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Acordo


Capítulo Um Quando se tornou claro para Vincent Hunt, Visconde Darleigh, que se ficasse em casa pelo resto da primavera, ele teria, sem qualquer sombra de dúvida, que se comprometer, até mesmo casar antes do verão, tinha corretamente resolvido: fugir. Ele fugiu de casa, o que era uma maneira ridícula, reduzindo um pouco a forma de colocá-lo, quando era o dono da casa e tinha quase vinte e quatro anos de idade. Mas o simples fato era que fugira. Levou consigo seu criado, Martin Fisk; sua carruagem e cavalos de viagem; roupas suficientes e outros pertences necessários para durar um mês ou dois, ou seis. Ele realmente não sabia quanto tempo iria ficar longe. Pegou seu violino também, depois da hesitação de um momento. Seus amigos gostavam de provocá-lo sobre isso e demonstravam horror cada vez que ele o colocava sob o queixo, mas ele pensava que tocava razoavelmente bem. Mais importante, gostava de tocar. Acalmava sua alma, embora nunca tivesse confidenciado isso aos seus amigos. Flavian, sem dúvida, faria um comentário comparando seus acordes ao arrastar das botas a todos que estivessem ao alcance de sua voz. O principal problema com a casa era que ele estava aflito com tantos parentes do sexo feminino e sem o suficiente do sexo masculino, e nenhum homem no comando. Sua avó e sua mãe viviam com ele, e suas três irmãs, embora casadas, com suas próprias casas e famílias, vinham para ficar, com demasiada frequência, e muitas vezes por períodos longos. Quase um mês se passara sem pelo menos uma delas estar na residência por alguns dias, uma semana ou mais. Seus cunhados, quando vinham com suas esposas, o que não era sempre, com muito tato, mantinham-se distantes dos assuntos de Vincent e


permitiam às suas mulheres governar sua vida mesmo que, digno de nota, nenhum deles permitisse que suas esposas governassem as deles. Tudo teria sido compreensível, mesmo em circunstâncias normais, Vincent supôs de má vontade. Ele era, afinal, o único neto, o único filho, o único irmão, e o mais novo, e, como tal, era justo que o protegessem, mimassem, se preocupassem e planejassem. Herdara seu título e fortuna há apenas quatro anos, com a idade de dezenove, a partir de um tio que havia sido saudável e tinha apenas 46 anos quando morreu tendo um filho tão resistente e apto como ele. Ambos morreram violentamente. A vida era um negócio frágil, bem como a herança, parentes de Vincent do sexo feminino gostavam de observar. Convinha, portanto, que enchesse o berçário com um herdeiro e um número de sobressalentes assim que fosse humanamente possível. Era irrelevante que ainda fosse muito jovem e não tivesse sequer começado a pensar em matrimônio, se deixado por sua conta. Sua família sabia tudo o que importava sobre a vida. Suas circunstâncias não eram normais, no entanto, e como resultado, seus parentes caíram sobre ele como um bando de galinhas chocas decididos a nutrir o mesmo pintinho frágil enquanto, de alguma forma, evitavam sufocá-lo. Sua mãe tinha-se mudado para Middlebury Park, em Gloucestershire, mesmo antes dele. Ela tinha-o deixado pronto para ele. Sua avó materna tinha deixado expirar o arrendamento de sua casa em Bath e se juntara à sua mãe lá. E depois que ele se mudou, há três anos, as irmãs começaram a encontrar Middlebury o lugar mais fascinante na terra. E Vincent não precisava se preocupar com seus maridos se sentindo negligenciados, lhe haviam assegurado coletivamente. Seus ―compreensivos‖ maridos. A palavra foi sempre dita na forma de reverência silenciosa. Na verdade, tudo o que se dizia a ele era feito da mesma maneira, como se fosse uma espécie de criança querida, mas mentalmente deficiente.


Este ano, elas haviam começado a falar claramente sobre casamento. Ou melhor, seu casamento. Mesmo para além da questão da sucessão, o casamento lhe traria conforto e companheirismo, elas tinham decidido, e todos os tipos de outros benefícios. O casamento iria permitir-lhes relaxar e se preocupar menos com ele. Permitiria à sua avó voltar para Bath, de onde ela sentia falta. E não seria nada difícil encontrar uma senhora disposta e até ansiosa para casar com ele. Ele não deveria imaginar que seria. Era titulado e rico, afinal de contas. E tinha juventude, aparência e charme. Havia multidões de senhoras lá fora que ―entenderiam‖ e realmente estariam muito felizes de se casar com ele. Elas rapidamente aprenderiam a amá-lo por si mesmo. Pelo menos ―uma‖ poderia, aquela que ele escolhesse. E elas, suas parentes do sexo feminino, o ajudariam a fazer essa escolha, é claro. Embora não tenham dito, era o que pensavam. A campanha tinha começado durante a Páscoa, quando toda a família estava em Middlebury, os maridos de suas irmãs e seus filhos incluídos. O próprio Vincent tinha acabado de voltar de Penderris Hall, na Cornualha, casa de campo do Duque de Stanbrook, onde passava algumas semanas de cada ano com seus colegas, do autointitulado Clube dos Sobreviventes, um grupo de sobreviventes das guerras napoleônicas, e se sentia um pouco despojado, como sempre acontecia por um tempo após a separação daqueles amigos mais queridos do mundo. Ele tinha deixado que as mulheres falassem sem prestar muita atenção ou talvez até mesmo pensando em assentar. Isso provou ser um erro. Apenas um mês depois da Páscoa suas irmãs, cunhados, sobrinhas e sobrinhos haviam retornado em massa seguidos, um ou dois dias mais tarde, por hóspedes. Ainda era apenas primavera e um momento estranho do ano para uma festa campestre, quando a estação social em Londres estava apenas começando, em pleno andamento. Mas esta não era realmente uma festa, Vincent tinha logo descoberto. Os únicos hóspedes que não faziam parte da família eram o Sr.


Geoffrey Dean, filho da melhor amiga de sua avó em Bath, sua esposa e suas três filhas. Seus dois filhos estavam fora, na escola. Duas das filhas ainda estavam na sala de aula, sua governanta também viera com eles. Mas a mais velha, senhorita Philippa Dean, tinha quase dezenove anos, fizera sua reverência à rainha apenas um par de semanas antes e garantira parceiros fixos em cada passeio e bailes. Ela tinha tido, de fato, uma estreia muito satisfatória na sociedade. Mas a Sra. Dean se adiantara a descrever o triunfo de sua filha durante o chá, logo após a sua chegada a Middlebury Park, e como poderiam ter resistido à perspectiva de passar um par de semanas calmas no campo com velhos amigos? Velhos amigos? A situação logo tinha se tornado dolorosamente clara para Vincent, embora ninguém se preocupasse em explicar. A senhorita Philippa Dean estava no mercado de casamento para o maior lance. Ela tinha irmãs mais novas que estreariam após ela e dois irmãos na escola que poderiam, certamente, desejar continuar seus estudos na universidade. Parecia improvável que os Deans fossem imensamente ricos. Eles tinham vindo, então, no entendimento claro de que havia um marido para a menina em Middlebury e que ela voltaria para Londres com toda a distinção de ter sido prometida no mês de sua estreia. Seria um triunfo singular, especialmente porque ela teria garantido um marido que era, ao mesmo tempo, rico e titulado. E que também passara a ser cego. A senhorita Dean era primorosamente adorável, sua mãe informara, com cabelos loiros, olhos verdes e uma bonita figura. Não que sua aparência fosse importante para ele. Ela soava como uma menina doce e amável. Ela também parecia bastante sensata quando conversava com todos, exceto com o próprio Vincent. No entanto, várias vezes ela estivera conversando


com ele nos dias seguintes. Todas as outras mulheres na casa, com a possível exceção de três jovens sobrinhas de Vincent, fizeram tudo em seu poder para deixar os dois juntos. Até um cego poderia ver isso. Ela conversara com ele sobre trivialidades com uma voz suave, um pouco sem fôlego, como se estivesse em uma enfermaria e o paciente estivesse precariamente suspenso entre a vida e a morte. Sempre que Vincent tentava dirigir a conversa para algum tema significativo, a fim de descobrir algo de seus interesses, pareceres e da qualidade de sua mente, ela invariavelmente concordava plenamente com tudo o que ele dissesse, até mesmo ao ponto do absurdo. — Sou firmemente de opinião — ele disse a ela uma tarde quando estavam sentados juntos em um banco nos jardins formais diante da casa, apesar de uma brisa bastante forte — que o mundo científico tem estado em uma conspiração maldosa contra as massas pelos séculos passados, senhorita Dean, a fim de nos convencer de que a Terra é redonda. É, naturalmente, inegavelmente plana. Mesmo um tolo poderia ver isso. Se caminharmos até a borda da mesma, podemos cair e nunca ser ouvidos de novo. Qual é sua opinião? Foi indelicado. Foi um pouco maldoso. Ela ficou em silêncio por alguns momentos, enquanto ele queria que ela o contradissesse. Ou risse dele. Ou o chamasse de idiota. Sua voz era mais suave do que nunca quando falou. — Tenho a certeza de que está certo, meu senhor — disse ela. Ele quase disse "Bobagem!", mas não o fez. Não gostaria de acrescentar crueldade à indelicadeza. Apenas sorriu, se sentindo envergonhado de si mesmo, e falou sobre o vento tempestuoso. E então sentiu os dedos de uma das mãos na manga, e pôde sentir o leve perfume floral do cheiro dela de forma mais clara, uma indicação de que se


aproximara mais, e ela falou de novo — com uma voz doce, apressada, sem fôlego. — Não me importei de todo em vir aqui, você sabe, Lorde Darleigh — disse. — Apesar de ter estado ansiosa pela minha primeira temporada em Londres e não me lembro de alguma vez ter sido mais feliz do que estava na noite de meu baile de apresentação. Mas sei o suficiente sobre a vida para entender que fui levada para lá não apenas pelo divertimento. Mamãe e papai explicaram a oportunidade maravilhosa que este convite é para mim, assim como para os meus irmãos e irmãs. Não me importei de vir, verdadeiramente. Na verdade, vim de bom grado. Entendo, você percebe, e não me importei nem um pouco. Seus dedos apertaram o braço dele antes de deixá-lo ir. — Você vai achar que sou atirada, — ela acrescentou — embora não seja normalmente tão franca. Apenas pensei que você precisava saber que não me importo. Porque, talvez, você tema que sim. Foi um dos mais terrivelmente constrangedores momentos da vida de Vincent, bem como foi quase insuportavelmente irritante. Não que ela o enfurecesse, pobre garota. Mas seus pais o fizeram. Sua mãe, avó e irmãs o fizeram. Era bastante óbvio para ele que a senhorita Dean tinha sido trazida aqui não apenas como uma jovem elegível a quem ele poderia conhecer, com a possibilidade de ambas as partes aprofundarem seu conhecimento no futuro, se eles gostassem um do outro. Não, ela tinha sido trazida para cá na esperança de que ele fizesse uma oferta antes de ela partir. A pressão teria sido exercida por seus pais, mas ela era uma filha obediente, ao que parecia, e aceitou sua responsabilidade como a mais velha. Ela se casaria com ele mesmo que fosse cego. Ela, obviamente, se importava.


Ele estava zangado com sua mãe e irmãs por suporem que deficiência mental era um efeito da cegueira. Ele sabia que elas desejavam que se casasse em breve. Sabia que iriam fazer de casamenteiras para ele. O que ele não sabia era que elas iriam escolher sua noiva, sem uma palavra para ele e, em seguida, praticamente forçá-lo a aceitar sua escolha e em sua própria casa, por sua vez. Sua casa, na verdade, não era a sua própria casa, a conclusão veio como uma epifania. Nunca tinha sido. De quem era a culpa era o que devia ser examinado em alguma data futura. Era tentador culpar seus parentes, mas... Bem, ele teria que pensar sobre todo o assunto. Ele tinha uma suspeita mesquinha, no entanto, que, se não era o chefe, a culpa era dele. Mas, por enquanto estava em uma situação impossível. Não sentira nenhuma centelha de atração pela senhorita Dean, mesmo que ele acreditasse que, muito provavelmente, gostaria dela em circunstâncias diferentes. Estava claro que ela nada sentia por ele, mas tinha a obrigação de se casar com ele. Ele não podia, no entanto, permitir que os dois fossem coagidos a fazer o que nenhum deles queria. Assim que retornaram para o interior da casa, senhorita Dean tomou o braço oferecido e, em seguida, passou a orientá-lo com instruções suaves, mas firmes, embora ele tivesse sua bengala com ele e soubesse o caminho perfeitamente bem sem qualquer assistência, Vincent foi para sua sala de estar privada, o único lugar na casa onde poderia ter a certeza de estar sozinho e de ser ele mesmo, e convocou Martin Fisk. — Estamos indo — disse ele abruptamente quando seu criado chegou.


— Estamos, senhor? — Perguntou Martin alegremente. — E que roupas vamos precisar para a ocasião? — Vou precisar de tudo o que couber no baú, o que sempre levo a Penderris — disse Vincent. — Você, sem dúvida, vai decidir por si mesmo o que precisa. Um baixo grunhido foi seguido de silêncio. — Estou me sentindo especialmente estúpido hoje — disse Martin. — É melhor explicar. — Estamos indo — disse Vincent. — Partindo. Pondo tanta distância entre nós e Middlebury quanto nos for possível, a fim de evitar a perseguição. Escapando. Fugindo. Tomando o caminho do covarde. — A senhora não é adequada, não é? — Perguntou Martin. Ha! Mesmo Martin sabia por que a menina tinha sido trazida. — Não como uma esposa — Vincent disse a ele. — Não como minha esposa, de qualquer modo. Bom Deus, Martin, eu nem quero me casar. Ainda não. E se e quando eu quiser, eu mesmo devo escolher a dama. Com muito cuidado. E vou ter certeza de que, se ela disser que sim, não será simplesmente porque entende e não vai se importar. — Hmm — disse Martin. — Isso foi o que ela disse, não é? — Com a mais macia, mais suave doçura — disse Vincent. — Ela é doce e suave, na verdade. Ela está preparada para se fazer de mártir pelo bem de sua família. — E nós estamos fugindo para onde? — Perguntou Martin. — Para qualquer lugar na Terra, que não seja aqui — disse Vincent. — Podemos sair esta noite? Sem que ninguém saiba?


— Eu cresci em uma ferraria — Martin lembrou. — Acho que poderia conseguir atrelar os cavalos à carruagem sem emaranhar irremediavelmente os arreios. Mas, presumivelmente, não terei que arriscar. Suponho que vai querer Handry para nos levar? Vou ter uma conversa com ele. Ele sabe como manter seus lábios selados. Duas horas da manhã, digamos assim? Eu virei e transportarei seu baú para fora e depois voltarei para vesti-lo. Devemos estar a caminho por volta das três. — Perfeito — disse Vincent. Estavam a cerca de uma milha de distância quando Martin, ocupando o assento oposto a Vincent na carruagem, de costas para os cavalos, informou que eram três horas. Vincent recusou-se a se sentir culpado, e, claro, não estava consumido por nada mais além de culpa. E pela convicção de que era o mais mal-educado e covarde do mundo, para não mencionar pior filho, irmão e neto. E cavalheiro. Mas, realmente, o que mais ele poderia ter feito além de se casar com a senhorita Philippa Dean ou humilhá-la publicamente? Mas ela não seria igualmente humilhada ao saber que ele havia fugido? Arrghh! Decidiu acreditar que por trás de qualquer humilhação momentânea ela poderia sentir um enorme alívio. Tinha certeza que ela ficaria aliviada, pobre garota. Eles foram para Lake District e passaram três semanas felizes lá. O lugar tinha a reputação de ser uma das partes mais bonitas da Inglaterra, embora muito de sua beleza fosse perdida para um homem cego, é claro. Não tudo, no entanto. Houve trilhas para passear ao longo do campo, muitas delas paralelas às margens do Lago Windermere ou de alguns outros lagos menores. Houve


montanhas para escalar, algumas delas exigindo um esforço extenuante, ventos mais fortes e ar mais rarefeito como uma recompensa quando subiam até o alto. Houve chuva, luz do sol, frio e calor, toda a maravilhosa variedade de clima Inglês no campo. Houve um passeio de barco, onde ele podia puxar os remos ele mesmo, e passeios a cavalo, com Martin ao seu lado, mas nunca o tocando. Houve até mesmo um glorioso galope através da terra plana que, na avaliação cuidadosa de Martin, não escondia nenhuma depressão inesperada ou buracos. Havia canto dos pássaros, insetos, coaxares, balido de ovelhas e mugido de gado para ouvir. Havia uma infinidade de cheiros do campo, mais notavelmente da urze, muitos dos quais ele esquecera nos dias em que podia ver. Não estava sentado para meditar ou simplesmente para desenvolver os quatro sentidos que lhe restavam. Havia seu fortalecimento habitual, exercícios de musculação realizados diariamente, muitos deles ao ar livre. Havia paz. E, finalmente, houve inquietação. Ele havia escrito duas cartas para casa — ou melhor, Martin tinha feito isso para ele, nos dois primeiros dias depois que partiram, para explicar que ele precisava de um tempo sozinho e que estava perfeitamente seguro nas mãos capazes de seu valete. Não tinha explicado nem onde estava no momento ou para onde estava indo. Aconselhou a mãe a não o esperar em casa por um mês ou mais. Confirmou tudo na segunda carta e assegurou-lhe que estava seguro, feliz e com boa saúde. A senhorita Dean, seus pais e irmãs presumivelmente teriam retornado a Londres a tempo de garantir-lhe algum outro marido elegível antes que a temporada terminasse. Vincent esperava que ela encontrasse alguém que


atendesse às exigências do dever e da inclinação pessoal. Sinceramente esperava que sim, tanto para o bem dela como para o bem de sua consciência. Podia ir para casa, decidiu finalmente. Os Deans estariam muito longe. Bem como, provavelmente, suas três irmãs. Ele seria capaz de ter uma conversa franca com sua mãe e sua avó. Já era tempo. Iria assegurar-lhes que estava mais do que feliz em tê-las vivendo em Middlebury, onde sabia que elas estavam confortáveis e seguras. Ou ficaria igualmente feliz se quisessem se mudar para Bath. A escolha deveria ser delas, mas não deveriam se sentir compelidas a ficar por sua causa. Ele não precisava delas, explicaria tão diplomaticamente quanto fosse possível. Não precisava da ajuda delas na sua vida cotidiana. Martin e o resto de seus serviçais eram perfeitamente capazes de suprir todas as suas necessidades. Nem precisava da ajuda delas para encontrar-lhe uma noiva que fizesse sua vida mais confortável. Ele mesmo encontraria uma esposa quando julgasse que era tempo. Não seria fácil conseguir que sua mãe aceitasse a verdade do que ele dizia. Ela havia se dedicado a aprender a ser dona de uma grande casa e propriedade, e o tinha feito superlativamente bem. Muito bem, na verdade. No momento que ele tinha chegado a Middlebury, um ano após ela, tinha se sentido como um menino voltando da escola para os cuidados de sua mãe. E porque ela se tinha acalmado a ver-se nesse papel, e porque sua nova casa e sua nova vida o tinham desnorteado, até mesmo o esmagado, desde o início não tinha feito um esforço suficientemente forte para afirmar-se como o homem da casa. Tinha apenas 20 anos de idade, depois de tudo. Considerou voltar à Cornualha por um tempo para ficar com George Crabbe, Duque de Stanbrook, como tinha feito por algumas semanas em março, e por alguns anos após seu retorno para casa vindo da Península, depois de


perder a visão na batalha. George era seu amigo muito querido. Mas, embora não tivesse dúvidas de que o duque iria recebê-lo e permitir-lhe ficar o tempo que quisesse, Vincent não iria usá-lo como uma muleta emocional. Não mais. Esses dias, e essas necessidades, ficaram no passado. Seus anos de dependência eram passado. Era hora de crescer e assumir o controle. Não ia ser fácil. Mas há muito tempo ele havia percebido que deveria tratar sua cegueira como um desafio e não como uma desvantagem, se quisesse desfrutar de qualquer coisa como uma vida feliz e realizada. Mais cedo ou mais tarde, então, deveria retornar para Middlebury Park e começar a vida que pretendia viver. No entanto, ainda não se sentia completamente pronto. Tinha pensado muito em Lake District, e precisava pensar mais para que não voltasse e simplesmente caísse de novo na velha rotina, a partir da qual nunca seria capaz de libertar-se. No entanto, tinha terminado com Lake District. Estava inquieto. Onde mais iria, senão para casa? A resposta veio a ele com uma facilidade surpreendente. Claro. Iria para o ... lar. Middlebury Park era apenas o lugar no qual tinha vivido durante os últimos três anos, a casa senhorial que havia herdado com seu título e onde não tinha posto o pé até três anos atrás. Era muito grande, e ele gostara bastante. Estava determinado a voltar lá e torná-lo seu próprio lar. Mas ainda não era realmente seu lar. Seu lar era Covington House, onde crescera, uma habitação bem mais modesta, na verdade não muito maior que uma casa de campo, nos arredores da aldeia de Barton Coombs em Somerset.


Não tinha ido lá há quase seis anos. Não desde que partira para a Península, na verdade. Agora, teve um desejo súbito de voltar, mesmo que não fosse capaz de vê-la. Tinha recordações felizes. Seus anos de infância e juventude tinham sido bons, apesar da quase pobreza em que tinham vivido mesmo antes da morte de seu pai, quando ele tinha quinze anos. — Estamos indo para casa — anunciou a Martin uma manhã depois do café. Ouvia as gotas de chuva contra as janelas da pequena casa que ele alugara por um mês em Windermere. — Não Middlebury, no entanto. Para Barton Coombs. — Mhmm — Martin disse evasivamente enquanto recolhia os pratos da mesa. — Você ficará feliz? — Perguntou Vincent. Martin também era de Barton Coombs. Seu pai era o ferreiro da aldeia. Os dois rapazes tinham ido à escola juntos, já que não havia dinheiro para a educação privada de Vincent, apesar do fato de que, socialmente, era um cavalheiro. O ferreiro sonhava ter um filho que soubesse ler e escrever. Vincent aprendera suas lições, como suas irmãs, a partir de seu próprio pai, que fora o professor. Muitas vezes ele e Martin tinham brincado juntos. Assim como a maioria das crianças da vizinhança, independentemente da posição social, situação financeira, sexo ou idade. Tudo tinha sido bastante idílico. Um abastado tio materno de Vincent tinha voltado de uma longa estada no Extremo Oriente, quando ele tinha dezessete anos, e comprara uma comissão para seu sobrinho. Martin, após ouvir a notícia, chegara a Covington House, com seu chapéu na mão, para perguntar se poderia ir também como batedor de


Vincent. Essa posição não durou muito tempo, como se viu. Vincent havia perdido a visão durante a sua primeira batalha. Mas Martin tinha ficado com ele como seu criado, mesmo durante os primeiros anos, quando Vincent não tinha sido capaz de pagá-lo. Ele tinha-se recusado teimosamente a se afastar. — Minha mãe ficará feliz em me ver — disse Martin. — Assim como meu pai, embora, sem dúvida, vá fazer o habitual gracejo à sua bigorna sobre seu primeiro e único filho ter escolhido ser valete de um cavalheiro. E assim, eles foram. Viajaram durante toda a última noite da jornada, cansados como estavam, e chegaram a Covington House na primeira luz, ou assim que Martin o informou. Porém Vincent teria percebido por si mesmo, assim que o carro parou de se mexer e a porta foi aberta. Podia ouvir alguns pássaros cantando com clareza, que era peculiar ao período da madrugada. E o ar trazia-lhe uma sensação refrescante, que sugeria um fim de noite, mas não bem um início de dia. Não havia necessidade real de sigilo, exceto Vincent preferir que ninguém soubesse que estava em Covington House, pelo menos por um tempo. Não queria ser uma curiosidade para velhos amigos e vizinhos. Não queria que caminhassem até sua porta para prestar seus respeitos e satisfazer a curiosidade sobre como um cego parecia. E ele não queria ninguém escrevendo para sua mãe e esta viesse correndo para cuidar dele. Provavelmente não iria ficar muito tempo, de qualquer modo. Só precisava de tempo suficiente para colocar seus pensamentos em ordem. Uma chave de casa sempre tinha sido mantida acima do lintel, no interior no barracão atrás da casa.


Vincent enviara Handry para ver se ainda estava lá. Se não estivesse, então Martin iria ter que escalar através da janela da adega. Era muito duvidoso que alguém tivesse pensado em remendar as vigas nos últimos seis anos, uma vez que nunca tinham sido remendadas ao longo da infância de Vincent. Na verdade tinha sido uma regular rota de fuga e retorno no meio da noite. Handry voltou com a chave. Ela parecia um pouco enferrujada, relatou ele, mas encaixou na fechadura da porta da frente e girou com um som de moagem e um pouco de persuasão. A porta se abriu. Vincent descobriu que a casa não cheirava a mofo nem a abandono, apesar de estar fechada. A faxineira a quem pagava para vir uma vez por quinzena devia estar fazendo um trabalho consciencioso. Havia porém um cheiro algo indefinível, que trouxe de volta memórias de infância, de sua mãe e suas irmãs quando todos viviam aqui. Mesmo leves lembranças de seu pai. Era estranho que nunca tivesse percebido o cheiro enquanto vivia aqui, talvez porque não precisasse perceber cheiros naqueles dias. Ele reconheceu o hall com a ajuda de sua bengala. A mesa de carvalho velho ainda estava onde sempre estivera, em frente à porta, o bengaleiro ficava ao lado dela. Ambos estavam cobertos com capas. — Conheço esta casa como a palma da minha mão — disse Martin, puxando a capa e colocando sua bengala junto ao bengaleiro. — Estou indo explorá-la sozinho. E então vou deitar no meu quarto por uma ou duas horas. Uma carruagem não foi projetada para dormir, não é? — Não quando se tem que viajar por estradas inglesas, — Martin concordou — não havendo qualquer alternativa que eu conheça. Vou ajudar Handry com os cavalos. Depois vou levar as suas malas para dentro. Uma coisa que Vincent particularmente gostava em Martin Fisk era que ele se importava com todas as suas necessidades sem espalhafato e arrogância.


O melhor de tudo era o fato de que não o rodeava. Se Vincent ocasionalmente esbarrasse na parede ou na porta, ou tropeçasse num objeto que se encontrava em seu caminho, ou até mesmo, de vez em quando, caísse num lance de degraus ou, em uma memorável ocasião, de cabeça em uma lagoa de lírios, em seguida Martin estaria lá para lidar com quaisquer cortes, arranhões e outras consequências variadas, e para fazer comentários apropriados ou inapropriados, sem qualquer sentimento dissimulado em sua voz. Ainda que ocasionalmente, já dissera a seu amo que era um idiota desajeitado. Era melhor, ah, infinitamente melhor, do que o cuidado solícito com que quase todos os outros conhecidos o sufocavam. Ele era um maldito ingrato, sabia disso. Na verdade, seus colegas do Clube dos Sobreviventes o tratavam da mesma forma que Martin. Era uma das razões por que amava tanto sua estadia anual em Penderris. Mas todos os sete tinham sido gravemente feridos nas guerras e ainda tinham cicatrizes dentro, fora ou ambos. Eles entendiam as frustrações de cuidados sufocantes. Quando ficou sozinho na casa, fez seu caminho para a sala de estar à sua esquerda, o lugar em que toda a vida diurna tinha acontecido. Tudo estava como ele se lembrava e onde se lembrava, exceto pelo fato de que todos os móveis estavam cobertos. Foi para a sala de estar maior e menos utilizada do que a outra. Às vezes tinha dançado nessa sala. Oito casais tinham sido capazes de dançar uma quadrilha com algum conforto, dez com um pouco menos conforto, doze em um aperto. Havia um piano nesta sala. Vincent encontrou o caminho até ele. Como tudo mais, estava escondido debaixo de uma capa. Ficou tentado a retirá-la para


levantar a tampa sobre o teclado e tocar. Mas o instrumento devia estar terrivelmente desafinado. Era estranho que nunca tivesse aprendido a tocar quando era um rapaz. Ninguém tinha pensado em sugerir que ele poderia. O piano era um instrumento de tortura peculiarmente próprio para as meninas, ou assim Amy, sua irmã mais velha, tinha sempre alegado. Estranhamente, agora que estava aqui, perdera todas as três. E sua mãe. Mesmo seu pai, que tinha ido embora há oito anos. Perdera aqueles dias despreocupados de sua infância e juventude. E não tinha sido há muito tempo. Ele tinha apenas vinte e três anos agora. Vinte e três que pareciam cinquenta. Ou setenta. Suspirou e decidiu deixar a capa onde estava. Mas estando ali ao lado do piano, as mãos apoiadas sobre ele, a cabeça inclinada, de repente foi assaltado por uma onda familiar de pânico. Sentiu o sangue escoar de sua cabeça, deixando-a fria e úmida. Sentiu o ar frio em suas narinas e tão ralo que não parecia o suficiente para inalar. Sentiu todo o terror das trevas sem fim, a certeza de que, se fechasse os olhos, como fez agora, e os abrisse novamente, como não fez, ainda estaria cego Para todo o sempre. Sem nenhum indulto. Sem luz. Nunca. Lutou para controlar sua respiração, sabendo de longa experiência de tais episódios que, se perdesse o controle, logo sentiria falta de ar, perderia a


consciência até que retornasse de seu desmaio, talvez sozinho, talvez, muito pior, com alguém pairando sobre ele. Mas ainda cego. Manteve os olhos fechados. Contou sua respiração novamente, tentando concentrar-se, excluindo todos os pensamentos que surgiam e fervilhavam em sua mente. Inspira. Expira. Depois de um tempo abriu os olhos de novo e afrouxou o aperto sobre o piano. Levantou a cabeça. Seria um condenado, pensou, antes de permitir que a escuridão invadisse seu ser interior. Seria o suficiente para que ele ficasse fora de si para todos os tempos. Sua própria estupidez na batalha havia causado as trevas. Não seria tomado pela loucura da juventude, permitindo que a luz que estava dentro dele se apagasse. Viveria sua vida. Iria vivê-la plenamente. Iria fazer algo dela e de si mesmo. Não iria ceder à depressão ou desesperança. Ele não iria, por Deus. Estava desesperadamente cansado. Esse era o problema, ele supôs, e seria facilmente resolvido. Iria se sentir melhor depois de um pouco de sono. Continuaria sua exploração da casa depois disso. Encontrou a escadaria sem nenhum problema. Encontrou o caminho até ela sem contratempos. Achou seu quarto sem ter que tatear seu caminho ao longo da parede. Tinha feito isso na escuridão em numerosas ocasiões quando saía furtivamente de casa e retornava antes do amanhecer. Girou a maçaneta da porta e entrou no quarto. Esperava que houvesse pelo menos cobertores na cama. Estava cansado demais para se preocupar com lençóis. Mas quando encontrou a cama, descobriu que estava arrumada como se fosse esperado, e lembrou sua mãe dizendo que tinha deixado instruções com a


faxineira quinzenal, de que a casa deveria sempre ser mantida pronta para a chegada inesperada de um membro da família. Tirou o casaco, as botas e a gravata e deitou-se com gratidão entre os lençóis. Sentia como se pudesse dormir por uma semana. Talvez fosse passar uma semana ali, sozinho e tranquilo neste ambiente dolorosamente familiar, livre de qualquer outra companhia que não a de Martin. Deveria ser tempo suficiente para fixar com a cabeça firmemente em seus ombros para poder voltar à Middlebury Park para viver e não apenas deixar a vida o levar. Havia dado instruções de que a carruagem fosse escondida sem demora. Dissera a Martin para informar qualquer pessoa que encontrasse de que ele tinha vindo sozinho para visitar seus pais na ferraria e que seu patrão lhe havia dado permissão para ficar em Covington House. Martin teria de dizer apenas a uma pessoa e dentro de uma hora todos saberiam. Ninguém saberia que ele estava ali também. Tudo parecia felicidade. Adormeceu antes que pudesse desfrutar da sensação.


Capítulo Dois A chegada de Vincent não tinha passado despercebida. Covington House era o último prédio em uma extremidade da rua principal que atravessava a aldeia. Do lado mais distante dela ficava uma colina baixa, coberta de árvores. Havia uma jovem mulher naquela colina e entre as árvores. Ela vagava em todos os momentos do dia sobre a paisagem circundante a Barton Hall, onde morava com sua tia e tio, Sir Clarence e Lady March, embora muitas vezes não saísse tão cedo. Mas esta manhã acordara quando ainda estava escuro e tinha sido incapaz de voltar a dormir. Sua janela estava aberta, e um pássaro com um canto particularmente estridente, obviamente não tinha notado que o amanhecer ainda não chegara. Então, ao invés de fechar a janela e subir de volta para a cama, se vestira e saíra, mesmo com o ar frio da manhã, porque havia algo raro e belo sobre a observação do afastamento da escuridão para o raiar de mais um dia. E ela veio aqui em particular porque as árvores abrigavam dezenas, talvez centenas de aves, muitas com cantos mais doces do que a que a tinha acordado, e sempre cantavam mais efusivamente quando anunciavam um novo dia. Ela ficou muito quieta para não perturbá-las, com as costas contra o tronco robusto de uma árvore de faia, com os braços para trás, também apoiados na árvore, para desfrutar de sua textura áspera através de suas luvas finas, tão finas, de fato, que o polegar esquerdo e o dedo indicador direito já estavam completamente gastos. Bebeu na beleza e paz de seus arredores e ignorou o frio


que penetrou seu manto surrado, quase como se não o estivesse vestindo, fazendo seus dedos formigarem. Baixou os olhos para Covington House, seu prédio favorito em Barton Coombs. Não era nem uma mansão nem uma casa de campo. Não era mesmo uma mansão. Mas era grande, quadrada e sólida. Estava deserta e tinha estado desde antes de sua chegada, há dois anos. Era a propriedade da família Hunt, sobre a qual ela ouvira muitas histórias, talvez por Vincent Hunt, o único filho, ter inesperadamente herdado um título e uma fortuna há alguns anos atrás. Era coisa de contos de fadas, exceto por um componente triste, como em muitos contos de fadas. Gostava de olhar para a casa e imaginar como era quando os Hunt viviam lá, o professor distraído, mas muito amado, sua ocupada esposa, três filhas bonitas, e seu exuberante e atlético filho travesso, que sempre era o melhor em todos os esportes que praticava, sempre à frente nas apostas, e sempre adorado por jovens e velhos igualmente, exceto pelos Marches, contra os quais suas brincadeiras eram mais frequentemente dirigidas. Gostava de pensar que se tivesse vivido aqui, teria sido amiga das meninas e, talvez, até mesmo de seu irmão, embora todos eles fossem mais velhos que ela. Gostava de se imaginar correndo dentro e fora de Covington House sem sequer bater à porta, quase como se pertencesse ao lugar. Gostava de imaginar que teria frequentado a escola da aldeia com todas as outras crianças, exceto Henrietta March, sua prima, que tinha sido educada em casa por uma governanta francesa. Ela era Sophia Fry, embora seu nome raramente fosse utilizado. Era conhecida por seus parentes, quando era conhecida como alguma coisa, e talvez por seus servos também, como a rata. Morava em Barton Hall, em sofrimento, porque não havia outro lugar para ela ir. Seu pai estava morto; sua mãe os tinha deixado há muito tempo e já morrera; seu tio, Sir Terrence Fry, nunca tivera nada a ver nem com ela ou com seu pai; e a mais velha de suas tias paternas, a


quem tinha sido enviada pela primeira vez após a morte de seu pai, tinha morrido há dois anos. Sentia, por vezes, que habitava uma terra de ninguém, entre a família e os servos em Barton Hall, que notadamente não pertencia a nenhum dos grupos, aos quais não importava. Se consolava com o fato de que sua invisibilidade dava-lhe alguma liberdade, pelo menos. Henrietta sempre foi resguardada por empregadas domésticas, acompanhantes, uma mãe e um pai vigilantes, cuja única ambição para ela era que se casasse com um cavalheiro titulado, de preferência rico, apesar de não ser uma qualificação essencial, pois Sir Clarence era um homem rico. Henrietta compartilhava as ambições de seus pais, com uma notável exceção. Os pensamentos de Sophia foram interrompidos pelo som de cavalos se aproximando da aldeia, e logo ficou evidente que estavam trazendo algum tipo de carruagem. Era muito cedo para viajar. Seria uma diligência, talvez? Ela rodeou o tronco da árvore e se escondeu atrás dele, embora fosse pouco provável que fosse ser vista. Sua capa era cinza, o chapéu de algodão indefinido, tanto no estilo como na cor, e ainda não era plena a luz do dia. Viu que era uma carruagem particular, uma muito rápida. Mas antes que ela pudesse tecer alguma história sobre como a carruagem passara ao longo da rua da aldeia e partira, ela desacelerou e se virou na curta entrada para Covington House. E parou diante das portas de entrada. Seus olhos se arregalaram. Poderia ser ...? O cocheiro saltou de seu poleiro, abriu a porta da carruagem e baixou os degraus. Um homem desceu quase imediatamente, um homem jovem, alto e bastante corpulento. Ele olhou ao redor e disse algo para o cocheiro, Sophia pôde ouvir o estrondo da sua voz, mas não o que ele disse. E então os dois se viraram para ajudar a um outro homem.


Ele desceu sem assistência. Desceu firmemente e sem hesitação. Mas foi imediatamente óbvio para Sophia que a bengala não era um mero acessório de moda, mas algo que ele usava para ajudá-lo a encontrar seu caminho. Ela respirou fundo e esperou, tolamente, que não fosse audível para os três homens de pé a alguma distância abaixo dela. Ele havia chegado, então, como todos disseram que faria. O cego Visconde Darleigh, uma vez Vincent Hunt, tinha voltado para casa. Sua tia e tio ficariam extasiados. Porque tinham a certeza de que, se e quando ele viesse, Henrietta se casaria com ele. Henrietta, por outro lado, não ficaria satisfeita. Por uma vez em sua vida, ela se opunha ao maior desejo de seus pais. Ela declarara mais de uma vez, na frente de Sophia, que preferia morrer uma solteirona de oitenta anos do que casar com um homem cego com um rosto arruinado, mesmo que ele fosse um visconde e muito mais rico que o pai dela. Visconde Darleigh, Sophia estava convencida de que o recém-chegado deveria ser ele, era claramente um homem jovem. Não era particularmente alto e tinha uma constituição leve, elegante. Se portava bem. Não se apoiava sobre a bengala ou apalpava o ar com sua mão livre. Era bonito, vestia-se elegantemente. Seus lábios se separaram enquanto ela olhava para ele. Ela se perguntou o quanto do velho Vincent Hunt ainda estava presente no cego Visconde Darleigh. Descera da carruagem sem assistência. Esse fato a agradou. Ela não podia ver seu rosto; o chapéu alto o escondia desde seu ponto de vista. Pobre cavalheiro. Ela se perguntava o quão desfigurado era.


Ele e o homem corpulento ficaram na calçada por alguns minutos, enquanto o cocheiro saiu caminhando até a parte de trás da casa e voltou com o que deveria ser a chave, pois se inclinou para a fechadura da porta da frente, e dentro de instantes ela se abria. O Visconde Darleigh subiu os degraus diante da porta, mais uma vez sem ajuda, e desapareceu no interior com o homem maior atrás dele. Sophia ficou observando por mais alguns minutos, mas não havia mais nada para ver, exceto o cocheiro levar o cavalo e a carruagem para os estábulos e à cocheira. Virou-se e tomou seu caminho de volta na direção de Barton Hall. Ainda estava completamente gelada. Decidiu que não contaria a ninguém que ele tinha chegado. De qualquer forma, ninguém nunca falava com ela ou esperava que ela fornecesse alguma informação ou opinião. Sem dúvida, todos saberiam em breve. Infelizmente para Vincent e sua esperança de uma estadia tranquila em Covington House, Sophia Fry não fora a única pessoa que observara sua chegada. Um lavrador, em seu caminho para ordenhar as vacas, teve a considerável sorte, da qual ele se gabaria aos seus colegas por vários dias, de testemunhar a chegada da carruagem do visconde Darleigh à Covington House. Ele tinha ficado, em detrimento das vacas que aguardavam, para ver Vincent Hunt, que descera após Martin Fisk, o filho do ferreiro. Por volta das sete horas da manhã, já havia contado à sua esposa, tendo corrido de volta para casa só para esse fim; ao seu bebê, que ficou profundamente desinteressado pela notícia importante; aos seus companheiros de trabalho; ao ferreiro e à sua esposa; e ao Sr. Kerry, que havia chegado cedo à ferraria, porque um de seus cavalos tinha perdido uma ferradura na noite anterior.


Por volta das oito, os trabalhadores agrícolas, e suas respectivas esposas, tinham contado a todos que conheciam, ou pelo menos àqueles de sua classe que haviam parado para saudar. O Sr. Kerry contara ao açougueiro e ao vigário e sua mãe idosa. A esposa do ferreiro, eufórica por seu filho estar de volta para casa na qualidade de valete do Visconde Darleigh, que fora Vincent Hunt, correra à padaria para reabastecer seu suprimento de farinha e contara ao padeiro, aos seus dois assistentes e a outros três clientes madrugadores. E o ferreiro, também explodindo de orgulho, mesmo que ele falasse meneando a cabeça, menosprezando o cargo de seu filho, o valete, contou a seu aprendiz quando este chegara atrasado para o trabalho e por uma vez não tivera que recitar uma ladainha de desculpas, a Sir Clarence March, e ao vigário, que ouvira a notícia pela segunda vez em um quarto de hora, mas parecera igualmente em êxtase em ambas as vezes. Por volta das nove, era difícil descobrir uma única pessoa dentro Barton Coombs, ou em um raio de três milhas em torno, que não soubesse que o visconde Darleigh, que fora Vincent Hunt, tinha chegado a Covington House quando mal tinha raiado o dia, e não havia saído desde então. Como ele chegara tão cedo, a senhorita Waddell comentara com a Sra. Parsons, a esposa do vigário, quando as duas se encontraram do outro lado da cerca viva que separava seus jardins, ele deveria ter viajado toda a noite e estaria desfrutando de um merecido descanso, pobre cavalheiro. Não seria bom chamálo muito cedo. Ela informaria ao comitê de recepção. Querido pobre cavalheiro. O vigário ensaiou seu discurso de boas-vindas e se perguntou se era demasiado formal. Pois, afinal, o Visconde Darleigh tinha sido apenas o radiante filho travesso do professor da aldeia. Porém era, além de tudo, um herói de guerra. E agora tinha esse título muito impressionante. Decidiu que era melhor errar do lado da formalidade, do que correr o risco de parecer excessivamente familiar.


A Sra. Fisk preparou os pãezinhos e os bolos que vinha planejando há semanas. Seu filho, seu único filho amado, voltara para casa, para não mencionar o Visconde Darleigh, aquele garoto inteligente e feliz, que tinha corrido solto com Martin e o arrastado para todos os tipos de travessuras, não que Martin precisasse ser arrastado. Pobre menino. Pobre cavalheiro. Ela fungou e enxugou uma lágrima com as costas da mão coberta de farinha. Às dez horas, as jovens senhoritas Granger invocaram a igualmente jovem senhorita Hamilton para descobrir o que ela planejava usar na assembleia, o que certamente aconteceria agora que Lorde Darleigh havia chegado. As três passaram a lembrar sobre o que fora Vincent Hunt, que havia ganho todas as corridas na festa anual da aldeia por uma milha, derrubado cada jogador de críquete da equipe adversária que teve a coragem e a audácia de cruzar o bastão contra ele e parecia muito bonito, com seus cachos louros sempre demasiado longos, seus olhos azuis e seu físico esbelto. E sempre oferecera seu sorriso encantador, mesmo para elas, apesar de serem apenas meninas na época. Ele sempre sorrira para todos. Essa última memória arrancou lágrimas de todas elas, pois agora o Visconde Darleigh nunca ganharia qualquer corrida ou taça em qualquer jogo de críquete ou pareceria bonito, ou talvez nem mesmo sorrisse para ninguém. Ele nem mesmo seria capaz de dançar na assembleia. Elas não poderiam conceber nenhum destino pior do que esse. Vincent teria ficado horrorizada se soubesse que, na verdade, sua chegada em Barton Coombs tinha sido esperada. Ou, se essa era uma palavra muito forte, então, pelo menos, tinha se parecido com uma ansiosa esperança e expectativa cautelosa. Vincent tinha esquecido dois fatos esmagadoramente significativos sobre sua mãe e suas irmãs. Um deles era que eram todas escritoras de cartas


inveteradas. A outra era que tinham muitos amigos em Barton Coombs e não tinham simplesmente abandonado esses amigos quando se afastaram. Elas podiam não poder visitá-los diariamente, como costumavam fazer, mas podiam escrever para eles. Sua mãe não tinha sido tranquilizada pelas duas notas que haviam chegado, rabiscadas pela mão deselegante de Martin Fisk. Ela não se sentara e esperara que seu filho voltasse para casa. Em vez disso, fizera tudo em seu poder para descobrir onde ele estava. A maioria de seus palpites ficaram bem longe do alvo. Mas um deles era que Vincent poderia voltar para Barton Coombs, onde passara sua infância e tinha sido feliz, onde tinha tantos amigos e tantos conhecidos amigáveis, onde ele ficaria confortável e poderia fazer muitas coisas. Na verdade, quanto mais pensava nisso, mais se convencia de que, se já não estivesse lá, ele iria acabar indo, mais cedo ou mais tarde. Ela escrevera cartas. Sempre escrevia cartas de qualquer maneira. Era natural para ela. E Amy, Ellen, e Ursula escreveram cartas também, embora elas não estivessem tão convencidas quanto a mãe, de que Vincent iria para Barton Coombs. Era mais provável que ele tivesse voltado para a Cornualha, onde sempre parecera ser tão feliz. Ou talvez ido à Escócia ou ao Lake District, onde poderia escapar de suas garras casamenteiras. Todas as três irmãs de Vincent lamentaram a forma agressiva com que tinham pressionado a senhorita Dean sobre ele. Ela, obviamente, não era para ele, ou ele para ela. Não havia escapado à sua observação de que ao invés de parecer mortificada quando foi descoberto que ele tinha ido embora, ela tinha sido duramente pressionada para não parecer abertamente aliviada. No entanto, a verdade era que, muito antes de Vincent chegar em Barton Coombs, não havia uma pessoa de lá que não soubesse, quase com certeza, que ele viria. A única questão que tinha causado ansiedade real era quando.


Todos, quase sem exceção, ficaram entusiasmados e a notícia se espalhara, pela aldeia e redondezas, de que a espera chegara ao fim. Ele estava ali. A exceção mais notável no clima geral de êxtase era Henrietta March. Ela estava horrorizada. — Vincent Hunt? — ela gritou. — Visconde Darleigh, meu amor — sua mãe a lembrou. — De Middlebury Park, em Gloucestershire — seu pai acrescentou. — Com uma renda de vinte mil por ano, numa estimativa moderada. — Com dois olhos cegos e um rosto deformado — Henrietta replicou. — Yeeuw! — Você não tem que olhar para ele — seu pai disse a ela. — Middlebury Park é grande o suficiente, foi o que ouvi. Muito maior do que aqui. E você precisa passar um tempo em Londres como uma elegante viscondessa. É o que se espera de você. Ele quase não iria com você, iria? E você gostaria de nos visitar aqui. Ele não vai querer vir muitas vezes para ser submetido a essa mulher Waddell a cada vez, para não mencionar o vigário e todos os outros bajuladores que vivem na vizinhança. A rata, que estava sentada no seu canto da sala de estar dos Marches remendando fronhas, olhou para ele atentamente e imprudentemente do outro lado da sala. Bajuladores? Outras pessoas? Seu tio não se olhara em um espelho ultimamente? Mas ela abaixou a cabeça rapidamente, antes que ele a notasse. Certamente não queria ser pega olhando, especialmente olhando incrédula. Além disso, ela precisava de seus olhos para cerzir. Ela particularmente não se importava de ser a rata no canto. Tinha, de fato, cultivado a invisibilidade na maior parte de sua vida. Enquanto sua mãe


ainda vivia com ela e seu pai, um tempo de que se lembrava apenas vagamente, tinha havido, quase diariamente, discussões noturnas e até mesmo brigas, a partir das quais ela havia se retirado para o canto mais escuro das salas em que ocorriam. E depois que sua mãe os deixou para nunca mais voltar, quando ela tinha cinco anos, tinha se mantido longe de seu pai quando ele chegava em casa embriagado, embora ele nunca tivesse sido um homem violento e isso não ocorresse com grande frequência. Mais frequentemente, era de seus amigos barulhentos que havia se escondido quando chegavam em casa com seu pai para festejar e jogar cartas em vez de ir a outro lugar. Eles tinham uma tendência a beliscá-la sob o queixo e sentá-la em seus joelhos quando ela era jovem, e sempre parecera mais jovem que sua idade. E então houve senhorios dos quais se esconder quando eles estavam fugindo de mais um conjunto de cômodos dos quais estavam em atraso no aluguel, e comerciantes e oficiais de justiça que vinham à procura de pagamento de diversas dívidas. Ela passara a maior parte de sua infância, de fato, tentando ser invisível e silenciosa, para que ninguém a notasse. Seu pai, o filho mais novo de um barão, tinha sido um daqueles cavalheiros que tinham aparência, charme e até mesmo inteligência de sobra, ele havia ensinado a filha a ler, escrever e raciocinar mas não tinha qualquer capacidade de lidar com a vida. Seus sonhos sempre foram tão grandes e vastos como o oceano, mas os sonhos não eram realidade. Eles não colocavam um teto permanente sobre suas cabeças ou um fornecimento regular de comida em seus estômagos. Sophia o adorava, apesar das bebedeiras ocasionais e tudo mais. Ela tinha se contentado em ser invisível para a tia Mary, a irmã mais velha de seu pai, a quem tinha sido enviada após a sua morte, embora ela tivesse quinze anos na época. À sua chegada, a tia Mary a tinha fitado da cabeça aos pés com um olhar de desprezo e pronunciado que era insuportável. Começara a


tratá-la adequadamente, tinha praticamente a ignorado, em outras palavras. Mas pelo menos tinha permitido que ela ficasse, e lhe tinha fornecido as necessidades básicas da vida. E ser ignorada era realmente melhor do que ser notada, a experiência lhe ensinara durante aqueles anos com a tia Mary. A única amizade que ela já tinha apreciado, o único romance que mexera com seu coração, tinha sido breve e intenso e, finalmente, quebrara sua alma. E, em seguida, a tia Mary morrera de repente, depois de Sophia ter vivido com ela por três anos, e Sophia fora levada por tia Marta, que nunca fingiu olhar para ela como algo mais do que uma empregada destacada que deveria, contudo, ser suportada para jantar e sentar-se com a família quando eles estavam em casa. Só muito ocasionalmente a tia Martha a chamava pelo nome. Sir Clarence não a chamava de qualquer coisa, exceto, às vezes, a rata. Henrietta parecia inconsciente até de sua própria existência. Mas ela não queria ser visível a qualquer um deles. Não gostava deles, mesmo que fosse grata por lhe darem uma casa. Sophia suspirou, tomando cuidado para não fazer barulho. Às vezes, quase poderia ter esquecido o seu próprio nome, se não fosse pelo fato de que ela era a rata até o fundo de sua pele, nem tão fundo, na verdade. No interior, ela não era uma rata. Mas ninguém sabia, exceto ela. Era um segredo divertido de guardar para si mesma. Só que às vezes se preocupava com o futuro, que se estendia longo e sombrio à sua frente, sem qualquer perspectiva de mudança, como o de muitos parentes pobres do sexo feminino em todos os lugares. Às vezes, desejava não ter nascido uma mulher, pois poderia ter procurado emprego após a morte de seu pai. Mas trabalhar não era considerado apropriado para senhoras, enquanto tivessem parentes para sustentá-las, pelo menos.


— O Visconde Darleigh estará, sem dúvida, mais do que feliz em se casar com você, Henrietta — disse Sir Clarence March. — Ele não é exatamente um marquês, herdeiro de um ducado, como Wrayburn, é verdade, mas ele é um visconde. — Papa, — Henrietta lamentou — seria intolerável. Mesmo para além do rosto destruído e os olhos cegos, o próprio pensamento de que ele é Vincent Hunt me faz sentir enjoada e deprimida. Eu não poderia me rebaixar assim. — Ele era Vincent Hunt — sua mãe lembrou. — Ele é agora Visconde Darleigh, meu amor. Há um mundo de diferença. Ainda me espanta que seu pai tenha vivido aqui todos esses anos como professor da aldeia, um professor não muito abastado, devo acrescentar, e nós nunca tenhamos suspeitado de que ele era o irmão mais novo de um visconde. Nós nunca poderíamos imaginar que o visconde e seu filho seriam amáveis o suficiente para morrer e deixar o título a Vincent Hunt. Por que eles enfrentaram uma quadrilha de salteadores, em vez de simplesmente abrir mão de seus objetos de valor, eu nunca vou entender. Mas foi sua boa sorte que eles o fizeram e foram baleados. Esta é uma oportunidade perfeita para você, meu amor, e irá permitir que mantenha sua cabeça erguida na sociedade novamente. " — Novamente? Ela nunca teve que baixar a cabeça — disse Sir Clarence acentuadamente, franzindo a testa para sua esposa. — Aquele desgraçado Wrayburn! Ele tentou comprometer nossa Henrietta no meio de um salão de baile lotado. Bem, ela lhe mostrou! Sophia não tinha estado presente naquele baile em particular. Ela nunca tinha estado presente em qualquer baile, aliás. Mas ela tinha estado em Londres, e ouvira o que acredita ser a verdadeira história sobre Henrietta e o Marquês de Wrayburn. Quando Henrietta e sua mãe se aproximaram dele no baile dos Stiles, ele virara as costas e fingira não vê-las chegando, fazendo uma observação em


voz alta para seu grupo no sentido de que, às vezes, era quase impossível evitar mamas determinadas e suas filhas patéticas. Depois de Henrietta ter passado meia hora na sala privativa de senhoras com sua mãe, quando esta última teve que ser reanimada com sais aromáticos e brandy, ela voltara com o fim de escapulir da casa, várias pessoas tinham ouvido o comentário, e então, sem dúvida, todos já sabiam e tivera a infelicidade de ficar cara a cara com o próprio marquês. Com confiança, ela tinha empinado o nariz no ar e perguntado à sua mãe se sabia a origem do odor desagradável. Infelizmente para ela, porque poderia muito bem ter sido uma esplêndida saída, o marquês e seus comparsas deram um jeito ruidoso de transformar seu comentário em algo engraçado e, sem dúvida, todo o salão de baile achava hilário dentro de um quarto de hora. Sophia quase sentira pena de sua prima naquela noite. Na verdade, se Henrietta tivesse dito a verdade completa sobre o incidente, a que Sophia soube ao ouvir os criados, poderia ter sentido pena dela, pelo menos por um tempo. — Vou para Covington House sem mais demora, — disse Sir Clarence, ficando de pé depois de consultar seu relógio de bolso — antes que alguém chegue lá primeiro. Ouso dizer que o aborrecido vigário vai estar lá antes do almoço com um de seus discursos e que a tola mulher Waddell vai estar lá com seu comitê de boas-vindas. E você vai estar lá, a rata comentou silenciosamente, para oferecer sua filha em casamento. — Vou convidá-lo para jantar — Sir Clarence anunciou. — Tenha uma conversa com a cozinheira, Martha. Certifique-se de que ela prepare algo especial esta noite. — Mas o que servir a um homem cego ? — Perguntou a mulher, com o olhar desanimado.


— Papa! — A voz de Henrietta estava tremendo. — Você não pode esperar que eu me case com um homem cego e sem rosto. Não pode esperar que eu me case com Vincent Hunt. Não depois do modo como ele sempre fez as travessuras mais atrozes com você. — Um menino bem-humorado — disse seu pai com uma onda de desprezo de sua mão. — Ouça-me, Henrietta. Você acaba de ser presenteada com esta oportunidade maravilhosa em uma bandeja. É como se nós a tivéssemos trazido de Londres mais cedo apenas com esta finalidade. Vamos têlo aqui esta noite, e vamos olhá-lo de novo. Ele não será capaz de nos ver fazêlo, afinal, vai? Ele parecia satisfeito com a sua pequena piada, mas não riu. Sir Clarence March raramente o fazia. Estava muito certo de seus próprios resultados, Sophia pensou com malícia impenitente. — Se ele passar pela inspeção, — Sir Clarence continuou — então você vai tê-lo, Henrietta. Este ano foi a sua terceira temporada em Londres, minha menina. A terceira. E de alguma forma, embora não por sua própria culpa, é verdade, você perdeu sua chance de um barão no primeiro ano, um conde no segundo, e um marquês este ano. A temporada não sai barata. E você não está ficando mais jovem. E muito em breve, se não já aconteceu, vai ser conhecida como a jovem que não consegue manter um pretendente, quando tem um. Bem, minha garota, vamos mostrar a eles. Ele sorriu para sua esposa e filha — e ignorou a rata — e parecia totalmente alheio ao olhar devastado de Henrietta e ao rosto mortificado de sua esposa. E lá foi ele enredar um visconde para Henrietta. Sophia sentiu pena do Visconde Darleigh, embora talvez, ela admitiu, ele não merecesse sua compaixão. Ela não sabia nada sobre ele, depois de tudo,


exceto o que tinha ouvido sobre seu alter ego, Vincent Hunt, quando ele era apenas um menino. Embora ela soubesse que era bonito, elegante, e independente o suficiente para não ter que ser levado a todos os lugares por seus servos. Pelo menos esta noite a vida prometia ser um pouco menos tediosa do que normalmente era. Ela teria um visconde para contemplar, mesmo que ver seu rosto a fizesse querer vomitar ou desmaiar, como Henrietta. E ela seria capaz de observar o progresso do início de um namoro. Deveria ser levemente divertido. Escapou após Sir Clarence as deixar e correu para cima, para o bloco de desenho e carvão vegetal, posses preciosas, já que não lhe era concedido nenhum dinheiro regularmente. Ela os tinha tirado da sala de aula de Henrietta, há muito abandonada. Sairia para a floresta atrás da casa, onde poderia estar fora de vista, e esboçaria um grande homem fanfarrão, com enorme peito e bíceps, cabeça franzina e pernas finas, elevando-se sobre um pequeno homem medroso, com os olhos vendados, e segurando um anel de casamento em uma mão gorducha, enquanto duas mulheres, uma grande e de meia-idade, outra jovem e esbelta, estavam de lado, com um olhar triunfante do gordo e o olhar trágico da jovem. Como sempre, ela colocaria um ratinho sorrindo no canto inferior direito.


Capítulo Três — Eu fui firme — Vincent protestou, com o queixo levantado enquanto Martin amarrava sua gravata de um modo apropriado para a noite. — Eu me recusei a ir lá para jantar. Não creio que alguém entenda quão difícil é perseguir alimentos sem saber bem que tipo de prato se está comendo, enquanto mantém uma conversa educada ao mesmo tempo — e se perguntando se conseguiu fazer o molho não cair no queixo ou na própria gravata. Martin não estava sendo dissuadido. — Se você tivesse sido firme, — disse ele — não iria de maneira nenhuma. O velho March, pelo amor de Deus! E Lady March! E a Senhorita Henrietta March! Preciso dizer mais? — Se você disser, — disse Vincent — pode muito bem ficar sem itálicos e pontos de exclamação, Martin. Sim, eles são um trio arrogante e tratam o resto de nós, humildes mortais, como se fôssemos vermes debaixo de seus pés. Mas fizemos grandes traquinagens com eles e não devemos reclamar. — Você se lembra da vez que os digníssimos colocaram um busto de pedra de origem romana, supostamente antigo sobre um pedestal no pátio deles — perguntou Martin — e convidaram a todos da vizinhança para se reunirem em torno, a uma distância respeitosa, enquanto o apresentavam com grande pompa e cerimônia? E então, quando o velho March tirou a capa com um grande floreio, todos, exceto os Marches, sucumbiram em alegria? Nunca vou esquecer aquele azul brilhante, a pálpebra tremeluzindo com longos cílios preto, ou os lábios escarlates. Você sobressaiu-se com aquilo.


Eles riram e depois gargalharam abertamente por um tempo com a lembrança, olhando de soslaio a monstruosidade de pedra. — Sim, bem, — Vincent disse — quase fui pego daquela vez, você sabe, quando estava voltando para a casa pela janela do porão. O barril debaixo da janela vacilou e teria caído com um estrondo se não tivesse me arremessado sobre ele e amortecido o som. Cuidei de umas boas costelas machucadas durante a semana seguinte mais ou menos. Mas o sofrimento valeu a pena. — Ah, aqueles eram bons tempos — disse Martin com carinho, indicando com um toque no ombro de Vincent que estava pronto para ir. — E agora você está indo retribuir uma visita à noite. Está capitulando ao inimigo. — Fiquei surpreso quando March bateu na porta — disse Vincent — e não estava pensando direito. Ainda estava meio que dormindo. — Você deveria estar — disse Martin. — Lá estava eu na porta, explicando ao dito cujo que ele estava enganado, que eu tinha vindo sozinho a Barton Coombs para visitar minha mãe e meu pai e estava hospedado aqui com a sua permissão. E lá estava você descendo as escadas atrás de mim todo confiante, em plena vista da porta, para fazer de mim um mentiroso. — Essa é a marca de um bom mordomo, — disse Vincent — que ele possa mentir com uma cara séria e perfeita convicção. — Eu não sou seu mordomo — Martin lembrou. — E mesmo assim, o que seria você se eu fosse? Uma ilusão de ótica? É melhor você descer até a cozinha e comer algo do guisado de coelho que eu fiz e algum pão fresco da Mam antes de ir. Ela me carregou para baixo com o suficiente para a multiplicação dos pães e peixes. Vincent ficou de pé e suspirou, e depois riu novamente. Esta manhã tinha sido como uma farsa ensaiada e ele se perguntou se a aldeia estava cercada vinte


e quatro horas por dia, com mirantes cuja única tarefa era dar conhecimento imediato da abordagem de qualquer e todos os cantos. Sir Clarence March veio logo depois das onze, todo inflado com a própria importância e magnanimidade, nada havia mudado por ali em seis anos. Ele havia partido, com alguma pressa, somente quando um exército de senhoras tinha chegado para dar as boas-vindas a Vincent. A senhorita Waddell foi a porta-voz, mas apresentou cada uma das outras senhoras com uma voz lenta, distinta e repetiu a lista depois dele convidar todas elas a sentarem, pouco antes de lembrar das capas sobres os móveis. Mas haviam sido removidas, descobriu quando se sentou. Então, antes que as senhoras pudessem iniciar qualquer conversa, o vigário chegou, embora sua esposa, que era um membro da comissão da senhorita Waddell, o repreendesse diante de todo mundo com o lembrete de que tinha conhecimento de que as senhoras iriam as onze e quinze e deveria ter esperado até, pelo menos, 11:45, antes dele mesmo ir. — O pobre querido Lorde Darleigh estará se sentindo muito sobrecarregado, Joseph — ela dissera a ele. — Nem um pouco — Vincent tinha lhes assegurado, sentindo o cheiro de café e ouvindo o chacoalhar da porcelana chinesa que Martin trazia em uma bandeja. — Que agradável receber uma recepção calorosa. Ficou bastante feliz por não ter sido capaz de ver a expressão no rosto de Martin. Vários minutos mais tarde, justamente quando o reverendo Parsons estava dando os toques finais a seu discurso de boas-vindas, o senhor Kerry chegou com a idosa senhora Kerry, sua mãe, e o volume de conversa aumentou consideravelmente, uma vez que ela era surda.


Na primeira ligeira pausa na tagarelice, talvez vinte minutos depois, a senhorita Waddell entregou sua pièce de résistance. Haveria uma assembleia na noite seguinte, ela havia anunciado, na sala de reunião em cima do Foaming Tankard Inn, e o caro Visconde Darleigh seria o convidado de honra. E, finalmente, a luz havia despontado no cérebro de Vincent. A mãe dele! E suas irmãs! Elas tinham adivinhado que ele poderia aparecer por ali, e provavelmente tinham gasto um pote de tinta escrevendo cartas para cada um que conheciam em Barton Coombs e alguns quilômetros além de seus limites. O bastante para seus poucos dias de relaxamento tranquilo. Com um sorriso no rosto e agradecimento nos lábios, ele havia tolerado senhoras correndo para ele de todas as direções, para servir seu café, para posicionar o guardanapo no colo dele, levantar a xícara e o pires da bandeja e colocá-los sobre a mesa ao lado onde poderia facilmente alcançá-los, ajeitá-los em sua mão um momento depois para que ele não tivesse dificuldade em encontrá-los sobre a mesa lateral, para escolher o melhor bolo do prato da Sra. Fisk e arrumá-lo em seu prato, para colocar o prato na outra mão, arrumar a xícara e pires de volta sobre a mesa para que ele tivesse uma mão livre para comer o bolo, houve alguns risos divertidos sobre isso... Bem, elas teriam comido e bebido por ele, se pudessem. Ele tinha se forçado a lembrar que tais cuidados queriam dizer gentileza. Mas uma assembleia? Uma dança? E ainda, nesta noite, uma visita privada aos Marches em Barton Hall. Talvez, pensou em um momento de fraqueza, deveria ter se casado com a senhorita Dean um mês atrás e colocar-se longe dessa miséria.


Lady March ficou aliviada ao saber que o visconde Darleigh não estava indo para jantar. Henrietta estava desapontada porque ele estava indo. Mas nem a senhora tinha sido capaz de obter qualquer informação adicional de Sir Clarence quando perguntaram sobre aparência e comportamento de sua senhoria. Ele apenas sorriu, se deu ares de importante e disse que elas iriam ver. — O que é mais do que Darleigh é capaz de fazer — acrescentou ele, seu sorriso alargando e aprofundando, fazendo-o parecer o desenho que Sophia havia feito dele na noite em que Henrietta dançou pela primeira vez com o marquês de Wrayburn. Henrietta beliscou a comida durante o jantar. Estava vestida para noite em seu traje de baile de seda prata, uma extravagância para uma noite no interior, talvez, mas adequado para a grandeza da ocasião, sua mãe assegurou. Esta noite um visconde estava indo visitá-los, e essa oportunidade poderia não acontecer novamente. Tia Martha estava formidável em cetim roxo com um turbante combinando e com plumas balançando. Sir Clarence não podia virar a cabeça mais do que um centímetro em qualquer direção. Se o fizesse, correria o risco de perfurar um globo ocular com a ponta da camisa engomada. Como eles pareciam bobos, especialmente quando o convidado esperado era um homem cego. Oh, como os dedos de Sophia coçavam por um pedaço de carvão. Ela própria estava usando um dos vestidos de dia rejeitado de Henrietta, que ajeitara para o tamanho correto. No processo, é claro, tinha destruído completamente qualquer estilo e fluidez que o vestido já tivera, pois ela era muito menor que Henrietta em todos os sentidos imagináveis. Sophia não iria tão longe ao ponto de dizer a si mesma que era uma coisa boa Lorde Darleigh


ser cego. Isso seria cruel. E isso pressuporia a noção ridícula que ele poderia notá-la se pudesse ver. Mas, na verdade ela parecia um espantalho abandonado. No momento preciso em que o convidado era esperado, houve o som de rodas de uma carruagem e cascos de cavalos, o tilintar do arnês no pátio abaixo da sala de estar, e todos, exceto Sophia ficaram de pé, alisando as saias, verificado se as plumas não tinham murchado, endireitando o lenço, limpando a garganta, parecendo nervosos e então... sorriram com graciosa facilidade quando se voltaram em direção à porta, como se tivessem ensaiado. — Lorde Darleigh — o mordomo anunciou em um tom que um mordomo de Carlton House poderia invejar. E entraram dois homens, um com o braço passado pelo braço do outro antes de se afastar e deixá-lo livre, em seguida dar um passo para trás e desaparecer atrás da porta com o mordomo. O outro homem era o corpulento que saiu primeiro da carruagem, esta manhã. Sir Clarence e tia Martha começaram a correr para o cavalheiro que ficou e fizeram um grande tumulto ajudando-o a alcançar uma cadeira e sentando-o nela. Sir Clarence se elevou pomposamente e tia Martha falou com o tipo de voz que poderia ter usado com uma criança doente ou um imbecil inofensivo. Sophia não percebeu a reação de Henrietta, entretanto. Ela mesma estava totalmente absorta em um momento pessoal de surpresa, e, francamente, acabou olhando fixamente. Foi uma coisa boa ele ser cego e não notar. A favor do Visconde Darleigh, ele era tudo o que ela havia observado pela manhã e mais. Não era particularmente alto, era gracioso e elegante. Também parecia bem formado e bem musculoso em todos os lugares certos, como se vivesse uma vida vigorosa. Estava em forma, até mesmo atlético. Viera vestido para a noite, com perfeito bom gosto e sem ostentação. Ele era, na verdade,


realmente muito deslumbrante, e Sophia se sentiu tolamente encantada. E isso era apenas a sua reação ao que vira abaixo do pescoço dele. Foi o que ela viu acima da garganta que a levou a encará-lo com grande surpresa, no entanto. Ele tinha cabelos louros, um pouco longo para a moda, talvez, mas perfeitamente adequado para ele. Pois ondulava suavemente e estava um pouco desordenado — atraentemente desordenado. Parecia brilhante e saudável. E o rosto... Bem, não estava arruinado afinal de contas. Não havia nem mesmo uma mera cicatriz para estragar a sua beleza. E era lindo. Ela realmente não considerou as características individuais, mas o conjunto era maravilhosamente agradável, pois parecia uma face bem-humorada que sorria muitas vezes, embora certamente não poderia estar se sentindo muito feliz no momento, devido a tanto estardalhaço. Certamente, uma vez que lhe fora indicada uma cadeira, ele poderia ter dobrado os joelhos e baixado com segurança até a mesma, sem ter que ser rebocado e manobrado. Oh, mas havia uma característica no rosto impecável em que os olhos de Sophia focaram, uma característica que elevou acima das fileiras do meramente bem-humorado e de boa aparência, e era responsável pela beleza de quase tirar o fôlego. Os olhos. Eram grandes e largos e muito azuis, e com cílios longos que causariam inveja em qualquer garota, embora não houvesse nada nem remotamente efeminado sobre eles. Ou sobre ele. Ele era homem em cada centímetro, um pensamento que a pegou de surpresa e deixou sua respiração suspensa por um momento, pois ela não tinha ideia do que significava o pensamento. O olhou com admiração e reverência e se afundou um pouco mais no seu canto, se isso fosse possível.


Ela o achou completamente, totalmente intimidante, como se fosse uma criatura que habitava um outro mundo além do dela. O havia representado em seus desenhos anteriormente como um homem pequeno com um rosto enfaixado. Nunca faria isso novamente. Esses desenhos eram das pessoas sobre as quais ela desejava gracejar em particular e nem sempre gentilmente, dar risadas. Ele olhou para seus anfitriões com aqueles olhos azuis, azuis. E olhou para Henrietta quando Sir Clarence puxou-a para a frente para apresentá-la, ou melhor, voltar a apresentá-la. — Você se lembra de nossa querida Henrietta, Darleigh — disse ele com simulada sinceridade. — Ela cresceu, levando a mãe à loucura e sendo um gatinho impertinente para o pai. Foi levada à cidade para as últimas três temporadas e pode casar com dúzias de duques, marqueses e condes — teve o bastante deles suspirando e fazendo a corte, você deveria saber. Mas nada foi feito, pois ela se mantém reservada para o cavalheiro especial que surgirá para afastar todos esses dela. E você sabe, papai, diz ela, é tão provável encontrá-lo em nossa própria casa no interior quanto nos salões da alta sociedade em Londres. Você pode imaginar isso, Darleigh? Onde ela provavelmente encontraria seu cavalheiro especial em Barton Coombs? Eh? Ele não ria muitas vezes, Sophia refletiu, mas quando o fez, todo mundo se encolheu. Tia Marta se encolheu e sorriu graciosamente. Henrietta encolheu e corou, e olhou em êxtase ao rosto sem marcas do homem que ela havia declarado que nunca se casaria, mesmo que fosse o último homem na Terra. Ele realmente era cego, Sophia decidiu de seu canto tranquilo da sala. Ela duvidou por um momento. Parecia impossível. Mas ele ficou de pé novamente, a fim de fazer uma reverência à Henrietta, e, embora ele parecesse estar olhando diretamente para ela, na realidade, estava olhando um pouco acima do nível do ombro direito dela.


— Se senhorita March é tão bonita quanto há seis anos atrás, — disse ele — e ouso dizer que ela é mais bonita do que quando era apenas uma garota, então, não estou surpreso que tenha sido tão assediada por admiradores em Londres. Ele foi lisonjeiro, pensou Sophia, franzindo a testa em desapontamento. Ou talvez ele estivesse apenas sendo educado. Todo mundo sentou-se e iniciaram uma conversa artificial e calorosa demais — pelo menos, os três Marches conversaram. Lorde Darleigh simplesmente deu as respostas adequadas e sorriu. Ele estava sendo educado, Sophia decidiu depois de alguns minutos. Não era lisonjeiro. Estava se comportando como um cavalheiro. Ela ficou aliviada. Sentia-se predisposta a gostar dele. Ele tinha sido um oficial em um regimento da artilharia durante as Guerras Peninsulares, ela descobriu. Um oficial muito jovem. Ficou cego na batalha. Foi só mais tarde que ele herdara o título e fortuna de um tio. Foi uma coisa boa também, pois havia muito pouco dinheiro na família. Recentemente, havia deixado sua casa em Gloucestershire, após a mãe e as irmãs terem tentado forçar uma noiva para ele. Todos concordaram que seria melhor, por inúmeras razões, se tivesse uma esposa para cuidar dele. É evidente que ele havia discordado, seja com o princípio geral ou com a escolha específica. Ele ficou afastado por algum tempo, e ninguém sabia onde estava até que chegou a Covington House nesta manhã, como a Sra. Hunter tinha previsto que faria, em cartas escritas por ela a várias senhoras da aldeia. Ele já tinha sido apenas Vincent Hunt, e Sophia teceu histórias sobre ele. Tinha sido um líder entre os jovens da aldeia, bom em todos os esportes e o líder de toda a malícia. Uma noite, por exemplo, depois de Sir Clarence se gabar de um tapete vermelho sobre o qual andara para entrar em alguma grande casa em


Londres, ele havia pintado os passos do lado de fora das portas da frente de Barton Hall de um vermelho escarlate. Agora era um cavalheiro muito importante com um nome diferente, imponente. E era um cavalheiro muito educado também. Quase não parou de sorrir e dar respostas educadas, evasivas para toda a pompa que estava sendo feita, apesar do fato de que a tia Martha e Sir Clarence estarem quase abertamente e, realmente, muito embaraçosamente cortejando-o, e Henrietta estava sorrindo afetadamente. Na verdade, era um pouco difícil não sorrir afetadamente diante de um homem cego, mas ela estava fazendo muito bem isso. Quando a conversa finalmente ameaçou enfraquecer, Henrietta foi enviada ao piano para deslumbrar o visconde com seu talento no teclado. E então foi incentivada a cantar enquanto tocava e passou por um repertório de cinco músicas antes de se lembrar que a sexta música, sua favorita, estava na sala de estar privada de sua mãe, onde ela vinha praticando no início do dia. — Suba e vá buscá-la — disse a mãe, virando a cabeça na direção de Sophia. — Sim, tia — Sophia murmurou enquanto ficava de pé. E ela estava ciente do visconde Darleigh, um olhar de leve surpresa em seu rosto quando ergueu as sobrancelhas e virou os olhos em sua direção. Ela teria jurado que ele estava olhando diretamente para ela, embora soubesse que não poderia ser assim. Mas naquele momento, antes de sair da sala, se sentiu um pouco menos anônima do que o habitual. E ela descobriu, antes que chegasse à escada, que estava correndo ao invés de andar como uma dama digna.

Eles não tinham, é claro, sido apresentados.


— Quando você entrou na sala de estar comigo, — Vincent perguntou quando a carruagem balançava pelo caminho na curta distância entre Barton Hall e Covington House — havia alguém lá, além de Sir Clarence, Lady March e a senhorita March? — Hmm. — Houve uma pausa, durante a qual Martin estava presumivelmente pensando. — Além do mordomo, você quer dizer? — Uma mulher — disse Vincent. — Eu não posso dizer que tenha notado — Martin disse a ele. — Alguém foi enviado a buscar mais partituras de música, — disse Vincent — e ela disse sim, tia antes de ir. Foi a primeira e última vez que a ouvi a noite toda. Ela deve andar bem suavemente, para eu não a ouvir retornar, embora a música certamente chegasse. Ela, obviamente, não era uma serva. Chamou Lady March de tia. Mas não fomos apresentados. Isso não é estranho? — Uma parente pobre? — Martin sugeriu. — Creio que sim — Vincent concordou. — Mas teria sido de boa educação apresentá-la a um convidado de qualquer maneira, não seria? — Não necessariamente, se você fosse um March — disse Martin. — Suba e vá buscá-la, a tia disse quando a senhorita March quis a música — disse Vincent. — Não houve nenhum por favor. E, pior, não houve nome. — Hmm — disse Martin. — Você ainda não está comprometido por acaso, não é? — Ah? — Eles têm projetos sérios sobre você — Martin disse a ele. — Esteja avisado. Os criados não são muito quietos naquela casa, um sinal claro de que os Marches não inspiram muita lealdade.


— Projetos sérios — disse Vincent. — Sim, acredito que os criados podem estar certos sobre isso. Vou andar com muito cuidado durante os próximos dias. Em particular, se for passar a ouvir as palavras fatídicas eu entendo e eu não me importo dos lábios da senhorita March, irei fugir para a Cornualha. — É melhor ter um barco com você — disse Martin. — Isso pode não ser longe o suficiente. Eles estavam em casa já. Que dia estranho tinha sido. Havia chegado antes do amanhecer com a feliz ideia de relaxar tranquilamente por alguns dias e fazer uma reflexão séria antes de voltar para casa, Middlebury Park, para assumir o comando do resto de sua vida. E então... Ele riu enquanto Handry colocava os degraus da carruagem e descia em frente à porta sem assistência. — Senhorita Waddell e seu comitê de boas-vindas — disse ele. — Eu fiquei chateado por você não me convidar para ouvir as boas-vindas do vigário — disse Martin. Ambos bufaram com risadas. — Na verdade, você sabe, — disse Vincent enquanto dava seus passos até a porta da frente — foi comovente. São todos como uma parte do tecido da nossa infância, Martin. E pessoas mais gentis, mais bem-intencionadas não se poderia esperar encontrar. É indelicado da nossa parte rir deles, exceto que nosso riso é bem significativo também. Tivemos a sorte de crescer aqui. — Tivemos mesmo — Martin concordou alegremente. — Há alguns bolos da mama à esquerda, senhor. Você gostaria de um ou dois com uma bebida? — Leite quente, se houver algum, por favor, Martin — Vincent disse, percorrendo o caminho para a sala de estar. — E um bolo, por favor. Sua mãe


certamente não perdeu o toque, não é? Um de seus bolos vale por quatro de qualquer outra pessoa. Por Deus, ele deveria estar se sentindo nostálgico. O que ele tinha acabado de pedir? Leite quente? Estava realmente feliz que tivesse sido descoberto ali. Ficou um pouco envergonhado, constrangido ou... ou qualquer coisa assim ao ser visto cego, quando essas pessoas o conheciam como ele costumava ser. Mas foi tolice da parte dele. Seus visitantes da manhã foram gentis e solícitos devido à sua cegueira, ainda o trataram como um adulto inteligente, funcional. Eles ficaram felizes em falar sobre o passado, quando o pai dele era professor, a mãe era ativa na igreja e na comunidade e Vincent e as irmãs cresciam com todas as outras crianças da aldeia, participando de todos os tipos de travessura com eles. Vincent também ficou feliz com a lembrança e se juntou a conversa com algum entusiasmo. Ele suspirou enquanto se sentava na cadeira ao lado da lareira. Maldição, estava cansado. Cansado mesmo sem ter se exercitado. Isso, sem dúvida, era parte do problema. E amanhã à noite haveria uma assembleia no Foaming Tankard. Vincent sorriu quando se lembrou da petição da senhorita Waddell, que tinha persuadido onze pessoas a assinarem protestando sobre o nome da pousada quando esta mudou de mãos — Vincent devia ter uns seis anos na época. A pousada tinha sido uma vez respeitavelmente nomeada Rose e Crown. Uma assembleia. Em sua honra. Ele inclinou a cabeça para trás e riu alto. Quem, senão os cidadãos de Barton Coombs fariam um baile para um homem cego?


Ele não deveria relaxar demais num interlúdio inesperadamente agradável, pensou enquanto Martin trazia seu leite e bolo. Para Sir Clarence March ficou perfeitamente claro que sua filha gostaria de receber uma proposta de casamento dele, e Lady March havia exaltado as virtudes e realizações da filha. A senhorita March apenas ria afetadamente. Eles o queriam, e o que os Marches querem, muitas vezes conseguem, apesar de que, obviamente, falharam miseravelmente com algumas dezenas de duques, marqueses e condes — haveriam tantos, mesmo que se incluíssem os casados? Ele teria que se cuidar. Henrietta March era requintadamente bonita quando menina e tinha mostrado uma promessa de extraordinária beleza quando Vincent a viu pela última vez. Ela deveria ter uns quinze anos na época. Tinha cabelos escuros, olhos escuros e bem feitos, e sempre esteve na moda, ostentosamente vestida com roupas feitas por uma costureira, ou modista no vocabulário de Sir Clarence, que vinha de Londres duas vezes por ano. A senhorita March sempre tivera uma babá francesa e uma governanta francesa, e nunca se misturava com as crianças da aldeia. O mais próximo que ela chegava para conversar com eles era em suas festas de aniversário, quando estava na linha de recepção com a mãe e o pai, acenava com a cabeça e murmurava graciosamente em reconhecimento aos

cumprimentos

do

aniversário

de

todos

aqueles

que

entravam

respeitosamente na fila. Vincent poderia ter sentido pena dela se ela não tivesse abraçado a arrogância e um ar de superioridade de forma totalmente independente de seus pais. E seu palpite era que não tinha mudado. Certamente não mostrara nenhum sinal disso nesta noite. A música que a mãe mandou buscar tinha chegado, mas não havia dito uma palavra de agradecimento à mulher misteriosa que a trouxe. Seria uma prima?


Quem era ela? Ainda não tinha sido apresentada a ele ou incluída em qualquer uma das conversas. Suas únicas palavras proferidas durante toda a noite foram sim, tia. Mas ela deve ter estado lá o tempo todo. Ele se sentiu um pouco indignado em nome dela, quem quer que fosse. Era, aparentemente, um membro da família, ainda que tivesse sido ignorada exceto quando houve uma missão a ser executada. Ela ficou sentada durante toda a noite quieta como um rato. Isso não deveria incomodá-lo. Ele pegou o copo de leite, tendo terminado o bolo, e o esvaziou. Bom Deus, tinha sido uma noite medonha. A conversa foi pomposa e insípida, a música menos que significante. Enquanto ele poderia felizmente ter tolerado ambos se os Marches fossem pessoas amáveis de quem havia alguma vez gostado, não sentiu nenhuma culpa ao olhar a velada com um arrepio de desgosto. Se tivesse voltado para a aldeia como o simples Vincent Hunt, eles não teriam se dignado a reconhecer sua existência. Será que um título fazia toda a diferença? Era uma pergunta retórica. Era hora de dormir. Ele se perguntava quanto tempo levaria para que sua mãe fosse informada de seu paradeiro. Seria capaz de apostar que pelo menos uma dúzia de cartas tinham sido escritas e enviadas naquele dia. Todo mundo iria querer a distinção de ser o primeiro a dizer-lhe.


Capítulo Quatro Houve várias reuniões desde que Sophia foi viver em Barton Hall, mas o tio, a tia e a prima não tinham assistido a nenhuma delas. Seria muito abaixo deles fazer uma aparição e dançar em Foaming Tankard Inn, mesmo que o comparecimento fosse reservado para aqueles com alguma reivindicação a gentileza. Mas reuniões de aldeia não valiam a pena se não fossem abertas a qualquer um que quisesse ir. O pensamento de esfregar os ombros com um lavrador, o açougueiro ou o ferreiro era suficiente para deixar tia Martha estarrecida, esta declarara uma vez. Daí Sophia nunca ter participado de nenhuma das reuniões também. Tudo isso estava prestes a mudar, no entanto. A reunião desta noite era em homenagem ao Visconde Darleigh, e Sir Clarence e tia Martha haviam decidido que, de alguma forma, por bem ou por mal, Henrietta iria se tornar a Viscondessa Darleigh de Middlebury Park, em Gloucestershire com vinte mil libras, mais ou menos, ao ano, à sua disposição. Desde a vespera à noite a própria Henrietta havia mudado completamente de opinião e agora declarava que o visconde era de longe o mais bonito, mais gentil, mais charmoso, mais tudo o mais que fosse maravilhoso de todos os senhores que ela já conhecera. Ele certamente havia mudado desde os dias em que tinha sido "aquele horrível Vincent Hunt." — Hoje à noite você deve aproveitar a oportunidade com ambas as mãos, meu amor, — Tia Marta disse — pois não sabemos quanto tempo o Visconde Darleigh planeja ficar em Covington House. Ele não vai dançar, é claro. Você


deve recusar-se a dançar também, pois é claro que não haverá ninguém lá com quem valha a pena dançar, e deve passar o tempo conversando com ele. Se o tempo se mantiver, e parece que será um belo dia, você deve sugerir um passeio ao ar livre. As salas de reunião costumam ser abafadas. E deve ter certeza de mantê-lo fora tempo suficiente para que as pessoas comentem sobre isso. E eles irão comentar sobre isso, pois, como convidado de honra, ele terá a atenção de todos focada nele. Se sentirá obrigado a fazer a coisa decente, você pode ter certeza, e convocará seu pai amanhã de manhã, todos esperam isso dele, e ele certamente valoriza a boa opinião de seus antigos vizinhos. — Sua mãe vai planejar um casamento de verão — Sir Clarence acrescentou, agarrando as lapelas do casaco com ambas as mãos e parecendo satisfeito com o mundo. — Talvez em Londres, com o comparecimento de metade da Sociedade. Embora quase todo mundo saia da cidade no verão, tenho certeza de que irão gostar de voltar para um evento tão ilustre. Sophia iria à reunião também. Ela não disse que poderia ir e não tinha pedido. Mas as reuniões de aldeia eram para todos. Sem convites enviados. Ela iria, mesmo que tivesse que caminhar até a pousada. Na verdade, era o que iria fazer de qualquer maneira, pois se a tia Martha soubesse que ela pretendia ir, poderia tentar impedi-la. Eles não podiam impedi-la de ir se já estivesse lá, poderiam? E como eles poderiam expressar aborrecimento mais tarde, quando todo mundo estaria lá também? E não era como se ela estivesse indo para fazer uma cena. Estaria indo estritamente como observadora. Ela iria encontrar um canto escuro e desaparecer. Era uma especialista nisso. Ela estava indo por ir. Seu coração bateu no peito, logo que a decisão foi tomada enquanto estava sentada à mesa do café, pois nunca ia a nenhum lugar. Não para um evento social, de qualquer maneira. Tinha ido a Londres nas duas últimas temporadas, pela simples razão de que não poderia ser deixada sozinha em Barton Hall. Mas não havia assistido a qualquer das festas, concertos ou


bailes que a tia e Henrietta iam todos os dias. Como poderia? Tia Marta disse na única ocasião em que aludiu ao fato. Era duro o suficiente ser a irmã e sobrinha de um cavalheiro que tinha sido morto em um duelo por trair um conde, um evento chocante e humilhante que tinha sido apenas o capítulo final em uma não menos ilustre carreira. Eles nunca seriam capaz de manter as cabeças erguidas se fossem vistos a abrigar sua filha, especialmente quando ela possuía aquela aparência. Sophia tinha um vestido que era ligeiramente adequado para usar a noite. Tinha sido feito para Henrietta, quando ela tinha quatorze ou quinze anos e fora usado uma vez, para sua festa de aniversário naquele ano. Ele não precisou ser alterado tanto quanto os outros vestidos de segunda mão que tinham dado a Sophia. Era um listrado de musselina rosa e creme e ainda tinha alguma forma, mesmo depois de Sophia encurtar e costurá-lo. Não era arrebatadoramente bonito, e seu desenho era, sem dúvida, lamentavelmente fora de moda, mas não era a um grande baile de Londres que ela estava indo. Era uma reunião da aldeia. Certamente haveria outras mulheres vestidas mais despretensiosamente do que ela, ou pelo menos tão despretensiosamente. Ela caminhou até Foaming Tankard depois que os outros três tinham deixado a carruagem, grata por não ser nem uma noite fria, nem molhada. Nem ventosa. Ela se sentiu bastante animada. Não esperava dançar, é claro. Ou conversar. Ninguém sabia dela em Barton Coombs, mesmo depois de dois anos. Nunca tinha sido apresentada a ninguém e só recebera alguns acenos cordiais depois da igreja aos domingos. Mas tudo o que realmente queria fazer, de qualquer maneira, era ver as pessoas interagindo e se divertindo. Oh, e, admita, Sophia!, ver o belo Visconde Darleigh novamente. Para adorar de longe.


E para ter certeza, se ela pudesse, que Henrietta, com a cumplicidade da mãe e do pai, não o prenderiam em qualquer situação comprometedora que iria obrigá-lo, como um homem honrado, a se casar com ela. Nunca se importou com os outros cavalheiros que eles haviam tentado enredar em Londres. Eles eram perfeitamente capazes de cuidar de si, ela sempre pensou, e os eventos sempre comprovaram que ela estava correta. Mas seria lorde Darleigh capaz? Se ele fosse atraído para fora da pousada, ele saberia se era levado para longe da vista dos outros hóspedes? E ele saberia que Sir Clarence e Lady March garantiriam que todo mundo percebesse a extensão e a impropriedade de sua ausência com a filha deles? Foi preciso uma coragem considerável para entrar na pousada quando chegou e subir as escadas até a sala de reuniões, a partir da qual uma grande quantidade de ruído descia para o andar térreo e para a rua. Soou como se uma alegre jiga estivesse em curso e como se cada habitante da aldeia e sua vizinhança estivessem tentando falar com todos os outros habitantes em voz alta o suficiente para serem ouvidos. E soou como se cada ouvinte, se havia alguém que conseguia ouvir, achasse a conversa brilhantemente engraçada e fosse mostrando apreço rindo ruidosamente. Sophia quase deu a volta e foi correndo para casa. Mas lembrou-se de que ela não era realmente uma rata. E que era, na verdade, uma dama, e socialmente, pelo menos, em um nível superior ao da metade das pessoas aqui. Não tinha certeza se era naturalmente tímida. Nunca teve a chance de descobrir. Ela entrou. Foi confrontada pelo vigário quase assim que passou pela porta. Ele sorriu para ela e estendeu a mão direita.


— Não tive o prazer de conhecê-la, senhora — ele gritou acima da música, das conversas e das risadas. — Mas posso presumir, pelo fato de você ter se sentado em um banco na minha igreja todos os domingos por um par de anos ou mais e escutado com muita atenção aos meus sermões, o que colocou muitos dos meus paroquianos para dormir, ai de mim? Sou Parsons, como você deve saber. E você é...? Sophia colocou a mão dentro da dele. — Sophia Fry, senhor. — Senhorita Fry. — Ele deu um tapinha nas costas de sua mão com a mão livre. — Deixe-me levá-la até a Sra. Parsons para que ela possa lhe oferecer um copo de limonada. E ele a guiou entre a multidão de foliões a uma mesa cheia de comida e bebida. A apresentou à sua esposa, que assentiu com a cabeça cordialmente, tentou dizer alguma coisa, e encolheu os ombros, arregalou os olhos e riu quando se tornou óbvio que era impossível se fazer ouvir. Sophia pegou o copo e foi procurar um canto da sala para sentar. Bem, isso tinha sido mais fácil do que o esperado, ela pensou, afundando com gratidão em uma cadeira vaga. A tia estava a alguma distância, não havia como confundila, com as plumas azuis marinho oscilando, e olhando para ela com algum espanto. Sophia fingiu não notá-la. Tia Marta realmente não poderia mandá-la para casa, poderia? E ela seria muito feliz de ser uma rata durante o resto da noite. Bem, quase feliz. Às vezes sua capacidade de autoengano a perturbava. Um casal dançava entre as filas, enquanto os dançarinos que formaram as filas aplaudiam vigorosamente no tempo da música. Tudo parecia muito alegre. Sophia se descobriu batendo o ritmo com um dos pés. Não foi fácil ver o Visconde Darleigh, mas era muito óbvio que ele tinha chegado. Havia uma multidão, particularmente densa, de pessoas à esquerda da


porta, principalmente senhoras, todas felizmente focadas em alguém que estava perdido no meio delas. Sir Clarence era um dos poucos senhores lá, e ambas, tia Marta e Henrietta, estavam fazendo a sua parte na bajulação. Quem mais eles estariam bajulando além do visconde? E ela estava certa. Depois de Sophia observar por alguns minutos, o grupo de danças do interior chegou ao fim, os dançarinos amontoaram-se, o denso aglomerado da porta se abriu, como se fosse mais uma porta, e Henrietta emergiu triunfante, no braço do Visconde Darleigh, a quem ela passou a manobrar a um passeio em torno do perímetro da sala de reunião. Henrietta estava resplandecente em outro de seus vestidos de baile de Londres. A dança foi retomada, um conjunto de danças mais imponente desta vez, e Henrietta e o visconde passeavam até que seus passos os levaram para a porta e eles desaparecessem. Uma vez que todos, com a possível exceção dos dançarinos, tinham os olhos pregados no Visconde Darleigh desde a sua chegada, e ninguém poderia deixar de acompanhar o tremeluzir do vestido de baile de Henrietta, a saída deles não foi discreta. Sophia levantou uma mão à boca e mordeu a junta do dedo indicador. Deve haver um número de outras pessoas fora da pousada. Não havia quando ela chegara, e as pessoas foram indo e vindo desde então. Como tia Martha havia previsto, as salas de reunião eram abafadas. Não havia nada impróprio sobre estar lá fora. Mas entre eles, a tia Martha e Sir Clarence no interior e no exterior Henrietta iria encontrar uma maneira de fazer parecer impróprio. Havia pouca dúvida sobre isso. Sophia se sentou onde estava e mordeu o nó dos dedos durante dez minutos antes de fazer alguma coisa. Ainda não era muito, muito tempo para um casal se ausentar da sala. Só que todo mundo estava assistindo quase que abertamente a reaparição deles, e Sir Clarence e tia Martha estavam falando com


as pessoas com as quais dignavam sua atenção, e todos viraram para olhar à porta. Eles iam, sem dúvida, atiçar o fogo da especulação. Sophia se levantou e deslizou para fora. Quando passou, pegou um xale de lã da parte de trás de uma cadeira. Não tinha ideia de quem era e esperava que o proprietário não fosse correr atrás dela gritando para ladrão, ou algo igualmente alarmante. Era improvável, no entanto. Era improvável que alguém a tivesse notado sair da sala, ou mesmo a notado na sala, no caso. Não havia nenhum sinal de Henrietta e lorde Darleigh entre os pequenos grupos de pessoas do lado de fora. Alguns casais passeavam mais longe ao longo da rua, onde eles ficavam completamente visíveis da estalagem, mas as duas pessoas que ela procurava não estavam entre eles. Onde seria o local mais privado que Henrietta o levaria e, portanto, mais indiscreto? Felizmente, o primeiro palpite de Sophia foi o correto. Eles foram passear ao longo do beco atrás dos edifícios na rua principal, caminhando à beira gramínea para evitar os sulcos profundos feitos por carrinhos ao longo do meio. Ela podia ouvir a risada vibrante de Henrietta enquanto corria atrás deles, e a voz baixa do visconde. — Oh, Henrietta, — Sophia chamou enquanto se aproximava — esqueceu seu xale. Os dois se viraram, e até mesmo na luz fraca da lua e das estrelas Sophia podia ver que os olhos de Henrietta estavam arregalados de choque e... fúria. As sobrancelhas do Visconde Darleigh estavam levantadas. — Não esqueci coisa alguma — disse Henrietta quando Sophia segurou o xale no alto e acenou com uma mão. — E isso nem mesmo é meu. Leve-o de volta para a pousada imediatamente, antes que a proprietária sinta falta. O visconde inclinou a cabeça para um lado.


— Você é a dama da última noite — disse ele. — Aquela que foi buscar a música da senhorita March no andar superior. Lamento, não sei o seu nome. — Sophia Fry — disse ela. — Senhorita Fry. — Ele sorriu e, oh, na quase escuridão, ela poderia jurar que ele estava olhando de volta para seus olhos. — Prazer em conhecê-la. Que gentil da sua parte trazer o xale da senhorita March, mesmo que tenha sido o errado. Me preocupei que ela pudesse sentir frio. Ela negou isso, mas acredito que está apenas sendo educada, pois concordamos que uma lufada de ar fresco seria muito bem-vinda. Devo voltar com ela e com você para a sala de reunião sem mais demora. E ele estendeu o outro braço para Sophia tomar. Ela olhou para ele com admiração e espanto. E olhou para Henrietta, cujos olhos estavam queimando, positivamente com fúria e ódio. — Gostaria muito mais de permanecer aqui, onde está fresco e tranquilo — disse Henrietta, sua voz doce e bastante em desacordo com a expressão facial. — Vamos continuar, milorde. — Certamente, se é seu desejo — disse ele. — Senhorita Fry, irá caminhar conosco? Ele ainda estava oferecendo o braço. Era a última coisa que Sophia queria fazer. Henrietta iria matá-la. Mais importante, Sophia o achou bonito de se observar de longe, mas quase impossivelmente intimidante de perto. Mas ela tinha ido para evitar que ele caísse em uma armadilha. Ela deu alguns passos em direção a ele e deslizou a mão pelo seu braço. E — oh, Deus — ele era todo calor e solidez, e cheirava a alguma adorável almiscarada e uma colônia muito masculina. Sophia nunca esteve mais


desconfortável em toda a vida. Era como se o próprio ar houvesse sido sugado para fora do beco. — Nós não podemos andar os três juntos nesta pista — disse Henrietta não mais que meio minuto depois, e sua voz a estava traindo desta vez. Ela parecia distintamente petulante. — Receio que teremos de voltar depois de tudo, milorde. Mamãe e papai ficarão ansiosos na minha ausência. Não percebi o quão longe você me trouxe da estalagem. Vamos voltar. — Eles verão que estou com você e ficarão tranquilos, Henrietta — disse Sophia. — Verão, assim como todos os outros, que o decoro foi observado. Ela não conseguia se lembrar de outra ocasião, quando havia dirigido uma frase inteira para Henrietta. O Visconde Darleigh virou a cabeça para sorrir para ela. Tinha quase certeza de que podia ler alívio em seu rosto. Pobre cavalheiro. Todo mundo estava tentando se casar com ele ou mandá-lo se casar com outra pessoa. Durante a meia hora que ficou sentada sozinha na sala havia escutado a conversa ao redor, quase tudo era sobre o Visconde Darleigh. Ouviu falar novamente que a mãe e as irmãs estavam pedindo a ele para casar e se faziam ativamente de casamenteiras para ele. As pessoas ali estavam especulando sobre quem na vizinhança poderia combinar com ele, desde que ele era simplesmente Vincent Hunt até recentemente e não parecia estar em alta e poderia preferir alguém que lhe fosse familiar. Os nomes das senhoritas Hamilton e Granger tinham aparecido nas especulações. E, claro, os March estavam tentando pescá-lo por quaisquer meios a seu alcance. Todos notaram o regresso deles à sala de reuniões, o que era quase um exagero, se isso era um exagero em tudo, pois não havia nenhuma dança em andamento no momento para distrair mesmo aqueles que estariam dançando. Todos se voltaram de suas conversas para olhar o Visconde Darleigh, para


Henrietta e para... ela, Sophia Fry. O rosto da tia e do tio foi um espetáculo para ser visto. Eles pareciam primeiro aliviados e alegres quando viram que a filha voltou depois de tanto tempo na companhia do Visconde Darleigh, o braço dela ainda estava entrelaçado com o dele, e, em seguida, eles pareciam... atônitos e envergonhados e uma série de outras coisas que eles não esperavam demonstrar. Por outro lado, o braço dela entrelaçado com o outro braço do visconde, foi ... o espanto deles. E desta vez ela não estava invisível para ninguém. Ela sentiu uma curiosa mistura de extremo desconforto e triunfo. A orquestra tocou um acorde decisivo, como um sinal para os dançarinos, que uma nova quadrilha estava prestes a começar, e o momento passou. Tudo estava bem, dependendo da perspectiva, é claro. Não houve nenhuma impropriedade afinal de contas, pois havia duas senhoras com o cavalheiro e assim a volta do lado de fora, mesmo ao longo de uma ruela tranquila, tinha sido bastante acima de qualquer suspeita. Uma dança rápida e furiosa começou. Henrietta correu para sua mãe. O Visconde Darleigh apertou a mão de Sophia ao seu lado quando ela ia se libertar. — Senhorita Fry, — disse ele — muito obrigado pela sua preocupação com a reputação da senhorita March. Foi descuidado da minha parte andar tanto tempo e tão longe com ela, mas ela não queria voltar, veja você. Eu deveria ter insistido, é claro. Posso levá-la até a mesa de refrescos? Acredito que consigo me lembrar do caminho. Ele sorriu. E ela sabia que, apesar de suas palavras galantes, que estava agradecendo por resgatá-lo. Ele deve ter entendido, quase tarde demais, o perigo em que Henrietta o tinha colocado.


— Obrigada, milorde. Estava prestes a adicionar um mas e dar alguma desculpa antes correr para longe. Mas fez uma pausa para considerar. Ela poderia caminhar para a mesa de refresco com ele, talvez até mesmo ficar lá com ele por alguns minutos conversando enquanto comiam ou bebiam. Poderia, por um breve momento de sua vida, ser como qualquer mulher normal. Não, não uma mulher normal. Ela poderia ser como uma jovem privilegiada que tinha atraído a atenção de um visconde e um homem bonito, mesmo que apenas por alguns minutos, para ser esquecida, uma hora depois. E então, por não ter se manifestado imediatamente, já era tarde demais para dar alguma desculpa. Eles estavam caminhando pela sala juntos. Sophia colocou o xale sobre as costas de uma cadeira vazia quando passou e evitou olhar para a tia e o tio, que estavam, é claro, olhando para ela, como quase todo mundo. Foi uma vertiginosa, alarmante, divertida experiência, para mencionar apenas algumas das emoções que ela pudesse identificar. Ele era um completo idiota. Por que sempre permitia que as mulheres de sua vida tentassem manipulá-lo e dominá-lo? Algumas vezes era benevolente, ou, pelo menos, destinava-se a ser. Outras vezes, era nitidamente malévolo. No entanto, a única vez que lembrava, que lutara contra isso, o fez fugindo. Desta vez, porém, poderia ter parado quando ele e a senhorita March estavam fora da pousada, com a firme e verdadeira explicação de que não iria se comprometer por levá-la mais longe na escuridão, permitiu que ela o levasse para o que lembrava como um beco deserto muito escuro atrás da rua principal da vila. Ele nunca seria um adulto adequado, capaz de pensar e agir por si mesmo, sem a influência de qualquer mulher? Nem sempre fora assim, não é? Tinha sido


um menino distintamente independente. Se permitiu crescer como um fraco, ou pelo menos estava em perigo de fazê-lo. Era mais grato do que poderia dizer à senhorita Fry, que, suspeitava, tinha chegado muito deliberadamente em seu socorro, mas ele não tinha certeza do porquê. Ela era prima da senhorita March, não era? Ou foi a senhorita March que fora resgatar? De qualquer maneira ele estava grato e intrigado. Era capaz de ouvi-la claramente agora, percebeu, quando ela disse obrigada, milorde, embora tivesse falado na mesma voz baixa que usou com a tia na última noite. Deveria conhecer o segredo de fazer-se ouvir acima do barulho, lançando o nível da voz de alguém abaixo disso ao invés de tentar gritar por cima, como a maioria das pessoas faziam. — Aqui estamos — disse ela tão baixinho. — Gostaria de tomar uma bebida? — Ele perguntou. — Ou algo para comer? — Não, obrigada — disse ela. — Bebi um pouco de limonada mais cedo. — Eu não estou com fome ou com sede, também — disse ele com um sorriso. Não tinha nenhum desejo de tentar comer ou beber em um ambiente tão público. Não tinha nenhuma dúvida de que havia muitos olhos fixos em cada movimento seu. — Existem cadeiras vazias nas proximidades? Vamos nos sentar por alguns minutos? — Uma nova quadrilha está apenas começando — disse ela. — Há muitas cadeiras vazias. E logo estavam sentados lado a lado e ele meio que virou a cadeira para que pudesse ficar perto o suficiente para ouvi-la e fazer-se ouvir e, esperava, para desencorajar a interrupção por um tempo curto. Achava toda aquela atenção ao mesmo tempo comovente e cansativa.


— Você é prima da senhorita March? — Perguntou. — Sim — ela disse a ele. — Lady March é irmã do meu pai. — Seu pai é falecido? E a sua mãe? — Sim, ambos — disse ela. — Sinto muito. — Obrigada. —Senti muito — disse ele — por não termos sido apresentados na noite passada. — Oh, — ela disse — eu não tenho qualquer importância. A música era alta e alegre, e ele podia ouvir o som de pés batendo ritmicamente no chão. O nível de conversação subiu acima de ambos os sons. Mas ele não tinha ouvido mal. Ele não sabia bem o que responder. — Talvez não para sua tia, tio e prima — disse ele. — Mas, na natureza das coisas? E para si mesma? Tenho certeza que você deve ser. Ele esperou pela resposta dela e se inclinou um pouco mais perto. Podia sentir o cheiro de sabonete. Era um cheiro mais agradável, mais saudável do que os perfumes fortes que sentira a noite toda. Ela não disse nada. — Ouso dizer — disse ele — que você está presa em uma vida não inteiramente ao seu gosto pelo fato da morte de seus pais, assim como estou preso a uma vida que nem sempre é inteiramente do meu gosto pelo fato de que perdi minha visão há seis anos. Quanto tempo você é órfã? — Cinco anos — ela disse a ele. — Meu pai morreu quando eu tinha quinze anos.


Ela tinha vinte anos, então. — Eu tinha dezessete anos — disse ele. — Tão jovem. — É difícil, não é, — disse ele — a vida de alguém se transformar de forma bastante diferente do que se esperava e não se sentir totalmente no comando dela? Era estranho. Ele nunca falara assim com ninguém, muito menos com um estranho, e um desconhecido do sexo feminino, dessa forma. Mas, talvez, isso tornara mais fácil. Amanhã eles ainda seriam estranhos. O que dissessem esta noite seria esquecido. — Sim — disse ela depois de uma pausa bastante longa. — O que faria — perguntou a ela — se pudesse remodelar sua vida para que fosse exatamente como você gostaria? Se tivesse os meios e a oportunidade de fazer o que quisesse? O que sonha ser e fazer? Suponho que tenha sonhos. Todos nós temos. Qual é o seu? Ela ou não iria responder a ele ou estava pensando no assunto. Ele suspeitava que a senhorita Sophia Fry não era alguém que falava à toa sobre nada. Mas então, ela provavelmente não tinha muita oportunidade de fazer isso. Ele não a invejava, vivendo como um parente pobre dos March. Gostou da ideia dela estar pensativa. Talvez ela tenha considerado suas perguntas idiotas, e talvez elas fossem. Eram os tipos de perguntas que um menino ansioso fazia a uma menina. Era esperado que um homem e uma mulher falassem sobre a realidade. — Gostaria de viver sozinha — disse ela. — No interior. Em uma casa pequena com um jardim cheio de flores que eu pudesse cuidar. Com uma horta na parte de trás e talvez algumas galinhas. Com alguns vizinhos amigáveis, um


gato e talvez um cachorro. E livros. E uma fonte infinita de papel de desenho e carvão vegetal. E uma renda suficiente para suprir minhas necessidades, o que não seria extravagante. Talvez a oportunidade de aprender coisas novas. Tinha dado a oportunidade para desejar riquezas, joias, peles, mansões e viagens ao exterior e Deus sabe o que mais. Ele foi tocado pela modéstia de seu sonho. — E um marido e filhos? — Perguntou. Novamente ele sentiu sua hesitação. — Não — ela disse. — Acredito que seria mais feliz sozinha. Quase perguntou o porquê. Mas lembrou a si mesmo que ela era uma estranha e que a pergunta seria uma coisa quase íntima. Ele não deveria ser demasiado intrusivo. Se perguntou fugazmente o que teria acontecido se tivesse perguntado à senhorita Dean sobre seus sonhos. Ela teria respondido com franqueza? Deveria ter-lhe dado a chance, talvez. Ainda se sentia mal sobre ela. — É a sua vez — ela disse em uma voz tão baixa que ele teve de se inclinar mais perto ainda. Podia sentir seu calor corporal. Ele se afastou alguns centímetros. Não quis envergonhá-la ou dar aos aldeões qualquer motivo de fofoca. — Quais são seus sonhos mais secretos? — Parece ingrato ter algum quando aparentemente se tem tudo — disse ele. — Eu tenho título e fortuna, uma casa espaçosa e um vasto parque que a rodeia. Tenho uma mãe, avó, irmãs, cunhados, sobrinhas, sobrinhos, e todos eles me amam. — E um sonho — disse ela quando ele parou de falar. — E um sonho — ele admitiu. — Um sonho, como o seu, de estar por mim mesmo, independente e capaz de gerir a minha própria vida, mesmo com


todas as suas responsabilidades inumeráveis. De ser capaz de enviar todos os meus parentes do sexo feminino de volta para as casas que negligenciaram demasiadas vezes, ou já tenham realmente abandonado por minha causa. De não ter que tê-los organizando a minha vida por mim por mais tempo. De ser totalmente crescido, suponho que quero dizer, como certamente teria sido há muito tempo se tivesse mantido a visão. Não posso recuperar a visão, e até mesmo sonhos tem que levar alguma realidade em consideração. Eu iria viver tão independente quanto um homem cego pode, capaz de encontrar meu caminho sozinho, capaz de supervisionar a execução de minha propriedade e fazendas, capaz de consorciar-se com alguma facilidade com meus vizinhos. Sonho com uma vida independente, ricamente vivida. Minha vida e de mais ninguém. Mas talvez isso não seja um sonho para se discutir, senhorita Fry, isso é mais uma meta. Os sonhos são desejos que irão, com toda a probabilidade, nunca se realizar. Eu poderia fazer meus sonhos se tornarem realidade. Na verdade, eu quero. Parou de falar, espantado com tudo o que saiu da sua boca. Estaria, provavelmente, terrivelmente envergonhado quando acordasse amanhã de manhã e lembrasse desta conversa, ou seu monólogo particular, de qualquer maneira. — E o casamento e filhos? — Ela perguntou. Ele suspirou. Essa era uma questão espinhosa. O casamento era algo que poderia atraí-lo no futuro. Mas ainda não. Não estava pronto. Não tinha nada de qualquer valor para oferecer, além do óbvio. Sempre teria a cegueira para oferecer à uma esposa potencial, é claro, mas não queria impor tal sofrimento a qualquer mulher. Seria injusto com ela, e ele poderia vir a se ressentir dela se viesse a depender dela, literalmente, bem como em inúmeras outras maneiras. Neste momento, ele ainda estava aflito. Precisava superar isso.


E as crianças? Uma de suas funções era de gerar um herdeiro, e estava determinado a cumprir o dever. Mas ainda não. Não havia urgência, certamente. Ele tinha apenas vinte e três anos. E nunca seria capaz de jogar cricket com o filho... A autopiedade era algo que tinha tomado impiedosamente na mão há um certo número de anos atrás, mas, ocasionalmente, ainda poderia infiltrar-se através de suas defesas. — Eu sinto muito — disse a senhorita Fry. — Foi uma pergunta impertinente. — Mesmo que eu tenha perguntado isso a você? — Ele disse. — Eu estava pensando, considerando a minha resposta. Estamos falando de sonhos, não realidade. Estamos falando como gostaríamos que nossas vidas fossem se tivéssemos a liberdade de a viver como escolhemos. Não, então. Sem esposa. Nenhuma mulher. Não que eu despreze o seu sexo, senhorita Fry. Pelo contrário. Mas as mulheres são compassivas, pelo menos quase todas as mulheres da minha vida são. Elas sentem pena de mim. Querem me ajudar. Querem me sufocar. Não, no meu sonho, estou livre e comigo mesmo, para além, suponho, de um exército de servos. No meu sonho, provei a mim mesmo e ao mundo que posso fazer este negócio de estar comigo mesmo, que não preciso de qualquer pena. — Particularmente das mulheres — disse ela. — Particularmente das mulheres. — Ele sorriu para ela e se afastou um pouco. — Você vai me achar um desgraçado ingrato, senhorita Fry. Amo minha mãe, minha avó e minhas irmãs. Muito mesmo. — Estamos falando de sonhos — disse ela. — Nós podemos ser tão ingratos como desejarmos em nossos sonhos. Ele riu baixinho e, em seguida, sentiu uma mão em seu ombro.


— Você deve estar com fome, milorde — disse a voz entusiasta do vigário. Ele estava prestes a negar. Mas tinha tomado o suficiente de tempo da senhorita Fry. Já tinha perdido a dança da quadrilha e, provavelmente, uma outra antes dela ir resgatá-lo, ou à prima. Além disso, ele não queria lhe causar qualquer constrangimento por monopolizar muito de seu tempo. Não havia dúvida de que não havia uma pessoa na sala inconsciente dos dois sentados ali no tête-à-tête. — Sim, é verdade. — Ele ficou de pé, sorrindo. — Boa noite, senhorita Fry. Foi um prazer falar com você. — Boa noite, milorde. E ele foi levado para longe, para a mesa de refrescos.


Capítulo Cinco Vincent começou a manhã com uma hora de exercícios vigorosos na sala de estar. Estava sentindo os efeitos de dias passados apenas sentado ou em pé e comendo muito a deliciosa comida da Sra. Fisk. Depois do almoço foi para o jardim, usando apenas sua bengala como orientação. Conhecia o jardim e era improvável se perder ou vir a se machucar. Pôde sentir o cheiro da horta imediatamente. Não que tivesse sido muito ciente dos cheiros quando era um menino, mas os notou agora, especialmente o de menta, sálvia e outras ervas. Não havia sentido o cheiro das flores. Em Middlebury ele vinha tentando diferenciar as flores pelos aromas, texturas e formas de suas pétalas, folhas e caules. O jardim não tinha sido completamente negligenciado, no entanto. Os jardineiros que ele pagava para vir duas vezes por mês, tinham varrido o caminho que corria entre os antigos canteiros de flores. O banco de pedra que rodeava a urna de cobre, que sua mãe havia usado para colocar um grande vaso de flores a cada ano, estava livre de escombros. Martin lhe dissera que a grama tinha sido ceifada curta e as sebes tinham sido cortadas.


Vincent sentou-se no banco e apoiou sua bengala ao lado dele. Ergueu o rosto para o céu. Devia estar nublado, embora não houvesse umidade no ar. E não fazia frio. Se ele decidisse permanecer aqui por mais um dia, e ainda não tinha certeza de que ficaria, Martin viria para uma longa caminhada com ele esta tarde. Não importava o quão vigorosamente tivesse exercitado seus músculos em casa, sempre almejava o ar fresco e a sensação de suas pernas se movendo sob ele, de preferência a passos largos. Ah, como gostaria de correr! Ele queria ficar um pouco mais. Os dois últimos dias haviam sido surpreendentemente agradáveis. Com todas as confusões dos últimos seis anos, esquecera como era um grande apreciador do povo de Barton Coombs. Esquecera quantos amigos tinha aqui, ou tinha assumido que, por diversas razões, poderiam não ser seus amigos. Vários deles tinham prometido, ontem à noite na assembleia, que viriam vê-lo. No entanto, uma parte dele queria sair sem mais delongas. Sua cegueira era mais evidente para ele aqui do que em qualquer outro lugar. Este lugar e essas pessoas eram o que conhecia com os olhos. Penderris Hall e seus amigos mais recentes do Clube dos Sobreviventes, bem como Middlebury Park e seus vizinhos, eram lugares e pessoas que tinha vindo a conhecer apenas através de seus outros sentidos. Eles eram, de certa forma, mais fáceis de lidar, emocionalmente mais fácil, de qualquer maneira. Aqui se viu lutando repetidamente contra o pânico. E não tinha certeza se o seu desejo de ficar era uma verdadeira necessidade de se reconectar com velhos amigos e velhos fantasmas, enquanto fazia planos para o futuro ou apenas a procrastinação, o conhecimento de que, quando voltasse para casa em Middlebury, não deveria cair no velho padrão de dependência passiva.


Ele próprio tinha se proposto, de algumas maneiras, a dançar conforme a sua música, tomar as rédeas na prática de seus exercícios físicos, confiando em sua capacidade de encontrar o caminho em lugares familiares com apenas uma bengala ou, às vezes, sem sequer isso. Mas essas coisas eram apenas uma gota no oceano para que sua vida pudesse ser assim. E poderia ser. Às vezes, desejava que não amasse tanto sua mãe. Ela já tinha sido ferida o suficiente. Ele, desesperadamente, não queria machucá-la mais. Talvez a resposta fosse ter uma esposa, este era um pensamento, mas uma de sua própria escolha cuidadosa. Muito cuidadosa. As nuvens não deveriam passar de uma massa sólida, depois de tudo. Um raio de sol acabara de o encontrar. Podia sentir seu calor e inclinou o rosto para ele, fechando os olhos. Não queria danificá-los com a luz direta do sol, aepesar de tudo, não é? Sorriu para o pensamento absurdo e até riu para si mesmo. Isso foi o que Flavian lhe dissera uma vez em Penderris, em um dia particularmente ensolarado, Flavian Arnott, Visconde Ponsonby, um dos membros do Clube dos Sobreviventes. Sentiu uma súbita dor de saudades deles todos, querendo estar de volta, encapsulado com segurança na Cornualha, inclusive seguro de si próprio. Perguntou-se se Hugo tinha ido em busca de Lady Muir, que havia passado uma semana em Penderris no início desta primavera, após torcer o tornozelo na praia. Hugo Emes, Lorde Trentham, a tinha encontrado e a levado até a casa. Ele, então, começara a se apaixonar por ela, o que tinha sido óbvio até mesmo para um homem cego e, em seguida, como era bem típico de Hugo, se convencera de que o abismo social que os separava era muito grande para ser superado. Hugo era um herói militar e tão rico como Creso, mas por ser de origem de classe média, e se orgulhar disso, era um dos homens mais inseguros que Vincent já tinha conhecido.


Ele estaria disposto a apostar que Lady Muir tinha caído de amores por Hugo também. Será que Hugo tinha ido atrás dela? O raio de sol fora engolido pela nuvem de novo. Havia uma frieza em seu rosto onde tinha havido calor. Bem, ele gostara enquanto tinha durado aquela sensação. E o pensamento de uma esposa, uma esposa cuidadosamente escolhida, o lembrou de uma outra razão pela qual realmente precisava fugir. Quase caíra em uma armadilha na última noite. Tinha sido tolo e ingênuo, especialmente porque sabia que as Marches queriam agarrá-o para o casamento. E mesmo que não soubesse, Martin o tinha advertido. Quando saiu da pousada com a senhorita March, porque ela reclamou do calor abafado da sala de estar, tinha reagido como ela sabia que ele faria, como uma marionete em uma corda. Ficara desesperadamente agradecido pela chegada da senhorita Fry naquele beco deserto. Senhorita Fry. Sophia Fry. Uma senhorita pequena, com um toque leve. E uma voz suave, ligeiramente rouca. E uma conversa estranhamente atraente, que tinha ficado a se repetir em sua mente quando se deitara depois de voltar para casa. Uma troca de sonhos, que em muitos aspectos não eram diferentes, embora suas circunstâncias fossem tão diferentes quanto poderiam ser. De acordo com Martin, que tinha dançado a noite toda, ela não tinha dançado e desaparecera cedo, logo depois de falar com ele. Sem sua intervenção, ele estaria em perigo de, hoje, ser um homem noivo desposado com Henrietta, ela dentre todas as pessoas. Não gostava dela quando era uma menina. E não gostava dela agora. Ela tinha falado muito sobre nada na última noite, mas seus amigos bem-nascidos, sua beleza e suas ligações com o mais alto escalão, faziam dela a estrela de cada anedota e sempre tinha a última


palavra espirituosa em cada altercação lembrada. Lady March era torturante o suficiente para atiçar seus cabelos da parte de trás do pescoço. Tinha escapado por pouco. Agora estava seguro? Agora que estava totalmente em guarda? Mas tinha estado em guarda antes. Podia ouvir passos se aproximando ao longo do caminho da casa, as botas de Martin, e de outra pessoa. Masculino, quase com certeza. Ah, e um terceiro passo, mais leve, mais feminino. — Aqui estão Sam e Edna Hamilton para vê-o, senhor — disse Martin. — Sam! — Vincent ficou de pé, com um sorriso no rosto, a mão direita estendida. — E Edna. Como é bom vocês terem vindo. Sentem-se. Está quente o suficiente aqui para vocês? Devemos ir para a sala? — Vince! — Seu velho amigo e parceiro de travessuras agarrou sua mão e a balançou para cima e para baixo. — Nós quase não tivemos oportunidade de trocar uma palavra na última noite. Você estava enrolado com as senhoras da senhorita Waddell. — Vincent — Edna Hamilton, ex Edna Biggs, disse e se adiantou para abraçá-lo e acariciou sua bochecha contra a dela por um momento. — Poderia ter esperado por você se eu soubesse o quão bonito ficaria ao crescer. — Hey, hey! — Sam protestou quando Vincent riu. — Nada disso. Eu não sou tão ruim de se olhar. — Não, vamos nos sentar aqui fora — disse Edna. — As nuvens estão prestes a sumir inteiramente, e está maravilhosamente quente na luz do sol. Meus pés estão doloridos de ontem à noite. Eu quase os perdi de tanto dançar. — Vince vai pensar que você é muito provinciana, Ed — seu marido comentou. — As senhoras não devem admitir que têm pernas.


Eles falaram da assembleia, enquanto se acomodavam no banco, e relembraram a infância que tinham compartilhado. Riram muito. E, em seguida, Edna mudou de assunto. — Oh, Vince, — disse ela — você ouviu o que aconteceu com aquela pequena mulher que vive com as Marches? — A senhorita Fry? — Disse Vincent, franzindo a testa. — Esse é o nome dela? — Perguntou Edna. — Você teve pena dela na noite passada e conversou com ela por alguns minutos, não foi? Ninguém sabia dizer, por um longo tempo, se era uma serva na Barton Hall ou uma parente pobre, mas os servos negaram quando perguntaram. Deveríamos saber, é claro, pois ela está sempre muito mais malvestida do que qualquer um deles. Enfim, ela foi colocada para fora. O reverendo Parsons encontrou-a na igreja esta manhã, sentada, pálida e silenciosa em um dos bancos, com uma patética pequena bolsa ao lado. Ele a levou para a casa paroquial, e a Sra. Parsons deulhe o café da manhã e uma sala para se deitar, já que ela foi expulsa na noite passada e, aparentemente, ficou no banco da igreja. Mas ninguém sabe o que acontecerá com ela, coitadinha. Não precisam de mais servos na paróquia — e ela não é uma serva de qualquer maneira. Suponho que alguém irá ajudá-la de alguma forma. — Ela está em melhor situação longe do Marches, se você me perguntar — disse Samuel. — Qualquer um ficaria. Nós viemos convidá-lo para nossa casa esta noite, Vince. Vamos tentar reunir mais do velho grupo e passar um bom tempo de jogos e conversas. O que você me diz? Demorou alguns momentos para Vincent compreender o que perguntaram a ele. — Ah sim. Certamente. Meus agradecimentos a ambos. Isso seria esplêndido. Que horas?


Eles se demoraram um pouco e Vincent voltou a sentar por mais alguns minutos antes de ir em busca de Martin. Encontrou-o na cozinha, prestes a aquecer os restos de ensopado de ontem e passar manteiga no pão. — O almoço estará pronto em um quarto de uma hora, mais ou menos — Martin disse a ele. Vincent não tinha apetite. — Eu preciso ir à casa paroquial — disse ele. — Quanto mais cedo melhor. Será que a comida vai estragar? — Ainda não comecei — disse Martin. — Não sabia quanto tempo iriam ficar. Sam sempre foi um falador. Assim como Edna. — Eu preciso ir agora — disse Vincent. — Empreste-me o braço, Martin. Vai ser mais rápido do que tocar o caminho ao longo da rua com a minha bengala. — Confessar seus pecados não pode esperar, não é? — Martin perguntou a ele. Surpreendentemente, Sophia tinha dormido, embora não tivesse ideia por quanto tempo. Sentou-se na beira da cama depois de acordar, não sabendo mais o que fazer. A Sra. Parsons encontrou-a e levou-a até a sala, onde se sentaram para beber café e comer biscoitos recém assados, e até o vigário veio de seu escritório, sorrindo, esfregando as mãos e parecendo estranho. Ela iria de diligência para Londres, Sophia tinha dito quando eles perguntaram se tinha quaisquer planos. Sir Clarence March havia lhe dado dinheiro para chegar lá. E sim, ela ficaria bem, e sim, sabia que as pessoas lá eram diferentes. Eles iriam ajudá-la a encontrar um emprego. Não deveriam se preocupar com ela. Haviam sido muito gentis.


Sua mente tinha ficado dormente durante toda a noite enquanto se sentara na igreja. Agora era uma grande confusão de pensamentos, ansiedade e terror, tudo que ela deveria esconder dessas pessoas bondosas. Não tinha a intenção de se tornar um fardo para eles. Estava acostumada a se esconder de pessoas, mesmo quando estava à vista. Não conhecia ninguém em Londres, ninguém que teria o cuidado de procurar, de qualquer maneira. Não sabia como fazer para encontrar emprego, embora, talvez, deveria ter descoberto assim que seu pai morreu. Tinha quinze anos, depois de tudo. Mas tinha ido para a tia Mary em vez disso, como qualquer mulher bem-nascida faria, e tinha sido dependente desde então. Havia agências de emprego. Teria que encontrar uma e esperava que seu contexto familiar, falta de experiência e a total ausência de recomendações não tornasse impossível encontrar alguma coisa. Qualquer coisa. Mas o que ela faria enquanto procurava? Para onde iria? Sir Clarence sabia que o custo de um bilhete de diligências para Londres era alto, e lhe dera a quantidade exata com nada extra, mesmo para refeições ligeiras na viagem. Ela tentou imaginar-se descendo da carruagem em Londres, no fim de sua jornada, e conseguiu muito bem. Perguntou-se se alguém em Barton Coombs precisava de ajuda. O senhorio do Foaming Tankard, talvez. Será que ele lhe daria um emprego, mesmo que seu único pagamento fosse um armário de vassouras para dormir e uma refeição por dia? Era como se o vigário tivesse ouvido seus pensamentos. — Eu perguntei, senhorita Fry, — disse ele, seu rosto gentil cheio de preocupação — mas parece não haver nenhum emprego, em qualquer lugar aqui


em Barton Coombs, para uma jovem senhorita. Ou para qualquer tipo de mulher. Minha querida esposa e eu ficaríamos felizes se ficasse conosco por um dia ou dois, mas ... Sua voz sumiu, e ele virou a cabeça para olhar impotente para a Sra. Parsons. — Ah, mas eu nem sonharia em impor-me à sua hospitalidade por mais tempo do que o necessário — disse Sophia. — Irei na diligência amanhã, logo pela manhã, assim que descobrir o momento em que devo partir. — Eu vou embalar um saco de comida para você levar na viagem — disse a Sra. Parsons. — Embora não haja nenhuma grande pressa. Você pode ficar por uma noite ou duas, se quiser. — Obrigada. Isso é ... Sophia não completou a frase, pois houve uma batida na porta da frente, e tanto o Reverendo como a Sra. Parsons voltaram sua atenção, muito ansiosamente, para a porta da sala, como se soubessem que era para eles. E, em seguida, na verdade houve uma batida na porta da sala e a governanta abriu-a. — É o Visconde Darleigh, minha senhora — disse ela, dirigindo-se à Sra. Parsons. — Ah. — O vigário esfregou as mãos novamente, parecendo satisfeito. — Mande-o entrar. É uma honra e uma agradável surpresa, devo dizer. Estou muito contente por estar em casa. — De fato — sua esposa concordou, sorrindo calorosamente. Sophia se encolheu para trás em sua cadeira. Era tarde demais para fugir da sala, para onde fugiria, se pudesse, não sabia. Pelo menos ele não seria capaz de vê-la.


Martim levou-o até a porta e, em seguida, à esquerda. O vigário correu pela sala e pegou o braço dele. — Visconde Darleigh, — disse ele — este é um prazer inesperado. Eu confio que tenha gostado da pequena festividade da última noite? É sempre bom celebrar ocasiões como regressos à casa com os amigos e vizinhos, não é? Venha sentar-se e minha boa esposa vai se certificar se a chaleira já foi colocada para ferver. — Você é muito atencioso — disse o Visconde Darleigh. — Eu percebo como estou sendo muito mal-educado de vir sem avisar quando deve estar prestes a iniciar o almoço, mas eu particularmente queria falar com a Srta Fry. Posso? Ela ainda está aqui na paróquia? Oh, — pensou Sophia, mortificada, apertando as mãos muito firmemente sobre seu colo — ele tinha ouvido. Ele deve ter vindo para se desculpar, não que fosse culpa dele. Ela esperava que ele não falasse que iria interceder com Sir Clarence em seu nome. Seria inútil. Além disso, não iria voltar para lá, mesmo se pudesse. Ela tinha sido um objeto por muito tempo. Miséria era melhor do que uma erupção cutânea, que pensamento tolo, quando nada poderia ser pior do que a miséria. Seu estômago deu uma cambalhota, ou se sentiu assim. Ser um parente pobre era a pior coisa do mundo, ela às vezes pensava. Mas não era o pior. — A senhorita Fry está aqui agora, nesta mesma sala, meu senhor — disse o vigário, indicando-a com um braço, mas o visconde não podia ver. — Ah — disse Lorde Darleigh. — E a senhora também está aqui, não é, Sra. Parsons? Minhas maneiras certamente deixam a desejar. Bom dia, senhora. Posso implorar o favor de uma conversa em particular com a senhorita Fry? Se ela estiver disposta a conceder-me. Sophia mordeu o lábio.


— Ouviu o que aconteceu, não é, milorde? — Perguntou a Sra. Parsons. — Eu não me importo com o que a senhorita Fry fez para causar a ira de Sir Clarence e Lady March para colocá-la para fora à meia-noite. Ela não disse e nós não a pressionamos sobre o assunto. Mas é uma vergonha o que eles fizeram, e a senhorita Waddell está reunindo uma comissão de senhoras para dizer-lhes isso. Nós normalmente não interferimos... — Minha querida — disse o vigário, interrompendo-a. — Vamos deixá-lo ter uma conversa particular com a senhorita Fry — disse a Sra. Parsons, acenando e sorrindo encorajadoramente na direção de Sophia. E ela e o vigário saíram da sala depois de levarem o Visconde Darleigh a uma cadeira. Ele não se sentou. Sophia olhou para ele com desânimo. Era a última pessoa no mundo que queria ver hoje. Não que o culpasse pelo que lhe tinha acontecido. Certamente não o fez. Mas não precisava de sua simpatia ou de sua oferta para interceder com Sir Clarence em seu nome ou ... Por que ele viera? Ela achava sua presença, especialmente sua presença em pé, terrivelmente intimidante. Mal podia acreditar que tinha realmente falado com ele ontem à noite, contado a ele seus sonhos mais secretos, ouvido os seus, como se fossem iguais. Em certo sentido eles eram. Às vezes, esquecia que era bem-nascida. — Senhorita Fry, — disse ele — isso é tudo minha culpa. — Não. Seus olhos se voltaram em sua direção. — Você acabou assim porque frustrou um plano envolvendo-me ontem à noite. Eu deveria ter sido capaz de


salvar-me e estou envergonhado de que coube a você me resgatar, um perfeito estranho. Estou profundamente em dívida com você. — Não — ela disse novamente. Ele usava um casaco verde superfino, calças de couro, botas Hessian brilhantes, camisa de linho branco e uma gravata. Como de costume, não havia nada de ostentoso em sua aparência, somente perfeita correção. Mas de alguma forma ele parecia tão masculino, sufocante e poderoso, que Sophia se viu tentando afastar mais sua cadeira. — Você pode me dizer — perguntou a ela — que essa não é a razão pela qual acabou assim? E, suponho, que agravada pelo fato de que eu permaneci ao seu lado depois que voltamos para a sala de festa. Ela abriu a boca para falar, pensou em mentir, pensou em dizer a verdade ... — Não, você não pode. — Ele respondeu à própria pergunta. — E quais são seus planos agora? Você tem outros parentes para ir? — Irei para Londres — disse a ele — e procurarei um emprego. — Você conhece alguém que possa levá-la e ajudá-la na busca? — Perguntou. — Oh, sim — ela assegurou com firmeza. Ele ficou ali, franzindo a testa para ela, seu olhar azul constante fixado a um lado de seu rosto. O silêncio se estendeu um pouco demais. — Você não tem para onde ir, não é? — Disse. Não era realmente uma pergunta. — E ninguém para ajudá-la. — Sim, — ela insistiu — eu tenho. Novamente o silêncio.


Ele cruzou as mãos atrás das costas e inclinou-se levemente. — Senhorita Fry, — disse ele — você deve me permitir ajudá-la. — Como? — Perguntou ela. E emendou rapidamente — Mas é completamente desnecessário. Eu não sou sua responsabilidade. — Eu discordo — ele disse a ela. — Você precisa de emprego se não tem outros parentes para te ajudar. Você é uma dama. Eu poderia pedir às minhas irmãs, mas levaria muito tempo. Tenho um amigo em Londres. Pelo menos, era o seu plano ir para lá na primavera deste ano. Ele tem grandes e prósperos interesses comerciais lá e, certamente, terá algo adequado para oferecer a você ou será capaz de encontrar algo em outro lugar se eu lhe fornecer uma carta de recomendação. — Faria isso por mim? — Ela engoliu em seco. — Será que ele ouviria você? — Nós somos amigos muito próximos. — Ele franziu a testa. — Se eu pudesse estar absolutamente certo de que ele vai estar lá. O duque de Stanbrook também falou de passar parte da temporada em Londres. Talvez ele esteja lá, mesmo que Hugo não esteja. Mas onde você iria ficar enquanto espera um emprego? — Eu ... — Mas ele não acreditava em seus lendários amigos míticos. — Hugo talvez fique lá um curto período de tempo — disse ele. — Se estiver lá. — Ah, não. — Sua madrasta e sua meia-irmã vivem com ele em sua casa de Londres — explicou. — Não — ela disse, sentindo-se muito angustiada. Uma coisa era bater à porta de alguém com uma carta de recomendação e um pedido de emprego.


Outra bem diferente era implorar para ser hospedada na casa de um estranho. — Oh, não, meu senhor. Isto é impossível. Você e eu somos estranhos. Você não me conhece bem o suficiente para oferecer garantias por mim, nessa medida, mesmo para seu amigo mais próximo. Seria precipitado, seria uma imposição sobre ele, sua mãe e irmã, e é algo que eu não poderia fazer. Ele ainda fez uma careta para ela. — Eu não sou sua responsabilidade — disse ela novamente. Mas seu estômago estava se sentindo decididamente enjoado. O que ia fazer? O silêncio se estendeu entre eles. Será que ela deveria dizer algo para despedir-se? Mas, perversamente, não queria que ele fosse, percebeu de repente. Havia um profundo vazio terrível à frente, e ela não tinha certeza se queria ficar sozinha para encarar o abismo. Ela agarrou os braços da cadeira mais firmemente. — Eu acho que você deve se casar comigo — disse ele abruptamente. Ela ficou deselegantemente boquiaberta, e foi surpreendente não ter caído de sua cadeira. — Ah não. — Eu espero — disse ele — que seja uma exclamação de surpresa, em vez de uma rejeição. E, de repente, surpreendentemente, ela estava com raiva. — Não foi minha intenção — disse ela, com a voz ofegante. — Nunca foi minha intenção, Lorde Darleigh, estar em uma espécie de competição com Henrietta para ver quem poderia prendê-lo em primeiro lugar e de forma mais eficaz. Esse nunca foi o meu plano.


— Eu sei. — Ele ainda estava franzindo a testa. — Por favor, não se aflija. Estou bem ciente de que você não participou do complô, que o que fez na noite passada foi feito pela bondade de seu coração. Como ele poderia saber isso? — E você acha que deve mostrar sua gratidão se casando comigo? — Perguntou a ele. Ele olhou em silêncio por alguns momentos. — A coisa é, — ele disse — que sou grato e que me sinto responsável. Se tivesse usado minha cabeça, teria me recusado a sair da pousada com a senhorita March e você não teria que vir em meu resgate e, assim, incorrer na ira de sua tia e seu tio. Eu sou responsável por você. E gosto de você, apesar de que meu gosto é baseado puramente no que você fez e em nossa breve conversa depois. Gosto da sua voz. Isso soa ridiculamente fraco, eu sei. Mas quando você não pode ver, senhorita Fry, o som e os outros sentidos tornam-se muito mais agudos. Normalmente, uma pessoa gosta do olhar de alguém por quem se sente atraído. Eu gosto do som da sua voz. Ele estava oferecendo casamento por causa de sua voz? E ele estava dizendo que ele a achava atraente? — É uma coisa boa — disse ela — que você não possa me ver. Ele olhou novamente. — Você parece uma gárgula, então, não é? — Perguntou. E então ele fez algo que fez Sophia agarrar os braços da cadeira com mais força ainda. Ele sorriu devagar e, depois, o sorriso se transformou em outra coisa. Em um sorriso travesso. Oh, todas aquelas histórias sobre sua infância deveriam ser verdade.


Mas, de repente, ele parecia humano, uma pessoa real aprisionada dentro de toda a pompa e adereços de um visconde. E um visconde bonito, elegante. E ele tinha sonhos. — Se eu fizesse isso, — disse ela—as pessoas iriam me notar. Ninguém nunca me percebe, milorde. Eu sou uma rata. É como meu pai costumava me chamar: rata. Nunca Sophia. E nos últimos cinco anos, este nome foi esquecido ou pouco usado. Eu não sou uma gárgula, mas uma rata. Seu sorriso se desvaneceu. Sua cabeça tinha caído um pouco de lado. — Foi-me dito — disse ele — que talvez os melhores e mais famosos atores são os invisíveis ratos. Eles podem projetar o personagem que representam no palco com perfeição, mas em suas próprias vidas, podem ser bastante normais e podem escapar da detecção até mesmo de admiradores que estão olhando para eles. E ainda toda a riqueza do seu talento está contida dentro deles. — Oh — disse ela, um pouco assustado. — Está dizendo que eu não sou realmente uma rata? Eu sei disso. Mas… — Descreva-se a para mim, senhorita Fry. Ela esfregou as mãos ao longo dos braços da cadeira. — Eu sou pequena — disse ela. Pouco mais de um metro e meio. Bem, um metro e cinquenta e dois. Sou pequena em todos os sentidos. Pareço um menino. Tenho um nariz que, segundo o meu pai é como um botão e uma boca que é muito grande para o meu rosto. Cortei meu cabelo muito curto porquê ... bem, porque ele enrola muito e é impossível de controlar. — A cor do seu cabelo? — Perguntou.


— Ruivo ou castanho avermelhado — disse ela. — Nada tão decisivo quanto loiros ou morenos. Simplesmente ruivo. Ela odiava falar sobre seu cabelo. Era seu cabelo que tinha levado à destruição de sua alma, embora fosse uma maneira ridiculamente teatral para descrever um pouco de desgosto. — E seus olhos? — Marrons — disse ela. — Ou avelã. Às vezes um, às vezes o outro. — Definitivamente não é uma gárgula, então — disse ele. — Mas não sou uma beleza — assegurou ela. — Nem mesmo uma quase beleza. Às vezes, quando meu pai era vivo, eu me vestia como um menino. Era mais fácil quando ... bem, não importa. Ninguém nunca me acusou de ser uma impostora. — Será que ninguém nunca lhe disse que você é bonita? — Perguntou. — Eu só teria que olhar no espelho mais próximo — disse ela — para saber que era mentira. Ele fez um daqueles olhares silenciosos novamente. — Tem a palavra de um homem cego — disse a ela – de que você tem uma voz bonita. Ela riu. Sentia-se absurdamente, pateticamente satisfeita. — Quer se casar comigo? — Perguntou. De repente, ela estava envolta em uma onda de tentação. Agarrou com mais força a cadeira. Deixaria marcas permanentes nos braços da cadeira do vicariato se não tivesse cuidado. — Eu não posso fazer isso — disse ela.


— Por que não? Só por mil razões. Finalmente ela disse. — Você deve saber — disse ela — que toda a aldeia está zumbindo com conversas sobre você. Eu não ouvi falar muito, mas ouvi o suficiente. Diz-se que saiu de casa há um tempo atrás porque seus parentes estavam tentando fazer você se casar com uma moça com a qual você realmente não desejava se casar. Diz-se que queriam te encontrar uma esposa. Todo mundo aqui tem especulado sobre quem, se é que há alguém, vai servir entre as jovens senhoritas com quem está familiarizado. E, claro, o meu tio e minha tia fizeram um esforço na última noite para pegar você para Henrietta. Todos tramando para que você venha a casar, embora seus motivos sejam amplamente diferentes. Eu não vou me acrescentar a essa multidão, Lorde Darleigh, ao me casar com você só porque é gentil o suficiente para se sentir responsável por mim. Você não é responsável. Além disso, você mesmo me disse ontem à noite que o seu sonho não inclui uma esposa. — Você tem alguma aversão por mim para não se casar comigo? — Perguntou a ela. — À minha cegueira, por exemplo? — Não — ela disse. — O fato de que você não pode ver é uma desvantagem, mas não parece tratá-la como tal. Ela não o conhecia. Mas ele realmente parecia em forma e bem musculoso. Ela sabia que ele era cego há vários anos. Se ele tinha se sentado em uma cadeira ou deitado em uma cama a maior parte desse tempo, isso não era o que parecia, enquanto olhava para ele agora. Seu rosto estava muito bronzeado. — Nada mais? — Perguntou. — Minhas roupas? Minha voz? Meu ... qualquer coisa? — N…não — ela disse.


Só que ele tinha um título, era rico, um cavalheiro privilegiado, apesar da cegueira, e vivia em uma mansão muito maior do que Barton Hall. E tinha uma mãe e irmãs corujas. E vinte mil libras por ano. E era bonito e elegante, o que a fazia querer se esconder em um canto, adorando-o de longe até mesmo de dentro de seu buraco de rato. Na verdade, isso daria esplêndidos desenhos animados, exceto que ela teria de ilustrar o seu esplendor sem sátira e ela não tinha certeza de poder fazer isso. — Então, peço licença para a pressionar — disse ele. — Senhorita Fry, por favor se case comigo. Oh, muito bem. Nós dois somos jovens. Nós dois admitimos ontem à noite que nosso sonho é de independência e de estar sozinhos para nos divertir, livre de cônjuge ou filhos. Mas também reconhecemos que os sonhos não são sempre a realidade. Isso é realidade. Você tem um problema assustador; sinto-me responsável e tenho que ajudar a resolvêlo, e tenho os meios de resolvê-lo. Mas os nossos sonhos não precisam morrer completamente ao nos casarmos. Pelo contrário. Vamos chegar a algum tipo de acordo que vai nos beneficiar tanto no futuro imediato como oferecer esperança para um futuro a longo prazo. Ela olhou para ele. Uma grande tentação caía sobre ela. Mas não entendia bem o que ele estava oferecendo. — De que maneira — ela perguntou a ele — o casamento o beneficiaria, Lorde Darleigh, quer a curto ou longo prazo? Além de servir de calmante para sua consciência. É perfeitamente óbvio como ele iria me beneficiar. Não há sequer necessidade de fazer uma lista. Mas o que o tal acordo, como você o chama, iria oferecer-lhe? E o que você quer dizer com essa palavra acordo? Como é que isso difere de casamento? O casamento com ela não iria oferecer-lhe absolutamente nada, o quer que seja. Seria uma página em branco com um pequeno rato melancólico olhando para o vazio de um canto inferior.


Ele parecia um pouco menos intimidante. Ou talvez não. Por agora não era uma ilusão, como não tinha sido na noite passada, que eles eram apenas dois iguais amigáveis, que tinham tido uma conversa acolhedora. Ainda assim ... bem, não havia nada igual sobre eles, exceto uma gentileza básica de nascimento. — Se considerarmos os fatos puramente do ponto de vista prático e material, — ele disse — o nosso seria um jogo desigual. Você não tem nada, ninguém, nenhum lugar para ir e está sem dinheiro. Tenho propriedades, fortuna e parentes mais amorosos do que eu saiba o que fazer com eles. E era isso. Realmente não havia mais a ser dito. Ela olhou para o abismo e sentiu como se seu estômago já tivesse descido para ele. — Não há outra abordagem — disse ela. — Sim, há. — Ele ficou em silêncio novamente por alguns instantes. — Eu fugi de casa há seis semanas ou mais, como você já ouviu falar. Não tive um bom começo na minha vida como Visconde Darleigh de Middlebury Park. Me permiti ser governado por todas as pessoas bem-intencionadas que me rodeiam por lá. E agora eles decidiram que é tempo para que eu me case, e não estarão satisfeitos até que a ação seja realizada. Quero mudar as coisas, senhorita Fry. Quanto mais fácil teria sido se tivesse me afirmado há três anos. Mas não o fiz, e não há como voltar atrás. Então, por onde poderia começar agora? Talvez tomando uma esposa para se casar comigo. Talvez eu venha a ter coragem de começar de novo, e começar de forma diferente se tiver alguém ao meu lado que seja, inegavelmente, dona de Middlebury. Talvez seja isso que eu precise. Talvez você vá fazer-me um favor tão grande como eu estaria fazendo por você agora. Se puder persuadi-la a concordar comigo. — Mas está escolhendo uma estranha — disse ela.


— É precisamente o que os meus parentes desejavam que eu fizesse há seis semanas — disse ele. — Ela foi levada para Middlebury por pais que precisavam que se casasse. Ela não tinha nenhum desejo pessoal de estar lá. Nós não tivemos nenhum conhecimento prévio. Ela era um cordeiro de sacrifício. Me disse que entendia e que não se importava. — Ah — disse ela. — Mas é claro que ela o fazia? — Você se importaria? — Perguntou a ela. — Casar-me com um homem cego? Não — ela disse. — Mas o que estava dizendo? Ela não estava concordando em casar com ele. — Mas eu me importaria de forçá-lo a algo que não quer fazer, com alguém que não conhece e alguém que não poderia trazer nada para o casamento, exceto, talvez, que realmente não se importasse. Ele correu os dedos de uma das mãos pelo cabelo e parecia que estava procurando por palavras. — Foi este o acordo que você sugeriu? — Ela perguntou. — Que me oferece conforto material e eu lhe ofereço a coragem para se tornar o mestre de seu próprio domínio? Ele exalou audivelmente. — Não — disse ele. — Lembre-se de nossos sonhos. — Nossos sonhos impossíveis? — Ela tentou uma risada e, em seguida, desejou que não o tivesse feito, quando ouviu o som patético que fez. — Talvez não tão impossível. — Ele se sentou em frente, de repente, e seu rosto parecia sério, ansioso e juvenil. — Talvez possamos ter tanto os sonhos como o casamento. — Como? — Eles pareciam conceitos mutuamente exclusivos para ela.


— Casamentos, — disse ele — os perfeitamente decentes, são realizadas por todos os tipos de razões. Especialmente casamentos das classes superiores. Muitas vezes, são alianças, mais do que jogos de amor. E não há nada de errado com uma aliança. Muitas vezes, há uma grande dose de respeito, mesmo afeto, entre os parceiros. E muitas vezes eles vivem vidas que são completamente independentes um do outro, mesmo quando o casamento sobrevive. Eles veem um ao outro ao longo do tempo e são perfeitamente amigáveis com o outro. Mas são livres para viver suas próprias vidas. Talvez possamos concordar com tal casamento. A própria ideia a gelou. Ele ainda estava olhando, ansioso. — Você poderia, eventualmente, ter sua casa no campo, — disse ele — com suas flores, galinhas e gatos. Eu poderia, eventualmente, provar a mim mesmo que posso ser o mestre de Middlebury e da minha vida, sozinho. Nós poderíamos ter um casamento agora, quando nós dois precisamos dele, e liberdade e independência e um sonho tornado realidade no futuro. Nós dois somos jovens. Temos muita vida pela frente — ou é o que esperaramos. — Quando? — Ela ainda se sentia gelada e tentada. — Quando poderíamos passar da fase um do nosso casamento para a outra fase? Ele olhou para além do ombro dela. — Um ano? — Disse. — A menos que haja uma criança. É um casamento de verdade o que proponho, senhorita Fry. E a geração de um herdeiro é um dever que eu preciso pensar em algum dia. Se houver uma criança, nosso sonho terá de ser adiado, pelo menos por um tempo. Mas um ano, se não houver nenhuma criança. A menos que você prefira fazê-lo por mais tempo. Ou menos. Mas acho que seria necessário um ano para nos estabelecermos como visconde e


viscondessa Darleigh de Middlebury Park. E devemos fazer isso. Você concorda com um ano? Ela não tinha concordado com qualquer coisa. Sentia como se estivesse prestes a desmaiar. Poderia ser casada e ter sua vida feliz e tranquila? Poderiam os dois coexistir? Ela precisava de tempo para pensar. Mas não havia tempo. Baixou o queixo ao peito e fechou os olhos. — Seria uma loucura — foi tudo o que conseguiu dizer. — Porquê? — Ele parecia ansioso. Ansioso por que ela iria dizer não? Ou por que ela diria que sim? Ela não podia pensar. Mas um pensamento surgiu livre. — E se houvesse uma criança — ela perguntou — e fosse uma menina? Ele pensou sobre isso e então ... sorriu. — Eu acho que gostaria mais de ter uma filha — disse ele, e então riu. — Outra mulher para governar a minha vida. — Mas, e se? — Ela insistiu. — E se você ainda ficar sem um herdeiro? — Então ... Hmm. — Ele pensou novamente. — Se nós nos tornamos amigos durante nosso ano juntos, e não vejo nenhuma razão pela qual não o façamos, então não teríamos de ser estranhos para o resto de nossas vidas, não é? Nós não estaríamos separados, apenas vivendo separados porque seria adequado para nós fazê-lo. Ou então nós dois estaríamos felizes de viver juntos novamente de vez em quando. Quanto tempo era suficiente para ter um filho? Ou outra criança? Ela ainda se sentia tonta. Tentou pensar racionalmente. — E se, com o tempo, Lorde Darleigh, — ela perguntou — você desejar se casar com alguém por quem tenha se apaixonado?


— É improvável que eu ou você encontremos qualquer pessoa em Middlebury — disse ele. — Espero que se torne menos solitário do que tem sido nos últimos três anos. Na verdade, estou determinado a ter uma vida tranquila. Além disso, é um risco assumido por todos que se casam, não é? O perigo de se encontrar alguém que se quer mais? Quando alguém se casa, no entanto, compromete sua lealdade para com a pessoa com a qual se casa, e é isso. Tinha que haver um buraco em seu argumento, grande o suficiente para conduzir a uma busca aprofundada e ela pensou em um. Os homens tinham necessidades, não tinham? Ela tinha aprendido isso durante os anos em que vivera com seu pai e seus amigos. E sobre as necessidades de Lorde Darleigh? De acordo com o acordo que ele sugeria, estaria deixando-a em algum momento. Como ele iria satisfazer suas necessidades depois disso? Com amantes? Ela abriu a boca e respirou fundo, mas não teve coragem de esclarecer o ponto. Ele fez isso por ela. — Nós poderíamos ficar juntos, ocasionalmente, de qualquer maneira — disse ele. — Não precisamos ser estranhos. Desde que seja por mútuo consentimento, é claro. Houve outro daqueles silêncios curtos. — E se você conhecer alguém e se apaixonar? — Perguntou a ela. — Eu iria me afastar — ela disse a ele. — Gostaria de ser fiel a meu casamento. E, por sua resposta, ela estava cruzando a linha de considerar seriamente a sua proposta? Oh, ela não deveria o levar a sério.


Mas qual era a alternativa? Ela se abraçou, como se tivesse frio. — Você não me conhece mesmo — disse ela, percebendo tarde demais que não precisava mostrar esse ponto, se não estivesse pensando em dizer sim. – Eu não conheço você. Ele não respondeu imediatamente. — O que aconteceu com você? — Ela perguntou. — Com os meus olhos, você quer dizer? — Disse. — O irmão da minha mãe voltou para casa depois de longos anos no Extremo Oriente. Ele é um comerciante e um homem de negócios muito próspero. Meu pai tinha falecido há pouco tempo e minha mãe estava lutando mais do que nunca para fazer face às despesas. Meu tio quis levar minhas irmãs para Londres para encontrar maridos elegíveis, o que ele realmente fez com grande sucesso, e queria me levar para os negócios. Mas o pensamento de ficar sentado atrás de uma mesa todos os dias, mesmo que apenas por alguns anos até que tivesse ganho uma promoção, me deprimiu. Pedi-lhe para comprar uma patente, em vez disso, e fui para a guerra com um regimento de artilharia com a idade de dezessete anos. Estava explodindo de orgulho e ânsia de provar a mim mesmo, para mostrar que era tão valente, tão talentoso, tão firme como o mais experiente dos veteranos. Na primeira hora da minha primeira batalha na Península, estava de pé ao lado de uma das grandes armas para detonar. Nada aconteceu, e eu pisei ligeiramente para a frente, para ver o que tinha acontecido para corrigir o problema e vencer a guerra em favor dos aliados. A arma disparou, e a última coisa que eu vi foi um flash brilhante. Realmente deveria ter sido soprado para a glória. Não deveriam ter sido poucos os pedaços de mim chovendo sobre a Espanha e Portugal e ninguém os teria encontrado, nem identificado um único deles. Mas, quando fui


levado para um hospital de campanha, estava perfeitamente intacto, exceto pelo fato de que, quando recuperei a consciência, não podia ver nem ouvir. Sophia engasgou de horror. — Logo que cheguei à Inglaterra, depois de algum tempo, voltei a ouvir — disse ele. — Mas a visão nunca recuperei, e nem irei. — Oh — ela disse. — Porquê O que foi que aconteceu ... Mas ele levantou uma mão, e a outra, ela percebeu, estava apertando com força o braço da cadeira, assim como as mãos dela tinham feito há poucos minutos. Seus dedos estavam brancos. — Eu sinto muito — disse ele, e sua voz soava inexplicavelmente sem fôlego. — Não posso falar sobre isso, senhorita Fry. — Perdoe-me — disse ela. — E o que eu deveria saber sobre você? — Perguntou a ela. — O que pode me dizer que vai me fazer correr para a porta e a liberdade? — Eu não sou respeitável — disse ela. — Meu avô era um barão e meu tio, seu filho mais velho, tem agora o título. Mas ambos renegaram o meu pai muito antes de eu nascer. Ele era a ovelha negra da família. Era um aventureiro e um jogador. Às vezes, ganhava uma fortuna e vivia no luxo súbito. Mas nunca duraram mais de alguns dias ou semanas, no máximo. Perdia mais dinheiro do que possuía e, muitas vezes, passamos semanas e meses fugindo de oficiais de justiça e outros homens a quem ele devia grandes somas. Era bonito, charmoso e ... e levou minha mãe a partir, suponho que por seu jeito mulherengo, embora quando ela partiu, quando eu tinha cinco anos, o tenha feito com um amante e sem mim. Foi um grande escândalo. Ela morreu no parto, três anos depois. Meu pai foi morto em um duelo há cinco anos. Foi baleado por um marido furioso.


Não era nem mesmo seu primeiro duelo. Ele era notório, de muitas formas. Não seria bom para você estar associado a mim. Ela mordeu o lábio e fechou os olhos novamente. Ela o ouviu suspirar. — Senhorita Fry, — disse ele — você não é nem seu pai nem a sua mãe. Ele se levantou e deu alguns passos hesitantes em direção a ela, com medo, talvez, de que houvesse algum obstáculo entre a cadeira e ela. — Senhorita Fry. — Ele estendeu a sua mão direita. — Você pode colocar a sua mão na minha? Ela ficou relutante a seus pés, fechou a maior parte da distância entre eles, e deu-lhe a mão. Quando ele levantou a outra mão, ela colocou sua direita sobre a dele, e seus dedos se fecharam, quentes e fortes, sobre ambas. E se ajoelhou diante dela. Oh! Ele abaixou a cabeça sobre as mãos. — Senhorita Fry, — disse ele — você vai me dar a grande honra de se casar comigo? Vai nos dar a chance de realizar os nossos sonhos? Como ela podia pensar direito quando estava olhando seu cabelo macio e brilhante? Ele era um homem impulsivo, ela suspeitava. Ele viveria para se arrepender se ela dissesse que sim. Especialmente se, ―quando?‖, se encontrasse sozinho após o período de um ano, sem qualquer perspectiva de se casar com ninguém, a menos que ela tivesse morrido. Seu sonho era todo muito bom, para um ano ou dois. Mas para sempre? Ela adivinhou que ele era o tipo de homem que acabaria por querer uma família calorosa e amorosa.


E o que aconteceria com ela? Mas ela não tinha escolhas. Ou, pelo menos, tinha duas. Podia escolher entre duas alternativas: o acordo de casamento imperfeito que ele havia sugerido ou a indigência. Isso era realmente não ter nenhuma escolha. Que Deus a ajudasse, não havia realmente nenhuma escolha. — Eu aceito — ela sussurrou. Ele levantou a cabeça. E, com os olhos bem nos dela, sorriu. Era um sorriso doce intenso.


Capítulo Seis Martin não estava falando com ele, se descontadas as respostas sim, milorde, ou não, milorde, a cada pergunta ou comentário de Vincent, sua voz quase vibrando com a rígida formalidade. Ele estava de mau humor após a briga que tiveram a caminho de casa desde o vicariato. — Você está o quê? — Ele gritara quando Vincent disse que estava prometido em casamento à senhorita Fry. — Que diabo de brincadeira é essa? Você está fora de seu juízo? Ela se parece com um menino, e eu não estou mesmo certo que você é gentil com os meninos. — Não me faça bater em você, Martin — Vincent dissera. Martin zombara — de forma audível. — Você sabe que eu posso — Vincent tinha lhe lembrado. — Lembra-se do lábio partido e o nariz sangrando quando você duvidou de mim antes? — Pura sorte — Martin havia dito. — E você não joga limpo. — Justo, é como eu jogo — Vincent tinha-lhe dito. — Não me faça provar que não foi pura sorte. A senhorita é minha noiva e eu vou defendê-la contra qualquer insulto. Martin tinha zombado um pouco mais calmamente e isolou-se em um silêncio ferido.


O Reverendo e Sra. Parsons não foram tão francos em suas reações. Mas houvera espanto, mesmo uma atordoada incompreensão em suas vozes quando Vincent lhes havia chamado de volta para a sala e fizera o anúncio. Os parabéns tinham sido hesitantes, como se não tivessem certeza de que não era tudo uma brincadeira, e, em seguida, tinha soado amável quando tiveram certeza de que ele estava falando sério. Mas eles haviam concordado em permitir que a senhorita Fry permanecesse na paróquia mais uma noite ou duas, até que ele tivesse feito outros arranjos para ela. O problema era que ele não sabia bem o que arranjos fazer. Ele esperava, enquanto corria em direção à casa paroquial guiado pelo braço de Martin, mais cedo, que fosse descobrir que a senhorita Fry tinha planos, que ela teria um lugar para ir, alguns outros parentes que iriam recebê-la ou, pelo menos, alguns amigos. Então tudo o que teria sido necessário seria um sincero pedido de desculpas pelos problemas que ele lhe causara e, talvez, uma oferta de sua carruagem com Handry para levá-la onde ela quisesse ir. Enquanto isso, ele ficaria em Covington House e aproveitaria para visitar seus amigos por mais alguns dias, enquanto aguardava o retorno de sua carruagem, e preparava-se para voltar para Middlebury Park. Em algum lugar de sua mente, ele tinha pensado que poderia ter que lhe oferecer casamento, se não houvesse alternativa, mas realmente não esperava que chegasse a isso. Mas chegara. O problema era que ele não tinha pensado mais além da proposta. Não, o problema era que ele não tinha sequer pensado na extensão da proposta! Martin estava certo. Ele estava fora de seu juízo.


Agora ele deveria levá-la para casa em Middlebury com ele? E se casar com ela lá? Ele imaginou a consternação em que ele colocaria sua mãe. E logo suas irmãs cairiam sobre ele, e sua vida e seu casamento não seria seus. Seu casamento seria sempre assim, é claro, independente de com quem ele se casasse. Mas, com quase qualquer outra noiva, haveria a família dela se abatendo do outro lado, como uma espécie de equilíbrio para a sua própria. Não haveria ninguém para falar pela senhorita Fry ou para cuidar dela e ter certeza de que o casamento era o que ela queria, tanto quanto ele, ou mais ainda, porque ela era a noiva e ele o mero noivo. Não seria justo levá-la direto para casa com ele. E ele continuou lembrando de Edna Hamilton dizendo que a senhorita Fry havia sido encontrado na igreja esta manhã, com uma patética pequena bolsa no banco, ao lado dela. Teria ela deixado a maior parte de seus pertences em Barton Hall simplesmente porque não podia levar mais de uma bolsa com ela? Ou a bolsa, de fato, compreendia todos os seus pertences? Ele desejou saber como ela se vestia — em Barton Hall quando ele esteve de visita, na assembleia ontem à noite, na paróquia nesta manhã. Ele estaria disposto a apostar, porém, que ela precisava de roupas e muitas delas. E então ele se lembrou de Edna dizendo que ela não poderia ser confundida com um servo de Barton Hall porque ela não estava tão bem vestida como eles. Talvez ele devesse publicar os proclamas aqui e se casar com ela em Barton Coombs. Mas isso significaria um mês inteiro de ócio por aqui, e teria que implorar ao vigário e à sua esposa para estender sua hospitalidade à senhorita Fry por esse tempo. Sua mãe e suas irmãs teriam tempo para caírem sobre ele aqui, e o casamento não seria diferente do que se levasse sua noiva para Middlebury Park. E os Marches poderiam tornar-se desagradáveis e causar problemas. Ele não lhes daria a chance de tornar público o mais-que-temperado passado do pai e da mãe da senhorita Fry. E ela precisava de roupas. Qualquer


noiva deveria se casar com um vestido bonito. Onde é que ela encontraria um aqui? Se ele não ia voltar para Middlebury Park e não ia permanecer aqui, então, onde ele iria se casar com ela? Realmente, havia apenas uma alternativa. Londres. Ela poderia comprar roupas e um vestido de noiva lá. Eles poderiam se casar rapidamente e em silêncio, com uma licença especial. Era realmente o melhor plano. Deu-lhe um pouco de dor pensar em se casar, sem sequer informar sua mãe e suas irmãs, mas, no geral, parecia o melhor para a senhorita Fry. Ele iria colocá-los em pé de igualdade. Seria totalmente melhor, de qualquer maneira, apresentá-la à sua família com o fato consumado, decidiu, lembrando-se, inquieto, como Martin, o vigário e sua esposa tinham reagido à escolha de sua noiva. Sua mãe e irmãs, afinal, queriam vê-lo casado. Elas certamente ficariam muito felizes por ele, uma vez que tivessem se recuperado do primeiro choque ao descobrir que tinha partido por conta própria, escolhido uma noiva e se casado com ela. E se elas não ficassem, bem, então, ele e elas teriam uma briga para resolver. Bom Deus, ele nunca brigara com sua família. Como é que a senhorita Fry iria às lojas de roupas em Londres, sem ninguém para guiá-la? Será que ela saberia para onde ir? Como ele iria adquirir uma licença especial? Alguém teria que ir ao Doctors'Commons, não teria? Bem, mesmo sem olhos, ele iria encontrar o seu caminho. Ele tinha servos, depois de tudo, e tinha uma língua em sua boca. Como é que alguém assim poderia organizar um casamento? Ele iria descobrir. Onde eles poderiam ficar


por um dia —

ou dois, ou três — enquanto tudo isso estava sendo

providenciado? Um hotel? Um homem solteiro e uma senhorita? As perguntas e as respostas menos do que satisfatórias giravam em torno de sua cabeça enquanto comia um pouco do guisado de coelho que Martin tinha aquecido e um pedaço de pão com manteiga. Não havia nenhum jeito de pedir a opinião de Martin. Ele estava ignorando qualquer coisa que não pudesse ser respondida com uma simples afirmativa ou negativa. Pelo menos pensar sobre os problemas práticos que precisavam ser resolvidos mantinha fora de sua mente a questão maior. Ele tinha oferecido a ela, ele havia prometido a ela, tanto o casamento como a liberdade. Ele tinha oferecido a ela o tipo de casamento que sempre lamentara. E então, pensou em algo que trouxe sua mente de volta para aspectos práticos. Na verdade, tinha pensado nisso quando estava com ela, embora em um contexto diferente. Os sobreviventes. Hugo, Hugo Emes, que era Lorde Trentham, tinha planejado passar pelo menos uma parte da primavera em Londres. E mesmo que ele não estivesse lá, sua madrasta e a meia-irmã quase certamente estariam. A senhorita Fry não iria ficar com elas como uma mera aspirante a emprego, mas certamente não poderia ter qualquer objeção a fazê-lo como sua noiva. E talvez a senhora ou senhorita Emes estariam dispostas a acompanhá-la às compras. Vincent sorriu para si mesmo. A maioria dos problemas tinha uma solução, se alguém estivesse determinado a encontrá-la. E ele era determinado. Era infinitamente mais difícil viver de forma independente e se afirmar a si mesmo quando se tinha perdido a visão, é claro, mas não era absolutamente impossível. De repente, se sentiu bastante ansioso para ir para casa e começar a lidar com os maiores desafios de sua vida.


— Acredito que o ensopado está melhor hoje do que ontem, Martin — disse ele. — E o pão não poderia ser mais fresco se tentasse. Na verdade, mal tinha experimentado qualquer um. — Obrigado, milorde. Ah, uma variação sobre um tema. Ele era geralmente sir. — Preciso do meu chapéu e minha bengala, por favor, Martin — disse ele, levantando-se da mesa. — Prometi à senhorita Fry que iria levá-la para um passeio esta tarde. Não vai chover, não é? Uma pausa, presumivelmente enquanto Martin olhava para fora pela janela. — Não, milorde. — Não preciso de você para me acompanhar até a casa paroquial — Vincent disse a ele. — Tenho o caminho memorizado. — Sim, milorde. — Martin, — disse ele, dez minutos depois de sair pela porta da frente e localizar os passos com a bengala — vou estar casado com a senhorita Fry dentro de uma semana, eu espero. Todos as birras no mundo não vão mudar isso. Talvez, em algum momento nos próximos cinco anos ou assim, você encontre uma forma de me perdoar. — Sim, milorde. Bem, era melhor do que não, milorde. Vincent encontrou seu caminho com segurança, descendo os degraus por uma via mais curta ao longo da calçada. Mas então parou ao ouvir o som de uma carruagem se aproximando ao longo da rua da aldeia, puxada, se ele não estava enganado, por quatro cavalos. Havia demasiado ruído e barulho de trotes para


dois. A menos que fosse uma diligência ou outra coisa de passagem, só havia uma pessoa em Barton Coombs a quem poderia pertencer. Ele abrandou e virou-se em direção a Covington House. Vincent ficou onde estava e esperou que, se estivesse no meio do caminho, os cavalos não o atropelassem, antes que fosse visto. Ele não precisava ter se preocupado. — Ah, Darleigh — a voz jovial de Sir Clarence March o chamou. Ele deveria ter baixado uma das janelas da carruagem. — Dando um passeio até a estrada e voltando, não é? Tenha cuidado. Vincent inclinou a cabeça sem responder, e ouviu quando um baque de botas anunciou a descida do cocheiro. Em seguida, a porta da carruagem se abriu e ouviu mais passos. Ouviu uma grande comoção de descida e compreendeu que Sir Clarence não estava sozinho. Esta era uma visita à tarde — em uma carruagem puxada por quatro cavalos? — Minhas queridas esposa e filha desejavam dar um passeio no campo em uma tarde tão bonita, — Sir Clarence disse — e como eu poderia não satisfazê-las, Darleigh? Quando você tiver uma esposa e filhas próprias, embora seja de esperar que você terá filhos também, vai entender como é ser marido e pai tentando bater o pé para viver sua própria vida. Não pode ser feito. Nossa própria felicidade depende de ceder às mulheres. Minhas mulheres acham que você iria desfrutar de uma volta no campo conosco e, talvez, até mesmo de uma parada em algum lugar para dar uma caminhada. Minhas pernas não são como costumavam ser, e Lady March é incapaz de andar muito, sem se cansar, mas os jovens são feitos de material mais duro. Henrietta terá o prazer de o acompanhar se quiser tomar o ar do final da tarde. Você deve vir conosco para jantar depois. Apenas uma refeição simples, informal, entre amigos. "


Ah. Ele estava apreciando isso, Vincent pensou. — Eu agradeço seu amável convite — disse ele. — Infelizmente, devo recusá-lo. Samuel e Edna Hamilton me convidaram para passar a noite com eles e alguns dos nossos outros amigos de infância. E esta tarde eu combinei de passear com minha noiva. Houve um breve, quase excessivo silêncio, com exceção de algum tilintar de arreios, resfolegar dos cavalos e patadas no cascalho. — Sua noiva? — Disse Lady March. — Sim. — Vincent sorriu. – Vocês não ouviram falar? Eu teria pensado que todos em Barton Coombs já saberiam agora. Uma ou duas horas atrás a senhorita Fry aceitou minha mão em casamento. Confio que vocês me desejem felicidades. — Senhorita — a rata? — A voz de Sir Clarence era quase um rugido. — Sophia? — Disse Lady March quase simultaneamente. — O quê? — Disse a senhorita March, parecendo confusa. — Mama? — Vamos nos casar em Londres, logo que eu possa fazer os arranjos, — Vincent disse a eles — e, então, vou levar minha viscondessa para minha casa em Middlebury Park. Não deve se preocupar com sua sobrinha, Lady March. Ela vai estar muito segura sob minha guarda. E acarinhada. Ah, acabo de me lembrar algo. Martin? Ele esperava que a porta atrás dele ainda estivesse aberta. Mas adivinhou que Martin tinha mantido um olho sobre ele enquanto ainda estava à vista, para se certificar de que não tropeçasse em qualquer pedra maior do que uma pedrinha ou colidisse com um mourão. — Sim, milorde.


— Martin, — Vincent instruiu-o — busque minha bolsa, por gentileza, e conte o custo de um bilhete de diligências. Sir Clarence vai dizer a quantidade exata. Você foi gentil o suficiente para dar à sobrinha de sua esposa a tarifa, quando ela deixou Barton Hall na noite passada, sir, mas não é necessário depois de tudo, e é um prazer devolvê-la para você com os meus agradecimentos. Ele continuou o seu caminho ao longo da calçada, esperando não estragar sua grande saída enredando-se com cavalos ou batendo em uma porta aberta da carruagem. — Mama? — Disse a senhorita March novamente atrás dele, com a voz trêmula. — Oh, fique quieta, Henrietta — disse a mãe dela irritada. — Essa vadia. Depois de tudo o que eu fiz para ela. Vincent sentiu o poste com a bengala e atravessou a rua com segurança. Ele podia se lembrar de jogos assim — uma criança com olhos vendados sendo levada em uma dança alegre por outra criança e tendo que adivinhar, ao final, onde estava. Vincent sempre tinha enganado, é claro, como supunha que todas as outras crianças tinham feito, espreitando abaixo da venda. Desejou que pudesse fazer o mesmo agora. Mas o vicariato não era longe. Iria encontrá-lo. Sempre encontraria seu caminho, pensou, apesar de um sentimento maçante em seu estômago que ele encenara precipitadamente sua primeira visita de hoje e teria que viver com as consequências para o resto de sua vida. Pouco antes de chegar à casa paroquial, ouviu a carruagem retornando ao longo da rua, na direção de Barton Hall. Pareceu que o passeio da tarde e a caminhada tinham sido abandonados. E assim ele tinha feito mais uma brincadeira com Sir Clarence March, pensou. A última e, de longe, a mais gratificante.


E ele tinha feito algo para vingar sua lady. — Você caminha muitas vezes? Tem um lugar favorito para ir? — Vincent perguntou à senhorita Fry conforme eles deixavam a casa paroquial um pouco mais tarde. — Eu costumava gostar de seguir ao longo da pista estreita além da ferraria e, em seguida, atravessar a pinguela e cruzar o prado à margem do rio. Quando meninos, todos nós costumávamos pescar e nadar lá. Normalmente a natação era proibida, mas nós o fazíamos, de qualquer maneira, mesmo à noite. — Eu caminho — disse ela. — Às vezes vou apenas à floresta no parque de Barton Hall, onde posso ficar sozinha, e às vezes vou mais longe, para onde meus passos me levam. Conheço o lugar que você falou. Ela havia tomado o braço oferecido, mas deve ter percebido, como ontem à noite, que ele não poderia levá-la a qualquer lugar com confiança. Era mais provável que fosse o contrário, apesar do fato de que tinha a bengala na mão livre. Ele virou-os na direção que teriam de tomar, e quase imediatamente foram saudados pela senhorita Waddell, que morava ao lado da casa paroquial. E estava em seu jardim da frente, ela explicou, apenas aparando as pétalas mortas de algumas de suas flores. Ela deveria tê-lo visto chegar, Vincent pensou, pela segunda vez hoje. E, como todos, saberia sobre o vigário ter encontrado a senhorita Fry na igreja esta manhã e a levado para a casa paroquial. Saberia também que a senhorita Fry tinha sido atirada para fora de Barton Hall no meio da noite passada. A Sra. Parsons não tinha mencionado que ela estava planejando liderar uma delegação de protesto a Barton Hall?


— É uma bela tarde, Lorde Darleigh — continuou ela. — E a senhorita ... Fry, não é? Você é parente de Lady March, creio eu, mas se hospeda no vicariato. Sua voz se eriçou com a curiosidade, e Vincent realizou, com alguma surpresa, ao perceber que a esposa do vigário tinha feito o que ele pedira e não dissera a ninguém sobre o noivado. — Você deve ouvir a notícia feliz de meus próprios lábios, em seguida, senhorita Waddell — disse ele. – A senhorita Fry fez de mim um homem feliz hoje. Nós estamos noivos. — Oh, meu Deus! — Por um momento, parecia ter perdido as palavras. — Então, desejo-lhes parabéns. Bem, valha-me Deus, esta é uma notícia inesperada. Só esta manhã o vigário estava perguntando em todos os lugares sobre a possibilidade de emprego para a gentil... Bem. Oh, Deus! Bem, que encantador, devo dizer. Não foi tão difícil se afastar dela como tinha sido das outras vezes. Vincent adivinhara que estava ansiosa para espalhar a notícia antes que alguém o fizesse. — Peço desculpas — disse ele quando estava sozinho com a senhorita Fry novamente. — Fiz o anúncio sem antes consultar você. Espero que não se importe. — Não, milorde — disse ela. — Eu disse a Sir Clarence, à Lady March e à senhorita March também, quando estava saindo de casa, há pouco — disse ele. — Eles vieram me convidar para um passeio no campo com eles e, talvez, uma caminhada com a senhorita March em algum lugar pelo caminho. Me deu uma enorme satisfação explicar-lhes que iria caminhar com minha noiva, ao invés disso. Gostaria que você pudesse ter estado lá para ver seus rostos quando eu os informei sobre


quem era. Estou certo de que deve ter sido um espetáculo para ser visto. Oh, e eu pedi a Martin Fisk, meu criado, que devolvesse a tarifa da diligência para Sir Clarence. — Oh — ela disse. — Nós costumávamos fazer brincadeiras impiedosas com ele quando eu era um garoto — ele disse a ela. — Digo nós, embora quase sempre eu tenha sido tanto o mentor como o líder. Uma vez subimos no telhado de Barton Hall na noite anterior a que Sir Clarence estava esperando a visita de um almirante naval titulado e sua esposa, ele havia se gabado disso nos dias anteriores. Fixamos uma grande bandeira, pintada com caveira e ossos cruzados, no mais alto da chaminé, esperando que ninguém notasse antes da chegada do almirante. Ninguém o fez e, como éramos sortudos, havia uma brisa leve soprando naquela manhã. Se os servos disseram a verdade, e geralmente eles dizem, a primeira coisa que o almirante fez depois de descer de sua carruagem, foi tomar uma respiração profunda de ar fresco e olhar para onde a bandeira batia alegremente com o vento. Ela riu, um som leve, feliz pelo prazer dele. — Você já foi pego? — Ela perguntou. — Nunca — disse ele. — Embora criasse algumas situações. Sir Clarence sempre soube quem eram os culpados, é claro, mas nunca poderia provar suas suspeitas e, embora alguns de nós tivéssemos pais severos, eu tenho a sensação de que eles investigaram todas as reclamações de Hall não muito vigorosamente. Ela riu novamente. — Você teve uma infância feliz, então, milorde? — Perguntou ela. — Eu tive.


Virou a cabeça em direção a ela e quase perguntou sobre sua própria infância. Mas sabia que tinha sido uma tarefa difícil e, talvez, não, provavelmente, muito infeliz, e estava tentando deixá-la à vontade. Ele supôs que deveriam estar chegando perto da ferraria, e, com certeza, ouviu o Sr. Fisk saudando-o. Então ouviu a aproximação de passos pesados, antes de sua mão direita ser arrebatada, com bengala e tudo, por uma grande mão e balançada para cima e para baixo. — Vincent Hunt — o ferreiro gritou em sua grande voz. — Eu não pude chegar perto de você na noite passada com a minha boa esposa. Está muito parecido a um grande cavalheiro. Mas ainda tem um coração brincalhão, não tenho nenhuma dúvida. Olá, senhorita. Não vive em Barton Hall? Não, espere um minuto. Você é aquela sobre a qual o vigário estava perguntando esta manhã. Queria saber se minha patroa precisava de uma ajudante na casa. Está no vicariato, não é? Bem, eu diria que está melhor lá do que onde estava. Não recomendo o Hall para o meu pior inimigo. — A senhorita Fry e eu ficamos noivos recentemente — Vincent disse a ele. O Sr. Fisk balançou sua mão ainda mais vigorosamente. — Ho, — ele gritou — você fez um cortejo rápido, rapaz. Mas nunca foi um retardatário, foi? Eu poderia dizer-lhe uma coisa ou duas sobre esse patife, senhorita, que faria seu cabelo ficar em pé. Mas ele sempre foi um bom rapaz, apesar de tudo, e será um bom marido, eu não duvido. Estou feliz por você ter escolhido uma pobre moça do campo, Vincent — ou milorde, eu acho que deveria chamá-lo assim agora — e não uma dessas coquetes com quem os nobres geralmente se casam. Desejo-lhes muitas felicidades. Minha esposa gostaria de felicitá-los também, mas ela está ocupada assando mais pães e bolos


para o nosso Martin e não está olhando através da janela. Ela acha que ele precisa engordar como seu pai. — Espero que ela entenda, Sr. Fisk, — Vincent disse — que me faz engordar também, até demais. Seu pão é o melhor que já provei, e seus bolos significam a morte para quaisquer boas intenções de comer com moderação. Ele moveu-se com a senhorita Fry, e voltaram quase que imediatamente para a rua tranquila que corria paralela ao rio, mas a alguma distância a dele. — Uma pobre moça do campo — disse ele. — É isso que você é? Ficou ofendida? Ele a conhecia tão pouco. Mais uma vez teve a sensação de vazio no estômago por ter feito algo impulsivo e precipitado, mas irrecuperável. — Não quando a alternativa era ser uma coquete com as quais os nobres se casam — disse ela. — Parece uma coisa muito indesejável de ser quando se quer ganhar a aprovação dos ferreiros, não é? Ele riu. Sua resposta o surpreendeu e encantou. M ostrou espírito e humor. — O Sr. Fisk é o pai do meu valete — explicou a ela. — Martin e eu crescemos juntos. Quando eu estava indo para a guerra, ele perguntou se poderia vir como meu batedor. Depois que fui ferido, ele insistiu em ficar como meu criado, e não fui capaz de me livrar dele desde então. Tentei, especialmente nos primeiros anos, quando não podia me dar ao luxo de pagar-lhe e tudo o que consegui foi um quarto e a comida na casa da Cornualha onde eu convalescia. Ele se recusou a partir. — Ele deve te amar — disse ela. — Eu suponho que sim — ele concordou. Nunca tinha pensado dessa forma antes. Ele duvidava que Martin também. — A pinguela deve estar bastante perto.


— Cerca de vinte passos mais — disse ela. Ele não tinha dado muita atenção à forma como iria lidar com ela. Tinha feito uma caminhada muito mais robusta do que esta em Lake District, é claro, mas tinha tido Martin com ele. Não que Martin o carregasse, mas estavam acostumados um ao outro e ficavam confortáveis juntos. Martin sabia exatamente quais as instruções e advertências a dar e quando dar. Podia se lembrar desta escadaria. A havia subido milhares de vezes. — Eu vou primeiro — disse ele, quando chegaram a ela. — Então poderei, pelo menos, ter algum pretexto para ajudá-la de novo. Ele enganchou sua bengala sobre o degrau superior. Estava feliz por ela não tentar tirar isso dele ou insistir em ir à frente para que pudesse ajudá-lo. Um homem deveria manter alguma dignidade. Sentia-se autoconsciente e, realmente, com um pouco de medo de que estivesse prestes a se fazer de idiota. Havia duas barras de madeira, uma a cerca de três pés do chão, a outra cerca de dois pés acima desta — sobre o qual ele tinha acabado de enganchar sua bengala. Sob a barra mais abaixo havia uma terceira, mais plana, passando por baixo, mas não em um ângulo de noventa graus. Havia grama deste lado. O outro lado era menor, mais gasto, e tinha uma caída no centro, onde milhares de pés haviam desembarcado quando desciam. Estava sempre cheio de lama, um paraíso para os meninos, após uma chuva. Felizmente, não tinha havido nenhuma chuva nos últimos dias. Em ambos os lados da pinguela havia sebes altas de espinheiro. Além ficava um prado gramíneo, geralmente pontilhado com margaridas, ranúnculos e trevo. E, além disso, a alguma distância, ficava o rio. Se perguntou se as crianças ainda vinham aqui. Não podia ouvir nenhuma no momento. Mas talvez eles estivessem na escola, esse flagelo da existência da tumultuosa juventude.


Não precisava ter se preocupado. Conseguiu atravessar a pinguela sem incidentes, embora estivesse feliz por ter se lembrado do mergulho no lado distante. Assim, quando pulasse, não cairia mais longe do que esperava. Voltouse para a pinguela, encontrou o poste da menor placa com o interior da bota, e estendeu a mão. — Madame, — disse ele, — permita-me ajudá-la. Não fique com medo. Ela riu novamente, um som de trinado, que parecia ligeiro, como se estivesse se divertindo. E então sentiu sua pequena mão na sua, e ela pulou ao lado dele. — Temos o prado todo para nós? — Perguntou ele, embora tivesse quase certeza que tinham. — Nós temos — disse ela, retirando-lhe a mão. — Oh, esta é uma bela época do ano. A melhor, com a primavera apenas voltando-se para o verão. O prado é como um tapete colorido sob os pés. Será que gostaria que eu descrevesse isso para você? — Em um momento — disse ele. — Embora você não precise sempre se sentir obrigada a fazer isso. Estou aprendendo a experimentar o mundo através dos outros sentidos, em vez de me sobrecarregar imaginando o que não posso ver fisicamente. Quando você descrever uma cena para mim, vou descrevê-la de volta para você, mas minha cena será preenchida com som e cheiro e, às vezes, toque. Até mesmo o gosto. Isso faz sentido para você? — Sim — disse ela. — Oh, sim, faz. E explica por que você não é uma vítima. Ele ergueu as sobrancelhas. — Por que você não age como uma vítima — explicou ela. — Eu admiro isso.


Ele inclinou a cabeça para um lado. — Você já se sentiu como uma vítima às vezes? — Perguntou a ela. – Todos o fazemos, sabe. Pelo menos, eu acho que a maioria de nós, em um momento ou outro de nossas vidas. Não há vergonha que, por vezes, nos sintamos como vítimas. Às vezes, porém, se tivermos sorte ou determinação, podemos superar a auto piedade. Foi mais fácil para mim do que poderia ter sido, é claro, por eu ter herdado uma fortuna dois anos depois de ficar cego. Isso me deu uma liberdade pela qual sempre serei grato. — E eu vou me casar com você — ela disse, sem fôlego. De modo que seria mais fácil livrar-se de ser uma vítima da vida? Embora houvesse sempre mais do que sorte envolvida na causa da auto piedade. Às vezes, auto piedade era tão arraigada nas pessoas que nada poderia convencê-las a provar a alegria de viver. A senhorita Fry sentia auto piedade? Ele não a conhecia bem o suficiente para responder à sua própria pergunta. — Eu não posso vê-la — disse ele. — Só a tenho ouvido, tocado sua mão e a sentido dentro do meu braço. Tenho sentido o cheiro do perfume fraco de seu sabão. Gostaria de conhecê-la um pouco melhor, senhorita Fry. Ele podia ouví-la respirar pela boca. — Você quer me tocar ...? — Perguntou a ele. — Sim. Não com qualquer intenção lasciva. Ele esperava que ela entendesse isso. Não conseguia dizê-lo em voz alta. Ela estava perto dele, embora não o tocasse e ele não chegasse até ela. Pôde ouvir o farfalhar de tecido e supôs que ela estava tirando o chapéu e, talvez, sua capa também. Ouviu o ligeiro esbarrar de sua bengala contra as grades da pinguela. Ela deveria ter pendurado suas roupas ao lado dele.


Eles estavam de pé ao lado da pinguela. Ele esperava que estivessem longe o suficiente, abrigados pela cobertura de espinheiro e invisíveis para qualquer um que passasse ao longo da pista. Não que fosse uma pista muito utilizada. Ela moveu-se para ficar na frente dele. Ele podia senti-la lá. E então sentiu as suaves pontas dos dedos contra seu peito. Ele ergueu as mãos e encontrou seus ombros. Eram pequenos e finos, ainda resistente. Deslizou as mãos até que sentiu a carne quente e suave de sua garganta. Podia sentir seu pulso batendo firmemente sob seu polegar esquerdo. Suas mãos se moveram para cima, pelos lados de um pescoço fino, sobre as pequenas orelhas, e em seu cabelo, grosso, macio, encaracolado e realmente muito curto, como ela tinha dito que era. Ela se parece com um menino ... Ele inclinou sua cabeça para mais perto. A fragrância de sabão que havia notado na última noite foi chegando mais visivelmente de seu cabelo. Ela deveria os ter lavado recentemente. Ele podia sentir o calor de sua respiração contra sua mandíbula. Explorou o rosto com as pontas dos dedos. A testa lisa, bastante ampla. Sobrancelhas arqueadas. Olhos que estavam fechados, às vezes marrom, às vezes avelã, ela havia dito. Com cabelos ruivos. Mas ele não estava mais interessado em cor. Ela tinha longos cílios. Um pequeno nariz reto, mas não pôde sentir nenhuma semelhança com um botão. Bochechas quentes, tão suaves como pétalas de rosa, com as maçãs do rosto bem definidas. Uma mandíbula firme, afinando para o que parecia ser um pequeno queixo pontudo. — Em forma de coração — ele murmurou. Com as mãos cobrindo a parte inferior de sua mandíbula, ele encontrou sua boca com os polegares. Larga. Com os lábios suaves, generosos. Ele correu


os polegares levemente ao longo deles e o manteve descansando contra os cantos externos. Ela não se moveu ou proferiu um som. Seus músculos faciais estavam relaxados. Ele esperava que o resto dela também estivesse. Não queria a embaraçar ou assustar. Mas as pontas dos dedos eram seus olhos. Ele moveu a cabeça para a frente novamente, até que sentiu seu calor e sua respiração contra o seu rosto. Ela não recuou nem expressou um protesto. Ele tocou os lábios nos dela. Não era realmente um beijo. Apenas um toque. Um sentimento. A degustação. Um reconhecimento de que eles haviam concordado em um noivado apenas há pouco tempo. Os lábios dela tremeram contra os seus por um momento e depois relaxaram novamente. Ela realmente não queria beijá-lo. Mas ela descansou contra ele. Aceitando, talvez, que eles pertenciam um ao outro. Ele recuou um pouco, levantou as mãos para seu cabelo novamente, correu os dedos por ele, e deu um meio passo em frente para pousar o rosto dela contra sua gravata. Deslizou uma mão para baixo ao longo de sua espinha para atraí-la contra ele. Pequena. Delgada ou, pelo menos, muito magra. Não havia curvas muito perceptíveis, embora ele não,

não o faria, explorasse o corpo dela mais

intimamente com as mãos. Ele não tinha o direito. Ainda não. Ela cedeu a seu toque sem pressionar contra ele. Suas mãos seguraram o casaco em ambos os lados de sua cintura. E ficaram ali assim, por quanto tempo ele não sabia.


Ela se descrevera com precisão. Não tinha uma forma voluptuosa. Podia até, como Martin havia dito, parecer como um menino. Certamente não era linda, ou mesmo bonita. Quase certamente, não era o tipo de figura que iria virar os olhos do sexo masculino. Mas, sentindo o calor e a pressão suave brotando de seu corpo contra o dele, e respirando o cheiro de sabão dela, ele não se importava um mínimo com o que ela se parecia. Ia ser dele, e embora soubesse que sua mente iria produzir uma gama de dúvidas quando estivesse sozinho de novo, mais tarde, ele se sentia curiosamente ... atraído por ela. — Senhorita Fry — disse contra o topo de sua cabeça, mas que soou tudo errado quando a estava segurando, conhecendo-a de uma forma mais íntima do que um mero conhecido. — Ou eu posso chamá-la de Sophia? A voz dela, quando respondeu, foi abafada pelas dobras de sua gravata. — Você vai me chamar Sophie? — Perguntou ela. — Por favor? Ninguém nunca o fez. Ele franziu a testa ligeiramente. Houve um pouco de dor nessa declaração. Não, talvez não dor exatamente. Mas algum anseio, com certeza. — Você sempre será Sophie para mim, então — disse ele. — Sophie, eu acredito que é bonita. E antes de protestar que não é assim, seu corpo conta uma história diferente, que diria que existe a beleza, mesmo se pudesse ver você. Deixe-me acrescentar que uma pérola, provavelmente, não parece muito notável enquanto ainda está escondida dentro de sua concha. Ele ouviu um murmúrio suave de riso de encontro ao seu peito, e então ela se afastou. Um momento depois, ele sentiu sua bengala contra a parte de trás da sua mão direita e a pegou. E se ele tivesse dito a coisa errada?


— Devemos caminhar para baixo, pelo rio, — disse ela – e, talvez, nos sentar no banco. Vou fazer um ramalhete de margaridas, e você pode insistir que as margaridas são tão bonitas quanto o mais caro dos botões de rosa. Como devo chamá-lo, milorde? — Vincent — disse ele, enquanto ela se ocupava, presumivelmente, com a colocação de sua capa e chapéu de volta. Ele sorriu. Talvez o que ele estava fazendo não fosse tão precipitado depois de tudo. Tinha a nítida sensação de que poderia vir a gostar dela, não apenas porque ele estava determinado a fazê-lo, mas porque ... Bem, porque ela era simpática. Ou parecia ser. Era cedo demais para saber com certeza. Será que ela viria a gostar dele? Ele era simpático? Ele achava que era. Era muito cedo para saber se ela concordava com ele. E era cedo demais para pensar sobre o futuro a longo prazo, que ele tão precipitadamente oferecera. Sempre era precipitado. O futuro tinha o hábito de não ser nada parecido com o que se esperava ou planejava. O futuro iria cuidar de si mesmo.


Capítulo Sete — Você virá à Covington House para o chá antes que eu te leve de volta ao vicariato? — Lorde Darleigh perguntou enquanto eles retornavam, mais tarde. — Nós precisamos fazer alguns planos. Nós. Nada a respeito do assunto de seu futuro tinha sido abordado enquanto eles caminhavam ao longo da margem do rio ou enquanto ficaram sentados lá. Ele falou de Barton Coombs e de sua infância e ela fez um colar de margaridas, que ele tocou e explorou quando ela o informou que tinha terminado. Ele o tirou de suas mãos e o enrolou desajeitadamente por cima de sua cabeça e no pescoço depois de tê-lo enroscado na aba do seu chapéu. Ambos riram. Isso é o que ela tinha achado mais incrível, que eles tivessem rido juntos mais de uma vez. Oh, e tinha outras coisas também, muito mais incríveis. Ele a tinha tocado. Ela sabia que ele tinha feito isso somente porque não podia vê-la, mas, no entanto, a havia tocado com dedos calorosos, suaves e respeitosos. E com seus lábios... E a tinha abraçado. Isso tinha sido o mais incrível de tudo. Abraçara toda a extensão de seu corpo contra o dele. E enquanto sentira o choque de sua


musculosa masculinidade, também sentira a maravilha, ah, a pura maravilha de ser mantida em seus braços. Este tinha sido um dia incrivelmente estranho. Como um dia poderia ter começado desastrosamente, começou justo depois da meia-noite, quando Sir Clarence, Tia Martha e Henrietta retornaram da reunião, algum tempo depois dela, e todos entraram em seu quarto de dormir sem bater, ainda que ela já estivesse na cama com o candelabro apagado. Como um dia poderia ter começado dessa maneira e terminado assim? E não estava acabado ainda. Ele desejava discutir seus planos para o futuro durante o chá em Covington House. Sem uma dama de companhia. Ela não pensou que importava, no entanto. Eles estavam noivos, e era plena luz do dia. Eles não tinham sido acompanhados durante a caminhada. Na verdade, nunca tinha pensado em damas de companhia em relação a si mesma. — Obrigada — ela disse. Quase não acreditava que estava começando a gostar dele, e este pensamento trouxe lágrimas a seus olhas e uma dor à sua garganta. Tinha havido tão poucas pessoas para gostar nos últimos cinco anos e mesmo antes disso. Oh, e que tipo de pensamentos de auto piedade eram aqueles! Ela aprendera há muito tempo que auto piedade era também autodestrutiva. Transformara isso em sátira e encontrara uma saída através de seus desenhos. Não havia nada satírico a respeito do Visconde Darleigh, nada para rir, nem mesmo a maneira desastrada com que ele havia enrolado o colar em torno de seu pescoço. Se perguntava se ela era agradável. Nunca se perguntou isso antes. Quando chegaram à Covington House, o Sr. Fisk, o valete de Lorde Darleigh, abriu a porta para eles. Seus olhos se fixaram nos de Sophia enquanto o Visconde pedia para trazer o chá para a sala de estar. Seu rosto era inexpressivo, como os rostos dos criados eram. Mas Sophia leu acusação,


mesmo desgosto, em seus olhos. Ela teria sido intimidada por ele mesmo sem isso. Era mais alto e mais largo do que o seu senhor e se parecia mais com um ferreiro do que com um valete. Sophia não sorriu para ele. Ninguém sorria para um servo. Eles deveriam ser menosprezados. Ela descobriu isso quando foi morar com Tia Mary. A casa, sobre a qual ela havia tecido fantasias de família e amizade pelos últimos dois anos, era mais imponente no interior do que esperava. A sala de estar era grande e quadrada com alguma mobília antiga de aspecto confortável, uma lareira grande, e janelas francesas abrindo-se para o que deveria ter sido uma vez um jardim de flores e era ainda ordenadamente mantido. Havia um piano em uma extremidade da sala e um violino em cima dele. — Sente-se — disse Lorde Darleigh, gesticulando na direção da lareira, e Sophia caminhou para uma poltrona ao lado dela. Ela já reconhecia o ligeiro inclinar de sua cabeça quando ele estava escutando atentamente. Ele caminhou sem titubear para a cadeira do outro lado da lareira e sentou-se. — Eu acredito que devemos ir para Londres para nos casar, Sophie — ele disse. — Com uma licença especial. Isso pode ser feito em uma semana, eu suponho, e, então, eu a levaria para casa, para Gloucestershire. Middlebury é uma grande e imponente mansão. O parque é enorme, cercado por fazendas. É um lugar ativo e próspero. É uma perspectiva assustadora para você, eu sei. Mas… Parou quando o Sr. Fisk entrava com a bandeja de chá. Ele a colocou em uma mesa pequena perto de Sophia, olhando diretamente em seus olhos, ainda com o rosto inexpressivo, e retirou-se. — Obrigado, Martin — o visconde disse. — Milorde.


Sophia serviu o chá e colocou a xícara e o pires ao lado do Visconde Darleigh. Ela serviu um pedaço de bolo de groselha em um prato e colocou em sua mão. — Obrigado, Sophie — ele disse. — Desculpe. Eu disse que nós precisávamos fazer planos, não disse? E então eu falei quais eram. — Em uma semana? — Ela disse. A realidade ameaçava a abater. Ela iria partir dali com o Visconde Darleigh. Eles iriam para Londres e se casariam lá. Em uma semana. Ela seria uma lady, Lady Darleigh. Com sua própria casa. E um marido. — Este seria o melhor plano, eu acredito — ele disse. Eu tenho uma família unida e amorosa, Sophie. Eles são especialmente amorosos e protetores comigo; sou o único homem e sou o mais novo. E se não bastasse, sou cego. Eles me sufocarão se puderem organizar nosso casamento. Você não tem família para equilibrar o entusiasmo deles, para proteger e sufocar você. Seria injusto levá-la direto para Middlebury. Ela tinha duas tias, dois tios, e dois primos, se considerasse Sebastian, que era o enteado do tio Terrence. Mas ele estava certo. Ela não tinha ninguém que pudesse estar interessado em seu casamento, muito menos ajudar a planejar. — Sophie, — ele disse — aquela maleta que estava com você na igreja esta manhã. Fui informado que não era muito grande. Você deixou a maioria de suas roupas e pertences em Barton Hall? Precisa que mande Martin para pegar suas coisas? Ou trouxe tudo? — Eu deixei algumas roupas para trás — ela disse. — Você as quer?


Ela hesitou. Não tinha quase nada sem elas, mas eram todas roupas usadas de Henrietta, e foram mal ajustadas. Algumas delas estavam puídas. Ela tinha seu bloco de desenhos e carvão em sua maleta, e uma muda de roupas. — Não. — Bom — ele disse. — Então você terá tudo novo. Londres é o lugar para comprar qualquer coisa que precise. — Eu não tenho dinheiro — ela disse, franzindo as sobrancelhas. Sua xícara tiniu no pires. — E não posso pedir para você — Você não vai — ele disse. — Mas será minha esposa, Sophie. Eu cuidarei de todas as suas necessidades. Certamente vestirei você de maneira condizente com a sua posição. Ela colocou a xícara e o pires de volta na bandeja e recostou-se na poltrona. Mordeu um lado de seu dedo indicador. — Adoraria ser capaz de levá-la para Londres, enviá-la para as compras enquanto obtenho a licença especial, e casar-me com você em um dia — ele disse. — Mas não será possível fazer as coisas tão rapidamente. Estou confiante, porém, que será benvinda na casa de meu amigo Hugo, Lorde Trentham. Eu o mencionei mais cedo. Só de pensar nisso sentiu-se aterrorizada, e encheu-se de tal emoção que se sentiu enjoada e ficou feliz por não ter comido bolo. — Sophie? — Ele disse. — Estou dando ordens para você, afinal, não estou? Mas não posso pensar em nenhuma alternativa. Você pode? Somente entrar na diligência amanhã e dirigir-se sozinha para o desconhecido. Mas ela sabia que não iria fazer isso. Não agora que tinha uma alternativa que era tão tentadora. — Não — ela disse. — Mas você está certo


— Oh, — ele disse — eu estou muito, muito certo. Nós faremos isso funcionar. Faremos. Diga que você acredita em mim. Ela fechou os olhos. Queria muito este casamento. Ela o queria muito — sua doçura, seu senso de humor, seus sonhos e entusiasmo, mesmo sua vulnerabilidade. Queria alguém que fosse seu. Alguém que a chamasse pelo seu nome, a mantivesse confortável e risse com ela. Alguém bonito e dolorosamente atraente. Alguém que lhe devolvesse sua confiança abalada. E alguém que… — Você pretende me apoiar, mesmo depois de eu ter deixado você? — Ela disse. — Mesmo assim. — Ele olhou fixo em sua direção. — Você sempre será a minha esposa e, portanto, minha responsabilidade, Sophie. E eu devo, certamente, fazer provisões adequadas para você em meu testamento. Mas devemos já pensar no futuro distante? Preferiria pensar no futuro imediato. Nós estamos para nos casar. Vamos pensar em casar e ir para casa, e deixar que o resto cuide de si mesmo. Pode ser? Ele parecia impaciente e ansioso novamente. E ela estava ansiosa também, não porque seu sonho não pudesse se tornar realidade, mas porque poderia. — Sim — disse, e ele sorriu. — Nós vamos sair pela manhã, então — ele disse. – É bom para você? Assim cedo? — Sim, milorde. Ele inclinou a cabeça para um lado.


— Sim, Vincent. — Quer que eu toque meu violino para você? — ele perguntou. – O que é uma outra maneira de te dizer que vou tocar para você, pois tenho certeza de que é muito educada para expressar um protesto. — Aquele é o seu violino? — Ela perguntou. — Eu gostaria, mais que tudo, que você tocasse para mim. Ele riu enquanto se levantava e caminhava até o piano, pressentindo seu caminho, mas sem tatear. Abriu a caixa do violino e removeu o instrumento. Posicionou-o debaixo de seu queixo, tomou o arco na mão e apertou-o, ajustou a afinação, e então tocou, meio virado na direção dela. Ela pensou que poderia ser Mozart, mas não estava certa. Não tivera muito contato com música. Não importava. Juntou as mãos, pousou-as sobre a boca, e pensou que nunca havia escutado nada nem metade tão adorável em sua vida. Seu corpo moveu-se ligeiramente com a música, como se estivesse completamente absorto na mesma. — Eles dizem, em Penderris Hall, — ele disse quando terminou de tocar a peça e colocou o violino de volta na caixa — que quando eu toco, faço todos os gatos de estimação, da casa e os da vizinhança, miarem. Devem estar errados, você não acha? Eu não escuto nenhum gato miando aqui. Durante a caminhada ele falara para ela a respeito de Penderris Hall na Cornualha, casa do Duque de Stanbrook. Ele tinha passado vários anos lá depois que retornara da Península, aprendendo a lidar com sua cegueira. E um grupo de sete, seis homens e uma mulher, incluindo o Duque, desenvolveram uma estreita amizade e chamavam a si mesmos de Clube dos Sobreviventes. Todo ano eles passavam algumas semanas juntos em Penderris. Como eram cruéis esses amigos, Sophia pensou, por zombarem de sua maneira de tocar. Mas ele estava sorrindo, como se a memória do insulto fosse


carinhosa. Eles deveriam estar brincando, certamente. Eram seus amigos. Ele disse para ela como eles encorajavam e provocavam uns aos outros para sair da crise se algum deles entrasse em depressão. Como seria agradável ter amigos. Amigos que poderiam tomar a liberdade de provocar. — Talvez, — ela disse — deve ser por isso que não há nenhum gato por aqui. O coração dela acelerou. — Ai! — Ele estremeceu teatralmente e depois riu. — Você é tão má como eles, Sophie. Sou desvalorizado, como todos os gênios, infelizmente. Ouso dizer que o piano está terrivelmente desafinado. Ele pode não ter sido tocado por muitos anos. Ela sentia-se absurdamente satisfeita. Tinha feito uma piada e ele tinha rido e a acusado de ser tão má quanto seus amigos. — Você também toca piano? — Ela perguntou. — Eu tive lições para os dois instrumentos nos últimos três anos — ele disse. — Não sou hábil em nenhum deles, infelizmente, mas estou melhorando. A harpa é outro problema. Existem muitas cordas, e fiquei muito tentado, em mais de uma ocasião, a lançá-la através da janela mais próxima. Mas desde que a falta é minha, não da harpa, e como particularmente não gostaria de ser lançado pela janela, geralmente domino o impulso. E estou determinado a dominá-la. — Você não aprendeu a tocar piano quando era um garoto? — Ela perguntou.


— Ninguém nunca pensou nisso, — ele disse — inclusive eu. Isso era para garotas. De um modo geral, estou satisfeito de não ter aprendido então. Teria odiado. Ele se sentou no banco do piano e levantou a tampa. Sophia observou como seus dedos sentiram as teclas negras até encontrar a nota média branca com o polegar direito. Ele tocou algo que ela havia ouvido Henrietta tocar, uma fuga de Bach. Tocou mais lentamente, mais preguiçosamente do que Henrietta, mas com uma perfeita precisão. O instrumento não estava afinado, mas apenas a um grau que fez a melodia soar bastante melancólica. — Você pode segurar seu estrondoso aplauso até que o recital termine — ele disse quando ergueu as mãos. Ela bateu palmas e sorriu. — É uma insinuação de que o recital já terminou? Ele perguntou a ela. — Absolutamente — ela disse. — Aplausos geralmente pedem por um bis. — E aplausos educados geralmente sinalizam o fim de um recital — ele disse. — Isso foi decididamente um aplauso educado. Além disso, eu estou no final de meu repertório. Você deseja tentar tirar música desse triste instrumento? Você toca? — Eu nunca aprendi — ela disse. — Ah. — Ele olhou para ela. — Foi uma nota melancólica que ouvi em sua voz? Logo, Sophie, você poderá fazer qualquer coisa que queira. Dentro do razoável. Ela fechou os olhos momentaneamente. A ideia era muito grande para compreender. Ela sempre desejou ... oh, simplesmente aprender.


— Você canta? — Ele perguntou. — Conhece alguma canção folclórica? Mais especificamente, conhece ‗Early One Morning?‘ É a única canção que eu toco com um pouco de competência. Ele tocou os primeiros compassos. — Eu conheço — ela disse, atravessando a sala em direção a ele. — Posso segurar uma nota, mas duvido que seja convidada alguma vez para cantar em qualquer uma das grandes casas de ópera. — Mas como nossa vida seria desprovida de música — disse ele — se permitimos isso apenas para aqueles de grande talento. Cante enquanto eu toco. Suas mãos, aquelas mãos que tinham tocado seu rosto, eram esbeltas e bem formadas, com unhas perfeitamente cuidadas e curtas. Ele tocou novamente os primeiros compassos, e ela cantou. ―Early one morning, just as the sun was rising, I heard a maiden sing, in the valley below.‖ Sua cabeça estava inclinada sobre as teclas, suas pálpebras baixaram sobre os olhos. Porque quase todas as canções folclóricas eram tristes? Era porque a tristeza tocava mais o coração do que a felicidade? ―Oh, don‘t deceive me, oh, never leave me. How could you use a poor maiden so?‖ Ela cantou a canção do início ao fim e, quando terminou, as mãos dele descansavam nas teclas e sua cabeça permanecia inclinada. Havia um nó em sua garganta novamente. A vida era, frequentemente, uma coisa triste, cheia de decepções e partidas.


E então ele começou a tocar novamente. Uma melodia diferente, mais hesitante, faltando várias notas. E ele cantou. ―On Richmond Hill there lives a lass, more bright than May—day morn…‖ Tinha uma voz de tenor leve e agradável, embora nunca fosse cantar no palco de qualquer casa de ópera. Ela sorriu diante desse pensamento. ―…I‘d crowns resign to call thee mine, sweet lass of Richmond Hill.‖ Ele sorria quando terminou. — A linguagem do amor pode ser maravilhosamente extravagante, não? — Ele disse. — E, ainda assim, pode ferir alguém. — Ele bateu levemente em seu abdômen com a parte de fora de seu punho levemente fechado. — Você acredita em um homem que diz que renunciaria à coroa por sua causa? — Eu duvido que qualquer homem o fizesse — ela disse. — Ele deveria ser um rei, ou não, e eles tendem a ser escassos. Poderia acreditar no sentimento se eu tivesse a certeza que ele me amava acima de tudo. E se eu o amasse com uma espécie de amor eterno em troca. Você acredita nesse tipo de amor, milorde? Ela poderia ter mordido a língua, mas era muito tarde para retirar as palavras. — Eu acredito — ele disse, tocando suavemente uma escala com a mão direita. — Isso não acontece para todos, ou até mesmo, talvez, para a maioria, mas acontece. E deve ser maravilhoso quando acontece. A maioria das pessoas se contenta com o conforto em seu lugar. E não há nada de errado com o conforto. Ela estava se sentindo decididamente desconfortável. Ele olhou para ela e sorriu.


— Seria melhor voltar para o vicariato — ele disse. — Suponho que não foi correto trazê-la aqui, não é? Mas estamos noivos e nos casaremos em breve. — Você não precisa voltar comigo — ela disse. — Ah, mas eu vou — ele falou, ficando de pé. — Quando minha lady precisar ir a algum lugar além da minha casa ou da dela, eu a acompanharei sempre que for capaz. Soou um pouco excessivamente possessivo, mas ela entendia sua necessidade de não ser prejudicado por sua incapacidade. Minha lady. Era isso que ela era agora, sua lady? A maioria das pessoas se contentaria com o conforto, ela lembrou enquanto deixavam a casa juntos. E não havia nada de errado com o conforto. Oh, não havia. Mas ... conforto ao invés do tipo de amor eterno romântico sobre o qual ele tinha cantado? E até mesmo o conforto poderia não durar. Eles estavam a caminho de Londres, no meio do segundo dia de sua viagem. Tinha sido entediante, como todas as viagens eram. Mal tinham se falado. Vincent tentava não se arrepender de tudo que havia feito nos últimos dias, começando com a aceitação do convite de Sir Clarence March para passar uma noite em Barton Hall. Ou, talvez, começando com sua decisão de ir para Barton Coombs em vez de retornar para casa. Propusera casamento para uma estranha, e nem mesmo seria um casamento normal. Foi essa última parte que pesou mais fortemente sobre ele.


Caminhando para um destino com uma separação balançando sobre sua cabeça desde o primeiro momento. O comportamento impulsivo tinha sido seu pecado constante. E sempre tinha vivido para se arrepender. Uma vez deu um passo impulsivamente adiante para saber porque um canhão não tinha disparado. Tinha, entretanto, sentido uma necessidade desesperada de persuadir Sophia Fry a se casar com ele, e parecia não haver nenhuma outra maneira de obter o seu sim. Ela precisava dizer sim. O silêncio no qual tinham viajado por um dia e meio era tanto sua culpa quanto dela. Mais do que isso. Ele acreditava que ela estava um pouco intimidada com ele, com sua grande carruagem e com a grandeza da vida que enfrentaria. E pelo fato de que estava entrando no desconhecido. Na noite anterior ele não poderia ter feito nada para ajudá-la a relaxar. Eles tinham parado em uma obscura pousada de postagem, escolhida por Martin e Handry, e tomaram dois quartos, um para Martin e um para Lorde e Lady Hunt. Ele dormiu no quarto de Martin, mas durante toda a noite se preocupou com a impropriedade e possível perigo de Sophia ter que se acomodar em seu quarto sozinha, sem nem mesmo uma serva para apoiá-la. Pensou em alguma coisa para dizer, algo que pudesse iniciar uma conversa que poderia levar a uma resposta, e talvez até mesmo um riso. Ela tinha um riso bonito, embora ele tivesse tido a nítida impressão de que antes do dia de ontem, rir era algo que ela raramente fazia. Tinha tido uma vida muito solitária, levando em consideração o pouco que tinha contado para ele. Antes de poder falar, ela falou. — Olhe para a torre da igreja — ela disse, sua voz brilhante e ansiosa. — Eu tinha reparado isso antes, e sempre me surpreendi de como algo tão alto e delicado pode permanecer em pé em um vento forte.


Ele esperou por sua finalização para tocá-la, o que aconteceu muito rapidamente. A ouviu inspirar profundamente. — Me desculpe — ela disse, sua voz mais contida. — Conte-me sobre isso — ele disse. — Pertence a uma igreja na pequena vila da qual estamos nos aproximando — ela contou. — É uma vila extraordinariamente bonita. Mas isso não diz nada significativo para você, não é? Deixe-me ver. Há algumas casas de colmo velhas, caiadas de branco ao longo dos lados da estrada aqui. Oh, uma delas é rosa brilhante. Como parece alegre. Eu gostaria de saber quem vive nela. A igreja é mais distante. Lá, agora a posso ver toda. Ela está em um lado do parque da aldeia e é realmente muito normal, exceto a torre. Ouso dizer que os aldeões estavam tão insatisfeitos com a igreja e com tanta vergonha das pessoas de outras aldeias mais afortunadas, que decidiram construir a torre para restaurar seu orgulho. Há algumas crianças jogando críquete no gramado. Você costumava jogar críquete. Já ouvi pessoas falarem sobre isso. Ele escutou com interesse. Ela tinha olhos afiados e imaginação para embelezar detalhes de uma maneira divertida. E havia calor e animação em sua voz. — Eu não posso te dizer o nome da vila — ela continuou. — Não está em lugar nenhum. Talvez isso não importe. Nós não temos que dar um nome para tudo que é bonito, temos? Você percebe que a rosa não se chama de rosa? Nem qualquer uma das flores ou árvores que o rodeiam. Ele encontrou-se sorrindo em sua direção. — Como você sabe? — Ele perguntou. — Você fala rosa ou a linguagem das flores? Ela riu, o som leve e bonito que ele se lembrava de dois dias atrás.


Ele hesitou, e então decidiu confiar no que estava começando a suspeitar a respeito dela. — Eu acredito que foi um dos garotos no gramado, — ele disse — ou realmente algum pai, ou até mesmo avô, que uma vez bateu na bola em um arco tão alto que ela aterrissou no telhado da igreja. Foi por isso que a torre foi construída, claro. — Mas você nem mesmo sabe em qual vila aconteceu — ela protestou, soando um pouco perplexa. Ah. Talvez ele estivesse errado. — Os paroquianos — continuou ele — estavam tão irritados com os rapazes subindo na hera das paredes da igreja para recuperar a bola, deixando-a com uma aparência irregular e não de todo pitoresca, a hera, que decidiram construir a torre e evitar qualquer repetição do sacrilégio. Houve um curto silêncio. — E eles construíram uma muito alta — Sophia disse — para desencorajar Bertha de escalar. — Bertha? — Ele sorriu. — Bertha era a garota, não era? — Ele perguntou – A que escalava tudo à vista mesmo antes que pudesse andar? Ninguém podia detê-la? — A própria — ela disse. — Ela era uma dura prova para seus pais, que estavam sempre a resgatando de árvores e chaminés e ficavam aterrorizados pensando que um dia poderia cair e quebrar a cabeça. — Sem mencionar seu pescoço — ele disse. — Claro que não ajudava ela poder subir, mas nunca descer. Realmente, nem podia suportar olhar para baixo.


— E então veio o dia fatídico, — disse ela — quando o mesmo jogador de críquete, que foi brilhante em bater a bola tão alto quanto pôde, mesmo sem perceber que era a distância, e não a altura, o que realmente contava, empalou-a na ponta da torre da igreja. — E como o destino agiria, — ele disse — Bertha, que devia visitar seus avós maternos a vinte milhas de distância nesse dia, não tinha ido porque o avô teve um calafrio e o médico incompetente que o examinou diagnosticou sua doença como febre tifoide e colocou toda a vila em quarentena. — E assim Bertha escalou a torre — Sophia disse — e jogou a bola para baixo, enquanto todas as crianças festejaram intensamente e todos os adultos mantiveram suas mãos sobre os olhos e pararam de respirar, ao mesmo tempo, e o vigário e coro da igreja caíram em seus joelhos para orar. Os membros do coro, que ali estavam, não estavam aplaudindo. — E então — Vincent disse. — E então. Dan, cego como um morcego, que tinha sido visto como um idiota durante todos os seus dezessete anos porque não podia nem mesmo enxergar ... bem, um morcego, para dizer um trocadilho, chegou por conta própria e se tornou o grande herói mítico da vila. Existe até uma estátua em sua homenagem em algum lugar, mas não no gramado da vila devido à solicitação especial de várias gerações de jogadores de críquete. Ele subiu no telhado, escalou a torre e trouxe Bertha para baixo, porque ele, naturalmente, não sentia medo de alturas, como todo mundo sentia, pela simples razão de que não podia vê-la. Ela ainda poderia estar lá se Dan não tivesse subido para resgatá-la. — Naquele tempo, — ela disse — Bertha tinha dezesseis para dezessete anos. E, claro, se apaixonou por Dan, a quem ela realmente nunca tinha olhado completamente antes. Descobriu que ele era incrivelmente forte e bonito e que não era, certamente, um idiota depois de tudo, somente cego como um morcego. E ele confessou que a adorava em segredo por toda a sua vida porque ela tinha a


voz de um anjo. Eles se casaram na igreja com a grande torre e viveram felizes para sempre. — E ela nunca mais subiu em nada mais alto que uma cadeira novamente, — Vincent disse — e, mesmo então, só se fosse uma cadeira resistente e um rato corresse sob seus pés. Ela sabia que Dan viria sempre em seu socorro. Temia que ele pudesse cair e matar-se e não queria perder o amor de sua vida. Seus filhos eram alegremente ligados à terra e nunca mostraram qualquer inclinação para subir, mesmo nas grades de seus berços. — O fim — Sophia suspirou. — Amém — Vincent disse solenemente. Ambos caíram em risos, bufos e risadinhas, até que algo surpreendente, talvez, ou embaraçoso, os silenciou. — Você já contou estórias? — Ele perguntou depois de um curto silêncio. — Eu vejo estórias — ela disse. — Bem, não estórias reais, com o começo, o meio e o fim. Mas momentos no tempo. Tolas. Eu as desenho. Caricaturas. — Você desenha? — Ele virou a cabeça em sua direção. — Pessoas que você conhece? — Sempre, — ela disse — embora acredite que possa tentar esboçar uma série de desenhos da Bertha, do Dan e da torre da igreja. Isso seria um desafio surpreendente. Ele sorriu para ela. — E talvez eu escrevesse a estória para ir com os desenhos — ela disse. — Você deve ajudar com suas partes dela. Tem jeito com as palavras. Você conta estórias? Outra que não essa, eu digo?


— Eu costumava inventar estórias para colocar Ursula, minha irmã mais nova, para dormir quando ela estava com medo do escuro, de fantasmas ou trovões, sempre havia alguma coisa — ele disse. — Embora ela fosse mais velha que eu. E eu ainda posso inventar estórias para crianças. Na época da Páscoa, quando toda a minha família estava em MIddlebury Park, uma de minhas sobrinhas me pediu para ler para todos uma estória de ninar. Eu podia ouvir Amy, minha irmã mais velha, a silenciando, e podia imaginar que ela também estava balançando as mãos, fazendo caretas ou, de qualquer outra forma, tentando lembrar à sua filha que o tio Vincent era cego. Eu contei a eles a respeito de um dragão que libertou um rato do campo de uma armadilha soprando fogo nas cordas que o prendiam. Toda noite, depois daquela, tinha que inventar outra aventura para o dragão e para o rato. — Oh, — ela disse — eu me pergunto se poderia desenhar um dragão. Tenho um rato em quase todos os meus desenhos, um pequeno, no canto. — Sua assinatura? — Ele perguntou para ela. — Você sempre foi este ratinho observando os absurdos da vida ao seu redor Sophie? — O rato nos meus desenhos pode ser pequeno, — ela disse — mas nem sempre parece pacífico e dócil. Algumas vezes possui um sorriso perversamente exultante em sua face. — Fico feliz — ele disse. Eles ficaram em silêncio novamente, mas somente por um segundo. A carruagem balançou de repente em uma curva acentuada e Vincent, segurando a alça no lado da porta para não colidir com sua companheira, pôde ouvir os cascos dos cavalos batendo nos paralelepípedos, provavelmente no pátio de uma pousada de postagem. — É um pouco mais cedo do que o necessário para uma mudança de cavalos, — Martin disse enquanto abria a porta da carruagem e descia os


degraus. — Mas vai haver um dilúvio a qualquer momento, e achei melhor persuadir Handry a parar mais cedo já que fui forçado a ficar ao seu lado na boleia. Devo pedir um salão privado para você e para a senhorita Fry, milorde? E pedir o almoço? Pelo menos Martin estava conversando novamente, mesmo que apenas com uma formalidade seca. — Sim, por favor, Martin — Vincent disse. Ele pegou sua bengala que estava no assento oposto, desceu os degraus sem assistência, ambos os servos sabiam que não deviam oferecer nenhuma, e virou-se para descer Sophia. Se ele somente pudesse vê-la, pensou. E seus esboços, suas caricaturas. Se somente pudesse ver. Somente por um minuto. Não seria ganancioso. Apenas um minuto. Ele se concentrou em sua respiração. Dentro. Fora. Dentro. Fora. Agora era expert em afastar essas crises repentinas, bastante imprevisíveis, de pânico. Não um expert total, porém, pensou com tristeza. Uma vez que sua respiração estava controlada, teve que lutar contra o impulso bastante vergonhoso de derramar lágrimas, até mesmo chorar ruidosamente com frustração e auto piedade. Ele sorrindo e ofereceu seu braço.


Capítulo Oito A carruagem entrou em Londres, onde Sophia passara a maior parte de sua vida até há dois anos atrás. E tinha passado a última primavera aqui assim como parte da presente, quando sua tia e seu tio levaram Henrietta em uma rodada de eventos sociais em busca de um marido nobre, Sophia permanecia em seus alojamentos alugados e passeava pelos vários parques. Desta vez, estava vindo para se casar. Era um pensamento estonteante. Não tinha certeza de, mesmo agora, compreender a realidade total do acontecimento. Estavam a caminho da casa de Londres de Lorde Trentham, amigo de Lorde Darleigh, para perguntar se ela poderia ficar lá até seu casamento. Sophia temia o momento da sua chegada. O que Lorde Trentham e seus parentes iriam pensar dela? E daquela situação? Iria Lorde Trentham olhar para ela como fez o senhor Fisk? Será que iria achar que era uma caçadora de fortunas se aproveitando de um homem cego? Mas como poderia ele não achar isso? Ela se sentia impotente e um pouco doente. A carruagem balançou ao parar frente à uma sólida casa de ar respeitável em uma rua larga. Sophia olhou para fora para ver o senhor Fisk saltar e subir os degraus correndo para bater a aldrava contra a porta. Esta abriu-se depois de alguns momentos e ele falou com o homem que estava na porta, um criado,


obviamente. Ele olhou para a carruagem e, em seguida, desapareceu de vista, deixando a porta entreaberta. — Penso que o criado foi ver se alguém está em casa — disse ela. — Oh, eles vão pensar que é muito presunçoso da minha parte. A mão dele se estendeu sobre o assento e cobriu as dela. — Hugo é um dos meus amigos mais queridos neste mundo — disse ele. Isso, ela pensou, poderia ser parte do problema. Não foi o criado que apareceu na soleira da porta, enchendo-a. Mas o homem que estava ali, olhando para o Sr. Fisk e depois para a carruagem e, em seguida, descendo aos saltos as escadas da frente da casa, certamente não poderia ser Lorde Trentham. Era um homem grande, gigante, de rosto feroz franzido e cabelo cortado rente, meio fora de moda. Quem quer que fosse, lhes iria dizer tudo sobre a sua presunção, e não estava para medir as palavras ao falar. Podia ver isso em seus olhos. Ele abriu a porta da carruagem e se inclinou para dentro. — Vince, você maldito canalha, — gritou enquanto Sophia se encolhia em seu canto, feliz de não estar sentada em seu lado da carruagem — qual é o significado disso? Eh? Está com dois dias de atraso. Você pode muito bem se virar e voltar para o diabo que o trouxe, por todo o bem que me faz agora. O rosto de Lorde Darleigh se iluminou com um sorriso. — Estou muito contente de ver você também, Hugo — disse ele. – Ou, pelo menos eu estaria, se fosse capaz. O gigante feroz era Lorde Trentham. — Saia daí — ele gritou, inclinando-se brevemente para descer os degraus, enquanto o cocheiro pairava desamparado ao fundo. — Se você não


está indo embora novamente, como qualquer homem decente faria estando dois dias atrasado, saia daí para que eu possa dar uma olhada em você. Por que diabos não chegou a tempo? E ele, meio arrastando, meio ajudando Lorde Darleigh a descer para a calçada, onde passou a atraí-lo para um abraço de urso, que parecia como se certamente esmagasse todos os ossos do seu corpo. Mas Lorde Darleigh, ao invés de ficar alarmado, estava rindo e abraçando o gigante de volta. — Em tempo para quê? — Perguntou. — Dois dias de atraso para quê? — Meu casamento, — Lorde Trentham rugiu. — Você perdeu meu casamento e arruinou meu dia. Arruinou a minha vida, na verdade. George, Imogen, Flavian e Ralph vieram. Ben ficou com sua irmã no norte da Inglaterra e, por isso, teve uma desculpa semi-decente para me negligenciar, especialmente quando não tem pernas com que correr de volta para cá. Mas você desapareceu da face da terra, sem pensar nos convites de casamento que poderia perder. Ninguém em Middlebury Park sabia onde você estava. Nem mesmo sua mãe. — Seu casamento? — Disse Lorde Darleigh. — Você casou, Hugo? Com... Lady Muir? — Nenhuma outra —, disse Lorde Trentham. — Lady Trentham agora. Tive um trabalho do próprio diabo para persuadi-la, mas como ela me poderia resistir para sempre? Nenhuma mulher em seu juízo perfeito poderia. Venha para dentro vê-la, Vince. Ou não a ver, para ser mais exato. Ela pode adicionar suas censuras às minhas. Você arruinou nossas vidas. Foi nesse momento que ele olhou para a carruagem e seus olhos encontraram os de Sophia. — Eu trouxe alguém comigo — Lorde Darleigh disse no mesmo momento.


— Como posso ver. — Os olhos de Lorde Trentham permaneceram sobre Sophia. — Imploro seu perdão, senhora. Não a vi aí sentada. Usei uma linguagem que não deveria ter usado na presença de uma senhora? Sem dúvida que sim. Me perdoe. Lorde Darleigh virou-se para a carruagem e Sophia pôde ver como ele localizou o degrau com o bico da bota, moveu o pé ao longo da borda do degrau, e, em seguida, estendeu a mão para ajudá-la, exatamente como havia feito nas escadas há poucos dias. Lorde Trentham pareceu ainda maior quando ela ficou de pé na calçada olhando para ele. Ele estava franzindo a testa e parecendo estranhamente envergonhado. — Este é Hugo Emes, Lorde Trentham, Sophie —, disse Vincent. — Hugo gostaria que você conhecesse a senhorita Sophia Fry, minha noiva. Sophia fez meia reverência. — Sua noiva, — Lorde Trentham disse, as sobrancelhas quase se unindo sobre a ponte de seu nariz. — Isto é repentino, rapaz, ou você estava sendo muito reservado em Penderris alguns meses atrás? — Não, você pode chamá-lo um assunto torvelinho —, disse Lorde Darleigh. — Vamos casar, provavelmente depois de amanhã. É por isso que estamos em Londres. Tenho que conseguir uma licença especial em primeiro lugar. Estava esperando que sua madrasta estivesse disposta a deixá-la ficar aqui pelas próximas duas noites. Agora essa permissão terá que ser pedida a Lady Muir, Lady Trentham. — Que coisa suspeita é esta, então? — Perguntou Lorde Trentham, olhando desconfiado para Sophia. — É melhor você entrar, vocês dois. Quatro passos para a frente, vinte e cinco passos até a porta da frente. Onde está a sua bengala? Ah, aí vem Fisk. Ele vai pegar para você. Senhorita Fry?


Ele estava oferecendo-lhe o braço e favorecendo-a com um olhar firme, que ela encontrou mais do que um pouco assustador. Mas, claro, a maioria dos amigos de Lorde Darleigh do Clube dos Sobreviventes tinham sido oficiais militares nas últimas guerras. Deveriam ser todos cavalheiros formidáveis. Uma senhora estava correndo para a entrada no momento em que foram para dentro, mancando um pouco enquanto caminhava. Era pequena e delgada, com cachos louros e um rosto requintadamente belo. Sorria calorosamente. — Lorde Darleigh! — Exclamou ela. — Olhei para fora através da janela da sala de estar para ver quem era o visitante, e pude ver que era você. Que delicioso, mesmo tendo perdido o nosso casamento. Hugo estava dececionado com isso, mas agora vai ficar novamente feliz. Ela estava se aproximando de Lorde Darleigh enquanto falava e, de alguma forma, ele parecia saber que ambas as suas mãos estavam estendidas na sua direção. Ele levantou sua própria e apertaram as mãos uns dos outros. Estava sorrindo diretamente para ela. — Eu temia que Hugo pudesse ser demasiado tolo para ir atrás de você quando deixou Penderris —, disse ele. — Estou feliz por tê-lo julgado mal. Pensei que era perfeita para ele desde o momento em que a conheci. E o que poderia ser mais romântico do que ele a encontrar ferida na praia e a levar todo o caminho até a casa? Desejo-lhe felicidades, Lady Trentham. Posso beijar a noiva, Hugo, mesmo que com dois dias de atraso? Ele a puxou para mais perto, sem esperar pela permissão e beijoua, metade em um lado do rosto, metade em seu nariz. Os dois riram. — Obrigada, — ela disse, e se virou para olhar com educada interrogação para Sophia. — E sua amiga, Lorde Darleigh?


— Senhorita Sophia Fry —, disse ele. – Trouxe-a aqui na esperança de que possa ficar por um par de noites, até que possamos casar com uma licença especial depois de amanhã. Lady Trentham ergueu as sobrancelhas e olhou Sophia atentamente, que desejou poder estar em qualquer outro lugar na Terra, menos onde estava. Até mesmo seu canto escuro da sala de estar no Salão Barton parecia, de repente, infinitamente desejável. O sorriso nos olhos da senhora havia morrido. Falou educadamente, no entanto. — Você parece exausta, apreensiva e até mesmo francamente assustada, senhorita Fry —, disse ela. — Não tenho dúvidas de que há uma história interessante por trás deste anúncio inesperado e fundamento para a hospedagem, mas não vamos exigir saber o quê neste exato momento, vamos, Hugo? Ela se aproximou e passou um braço através de Sophia. Não era uma mulher alta, mas mesmo assim era metade de uma cabeça mais alta do que Sophia. — Claro que você pode ficar aqui —, disse ela. — Se é uma amiga e até mesmo a noiva de Lorde Darleigh, isso é uma recomendação boa o suficiente. Deixe-me levá-la até um quarto de hóspedes e a instalar. Hugo, sua madrasta não vai se importar que me encarregue eu? — Você é a dona da casa agora, Gwendoline —, disse ele, — e sabe que ela te ama. Vou levar Vincent para a sala de estar para conhecer Constance e meu tio. Eles vão se encantar. Todo mundo adora Vincent. Ele não franze a testa e assusta as criancinhas como eu faço. — Oh, Hugo —, disse ela, rindo, — você não faz isso. As crianças dão uma olhada em você e sabem que é apenas como um urso de pelúcia. Ele fez uma careta, e ela levou Sophia na direção da escada.


— Você está à beira do colapso —, disse ela calmamente quando começaram a subir. — Vamos instalá-la, e vou deixá-la sozinha para descansar, se quiser, ou vamos sentar se preferir e pode me contar tudo, ou tanto quanto deseje divulgar. É muito bem-vinda aqui. Pode relaxar e descansar. Viajou de longe? Aquele lento olhar, quase hostil, com o qual ela primeiro favoreceu Sophia quando soube de seu relacionamento com Lorde Darleigh, foi descartado e substituído por perfeitas boas maneiras. E estava exausta e à beira do colapso, Sophia pensou. — Desde Barton Coombs em Somerset —, disse ela. — E sei o que está pensando. Sei que sou simples, pouco atraente e estou vestida pavorosamente. No entanto, aqui estou, prestes a me casar com um visconde rico que é charmoso, gentil, belo e convenientemente cego. Sei que você deve me desprezar como o pior tipo de aventureira. E ela fez algo que nunca, nunca fizera. Começou a chorar. Era um quarto bonito para onde Lady Trentham a levara. A coberta e as cortinas eram feitas do mesmo estampado floral em um fundo de marfim. Era um quarto alegre. E aqui estava ela, de pé no meio dele, como se fora do lugar, como um espantalho em um salão de baile da sociedade. — Venha sentar-se na cama, — Lady Trentham disse quando Sophia assuou o nariz em seu lenço —, ou deitar-se sobre ela. Deseja que eu vá embora por um tempo? Tem duas horas antes do jantar. Ou quer me dizer como aconteceu que Lorde Darleigh lhe ofereceu casamento e a trouxe para se casar com uma licença especial? E, por favor, perdoe-me pelo choque que devo ter mostrado quando me disseram que você estava noiva de Lorde Darleigh. Consigo melhor do que fazer julgamentos instantâneos com base apenas nas


aparências. Me dê uma chance para compensar minha grosseria, mesmo se apenas possa fazer isso, atualmente, a deixando sozinha para descansar. Sophia se sentou na beira da cama. Seus pés pendiam alguns centímetros acima do chão. — Ele me convenceu —, disse ela, — que havia tantas vantagens para ele em nosso casamento como havia para mim. Isso é um absurdo, é claro, pois eu estaria sozinha e desamparada sem ele, e esse fato pesou na minha decisão, apesar de tentar lutar contra a minha vil natureza. Eu lhe disse não apenas uma vez, e o quis dizer a cada vez. Embora suponha que não tenha feito isso, ou não teria terminado dizendo sim. Bateu em sua face molhada e estendeu as mãos sobre o rosto. — Sinto muito —, disse ela. — Sinto muitíssimo. Como deve me odiar. Você e Lorde Trentham são seus amigos. Lady Trentham, que se sentara ao lado dela, deu um tapinha no seu joelho e ficou de pé novamente para puxar a corda do sino ao lado da cama. Ela ficou ali em silêncio até que um leve toque na porta precedeu o aparecimento de uma criada. — Traga chá e alguns bolos, por favor, Mavis —, disse ela, e a criada desapareceu novamente. Sophia secou suas bochechas com o lenço úmido. — Eu nunca choro —, disse ela. — Bem, quase nunca. — Acho que você provavelmente merece um bom choro, disse Lady Trentham. — Há duas cadeiras junto da janela. Vamos sentar lá e beber um pouco de chá? Diga-me como tudo isso aconteceu, se você quiser. Eu não te odeio. Meu marido e seu futuro marido são amigos próximos. Você e eu iremos nos encontrar muitas vezes no futuro. Prefiro gostar de você, até mesmo me


entusiasmar com você. E espero que goste de mim e se entusiasme por mim. Quem é você, senhorita Fry? — Meu tio é Sir Terrence Fry, — Sophia explicou quando se sentou em uma das cadeiras. — Embora nunca tivesse nada a ver comigo. É um diplomata e fica fora do país mais do que ele fica aqui. Meu pai foi morto em um duelo por um marido ultrajado cinco anos atrás, e eu tenho vivido com duas tias diferentes desde então. Sou uma Lady por nascimento, mas nós não vivemos uma vida respeitável, meu pai e eu, depois que minha mãe nos deixou, quando eu tinha cinco anos, ou até mesmo antes de ela partir. Meu pai era um libertino e um jogador. Estava sempre em dívida. Estávamos sempre nos mudando e nos escondendo. Nunca tive uma governanta ou fui para a escola, apesar de aprender a ler e escrever, pois meu pai insistia nisso. Nunca tive uma criada. Não sou digna de... Lorde Darleigh. — Suas tias cuidaram de você durante os últimos cinco anos? —, Perguntou Lady Trentham. — Tia Mary me ignorou por três anos até que morreu —, disse Sophia. — Deu uma olhada para mim e me pronunciou sem esperança. Tia Marta, Lady March de Barton Hall, me deu uma casa depois de sua irmã morrer, mas ela tem uma filha para apresentar à sociedade e se casar. E Henrietta é linda. A criada voltou com uma bandeja, que pousou em uma pequena mesa redonda perto de Lady Trentham antes de se retirar tranquilamente fechando a porta atrás dela. Lady Trentham encheu uma xícara de chá para Sophia e pôs dois pequenos bolos em um prato, que entregou para ela. — Foi lá, em Barton Hall, — ela perguntou — que Lorde Darleigh te conheceu? — De certa forma —, disse Sophia, e passou a dar à Lady Trentham uma explicação de tudo o que acontecera na última semana. Nem mesmo uma


semana, de fato. Como era surpreendente. Essa primeira vista que ela tivera dele ao chegar a Covington House parecia como se tivesse acontecido meses atrás. — Então talvez você possa entender —, disse ela, em conclusão, — quão tentadora a oferta foi para mim, especialmente quando ele repetiu depois de eu ter dito não. Deveria ter-me mantido firme. Sei que deveria. Tinha quase terminado de beber seu chá. Seu prato, ela notou com alguma surpresa, estava vazio para além de algumas migalhas. — Posso entender —, disse Lady Trentham. — Acredito que também posso começar a entender porque Lorde Darleigh persistiu depois que recusou. Posso perceber que viu algo em você de que gostou. — Ele disse que gostou da minha voz, — Sophia disse a ela. — Há vozes que são adoráveis, por várias razões ou chatas por outras razões, não há? —, Disse Lady Trentham. — Mas quando podemos ver, uma voz é muitas vezes de importância secundária. Como se torna tão importante para alguém que é cego. Cegueira permanente é muito difícil de imaginar. É fácil de entender, porém, que sua voz é da maior importância para o seu noivo do que sua aparência. — Mas eu não tenho nenhuma figura —, disse Sophia. — Pareço um menino. Lady Trentham sorriu e devolveu o copo vazio e o pires para a bandeja. — É por isso que usa o cabelo tão curto? — Ela perguntou. — O corta você mesma? — Sim —, disse Sophia. — Uma cabeleireira especialista poderia torná-la mais bonita, — Lady Trentham disse a ela. — E as roupas certas, com a adição de espartilho podem


fazer mesmo a mais delgada das figuras atraente. Você tem vestidos que se ajustem melhor do que o que está vestindo? — Não —, disse Sophia. — Me pergunto, — Lady Trentham disse — se Lorde Darleigh pensou na sua necessidade de roupas de noiva? — Ele pensou, — Sophia assegurou. — Esperava que talvez a senhora Emes ou a senhorita Emes pudessem ir às compras comigo amanhã. — Imagino que uma ou ambas ficariam encantadas —, disse Lady Trentham. — Mas posso ir eu? — Eu não posso, de modo nenhum, me impor a seu tempo —, disse Sophia. — Oh. — O sorriso de Lady Trentham se aprofundou. — As senhoras gostam de fazer compras, senhorita Fry. Muitas vezes nós compramos quando não há realmente nenhuma necessidade, e acabamos comprando toucas e ninharias em prol da compra. Será um prazer maravilhoso fazer compras com alguém que precisa simplesmente de tudo. Lorde Darleigh está disposto a pagar a conta? — Ele disse isso. — Sophia corou. — Isso não parece certo, no entanto. — Seria pior, — Lady Trentham disse a ela, — se fosse levar sua noiva para casa, para conhecer sua família, vestida de roupas que até mesmo os criados iriam rejeitar, me perdoe. Você deve a ele se vestir bem, senhorita Fry, e permitir-lhe pagar as contas. Acredito que é um homem rico o suficiente para não sofrer com a despesa. Sophia suspirou. — Você está sendo muito gentil —, disse ela. — Eu estou tão…


— Cansada? — Lady Trentham sugeriu, ficando de pé. — A aconselho a deitar e descansar por uma hora. Vou mandar a minha criada para você quando estiver próximo à hora do jantar. Por favor, posso emprestar-lhe um vestido para vestir esta noite? É menor do que eu, mas não tanto assim. Minha criada é muito hábil em fazer ajustes rápidos e temporários. Você vai ficar ofendida? — Não —, disse Sophia, sem saber muito bem como se sentia. Estava realmente se sentindo entorpecida e mais cansada do que nunca tinha estado em sua vida. — Obrigada. E então ficou sozinha no belo quarto de visitas. Tirou os sapatos e se esticou em cima da cama para pensar. Mas, felizmente, dada a situação confusa de sua mente, não teve chance de fazê-lo. Caiu imediata e profundamente adormecida. Hugo levou Vincent à sala de estar e apresentou-o à Sra. Emes, sua madrasta; senhorita Emes, sua filha e meia-irmã de Hugo; e Sr. Philip Germane, seu tio. Hugo explicou-lhes que a recente noiva de Vincent estava lá em cima com sua esposa, cansada demais para ser sociável por um tempo. Iria ficar com eles por alguns dias. — Viemos aqui para nos casar —, explicou Vincent quando Hugo o levou até uma cadeira. — Sophia não tem família e eu tenho. Parece-me que é mais justo para ela que nos casemos tranquilamente em Londres por licença especial e, em seguida, irmos para casa. Mas imploro seu perdão pela invasão. — Você é um dos amigos de Hugo da Cornualha, Lorde Darleigh —, disse a Sra. Emes. — É sempre bem-vindo aqui. — Hugo ficou desapontado que não estivesse aqui para o casamento —, disse a senhorita Emes. — Está radiante com o prazer de ter vindo agora. — Lamento ter perdido —, disse Vincent. — Me conte tudo.


A senhorita Emes não precisava de mais incentivo. — Oh, — ela disse, — foi na igreja de St. George em Hanover Square, e tenho a certeza que todo mundo estava lá, apesar de Hugo insistir que só a família e amigos íntimos foram convidados. Gwen estava vestindo rosa, um lindo tom de profundo rosa, e ... Vincent sorriu e escutou com metade de sua atenção. Com a outra metade se perguntava e se preocupava com Sophia. Ela tinha parecido exausta, apreensiva e assustada, dissera Lady Trentham. Isto tudo deve ser demasiado para ela. Mas melhor, com certeza, que a outra alternativa. Ela tinha tido intenção de tomar a diligência para Londres sem nenhum plano para onde iria ou o que faria quando chegasse ali. O próprio pensamento fora suficiente para o fazer estalar em suor frio. Germane despediu-se depois de um tempo, e Hugo sugeriu que Vincent o acompanhasse ao seu estúdio. — É uma grande ideia, não é? — Disse ele, batendo a mão no ombro de Vincent enquanto caminhavam. — Eu com um estúdio. Mas devo isso ao meu pai mostrar interesse em todas as empresas, Vince, e na verdade estou interessado. Mais do que isso, estou recebendo os envolvidos. E meu pai estava certo sobre o homem que deixou no comando de tudo. Ele é uma alma inteligente e consciente que gere os negócios com meticuloso cuidado, exceto o fato de não ter um grão de imaginação. Nada nunca vai mudar com ele no comando, e tudo na vida tem de mudar ou estagna e definha, como todos nós sabemos muito bem. Sente-se aqui e eu me vou sentar atrás desta minha grande mesa de carvalho. É uma pena que não possa ver. Sei que parece bastante importante e imponente, e você parece um humilde suplicante.


— Você está se estabelecendo aqui em Londres, como um empresário, então, é isso, Hugo? — Perguntou Vincent. — O que Lady Trentham pensa sobre isso? Ele ouviu Hugo suspirar. — Ela me ama, Vince —, disse ele. — Eu. Assim como eu sou, sem quaisquer condições. É a melhor sensação do mundo. Ela iria aceitar mesmo se eu quisesse ficar aqui toda a minha vida. Eu não quero, no entanto. Quero passar a maior parte do meu tempo em Hampshire, em Crosslands, e Gwendoline tem todos os tipos de idéias sobre como transformar a casa em um lar e um grande jardim em um parque. Eu me transformei em uma das mais embaraçosas de todas as criaturas, você sabe, um homem bem casado. Fácil de dizer, suponho, quando estamos casados por apenas dois dias. Mas estou confiante de que irá durar. Você pode me chamar de ingênuo por acreditar que sim, mas eu sei. E Gwendoline sabe a mesma coisa. E isso nos leva a você. — Eu fugi de casa —, Vincent disse a ele. — É por isso que ninguém sabia onde eu estava quando você enviou o seu convite. Corri porque minha mãe e minhas irmãs tinham decidido que seria muito mais confortável se estivesse casado. Elas começaram a campanha a sério depois da Páscoa, convidando uma jovem senhora e sua família para Middlebury, e logo se tornou óbvio que ela tinha vindo, não para ser cortejada, mas para aceitar meu pedido. Ela até me disse que entendia e que não se importava. Hugo riu, e Vincent também sorriu. Teria esperado palavras de simpatia? — Então eu corri —, disse Vincent. — Martin e eu fomos para Lake District para algumas semanas de pura felicidade, e então fui, por impulso, à antiga casa em Somerset. Minha intenção era relaxar lá na solidão silenciosa, para não deixar ninguém saber que estava em casa. Fui rapidamente desenganado dessa noção.


Ele passou a dar a Hugo um breve relato de tudo o que tinha acontecido depois de sua chegada. — E por isso estou aqui —, concluiu. — Aqui estamos nós. — E você poderia pensar em outra alternativa para se casar com ela —, disse Hugo. — Nada que fosse satisfatório —, Vincent disse a ele. — E assim, Lorde Darleigh montou cegamente para o resgate —, disse Hugo. — Preciso de uma esposa, Hugo —, explicou Vincent. — Não terei paz com minha família até que esteja casado. Sophia precisa de um lar e de alguém para cuidar dela. Ninguém nunca realmente se importou, você sabe. Vai funcionar. Vou fazê-lo funcionar. Nós vamos. Mesmo que isso significasse dar um ao outro a liberdade de viver sozinho, a mais estúpida das idéias. — Você vai. — Hugo suspirou. — Tenho toda a confiança em você, Vince. A porta da biblioteca se abriu naquele momento. — Estou interrompendo alguma coisa? — Perguntou Lady Trentham. Vincent virou a cabeça. — Sophia está com você? — Ela está deitada, — Lady Trentham disse a ele. — Suspeito que já está dormindo. Vai descer para o jantar. Enquanto você está ocupado amanhã fazendo arranjos para seu casamento, Lorde Darleigh, se não se importa, levarei a senhorita Fry para comprar roupas de noiva. Ela precisa de muita coisa, bem como um bom corte de cabelo. Posso assumir que temos carta-branca para gastar o que precisar ser gasto?


— É claro —, disse Vincent. — E, por favor, não a deixe persuadi-la de que precisa apenas das coisas mais simples e menos caras de todas. Estou certo de que ela vai tentar. — Pode contar comigo —, disse Lady Trentham. — Ela parecerá apresentável quando eu terminar com ela. — Ela me disse que não é feia o suficiente para virar as cabeças —, disse Vincent. — Mas acredita que é irremediavelmente pouco atraente. — Ela não é feia o suficiente para virar as cabeças, rapaz — Hugo assegurou. — Nem sequer a notei na carruagem quando você chegou. — Não são muitas as mulheres incrivelmente bonitas —, disse Lady Trentham. — Menos ainda lindas e encantadoras. Mas as mulheres são especialistas em aproveitar o melhor que têm. Farei o meu melhor amanhã para mostrar à senhorita Fry como fazer com a maioria de seus ativos. Seu cabelo tem uma cor linda, e ela tem os olhos a condizer com ele. Tem uma boca grande e um sorriso encantador, apesar de tê-lo visto apenas uma vez. E tem uma figura ligeira que vai parecer suave e delicada quando estiver vestindo a roupa certa. Mas entendo, Lorde Darleigh, que você já descobriu um dos seus melhores ativos. Ela realmente tem uma voz bonita, baixa e um pouco rouca. Podia não ter percebido se ela não tivesse mencionado que você tinha lhe dito isso. As pessoas que veem são muitas vezes negligentes ao poder do som. Vincent sorriu para ela. — Se você está tentando me tranquilizar, minha senhora —, disse ele, — agradeço. Mas não há necessidade. Não me importo como Sophia parece. Eu gosto dela. — É ela que precisa da garantia — disse a ele. — E você deveria se preocupar como ela é, Lorde Darleigh. Todos os membros da sua família e todos os seus amigos vão vê-la e responder à sua aparência. E ela vai responder ao que


ela vê em seu corpo e aos olhos daqueles que a comtemplam. Você precisa se preocupar. Mas, claro, já está fazendo isso, porque você a trouxe aqui para fazer compras. Ela se parece com uma criança abandonada, você sabe. Sua tia deveria ficar completamente envergonhada por passar roupas que até mesmo seus criados desprezariam usar. E ela corta seu próprio cabelo e fez uma bagunça horrível dele. E parece um pouco desnutrida. Seus olhos são grandes demais para o rosto. Você precisa se preocupar com a aparência dela. Vincent franziu a testa. Ela estava certa, decidiu. Fora fácil para ele garantir à Sophia que não se importava. Mas ela provavelmente o fazia. — Vai ficar aqui esta noite? — Perguntou Hugo. — Será muito bemvindo. — Pegarei um quarto em um hotel se você me recomendar um —, disse Vincent. — Vamos passar pela casa de George após o jantar, — Hugo sugeriu. — Ele está na cidade por uma semana ou duas. E Imogen está com ele. Ela veio para o casamento, para minha eterna e grata surpresa. Flavian está aqui em algum lugar também, ele foi meu padrinho, na verdade. E Ralph está na cidade. George, sem dúvida, o persuadirá a ficar com ele. Você sempre foi o seu animal de estimação especial. Quando Vincent chegara à Penderris Hall, surdo, bem como cego, foi George Crabbe, o próprio duque de Stanbrook, que passou quase cada minuto, de cada hora, de cada dia, em seu quarto com ele, acariciando sua mão e sua cabeça, muitas vezes, embalando-o em seus braços por horas a fio para que ele conhecesse o único contato humano que poderia experimentar, o tato. Lutara contra esses braços que o embalavam como um louco em mais de uma ocasião, atacando com toda a força de seu terror, mas os braços nunca tinham replicado, ou ficado tensos, ou o tentado prender. Nunca o tinham abandonado.


Vincent duvidava que tivesse sobrevivido sem George. Ou, se tivesse, teria se tornado um lunático delirante muito antes de sua audição ter retornado. — Vai ser bom vê-lo de novo tão cedo. E Imogen —, disse ele. Imogen Hayes, Lady Barclay, era a única mulher membro do Clube dos Sobreviventes, tendo perdido o marido torturado na Península, uma tortura que ela tinha testemunhado. — E você também, Hugo. Queria saber se você fora atrás de Lady Muir quando saiu de Penderris. Estou tão feliz por tê-lo feito. — Bem, eu também estou, rapaz —, disse Hugo, — embora ela não tenha tornado isso fácil para mim. — Se tivesse ouvido a sua primeira proposta, Lorde Darleigh, — Lady Trentham disse, — você não iria querer saber disso. Vincent sorriu. Eles pareciam muito satisfeitos, os dois. Podia ouvir o sorriso em suas vozes.


Capítulo Nove Sophia estava cortando o cabelo, um absurdo, pensara quando Lady Trentham primeiro lhe sugeriu, pois seu cabelo já estava muito curto. Mas aqui estava ela, à mercê do Sr. Welland, sua tesoura e seus dedos voadores. — Ele corta meu cabelo quando estou na cidade, — Lady Trentham tinha explicado. — Eu o escolhi, como escolhi a minha costureira, porque não fala com um sotaque francês. Não tenho nenhuma objeção para um sotaque francês na boca de um francês ou francesa, mas você não iria acreditar, senhorita Fry, quantos ingleses e inglesas, se aferram à crença de que irá sugerir maior capacidade e atrair clientes de qualidade superior. Como Sir Clarence e Lady March, Sophia tinha pensado. O Sr. Welland explodira sobre o cabelo de Sophia e declarou com um sotaque distintamente cockney que seu último estilista deveria ser açoitado até aos limites de sua vida, pelo menos. — A última estilista fui eu —, Sophia confessou timidamente. Ele explodira mais uma vez e se lançara a trabalhar. Não estavam sozinhos em sua sala de trabalho. Lady Trentham sentou-se de frente para eles observando com interesse aparente. O mesmo fez a condessa de Kilbourne, sua cunhada, que tinha enviado uma nota na última noite perguntando se Lady Trentham estaria em casa para uma visita naquela manhã, tendo sido convidada para se juntar à excursão de compras.


— Você não deve se intimidar por seu título, — Lady Trentham tinha assegurado à Sophia. — Não há ninguém menos dada a ares do que Lily. Ela cresceu no meio de um exército como a filha de um sargento e se casou com meu irmão quando seu pai morreu. Uma longa, longa saga acompanhou esse evento, mas agora não vou incomodá-la com toda a história. Posso convidá-9ola para nos acompanhar? — Sim, claro —, Sophia tinha dito, reverente de qualquer maneira. E esta manhã, depois que ela chegou à casa de Lorde Trentham e cumprimentou sua cunhada com um abraço e dera à Sra. e à senhorita Emes um bom dia com um sorriso radiante, a condessa fora apresentada a Sophia e a olhara francamente da cabeça aos pés. Sophia estava usando um de seus vestidos, tendo recusado a oferta de usar um de Lady Trentham. — Está para ser noiva do visconde Darleigh? — Ela perguntou. — Oh, minha querida, nós vamos nos divertir tanto esta manhã. Não vamos, Gwen? E assustara Sophia por avançar abraçando-a. Era requintadamente adorável, com uma cara que parecia estar sempre sorrindo. Finalmente o Sr. Welland parecia ter terminado. Sophia ficou alarmada com a quantidade de cabelo que tinha caído no chão a seus pés. Haveria restado algum em sua cabeça? Ele não a tinha colocado diante de um espelho, como ela esperava. — Moldei seu cabelo e desbastei a maior parte, vai entender —, ele disse a ela agora, entregando-lhe um espelho e convidando-a para segurá-lo ante seu rosto. — Isso não significa que eu quisesse cortar seu cabelo mais curto. Deveria ser mais longo. Sophia olhou para sua imagem com algum espanto. Seu cabelo abraçava a cabeça em cachos macios e seu rosto emoldurado com ondas delicadas. Parecia limpo e dócil e não o arbusto selvagem do costume.


— Está muito chique —, disse Lady Kilbourne. — Mostra o seu rosto em forma de coração. E a cor é adorável. Lorde Darleigh tinha explorado o rosto com as mãos, quando caminhavam até o rio e tinha dito, quando ele veio para o queixo, que seu rosto tinha a forma de coração. Sophia sempre tinha pensado que era redondo. — Se a senhora quer parecer como um querubim, vai manter seu cabelo dessa maneira —, disse Welland. — Mas não vai mostrar a melhor característica do seu rosto se o faz. Eu vou lhe mostrar o que quero dizer. E, enquanto Sophia olhava no espelho, ele pressionou seus dedos pelos cabelos nas laterais e segurou-o para trás de seu rosto para que parecesse alisar as têmporas e orelhas. — Vê as linhas clássicas das maçãs do rosto? — Disse. — Se a senhora usar o cabelo para trás como este e aglomerado em cima, essas maçãs do rosto serão mais proeminentes, seu pescoço vai parecer mais elegante e seus olhos serão mais atraentes. O mesmo acontecerá com a boca. Sophia olhou-se no espelho e viu alguém que parecia, por alguma ilusão, se não realmente bonita, pelo menos feminina. — Oh, Deus, você está certo, Sr. Welland —, disse Lady Trentham. — Mas é a senhorita Fry que decidirá se vai deixar crescer o cabelo. Mesmo que não o faça, há muito a ser dito sobre querubins. — Especialmente querubins bem vestidos, — Lady Kilbourne acrescentou, levantando-se, — que é o que a senhorita Fry será quando nós três acabarmos com ela hoje. Vamos seguir em frente? A conta era para ser enviada para Lorde Darleigh, Sophia sabia. Ela não tinha idéia de quão grande essa conta seria, mas se o Sr. Welland tinha uma senhora titular como cliente, provavelmente não seria insignificante. Sentiu-se


desconfortável sobre isso, mas que escolha tinha? Ser rico era algo a que teria que se acostumar. Talvez fosse mais fácil depois de estar casada. Seguiram-se horas de compras de tudo sob o sol, ou assim parecia à Sophia. Havia espartilhos e outras roupas íntimas, camisolas, meias, sapatos, toucas, luvas, ligas, sombrinhas, retículas, leques, capas e bolsas, entre outras coisas. E, claro, havia os vestidos, que caíam em duas categorias, aqueles que eram pré-feitos e precisavam apenas de pequenas alterações, que teriam de ser todas feitas naquele dia ou no seguinte, o mais tardar, e aqueles que seriam feitos a partir de modelos e enviados para Middlebury Parque numa data posterior. — Eu não vou, provavelmente, precisar de tantos —, ela protestou quando Lady Trentham havia listado tudo o que precisava para começar. — Mas eles não são apenas para o seu conforto pessoal e prazer —, Lady Kilbourne lembrou a ela suavemente, uma mão em seu braço enquanto estavam sentadas na carruagem, movendo-se de uma loja para outra. — Eles são para orgulho e prazer de seu marido também. Oh, eu sei que ele é cego e não verá qualquer um dos seus vestidos e outros enfeites. Mas ele tem as mãos e vai senti-los. Sophia sentiu-se corar. — E as outras pessoas vão ver você —, a condessa acrescentou. — Será Lady Darleigh, deve se lembrar. Sua aparência vai refletir-se sobre seu marido. — Vão pensar que eu me casei com ele por seu título e dinheiro —, protestou Sophia. — Vão pensar que o agarrei porque ele é cego. Lady Trentham a olhou de forma avaliadora.


— Mas é claro que vão —, ela surpreendeu Sophia dizendo. — Devo confessar que por um mero momento ontem, pensei isso também. E o que você vai fazer sobre isso, senhorita Fry? Sophia olhou para ela com os olhos arregalados, à espera da resposta a dar. Lady Kilbourne pensou isso também? Ainda o pensa? Será que Lady Trentham ainda tinha dúvidas sobre ela? Inconscientemente, ela ergueu o queixo. A condessa trocou um olhar com sua cunhada, e seus olhos dançaram com alegria. — Exatamente — disse ela. — Isso é exatamente o que você deve fazer. — Eu gosto dele —, disse Sophia ferozmente. — E estou enormemente grata a ele. Vou fazer sua vida tão confortável que não vai nem mesmo sentir falta de sua visão. Vou… Oh, as pessoas podem dizer o que quiserem. Não vou me importar. E ele não vai se importar. Ele vai estar muito ocupado a desfrutar da vida confortável que lhe irei providenciar. Por um ano. E ele não queria mais uma mulher excitante sobre ele. — Oh, bravo, — Lady Trentham disse, rindo. — Lily temos de parar de provocar a pobre senhora. — Mas nós temos a resposta que esperávamos —, disse Lady Kilbourne, rindo também. — Pequenas pessoas são muitas vezes mais espertas do que os seus homólogos maiores, e você é muito pequena, senhorita Fry. Ainda menor do que Gwen e eu. Talvez devêssemos formar uma liga de pessoas pequenas. Gostaríamos de aterrorizar o mundo. E, em seguida, governá-lo. E, surpreendentemente, Sophia riu também. Oh, como era boa a sensação de compartilhar risos e absurdos com outras pessoas.


— Eu vou esboçar uma imagem —, disse ela, — e vamos usá-la como uma bandeira quando nós marcharmos em cima ... Do que vamos marchar em cima? — Clube White — Lady Kilbourne disse sem hesitar. — Esse bastião de orgulho e suposta superioridade masculina que nenhuma mulher respeitável ousa caminhar próximo. The Little League vai marchar sobre ele e exigir direitos iguais. Todas elas gostavam de uma risada alegre. Sophia suportou ser medida e cutucada pelo que pareceram horas, e olhou livros de modelos até que todos os desenhos começaram a ser parecidos. Selecionou tecidos, cores e acabamentos, até que sentiu que não poderia fazer mais nada. E todo o tempo escutou os conselhos e opiniões das suas companheiras, embora nunca tenham sido dominadoras e sempre esperassem por seu julgamento final. A dirigiram muito firmemente para longe de cores vivas, no entanto, ela estava inclinada a escolhê-las em primeiro lugar, uma vez que lhe parecia que cada peça de roupa que possuíra nos últimos cinco anos era desbotada e quase incolor. Mas cores brilhantes, Lady Trentham explicou, iriam engoli-la e torná-la invisível. — E eu acredito —, disse ela, — que tem sido invisível por muito tempo, senhorita Fry. E a conduziram para longe de tecidos pesados, como brocados e veludos, alguns que ela teria escolhido para várias peças de vestuário, pois parecia-lhe que tinha tido frio a maior parte de sua vida. Mas tecidos pesados iriam arrastála para baixo, Lady Kilbourne disse a ela, e sua pequenez e delicadeza eram ativos que ela devia enfatizar. Descobriu que a lã fina, fina de textura, luz e peso, era tão quente como alguns dos tecidos mais pesados. E xales e estolas, ah,


havia tantas tão bonitas, descobriu, eram maravilhosas para aquecer e parecer atraentes com um vestido de outra forma simples. Comprou vestidos de dia já prontos, um vestido de noite, um vestido de passeio e uma roupa de viagem. Tudo teve que ser encurtado e ajustado na altura da cintura e peito. E ela encomendou tantos vestidos diferentes a serem feitas para atender tantos tipos diferentes de ocasiões, que simplesmente perdeu a conta invocando o julgamento de suas duas companheiras, em quem confiava, pois pouco sabia desses assuntos. Depois disso, ela se lembrava de uma roupa mais do que de qualquer outra, simplesmente porque tinha feito a costureira levantar as sobrancelhas quase até a linha de seu cabelo e fizera Lady Kilbourne sorrir de tal forma que seria mais correto dizer que ela ria. Sophia encomendou um traje de equitação que incluía calças, bem como uma saia. — Você monta? — Lady Trentham perguntou a ela. — Escanchada? — De nehum modo — admitiu Sophia. — Mas Lorde Darleigh me disse que posso fazer o que gostar quando estivermos casados, e eu sempre quis montar. Ele deve ter cavalos em seus estábulos. — Acho que deve — Lady Trentham concordou. E depois havia um trje que foi comprado já pronto e teve de ser alterado antes de todo o resto para que pudesse ser entregue na casa de Lorde Trentham antes da noite daquele dia. Sua roupa de casamento. — Mas é para ser apenas Lorde Darleigh, eu e o clérigo, — ela tinha protestado em primeiro lugar. — Por licença especial. — É para o seu dia do casamento, no entanto, — disse Lady Trentham. — É o dia que você vai se lembrar mais vividamente para o resto de sua vida,


senhorita Fry. E você vai sempre lembrar o que estava usando. Você vai ser uma noiva. Sophia piscou para conter as lágrimas que brotavam de seus olhos e não protestou mais. — Lorde Darleigh ficou na casa do duque de Stanbrook na noite passada — disse Lady Trentham. — Lady Barclay ficou lá também. Ela veio para Londres para o nosso casamento. Não ficaria surpresa se após Lorde Darleigh obter a licença especial de hoje vá encontrar alguns outros membros do Clube dos Sobreviventes na casa do duque também esperando para cumprimentá-lo. Hugo tem ido lá. Você sabe sobre os sobreviventes, suponho? Sophia assentiu. — Estou certa de que todos eles vão querer participar do casamento de Lorde Darleigh — disse Lady Trentham. — Todos eles o adoram, você sabe. Ele é o mais jovem entre eles, e o mais querido. E sei que a madrasta e a meia irmã de Hugo adorariam participar. Assim como eu. E da forma como Lily está olhando para mim, acho que ela gostaria de estar lá também, com o meu irmão. Gostaria de fazer um pequeno almoço de casamento para vocês após a cerimônia. Vai permitir isso, senhorita Fry? Não a desejo intimidar em alguma coisa que não queira. Você deve dizer se prefere ter um casamento totalmente privado. E, claro, a vontade de Lorde Darleigh deve ser consultada também. Mas... você vai nos permitir isso? — Por favor? — Acrescentou Lady Kilbourne. — Há anos desde que eu estive em um casamento. São três dias desde Gwen. Sophia se sentou na carruagem, olhando de uma para a outra. Ela era a rata. Ninguém nunca a viu ou falou com ela. Nunca tinha tido amigos, bem, quase nunca. Ninguém nunca a tinha amado, exceto seu pai, à sua maneira descuidada, embora nunca tivesse sido mais demonstrativo sobre isso do que


despenteando seu cabelo ocasionalmente quando lhe dizia que teriam de apertar o cinto novamente por um tempo, quando ele tinha uma maré de má sorte nas mesas de jogo ou nas pistas de corrida. No entanto, agora cerca de dez pessoas queriam assistir ao seu casamento? Uma delas queria apresentar um pequeno almoço de casamento para ela? Era tudo por amor a Lorde Darleigh, é claro. Ela entendeu isso. Mas Lady Kilbourne, na medida em que Sophia sabia, nunca o conhecera. A Sra. Emes e sua filha o haviam encontrado apenas brevemente no dia anterior, enquanto passaram a noite toda com ela e parte dessa manhã também. Lorde Darleigh tinha sacrificado um casamento com sua família perto dele por causa dela, ela sabia. Agora ele tinha a chance de ter alguns de seus amigos mais íntimos junto com ele para a ocasião. E ela tinha a chance de ter com ela, em seu casamento, algumas senhoras que pareciam gostar dela. Parecia incrível. Será que seu novo penteado tinha algo a ver com isso? Mas a Sra. Emes e Constance Emes não a conheciam ainda, e tinham sido gentis e amáveis, tanto ontem à noite como no café da manhã. Seria possível ter amigos por fim? Ela mordeu o lábio inferior. — Oh, sim —, disse ela, — se é o que deseja Lorde Darleigh. As duas senhoras trocaram sorrisos satisfeitos de forma idêntica. A expedição de compras terminara e elas voltaram para casa. Ela precisava estar ocupada, Lady Trentham declarou. Tinha um pequeno almoço de casamento para organizar. Embora devesse primeiro escrever uma nota para Lorde Darleigh a enviar a Stanbrook House. O Clube dos Sobreviventes tinha sido conhecido como um corpo em Penderris Hall na Cornualha durante a primavera. Pareceu estranho e maravilhoso estarem juntos aqui em Londres, o que era estranho para Vincent.


Apenas Bem, Sir Benedict Harper, se encontrava ausente. Ele estava no norte da Inglaterra com sua irmã. Vincent tinha passado a noite em Stanbrook House, em Grosvenor Square, com o duque de Stanbrook e Imogen, Lady Barclay, sua prima distante, e tinham ficado até tarde conversando antes de ir para a cama. E hoje, depois de passar a manhã na aquisição de uma licença especial em Doctors Commons na companhia de George, e em seguida, fazer arranjos para as núpcias a serem celebradas na manhã seguinte, em St. George em Hanover Square, havia retornado para Stanbrook House para encontrar Hugo e Ralph Stockwood, conde de Berwick, bem como Flavian Arnott, Visconde Ponsonby. A senhorita Fry havia sido mantida afastada, como planejado, Hugo relatara, a ser equipada da cabeça aos pés para o seu casamento e sua nova vida. Sua esposa tinha ido com ela, e também a condessa de Kilbourne, sua cunhada. Vincent esperava que Sophia não se sentisse sobrecarregada. — Elas vão cuidar dela, rapaz, — Hugo assegurou-lhe como se tivesse lido os pensamentos de Vincent. — O poder da mulher ou algo horroroso assim. É melhor ficar longe disso e deixá-las fazer o que devem fazer. — Meu Deus — Flavian murmurou com um suspiro. — É você, Hugo? O herói de Badajoz? O gigante de feroz cara feia? Foi isso que três dias de casamento fizeram para você? Só se pode estremecer com a per-perspetiva do que uma semana pode fazer. — Isso é chamado de aquisição de sabedoria, Flave — disse Hugo. — O céu me defenda — disse Flavian fracamente. — Você iria negar às mulheres todo o poder, Flavian? — Imogen perguntou docemente.


— Oh, não você, Imogen —, disse ele apressadamente. — Não, não, não você. Eu não tenho nenhum desejo de ser corrigido com o seu olhar de aço cada vez que olho para você. Seu olhar de aço é desagradável e está inclinado a interferir com a minha digestão. Vamos mudar de assunto. Conte-nos sobre a sua no-noiva, Vince, meu rapaz. E diga-nos porque você está se casando com tanta pressa indecente. Imogen recusou-se a divulgar um único detalhe. Não é a sua história para contar, ela garantiu-nos antes de você voltar com George. A fofoca sem esperança que ela faz. Vincent disse-lhes tudo, com a omissão do mais louco dos detalhes, é claro. No momento em que terminou, ficou surpreso ao descobrir que uma de suas mãos estava em ambas as de Imogen. Ela não era normalmente do tipo demonstrativo. — Casar-me com a senhorita Fry é o que eu quero fazer —, disse ele, como se tivesse havido um coro de protestos de seus amigos. — Pode soar como se estivesse coagido por ela, e admito que, se as circunstâncias não fossem as que são, não estaria fazendo o que estou prestes a fazer. Mas não estou triste, isso aconteceu. E quero deixar bem claro para todos vocês. — Ele moveu a cabeça sobre o aposento como se pudesse vê-los todos. — Quero deixar claro que ela não fez, de modo algum, qualquer manobra nessa matéria, para que fosse obrigado a me casar com ela. Ela é absolutamente irrepreensível. Tive um trabalho do diabo para fazê-la aceitar minha oferta, mesmo enfrentando um futuro sombrio, dizendo que não. — Você parece, Vince, — disse Ralph — como se estivesse prestes a nos desafiar coletivamente com pistolas ao amanhecer. Vincent relaxou um pouco e riu. — Ela é uma be-beleza? — Perguntou Flavian. — Ou você já ouviu falar que ela é? Hugo? Você a viu.


Significativamente, Hugo não disse nada. — Talvez você se surpreenda ao saber, Flave —, disse Vincent, — que eu não me importo o estalo de dois dedos como ela se parece, exceto como sua aparência pode afetar sua felicidade. Ela se descreve de forma autodepreciativa. É pequena e esbelta. Que eu sei. Tem o cabelo encaracolado curto, ruivo e olhos que ela não pode identificar como definitivamente marrom ou avelã, mas um pouco de ambos. Tem bochechas de pele lisa e uma boca larga. Ela tem uma voz atraente. Eu gosto disso e gosto dela. Hugo, alguma coisa a acrescentar? — Não quando você me pergunta nesse tom, rapaz —, disse Hugo apressadamente. — Gwen e Lily vão cuidar dela, você pode acreditar nisso. Acredito que um cabeleireiro foi o primeiro na ordem do dia desta manhã. E, em seguida, lotes de costureiras. A tia com quem ela tem vivido merece ser chicoteada. Seus vestidos parecem sacos meio esfarrapados e ela parece como se não comesse devidamente. Mas essas coisas podem ser corrigidas. — Sim —, disse Vincent. — Podem e vão. Imogen estava acariciando as costas da sua mão. — Vince, — Ralph disse — você é muito bom para o resto de nós. Você é bom demais para este mundo. Era assim tão ruim quando seus olhos funcionavam? — Pretendo ser feliz, você sabe — Vincent disse, sorrindo. — Casamento às vezes não traz felicidade, parece. Olhe para Hugo. Eu não posso fazer isso literalmente, é claro, mas posso ouvi-lo. — Nauseante, não é? — Disse Ralph. Vincent continuou a sorrir. — E em breve haverá dois de nós. O Clube dos Sobreviventes pode não sobreviver ao choque.


— Nós sobrevivemos às guerras —, disse George. — Ouso dizer que vamos sobreviver a um par de casamentos decentes também. Uma vez que sua família não vai estar presente em seu casamento amanhã, Vincent, e a que a senhorita Fry tem não vale a pena nem falar, todos nós podemos ir? Ou você prefere que não? Um casamento sem convidados parecia uma coisa sombria, embora uma condição necessária, pensara quando o planejou. — Realmente gostaria que todos estivessem lá —, disse ele. — Mas vou ter que perguntar a Sophia se ela não se importa. O ponto de vir aqui em vez de retornar para Middlebury Park para o nosso casamento foi de que o equilíbrio de convidados não estivesse apenas do meu lado. Houve uma batida na porta da sala naquele exato momento e o mordomo de George murmurou para ele que uma carta tinha acabado de ser entregue por um mensageiro privado para o Visconde Darleigh. — Caligrafia da minha esposa — disse Hugo. Vincent se levantou abruptamente. Havia algo acontecendo com Sophia? — Será que alguém vai ler para mim? — Ele perguntou. — George? Ouviu o farfalhar de papel. Houve uma breve pausa, presumivelmente enquanto George olhava o conteúdo. — Ah —, disse ele. — Lady Trentham pede, Vincent, se você tem alguma objeção a ela organizar um pequeno almoço de casamento para treze pessoas em sua casa e de Hugo amanhã. Treze? Deus bendito. Ah, ela listou nomes aqui, e estamos todos incluídos. Assim são a Sra. e a senhorita Emes, Sr. Philip Germane, seu tio, eu acredito, Hugo e o conde e condessa de Kilbourne. Aparentemente a senhorita Fry já aprovou tanto o pequeno almoço como a lista de convidados.


Vincent sorriu e sentou-se novamente. — Então parece que vocês estão todos convidados a um casamento amanhã — disse ele. — Em St. George às onze horas. Não consegui chegar a tempo para seu casamento, Hugo, por isso vou compensar com o meu próprio. — O diabo —, disse Flavian. — Outro casamento? Posso não sobreviver à provação. Mas por você, Vince, vou assumir o risco. Estarei lá. — Você reclama, Flavian — disse o duque. — Haverá ainda um outro casamento em pouco tempo, um pouco menos de um mês, e vou ter necessidade de permanecer na cidade para ele. O mesmo acontecerá com Imogen, uma vez que se trata de família. Meu sobrinho. — O herdeiro, George? — Perguntou Ralph. — Nenhum outro —, disse o duque. — Julian foi um pouco malandro quando menino, mas encontrou alguém de quem parece genuinamente afeiçoado. Ele a trouxe aqui antes de ontem para minha inspeção, eu suponho. Não para a minha aprovação, estou feliz em dizer. Ele não perguntou. A pobre menina estava claramente impressionada. — É claro que estava —, disse Imogen. — Você sempre tende a jogar em tais ocasiões, George, e você é suficientemente formidável, mesmo quando não está cutucando. Pobre senhorita Dean. Senti por ela. — Senhorita Dean? — Perguntou Vincent, surpreso. — Senhorita Philippa Dean, sim —, disse George. — Você não a conhece, não é, Vincent? — Ah, eu acredito que sua família é de Bath —, disse Vincent. — Minha avó viveu lá por anos antes de se mudar para Middlebury Park para acompanhar minha mãe. Os Dean eram seus amigos íntimos.


— Devo escrever para Lady Trentham por você, Vincent? — Perguntou Imogen. — Ouso dizer que ela gostaria de ter uma resposta rápida à sua pergunta. Um pequeno almoço de casamento para organizar em menos de vinte e quatro horas não é uma coisa fácil. ... Alguém de quem ele parecia genuinamente afeiçoado. Oh, Vincent esperava que sim e que o afeto trabalhasse em ambas as direções. A culpa relativa à senhorita Dean tinha sido persistente para ele desde que fugira de casa. E ela estava se casando com o herdeiro de um duque? Sua família ficaria satisfeita. — Não há necessidade, Imogen —, disse Hugo. — Vou voltar para casa e digo a Gwendoline. Tenho a sensação de ter casado com uma mulher que vai tomar esse tipo de coisa em seu caminho. — Se o seu peito inchar mais, Hugo, — disse Flavian — você pode descobrir que não consegue ver seus pés. Vou indo também, George. Toda essa conversa de matrimônio me deu uma an-ânsia de espaço e ar fresco. — Vou com você, se me permitir, Hugo — disse Vincent. — Quero ouvir dos lábios da própria Sophia que tudo isso não é esmagador para ela. — Prometo não brincar amanhã, quando a encontrar em seu casamento, Vincent — disse George. — Aparentemente meu olhar é suficientemente formidável de qualquer maneira. — Você não vai me deixar esquecer isso, não é? — Imogen comentou. Bom Senhor, Vincent pensou quando Hugo pegou o braço dele, amanhã era o dia do seu casamento. Amanhã!


Capítulo Dez Três dos vestidos de Sophia tinham sido entregues no início da noite, seu vestido de casamento entre eles. Ela o estava usando agora, na manhã seguinte, e estava olhando timidamente para o espelho de corpo inteiro que havia sido colocado em seu quarto de vestir, onde a criada de Lady Trentham tinha acabado de a arranjar. Parecia diferente. Não se parecia com um menino. Ou uma criança abandonada. Ou um espantalho. O vestido era de um verde pálido, quase prata. Era uma sombra que destacava o vermelho de seu cabelo. Tinha um estilo simples, a cintura alta apanhada debaixo de seu peito com uma faixa condizente, a saia caindo em pregas suaves quase até os tornozelos, onde terminava em dois pequenos babados. O decote era baixo, mas modesto, as mangas bufantes aparadas com versões em miniatura dos babados da bainha. Usava chinelos dourados e luvas. Um pequeno chapéu de palha de abas largas enfeitado com botões de rosas brancas minúsculas estava na mesa de vestir, pronto a colocar. Talvez o item mais notável de sua roupa de casamento fosse algo que não podia ser visto, seu espartilho. Nunca tinha usado nenhum antes. Não era desconfortável, como ela esperava que fosse. Ainda não era, de qualquer maneira. Lady Trentham e Lady Kilbourne a tinham persuadido a experimentálo, e quando o tinha atado debaixo do vestido e a costureira o tinha fixado para que se ajustasse a ela, sabia porque tinham feito isso. Agora sabia. De alguma forma, apesar de sua deformidade básica e apesar das linhas retas da saia, o


espartilho deu-lhe uma cintura e quadris. Acima de tudo, porém, deu-lhe uma espécie de peito, empurrando os seios para cima, como fizera. Não eram uns seios muito impressionantes. Mas pelo menos eram seios, e pela primeira vez em sua vida, ela pensou que parecia uma mulher. Este espartilho podia, é claro, revelar-se desconfortavelmente quente. Ia ser um dia quente, Lorde Trentham havia informado no café da manhã, franzindo o cenho ferozmente para Sophia e, em seguida, surpreendendo-a com um sorriso. — É uma boa coisa nunca ter pensado em ganhar a vida como cabeleireira, moça — ele tinha dito. — Seu cabelo parecia um arbusto inculto que tinha passado por um furacão. — Oh, meu caro Hugo! — Hu-go! A Sra. e a senhorita Emes tinham falado simultaneamente. — É apenas a maneira de Hugo dizer, senhorita Fry, — Lady Trentham havia dito — que seu cabelo parece muito atraente hoje. — Isso é exatamente o que eu disse —, ele concordou, sorrindo para a esposa. Ela parecia, Sophia decidiu agora, olhando melancolicamente para sua imagem. Na verdade, se abandonasse toda a modéstia, por um momento na privacidade de sua própria mente, pensou que parecia muito bem, de fato. Ela sorriu. E a realidade tomou conta dela. Este era o dia do seu casamento. Com o Visconde Darleigh. Vincent. Ela o tinha visto brevemente no jantar da noite de anteontem, antes de Lorde Trentham o levar para Stanbrook House. E o tinha visto brevemente durante o chá na tarde da véspera. Em nenhuma das vezes


tinha estado a sós com ele. Nem tiveram qualquer tipo de conversa privada um com o outro. Parecia um longo tempo desde a última vez que tinham falado. Ele parecia um estranho. Ele era um estranho. Por um momento o pânico a ameaçou. Ela nunca deveria ter concordado com isso. Bastava pensar em seus amigos, Lorde e Lady Trentham, o Duque de Stanbrook, Lady Barclay, Visconde Ponsonby, o Conde de algum lugar, ela não conseguia se lembrar. Todos eles titulados e de um mundo muito diferente do seu. Naquele dia, mais tarde, esperava os encontrar. Tinha concordado com um pequeno almoço de casamento ali. Não o deveria ter feito. Não era justo com ele. Mas ele tinha sido apenas Vincent Hunt, lembrou a si mesma, que tinha sido educado em uma escola da aldeia por seu pai, o professor, e cujos companheiros tinham sido as outras crianças da aldeia. Ela era a neta e sobrinha de um barão. Era uma Lady. E então desejou não ter pensado em quem ela era. Tinha família. Havia Sir Terrence Fry, que nunca conhecera, e havia a tia Martha, Sir Clarence e Henrietta. Nenhum dos quais estava aqui com ela, assim como ninguém da família de Lorde Darleigh estava ali. No caso dele fora simplesmente porque não sabiam sobre o casamento. Mas seu tio também não sabia. Se soubesse, ele viria? Provavelmente nem mesmo estava na Inglaterra. Abanou a cabeça. Quase no mesmo instante, se distraiu com uma batida na porta. Esta se abriu para revelar Lady Trentham e a senhorita Emes atrás dela, olhando por cima do ombro. — Oh, senhorita Fry, — a última exclamou — como você está bonita! Se vire e deixe-nos vê-la corretamente.


— Sophia virou obediente e olhou ansiosamente para elas. — Será que estou? — Perguntou ela. Lady Trentham sorriu lentamente. — Eu continuo lembrando o Sr. Welland dizer que se você mantiver o seu cabelo curto vai parecer um querubim —, disse ela. — Ele estava certo. Você se parece com uma pequena fada doce, senhorita Fry. Você vai parecer muito bem. — Devo ajudá-lo com sua touca? — Perguntou a senhorita Emes, entrando no quarto de vestir. — Você não quer esmagar seus cachos, não é? Oh, como é bonito e delicado. Isso. Combina com você perfeitamente. Amarrei o arco no ângulo direito, Gwen? — Pobre Hugo, vai estar abrindo um caminho nos ladrilhos do corredor, se não formos para baixo em breve — disse Lady Trentham. — Aparentemente, ele estava muito nervoso no dia do nosso casamento apenas quatro dias atrás, e agora está nervoso de novo, porque ele tem a responsabilidade de a entregar para o cuidado desse patife desavergonhado Lorde Darleigh, palavras dele, não minhas. E falando brincando, é claro. Mas ele se sente responsável, uma vez que você não tem família para ficar com você. Vamos descer? Suas palavras, ditas inconscientemente, trouxeram de volta a pontada de solidão e abandono. Mas foi suficientemente fácil sacudir para fora. Sophia não esperava um casamento normal, não que soubesse muito sobre casamentos normais. Esperava uma breve cerimônia apenas com ela, o Visconde Darleigh e o clérigo presentes. Ah, e uma ou duas testemunhas, talvez o Sr. Fisk e o Sr. Handry. Mas, de repente, parecia ser um casamento de verdade, apesar de tudo. Havia convidados e um padrinho, o Duque de Stanbrook, e alguém para entregála. Lorde Trentham tinha-se oferecido na última noite e ela aceitara. Ele a aterrorizava, e não aterrorizava. Ela ainda não o tinha imaginado. Parecia um guerreiro feroz e severo, mas podia pegar Lorde Darleigh em um abraço de urso


e olhar para sua nova esposa, por vezes, como se o sol nascesse e se pusesse sobre ela. Suspeitava que era um homem que se sentia mais confortável escondido atrás da máscara de ferocidade, de modo que seu lado amável não estivesse publicamente exposto e aberto ao ridículo ou vulnerável. Ela poderia ter esboçado uma caricatura dele se não tivesse gostado dele. Mas ela não o fez. Tinha apenas um pouco de medo dele. Ele estava, na verdade, andando pelo corredor na parte inferior da escada. Chegou a um impasse quando as viu descer, com os pés calçados com botas, ligeiramente afastados, as mãos cruzadas nas costas, a postura ereta, como um soldado na parada, não muito à vontade. Seus olhos passaram sobre sua esposa e sua irmã com a aprovação óbvia e, em seguida, vieram descansar sobre ela. — Bem, moça, — disse ele — você está parecendo muito atraente, de fato. É uma pena Vince não ser capaz de a ver. Ela parou a dois passos do fundo. As outras duas senhoras já haviam descido. Lorde Trentham deu dois passos em direção a ela, e seus olhos ficaram apenas um pouco acima do nível dos dela enquanto olhava para eles com um olhar que certamente deveria ter tido seus soldados tremendo de terror. — Ele é muito precioso para mim —, disse em voz baixa. Continuou a olhar para ela, e ela quase recuou para o terceiro degrau. Mas se manteve firme e ergueu o queixo. — Ele vai ser ainda mais precioso para mim — disse ela. — Ele vai ser meu marido. Houve uma batida mais de olhos em uma análise de sua parte, e então ele sorriu e realmente pareceu inesperadamente bastante bonito. — Sim, ele será — disse ele. — E mais uma vez digo que é uma pena que não possa vê-la esta manhã. Você parece um pequeno duende.


Pelo menos ela não se parecia com um rato no dia de seu casamento. — A carruagem está lá fora esperando, Hugo —, disse Lady Trentham. Ela e a senhorita Emes iam acompanhá-los à igreja. A Sra. Emes tinha saído mais cedo com o Sr. Philip Germane, tio de Lorde Trentham, que, suspeitava Sophia, estava cortejando a Sra. Emes. Lorde Trentham ajudou Sophia a entrar na carruagem e insistiu para que tomasse o banco voltado para os cavalos, ao lado de sua esposa. Era isso, ela pensou. Seu dia de casamento. Um dia de verão quente. O céu estava azul profundo com nem uma nuvem visível. Nenhuma noiva poderia pedir algo melhor. Sophia virou a cabeça para o lado enquanto a carruagem balançava em suas molas e mudou-se para a frente. Não queria se envolver na conversa. Queria... se sentir como uma noiva, para pôr de lado todas as suas dúvidas, estar animada e apenas um pouco ansiosa, mas de uma maneira boa. Lady Trentham tinha falado com ela na última noite e explicara sobre aquela noite. Humilhantemente, considerando o fato de que ela tinha vinte anos, Sophia pouco sabia. Lady Trentham assegurara que parecia muito pior, mais embaraçoso, mais doloroso, mais absolutamente aterrorizante do que era. — Na verdade, — ela disse, as faces de um rosado vermelho, — Eu vou com o Hugo para a quarta noite do nosso casamento, quando deixar você, senhorita Fry, e realmente mal posso esperar. Deve ser... Não, é, para além de qualquer dúvida, a coisa mais gloriosa no mundo inteiro. Você verá. Você vai em breve acolhê-la. Sophia pensou que ela poderia estar certa. Para o seu mais profundo sonho secreto... Bem, ela não tinha compartilhado aquilo na assembleia de Barton Coombs. Como poderia? Estava conversando com um homem.


O homem com que estava prestes a se casar. Lady Trentham pegou sua mão e apertou-a. Eles estavam virando em Hanover Square. Vincent estava tendo todos os tipos de segundos pensamentos, o que significava, ele supôs, que no momento em que acabasse com eles estaria no trigésimo sexto ou no quinquagésimo oitavo pensamento. Realmente não deveria estar pensando. Só que tentar não pensar não era mais eficaz do que seria tentar conter a maré. Aquilo tinha se transformado em um casamento apropriado com os convidados na igreja mais famosa de Londres, mas sua mãe, avó e irmãs não sabiam do acontecimento. Nem sequer conheciam a sua noiva. Ele realmente também não a conhecia, pensando nisso, não é? Eles eram virtualmente desconhecidos. Ele nem sequer queria se casar. Exceto que, se precisava se casar, ou não teria paz por parte de seus parentes até que o fizesse, ele o faria desde que fosse com Sophia. Realmente gostava dela, ou pensava que gostava. Não a conhecia. Ou ela a ele. No entanto, hoje era o dia do casamento deles. E, de alguma maneira perversa, graças a Deus, o pensamento o entusiasmava. Sua vida estava prestes a mudar, e talvez fosse mudar com ela, para melhor.


— Você tem o anel? — Perguntou a George, que estava sentado ao seu lado no banco da frente da igreja. — Tenho —, disse George. — Assim como tinha quando perguntou há três minutos atrás. — O fiz? — Você fez. E eu ainda o tenho. Seu dia de casamento. Seu padrinho estava ao lado dele. Seus amigos estavam atrás deles. Embora não estivesse falando alto, alguns deles estavam sussurrando, e ele podia ouvir o farfalhar de seus movimentos e tosse ocasional. Podia sentir o cheiro das velas e vestígios de incenso e aquela pedra fria e o cheiro de livro de oração peculiar nas igrejas. Sabia que o grande órgão ia tocar. Haveria um pequeno almoço de casamento mais tarde na casa de Hugo, um pensamento levemente aterrorizante mesmo pensando que estaria comendo com amigos. Não gostava de tomar as suas refeições em público. E haveria uma noite de núpcias em Stanbrook House. Tudo tinha sido arranjado sem qualquer consulta com ele. Imogen ficara em casa de Hugo após o café da manhã, e George estava indo para passar a noite nos alojamentos de Flavian. Vincent e Sophia teriam Stanbrook House para si por essa noite, além dos criados, é claro. Isso, pelo menos, ele poderia passar também. — Você tem o anel? — Perguntou. — Não, esqueça. Perguntei antes, não perguntei? Ela está atrasada, George? Será que ela vem? — Ela está a dois minutos de estar atrasada — George assegurou. — Na verdade, acredito que ela está dois minutos adiantada. Aí vem Lady Trentham e a senhorita Emes.


Mas Vincent tinha ouvido a ligeira comoção na parte de trás da igreja por si mesmo. E ouviu o clérigo limpar a garganta. Se pôs de pé. O grande órgão começou a tocar, e era tarde demais para segundos pensamentos. Ele estava prestes a se casar. Ela e Hugo estariam caminhando ao longo da nave na direção dele. Sua noiva. Podia ouvir o lento clique constante dos saltos das botas de Hugo sobre a pedra. Desejou poder vê-la. Ah! Desejava poder. Ela estaria vestindo roupas novas. Roupas bonitas. Será que a faziam se sentir melhor sobre si mesma? Ele sorriu, embora não pudesse vê-la. Ela devia ver que ele estava dando as boas-vindas à sua noiva. Quantos segundos pensamentos a teriam atormentado aquela manhã? E então ele sentiu o cheiro dela, aquele cheiro de sabão fraco que tinha começado a associar com ela. E sentiu o ligeiro calor de uma presença humana em seu lado esquerdo. O hino desapareceu. — Amados —, disse o clérigo. Ah! Deixe-o ser adequado. Deixe-o ser um marido digno para esta pequena criança abandonada com quem estava se casando. Que seja um bom companheiro e amigo. Que seja um amante decente. Deixe-o protegê-la de danos todos os dias de suas vidas. Ela era inocente. Ela tinha vindo em seu socorro naquela noite na assembleia e teria sofrido a punição para o resto de seus dias, se não a tivesse convencido a se casar com ele. Deixe que ela nunca lamente se casar com ele. Deixe-o estimá-la. Deixe-o colocar de lado segundos e noventa segundos pensamentos a partir deste momento. Ele estava no processo de se casar. Que ele fosse casado, então, e feliz por isso. Que ele nunca mais, mesmo por um único momento, se permitisse sentir arrependimento, o que quer que o futuro reservasse. Deixe-o estimá-la.


Tinha feito seus votos, percebeu, sem se lembrar de uma palavra. Ela tinha feito os dela sem ele ouvir uma palavra. Ele tinha tomado o anel e deslizara sobre seu dedo sem se atrapalhar ou deixá-lo cair. E o clérigo lhes estava dizendo que eram marido e mulher. E estava feito. Houve um murmúrio dos bancos. Havia ainda o registo para assinar. Nada seria legal e oficial até que fosse feito. Sophia deslizou um braço no dele e guiou-o para a sacristia sem o puxar. Tinha notado isso durante a sua caminhada juntos em Barton Coombs. Muito poucas pessoas de sua experiência confiavam que ele seguisse apenas pequenas pistas. O clérigo não esperava que fosse capaz de assinar seu nome, mas é claro que podia. Sentou-se perante o registo, e George entregou-lhe a caneta de pena e guiou a mão para o início da linha onde iria escrever. Rabiscou seu nome e se levantou. Sophia assinou seu nome seguido pelas testemunhas, George e Hugo. E então ela passou o braço através do seu de novo e levou-o de volta para a igreja. O órgão começou um hino alegre e passaram a curta distância até a frente da igreja e, em seguida, ao longo da nave. Vincent podia sentir seus amigos lá. Ele sorriu da esquerda para a direita. — Lady Darleigh —, disse ele em voz baixa. — Sim. — Sua voz estava um pouco mais aguda do que o habitual. — Minha esposa. — Sim. — Feliz? — Perguntou. Foi provavelmente a pergunta errada.


— Eu não sei — disse ela após uma breve pausa. Ah, honestidade. Caminharam em silêncio, e então ele sentiu uma qualidade diferente pairar no ar, e ela o puxou para uma paragem quando saíram pelas portas da igreja para o ar fresco do exterior, e o som do órgão recuou um pouco. — Há degraus — disse ela. Sim, ele lembrou de quando entrou. — Oh, e há pessoas. Podia ouvi-las, conversando, rindo, assobiando, mesmo torcendo. Havia sempre pessoas se reunindo do lado de fora de St. George, lhe tinham dito, para assistir casamentos da sociedade. — Eles vieram para ver a noiva — disse ele, sorrindo e levantando a mão livre em reconhecimento dos cumprimentos. — E hoje ela é você. — Oh, e há dois homens —, disse ela. — Dois homens? — Eles estão sorrindo —, disse ela, — e ambos estão segurando punhados de... oh! E Vincent sentiu pelo menos dois leves, mísseis perfumados vibrando quando passaram por seu nariz. Pétalas de rosa? — Nenhum ponto en-encolhido lá, Vince, — Flavian chamou. — Venha e traga sua noiva para a carruagem. Se você ousar — acrescentou Ralph. — Uma carruagem aberta —, disse Sophia. — Oh, ela está toda decorada com flores, fitas e arcos.


Vincent podia sentir o calor do sol. — Vamos descer? — Sugeriu. — Esses são dois dos meus amigos. Eles estão armados com pétalas de rosa? — Sim —, ela disse e riu, aquele claro e bonito som que tinha ouvido algumas vezes antes. — Oh, querida, vamos ficar cobertos delas. Ela disse a ele onde estavam os degraus e, em seguida, agarrou-se a seu braço enquanto se apressavam pela curta distância até à carruagem, fazendo parecer que ele a estava levando ao invés de o contrário. — Nós estamos lá —, disse ela enquanto pétalas de rosas choveram sobre eles e Vincent pôde ouvir que os outros convidados tinham emergido da igreja. Mas em vez de entrar na carruagem, sem mais delongas, ela esperou enquanto ele localizava o primeiro degrau e ofereceu sua mão. Ela colocou sua própria aí e subiu. Ele a seguiu e certificou-se de que se sentava ao lado dela, e não sobre ela. Os sinos da igreja estavam tocando. — Bem, Lady Darleigh. — Ele sentiu a sua mão e apertou-a com força na sua própria. Ela estava usando luvas macias. — Parece tanto com um casamento como se sente? — Sim. Ele ouviu a porta da carruagem fechar e sentiu a inclinação das molas quando o cocheiro voltou para seu poleiro. — Está impressionada? — Sim. — Sophie, — disse ele — não esteja. Você é uma noiva. Todos os olhos estão em cima de você hoje.


— Esse é precisamente o problema — disse ela, rindo sem fôlego. — Descreva o que está vestindo — ele disse a ela. Ela disse a ele, começando com seu chapéu de palha. Antes que ela chegasse a seus pés, a carruagem balançou em movimento e se afastou da igreja com um ruido horrendo. — Oh! — Gritou. Ele fez uma careta e depois sorriu. Um velho truque, no qual havia participado mais de uma vez quando menino. — Acredito que temos todos os utensílios de cozinha velhos de alguém, arrastando atrás de nós. Agora você está realmente em evidência. Ela não respondeu. — Você parece encantadoramente vestida, Sophie —, disse ele, tendo que levantar a voz acima do barulho. — Está todo mundo olhando lá atrás? Ele a sentiu virar para olhar. — Sim. — Posso te beijar? — Perguntou a ela. — É o que estão todos esperando. — Ah —, disse ela novamente. Ele tomou a única palavra como assentimento. Sabia que realmente estava assustada, e a percepção o fez sentir ternura por ela. Estendeu a mão livre e encontrou seu rosto sob a pequena aba dura do chapéu de palha que ela havia descrito. Segurou seu rosto macio com a mão, encontrou o canto de sua boca com a ponta do polegar, abaixou a cabeça e beijou-a.


Foi mais um beijo de verdade desta vez, embora não fizesse nenhuma tentativa de aprofundá-lo. Seus lábios estavam entreabertos. Os dela estavam cheios, macios, quentes e úmidos, ela devia ter acabado de os lamber. Ele sentiu uma agitação na virilha e uma agradável antecipação da cama nessa noite. Mesmo sobre os ruídos hediondos de várias chaleiras e panelas ou o que quer que diabo estava sendo arrastado ao longo da estrada atrás deles, podia ouvir um aplauso empolgante. — Sophie. — Ele levantou a cabeça, mas não removeu a mão de sua bochecha. — Se não pode me dizer que está feliz, pode, pelo menos, assegurarme que não está infeliz? — Oh, não — disse ela. — Não estou infeliz. — Ou arrependida? Não lamenta? — Não — disse ela. — Não tenho a coragem de me arrepender. Ele franziu a testa. — Só lamento que você possa se lamentar — ela disse a ele. Ele esperava que qualquer mulher com que se casasse seria a única que poderia se arrepender de tê-lo feito, porque ele era cego e não poderia viver uma vida totalmente normal ou ver e apreciá-la. Mas esta noiva, ele percebeu, quase não tinha autoestima, mesmo agora quando estava bem vestida de forma dispendiosa e quando seu cabelo estava devidamente cortado e era a viscondessa Darleigh. Sabia que ela havia sido destroçada. Talvez não tivesse percebido o quão profundamente. Estaria ela demasiado destroçada? Mas se lembrou dela fazendo uma corrente de margaridas e rindo quando ele tentava as pôr sobre sua cabeça. Ele lembrou-se dela brincando sobre gatos quando ele tocou seu violino.


Lembrou-se da história absurda de Bertha e Dan que haviam inventado no caminho para Londres e sua admissão de que ela desenhava caricaturas de pessoas que conhecia. — Nunca — ele disse a ela. — Nunca vou me arrepender. Nós vamos encontrar alegria um com o outro. Eu prometo. — Como se pode prometer tal coisa? Mas ele podia prometer tentar. Não tinha escolha agora de qualquer maneira. Estavam casados. E ele faria tudo em seu poder para restaurar a sua autoestima. Se pudesse fazer isso por ela, estaria contente. — Eu acho, — disse ele, sentado em sua cadeira — que nós estamos atraindo um grande público. — Oh, sim —, disse ela, e riu. Ele apertou a mão dela.


Capítulo Onze O Duque de Stanbrook era um elegante cavalheiro alto, de aparência austera, com cabelo escuro apenas se voltando ao cinza nas têmporas. O Visconde Ponsonby era um deus loiro com uma leve gagueira e uma sobrancelha zombeteira. O Conde de Berwick era um jovem, talvez apenas alguns anos mais velho que Lorde Darleigh, e seria inteiramente bonito se não fosse pela cicatriz de aparência perversa que cortava em diagonal um lado de seu rosto. Lady Barclay era alta e friamente bonita, com cabelo loiro escuro liso e maçãs do rosto salientes em um rosto oval longo. Com Lorde Darleigh, Lorde Trentham e o ausente Sir Benedict Harper, eles formavam o Clube dos Sobreviventes. Sophia achou-os aterradores, apesar do fato de que todos eles se curvaram respeitosamente a ela antes do pequeno almoço de casamento e beijaram as costas de sua mão, exceto Lady Barclay, é claro, que apenas desejou-lhe felicidades. Ela pensou que todos a tinham olhado e a achado carente. Todos pensavam que era uma oportunista, uma caçadora de fortunas, alguém que tinha tirado vantagem não só de alguém de boa índole, mas de um cego de boa índole. E eles eram seus amigos mais queridos. Tão próximos como irmã e irmãos, ele dissera a ela. Talvez esse fosse o problema. Talvez eles se sentissem protetores em relação a ele e, portanto, suspeitavam dela. Ela sentiu um calafrio. O conde de Kilbourne, irmão de Lady Trentham, também era um belo cavalheiro, de aparência formidável.


Ele também tinha sido um oficial militar. Todo mundo foi cortês. Todos fizeram um esforço para manter a conversa em movimento, para mantê-la leve no tom, para mantê-la em generalidades para que todos pudessem participar. A Sra. Emes era filha de um lojista e viúva de um empresário próspero. A senhorita Emes era sua filha. O Sr. Germane era também um homem de negócios, um membro da classe média. Eles não foram excluídos da conversa, Sophia notou. Também não os fizeram se sentir inferiores. Mas ela, que era uma dama de nascimento, sentiu-se sufocada pela grandeza dos convidados de seu casamento, os amigos de seu marido. Marido dela! Ainda era apenas uma palavra, e uma sensação de peso na boca do estômago. Estranhamente, tolamente, foi apenas enquanto o serviço de casamento estava acontecendo que ela tinha compreendido que estava se casando, que consentira em se tornar posse de um homem para o resto de sua vida. Ela não queria pensar em seu casamento assim. Lorde Darleigh não era assim. Mas a lei da Igreja era. E a lei estadual era. Ela era sua posse, para fazer o que ele quisesse, se ele exercesse esse poder ou não. Queria sentir-se alegre. Por alguns momentos fugazes durante o dia ela o tinha feito, quando tinha andado ao longo da nave da igreja, esta manhã, enquanto o órgão tocava e ela vira o visconde Darleigh esperando por ela, um sorriso quente em seu rosto; quando eles tinham saído da igreja à luz do sol com um grupo de espectadores aplaudindo e uma chuva de pétalas de rosa; quando tinha ouvido pela primeira vez as panelas e frigideiras barulhentas amarradas atrás da carruagem; quando Lord Darleigh a beijara; quando um senhor idoso


parara na calçada para assistir a carruagem passar, tirara o chapéu para ela e piscara. Mas o pequeno almoço do casamento era nada menos que uma provação. Por mais que tentasse, não conseguia forçar-se a participar da conversa e respondia com monossílabos sempre que uma pergunta era direcionada especificamente para ela. Sabia que não estava dando uma boa impressão. Como podia esperar ser amada? Ela não comeu quase nada. Ela não provou nada. Lorde Trentham levantou-se para propor um brinde à noiva, e Sophia forçou um sorriso, obrigando-se a olhar ao redor da mesa e acenar seus agradecimentos a todos. O Visconde Ponsonby levantou-se, brindou a seu marido e provocou uma grande dose de riso caloroso. Sophia se obrigou a juntar-se a eles. Lorde Darleigh tornou a levantar-se e agradeceu a todos por tornar o seu dia memorável e feliz. Estendeu a mão para a dela, se inclinou e beijou-a provocando alguns murmúrios das senhoras e os aplausos de todos. Sophia relaxou um pouco mais quando todos se retiraram para a sala de estar e Constance Emes veio sentar-se ao seu lado. — É inspirador, não é? — Ela disse, falando baixo para apenas os seus ouvidos. — Todos estes títulos? Toda essa gentileza? Hugo me levou a vários bailes e festas da sociedade deste ano, a meu pedido. Na primeira ou nas duas primeiras vezes eu fiquei assustada, fora do meu juízo e, então, percebi que todos eles são apenas pessoas. E alguns deles, embora não os aqui presentes, são realmente muito interessantes, porque não têm nada para fazer, apenas ser rico e tentar divertir-se por toda a vida. Eu tenho um namorado, sabe? Bem, uma espécie de namorado. Ele insiste que sou muito jovem para um namoro formal e acha que eu deveria tentar voos mais altos, mas ele mudará de opinião com o tempo. Eu o amo com loucura, e sei que ele me ama. Ele é dono da loja de


ferragens ao lado da mercearia dos meus avós e eu nunca estou tão feliz como quando estou lá, em uma loja ou outra. Temos de encontrar o que nos trará felicidade, não é? Acho que Lorde Darleigh é um dos cavalheiros mais doces que já conheci. E é gloriosamente bonito. E gosta de você. — Conte-me sobre seu namorado — disse Sophia, sentindo-se relaxar. Sorriu e depois riu enquanto ouvia, e respondeu ao olhar firme de Lady Barclay sobre ela. A senhora acenou com a cabeça ligeiramente antes de se virar para responder a algo que o conde de Kilbourne tinha dito a ela. E então, depois do chá ser servido, era hora de partir. O mordomo tinha acabado de murmurar no ouvido de Lady Trenthams que a carruagem estava esperando na porta. A noite de núpcias de Sophia se passaria em Stanbrook House, uma das grandes mansões em Grosvenor Square. Felizmente, o próprio duque não estaria lá. Nem sua hóspede, Lady Barclay. As novas roupas de Sophia tinham sido embaladas pela camareira de Lady Trentham aquela manhã, depois que eles saíram para a igreja, e enviadas para Stanbrook House. Tinham dado instruções para que as outras roupas novas fossem entregues diretamente lá. Sophia contou os dias em sua cabeça. Ontem fora o dia de compras. O dia anterior fora o segundo dia da viagem; um dia antes, o primeiro. Em seguida, houve o dia da proposta, então o dia da assembleia, então o dia em que ela tinha saído pouco antes do amanhecer e vira a chegada de Lorde Darleigh a Covington House. Seis dias. Menos de uma semana. Ela ainda era a rata há uma semana. Ainda o espantalho, com seu cabelo curto e as mal ajustadas roupas de segunda mão.


Menos de uma semana. Agora ela era uma noiva. Uma esposa. Sua vida tinha mudado de repente e drasticamente. E ela estava se comportando como uma rata confusa. Às vezes, a pessoa tinha que fazer um determinado esforço se não quisesse se afundar em uma vida imutável. A mudança tinha chegado à sua vida, e ela tinha a chance de mudar com ela, ou não. Ela se levantou. — Lady Trentham, Lorde Trentham, Sra. Emes, senhorita Emes — disse ela, olhando de um para o outro deles. — Eu agradeço com todo meu coração por abrirem sua casa para mim, por serem tão amáveis de organizar este pequeno almoço de casamento maravilhoso. E o Sr. Germane, Lorde e Lady Kilbourne, Lady Barclay, Lorde Ponsonby, Lorde Berwick, Vossa Graça, obrigada por terem vindo ao nosso casamento, por terem vindo até aqui. Nós esperávamos um dia de casamento calmo. Ele tem sido tudo, menos isso, e eu vou sempre lembrá-lo com prazer. Vossa Graça, obrigada por nos deixar usar sua casa até amanhã. Todas as conversas tinham parado abruptamente. Todos a estavam olhando, surpresos, pensou ela, e se perguntou se seu coração pararia de martelar ou se simplesmente pararia. Ela estava até sorrindo. O Visconde Darleigh estava de pé também. — Você tomou as palavras da minha boca, Sophie, — disse ele — e não há mais nada para dizer. — Você disse o suficiente à mesa do café, Vince — Lorde Ponsonby disse a ele. — É a vez de sua esposa. Pes-pessoalmente, espero que você seja o último sobrevivente a se casar por pelo menos uma semana ou duas. Meu vavalete estará esgotado quando acabar de lavar meus lenços.


— É um prazer, Lady Darleigh — o Duque de Stanbrook disse, dando-lhe um olhar que era ao mesmo tempo penetrante e ... aprovador? E então eles estavam todos em pé, e Sophia se viu sendo abraçada pelas senhoras, até mesmo Lady Barclay, e tendo sua mão beijada novamente pelos senhores. Todo mundo estava falando e rindo, e ela e Vincent estavam, de alguma forma, sendo empurrados para a rua e para dentro da carruagem. — Tiraram os potes e panelas? — Perguntou Lorde Darleigh. — Sim — ela disse a ele. — E tudo o mais? — Perguntou. — Havia fitas e arcos, suponho? E as flores? Não, elas não foram tiradas. Eu posso cheirá-las. — Todas permanecem — disse ela. — Você será um noivo apenas uma vez, Vince — Lorde Trentham lembrou. — E Lady Darleigh será uma noiva apenas uma vez. É bom que o mundo inteiro saiba disso. E em meio a muitas risadas, aplausos e desejos de felicidades, eles estavam a caminho. — Obrigado — Lorde Darleigh disse, tomando-lhe a mão. — Obrigado pelo que você disse, Sophie. Foi amável. Eu sei que você achou a coisa toda uma provação. — Eu achei — ela concordou. — Mas percebi, de repente, que estava vendo tudo através dos olhos da rata que tenho sido em boa parte da minha vida. Timidez não é atraente, não é? — A rata deve ser banido para sempre, então? — Perguntou a ela.


— Para reaparecer apenas no canto de alguns dos meus desenhos — disse ela. — Mas essa rata é geralmente uma coisa pouco atrevida, piscando ou mostrando um olhar malicioso, francamente desagradável ou satisfeito. Ele riu. — Você viu alguma coisa satírica hoje? — Perguntou a ela. — Oh, não, milorde — ela o assegurou. — Não. Não havia nada para ridicularizar ou rir hoje. Houve um curto silêncio. — Não havia — ele concordou. — Mas vou continuar sendo milorde, Sophie? Você é minha esposa. Estamos indo em direção à nossa noite de núpcias. Ela sentiu uma estranha sensação aguçando a sensibilidade da parte inferior de seu corpo. Encontrou-se apertando os músculos internos e lutando contra a falta de ar. — Vincent. — Você acha difícil dizer? — Perguntou. — Sim. — Mesmo que seu avô tenha sido um barão, seu tio um baronete e seu pai um cavalheiro? — Sim. Ela perguntou o que Sir Terrence Fry diria se soubesse que ela havia se casado com o Visconde Darleigh hoje. Será que ele já sabia? Um aviso tinha, aparentemente, sido enviado para os jornais da manhã. Ele estaria no país? Se importaria se visse o aviso? Sebastian iria vê-lo? O que ele pensaria? Avisaria o padrasto?


Vincent ergueu a mão enluvada e segurou-a contra seus lábios. Transeuntes foram sorrindo para a carruagem e apontando-a com sorrisos e até mesmo alguns acenos, ela podia ver. — Pense em mim como aquele menino travesso Vincent Hunt, que costumava fugir de Covington House na noite através de uma janela do porão, a fim de nadar nu no rio — disse ele. — Ou, se isso for uma imagem muito chocante, pense em mim como o muito chato Vincent Hunt, que costumava se esconder nos galhos das árvores quando tinha sete anos de idade, abafando risos e chovendo galhos, folhas e bolotas sobre as cabeças inocentes de aldeões conforme eles passavam por baixo. Ela riu. — Isso é melhor — disse ele. — Diga de novo. — Vincent. — Obrigado. — Ele beijou sua mão. — Eu não tenho ideia das horas. Existe ainda a luz do dia? É tarde ou noite? — Algum lugar entre os dois — disse a ele. — Ainda é plena luz do dia. — Não deveria ser — disse ele. – Deveria estar escuro. Deve ser a hora, quando chegarmos a Stanbrook House, de levar minha noiva para a cama. Ela não disse nada. O que havia para dizer? — Isso preocupa você? — Perguntou a ela. — A noite de núpcias? Ela mordeu o lábio inferior e sentiu aquela sensação no baixo ventre novamente. — Um pouco — ela admitiu. — Você não quer isso? — Eu quero — ela disse a ele. E é claro que ela falava a verdade. — Sim.


— Bom — disse ele. — Estou ansioso para conhecê-la melhor. De todas as formas, é claro, mas, no momento, quero dizer especificamente no sentido físico. Eu quero te tocar. Por toda parte. Quero fazer amor com você. Ele ficaria muito desapontado, não podia deixar de pensar. — Eu choquei você? — Perguntou a ela. — Não. Ele beijou a mão dela novamente e segurou-a em sua coxa. Eles tinham mudado suas roupas e participado de um jantar leve. Sentaram juntos na sala de visitas depois, falando sobre o dia. Ela descreveu as roupas que alguns dos convidados haviam usado; ele descreveu os cheiros dentro da igreja. Ela descreveu a forma como a carruagem tinha sido decorada; ele descreveu os sons nas ruas, o que ele tinha sido capaz de ouvir acima do barulho dos apetrechos que estavam se arrastando atrás deles, e o cheiro das flores. Ela contou a ele sobre o namorado de Constance Emes e o desabrochar do romance entre a Sra. Emes e o Sr. Germane. Ele contou a ela sobre o primeiro encontro entre Lorde Trentham e a então Lady Muir, na praia de Penderris. Ambos concordaram que tinha sido um dia memorável. — Já está escuro lá fora? — Ele perguntou, por fim. — Não. Era o início do verão, é claro. Não ficaria escuro até bem tarde da noite. — Que horas são? — Perguntou. — Quase oito horas. Apenas oito horas?


Ela havia tomado seu braço para entrar na casa, ir para a sala de jantar e voltar à sala de estar depois. Além disso, eles não tinham tocado um no outro. No entanto, era o dia do seu casamento. — Há um horário determinado — ele perguntou a ela — antes do qual não é permitido retirar-se para a cama? — Se há uma lei, — disse ela — eu não ouvi falar dela. Ele zumbia de desejo de consumar seu casamento, e embora ela admitisse que estivesse um pouco preocupada, ela também tinha assegurado a ele que queria isso também. Quanto mais tempo eles ficassem ali sentados, mais preocupados e nervosos era susceptível de se tornarem. Porque ele se sentia obrigado a ficar fora do quarto até uma hora de dormir decente? Um certo nervosismo de sua parte, talvez? Ele nunca tinha estado com uma virgem. E isso não era apenas uma experiência que não precisasse ser repetida se não fosse de seu agrado, ou dela. Era importante que ele o fizesse bem. Não muito neste primeiro momento, ele não queria assustá-la, desagradá-la ou machucá-la. Mas não muito pouco também. Ele não queria decepcioná-la, ou a si mesmo. Era importante fazê-lo bem feito. — Devemos ir para a cama? — Perguntou. — Sim. Ela havia dito na carruagem, a caminho daqui, que descartaria a rata, seu alter ego. Não ia ser fácil para ela, ele percebeu. E meio que sorriu com a lembrança do determinado pequeno discurso que ela tinha feito pouco antes de deixarem a casa de Hugo. Tinha sido gracioso e bonito, e a surpresa de seus amigos e outros convidados tinha sido quase tangível. — Tome meu braço, então — disse ele, levantando-se.


— Sim. — Ela tomou. E então ela o surpreendeu novamente quando eles saíram da sala de estar e subiram duas das escadas para o andar de cima. Ela parou e falou com alguém, presumivelmente um servo. — Envie o Sr. Fisk até o quarto de vestir de Lorde Darleigh, por favor, — disse ela — e Ella ao meu. Ella deveria ser a donzela que George tinha atribuído a ela para esta noite. — Sim, milady — a voz de um homem murmurou respeitosamente. — Milady — ela disse suavemente. — Eu ainda me pego querendo olhar sobre meu ombro quando as pessoas me tratam como milorde — ele disse a ela. — Eu provavelmente o faria, se pudesse. Ele sabia o caminho para o quarto, seu quarto para esta noite. Ele sempre memorizava rumos e distâncias rapidamente quando estava em ambientes desconhecidos. Não gostava da sensação de estar perdido, de ser dependente de outras pessoas para levá-lo onde quer que precisasse ir. Ele fez uma pausa quando julgou que estava em frente ao seu quarto de vestir. A porta do quarto de dormir vinha a seguir e, em seguida, o quarto de vestir dela, que não tinha sido necessário até hoje. — Eu posso ir o resto do caminho sozinha — disse ela. — Vamos fazer um acordo — disse ele. — Eu vou ficar aqui até ouvir a sua porta se abrir e fechar. E te encontrarei no quarto de dormir em meia hora? Menos? — Menos — disse ela, deslizando a mão de seu braço.


Ele sorriu e ouviu sua porta. Ouviu que fechava e pôde ouvir os passos firmes de Martin próximos, ao longo do corredor atrás dele. Martin tinha sido rigidamente formal, esta manhã — e desde o anúncio do noivado. — Martin — disse ele conforme a porta do quarto de vestir se abria e ele precedia seu criado para dentro. — Você veio para o meu casamento como eu pedi? — Vim, senhor — disse Martin. Vincent esperou por mais, mas tudo o que podia ouvir era Martin despejando o jarro de água sobre o lavatório e preparando seu equipamento de barbear. Ele suspirou. Teria ganhado uma esposa e perdido um amigo? Porque isso era o que Martin era, o que sempre tinha sido. — Ela não se parecia com um menino hoje — disse Martin abruptamente, enquanto Vincent tirava o casaco e colete, e Martin o ajudava com sua gravata antes de puxar a camisa sobre a cabeça. — Ela parecia uma pequena fada. Foi formal, relutante. E pequena fada soara mais como um elogio do que um insulto. — Obrigado — disse Vincent. — Ela não fez isso deliberadamente, você sabe, Martin. Eu, por outro lado, o fiz. — Eu sei — disse Martin. — Você é um idiota. Mantenha sua cabeça firme agora ou eu cortarei sua garganta. E você vai ficar se perguntando se eu fiz isso deliberadamente. Se você ainda está vivo apesar de tudo, é o que é. — Eu confio em você. — Vincent sorriu para ele. — Com a minha vida. Martin resmungou. — Melhor assim, — disse ele — uma vez que eu vou vir a você com uma navalha aberta pelo menos uma vez por dia. Tire esse sorriso do seu rosto ou você ganhará um corte desigual para dar à sua dama.


Vincent sentou quieto e inexpressivo. A paz, ele supôs, tinha sido declarada. A pequena fada. Lembrou-se de quando a segurara contra ele no lado mais distante da pinguela em Barton Coombs. Sim, ele acreditou. Ela era exatamente o oposto de voluptuosa. Ele sempre tinha preferido mulheres voluptuosas — como macho de sangue quente, não o fez? Mas ele estava ansioso por sua noiva, de qualquer maneira. A pequena fada. Ele abriu a porta para o quarto de dormir depois de ter dispensado Martin. Conhecia o quarto. Ele sabia onde estava a cama, a penteadeira, as mesas de cabeceira, a lareira, a janela. E soube, logo que ele entrou, que não estava sozinho. — Sophie? — Sim, eu estou aqui. — Houve uma risada suave. — Você sabe onde é aqui? — Eu acredito — disse ele — que você está em pé na janela. E ainda não está escuro, não é? — O quarto tem vista para a parte de trás da casa — ela disse enquanto ele caminhava em direção a ela. — Para o jardim. É muito bonito. Quase se pode esquecer que se está em Londres. Ele estendeu a mão e tocou a janela. Podia sentir o calor do seu corpo próximo. — Gostaria de esquecer? — Perguntou a ela. — Você não gosta de Londres? — Eu prefiro o campo — disse ela. — Eu me sinto menos solitária lá.


Uma coisa estranha de dizer, talvez, quando se considera o número relativo de pessoas na cidade e no campo. — Sinto-me menos um ser solitária — explicou ela — e mais uma parte de algo vasto e complexo. Sinto muito. Isso não faz muito sentido, não é? — A ênfase está muito sobre a humanidade solitária na cidade? — Sugeriu. — E mais sobre a humanidade como parte da natureza e do próprio universo no campo? — Oh, sim — ela disse. — Você entende! Ele pensou em sua casa de campo dos sonhos, com o seu belo jardim e alguns vizinhos amigáveis. Ah, Sophie. Ele estendeu a mão e tocou-lhe o ombro. Sua mão se fechou sobre ele, sua outra mão sobre a outra, e ele a puxou contra ele. Ela estava vestindo uma camisola de seda, ele podia sentir. Um item de suas roupas da noiva? Ele esperava que sim. Esperava que ela estivesse se sentindo muito desejável. Podia senti-la inspirar lentamente. Ele estava vestindo apenas um claro roupão de seda brocada. Talvez devesse ter pedido a Martin que achasse uma camisola para ele, isto é, se houvesse uma para achar. Era possível que nenhuma tivesse sido embalada quando saiu de casa, pois sempre dormia nu. Ele moveu as mãos intimamente, ergueu seu queixo com seus polegares, e encontrou sua boca com a sua, que linda boca larga, lembrou-se, com os seus lábios generosos. Ele lambeu a sua própria antes de juntá-la à dela, esperou que cessasse o tremor na dela, e acariciou com a ponta da língua a junção dos lábios até que eles se separaram. Ele deslizou a língua em sua boca e sentiu um arrepio de desejo enquanto ela gemia baixinho, profundamente, em sua garganta.


Ele enfiou as mãos em seu cabelo. Era macio e sedoso, e não tão grosso como tinha estado da última vez que ele sentira. Era muito curto. — Sophie. — Ele a beijou suavemente nos lábios. — Estamos nos colocando em exposição para qualquer um que possa estar passeando no jardim? — Provavelmente não, — disse ela — mas vou fechar as cortinas. Ouviu-as deslizar ao longo do trilho, depois que ela se soltara de seus braços. — Não — disse ela. — Agora ninguém vai ver. E ela se moveu de volta contra ele e deslizou os braços ao redor de sua cintura. Ah. Ela não estava relutante, então. — Estou feliz que você não possa me ver também — disse ela. Ela respirou audivelmente. — Oh, eu não tive a intenção de ser ofensiva. — Porque não vale a pena ver? — Perguntou a ela. — Sophie, quem destruiu todo o seu sentido de autoestima? E não me diga que foi o seu espelho. Bem, eu não posso vê-la e nunca poderei. Nunca a poderei contradizer, ou concordar com você. Mas eu posso tocar em você. — Isso, — disse ela — é quase tão ruim. Ele riu suavemente, e ela também, com muita tristeza, ele pensou. — Você é tão bonito — disse ela. Ele riu de novo e deslizou suas mãos sob as alças de sua camisola, nos ombros, e a empurrou para baixo, pelos braços. Ele se afastou, ergueu os braços dela com as mãos e ouviu o deslizar da camisola por todo o caminho até o chão. Ela inalou de forma audível. — Não se preocupe — disse ele. — Eu não posso te ver.


Sua respiração estremeceu. Ele a tocou. Explorou-a com as mãos leves e dedos sensíveis, os ombros magros e a parte superior dos braços, os seios pequenos que, no entanto, se encaixam suavemente e calorosamente nas palmas das suas mãos, uma pequena cintura, quadris que dificilmente se alargariam, uma barriga macia, lisa, um esbelto traseiro, com bochechas que se encaixavam em suas mãos como seus seios tinham feito, pernas delgadas e ainda resistentes, tanto quanto ele as podia sentir. Sua pele era suave, macia e quente. Ela não tinha a estreiteza e angularidade de muitas pessoas magras. Era apenas pequena e não particularmente bem torneada. Nem um pouco voluptuosa. Ele podia sentir-se endurecer em excitação de qualquer maneira. Ela era sua noiva. Ela era dele, e havia uma certa exultação no pensamento. Ele a tinha encontrado por si mesmo e se casara com ela sozinho, sem a ajuda de ninguém. Olhos nem sempre eram necessários. Ele voltou suas mãos ao rosto, tocando-a e beijando os lábios novamente. — Removeram as colchas? — Perguntou a ela. — Sim. — Deite-se, então — ele disse. — Sim. Ela estava sendo a rata novamente? Sua voz estava mais aguda do que o habitual. Ou apenas uma noiva virgem na noite de núpcias? Ele tirou o roupão antes de se deitar ao lado dela. Era impossível saber se a visão era chocante para ela. Sua respiração estava audível e ligeiramente irregular desde o início.


Suas mãos a exploraram novamente. Ele abaixou a cabeça para beijar sua boca, uma bochecha, uma orelha, desenhou o lóbulo da orelha entre os dentes e mordeu-o. Ele beijou seu pescoço, seus seios. Sugou um mamilo, enquanto rolava o outro suavemente entre o polegar e o indicador. Ela permaneceu passiva, embora sua respiração estivesse mais difícil, sua pele mais quente e seus mamilos endurecidos sob seu toque. Ele beijou seu estômago, encontrou seu umbigo, e rodou sua língua sobre ele, enquanto sua mão deslizou entre suas coxas quentes e mudou-se para cima para encontrar a essência de sua feminilidade. Ela estava quente e surpreendentemente úmida. Ela deu um suspiro acentuado e prolongado. — Sophie. — Ele levantou a cabeça acima da dela, embora não removesse sua mão ou parasse de acaricia-la levemente, abrindo as dobras com os dedos, circulando sobre sua abertura. — Você está com medo? Envergonhada? — Não. — Sua voz estava definitivamente aguda agora. Ele suspeitava que ela estivesse, ambos. E ele suspeitava que ela se considerasse fisicamente indesejável. Ele tomou uma de suas mãos na sua e a levou à sua ereção. Fechou os dedos dela ao redor e deixou-os lá. — Você sabe o que isso significa? — Ele murmurou em seu ouvido. — Isso significa que eu quero você, que eu acho você desejável. Minhas mãos, minha boca, minha língua, meu corpo, tudo que tocou você está bem satisfeito. Eu quero você. — Oh. — Sua mão ainda sobre ele e, então, o soltou.


Ele não estava mentindo para ela também. — Eu vou me colocar dentro de você — disse ele. — Eu tenho medo de machucá-la nesta primeira vez, embora eu vá tentar não fazer isso. — Você não vai me machucar — disse ela. — Mesmo se houver dor, Vincent, você não vai me ferir. Oh, por favor. Venha. Ele sorriu, surpreso. Ela o queria também. Ela estendeu a mão para ele enquanto ele se movia e baixava seu peso sobre ela. Ela abriu as pernas antes que ele pudesse separá-las com a sua e, quando ele deslizou as mãos debaixo dela, ela ergueu-se e aconchegou seu traseiro em suas mãos. E quando ele se posicionou em sua abertura, ela apertou as pernas contra ele e inclinou-se. Sua excitação tornou-se quase dolorosa. Desejou, de repente, que ele não fosse tão grande. Ela era tão pequena. E quando ele pressionou lentamente dentro dela, conheceu uma tensão e um calor que o encheu com as reações de euforia e terror. Euforia porque um homem não poderia pedir qualquer sensação mais erótica e cheia de promessas; terror, porque ela era pequena demais para ele e ele estava prestes a despedaçá-la e causar-lhe uma dor que ela não poderia ignorar. Ela estava gemendo e pressionando em direção a ele. Sentiu a barreira. Parecia-lhe que era impenetrável. Ele iria machucá-la. — Venha — ela estava pedindo a ele. — Oh, por favor, venha. E ele se esqueceu da gentileza. Ele se dirigiu para dentro com um impulso firme, e se aprofundou ao máximo, e ela, a princípio, estava ofegante e tensa, e depois, relaxou gradualmente sobre ele, antes que ela apertasse seus músculos internos e inalasse lentamente. — Vincent — ela sussurrou.


Ele encontrou sua boca com a dele, beijou-a de boca aberta, mergulhando sua língua profundamente. — Sophie — disse ele contra seus lábios. — Sinto muito. — Eu não — disse ela. E ele levantou-se em seus antebraços para não esmagá-la enquanto trabalhava, e a tomou com golpes profundos, duros, segurando seu prazer, porque sabia que havia mais do que seria e porque sabia que ela o queria todo, mesmo que ela fosse se sentir muito dolorida depois. Ele podia ouvir a umidade erótica da consumação. Ela era toda doce, quente, úmida. Ela cheirava a suor e sexo. E ela era sua. Ela era sua esposa. A pequena fada. E cada polegada dela estava cheia, a ponto de transbordar, com a sexualidade quente. Ele trabalhou por longos minutos até que não pôde segurar por mais tempo. Pressionou para dentro, profundamente, e depositou seu fluxo de sementes até que se sentiu drenado e completamente relaxado. Seu egoísmo foi a primeira coisa que lhe ocorreu quando ele voltou a si mesmo um par de minutos mais tarde. Ele tinha a intenção de ser gentil e um tanto contido com ela nesta primeira vez. Em vez disso, havia investido vigorosamente em seu interior por muito tempo. E agora todo o seu peso estava sobre ela. Ela parecia deliciosamente quente e úmida. Ela cheirava à sedução. Ele se retirou o mais suavemente possível e moveu-se para o lado dela. Encontrou a mão dela com a sua e fechou os dedos sobre ela. — Sophie? — Disse.


— Sim. — Eu te machuquei terrivelmente? — Não. Ele virou-se para o lado para encará-la. — Fale comigo. — Sobre o quê? — Ela perguntou. — Foi-me dito que ia ser lindo. Lady Trentham me disse. Foi ainda mais bonito que isso. Será que ela nunca deixaria de surpreendê-lo e encantá-lo? — Eu não te machuquei? — Você o fez — disse ela. — Você me machucou no início e me machucou perto do fim. E eu estou sofrendo agora. É o sentimento mais adorável do mundo. O quê? — Adorável? — Adorável — ela repetiu. — Um pouco de dor é adorável. — Você está falando sério? — Ele estava sorrindo para ela. — Sim — disse ela. Houve uma pequena pausa. — Eu te decepcionei? Ah, eles voltariam àquilo, não? — Eu pareço desapontado? — Perguntou a ela. — Eu me sinto desapontado? — Eu não tenho nenhuma forma — disse ela. — Sou quase tão plana como quando eu era uma menina. Alguém, — Deus? — esqueceu de me fazer crescer.


Seria cômico se não fosse também triste. — Sophie, — disse a ela — você parece, cada polegada, uma mulher, para mim. Eu não poderia ter apreciado mais. — Como você é gentil — disse ela. — Só lamento — disse ele — que não possa ser repetido hoje à noite. — Ainda não é noite — disse ela. — É apenas o anoitecer. O que ela estava dizendo? Será que realmente gostara, com dor e tudo? Ele não era um amante muito experiente, um pouco de eufemismo, e, sem dúvida, nem de longe teria sido o melhor amante do mundo. Talvez isso realmente não importasse, no entanto. Eram ambos pessoas solitárias, sim, sexualmente falando, ele era solitário. O conforto e prazer que eles poderiam dar um ao outro, certamente superavam a experiência e a perícia. — Talvez hoje à noite, quando tornar-se quase amanhã, então, vamos tentar de novo, certo? Mas só se você quiser. Só se você não estiver muito dolorida. — Eu não vou estar — disse ela, com tal convicção que ele riu e puxou-a em seus braços e em seu peito. E então ele parou de rir e descansou sua bochecha contra o topo de sua cabeça. De repente, sentiu vontade de chorar. Esse maldito acordo. Será que ele nunca seria capaz de aceitá-lo? Ela seria? Será que eles nunca seriam capazes de relaxar em seu casamento? — Durma agora — disse ele. — Nosso casamento está oficialmente consumado, Sophie. Foi bom, depois de tudo, não foi? — Sim. — Ela se aconchegou contra ele e, incrivelmente, quase que instantaneamente, caiu no sono. E assim começou o resto de sua vida como um homem casado.


Para o melhor ou o pior. Ele tentou nĂŁo pensar no que seria.


Capítulo Doze Quando Sophie acordou, estava quente, aconchegada e levemente desconfortável. Ela tentou ignorar o desconforto. Os braços dele estavam sobre ela e podia ouvir, pelo ritmo de sua respiração, que estava dormindo, e se aconchegou ainda mais nele. Contra toda aquela força musculosa, bela e viril. E ele era dela. Ele era seu marido. Ela fez a coisa da contagem regressiva novamente, duas vezes, para ter certeza que não havia esquecido algum dia ao longo do caminho. Mas não. Era quase de manhã, ela estava ciente do leve tom cinza da madrugada além das cortinas da janela. Quase exatamente uma semana atrás, então, que ela estivera parada entre as árvores acima de Covington House, observando a chegada da carruagem que todos estavam esperando, e assistindo primeiro o senhor Fisk e depois o Visconde Darleigh saírem pela porta. Um estranho, então. Marido dela agora. Foi apenas há uma semana. Às vezes, muitas vezes, de fato, uma semana se passava e quando ela olhava para trás era incapaz de se lembrar de qualquer coisa significativa que houvera. Esta não tinha sido uma dessas semanas. Ela não queria se mover. Queria guardar o momento para si e impedir que, de alguma forma, fosse roubado e perdido para sempre. Ele a havia tocado totalmente. Havia estado dentro dela e passado longos minutos lá. Não tinha


sentido repulsa por ela. Havia gostado dela. E a segurara em seus braços por toda a noite. Eles ainda estavam nus. Ela fechou os olhos e fez um esforço para voltar a dormir, ou pelo menos para tirar um cochilo, apreciando a sensação de estar sendo abraçada, de ter sido apreciada. Mas o conforto foi desaparecendo e, finalmente, ela não pôde mais ignorar as necessidades de seu corpo. Ela escorregou de seus braços, saiu da cama sem acordá-lo e pegou sua nova camisola de seda, que provavelmente estava horrivelmente amassada depois de uma noite caída no chão. Entrou em seu quarto de vestir e se aliviou. Estava um pouco dolorida, mas não muito. A dor pareceu bastante agradável quando considerou o que a causou. Felizmente, havia um pouco de água deixada no jarro sobre o lavatório, embora não fosse quente, é claro. E havia panos e toalhas limpas. Ela se lavou e se secou. Não, não havia nenhuma dor aguda, apenas o pulsar maçante de ter sido uma noiva na noite anterior. Ela vestiu a camisola pela cabeça e desfrutou da sensação da peça deslizando por todo o seu corpo. Era, de longe, a mais encantadora camisola que já havia possuído. Esperava que não o tivesse perturbado. Esperava poder rastejar de volta para a cama, se aconchegar e se aquecer nele e recordar. A noite passada havia sido sua noite de núpcias. A consumação havia sido o ponto alto do ritual do dia. Talvez nunca mais fosse a mesma. Possivelmente… Não, não pensaria assim. Voltaria para a cama para recordar. Lembrar-se da aparência dele vestido em seu roupão de seda. Como poderia um homem parecer tão tremendamente masculino vestido dos pés à cabeça com um roupão de seda? Ela voltou cuidadosamente para a cama e se aconchegou contra ele. Um de seus braços estava atravessado no travesseiro dela. Ela descansou a cabeça


sobre ele, e ele murmurou algo incoerente e abraçou-a. Seu cabelo, podia ver na penumbra, estava encantadoramente amarrotado. Seu peito, ombros e antebraços eram definidos, indicando que ele encontrara alguma maneira de manter-se em forma, ou mais do que em forma. Ela fechou os olhos e se lembrou de como se sentiu quando ele tirou sua camisola e ela ficou nua diante dele, mesmo que não pudesse vê-la. Ela se lembrou do toque de sua boca e das suas mãos. Em toda parte. Quente, procurando e... Aprovando? Como ela sabia? Ela não havia detectado nenhum desapontamento nele quando a beijou e a tocou; não havia visto nada em seu rosto. E depois, quando lhe perguntou, ele havia confirmado com palavras. Lembrou-se da aparência dele quando tirou o roupão. Magnífico, bem proporcionado e bonito. E… Estranhamente, não havia se assustado com aquela parte dele que parecia enorme para ela. Nem mesmo parecendo duro como pedra ao toque. Não, pedra era uma comparação pobre, porque também parecia quente e macio sob os dedos dela e úmido na ponta. E toda essa dureza e cada centímetro dela havia esticado e machucado assim que entrou nela, e a emocionou além de qualquer palavra para descrever. Ele a havia machucado e machucado nos minutos seguintes. Era estranho como a dor se misturava com o prazer. Dor intensa, prazer intenso. Ela estava terrivelmente machucada quando acabou e terrivelmente triste também, porque não queria que acabasse e foi deixada com um sentimento de quase insatisfação. Ela era gananciosa com suas necessidades. Nunca poderia esperar tal noite novamente, supunha. Mas esperava que seu casamento continuasse, pelo menos por um tempo, bem como essa parte dele. Ele precisava de uma esposa e companheira, e ela seria ambos. Ele precisava disso. Homens precisavam, e ela era a mulher à sua disposição. Ele


queria ter filhos, especificamente um herdeiro. Era com ela que ele iria tê-lo ou com mais ninguém. Porque nenhuma outra mulher seria sua esposa enquanto ela vivesse. Ela ia fazer tudo em seu poder para fazê-lo feliz, ou pelo menos contente, enquanto estivesse com ele. Seria possível? Tudo era possível. — A cama está se inclinando? — Perguntou uma voz suavemente contra seu ouvido. — Hmm? — Você está me agarrando com força, — disse ele. — Pensei que talvez a cama estivesse virando. — Oh, — ela soltou seu agarre sobre ele. — Não. Sinto muito. Agora, ela o havia acordado e sua noite de núpcias chegava ao fim. Que tola! — Já amanheceu? — Perguntou. Ele perguntou algumas vezes na noite passada se estava escuro. Apenas um dos aspectos perturbadores sobre a cegueira devia ser a desorientação em relação ao tempo. — Não totalmente, — disse ela. — Está apenas começando a clarear. Nesta época do ano clareia mais cedo. — Mmm, — ele suspirou sonolentamente. — Você está vestindo sua camisola de novo. — Sim.


— Você se sentiu nua sem ela? — Ele esfregou o nariz no cabelo dela. Ela riu. — É uma das coisas mais bonitas que eu já tive, — disse ela. — Eu posso muito bem usá-la. E você pagou por ela. — Paguei? — Disse ele. — Devo estar apaixonado por minha noiva. Era só conversa fiada. Mas ainda esquentou os dedos dos pés dela. — Espero que sim, — disse ela. — Você gastou uma fortuna comigo. — Gastei mesmo? — Ele encostou sua bochecha contra o topo da cabeça dela. — Posso sentir a influência de Lady Trentham? Devo me lembrar de agradecê-la. — Fiquei chocada, — ela disse. — Teria ficado feliz com dois ou três vestidos novos. Na verdade, eu ficaria super feliz. Mas ela me lembrou de que eu não seria mais apenas Sophie Fry, mas a Viscondessa Darleigh, e que refletiria em você se eu estivesse mal vestida. Era meu dever com você parecer bem, ela me disse. Embora o meu melhor... Um de seus dedos descansou firmemente em seus lábios. — Ontem, você prometeu me obedecer. — disse ele. — Sim. — ela engoliu sem jeito. — Aqui está uma ordem, então, — ele disse. — Eu vou exigir obediência absoluta, Sophie. Vou ficar realmente irritado se você desobedecer. Você vai parar, a partir deste momento, de se depreciar. Eu não posso vê-la, mas vou aceitar sua palavra de que você não é bonita da forma como a beleza feminina é julgada. Talvez você não seja mesmo surpreendentemente bonita para o observador casual, mas por sua própria admissão você não é feia também. Você é pequena em estatura, e tem um corpo magro para combinar com a sua altura.


Você tem seios pequenos, braços e pernas finas e uma cintura fina, a qual, no entanto, não é muito menor que seus quadris. Você cortou seu cabelo curto, suponho, para parecer mais com um menino, uma vez que achava que se parecia com um, de qualquer maneira. Notei que foi ajeitado embora pareça mais curto do que era. Para as minhas mãos e o meu corpo, Sophie, você é uma mulher, com proporções agradáveis e pele quente, suave e uma boca que qualquer mulher pode invejar. Você cheira a mulher e perfume de limpeza. E dentro de você é quente, molhado, macio, uma acolhedora feminilidade. Você é minha, e tem toda a beleza que eu poderia ansiar. E não quero ver você menosprezar o que é meu. Não quero você ameaçando o bem-estar e a felicidade do que é meu. Você entendeu? Ela nunca o tinha ouvido falar severamente. Ela manteve os olhos fechados e pressionou a testa contra o peito dele. Eu não quero você ameaçando o bem-estar e a felicidade do que é meu. Ela era dele. — Sim. — sua voz soou pequena e estridente. Sentia-se tão ridiculamente feliz que poderia chorar. — Não estarei sempre exigindo obediência, — disse ele depois de um ou dois minutos de silêncio. — Não é assim que encaro o casamento. Encaro como parceria, compartilhamento, companheirismo. Sim, companheirismo. Havia coisas piores no casamento. — O cabeleireiro de Lady Trentham acha que eu deveria deixar meu cabelo crescer, — disse ela. — Ele acha que um estilo mais longo, mais liso irá valorizar minhas bochechas. Ele chamou de corte clássico. E disse que um estilo liso enfatizaria o comprimento do meu pescoço e os meus olhos. Devo deixá-lo crescer, o que você acha?


Ele correu os dedos lentamente através de seus cachos. — Seu cabelo parece adorável assim, — disse ele. — Mas seria igualmente adorável longo também. O que você quer fazer com ele? — Acho que deixá-lo crescer. — disse ela. — Ótimo, — ele beijou o topo de sua cabeça novamente. — Sempre foi curto? — Não. — Quando você cortou? — Quatro anos atrás. Ela esperou pela próxima pergunta, e se perguntou como iria responder. Mas ela não veio. — Acho que vou deixar crescer. — ela disse novamente. Ainda era muito cedo. Havia um relógio em cima da lareira, ela se lembrou. Virou a cabeça e olhou para ele, agora pouco visível à luz do amanhecer. Era pouco antes das seis horas. Talvez quando esta noite se tornar quase manhã, então, iremos tentar de novo, certo? — Esta noite é quase manhã, — disse ela. — São quase seis horas. Ela inclinou a cabeça para trás para olhar para o rosto dele. Ele sabia o que ela estava dizendo, podia ver. — Fui mais rude do que pretendia na noite passada, Sophie, — disse ele. — E machuquei você. — Foi lindo. — ela mal podia acreditar em sua própria ousadia. Ele sorriu.


— Mas acho que pode não ser tão lindo esta manhã. Talvez fosse melhor se nós... — Acho que seria. — disse ela antes que ele pudesse terminar. Podia senti-lo voltando à vida contra seu abdômen. — Você parece gulosa. — disse ele. — Sim. Ele sorriu. — Estou feliz por você querer isso também, — disse ele. — Eu não poderia suportar se fosse apenas um dever. — Não é. — assegurou ela. A mão dele veio para seu queixo, colocando-o entre o polegar e o indicador. — Você deve me parar se eu te machucar, — disse ele. — Promete? — Prometo. E ele a beijou e ela retribuiu daquela maneira adorável como os homens e mulheres se beijam, dessa forma que ela nem sequer tinha conhecimento até a noite passada, essa coisa de boca aberta e molhada e língua tocando língua, em uma dança frenética que lançava impulsos diretamente em seus músculos internos, causando uma sensação súbita de antecipação que era quase dor e uma onda de umidade entre as coxas. Ela poderia ter passado toda a sua vida sem isso. Ela ansiava, embora não soubesse exatamente o quê. Sempre havia sido nada mais que um vago e infeliz desejo.


Ele virou-a de costas e ela se abriu para ele e se arqueou, e quando ele entrou nela, ela sentiu tanto a dor aguda como a maravilha de tal intimidade. Ela contraiu os músculos sobre ele. — Sophie, — disse ele. — Estou machucando você? — Sim, — disse ela. — Não pare. Oh, por favor, não pare. Foi mais lento, mais suave do que na noite passada. E porque já não havia o choque de algo tão estranho e desconhecido, ela foi capaz de senti-lo, a dureza e o comprimento dele, o ritmo firme de seus movimentos, a sensação de ansiedade que crescia dentro dela e parecia se espalhar para cima, pelos seus seios, sua garganta, mesmo por trás de seu nariz. E quando ele acabou e ela sentiu um jato quente profundamente dentro, lembrou-se da noite passada, ela o abraçou e deixou a sensação se aplacar, perguntando-se se isso, algum dia, a levaria a outro lugar que não fosse a uma leve e vaga... Decepção. Mas como podia estar decepcionada? Ela sentia-se — maravilhada. Ele saiu de dentro dela e deitou-se de lado, levando-a com ele. — Confortável? — Ele perguntou. — Mmm. — Posso tomar isso como um sim? — Mmm. A próxima vez que ela soube alguma coisa, eram 8h30. Ele estava passando os dedos de uma mão suavemente pelos cabelos dela. *** O Duque de Stanbrook chegou à casa, como combinado, às dez horas. Lady Barclays estava com ele, embora pudesse ter vindo com Lorde e Lady


Trentham, pois eles haviam sido convidados para o café da manhã. O Conde de Berwick e o Visconde Ponsonby haviam sido convidados também. — Nunca permita que se diga, — o Visconde Ponsonby disse quando todos estavam sentados à mesa — que para qualquer um de nós jamais foi permitido es-escorregar com tranquila dignidade em uma viagem quando havia outros Sobreviventes prontos para dar uma mão a ele para um grande bota-fora. Ou ela, devo acrescentar, Imogen, antes que você possa me corrigir. — Uma despedida grandiosa hoje será bem-vinda, Flave, — Vincent disse a ele. — Desde que não venha acompanhada de panelas e chaleiras velhas. — Panelas e chaleiras? — O Visconde Ponsonby franziu a testa. — Quem seria tão covarde? As pessoas iriam virar a cabeça chocadas. Isso seria b-bem embaraçoso. — Alguém soube algo sobre Ben? — O conde de Berwick perguntou para todos os presentes. — Além do fato de que ele está no norte da Inglaterra com sua irmã? Ninguém sabia. — Eu gostaria que ele estivesse aqui — disse Vincent. — Ele poderia ter dançado no meu casamento. Todos riram. — Sir Benedict Harper teve as duas pernas esmagadas sob seu cavalo, — Lorde Trentham explicou para Sophia — e recusou-se a tê-las amputadas no campo, como foi fortemente aconselhado a fazer. Foi dito que ele nunca voltaria a andar, mas ele andou, de certo modo. Ele jura que um dia vai dançar, e nenhum de nós ousa duvidar. Um rapaz feroz é o nosso Ben quando é desafiado. Ou, por vezes, até mesmo quando não é.


— O mais importante, Lady Darleigh, — disse Lady Barclay — é o fato de que nós realmente não duvidamos do que ele diz. Se diz que vai dançar, então vai dançar. Todos nós acreditamos nisso. — Nós todos a-acreditaríamos que há fadas na parte de trás do seu jardim também, Imogen, — disse Lorde Ponsonby — se você nos dissesse que há. — Bem, lá vem você, Flavian — disse ela. — Mas eu não diria tal coisa, diria? Nossa confiança mútua foi adquirira através da honestidade. — A menos que você realmente as veja, Imogen. — disse Vincent, sorrindo. — É verdade — disse ela. — Lady Darleigh, você vai pensar que somos bastante frívolos. Fadas na parte detrás do jardim, tenha dó! — Absolutamente — Sophia disse a ela. — Tenho uma linda imagem mental delas. Creio que devo desenhá-las e Vincent vai inventar histórias sobre elas para suas sobrinhas e sobrinhos. Vamos fazer histórias juntos, na verdade. Ela havia se inclinado para frente em seu assento e estava olhando avidamente cada rosto. Ela detectou espanto e divertimento. E ouviu as palavras que havia dito e observou a postura de seu corpo e a expressão em seu rosto, como se estivesse olhando e ouvindo um estranho. Oh, todos iriam pensar que ela havia enlouquecido. Ela se ajeitou de volta em seu assento. — Sophia é um caricaturista, — explicou Vincent. — Não vi seus esboços, é claro, mas estaria disposto a apostar que são perversamente satíricos. E agora, ela quer desenvolver seu talento contando histórias e ilustrando. Sophia podia sentir seu rosto esquentar completamente. Estava sendo considerada por um duque, um conde, um visconde, um barão e sua esposa, a viúva de um nobre, e seu próprio visconde cego. Apenas uma semana atrás...


Mas esta não era uma semana atrás. — É apenas tolice — ela murmurou contra o guardanapo. O rosto austero do duque se voltou para Vincent com carinho inconfundível e depois para Sophia com... Bem, certamente com alguma gentileza. Todos estavam olhando para ela da mesma maneira. Ninguém estava franzindo a testa, gracejando pela sua estupidez ou de boca aberta como se tivesse brotado uma cabeça extra nela, ou esquecido seu lugar de direito no canto. — Entusiasmo e criatividade não são tolices — disse Lady Barclay. — Nem diversão compartilhada — Lady Trentham acrescentou. — Especialmente quando com um ente querido. — Há quanto t-tempo você está casada, Lady Trentham? — Perguntou o visconde Ponsonby. Ele levantou as sobrancelhas para Lorde Trentham. — Hugo, seu malandro. — Você realmente conta histórias, Vince? — O conde de Berwick perguntou. Vincent parecia envergonhado. — Bem, — ele disse — quando os próprios sobrinhos e sobrinhas imploram para que alguém leia um conto de ninar e uma irmã embaraçada os repreende, sem dúvida, com gestos significativos em direção aos meus olhos, enquanto murmura Tio-Vincent-é-cego para sua prole, é preciso, além do auto respeito, tornar-se inventivo. — Mantenha-o contando histórias, Lady Darleigh, — disse o visconde Ponsonby. — Ele pode se esquecer do v-violino. — Mas eu não vou deixá-lo esquecer — Sophie assegurou.


O café da manhã durou apenas uma hora. No começo, Sophie havia se sentido terrivelmente inibida, especialmente quando se viu sentada em frente ao duque na cabeceira da mesa. No final, ela estava sentindo um pouco menos de temor pelos Sobreviventes e levemente mais orgulhosa de si mesma por não ficar totalmente muda, como havia permanecido na refeição de ontem. E se sentiu um pouco menos como uma fraude. Talvez seu casamento não fosse uma coisa temporária, afinal. Vincent tinha dito que eles deviam parar de pensar dessa maneira, e ela sentiu que ele falava sério. Ela não deveria ter concordado com tal coisa em primeiro lugar. Casamento era casamento. Não era certo transformá-lo para se adequar aos próprios propósitos. Lady Trentham deslizou um braço no dela um pouco mais tarde, quando a carruagem de Vincent havia estacionado na porta e os criados, sob a direção do Sr. Fisk, estavam carregando mais bagagens do que quelas com que haviam chegado, e estavam cercados com toda a agitação das despedidas. — Lady Darleigh, — ela disse — esse novo vestido de viagem foi uma escolha inteligente, de fato, eu insisto em tomar pelo menos uma parte do crédito por isso. Não posso levar o crédito por você, no entanto. Você deve sempre sorrir e parecer feliz, minha querida, como esta manhã. E bonita. Por favor, seja feliz. Eu mal conheço Lorde Darleigh, mas tenho um grande carinho por ele porque ele foi gentil comigo em Penderris Hall e porque Hugo o ama. Sophia sentiu-se terrivelmente embaraçada. Se ela estava parecendo diferente esta manhã do jeito que parecia ontem, todo mundo iria pensar... Bem, é claro que sim. Mas... Bonita?


— Eu vou fazê-lo feliz — Sophia disse impulsivamente. — Jamais tive a chance de fazer alguém feliz. — Mas você tem que ser feliz também. E, para o seu marido, lembre-se do cão de Lizzie — Lady Trentham disse, dando uma palmadinha em sua mão antes de deixá-la ser abraçada por Imogen e ter sua mão beijada por todos os cavalheiros até que o Duque de Stanbrook puxou-a para um abraço e murmurou em seu ouvido. — Estou esperançoso — disse ele. — Na verdade, nesta manhã, estou totalmente esperançoso que você seja o anjo por quem tenho orado para o meu Vincent, Lady Darleigh. Ela não teve tempo para fazer mais do que olhar para ele, assustada. Era hora de embarcar na carruagem. Vincent já estava em pé na porta aberta, esperando para ajudá-la a entrar. O cão de Lizzie, ela pensou enquanto se acomodava em seu assento e abria espaço para Vincent ao seu lado. Anteontem, Lady Trentham e Lady Kilbourne, juntas, contaram a ela sobre a filha cega de seu primo, que corria pela casa e parque onde vivia com grande ousadia e somente poucas quedas ocasionais, cortesia de um cão energético que, no entanto, parecia entender que era responsável pela segurança da criança, quando estava em sua coleira. Com um pouco mais de treinamento e disciplina, Lady Kilbourne havia explicado, o cão de Lizzie poderia libertá-la como nenhuma bengala ou memórias poderiam, para viver uma vida que não era mais restrita do que para uma pessoa com visão. O Sr. Handry subiu na boleia, seguido pelo Sr. Fisk, e a carruagem balançou ao se movimentar. Sophia se inclinou mais perto da janela para acenar para o duque e seus convidados do café da manhã, que estavam todos nos degraus ou na calçada para vê-los partir. De alguma forma, eles pareciam um pouco menos temíveis do que ontem. Vincent também sorriu e acenou.


— Sophie — disse ele enquanto a carruagem saía de Grosvenor Square. Ele se inclinou para trás na cadeira, tomou-lhe a mão, e a descansou em sua coxa. — Eu trouxe você para Londres para que não fosse esmagada pela minha família, pelo menos antes do casamento. Em vez disso, a expus a toda essa energia turbulenta dos meus amigos. Você está muito aborrecida? — Não — disse ela. — Eles foram gentis. E aproveitei para praticar como não ser uma rata. — Tenho notado, — disse ele — e apreciado seus esforços. Tem sido difícil? — Sim — disse ela. — Fico esperando, a cada vez que abro minha boca, ser ignorada ou encarada com total incompreensão ou espanto. Ou indignação. — Meus amigos gostam de você — disse ele. Seu primeiro instinto foi negar. Mas ela tinha feito uma promessa na noite passada, a promessa de obedecer a única ordem que ele havia dado até agora em seu casamento e, talvez, a única que faria. Além disso, era verdade. Ou, pelo menos, havia a possibilidade de ser verdade. Lorde e Lady Trentham tinham olhado para ela com distinta cautela quando apareceu pela primeira vez na casa deles. Os outros Sobreviventes tinham olhado para ela ontem com considerável reserva e uma preocupação não oculta com cuidado suficiente pelo amigo. Esta manhã, eles estavam visivelmente mais cordiais com a ela. Todos eles, até mesmo o formidável e cínico Visconde Ponsonby, e o austero Duque de Stanbrook, que claramente amava Vincent como um filho. Na verdade, nesta manhã, estou totalmente esperançoso que você seja o anjo por quem tenho orado para o meu Vincent, Lady Darleigh. Meu Vincent.


Ela sentiu como se seu estômago tivesse saltado para fora quando ele disse isso. — E eu gosto deles — disse ela. — Será que Sir Benedict Harper vai dançar? — Ele anda com duas bengalas — ele disse a ela. — Às vezes, dá alguns passos sem elas. Parece que é uma visão dolorosa de se ver. E inspiradora também, pois ele foi informado de que suas pernas seriam apêndices inúteis para o resto de sua vida e poderiam até tornar-se doentes e ameaçar sua vida. Ele vai dançar, Sophia. Não tenho nenhuma dúvida disso. — E você? — Perguntou ela. — Você vai dançar? Ele virou a cabeça bruscamente em sua direção e depois sorriu. — No escuro? — Porque não? — Disse ela. — Eu nunca dancei, apesar de ter visto os outros dançarem. Compareci à assembleia na semana passada. E observei Henrietta e seu professor de dança. Ele a ensinou a valsar. Acho que valsar deve ser uma das sensações mais belas do mundo. Eu dançaria se tivesse oportunidade, mesmo no escuro. — Oh, Sophie — ele disse. — É mesmo? Eu nunca valsei, embora tenha visto os casais valsarem em um baile oficial antes... Bem, antes de minha única hora de gloriosa batalha. Achei que era uma bela dança a ser executada com o parceiro certo. Ela olhou melancolicamente para ele.


Capítulo Treze Viajar era um negócio tedioso, especialmente quando a pessoa não pode observar a paisagem. Também é desconfortável, mesmo quando a pessoa é proprietária de uma carruagem bem estruturada e com assentos grossos e macios. Mesmo assim, Vincent não tinha pressa em terminar a viagem. Ele era um covarde. Embora parte dele estivesse muito animada com a perspectiva de estar em casa, de começar uma vida inteiramente nova. E seria nova, em parte porque as circunstâncias de sua vida haviam mudado, e em parte porque ele estava determinado a não apenas seguir em frente, à deriva, da mesma maneira de antes. Eles seguiram em silêncio a maior parte do tempo. Mas não era um silêncio constrangedor. Eles falaram também. Ela descreveu características de particular interesse por onde passaram, e continuou falando por mais ou menos meia hora sobre o que não era de interesse, como: o céu cinzento e nublado; um bosque inteiro de árvores com troncos e galhos pretos e sem folhas; montes de esterco infestado de moscas; vacas demasiado indolentes para se levantarem no prado; um campo cheio de dezenas, talvez até centenas de ovelhas, sem que nenhuma delas fosse preta; um trecho de terra plana, sem sequer um grão de areia para quebrar a monotonia, até que ele estava impotente de tanto rir.


Ela possuía um olhar maravilhoso para o satírico. E um dom para o humor, discreto, seco e irresistível. Era o tipo de coisa que ele poderia esperar de Flavian, e era surpreendente para ele que sua esposa e esse seu amigo em especial, pudessem ter algo em comum. — Você me convenceu, Sophie — disse ele. — Enxergar não é tudo. — Não enxergar, — assegurou ela — evita que você tenha de observar coisas tediosas. Ela contou mais sobre seu pai quando ele perguntou, bonito, charmoso, carismático, sempre esperançoso de encontrar seu caminho para riquezas incalculáveis, sempre com as palavras: "Um dia meu navio vai atracar, rata," em seus lábios. E sempre tendo que fugir de senhorios não pagos, dos comerciantes credores, e maridos irados. Mas, depois que sua esposa o deixou, ele conseguira alimentar, vestir e alojar sua filha, exceto quando estava em alguma situação particularmente terrível, mas ele a havia educado, pelo menos até onde conseguia ler, escrever e entender bem o bastante para perceber que suas parcas e precárias finanças nunca permitiriam uma existência estável. E então, um dia, ele não tinha fugido rápido o suficiente de um marido traído e havia levado um tapa na cara com uma luva, literalmente. No duelo que se seguiu, foi alvejado por um tiro entre os olhos antes mesmo que tivesse erguido a própria pistola para a posição de disparo. — Você sabia sobre o duelo de antemão? — Vincent perguntou a ela. — Sim. Houve um longo silêncio, e ele sentiu sua desolação. — Eu estava esperando — disse ela — e orando. E tentando pensar em outras coisas. E esperando. E orando. Ninguém veio por um longo tempo. Não


até o final da tarde, embora o duelo tenha ocorrido de madrugada. Suponho que se esqueceram de mim. Esse dia deve ter parecido um mês. O sentimento de abandono e talvez de inutilidade deve ter vazado de forma permanente em seus ossos. — Ele havia escrito três cartas — ela disse. — E o Sr. Ratchett, seu amigo e padrinho no duelo, havia sido instruído para entregá-las caso ele morresse. Estavam dirigidas ao seu irmão, Sir Terrence Fry, e suas irmãs, Tia Mary e Tia Martha. Sir Terrence estava fora do país, como quase sempre está. Tia Martha não respondeu. Nem tia Mary, mas ela morava em Londres e o Sr. Ratchett levou-me até ela e eu fiquei lá. — Ela aceitou você de boa vontade uma vez que já estava lá? — Perguntou ele. — Ela não me recusou — disse ela. — Não sei o que teria feito se ela me rejeitasse. Mas eu raramente a via. Ela me disse que eu era um caso perdido, logo que me viu. Ela me comprava roupas quando eu precisava, e me dava trocados de tempos em tempos, que eu usava principalmente para comprar papel e carvão. Ela passava a maior parte do tempo em sua própria sala de estar ou fora de casa com seus amigos. — Não havia primos? — Perguntou. — Ela não tinha filhos? Houve uma pequena pausa. — Não, — disse ela — ela não tinha filhos. Ele havia se tornado sensível ao som, ou, às vezes, a ausência de som. E sensível ao ambiente também; uma leve carga de algo inexplicável e indefinível que pudesse perdurar no silêncio ou até mesmo ocasionalmente no ruído. Porquê a pequena pausa quando a resposta era simplesmente não? Ele não perguntou.


— E então, ela pegou um resfriado — disse ela. — E morreu após três semanas. Ela deixou seu dinheiro para a caridade. — E Lady March ficou com você. — Ela e Sir Clarence estavam no funeral — disse ela. — E um grupo de amigos de tia Mary a elogiou por ter vindo para levar a menina tímida para a casa deles. Eram senhoras influentes. Todos os tipos de fofoca desagradáveis partiam delas quase diariamente. Elas podiam destruir uma reputação com uma palavra na orelha certa. — E assim, ela foi obrigada a levá-la — disse ele. — Você tem uma caricatura das fofoqueiras? — Oh, sim, na verdade, — disse ela — com corpos grandes, pescoços longos e pince-nez pendurados em seus narizes trêmulos e tia Martha agachada no mesmo nível dos joelhos delas. — E o rato no canto? — Ele perguntou. — Com os braços cruzados e expressão triste — disse ela. — Eu tinha dezoito anos. Devia ter procurado um emprego. Simplesmente não tinha ideia de como conseguir um. E ainda não tenho. Eu deveria ter ido para Londres na semana passada. Na diligência, quero dizer. À procura de trabalho. — Você não gosta de nosso acordo, então? — Perguntou ele, e desejou imediatamente que não tivesse usado essa palavra em particular. — No presente, nosso acordo é passivo — disse ela. — É tudo sobre dar e não receber. Só as minhas roupas devem ter custado uma fortuna. — Você não esteve totalmente passiva na nossa noite de núpcias — ele lembrou. — Ou na noite passada. Eles tinham feito amor três vezes no quarto deles na Pousada, e se ela não atuou como uma parceira particularmente ativa, também não se mostrou


relutante. Ela, certamente, havia dado indicações de ter desfrutado do que fizeram. — Oh, isso — ela disse com desdém e talvez com um pouco de timidez. — Sim, isso — ele franziu a testa. — E não me diga, Sophie, que você não gostou. Eu seria forçado a ser bastante deselegante e chamá-la de mentirosa. E, independente do seu próprio prazer ou a falta dele, você tem-me dado muito prazer. — Mas isso não é muito — disse ela. Se ele não estivesse preocupado com mais esta prova da sua falta de autoestima, ele poderia ter sorrido. — Não é muito? — Repetiu ele. — Acho que você sabe pouco sobre os homens, Sophie. Você não faz ideia de como o sexo é crucial para as nossas vidas? Perdoe-me pelo uso literal da palavra. Tenho vinte e três anos de idade. E agora tenho uma esposa. Espero que nunca chegue a pensar em você apenas como uma fonte de sexo regular, e jamais como apenas Oh, isso, ou Mas isso não é muito. Ele percebeu que ela estava rindo baixinho e se juntou a ela. — Este não é o tipo de conversa que um cavalheiro imagina ter com sua noiva dois dias após o casamento — disse ele. — É indelicado, para dizer o mínimo. Me perdoe. Vários minutos de silêncio se seguiram, mas ele percebeu que, no final, os pensamentos dela ainda continuavam no mesmo caminho. — O que você vai fazer — ela perguntou — quando o ano terminar? Ele fechou os olhos como se pudesse impedir a entrada de pensamentos, como da visão.


— Você vai arranjar uma amante? — Perguntou ela quando ele não disse nada. Seus olhos se abriram e ele virou a cabeça em sua direção. — Eu sou casado com você. — Sim — ela concordou. — Mas e se estivermos vivendo separados... — Eu sou casado com você — ele disse de novo, sentindo seu temperamento esquentar. Mas o que ele faria se ela fosse embora? Após um ano. Após cinco anos. Após dez. Bom Deus, ele teria apenas trinta e quatro anos, mesmo assim. — Você vai arranjar um amante? — Havia chegado ao ponto de fúria, ele percebeu. — Não. — Por que não? — Porque sou casada com você — ela disse, com a voz baixa e uniforme. — Será que você vai querer? — Ele perguntou. — Não. Você vai? — Eu não sei — disse ele brutalmente. — Talvez sim. Talvez não. O silêncio que se seguiu foi cheio de tensão. Talvez ele precisasse ter uma amante. Ele não era um monge, afinal. Mas a simples ideia o enfureceu ainda mais. Um silêncio de tempestade se seguiu. — Essa foi nossa primeira briga? — Ela perguntou suavemente. — Sim, frustrante, mas foi — disse ele.


Ele sentiu a mão dela envolver a dele, e riu com tristeza. — Logo estaremos em casa — disse ele um pouco mais tarde. — E você não vai sentir que nosso casamento é apenas dar da minha parte e receber da sua. Vou precisar de você. No meu desenvolvimento pessoal, fiz progressos que posso me orgulhar, mas não tenho me saído muito bem como proprietário de Middlebury Park. Eu permiti que outros cuidassem de mim e governassem meu mundo, e mudar isso não vai ser fácil, porque esses outros me amam ou sentem um desejo benevolente de tornar minha vida mais fácil. Mas mudar a maneira como as coisas são, precisa ser feito. Estou determinado. No entanto, vou precisar da sua ajuda. — Para assumir a partir desses outros? — Não. — Disse ele. — Não tenho a intenção de transferir minha dependência de minha mãe e do meu administrador para você. Quero apenas que você me ajude até eu alcançar o ponto em que não vou precisar... — Nem mesmo de mim? — Ela perguntou quando ele parou abruptamente, percebendo que as palavras finais, provavelmente soariam como um insulto, embora não fosse o que ele pretendia. — Não quero ser dependente de você, Sophie, — disse ele — nem de qualquer outra pessoa. — E, no entanto, — ela disse — sou totalmente dependente de você. Sem você, eu estaria passando fome nas ruas de Londres. — É a natureza do casamento, Sophie — disse ele com um suspiro. — A mulher é sempre dependente do marido para as coisas materiais da vida. E ele é dependente dela para outras coisas, algumas delas tangíveis, outras não. Mas eu odeio essa palavra dependência. Ela deveria ser banida da língua inglesa. Prefiro pensar no casamento como uma parceria onde damos e recebemos.


Eles ficaram em silêncio novamente. O ombro dela o tocou depois de um tempo e ele pôde ouvir, pela respiração, que ela estava quase dormindo. Ele virou-se, envolveu um braço sobre os ombros dela, e o outro sob seus joelhos. Levantou-a em seu colo e apoiou os pés contra o assento oposto. Ela suspirou novamente e aninhou a cabeça em seu ombro, e ele baixou a cabeça e beijou-a. Ela retribuiu com uma boca quente e lânguida, boca, não lábios. E ele se recusaria a acreditar, mesmo que alguém com visão perfeita dissesse a ele, que ela não tinha a boca mais adorável que já havia sido criada. Ele não estava excitado, nem queria estar. Não aqui. Mas sua boca permaneceu na dela, e sua língua preguiçosamente explorou os lábios e a carne suave por trás deles. A mão dela livre estava em seu ombro e, em seguida, atrás de seu pescoço. — Nunca fiz nada da minha vida — disse ela. — Eu apenas suportei, observei e sonhei, e ri da loucura que vi ao meu redor. Sempre vivi à margem. Agora estou prestes a ser a senhora de Middlebury Park. Não, não prestes. Eu sou. — Assustada? — Ele perguntou. Ele sentiu seu assentimento contra seu ombro. Seria estranho se ela não estivesse assustada. Ela bocejou e ele enfiou a cabeça dela sob seu queixo e a ajeitou mais confortavelmente em seu colo. Ela fechou os olhos e caiu no sono. Esse nem era o maior buraco da estrada. Eles haviam passado por outros bem piores ao longo do dia e no meio da viagem. Mas aconteceu justamente quando ele estava pairando entre a vigília e o sono, e ele acordou de supetão, completamente desorientado, e abriu os olhos para ver qual era o problema.


E foi dominado por uma dose maciça de pânico. Ele não podia ver. Ele não conseguia respirar. Ele não podia ver. — Qual é o problema? — Uma voz sussurrava em seu ouvido. Ela não podia falar mais alto? Mais alto? MAIS ALTO! Ele a empurrou e se inclinou para frente até que pudesse apalpar o painel frontal atrás do assento. Ele testou os lados até que encontrou a janela e, em seguida, a alça de couro pendurada ao lado dela. Ele a agarrou e engasgou por ar. Não havia ar suficiente. Não havia ar suficiente. — Vincent? Qual é o problema? — Ela parecia alarmada. Terrivelmente alarmada. Ela não podia falar mais alto? Ela tocou em seu braço e ele afastou a mão dela. Ele agarrou o assento oposto, agarrou-se à borda do mesmo, baixou a cabeça sobre ele. Não havia ar nenhum. Ele não podia enxergar. — Vincent? Oh, meu Deus, Vincent? Devo parar a carruagem e chamar o Sr. Fisk? Martin iria passar um braço sobre seu peito e sob o queixo e suas costas firmemente com a outra mão. E diria sem rodeios e com calma que ele era cego. Isso era tudo. Ele era cego.


Havia certa magia no tratamento de Martin. Ele podia até mesmo ir tão longe como dizer a Vincent que ele estava sendo um turrão tolo. O problema todo era que ele estava cego. Mas era humilhante, depois de todo esse tempo, ainda ter que utilizar Martin para acalmá-lo. — Não, — ele ofegou. — Não. E ele encontrou sua respiração e concentrou toda a sua atenção sobre ela para que não ficasse sem ar novamente. Ele podia ouvir o som áspero passar pelo nariz, estremecendo através de sua boca. Dentro. Fora. — Sinto muito — disse ele. Ele sentiu a tentativa de toque da mão dela em suas costas. Quando ele não a afastou, ela começou a movê-la em leves círculos suaves. Ela não falou, ou fez qualquer movimento para parar a carruagem. Dentro. Fora. Havia uma abundância de ar. Claro que havia. A razão de ele não ter ouvido a voz dela era porque ela havia falado em voz baixa, mesmo sussurrado na primeira vez, e os cavalos e as rodas da carruagem estavam fazendo barulho suficiente para abafá-la. Mas ele havia ouvido o barulho. Tudo o que estava errado, como Martin teria dito a ele, era que ele era cego. Era uma aflição administrável. A vida ainda valia a pena ser vivida; ainda cheia de significado e possibilidades.


Ele não estava se concentrando em sua respiração, percebeu. Ele estava respirando por instinto. Ele a teria machucado? Fisicamente ou emocionalmente? Ele a teria assustado? — Sinto muito — disse ele de novo, ainda com a cabeça sobre as mãos crispadas na borda dianteira do assento. — Machuquei você, Sophie? — Não. — Mas sua voz soou um pouco fina. Ele sentou-se na cadeira. Podia sentir seu coração batendo forte em seu peito, mas voltando ao ritmo normal. — Sinto muito — disse ele mais uma vez. — Por alguns meses... — Ah, ele nunca falou disso. Por um momento, sua respiração ameaçou novamente. — Por alguns meses, eu estava surdo, bem como cego. E nunca parecia haver ar suficiente. Ahhh. Sinto muito. Eu não posso... Ela colocou uma das mãos dele entre as suas e a segurou contra a bochecha. — Você não precisa falar — ela disse a ele. — Depois de uma eternidade, — disse ele — havia braços. Os mesmos braços o tempo todo. Eles me seguravam, alimentavam e me ajudavam a respirar. — Os braços de sua mãe? — Os braços de George, — ele disse a ela — o duque de Stanbrook. Ele me prendeu à vida e à sanidade, embora certamente não adiantasse nada se minha audição não tivesse retornado. Mas voltou, no início de leve e distorcida, mas depois totalmente. Eu sou cego. Isso é tudo. Posso viver com isso. Mas às vezes...


— Você tem ataques de pânico — disse ela. — Precisa de apoio quando isso acontece, Vincent, ou prefere ficar sozinho? Ela precisava saber. Era sua esposa. Certamente voltaria a acontecer quando ele estivesse com ela. E ele nunca poderia prever exatamente quando. — Um toque humano geralmente me traz de volta após os primeiros momentos — disse ele. — Cuidado para não se machucar nesses primeiros momentos. Oh, Sophie! Ela beijou as costas da sua mão. — Estou feliz por não ser a única necessitada no nosso casamento, — disse ela. — Não quero dizer que estou contente por você estar cego ou porque tem esses ataques. Mas estou feliz por você não ser uma espécie de pilar-sobrehumano de força. Não seria capaz de vencê-lo. Eu sou muito fraca, muito frágil. Entre nossas fraquezas, quem sabe nós dois podemos encontrar a força. Ele estava se sentindo muito cansado para compreender o que ela estava dizendo. Mas sentiu alívio, maravilhosamente confortado. Ao mesmo tempo, sentiu que podia chorar. — Volte para o meu colo — disse ele. — Se confiar que não vou empurrá-la de novo. Ela arrastou-se através dele e se aconchegou contra ele, um braço em volta do pescoço. Ele apoiou os pés contra o assento oposto novamente, entrelaçou os dedos nos cachos dela, e se sentiu seguro. E de alguma forma, acarinhado. Ele dormiu. Sophia estava aquecida e confortável, apesar do balanço da carruagem. Estava enrolada nos braços de Vincent, sua cabeça aninhada no oco entre o ombro e pescoço dele, o braço sobre ele. Ela não dormiu como ele. Imaginou-o


como tinha sido nas primeiras vezes em que o viu. Não que ele tivesse mudado desde então. Apenas a sua percepção dele. Elegante, bonito, cortês. Um Visconde. Alguém para admirar de longe. Alguém de um mundo diferente do dela. Alguém completamente intocável. Lembrou-se de sua consternação quando ele ofereceu seu braço no lado de fora da Assembleia e ela o havia tocado pela primeira vez. Parecia que tocava um deus. Agora, ela era sua esposa. Ela o conhecia intimamente, muito intimamente. E, embora ele fosse incrivelmente bonito, era apenas um homem. Apenas uma pessoa. Como ela, ele era vulnerável. Como ela, ele tinha vivido uma vida que era, em muitos aspectos, passiva. Como ela, ele sentia necessidade e um desejo intenso de viver. E prevalecer contra a vida em vez de simplesmente suportar. Ser livre e independente... Eles não eram tão diferentes como ela havia pensado. E agora estavam a caminho de casa. Saboreou a palavra. Ela tinha vivido em várias salas e casas durante seus primeiros quinze anos, algumas delas grandes, a maioria, pobre. E então tinha havido a casa de tia Mary em Londres e, em seguida, Barton Hall. Mas nunca houve quartos ou uma casa que havia chamado de lar. Lar sempre foi um lugar de sonho. Mas seria Middlebury Park esse lar? Ou seria apenas outra casa em que ela viveria por um tempo antes de se mudar? Mas ela não pensaria nisso, em se mudar, simples assim. Ele tinha razão no dia do casamento. Estavam casados agora. Middlebury Park era seu lar agora. Ela desejava, Oh, desejava não ter dito a ele sobre seu sonho na assembleia, pois o sonho estava inteiramente baseado na crença de que ela nunca se casaria; que ninguém iria querer se casar com ela.


E sempre tinha sido um daqueles sonhos impossíveis de qualquer maneira, aparentemente inofensivo, por essa mesma razão. Eles chegariam a qualquer momento agora. Ela tinha ouvido o Sr. Handry dizer na última vez em que pararam para uma troca de cavalos que, provavelmente seria a última. Ela estava apavorada. Então, o que faria sobre isso? Se esconderia em um canto onde fosse seguro? Ou fingiria que não estava com medo, afinal? Ela estava prestes a descobrir quem era, ela percebeu, e para que estava feita. Criou uma súbita imagem mental do próximo desenho em seu bloco; um rato enorme, quase enchendo a página, terror em seus olhos como se um gato gigante estivesse quase caindo sobre ele, um sorriso bobo e forçado em seu rosto. E uma série de linhas retas levando-o a se encontrar com o canto inferior, onde exatamente o mesmo rato, extremamente reduzido em tamanho, se encolhia em sua segurança covarde. Ela sorriu e sentiu seu corpo tremer contra Vincent enquanto reprimia uma onda de risos altos que ameaçava entrar em erupção. — Mmm, — disse ele. — Eu estava roncando? — Não. — Algo foi engraçado. — Oh, — disse ela — na verdade, não. — Você dormiu? — Perguntou ele. — Eu acho que dormi.


— Eu estava muito ocupada me sentindo confortável — disse ela. — Há uma vantagem em ser pequena. Posso me aconchegar em seu colo. Esta foi a única coisa que ela havia descoberto sobre si mesma. Que podia relaxar e conversar com ele. Ela não estava completamente paralisada em sua presença como há uma semana. — Você pode se aconchegar sempre que quiser — disse ele. — Bem, dentro da razão, suponho. Meu administrador pode ficar desconcertado se você quiser se aconchegar em mim quando eu estiver em reunião em seu escritório. Mas o toque é importante para mim, Sophie, talvez mais importante do que é para a maioria dos homens. Nunca tenha medo de me tocar. Ela não tinha pensado na necessidade dele exatamente dessa forma. Por um momento, ela pensou que poderia muito bem chorar. Mas estava distraída quando percebeu que a carruagem diminuía e, em seguida, virava. — Oh. — Ela se sentou e seu estômago embrulhou. — Acho que chegamos, — disse ele. — Descreva para mim, Sophie. — Duas colunas altas de pedra, — disse ela, com os olhos arregalados — que seguram os portões de ferro forjado. Estão abertos para que não precisemos parar. Uma parede de pedra que se estende para ambos os lados, embora esteja meio escondida debaixo de musgo e hera. Um caminho sombreado por árvores de cada lado. Vejo carvalhos e castanheiros e outras árvores cujo nome não sei. Não tenho muito conhecimento sobre os nomes das plantas. — Isso não importa, — disse ele — uma vez que as plantas não se nomeiam. Ou assim você me informou uma vez. A propriedade devia ser imensa. Não havia ainda nenhum sinal da casa ou de qualquer jardim cultivado. Eles pareciam estar nas profundezas do campo.


— Posso ver água — disse ela, em seguida, escapou do colo dele e sentou-se ao seu lado, era melhor para ver através de ambas as janelas. — Deve haver um lago, não é? Oh, sim, lá está ele. E é dos grandes. Existe até uma ilha no meio com um pequeno templo ou algo assim. Que pitoresco! E um ancoradouro. E juncos. E árvores. — Eu estive em um dos barcos — ele disse a ela. — Tenho que ter alguém comigo, é claro, ou estou inclinado a remar para bancos de areia, pântanos, ilhas e outros obstáculos variados que insistem em ficar no meu caminho. — Você precisa aprender a olhar para onde está indo — disse ela. — Melhor ainda, me leve com você e vou olhar aonde você está indo. Vou gritar quando estiver prestes a colidir com alguma coisa. Oh. Oh, Vincent. Maravilha e terror se agarravam na mesma medida. A casa estava no seu campo de visão. Casa, Rá! Era uma mansão. Era um palácio. Era... Era Middlebury Park. Era sua nova casa. Ela era a senhora da casa. — Oh, Vincent. — Emudecida pelos meus encantos? — Perguntou ele. — Ou você está vendo alguma coisa que amarrou sua língua em nós? — O último — disse ela. — Posso ver a casa. O caminho das carruagens está em um ângulo reto com as portas da frente, e há gramados em ambos os lados com pequenas árvores de topiária em ambos os lados. E lá na frente, posso ver canteiros com árvores, flores e estátuas. E a casa. Oh, como posso descrevêla? — Ela tem uma imponente e alta estrutura central — ele disse. — Com doze degraus que levam até portas duplas maciças. Há longas alas de cada lado e


torres redondas nos quatro cantos. O estábulo é do lado esquerdo. Vamos virar à direita muito em breve e percorrer o caminho entre o gramado e os canteiros e assim nos aproximar da casa pelo lado leste. Atrás da casa, o parque sobe em colinas, e há muitas mais árvores que as cobrem e descem até quase as hortas. É um pouco como um deserto lá atrás. Cada lado do parque tem dois quilômetros de comprimento e oito quilômetros no total. Levaria duas horas e meia para caminhar além dos muros em um ritmo justo. Tenho feito em três e meia. As fazendas estão além dos muros. — Você espiou quando ninguém estava olhando — disse ela. — Meu segredo foi revelado — ele pegou a mão dela na sua. — Você está impressionada com a importância do seu marido, Sophie? Impressionada? Isso não podia descrever como ela se sentia, nem nenhuma outra palavra em seu vocabulário. — Oh, Vincent, — foi tudo que conseguiu dizer. A carruagem tinha realmente virado à direita, depois à esquerda e novamente à esquerda até que se deteve aos pés de uma escadaria de mármore. Ela acreditava na palavra dele de que havia doze degraus. — Devo tomar isso como um sim? — Ele perguntou. — Estou impressionada com a minha importância, — ela disse a ele, tentando desesperadamente converter o terror em humor. — Eu sou a senhora disso tudo, não sou? As grandes portas da frente, ela podia ver agora que estavam próximos, se abriram, e uma senhora apareceu. Ela andou até o topo da escada enquanto Sophia observava. A mãe de Vincent?


O Sr. Handry havia saltado da boleia e foi abrir a porta da carruagem e baixar os degraus. Sophia ergueu o queixo, o que mais poderia fazer?


Capítulo Quatorze Vincent desceu do carro e foi imediatamente engolido pelo abraço de sua mãe. Ela tinha visto o carro se aproximando, então. Deveria estar atenta a isso. Provavelmente recebera uma dúzia ou mais cartas de Barton Coombs e tinha estado pairando perto de uma janela durante dias. Ele sentiu uma onda familiar de culpa e amor. — Vincent — gritou ela. — Ah, finalmente você está em segurança em casa. Eu tenho me preocupado com uma sombra. — Ela se agarrou a ele sem palavras por um tempo e depois afrouxou seu abraço e segurou-o pelos ombros. — Mas o que foi que você fez? Diga-me que não é verdade. Por favor, me diga que você não fez nada tão tolo. Eu estive sem dormir de preocupação desde que eu soube. Nós todos estamos assim. — Mama. Ele virou um pouco e deve lhe ter dado uma visão da carruagem atrás dele. Suas mãos caíram longe de seus ombros e ela ficou em silêncio. Ele levantou a mão para ajudar Sophie descer. — Mama, — disse ele, — posso lhe apresentar Sophie? Minha esposa? Minha mãe, Sophie. A mão dela pousou sobre a sua. Ela tinha retirado as luvas, ele pôde sentir. — Oh, Vincent — disse sua mãe vagamente conforme Sophia descia os degraus. — Você se casou com ela, então.


— Sra. Hunt. — Ele podia sentir Sophia mergulhar em uma reverência. — Eu não acredito nisso — sua mãe estava dizendo. — Mesmo quando Elsie Parsons escreveu para mim. Eu esperava que você voltasse ao seu juízo antes que fosse tarde demais. — Mama — disse ele bruscamente. — Aqui vem a sua avó e Amy — disse ela. – O que vão pensar? Amy foi a primeiro a chegar. — Vincent — gritou ela, puxando-o para um abraço apertado. — Você, menino miserável. Mama tem estado fora de si desde que você desapareceu no meio da noite como um colegial travesso, e ficou fora de si tudo de novo uma vez que ouviu sobre sua mais recente aventura. O que você estava pensando? Sophia sempre tinha sido praticamente invisível, de acordo com ela. A rata tranquila no seu canto quieto. — Vincent. O mais querido rapaz. — Era a voz de sua avó, acolhedora, com afeto, e Amy abandonou seu domínio sobre ele para que sua avó pudesse abraçá-lo por sua vez. — Vovó — disse ele — e Amy. Permitam-me apresentar minha esposa, Sophia. Minha avó, Sra. Pearl, Sophie, e minha irmã mais velha, Amy Pendleton. — Oh, você se casou, então — exclamou Amy. — Eu não acredito nisso, embora Anthony dissesse que você o faria se a tivesse comprometido a ponto de levá-la para Londres sem uma acompanhante. Ele poderia ter sabido que uma, pelo menos, de suas irmãs estaria aqui, convocada, sem dúvida, para ajudar a lidar com esta nova crise familiar envolvendo-o. E Amy estava mais próxima geograficamente. As outras duas estavam, provavelmente, a caminho.


A primeira a recuperar suas maneiras foi sua avó. — Sophia, minha querida, — disse ela — você está parecendo pálida o suficiente para cair. Está se parecendo comigo quando me obrigam a fazer uma viagem longa de carro. Eu ouso dizer que você precisa de uma quente e agradável xícara de chá e algo para comer, e vamos encontrar isso para você na sala de estar. Está vestindo uma pequena e bonita touca. Suponho que isso é o cúmulo da moda, uma vez que esteve em Londres. — Sra. Pearl — disse Sophia, sua voz suave e um pouco trêmula. — Sim, fomos lá para nos casar, e Vincent insistiu que eu tivesse roupas novas desde... bem. Sim, uma xícara de chá seria adorável. Obrigada. — Sophia — Amy disse em saudação rígida. – Soubemos que você é uma sobrinha da Sra. March? — Sim — disse Sophia. — Meu pai era seu irmão. — Bem, o que está feito está feito — disse a mãe de Vincent rapidamente — e todos nós devemos fazer o melhor disso. Sophia, entre com a minha mãe. Amy e eu vamos ajudar Vincent a entrar. Uma em cada braço, sem dúvida, andando muito lentamente, impelindo-o junto, mantendo-o a salvo de qualquer obstáculo que pudesse lançar-se em seu caminho. Ele, imediatamente, sentiu a velha ligeira irritação. Apesar de que era injusto. Queriam que estivesse bem. Elas o amavam. — Você não deve se incomodar, mamãe — disse ele. — Martin? Minha bengala, por favor. Sophie? — Ele estendeu o braço e sentiu o deslizamento da mão dela por ele. — Vou levá-la até a sala de estar enquanto nossas malas estão sendo levadas para os nossos quartos. Uma xícara de chá, de fato, seria ótimo,


vovó. Foi uma longa jornada. Lamento ter-lhe causado tanta ansiedade, Mama, apesar de eu ter pedido a Martin para lhe escrever uma ou duas vezes. Nós estávamos em Lake District. Vou lhes contar sobre minhas viagens quando estivermos acomodados, e sobre o nosso casamento, embora ouso dizer que Sophia vai fazer um trabalho melhor ao contar-lhes sobre isso. Você chegou apenas recentemente, Amy? Anthony e as crianças estão com você? — Estão — disse ela. — Chegamos tarde ontem. Viemos assim que soubemos. Embora eu estivesse convencida de que você não iria realmente se casar com tanta pressa. Na verdade, eu tinha certeza de que você não iria, especialmente pela forma como correu da mera perspectiva de matrimônio há um curto espaço de tempo atrás. — Aquela era a senhorita Dean, Amy, — disse ele — e essa é Sophia. A senhorita Dean não era a minha escolha de noiva, enquanto Sophia era. E é. Ele estava andando enquanto falava. Quando Martin entregara sua bengala na mão, também tinha, por um leve toque, o virado na direção certa. Ele sentiu a ascensão do degrau com a bengala e os contou conforme subia e falava ao mesmo tempo. — Eu acredito que o sol deve estar brilhando — disse ele. — Está? — Está — disse Sophia. — Posso sentir seu calor nas minhas costas — disse ele. — Estou feliz com isso. Você está vendo Middlebury Parque no seu melhor, Sophie, embora haja muito mais para ver, é claro, do que apenas os canteiros, a fachada da frente da casa, os bosques e o lago. Ele parou quando estavam dentro da sala. Sabia que era impressionante. O piso era pavimentado com quadrados pretos e brancos e havia uma grande quantidade de mármore branco com bustos clássicos colocados em nichos. O


teto fora pintado com cenas da mitologia e friso dourado. Havia uma grande lareira de mármore em ambos os lados, de modo que quando alguém entrasse na casa em um dia frio, fosse recebido com, pelo menos, a ilusão de calor, o acolhedor crepitar de toras e o cheiro da madeira. — Bem? — Disse. — Oh — ela disse, quase em um sussurro. — É magnífico. Sim. Ele também tinha a intenção de inspirar admiração nos visitantes humildes. Não necessariamente, embora, em sua própria esposa. — É um dos melhores salões da Inglaterra, Sophia, ou assim me foi dito — disse sua mãe. Andou para a frente, contando seus passos em silêncio outra vez, através do arco alto na parte de trás do salão e para a direita até que a bengala tocasse o degrau da escadaria de mármore. A mão de Sophia em seu braço de alguma forma lhe garantiu que ela iria corrigir qualquer equívoco grave, mas seria sutil, discreta. A sala estava acima do corredor, na frente da casa, suas três longas janelas que permitiam olhar para fora ao longo da parte reta da entrada de automóveis entre os canteiros para um pequeno jardim de rosas e árvores na distância. Era uma vista magnífica em um aposento que era inundado de luz durante o dia. Ou do modo que tinha sido descrito a ele. Ele estava feliz por uma vez ter sido capaz de ver. Pelo menos ele poderia imaginar. E quem sabia? Talvez a casa retratada em sua mente fosse mais magnífica do que a realidade. — Todos os aposentos estão aqui e na ala oeste — explicou ele enquanto subiam as escadas. — A ala leste é raramente usada. Abriga os apartamentos de hóspedes, a galeria, e o grande salão de baile. Houve, em uma época, entretenimentos suntuosos lá, e bailes.


Um servo deveria estar esperando ao lado de fora das portas da sala de estar. Ouviu-as serem abertas e levou sua esposa para dentro. — Oh — disse ela, parando no limiar, e ele a ouviu inalar fortemente. — Vincent, meu rapaz! — Era a voz saudável de Anthony Pendleton, seu cunhado. Vincent pôde ouvi-lo caminhando pela sala e sua mão direita sendo pega em um aperto firme após sua bengala ter sido levada para longe. — E o que é tudo isso que temos ouvido? Qual o mal que você fez quando não havia mãe e irmãs para mantê-lo sob sua asa e sob controle, eh? Você realmente fez a façanha, ao que parece, como eu assegurei a Amy que faria. Ou essa é apenas sua noiva ou uma conhecida em seu braço? — Anthony! — Amy parecia mortificada. — Sophie, — Vincent disse — este é Anthony Pendleton, o marido de Amy. Minha esposa, Anthony. Sim, a façanha foi feita, foi feita há dois dias, de fato, em Londres, em St. George em Hanover Square. Nós estamos casados. — E eu estou orgulhoso de você — disse Anthony, batendo-lhe no ombro. — Você realmente é pequenina, não é Sophia, assim como disseram todas essas fofocas que estavam em suas cartas. — Vincent ouviu um beijo estalado. — Sr. Pendleton — disse Sophia. — Você deve me chamar de Anthony já que é minha cunhada — disse ele. — Anthony — ela disse. — St. George? — Disse a mãe de Vincent. — Não foi um caso clandestino, então, como temíamos? Mas você não poderia ter esperado, Vincent? É muito tarde agora, no entanto. — Sua voz se tornou viva novamente. — Sophia, vá sentar-se junto à lareira. A bandeja de chá estará aqui em um minuto. Deixe-me tirar suas luvas e seu manto. Anthony vai colocá-los em


algum lugar. Oh, Deus, seu cabelo é curto. Foi-me dito que era. Bem, pelo menos ele enrola bastante bem. Mãe, vá sentar-se ao lado de Sophia. Vincent, venha sentar-se na poltrona junto à janela, onde você pode sentir o calor do sol. Eu sei que é sua favorita. Ela tomou firmemente seu braço. Ele quase foi. — Obrigado, mamãe, — disse ele em vez disso — mas fiquei sentado na carruagem e preciso esticar as pernas. Vou ficar na frente da lareira, perto de Sophia. Ele caminhou em direção a ela por conta própria, sem a bengala. Esperava que não estivesse prestes a se fazer de idiota ficando longe por uma milha topando com algo, embora conhecesse a sala bem o suficiente. Estendeu a mão a um lado quando achou que estava perto e ficou aliviado ao descobrir a lareira apenas um pouco mais à frente dele do que esperava. Colocou uma mão sobre ela e virou o rosto para a cadeira onde sua esposa se sentara. — Na verdade, é curto — sua avó estava dizendo, presumivelmente se referindo ao cabelo de Sophia. — Mas é uma cor bonita. — Obrigada, minha senhora — disse Sophia. — Lady Trentham, que é casada com um dos amigos de Vincent, levou-me a seu próprio cabeleireiro e ele domou-os para mim. Eu mesma sempre os cortei, mas não muito bem. Ele me aconselhou a deixá-los crescer. — Então, talvez você devesse — disse sua avó — e assim exibir melhor sua cor. — Eu realmente acho que você deveria — disse Amy. — Posso ver porque eles pensaram em Barton Coombs que você parece como um menino. Anthony pigarreou.


— Não que você pareça agora — acrescentou Amy. — Mas parece muito ... jovem. Você sempre usou o seu cabelo curto? — Não — disse Sophia. — Mas era difícil cuidar dele. — Uma boa limpeza pode gerenciar qualquer cabelo — disse a mãe de Vincent. — Você não trouxe uma criada de quarto? — Não, senhora — disse ela. — Eu nunca tive uma. — Bem, nem nós tínhamos, — disse sua mãe — até que minhas meninas se casaram e depois me mudei para cá. Exceto pela Sra. Plunkett que era a nossa governanta em Covington House e fazia as vezes também de cozinheira, enfermeira, empregada, localizadora de itens perdidos, ocultadora de malandros culpados para não serem pegos, sim, Vincent! — E uma série de outras coisas. — Ela sempre foi minha aliada mais próxima — disse Vincent. Ela tinha vivido com eles desde que ele podia se lembrar. — Eu estava muito triste por ela ter decidido se aposentar quando cheguei aqui, e ido morar com sua irmã — disse sua mãe. — Uma das camareiras aqui é irmã da minha própria criada de quarto, Sophia, e, aparentemente, sua maior ambição é ser uma criada de quarto também. Ela fez o meu cabelo muito bem uma noite, quando eu tinha enviado minha própria criada de quarto para a cama com um resfriado. Talvez você não se importasse de dar-lhe uma chance e ver se ela combina com você. Vincent olhou em sua direção com gratidão. Ela estava se recuperando. Ela podia ficar chateada, sem dúvida, ela estava,mas iria seguir seu próprio conselho e fazer o melhor das coisas como elas eram. Sua mãe sempre tinha sido boa nisso. — Obrigado, minha senhora — disse Sophia. — É melhor que seja Mama — disse sua mãe.


— Sim, Mama. — Ah, aí vem a bandeja de chá — disse Amy quando Vincent ouviu a porta da sala ser aberta. — Devo servia, Mama? Não, perdoem-me. Devo servir, Sophia? — Oh — disse Sophia. — Sim, por favor, Sra. Pendleton. — Amy, por favor — disse Amy. — Somos cunhadas. Oh, como soa estranho. Tenho dois cunhados, mas nenhuma cunhada até agora. Vincent, desgraçado. Eu nunca vou perdoá-lo por fugir para Londres para se casar, privando-nos de toda a confusão e angústia de organizar um casamento. Ellen e Ursula não vão ficar felizes com você também. Basta esperar e ver. — Enquanto Amy está servindo e Anthony está distribuindo os bolos, — disse a mãe de Vincent — eu quero ouvir sobre seu casamento. Cada detalhe. — Começando com sua roupa de casamento, por favor, Sophia — disse a avó. Sophia fez a maior parte da narrativa, sua voz fina e sem fôlego no começo, mas se acomodando a uma maior estabilidade. Ela falou de sua viagem de compras com Lady Trentham e Lady Kilbourne, de sua roupa de casamento e da dele, a aparência da igreja, os convidados, a maneira como ele assinou o registro e o olhar espantado no rosto do clérigo quando ele fizera isso, as lágrimas que tinham sido acumuladas nos olhos de Lorde Trentham e do duque de Stanbrook quando eles deixaram a igreja, a pequena multidão aplaudindo do lado de fora, o sol, as pétalas de rosa que os cavalheiros jogaram, as decorações na carruagem e o barulho dos potes e panelas, o pequeno almoço do casamento, os brindes. Vincent preencheu as lacunas, explicando a presença de seus amigos na cidade para o casamento de Hugo e seu pedido para assistir ao seu e para servir um pequeno almoço de casamento para eles.


— E eu me sinto muito pesarosa de que vocês não pudessem estar todos lá também — acrescentou Sophia, parecendo sem fôlego novamente. — Mas Lorde Dar ... Mas Vincent ficou muito sensibilizado pelo fato de que eu não tinha minha própria família. E ele estava preocupado que eu não tivesse roupas decentes. Parecia um espantalho e não estava em um estado apto a ser trazida aqui para ser apresentada a vocês. E ele não queria o longo atraso de convidar a todos para virem a Londres, porque eu não tinha nenhum lugar para ficar, embora depois de ter me arrumado, acredito que poderia ter ficado mais tempo com Lorde e Lady Trentham. Eles foram muito amáveis. Mas não sabíamos que seria assim. Estou muito arrependida. — Lamento muito, Sophia — disse sua mãe com um suspiro. — E eu sinto muito por vocês dois não terem tomado mais tempo para se familiarizarem a fim de ter certeza de que vão se adequar um ao outro por toda a vida. Mas é tarde demais para se preocupar sobre essas coisas agora. — Sophia e eu não estamos preocupados, mamãe — disse Vincent quando alguém — Anthony, acreditava — tomou o prato vazio de sua mão e substituiu-o com uma xícara e pires. — Fizemos o que parecia melhor para nós, e não houve um momento de arrependimento desde então. Ele esperava que estivesse falando a verdade — por ambos. — Em dois dias de casamento, Vince? — Anthony riu. — É bom ouvir isso. — Vou tentar compensar o fato de que nós não viemos para cá para nos casar — disse Sophia, com a voz visivelmente tremendo. — Eu suponho que os vizinhos teriam sido convidados se tivéssemos vindo? Vou visitá-los, se me permitirem. É a coisa certa a fazer? E talvez eles venham aqui. Talvez, em algum momento no futuro, possamos convidar um número de pessoas para uma


espécie de recepção. Talvez até mesmo um baile, como os que costumavam oferecer. Houve um ligeiro, silêncio atordoado. — Oh, minha querida — disse sua mãe. — Eu vou acompanhá-la se você desejar fazer algumas visitas, mas não aconselhamos ninguém a vir aqui. Vincent não... se mistura. Não é fácil para ele. Qualquer tipo de entretenimento suntuoso aqui está fora de questão. Ele tinha sido uma espécie de recluso aqui em Middlebury. Não tinha feito nenhum movimento ativo para se misturar com a sociedade local, e era inteiramente culpa sua. — Ainda assim, — disse ele, — isso aconteceu em Barton Coombs menos de duas semanas atrás. Metade dos cidadãos desceu sobre mim lá em casa, e Martin nos serviu a todos café e bolos de sua mãe. Houve uma assembleia no Foaming Tankard em minha honra, e eu gostei bastante, embora eu não pudesse dançar. — Mas isso foi em Barton Coombs — disse sua mãe. — Você conhece todos lá. — E eu deveria conhecer todos aqui — disse ele. — Eu moro aqui há três anos, depois de tudo. Meu tio foi, creio eu, um homem sociável. Eu devo ser uma decepção para as pessoas que vivem perto. — Oh, mas eles compreendem, Vincent — disse Amy. — Compreender o quê? — Perguntou a ela. — Que eu sou cego e, portanto, incapacitado mentalmente e totalmente débil? Vou visitar nossos vizinhos com você, Sophie. É hora de eu me deixar conhecer. E esta é a oportunidade perfeita. Middlebury Park tem uma nova viscondessa pela primeira


vez em dezoito anos, se eu fui devidamente informado. Nós vamos mesmo começar a pensar sobre a possibilidade de uma recepção e um baile. — Bom para você, Vince — disse Anthony. — Eu sempre suspeitei que tinha mais em você do que era aparente. Existem todas essas histórias de sua infância, depois de tudo. — Todos vão ficar encantados — disse a avó de Vincent. — Todo mundo sente a mais profunda simpatia por você, eu sei, especialmente por saber que foi na batalha que foi ferido. No entanto, tenho ouvido sussurros de que muitas pessoas gostariam de voltar aos bons velhos tempos quando o visconde não ficava trancado dentro de Middlebury Park e todos mantidos do lado de fora. Fora terrível. Ele tinha sido terrível. — Obrigado, vovó — disse ele. — Eu vou ter que mudar tudo isso. Nós teremos. Sophia e eu. Ele olhou para baixo em sua direção e sorriu. Ela tinha começado isso. Ela mudaria isso? Mas ela não teria que fazê-lo sozinha. — Sophia, — disse Amy — você está cansada demais para conhecer os meus filhos? Eles, provavelmente, já ouviram falar que o tio Vincent está em casa e estarão saltando com excitação, especialmente se eles souberam que ele trouxe uma tia nova com ele. William tem quatro e Hazel três, e eles são feixes de energia inesgotável, exceto quando estão dormindo. — Eu não estou muito cansada — disse Sophia. — Meu amor? — Disse Amy, presumivelmente para Anthony. – Podemos ir buscá-los? Será que você se importa, Vincent?


Ela estava perguntando a ele? Seus parentes do sexo feminino geralmente o informavam. Embora nem sempre tinha sido assim. Ele tinha sido muito ele uma vez. — Sempre pareceu estranho para mim — disse ele — que, em grandes casas as crianças fiquem confinadas ao berçário a maior parte do tempo. Nós não ficamos, não é? — Eu poderia ter menos cabelos grisalhos agora se vocês tivessem ficado, particularmente você, Vincent — disse sua mãe, e todos riram. E Vincent percebeu que tinha havido muito pouco riso em sua casa durante os últimos três anos. Não costumava ser assim, com certeza, quando viviam em Covington House. Ele bebeu seu chá e esperou o ataque de crianças.

Sophia se afundou nas almofadas confortáveis, de um sofá na sala de estar privativa de Vincent, agora a dela também. Seus apartamentos ficavam na torre sudoeste, e ninguém viria aqui sem um convite, ele tinha dito a ela, exceto Martin Fisk e agora Rosina, sua nova criada de quarto. As primeiras horas após a sua chegada a Middlebury Park tinham sido uma provação terrível. A própria casa a encheu de admiração, e ela se sentiu desconfortável com a família, apesar de terem sido educados após os primeiros minutos e tinham sido até mesmo gentis com ela. Se ela tivesse sido ignorada e deixada a refugiar-se em si mesma, teria ficado muito mais confortável, mas é claro que estava fora de questão, tanto para eles como para ela. Ela era a esposa do amado Vincent. Eles não podiam ignorá-la. E estava muito determinada a fazer o que pudesse para tornar-se a senhora de Middlebury Park. Ela não podia


garantir a si mesma que o faria amanhã ou na próxima semana ou no próximo mês. Se não se afirmasse desde o início, nunca o faria. Ela estava exausta. Adorava a aparência da torre leste. Era redonda e ela estava na sala de estar. O formato dava a ilusão de aconchego, apesar do fato de que não era realmente pequena. No andar de cima havia dois quartos de dormir e dois quartos de vestir que ocupavam a mesma quantidade de espaço. Grandes janelas na sala de estar davam para o jardim e o parque em três direções diferentes. Amanhã ela iria descobrir o que podia ver através dessas janelas. — Cansada? — Vincent se sentou ao lado dela. Não era tarde. Após o jantar na grande sala da ala oeste, haviam passado pelo berçário, como haviam prometido na hora do chá, para desejar boa noite às crianças de Amy e Anthony, e tinham ficado para contar-lhes duas histórias. Vincent, por solicitação, tinha contado a original do dragão e do rato do campo, e juntos eles contaram a história de Bertha e Dan e o pináculo da igreja, despertando muito interesse, alguns suspiros de ansiedade e um milhão de perguntas. Eles tinham bebido chá na sala de estar, e, em seguida, Vincent apresentara as suas desculpas. Todos pareciam concordar que devia estar cansado após sua longa jornada. — Eu estou — disse ela agora. Ele pegou a mão dela. — Este tem sido um dia muito agitado para você — disse ele. — Um pouco pela longa viagem e, em seguida, uma nova casa e uma nova família. — Sim. Eles o amavam, sua família, e ele os amava. Eles tinham prestado atenção a cada palavra sua no jantar, quando havia descrito suas últimas semanas em


Lake District. Ela também. Ele realmente subira morros íngremes. E andara a cavalo. — As crianças são adoráveis — disse ela. Ela quase não tinha familiaridade com crianças. Havia sido surpreendida pela sua energia, seu afeto, seu tempo de atenção muito breve, suas perguntas muito diretas. — Eles adoraram as histórias, não foi? Eu vou desenhar as ilustrações para eles e colocá-las em livros com as histórias. Você acha que eles vão gostar? Embora eu tenha certeza que vão sempre preferir as histórias que você conta diretamente de sua imaginação. — As histórias que nós contamos — disse ele. — Acho que a história de Bertha e Dan foi a favorita. — Nós vamos ter que repensar isso — ela disse. — Não devemos ter pressa para casá-los e condenar a pobre Bertha à uma existência terrena para todo o resto de seus dias, coitada. Foi bom que nós não tenhamos mencionado seu casamento esta noite. — Eles deveriam ter mais aventuras, então? — Sua cabeça estava voltada para ela e ele estava sorrindo. Gostava da expressão dele. Parecia um menino, bonito, é claro. — Como na hora que o gatinho corre até a árvore — disse ela. — Porque era tão adorável que todo mundo queria acariciá-lo e ele só queria ficar longe para poder ficar sozinho? — Sim, exatamente — disse ela. — E, claro, ninguém poderia convencêlo a descer e foi miando mais deploravelmente e a noite estava chegando. — Então Bertha entra em cena?


— Em um trote — disse ela. — E ela foi atrás do pobre gatinho. Não foi fácil. A árvore era muito alta, mas o tronco era resistente e ela subiu rapidamente, sem olhar para baixo. — Mas ela chegou lá, balançando na brisa, colocou o gatinho debaixo de um braço e, em seguida, congelou. — Mas o gatinho não — disse ela. — Ele ainda estava infeliz sobre ser tocado, o ingrato, e se contorceu, se livrou e pulou para o chão. O que deixou Bertha na mesma situação que o gatinho tinha estado. Só que ela não podia simplesmente pular. Ou mesmo olhar para baixo. — Dan para o resgate? — Ele teve que ser muito corajoso — disse ela. — Porque ele não podia ver o quão alto eles estavam e quão longe o chão estava abaixo deles, ele podia sentir o balanço da árvore. De fato, quando chegou ao topo e colocou um braço com firmeza sobre a cintura de Bertha, o vento estava uivando sobre as orelhas e a árvore curvava-se de lado a lado como um cavalo de balanço gigante. De fato… — Ele balançou junto — disse ele — até que a árvore se curvou quase até o chão, e todos os amigos de Bertha foram capazes de a arrancar dos braços de Dan para a segurança instantes antes que ela voltasse à vertical. — E ele conseguiu se firmar — disse ela — porque havia menos peso para o tronco suportar e o vento morreu de repente. E ele desceu com segurança e foi recompensado com uma grande salva de palmas, uma grande quantidade de tapinhas nas costas e um grande abraço de Bertha. — E um beijo? — Definitivamente um beijo — disse ela. — Direito nos lábios. O fim. — Amém.


Eles riram, e seus ombros se tocaram. — Todas essas pessoas são desconhecidas — disse ela. Ele olhou intrigado por um momento com a mudança abrupta de assunto e de tom. — Nossos vizinhos? — Ele disse. — Eles são mais ou menos para mim também. Mas vamos lembrar que nós somos o Visconde e a Viscondessa Darleigh de Middlebury Park. Somos, de longe, a mais grandiosa família por milhas ao redor. Em condições normais eles teriam esperado que eu estivesse à frente da vida social daqui depois de minha chegada, há três anos. Tenho sido uma decepção. Isso tem de mudar. E talvez seja perdoado. Eu era, afinal, um único homem lidando com uma relativamente nova aflição. Agora tenho uma nova viscondessa. Todo mundo vai estar morrendo de curiosidade e esperando que as coisas mudem por aqui. — Oh, querido — disse ela. — Eu não estou nada certa... Ele apertou a mão dela. — Eu não tenho nenhuma ideia de como ser uma viscondessa e dona de um lugar tão grande e imponente — continuou ela sem tomar fôlego. — E não tenho nenhuma ideia de como ser gentil e sociável. — Tenho toda a confiança em você — disse ele. — É uma coisa boa um de nós o fazer — ela disse e riu. Ele riu com ela. — Eu percebi algo esta tarde no chá — disse ele. — E isso, em parte, explica porque nunca fui muito feliz... aqui em Middlebury Park, em três anos, apesar do fato de ter sido cercado por familiares que têm esbanjado seus cuidados sobre mim e quem amo muito. Tem sido um lugar sem riso, Sophie. Todo mundo tem sido oprimido por minha cegueira e há necessidade de ser


alegre. Eu rio muito quando estou em Penderris Hall. Eu ri com você, quase desde o momento em que nos conhecemos. E você e eu não somos os únicos que temos rido aqui desde a nossa chegada. — Todos o fizeram no chá, — disse ela — quando eu estava me descrevendo em pé sobre uma plataforma elevada, enquanto a costureira e suas ajudantes me cutucavam com alfinetes. Não foi engraçado. — Mas você fez isso engraçado — disse ele — e todos nós rimos. Sentime bem, Sophie. Nós costumávamos rir como uma família. — Eu acho — ela disse – que a senhorita Dean era bonita. — Eu estava certo de que ela era linda. — Eles queriam alguém bonito para você — disse ela. — Porque você é lindo também. — E em vez disso, — ele disse, sorrindo — eu encontrei para mim uma esposa que definitivamente não se parece com um menino, apesar do que algumas pessoas de Barton Coombs poderiam ter dito, mas que parece muito jovem. E como uma pequena fada, alguém me disse no dia do nosso casamento. — Oh, quem? — Não importa — disse ele. — Foi um elogio. Ela suspirou e mudou de assunto novamente. — Há alguns cães aqui? — Perguntou a ele. — Ou gatos? — Há provavelmente alguns caçadores de ratos nos celeiros — disse ele. — Embora você queira dizer gatos domésticos? E cães de estimação? Eles nunca foram autorizados quando estávamos crescendo, embora Ursula e eu estivéssemos sempre implorando aos nossos pais para permitir um gato para ela


e um cão para mim. Minha mãe costumava dizer que havia um número suficiente de nós para cuidar sem ter sob os pés também animais de estimação. — Deve haver um gato — disse ela — para sentar-se nas janelas nesta sala e expor-se ao sol. E sentar-se ronronando no seu colo ou no meu. E um cão para guiá-lo de modo que você não precise ser dependente de um guia humano ou até mesmo de sua bengala. Ele ergueu as sobrancelhas. — Lady Trentham e a condessa de Kilbourne têm uma prima cuja filha é cega desde o nascimento — ela disse a ele. — Ela tem um cão que a conduz e cuida de não a deixar colidir com objetos, cair, tropeçar ou se entristecer de cem maneiras. Ela realmente não o treinou e, às vezes, é rebelde e nem sempre a mantém longe do perigo. Seu pai está treinando um cão mais velho, que seja menos exuberante, mais obediente e responsável. Imagine ter um cão para ser seus olhos, Vincent. Apenas falar sobre isso a fez sentir-se animada. — E eles a deixam andar sozinha? — Perguntou. — Não sozinha. Com seu cão. Seu pai é o marquês de Attingsborough. — Que tipo de cão? — Perguntou. — Eu não sei — ela admitiu. — Não muito pequeno e excitável, eu suponho. Não um poodle. Talvez um cão pastor. Eles podem cuidar de um rebanho, orientar ovelhas e têm que ser inteligentes e cheios de recursos, bem como obediente. — Deve haver cães pastores por aqui — disse ele, meio girando em seu assento. — Há certamente ovelhas. E o gato para você? Você me disse antes que gostaria de um.


— Havia um gato velho na casa da tia Mary, Tom — ela disse a ele. — Ele não tinha permissão para sair da área de cozinha. Tinha que manter os ratos longe da despensa. Mas, às vezes, eu o levava para cima e nós ronronávamos juntos, contentes. Mas ele era muito velho para pegar ratos. Ele não era mais de utilidade para ninguém. Foi ... levado embora. — Pobre Sophie — disse ele. — Nós vamos encontrar um gatinho, não vamos? — Sim — disse ela. — Oh, eu posso ter um? Ele sentou-se no sofá e suspirou. — Sophie, — disse ele — você pode ter qualquer coisa no mundo que você queira. Você não é mais pobre. — Vou ter um gatinho ou até mesmo um gato mais velho — ela disse a ele. — Por agora, de qualquer maneira. — E um cão para mim. — Ele levantou o braço livre e esfregou a testa logo acima dos olhos com as costas de seu pulso. — Será que vai funcionar? Oh, você acha que vai, Sophie? Ela mordeu o lábio inferior com força e piscou os olhos. Havia tal melancolia em sua voz. Oh, ela lhe daria de volta seus olhos, ou o mais próximo disso, mesmo se ela levasse o resto de sua vida para fazê-lo. Ele queria que ela o ajudasse a tornar-se independente para que não precisasse mais dela. Muito bem. Ela faria isso. Ela iria encontrar uma centena de maneiras ou mais. Ele tinha lhe dado muito já, nada menos do que a sua vida, na verdade. Ela lhe daria a sua independência em troca. — Eu acho, na verdade — disse ela. — E nós vamos tentar.


Ele soltou a mão dela, deslizou o braço sobre os ombros, encontrou sua boca com a sua, e beijou-a. — Eu acho que você vai ser boa para mim — disse ele contra seus lábios. — Só espero que isso aconteça em ambos os sentidos. Suas palavras a encheram de tal anseio que sua garganta doía. — É hora de ir para a cama? — Perguntou. — Não, por favor, não olhe para um relógio e me diga que é muito cedo. Apenas diga sim. — Sim. Eram 9:25.


Capítulo Quinze Quando Sophia acordou e tentou se aconchegar de volta ao calor que tinha estado ao lado dela durante toda a noite, só descobriu um frio vazio. Ela foi despertando e abriu os olhos. Ele se fora. Havia luz do dia, mas parecia cedo. Ela levantou a cabeça e olhou para o relógio. Eram 6:15. Ela fez uma careta e deitou-se. Onde será…? Mas ela sabia a resposta. Ele tinha ido até o porão para os exercícios. Porque tinha que ser o porão quando havia um grande número de quartos não utilizados na superfície ela não sabia, mas ele tinha dito a ela que era onde sempre ia. Considerou fechar os olhos e voltar a dormir. Mas agora que estava acordada, seu estômago se agitou um pouco. Não com fome. Na verdade, ela não podia sequer pensar em café da manhã. Mas havia uma nova vida para ser vivida lá fora, além de seus aposentos privados, e ela tinha-se comprometido a vivê-la, em vez de rastejar para um canto e observá-la através de um olho satírico. Empurrou para trás as cobertas e sentou-se na beira da cama, e estremeceu no frio da manhã. Dormir sem sequer uma camisola estava bem só até que não tivesse que se proteger do frio.


Ela puxou a camisola lamentavelmente vincada, que havia sido descartada ao lado da cama de novo, e atravessou a sala para puxar para trás as cortinas de uma grande janela. Parecia sudoeste. Podia ver o estábulo de um lado e uma vasta extensão do gramado pontilhado de árvores antigas. Um declive se afastava gradualmente para o lago. Centrada na visão estava a pequena ilha no meio e seu estúpido templo. O outro lado do lago era denso, com árvores de um luxuriante verde no momento. Deveria ser um espetáculo para ser visto no outono. O lago, grande como era, deveria ter sido feito pelo homem. Ele tinha sido cuidadosamente posicionado, como a ilha e o templo, para criar apenas este ponto de vista a partir do quarto de dormir principal. Sophia foi ferida com uma onda repentina e inesperada de luto por seu marido, que nunca iria vê-lo. Em uma observação mais prática, no entanto, como ele poderia nunca chegar a esse lago, a menos que alguém o levasse? O gramado ondulado em elevações e os mergulhos eram agradáveis aos olhos e até mesmo para alguém que dá um passeio, ela adivinhou, desde que a pessoa pudesse ver. Franziu a testa e considerou o problema. A janela no outro quarto, nominalmente dela, deveria estar voltada em outra direção, sudeste do outro lado da parte formal do parque, os canteiros e o jardim de topiária. Ela iria olhar através dela em algum momento, mas agora havia algo mais que queria fazer. Queria ver Vicente e descobrir que tipo de exercícios ele fazia. Ela não tinha ideia de onde era o porão. Não tinha ideia de onde estava quase qualquer lugar, mas não havia nenhuma vantagem em se sentir intimidada. Iria descobrir. Tinha uma língua e considerou que os servos


aqui não iriam simplesmente olhar através dela, como se ela nem sequer existe. Ela era viscondessa Darleigh, sua senhora. De alguma forma, não era um pensamento reconfortante. Ela não convocaria Rosina para ajudar com seu vestido. A ideia parecia um pouco absurda quando ela mesma se vestira em toda a sua vida. Além disso, ainda não era bem 6:30. Ela lavou as mãos e o rosto na água fria da noite anterior, colocou um de seus vestidos novos sem espartilho e passou uma escova nos cabelos. O porão ficava ao lado da copa, na área da cozinha. Foi fácil encontrar. Ela simplesmente caminhava para o salão principal e assustou um lacaio que estava destrancando as portas da frente, e ele a levou e mostrou-lhe a porta do porão. — Quer que eu chame sua senhoria, milady? — Perguntou a ela. — Não, obrigada — disse ela. — Eu não quero incomodá-lo. A escadaria era muito escura, mas havia luz abaixo. Sophia desceu alguns degraus até que pôde ver todo o caminho para baixo e, em seguida, sentou-se em um deles, abraçando os joelhos. Vincent e o Sr. Fisk estavam lá embaixo, em uma sala grande e quadrada. À luz das três lâmpadas, ela pôde ver que havia um quarto interno, suas paredes forradas com prateleiras e empilhadas com garrafas. Era a adega de vinho, é claro, perto da copa. As lâmpadas eram, presumivelmente, para uso do Sr. Fisk. O pensamento horrível atingiu Sophia, de que um lugar como este, que ficava totalmente escuro sem as lâmpadas, não seria diferente, para Vincent, da sala de estar acima, cheia de luz. Por um momento, sua respiração acelerou e ela temeu que pudesse desmaiar. Não era de admirar que ele sofresse crises de pânico.


Ele estava sem camisa e descalço, ambos estavam, na verdade. Tudo o que ele estava usando era um par de calças apertadas, bermudas ajustáveis. Estava deitado de costas sobre um tapete no chão, com os pés presos por baixo da barra de um banco, as mãos cruzadas atrás da cabeça, e sentava e deitava de volta em rápida sucessão, os músculos de seu tórax e abdômen ondulando com o esforço e brilhando de suor. O Sr. Fisk estava pulando com uma corda, aumentando e diminuindo a velocidade, cruzando a corda na frente dele, e nunca se enroscando nela. Sophia contou cinquenta e seis exercícios antes de Vincent parar, e ele tinha começado antes dela descer. Como ele poderia ... — Ho — disse ele, com a voz ofegante. — Estou fora de forma, Martin. Eu posso fazer apenas oitenta hoje. O Sr. Fisk grunhiu e deixou de lado sua corda. O próximo é a barra, não é? Vinte e cinco repetições? — Feitor de escravos — disse Vincent, ficando em pé. — Fraco. Sophia ergueu as sobrancelhas, mas Vincent apenas riu. — Vinte e seis — disse ele. — Só para provar um ponto. Havia uma barra de metal suspensa horizontalmente a partir do teto. O Sr. Fisk levou Vincent a ela, e ele estendeu as mãos para cima, agarrou-a com força, e se arrastou até o queixo ficar ao nível da barra. Abaixou-se sem tocar os pés no chão e levantou-se novamente — vinte e seis vezes. Parecia uma tortura. Suas costelas e abdômen eram como uma tábua de lavar, pensou Sophia. Os músculos de seus ombros e braços incharam.


Suas pernas estavam juntas, pés apontados. Ele não era um homem grande. Não era nem tão alto nem tão largo quanto o criado, mas estava apto, bem proporcionado e gloriosamente masculino. Sophia baixou o queixo para os joelhos. — Você fez o seu ponto — o Sr. Fisk estava dizendo. — Nada de pesos hoje, no entanto. Eu usei-os lá fora, de qualquer maneira. Você já teve o suficiente? — Traga as almofadas — disse Vincent. — Vou ver se posso te machucar através delas hoje. O Sr. Fisk bufou e disse algo rude que fez as bochechas de Sophia esquentarem. Ele pegou duas grandes almofadas de couro, prendeu-as sobre seus braços, e posicionou-as à frente de si mesmo como uma espécie de escudo. Vincent estendeu a mão e as tocou, sentiu as bordas superiores e exteriores. Em seguida, enrolou as mãos em punhos e assumiu a postura de um lutador. Ele bateu em um dos braços acolchoados do Sr. Fisk com sua mão direita. Era quase como assistir a uma dança. O Sr. Fisk se moveu agilmente, abaixando e se protegendo, enquanto Vincent dançou em pés ligeiros, apontando com a mão esquerda, ocasionalmente, batendo duro com a direita. Alguns de seus socos se perderam completamente, mas seu criado grunhiu com um golpe que conseguiu passar a guarda e acertar o ombro. Então ele riu. — Te peguei dessa vez, Martin — disse Vincent. — Admita. — Um soco de frango — disse Fisk, e Vincent agrediu duramente os braços acolchoados, movendo-se para perto, usando ambos os punhos. — Basta dizer quando tiver o suficiente — disse ele, ofegante. — Não gostaria de deixá-lo com muitas contusões. Ou quebrar uma costela ou duas. Eu poderia ser acusado de abusar de meus servos.


Ele riu e o Sr. Fisk também riu e xingou abominavelmente — antes de olhar para cima e vê-la, apesar da escuridão em que ela estava sentada. — Temos companhia — disse ele, baixando a voz. — Milady? — Ele baixou os braços e saiu de vista. — Sophie? — Vincent virou rapidamente para a escada, as sobrancelhas levantadas. — Oh. — Ela ficou de pé, terrivelmente desgostosa. — Sinto muito incomodá-lo. Eu estava curiosa. Ela havia se intrometido em um domínio puramente masculino, percebeu tarde demais. Ele tinha encontrado o seu caminho até o pé da escada, uma mão chegando a tocar a parede, e olhou para cima. — A acordei depois de tudo, então, não é? — Perguntou. — Me perdoe. Eu tentei não o fazer. Há quanto tempo você estava aí? Ele começou a subir em direção a ela. — Eu fiquei sentada, assistindo — disse ela. — Não deveria ter ficado. Eu deveria ter ido embora. — As palavras que seu criado acabara de falar, que não se destinavam aos ouvidos de uma senhora, é claro, ainda a tocavam. Ela sabia que eram sujas e profanas, ela as tinha ouvido falar à volta de seu pai, mas nunca de seu próprio pai. Ele parou alguns degraus abaixo dela. Seu cabelo estava grudado na cabeça e caía em cachos molhados ao longo de seu pescoço. Estava todo suado. Não deveria parecer atraente, mas parecia. Embora, para dizer a verdade, ela mal pudesse vê-lo no escuro. — Nós terminamos por hoje — disse ele.


— Eu estou saindo — disse ela no mesmo momento. — Vou sair e olhar ao redor. — Eu vou me banhar, vestir — disse ele — e acompanhá-la. A família de uma das empregadas da copa pegou um gato de rua há menos de uma semana, mas não sabe o que fazer com ele, uma vez que já têm vários. É um gato malhado, um pouco magro e desalinhado, um ou dois anos de idade, provavelmente não é uma grande beleza. — Oh — ela disse — você já perguntou? — E o irmão do cozinheiro, um dos arrendatários — disse ele — tem uma ninhada de collies. Sua mãe é uma boa pastora e o pai também. Eles são recémdesmamados, e todos, menos um, já estão comprometidos. Talvez isso signifique que ele é o nanico da ninhada, mas ele me garantiu que tem todos os seus membros nos lugares certos, bem como os olhos, ouvidos e latido. — E agora eles estão todos comprometidos? — Perguntou a ele, juntando as mãos ao peito. — Agora estão. Ela sorriu para ele. — Não quero chegar mais perto de você, Sophie — disse ele. Estou fedendo. Posso até sentir o cheiro em mim mesmo. — Sim, — ela concordou — você está. Eu estou indo. E ela se virou e saiu do porão. Ela ia ter um gato. Um gato malhado e magro, que não era nada bonito. Amava-o já. E ele ia ter um cão. Um cão pastor, que o guiaria em vez de ovelhas e lhe devolveria muito de sua liberdade. Ela tinha certeza de que poderia ser feito.


Ela sorriu para o pensamento e o lacaio, o mesmo, que estava de volta no corredor, sorriu um pouco hesitante de volta para ela e abriu as portas duplas, quando ficou óbvio para ele que ela queria sair. Como se não pudesse ter aberto uma delas por si mesma! Ninguém jamais abriu as portas para ela, quer a tia Mary ou Sir Clarence. Fazia uma manhã fresca, ela descobriu, e, provavelmente, ficaria mais confortável usando uma capa, mas não queria voltar ao seu quarto de vestir para pegá-la. Não lhe ocorreu enviar o lacaio. Ficou no topo das escadas e olhou ao redor. O parque se estendia em todas as direções, tanto quanto o olhar podia alcansar e além. Ele foi projetado para o esplendor visual e para o exercício de lazer e prazer daqueles que podiam ver para onde estavam indo. Certamente não fora concebido para um cego. Mais importante ainda, nos três anos que Vincent tinha estado aqui, não tinha sido modificado para o uso de um homem. Poderia ser? Ela olhou em volta com mais atenção. Vincent apareceu no degrau mais alto, a bengala na mão direita, o manto de Sophia em sua esquerda. Eram apenas 7:30 ou quase. O resto de sua família não desceria por um tempo ainda. Martin tinha sido grosseiro como resultado de um grave constrangimento, Vincent tinha percebido. — Eu não estou usando mais do que você — ele disse depois que a porta do porão se fechou atrás de Sophia. — E ela ouviu o que eu disse. — Nós éramos dois homens, sem nenhuma expectativa de ser vistos ou ouvidos por qualquer mulher — Vincent o tinha lembrado. — Ela vai entender isso. Eu vou pedir desculpas por você.


Martin tinha grunhido enquanto saíam do porão e entregara à Vincent sua bengala antes de correr à frente para se certificar que a água do banho tinha sido levada para seu quarto de vestir. — Eu estou aqui. — Era a voz de Sophia. No jardim formal. Curiosamente, ela não veio correndo em direção a ele para ajudá-lo a encontrar o caminho de lá. Maldição, mas ele gostava disso. Ele contou doze passos para baixo e, em seguida, atravessou o terraço de cascalho — dez passos médios ou doze. Ele fez isso em dez e sentiu o lado da urna de pedra, que, com o seu par, do outro lado, formavam a entrada para os jardins formais. Não houve passos aqui. Nada para cair ou colidir com exceção das próprias urnas. — Oh, você trouxe minha capa — disse ela de perto. A pegou dele. — Obrigada. O ar está um pouco fresco. — Ela passou o braço através do seu quando ele ofereceu. — Você deseja passear ou sentar no banco aqui? — Passear — disse ele e moveu-os para a direita, sentindo a borda do caminho de cascalho com a bengala. — As rosas estão florescendo. — O cheiro é adorável — disse ela. — E há tantas cores, todas bonitas. Eu não posso decidir qual é minha favorita. — As amarelas — disse ele. — Você acha? — Ele podia ouvir o sorriso em sua voz. — Luz do sol — disse ele. — Para combinar com você. — Isso é um elogio muito gentil — disse ela. — O quê? Ele disse. — Nenhuma referência a espelhos e o que eles dizem quando você se olha neles?


— Estou sob ordens — ela lembrou. — E eu era um oficial militar muito feroz — disse ele. — Os homens saltavam sob o meu comando, mesmo antes de eu o latir. Os dois riram. Ah, sim, ele gostava de tê-la aqui com ele. Sentia a vida — diferente. A bengala perdeu a beira do caminho, de repente e descobriu solo afofado à frente. Um canto. Ele se moveu e caminhou para o sul. Ela não o arrastou. Abençoado coração. — Quando você vem aqui sozinho, — disse ela — quais são os limites do parque? — Os canteiros — disse ele — e o jardim de topiária. Posso percorrê-los sem quebrar o pescoço ou sentir como se tivesse andando fora dos limites. Posso encontrar meu caminho para os estábulos e voltar também, embora às vezes precise do meu nariz para sentir o cheiro sedutor de estrume e me manter no curso. Não fico confinado à casa. Ele parecia um pouco na defensiva, pensou. — Talvez o cão faça o parque maior para mim depois de eu tê-lo treinado para isso — disse ele — para que não tenha que chamá-la, ou a Martin ou a minha mãe, quando quiser caminhar mais longe. — Você pode me chamar a qualquer momento — disse a ele. — Mas você não precisa. Alguém já pensou em modificar o parque? — Modificar? — Tinham chegado a outro canto. Ele virou-se para o leste. Havia só um banco ali, posicionado para enfrentar a volta para a casa. — Vamos nos sentar por um tempo? — Mais três passos — disse ela.


Sentaram-se, e ele apoiou a bengala ao lado. — Se um caminho de cascalho ou mesmo um pavimentado for colocado entre o terraço e o lago, — disse ela — e se uma cerca ou um corrimão for construído ao longo dele, você seria capaz de caminhar até lá sempre que desejasse. Você nada? Sim, claro que você o faz. Você costumava nadar no rio em Barton Coombs, à noite. Já nadou aqui? — Não, — ele disse — apesar de ter estado em um barco. Duas vezes. — Todo o seu exercício é feito na escuridão, então — disse ela. — Sim. Sempre na escuridão. — Oh. — Ela parecia mortificada. — Sinto muito. Mas eu quis dizer no subterrâneo ao invés de em um dos quartos acima do solo, onde uma janela possa ser aberta. Ou, melhor ainda, ao ar livre, onde há todos os sons e cheiros da natureza e nada mais que ar fresco. — Eu andei, escalei e montei em Lake District — ele lembrou. — E remei. Tudo parecia maravilhoso. O movimento, movimento de avançar, é muito mais emocionante do que exercícios estáticos. Nós até galopamos nossos cavalos uma vez, Sophie. Você não pode imaginar o quão emocionante foi. E não pode imaginar como eu desejo caminhar no exterior e até mesmo correr. Ele franziu a testa para o tom de sua própria voz. Ele não costumava permitir-se o som melancólico. As pessoas infelizes não eram particularmente atraentes para os outros. — Oh, — ela disse — quão maravilhoso deve ser apenas montar! Estar no lombo de um cavalo, como no topo do mundo, sendo movida por todo esse poder e beleza. Havia melancolia em sua voz também. — Você nunca montou? — Perguntou a ela.


— Nunca — disse ela. — Mas eu escandalizei a costureira de Lady Trentham por pedir uma roupa de equitação com calças bem como uma saia. Eu pensei que talvez você pudesse me ensinar. — A montar? Escarranchada? — Ele sorriu para ela. Quem mais que Sophia acreditaria que um cego pudesse ensiná-la a montar? — Claro que eu posso. E irei. — E o caminho para o lago? — Ela disse. — Não vai estragar o visual do parque, eu lhe garanto. Na verdade, se ele se curvar com as ondulações do gramado, ele vai parecer muito atraente. E com uma grade de ferro forjado, será elegante. Você vai construir? Como se sentiria livre se fosse capaz de andar todo o caminho até o lago e voltar por sua própria conta se ele quisesse. Porque ninguém pensou em tal coisa antes? Porque ele não pensou nisso? — Vou — disse ele. — Vou ver meu administrador esta manhã. Preciso ter uma conversa com ele. Muitas conversas, na verdade. Preciso ter uma participação mais ativa na gestão da minha propriedade, mesmo que a maior parte do trabalho ainda será sua. Vou mencionar o caminho e dar a ordem para que possa ser iniciado. — Eu vou passar a manhã com sua mãe — disse ela. — Vamos nos reunir com a governanta, ver toda a casa e ... — Sua voz sumiu. Ele procurou a mão dela, encontrou, e segurou-a. — Minha mãe virá a te amar, Sophie — disse ele. — Ela vai querer fazêlo por minha causa, mas vai acabar fazendo isso por você. Você não deve se preocupar. Por favor, não. Não tenho a certeza que ela realmente gosta de ser a senhora daqui. Ela estava feliz em Covington House. Fala sobre isso com


frequência. Todos os seus amigos mais queridos estão em Barton Coombs. Ela veio para cá porque pensou que eu precisava dela. E estava certa. Eu precisava. Mas ela ficará bastante aliviada por se livrar de suas responsabilidades. — Será? — Se sente oprimida? — Perguntou. — Estamos sentados aqui, — disse ela — e eu posso ver a casa. É ... imensa. E atrás de nós fica a aldeia, e todos ao nosso redor são vizinhos que devem ser visitados, conhecidos e convidados para vir aqui. E eu estou olhando para os quartos de hóspedes e lembrando que costumava haver grandes entretenimentos e bailes lá e que agora devemos tomar a frente aqui. E estou pensando que realmente deveríamos ter alguns desses entretenimentos novamente, e eu estou ... eu não sei ao certo como estou. — Oprimida. — Ele apertou a mão dela. — Eu conheço o sentimento. Mas tudo não tem que ser feito em um dia, você sabe. Ou até mesmo uma semana ou um mês. Vamos fazer a nossa primeira visita esta tarde? Apenas uma? Ao vicariato, talvez? — Sim — ela concordou. — Muito bem. Talvez o vigário e sua esposa sejam tão amáveis como o Sr. e a Sra. Parsons. — Eu os conheci — ele disse a ela. — Eles são amáveis. Ele apertou a mão dela mais uma vez e soltou. — Podemos ir tomar o café da manhã? — Sugeriu. — Ah, e eu prometi me desculpar abjetamente em nome de Martin, tanto por sua aparência esta manhã como por sua escolha particular do vocabulário em sua presença. — Pareceu-me — disse ela — como se vocês estivessem se divertindo.


— Oh, nós estávamos — ele garantiu a ela. — Nós sempre o fazemos. Há piores partes de seu corpo a perder, Sophie, que os olhos. Talvez fosse mesmo verdade. Ele pensou em Ben Harper e os acessos de raiva que, às vezes, tinha sido incapaz de controlar durante esses anos em Penderris Hall porque suas pernas eram inúteis e sem vontade de obedecer aos seus mandos. Ele se levantou, pegou sua bengala e ofereceu o braço. — Você pode informar ao Sr. Fisk que ele está perdoado — disse ela — e você vai implorar seu perdão para mim, se quiser, porque eu não deveria ter estado lá. Não vou entrar novamente. Vou respeitar a sua privacidade e a dele. Você pode assegurar-lhe disso. Se encantou por Sophia se preocupar com os sentimentos, e a vida privada, de um servo. Porque isso era o que Martin era oficialmente, embora, na realidade fosse um querido amigo de Vincent. Ou igual aos Sobreviventes, talvez, embora ele tenha passado muito mais tempo com Martin do que com eles.


Capítulo Dezesseis O primeiro mês de sua nova vida em Middlebury Park foi desgastante, muitas vezes confusa para Sophia. Ela aprendeu a andar sem se perder pela casa; tornou-se familiarizada com os criados, particularmente a cozinheira e a governanta, com quem mantinha contato quase todos os dias; estudou o inventário doméstico e as contas até onde entendia e poderia até falar com inteligência sobre isso; visitou seus vizinhos com Vincent e foi visitada em troca. Conhecera a nova família. Ellen, o marido e filhos haviam chegado três dias depois deles, e Ursula e a família vieram uma semana após. Fez longas caminhadas sozinha pelo enorme parque e viu cada parte dele com um olhar crítico. A construção de um caminho de cascalho para o lago estava quase completa, apesar do mês estar mais úmido do que o usual. Havia uma área para caminhada desértica através das montanhas atrás da casa. Podia ser desmatada outra vez, porém, decidiu, torná-la segura, e delimitá-la por uma grade de ferro forjado, ou talvez uma de madeira mais rústica fosse melhor para o terreno se assemelhar ao local. E poderia haver árvores perfumadas e arbustos plantados ali, rododendro, lavanda e outros. Ela desejou saber mais sobre as plantas. Mas plantas aromáticas seriam importantes uma vez que as perspectivas pitorescas da colina sobre o parque e a paisagem circundante não diriam nada a seu marido. Vincent, enquanto isso, não era membro passivo da família e do agregado familiar, como parecia ter sido antes do casamento. Ele passou grande parte do


tempo trancado com o administrador e vários inquilinos ou viajando pela a propriedade com o primeiro. Ele estava se familiarizando com os vizinhos que mal havia conhecido antes. Estavam fazendo um pelo outro o que haviam concordado em fazer. Sophia era bem cuidada. Ela já não era a rata, embora, muitas vezes, desejasse ficar quieta e sozinha. Ela era Sophia ou Sophie ou milady. E Vincent não era mais mimado a cada instante. Logo ele seria capaz de se mover muito mais livremente. O casamento deles podia ser considerado um sucesso. E lá se foram os momentos que passavam juntos sozinhos, embora parecessem bastante raros para Sophia, exceto as noites, é claro, que continuaram encantadoras. Ela até aceitou o incrível fato dele achá-la atraente. Uma tarde as irmãs de Vincent e suas famílias foram a um piquenique em um castelo a alguns quilômetros de distância, e Vincent e Sophia estavam na sala de música, onde ele lhe dava uma lição ao piano. Não estava sendo muito melhor sucedida do que as outras, embora ela tenha aprendido a tocar uma escala maior correta, sem importar com qual nota tinha iniciado. Porque tinha que haver notas brancas e pretas para confundir a questão, ela não sabia. A senhorita Debbins, professora de música de Vincent, foi passar algum tempo com o irmão em Shropshire, embora devesse voltar em breve. Vincent tinha certeza de que ela ficaria encantada de assumir Sophia como aluna também. — Mais do que satisfeita, na verdade — ele tinha dito. — Você pode ver e ela será capaz de lhe ensinar a ler música. Ela teve de ser infinitamente paciente e inventiva comigo.


Ele estava tocando o violino agora, enquanto Sophia esboçava fadas na parte inferior de um jardim. Ela as achou mais difícil de fazer do que um dragão e um rato, mas não tão difícil quanto Bertha e Dan, que nunca tinha visto e tentava imaginá-los em sua cabeça. Mas iria perseverar. As crianças adoraram as histórias que ela e Vincent lhes contavam quase todas as noites, e gritavam com alegria diante das imagens. De vez em quando parava para observar o marido e para acariciar as costas de Tab, seu feio gato magro, malhado que se tornara elegante nas semanas em que esteve ali. Shep não estava vivendo com eles ainda. Quando o fazendeiro descobriu que o visconde Darleigh seria o dono do cão, insistiu em que o animal precisava primeiro de algum treinamento básico e que ele era o melhor para fazê-lo, já que tinha uma vida inteira de experiência. Uma vez feito isso, então viria diariamente, com a permissão de sua senhoria, e juntos iriam trabalhar os pontos mais delicados do treinamento, enquanto cão e mestre se familiarizariam um com o outro. Ele estava entusiasmado com a ideia e não viu nenhuma razão de não dar certo, embora nunca tenha treinado um cão para esse propósito antes. — Se um cão pode ser treinado para responder a um grito de comando ou um apito e pastorear um rebanho inteiro de ovelhas a um ponto particular à uma grande distância e passar todos os tipos de obstáculos e até mesmo através de porteiras estreitas, — ele dissera — então não há nenhuma razão pela qual não o possa fazer por um homem segurando a coleira, não é? Aposto minha reputação como o melhor treinador de cães pastores do município. E nunca ninguém me acusou de modéstia. — Ele riu muito, apertou a mão de Vincent e sorriu para Sophia.


— Isso parece garantia suficiente para mim, Sr. Croft — Vincent tinha dito. — Obrigado. — Ai! — Sophia disse quando ele tocou uma nota dissonante. Ele estava tentando aprender algo que Ellen havia tocado para ele várias vezes no piano na última noite, algo de Beethoven. Ele baixou o violino. — Tab não está uivando — disse ele. — Minha música não pode ser tão ruim, Sophie. — Eu ouvi uma nota ruim de quantas? — Disse ela. — Quinhentas? Claro, uma nota ruim é tudo que precisa para arruinar o efeito da coisa toda. — Uma audiência crítica é tudo que eu preciso — ele resmungou — quando estou tentando aprender algo novo. Meu repertório é lamentavelmente pequeno. — Toque novamente — disse a ele — e toque essa nota corretamente. — Sim, madame. Ela sorriu enquanto esboçava um vaso de cabeça para baixo com uma pequena porta e uma janela redonda com cortinas esvoaçantes um abrigo de fadas. Uma varinha de fadas escorava a porta aberta. Ela adorava provocá-lo, e ser provocada. Eles gostavam um do outro. Era uma sensação maravilhosamente afetuosa. Isso a sustentava durante os dias que muitas vezes não eram fáceis para ela. A família dele era gentil, até mesmo afetuosa, e eles tiveram o cuidado aceitá-la como esposa de Vincent. Ela gostava de todos eles, sem exceção. Mas eles não eram a sua própria família. Apenas Vincent era.


Gostava de quase todos os vizinhos que tinham conhecido. E essas pessoas pareciam realmente felizes em conhecê-los. Eles olharam Vincent com simpatia e alguma admiração, quem era bem capaz de ser charmoso. E eles a receberam com deferência, como se estivesse a lhes fazer alguma honra. Como ela poderia não gostar de todos eles? O visconde anterior,

avô de Vincent, abriu o parque a todos os

interessados uma vez por semana, contaram alguns dos vizinhos mais velhos, para que assim todos pudessem desfrutar de um passeio sobre os gramados e fazer um piquenique à beira do lago e relaxar na casa de veraneio e fazer caminhadas pelas colinas. Vincent havia sugerido que isso ocorresse novamente, e Sophia tinha concordado com ele, e acrescentou a sugestão de que talvez no próximo verão fossem organizar um piquenique para todos, com jogos, concursos, entretenimento e prêmios. A vizinhança já estava aparentemente repleta de vários tipos de notícias. O parque seria aberto aos sábados, logo que o caminho do lago fosse concluído. Foi só depois que isso atingiu Sophia, ela poderia não estar ali no próximo verão. Alguém tinha mencionado também os grandes bailes que ocasionalmente aconteciam nos cômodos de cerimônia, e a própria Sophia prometeu que iria acontecer novamente. Talvez ainda este ano, Vincent havia acrescentado. Talvez após a colheita, quando todo mundo estaria em estado de espírito para celebrar, se as colheitas fossem bem, prometiam ser. Tal como a história deles, eles pareciam prosperar em construir as ideias um do outro. Mas como ela iria planejar um baile de colheita e um piquenique de verão, se não estaria ali para planejá-lo, estaria?


Às vezes, quase perdia a coragem. Mas não se permitiria fazer isso. Lhe foi dada esta única oportunidade para... para viver sua vida, e não iria desperdiçá-la. Ela teve algumas aulas de equitação. Usava calça, para o evidente choque de sua sogra e diversão da avó de Vincent. Até agora, tinha montado apenas um pônei tranquilo e apenas no paddock atrás dos estábulos. Vincent lhe mostrou como verificar o pônei, e ele tinha lhe ensinado como montar e sentar-se corretamente. Ele havia ajustado os estribos de modo que seus pés ficassem confortavelmente neles. A ensinou como segurar as rédeas e para que serviam, não era para agarrá-las como se sua vida dependesse disso. Ela se sentiu de forma alarmante longe do chão, e ele riu quando ela disse isso e lembrou que estava sobre um pônei. Ele andou com ela pelo paddock, a mão livre dele seguindo ao longo da cerca. Depois de um tempo, a deixou ir sozinha. Mas, claro, o chefe dos estábulos manteve um olhar muito cuidadoso sobre ela, como tinha feito desde o início. Vincent a ensinou como desmontar. Por agora ela montava e andava sozinha, mas apenas no paddock e com o cavalariço e Vincent pairando sobre ela. Estava orgulhosa de si mesma, no entanto, e alegre por sua própria coragem. Mas como alguém poderia ser imprudente o suficiente para subir no lombo de um cavalo real e persuadi-lo a galopar ou mesmo trotar? Todas as suas roupas novas haviam chegado de Londres, e Rosina ficou em êxtase com elas enquanto as desempacotava e as pendurava cuidadosamente no guarda-roupa ou as dobrava ordenadamente nas gavetas. — O suficiente para um dia — Vincent disse, baixando o violino. — Terei que implorar a Ellen para tocar aquela peça novamente para que eu possa saber se estou aprendendo corretamente. Não iria querer fazer ao pobre Beethoven um desserviço maior do que estou fazendo de qualquer maneira, escolhendo sua música. Uma vez que eu tenha aprendido devidamente, então serei capaz de


apreciá-la e começar a senti-la. Vou impressioná-la com o meu talento. Você sabe nadar? — Não. — Ela era lamentavelmente carente de habilidades. — Você quer aprender? — Agora? — Não está chovendo de novo, não é? — Perguntou. — Amy e Ellen estavam convencidas de que o sol iria brilhar durante todo o dia. — Ainda está bom lá fora — disse ela. — Acho que tenho um pouco de medo de água. — Mais uma razão para aprender a nadar — disse ele. — Do outro lado da ilha a terra se inclina gradualmente para dentro do lago, ou assim Martin me disse quando fomos lá uma vez. A água é rasa o suficiente por lá para não aterrorizar você. É claro, teríamos que chegar à ilha. Você pode remar um barco? — Não. — Ela riu. — Então eu vou ter que fazer isso. — Ele sorriu para ela enquanto colocava o violino na caixa e a fechava. — Será uma aventura. — Vou fechar meus olhos e cobri-los com minhas mãos, — disse ela — de modo que não verei o desastre iminente. — Eu também — disse ele. — Vamos pegar algumas toalhas e iremos. — E vamos nadar como? — Perguntou ela. — Além da água? — Ele ergueu as sobrancelhas. — Suponho que você possa nadar com sua roupa de baixo se tem medo que eu possa ver demais se você não usar nem isso. Embora deixe o espartilho para trás.


Tab saltou do assento e os acompanhou de volta aos seus aposentos, correndo em frente e, em seguida, esperando eles alcançá-lo. Ele passou a residir no peitoril da janela mais ensolarada na sala de estar, enquanto eles subiram para se aprontar. Na verdade, estava um belo dia. Um grupo de jardineiros estava montando a grade de ferro forjado ao lado do caminho para o lago. Sophia pegou o braço de Vincent e caminharam ao longo para o gramado antes de virarem em direção à casa de barcos. — Você está se sentindo mais no comando de sua própria propriedade do que antes? — Perguntou ela. — Estou — ele disse a ela. — Oh, eu sei que o meu pessoal sempre vai garantir de que estou bem protegido de tudo o que representa a menor ameaça à minha pessoa, da fúria dos touros até as galinhas bicando. Mas tenho insistido em saber o que está acontecendo com as minhas fazendas, e insisto em tomar as decisões por mim mesmo, por assim dizer, e falar com o meu povo. Ainda me sinto muito estúpido quando faço perguntas cujas respostas devem parecer muito óbvias para eles, mas vou continuar perguntando. Só para que eu possa chegar ao ponto em que não precise mais perguntar. Devo estar me tornando um senhor de terras muito aborrecido, Sophie, que não discute nada mais interessante com seus convidados do que o preço do milho ou os mais recentes métodos de tosa das ovelhas. — Existem diferentes métodos? — Perguntou ela. — Não tenho a menor ideia. Os dois riram. — A Sra. Jones pediu-me para ser presidente honorária do círculo de costura das mulheres — disse ela. O Sr. Jones era o vigário.


— Não! — Ele parou de andar para olhar em sua direção com espanto simulado. — É uma enorme honra, Sophie? — Bem, você pode fazer uma piada disso, — ela disse — mas tenho a certeza que é só isso. Não estritamente uma honra, talvez, mas algo próximo. Tão poucas pessoas me estenderam a mão. Eu não sei bem o que a parte ―honorária‖ significa, é claro. Terei que perguntar. Se isso simplesmente significa que elas podem usar meu nome e título para deslumbrar os grupos de mulheres de outras aldeias, então irei declinar. Mas se elas querem que eu me sente em seu círculo de costura com elas, então vou aceitar, embora a minha habilidade com uma agulha não seja nada para se vangloriar. Nunca, jamais tive uma amiga. Não que as mulheres aqui irão querer ser minhas amigas do peito, eu suponho. Elas vão pensar, muito tolamente, que estou muito acima delas. Mas conhecidas amigáveis, digamos. Ela estava tagarelando um pouco e eles ainda não tinham retomado a caminhada. E, na verdade, Lady Trentham tinha escrito para ela várias vezes e estava no caminho de se tornar sua amiga. Mas a distância. — Oh, Sophie — ele disse, — Sinto muito. Eu tenho Martin, e sim, ele é um amigo e tem sido desde a minha infância, e tenho os Sobreviventes, e há inúmeros amigos em Barton Coombs que negligenciei durante seis anos. Não tinha pensado que, é claro, não sou o suficiente para você. — Oh, isso não é... ela começou. — Não, eu sei que não é o que você quis dizer — disse ele. — Mas não acho que você seria o suficiente para mim também, Sophie. Ela sentiu uma punhalada de dor e decepção. E lá estava. O lembrete de que eles nunca seriam tudo um para o outro, que, apesar da camaradagem fácil, eles nunca realmente seriam mesmo amigos, muito menos...


— Todos nós precisamos de amigos ou pelo menos conhecidos amigáveis do nosso próprio sexo — disse ele. — Há um tipo diferente de relacionamento com amigos de mesmo sexo do que com alguém do sexo oposto, e isso é algo que todos nós devemos cultivar. O que quero dizer é que entendo e estou feliz por você, Sophie. Tenho certeza de que vai desfrutar do círculo de costura. E a qualidade do seu silêncio sugere-me que estou cavando um buraco mais profundo para mim com cada palavra que digo. Eu não a magoei, não é? — Não, claro que não — disse ela. — Fui eu quem disse que gostaria de me juntar ao círculo de costura porque quero a companhia de outras mulheres. Houve um breve silêncio, durante o qual nenhum deles se moveu. — Eu gosto da sua companhia também — disse ele. — Nós nos damos bastante bem juntos, não damos? Ele parecia um pouco ansioso. Nós nos damos bem o suficiente... Sim eles se davam bem. Ela sorriu um pouco tristemente. — Nós nos damos bem — disse ela. — Vamos enfrentar o terror do passeio de barco? Ou devemos ficar aqui o resto da tarde? — Oh, o passeio de barco, com certeza. — Ele ofereceu o braço novamente. — Só seja grata por não termos um oceano inteiro para atravessar. — Podemos descobrir um novo continente — disse ela. — Atlantis? — Ou algo completamente desconhecido — disse ela. – Mas, por esta tarde, acho que vou ser feliz apenas por chegar a essa ilha com segurança. — Você se colocou em boas mãos — ele disse a ela. — Não é com suas mãos que estou preocupada — disse ela.


Ele riu quando retomavam a caminhada. Sophia sentiu um pouco de vontade de chorar. Deveria estar muito mais preocupada do que estava, considerando o fato de que ela não sabia nadar. Mas estava muito ocupada dando instruções para se sentir nervosa. Ele remava com grande energia e habilidade, exceto que não tinha nenhum senso de direção, é claro. No início, isso parecia não importar, desde que fosse na direção da ilha, mas ela podia ver além da água que havia um pequeno cais para onde eles deveriam levar o barco. A outra parte da margem parecia bastante íngreme. Com a habilidade dele e sua orientação eles chegaram em segurança. Ele desceu, pegou a corda da mão dela e amarrou a um poste robusto. — Madame? — Ele curvou-se e ofereceu a mão, motivo pelo qual ela ficou grata. O barco balançou de forma alarmante quando ela tentou sair sem ajuda. — Oh, meu Deus — disse ela. — E depois temos de remar de volta. — Nós? — Ele agitou as sobrancelhas para ela e inclinou-se em busca das toalhas. — Ou você pode nadar até em casa se provar ser mais do que uma pupila usualmente competente. Ela pegou as toalhas dele e deslizou a mão pelo seu braço. Ele havia deixado a bengala na casa de barcos. — Acredito que o templo foi construído como uma tolice, puramente para efeito pitoresco quando visto da casa — ele disse a ela enquanto caminhavam em direção ao mesmo. — No entanto, a ex-viscondessa, ou talvez fosse a mãe dela, um dos meus antepassados, de qualquer maneira, era uma alma piedosa, ou assim me foi dito, e fez isso como um pequeno santuário. Ela era católica.


Com certeza, havia uma porta no templo e vitrais, e no interior havia um crucifixo na parede, velas e um livro de orações com capa de couro velha em uma mesa. Havia uma cadeira ao lado, um rosário enganchado sobre o dorso. Nada mais. Não havia espaço para mais. — Eu me pergunto se a dama remava — disse ela. — Ou nadava. — Ouso dizer — disse ela — que ela tinha um fiel vassalo que a trazia do outro lado sempre que ela queria vir. Nossos antepassados sempre tinham vassalos fiéis, não é? — Se eles viviam em um romance sim — ele concordou. — Pergunto-me se Martin gostaria de se intitular de vassalo fiel. A luz do sol irradiava através de uma das janelas e lançava uma luz multicolorida sobre tudo. O efeito era glorioso. — Cheira um pouco a mofo aqui — disse ele. — Sim — ela concordou. — Onde fica esta água rasa? Ficava atrás do templo, no lado oposto da ilha, onde o terreno inclinava mais suavemente para dentro do lago do que fazia no lado mais próximo. Sophia ainda não gostava da aparência dele. — Talvez — ela disse — devamos simplesmente sentar e tomar sol. Remar me pareceu um negócio extenuante. — Foi extenuante ficar apertando os lados do barco e, por conta disso, ficar com os nós dos dedos esbranquiçados? — Ele perguntou a ela. — De maneira nenhuma — ela respondeu — Você poderia ter visto isso, mesmo se fosse verdade, o que não é. O que você está fazendo?


Era uma pergunta tola para fazer, uma vez que não havia nada de errado com sua visão. Ele estava se despindo. — Não tenha medo. — Ele olhou para ela, sorrindo. — Vou manter a roupa de baixo inteiramente para salvar sua modéstia. E você pode manter a sua para que eu não espie. Ela abriu a boca para discutir e a fechou novamente. Ele não ia se mexer, iria? E se ele fosse para água, ela tinha que ir com ele. Ele não podia ver. Às vezes, ela quase esquecia isso. Despiu-se por sua vez. Porque estar nu, e nem mesmo totalmente despida, parecia muito mais estranho ao ar livre do que em seu quarto de dormir? Não havia perigo de estar sendo observada. Não havia nenhum local a partir do qual eles poderiam ser convenientemente vistos mesmo se alguém estivesse olhando para eles. A luz solar o iluminou como um deus, um pensamento muito apaixonado e tolo. Mas se houvesse qualquer músculo no corpo dele que não fosse totalmente desenvolvido e aprimorado com o exercício frequente e extenuante, ela certamente não viu. E ainda assim ele era esbelto e delgado e não particularmente alto. Era uma coisa boa para ela que ele não fosse. Ele era perfeito. — Você está muito quieta — disse ele. — Está com medo? Não, apenas admirando. Ela deu alguns passos em direção a ele e colocou a mão na dele. Ela esperava que a água estivesse fria. Ela própria tinha-se preparado para o choque. Mas foi... — Está congelando!


— É, um pouco — ele concordou. — É uma sensação muito fria nos tornozelos. Pergunto-me como será sentir sobre os joelhos e quadris. Logo descobriram. A terra afundava mais acentuadamente do que aparentava. Era mil vezes pior. Sophia engasgou e não sabia como fazer para expelir o ar. — Acho que devemos v-v-voltar — ela conseguiu dizer com os dentes batendo. Sem largar a mão dela, ele apertou o nariz com a mão livre e foi direto ao fundo até que apenas seu cabelo estava flutuando na superfície. Ele emergiu de novo e sacudiu a cabeça. Gotículas de água gelada choveram sobre os ombros de Sophia. — Ah — disse ele. — É melhor dentro que fora. Ou será. Afundou novamente e ressurgiu momentos depois. — É melhor submerso — disse ele. — Confie em mim. São seus dentes que ouço batendo? Dificilmente. Ela os mantinha trancados com muita força. — Oh, droga — disse ela. Dobrou os joelhos e foi direto para baixo até que sentiu a água acima de sua cabeça. Ela voltou a superfície cuspindo. — Mentiroso! — Ela gritou. — Oh, mentiroso. Ele estava rindo. — Afunde — disse ele, agarrando a outra mão dela. — Pelo menos até o pescoço. Deixe seu corpo se ajustar a temperatura da água. Oh, Sophie, isso é tão bom.


Apesar do próprio desconforto, ela olhou totalmente para ele. O cabelo estava grudado na cabeça, gotas de água corriam pelo rosto, os olhos estavam abertos, e ele parecia radiante. Despreocupado. Seu coração derreteu. Ela abaixou até que a água cobriu os ombros. Já não a sentia tão fria. Raios de sol dançavam sobre a superfície. Que adorável, como devia ser libertador ser capaz de nadar. — Venha — disse ele. — Vamos aprofundar um pouco mais, e eu vou te ensinar a boiar. — Oh — ela disse. — Eu gostaria que fosse possível, mas receio que não seja. Mas ela foi mais para o fundo com ele apenas por causa do olhar no rosto dele. Ele estava se divertindo tanto. — Oh, pequena de pouca fé — disse ele. — Deite-se sobre a água. Vou segurar você. Assim. Não, não há necessidade de se agarrar ou levantar os joelhos. Esse é o caminho certo para afundar como uma pedra. Estenda-se ao longo da água. Coloque a cabeça para trás. Estenda os braços. Agora relaxe. Não vou deixar você afundar. Apenas relaxe. Imagine que você está no mais suave, mais confortável dos colchões. Foi incrivelmente difícil relaxar, sabendo que havia apenas água sob ela e as mãos dele. Embora, isso fosse fascinante. E ela confiava que aquelas mãos e na sua palavra de que ele não a deixaria afundar. Ela manteve os olhos bem fechados. — Você não está totalmente relaxada — ele disse. Bem, fazia força para manter os olhos fechados. E os músculos do estômago também, ela descobriu quando mentalmente os checou.


Ela abriu os olhos e virou a cabeça uma fração. A cabeça dele estava meio inclinada sobre ela. E... Oh, Deus, ela o amava. Ela olhou para ele, abalada — e ainda relaxada. Pois é claro que ela o amava. Ele a tinha resgatado. Casara-se com ela. E ele era bonito, doce e gentil. Seria muito estranho se ela não o amasse. Essa não foi uma revelação de abalar a terra. E isso não fazia diferença nenhuma. Exceto para fazer seu coração doer um pouco mais. — Isso — ele disse suavemente. — Agora você conseguiu. Confie em você mesma. Confie na água. E ela sentiu as mãos dele deslizando debaixo dela. Ela manteve os olhos no rosto dele. Ela não afundou. E não precisava das mãos dele. Ela nunca se permitiria precisar delas. Ou dele, exceto de uma forma puramente material, pois ela iria morrer de fome sem o seu apoio. Mas não de qualquer outra forma. Ela podia querer, mas havia uma diferença entre querer e precisar. Ela poderia flutuar sozinha. Ela poderia viver sozinha. Ele flutuava ao seu lado, a mão dele ocasionalmente tocando a dela, e ela olhou para o céu. Era de um profundo, vasto azul, com algumas lufadas de nuvem branca. Tão relaxado. Tão bonito. Com uma dor surda na garganta.


Ela virou a cabeça para olhar para ele, engoliu um gole de água, e esbarrou e respingou até ficar de pé. A água chegou até o queixo. Eles deviam ter flutuado para longe. Houve um momento de quase pânico quando ela tossiu e caminhou com dificuldade para mais perto da margem, puxando-o pela mão. — Você deve ter boiado sozinha por pelo menos cinco minutos — disse ele. — Parabéns. Uma vez que você pode boiar, pode aprender a nadar em um instante. — Não hoje, porém — disse ela. — Permita-me aproveitar o triunfo de uma poderosa conquista de cada vez. — Eu vou nadar — disse ele, e voltou para água e começou a nadar para dentro do lago com golpes poderosos. Sophia, que estava de joelhos e assistindo, quase podia sentir seu prazer. Mas como ele iria encontrar o caminho de volta, homem tolo? Ele não tinha o Sr. Fisk ao lado dele hoje. Ela saiu da água e enrolou uma toalha sobre os ombros. Mas ela não se sentou ou tirou os olhos dele. Ela protegeu os olhos contra o sol com uma mão.


Capítulo Dezessete Por vários minutos Vincent soube o que um pássaro ou um animal selvagem deveria sentir quando escapava de sua gaiola ou jaula. Ele gastou toda sua energia reprimida no exercício, deleitando-se com sua liberdade, o poder de seus próprios músculos e a maravilha da água fria. Foi uma euforia que não durou, é claro. Pois, embora a princípio, a ausência de Martin fosse acrescentada à sua exuberância, não demorou muito para perceber o quão irresponsável tinha sido. Onde ele estava exatamente? Como ele voltaria para a ilha? Ele não tinha ideia de quão longe ele havia nadado ou em que direção. Parou de nadar e tentou medir a profundidade. Não podia sentir a parte inferior. Ficou tentado a entrar em pânico. Mas o pânico não ia fazer-lhe qualquer bem. Não era como os ataques familiares que surgiam do nada e sem nenhuma razão aparente. Este era um pânico potencial com base na realidade. Era algo sob seu controle. Passou pela sua mente o pensamento reconfortante de que, na pior das hipóteses, poderia nadar até colidir com um banco de areia. Ele não saberia onde o banco estava, mas poderia, pelo menos, sair e esperar até que alguém o encontrasse. Não era como se ninguém soubesse seu paradeiro. Mas a pobre Sophia ficaria encalhada na ilha. Ele iria se sentir um idiota — no mínimo.


— Eu estou aqui — a voz de Sophia chamou ao que parecia uma distância considerável. O problema era que, ao ar livre, não era tão fácil saber exatamente de onde uma voz estava vindo, especialmente quando se estava à alguma distância. — Aqui — ela gritou. Ele escolheu uma direção e nadou. — Para a esquerda — ela gritou e ele ajustou seu curso. Demorou um pouco. Mas ela o guiou com uma voz que diminuiu gradualmente, desde o grito até um volume não muito acima de uma voz falando normalmente. — Você deveria ser capaz de tocar o fundo agora — disse ela, finalmente. — Venha à sua esquerda. Estou aqui. Ela não veio buscá-lo. Ele estava grato por isso. Ele a teria assustado? Ele seria capaz de apostar que sim. Quando seus pés estavam em solo firme e seco, ela jogou uma toalha sobre seus ombros. — Oh, eu aguardo com expectativa o dia em que possa nadar até a metade, assim como você — disse ela. — Deve ser a sensação mais linda do mundo. E, no entanto, houve um ligeiro tremor em sua voz. — Obrigado por ter me guiado — ele disse. — Sem você, eu poderia ter chegado à margem oposta e me afastado para o canto mais distante do parque. — Eu não gostaria de ter que remar para casa — disse ela. — Embora seja realmente adorável lá atrás, Vincent. Pensei que havia apenas árvores além do lago, mas elas devem ter sido plantadas para efeito pictórico, para que pudessem


refletir na água. Além delas existem mais gramados, um beco e um quiosque. Há mais espaço do que alguém saberia o que fazer com ele. Embora eu tenha uma ideia. Ainda havia um tremor em sua voz. Ela sabia que ele tinha tido problemas em potencial. E ela não podia ter ido em seu socorro ou corrido para pedir ajuda. — É? — Ele disse enquanto se enxugava. — O quê? — Eu não vou dizer a você — disse ela. — É um segredo. Uma surpresa. Talvez apenas tolice, embora eu ache que pode ser feito. — Eu odeio surpresas quando tenho que esperar para saber o que são — ele disse a ela. Ela riu. Ele percebeu que ela se sentara na grama. Ele estendeu a toalha e sentou ao seu lado. — Eu sinto muito, Sophie — disse ele depois de um minuto ou dois. — Sente? — Por ter lhe causado ansiedade — disse ele. – Por forçá-la a manter um olho de águia em mim enquanto eu estava brincando. Foi irresponsável da minha parte. Não vai acontecer novamente. — Oh, você não deve fazer essas promessas — disse ela. — Você pode se sentir obrigado a mantê-las. Eu sei exatamente como você se sentiu. — Sabe? — Ele virou a cabeça em sua direção. — Algumas pessoas escalam montanhas impossíveis — disse ela. – Outras exploram lugares impossíveis. E elas fazem isso por nenhuma razão melhor do que simplesmente não poder ignorar o desafio de perigo ou de tentar o aparentemente impossível. Às vezes você não pode resistir ao desejo de ser livre de sua cegueira ou, pelo menos, levar-se até seus limites.


— Talvez — disse ele humildemente: — Eu simplesmente queria nadar. — Oh. Não valeu o meu belo discurso. — Ela riu. Martin não teria arranjado desculpas para ele. Ele o teria chamado de uma série de nomes, nenhum deles de cortesia, e teria merecido cada um deles. Ele se sentiu bem após o exercício, embora um tipo diferente de bem do que sempre sentia depois de uma sessão na adega. E sentiu sonolento. Podia sentir o cheiro da grama e água. Pássaros estavam cantando à distância, provavelmente entre as árvores na margem oposta. Havia insetos gorjeando e zumbindo mais por perto. Em algum lugar uma abelha zumbia. A vida no seu mais doce. Dedos quentes e leves como uma pena, afastaram seu cabelo úmido da testa. Ele ficou imóvel até que tivessem ido embora novamente. Ela estava sentada em vez de deitada ao lado dele. Ela deveria estar olhando para ele. Percebeu que casar-se com ela tinha sido uma boa jogada. Ele sempre era capaz de relaxar com ela. Gostava de suas conversas. Amava seu senso de humor. Ficava confortável. Gostava dela. Acreditava que ela gostava dele. Gostava de fazer sexo com ela. Que tolice que tinha sido imaginar que os sonhos concebidos quando ambos estavam sós e não muito felizes, sobreviveriam a um casamento que estava trazendo-lhes uma grande quantidade de satisfação. Esperava que os sonhos estivessem bem e verdadeiramente mortos e nunca fossem referidos novamente. Ele virou a cabeça na direção dela e estendeu a mão. Encontrou seus joelhos nus e percebeu que ela estava ajoelhada ao lado dele, olhando para ele. Porquê?


— Sophie — disse ele. Ela pegou a mão dele entre as suas. Algo bloqueou a luz do sol em seu rosto e ela o beijou. Se havia uma boca mais doce para beijar do que a de Sophia, ele não poderia imaginar. Ele a envolveu em seus braços. Ela caiu sobre ele e estendeu as mãos em seus ombros. Eles se beijaram calorosamente, preguiçosamente por um tempo, explorando as suas línguas, seus dentes beliscando suavemente os lábios. Desfrutando um do outro. — Mm — disse ele. — Mm — ela concordou. — Eu suponho — disse ele — que cada jardineiro a meu serviço e alguns dos funcionários internos estão alinhados em torno do perímetro do lago apreciando o show? — Nem um único — disse ela. — Eles teriam que cortar caminho através da selva em frente e temos o templo atrás de nós. — Estamos bem escondidos, então? — Sim. — Seus lábios estavam tocando os dele. — Bastante escondidos. Ele estendeu a mão para tirar as ceroulas, mas ela estava ajoelhada ao lado dele novamente, e seus dedos se enfiaram sob o cós e as puxaram para baixo para ele. Ele levantou os quadris, e ela as deslizou até tirar. Quando ela tinha se tornado tão ousada? Ela se inclinou sobre ele e beijou seu umbigo. Moveu os lábios para cima, beijando-o até chegar aos lábios novamente. Mm, de fato!


— A terra não seria um colchão macio para você deitar, Sophie — disse ele. — Venha em cima de mim. Ele foi muito audacioso, percebeu com uma pontada de vergonha. Sua vida amorosa nunca parecera rotineira ou monótona. Cada encontro tinha sido diferente de todos os outros. No entanto, ela sempre tinha se deitado de costas. Ele sempre tinha vindo por cima dela. Ele nunca ganharia prêmios como o amante mais inovador do mundo. Ele a puxou para cima dele e a sentiu pequena, docemente quente, com cheiro de água do lago e do calor do verão. Ele a beijou novamente e moveu as mãos para baixo, sobre seu traseiro, para agarrar suas coxas e abrir as pernas de ambos os lados de seus quadris. O movimento dela não foi longo. Ela não usava nada por baixo. Ela dobrou os joelhos e levantou-se sobre eles. Ergueu o corpo e logo estava montada nele. Ele sentiu como se alguém tivesse colocado mais lenha no sol para aumentar seu calor. Sentiu como se tivesse abandonado todo o autocontrole e endureceu com mais excitação, se isso fosse possível. Dobrou os próprios joelhos e deslizou os pés em cima da grama. Colocou as mãos nos quadris dela para posicioná-la. Mas ela já o estava tocando, os dedos de ambas as mãos movendo-se sobre ele de forma tão leve que ele pensou que poderia muito bem ficar louco. Ele inclinou o queixo para trás, apertou a cabeça na grama, e a deixou conduzir. Ela o atraiu e desceu sobre ele em um movimento firme e suave. Ele quase chegou ao clímax sem mais delongas. Ela emitiu um profundo som baixo em sua garganta.


Levantou-se, quase o colocando para fora, e desceu novamente, e repetiu o movimento até que o estava montando com firmeza, em um ritmo constante. Ela estava apertando os músculos internos ao redor dele também e, depois de alguns momentos, girou os quadris acompanhando o movimento. Esta era Sophie? Se ele ignorasse a dor de estar tão completamente excitado, e ele conseguiu por um tempo, o prazer seria requintado. Ela estava quente, molhada e pulsando sobre ele. Ele empurrava em suas descidas e retirava-se em suas subidas, combinando seu movimento com o dela, até que sentiu o ritmo frenético, sentiu que ela estava chegando a algo que ela não conhecia ou entendia. Ele agarrou seus quadris com mais firmeza, dirigiu-a para cima, retirou-se e dirigiu-a para baixo. Ela ficou tensa, gritou e caiu sobre ele. Ele a guiou novamente, com energia imprudente, até que a seguiu ao estado glorioso de liberação sexual. Ela ainda estava de joelhos. Ele moveu suas mãos até a cintura e a trouxe para baixo para deitar em cima dele. Ele endireitou as pernas em cada lado das dela. Enfiou os dedos pelos cabelos dela e segurou um lado de seu rosto contra seu ombro. Bom Deus! — Feliz? — Perguntou a ela. — Mm — ela murmurou contra seu ombro. Ele preferiu acreditar que ambos tinham cochilado quando acordou e se sentiu desconfortável. — Sophie? — Mm?


— Estamos terrivelmente quentes e suados, não é? — Disse. Eles estavam bastante escorregadios com a umidade. Mesmo sua roupa de baixo estava úmida. — Mm. — Levante-se mulher — disse ele — e me leve até a água. Ele espirrou água nela quando afundaram até a cintura, e ela espirrou de volta. Ela tinha a vantagem, é claro, porque podia ver onde estava mirando. Por outro lado, ele foi capaz de nadar debaixo da água, golpeá-la atrás dos joelhos para que ela caísse, engasgasse e começasse a tossir. Ele deu um tapa nas costas e passou um braço sobre os ombros dela. — Você planeja sobreviver? — Perguntou a ela. — Se eu puder parar de tossir — disse ela, e tossiu novamente. — Será que eu engoli todo o lago? — Eu não posso dizer — disse ele. — Eu não posso ver. — Mas você pode sentir. — E seu pé esquerdo bateu por trás de seus próprios joelhos quando ele menos esperava, fazendo-o descobrir pessoalmente que ela não tinha, de fato, engolido todo o lago. Ela estava rindo, realmente muito alegremente, em vez de sentindo pena quando ele emergiu.

A senhorita Debbins era uma fazedora de milagres. Depois de duas aulas de música e uma hora por dia de prática entre as aulas, Sophia foi capaz de entender o sentido das linhas, símbolos e pequenas notas com suas caudas de várias penas em uma partitura. Mais importante, ela foi capaz de reproduzir os sons dessas notas no teclado do piano e até mesmo tocar com as duas mãos. Isso


parecia impossível para ela no início, quando era esperado de cada mão tocasse algo diferente, mas foi possível mesmo que ela estivesse praticando o mais simples dos exercícios. Além disso, a senhorita Debbins teve a paciência para ajudar a melhorar Vincent na harpa, até o ponto em que ele pudesse tocar algumas melodias simples sem um único erro. A reprodução de música nunca seria sua primeira paixão, porém, Sophia logo percebeu. Ela perseverou porque podia e porque estava carente de realizações esperadas de qualquer mulher. E porque um instrumento musical criava som, um som encantador, harmonioso se fosse tocado corretamente, e o som era de suma importância para o marido. Sua primeira paixão nunca poderia trazer alegria a ele, exceto que ele desfrutasse ao ouvi-la falar sobre isso. Sua primeira paixão seria sempre o desenho. A senhorita Debbins trouxera consigo, da casa de seu irmão, uma irmã viúva mais jovem, que tinha a intenção de viver permanentemente com ela. E Agnes Keeping era pintora. Ela trabalhava principalmente com aguarelas, e seu tema preferido eram as flores silvestres. Sophia achou seu trabalho bastante requintado, e Agnes se maravilhou com as caricaturas de Sophia e riu com prazer sobre suas ilustrações da história, especialmente quando as leu junto com os desenhos. Sophia teve o cuidado de explicar que as próprias histórias eram esforços conjuntos com Vincent, com exceção da história do dragão e do rato original, da qual ela era a única autora. — O que você e seu marido têm é um dom — disse Agnes. — É realmente uma pena que apenas os sobrinhos de Lorde Darleigh tenham visto esses desenhos e ouvido essas histórias. E eles vão voltar para suas casas dentro de uma semana, você diz? Estes pequenos livros de vocês devem ser publicados. Sophia riu, satisfeita.


— Eu tenho um primo — disse Agnes. — Bem, na verdade ele é primo de meu falecido marido. Ele mora em Londres. Ele ... Bem. Vou escrever para ele, com a sua permissão. Posso? — Claro. — Sophia fechou os livros. Agnes não tinha explicado porque o primo poderia se interessar por eles, e ela não perguntou. Deixou a história original de Bertha e Dan com Agnes quando voltou para casa. Agnes se tornou sua primeira amiga real. E as senhoras do grupo de costura tornaram-se suas primeiras amizades sociais, embora Sophia se sentisse bastante intimidado pelo fato de que todas elas, sem exceção, eram costureiras muito melhores do que ela. Na verdade, porém, pareceu-lhe que isso as encantava, pois estavam todas ansiosas para ajudá-la, ensiná-la e louvar seus esforços, e ela, de fato, melhorava sob a sua orientação especializada. Ela até começou a desfrutar da agulha. Percebeu que Vincent tinha razão no que ele havia dito naquela tarde, quando eles tinham remado para a ilha. Todo mundo precisava de amigos de seu próprio sexo. Ele tinha começado a fazer amigos entre seus vizinhos. O Sr. Harrison, um cavalheiro casado não mais do que alguns anos mais velho que Vincent, sua esposa era um membro do círculo de costura, levou-o à pesca com alguns outros colegas e, de alguma forma, eles planejaram uma maneira bastante eficaz para que ele pescasse. E o Sr. Harrison começou a vir à casa todos os dias para ler os jornais para Vincent e depois os dois se sentavam para discutir política e economia. Não foi, no entanto, como se ela e Vincent se separassem. Eles, muitas vezes, sentavam-se sozinhos juntos em sua sala de estar privada tarde da noite e, às vezes, saíam juntos ou tocavam juntos na sala de música. Uma vez


cavalgaram juntos, embora eles não estivessem sozinhos naquele momento. O garoto do estábulo pairava perto de Sophia e o Sr. Fisk andava ao lado de Vincent. Era uma lembrança agradável porque Vincent tinha estado feliz e despreocupado, e ela estivera feliz por sua própria ousadia, mesmo que Vincent tivesse dito a ela que se se arrastasse mais lentamente, estaria se movendo para trás. Sophia estava voltando a pé, uma tarde, de uma sessão de costura, quando viu o Sr. Fisk caminhando sozinho dos estábulos em direção à casa. Ele provavelmente estava observando a sessão de treinamento com Shep em volta nos piquetes. O Sr. Croft estava vindo todos os dias, agora que o cão estava quase treinado, e ele e Vincent estavam se tornando mais e mais acostumados um ao outro, e cada vez mais capazes de se mover como uma unidade harmoniosa. A única coisa que Sophia tinha encontrado um pouco decepcionante foi a instrução firme do Sr. Croft de que o cão nunca deveria ser considerado um animal de estimação da família, que ele nunca deveria ser acariciado por ninguém, exceto Vincent ou encorajados a seguir a ninguém ou sentar-se com ninguém, exceto ele. Fazia sentido, é claro. Se o cão fosse facilmente distraido, então ele não poderia ser confiável para ser os olhos de Vincent em todos os momentos e em todas as circunstâncias. O Sr. Fisk acenou com a cabeça em direção à Sophia e teria corrido para dentro da casa antes que ela chegasse até ele. — Sr. Fisk — ela chamou. — Por favor, aguarde. Ela nunca soube se ele gostava dela ou não. Ela estava um pouco com medo dele, se a verdade fosse dita, embora não no sentido físico. Ele nunca iria machucá-la ou falar de forma desrespeitosa com ela. Mas velhos hábitos não morriam facilmente. Claro, ele estava profundamente ligado a Vincent, e


definitivamente não a tinha considerado uma noiva digna para seu mestre e amigo em primeiro lugar. Ela não sabia se ele ainda se sentia dessa forma. Não importava, exceto que, é claro, que o fazia. Ele ergueu as sobrancelhas e parou de andar. — Ele está indo bem? — Perguntou ela. — Com Shep? — Croft acredita que seu trabalho aqui está no fim, milady — disse ele. — Sua senhoria percorreu todo o caminho até o lago e voltou, sem ninguém, exceto o cão e sem tocar no corrimão sequer uma vez. O corrimão é desnecessário, então? — Perguntou a ele. — Não, minha senhora — disse ele. — Qualquer coisa que possa ajudar sua senhoria a um pouco mais de liberdade vale a pena ter, e não é sábio, para ele, depender inteiramente de apenas uma pessoa ou coisa. As pessoas podem morrer. Assim, como cães. Corrimãos podem cair. — Eu queria pedir um conselho — disse ela. Ele olhou para ela com um pouco de cautela. — Agora que o caminho foi terminado, — disse ela – em breve os trabalhadores começarão a limpar a clareira, tornando-a segura para o meu marido e mais perfumada para seu prazer. O jardineiro-chefe sugeriu a plantação de ervas, bem como árvores e arbustos adequados. Mas eu tenho uma outra ideia na minha cabeça que pode ser totalmente tola e pouco prática. Qualquer um que a ouvir pode muito bem rir de mim. Mas você vai saber se é tolice. Ela mordeu o lábio inferior, mas ele não disse nada. Ele só olhou fixamente para ela. Ele era intimidantemente grande e forte. — Não há quase nada no interior dos muros ao longo do lado leste do parque — disse ela. — Só grama, realmente, em um trecho de duas milhas no total. E no lado sul, a floresta não preenche todo o caminho para o muro leste.


Há pelo menos meia milha de terra nua. Ao norte, também, os montes não se estendem por todo o caminho até o muro. Há uma grande faixa de terra nivelada por trás deles. Ao todo, você pode caminhar ao longo da parede interior, começando no sul, toda a volta para o canto noroeste, sem encontrar qualquer obstáculo significativo. Isso compreende quase cinco milhas. Ela sabia. Ela tinha andado toda a distância, uma tarde chuvosa, quando Vincent estava ocupado com seu mordomo e nenhuma de suas irmãs imaginava um exercício ao ar livre. — Milady? — Ele a estava olhando, perplexo. — Como um hipódromo, não é? — Perguntou a ele. — Quando os cavalos correm, eles não costumam percorrer uma linha reta do início ao fim. Eles correm pistas curvas sem orientação, não é, se nenhuma ordem foi dada? Ao invés de correr para a frente, eu quero dizer, e colidir com o muro. — Se a curva for suave o suficiente. — Ele estava franzindo a testa. — É isso que está pensando, milady? — Sim — disse ela. – Acha que é possível, Sr. Fisk? Ele poderia andar a cavalo sem perigo e por uma distância considerável. Ele poderia até mesmo galopar. E, se houver uma cerca em ambos os lados do curso, como teria de ser, ele poderia correr também. Poderia correr cinco milhas se quisesse, sem parar. Dez se ele fosse e voltasse. Ele estava olhando para seu rosto, preso aos olhos dela. Ela não podia ler sua expressão. Ele tinha a expressão típica de um servo. — É uma idéia tola? — Ela mordeu o lábio novamente. — Perguntou a ele? — Ele quis saber. Ela balançou a cabeça. — Ainda não.


— Os jardineiros não poderiam fazê-lo por conta própria — disse ele, franzindo a testa. — Muitos trabalhadores teriam de ser contratados. Custaria uma fortuna. — Ele tem uma fortuna. Por um momento, seus lábios tremeram e ele quase sorriu. Ele a surpreendeu então. — Você o ama? — Ele perguntou, sua voz abrupta, mesmo dura. Era uma pergunta impertinente, mas não lhe ocorreu repreendê-lo ou até mesmo se sentir ofendida. Ela abriu a boca para responder e fechou-a novamente. — Ele é meu marido, Sr. Fisk — disse ela. Ele assentiu. — Parece possível para mim — disse ele. — Mas o que eu sei? Também soa como um projeto enorme. Seria um sonho para ele, porém, não é? — Sim — disse ela. — Obrigada. Ela virou-se bruscamente na direção dos estábulos, deixando-o ali de pé, olhando para ela. Sentia-se perturbada. Ele deveria estar pensando que ela era uma idiota. Mas… Seria um sonho para ele, porém, não é? A sessão de treinamento acabou, parecia. Vincent e o Sr. Croft estavam no outro lado do estábulo, conversando. Shep, o cão pastor preto e branco, estava sentado tranquilo, mas alerta ao lado de Vincent, que detinha a coleira curta na mão. O Sr. Croft estava fora do seu campo de visão.


— ... com o seu corrimão foi tudo idéia de sua senhora — ele estava dizendo. — Bem como o cão. E agora o campo a ser nivelado e cercado para você também? — Sou muito afortunado — disse Vincent enquanto Sophia desacelerava seus passos, sorrindo. — Você tem toda uma casa cheia de senhoras para cuidar de todas as suas necessidades — disse o Sr. Croft. — Que homem não teria inveja, milorde? — Ele riu gostosamente. — Sim. — Vincent riu com ele. – Todas mulheres para cuidar de mim. E agora minha esposa também. Mas, aos poucos estou me libertando. Ou, para ser justo, minha esposa está desenvolvendo maneiras de me libertar. E, em seguida, Sophia desejava não ter desacelerado a fim de ouvir coisas boas sobre si mesma. E agora minha esposa também. Mas, aos poucos estou me libertando. Ele não tinha falado com ressentimento. Pelo contrário. Ele tinha lhe dado o crédito por ajudá-lo a ter mais liberdade de movimento. E ela tinha feito isso deliberadamente. No início, queria recompensá-lo por tudo o que ele tinha feito por ela, encontrando maneiras de tornar sua cegueira menos perturbadora. Ela teria conseguido? Oh, ela não queria pensar sobre o miserável acordo que tinham feito. E ele lhe havia dito que não o fizesse. Mas isso não significava que não existia, não é? Ele, obviamente, ainda ansiava muito por liberdade.


— Boa tarde, milady — disse o Sr. Croft quando ela apareceu. Ele tirou o chapéu para ela, sorriu e inclinou a cabeça. Vincent virou o rosto para ela e sorriu calorosamente. — Sophie? — Disse. — Você aproveitou de seu grupo de costura? — Sim — disse ela. — Julia Stockwell levou sua nova bebê, e nós passamos muito tempo arrulhando sobre ela enquanto costurávamos. Por que os bebês sempre têm esse efeito sobre as pessoas? É a maneira da natureza se assegurar de que eles nunca serão negligenciados? Como vai, Sr. Croft? A Sra. Croft já se recuperou de sua mão queimada? — As marcas ainda estão lá, milady, — disse a ela — mas o pior da dor parece ter passado. Obrigado. Vou dizer a ela que perguntou. Acho que teve uma idéia vencedora aqui, milady. Este cão levou milorde todo o caminho até o lago e voltou, sem qualquer percalço. E ele ainda é muito jovem. — Eu acredito, Sr. Croft, — disse ela — que quando se descreveu como o melhor treinador de cães no município, não exagerou. — Obrigado, milady — disse ele. — E hoje o cão fica aqui. — Ele fica, disse Vincent. — Você não vai levar meus olhos para casa por mais tempo, Croft. Preciso deles comigo. O Sr. Croft entrou no estábulo para recuperar seu cavalo e carroça, e Sophia e Vincent começaram a caminhada de volta para a casa. Não havia bengala à vista. Apenas Shep ao lado de seu mestre. Sophia não tomou seu braço como ela costumava fazer. Meus olhos. — Sophie, — disse ele, pegando a mão dela — como eu posso lhe agradecer?


— Por contar-lhe sobre Lizzie e seu cão? — Ela disse. — Mas porque eu iria manter isso em segredo? — E há o caminho para o lago — disse ele. – E, em breve, haverá o caminho pela campina. Deverá haver ervas lá, já há, e árvores perfumadas? De quem foi a idéia? — As árvores eram minhas. Eu não pensei sobre as ervas, mas elas vão ficar maravilhosamente bem. Acho que você vai desfrutar de um passeio lá. E tenho uma outra idéia — ela acrescentou com um coração pesado. — Vou falar sobre isso mais tarde. — O grande segredo? — Disse. — O que você mencionou no lago? — O Sr. Fisk acha que é uma boa idéia — disse ela. — Martin? — Ele virou a cabeça em sua direção. — Você falou com ele? — Agora há pouco. — Estou feliz. — Sorriu. — Ele acha que você é boa para mim, você sabe. A primeira vez, ou as duas primeiras, ele disse isso quase relutante. Agora ele não o faz. Ele aprova você e admite que fiz uma boa escolha. — Oh — ela disse, mas os elogios não levantaram seu ânimo. Ela era apenas uma outra mulher em sua vida. Ele amava sua mãe, avó e irmãs, e ela acreditava que ele gostava dela. Mas, mesmo assim, era apenas uma outra mulher para estar entre ele e a independência que desejava. Shep interrompeu seus passos e, quando Vincent parou também, o cão se virou na frente dele, levou-o ao degrau e parou novamente, e, em seguida, levou-o para cima. — Nós vamos para a sala de estar? — Vincent perguntou quando entraram. — É hora do chá? Nós não o perdemos, não é?


— Não — Sophia assegurou. — Tive o cuidado de voltar a tempo. Todos estão em casa hoje. Vamos sentir falta quando partirem. — Eu acho que todos ficarão aliviados e desapontados em igual medida — ele disse a ela. — Aliviados por você ser a mulher que sempre quiseram para mim, e decepcionados por não serem mais necessários para organizar a minha vida. Não. Havia Sophia para fazer isso por eles. O Sr. Croft tinha passado os últimos dois dias na casa com Shep, treinando-o para levar Vincent a todos os aposentos que ele frequentava. Ele levou-os agora pelo corredor, até a escada e à sala de estar, onde foram recebidos com um coro de saudações barulhentas. Todos estavam lá, incluindo todos os cinco filhos, todos com idades entre dois e cinco anos. Caroline, de Ellen e Percival de Ursula estavam brincando com Tab, Sophia tinha dado permissão anterior para que eles o buscassem em sua sala de estar, uma vez que ele nunca pareceu se importar de ser abraçado, maltratado e arrastado como um brinquedo premiado. Ele se sentou e olhou Shep com cautela, arqueando as costas e se preparando para sibilar. Shep olhou com desdém para trás e um entendimento foi atingido, uma vez que tinha sido ná véspera, quando os dois animais se encontraram pela primeira vez — Você fica fora do meu espaço, e eu vou ficar fora do seu. Sophia se sentou em um sofá aconchegante e Vincent sentou ao lado dela. Sua mãe tinha ficado horrorizada com a idéia de um cão o levando, sem qualquer outro tipo de assistência, e tinha sido bastante vocal em sua oposição. Ela pensou que Sophia estava sendo imprudente com a segurança de seu filho. Mas ela tinha visto o cachorro em ação dentro de casa e, provavelmente, o tinha visto, com a avó, pela janela esta tarde com Vincent.


A pequena Ivy, filha de Ellen de dois anos de idade, subiu ao colo de Vincent e ele lhe deu o relógio de bolso em uma corrente para brincar. Sophia achava um pouco tocante que ele o usasse quando não podia vê-lo para saber as horas, mas ele sempre o fez. — Oh, — disse a mãe de Vincent logo após a bandeja de chá chegar — há uma carta para você, Sophia. Coloquei-a em sua sala de estar. Era sempre emocionante Sophia receber uma carta. Era algo que nunca tinha acontecido antes de seu casamento e não acontecia muitas vezes agora. Mas ela recebia da Sra. Parsons em Barton Coombs, que lhe contara que sua tia, Sir Clarence e Henrietta aparentemente tinham voltado para Londres, para o que restava da temporada. E ela tinha recebido várias vezes de Lady Trentham, uma vez de Lady Kilbourne e até mesmo da austera Lady Barclay, que estava de volta à Cornualha, onde morava. — Obrigada. — Ela sorriu. Iria lê-la mais tarde e, em seguida, ter todo o prazer de sentar à pequena escrivaninha na sala de estar e responder. — Tab ganhou peso — disse ela enquanto bebia seu chá. — E o pelo está perfeitamente liso e brilhante. — Você também ganhou peso, Sophia — comentou Anthony. — Anthony! — Amy lançou seu olhar para o teto. — Isso é exatamente o que toda mulher sonha escutar. — Não, não — disse ele. — Eu não quis dizer que você está ficando gorda, Sophia. Só que você perdeu aquela aparência esquelética que tinha quando chegou aqui. Seu rosto se ajustou às suas características. O peso extra fez isso.Vou fechar minha boca agora antes que Amy faça isso por mim. Vincent abriu um sorriso, sua avó sorriu e acenou com a cabeça e até mesmo piscou para Sophia. Sua mãe sorriu e acenou com a cabeça também.


Era tão óbvio para eles, então, mesmo que ela não tivesse detectado qualquer ganho de peso ainda? Como poderia? Ela tinha se casado há menos de dois meses. Mas, sem dúvida, era verdade. Ela tinha escutado as mulheres falando no círculo de costura, e ela tinha todos os sintomas certos, se sintomas fosse a palavra correta para o que não era uma doença. Ela olhou para suas mãos e esperava que não estivesse corando também visivelmente. E se sentiu, de repente, miserável. Pois, embora Vincent ficasse certamente satisfeito com a possibilidade de ter um herdeiro, ele realmente não queria ser confrontado com qualquer esposa ou criança. Ele nunca quis isso. Ainda não, de qualquer maneira. E havia uma coisa que não tinha considerado. Se eles deveriam decidir, quando chegasse a hora, que iriam viver separados, quem ficaria com a criança? Ela suspeitava que eles permaneceriam juntos depois de tudo, mas não com qualquer grau de felicidade. Não que a felicidade tivesse sido parte do negócio. Satisfação, então. Eles não viveriam perfeitamente satisfeitos. Tab tinha vindo se enroscar no sofá ao lado de Sophia, e Percival veio sentar-se em seu colo para que pudesse passar sua pequena mão sobre o pelo do gato. Sophia sorriu para ele e sentiu a dor de lágrimas não derramadas na parte de trás de sua garganta.


Capítulo Dezoito As irmãs de Vincent e suas famílias logo voltariam para suas casas, e sua avó voltaria para Bath no outono. Ela sentia falta de seus amigos e de sua vida lá. Por uma razão semelhante, sua mãe estava seriamente considerando voltar para Barton Coombs e Covington House. A Sra. Plunkett poderia ser persuadida a se juntar a ela lá, ela tinha certeza. Vincent ficaria triste de ver todos partindo. Ele era realmente apaixonado por sua família, e mais ainda agora, quando já não pairavam sobre cada movimento dele e insistiam em fazer para ele tudo que estava ao seu alcance. Eles haviam aceitado Sophia e até mesmo se afeiçoado a ela, ele acreditava. Sua mãe falou favoravelmente sobre o que ela tinha feito por ele durante dois curtos meses, embora ela tivesse tido suas dúvidas sobre o cão. Ficaria triste de ver todos partindo, mas ficaria feliz também. Eles seriam capazes de relaxar em suas próprias vidas sem ter que se preocupar sobre cada momento dele, e ele estaria sozinho com Sophia. Tinha dito a ela, mesmo antes de se casarem, que pensava que poderia ser confortável ficarem juntos, e eles estavam. Pelo menos ele estava, e achava que ela estava gostando de sua vida com ele também. Ele esperava que eles pudessem ficar confortáveis juntos por toda a vida. Ele esperava muito. Embora tivesse se tornando mais e mais independente, graças, em muitos aspectos, aos esforços de sua esposa, não conseguia imaginar sua vida sem Sophia. Na verdade, o pensamento era terrível demais para contemplar.


Estavam sentados lado a lado no sofá em sua sala de estar privada, na noite do dia em que Croft havia declarado completo o treinamento de Shep. O gato estava deitado aos pés de sua esposa, a cauda enrolada sobre os pés de Vincent. Shep estava ao lado do sofá, perto dele. Poderia baixar o braço para o lado e tocar a cabeça do cão. Podia ouvir o cão soltar um grande suspiro e se acomodar para dormir. Ele ainda não conseguia compreender plenamente aquela maravilha. Era quase como ter olhos de novo. Bem, não exatamente, talvez, mas, certamente, iria restaurar uma grande quantidade de sua liberdade de circulação. Não estava realmente pensando sobre o cão ou sua independência, porém, no momento. Ele estava ouvindo a leitura de Sophia em voz alta de Joseph Andrews, de Henry Fielding, um livro que ambos vinham desfrutando no último par de semanas. Ela o colocou de lado depois de terminar um capítulo. — Viver em uma casa com uma grande biblioteca — disse ela — é um pouco como viver no céu. — Eu poderia sentir que estava no céu, — disse ele — se não estivesse sendo atormentado por um segredo não revelado. — Oh, isso. — Ela hesitou. — Você pode pensar que sou muito tola ou intrometida. Pensei que poderíamos ter uma pista de corrida construída no interior dos muros leste e norte do parque e no interior dos muros da parte do lado sul também, onde não há árvores. Seria corretamente nivelada, cercada em ambos os lados e suavemente curvada nos cantos para que um cavalo pudesse percorrê-la sem qualquer orientação particular. Teria quase cinco milhas de comprimento, e você seria capaz de cavalgar ao longo dela e até mesmo galopar. E seria capaz de usá-la como uma pista de corrida também se desejasse, por sua conta. Ou até mesmo com Shep. Ele, sem dúvida, apreciaria isso. Você poderia ter uma grande dose de liberdade lá.


Seu primeiro instinto foi de rir. Era uma idéia absurdamente grandiosa. Apenas Sophie ... Ele não riu. Em vez disso, visualizou essa pista em sua mente. Quase cinco milhas de comprimento. Sem obstáculos. Em uma forma que um cavalo poderia percorrê-la sem nenhuma orientação real. Em uma forma que ele pudesse percorrê-la. Se movimentar para frente livremente, por milhas. O ar fresco batendo em seu rosto. Liberdade. — Seria uma tarefa muito grande para os jardineiros — disse ela. – Mais trabalhadores teriam de ser contratados. E um projetista. Provavelmente, seria necessário um longo tempo para projetar e construir, e seria caro. Ele engoliu em seco e lambeu os lábios. Quase podia sentir-se montando, sozinho. Levando o cavalo ao galope. Galopando. Por cinco milhas. Ele quase podia sentir-se em execução, esticando os músculos, caindo em um ritmo do movimento, esgotando-se ao longo de cinco milhas. Talvez dez, se ele corresse de volta. Ou simplesmente cavalgando, cavalgando rapidamente, sem um só medo de onde seu próximo passo o levaria. Ele tinha sido cego por seis anos. Por que só agora ... Porque ele não tinha encontrado Sophia antes. A imaginação fértil dela não era apenas para a fantasia. — O Sr. Fisk acha que é uma boa ideia — disse ela. Sua voz estava curiosamente baixa, e ele percebeu que não tinha falado qualquer de seus pensamentos em voz alta. — Talvez você não o faça. Talvez pense que estou cuidando de sua vida um pouco demais. Ele virou a cabeça para sorrir para ela.


— Você vai montar lá comigo, Sophie? — Perguntou a ela. — Nós poderíamos levar uma cesta de piquenique, pois teríamos de parar no meio do caminho para nos alimentar. — Oh — ela disse. — Como você é horrível. Eu não sou tão lenta a cavalo. — Eu vou te ensinar a andar como o vento — prometeu a ela. — Você acha que isso é uma idéia ridícula? — Ela perguntou. — Ou que tenho muitas idéias? Eu deveria cuidar mais da minha vida? Ela estava soando estranhamente insegura. Ele pensou que ela tinha conseguido superar isso. — Estou em êxtase — disse ele. — De onde é que todas essas idéias vêm? — Eu acho que de uma vida de apenas ser capaz de observar e nunca ser capaz de fazer — disse ela. — Eu tenho vinte anos de inércia para compensar. — Que o céu me ajude, então — disse ele. — A seguir você estará construindo uma máquina de voar para mim, que irá guiar-se pelos céus e encontrará o seu caminho de casa novamente. — Oh — ela disse. — Oh, Vincent, seria uma idéia grande demais. Mas poderíamos criar algumas histórias maravilhosas em torno dessa idéia. Poderíamos… Mas ele estava rindo, e ela parou de falar para se juntar a ele. — Eu acho que sua idéia é brilhante — ele disse a ela. — Acho que você é brilhante. Você já leu a sua carta? — Mi... oh, minha carta. Eu tinha esquecido. — Ela se levantou. — Está lá em cima da lareira me olhando no olho todo o tempo desde que me sentei aqui.


Ouviu-a atravessar a sala. — Não reconheço a letra — disse ela. — Eu me pergunto... — Há uma maneira de satisfazer a sua curiosidade, você sabe — ressaltou. Ele ouviu um selo quebrar e o farfalhar de papel. — Talvez, — disse ela – seja de um de seus amigos, Vincent, escrevendo para você para eu ler em voz alta. Tinha acontecido algumas vezes. Tinha havido cartas de George e Ralph. Houve um silêncio bastante longo. — O quê foi? — Perguntou. — Meu tio — disse ela. — É de Sir Terrence Fry. Sentia-se instantaneamente com raiva. — Ele está de volta à Inglaterra — disse ela — e já ouviu falar do meu casamento. Houve outro longo silêncio. — Venha — disse ele por fim, estendendo a mão. Ela veio sentar-se ao lado dele novamente, embora não tomasse sua mão. — Será que ele quer felicitá-la? — Perguntou. — Ou solidarizar-se? Ele podia sentir sua hesitação. — Um pouco de ambos, suponho — disse ela. — Ele está feliz por eu estar segura socialmente e financeiramente. E penalizado por ela ter se casado com um homem cego. Ela não disse isso em voz alta. Não precisava.


— Ele não tem o direito. — Sua voz estava tremendo. — Ele não tem o direito. Não, ele certamente não tinha. Vincent ergueu a mão, encontrou sua nuca, e esfregou os dedos suavemente sobre ela. — Ele falou com a tia Martha — disse ela. — Ou melhor, ela falou com ele. Ela explicou como eu armei uma armadilha para você. — Por Deus, ela fez isso? — Ele disse. — Mas ele não está certo de que acredita nela — disse ela. — Ele quer ouvir a história de meus próprios lábios. — Ele espera que você vá a Londres para atende-lo? — Não — ela disse. — Ele quer vir aqui. Ele abriu a boca para dizer-lhe exatamente o que ele achava da descarada ideia. Mas a fechou de novo, sem dizer as palavras. Sir Terrence Fry era seu parente, um dos muito poucos. — Será que ele tem uma esposa? — Ele perguntou. — Ela morreu há muitos anos — disse a ele. — Algum filho? — Nenhum sobreviveu à infância — disse ela. — Só Sebastian. — Sebastian? — Seu enteado — explicou ela. — Sua esposa era viúva quando ele se casou com ela. — E ele nunca se comunicou com você até agora? — Perguntou a ela. — Ele nunca veio visitar o seu pai? Ele não compareceu ao seu funeral? Ou de sua tia, irmã dele?"


— Ele estava fora do país — disse ela. — É um diplomata. E não, eu nunca o conheci ou tive notícias diretamente dele. Até agora. — Diretamente — disse ele, franzindo a testa. — E indiretamente? — Ele escreveu para Sebastian e pediu-lhe para me visitar quando fui morar com a tia Mary — disse ela. — Ele queria saber se eu estava sendo bem cuidada lá, e feliz. — Ele fez isso? — Ele ainda estava franzindo a testa. — E seu enteado a visitou? — Mas ele deveria ter ido se ela sabia sobre o pedido. — Sim — disse ela. — Um certo número de vezes. E por alguma razão ele se lembrou de perguntar se sua tia Mary tivera filhos, se ela tinha algum primo em Londres. Ela tinha respondido que não, mas tinha havido alguma hesitação, e ele tinha notado em seguida. Às vezes havia um mundo de sentido na hesitação. — Ele é mais velho que você? — Perguntou a ela. — Oh, sim — disse ela. — Oito anos mais velho. Ela tinha quinze anos quando seu pai morreu. O primo teria vinte e três. A idade de Vincent agora. Ele massageava a parte de trás do seu pescoço e poderia dizer que sua cabeça ia mais longe do que a leitura da carta fazia necessário. Ele adivinhou que seu queixo estava contra seu peito e que, talvez, seus olhos estivessem fechados. — Conte-me sobre ele — disse ele. — Conte-me sobre essas visitas. — Ele era muito bonito, — disse ela — amável e cheio de vitalidade e confiança. Ele esperou.


— Ele foi muito gentil — disse ela. – Fizemos amizade e conversamos bastante. Ele me levou para caminhar e passear em sua carruagem. Me levou para galerias, igrejas antigas e uma vez ao Gunter para um sorvete. Eu estava terrivelmente deprimida pela morte do meu pai. Ele ajudou a aliviar a dor. Ele esperou novamente. O ar sobre eles foi tomado de uma terrível dor. Ele esperava que não fosse o que ele suspeitava que poderia ser. — Eu era muito tola — disse ela. — Me apaixonei por ele. Era surpreendente, suponho. Na verdade, teria sido surpreendente se eu não tivesse. Mas eu disse a ele. Na minha loucura, pensei que ele tinha se apaixonado por mim também. Eu disse a ele. — Você tinha quinze anos, Sophie — disse ele, parando a mão em seu pescoço. — Ele riu de mim. Ah, Sophie. Tão jovem e frágil. Nessa idade ela teria sido vulnerável, mesmo que o resto de sua vida tivesse sido tão sólida como uma rocha. — Ele riu e me disse que eu era uma boba, uma pequena pivete ingrata. E eu era. De todo modo, fiquei com o coração partido. Também me senti ferida e humilhada por seu riso e aquilo se contorceu na minha memória, minha ingenuidade. Mas eu me recuperei. Eu acho que sim. Suponho que não é incomum para as meninas, cairem perdidamente apaixonadas por homens bonitos e, em seguida, ter os seus sonhos e esperanças frustradas. — Porque você não se recuperaria? — Ele perguntou quando ela não continuou. — Estávamos na sala de estar na casa da tia Mary — disse ela — e havia um espelho. Um espelho grande. Ele me levou até a frente dele enquanto ficou atrás de mim me explicando porque era absurdo, e até mesmo um pouco


insultante, me apaixonar por ele e esperar que ele se apaixonasse por mim. Ele me fez olhar para a minha figura, meu rosto e meus cabelos, que formavam um grande arbusto sobre a minha cabeça e desciam sobre meus ombros, porque nunca consegui domá-los. Ele me disse que eu era uma feia coisinha magricela. Me disse que gostava de mim o suficiente, mas apenas como um primo que havia prometido a seu padrasto manter um olho em mim. Ele riu quando disse isso. Era uma espécie de riso carinhoso, eu acho, mas parecia grotesco para mim. Depois que ele saiu, fui para o meu quarto, encontrei minha tesoura e cortei meu cabelo. Ele não veio novamente, e eu não o teria recebido se tivesse. Ele passou os dois braços sobre ela e a puxou contra ele até que sua cabeça estava descansando em seu ombro. — Perdoe minha língua, Sophie, — disse ele — mas é um bastardo. Eu só desejaria poder ter cinco minutos a sós com ele. — Foi há muito tempo atrás. — Ele era da minha idade — disse ele. — Seu pai tinha acabado de morrer. Sua tia estava negligenciando você. Você tinha quinze anos. Você não era totalmente crescida ainda. E, mesmo além de tudo isso, você era um ser humano. E ele era um cavalheiro. Oh, Sophie. Minha doce Sophie. Mesmo assim, você deve ter sido bonita. Eu sei que você é agora. Ela riu contra seu pescoço e, em seguida, chorou. E chorou e chorou. Aquele desgraçado. Isso... maldito bastardo. Procurou o lenço e o colocou em sua mão. — Sophie — disse ele quando seus soluços tinham diminuído para o soluço ocasional. — Você é bonita. Confie na palavra de um homem cego. Você é a mulher mais linda que eu já conheci.


Ela riu e deu um soluço, e ele riu suavemente em seu cabelo e lutou contra a vontade de chorar com ela. Ela assoou o nariz e colocou o lenço de lado. — Sua camisa e sua gravata estão molhadas — disse ela. — Elas vão secar. — Ele manteve um braço sobre os ombros. — Seu tio não ignorou completamente você, então. — Não, acho que não — disse ela. — Ele é a sua família — disse ele. — O irmão de seu pai. — Sim.— — Vamos convidá-lo para vir aqui, então — ele sugeriu. Para se conhecerem, Sophie, e decidir se você quer vê-lo novamente depois disso. Vai fazê-lo em sua própria casa e em seus próprios termos. Deixe-o ver por si mesmo se eu fui aprisionado por uma conspiradora e se você está presa em um casamento sombrio com metade de um homem. — Ele não teria sabido nada sobre mim se eu não tivesse casado — disse ela. — E com um visconde. — Talvez — ele admitiu. — Ou talvez ele apenas queira verificar por si mesmo, uma vez que está de volta a este país por algum tempo. Você estava com uma tia, sua irmã, e depois com a outra, e também com uma prima, uma jovem com idade próxima à sua. Talvez ele assumisse que você estava onde deveria estar e onde você queria estar. Talvez pensasse que tinha feito seu dever por você, simplesmente achando que você estava sendo bem cuidada por parentes. — Ele nunca pensou em me perguntar — disse ela. — Não ele não o fez. Ele podia ouvi-la dobrando a carta.


— Você sente falta de uma família — disse ele, puxando-a para mais perto. — Quando você está com a minha, você sente isso. Eu não sou errado, estou? — Não — ela admitiu depois de uma breve hesitação. — É horrível estar sozinha no mundo. Sua família tem sido boa para mim, e eu aprendi a amá-los. Mas, às vezes, há um vazio. Talvez não pesasse tanto se eu verdadeiramente não tivesse família, se eles estivessem todos mortos. — Deixe seu tio vir — disse ele. — Talvez não seja uma visita feliz. Mas talvez seja. Você não vai saber de qualquer forma, se não permitir que ele venha. Ele sabia que iria temê-lo com cada fibra do seu ser. Não se sentia generoso em relação a qualquer membro da família de sua esposa. Mas ele tinha que se lembrar que, algumas semanas atrás, ela tinha vindo para conhecer toda a sua família, sabendo que as circunstâncias que rodearam o seu casamento os predisporia a julgá-la duramente. Mas ela tinha feito isso. E os havia conquistado, embora soubesse que não tinha sido fácil para ela. Ela tinha sido uma rata tranquila pela maior parte de sua vida e teve de afirmar-se a fim de ser aceita aqui. Ela suspirou. — Vou escrever para ele amanhã — disse ela. — Vou convidá-lo para vir a tempo para a recepção da colheita e o baile. Não está muito longe, não é? Ela não tinha desistido dessa idéia, então? Não, claro que não. Ela havia dito a muitas pessoas sobre isso para recuar agora. Além disso, Sophia não era do tipo que desistia. — Sim — disse ele. – Convide-o para vir para o baile. Minha família vai estar toda de volta. Será apropriado seu tio vir também. Será como uma


recepção de casamento tardia. Talvez possamos até mesmo descrevê-la como tal.Talvez você até possa convidar os March. Eles provavelmente vão dizer não, embora eu não fosse capaz de apostar uma fortuna nisso. — Você está louco? — Ela respirou fundo. — Provavelmente — ele admitiu. — Eu tenho um nítido sentimento de que eles não vão recusar. Sua sobrinha, viscondessa Darleigh, e tudo isso. — Você está louco — ela disse a ele e riu com o que parecia ser pura diversão. Ele virou a cabeça e beijou-a. — Deve ser hora de dormir — disse ele. — Estou certo? — Você está certo — disse ela, sem virar a cabeça para consultar o relógio. Seu momento favorito do dia.

Sophia estava sentado à escrivaninha na sala de estar privada na manhã seguinte. Ela estava esfregando a pena da caneta pelo queixo, pensando em como escreveria cada palavra da carta para seu tio. Até agora, ela tinha chegado tão longe como: "Querido tio," tendo rejeitado, "Caro Sir Terrence," "Caro Sir," e "Querido tio Terrence." Ela tinha conseguido apenas o justo equilíbrio entre formalidade e informalidade. Tab estava deitado em um de seus pés, tendo abandonado seu poleiro no parapeito da janela virada para o leste quando ela se sentou. Ela ainda não tinha decidido se também gostaria de convidar a tia Martha, Sir Clarence e Henrietta para Middlebury Park. Não tinha certeza de ter motivo


para fazê-lo. Estendendo um ramo de oliveira? Tomando a oportunidade de tripudiar? Fazendo uma tentativa desesperada de criar uma família própria? Não tinha esperanças, de fato. Mas seria completamente impossível? Ela tinha verdadeiramente se apaixonado pela família de Vincent. Mas ver sua proximidade, ser uma parte dela, só fez aumentar o vazio de sua própria falta de família. E Vincent, abençoado coração, entendeu isso. Por alguns momentos ela se distraiu com as memórias da noite passada. Ele sempre foi um amante vigoroso, satisfatório, especialmente desde aquela tarde na ilha, ela ainda pensava nisso todos os dias. Tinha sido maravilhoso, e ele tinha sido maravilhoso, e desde então... Bem. Mas na noite passada tinha sido um pouco diferente de qualquer outra vez. Na noite passada, ele a havia tocado e amado com o que ela só poderia descrever como ternura. Talvez, quando ele tinha falado com o Sr. Croft, ele não tenha querido dizer exatamente o que ela achava que ele queria dizer. E talvez tivesse. Talvez ... Oh, ela desejou poder parar de pensar. ―Eu recebi sua carta ontem‖, escreveu ela. Um progresso, de fato. Fiquei encantada de recebê-la? ―Seria típico de você escrever", ela escreveu em seu lugar. Era? Era típico? Isso realmente não importava, no entanto, não é? Havia certas cortesias que deveriam ser observadas.


Porque, exatamente, ele teria escrito para ela? Só porque ela era uma viscondessa agora e seu marido era um homem rico? Porque ele se preocupava apenas um pouco e temia que ela estivesse infeliz com um homem cego? Porque falar com a tia Martha o fez suspeitar algo sobre o tipo de vida que ela realmente tinha tido com a tia? Vincent estava certo. Ela realmente tinha necessidade de vê-lo e descobrir as respostas a todas suas perguntas. Mas ela não queria vê-lo. E ainda assim ela ansiava por ele. Ele era irmão de seu pai. Às vezes seu pai o tinha usado para contar histórias de sua infância. Não muitas vezes, era verdade, mas às vezes. E o tio Terrence sempre figurou nessas histórias. Eles tinham sido amigos próximos quando meninos. — Eu ficaria feliz em vê-lo — ela escreveu e depois franziu o cenho para as palavras. Elas teriam que servir. Não queria começar tudo de novo. E então ela ouviu passos se aproximando da porta do lado de fora. Firmes, passos certos. O Sr. Fisk? Um lacaio? Mas, quem quer que fosse, não parou para bater na porta. Em vez disso, a maçaneta girou, a porta se abriu, e Vincent surgiu, com Shep ofegante ao seu lado. — Sophie? — Disse. — Eu estou aqui — ela disse a ele. — Na escrivaninha. Estou escrevendo para o meu tio. — Bom. — Ele chegou mais perto e colocou uma mão em seu ombro. Havia um brilho de cor em suas bochechas, e seus lindos olhos azuis estavam brilhando. — Nós andamos até o lago — Shep e eu, quero dizer — e ao longo do beco até o quiosque. Nós nos sentamos lá por um tempo antes de voltar. Eu teria lhe pedido para vir também, mas eu queria provar algo para mim mesmo.


— E você o fez — disse ela. — Você não parece molhado. Então, você não caiu no lago? — Nem caí e nem quebrei meu nariz — disse ele. — Você ainda estava dormindo quando vim dos exercícios. Mamãe disse que você estava atrasada para o café da manhã. Não está se sentindo bem? — De forma alguma. — Ela largou a pena e chegou bem perto dele. — Estou muito bem. Na verdade, eu estou mais do que bem. Ele ergueu as sobrancelhas. Ela tomou sua mão livre entre as suas e beijou as costas dela. — Nós vamos ter um filho — disse ela. — Eu não consultei um médico ainda, mas estou tão certa como posso estar. Ele parecia olhar muito diretamente em seus olhos, até seu íntimo. Sua mão apertou a dela quando ela parecia querer se afastar cautelosamente. — Sophie? — Ele sorriu lentamente e então riu. — Sim. — Ela beijou sua mão novamente. Ele soltou a coleira de Shep, retirou a mão livre dela, e estendeu os braços para ela. Ele envolveu-a nos braços e apertou-os de modo que ela ficou pressionada a ele dos ombros aos joelhos. — Sophie — ele sussurrou. — Sério? Uma criança? — Sim. Sério. Ela o ouviu engolir. — Mas você é tão pequena. — Ele ainda estava sussurrando. — Mesmo pessoas pequenas podem ter bebês com bastante segurança — disse ela.


Esperava estar certa. Não havia quaisquer garantias no parto. Mas já era tarde demais agora para preocupações e medos. Ele descansou o queixo contra o topo de sua cabeça. — Uma criança — disse ele e riu novamente. — Oh, Sophie, uma criança! Eles ficaram abraçados por um longo tempo. Sua carta a seu tio foi esquecida. Shep acomodou-se para um cochilo aos pés de Vincent. Tab estava de volta ao peitoril da janela, tomando sol.


Capítulo Dezenove E então, é claro, apenas algumas horas depois, ele teve um ataque de pânico. Sophia tinha ido para a aldeia com Ursula e Ellen. Suas irmãs queriam algo da loja da aldeia, e Sophia ia visitar Agnes Keeping para mostrar a ela algumas ilustrações que fizera para uma nova história de Bertha e Dan que haviam inventado, uma semana ou mais atrás, sobre um garoto limpador de chaminés que ficara preso no interior do topo de uma chaminé alta, empoleirado no topo de um edifício muito alto. Um de seus desenhos, obviamente, mostrava Bertha o resgatando, apenas sua parte inferior e as pernas visíveis, o resto estava escondido dentro da chaminé. Eles estavam esperando Andy Harrison e sua esposa para o chá da tarde. Messe meio tempo, ele tinha um par de horas livres já que seu administrador estava fora, a negócios. Decidiu explorar a campina a pé, apesar de terem apenas começado a trabalhar sobre ela. Ninguém tinha ido antes dele a Lake District para suavizar as colinas, depois de tudo. Mas, então, ele nunca tinha tentado caminhar por elas sozinho. Não andou sozinho hoje também. Ele sentiu que vinha negligenciando Martin recentemente. O que era uma tolice, é claro, uma vez que Martin, provavelmente, desfrutaria de um pouco mais de tempo para si mesmo. Vincent tinha ouvido um sussurro de que Martin estava namorando a jovem filha do ferreiro da vila, o que parecia apropriado.


Ele levou Martin e sua bengala com ele para explorar a pé e achou que, de fato, o terreno era bastante rochoso e coberto de mato nos lados, uma vez que tinham passado a área em que estavam trabalhando. — Não demora muito para a natureza para recuperar o que é dela, não é? — Disse. — Bom para a natureza, eu acho — disse Martin. — A humanidade pode fazer coisas vergonhosas com ela, se tiver oportunidade. — Você está pensando em minas de carvão e esse tipo de coisas? — Vincent perguntou ele. — Mais como aquelas árvores bobas no meio do jardim — disse Martin. — Cortadas e moldadas para parecerem estúpidas, assim como alguns poodles. — As topiáreas? — Vincent riu. — Será que elas realmente parecem bobas? Foi-me dito que são bonitas e pitorescas. Martin resmungou. — Há uma grande pedra quatro passos à frente — alertou. — Passe-a pela esquerda. Se você for para a direita, poderá rolar todo o caminho até a colina. — Sophia me disse sobre a pista de equitação — disse Vincent. —Você acha que vai funcionar, Martin? — Não creio que um derby vá ser disputado nela — Martin disse a ele. — Mas vai funcionar. Você será capaz de sair para um bom passeio sem todos nós ficarmos temendo que quebre seu pescoço. — Sophia consultou você — disse Vincent. — Ela achava — disse Martin — que se fosse uma idéia ridícula, era melhor que eu risse dela ao invés de você. Ela adora o chão que você pisa, você sabe.


— Oh, bobagem. — Vincent riu. — Ela está grávida, Martin. — Isso é o que a cozinheira e todas as criadas dizem — disse Martin. — Algo a ver com a plenitude do rosto, o brilho no olhar e outro absurdo qualquer. Eles sempre parecem estar certos, no entanto. Não sei como as mulheres fazem isso. Saber essas coisas, quero dizer. — Eu vou ser pai. — Se sua esposa está grávida, então espero que você seja, senhor — Martin concordou. E Vincent parou de andar e se lembrou de como sua esposa era esguia, como seus quadris eram estreitos. E de quantas gravidezes resultaram em natimortos ou na morte da mãe. Ou ambos. E de como ele nunca iria ver seu filho, mesmo que ele vivesse, nunca seria capaz de brincar com ele como qualquer pai normal faria, nunca... Martin agarrou-lhe o braço. — Há um banco aqui — disse ele. – Está bastante arruinado, mas pode suportar o seu peso. Era tarde demais. Não havia ar para respirar, e ele não podia ver. Ele agarrou a mão de Martin, para libertá-lo ou prendê-lo, ele não sabia. O assento pôde suportar seu peso. Ele estava sentado quando recuperou o controle. Inspira. Expira. Inspira. Expira. Ele era cego. Isso era tudo. Era como um mantra. Era o primeiro ataque de pânico, desde aquele na carruagem com Sophia. Eles estavam demorando mais para acontecer. Talvez, eventualmente, eles


fossem parar completamente. Talvez quando seu inconsciente, bem como seu consciente, finalmente aceitassem o fato de que nunca mais veria. — Eu tirei sangue da sua mão? — Perguntou. — Nada que um pouco de pomada não vá curar, senhor — Martin disse a ele. — Vai dar a todos na cozinha algo para especular. Eles vão achar que foi Sal quem fez isso. — A filha do ferreiro? — Disse Vincent. — Ela é bonita? — Ela é, — disse Martin — e também é robusta e tem seios grandes. Mas, ai de mim, uma jovem robusta e de seios grandes é tudo que eu sempre quis. Ela quer casar, é óbvio, tão certo como eu estar aqui de pé. — E? — Eu não estou em nenhuma pressa — Martin disse a ele. — Talvez vá me cansar dela. Talvez ela vá se cansar de mim. E, talvez, eu chegue a pensar que, se a única maneira de eu poder ficar sob suas saias é me casar com ela... Bem. Eu não cheguei a esse ponto ainda e, se rezar à noite como um bom menino do modo como minha mãe me ensinou, talvez nunca o faça. Entretanto, ela tem um balanço provocante dos quadris, Vince. Vincent riu. — Quando você reza, Martin, — ele disse — você tem que saber o que quer. Caso contrário, Deus pode ser confundido. Curiosamente, Martin suspirou. Vincent achou que suas pernas iriam sustentá-lo. Levantou-se usando a bengala. Os tremores tinham ido quase todos embora. — Mulheres pequenas tinham bebês o tempo todo. Sophia havia dito isso sobre ela mesma. E uma pessoa não precisava ver para tocar um bebê. Ou segurá-lo.


Ou brincar com ele. Ou amá-lo. Ele. Seria um menino ou uma menina? Isso não importava. Ele absolutamente não se importava. Contanto que vivesse. Contanto que fosse saudável. E contanto que Sophie vivesse. Por favor, Deus, deixe-a viver. E não havia nenhuma ambiguidade em sua oração. — Vou começar a poupar para um presente de casamento — disse ele. Martin resmungou novamente. Vincent pensava mais alegremente sobre sua paternidade iminente enquanto desciam ao largo da caminhada. Não havia nenhuma razão para pensar em todas as coisas que podem dar errado. E não havia nenhuma razão em lamentar o fato de que ele nunca iria ver qualquer filho seu. Pelo menos, haveria um filho. Seu e de Sophia. E, agora, é claro que ela iria ficar, e eles iriam finalmente terminar com aquela sugestão mais-que-absurda que ele usara para convencê-la a se casar com ele. Pois embora eles tivessem pensado sobre a possibilidade de uma gravidez atrasar qualquer plano de viver separados, nenhum deles parecia ter considerado o que fariam com a criança quando se separassem. Não havia nenhuma maneira na face da terra dele deixar alguém tirar um filho de perto dele, mesmo que ele nunca fosse vê-lo. E ele seria capaz de apostar toda a sua fortuna de que ninguém iria tirar o filho de Sophia.


Isso significava que eles teriam de permanecer juntos. Ele estava tão feliz porque poriam um fim naquele disparate. Ele pensou que Sophia ficaria feliz também. Talvez ele abordasse o assunto com ela mais tarde e, então, eles poderiam finalmente esquecer tudo sobre isso. Ele podia ouvir vozes femininas vindo do que julgou ser a direção dos jardins formais. Ele podia ouvir Ursula e Ellen. Ah, e, em seguida, Sophia. Elas estavam de volta de seu passeio pela aldeia, então. — Oh, olhe para isso — Ursula estava dizendo quando ele escutou sua voz. — É adorável. É um lugar real, Sophia? — Na verdade, não — disse Sophia. — É a casa dos meus sonhos, a casa onde eu gostaria de viver. — Eu amo chalés com telhados de palha — disse Ellen. — Oh, como são bonitos todos esses esboços, Sophia. Você tem um grande talento. Basta olhar para essas flores. Oh, e há o seu gato. E um filhote de cachorro sentado na soleira da porta. — Você não prefere viver em Middlebury Park? — Perguntou Ursula, rindo. — Ah, mas Middlebury é a realidade — disse Sophia. — A casa é o meu sonho. Eu nunca vou viver lá, claro. É um faz-de-conta. Mas, oh, a paz dela. O silêncio dela. A felicidade dela. Vincent sentiu como se tivesse se transformado em pedra. Martin parecia ter desaparecido. — Eu espero que você não esteja menos feliz aqui na vida real — disse Ellen. — Você parece feliz, e nunca vimos Vincent tão contente.


— Ah, mas todos nós devemos ser capazes de distinguir entre ficção e realidade, — disse Sophia — ou estaremos sempre insatisfeitos. Faz de conta é apenas isso. Estou muito satisfeita morando aqui. Sou a mais feliz das mulheres. — Bem, eu estou muito impressionada com seus desenhos, Sophia — disse Ursula. — As crianças vão sentir falta deles quando voltarem para casa, e das histórias que você e Vincent contam com tanta harmonia. Ah, Vincent. É melhor tomar cuidado. Sophia está nos mostrando um desenho da casa onde ela vai viver quando não puder mais morar com você. — Oh — disse Sophia. — Aí está você. Você saiu para caminhar? — Eu subi a colina com Martin — disse ele — e sobrevivi para contar a história. Vocês tiveram um agradável passeio pela aldeia? Sophia tomou seu braço, e abriu caminho para a casa. Seu ânimo estava em algum lugar das solas de suas botas Hessian. — Eu desenhei o chalé — ela disse — porque tenho notado a curiosidade que as crianças têm sobre tudo, e eles já começaram a perguntar: as fadas vivem no fundo de qual jardim? Eu pensei em colocar o chalé na capa do primeiro livro da série. Você aproveitou seu passeio? Martin foi com você? Ela sabia que ele a tinha ouvido falar.

Sir Terrence Fry aceitou o convite. Assim como Sir Clarence e Lady March. Henrietta viria com eles, embora ela estivesse sendo muito solicitada nas festas de verão, onde estava sendo sitiada pelas atenções de cavalheiros elegíveis, todos eles titulados, nenhum deles alcançando seus padrões exigentes.


Sophia sorriu para a carta de sua tia, ao mesmo tempo que sentia um certo desânimo. Será que ela queria que eles viessem? Mas ela os tinha convidado. Ela deveria recebê-los calorosamente e estar atenta às suas necessidades. Ela queria que seu tio viesse? Descobriu que temia sua vinda por uma razão particular. Ela tinha medo de ficar deprimida. Talvez ele não tivesse escrito para ela por alguma afeição persistente pela memória de seu pai ou por lamentar que ele não tivesse tido um motivo para vêla antes de agora. Talvez ele não fosse capaz de lhe dar qualquer explicação satisfatória sobre sua longa negligência. Talvez ele estivesse vindo para mostrar seu descontentamento por ela ter roubado Vincent de Henrietta, se essa foi a história que tia Martha lhe contara. Talvez... Bem, ela teria que esperar e ver. E ainda assim ela ansiava por sua vinda. Ela estava grávida. Seu filho ou sua filha nunca sofreria de falta de atenção e amor de todos os parentes do lado de seu pai. Mas o que dizer de seu lado? Haveria alguém para seu filho? Ou para si mesma? As irmãs de Vincent e suas famílias tinham ido para casa, mas gostariam de voltar para o baile da colheita. Sua avó estava pronta para voltar para Bath. Ela tinha até alugado uma casa lá. Ela iria depois do baile. Sua mãe estava cada vez mais inclinada a voltar para Barton Coombs e seus amigos de lá, mas ficaria até depois do parto de Sophia, o que era esperado para o início da primavera. O baile da colheita tinha captado a ansiosa atenção de todos, por milhas ao redor, embora não mais se referissem a ele assim. Ele estava agora sendo chamado de uma recepção de casamento e baile. Uma festa tardia. Muito tardia


quando era de conhecimento comum que a noiva estava grávida de alguns meses, embora a ligeira protuberância não fosse realmente visível ainda sob as saias soltas de seus vestidos de cintura alta. A sogra estava ajudando com os preparativos, embora realmente ela não tivesse mais experiência que Sophia de como organizar um evento tão grande. Suas principais preocupações eram com Vincent. — Acho que você causou um efeito notável sobre ele, Sophia — ela admitiu quase a contragosto quando elas estavam sentadas juntas na biblioteca, fazendo listas de tudo que precisava ser feito, tudo em que poderiam pensar, de qualquer maneira. Havia sempre algo mais que costumava ocorrer a uma ou outra delas e que as deixava quase em pânico. — Eu não sei como você faz isso. E, às vezes, queria que você não tivesse feito. O que te fez pensar em uma pista de equitação no parque? E como é que Vincent vai comer em uma recepção pública ou comportar-se em um salão de baile? — Ele vai fazer as duas coisas com a maior facilidade, Mama — Sophia assegurou. — Ele fez isso em Barton Coombs, e vai fazê-lo aqui. Estará entre parentes e amigos. — Eu espero que você esteja certa — disse a sogra com um suspiro. O baile da colheita, a recepção de casamento, ou como quer que escolhessem chamá-lo, foi marcado para o início de outubro. O verão se transformou em outono cedo demais, como sempre fazia, mas o outono tinha sua beleza também. As árvores mudavam de cor e logo perdiam as folhas, e antes que elas se tornassem verdes novamente, haveria um novo bebê em Middlebury Park. Mas era muito cedo para pensar sobre isso ainda. Sir Terrence e os March deveriam chegar no mesmo dia, embora não viessem juntos. As irmãs de Vincent viriam alguns dias mais tarde, assim como


o visconde Ponsonby, que estava visitando um parente idoso não muito distante e tinha professado o prazer de vir a Middlebury por alguns dias. — Estou ficando rouco de tanto gritar em uma corneta acústica — ele havia escrito. — Minhas cordas vocais precisam de um descanso, para não mencionar o resto da minha pessoa. Eu aceito o seu amável convite por nenhuma outra razão. O Visconde Ponsonby via o mundo através de um olhar satírico, Sophia pensou quando leu toda a carta em voz alta para Vincent. Será que isso vinha de sua infelicidade, como tinha vindo a dela? Ela não sabia muito sobre ele, exceto que era um dos amigos mais íntimos de Vincent, um dos Sobreviventes. Não havia muito sinal de dano físico nele, exceto por seu ligeiro gaguejar. Ele parecia ter os olhos cansados do mundo. No entanto, não poderia ter mais de trinta anos e provavelmente nem isso. Os March chegaram primeiro, no início da tarde. Sophia e Vincent saíram ao encontro deles, liderados pelo cão de Vincent. — Tia Marta — disse Sophia, avançando assim que o cocheiro desceu sua tia. E ela a abraçou pela primeira vez na vida. — Sophia? — As sobrancelhas de sua tia levantaram-se em surpresa, e seus olhos varreram sua sobrinha da cabeça aos pés. — Você certamente tem-se cuidado. Middlebury Park é tão grande como nos foi dito. Quase tão grande quanto Grandmaison Hall, onde Henrietta recentemente passou duas semanas a convite especial do Conde de Tackaberry. — Espero que sua viagem não tenha sido muito penosa — disse Sophia. — Lorde Darleigh — Tia Martha estava dizendo quando Sophia virou-se para cumprimentar seu tio, que a estava olhando com as mãos em suas costas.


— Você se firmou na vida, eu vejo, menina — disse ele enquanto ela contemplava abraçá-lo, mas rejeitou a ideia. Sorriu para ele em vez disso. — Eu espero que tenha tido uma viagem agradável, tio — disse ela. Henrietta estava descendo os degraus da carruagem. Mas parou de repente e gritou. — Papai! — Ela gritou. — Um cachorro! — Ele é meu guardião, senhorita March — disse Vincent. — Ele permanece ao meu lado em todos os momentos e é perfeitamente inofensivo. — Mama? — Henrietta encolheu no último degrau. — Henrietta teve uma experiência desagradável quando era uma criança — Tia Marta explicou. — Ela tentou acariciar um cão feroz da aldeia quando estávamos voltando para casa da igreja, e ele virou-se para ela e a teria mordido se seu pai não tivesse batido nele com um pedaço de pau. Seu proprietário também jurou que era inofensivo, Lorde Darleigh. — Vou levá-lo aos nossos aposentos, — disse Vincent — enquanto Sophia lhes mostra seus quartos. Vocês vão querer refrescar-se e talvez descansar um pouco. Terei todo o prazer em recebê-los mais plenamente na sala na hora do chá. Tenha certeza, senhorita March, que Shep nunca vai machucar você ou qualquer outra pessoa. Ele é simplesmente meus olhos.Estou muito feliz que vocês tenham chegado em segurança. Sophia tinha vontade de ter sua família aqui com ela. E ele se virou, voltou a subir os degraus e entrou na casa com Shep. — Seus olhos? — Disse Sir Clarence, as sobrancelhas levantadas. — Muito peculiar. Henrietta deixou a carruagem e Sophia a abraçou.


— Bem-vinda a Middlebury Park, Henrietta — disse ela. — Com certeza você está feliz aqui — disse Henrietta. — Você se casou com um homem cego para obtê-lo, e espero que tenha valido a pena. — Sim. — Sophia sorriu. — Eu me casei com Vincent e estou feliz aqui. Vamos entrar. Tio Terrence estará aqui em breve. Ela deslizou a mão pelo braço de sua tia e liderou o caminho para dentro. Ela realmente não perguntou por que eles tinham vindo. A curiosidade os trouxera aqui, e a esperança de que iriam encontrá-la lamentando seu casamento ou que Vincent o estaria lamentando. Ou que Middlebury Park não fosse tão grande como tinha a fama de ser. Ou que, de alguma forma, eles pudessem voltar para casa consolados por sua sobrinha, ao invés de Henrietta, ter se casado com Lorde Darleigh. Deve ser terrível, ela pensou, abraçar tal infelicidade sobre si mesmo e levá-la por toda a vida a todos os cantos. Era triste saber que ela tinha uma tia, um tio e uma prima que nunca seriam realmente uma família para ela. Mas, nos poucos dias de sua visita aqui, ela se propusera a sufocá-los com atenção, cortesia e até mesmo afeto. Seu tio chegou uma hora mais tarde, e Sophia e Vincent saíram de novo ao seu encontro — Vincent com sua bengala desta vez. Os degraus da carruagem estavam sendo descidos quando eles chegaram ao terraço, e um elegante cavalheiro alto desceu por eles. Por um momento desorientador a respiração de Sophia ficou presa na garganta e ela pensou que deveria ter sido mal informada há anos atrás. Seu pai não tinha morrido naquele duelo depois de tudo. Foi apenas um momento, é claro. O rosto deste homem era bonito, mas austero. Ele não tinha o charme do sorriso acolhedor que seu pai sempre trazia, mesmo quando tinha uma montanha


de dívidas e tinha acabado de perder uma fortuna nas mesas de jogo. Por outro lado, ele tinha uma presença forte, à sua própria maneira. Mas se parecia muito com o pai dela. Ela tomou o braço livre de Vincent e deu um passo adiante. — Tio Terrence? — Ela disse. Ele ficou na frente dela, olhando-a da cabeça aos pés, como a tia Martha tinha feito. Ele tirou o alto chapéu e inclinou a cabeça para ela. — Sophia? — Disse. — Bem, você é uma coisinha delicada e não da forma que eu tinha sido levado a esperar. Será que ela deveria sorrir? Fazer uma reverência? Perguntar sobre sua jornada? Abraçá-lo? Ela sentiu-se paralisada. Ele estendeu uma mão sem luva, e ela colocou a sua própria nela. Ele levou-a aos lábios em um gesto cortês que a fez morder o lábio inferior. — Na única ocasião em que vi seu pai após o seu nascimento, — ele disse a ela — ele descreveu você como seu pequeno tesouro que o prendia à vida sempre que se sentia desesperado. Alguma vez ele lhe disse isso, Sophia? Ela balançou a cabeça. Estava mordendo o lábio com força. Sua visão ficou turva e ela percebeu que seus olhos se encheram de lágrimas. — Nós muitas vezes não dizemos o que está em nossos corações — disse ele — para aqueles que estão mais próximos e são queridos para nós. — Ele deu uma batidinha na mão dela antes de soltá-la. Ela se recuperou. — Tio Terrence, — disse ela — posso apresentar o meu marido? Vincent, Lorde Darleigh? Vincent estava segurando a sua mão direita e sorrindo.


— Sir — disse ele. — Estou muito feliz em conhecê-lo. Como seu tio adiantou-se para apertar a mão dele, a visão de Sophia até a carruagem não estava mais bloqueada. E, pela primeira vez, ela percebeu que ele não tinha vindo sozinho. Outro homem aparecia na porta, na metade dos degraus — um homem jovem e bonito, sorrindo. — Sophia — disse Sebastian com a ênfase característica que, certa vez, ela achara comovente. — Você certamente cresceu desde a última vez que te vi. Ela se sentiu como se todo o seu sangue tivesse sido drenado para os seus dedos do pé. — Sebastian? — Ela apertou as mãos antes de descer para o terraço. Ele tinha o peito mais amplo do que há seis anos atrás. Estava ainda mais bonito do que na época. Parecia ainda mais confiante. Seu sorriso era ainda mais charmoso. — Eu não pude resistir a vir com o papai — disse ele. — Queria ver como estava a Viscondessa Darleigh. E parece que está bastante bem. — Eu espero que você não se importe, Sophia — seu tio estava dizendo. — Sebastian estava bastante ansioso para vê-la novamente. Darleigh, apresento meu enteado, Sebastian Maycock. Sophia nunca tinha visto o olhar gelado de Vincent. Suas narinas estavam dilatadas, os lábios em uma linha fina. Seus olhos pareciam estar muito diretamente focados em Sebastian. Sebastian estava se movendo em direção a ele, com a mão direita estendida, um sorriso fácil em seus lábios. — Maycock — disse Vincent, e o gelo estava em sua voz também.


A mão de Sebastian caiu de volta para seu lado. Sophia se perguntou se seu tio tinha notado a mudança de humor de Vincent. — É claro que não me importo, tio Terrence — disse ela. — Estamos felizes de ter ambos aqui, e há vários quartos vazios. Tia Marta e Sir Clarence chegaram há um tempo atrás com Henrietta. Eles virão à sala de estar em breve para o chá. Devemos ir diretamente para lá, ou vocês gostariam de algum tempo em seus quartos? Ela tomou o braço do tio. — Eles vieram, então, não é? — Ele perguntou, parecendo se divertir. — Estou surpreso que você os tenha convidado, Sophia. Mas também fiquei surpreso por você me convidar. Surpreso e agradecido. Estou pronto para um pouco de chá. E você, Sebastian? — Mostre o caminho — disse Sebastian. Sophia podia ver que ele estava debatendo consigo mesmo se ia à frente de Vincent ou não. Mas Vincent se virou sem esperar por ele, e encontrou seu caminho até eles com a bengala, tendo apenas Sophia e Sir Terrence à frente dele. Sebastian veio atrás. Sir Terrence Fry parecia um homem sensato. Ele sabia como manter uma conversa e ao que parecia, em uma primeira impressão, de qualquer maneira, estava realmente feliz por estar aqui e por ter finalmente encontrado Sophia. Sebastian Maycock parecia confiante e encantador. Ele logo teve a mãe e a avó de Vincent comendo em sua mão, por assim dizer, e Lady March e a senhorita March tinham o risinho afetado quando falaram com ele, o que levou Vincent a concluir que ele deveria ser bonito e, provavelmente, rico também.


A hora do chá no salão passou sem incidentes. Vincent estava contente por causa de Sophia. Se pudesse haver até mesmo uma pequena medida de civilidade entre ela e sua família, ele ficaria feliz por ela. Mas talvez pudesse haver mais do que isso, em relação ao tio, de qualquer maneira. Vincent não conseguiu detectar qualquer harmonia de opinião entre ele e sua irmã. Claro, o homem ainda tinha muito o que explicar. Foi difícil para Vincent por uma razão particular. Ele poderia ter conversado com Sir Terrence com interesse. Ele poderia ter se divertido com as observações muitas vezes farpadas das March. Mas ele fervia com uma fúria impotente sobre o fato de ter sido forçado a receber Sebastian Maycock sob seu teto e ter que ser um anfitrião amável. Mas que escolha ele tinha? O homem tinha vindo sem ser convidado, e tinha vindo com o tio de Sophia. Ele tinha exigido estar aqui. Ele era o enteado de Sir Fry. Vincent poderia alegremente ter esbofeteado uma luva em seu rosto. Tudo tinha acontecido há vários anos, ele tentou dizer a si mesmo. Maycock poderia muito bem ter mudado desde então. Ele era apenas um homem jovem então. Mas ele tinha vinte e três, apesar de tudo. Ele não parecia nem um pouco envergonhado quando encontrou Sophia novamente no terraço. Não parecia envergonhado agora na sala de estar. Seria possível que tivesse esquecido? Ou que Sophia tivesse exagerado o que ele tinha dito a ela? Mas se ele tivesse dito apenas a metade do que ela se lembrava, as suas palavras seriam imperdoáveis. — Eu tenho que saber — Sir Clarence disse, sua voz amável e jocosa, como se estivesse falando com uma criança ou um imbecil — de que forma o seu cão é seus olhos, Darleigh. Ele é a menina de seus olhos? Ou é ela? É melhor não se mostrar muito sensível na frente de sua esposa. Ele riu de sua própria piada, e Vincent sorriu.


— Shep é um collie, um cão pastor — explicou ele, — e foi treinado por um especialista para me conduzir da mesma forma como conduziria um rebanho de ovelhas se tivesse sido treinado para isso. Suponho que isso significa que eu não seja muito diferente de uma ovelha, pelo que, na verdade, sou mais do que grato. Recuperei uma grande parte de liberdade desde que eu o ganhei. Sir Clarence riu um pouco mais. — Um dia ele vai avistar um coelho, — disse ele — iniciar uma perseguição e você vai colidir com uma árvore ou cair de um penhasco, Darleigh. Onde quer que você conseguiu uma ideia tão louca? — A ideia foi da minha esposa, na verdade — disse Vincent. — Ela ouviu falar de uma criança cega desde o nascimento que tem um cão para conduzi-la, e me convenceu a tentar um também. Eu tenho dito que Shep é meus olhos. Mas, na verdade, é Sophia que tem essa distinção. Ela me trouxe Shep, criou o caminho cercado até o lago e está limpando e criando um caminho cercado entre as colinas atrás da casa. Ele deve ser concluído antes do inverno. E foi ela quem sugeriu a pista de equitação que está sendo construída no interior do perímetro do parque para que eu possa andar com segurança e até mesmo galopar. Eu ouvi você dizer, Sir Terrence, que seu irmão chamava Sophia de seu tesouro. Ela é o meu também. — Estou muito contente em saber que ela está mostrando uma gratidão adequada para a sua grande condescendência em responder a seus avanços bastante ousados quando você estava hospedado em Covington House, Lorde Darleigh — disse Lady March. — Consola-me. Eu estava um pouco embaraçada e envergonhada por ela, devo confessar, sendo ambos, sua tia e sua tutora na época. — Pelo contrário, minha senhora — disse Vincent, sorrindo em sua direção. — Fui eu quem foi corajoso em meus avanços à senhorita Fry, que


recusou a minha proposta de casamento mais de uma vez antes de eu, finalmente, convencê-la a ter pena de mim. — Estamos extremamente felizes — disse sua avó — que ela o tenha feito. Sophia é como um pequeno anjo brilhante que desceu sobre a casa de meu neto, Lady March. Eu me solidarizo com você por não tê-la mais em sua própria casa, mas uma menina deve se casar, você sabe, quando atinge uma certa idade. Vincent teve a sorte de encontrá-la antes que alguém o fizesse. — Tia Marta, — Sophia disse, levantando-se de seu assento ao lado de Vincent — Henrietta, vocês devem ter saudades de uma lufada de ar fresco depois de sua viagem. Deixe-me mostrar-lhe os jardins formais e o jardim topiária. O tempo está sendo muito bom para o final de setembro, não é? — Eu irei também, se me permitem, Sophia — disse Sir Terrence. Vincent falou rapidamente antes de seu enteado poder decidir participar da festa também. — Maycock, — ele disse — meu cão precisa de algum exercício depois de ter ficado confinado aos nossos aposentos privados a maioria da tarde. Dê um passeio até o lago comigo, se você quiser. — Encantado — disse o homem. E pareceu sincero.


Capítulo Vinte — A boa e velha Sophia — disse Sebastian Maycock, colocando uma ênfase peculiar sobre a última letra do seu nome. — O cão foi uma idéia brilhante. Eu dificilmente saberia que estava andando ao lado de um homem cego. Eles estavam caminhando em um ritmo normal ao longo do caminho para o lago. Maycock caminhava ao lado do corrimão. Vincent tinha Shep. — Eu não vou dizer que não me sinto cego, — disse Vincent — mas digo que meu cão me devolveu grande parte da minha liberdade e confiança. E sim, foi Sophia quem descobriu que poderia ser feito e me convenceu a experimentálo. — E você está construindo uma pista de equitação? — Disse Maycock. — O parque parece grande o suficiente para isso, devo dizer. Você tem uma bela casa aqui. — Sim — Vincent concordou. — Estou muito feliz. Eles conversaram sem rumo e agradavelmente enquanto caminhavam. Em outras circunstâncias, Vincent pensou, ele provavelmente gostaria do homem. Ele era amigável e bem-humorado. E, talvez, ele o estivesse julgando muito duramente. Talvez não tivesse tido a intenção de ser cruel. Talvez não soubesse como essas palavras descuidadas faladas em uma ocasião isolada tinham machucado.


— Sophia sempre teve uma mente viva — disse Maycock quando Vincent contou-lhe seu plano de ter ervas e árvores plantadas ao longo da caminhada para que ele pudesse apreciar os perfumes mesmo sem poder ver. — Eu sempre a achei bastante divertida. Levei-a a uma galeria, e ela ficava olhando para uma aclamada obra-prima, a testa franzida, a cabeça inclinada um pouco para um lado, e comentava algum detalhe que poderia ser melhorado. Isso foi logo depois que foi morar com aquele dragão, Tia Mary, e pouco antes de eu partir para Viena para encontrar meu padrasto. Shep tinha parado de andar, e Vincent entendeu que haviam chegado à margem do lago. — Sim, — ele disse — ela me contou sobre você. — Ela contou? — Maycock riu. — Ela era uma coisa engraçada. — Engraçada? Maycock deveria ter-se abaixado para pegar algumas pedras. Vincent podia ouvir um salto sobre a água. — Ela era bastante magra — disse Maycock. Magra e abatida, rosto pálido e olhos grandes. Ela pareceria um menino se não tivesse todo aquele cabelo. Acho que o cabelo era maior que ela, e ela parecia bastante incapaz de domesticá-lo. Ele riu. — Feia demais, eu acredito — disse Vincent, voltando a caminhar para a direita ao longo da margem. — Eh? — Ela era feia — disse Vincent. — Ou foi isso que você disse a ela.


— Eu disse? — Maycock riu novamente. — E ela se lembra? Ela deve lembrar, no entanto, se ela lhe contou. Ela era feia, você sabe. Eu tinha prometido ao meu padrasto que iria ficar de olho nela, e eu o fiz. Tia Mary não estava fazendo isso. Ela a olhava friamente, se alguma vez a olhava. Sophia me divertiu. Eu passeava com ela em Londres e falava com ela. Mas não me importo de confessar que fiquei ofendido quando ela imaginou que eu tinha me apaixonado por ela. Quero dizer, foi ridículo, Darleigh.Minha amante, na época, era uma das belezas aclamadas do submundo. Eu era a inveja de todos os clubes. E havia Sophia .... Bem. — Ele riu novamente. — Ela tinha quinze anos — disse Vincent. — Peço perdão — disse Maycock. — Eu não tive a intenção de ser ofensivo, rindo assim. Ela não parece tão ruim agora, eu lhe garanto. Você comprou roupas decentes, como a tia Mary nunca fez, e seu cabelo está sob controle. Ela ganhou um pouco de peso também. Eu ouso dizer que não importa para você se não se casou com uma beleza arrebatadora, porém, não é? — Eu acredito que o fiz — Vincent disse a ele. Maycock riu e depois ficou em silêncio. — Oh, eu acho — disse ele quando Vincent não disse mais nada, o riso ainda em sua voz — que devo ter ofendido você. Não foi intencional, meu velho. Ela é uma pequena coisa agradável. Assim que eu soube que meu padrasto estava vindo aqui, pensei que seria bom vir vê-la novamente. Eu gostava dela até que ela tentou me fazer de idiota. Ouso dizer que você está apaixonado por ela. É difícil não gostar de Sophia. Ela teve a sorte de encontrar alguém a quem aparência não importa. Estou feliz por ela. Ele pretendia ser ofensivo? Por incrível que pareça, Vincent achava que, provavelmente, não. Ele era um companheiro amável, provavelmente bonito e atraente para as mulheres. Ele apenas tinha uma falha de caráter.


Vincent parou de andar novamente e se voltou. — Sophia tinha recentemente perdido o pai de uma forma bastante cruel — disse ele. — Ele tinha sido sua única rocha em uma espécie precária de vida, e ele não era uma rocha muito boa. Ela estava sendo ignorada pela tia para quem tinha sido enviada. Tinha quinze anos com todas as inseguranças e vulnerabilidades da juventude, além de todo o resto. E, de repente, ela tinha um amigo, alguém que falava com ela, a ouvia e a levava a lugares interessantes. Era surpreendente que ela se apaixonasse? — Oh, eu quero dizer... Vincent levantou uma mão para interrompê-lo. — É claro que você não a amava também — disse ele. — Era pouco mais que uma criança. Ela o colocou em uma situação embaraçosa quando declarou o seu amor. Você tinha que explicar a realidade para ela. Você não poderia deixála continuar em seu delírio. E ainda assim você não queria machucá-la. Ou será que queria? — Ela parecia um pequeno espantalho, Darleigh — disse Maycock, rindo novamente. — Você deveria ter visto ela como ela era então. Você teria dado uma boa risada, especialmente da idéia de que ela imaginasse que eu estava apaixonado por ela. Eu ri disso depois. Fiquei endiabradamente irritado. Meu Deus, todas as tardes eu tinha dedicado a ela. Pensei que ela ficaria grata. Vincent abriu a boca para dizer mais. Mas por que o faria? Mesmo agora Maycock parecia pensar apenas no efeito que a declaração de Sophia tinha causado nele. Será que o fato dela ainda se lembrar não o alertava para o fato de que ela tinha sido profundamente magoada? Como alguém poderia vingar aquela pobre Sophie de quinze anos de idade? Jogando o homem no lago? Ele provavelmente poderia fazê-lo. Não teria o elemento de surpresa, depois de tudo. Mas parecia, de alguma forma, infantil.


E não seria satisfatório. De que outra forma o faria? Ele era cego. E então uma ideia começou a germinar. Ele ia deixá-la de lado por enquanto. — Há barcos no ancoradouro — disse ele. — Talvez você apreciasse remar um dia desses, se o tempo permitir. — Eu gostaria disso — disse Maycock. — Não há nada como um pouco de exercício para obter uma boa circulação do sangue. Eu posso levar Henrietta comigo. Ela é bonita, mesmo tendo uma língua afiada. — O que você faz para se exercitar? — Perguntou Vincent. — Cavalga? Esgrima? Você vai ao Gentleman Jackson quando está em Londres? — Eu sou um de seus melhores alunos — disse Maycock. — Sempre derrubo meu adversário. Às vezes, ele me concede uma ou duas rodadas com ele, o que não faz com todo mundo, eu gostaria que você soubesse. Não há nada como assistir a um combate decente, não é? Oh, desculpe. Você não pode assistir, é claro. — Você tem que vir até a minha sala de ginástica uma manhã — disse Vincent, e indicou para Shep que voltariam para a casa. — Meu valete, meu antigo auxiliar no exército, é também o meu treinador. Ele gosta de lutar. Ele é bom nisso também, e é forte como um touro. Ele se sente frustrado porque quase nunca tem alguém digno de suas habilidades por perto. Possivelmente... — Soa como se ele fosse meu homem — disse Maycock. — É melhor dizer-lhe para trazer os sais aromáticos, no entanto, Darleigh. Ele vai precisar deles. — Eu vou dizer a ele. — Vincent sorriu. — Embora possa achar que você é que vai precisar deles.


Maycock riu. — Estou contente por ter vindo — disse ele. — Vou gostar de estar aqui. E preciso me lembrar de garantir à Sophia que ela já não é feia. Roupas finas e um estilo de cabelo decente podem fazer maravilhas, não podem? Martin iria chamá-lo de idiota, palerma, lunático e outras coisas ainda menos corteses, Vincent pensou. Embora, provavelmente não, quando soubesse das circunstâncias. A única coisa que Martin não gostou foi o fato de que ele não seria o único pugilista.

Era o meio da tarde seguinte quando Sophia ficou sozinha com seu tio. Ela tinha mostrado a casa para sua tia, tio e Henrietta, e todos concordaram que era realmente muito impressionante, apesar de ser uma pena que fosse desperdiçada com um proprietário que era cego. Ela teve uma breve conversa com Sebastian quando ele entrara na sala de música depois do almoço, enquanto ela estava roubando uma meia hora para praticar um exercício particularmente desafiante que senhorita Debbins tinha passado para ela. Por que os dedos tinham o hábito irritante de se transformar em dez polegares assim que ela se sentava no banco do piano, ela não sabia. Mas se Vincent poderia tocar harpa, e ele estava bem encaminhado nisso, então ela poderia tocar piano. Poderia, pelo menos, aprender a ser competente. — Sophia, — Sebastian disse, — você está se tornando uma Lady prendada. — Eu duvido que alguma vez vá mostrar essas habilidades particulares em público — disse ela. — Você é hábil em desenhar — disse ele. — Alguns de seus desenhos eram perversamente inteligentes.


— Eu ilustro histórias agora — ela disse a ele. — Histórias infantis. Vincent e eu as criamos juntos para a diversão de seus sobrinhos e sobrinhas. E eu desenho as imagens e faço livros delas. — Faz? — Ele sorriu, e seus olhos enrugaram atraentemente nos cantos. — Você tem que os mostrar para mim. Eu fui a Viena para visitar o meu padrasto, sabe, e fiquei mais tempo do que pretendia. O divertimento lá era interminável. Qualdo voltei para casa, o dragão estava morto e você tinha ido morar com a tia Martha. Deve ter se sentido um pouco como sendo atirada da frigideira para o fogo. Eu deveria ter ido vê-la. Nós gostavamos um do outro, eu me lembro. — Eu não sabia que você tinha ido embora — ela disse, virando-se no banco para olhar mais profundamente para ele. — Mas fiquei feliz porque você parou de vir, Sebastian. — Porque eu te chamei de feia? — Ele fez uma careta e sorriu novamente. — Mas você era, Sophia. Alguém fez alguma coisa com seu cabelo desde então, e você tem belos vestidos e não está tão magra. Sua aparência melhorou. Eu não acho você tão feia agora. — Mas você vê, Sebastian, — ela disse — eu gostava de você, e acreditei no que disse. — Como não poderia? — Ele riu, um som de pura diversão. — Seu espelho deve ter-lhe dito que eu falei a pura verdade. Isso foi há muito tempo atrás, no entanto. Você está muito perto de ser bonita agora. Ah. Um elogio. Ela sorriu de volta para ele. — Você vai ficar aliviado ao saber — disse ela — que já não te amo, Sebastian. Devo ir buscar minha capa. Vou dar um passeio com o tio Terrence.


— Bem, — disse ele, abrindo a porta para ela — estou feliz em saber que você não guarda ressentimentos, Sophia. Darleigh deve ser mais ao seu gosto. — Porque ele não pode me ver? — Ela perguntou. Ele riu como se tivesse feito uma piada. Era incrível o que uma diferença de cinco anos poderia fazer para um entendimento. Ele era bonito; era encantador; era amável. Faltava-lhe a empatia pelos outros.

Seu tio estava esperando por ela no hall de entrada. — Eu posso ver porque Middlebury Park é considerado um dos lugares mais bonitos da Inglaterra — disse ele quando ela se aproximou. — Sua sogra me mostrou a casa, há pouco tempo. — E o parque é tão magnífico — ela disse a ele, precedendo-o através das portas da frente e descendo as escadas. — Vou levá-lo até o lago, e se você se sentir com energia, vamos caminhar até o beco e o quiosque. Num relance ocasional pode-se supor que o parque termina com as árvores além do lago, mas isso não acontece. Ele ofereceu o braço e ela aceitou. Ele parecia menos com seu pai, agora que ela o tinha visto algumas vezes. Não tinha o charme de seu pai ou sorriso cativante. Por outro lado, era elegante, com maneiras perfeitas. — É melhor seguir o caminho enquanto podemos — disse ela. A manhã tinha sido marcada por uma garoa que tinha deixado a grama molhada, mas as nuvens haviam se afastado logo após o meio-dia e fazia uma tarde agradável, com apenas um ligeiro toque de outono no ar.


— E o caminho é novo? — Perguntou a ela. — Ele combina muito bem com a paisagem. Foi ideia sua, Sophia? — Vincent ficava confinado aos jardins formais a menos que houvesse alguém para tomar seu braço — disse ela. — Não deve ser uma boa sensação ser tão dependente de outras pessoas, deve? Ou estar confinado a um pequeno pedaço de terra. — É como a vida de uma criança — disse ele em voz baixa, quase como se estivesse falando para si mesmo. — O que está muito bem, se a criança é amada e conduzida a uma vida adulta independente. Uma das dores duradouras da minha vida foi a de perder três crianças na primeira infância, Sophia. Eu costumava invejar meu irmão. Não, ciúme é uma palavra mais precisa. Nós rompemos um com o outro quando ainda éramos muito jovens. Não foram os seus caminhos selvagens, esse era o jeito dele. Foi o que aconteceu quando ele roubou, ou foi o que eu pensei na época, quando se casou com a dama que eu pensava era minha. Você sabia disso sobre sua mãe? E eles tiveram você, e você viveu. Eu me ressentia disso. Eu me senti ressentido com ele e com você. Se você me odiar, Sophia, não é menos do que eu mereço. Sua mente estava entorpecida com o choque do que ele dissera. Seu pai nunca tinha contado a ela o que aconteceu entre ele e seu irmão. Seus pressupostos não tinham sido os mais acertados. Sua mãe teria se arrependido de não se casar com seu tio? — Eu me ofereci para levá-la quando sua mãe o deixou, você sabe — disse ele. — Ou talvez você não saiba. Já por esse tempo minha esposa e eu tínhamos perdido dois dos nossos próprios filhos. — Você se ofereceu para levar-me? — Ela olhou para ele com algum espanto.


— Os caminhos do meu irmão não pareciam apropriados para uma criança, — disse ele — especialmente quando sua mãe não estava mais com vocês. Mas, é claro, ele disse que não. Eu não o culpo. Eu teria feito a mesma coisa em seu lugar. Mas as relações entre nós não melhoraram. Minha oferta e sua recusa só pareciam piorar as coisas. Eles ficaram em silêncio enquanto Sophia digeria estas questões. Como uma criança pequena poderia entender os dramas dos adultos que a cercavam? — Quem projetou o lago — disse ele — com a ilha apenas para o templo, certamente tinha um olho para o pitoresco. Há barcos? — Sim — ela disse, mas esperava que ele não sugeririsse ir até lá. Ela não tinha ido desde aquela tarde, quando Vincent a tinha ensinado a boiar, quando eles fizeram amor de uma maneira nova e ela admitira estar apaixonada por ele. Eles se viraram para ir até a garagem de barcos e contornar o lago. — Nós éramos uma família em ruínas, Sophia — disse ele. — Eu não sei bem porquê, mas nenhum de nós tinha muito afeto por qualquer um dos outros, embora seu pai e eu fôssemos os melhores amigos enquanto estávamos crescendo. Acho que foi tudo minha culpa, tanto como do meu irmão e de minhas irmãs. Tenho uma tendência a ser indiferente. Minha esposa uma vez me acusou de ser frio, e eu fiquei magoado, porque não me sentia frio. Mas quando considerei sua acusação após a briga, tive que admitir que minhas ações se prestavam a esta interpretação. Eu sempre preferi ficar à margem de qualquer evento do que mergulhar e me tornar uma parte dele. Talvez seja por isso que tenha me tornado um diplomata, em vez de um político ou um oficial militar. Sophia não disse nada. Não tinha nada a dizer. — Ah — disse ele, enquanto caminhavam para além do lago e passavam entre as árvores da margem. — Eu vejo o que você quer dizer. Vejo porque o projetista do parque colocou o beco aqui, fora da vista da casa. Uma pessoa pode


se esconder aqui. É um bom lugar para passear e pensar, ou um bom lugar para trazer um livro. E você vê como minha mente funciona? Essas são as primeiras coisas que pensei. É também um lugar privado para os amantes passearem. — Sim — disse ela. — Você vem passear aqui com Darleigh? — Perguntou a ela. — Sim — disse ela. — Às vezes. Algumas vezes eles tinham ido ao quiosque e ela tinha trazido um livro para ler em voz alta enquanto estavam sentados lá. Uma vez tinha chovido um pouco enquanto eles estavam lá, e Vincent tinha comentado que o som da chuva sobre um telhado de vidro deveria ser certamente um dos sons mais aconchegante do mundo. E ele a tinha puxado para o seu colo, e ela tinha posto a cabeça em seu ombro, e eles ficaram sentados em silêncio até que a chuva passou. A lembrança trazia um nó na garganta, como tantas outras. Mas ele queria ser livre. Ela era apenas mais uma mulher que queria cuidar dele. E ele tinha ouvido a conversa que tivera com suas irmãs sobre seu desenho da casa que uma vez tinha sido seu sonho. No entanto, ela estava grávida. Eles permaneceriam juntos. Ela não iria deixá-lo agora, e ela tinha a certeza de que ele não iria deixá-la. Eles tinham uma boa vida juntos. Eram amigos. Conversavam e riam juntos. Eram amantes. Eles teriam um filho, o que ambos queriam. Eles tinham família, bons vizinhos e alguns amigos próximos. Eles tinham... tudo. Por que ―tudo‖ era uma palavra tão pesada? — É um bom casamento, Sophia? — Perguntou o tio.


— Sim. Era. Ela não estava mentindo. — Achei que fosse — ele disse a ela. — É bastante claro que vocês se gostam. Você o escolheu deliberadamente e foi atrás dele audaciosamente? — Foi isso que Tia Marta lhe disse? — Ela perguntou. — Eu não culparia você, se fosse verdade — disse ele. — É como a maioria de nós obtemos nossos cônjuges. Mas não foi assim no seu caso, eu acho. Suponho que Henrietta o queria, ou Martha e Clarence o queriam para ela e, de alguma forma, você se intrometeu e ele se casou com você. Pelo menos, essa é a minha interpretação da história que eles contaram. — Houve uma assembleia — disse a ele — e Henrietta persuadiu Vincent a levá-la para fora para tomar um pouco de ar. Ela o levou a um beco pouco usado. Eu fui atrás deles com um xale que fingi pensar ser dela. Ele riu suavemente. — E houve um barulho horrível, eu acho, — disse ele — e Darleigh te pediu em casamento para te salvar da ira de Martha. — Eu disse não — ela disse a ele. — Mas ele persistiu e me convenceu de que nosso casamento iria beneficiá-lo tanto quanto a mim. Não era verdade, é claro, mas me casei com ele de qualquer maneira. — Não, isso não é verdade — disse ele. — Eu acredito que ele tem se beneficiado mais do que você, Sophia. — Que absurdo. — Ela riu. — Eu poderia, muito bem, estar nas sarjetas de Londres, se não fosse por Vincent. Ele parou de andar no meio do beco e olhou para ela.


— Diga-me que isso não é sério — disse ele. — Martha não ameaçou colocá-la para fora, não é? — Ela fez isso — ela disse a ele — no meio da noite após a assembleia. Eu fui para a igreja e o vigário me encontrou lá na manhã seguinte. Vincent chegou à casa paroquial quando ouviu o ocorrido. Seu tio fechou os olhos, e sua mão livre veio descansar sobre a dela em seu braço. — Ah, Sophia — ele disse — eu sou muito culpado. Sebastian me disse que Mary estava negligenciando você vergonhosamente quando você vivia com ela. Eu estava ocupado em Viena e não consegui voltar à Inglaterra para ver por mim mesmo. E então ela morreu e Martha levou você. Ela tinha Henrietta, que era da mesma idade, e eu escolhi acreditar que você teria companhia e seria muito mais feliz do que tinha sido. Eu deveria ter pensado melhor. Realmente deveria. Tenho feito perguntas discretas a alguns conhecidos em Londres, mas todos me confirmaram a presença de Henrietta em numerosos eventos sociais durante as últimas temporadas, e nem um único deles jamais sequer ouviu falar de você. Você não teve uma temporada? Você não foi levada a quaisquer festas ou bailes? — Não — ela disse. — Tia Marta tinha medo de que as pessoas se lembrassem de papai e como ele chegou ao seu fim. — Ah — disse ele. — A culpa é minha. Mas é muito fácil só implorar seu perdão. Eles tinham retomado a caminhada e estavam chegando perto do quiosque. — Se as pessoas não podem pedir perdão ao outro, — disse ela — então nada pode ser perdoado e as feridas inflamam.


— Você ficou profundamente ferida, Sophia? — Perguntou a ela. — Eu feri você? — Sim. Ouviu-o inspirar lentamente e liberar o ar. Ela ficou feliz por ele não escolher entrar no quiosque. Ele virou-se e caminhou lentamente de volta para o beco. — E agora — disse ele — é tarde demais para eu fazer qualquer coisa para ajudá-la. Você não precisa da minha ajuda. Você tem Darleigh. — E sua mãe, avó e três irmãs e suas famílias — disse ela. — Eu não tenho meus próprios parentes, tio Terrence. Apenas tia Martha, Sir Clarence e Henrietta, com quem eu espero ter um relacionamento cordial, embora nunca caloroso. E talvez você. — Sua família te prejudicou abominavelmente — disse ele. — Talvez fosse melhor para você virar as costas para todos nós, Sophia. — Como você e papai fizeram um com o outro? — Ela disse. — Como vocês dois parecem ter feito com suas irmãs? As famílias não deveriam ser assim. Tudo que eu quero é uma família para amar e para me amar. Minha própria família. É pedir muito? — Eu não tenho muita experiência com o afeto — disse ele. — Você pode tentar? — Perguntou a ele. — Você disse que sua maior dor foi a perda de seus filhos. Você tem uma sobrinha. Eu posso não ser uma substituta para seus próprios filhos e filhas, mas eu imploro seu amor. E eu desejo te amar. Ela engoliu em seco e ouviu um murmúrio embaraçoso em sua garganta. Ele parou de andar novamente e virou-se para ela.


— Sophia, — disse ele — eu não acredito que já tenha conhecido alguém tão amável como você. Talvez meus próprios filhos ... mas eles não estão aqui e nunca estarão. Eu não sou bom em abraços. — Eu sou — disse ela e se pôs em seus braços. Envolveu seus próprios braços sobre sua cintura e descansou um lado de seu rosto contra seu ombro. Seus braços a apertaram e eles ficaram imóveis por um longo tempo antes de se soltarem um do outro. — Me perdoa? — Disse. — Sim. — Me deixa ser uma parte de seu presente e seu futuro? — Sim. — Você o ama, Sophia? — Perguntou. — Você pode me consolar, dizendo-me que é realmente um bom casamento? — Ambos — disse ela. Ele foi realmente bom. Eles permaneceriam juntos por causa de seu filho, talvez com o tempo por causa de seus filhos. Mas não seria apenas seus filhos que os fariam ficar juntos. Oh, ela não iria acreditar nisso. Eles seriam uma família. Eles iriam amar uns aos outros como as famílias deveriam. E ela e Vincent iriam mostrar aos filhos o exemplo de amor, companheirismo e tolerância. — Darleigh é um homem de muita sorte — disse ele. Ela sorriu e pegou o braço dele. — Perderemos o chá, se não voltarmos em breve — disse a ele.


Capítulo Vinte e Um Vincent saiu da cama com muito cuidado. Sophia tinha acabado de voltar a dormir. Ela ficara acordada até 3:30, ela lhe disse quando acordou pouco antes das seis, ela olhara para o relógio para ver que horas eram. Ela pediu desculpas se sua inquietação o havia perturbado. — Assustada? — Ele perguntou a ela. — Ao menos isso — ela disse com uma espécie de gemido. — E animada. E ... apavorada. A recepção e o baile aconteceriam dentro de dois dias. Tanto quanto Vincent poderia dizer, tudo havia sido planejado até a exustão e organizado até ao mais ínfimo detalhe. Suas irmãs e suas famílias chegariam em algum momento hoje, mais tarde, bem como Flavian. Os vizinhos a cerca de dez milhas foram convidados, alguns poucos para ficarem durante a noite por causa da distância. De todos os convites que haviam sido enviados, apenas um tinha sido recusado, e só porque o destinatário tinha tido a infelicidade de cair do telhado de seu celeiro quando sua esposa tinha gritado e acenado o convite lá de baixo, o distraindo. Ele tinha quebrado a perna em dois lugares, pobre homem. De acordo com Andy Harrison e alguns dos outros homens com quem Vincent fizera amizade ultimamente, teriam um silêncio terrível na vizinhança


depois do baile de Middlebury. Não haveria nada, absolutamente nada a comentar. Eles tinham todos gargalhado alegremente com a perspectiva. Vincent abraçou e beijou sua esposa, lhe garantindo que tudo ficaria bem, que nada iria dar errado. Claro que a orquestra chegaria de Gloucester. E, claro, toda a comida seria preparada na hora certa e com perfeição. É claro que todo mundo viria. E é claro que era apropriado e desejável que ela abrisse o baile com seu tio. E ela não esqueceria os passos ou tropeçaria em seus próprios pés ou nos de qualquer outra pessoa. A senhorita Debbins tinha ensinado os passos a ela, e praticara na sala de música com seu tio, um dançarino experiente e especializado, não tinha? É claro que ele não estava arrependido por ela o ter colocado nisso. — O que quer dizer, de qualquer maneira, Sophie, — ele perguntou — com ―ter me colocado‖ nisso? Não fomos nós que decidimos que era hora de reviver a tradição das grandes recepções? Não fomos nós que decidimos sobre o baile? — É muito gentil da sua parte dizer isso — ela disse, com a voz abafada contra seu peito. — Mas temo que tenha sido eu. Eu queria provar a mim mesma que era capaz de ser a senhora de Middlebury. Eu queria mostrar a todos que poderia competir com todas as viscondessas através da história. — E você tem feito isso admiravelmente bem — assegurou ele, beijando os cachos em sua cabeça. — Ou você está prestes a fazê-lo. — Esse é o problema — ela disse. — A parte do ―estar prestes a fazê-lo‖. Volte a dormir, Vincent. Eu não queria te acordar. Tenho muito que dormir ainda, embora eu duvide que vá dormir uma piscadela até depois dos próximos dias. Não mais do que três minutos depois, ela estava dormindo, e Vincent saiu da cama e foi para seu quarto de vestir. Ele ouviu Shep se erguer e vir cutucar


sua mão com um nariz frio. Ele esfregou a cabeça do cão e puxou suas orelhas suavemente. — Bom dia, meu velho — ele sussurrou, inclinando a cabeça para a lambida habitual na bochecha. — Faremos uma rápida caminhada lá fora para você se aliviar, e então eu tenho um compromisso a cumprir. Na verdade, ele também tinha ficado acordado um pouco ontem à noite, mas dormiu mais cedo do que Sophia. Ele estaria indo se fazer passar por um completo idiota? Ele tinha praticado com Martin nas últimas manhãs, e Martin tinha jurado que ele estava tinindo, mesmo que apenas figurativamente falando. — Eu não sei bem como conseguiu, senhor, — ele resmungou — mas você o fez, e eu não gosto nem um pouco da minha própria participação nisso. Mas eu gostaria de lutar com o bastardo sorridente. Lutou com o próprio Gentleman Jackson, não é? Espero que ele não estivesse apenas ostentando quando lhe disse isso. Isso significaria que tem mais a perder. Também significaria, se ele não tivesse ostentado, que seria um oponente formidável. E este fato que tinha mantido Vincent acordado, seu estômago revirando desconfortavelmente. Não que ele temesse se machucar. Ele tinha crescido meio selvagem. Havia apanhado em brigas quase tão freqüentemente quanto ele tinha batido. Sempre tinha encarado a briga. Não, desta vez era o medo de ser tomado por um incapaz, de não conseguir realizar o que tinha preparado seu coração para fazer. Era o medo de que sua cegueira o incapacitasse. Pensamentos inúteis! Mas os desvarios noturnos eram os mais difíceis de suprimir. Martin já estava na adega quando Vincent chegou lá.


— Você tem certeza sobre isso, senhor? — Perguntou. — Eu ficaria feliz em fazer isso para você da maneira tradicional. Vou tê-lo caído sobre suas costas vendo estrelas pelo teto da adega e por todos os limites acima dele em poucos minutos. — Gentleman Jackson, não obstante? — Perguntou Vincent. Seu criado disse algo irrepetível. — Você não tem fé em mim, Martin? — Toda a fé no mundo — Martin disse a ele. — Mas eu não sei por que você deve ter toda a diversão, só porque é um maldito visconde. — E porque a viscondessa é minha esposa — disse Vincent. — Ah. Há isso também — Martin admitiu. — Se fosse Sal, nenhum punho substituiria os meus. Vincent sorriu e teria dito alguma coisa sobre o namoro firme entre o criado e a filha do ferreiro, que ainda estava tentando prendê-lo ao casamento da última vez que falou com ela. Mas a porta do porão abriu acima deles, e uma voz alegre chamou. — Darleigh? Você está aí embaixo? E o seu valete? — Nós dois — Vincent respondeu. — Desça, Maycock. Deve haver uma abundância de claridade. Martin acendeu todas as luzes. — Ah, uma caverna maravilhosa — disse Sebastian Maycock, com a voz mais perto. — Este é o lugar onde você faz seu exercício, Darleigh? E este é o seu treinador? — Martin Fisk — disse Vincent. — Amigo, batedor, valete, treinador. Ele tem várias funções.


— Você parece impressionantemente grande — disse Maycock. — Esses músculos do ombro e dos braços parecem ser mantidos em boas condições. — Eu faço o meu melhor — Martin disse a ele. — Então você acha que pode me derrubar, não é? — Maycock riu. — É preciso muita habilidade, além de músculos. Você sabia? — Acho que posso ter ouvido ser mencionado uma vez ou duas — disse Martin. — Certo — disse Maycock. — Você está nu até a cintura e pronto, eu vejo. Vou tirar minha camisa e as botas, e nós vamos para lá. Darleigh advertiulhe para trazer sais aromáticos e curativos, não é? — Ele mencionou — disse Martin. — Uma luta sem sets definidos, então? — Disse Vincent. — Uma luta justa, com os punhos apenas, sem socos abaixo da cintura? Para terminar quando um for derrubado e seja incapaz de levantar-se novamente dentro de um período razoável de tempo? — Isso parece justo para mim — disse Maycock. — Eu não espero que isso leve muito tempo. Espero que sua cozinheira sirva o café da manhã cedo, Darleigh. Não há nada como uma boa luta de boxe para aguçar o apetite. Tente não cair muito rápido, Fisk. Pronto? — Estou pronto — disse Martin. — Lá. Coloquei as lanternas juntas. — Oh, espalhe-as novamente — Maycock disse a ele. — Há muitas sombras com nós três em um lugar como este. Vamos ter que tomar cuidado para não derrubá-las. Darleigh, meu velho, eu aconselho-o a sentar-se em um degrau das escadas. Nós não gostaríamos de bater em você por acaso, não é? Não seria esportivo. Ele riu. O homem ria muito.


— Eu acho que há um detalhe que você entendeu mal — disse Vincent. — Não é Martin quem será o seu parceiro de treino, Maycock. Serei eu. Houve um curto silêncio e, em seguida, o riso veio novamente, desta vez às gargalhadas. — Essa é boa, Darleigh — disse ele. — Haveria um massacre aqui em um mero segundo. Certo. Vamos mostrara ele, Fisk? Espalhe as lâmpadas. Está escuro aqui embaixo. — E está prestes a ficar mais escuro — Vincent disse a ele. — Eu aparentemente não fui claro. Você e eu vamos lutar, Maycock. É claro que uma luta entre nós seria ridícula em condições normais. Você pode ver. Eu não posso. A luz não pode ser ligada em meus olhos por poucos minutos, infelizmente, mas pode ser desligada dos seus. Assim estaremos equilibrados e será uma luta justa. Eu digo lutar em vez de treinar por uma razão. Quando você diz a uma garota de luto, vulnerável, com quinze anos de idade, que ela é feia, Maycock, e quando você a força a se olhar em um espelho de corpo inteiro, você faz mais do que machucá-la. Você a destrói. Quando você faz isso para a garota que, mais tarde, se tornou minha esposa, então você fez de mim seu inimigo e é merecedor de uma punição por minhas mãos. — Ora — Maycock riu de novo. — Isso foi há anos, meu velho, e não era nada mais que a verdade. Você queria que eu tivesse mentido a ela? Você queria que eu dissesse.... — Ora! — As luzes estão apagadas, senhor — disse Martin. — Três passos para a frente, ligeiramente para a direita. — Está tão negro como o pecado aqui embaixo — disse Maycock, sua voz indignada. — Acenda-as novamente neste instante, homem. — Eu o aconselho a defender-se — disse Vincent, tendo se mudado para a frente três passos ligeiramente para a sua direita — é a única a que terá direito.


Ele usou ambos os punhos e golpes curtos para localizar o homem, e, em seguida, enganchou um direto em seu queixo. — Ora! Isso não é esporte. — Suas mãos estão atadas? — Perguntou Vincent. — Seus pés estão acorrentados? Seus ouvidos estão bloqueados? Ele cutucou o peito nu diante dele, deu um gancho com a esquerda e golpeou para cima com a direita. Para seu crédito, Maycock recuperou-se e ergueu os punhos para se proteger. Ele dançou sobre em seus pés e dançou para longe do ringue. Os golpes livres de Vincent chegaram ao fim. Mas, claro, não era realmente uma luta justa. Vincent era experiente no escuro. Ele era experiente no uso de seus ouvidos e em usar aquele sexto sentido que lhe dizia quando alguém ou algo estava perto. O principal era o som, o bater de pés descalços no chão, a respiração que se tornava mais difícil. E, como não, uma voz de protesto ou insulto, especialmente quando Maycock acertava um soco, o que fez mais de uma vez, embora nada que machucasse realmente. Nada na face. Vincent falou também. Era justo. — O problema com você, Maycock, — disse ele — é que você é um homem de superfícies. Você vê beleza e acredita que uma pessoa deve ser bonita. Você simplesmente olha e acredita que uma pessoa seja maçante e lhe falte sensibilidade.Você veria uma ostra e nem sequer suspeitaria que uma pérola de valor inestimável estivesse dentro. Maycock estava logo à frente dele. Ele verificou o fato com uma série de golpes rápidos de esquerda, que o homem combateu deixando o queixo exposto à sua direita. Ele caiu como uma tora.


— Pura sorte — disse ele, se levantando. — Eu só desejaria enfrenta-lo no salão de boxe do Jackson durante um minuto, em meus termos, Darleigh. Aí você veria quem é o lutador superior. — E Gentleman Jackson e todos os seus amigos e conhecidos aplaudiriam seus talentos superiores — Vincent disse, derrubando-o novamente. Era difícil julgar exatamente onde ficava o queixo em seu rosto. Vincent tinha tentado evitar o rosto. Havia uma família para ser confrontada escadas acima. Haveria uma recepção em dois dias. Mas ele pensou que, desta vez, tinha acertado o nariz de Maycock. Maycock se levantou novamente. Pelo menos ele não era covarde. Vincent deu um soco forte no queixo, cambaleou por um momento, e dançou de volta para fora de alcance. — Você viu uma jovem garota solitária, que foi descuidada por seu guardião, — disse ele — e viu a feiúra mesmo que ela o adorasse. Eu não posso nem ver a mulher adulta, mas vejo toda a beleza que está dentro dela, e me deslumbra os olhos da mente. — Talvez seja crueldade ser sincero — disse Maycock, irritado. — Se você acha que é importante, Darleigh, vou pedir desculpas a ela. Eu já lhe disse que ela não é mais feia. O homem não entendia, não é? Ele, provavelmente, era incapaz de compreender. Vincent derrubou-o novamente e ele cambaleou por um ou dois segundos. — Eu vi a sua dor, bem como a sua beleza — disse Vincent. — A dor de acreditar ser feia e indigna de ser amada. — Se você tivesse olhos, Darleigh, — disse Maycock, — você poderia...


Vincent o derrubou com um golpe destinado a nocauteá-lo. E o fez. Houve um silêncio, exceto pelo som de sua própria respiração pesada. — Maycock? Houve apenas um gemido maçante. — Uma lâmpada, senhor? — Perguntou Martin. — Sim, uma luz, por favor, Martin. — Ele não está completamente inconsciente — Martin relatou alguns momentos mais tarde. Maycock gemeu novamente. — Aqui, deixe-me ajudá-lo — disse Martin. — Sente-se nas escadas aqui. Posso ser solidário. Eu tentei com ele, sem qualquer sucesso. Eu costumava derrubá-lo tantas vezes quanto ele me derrubava quando éramos rapazes, mas isso foi quando ele podia ver. Ele é mais letal agora. Vincent tinha encontrado uma toalha e estava secando-se. Ele poderia dizer que Martin estava ajudando Maycock. — Algum dano? — Perguntou. — Apenas uma gota de sangue do nariz — disse Martin. — Ele vai se parecer um pouco como um farol por um dia ou dois. Um pouco de vermelho e uma ferida sobre o queixo. Nem um único olho roxo. O peito e os braços ostentarão hematomas em uma variedade de cores por um tempo, mas ninguém vai vê-los debaixo de sua camisa. — Eu fui trazido até aqui sob falsos pretextos — disse Maycock.


— Você foi trazido aqui para a punição — Vincent disse a ele. — Eu poderia ter mandado Martin amarrá-lo, você sabe. Em vez disso, foi dada a você uma luta justa. — Justa! — Disse Maycock, irritado. — Você me fez de idiota. — Espero que sim — disse Vincent e sorriu. — A explicação mais simples que podemos dar no andar de cima, creio eu, é uma versão da verdade. Você e eu tivemos uma luta de boxe amigável depois que você, muito desportivamente, sugeriu fazê-lo na escuridão total. — Eu não gosto de ser feito de bobo — disse Maycock. — Ninguém gosta — Vincent disse a ele. — Mas só você, eu e Martin sabemos que isso aconteceu. E Sophia. Eu direi a ela. Ele ouviu pés subindo as escadas. A porta na parte superior foi aberta e depois fechada novamente. — Ele não era um covarde chorão — disse Martin. — Estou contente com isso. Toda vez que eu o ouvi cair, eu queria que ele se levantasse de novo. — Foi injusto? — Perguntou Vincent. — Não como castigo — disse Martin. — Ele não está gravemente ferido. Apenas seu orgulho. E ele certamente não entenderá o ponto, não é? — Acho que ele é incapaz — Vincent concordou. — Você vai ter um bom hematoma em sua mandíbula — disse Martin. — Aqui, deixe-me pressionar esta toalha molhada nele. Eu disse que ela parecia um menino, senhor. Quando você me disse que se casaria com ela. Você precisa bater em mim também? — Você redimiu-se desde então — Vincent disse a ele. — E você não disse isso a ela e nunca o teria feito. Ai! Isso é dolorido. Além disso, ela


provavelmente se parecia com um menino, meu pobre espantalho com seu cabelo tosquiado. Ele está crescendo. — Suponho que você não quer se exercitar ainda mais esta manhã, senhor? — Disse Martin. — Devo ir na frente para ter sua banheira preparada? — Sim, por favor, Martin. Ele flexionou os dedos, que pareciam feridos, e flexionou sua mandíbula, que ia doer por um tempo. Ele a amava, pensou. A idéia surgiu para ele como que do nada. Bem, é claro que ele a amava. Ela era sua esposa, e eles estavam confortáveis juntos. Eles conversavam e riam juntos. Eles eram maravilhosos juntos na cama, e ela levava, há alguns meses, seu filho com ela. Claro que ele a amava. Mas não. Isso não era o que esse pensamento repentino tinha significado. Ele a amava. E ela ainda sonhava com sua casa de campo.

Sophia tinha dormido até tarde, e agora parecia-lhe que nunca iria recuperar. Embora o que havia para recuperar, ela não tinha certeza. Com apenas dois dias para a recepção e o baile, tudo o que precisava ser feito tinha sido feito, e agora era simplesmente um caso de esperar que tudo acontecesse, que nada desse errado e que nada tivesse sido esquecido. Nada tinha sido negligenciado. Eles até haviam cavalgado ontem, ela e Vincent, para convidar o Sr. e a Sra. Latchley, ele era o arrendatário infeliz que tinha caído do telhado de seu celeiro. Sim, eles tinham montado, ela de um lado de Vincent, montada em uma sela lateral na égua tranquila que tinham treinado


para ela, e o Sr. Fisk do outro lado. E o Sr. Fisk nem sequer comentou, no final da viagem de volta, que eles dificilmente poderiam ter percorrido a distância a pé em menos tempo. Ela gostava do Sr. Fisk depois de tudo. Com toda a sua maneira franca, rude, muitas vezes ela detectou algo parecido com um sorriso em seus olhos quando olhava para ela. Eles haviam persuadido o Sr. Latchley a lhes permitir enviar a carruagem para trazer a ele e sua esposa a Middlebury no dia do baile. Eles prometeram arrumar um sofá em um canto seguro do salão de baile, onde podia reclinar e descansar a perna imobilizada enquanto observava as festividades e conversava com seus vizinhos. A Sra. Latchley, entretanto, podia dançar e passear com as amigas. Eles iriam passar a noite, é claro, e ser levados para casa no dia seguinte. Sophia não estava com fome. Ela iria perder o café da manhã, decidiu, embora soubesse que não deveria. Ela tinha um bebê para alimentar, bem como a si mesma. Talvez um pouco mais tarde. Nesse tempo, iria roubar alguns minutos para si mesma do lado de fora. Parecia uma manhã fria, mas não ia chover. Ela pegou uma capa. Ela passeava no jardim formal por um tempo, relutante em ir mais longe. Sua família e a de Vincent acordavam tarde pelos seus padrões, mas eles se levantariam em breve, se ainda não o tivessem feito. Ela não teria muito tempo, então. E havia mais pessoas que chegariam hoje. Tinha sua própria família! Testou o novo pensamento, e se sentiu calorosamente satisfeita, como sempre. Ela tinha um tio. Ela tinha uma tia, um tio e uma prima, além disso, e eles seriam parte de sua vida, porque ela se recusava a deixá-los ir. Alguns poderiam chamá-la de tola. Eles não eram pessoas particularmente simpáticas, nenhum dos três, e certamente não tinham


sido bons com ela, além do fato de que, durante três anos, tinham fornecido um teto sobre sua cabeça e comida para o seu estômago. Mas ela não guardaria rancor. Simplesmente não o faria. Assim como ela não guardaria rancor contra Sebastian. Ele era um homem amável, fraco, um pouco egocêntrico, e certamente não tinha sido digno da devoção de uma jovem, mas ele era, de algum modo, uma parte dos pequenos restos de sua família, e estava contente por ele estar lá. Ela estava prestes a voltar para a casa quando se deu conta de alguém correndo até a calçada. Uma mulher. Ela virou-se para o trecho em linha reta entre as árvores de topiária, e vendo que era Agnes Keeping, foi ao seu encontro. Era cedo para uma visita, mas era bem-vinda. — Agnes — ela chamou quando estava ao alcance da voz da outra. Sua amiga estava sorrindo brilhantemente e acenando um papel dobrado. — Eu não podia esperar até uma hora mais respeitável — disse ela, sem fôlego. — O correio veio cedo, e por isso eu vim cedo. Tenho notícias de Dennis depois de ter perdido a esperança de alguma vez ter notícias dele novamente. Os homens são os mais relaxados correspondentes, não são? Sophia sorriu, e ambas pararam de andar. Quem era Dennis? — Dennis Fitzharris — explicou Agnes. — Meu primo. O editor. Ah, o primo. Mas Agnes não tinha dito que ele era, na verdade, um editor. Sophia ergueu as sobrancelhas. — Ele quer publicar sua primeira história de Bertha e Dan — Agnes disse a ela. — E ele quer ver as outras. Aqui. Leia por si mesma. — E empurrou a carta dobrada para as mãos de Sophia. Era verdade. Ele queria publicar o livro. Gostou, do texto e das imagens. Pensou que iria encantar crianças, e achava que haveria um bom mercado para


ele pois haviam publicado poucos livros dedicado às crianças, especialmente livros que eram tão completamente e divertidamente ilustrados. Ele sugeriu publicá-lo sob o nome de "Mr. Hunt, o Cavalheiro", já que o Visconde Darleigh, sem dúvida, não gostaria de ter seu título associado a algo tão aparentemente insignificante, e Lady Darleigh não desejaria ser considerada vulgar. Ele ofereceu uma soma que parecia ser generosa o suficiente como um adiantamento em relação às vendas futuras. Sophia olhou para os olhos sorridentes de Agnes e sorriu de volta. Abriu um largo sorriso, na verdade. E então as duas se abraçaram e dançaram em um círculo na calçada. — É vulgar ser uma escritora? — Perguntou Sophia. — Terrivelmente, minha querida — respondeu Agnes. — É ainda pior ser uma ilustradora de livros. Há uma palavra mais depreciativa do que vulgar? Se houver, você é isso, ou seria se você permitisse que seu nome aparecesse na capa do seu livro. — A capa do meu livro. — Sophia olhou fixamente para ela. — Meu livro. Meu e de Vincent. Oh, Agnes! — Eu sei — disse Agnes. — Maravilhoso, não é? Mas devo correr de volta. Eu disse à minha irmã que voltaria em meia hora. Prometi ajudá-la a costurar a nova capa de seu melhor vestido de noite para a festa, depois de amanhã, e ela está convencida de que o trabalho vai nos levar todo o dia, um pensamento horrível. Ela se virou e correu de volta do jeito que tinha vindo, e Sophia voltou para casa. — Você viu meu marido? — Ela perguntou ao criado no corredor.


O lacaio acreditava que sua senhoria estava com a Sra. Pearl e Lady March na sala de estar, mas quando Sophia correu ao longo do corredor da ala oeste, ele estava saindo do quarto e fechando a porta atrás de si. — Vincent — gritou ela. Ele olhou na direção dela, inclinou a cabeça para um lado, e franziu a testa. — O que foi? — Perguntou. — Você parece angustiada. — Simplesmente sem fôlego — ela disse a ele. — O carteiro trouxe uma carta para a senhorita Debbins, e ele quer nos publicar, Vincent, embora não com o meu nome, porque seria vulgar. Sua expressão não mudou, exceto seu cenho que, talvez, se aprofundou. — Ele? — Perguntou a ela. — O carteiro? O que seria vulgar? — Usar o nome de uma mulher em uma capa — explicou ela. — Aparentemente, não é feito. E você pode considerá-lo insignificante para colocar o seu título lá. Assim, ele sugere simplesmente ―Sr. Hunt, o Cavalheiro‖. — Típico dele — ele disse, sorrindo de repente. — Sophie, quem na face da terra é ele? E o que diabos você está falando? O que o carteiro e a senhorita Debbins tem a ver com tudo isso? — Absolutamente nada — ela disse a ele. Ele riu abertamente e, depois de um momento, ela se juntou a ele. — A carta era para Agnes Keeping — ela disse a ele. — Ela enviou uma cópia de Bertha & Dan e a Aventura da Bola de Cricket no Pináculo da Igreja para o primo de seu falecido marido em Londres, você se lembra? E ele é um editor que amou o livro e quer comprá-lo e publicá-lo com o codinome de ―Mr. Hunt, o Cavalheiro‖ para salvá-lo da vergonha e a mim da vulgaridade. Ele quer


publicar, Vincent, para as crianças de todo o país lerem e olharem. E ele quer ver mais. O sorriso ficou preso em seu rosto. — Ele deseja publicar seus livros, Sophie? — Nossos livros. — Então é melhor que seja sob os nomes de Sr. e Sra Hunt ou não tem negócio. — Você acha? — Eu acho. E, em seguida, seu sorriso se aprofundou novamente e ele abriu os braços — ele não tinha nem Shep nem a bengala com ele — e ela se jogou para eles. Eles se fecharam com força sobre ela, e ele a rodopiou em um grande círculo. Ele a colocou no chão à uma distância considerável da porta da sala de estar e virou no sentido oposto. Ele estava rindo. Ela também. — Você está feliz com isso? — Ele perguntou. — Você está? — Sim. — Eu também. E então seu sorriso desapareceu. A luz não era brilhante no corredor, mas foi o suficiente para mostrar a ela que o lado esquerdo de sua mandíbula estava inchado e enegrecido. — O que aconteceu? — Ela colocou a mão muito levemente contra esse lado de seu rosto. Ele fez uma careta e se afastou.


— Eu colidi com uma porta? — Ele fez a resposta soar como uma pergunta. Ele também levantou a mão para tocar a área cuidadosamente com as pontas dos dedos. Ela pegou a mão dele e virou-a, com a palma para baixo. — Seus dedos também? — Era uma pesada porta — disse ele. Ela puxou a outra mão e segurou-a entre as suas. — Uma porta muito pesada — disse ele. — O que aconteceu? — A luta de boxe na adega — ele disse a ela. — Maycock veio esta manhã, e nós pensamos que seria divertido treinar um com o outro. Maycock sugeriu, muito desportivamente, que tivéssemos chances mais iguais se o fizéssemos no escuro, e Martin apagou as luzes. Maycock saiu um pouco pior que eu, infelizmente para ele, mas era de se esperar. Eu tinha mais experiência com o escuro do que ele. Ele sorriu para ela. Ela procurou seus olhos azuis, que olhavam de modo quase diretamente de volta para os dela. — Não foi uma luta amistosa, foi? — Perguntou a ele. — Era sobre mim? Ele não respondeu por um tempo. — Você tinha quinze anos, Sophie — disse ele. — Você estava machucada e frágil, e ele pisou em todo o seu coração com os saltos das botas. Pior, ele pisou em toda a sua auto-estima. Ele a convenceu de que era feia quando, na realidade, você era uma das mais belas pequenas criaturas jamais criadas.


— Oh, Vincent. — Ela sentiu uma lágrima escorrer por seu queixo e ser absorvida por sua capa. Outra estava escorrendo por sua outra face. — Foi há muito tempo atrás. Ele não causou nenhum dano real, você sabe. Ele só não tem sensibilidades. Não havia necessidade de puni-lo. — Sim, havia — disse ele. — Eu posso não ter visão, Sophie, mas eu ainda sou um homem. E quando a minha mulher precisar ser defendida, vou defendê-la. Minha mulher. Ela teve uma imagem momentânea de um homem das cavernas puxando sua mulher pelos cabelos com uma mão enquanto que com a outra movimentava uma clava para bater no homem das cavernas número dois. Talvez ela esboçasse isso um dia. Mas ela entendia sua necessidade de ser como os outros homens eram — Vincent Hunt, que sempre foi um líder entre os meninos, à frente de todos os jogos e um explorador selvagem. Ele provavelmente tinha estado à frente de cada briga de jovens também. Ela não poderia esmagá-lo, dizendo-lhe que Sebastian não valia realmente sua ira. — Obrigada — disse ela baixinho. — Obrigada, Vincent. Você passou alguma pomada sobre os nós dos dedos? Ou em sua mandíbula? — Martin sabia que não devia sugerir tal coisa — ele disse a ela. Outra coisa masculina, ela supôs. — Bem, — disse ela — vou beijá-los para melhorar. O que ela começou a fazer. Ele tinha lutado por ela. Na escuridão. E ganhou. E, em seguida, inventou uma história para explicar todas as contusões e as juntas feridas para que ninguém soubesse a verdade, exceto os três homens que tinham estado no porão. E agora ela.


Ela não deveria estar satisfeita. Nada jamais foi conseguido pela violência. Sua generosidade em se casar com ela e sua bondade, desde então, a haviam curado. E ela tinha amadurecido em cinco anos. A violência tinha sido desnecessária. Ela ficou satisfeita, no entanto. Vincent tinha lutado por ela. Porque ela era dele. E porque ela era uma das mais belas pequenas criaturas jamais criadas.


Capítulo Vinte e Dois Sophia estava vestida para o baile. Ela não acreditava que tivesse se sentido tão feliz, ou tão doente, ou completamente delirante em sua vida antes. Ela sabia que não tinha, de fato. — Você vê, milady? — Disse Rosina como se Sophia estivesse discutindo com ela. — Eu disse à senhora. — Você o fez, de fato — Sophia concordou, olhando para trás em sua imagem no espelho de seu quarto de vestir. Rosina estava de pé atrás de seu ombro, e ela estava, de alguma forma, lembrando de outra ocasião em que ficara na frente de um espelho de corpo inteiro com alguém atrás dela. Sebastian tinha sentado ao seu lado ontem, depois do almoço. Seu nariz parecia um pouco menos bulboso que no dia anterior, e os hematomas no queixo e ambos os lados de sua mandíbula pareciam mais azuis do que pretos. Ele tinha passado o dia anterior rindo, de bom humor, de toda provocação a que tinha sido submetido e declarado que a próxima vez que desafiasse um homem cego para uma luta de boxe amigável, iria se certificar de que estava a céu aberto, ao meio-dia em um dia de verão. — Sophia, — ele tinha dito quando estavam sozinhos juntos — Darleigh tem a impressão de que eu te machuquei muito gravemente, quando você ainda estava na casa da tia Mary. Eu não pude evitar machucar você. Eu não tinha


percebido que você estava desenvolvendo sentimentos de ternura em relação a mim, e não poderia encoraja-la a continuar com esses sentimentos. Para mim, você ainda era apenas uma criança, você sabe, e eu não queria vê-la dessa forma. — Não, é claro que não — ela concordou. Ele estava certo. Mas esse não era o ponto. — Você entendeu, com certeza, — ele disse — que quando eu disse que era feia, eu estava apenas brincando com você. A coisa mais fácil seria dizer sim. Realmente não importava depois de todo esse tempo, de qualquer maneira. Mas ela faria o que Vincent tinha feito ontem parecer tolo. Além disso, ele fez questão. O efeito de suas palavras tinha vivido com ela durante anos depois de terem sido ditas. — Não, Sebastian — ela disse. — Eu não entendi isso, porque você não estava brincando. — Ora — ele parecia desconfortável. — Bem, talvez você esteja certa. Você tinha me envergonhado, e eu estava irritado porque não sabia o que dizer a você. E você realmente era uma garota de aparência engraçada, você sabe. Está muito melhor agora. Por favor, aceite minhas mais profundas desculpas. Eu provavelmente lhe fiz um favor, de qualquer maneira. Você provavelmente resolveu se cuidar, como resultado do que eu disse, não é? Qual era a vantagem de não perdoar? Ele estava sorrindo carinhosamente para ela, seu nariz ligeiramente brilhante. E Vincent o tinha castigado. — Suas desculpas são aceites, Sebastian — ela disse. — E você não está tão bonito, você sabe. Talvez você fique melhor amanhã. Ela riu e estendeu a mão direita em direção a ele, e ele a tomou, gargalhando com ela.


— Estou tão feliz por chegar a ser sua donzela — disse Rosina. — Não que seja muito que possa fazer pela senhora. Antes que ela pudesse adular mais ainda, houve uma batida na porta do quarto, e Vincent entrou. — Milorde — Rosina fez uma reverência. — Rosina — disse ele, e ela se retirou. Ele se vestia como sempre, de forma limpa e elegante. Mas esta noite, em seu fraque preto sob medida, com colete prata bordado, calças cinza pálido até os joelhos, com meias e camisa brancas, e sapatos pretos, ele parecia nada menos do que magnífico. Os calções eram ligeiramente à moda antiga, mas Sophia estava muito feliz que ele os usasse. Ele certamente tinha pernas perfeitas para mostrar, a cintura para realçar seu colete, e os ombros e o peito para fazer parecer que o casaco tivesse sido costurado em torno dele. Seu cabelo loiro, um pouco longo demais, como de costume, tinha sido escovado em um estilo elegante, mas logo estaria indisciplinado como habitualmente, bem atraente. — Você parece extremamente bonito, milorde — disse ela. Ele riu. — Você acha? — Eu acho. — Diga-me. — Ele olhou para ela do outro lado. — Descreva-se. — Eu pareço arrebatadora — ela disse a ele, e havia apenas um pouco de ironia em seu tom. — Meu vestido é turquesa brilhante, as saias suaves e flutuantes, aparadas com amplos babados na bainha. Tem o corpete baixo na parte traseira e tem mangas um pouco bufantes. Minhas sapatilhas e minhas luvas são prata, meu leque de bambu chinês finamente forjado e delicadamente pintado. E os meus cabelos, Vincent! Rosina tem mágica em seus dedos, eu juro.


— Vou ter que dobrar o seu salário? — Perguntou a ela. — Oh, pelo menos isso — disse ela. — Ela os fez parecer longos quando realmente apenas começaram a chegar abaixo do meu queixo. Eu não tenho nenhuma ideia de como ela fez isso. Está todo elegante para os lados e presos na parte de trás, e todos os cachos estão reunidos no topo da coroa da minha cabeça para que não pareça ser uma grande massa de cabelos. E ela deixou alguns cachos ondulando artisticamente sobre meus ouvidos, e eu suspeito que logo haverão alguns ao longo do meu pescoço. Deve haver todo um arsenal de grampos na minha cabeça, Vincent, embora eu não possa ver um único no espelho. E o cabeleireiro de Lady Trentham estava certo, e Rosina também. O estilo não mostra meu longo pescoço. E tenho boas maçãs do rosto. Eu pareço mais adulta. Mais velha do que sou. Mais ... Hmm. — Bonita? — Sugeriu. — Impossível, Sophie. — Sim, acho que sim — ela concordou. — Você não pode ser mais bonito do que você já é — disse ele. Ela riu e ele sorriu para ela. — Feliz? – Ele perguntou. Seu sorriso desapareceu. — Pergunte-me novamente no final da noite — ela disse a ele, e o bebê escolheu aquele momento para realizar aquilo que parecia ser um salto mortal para os lados. — Se não houver grandes desastres, a resposta deverá ser sim. — Vamos. — Ele estendeu a mão para ela e puxou-a contra ele. — Não esmague o meu cabelo — ela disse a ele. Ele abaixou a cabeça e a beijou. Ela o beijou de volta e se agarrou a ele, com os braços sobre a cintura.


— Não esmague meu colete — ele murmurou contra os lábios dela e aprofundou o beijo. Ela recuou, pegou seu leque e tomou-lhe o braço. Havia convidados a receber. Sophia tinha descrito a cena. Vincent tinha tido os aposentos da festa descritos para ele antes, mas não tinha vindo aqui muitas vezes. Eles não o tinham interessado particularmente, exceto que saber que eles davam grande prazer aos visitantes e havia uma certa satisfação em saber-se proprietário de tal magnificência. A descrição desta noite, é claro, tinha mais vida para ele do que jamais tivera antes, em parte porque Sophia era a narradora, e em parte porque os aposentos estavam sendo usados para a finalidade a que estavam destinados. O grande salão tinha sido decorado como uma sala de carteado e sala de estar para aqueles que desejavam retirar-se da confusão do salão de baile por um tempo. Havia quatro mesas e um número de sofás. Um fogo tinha sido aceso na lareira de mármore. As paredes estavam revestidas com faixas estreitas de carvalho alternadas com painéis mais amplos com cenas pintadas. O teto alto abobadado também foi decorado com pinturas. Houve douramento em todos os lugares e um único grande lustre se pendurava no centro do teto, todas as velas acesas para a ocasião. O pequeno salão, exatamente metade do tamanho de seu vizinho maior, fora igualmente decorado. Ele foi preenchido com bebidas, guloseimas saborosas, doces, vinhos e licores, limonada, chá. A sala de jantar seria usada mais tarde para o jantar, brindes e discursos — e um bolo de casamento de quatro níveis, que tinha sido ideia de sua avó. Um bolo de casamento com Sophia grávida de vários meses e começando a aparecer, se pudesse acreditar em suas mãos!


Ele esperava que aparecesse. Estava explodindo de orgulho, e de terror suprimido. O salão de baile era duas vezes o tamanho do grande salão e não ao contrário, a não ser que fosse pelo motivo que onde não foram pintados painéis, havia espelhos. E havia três lustres de teto, um estrado para a orquestra em uma extremidade e um chão que brilhava com janelas lustradas e portas francesas que se abriam para o terraço. Tudo deveria ser magnífico de se ver. Mais do que o habitual aquela noite, é claro, porque estava cheio de convidados. Oh, não era o tipo de aperto tão amado nas recepções de Londres durante a temporada, ele supôs, mas toda a sua família e a de Sophia estavam aqui, e todos os seus vizinhos. E Flavian. Todo mundo estava brilhando com jóias, acenando com plumas e brilhando com cores, Sophia relatou. Ela tinha ouvido falar que era moda nos salões de Londres, mesmo para a mais nova das meninas e o mais novo dos jovens, demonstrar um ar de enfado afetado. Henrietta tinha praticado o olhar quando teve sua primeira temporada. Ninguém tinha esse olhar esta noite. — Nem mesmo sua tia e sua prima? — Vincent perguntou quando ela relatou sobre o fato de que o último dos hóspedes tinha chegado e sido recebido nas portas e eles passaram ao interior do salão de baile. — Não. — Ela riu. — Elas estão muito ocupadas com o olhar superior. Mas estão se divertindo muito, Vincent. Eles são pessoas muito importantes aqui. Nossos vizinhos estão olhando para eles com respeito e admiração. As plumas do cabelo de Tia Martha devem ter quatro pés de altura, e eles estão acenando com a cabeça de forma muito imponente. — Eu detecto um pouco da caricaturista na observação — disse ele.


— Bem, talvez três pés de altura — ela admitiu. — Ela está falando com todos. E tem Sir Clarence. Se ele estufar mais o peito para fora, todos os botões do seu colete saltarão em uníssono. Oh céus! Por favor, me pare. — Por nada neste mundo — ele disse a ela. — E Henrietta? — Jogando seu charme no Visconde Ponsonby, — disse ela — embora pareça que ele solicitou à Agnes para a dança de abertura. — Falando em dança de abertura... — ele disse. — Sim. — Mesmo sobre o zumbido da conversa animada ao redor deles, ele a ouviu respirar fundo. — Onde está o tio Terrence? Ah, lá vem ele. — Darei à orquestra o sinal para iniciar um acorde para a dança de abertura, Darleigh? — Perguntou. — Parece-me, Sophia, que essa noite vai ser um grande sucesso. — Se você diz — disse Vincent. Ele pegou a mão de Sophia na sua e levou-a aos lábios. — Divirta-se — disse ele. Ele estava na porta ouvindo a música e as batidas rítmicas da dança, sapatos batendo sobre o assoalho de madeira, ao mesmo tempo. Seu próprio pé bateu e ele sorriu. Não foi deixado sozinho. Vizinhos vieram cumprimentá-lo a fim de reviver a velha tradição de tal forma grandiosa, e eles ficaram para conversar. Sua avó veio tomar seu braço por um tempo. A esposa de Andy Harrison trouxelhe um copo de vinho. Ele havia percorrido um longo caminho em poucos meses. Graças a Sophia. Embora não inteiramente. Não deveria ser injusto consigo mesmo. Ele


próprio tinha atuado. Ele próprio tinha se livrado da superproteção dos membros femininos de sua família, sem feri-los, ele acreditava. Havia trabalhado duro com Shep de modo a ter uma maior liberdade de movimentos do que tivera nos últimos seis anos. Passou longas horas com seu administrador, tanto no escritório como fora, aprendendo os prós e contras de suas propriedades e assumindo um papel ativo na tomada de decisões. Ele tinha chegado a conhecer seus vizinhos e seus trabalhadores. Tinha feito alguns amigos reais. Tinha ido pescar. Tinha ajudado Sophia a se recuperar do terrível trauma dos últimos cinco anos, e até mesmo, talvez, das inseguranças dos quinze anteriores. Ele tinha trazido contentamento a ela, acreditava, mesmo que não a felicidade ativa, e algum prazer, tanto dentro como fora do leito conjugal. Agora podia tocar harpa sem querer a cada momento simplesmente atirá-la pela janela mais próxima. Ele poderia até mesmo ser razoavelmente competente sobre ela dentro do próximo ano, mais ou menos. Ele estava prestes a ser um autor publicado. Esse último pensamento o fez sorrir. Seu pé ainda estava batendo. Sophia estava aparentemente dançando uma peça com Flavian. Ele estava gostando muito de ter um de seus companheiros Sobreviventes em Middlebury. Tinham-se sentado por um par de horas ou mais no jardim formal ontem, encolhidos em seus sobretudos contra o frio fora de época. Sophia tinha-se juntado a eles lá depois de um tempo, e Flavian tinha comentado que era uma pena que Vincent não seria capaz de se juntar ao resto dos Sobreviventes em seu encontro anual em Penderris Hall na próxima primavera. — Mas ele estará atendendo um cha-chamado mais importante — ele havia dito com diversão em sua voz. — Parabéns Lady Darleigh. Ou eu n-não deveria saber? Não precisara dizer a Flavian, é claro, que Sophia estava grávida.


— O que quer dizer, — Sophia tinha perguntado — sobre ele não poder ir? É claro que ele vai. Ele deve. — Vai ser logo após seu parto, Sophie — Vincent tinha dito. Nem cavalos selvagens vão me arrastar para longe de você tão cedo, você sabe. Ela havia ficado em silêncio por um tempo. Então olhou Flavian. — Bem, então, — ela disse — todos devem vir para cá em vez disso. Teria que estragar tudo? Deveria ser em Penderris? Eu sei que é onde passaram esses anos e onde vocês, naturalmente, escolheram para se reunir. Mas deve ser lá? Ter todos juntos não é mais importante que o lugar? Vincent, podemos convidar todos para virem aqui? Você viria, Lorde Ponsonby? Ou prefere ir para a Cornualha, mesmo que isso signifique ficar sem Vincent por um ano? — Nós podemos e vamos, Sophie — Vincent tinha dito. – Mas... — Nenhum ―mas‖ sobre isso, Vince — Flavian tinha dito. — Você ganhará o prêmio do ano pelo bri-brilhantismo, Lady Darleigh. Com todas as nossas sete cabeças juntas, nós nunca teríamos visto a solução. O q-que seria de nós, Vince? — Talvez todos os outros discordem de você — Sophia tinha dito. — Ta-talvez — ele concordou. — Há uma maneira de descobrir. — Você teve notícias de Ben? — Vincent perguntara. — Alguém teve? — Ele sumiu sobre a face da terra — Flavian tinha dito. — Assim como você fez na primavera, Vince. Sua irmã foi vista na cidade, aquela com quem ele supostamente estava hospedado no norte da Inglaterra, mas Be-Ben não estava agarrado às suas saias quando ela foi flagrada. Talvez ele esteja vagando pelo meio da urze em Lake District como você estava e vá surgir com uma noiva. Eu prefiro que não. Pode revelar-se contagioso.


Agora, a dança estava em pleno andamento, e Vincent relaxou na convicção de que Sophia ficaria feliz com o sucesso de todos os seus esforços. Isso era tudo o que realmente importava esta noite, que ela fosse feliz. Era tudo o que importava a qualquer momento, ele pensou um pouco triste.

Sophia estava mais feliz do que jamais se lembrava de estar em sua vida. Nem uma única coisa tinha corrido mal durante toda a noite, e estava perto o suficiente do fim para fazê-la relaxar e decidir que nada iria dar errado. Embora algo ainda poderia, é claro. Havia ainda um grande momento por vir. Ela tinha dançado cada peça. Ela também tinha visto, bem como a mãe e as irmãs de Vincent, que todos que queriam dançar, dançaram muito. Não seriam permitidas wallflowers no baile de Middlebury! Mesmo Henrietta tinha dançado todas as peças, todas menos uma com um cavalheiro que ela deve ter considerado inferior a si mesma. O Visconde Ponsonby era a exceção. Ele tinha dançado a tereira peça com ela. Ele tinha dançado duas vezes com Agnes. O jantar tinha sido perfeito. A sala de jantar parecia bastante magnífica, deslumbrantemente, e a comida tinha estado perfeita. Houve brindes e discursos, um de Vincent. E teve o bolo, que eles haviam cortado antes de ter sido cortado pelos servos e servidos em bandejas para que tivessem certeza de que todos tinham recebido uma fatia. Vincent tinha estado com ela, embora ele não servisse a bandeja nem colocasse nos pratos as fatias de bolo. Entretanto, tinha encantado a todos com sua conversa. Era surpreendente que ele tivesse se escondido dentro das paredes do parque por três anos, pensou Sophia. Nos


últimos meses, havia se tornado enormemente popular, assim como ele tinha sido em Barton Coombs. Havia duas peças restantes, depois do jantar, a primeira das quais era uma valsa. Seria a única durante toda a noite, uma vez que até agora não era uma dança muito bem conhecida no país. Mas Sophia conhecia — ela tinha praticado os passos com seu tio na sala de música. E Vincent tinha dançado na Península e sabia os passos. Ele estava presente quando ela dançou com seu tio, e ela tinha visto seu pé marcando o tempo da música que a senhorita Debbins tocara. Foi anunciada quando ela estava ao seu lado. Ele estava sorrindo alegremente, embora ela achasse que deveria estar sendo uma noite difícil para ele. Mas, talvez não. Ele parecia gostar de conversar com todos. Talvez o fato de que estivesse em pé em seu próprio salão de baile se somasse ao seu prazer. Mas como era triste que ele não pudesse ver todo o esplendor ou participar da mais enérgica das atividades. — É uma valsa, Vincent — disse ela. — Ah. — Ele sorriu. — Você tem que dançar, então, Sophie. Com seu tio? Você praticou com ele. — Com você — disse ela. — Quer dizer, eu tenho que dançar com você. Ela tomou sua mão entre as suas e o levou por um curto caminho para a pista de dança. — Comigo? — Ele riu. — Acho que não, Sophie. Isso iria ser um espetáculo que todos poderiam ver. — Seria — ela concordou e deu mais um passo. Ninguém mais tinha ainda entrado na pista. Eles tinham chamado a atenção daquelas pessoas que estavam perto deles e a informação rapidamente se espalhou. O volume de conversação diminuiu consideravelmente.


— Não. — Ele riu. — Sophie... — Eu quero dançar a valsa — disse ela. — Com o meu marido. Alguém — Sr. Harrison? — Começou a bater palmas lentamente. O Visconde Ponsonby se juntou a ele. E, em breve, parecia que metade dos convidados no salão de baile estavam batendo palmas ao mesmo tempo. Oh céus. Sophia não tinha a intenção de chamar a atenção. Mas já era tarde demais para fazê-lo de forma diferente. — Valse comigo — ela disse tão suavemente como pôde. Não suavemente o suficiente. — Valse com ela — disse o Sr. Harrison. Com certeza era ele desta vez. E, em seguida, o pedido tornou-se um mantra no salão de baile. — Valse com ela. Valse com ela. — Sophie — Vincent riu. Então ela o fez. E ele entrou na pista vazia com ela. — Se eu der um profundo espetáculo por mim mesmo — disse ele, alto o suficiente para ser ouvido por todos — seriam todos gentis o suficiente para fingirem que não perceberam? Ele riu novamente. A orquestra tocou o acorde de abertura e não se esperava que qualquer outra pessoa entrasse na pista. Era muito desajeitado e estranho à primeira vista, e Sophia estava aterrorizada pela possibilidade de causar uma grande humilhação a ele, para não falar de si mesma. Mas ela tinha praticado os passos com muito cuidado. Tinha


também, com a plena colaboração de seu tio, praticado a condução sem parecer que o fazia. Seus pés encontraram os passos, seus dedos espalhados contra sua cintura e sua outra mão aninhando a dela confortavelmente. Sua cabeça baixou e ele sorriu bem perto dos seus olhos. Ele deu um giro, ela riu e teve que fazer um esforço para mantê-los em pé e dentro dos limites da pista de dança. Provavelmente não foi a demonstração mais elegante de valsa já realizada. Mas, no entanto, foi maravilhoso. E eles tinham a pista inteira para si. Se isso era porque todos estavam com medo de colidir com eles ou se era porque todos estavam gostando de observar, ela não sabia. Ela estava consciente de uma coisa: a maioria das pessoas estava batendo palmas ao ritmo da música. — Vincent, — disse ela depois de alguns minutos, — você nunca vai me perdoar? — Talvez depois de um século ou mais — disse ele. — A sério? — Bem, talvez depois de uma década. E então ele girou novamente, mas ela estava pronta para isso neste momento, e os guiou com segurança. — Eu sempre, sempre quis fazer isso — disse ela. — Valsar? — Valsar com você. — Oh, Sophie — disse ele, e sua mão apertou levemente sua cintura. — Eu sinto muito por não poder... — Mas você pode — ela disse a ele. — Você pode ver com cada parte do seu ser, exceto com seus olhos. Diga-me que você está gostando.


— Eu estou — disse ele, e ele puxou-a tão perto que ela quase roçou contra ele. — Oh, eu estou. Os lustres rodavam por cima deles. Vestidos coloridos pareciam um caleidoscópio de tons pastéis em volta do salão de baile. Os espelhos multiplicavam a luz das velas e enviavam um piscar de jóias para o infinito. — Esses sons e cheiros — disse ele. — Eu nunca vou esquecer este momento. Sophie. Eu realmente estou valsando. Ela mordeu seu lábio superior. Certamente seria humilhante ter todos os seus hóspedes vendo-a chorar. E, em seguida, de alguma forma, seus olhos focaram sua mãe, que estava de pé com Ursula perto das portas. Lágrimas escorriam abertamente pelo seu rosto. E então houve uma pausa na música, e antes que a próxima valsa começasse, outros dançarinos se juntaram a eles na pista. Quando Sebastian Maycock veio pedir a dança final da noite para Sophia, Vincent lhe deu tanta liberdade de escolha como ela havia lhe dado antes da valsa. — Temo que minha esposa já tenha prometido a dança, Maycock — disse ele. — Para mim. Ele quase podia sentir seu olhar de surpresa. — Sim, prometi — disse ela apenas depois de um momento. — Mas obrigada por me convidar, Sebastian. Parece que a senhorita Mills mais velha está sem um parceiro. A senhora de verde.


— Você não está pensando em dançar o Roger de Coverley , está? — Perguntou ela quando Maycock aparentemente descartou a ideia de solicitar a dança à senhorita Mills. — Estou pensando em um passeio tranquilo no terraço com minha esposa — disse ele. — Provavelmente, está muito frio lá fora para você, no entanto. — Vou mandar alguém buscar nossos casacos — disse ela e prontamente o abandonou. Ela estava de volta em alguns minutos, e apenas um par de minutos depois, agradeceu a alguém que lhe entregou os casacos. Ele podia ouvir os passos da dança no chão. O nível do ruído tinha aumentado. Era a dança final. Parecia que eles eram os únicos no terraço. Seus ouvidos disseram isso a ele, e Sophia confirmou o fato quando ele perguntou. Não era surpreendente. Embora não fosse uma noite muito fria, a brisa era penetrante. — Feliz? — Ele perguntou quando ela enfiou um braço por baixo do dele e guiou-o àquilo que ele adivinhou ser a direção dos jardins formais. Ele a ouviu exalar. — Feliz — disse ela. — Tudo tem corrido bem, não tem? Mais do que bem. Oh, Vincent, devemos fazer isso mais vezes. Talvez quando seus amigos vierem na próxima primavera. Eles virão, não é? Ele não respondeu. — Sophie, — disse ele — você vai ficar, não vai? Quer dizer, para o bem do bebê? Eu não poderia suportar que ele partisse, bem como você, e eu não acredito que você poderia suportar deixá-lo comigo. Você poderia? — Oh, claro que não — disse ela. — Sim, é claro que eu vou ficar. Eu apenas sinto...


— Estou muito triste sobre seu chalé — disse ele. — Eu sei que você o iria amar e sua vida lá mais que tudo, mas... — Oh, Vincent — disse ela, — Eu não iria. — Mas quando você estava mostrando seu caderno à Ursula e Ellen aqui no jardim... — Eu o esbocei para as nossas histórias — ela disse a ele. — Eu não tinha a intenção que se parecesse com a casa dos meus sonhos, mas foi assim que ele saiu. E então eu não pude resistir a colocar Tab na imagem. Sim, havia o sonho de um chalé, Vincent. Quando a minha vida era tão desesperadamente vazia e solitária, quando eu me achava feia e indigna de ser amada, eu pensei que nada poderia ser mais desejável. Mas em comparação com a realidade da minha vida agora, é... bem, é lamentável. — Você quer dizer — disse ele — que não quer mais isso? Mesmo se você o aumentar? — Não — ela disse com bastante ênfase. — Como eu poderia? Mas, Vincent, eu queria não ser uma mulher. — O quê? — Ele riu. Ele estava se sentindo um pouco tonto na verdade. — Uma outra mulher para interferir na sua liberdade — disse ela. — Do que você está falando? — Você disse ao Sr. Croft — disse ela. — No dia em que ele deixou Shep com você. Você disse que eu era apenas mais uma mulher cuidando de você e interferido na sua independência. — Tenho certeza de que eu não disse isso — ele disse a ela, indignado, tentando lembrar o que exatamente ele poderia ter dito. — Como eu poderia, a menos que eu estivesse mentindo?


— Mas você disse isso — disse ela. — Eu te ouvi. — Sophie, — disse ele — minha mãe e minhas irmãs me amam demais, fizeram tudo por mim e, inadvertidamente, me sufocaram. Você trouxe suas idéias maravilhosas e fez exatamente o oposto. Você me deu a minha liberdade de volta e um grande grau de independência. Sua boba, você deve ter entendido mal o que ouviu naquele dia. Eu nunca disse que você tirou minha liberdade. Nunca, Sophie. Você trouxe a luz de volta para minha vida. — Você não se importa que eu fique aqui, então? — Perguntou a ele. Eles haviam parado de andar, ele percebeu. Ele soltou um grande suspiro e desejou que pudesse lembrar das palavras exatas que tinha falado com Croft. — Eu te amo, você sabe — disse ele. Ela ainda estava segurando seu braço. Ela inclinou a cabeça de lado para descansar sua bochecha contra seu ombro. — Sim, eu sei — disse ela. — Você é sempre muito bom para mim. E eu te amo também. — Ah, a inadequação das palavras. — Ele suspirou de novo. — E a natureza ilusória de palavras que têm tantos significados diferentes que se tornam praticamente sem sentido. Você se lembra daquela canção que eu cantava em Covington House? Eu renunciaria às coroas para chamar-te minha. Lembra-se desta frase? — Sim. — Ela enroscou a mão em seu braço. — Eu faria isso em um piscar de olhos — ele disse a ela. — Se eu tivesse uma coroa, Sophie, ou várias coroas, como na música, eu renunciaria a tudo. Por você. Isso é o que eu quero dizer quando digo que eu te amo


Ouviu-a engolir sem jeito. — Mas você não tem uma coroa. — Eu desistiria de Middlebury Park, então — ele disse a ela — e do meu título. Se eu tivesse que fazer uma escolha entre eles e você, não seria sequer um concurso. É fácil de dizer, eu sei, quando parece não haver nenhum perigo de que eu vá ter de fazer essa escolha. Mas eu faria se tivesse que fazer. Não há dúvida em minha mente. Eu te amo. — Vincent. — Uma de suas mãos estava entre as suas. — Não era parte de nosso acordo, não é? — Disse. — Eu estou perfeitamente feliz se você estiver contente, Sophie, se você não quiser ser sobrecarregada com mais. Realmente eu estou. E nós estamos contentes, não estamos? É apenas.... Bem, eu sou egoísta, suponho. Eu queria ter o prazer de dizer isso. De dizer a você. Realmente não importa se... — Não importa? — Ela gritou as palavras e se atirou contra ele com tanta força que quase o derrubou. Seus braços envolveram seu pescoço. — Você acabou de me dizer que me ama para toda a eternidade e isso não importa? Claro que importa. Importa mais do que qualquer coisa no mundo e considerando ainda o sol, a lua e as estrelas se quiser ter uma boa medida. Eu te amo muito, muito, muito muito. — Você, Sophie? — Seus braços a envolveram e ele a abraçou com força. — Você me ama, meu amor? — Adicione mais alguns muitos — ela disse. — É melhor você guardar um pouco para mim. — Ele riu contra seus cabelos, que parecia como se estivessem se libertando dos grampos que Rosina tinha lhes imposto. Ela ergueu o rosto para ele e ele a beijou.


Sons de alegres conversas, risos e uma dança campestre vigorosa vieram do salão de baile, de algum lugar atrás deles. À distância, uma coruja piou e um cão latiu. Uma luz, vento frio batendo nas bordas das suas vestes. Tudo o que Vincent ignorou no momento, para se ocupar apenas da coisa mais importante do mundo que apertava contra si mesmo. Ah, sim, considerando o sol, a lua e as estrelas também. E toda a eternidade.

O Acordo (O Clube dos Sobreviventes #2) - Mary Balogh  
O Acordo (O Clube dos Sobreviventes #2) - Mary Balogh  
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