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Moscovich azul


Camila Nunes de Freitas

Moscovich azul


Copyright 2011 by Camila Nunes de Freitas. Projeto realizado com o apoio do Governo do Estado de São Paulo, Secretaria da Cultura – Programa de Ação Cultural – 2011. Capa Leandro Fessia Arte-final da capa Op.Art Design – Cláudia Freitas Copidesque Entrelinhas Editorial Revisão Mailin Milanés Entrelinhas Editorial Diagramação Entrelinhas Editorial Ilustração Ania Valle Os personagens e situações desta obra são reais apenas no universo da ficção. ISBN 978-85-914333-0-8

Todos os direitos reservados a Camila Nunes de Freitas camilanunesdefreitas@gmail.com


“A viagem não começa quando se percorrem distâncias, mas quando se atravessam as nossas fronteiras interiores”. Mia Couto


Para Gueshe La e para todos os cubanos que resistem em todos os cantos do mundo.


Ilustração: Ania Valle


Agradecimentos A todos os cubanos que inspiraram este livro e que constroem suas próprias histórias a cada dia, dentro e fora do país – em especial a Ained Irigoyen, Amaury Wilson e família, Ania Valle, Claudia Calviño, Kike Silvestre, Maikel Abreu, Mailin Milanés e Yadira Contreras. A Cláudia, Jayme e Neusa, pelo apoio incondicional. A Leandro Fessia, companheiro em todos os momentos. A Gueshe La, Guen Togden e à sangha Kadampa, pelo suporte espiritual. A Caren Inoue, Carlos Calil, Cynthia Alario, João Carrascoza, Marçal Aquino, Maria Lucia Roxo, Sabina Anzuategui e Sabrina Luna pelos conselhos e generosidade. Aos companheiros da eictv e à comunidade do Guaraú, pelo apoio e amizade enquanto este livro nascia.


Sumรกrio

Havana............................................................ 15 Moscovich azul........................................... 113 Regresso....................................................... 219 Glossรกrio. .................................................... 269


Havana


Tatiana ainda pensa na madrugada anterior ao embarcar no avião desgastado da Cubana de Aviación. Boceja e sente o torpor da noite passada em claro, como se seus pés tocassem apenas de leve o chão do avião, enquanto as aeromoças demonstram, com mímicas, o que fazer em caso de despressurização. Tenta dormir, mas as comissárias de bordo – com estranhos penteados – insistem em interrompê-la com lanchinhos, fone de ouvido, formulários de imigração, em um ritual ensaiado que cumprem com visível tédio. Consegue cochilar por um breve intervalo. Entre o sonho e a realidade, vê flashes da festa, as luzes e o cheiro de fumaça, os amigos dançando em cima do balcão do bar, Rodrigo falando algo incompreensível no seu ouvido, tudo mesclado com os sons do avião e as ocasionais turbulências. Acorda com o pescoço doendo. Desiste de dormir e olha para o senhor ao lado. Tati está buscando papo, mas ele enfia um jornal na cara para não conversar. Ana está calada e responde às perguntas apenas com monossílabos. Vai ao banheiro na tentativa de acelerar as horas de voo. Corre os olhos pelas filas de cadeiras, onde cada um se distrai com seu passatempo particular. Abre o compartimento de bagagens, quase derruba uma mochila mal posicionada e resgata, dentro da bolsa, um livro de fotos de Alberto Korda. Fotos míticas da Revolução, instantâneos de um momento que, de tão entranhado em seu imaginário, a faz sentir ter chegado tarde ao mundo, atrasada para a materialização da utopia. Naquelas páginas, um Che Guevara em preto e branco lhe sorri, e a praça repleta de gente afirma que o sonho é possível. 17


Sente um arrepio de emoção percorrer-lhe o corpo ao pensar que, finalmente, conhecerá Cuba. Nervosa, Ana folheia a revista de bordo. Espia sem interesse o filme na telinha. Olha as nuvens pela janela. A viagem parece interminável. Sente uma bola gelada no estômago quando o comandante anuncia o pouso em dez minutos. Endireita a poltrona. Sente vontade de chorar, mas disfarça, pois Tatiana projeta sua cabeça para enxergar Havana do alto. O avião toca o solo abruptamente e Ana se levanta. Apressa Tati, mas a aeromoça lhe pede que espere sentada até a aeronave parar por completo. O tom de voz mecânico e nasal da moça aguça sua irritação e Ana respira fundo para não mandá-la abrir imediatamente a porta do avião, como se de um táxi se tratasse. Ana quer descer. Quer descer logo, mesmo sabendo que será difícil rever sua cidade depois de dez anos. Mesmo sabendo que não se sente mais cubana, que a cidade talvez não a reconheça, que seus poucos parentes que ficaram são como estranhos. Nesses minutos de espera, arrepende-se de ter vindo e decide abreviar sua estadia. Procura na bolsa o bilhete de embarque, para ver o endereço do escritório da companhia aérea. Teria que pagar multa? Ainda remexe na bolsa quando os passageiros se levantam e começam a retirar as malas, bolsas, sacolas do Free Shop. Tenta sair, mas o corredor já está cheio e todos – permiso! permiso! – elegantemente se acotovelam para descer do avião primeiro. 18


Desiste de entrar na corrente de gente que deságua depois de muitas fileiras de poltronas. Senta-se, vencida, e começa a observar as pessoas. É fácil identificar os cubanos. As mulheres usam roupas justas e coloridas, muitas pulseiras e gesticulam enquanto falam, agitando unhas pintadas de vermelho paixão e dedos cheios de anéis. Carregam muitas sacolas e malas. Os homens usam relógios chamativos, correntes no pescoço e, por vezes, luzem dentes de ouro. Muitos carregam caixas de eletrônicos e conversam entre si, comparando a potência dos equipamentos e gabandose de ter conseguido a melhor oferta. Pensa nela mesma, com sua bata indiana, calça jeans e sandálias rasteiras. Alguém conseguiria identificá-la como cubana? Ao descer a escada do avião, o cheiro de calor toma seus sentidos e Ana volta aos dias abafados de uma Havana borrada da memória. O suor no uniforme da escola. As cadeiras na calçada. O cheiro de comida e xampu às seis da tarde. É como se tivesse tido duas vidas diferentes. Ana vê a mãe afastar-se carregada de malas. Usa um vestido azul com detalhes vermelhos no decote e na barra. Calça seu único sapato de salto alto e, acostumada a andar sempre de chinelo, tropeça nas pedras do calçamento e atrapalha-se com a bagagem. Quando olha para cima antes de entrar no táxi, Ana se esconde atrás da cortina de renda. Entre soluços, vê o carro dobrar a esquina e desaparecer, mas decide não chorar. Decide não chorar nunca mais. 19


*** O táxi não é um belo veículo de 1950 como fantasiou Tati. É um velho Lada que bate sua lataria ruidosamente pelas ruas em direção ao bairro do Vedado. Faz calor e o taxista ouve música numa altura ensurdecedora. Ana está calada e aperta os joelhos com as mãos. Conhece aquele trajeto de cor, mas seus olhos não reconhecem nada ao redor – nem ela mesma. Revolución es cambiar todo lo que debe ser cambiado.1 Ana suspira ao ler o outdoor que exibe a figura estilizada de Fidel Castro. Nada mudou afinal. Seus piores fantasmas se agrupam em assembleia, conspirando, sussurrando e fazendo sua cabeça doer. Tati pede para abrir o vidro e o motorista lhe passa uma chave de fenda que tira do porta-luvas. Tati olha confusa para a ferramenta. Antes que esboce uma palavra, Ana arranca o instrumento de sua mão e abre a janela, encaixando-o no local onde, um dia, deve ter existido uma manivela. Tati sente o vento entrar pela janela e, com voracidade, captura Havana em suas pupilas. Os prédios antigos, com sua dignidade silenciosa, assistem ao balé de mulheres, homens, crianças que, voláteis, cruzam as ruas, tomam ônibus, andam nos curiosos bicitáxis, num caos que parece uma grande celebração da vida. Cores. Ruídos. Cheiros. Tudo em exagero, brotando inesperadamente de cada canto. 1 Revolução é mudar tudo o que precisa de mudança. (N.A)

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La libertad no se puede bloquear.2 Tati lê o cartaz e sente orgulho por aquela pequena ilha que desafiou a ordem das coisas por cinquenta anos, sem esmorecer. Um pontinho no meio do Caribe que enfrentou a grande potência mundial e conquistou o direito de seguir seu próprio caminho. Seu peito se infla, como se assistisse a um filho recebendo o canudo no dia da formatura. O taxista para em frente a um prédio antigo e descascado, com grandes tapumes que sustentam as sacadas de um iminente desmoronamento. Coloca a cabeça para fora do carro e grita para uma senhora que, no segundo andar, observa a rua apoiada no beiral. – Esse é o 144? – Sim, mi vida, mas a campainha não funciona. Descem do carro e retiram as bagagens do portamalas. O táxi parte e deixa o rastro de sua música até dobrar a próxima esquina. – Vão à casa de Maripily? – pergunta a senhora que segue na janela, observando interessada o desembarque desajeitado das meninas. – Sim. – confirma Ana. – É no quarto andar – e grita: – Maripiiiiiiiily, tem gente! Ana se dirige para a pequena porta que dá acesso a um lance de escadas. Ao chegar ao quarto andar, Tati sente-se feliz por 2 A Liberdade não pode ser bloqueada. (N.A)

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ter trazido uma mala tão compacta. Ana, por sua vez, traz uma mala gigante – exagerada em sua opinião – repleta de itens como sabonetes, xampus, cadernos, enlatados e até papel higiênico. Maripily já espera à porta. – Bem-vindas, chicas! Sintam-se em casa! Adelante, adelante. Maripily as conduz pela sala dividida em vários ambientes – um sofá marrom rasgado e uma televisão antiga a um canto, uma grande mesa de jantar de madeira que atrapalha a passagem e, por fim, três cadeiras de balanço próximas à ampla janela com vista para a rua arborizada. Contrastando com o tom de madeira prevalecente no resto da casa, a cozinha exibe fogão e geladeira brancos e panelas penduradas na parede. Os móveis antigos dariam ao lugar certa sisudez, não fossem o rádio ligado em alto volume, quadros coloridos de um pout-pourri de estilos e ursinhos de pelúcia descorados espalhados caoticamente pela sala. Um corredor conduz a quatro quartos. No primeiro deles, entreaberto, uma mulher dá de mamar a um bebê. Ali, amontoam-se uma cama de casal, um berço, uma tábua de passar e uma pilha de roupas. O segundo quarto está fechado e, no terceiro, Maripily sinaliza. – Entrem! Esse é o quarto de vocês. O quarto é limpo e iluminado, mas tem a atmosfera sem alma dos locais de passagem. As duas camas de solteiro estão cobertas com colchas que simulam pele de zebra e, acima de cada uma, resiste, triste, um quadrinho amarelado dos personagens de “Amar é”. Ana coloca a mala em cima de uma das camas e, assim que Maripily vira as costas, tira da parede os dois quadrinhos que ferem seu senso estético, exilando-os na gaveta da cômoda. 22


Tati encosta a porta do quarto e tira os sapatos. Maripily grita lá de fora: – O banheiro é no fim do corredor! Se quiserem água quente, me avisem que eu esquento. Tati acha estranho. O banho é de balde e a diária não é barata. Não comenta nada para não ser chamada de burguesa. – Eu vou dar uma volta! – diz Tati. – Eu vou descansar – responde Ana. Ana olha para a convocatória sem conseguir acreditar. Levanta-se da cadeira e olha o pátio pela janela. Crianças jogam pelota. Uma pipa corta o ar. Sua produção universitária, tempranamente definida em um estilo muito particular, não se sabe por que vias, caiu nas mãos da pessoa certa. Sua obra foi escolhida para representar Cuba numa exposição que, começando no Brasil, viajaria as principais capitais da América do Sul. Jovens talentos latino-americanos, diz a convocatória. Devem ter errado de destinatário. Não pode ser verdade. Ana lê e relê seu nome datilografado no papel. Era tudo o que ela queria e, não obstante, o que sente é medo. Ana acorda do breve cochilo com o uivo de um cachorro na vizinhança. Já está escuro e ela pula da cama, sobressaltada, sem reconhecer onde está. Ao chegar à sala, encontra Tati conversando com Maripily, que prepara o jantar. 23


– Acabei nem saindo! – diz Tati ao vê-la ainda sonolenta – fiquei aqui batendo papo. – Que horas são? – pergunta Ana. – Hora da janta – responde Maripily. – Sente-se que já vou servir a comida. Ana senta-se à mesa e passa a mão para ajeitar os cabelos despenteados. – Preparei arroz congrí! – diz Maripily – Sua amiga me contou que você não vem a Cuba há muito tempo, então tenho certeza de que está morrendo de vontade de comer um bom congrí de verdade, igual ao de sua mãe! Ana sorri, melancólica. Sua mãe nunca cozinhou arroz congrí na vida. Muito trabalhoso. Sempre distraída em passeios pelo bairro ou fofocas com as vizinhas, estava sempre atrasada para preparar o jantar. Batia panelas e xingava, enquanto preparava qualquer gororoba – sem tempero, sem capricho, sem vocação – para servir ao marido, que temia como a um pai bravo. Maripily continua seu monólogo da receita. – Modéstia à parte não conheço ninguém que prepare um congrí melhor que o meu, oíste, mi vida? O segredo é usar gordura de porco. Tem gente que serve qualquer coisa para os turistas, mas eu faço questão de caprichar... Fala rápido e comendo as palavras, sem trégua, enquanto pilota as panelas com destreza. Ana imagina se Tati conseguiu entender algo do que ela dizia. Maripily ainda fala quando um homem chega, joga a camisa suada no sofá e lhe dá um beijo distraído. – Esse é meu marido Norlen – apresenta Maripily. – Essas são as brasileiras. – Brasileiras? – diz enquanto aperta a mão de cada uma, demoradamente. – Então é mesmo verdade que só há mulheres bonitas no Brasil! 24


– Na verdade – continua Maripily, ignorando o galanteio do marido –, aquela ali nasceu em Cuba, não é verdade, mi hija? Mas mora no Brasil, no es cierto? Eu adoro as novelas brasileiras! Principalmente essa que está passando agora. Já viram? Eu acho que a Helena devia logo ficar com o César, sabia? Paixão reprimida não leva a nada. Olha por exemplo o que aconteceu com... Maripily não para de falar. Norlen acende um cigarro e Maripily pede um trago, enquanto ainda cozinha. Os dois fazem um casal estranho. Maripily, talvez por ser muito gorda, aparenta muito mais idade que ele. Norlen olha para as meninas com um sorrisinho safado que Maripily finge não notar. Norlen liga a televisão. A sala se enche de fumaça de cigarro. Maripily aumenta o tom de voz para encobrir a televisão e Norlen, por sua vez, aumenta o volume da TV para abafar a voz de Maripily. O prato é servido, fumegante, acompanhado de carne de porco e mariquitas. Ana respira fundo. O cheiro de banana frita a transporta a outros tempos, aos odores dos predinhos cujas finas paredes não escondiam nem cheiros nem segredos. As memórias se descongelam devagar. Despertam sabores perdidos em suas papilas gustativas, canções e cheiros, vozes lejanas, segredos que espreitam e batem a uma porta que Ana tem medo de abrir. É como se tivesse tido duas vidas diferentes. Dona Dulce frita mariquitas e conta para a mãe de Ana, em voz baixa, o que havia passado com os vizinhos do primeiro andar. O bebê caiu no mar. Os demais foram pegos pela patrulha. Nunca chegaram a Miami. 25


Rosa anda de um lado para o outro na cozinha, transtornada. Pede um cigarro. Traga como se se agarrasse a um bote salva-vidas. Ana pesca uma mariquita ainda banhada em óleo. – Espera colocar na mesa! – ralha Dona Dulce. Dudu está na sala, deitado no sofá, vendo televisão. Ana se senta ao seu lado. A imagem do bebê flutuando no mar nunca mais saiu de sua cabeça. – O pessoal da faculdade sempre se reunia nesse café – aponta Ana, mais falante que o habitual. – O mojito é uma merda, mas é barato. As duas seguem pela rua iluminada e arborizada, passando por prédios altos, restaurantes com luminosos retrô, cinemas e teatros. A noite flui como em uma cidade do interior: casais passeiam de mãos dadas, idosos movem-se lentamente, jovens barulhentos riem em grupos e turistas flutuam pelo asfalto mirando a câmera fotográfica. O clima ameno de dezembro parece impulsionar todo mundo pa’ la calle. – Havana é linda! – elogia Tati. – Eu sempre vi aquelas imagens de pessoas pobres e prédios caindo aos pedaços, mas vejo que isso é coisa da Rede Globo... Veja a tranquilidade, a alegria das pessoas, a segurança... – Não pense que toda Havana é assim... – Ana interrompe. – Esse é um bairro nobre. – Como assim, bairro nobre? Ana não responde. Tati detesta quando Ana não responde. – Como assim, bairro nobre? 26


– Acho que você não leu as “letrinhas miúdas” do seu manual do socialismo juvenil! Tati franze a testa. – Odeio quando você começa com... Ana interrompe. – Vamos mudar de assunto. Que tal um sorvete? Tati dá de ombros. Param em frente à fachada démodé da sorveteria e entram na fila gigante. Ana aponta para um cinema de luminoso caolho do outro lado da rua. – Você precisa entrar num desses cinemas para quinhentas pessoas e ver o pessoal comentando o filme aos gritos! – sorri, nostálgica. – E exibem filme americano? – pergunta Tati, indignada ao ver que o cartaz exibe uma dupla de galãs hollywoodianos. – Claro! Mas pode ficar tranquila que aqui é tudo pirataria – e acrescenta num arremedo de “discurso oficial”: – Nem um centavo cubano vai para os porcos imperialistas! Tati franze a testa. – Detesto quando você... – Já escolheu seu sorvete? – interrompe Ana. – Hoje tem de morango e de chocolate. Tô em dúvida... É muita opção! Daqui a pouco isso vai virar uma democracia... Se a Coppelia colocar três sabores de uma vez, vai confundir a mente do cubano! Depois disso, o próximo passo é ter eleições! – Engraçadinha... Tati escolhe morango. Ana, chocolate. Tomam os sorvetes observando o movimento na praça através dos vidros da sorveteria, que parece uma nave espacial. 27


*** Ana aponta o Hotel Nacional. O prédio imponente e luxuoso, cercado por jardins bem cuidados, projeta-se sobre o mar como se vigiasse o Malecón de cima da colina. O mar bate no muro que cerca a orla e molha a rua. Tati tem um dèjá-vu como se caminhasse em uma imagem em preto e branco. Cheiro de sal. Um barco atracado dança ao movimento das ondas. Casais namoram, turistas passeam. O tempo, suspenso no ar por fios invisíveis. As amigas sentam no Malecón e ali ficam, hipnotizadas, olhando o mar escuro que as conecta ao continente. Ana se lembra de quantas vezes olhou aquele mesmo mar com vontade de partir nem que fosse em um barquinho de papel. Cercada de água por todos os lados, Ana conclui que nascer em uma ilha é uma condenação. Se ao menos pudesse arrancar a ilha de si. Dois rapazes se aproximam – um com um violão, outro com uma maraca. Sem pedir licença, furam a bolha de sabão. Cantam “Guantanamera” e pedem um trocado. É um velho livro russo com capa dura e ilustrações um pouco obscuras. A história fala de dois irmãos que navegam os sete mares em busca de aventuras. Nesse capítulo, estão na China. Ou na Indonésia? O desenho é de um barco todo rebuscado. Os homens altos, quase gigantes. Um deles tem uma barba negra, o outro só bigode. 28


Dudu muda a voz ao ler o conto – é uma voz diferente da que usa para falar com os amigos do prédio. De todas as formas, Ana não está prestando muita atenção. Observa os fios ralos que despontam do seu queixo. É engraçado, parece um cáctus. Envesga os olhos e o vê duplo. Dois cáctus com fios esparsos que, na avaliação de Ana, demorarão muito para formar uma barba fornida como a do russo. Um garoto com bandana na cabeça se aproxima e lhe mostra uma fita cassete. – Direto da gringolândia – garante. – Vamos para a casa do Pepe. Dudu diz que termina de ler outro dia. Ana pede para ir junto. – Por favor, por favor, por favor – repete cem vezes, até que Dudu consente com a condição de que não conte para o seu pai. Os garotos estão todos enfiados no quarto ao redor de um toca-fitas. Protestam pela presença daquela pirralha. – É minha amiga – garante Dudu com a voz grossa e Ana se sente importante. Os garotos gargalham. É uma música barulhenta e Ana não entende nada do que dizem. – O que eles estão dizendo? – pergunta, pois gosta de saber tudo sempre. Dudu balança a cabeça igual aos seus amigos. – Não conte para o seu pai que ele é muito dedo-duro. Ana dá de ombros. Jamais contaria, pois seu pai já a havia proibido de falar com Dudu. Péssima influência. Um pandillero. À noite, os garotos conversam até tarde sentados no piso de cimento do edifício. Ana observa pela ja29


nela. Quer crescer logo para ter permissão de sair depois das sete. Olha com raiva para seu pai na poltrona assistindo televisão. “Muito melhor ser pandillero que dedo-duro”, pensa, sem saber muito ao certo o que é uma coisa e o que é outra. Ana desce do táxi e segue em passos largos. Tati ameaça tirar a câmera da bolsa para fotografar algo, mas Ana a apressa, impaciente. – Vamos! Estou ansiosa para ver o Dudu. Ele já não vive mais nos predinhos do Bahia em que cresceram. Está casado e tem um filho de sete anos. Ana sabe disso e de mais. Acompanha toda a vida dele pelos e-mails que trocam de tempos em tempos, sempre que Dudu consegue acessar a internet na casa de um amigo venezuelano estudante de medicina. Santo Suarez é um bairro tranquilo e arborizado, ainda que o reggaeton em alto e bom som reine vibrante. Alguns garotos jogam pelota na rua e senhoras abanam-se sentadas em cadeiras de balanço na calçada. Cheiro de almoço. Ana chega ao fim da rua com o coração na boca e toca a campainha. Dudu sai com o mesmo sorriso de sempre e a ergue no ar com um abraço, como se os anos não tivessem passado. – Que bolá? Chica, como você está linda! Entre! Entre! Ana sente a cálida sensação de voltar para o lar, ainda que nunca tivesse pisado naquela casa. Dudu a conduz para o interior e deixa o portão aberto. Tati, esquecida, pede licença e limpa os pés no tapetinho. Cabe à esposa de Dudu fazer as honras da casa. 30


– Entre, por favor! Fique à vontade! Quer um copo de água? Ana e Dudu se olham como a um espelho, tentando reconhecer os sinais do tempo um no outro. – Você está mais bochechudo, Dudu! Está comendo muito, hein? – Casamento engorda, tá pensando o quê? Ana mapeia seu rosto. A barba, no final das contas, nunca passou de uma penugem rala e indefinida. Os olhos, de um verde que Ana nunca conseguiu pintar. Um verde amarelado, líquido, delineado nas bordas por um traço negro que o faz ainda mais improvável. Olhos que poderiam resolver o conflito na Palestina. Tati revisa a casa, à procura de uma revista ou algo para se distrair. Barbara, resignada, atira-lhe uma boia de salvação. – Venha me ajudar a preparar o almoço. – Me conta de você! – pede Dudu. – Está feliz por estar de volta? – Estou meio confusa ainda. É tudo muito intenso. – Claro, você acabou de chegar. Deve ser um choque ver tudo diferente. – O pior é que eu estou achando tudo igual. Parece que estou chegando a uma ilha de náufragos, onde tudo permanece igual, a não ser pelas plantas e pelo musgo que vai tomando os prédios... – Nossa, que ótima metáfora para nossa ilha! – ri Dudu. – Uma ilha de náufragos! Gostei dessa. Igual a A Lagoa Azul. Só falta a Brooke Shields. – E o senhor Umberto? – pergunta Ana. – Papai está bem, muito bem. Acabou de terminar outro livro, mas não deixa ninguém ler. Não sei nem sobre o que é. 31


– Por que será ele não deixa ninguém ler seus livros? – Não sei. Ele diz que escreve para si mesmo, não para os outros. Mas eu fico curioso sobre o que tanto escreve. – E se a gente entrar na casa dele e roubar os manuscritos? – provoca Ana. – Boa ideia! – ri Dudu. Ana fica séria novamente. – Será que ele escreve sobre o tio Tito? – Pode até ser... Ele lembra muito do Tito ainda. Mas tanta coisa já passou... – Sabe, eu sempre me perguntei se sua mãe sabia da história de seu pai com o tio Tito... – Sabia de tudo – confirma Dudu. – Meu pai nunca escondeu nada. – Admiro muito o seu pai – diz Ana, pensativa. – Um homem à frente do próprio tempo. – Sim – concorda Dudu. – E sofreu muito por isso. Ana passeia os dedos pela costura do sofá e olha sem ver. – E seu pai? – pergunta Dudu. – Não vou vê-lo. – Você precisa vê-lo, Ana. Precisa deixar as mágoas para trás. Além do mais, ele já tem setenta anos. Sabese lá quanto vai durar! – Como ele está? – Olha, faz uns dois meses que não o vejo, mas sinto que está cada dia mais magro. Muito solitário. Parece que está definhando. Ele sempre pergunta de você. Acho errado você não mandar notícias. Pai é pai, não importa o que tenha feito. – Para mim importa. Vamos parar com esse assunto. Ana não pode evitar a corte interna que coloca seu pai no banco dos réus e sentencia: Culpado! Culpado! Culpado! 32


– Pintei para você – diz, estendendo uma tela enrolada que tira da mochila. Dudu estica a pintura no sofá e a contempla por alguns segundos, calado. Seus olhos de tinta verde umedecem. Pintado com o traço característico de Ana, um grande mar com a ilha de Cuba no meio e, brotando dela como uma árvore, fincado com os pés em forma de raiz, a figura de Dudu, que olha para o céu cheio de nuvens de chuva. – Não tenho palavras, Ana. É muito bonito. – Esse é pro Julito – estende-lhe um carrinho de brinquedo. Ana deliberadamente não trouxe nada para Barbara. – Diversionismo ideológico – cochicha Dona Dulce, e a Ana isso parece nome de doença. – Dedurar o próprio irmão! – indigna-se Rosa, levando as mãos às têmporas. – Como ele pode dormir tranquilo? –Vai brincar na sala! – enxota Dona Dulce. – Daqui a pouco eu preparo arroz con leche. Ana se esconde atrás da parede para escutar. – Ele nunca me contou nada! – grunhe Rosa, gritando em um sussurro. – Como posso confiar num homem que dedurou o próprio irmão? – Eram outros tempos – apazigua Dona Dulce. – Para ele, aquilo era o certo. Você é mais nova, não tem ideia da pressão que havia naquela época...

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*** Tati pica cebola com a testa franzida. – E o que está achando de Cuba? – pergunta Barbara protocolarmente. – Intrigante – diz Tati. – Diferente do que eu pensava. Acho que ainda não penetrei a verdadeira Cuba... Tati desiste de continuar. Percebe que Barbara está mais interessada em esticar a orelha para escutar o que Dudu e Ana conversam na sala. Limpa as lágrimas de cebola com as costas da mão. – E como é o Brasil? – segue Barbara, alheia. – Lindo – suspira Tati, torcendo para que o tempo passasse rápido. Passam pelo Capitólio debaixo de um sol forte. Grupos de turistas se revezam nas escadarias do imponente edifício, registrando em foto aquele marco da política mundial. O calor parece movimentar as pessoas mais do que o normal. A umidade deixa a pele pegajosa e o suor viscoso, como se evaporasse antes de sair pelos poros. Atravessam o Parque de la Fraternidad, um formigueiro multicolor. Uma garota de top verde e short muito curto gesticula enquanto fala ao celular. Um rapaz veste uma camiseta regata da Nike, amarela, que pouco combina com a calça vermelha que usa. Uma mulher toda vestida de branco, de cabelos raspados, se protege do sol segurando uma sombrinha também branca. Tati observa com interesse cada um dos personagens que cruza. Ana olha sem ver. 34

Moscovich azul  

Projeto gráfico, diagramação e edição da obra "Moscovich azul", da autora Camila Nunes de Freitas. (Vencedor do prêmio da Secretaria de Cult...

Moscovich azul  

Projeto gráfico, diagramação e edição da obra "Moscovich azul", da autora Camila Nunes de Freitas. (Vencedor do prêmio da Secretaria de Cult...

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