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Criação e Difusão na Fotografia Brasileira Encontros de Agosto é um festival realizado anualmente em Fortaleza-CE para promover o intercâmbio da fotografia cearense com a produção contemporânea brasileira e internacional nos campos da expressão e do conhecimento. Exposições criam diálogos entre diferentes experiências e estéticas, workshops trazem exercícios de discussão e prática, palestras e seminários provocam reflexões sobre o estatuto da imagem fotográfica. “Criação e Difusão na Fotografia Brasileira” é a temática que norteia a programação do Encontros de Agosto 2012. Nas exposições, convidados de festivais das cinco regiões exibem imagens representativas de diversas tendências que têm circulado pelo País; enquanto autores locais apresentam trabalhos coletivos e individuais que refletem questões e experimentações da recente produção do Ceará. Uma série de ações formativas, incluindo workshops com curadores, trata da criação da obra fotográfica, desde a conceituação e o desenvolvimento até a difusão e inserção no mercado artístico. Conversas abertas com fotógrafos e pesquisadores revelam aspectos do processo criativo; entre outras atividades paralelas em diversos espaços da cidade. A programação lançada com a FotoFesta no dia 18 de agosto em Fortaleza, que reuniu música, imagem e intervenção urbana em comemoração pelo Dia Mundial da Fotografia; e estendeu-se pelos meses de setembro a dezembro. Os participantes tiveram a oportunidade de debater temas que mobilizam o segmento, ter acesso a formação especializada e ver de perto alguns dos trabalhos de maior destaque no cenário brasileiro atual. Fotógrafos, pesquisadores, produtores culturais, críticos, curadores e amadores compartilharam desta convergência de ideias e ações em torno da Fotografia. Coordenação do Encontros de Agosto


Encontros de Agosto 2012 Coordenação Geral

Isabel Paz, Ivy Ariane, Márcio Moreira, Roberta Felix

Igor Câmara, Igor Grazianno, Isabelle de Morais, Israel Souto, JoOão Luís, João Palmeiro, Julia Braga, Leco Jucá, Leo Kaswiner, Luiz Carlos Felizardo, Marcelo Brasileiro, Marcelo Eduardo Leite, Marcelo Mello, Mario Sabino, Markos Montenegro, Nívia Uchôa, Paloma Pajarito, Pedro David, Roberta Felix, Rodrigo Patrocínio, Rogério Reis, Rubens Venâncio, Ruth Menezes, Sérgio Carvalho, Sheila Oliveira, Tatiana Duarte, Thiago Gaspar, Viviane Souza

Comunicação Visual

Fotografias dos eventos

Majoî Ainá Vogel

Davi Lázaro, Gentil Barreira, Márcio Moreira, Roberta Felix

Patricia Veloso Coordenação Executiva

Glicia Gadelha Conselho Curatorial

Bia Fiúza, Georgia Quintas, Silas de Paula Produção Executiva

Assessoria de Imprensa

Dégagé

Textos

Site e Mídias Sociais

Coordenação do Encontros de Agosto, Georgia Quintas, Rogério Reis, Silas de Paula

Márcio Moreira Seleção de Fotografias

Bia Fiúza, Carlos Carvalho, Georgia Quintas, Patricia Veloso, Silas de Paula Projetos expográficos

Georgia Quintas, Lili Sarmiento Fotografias expostas

Alex Hermes, Alex Uchôa, Alexandre Sequeira, André Marttins, Angela Moraes, Aredilson Freitas, Aron Rocha, Aziz Ary, Beto Skeff, Camila Pinho e Nataly Pinho, Charles Siqueira, Chico Gomes, Coletivo A.R, Deivyson Teixeira, Elton Gomes, Eustáquio Neves, Fábio Lima, Fernando Jorge Silva, Fernando Maia da Cunha, Filipe Acácio, Gentil Barreira, Georgia Santiago, Henrique Torres,

Espaços da Programação

Casa da Fotografia Centro Vocacional Tecnológico Portuário da Companhia Docas do Ceará Escola de Cultura, Comunicação, Ofícios e Artes Prof. Augusto Pontes (ECOA), Sobral-CE Imagem Brasil Instituto Iracema Museu de Arte Contemporânea do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura Memorial da Cultura Cearense do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura Salão das Ilusões Vila das Artes


Pontos de Vista Ponto de vista: o olhar que captura a imagem, a atitude perante o tema, a interpretação a partir do que se vê. A fotografia é uma forma de expressão e, como tal, instrumento possível para explorar sensações e experiências. O recorte ensejado pela composição do ensaio leva o autor ao desenvolvimento de ideias em uma linha de pensamento que apresenta seu discurso ao público. Ensaios de 27 autores de distintas gerações exibem em múltiplas linguagens um perfil da fotografia cearense contemporânea. Entre releituras documentais, experimentações e performances, abordam questionamentos que têm motivado a produção fotográfica em todo o mundo. A visão sobre as obras é expandida por meio de relatos dos próprios fotógrafos acerca dos processos criativos que se desdobram para a composição dessas imagens. Narrativas e conceitos tornam-se visíveis - apreendidos da realidade ou construídos pelo autor com intervenções e invenções - e irão produzir novas ideias. Esta mostra comemora 173 anos do anúncio da invenção da Fotografia e abre a programação do festival Encontros de Agosto 2012 - Criação e Difusão na Fotografia Brasileira. Que estas experiências continuem a nos alimentar, e que a fotografia continue a nos presentear com seus mistérios e surpresas.


Aziz Ary

Voar é Preciso

O projeto começou com autorretratos simulando o efeito de levitação sem o uso de fotomontagem. As primeiras imagens foram feitas quando morei na Europa. À medida que as realizava, eram postadas em sites de rede social e funcionavam como um diário de imagens, que ilustrava a percepção etérea da minha própria vida. O interesse que essas imagens causaram me levou a avançar com a ideia de miragem fotográfica convidando outras pessoas a participar. Aos que me parabenizavam e perguntavam como eu fazia as fotos, eu convidava a levitar também. A escolha do local ficava a critério do modelo. Se ela não fosse adequada, procurávamos juntos uma solução alternativa. As fotos do ensaio foram frutos de ideias sugeridas pelo local, pela luz, pelo imprevisto e realizadas sem truques e recortes fotográficos. O projeto aborda o lugar do indivíduo em meio à confusão do dia-a-dia de grandes centros, a solidão e as interações dos seus habitantes. O efeito da falta de chão, de vertigem, parece expressar a inquietude das pessoas causada pelo contexto contemporâneo e evoca sentimentos de sonho e liberdade, a vontade de ultrapassar os limites do improvável, de ser arrancado da ordem.

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Aredilson Freitas

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Camila Pinho

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Charles Farias

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Série “Sem Título”


O ensaio/obra foi concebido a partir de uma pesquisa experimental autoral com a exploração do retroprojetor e os processos de fotograma do artista norte-americano Man Ray. Tais fotografias desse artista foram visualizadas a partir de literatura específica da História da Arte sobre os conceitos de fotomontagem e fotograma, fazendo paralelos entre os principais elementos que aproximam e distanciam a Rayografia do Uso do Retroprojetor, através de interferências diretas (recorte de transparências, imagens sobrepostas), entre os quais destacamos: Perspectiva, Escala, Negativo/Positivo e a Mediatização.

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Deivyson Teixeira

Respeitável Vida

O intuito deste ensaio é transmitir a magia do circo sem desvendar seus segredos, justamente, pelo fascínio que nos permite o mistério de seu ambiente. Durante as apresentações, busquei captar alguns recortes entre o imaginário, o inventivo e lúdico palco, e as tantas realidades por trás das cortinas. Entre as histórias que são contadas dentro e fora da lona, escolhi destacar a figura humana como o foco do meu processo criativo, muito mais do que a sua ambientação. A cada visita, procurei saber a origem e o destino da família e da trupe e participei de suas rotinas. Para contar a trajetória de cada um deles me vi dentro do picadeiro, observando o homem, o trabalhador e o palhaço.

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Fรกbio Lima

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Quarando Intimidades


Dia de sol. Os varais da cidade já sem espaço começam a surgir esticados por entre becos, muros e vielas. Invadindo calçadas, o colorido e o roto se misturam sem timidez aos que passam. Expondo e impondo aos olhares menos apressados sua intimidade, revelando um pouco de cada dono. Lençóis, calçolas e surrões lado a lado com o uniforme do time do bairro compõem uma imagem um tanto atrevida nas ruas dessa gente que não tem medo de se mostrar.

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Fernando Jorge Silva

Pequeno Poema Dantesco

Pequeno Poema Dantesco é criado a partir da obra maior do poeta florentino Dante Alighieri, A Divina Comédia – ponto de partida para uma produção fotodocumental que busca estabelecer-se entre o real e o ficcional, entre o registro fotográfico de uma suposta realidade e o terreno da fertilidade imaginativa da literatura de ficção. Dos trechos narrados por Dante de sua jornada fantástica por Inferno e Purgatório, até sua ascensão ao Paraíso, a tragédia e a dramaticidade dos dois primeiros livros prevalecem como referência estética. O Paraíso é, sempre, Beatriz.

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Fernando Maia

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Filipe Acácio

A Partilha

Uma janela Um homem Um corredor Duas cadeiras. O gesto humano e a confluência de tempos possíveis. Uma sequência de passado, presente e futuro. Momento/lacuna parcialmente visível. Metade acidente metade mistério.

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Gentil Barreira

O sertão é uma visão

No sertão do Ceará, as estações de sol e de chuva transfiguram a terra em paisagens opostas. A natureza desafia o olhar de quem a atravessa. Aqui, a seca não é inteiramente hostil; mas carregada de mistério e encantamento, assim como a flora que revive ao cair das primeiras águas. O contraste se apresenta não entre cinza e verde; mas nas impressões que o inverno faz brotar em nuvens, galhos, marcas no chão. As imagens seguem o tempo da contemplação e a fotografia concilia visagens e lembranças. O sertão surpreende a cada passagem.

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Georgia Santiago

#diariamente

Um ensaio da vida, da matéria-prima dos dias comuns, do que fica. Daquilo que se repete e, por parecer igual, inventa-se diferente a cada instante. Das luzes que nos cercam cotidianamente e que a gente nem se toca, mas tocam a pele, os sorrisos, as dúvidas, os sonhos. No caminho, apreendo os gestos, os cheiros, as palavras, as formas e as texturas que nos envolvem e me absorvem em um emaranhado de sentimentos. Tenho essa mania de ver tudo enquadrado [“remoto controle”, já cantaram]. Simetricamente, tudo certo ou não. Escrevo o que vejo com a luz, diariamente.

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Henrique Torres

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As Ondas


O ensaio As Ondas é bem representativo do trabalho de Henrique Torres, na sua característica de situar-se entre o documental e a abstração formal. O autor mostra o movimento constante das ondas do mar sobre a areia da praia, com sua infinita criação de efeitos plásticos e desenhos formados pelas espumas brancas sobre os tons escuros da areia molhada. O ir e vir das ondas, sua repetição incessante, deixando porém um traço sempre diferente em sua passagem, nos faz pensar como alguns fatos contrastantes da vida podem estar lado a lado: o claro e o escuro, o previsível e o imponderável, o certo e o duvidoso, o fugaz e o eterno. O ensaio foi realizado num único final de tarde na Prainha, Aquiraz, Ceará. As imagens foram captadas num telefone celular (iPhone) e tratadas em seus aplicativos de processamento de imagens, que ajudaram a conferir-lhes uma peculiar identidade formal.

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Igor Câmara

album

o ensaio fotográfico álbum é uma pesquisa sobre o rosto sobre a paisagem do rosto sobre a presença do rosto sobre a materialidade do rosto o projeto busca o negro e o branco do rosto o cinza do rosto o grão do rosto o espaço e o tempo do rosto o corpo e a alma do rosto

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Igor Grazianno

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Israel Souto Campos

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Ascendentes


Podemos escolher viver na selvageria da natureza ou buscar o céu por intermédio da graça divina que pode nos fazer flutuar. Ambas as forças, graça e natureza, residem intimamente no coração do ser humano em eterno conflito espiritual e físico, em busca de se desprender da natureza, separar-se do cadáver, se livrar deste peso que o homem está amaldiçoado a carregar. Ascender...

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Joao Luis Castro

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Jo達o Palmeiro

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Lugar Comum


Em uma pequena cidade do litoral cearense, o tempo lento da conversa é parte da linguagem do retrato que recria cenas de rua, ofícios e interiores de casa por meio de fragmentos. Entre paredes, sombras, móveis, rastros e objetos, surge o ambiente de moradia. As imagens são quase roubadas para não se perder a expressão do espontâneo de quem não espera ser fotografado. Portas e histórias se abrem para, através das lentes, transformar-se em mistério.

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Julia Braga

Lugar sem lugar

Os colchões deixados nas calçadas e ruas das cidades são objetos deslocados. Estão fora dos locais para onde foram em princípio destinados. Mas, além de objetos, são também lugares, os próprios colchões. E quando abandonados nas ruas passam a ser lugares deslocados. As fotografias de Lugar sem lugar flagram estes entre-lugares, situados em entre-momentos. O objeto-lugar colchão tem sua função invertida e questionada. O lugar do íntimo, da individualidade (refúgio para se descansar do mundo), quando posto na rua é perturbado pelo espaço público. Ao mesmo tempo, incomoda a impessoalidade do espaço público com suas dobras, rasgos e manchas da intimidade. Lugar sem lugar é um projeto em andamento. Iniciado em 2010, documenta colchões abandonados nas ruas de Londres, Barcelona ou de qualquer outro lugar.

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Leo Kaswiner

Cíceros

Em um universo de milagres, promessas, penitências, ex-votos, bênçãos e a multidão de romeiros; a figura do Padre Cícero se firma no imaginário cearense e é reconhecida no nome de muitos dos habitantes desse cenário. Gestos e cores reverberam a religiosidade popular. O olhar desenha os caminhos da devoção e encontra manifestações de fé, surpreende a espontaneidade no meio da romaria, revela a crença nas imagens.

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Marcelo Brasileiro

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Karnaval


A magia do Carnaval em movimento, reportada pela força transformadora da imagem em preto e branco. Sob essa óptica, tento expressar a resistência das comunidades carentes diante das adversidades para preservar as raízes da cultura popular.

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Marcelo Melo

Um Porto

Sempre que passava pela CE-040, próximo a Fortim, a caminho do Rio Grande do Norte, observava com especial interesse uma velocidade diferente à margem do rio Pirangi. Enquanto carros passavam velozmente sobre a ponte, um outro ritmo acontecia logo ali. Um dia resolvi conhecer esse “mundo à parte”, o que rendeu-me várias viagens até o local. Queria conhecer melhor aquele pequeno porto e ver de perto o dia a dia daquele povo, eram pescadores, carpinteiros navais.... gente do mar. Acompanhei diversas vezes todos os processos, desde a chegada deles, geralmente de bicicleta cedinho para mais um dia de trabalho, a construção e a reforma de barcos, a saída pelo rio e a chegada, além do recolhimento dos pescados e comemoração pelo fim do trabalho no final de semana. Trago aqui um pouco do que vi.

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Mario Sabino

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Markos Montenegro

Território 2012

O advento de nossa espécie se agrupando em civilizações nos tempos de hoje é algo que dependeu de inúmeras variáveis completamente fortuitas. As mesmas que determinaram inúmeras extinções em massa no passado e, ainda mais imprevisível, que determinaram que nós tenhamos evoluído da forma que o fizemos… Havia ou não civilizações surgidas muito antes, ou mesmo depois, de nosso surgimento? Se é verdade que o apocalipse se aproxima... como será o território do caos!? Território 2012 trata de um registro aos sentimentos de um território sem passado, sem história, sem identidade... um “não lugar” pós extinção humana.

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Nívia Uchôa

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Água pra que te quero!


Sob a luz das águas do Ceará A água é a principal fonte de desenvolvimento e vida da sociedade e dos seres vivos. Grande parte do desenvolvimento ecológico, social, econômico, possui bases firmadas na maneira como utilizamos e respeitamos a água. No projeto Água pra que te quero! procurei fotografar como mulheres, homens e crianças utilizam a água, para que serve, onde a água existe, quem cuida da água e se a população sabe e aceita as decisões políticas sobre seu curso. Procuro descobrir os “Nós” da água e diante disso Quem Somos Nós? A idéia era chegar de lugar em lugar, de casa em casa, terreiros, associações; conhecer pessoas, poder conversar; explicar práticas de preservação, conservação; incentivar o cuidado com as nascentes; perceber a relação do ser humano com a água, a sua importância, dizer para as pessoas o porquê delas evitarem o desperdício, falar das consequências que isso traz, captar e transformar tudo isso em imagem e pesquisa. É nessa profusão de significantes e significados que a fotografia arquiteta a representação daquilo que ela é em si, “uma imagem ato” DUBOIS (1994:15), pois com a luz que a faz ser, ela se metamorfoseia em sua pluralidade de ser ela própria sem nada esconder.

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Rubens Venâncio (fotografias)

Juliana Frota da Justa Coelho (texto e pesquisa)

A boate Divine, localizada no centro da cidade de Fortaleza - CE, já se encontra lotada, a pista de dança ferve, corpos suados movimentam-se ao som das músicas escolhidas pelo dj da casa. Dentro de alguns minutos, as divas subirão ao palco, aguçando a curiosidade daquelas pessoas que lá estão para ver as performances de suas musas, aplaudir, criticar, imaginar-se naquele palco, relativamente pequeno em tamanho, mas imenso em sua riqueza de sonhos, cores, sons, luzes e arte. As divas da Divine são as travestis, transformistas e drag queens, as quais realizam performances todas as sextas, sábados e domingos nesse estabelecimento, reconhecido como celeiro onde se descobrem talentos e nascem grandes estrelas. No entanto, chegar ao palco, tornar-se estrela, diva, não se dá sem rituais de iniciação os mais diversos, entre os quais é possível citar a escolha do nome, ser amadrinhada, participar de concursos de bairro, lidar com a solidariedade e a hostilidade de uma sociedade com forte característica heteronormativa, na qual homens e mulheres são naturalizados e hierarquizados em corpos, desejos e práticas classificados como normais e anormais. Momentos dessa “pedagogia trans” em direção ao brilho dos palcos, com suas dores, delícias, gozos e frustrações, foram capturados por Rubens Venâncio no camarim da Boate Divine, em 2009, no qual espelhos, imensos estojos de maquiagem, roupas, perucas e mais uma miríade de minúcias remetem aos bastidores dos espetáculos, deixando entrever que arte e vida, longe de estarem separadas ou imitarem uma à outra, são inseparáveis, cotidianas.

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Bastidores e Estreias


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Ruth Menezes

Chão de Giz

O chão não é de giz, nem devaneios são sempre tolos. Nem sempre torturam. Inúteis são os grão-vizires, com ou sem balas de canhão. Violetas, mesmo velhas, têm perfume, uma espécie de colibri próprio. Nocautes e vontades de ir embora fazem parte. Nunca gozaremos apenas um cigarro, se não quisermos. Batom, por vezes, nos deixa mais bonitos, nem sempre. Correntes existem para que as quebremos. Ainda tiro meu chapéu para o Zé, o Ramalho.

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Mas, há mais coisas entre o céu e o universo feminino (e, porque não o masculino também?) do que supõem vãs filosofias. No mais, fui, volto, vou de novo, e assim, vai: fotografias são recortes. Recortes de vidas por vezes. Amiúde, nos esquecemos desses detalhes. Entre carnavais (aí sim, o chão é de giz), o calcanhar, Freud explica? “Porque você me trata mal, se eu te trato bem?” (em alguma música que escutei)


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Tatiana Duarte

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Hopperesque


O vazio, o vago, o silêncio, o labirinto, a fuga representada por ambientes onde poucos elementos e cenários urbanos desocupados são usados como denominador comum para a interação ilusória entre o perseguidor, o perseguido e a testemunha. Compõe-se assim o ensaio Hopperesque, uma produção visual que objetiva criar imagens que dialoguem com a obra do artista Edward Hopper, relação esta que assenta sobre as questões temática, plástica e narrativa que se encontram subjacentes às imagens filtradas e adaptadas pela minha própria realidade e subjetividade. Manifestei e priorizei constantemente o ambiente e não a figura humana; ainda que se encontrem na imagem, nota-se um distanciamento entre elas e, embora estejam próximas, não interagem, transmitindo um distanciamento unido à valorização do silêncio. Propus fazer uso da luz - ou muitas vezes, da escassez dela como um elemento arquitetônico, feixes de luz, reflexos, triângulos e retângulos imaginários das sombras ganham o poder de focalizar e direcionar o olhar, fazendo o cenário atuar como outro personagem, como interlocutor, nunca como mero fundo. O cotidiano da vida urbana a partir de um ponto de vista distanciado faz com que nos deparemos com momentos bastante familiares, estimulando no observador um diálogo interno e uma atitude contemplativa, com o objetivo de transformar a percepção da vida diária. São imagens carregadas de significado que fazem alusões a uma série de possibilidades narrativas, sem que exista uma verdade absoluta sobre o momento fotografado.

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Ecos híbridos O gesto de encontrar-se com o olhar de quem cria mundos poéticos através da fotografia significa também perceber como a potencialidade da imagem fotográfica é transmutada indocilmente. As inclinações conceituais e estéticas do fotógrafo representam o adensamento e a condução errática do exercício de pensar e propor símbolos através do “espírito” fotográfico. A exposição coletiva Ecos híbridos traz o trabalho de cinco fotógrafos brasileiros que contam suas histórias por distintas percepções, discursos e particularidades visuais. Os ensaios presentes nesta exposição propõem investigações que se dilatam no sentido de construir a imagem pelo mergulho provocado – não apenas pelo fazer – mas sobretudo pela postura de vivenciar intensamente a experiência fotográfica. Por este caminhar de proposições, encontramos os protagonistas do ensaio poético-antropológico Nazaré de Mocajuba, do fotógrafo paraense Alexandre Sequeira. A leveza do trabalho de Sequeira perpassa a atmosfera suave dos tecidos que nos envolvem. A ruptura do suporte presta-se com intensidade à imersão afetiva – fruto da relação social que a fotografia pode promover. Já os mineiros Eustáquio Neves e Pedro David problematizam a imersão fotográfica através do retrato e da paisagem. Nos ensaios Objetização do corpo e Boa aparência, Eustáquio Neves intervém na experimentação técnica sobrepondo camadas em corpos que se reinventam e invadem o imaginário desconstruindo nossa zona de conforto. Enquanto isso, Pedro David, com os ensaios Homem Pedra e Impureza, apreende a paisagem pelo espectro do viajante silencioso que, em vez de domesticar o sertão, joga-se pela indefinição imperativa do que é representar em estar ou ser a partir de uma paisagem. O fotógrafo carioca Rogério Reis também colabora com sua perspectiva sensual e irônica sobre identidade em Ninguém é de ninguém. Suas imagens não se colocam claramente pela personificação. Ao elaborá-las como “não correspondidas”, o debate tem como ponto de partida o direito de imagem. Ecos híbridos ainda apresenta uma homenagem ao fotógrafo Luiz Carlos Felizardo por toda a sua extensa e importante contribuição à fotografia brasileira. Conhecer o conjunto destes autores é vislumbrar a compreensão da diversidade pelo que os une sutilmente. No entanto,observar o interior de cada forma imersiva destas poéticas visuais nos faz entender o quão precioso é entrar nesta rede de processos alegóricos e sensíveis da criação fotográfica. Georgia Quintas é professora e pesquisadora no campo da teoria, filosofia e crítica da imagem fotográfica.


Alexandre Sequeira

Belém, PA

Artista plástico e fotógrafo, é Mestre em Arte e Tecnologia pela UFMG e professor do Instituto de Ciências da Arte da UFPA. Desenvolve trabalhos que estabelecem relações entre fotografia e alteridade social, tendo participado de diversas exposições e festivais no Brasil e exterior, das quais se podem destacar “Une certaine amazonie” em Paris/França; Bienal Internacional de Fotografia de Liège/Bélgica; X Bienal de Havana/Cuba; Simpósio e exposição “Brush with Light”, na Universidade de Arte Mídia e Design de NewPort/ Reino Unido, Festival Internacional de Fotografia de Pingyao/China. Tem obras no acervo do Museu da UFPA, Espaço Cultural Casa das 11 Janelas; Coleção Pirelli/MASP e Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul.

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“Nazaré do Mocajuba”


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Eustáquio Neves

Diamantina, MG

Fotógrafo e videoartista autodidata nascido em Juatuba (MG), graduado em química em 1980. A partir de 1989, pesquisa e desenvolve técnicas alternativas e multidisciplinares, manipulando negativos e cópias. Nos últimos três anos, tem pesquisado as mídias eletrônicas incluindo a sequência e o movimento. Seu trabalho vem sendo amplamente divulgado em várias mostras no Brasil e no exterior, tem recebido prêmios e a consagração do público e da crítica. Entre suas exposições recentes, podemos destacar: “Langhans Galerie Praha”, em Praga, na República Tcheca; “Exposição Festival Mundial das Artes e Cultura Negra” em Dakar/ Senegal; e “2010 Panorâmica”, mostra individual no MAP, em Belo Horizonte.

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“Objetivação do Corpo e Boa Aparência”


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Luiz Carlos Felizardo

Porto Alegre, RS

Estudou Arquitetura, porém abandonou o curso pouco antes da conclusão, em 1972, para se dedicar à fotografia de publicidade com câmaras de grande formato. Foi bolsista da Comissão Fulbright (1984/1985) e da Fundação Vitae (São Paulo), tendo realizado pesquisa sobre vida e obra de Frederick Sommer. Em 1991 participou do grupo de 18 fotógrafos brasileiros cujas obras foram adquiridas para o acervo inicial da Coleção MASP/ Pirelli de Fotografias. Participou das exposições “La Fotografía Iberoamericana”, em Madrid (1992); “Fotografía Brasileña: Historia y Contemporaneidad”, dez fotógrafos brasileiros no Museo de Arte Moderno La Tertúlia de Cali, Colombia (1992); “Brasilianische Fotografie 1946-1998”, coletiva de 30 fotógrafos brasileiros no Kunstmuseum Wolfsburg, Alemanha. É autor do livro “O Relógio de Ver” (Fumproarte, 2000); e teve publicado “Luiz Carlos Felizardo” (Editora Senac SP, 2004). Desde 2001 é colunista da revista Aplauso (Porto Alegre, RS).

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“A Luz de Luiz Carlos Felizardo”


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Pedro David

Belo Horizonte, MG

Graduado em jornalismo pela PUC-MG em 2001, cursou pósgraduação em artes plásticas e contemporaneidade na Escola Guignard (UEMG, 2002). Publicou, com os fotógrafos João Castilho e Pedro Motta, o livro “Paisagem Submersa” (Cosac Naify, 2008). De suas participações em exposições coletivas, destacam-se as realizadas no Ex-Teresa arte Actual (México, 2011); Geração 00 (São Paulo, 2011); Noordelicht Photogallery (Holanda, 2008); 5ª Bienal de Fotografia e Artes Visuais de Liége (Bélgica, 2006). Realizou mostras individuais no MIS (São Paulo, 2011), Centro Municipal de Fotografia de Montevideo (Uruguay, 2008), Palácio das Artes (Belo Horizonte, 2008), dentre outras. Recebeu os prêmios Arte Pará (2012), Prêmio Nacional de Fotografia Pierre Verger (2011), Prêmio União Latina – Martín Chambi de Fotografia (2010) e o Prêmio Porto Seguro Brasil de Fotografia (2005).

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“Homem Pedra, Impureza e O Jardim”


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Rogério Reis

Rio de Janeiro, RJ

O carioca Rogério Reis descobriu a fotografia nas oficinas de arte do MAM-RJ durante os anos 1970. Trabalhou como repórter fotográfico para os periódicos Jornal do Brasil, O Globo e Veja; participou do grupo F4 de fotógrafos independentes nos anos 1980 e integrou o grupo de fotógrafos do projeto da Unesco, “Our Place - the Photographic Celebration of the World’s Heritage” em 2007. Em 1999 recebeu o Prêmio Nacional de Fotografia da Funarte e está presente em coleções como MASP-Pirelli, MAM-RJ, The Fogg Art Museum (Cambridge), Danforth Museum of Art e Maison Européenne de la Photographie. Entre seus principais trabalhos estão: “Surfistas de Trem” (1988), “Na Lona (1987-2001)”, “Av. Brasil 500” (2009), “Linha de Campo” (2010), “Ninguém é de Ninguém” (2011) e “Projeto Coleta” (2012). Neste ano abriu o espaço “Eu Vira” com mais cinco artistas para experiências de expressão contemporânea.

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“Ninguém é de Ninguém”


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Amantes abastecidos de sol me oferecem beijos e carícias como personagens de Robert Doisneau. A estratégia do “momento decisivo” de Cartier Bresson volta a fluir. São olhares que me antecedem. Visor rápido em linha direta com os enfeites da alma. A intuição e os sentidos aqui são mais rápidos que o pensamento. Quadro frontal, perto da cena, perceptivo sem ser percebido. Usufruo das vantagens do foco automático e outros softwares acoplados à câmera. Eles não me deixam errar. Um conforto da tecnologia digital que produz “certezas” e habilitam um novo contingente de fotógrafos. Creio que fotografar é também provocar deslocamento de sentidos e renomear coisas para um mundo além das aparências. As tarjas do “desconforto visual” de John Baldessari podem me proteger dos oportunistas da lei e mais do que isso, trazem o debate para a praia. Cumprem o dever imagético do bloqueio à visualidade plena numa sociedade que criou a propriedade da imagem. Um indivíduo com venda nos olhos perde o poder de revidar o olhar, de produzir semelhanças e correspondências. Rogério Reis

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Mágica Imagem A fotografia contemporânea traz uma ideia requintada, complexa, que tem relação com poética da imagem e uma política de visualidade que olha o passado, busca no futuro para mostrar-se no presente. O eterno paradoxo entre mágica e realidade torna-se mais aparente. A ficcionalização do cotidiano e o documentário imaginário, onde força e resiliência brilham, questionam continuamente as convenções estéticas que influenciam a nossa percepção da realidade. São imagens mágicas capazes de transformar o mundano em extraordinário e poético, com uma habilidade magistral na composição e edição, que pode evocar momentos de sonhos, memória e temporalidade. Mas o que importa neste momento é a sua ubiquidade imagética, a qual nos deixa perplexos diante de um pseudorrealismo que insiste em sua potência conflituosa de criação e documentação. É justamente este o ponto em que o caráter paradoxal do signo fotográfico se manifesta de forma mais perfeita: reflete uma dada realidade, mas ao mesmo tempo recusa submeter-se a ela. O resultado é algo produzido de forma dinâmica no ato da representação, da recepção, e sujeito à rede de sentidos imposta pela cultura, linguagem, história etc. Um sintoma que é capturado por circuitos regenerativos mútuos − desejos gerando imagens e imagens gerando desejos. Desenhar desejo significa não só a descrição de uma cena ou figura que se apresenta para tal, mas também indica a maneira como o próprio desenho é a performance dele. Assim, esses trabalhos recusam as noções prevalentes da divisão entre o conceitual e o perceptivo. Parodiando Robert Storr, não há tal coisa como uma boa foto sem uma idéia, como não há boa idéia sem uma forma. A mágica imagem fotográfica é prova disso. Silas de Paula


Alex Hermes

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Alex Uch么a

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AndrĂŠ Marttins

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Angela Moraes

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Aredilson Freitas

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Aron Rocha

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Aziz Ary

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Beto Skeff

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Chico Gomes

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Coletivo A. R.

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Elton Gomes

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Igor C창mara

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Igor Grazianno

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Isabelle de Morais

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Jo達o Palmeiro

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Leonardo Jucรก

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Markos Montenegro

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Paloma Pajarito

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Roberta Felix

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Rodrigo PatrocĂ­nio

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Ruth Menezes

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SĂŠrgio Carvalho

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Sheila Oliveira

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Tatiana Duarte

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Thiago Gaspar

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Viviane Souza

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18 de agosto

Fotofesta Lançamento do Encontros de Agosto 2012 16h Salão das Ilusões (Rua Coronel Ferraz, 80, Centro – ao lado do Colégio Imaculada Conceição) 21 de agosto Olhares Refletidos O fotógrafo Jarbas Oliveira participa de uma conversa sobre seu livro A cor do Norte. 19h Sede do Ifoto

31 de agosto Processos fotográficos do séc. XIX e materiais para montagem de fotografias Fine Art Palestra de Sabrina Esmeraldo. 15h às 17h Imagem Brasil (Rua Afonso Celso, 577, Aldeota) De 1 a 15 de setembro Exposição Redes de Dormir, de Sheila Oliveira Galeria Mariana Furlani (Rua Canuto de Aguiar, 1410, Meireles) 5 e 6 de outubro

23 de agosto Lançamento do livro Redes de Dormir, de Sheila Oliveira. CUCA Che Guevara. 28 de agosto Entrevista aberta com o fotojornalista Mauri Melo 19h Sede do Ifoto. De 30 de agosto a 14 de outubro Exposição Pontos de Vista Mostra coletiva de fotógrafos cearenses Memorial da Cultura Cearense, Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura (Rua Dragão do Mar, 81, Praia de Iracema)

Como ler suas próprias fotografias: a construção de imagens como percurso autoral Workshop com Georgia Quintas Sexta: 9h às 12h30 / 14h às 17h30 Sábado: 9h às 12h30 Vila das Artes (Rua 24 de Maio, 1221, Centro) 19 e 20 de outubro Curadoria e montagem de Exposição Fotográfica Workshop com João Kulcsár Sexta: 9h às 12h30 / 14h às 17h30 Sábado: 9h às 12h30 Vila das Artes (Rua 24 de Maio, 1221, Centro)

De 26 de outubro a 9 de dezembro Ecos Híbridos Exposições trazidas de festivais das cinco regiões do país. 19h30 Museu de Arte Contemporânea, Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura (Rua Dragão do Mar, 81, Praia de Iracema) 27 de outubro Ecos Híbridos: Conversa com os Autores Autores e interlocutores: Rogério Reis e Silas de Paula; Eustáquio Neves e Osmar Gonçalves; Alexandre Sequeira e Fernando Jorge; Luiz Carlos Felizardo e Bia Fiuza; Pedro David e Tiago Santana 10h às 12h e 14h às 17h Auditório do CVT Portuário (Praça Amigos da Marinha, s/n, Mucuripe) De 12 de dezembro de 2012 a 30 de janeiro de 2013 Exposição Mágica Imagem Coletiva de fotógrafos cearenses 19h30 Instituto Cultural Iracema (Rua dos Pacajus, s/n, Praia de Iracema, ao lado do Largo do Mincharia)



Catálogo Encontros de Agosto 2012