio não fiz qualquer progresso nessa parte6.

3 - Onde Freud descobre a intemporalidade, Lacan produz a a-temporalidade, que ele põe em função na direção da cura como “tempo lógico”. O desenvolvimento de seu ensino explicita que não

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é o passado que estorva e atravanca o presente, é o Real, uma falha na origem que constrange o sujeito à repetição e às declinações infinitas de sua falta-a-ser. A estrutura do significante precipita o sujeito no tempo lógico de antecipação/retroação que o faz se produzir/ se parir/ se causar, a partir da função negativa que sua afirmação pelo significante do Outro inscreve. A estrutura do significante inaugura um tempo perdido, nunca acontecido e que não acontecerá nunca – “terei sido” –, tempo real que a repetição não cessa de inscrever. Onde isso era – repetição – Lacan faz advir o ato como descontinuidade no sentido da neurose. É no ponto mesmo da “inalterabilidade do reprimido” que ele insere o tempo lógico, produtor do momento de concluir, intrusão do analista e de seu naipe (silêncio, voz, presença, corte) que orienta e conduz a análise até sua conclusão. É assim que podemos apreender como o ato do analista produz no final das contas o momento de concluir da análise: o ato do analisante. Como? Como o manejo pelo desejo do analista do instante do corte na sessão, como a produção do instante do corte causa a duração da análise como finita e não infinita? A medida de uma análise, o seu tempo, a sua finitude depende da marcação do “tempo” pelos cortes das sessões. Uma análise não se mede em anos, nem horas nem minutos: a sua medida é o corte. Quantos cortes sua análise durou? (donde a importância da frequência das sessões que acolhe a alternância sessão – corte – intervalo). O ato “fait d’une pierre deux coups”7 causa efeitos de sujeito: surpreende, evidencia e esvazia a suposição do sujeito no Outro e, ao mesmo tempo, surpreende e evidencia o sujeito como resposta do real.

7 Em português, faire d’une pierre deux coups equivale à expressão “matar dois coelhos numa cajadada só”.

4 - O analista, todas as vezes, corta as sessões que sejam de tempo variável ou curtas (tema de nossos debates), é imprevisível: é responsabilidade intempestiva do ato analítico. Ao suspender a continuidade, isola-se uma sequência na qual pode ser lida uma suposição do sujeito. O que se ouviu? O que foi dito? 1, 2, 3? Ou 21, 34? Ou 5, 8, 13? Em que ponto eu parei mesmo? 8, 13, 21!! 144? Não entendi! Não fez nenhum sentido para mim a sua interrupção da minha última sessão! O corte não faz sentido. 0, 0, 1? É isso? Reconhecemos nessas sequências trechos de uma série de Fibonac-

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8 Criada pelo matemático

italiano Leonardo de Pisa (1175-1250), na relação de recorrência da série de Fibonacci: cada termo da série é a soma dos dois termos precedentes: F0 = 0, F1 = 1; logo, F2 = F0+F1, ou seja, F2 = 0+1, isto é, F2 = 1, F3 = 2, F4 = 3 e assim sucessivamente.

9 Radiofonia, op. cit., p. 446. 10 Lacan. Do um-a-mais. In: O Seminário, livro 16: de um Outro ao outro (196869/2008, pp. 361-374). 11 Radiofonia, op. cit. 12 Lacan. O aturdito (1972/2003, p. 488).

13 Ibid.

14 Ibid., p. 448. Na versão francesa: “Qu’on dise reste oublié derrière ce qui se dit dans ce qui s’entend”.

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ci, uma série matemática infinita na qual cada elemento é construído a partir da soma dos dois números precedentes8; é simples como princípio de recorrência, mas quando se escuta esses trechos, é necessário um tempo antes de poder concluir o tempo que falta, o cálculo do intervalo entre um e outro. “Assim, a linguagem faz uma novação do que revela do gozo e faz surgir a fantasia que ele realiza por algum tempo. Ela só se aproxima do real à medida que o discurso reduz o dito a cavar um furo em seu cálculo”9. Apesar de todos os Uns dos enunciados que se agregam um a um 1, 1, 1..., um tempo sempre faz falta para o sujeito (“il faut le temps”): ele nunca resgatará o “um-a-mais”10, embora sempre tente recuperar o tempo perdido na sua demanda, no seu “blablá”, na sua suposição de um Outro. A associação livre, aparentemente linear, desenrola, na diacronia, o que a sincronia do instante de ver apreendeu: “falta o tempo”11. A estrutura própria da fala desenrola nos ditos as consequências do dizer, desdobra, estica, infla, pinça, desinfla, costura e recorta o espaço topológico da estrutura do sujeito, tornando patentes suas descontinuidades, seus furos, suas vizinhanças. “A topologia de nossa prática do dizer”12. Pouco a pouco, as voltas dos ditos, contornando o oco da demanda, configuram e exibem o espaço topológico da neurose: um toro, logo apreensível como enodado com outro toro, do qual ele preenche e escamoteia o furo estrutural. Esse toro do sujeito neurótico enlaçado com o toro do Outro é o enredo principal da novela familiar, moldada pela fantasia fundamental. A novela familiar gira em torno de uma volta não contada – falha nas suas contas dos ditos que o étourdi – o avoado – vai atribuir ao Outro, ligando sua falta-a-ser à falta – falha – pecado do Outro e, daí, sua suposição de que o seu tempo perdido está no saber do Outro. Como demonstra Lacan no seu texto L’Étourdit13, é o corte do analista na série infinita da associação livre, nas voltas dos ditos, que faz aparecer o “tempo” da neurose, e suspende por um tempo a sua razão fantasmática: “vamos suspender!” A interrupção produz o corte mediano da fita de Mœbius, realiza o dizer que não está nos ditos. “Que se diga permanece esquecido atrás do que se diz no que se ouve”14. Mas, de novo, na sequência a esse dizer, por definição fora do sentido, será atribuído

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um sentido, cujo segredo está alojado no Outro e suas leis: 8, 13, 21.... 34! Vamos suspender! Quantas vezes se interrompe a suposição de saber no Outro para que caia a ficha da sua inconsistência? O desejo do analista que suporta o corte da sessão valida o intervalo, como instância do dizer. “Cette dimension temporelle est l’angoisse, cette dimension temporelle est celle de l’analyse. C’est parce que le désir de l’analyste suscite en moi la dimension de l’attente que je suis pris dans l’efficace de l’analyse”15. O analista em ato – actually – suscitando a dimensão da espera faz valer as intermitências – os interditos como causadores, como causação do sujeito. A atualidade do analista, o seu a-tempo tem uma incidência clínica na intemporalidade do sujeito do inconsciente16. O ato analítico produz, extrai, da repetição, essa outra dimensão do tempo, conhecida pela filosofia da Grécia e até na China: o Kairos, “o momento oportuno”. No fim, o momento de concluir é ato do analisante. O momento de concluir interrompe a diacronia da associação livre, interrompe, insuccès de l’une-bévue17. A interrupção da sua sucessão é da ordem do ato que se faz sem o saber suposto ao Outro e produz a sua suspensão. “Vamos suspender!” No fim é momento de concluir que a indecidibilidade da partida se transforma numa carta na mão do analisante – não o “mico-preto”, carta da impotência que estorva o jogo e impede a partida (separação), mas a carta que chega a seu destino na forma de uma letra. Quanto tempo necessário para chegar ao fim! “É, portanto, somente depois de um longo desvio que pode advir para o sujeito, esse saber de sua rejeição original”18. Quanto tempo necessário para chegar ao fim? O tempo é preciso, até que o “tempo” do analista produza, à medida de seus golpes, o suspense da espera, e a suspensão do sentido: falha no tempo do Outro onde o sujeito é flagrado como resposta do real. Um longo tempo é necessário para sacar a falha inaugural do tempo do sujeito. É isso: “... ce qu’ il faut de temps pour faire trace de ce qui a défailli à s’avérer d’abord ”. “...é preciso o tempo para fazer traço daquilo que falhou em se revelar de saída”19.

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15 Lacan. L’angoisse –

Séminaire X (1962-63/s.d., p.180). “Esta dimensão temporal é a angústia, esta dimensão temporal é a da análise. É porque o desejo do analista suscita em mim esta dimensão da espera que estou preso na eficácia da análise.”

16 Se o inconsciente é intemporal, o analista é atual.

17 Lacan. Séminaire

XXIV: L’insu que sait de l’une-bévue s’aile à mourre (1976-1977/1998).

18 Lacan. O Seminário: a

identificação (1961-62/2003, p. 194).

19 Lacan. Radiophonie (1970/2001, p. 428); Radiofonia, op. cit., p. 427.

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Referências bibliográficas FREUD, S. (1932). Novas conferências introdutórias sobre psicanálise. Trad. sob a direção de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1996. (Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, vol. XXII). LACAN, J. O Seminário: a identificação – Seminário IX (1961-62): Recife, Publicação não comercial exclusiva para os membros do Centro de Estudos Freudianos do Recife, 2003. LACAN, J. L’angoisse – Séminaire X (1962-63): Paris, Publication hors commerce – Document interne à l’A.L.I, s.d. LACAN, J. O Seminário, livro 16: De um Outro ao outro (1968-69). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2008. LACAN, J. (1970). Radiofonia. In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003, pp. 400-447. LACAN, J. (1970). Radiophonie. In: Autres Écrits. Paris: Seuil, 2001, pp. 403-448. LACAN, J. (1972). O aturdito. In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003, pp. 448-497. LACAN, J. L’insu que sait de l’une-bévue s’aile à mourre (1976-1977) Séminaire XXIV : Paris, Publication hors commerce – Document interne à l’A.F.I, 1998. SOLER, C. O tempo que falta. In: Volume Preparatório para o V Encontro Internacional da IF-PFCL [on line]. Disponível em: <http://www.vencontro-ifepfcl.com.br/volprepa.html>. Acesso em: 1 de julho de 2008.

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Resumo O andamento de uma análise do começo até o fim resulta do seu “tempo”, recortando instantes que isolam sequências, que produzem consequências. O “Tempo”, conduzido pela batuta do desejo do analista, produz o tempo de uma análise, a medida de sua duração. A cadência da entrada do analista – nos ditos do sujeito – condiciona uma descontinuidade que produz, em ato, no final das contas, o limite, a conclusão, fazendo da “série sem fim dos ditos uma sequência finita”. Por isso “Il faut le temps” um tempo é necessário, para extrair do tempo que passa o tempo que falta e o transformar no tempo que resta.

Palavras-chave Tempo, desejo de analista, duração, final de análise.

Abstract

The Psychoanalytical process, from the begining till it ends, is a result of its “tempo”, cutting instants which separate sequences and producing consequences trough this cuts. The “tempo” conducted by the psychoanalyst desire baton, produces the time of a psychoanalysis and gives the measure of its length. The cadence of the psychoanalyst entrance in the subject’s tellings establishes discontinuity. Discontinuity produces, in act, at the endgame, a limit point, the conclusion. The psychoanalyst act turns “the endless recurrence of the tellings into a finit sequence”. Therefore “il faut le temps”, time is necessary, to extract from the passing time, the faulting moment, turning this moment into a instant witch last.

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Keywords

Tempo, time, the psychoanalyst desire, ending of the psychoanalysis. 

Recebido 03/05/2009

Aprovado 26/07/2009

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O inconsciente: trabalhador ideal Maria Vitoria Bittencourt Escolher como título “O inconsciente: trabalhador ideal”1 para abordar nosso tema é uma forma de questionar a definição que Lacan apresenta em Televisão: “o inconsciente é (…) um saber que não pensa, nem calcula, nem julga, o que não o impede de trabalhar, no sonho por exemplo. Digamos que é o trabalhador ideal”. Como articular esse trabalhador ao tempo do inconsciente? Proponho assim retomar o sonho, para ilustrar o trabalho do inconsciente, tentando responder à questão da prática da interpretação, que viria introduzir uma temporalidade ao trabalho do sonho. Disso decorre outra questão: haveria necessidade de interpretar o sonho? A referência de Lacan ao trabalhador vem de Marx, mas esse termo – trabalho – se encontra em Freud a propósito do sonho, fenômeno que lhe permitiu lançar os fundamentos dos processos do sistema inconsciente. Mesmo que tenha sido a partir do sintoma histérico que Freud concebeu a mensagem cifrada do inconsciente, foi o sonho que abriu o caminho à “via régia”. No entanto, Freud não fez do sonho um equivalente do inconsciente. Para ele, a essência do sonho se encontra justamente no trabalho do sonho – Arbeit – mais importante que seu conteúdo, manifesto ou latente. A partir da lei do inconsciente e seus mecanismos operatórios, se abre toda uma elaboração semântica em torno da leitura dos sonhos e de sua interpretação. O equívoco significante coloca Freud na via da articulação do que chama “moção pulsional”, o desejo inconsciente. Quanto à interpretação, desde o início, Freud chama a atenção contra a fascinação que os mistérios do inconsciente podem gerar. Em 1912, Freud adverte que é preciso uma certa abstinência quanto ao desejo de interpretar, pois existem sonhos que vão mais rápido que a análise e que “ao tentar interpretá-los, pode-se abalar todas as resistências latentes, e não se vê mais nada”2. Existe assim um tempo para interpretar. Com efeito, Freud descobriu na prática que o sonho é uma manifestação de outra coisa, ou seja, é uma demanda de interpretação, sendo o próprio sonho um indício da transferência. Um apelo ao analista para decifrar o enigma do desejo. Pois, em relação às outras formações do inconsciente, o sonho tem esta particularidade: o sujeito acredita que ele quer dizer alguma coisa e conta seu sonho para demandar o sentido. Foi o que Lacan constatou no Seminário II: “Numa análise, não

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1 Lacan, Televisão (1974/1990, p. 31).

2 Freud, O manejo da interpretação de sonhos na psicanálise (1912/1969, p. 121).

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3 Lacan, O Seminário, livro 2: O eu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise (1954-55/1975, p. 194).

4 Lacan, Compte rendu du Séminaire L’ éthique de la psychanalyse (1984, p. 17).

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intervimos unicamente na medida em que interpretamos o sonho do sujeito – se é que o interpretamos – mas como já estamos, a título de analista, na vida do sujeito, já estamos em seu sonho”3. Então, o sonho é um produto do trabalho analítico, produto do trabalho da transferência, do encontro do desejo do analista com a demanda do analisando. “Ninguém pode ser morto in absentia”, nos diz Freud a propósito da transferência. Poderíamos acrescentar nada pode ser sonhado in absentia. Logo, o inconsciente do sujeito em análise é um inconsciente que trabalha – arbeiter – cujo sujeito suposto saber é o pivô em torno do qual se articula a transferência – um outro trabalho. Assim, duas operações se encontram no sonho: o trabalho do sonho e o relato do sonho. De um lado, o relato não é o sonho, já é uma interpretação do desejo, uma colocação ao trabalho do inconsciente em busca do saber. Desta maneira, Lacan vai inverter os papéis: aquele que interpreta é o sonhador, pois o sonho é, ele mesmo, uma interpretação. O sonho pode se reduzir a uma frase que o inconsciente reveste com a ajuda da encenação. Assim, como diz Lacan, “Através do sonho, vem ao inconsciente somente o sentido incoerente que fabula, para revestir o que articula em termos de frase… o que vem já é uma interpretação que podemos dizer selvagem e que a interpretação argumentada que lhe é substituída só vale, pois faz surgir a falha que a frase denota”4. Desta maneira, ficam estabelecidos dois tempos para a interpretação. O sonho não é o inconsciente, ele pode se reduzir a uma frase cortada, um pensamento deformado, tomado ao pé da letra, ao qual a interpretação vem restituir a ordem, para fazer emergir o sujeito. De outro lado, produzir um sonho implica a presença do analista. Logo, o relato do sonho é uma colocação ao trabalho do inconsciente que se realiza a partir da implicação da presença do analista, uma colocação em ato da realidade sexual, como Lacan definiu a transferência. A função do sonho é fazer falar o sujeito, colocar o inconsciente no trabalho para contar ao analista. Mas existe uma outra face do trabalho do sonho. Se ele é uma mensagem que visa ser interpretada, pois é uma demanda de interpretação, ele tem como função também preservar o sono. Assim, o sonho serve para contar ao analista e assim continuar a dormir

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tranquilamente, sem tocar no real, em outros termos, para gozar da transferência. Como diz Lacan, “passamos o tempo a sonhar, não se sonha somente quando se dorme”5. Assim, para Freud, o trabalho do sonho testemunha uma atividade de ciframento e de elaboração que é destinada a evitar um encontro entre o pensamento do sonho e a pulsão. O sujeito sonha para não despertar o desejo inconsciente. Nos anos 20, Freud indicou uma ligação entre o sonho e a pulsão: [...] o eu adormecido, contudo, está focalizado no desejo de manter o sono; ele sente essa exigência pulsional como uma perturbação e procura livrar-se dela. O eu consegue realizar isso através do que parece um ato de submissão: ele satisfaz a exigência, com uma realização inofensiva de um desejo e assim livra-se dele6.

Portanto, se seguirmos essa lógica, o trabalhador ideal pode passar seu tempo todo a sonhar. Mas o que pode despertá-lo? Segundo Lacan, só a angústia vem romper o “sono do sujeito quando o sonho desemboca no real do desejado”7. (Podemos encontrar em Lacan outras referências a propósito da emergência de um real no sonho.) Num comentário do sonho do filho morto – ‘Pai, não vês, estou queimando’ – Lacan constata que o que vem despertar é uma “outra realidade”, aquela do “real pulsional”8. O real nesse sonho surge do encontro impossível entre um pai e um filho, um encontro faltoso que marca a impotência do simbólico a inscrever o impossível. O despertar para a realidade é a fuga de um outro despertar para o real, aquele que se anuncia no sonho quando o sujeito se aproxima daquilo que não quer saber. Nos anos 70, Lacan retoma um texto de 1925, de Freud, sobre os sonhos, onde, tratando dos limites da interpretação, Freud afirma que o trabalho do sonho visa a um ganho imediato de prazer, com a intenção utilitária de preservar o sono. “O sonho pode ser descrito como uma fantasia a trabalhar em prol da manutenção do sono”9. Lacan acrescenta que o motor do sonho, enquanto desejo de dormir, se traduz por aquilo que constitui o essencial do trabalho do sonho: é um ciframento que contém nele mesmo um gozo, uma satisfação do sonhador nesse trabalho10. Assim, o trabalhador ideal

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5 Lacan, Une pratique du bavardage (1979, p. 5).

6 Freud, Esboço de psicanálise (1938/1969, p. 196).

7 Compte rendu du Séminaire L’ éthique de la psychanalyse, op.cit. 8 Lacan, O Seminário, livro

11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964/1988, p. 61).

9 Freud, Algumas notas adicionais sobre a interpretação de sonhos como um todo (1925/1969, p. 159). 10 Lacan, Séminaire Les non dupes errent (leçon du 20 Novembre 1973).

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11 Lacan, …Ou pire (s.d., p. 9). 12 Trata-se de um jogo

de palavras em francês – régisseur x réjouisseur.

13 Compte rendu du

Séminaire L’ éthique de la psychanalyse, op. cit.

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teria como mestre o gozo: “o que pensa, calcula e julga é o gozo”, diz Lacan em Ou pior11. O sonho teria, assim como finalidade, uma tentativa de dar sentido ao não-sentido da relação sexual, em que o inconsciente trabalha sem mestre. Já o sujeito do gozo, que pensa, calcula e julga, estaria no lugar do regente (régisseur)12 ou melhor regozijador (réjouisseur). Assim, o limite da interpretação poderia se situar nessa satisfação que o sonho contém, o gozo do sentido. Se o real pulsional surge no sonho, qual o estatuto de sua interpretação? Em vez de interpretar o sonho, não seria preciso pensar em despertar o sujeito? Pois o desejo do sonho não é senão aquele de buscar o sentido, e é isso que satisfaz a interpretação psicanalítica. Mas, será a via para um verdadeiro despertar para o sujeito?13 Trata-se, então, de pensar a interpretação segundo o modelo do pesadelo? Como conceber um verdadeiro despertar? Se retomarmos o sonho de Freud, conhecido como o sonho da injeção de Irma, o único que Freud considera como tendo sido completamente analisado, podemos lembrar que o sonhador não desperta do pesadelo – “é um duro na queda”, diz Lacan. No momento em que Freud olha a garganta de Irma, uma espécie de objeto inomável, ele se retira do sonho e apela para outros personagens que tomam seu lugar. Nesse momento, surge uma voz, uma voz de ninguém, e aparece a fórmula da trimetilamina, fórmula química de uma substância dos metabolismos sexuais, que lhe foi comunicada por Fliess. O sonho se conclui assim com esse termo que não quer dizer nada, mas que surge enquanto matéria visual. Lacan acentua que, diante do encontro com o real da castração do Outro, Freud atravessou esse momento de angústia porque estava tomado por uma paixão de saber, que é mais forte que seu desejo de dormir. Assim, ele tem acesso à revelação do que é o inconsciente, sua invenção. Freud continua a dormir tranquilamente, fantasiando que um dia teria uma placa onde se poderia ler: “nesta casa, no dia 24 de julho de 1895, o mistério do sonho foi revelado ao Dr. Sigmund Freud”. Podemos considerar este sonho como uma saída da transferência de Freud a Fliess, o verdadeiro despertar de Freud, se desembaraçando daquele que ocupava o lugar do sujeito suposto saber. Poderíamos propor que nesse sonho de Freud, o “isso fala” do

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significante, que constitui o relato do sonho na sua finalidade de fazer sentido – sentido sexual – vem recobrir o “isso mostra” do objeto, o não sentido da relação sexual. Mostrar se distingue de fazer sentido, pois equivale a colocar em cena um gozo articulado às cenas infantis traumáticas, criadoras e fundamentos de todos os sonhos segundo Freud. Fundamento fantasmático. Assim, o sonho converte o sentido sexual numa fórmula, em letras, uma cifra que contém nela mesma um gozo: um “isso se escreve” vem concluir o “isso fala” e o “isso mostra” do sonho. Nesse sentido, a interpretação vem desvelar que o modo de falar – o relato do sonho – vem recobrir o modo de gozar – o trabalho de ciframento do sonho. Para isso, Lacan nos dá uma indicação quanto à interpretação: “ler os sonhos... como se decifra uma mensagem cifrada”. Ler supõe uma escritura, colocando em jogo a atividade da letra, permitindo o que Lacan designou como a lisibilidade do sentido sexual que se encontra a partir do não sentido da relação sexual que o sonho tenta imaginarizar. A dimensão da escritura sendo mais propícia a tocar no real da experiência, o “motérialisme” – equívoco que Lacan criou para indicar o materialismo da alíngua. Assim, interpretar o sonho, no sentido freudiano de via régia, de mensagem, seria alimentar o inconsciente e tornar a análise um processo de tempo interminável. Sendo um exercício de letras e não de sentido, o sonho não tem vocação de comunicar, mas de promover um trabalho do inconsciente que não visa à significação, mas produzir o efeito de real. Assim, o tempo de dormir, de sonhar, requer uma interpretação justa para esgotar o apelo ao sentido, ao gozo do sentido. O sonho não basta ao despertar, ele não está desligado do sentido que o sustenta. Ele necessita a presença do analista, presença em ato, reveladora da estrutura do desejo. Que o despertar ao real seja impossível, não impede de tomá-lo como finalidade. Será o despertar a via régia para o final de uma análise? A partir da experiência no cartel do passe, pude observar que um sonho, considerado muitas vezes como fundamental, ocupa um lugar privilegiado no testemunho dos passantes. Sonhos ligados às experiências infantis, cujo surgimento no início da análise toma uma outra dimensão no testemunho do passe. Proponho, como hipótese, que esses sonhos são evocações de cenas infantis, uma

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reconstrução da neurose infantil, que viria confirmar a tese de Lacan, segundo a qual o sonho ressalta “a maneira como alíngua foi falada e também escutada em sua particularidade”. O sonho teria a faculdade de transmitir essa marca do tempo infantil da primeira experiência com a realidade sexual. Mas essa leitura que o passante faz de seu sonho se efetua fora da transferência, trata-se de uma interpretação da saída da transferência, interpretação do sujeito do final de sua análise. Poderíamos deduzir que a interpretação do sonho só é completa quando desembaraçada da presença do analista? Se a interpretação do analisando nunca é independente da presença do analista, só há interpretação fora da transferência, fora do sujeito suposto saber. Assim, essa interpretação viria confirmar uma tese de Freud de que um sonho pode englobar toda uma análise, pois equivaleria a todo o conteúdo da neurose, e que “a interpretação total de tal sonho coincide com a conclusão da análise”. Afirmação bem surpreendente de Freud. Será que poderíamos verificar essa tese na experiência do cartel do passe? Isso nos levaria a introduzir um novo trabalho, trabalho de escola. Para isso é preciso tempo.

Referências bibliográficas FREUD, S. (1912). O manejo da interpretação de sonhos na psicanálise. Trad. sob a direção de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1969. (Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud, Volume XII). FREUD, S. (1925). Algumas notas adicionais sobre a interpretação de sonhos como um todo. Trad. sob a direção de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1969. (Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud, Volume XIX). FREUD, S. (1938). Esboço de psicanálise. Trad. sob a direção de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1969 (Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud, Volume XXIII). LACAN, J. O Seminário, livro 2: O eu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise (1954-55). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1975.

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LACAN, J. Séminaire Les non dupes errent, leçon du 20 novembre 1973, Inédit. LACAN, J. (1974). Televisão. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1990, p. 31. LACAN, J. Une pratique du bavardage (Leçon du 15 novembre 1977 – Séminaire Le moment de conclure). In: Ornicar, 19, Paris: Navarin Editeur, 1979. LACAN, J. Compte rendu du Séminaire L’éthique de la psychanalyse. In: Ornicar, 28, Paris: Navarin Editeur, 1984. LACAN, J. Conférence à Génève sur le symptôme. In: Le Bloc Notes de la psychanalyse n. 5, Genève, 1985. LACAN, J. O Seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1988. LACAN, J. …Ou pire. In: Scilicet, 4, Paris: Seuil, s.d.

Resumo Trata-se de um texto sobre o que Freud considerou como a via régia do inconsciente – o sonho – com a finalidade de questionar a prática da interpretação. Retomando uma afirmação de Jacques Lacan sobre o sonho como trabalhador ideal em Televisão (1974), levantamos a hipótese de que existem limites da interpretação do sentido do sonho. Para isso, retornamos aos textos de Freud sobre o trabalho do sonho, que introduz a dimensão do gozo, que se revela no desejo de dormir. Um sonho de Freud – sonho de injeção de Irma – vem ilustrar essa vertente de gozo do sonho em que a interpretação se reduz a uma fórmula escrita. Assim, o sonho deixa de ser considerado como mensagem do inconsciente, passando a traduzir um modo de gozo. Isso promove a dimensão da letra para que a interpretação possa tocar no real da experiência do inconsciente.

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Palavras-chave Inconsciente, sonho, interpretação, Lacan, Freud, gozo, real.

Abstract In this paper about what Freud considered as the royal way to the unconscious, – the dream – we want to question the practice of interpretation. Retaking Lacan’s affirmation about the dream as an ideal worker in Television (1974), we make an hypothesis of the limits of the interpretation of the sense of the dream. We return to Freud’s papers about the work of the dream where he introduces the dimension of jouissance which is present in the desire of sleep. One dream of Freud can illustrates this dimension of dream’s jouissance where the interpretation is reduced to a written formula. The dream is no more considered as a message of the unconscious, but a translation of a way of jouissance. This point can promote the dimension of the letter as a form of interpretation that touch the real of the unconscious’s experience.

Keywords Unconscious, dream, interpretation, Lacan, Freud, jouissance, real.

Recebido 08/05/2009

Aprovado 27/07/2009

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trabalho crĂ­tico com os conceitos

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O tempo: um objeto lógico Bernard Nominé O tempo é um conceito difícil de apreender, tanto para os físicos como para os filósofos. Não se pode deixar de imaginá-lo como um rio que corre do passado para o futuro. Mas, temos tanta certeza assim de que o tempo realmente passa? Não somos nós que o imaginamos passar, quando quem de fato passa somos nós? “O tempo vai embora, o tempo vai embora, Madame, infelizmente! O tempo não, nós é que vamos...”, escreveu o poeta Ronsard. O tempo é indissociável do espaço; as distâncias, por exemplo, são com frequência medidas pelo tempo necessário para percorrêlas. Mas o próprio tempo é considerado pelos físicos como um espaço, fala-se do espaço-tempo, e nem todos estão de acordo a respeito de sua estrutura; seria ele plano ou curvo, contínuo ou descontínuo? Para alguns físicos, o espaço-tempo é um bloco rígido que não é absolutamente orientado a priori, a não ser por nós, na medida em que organizamos a sequência dos acontecimentos segundo um princípio, que é o princípio da causalidade. Mas trata-se de uma construção mental, e sabemos até, a partir de Freud, que o inconsciente é capaz de fabricar uma causalidade psíquica que parece funcionar inversamente ao tempo que passa. O tempo que passa não é, portanto, um real em si, só o presente é real. Poderíamos muito bem definir o real como presente, sempre eternamente presente. Porém, como fixar esse real sempre presente? Escrevendo, quer dizer, historiando, ordenando o real como passado. Nesse sentido, o passado está do lado do simbólico. Restaria então o imaginário para o futuro, o que lhe cairia muito bem. A percepção do decorrer do tempo depende, então, da consciência, que deve poder integrar o que é presente, relacionar o que é presente ao passado e distingui-lo do que se projeta do futuro. Provavelmente, é esse nó que instala o sujeito dentro de uma realidade temporal inteligível. Mas, apesar de tudo, o enodamento desses três registros deixa escapar o objeto que estou procurando delimitar neste trabalho. “Talvez o tempo seja apenas isso, as trindades ou a eternidade do espaço, o que provém de um irremediável encurralamento”1. Esse objeto que escapa ao encurralamento, vou tentar abordá-lo pelo estudo daquele tipo de sonho repetitivo que todos nós temos, em que devemos fazer novamente uma prova na qual já fomos aprovados. No sonho, nos permitimos a fantasia de voltar no tempo e

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1 Lacan. Les non-dupes

errent (1973-74, aula de 11 de dezembro de 1973).

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então sonhamos que estamos em uma época anterior à realização da prova; nós nos reapresentamos para fazê-la, mas sem termos preparado nada. Isso pode se tornar um pesadelo, e ficamos contentes quando acordamos e constatamos que foi apenas um sonho. O que sonhamos refazer é sempre uma etapa decisiva que marcou um antes e um depois, e pela qual nos esforçamos para passar com sucesso. Raramente sonhamos em refazer uma prova em que fracassamos. Frequentemente, aquele que está sonhando sabe, no sonho, que já fez essa prova com sucesso; por que, então, refazê-la? O tema da repreensão está sempre aí e, segundo Freud, ele se aplica a alguma coisa da véspera, a uma conduta regressiva, por exemplo. “Você já é adulto, já viveu muito e ainda continua fazendo bobagens e infantilidades.” Poderíamos também evocar aquele tipo de sonho em que retornamos a uma casa antiga após nos termos mudado, mas voltamos lá como ladrões, pois sabemos que não deveríamos estar mais lá. Essa atmosfera de ilegalidade vai no sentido da interpretação freudiana da repreensão. Mas creio que podemos ir mais longe que Freud nesse assunto. O caráter repetitivo desse tipo de sonho é o índice de um esforço do sujeito para simbolizar um acontecimento importante que é um momento de passagem: uma prova, uma mudança de casa, o desaparecimento de alguém próximo. Se a prova se repete no sonho, é que alguma coisa escapa a essa simbolização, alguma coisa não foi apreendida na representação do acontecimento. Não se trata do acontecimento em si, já que, uma vez mais, não há nenhuma razão para que a aprovação num exame seja difícil de simbolizar. Então, por que fazer como se esse evento feliz não tivesse existido? Em geral, se interrogamos o sujeito que sonha, ele nos diz que, em seu sonho, tem de refazer a prova e age como se não tivesse passado, mesmo sabendo confusamente que isso é falso. Portanto, não é a natureza do acontecimento que constitui um problema, mas sua própria estrutura de acontecimento, isto é, uma etapa significativa que estabelece uma fronteira entre um antes e um depois. A repreensão que o sujeito faz a si mesmo talvez seja, mais que qualquer outra coisa, a repreensão por querer negar a ultrapassagem, por querer voltar ao antes quando ele já está no depois. No entanto, para além do caráter ilícito dessa viagem no tempo que o sonho permite,

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a repetição desse tipo de sonho nos sugere que o sujeito não abre mão de apreender, nessa simbolização, algo de evanescente, algo de inapreensível que se recorta na fronteira entre o antes e o depois. Se as horas do relógio passam de maneira rigorosamente constante, não se pode dizer que, para determinado sujeito, o tempo passa de maneira contínua. A própria noção de acontecimento é testemunha disso. Mas aquilo que constitui um acontecimento para uma pessoa não constituirá necessariamente um acontecimento para outra. Portanto, essa temporalidade de que se trata no acontecimento não tem nada a ver, nem com o tempo que passa, nem com o tempo da História; essa temporalidade diz respeito ao sujeito. Ela tem uma relação tão estreita com o sujeito, que poderíamos dizer que participa dos atributos do sujeito, no sentido gramatical do termo, porque esses acontecimentos aos quais o sujeito se esforça para voltar em seus sonhos são momentos que determinaram aquilo que o sujeito foi, aquilo que ele se tornou, o que ele terá sido quando..., o que teria podido ser se... em resumo, trata-se de tentar simbolizar, de abarcar, da maneira mais próxima possível, esse momento, esse lapso de tempo, esse instante em que tudo se precipitou para tornar o sujeito aquilo que ele é. Não foi por acaso que Lacan utilizou o apólogo dos três prisioneiros para circunscrever aquilo que ele chamou de tempo lógico, aquele instante de pressa necessária para que o sujeito possa se apresentar tal como é e sair da prisão de suas identificações alienantes. Esse tempo lógico é próprio de cada um, ele faz parte de seus atributos, participa do seu modo de ser, mesmo que o sujeito não tenha nenhuma ideia disso. É isso que me faz dizer que esse tempo lógico faz parte da categoria do objeto, tal como Lacan desenhou seu contorno; aliás, é isso que ele acabará dizendo nos comentários de apólogo que fará bem mais tarde em seu ensino, seja no seminário Mais ainda, em que nos diz que o objeto a desempenha sua função na pressa2, seja quando diz categoricamente em Os não-tolos erram, que “o objeto a está ligado a essa dimensão do tempo”3. Em outras palavras, esse objeto que o sujeito tenta agarrar no sonho repetitivo que parece resumir-se, numa primeira leitura, em uma busca do bom tempo perdido, esse objeto na verdade é inatingível porque não tem ser – daí a repetição incansável para tentar abordá-lo.

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2 Lacan. Mais Ainda na

gravação sonora da aula do dia 16 de janeiro de 1973 – que Patrick Vallas me fez escutar – ouve-se claramente isso: A função da pressa é a função deste pequeno apressado (petit a-t [hâté], a-t e hâté são homofônicos). [Na edição em português, de 1985, o trecho referido se encontra na p. 67.]

3 Lacan. Les non-dupes errent (op. cit., aula de 9 de abril 1974).

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4 Jullien. Du “temps”: Éléments d’une philosophie du vivre (2001, p. 30).

5 Lacan. O Seminário, livro 10: a angústia (196263/2005).

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O tempo, como objeto real, não tem ser, é isso que lhe confere sua função mais comum para representar nossa falta-a-ser. Isso é o que já dizia Plotino na Antiguidade grega: o futuro é o lugar onde situamos o que nos falta para ser. Se corremos em direção ao futuro, é com a ideia de lá encontrar mais ser. Dizendo de outro modo, o tempo que nos falta para ser, aquilo atrás de que corremos, nada mais é que a nossa falta-a-ser estrutural. Eu poderia acrescentar que esse objeto em que confiamos por representar nossa falta-a-ser e que se situa, de algum modo, à margem da linguagem, não deixa de ser um produto. O tempo é produzido pelo sujeito que fala. Este não deixa de ter relação com a língua que conjuga. Desde os gregos e os latinos, distinguimos o passado, o presente e o futuro. “Só o fato de conjugar já bastaria para provar que o tempo existe”4. Mas certas línguas não conjugam; é o caso do chinês, em que os verbos não têm desinência. Como decorrência – segundo François Jullien –, não há conceito de tempo no pensamento chinês. A sabedoria chinesa se interessa mais pelo momento do que pelo tempo em si. Em suma, se a filosofia ocidental se esforça, às vezes até a obstinação, em conceptualizar esse produto da linguagem, isso não ocorre por acaso. Para resumir, a esta altura, tentei mostrar como o tempo é um real que personaliza cada um; como ele é um atributo do sujeito particularmente convocado em seu ato na qualidade de acontecimento ou até mesmo de eclosão; como ele é inatingível, embora seja imaginável sob as espécies do tempo que passa, do tempo que falta, do tempo perdido, em suma, da falta-a-ser; e como ele é um produto da linguagem. O que mais falta dizer para convencê-los de que o tempo faz parte da categoria do objeto a? Seria necessário poder destacar sua função na aliena��ão ao Outro, visto que é aí que se pode melhor apreender a função do objeto a de Lacan como resto da operação que tenta inscrever o gozo do vivente no Outro do significante. Em seu seminário A Angústia, Lacan5 esboça cinco estádios para essa inscrição e os relaciona em um tipo de grafo com três níveis. Preciso ver então como inscrever o tempo nessa construção, deixando bem claro que não me proponho a adicionar um sexto estádio. Basta reler a aula de 19 de junho de 1963 para perceber que o que

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permite a Lacan fazer a relação dessas cinco apresentações de objeto a é a função do tempo articulado à linguagem, já que essa esquematização é a do grafo. Trata-se de um percurso vetorizado, e esse vetor poderia ser chamado vetor do tempo. Mas esse percurso vetorizado não é retilíneo, o vetor sobe como se houvesse uma progressão do estádio oral para o estádio anal, para chegar ao fálico e, nesse estádio, o vetor se inverteria como se ocorresse uma regressão para o nível inferior onde Lacan inscreve a função do olhar, no mesmo nível do estádio anal, depois em direção ao nível ainda mais inferior, onde situa a função da voz, que se encontra no mesmo nível do estádio oral. Essa construção de Lacan sempre me pareceu muito importante. Ela articula demanda, desejo e mais gozar, e são necessários esses três registros para apreender a função lógica do objeto a. Na linha montante desse percurso, é possível situar o tempo da alienação que se declina em dois níveis, o nível oral e o nível anal. No nível oral, o bebê, totalmente dependente, tem de se adaptar à exigência da demanda do Outro, que impõe suas escansões na satisfação da necessidade. É aí que o Outro se mostra como o senhor do tempo: “minha hora será a tua”. Isso é reforçado no nível anal, em que o Outro impõe, mais claramente ainda, a sua hora para a satisfação das necessidades. Exceto que, neste nível, o sujeito já está um pouco mais em condição de se opor, já que consegue se conter, o que lhe permite inverter o processo e pretender impor ao Outro sua hora, fazendo-se esperar. Aqui, estamos no tempo da alienação, e acredito que podemos assimilá-lo ao instante de ver do sofisma dos três prisioneiros, já que a mesma lógica aí prevalece: aí, o sujeito avalia o que sua identidade deve ao Outro. O terceiro nível, onde Lacan inscreve o estádio fálico, é o tempo em que o sujeito consegue apreender o sentido de sua alienação; o objeto oral e o objeto anal, ao responder à demanda do Outro, são aí avaliados conforme o padrão do objeto de desejo do Outro, isto é, o falo. O que se opera neste estádio fálico é então uma tradução, por isso penso que podemos situar aí o tempo para compreender; mas essa significação somente pode intervir em determinado momento; trata-se de toda a questão da fase fálica descrita por Freud, ela opera no depois. É preciso tempo para compreender. Mas, quando o sujeito compreende, ele adota o sentido que vem do Outro e, de

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6 Lacan. O Seminário, livro

11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964/1990, p. 111).

7 Lacan. Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola (2003, p. 260).

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certa maneira, já é tarde demais, ele perdeu o encontro com aquilo que o causa, aquilo que deixa a desejar, por causa de um pequeno nada que torna os objetos da demanda inadequados ao desejo do Outro. É nesse descompasso que o objeto a encontra sua função, e é também aí que o sujeito encontra o seu lugar, pela impossibilidade de constituir-se Um com o Outro. Entramos neste ponto em uma outra temporalidade, não se trata mais do tempo para compreender, mas da pressa para realizar o ato que separa, o ato que muda a perspectiva, o ato que se impõe pela lógica do objeto mais-gozar que opera como um relâmpago, seja o olhar ou a voz. Estamos aqui na linha descendente do percurso vetorizado que enlaça o olhar e a voz, dois objetos que estão em jogo na aposta da separação que se sucede ao tempo da alienação. É aí que se deve situar a função da pressa, e essa função da pressa é o negócio desse objeto a, objeto apressado especialmente em seu aspecto de olhar ou de voz, raramente visto, raramente ouvido, a não ser de maneira extremamente fugaz. O tempo não é mais de jeito nenhum o tempo do Outro, é o tempo do sujeito, o tempo como traço característico do sujeito, o tempo que o especifica e que o faz existir, digamos até mesmo que o causa. O olhar e a voz deveriam então ser considerados como presentificações da temporalidade do sujeito, temporalidade particularmente demonstrada em certos atos criativos, como no gesto do pintor, por exemplo. Lacan situa, assim, na pincelada do pintor, a temporalidade original6 que caracteriza sua relação com o Outro a quem se dá a ver. Mas essa temporalidade original é também aquela que deve emergir no fim da análise. Não é por acaso que Lacan inventa esse dispositivo que chamou de passe. Aquele que se apresenta ao passe não encontra um analista veterano que passou, mas um passador para o qual está presente esse momento particular da análise que lhe permite abrir os olhos e os ouvidos. “Donde se poderia esperar, portanto, um testemunho correto sobre aquele que transpõe esse passe, senão de um outro que, como ele, o é ainda, esse passe?”7 Essa é uma formulação curiosa. Lacan não diz que o passador está no passe, mas que ele o é. Não se trata de um espaço onde se pode estar, é um puro momento, e o sujeito é assimilado a esse momento. Como compreender essa formulação, a não ser considerando que o passe é assimilável ao encontro do sujeito com sua temporalidade

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original, quer dizer, com o objeto lógico que o causa? Se pensarmos bem nisso, é algo que se experimenta em tudo o que tem a qualidade de um ato. O sujeito coincide aí com sua temporalidade original, o que confere a ambos – tanto ao sujeito quanto a esse momento – uma densidade inteiramente particular. É a esse tipo de encontro, não tão frequente na vida, que uma análise pode conduzir. Mas, para isso, é preciso tempo. Nesse sentido, a experiência da análise situa-se à margem da moda, ela não se preocupa com o tempo que passa, com o tempo perdido, com o tempo ganho, maneiras equivalentes de conceber, de dar forma à falta-aser. No entanto, Lacan nos mostrou que esta prática é fundada no manejo do tempo como operador lógico. Eis por que uma análise pode levar o analisante a fazer o luto do tempo perdido e a não ser obnubilado pelo tempo que passa, mas a saber apreender o momento em que pode se realizar.

Tradução: Silvana Pessoa e Eliane Fittip Revisão: Sílmia Sobreira

Referências bibliográficas JULLIEN, F. Du “temps”: Éléments d’une philosophie du vivre. Paris: Éditions Grasset, 2001. LACAN, J. O Seminário, livro 10: a angústia (1962-63). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2005. LACAN, J. O Seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1990. LACAN, J. Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola. In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003, pp. 248-264. LACAN, J. O Seminário, livro 20: mais, ainda (1972-73). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985. LACAN, J. O Seminário: les non-dupes errent (1973-1974). Inédito.

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Resumo Por meio do estudo de um tipo de sonho repetitivo, em que o sonhador deve fazer novamente uma prova na qual já foi aprovado, o artigo discute a função que o objeto a desempenha na pressa, articulando-o como acontecimento que se precipita para determinar o sujeito. Articula, ainda, o tempo lógico ao grafo das cinco apresentações do objeto a que Lacan formula no seminário A angústia. Por fim, discute o passe como puro momento ao qual o sujeito é assimilado, instante do encontro do sujeito com sua temporalidade original, isto é, com o objeto lógico que o causa. Conclui-se que é a esse tipo de encontro, não tão frequente na vida, que uma análise pode conduzir.

Palavras-chave: Tempo lógico, objeto a, função da pressa, temporalidade, acontecimento.

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Abstract Through a study of repetitive dream type, in which the dreamer must redo a test he has already passed, the article discusses the function that object a hurriedly performs, articulating it as an occurrence which rushes to determine the subject. It still articulates the logical time to the graph of the five representations of object a  which Lacan formulates in the seminar The Anguish. Finally, it discusses the pass as a pure moment to which the subject is assimilated, an instant of the encounter of the subject with its original temporality, that is, with the logical object that causes him.  The conclusion is  that this is  the type of encounter, not so  frequent in life, to which an analysis can conduct.                                                                                                                         

Keywords Logical time, object a, function of hurry, temporality, occurrence.

Recebido 21/04/2009

Aprovado 15/06/2009

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Tempo e entropia Sonia Alberti “Não existe tempo no mundo não transformado, não medido, não analisado”. Dr. João Luiz Kohl Moreira, físico. Começo com a psicanálise em seu tempo para o que isolo nosso tempo em relação à ciência, uma das muitas referências nesse amplo tema. Para introduzir diretamente a questão, digamos que na época da criação da psicanálise com Freud o campo da física vivia um grande reboliço! Com efeito, em 1905, quando Freud publicava a primeira versão de seus “Três ensaios da sexualidade”, Einstein formulava a teoria da relatividade! E qualquer um de nós sabe o quanto aqueles Ensaios e essa teoria significaram para todo novo tempo então inaugurado!

A entropia, a neguentropia e a informação

O termo de entropia – referido por Freud em 1920 para articular a pulsão de morte, como sabem – foi lançado no campo da física em 1862, por Clausius. Num sistema, se ele não está recebendo nada de fora, como diria Boltzmann (1844-1906), a energia vai se dissipando e a entropia vai crescendo. Naquele tempo, o alcance da operacionalidade do conceito não foi bem medido porque seriam precisas – para além da teoria da relatividade – várias outras contribuições que se acrescentaram à sua primeira formulação. Note-se que Lacan acompanhava os desenvolvimentos do conceito, o que se verifica nas referências que a eles fez ao longo de seu ensino mesmo se estas não foram muitas, de acordo com as minhas pesquisas. Sublinho particularmente a seguinte, encontrada em seu Seminário 17, O avesso da psicanálise: “[...] não há somente a dimensão da entropia no mais-de-gozar. Há outra coisa, que alguém percebeu, é que o saber, isso implica a equivalência entre essa entropia e uma informação”1. Com efeito, as várias outras contribuições que se acrescentaram à primeira formulação da entropia encontraram seu ápice com a contribuição vinda da teoria da informação, na década de 1940. Num texto de Michel Bousseyroux lê-se que a teoria da informação nasceu “graças às pesquisas de Nyquist, Hartley e, sobretudo Shannon, sobre o telégrafo e o telefone da Companhia Bell”2 – Stylus Rio de Janeiro nº 18 p. 1-192 abril 2009

1 Lacan. Le Séminaire, livre XVII: L’envers de la psychanalyse (1969-70/1991, p.94). No original: “[...] il n’y a pas que la dimension de l’entropie dans ce qui se passe du côté du plus-dejouir. Il y a quelque chose d’autre, dont quelqu’un s’est aperçu, c’est que le savoir, ça implique l’équivalence entre cette entropie et une information”. 2 Bousseyroux. Réponses aux questions (www.champlacanienfrance.net/IMG/ pdf/mbousseyroux.pdf, p. 1).

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3 Lacan. L’Etourdit (1973). 4 Ibid., p. 46. No original: “une fonction de code s’y exerce par ou se fait la néguentropie de résultats d’observation. Bien plus, des conduites vitales s’y organisent de symboles en tout semblables aux nôtres (érection d’un objet au rang de signifiant du maître dans l’ordre du vol de migration, symbolisme de la parade tant amoureuse que du combat, signaux de travail, marques du territoire), à ceci près que ces symboles ne sont jamais équivoques”. 5 Negative entropy or negentropy or syntropy of a living system is the entropy that it exports to maintain its own entropy low. The concept and phrase were introduced by Erwin Schrödinger in his 1943 popular-science book What is life?. Later, Léon Brillouin shortened the phrase to negentropy, to express it in a more “positive” way: a living system imports negentropy and stores it. [...] In a note to What is Life? Schrödinger explained his use of this phrase: “[...] if I had been catering for them [physicists] alone I should have let the discussion turn on free energy instead. It is the more familiar notion in this context. But this highly technical term seemed linguistically too near to energy for making the average reader alive to the contrast between the two things” (NEGENTROPY, http://en.wikipedia.org/wiki/ Negentropy). 64

que o autor identifica como “as primeiras latusas”. Ao identificarem a informação como inversa à entropia, os teóricos da informação permitiram que se levantasse a hipótese de que a entropia é gerada num sistema na proporção inversa do acúmulo de informação. Se esse sistema é vivo, ele exporta entropia (Schrödinger), o que equivale a dizer que ele é neguentrópico ou, ele importa neguentropia (Brillouin) e a acumula, importa informação e a memoriza, visando à maior duração da vida e sua manutenção. Como aponta Lacan3 em “L’étourdit”, os animais nisso fazem de nós seus caçulas, pois é: [...] uma função de código que aí se exerce através da qual se dá a neguentropia de resultados de observação. Mais que isso, condutas vitais aí se organizam a partir de símbolos perfeitamente semelhantes aos nossos (ereção de um objeto ao nível de significante do mestre na ordem do voo de migração, simbolismo da parada amorosa e do combate, signos de trabalho, marcas do território), com exceção do fato de que esses símbolos jamais são equívocos4.

Eis porque foi possível a Freud identificar as pulsões de vida na contramão da entropia: elas dizem respeito aos investimentos das informações – os traços mnêmicos que armazenamos em cadeias associativas. Se entendemos o saber como inscrição de informação, então, como diz Bousseyroux, o “reservatório das informações” é neguentrópico5, enquanto que o campo dos gozos é entrópico, já que os gozos só se recuperam sob a condição de uma entropia. “Se a neguentropia tem o sentido inverso da entropia física, então, quanto mais o campo das latusas aumenta – e ele ciberaumenta! – mais crescem as perdas produzidas”6. Assim, ao mesmo tempo em que o telefone e o telégrafo deram a possibilidade aos teóricos da informação de identificar esta com a neguentropia, promoveram o aumento da entropia, pois não é possível telefonar ou telegrafar sem com isso dissipar mais energia e, portanto, aumentar as perdas produzidas.

Três recortes históricos do tempo na física

Na física clássica, o tempo é uma consistência. Acreditava-se que existia algo chamado tempo que fluía e podia ser medido, por fazer parte da estrutura fundamental do Universo como uma dimensão o tempo na psicanálise II


na qual os acontecimentos ocorrem em sequência. Como sistema de referência absoluto, o tempo newtoniano é uma base de referência em que se tomam três dimensões do espaço mais o tempo. O tempo seria, no conceito clássico da física, um “relógio” com marcha sempre constante, sem instante inicial nem final. Este é o princípio da uniformidade do tempo: as coisas mudam, mas o tempo é sempre o mesmo, constante. Seria necessário aguardar Einstein para que se pudesse identificar de que consistência se tratava. Dois séculos depois de Newton (4 de janeiro de 1643 – Londres, 31 de março de 1727), no século XIX mais precisamente, muita coisa começou a mudar. E para construir a relatividade, Einstein, na esteira do trabalho de Maxwell e de Lorentz, passou a situar o tempo como uma grandeza relativa, oposta à concepção realista: [...] o tempo já não se refere a nenhuma espécie de “continente” atravessado pelos acontecimentos, nem tampouco [é] uma entidade que “flui”, mas, no lugar disso, é parte de uma estrutura intelectual fundamental (junto com o espaço e o número) através da qual os humanos sequenciam e comparam os acontecimentos. Esta segunda acepção, [...] sustenta que o tempo não é nem um acontecimento nem uma coisa, não sendo portanto em si mensurável7.

De fato, ao contrário das outras grandezas referentes ao espaço, e que podemos medir com uma régua ou trena, o tempo não seria mensurável. O tempo não se mede, se conta, se cifra, poderíamos dizer com a observação de Lacan8 de que aquilo que se cifra é da ordem do gozo. Não podemos usar uma régua para medir o tempo. Usamos o chamado relógio. Mas o relógio é um dispositivo de contagem. Sejam os badalos de um pêndulo, sejam as batidas de uma mola, sejam grãos de areia ou a frequência de transição de elétrons em órbita de um átomo, todas as formas de medir o tempo são de contagem e não de medida9.

Isso não é sem relação com a observação de Lacan na conferência de 1 de junho de 1972, no bojo de seu curso O saber do psicana-

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6 Réponses aux questions, op.

cit., p. 1. No original: “La néguentropie que ayant le sens inverse de l’entropie physique, est-ce à dire alors que plus le champ des lathouses grandit — et il cybergrandit! — plus s’accroissent les pertes produites [...]”.

7 TIME (http://

en.wikipedia.org/wiki/ Time). Grifo meu.

8 Lacan. Le Séminaire, livre XXI: Les non dupes errent (1973-74, lição de 20 de novembro de 1973).

9 Moreira. O tempo na física (http://www.daf.on.br/ jlkm/Opiniao/O_tempo_ na_fisica.html).

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10 “cuja relação não pode ser expressa por um número inteiro ou fracionário (diz-se de relação de grandezas)”. In: Dicionário Houaiss da língua portuguesa. 11 Lacan. O saber do psicanalista (1971-72, lição de 1 de junho de 1972). 12 Lacan. Le Séminaire, livre IX; L’identification (1961-62).

13 O saber do psicanalista,

op. cit., lição de 1 de junho de 1972.

14 Ibid., lição de 1 de junho de 1972.

15 Time, op. cit.

16 Lacan. D’une question préliminaire à tout traitement possible de la psychose (1956/1966).

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lista. Nessa conferência, Lacan observa o seguinte: teria havido um dia em que os pitagóricos – ainda na Grécia antiga – esbarraram na √2. A √2, justamente, é incomensurável10. Isso teria sido retomado pelos filósofos e, se na época ninguém esteve à altura de responder à questão, nem por isso deixaram de com ela se darem conta de que “o incomensurável existia, e com isso se começava a colocar a questão sobre o que era o número”11. Algo no número furava o número! O tempo, com as mudanças que a física sofreu no início do século XX, tornara-se então uma grandeza relativa, não mensurável. Quando se trabalha na física e se é forçado a escrever as grandezas sem possibilidade de medida, utiliza-se o artifício de anotá-las sempre multiplicadas por i, ou seja, o número imaginário, √(-1), como Lacan12 o retomaria já no Seminário 9, A identificação. Número imaginário, porque permite lidar, de alguma forma, com o real que revela – da mesma forma como o falo revela o furo, ainda no mesmo Seminário 9. E de que real, no contexto? Aquele que faz objeção ao número inteiro: “Em suma, quanto mais se façam objeções ao Um, quer dizer, ao número inteiro, mais se demonstra que é justamente do impossível que em matemática se engendra o real”13. Assim, o tempo passa a ser uma grandeza identificada com o número imaginário, apesar de não haver “nada de menos imaginário do que √(-1)”14, como muito bem Lacan se refere a isso nesse seu Seminário. Articulando isso à primeira lição do Seminário 21, em que Lacan (1973-4) associa e equivale os três registros, real, simbólico e imaginário, concluímos, necessariamente, que a dit-mansion engendrada pela “parte de uma estrutura intelectual fundamental (junto com o espaço e o número) através da qual os humanos sequenciam e comparam os acontecimentos”15, ou seja, o tempo, a partir do momento em que Einstein o derruba como referência absoluta, é o próprio I da articulação dos três registros: real, simbólico e tempo. O fato é que a matemática da qual se serve Einstein, de Poincaré, já é uma topologia em formação. É uma geometria que introduz sentido furando as transformações de Lorenz que auxiliaram Einstein a propor a teoria da relatividade, da mesma forma que observávamos Lacan dizer: o imaginário fura o simbólico porque introduz nele o sentido. Quando estudávamos o plano projetivo no qual se baseia a construção do Esquema R16, não há dúvida que a

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banda de Moebius já estava presente em sua formulação. O plano projetivo que já se impusera na época newtoniana implica o furo, mesmo se é somente com a topologia no século XX que se passará a pensar a partir dos furos!

Informação e tempo

Na realidade, a partir da década de 1940, associando as pesquisas físicas com as da teoria da informação, entende-se que a entropia age no sentido sempre de destruir a informação. Para imaginarizarmos tal constatação, basta lembrar que, não importa o que se faça, um disco vai perdendo a informação à medida que o tempo passa – ele arranha, enche de poeira... ou quebra –, e o mesmo se dá com o achado arqueológico, por exemplo. Isso permite levantar a hipótese de que a ação do tempo não é senão a própria ação da entropia. O tempo é a manifestação da entropia. Logo, o tempo, como grandeza primária não existe, ele é derivado da ação da entropia. O que, evidentemente, provoca a necessidade de se explicar a definição que conhecemos do inconsciente por Freud: ele é atemporal, mas regido, singularmente, pela pulsão de morte – aquela que Freud associa diretamente à entropia. O inconsciente como atemporal é o inconsciente do saber, em que traços mnêmicos se associam e se inscrevem sem levar em conta, minimamente, o tempo que separa uma lembrança da outra. Tal como, aliás, as coisas ocorrem no mundo quântico em que tampouco as coisas ocorrem em qualquer referência ao tempo. Por sua vez, a repetição do gozo sempre o mesmo é o que faz passar o tempo para um sujeito. Se “o tempo tudo apaga”, com o físico Boltzmann e o teórico da informação Shannon é a entropia que “tudo apaga”. O tempo é, portanto, entropia. Ficar jovem, ao contrário, é poder armazenar sempre mais informação e manter ocupados os estados, o que a sabedoria popular conhece muito bem quando se reafirma a necessidade de se ocupar no envelhecimento. Na tentativa de lentificar o efeito entrópico, o psiquismo se complexifica. Ainda no Seminário 17, Lacan identifica a “energética” com a rede de significantes. “Vocês ignoram que a energética é a mesma coisa [...] que um aplique da rede dos significantes sobre o mundo?”17. Para justificar essa conceituação, Lacan sugere a seguinte Stylus Rio de Janeiro nº 18 p. 1-192 abril 2009

17 Le Séminaire, livre

XVII, op. cit., p. 54. No original: “Ignorez-vous que l’énergétique, ce n’est pas autre chose, [...] que le placage sur le monde du réseau des signifiants?”

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18 Ibid., p. 54. No original: “Mais si vous plaquez là-dessus les signifiants, c’està-dire si vous entrez dans la voie de l’énergétique, il est absolument certain qu’il n’y a eu aucun travail”.

experiência: Desçam uma ladeira com 80 quilos nas costas e depois a subam. Para quem o fizer, duvido que isso não tenha sido um grande trabalho! “Mas se vocês aplicarem sobre isso os significantes, quer dizer, se vocês entrarem na via da energética, é cem por cento certo que não houve nenhum trabalho”18. Por quê? Porque para o estudo da mecânica trabalho é força vezes a distância percorrida. Logo, se você desce 80 quilos, a força da gravidade exerce um trabalho equivalente à altura, e na volta a gravidade faz um trabalho negativo igual. Logo, o trabalho da gravidade foi nulo. O problema é que, para a mecânica nessa experiência, trabalho é da força da gravidade que, no exemplo, se anula. Ao se inscrever a ação com significantes da mecânica, não há nenhuma referência à entropia. No máximo, há neguentropia, aumento de informação. Mas essa inscrição também se faz, como vimos, sem referência ao tempo. Nem tempo, nem entropia. Qual é o furo dessa explicação? O furo está no fato de que a ação, ela mesma, não é feita com significantes... para descer você fez um esforço que se perdeu para evitar que os 80 quilos se estabacassem lá em baixo, e para subir você teve que fazer um novo esforço, esforço duplicado para vencer a gravidade. No conjunto, a entropia sobe! A energia usada se dissipou, mesmo se para a mecânica não houve nenhum trabalho. Eis onde entrou também a máxima de Taylor: Tempo é dinheiro que, nesse trabalho com os 80 quilos, se perdeu para sempre – tirando qualquer capitalista do sério... Tempo é um conceito que aparece porque existe entropia. O que acontece nesse instante implica que o que aconteceu dez minutos atrás é diferente do que acontece agora: as coisas aconteceram às expensas do crescimento da entropia, houve um acréscimo de entropia. Por isso criou-se uma escala que acompanha essa mudança, e a essa escala chamou-se tempo.

Os limites do gozo e o tempo lógico

Se o significante é a energética, conforme Lacan, a inscrição dos traços mnêmicos, conforme Freud, então, ao se referir ao significante, não dá para determinar o tempo – como vimos, o inconsciente é atemporal. Isso também coaduna com o princípio da incerteza, de Heisenberg, que ao referir-se ao mundo microscópico – cam-

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po da física quântica – percebeu que num par complementar, por exemplo o par posição e velocidade de uma partícula, não é possível determinar de forma absoluta ambas as grandezas complementares. Se medirmos com precisão absoluta a posição da partícula, não será possível determinar sua velocidade, e vice-versa. Outro par complementar estudado por Heisenberg é justamente o par energia e tempo. Se medirmos a energia de uma partícula não sabemos precisar o instante em que ela a possuía. Se precisarmos o instante em que possuía tal energia, não saberemos em que estado energético a partícula estava. Num primeiro momento, o absolutismo do tempo é desbancado pela relatividade, depois veio a teoria quântica, que o desbancou definitivamente. “[...] o tempo já não é considerado como uma grandeza primária, isto é, uma grandeza de onde se parte para construir ou derivar outras. Há mesmo quem diga que o tempo não existe. Existe sim o movimento, sendo o tempo uma grandeza derivada deste”19. Donde é preciso levantar a hipótese de que se estudamos o inconsciente como atemporal, não se determina com precisão o gozo, e quando se determina o gozo – o tempo – então não dá para definir o significante. Tive a oportunidade de aprofundar a questão do gozo como processo cíclico20 quando tentava entender o que Lacan21 articula em seu Seminário XVI sobre a morte como encontro do limite mais baixo do ponto supremo com o mais alto do ponto ínfimo. O processo cíclico – que não deixa de implicar a repetição, mas a repetição na qual sempre se perde – é, sem dúvida, o processo que permite a contagem do tempo. Contagem do tempo, ciframento e gozo separam-se do inconsciente pela letra que lhes faz litoral22. O que finalmente nos leva à provocação: e o tempo lógico?

O tempo lógico e a castração

Minha visada com este trabalho é contribuir para a discussão da função do tempo numa psicanálise, no que tange à sessão analítica, levando em conta a disjunção entre a produção dos S1 no discurso analítico e a correlata perda de gozo, no mesmo discurso, ou seja, os próprios S1 no lugar do mais-de-gozar23. Como observa Lydia Gomes Musso, nas “Preliminares” de nosso Encontro, a partir do Stylus Rio de Janeiro nº 18 p. 1-192 abril 2009

19 O tempo na física, op. cit.

20 Alberti. O bem que

se extrai do gozo (2007, pp.71-2).

21 Lacan. Le Séminaire, livre XVI: D’un Autre à l’autre (1968-69).

22 Lacan. Le Séminaire, livre XVIII: D’un discours qui ne serait pas du semblant (1971-72a).

23 Cf. o artigo O bem que

se extrai do gozo (op. cit., pp.71-2), no qual se verifica a mudança dos lugares nos discursos a partir dos desenvolvimentos na conferência de 3 de fevereiro de 1972 sobre “O saber do psicanalista”.

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24 Lacan. Position de

l’inconscient (1964/1966).

25 Musso. A Transferência

é a intromissão do tempo de saber no inconsciente (2007, p. 1).

26 Cf. Le Séminaire, livre IX, op. cit.

27 Lacan. La direction de la cure et les principes de son pouvoir (1958/1966).

28 Lacan. Le Séminaire, livre XI: Les quatre concepts fondamentaux de la psychanalyse (1964/1973, p. 74). No original: “[...] la rectifier c’est le devoir de l’analyste, dans l’interprétation du transfert”. 29 Ibid., p. 146. No original: “que l’inconscient se referme par le moyen du transfert”. 30 Ibid., p. 21. No original: “a découvert les mécanismes de l’inconscient. Que ce rapport du désir au langage comme tel ne lui soit pas resté voilé est justement là un trait de son génie, mais ce n’est pas encore dire qu’il ait [...] pleinement élucidé [...] la question massive de transfert”.

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texto Posição do inconsciente24, desde cedo Lacan imiscui tempo e transferência e ela cita: “Eis porque a transferência é uma relação essencialmente ligada ao tempo e ao seu manejo”25. Gostaria de articular a conclusão de meu trabalho a essa observação que é aqui também uma homenagem à nossa colega que queria estar entre nós nesses dias, mas nos deixou em 9 de janeiro passado. Levanto minha hipótese: o corte na transferência, o corte como significante26, introduzindo o tempo lógico, interrompe o processo cíclico entrópico, promovendo, em consequência, a neguentropia. Estratégia do psicanalista, conforme a Direção do tratamento e os princípios de seu poder27 , a transferência é repetição, mas da tiquê (répétition à la tyché), e é dever do analista retificá-la na interpretação28. Lacan lembra, em seu Seminário 11, que a transferência é, antes de mais nada, conforme Freud, Übertragnungswiderstand – resistência da transferência –, na medida “que o inconsciente se fecha por meio da transferência”29. Rendendo homenagem, por sua vez a Freud, Lacan observa nesse Seminário que ele “descobriu os mecanismos do inconsciente. Que a relação do desejo à linguagem como tal não ficou velada para ele é justamente o traço de sua genialidade, mas isso ainda não é dizer que ele tenha [...] plenamente elucidado [...] a questão da transferência”30. Em sua tentativa de fazê-lo então, Lacan – que até o final de seu ensino articula a transferência ao amor –, propõe que a parte de real do sujeito “interessada na transferência, que é ela que fecha a porta, ou a janela, ou a veneziana, como queiram, e que a bela com quem se pode falar está atrás, que ela só demanda reabrir a veneziana. E é bem por isso que nesse momento a interpretação se torna decisiva, pois é a ela que devemos nos dirigir”31. Esta “bela” que podemos associar à elaboração de Lacan do desejo do psicanalista ainda nesse mesmo Seminário, solicita a interpretação como ato analítico, a provocar a reabertura do inconsciente e, por conseguinte, a retomada da atemporalidade. Então, “que o inconsciente se fecha por meio da transferência” é a constatação do efeito, ele mesmo, entrópico da própria psicanálise, e introduzir aí o tempo lógico – e já não repetir o cronológico – é transformar tal efeito entrópico em ato analítico a reinserir a função da atemporalidade e assumindo, por sua vez, o lugar de objeto a que o faz cair da idealização, sem o que, a “transferência seria uma pura e simples obscenidade”32. Por quê? Porque reintroduziria, necessariamente, o ciclo das repetições de sempre “o mesmo fracasso”33. o tempo na psicanálise II


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31 Ibid., p. 147. No original: “intéressée dans le transfert, que c’est elle qui ferme la porte, ou la fenêtre, ou les volets, comme vous voudrez, et que la belle avec qui on peut parler, est là derrière, que c’est elle qui ne demande qu’à les rouvrir, les volets. Et c’est bien pour cela que c’est à ce moment que l’interprétation devient décisive, car c’est à elle qu’on a à s’adresser”. 32 Lacan. Le Séminaire, livre XV: L’acte psychanalytique (1967-68). No original: Le “tranfert serait une pure et simple obscénité”. 33 Le Séminaire, livre XI, op.cit., p. 165. No original: toujours du “même ratage”.

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MUSSO, L. (2007). A Transferência é a intromissão do tempo de saber no inconsciente. Disponível em: <http://www.vencontroifepfcl.com.br/textos/pre6TransferPT.pdf>. Acesso em julho de 2008. NEGENTROPY. Disponível em: <http://en.wikipedia.org/wiki/ Negentropy>. Acesso em julho de 2008. TIME. Disponível em: <http://en.wikipedia.org/wiki/Time>. Acesso em julho de 2008.

Resumo Baseando-me na referência freudiana que associa pulsão de morte e entropia, o que por si só já justifica reexaminar as origens e o desenvolvimento do termo emprestado da física para um estudo psicanalítico, esse texto visa examinar a relação entre tempo e entropia para verificar a hipótese do tempo como entrópico. Verifica-se tal hipótese tanto na física quanto na psicanálise, servindo-se da evolução do conceito de tempo na física, das contribuições da matemática e das referências de Lacan à neguentropia.

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Palavras-chave Tempo, entropia, pulsão de morte, psicanálise e física.

Abstract Freud’s reference which associates the death drive and entropy, justifies an attempt to reexamine the origins and developments of the concept in physics and it’s possible application to psychoanalysis, particulary the relation between time and entropy and the hypothesis of time as entropy. This is verified in physics and psychoanalysis, through the examination of the evolution of the concept of time in physics, the contributions of mathematics and the references Lacan does to neguentropy.

Keywords Time, entropy, death drive, psychoanalysis and physics.

Recebido 08/05/2009

Aprovado 29/06/2009

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Sob a persistência do real: memória e tempo1 Ângela Mucida O real freudiano: memória, inconsciente e tempo Malgrado Freud não tenha formulado o conceito de real e, muito menos, feito dele um operador clínico tal como Lacan, a Psicanálise não teria sido inventada se ele não tivesse suportado e sustentado sua clínica sob isto que jamais se universaliza. É sob o real que persevera sempre na memória e no trauma, bem como em todos os conceitos fundamentais que alicerçam a prática analítica, que Freud sustentou um método calcado no caso a caso. A forma de Freud operar com a direção do tratamento inaugura uma concepção inédita de tempo, o a posteriori: tempo que, retroagindo, provoca efeitos de sentido. O corte no tempo de cada seção impõe uma distância entre o dito e o dizer abrindo a novas traduções. O funcionamento da memória ocupou o centro de muitos debates na obra de Freud, e algumas das teses desenvolvidas desde os primórdios da Psicanálise encontram hoje ressonância nas descobertas da Biologia. A tese fundamental de que uma vez marcados os traços não morrem jamais, é atual. A Ciência se indaga agora, porque, indestrutíveis, esses traços não podem ser lembrados. Questão bastante discutida por Freud em torno dos mecanismos da amnésia infantil, dos esquecimentos e das lembranças encobridoras. Na Carta 52 Freud2 apresenta um aparelho psíquico constituindo-se por traços, conforme figura abaixo.

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1 Artigo apresentado no V Encontro Internacional da Escola dos Fóruns do Campo Lacaniano, São Paulo, julho de 2008, com modificações e acréscimos em abril de 2009.

2 Freud, Carta 52 (1896/1977).

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3 A propósito ver Lacan, Préface à l’édition anglaise du Séminaire XI (1976/2001, p. 571): “Só temos certeza de estar no inconsciente quando o lapso não comporta mais nenhum sentido”; e O Seminário, livro 23: O sinthoma (1975-76/2005, capítulos IX e X). 4 Freud, Projeto para

uma psicologia científica (1895/1977).

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De um lado e do outro, separados por intervalos de três tempos, situa-se o sistema percepção-consciência. Os primeiros traços da percepção constituem-se os primeiros traços da memória e o primeiro tempo da constituição do sujeito. Tempo originário regido por traços de percepção, fixados e intraduzíveis, delimitando uma relação estreita entre sujeito, tempo e memória. Podemos afirmar com Freud que o sujeito é também um efeito do tempo e da memória, já que esta é a primeira apreensão do tempo. Esse tempo primordial, escrito por traços que não se apagam, só pode ser traduzido parcialmente pelo segundo tempo, tempo de ligação, e o terceiro, das representações verbais. Entre o primeiro e o segundo tempo, há uma barra ao sentido, barra à tradução, impondo uma falha originária no tempo que percorrerá todo o funcionamento da memória traduzindo, a nosso ver, o que Lacan nomeia de “debilidade” do sujeito para tratar a precoce incidência do Outro em sua constituição. Desse tempo, diríamos sincrônico, o sujeito só encontra traduções possíveis pela diacronia da historicidade de sua cadeia significante. Com Lacan, podemos reler de maneira sintética esse tempo primordial como o tempo real, do inconsciente como real. Mesmo que Freud não tenha indicado da mesma maneira que Lacan essas duas maneiras de o inconsciente se apresentar – metafórico, que faz cadeia e se interpreta, e ligado ao real, avesso ao sentido – 3, algumas indicações freudianas fazem eco à relação entre inconsciente e real indicada por Lacan, em especial após os anos 70. E, mesmo que, ao contrário de Lacan, Freud tenha encontrado no inconsciente acossado ao irrepresentável o rochedo intransponível de uma análise, algumas indicações desde os primórdios da psicanálise demonstram que ele nunca foi desavisado sobre os limites da verdade e do saber no percurso de uma análise. Suas teses sobre a memória assentamse, da mesma forma, sob a concepção de que algo não se traduz. Em Projeto para uma psicologia científica4 temos a distinção de dois tipos de células: as “perceptivas”, que são permanentemente influenciadas, e as mnêmicas, imutáveis que se encontram livres das influências das excitações inéditas, colocando em cena um tempo que não pode ser recuperado. Esse tempo marcado pelos primeiros traços de percepção, traços que não se alinham ao sentido, forma primordial da memória, assemelha-se aos significantes esvaziados o tempo na psicanálise II


de sentido tal como definidos por Lacan: não fazem cadeia, não sofrem a erosão do tempo, não podem ser nomeados, mas têm efeitos sobre tudo que ocorre depois. É o tempo do trauma, do recalque originário, do inconsciente intraduzível, da repetição e do real que constitui também a memória. Essa falha inaugural delimita a impossibilidade de que esses traços façam uma cadeia de sentido, indicando a primeira e fundamental vicissitude da memória; antes de falar, articular um discurso e tentar traduzir o tempo marcado, o sujeito já foi falado, nomeado, contado por um tempo anterior, que não se recupera jamais. O segundo e o terceiro tempo permitem certo tratamento ao real, implicando com isto que algumas ligações, cadeias, traduções e rearranjos tornam-se possíveis, mas sustentados pelo impedimento da primeira e irrecuperável apreensão do tempo. Nem tudo pode ser traduzido e recuperado. Assim, esse “bom tempo” de cada dia – parafraseando Lacan5 em relação ao bom recalque, recalque secundário –, algo é transcrito e traduzido, instituindo um sentido, e isto não opera sem essa alienação fundamental e inaugural. A memória é o que se recorda e como se recorda no tempo que passa, marcado por essa barra à recordação; proteção do aparelho psíquico contra o excesso de sofrimento, limite à sincronia e ao deslizamento significante. Isto indica uma maneira tendenciosa ou ficcional da memória operar já que os traços marcados sofrem de tempo em tempo novas traduções, transcrições, portanto, deformações e falsificações sob a persistência de um tempo que não se recupera jamais.

5 Lacan, O Seminário, livro 20: Mais ainda (197273/1985).

As lembranças que encobrem e os três tempos da memória

Essa maneira tendenciosa da memória operar foi especialmente articulada por Freud em torno das lembranças encobridoras. Estas guardam uma relação íntima com os esquecimentos já que, passando pelos dois modos de funcionamento mental, condensação e deslocamento, mesclam impressões importantes com cenas aparentemente sem nenhuma importância, mas que, ao serem analisadas indicam uma relação estreita com algo penoso. Uma parte da realidade vem à tona a partir de um fragmento escolhido. Stylus Rio de Janeiro nº 18 p. 1-192 abril 2009

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6 Freud, Além do princípio do prazer (1920/1976, p.31).

7 Ibid., p. 31.

Se as impressões mais arcaicas deixam marcas que não se apagam e influenciam a cadeia que cada sujeito irá compor no curso da vida, é também fato de que só temos dessas impressões pequenos vestígios disjuntos que não se encadeiam. Tudo isto levou Freud a afirmar que não temos lembranças da infância, mas lembranças relativas à nossa infância, já que sofrem a distorção do tempo e são impregnadas de sensações, interpretações e imaginação ao serem despertadas posteriormente. A forma de conceber a memória incide ainda sobre a direção do tratamento. Se no começo de sua obra Freud considerava como tarefa do analista “preencher” as lacunas na memória, em Além do princípio do prazer a direção do tratamento passaria por uma estratégia diferente daquela adotada até então que fazia da análise uma arte interpretativa. Freud é muito preciso ao afirmar a importância da construção em análise. Isto que ele nomeia como “construção teórica do analista com sua própria memória”6 pode ser lido como uma escuta que permite extrair o que da memória sempre falha. Não se trata mais de recompor um texto estruturalmente falho, já que Freud ratifica a tese de tornar consciente o inconsciente, mas de tratar de outra maneira a repetição desse tempo que não se apaga, promovendo uma torção no tempo ao operar pela transferência uma substituição da neurose primitiva pela neurose de transferência que pode ser liquidada. O médico empenha-se por manter essa neurose de transferência dentro dos limites mais restritos; forçar tanto quanto possível o canal da memória, e permitir que surja como repetição o mínimo possível. [...]. O médico não pode, via de regra, poupar ao paciente essa face do tratamento. Deve fazê-lo reexperimentar alguma parte de sua vida esquecida, mas deve também cuidar, por outro lado, que o paciente retenha certo grau de alheamento, que lhe permitirá, a despeito de tudo, reconhecer que aquilo que parece ser realidade é, na verdade, apenas reflexo de um passado esquecido7.

Na Conferência XXXI lemos que “cada transcrição subsequente inibe a anterior e lhe retira o processo de excitação. Se falta uma transcrição subsequente, a excitação é manejada segundo as

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leis psicológicas vigentes no período anterior e consoante as vias abertas a essa época.”8 Isto indica que a seleção das impressões recebidas se dá em conformidade a um tempo no qual essas experiências ocorreram e não com a lógica que governa a época em que são lembradas. Nessa direção Freud nos apresenta a tese do anacronismo, erro de cronologia no funcionamento da memória e do tempo; atribui-se a uma época ou a um personagem ideias e sentimentos que são de outra época. Nesse mecanismo encontram-se os fueros, palavra do espanhol antigo que remete a uma lei antiga que vigora em alguma província e garante os privilégios perpétuos dessa região. Vemos que Freud não mede esforços para falar da dominância desse tempo diante do qual nenhuma apelação é possível. Em O bloco Mágico, Freud9 retoma algumas das teses indicadas na Carta 52 e outras teses sobre a memória de 1920, valendo-se agora da escrita no bloco mágico. Nesse dispositivo descrito por Freud uma prancha de cera ou resina tem sobre ela uma folha fina e transparente que se desdobra em duas; a inferior é de papel fino e transparente e a superior é um celuloide transparente. Escrevendose sobre essa superfície exterior do papel encerado com um estilete que toca também a parte inferior e a prancha, surge uma escrita preta sobre o celuloide. Levantando-se a folha dupla a escrita desaparece. Todavia, há traços permanentes deixados sobre a prancha de cera “que podem ser vistos sob uma luz apropriada.”10 O sistema percepção consciência é comparado à cobertura de celuloide; camada protetora dos efeitos vindos de fora que recebe traços, mas não é capaz de retê-los, enquanto o papel encerado e a prancha constituem-se os fundamentos da memória e o inconsciente. Em Lituraterre, Lacan11 retoma a noção do Um12 no registro psíquico presente na tese do “Bloco Mágico”. Lembramos que esta é também a concepção de inconsciente para Freud conforme pode ser visto também na Carta 52; o recalque tenta apagar toda cota de afeto e de inscrições, mas persiste a marca material que impõe maneiras posteriores de escrever e traduzir. E Freud acrescenta: “Tive ainda a suspeita de que esse método descontínuo de funcionamento do sistema Pcpt.-Cs. jaz no fundo da origem do conceito de tempo.”13

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8 Freud, A dissecação da personalidade psíquica. Conferência XXXI (1933/1976, p.319).

9 Freud, Uma nota sobre o bloco mágico (1925/1976).

10 Ibid., p.287. 11 Lacan, Lituraterre (1971/2001, p. 15). 12 Lembramos que a

noção de Um já se encontra em Mais ainda (Lacan, 1972/1981, p.65) associado ao que não faz cadeia, encontra-se disjunto e sem relação.

13 Uma nota sobre o bloco mágico, op. cit., p. 290.

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14 O Seminário, livro 20, op. cit.

15 Lacan, O Seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964/1998, pp. 35-6).

Podemos distinguir, pois, três ideias de tempo que marcam três maneiras da memória operar: o tempo marcado pelo impossível de se apreender, mas efetivo e que não se apaga; o tempo marcado pela descontinuidade e pelo temporal, e o tempo que regredindo, a posteriori, tem efeitos de sentido sobre o presente e o futuro. Mas ambos arrastam consigo os rastros desse tempo primário, tempo livre, para nos lembrarmos do escoamento livre de “energia” do processo primário. Isto também pode ser associado ao que indicamos acima, significantes que escoam livres, sem formarem cadeia, sem sentido ou o que foi formalizado por Lacan14 como letras. Com Lacan: O aparecimento evanescente se faz entre dois pontos, o inicial e o terminal, desse tempo lógico – entre um instante de ver em que algo é sempre elidido, se não perdido, da intuição mesma, e esse momento elusivo em que, precisamente, a apreensão do inconsciente não conclui, em que se trata sempre de uma recuperação lograda15.

“Recuperação lograda” que abre à memória sentidos possíveis, transitórios e contingentes diante de um tempo perdido. Se a memória é uma função do tempo, ela o atualiza, carregando suas falhas, buracos, interstícios inassimiláveis presentes na realidade psíquica; conceito que, segundo Lacan, enodaria em Freud os três tempos (passado, presente e futuro).

Topologia e tempo

Para além das noções sempre complicadas de passado, presente e futuro Lacan expõe a teoria do tempo lógico indicando outra forma de conceber o tempo para além das determinações do relógio. No instante de ver, algo retido como traço toma só depois, nesse tempo de compreender, sentidos possíveis pelos desdobramentos necessários da cadeia significante. É necessário tempo, dirá Lacan, para que nessas voltas no tempo o sujeito construa, no momento de concluir, outras traduções desse tempo perdido e irrecuperável. Em O Sinthoma ele indica uma associação entre topologia e tempo, propondo um enodamento entre R.S.I (real, simbólico e 80

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imaginário) por um quarto termo, o sinthoma. Trata-se de um enodamento que permite reparar a cadeia, mantendo juntos R.S.I e a especificidade de cada um como ex-sistência, buraco e consistência16. Independentemente da estrutura, o sinthoma refere-se a uma invenção singular do sujeito, diante da debilidade em face da sua constituição. Na análise, acentua Lacan, trata-se de ensinar o analisante a emendar seu sinthoma e o real que paralisa o gozo a um gozo possível17, afirmando dessa maneira um enodamento dos tempos. O sinthoma permite instaurar uma nova maneira de tratar o tempo. Essa maneira topológica de conceber o tempo encontra algumas ressonâncias nas indicações de Heidegger com o conceito de quarta dimensão e no extratemporal de Proust.

16 Lacan, O Seminário, livro 23: O sinthoma (197576/2005).

17 Ibid., p. 71.

Quarta dimensão do tempo e o extratemporal

Em Tempo e ser, Heidegger faz uma conjunção entre Ser e tempo pelo conceito de “presentar”. Presentar não é o presente enquanto “agora”, não é uma sequência no tempo, não é o futuro. Nele encontra-se também o “ausentar” ainda não presente, seja pelo que passou ou ainda não se apresentou no presente. O ser-aí, Dasein, situa-se em uma trama do tempo na qual o retorno ao passado é também um devir, um porvir ou antecipação no presente de um tempo a advir. “O que está no tempo e dessa maneira é determinado pelo tempo chama-se temporal... O temporal significa o transitório, o que passa no decurso de tempo”18. Mas, o tempo que passa permanece como tempo implicando com isto que ele não desaparece. Para o filósofo, o tempo autêntico é tridimensional, e as três dimensões são “enviseradas” pela quarta dimensão: o presentar-se repousa no “proporcionar-se cada uma à outra [...] não apenas uma espécie, mas uma dimensão efetivamente real [...] Mantém previamente ligados um ao outro na unidade, os modos de alcançar do passado, do futuro e do presente”19. Esta concepção de tempo assemelha-se ao que Proust nomeia de extratemporal, um entrelaçamento das três dimensões do tempo por um traço singular e intraduzível.

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18 Heidegger, Tempo e ser (1979, p.268).

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Ibid., p. 265.

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20 Proust, O tempo redescoberto (1994, p. 152).

[...] o ruído da colher no prato, a desigualdade das pedras, o sabor da madeleine fazendo o passado permear o presente a ponto de me tornar hesitante, sem saber em qual dos dois me encontrava; na verdade, o ser em mim então gozava dessa impressão e lhe desfrutava o conteúdo extratemporal, repartido entre antigo e o atual, era um ser que só surgia quando, por uma dessas identificações entre o passado e o presente, se conseguia situar um único meio por onde poderia viver, gozar a essência das coisas, isto é, fora do tempo20.

Se o gosto da pequena Madeleine (biscoito típico de uma região do sul da França), o pisar no calçamento irregular, os ruídos e cheiros de outrora lhe serviram naquele momento para acalmar os temores da morte, foi porque, ali ele pôde encontrar um traço singular unindo as três dimensões do tempo.

Tempo e discurso

Seguindo essas reflexões, utilizamos “tempos” para indicar as traduções possíveis do real do tempo, intraduzível e fixado. Tempos que circulam, vão com o temporal (o que passa no decurso do tempo), aliam-se aos discursos e incidem sobre os sintomas, provocando vicissitudes da memória. Quais as vicissitudes do tempo e da memória no discurso do capitalista atual? Para Lacan, os discursos são maneiras de tratar o real, constituindo-se em formas de laço social. Nessa direção temos nos quatro discursos formalizados por Lacan (mestre, histeria, analista e universitário) três maneiras de incidência do significante ($, S1, S2) e o objeto a que podem ser lidos como quatro versões do tempo. Conforme figura abaixo, a estrutura discursiva constitui-se de quatro lugares que compõem respostas diferentes ao real conforme os lugares ocupados por $ , S1, S2 e a. Agente

Outro

Verdade

Produção

No discurso do mestre, temos dois tempos da constituição do sujeito: S1 (tempo real e intraduzível) e S2 (tempo da produção do sentido). Entre eles há um intervalo, uma perda, marcando a divisão 82

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subjetiva ($). Como produto dessa operação há um resto, perda que não se recupera (objeto a); tempo que excede, mas não se apreende. Discurso do mestre: S S2 1 a $ Ao introduzir o quinto discurso, discurso do capitalista, Lacan faz uma modificação no discurso do mestre. No lugar do agente está o sujeito e no lugar da verdade está S1. Introduz ainda uma lógica diferente daquela adotada para os quatro discursos retirando a barreira do impossível entre S1 e $, S2 e (a), como pode ser observado no DM, e anulando o impossível entre o $, sujeito dividido, e o objeto de seu desejo (a). No discurso do capitalista observa-se uma flecha que parte dos objetos (a) indo diretamente ao sujeito ($) e outra que parte dos significantes mestres (S1) à cadeia do saber (S2). Discurso do Capitalista S2 $ a S1 Relendo esse discurso com as indicações sobre o tempo, temos nele a prevalência de dois tempos. O tempo real, inassimilável e inapreensível (S1) incidindo diretamente sobre S2, tempo da tradução com a anulação da barra do impossível. Do lado direito desse matema temos a incidência do tempo dos objetos (a) que, mesclando-se como objetos de um tempo que se recupera e não se perde – objetos fabricados pela ciência e o capitalismo moderno e vendidos como possíveis de satisfazer o desejo de cada um –, incide diretamente sobre o tempo do sujeito ($), tentando anulá-lo e convocando-o ao tempo do mais-de-gozar. Tempo bizarro que, procurando apagar o inapreensível e apresentando-se como factível e assimilável, produz sujeitos “enlouquecidos” pelo tempo, tomados pelo tempo, sem tempo... Objeto a ser consumido, precioso e agalmático, o tempo é regido por uma contradição fundamental, quando não o têm o querem, ao tê-lo devem consumi-lo.

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Nos tempos das “memórias curtas”

No tempo das simultaneidades, algumas crianças aceleram demais, já que o tempo é também da desmedida, passando de um objeto e atividade a outros sem que nada lhes detenha a atenção. Os hiperativos sinalizam os efeitos do real do tempo que desliza sem o sinal do “basta”. O imperativo de que tudo circule em um tempo mínimo, com passagens rápidas de um objeto a outro, incide diretamente sobre a memória. Atualizar, renovar, modernizar em um tempo cada vez mais curto, impõe uma forma de memorização alheia à memória subjetiva que demanda um intervalo para que a retenção se processe. Uma analisanda de 73 anos acentua sua dificuldade em memorizar senhas bancárias e números de telefones celulares ao contrário dos fixos “que têm uma lógica”. Entre o fixo e o móvel, uma lógica se impõe: cada um é convocado a memorizar uma gama enorme de senhas para acessar simples transações bancárias. Uma vez escolhida, deve-se mudá-las frequentemente para resguardar o sigilo. O idoso que tende a escolher números ligados à sua história é orientado a não fazê-lo, pois são facilmente descobertos. Na nova ordem da memorização instantânea e artificial impera o corte com a história. Na contramão do novo, os idosos são convidados a esquecerem suas lembranças e a história, sempre fora dos tempos atuais e, sem espaços para os lutos – cada vez mais evasivos –, de perdas que se agudizam, encontram inúmeras dificuldades para enodarem os tempos, atualizando a memória. Esquecer e “deixar cair” são palavras dos novos tempos que não levam em conta o tempo particular. Esquecidos, muitos idosos adoecem, não falam, perdem a palavra ou se agarram “ao seu tempo”. Por essa via, qual o tempo do Alzheimer? De imediato poderíamos responder: é um fora do tempo de uma memória que se apaga, mas qual memória se apaga? Da clínica com sujeitos diagnosticados de Alzheimer ou com suspeita dessa patologia, depreendi a existência de um ponto singular, já que todo desencadeamento passa pelo sujeito, que toca um rombo na relação com o Outro e que, sem um trabalho de luto – 84

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movimento que permite enlaçar os tempos, abrindo as vias ao desejo –, provoca o desenlaçamento do tempo e da vida. A relação entre estados depressivos e o Alzheimer encontra eco na tese de Messy21; lutos mal elaborados diante das perdas, ódio à imagem apresentada pela velhice e que retorna sobre o corpo, isolamento, restrição de laços sociais e falta de investimento no mundo são fatores importantes na constituição do Alzheimer. Dos casos atendidos e escutados em supervisão com o diagnóstico de Alzheimer pude depreender a presença de uma história marcada por dificuldades significativas com o luto e que, com a velhice, encontrou um casamento bastante infeliz com inúmeras perdas em geral inevitáveis. Supomos nesses casos que o desencadeamento foi uma resposta a um real insuportável ligado à morte de um ente muito próximo, diagnóstico de uma grave doença, perda da marcha, perda da visão, perda do lugar social que, sem um trabalho de luto, leva o sujeito à rendição da própria vida. A memória passa a funcionar à maneira do celofane do bloco mágico. O Alzheimer é uma resposta subjetiva diante de um tempo que não permite mais inscrições22. Não se pode desconsiderar que a partir de certo momento da vida perdemos mais pessoas e mais laços sociais, e as substituições, necessárias ao trabalho de luto, são também mais frágeis. As incidências do discurso capitalista sobre o envelhecimento são inegáveis, sobretudo concernentes ao predomínio do novo em detrimento da história e do saber singular na maneira de conduzir o real. Diante desse tempo que corre e não dá tréguas, tempo de memórias curtas que impregna todos os laços sociais e a política, o Alzheimer não deixa de responder à sua maneira à demanda de que tudo circule rápido. Sem as emendas às suturas –, possibilitando que R.S.I mantenham-se juntos sem se confundirem –, no Alzheimer prevalece a perda gradativa da cadeia e, consequentemente, a mistura dos tempos e uma indistinção avassaladora entre RSI. Sem essas amarras o sujeito tende a se agarrar a um passado conhecido, como medida protetora contra um real devastador. Sem os meios simbólicos e imaginários e, portanto, sem retenção do simbólico e imaginário, persiste um real do tempo que desliza. Restam apenas fragmentos de cada registro, sem relação entre si.

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21Messy, La personne âgée n’existe pas (2002, p.99).

22 A propósito ver: Mucida, Escrita de uma memória que não se apaga (2009).

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23 Márquez, Memória de

minhas putas tristes (2005, p. 14).

24 Yourcenar, O tempo esse

grande escultor (1983, p. 17).

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Um sujeito com 93 anos acentua que depois da perda do marido começou a esquecer os nomes das coisas. Afásica para alguns nomes cotidianos, tenta enlaçar com muitos fios sua história de amor, tempo que não se apaga, à vida que continua. Como falar na falta dos referentes? Como pensar sem as palavras? Insiste em falar pelas lembranças, mas não todas; não quer se lembrar da perda, mas apenas do que vive do objeto amado. Talvez, como García Márquez, acreditamos que seja um triunfo da vida “[...]que a memória dos velhos se perca para as coisas que não são essenciais, mas raras vezes falhe para as que de verdade nos interessam”23. Ou com como Yourcenar que “[...] a memória dos homens assemelha aos viajantes fatigados que se desfazem das bagagens inúteis a cada pausa do caminho”24. Mas não nos desfazermos de tudo. “Se ao menos pudesse sonhar com ele!” Tempo real do sonho, em que o objeto perdido pode retornar tal como foi, sem os limites dos tempos que corroem até algumas lembranças. Mesmo com afasias esse sujeito agarra-se às lembranças que lhe interessam, e isto não lhe deixa sair do tempo. Para outros, ao contrário, na falta do espaço para o luto, o buraco aberto com as perdas (marcadas inicialmente, sobretudo, no corpo, com buracos substanciais sobre a consistência imaginária) e o domínio de um real sem o amparo do simbólico e imaginário, impera a demissão dos tempos com recuo ao tempo primordial, real. Observa-se que no final dessa via-crúcis dos tempos, vários sujeitos retornam ao tempo do balbucio, pequenos sons conhecidos, pequenas letras tocadas como música, frases escutadas, traços que marcados não morrem jamais e encontram-se ainda disponíveis, mas sem os recursos da tradução e da amarração. Se Joyce pode corrigir os erros do enodamento entre RSI pelo sinthoma de sua escrita, dirigindo-se diretamente ao real da linguagem, estilhaçando-a, quebrando as palavras e fazendo das letras uma invenção original de escrita, do lado do Alzheimer permanece também um encontro com um tempo real (especialmente no final), mas sem possibilidade de invenção, amarração ou costura. Essas letras, restos metonímicos, resquícios da cadeia que se esgarça, memória de um tempo primordial, talvez sejam o último

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recurso a que alguns sujeitos com Alzheimer se agarram para tratar o real avassalador desse tempo que realmente desliza e não para.

Referências bibliográficas FREUD, Sigmund. (1895). Projeto para uma psicologia científica. In: ESB, Rio de Janeiro: Imago, 1977. v. I. FREUD, Sigmund. (1896). Carta 52. In: Edição Standard Brasileira das Obras Completas de S. Freud (ESB), Rio de Janeiro: Imago, 1977. v.I. FREUD, Sigmund. (1920). Além do princípio do prazer. In: ESB, Rio de Janeiro: Imago, 1976. v. XVIII. FREUD, Sigmund. (1925). Uma nota sobre o bloco mágico. In: ESB, Rio de Janeiro: Imago, 1976. v.XIX. FREUD, Sigmund. (1933). A dissecação da personalidade psíquica. Conferência XXXI. In: ESB, Rio de Janeiro: Imago, 1976. v. XXII. HEIDEGGER, M. Tempo e ser In: Heidegger. Trad. Ernildo Stein. São Paulo: Abril, 1979, 255-271.. LACAN, Jacques. O Seminário. Livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1988. LACAN, Jacques. O Seminário Livro 20: Mais ainda (1972-1973). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985. LACAN, Jacques. O Seminário. RSI (1974-1975). Inédito. LACAN, Jacques. O Seminário.Topologie du temps (1979). In: http:// www.ecole-lacanienne.net/bibliotheque.php LACAN, Jacques. O Seminário. Livro 23: O Sinthoma (1975-76). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2005. LACAN, Jacques. (1971). Lituraterre. In: Autres écrits. Paris: Éditions du Seuil, 2001. LACAN, Jacques. (1976). Préface à l’édition anglaise du Séminaire XI, In: Autres écrits. Paris: Éditions du Seuil, 2001 MÁRQUEZ, Gabriel García. Memória de minhas putas tristes. Rio de Janeiro – São Paulo: Record, 2005. MESSY, Jack La persone âgée n’existe pas. Paris: Payot & Rivages, 2002. 221p. Stylus Rio de Janeiro nº 18 p. 1-192 abril 2009

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MUCIDA, Ângela. Escrita de uma memória que não se apaga – Envelhecimento e velhice. Belo Horizonte: Autêntica, 2009. PROUST, Marcel. O tempo redescoberto. São Paulo: Globo, 1994. YOURCENAR. Marguerite. O tempo esse grande escultor. 2ª ed., Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1983.

Resumo Esse artigo aborda a relação entre memória e tempo, tomando como fio condutor o conceito de real em Lacan: isso que não se universaliza, persevera e inaugura a categoria do impossível. Para tal destacamos em Freud os três tempos da constituição do aparelho psíquico que coincidem com os três tempos da memória, bem como as elaborações acerca das lembranças encobridoras e esquecimentos, demonstrando um enlaçamento estreito entre sujeito, memória e tempo. Com Lacan temos formulações inéditas sobre a relação entre inconsciente, tempo e real, distinguindo um inconsciente fora de qualquer sentido, portanto uma memória acossada também ao real. A partir dessas indicações trazemos à baila algumas reflexões dos efeitos do discurso do capitalista sobre o funcionamento da memória tomando como paradigma a hiperatividade em crianças e o mal de Alzheimer em idosos.

Palavras-chave Tempo, memória, inconsciente, real, simbólico, imaginário, letra, discurso capitalista, discurso do mestre.

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Abstract This article approaches the relation between memory and time, taking the concept of real in Lacan as a guide: the real that doesn’t universalize itself, that perseverates and inaugurates a new category of the impossible. For that, it is necessary to point to the three times of the constitution of the psychic device in Freud that coincide with the three times of the memory, and with the elaborations concerning the hidden remembrances and forgetfulnesses, demonstrating a tight enlacing between subject, memory and time. With Lacan there are new formulations concerning the relation between inconscient, time and real, distinguishing an inconscient outside of any sense, therefore, a memory connected to the real. From such indications the article traces some reflections about the effects of the capitalistic speech on memory functioning, taking the hyperactivity in children and the Alzheimer disease in aged people as a paradigm.

Keywords Time, memory, inconscient, real, symbolic, imaginary, letter, capitalistic speech, master’s speech.

Recebido 05/05/2009

Aprovado 03/07/2009

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Lacan e o grupo de Klein: tempos do sujeito na experiência analítica Ronaldo Torres

1. Ponto de partida Este texto busca acompanhar a formalização da experiência analítica que Lacan empreende entre 1966 e 1968, pela estrutura matemática do grupo de Klein e em suas subversões. Acompanhar a formalização é, certamente, o exercício de seguir o esforço e o rigor que Lacan imprime ao seu ensino, mas também aceitar o convite que nos fazem os matemas: que sejam retomados por cada um de nós em nossa experiência. É Lacan quem diz: “Neste pequeno tetraedro do qual partimos ultimamente, é preciso que se preste atenção em algo, na multiplicidade das traduções às quais ele se presta”1. Neste texto, junto com Lacan, empresto a minha. O ponto de partida do grupo retoma diretamente o vel operado por Lacan no Seminário 11, mas agora não mais referindo o “ser” e o “sentido” e sim articulando os dois elementos lógicos do cogito cartesiano a partir de sua negação. Vejamos lentamente. Sabemos que o vel da alienação no Seminário 11 consistia de um vel de reunião (um vel excludente, mas que também implicava perda da parte escolhida) adicionado ao “fator letal”, que terminava na escolha forçada. No grupo de Klein, Lacan mantém o vel de reunião, mas o que lhe interessa trabalhar, no princípio, é com a negação da intersecção do cogito cartesiano. Para isso faz uso da lei de dualidade de Morgan que permite, a partir da negação, transformar uma reunião em intersecção e vice-versa. Tal como mostra a relação abaixo:

1 Lacan, O Ato Psicanalítico (1967-68, aula de 24 de janeiro de 1968).

- (AxB) = - A+-B - (A+B) = - Ax-B onde (+) é reunião, (x) intersecção e (-) negação. Lacan vai propor que a negação do cogito cartesiano (o cogito encontrado na intersecção entre ser e pensar) seja representada pela reunião entre a negação do ser e a negação do pensar. Assim, vemos como a negação da intersecção (a negação do cogito) corresponde à reunião da negação do ser (não sou) e da negação do pensar (não penso). Dessa forma, Lacan consegue que a operação lógica da negação aplicada ao cogito (na intersecção) redunde na Stylus Rio de Janeiro nº 18 p. 1-192 abril 2009

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reunião das negações de dois conjuntos. Assim, temos não penso e não sou. É nessa posição que Lacan localiza o ponto zero de seu esquema. Porém, a composição da Lei de Morgan aplicada ao cogito e seu lugar no grupo de Klein, como ponto zero, de partida, não é uma implicação lógica, mas a primeira subversão que Lacan promove para montar o grupo como formalização da experiência da análise. Devemos lembrar que o grupo de Klein, por si, não estabelece nenhum ponto original que seja fixo. Mas Lacan introduz essa modificação e localiza a negação do cogito no vértice direito superior (DS) do grupo, como um ponto de partida fixo; o grupo sempre parte daí, como a experiência psicanalítica deve partir desse ponto do sujeito: da negação do cogito na reunião das negações de ser e pensar.

Figura 1: Ponto de partida e primeiras operaçãoes

2. Operação alienação A partir desse ponto, a primeira operação se coloca pelo tema da escolha. Isso não é algo que possa ser acompanhado na álgebra 92

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do grupo de Klein ou dos semigrupos. É a dimensão ética sempre introduzida por Lacan com a pertinência devida a esse momento de seu ensino, em que justamente quer formalizar a experiência analítica pela noção do ato. Lacan diz de uma escolha forçada e nos propõe, igualmente, que essa escolha se assimile à alienação: “esse ponto no alto à esquerda é o da escolha forçada, que é a definição que dei da alienação em seu caráter revisto”2. Apesar de disporem dessa mesma ordem da escolha forçada, a operação alienação no Seminário 15 é modificada com relação à alienação do Seminário 11. Não vamos retomar, mas em 1964, Lacan mostrava como era na experiência do sujeito enquanto faltaa-ser que encontrávamos o ponto alto de sua alienação ao Outro. A alienação se colocava, portanto, no vetor que ia do “ser” ao “sentido”. Escolhendo-se o sentido, perdia-se o ser, mas também não se tinha a totalidade do sentido. Como vemos na figura anterior, o conjunto intersecção está em branco, é vazio. Esse é um ponto importante, porque na teoria dos conjuntos o vazio não é o “nada”, mas apenas a indicação de que ali, naquele conjunto vazio, não há elemento. Mas há o vazio. O vazio difere uma parte do conjunto de um elemento do conjunto. O vazio é parte do conjunto embora não seja elemento. Pois bem, é nesse vazio que Lacan introduz algumas formas de negatividade que nos serão importantes. Por enquanto anunciamos a primeira delas, que é o não-eu (pas je). Assim, esse pas je é o vazio que se põe como negação do cogito cartesiano, mas que continua sendo o conjunto intersecção entre o “não penso” e o “não sou”, mesmo como conjunto vazio. Esse ponto retornará durante todo o exame do grupo, mas por agora vemos que também compõe o quadro que mostra por que a alienação do Seminário 15, ao contrário do Seminário 11, não parte do ser. Ela é a operação que escolhe o “não penso”. E, portanto, podemos localizá-la nesse “não penso”. No entanto, este vértice esquerdo superior (ES) engendra um ser. Lacan assimila esse não pensar a uma forma do ser. Assim, a alienação aqui não parte do ser, mas determina um ser, resulta um ser e está nesse ser. Para acompanhar isso, temos que tomar a operação alienação diante do ponto zero do vértice de partida (DS). Esse zero já aparece como

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2 Ibid., aula de 24 de janeiro de 1968.

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3 Ibid., aula de 10 de janeiro de 1968.

4 Ibid., aula de 10 de janeiro de 1968. 5Rabinovich, O desejo do Psicanalista (2000, p. 72).

uma marca, e “se isso deve marcar-se em algum lugar, é justamente no alto, à esquerda”3. Diante do vel: “ou não sou ou não penso”, Lacan o desdobra em “ou eu não sou essa marca” ou “eu não sou nada senão esta marca” e, portanto, “não penso”. Sua argumentação se dirige para o fato de que, como primeira inscrição, não é possível o “eu não sou essa marca” (porque aí não haveria qualquer inscrição) e que isso acarreta um primeiro passo que não pode ser evitado que se coloca pela operação alienação através do “não sou nada senão esta marca”, como uma primeira inscrição. “Trata-se do ‘eu não penso’, em sua necessidade estruturante, enquanto inscrito neste ponto de partida”4. E como nos diz Rabinovich, isso “é coerente com a ideia de que a marca significante é equivalente à opção da alienação, à opção forçada do ‘não penso’”5. Essa marca, portanto, define um ser, nomeado por falso eu (je). Devemos recuperar novamente que Lacan parte da negação do cogito posta na intersecção dos conjuntos “ser” e “pensar”. A negação do cogito equivale à reunião do “não penso” e do “não sou” (- (A x B) = - A + - B). É importante frisar que fazendo disso um vel e promovendo a disjunção entre os conjuntos (nada impede Lacan de fazê-lo), a propriedade da Lei de Morgan se perde, pois a negação da intersecção só se sustenta na igualdade com a reunião entre as negações dos conjuntos. Quando faz isso passar ao vel, esta relação se dissolve. É uma invenção de Lacan. Todavia, tal disjunção não deixa de se mostrar interessante pelo que acarreta em seus efeitos:

Figura2: Operação alienação

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Note-se que o “não penso” já é o produto final da escolha no vel. Ele não perde nada. O conjunto que perde uma parte de si é o conjunto que não está nomeado e que é formado na posição inicial (DS) pela reunião de “não penso” e o conjunto intersecção vazio. E o que se perde é exatamente o vazio. Assim, fica-se com o “não penso” e perde-se o vazio. Ocorre que Lacan faz essa disjunção funcionar como uma hiância que coloca em relação os dois conjuntos do vértice ES. De um lado o “não penso” relacionado à marca significante que determina um ser (je) por esse “não sou nada senão esta marca”. E do outro, o que se perde pelo corte da escolha, mas com o que se fica em relação; nesse vazio do pas je, Lacan posiciona a segunda forma de negatividade, o isso. “Está toda a estrutura gramatical, a estrutura da língua, exceto o je... A estrutura gramatical da pulsão que não pode ser formulada conforme o je”6. No vazio encontramos, portanto, um ser sem o je, que Lacan faz equivaler ao isso, a pulsão acéfala a qual tinha introduzido já no Seminário 11, mas que aqui ganha sua clara formalização. Assim, temos de um lado o je como marca e, de outro, um ser sem o je. É por isso que Lacan também vem localizar nesse conjunto vazio o objeto a, outra maneira de falar dessa mesma negatividade. Porém, não podemos perder de vista que esse ser sem o je, figura encarnada pelo objeto a, é objeto de cessão ao Outro. É, portanto, relacionado tanto à falta de sujeito (ser sem je) como também à falta do Outro— S (A). É por isso que a relação entre o je como marca e o objeto (ser sem je) faz sugerir que nesse vértice podemos localizar também a fantasia (S◊a). Lacan disse que sem esse “eu não penso” “não poderíamos ter articulado coisa alguma sobre o que é a lógica da fantasia”7. Localizar aí a fantasia é pertinente porque, além da colocação explícita do objeto pequeno a no conjunto vazio e de propor uma relação entre os conjuntos do vértice, a definição desse je como marca, ressoa diretamente com o S da fantasia, que não é a mesma expressão do sujeito da cadeia significante, mas, ao contrário, um sujeito fixado, marcado e ligado a uma relação com o objeto. É também importante dizer, retomando o isso que Lacan localiza no vazio de pas je, que tal instância é colocada a partir da

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6 Brodsky, Short Story (2004, p. 87).

7 O Ato Psicanalítico, op. cit. (aula de 10 de janeiro de 1968).

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primeira parte da sentença freudiana que aponta o princípio ético (direção) da psicanálise: “wo es war, soll ich werden” que Lacan traduz por “lá onde isso estava, o eu (je) deve advir”:

Figura 3: Conjuntos do vértice esquerdo Que podemos ler: lá onde isso estava, por que foi separado pelo corte e não mais está, o je, que lá não está nem esteve, deve advir. Esse ponto retornará à frente. Essa é a primeira operação com suas consequências.

3. Operação verdade e sua relação com a alienação Agora vejamos a segunda operação, denominada por Lacan como “verdade”. Ela procede de maneira similar à anterior, mas tomando da posição zero o “não sou”:

Figura 4: Operação verdade

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Como vemos, Lacan representa no grupo o produto da escolha que é o “não sou”, da mesma maneira como propôs na operação alienação. Na figura acima, assinalamos a presença de dois conjuntos no vértice direito inferior (DI): o conjunto “não sou” e o conjunto vazio. O que, nesses conjuntos, concerne à operação verdade? Aqui devemos retomar a ideia sobre a falta-a-ser. Nesse sentido, trata-se de uma operação verdade que instaura um pensamento — a cadeia significante, o inconsciente — que implica o sujeito pelo não ser. É o sujeito que desliza pela cadeia. Dessa forma ele não é porque sempre será representado por um significante para outro significante no infinito da cadeia. Coloca-se, portanto, um “não sou”, um eu (je) que não é. Mas esse “não sou” não deve ser confundido com o “não eu”, o pas je, que se encontra no conjunto vazio. Não podemos perder de vista uma distinção crucial. No conjunto vazio, lugar do pas je, Lacan fala de um inconsciente sem eu (je). Ou seja, tal como no vértice ES, no qual tínhamos no vazio do pas je um “ser sem eu”, aqui, no vértice DI, temos um “pensar sem eu”. É por isso que podemos definir o que está no conjunto “não sou” pela falta-a-ser. O que está nessa meia-lua é falta-a-ser em relação ao conjunto vazio, que abriga o inconsciente sem eu (je). Assim, temos de um lado o je que não é (não sou) e de outro um pensamento sem o je (penso em pas je). Marcar esse ponto é importante porque, entre outras coisas, não podemos nos perder da diferença entre a falta-a-ser referente ao sujeito nessa posição, que é efeito da operação verdade, com o destino da negatividade presente no conjunto vazio, que não está na falta, mas sim na perda. Para esclarecer essa questão é inevitável o diálogo com a operação alienação. Pois a terceira forma de negatividade (falamos de duas: o pas je e o objeto a [isso]) que Lacan introduz no conjunto vazio do vértice DI será mais bem compreendida na relação com aquela operação. Nesse conjunto vazio Lacan introduz o -j. Se o objeto a se colocava na posição do pas je no vértice ES como falta em relação ao je como marca (não sou nada senão esta marca), no vértice DI, é necessário que isso se transforme em perda a partir de -j: trata-se do “objeto perdido inicial de toda gênese analítica, esse que Freud martela em toda a sua época do nascimento do inconsciente... a verdade é que a falta (do alto à esquerda) é a perda

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8 Ibid., aula de 10 de janeiro de 1968.

(de baixo à direita)”8. Como objeto perdido é que Lacan voltará a introduzir o “lá onde isso estava” no vértice DI. Assim, há dois “lá onde isso estava”. Cada um colocado em um dos vértices (ES e DI), ambos nos conjuntos vazios desses vértices, um deles ligado ao isso, ao objeto a e à falta (ES), e o outro ligado ao inconsciente, ao -j e à perda (DI). É por essa passagem lógica, passagem da falta à perda, que Lacan justifica definitivamente que a operação alienação se coloca como escolha forçada diante da posição zero. O que implica que a operação verdade seja uma operação rechaçada como um caminho direto da posição zero. A passagem lógica indica que só se atinge o vértice DI através do vértice ES. Lacan é claro: para que se faça perda é necessário que tenha havido falta.

4. A transferência Todavia, esse trajeto bem definido no seminário do Ato Analítico não implica, em nosso entender, que nessa passagem diagonal (de ES para DI) seja localizada a operação transferência como consideram alguns colegas. Antes, nesses dois movimentos lógicos do grupo, colocam-se apenas as duas posições do sujeito advindas do ponto zero: o sujeito diante do trauma e a montagem da fantasia (je como marca) no ES e o sujeito no intervalo da cadeia significante (je que não é) no DI. É somente a partir dessas duas posições do sujeito que a transferência, tomada tanto como entrada em análise (instante de ver), como percurso-sustentação da análise (tempo de compreender), pode se dar. São posições condicionantes para que a transferência se efetive contingencialmente. A leitura que proporemos localiza a transferência na diagonal que vai do ponto zero ao vértice esquerdo inferior (EI). Ela se apoia em pelo menos duas observações que se podem evidenciar no Seminário do Ato Analítico. A primeira, é que Lacan não escreve a transferência nessa diagonal de ES-DI em nenhum momento, mas na diagonal que vai do ponto zero ao vértice EI:

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Figura 5: Primeiro semi-grupo: a transferência e o vértice do impasse A segunda pode ser encontrada no fato de que nos momentos nos quais Lacan menciona a passagem de ES para DI não aparece nenhuma menção à transferência. Só depois de estabelecer a relação entre esses dois vértices é que Lacan passa a falar sobre a transferência. A transferência é o trabalho exercido sobre a alienação e a verdade, resultando um produto articulado aos conjuntos dos vértices ES e DI, mas diferente deles, em outra forma de negação. Como nos indica a estrutura do grupo de Klein, a diagonal é o produto (associação) das operações de inversão e oposição9. E esse é exatamente o passo dado no grupo de Lacan, comprovado por aquilo que vem se posicionar no vértice EI, que são as duas formas de negatividade presentes no pas je de cada vértice anterior (ES e DI), como mostra a figura acima. Os tempos lógicos definidos por Lacan já em 194510 podem ser reencontrados no esquema do Seminário 15 e nos ajudam a compreender o ponto em que estamos: Stylus Rio de Janeiro nº 18 p. 1-192 abril 2009

9 Inversão, oposição e

produto são os nomes das operações do grupo de Klein. Para um acompanhamento detalhado, conferir Barbut (1996).

10 Lacan, O tempo lógico e a asserção de certeza antecipada (1945/1998).

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Figura 6: Os tempos lógicos no primeiro semi-grupo

11 Nesta representação gráfica, há setas que devem ser tomadas como tempos de extensão e outras, como tempos de escansão. As setas que retornam dos vértices ES e DI são escansões, diferentes das setas que vão a esses vértices que são extensões. 12 O Ato Psicanalítico, op. cit. (aula de 21 de fevereiro de 1968).

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Atribuindo um tempo de extensão à diagonal da transferência, temos que: 1. esse tempo tem um tempo de instituição, que marca seu início e que o assimilamos ao ato de entrada em análise, retificação subjetiva, e; 2. tem o próprio tempo extensivo que se desenvolve ao longo do segmento de reta até o vértice EI, o vértice no qual Lacan localiza o impasse. Esse tempo de início, o “instante de ver”, não é o ponto de partida do grupo (que é o ponto zero do sujeito como vimos), mas o ponto de partida da análise, em que a posição do sujeito em alienação e verdade pode se articular com a suposição ao saber, marca da entrada em análise. É como se, por um ato, essas setas da operação alienação e verdade deixassem de seguir ao infinito e viessem se encontrar nesse ponto do “instante de ver”, tal como as ideias de escansão e corte sugerem11. É também nesse corte/escansão que está o lugar do analista: “A psicanálise não poderia se instaurar sem um ato, sem o ato daquele que autoriza sua possibilidade, sem o ato do analista, e que no interior desse ato da psicanálise inscreve-se a tarefa psicanalizante”12. Mas isso não desfaz a evidência de que o ato de entrada não é necessário, mas contingente à decisão do sujeito, uma escolha, portanto. O segundo tempo, “tempo de compreender”, é o tempo que será necessário para se chegar ao impasse do sujeito. Esse tempo não é de escansão, mas de voltas e de redução. Aí a transferência se apresenta em seus desdobramentos. Assim como no xadrez, a partir de determinado par de movimentos que define como será a partida (muitas o tempo na psicanálise II


vezes implicado com a perda de uma peça), desenvolvem-se inúmeras outras jogadas até que, se não houver desistência, chega-se ao momento em que o jogo anuncia como será seu desenlace. Essas outras jogadas se aproximam do que seja essa diagonal extensiva da transferência, “tempo de compreender”. Nesse tempo o ato do analista se coloca por suas “jogadas”, seu manejo: “Fora do que chamei manejo da transferência, não há ato analítico”13. Quanto ao terceiro tempo lógico, o momento de concluir se evidenciará no segundo semigrupo que virá à frente.

13 Ibid., aula de 29 de novembro de 1967.

5. O impasse Localizar no vértice EI aqueles que eram os conjuntos vazios dos vértices ES e DI quer dizer algumas coisas. Lacan resume essa posição como impasse14 do sujeito. Dessa forma ele nos aponta que aí não está o fim da análise, pois esse fim se articula, sabemos, à passagem. Esse fim de análise, articulado com a passagem, definição maior do ato psicanalítico, faz ecoar outras duas formas de se referir a esse ato, também formuladas em tempos próximos a este momento de seu ensino: a destituição subjetiva e travessia da fantasia. Isso nos parece importante salientar, porque cada uma dessas maneiras distintas de se referir ao mesmo tempo da análise (momento de concluir, em uma referência aos tempos lógicos), se articula com um dos dois elementos posicionados nesse canto do impasse no grupo. O vértice EI não é o fim da experiência, mas contém o núcleo do que é necessário para sua efetivação. De um lado o -j como significado da castração, única significação definitiva para o significante, que indica justamente ao sujeito que não há significante que possa lhe dar um ser que não seja exatamente sua falta-a-ser. Situação de máxima verdade acessível à subjetivação e passo antecedente ao ato da destituição subjetiva, que para se efetivar, no entanto, deverá se apoiar no elemento adjudicado pelo outro vértice, o objeto a. Pelo outro lado, tomando a travessia da fantasia, vemos no vértice do impasse, o objeto a, esse ser sem je com o qual o sujeito como marca se relaciona na ordem fantasmática, conquanto esteja em afânise. Devemos retomar novamente os três tempos de “Bate-se em uma criança”, para saber que no segundo tempo, no qual o sujeito se vê Stylus Rio de Janeiro nº 18 p. 1-192 abril 2009

14 No resumo sobre o Semi-

nário “A lógica da Fantasia”, texto de mesmo nome, Lacan diz, se referindo a essa passagem, que: “É preciso que se feche o ciclo pelo qual o impasse do sujeito se consuma ao revelar sua verdade” (Lacan, 1969/2003, p. 324). Devemos anotar que tal resumo foi escrito para o anuário de 1969 da Escola Prática de Estudos Superiores, local onde Lacan apresentava seus seminários à época. Um resumo escrito após o término do Seminário 15 (1967-68), portanto.

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15 Ibid., aula de 10 de janeiro de 1968.

16 Lacan, A lógica da Fantasia (1966-67, aula de 22 de fevereiro de 1967). 17 O Ato Psicanalítico, op.

cit. (aula de 27 de março de 1968).

18 Ibid., aula de 28 de fevereiro de 1968.

19 Short Story, op. cit. (p. 104). 102

indexado, ao contrário do primeiro e do terceiro, ele (o sujeito) é oculto e seu único caminho é ser construído na análise. Para tanto é necessário que se decante o objeto pelas voltas da demanda. É esse objeto decantado que aparece no vértice EI, mas somente enquanto apoiado em -j, objeto-sustentação da cadeia significante, sem a qual não haveria voltas da demanda. Por aí percebemos como há um apoio mútuo de -j e a, apoio existente desde a constituição do sujeito, mas que apenas nesse vértice pode surgir como evidência ao sujeito. Por um lado, a castração (desejo) e, pelo outro, o ser que é a partir do objeto (gozo). Todavia, esse apoio demonstra também como não se trata, entre -j e a, de uma relação de complementaridade. Lacan chama atenção sobre a identificação entre -j e a na passagem da falta à perda: “Isso se revirando é propriamente o que suporta a identificação do a e do -j como lugar onde se inscreve a hiância própria ao ato sexual”15. Contudo, essa identificação mascara que essa relação de apoio é a própria não existência do ato sexual. Pois o objeto a não é o objeto do desejo, mas objeto que realiza o desejo enquanto o sustenta como tal. E o regime de realização do desejo não é o regime de satisfação da pulsão. É nesse sentido que Lacan inicia, no Seminário 14, seus comentários sobre a impossibilidade do ato sexual dizendo, por exemplo, que “a significação da função fálica [é] falta essencial da juntura da relação sexual com sua relação subjetiva”16. Ou, mais enfaticamente no Seminário 15, de que não há encontro possível entre saber e verdade, “não se tem jamais o saber do outro sexo”17 ou “não há ato sexual”18. Dito isso, devemos retornar um pouco e perguntar como essas questões se alocam particularmente no vértice EI. Pois dissemos com Lacan que o que se coloca nesse canto é um impasse. Um impasse que se manifesta na própria construção da fantasia: A fantasia é a maneira como ele [o analisante] a faz existir [a relação sexual]. Isso, porém, é um impasse, pois em vez de algo que desse a fórmula da conjunção entre feminino e masculino, está a conjunção de um sujeito e um objeto, única coisa com que se conta para fazer existir a relação sexual. É por isso que Lacan não situa aí a saída, mas antes o impasse da fantasia, o ponto em que a fantasia engana o sujeito19. o tempo na psicanálise II


É, portanto, somente a partir do apoio entre -j e a, que se pode chegar à construção da fantasia como ponto de impasse de uma análise. Devemos notar que o estatuto da fantasia nesse vértice não é o mesmo no canto ES, no qual também a posicionamos. Nesse ponto do impasse, a fantasia se mostra pela decantação do objeto a pelas voltas da demanda. Tratar-se-ia da construção fantasmática a partir de uma redução à sua forma mínima e de sua apresentação em análise. Aqui, no vértice EI ela é posta, enquanto no canto ES ela estava suposta (enquanto montagem).

6. O segundo semigrupo Vejamos, então, como se monta o segundo semigrupo, tomando sempre em conta o ponto de chegada do primeiro. Com Lacan, podemos apresentá-lo da seguinte maneira:

Figura 7: O segundo semi-grupo Vemos como o ponto de chegada do primeiro semigrupo é o ponto de partida do segundo. Observamos também que Lacan posiciona as mencionadas “pressa” e “repetição”20 na operação que Stylus Rio de Janeiro nº 18 p. 1-192 abril 2009

20 “Já tendo a repetição e a pressa sido por nós articuladas na base de um tempo lógico, a sublimação vem complementá-las para que um novo grafo, orientado por sua relação, seja satisfatório, duplicando o precedente, para completar o grupo de Klein, na medida em que seus quatro ápices se igualam por reunir diversos concursos operacionais. E ainda grafos, por serem dois, inscrevem a distância do sujeito do suposto saber à sua inserção no real.” [grifo nosso] (Lacan, 1969/2003, p. 326). 103


21 O grupo proposto por

Lacan é uma formalização da experiência analítica que inclui seu final. Portanto, dizer que “não há mais transferência” é pontualmente falar sobre sua suspensão até o ponto de saída do grupo e nada além disso

vai ao vértice ES e DI, respectivamente. Seguindo a mesma direção de reconhecer, nesse segundo grupo, operações distintas daquelas presentes no primeiro, na diagonal, que vai de EI para DS, Lacan não localiza a transferência. Isso já nos aponta algo sobre o tempo implicado nesse segundo semigrupo. Porque se trata de um tempo no qual a transferência se apresenta em suspensão, já que é outra coisa que aparece na diagonal. Poderíamos, portanto, concluir que o impasse ao qual chega o primeiro semigrupo não deixa de ser também um impasse da própria transferência, pois após esse ponto não há mais transferência no percurso21. Esse aspecto da suspensão da transferência é capaz também de mostrar como a fantasia, tal como a configuramos no ponto do impasse, pode ser pensada de forma bem diferente da fantasia do vértice ES. Porque ali (no impasse), ela não mais se exercita como um cálculo de gozo atualizado nas relações com o Outro (montagem), mas se apresenta como redução à sua forma mínima que evidencia a sua posição ante o desejo do Outro (construção). Ela, no ponto de impasse, é produto do dispositivo da transferência e não elemento participante de sua atualização anterior. Essa é sua forma de impasse. Porque a partir daí devemos supor uma saída que não seja pela via da transferência, tal como foi sua chegada a este ponto.

7. Repetição e acting-out Voltemos às operações anunciadas da pressa e da repetição. Tomemos primeiro a repetição. A maneira primordial pela qual Lacan trabalha essa operação é a partir do acting-out. Tomar o actingout por essa operação chamada repetição não é algo que seja difícil acompanhar, já que sabemos como acting-out e repetição se ligam diretamente. Porém, conjugar aí a própria definição lacaniana de acting-out é tarefa mais complicada, porque esta inclui em si a transferência. Como conhecemos: “transferência sem análise”. Como então, uma vez que dissemos que no segundo grupo há suspensão da transferência, supor aí o acting-out? Aqui, talvez, uma precisão maior sobre a função do sujeito suposto saber ajude a esclarecer melhor essa questão. Sabemos como o sujeito suposto saber é introduzido no Seminário 11 em conjunto 104

o tempo na psicanálise II


com outra expressão associada à transferência, “atualização da realidade inconsciente”. Se essa última está mais assimilada à atualização da relação entre sujeito e Outro, nas vicissitudes gerais com o semelhante, a primeira Lacan a constituiu como uma função específica do dispositivo analítico. Encontramos o sujeito suposto saber como função na entrada de uma análise e como sua sustentação. Da mesma forma, em diversas passagens do Seminário 15, quando Lacan se refere ao fim de análise, a alusão que faz é à queda do sujeito suposto saber: “O final de análise consiste na queda do sujeito suposto saber, e sua redução ao advento desse objeto a, como causa da divisão do sujeito, que vem ao seu lugar”22. Assim, Lacan assevera que há uma passagem do sujeito enquanto suposto ao saber para outra posição. Isso é uma indicação importante para essa consideração de que no segundo semigrupo não haveria transferência. Temos de pensar que forma de apresentação de transferência que não mais há. Em se tratando do acting-out, não seria estranho, tomando a afirmação de Lacan de que seja uma “transferência sem análise”, supor que se trate da suspensão do sujeito suposto saber. Isto seria condizente com a interpretação que podemos dar para essa saída do ponto de impasse via repetição e acting-out. Podemos pensar que esta saída se estabelece pela chegada ao ponto do impasse por uma interpretação selvagem que precipitaria a atuação. Alguns casos evocados por Lacan ou diretamente extraídos de Freud articulam bem essa situação. São aqueles em que houve abandono do tratamento ou desencadeamento de outros acting-outs, após aquilo que Lacan nomeia como “simbolização prematura”. Tanto no caso de Dora, como no caso da “senhora de idade” mencionado em “Recordar, Repetir e Elaborar”, quanto no homem dos miolos frescos, de Kris, aparentemente há uma intervenção vetorizada para a fantasia que a desestabiliza na própria enunciação da verdade a partir da posição do Outro. Nesse sentido, via transferência, chegar-se-ia ao vértice do impasse não pela decantação do objeto a pela relação do sujeito com as voltas da demanda, mas por uma intervenção que antes dirige o analisante à posição da angústia. Uma espécie de atropelo do tempo de compreender. A partir daí, como manejo do analisante, o acting-out surge para evitar tal posição. Essa hipótese, embora aponte uma variação possível no caminho do grupo,

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22 O Ato Psicanalítico, op. cit. (aula de 10 de janeiro de 1968).

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parece-nos interessante para se pensar, nesse esquema, uma forma não rara de se sair de uma análise. A repetição nesse caso é bastante clara. Repete-se a fantasia na cena com o Outro como forma de sustentá-la. Porém, nesse caso, escapamos à condição estabelecida de que no segundo semigrupo não haja transferência. É, justamente por um curto-circuito promovido pelo analista na transferência, que essa retornaria no segundo grupo como transferência sem análise e sem a função do sujeito suposto saber.

8. Pressa, passagem ao ato e o impasse como lugar da angústia

23 O tempo lógico e a asserção de certeza antecipada, op. cit. (p. 206). 24 Ibid., p. 209. 25 Ibid., p. 209.

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Passemos agora ao vetor da pressa, que vai do vértice do impasse ao vértice ES. Lacan articula essa saída do impasse pela via da passagem ao ato. O tema da pressa nos remete diretamente ao ato como saída. Podemos evocar tal relação desde seu texto sobre o tempo lógico no que este refere à urgência do momento de concluir. “Urgência”, “pressa” e “precipitação” são os termos usados para definir esse tempo: “É na urgência do movimento lógico que o sujeito precipita simultaneamente seu juízo e sua saída”23 e depois: “entre o instante de seu início e a pressa de seu fim, parecera estourar como uma bolha...”24. É também nesse mesmo texto que Lacan alinha o ato a este momento de saída: “Por último, o juízo assertivo [a asserção de si] manifesta-se aqui por um ato”25. A pressa e a precipitação se colocam como elementos fundamentais na passagem ao ato. Neste caso a articulação direta é com a angústia. A passagem ao ato se coloca como resposta a um impasse, uma encruzilhada que reúne em si uma relação específica entre sujeito, Outro e objeto a. Diante da emergência da angústia, quando, pelo abalo da fantasia, o objeto aproxima-se do sujeito, pode precipitar-se a fuga da angústia pela passagem ao ato. Aqui, a aproximação com o sofisma apresentado no texto sobre o tempo lógico estaria posta na angústia relacionada com a possibilidade de os prisioneiros continuarem reclusos, caso não resolvessem o enigma. Essa angústia se coloca desde o início, como ponto de partida no instante de ver e como pano de fundo no tempo de compreender, mas é no momento de concluir que ela entra em cena e se enlaça o tempo na psicanálise II


com a pressa de precipitar-se para fora da sala. Pois a conclusão dos prisioneiros é simultânea e os coloca diante da pressa de atingir primeiramente a porta, para ganhar a liberdade. Se tomarmos a situação de aprisionamento como uma alegoria possível para determinada relação do sujeito com Outro, relação na qual se desenquadra por alguma razão a fantasia, podemos compreender como o ato aqui implica a ruptura com as coordenadas simbólicas que determinavam tal relação. A saída da prisão implica outra inscrição simbólica daqueles presos. Mais uma vez, vemos aqui como a passagem ao ato pode se aproximar da noção de ato analítico, no qual também se apresenta tal ruptura de coordenadas simbólicas. O exame do sofisma do tempo lógico retornará quando analisarmos o ato analítico e isso poderá ficar mais claro. Mas aqui devemos considerar a pressa e a passagem ao ato levando-se em conta o que produzimos com o segundo semigrupo. Assim, parece que é necessário, para a compreensão da relação entre a pressa e a passagem ao ato nesse vetor que examinamos, que localizemos de novo a angústia nesse ponto do impasse no vértice EI. Mas agora, distintamente do acting-out que era evitação da angústia, a passagem ao ato aparece como uma forma possível de resposta à sua emergência. Então, devemos novamente supor que haja algum curto-circuito que venha incidir sobre o trabalho analítico sob transferência. Novamente, um atropelo do tempo de compreender. Lacan não se debruça sobre o tipo de vicissitude na experiência de uma análise que poderia estar relacionada ao desencadeamento de uma passagem ao ato. Mas em primeiro plano podemos pensar tanto em uma intervenção do analista, que tenha efeito de angústia, quanto em algo da ordem do trauma, que se anuncia na própria análise ou na vivência do analisante. O que é interessante é que, se Lacan não falou diretamente sobre os desencadeantes, ele nos alertou sobre a importância do analista nesses casos. E fez isso referindo diretamente à conduta de Freud em relação à jovem homossexual, dizendo que, diante de casos dessa natureza, é necessário que o analista a pegue pela mão, para que não se deixe cair: “Freud a deixa cair... com essa jovem ele se dá por vencido. Não chegarei a lugar algum, diz a si mesmo, e a encaminha para uma colega. É ele quem toma a iniciativa de largá-la de mão”26. Stylus Rio de Janeiro nº 18 p. 1-192 abril 2009

26 Lacan, O Seminário,

livro 10: a angústia (196263/2005, p. 127).

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Essas articulações sobre o acting-out e a passagem ao ato fazem pensar o quanto a posição definida por Lacan como impasse do sujeito é bastante próxima ao lugar da angústia. Não apenas se levarmos em consideração o que pode acontecer pelo que chamamos de curto-circuito no tempo de compreender, mas também se olharmos a própria estrutura do que se encontra no impasse. Como dissemos, o ponto ao qual se chega no vértice EI está articulado não à fantasia em sua função de suporte da relação do sujeito com o Outro (o que torna o gozo apto ao prazer), mas sim à fantasia em forma de sua redução máxima. É como se aqui o sujeito se pusesse diante de seu modo de gozo junto ao objeto a. Daí a proximidade estrutural com a angústia. Esse aspecto é importante porque, para entrarmos na diagonal do segundo grupo, já adiantamos que, além de todas as coordenadas que teremos que atualizar para defini-la, essa diagonal também não escapa à possibilidade de advir de uma posição no impasse experienciada como angústia.

9. A diagonal do ato analítico Agora entraremos no último movimento do que Lacan quer formalizar para a experiência da psicanálise pela estrutura de grupos. Trata-se da diagonal que vai do vértice do impasse ao DS. É aí que podemos localizar o ato analítico, ou pelo menos, sua formalização mais importante pelo lugar que desempenha no ensino de Lacan. Qual seja, o fim da experiência por um ato nomeado analítico. Aqui, cabe indagar se o ato é concernente ao analista ou ao analisante. Questão interessante se a examinarmos à luz do que encontramos no Seminário 15, relacionado a este ponto. Ali, ora o ato analítico é referido ao analista, ora ao analisante, produzindo uma espécie de vertigem ou confusão que não nos ajuda a compreender bem o que Lacan quer transmitir. Mas se nos ativermos àquela que consideramos a afirmação mais cabal sobre o que seja o ato analítico, como ato do fim de análise, veremos que a desordem talvez reflita um curto-circuito revelador. Lacan é enfático ao dizer que o fim de análise está ligado à passagem de analisante à analista. Isso implica que no início de uma análise há uma posição que sustenta a 108

o tempo na psicanálise II


entrada que se estabelece, dessa forma, por um final anterior ao começo. E esse final anterior se encontrará com um novo começo, na medida em que o ato analítico será novamente uma passagem dessa natureza. “O ato psicanalítico é o que dá esse suporte, autoriza a realização da tarefa psicanalisante. É na medida em que o analista dá a esse ato sua autorização, que o ato psicanalítico se realiza”27. Isso cria uma equivocidade, sentida como tal ao longo dos Seminários 14 e 15, com respeito à autoria do ato analítico, porque ele não parte do analisante ou do analista, mas antes, relaciona-se a uma função específica do objeto a, como logo veremos. É essa função que dá o lugar do analista e que está no final da análise do analisante, não por acaso definida também pelo lugar de analista. Isso faz com que o objeto seja colocado na posição de agente. Isso parece importante de se marcar: se não há sujeito no ato, há agenciamento, mesmo que esse agente o encontremos na posição do objeto a enquanto causa. Assim, não se trata de uma destituição subjetiva como na passagem ao ato, correspondendo à abolição completa do sujeito (lembremos que seu paradigma, para Lacan, é o suicídio bem-sucedido). Antes, trata-se de se poder fazer operar o objeto a em uma posição de agenciamento, em uma função de causa que teremos que expor. O objeto a como causa, remete a questões que vêm desde o Seminário 11. Lá, Lacan dizia que a causa “se distingue do que há de determinante em uma cadeia, dizendo melhor, da lei”28, em uma alusão direta à necessidade de se diferenciar aquilo que é da ordem da determinação simbólica daquilo que conduz a certa liberdade concernente ao sujeito. Se isto estava formalizado na passagem da operação alienação à operação separação no Seminário 11, no tratamento dado pela estrutura de grupo nos Seminários 14 e 15 o percurso é diferente. Aqui, devemos articular dois eixos do primeiro semigrupo que examinamos para chegarmos à posição do impasse e depois avançar. Primeiro, o quê se coloca em jogo na diagonal que vai do vértice ES para o DI, que é a passagem do que era falta para perda, como dissemos. É a passagem de a para -j. Retomemos que a falta aqui é a falta de sujeito: onde está o a no vértice ES há um “ser sem je” (primeiro “lá onde isso estava”). A passagem faz, da falta, perda.

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27 O Ato Psicanalítico, op. cit. (aula de 20 de março de 1968).

28 Lacan, O Seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964/1985, p. 27).

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29 O desejo do psicanalista, op. cit. (p. 82).

30 O Ato Psicanalítico, op. cit. (aula de 10 de janeiro de 1968).

31 Ibid., aula de 24 de janeiro de 1968.

32 Ibid., aula de 17 de janeiro de 1968.

33 O desejo do psicanalista, op. cit. (p. 145).

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Mas aqui, “a falta de sujeito própria do isso torna-se, no inconsciente, objeto da perda”29. Assim, o sujeito como falta em um primeiro tempo, implica um objeto de perda para Outro em um segundo (segundo “lá onde isso estava”). O segundo eixo é o da transferência que desemboca no vértice do impasse. Essa diagonal, como vimos, reúne em si as operações alienação e verdade. Ela faz chegar, por redução, à forma mínima em que aparece “a identificação do a, como causa do desejo, e do -j como lugar onde se inscreve a hiância própria ao ato sexual”30. No vértice do impasse, o sujeito vê-se diante de tal justaposição de a e -j (falta e perda), o que faz da fantasia uma forma de se tentar escrever o ato sexual, sobre uma estrutura que revela o impossível de restituir da perda ao Outro. Porém, e nesse mesmo movimento, é isso o que impede que o objeto cumpra sua função de causa de desejo. É essa função que vem cumprir o objeto a no ato analítico: “a operação do ato analítico deve reduzir esse sujeito à função do objeto pequeno a”31. Assim, na diagonal do ato analítico há o movimento de disjunção do objeto a do objeto fálico, daquilo que falta ao Outro como objeto perdido: “Distinção da alienação do pequeno a, enquanto vem aqui separar-se do j, que ao fim da análise é a realização do sujeito; eis o processo de que se trata”32. Sua justaposição ao -j o colocava às voltas com o infinito da demanda, na cegueira fálica de liquidar o desejo, fazendo este funcionar a serviço daquela. É a possibilidade de extração do objeto a que guarda “certa margem de liberdade [do sujeito] em relação ao lugar que ocupou como objeto do desejo como desejo do Outro”33. Mas para isso é necessário que o sujeito tenha chegado ao impasse de ter tentado fazer existir o ato sexual, na montagem fantasmática, como resposta à perda que ele mesmo foi para o Outro. Por esta razão é que Lacan estabelece essa passagem da falta à perda e depois à causa. Claro, não deixa de haver desejo enquanto desejo do Outro, mas o avanço em formalizar o fim de análise dessa maneira está na proposição do ato pelo qual o sujeito, a partir de certa destituição de si, dá lugar ao mais singular de seu “ser” causa desse desejo. Em sendo causa desse desejo, Lacan propõe o desejo do analista. Nesse sentido, o desejo do analista não é um desejo puro, visto que é atravessado por essa função do objeto a enquanto aquilo que o causa. o tempo na psicanálise II


A partir dessas considerações podemos compreender duas ideias que nos interessam: 1. que no ato analítico haja suspensão subjetiva e ultrapassamento das coordenadas simbólicas, e; 2. que o agente do ato analítico seja essa função de causa de desejo do objeto a, pois o objeto a ao destacar-se da articulação fálica representa uma ruptura com as inscrições simbólicas que determinavam um tipo de relação entre o sujeito e o Outro. Daí também se depreende o entendimento do por quê haver no ato analítico um tempo de escansão do vetor transferência. Vimos como a diagonal da transferência do primeiro semigrupo marcavase pelo ato de retificação subjetiva e entrada em análise a partir da função do sujeito suposto saber e de seu percurso até o vértice do impasse. Se ao sujeito suposto saber cumpria a função de sustentar a transferência na análise, pondo o sujeito em transferência ao saber para poder indagar acerca do desejo do Outro, quando chega-se ao ponto de impasse não há mais o que indagar, pois a resposta dá-se pelo esgotamento do saber na construção da fantasia — que não é uma estrutura puramente simbólica. Mas é na travessia da fantasia, na diagonal que sai do vértice do impasse, no ato analítico, que a função do objeto a vem substituir a função do sujeito suposto saber. Quanto a isso Lacan é assertivo: A questão é: o que se torna o sujeito suposto saber? Vou lhes dizer que, em princípio, o psicanalista sabe o que ele se torna. Seguramente ele cai. O que está implicado teoricamente nessa suspensão do sujeito suposto saber, esse traço de supressão, essa barra sobre o S, que a simboliza, no decorrer da análise se manifesta nisso: que alguma coisa se produz num lugar, certamente que não indiferente ao psicanalista, já que é nesse mesmo lugar que essa coisa surge. Essa coisa se chama o objeto pequeno a34.

É outra maneira de dizer sobre o “sujeito que deve advir, lá onde isso estava”. Sabemos que isso foi uma forma sintética pela qual Freud buscou indicar a direção da análise. Vimos também como tal sentença se articulou em uma de suas metades no primeiro semigrupo que apresentamos. “Lá onde isso estava” aparece tanto no vértice ES como no DI. Dissemos que são duas formas de negação do je: Um ser sem je (ES) e um pensamento sem je (DI). De um Stylus Rio de Janeiro nº 18 p. 1-192 abril 2009

34 O Ato Psicanalítico, op.

cit. (aula de 17 de janeiro de 1968).

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lado, a pulsão e o objeto a, e de outro, o inconsciente e o objeto fálico. As formas negativas de a e -j na ausência de je podem fazer imaginar que na passagem proposta por Freud, o je deveria ali se afirmar como uma substituição: “lá onde isso estava, [pois não há mais nada ali], o sujeito deve advir” como que ocupando esse lugar de uma ausência. Mas vimos que no ato não se trata disso. Pois a passagem de falta à perda não dá depois ao sujeito uma posição de causa de desejo, mas é o próprio objeto a que retorna aí desde uma outra posição. Retomemos o que já dissemos. O objeto a, posto no vértice ES do primeiro semigrupo é falta de sujeito. Essa falta deve tornar-se perda de objeto para Outro no vértice DI do mesmo grupo (posição de -j). Esse sujeito torna-se objeto de perda para Outro. Sem tornar-se perda para Outro não poderia haver a última passagem, que é a disjunção de a e -j, fazendo o objeto a cumprir a função de causa de desejo. Assim, o que advém é essa função do objeto da qual o sujeito pode dispor a partir de então em sua relação com o Outro. E essa é o que poderíamos denominar por uma criação maior, pois não é outra coisa senão uma invenção absolutamente singular, de fazer o objeto tomar essa função. Talvez seja isso que Lacan apontou quando reformulou no Seminário 15 a sentença de Freud:

35 Ibid., aula de 17 de janeiro de 1968.

“Wo S tat”, e permitam-me escrever esse “S” com a letra aqui barrada, lá onde o significante agia, no duplo sentido de que ele acaba de cessar e de que ele ia justo agir, de modo algum “soll ich werden”, mas “muss ich”, eu que ajo, eu que lanço no mundo essa coisa à qual é possível dirigir-se como a uma razão35.

Não se trata, portanto, de advir o sujeito lá onde isso estava, mas de advir a causa de sua divisão. Para encerrar, como disse Lacan:

36 Ibid., aula de 20 de março de 1968. 112

O ato psicanalítico consiste essencialmente nesse tipo de efeito de sujeito que opera distribuindo, por assim dizer, o que consistirá o suporte, a saber, o sujeito dividido, o S, enquanto esta é a aquisição do efeito de sujeito ao final da tarefa psicanalisante... É ao preço – já que falei de distribuição – de que toda experiência girou em torno desse objeto pequeno a, enquanto é, foi e permanece sendo estruturalmente a causa dessa divisão do sujeito36. o tempo na psicanálise II


Referências bibliográficas BARBUT, M. Sobre o sentido da palavra estrutura nas matemáticas. Rio de Janeiro: Revinter, 1996. BRODSKY, G. Short Stoty – Os princípios do Ato Analítico. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2004. LACAN, J. (1945). O tempo lógico e a asserção de certeza antecipada. In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998. LACAN, J. O Seminário – livro 10: A Angústia (1962-63). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2005. LACAN, J. O Seminário – livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985. LACAN, J. Seminário 14: A lógica da fantasia (1966-67). Inédito. LACAN, J. Seminário 15: O ato psicanalítico (1967-68). Inédito. LACAN, J. (1969). Resumo – A lógica da fantasia. In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003. RABINOVICH, D. O desejo do psicanalista. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2000.

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Resumo Em dezembro de 1966, Lacan apresenta em seu seminário sobre a Lógica da Fantasia a estrutura matemática do Grupo de Klein, trabalhada por Marc Barbut em seu artigo publicado em Temps Modernes no mês anterior. Lacan a apresenta para subvertê-la segundo aquilo que a experiência analítica orienta. Trata-se da tentativa, na esteira de seus desenvolvimentos desde 1964 (operações de alienação e separação), de formalizar a experiência a partir de seus tempos lógicos que enlaçam sujeito, Outro e objeto. Este texto busca acompanhar este percurso apoiado diretamente na estrutura, seguindo os passos de Lacan até a passagem que marca o fim da experiência pelo ato analítico.

Palavras-chave Lacan, Grupo de Klein, transferência, fantasia, ato analítico.

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Abstract In December of 1966 Lacan presents in his seminar on the Logic of Fantasy the mathematical structure of the group of Klein worked by Marc Barbut in his article published in Temps Modernes in the previous month. In fact, Lacan turned it according the analytical experience. It is the attempt, in the path of his developments since 1964 (operations of separation and alienation), to formalize this experience that links subject, Other and object. This text claims to study that structure, following the footsteps of Lacan to the passage that marks the end of the experience by analytical act.

Keywords Lacan, Group of Klein, transference, fantasy, analytical act.

Recebido 12/04/2009

Aprovado 08/07/2009

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A banda de Moebius e o tempo do sujeito para a construção da fantasia inconsciente1 Maurício Castejón Hermann É interessante localizar nesse esquema R o objeto a, para esclarecer o que ele traz para o campo da realidade (campo que o barra). Qualquer que tenha sido a insistência que desde então empenhamos para desenvolvê-lo – enunciando que esse campo só funciona ao se obturar pela tela da fantasia –, isso ainda exige muita atenção. Talvez haja interesse em reconhecer que, então enigmático, mas perfeitamente legível para quem conhece a sequência, como é o caso quando se pretende apoiar-se nele, o que o esquema R expõe é um plano projetivo. Em especial, os pontos em que não foi por acaso (nem por brincadeira) que escolhemos as letras pelas quais eles se correspondem, m M, i I, e que são aqueles com que se enquadra o único corte ), indicam bastante bem válido nesse esquema (ou seja, o corte que esse corte isola no campo uma banda de Moebius. Basta dizer isso, já que, a partir daí, esse campo será apenas o lugar-tenente da fantasia ao qual esse corte fornece toda a estrutura. Queremos dizer que somente o corte revela a estrutura da superfície inteira, por poder destacar nela os dois elementos heterogêneos que são (marcados em nosso algoritmo ($◊a) da fantasia) o $, S barrado da banda, a ser esperada aqui onde ela efetivamente surge, isto é, recobrindo o campo R da realidade, e o a, que corresponde aos campos I e S. Portanto, é como representante da representação na fantasia, isto é, como sujeito originalmente recalcado, que o $, S barrado do desejo, suporta aqui o campo da realidade, e este só se sustenta pela extração do objeto a, que, no entanto, lhe fornece seu enquadre. Medindo por escalões, todos vetorializados por uma intrusão apenas do campo I no campo R, o que só é bem articulado em nosso texto como efeito do narcisismo, é inteiramente impossível, portanto, que queiramos reintroduzir aí, por alguma porta dos fundos, que esses efeitos (leia-se “sistema das identificações”) possam teoricamente fundar, seja de que maneira for, a realidade. Quem acompanhou nossas exposições topológicas (que não se justificam pela estrutura da fantasia a ser articulada) deve saber perfeitamente que, na banda de Moebius, não há nada de mensurável a ser retido em sua estrutura, e que ela se reduz, como o real aqui em questão, ao próprio corte. Esta nota é indicativa do momento atual de nossa elaboração topológica (julho de 1966).2

A nota de rodapé, apresentada aqui como epígrafe, formaliza a

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1 Reflexão apresentada nos módulos de leitura das Formações Clínicas do Campo Lacaniano de São Paulo. Este texto é parte da Tese de Doutorado intitulada Acompanhamento Terapêutico e Psicose: um articulador do real, simbólico e imaginário, defendida no Departamento de Psicologia Clínica da Universidade de São Paulo, sob orientação da Profª. Dra. Miriam Debieux Rosa.

2 Lacan, De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicose (195758/1998, pp. 559-60).

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3 Lacan, O Seminário, livro 8: A transferência (19601961).

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relação do sujeito neurótico com o campo da realidade para, justamente, incorporar a dimensão do tempo ao tratamento psicanalítico. O propósito maior dessa reflexão é, portanto, esmiuçar certas passagens desta nota de rodapé, com o intuito de oferecer ao leitor subsídios à sua compreensão ou, dito de outro modo, desdobrar afirmações que ali se apresentam de forma bastante condensada. Desse modo, abre-se um leque de questões: Qual é o estatuto do objeto, sua relação com a realidade e o modo como ela, a realidade, é apreendida pela fantasia? De que maneira a ideia do plano projetivo incorpora, para si, a noção do tempo? E a topologia? A banda de Moebius, como figura topológica, permite romper com a dicotomia endógeno X exógeno, de modo a situar – nela mesma – a fantasia inconsciente, seus objetos e o corte de uma sessão de análise? A seguir, seguem cinco comentários sobre a nota de rodapé. Como pensar o objeto a, sua relação com o campo da realidade e seu recorte através da tela da fantasia? Conforme Roudinesco e Plont, no Dicionário de Psicanálise, o conceito objeto a foi apresentado por Lacan no ano de 1961, com o intuito de descrever o objeto de desejo do sujeito do inconsciente como algo que lhe é furtado e, também, irrepresentável, como um resto não-simbolizável. Ele aparece de forma fragmentada, por meio de quatro objetos parciais desligados do corpo, a saber: o seio, como objeto de sucção; as fezes, como objetos de secreção – objetos da demanda – e conjuntamente a voz e o olhar, ambos como objetos do desejo. Já no Seminário A transferência, Lacan3 trabalha questões vinculadas ao manejo da transferência, ao retomar O banquete de Platão e a posição de Alcibíades diante de Sócrates. Alcibíades demandava de Sócrates uma confirmação de seu amor. Sócrates, por seu turno (e conforme Lacan), sustentava uma posição de analista, já que fazia semblante ao endereçamento do amor de Alcibíades e, ao mesmo tempo, não o respondia em ato. Ora, aqui reside um argumento freudiano acerca do amor de transferência, visto que o neurótico adquire uma maneira específica de amar, no drama edipiano, e o atualiza na relação analítica. De seu lado, um analista suporta o lugar que lhe foi dado na transferência; suporta o endereçamento do amor de seu analisante, mas não o responde em ato. O diálogo de Platão versa em torno do amor e da ideia de

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que há um objeto que representa o “bem”, o Agalma. É sobre essa noção de Agalma – o bom objeto – que Lacan o converte em objeto a. “(…) objeto do desejo que se esquiva e que, ao mesmo tempo, remete à própria causa do desejo. Em outras palavras, a verdade do desejo permanece oculta para a consciência, porque seu objeto é uma ‘falta-a-ser’. Em março de 1965, Lacan resumiria essa proposição nesse aforismo: ‘O amor é dar o que não se tem a alguém que não o quer.’”4 Outro aspecto a ser considerado é a noção de realidade. Aqui reside uma aproximação ao argumento de Freud5, pois ele retificou a ideia segundo a qual só haveria perda da realidade na psicose, tal como afirmara em texto anterior6. Na verdade, também há uma fuga da realidade na neurose, quando algum objeto da realidade evoca um traço da fantasia inconsciente. Para dar continuidade ao argumento acima, é necessário interrogar a descrição de Freud7 acerca da hipótese endógena e exógena da constituição da subjetividade e sua confluência na fantasia inconsciente, ao articular o mundo subjetivo da criança ao mundo objetivo, de sorte a considerar a estruturação da fantasia inconsciente em função do lugar que a criança ocupa, na própria fantasia, em relação aos pais. Nasio8 oferece uma reflexão interessante sobre esse debate, ao definir, como ponto de partida, a experiência analítica em função do amor de transferência. Posto isso, interroga-se a respeito de certas dicotomias ou preconceitos, sob a forma de opostos: é possível afirmar a existência de um homem e de uma mulher? Corpo é algo que se distingue por completo do psiquismo? Há diferenças entre a realidade material e a realidade psíquica? É possível sustentar a hipótese endógena e a hipótese exógena, tal como Freud o fez, ao teorizar a fantasia inconsciente? A experiência analítica e o respectivo trato teórico oferecidos por Lacan rompem com esses “opostos” ou, então, é possível verificar que há alguns preconceitos que merecem ser revistos ou reconsiderados. Por exemplo, a ideia de que há um “dentro” e um “fora” se modifica quando se situa a própria clínica psicanalítica como território. “Em que termos passa esse limite que diz respeito à experiência da análise?”9 Nesse contexto, ele propõe pensarmos a

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4 Roudinesco e Plont, Dicionário de psicanálise (1998, p. 552). 5 Freud, A perda da reali-

dade na neurose e na psicose (1925/1980).

6 Freud, Neurose e psicose (1924/1980). 7 Freud, Bate-se numa criança (1919/1980).

8 Nasio, Psicossomática – as formações do objeto a (1993).

9 Ibid, p.27.

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10 Ibid, p.27.

11 Freud, Esboço de psicanálise (1938/1980).

12 Lacan, O Seminário,

livro 17: O avesso da psicanálise (1969070/1992).

13 Lacan, O Seminário,

livro 20: Mais, ainda (197273/1985).

14 Freud, Recordar, repetir e elaborar (1914/1980).

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psicanálise como a “realidade enquanto limite, essa zona fronteiriça entre o sujeito e o real”10. Ainda de acordo com a crítica à hipótese freudiana de que existe um dentro e um fora, afirma-se que o argumento de Freud se aproxima de uma determinada visão filosófica, a de Berkeley, condizente com a ideia de que só é possível conhecer o mundo, o fora, através das representações. Mas aí reside uma contradição: como isso é possível, se as representações são internas e possuem características próprias? Não existem representações fora do psiquismo humano. Freud não realizou distinção entre a noção de realidade e de real; além disso, supôs a existência dos dois mundos – interno e externo –, em função da confusão existente entre esses conceitos. Ele também dizia que somente o mundo interno é passível de ser cognoscível, apesar de ter revisto essa posição ao final de sua vida11, ao afirmar que o real interno é mais cognoscível que o real externo, mas que não seria apreensível por conceitos ou palavras, mas sim pela própria análise. Posto isso, vale considerar em Lacan a distinção entre real e realidade: Real condiz com algo que é irrepresentável, inatingível12; ou, então, é o momento em que se articula o gozo do ser com o real13. Tomemos essa referência: Lacan propõe algumas modalidades de gozo, neste Seminário, tais como, por exemplo, o gozo fálico, o gozo feminino e – este sim importante para esta reflexão – o gozo do ser. Há uma equivalência entre o gozo do ser e o real, de sorte a considerá-lo como aquilo que anima, de acordo com Freud, a compulsão à repetição. Freud14 descreve a compulsão à repetição como algo da ordem do inconsciente; conteúdos que ainda não foram passíveis de elaboração e que, desse modo, são atualizados na transferência em ato. A indicação clínica deste artigo se articula com a ideia de que uma análise se efetiva na transferência; em sustentar as repetições do analisante, já que é na repetição de algo que a diferença pode advir, permitindo uma elaboração. Já a realidade é mutante: abre-se e se fecha de tal sorte a ser concebida como algo local e atrelado à trama dos significantes. Em outros termos, a realidade pode ser pensada como uma série de identificações que se sucederam na vida do sujeito, como um vai-

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vém entre o eu e a imagem especular do estádio do espelho. Aqui a ênfase é posta no primeiro tempo do Édipo, mais precisamente no lugar da mãe como o Outro que deseja. “(…) realidade, na vida de alguém, é a sucessão de encontros identificadores e de encontro com o desejo do Outro.”15 Porém, conforme Nasio, a realidade não se restringe apenas às palavras e imagens, já que a realidade é também concebida pelo movimento da pulsão – no estreito vínculo entre o psíquico e o orgânico. É nesse contexto que Nasio se interroga acerca do ataque histérico. Do que se trata? É fantasia? É realidade? O desmaio histérico é um exemplo interessante para encaminhar essas questões, visto que é, sem dúvida alguma, consequência da ação da fantasia inconsciente e, no entanto e ao mesmo tempo, há um corpo no chão. Fala-se de um corpo desmaiado, tomado pela ação da fantasia histérica. […] A fantasia não é uma imagem na cabeça, mas é algo material, que se manifesta por uma atividade motora, uma paralisia, por alguma coisa no corpo. A realidade é isto: não foi somente o significante que induziu a histérica a desmaiar, não são apenas as imagens que sustentam sua identificação. A realidade para a histérica é mais que todo o circo que gira em torno dela, que ela instalou. A realidade para a histérica é onde ela cai desmaiada. Para falar de realidade é preciso disto16.

Em outras palavras, a realidade equivale ao corte, quando se introduz o movimento da pulsão para o sujeito se separar do objeto. Freud17 afirma que as pulsões não possuem objeto definido. Ele comenta a ideia de que há uma falsa crença, a de que existiria uma cola entre a pulsão e o objeto. Na verdade, o objeto eleito da pulsão pode induzir a esse erro, visto que se apresenta aí uma ilusão de que a satisfação pulsional é decorrência de determinado objeto. Não é à toa que Freud discorre acerca da plasticidade da pulsão. Assim, no ataque histérico, o objeto da pulsão pode ser o olhar ou, então, a ação motora do músculo. Ora, fala-se de uma realidade concebida como imagens e significantes, mas também determinada pelo movimento pulsional. A trajetória da pulsão escópica, descrita

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15 Psicossomática – as formações do objeto a, op.cit., p.31.

16 Ibid, p.33.

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Freud, A pulsão e suas vicissitudes (1915/1980).

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por Freud, serve como exemplo para ilustrar a gramática de seu movimento: temos aí três termos – olhar, ser olhado e olhar-se. A realidade é o que se tem de mais exterior, ligado ao significante e à imagem e, no entanto, é ao mesmo tempo o que há de mais interior, de mais íntimo ao corpo e ao sujeito do inconsciente. A ênfase dada na frase anterior incide sobre o período “é ao mesmo tempo”, o que indica a superação da dicotomia endo x exo, tal como já foi discutida anteriormente. 2- O esquema R como um plano projetivo. O que isso quer dizer? A representação gráfica do mapa-múndi é um exemplo de plano projetivo. A disposição dos continentes em um plano bidimensional é bastante conhecida, inclusive em função das determinações históricas que o conceberam. O continente europeu se localiza ao centro e na parte superior da representação e, tomado como referência, serve para que os outros continentes sejam distribuídos, nessa mesma representação gráfica, conforme sua localização geográfica em relação à referência eleita. É interessante notar que qualquer parte do planeta poderia ser usada como ponto de referência. A consequência disso é que seria possível ter séries de representações ao tentar ilustrá-lo em um plano bidimensional. No entanto, há aspectos que escapam à representação gráfica do planeta Terra, tais como seu eixo de rotação ou seu eixo de translação. A Terra gira em torno de si mesma, o que gera os dias e as noites; além disso, ela possui uma localização no sistema solar – é o terceiro planeta mais próximo do Sol e demora 365 dias, um ano, para dar uma volta completa em torno dele. O mapa-múndi não dá conta desses movimentos do globo terrestre e seus respectivos tempos; eles não são passíveis de ser representados ou figurados. Ao transpor essa discussão para o esquema R, tem-se a ideia de que nele há a formalização dos três tempos do Édipo, bem como o quadrilátero MimI. São esses pontos que determinam o quadrilátero responsável por animar a estrutura – ao determinar as instâncias nas quais uma análise se situa, além de incorporar ao modelo a problemática do tempo – visto que inscrevem um movimento onde se dá o campo da experiência analítica, desde que desse quadrilátero seja feita uma figura topológica denominada banda de Moebius.

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3- O que são os pontos MimI? Os pontos citados definem o campo da realidade. De início, o eixo i – M, que está de acordo com o registro imaginário. O i equivale ao eu, a imagem do próprio corpo diante da mãe. Já o M está atrelado ao significante do objeto primordial ou, dito de outro modo, o ego ideal. Há também o outro eixo, m – I, onde m é a imagem especular da criança e I é o Ideal do eu. O segmento m – I, por meio de suas identificações, está atrelado à serie de significantes ou de representações que pontuam sua realidade, a partir de referenciais; uma realidade recheada de significantes. Falar do Ideal de eu é fazer referência à identificação que convoca o registro do simbólico; ou seja, a uma série de identificações significantes que se opõe ao registro do imaginário. A identificação ao Ideal do eu pressupõe a incidência da função paterna e, consequentemente, um desapego à relação imaginária com a mãe. O pai, por ser um personagem real, intervém de modo a que o eu se torne um elemento significante. Desse modo, pode-se afirmar, estabelece-se aí – de acordo com Lacan –, um movimento de báscula oriundo da torção entre os registros do imaginário e do simbólico, justamente onde se define o campo da realidade. De um lado, há a realidade adquirida pelo sujeito do inconsciente, a partir de sua assunção a uma imagem virtual do corpo. De outro, o sujeito do inconsciente introduz no campo da experiência o significante, o que resulta em ampliar este mesmo campo para o sujeito. Ainda com Lacan18, cabe retomar a discussão sobre o estatuto do objeto, uma vez que essa interrogação é primordial para sustentar a experiência analítica. Quais são a fonte e a gênese do objeto ilusório? É possível reduzir o objeto ao ilusório ou ao imaginário? Não! Lacan é taxativo em sua resposta. O objeto da necessidade sexual não se reduz ao fato, por exemplo, de o macho se voltar para uma fêmea em busca de uma atividade sexual cuja finalidade seja a reprodução da espécie. Lacan é irônico ao citar um fato essencial a essa discussão, quando enfatiza o que “um sapatinho de mulher” provoca em um homem. O objeto ilusório não exerce sua função no sujeito do inconsciente como imagem, apesar do engodo que se apresenta, mas se inscreve como um elemento significante, atrelado à cadeia significante. Desse modo, há que se pensar que o

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18 Lacan, O Seminário,

livro 5: As formações do inconsciente (1957-1958/1999).

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19 Freud, A organização genital infantil: uma interpolação sobre a teoria da sexualidade (1923/1980).

20 O Seminário, livro 5, op.cit., p.248.

21 Lacan, O Seminário,

livro 3: As Psicoses (19551956/1985).

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objeto primordial domina a vida psíquica, visto que há elementos imaginários que desempenham papéis cristalizadores. Também, há que se considerar – como já foi dito –, sua inscrição como significante atrelado à cadeia. Esta última avança: S, S1, S2, S3,… e a significação também avança; porém, em sentido contrário. Há uma significação que desliza e que determina, no humano, uma espécie de relação intrínseca de significação. Aqui se trata de um objeto metonímico, axial na dialética das perversões e das neuroses, além de ser também determinante para o desenvolvimento subjetivo. Falase do falo. A relação da criança com a mãe não é somente permeada por realizações e frustrações, mas também pela passagem da descoberta do que é, para a criança, ser o objeto de desejo do outro e da inscrição do desejo nela mesma, a criança. Nesse ponto, Lacan retoma as ideias de Freud a respeito da fase fálica19 e da estruturação da fantasia inconsciente, ao introduzir em seu argumento a passagem do primeiro tempo para o segundo tempo do Édipo. O que significa para a criança o seu desejo? Lacan atribui à fase fálica de Freud o estatuto de um significante pivô, “em torno do qual girava toda a dialética do que o sujeito tem que conquistar por si mesmo, por seu próprio ser”20. Ora, a respeito da inscrição do significante fálico na estruturação da subjetividade – e a constituição da cadeia significante ancorada na relação entre significante e significado, amarrados pelo point de capiton – atrela-se à inscrição do significante Nome-doPai. O significante fálico amarra o significante ao significado, por meio do “ponto de basta”, o que sustenta a formulação lacaniana a respeito da primazia do significante sobre o significado. Desse modo, retoma-se a ideia de que uma estrutura clínica se define a partir do modo pelo qual o sujeito do inconsciente articula/define/ ordena sua posição em relação ao jogo do significante. Para pensar a neurose, Lacan21 fala do “ponto de basta” como algo primordial para a experiência humana. Lança-se mão de uma metáfora, no caso a ideia do “ponto de basta”, como ponto de articulação, de amarração entre os três registros: o simbólico, o imaginário e o real na linguagem. O “ponto de basta” permite uma articulação entre significante e significado capaz de construir sentidos possíveis para

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uma fala, quando se coloca um ponto final na frase. O sentido se constrói retroativamente e pode ser compartilhado em função do fato de que é próprio da linguagem compartilhar sentidos possíveis. Na neurose, o sujeito do inconsciente habita a linguagem, já que ele recebe a mensagem de forma invertida, uma vez que o Outro está reconhecido no discurso da alteridade. “É essencialmente essa incógnita na alteridade do Outro que caracteriza a ligação da palavra no nível em que ela é falada ao outro.”22 Na fala do sujeito neurótico há reciprocidade. A condição de o neurótico habitar a linguagem traz consequências importantes para o manejo da transferência na clínica, naquilo que se refere ao tempo de uma sessão de análise: o tempo lógico e sua estrutura de corte. Aliás, na própria nota de rodapé, Lacan situa o quadrilátero M i m I como o único corte válido nesse esquema, porque ele isola no campo da realidade uma banda de Moebius. 4- A banda de Moebius é uma figura topológica: o que quer dizer? A topologia se constituiu como um ramo da matemática. Granon-Lafont23 oferece algumas passagens históricas para descrever seu campo. Em 1679, Leibniz definiu um novo ramo da matemática, sob a classificação latina de analysis situs, cuja tradução para o português é o estudo do lugar. Foi em 1750 que a topologia avançou, no momento mesmo em que Euler estabeleceu relações constantes entre vértices, faces e arestas de um sólido convexo. O trabalho de Euler suscitou várias polêmicas, o que serviu para reforçar o campo da topologia, já que inúmeros matemáticos concentraram-se em estabelecer limites possíveis para as leis propostas por Euler. Foi por meio de Moebius, em 1861, que uma figura topológica entraria para a história. É a banda de Moebius, tema dessa reflexão. A topologia preocupa-se com o estudo de formas geométricas, a ciência dos espaços e suas leis ou propriedades. Opõe-se ao modelo matemático euclidiano, visto que não se trata de estudar um objeto e o cálculo de seu deslocamento no espaço. A ênfase dada à topologia condiz com o estudo do espaço em si mesmo, em sua invariância. Pode-se, inclusive, afirmar que o uso da topologia no campo psicanalítico e, mesmo, nas ciências humanas aproxima-se de um fundamento epistemológico do conhecimento – e cabe a Lacan o mérito de ter insistido nessa via. Ele foi, quando menos,

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22 Ibid, p.49.

23 Granon-Lafont, La

topología básica de Jacques Lacan (1987).

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24 Vegh, Escrituras (1994).

25 Lacan, O Seminário: RSI (1975-76/inédito).

26 Ibid, aula de 10 de dezembro de 1974.

27 La topología básica de

Jacuqes Lacan, op.cit. p.46.

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um grande colaborador para a realização dessa empreitada: a de lançar mão do uso desse ramo da matemática para formalizar a experiência analítica. Vegh24, em distintos momentos de sua obra, interroga-se a respeito do uso das escritas na obra de Lacan. Reconhece que na obra de Lacan há o recurso às figuras topológicas, o que possibilita estabelecer, por meio das escritas, descrições importantes de uma época de seu ensino. Mas, qual é o intuito desse recurso utilizado? Por que Jacques Lacan lança mão das escritas? Vegh compara o uso da topologia na psicanálise com a poesia. A poesia, apoiada nos recursos da metáfora, toca em pontos que se situam no limite do indizível. É aí que também se localiza a experiência analítica, já que uma análise é uma experiência do sujeito diante de seu mundo, ponto que não é passível de nomeação. Granon-Lafont também se interroga a respeito da pertinência da topologia, de seu uso, para teorizar a experiência analítica. Uma tendência possível na psicanálise seria a de dar substancialidade ao sujeito do inconsciente, já que se trata de um conceito fundamental para seu sistema teórico. No entanto, não é isso que está em jogo… Não se trata de substancializar o conceito do sujeito do inconsciente, mas sim de figurar e teorizar o modo como ele aparece, seus percursos e as possibilidades que lhe permitem descrever um espaço particular. O uso do recurso da topologia é um esforço de Lacan para não substancializar um conceito, no sentido mesmo da não-compreensão. Lacan25 comenta a importância do uso do nó borromeano em seu ensino, mas perfeitamente aplicável às outras figuras topológicas. “Aliás, o que poderíamos realmente perder, (…), a saber, que todos os sistemas da natureza que surgiram até aqui são marcados pela debilidade mental, para que então ater-se tanto a eles?”26. É claro que Lacan empreende um grande esforço para formalizar a experiência analítica, e assim o fez ao evitar a contaminação do imaginário naquilo mesmo que pretende transmitir. Ou “a banda de Moebius conserva, em nosso espaço, o estatuto de representante do irrepresentável. Esta função paradoxal constitui uma necessidade, a causa da debilidade de nossa percepção e de nossa imaginação intuitiva do espaço”27.

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E o que é uma banda de Moebius? Trata-se de uma figura topológica simples de fazer. Ao tomar, por exemplo, uma tira de papel, realiza-se uma torção sobre ela e, depois, fixam-se suas extremidades. Um exemplo bastante conhecido é uma figura de Escher, que permite notar o andar das formigas em um contínuo, de modo que desaparecem o que seja “lado de dentro” e “lado de fora”. Uma formiga, ao caminhar sobre a superfície da banda, retorna ao mesmo ponto após realizar duas voltas, de modo a estabelecer uma continuidade entre o lado de dentro e o lado de fora.

Escher

Ainda com Granon-Lafont, é apenas mediante um acontecimento temporal que se distingue o lado de dentro do lado de fora. Caso a formiga realize somente uma volta, ela se encontrará no lado oposto a seu ponto de partida. O tempo aparece aí como uma dimensão fundamental, importante para ser teorizado diante da experiência analítica e que condiz com as repetições do analisante, atrelado àquilo que foi dito há pouco; à ideia de que a emergência do sujeito do inconsciente, na associação livre, refere-se ao suportar a transferência, àquilo que se atualiza em ato e sua noção de corte. 5- A banda de Moebius é o lugar-tenente da fantasia, onde o corte oferece sua estrutura. Como assim? Incluem-se aí dois elementos importantes para se pensar a tra-

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vessia da fantasia, como direção de tratamento na neurose: o sujeito do inconsciente, o sujeito barrado – sua emergência na associação livre – e o objeto a, objeto-causa do desejo, que enquadra o campo da realidade. Uma análise propicia ao sujeito do inconsciente atravessar sua posição fantasmática, de sorte a se deparar com o objeto a e sua decorrente queda. Também vale ressaltar a ideia de que não há nada de mensurável a ser retido na estrutura da banda de Moebius, visto que ela se reduz ao próprio corte, assim como a emergência do real – pois ele, também, não é mensurável.

Figura 2: Esquema R ilustrando o corte da realidade e sua torção. Fonte: Nasio, 1993, p. 38 Os pontos M i m I delimitam o campo da realidade, e com eles é possível realizar uma torção para fazer a banda de Moebius. Os pontos i e I serão coincidentes, assim como os pontos m e M. Articula-se o eu com o Ideal do eu e a imagem especular com o significante do objeto primordial. As instâncias pelas quais se esta-

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belece o movimento de uma análise são, portanto: o narcisismo primário e o Ideal do eu. Ora, são instâncias psíquicas que delimitam o campo da realidade, campo que assume status de plano projetivo, visto que anima o que o esquema R pressupõe ser estático. A banda de Moebius indica o movimento da pulsão, e sua estrutura de corte visa, ao longo de uma análise, a separar a pulsão do objeto. Desse modo, rompe-se com a ideia de realidade objetiva, uma vez que ela só é percebida pela fantasia inconsciente – a realidade é definida pelo movimento pulsional e, também, através do jogo de significantes. Esse movimento na análise é marcado pelo tempo; o tempo do corte, movimento determinado pelo atravessamento da fantasia inconsciente. Como já disse Freud28, uma análise se direciona às construções possíveis que o analisante realiza, no sentido mesmo do trabalho de arqueologia sobre si mesmo, ao tentar reconstruir sua posição diante da Outra cena – a cena edipiana. O corte lacaniano auxilia o sujeito do inconsciente a se deparar com a Outra cena. A entrada em análise pressupõe a entrada do sujeito do inconsciente no campo do desejo. Lacan29 oferece uma indicação clínica preciosa no que concerne a uma possível primeira posição do sujeito diante do desejo. Ele afirma que o primeiro desejo é o desejo de reconhecimento do outro, não no sentido de que o outro possa ter a chave do objeto desejado, mas sim porque o seu primeiro objeto passa por esse tipo de reconhecimento. Essa é uma dimensão importante da análise, pois a indicação clínica aí presente condiz com a enorme frequência com que os candidatos a uma análise sempre incluem o outro como causa do próprio sofrimento. Assumir a responsabilidade pelo próprio desejo não é um passo simples, e a entrada no campo do desejo pressupõe a existência de uma lei imposta que impulsiona o sujeito do inconsciente para algo que existe, para algo que vai mais além do princípio do prazer – o gozo do ser ou o real – quer dizer, aquilo que anima a compulsão à repetição. O real, a inércia, o gozo – equivalentes entre si –, tal como aparecem na clínica psicanalítica, podem levar o sujeito a se recusar a entrar na dança dos significantes. “Não, eu não serei um elemento da cadeia.”30 Aí reside um paradoxo, pois, ao recusar a pagar uma dívida simbólica que não contraiu, não se faz outra coisa senão perpetuar essa mesma dívida. É nesse ponto que Lacan retoma a

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28 Freud, Construções em análise (1938/1980).

29 Lacan, Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise (1953/1998).

30 O Seminário, livro 5, op.cit., p.255.

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31 Bate-se numa criança, op.cit.

32 O Seminário, livro 5, op.cit., p.255.

33 Lacan, O tempo lógico e a asserção de certeza antecipada — um novo sofisma (1945/1998). 34 Escrituras, op.cit.

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segunda fase da fantasia inconsciente de Freud31, de cunho masoquista. “Há sempre, na fantasia masoquista, uma faceta degradante e profanadora, que indica, ao mesmo tempo, a dimensão do reconhecimento e o modo de relação proibido do sujeito com o sujeito paterno. É isso que constitui o fundo da parte desconhecida da fantasia.”32 O pai aparece no registro do imaginário como um rival; mas também assume um estatuto de modelo de identificação. Aí reside o efeito de báscula, visto que a posição imaginária comporta consigo uma ambiguidade, pois, ao mesmo tempo em que essa identificação imaginária de rivalidade paralisa o sujeito, há também a identificação que, atrelada à dança dos significantes, fornece ou propicia o movimento de um tratamento psicanalítico e a decorrente noção de construção em análise. Ora, a clínica psicanalítica das neuroses não se reduz ao sintoma, na medida em que a dimensão ética da psicanálise conduz o tratamento para a travessia da fantasia – e não para seu desaparecimento –, o que indica uma orientação para o método psicanalítico. A fantasia fundamental não é interpretada, mas sim construída. O fim de uma análise resulta em uma mudança subjetiva do sujeito do inconsciente diante de sua fantasia fundamental ou diante daquilo que lhe causa desejo. A escuta do significante e o corte33 de uma sessão orientam o método de intervenção clínica, conforme a posição ética descrita no parágrafo anterior. A formalização da banda de Moebius incorpora a noção de corte, ao tomar o tempo de uma sessão como um tempo lógico e não cronológico. Vegh34 retoma a ideia de que o corte visa a separar o sujeito do objeto, em relação ao Outro, segundo a lógica da castração – na teoria lacaniana. Desse modo, o corte de uma sessão é o equivalente de uma interpretação e consiste em separar o desejo da realidade, para que o sujeito do inconsciente possa emergir, enquanto o objeto cai. Esta emergência é teorizada através do modelo topológico aqui discutido, já que a banda de Moebius, como uma mostração, indica algo do real. A função do corte, se bem sustentada, afina-se à noção de que o significante nunca se representa a si mesmo e abre a perspectiva de que, na repetição, algo de novo possa aparecer. O corte de uma sessão propicia a abertura do inconsciente. A emergência do real é percebida por seus efeitos

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no significante e por sua inscrição na cadeia associativa, já que um significante assume valor próprio ao se localizar diante de outros significantes. 6- À guisa de uma conclusão. Para finalizar este ensaio, vale pensar o campo da realidade na direção do tratamento das neuroses, a partir da noção de objeto e sua relação com a construção da fantasia. Qual é a realidade de um sujeito sob transferência? É a realidade psíquica, que segue dupla determinação: de um lado, uma lógica da fantasia, orientada pelo circuito pulsional do desejo – marcada pelas demandas dirigidas ao outro na sexualidade infantil – e atualizada na transferência com o analista; de outro lado, a determinação da contingência ou o encontro com o objeto. Na convergência de ambas – a lógica da fantasia e a contingência do encontro com o objeto – situa-se o tempo. O tempo necessário para que se dê o encontro com o objeto e a decorrente elaboração voltada à construção da fantasia inconsciente.

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Resumo Lacan, em 1966,  introduziu uma nota de rodapé  em seu  texto  denominado “De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicose”. A referida nota propôs recortar o campo da realidade no esquema R e, a partir disso, convertê-lo em uma banda de Moebius. Introduziu-se, então,  a dimensão do tempo na construção da fantasia inconsciente. O presente artigo visa a esmiuçar esse passo, sustentado por Lacan, ao adotar a estratégia do uso da topologia para a formalização da experiência analítica.

Palavras-chaves Temporalidade, construção da fantasia inconsciente, banda de Moebius, formalização, topologia.

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Abstract In 1966 Lacan inserted a footnote in his text called On a question preliminary to any possible treatment of psychosis. This note proposed to delimit the field of reality to Schema R thereby  converting it into a Möbius strip. Therein the dimension of time is introduced to unconscious fantasy. The present article aims at analyzing the use of topology in the strategy of formalization of the psychoanalytical experience posited by Lacan.

Keywords Temporality, unconscious fantasy, Moebius strip, formalization, topology.

Recebido 08/05/2009

Aprovado 10/08/2009

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direção do tratamento

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O tempo do sujeito-criança do inconsciente Susy Roizin Proponho “brincar” com o título, brincar de modificar a pontuação para que as mesmas palavras suscitem distintas ressonâncias significantes. 1) O tempo do sujeito... criança do inconsciente. O inconsciente, estruturado simbolicamente, engendra o sujeito como uma criança-produto da linguagem, uma criança muito peculiar que (por ser sujeito) não tem idade. 2) O tempo do sujeito-criança... do inconsciente. Trata-se da subjetividade de uma pessoa mais nova que vive o primeiro período de sua vida e, por isso, depende dos cuidados e do amor de seu entorno; e está exposta, como uma esponja permeável, aos significantes do discurso familiar. O tema que trabalharei é o tempo do sujeito e suas particularidades na análise com crianças. Qual é o tempo do sujeito do inconsciente? Em 19511, era o passado, um passado presentificado. O sujeito em análise expressava-se na transferência, definida como a repetição, atualizada nas sessões, dos modos permanentes de constituição de seus objetos. De acordo com Lacan, em “Intervenção sobre a transferência”, o fenômeno transferencial fazia com que o analista vestisse as máscaras dos objetos libidinais que povoavam a história do analisante. Era preciso decifrar o inconsciente como uma escrita de conteúdos reprimidos, como verdades que podiam ser todas-ditas, e assim livrar o neurótico de seus sintomas. Tratava-se de um des-cobrimento do sujeito, considerado como uma estrutura simbólica, coexistente e coberta, ocultada pelo discurso consciente e imaginário. Em 19602, o tempo do sujeito do inconsciente é um tempo gramatical, o futuro anterior, definido como um momento futuro no qual será situado um acontecimento inscrito na estrutura como tendo sido produzido num tempo anterior àquele. Na verdade, o ponto de encontro entre o vivente e o significante é condição prévia ao advento de um sujeito, o qual se situa apenas aparentemente como tendo estado ali desde antes da irrupção do simbólico no real. É um fenômeno ilusório, um movimento de subjetivação après coup. Por isso, em “Subversão do sujeito e dialética do desejo no inconsciente freudiano”, Lacan desenvolveu a sequência de seus grafos em passos

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1 Lacan, Intervenção sobre a transferência (1951/1998).

2 Lacan, Subversão do sujeito e dialética do desejo no inconsciente freudiano (1960/1998).

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3 Lacan, O Seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964/1998).

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sucessivos, culminando na substituição da pequena letra Delta, a partir da qual começa um movimento ascendente, pelo S barrado, colocado no grafo definitivo, como se houvesse sido possível situar, no ponto de origem do circuito, um sujeito preexistente. Nesse escrito, Lacan menciona o “terá sido”, no futuro anterior, para conceituar o sujeito e seu desejo. Na clínica, uma alquimia semelhante é produzida quando, na transferência, atribui-se um saber prévio ao analista. Em 19643, Lacan separa-se da IPA, e a Transferência separa-se da Repetição. A transferência, a partir de então, passa a ser a colocação em ato da realidade sexual do inconsciente. Lacan fala do estatuto ético do inconsciente. Se o inconsciente não tem estatuto ôntico, seu tempo também não o tem. Trata-se de um tempo que não é. Um presente infinitamente pequeno, que não tem duração, evanescente como o “agora” aristotélico, um instante que escapa, situado diacronicamente entre o passado que já foi e o futuro que ainda não. O sujeito do inconsciente não tem a textura de uma experiência psicológica que transcorre durante um lapso de tempo. O tempo concernente ao sujeito na psicanálise é, nesse momento, o efêmero de uma pulsação, pois surge um real em jogo, mais além da vertente simbólica do inconsciente. Nessa pulsação situamos o sujeito do inconsciente, no hiato no qual se opera a disjunção, a função lógica chamada Vel, a báscula entre o fading e o sentido, o encontro impossível entre a sincronia de um lugar e a diacronia de um momento. Pulsação que é uma imagem metafórica quando se trata de descrever teoricamente a origem do sujeito. Pulsação que é observável, em seu advento intermitente e descontínuo, na realidade da experiência analítica. No encontro entre o real e o simbólico sobra uma marca de gozo, impossível de ser apreendida pelo significante. Se qualificarmos o tempo como fugaz, faz-se necessário considerar também outro tempo, um tempo que permanece e cuja duração é, de fato, o tempo da repetição das voltas significantes, que nunca alcançam esse real, mas que podem emoldurá-lo em uma construção fantasmática. O sintoma é um tipo de correção, um conector, que evidencia o fracasso da repressão ante a exigência pulsional constante. A re-

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petição é então a insistência daquilo que não se acaba de se anodar. Desde os “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade”4, o gozo perdido, a sexualidade traumática, são acontecimentos inerentes tanto ao perverso polimorfo quanto às pessoas mais velhas. Ambos devem resolver de algum modo um fenômeno que é estruturalmente inevitável para o ser falante. Por isso, sustenta-se que a criança tem sintomas. Ela pode também ser um sintoma. A criança é falada por seus pais e impregnada por uma proposta significante, ativa e atual, vinda do Outro encarnado por eles. O sujeito-criança será o efeito e ao mesmo tempo a reação diante dessa proposta. Além de lhe oferecer um saber articulado, os pais expõem a criança às demandas de seu discurso e ao enigma de seus desejos, que não se articula nas palavras. Esse enigma é interpretado como a revelação de uma falta que a criança se sente tentada a suturar, ocupando ela mesma lugar de objeto tampão, metonímia do desejo materno de um falo5. Para que uma função separadora opere é necessário que a versão de um pai faça da mãe uma mulher. A mãe deverá estar disposta a perder aquilo que a preenchia, a fim de passar da posição de mãe à de mulher. A mulher, como não-toda, consente com a castração. Do lado da criança, opera o que Lacan chama de “sua insondável decisão”: ela poderá desgarrar-se do lugar que pensava ocupar e renunciar a esse gozo para obter, em troca, a dimensão subjetiva. Se isso não ocorrer, a criança ficará estancada no lugar de falo. Nas “Duas notas sobre a criança”6, Lacan descreve outras duas modalidades sintomáticas. Em uma delas, a criança está presa na posição de objeto do fantasma materno e, na outra, representa simbolicamente o que não funciona no casal parental. Essa última posição é mais sensível às intervenções do analista porque se trata de representações simbólicas, e não de um objeto condensador de gozo que, como tal, é mais resistente à análise7. O chamado desejo do analista orienta a cura em direção ao objeto a, à separação, à resolução do Vel alienante, oferecendo a possibilidade de criar uma resposta própria, a partir da singularidade de um sujeito-criançadesejante. A posição de um analista de crianças desdobra-se em duas: por um lado, é o parceiro no jogo em que a criança representa sua novela, desdobrando o autômato significante e produzindo uma história, um saber que se situará no tempo mítico do “era uma vez”,

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4Freud, Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905/1996).

5 Lacan, O Seminário, livro

4: A relação de objeto (195657/1995).

6 Lacan, Duas notas sobre a criança (1969/2003).

7 Laurent, Hay un fin de análisis para los niños (1999).

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8 Lacan, O Seminário, livro 17: O avesso da psicanálise (1969-70/1992).

9 Freud, Mais além do princípio do prazer (1920/1996).

10 Lacan, Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise (1953/ 1998, p. 253).

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como se fosse o relato de um conto que adquire a dimensão de uma lenda escrita em algum lugar. É a ilusão de um saber suposto, que também funciona como suporte da transferência quando se atribui esse saber ao analista. Por outro lado, o analista é o pequeno a, agente do discurso analítico8, e busca isolar o significante como letra que não se extravia no sentido. O analista espera o tropeço, a tiquê, o novo: aquilo que deixa descoberto o real e a força pujante da “substância gozante”. Como resposta ante os fenômenos transferenciais, o analista põe em jogo e encarna a falta no Outro, tornando possível, durante a análise, a construção de um sintoma analítico: um sintoma e também um modo de gozo próprios, movidos por um desejo advertido, pelos quais a criança poderá ser subjetivamente responsável. Isso, entretanto, requer um tempo, o tempo de duração de uma análise que chegue a seu fim. Fim como meta, assim como final. Na particularidade da análise com crianças, não são elas as únicas que tomam as decisões. Os pais geralmente buscam uma consulta porque algo não vai bem com seu filho, tentam encontrar uma solução que recoloque a criança na linha de educação que lhe dão. Contudo, a oferta de uma análise é algo bem distinto, que pode resultar inquietante para os pais. Existe para a criança o risco de ser retirada da análise, como pelo fio de um carretel9, nas mãos do adulto. Os pais são aqueles que pagam e têm o poder de permitir ou não que uma análise conte com todo o tempo que faz falta para que possa chegar a seu fim. O tempo que faz falta é também o tempo que faz a falta, que destampa uma falta. Em alguns casos será necessário abrir o discurso dos pais e oferecer um espaço para um trabalho diretamente com eles. Os pais que deem seu aval facilitarão que a criança obtenha a coragem necessária e atreva-se a abandonar, mesmo que seja no resplendor de um momento fugaz, a cadeia (simbólica) que a sustenta. Em “Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise”, Lacan diz que “a arte do analista deve consistir em suspender as certezas do sujeito, até que se consumem suas últimas imagens”10, suspensão de certezas que se produz na temporalidade de um instante. Tomarei apenas uma cena da análise com uma criança, na qual ela brinca de desaparecer: não está onde se espera e, parafrasean-

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do Lacan, diria que a criança testa se “podem perdê-la”11. É uma variação subjetiva do jogo de esconde-esconde, escolhido como paradigma da separação, no qual a criança “se anima”, adquire alma, atreve-se, num ato espontâneo e imprevisto, a sair do lugar em que se esperaria que estivesse. A cena escolhida é um momento privilegiado em sua análise, no qual ela parece haver se livrado do automatismo significante e pode, por um instante, brincar com a surpresa12. Ramy, um menino de oito anos, chega à sessão. No momento em que a analista abre a porta para recebê-lo, ele não está ali. Algo não ocorre de acordo com o programado. A analista pergunta: Onde está Ramy? Ramy permanece oculto, em silêncio. Sua mãe, em imediata cumplicidade ao filho, responde: “Ramy não está”. Surge um espaço lúdico no qual a mãe e a analista falam dele, fingindo acreditar que ele não está. O menino aparece subitamente, dando um salto a partir de outro lugar, surpreendendo como um witz13 e, ao mesmo tempo, surpreso com sua própria espontaneidade. Ramy grita um som de um par de letras carente de significado, um “UA” que remete somente à forma de nomear sua repentina presença. Sorri e parece desfrutar do fato de não haver estado, por um instante, na cena, como se houvera-se furtado de um encontro e ficara espiando desde seu esconderijo, observando o lugar a partir do qual os outros “o falam”. Estávamos quase no final de uma análise que durou aproximadamente dois anos, período no qual Ramy costumava repetir insistentemente, em diversas sessões, uma brincadeira com pequenos bonecos e soldadinhos, um barco, um campo de batalha, uma cidade imaginária. Em sua brincadeira, parecia representar o modo de enfrentar algum perigo, alguma ameaça exterior insuportável para ele. De forma pouco variada e com uma modalidade repetitiva, concentrado quase que unicamente nos brinquedos, costumava criar brincadeiras nas quais um monstro atacava um barco até afundá-lo, um robô gigante dasafiava uma cidade e a destruía, ou um exército exageradamente numeroso e bem armado ameaçava alguns poucos soldados que dormiam indefesos no momento em que eram atacados. Era recorrente também o sofrimento de uma

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11 Lacan, Posição do inconsciente (1964/1998).

12 Lacan, O Seminário, livro 5: As formações do inconsciente (1957-58/1999).

13 Freud, O chiste e suas

relações com o inconsciente (1905/1996).

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vítima desprovida de recursos para se proteger. Por outro lado, sua conduta na vida, as circunstâncias que desencadeavam suas irritações e choros, apareciam como expressão de uma grande impotência ante a situações que Rami sentia ser incapaz de resolver. Às vezes, contava, como quem denuncia ou delata algo, desagradáveis vicissitudes familiares. Com o decorrer da análise, Ramy foi se evidenciando como uma criança emaranhada na relação entre um pai violento e uma mãe intimidada, que tinha seu olhar colocado sobre o filho, a quem dedicava todas suas preocupações. Nas sessões com os pais, o pai tinha atitude que pretendia ser dominante e depreciativa em relação à mulher. Sua linguagem e forma de falar denotavam violência ameaçadora. Muito esporadicamente, a mãe notava tal característica do pai, mas a considerava um problema de maus modos e não parecia preocupar-se e tampouco perceber a desvalorização ou as reclamações manifestadas por ele. Na verdade, ela não dava atenção a seu marido, não o escutava muito e, por isso, não se sentia maltratada, nem ofendida e nem demandada. Não obstante, não conseguia deixar de pensar nos problemas de Ramy e em suas relações sociais na escola, às vezes descrevendo-o como vítima de rejeição por parte dos colegas, outras, temendo que o filho machucasse outras crianças em algum de seus frequentes e incontroláveis acessos de raiva. Durante um tempo, Ramy foi o destinatário, o alvo receptor de intensas preocupações disparadas por sua mãe e, ao mesmo tempo, vivia atravessado pela tensão que irradiava da relação entre seus pais. Suas brincadeiras aludiam a um mártir, passivo, disposto a sacrificar-se, mas também sugeriam algo acerca de sua posição subjetiva: Ramy vivia aprisionado em um gozo que o asfixiava e o paralisava. Quando começou a falar um pouco mais na análise, manifestava-se o quanto ele gostava de delatar os equívocos de seu pai. Dizia que de tanto fumar ele iria parar no hospital. Além disso, comentava que o pai comia todas as coisas que engordam e fazem mal. Ao referir-se a seus temores noturnos, que o levavam a dormir com a mãe, Ramy regozijava-se ao contar que o pai mudavase de cama, indo dormir na do menino. Durante a análise, a analista orientou Ramy em direção a um maior contato com sua intimidade e com seus pensamentos antes de dormir, em seu quarto, convidando-o falar, desenhar ou escrever

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em um caderno aquilo que lhe vinha à cabeça naqueles momentos tão temidos. Geralmente eram construções de ficção que se criavam como o conteúdo manifesto de um sonho. O trabalho paralelo com os pais possibilitou mudanças na posição deles. Para que o pai conseguisse cumprir uma função separadora, a mãe de Ramy, apenas mãe, deveria também consentir em ser sua mulher. Após um trabalho sobre seu modo de se vincular, suas dificuldades, expectativas e condições, os pais começaram a perceber-se como um casal e aprenderam a ajudá-lo a ficar sozinho, assegurando-lhe uma presença a distância e um cuidado mais bem regulado. Ramy deixou de correr para a cama da mãe às noites e seus medos desapareceram. À medida que Ramy se afastava da cena na qual se embaralhava nas vicissitudes do casal parental, funcionando como objeto de sua mãe, suas brincadeiras foram tornando-se menos dramáticas, menos compulsivas e mais variadas. Começaram a aparecer também personagens mais simétricos, e os protagonistas das brincadeiras e histórias conseguiam finalmente criar laços mais cooperativos, ao mesmo tempo em que as situações de guerra, de piratas, que não haviam desaparecido, apresentavam-se com uma margem maior de ação, liberdade e ousadia. Passou a ser possível também guerrear sem que a parte frágil do enfrentamento fantasiado ficasse de fato neutralizada, finalizando de imediato o movimento. De fato, Ramy estava começando realmente a brincar. Surgiram relatos de relações sociais na escola. Simultaneamente, o menino mostrava-se mais comunicativo e afetivo com a analista, que fazia suas intervenções a partir de uma posição de observador, rompendo algumas vezes com a miragem sedutora da brincadeira e da narrativa imaginada, a fim de recordar a Ramy que era ele quem relatava e inventava os conflitos que ali aconteciam. As interpretações dirigiam-se às vezes ao equívoco significante, o qual, ao final do processo analítico, provocava risos e suas próprias autointerpretações. Chamava a atenção o fato de Ramy responder assim porque, no começo da análise, em situações similares, uma mudança de ressonância significante, um equívoco assinalado, costumavam provocar nele uma reação severa e compulsiva que se manifestava também na relação transferencial: Ramy ficava bravo, fazia caras de fúria e irritação e, às vezes, corria para a sala de espera, onde estava sentada sua mãe. Ao final era no-

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tável o contraste com aqueles primeiros tempos de sua análise, em termos de plasticidade e possibilidade inventiva. Ver que Ramy era capaz de escutar seus dizeres, desde outro lugar, foi o indicativo de uma mudança importante na posição subjetiva do menino. Qual é o final de uma análise com criança? Qual é a criança do fim da análise? Poderia chamá-la de “criança ousada-divertida”. Ousada, porque ousa “não ser aquilo” que se espera dela e consegue, em alguns momentos, des-identificar-se das demandas do Outro. Divertida, porque são diversas as possibilidades abertas pela contingência dos encontros, uma vez que a fixidez do gozo imposta pelo fantasma é abandonada. Divertida também por estar disposta à diversão e ao riso, ao chiste e ao sem-sentido. Uma criança que chega ao final de sua análise construiu seu próprio fantasma e também, quando chegar o momento, poderá atravessá-lo. Tradução: Maria Claudia Formigoni Revisão: Paulo Marcos Rona

Referências bibliográficas FREUD, S. (1905). Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. Trad. sob a direção de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1996. (Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, vol. VII). FREUD, S. (1905). O chiste e suas relações com o inconsciente. Trad. sob a direção de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1996. (Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, vol. VIII). FREUD, S. (1920). Mais além do princípio do prazer. Trad. sob a direção de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1996. (Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, vol. XVIII). LACAN, J. (1951). Intervenção sobre a transferência. In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998. 144

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Resumo A partir do tema proposto, o tempo na análise, e relacionando-o ao conceito de tempo do sujeito do inconsciente, o artigo retoma, primeiro, o conceito de tempo a partir de um ponto de vista histórico-cronológico para rastrear as diferentes concepções de sujeito do inconsciente que Lacan desenvolveu ao longo de seu ensino. Posteriormente, ressalta-se o tempo efêmero da pulsação para fazer referência ao real, que aparece na tiquê, no acidente, no witz e no inesperado. Todas situações nas quais consegue-se elidir o automatismo significante, sem deixar de considerar o enlaçamento com o simbólico e com o imaginário. Em seguida, o artigo trata das particularidades da análise do sujeito-criança. As mudanças na economia de gozo, experimentadas pela criança durante o processo podem provocar resistência nos pais. Stylus Rio de Janeiro nº 18 p. 1-192 abril 2009

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Eles têm o poder de decidir quando interromper a análise, podendo impedir o transcurso de tempo que faz falta (jogando com o duplo sentido): faz falta tempo, no sentido de um tempo necessário, para que a análise chegue a seu final, e faz falta, no sentido de que uma análise que faz uma falta, constrói uma falta, conduz ao enfrentamento da falta estrutural. Tanto a criança quanto seus pais deverão suportar o vazio que resta quando a criança deixa de ocupar o lugar de objeto tampão. Às vezes é preciso trabalhar diretamente com os pais. A criança geralmente apresenta-se como sintoma da mãe ou como sintoma do casal parental. O final da análise possibilitará que ela seja a portadora e responsável de seu próprio desejo advertido, de seu sintoma e seu gozo. Conforme vai conseguindo realizar um movimento de separação, a criança constrói seu fantasma que, chegado o tempo, poderá também ser atravessada.

Palavras-chave Sujeito-criança, separação, trabalho com os pais, nova economia de desejo, o sintoma e o gozo.

Abstract Starting from the proposed theme, “Time in the analysis” and adding the concept of “The time of the subject of the unconscious”, the article takes first the concept of time in an historical point of view in order to follow the several definitions of subject of the unconscious that Lacan developed throughout his teaching. The article emphasizes the ephemeral time of the pulsation to refer especially to the Real, which appears in the tyche, the accident, the “witz”, the surprise. All of them circumstances in which the authomaton of the signifiers chain is avoided without disregarding the knot created with the

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symbolic and the imaginary. Afterwards the article deals with the particularities of the analysis with a subjectchild. Changes in the economy of jouissance that take place during the analytic process may cause the parents to put up resistances. They have the power to decide when to interrupt the analysis as long as they can avoid time to go by and arrive to the end/goals (HACE FALTA). As an equivoque, in Spanish there are two agreed significations for the frase “HACE FALTA”, one relates to the idea of something that is necessary to happen and the other refers the idea of create a lack, in the sense that psychoanalisis comes to help the analyzand to face the structural lack. Both the child and his parents will have to deal with the void left by the child when he gives up the position of the “plug-object”. Generally the child appears as the symptom of his mother or the symptom of the couple of his parents. The end-goal of the analysis enables him to become the owner and responsible of his own adverted desire, his symptom and his own juissance. As long as he moves forwards in the process of Separation, he constructs a fhanthasy (Phantasma), which at the proper time, could be crossed .

Keywords Subject-child, separation, work with parents, new economy of desire, symptom and juissance.

Recebido 08/05/2009

Aprovado 28/06/2009

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Sobre a antecipação na clínica psicanalítica lacaniana com crianças (Voltar ao futuro) Pablo Peusner Na enorme bibliografia psicanalítica, e especificamente naquela dedicada aos problemas emergentes da clínica, verifica-se que grande destaque é dado ao caráter retroativo do significante, ou seja, ao seu valor no que se refere à ressignificação. Contudo, Lacan afirmava que o significante, em função de sua natureza, “sempre antecipa o sentido, desdobrando como que diante dele sua dimensão”1,2. A dupla nuance temporal própria de seu funcionamento já estava presente no adjetivo alemão nachträglich, utilizado com frequência por Freud para tratar de processos de temporalidade paradoxal. Trata-se de um termo que admite dupla leitura: pode indicar que o sujeito continua trazendo consigo determinado evento do passado até o tempo presente, revelando certa tensão em relação ao futuro; pode indicar também que o sujeito volta ao passado para se encontrar com o evento – ou, o que é equivalente, que o sujeito traz ao presente um evento do passado, futurizando-o. Convém então destacar que, em espanhol, ao traduzir nachträglich por “posterioridade” (recurso frequente entre os analistas de língua hispânica) perdese tanto a noção de retorno ao evento e a ideia de permanência do evento quanto à referência a um processo contínuo de elaboração de nova significação. Como estabelecer, então, um dispositivo que permita o desdobramento de ambos os valores temporais do significante, antecipação e retroação, em um âmbito de trabalho com as características da clínica psicanalítica lacaniana com crianças? Antes de responder, convém lembrar que, se não podemos desconhecer a dependência genérica da criança em relação a seus outros parentais, representantes do meio humano, podemos sim afirmar – de acordo com Lacan – que essa dependência, a qual ocorre desde um estádio extraordinariamente precoce do desenvolvimento, pode ser considerada uma “dependência significante”. Dessa forma, justifica-se o fato de que o analista não deve recuar diante da situação da consulta com uma criança. Se esse modo de dependência pode ser considerado “significante”, é possível formular então a seguinte hipótese: a presença dos pais e de outros familiares na clínica psicanalítica com crianças não pode ser considerada um real. Apesar de, por enquanto, tratar-se apenas de uma hipótese, é válido desenvolver as implicações de tal afirmação.

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1 Lacan, A instância da letra no inconsciente ou a razão desde Freud (1957/1998, p. 505). 2 (N.R.) Na referência literal encontrada na versão brasileira dos Escritos lê-se: “Pois o significante, por sua natureza, sempre se antecipa ao sentido, desdobrando como que adiante dele sua dimensão.”, como tradução do original “Car le signifiant de sa nature anticipe toujours sur le sens en déployant en quelque sorte au devant de lui sa dimension”. Na tradução em espanhol, lê-se: “Porque el significante por su naturaleza anticipa siempre el sentido desplegando en cierto modo ante el mismo su dimensión”. O revisor do presente artigo preferiu optar por nova tradução reforçando que o significante antecipa o sentido, como se lê no original e na tradução em espanhol, e não que se antecipa a ele, assim como que o significante antecipa diante de si mesmo sua dimensão.

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3 Freud, Conferência XXXIV: Explicações, aplicações e orientações (1932/1996).

4 Lacan, A direção do tratamento e os princípios de seu poder (1958/1998, p. 596).

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O significante “presença dos pais e de outros familiares” não é um significante de Lacan. Não há nos textos de Lacan referências explícitas ao problema, e o termo parece provir dos textos freudianos, nos quais a presença em questão era reduzida a uma presença na realidade: uma presença física que recebia valor de empecilho ao tratamento. Cito: “Uma criança é um objeto psicologicamente diferente de um adulto. De vez que não possui superego, o método da associação livre não tem muita razão de ser, a transferência (porquanto os pais reais ainda estão em evidência) desempenha um papel diferente”3. Nós, psicanalistas, não definimos o pai ou a mãe de uma criança a partir do laço sanguíneo existente entre eles. A clínica contemporânea articula-se com todo um conjunto de novas modalidades de laços familiares que, de alguma maneira, nos obrigam a ressituar no simbólico os laços paterno-filiais (e também os fraternais). Porém, a existência desses laços tem unicamente valor de obstáculo no tratamento psicanalítico ou pode ser útil em alguma medida? Para responder, convém lembrar que a ação que o analista produz sobre o paciente – em nosso caso, sobre a criança, seus pais e outros familiares incluídos no dispositivo – “escapa juntamente com a ideia que possa fazer dela, quando ele não retoma seu começo naquilo pelo qual ela é possível, quando não retém o paradoxo do que ela tem de retalhada, para revisar no princípio a estrutura por onde qualquer ação intervém na realidade”4. Eis aqui a política do analista, à qual sugerimos acrescentar o dispositivo de presença dos pais e outros familiares. Tal dispositivo se configurará com maior liberdade de acordo com a tática adotada pelo analista em cada caso, tomando posição quanto a quem participará e com qual frequência, ainda que, para facilitar certos fenômenos temporais de tipo antecipatório, proponha-se que dita frequência seja fixa. Esse dispositivo – que não será senão uma rede gerada por um discurso que inclui decisões regulamentares, enunciados científicos, proposições enunciadas e não enunciadas – estará inscrito num jogo de poder (acerca do qual Colette Soler indicou a violência inicial para qualquer modelo de dispositivo) e contribuirá para a criação da chamada “situação analítica”. Assim, a presença dos pais e de outros familiares converter-se-á em um artifício originado a partir

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da direção tomada pelo analista em forma de regras. Essas regras veicularão, inclusive nas inflexões de seu enunciado, a doutrina com que o praticante as sustenta, bem como o efeito que tenham produzido sobre ele em sua análise pessoal. Se o dispositivo da presença dos pais e de outros familiares na clínica psicanalítica lacaniana com crianças for levado ao seu máximo desenvolvimento, haverá a instalação de uma rede discursiva na qual se falará do sujeito ou do assunto a partir de diversas posições enunciativas, permitindo que o dito sujeito bidimensional fique claramente em uma posição de dependência em relação ao significante. Dessa forma, nos relatos que possam surgir, não importará quem é o autor dos textos, e sim que esses “se digam”. Em uma rede assim será possível enunciar acontecimentos passados como se fossem posteriores ao momento da enunciação, restituindo o nachträglich freudiano, mesmo que agora esteja transmutado em futuro anterior. E como conjectura o analista, sua intervenção pode transformarse em uma hipótese ou em uma abdução hipocodificada de efeito antecipatório e decisivo para o assunto em questão, permitindo o estabelecimento de relações coerentes entre dados textuais diferentes e ainda desconexos. Verificamos, na bastante diversificada clínica psicanalítica lacaniana com crianças, que deixar que os pais ou outros familiares decidam quando deve ser realizada a entrevista com o analista faz com que, quase sempre, cheguemos tarde ao problema em questão. Além disso, pode ocasionar uma espécie de renúncia da nossa tão apreciada direção da cura. Cremos que o trabalho assim proposto contribui para um labor conjunto no qual certas ideias podem matizar-se e apresentar-se de modo menos brusco, ao mesmo tempo em que se permite trabalhar em um terreno com boas probabilidades para aquilo que chamamos de “O sofrimento das crianças em sua nuance objetiva”5. Em um de seus textos clássicos, “Introdução ao narcisismo”, Freud afirma que os pais obtêm por meio dos filhos certa satisfação como modo de recuperar um antigo narcisismo já resignado. Não obstante, nos atrevemos a afirmar que um filho sempre é mais, menos ou diferente daquilo que poderia satisfazer planamente os pais em seu narcisismo perdido. Surge assim uma diferença que, ao

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5 Peusner, El sufrimiento de los niños (1999).

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6 Lacan, Reglamento y doctrina de la comisión de enseñanza (1949, p. 22).

retornar sobre a posição parental, determina um modo particular de sofrimento: o sofrimento das crianças em sua nuance objetiva. E como quando o paciente é uma criança, esse sofrimento pode ser abordado, desdobrado e modificado pela via do dispositivo de presença dos pais e de outros familiares, o que justifica seu uso e as reflexões acerca de seus alcances. Precocemente, em 1949, na ocasião de propor seu projeto de “Regulamento e doutrina da comissão de ensino da Sociedade Psicanalítica de Paris”, Lacan enfatiza a flexibilidade técnica na qual deve acreditar aquele que quer exercer a clínica com crianças. E nessa perspectiva, ele também afirmava que a nós, analistas que não retrocedemos diante das crianças, nos são solicitadas incessantemente invenções técnicas e instrumentais, o que acabava por instalar o trabalho teórico-clínico com crianças no lugar da “fronteira móvel da conquista psicanalítica”6. Por fim, esperamos que nossa proposta de trabalhar com o dispositivo da presença fixa de pais ou de outros parentes na clínica psicanalítica com crianças seja considerada uma intenção de estender dita fronteira, favorecendo os dois valores temporais do significante, coadjuvantes no momento de tentar cernir o real.

Tradução: Maria Claudia Formigoni Revisão: Paulo Marcos Rona

Referências bibliográficas FREUD, S. (1932). Conferência XXXIV: Explicações, aplicações e orientações. Trad. sob a direção de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1996. (Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, vol. XXII). LACAN, J. (1949). Reglamento y doctrina de la comisión de enseñanza. In: MILLER, J.A., Escisión, Excomunión, Disolución – Tres momentos en la vida de Jacques Lacan. Buenos Aires: Ed. Manantial, 1987. 152

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LACAN, J. (1957). A instância da letra no inconsciente ou a razão desde Freud. In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998. LACAN, J. (1958). A direção do tratamento e os princípios de seu poder. In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998. PEUSNER, P. El sufrimiento de los niños. Buenos Aires: JVE editor, 1999.

Resumo A partir do resgate da noção de “antecipação”, matiz temporal do significante que consideramos esquecido pelos psicanalistas lacanianos, e mediante uma revisão dos valores do termo Nachträglich em alemão e uma crítica à sua equivalência com o aprés-coup francês, este trabalho pretende apresentar uma lógica possível para o trabalho com pais e parentes na clínica psicanalítica lacaniana com crianças. Se o sujeito não coincide com pessoa alguma, e se nos casos de consulta por uma criança falam, efetivamente, muitas pessoas (que aqui reduzimos à dupla “pais e parentes”), a possibilidade de incluí-las em um dispositivo de frequência fixa (tal é nossa proposta) permitiria não chegar sempre tarde a situações de crise e, inclusive antecipá-las.

Palavras-chave Antecipação, retroação, psicanálise com crianças, significante, dispositivo.

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Abstract Following the recovery of the notion of “anticipation”, a temporal aspect of the signifier we considered to be forgotten by the Lacanian psychoanalysts, and by means of a revision of the values of the German term Nachträglich and a critique to its equivalence with the French aprèscoup, this work attempts to present a possible logic for the work with parents and relatives within the Lacanian psychoanalytic practice with children. If the subject does not coincide with any person, and if during the consultation for a child, in fact, there are many people involved (grouped here under the categories of “parents and relatives”) the possibility of including them in a fixed frequency device, as we suggest, would allow us not only not to be late during crisis situations but also even to be able to anticipate them.

Keywords Anticipation, retroaction, psychoanalysis of children, signifier, device.

Recebido 16/04/2009

Aprovado 06/08/2009

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entrevista

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Dominique Fingermann:

V Encontro Internacional: um movimento de “Fórum” (por Silvana Pessoa e Ana Laura Prates Pacheco) A Internacional dos Fóruns do Campo Lacaniano e a Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano realizam, a cada dois anos, seus encontros internacionais. Em 2008, coube ao Brasil, e particularmente ao Fórum do Campo Lacaniano de São Paulo, organizar e sediar o seu V Encontro: “Os Tempos do Sujeito do Inconsciente: a psicanálise no seu tempo e o tempo na psicanálise”, data significativa, pois marcou os 10 anos da criação da Internacional de Fóruns do Campo Lacaniano. Como presidente do V Encontro, a psicanalista Dominique Fingermann – um dos membros fundadores do Fórum do Campo Lacaniano de São Paulo e participante ativa do movimento de retorno à Escola de Psicanálise de orientação lacaniana – trabalhou exaustivamente com a comissão de organização para receber os colegas de outros estados e países, bem como os 700 inscritos no evento, ocorrido entre os dias 5 e 6 de julho de 2008, no Campus Paraíso, da Universidade Paulista. Revista Stylus: Dominique, em 2008, São Paulo foi a sede do V Encontro Internacional dos Fóruns do Campo Lacaniano e da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano. Como foi escolhido esse tema tão instigante: “Os tempos do sujeito do inconsciente: a psicanálise no seu tempo e o tempo na psicanálise”? Dominique Fingermann: Os temas do Encontro Internacional da IF-EPFCL são escolhidos e votados pela assembleia da IF no encontro anterior, com dois anos de antecedência. É uma decisão importante, já que escolher um tema constitui um engajamento de trabalho durante dois anos e u m compromisso de uma produção epistêmica que faça diferença no final do período dedicado ao assunto em toda a comunidade da IF-EPFCL. A discussão em Paris, que precedeu a escolha, apontava para temas de ordem clínica e outros focando a atualidade da psicanálise no mundo, embora ambos fossem absolutamente interdependentes: a psicanálise só mantém um lugar no mundo a partir da “eficácia” de sua operação clínica. A questão do tempo “caiu como uma luva” para abordar simultaneamente os dois eixos. “Os tempos do sujeito do inconsciente: a psicanálise no seu tempo e o tempo na psicanálise” é de extrema atualidade, como aponta o título do texto de apresentação de Colette

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1 Soler, Colette. Texto de apresentação do V Encontro – site da IF-EPFCL (http:// www.champlacanien.net/).

2 Lacan, Jacques. D’Ecolage (11 mars 1980).

Soler1. Atualidade no mundo contemporâneo: para que a psicanálise, apesar de sua atopia e intempestividade, tenha lugar no mundo de hoje e amanhã. Atualidade do “ato”, indicando a temporalidade específica do discurso analítico e do ato que o determina. Revista Stylus: Foram dois dias de trabalhos intensos, sem contar as reuniões específicas para membros da IF e da EPFCL. Mais de 80 trabalhos apresentados, em 4 línguas diferentes, participantes de vários países de diversos continentes, uma mesaredonda com pesquisadores de outras áreas e diversos eventos intelectuais e culturais paralelos. Como você avalia a importância desse Encontro para a presença da “psicanálise no seu tempo” e, mais especificamente, para o “movimento dos Fóruns”? Dominique Fingermann: O psicanalista se autoriza por si mesmo, perante alguns outros. Um encontro de psicanálise congrega esses “alguns outros”: espera-se dos psicanalistas que utilizem essas oportunidades para se porem à prova, expondo e esclarecendo as razões da clínica. Um a um o psicanalista faz questão de “demonstrar o que ele faz com o saber que a experiência deposita”2. Essa provação, na qual o analista se dispõe a transmitir o intransmissível da sua operação, é uma das condições do ato analítico. O encontro com a psicanálise num congresso produz-se na interlocução de quem se expõe ao falar e de quem se engaja a ouvir e se questionar. O “movimento dos Fóruns” se iniciou a partir desta aposta, e os congressos do Campo Lacaniano mantêm essa via: a psicanálise não se sustenta a partir de um pensamento único, mas a partir da disposição dos psicanalistas a produzir e tornar transmissíveis as modalidades do necessário, do impossível e do contingente de seu ato. Esse movimento de “Fórum” se produz, realiza, antes (nos preparativos), durante o próprio “evento”, depois, nos efeitos para cada um na sua clínica e, por muito tempo ainda, pela via das publicações realizadas; o encontro tem consequências. Revista Stylus: Pensando agora especificamente em relação ao Brasil e ao FCL-SP, quais são, do seu ponto de vista, as consequências do V Encontro para essa comunidade nacional e local? Como você avalia o trabalho institucional de sediar um Encontro Internacional?

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Dominique Fingermann: As consequências do V Encontro para a comunidade de trabalho brasileira e paulista são inegáveis e inumeráveis: conhecer os colegas dos outros países, ouvi-los, fazer ouvir as suas próprias elaborações, abrir as suas questões, deslocar e descolar as suas referências, desarranjar seus conceitos e preconceitos etc. Mas o ponto crucial nisso tudo é realizar, de fato, a dimensão internacional da comunidade dos fóruns e de sua Escola, ou seja, a inclusão do Outro, na sua alteridade mais radical: A barrado. Revista Stylus: Um dos pontos mais elogiados pelos colegas de outros países foi a organização impecável do V Encontro. Foram montadas várias comissões, duas comissões científicas (nacional e internacional), envolvendo o trabalho de um número enorme de colegas brasileiros e estrangeiros. O que você pode transmitir dessa experiência para a organização dos próximos Encontros? Dominique Fingermann: Tentei passar para os colegas que eu convidava para as diversas comissões, que não se tratava de um trabalho “braçal” de militante da psicanálise (que horror!), mas que a função do fazer estava nesse caso intrinsecamente ligada ao “fazer escola”. A escola só ex-siste se houver analistas à altura, isto é, se pondo à prova (“L’école, l’épreuve”, diz Lacan). A multiplicidade das comissões e da delegação das responsabilidades não dispensou a necessidade de uma direção sem complacência, o que gerou um certo número de tensões e mal-entendidos que o sucesso da organização, desde a véspera do Encontro, dissipou. O único ponto que lamento, hoje ainda, é o fato de que os colegas que cuidaram da Livraria do Campo Lacaniano mal participaram dos debates. Essa Livraria é um dos pontos cruciais de um Encontro Internacional (troca das publicações dos escritos, consequências da experiência que se depositou), a sua organização é complexa e não conseguimos delegar essa tarefa. Revista Stylus: Após 10 anos de trabalho coletivo – uma significativa extensão de tempo – e deste Encontro – um grande espaço que reuniu um significativo número de psicanalistas e intelectuais – você acha que estamos sendo bem-sucedidos na construção de

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3 Nominé, Bernard. Entre-

vistas (sobre a fundação da Escola). In: Stylus, n. 4, abr. 2002, p. 111.

uma comunidade fundada sobre outro estilo, outra relação como o saber, para usar uma expressão de Bernard Nominé?3 Dominique Fingermann: O sucesso de nossa empreitada pode ser medido, de certa forma, pela quantidade e diversidade dos trabalhos apresentados, pois isso indica que nós conseguimos produzir um autêntico campo epistêmico a partir das elaborações dos psicanalistas (“práxis da teoria”). No entanto, se essa diversidade é necessária, ela não é suficiente. Precisamos ter prova de uma orientação comum: a orientação pela ética da psicanálise regulada a partir do encontro com o real. A medida da orientação se dá, a meu ver, pela qualidade dos debates: se a exposição dos trabalhos não produz nenhum debate ou questionamento, é porque o expositor não transmitiu nada de interesse para a comunidade, ou porque não conseguiu fazer-se ouvir, ou porque ninguém está disposto para acolher as elaborações, ou porque estas não repercutem em nada a orientação da psicanálise pelo real. Todos os casos denunciariam um insucesso no plano de uma comunidade fundada num estilo diferente na relação com o saber. Precisamos, ainda, melhorar e mudar as condições de possibilidades desse debate. Revista Stylus: Cada Fórum tem a sua jornada local, e anualmente temos um Encontro Nacional. No momento estamos recebendo uma convocação para um Primeiro Encontro Internacional da Escola a ser realizado em Buenos Aires, e no ano que vem teremos o VI Encontro Internacional em Roma. O que pensa desta periodicidade de eventos, externos e internos, propostos na nossa instituição? Qual a função e a importância desses diversos Encontros? Dominique Fingermann: Cada encontro produz recortes diferentes da comunidade analítica: novas circunstâncias, temas, interlocutores, oportunidades, línguas. A cada vez uma nova maneira de articular o impossível, o necessário, e o contingente. Sempre comparo a formação analítica com a formação de um músico: um músico não reclama de ter que tocar várias sinfonias no mesmo ano, com orquestra e públicos diferentes!

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Revista Stylus: Ocasionalmente, escutamos depoimentos de colegas psicanalistas de outras instituições, com trabalho clínico e epistêmico reconhecido local e internacionalmente, afirmarem que “o futuro da psicanálise não está nas grandes instituições”. O que pensa disso? A nossa comunidade já pode ser considerada uma grande instituição? Como se fazer conhecer e reconhecer em um agrupamento tão expandido? Dominique Fingermann: Penso que tudo o que desenvolvi até agora, já constitui um argumento para sustentar que, evidentemente, acho que uma “grande” instituição é uma oportunidade boa para se deslocar (como sempre menciono), para se desconcertar, desarranjar, romper os efeitos de pequenos grupos em torno de pequenos chefes, mudar de referências, de sotaque, de idiossincrasias. Ou seja, não é confortável, necessita viajar, falar outra língua, se explicar melhor, se deparar mais ainda com o mal-entendido: é uma boa escola para o psicanalista! Todos os dispositivos locais, nacionais e internacionais oferecem ocasiões de exposição dos trabalhos; o fato de o V Encontro acontecer em São Paulo e no Brasil mostrou que os brasileiros e em particular os paulistas souberam se beneficiar dessa oportunidade. Por outro lado, privilegiar a multiplicidade dos trabalhos teve consequências que prejudicaram o tempo e a qualidade dos debates; foi uma opção da comissão científica que poderia ser revisada numa próxima vez (mesmo assim, tivemos que recusar mais de 70 trabalhos propostos!). Revista Stylus: Qual a sua avaliação do funcionamento dos cartéis – este importante dispositivo na nossa escola? [Nossa comunidade tem sido bem-sucedida nesta prática ou os nossos compromissos com a máquina institucional – seminários, encontros, publicações –, têm atrapalhado o funcionamento destes pequenos grupos – órgãos de base da nossa Escola?] Dominique Fingermann: Persiste certa insatisfação em torno do cartel e do “fazer escola” que ele implica. O que se espera de um cartel é muito singular: um ponto de ignorância que faz questão, alguém que encontra alguns para produzir um saber novo em torno dessa questão, alguns que decidem um Mais-Um, um novo laço, um turbilhão, um trabalho, um produto que cai e que circula

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na comunidade. O que se espera é muito singular, não é possível ordenar esse operador complexo com palavras de ordem universalizante: vamos todos fazer cartel! o cartel não funciona com a batuta do mestre, nem do maestro. Haverá cartel, se houver Discurso Analítico operando na Escola; a extensão da psicanálise decorre da intensão, e não o oposto. Revista Stylus: O que resta a dizer sobre o tema proposto pelo V Encontro: a psicanálise no seu tempo e o tempo da psicanálise? Dominique Fingermann: O que resta a dizer? Por enquanto, o prelúdio de um trabalho publicado após o V Encontro na Revista da USP a convite de Elcio Abdalla (físico professor da USP, que foi nosso convidado na mesa-redonda interdisciplinar “O Tempo na experiência da psicanálise”): Quando, no mundo globalizado, o tempo transformou-se em mercadoria – “Time is Money” –, quando a ciência, a tecnologia e o mercado juntam-se para nos fazer ganhar tempo a qualquer preço, a psicanálise continua insistindo com um método que proporciona uma experiência do tempo na contramão da experiência subjetiva do “tempo que passa”, inflacionada pelos tempos que correm. Entre o “Já foi!” e o “Pode ser?”, o tempo que a consciência apreende é a sucessão irreversível do passado ao futuro, passando pelo instante presente, sempre fugidio e inapreensível. As modalidades subjetivas desse a priori temporal de toda experiência declinam a vivência do tempo com matizes que vão da nostalgia até a esperança, com versões “patológicas” conhecidas como angústia, mania, melancolia, tédio que testemunham uma maneira outra de vivenciar o tempo. Os “tempos que correm”, e sua ciência implacável, pretendem remediar essas modalidades existenciais e os afetos consequentes. A psicanálise preconiza outro tratamento: “dar-se um tempo...”. Podemos também ler os trabalhos produzidos nas revistas do Campo Lacaniano, como Stylus, ou nos anais do V Encontro, que estarão em breve publicados no site da IF-EPFCL (http://www. champlacanien.net/).

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Resumo Esta entrevista foi mais um pedido de elaboração solicitado à psicanalista Dominique Fingermann, como presidente do V Encontro da Internacional de Fóruns e da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano, que teve lugar na cidade São Paulo em julho de 2008. Nela, interroga-se o que resta a dizer sobre o tempo da psicanálise e a psicanálise no seu tempo; as causas e consequências extraídas para o movimento dos Fóruns e o que se pode transmitir desta experiência para a organização de futuros encontros do Campo Lacaniano. Conclui-se que esse movimento de “Fórum” justifica-se e tem consequências. Ele se produz antes (nos preparativos), durante (no próprio evento), depois (nos efeitos para cada um na sua clínica) e, por muito tempo ainda, pela via das publicações realizadas.

Palavras-chave Encontro Internacional, organização, causas e consequências.

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Abstract This interview was one more effort of elaboration asked to psychoanalyst Dominique Fingermann, as the president of the V International Meeting of Forums and the School of Psychoanalysis of the Forums of the Lacanian Field, that took place in São Paulo in 2008. In this interview, it is questioned: what else is left to be said about the time of psychoanalysis and psychoanalysis in its time; the causes and the consequences that can be withdrawn from this Meeting to the movement of Forums and what can be transmitted from this experience to future conferences in the Lacanian Field. It concludes that this movement of Forum is justified and has consequences. It is produced before (during the preparation), while (during the event itself), after (through the effects in everyone’s practice) and, for many years still, throughout the publications.

Keywords International Meeting, organization, causes and consequences.

Recebido 07/05/2009

Aprovado 01/07/2009

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resenhas

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Por causa da questão Sandra Leticia Berta Resenha do livro O sujeito na psicanálise de Freud a Lacan: da questão do sujeito ao sujeito em questão, Antonio Godino Cabas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2009. Neste livro, o psicanalista Antonio Godino Cabas realiza um percurso sobre o conceito do sujeito para a psicanálise, apoiado na disciplina do comentário de texto e com o rigor da leitura que o caracteriza na sua clínica. Partindo da sua tese de doutorado, cujo propósito foi “investigar os fundamentos da noção do sujeito no discurso analítico” (p. 255), renova, ao pé da letra, um debate que pareceria extinto em tempos atuais, nos quais a preocupação pelas “novas formas do sintoma” tomou o primeiro plano das preocupações clínicas e das discussões dos psicanalistas. O autor é taxativo ao diferenciar o que diz respeito ao invólucro formal do sintoma e seu suporte – o Ideal – do sujeito em questão para a psicanálise. Todavia, alerta o leitor que a extensão desse debate abre para outros campos que conversam com a psicanálise, dentre os quais: o campo da filosofia política, instando a não confundir a expressão “novas formas de subjetividade”, oriunda deste último, com os fundamentos do conceito de sujeito, estritamente psicanalítico, o qual significa dizer: apoiado nas consequências extraídas da clínica psicanalítica. Portanto, esse retorno aos fundamentos se esclarece no que pretende ser o objetivo específico que o autor se propõe: “a reconstrução de um percurso que, tendo seu ponto de partida em Freud, leva a uma definição do sujeito na doutrina analítica” (p. 14). Partindo da questão do sujeito em Freud, o autor alcança as diferentes formulações do sujeito em questão, para Lacan. Entretanto, um interlúdio será recortado com o objetivo de vincular a ética de Sócrates com a elaboração do conceito de inconsciente, mais especificamente, do desejo inconsciente, em Freud. Parece-nos que essa é a estratégia escolhida pelo autor para atrelar a pergunta pelo sujeito à dimensão ética do desejo, portanto, à dimensão ética da psicanálise. A primeira parte, intitulada Freud e a questão do sujeito, abrese com um texto no qual, além de advertir que na obra freudiana recolhemos somente uma linha sobre a questão do sujeito, o autor sublinha que a mesma se atrela ao conceito de pulsão. Essas duas

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páginas do primeiro capítulo dão, de um golpe só, o roteiro que o autor pretende destacar: valendo-se dos exemplos clínicos extraídos da letra freudiana, nos dá a chave do que seria a trilha que leva do inconsciente freudiano à questão do sujeito. Eis que, como pano de fundo da reconstrução do conceito do sujeito, o autor articula os diferentes momentos que definiram, em Freud, a direção da cura. Isso para nos lembrar que, na psicanálise, o fundamento do conceito se extrai e se verifica na clínica. Assim, o primeiro passo do autor, na pergunta pelo sujeito, se acompanha da sentença “fazer consciente o inconsciente”. O sonho da injeção de Irmã, “primeiro a ser decifrado na história da transmissão analítica”, serve-lhe para mostrar que o inconsciente freudiano é o desejo – realizado no sonho – e que o mesmo comporta “uma verdade difícil de sustentar e cuja estrutura implica um real impossível de suportar” (p. 35), razão pela qual se pergunta se não deveríamos admitir, numa primeira evidência, que “o desejo freudiano é um dos nomes do sujeito” (p. 39). O segundo passo articula sintoma e pulsão. Em primeira instância, diferencia o instante do sonho contrapondo-o ao que perdura do sintoma, introduzindo, além da articulação dos pensamentos inconscientes, o quantum energético, isto é, o fator quantitativo. A introdução do quantum energético significa, na clínica, incluir o fator inercial, estando o mesmo ligado ao funcionamento e às exigências dos imperativos da pulsão. A partir dos desenvolvimentos da teoria das pulsões, Godino Cabas aponta como a questão do sujeito faz uma torção, pois, se o desejo é um dos nomes do sujeito e assumi-lo equivale a subjetivá-lo, resta uma segunda versão da questão a partir da qual o sujeito é o correlato freudiano de uma satisfação pulsional. Cabe destacar as articulações que esse autor nos oferece sobre o conceito de pulsão e os avatares da vida pulsional, analisando como a metapsicologia freudiana aponta para a definição da causa material, sinalizando a pulsão como causa, e concluindo que esse conceito crucial não produziu uma metafísica, mas uma analítica: “Uma analítica que, diga-se de passagem, permite situar as variações da satisfação em meio a um quadro geral marcado pelas invariantes da repetição” (p. 58). Todavia, numa análise desse conceito,

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o autor avança em relação a articulações anteriores sobre a pulsão, trabalhadas no seu livro Oedipus Complexus est1, desta vez para dar relevo à questão da fonte e do fim, “os dois termos mais intimamente conexos com o plano material da estrutura” (p. 60). Nesse ponto discute um tema atualmente em pauta na EPFCL, a saber: o corpo, numa leitura que redimensiona o dualismo psique-corpo. Ancorado nas formulações que oferece sobre a fonte pulsional, definida como furo que nenhum objeto pode saturar, indica os debates sobre os fins da direção da cura, perguntando-se como não poder ver que “a fonte pulsional é o ponto central, o âmago material, o real da estrutura?” (p. 66). Somente isso bastaria para negar toda relação da fonte com uma questão na qual o órgão não interessaria à psicanálise. Por último, a forma da pulsão leva-o direto à questão do sujeito, uma vez que nesse circuito de retorno à fonte “um efeito se inscreve no lugar que brotara o empuxo. Esse ponto concerne ao sujeito. O sujeito determinado pela incidência da pulsão” (p. 68). Desta vez, o exemplo dos destinos da pulsão lhe servirá para ilustrar e justificar suas afirmações. As consequências desses desenvolvimentos se extraem, com Freud, em 1919 e 1920, quando se articulam a gramática pulsional e a repetição dando uma nova dimensão à clínica: a clínica da repetição. Godino Cabas diferencia a repetição inconsciente da compulsão de repetição para salientar que no limite da primeira – o umbigo do sonho – se assinala um ponto exterior à trama inconsciente, isto é: a pulsão. No limite da repetição como rememoração, a compulsão de repetição repete o imperativo da satisfação pulsional. Escreve de modo esclarecedor: “o imperativo pulsional é a causa da insistência inconsciente” (p. 80). Este imperativo articulado na letra freudiana através da noção do Isso – impessoal, estranho, alheio, antitético – e diferenciado do Eu psíquico, serve-lhe para destacar que a estrutura subjetiva freudiana se assenta numa divisão de dois regimes, a partir da qual é o Isso que insta o Eu. Portanto, a clínica dá um passo: de fazer consciente o inconsciente para Onde o Isso era, Eu devo advir. Que o Eu subjetive até onde for possível o Isso, essa será a finalidade da cura. Finalizando esse percurso sobre a questão do sujeito freudiano, Godino Cabas conclui que o sujeito freudiano tem dois nomes: o

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1 Antonio Godino Cabas. Oedipus Complexus est. Buenos Aires: Helgueiro Editores, 1979.

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desejo inconsciente e o saldo da satisfação pulsional na qual se inscreve: a fonte pulsional, sua materialidade de buraco, sua substância definida como furo. Ou seja: “o sujeito freudiano é – em última instância – um dos efeitos do real” (p. 73). Todavia, conclui também que a pergunta freudiana sobre a questão do sujeito tem no seu ponto de partida a pergunta pelo autor, o agente, dos atos humanos, e que tem no seu cerne a pergunta agostiniana quaestio mihi factus sum – a questão que me tornei para mim mesmo –, razão pela qual extrai uma consequência, a saber: Freud, sem ter dado nome ao conceito de sujeito, fundou seu campo, o campo do sujeito. A segunda parte, Lacan e o sujeito em questão, abre-se com uma advertência crítica, longamente justificada, mesmo na dimensão histórica, discriminando a noção de sujeito na Psicanálise, na Filosofia Política e na Crítica contemporânea. Somente esse capítulo mereceria um amplo debate nas diferentes correntes atuais da intelectualidade que tendem a confundir o conceito de sujeito sem diferenciar suas procedências, questão que está em total sintonia com a seguinte pergunta: a constituição subjetiva do homem moderno muda com o tempo? Interessa observar que o autor recorta, nas raízes da psicanálise, a metafísica, de Santo Agostinho até Descartes, numa passagem que vai de “o que sou?” para “o que sei?”. Assim, também, destaca sua análise do advento do conceito de sujeito em Lacan, como crítica ao desvio da psicanálise do pósguerra, desvio que significava cortar as amarras subjetivas em prol de uma intenção objetivante. Portanto, da história da psicanálise, articulada com a história da filosofia, se desprendem os equívocos que ainda pairam sobre o conceito de sujeito. “De tal modo que o que representa uma solução para o mal-entendido clínico e analítico é, por sua vez, a fonte de um mal-entendido, dessa vez no campo da crítica e da epistemologia” (p. 113). Dessarte, no contexto do retorno a Freud, que acompanhou a definição do sujeito em questão, realizada por Lacan, o autor tratará do sujeito em questão, cingindo a questão do sujeito. O percurso da sua leitura do ensino de Lacan denota seu esforço por centrar o debate em torno da dimensão ética da clínica psicanalítica, razão pela qual delimita noções axiais articuladas na clínica que permeiam a pergunta pelo estatuto do sujeito: a assun-

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ção subjetiva que começa pela retificação subjetiva e encerra com a destituição subjetiva. Todas elas dizem respeito à responsabilidade do sujeito em face da coisa que lhe anima. Nesse sentido, observa que a primazia do simbólico surge como um princípio que permite retomar as bases da interpretação analítica, tomando como exemplo a análise das intervenções sobre transferência que Lacan destacou do caso Dora. Isso lhe permite afirmar que a realização do sujeito é efeito da cura e que existe um estreito parentesco entre o “sujeito” e a “questão”. Godino Cabas vai trançando os diferentes momentos da direção da cura junto com as nuanças que foi tomando a questão do sujeito, pondo o sujeito em questão. Entre 1954 e 1958, “a assunção subjetiva” está para Lacan como estava o princípio de “tornar consciente o inconsciente” para Freud. Cabe destacar que nesse momento, diferenciando a questão do sujeito do inconsciente do eu, o autor fornece uma orientação sobre a leitura do eu, como sintoma privilegiado, tema amplamente desenvolvido no final do ensino de Lacan. Portanto, o inconsciente “é esse sujeito desconhecido do ‘eu’, der Kern unseres Wesen – o núcleo de nosso ser...” (p. 150). Isso lhe permite afirmar, com Freud, que o sujeito é uma função, indissoluvelmente ligada ao desejo. Por essa via, introduz a realização do sujeito e a razão socrática, vinculando em dois capítulos a posição de Freud e a de Lacan em face da ética da psicanálise, que incidem diretamente na pergunta pela formação do psicanalista. A pergunta pela presença de Sócrates no ensino de Lacan é a estratégia que lhe permite afirmar tanto a introdução de uma ruptura no campo do saber, que identifica como o surgimento da dimensão do desejo, quanto o osso da ética socrática que fundamenta a autorização do psicanalista “que tem como pré-requisito ineludível a realização da própria posição” (p. 161). Ainda, com Lacan, destaca as modulações da posição do sujeito, recortando os limites e os impasses na formalização, que permitiram ir além de uma definição do sujeito, definido como efeito da operação simbólica do significante. Por essa via, diferencia nas estruturas clínicas o tratamento da mencionada posição na sua relação com o saber inconsciente: na psicose (como exclusão), na perversão (como objeção) e na neurose (como questão). Porém, a

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objeção mais radical ao simbólico ancora-se na relação do sujeito ao objeto, ou, mais precisamente, na construção do conceito de objeto, o qual significa tomar o objeto nos três registros RSI. Como escreve o autor, após a construção do grafo do desejo sustentada na pergunta pelo lugar do sujeito, e após ter constatado o impasse, uma vez que no grafo a localização do sujeito está intimamente ligada ao objeto ($◊a), o saldo será a necessidade de incluir o objeto na determinação do sujeito. Para tanto, Lacan “precisará determinar a razão clínica e, sobretudo, a razão epistêmica capaz de dar conta do estatuto da função do real” (p. 198). No último passo do seu livro, o autor retoma as coordenadas do problema referido ao estatuto do real para a psicanálise, debate datado na década de 60, pontuando as diferenças entre psicanálise e ciência, na sua interrogação sobre a verdade, e extraindo os enunciados que Lacan recolhe da epistemologia crítica da ciência. Isso para recolocar o real em causa na psicanálise. Assim, também, orienta sua leitura sobre a causa pondo em perspectiva “Lacan com Heidegger”, assinalando que “a causa não cria o efeito” (p. 212), e que se a causa material é a incidência significante, por sua vez o objeto a é imaterial, carece de correlato substancial, uma vez que sua única substância é a satisfação. Após um amplo desenvolvimento, finalmente o autor recolhe duas citações que lhe serviram a modo de conclusão, para indicar como se resolve o debate sobre a noção de sujeito, em 1965. A primeira citação: “O sujeito é um efeito de linguagem” (p. 219), extraída de “Subversão do sujeito...”. A segunda afirmação, localizada em “Posição do inconsciente”: “O inconsciente é um conceito forjado na trilha do que opera para constituir o sujeito” (p. 219). Conclui, então, que o sujeito é uma função que deriva do real no campo da linguagem e por essa razão aparece no campo significante. Mas, além do campo, está a causa localizada na intersecção da pulsão com o inconsciente, cujo correlato é o objeto a. Se Lacan afirma que o sujeito é uma resposta do real, o autor deste livro recorta da letra lacaniana que a função do sujeito é um “entre-dois”: a pulsão e o significante. De onde se desprende que a questão do inconsciente freudiano e a do sujeito lacaniano são correlativas até suas últimas consequências. Nessa fundamentação clínica, epistemológica e lógica, apoiam-

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se suas críticas sobre o discurso das “novas formas do sintoma” e de um suposto novo sujeito, encerradas com uma sentença “nada feito quanto à hipótese de um novo sujeito” (p. 237). Esse livro é um fiel exemplo de transmissão da psicanálise. Antonio Godino Cabas dá um passo, de Freud a Lacan, e fundamenta que na psicanálise a questão do sujeito continua a nortear a clínica: E agora, após tudo quanto acaba de ser dito, só resta perguntar: que é pois o sujeito senão uma posição? Que é ele senão um termo de responsabilidade face às exigências da pulsão? Que é ele senão o ponto onde se põe uma responsabilidade pelo gozo e pela causa do desejo? Que é ele senão uma decisão de assumir – ou não – isso que clama e ao que não há como não dar sua devida resposta? E que é essa decisão de assumir – ou não – os empuxos da exigência senão o exercício de uma responsabilidade? (p. 227).

Eis um passo em direção aos fundamentos que, consideramos, faz história na formação do psicanalista. Como ele nos alerta no final, esse passo dado “não é ponto de chegada, mas ponto de partida” (p. 227).

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Costura de um retrato para o álbum do futuro Lou De Resende (Maria Lúcia De Resende Chaves) Resenha do livro Escrita de uma memória que não se apaga – Envelhecimento e velhice, Ângela Mucida. Belo Horizonte: Autêntica, 2009. Um exemplar de Escrita de uma Memória que não se Apaga, segundo livro de Ângela Mucida, publicado pela Autêntica Editora neste abril de 2009, repousa agora sobre a mesa branca donde se escreve esta resenha. Vê-se, na capa, a reprodução de um Retrato de Mulher: olhos nos olhos de quem vê, rosto – e adereços – bordado em pano-tela, desenhado por traços de costura, agulha, linha, cor. Pela voz da epígrafe, o texto conceitua-se: “não sou um texto revelado, nem inspirado, sou apenas feito [...]”, fragmento da obra da sempre-viva-inda-que-ida escritora portuguesa, a Maria Gabriela Llansol. O curso narrativo traz depoimentos também daquela bela avó, motivo do retrato; cheia de idade, viva, linda de se admirar, por exemplo, quando, deitada leva pés e pernas para além do chão onde pousa sua cabeça branca... (ver foto da capa do livro O Sujeito não Envelhece, o primeiro da autora). É da velhice e do jeito próprio de envelhecer de cada humano que Ângela fala: sem esconder suas próprias falhas e perdas; em tom de texto apenas feito; em pauta de uma honestidade superior, expressão cunhada por Italo Calvino para designar um escrito portador da palavra do texto sem impostura. E de que fala? Do “estranho familiar” freudiano vivenciado pelo humano na apreensão da própria imagem; da antipatia/e/ou/fascinação, passíveis de serem provocadas pela visão da própria imagem no espelho; da identificação; da diferenciação; da trilha do envelhecimento; da aposentadoria; do sujeito que jamais se aposenta, comprometido com o trabalho não obrigatório nem remunerado; de um conceito de trabalho em prol do tornar-se sujeito da escolha-escrita pela via do próprio desejo de viver; de um trabalho que não cessa pró uma ascensão à humanidade, justo pela animação do Desejo, pelo movimento topológico de dar-se à aprendizagem de amar também as

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marcas que relembram o gradual fenecimento do tempo, das perdas, das dores, dos enganos que se sonham, com os quais se sonha, vive, chora, esquece, e lembra... (– Álbum do futuro, Gabriela! Uma escrita-por-vir, Calvino!) ... de amor/desamor às transformações do aparente corpo...; de doença, depressão; de feridas narcísicas sulcadas por perdas...: Se o idoso se acomodar e não lutar contra o desânimo não se levanta. Faço aeróbica, exercícios de yoga e depois me sinto bem. Não são apenas os exercícios que ajudam, mas também o companheirismo e a alegria que encontro no grupo. Meu joelho começou a doer e falaram em operá-lo, fiz fisioterapia e exercícios com ele todas as manhãs e agora não tenho mais nenhuma dor. Se o corpo só quer cama, luto contra isto; levanto, cuido da casa e faço atividades. Não sinto mais dores nos ossos e cuido da alimentação, como o que posso e bebo muita água; a saúde entra também pela boca. (Marieta, 85 anos – Capítulo III : “A escrita no corpo e seus destinos”, p. 73)

Do texto de “Apresentação” desse livro de Mucida, ouço ainda líquidos ecos: [...] se é da “escrita de uma memória que não se apaga” que o livro trata ao abordar o envelhecimento e a velhice, já podemos prever que não é da vida reduzida ao corpo e do corpo reduzido a vísceras e humores que este livro vai tratar. (Lúcia Castello Branco, p. 13)

E do que será, então? Este texto responde que é de um corpo portador da vida em e para além de toda a sua Biologia, Fisiologia, Anatomia... É, Mais Ainda, de um corpo-ânima, a ser reacordado a cada instante até o último, que aquele livro vem tratar. Corpo de sujeito que escuta e pronuncia anunciação; sujeito sintático de oração que transporta transmissão; sujeito conjugador do verbo que se faz carne, carne daquele que envelhece cônscio do inexorável que cai por terra, sem deixar que se aposente o dinamismo libidinal... (o luar, Llansol?)

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A libido pode ser investida de maneiras diversas e para lá de uma sexualidade copulada com imagens trazidas de um espelho exterior: eis uma das apostas do livro. O tom dissertativo, muitas vezes, quebra-se e narra; evoca o discurso direto; d’outras, quebra-se e cita: fragmentos de literatura e fundamentos de psicanálise vão se entremeando. Percebe-se que Ângela se esforça por dobrar a língua laica de psicanálise no afã de transmitir a proposta conceitualmente suportada pela lógica entre Freud e Lacan, sem ser, no entanto, acudida por nomes de conceitos teóricos: duro exercício de abrir as mãos que escrevem a se perder em um imenso vocabulário específico. Lembro, ainda, e por fim, um tom realista feminino que salta – realista de uma realidade vertida para um compromisso com o real ao pesar da realidade, em clima de uma conversa ao “pé do ouvido”, sem pretensão, própria de gente e de vitalidade.

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Eles só pensam “naquilo” Érico Nogueira Resenha do livro Falo no Jardim: Priapeia Grega, Priapeia Latina, João Angelo Oliva Neto. São Paulo: Ateliê Editorial, 2006. A tradução dos clássicos greco-latinos, e em especial a tradução em verso da poesia dita clássica, nunca teve muitos adeptos no Brasil, nem mesmo entre os poucos – ou serão pouquíssimos? – que ensinam latim e grego em nossas universidades. Contudo, desde que Haroldo de Campos na esteira do ensaio “Da Tradução como Criação e como Crítica” (1962), “redescobriu” as então esquecidas traduções de Manuel Odorico Mendes – entre as quais figuram a Odisseia, de Homero e a Eneida, de Virgílio, por exemplo –, pode-se dizer que volta e meia se publicam traduções em verso deste ou daquele poeta grego ou latino no Brasil, ainda que, via de regra, os autores e obras traduzidos não destoem do seleto grupo de “grandes nomes” da poesia ocidental: Homero, os trágicos gregos, Virgílio. Neste novo “cenário”, pois, inaugurado por Haroldo de Campos – que traduziu a Ilíada, de Homero –, João Angelo Oliva Neto ocupa lugar de destaque. Depois de publicar, ainda nos anos 90, bela tradução em verso de toda a poesia do romano Catulo – cuja segunda edição, revista e aumentada, se encontra no prelo –, seguese agora, já no século XXI, o ousado Falo no Jardim: Priapeia Grega, Priapeia Latina. O livro, basicamente, é uma recolha de poemas gregos e latinos dedicados ao deus Priapo, traduzidos em verso, anotados, precedidos de ensaios teóricos e acompanhados de apêndices e ampla iconografia. Não obstante, é livro sobretudo de poesia e para quem gosta de poesia, e não supõe que o leitor domine nenhuma outra língua além da portuguesa. Por ser integralmente bilíngue, pois, é livro para o especialista e o não-especialista. Mas quem é, afinal, o deus Priapo, e o que, afora o mesmo divino destinatário, liga os poemas reunidos neste livro? Quanto à primeira pergunta, digamos que Priapo é uma divindade itifálica, i.e., “do falo ereto”, que, relacionado à fecundidade, protegia pomares, hortos e jardins; representam-no, em regra, como um ente mais ou menos disforme, de falo imenso e flagrantemente desproporcional, algo aparentado aos sátiros e outras divindades rústicas. Entre

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natureza e cultura, portanto, o deus é mais próximo da primeira, ainda que sua presença em jardins privados, sob a forma de estátuas e outros ícones, sugira que se tratasse, mais propriamente, de uma divindade de ligação, algo como uma ponte entre a exuberância da natureza e a limitação das leis. Com efeito, o jardim é outra coisa além de “natureza delimitada”, sujeita a leis que não são as suas? Quanto à segunda pergunta, respondê-la como convém nos levaria a minúcias de Retórica e Poética, o que evidentemente não vem ao caso; digamos, porém, que, além do caráter mais ou menos “religioso” com que se trata matéria francamente fálica e obscena, e dos versos breves, de tom epigramático, que para tanto se utilizam, o que une esses poemas é a ênfase no ridículo, no riso, no chiste. São poemas “engraçados”, portanto, e geralmente curtos, que giram ao redor “daquilo”: o sexo. Desde a publicação de A Interpretação dos Sonhos (1900) e, sobretudo, de O Chiste e sua Relação com o Inconsciente (1905), sabemos que chistes, piadas e outras manifestações do gênero podem incluir o rol do que Freud chama de Versprechen (lapsus linguae) e que, por isso, guardam certa relação com o inconsciente. Ora, dissemos há pouco que Priapo, protetor dos jardins, era como uma ponte entre a “desregrada” exuberância da natureza e a ordenada compunção das leis. Se pudermos, pois, substituir “natureza” por “inconsciente”, “leis” por “superego”, e “lapsus linguae” por “poema”, o caráter risível destas composições, dedicadas ao deus do falo ereto, é tudo, menos casual. Vale a pena conferir.

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Sobre os autores Ana Laura Prates Pacheco

Psicanalista, Doutora em Psicologia pelo Instituto de Psicologia da USP, AME da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano – Fórum de São Paulo. Coordenadora da Rede Clínica do FCL-SP e coordenadora da Rede de Pesquisa de Psicanálise e Infância do FCL-SP. Autora de Feminilidade e experiência psicanalítica. (2001). E-mail: analauraprates@terra.com.br

Ângela Mucida

Psicanalista, Mestre em Filosofia Contemporânea pela UFMG e doutoranda em Psicologia/Psicanálise na UFMG. Professora Adjunta do Centro Universitário Newton Paiva e coordenadora da especialização em saúde mental e psicanálise nesta instituição. AME da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano – Fórum de Belo Horizonte, autora de: O sujeito não envelhece – Psicanálise e velhice (2004/2006) e Escrita de uma memória que não se apaga – Envelhecimento e velhice (2009). E-mail: angelamucida@terra.com.br

Antonio Quinet

Psiquiatra, Psicanalista, Doutor em Filosofia pela Universidade de Paris VII (Vincennes), AME da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano – Fórum do Rio de Janeiro, autor de: 4+1 condições da análise (Jorge Zahar Editor), Teoria e clínica da psicose (Forense Universitária), A descoberta do inconsciente (Jorge Zahar Editor), Um olhar a mais (Jorge Zahar Editor), A lição de Charcot (Jorge Zahar Editor), Psicose e laço social (Jorge Zahar Editor) e Artorquato (Editora 7 Letras). E-mail: quinet@openlink.com.br

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Bernard Nominé

Psicanalista, Psiquiatra, AME da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano – Fórum França, docente do Colégio Clínico Psicanalítico do Sudoeste – França. E-mail: ber.nomine@free.fr

Dominique Fingermann

Psicanalista, AME da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano – Fórum de São Paulo. Representante do CRIF (Colégio de Representantes da Internacional dos Fóruns do Campo Lacaniano). E-mail: dfingermann@terra.com.br

Eliane Fittipaldi

Mestre e Doutora em Letras pela Universidade de São Paulo, lecionou na USP, na PUC-SP e na FGV. Tradutora de mais de trinta livros para diversas editoras e participante da equipe de tradutores que recebeu o Prêmio Jabuti na categoria “Tradução Científica” em 1979. Professora de literatura em cursos livres, palestrante no meio acadêmico a respeito de crítica literária e teoria da tradução, e em congressos de negócios a respeito de comunicação e educação organizacional. E-mail: elifitti@ajato.com.br

Érico Nogueira

Poeta, editor (Dicta & Contradicta) e doutorando em Línguas e Literaturas Clássicas na USP. É autor de O livro de Scardanelli (É Realizações, 2008). E-mail: ericonogueira@yahoo.com

Gabriel Lombardi

Médico pela Universidad de Buenos Aires, professor de Clínica Psicanalítica na Universidade de Buenos Aires e no Colégio Clínico de Rio de la Plata; AME da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano – Argentina. É autor de vários livros, entre os quais Clínica y lógica de la autorreferencia. E-mail: gabriellombardi@arnet.com.ar 182

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Luis Guilherme Coelho Mola

Psicanalista, Doutor em Psicologia pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, Professor da Universidade São Judas Tadeu. E-mail: lgcoelho@uol.com.br

Lou De Resende (Maria Lúcia Resende Chaves)

Artista híbrida entre a literatura, a dança e as artes. Ensaísta, Doutora em literatura comparada, editora e organizadora da revista Asa-Palavra, professora do INAP e da Escola Guignard. E-mail: louderesende@bol.com.br

Maria Claudia Formigoni

Psicóloga pela PUC-SP, Especialista em Psicologia Clínica e Psicanálise e Linguagem pela PUC-SP, Especialista em Psicologia Hospitalar pelo HC-FMUSP. E-mail: mclaudiaformigoni@yahoo.com.br

Maria Vitoria Bittencourt

Psicanalista, Mestre em Psicanálise pela Universidade Paris VIII – Sorbonne, professora do Collège Clinique de Paris. AME da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano – Fórum França. E-mail: mvbittencourt@free.fr

Maurício Castejón Hermann

Psicanalista, acompanhante terapêutico, Mestre em Psicologia Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC SP) e Doutor em Psicologia Clínica pela Universidade de São Paulo (USP), supervisor clínico e coordenador do Curso de Formação em Acompanhamento Terapêutico da Universidade Metodista de São Paulo, Membro da EPFCL-SP – Fórum de São Paulo, coordenador da Rede de Pesquisa de Neurose e do Seminário de leitura de Freud com Lacan, do FCL-SP. E-mail: mauhermann@uol.com.br

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Pablo Peusner

Membro da Escola Internacional dos Fóruns do Campo Lacaniano – Foro Analítico del Río de La Plata, autor de: El sufrimiento de los niños (JVE 1999, Letra Viva, 2009), Fundamentos de la clínica psicoanalítica lacaniana con niños (Letra Viva, 2006) e El niño y el Otro (Letra Viva, 2008). E-mail: pablopeusner@gmail.com

Ronaldo Torres

Psicanalista, Mestre e doutorando em Psicologia Clínica pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. Membro participante do Fórum do Campo Lacaniano de São Paulo. E-mail: ronaldotorrescl@gmail.com

Sandra Leticia Berta

Psicanalista, Mestre e doutoranda em Psicologia Clínica pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. Membro da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano – Fórum de São Paulo. Coordenadora das Formações Clínicas do Campo Lacaniano - SP. E-mail: bertas@uol.com.br

Silvana Pessoa

Psicanalista, Especialista em Psicologia Clínica (UFBa), Mestre em Psicologia e Educação pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, membro-fundador da Associação Científica Campo Psicanalítico – Salvador. Membro da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano – Fórum de São Paulo. Coordenadora dos Módulos de Leitura Jacques Lacan das Formações Clínicas do Campo Lacaniano-SP. E-mail: silvanapessoa@uol.com.br

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Sonia Alberti

Psicanalista, Professora Adjunta do Instituto de Psicologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Pesquisadora do CNPq. Doutora em Psicologia pela Universidade de Paris X – Nanterre, Pós-doutorado no Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Membro da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano –Fórum do Rio de Janeiro. E-mail: alberti@fcclrio.org.br

Susy Roizin

Licenciada em Psicologia pela Universidade de Buenos Aires. Efetuou residência de Psicologia Clínica com adultos e crianças no Centro de Saúde Mental de Ramat Hen, em Israel, Membro da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano – Tel Aviv e do Fórum França. E-mail: susy.roizin@gmail.com

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Orientações editoriais Stylus é uma revista semestral da Associação Fóruns do Campo Lacaniano e se propõe a publicar artigos inéditos das comunidades brasileira e internacional do Campo Lacaniano, e os artigos de outros colegas que orientam sua leitura da psicanálise principalmente pelos textos de Sigmund Freud e Jacques Lacan. Serão aceitos artigos provenientes de outros campos de saber (a arte, a ciência, a matemática, a filosofia, a topologia, a linguística, a música, a literatura etc.) que tomam a psicanálise como eixo de suas conexões reflexivas. Aos manuscritos encaminhados para publicação, recomendam-se as orientações editoriais que se seguem. Serão aceitos trabalhos em inglês, francês e/ou espanhol. Se aceitos, serão traduzidos para o português. Todos os trabalhos enviados para publicação serão submetidos a, no mínimo, dois pareceristas, membros do Conselho Editorial de Stylus (CES). A Equipe de Publicação de Stylus (EPS) poderá fazer uso de consultores ad hoc, a seu critério e do CES, omitida a identidade dos autores. Os autores serão notificados da aceitação ou não dos artigos. Os originais não serão devolvidos. O texto aceito para publicação o será na íntegra. Os artigos assinados expressam a opinião de seus autores. A EPS avaliará a pertinência da quantidade dos textos que irão compor cada número de Stylus, de modo a zelar pelo propósito dessa revista: promover o debate a respeito da psicanálise e suas conexões com os outros discursos.

O fluxo de avaliação dos artigos será o seguinte:

1. Recebimento do texto por e-mail pelos membros da EPS de acordo com a data divulgada na home page da AFCL (http://afcl. campolacaniano.com.br/publica-es/). 2. Distribuição para parecer. 3. Encaminhamento do parecer para a reunião da EPS para decisão final. 4. Informação para o autor: se recusado, se aprovado ou se necessita de reformulação (neste caso, é definido um prazo de 20 dias, findo o qual o artigo é desconsiderado, caso o autor não o reformule apropriadamente). 5. Após a aprovação o autor deverá enviar à EPS no prazo de sete dias úteis uma cópia de seu texto em CD e outra em papel. A revista não se responsabiliza pela conversão do arquivo. O endereço para o envio do original será fornecido nessa ocasião pela EPS. 6. Direitos autorais: a aprovação dos textos implica a cesStylus Rio de Janeiro nº 18 p. 1-192 abril 2009

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são imediata e sem ônus dos direitos autorais de publicação nesta revista, a qual terá exclusividade de publicá-los em primeira mão. O autor continuará a deter os direitos autorais para publicações posteriores. 7. Publicação. Nota: não haverá banco de arquivos para os números seguintes. O autor que desejar publicar deverá encaminhar seu texto a cada número de Stylus.

Serão aceitos trabalhos para as seguintes seções:

Artigos: análise de um tema proposto, levando ao questionamento e/ou a novas elaborações (aproximadamente 12 laudas ou 25.200 caracteres, incluindo referências bibliográficas e notas). Ensaios: apresentação e discussão a partir da experiência psicanalítica de problemas cruciais da psicanálise no que estes concernem à transmissão da psicanálise (aproximadamente 15 laudas ou 31.500 caracteres, incluindo referências bibliográficas e notas). Resenhas: resenha crítica de livros ou teses de mestrado ou doutorado, cujo conteúdo se articule, ou seja, de interesse da psicanálise (aproximadamente 60 linhas (3.600 caracteres). Entrevistas: entrevista que aborde temas de psicanálise ou afins à psicanálise (aproximadamente 10 laudas ou 21.000 caracteres, incluindo referências bibliográficas e notas). A revista Stylus possui as seguintes seções: ensaios, trabalho crítico com os conceitos, direção do tratamento, entrevista e resenhas. Cabe à EPS decidir sobre a inserção dos textos selecionados no corpo da revista.

Apresentação dos Manuscritos:

Formatação: os artigos devem ser enviados por e-mail, no mínimo, em arquivo no formato “Word for Windows 6.0/95, 98 ou 2000 (doc.)” à EPS conforme indicado na home page da AFCL e endereçados à EPS em tamanho A4, letra Times New Roman, corpo 12, espaço 1,5, justificado, margens de 2 cm, lauda do texto em torno de 2.100 caracteres. A primeira lauda do texto original deve conter apenas o título do trabalho, nome completo do autor (se for único) ou dos autores (no caso de coautoria), biografia(s) e seu(s) respectivo(s) endereço(s) completo(s). As demais páginas (contendo título e texto) devem ser numeradas, consecutivamente, a partir de 2. 188

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Ilustrações: o número de figuras (quadros, gráficos, imagens, esquemas) deverá ser mínimo (máximo de 5 por artigo, salvo exceções, que deverão ser justificadas por escrito pelo autor e avalizadas pela EPS) e devem vir em separado e devidamente nomeadas como Fig. 1, Fig. 2 e indicadas no corpo do texto o local específico dessas Fig.1, Fig. 2., sucessivamente. As ilustrações devem trazer abaixo delas um título ou legenda com a indicação da fonte, quando houver. As imagens precisam ser enviadas em alta resolução. Gráficos e tabelas devem estar em formato PDF. No caso de fotos ou imagens digitalizadas, deve ser enviado o arquivo JPG original. Resumo/Abstract: todos os trabalhos (artigos, entrevistas) deverão conter um resumo na língua vernácula e um abstract em língua inglesa, em um parágrafo único e contendo de 100 a 200 palavras. Deverão trazer também um mínimo de três e um máximo de cinco palavras-chave (português) e key-words (inglês) e a tradução do título do trabalho. As resenhas necessitam apenas das palavras-chave e key-words. Citações no texto: as citações de outros autores que excederem quatro linhas devem vir em parágrafo separado, margem de 2 cm à esquerda (além do parágrafo de 1,25 cm) e 1 cm à direita, tamanho e letra igual ao texto. Os títulos de textos citados devem vir em itálico (sem aspas), os nomes e sobrenomes em formato normal (Lacan, Freud).

Citações do texto nas notas:

1. As notas não bibliográficas devem ser reduzidas a um mínimo, ordenadas por algarismos arábicos e arrumadas como nota de rodapé ou notas de fim de texto antes das referências bibliográficas (citadas no corpo do texto); 2. As citações de autores devem ser feitas por meio do último sobrenome, da obra citada e do ano de publicação do trabalho. No caso de transcrição na íntegra de um texto, a citação deve ser acrescida da página citada; 3. As citações de obras antigas e reeditadas devem ser feitas da seguinte maneira: Kraepelin (1899/1999); Stylus Rio de Janeiro nº 18 p. 1-192 abril 2009

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4. No caso de citação de artigo de autoria múltipla, as normas são as seguintes: A) até três autores – o sobrenome de todos os autores é mencionado em todas as citações, usando e ou &, conforme exemplo (Pollo & Rossi & Martielo, 1997). B) de quatro a seis autores – o sobrenome de todos os autores é citado na primeira citação, como acima. Da segunda citação em diante só o sobrenome do primeiro autor é mencionado, como abaixo (Pollo et al., 1997, p.120). C) mais de seis autores – no texto, desde a primeira citação, somente o sobrenome do primeiro autor é mencionado, mas nas referências bibliográficas os nomes de todos os autores devem ser relacionados; 5. Quando houver repetição da obra citada na sequência da nota deve vir indicado Ibid., p. (página citada.); 6. Quando houver citação da obra já citada, porém fora da sequência da nota, deve vir indicado o nome da obra em itálico, op. cit., p. (Fetischismus, op. cit., p. 317).

Referências bibliográficas

(outras informações: consultar a nbr 6023 da abnt-2002): Os títulos de livros, periódicos, relatórios, teses e trabalhos apresentados em congressos devem ser colocados em itálico. O sobrenome do(s) autor(es) deve vir em caixa alta. 1. Livros, livro de coleção: 1.1.LACAN, J. Autres Ecrits. Paris: Editions Seuil, 2001. 1.2.FREUD, S. (1905) Die Traumdeutung. In: Studienausgabe. Frankfurt a. M.: S. Fischer, 1994. Band II. 1.3.FREUD, S. (1905) A interpretação dos sonhos. Trad. sob a direção de Jayme Salomão. Rio de Janeiro, Imago, 1994. (Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, vol. II). 1.3.LACAN, J. O seminário – livro 8: A Transferência (19601961). Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1992. 1.4.LACAN, J. O seminário: A Identificação (1961-1962): aula de 21 de março de 1962. Inédito. 1.5.LACAN, J. O seminário: Ato psicanalítico (1967-1968): aula 190

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de 27 de março de 1968. (Versão brasileira sem fins comerciais). 1.6.LACAN, J. Le séminaire: Le sinthome (1975-1976 ). Paris: Association freudienne internationale, 1997. (Publication hors commerce). 2. Capítulo de livro: Foucault, Michel. Du bon usage de la liberté. In: Foucault, M. Histoire de la folie à l’ âge classique (p. 440482). Paris: Gallimard, 1972. 3. Artigo em periódico científico ou revista: Quinet, A. A histeria e o olhar. Falo. Salvador, n.1, p. 29-33, 1987. 4. Obras antigas com reedição em data posterior: Alighieri, D. (1321). Tutte le opere. Roma: Newton, 1993. 5. Teses e dissertações não publicadas: Teixeira, A. A teoria dos quatro discursos: uma elaboração formalizada da clínica psicanalítica. Rio de Janeiro, 2001, 250f. Dissertação. (Mestrado em Teoria Psicanalítica) – Instituto de Psicologia. Universidade Federal do Rio de Janeiro. 2001. 6. Relatório técnico: Barros de Oliveira, M. H. Política Nacional de Saúde do Trabalhador. (Relatório Nº). Rio de Janeiro. CNPq., 1992. 7. Trabalho apresentado em congresso, mas não publicado: Pamplona, G. Psicanálise: uma profissão? Regulamentável? Questões Lacanianas. Trabalho apresentado no Colóquio Internacional Lacan no Século. 2001 – Odisséia Lacaniana, I, 2001, abril; Rio de Janeiro, Brasil. 8. Obra no prelo: no lugar da data deverá constar (No prelo). 9. Autoria institucional: American Psychiatric Association. DSMIII-R, Diagnostic and statistical manual of mental disorder (3rd edition revised.) Washington, DC: 1998. Stylus Rio de Janeiro nº 18 p. 1-192 abril 2009

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10. CD ROM – Gatto, C. Perspectiva interdisciplinar e atenção em Saúde Coletiva. Anais do VI Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva. Salvador: ABRASCO, 2000. CD-ROM. 11. Home page – Gerbase, J. Sintoma e tempo: aula de 14 de maio de 1999. Disponível em: <http://campopsicanalitico.com.br>. Acesso em: 10 de julho de 2002. Outras dúvidas poderão ser encaminhadas através do e-mail do(a) diretor(a) da AFCL: afcl@campolacaniano.com.br, que se encarregará de transmitir à Equipe de Publicação de Stylus.

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Pareceristas do número 17 Ana Laura Prates Pacheco (EPFCL – São Paulo) Angela Diniz Costa (EPFCL – Belo Horizonte) Ângela Mucida (Newton Paiva/ EPFCL – Belo Horizonte) Clarice Gatto (FIOCRUZ/ EPFCL – Rio de Janeiro) Daniela Scheinkmann-Chatelard (UNB/ EPFCL – Brasília) Eliane Schermann (EPFCL – Rio de Janeiro) Kátia Botelho (EPFCL – Belo Horizonte) Marie-Jean Sauret (U. Toulouse le Mirail – Toulouse) Raul Albino Pacheco Filho (PUC-SP/ EPFCL – São Paulo) Vera Pollo (PUC-RJ/UVA-RJ/EPFCL – Rio de Janeiro)

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stylus, m. 1. (Em geral) Instrumento formado de haste pontiaguda. 2. (Em especial) Estilo, ponteiro de ferro, de osso ou marfim, com uma extremidade afiada em ponta, que servia para escrever em tabuinhas enceradas, e com a outra extremidade chata, para raspar (apagar) o que se tinha escrito / / stilum vertere in tabulis, Cic., apagar (servindo-se da parte chata do estilo). 3. Composição escrita, escrito. 4. Maneirade escrever, estilo. 5. Obra literária. 6. Nome de outros utensílios: a) Sonda usada na agricultura; b) Barra de ferro ou estaca pontiaguda cravada no chão para nela se estetarem os inimigos quando atacam as linhas contrárias.


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