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A MULHER QUE AMAVA FURACÕES

GUSTAVO HENRIQUE DE AGUIAR PINHEIRO

2008


Aos grandes, pequenos, velhos, novos e eternos furacões de minha vida, que se passa no vento.

À Jackelyne, que canta para sossegar os ventos loucos de meus furacões.

* A pintura The Raising of Lazarus, 1890, de Vincent Van Gogh, ilustra a capa.

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Lázaro era um homem que não conseguia morrer em paz. Sempre que tentava, para se ver livre de suas misérias tão humanas, aparecia uma mulher desesperada se fazendo de Marta para clamar aos céus por sua ressurreição, fazendo a impossibilidade reviver nos corações dos que nunca deixaram de acreditar na maldição da vida eterna.

É certo que a grande escumalha dos seres vivos tem como razão de seus atos uma cega vontade de viver, o que fez os Deuses morrerem de tanto rir ao ouvir a afirmação de que só existe um Deus, como se o homem pudesse suportar não ser ele o seu próprio Deus.

Mas, pouco importando a filosofia do esquisito Zaratustra, o fato é que reza a lenda que da última vez que Lázaro morreu, no centro do distrito da Betânia, a três quilômetros de Itapipoca e Jesuralém, uma mulher sem nome quis invocar o nome de Deus em vão para perpetuar a sua sina de pecados onde um se fez dois, no túmulo da moralidade, que sempre fica por detrás da vontade de poder.

A tal mulher sem nome, que ainda acreditava que Deus não estava morto, não tinha nenhuma intimidade com a mística da ressurreição, mas entendia que usar o cérebro para resolver os problemas profundos da humanidade doía muito, por isso tomou um banho de pipoca e entrou em transe profundo, no exato momento em que todos os santos viraram orixás, no meio do espinhaço do Velho Chico, que naquela época ainda passava por detrás da Escola Normal, ao lado das escadarias do Senhor do Bonfim.

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E no meio do transe garantido pelo banho de pipoca preta, a mulher sem nome dançou e cantou sobre o túmulo de Lázaro, fazendo pouco da crença de que todas as ações humanas recebem, sem exceção, uma resposta e ação de Deus, pois, firme no respeito ao mistério de Deus na existência humana, acreditava poder ressuscitar mais uma vez aquele que nunca pôde morrer em paz.

Como essa história se passou na parte da Betânia mais próxima do Calugi do que de Jerusalém, o único mestre que apareceu para socorrer a mulher sem nome foi um louco que tinha feito mestrado em (des)ilusão, com uma tese que transformava despudoradamente acarajé em bolinho de Jesus, só para renascer na Irmandade da Boa Morte, que enterra Nossa Senhora num túmulo mulçumano, impedindo a subida da santa aos céus e rompendo com dogmas que nem mesmo eu ousaria aqui revelar.

Bem intencionado, o velho mestre louco demonstrou toda a sua sabedoria ao não caminhar na fé pelo conhecimento, mas sim pelo mistério divino, por caminhos próprios em busca do mesmo Deus que quer se revelar a todos os seres humanos.

Com a legitimidade dos que sofrem, o mestre louco cantou por amor todo o seu fanatismo, esperando trazer ao mundo todos aqueles que antes de morrer amaram, experimentando o paradoxo da vida, que começa e termina quando se conhece esse misterioso sentimento que Deus esconde de si.

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Baixinho o mestre cantou:

“Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida Meus olhos andam cegos de te ver! Não és sequer razão de meu viver, Pois que tu és já toda a minha vida!

Não vejo nada assim enlouquecida… Passo no mundo, meu Amor, a ler No misterioso livro do teu ser A mesma história tantas vezes lida!

“Tudo no mundo é frágil, tudo passa…” Quando me dizem isto, toda a graça Duma boca divina fala em mim!

E, olhos postos em ti, vivo de rastros: “Ah! Podem voar mundos, morrer astros, Que tu és como Deus: princípio e fim!…”‫٭‬

E exatamente do vôo dos mundos e da morte dos astros, surgiu de dentro da tumba do homem que nunca podia morrer em paz, e que também hospedava os oceanos, o primeiro furação que a humanidade conheceu, girando num vórtice atmosférico com rotação ciclônica horária no hemisfério sul e anti-horária no hemisfério norte, causando ‫٭‬

Poema “Fanatismo”, de Florbela Espanca, musicado por Fagner.

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marés de tempestade nos corações desavisados e chuva de granizo e destruição no peito dos crédulos, cuja energia supera em muito a explosão de várias bombas atômicas, que se espalha no assobio de ventos, próximos à superfície, de 304 Km/h, numa extensão vertical de 800 Km.

Necessitada de balancear calor entre trópicos e regiões mais frias, de latitudes médias, a mãe terra resolveu intervir na ressurreição operada pelo mestre louco e a mulher sem nome, deslocando grandes quantidades de calor dos trópicos para essas latitudes mais próximas dos pólos, só para fazer nascer o fenômeno mais próximo do amor renascido na fé do homem que se perde no mistério da existência divina.

O primeiro furacão da terra nasceu solitário no centro de uma depressão tropical, tocando o íntimo da humanidade com sua rota afetiva definida e características vitais semelhantes as dos seres humanos.

Não demorou muito, portanto, para o primeiro furacão do mundo receber um nome feminino, Ana, uma menina feia, pois era certo entre cientistas e leigos, que somente uma mulher pode causar tantos estragos como um furacão, principalmente quando ela tem o nariz arrebitado de tanto farejar o que nunca aconteceu.

Ocorre que a nossa aludida mulher sem nome ficou encantada com o nascimento de Ana, esquecendo-se para todo o sempre da 6


tolice de querer ressuscitar os mortos, permitindo ao pobre Lázaro um descanso em suas mazelas, apaixonando-se pelo olho do furacão, que resolveu adotar como se fosse uma filho saído de suas entranhas.

O amor da mulher sem nome pelo furação Ana, somado aos inúmeros pecados da humanidade, atraiu novos furacões à terra, desta vez masculinos, que fecundaram a mulher sem nome com rajadas fálicas de vento, gerando o primeiro filho de mulher com furacão que se teve notícia, criatura que de tão inusitada só veio ao mundo diluída na teimosia das meninas pequenas, ainda que grandes, que povoam o mundo da gente.

Mas o amor da mulher sem nome e os pecados da humanidade continuavam a atrair furacões para a terra, que se deslocavam assustadoramente à espera de perdão e amor incondicional, daqueles que compreende que um furacão tudo muda ao seu redor, fazendo dissolver o que era sólido, desmanchando o tempo no ar, soltando os laços que uniam o que o sagrado não foi capaz de sustentar.

Precisamente em janeiro de 1974, um furacão na categoria cinco das paixões ignoradas por Deus, tocou a terra com sua dor de 48 Km de diâmetro, na velocidade de 300 Km/h, no centro da estrada que leva do sonho à realidade ou à morte, passando no meio do Croatá e da Caucaia, em busca de um Deus que não continue calando os que falam a verdade.

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O impacto dar dor e da verdade do furacão de 1974 foi ouvido por Deus e pela humanidade inteira, que cantou com os ventos a composição de Chico Buarque e Gilberto Gil:

“Pai! Afasta de mim esse cálice Pai! Afasta de mim esse cálice Pai! Afasta de mim esse cálice De vinho tinto de sangue...

Como beber Dessa bebida amarga Tragar a dor Engolir a labuta Mesmo calada a boca Resta o peito Silêncio na cidade Não se escuta De que me vale Ser filho da santa Melhor seria Ser filho da outra Outra realidade Menos morta Tanta mentira Tanta força bruta...

Pai! Afasta de mim esse cálice 8


Pai! Afasta de mim esse cálice Pai! Afasta de mim esse cálice De vinho tinto de sangue...

Como é difícil Acordar calado Se na calada da noite Eu me dano Quero lançar Um grito desumano Que é uma maneira De ser escutado Esse silêncio todo Me atordoa Atordoado Eu permaneço atento Na arquibancada Prá a qualquer momento Ver emergir O monstro da lagoa...

Pai! Afasta de mim esse cálice Pai! Afasta de mim esse cálice Pai! Afasta de mim esse cálice De vinho tinto de sangue...

De muito gorda 9


A porca já não anda (Cálice!) De muito usada A faca já não corta Como é difícil Pai, abrir a porta (Cálice!) Essa palavra Presa na garganta Esse pileque Homérico no mundo De que adianta Ter boa vontade Mesmo calado o peito Resta a cuca Dos bêbados Do centro da cidade...

Pai! Afasta de mim esse cálice Pai! Afasta de mim esse cálice Pai! Afasta de mim esse cálice De vinho tinto de sangue...

Talvez o mundo Não seja pequeno (Cálice!) Nem seja a vida 10


Um fato consumado (Cálice!) Quero inventar O meu próprio pecado (Cálice!) Quero morrer Do meu próprio veneno (Pai! Cálice!) Quero perder de vez Tua cabeça (Cálice!) Minha cabeça Perder teu juízo (Cálice!) Quero cheirar fumaça De óleo diesel (Cálice!) Me embriagar Até que alguém me esqueça (Cálice!)”‫٭‬

O lamento do furacão de 1974, que poderia ter qualquer nome, comoveu imensamente a mulher sem nome, que tendo adotado, acasalado, amado e parido furacões por toda a vida, tinha decidido ir embora com o furacão de 1974, queria retornar ao mar dos ‫٭‬

Música “Cálice”, de Chico Buarque e Gilberto Gil.

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sentimentos incompreendidos, para perdoar todos os seus grandes amores que se dissiparam com o vento.

Para isso, a mulher sem nome, que tinha ressuscitado os furacões de sua vida, necessitava possuir um nome, que indicasse a sua categoria de periculosidade e informasse a todos o seu casamento de almas com o príncipe dos furacões de 1974, exatamente aquele que estava fadado a retornar aos oceanos e desaparecer na liberdade incontida dos amores medíocres e pontuais ou simplesmente na definitiva falta de lucidez.

Foi então que Carmem adotou o sobrenome do furacão de 1974, girando num gozo incontido de alegria no meio do olho da tempestade tropical que nunca pôde voltar aos oceanos, porque Lázaro resolveu morrer de verdade, impedindo que a mulher que amava furacões entendesse seu destino, onde os furacões matam, gozam e vivem antes de se dissolver no ar das impossibilidades daqueles que amam.

FIM.

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A mulher que amava furacões