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ANO 5 - EDIÇÃO 35 - JANEIRO DE 2021

Henrique Veber: Editor Geral

Tudo junto misturado ao mesmo tempo: poeta, escritor, filósofo, professor, mediador de leitura, editor da Entreverbo, acredita no fazer sem crer em resultados.

Jonatan Ortiz Borges: Editor de Conteúdo Não pode dizer que no princípio fez o céu e a terra. Pois um tal de Deus já tinha roubado a ideia. Faz desde então o que pode com seu ofício de poeta e vez em quando consegue construir e desconstruir, criar e recriar tudo o que há no mundo através do verbo. É um ser em constante busca e construção sem ser, e pelo que é não sabe se será... Amém.

Felipe Magnus: Editor Gráfico Escreve e interpreta poesia. Produz revistas, livros, colagens, curta-metragens. Também é professor de idiomas e tradutor. Aprendiz de flautista. Acredita na arte como ferramenta de crescimento individual e coletivo. Daiane Irschlinger: Ilustradora Arteira: faz sua arte ilustrando sentimentos, ama cinema e música. Gateira: tem paixão por felinos. Bruxa: possui lá seus feitiços e encantamentos… Gosta de Confeitaria, aprendeu a fazer trufas e doces de chocolate. Penso, logo escrevo.

Conselho Editorial: Henrique Veber, Jonatan Ortiz Borges, Felipe Magnus. Ilustrações das páginas 05, 14, 48 e 54 por Felipe Magnus. Publicação produzida 100% em Software Livre + Linux Fotos das páginas 06 e 47 estão sob licença livre (Creative Commons).


Editorial Olá amantes, apreciadores e aprendizes da palavra! Queremos começar citando Caio Fernando Abreu, no conto Aqueles dois, do livro Morangos Mofados: “num deserto de almas, também desertas, uma alma especial reconhece de imediato a outra”. Começamos com essa citação por sabermos que o ano passado de 2020, para nós todos, mesmo que distantes e no deserto imposto, foi o tempo para aprendermos a reconhecer almas especiais no mar desértico e cheio de gente que paradoxalmente as redes sociais conseguem propiciar. Embora ainda estejamos no processo da pandemia, que tanto nos entristeceu no ano de outrora, a equipe editorial da Entreverbo deseja a todos um 2021 repleto de esperança, felicidades, vacina, saúde, muita poesia e a volta dos encontros e dos abraços... este é o nosso sincero desejo para que, o quanto antes, possamos novamente promover os encontros presenciais, devidamente vacinados e imunizados, tanto contra o vírus do Covid, quanto da falta de humanidade, para continuarmos a transmutar o mundo através da poesia e suas possibilidades. A Entreverbo tem cada vez mais agregado pessoas e amantes do verbo graças a vocês, e hoje contamos com a participação crescente de poetas e poetisas do Brasil inteiro e, também, com apreciadores da palavra de além fronteira. Somos imensamente gratos pela confiança que vocês depositam em nosso singelo trabalho, e tal fato tem nos mostrado que não há distância grande demais quando o fazer poético age como elemento de união e aproximação de nossas Humanidades... ainda mais em tempos tão desérticos e remotos. Assim seguimos... todos juntos! Sintam-se à vontade para espalhar nosso chamado para a imensidão poética do mundo. Eis o convite: Entre. Eis o motivo: Verbo. Então permitamo-nos estar: Entreverbo(s).

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Testamento Quando morrer, quero meu corpo nu, embrulhado em lençol branco. Novo, limpo, suave. Nenhuma maquiagem ou joia. Não se preocupe com o corte ou a cor do meu cabelo, o comprimento das minhas unhas, o desenho das minhas sobrancelhas. Peço que não me façam parecer viva, porque estarei morta. Fria. Seca. Dura. Doem os meus óculos e as minhas roupas. Joguem fora os meus sapatos, ninguém deve usar os calçados de um morto. Poupe recursos nas flores e nas velas. Não me agrada a ideia de disfarçar o cheiro da morte, [porque estarei neutra. Lacre o caixão. Aperte bem os parafusos. Guarde minha imagem viva. Talvez você chore ao ver meu recipiente sem luxo algum. Sem cerimônia alguma. Não existe motivo para realizar a morte. Lembre de mim alegre, triste, aflita, carente, decidida. Lembra da tua mãe cantando, dançando, chorando. E encare os meus desafetos com gentileza. Se eu der sorte na despedida, sairei em um dia de sol para a cremação. Exijo cremação. E não se preocupe com as cinzas. Fernanda Cirenza (São Paulo / SP) fernandacirenza@uol.com.br

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Migalhas os monumentos são zoológicos do medo violentas cortinas rasgam a noite preciso de distinção nos dentes instantâneos que não mordem o jardim de apuros

onde nossas garras desaprendem o espaço Luís Perdiz (Campinas / SP) @perdizluis

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Cara e Coroa Anda com medo da vida e também da morte;

o véu da separação rasgado. Bois e ovelhas à venda.

Pombas arrulham sobre o porto. Navios lotados,

pacotes de toda espécie,

o céu do outro lado do mar. Anjos vendilhões no horizonte, chicotes lassos;

azul, vermelho, numa só cor, púrpura para todos os lados. Sobrevive no limbo:

escapando aqui e ali, as duas faces

que já não pode distinguir. Rubermária Sperandio (Rio de Janeiro / RJ)

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Sorte Os murmúrios em meus poemas me puxam por uma perna só, me carregam e desafiam o íntimo da minha carne viva. Golpeiam não um verso, mas a estrofe inteira com seu sarcasmo, e equivocadamente remendam a forma do inteiro em instantes.   Meu esboço esquecido bem no fundo da sala vazia, ainda sobrevive a horas infinitas e a tudo distorce, esquece o roteiro e molda novas formas à mulher de agora.   Os murmúrios não se calam, e eu não entendo como convencê-los com mínimos golpes guiados pela sorte.   Mas há algo nos versos arrancados, e entre as flores que não nasceram desaguam meu rosto anterior, despudorado e contente. Angelita Guesser (Pelotas / RS) www.aguesser.com

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sangue Tem sangue nas bancas Nas bancadas e sacadas Nas telas Nas tetas Mas quem mama não se importa Tem sangue nos bares Nas praias Nas igrejas Nas repartições públicas Mas Falta sangue nos bancos Um exército civil De cadáveres Que não sangraram No abraço da terra Tem sangue vermelho Tem sangue vermelho Só tem sangue vermelho Sangue de sobra Saindo pelo ladrão Mas é o sangue nos olhos que ofende Quem carrega esse sangue Nas mãos Joel Galvão (Rio de Janeiro / RJ)

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Água II

José Carlos Aragão (Belo Horizonte / MG)

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friezas o tempo voa mas sempre parece o mesmo dia delírio da noite

cada vez mais fria o desprezo desliza feito uma enguia

revira ódio pelas ruas nenhuma vazia a cidade

sombra esguia

na parede da sala e um cansaço

vertigens de noite branca

o medo da noite dura o dia

com passos estreitos pelo corredor vem frio mas não calmaria

um homem arranca cruzes da praia outros homens choram

e mães yanomamis dão colo às crias também frias como a noite

Isadora Dutra (Porto Alegre / RS)

https://isadora13d.wixsite.com/website

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Febre Física Imagino bravas baladas que pretendam exprimir a febre                                         física em meu rosto           dissonante... assim me queimam os pensamentos, e a ponta gasta dos segredos meus confundem-se às cinzas dum                      cigarro demorado. As baladas, entretanto, logo falham em suas investidas e o calor inventa invernos momentâneos. Me cubro com diversas cobertas de desculpas       furadas de solidão                   de desleixo   e ainda bato queixo, tremulo tua                   ausência! Nenhum corpo ferve louco como o teu, nenhuma boca me devora com            tal             eloquência.  Huggo Iora (São José / SC) www.huggoiora.com

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Rasgando o peito Rasgando o peito

E apenas a dor De um sonho

Perdido no tempo. E na madrugada Fria e triste,

Em cárcere ao destino De um sonho vazio. Ouço apenas o Murmúrio

Da noite,

E um desejo inquieto

Pulsando no coração. Nas curvas

Sinuosas do corpo

Uma cachoeira deságua Na retina de um ser.

Rose Pinheiro (Marabá / PA)

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Não poderia a Galícia, na Espanha Apresentar ao mundo rara beleza

Mania de quem tem o poder e manda

Mas se desmancha se a chamam galega Das intensas... Das que tomam posse

Pois ciumenta precisa se mostrar segura Tão sensível, mas a “boa menina” é forte E enfrentar injustiças a torna dura

Mas o aconchego do colo de quem se gosta

O pôr do sol, coisas simples... Banho de chuva... Somatizam o aprazível que ela adora

A faz mais linda... E sua lindeza, uma loucura... Amante da palavra, da poesia... Obras literárias Que a norteiam como se fossem “seres livros” Ela singela, toda da “invencionática”

Eu aqui tentando traduzir tudo em palavras

Mas é impossível atingir acerca dela pleno sentido Zéu Pereira (Santo Amaro / BA) @poesiaelementar

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Bendita Maldição II Salve Jards Macalé e Arrigo Barnabé, pra sempre Itamar Assumpção, Sérgio Sampaio e Tom Zé,

Hermeto e Ernesto Nazareth! Hermeto e Ernesto Nazareth! Excedem a qualificação.

Rótulo? Coisa de "mané". Nessa desclassificação,

preguiça e falta de atenção. Na contramão dessa maré, Salve os que caem de pé! O amor da banalização, repetir vazio refrão.

Quero ser maldito, então! Que bendita maldição! Que bendita maldição! Fabrício Fortes (Rio de Janeiro / RJ) @minhampbmorde

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Leia com a câmera do celular!


O triste é terminar um capítulo, e a máquina de escrever não aplaudir… José Castilho Dantas (Belo Horizonte / MG)


ao rever-se nos anos, percebeu suas muitas existências. (desertos desvendados nas rugas do tempo) as imensas dunas, os trajes usados na travessia, as muitas setas apontando caminhos. no devir, avista sua imagem refletida num oásis, momento em que decidiu mudar de itinerário. ... burlar, este foi seu desafio. a areia e o sol do deserto encarregaram-se por queimar o olhar enfastiado do tempo. as raízes fincadas por outrem, dissiparam-se a cada sede. ... já não é mais uma nem duas, são vários rostos, várias existências, ciclos que somente ela conhece. somente ela. ninguém mais.

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Neli Germano (Porto Alegre / RS)


Somos ciclos Sou a nuvem do céu e a onda do mar.

A lágrima que derrama.

O gole saciado e o beijo molhado. O gelo refrescante

e o vapor que esquenta.

No gramado, sou o orvalho.

E o todo flui em um ciclo perfeito. Subo em evaporação,

na união, condensamos.

Para novamente ser precipitação.

Chuva que escorre e no solo infiltra. Parte escoa nos rios e oceanos.

Neste ciclo perfeito de idas e vindas. Vida em fases, água em essência. Me basto.

Agnes Izumi Nagashima (Londrina / PR)

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Rompe-mato Serenatas de grilos, ouve-se, quando na mata se insere,

curando as feridas em cada folha-palavra-verso ao vento. Em sua argilosa veste, sabe das mutações,

sabe das bebedeiras e das corredeiras, ó profano cavalheiro! Conhece as madrugadas-tempestades,

distingue os uivos de cada garganta e as curvas de cada animal. Pés de chão batido e lodo, trafega na escuridão.

Os olhos que espreitam, contemplam marcas de afeição, no corte dos galhos da vida.

Está farto de queimar as angústias no fogo que consome o incenso, Hoje ele despertou com o peito florido e decidido, o amor não espera a fera acalmar,

lança afiada que esfacela o pulmão já comprometido pela nicotina das noites passadas. Está farto!  

Quer ser mar, quer ser céu, quer ser sopro, quer ser seu. Ana Neves (Rio de Janeiro / RJ)

facebook.com/anapaula.dasneves.3

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sobressalto perdoa a sangria

todo drama que por mim transita e meu peso da escrita

perdoa se a justiça tarda e muitas vezes falha

perdoa se liberto a ave do sonho e morro vĂĄrias vezes ao dia sem estar enferma

perdoa se nĂŁo consigo

emparelhar meus passos com a rapidez do mundo e assim, definho Benette Bacellar (Porto Alegre / RS)

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Sem volta Quando chegar a hora

Da minha partida sem volta, Não vou olhar para trás.

Não olharei, pois o que fiz da jornada, Feito estará.

Não olharei, porque o que não fiz Vai me pesar no olhar. Direi meio sem jeito,

(quase como quem pede desculpas) A quem venha me buscar:

— Era muita vida para viver, me buscastes cedo demais! Luciana Marinho Albrecht (Passo Fundo / RS) @Luciana_Marinho_Albrecht

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Jogo de Copas Da janela da PJ frutas e desfrutes mar, montanha e céu Muitas Copas nesta rua que não dorme Fosse nossa outro seria o seu nome   Rio, às vezes não avisto no meu peito a paisagem: ora é só esta rua ora é toda a cidade Delayne Brasil (Rio de Janeiro / RJ) delaynebrasil@gmail.com

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Espinho, Espora, Aguilhão... Fundamentalistas detestam dúvidas, pois, repletos de certezas eles estão. Curiosamente, eles pretendem salvar o mundo, nos livrando de toda perdição… Não sou bobo de ignorar que dúvida no campo íntimo, na mesa da decisão, pode se tornar tormento, pois basta um passo em falso e lá vem confusão! Neste caso, a depender do que seja dúvida é mais que receio, hesitação por envolver escolhas complexas que afetam cérebro e coração. Combinemos, para simplificar, que dúvida pode ser espinho ou aguilhão se for coisa pessoal, difícil de se decidir, exigindo extirpação. Mas fora disso, dúvida é espora no bom sentido da incitação fazendo-nos mobilizar a massa cinzenta em busca de solução. Dúvida é prima do debate, do ponto de vista, da discussão é caminho certeiro quando se busca no saber sua expansão… Por isso, nada de medo, pois ela não é nenhum bicho-papão: não engole criancinhas, nem nos conduz ao fogo da danação! Abel Sidney (Porto Velho / RO)

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Reversa Perguntam da força da Mulher como pode, vejo dizerem impressionados prestam homenagens, constroem altares de repente me flagro em cima da pedra lisa diante dos homens curvados cercada de flores sozinha. Perguntam da força veneram a força mistificam a força como pode? Questionam É como não pode! devo dizer rasgando flores como nunca pude sem segundas chances sem tempo de espera como nunca pude digo descendo da pedra lisa desistir de tudo sabendo que uma mulher tomaria conta de mim Porque eu sou a Mulher que tomou todas as contas anuncio quebrando seus altares com a força que nunca escolhi. Daphini Moraes Couto (Porto Alegre / RS) @srta.couto

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nós Entre pensamentos intensos, Sinto a cálida pressão de seus movimentos, Vejo o seu respirar sereno De quem é maior que o tempo. Ainda que eu suma na névoa, Ou me deleite em seus braços, Ainda que eu te contemple sem pressa O mundo ainda paira sobre meus ombros cansados. Pela imensidão em seu olhar, O toque pavorosamente calmante Eu sei que sempre vou me lembrar, De como você ama ler O morro dos ventos uivantes. Sei que essa parte não fez sentido, Foi só para te lembrar de como nos enxergo, Desculpe te deixar aqui sozinho, Mas nosso fim sempre foi certo. A indiferença em sua voz nítida, Ou seu olhar nada presente, Me fizeram entender cada mentira, Lembrar de cada momento ausente. Você é muito bom pra mim, Talvez seja esse meu erro, Adiei nosso fim Porque pensei que a resposta fosse o tempo. Sem perceber nos perdi, No que acreditava ser bom pra mim, Mas esqueci que sempre gostou de sentir E eu de partir.

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Emanuelle da Silva (Bento Gonçalves / RS)


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a olho nu Quem é o estranho que me olha tanto? Será um louco, assassino, santo?

Quem é o estranho que me olha franco? Algum corcunda, vesgo, torto, manco?

Quem é o estranho que me olha fundo?

Vai ver é bicho ou alma do outro mundo... Quem é o estranho que me vê tão velho? Ao me espiar do fundo deste espelho? Tony Saad

(Santa Cruz do Sul/RS )

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platônico secretamente desejo-te

incógnito

disfarço-me de ausência não cantarei publicamente este amor

camaleão desajeitado inverto a paisagem misturo as cores da dor

síndrome medieval em tempos modernos menestrel sem talento passariam mil anos

não saberias o quanto espreito teu corpo quisera presentear-te

com os mais belos poemas brindar ao amor secreto qual a cor da paixão?

teria a cor das constelações?

roubaria a cor de todas as flores? alimento-me deste amor intensamente

fascinado por tua luz amo-te

confesso secretamente. Flavio Machado (Cabo Frio / RJ) flaviomachado_@uol.com.br

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numerologia 25 anos

Manequim 36 2 abortos

Salto Luís XV Chanel n. 5

Ouro 18 quilates Ferrari 458

32 capas de revista

2 milhões de seguidores Disque 188

4 programas de fofocas Diazepam 20mg

3 carteiras de cigarros Whisky 30 anos

1 grama de cocaína Disque 192 7 palmos

33 capas de revista apenas 25 anos

Sabrina Dalbelo (Bento Gonçalves / RS) @sabrinadalbelo

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Beija-Amor Ontem um beija-flor pousou em meus lábios D'ali pra cá, de cá pr'alí, em seu frenético voo arriscou uma bitoca

Mal sabia ele que o doce odor que o atraíra

não passava de uma lembrança impregnada em mim Inocentemente, este último néctar de memória bebeu E saciou-se pelo dia, coração cheio de ti Impressionou-me tal resistência

Tantas flores beija que decerto perdera a sensibilidade Para mim, infinitas vezes seu tamanho bastava um toque para me embriagar

Hoje ele retornou, e mesmo que eu não fale a língua das aves consigo reconhecer neste voo a vontade de você Pois o pior talvez nem seja a saudade do sabor Mas saber que em nenhuma outra flor encontra-se algo igual

Adson Leonardo (Montes Claros / MG)

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nós (?) Estávamos aos beijos

Embriagados de prazer e nicotina A dança diluiu minhas barreiras

Não havia distinção entre certo ou errado Sua voz ecoava pelas paredes brancas Não apenas corpos

Mas energia que fluía

Resultando em prazer de ambos Você vislumbrou meu interior

Consumindo com devoção e luxúria Porém, coberto de ganância

Cruzou um limite preestabelecido

Abrindo as portas do meu pior pesadelo

Escapei em meio a um mar de lágrimas Para as trevas seguras do meu coração Percebi que nunca fomos nós Apenas eu e você

Sequer pude perceber

Enquanto eu acolhia seu ser Em minha humilde casa

Você plantava dinamites no lugar de flores Lucila Karen Reis (Salvador / BA) lucila.karen@gmail.com

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Sem saída Construí uma casa

com todas as janelas para dentro,

do banheiro via a sala

do quarto via a cozinha.

Não deixei portas para o exterior

para que ninguém entrasse,

e eu não conseguia sair também. De fora,

faziam buracos nos tijolos, que eu tapava,

apressada, ansiosa, nervosa. Hoje, quebrei as paredes internas

até derrubar a que dava para fora.

Mas a rua estava deserta.

Fernanda Caleffi Barbetta (Oakland / Michigan / EUA) www.entreversoseprosas.com.br

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Aquele dia derradeiro! chegamos sem bússola, como todos. porto de cegos, cais sem cordas, barcos à deriva. remotos, longe dos nossos destinos, esquecidos da nossa origem, venerando deuses impotentes. envoltos no silêncio entre os gritos desesperados dos sem rumo. na distância, a luz tênue dos sonhos bruxuleando na escuridão do tempo eterno. Henrique Northfleet Neto (Canela / RS) henrique.northfleet@gmail.com

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De passagem uma gota de orvalho desenha na vidraça

o canal de uma lágrima e o rosto refletido aceita a cicatriz

e adota essa tristeza

que não é nossa nem nada que é alheia mas não falsa e às vezes nos assalta

numa estação de trem no rebanho mirrado

que em torrões ressequidos faz de conta que pasta numa moça de luto

que amamenta um embrulho numa gare deserta

sentada sobre a mala

a dor é passageira

e logo o vagão anda Jorge Rein (Porto Alegre / RS) jrein@terra.com.br

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novo padrão o q circula pelas redes sociais não é só ódio inveja ou vaidade o q circula pelo corpo não é só sangue nutrientes oxigênio o q circula pelas ruas não são só carros e pessoas e a brisa do outono o q circula é o homem e suas manifestações ao encontro de si mesmo infinito embora pense pequeno embora sinta-se pequeno embora seja pequeno e enquanto oramos a natureza das coisas se organiza com dor e leveza e perdas em um novo padrão de beleza Dinarte Albuquerque Filho (Caxias do Sul / RS) dhynarteb@gmail.com

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Mitologias cansaço

ancestral

nas entranhas indisposição indômita a vida

é labirinto que

se percorre incerto nada

é cristalino tudo carrega em si

a semente

da dualidade. Ricardo Mainieri (Porto Alegre / RS) ricardomainieri.rs@uol.com.br

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sem engasgar uma tragédia que não se mede desde antes, anunciada... avisada nossa esperança desde aqueles dias não foi premeditada e não queríamos estar agora onde estamos, com quem estamos dias tensos, caóticos e não há prece que aconchegue. o coração verde e amarelo que já estava enfumado cheio de lama, agora palpita, nos respiradores dos hospitais sussurra socorro! a humanidade inflama esperança, nos cantos de suas casas dançando com suas solidões, e medos embaraçados. saudades penduradas pelos cantos das casas e ainda há quem deboche de um povo e suas pequenas alegrias há quem jogue bomba no prato do pobre e diga: deguste sua fé estamos cansados, ofegantes... no meio do caos tentando nos manter de pé e quando a doença acabar não vai existir quem segure um suspiro todos vão gritar em todos os cantos, todas as cores, todas as vozes dessa vez, sem engasgar.

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djêi. (Barão do Triunfo / RS)


04:32 e a Cidade dorme. Com a sua boca, escreveria crônicas. Com os seus olhos, escreveria poemas. Com o seu cheiro e a sua pele, escreveria contos. Com você todo, não sei o que escreveria, mas ainda assim escrevo! Na sua boca as mais lindas canções desafinadas, na sua boca o mel e amor de Oxum.

Quando arde, Xangô é quem dita as palavras que saem dos meus lábios.

Olhos de serpente que tudo enxerga e tudo vê, ali habitam as estrelas

mais velhas, habita a lua, o brilho do sol no entardecer, o mar em festa saudando Iemanjá!

O seu cheiro vem de lá das matas, do vento que semeia e planta, o seu

cheiro vem das águas salgadas no encontro das doces. O seu cheiro é o perfume mais nobre que nem Reis e Rainhas puderam ter.

A sua pele, nem a forja de Ogum explicaria, tamanho feito. De uma

maciez desconhecida, de um toque suave que arde e de uma força que vibra. Na sua pele, raios, trovões e ondas fizeram morada. Da pele que tudo sente aos olhos de cobra que tudo vê! Agradeço e acredito no poder e no cuidado da criação. Ana Carolina (Ituiutaba / MG) @pfvrcarol

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Pedaços Sem você, tô em pedaços

Como se fossem metades

De um viver sem vontade Incompleto neste espaço Carente do seu abraço sem você, fico vazio

Uma nau em mar bravio A mercê da tempestade

Naufragando de saudade

Tão só, tão triste, sombrio. Carlos Marcos Faustino (Tupã / SP) faustinopoeta.blogspot.com

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GĂ´ndolas

Alma AndrĂŠ (Vargem Grande Paulista / SP) @almaandrex

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Elefante em pauta Bem aqui, não está o coração pulsante, o órgão vital. Bem aqui, jaz um corpo único e só corpo em decomposição. O que abrigo não é o hoje; presente colorido e amável feito família de elefante. O lugar onde ocupo é memória (memória de elefante jamais morre). Para onde essa pista se destina a carregar? Em que percurso trombo comigo mesma? Gabriela Martins (Araçatuba / SP) @gabrimartin.s

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poesia Atravessa-me assim a Palavra: ave migratória em busca  do melhor Tempo  do melhor caminho  tornando sondáveis  os Mistérios desse  outro que me  habita    Puro espanto de ouvir a voz  que pulsa no mundo e grita  a esperança de carregar sob a  pena a chave que abrirá a  porta onde estão as  Palavras que aguardam  reinvenção.  Helena da Rosa (Canoas / RS)

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arquipélago Pra que serve a rima Se o poema é barco? Será a rima o remo Ou é flecha que deixa o arco? Nem todo poema é parco Quase toda rima é asa Se muito verso é nulo Não pouca estrofe é casa Eu me (de)moro no poema sempre que, feito canoa, a palavra nua flutua desliza na água turva e corta feito quilha mas não sangra, antes cicatriza: se falta vento, mas sobra vela invente-se, no poema, a brisa é quando a poesia emula um arquipélago onde mora a solidão do poeta que pula de ilha em ilha Ricardo Bueno (Viamão / RS) bueno.ricardorodolfo@gmail.com

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autodidata alguns autodidatas são fugitivos escapam após serrar a grade curricular com o autoensino Daniel Brito (Crateús / CE) https://danielbrito.github.io/

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A Entreverbo aguarda sua colaboração na próxima edição para continuarmos reverberando poesia por todos os cantos… Evoé!

Escritores da 35ª edição: Abel Sidney Adson Leonardo Agnes Izumi Nagashima Alma André Ana Carolina Ana Neves Angelita Guesser Benette Bacellar Carlos Marcos Faustino Daniel Brito Daphini Moraes Couto Delayne Brasil Dinarte Albuquerque Filho djêi. Emanuelle da Silva Fabrício Fortes Fernanda Caleffi Barbetta Fernanda Cirenza Flavio Machado Gabriela Martins

Helena da Rosa Henrique Northfleet Neto Huggo Iora Isadora Dutra Joel Galvão Jorge Rein José Carlos Aragão José Castilho Dantas Luciana Marinho Albrecht Lucila Karen Reis Luís Perdiz Neli Germano Ricardo Bueno 55 Ricardo Mainieri Rose Pinheiro Rubermária Sperandio Sabrina Dalbelo Tony Saad Zéu Pereira


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