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DA IMPRESSIONANTE HISTÓRIA DO HOMEM QUE PRECISAVA PARIR UM MACACO E DE SEU ENCONTRO COM A MULHER QUE QUERIA VIRAR PLACA

GUSTAVO HENRIQUE DE AGUIAR PINHEIRO

2008


A

Jocélia

sirigado

e

Alexandre,

encantado

pelo que

partilhamos juntos; um daqueles pedaços, não sei se, no momento, macho

ou

fêmea,

inspirou-me

bastante a entender o destino do homem do macaco e a verdade da mulher da placa.

* A pintura que ilustra a capa é um auto-retrato de Vincent van Gogh. 2


Numa de minhas viagens ao inaudito conheci um homem muito interessante. Era diferente de todas as pessoas que tinha conhecido na vida. Além de sua aparência carismática, possuía uma capacidade extraordinária de falar de suas experiências, como se seu íntimo tivesse sido forjado em algum mundo mitológico, daqueles de que só temos notícia nos livros sobre os deuses e nos filmes acerca dos homens.

De alguma forma, ele me chamou a atenção. Estava sozinho dando comida aos insaciáveis pombos dos jardins de Rodin, quando fui chegando perto e, subitamente, fitou-me e disse uma frase em português familiar: “decifra-me ou devoro-te”.

- O senhor fala português? - Perguntei admirado com o possível conterrâneo tantos oceanos distantes de casa.

- O homem fala bem mais do que pode pensar, meu filho. Os sentimentos expressos em seu rosto dizem muito sobre os seus desejos e a mim não é difícil interpretá-los, pois tenho vivido a procura de solucionar enigmas e, nesse movimento, expando muito a minha concepção sobre o mundo, as pessoas e o cosmos.

- Afinal, o senhor decifra enigmas ou os propõe?

- Na verdade, tenho um enigma para resolver e sempre proponho algum para quem julgo interessante, na esperança de que essa pessoa, quem sabe, possa ajudar a resolver o meu dilema. Ele 3


somente pode ser compreendido por alguém que um dia tenha encontrado a Caipora, o Saci-Pererê, o Minotauro, Édipo, Prometeu, Hércules, Medusa, o barqueiro do Estige, D. Quixote, os quatro mosqueteiros, o Conde de Monte Cristo, Eurípedes Waldick Soriano, a perna cabeluda, a quintessência invisível das nuvens ou o próprio espelho de Dorian Gray.

- Esse é mais um enigma? O senhor julga que posso ajudá-lo?

- A minha percepção não é deste mundo e peno bastante para conformar o que vejo com o que sou capaz de perceber. Não foi a idade que me fez assim, mas posso perceber na vida marcada em suas expressões matizes invisíveis aos seus olhos. Isso lhe posso revelar, se você puder ouvir um pouco sobre o enigma que busco decifrar ainda durante esta vida, que cada dia se passa mais rápido e me encanece os cabelos e a alma.

- É claro que posso escutá-lo! Estou mesmo com a impressão de que esse local é muito diferente, onde a gente pode sentir a pulsação dos quadros e a leveza dos movimentos das bailarinas das estátuas de mármore. Não era de se estranhar que eu encontrasse um pedaço de minha casa e de meus amigos por aqui. Estou no lugar mais longe que já estive de casa até agora, mas parece que acabei de chegar ao quintal de minha avó, aquele que já não existe mais. Resta guardado apenas em minhas lembranças.

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- Obrigado, tenha um pouco de paciência e se prepare para ouvir a história de minha vida, que acabará logo que eu encontrar a parte de mim que você carrega consigo e não consegue expressar, exatamente como aqueles nossos segredos mais guardados, que somente os outros é que deles sabem dizer.

- Para que você possa entender o meu metamoforseamento itinerante, vou lhe contar uma história, a impressionante história do homem que precisava parir um macaco.

Sempre fui interessado em saber como nasciam os mitos, parece que realmente trazemos gotas de espíritos antepassados em nossos pedaços pequenos (alguns querem colocar tudo isso só em genes), que nos asseguram desde sempre alguma experiência e sabedoria de uma inconsciência com existência em dimensões não aparentes.

De outro modo, parece que, se não temos um destino traçado em definitivo, recebemos muitas outras influências passadas, além das meramente culturais, mas somos livres para viver ou morrer.

Na verdade, ao homem, na busca de si mesmo, é passagem obrigatória a investigação sobre as próprias origens, o que necessariamente implica saber sobre a origem de Deus, do mito, do cosmo.

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Sempre me fascinou a origem do mito, e eu, então, procurei saber como havia sido o meu nascimento, para ter alguma indicação do que poderia ser no futuro.

Nasci em um dia ensolarado de um grande inverno, que inundou as ruas da vila e provocou o alagamento de muitas casas, fazendo com que as pessoas saíssem nadando para tentar sobreviver ao que parecia o próprio aguaceiro de Noé.

A situação era periclitante e eu fiquei isolado em casa com minha mãe à espera de socorro, que, entretanto, estava demorando a vir. Ela, que entendia bastante de ter esperança, rogou ao príncipe Moisés do Egito, aquele que foi retirado das águas e depois abriu o Mar Vermelho, para que tirasse o filho dela dali. E realmente foi atendida.

Fui retirado das águas do rio pelas mãos de um tratorista, chamado Andrezinho Menescal, que, antes de voar pela última vez na Amazônia de seus sonhos, nos resgatou num imensa Caterpillar amarelo e nos embarcou de volta às terras de meu pai, onde um pequeno varão sempre representava o desejo de continuação dos feitos dos antepassados.

Se você perceber, amigo, tive um nascimento até que mais ou menos mitológico, mas depois fui percebendo que os mitos, os mártires ou os heróis somente o podem ser à custa de muita pancada, pois parece mesmo que somente os grandes sofrimentos são capazes de guindar alguém a uma quintessência diferenciada. Veja, por 6


exemplo, a vida daquele bom homem que todos ainda hoje querem massacrar, chamando-o de Deus.

O fato era que eu de certa forma também tinha sido tirado das águas, o que era um bom começo para virar herói, sendo certo que os deuses já haviam me dado alguma tradição familiar e uma vontade inigualável de conhecer o mundo e a humanidade, o que talvez desse para começar a brilhar.

Foi então que ouvir falar de umas pessoas da cidade que ficaram ricas e famosas porque fizeram um contrato com o Diabo, que, em troca de alguma coisa que eu não sabia o que, fazia que tais pessoas conhecessem de forma definitiva o sucesso.

Evidentemente, para quem é muito pequeno e quer virar mito parece razoável um colóquio com o Capeta, figura simbólica de extensa carreira junto à humanidade e que parece integrar uma parte inexpugnável do humano.

Pois, muito bem. Cacei o cachorrão em toda cidade, procurando um tal carro vermelho em algum forrozinho existente na comuna. Confesso que me intrigou um pouco saber que era possível encontrar o tinhoso andando de carro por aí e nunca ter tido nenhuma informação semelhante sobre Deus, sempre parado, pregado naquela cruz. Se tivessem me dito que Deus estava vivo e podia se mexer, tudo teria sido diferente para mim.

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Numa noite escura finalmente encontrei o encardido. O bicho estava fantasiado de Flávio Galvão, tinha realmente um carro vermelho e assustava o pessoal na novela Corpo a Corpo da Rede Globo.

De fato, eu descobri a morada do diacho e ela estava na sala e nos quartos de quase todo mundo do País. Se eu soubesse que era fácil assim falar com o Demo, tinha pedido um exorcismo bem feito lá em casa, para evitar tanta intimidade.

Na caixinha do diabo, porém, conheci o mundo, que insistia em dizer que eu só poderia ser alguém se tivesse dinheiro, sucesso e outros artifícios do Coisa-Ruim para mandar a gente para o inferno.

Diziam nessa época que havia gente querendo até sociedade com o Capeta, que costumava enganar os sócios com máquinas e engenhocas sofisticadas, capazes de fabricar dinheiro e violência para sempre, até o dia que algum descendente da família nascesse puro de coração, o que livrava toda a família do pacto com o Demo, mas produzia um aleijão num dos membros no herói libertador, que teria de sofrer exemplarmente na vida até o nascimento de seu primeiro filho, que só sendo menina o libertaria para sempre de seu estigma. Eu conheci esse homem, e sua filha também.

Foi mesmo na invenção do Maldito, entretanto, que eu aprendi a ser ambicioso e a cobiçar o mundo, não demorando muito para ela me

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sugerir que eu tinha talento e vocação para comandar, que o mundo podia ser meu, que eu era um líder nato.

Então, finalmente eu fiz um pacto com o Rabudo, o qual garantiu que eu ia entrar para o que de melhor poderia existir na terra em termos de ganância e poder: a política. Em troca, eu apenas precisaria ser político de verdade, pois o ”destroço” vinha naturalmente da carreira.

O Cachorrão prometeu e me fez sonhar ser prefeito, deputado, governador, senador, presidente...tudo em virtude de meu desejo de virar mito, de entrar para a história, sonho que qualquer televisãozinha de catorze polegadas pode simplesmente desvirtuar e violentar numa criança.

O preço pelo pacto depois se evidenciou, pois como nos casos típicos de diabrice, o Bode-Preto queria a minha alma em troca da Prefeitura, da Assembléia, do Senado e da Presidência.

Em matéria de acordo com o Cramulhano tudo estava como sempre foi, a alma do inocente era desejada para o sacrifício, mas o processo de entrega da alma é que agora era diferente.

Pois é, o diabo está se sofisticando. Organizou a entrega da alma como um processo, dividido em eleições, durante a trajetória política de sucesso. A cada nova etapa, mais e mais a pessoa vai perdendo a

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alma para o espírito de Maquiavel, para a insensibilidade e a maior característica do político de sucesso: o narcisismo exarcebado.

Então, a pessoa vai progredindo e se sentido cada vez mais útil à humanidade, que já não poderá viver sem ela, exercendo o poder diuturnamente para favorecer os seus e destruir os demais, mas sempre posando de estadista para toda a Nação.

Esse processo diabólico de troca política da alma acaba sempre acontecendo, com menor ou maior intensidade, com todas as pessoas que enveredam pelos caminhos da política-partidária, mas o Maligno previa um futuro brilhante para mim, que parecia querer tanto entrar para a história.

Até tentei começar a rezar na cartilha do cão, mas tinha feito um catecismo muito bom acerca dos verdadeiros valores da humanidade, e logo percebi que o meu sonho inocente de querer virar mito tinha sido vilmente manipulado e me transformaria numa górgona assustadora, jamais em Prometeu ou Hércules. Entendi, por conseguinte, que dessa forma não seria um herói mitológico.

Então, decidi romper o contrato com o diabo. Não sabia como isso era possível. Então, me formei em Direito para tentar encontrar uma forma de distrato. Mas, o Excomungado, no entanto, se recusou terminantemente a me liberar da avença.

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Foi mesmo na faculdade que eu aprendi o sentido da palavra recorrer, pois, na estrutura da jurisdição, há sempre um órgão superior para a quem a gente pode apelar, já que dizem que o erro e maldade estão em todo o lugar, principalmente no juízo das pessoas.

Lembrei-me de que na vida sempre a gente também pode apelar para um ser superior: Deus. Assim o fiz.

Meu primeiro problema foi encontrar Deus para entregar o meu recurso. Nem procurei na televisão porque já tava ocupada. Saí por aí perguntando, estudando, procurando...e nada.

Até que um dia um homem surgiu repentinamente em minha garagem e me surpreendeu na janela do carro.

- Dê me uma ajuda!

Apesar de cabreiro, pois o tal homem desconhecido estava estranho e tinha aparecido do nada, baixei o vidro e lhei um óbolo de cinqüenta centavos.

Agradeceu e pediu uma carona. Olhei de novo aquele estranho gigante negro musculoso e mal-encarado. Pensei, sinceramente, que estava sendo vítima de um assalto ou seqüestro.

Não pude impedi-lo. Ele então me contou de sua libertação do presídio, naquele dia mesmo, de todos aqueles que matou para roubar 11


e dos sete filhos que tinha. Pedro Ventura apreciou minha gentileza e se ofereceu para “qualquer coisa”. Tive tanto medo que inventei precisar ir à farmácia e deixá-lo no caminho. Ao se despedir, agradeceu, deu-me o aperto de mão mais forte de todos os tempos, e disse-me circunspecto: “nós estamos dentro de Deus, você está no meio de Deus; e eu também estou no centro de dEUs”.

Dizem os estudiosos do inconsciente que o homem perdeu a sua capacidade de se comunicar diretamente com Deus, que agora só se manifestaria nos sonhos. A certeza da existência daquele homem está perpetuada no arrepio freqüente da minha espinha e o encontro com Deus eu finalmente o tive, dormindo, logo em seguida.

Deus me explicou em sonho que o pacto com o Sarnento é um ato de gravíssima implicação e que somente seria permitida uma solução acaso eu aceitasse voluntariamente me submeter a uma técnica de convencimento muito utilizada por Moisés: a submissão às pragas.

- Claro, Abba, eu aceito!

Pois bem. Essa técnica muito eficiente, capaz até de regenerar todos os meus sonhos de menino desvirtuados pelo mundo, consiste realmente numa praga, com a qual se tem que conviver pelo resto da vida.

Por essa praga, a pessoa pode experimentar muito sofrimento e sensações estranhas, que permitem a percepção profunda sobre o 12


homem e o mundo, levando o ser ao ápice da compreensão, mas que desestrutura o corpo, fazendo-o convulsionar e enlouquecer com tudo aquilo que por um instante lhe foi dado enxergar, colocando-o perante a desafios reais somente possíveis aos vocacionados à perpetuação mitológica, ao encontro com figuras excepcionais em suas diferenças, muitas delas, como Caronte, mensageiras da morte.

Esse, em verdade, é um processo de cura da alma vendida e exige que a pessoa se supere a cada dia. Ao contrário do que pode parecer, é um maravilhoso remédio divino, que regenera e pode proporcionar o desejado nascimento da própria lenda.

Para chegar-se à cura completa e ao êxtase anímico, com a realização de todos os sonhos, inclusive o de entrar para história virando herói, é preciso ainda realizar uma tarefa inaudita.

- E foi nessa hora que Deus me anunciou o maior enigma da minha vida. O Pai olhou para mim e disse:

- Filho, eu te quero em Mim realizado, por isso para que tenhas paz e possas cumprir a tua missão, terás que lutar diária e silenciosamente pelo teu próximo, que não estará mais sob o teu palanque; o teu aleijão não será tocado pelos demais, o teu nome não aparecerá no trabalho que faças, e.... tu terás que parir um macaco.

Essas foram as últimas palavras de Deus para mim. Desde então tenho me visto livre do Coisa-Ruim, carregando a minha sina de viver 13


discretamente, somente nos bastidores, sem estar nunca no palco, sem exercitar a minha verve de líder, escapando com meu trabalho anônimo e minha praga benfazeja, que me permite conhecer a humanidade pelo ângulo do amor, do sofrimento e da diferença, me proporcionando uma existência muitíssimo rica, como jamais bens da fortuna poderiam proporcionar.

Não tenho patrimônio; também não me foi dado permanecer com essa parte do pacto, e vivo com aquilo que me é suficiente para bem viver. Ainda hoje, no entanto, busco de todas as maneiras parir um macaco para poder chegar onde sempre quis.

Compreendo que, na linguagem simbólica de Deus, eu não estaria realmente obrigado a gestar e parir um símio para me libertar, mas, até hoje, não compreendi o que o Criador quis dizer com esse enigma que jamais consegui decifrar.

- Você teria alguma idéia, meu amigo?

- Meu bom velho: é claro que um jovem ruão como eu jamais poderia entender tão mística intenção. Parece que o propósito de Deus em sua vida é um mistério, daqueles que nossas almas precisam de muitas vidas para solucionar.

Posso lhe contar, entretanto, a história de uma mulher que, assim como o senhor, queria adentrar a glória, ela queria virar placa; dessas

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placas de rua que carregam os nomes de pessoas que o tempo não permite lembrar por muito tempo, nem quando é o endereço da gente.

Um encontro com ela talvez o ajude a esclarecer o enigma.

Ela também foi uma menina interessante, bem criada e de uma família muito nobre. Parece que, de alguma forma, estudou na mesma escola que a sua e assistiu aos mesmos programas de televisão, sem, no entanto, precisar fazer nenhum pacto com ninguém, pois ela realmente acreditava em sua sorte, carisma e poder. Além do mais tinha muito apego à cidade, de modo que não pensava muito em se largar para Brasília.

A menina também queria entrar para política e esse sonho era, em verdade, parte de seu plano de virar placa. Havia nela uma obstinação jamais vista.

De toda forma, a menina cresceu e encontrou uma maneira de virar placa sem demora: virou parteira.

Confesso que nunca ouvi falar que a parteira tenha algum dia trazido ao mundo senão legítimos seres humanos( macacos não são muito freqüentes naquela região), mas certamente essa mulher trouxe à vida pessoas e figuras extraordinárias, que a fizeram muito famosa e garantiram uma linda placa em uma das ruas centrais da cidade.

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Num desses partos, contam que um velho homem amaldiçoado pelo Asmodeu gerou uma criança secretamente com uma mulher numa noite em que o Capiroto estava embriagado de si mesmo e deixou de prestar atenção ao seu serviço.

O descuido do Chavelhudo ajudou a propiciar ao velho homem a quebra de uma maldição de muitas gerações, segundo a qual todos os filhos de sua estirpe deveriam morrer, até que o sangue deles fosse suficiente para limpar os pecados de seus antepassados e dos antepassados de seus grandes amores.

Nem tudo foi fácil assim, porém, pois o diabo voltou ao seu posto e passou a procurar a mulher para ceifar a vida que ela havia concebido em alegria. Foi um grande deus-nos-acuda, o velho homem, tentando despistar a maldição, se afastou da cidade e formou a convicção que a sua proximidade seria um grande risco para a criança, já que era seu sangue que a marcava.

Numa noite de 13 de abril, o velho homem voltou secretamente à cidade e foi diretamente falar com a parteira. Queria que ela colocasse seu filho no mundo de uma maneira que o diabo não tomasse conhecimento do fato.

A parteira lhe disse que não se preocupasse, que ninguém ia tocar seu filho, pois ela o encantaria ainda na barriga da mãe, sem que ninguém jamais o pudesse reconhecer.

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E assim foi feito, no dia do parto, de pai e mãe pretos autênticos, nasceu um lindo menino louro, dos olhos azuis, que o diabo, ao ouvir o choro distante, não pode reconhecer, procurando até hoje a criança do velho homem pelas ruas da cidade.

Ainda não se sabe direito acerca da medicina da parteira, mas é certo que ela ficou famosa em toda a região por ter enganado o Azucrim e por conseguir trazer ao mundo uma espécie de gente que pode ficar de toda cor, provando com isso que o branco pode nascer do preto e vice-versa.

Como o feito da parteira foi verdadeiramente mitológico, conseqüência natural foi a linda placa azul com letras brancas que foi colocada no nome dela nas esquinas da cidade para todo o sempre, pois o mundo nunca mais foi o mesmo com aqueles meninos e meninas que podiam virar pretos ou brancos dependendo da necessidade de amor entre os homens.

- Então, pensei que essa parteira talvez pudesse a ajudar a parir seu macaco.

- De fato, essa mulher parece ser muito especial e fiquei com alguma esperança em sua ciência, mas receio não poder mais encontrá-la, uma vez que ela já virou placa e não deixou nada escrito sobre os seus poderes; somente as letras de seu nome em tinta branca e azul nas ruas da cidade.

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- Creio que um encontro somente com as placas da parteira não será suficiente para amenizar o meu sofrimento. Parece que os seres mitológicos

encontram

seus

caminhos

na

intimidade

dos

sentimentos das pessoas de bom coração, dessas que param para ouvir um velho solitário e doente num canto de um jardim distante, como se fosse possível existir alguém assim fora das fortes impressões causadas pela presença de um auto-retrato de eloqüência extraordinariamente incomum.

De súbito, o homem desapareceu, ou, talvez, como ele mesmo quis dizer, voltei a mim mesmo depois de fitar a enigmática figura do expressionista de Zundert por um longo período.

Não sei como pude me deixar encantar pelos traços do pintor sem que percebesse o momento exato no qual o homem que precisava parir um macaco se preparava para partir... e isso me provocou profunda tristeza, pois não pude ajudar num parto que parecia tão essencial ao futuro de minha própria humanidade.

O tempo passou e nunca me esqueci daqueles instantes nos jardins de Rodin.

Voltei para as minhas terras, sempre tentando descobrir uma forma de conseguir ajudar o velho homem a realizar por completo o seu destino.

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Numa dessas tentativas, encontrei o menino, agora homem, que a parteira salvou enganando o diabo. Ele estava negro, no momento, e tinha virado presidente dos Estados Unidos.

Perguntei-lhe se não sabia de nenhum segredo da parteira que pudesse ajudar meu amigo velho a parir um macaco. Ele, então, me respondeu em bom português:

- Homem de bom coração, por que procuras uma parteira para trazer ao mundo o fruto do teu amor, do teu pecado e da tua existência? O macaco ao qual queres dar vida por meio de parto só nasce de doação, Jamais de ciência ou da intelecção!.

- O meu pai também sofreu como esse velho homem e, é verdade, a parteira e a sorte o livraram da maldição do diabo, mas foi o grande amor dele pela vida que o fez arriscar tudo para que eu pudesse nascer, a fim de que seus grandes amores pudessem finalmente parir seus filhos independentemente da cor deles.

- Meu pai tinha todos os filhos mortos antecipadamente no tempo ainda no ventre das mães, até mesmo daquelas que ele ainda não havia conhecido, e, contra isso, ele não podia mais lutar, mas a sua ligação com a divindade, enquanto homem, foi um dom que nem mesmo as más companhias ou a má saúde puderam destruir, derrotando invisível e definitivamente o mal, que, ainda assim, sempre está querendo sempre se perpetuar de alguma maneira.

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- Se você perceber, eu que nasci com a inusitada capacidade de virar preto e virar branco, sou um verdadeiro macaco em diferença, de uma raça derivada diretamente de Macunaíma, e que agora vai organizar o mundo de maneira encantada, amorosa e tipicamente brasileira, no comando da política mundial.

- Então, há esperança no parto de seu amigo. Ele parece, entretanto, não poder resolver o problema sem a política, que é arte do diabo para uns e a arte de enganar o Cão para outros, embora, como você pode constatar, o capeta esteja sempre muito próximo dessa atividade profissional.

- Apesar dessa visão de mundo, confesso que nunca conheci política mais eficiente do que a de um velho carpinteiro lá das bandas da Miraíma, parte indivisível de uma enorme pedra que nunca se lascou, pois, fingindo que jamais morreu, ele continua fazendo campanha até hoje, dando esperança a gente de um dia escapar desse mundo para viver em plenitude o amor que aqui nos é tão caro e impossível.

- Procure aconselhar seu velho amigo a doar um pouco de sua humanidade para os amigos e as gerações futuras, esquecendo-se de vez das placas, pois elas não dizem nada sobre o encanto que uma bela história verdadeira pode produzir na alma das pessoas, ficando penduradas nas paredes, sem conteúdo algum.

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- Diga-lhe para tirar da solidão aquela pessoa mais parecida com Caroline, a menina que de maneira invisível escreveu no juízo o verdadeiro mundo de Alice no país inventado de suas vidas, e que descobriu, sem ter ciência, a face cruel do equilíbrio distante da nobreza

dos

que

morrem

sem

abraçar

o

macaco

que

aparentemente não pôde nascer.

- É preciso que a história daquela pessoa emplacada seja repassada entre as gerações, como no caso da parteira, mas para isso as novas gerações precisam ler, sentir e encarar, sem fantasia ou mentiras de adultos embriagados com a própria dor, a verdadeira história de seus antepassados, pois o amor só pode ser perpetuado no encontro existencial com o outro, quase sempre comprometido com a impossibilidade e com o erro, jamais na dança e nos ritos do poder e das placas coloridas.

Confesso que nunca entendi suficientemente o homem preto que virava branco e vice-versa. Parecia que ele sabia um daqueles meus segredos que só os outros sabem, mas, desde esse encontro inusitado, passei a escrever livretos, como este que está em suas mãos agora, sobre as verdadeiras e importantes histórias da vida, na esperança de que algum dia um deles possa ser lido pelo velho homem que precisava parir um macaco ou por outra parteira que saiba trazer ao mundo esse amor pelo outro, que, de tão diferente, ainda precisa se disfarçar para poder nascer.

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Da impressionante história do homem que precisava...  

DA IMPRESSIONANTE HISTÓRIA DO HOMEM QUE PRECISAVA PARIR UM MACACO E DE SEU ENCONTRO COM A MULHER QUE QUERIA VIRAR PLACA - GUSTAVO HENRIQUE D...

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