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Cartas de amor para L. Ros창ngela Trajano


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Natal(RN), 19 de setembro de 1909. Meu amor, Viu como o sol saiu hoje? A primeira coisa que fiz ao me levantar foi ir à janela e olhar para o tempo. Na verdade, eu não estava contemplando o tempo, mas meu olhar perdido em lembranças que traziam você. Faz três dias que não nos vemos. Você não me ligou. Está estudando. Admiro muito o seu zelo pelos estudos. Você que veio de uma família pobre e foi subindo degraus aos poucos. Estou com saudades e acho que merecia ao menos um recado. Não sei por que você me maltrata. Será que mereço? Estou aqui preocupada com você, pensando em você, querendo você. Acho que sou tola. Tenho tantas coisas para fazer, mas só tenho vontade de ficar ao seu lado. Já é noite. Terminei de tomar uma xícara de chá. Fiz chá de erva-doce, o seu preferido. Laura fez os biscoitos de mel que você gosta. Nem notícias suas. E eu cá, sofrendo. O meu desespero chega a me dá taquicardia. O meu coração parece que vai explodir a qualquer momento. E quando o telefone toca corro para atender pensando que é você. A última pessoa que me ligou queria saber se eu tinha duzentos reais para emprestar-lhe. O relógio da parede acusa o passar das horas. O cachorro dorme perto da cadeira onde estou sentada. Não há barulho na casa. Procurei ler um livro, mas não consegui me concentrar. Penso que gosto mais de você do que você de mim. Talvez você me veja como uma companheira, uma amiga, uma cúmplice. Enquanto eu vejo você como um amante. O que espero de você não é o mesmo que você espera de mim. Eu quero amor, você quer prazer. Eu quero vida, você quer momentos. Eu quero o sempre, você quer o agora. E eu me pergunto: Por quê? Por que fiz de você o meu amado? As respostas são diversas, mas elas insistem em se esconder. Eu sou assassina da minha própria dignidade. Um gato mia no telhado. Deve está com frio. Agora, passa das duas horas da madrugada. Estou sem sono. Nas mãos tenho seu pincel. Olho as suas telas por terminar. Admira-me você pintar mulheres nuas. Mulheres amantes. Seus quadros são polêmicos. Como não tenho mais o que fazer fico aqui, sentada, contemplando seus quadros e criticando sua arte. Estou esperando o dia amanhecer. Não me acostumo a dormir sozinha. O vazio do outro lado da cama tem peso. Pesa tanto que não cabe nas minhas costas. Espero que você esteja dormindo tranquilo. Acho tão lindo olhar você dormindo! Mas faz três dias que não tenho o direito de ver essa cena que tanto me fascina o espírito. Estou cansada, meu amor. Vou tomar mais uma xícara de chá. Quem sabe o chá penetre em mim como seu perfume delicado e me faça dormir. Vou colocar água na chaleira. Até mais. Dê-me notícias, seu ingrato! Um abraço, Da sua Rosa.


3 P.S.: você faz o que quer comigo, mas eu sempre vou amar você. Natal(RN), 14 de novembro de 1910. Meu amor, Obrigada por cuidar de mim. Você veio quando eu mais precisei. Ficou ao meu lado. Zelou pela minha saúde. Preocupou-se. Tenho vontade de me bater por lhe chamar de ingrato. A pneumonia me pegou. Você perguntou se eu não estava me cuidando. Tive vontade de responder que não, não mesmo. Eu não cuido de mim faz muito tempo. Eu cuido de você. Eu sei que isso é errado, mas não posso negar o que tenho feito nos últimos dias. Me alimento mal, durmo mal, não saio de casa, me afastei dos amigos. Seu jeito de amar é tão esquisito! Você desaparece e de repente aparece cheio de amor! Eu sou do tipo que quero ter notícias, quero ter a pessoa amada ao meu lado sempre, saber o que ela fez o dia inteiro, saber se ela dorme bem...essas coisas de quem ama. Acho que amo demais e isso muito me preocupa. Alguns amigos disseram para eu ter cuidado com esse amor por você. Eu posso lhe sufocar. Mas fico a pensar como vou lhe sufocar se mal consigo ver você; se faz quase três meses que não nos vemos. Será que namoramos mesmo? Será que você não tem outra? O que você espera de mim? O que você quer? Eu não sei. E tenho medo de lhe fazer essas perguntas. Medo de lhe aborrecer. Você diz que gosta de sentir-se livre. E por isso eu não ligo, não procuro, não vou na sua casa. Fico aqui, quieta, esperando. Enquanto isso vou morrendo aos poucos. Você chegou de repente e me pegou muito doente. Acho que a saudade se alojou nos meus pulmões. Desculpe-me, meu amor. Estou frágil. Mas posso ir até o jardim e colher flores para decorar a mesa do café da manhã. Mesmo você me proibindo sair da cama. Estou frágil para pular de alegria com a sua presença! Acho que estava morrendo de saudades de você! Todos os dias eu esperava alguém tocar a campainha e quando abria a porta e não via seu sorriso lindo ficava decepcionada. Chorava. Chorava todas as lágrimas. Chorava até não ter mais o que chorar. E ainda assim continuava a chorar. Um choro sem lágrimas. Mas um choro profundo. Para o tempo passar costurei os furinhos das suas meias. Separei suas gravatas. Todos os dias fazia a mesma coisa. E quando as meias acabaram-se eu comecei a descosturálas para costurá-las novamente. Eu queria de alguma forma está perto de você. Não quis mexer nas suas tintas e nas suas telas e de longe fico a observar seus traços. Traços cubistas. Traços parecidos com os de Diego Rivera. Chegou um vizinho novo do lado direito. Ele costuma dormir com a lâmpada ligada. Ele é um senhor com seus quase setenta anos. Quis fazer amizade comigo. Depois viu que eu vivia no mundo da lua e partiu. Ele não sabe que o mundo onde vivo é o seu. E só para você existo. Obrigada, meu amor, por ter cuidado de mim. Dessa vez não fique tanto tempo longe. Eu posso morrer. Um abraço, Da sua Rosa.


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Natal(RN), 14 de julho de 1916. Meu amor, Amor da minha vida. Amor só meu. Amor que trago no peito. Amor que me alimenta. Amor que me perfuma. Amor que me faz sonhar com anjos. Amor só meu...só meu. E porque hoje, meu amor, é seu aniversário eu venho alegremente escrever-lhe esta carta com palavras tolas, palavras magrinhas, palavras curtinhas, palavras baixinhas, palavras que vão dizer tudo o que sinto sem esse meu jeito de complicar as coisas que escrevo. Senti saudades de acordar ao seu lado hoje. Como foram belos os aniversários em que passamos juntos. Eu e você, a natureza, nosso amor e nada mais. As pessoas? Que importava as pessoas se nós tínhamos um ao outro. Não sei se você ainda tem aquela caixinha onde guardava as minhas lembranças, mas se tiver gostaria que colocasse dentro dela hoje o cheiro do bolo de chocolate que acabei de fazer. Vou comê-lo sozinha. Comemorar seu aniversário. Fazer de conta que você está aqui, ao meu lado. Fazer de conta que danço valsa com você. Fazer de conta que sinto o seu perfume. Fazer de conta que a nossa história nunca acabou. Depois vou lavar a louça pensando nas suas palavras lindas: minha Rosinha. Era assim que você me chamava. Mas a sua Rosinha vive hoje sozinha. Você sequer me dá notícias. E eu nessa casinha de pedra escuto apenas o murmuro do vento a rir das minhas fantasias. Seja feliz, meu amor. Amor que um dia mimei. Você foi como um relâmpago em minha vida. Nossos dias estão guardados naquele barquinho de papel que no ano novo largamos no mar com os nossos pedidos na noite de ano novo. Barquinho de papel que carregou você para bem longe de mim. Terá sido esse seu pedido? Eu nem preciso dizer o meu. Eu só queria que Deus nunca tirasse você de mim. Mas o destino foi cruel comigo. No meu primeiro vacilo você partiu. Como uma pluma foi levado pelo vento para os braços de outras. Estou aqui, meu amor. Sozinha. Na nossa casa. Olhando tudo o que era seu. Olhando para dentro de mim. Não me acho mais. Perdi-me diante da saudade que maltrata feito agulha furando o coração. Feliz aniversário, meu amor! Vou tomar uma xícara de chá para esquecer essa saudade. Seja feliz, meu amor. Vou beber-lhe. Embriagar-me de você. Abraços, Da sua Rosa.


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Natal(RN), 03 de julho de 1914. Boa noite, amor! Hoje não fiz quase nada. Caminhei à tardinha pelas ruas da minha cidade em passos lentos. O céu está coberto de nuvens escuras. Parece que vai cair uma grande chuva. Cheguei em casa com sede. Tomei você no pensamento e a sede passou. Deixei os chinelos à porta da casa, como você sempre me pedia. Tudo está do jeitinho que você deixou. Para que mexer? Desse jeito consigo me sentir menos distante de você. As cortinas do nosso quarto brincam com o vento que vem do norte. O jornal chegou atrasado hoje. Mas eu li seu nome na lista dos aprovados daquilo que tanto você desejava. Parabéns! Tive vontade de mandar-lhe flores e aqueles meus bilhetes perfumados, mas me contive com um sorriso nos lábios. Acariciei seu nome no papel jornal desejando desesperadamente abraçar-lhe. Você vai conquistando seus sonhos. Está mais vivo do que nunca. As notícias me chegam aos poucos. Tem gente que me diz que você está mais lindo ainda. Tem gente que me diz que você agora usa o cabelo mais curto. Cadê seus cachinhos dourados? Tem gente que me diz que você bebe outro tipo de vinho agora. E eu fico aqui querendo saber quais as suas mudanças. Será que você mudou tanto assim? Fui à Olinda ontem. As ladeiras me fizeram lembrar seu esforço físico subindo e descendo ladeira abaixo. Depois que soube das suas mudanças fiquei pensando em tantas coisas. Será que você hoje é mais feliz do que antes? Será que você consegue viver de uma forma mais intensa do que antes? Será que você está amando tão intensamente? E a pergunta mais cruel insiste em bater contra meu peito: será que ela não era feliz comigo? Não sei, amor. Eu fiz o que pude. Às vezes penso que insisti demais para que o nosso amor não chegasse ao fim, quando o nosso amor nunca sequer teve um início. Às vezes penso que fui uma espécie de muro protetor para você, pois quando lhe conheci sua vida estava desmoronada. Terá sido mesmo o meu ciúme que destruiu a nossa relação? Creio que não. Você nunca me amou. Fui uma espécie de pilar ou escudo protetor onde você descansou seus dias de incertezas e questionamentos diante da vida. Enquanto eu amava você buscava encontrar-se nos braços de outras quaisquer. Eu era a sua morada segura. Eu era a sua caverna. O seu refúgio. Até o dia em que exigi um pouco mais de atenção, carinho, amor, reciprocidade no que eu lhe oferecia. Você imediatamente me criticou. Eu estava sendo egoísta. Tantas vezes lhe dei prazer na cama e quando lhe pedia um retorno você se negava dando sempre uma desculpa qualquer. Eu cansei você com o meu amor. Desculpe-me, amor, o desabafo triste. Mas cá em mim mora uma Rosa pisoteada pela intolerância dos seus gestos e palavras. Nunca me deixaste explicar as causas de tantos dissabores que lhe criei. Eu sei que errei. Todo mundo erra nessa vida dura e árdua. Só você pensa diferente. Só você é a perfeição em tudo. Cuidado, amor! Às vezes erramos e na nossa arrogância esquecemos de pedir perdão! Lembre-se de mim quando nos conhecemos e você verá que eu era feliz e tinha vida. Apenas, lamento. Com carinho, Da sua Rosa.


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Natal(RN), 26 de agosto de 1914. Meu amor, É manhã de quinta-feira e chove lá fora. A minha casa está silenciosa. Gritos? Só os da minha alma. Ainda pouco fiz café e tomei sozinha. A xícara suja continua à mesa. Parece que estou envelhecendo muito rapidamente. O meu corpo acordou hoje pedindo seu abraço, mas o outro lado da cama estava frio e arrumado. Nada fora do lugar do outro lado da cama. Dentro de mim, tudo fora do lugar. Eu sei o quanto você gosta da chuva e talvez isso tenha me dado mais saudades ainda. Coloquei um pouco da chuva num pequeno pote para presentear-lhe. A chuva, minha única companheira nessa manhã tão solitária! Continuo cuidando de tudo, amor. A casa está limpa. O meu trabalho é cansativo, mas faz bem à minha alma. Lavo as roupas e passo os lençóis. Costuro as minhas meias furadas. Ainda roubo as flores do jardim de Dona Eulália e as coloco no vaso da sala. À tarde a mesma rotina de sempre, escrevo. Escrevo para você. Ah! Quem me dera ter mais mistérios em mim do que esse amor por você. Perto do rio encontrei, ontem à tardinha, uma daquelas pedrinhas que tu adoravas colecionar. Guardei-a no bolso do casaco. Tudo está guardado. Até mesmo seu jeitinho de falar. O relógio da cozinha passa as horas lentamente. A casa era pequena quando você estava aqui e grande depois que partiu. A grama que estava seca começa a ficar verdinha novamente. Há goteiras na casa, amor. Preciso reformar o telhado. Suas almofadas estão do mesmo jeito que deixou. O cheiro do seu incenso perfuma o ambiente. Compro-o todos os fins de semana na lojinha daquela senhora alegre. Só eu que pareço mudar todos os dias. Como uma vela que vai aos poucos se acabando assim estou eu. Lembranças, saudades, arrependimentos, vontades, solidão, começar de novo...É um desassossego que acende a vela em mim e ela vai derretendo cada dia que passo sem o teu amor. Longe de ti as minhas pernas esqueceram como se anda. Meu coração há anos não recebe visitas extravagantes. Ninguém nunca mais esqueceu algo em casa e retornou para buscar, cinco minutos depois de ter saído para o trabalho. A chuva cai devagar...com ela caem as minhas lágrimas. Como amo você, meu Deus!

Um abraço, Da sua Rosa.


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Natal(RN), 08 de janeiro de 1915. Meu amor, Os gatos dormem. As nuvens seguem suas viagens lentamente. Sabe, amor, eu desconheço a primavera e as chuvas de verão. A vida sempre passou por mim sem que eu a sentisse. A árvore gigante plantada ao lado da minha casa fazia uma sombra belíssima, mas eu nunca percebi isso. Os pássaros faziam ninhos em seus galhos e cantavam. Fui objeto do acaso. Lidei com os vícios inoportunos e me corrompi. Não, amor, eu não fiz o que era errado. Discernir a verdade da mentira sempre foi muito difícil para mim, pois na minha ingenuidade plantei caroços de azeitona na fronha do meu travesseiro e esperei anos para que eles se tornassem árvores. Tive receios e anseios ao conhecer você. Pensei nos heróis gregos e fiz comparações da sua beleza com as deles: Hércules não é mais forte que você, e Ícaro não voa tão bem quanto você. Conversei com a areia quente sobre a dominação da minha emoção em relação a razão. Cada encontro nosso algo parecia me dizer que você era uma espécie de relâmpago e tão-logo passaria. Mas o meu querer não me ouvia. Fiquei surda diante da sua imagem. E quando penso no seu sorriso tímido sinto vontade de chorar e regar o amor plantado em mim. A vida brincou de imitação comigo. Imitei até mesmo o barulho da chuva numa tarde quente de verão só para presentear você. Não sei se amei demais ou se foi pouco o que fiz em busca dos seus córregos. Não sei...não sei se corri demais e se esqueci de mim dentro de um barco de papel frágil perdido no mar. Quão bela foi a tarde em que nos conhecemos naquela livraria. Você chegou sorrindo. Sentou-se à mesa. Conversamos tantas bobagens. Coisas tolas. Coisas sem importância. Parecia que já nos conhecíamos há anos. Você de camiseta branca e calça jeans. Um corpo magro. Um olhar meio tristonho apesar do sorriso nos lábios. Eu amei você desde o primeiro olhar. E acho que vou amar para sempre. Arranquei espinhos da minha boca seca naquela tarde. Hoje, amor, não tenho percepções da vida. No som da natureza sossego os meus devaneios. Rasgo os verbos nas esquinas escuras das madrugadas. Estou deprimida, doença do século. Uma depressão tragada em cada suspiro da minha alma. Se choro? Sim. Choro querendo sentir a vida da minha infância perdida. Choro querendo sentir a vida com você. E com você eu queria um viver cheio de loucuras, emoções, bravuras, esperança e felicidade. Já não sou feliz, amor. Há muito esqueci meu sorriso à porta da tristeza. Bebo o veneno do arrependimento e alcoolizada saio de bar em bar contando a minha história. De tanto doer a vida me faz gemer com febre de saudades. Um abraço, Da sua Rosa.


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Natal(RN), 15 de fevereiro de 1915. Meu amor, Hoje senti todas as coisas de todas as formas, jeitos, cores e perfumes. Não sei o que de mim há aqui neste instante, pois a lua crescente dentro de mim não muda mais de fase. Estou sem fósforos e a fogueira está apagada. Sou cética em relação ao eclipse do amor com o ódio. Creio nunca mais nos vermos. Quando passeávamos gostávamos de tomar sorvete de chocolate e contemplar as estrelas. Hoje as estrelas fugiram do céu e eu já não as vejo faz anos. Meus dias vão passando lentamente. Ando nas ruas com os olhos fechados diante da multidão para não enxergar sorrisos e o vento. Plantei as margaridas no jardim de frente a nossa casa e elas estão lindas! Faz algum tempo que não calço luvas. E meus olhos parecem dormir ao meio-dia. Sou cavalos correndo estrada afora sem destino. Sou dragões mansos. O que antes me tornava uma gigante partiu na véspera do meu encontro com a dignidade. Perdi-me em cinzas de lágrimas róseas. Fui. Não volto mais. Esta casa e os troços que nela estão não dizem mais nada. Antes cada coisa parecia ter vida e conversava comigo. O piano é só silêncio. Até a chuva cai silenciosamente nas manhãs de outono. Depois que você voou feito ave de rapina, fiquei meio tresloucada, meio ingrata, meio feroz e meio nada. Olho o relógio e já passam das quatro da madrugada. Em breve o dia vai amanhecer e eu não sei pra quê. Para mim os dias e as noites são como filmes que se repetem incessantemente. Meus óculos quebraram-se. Minha cadeira de balanço vive sozinha no meio da varanda. Triste é colher flores e não ter vasos. Triste é festejar idade nova com o mito de que há alegria. As coisas são retalhos das minhas virtudes. O chá das cinco está frio, pois espero por você para contarmos os fatos do dia. Há pó no porta-retratos. Cheiro de mofo nas roupas que não preciso mais usar. As formalidades ficaram nos tempos passados. Óperas ganharam galhos de um desconhecido sem coisas e fatos. O desconhecido vegeta diante da Via Láctea. As coisas são colheitas doentes. O último cheiro está guardado no coração de Afrodite. Páro. O que vejo? Tintas. O artista morreu em triângulos retos. Um abraço, Da sua Rosa.


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Natal(RN), 19 de setembro de 1912. Meu amor, A minha alma está vestida com um sentimento belo que nasceu quando lhe conheci. Ela desfila nas avenidas da felicidade e sorri daquilo que passou na minha vida. O hoje se faz presente no meu viver, me dá forças e coragem para caminhar até mesmo na escuridão porque os buracos da minha estrada foram cobertos pelos seus passos. Guardo a alegria de receber flores das suas mãos, de sair dos sonhos e calçar as sapatilhas que bailam diante da esperança. E quem sabe esperar alcança aplausos do destino. Sonho com você. Sonhos vestidos de desejos, de amor, de saudade que canta a sinfonia dos surdos com a sua distância; sinfonia esta que só eu posso sentir a sua intensidade. Durante toda a minha vida desejei muito encontrar alguém para amar sem medo de tropeçar nas pedras da inveja, do medo, da incerteza e principalmente do não-querer. Eu lhe quero muito e isso está escrito nas paredes da minh’alma. Se as gavetas dos seus sentimentos estão cheias de roupas que ainda exalam o perfume do passado eu não me importo, porque posso tingir tecidos e pregar botões novos em roupas velhas. Ainda ontem lhe disse que lutaria pelo seu amor, mas não posso ser egoísta pensando somente em mim. Se amanhã as lágrimas continuarem molhando os quadros que a minha retina colorir ainda assim subirei degraus em busca dos dias que iniciaram a nossa história. Foram apenas noventa e dois dias de namoro. Multiplicados por séculos e séculos. O resultado elevado ao cubo. Uma eternidade. O infinito dos números durou a nossa relação. Sou um conjunto vazio. Nem sei se existo mais. Perdi-me. Quando gostaria de ser uma dízima periódica...repetições de mim. Sou o resto de uma divisão. Um meio de mim. Metade de mim. Nada de mim. Nada de mim, meu amor. Sou o aumentativo da palavra medo. No edifício que pensei construir a morada do meu amor alguém chegou antes e colocou um alicerce de pedras enquanto o meu era de flores. Eu beijo os ponteiros do relógio e me abraço com o tempo que contou a nossa história. Fiz-me mulher nos seus braços e perdi as esquinas que os transeuntes insistiam em me fazer passear. Esquinas que choravam quando a solidão passava e a tristeza vinha cantar de madrugada. Tenho, agora, momentos que estão registrados nas minhas lembranças. Viverei com eles até quando Deus permitir e sei que durante muitas noites eles me farão feliz porque momentos grandiosos ao seu lado foram muitos. Ainda penso em lutar, mas penso em você e nas suas palavras e coloco freios no anel do meu caminhar. Eu não posso mudar a cor do crepúsculo, mas sei que posso alcançá-lo com a força dos meus sentimentos. A bagagem que guarda os nossos momentos está pronta para embarcar na estrada da minha vida. Corro atrás do que podia ter feito e só encontro o mel das abelhas já pronto, eu não posso fazer mais nada porque tudo eu fiz. Só me resta conversar com o tempo e fabricar sonhos novamente. Assim encosto-me na janela da minha casinha à espera de que um dia você venha novamente abrir as minhas cortinas. Eu amo você e lhe desejo de corpo e alma. Pedi a Deus uma chance, que Ele iluminasse sua decisão. Hoje eu choro de tristeza, saudades e ciúmes. Quem sabe amanhã eu sorria novamente.


10 Um abraço, Da sua Rosa. Natal(RN), 23 de novembro de 1913. Meu amor, Nasce o dia e cantam os pássaros. Dou sorrisos à vida e me embalo com as lembranças dos nossos momentos. O tempo me castiga a todo instante, anunciando o que passou e insinuando o que ainda passará. Calo-me diante das incertezas. Mas respiro fundo e construo barcos de oxigênio para navegar no mar da saudade. Corto madeira e o machado parece chorar diante do meu olhar tristonho. As vitrines estão cheias de roupas coloridas, mas os preços estão caros e minha mochila ainda vazia. Trago na alma o desejo de tocar seu corpo, mas faço-me jóia em cofre fechado. Sem querer riscar paredes acabei riscando a minha vida com amor. As portas da igreja estão fechadas e não posso rezar no meio da rua, contudo saio de mim em busca dessa força interior que me faz viver. Como são difíceis os dias que se calam diante da distância! Pedi às lavadeiras a brancura das suas roupas para afastar dos meus olhos a escura solidão. Sou um anel com a pedra perdida. E as forças que regem as minhas vontades estão alimentadas de esperança. Espero que as agulhas bordem o meu querer no tecido do seu corpo e que não me faltem as linhas da sabedoria. Dancei a valsa do esquecimento e senti dores nos meus pés. Esquecer para quê? Se as tintas já secaram e o desenho se faz presente na tela do meu ser. É a necessidade de amar e ser amada que me fala de você. Conto às folhas secas que meu amor é como um fino galho de árvore, porém o vento jamais irá levá-lo. Os passos que deixam rastros indicam o desassossego da alma, à procura de um sapato perdido nas incertezas do amanhã. Assim sou eu hoje. Entre caminhos que não me dizem nada e aqueles que contam a nossa história. Não temo o amanhã, pois ele sempre traz coisas novas, e meus braços ainda remam em direção a um caís que me leva ao seu encontro. Deixe-me querer-lhe assim como as rosas querem seu cheiro e seu carinho. Um abraço, Da sua Rosa.


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Natal(RN), 25 de dezembro de 1916. Meu amor, Feliz natal! A nossa árvore está decorada. Lá fora a noite sorri. As estrelas brilham. Faz frio. A ceia na mesa está posta. Mas para quem? Eu não tenho fome. Não há mais ninguém além de mim nesta casa. É quase meia-noite. Quase natal. O natal passado foi tão belo! Trocamos presentes. Choramos. Falamos dos nossos sonhos. E quando os sinos anunciaram o nascimento do menino Jesus você me beijava a boca com uma delicadeza e um carinho só seus. Esse seu beijo suave, sem pressa, eterno, brando, meigo, menino, maroto, traquina, peralta, leve, lento...seu beijo que tanto me beijou. Qual boca beija você nesta noite? Olho a toalha vermelha da mesa, dois pratos em cima dela, a árvore de natal e uma música cantando noite feliz. Será que esta é mesma uma noite feliz? Poderia ser, meu bem. Poderia ser mais uma das tantas noites felizes que tivemos juntos. Você de pijama passeando pela casa com o gorro de papai noel na cabeça dizendo feliz natal para mim. Quantas saudades! Às vezes penso que vou desaparecer e que de mim só restaram essas lembranças eternas. É noite de natal. Noite feliz. Noite em família. A minha família era você. Sequer um cartão de natal. Seu silêncio está me matando. Corro com medo da loucura, no entanto quanto mais corro mais perto de mim ela fica. Corro com medo da solidão, no entanto ela está nas minhas costas. Sou uma figura em preto e branco nesse mundo colorido. Vi hoje um arco-íris e pensei no quanto você admira esse espetáculo da natureza. Fiquei minutos imaginando poder mandá-lo de presente para você. Mas os efeitos da natureza não podem ser colocados em caixas, ainda. Ah! Meu amor, amor da minha vida, amor só meu, porque você nunca será completamente de mais ninguém. Ao menos construímos uma história e plantamos uma árvore. Fiz-me uma Rosa sôfrega nos seus braços. Quando fazíamos amor eu ficava a pensar no dia em que você partisse e meu corpo não seria de mais ninguém. Faz algum tempo que você partiu. Ninguém mais tocou meu corpo. O seu cheiro de homem inteligente, culto, sábio, belo, esse cheiro inconfundível de homem que sabe o que quer da vida está nos lençóis brancos da minha cama. Sabão nenhum consegue tirar seu cheiro. Na verdade, eu não sei se ele está nos lençóis ou no meu olfato que tornou-se singular diante das coisas do mundo. Beije-me mesmo à distância, amor da minha vida. Mande-me notícias ao menos um sinal de vida. Diga-me que também sente saudades. Você não pode ser tão ingrato assim. Fale-me de você. Conte-me histórias para dormir. Conte-me histórias de bichos, fadas, princesas. Cadê o meu lobisomen? Venha me visitar nesta noite de natal ao menos na minha imaginação teimosa. Eu rogo, suplico, não fique tão longe assim. Há dor! Da sua Rosa. P.S.: fiz arroz com passas e comprei seu vinho predileto. Vou esperar por você.


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Natal(RN), 27 de outubro de 1917. Meu amor, Anjo da minha vida. Olhar do meu viver. Rio perene do meu sexo. Onde andará você? Onde está você? Que faz agora? Me disseram que você cortou o cabelo e que está barbudo. Será que ficou mais bonito? Você já parecia um deus grego. E agora? Fico imaginando como está você. Seu corpinho frágil sente dores nos ossos. São as dores que sempre lhe perseguiram. Também me disseram que você quis ter notícias minhas. E que não estava bem seu novo amor. Me disseram que você tinha uma voz triste e um olhar cheio de lágrimas. Digame, meu amor, quem está lhe fazendo sofrer tanto assim? Você é uma árvore frondosa que faz sombras para muitos. Não deve sofrer. Não mesmo. Foi bom saber de você. Não sei se fiquei mais aliviada ou se a preocupação aumentou. Saber que você anda chorando pelas ruas...é tão triste! Você cortou os cabelos e retirou os cachos que eu tanto amava. Por que quis mudar? Ou quiseram que você mudasse? Fazia anos que eu não tinha notícias suas. E ter notícias de que você não anda bem me deixou muito perturbada. Venha até mim, meu amor. Vamos conversar. Eu estou pronta para lhe escutar. Lembre-se que além de amantes fomos companheiros, amigos e cúmplices. Não tenha vergonha de me falar dos seus sentimentos. A perda dói, mas a gente aprende a conviver com ela. Não tenha medo de se aproximar de mim. Estou imunizada. A saudade vem todas as noites bater à minha porta, mas eu não posso impedi-la disso. Hoje o orvalho das manhãs estava tão lindo! Acho que você nem percebeu! Tem contado as estrelas? Tem olhado a lua cheia? Tem plantado girassóis? Tem lido poesias? Por falar em poesias rabisquei uma para você. Guardei no nosso baú. Foi bem engraçado quando abri o baú. Vi a nossa primeira foto no jardim da sua casa. Nossos sorrisos demonstram tanta alegria nessa foto. Espremi a foto contra o meu corpo como se fosse você. Eu quis colocar você dentro de mim. No baú também encontrei a aliança que você me devolveu na noite em que nos despedimos. Chorei, meu amor. Chorei o pranto de toda a minha vida com aquela aliança nas minhas mãos. Então olhei para a minha mão direita e vi a marca da minha aliança. Chorei mais ainda. Rasguei hoje toalhas de mágoas. Plantei um pé de esperança no meu peito. Fiz promessas pra São José. Rezei todas as orações que meus pais me ensinaram. Acho que rezei errado, mas valeu a intenção. Todas elas ofertadas para você. Pela sua saúde, pela sua felicidade, pela sua paz interior, pela sua vontade de viver. Eu não me vejo nesse mundo sem a sua existência. Apesar de toda a distância ainda me sinto muito próxima a você. Nossos espíritos se encontram para brincar de vez em quando. Que importa esse corpo frágil que pode parar as suas funções vitais a qualquer momento? Vale a alma. A alma não morre. Ela viaja por lugares longínquos. As nossas almas são amigas, amantes e convivem juntas. Jamais irão se separar.


13 Meu amor, cuide-se. Quando tiver vontade de conversar com alguém não tenha vergonha de me procurar. Saberei lhe ouvir. Mesmo que necessite enxugar as suas lágrimas por outra pessoa. Ainda assim saberei compreender você. Quero seu sorriso. Um cheiro da sua Rosa. Natal(RN), 28 de agosto de 1911. Meu amor, As lágrimas escorregam pelo meu rosto. É um choro silencioso. Um choro quieto. Nossa primeira discussão. Você me xingou. Eu também disse coisas desagradáveis. Tudo devido ao meu ciúme. Mas você há de aceitar que tive meus motivos. Ela estava na sua cama, manhã cedo, vestida com uma camisola de seda e meio sonolenta me disse um bom dia. E aquela garrafa de champanhe no chão? Aquelas duas taças? O que significa aquilo? Pode me explicar? Saí apressada da sua casa. Bati a porta com força. Entrei no carro e não olhei para trás. Você bateu no vidro do carro. Implorou para que eu abrisse. Eu abri e você tentou me explicar que foi um mal entendido. Você sempre deixou bem claro que era de muitos, nunca de uma só. Não fui para a minha casa. Fui para a nossa casa. Quebrei todos os pratos. Quebrei todos os porta-retratos. Rasguei todos os poemas que lhe escrevi. Restaram as cartas. Cortei minha mão direita ao esmurrar a janela de vidro do nosso quarto. Aquela mulher na sua cama. O que você queria que eu pensasse? Você veio me dizer que ela está doente. Então que procure um médico. Isso é motivo para dormir na sua cama? Na sua casa tem quarto de hóspedes. Você tentou me explicar que ela sentia muitas dores e por isso dormiu com você. Doente estou eu, meu amor. Doente estou eu desde o dia que inventei de lhe namorar. Doente estou eu desde o dia que deixei de me amar. Nunca antes chamei tantos palavrões. Estou morta de ciúmes. Aquela mulher na sua cama com os cabelos desalinhados. A sua ex-namorada. Não é qualquer mulher, você sabe disso. É a mulher que sempre quis nos separar. Putz! Você me feriu! Nem me reconheço de tanta raiva. Putz! Que merda! Que merda, meu amor! O meu pássaro parece ter sentido a minha dor. Morreu. Acho que passei a minha tristeza para ele. Está morto o bichinho. Mais um motivo para a minha raiva não cessar. Você matou meu pássaro. O nosso pássaro. O peixe no aquário também morreu. E não foi de fome, pois coloquei comida pra ele ontem. Foi de tristeza. Os bichos sentiram a minha tristeza e a compartilharam comigo. Se isso não tivesse acontecido quem teria morrido era eu. Não sei quando essa ferida vai cicatrizar. Está sangrando. E o sangue não é vermelho. É roxo. Roxo de raiva. Que merda, meu amor! Que merda! Da sua Rosa desolada.


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Natal(RN), 04 de outubro de 1911. Meu amor, O semáforo fechou. E você parou ao lado do meu carro. Desde a nossa última discussão que não nos víamos, não conversavámos, não tive notícias suas. Você sumiu. Eu sumi. Ficamos em silêncio. Eu sofri, não sei você. Você buzinou e eu olhei para você. Eu estava justamente pensando em você. O sinal abriu, mas ainda deu tempo de você perguntar como eu estou. Tive vontade de rir meu amor. Como eu estou? Eu ainda disse que estou bem. Vi seu carro desaparecer na estrada. Segui meu caminho. Usei a razão. Era preciso me concentrar para trabalhar. No trabalho tive uma outra surpresa. Você me telefonou no mesmo horário de sempre. Às dez horas da manhã. Queria saber onde eu almoçaria. Ainda aborrecida, magoada, disse que não almoçaria. Dei uma desculpa de que tinha muito trabalho e faria um lanche na própria empresa. Ainda não consegui esquecer o que aconteceu. À noite cheguei em casa cansada. Rabiscava um poema para você quando o telefone tocou. Era você, de novo. Perguntando se podia vir até a minha casa. Ah! Meu amor, como meu coração quis dizer sim. Mas a razão falou mais alto e eu disse não. Eu guardo mágoas. Sou um poço de amarguras. Não vou lhe perdoar. Deus que me desculpe. Não consigo perdoar a sua traição. A caixinha de música nunca mais foi aberta. Na mesa faz dias que não tem dois pratos. Faz dias que não tomo vinho. Faz dias que não sorrio. O filme que passa na televisão fala de drogas e juventude. Sempre fui contra as drogas. Acho que devemos fazer tudo conscientes. Me ofereceram um pouco de cocaína para ficar alegre na noite passada, não aceitei. Eu prefiro uma tristeza real do que uma felicidade imaginária. Deitada agora me vem a lembrança do seu olhar dentro do carro parado no semáforo. Você demonstrou tanta felicidade ao me ver! Eu fui fria com você. Quis ser forte. Eu fiquei mais alegre do que você naquele encontro inesperado. Meu coração pulou de alegria com as suas ligações. Mas estou magoada, meu amor. Dê-me um tempo. Um tempo para ordenar as idéias e pensar mais em mim. O frio do meu corpo não é maior do que o frio tristonho da minha alma. Da sua Rosa. P.S.: eu amo você.


15

Natal(RN), 30 de agosto de 1918. Meu amor, Abri sonhos hoje. Vesti-me de indagações e saí perguntando à multidão por você. Ninguém soube me responder. Deitei-me nos braços da solidão e deixei-me por ela ser embalada. Como é triste viver só! Não é o silêncio que me assusta, mas o fato de saber que você aqui existiu e já não existe mais. São as lembranças que me assustam. E meus sonhos voaram com o vento de outono para lugares longínquos onde só chegam os perseverantes. O telhado do meu desespero desabou nesta manhã de outono ventosa. Foi o vento? Não. Foi a saudade do seu olhar negro, profundo, perturbador, risonho, olhar de quem quer comer toda a fruta de uma só vez. E eu quis tanto ser engolida por você. Morar dentro de você. Está em você. Como seria bom. Eu em você. Você que tantos vezes me visitou num gozo ardente e deslumbrante! O seu silêncio depois do sexo me intrigava. Você ficava deitado com a cabeça no travesseiro como se estivesse olhando para o nada. Mas eu sabia que em alguma coisa você pensava. Fiz viagens no porão dos meus anos. Lembrei de coisas da infância: a minha boneca de pano, o meu pião, o meu urso, o meu pano de chupar o dedo. Logo depois lembrei-me de que você me contou que fez xixi na cama até os seis anos de idade. Morria de vergonha da sua mãe. Você me contando isso, nós dois abraçados, na cama, os lençóis nos cobriam, a janela aberta, noite, estrelas num céu azul e uma lua cheia saindo detrás do morro. Inventei amigos na minha imaginação para matar a solidão. Com eles converso o dia inteiro nessa casa tão grande para uma só pessoa. Não estou louca, meu amor. Isso são coisas de uma pessoa que não consegue ficar longe de quem ama. Quando penso em você tenho vontade de correr ao seu encontro. Penso em abrir portas, janelas, coração, pulmões e brechas para que você não encontre obstáculo ao chegar. Entre, meu amor. A casa é sua. Penso tão intensamente em você que sinto seu beijo, seu perfume, seu corpo suado, suas mãos macias, seu peito másculo, suas pernas longas, seus pés, seu sexo lindo! E só de pensar em você me vem uma vontade enorme de fazer amor e me pego masturbando meu próprio corpo. Toco meus seios, toco meu sexo, toco minhas coxas e barriga e finjo minhas mãos serem as suas. Quando chego ao gozo descubro que tudo era uma ilusão e choro rasgando a tristeza num pranto que tem como testemunha o cheiro do meu sexo nas minhas mãos. Não é o cheiro do seu. Estou em pedaços pensando me você. Dividida entre o desejo de amar e ser amada. Querendo o que não posso ter: você. Como vai você, amor da minha vida? Como vão seus dias? Da última vez que nos falamos você estava resfriado. Já curou-se? Sou um carretel tonto numa máquina de costura quebrada. Um carretel que perdeu seu destino. Uma máquina de costura que tem


16 nas veias um sangue tresloucado. Estou em aflição. Sofro a angústia dos girassóis retirados abruptamente dos jardins. Você, meu girassol. Volte. Os brincos estão sob a mesa de jantar. As gargalhadas minhas estão sob a ópera de Tristão e Isolda. Eu não sou Cassandra para adivinhar o futuro, mas sou espírito que na perseverança acredita que tudo é possível quando se ama verdadeiramente. Estou aqui. Despida para você. Vestida para o mundo. Do mundo só quero você. De você quero o mundo. Um abraço da sua Rosa murcha. Natal(RN), 25 de setembro de 1918. Meu amor, Tenho sede de você. Gavetas de segredos são abertas na nossa casa e eu olho nossas coisinhas. Fujo dos curiosos. Todas às vezes que encontro alguém sempre me perguntam por você. Como posso esquecê-lo? Atrás de mim tem uma sombra que não é a minha, mas a sua. Dentro de mim tem um coração que bate comandado pelo amor que tenho por você. Não é mais meu cérebro o dono das minhas funções vitais. É você. E partindo você para bem longe, partirei eu para a eternidade. Sou uma eterna romântica. Comprei uma camisola de seda azul para dormir esta noite com você. Espero que venha. Eu nunca sei quando você vem. Às vezes passam-se anos e você não me dá notícias. Que amor é esse? Será amor o que você sente por mim? Ou será que somos amigos que vão para cama de vez em quando? Me diga, por favor, o que sente por mim? Qual o sentimento que lhe traz até a nossa casa. Eu nem sei mais se essa casa é nossa mesma, pois você quase não vem aqui. Essa casa nem reconhece mais você, assim como o nosso cão, o nosso gato, o nosso cajueiro. Falei com Deus ontem à noite. Acendi uma vela para São José. Li um pouco a Bíblia Sagrada. Rezar me conforta a alma. A fé me faz viver, pois a razão não existe mais. Não sou filósofa, mas acredito que a fé torna o mundo mais inteligível do que a razão. É preciso ter fé para enxergar as coisas e adquirir o conhecimento. Conheço um pouco da história de Santo Agostinho, filósofo da idade média, em que levantou essa questão de fé versus razão. Mas eu nada sou diante de toda a sabedoria dos filósofos. A minha sabedoria consiste em amar. Amar demasiadamente. E por falar em filosofia gostaria de falar do meu amor platônico. Muitas pessoas confundem amor platônico como uma paixão arrebatadora, obsessiva por alguém. Mas o verdadeiro amor platônico é aquele que respeita o outro, que o ama pelo que ele é, que ama a alma antes do corpo, e que não exige do amado o que ele não pode oferecer. Por isso, meu amor, eu não exijo nada de você. Todas as minhas dores, lágrimas e desabafos estão nestas cartas. Nem sei se você um dia as lerá. Nem sei se elas chegarão as suas mãos. Talvez quando chegarem eu já esteja morta ou bem idosa. Que cheguem de qualquer forma se for para você saber o quanto lhe amei. Sinto-me cansada, meu amor. Hoje trabalhei muito numa horta que criei na nossa casa. Peguei na areia. Senti a areia. Como é bom sentir a areia nas mãos! Essa areia que nos dá o alimento que se alimenta de nós após a morte. Será a areia uma boa ou má amiga? Fiquei com essa dúvida nas mãos enquanto olhava a areia de cor marrom. Quem sabe quando você me fizer uma nova visita possa comer alface e tomate da nossa horta...quem sabe você possa me plantar em você para sempre! Plante-me em você, amor. Eu imploro com todas as minhas forças e vontades. Saio de mim nas manhãs para olhar a plantação de milho lá longe...tenho vontade de trazer o espantalho para casa. Ele


17 poderia ser uma boa companhia. Quem sabe se eu lhe desse um cérebro ele pudesse pensar como um ser humano assim como fez Dorothy do livro “O mágico de Oz”. Coisas bobas eu falo, meu amor! Às vezes tenho vontade de sorrir de mim mesma. É a solidão que me acompanha cravando meus passos no deserto da minha alma. Estou triste sem você, amor. Triste pela distância. Vou dormir com uma companheira nada agradável: a solidão. Um abraço da sua Rosa. P.S.: fiz um casaco de crochê para lhe aquecer nas noites de inverno. Natal(RN), 14 de junho de 1919. Meu amor, Por que as luzes se apagam? Por que o mar não se cala? Por que há curvas nas estradas? Será que precisam adormecer e gritar ou será que a luz gostaria de se manter acesa, o mar silenciar-se e as curvas gostariam de não existir? Oh! Meu amor, eis o enigma da vida, a missão de cada um de nós está escrita em nossas almas, o que nos falta é chegarmos até ela. Meu amor, ainda, menino traquino, mar do meu viver, senhor dono de uma inocência só não percebida por aqueles que fecham os olhos até mesmo para a felicidade. Quisera eu poder presentear-lhe os pingos da chuva, a sinfonia do vento, o brilho do sol e a eterna saudade de um sonho não vivido. Ontem, vi as lágrimas de um palhaço banharem seus lábios, enquanto, em vão, ele insistia em fazer uma criança sorrir. Busque nos palhaços a força desse sorriso que conquista o Universo, nem mesmo num momento de dor rouba-se a sua arte. Digo-lhe isso porque quero seu sorriso entre as intempéries da vida e os raros momentos em que aplaudimos a nós mesmos. Sê gigante, amor, diante das montanhas e dos edifícios prisioneiros da natureza e dos homens. Os pássaros não tiveram aula de canto, nem o João de Barros nunca foi engenheiro civil, mas você certamente já apreciou as formigas trabalhando para se protegerem do inverno... E a casa de barro desse pássaro esplêndido?! Levo-lhe a acreditar que somos capazes de tudo; lutar é um dom, saber perder é um querer incógnito. Não faça de seus sonhos desertos sem alma. Você é aquilo que se pronuncia na essência dos gestos das suas mãos, então você para mim é uma figura singular vestida de carisma e perfumada com o néctar das flores. Tive um sonho, muitos sonhos. Num deles fui uma das coisas significantes do seu baú onde você guarda momentos de felicidade, amor, conquistas e esses sonhos de dimensão inigualável e que só a você pertencem. Mas, se acaso me perder em meio a tantas outras coisas não se preocupe em me achar porque mesmo perdida serei sua amante mimada contando e cantando a vida para lhe cativar. Amor meu, amor da minha vida, fecho os olhos, penso em seu sorriso e grito: FELIZ ANIVERSÁRIO!


18 PARABÉNS, MUITOS ANOS DE VIDA E VINDAS DE TUDO O QUE É BOM, BOM PARA VOCÊ! Um grande abraço da sua Rosa. Natal (RN), 14 de junho de 1920. Meu amor, Amar é tão simples e as pessoas complicam tanto, talvez por serem ignorantes na arte de amar ou por nunca terem vivido um grande amor. As coisas simples também têm um valor grandioso, principalmente quando elas são enxergadas com carinho, respeito, amizade, liberdade e dedicação. Felicidade é poder voar em nuvens claras com um sorriso estampado no rosto, debruçada sobre um coração que bate mais forte por conhecer-lhe. É morar numa casinha feita especialmente por você; com uma flor, gerânios, girassóis, plantados dentro da sua alma e que juntos formam um conjunto chamado: amor. Plantar é muito mais do que arar a terra, é acima de tudo lavar a alma, buscar caminhos que nos levem a uma casinha onde os sentimentos estejam dentro de bolas de encher.... viver é muito mais do que se prender ao querer, é lutar por cada pedaço de chão do terreno do seu corpo. Somos donos de quase tudo, menos da estupidez dos homens. O seu coração de homem-menino deve saber muito bem do que estou falando, por isso dedico-lhe meus mais sinceros votos de FELIZ ANIVERSÁRIO! Que este momento seja eterno, enquanto houver lembranças e sonhos... recordar é apenas descobrir que o ontem foi uma porta para o hoje, e que o hoje jamais poderá ser o ontem... EU AMO VOCÊ, MEU AMOR! Um abraço da sua Rosa.


19

Natal-RN, 25 de dezembro de 1920. Carta ao meu amor. Que este natal seja banhado pela luz da esperança, da coragem, do amor, da saúde, da felicidade e da paz. Ó, adorável amor, que tua vida ganhe alegorias coloridas, laços de seda banhados com o perfume das rosas e que tudo se torne gigante diante do teu olhar de bondade e encanto. Neste natal quero estender-lhe a mão, olhar-lhe e abraçar-lhe com o calor da minh’alma. Que as águas do oceano do seu ser ganhem navios construídos com ternura e dedicação. E que a sua dedicação a arte do conhecimento ganhe pernas de atleta e corra de encontro a uma faixa de chegada que só os corajosos por natureza alcançam. O reflexo da nossa imagem no espelho é o reflexo daquilo que fazemos, se damos amor recebemos amor, se plantamos flores recebemos flores, se plantamos cores recebemos o colorido das coisas. Cada pá de plástico largada à beira-mar poderá erguer castelos de areia com alicerces de esperança e paciência. Castelos de areia também têm pilares de concreto quando abrimos os braços para abraçar aqueles que passam e necessitam de um gesto de carinho...o mundo, neste momento, necessita ser abraçado. Nós necessitamos de abraços a todo instante, abrace quem você ama e estenda sempre a sua mão àqueles que lhe dão forças e lhe mostram o valor da vida. Porque viver só tem razão se temos amor no coração, se temos beijos e abraços e uma história que usa anéis de sabedoria nos dedos. Se os seus sonhos ficarem calejados, mesmo assim continue a buscá-los sempre. Caminhar por estradas desertas, pisar na solidão irrequieta, é o destino desabrochando diante do nosso olhar sorridente. Largue plantas de edifícios em gavetas e vá pelo mundo espalhando amor às almas desassossegadas. Faça o bem, amor meu, e terá a bênção do Bem-Supremo. Terá o sorriso das crianças e a beleza da natureza à sua janela. Sê grande, sê homem, sê quem és, mas sê especialmente a fonte da felicidade. Um feliz natal e um ano novo de luz é o que lhe desejo no dia de hoje, com todo o meu coração e a minh’alma. Um abraço da sua Rosa.


20

Natal, 01 de abril de 1921. Meu amor, Chora minh’alma, choram os toques dos meus dedos no vento que passa rápido sem nem me cortejar...apenas passa. Sinto sua falta e a saudade corrompe meu ente, minha essência. Já não sei quem sou, o que quero, o que grita dentro de mim já não sou mais eu. Meu amor, onde você anda? Por que os canteiros floridos dessa cidade tão linda não lhe trazem ao meu encontro no acaso do destino? Só nos meus sonhos vestidos de esperança é que lhe encontro todas as noites. Fui à uma loja de moda masculina e lembrei de você. Lá havia um quadro com um homem que se parecia muito com você, fiquei minutos contemplando-o. Tive vontade de trazê-lo para casa e pendurá-lo na parede do meu quarto. Quando vou às livrarias e vejo os livros de literatura penso em você. As vitrines dos shopping centers da cidade têm o seu nome escrito e as decorações sêm as tuas cores. Onde está você, ó meu amado? Em que telas correm suas mãos macias e perfumadas? Sinto muito a sua falta, penso em você com desassossego e me pego em prantos nas minhas veias que ainda conservam o desejo por você. É uma pena que a chuva molhe o meu corpo, e você não esteja por perto para me enxugar com a sua toalha quente. Amo você, meu amor. O sol que brilha na minha vida tem o mesmo brilho da sua coragem. Não consigo fechar meus olhos porque tenho medo de ver seu retrato no meu pensamento que insiste em lhe querer. Ah! Meu amor, como amo você! A madeira quando queimada torna-se cinza, eu depois que lhe perdi tornei-me poeira solta no tempo...estou vivendo, de uma maneira meio diferente das outras pessoas, mas vivendo e isso é bom. Porque quando vivemos sabemos que estamos construindo algo. São as curvas da estrada da minha vida que sinalizam sua presença logo adiante; são as noites tristonhas e frias que desamarram os cadarços do meu desejo. Desejo que tenho por você, pelo seu corpo, pelas suas mãos, pelos seus beijos e palavras de amor. Tocar seu corpo, acariciar seu sexo, fazer viagem nas entrelinhas de uma história ainda por ser cortada...eu quero cortar as dúvidas da sua alma e contar a história da sua vida. Eu necessito de você. Que se dane o mundo, a sociedade, os meus princípios éticos e morais, que se levantem todos os idiotas, eu só me importo com você. E como amo você, ó amado da minha vida. Meu amor, ainda em retalhos estou costurando as roupas do meu corpo...perdoe-me pelo desabafo. Eu precisava dizer tudo isso. Lembre-se sempre desse meu amor apelidado de ridículo. Um beijo no seu corpo e outro na sua alma, Da sua Rosa.


21

Natal, 12 de agosto de 1922. Uma carta de amor para L. Meu amor, O sonho acabou. As luzes se apagaram, não há público e o espetáculo não tem atores. Ficaram as saudades dos bons momentos. Eu quis muito ser sua companheira, dividir a minha vida com você, conquistar sonhos e ideais ao seu lado, eu quis sim...mas o destino já tinha escrito a minha história e ela não pode ser mudada. Jamais esquecerei o dia que lhe conheci, foi o dia mais lindo da minha vida. Meu Boto Rosa, seja feliz. Peço a Deus que ilumine seus passos e coloque alguém especial no seu caminho, já que não pude ser eu que seja alguém que lhe ame como deseja e lhe aceite como é. Quem sabe um dia possamos sorrir juntos novamente, passear na praia, ir à um restaurante, sentirei falta de tudo isso. Você me disse que passo em rosto tudo o que faço, mas não é verdade, porque tudo o que fiz foi de coração e se fosse preciso faria tudo novamente. Continuarei rezando por você, agora mais do que nunca. Tudo tem a sua hora...Não adianta mexer nos ponteiros de um relógio enferrujado. Não será fácil esquecer-lhe. Estou dando os meus primeiros passos nessa nova luta. Engraçado, meu amor, eu lutei tanto para ter você ao meu lado e de repente a luta parece ter sido em vão. Rezei, chorei, esperniei, cometi loucuras, fiz coisas que jamais pensei em fazer, corri atrás de você como uma louca, aceitei suas palavras que me machucavam quando eu sabia que as coisas não eram daquele jeito só para está ao seu lado. Na hora de gritar eu me silenciei. Ah! Boto Rosa, eu lutei demais pelo nosso amor. É uma pena que tudo tenha se acabado de uma forma tão dolorosa. Só queria que você guardasse de mim as melhores lembranças, eu lamento muito tudo isso que estou vivendo hoje. Quem sabe um dia... quem sabe um dia...Conheço um casal que depois de vinte anos distantes um do outro voltaram a se encontrar e hoje estão unidos. Confio no amanhã. Adeus, meu amor. Cuide-se. Não permita que ninguém roube a chave da sua casa nem pise nas suas flores. Tenha sempre um trunfo escondido embaixo do seu olhar que amo tanto. Com carinho da sua Rosa.


22

Natal(RN), 18 de junho de 1960. Meu amor, Estou diante do espelho. Olho meu rosto cheio de rugas e sorrio de mim mesma. Faço anos hoje. Tenho agora oitenta e sete anos e você noventa anos de idade. Tantos anos se passaram e nenhuma notícia sua. O destino nunca quis que nos reencontrássemos. Mesmo morando numa cidade pequena. Quase não tenho notícias suas. A memória anda fraca. Tenho a doença de Parkinson. Não sou mais aquela mulher bela que você conheceu. Aquele corpo moreno e cheio de curvas está velhinho e nele há marcas do tempo. Há quase trinta anos me disseram que você estava com mal de Alzheimer. Eu fiquei tão triste ao saber disso. Certamente me esqueceu de uma vez por todas. Sei disso porque as flores que vinham em todos os meus aniversários deixaram de vir faz muitos anos. É tão triste o fim da vida e ao mesmo tempo tão bom olhar para trás e saber que vivemos uma história bela. Durante todos esses anos escrevi cartas para você na intenção de conservar vivo o nosso amor e diminuir a saudade. Cartas de amor para L, esse é o meu destinatário. Algumas cartas eu perdi, outras queimei pensando em destruir de uma vez por todas esse amor que me corrompeu a alma e o corpo todo esse tempo e ainda há outras que deixei o vento levar na esperança de que chegassem até as suas mãos. A minha voz está fraca, meu amor. Ando de bengalas. Não saio mais de casa. O homem do leite vem todas as manhãs. O jornaleiro passa à tardinha. Porém, eu não leio as notícias. Elas não me importam mais. O que tenho de valor nessa vida árdua é você. No dia quatorze desse mês você completou noventa e três anos de idade. Tem tataranetos, bisnetos, netos e filhos. Sua esposa partiu jovem. Você teve muitas amantes. Entregouse ao álcool. Ah! Meu querido, como eu te amo! Essas notícias que me chegam agora sobre você dói tanto na minha alma que eu nem sei direito o que dizer ou fazer. Tenho vontade de lhe procurar. Dizer que meu amor continua do mesmo jeito. Talvez maior. Talvez mais maduro. Talvez mais vivo do que eu mesma. A minha velha idade não me permite sair da cadeira de balanços para tão longe. Dou voltas no quarteirão da nossa casa e isso me satisfaz um bocado. Às vezes tenho alucinações e vejo você me abraçando, dizendo que nunca me esqueceu, querendo um beijo meu, um abraço meu, um olhar meu. Alucinações foram muitas nesses anos passados, meu amor. Você esqueceu todo o seu passado. Com ele fui eu. Choro, meu amor. Choro de saudades. Durante todos esses anos eu vivi para você. Vivi na esperança de que você entraria pela porta da frente da casa com aquele seu sorriso lindo dizendo que me amava. Conservei a porta aberta durante todos esses anos. Faz muito tempo, sim. Faz muito tempo que não vejo você além do que está plantado em mim. Eu guardei tudo que era nosso. Fiz embrulhos cuidadosos. Encaixotei o que pude. Só você ficou ao meu lado o tempo todo e nunca longe. Nunca longe. Longe, não. Ontem eu dormi com você.


23 Acordei hoje com o seu beijo. Tomei meu desejum com você. Tenho saudades do seu corpo, não da sua alma. Ela está aqui perto de mim. Ela nunca saiu de perto de mim. No entanto, o que mais me dói é saber que você me esqueceu. Quem é Rosa? Pergunta você. E alguém diz que eu fui sua garota na juventude. A garota com quem você brincou de amar. A garota que amou você com a intensidade da luz do sol. Uma vez me atrevi a pintar um quadro que parecesse com a nossa história. Pintei uma menina de costas. Você colocou, feliz, o quadro na parede da nossa biblioteca. Lembro que ficou intrigado querendo saber quem era aquela menina. Faz tantos anos isso. Ele está aqui, ainda. Agora posso confessar-lhe: essa menina sou eu escondendo o meu medo de perder-lhe. São cinco e trinta e três da manhã. O dia está nascendo. Os pássaros cantam nas árvores. O céu ainda está meio escuro. O sol vem nascendo devagar. Laura, nossa amiga, nunca me abandonou. Ela está abrindo a porta. Vou guardar a carta para que ela não sorria de mim. Seria engraçado eu com essa idade ainda escrevendo cartas de amor para você. Cartas que você certamente nunca as lerá. Quando Laura for embora eu volto para terminar de escrever. Meu amor, Laura partiu ainda há pouco. São sete horas e quarenta e cinco minutos. Laura veio apenas me dizer que você morreu hoje de madrugada. Estou embaixo do pé de jabuticaba abraçada ao seu tronco. Chorando as minhas lágrimas. Eu não acredito nas palavras de Laura. Ela é falsa. Ela não gosta do meu amor por você. Ela quer me ver sofrer. Você não pode está morto se ainda há pouco estávamos na mesa tomando café e conversando. Meu amor, você está aqui? Fale comigo. Dê-me um sinal. Você é esse vento que passa agora? Essa folha que cai da árvore? Esse canto de pássaro? Meu amor, não me deixe sozinha nesse mundo. Eu não sou nada sem você. Estou lhe esperando para o chá da tarde. Vou pedir para Laura fazer os biscoitinhos de mel que você gosta. Não se atrase. Amo muito você. Com carinho da sua Rosa.

Cartas de amor para L  

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