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Vera Chytilová

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Vera Chytilovรก


A Primeira-

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-Dama do Cinema Checo Nos dias que se seguiram ao falecimento de Vera Chytilová, a 12 de Março de 2014 em Praga, o epíteto de «primeira-dama do cinema checo» colou-se de forma unânime às notícias e perfis dedicados à realizadora. Tornou-se assim evidente que, mesmo após os longos períodos de censura na Checoslováquia pós-Primavera de Praga e o menor fulgor das suas obras recentes, nada poria em causa o papel fundamental que Chytilová teve num dos momentos mais marcantes do cinema do seu país, a Nova Vaga Checa: uma das mais vibrantes e irreverentes a atravessar a Europa dos anos 60 do século passado.

estúdios Barrandov. Em 1957 é admitida na FAMU, a famosa escola de cinema de Praga, uma das mais antigas e conceituadas do mundo, onde trava conhecimento, sob a orientação de Otakar Vávra, com Milos Forman, Jan Nemec e Jiri Menzel, entre outros. É neste ambiente propício à criação, onde se encontram realizadores mas também escritores e artistas de outras áreas, que começa a ganhar forma o embrião do que viria a ser a Nova Vaga Checa. Em 1961 termina o seu filme de licenciatura, The Ceiling, não o considerando como um trabalho de casa ou um dever, mas sim uma necessidade. Se as suas primeiras obras são bastante influenciadas pelo cinema verité, filmando quadros da realidade socialista da época sempre com a mulher como figura central, em The Ceiling a experiência é mais pessoal: Chytilová regressa a um universo seu conhecido, o mundo da moda, para um olhar cru e pouco glamouroso da vida de uma modelo numa indústria e sociedade dominadas pelos homens. De acordo com o crítico Antonín Liehm, então no exílio, quando o filme foi exibido em França em meados dos anos 60, um espectador levantou-se e proclamou: “Não deviam fazer este tipo de filme, porque adultera a fé das pessoas no socialismo. Se é mesmo assim, então não vale a pena.”

Nascida a 2 de Fevereiro de 1929 em Ostrava, cidade do nordeste da atual República Checa, Vera Chytilová teve uma educação católica rígida que influenciou toda a sua obra, como referiu em diversas entrevistas. “Esses códigos morais continuam dentro de mim”, dizia, reforçando que todos os seus filmes podiam ser descritos como comédias morais. O pai era mecânico ferroviário e desde cedo foi habituada a saltar de cidade em cidade, de acordo com as suas obrigações profissionais e a fuga à progressiva ocupação nazi durante a Segunda Guerra Mundial. Interrompendo os estudos em Filosofia e Arquitetura iniciados em Brno, foi em Praga que arranjou trabalho como modelo ou integrando equipas de filmagem nos 5


“Durante as filmagens não fazia distinção entre documentário e ficção; ambos eram processos igualmente aventurosos. Irritavam-me os estereótipos; o que queria era chegar a uma expressão de autenticidade”

que agir prontamente, usando da sua sensibilidade para captar as situações e os fragmentos do que se desenrolavam à frente da lente.”

Segue-se A Bagful of Fleas, em 1962, uma sátira à forma como as mulheres eram educadas no seu país recorrendo no essencial a não-actores. A ação desenrola-se num colégio interno associado a uma unidade têxtil, e as transgressões das raparigas vão desafiar as regras rígidas da instituição e modelo social vigente. Sobre esta experiência quase documental, Chytilová disse: “Somos todos atores se tivermos a oportunidade de sairmos de nós próprios. Não temos que ser precisos como é esperado aos atores profissionais, mas trazemos para a cena a verdade das nossas vidas. Por isso provoquei as raparigas e os funcionários do colégio a expressarem-se de forma espontânea; queria que fossem eles mesmos. Os diálogos eram improvisados, não fazia ideia do que as personagens iam dizer - e isso foi uma solução engenhosa para o filme. O que sempre admirei nos não-actores é que estão preparados para falar, para partilhar abertamente os seus pontos de vista. Estas pessoas nunca tinham representado para uma câmara, por isso o operador de câmara apenas tinha

É com Something Different, a sua primeira longa-metragem, em 1964, que Chytilová começa a ganhar reconhecimento internacional. Continuando a aventurar-se pelos limites do real e da ficção, cruza as narrativas de duas mulheres: um documentário sobre a vida de treino intenso da ginasta campeã olímpica Eva Bosáková e uma ficção sobre uma dona-de-casa insatisfeita, dividida entre a educação de um filho insuportável e um marido desinteressado. A edição cuidada reforça o contraste entre as estórias, enquanto faz emergir a frustração comum às duas mulheres. O filme ganhou o Grande Prémio do festival de Manheim em 1963 e foi um dos primeiros filmes associados à Nova Vaga Checa, juntamente com as obras de estreia de Milos Forman (Black Peter) e Jaromil Jires (The Cry). 6


Something Diferent (1964)

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A Bagful of Fleas (1962)


Realizadores da Nova Era Checa

A Nova Vaga Checa

Com o seu início em 1963 e durando até à entrada dos tanques soviéticos em Praga, na Primavera de 1968, o movimento cinematográfico conhecido como a Nova Vaga Checa é justamente considerado um dos mais ricos e experimentais, fruto não só das influências externas (a nouvelle vague e o neo-realismo italiano, principalmente Antonioni) mas também de todas as tendências artísticas provocadas pela maior abertura das políticas culturais, iniciadas em 1962, e que se sentiram em todas as artes. Praga foi, nessa altura, o centro de experimentações no teatro, nas artes plásticas e na literatura, ambiente esse que contaminou os novos realizadores saídos da FAMU a recuperarem também o surrealismo e a avant-garde, produzindo assim um universo criativo, provocador e heterogéneo.

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Daisies, 1970

É neste contexto que surge Pearls of the Deep, uma coleção de cinco curtas metragens baseadas em contos de Bohumil Hrabal, escritor checo que começa a ganhar notoriedade com a sua escrita dominada pelo absurdo e alienação. Chytilová realiza uma das curtas, At the World Cafeteria, que inclui todos os elementos centrais dos seus filmes anteriores (o ponto de vista da mulher e a sua condição na sociedade), e onde o surrealismo espreita a cada esquina. É depois desta experiência colaborativa, e que se torna o denominador comum da Nova Vaga Checa (todos acabam por trabalhar nos filmes uns dos outros), que Chytilová parte para fazer os dois filmes mais marcantes da sua carreira: Daisies, o expoente máximo da anarquia criativa que dominou o movimento, e Fruit of Paradise, lançado apenas em 1970, dois anos depois do seu fim oficial e alvo da censura que iria normalizar as décadas seguintes no cinema checoslovaco.

Fruit of Paradise, 1970

Ficam para a posteridade dezenas de obras que marcam a década quer no país, quer nos festivais internacionais onde conseguiram chegar. Do retrato social de Firemen’s Ball, de Milos Forman, passando pelo vencedor do Óscar de melhor filme estrangeiro em 1967, Closely Observed Train, realizado por Jiri Menzel e escrito pelo já mencionado Hrabal, à adaptação homónima de Jaromil Jires ao livro de Milan Kundera, The Joke, são inúmeras as propostas que saíram da Checoslováquia neste breve período de total liberdade criativa e que merecem ser vistas ou revistas nos nossos dias.

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“Só começas a trabalhar verdadeiramente de modo criativo quando te encontras no ponto em que não o sabes”

É comum ver o nome de Vera Chytilová associado ao feminismo e até, em alguns círculos mais sensíveis, à misandria. Sendo incontestável que as mulheres são o ponto central dos seus filmes, Chytilová recusou sempre que o seu trabalho fosse reduzido a rótulos, insistindo que as suas obras deveriam ser vistas acima disso, da mesma forma como eram tratados os filmes dos seus colegas realizadores. Nas inúmeras entrevistas em que insistiam nessa categorização, Chytilová afirmava que o que lhe interessava era atingir a liberdade total, fazer o que lhe apetecia, mesmo que o resultado final falhasse. Daisies é o expoente máximo dessa intenção: delirante, provocador e extremamente divertido ou apenas um “documentário filosófico em forma de farsa”, como a realizadora o catalogava, ainda hoje consegue chocar espectadores com a sua anarquia destrutiva que atinge tanto o conteúdo como a própria forma. Construído a partir de uma narrativa mínima (duas raparigas que chegam à conclusão de que o mundo está corrompido, pelo que decidem simplesmente portar-se mal, o que para elas significa brincar com homens e comida), tudo 10


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Daisies, 1966


o que acontece a partir daí é uma autêntica experiência surreal cinematográfica, onde as tropelias perpetradas pelas raparigas não se confinam ao universo filmado. Combinando mudanças de cor contínuas, o uso de sons e música que dialogam com a imagem e os cortes bruscos de edição, Chytilová desafia constantemente o espectador, permitindo que a irreverência mostrada ultrapasse os limites convencionais do filme, colocando tudo em causa. Quando até a película é transformada em colagens, recortada em pedaços pelas duas raparigas a seu bel-prazer, o círculo completa-se: “Porque o conceito do filme era a destruição, também a forma se tornou destrutiva”, dizia.

estreia (Daisies e A Report on the Party and the Guests, de Jan Nemec). Apesar de se poder entrever leituras políticas e uma crítica feroz à sociedade da época, apesar do perigo da ideia de insubordinação subjacente ao comportamento anárquico e sem qualquer motivação moral das duas protagonistas, a justificação para a censura a Daisies centrou-se na destruição excessiva e arbitrária de comida. Ainda hoje é possível olhar para este filme difícil de rotular e perceber o seu charme. Segundo Hames, Chytilová “exigia liberdade para si enquanto criadora e liberdade para os espectadores enquanto audiência, pretendendo uma interação ativa entre as duas partes. Nessa colaboração, o espectador deveria estar sempre alerta, a rapidez do filme e as suas constantes discrepâncias iriam ameaçar as suas primeiras interpretações. O objectivo era o de tornar impossível uma única interpretação do filme, de forçar a conclusão de que o que se acabou de ver constitui apenas uma parte da «verdade»”. São estas múltiplas leituras que o filme instiga, capazes de causar fortes reações políticas, culturais ou simplesmente estéticas que tornam Daisies um objecto único, provocador e intemporal.

De acordo com Peter Hames, autor do mais completo estudo sobre a Nova Vaga Checa (The Czechoslovak New Wave, 1985), é importante assinalar o contributo de duas outras pessoas em Daisies (e posteriormente em Fruit of Paradise): o diretor de fotografia Jaroslav Kucera e a argumentista Ester Krumbachová, com os quais já tinha colaborado em Pearls of the Deep. Krumbachová consegue mesmo o feito de ver os dois filmes em que trabalhou nesse ano serem censurados e ver adiada a sua

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Panel Story, 1979

14 The Apple Game, 1977


“Os anos 60 foram seguramente um período único para os realizadores checoslovacos e nem a «normalização» nem o capitalismo permitiram um retorno a esse tipo de liberdades criativas. Penso que os seus últimos trabalhos têm que ser vistos como um período de luta permanente em realizar a sua visão contra todas as dificuldades.” Peter Hames

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ra que engravida de um médico mulherengo. Mesmo com uma enorme resistência por parte dos estúdios na sua promoção, o filme ganha notoriedade internacional e torna-se um sucesso quando é distribuído no seu país, um ano depois.

Fruit of Paradise, estreado já depois do fim da Nova Vaga Checa, em 1970, marca o início das dificuldades sentidas com a mudança que se seguiu à invasão soviética de 1968. A narrativa baseia-se na história de Adão e Eva e a estética estilizada do filme é ainda mais radical do que Daisies, com colagens sucessivas, distorções visuais e colorações. Definido por alguns críticos como um poema visual, de uma beleza formal que se assemelhava mais a uma ópera (a banda sonora está sempre presente, ao contrário dos seus filmes anteriores), é considerado demasiado experimental de acordo com as novas diretrizes culturais do regime, pelo que Chytilová é impedida de fazer filmes durante seis anos.

Não obstante as grandes limitações impostas aos seus projetos, Chytilová continua a explorar temas incómodos optando agora por um estilo mais realista. Panel Story, de 1979, um olhar satírico sobre as vidas caóticas dos habitantes de um bairro social em construção, consegue romper a censura mas é impedido de ser exibido fora do país, enquanto Tainted Horseplay, de 1988, é um dos primeiros filmes em todo o mundo a lidar com o tema da SIDA.

Ao contrário de outros colegas que aproveitaram as oportunidades de exílio que lhes foram oferecidas como Milos Forman, que acabou por tornar-se o mais mediático dos realizadores checos, com uma carreira bem sucedida nos EUA - Chytilová decide ficar e lutar por todas as oportunidades possíveis de continuar a filmar. Quando em 1976 é convidada para um festival de cinema feminino americano e o governo checo a impede de estar presente, a pressão internacional então exercida, juntamente com uma carta aberta denunciando a hostilidade e machismo dos responsáveis pelos estúdios, obriga o presidente Gustáv Husák a reconsiderar. Chytilová realiza The Apple Game em 1977, uma comédia abrasiva sobre uma enfermei-

Ao contrário do que seria de prever com o fim do regime comunista, a liberdade e a democracia não trouxeram a Vera Chytilová as possibilidades sonhadas. Nem ela nem outros realizadores consagrados na década de 60 conseguiram filmar com regularidade e os seus filmes passaram relativamente despercebidos não tendo sequer distribuição internacional. A censura agora já não era política, mas económica. Torna-se então uma obstinada defensora de políticas de financiamento estatal para o cinema, antes de ingressar como professora na FAMU, onde chefiou o departamento de cinema entre 2005 e 2012. 16


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Filmografia 1961 1962 1963 1965 1966 1970 1976 1978 1979 1981 1981 1981 1983 1984 1986 1987 1987 1988 1990 1991 1992 1998 2000 2001 2005 2006

The Ceiling A Bagful of Fleas Something Different “At the World Cafeteria” in Pearls of the Deep Daisies Fruit of Paradise The Apple Game Inexorable Time Pretas Story Calamity Panelstory Chytilová Versus Forman − Consciousness of Continuity The Very Late Afternoon of the Faun Prague: The Troubled Heart of Europe Wolf’s Cabin Wolf’s Hole The Jester and the Queen Tainted Horseplay Tomas Garrigue Masaryk a Liberator My Citizens of Prague Understand Me The Inheritance or Fuckoffguysgoodbye Trap, Trap, Little Trap Flights and Falls Exile from Paradise Patrani po Ester Pleasant Memories

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Ficha Técnica Edição:

Cineclube de Guimarães

Coordenação Editorial: Paulo Cunha Rui Silva Samuel Silva

Texto:

Rui Silva

Design:

Alexandra Xavier

ISSN:

2183-1734 27 de Dezembro de 2016

Enquadramento #10: Vera Chytilová  

Revista Enquadramento, do Cineclube de Guimarães

Enquadramento #10: Vera Chytilová  

Revista Enquadramento, do Cineclube de Guimarães

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