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O Beijo Devolvido O Portugal-Alemanha estava prestes a começar naquele apartamento de estudantes, em Lisboa. A Sandra virou-se para o Vasco e disse-lhe: “É pá, por cada golo que marcarmos, dou-te um beijo!” Ele tremeu. Obviamente. Ficou calado e riu-se como se fosse uma piada, o que aliás foi o que todos fizeram. Mas claro que ficou com esperança de que fosse verdade. Podia ser que sim. Imaginem: no calor do jogo, o Ronaldo marca, ela


salta, grita, vira-se e prega-lhe um beijo na boca. Talvez fosse então hoje, dia do jogo, que o Vasco iria perder... Perder o quê? A virgindade não seria. O que se diz do estado de alguém que nunca foi beijado? Boa pergunta. Ficou intrigado a olhar para ela, compenetrada a cantar o hino, enquanto as caras dos jogadores passavam na televisão. Era o que se chamava uma “boazona”. Ele sabia que não era difícil explicar porque ficava assim quando olhava para ela. Era um rapaz de vinte anos, absolutamente inocente nestas


coisas dos rapazes e raparigas, a viver num apartamento com quatro raparigas, praticamente sozinho – havia, é certo, o Tiago, outro rapaz, mas esse raramente os brindava com a sua presença, ocupado como estava a faltar a todas as aulas e a criar a maior banda portuguesa da próxima década. Um rapaz nestas condições fica alterado quando uma rapariga lhe promete um beijo, tão certo quanto dois mais três serem cinco. Muito bem. Deixemos o Vasco de lado por momentos. Estão todos prontos: a Sandra em pé, vestida com uma t-shirt


branca que permite ver bem as formas das mamas, o Luísa, sentada, a fumar, olhos meio fechados como se estivesse a pensar ou fosse alguma artista dos anos 20 num bar em Paris. A Carla, claro, estava ao telefone com os pais a contarlhes que estava em casa com as amigas. Obviamente que as amigas também incluíam o Vasco – que os pais dela não conheciam –, o Nuno – que também não conheciam –, e o Rodrigo – que conheciam ainda menos, apesar de ser o namorado da filha. O Nuno estava sentado na mesa de jantar a ouvir música, a


mostrar alto e bom som que não queria saber dessa treta da selecção. O Rodrigo estava sentado por baixo da Carla a mostrar alto mas sem som que não queria saber da selecção enquanto a Carla estivesse a menos de vinte centímetros – ou pelo menos enquanto certas áreas da Carla estivessem perto dos seus olhos. Voltemos ao tal beijo prometido. Aliás, beijos! O Vasco pensou: porque será que ela tinha prometido tal coisa? Sendo racional – e ele era racional, infelizmente demasiado racional – e aí estava, sem dúvida, uma das


razões de ainda nunca ter beijado ninguém – dizia eu, sendo o Vasco muito racional, aquilo era, para ela, o que as promessas religiosas eram para os devotos: promete-se aquilo que nos custa fazer. Ela achava que beijá-lo era difícil ou, pelo menos, extremamente esquisito. Não importa: tinha prometido! Havia de beijá-lo. Ai, se Portugal ganhasse 5-0 talvez acabassem na cama, sabe-se lá. Enfim, era pouco provável. Mas nunca tinha sido muito provável acabar na cama com alguém – aliás, nunca tinha estado tão próximo. E, depois, um golo,


um só golo, era tudo menos difícil. Era a Alemanha, mas tínhamos o Ronaldo. E o Nani. E todos os outros. Eles que marcassem! Senão, dava em maluco. Um ano a viver com quatro raparigas, nunca tinha sido beijado, e uma delas prometera-lhe um beijo. Se não fosse hoje, dava mesmo em maluco. Ou desistia destas coisas. Tornar-se-ia um monge. Ficar o dia todo a rezar e a jardinar para todo o sempre parecia mais fácil do que arrancar um beijo fosse a quem fosse. Pois bem, o jogo começa. A emoção é grande. Comem-


se tremoços. Pevides. Unhas. Há momentos de acalmia, uns bons remates, uns sustos, os cachecóis desfeitos pelo gato, o Riso. Até que, como todos bem sabemos, o Pepe manda a bola à barra e durante dois segundos todo o país, incluindo os jogadores, pensam que foi golo e festejam em conformidade. A Sandra vira-se para ele aos gritos: “GOOOOOOLO!!”, ri-se um pouco e prega-lhe um beijo na boca como se fosse natural e não fosse a primeira vez que tal acontecia na vida do pobre


Vasco. Aliás, o certo é que ela não sabia disso. O que sentiu o rapaz naquele momento? Não foi mais do que um encostar de lábios, nada de sensual, mas ela era a Sandra – a Sandra! Sentiu o corpo dela, o sabor estranho dos lábios doutra pessoa, a temperatura, o coração aos saltos – e logo a seguir o golo que afinal não tinha sido, golo, a bola à barra, a desilusão, as asneiras ditas alto e bom som! A Sandra: “Ó pá! Isto é incrível! Ó Vasco, agora devolve-me lá o beijo...”


Todos olharam por momentos para ela, até o Nuno, da mesa de jantar. Tinha havido um beijo? Como é que ninguém tinha reparado? A Luísa olhou para o Vasco com olhos de surpresa absoluta: um beijo? Da Sandra? O Vasco ficou aterrado: como raios se devolve um beijo?


O Beijo Devolvido