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Mary Balogh


Prólogo O clima poderia estar melhor. Nuvens baixas corriam rapidamente através do céu, impulsionadas por um vento forte e a chuva que vinha ameaçando o dia todo, começara a cair. O mar tempestuoso tinha a cor de um metal cinzento. A fria umidade penetrou o interior da carruagem, fazendo seu único ocupante se contentar com seu pesado, sobretudo. Seu ânimo não estava para a umidade, ele preferia mesmo os raios de sol. Estava a caminho de Penderris Hall, na Cornualha, a casa de campo de George Crabbe, Duque de Stanbrook. Sua Graça era uma das seis pessoas que ele mais amava no mundo, uma confissão estranha, talvez, quando cinco dessas pessoas eram homens. Eram as seis pessoas que ele mais confiava no mundo. Embora o termo confiança parecesse muito impessoal, não havia nada de impessoal sobre seus sentimentos por esses amigos. Estavam todos indo para Penderris para passar as próximas três semanas ou mais. Eles formavam um grupo de sobreviventes das guerras napoleônicas, cinco deles ex-oficiais militares que tinham ficado incapacitados por vários ferimentos, sendo enviados à Inglaterra para se recuperarem. Todos eles haviam chamado à atenção do Duque de Stanbrook, que lhes enviara à Penderris Hall para tratamento, repouso e convalescença. O próprio duque passara da idade de lutar nas guerras, mas seu único filho não. Ele lutara e morrera na Península durante os primeiros anos da campanha. O sétimo membro do clube era a viúva de um oficial de vigilância que fora capturado pelo inimigo na Península e morrera sob tortura, a qual ela havia presenciado, pelo menos parcialmente. O duque era um primo distante dela e a resgatara, depois de seu retorno à Inglaterra. Os sete desenvolveram um vínculo estreito durante o longo período de suas curas e convalescenças. E como, por diferentes motivos, todos sabiam que iriam carregar as marcas de suas


feridas e experiências de guerra para o resto de suas vidas, tinham concordado que, quando chegasse o tempo de se separarem e voltarem às suas próprias vidas, além dos limites seguros de Penderris, voltariam por algumas semanas a cada ano, a fim de relaxar e renovar sua amizade, discutir seu progresso e oferecer, um ao outro, apoio em qualquer dificuldade que pudesse ter surgido. Eram todos sobreviventes, fortes o suficiente para levar uma vida independente. Mas todos eles também ficaram permanentemente marcados, de uma forma ou de outra, e não tinham que esconder esse fato quando estavam juntos. Uma vez, um deles chamou-os de Clube dos Sobreviventes, e o nome pegou, mesmo que apenas entre eles. Hugo Emes, Lorde Trentham, forçou o olhar através da chuva que agora batia contra a janela da carruagem. Pôde ver a borda das altas falésias não muito distantes e o mar além delas, uma linha de espuma salpicada de um cinza mais escuro que o do céu. Ele já estava nas terras de Penderris. Estaria em casa em poucos minutos. Sair daqui, há três anos, tinha sido uma das coisas mais difíceis que todos eles já haviam feito. Hugo teria sido feliz em passar o resto de sua vida aqui. Mas, claro, a vida estava sempre mudando e que tinha chegado a hora de partir. E agora chegara a hora de mudar de novo... Mas ele não pensaria nisso ainda. Esta era a terceira reunião, embora Hugo tivesse sido forçado a perder a do ano anterior. Ele não via nenhum desses amigos há dois anos, então. A carruagem se deteve ao pé dos degraus que levam às enormes portas da frente de Penderris Hall e balançou por alguns momentos sobre suas molas. Hugo se perguntou se


qualquer um dos outros tinha já chegado. Sentia-se como uma criança que chega a uma festa, pensou com algum desgosto, toda ansiedade, expectativa e nervosismo agitando seu estômago. As portas da casa se abriram e o próprio duque apareceu entre elas. Ele começou a descer as escadas, apesar da chuva e o alcançou quando o cocheiro abria a porta da carruagem e Hugo saltava para fora, sem esperar que os degraus fossem colocados para baixo. - George! - Disse ele. Ele não era o tipo de homem que normalmente abraçava outras pessoas, ou até mesmo tocava-as desnecessariamente. Mas pode muito bem ter sido ele quem iniciara o abraço apertado em que ambos foram logo envolvidos. - Meu Deus! - Disse o duque, soltando-se do abraço após alguns momentos e dando um passo para trás, a fim de pousar o olhar sobre Hugo. - Você não encolheu em dois anos, Hugo, não é? Nem em altura, nem em largura. Você é uma das poucas pessoas que podem fazer-me sentir pequeno. Venha para dentro, fora da chuva, que vou verificar minhas costelas para descobrir quantas você esmagou. Ele não fora o primeiro a chegar, Hugo percebeu logo que entraram no grande salão. Flavian estava lá para cumprimentálo – Flavian Arnott, Visconde Ponsonby. E Ralph também – Ralph Stockwood, conde de Berwick. - Hugo! - Disse Flavian, levantando um monóculo até o olho e movendo-se com uma languidez entediada. - Seu grande urso feio. É surpreendentemente bo-bom ver você. " - Flavian, seu pequeno, menino bonito, - disse Hugo, caminhando em direção a ele, os saltos de suas botas ressoando no chão de ladrilhos, - é bom ver você, e eu não estou nenhum pouco surpreso com isso.


Eles se envolveram em um abraço enquanto davam-se tapas nas costas. - Hugo, - disse Ralph - parece que foi ontem que te vi pela última vez. Você parece o mesmo de sempre. Mesmo seu cabelo ainda parece uma ovelha recém-tosquiada. - E essa cicatriz em seu rosto ainda te faz parecer com alguém que eu não gostaria de encontrar num beco escuro, Ralph. - Disse Hugo quando os dois se reuniram em um abraço. - Os outros ainda não estão aqui? Mas, logo que falou, pôde ver sobre o ombro de Ralph que Imogen estava descendo as escadas - Imogen Hayes, Lady Barclay. - Hugo! - Disse ela enquanto corria em direção a ele, ambas as mãos estendidas. - Oh, Hugo! Ela era alta, esbelta e graciosa. Seu cabelo loiro escuro estava preso em um coque na parte de trás de sua cabeça, mas a própria austeridade do estilo apenas enfatizava a beleza perfeita de seu rosto um pouco longo, nórdico, com as maçãs elevadas, boca larga e generosa, e grandes olhos verde azulados. Também se destacava a impassibilidade quase marmórea daquele rosto. Nada mudara nos últimos dois anos. - Imogen! - Ele apertou suas mãos e, em seguida, puxou-a para um abraço apertado, respirando seu cheiro familiar. Beijou uma de suas faces e olhou para ela. Ela levantou uma mão e traçou uma linha entre as sobrancelhas com a ponta de seu dedo indicador. - Você ainda faz carranca - disse ela. - Ele ainda é carrancudo - disse Ralph. - Maldição, sentimos sua falta no ano passado, Hugo. Flavian não tinha ninguém para


chamar de feio. Tentou fazê-lo comigo uma vez, mas eu o persuadi a não repetir a experiência. - Ele me deixou mortalmente at-aterrorizado, Hugo - disse Flavian. - Queria que estivesse aqui para me esconder atrás de você. Escondi-me atrás de Imogen. - Para responder à sua pergunta anterior, Hugo, - disse o duque, batendo a mão no ombro dele, - você foi o último a chegar e estávamos todos impacientes. Ben teria descido para cumprimentá-lo, mas levaria muito tempo para descer as escadas só para ter que subir de novo, quase que imediatamente. Vincent ficou na sala de estar com ele. Vamos lá para cima. Você pode ir para o seu quarto mais tarde. - Eu pedi a bandeja de chá logo que Vincent ouviu sua carruagem se aproximando, - disse Imogen, - mas sem dúvida, vou ser a única a beber do bule. É o que recebo por me aliar a uma horda de bárbaros. - Na verdade, - disse Hugo, - uma xícara de chá quente parece à coisa certa, Imogen. Espero que você tenha encomendado um clima melhor para amanhã e nas próximas semanas, George. - É somente março - o duque assinalou, conforme subiam. Mas se você insistir, Hugo, terá a luz do sol no resto de sua estadia aqui. Algumas pessoas parecem robustas, mas na verdade, são meras plantas de estufa. Sir Benedict Harper estava de pé quando entraram na sala de desenho. Estava apoiado em suas bengalas, mas o seu peso todo não estava sobre elas. E ele realmente caminhou em direção a Hugo. Muitos dos especialistas o haviam chamado de tolo por se recusar a amputar as pernas esmagadas após seu cavalo cair sobre elas. Ele tinha jurado que voltaria a andar e, de certo modo, estava fazendo exatamente isso.


- Hugo, - disse ele - você é um colírio para os olhos. Você já dobrou de tamanho ou é apenas o efeito do casaco? - Ele é um espetáculo para causar dor nos olhos, certamente, - Flavian disse com um suspiro. - E ninguém avisou ao Hugo que várias capas em um, sobretudo foram projetadas em benefício daqueles menos favorecidos no departamento ombro. - Ben, - disse Hugo, pegando o outro homem cuidadosamente entre seus braços. - Em seus pés, não é? Você deve ser o homem mais teimoso que eu já conheci. - Acredito que você poderia ser um forte oponente - disse Ben. Hugo se voltou para o sétimo membro do Clube dos Sobreviventes, o mais jovem. Ele estava em pé perto da janela, seus cachos louros demasiado longos e indisciplinados como sempre, com o rosto tão aberto e bem-humorado, que parecia um anjo. Estava sorrindo agora. - Vince! - Disse Hugo enquanto avançava pelo quarto. Vincent Hunt, Lorde Darleigh, olhou diretamente para ele com olhos tão grandes e azuis como Hugo lembrava - olhos arrasa-corações, Flavian uma vez chamou-os a fim de obter uma risada do menino. Hugo sempre achou seus olhares fixos um pouco desconcertantes. Por Vincent ser cego. - Hugo! - Disse ele quando foi pego em um abraço. - Como é bom ouvir sua voz novamente. E tê-lo de volta conosco este ano. Se você estivesse aqui no ano passado, não teria permitido que todos os outros zombassem do meu violino, não é? Bem, todos exceto Imogen, é óbvio. Houve um suspiro coletivo por trás deles. - Você toca violino? - Perguntou Hugo.


- Eu toco, e é claro que você não teria permitido zombaria disse Vincent, sorrindo. - Me disseram que você se parece com um grande e feroz guerreiro, Hugo, mas se for verdade, então você é uma fraude, porque eu posso sempre ouvir a gentileza sob a rouquidão de sua voz. Você deve ouvir-me tocar este ano, e você não vai rir. - Ele pode muito bem chorar, Vince - disse Ralph. - Sou famoso por causar esse efeito em meus ouvintes - disse Vincent, rindo. Hugo tirou o casaco e atirou-o sobre as costas de uma cadeira antes de se sentar com os outros. Todos beberam chá apesar da oferta do duque de algo mais forte. - Ficamos muito tristes por não o ver no ano passado, Hugo disse ele depois de terem conversado por um tempo. - Ficamos ainda mais tristes sobre o motivo de sua ausência. - Eu estava tudo pronto para vir, - disse Hugo, - quando chegou à notícia do ataque de coração do meu pai. Assim, eu estava preparado para partir quase imediatamente, e cheguei antes dele morrer. Ainda consegui falar com ele. Eu deveria ter feito isso antes. Não havia necessidade real do breve distanciamento entre nós, embora eu tenha quebrado seu coração depois de insistir para que ele comprasse uma comissão para mim, quando por toda a minha vida ele esperou que eu o seguisse no negócio da família. Ele me amou até ao fim, vocês sabem. Suponho que serei sempre grato por ter chegado a tempo de dizer a ele que eu o amava muito, embora possa ter parecido que eram só palavras. Imogen, que estava sentado ao lado dele, em um gesto de amor, afagou sua mão.


- Ele deve ter entendido - disse ela. - As pessoas entendem a linguagem do coração, você sabe, mesmo que a cabeça nem sempre a compreenda. Em silêncio, todos olharam para ela por um momento, incluindo Vincent. - Ele deixou uma pequena fortuna para Fiona, minha madrasta, - disse Hugo, - e um grande dote à Constance, minha meia-irmã. Mas deixou a maior parte de seu vasto império comercial e de negócios para mim. Estou indecentemente rico. Ele franziu a testa. Sentia a riqueza, por vezes, como uma pesada pedra atada ao pescoço. Mas as obrigações que tinha trazido com ela, eram piores. - Pobre, pobre Hugo! - Disse Flavian, puxando um lenço de linho do bolso e enxugando os olhos com ele. - Meu coração sangra por você. - Ele esperava que eu assumisse a gestão dos negócios - disse Hugo. - Não que ele exigisse. Ele só esperava que fosse o que eu gostaria, e seu rosto brilhava com prazer com a perspectiva, embora estivesse morrendo. E disse para eu passar tudo para meu filho quando chegar a hora. Imogen afagou sua mão novamente e serviu-lhe uma xícara de chá. - O caso é, - Hugo disse - que tenho sido feliz com a minha vida tranquila no campo. Estive feliz em minha casa por dois anos e fui feliz em Crosslands Park no ano passado, embora, é claro, a tenha comprado com uma parte da minha nova fortuna. Tenho sido capaz de desculpar minha protelação, dizendo-me que este é um ano de luto e seria indecoroso se começasse a agir como se tudo que eu sempre quisera fosse sua fortuna. Mas o aniversário de sua morte é amanhã. Não tenho mais desculpa.


- Sempre lhe dissemos, Hugo, - Vincent falou - que ser um recluso não é muito adequado à sua natureza. - Mais especificamente, - Ben disse - nós te comparamos a um foguete que não explodiu, Hugo, apenas esperando por uma faísca para acendê-lo. Hugo suspirou. - Eu gosto da minha vida como ela é - disse ele. - Então, o fato de você ter recebido seu título como uma recompensa por sua extraordinária coragem não significa nada, afinal de contas? - Perguntou Ralph. - Você está planejando retornar às suas raízes de classe média, Hugo? Hugo franziu a testa novamente. - Eu nunca as deixei - disse ele. - Nunca quis ser um membro das classes superiores. Desprezaria a todos coletivamente, como meu pai sempre fez, se não fosse por vocês seis. Adquirir Crosslands pode ter parecido um pouco pretensioso, mas eu queria meu próprio pedaço de terra onde possa estar em paz. Isso é tudo. - E ele vai sempre estar lá para você - disse o duque. - Vai ser um retiro tranquilo quando a pressão dos negócios te derrubarem. - É a parte filho que está conseguindo me derrubar agora disse Hugo. - Ele teria de ser legítimo, não é? Eu teria que ter uma esposa, a fim de produzi-lo. Isso é o que me espera quando sair daqui. Eu decidi. Tenho que encontrar uma esposa. Ideia dos diabos! Perdoe-me, Imogen. Não tenho absolutamente nada contra as mulheres. Realmente, só não quero uma de forma permanente na minha vida. Ou na minha casa.


- Então, não está procurando romance ou amor romântico, Hugo? - Perguntou Flavian. - Isso é muito sábio de sua parte, meu velho. O amor é o próprio de-demônio e deve ser evitado como à peste. A senhora de quem Flavian tinha sido noivo quando foi para a guerra, rompera o noivado ao se ver incapaz de lidar com as feridas que ele trouxera para casa desde a Península. Após dois meses, ela casara com outra pessoa, um homem que, uma vez, tinha considerado seu melhor amigo. - Você tem alguém em mente, Hugo? - Perguntou o duque. - Na verdade, não. - Hugo suspirou. - Tenho um exército de primas e tias que ficariam muito satisfeitas em apresentar-me a um desfile de possibilidades se lhes pedisse, apesar de eu ter negligenciado a todas vergonhosamente, por anos. Mas eu perderia o controle da situação desde o primeiro momento. Odeio isso! Na verdade, eu estava esperando que alguém aqui tivesse algum conselho para mim. Sobre como fazer para encontrar uma esposa, é isso. Isso silenciou a todos. - É realmente muito simples, Hugo - disse Ralph finalmente. - Se aproxime da primeira mulher razoavelmente agradável que encontrar. Para começar, diga-lhe que você é um lorde e indecentemente rico, e pergunte se ela gostaria de se casar com você. Então você se afasta e assiste todo o trajeto de sua língua na ânsia de dizer sim. Os outros riram. - É bem fácil, não é? - Disse Hugo. - Um enorme alívio. Então, vou descer à praia amanhã, se o tempo permitir, e esperar por mulheres razoavelmente apresentáveis para atrair ao ninho. Meu problema será resolvido mesmo antes de sair de Penderris.


- Oh, não as mulheres, Hugo - disse Ben. - Não é plural. Elas vão estar lutando por você, e há muito para lutar, mesmo separando-o do seu título e riqueza. Vá até a praia e encontre uma mulher. Vamos torná-lo fácil para você ficando longe de lá o dia todo. Para mim, é claro, vai ser simples, já que não tenho um bom par de pernas com as quais chegar lá, de qualquer forma. - Agora que temos seu futuro satisfatoriamente resolvido, Hugo, - disse o duque, levantando-se, - permitiremos que vá para o seu quarto para refrescar-se, trocar-se e talvez descansar antes do jantar. Vamos, no entanto, discutir o assunto mais a sério durante os próximos dias. Talvez nós ainda sejamos capazes de sugerir algum prático plano de ação. Enquanto isso, deixe-me dizer como é esplêndido ter todos do Clube dos Sobreviventes juntos novamente este ano. Ansiava por este momento. Hugo recolheu o casaco e saiu da sala com o duque, sentindo todo o sedutor conforto e prazer de estar de volta à Penderris na companhia das seis pessoas que mais significavam para ele no mundo. Mesmo o tamborilar da chuva contra as vidraças só serviu para adicionar uma sensação de aconchego.


Capítulo 1 Gwendoline Grayson, Lady Muir, encolheu os ombros e puxou a capa mais confortavelmente sobre ela. Era um revigorante, tempestuoso dia de março, fazia mais frio pelo fato de ela estar de pé no porto de pesca abaixo da aldeia onde se hospedava. A maré estava baixa, e alguns barcos de pesca estavam meio tombados na areia molhada, esperando a água voltar e flutuá-los na posição correta novamente. Ela deveria voltar para casa. Ficara fora por mais de uma hora, e parte dela ansiava pelo calor do fogo e do conforto de uma xícara de chá. Infelizmente, porém, a casa de Vera Parkinson não era dela, apenas a casa onde estava hospedada por um mês. E ela e Vera tinham acabado brigando, ou pelo menos, Vera havia brigado com ela e a transtornara. Ela não estava pronta para voltar ainda. Preferia suportar os elementos. Não podia andar para a esquerda. Um promontório que se projetava impedia seu caminho. À direita, no entanto, a praia de seixos sob os altos penhascos alongava-se na distância. Haveria ainda várias horas antes de a maré subir alto o suficiente para cobri-las. Gwen geralmente evitava andar pela água, mesmo tendo vivido perto do mar, na casa da viúva de Newbury Abbey em Dorsetshire. Achava as praias muito vastas, os penhascos por demais ameaçadores, o mar muito elementar. Preferia um mundo menor, mais ordenado, sobre o qual ela poderia exercer algum tipo de controle -um jardim de flores cuidadosamente cultivado, por exemplo. Mas hoje ela precisava ficar longe de Vera por mais algum tempo, e da aldeia e caminhos estreitos onde poderia encontrar algum vizinho de Vera e se sentir obrigada a ter uma conversa animada. Precisava ficar sozinha e a praia de seixos estava


deserta, tão longe na distância que ela podia ver até antes da curva. Ela se deixou levar. Percebeu, depois de uma curta distância, no entanto, porque ninguém mais estava andando por ali. Pois, embora a maioria dos seixos fossem antigos, corroídos suavemente e arredondados por milhares de marés, um número significativo deles era mais recente, e estes eram maiores, mais ásperos, mais irregulares. Andar a pé através deles não era fácil e não teria sido mesmo que ela tivesse as duas pernas saudáveis. Assim como era, a perna direita nunca se tinha curado corretamente depois de ser quebrada oito anos atrás, quando foi jogada do cavalo. Ela passou habitualmente a mancar, mesmo em terreno plano. Não voltaria, embora. Teimosamente, marchou em frente, com cuidado onde colocava os pés. Não estava com nenhuma pressa para chegar a algum lugar, afinal de contas. Este foi realmente o dia mais horrível de uma quinzena horrível. Ela tinha vindo para uma visita de um mês, totalmente por impulso, quando Vera escrevera para informá-la da triste morte, há alguns meses, do marido, que estava doente há vários anos. Vera adicionou a queixa que ninguém da família do Sr. Parkinson ou da sua própria estava se importando com seu sofrimento, apesar do fato de que ela estava quase prostrada de dor e exaustão após alimentá-lo por tanto tempo. Ela estava sentindo terrivelmente a falta dele. Gwen se importaria de ir? Elas tinham sido uma espécie de amigas por um breve período durante o turbilhão da temporada de estreia londrina e haviam trocado raras cartas após o casamento de Vera com o Sr. Parkinson, um irmão mais novo de Sir Roger Parkinson, e Gwen com o Visconde Muir. Vera tinha escrito uma longa carta de simpatia após a morte de Vernon, e convidado Gwen para ficar com ela e o Sr. Parkinson durante o tempo que desejasse, pois tinha sido negligenciada por quase todos, incluindo o próprio Sr.


Parkinson, e gostaria de ter a companhia dela. Gwen havia declinado o convite em seguida, mas respondeu ao apelo de Vera, nesta ocasião, apesar de alguns receios. Ela sabia a tristeza, o cansaço e a solidão que se sentia após a morte de um cônjuge. Foi uma decisão que ela lamentou quase desde o primeiro dia. Vera, como as cartas sugeriam, era desagradável e resmungona, e enquanto Gwen tentava tolerá-la pelo fato dela ter cuidado de um marido doente por alguns anos e acabado de perdê-lo, logo chegou à conclusão de que os anos desde a estreia haviam azedado Vera e a deixado permanentemente desagradável. A maioria de seus vizinhos a evitava sempre que possível. Seus únicos amigos eram um grupo de senhoras que muito se assemelhavam a ela em personalidade. Sentada e ouvindo a conversa, Gwen tinha chegado à conclusão de que se sentia como que sugada para um buraco negro, ficando privada de ar suficiente para respirar. Elas só sabiam ver o que estava errado em suas vidas e no mundo, nunca o que era certo. Gwen percebeu, com uma sacudida mental, que era exatamente isso o que ela estava fazendo agora enquanto pensava nelas. Negatividade poderia ser assustadoramente contagioso. Mesmo antes desta manhã, quando ela desejou não ter se comprometido a uma longa visita. Duas semanas teriam sido perfeitamente suficientes - e ela já poderia ir para casa. Mas havia concordado com um mês, um mês teria de ser. Esta manhã, no entanto, seu estoicismo foi posto à prova. Tinha recebido uma carta de sua mãe, que morava na casa da viúva com ela, na qual ela contava algumas anedotas divertidas envolvendo Sylvie e Leo, os filhos mais velhos de Neville e Lily - Neville, Conde de Kilbourne, era irmão de Gwen e vivia em Newbury Abbey. Gwen leu a parte da carta em voz alta para Vera na mesa do café, na esperança de conseguir um sorriso ou uma risada dela. Em vez disso, viu-se recebendo um


discurso petulante, o básico golpe de que rir era muito fácil para Gwen, fazendo pouco de seu sofrimento, porque o marido de Gwen tinha morrido anos atrás a deixando confortavelmente bem; porque tinha um irmão e mãe dispostos e ansiosos para recebê-la de volta ao rebanho da família; porque sua sensibilidade não era muito profunda, de qualquer maneira. Era fácil ser insensível e cruel quando se casara por dinheiro e status em vez de amor. Todo mundo sabia aquela verdade sobre ela durante a estreia, assim como todo mundo sabia que ela, Vera, havia se casado abaixo de seu nível, porque ela e o Sr. Parkinson se amavam um ao outro, e nada mais importava. Gwen encarou a amiga em silêncio, quando ela finalmente se calou para dar alguns soluços distorcidos no lenço. Não se atreveu a abrir a boca. Poderia ter replicado e, assim, se rebaixar ao nível da própria maldade de Vera. Não seria arrastada para uma briga indecorosa. Mas quase vibrou com a raiva. E ficou profundamente magoada. - Vou sair para uma caminhada, Vera - ela disse finalmente, levantando-se e empurrando a cadeira para trás. Quando eu voltar, você pode me informar se deseja que eu fique aqui por mais duas semanas, como planejado, ou prefere que eu volte para Newbury sem mais demora. Teria de ir na diligência do correio ou na pública. Demoraria boa parte de uma semana para que o transporte de Neville viesse buscá-la, depois que escrevesse para informar que precisava dele mais cedo do que o planejado. Vera tinha soluçado mais forte e pedido que não fosse cruel, mas Gwen acabara saindo de qualquer maneira. Seria perfeitamente feliz, pensou agora, se nunca mais voltasse à casa de Vera. Que terrível erro que tinha sido vir, e durante um mês inteiro, para apoiar uma breve e tão distante conhecida.


Eventualmente, circulou o promontório que tinha visto a partir do porto e descobriu que a praia estendida à frente, aparentemente para o infinito, era mais larga ali, e os seixos davam lugar à areia, onde seria muito mais fácil para caminhar. No entanto, ela não deveria ir longe demais. Embora a maré ainda estivesse baixa, podia ver que, definitivamente, estava subindo e, em alguns lugares bastante planos, poderia subir muito mais rápido do que se pudesse imaginar. Vivia perto do mar tempo o suficiente para saber disso. De qualquer forma, não podia ficar longe de Vera para sempre, embora desejasse poder. Deveria retornar em breve. Por perto havia uma lacuna nos penhascos, e parecia possível alcançar o promontório acima se estivesse disposta a subir uma encosta íngreme de pedras e, em seguida, uma inclinação ligeiramente mais gradual de grama rasteira. Se ela pudesse chegar até lá, seria capaz de caminhar de volta para a aldeia ao longo do topo, em vez de ter de fazer o difícil caminho de volta através dos seixos. A perna fraca estava doendo um pouco, percebeu. Fora uma tola ao ir até ali. Parou por um momento e olhou para a linha ainda distante da maré. E foi atingida, de repente, tão subitamente, não por uma onda do mar, mas por uma onda de solidão, que caiu sobre ela e a privou tanto de fôlego quanto da vontade de resistir. Solidão? Ela nunca pensou em si mesma como solitária. Viveu um casamento tumultuado, mas, uma vez que a crueza da dor pela morte de Vernon diminuiu, se estabeleceu em uma vida de paz e contentamento com a sua família. Nunca sentiu qualquer desejo de voltar a casar, embora não fosse uma cínica sobre o casamento. O irmão era feliz no casamento. Então havia Lauren, a prima por casamento que era mais como uma irmã, uma vez que cresceram juntas em Newbury Abbey. Gwen, no entanto,


estava perfeitamente contente de permanecer viúva e definir-se como filha, irmã, cunhada, prima, tia. Tinha vários outros parentes e amigos também. Estava confortável na casa da viúva, que ficava apenas a uma curta caminhada até a abadia, onde era sempre bem-vinda. Fazia visitas frequentes a Lauren e Kit em Hampshire e, ocasionalmente, aos parentes. Tinha o costume de passar um mês ou dois da primavera em Londres para aproveitar parte da temporada. Sempre achara que tinha uma vida abençoada. Então, de onde vinha essa solidão repentina? Uma sensação de que seus joelhos estavam fracos e parecia como se sua respiração tivesse sido roubada? Por que podia sentir a crueza de lágrimas na garganta? Solidão? Ela não estava só, apenas deprimida por estar presa ali com Vera. E magoada com o que esta dissera sobre ela e sua falta de sensibilidade. Estava sentindo pena de si mesma, isso era tudo. Ela nunca sentiu pena de si mesma. Bem, quase nunca. E quando o fazia, em seguida, rapidamente fazia algo a respeito. A vida era muito curta para ficar se lamentando. Havia sempre muito mais com que se alegrar. Mas a solidão. Quanto tempo esteve esperando por ela, apenas esperando para atacar? Sua vida era realmente tão vazia quanto parecia neste momento, uma visão quase assustadora? Tão vazia como esta vasta praia sombria? Ah, ela odiava praias. Gwen deu outra sacudida mental e olhou, primeiro para o caminho que tinha vindo e, em seguida, até a praia com seu caminho íngreme entre os penhascos. Qual deveria tomar? Hesitou por alguns instantes e, em seguida, decidiu subir. Não parecia íngreme o suficiente para ser perigoso e, uma


vez lá em cima, certamente seria capaz de encontrar um caminho fácil para a aldeia. As pedras na encosta não eram mais fáceis do que as da praia; na verdade, eram mais traiçoeiras, pois se moviam e deslizavam sob seus pés enquanto ia subindo. Quando chegou na metade do caminho, desejou ter ficado na praia, mas seria tão difícil voltar agora quanto continuar a subir. E ela podia ver a parte gramada da encosta não muito distante. Seguiu em frente obstinadamente. E então veio o desastre. Seu pé direito pressionou em busca de uma pedra resistente, mas foi ligeiramente comprimido contra aquelas embaixo dele e escorregou bruscamente para baixo, até que ela caiu dolorosamente sobre um joelho, enquanto estendia as mãos para se firmar na encosta. Pela fração de um momento ela sentiu somente um alívio por ter se salvado de cair na praia lá embaixo. E então sentiu a afiada e penetrante dor no tornozelo. Cautelosamente, ela levantou-se sobre o pé esquerdo e tentou pousar o direito ao lado deste. Mas foi envolvida pela dor assim que tentou colocar algum peso em cima - e mesmo sem colocar. Exalou um alto "Ohh!" de angústia e virou com cuidado para que pudesse se sentar nas pedras, virada para baixo, em direção à praia. A inclinação parecia muito mais acentuada dali de cima. Oh, foi muito tola por tentar subir. Levantou os joelhos, plantou o pé esquerdo tão firmemente quanto pôde, e agarrou o tornozelo direito em ambas as mãos. Tentou girar o pé lentamente, descansou a testa no joelho levantado enquanto fazia isso. Foi uma entorse momentânea, disse a si mesma, e ficaria bem em um momento. Não havia necessidade de pânico.


Mas, mesmo sem colocar o pé para baixo de novo, sabia que estava enganando a si mesma. Foi uma entorse de verdade. Talvez pior. Ela não podia andar. E assim veio o pânico, apesar do esforço para manter a calma. No entanto, como ela iria voltar para a aldeia? E ninguém sabia onde estava. A praia abaixo dela e o promontório acima estavam desertos. Ela respirou regularmente. Não havia razão para se desesperar. Ela daria um jeito. É claro que sim. Não tinha escolha, tinha? Foi nesse momento que ouviu uma voz - uma voz masculina por perto. Não foi sequer alta. - Levando em conta a minha opinião, - disse a voz - este tornozelo está torcido ou realmente quebrado. De qualquer forma, seria muito insensato tentar colocar qualquer peso sobre ele. Gwen ergueu a cabeça e olhou em volta para localizar de onde vinha à voz. À sua direita, um homem apareceu parcialmente na superfície do íngreme penhasco ao lado da encosta. Ele desceu até os seixos e os atravessou em direção a ela, como se não houvesse qualquer perigo de escorregar. Era um homem gigante, com ombros largos, peito e coxas poderosas. O sobretudo que usava dava a impressão de ser ainda maior. Ele parecia ameaçadoramente grande, na verdade. Não usava chapéu. O cabelo castanho estava cortado rente à cabeça. As feições eram fortes e duras; os olhos escuros e ferozes; a boca, uma linha reta grave; a mandíbula forte. E a expressão não fazia nada para suavizar a aparência. Ele estava franzindo a testa, ou fazendo uma carranca, talvez. As mãos sem luvas eram enormes.


O terror engoliu Gwen e a fez quase esquecer a dor por um momento. Ele deveria ser o duque de Stanbrook. Ela poderia ter se desviado para as terras dele, mesmo Vera tendo avisado para manter distância da propriedade. De acordo com Vera, ele era um monstro cruel, que havia empurrado a esposa para a morte do alto de um penhasco da sua propriedade, vários anos atrás e, em seguida, alegou que ela tinha saltado. Que tipo de mulher iria saltar para a morte de maneira horrível, Vera perguntara retoricamente. Especialmente quando era uma duquesa e tinha tudo que poderia precisar no mundo. O tipo de mulher, Gwen pensara na época, embora não tenha dito isso em voz alta, que acabara de perder seu único filho para uma bala em Portugal, pois isso foi exatamente o que tinha acontecido pouco tempo antes da morte da duquesa. Mas Vera, juntamente com as senhoras da vizinhança com quem ela se juntara, escolheu acreditar na teoria mais excitante, a de assassinato, apesar do fato de que nenhum deles, quando pressionado, poderia oferecer qualquer elemento de prova para corroborar isso. Mas, embora Gwen tivesse sido cética sobre a história quando a ouviu, ela não tinha tanta certeza agora. Ele parecia um homem que poderia ser tão implacável quanto cruel. Até mesmo um assassino. E ela havia invadido as terras dele. A muito deserta terra. Ela também era incapaz de fugir.

Hugo foi sozinho para a praia sob Penderris após o café da manhã. A chuva havia parado durante a noite. Ele foi provocado sobre isso. Flavian lhe disse para não se esquecer de levar a


futura esposa de volta para a casa, para que todos pudessem conhecê-la e decidir se eles aprovariam sua escolha. Eles se divertiram à custa dele. Hugo dissera a Flavian onde ele poderia ir e como chegaria lá, embora tivesse sido imediatamente obrigado a pedir desculpas por ter usado a linguagem de um soldado na presença de Imogen. A praia sempre fora sua parte favorita da propriedade. Nos primeiros dias de sua estada ali, o mar muitas vezes o acalmou quando nada mais podia. E mais frequentemente que não, ia até aquele local sozinho, mesmo assim. Apesar da proximidade e camaradagem que se desenvolveu entre os sete membros do Clube dos Sobreviventes enquanto eles estavam todos se curando e convalescendo, nunca foram dependentes uns dos outros. Pelo contrário, a maioria de seus demônios tiveram de ser enfrentados e exorcizados sozinhos, e ainda eram. Uma das principais atrações de Penderris sempre foi que oferecia espaço mais que suficiente para acomodar todos eles. Ele havia se recuperado de suas próprias feridas - até onde ele poderia se recuperar, pelo menos. Se fosse contar as bênçãos, ele precisaria dos dedos de ambas as mãos, pelo menos. Sobrevivera às suas experiências de guerra. Conferiram-lhe a promoção a major que almejava, bem como o bônus inesperado do título, como resultado do sucesso da missão final. No ano passado, herdara uma grande fortuna e um negócio extremamente rentável. Tinha família - tios, tias e primos que o amavam, embora os tivesse ignorado por muitos anos. Mais importante, havia Constance, sua meia-irmã de dezenove anos, que o adorava, embora ela fosse apenas uma criança quando ele partira para a guerra. Possuía uma casa no interior, que lhe fornecia toda a privacidade e paz que poderia pedir. Tinha os seis companheiros do Clube dos Sobreviventes, que às vezes pareciam mais perto dele do que seu próprio


coração. Desfrutava de boa saúde, talvez até mesmo da saúde perfeita. A lista podia continuar. Mas cada vez que fazia a lista mental de suas bênçãos, isso se tornava uma espada de dois gumes. Por que ele era tão feliz quando tantos outros haviam morrido? Mais importante, havia sua ambição implacável, que trouxe sucesso e recompensas que eram muito superiores ao que ele esperava, realmente causado um número dessas mortes? O Tenente Carstairs diria que sim, sem hesitação. Não haviam mulheres razoavelmente bem-apessoadas passeando ao longo da praia, ou qualquer uma não apresentável também, para falar a verdade. Ele teria que inventar algumas para a diversão de seus amigos quando voltasse para casa, e algumas histórias em torno de seus encontros com elas. Talvez até mesmo adicionasse uma sereia ou duas. No entanto, ele não tinha pressa para voltar, apesar de ser um dia frio agravado por um vento bastante rude. Quando voltou para a parte dos seixos da praia, aos pés do antigo desabamento na face do penhasco que dava acesso ao promontório e o parque de Penderris acima, Hugo parou por alguns instantes e olhou para o mar, enquanto o vento chicoteava em seu cabelo curto e deixava as pontas das orelhas dormentes. Ele não estava usando um chapéu. Não havia realmente nenhum sentido quando ele teria que o perseguir ao longo da praia mais do que o usaria. Ele encontrou-se pensando no pai. Era realmente inevitável, ele supôs, pois hoje era o primeiro aniversário de sua morte. A culpa veio com os pensamentos. Tinha adorado o pai como um rapaz e o seguiu em todos os lugares, até mesmo para trabalhar, especialmente após a morte de sua mãe devido a algum problema de mulher quando ele tinha sete anos – a natureza exata da doença nunca havia sido explicada a ele. O pai


o descreveu carinhosamente como seu braço direito e o herdeiro aparente. Outros o haviam descrito como a sombra de seu pai. Mas então veio o segundo casamento do pai e Hugo, com treze anos de idade e desajeitado desde a fase da adolescência, desenvolveu um comportamento hostil tão grande quanto uma pedra. Ele ainda era jovem o suficiente para ficar chocado de que o pai pudesse sequer pensar em substituir sua mãe, que foi tão fundamental para a vida e a felicidade deles, que era simplesmente insubstituível. Ele tinha crescido inquieto, rebelde e determinado a estabelecer a própria identidade e independência. Olhando para trás agora, podia ver que o pai não o amara menos - ou desonrara a memória de sua mãe, apenas porque se casara com uma bonita e exigente jovem esposa, e logo tivera uma nova filha a quem idolatrar. Mas um jovem em crescimento nem sempre pode ver o seu mundo de forma racional. Outra evidência disso foi o fato de que ele, Hugo, tinha adorado Constance desde o momento do seu nascimento, quando era esperado que ele a odiasse ou se ressentisse. Foi uma etapa de sua vida, bastante típica de meninos de sua idade, que ele poderia muito bem ter superado com um mínimo de danos para todos os interessados, se não tivesse havido algo mais para fazer pender a balança. Mas houve algo mais, e a balança inclinou irremediavelmente quando ele nem sequer havia chegado aos dezoito anos. E ele decidiu abruptamente que seria um soldado. Nada iria dissuadi-lo, nem mesmo o argumento de que ele não tinha o temperamento para uma vida tão difícil. Na verdade, esse argumento só o deixou mais teimoso e mais determinado a vencer. Seu pai, decepcionado e triste, tinha finalmente comprado uma comissão em um regimento de infantaria para o único filho, mas seria a primeira e única aquisição. Ele deixou isso bem claro. Hugo estava por conta própria depois disso. Ele teria que ganhar suas promoções, não as obter compradas pelo pai rico, como a


maioria dos outros oficiais faziam. O pai de Hugo sempre desprezou um pouco as classes mais altas, para quem privilégio e ociosidade muitas vezes passava de mão em mão. Hugo agira para ganhar essas promoções. Tinha realmente gostado do fato de que estava em seu próprio território. Perseguira a carreira escolhida com energia, determinação, entusiasmo e a ambição de chegar ao topo. Teria alcançado isso também, se seu maior triunfo não tivesse sido seguido, em um mês, pela maior humilhação, e ele não tivesse terminado ali em Penderris. O pai o amara firmemente por tudo isso. Mas Hugo virara as costas para ele, quase como se o pai tivesse sido o culpado por todos os seus problemas. Talvez fora a vergonha que o levara a fazer isso. Ou, talvez, a pura impossibilidade de voltar para casa. E como seu pai o retribuíra por sua negligência? Havia deixado quase tudo para ele, fez isso quando poderia concebivelmente ter deixado tudo para Fiona ou para Constance. Ele confiava no filho para manter seus negócios e para passá-los a um filho próprio quando chegasse o momento. Ele confiou nele até para que fizesse com que Constance tivesse um futuro brilhante, seguro. Ele deve ter pensado que ela poderia ficar sem nada se fosse deixada unicamente aos cuidados de sua mãe. Ele fez de Hugo o guardião dela. Agora, seu ano de luto, sua desculpa para a inatividade, até agora, tinha acabado. Ele parara quando estava a meio caminho da encosta. Ainda não estava pronto para voltar para casa. Contornou o declive e subiu um curto caminho até o precipício ao lado dele, até que chegou a uma plana borda rochosa que havia descoberto anos atrás. Ficava abrigada da maioria dos ventos, e mesmo que impedisse qualquer vista da areia da praia mais a oeste, ainda lhe permitia ver a face oposta do penhasco, da


praia de seixos e do mar. Era uma perspectiva nitidamente estéril, mas não sem uma certa beleza própria. Duas gaivotas que voavam através de sua linha de visão, gritando alguma coisa inteligente para a outra. Ele relaxaria ali por um tempo antes de procurar a companhia dos amigos. Pegou algumas pedras pequenas da borda ao lado dele e jogou, uma a uma, em um alto arco para a praia abaixo. Ouviu aterrissar e viu saltar uma vez. Mas seus dedos se acalmaram em torno da segunda pedra quando vislumbrou um agitar de cor. O penhasco, do outro lado da encosta de cascalho, curvado em direção ao mar. À maré cheia chegou mais cedo do que o normal ao precipício em que estava sentado. Havia um caminho em torno da base do penhasco que se projetava para a aldeia, de um quilometro ou um pouco mais, mas poderia ser um caminho traiçoeiro se não estivesse ciente da maré que se aproximava. Alguém andava na extensão da praia de seixos - uma mulher vestindo um casaco vermelho. Ela acabara de aparecer perto do promontório, embora ainda estivesse a alguma distância. A cabeça, com um chapéu, estava abaixada. Ela parecia estar se concentrando em manter o equilíbrio. Ela parou e olhou para o mar. Que, de qualquer modo, ainda estava longe e não havia perigo iminente para ela. Se ela tivesse que voltar para vila, no entanto, realmente deveria voltar logo. O único outro caminho de volta era por cima do promontório, mas a faria invadir as terras de Penderris. A cabeça dela se virou para olhar para o declive de cascalho íngreme até o topo como se tivesse lido seus pensamentos. Não o viu, felizmente. Ele estava na sombra, e sentou-se muito quieto. Não queria ser visto. Queria que ela voltasse do jeito que havia chegado.


Ela não virou as costas, no entanto. Em vez disso, foi na direção da encosta e, em seguida, começou a marchar para cima, a capa e a aba do chapéu balançando ao vento. Parecia pequena. Parecia jovem. Era impossível dizer quão jovem, porém, já que ele não podia ver seu rosto. Pela mesma razão, não havia como saber se ela era graciosa ou feia, ou simplesmente comum. Os amigos iriam provocá-lo por uma semana, se viessem a descobrir sobre isso, Hugo pensou. Tinha uma imagem mental de si mesmo pulando da posição na qual se encontrava, caminhando propositadamente em direção a ela através das pedras, informando-a que ele possuía um título e era imensamente rico, e perguntando se ela gostaria de casar com ele. Embora não fosse um pensamento particularmente divertido, teve que reprimir o impulso de rir e deixá-la ciente da sua presença. Ele ficou muito quieto e esperou que, ainda assim, ela se virasse para trás. Se ressentia por ter a solidão ameaçada por um estranho e transgressor. Não conseguia se lembrar disso ter acontecido antes. Não eram muitas as pessoas de fora da propriedade que iam àquele caminho. O duque de Stanbrook era temido por muitos nesta parte do país. O rumor inevitável que tinha florescido após a morte da duquesa, de que ele tinha realmente a empurrado sobre o penhasco de onde ela havia saltado. Essas histórias não morrem facilmente, apesar da falta de qualquer evidência. Mesmo aqueles que não chegavam a temêlo, pareciam cautelosos com ele. E sua maneira contida e austera não ajudava a dissipar qualquer suspeita. Talvez a mulher de vermelho fosse uma estranha. Talvez ela não soubesse que estava subindo diretamente ao covil do dragão. Hugo se perguntou por que ela estava sozinha em um cenário tão desolado.


As pedrinhas soltas deslizavam debaixo dos seus pés enquanto ela subia. Não era uma subida fácil, como ele sabia por experiência própria. E então, justamente quando parecia que ela iria seguramente passar e não o ver, seu pé direito desalojou uma pequena avalanche de pedras e deslizou para baixo bruscamente. Ela caiu desajeitadamente sobre seus joelhos e mãos, a perna direita esticada para trás. Por um momento ele teve um vislumbre de uma delgada perna nua entre o topo da bota e a orla do manto. Ele ouviu um gemido de dor. Esperou. Realmente não queria ter que revelar sua presença. Logo se tornou evidente, porém, que ela havia machucado gravemente o pé ou o tornozelo e que não seria capaz de terminar de subir e seguir seu caminho. Ela era jovem, ele podia ver. E era pequena e esbelta. Sob a aba do chapéu, cachos de cabelo louro estavam soprando no vento. Ele ainda não tinha visto seu rosto. Seria grosseiro permanecer em silêncio. - Levando em conta a minha opinião, - disse ele - este tornozelo está torcido ou realmente quebrado. De qualquer forma, seria muito insensato tentar colocar qualquer peso sobre ele. Sua cabeça se ergueu quando ele desceu sobre os seixos e caminhou em direção a ela. Arregalou os olhos, com uma expressão que parecia ser medo em vez de alívio de que a ajuda estivesse a caminho. Eram grandes olhos azuis, em um rosto de rara beleza, mesmo que ela não fosse mais uma garota. Ele supôs que a idade dela estivesse próxima da sua, trinta e três. Ele estava irritado. Odiava quando as pessoas tinham medo dele. Muitas vezes as pessoas tinham. Até mesmo alguns homens. Mas especialmente as mulheres.


Poderia ter lhe ocorrido que um semblante carrancudo não era algo para inspirar confiança, especialmente em um cenário desolado, solitário como este. No entanto, não lhe ocorreu. Ele fez uma careta para ela do alto de sua grande estatura.


Capítulo 2 - Oh! - Ela gritou. - Quem é o senhor? O Duque de Stanbrook? Ela mal conhecia esta parte do país, então... - Meu nome é Trentham - disse ele. - A senhora veio da aldeia? - Sim. Eu pensei que caminhando pelo outro lado do promontório, chegaria logo lá - disse ela. - Mas o caminho é mais longo e difícil de andar do que eu esperava. Ela certamente era uma senhora. Suas roupas eram elegantes e pareciam caras. Era articulada e falava com um leve sotaque. Havia um ar indefinível de boa educação em suas maneiras. Ele não tinha o que repreender nos modos dela. - É melhor que eu dê uma olhada no seu tornozelo - disse ele. - Oh, não. - Ela recuou horrorizada. - Isso é completamente desnecessário, obrigada, Sr. Trentham. Foi uma leve torção. Ficarei bem, só preciso de alguns minutos de descanso e voltarei a caminhar novamente. Senhoras e seu senso de dignidade! Gostavam de ignorar qualquer realidade desagradável. - Vou dar uma olhada, de qualquer forma. - Ele se abaixou ao lado dela e estendeu a mão grande até a barra da saia. Ela olhou para ele, inclinou o corpo para trás, mordeu o lábio, e não argumentou mais. Ele segurou a bota com firmeza e delicadeza ao examinar seu tornozelo com a outra mão, com todo o cuidado para não


causar mais danos. Não achou que estivesse fraturado, mas estava relutante em prosseguir o exame, com receio de remover a bota. A bota poderia estar sendo de alguma ajuda, já que o tornozelo começava a inchar. Nesse estado, hoje ela não prosseguiria a caminhada de volta à aldeia ou qualquer outro lugar, nem mesmo com a ajuda de um braço para se apoiar. Ela ainda estava mordendo o lábio quando ele a fitou. Seu rosto estava pálido e tenso com a dor, e talvez constrangimento. Ele havia descoberto sua perna quase até o joelho. Havia um buraco irregular na meia de seda, seu joelho fora atingido de raspão e até havia um pouco de sangramento. Ele enfiou a mão no bolso do sobretudo, onde colocara um lenço de linho limpo esta manhã. Ele o abriu, dobrou-o três vezes, e envolveu o joelho dela antes de firmá-lo com um nó abaixo da rótula. Em seguida, ele baixou sua saia e se levantou. Notou o vermelho intenso sobre as maçãs de seu rosto. Por que diabo ele observara, com certo interesse, sua caminhada pela praia? Porque ela não fora mais cuidadosa enquanto subia a ladeira? Maldição! Ele não podia simplesmente deixá-la sozinha ali. - Vou levá-la a Penderris - ele disse, não muito satisfeito. Um médico deve olhar esse tornozelo o mais rápido possível. O joelho também deve ser limpo e enfaixado corretamente. Eu não sou um médico. - Oh, não... - ela gemeu lastimosa. - Penderris. A propriedade está assim tão perto? Eu não percebi. Fui aconselhada a não ir tão longe. O senhor acaso conhece o Duque de Stanbrook? - Sou um convidado na casa - disse ele secamente. - Agora, podemos fazer isso da maneira mais difícil, senhora. Posso apoiála junto ao meu corpo e, com a mão em sua cintura, ajudá-la a se mover enquanto a senhora pula em um pé... Mas devo avisá-la


que estamos a uma boa distância da casa. Ou podemos fazê-lo da forma mais fácil, simplesmente posso carregá-la nos braços. - Oh, não! - Ela gemeu de novo, mais alto desta vez, e meio que se encolheu. - Eu peso uma tonelada. Além disso... - Eu duvido, senhora - disse ele. - E garanto que sou perfeitamente capaz carregá-la, sem deixá-la cair ou causar mais danos ao seu tornozelo. Ele se inclinou sobre ela, deslizou um braço sobre os ombros enquanto passava o outro sob seus joelhos, e endireitou-se com ela já nos braços. Ela soltou às pressas um braço sob a capa e envolveu o pescoço masculino. Mas foi muito óbvia em mostrar que se assustou. Em seguida, mostrou certa indignação. Naturalmente lhe tinha oferecido uma escolha, mas não esperara que ela a fizesse. Na verdade, não lhe dera escolha alguma. Afinal, para ele, era só uma mulher idiota que certamente escolheria causar mais danos a si mesma, apenas para preservar a tão afamada dignidade feminina. Ele caminhou para cima, carregando-a da melhor maneira possível, permitindo que seus músculos, trabalhassem. - O senhor sempre - ela perguntou-lhe, com a voz ofegante e frieza arrogante, - faz exatamente só o que lhe convém, Sr. Trentham, mesmo quando oferece uma opção de escolha às suas vítimas? Vítimas? - Além disso - continuou ela sem lhe dar a oportunidade de responder à pergunta - eu teria feito outra escolha, senhor. Prefiro caminhar com meus próprios pés até a casa. - Isso seria uma tolice - disse ele, nem mesmo tentando esconder o desprezo que estava sentindo. - Caso não tenha percebido, senhora, seu tornozelo está inchando.


Ela cheirava bem. Não era o tipo de perfume que muitas mulheres usavam, do tipo que agrediam o olfato e a garganta, lhe causando espirros e tosse. Suspeitava que fosse um perfume muito caro. O perfume agradável se agarrava sedutoramente à mulher, sem invadir o espaço pessoal dele. Seu traje de cor clara parecia ser feito de lã fina. Lã cara. Ela não era uma senhora de poucas posses. Era apenas uma mulher descuidada e tola... Bem, geralmente senhoras ricas estavam sempre acompanhadas por criados onde quer que fossem. Onde estava sua comitiva? Ele poderia ter sido salvo do envolvimento pessoal se ela estivesse devidamente acompanhada. - Senhor, meu tornozelo sempre foi problemático - disse ela. - Estou acostumada a isso. Há anos atrás, caí de um cavalo e quebrei o pé; a fratura não foi calcificada corretamente. Eu realmente devo lhe pedir que me coloque no chão para que eu siga meu caminho. - A senhora está com o pé muito inchado - disse ele. - Se veio da vila, terá mais de uma milha a percorrer antes que chegue lá. Quanto tempo à senhora suportará a dor enquanto rasteja por toda essa distância? - Acredito - disse ela com voz fria e desdenhosa - que essa preocupação seja minha, Sr. Trentham, não sua. Mas vejo que é o tipo de homem que sempre acredita estar certo e os outros errados, segundo a sua opinião. “Bom Deus! Será que ela pensa que ele estava gostando de bancar Sir Galahad?” Ainda estavam acima da encosta, apesar de terem deixado o caminho pedregoso para trás e estarem em solo coberto de grama rasteira. Ele parou de repente, colocou-a no chão e, com uma passada, afastou-se dela. Cruzou as mãos atrás das costas e a


olhou fixamente com uma expressão que usara com soldados recalcitrantes durante as marchas. Queria realmente provocá-la. - Obrigada - disse ela com fria altivez, embora ela meio que zombasse de seu olhar, de repente irritado. - Agradeço-lhe por ter vindo em meu auxílio, senhor. Sei que poderia ter ignorado meu acidente, mas, em sua gentileza, não o fez. Sou Lady Muir. Ah, definitivamente uma Lady. Ela esperava que ele, provavelmente, abaixasse a cabeça e se desmanchasse em desculpas. Ela deu um passo para trás e desabou em uma profusão de saias e anáguas, de forma nada digna no chão. Ele fechou os olhos e franziu os lábios. Ela não gostaria que um estranho zombasse de sua perda de dignidade. Silêncio... Então Trentham abriu os olhos e a viu ajoelhada no chão, com o corpo trêmulo e ... rindo. Era um som alegre, de pura diversão, embora cessasse em um leve gemido de dor. - Senhor Trentham, - a jovem dama disse - tem minha permissão para dizer “eu avisei”. - Sim, eu avisei, - disse ele - mas não se deve discutir com uma Lady. E é Lorde Trentham. Foi uma atitude imatura ressaltar esse detalhe, mas ela o irritava. Ela virou-se para se sentar no chão. Foi, provavelmente, uma atitude ainda mais tola. O solo ainda devia estar úmido da chuva de ontem, ele pensou. Ele a fitou com olhos duros e altivos. Ela suspirou diante da expressão severa. Seu rosto estava pálido de novo. Ele apostava que o tornozelo latejava. E agora a


dor devia ser quase insuportável, graças à sua tentativa de colocar peso sobre ele. - O senhor me deu uma escolha, há poucos minutos - disse ela, toda a arrogância ausente em sua voz, embora um traço de riso permanecesse. - Embora o senhor me julgue uma mulher tola, não o sou, vou escolher a segunda. Ao menos espero que a oferta ainda esteja de pé. O senhor tem todo o direito de retirá-la agora, mas eu ficaria muito grata se me levasse a Penderris. Creia-me, Lorde Trentham, o mero pensamento de impor minha presença na casa de estranhos, me é profundamente angustiante. Se o Senhor me fizesse à gentileza de arranjar algum transporte assim que chegarmos, talvez eu não precise entrar e... Ele se curvou e a pegou nos braços novamente. Ela se calou com expressão arrependida. Trentham caminhou em direção da casa. Não deixou brechas para conversas. Só podia imaginar o tipo de recepção que teriam, e o tipo de provocação que ele teria que suportar enquanto durasse sua estadia em Penderris. - Acaso o senhor é ou foi um militar, Lorde Trentham - disse ela, quebrando o silêncio alguns minutos mais tarde. - Estou certa que foi, não? - O que a faz dizer isso? - Ele perguntou sem olhar para ela. - Bem, o senhor tem o porte e a atitude de um oficial militar - a Lady disse. - Tem uma expressão dura, parece um homem acostumado a comandar. Ele a fitou rapidamente. E não respondeu. - Oh, isso vai ser terrivelmente embaraçoso - ela gemeu minutos mais tarde, quando se aproximavam da casa. - No entanto, bem melhor, eu diria - ele disse secamente. Imagine ficar abandonada na encosta acima da praia, exposta aos


elementos e à espera das gaivotas que bicariam seus olhos. Impiedosamente, ele desejava que fosse precisamente isso, exceto pela participação das gaivotas na cena, é claro. - Oh... - ela disse com uma careta. - Quando o senhor coloca as coisas nessa perspectiva, devo confessar que está absolutamente certo. - Às vezes estou - disse ele. Senhor! Que piada! Por que justamente hoje ele tivera a necessidade de caminhar pela praia e encontrar essa mulher que preenchia os requisitos ideais para se casar. E ali estava ele, na hora certa, carregando uma verdadeira Lady de volta para casa. Uma Lady extremamente bonita também. Talvez ela não fosse o que aparentava. Na verdade, quase não existiam mulheres ideais para se casar. Ela se apresentou como Lady Muir. Isso indicava que em algum lugar, talvez na aldeia, a uma milha de distância, houvesse um Lorde Muir. Fato que não o salvaria da provocação. Ele simplesmente seria admoestado. De fato, seria acusado da forma mais ingênua de erro de cálculo. E levaria um longo tempo para que esquecessem o ocorrido. Gwen certamente estaria pensando no maior constrangimento que passaria na sua vida, se sua mente não estivesse mais preocupada com a dor que sentia. Ainda assim, sentia-se envergonhada. Não só estava sendo levada para uma casa estranha, a propriedade de um nobre importante que não estava à espera dela, mas também estava sendo carregada por um desconhecido enorme, rabugento e que não fizera nada para esconder o fato de que a desprezava. O problema era que ela não podia culpá-lo. Ela havia se comportado mal. Tinha feito o papel de tola.


Mas, intimamente, ficara impressionada com aquela montanha de músculos e força. Enquanto o observara se aproximar dela na praia, o estranho lhe parecera perturbadoramente masculino. Podia sentir o calor do corpo dele atravessar sua roupa pesada e a dela. Podia sentir seu perfume ou o seu sabão de barbear, um cheiro extremamente masculino. Podia ouvir sua respiração, embora ele não estivesse ofegante pelo esforço de carregá-la. Na verdade, sua ação inusitada a fazia se sentir como se não pesasse nada. Seu tornozelo estava latejando muito, de fato. Não havia razão para continuar a fingir que seria capaz de caminhar de volta à vila, assim que sentiu as primeiras pontadas de dor. Oh... Céus, ele realmente era um homem taciturno. E silencioso. Não tinha sequer confirmado ser um militar ou não. E ele não parecia querer oferecer mais informações, embora, para ser justa, ao carregá-la, ele precisaria usar de toda força física. Pelos céus... Ela teria pesadelos sobre isso por um longo tempo. De fato, ele a levava direto às portas da frente de Penderris Hall, que parecia uma mansão enorme. Ele continuava, como ela já esperava, ignorando totalmente seu pedido de ser levada às portas de trás da residência, onde certamente conseguiria um coche que a levaria para casa... Mas não... Céus ela queria evitar entrar na casa. Só esperava que o Duque não estivesse por perto quando ela fosse levada para dentro. Talvez um dos criados pudesse trazer uma carruagem para transportá-la de volta à vila. Mesmo imaginando o espetáculo da cena. Lorde Trentham subiu um pequeno lance de escadas e virou de lado, a fim de bater o ombro contra uma das portas. Foram recebidos quase que imediatamente por um homem de aparência sóbria, vestido de preto, como qualquer mordomo que se preze. Ele ficou de lado, sem soltar nenhum comentário enquanto Lorde Trentham a carregava até um grande salão.


- Temos um soldado ferido aqui, Lambert - Lorde Trentham disse sem qualquer traço de humor na voz. - Vou levá-la até a sala de estar. - Oh, não, por favor. - Quer que eu mande chamar o Dr. Jones, meu Lorde? Perguntou o mordomo. Mas antes que Lorde Trentham pudesse responder ou Gwen protestar, alguém entrou em cena. Um cavalheiro magro, loiro, alto e extremamente bonito, com os olhos verdes e uma sobrancelha levantada, entrou no salão com expressão zombeteira. O Duque de Stanbrook, Gwen pensou com o coração apertado. Ela dificilmente poderia ter imaginado uma cena igual a esta por mais que tivesse tentado. - Hugo, meu caro - disse o cavalheiro, com voz preguiçosa Como conseguiu essa proeza? Você é um homem de muitos recursos, não? De um simples passeio à praia, consegue arrebatar, literalmente, uma bela donzela com seu charme, para não mencionar seu título e fortuna. Realmente, meu caro, estou surpreso com seu feito. Se eu fosse um artista, me atiraria às telas e pincéis a fim de gravar tal cena para o deleite de seus descendentes, até a terceira e quarta geração. Ele havia baixado a sobrancelha e levantara um monóculo para o olho enquanto falava. Gwen olhou para ele. E respondeu com toda dignidade fria que conseguiu reunir. - Senhor, eu só torci o tornozelo - explicou ela - Lorde Trentham teve a gentileza de me socorrer e trazer-me até aqui. Não tenho a intenção de impor minha presença à sua hospitalidade por mais tempo do que o necessário, Vossa Graça. Tudo que peço é o préstimo de algum transporte que me leve de


volta à vila, onde estou hospedada. Presumo que seja o Duque de Stanbrook, não? O cavalheiro loiro baixou o monóculo e levantou a sobrancelha novamente. - Minha cara senhora..., sinto-me lisonjeado por ser elevado na hierarquia - disse ele. – Infelizmente, está enganada. E ouso dizer que Lambert vai armar um show se você insistir com isso, meu caro Hugo. No entanto, você parece ansioso para impressionar a dama com sua força ao querer levá-la ao andar de cima nos braços e entrar na sala de visitas, sem qualquer outra explicação. - É bom você não se exceder, Flavian - outro senhor, mais velho, disse quando se aproximou da parte de trás do salão. Você não parece saber nada sobre hospitalidade. Milady, eu concordo plenamente com Hugo e meu bom mordomo. A senhora deve ser levada à sala de estar para descansar o pé em um sofá, enquanto eu chamo o médico para avaliar os danos. Deixo Stanbrook inteiramente ao seu serviço. A senhora gostaria que eu mandasse chamar alguém na vila..., seu marido, talvez? Céus, isso está ficando cada vez pior. Se houvesse um buraco no meio do salão, me jogaria nele. Gwen pensou... Agora ela ficaria feliz se Lorde Trentham a tivesse deixado na encosta. O Duque era mais do que tinha imaginado. Alto, magro, elegante, feições finamente esculpidas e bonitos cabelos escuros com mechas prateadas nas têmporas. Sua maneira era cortês, mas seus olhos cinzentos eram constrangedores, frios; até a voz era fria. Ele falou de hospitalidade, mas a fez sentir-se como uma intrusa. - Sou a viúva do Visconde Muir - Gwen disse ao duque. Sou uma convidada na casa da Sra. Parkinson, na aldeia.


- Ah... - disse o duque. - Ela perdeu o marido recentemente, depois de ele ter sofrido uma doença prolongada. Mas não queremos ficar em seu caminho, Hugo. Leve a Lady para cima. Mais tarde, espero ter o prazer de uma conversa com a senhora, Lady Muir, depois que seu tornozelo seja bem cuidado. Ele fez soar como se toda aquela comoção não fosse nada, como se fosse só uma convidada para o chá. Ou talvez estivesse sendo injusta devido a seu extremo desconforto com a situação. Ele estava oferecendo hospitalidade e os serviços de um médico, afinal.

Como podia uma torção no tornozelo causar tanta dor? Ou talvez estivesse quebrado. Lorde Trentham virou-se com ela nos braços e caminhou em direção a uma grande escadaria que serpenteava acima em uma curva elegante. Ela podia ouvir o Duque de Stanbrook dando ordens, tanto para chamar o médico quanto a informar sobre o paradeiro da hóspede relutante na vila, tudo era resolvido sem mais delongas. Ao longe, ouviu que o cavalheiro de monóculo, aquele que falou com um suspiro afetado na voz e uma leve gagueira, parecia estar se oferecendo para executar a missão. Já no andar de cima, a sala estava vazia. Foi um alívio, pelo menos. Era uma sala grande, quadrada, com paredes brancas cobertas de pinturas, cortinas de cor vinho nos batentes das grandes janelas, e uma lareira de mármore esculpido em frente à porta. O teto abobadado era pintado com cenas da mitologia, o friso abaixo delas todo dourado. Os móveis elegantes e suntuosos. As longas janelas davam vistas ao gramado cercado por sebes, mas proporcionavam uma visão distante dos penhascos e do mar. Um fogo crepitava na lareira, e o calor da sala impedia que o olhar demasiado duro de seu salvador a perturbasse ainda mais.


Gwen lançou o olhar ao ambiente requintado e sentiu toda a humilhação de ser uma hóspede indesejada, principalmente em tal casa. Mas, por enquanto, seria melhor não arranjar mais confusão e exigir novamente o empréstimo do coche para ser levada de volta à vila. Lord Trentham a colocou sobre um sofá de brocado e pegou uma almofada para colocar sob o tornozelo lesionado. - Não, por favor - ela soltou um gritinho - minhas botas estão imundas, sujarão o sofá. Essa seria a última gota. Mas ele não a deixaria tocar o pé no chão. Nem permitiria, também, que ela se inclinasse para frente para retirar as botas. Ele insistiu em fazer isso por ela. Não que ele pronunciasse alguma palavra pedindo consentimento ou um comando, mas seria difícil para ela empurrar de lado suas mãos grandes e os braços maciços, ou sequer impor sua opinião a ouvidos surdos. Ele fora um perfeito cavalheiro ao lhe prestar socorro, ela admitiu a contragosto, mas ele precisava ser tão desagradável assim? O Lorde desfez os laços de sua bota esquerda e removeu-a sem qualquer problema antes de colocá-la no chão. Ele foi muito mais cuidadoso com a outra bota. Gwen soltou as fitas do chapéu, puxando-o para fora de sua cabeça, e ele caiu para o lado do sofá. Ela descansou a cabeça contra o braço almofadado. E fechou os olhos, cerrando-os com força enquanto sentia uma nova onda de agonia. Ele tinha as mãos surpreendentemente delicadas, mas não foi fácil para ele tirar o pé do calçado, e uma vez livre, mais nada poderia fazer para apoiar o pé ou impedir o inchaço. Ela o sentiu levantar ainda mais a almofada. Mas a dor, às vezes, entorpecia a sensibilidade, ela pensou alguns momentos mais tarde, quando sentiu as mãos chegarem


debaixo de sua saia, primeiro para remover o lenço que tinha enrolado sobre seu joelho e, depois, para rolar para baixo sua meia rasgada, facilitando o acesso ao pé. Dedos quentes sondaram o inchaço. - Eu não acredito que esteja quebrado - disse Lorde Trentham. - Mas não posso ter certeza. Você deve manter o pé no alto até que o médico chegue. O corte no seu joelho é superficial e vai cicatrizar em poucos dias. Ela abriu os olhos, estando ciente de seu pé descalço e uma boa parte da perna nua levantada sobre a almofada. Lorde Trentham estava de pé, mãos cruzadas às costas, com os pés calçados com botas. Uma típica imagem de militar à vontade. Seus olhos escuros estavam olhando diretamente em volta dela, e sua postura permanecia rígida. Ele se ressentia por ela estar ali, pensou. Bem, ela tinha tentado não estar. Ela é quem deveria estar bem ressentida. - A maior parte das mulheres - disse ele - não costuma suportar bem a dor. A senhora o faz bem. Ele estava insultando seu sexo, mas elogiando sua pessoa. Ela deveria sentir gratidão? - O senhor se esquece - disse ela - que são as mulheres que carregam e parem crianças. Nunca ouviu dizer que a dor do parto é a pior que existe? - A senhora tem filhos para comprovar esse ditado? Perguntou. - Não. - Ela fechou os olhos novamente e sem razão aparente continuou um assunto que evitava ao máximo, mesmo diante dos entes mais próximos e queridos. - Eu o perdi antes de nascer. Aconteceu quando fui jogada do meu cavalo e quebrei a perna.


- E o que a senhora estava fazendo sobre um cavalo sabendo que estava grávida? - Perguntou. Era uma boa pergunta, mesmo que fosse dita de um modo insolente demais. - Saltando. - disparou ela - Vernon e eu estávamos saltando. Sempre estávamos a cavalo. Mas meu alazão era um tanto difícil de controlar e acabei no chão Houve um curto silêncio. Por que Diabos ela tinha dito aquilo? - O seu marido sabia que estava grávida? - Perguntou. Era uma pergunta imperdoavelmente íntima. Mas ela começara o assunto. - Claro - disse ela. - Eu estava com quase seis meses de gestação. E agora ele pensaria todo tipo de coisas pouco elogiosas sobre Vernon. Era injusto da parte dela ter dito tanto, quando ela certamente não estava preparada para dar outras explicações. Ela parecia ter metido os pés pelas mãos novamente, mas não a agradava se mostrar sob uma luz desfavorável, então colocou os olhos sobre ele primeiro e se encolheu de medo. Sim, ela realmente teve medo dele. - A senhora queria essa criança? - Perguntou. Seus olhos se arregalaram e ela o fitou sem palavras. Que tipo de pergunta era aquela? Ele a fitava com os olhos duros. Acusadores. Condenando-a. Mas o que ela esperava? Ela fizera Vernon e a si mesma parecerem imprudentes e irresponsáveis. Era hora de mudar de assunto.


- Será que o senhor loiro que encontramos no térreo é um convidado em Penderris também? - Perguntou ela. - Haverá alguma festa na casa? - Ele é o Visconde Ponsonby - disse ele. - Há seis convidados aqui, além de Stanbrook. Nós nos reunimos aqui por algumas semanas a cada ano. Stanbrook abriu a casa para nós por vários anos durante e depois das guerras, enquanto nos recuperávamos de várias feridas. Gwen olhou para ele. Não havia nenhum sinal exterior de qualquer ferimento que poderia ter incapacitado o Lorde Trentham por tanto tempo. Mas ela estava certa sobre ele. Ele era um militar. - Todos eram oficiais? - Ela perguntou. - Sim - disse ele. - Cinco de nós estiveram nas últimas guerras, Stanbrook nas anteriores. Seu filho e outros morreram nas guerras de Napoleão Ah, sim. Pouco antes de a Duquesa pular do penhasco para a morte. - E a sétima pessoa? - Perguntou ela. - Uma mulher - disse ele - viúva de um oficial que foi torturado até a morte depois de ser capturado. Ela estava presente quando ele finalmente foi executado. - Oh - disse Gwen, fazendo uma careta. Agora ela se sentia pior do que nunca. Isso era muito pior do que se impor em uma festa em casa estranha. E a simples torção no tornozelo parecia embaraçosamente trivial em comparação ao que o Duque e demais pessoas naquela casa deviam ter sofrido. Lorde Trentham pegou uma manta na parte de trás de uma cadeira próxima e se aproximou para estendê-la sobre a perna


ferida de Gwen. No mesmo instante, as portas se abriram novamente e uma mulher entrou carregando uma bandeja de chá. Ela era uma Lady, não uma empregada. Era alta e de postura empertigada. Seu cabelo loiro escuro estava preso em um coque, mas a simplicidade, apesar da severidade, do estilo enfatizava a estrutura óssea perfeita de seu rosto oval, com as maçãs do rosto finamente esculpidas, nariz reto e olhos azulesverdeados cercados por cílios um tom mais escuro que o cabelo. Sua boca era ampla e generosa. Era linda, apesar do fato de que seu rosto parecia esculpido em mármore. Parecia nunca ter sorrido, ou melhor, era como se ela fosse incapaz de fazê-lo, mesmo se quisesse. Seus olhos eram grandes e muito calmos, quase não pareciam naturais. Ela veio para o sofá e teria colocado a bandeja sobre a mesa ao lado de Gwen, se Lorde Trentham não a tivesse tomado das mãos dela primeiro. - Eu servirei o chá, Imogen - disse ele. - George supôs que me diria isso, mas julgo impróprio que fiquem o cavalheiro e a dama a sós em uma sala - a senhora disse - Lady Muir, mesmo que ele a tenha resgatado de uma situação perigosa, creio que será melhor eu permanecer aqui e lhe fazer companhia. Mais tarde pode voltar para a casa onde está hospedada. Servirei como sua acompanhante. Sua voz era fria. - Esta é Imogen, Lady Barclay, - Lorde Trentham disse que nunca pareceu considerar impróprio ficar em Penderris com seis cavalheiros e nenhuma acompanhante. - Eu confiaria minha vida a qualquer um dos seis - Lady Barclay disse, inclinando a cabeça cortesmente à Gwen. - Na verdade, eu já o fiz. A senhora parece constrangida, minha cara. Não precisa. Como machucou o tornozelo?


Serviu três xícaras de chá enquanto Gwen descrevia o que havia acontecido. Então, esta é a Senhora que perdera o marido de modo tão trágico, pensou Gwen. Ela podia imaginar os tormentos que a mulher devia ter vivido a cada minuto desde aquele dia fatídico. Ela devia se perguntar se poderia ter feito algo para evitar o desastre. Assim como Gwen sempre se perguntara a si mesma o que poderia ter feito quanto à morte de Vernon. - Eu me sinto uma tola - disse, concluindo a história. - Claro que não - Lady Barclay declarou. - Isso pode acontecer a qualquer um, principalmente aos hóspedes desta casa. Estamos sempre subindo e descendo à praia, o caminho é bem traiçoeiro, ainda mais tendo em conta a quantidade de pedras que vivem rolando pela encosta. Gwen olhou para Trentham, que bebia o silenciosamente, seus olhos escuros descansando sobre ela.

chá

Ele era, pensou com alguma surpresa e um pouco de temor, um homem terrivelmente atraente. E não deveria pensar nele assim. O homem era muito grande para ser elegante ou gracioso. Seu cabelo era curto demais para suavizar a dureza de suas feições ou sua expressão continuamente rígida. Sua boca sempre estreitada com um ricto de desprazer não deveria ser considerada sensual. Seus olhos eram tão escuros e penetrantes que dificilmente uma mulher haveria de querer esse olhar fixo nela. Não havia nada que sugerisse charme ou bom humor, muito menos qualquer tipo de calor em tal personalidade. Mas ainda assim… Ainda assim, sentia uma sombria atração quase irresistível sobre ele. Sim, masculinidade. Seria uma experiência absolutamente maravilhoso, pensou, ir para a cama com ele.


O pensamento a chocou intimamente. Desde a morte de Vernon, há sete anos, ela mantivera à distância qualquer pensamento que se referisse à satisfação sensual e física. Não pensara em um compromisso e nem em casamento. Porque pensar em sexo agora? Será que a atração inesperada e ridícula tinha algo a ver com a onda também inesperada de solidão que a dominara na praia, pouco antes de conhecê-lo? Ela ignorou a conversa de Lady Barclay, enquanto os pensamentos estranhos zumbiam loucamente em sua cabeça. Mas realmente começava a lhe parecer difícil se concentrar totalmente nas palavras ou pensamentos. Dor... Lembrava-se agora do momento em que ela quebrou a perna. Nunca poderia limitar-se à parte física da fratura, mas a dor latejante transpassava o corpo e a mente. Lorde Trentham chegou a seus pés, logo que ela terminou sua xícara de chá, levou um guardanapo de linho não usado da bandeja de chá e foi até um aparador, onde deve ter encontrado um jarro de água fria entre as garrafas de bebidas. Ele voltou com um guardanapo úmido, colocando-o dobrado sobre a testa de Gwen, e continuou segurando no lugar com uma mão. Ela descansou a parte de trás da cabeça contra a almofada novamente e fechou os olhos. A frieza... Até mesmo a pressão da mão a fazia sentir-se muito bem. Onde estava agora o bruto insensível, como ela o julgara? - Tive a esperança de distraí-la com a conversa - disse Lady Barclay. - Está tão pálida, coitadinha. Mas ela não soltou um gemido de queixa. Admirável, não? - E Jones, certamente não pode demorar tanto - disse Lorde Trentham.


- Ele virá assim que estiver livre - disse Lady Barclay. - Ele é um homem ocupado, Hugo. E não há melhor médico no mundo. - Lady Muir sofreu uma lesão anterior na mesma perna disse Lorde Trentham. - Ouso dizer que deve estar doendo muito. Eles estavam falando dela como se ela não estivesse ali para falar por si mesma, pensou Gwen. Mas, no momento, não se importava. Ela realmente queria se distanciar da dor atroz. E havia calor em suas vozes, ela notou. Como se realmente gostassem um do outro. Quase como se estivessem de fato preocupados com ela. Mesmo assim, ela desejou que o médico chegasse logo para que ela pudesse pedir ao Duque de Stanbrook, novamente, um coche para levá-la à vila. Oh, como ela odiava estar em dívida com alguém.


Capítulo 3 Quando Flavian retornou com o médico, trouxe a senhora Parkinson também. Foi ela quem correu primeiro para a sala de estar. Ela fez uma reverência para Imogen e Hugo e asseguroulhes que Sua Graça e eles eram a bondade em pessoa. E que ela ficaria muito grata a Lorde Ponsonby pelo resto dos seus dias, palavras dela, por trazê-la tão prontamente devido ao acidente de sua querida amiga, e insistido sobre levá-la na carruagem de Sua Graça, apesar do fato de que ela teria ficado feliz em caminhar dez vezes a distância se necessário. - Eu iria caminhando cinco, não, até dez milhas pela querida Lady Muir, - ela assegurou-lhes - mesmo ela tendo sido descuidada ao andar nas terras de Sua Graça, quando eu tinha especificamente avisado para ter cuidado e evitar ofender ao ilustre par do reino. Sua Graça teria bastante razão se tivesse escolhido se recusar a acolhê-la em Penderris, embora eu ouse dizer que ele hesitou em fazê-lo quando soube que ela é Lady Muir. Suponho que tenho que agradecer o meu convite para andar na carruagem, de fato tal distinção nunca me foi oferecida antes, vocês sabem, apesar do fato de que o Sr. Parkinson era o irmão mais novo de Sir Roger Parkinson e era ele mesmo o quarto na linha do título depois dos três filhos de seu irmão. Foi só depois que ela proferiu esse discurso notável, olhando de Hugo a Imogen enquanto o fazia, que ela se virou para sua amiga com as mãos no peito. Hugo e Imogen trocaram um olhar inexpressivo, que diziam muito. Flavian veio ficar em pé em silêncio ao lado da porta, olhando abertamente entediado. - Gwen! - Gritou à senhora Parkinson. - Oh, minha pobre querida Gwen, o que você fez a si mesma? Eu estava fora de mim de preocupação quando você não voltou de sua caminhada após uma hora. Eu temia o pior e me culpava amargamente por ter me


sentido sem ânimo para acompanhá-la. O que eu teria feito se você tivesse sofrido um acidente fatal? O que eu teria dito ao conde de Kilbourne, seu querido irmão? Foi realmente muita, muita maldade sua me causar tanto pânico. Tudo que eu senti, é claro, é porque eu amo você querida. - Eu torci o tornozelo, isso é tudo Vera - Lady Muir explicou. - Mas, infelizmente, é impossível andar, pelo menos por enquanto. Espero não ter de aproveitar da hospitalidade do duque por muito tempo, no entanto. Confio que ele terá a amabilidade de permitir que a carruagem volte à aldeia com nós duas, uma vez que o médico tenha olhado meu tornozelo e o enfaixado. A Sra. Parkinson fitou sua amiga com claro horror, soltou um gritinho e apertou as mãos ainda mais firmemente contra o peito. - Você não deve sequer pensar em ser removida - disse ela. Oh, minha pobre Gwen, você vai causar à sua perna danos irreparáveis se tentar algo tão imprudente. Você já tem aquele coxear do lamentável acidente anterior, e ouso dizer que isso tem desencorajado outros senhores de a cortejarem, desde que morreu o querido Lorde Muir. Você simplesmente não deve se arriscar a se tornar inteiramente coxa. Sua Graça, estou certa, vai se juntar a mim, e insistir que permaneça aqui até que seu tornozelo esteja completamente curado. Você não deve se preocupar, pois não vou descuidar de você. Vou suportar caminhar diariamente, para lhe fazer companhia. Você é minha amiga mais querida no mundo, depois de tudo. Estou certa que esta senhora e este cavalheiro, bem como o Visconde Ponsonby também insistirão em que você fique. Ela sorriu graciosamente virando em direção a Imogen e Hugo, Flavian parecendo ainda mais aborrecido do que o habitual, apresentou-os.


A Sra. Parkinson estava provavelmente próxima em idade de Lady Muir. Hugo supôs, se o tempo tivesse sido mais gentil com ela. Considerando que Lady Muir ainda era bonita, embora ela provavelmente tivesse mais de trinta anos, qualquer pretensão de boa aparência da Sra. Parkinson ficara num passado distante. Ela também carregava peso demais em seu corpo e, mais do que era aceitável, sob o queixo e sobre peito e quadris. Seu cabelo castanho tinha perdido qualquer brilho juvenil, que uma vez poderia ter tido. Lady Muir abriu a boca para falar. Ela estava claramente consternada com a sugestão de permanecer em Penderris. Ela foi impedida de expressar seus sentimentos, no entanto, quando a porta se abriu novamente para a entrada de George e o Dr. Jones, o médico de Londres que foi chamado anos atrás, quando ele abrira sua casa para seis deles, e outros cuja permanência foi de curta duração. O médico, desde então, tinha permanecido para cuidar dos pobres que não podiam pagar seus honorários, assim como dos ricos que podiam. - Aqui está o Dr. Jones, Lady Muir - disse George. - Ele é o mais hábil dos médicos, eu lhe garanto. A senhora pode se sentir segura por confiar em seus cuidados. Imogen, faria a gentileza de permanecer aqui com Lady Muir? O resto de nós vai retirar-se à biblioteca. Sra. Parkinson, posso oferecer-lhe um chá e bolos? Foi bom você ter vindo com Flavian e o médico em tão pouco tempo. - Eu é que deveria ficar com Lady Muir - disse a Sra. Parkinson, no entanto permitindo-se levar para a porta. - Porém meus nervos estão no limite, Vossa Graça, depois de cuidar de meu pobre e querido marido por tanto tempo. O Dr. Jones poderá dizer que eles estiveram muito perto de se romperem por completo desde o falecimento dele. Eu não sei como serei capaz de dar a Lady Muir o cuidado que ela vai precisar em minha casa, embora esteja muito ansiosa, como você pode imaginar, para levá-la. Sinto-me responsável pelo que aconteceu. Se eu estivesse com ela, como teria estado se não me sentisse desanimada esta


manhã, eu a teria mantido a uma distância decente de Penderris. Estou aborrecida por ela ter desobedecido, embora eu suponha que foi mais descuido do que deliberado da parte dela. George fechou as portas da sala de estar e seguiu caminhando para o andar de baixo com a Sra. Parkinson em seu braço. Hugo e Flavian seguiram juntos, atrás deles. - Será um prazer ter Lady Muir aqui, milady - disse George. - E o médico já confirmou que a senhora está muito cansada após sua devotada atenção ao seu marido durante sua longa doença. - Isso é muito simpático dele, tenho certeza - disse a Sra. Parkinson. - Virei todos os dias para visitar Lady Muir, é claro. - Estou muito contente de ouvir isso milady - disse George, acenando para um lacaio abrir as portas da biblioteca. - Minha carruagem estará à sua disposição. Flavian e Hugo trocaram um olhar, com uma sobrancelha levantada. Vamos passar despercebidos enquanto podemos? O olhar parecia perguntar. Hugo franziu os lábios. Era tentador. Mas ele seguiu George e sua convidada. Flavian deu de ombros e veio atrás dele. - Lamento essa imposição à sua hospitalidade, Vossa Graça - a Sra. Parkinson garantiu a George. - Mas não é da minha natureza abandonar um amigo, em necessidade. E assim, vou aceitar sua oferta da carruagem a cada dia, embora eu teria o maior prazer em andar até aqui. Eu não serei absolutamente um incômodo para você e seus convidados enquanto eu estiver aqui. Será à Lady Muir que estarei visitando. Eu, certamente, não devo esperar chá a cada dia. Uma empregada tinha acabado de entrar na sala e estava arrumando uma bandeja sobre a grande mesa de carvalho perto da janela.


Era surpreendente, pensou Hugo, que a Sra. Parkinson tivesse cultivado a amizade de Lady Muir. Afinal, ela era viúva de um Lorde e irmã de um conde, e a Sra. Parkinson era subserviente ao extremo. Era uma incógnita o porquê Lady Muir era amiga dela. Ela tinha parecido a Hugo como sendo decididamente arrogante, dos pés à cabeça. Ele não tinha simpatizado com ela, apesar de sua inegável beleza. Embora ela tivesse rido de sua própria situação, depois de exigir que a colocasse no chão quando ele a carregava. Então, pedira para ser carregada, depois de tudo. Mas ela, um dia, tinha sofrido um aborto, devido à incrível imprudência de seu comportamento e o descuido de seu marido. Ela era o tipo de mulher de classe alta que Hugo mais desprezava. Parecia totalmente envolvida com si mesma. E ainda assim, era amiga da Sra. Parkinson. Talvez ela gostasse de ser venerada e adorada. Pobre George, fora deixado sozinho para suportar o todo peso da conversa, desde que ele, Hugo, estava em pé, em um silêncio sombrio, desejando nunca ter parado para subir à borda do penhasco, mas ter vindo direto para casa. E Flavian estava ao lado de uma estante, folheando um livro, com um olhar de desdém. Flavian sempre demonstrava desdém muito bem, ele nem sequer precisava dizer uma palavra. Isto era de extrema grosseria com George. - A senhora conhece Lady Muir há muito tempo, Sra. Parkinson? - Perguntou Hugo. - Oh, meu Lorde, - disse ela, pousando a xícara e o pires, a fim de apertar as mãos contra o peito novamente - nos conhecemos desde sempre. Fizemos nossa apresentação juntas em Londres quando éramos jovens, você sabe. Fomos apresentadas à rainha no mesmo dia e dançamos em cada um dos bailes que vieram depois. As pessoas eram gentis, diziam que éramos as duas mais lindas e deslumbrantes jovens senhoritas no mercado


matrimonial daquele ano, embora eu ouse dizer que eles estavam apenas sendo gentis comigo. Apesar de eu ter minha quota de pretendentes, é verdade. Mais que Gwen, de fato, embora eu suponha que foi devido, em parte, ao fato de que ela dera uma olhada em Lorde Muir e decidira que seu título e sua fortuna valeriam à pena. Eu poderia ter me casado com um marquês, ou visconde, ou qualquer um de uma série de barões. Mas me apaixonei perdidamente pelo Sr. Parkinson e nunca me arrependi, em momento algum, por renunciar à vida deslumbrante com um cavalheiro da nobreza e dez mil ou mais por ano. Não há nada mais importante que o amor, mesmo quando se trata de um simples irmão mais novo de um barão. Como teria morrido Muir, se perguntou Hugo, depois de sua mente vagar. Embora ele não tenha perguntado. O médico estava entrando na sala, e confirmou a suspeita de Hugo de que o tornozelo da paciente havia se torcido severamente, mas aparentemente não tinha quebrado ou trincado. No entanto, era imperativo que ela repousasse sua perna por, pelo menos, uma semana. O clube dos sobreviventes, iria se expandir e admitir mais um membro ao que parecia, mesmo que apenas temporariamente. George tinha permitido a Sra. Parkinson ganhar um ponto e dar a oportunidade de vir impor sua companhia sobre eles por alguns dias. Lady Muir ficaria hospedada. A Sra. Parkinson era a única entre eles que parecia satisfeita com o veredicto, embora ao mesmo tempo em que ela limpava os olhos com o lenço, emitisse um suspiro profundo. Teria sido melhor, pensou Hugo, que ele não tivesse descido à praia hoje. As brincadeiras da última noite deveriam ter sido aviso suficiente. Deus, às vezes, se divertia dando à piada seu próprio toque peculiar.


A nova entorse tinha sido agravada pela anterior que, por sua vez, tinha sido mal curada. Ele gostaria muito de ter uma palavra com o médico que cuidara dela, disse o Dr. Jones com alguma gravidade, depois de ter explicado a situação a Gwen. Ordenou que ela não colocasse o pé no chão por, pelo menos, uma semana, nem mesmo sobre um banquinho baixo, mas mantê-lo elevado em todos os momentos, sempre que possível, no mesmo nível do coração. Teria sido uma declaração sombria o suficiente, em qualquer circunstância. Mesmo em casa, a perspectiva de permanecer inativa por tanto tempo, teria sido cansativa. E junto de Vera mais de uma semana, sem poder fugir da companhia de seu anfitrião e seus amigos, era como ser condenado a uma estadia no purgatório. No entanto, isso parecia o paraíso, em comparação à realidade que ela enfrentava. Teria que passar ao menos uma semana em Penderris Hall, como convidada do Duque de Stanbrook. Estava sendo forçada a impor-se em uma reunião de pessoas que passaram longos meses juntos, se recuperando de ferimentos sofridos durante as guerras. Eles eram, certamente, um grupo estreitamente ligado. A última coisa que qualquer um deles queria era ser forçado à presença de uma estranha, uma estranha para todos, que estava sendo cuidada por nada mais letal que um tornozelo machucado. Ela se sentiu envergonhada, com dor e com terríveis saudades de casa. Mas, acima de tudo, estava com raiva. Estava com raiva de si mesma por ter continuado ao longo da praia depois de descobrir como era difícil caminhar naquele terreno, e ter escolhido subir aquela ladeira traiçoeira. Ela tinha um tornozelo fraco. Sabia de suas limitações e, normalmente, era bastante sensata sobre o tipo de exercício que podia fazer. Porém, acima de tudo, ela estava com raiva de Vera, estava bastante furiosa de fato. Que verdadeira dama fecharia sua casa


à própria amiga a qual implorara para vir e fazer companhia em sua dor e solidão, só porque essa amiga tinha sofrido um ligeiro acidente? Caso fosse o contrário, a reação dela não teria sido o oposto? Mas Vera, claramente e embaraçosamente, estava sendo interesseira na sua falta de vontade em permitir que Gwen fosse transportada a casa dela. Por mais que ela protestasse contra o Duque de Stanbrook antes de hoje, ficara excitada além de palavras pelo oferecimento e chance de vir à Penderris na carruagem dele, nada menos, para que todos os habitantes da aldeia testemunhassem. Ela tinha visto uma oportunidade de prolongar a emoção, se tornando uma visitante diária aqui na próxima semana ou, desse modo, tinha procedido a conseguir, sem alguma consideração aos sentimentos de Gwen. Gwen viu crescer sua humilhação, dor e raiva enquanto era reclinada em cima da cama, no quarto de hóspedes que tinha sido atribuído a ela. Lorde Trentham a tinha levado ali, a depositado na cama e saído quase sem dizer uma palavra. Ele perguntou se poderia lhe buscar qualquer coisa, mas tanto seu rosto quanto sua voz tinham sido inexpressivos, ficando claro que ele não esperava que ela dissesse sim. Oh, ela não devia ceder à tentação de jogar a culpa pelo seu desconforto nos ocupantes de Penderris Hall. Eles tinham sido extremamente gentis com ela. Lorde Trentham a tinha carregado todo o caminho da praia, ou quase isso. E suas mãos tinham sido surpreendentemente gentis quando tirara suas botas. Ele tinha trazido aquele pano fresco e colocado contra a testa dela apenas quando a dor vinha, ameaçando-a de perder controle. Ela não deveria gostar dele. Ela só desejava que ele não a fizesse se sentir como uma mimada colegial petulante. Uma empregada a distraiu depois de um tempo. Trouxe-lhe mais chá e as notícias de que uma porção de pertences dela


haviam sido trazidos da aldeia e estavam no closet ao lado do quarto de dormir. A mesma criada a ajudou a se lavar e trocar a roupa por um vestido mais adequado para noite. Escovou o cabelo de Gwen e refez o penteado. E, então, saiu do quarto deixando Gwen a imaginar o que aconteceria a seguir. Ela esperava desesperadamente que pudesse permanecer no quarto, e a empregada trouxesse sua bandeja na hora do jantar. No entanto, suas esperanças foram logo frustradas. Uma batida na porta foi precedida pela entrada de Lorde Trentham. Ele parecia muito grande e realmente esplêndido, em um casaco de noite sobre outro bem ajustado traje de noite. Ele também estava carrancudo. Não, isso era injusto. Seu rosto demonstrava um certo olhar naturalmente ameaçador, Gwen pensou. Ele tinha a aparência de um guerreiro feroz. Olhava como se as sutilezas da vida civilizadas não fossem importantes para ele. - A senhora está pronta para descer? - Ele perguntou. - Oh, - ela disse - eu realmente prefiro ficar aqui, Lorde Trentham, e não ser um incômodo a ninguém. E, se não for um problema, talvez o senhor pudesse pedir que me enviassem uma bandeja? Ela sorriu para ele. - Acredito que seria um problema milady - disse ele. - Fui enviado para levá-la para baixo. As faces de Gwen esquentaram, com muita vergonha. E que resposta muito grosseira. Ele não poderia a ter respondido de forma diferente? Poderia ter dito a ela que sua companhia não seria um incômodo para ninguém. Poderia ir mais longe, a ponto de dizer que o duque e seus convidados estavam ansiosos para que ela se juntasse a eles.


Ele poderia ter sorrido. Ele caminhou em direção à cama, inclinou-se sobre ela, e pegou-a. Gwen colocou o braço em volta do pescoço e olhou para o rosto dele, embora estivesse perturbadoramente perto. Ela poderia manter suas boas maneiras, mesmo que ele não. - O que fazem durante suas reuniões? Ela perguntou educadamente. - Relembram velhas histórias de guerra? - Isso seria uma estupidez - disse ele. Ele sempre era tão rude? Ou apenas se ressentia dela e não podia ser civilizado com ela? Mas, poderia tê-la levado de volta à aldeia em vez de trazê-la aqui. Era forte como um gigante, de tal forma que seu peso não seria um empecilho a ele. - Vocês cuidadosamente evitam qualquer menção às guerras, então? - Ela perguntou enquanto desciam as escadas. - Nós sofremos neste lugar - ele disse a ela. - Nos curamos aqui. Desnudamos nossas almas uns aos outros aqui. Deixar este lugar, foi uma das coisas mais difíceis que tivemos de fazer em um longo tempo. Mas era necessário para que nossas vidas tivessem um significado novamente. Uma vez por ano, no entanto, voltamos para nos tornar inteiros uma vez mais, ou para fortalecer a ilusão de que somos um todo. Foi um longo discurso para Lorde Trentham. Mas ele não olhara para ela enquanto falava. Sua voz soara feroz e ressentida. Ele a entendera errado novamente. Dera a entender que ela era uma delicada e mimada dama, que não poderia entender o tipo de sofrimento que ele e seus amigos tinham passado. Ou o fato de que a dor nunca chegara a ter um fim e que, por isso, o sofrimento ficara marcado para sempre. Ela entendia.


Quando as feridas se curassem, tudo deveria ser reparado. A pessoa deveria estar inteira novamente. Isso parecia fazer sentido. Mas ela não tinha sido curada quando sua perna foi unida depois de ter quebrado. Sua perna tinha sido mal curada. No entanto, ela não teria ficado inteira, mesmo que sua perna tivesse se curado perfeitamente. Ela também tinha perdido seu filho não nascido, como resultado da queda. Poderia até se dizer que ela matara seu filho. E Vernon nunca tinha sido o mesmo depois do acontecido. E, então, aquilo levantou a questão – era a mesma coisa? Quando se havia sofrido uma vez um grande dano, haveria sempre uma grande fraqueza depois, uma vulnerabilidade onde havia antes integridade, força e inocência. Oh, ela entendia. Lorde Trentham levou-a para sala de estar e a colocou no mesmo sofá, como antes. Mas, desta vez, a sala não estava vazia. Haviam de fato outras seis pessoas presentes, além dos dois. O Duque de Stanbrook era um, Lady Barclay outra, Visconde Ponsonby o terceiro. Gwen se perguntou fugazmente quais seriam suas feridas. Ele parecia deslumbrantemente bonito e fisicamente perfeito, assim como Lorde Trentham parecia grande e fisicamente perfeito. Era óbvio o que estava errado com o outro cavalheiro. Ele arrastou seus pés quando Gwen entrou na sala, usando dois bastões amarrados aos seus braços. Suas pernas pareciam estranhamente torcidas entre os bastões, e parecia que ele estava apoiando muito do seu peso em seus braços. - Lady Muir, - disse o duque de sua posição diante da lareira, - eu aprecio o seu esforço para se juntar a nós. Compreendo perfeitamente que isso deve ter sido um grande esforço. Estou muito contente de tê-la como convidada em minha casa, embora eu lamente as circunstâncias. Estou ansioso em


conhecê-la melhor durante a próxima semana. Espero que a senhora não hesite em pedir qualquer coisa que precisar”. - Obrigada, Sua Graça - disse ela, corando. - É muito gentil de sua parte. Suas palavras eram corteses, embora suas maneiras fossem duras, distantes e austeras. Mas pelo menos ele foi cortês, ao contrário de Lorde Trentham. Ele era um cavalheiro da cabeça aos pés. Um cavalheiro extremamente elegante também. - Já conhece Imogen, Lady Barclay e Flavian, Visconde Ponsonby, - continuou ele, cruzando a sala para encher um copo de vinho que trouxe até ela. - Permita-me apresentar Sir Benedict Harper. Indicou-lhe o homem de pernas retorcidas. Ele era alto e magro, com um rosto magro e feições angulosas que, uma vez, talvez, tivesse sido claramente bonito. Agora, eles davam provas de sofrimento e dor prolongada. - Lady Muir. - Sir Benedict. - Gwen inclinou a cabeça para ele. - E Ralph, Conde de Berwick - indicando um jovem de boa aparência, se ignorada a cicatriz que cruzava um lado do rosto. Ele acenou, mas não falou e nem sorriu. Outro homem sisudo. - Milorde - disse ela. - E Vincent, Lorde Darleigh - disse Sua Graça. Ele era ligeiramente jovem, com cabelos loiros encaracolados. Tinha um alegre e aberto sorriso em seu rosto, e os maiores e mais belos olhos azuis que Gwen já tinha visto.


Ora, havia um homem destinado a quebrar jovens corações, pensou. Não havia nenhum sinal de lesão que ele poderia ter sofrido, tanto no corpo como na alma. E ele era tão jovem. Se realmente tinha sido um oficial durante as guerras, ele deveria ter sido um mero rapaz... Ele parecia fora de lugar nesse grupo. parecia muito jovem e despreocupado para que tivesse sofrido muito. - Meu Lorde - disse Gwen. - A senhora tem a voz de uma mulher bonita, Lady Muir ele disse - e me disseram que sua aparência corresponde. É um prazer conhecê-la. Imogen diz que a senhora está terrivelmente envergonhada por estar aqui, mas não precisa ficar. Enviamos Hugo à praia hoje para encontrá-la. Ele tem uma reputação merecida, por nunca falhar em qualquer missão dada a ele, e esta não foi exceção. Ele foi buscar uma beleza rara. Gwen sentiu um choque que não tinha nada a ver com suas últimas palavras. Na verdade, por alguns momentos, não compreendera totalmente nem mesmo o que era. Ela percebeu de repente que, apesar da beleza de seus olhos e o fato de que ele parecia estar olhando diretamente para ela, Lorde Darleigh era cego. Talvez o seu ferimento fosse o pior de todos, ela pensou. Não podia imaginar algo pior do que perder a visão. No entanto, ele sorria e era claramente encantador. Será que seu sorriso se estendia para dentro dele, no entanto? Havia algo ligeiramente perturbador sobre seu comportamento alegre, agora que ela entendia a devastação das guerras que havia desabado sobre a vida dele. - Se Hugo tivesse trazido uma gárgula, Vincent, - o conde de Berwick disse - não faria nenhuma diferença para você, não é?


- Ah! - Lorde Darleigh disse, virando os olhos com grande precisão na direção do conde e sorrindo docemente. - Não importaria para mim Ralph, desde que ela tivesse a alma de um anjo. - Uma sorte, de fato, Ralph - disse o Visconde Ponsonby. E, nesse momento, foi quando Gwen ouviu o eco do que o Visconde Darleigh lhe dissera. Enviamos Hugo à praia para encontrá-la... Ele foi buscar uma rara beleza. - Lorde Trentham veio me encontrar? - Ela perguntou. Mas como ele sabia que eu estaria lá? Eu não planejei antes que iria caminhar. - Você faria bem Vincent, - Lord Trentham disse – se amarrasse sua língua com um nó. - Tarde demais - disse o Visconde Ponsonby. - Seu segredo veio à tona Hugo. Lady Muir, por uma série de razões, todas que parecem sólidas para Hugo, ele decidiu arranjar uma noiva este ano. Seu único problema é a escolha. Ele é sem dúvida o melhor soldado que o exército britânico produziu nos últimos anos. Não é, infelizmente, conhecido igualmente como um a-amante perfeito e galanteador do belo sexo. Quando ele explicou sua situação para nós na noite passada e acrescentou que, como um homem sensato, não estava em busca de um grande caso de amor, ele foi aconselhado a procurar uma mulher gentil, explicar-lhe que ele é um lorde e realmente muito fa-fabulosamente rico e, em seguida, pedir que ela se casasse com ele. Ele concordou em ir à praia hoje e encontrar uma mulher assim. E aqui estão vocês. Se suas faces ficassem mais quente, pensou Gwen, elas iriam pegar fogo. E toda sua vergonha e raiva anterior retornaram com força. Ela olhou para Lorde Trentham, que estava duro e ereto como um soldado à vontade, mas não tão à vontade com seu queixo levantado e os olhos faiscando.


- Talvez, então, Lorde Trentham, - disse ela - Você pudesse me informar seu título e sua riqueza agora, na presença de seus amigos. E me fazer o pedido de casamento. Ele olhou diretamente para ela e não disse nada. Não foi dada realmente a oportunidade a ele. - Milady, - Lorde Darleigh disse, seus olhos azuis nos dela novamente, embora agora eles pareciam tão perturbados quanto sua voz - eu falei para fazer todo mundo rir. Não foi até que as palavras saíram da minha boca, que percebi o quão imperdoavelmente embaraçoso elas eram para a senhora. Estávamos, obviamente, todos brincando à última noite. E foi puro acaso a senhora estar na praia, se machucar e que Hugo passasse lá e prestasse assistência. Peço-lhe que me perdoe, e perdoe Hugo. Ele é inocente de seu constrangimento. A culpa é toda minha. Gwen transferiu seu olhar para ele. E ela riu. - Eu imploro seu perdão - disse ela. - Eu consigo ver o lado engraçado da coincidência. Ela não tinha certeza se estava dizendo a verdade. - Obrigado, milady. O jovem Lorde parecia aliviado. - É o momento que determinado tópico da conversa seja colocado em descanso - disse Sir Benedict. - Onde é sua casa, Lady Muir? Quando a senhora não está hospedada com a... Sra. Parkinson, não é? - Eu vivo em Newbury Abbey em Dorsetshire - disse Gwen. Ou melhor, minha casa é Dower House, no parque. Eu moro com minha mãe. Meu irmão, o Conde de Kilbourne, e sua família vivem na abadia. - Eu o conheci ligeiramente na Península - Lorde Trentham disse. - Ele era um Visconde, então. Foi enviado para casa, se


bem me lembro, depois que sua patrulha de vigia foi emboscada nas montanhas de Portugal, deixando-o à beira da morte. Ele se recuperou completamente? - Ele está bem - disse Gwen. - Era a esposa de Kilbourne, não era, - o duque perguntou que acabou por ser a filha, há muito tempo perdida, do Duque de Portfrey? - Sim, Gwen disse. – Lily, minha cunhada. - Portfrey e eu éramos amigos próximos ao longo de nossa juventude - disse o Duque de Stanbrook. - Ele é casado com minha tia - disse ela. - Essas relações familiares são um pouco complicadas, para dizer o mínimo. O duque assentiu. - Lady Muir, - ele disse - eu acredito que será melhor para a senhora se nos perdoar por não se sentar conosco à mesa de jantar. Embora eu pudesse fornecer um banquinho para o seu pé, não seria o adequado. O bom médico foi inflexível em suas instruções, de que mantenha seu pé elevado até a próxima semana. A senhora jantará, portanto, aqui. Espero que não seja muito inconveniente. No entanto, nós não vamos abandoná-la totalmente. Hugo foi escolhido para lhe fazer companhia. Posso assegurar-lhe ele não vai atacar seus ouvidos com contos de suas riquezas, ou com sugestões de se casar com ele, a fim de resguardar uma parte dele para si mesmo. Seu sorriso era austero. - Ouso dizer que jamais me recuperarei dessa gafe - Lorde Darleigh disse com tristeza. O duque ofereceu o braço a Lady Barclay e a levou para fora da sala. Os outros o seguiram. Sir Benedict Harper, Gwen notou, não usou seus bastões como muletas, embora ele parecesse forte o


suficiente para suportar seu peso. Em vez disso, ele caminhou lentamente, com cuidado meticuloso, usando os bastĂľes para se equilibrar. O silĂŞncio na sala, depois que a porta se fechou atrĂĄs deles, parecia quase insuportavelmente alto.


Capítulo 4 Não tinha sido culpa dele, pensou Gwen, da piada e da coincidência dela estar naquela praia hoje e não em outro dia qualquer. Mas ela sentia como se fosse culpa dele. De qualquer maneira, gostava dele. Ela tinha acabado de ser horrivelmente envergonhada. E Lorde Trentham parecia se ressentir com ela. Provavelmente porque ele tinha acabado de ser horrivelmente envergonhado. Os olhos dele estavam na porta, como se pudesse ver seus colegas através dos painéis e desejasse estar no outro lado, com eles. Ela desejava fervorosamente que ele estivesse lá também. - Será que Sir Benedict irá andar sem a sua bengala um dia? - Ela precisava dizer alguma coisa. Ele apertou os lábios e, por um momento, ela pensou que ele não fosse responder. - O mundo inteiro, para além dessas paredes, - ele disse, eventualmente, ainda observando a porta - diria um rotundo não. O mundo inteiro o chamou de idiota por se recursar a ter as suas pernas amputadas, não aceitar a realidade e se resignar a viver o resto da sua vida em uma cama ou, pelo menos, uma cadeira. Há seis de nós nesta casa que apostariam uma fortuna nele. Ele jura que um dia irá dançar e a única coisa com que nos preocupamos é quem vai ser a parceira dele. Oh Deus, ela pensou após mais um longo período de silêncio, ia ser uma silenciosa batalha. - Vê, muitas vezes, pessoas lá em baixo, na praia? - Ela perguntou. Ele tornou a olhar a olhar para ela.


- Nunca. - Ele disse. - Em todas as vezes que estive lá, nunca encontrei outra alma que não fosse dessa casa. Até hoje. Havia uma sugestão de censura em sua voz. - Então, eu suponho, - ela disse, - que seria seguro dizer que seus amigos estavam brincando com o senhor. Que o senhor iria encontrar uma mulher para propor casamento, lá em baixo, na praia. - Sim, - ele concordou - seria. Ela sorriu para ele e riu suavemente. Ele olhou para trás, sem corresponder ao riso dela. - Tudo é realmente engraçado, - ela disse - exceto que agora, sem dúvida, será provocado indefinidamente. E eu estou confinada aqui, pelo menos durante uma semana, com um tornozelo torcido. E, - ela adicionou quando ele não sorriu - eu e o senhor seremos horrivelmente envergonhados em companhia um do outro, até que eu possa partir. - Se eu pudesse atirar no jovem Darleigh - ele disse - sem realmente cometer assassinato, eu adoraria. Gwen riu de novo. E um silêncio desceu de novo. - Lorde Trentham, - ela disse - realmente não precisa me fazer companhia aqui, o senhor sabe. O senhor veio à Penderris para aproveitar a companhia do duque de Stanbrook e seus convidados. Ouso dizer que o seu sofrimento aqui, há tanto tempo, estabeleceu um laço especial entre vocês e eu invadi essa intimidade. Todos foram muito gentis e corteses comigo, mas estou bastante determinada a não ser um incômodo enquanto estiver aqui. Por favor, sinta-se à vontade para se juntar aos outros convidados na sala de jantar.


Ele continuava olhando para ela, com as mãos cruzadas atrás das costas. - Acha que eu iria negar o desejo de quem me convidou? Ele perguntou a ela. - Não vou fazer isso, senhora. Ficarei aqui. Lorde Trentham. Ele poderia ser de um simples barão até um marques, Gwen pensou, ela nunca tinha ouvido falar dele, até hoje. E se o que o visconde Ponsonby disse era correto, ele também era extremamente rico. No entanto, não tinha os modos de um cavalheiro. Ela inclinou a cabeça na direção dele e resolveu não dizer outra palavra antes que ele o fizesse, embora descesse em suas maneiras, se igualando ao nível dele. Que fosse assim. Mas antes que o silêncio ficasse novamente desconfortável, a porta se abriu e entraram dois criados, que levaram uma mesa até perto do sofá e a prepararam para o jantar. Antes que esses dois criados saíssem, outros dois entraram com bandejas carregadas. Uma foi colocada no colo de Gwen enquanto que a outra foi carregada até a mesa, onde vários pratos foram dispostos para o jantar de Lorde Trentham. Os serventes saíram tão silenciosos como entraram. Gwen olhou para a sua sopa e pegou a sua colher, enquanto Lorde Trentham ocupou seu lugar na mesa. - Eu peço o seu perdão, - Lorde Trentham disse - pelo embaraço que uma piada sem sentido lhe causou, Lady Muir. Uma coisa é ser provocado por amigos, outra é ser humilhada por estranhos. Ela olhou para ele, surpresa. - Me atrevo a dizer, - ela disse - que eu vou sobreviver. Ele tornou a olhar para ela, viu que ela estava sorrindo e assentiu com a cabeça, antes de voltar ao seu jantar.


O duque de Stanbrook tem um excelente chef, pensou Gwen, se a sopa de rabada era algo para se julgar. - Anda a procura de esposa, Lorde Trentham? Ela disse. Tem alguma dama especial em mente? - Não, - ele disse - mas eu quero alguém do meu tipo. Uma mulher prática e capaz. Ela olhou para ele. Alguém da minha própria espécie. - Eu não nasci um cavalheiro. Ele explicou. - O título me foi dado durante as guerras, como resultado de algo que eu fiz. O meu pai foi, provavelmente, um dos homens mais ricos da Inglaterra, um homem de negócios muito bem-sucedido, mas não um cavalheiro. E ele não tinha desejo de ser um, não possuía ambições sociais para os seus filhos também. Na verdade, desprezava as classes superiores, classificando-os como vagabundos ociosos. Queria que nos encaixássemos na classe à qual pertencíamos. Eu não pude sempre realizar os seus desejos, mas nesse, em particular, eu concordo com ele. Seria melhor que eu encontrasse uma esposa da minha própria classe. Muito foi explicado, pensou Gwen. - O que o senhor fez? Ela perguntou, enquanto terminava a sopa de rabada e começava a comer o seu prato de carne assada com legumes. Ele olhou para ela, as suas sobrancelhas se levantaram. - Deve ter sido algo extraordinário, - ela disse - para o prêmio ser um título. Ele assentiu. - Eu liderei uma Forlorn Hope1 – ele disse.

1

Bando de soldados ou outros combatentes escolhidos para aceitar o papel principal em uma operação militar, como um ataque a uma posição defendida, onde o risco de acidentes é alto.


- Uma Forlorn Hope? O garfo e faca dela ficaram suspensos acima do prato. - E sobreviveu? - Como vê - ele disse. Ela olhou para ele com preocupação e admiração. Uma Forlorn Hope era quase sempre suicida e quase sempre um fracasso. Ele não poderia ter falhado se ganhara um título. E, Deus do céu, ele nem era um cavalheiro. Não havia muitos oficiais que não o fossem. - Eu não falo sobre isso. Ele disse, cortando sua carne. Nunca. Gwen continuou a observá-lo antes de voltar à sua refeição. Será que as memórias eram tão más, que nem o título compensava? Fora lá que ele tinha sido tão terrivelmente ferido para ter que passar um longo tempo aqui recuperando sua saúde? Mas o seu título, ela percebeu, assentava perfeitamente sobre seus ombros. - Há quanto tempo é viúva? Ele perguntou, o que, pareceu a ela, uma tentativa de mudar de assunto. - Sete anos - ela disse. - Nunca desejou casar de novo? Ele perguntou. - Nunca. - Ela disse, e pensou na estranha solidão que sentira lá embaixo, na praia. - A senhora o amava, então? Perguntou. - Sim. - Era verdade. Apesar de tudo, ela tinha amado Vernon. - Sim, eu o amei. - Como ele morreu? Perguntou. Um cavalheiro nunca teria perguntado isso.


- Ele caiu, - ela disse - sobre a balaustrada da galeria do salão de mármore da nossa casa. Ele caiu de cabeça e morreu instantaneamente. Tarde demais ocorreu a ela que, talvez, tivesse respondido com alguma verdade, como ele tinha feito momentos antes. - Eu não falo sobre isso. Nunca. Ele engoliu a comida que estava em sua boca, mas ela sabia o que ele estava prestes a perguntar, mesmo antes de ele o fazer. - Há quanto tempo foi isso? Ele perguntou. - Depois de a senhora cair do cavalo e perder o bebê?” Bem, ela estava comprometida agora. - Um ano. - Ela disse. - Talvez menos. - A senhora teve um casamento incomum, pontuado pela violência. - Ele disse. A resposta dela não precisava ser comentada, ou melhor, não merecia comentários. Ela baixou os talheres no prato meio vazio, produzindo um barulho. - O senhor é impertinente, Lorde Trentham. - Ela disse. Oh, mas isso era culpa dela. A primeira pergunta dele tinha sido impertinente e ela devia ter dito isso a ele na ocasião. - Eu sou. - Ele disse. - Não é como um cavalheiro se comporta, não é? Ou um homem que não é um cavalheiro, quando conversa com uma dama. Eu nunca me libertei do hábito de, quando quero saber sobre algo, simplesmente perguntar. Não é a maneira mais educada de fazer, eu aprendi isso. Ela terminou a comida no seu prato, empurrou-o para o fundo da bandeja e puxou para frente o seu pudim. Pegou seu copo de vinho, tomou um gole, pousou-o na mesa e suspirou.


- Os meus familiares mais próximos, - ela disse - escolheram sempre acreditar que Vernon e eu tivemos uma feliz relação de amor, que foi marcada por acidentes e tragédias. Outras pessoas escolheram ficar em silêncio sobre o assunto do meu casamento e a morte do meu marido, mas, muitas vezes, eu quase podia ouvilos pensando e assumindo que foi um casamento cheio de violência e abuso. - E foi isso? - Ele perguntou. Ela fechou os olhos por alguns momentos. - Algumas vezes, - ela disse - a vida é demasiado complicada para que haja uma resposta simples para uma pergunta simples. Eu, de fato, amei-o e ele me amou. Muitas vezes o nosso amor foi feliz. Mas … Bem, às vezes parecia que Vernon fosse duas pessoas diferentes. Muitas vezes, a maior parte do tempo, de fato, ele era alegre, charmoso, espirituoso, inteligente, carinhoso e uma série de outras coisas que o faziam ser querido para mim. Mas algumas vezes, embora ele sempre parecesse igual, era como se fosse… oh, desesperado sobre seu humor. E sempre senti que havia uma fina linha entre a felicidade e o desespero, e ele cruzava essa linha. O problema é que ele nunca permanecia do lado da felicidade. Ele sempre caía do outro lado. E por alguns dias, ocasionalmente, até mesmo por algumas semanas, ele mergulhava no mais negro mau humor e não havia nada que eu pudesse dizer ou fazer que o ajudasse, até que um dia ele voltava ao normal. Eu aprendi a reconhecer o momento em que a sua personalidade mudava. Aprendi a esperar por esses momentos. Apesar disso, no último ano, ele estava sempre no mais negro dos humores. E o senhor é a única pessoa, Lorde Trentham, a quem eu falei sobre isso. Não tenho ideia do porquê de eu ter quebrado o meu silêncio com um quase estranho. Ela estava parcialmente aterrorizada, parcialmente aliviada de que tivesse revelado tanto a um homem que ela nem


sequer gostava, particularmente. Porém, havia muito, é claro, que ela não tinha dito. - É este lugar. - Ele disse. – Tem sido palco de muitos desabafos ao longo dos anos, alguns deles indescritíveis e impensáveis. Há confiança nessa casa. Nós confiamos uns nos outros e ninguém nunca traiu essa confiança. A senhora concordou em ir àquele passeio quando Lorde Muir estava em um dos seus dias de humor negro? - Naquela época do meu casamento, - ela disse - eu acreditava que conseguiria ajudá-lo satisfazendo todo os seus desejos. Ele queria que eu andasse a cavalo com ele naquele dia e ignorou todos os meus protestos. E, então, eu o segui. Eu estava com medo de que ele se machucasse. O que eu achava que podia fazer para impedi-lo, apenas por estar com ele, eu não sei. - Mas não foi ele quem se machucou. - Ele disse. Exceto que, em muitos aspectos, ele se ferira tanto quanto ela. E nenhum deles se ferira tanto quanto seu filho. - Não. - Ela fechou os olhos, sua colher suspensa, esquecida em sua mão. - Mas foi ele quem se machucou na noite em que morreu. Ele disse. Ela olhou friamente para ele. Quem era ele? Seu inquisidor? - É o suficiente - ela disse. - Ele não abusou de mim, Lorde Trentham. Ele nunca levantou a mão ou a voz contra mim, ou me ofendeu com palavras. Eu acredito que ele estava doente, mesmo que não houvesse um nome para a sua doença. Ele não era louco. Não merecia ir para um asilo. Nem pertencia a uma cama de hospital, mas estava doente. É difícil entender, para os que não conviviam com ele dia e noite como eu, mas é verdade. Eu o amei e prometi amá-lo na doença e na saúde até que a morte nos separasse. E eu o amei até o fim. Mas não foi fácil, por tudo isso.


Depois de sua morte, fiquei devastada. Eu também estava cansada do casamento, até a medula dos meus ossos. Depois disso, eu queria paz, para o resto da minha vida. Eu a tive por sete anos e estou perfeitamente feliz em permanecer como estou. - Nenhum homem conseguiria lhe fazer mudar de ideia? Ele perguntou. Ainda ontem ela teria dito não, sem hesitação. Mesmo esta manhã, em que ela tinha estado negando o vazio e a solidão em sua vida. Ou, talvez, aquele breve momento na praia tinha sido instigado por nada mais sério do que sua briga com Vera e a desolação à sua volta. - Ele teria de ser um homem perfeito, - ela disse - e não há ninguém perfeito, não é? Ele teria que ser bem-humorado, um companheiro alegre, confortável, que não tivesse tido grandes problemas em sua vida. Ele teria de me oferecer uma relação que tivesse estabilidade, paz e ... simplicidade, sem excessivos altos e baixos. Sim, pensou, surpresa, tal casamento seria agradável. Mas ela duvidava que houvesse um homem perfeito para suas necessidades. E, mesmo que houvesse um homem assim e que desejasse casar com ela, como saberia ao certo até depois que estivesse casada e vivesse com ele, e fosse tarde demais para mudar de ideia? E como poderia ela ser merecedora de tal felicidade? - Sem paixão? - Ele perguntou a ela. - Ele não precisaria ser bom na cama? Sua cabeça girou em direção a ele. Sentiu seus olhos se arregalam com o choque e suas faces pegarem fogo. - O senhor é realmente um homem que vai direto ao assunto, Lorde Trentham, - ela disse - ou um extraordinário impertinente. Prazer no leito conjugal não precisa


envolver paixão, como você diz. Ele pode ser, simplesmente, conforto compartilhado. Se eu estivesse procurando um marido, ficaria feliz com o conforto compartilhado. E se você está procurando uma esposa que seja prática e capaz, não está buscando paixão também, está? Ela estava se sentindo desconcertada e que havia sido bastante indiscreta. - Uma mulher pode ser capaz, prática e sensual também. Ele disse. - Ela teria de ser sensual para que eu me casasse com ela. Vou ter que deixar as outras mulheres quando me casar. Não seria decente procurar prazer fora meu leito conjugal, seria? Não seria justo para minha esposa ou um bom exemplo para meus filhos. Eis um exemplo de moralidade da classe média para você, Lady Muir. Eu sou sensual, mas acredito em fidelidade conjugal. Ela pousou a colher em cima do seu prato, com cuidado dessa vez, para não fazer barulho. Então, ela pôs as mãos à frente do rosto e começou a rir. Poderia ele ter dito o que ela achava que ele tinha dito? - Eu tenho quase a certeza, - ela disse - que esse foi um dos dias mais estranhos da minha vida, Lorde Trentham. E que agora culmina em um sermão sobre luxúria e a moralidade da classe média. - Bem, - ele disse, puxando a cadeira e ficando em pé, - isso é o que acontece quando se torce o tornozelo perto de um homem que não é um cavalheiro, senhora. Vou tirar a bandeja de seu colo e colocá-la sobre a mesa. Terminou de jantar? - Terminei. - Ela disse enquanto ele tirava os pratos e voltava a olhar para ela. - Porque diabos, - ele perguntou a ela - está hospedada com a Sra. Parkinson? Porque é amiga dela? Ela levantou as sobrancelhas para ambas as perguntas.


- Ela perdeu o marido recentemente - ela disse - e estava se sentindo infeliz e sozinha. Conheço ambos os sentimentos. Eu a conheci há muito tempo e, desde então, me correspondia com ela ocasionalmente. Eu estava livre para vir e então eu vim. - Suponho que perceba - ele disse - que ela não sente absolutamente nada por você, mas apenas por seu título e sua conexão com o conde de Kilbourne. Ela virá aqui todos os dias, só porque aqui é Penderris Hall, a casa do duque de Stanbrook. - Lorde Trentham, - ela disse - a solidão de Vera Parkinson é muito real. Se eu a tiver aliviado durante as últimas duas semanas, estou satisfeita. - O problema com as classes mais altas, - ele disse - é que raramente falam a verdade. A mulher é um horror! Oh, céus! Gwen temia ter de engolir essa última frase com alegria. - Algumas vezes, Lorde Trentham, - ela disse – temperar a verdade com tato e bondade é chamado de boas maneiras. - Você o faz mesmo quando repreende - ele disse. - Eu tento. Ela desejou que ele se sentasse de novo. Mesmo que ela também estivesse em pé, ele parecia uma torre sobre ela. Com aquela estatura, ele parecia um gigante. Talvez o inimigo contra quem ele havia liderado a Forlorn Hope tivesse dado uma olhada nele e fugido. Não seria surpresa para ela. - Não é, de nenhuma maneira, a mulher que eu procuro para esposa, - ele disse - e eu sou totalmente diferente do marido que espera encontrar, mas, apesar disso, sinto um forte desejo de lhe beijar. O que?


Mas o problema era que suas palavras ultrajantes a deixaram excitada, trazendo uma urgência a todas as partes relevantes de seu corpo, deixando-a sem fôlego. E apesar do tamanho gigantesco dele, do seu corte de cabelo sisudo, seu rosto feroz e sua falta de boas maneiras, ela ainda o achava excessivamente atraente. - Acho, - ele disse - que eu deveria me conter. Mas há a coincidência do encontro na praia, como vê. Ela fechou a boca e respirou fundo. Não ia deixá-lo sair disso com tanta impertinência, iria? - Sim, - disse ela enquanto olhava para ele – foi uma coincidência. E há uma escola de pensamento, eu ouvi dizer, que afirma que não existem coincidências. Ele realmente a beijaria? Ela deixaria? Ela não era beijada há sete anos. Havia permitido o contato de alguns cavalheiros que conhecia, mas nunca chegou ao ponto de sentir uma grande atração, apenas simpatia. E nenhum deles despertou qualquer desejo físico, não nela, de qualquer maneira. Por alguns segundos ela pensou que ele não iria beijá-la. A postura dele não mudou e sua expressão não se suavizou. Mas então ele se inclinou e ela levantou as mãos e pousou-as em seus ombros. Oh deuses, eles eram largos e sólidos, mas ela já sabia disso. Ele a tinha carregado… Ele tocou os lábios nos dela. E ela foi invadida por um súbito calor de desejo. Ela esperava que ele fosse esmagá-la em seus braços e pressionar sua boca dura contra a dela. Ela esperava ter de afastar uma explosão quente de ardor. Em vez disso, ele estendeu as mãos levemente em ambos os lados da sua cintura, seus polegares sob o peito, mas não


apertando. E seus lábios roçaram levemente os lábios dela, saboreando-a, provocando-a. Ela moveu as suas mãos para abraçar o grande pescoço. Conseguia sentir a respiração dele contra sua face. Podia sentir o cheiro de sabão ou perfume, que tinha notado antes, algo sedutoramente masculino. O calor diminuiu, mas o que o substituiu foi muito pior. Ela estava muito consciente sobre ele. Estava bastante consciente que, apesar de todas as aparências, havia gentileza nele. Ela havia sentido no toque das suas mãos em seu tornozelo, é claro, mas decidiu ignorá-lo em seguida. Parecia algo contrário a tudo o que tinha observado nele. Ele levantou a cabeça e olhou nos olhos dela. Oh, meu Deus, seu olhar não parecia menos feroz do que antes. Ela olhou de volta e levantou as sobrancelhas. - Eu suponho, - ele disse – que se eu fosse um cavalheiro, estaria agora oferecendo um pedido de desculpas. - Mas o senhor me deu um aviso prévio, - ela disse - e eu não disse não. Devemos concordar, Lorde Trentham, que hoje foi um dia muito estranho para ambos, mas que agora está quase no fim? Amanhã deixaremos isso tudo para trás e retornaremos a um comportamento mais decoroso. Ele ficou em pé e cruzou as em suas costas. Ela estava começando a reconhecer isso como uma pose familiar. - Isso parece sensato - ele disse. Felizmente, não houve tempo para dizer mais nada. Uma batida na porta foi seguida pela entrada de dois criados, que vieram para limpar a mesa e tirar os pratos. Alguns momentos depois da porta se fechar atrás deles, abriu-se novamente para a entrada do duque e seus outros convidados, retornando da sala de jantar.


Lady Barclay e Lorde Darleigh sentaram-se próximos a Gwen e começaram a conversar com ela, enquanto Lorde Trentham afastou-se para jogar cartas com outros três cavalheiros. Se ela estivesse despertando agora, pensou Gwen, iria, com certeza, julgar que o sonho de hoje fora o mais bizarro que ela já tinha sonhado. Mas, acima de tudo, os eventos, começando com a chegada da carta da mãe dela esta manhã, teriam sido muito bizarros se não fossem reais. E era possível sentir o sabor de um sonho? De alguma maneira ela ainda conseguia sentir o sabor dos lábios de Lorde Trentham em seus lábios, embora ele tivesse comido a mesma comida e bebido o mesmo vinho que ela.


Capítulo 5 Os membros do clube dos sobreviventes ficaram acordados até muito tempo depois que Hugo tivesse transportado Lady Muir até a cama dela. Era costume de eles relaxarem durante o dia, às vezes em conjunto ou em pequenos grupos, muitas vezes sozinhos, mas sentar-se juntos até tarde da noite, falando sobre os assuntos mais sérios que diziam respeito a eles. Esta noite não fora exceção. Tudo começou com as desculpas de Vincent e as provocações de todos os outros. Vincent foi esmiuçado sobre sua língua solta, Hugo sobre o feliz progresso da sua busca por uma mulher. Levaram na brincadeira. Não havia nenhuma outra maneira de levar, é claro, que não resultasse pior. Mas, finalmente, todos eles se tornaram mais pensativos. George tinha tido uma recorrência do velho sonho, em que ele pensasse apenas a coisa certa a dizer para dissuadir a esposa de saltar do penhasco, no exato momento em que ela ia saltou. Ele tinha acordado suando frio, chorando e estendendo a mão para ela. Ralph tinha encontrado a irmã de um dos seus três melhores amigos mortos, em uma festa em Londres na época do Natal, e ela iluminara-se com prazer ao vê-lo, com vontade de falar sobre o irmão com alguém que estivera mais perto dele. E Ralph tinha se fechado. Quatro deles tinham sido virtualmente inseparáveis durante toda a escola, tinham entrado juntos para o serviço militar e foram para guerra com a idade de dezoito anos. Ele tinha visto os outros três sendo feitos em pedaços apenas uma fração de um momento antes que ele quase, mas não completamente, seguisse-os para a outra vida. Tinha deixado à companhia da senhorita Courtney para lhe buscar um copo de limonada. Ele tinha a total intenção de levá-lo para ela. Em vez disso, saíra da casa e deixara Londres na manhã seguinte. Não oferecera nenhuma explicação, nem desculpas e não a tinha visto desde então.


Na manhã seguinte, Hugo estava sentindo-se terrivelmente envergonhado da noite anterior. Mais especificamente sobre aquele beijo. Ele não tinha nenhuma explicação para isso. Não era um cavalheiro. Sempre tivera uma vida sexual saudável, era verdade, embora não tanto nos últimos anos. Primeiro por causa de sua doença e mais recentemente, porque ele era Lorde Trentham - aquela pedra enorme no pescoço – e, de alguma forma, não parecia certo estar correndo aos bordéis, sempre que o humor o abandonava. Além disso, vivia no campo, longe de qualquer tentação. Não conseguia lembrar de ter beijado qualquer mulher respeitável, desde que tinha 16 anos e se escondera no armário das vassouras, junto com uma das amigas de escola de sua prima, num jogo de esconde-esconde durante a festa de aniversário da prima. Ele nunca, nunca beijara uma lady. Ou sentira qualquer desejo de fazê-lo. Ele nem sequer gostava particularmente de Lady Muir. Ele a tinha julgado irresponsável, fútil, arrogante, uma aristocrata entediada, mimada, embora ela fosse linda. Claro, a história que ela contara sobre o marido, tinha acrescentado alguma profundidade ao seu personagem. Sem dúvida, ela tinha sofrido um casamento difícil, com o qual lidara da melhor forma que pôde. E ela, ele admitiu a contragosto, tinha senso de humor e uma risada contagiante. Era toda a explicação para sua súbita vontade de beijá-la depois de remover a bandeja de jantar do colo dela. Ou uma desculpa para entregar-se a esse desejo. E por que, em nome de todas as maravilhas, ela permitiu isso? Não tinha feito nada para insinuar-se a ela. Pelo contrário, tinha sido muito ranzinza. Tendia a ser assim com os das classes superiores, com exceção dos membros do clube dos sobreviventes. Ele não tinha sido bem recebido pelos seus colegas oficiais nas forças armadas. A maioria deles o tinha tratado com desprezo e


condescendência, alguns com hostilidade aberta por sua ousadia de infiltrar-se entre eles só porque seu pai poderia se dar ao luxo de comprar sua Comissão. As damas tinham-no ignorado inteiramente, assim como ignoravam seus servos. Particularmente, isso tudo não tinha incomodado Hugo. Ele queria ser um oficial, não um membro de um clube social. Queria distinguir-se no campo de batalha, e tinha feito isso. Mas ontem ele tinha beijado uma mulher. Por nenhuma razão particular, exceto que ela tinha posto as mãos sobre o rosto corado e rido, impotente depois que ele falara em desistir de prostitutas quando se casasse. E ainda havia riso na voz dela quando falara - Eu tenho quase a certeza, que esse foi um dos dias mais estranhos da minha vida, Lorde Trentham. E que agora culmina em um sermão sobre luxúria e a moralidade da classe média. Sim, foi isso que o fez querer beijá-la. Desejou que Deus o tivesse feito capaz de manter seus desejos em uma rédea mais curta. Iria evitá-la tanto quanto fosse possível pelo resto de sua estadia aqui. Isso ia ser frustrante, desviar-se de vê-la cara a cara novamente. Foi uma determinação que ele manteve até depois do almoço. Passou a manhã, enquanto chovia lá fora, no jardim de inverno com Imogen. Durante o tempo em que ela regou as plantas para que elas parecessem bem mais atraentes e mais frescas, ele leu a carta de sua meia-irmã que tinha chegado com o correio da manhã. Constance escrevia-lhe pelo menos duas vezes por semana. Ela tinha dezenove anos de idade e, basicamente, era uma menina animada, bonita, que estava pronta e ansiosa para as festas e o casamento. Mas sua mãe era uma mulher egoísta, possessiva, que tinha usado a delicada saúde e sua doença, real ou imaginária, para manipular aqueles em torno dela, desde que Hugo a conhecia. Ela manteve sua filha como


uma prisioneira virtual em casa, sempre ao seu dispor. Constance raramente saia, exceto para executar tarefas breves e específicas. Ela não tinha amigos, nenhuma vida social, nenhuma festa. Não que ela se queixasse abertamente a Hugo. As cartas eram, invariavelmente, alegres e quase vazias de qualquer conteúdo real, porque realmente não tinha nada a dizer. Era dever de Hugo conseguir que tudo estivesse bem. Um dever impelido pelo amor. E pelo fato de que ele era o guardião dela. E por uma promessa ao seu pai, que ele iria assegurar um futuro feliz para ela, tanto quanto fosse capaz. Ela era uma das principais razões para sua decisão de casar. Ele não tinha a menor ideia de como lançá-la na sociedade de classe média por conta própria, ou como conduzir adequadamente homens elegíveis de classe média na direção dela. Se ele se casasse... Não, quando ele casasse, sua esposa saberia como apresentar sua meia-irmã a tipos de homens que poderiam lhe oferecer segurança e felicidade para o resto da sua vida. Havia, claro, outra razão para tomar a decisão de casar. Não era um celibatário natural, e sua necessidade por sexo - sexo regular, sensual - tinha sido muito dolorosa no passado, num combate constante contra sua inclinação em direção à privacidade e independência. Ele tinha decidido, quando saiu de Penderris há três anos, que, acima de tudo, ele queria uma vida de paz. Ele tinha vendido sua comissão do exército e estabeleceu-se em um pequeno chalé em Hampshire. Sustentava-se com o que crescia no jardim da cozinha, mantinha algumas galinhas e fazia pequenos serviços para seus vizinhos. Era grande e forte, afinal. Os serviços dele tinham sido muito requisitados, especialmente entre os idosos. Ele mantivera silêncio sobre seu título. Tinha sido feliz. Bem, contente, de qualquer forma, apesar dos avisos de seus seis amigos, de que ele se assemelhava a um


fogo de artifício que não explodira e, certamente, iria explodir em algum momento no futuro, talvez quando ele menos esperasse. No ano passado, após a morte de seu pai, ele comprara Crosslands Park não muito longe do chalé, mas em uma escala um pouco maior. De alguma forma, a notícia de seu título tinha vazado. Ele tinha começado a aumentar o jardim um pouco mais e a cultivar uma pequena lavoura para manter algumas galinhas a mais e adicionar algumas ovelhas e vacas. Tinha contratado um mordomo que, por sua vez, tinha contratado alguns trabalhadores para ajudar com o trabalho agrícola. Hugo tinha, porém, continuado a fazer o trabalho ele mesmo. Ociosidade não lhe convinha. Ele ainda fez uns trabalhos para seus vizinhos também, embora ele, obstinadamente, se recusasse a aceitar o pagamento. Sua propriedade ainda era pouco desenvolvida, A casa, parcialmente fechada, já que ele usara apenas três cômodos com alguma regularidade. Tinha uma equipe muito pequena. Mas fora feliz lá por um ano. Contente, de qualquer forma. Sua vida fora pouco interessante. Faltava-lhe desafio. Não tinha qualquer companheiro próximo, mesmo que tivesse estabelecido boas relações com os seus vizinhos. Era a vida que ele queria. E agora ele iria mudar tudo ao se casar, porque realmente ele não tinha escolha. A carta jazia há muito esquecida em seu colo. Imogen estava ainda no jardim de inverno. Sentara-se na borda da janela, as pernas penduradas, um livro apoiado nelas. Estava lendo. Ela sentiu seus olhos nela e olhou para cima, fechando o livro, como o fazia. - É hora do almoço, - ela disse - vamos entrar? Ele ficou de pé e ofereceu a mão.


Lady Muir, ele soube na sala de jantar, estava na sala de estar. George julgara o lugar mais aconchegante para ela durante o dia. Um lacaio teve de carregá-la para baixo, e George e Ralph tinham tomado café da manhã com ela. Depois, ela pedira papel e caneta para escrever para o irmão. A Sra. Parkinson estava com ela agora, tinha chegado há algumas horas. - Pobre senhora Muir - disse Flavian. - Sente-se quase inclinado a correr em seu socorro como um cavaleiro em armadura brilhante. Mas a pers-perspectiva de ser persuadido a escoltar a amiga até sua casa, é o suficiente para fa-fazer com que qualquer cavaleiro fugisse e corresse para a maldita cavalaria. - Já cuidei disso - George garantiu-lhe. - Antes que a senhora chegasse, sugeri à Lady Muir que, em seu estado de fraqueza, ela talvez quisesse descansar esta tarde, em vez de enfrentar os esforços de uma prolongada visita. Ela me entendeu perfeitamente e concordou. Na verdade, ela esperava dormir um pouco depois do almoço. Minha carruagem estará na porta em quarenta e cinco minutos. As nuvens tinham se afastado e o sol brilhava uma hora mais tarde, quando Hugo foi estava em pé no terraço, tentando decidir se iria dar uma longa caminhada ao longo do promontório, ou iria se poupar e dar um passeio no parque mais próximo. Ele decidiu pela alternativa preguiçosa e passou uma hora vagando sozinho pelo parque. Não foi concebido de uma forma elaborada, mas ainda assim, havia jardins floridos, passeios sombreados, gramados pontilhados com árvores e uma casa de verão protegida de qualquer vento que soprasse do mar. A pequena estrutura ofereceu uma visão ao longo de uma via arborizada até uma estátua de pedra na extremidade. Isso fez Hugo pensar, com alguma insatisfação, sobre seu próprio parque em Crosslands. Era grande, quadrado e estéril. E ele não tinha ideia de como torná-lo atraente. Não podia ter só


cantos, árvores e caminhos desertos, onde qualquer pessoa poderia caminhar. E a casa se assemelhava um pouco a um grande celeiro de onde todos os animais tinham fugido. Poderia ser adorável. Ele tinha percebido quando decidira comprá-la. Mas, considerando que ele pudera apreciar de forma eficaz a beleza e o formato quando os viu, não havia nenhum canto criativo em sua mente, no qual os desenhos originais viessem à vida. Ele precisava contratar alguém para planejar tudo por ele, supôs. Ele tinha o dinheiro para contratar tais pessoas para fazer o serviço. Vagueou de volta para casa depois de uma hora ou mais. Lady Muir estava realmente dormindo, ele se perguntou, quando chegou à porta da frente. Ou simplesmente estava contente de aproveitar-se da desculpa que George tinha sugerido e se livrado de sua amiga cansativa? Se ela estava sozinha na sala de estar e não estivesse dormindo, é claro, George teria certamente arranjado alguém que lhe fizesse companhia. Ele era bom em tais sutilezas de hospitalidade. Hugo não precisara chegar perto dela. E ele certamente não queria. Ele ficaria muito feliz em nunca mais vê-la. Era difícil de explicar, então, porque ele fez uma pausa na porta da sala de estar e inclinou seu ouvido mais próximo da porta. Silêncio. Ou ela estava lá em cima, descansando, ou estava na sala, dormindo. De qualquer forma, ele estava completamente livre para prosseguir em seu caminho para a biblioteca, onde planejava escrever para Constance e William Richardson, o competente gerente de negócios do seu pai, agora seu próprio. Sua mão deslizou para a maçaneta da porta, em vez disso. Ele girou-a tão silenciosamente como poderia e empurrou a porta entreaberta.


Ela estava lá. Estava deitada em um sofá, que fora posicionado para que ela tivesse uma vista do jardim de flores através da janela. O mesmo já ostentava algumas flores e alguns brotos e botões verdes, ao contrário do jardim de flores de Hugo, em Crosslands, de que ele tinha estado muito orgulhoso no verão passado. Ele plantara todas as flores do verão e teve um glorioso jardim florido por alguns meses e depois... nada. E eles tinham dado tudo naquele ano, aprendera mais tarde, e não iriam florescer novamente neste verão. Ele tinha muito a aprender. Crescera em Londres e depois saído para lutar nas guerras. Ela não tinha ouvido a porta abrir... ou estava dormindo. Era impossível dizer de onde ele estava. Ele entrou, fechou a porta tão silenciosamente como a tinha aberto e caminhou ao redor do sofá até que pudesse olhar para ela. Ela estava dormindo. Ele franziu a testa. O rosto dela parecia pálido e cansado. Ele deveria partir antes que ela acordasse.

Gwen tinha dormido, embalada pelo bem-aventurado silêncio e a dose do medicamento que o Duque de Stanbrook a tinha persuadido a tomar, quando ele tinha percebido, a partir da palidez de seu rosto, que ela estava sofrendo com mais dor do que poderia facilmente suportar. Ela não tinha visto o senhor Trentham durante toda a manhã. Foi um grande alívio, pois ela tinha acordado recordando seu beijo, uma lembrança difícil de apagar. Por que ele quis beijála, já que ele não tinha dado nenhuma indicação de que gostava


dela ou se sentira atraído por ela? E por que diabos ela tinha consentido o beijo? Certamente não poderia alegar que ele o tinha roubado antes que ela pudesse protestar. Nem que tinha sido uma experiência desagradável. Mais decididamente, não tinha sido. E esse fato era, talvez, o mais preocupante de todos. Ela tinha sofrido a visita de Vera por várias horas antes de o próprio Duque vir para o quarto, como prometido, e muito cortês, mas muito firmemente, a escoltou para fora, para sua carruagem que esperava, depois de assegurar-lhe que ele iria enviá-la para ela novamente amanhã de manhã. Vera tinha posto para fora, de forma eloquente, seu descontentamento por ter sido deixada sozinha com Gwen durante toda a sua visita. Quando o almoço tinha sido trazido para a sala de estar, embora fosse delicioso, ela tinha protestado contra a descortesia de Sua Graça por não a convidar para se juntar ao resto de seus convidados na mesa da sala de jantar. Ela estava decepcionada com os arranjos e tinha dito que voltaria para casa mais cedo. Ela tinha garantido à Sua Graça em sua chegada, contara à Gwen, que ficaria feliz em andar até sua própria casa, lhe poupando o trabalho de chamar sua carruagem novamente, se um dos cavalheiros fosse gentil o suficiente para acompanhá-la pelo menos uma parte do caminho. Ele tinha ignorado sua generosa oferta. Mas o que se poderia esperar de um homem que matou a própria esposa? Como ela esperava, Gwen pensara enquanto adormecia, Neville não demoraria em enviar uma carruagem para ela, uma vez que recebesse sua carta. Garantira que estava bem o suficiente para viajar.


Ela veria o senhor Trentham hoje? Talvez fosse demais esperar que não, mas esperava que ele fosse manter distância e que o Duque não o nomeasse para levar o jantar para ela esta noite. Ela tinha se envergonhado o suficiente em relação a ele ontem, para a próxima vida ou duas. Ele foi à última pessoa em quem ela pensou quando adormeceu. E foi a primeira pessoa que ela viu quando acordou novamente, algum tempo depois. Ele estava a uma curta distância do sofá em que ela se deitara, seus pés ligeiramente afastados, as mãos entrelaçadas atrás das costas, franzindo a testa. Parecia muito com um oficial militar, mesmo que estivesse vestido com um casaco revestido, calças verdes superfinas e botas Hessian altamente polidas. Estava franzindo a testa para ela. Sua expressão habitual, parecia. Ela sentiu uma desvantagem enorme, deitada como estava. - A maioria das pessoas, - ele disse - ronca quando dorme sobre suas costas. Confie nele para dizer algo totalmente inesperado. Gwen ergueu suas sobrancelhas. - E eu não? - Não, nesta ocasião, - ele disse – embora estivesse dormindo com a boca parcialmente aberta. - Oh. Como ele se atrevera a entrar ali e observá-la enquanto dormia? Havia algo desconfortavelmente íntimo sobre isso. - Como está seu tornozelo hoje? - Ele perguntou. - Eu pensei que estaria melhor, mas irritantemente não está - ela disse. - É apenas uma entorse no tornozelo, depois de tudo. Sinto-me envergonhada por toda a confusão que estou


causando. O senhor não precisa sentir-se obrigado a continuar falando sobre isso ou me perguntar sobre isso. Ou continuar a fazer-me companhia. Ou me observar enquanto eu durmo. - Deveria tomar um pouco de ar fresco - disse ele. - Seu rosto está pálido. Está na moda às senhoras ficarem pálidas, suponho, embora duvide que alguém deseje olhar para figuras pastosas. Maravilhoso! Ele só lhe informara que ela parecia pastosa. - É um dia frio, - ele disse - mas o vento diminuiu, o sol está brilhando e a senhora pode desfrutar, sentada no jardim por um tempo. Vou buscar sua capa se desejar ir. Tudo o que ela tinha que fazer era dizer que não. Ele certamente iria embora e ficaria longe. - Como eu iria até lá? - Ela perguntou em vez disso e, então, poderia ter mordido a língua, já que a resposta era óbvia. - A senhora poderia rastejar em suas mãos e joelhos, - ele disse - se quiser ser tão teimosa quanto ontem. Ou poderia ser carregada por um lacaio corpulento. Acredito que um deles te carregou esta manhã. Ou eu poderia carregá-la se a senhora confiar em que eu não vá tomar liberdades novamente. Gwen sentiu-se corar. - Espero, - ela disse - que não tenha se sentido culpado pela última noite, Lorde Trentham. Fomos igualmente culpados por aquele beijo, se culpa é a palavra certa. Por que deveríamos não ter nos beijado, afinal de contas, se nós dois desejávamos fazê-lo? Nenhum de nós é casado ou noivo de outra pessoa. Ela tinha a sensação de que sua tentativa de indiferença estava falhando miseravelmente.


- Que decide então? - Ele disse. - Que não deseja rastejar para fora em suas mãos e joelhos e posso levá-la? - Pode. - Ela disse. Nada mais foi dito sobre o lacaio corpulento. Ele se virou e caminhou para fora da sala sem dar um pio, presumivelmente para buscar a sua capa. Tinha sido bem feito para ela, Gwen pensou com ironia considerável. Mas a perspectiva de um ar fresco não era para se resistir. E a perspectiva da companhia do senhor Trentham?


Capítulo 6 Fazia frio, realmente. Apesar de o sol estar brilhando, e eles estarem cercados por prímulas, açafrão e até mesmo alguns narcisos. Gwen nunca antes havia cogitado em se perguntar por que tantas flores da primavera tinham vários tons de amarelo. Era essa a maneira com que a natureza adicionava um pouco de sol para a temporada que vinha logo depois da monotonia do inverno, mas antes o brilho do verão? - Tudo isto é muito lindo! - Disse ela, respirando o ar ligeiramente salgado e fresco. - A primavera é a minha estação favorita." Ela envolveu a capa vermelha mais confortavelmente sobre si mesma, quando Lorde Trentham a colocou no chão ao longo de um banco de madeira debaixo da janela da sala de estar. Ele pegou as duas almofadas ela havia levado, como ele havia sugerido, colocando uma às costas de Gwen para protegê-la do braço de madeira, e deslizando a outra cuidadosamente debaixo de seu tornozelo direito. Ele estendeu o cobertor que havia trazido sobre as pernas dela. - Por quê? - Ele perguntou quando se endireitou. - Eu prefiro um narciso a uma rosa - disse ela. - E a primavera é sempre cheia de novidade e esperança. Ele se sentou no pedestal da urna de pedra ali perto e colocou os braços sobre a extensão de seus joelhos. Era um ambiente descontraído, de postura casual, mas seus olhos encaravam os dela. - O que você gostaria que acontecesse de novo em sua vida? - Ele lhe perguntou. - Quais são suas esperanças no futuro?


- Eu percebo, Lorde Trentham, - disse ela - que devo escolher minhas palavras com cuidado, quando estiver em sua companhia. O senhor interpreta tudo que eu digo literalmente”. - Por que dizer alguma coisa, - ele perguntou - quando suas palavras não significam nada? Era uma pergunta bastante justa. - Oh, muito bem - ela disse. - Deixe-me pensar. Seu primeiro pensamento foi que ela não estava arrependida por ele ter ido àquela sala e sugerido levá-la para fora para tomar um pouco de ar fresco. Se ela fosse perfeitamente honesta consigo mesma, teria que admitir que havia ficado decepcionada quando um lacaio apareceu em seu quarto naquela manhã para levá-la para baixo. E tinha ficado decepcionado por Lorde Trentham não tê-la procurado ao longo de toda manhã. E, ainda assim, ela também tinha a esperança de evitá-lo pelo resto de sua permanência ali. Ele estava certo sobre palavras que não significavam nada, mesmo que as palavras estivessem apenas na cabeça de alguém. - Eu não quero nada de novo - ela disse. - E minha esperança é que eu possa permanecer contente e em paz. Ele continuou a olhar para ela como se seus olhos pudessem perfurá-la até atingir sua própria alma. E ela percebeu que achava que estava falando a verdade, mas realmente não tinha certeza sobre isso. - O senhor percebeu, - ela perguntou a ele - como ficar parado, às vezes, pode não ser diferente de se mover para trás? Por todo o mundo, a cada vez que nos movemos, deixamos alguém para trás". Oh, céus. Era a casa, ele havia dito na noite passada, que inspirava tais confidências.


- A senhora já foi deixada para trás? - Ele perguntou. - Fui à primeira da minha geração, em nossa família, a se casar - disse ela. - Fui à primeira, e de fato a única, a ficar viúva. Agora meu irmão está casado, e Lauren também, minha prima e amiga mais querida. Todos os meus outros primos também estão casados. Todos eles formando família e se mudando, ao que parece, para outra fase de suas vidas que está fechada para mim. Não é que eles não sejam simpáticos ou acolhedores. Eles são. Eles estão sempre me convidando a ficar, e o desejo por minha companhia é perfeitamente genuíno. Eu sei disso. Eu ainda tenho uma amizade extremamente íntima com Lauren, com Lily minha cunhada - e com os meus primos. E eu vivo com minha mãe, a quem eu amo profundamente. Eu me considero bastante abençoada. O discurso soou oco para seus próprios ouvidos. - Um período de luto de sete anos por um marido é extremamente longo, - ele disse - especialmente quando a mulher é tão jovem. Que idade você tem? Confie em Lorde Trentham para perguntar o imperguntável. - Estou com trinta e dois - ela respondeu. - É perfeitamente possível viver uma existência satisfatória sem voltar a se casar. - Não se desejar ter filhos sem incorrer em um escândalo disse ele. – A senhora seria sábia em não esperar muito mais tempo para fazê-lo. Ela elevou as sobrancelhas. Não havia fim à sua impertinência? E ainda, o que sem dúvida seria impertinência em qualquer outro homem que ela conhecia, não era seu caso. Na verdade, não. Ele era apenas um homem direto e objetivo, que dizia o que pensava.


- Eu não tenho certeza se posso ter filhos - ela disse. - O médico que me atendeu quando eu tive o aborto, disse que eu não poderia mais ter filhos. - Foi o homem que cuidou da sua perna quebrada? - Ele perguntou. - Sim. - E você nunca procurou uma segunda opinião? Ela negou com a cabeça. - Isso não tem importância, de qualquer maneira - ela respondeu. - Eu tenho sobrinhos e sobrinhas. Tenho grande carinho por eles e eles por mim. Isso tinha importância, pensou, e somente agora, neste momento, se deu conta do quanto isso importava. Tal era o poder da negação. O que havia nesta casa? Ou neste homem? - Parece-me, - ele disse - como se esse médico fosse um charlatão da pior espécie. Ele a deixou com um defeito permanente e, ao mesmo tempo, destruiu toda sua esperança de ter um filho, justamente depois de você ter perdido um, sem nunca sugerir que você consultasse um médico com mais conhecimento e experiência nesses assuntos do que ele mesmo”. - O melhor, - ela concluiu - é que não se tenha certeza de algumas coisas, Lorde Trentham. Ele baixou os olhos dos dela, finalmente. Olhou para o chão e com a ponta de sua grande bota suavizou o cascalho do caminho. O que o fez ficar tão atrevido? Talvez fosse seu tamanho. Mas ainda que fosse surpreendentemente grande, não havia nada de desajeitado nele. Cada parte dele era proporcional às demais. Até mesmo seu cabelo curto, o que deveria diminuir qualquer pretensão de boa aparência que ele pudesse possuir,


adequava-se à forma de sua cabeça e à dureza de suas feições. Suas mãos podiam ser gentis. Assim também podiam ser seus lábios ... - O que o senhor faz? - Ela perguntou. - Quero dizer, quando não está aqui, o que o senhor faz? Já não é mais um oficial, não? - Eu vivo em paz - respondeu, voltando a olhar para ela. Como à senhora. E contente. Comprei uma mansão e criei raízes no ano passado, depois que meu pai morreu. E ali, vivo sozinho. Tenho ovelhas, vacas, galinhas, uma pequena fazenda, uma horta, um jardim de flores. Trabalho em tudo. Sujo as mãos e fico com terra sob minhas unhas. Meus vizinhos estão perplexos, por eu ser Lorde Trentham. Minha família está estarrecida, porque agora sou proprietário de um vasto negócio de importação/exportação e imensamente rico. Eu poderia viver com grande ostentação em Londres. Cresci como filho de um homem rico, embora sempre esperasse ter que trabalhar duro, preparando-me para o dia em que eu ocuparia o lugar de meu pai. Ao invés disso, eu insisti para que ele comprasse uma comissão para mim em um regimento de infantaria e trabalhei duro na carreira por mim escolhida. Eu me destaquei. Então, eu saí. E agora eu vivo em paz. E contente. Havia alguma coisa indefinível em seu tom de voz. Desafio? Irritação? Defesa? Ela se perguntou se ele era realmente feliz. Felicidade e contentamento não eram a mesma coisa, não é verdade? - E um casamento iria completar seu contentamento? - Ela quis saber. Ele franziu os lábios. - Eu não fui feito para uma vida sem sexo - disse ele. Ela pediu por esta resposta. Assim, tentou não corar.


- Eu decepcionei meu pai - disse Lorde Trentham. - Quando eu era menino, eu o seguia como uma sombra. Ele me adorava e eu a ele. Ele imaginou, na minha opinião, que eu iria seguir seus passos no negócio e assumi-los, a partir do momento em que ele desejasse se aposentar. Então, veio esse ponto inevitável em minha vida, quando eu queria ser eu mesmo. No entanto, tudo o que eu podia ver na minha frente é que estava me tornando cada vez mais como meu pai. Eu o amava, mas eu não queria ser como ele. Eu cresci inquieto e infeliz. Eu também cresci forte e grande, um legado do lado da família da minha mãe. Eu precisava fazer alguma coisa. Algo físico. Atrevo-me a dizer que eu poderia ter feito alguma tolice relativamente inofensiva na juventude, antes de retornar para casa, se não tivesse sido por... Bem, não tomei esse rumo. Em vez disso, parti o coração do meu pai, indo embora e ficando longe de casa. Ele me amava e teve orgulho de mim até o fim, mas, naquela altura, seu coração estava partido. Quando ele estava morrendo, eu disse a ele que iria tomar as rédeas de suas empresas comerciais e que faria tudo que estivesse ao meu alcance para passá-las para o meu filho. Então, depois que ele morreu, fui para o meu chalé e comprei Crosslands, que fica nas proximidades e estava justamente para ser vendida. E passei a viver como eu tinha vivido nos dois anos anteriores, exceto em uma escala um pouco maior. Para mim, chamei este período de meu ano de luto. Mas esse ano acabou, e eu não posso, em sã consciência, prorrogar por mais tempo. Já não estou tão jovem. Eu estou com trinta e três. Ele olhou para cima, assim como Gwen o fez, para um grupo de gaivotas que voava, chamando ruidosamente uns aos outros. - Tenho uma meia-irmã - ele disse quando eles voltaram a se olhar. - Constance. Ela mora em Londres com a mãe dela, que é minha madrasta. Ela precisa de alguém para levá-la para sair, assim como precisa de amigos e admiradores. Precisa e quer um marido. Mas sua mãe, teoricamente, é uma inválida e não está disposta a deixá-la ir. Eu tenho responsabilidade por minha irmã.


Sou seu tutor. Mas o que posso fazer por ela enquanto permanecer solteiro? Eu preciso de uma esposa. O braço da cadeira estava cravando nas costas de Gwen, apesar da almofada. Ela se contorceu em uma posição diferente, e Lorde Trentham ficou de pé para acomodar a almofada, reposicionando-a atrás dela. - Está pronta para voltar lá para dentro? - Não. - Ela disse. - Não, a menos que o senhor esteja. Ele não respondeu e voltou a se sentar no pedestal de pedra. Por que ele havia se tornado um recluso em potencial? Tudo em sua vida levaria a fazer crer que ele fosse exatamente o oposto. - Foi durante o Forlorn Hope que chefiou, que o senhor sofreu as lesões que lhe trouxeram aqui? - Ela perguntou. Seu olhar era tão ardente e tão firme que ela quase se inclinou para o lado contra o encosto do banco, a fim de colocar maior distância entre eles. Ele não falou sobre o ataque, ele tinha dito a ela ontem, nunca. E por que ela queria saber isso? Normalmente, ela não era curiosa a ponto de se intrometer nesses assuntos. - Eu não sofri um só arranhão durante o Forlorn Hope disse ele. - Nem em qualquer outra batalha que eu tenha lutado. Se a senhora me examinasse da cabeça aos pés, nunca iria imaginar que eu tivesse sido um soldado por quase dez anos. Ou diria que eu era o tipo de oficial que se encolhia em uma tenda e dava ordens, sem nunca sair pelo risco de interceptar uma bala errante. Sua vida tinha sido tão encantadora como a vida do duque de Wellington, então. Dizia-se que Wellington, muitas vezes, de


forma imprudente, tinha ficado dentro do alcance das armas inimigas, apesar de todos os esforços de seus assessores em mantê-lo fora de perigo. - Então por que... -Gwen começou. - ... eu estou aqui? - Ele disse, interrompendo-a. - Oh, eu tinha feridas suficientes, Lady Muir. Simplesmente, elas eram do tipo invisíveis. Minha cabeça ficou fora de lugar. O que não é realmente uma descrição precisa da minha forma particular de loucura, porque se eu, realmente, tivesse ficado com minha cabeça fora de ordem, tudo estaria muito bem. O fato era que eu ainda estava com ela, e esse era o problema. Eu não podia sair. Eu queria matar todos ao meu redor, especialmente aqueles que foram mais gentis comigo. Eu odiava a todos, acima de tudo, a mim mesmo. Eu queria me matar. Acredito que comecei a falar com alguma coisa não inferior a um grito, e a cada segunda ou terceira palavra, eu dizia o abominável, até mesmo para os padrões do vocabulário de um soldado. Isso me enfureceu de tal forma, que logo fiquei sem palavras fortes o suficiente para tirar o ódio de dentro de mim. Ele novamente baixou o olhar para o chão entre seus pés. Gwen só conseguia ver o topo de sua cabeça. - Eles me mandaram para casa em uma camisa de força ele disse. - Se existe algo mais calculado para aumentar a fúria, acima do ponto de ebulição, eu não sei o que é, e realmente não quero saber. Não quiseram me enviar para Bedlam, embora pensassem que ali fosse o meu lugar. Eles ficaram muito constrangidos, já que eu era uma espécie de celebridade, e tinha acabado de ser promovido e festejado, além de ter recebido meu título pelo rei - ou pelo príncipe regente, na verdade, dede que o próprio rei está louco. Irônico, não? Eu não iria para a casa do meu pai. Alguém soube do Duque de Stanbrook e do que ele estava fazendo por outros oficiais. Então ele me encontrou e me trouxe para cá, sem a necessidade de uma camisa de força. Ele


assumiu o risco. Acredito que eu não teria matado mais ninguém, além de mim mesmo, mas ele não tinha como saber disso. Ele me disse para eu não me matar - pediu, não disse. Ele me contou que sua esposa tinha cometido suicídio, e foi de certa forma um último ato de egoísmo, uma vez que deixou para trás um sofrimento sem fim, impossível de ser descrito, em todos aqueles que haviam testemunhado tudo aquilo, mas que não foram capazes de fazer qualquer coisa para impedir o ocorrido. E assim, eu continuei vivo. Era o mínimo que eu poderia fazer para me redimir. - Para se redimir do quê? - Ela perguntou docemente. Por alguma razão, ela tinha a manta, antes estendida sobre suas pernas, colada em seus seios, segurando-a ali com as duas mãos. Ele olhou para cima com os olhos em branco, como se tivesse esquecido que ela estava lá. Em seguida, voltou à razão. - Eu matei perto de trezentos homens, - ele disse - trezentos dos meus próprios homens. - Matou? - Ela perguntou. - Matei, ou deixei que fossem mortos - ele disse. - É tudo a mesma coisa. Eu fui responsável pela morte deles. - Conte para mim - ela disse e sua voz ainda era doce. Ele voltou a olhar para o chão. Ela ouviu quando ele inalou profundamente e expirou lentamente. - Não é assunto para os ouvidos de uma mulher - ele disse, mas continuou assim mesmo. - Eu guiei meus homens a uma encosta cheia de armas. Era morte certa. Nós fomos detidos em nossa trilha quando estávamos no meio do caminho. Metade de nós foi morta, a outra metade estava desencorajada. O sucesso parecia impossível, então meu tenente me deu uma ordem de retirada. Ninguém poderia nos culpar, porque seguir adiante seria uma forma de suicídio. Mas era para isso que nós tínhamos


nos alistado, para sermos voluntários, e eu estava determinado a morrer tentado, ao invés de voltar derrotado. Eu dei a ordem para avançar e não olhei para trás para ver se alguém me acompanhava. E saímos vitoriosos. Embora não tenham restado muitos de nós, abrimos a brecha que permitiu que o restante da força brotasse entre nós. Dos dezoito sobreviventes, eu era o único que não estava ferido. Alguns homens morreram logo depois, mas eu não dei importância. Eu havia aceitado a missão e eu a completei com sucesso. Eu fui enaltecido com elogios e prêmios. Apenas eu. Oh, meu tenente conseguiu sair capitão. Todos os outros homens, vivos ou mortos, não significaram nada. Eles foram apenas bucha de canhão: sem importância em vida, imediatamente esquecidos na morte. Eu não me importei, porque eu estava em uma nuvem de glória. Ele remexeu o cascalho que havia alisado mais cedo. - E por que eu não deveria estar? - Ele questionou. - Aquilo era Forlorn Hope. Todos aqueles homens eram voluntários. Todos eles esperavam morrer. Eu mesmo o fiz, porque eu liderava aquela frente. Gwen molhou os lábios. Ela não sabia o que dizer. - Dois dias antes de eu ter aquele surto, - ele disse, olhando para ela com um olhar assustadoramente sombrio - eu fui ver dois dos meus homens. Um era um tenente, recentemente promovido. Ele tinha ferimentos internos e ninguém esperava que ele vivesse. Tinha grande dificuldade para respirar. No entanto, ele conseguiu coletar secreção suficiente em sua boca para cuspir em mim. O outro teve as duas pernas amputadas e ia, sem dúvida, morrer, mas ele estava ganhando seu tempo sobre isso. Eu sabia, e ele sabia disso também. Ele agarrou minha mão e ... beijou-a. Ele me agradeceu por eu ter-me lembrado dele e ter ido vê-lo. Isso, ele disse, fez dele um homem orgulhoso e disse que iria morrer um homem feliz. E outras coisas idiotas como essa. Eu queria abaixar e beijar sua testa,


mas tive receio sobre o que outras pessoas, que estavam ali por perto, iriam pensar ou dizer entre eles depois disso. Ao invés disso, eu simplesmente apertei a mão dele e disse que eu voltaria no dia seguinte. Eu voltei, mas ele morreu meia hora antes de eu chegar". Ele olhou para Gwen. - E agora a senhora conhece minha vergonha - disse ele. Eu fui de grande herói a um completo idiota em apenas um mês. Suas perguntas foram todas respondidas? Havia uma dureza em seus olhos, uma aspereza em sua voz. Gwen engoliu em seco. - O sentimento de culpa, quando claramente se fez algo de errado, - disse ela - é natural e até desejável. Talvez seja possível dizer ou fazer alguma coisa para corrigir o erro. Sentir-se culpado quando não houve, evidentemente, nada de errado, é infinitamente mais prejudicial. E, claro, Lorde Trentham, o senhor não fez nada de errado. Fez o que deveria ser feito. No entanto, de nada adianta eu trabalhar nesse sentido, não é? Inúmeras outras pessoas devem ter dito a mesma coisa. Seus amigos aqui devem ter dito isso. E isso não ajuda muito, não é? Seus olhos procuraram os dela, mas ela baixou o olhar, ocupando suas mãos em arrumar o cobertor. - Eu sinto muito pelo senhor - disse ela. - Mas o seu esgotamento nervoso era vergonhoso apenas se olhado a partir da perspectiva da dura e implacável masculinidade. Não se espera que um comandante militar possa dar importância a um dos homens sob seu comando. O fato de você ter-se importado, de você realmente se importar, torna tudo muito mais admirável aos meus olhos.


- Não há muitas batalhas a serem vencidas, Lady Muir, ele disse - se os comandantes colocam a segurança e o bem-estar de seus homens à frente de uma vitória sobre o inimigo. - Não, - ela concordou - suponho que não. Mas o senhor não fez isso, não é? O senhor cumpriu o seu dever. Somente depois se permitiu sofrer. - A senhora transforma minha covardia em ato heroico disse ele. - Covardia? - Ela questionou. - Dificilmente isso. Quantos comandantes levam seus homens à morte certa em uma batalha? E, em seguida, visitam os seus homens terrivelmente feridos, especialmente aqueles que certamente iriam morrer? E mesmo aqueles que o odeiam e se ressentem com ele? - Eu a trouxe aqui - ele disse - para desfrutar o ar fresco e as flores. - E eu fiz isso tudo - disse ela. - Me sinto bem melhor. Até o meu tornozelo não está doendo tanto quanto antes. Ou talvez os efeitos do remédio contra dor, que o duque de Stanbrook sugeriu que eu tomasse, não tenha se esgotado ainda. O ar está adorável hoje, mesmo com a saudade que há nele. Lembro-me de casa. - Abbey Newbury? - Disse. Ela assentiu com a cabeça. - É tão perto do mar como Penderris Hall - disse ela. - Há uma praia privada abaixo da abadia com penhascos por trás dela. É muito semelhante a isso aqui. É surpreendente, porém, que eu estivesse caminhando à beira do mar ontem. Eu não costumo ir até a praia em casa. - A senhora não gosta da areia em seu sapato? - Perguntou. - Bem, também tem isso - disse ela. - Mas também acho o mar muito vasto. Isso me assusta um pouco, embora eu não


tenha a certeza do por que. Realmente, não é o medo de me afogar nele. Eu acho que é mais o fato de o mar ser um lembrete de quão pouco controle temos sobre nossas vidas, não importa quão cuidadosamente planejamos e organizamos nosso destino. Tudo muda da maneira que menos esperamos, e tudo é assustadoramente grande. Somos tão pequenos. - Às vezes, esse ponto de vista pode realmente ser reconfortante - disse ele. - Quando nós nos castigamos a nós mesmos por termos perdido o controle, somos lembrados de que nunca podemos estar no controle total, que tudo que a vida pede de nós é que façamos o nosso melhor para lidar com aquilo que nos é entregue. É mais fácil falar do que fazer, é claro. Na realidade, muitas vezes é impossível ser feito. Mas eu sempre acredito que um passeio na praia seja reconfortante. Ela sorriu para ele e ficou surpresa ao descobrir que realmente gostava dele. Pelo menos ela o entendia melhor do que o entendera no dia anterior. - O ar fresco trouxe cor às suas faces - disse ele. - E tenho certeza que também ao meu nariz, sem dúvida disse ela. - Eu estava tentando ser cavalheiro, - ele falou - evitando qualquer menção a isso. Eu me esforcei para nem mesmo olhar para ele. A piada a surpreendeu, encantando-a. Ela levantou a mão para cobrir seu nariz e sorriu. Ele se levantou e encurtou a distância entre eles. Então, pegou o cobertor que ainda estava em uma pilha desordenada na cintura dela, e espalhou-o sobre suas pernas novamente antes de se endireitar e olhar para ela. Cruzou suas mãos atrás das costas. Gwen tentou dizer alguma coisa, mas não conseguiu.


- Eu não sou um cavalheiro, como à senhora deve saber disse ele depois de um momento de silêncio. - Eu nunca quis ser um. Quando eu tenho que me misturar com as classes mais altas, eles podem me aceitar ou rejeitar, como desejarem. Não fico ofendido por ser considerado inferior. Eu sei que eu não sou. Sou apenas diferente. Gwen inclinou a cabeça para um lado. - A que ponto quer chegar, Lorde Trentham? - Ela perguntou. - Não me sinto inferior à senhora, - ele disse - mesmo sendo, de fato, muito diferente. Eu não tenho nenhuma ambição de cortejá-la ou me casar com a senhora e, assim, impulsionar-me discretamente a uma classe social superior. A irritação com ele, de ontem, voltou com força total. - Estou contente por sua causa, - disse ela - já que o senhor estaria fadado a certa frustração. - Mas eu estou irresistivelmente atraído pela senhora disse ele. - Irresistivelmente? - Eu vou resistir, se for preciso - disse ele. - Com uma palavra sua, eu vou resistir. Gwen abriu a boca e a fechou novamente. Como eles chegaram a este ponto? Apenas alguns momentos atrás, ele havia desnudando sua alma para ela. Mas talvez essa fosse a explicação. Talvez a emoção que ele estivesse sentindo naquela hora, precisasse ser traduzida em algo mais, alguma coisa mais suave e mais familiar. - Resistir a quê? - Ela perguntou, franzindo a testa. - Eu gostaria de beijá-la outra vez, - disse ele - no mínimo.


Ela fez a pergunta que deveria ter permanecido sem ser mencionada. - E, no máximo? - Eu gostaria de levá-la para a cama - disse ele. Seus olhos se encontraram e Gwen sentiu uma onda de desejo que definitivamente roubou seu fôlego. Meu Deus, ela deveria estar batendo no rosto dele, exceto que ficava muito acima do alcance de seu braço. De qualquer maneira, ela perguntara e ele apenas havia respondido. De repente, pareceu mais como se estivesse em julho do que no início de março naquele jardim. - Gwendoline - disse ele. - Esse é o seu nome? Ela olhou para ele com surpresa. Mas Vera tinha dito o nome dela ontem, na presença dele, é claro. - Todos me chamam de Gwen - ela disse a ele. - Gwendoline - disse ele. - Por que encurtar um nome que é perfeitamente bonito quando totalmente pronunciado? Ninguém nunca a chamou por seu nome completo. Soou estranho em seus lábios. Íntimo. Ela deveria se opor com firmeza a tais intimidades. Ele era Hugo. O nome combinava com ele. Sentou-se ao lado dela, de repente, e ela recuou até o fundo do assento para abrir espaço para ele. Ele se virou para o lado e apoiou uma mão na parte de trás do assento. O que ele ia...? O que ele estava...? Ele baixou a cabeça e a beijou. Beijou com os lábios abertos. Seus próprios lábios abertos em reflexo, e houve um súbito calor entre eles. A língua dele pressionava duramente em sua boca, e


um de seus braços vieram até suas costas, enquanto o outro se espalhava sobre a parte traseira de sua cabeça. Suas mãos, presas dentro de sua capa, eram pressionadas contra o peito largo, muito sólido. Não era um breve abraço, como o beijo da noite anterior tinha sido. Mas ele suavizou, e depois de um tempo seus lábios percorreram o rosto dela, ao longo de suas têmporas, até sua orelha, onde ela podia sentir sua respiração, sua língua e seus dentes beliscando o lóbulo. Ele beijou o caminho ao longo de sua mandíbula e voltou até sua boca. Eu gostaria de levá-la para a cama. Ah não. Isso foi demais. Aquele era o eufemismo do ano. Ela apertou as mãos contra o peito dele, e ele ergueu a cabeça. Ela se viu olhando profundamente dentro daqueles olhos escuros e muito, muito intensos. Ele era um pouco assustador. Pelo menos, ele deveria ser. Ela respirou fundo para falar. - Vocês dois estão correndo o grave risco de perderem o chá disse uma voz alegre, fazendo-os se afastarem de imediato, - e parece que o chef de George se superou com seus bolos de hoje, ou foi assim que me informaram. Não os provei ainda. Decidi adiar tamanho deleite e vir aqui chamar vocês. Ralph viu da janela da sala de estar, quando foi buscar Lady Muir, que vocês já estavam aqui fora". Lorde Darleigh, que olhava diretamente para eles daquela forma extraordinária que ele fazia, como se realmente não pudesse vê-los, sorriu docemente. Lorde Trentham ficou de pé e dobrou o cobertor sobre seu braço, enquanto Gwen recolhia as duas almofadas. E então, quando ele se abaixou para pegá-la, não olhou para ela, e ela não


chegou a olhar para ele. Eles não se falaram enquanto ele a levava para dentro, seguindo atrás de Lorde Darleigh. Isso tinha sido muito imprudente, ela pensou. Outro grande eufemismo. E indiscreto. O Conde de Berwick, com certeza, os viu pela janela. Mas, o que exatamente ele tinha visto? Lorde Trentham a levou para a sala de estar, onde todos a cumprimentaram educadamente e ninguém lançou olhares de cumplicidade a ela ou a Lorde Trentham.


Capítulo 7 Hugo esteve o resto do dia mais silencioso e distante do que normalmente. E encontrava-se, muito injustamente, ressentido com a presença de Lady Muir. Sem ela, poderia estar relaxando com os amigos, conversando, rindo, brincando e sendo arreliado, jogando cartas, lendo, sentado em amigável silêncio - tudo o que mudou, na verdade. Atividades em Penderris raramente eram planeadas. Todos pareciam estar desfrutando da companhia de Lady Muir. Ninguém mais parecia ressentir-se dela. Talvez porque fosse uma Lady, parte do mundo deles. Ela entrou na conversa com aparente facilidade, mas sem tentar dominá-la de forma alguma. Poderia falar sobre, praticamente, qualquer assunto. Podia ouvir e rir e fazer apenas os comentários corretos e as perguntas certas. Gostava de todos eles, ao que parecia, e eles tinham vindo a gostar dela. Era a mulher perfeita. Ou talvez fosse porque nenhum dos outros a tinha beijado duas vezes. Ben fora nomeado para a acompanhar no jantar. Tanto ele como ela pareciam felizes com o acordo. Não muito tempo depois do jantar, ela sugeriu se retirar para o seu quarto. - A senhora está com dor, Lady Muir? - Perguntou George. - Dificilmente quando me mantenho quieta - disse ela. - Mas vocês são um clube. Ouso dizer que as noites são o momento em que mais gostam de estar juntos, desfrutando do companheirismo e da conversa. Vou-me retirar. Ela era sensível demais. E tinha tato. Mais evidências da mulher perfeita. - Não há realmente nenhuma necessidade - disse George.


- Uma torção no tornozelo é qualificada como uma ferida de guerra, - disse Ben - e um clube estagna se não aumenta a sua adesão. Vamos expandir para incluir a senhora, Lady Muir, pelo menos por este ano. Considere-se um membro honorário. Ela riu. - Obrigada - disse. - Estou honrada. Na verdade, sinto algum desconforto, mesmo não chegando a ter dor. Estarei mais confortável deitada na minha cama. - Vou chamar um lacaio, então - disse George, mas Hugo já estava de pé. - Não há necessidade - disse ele. - Vou levar Lady Muir ao andar de cima. Ele se ressentia mais, porque ela o perturbava. Não desgostava dela, como tinha acontecido na véspera. Mas ela era de um outro mundo. Era bonita, elegante e bem vestida, senhora de si e encantadora. Ela era tudo o que uma senhora deveria ser. E o atraía, um fato que o aborrecia. Ele sempre fora capaz de olhar para as senhoras, por vezes mesmo apreciando seus olhares e fascínio, sem nunca as desejar. Não deveria desejar espécies exóticas, não importa o quanto eram bonitas. Era totalmente néscio? Até lhe dissera nessa tarde - infelizmente, não havia nenhuma possibilidade de que sua memória estivesse brincando com ele, - que gostaria de dormir com ela. Se perguntou se deveria pedir desculpas. Mas um pedido de desculpas só iria fazer reviver o que acontecera no jardim. Era, talvez, melhor esquecer ou, pelo menos, deixar que permanecesse adormecido. Além disso, como poderia pedir desculpas por beijar uma mulher duas vezes? Uma vez pode ser explicada como um


impulso acidental. Duas vezes sugeria intenção ou uma grave falta de controle. Seu pé estava no topo da escada antes de qualquer um deles falar. - O senhor tem estado muito silencioso esta noite, Lorde Trentham -, disse ela. - No momento, preciso de todo meu alento para carregá-la disse a ela. Ele fez uma pausa fora do seu quarto enquanto ela rodou a maçaneta da porta. Entrou com ela e a colocou sobre a cama. A apoiou em alguns dos muitos travesseiros atrás das costas e posicionou outro embaixo de seu pé direito. Endireitou-se e cruzou as mãos atrás das costas. Alguém já acendera as velas, ele percebeu. Gostaria de virar as costas e sair do quarto sem dizer uma palavra ou olhar para trás, mas isso o faria parecer um idiota ou um rematado grosseiro. - Obrigada - disse ela. E logo em seguida: - Sinto muito. Ele ergueu as sobrancelhas. - A senhora está arrependida? - Deve ser um divertimento muito ambicionado para voltar aqui a cada ano - disse ela. - Mas o senhor esteve desconfortável esta noite, e só posso concluir que sou a causa. Escrevi para meu irmão e pedi-lhe para enviar a carruagem o mais rápido possível, mas vai levar alguns dias antes que chegue para me levar para casa. Nesse meio tempo, vou tentar ficar fora do seu caminho. Qualquer envolvimento sério entre nós está fora de questão por todos os tipos de razões. Está fora de questão para nós dois. E eu nunca fui de flertes sem sentido ou comportamentos frívolos. Meu palpite é que você também não o é.


- Veio para cima cedo esta noite por minha causa? perguntou a ela. - O senhor é membro de um grupo - disse ela. - Vim por causa do grupo. E realmente estou um pouco cansada. Estar sentada o dia todo me deixa sonolenta. Qualquer envolvimento sério entre nós está fora de questão por todos os tipos de razões. Somente uma razão veio à mente. Ela era da aristocracia; ele era de uma classe baixa, apesar de seu título. Foi a única razão. Ela estava sendo desonesta consigo mesma. Mas era uma enorme razão. De ambas as partes, como ela havia dito. Ele precisava de uma esposa que trataria da horta com ele, ajudaria a alimentar os cordeiros que não podiam mamar, enxotaria galinhas com seus cacarejos a bater as asas para fora do caminho, a fim de recuperar os seus ovos. Precisava de alguém que conhecesse o mundo social da classe média para que, então, pudesse encontrar um marido para Constance. Curvou-se supérfluas.

rigidamente.

Palavras

eram

claramente

- Boa noite, milady - disse e saiu do quarto sem esperar pela sua resposta. Pensou ter ouvido um suspiro quando fechou a porta. Naquela noite era a vez de Vincent. De manhã ele acordara com um ataque de pânico e tinha-o combatido durante todo o dia. Tais episódios vinham sendo menos frequentes, relatou ele, mas quando aconteciam, eram tão intensos como jamais tinham sido. Quando Vincent veio pela primeira vez para Penderris, ele estava quase surdo, bem como totalmente cego, em consequência da explosão de um canhão perto o suficiente para tê-lo enviado de


volta para Inglaterra em um milhão de pedaços. Por algum milagre havia escapado, tanto ao desmembramento como à morte. Ele ainda tinha ficado um pouco selvagem, e apenas George tinha sido capaz de o acalmar. George tinha agarrado frequentemente o moço em seus braços e o abraçado, às vezes por horas a fio, cantando para ele como um bebê até que ele dormia. Vincent tinha dezessete anos no momento. A surdez tinha desaparecido, mas a cegueira não e nunca o faria. Vincent perdera a esperança bastante cedo e tinha ajustado a sua vida à nova condição, com notável determinação e resiliência. Mas a esperança, profundamente enterrada em vez de banida completamente, surgia ocasionalmente, quando suas defesas estavam baixas, geralmente enquanto ele dormia. E despertava esperando ver, ficando aterrorizado quando descobria que não podia, e, em seguida, era catapultado para as profundezas de um inferno escuro quando percebia que nunca o faria. - Me rouba a respiração - disse ele - e acho que vou morrer por falta de ar. Parte da minha mente me diz para parar de lutar, aceitar a morte como um dom misericordioso. Mas o instinto de sobrevivência é mais poderoso do que qualquer outro e eu respiro de novo. - E que coisa boa isso é - disse George. - Apesar de tudo o que pode ser dito em contrário, esta vida vale a pena ser vivida até ao último suspiro com que a natureza nos concede. O silêncio bastante pesado que conseguiram suas palavras, testemunhou o fato de que nem sempre era uma filosofia fácil de adotar. - Eu posso imaginar algumas coisas e algumas pessoas muito claramente na minha cabeça - disse Vincent. - Mas não o posso fazer com as outras. Esta manhã isso me golpeou, por apenas um milésimos de segundo - de que nunca vi qualquer um dos vossos rostos, que nunca os verei. No entanto, toda vez que


tenho esse pensamento, é tão cruel como foi na primeira vez que pensei nisso. - No caso do rosto feio de Hugo, - Flavian disse - isso é um sinal de misericórdia, Vincent. Temos de olhar para ele todos os dias. E, no caso do meu rosto ... Bem, se você fosse vê-lo, ficaria desolado, pois você nunca foi tão bonito. Vincent riu, e todos eles sorriram. Hugo notou Flavian enquanto enxugava as lágrimas. Imogen acariciou a mão de Vincent. - Diga-me, Hugo, - Vincent disse - estava beijando Lady Muir quando fui buscá-lo para o chá? Não ouvi nenhuma conversa quando me aproximei do jardim de flores, embora Ralph tivesse me assegurado que vocês estavam lá. Ele, provavelmente, me enviou deliberadamente, para que a senhora não ficasse constrangida com o que eu poderia ver. - Se você acha que vou responder à essa pergunta, - disse Hugo - deve ter perdido o juízo. - E essa é a única resposta que preciso, - Vincent disse, balançando as sobrancelhas. - E os meus lábios estão selados - disse Ralph. - Não vou confirmar nem negar o que vi pela janela da sala da manhã, embora tenha que dizer que fiquei profundamente abalado. - Imogen, - George disse - você vai atender à nossa preguiça masculina coletiva e servir o chá? Na manhã seguinte o duque de Stanbrook arranjou um par de muletas para Gwen, explicando que elas tinham sido necessárias quando a casa fora um hospital, mas tinham ficado intocadas e esquecidas por vários anos desde então. Tinha-as testado por segurança, garantira a ela. Mediu-lhes o comprimento e cortara alguns centímetros a mais. As havia


lixado e polido. Então, Gwen conseguia se mover em um grau limitado. - A senhora tem que me prometer, porém, Lady Muir, disse ele, - não fazer a ira do Dr. Jones cair sobre a minha cabeça. Não deve correr pela casa, subir e descer escadas, por dezoito de cada vinte e quatro horas. Deve continuar a descansar o pé e mantê-lo elevado na maioria das vezes. Mas, pelo menos agora, pode mover-se por um aposento e até mesmo de sala em sala, sem ter que esperar por alguém para a transportar. - Oh, obrigada - disse ela. - Não pode saber o quanto isso significa para mim. Ela deu uma volta pela sala de estar, se acostumando com as muletas, antes de se reclinar na espreguiçadeira novamente. Sentiu-se muito menos confinada pelo resto do dia, apesar de não se mover por um grande pedaço. Vera passou a maior parte da manhã com ela, como tinha feito no dia anterior, e permaneceu até depois do almoço. Seus amigos, ela relatou alegremente, quase a odiavam por se encontrar em termos de visita íntima do Duque de Stanbrook. Sua carruagem com coroa tinha sido vista a parar na porta de sua casa várias vezes. O ciúme certamente os levaria a cortar suas relações, se não encontrassem mais vantagem em aproveitar a sua glória refletida e se vangloriar, a seus vizinhos menos privilegiados, de serem seus amigos. Ela também se queixou do fato de Sua Graça não enviar ninguém no carro para lhe fazer companhia e que, novamente, não fora convidada a almoçar na sala de jantar com o duque e seus convidados. - Eu ouso dizer, Vera, - Gwen disse a ela - que o duque está tocado por sua devoção e considera que você iria encontrar ofensivo se afastar de mim quando não posso sentar-me na sala de jantar com você.


Ela se perguntava por que se preocupava em tentar acalmar as águas, que nunca ficariam lisas por muito tempo. - É claro que você está certa -, disse Vera a contragosto. - Eu ficaria ofendida se Sua Graça me afastasse de você para uma mera refeição, quando reservo uma grande parte do meu dia apenas para lhe oferecer o conforto da minha companhia. Mas podia pelo menos me dar a oportunidade de recusar o convite. Estou surpresa que seu chef sirva apenas três pratos para o almoço. Pelo menos, ele serve apenas três aqui na sala de estar. Ouso dizer que eles desfrutam de um maior número de pratos na sala de jantar. - Mas a comida é abundante e deliciosa -, disse Gwen. As visitas de Vera eram um severa prova para ela. Depois que o Duque de Stanbrook levou sua amiga para a carruagem que estava esperando, Gwen se sentiu um pouco agitada. E se Lord Trentham viesse novamente como ontem? O clima estava tão adorável. Ela não podia suportar encontrar-se tête-à-tête com ele novamente. Não tinha nada que encontrar-se atraída por ele, ou ele por ela. Não tinha nada que permitir que ele a beijasse, e ele não tinha nada que lhe pedir isso. Se ele viesse de novo esta tarde, pensou, poderia fingir estar dormindo e permanecer dormindo. Ele não teria escolha a não ser ir embora. Mas ela não estava com sono. Foi salv,a de qualquer maneira, de ter que praticar tal subterfugio. Houve uma batida na porta, não muito tempo depois de Vera a deixar, e esta se abriu para revelar o Visconde Ponsonby. - Estou a meu caminho da bi-biblioteca - disse ele em sua voz lânguida e com sua leve gagueira. - Todo mundo está lá fora desfrutando o sol, mas tenho uma pilha tal de cartas não respondidas que estou em grave perigo de ser enterrado sob ela,


ou me perder atrás dela, ou alguma coisa terrível. Devo, infelizmente, assentar a caneta no pa-papel. Ocorreu-me que a senhora pode querer experimentar as suas novas muletas e vir escolher um livro. - Estaria mais do que encantada -, disse ela, e ele ficou na porta observando enquanto ela se ergueu sobre suas muletas e caminhou para ele. Seu tornozelo ainda estava inchado e dolorido ao toque. Ainda não havia possibilidade de caber em um sapato ou colocar qualquer peso sobre ele. Estava um pouco menos dolorido hoje, no entanto. E o corte em seu joelho era agora não mais do que uma crosta. Lord Ponsonby caminhava ao lado dela para a biblioteca e virou um sofá que estava junto à lareira para que a luz da janela caísse sobre ele. - A senhora pode ficar aqui e ler, ou assistir-me tratrabalhando, - disse ele - ou pode retornar para a sala de estar depois de escolher um livro. Ou pode subir e descer escadas, se lhe convier. Eu não sou seu carcereiro. Se precisar de um volume de uma prateleira alta, m-me avise. E ele se retirou para trás da grande mesa de carvalho que ficava perto da janela. Gwen se perguntou sobre sua gagueira. Era a única imperfeição que poderia detectar em sua pessoa. Talvez, também ele tivesse passado pela guerra fisicamente ileso, mas mal de sua cabeça, como Lord Trentham o expressara. Ela não tinha pensado muito, antes desta semana, sobre a tensão mental de ser um militar. E, contudo, mostrou uma lamentável falta de sensibilidade da parte dela, não ter pensado. Ela leu por um tempo e, então, Lady Barclay a encontrou e convidou-a para a estufa, para ver as plantas. Havia algumas


cadeiras de vime há muito tempo lá, ela explicou, em que Lady Muir poderia descansar o pé. Sentaram-se lá e conversaram por uma hora inteira. Mais tarde, eles foram para o chá na sala de estar. Foi Lady Barclay que jantou com ela naquela noite. Ela queria abordar o assunto da perda de Lady Barclay e assegurá-la de que entendia, que ela também tinha perdido um marido sob circunstâncias terríveis de violência, que também se sentia culpada por sua morte e duvidava que jamais iria libertarse do sentimento. E talvez fosse mais do que apenas um sentimento. Talvez realmente fosse culpada. Mas não disse nada. Não havia nada nas maneiras de Lady Barclay para sugerir que gostaria de receber tal intimidade. De qualquer forma, Gwen nunca falou sobre os acontecimentos que envolveram a morte de Vernon ou a queda que havia causado. Suspeitava que nunca o faria. Nunca sequer pensara sobre esses eventos. No entanto, em alguns aspectos, nunca pensara em outra coisa. Mais tarde na noite, ela concordou quando pediram que ela tocasse piano, embora não com qualquer particular gosto ou talento. Não importava. Ela fora persuadida a cruzar a sala de estar em suas muletas, a fim de sentar-se no instrumento e tocar, dedos enferrujados e tudo. Felizmente, ela saiu-se razoavelmente bem. E, então, se convenceu a permanecer lá, a fim de acompanhar Lord Darleigh enquanto ele tocava seu violino. Ela se mudou para a harpa com ele depois disso, enquanto ele lhe explicava como estava aprendendo a identificar as cordas sem as ver. - E o seu próximo truque, Lady Muir, - o conde de Berwick disse - é tocar as cordas uma vez que as identifique.


- O céu nos defenda - Lord Ponsonby acrescentou. - Vincent era muito me-menos perigoso quando via e as únicas armas de que dispunha eram uma espada e um canhão gigante. Ele está ameaçando começar a bordar, Lady Muir. O Senhor sabe onde sua agulha vai acabar. E nós todos temos ouvido histórias de horror sobre laços de seda. Gwen riu com todos eles, inclusive o próprio Lord Darleigh. Quando ela se retirou para seu quarto, logo depois, não foi autorizada a subir as escadas com suas muletas. Um lacaio foi convocado para levá-la para cima. Lord Trentham não se ofereceu. Ela não o tinha visto durante todo o dia. Mal tinha ouvido a sua voz toda a noite. Odiava a idéia de que tinha muito possivelmente arruinado sua estadia em Penderris. Só podia esperar que Neville não se demorasse em enviar a carruagem, assim que recebesse a carta. Se sentiu deprimida depois de ter sido deixada sozinha em seu quarto. Não estava cansada. Ainda era muito cedo. Também estava bastante inquieta. As muletas lhe tinham dado um sabor de liberdade, mas não estava livre realmente. Desejou poder olhar em frente, para uma longa caminhada no início da manhã ou, melhor ainda, um passeio rápido. Não sentia vontade de ler. Oh Deus, Lord Trentham era tão terrivelmente atraente. Estivera consciente da presença dele, com todas as terminações nervosas de seu corpo, durante toda a noite. Se fosse rigorosamente honesta consigo mesma, seria forçada a admitir que tinha escolhido seu vestido de noite favorito, damasco, com ele em mente. Tinha tocado o piano consciente apenas dele na pequena plateia. Tinha olhado em todos os lugares da sala, exceto para ele. Sua conversa parecia muito brilhante, muito trivial,


porque sabia que ele estava ouvindo. Sua risada parecia demasiado alta e muito forçada. Era tão pouco comum dela estar auto-consciente quando acompanhada. Odiara cada momento de uma noite que, na superfície, tinha sido muito agradável. Tinha-se comportado como uma menina muito jovem lidando com sua primeira paixão, sua primeira paixão muito tola. Não podia estar apaixonada por Lord Trentham. Alguns beijos e uma atração física não se equiparavam ao amor, ou mesmo a estar apaixonada. Meu Deus, supunha ser uma mulher madura. Raramente tinha passado uma noite mais desconfortável em sua vida. E mesmo agora, sozinha em seu próprio quarto, não estava imune, pelo menos da atração física. Qual seria a sensação, encontrou-se perguntando, de ir para a cama com ele? Afastou o pensamento e pegou o livro que tinha trazido da biblioteca. Talvez se sentisse com mais vontade de ler uma vez que começasse. Se apenas a carruagem de Neville aparecesse, como um milagre, amanhã. Cedo. Ela se sentiu de repente quase doente com saudade.


Capítulo 8 Os últimos dois dias tinham sido ensolarado e primaveris em todos, exceto pela temperatura. Hoje a deficiência tinha sido corrigida. O céu era de um azul claro, o sol brilhava, o ar estava quente e, - o mais raro de todos os fenômenos meteorológicos no litoral - quase não havia vento. Parecia mais verão que primavera. Hugo ficou sozinho do lado de fora das portas da frente, indeciso sobre o que fazer à tarde. George, Ralph, e Flavian tinham saído a cavalo. Ele decidiu não os acompanhar. Embora ele pudesse montar, é claro, não era algo que ele fizesse por prazer. Imogen e Vincent tinha saído para um passeio no parque. Por nenhuma razão específica, Hugo tinha declinado o convite para se juntar a eles. Ben estava na antiga sala de aula no andar de cima, um espaço que George tinha reservado para que ele submetesse seu corpo aos exercícios punitivos várias vezes por semana. Ben tinha assegurado a George que olharia Lady Muir quando acabasse, para se certificar de que ela não fosse deixada sozinha por muito tempo após a saída de sua amiga. Hugo tinha concordado em cuidar para que a Sra. Parkinson tomasse seu caminho na carruagem de George, e isso era o que ele acabara de fazer. Ela o tinha olhado maliciosamente, sorrido de forma afetada e comentado que qualquer senhora que tivesse a sorte de tê-lo em uma carruagem, nunca se sentiria nervosa, não sobre os perigos da estrada, ao menos, ela acrescentara. Hugo não se dera conta de que era uma sugestão para se oferecer cortesmente a acompanhá-la até a vila. Em vez disso, voltara sua atenção ao cocheiro corpulento na boleia e assegurou-lhe de que nunca tinha ouvido falar de nenhum salteador ativo nesta parte do país.


O que ele realmente deveria fazer, pensou, desde que tinha quase deliberadamente se isolado para a tarde, era descer para a praia, o seu velho refúgio favorito. A maré estava a caminho. Ele gostava de estar perto da água, e gostava de ficar sozinho. Ele não tinha visto Lady Muir desde quando entrara na sala de estar para escoltar a amiga dela até a carruagem. Apenas inclinara a cabeça vagamente na direção dela. Era realmente muito desconcertante o fato de que dois beijos, razoavelmente castos, poderiam descompor um homem. E, provavelmente, uma mulher também. Ela não tinha falado com ele antes que ele saísse escoltando sua amiga do quarto e, embora ele não tivesse olhado para ela, era quase certo que ela não tinha olhado para ele também. Ach, isso era ridículo. Eles estavam se comportando como duas crianças tímidas em idade escolar. Ele virou-se e caminhou de volta para a casa. Bateu na porta da sala de estar, abriu-a e entrou sem esperar por um convite. Ela estava em pé na janela, apoiada em suas muletas, olhando para fora. Pelo menos, ele assumiu que ela tinha estado olhando para fora. Ela o estava olhando agora sobre o ombro, as sobrancelhas levantadas. - Vera já foi? - Perguntou ela. - Foi. - Ele deu alguns passos para mais perto dela. - Como está o tornozelo? - O inchaço diminuiu consideravelmente hoje, - disse ela - e está muito menos dolorido do que antes. Mesmo assim, eu não posso apoiar o pé no chão e, provavelmente, seria imprudente até mesmo tentar. O Dr. Jones foi muito específico em suas instruções. Eu fico irritada comigo mesma por ter permitido que o acidente acontecesse e por ser tão impaciente para me curar. E fico zangada comigo mesma por estar de mal humor.


Ela sorriu de repente. - Está um lindo dia - disse ele. - Eu reparei. - Ela olhou para trás, para fora, pela janela. – Estou aqui em pé aqui tentando decidir se levo meu livro e sentome no jardim de flores por um tempo. Posso andar essa distância sem ajuda. " - Quando a maré está subindo, - disse ele - isola uma parte da longa praia do resto, formando uma pitoresca enseada. Eu já estive lá muitas vezes quando simplesmente quero sentar e pensar ou sonhar, ou, às vezes, quando quero nadar. Fica a um par de milhas ao longo da costa, mas ainda faz parte das terras de George. É bastante particular. Eu pensei em ir lá esta tarde. " Na verdade, ele não tinha dedicado um só pensamento para a enseada até que começara a falar com ela. - Pode ser abordada por uma charrete, - ele acrescentou - o penhasco não é muito alto lá. É muito fácil chegar às areias. Gostaria de vir comigo? Ela manobrou as muletas e voltou-se para encará-lo. Ela era miúda, pensou. Duvidava que o topo da cabeça dela atingisse seu ombro. Ela ia dizer não, ele pensou, meio aliviado. Que diabo o tinha levado a fazer tal oferta, de qualquer maneira? - Oh, eu adoraria - disse ela baixinho. - Em meia hora? Sugeriu. – Acho que a senhora terá que subir para se aprontar. - Eu posso ir sozinha - disse ela. - Tenho as minhas muletas." Mas ele caminhou para a frente, soltou as muletas e ergueu-a em seus braços antes de tomar o caminho em direção à


escada. Ele esperou por um discurso que não veio. Embora ela soltasse um suspiro. Ele voltou até ela meia hora mais tarde, depois de informar a Ben que a estava levando para um passeio e recolher as coisas que eles precisavam levar com eles - um cobertor para ela se sentar, almofadas para suas costas e seu pé, e, como complemento, uma grande toalha. Também tinha ido aos estábulos e à cocheira, engatado um cavalo na charrete, trazendoo até as portas da frente. Essa, ele pensou, não era uma boa ideia. Mas ele se comprometera. E não podia se sentir culpado, como sabia que deveria. Fazia um dia lindo. Um homem precisava de companhia, quando o sol brilhava e o ar estava quente. Não que ele jamais tivesse formulado um pensamento tão idiota. Por que um dia ensolarado faria um homem se sentir mais solitário do que se sentia em um dia nublado? Carregou Lady Muir de volta ao térreo e sentou-a na charrete antes de tomar seu lugar ao lado dela. Enlaçou as rédeas em suas mãos e deu o cavalo o sinal para partir. A primavera era sua estação favorita, ela havia dito a ele dias atrás, cheia de novidade e esperança. De alguma forma, hoje ele podia entender o que ela queria dizer.

Era um daqueles dias perfeitos no início da primavera em que se sentia mais como verão, exceto por uma certa qualidade indefinível de luz que prenunciava uma temporada. E o verde da grama e das folhas ainda detinha todo o frescor de um novo ano. Era o tipo de dia para se alegrar apenas por estar vivo.


E era o tipo de dia em que não poderia desejar nada melhor do que estar passeando com um homem atraente ao seu lado. Por alguma razão que ela não conseguia entender, e apesar do incômodo de seu tornozelo dolorido, Gwen se sentia dez anos mais jovem esta tarde. Ela não deveria estar sentindo qualquer coisa semelhante. Mas, por outro lado, por que não? Ela era uma viúva e não devia lealdade a nenhum homem. Lorde Trentham era solteiro e, neste momento, pelo menos, descompromissado. Por que eles não deveriam passar à tarde na companhia um do outro? Quem eles poderiam prejudicar? Não havia nada de errado com um pouco de romance. Se ela tivesse trazido uma sombrinha com ela, a teria girado exuberantemente acima de sua cabeça. Em vez disso, ela interpretou uma alegre melodia em um teclado invisível sobre de suas coxas, antes de fechar mãos mais tranquilamente em seu colo. A charrete percorreu um curto caminho ao longo da estrada em direção da aldeia, mas depois girou de volta para trás da casa, ao longo de uma faixa estreita, que então corria paralelo ao penhasco, em direção oposta à aldeia. De um lado, avistaram uma colcha de retalhos de prados e campos marrons, amarelos e verdes e, do outro, o parque cultivado de Penderris. O mar, vários tons de azul mais profundo do que o céu, era visível para além do parque. O ar estava perfumado com o cheiro do solo e da nova vegetação e trazia o forte gosto salgado do mar. E o odor almiscarado do sabão ou colônia de Lorde Trentham. Gwen descobriu que era impossível impedir seu ombro de roçar no braço dele por conta do assento estreito da charrete. Era impossível, a cada momento, não estar ciente de suas poderosas


coxas ao lado dela, envoltas em calças apertadas, e de suas mãos grandes que manipulavam as rédeas. Ele estava usando um chapéu alto hoje. Escondeu a maior parte de seu cabelo e protegera os olhos. Parecia menos feroz, menos militar. Parecia mais atraente do que nunca. Sua resposta física à sua presença era um pouco enervante, já que ela, realmente, nunca havia experimentado isso com qualquer outro homem. Nem mesmo com Vernon. Ela o achara maravilhosamente bonito e maravilhosamente encantador quando eles se conheceram, e ela caiu rapidamente e voluntariamente de amores por ele. Ela tinha gostado de seus beijos antes de se casarem e, depois do casamento, de tê-lo na cama. Mas ela nunca me sentira assim com Vernon ou qualquer outra pessoa. Sem fôlego. Cheia de uma energia exuberante. Seus sentidos cientes de cada pequeno detalhe. Consciente de que ele estava ciente, embora nenhum deles falasse durante a viagem. No início, ela não conseguira pensar em nada para falar. Então percebeu que, realmente, não precisava falar nada, o silêncio entre eles não importava. Não era desconfortável. Depois de uma ou duas milhas de pista inclinada para baixo, quase na base de uma alta colina, eles viraram em uma faixa ainda mais estreita em direção do mar. Logo, a trilha desapareceu, e a charrete percorreu o caminho sobre a grama grossa até a borda do penhasco baixo. Lorde Trentham desceu para desatrelar o cavalo e amarrálo a um arbusto resistente nas proximidades. Deixou corda suficiente para que pudesse pastar enquanto eles estavam fora.


Colocou um cobertor sobre seu braço e entregou-lhe algumas almofadas, como tinha feito quando a levara para o jardim há dois dias. Ele a tomou e levou-a até a enseada abaixo ao longo de um caminho estreito em zigue-zague, através de uma suave encosta de seixos fina areia dourada. Grandes afloramentos de rocha se estendiam para o mar em ambos os lados da pequena praia. Era, de fato, um pequeno paraíso privado. - O litoral constantemente nos surpreende, não é? - Ela disse, finalmente quebrando o longo silêncio. - Há incríveis praias de longos trechos. E, às vezes, há pequenos pedaços de paraíso, como este. E eles são igualmente belos. Ele não respondeu. Ela esperava que ele o fizesse? Carregou-a na direção de uma grande rocha firmemente plantada no meio da pequena praia. Levou-a para o lado mais próximo do mar e colocou-a sobre o pé bom, com as costas apoiadas contra a rocha, enquanto ele espalhava o cobertor sobre a areia. Pegou as almofadas dos braços dela e as jogou para baixo antes de ajudá-la a se sentar-se sobre o cobertor. Apoiou uma almofada atrás das costas dela, outra embaixo de seu tornozelo direito, e a última sob seu joelho. Ele franziu a testa todo o tempo, como se sua tarefa exigisse grande concentração. Ele estava arrependido? Seu convite tinha sido impulsivo? - Obrigada - disse ela, sorrindo para ele. O senhor é um excelente enfermeiro. Ele olhou nos olhos dela brevemente, antes de se levantar e olhar para o mar. Não havia um sopro de vento aqui em baixo, ela notou. E a rocha atraía o calor do sol. Sentia-se mais do que nunca como em um dia de verão. Ela desfez o fecho de sua capa e empurrou-a para trás sobre seus


ombros. Usava apenas um vestido de musselina sob ela, mas o ar estava agradavelmente quente contra seus braços nus. Lorde Trentham hesitou por alguns instantes e, em seguida, sentou-se ao lado dela, as costas contra a pedra, uma perna esticada à frente, a outra flexionada no joelho, o pé calçado sobre o cobertor, um braço apoiado sobre o joelho. Seu ombro estava, cuidadosamente, a algumas polegadas de distância dela, mas ela podia sentir o calor do corpo dele, de qualquer maneira. - A senhora toca bem - disse ele, abruptamente. Por um momento ela não entendeu o que ele estava falando. - O piano? - Ela virou a cabeça para olhar para ele. Seu chapéu tinha caído ligeiramente para a frente de sua cabeça. Quase escondia seus olhos e o fez parecer inexplicavelmente lindo. - Obrigada. Sou competente, acredito, mas não tenho nenhum talento real. E, com isso, não estou querendo mais elogios. Ouvi talentosos pianistas e sei que eu poderia praticar dez horas por dia durante dez anos e não chegaria perto de poder me comparar a eles. - Suponho - disse ele – que a senhora é competente em tudo que faz. As damas geralmente são, não são? - Está insinuando que somos competentes em muitas coisas, mas verdadeiramente realizadas em poucas e talentosas em ainda menos? - Ela riu. O senhor está certo, sem dúvida, em nove de cada dez casos, Lorde Trentham. Mas melhor isso do que ser totalmente impotente e inútil em tudo, exceto, talvez, em manter uma aparência decorativa. - Hmm - disse ele. Ela esperou que ele voltasse a falar. - O que a senhora faz para se divertir? - Perguntou.


- Para me divertir? - Essa era uma palavra estranha para uma mulher adulta. - Eu faço todas as coisas habituais. Visito membros da família e brinco com seus filhos. Participo de jantares, chás, festas em jardins e noites sociais. Danço. Caminho e passeio. Eu ... - Você monta? - Perguntou. - Depois do acidente que você sofreu? - Oh, - ela disse – deixei de fazê-lo por um longo tempo depois do acidente. Mas eu sempre gostei, e não fazê-lo me impediu de interagir com meus colegas e me privou de muito prazer pessoal. Além disso, odeio não fazer algo simplesmente porque eu não tenho coragem. Eventualmente, eu me obriguei a voltar à sela e, mais recentemente, me forcei a incentivar minha montaria a um ritmo mais rápido do que um rastejamento. Um dia desses, realmente devo permitir que ele galope. O medo deve ser desafiado, eu aprendi. Ele é uma besta poderosa se o permitimos nos dominar. Ele estava olhando, com os olhos semicerrados, a beira da praia. O sol estava brilhando sobre sua superfície. - O que você faz para se divertir? - Ela perguntou. Ele pensou sobre isso por um tempo. - Alimento cordeiros e bezerros quando suas mães não podem - disse ele. - Trabalho nos campos da minha fazenda, particularmente na horta atrás da casa. Assisto e, de alguma forma, participo de todos os milagres da vida, tanto animal como vegetal. Alguma vez já alisou o solo descoberto sobre as sementes e duvidou de que iria vê-las de novo? E então, depois de alguns dias, se pode ver finas hastes, frágeis brotos empurrando acima do solo e nos perguntamos se eles vão ter a força e resistência para sobreviver. E antes que se perceba, temos uma cenoura ou uma batata resistente, do tamanho do meu punho, ou um repolho que precisa de duas mãos para segurar.


Ela riu novamente. - E isso é divertido? - Ela perguntou. Ele virou a cabeça e seus olhos se encontraram. Os dele estavam muito escuros sob a aba de seu chapéu. - Sim - disse ele. - Fortalecer a vida em vez de tomar é divertido. Faz um homem se sentir bem aqui. – Ele roçou levemente um punho fechado contra o peito esquerdo do casaco. Ele recebera um título. Era muito rico. No entanto, trabalhava em sua própria fazenda e em sua própria horta. Porque ele gostava de fazê-lo. Também porque lhe oferecia absolvição por ter passado seus anos como oficial matando homens e permitindo que seus próprios homens fossem mortos. Não era o ex-oficial militar duro, frio, como ela o tinha julgado quando se conheceram. Ele era … um homem. Foi um pensamento que a fez tremer ligeiramente, embora não pelo frio. - Como o senhor vai fazer para encontrar uma esposa? Perguntou ela. Ele franziu os lábios e desviou o olhar novamente. - O homem que gerencia o império dos negócios do meu pai disse ele - ou o meu, eu deveria dizer, tem uma filha. Eu a conheci quando estive em Londres para o funeral do meu pai. Ela é muito linda, muito bem-educada em todas as habilidades que uma mulher precisa ter para ser a esposa de um rico empresário de sucesso, muito disposto - como são a mãe e o pai - e muito jovem. - Ela parece ideal - disse Gwen. - E morre de medo de mim - ele acrescentou.


- Quantos anos ela tem? - Perguntou ela. - Dezenove. - O senhor fez alguma coisa para fazê-la ter menos medo? Ela perguntou. – Sorriu para ela, por exemplo? Ou, pelo menos, não franziu a testa? Ou fez cara feia? Ele virou seus olhos sobre ela novamente. - Ela estava me cortejando - disse ele. - Seus pais estavam me cortejando. Por que eu deveria sorrir? Gwen riu suavemente. - Pobre menina - disse ela. Vai se casar com ela? - Provavelmente não - disse ele. - Sem dúvida não, na verdade. Ela não seria vigorosa o suficiente para mim. E minha própria luxúria se congelaria rapidamente se ela se encolhesse longe de mim na cama. " Oh! Ele estava deliberadamente tentando chocá-la. Gwen podia vê-lo na dureza de seus olhos. Ele pensou que ela estava zombando dele. - Então, ela terá um destino feliz, - disse ela - mesmo que ela não perceba isso. O senhor precisa de alguém mais velho, alguém que não seja facilmente intimidada, alguém que não vá fugir na hora de fazer amor. Ela olhava deliberadamente para seus olhos enquanto falava, embora fizesse um grande esforço. Não tinha qualquer experiência neste tipo de conversa. - Tenho parentes em Londres - disse a ela. - Prósperos. O sucesso nos negócios parece ser comum na família, embora ninguém seja tão bom como meu pai. Ficarão felizes o suficiente,


eu diria, para me apresentar às mulheres elegíveis de minha própria espécie. - Sua própria espécie sendo as mulheres de classe média, que podem, eventualmente, achar divertido ficar com terra sob as unhas - disse ela. - Na minha experiência, Lady Muir - ele disse, seus olhos se estreitando novamente, - mulheres de classe média podem ser tão exigentes como as damas. Muitas vezes mais, porque, por razões que eu acho difícil de entender, muitas delas aspiram ser damas. Não planejo colocar a minha esposa para trabalhar depois de me casar com ela. Não para trabalhar nos campos ou no celeiro, enfim. A não ser que ela escolha envolver-se. Uma vez, comandei homens. Não desejo agora comandar mulheres. Ah. Isso não estava se transformando na tarde relaxante, talvez um pouco romântica, que ela tinha antecipado. - Eu o ofendi - disse ela. - Sinto muito. Haverá muitas mulheres elegíveis ansiosas para serem apresentadas ao senhor, Lorde Trentham. O senhor tem um título, é rico, e tem a reputação de herói. Será considerado um grande prêmio. E algumas mulheres podem se assustar se você fizer cara feia para elas. - A senhora claramente não está assustada - disse ele. - Não, - ela disse - mas o senhor não está me cortejando, não é? As palavras pareciam pairar no ar entre eles. Gwen estava muito consciente do som da maré, dos gritos das gaivotas lá no alto, do olhar intenso dos olhos dele. Do calor do sol. - Não. - Disse ele, se levantando de repente, encostando-se na rocha e cruzando os braços sobre o peito. - Não, eu não estou cortejando a senhora, Lady Muir.


Ele só queria dormir com ela. E ela queria ir para a cama dele. Tudo em seus olhos e as linhas tensas de seu corpo lhe diziam isso, embora ela certamente iria negá-lo, até para si mesma, se ele a confrontasse com o fato. O que ele não estava prestes a fazer.

Ele tinha algum senso de auto-preservação. Trazê-la aqui tinha sido um erro medonho. Ele o soube desde o primeiro momento, antes mesmo que a tivesse levado da sala de estar para se preparar para o passeio. Para alguém que tinha algum senso de autopreservação, ele parecia ter uma tendência maior ainda para a autodestruição. Uma contradição intrigante. Ela não quebrou o silêncio. Ele não podia. Ele não conseguia pensar em uma coisa mortal para dizer. E então ele pensou em uma coisa que poderia fazer, pelo menos. E esse pensamento lhe deu algo a dizer. - Vou dar um mergulho - disse ele. - O que? - Ela virou a cabeça bruscamente e olhou para ele. Olhou-a assustada e, então, seu rosto se iluminou com o riso. – O senhor congelaria. É março. - Mesmo assim - ele se afastou da rocha e jogou seu chapéu sobre o cobertor. - Além disso, - ela disse – o senhor não trouxe uma muda de roupa. - Não visto roupas no mar – disse a ela.


O sorriso se congelou em seu rosto e sentiu subir uma cor flamejante às suas faces. Mas ela riu novamente quando ele levantou o pé direito para tirar a bota de Hessian. - Oh, - ela disse - o senhor não ousaria. Não, ignore isso, por favor. O senhor certamente não seria capaz de resistir a um desafio, seria? Nenhum homem respeitável de meu conhecimento o faria. Remover suas botas e meias e, então, chapinhar na borda da água. Vou sentar aqui e olhar com inveja para o senhor. Mas depois de remover suas botas e meias, ele tirou o casaco, o que não era uma coisa fácil de fazer sem a ajuda de seu criado. O colete veio em seguida. Ela lambeu os lábios e olhou, ligeiramente alarmada. Ele desfez o nó de sua gravata e atirou-a para baixo, na pilha de roupas que estava começando a acumular. Livrou a camisa da cintura de suas calças e a puxou sobre sua cabeça. O ar estava, talvez, não tão morno como ele o sentira quando estava totalmente vestido, mas ele estava quente por dentro. De qualquer forma, já era tarde demais para mudar de ideia agora. - Oh, Lorde Trentham. - Ela estava rindo de novo. - Poupe meus rubores. Ele hesitou por um momento. Mas seria um completo idiota se simplesmente molhasse os pés depois de tudo isso. E calças encharcadas seriam terrivelmente desconfortáveis durante a viagem de volta para a casa na charrete. Ele realmente não tinha escolha. Tirou as calças e ficou de pé apenas com suas ceroulas. Não as retiraria, decidiu com alguma relutância, mesmo que ele só tivesse nadado nu antes. Caminhou até a praia sem olhar para ela.


A água em seus pés e, em seguida, sobre seus tornozelos, joelhos e coxas parecia como se tivesse acabado de fluir de sob a calota de gelo no Polo Norte. Ele prendeu a respiração antes mesmo de ficar totalmente imerso. Mas havia um consolo. Seria o antídoto perfeito para um relutante e bastante inadequado ardor. Ele mergulhou em uma onda, pensou que tinha morrido com o choque, descobriu que não morrera e nadou para o exterior até chegar além da espuma das ondas mais fortes. Então, nadou com poderosos golpes dos braços para a praia, até que podia sentir seus braços e pernas novamente, sua respiração estabilizada e a sensação da água apenas fria. Virou-se e nadou de volta, pelo mesmo caminho por onde viera. Tentou se lembrar quanto tempo passara desde que ele tinha tido uma mulher. Já que não obteve uma resposta satisfatória, era obviamente muito tempo.


Capítulo 9 Gwen esqueceu completamente de seu tornozelo por um tempo. Ela estava sentada com os joelhos para cima, os braços envoltos sobre eles, com os pés apoiados no cobertor. Seu coração parecia um ser independente dentro de seu peito, batendo para sair. Ela não conseguia acalmá-lo ou controlar sua respiração. E apesar das mangas curtas de seu vestido, ela ainda se sentia mais como em julho do que em março. Ela nunca tinha visto um homem nu, nu mesmo com a exceção de suas ceroulas. Era um fato estranho, talvez, depois de estar casada por vários anos. Mas Vernon era muito meticuloso sobre respeitabilidade. Durante o dia ele não tinha gostava que ela o visse nem mesmo em mangas de camisa. À noite, ele sempre chegava até ela vestido com sua camisa de dormir. Oh, ela tinha visto Neville e seus primos em suas ceroulas quando eles nadavam durante os verões de infância, ela supôs, da mesma forma que eles a tinham visto também. Mas todos eles eram apenas crianças na época. Ela estava chocada por, inegavelmente, Lorde Trentham ter se despido bem na sua frente. Era... bem, era bárbaro. Nenhum cavalheiro teria removido nem mesmo o casaco sem pedir sua permissão primeiro, a maioria não teria sequer perguntado, simplesmente porque não seria apropriado. Mas seu choque se devia menos ao pudor e indignação, ela teve que admitir ao vê-lo nadar, do que à reação com a visão de seu corpo quase nu. Era a própria perfeição, na verdade era magnífico. Ela não tinha nada com que compará-lo, era verdade, ninguém com quem compará-lo. Mas achou que nenhum homem poderia se comparar. Seus ombros eram largos, o peito largo. Seus quadris eram estreitos, suas pernas longas e poderosas. Quando ele parou, parecia tal qual uma escultura finamente


esculpida, Deus! - Não que ela já tivesse visto. Quando se moveu, ondulando seus músculos, parecia um deus guerreiro que saltara para a vida vibrante. Ela poderia ser culpada por encontrar-se como os joelhos fracos e o coração batendo desesperadamente? De estar encontrando dificuldades para respirar normalmente? E até esquecer-se de algo tão simples como um tornozelo dolorido? Poderia ela ser culpada por querer uma repetição de seus beijos? Por querer, na verdade, muito mais do que apenas beijos? Por estar sentindo algo tão básico e grosseiro como ... luxúria? Foi uma boa coisa, talvez, que ele tivesse dado um mergulho, que ele estivesse usando a energia que ela sabia que ele queria usar sobre ela, que sua ausência lhe desse tempo para ter tanto o seu corpo como suas emoções sob controle. Na verdade, foi, sem dúvida, uma coisa boa. Mas como ela poderia manter-se sob controle quando ele nadava com tanta facilidade, graça e poder; quando, até mesmo a esta distância, ela podia ver os músculos poderosos de seus braços, ombros e pernas, a água e a luz solar fazendo a sua carne brilhar como se fosse oleada? Ela poderia desviar o olhar, é claro. Mas como fazer isso quando dentro de poucos dias, ela teria ido de Penderris e nunca iria vê-lo novamente? Ela agarrou as pernas com mais força e sentiu a dor crua de lágrimas não derramadas em sua garganta e atrás de seu nariz. E também sentiu a dor surda de um tornozelo machucado. Deulhe toda a sua atenção e esticou a perna para frente outra vez. E reposicionou as almofadas cuidadosamente debaixo de seu joelho e pé. Ela não olhou para o mar ou, mais especificamente, para o homem quase nu a nadar nele. Seria justo, se suas extremidades congelassem e caíssem!


Ele fora deliberadamente exibido diante dela. Um pavão usando as cores deslumbrantes e o tamanho extravagante de sua plumagem para atrair a fêmea. Ele estava usando o seu corpo quase nu. E se ele tivesse se despojado e corrido para a água para se refrescar? Ou ele tinha feito isso para subir sua temperatura na direção oposta? Gwen inclinou a cabeça para trás contra a rocha atrás dela, sentiu a obstrução de seu chapéu, e puxou com impaciência as fitas para que pudesse lançá-lo de lado. Colocou a cabeça para trás novamente e fechou os olhos. A luz do sol era brilhante. O interior de suas pálpebras estava laranja. Não importava por que ele estava nadando. Ele não importava. Na verdade, não. Ou, pelo menos, seus sentimentos por ele, não. Eles estavam aqui para relaxar, para tirar proveito de um dia excepcionalmente lindo em belos cenários. Mas o senhor não está me cortejando, não é? Ela tinha dito a ele. Ela realmente não tinha feito uma pergunta, mas ele tinha respondido, de qualquer maneira. Não, eu não estou cortejando a senhora, Lady Muir. E, de alguma forma, foi à pergunta e a resposta que tinha acendido tudo o que tinha seguido. E ela começou. Foi culpa dela, então. Ela tinha trinta e dois anos de idade. Tinha tido namorados quando em sua primeira temporada e, em seguida, um marido. Ela tinha tido uma longa viuvez intercalada com mais namoros. Não era sem experiência, não era uma menina ingênua, inocente. Mas, de repente ela se sentiu como uma, não havia nada em sua experiência para ajudá-la a compreender o puro desejo que ela e Lorde Trentham sentiam um pelo outro. Como ela podia entendêlo quando ele não era o tipo de homem que poderia atraí-la, quer como um flerte ou como um possível marido? Isto, ela supôs, este novo sentimento inesperado, era o que levava as pessoas a terem casos.


Ela devia correr de volta para a segurança da casa antes que ele saísse da água, pensou, até que abriu os olhos e lembrouse de que estava a poucas milhas da casa e que ainda não conseguia colocar peso sobre o pé direito. Não tinha trazido suas muletas. Além disso, era tarde demais. Ele estava nadando em direção à praia, e já estava de pé na água rasa e depois, na praia. A água escorria pelo seu corpo e gotas brilhavam a luz do sol quando ele se aproximou. Seu cabelo curto estava colado à cabeça. Suas ceroulas se agarrando a ele como uma segunda pele. Gwen nem sequer tentava evitar olhar. Ele inclinou-se, pegou a toalha que tinha trazido e secou seu peito, ombros, braços e, em seguida, seu rosto. Ele olhou para ela. Seu mergulho não tinha feito nada para aliviar seu humor, parecia. Ele estava franzindo a testa, talvez até mesmo carrancudo. - A senhora disse que iria me assistir com inveja - disse ele. Ela disse isso? - Oh, o que o senhor está fazendo? - Ela gritou, de repente. Ele estava debruçado sobre ela e pegando-a em seus braços. Sua pele estava fria e tinha cheiro de sal e masculinidade. E muito... nua. Ela podia sentir a umidade de suas ceroulas contra seu lado antes que ele a içasse para cima. Ela envolveu ambos os braços em volta de seu pescoço. - Não. Mas ele estava caminhando pela praia de novo, e a maré estava mais cheia agora do que tinha estado quando ele fora pela primeira vez. - Por que vir a uma praia, - disse ele - para apenas sentar-se e observar? Poderia muito bem ficar em casa e ler.


- Oh, por favor! Ela implorou - ele entrou na água e ela pôde sentir alguns salpicos de água fria contra os braços nus. - Por favor, Lorde Trentham, não me solte. Eu não tenho nenhuma muda de roupa. E deve estar frio como o ártico. - Está - ele disse. Ela se agarrou com mais força e, em seguida, pressionou o rosto em seu pescoço e riu sem poder fazer nada. - Eu posso parecer divertida, - disse ela - mas não sou. Por favor. Oh, por favor, Hugo. Ele a apertou mais ainda em seus braços, ela percebeu. E ele estava segurando-a com força. Um truque? Para acalmá-la em uma falsa sensação de segurança? - Eu não vou deixá-la cair - disse ele em voz baixa contra sua orelha. - Eu não seria tão cruel. Mas não há nada como estar aqui fora, vendo a luz criar muitas cores e máscaras sobre a água, e ouvi-la e cheirá-la. Girou à direita com ela. Ela levantou a cabeça e, em seguida ele a girou cerca de duas vezes mais, e ela riu com a exuberância do feito. Estava mais frio aqui fora, mas não muito frio, embora, talvez, o calor do corpo tivesse algo a ver com isso. Ela nunca tinha realmente gostado da água. Mas eles pareciam estar em um vasto e cintilante mundo líquido, que era pura beleza e não ameaça. Sentia-se perfeitamente segura nos braços fortes e quentes, de um homem que não iria deixá-la - que nunca iria deixá-la cair. Ela o havia chamado de Hugo, ela percebeu. Oh, Deus! Será que ele tinha notado? - Gwendoline - ele disse e parou de girar. Ele tinha notado.


Seus olhos se encontravam apenas a polegadas de distância dos seus próprios. Mas ela não podia suportar a intensidade do que viu ali. Ela abaixou a cabeça para descansar contra seu pescoço novamente e fechou os olhos. Será que ela se lembraria da maravilha pungente deste momento para todo o resto de sua vida? Ou era uma fantasia tola imaginar que iria? Ela pensava que isso poderia ser mais do que apenas atração física. O que ela estava sentindo não era apenas luxúria, embora fosse, sem dúvida, isso também. Havia também ... Oh, Deus! Por que não havia palavras para descrever os sentimentos de forma adequada? Talvez ela estivesse se apaixonando por ele, e tudo o que isso significava. Mas ela não pensaria nisso agora. Ela iria trabalhar com isso em outro momento. Ele suspirou então, profundamente e de forma audível. - Eu esperava desprezá-la - disse ele. – Ou, pelo menos, estar irritado com você. Ela abriu a boca para responder e fechou-a novamente. Ela não queria começar qualquer conversa. Ela queria simplesmente desfrutar. Levantou a cabeça e encostou contra sua face. Eles olharam para a água juntos, e ela sabia que iria se lembrar. Sempre e para sempre. Depois de alguns minutos ele se virou, sem uma palavra e saiu do mar com ela, até a areia, em direção ao cobertor, onde a colocou no chão. Ele tirou suas ceroulas molhadas, pegou a toalha e enxugou-se novamente sem virar de costas. Gwen não desviava o olhar. Ou talvez ela não pudesse. Ela nem estava chocada. - Você pode dizer não - disse ele, olhando para ela quando deixou cair à toalha. - Seria melhor dizer isso agora, se for preciso, no entanto. Mas você pode dizer que não a qualquer


momento antes de eu entrar em seu corpo. Eu não vou me forçar em cima de você. Ah, sempre o homem do discurso direto. Gwen percebeu que estava prendendo a respiração. Tinha que chegar a isso, então? Pergunta tola. Ela sabia que muitas mulheres eram da opinião de que as viúvas eram para serem invejadas, desde que tinham os meios com os quais viver de forma independente, como Gwen tinha. As viúvas estavam livres para tomar amantes enquanto fossem discretas sobre isso. Em alguns círculos, era quase esperado que fizessem, de fato. Gwen nunca tinha sido tentada. Até agora. Quem saberia? Ela saberia. E Hugo saberia. Quem iria se machucar? Ela poderia. Ele, quase certamente, não o seria. Ninguém mais o faria. Ela não tinha marido, nenhum noivo, sem namorado firme. Ele não tinha esposa. Ela iria se arrepender depois. Iria se arrepender de qualquer maneira. Se dissesse que não, sempre se perguntaria o que teria sido e como. Para sempre lamentar o que não tinha descoberto. Se não dissesse não, iria para sempre ser atormentada pela culpa. Possivelmente. Talvez não. Os pensamentos caíram em sua mente em um emaranhado confuso.


- Eu não estou dizendo que não - disse ela. - Eu não vou dizer não. Eu não sou uma provocadora. E assim foram tomadas decisões de grandes momentos, ela pensou. Impulsivamente, sem a devida consideração. Mais a partir do coração do que da cabeça. Por impulso, em vez de uma vida inteira de experiência e moralidade. Ele baixou ao seu lado e mudou a almofada para que ela apoiasse a cabeça sobre ele. Jogou de lado sua capa e as duas almofadas sob a perna direita. Deslizou seus grandes dedos grossos em seu cabelo, levantou seu rosto e beijou sua boca aberta. Sua língua pressionou fundo e retirou-se novamente. Ajoelhou-se ao lado dela, puxou o vestido de seus ombros e para baixo sobre os seios, que foram levantados ao soltarem-se. Ele olhou para ela enquanto ela resistia ao desejo tolo de se cobrir com as mãos. Mas ele fez isso para ela quando estendeu uma mão sobre um de seus seios e baixou a cabeça para o outro. Ela abriu os dedos sobre o cobertor, em cada lado dela, quando ele tomou seu mamilo em sua boca e o chupou, esfregando a língua sobre a ponta. Com o polegar e o indicador rodando o mamilo do outro peito, apertando quase, mas não completamente, a ponto de doer. Uma dor crua, quase insuportável, se espalhou para cima, para a garganta, e para baixo, através de seu útero, para lubrificar entre as coxas. Ela levantou as mãos e colocou uma sobre seu pulso e a outra contra a parte de trás de sua cabeça. Seu cabelo estava úmido e quente. Ele a beijou novamente, em seguida, sua língua simulando o ato nupcial com cursos longos, profundos em sua boca. Ele era, ela percebeu ao longo dos próximos minutos, dez vezes, talvez uma centena de vezes, mais experientes do que ela. Ela sabia apenas sobre beijos nos lábios e do ato em si.


Ele não a despiu completamente, mas suas mãos encontraram seu caminho infalivelmente sob suas roupas para desamarrar suas roupas íntimas e encontrar lugares que lhe davam prazer e estavam em doce agonia. Eram mãos grandes, dedos suaves, cuja delicadeza ela tinha descoberto antes. Mas eles eram mais do que apenas suave. Havia sedução erótica neles. Eles podiam tocá-la como um instrumento musical e não apenas com competência, pensou com humor irônico, mas com puro talento também. E, finalmente, quando o corpo dela cantarolou com desejo e necessidade, quase ao ponto de dor, ele usou uma daquelas mãos sobre o coração dela. Encontrou-a sob a musselina de seu vestido e da seda de suas anáguas, e seus dedos fizeram amor com ela, separando, acariciando, brincando, até mesmo roçando. Um dedo deslizou, longo e rígido dentro dela, ela apertou seus músculos sobre ele e ambos ouviram e sentiram sua própria umidade. O dedo foi removido e substituído por dois, e, em seguida, foram removidos e substituídos por três. Penetraram-na enquanto ela tentava capturá-los com seus músculos, conduzindo-a para perto da loucura. Ela agarrou seus ombros e os apertou com os dedos. Ao mesmo tempo, a ponta de seu polegar estava fazendo algo que ela era não conscientemente, mas a qual reagiu abalando-se sobre seus dedos e mãos, gritando. Como ele fez isso? Ele estava diretamente sobre ela, em seguida, bloqueando a luz solar, os joelhos empurrando as pernas para abri-las, seu peso em seus antebraços, seus olhos olhando fixamente para dentro dos dela. - Podemos nos satisfazer com isso, se você quiser - disse ele, sua voz grave. - Ainda não é tarde demais para dizer não. Um arremedo de sua virtude permaneceria intacta. - Eu não vou dizer não - ela disse a ele.


E ela sentiu-o contra a área sensível que ele tinha acabado de acariciar, encontrou-a, posicionou-se em seguida, penetrou duro e firme nela até que estava profundamente enraizado. Ela percebeu que tinha inalado lentamente e estava segurando a respiração. Ele era realmente grande. Mas não a estava machucando. Pelo contrário. Ele tinha se assegurado de que ela estivesse molhada o suficiente para recebê-lo sem desconforto. Ela exalou o ar, relaxou e, então, apertou seus músculos internos ao redor dele. Ela estava feliz. Oh, ela estava feliz. Ela nunca iria se arrepender. Ele havia esperado por ela, ela percebeu. Ele ainda estava olhando-a nos olhos, embora seu olhar tivesse perdido um pouco de sua intensidade habitual e suas pálpebras estavam pesadas e nuas de desejo. Mas não esperaria. Ele lhe dera um prazer delicioso, mesmo antes de entrar. Agora era a vez dele. E ele entendeu. Ele abaixou a cabeça até que sua testa tocou em seu ombro, e penetrou-a com golpes profundos e rápidos, poderosos, metade de seu peso sobre ela, a outra metade ainda apoiado nos antebraços. Ela podia ouvir a aspereza de sua respiração. Ela levantou as pernas do cobertor e entrelaçou-as sobre as coxas dele. Sentiu uma pontada momentânea em seu tornozelo direito, mas ignorou. Inclinou sua pélvis para que ele pudesse vir ainda mais profundamente. Ouviu a sucção molhada de seus saques e sentiu a profunda satisfação da penetração de suas investidas. Embora soubesse que isso não era principalmente para ela - ele estava no auge de sua própria necessidade - sentiu outra vez a sensação de paixão, renovada e aumentada, pressionando-se contra ele, igualando o seu ritmo com o abrir e fechar de seus músculos, movendo os quadris em um movimento circular e rítmico.


Ela não tinha nenhuma experiência real. Ah, era incrível que ela não tivesse quase nenhuma. Ela acasalou com ele por puro instinto. Mas ela, certamente, não tinha feito nada para amortecer o seu ardor. Ele a penetrava com a mesma potência até que se acalmou de repente, rígido em todos os músculos, se esticando para se aprofundar mais, quente e escorregadio com o suor, e ela sentiu o jorro quente de sua libertação no mesmo momento, enquanto falava baixo contra seu ouvido. - Gwendoline - disse ele. E relaxou seu peso considerável totalmente para baixo, em cima dela. Não havia colchão sob suas costas, somente a areia debaixo do cobertor. Quem teria adivinhado que a areia era tão dura e inflexível? Mas ela não se importava. Ela não se importava. Ela provavelmente o faria. Talvez, mas não rapidamente. Agora não. Ainda não. Ele murmurou alguma coisa, depois de um minuto ou dois, e rolou de cima dela para se deitar ao seu lado, um braço sobre os olhos, com uma perna flexionada no joelho. - Eu sinto muito - disse ele. Devo ter esmagado você. Ela inclinou a cabeça para um lado para descansar em seu ombro. Seria possível que sentir o cheiro de suor fosse bom? Ela pensou que seu vestido estava sobre os seios e a saia empurrada para baixo, sobre suas pernas, mas não fez nenhuma concessão à modéstia. Ela deslizou para um estado relaxado a meio caminho entre o sono e a vigília. O sol brilhou calorosamente sobre eles. As gaivotas estavam chamando novamente. Chamando


eternamente. Soando duro e triste. O som do mar também estava lá, tão estável e tão inevitável como um piscar de olhos. Ela não acreditava que nunca iria se arrepender. Mas é claro que ela faria. O ciclo eterno da vida. O equilíbrio dos opostos. Ela voltou à plena consciência quando ele se levantou e, sem uma palavra para ela, caminhou a curta distância até a água. Ele entrou nela um pouco e se inclinou para lavar-se. Lavando o suor? Lavando-se dela? Sentou-se e arrumou seu vestido corretamente e depois, de alguma forma, refez seus laços. Colocou a capa sobre os ombros e apertou-a no pescoço. De repente, sentiu um pouco de frio.

Voltaram para a casa quase em silêncio. O sexo tinha sido bom. Realmente muito bom, na verdade. E tanto mais porque ele tinha passado fome dela por muito tempo. Mas tinha sido um erro de qualquer maneira. Um eufemismo colossal. O que se deve fazer quando se tinha feito amor com uma dama? E quando, talvez, fosse possível que a tivesse engravidado? Dizer obrigado e deixá-la? Não dizer nada? Pedir desculpas?


Oferecer casamento? Ele não queria se casar com ela. O casamento não era sobre deveres. Não exclusivamente sobre eles, de qualquer maneira. E as partes do casamento que não eram os deveres eram tão importantes quanto eles. Um casamento com Gwendoline era impossível. E, para ser justo, isso se aplicava a ambos. Ele se perguntou se ela esperava uma oferta. E se ela aceitaria, se ele fizesse uma. Seu palpite era que a resposta a ambas seria um rotundo não. O que o tornou seguro para oferecer, ele supôs, e, de alguma forma, apaziguar a sua consciência. Tolo pensamento. Ele tomou a decisão de não dizer nada. - Como está o tornozelo? - Perguntou. Idiota. Conversador brilhante. - Ele está bem - disse ela. - Eu vou ter bastante cuidado para não fazer nada imprudente novamente. Se ela tivesse sido mais cuidadosa alguns dias atrás, ela teria subido com segurança ao seu esconderijo, sem saber que ele estava lá, e ele não teria destinado a ela um só pensamento desde então. Sua vida seria diferente. E se seu pai não tivesse morrido, ele pensou com alguma exasperação, ele ainda estaria vivo. - O seu irmão vai enviar uma carruagem para a senhora em breve? - Perguntou. Ocorreu-lhe, de repente, que ele poderia ter se oferecido para levá-la para Newbury Abbey ele mesmo e salvá-la de alguns dias em Penderris.


Não. Má ideia. - Ele não demorará em enviá-la - disse ela. – E como tenho certeza que ele não demorará, então ela pode chegar no dia depois de amanhã. Ou, certamente, o dia depois disso. - A senhora terá o prazer de ser capaz de se recuperar em casa, com sua família ao seu redor - disse ele. - Oh, - ela disse - eu vou. Eles estavam falando como um par de estranhos educados que não tinham um cérebro inteiro entre os dois. - A senhora vai para Londres depois da Páscoa? Perguntou. - Para a temporada? - Espero que sim - disse ela. - Meu tornozelo estará curado até então. E o senhor? Vai para Londres também? - Vou - disse ele. - É onde eu cresci, como sabe. A casa do meu pai está lá. A minha casa agora. Minha irmã está lá. - E o senhor vai querer buscar uma esposa lá - disse ela. - Sim. Bom Deus! Tinham realmente sido íntimos um com o outro na praia da enseada menos de uma hora atrás? Ele limpou a garganta. - Gwendoline - ele começou. - Por favor - disse ela, interrompendo-o. - Não diga nada. Vamos apenas aceitá-lo pelo que foi. Foi ... agradável. Oh, o que é uma palavra ridícula para escolher. Foi muito mais do que agradável. Mas não é nada para ser comentado, nem desculpado, nem justificado, ou qualquer outra coisa. Eu não me arrependo e espero que você também não. Vamos deixar por isso mesmo.


- E se você estiver grávida? - Perguntou ele. Ela virou a cabeça bruscamente e olhou para ele, claramente assustada. Ele manteve os olhos na pista ante eles, olhando de forma constante entre as orelhas de cavalo que trotava a frente do caminho. Certamente ela tinha pensado nisso? Ela tinha mais a perder, afinal. - Eu não estou - disse ela. - Não posso ter filhos. - De acordo com um charlatão - disse ele. - Eu não estou grávida - ela disse, soando teimosa e um pouco chateada. Ele olhou para ela brevemente. - Se você estiver, - disse ele - você deve me escrever imediatamente. Ele disse a ela onde ele morava em Londres. Ela não respondeu, mas apenas continuou a olhar para frente. George, Ralph e Flavian deviam ter tido uma longa viagem. Estavam saindo do estábulo e se aproximavam. Todos se viraram para vê-los chegar. - Fomos para a enseada - disse Hugo quando ele fez o cavalo parar. - É sempre mais pitoresca na maré alta. - O ar fresco estava adorável - disse Lady Muir. - É realmente muito quente embaixo nessa pequena praia protegida. Meu Deus, até mesmo para seus próprios ouvidos soavam como um par de conspiradores sendo tão enfáticos em sua simulação entusiasta de inocência, que eles próprios se proclamavam culpados como o inferno.


- Eu imagino, - Ralph disse – que as conversas de salão, hoje, serão adornadas com as previsões do sofrimento terrível que certamente enfrentamos como punição pelo glorioso tempo de hoje. - Sem dúvida, - Flavian disse - vai nevar amanhã. Com um forte vento norte. E nós nunca mais seremos tão tolos a ponto de pensar em não desfrutar de um tal dia excepcionalmente belo. Todos riram. - A senhora não levou suas muletas, Lady Muir? Perguntou George. - Muletas não são recomendadas para caminhos de penhasco, seixos e areia - disse Hugo. - Vou levá-la até a porta e, depois, para dentro. - Pode ir, então - disse George, dando a Hugo um olhar penetrante. Ele não tinha sido enganado, pelo menos, e não seria nada menos que um milagre se Flavian tivesse sido. Ou Ralph, sobre o assunto. - Ouso dizer que Imogen viu todos nós chegarmos e ordenou a bandeja de chá lá para cima. Hugo passou a caminho de casa, com uma silenciosa Lady Muir ao lado dele.


Capítulo 10 O sol brilhava tão intensamente no dia seguinte, embora Gwen poderia ver, quando parou em frente da janela da sala de estar antes de Vera chegar, que os galhos da árvore estavam balançando. Deveria estar ventando muito. E também estava um pouco mais frio, o Duque de Stanbrook tinha dito depois de um passeio a cavalo mais cedo. Quando Vera chegou, informou sombriamente que todos os amigos haviam concordado que eles sofreriam por este tempo não corresponder ao verão em nada. - Guarde minhas palavras - disse ela. – Apenas não é natural ter todo esse tempo bom neste início do ano. Estou muito determinada a não apreciá-lo. Vou simplesmente me desanimar quando a chuva começar, como ela inevitavelmente fará, trazendo o frio. E não é da minha natureza me desanimar, como você muito bem sabe, Gwen. Eu vim para animá-la. Não havia ninguém para me cumprimentar quando eu cheguei cinco minutos atrás, exceto o mordomo. Eu não estou reclamando, mas acho descortês de Sua Graça, negligenciar a cunhada de Sir Roger Parkinson tão descaradamente. Mas o que se deve esperar? - Talvez a carruagem tenha voltado com você, mais cedo do que ele previa - disse Gwen. - Ele não a negligenciou para enviar a carruagem, depois de tudo, e isso é o mais importante. Teria sido um longo caminho para você. E aqui vem a bandeja com café e biscoitos para duas pessoas. Eu lhe agradeço por ter vindo, Vera. É muito gentil da sua parte." - Bem, - Vera disse enquanto olhava atentamente para o prato de biscoitos na bandeja que um lacaio depositava sobre a mesa - não é de a minha natureza negligenciar os meus amigos, Gwen, como você bem sabe. Vejo que não somos importantes o


suficiente para nos serem oferecidos os biscoitos de passas que tivemos ontem. Hoje temos simplesmente os de aveia. - Mas seria muito tedioso, - disse Gwen - nos oferecerem os mesmos alimentos dia após dia. Você fará a gentileza de nos servir, Vera? Um pouco mais de três horas mais tarde, Vera estava a caminho de casa, apesar de sua sugestão de que Gwen deveria estar se entregando ao desânimo se ainda precisava de um descanso à tarde, como consequência de seu pequeno acidente. Gwen, é claro, não precisava dormir. Tinha dormido muito na noite passada, ou, pelo menos, tinha ficado em sua cama por muito tempo. Havia tomado o caminho da covardia e enviara suas desculpas quando o lacaio habitual havia chegado a seu quarto para levá-la até a sala de jantar. O passeio a deixara cansada, ela tinha alegado, e implorara à Sua Graça para desculpá-la pelo resto da à noite. Ela tinha dormido. Tinha tido longos períodos de vigília também, nos quais tinha revivido os eventos na praia e se perguntado o que Lorde Trentham teria dito se ela tivesse permitido que ele continuasse o que tinha começado a dizer no caminho de volta para a casa. Gwendoline, profundamente.

ele

tinha

dito

depois

de

respirar

E ela o tinha interrompido. Iria sempre se perguntar o que ele teria dito. Mas teve que pará-lo. Estava se sentindo emocionalmente abalada e completamente incapaz de lidar com mais nada. Precisava de um tempo sozinha. Ela não o tinha visto desde que ele a tinha levado até o quarto após tomarem o chá no desenho com todos os outros. Ele


não tinha falado uma palavra. Nem ela. Ele tinha apenas a colocado no chão em frente à cama, e se afastado. Olhou para ela com aqueles intensos olhos escuros, inclinou a cabeça rigidamente, e saiu do quarto, fechando a porta silenciosamente atrás dele. Ela abriu o livro, mas era inútil tentar ler, percebeu depois de alguns minutos, durante os quais seus olhos tinham percorrido a mesma página pelo menos uma dúzia de vezes, sem uma só vez captar seu significado. O inchaço de seu tornozelo parecia ter desaparecido completamente hoje, e a maior parte da dor tinha ido com ele. Mas quando o Dr. Jones viera pela manhã, enquanto Vera estava lá, ele tinha enfaixado o tornozelo novamente e a aconselhado a continuar a manter seu peso fora do pé e ter paciência. Era muito difícil ser paciente. A carruagem para Newbury, eventualmente, chegaria amanhã. Mais provavelmente, depois de amanhã. Era uma espera interminável. Ela queria ir embora agora. Desistiu de qualquer pretensão de leitura e colocou o livro de barriga para baixo sobre o colo. Deitou a cabeça sobre uma almofada e fechou os olhos. Se pudesse ao menos dar um passeio lá fora. Se não estivesse apaixonada por ele, pensou, não sabia que palavras usaria para descrever o estado de seu coração. Era mais do que apenas a luxúria ou a memória do que eles tinham feito na enseada. Era, certamente, mais do que simples atração e muito mais do que apenas gostar. Oh, ela o amava. Que tolice! Não era nenhuma menina ingênua. Não era uma romântica incurável. Era um amor que não poderia trazer nada além de desgosto se tentasse se agarrar a ele ou persegui-lo. De qualquer


modo, provavelmente não poderia prosseguir. Eram necessários dois. Ela estaria partindo em breve. Embora tanto ela como Lorde Trentham estariam em Londres mais tarde, na primavera, era improvável seus caminhos se cruzarem. Eles se moviam em diferentes círculos. Ela não iria se contentar com um caso. Duvidou que ele o fizesse. E ambos haviam concordado que o casamento estava fora de questão. Oh, por que a carruagem de Neville não podia chegar hoje? E então, enquanto pensava, houve um leve toque na porta da sala de estar e essa se abriu calmamente. Gwen olhou assustada - e esperançosamente? - sobre o ombro e viu o Duque de Stanbrook em pé. Ela não estava desapontada, disse a si mesma quando sorriu para ele. - Ah, a senhora está acordada - disse ele, empurrando a porta. - Eu lhe trouxe um visitante, Lady Muir. E não é a Sra. Parkinson desta vez. Ele deu um passo para um lado e outro cavalheiro passou por ele. Gwen sentou-se no sofá. - Neville! - Ela gritou. - Gwen. Seus olhos não a enganavam. Realmente era seu irmão, o rosto preocupado. Ansiosamente ele se apressou até o outro lado da sala de estar e se inclinou sobre ela para tomá-la em um grande abraço de urso. - O que você fez a si mesma, enquanto eu estava longe? – Perguntou a ela.


- Foi um acidente bobo - disse ela, devolvendo-lhe o abraço. Mas foi minha perna ruim que torci, Nev, e ainda não posso colocar qualquer peso sobre meu pé. Sinto-me terrivelmente estúpida e um pouco farsante, pois é apenas uma torção no tornozelo, ainda que tenha causado um problema sem fim para muitas outras pessoas. Mas que surpresa maravilhosa! Eu não esperava a carruagem até amanhã de manhã e, certamente, não esperava que você viesse com ele. Oh, pobre Lily e as crianças, tendo que ficar sem você por vários dias por minha causa. Não devem estar contentes comigo, eu diria. Mas, querido, parece que se passou um ano em vez de menos de um mês desde que eu saí de casa. Ele se sentou na ponta do sofá e apertou-lhe as mãos. Parecia muito familiar. - Foi Lily quem sugeriu que eu viesse - disse ele. - Na verdade, ela insistiu, e não há pior tirana do que Lily quando coloca uma ideia em sua cabeça. Aparentemente, Devon e a Cornualha são invadidas por assaltantes cruéis, todos prontos para livrá-la de suas joias e de seu sangue, não necessariamente nessa ordem, se eu não estiver com você na viagem, mas todos, certamente, virarão as costas e correrão para se esconder se eu estiver. Ele sorriu para ela. - Querida Lily - disse ela. - Mas por que você não está na casa da Sra. Parkinson? Perguntou. - Isso é uma longa história - disse ela, fazendo uma careta. Mas, Neville, o Duque de Stanbrook tem sido extremamente gentil e hospitaleiro. E tem seus hóspedes. - Tem sido um prazer - disse o duque conforme Neville olhava para ele. - Minha empregada aprontará um quarto para


você, Kilbourne, enquanto você e Lady Muir se juntam a mim no escritório para um chá. Lady Muir tem muletas. Neville levantou uma mão. - Eu agradeço a oferta de hospitalidade, Stanbrook - disse ele. - Mas ainda estamos no início da tarde, e o clima está perfeito para viagens. Se Gwen sentir-se bem para viajar com o pé elevado no assento da carruagem, partiremos assim que suas malas forem embaladas e trazidas para baixo. Isto é, a menos que isso cause incômodos desnecessários. - Será como você deseja - disse o duque, inclinando a cabeça para Neville e olhando interrogativamente para Gwen. - Eu devo estar pronta para partir assim que colocar roupas de viagem - Gwen assegurou a ambos. Onde estava Lorde Trentham? Ela estava fazendo a mesma pergunta silenciosa menos de uma hora mais tarde, depois de se trocar e ser trazida de volta para baixo. O lacaio a colocou no chão no corredor, onde Lady Barclay a esperava com as muletas. O duque de Stanbrook e seus outros convidados estavam todos reunidos, conversando com Neville. Gwen apertou a mão de todos calorosamente se despedindo. Mas onde estava Lorde Trentham? Era como se Lady Barclay tivesse ouvido seu pensamento. - Hugo caminhou ao longo do promontório comigo e Vincent depois do almoço - disse ela. - Mas quando voltamos, ele desceu para a praia. Ele muitas vezes passa horas lá em baixo antes de retornar. Todos os seus colegas voltaram os olhos para Gwen. - Não vou vê-lo novamente, então - disse ela. – Sinto sobre isso. Teria gostado de lhe agradecer pessoalmente por tudo que


ele tem feito por mim. Talvez você pudesse transmitir meu adeus e agradecê-lo, Lady Barclay? " Ela não ia mais vê-lo. Talvez nunca. O pânico a ameaçou. Mas Gwen sorriu educadamente e virou-se para a porta. Antes que Lady Barclay pudesse responder, o próprio Lorde Trentham apareceu na porta, respirando pesadamente, corado com os olhos grandes e ferozes. Ele olhou ao redor de todos e, então, seus olhos a focaram. - A senhora está indo embora? - Perguntou. O alívio a inundou. Ao mesmo tempo, desejava que ele tivesse ficado afastado um pouco mais. As velhas contradições. - Meu irmão veio me buscar - disse ela. - O conde de Kilbourne. Neville, este é Lorde Trentham, quem me encontrou quando me machuquei e me trouxe até aqui. Os dois homens se entreolharam. Medindo-se mutuamente, em uma milenar forma masculina. - Lorde Trentham - disse Neville. - Gwen mencionou seu nome em sua carta. Ele soava familiar e agora que vejo você, entendo o porquê. Você era capitão o Emes? Você levou o Forlorn Hope em Badajoz. Estou honrado. E em dívida com você. Você tem sido extraordinariamente gentil com a minha irmã. Ele ofereceu sua mão direita, e Lorde Trentham apertou-a. Gwen virou decididamente para o Duque de Stanbrook. - O senhor foi à gentileza e cortesia em pessoa - disse ela. As palavras não são suficientes para expressar minha gratidão.


- Nosso clube está perdendo seu membro honorário - disse ele, sorrindo em seu jeito austero. - Vamos perdê-la Lady Muir. Talvez eu a veja na cidade no final do ano? Eu pretendo estar lá por um tempo curto. E então todas as despedidas foram ditas, e não havia mais nada a fazer senão sair. Era algo para o qual ela ansiava apenas uma hora atrás. Agora, seu coração estava pesado, e ela não ousava olhar para onde todo seu coração ansiava. Neville deu um passo mais perto dela, com a clara intenção de levá-la até a carruagem, e ela virou-se para entregar as muletas a um lacaio que estava nas proximidades. Mas Lorde Trentham se moveu mais rápido que seu irmão e pegou-a em seus próprios braços sem um pedido de licença. - Eu a carreguei até aqui, milady, - disse ele - e eu vou levála para fora. E ele saiu pelas portas apressadamente, descendo os degraus com ela, bem à frente de Neville ou qualquer outra pessoa. - Então é isso - disse ele. - Sim. Havia um milhão de coisas que ela queria dizer certamente muitas. Mas não conseguia pensar em uma única. Era melhor assim. Realmente, não havia nada a dizer. A porta da carruagem estava aberta. Lorde Trentham inclinou-se para dentro com ela e a depositou com cuidado sobre o banco voltado para os cavalos. Ele pegou uma das almofadas de trás do assento oposto, fixou-a no banco e levantou o pé machucado até ela. Então, ele olhou nos olhos dela. Seu próprio olhar escuro e ardente. Sua boca expunha uma linha implacável. Sua mandíbula parecia mais como um granito do que


nunca. Ele parecia ter endurecido, como um oficial militar perigoso novamente. - Tenha uma boa viagem - disse ele, antes de retirar a cabeça de dentro da carruagem transporte e endireitar-se. - Obrigada - disse ela. Ela sorriu. Ele não o fez. Ontem, nessa mesma hora, eles estavam fazendo amor na praia, ele nu, tanto quanto ela. Neville entrou no carro e sentou-se ao lado dela, a porta foi fechada e eles partiram. Gwen se inclinou para frente e para os lados, para acenar pela janela. Eles estavam todos lá fora, o duque e seus convidados, incluindo Lorde Trentham, que estava um pouco além dos outros, seu rosto ferozmente inexpressivo, com as mãos cruzadas atrás das costas. - Eu me pergunto se você não morreu de susto, Gwen - disse Neville, rindo baixinho. - Ouso dizer que foi o rosto do capitão Emes que rompeu as paredes de Badajoz. Embora ele mereça todos os elogios que se seguiram. Todos concordam que não havia outro homem em todo o exército que poderia ter feito o que ele fez naquele dia. É justo que ele deva se sentir orgulhoso de si mesmo. Ah, Hugo. - Sim - ela disse, descansando a cabeça contra as almofadas e fechando os olhos. - Neville, eu apenas estou feliz por você ter vindo. Estou tão feliz. O que não explicava por que, um momento depois, as lágrimas correram pelo seu rosto e ela começou a soluçar. Em uma vã tentativa de silenciar seus soluços, Neville passou um


braço por seus ombros, fazendo sons suaves e tirando um grande lenço de linho do bolso de seu casaco. - Pobre Gwen - disse ele. - Você passou por uma provação desagradável. Mas em breve você estará de volta em casa, onde mamãe pode cuidar de você e aliviar seu coração - e Lily também, não tenho dúvidas. E ambas as crianças mais velhas pediam a tia Gwen, quase que a partir do momento que você os deixou, e exigiam saber quando você voltaria. Eles ficaram encantados em me ver partir quando souberam que eu levaria você volta comigo. O bebê, é claro, esteve indiferente à coisa toda. Desde que tenha Lily por perto, ela é perfeitamente feliz, pequena criatura sábia. Ah, e antes que comece a pensar o contrário, eu vou estar bastante feliz por ter você de volta em casa também. Ele sorriu para ela. Gwen soluçou mais uma vez e lhe ofereceu um sorriso aguado. - E em breve você vai ter muito mais para manter sua mente fora de seu tornozelo - disse Neville. – A família estará caindo sobre nós para a Páscoa. Você tivesse lembrado? - Claro - disse ela, embora na verdade ele tinha sua mente desligada ultimamente. Lady Phoebe Wyatt, a mais recente adição à família de Neville e Lily, seria batizada, e um grande número de seus parentes estavam vindo à abadia para ajudar a celebrar a ocasião. Estavam incluídos dois primos favoritos de Gwen, Lauren e Joseph. Ah, sentia-se bem por estar voltando para casa. Voltando para seu próprio mundo familiar e às pessoas que ela amava, às pessoas que a amavam. Virou a cabeça para olhar para fora, através da janela da carruagem. Tenha uma viagem agradável, ele tinha dito.


O que ela esperava? O lamento de um amante? De Lorde Trentham? - Seria bom pararmos na aldeia - disse ela. - É melhor eu dizer adeus à Vera.

Hugo foi direto para Londres depois de deixar Penderris. Ele desejava ir para casa, para Crosslands, ficar tranquilo lá por um tempo, ver os novos cordeiros e bezerros, falar sobre o plantio de primavera com seu administrador, planejar o seu jardim de flores melhor do que ele tinha feito no ano passado, para ... bem, para lamber suas feridas. Ele sentia-se ferido. Mas, se fosse para Crosslands em primeiro lugar, poderia inventar desculpas para ficar lá por tempo indeterminado, e poderia, de fato, tornar-se o recluso que alguns de seus amigos do Clube dos Sobreviventes o haviam acusado de ser. Não havia nada de errado em ser um recluso se gostava de viver em sua própria companhia, como Hugo fizera, mesmo que seus amigos insistissem que não era o seu estado natural e que ele estava em perigo de explodir de alguma forma, um dia, como fogos de artifício à espera de uma faísca para inflamá-los. Mas havia algo de errado em ser um recluso, ou até mesmo um agricultor feliz e jardineiro, quando se tinha responsabilidades em outros lugares. Seu pai tinha morrido há mais de um ano agora, e desde aquela época Hugo não tinha feito nada mais do que olhar para os relatórios meticulosamente detalhados que William Richardson enviara a cada mês. Seu pai tinha escolhido seu gerente com cuidado e tinha confiado nele totalmente. Mas ele tinha dito a Hugo, durante essas últimas horas de sua vida, que Richardson era apenas um gerente, não um visionário. Os olhos de Hugo por várias vezes haviam parado em cima de algum detalhe nos relatórios, e ele sentira uma


coceira para fazer alguma mudança, para forçar uma nova direção, para se envolver. Mas era uma coceira que ele tinha teimosamente reduzido a zero. Ele não queria ser envolvido. Era uma atitude que não podia continuar mantendo. E Constance estava ficando mais velha a cada dia. Dezenove ainda era muito jovem, é claro, mesmo que ela, por vezes, houvesse insinuado em suas cartas que estava velha. Mas ele sabia que muitas meninas eram consideradas solteironas se não estivessem casadas antes de completar vinte. Apesar de que, no entanto, todas as meninas de dezoito ou dezenove anos deveriam divertir-se com outros jovens de sua própria idade. Elas deveriam estar observando potenciais parceiros, testando as águas, fazendo escolhas. Fiona estava muito doente para acompanhar Constance a qualquer lugar, e também estava muito doente para permitir que alguém tirasse Constance de perto dela. Como ela se arranjaria sem sua filha ao seu lado a cada segundo de seu dia? Não havia ninguém mais egoísta do que a sua madrasta. Só ele poderia enfrentá-la. E era algo que ele deveria fazer novamente, pois era o guardião de Constance. Ele resistiu à tentação de ir para Crosslands e, em vez disso, foi direto para Londres. A hora tinha chegado. Ele se armou de coragem. Constance ficou mais do que satisfeita em vê-lo. Gritou alto e veio correndo através da sala de estar da mãe quando ele foi anunciado, e lançou-se em seus braços. - Hugo! - Ela gritou. - Ah, Hugo. Você veio. Finalmente. E sem nos dar qualquer aviso, seu patife. Você vai ficar? Oh, diga que vai. Hugo. Ah, Hugo.


Ele a abraçou com força para deixar o amor e culpa o lavassem, na mesma medida. Ela era jovem, esguia, loura, bonita, com ávidos olhos verdes. Ela parecia muito com a mãe e o fez entender por que seu sóbrio, estável pai, tinha feito algo tão atípico como casar com a assistente de uma modista, dezoito anos mais jovem, depois de conhecê-la há apenas duas semanas. - Eu vou ficar - disse ele. - Prometi que viria na primavera deste ano, não foi? Você me parece muito bem, Connie. Ele a segurou ao longo do braço e olhou para ela. Havia um brilho em seus olhos e as faces estavam coradas, embora achasse que ela precisava obter mais luz do sol em sua pele. Ele veria o que poderia fazer para corrigir isso. Sua madrasta parecia igualmente feliz em vê-lo. Não que ele, muitas vezes, considerasse Fiona como sua madrasta. Ela era apenas cinco anos mais velha do que ele. Ele já era um rapaz crescido quando ela se casara com seu pai, muito mais velho do que ela. Ela o tinha festejado, lhe coberto de carinho, mostrado orgulho dele, o elogiado para seu pai e, em última análise, lhe ajudado em seu caminho. Ele não teria insistido para seu pai lhe comprar a comissão, se não tivesse sido por Fiona. Ele não tinha crescido querendo ser um soldado, depois de tudo. Pensamento estranho esse. Como sua vida poderia ter sido diferente. Era um pensamento para adicionar a todos os outros “se” de sua existência. Ela estendeu a mão para ele, um lenço a envolvendo. Ela ainda era linda, de uma forma abatida, debilitada. Era tão esbelta como Constance. Não havia cinza em seu cabelo e nem linhas em seu rosto. No entanto, havia uma palidez doentia de sua pele, que poderia ter sido causada pela verdadeira falta de saúde ou por doenças imaginárias que a mantinham constantemente em casa e inativa. Ela sempre tivera essas doenças. Ela as tinha usado para manter seu pai atencioso, embora, provavelmente, não tivesse precisado usar quaisquer


artimanhas para atingir esse objetivo. Seu pai a tinha adorado até o fim, mesmo que seu entendimento de sua índole o tivesse entristecido. - Hugo!”- Ela disse quando ele se inclinou sobre sua mão e levou-a aos lábios. - Você veio para casa. Seu pai estaria satisfeito. Ele pretendia que você cuidasse de mim. E de Constance também. - Fiona. - Ele soltou a mão dela e deu um passo para trás. Eu confio em que suas necessidades tenham sido integralmente cumpridas durante o ano passado, mesmo na minha ausência. Se eles não foram, alguém vai responder a mim. - Um homem magistral. - Ela deu um sorriso pálido. Sempre gostei disso em você. Sinto falta de companhia, Hugo. Nós sentimos falta de companhia, não é, Constance? - Mas você está aqui agora - disse Constance felizmente, tomando-o pelo braço. - E você vai ficar. Ah, vai me levar para ver nossos primos? Ou convidá-los para vir aqui? E você vai me levar... - Constance - disse a mãe em tom de queixa. Hugo sentou-se e colocou uma mão sobre a pequena e macia mão de sua irmã após sentá-la ao seu lado.

Ele ficou por quase duas semanas. Não convidou nenhum de seus parentes para sua casa. A saúde de Fiona não permitiria isso. Foi visitar seus tios e primos, no entanto, levando Constance com ele, apesar dos protestos de sua madrasta por ter sido deixada sozinha. E ele percebeu algo muito rapidamente. A maioria de seus parentes eram seres sociáveis e bem conectados em seu mundo de classe média. Eles todos ficaram encantados em vê-lo e igualmente felizes em ver Constance. Alguns dos primos mais novos estavam em seu grupo de idade. Qualquer um,


ou todos eles, estavam perfeitamente dispostos a ter Constance com eles. Ela faria amigos em poucos momentos. Provavelmente teria um grande círculo de admiradores dentro de dias ou semanas. Poderia se casar antes do verão acabar. Tudo o que ela realmente precisava era que alguém –ele batesse o pé com sua mãe para que ela não a prendesse em casa, como uma acompanhante não remunerado. Ele não seria obrigado a se casar. Não por causa de Constance, de qualquer forma. E não estava ansioso para apressar-se a casar por um outro motivo. Ele ficaria em Londres por um tempo. Poderia satisfazer suas necessidades de outras maneiras, sem ter que casar. Era um pensamento um pouco deprimente, realmente, mas era isso ou o casamento. No entanto, cumprir sua obrigação com sua meia-irmã não era assim tão fácil. Ela tinha firmes ideias próprias sobre o que a faria feliz, e eles iam além de mover-se no mundo de seus primos, apesar de que ela os amava e apreciava estar entre eles. - Você é um lorde, Hugo - disse ela quando eles estavam passeando no Hyde Park uma manhã antes de Fiona cair mesmo de cama. - E você é um herói. Deve ser possível para você se mover em círculos que papai jamais poderia. Uma vez que as pessoas saibam que você está na cidade, certamente irão enviarlhe convites. Como absolutamente maravilhoso que seria assistir a um baile em uma das grandes mansões de Mayfair. Para dançar. Você consegue imaginar uma coisa assim? Ele olhou de soslaio para ela. Preferia, realmente, não imaginar tal coisa. - Tenho certeza que você vai atrair toda uma série de admiradores do nosso próprio mundo, se nossos primos a levarem


sob suas asas - disse ele. - Como não faria, Connie? Você é tão bonita! Ela sorriu para ele e, então, franziu o nariz. - Mas eles são tão maçantes, Hugo - disse ela. - Tão sérios. - Nossos primos, você quer dizer? - Disse. - E tão bemsucedidos. - Aborrecidos, bem-sucedidos e muito queridos como primos - disse ela. - Mas todos os homens que eles conhecem são limitados da mesma forma. Não gostaria de um marido apenas distinto, do tipo deles. Eu não quero monotonia, Hugo. Ou mesmo que ele tenha sucesso limitado, respeitabilidade, sobriedade. Eu quero um pouco ... ah, algum traço... alguma aventura. - Estou errada? Ela não estava errada, ele pensou com um suspiro interior. Ele supôs que todas as meninas sonhavam em se casar com um príncipe antes que realmente se casassem com alguém bem mais comum, que poderia apoiá-las e cuidar de suas necessidades diárias. A diferença entre Constance e as outras meninas era que ela vira uma maneira de realizar seu sonho ou, pelo menos, de chegar perto o suficiente para um príncipe olhar para ela. - E você acha que senhores de classe alta podem lhe oferecer aventura, respeitabilidade e felicidade? - Perguntou. Ela riu para ele. - Uma menina pode sonhar, - disse ela - e é seu trabalho cuidar para que nenhum libertino escandaloso fuja comigo por minha fortuna. - Gostaria de achatar seu nariz junto ao resto do seu rosto se esse pensamento cruzar sua mente - ele disse.


Ela riu alegremente, e apertou seu braço. - Você deve conhecer alguns cavalheiros - disse ela. - Até outros cavalheiros com título. É possível obter um convite? Ah, deve ser. - Se você me levar a um baile da sociedade, Hugo, vou te amar para sempre. Não que eu não vá fazer isso de qualquer maneira. Pode tratar disso? Era hora de bater o pé com bastante firmeza. - Ouso dizer que seria possível - disse ele. Ela parou abruptamente no caminho, gritou com exuberância, e atirou os braços em volta do pescoço dele. Foi bom que houvessem apenas árvores e grama orvalhada vendo-os. - Ah, vai ser - ela gritou. - Você pode fazer qualquer coisa, Hugo. Ah, obrigada, obrigada. Eu sabia que tudo sairia bem uma vez que você chegasse em casa. Eu te amo! Eu te amo! - Puro amor de armário - resmungou, acariciando suas costas. Ele se perguntou que palavras seus lábios poderiam ter emitido se ele tivesse decidido não bater o pé firmemente. O que ele tinha prometido - ou como tinha prometido? Enquanto continuava o passeio, sentiu como se ele tivesse sido tomado por um suor frio. E sua mente foi novamente assaltada por toda a questão sombria de se casar. Ele provavelmente poderia obter um convite se fizesse um pouco de esforço, e provavelmente poderia levar Constance com ele e esperar que alguns cavalheiros se oferecessem para ser seu parceiro na pista de dança. Ele provavelmente poderia passar por isso toda uma noite, apesar de saber que odiaria cada momento. Mas ela estaria satisfeita com um baile, ou será que apenas aguçaria o apetite para mais? E se ela conhecesse alguém que mostrasse mais que um interesse


passageiro em dançar com ela? Ele não saberia o que fazer sobre isso além de plantar a mão na cara dele, o que não seria sábio nem uma coisa sensata a fazer. Uma esposa poderia ajudá-lo a fazer tudo certo. Não uma de classe média, entretanto. Ele não se casaria com uma mulher de classe alta apenas por causa de uma irmã que ainda não estava disposta a se contentar com o seu legítimo lugar na sociedade. Faria isso? Podia sentir uma dor de cabeça chegando. Não que ele sofresse de dores de cabeça. Mas esta era uma ocasião excepcional. Permitiu que Constance tagarelasse alegremente ao seu lado durante o resto da caminhada. Estava vagamente consciente de ouvir que ela simplesmente não tinha nada para vestir. Ele esperara a correspondência impacientemente todas as manhãs, durante essas duas semanas, e vasculhara tudo duas vezes, como se achasse que, a cada dia, que a carta que ele esperava, de alguma forma, se tivesse perdido na pilha. Temia vê-la e ficava decepcionado cada vez que não a via. Não tinha dito nada a ela depois de fazerem sexo na praia. E como um tímido colegial, tinha a evitado no dia seguinte e quase perdera a oportunidade de dizer adeus a ela. E quando tinha dito adeus, havia dito algo verdadeiramente profundo, como “tenha uma boa viagem”, ou qualquer coisa assim. Ele começara a dizer alguma coisa para ela no caminho de volta da enseada, era verdade, mas ela o tinha parado e o convencido de que tudo tinha sido bastante agradável, agradeceulhe, mas deveriam deixar por isso mesmo.


Será ela quisera dizer isso mesmo? Ele tinha pensado assim no momento, mas realmente, poderiam as mulheres - damas serem tão indiferentes sobre encontros sexuais? Homens podiam. Mas as mulheres? Ele estivera muito disposto a acreditar nas palavras dela? E se ela estava grávida e não escrevesse para ele? E por que não podia parar de pensar nela, dia ou noite, não importando se estava ocupado com outras coisas e outras pessoas? Ele andava ocupado. Estava gastando parte de cada dia com Richardson, estava começando a entender seus negócios mais plenamente. As ideias estavam começando a brotar em sua cabeça e até mesmo excitá-lo. Mas ela estava sempre lá no fundo de sua mente e, às vezes, não tão no fundo. Gwendoline. Ele seria um idiota se casasse com ela. Mas ela iria salvá-lo da idiotice. Ela não se casaria com ele, mesmo se ele pedisse. Ela tinha deixado muito claro que ela não queria que ele pedisse. Mas, e se ela não quisera dizer isso? Ele desejou compreender melhor as mulheres. Era um fato bem conhecido que o que elas diziam não significava a metade do que queriam dizer. Mas qual a metade que elas querem dizer? Ele seria um idiota. A Páscoa estava quase chegando. Era um pouco tardia este ano. Depois da Páscoa ela estaria em Londres para a temporada. Ele não queria esperar tanto tempo.


Ela não tinha escrito, mas e se ... Ele seria um idiota. Ele era um idiota. - Eu tenho que ir para o campo - anunciou no café da manhã. Constance pousou a torrada e olhou para ele com notada consternação. Fiona ainda estava na cama. - Só por alguns dias - disse ele. - Vou estar de volta dentro de uma semana. E a temporada não começará até depois da Páscoa, você sabe. Não há nenhuma chance de um baile ou qualquer outra festa antes disso. Ela se animou um pouco. - Vai me levar, então? - Perguntou ela. - Para um baile? - É uma promessa - disse ele precipitadamente. Ao meio-dia, ele estava em seu caminho para Dorsetshire. Para Newbury Abbey em Dorsetshire, para ser mais preciso.


Capítulo 11 Hugo chegou à Upper Newbury no meio de uma cinza tarde tempestuosa e alugou um quarto na estalagem da aldeia. Ele não tinha certeza que iria precisar dele. Era completamente possível que antes do anoitecer, ele ficasse feliz em colocar a maior distância entre Newbury e ele mesmo, como fosse humanamente possível. Mas ele não queria dar a impressão de que esperava ser oferecida hospitalidade em Newbury Abbey. Andou até a abadia esperando, a cada momento, ser pego pela chuva, embora as nuvens se apegassem à sua umidade o suficiente para salvá-lo de se molhar. Logo depois de passar pelos portões do parque, viu o que pensou ser a casa da viúva, à sua direita, entre as árvores. Era um edifício considerável, mais uma pequena mansão do que uma mera casa. Ele hesitou por um momento, tentando decidir-se a ir lá primeiro. Era onde ela morava. Mas ele tentou pensar como um cavalheiro. Um cavalheiro iria para a casa principal primeiro, a fim de ter uma palavra com seu irmão. Era uma desnecessária cortesia, claro. Ela tinha trinta e dois anos de idade. Mas as pessoas das classes superiores se importavam com as sutilezas de cortesia, necessárias ou não. Foi uma decisão que lamentou logo depois que chegou à abadia em si, uma mansão tão grande e imponente como Penderris, mas sem o conforto de ser possuída por um de seus amigos mais próximos. O mordomo tomou seu nome e dirigiu-se no andar de cima para ver se seu mestre estava em casa - a afetação tola do campo. Hugo não foi deixado esperando por muito tempo. O mordomo voltou a convidar Lorde Trentham a segui-lo, e eles caminharam até o que acabou por ser a sala de visitas. E estava... - maldição! - lotada de pessoas, nenhuma das quais era Lady Muir. Era tarde demais para virar as costas e


correr, no entanto. Kilbourne estava na porta esperando para cumprimentá-lo, um sorriso no rosto, uma mão estendida. Uma senhora consideravelmente pequena estava ao seu lado, também sorrindo. - Trentham - Kilbourne disse, cumprimentando-o amigavelmente. - Que bom que você tenha vindo. Está a caminho de sua casa vindo da Cornualha, não é? Hugo não queria desiludi-lo. - Eu pensei que pudesse vir - disse ele – para ver se Lady Muir se recuperou totalmente de seu acidente. - Ela se recuperou - disse Kilbourne. - Na verdade, ela está fazendo uma caminhada e é possível que se encharque se não encontrar um abrigo em breve. Permita-me apresentá-lo à minha condessa. Lily, meu amor, este é Lorde Trentham, que resgatou Gwen na Cornualha. - Lorde Trentham - Lady Kilbourne disse, também estendendo a mão para a dele. - Neville contou-nos tudo sobre o senhor, e eu não vou envergonhá-lo mencionando seus feitos. Mas é um prazer conhecê-lo. - Entre e conheça nossa família. Todos vieram para a Páscoa e para o batismo do nosso mais novo bebê. E os dois o levaram pela sala, exibindo-o como um cobiçado troféu, apresentando-o como o homem que tinha salvado sua irmã de ficar presa às pedras com uma entorse no tornozelo, acima de uma praia deserta na Cornualha. E como o famoso herói que havia liderado o ataque Forlorn Hope em Badajoz. Hugo, alegremente, poderia ter morrido de aflição - se o conjunto contradições tivesse sido possível. Ele foi apresentado à condessa viúva de Kilbourne, que sorriu gentilmente para ele e o agradeceu pelo que tinha feito para sua filha. E foi apresentado ao duque e à duquesa de Portfrey - George não dissera que o


duque tinha sido seu amigo? E ao duque e à duquesa de Anburey; seu filho, o marquês de Attingsborough, e sua esposa; e sua filha, a Condessa de Sutton, e seu marido. E ao Visconde Ravensberg e sua esposa, Visconde Stern e sua esposa e uma ou duas outras pessoas. Todas as pessoas reunidas lá tinham um título. Formavam um grupo bastante amável. Todos os homens apertaram sua mão calorosamente. As mulheres estavam todas muito satisfeitas por ele ter estado lá naquela praia deserta quando Lady Muir precisou dele. Todas sorriram e acenaram graciosamente. Perguntaram sobre sua viagem, comentaram sobre o clima sombrio que tinham tido durante os últimos dias e disseram o quão satisfeito estavam por finalmente conhecer o herói que parecera desaparecer da face da terra depois de sua grande façanha em Badajoz, embora, simplesmente, todos esperavam encontrá-lo. Hugo acenou com a cabeça, cruzou as mãos atrás das costas, e compreendeu a enormidade de sua presunção em vir aqui. Ele era um herói, talvez, aos seus olhos. E ganhara seu título – uma coisa vazia, já que todos sabiam que tinha vindo como um troféu de guerra e não tinha nada a ver com nascimento ou herança. E ele tinha chegado a sugerir, a si mesmo, que talvez ela pudesse considerar unir forças com ele pelo matrimônio. Seu melhor curso de ação, decidiu, era partir sem mais delongas. Não precisava esperar para vê-la. Tinha vindo, supostamente, da Cornualha, partindo de Penderris a caminho de casa, e fez um desvio, por educação, para saber se Lady Muir tinha se recuperado do acidente. Tendo sido informado de que ela havia se recuperado, poderia sair agora sem que ninguém achasse peculiar que não a esperasse. Ou será que eles achariam peculiar?


Para o diabo com eles. Será que ele se importava com o que eles pensavam? Ele não estava muito longe da janela da sala de estar, falando, ou melhor, sendo falado por alguém, - ele já havia esquecido a maioria dos nomes - quando a condessa de Kilbourne falou ao seu lado. - Lá está ela! - Exclamou. - E está chovendo pesadamente. Ah, pobre Gwen. Ela vai ficar encharcada. Devo me apressar para baixo, interceptá-la e levá-la até o meu quarto de vestir para secar um pouco. E ela virou-se para apressar-se, enquanto vários de seus convidados, incluindo o próprio Hugo, olhava para a chuva e via Lady Muir oscilando em seu caminho na diagonal do gramado abaixo – seu coxear realmente estava pronunciado – o casaco batendo nela com o vento e parecendo como se estivesse saturado com água, um grande guarda-chuva agarrado com as duas mãos e inclinado para o lado, tentando proteger tanto de seu corpo como fosse possível. Hugo inalou lentamente. Kilbourne estava ao seu lado, rindo baixinho. - Pobre Gwen - disse ele. - Se não for uma hora inconveniente, - disse Hugo baixinho eu gostaria de ter uma conversa particular com você, Kilbourne. Com essas palavras, pensou, tinha acabado de queimar algumas pontes.

Gwen tinha se recuperado totalmente do tornozelo torcido, mas o mesmo não poderia ser dito de seu desânimo.


No início, ela havia dito a si mesma que, uma vez que ela estivesse de pé novamente, tudo em sua vida voltaria ao normal. Era mortalmente entediante ser confinada a um sofá a maior parte do dia, embora muitas de suas atividades favoritas poderiam ser feitas lá - ler, bordar, fazer crochê, escrever cartas. E ela tinha tido sua mãe como companhia. Lily e Neville tinha vindo todos os dias, às vezes juntos, por vezes, separadamente. Os filhos, incluindo o bebê, muitas vezes vieram com eles. Vizinhos tinham vindo. E então, quando ela já estava de pé e seu ânimo ainda estava em baixa, ela havia se convencido de que uma vez que a família chegasse para a Páscoa, tudo estaria bem. Lauren estava vindo, assim como Elizabeth e Joseph e ... ah, todos. Ela tinha aguardado a chegada com impaciência, ansiosa. Mas agora não havia nenhuma outra explicação razoável para a depressão da qual não podia se liberar. Ela estava perfeitamente móvel novamente, e todos estavam na abadia há dois dias. Embora o clima estivesse rigoroso e todos começassem a se perguntar se podiam lembrar como o sol se parecia, havia muita companhia e atividade dentro de casa. Gwen tinha descoberto, com alguma consternação, que ela não poderia aproveitar essa companhia tanto como sempre fizera. Todos faziam parte de um casal. Exceto sua mãe, é claro. E ela. Soava como autocompaixão. Ela era solteira por opção. De nenhuma mulher que ficara viúva com a idade de vinte e cinco se podia esperar que continuasse a ser uma viúva para o resto de sua vida. E ela teve inúmeras chances de se casar novamente. Ela não contara a ninguém sobre Hugo. Não à sua mãe, não à Lily - e nem à Lauren. Ela tinha escrito uma longa carta para Lauren no dia em que descobriu que não estava grávida. Tinha contado tudo à sua prima, incluindo o


fato de que ela tinha caído de amores e ainda não conseguira convencer-se a cair novamente, embora o faria. E incluindo o fato sórdido que tinha ficado com ele e só agora descobrira que não haviam consequências desastrosas. Mas ela tinha rasgado a carta e escrito outra. Ela iria contar à Lauren quando a visse pessoalmente, havia decidido. Não esperaria muito tempo. Mas agora já tinha visto Lauren, e ainda não tinha dito nada, embora Lauren soubesse que havia algo a dizer, tivesse perguntado a ela sobre isso, e houvesse tentado, algumas vezes, ficar sozinha com ela para que pudessem ter uma de suas longas conversas de coração para coração. Sempre foram melhores amigas e confidentes. Gwen tinha resistido a cada vez, e Lauren estava preocupada. Gwen estava andando sozinha esta tarde, em vez de acompanhar a mãe à abadia para passar o resto do dia. Ela seguiria depois, havia dito. Apesar das nuvens pesadas, do vento tempestuoso e a promessa de chuva a qualquer momento, quase qualquer um de seus primos na abadia teria vindo andando com ela se tivesse pedido. Eles poderiam ter saído em um grupo alegre. Lauren se magoaria por ela ter escolhido a solidão. Joseph ficaria um pouco carrancudo e a olharia um pouco intrigado – sim, a forma como Lily, Neville e sua mãe estavam olhando para ela ultimamente, na verdade. Era tão diferente dela não ser sempre sociável, alegre, com uma índole radiante. Tinha tentado ser pelo menos alegre desde que voltara para casa. Até pensara que tinha conseguido. Mas, obviamente, não tinha. Tinha chorado o dia em que soube que não estava grávida. O que era uma reação absurda. Deveria ter ficado extremamente aliviada. Tinha ficado aliviada. Apenas não extremamente. Além do mais, tinha sido mais um lembrete de que ela não poderia conceber.


Às vezes, muitas vezes, na verdade, ela tentara imaginar a criança que ela tinha perdido, como ele ou ela seria agora com a idade de quase oito. Imaginações tolas. Não existia a criança. E tais imaginações apenas a deixavam infeliz, com tristeza e culpa. Quando iria livrar-se desse enorme e abrangente tédio? Estava completamente irritada consigo mesma. Se não fosse cuidadosa, se transformaria em uma chorona e atrairia apenas companheiros chorões como amigos. Ela estava caminhando ao longo do trajeto da floresta isolada que corria paralelo ao perímetro do parque e paralelo aos penhascos, uma curta distância até atingir a descida íngreme para o vale gramíneo abaixo e a ponte de pedra sobre a praia mais à frente. Sempre gostara deste caminho. Podia andar em linha reta para ele desde a casa da viúva, e balançar com os galhos de árvores baixas, que escondiam os penhascos e o mar. Era tranquilo e rural. Não estava completamente enlameado hoje. Não estava muito perfeito para caminhar também, e poderia ainda se transformar em pura lama se chovesse de novo - quando começou a chover novamente. Talvez seu humor melhorasse, uma vez que todos se mudassem para Londres depois da Páscoa e toda a miríade de entretenimentos da temporada começasse. Hugo estaria em Londres também. À procura de uma esposa - de sua própria classe. Gwen tinha tomado uma decisão em segredo, dentro de seu coração. Consideraria seriamente quaisquer senhores que parecessem interessados em cortejá-la este ano, e geralmente havia alguns. Ela iria, finalmente, entreter o pensamento de se casar novamente. Buscaria um tipo de homem de boa índole, embora tivesse que ser inteligente e sensível também. Um homem mais velho poderia ser melhor do que um mais jovem. Talvez um viúvo que, como ela, estaria procurando o


conforto de um silencioso companheirismo, em lugar de qualquer coisa mais emocionante. Não procuraria paixão. Tivera paixão muito recentemente e não queria isso nunca mais. Era muito cruel e muito doloroso. Talvez, por esta altura no próximo ano, se casasse novamente. Talvez ela até mesmo..., mas, não. Ela não pensaria em ser terrivelmente decepcionada novamente. E ela não iria procurar a opinião de um médico que pudesse ser capaz de darlhe uma opinião fundamentada sobre a sua fertilidade. Se ele lhe dissesse não, mesmo a mais fraca de suas esperanças seria frustrada para sempre. E se ele dissesse sim, então ela deveria se preparar para um desapontamento pior se nada acontecesse depois de tudo. Ela poderia viver sem seus próprios filhos. É claro que poderia. Estava fazendo isso agora. Tinha chegado ao fim do caminho e estava no topo da descida íngreme para o vale. Este foi o mais distante que ela tinha caminhado desde o retorno da Cornualha. Raramente descia para o vale, embora fosse muito pitoresca, com a cachoeira que caía do penhasco, formando uma profunda piscina rodeada de samambaias. Seu avô havia construído uma pequena casa de campo ao lado da piscina para sua avó, que gostava de desenhar lá. Não desceria hoje também. Não teria feito isso mesmo que a chuva não tivesse começado. Mas, de repente, começou, e não era um chuvisco, como tinha sido no início da manhã e durante todo o dia de ontem. Os céus se abriram em um dilúvio tamanho que até mesmo seu guarda-chuva não estava fornecendo muita proteção. Virou-se para voltar para casa. Mas a casa da viúva ficava a uma grande distância, e ela sabia que seria imprudente correr tão longe com seu tornozelo enfraquecido, sobre um caminho escorregadio. A abadia estava longe, mas mais perto se cortasse


diagonalmente pelo gramado inclinado em um dos lados do caminho. E tinha planejado ir até lá mais tarde, de qualquer maneira. Tomou sua decisão rapidamente e apressou-se até a grama, a cabeça baixa, uma mão segurando a bainha de seu vestido e casaco em uma vã tentativa de não deixar que ficassem encharcados e lamacentos; a outra mão segurando o guardachuva em um ângulo melhor projetado para manter pelo menos parte de si mesma seca. Antes que chegasse a casa, precisava de ambas as mãos no cabo do guarda-chuva para evitar que o vento o levasse. Chegou molhado e sem fôlego. Lily deve tê-la visto através da janela da sala de estar. Ela já estava lá embaixo na sala de espera para cumprimentá-la, e um lacaio estava segurando a porta. - Gwen! - Exclamou Lily. - Você parece quase afogada, coitadinha. É melhor você vir até meu quarto de vestir e se secar. Vou emprestar-lhe algo bonito para vestir. Todos estão na sala de estar, e há também um visitante. Gwen não perguntou quem era o visitante. Algum vizinho, supôs. Mas seguiu Lily com gratidão ao subir as escadas. Mal podia aparecer na sala de estar como estava. A porta da sala de estar se abriu, no entanto, quando chegaram ao topo do primeiro lance de escadas, e Neville saiu. Gwen deu um meio sorriso, metade uma careta para ele e então congelou, quando outro homem apareceu na porta atrás dele, enchendo-o com sua presença maciça. Seus olhos escuros queimados nos dela. Ah, meu Deus, o visitante.


- Lady Muir – Lorde Trentham disse, inclinando a cabeça, sem retirar o olhar do dela. Ele parecia feroz, sisudo e meio como uma mola tensa. O que ele estava fazendo aqui? - Ah, - Gwen disse estupidamente - pareço um rato afogado. Seus olhos se moveram sobre ela, da cabeça aos pés, e de volta novamente. - Sim, - ele concordou - embora eu teria sido educado demais para dizer isso, se você não o tivesse dito em primeiro lugar. Ele foi tão contundente, como sempre. Lily escolheu se divertir e riu. Gwen apenas olhou e lambeu os lábios, certamente a única parte seca de sua pessoa. Oh, céus, Hugo estava aqui. Em Newbury. - Eu estava prestes a levar Gwen ao andar de cima para se secar e mudar de roupa, - disse Lily - antes que ela morra de frio. - Faça isso, meu amor - disse Neville. Lorde Trentham esperará, não duvido." - Esperarei - disse Hugo, e Gwen cedeu à pressão da mão de Lily puxando-a na direção das escadas. O que ele estava fazendo aqui? Gwen vestiu um vestido de lã azul pálido de Lily que era um pouco longo demais para ela, mas se ajustava bem o suficiente. Seu cabelo estava úmido e mais armado do que o normal, mas não estava muito ingovernável. Ela estava se sentindo ofegante e atordoada enquanto se preparava para voltar a descer para a sala de estar. Lily sabia o porquê Lorde Trentham estava aqui. Ele estava a caminho de casa vindo da Cornualha, e Newbury Abbey não


ficava muito fora de seu caminho. Ele tinha vindo para ver que Gwen tinha se recuperado totalmente do acidente. - É muito simpático da parte dele - disse Lily enquanto tomava as roupas encharcadas de Gwen e colocava-as em uma pilha perto da porta do quarto. - E é uma honra conhecê-lo. Todo mundo está feliz em vê-lo, finalmente. E ele não decepciona, não é? Ele é tão grande e ... forte. Ele parece um herói. Pobre Hugo, Gwen pensava. Como deve estar odiando cada momento. E ele não teria imaginado, coitado, que vários de seus parentes estivessem aqui. Todos aristocratas. Nenhum do mundo dele. Por que ele realmente viera? Certamente ele não tinha estado em Penderris todo esse tempo. Mas não razão para especular. Iria descobrir. - E eu me atrevo a dizer, - Lily disse, quando estavam saindo do quarto, - que ele fez o desvio para fazer um pequeno carinho a você, Gwen. Não seria de todo surpreendente, não é? E não seria surpreendente estivesse interessada nele. Ele é forte, mas também é ... hmm. Qual é a palavra? Lindo? Sim ele é lindo. - Oh, Deus, Lily, - disse Gwen conforme percorriam o caminho, descendo as escadas, - não deveria permitir que sua imaginação a capturasse, às vezes. Lily riu. - É uma pena - disse ela - que a sua mente esteja irrevogavelmente definida contra se casar novamente. - Ou não está? Gwen não respondeu. Seu estômago tinha se amarrado em nós. Um súbito silêncio desceu sobre a sala de estar quando elas entraram. Neville estava mais da janela, franzindo a testa. Todos estavam presentes. Exceto Hugo.


Lily notou sua ausência também.

- Ah, Lorde Trentham se foi? - Perguntou ela. - Mas fomos tão rápidas quanto poderíamos ser. A pobre Gwen estava encharcada até os ossos. Ele havia ido? Depois de vir de tão longe para obter informações sobre seu tornozelo? - Ele está na biblioteca - disse Neville. – Deixei-o só lá. Ele quer ter uma conversa privada com Gwen. O silêncio parecia se intensificar. - É realmente muito extraordinário - disse sua mãe, quebrando-o. - Lorde Trentham é o tipo de homem cujas atenções você jamais iria sonhar em encorajar, Gwen. Mas ele veio para oferecer casamento a você, no entanto. - Eu considero bastante presunçoso da parte dele, Gwen Wilma, condessa de Sutton, disse. - Mesmo que ele lhe tenha feito um serviço considerável quando você estava na Cornualha. Ouso dizer que o título e os elogios que se seguiram sobre seu ato heroico, sem dúvida, lhe subiram à cabeça e lhe deram ideias acima de sua posição. Wilma nunca tinha sido a prima favorito de Gwen. Às vezes era difícil acreditar que ela era a irmã de Joseph. - Eu achei que não tinha o direito de falar por você, sinto muito, Gwen - disse Neville. - Você tem trinta e dois anos de idade. Eu não acredito que a oferta seja tão impertinente como Wilma sugere, no entanto. Trentham tem o título, depois de tudo, e é muito rico. E ele certamente é um grande herói, talvez o maior das guerras recentes. Ele provavelmente poderia ser o queridinho da sociedade educada, se ele assim escolhesse - como poderia atestar nossa reação ao encontrá-lo aqui. É, talvez, a seu


crédito, que ele nunca procurou a fama ou adulação e que ele parecia um pouco desconfortável com isso esta tarde. Mas sua vinda aqui para oferecer-lhe casamento é um pouco embaraçoso para você. Achei que não podia simplesmente mandá-lo embora. Eu, entretanto, alertei-o de que você tem usado o luto por Muir constantemente, por sete anos e, provavelmente, ele não obterá a resposta que espera. - Ainda bem que você não tentou falar por Gwen, Neville Joseph, Marquês de Attingsborough, disse, sorrindo para Gwen. As mulheres não gostam disso, você sabe. Digo isso com a autorização de Cláudia, que elas são capazes de falar por si mesmas. Claudia era sua esposa. - Isso está muito bem, Joseph, - disse Wilma - quando um cavalheiro faz o pedido a ela mesma. - Oh, vamos, Wilma - Lauren disse. – Lorde Trentham parece um cavalheiro perfeito para mim. - O pobre Lorde Trentham deve estar criando raízes no tapete biblioteca, - disse Lily - ou então cavando um caminho por toda ela. É melhor deixar Gwen ir falar com ele. Vá, Gwen. - Eu vou fazê-lo - disse Gwen. - Você não deve preocupar-se, porém, Mama. Ou você, Nev. Ou qualquer um de vocês. Eu não vou me casar com um soldado grosseiro, das classes mais baixas, mesmo que ele seja um herói. Ela ficou surpresa ao ouvir alguma amargura em sua voz. Ninguém respondeu, embora Elizabeth, duquesa de Portfrey, sua tia, estivesse sorrindo para ela e Claudia estivesse balançando a cabeça rapidamente em sua direção. Sua mãe estava olhando para as mãos no colo.


Neville estava olhando com um pouco de reprovação. Lily a olhava preocupada. Lauren tinha uma expressão fixa em seu rosto. Gwen deixou a sala e fez seu caminho, descendo as escadas, segurando a saia com cuidado para não tropeçar na bainha. Ela ainda não tinha testado totalmente sua reação ao encontrar Hugo aqui. Agora sabia por que tinha vindo. Mas por que? O fato de que eles nunca poderiam se casar sempre foi algo sobre o qual ambos concordavam. Por que ele mudara de ideia? Ela iria, naturalmente, dizer não. Estar amando um homem era uma coisa: mesmo fazer amor com ele. Casar-se com ele era outra coisa, completamente diferente. O casamento era muito mais do que apenas amar e fazer amor. Ela acenou para o lacaio que esperava para abrir a porta da biblioteca para ela.


Capítulo 12 Após cada milha de sua viagem para Newbury Abbey, Hugo perguntou a si próprio o que ele pensava que estava fazendo. Após cada milha ele tentou se convencer a voltar atrás, antes de fazer uma completa figura de idiota de si próprio. Mas e se ela estivesse grávida? Ele tinha de continuar. Era o maior dos tolos. Houve aqueles quinze minutos, mais ou menos, de excruciante embaraço na sala de estar. E que foi seguido igualmente pela entrevista embaraçosa com Kilbourne na biblioteca. Kilbourne foi perfeitamente educado, amistoso mesmo. Mas ele claramente pensou que Hugo não estaria bom da cabeça para ir até lá e esperar que Lady Muir ouvisse favoravelmente a sua proposta de casamento. Ela tinha amado ternamente o seu primeiro marido, ele explicou, e ainda se sentia inconsolável com a sua morte. Ela prometera que não voltaria a casar e ainda não mostrara sinais de ter mudado de ideia. Hugo não deveria tomar isso como pessoal se ela recusasse. Ele quase disse "quando". Os seus lábios formaram a palavra, mas se corrigiram para dizer "se". Hugo ainda estava na biblioteca - sozinho. Kilbourne tinha voltado para a sala de estar, prometendo que enviaria a sua irmã assim que ela se apresentasse. Talvez ela não viesse. Talvez ela enviasse Kilbourne com a resposta. Talvez ele estivesse prestes a enfrentar a maior humilhação de sua vida. E que lhe servisse de lição. O que diabos ele estava fazendo ali?


Ele nada fez para se ajudar a si mesmo, recordou com um esgar do rosto. A única coisa que ela dissera quando se encontraram mais cedo, foi que ela parecia um rato afogado. E ele, como o perfeito cavalheiro que era, concordara com ela. Poderia ter dito que ela estava linda do mesmo jeito, mas nada disse e agora era tarde demais. Um rato afogado. Excelente coisa para dizer à mulher a quem fora propor casamento. Ele pensou que a porta da biblioteca não se abriria novamente, que iria ser deixado ali para viver o resto dos seus dias, enraizado naquele ponto do carpete da biblioteca, com receio de mover um músculo e a casa cair em seus ombros. Deliberadamente deu de ombros e mexeu os pés para provar a si mesmo que poderia ser feito. E, então, a porta se abriu quando ele menos esperava e ela entrou. Uma mão invisível fechou a porta por trás, mas ela se recostou contra a porta, as suas mãos às costas, provavelmente tensas. Como se ela se estivesse se preparando para fugir ao primeiro sinal de ameaça. Hugo franziu o nariz. O seu vestido emprestado era enorme para ela. Tapava completamente os seus pés e estava folgado na cintura e na anca. Mas a cor ficava-lhe bem, assim como a simplicidade do modelo. Enfatizando sua figura à perfeição. O seu cabelo loiro estava mais encaracolado que o normal. A umidade contribuía para isso, apesar do gorro que usava e do chapéu de chuva que trazia ao atravessar o gramado. As suas faces estavam coradas, os seus olhos azuis bem abertos e os lábios ligeiramente apartados. Como um rapazola, ele cruzou todos os dedos das mãos atrás das costas, assim como os polegares. - Eu vim - ele disse.


Santo Deus! Se houvesse um prêmio para o orador do ano, ele corria o risco de ganhá-lo. Ela nada disse, o que não era de admirar. Ele clareou a garganta. - Você não escreveu - ele disse - Não. Ele esperou - Não - ela disse novamente. - Não havia necessidade. Eu lhe disse que não seria necessário. Ele ficou ridiculamente desapontado. - Bom - disse ele secamente. O silêncio oprimiu. Porque é que se sente o silêncio, por vezes, como algo físico, com um peso próprio? Não que houvesse um silêncio real. Ele poderia ouvir a chuva a bater nos vidros das janelas. - A minha irmã tem dezenove anos - ele disse. - Ela nunca teve muita vida social. O meu pai com frequência a levava a visitar parentes quando ainda era vivo, mas, desde então, ela se mantém essencialmente em casa com a sua mãe, que está sempre doente e gosta de manter Constance por perto. Eu agora sou o seu tutor - de minha irmã, claro. E ela precisa de uma vida social e não meramente familiar. - Eu sei - ela disse. O senhor me explicou isso em Penderris. Essa foi uma das razões para querer se casar com uma mulher de sua classe. Uma mulher prática e capaz, penso que foi isso que disse. - Mas ela - Constance - não está nada contente em conhecer alguém de sua classe - ele disse. - Se ela estivesse, tudo estaria


bem. Os nossos familiares a levariam para ficar com eles, a apresentariam a todos os homens elegíveis e eu não teria que me casar. Não por essa razão, de qualquer maneira. - Mas...? - Ela questionou. - Ela deseja, de coração, comparecer a pelo menos um baile na sociedade - ele disse. - Ela acredita que o meu título pode tornar isso possível. E eu lhe prometi que iria tornar isso possível. - O senhor é Lord Trenhtham, - ela disse - e um herói de Badajoz. Claro que pode tornar isso possível. O senhor tem contatos. - Todos eles homens - ele replicou com uma careta. - E se um baile não for suficiente? E se ela for convidada para outro baile após este primeiro? E se ela encontrar um admirador? - Tudo isso é possível de acontecer - ela disse. - Seu pai era um homem abastado, o senhor me disse. Ela é bonita? - Sim - ele disse. Ele molhou os lábios. - Eu preciso de uma esposa. Uma mulher que esteja acostumada a esta vida mundana. Uma Lady. Houve um curto silêncio novamente e Hugo desejou ter ensaiado melhor o que deveria dizer. Teve o pressentimento de que tinha entrado pela via errada. Mas era tarde demais para recomeçar. Ele só poderia seguir em frente. - Lady Muir, - ele disse, apertando os dedos cruzados quase ao ponto de dor - quer casar comigo? Seguir em frente, sem olhar para onde estava indo, poderia ser desastroso. Ele sabia disso por experiência. Ele soube isso agora mesmo. Todas as palavras que falou, pareciam que tinham sido dispostas à sua frente, como se tivessem sido impressas em papel e ele notou, com desagrado, o quanto soavam erradas.


E mesmo sem ver essa página imaginada, via o rosto dela. Pareceu como no primeiro dia, quando ela machucou a perna. Com uma frieza arrogante. - Muito obrigada, Lorde Trentham, - ela disse - mas vou ter de recusar. Ela o recusou, não importava como ele tinha expressado sua proposta. Mas ele realmente não precisava tornar isso uma grande falha. Ele olhou para ela, inconscientemente endurecendo o seu maxilar e carregando o seu semblante. - Claro - ele disse. - Não esperava algo diferente. Ela o olhou fixamente, com aquele olhar arrogante gradualmente relaxando para um olhar perplexo. - Estava mesmo a espera de que eu fosse casar consigo só porque a sua irmã deseja estar presente num baile da sociedade? - Ela perguntou. - Não - disse ele. - Então porque veio aqui? - Questionou Porque estava com a esperança que estivesse grávida. Mas não era necessariamente verdade. Ele não estava com esperança. Porque não tenho conseguido tirá-la do meu pensamento. Mas o orgulho impediu que ele dissesse semelhante coisa. Porque nós fizemos bom sexo. Não. Era verdade, mas não foi por essa razão que ele fora até ali. Não foi por essa única razão, de qualquer modo.


Então porque estava ele ali? Ficou alarmado porque ele próprio não sabia a resposta à sua própria pergunta. - Não há nenhuma razão, além dessa, não é mesmo? - Ela questionou suavemente após algum tempo de silêncio. Ele descruzou os dedos e deixou cair os braços. Flexionou os dedos para se libertar da dormência. - Eu fiz sexo com você - ele disse - E não houve consequências - ela disse. - Você não me forçou. Eu espontaneamente consenti, e foi muito… agradável. Mas foi tudo, Hugo. Já está esquecido. Ela o chamou de Hugo. Seus olhos se estreitaram sobre ela. - Você disse, na época, - ele frisou - que tinha sido mais que agradável. As suas faces coraram. - Não me lembro - ela disse. - Provavelmente você tem razão. Ela não poderia ter esquecido. Ele não estava convencido de sua própria façanha, mas ela tinha sido uma viúva celibatária nos últimos sete anos. Ela não poderia ter esquecido mesmo que o seu desempenho tivesse sido miserável. Não tinha importância – pensou - tinha? Ela não iria casar com ele mesmo que se arrastasse pelo chão aos seus pés, choramingando e recitando má poesia. Ela era Lady Muir e ele era um novo-rico. Ele se curvou abruptamente. - Muito obrigado, milady, - ele disse - por me conceder esta audiência. Não a vou reter por mais tempo.


Ela se voltou para sair, mas parou com a mão no puxador da porta. - Lorde Trentham, - ela disse, sem se voltar. - Foi a sua irmã a única razão para vir aqui? Era melhor não responder. Ou responder com uma mentira. Era melhor acabar com esta farsa o mais rápido possível, para assim poder sair e poder começar a lamber as suas próprias feridas novamente. Mas ele falou a verdade. - Não - ele disse Gwen estava se sentindo tão zangada e tão triste que mal conseguia respirar. Ela se sentia insultada e magoada. Ansiava por escapar da biblioteca e da casa, atravessando a chuva até chegar à sua própria casa, com o seu vestido enorme e o seu tornozelo frágil. Mas sua casa não era longe o suficiente. O fim do mundo não seria. Ele parecia austero, um militar sisudo, quando ela entrou na biblioteca. Como um estranho frio que estivesse ali contra sua vontade. Era quase impossível acreditar que, numa tarde gloriosa, ele tinha sido seu amante. Impossível para o seu corpo e a sua mente racional, de qualquer maneira. As suas emoções eram um caso diferente. E então ele mencionou que veio - como se ela estivesse esperando por ele, desejando-o, se fixando nele. Como se ele estivesse conferindo um grande favor a ela. E então... bem, ele nem ao menos fizera uma tentativa de esconder o motivo pelo qual lhe propôs casamento. Era porque ela


poderia usar a sua influência para introduzir a sua preciosa irmã na sociedade, e encontrar um homem de bom berço para casar com ela. Ele poderia estar com esperança de que ela estivesse grávida, para que a sua tarefa fosse mais fácil. Ela ficou ainda com a sua mão no puxador da porta, mesmo depois de ele a ter dispensado - ele a tinha dispensado da biblioteca de Neville. Assim, ela estava muito perto da liberdade, do que ela sabia que seria um disparate e um coração partido. Para que ela não mais se sentisse atraída por ele e que as suas memórias dele ficassem eternamente manchadas. E então lhe ocorreu. Ele, com certeza, não fora ali unicamente com a intenção de lhe dizer que a sua irmã precisava de um convite para um baile da sociedade e que, para isso, ela deveria casar com ele. Era completamente absurdo. Era inteiramente possível que ele olhasse para trás, para a situação e para as palavras humildemente ditas. Ela adivinhou que ele tivesse ensaiado o que iria dizer, a totalidade do discurso voou da sua mente assim que ela entrou na sala. Era inteiramente possível que o seu porte militar rígido, seu maxilar duro e seu semblante fechado escondessem seu embaraço e insegurança. Foi preciso, ela supôs, alguma coragem para vir a Newbury. Ela poderia estar totalmente errada, claro. - Lorde Trentham, - questionou, com a porta em frente ao seu rosto - foi a sua irmã a sua única razão para vir aqui? Ela pensou que ele não iria responder. Fechou os olhos e a sua mão direita começou a abrir a porta. A chuva batia contra a janela da biblioteca com particular intensidade.


- Não - disse ele, e ela relaxou a sua espera no puxador da porta, abriu os olhos, soltou um suspiro lento e voltou-se. Ele parecia igual à antes. Tinha-se algo diferente, era seu semblante ainda mais carregado. Ele parecia perigoso - mas ela sabia que ele não era. Ele não era um homem perigoso, pensou que deveria haver centenas de homens, vivos ou mortos, que não concordariam com ela se pudessem. - Eu fiz sexo com você - disse ele. Ele já tinha mencionado isso, e então eles ficaram distraídos com uma discussão sobre se ela tinha achado agradável ou mais que agradável. - E isso quer dizer que sente obrigação de casar comigo? Disse ela. - Sim. - Ele a olhou fixamente. - Essa é a atitude da classe média? - Ela questionou. - Mas você teve outras mulheres. Você mesmo admitiu isso em Penderris. Também se sentiu obrigado a propor-lhes casamento? - Isso é diferente - disse ele. - Como? - Sexo com elas era um acordo - disse ele. Eu pagava, elas proporcionavam. Oh, Deus. Gwen se sentiu zonza por um momento. O seu irmão e seus primos teriam um ataque se estivessem escutando. - Se me tivesse pagado, - disse ela - você não se sentiria obrigado a me propor casamento? - Isso é loucura - disse ele.


Gwen acenou e olhou diretamente para a lareira. Estava a queimar bem, mas precisava de mais carvão. Ela estremeceu ligeiramente. Deveria pedir a Lily um xale para se agasalhar. - Você tem frio - Lorde Trentham disse, e ele também olhava para a lareira antes de caminhar e se debruçar sobre o balde de carvão. Gwen caminhou através da sala enquanto ele estava ocupado, e se sentou na borda da cadeira de pele, perto do fogo. - Eu nunca senti a necessidade de me casar - ele disse. - Eu senti menos ainda após os meus anos em Penderris. Eu queria... Eu precisava estar sozinho. Foi somente neste último ano que cheguei à conclusão de que deveria me casar - com alguém do meu nível, alguém que satisfizesse as minhas necessidades básicas, alguém que poderia cuidar da casa e que me ajudasse, de alguma maneira, com a fazenda e o jardim, alguém que me ajudasse com Constance até que ela esteja perfeitamente encaminhada. Alguém adequada, mas que não se intrometesse. Alguém em cuja vida privada eu não me intrometesse. Uma companheira confortável. - Mas também uma fogosa companheira de cama - ela disse. Ela olhou de relance para ele, desviando o olhar novamente para a lareira. - E isso também - ele concordou. - Todos os homens precisam de uma vigorosa e satisfatória vida sexual. Não vou pedir desculpa por querer isso num casamento em vez de fora dele. Gwen levantou as sobrancelhas. Bem, ela tinha começado. - Quando eu a conheci, - disse ele - eu a quis na minha cama desde o início, mesmo sabendo o quanto você me irritava com o seu arrogante orgulho e sua insistência que a colocasse no chão quando a estava carregando da praia. E eu tinha esperanças,


apesar de você me dizer o que tinha acontecido com seu marido e das consequências. Mas todos fazemos coisas na nossa vida que são contra nosso melhor julgamento, coisa das quais podemos nos arrepender amargamente depois. Todos nós sofremos. Eu a quis, e eu a tive naquela enseada. Mas nunca foi uma questão de casamento. Nós dois concordamos. Eu nunca irei me adequar à sua vida nem você à minha. - Mas você mudou de opinião - disse ela. - Você veio aqui. - De algum modo, tinha esperança de que você estivesse grávida. Ou, mesmo que eu não tivesse esperança, eu moldei a minha mente nessa direção, para que estivesse preparado. E quando nunca mais tive notícias suas, pensei que, talvez, estivesse escondendo essa verdade de mim, que teria um filho bastardo que não iria me permitir conhecer. Isso me atormentou. Eu não viria mesmo assim, pensei. Se é assim tão contra a se casar comigo que, inclusive, pudesse esconder um filho bastardo, vir aqui e lhe propor casamento não iria fazer qualquer diferença. Mas, então, Constance contou-me os seus sonhos. Sonhos juvenis são preciosos. Eles não podem ser ignorados, considerados ridículos ou pouco realistas só porque são sonhos juvenis. A inocência não deveria ser destruída por convicções insensíveis de que um pretenso cinismo realista é melhor. Foi isso que aconteceu consigo? Ela não fez a pergunta em voz alta. - Uma esposa de classe média, não seria capaz de me ajudar - disse ele. - Mas eu seria? Ele hesitou. - Sim - disse ele.


- Essa não foi à única razão para desejar casar comigo, todavia? - Ela questionou. Ele voltou a hesitar. - Não - disse ele. - Eu fiz sexo com você. E a coloquei em perigo de conceber sem a promessa de casamento. Não existe mais ninguém com quem eu queira me casar - não no presente, pelo menos. Existirá paixão no nosso leito. De ambos os lados. - E não será importante que sejamos incompatíveis em qualquer outro aspecto? - Disse ela. Novamente ele hesitou. - Penso que poderíamos tentar - disse ele. Ela olhou para cima e encontrou o seu olhar. - Ah Hugo - disse ela. - Um pode considerar pintar enquanto o outro segura o pincel. Ou subir a montanha enquanto o outro tem medo de alturas, ou comer um alimento estranho enquanto o outro nem considera olhar para esse alimento. Se um gostar, do que quer que seja o outro pode seguir em frente. Se um não quiser, o outro pode parar e experimentar algo diferente. Mas um só não pode considerar casamento. Uma vez feito, não há possibilidade de sair. - Você saberia - disse ele. - Você já tentou uma vez. Vou seguir o meu caminho, então, milady. Espero que não apanhe um resfriado por ter estado aqui com o seu vestido molhado, que é mais adequado para o verão do que para um início de primavera. Ele fez uma vênia rígida. Ele a chamava de milady, ela o chamava de Hugo. - Mas um pode tentar cortejar - disse ela e novamente baixou o seu olhar. Fechou os olhos. Isto era uma loucura. Mas talvez ele continuasse no seu caminho para fora de sua vida.


Ele não foi. Ele se empertigou e se manteve onde estava. Ficou um silêncio no qual Gwen podia ouvir que não houve qualquer diminuição na força da chuva. - Cortejo? - Disse ele. - Eu posso de fato, ajudar a sua irmã - disse ela, abrindo os olhos e examinando as suas mãos, enquanto elas se mantinham em seu colo. - Se ela for bonita e tiver modos gentis, que eu acredito que tenha, e sendo rica, então ela irá ser bem-sucedida na sociedade, e até mesmo no mais alto escalão. Ela terá sucesso, se eu a apadrinhar. - Estaria disposta a fazer isso, - ele a questionou - mesmo sem a ter conhecido? - Claro que a teria de a conhecer primeiro - disse ela O silêncio caiu novamente - Acredito que, se gostarmos uma da outra, eu a apadrinharei - disse ela, olhando-o novamente. - Mas será rapidamente conhecido quem Miss Emes é, quem é o seu irmão. Você, provavelmente, poderá ficar surpreendido com a fama que vai ter, Lorde Trentham. Não são muitos os militares, especialmente aqueles que não são os de classe alta, que são reconhecidos por seu serviço militar com um título. E quando as pessoas tomarem conhecimento de quem é Miss Emes, quem você é e quem é a madrinha, não demorará muito para que o nosso encontro na Cornualha chegue ao conhecimento público. Comentários serão lançados mesmo antes de terem algo para comentar. - Eu não a terei como assunto de conversa fútil - disse ele. - Ah, não de conversa fútil, Lorde Trentham - disse ela. Especulação. A sociedade adora, mais que tudo, durante a temporada, se fazer de casamenteira ou até mesmo especular


sobre quem está cortejando a quem, e qual será o resultado final. Comentários serão feitos de que está me cortejando. - E que eu sou um diabo presunçoso, - disse - que deveria ser pendurado na árvore mais próxima pelos polegares. Ela sorriu. - Claro que haverá aqueles que se sentirão insultados, disse ela - por si, por sua presunção, por mim por o encorajar. E haverá aqueles que se sentirão encantados por todo o romance. Apostas serão feitas. Tanto o seu maxilar como os seus olhos ficaram tensos. - Se você deseja mesmo casar comigo, - ela disse - você terá de me cortejar durante a próxima temporada, Lorde Trentham. Haverá, certamente, ampla oportunidade - prevendo, claro, que a sua irmã me agrade que e eu a agrade também. - E você se casará comigo, então? - Questionou, franzindo o semblante. - Muito provavelmente, não - disse ela. - Mas uma proposta de casamento é feita após o cortejo, não antes. Corteje-me, então, e convença-me a mudar de ideia, se você não alterar a sua primeiro. - Diabos, - ele perguntou - como é que eu vou fazer isso? Eu não tenho nenhuma ideia de como cortejar. Ela sorriu, com o primeiro divertimento genuíno sentido há um longo tempo. - Você está nos seus trinta - ela disse. - Está na altura de aprender. Se ele já parecia ter o maxilar tenso antes, agora parecia que o tinha de pedra. Ele olhou firmemente para ela.


Ele se curvou novamente. - Você se importaria de me informar assim que chegar a Londres? - Ele disse, - Eu a estarei esperando com a minha irmã, milady. - Estarei ansiosa por isso - disse ela. Transpôs em passos largos a sala, fechando a porta atrás dele. Gwen sentou-se olhando a lareira, suas mãos tensas no colo. O que ela tinha feito? Não estava arrependia, ela se certificou. Poderia ser… divertido lançar uma jovem na sociedade, especialmente uma jovem que não fazia parte desse meio. Iria alegrar a temporada para ela, fazer a diferença do tédio das anteriores. Faria com que se livrasse dos espíritos negativos que a perseguiam. Seria um desafio. E Hugo iria cortejá-la. Talvez. Oh, isto era mesmo um erro colossal. Mas o seu coração batia, com alguma coisa parecida à excitação. E à antecipação. Ela sentia-se viva pela primeira vez em um longo, longo tempo.


Capítulo 13 Lauren se juntou a Gwen na biblioteca dez minutos mais tarde. Fechou a porta silenciosamente e sentou-se em uma cadeira perto de Gwen. - Vimos Lorde Trentham partindo para longe da casa, na chuva - disse ela. - Esperávamos que você voltasse lá para cima, mas não o fez. Você o recusou, Gwen? - Eu fiz, é claro - disse Gwen, espalhando os dedos no colo. É tudo o que você esperava, não é? E queria? Houve uma ligeira pausa. - Gwen, sou eu - disse Lauren. Gwen olhou para ela. - Sinto muito - disse ela. - Sim, eu o recusei. Sua prima procurou seus olhos. - Não, há mais - disse ela. -Ele tem sido o motivo de sua depressão? - Eu não estou deprimida - protestou Gwen. Mas Lauren apenas continuou a olhar fixamente para ela. - Ah, eu suponho que esteja. Comecei a perceber que a vida está passando por mim. I tenho trinta e dois anos de idade e estou sozinha em um mundo onde não é confortável estar sozinha. Não para uma mulher, de qualquer maneira. Eu estive pensando em procurar um marido em Londres este ano. Ou, pelo menos, considerar quem mostrar um interesse em mim. Todos na família ficarão satisfeitos, não?


- Você sabe que ficaremos - disse Lauren. - Mas como é que esta decisão te deixou tão desanimada que você não precisa, nem quer conversar? Ela definitivamente parecia magoada, Gwen pensou. Ela suspirou. - Eu me apaixonei por Lorde Trentham quando estive na Cornualha - disse ela. – Aí está. Era isso que você queria ouvir? Eu ... me apaixonei por ele. Descobri, há apenas dez dias, ou algo assim, que não levava o filho dele. Fiquei imensamente aliviada e mortalmente triste. E ... Ah, Lauren, o que vou fazer? Não consigo tirá-lo da minha cabeça. Ou do meu coração. Lauren estava olhando para ela com espanto silencioso. - Havia uma chance - disse ela – de que você estivesse grávida? Gwen? - Não de verdade - disse Gwen. - O médico me disse, depois que abortei há oito anos, que eu nunca poderia ter filhos. E isso aconteceu apenas uma vez na Cornualha. Mas essa não é realmente a sua pergunta, é? A resposta à sua pergunta real é sim. Eu menti a ele. Lauren se inclinou para frente em sua cadeira e estendeu a mão para tocar as costas da mão de Gwen com a ponta dos dedos. Ela acariciou-a antes de se sentar novamente. - Diga-me - disse ela. - Diga tudo. Comece pelo começo e termina aqui, com seu motivo para ter rejeitado sua proposta de casamento. - Eu o convidei a me cortejar durante a temporada, - disse Gwen - com nenhuma garantia de que vou dizer sim se ele renovar seu pedido no final da mesma. Isso não é muito justo da minha parte, não é? Lauren suspirou e depois riu.


- Como típico de você começar do final - disse ela. - Comece pelo começo. Gwen riu também. - Ah, Lauren, - disse ela - como eu pude ter resistido ao amor todos esses anos apenas para me apaixonar por uma impossibilidade no final de tudo isso? - Se eu pude me apaixonar por Kit, considerando o meu estado de espírito quando o vi pela primeira vez, - disse Lauren considerando o fato de que ele estava se comportando mais do que escandalosamente, despido até a cintura no meio do Hyde Park para todo o mundo para ver, enquanto ele lutava com dois trabalhadores ao mesmo tempo e usando uma linguagem que me chocou até a alma, e eu pude me apaixonar por ele apesar disso, Gwen, então por que você não pode se apaixonar por Lorde Trentham? - Mas isso é uma impossibilidade - disse Gwen. - Ele não aprecia as classes mais altas, embora alguns de seus amigos mais queridos sejam aristocratas. Ele nos considera muito ociosos, frívolos. Ele é da classe média e se orgulha disso. E por que não? Não há nada inerentemente superior a nosso respeito, há? Mas eu não tenho certeza de que poderia ser a esposa de um homem de negócios, até mesmo de um rico e bem-sucedido. Além disso, há uma escuridão em sua alma, e eu não quero ter que viver com isso de novo. - Outra vez? - Lauren repetiu suavemente. Gwen olhou para suas mãos mais uma vez e não disse nada. - Eu não vou dizer mais nada, - disse Lauren - até que você comece no início e me conte toda a história. Gwen disse-lhe tudo.


E, estranhamente, elas acabaram caindo na gargalhada sobre a maneira como ele tinha estragado sua proposta de casamento anterior, dando a impressão de que sua única razão para pedi-la foi para que sua irmã pudesse assistir a um baile da sociedade. - Eu suponho, - disse Lauren, secando os olhos – que você vai levá-la a um baile? - Vou - disse Gwen. - É uma coisa boa que eu esteja fortemente apaixonada por Kit - disse Lauren. - Se não estivesse, acredito que eu mesma poderia me apaixonar por Lorde Trentham. - É melhor voltar lá para cima, para a sala de estar - disse Gwen, ficando em pé. Suponho que todos tinham muito mais a dizer depois que eu saí. Wilma, por exemplo. - Bem, - disse Lauren, seguindo-a para fora do quarto - você conhece a Wilma. Cada família tem alguma cruz para carregar. Elas riram novamente e Lauren tomou Gwen pelo braço.

A carta chegou mais de duas semanas depois. Tinha sido uma quinzena sem fim. Hugo tinha se jogado de cabeça no trabalho. E ele se lembrou de como nunca tinha sido capaz de fazer as coisas pela metade. Quando era um menino, tinha passado cada momento livre com seu pai, possivelmente para aprender tudo o que ele poderia sobre os negócios e desenvolver ideias próprias, algumas das quais seu pai tinha realmente implementado. E quando assumira sua comissão, havia trabalhado incansavelmente para alcançar seu objetivo de se tornar um general - talvez o mais jovem do exército. Ele poderia ter chegado lá também, se não tivesse perdido a cabeça antes.


Agora, era proprietário das empresas, e estava imerso na gestão delas, embora parte dele ansiasse estar de volta a Crosslands, onde tinha vivido um tipo totalmente diferente de vida, não impulsionada pelas exigências do trabalho ou pelas exigências da ambição. Ele saíra com Constance para caminhar, ou passear na carruagem, ou fazer compras, ou para a biblioteca, quase todos os dias. Continuou a levá-la para visitar seus familiares também. Levou-a para uma festa na casa de um de um primo em uma noite, e ela prontamente adquiriu dois potenciais pretendentes, ambos respeitáveis e bem apessoados o suficiente, embora Constance, a caminho de casa, houvesse pronunciado que um era um entediante prosaico e o outro um aborrecido prepotente. Foi tão bom que ela não os tivesse incentivado, pois Hugo tinha passado a noite com os dedos de vontade de lhes quebrar a cara. Ele não contara a ela sobre sua visita a Abbey Newbury ou seu resultado. Ele não queria criar expectativas apenas para se frustrar novamente se nenhuma carta chegasse. Embora, mesmo que Lady Muir não cumprisse sua promessa, é claro, ele teria que cumprir a dele. Ele tinha prometido levar sua irmã para um baile da sociedade. Ele devia conhecer alguns ex-oficiais que não eram hostis a ele e que também estavam em Londres. E George tinha dito que estaria vindo à cidade em breve. Flaviano e Ralph às vezes vinham durante a primavera. Devia haver alguma forma de obter um convite, mesmo que fosse só para um dos bailes da sociedade menos populares da temporada, ao qual a anfitriã estivesse disposta a de receber alguém disposto a participar da limpeza das chaminés. Ele manteve a distância de Fiona tanto quanto poderia durante essas duas semanas. Ela ficou muito infeliz por ser deixada sozinha tantas vezes, mas se recusou a sair com sua filha


e seu enteado. Ela, há muito tempo, interrompera todas as comunicações com sua própria família, embora Hugo soubesse que seu pai tinha se dado ao trabalho de tirar seus pais, seu irmão e sua irmã da pobreza extrema. Ele tinha comprado uma pequena casa para eles e montado uma mercearia na parte de baixo. Eles tinham conseguido trabalhar bem e tinham uma vida decente desde então. Mas Fiona não queria ter nada a ver com eles. Nem queria se aproximar dos parentes de seu marido, que a olhavam de cima a baixo e a tratavam com desprezo, ela alegava, embora Hugo nunca tivesse visto qualquer evidência disso. Ela optou por permanecer em casa agora e chafurdar em suas doenças imaginárias. Ou talvez algumas delas fossem reais. Era impossível saber com certeza. Ela o bajulava quando Constance estava presente. E resmungava nas poucas ocasiões em que eles estavam sozinhos. Ela era solitária, negligenciada e ele a odiava, alegava. Fora uma história diferente quando ela era jovem e bonita. Ele não a tinha odiado então. Ele tinha. Mas, na época, ele era um menino inteligente em seus trabalhos escolares e astuto nos negócios, mas ingênuo e tímido quando se tratava de assuntos mais pessoais. Fiona, insatisfeita com o marido que a adorava, rico, ambicioso, que trabalhava longas horas e era muitos anos mais velho que ela, tinha fantasiado sobre seu jovem enteado conforme ele atingia sua masculinidade e partira para seduzi-lo. Ela tinha quase conseguido também, pouco antes de seu aniversário de dezoito anos. Isso já havia acontecido em uma noite, quando seu pai estava fora e ela se sentara ao lado de Hugo no aconchegante sofá da sala e esfregara a mão sobre seu peito enquanto lhe contava uma história que ele nem conseguia ouvir. E a mão tinha deslizado para baixo até que não tinha mais para onde descer.


Ele tinha endurecido em plena excitação. Ela rira baixinho e fechara a mão sobre a sua ereção por sobre sua roupa. Ele subira a seu quarto menos de um minuto depois, lidando com a ereção por si mesmo e chorando ao mesmo tempo. Na manhã seguinte ele estava no escritório de seu pai cedo, exigindo que este lhe comprasse uma comissão em um regimento de infantaria. Nada mudaria sua mente, ele havia declarado. Essa era sua ambição ao longo da vida, ir para o serviço militar, e ele não poderia suprimi-la por mais tempo. Se seu pai se recusasse a fazer a compra, em seguida, Hugo se alistaria nas fileiras de soldados rasos. Tinha quebrado o coração de seu pai. O seu próprio também, na verdade. Ele não era mais um garoto ingênuo e tímido. - É claro que você está sozinha, Fiona - disse ele. - Meu pai se foi há mais de um ano. E é claro que você se sente negligenciada. Ele está morto. Mas o seu ano de luto acabou, você sabe, e por mais difícil que possa ser, você precisa sair para o mundo novamente. Você ainda é jovem. Você ainda tem a sua aparência. Você é rica. Você pode ficar aqui, chafurdar na auto piedade e fazer de suas pílulas e seus remédios suas companhias. Ou você pode começar uma nova vida. Ela chorava em silêncio, não fazendo nenhuma tentativa para secar suas lágrimas ou cobrir o rosto. - Você tem o coração duro, Hugo - disse ela. - Você não era assim. Você me amou uma vez, até que seu pai descobriu e o mandou para longe. - Eu me afastei por vontade própria - disse ele, brutalmente. - Eu nunca te amei, Fiona. Você foi e é a minha madrasta. A esposa do meu pai. Eu teria gostado de você, se você tivesse permitido. Você não o fez.


Ele virou-se e saiu da sala. Como sua vida teria sido diferente se ela tivesse se contentado com o seu afeto após o casamento com seu pai. Mas não havia nenhum ponto em tais pensamentos ou em imaginar o que essa outra vida poderia ter sido. Poderia ter sido pior. Ou melhor. Mas ela não existira. Essa outra vida nunca fora vivida. A vida era feita de escolhas, todas as quais, mesmo a menor, fazia toda a diferença para o resto da vida de alguém.

A carta chegou um pouco depois de duas semanas após seu retorno a Londres desde Dorsetshire. Lady Muir estava na mansão Kilbourne, em Grosvenor Square, anunciava a carta, e ficaria satisfeita se Lorde Trentham e a senhorita Emes fossem visitá-la às duas horas da tarde, dali a dois dias. Hugo tolamente virou a página para garantir que não havia mais nada escrito no verso da mesma. Era apenas uma pequena nota formal, sem nenhum sopro pessoal nela. O que ele esperava? Uma declaração de paixão eterna? Ela o tinha convidado a cortejá-la. Isso era um pensamento que precisava ser examinado. Ele iria cortejá-la. Sem garantia de sucesso. Ele poderia tentar se esforçar ao máximo por toda a primavera e, em seguida, se ajoelhar e oferecer-lhe uma perfeita rosa vermelha e uma proposta florida de casamento, apenas para ser rejeitado. Mais uma vez.


Ele estava disposto a gastar tanta energia apenas para acabar fazendo papel de idiota? Será que ele realmente queria que ela se casasse com ele? Havia muito mais no casamento e na vida do que o que acontecia entre os lençóis. E, como ela mesma tinha apontado, uma só pessoa não bastava para um casamento. Um se casava e o outro não. De qualquer maneira, um viveria com as consequências. Seria, provavelmente, ... Não, seria, sem dúvida, melhor errar do lado da cautela e não cortejá-la. Ou nunca voltar a lhe oferecer casamento. Mas ele alguma vez tinha sido um homem cauteloso? Quando teria ele resistido a um desafio simplesmente porque poderia falhar? Quando ele já tinha considerado a possibilidade de fracasso? Ele não deveria se casar com ela, mesmo assumindo que ela lhe dera uma chance. E se ela ajudasse Constance durante a primavera e a levasse a um par de bailes, e, se por algum milagre, sua irmã conhecesse alguém com quem pudesse estar feliz e segura, então ele não precisaria se casar com Gwendoline, ou com qualquer outra. Ele poderia ir para casa no verão, com a consciência limpa, para seus três quartos em funcionamento em uma grande mansão, seu estéril e espaçoso parque, e sua própria companhia cintilante. Só que ele tinha mais ou menos prometido a seu pai que, quando chegasse o momento, ele passaria o império de negócios para um filho próprio. Ele precisava casar se quisesse que o filho viesse a ser mais do que um produto de sua imaginação. Arrgghh! Constance tinha se juntado a ele à mesa do café. Ela beijou sua face, desejou um bom dia a ele, e sentou-se em seu lugar. Ele colocou a carta, aberta, ao lado de seu prato.


- Recebi de uma amiga - disse ele. - Ela acabou de chegar a Londres e me convidou para visitá-la e levar você comigo. - Ela? - Constance olhou por cima de sua torrada, sobre a qual ela estava espalhando marmelada, e sorriu maliciosamente para ele. - Lady Muir, - ele disse - irmã do conde de Kilbourne. Eu a conheci no início do ano, quando estava na Cornualha. Ela está na mansão Kilbourne, em Grosvenor Square. Ela estava olhando para ele, de olhos arregalados. - Lady Muir? - Ela disse. – Grosvenor Square? E ela quer que eu vá lá com você? - Isso é o que ela diz - disse ele, pegando a carta e entregando a ela. Ela leu, sua torrada esquecida, a boca ligeiramente aberta, os olhos ainda arregalados de espanto. Ela releu. E olhou para ele. - Ah, Hugo - disse ela, com a voz quase um sussurro. - Ah, Hugo. Ele imaginou que ela quisesse ir.

Lauren estava na mansão Kilbourne na tarde em que Gwen convidara Lorde Trentham para visitá-la com sua irmã. Ela havia implorado para que a deixasse estar lá para a ocasião. A mãe de Gwen e Lily estavam em casa também. Elas queriam que Gwen as acompanhasse a uma visita a Isabel, duquesa de Portfrey, e ela se vira obrigada a admitir que estava esperando visitas. Ela mal podia, então, lembrar os nomes dos visitantes. Seria muito melhor ter só Lauren como companhia. Ah, e, talvez, Lily também - Lily tinha ficado absurdamente


desapontada ao saber que Gwen tinha recusado Lorde Trentham e ele tinha ido embora sem outra palavra. Ela o tinha visto como uma figura romântica, bem como heroica e esperava que ele fosse o único capaz de arrebatá-la. A mãe de Gwen parecia confusa e um pouco perturbada quando soube que os visitantes viriam. Lily, por outro lado, desconfiara, como uma cunhada faria, com brilhantes olhos especulativos, mas não fez nenhum comentário. - Foi apenas uma cortesia convidá-los para uma visita, Mama - explicou Gwen. - Lorde Trentham me salvou do que poderia ter sido um destino muito desagradável quando eu estava hospedado com Vera na Cornualha, depois de tudo. As quatro de se sentaram na sala de estar quando a hora marcada se aproximava, olhando para os brilhantes raios de sol, e Gwen se perguntava se seus visitantes viriam ou não, e se ela queria que eles viessem. Eles vieram, quase exatamente às duas horas. - Lorde Trentham e a senhorita Emes - o mordomo anunciou, e eles entraram na sala. A senhorita Emes era tão diferente de seu irmão como era possível ser. Era de estatura média, mas muito delgada. Era loira, de pele clara e tinha olhos azuis, que estavam tão arregalados como um pires agora. Pobre menina, deve ser um choque horrível para ela encontrar-se enfrentando quatro senhoras, quando esperava uma. Ela ficou muito próxima ao lado de seu irmão e olhava como se fosse se esconder atrás dele, se ele não tivesse o braço dela firmemente aninhada sob o seu próprio. Os olhos de Gwen moveram-se involuntariamente para ele. Para Hugo. Ele estava bem vestido, como de costume. Mas ainda parecia um feroz guerreiro bárbaro disfarçado de cavalheiro. E estava mais carrancudo, franzindo a testa. Ele deve


ter ficado igualmente chocado ao descobrir que isso não seria uma audiência privada, apenas com ela. Bem, ela pensou, se quisessem se mover em círculos da alta sociedade, deveriam se acostumar a estar em uma sala com mais do que um membro da sociedade de cada vez, e com mais do que um título. Embora Hugo tivesse, é claro, experimentado isso em Newbury Abbey. Seu coração estava batendo desconfortavelmente. - Senhorita Emes, disse ela, levantando-se e dando um passo adiante – como é bom que tenha vindo. Eu sou Lady Muir. - Milady. - A menina livrou seu braço de seu irmão e se inclinou em uma reverência, sem tirar os olhos arregalados de Gwen. - Esta é a minha mãe, a condessa viúva de Kilbourne, Gwen disse - e a condessa, minha cunhada. E Lady Ravensberg, minha prima. Lorde Trentham, o senhor se encontrou com todas antes. A menina fez uma reverência de novo, e Lorde Trentham inclinou a cabeça rigidamente. - Sentem-se, - disse Gwen. - A bandeja de chá estará aqui em um momento. - Lorde Trentham sentou-se em um sofá, e sua irmã sentou ao seu lado, tão perto que tocava seu ombro e seu quadril. Suas faces enrubesceram. Se ela fosse uma criança, Gwen pensou, ela certamente teria virado a cabeça para esconder o rosto contra a manga do irmão. Ela não tinha tirado seus olhos de Gwen. Ela era razoavelmente bonita, Gwen decidiu, mesmo que não fosse uma beleza delirante. E ela estava vestida bem o suficiente, mas sem talento.


Gwen sorriu para ela. - Ouso dizer, senhorita Emes, - ela disse - que você está feliz em ter o seu irmão, em Londres. - Estou, milady - disse a menina, e houve uma pausa durante a qual Gwen pensou que manter uma conversa poderia, muito bem, revelar-se muito difícil. Como ela poderia ajudar uma garota que não ajudaria a si mesma? Mas ela não tinha terminado. - Ele é um grande herói. Meu pai estava cheio de orgulho antes de morrer no ano passado, e eu também. Mas, mais do que isso, tenho adorado Hugo toda a minha vida. Me disseram que eu chorei por três dias seguidos depois que ele foi para a guerra, quando eu ainda era muito jovem. Eu desejava e ansiava que ele voltasse para casa desde então. E agora, finalmente, ele veio, e vai ficar ao menos até o verão. Ela tinha uma voz clara, bonita. Ficara um pouco sem fôlego, o que era compreensível sob as circunstâncias. Mas suas palavras iluminaram seu rosto e fez com que ficasse mais bonita do que Gwen tinha achado no início. E, finalmente, a menina olhou para longe de Gwen, a fim de olhar para o adorado irmão. Ele olhou para ela com carinho óbvio. - Suas palavras têm seu mérito, senhorita Emes - disse Lauren. - Mas os homens vão para a guerra, você sabe, e deixam suas sensíveis mulheres para trás, para se preocuparem. Todos riram e a tensão foi um pouco aliviado. A mãe de Gwen perguntou pela saúde da Sra. Emes, e Lily disse para a menina que nem todas as mulheres foram sensíveis o suficiente para ficar em casa na guerra, que ela tinha crescido no rastro de um exército e tinha até passado alguns anos na Península antes de vir para a Inglaterra. - A Inglaterra é que foi o país estrangeiro para mim, - ela disse - mesmo que eu fosse inglesa por nascimento.


Confidenciou Lily, em vez de simplesmente fazer perguntas. Ela tinha deixado a garota mais à vontade, Gwen notara. A bandeja de chá tinha sido trazida, e Lily estava servindo. Isto não era apenas uma visita social, Gwen lembrou a si mesma, apesar do que sua mãe e Lily deveriam pensar. Ela trocou um olhar com Lauren. - Senhorita Emes, - disse ela - entendo que ele é o seu sonho assistir a um baila da sociedade durante a temporada. Os olhos da garota se arregalaram de novo, e ela corou. - Ah, é, milady - disse ela. - Eu pensei que talvez Hugo... bem, ele é um Lorde. Mas suponho que eu esteja sendo boba. Embora ele tenha prometido que vai consegui-lo antes que a temporada acabe, e Hugo sempre cumpre suas promessas. Mas … Ela parou de falar e lançou um olhar de desculpas para o irmão. Ele não tinha dito a ela, então, Gwen pensou. Talvez ele não acreditasse que ela manteria sua promessa e não queria decepcionar sua irmã. - Senhorita Emes, - disse Lauren - meu marido e eu, juntamente com seus pais, ofereceremos um baile em Redfield House no final da próxima semana. Será cedo o suficiente na temporada para eu ousar dizer que todos virão. Será um grande aperto, e eu me cobrir com o triunfo. Ficaria muito satisfeita se você participasse com Lorde Trentham. A menina ficou boquiaberta e, em seguida, fechou a boca com um clique audível de seus dentes. Querida Lauren. Ela não tinha sido preparada com antecedência. Gwen tinha pensado em levar a menina para um


evento menor, pelo menos em sua primeira aparição. Mas talvez um abarrotado e grande baile - e o de Lauren era obrigado a ser assim - fosse melhor. Não haveria multidões maiores e, portanto, menos razão para a insegurança. - Isso, - Lorde Trentham disse, falando por quase a primeira vez desde que entrara na sala – é extremamente gentil de sua parte, milady. Mas eu não tenho certeza... - Você pode vir sob o meu apadrinhamento, senhorita Emes - disse Gwen, olhando para Lorde Trentha enquanto falava. Mas, com o seu irmão como acompanhante, é claro. Uma jovem senhora deveria ter um apadrinhamento feminino em vez de apenas o seu irmão, e eu ficaria encantado em assumir esse papel. Sua mãe, ela estava consciente, estava muito silenciosa. - Ah! - A senhorita Emes disse, as mãos cruzadas com tanta força no colo que Gwen que podia ver o branco dos nós dos dedos. – A senhora faria isso, milady? Por mim? - Eu faria, de fato - disse Gwen. – Pode ser divertido. Diversão? O que você faz para se divertir? Lorde Trentham perguntara a ela uma vez em Penderris, e ela se perguntou se a palavra fazia sentido para uma mulher adulta. - Ah, Hugo. - A garota virou a cabeça e olhou para ele, implorando. - Posso? A mão dele cobriu as dela em seu colo. - Se desejar, Connie - disse ele. - Você pode experimentar, de qualquer modo. Eu pensei que poderia proporcionar-lhe uma tentativa. Ele havia dito aquelas palavras em Newbury, quando oferecera


casamento a Gwen. Ele se encontrou com os olhos dela brevemente, e ela poderia dizer que ele estava se lembrando também. - Obrigada - disse a menina, olhando primeiro para ele, depois para Lauren e depois a Gwen. - Ah, obrigada a todos vocês. Mas eu não tenho nada para vestir. - Veremos isso - Lorde Trentham disse. - Nem eu. - Gwen riu. - O que não é rigorosamente a verdade, é claro, como eu diria que não é para você, senhorita Emes. Mas esta é uma nova primavera e uma nova temporada, e há toda a necessidade de ter novas roupas da moda com que surpreender a sociedade. Vamos sair em busca de juntas? - Amanhã de manhã, talvez? - Ah, Hugo, - a menina disse, olhando suplicante para ele novamente - eu posso? Eu ainda tenho todo o dinheiro que você me deu no ano passado. - Você pode ir - ele disse - e envie as contas a mim, é claro. Ele olhou para Gwen. – Carta branca, Lady Muir. Constance deve ter tudo o que precisa para o baile. - E para outras ocasiões também? - Perguntou Gwen. - Um baile não vai satisfazer tanto a sua irmã ou a mim, você sabe. Tenho quase certeza disso. - Carta branca - disse ele de novo, mantendo seu olhar. Ela sorriu de volta para ele. Ah, esta temporada prometia ser muito diferente das que a precederam. Pela primeira vez em muitos anos na cidade, ela se sentia viva, cheia de esperança e otimismo. Mas esperança de que? Ela não sabia, e ela não se importava neste momento. Gostava de Constance Emes. Pelo menos, pensou que iria gostar quando a conhecesse um pouco melhor.


Lorde Trentham se levantou para partir assim que tinha terminado o chá, e sua irmã levantou também. Ele surpreendeu Gwen então, antes que saísse da sala. Ele virou-se para a porta e disse a ela, não fazendo nenhuma tentativa de baixar a voz. - Faz um dia ensolarado, milady, - disse ele - sem qualquer vento perceptível. Gostaria de vir passear no parque comigo mais tarde? Ah. Gwen estava muito consciente de sua mãe, Lily e Lauren atrás dela na sala. A senhorita Emes olhou para ela com os olhos brilhantes. - Obrigada, Lorde Trentham - disse Gwen. - Isso seria agradável. E eles tinham ido embora. A porta se fechou atrás deles. - Gwen, - disse sua mãe depois de uma breve pausa – isso foi certamente desnecessário. Você está mostrando uma bondade extraordinária para a irmã, mas você deve ser vista concedendo favores ao irmão? Você recusou sua oferta de casamento há apenas algumas semanas atrás. - Ele realmente é bastante lindo, embora a seu próprio modo, mãe - disse Lily, rindo. - Será que você não concorda, Lauren? - Ele é ... distinto - disse Lauren. - E é claro que ele não foi dissuadido pela rejeição de Gwen à sua oferta. Isso o faz parecer tolamente obstinado ou persistentemente ardente. O tempo dirá. - E ela riu também. - Mama, - Gwen disse - eu convidei Lorde Trentham para nos visitar esta tarde com a senhorita Emes. Me ofereci para apadrinhá-la em alguns eventos da sociedade. Me ofereci para ajudar a vesti-la adequadamente na moda. Então, se Lorde


Trentham me convida para passear no parque com ele, não é tão surpreendente que eu aceitasse. Sua mãe olhou para ela, franzindo a testa e balançando a cabeça ligeiramente. Lily e Lauren significativos.

estavam

ocupadas

trocando

olhares


Capítulo 14 Não tinha nada além do que uma simples e modesta carruagem que normalmente estava parada na casa de Crosslands e, por vezes, ficava semanas sem ser utilizada, uma carroça somente para o negócio agrícola. Hugo nunca tinha possuído um veículo. Sempre que necessitava percorrer grandes distâncias servia-se de um cavalo. Mas durante a semana passada decidira comprar um cabriolé que ostentava nada menos que um assento alto e bem arqueado, com rodas pintadas em amarelo. Também adquiriu uma parelha de cor castanha para combinar e conduzi-lo. Sentia-se como um dândi. Deu um suspiro alongando as costas, calçou as luvas e, usando uma bengala como suporte, dirigiu-se para as calçadas de Londres, enquanto ia admirando as senhoras através de um monóculo. Flavian, que estava na cidade por algumas semanas, tinha insistido em que o cabriolé com rodas amarelas era muito superior a todos os que Hugo olhara, e os cavalos também tinham precedência sobre todos os outros que Hugo preferisse, pois eles combinavam, enquanto os outros não. - Se pretende ir à ca-caça, Hugo, - ele disse, enquanto estavam juntos no pátio do Tattersall - e porque você estaria na cidade em busca de uma esposa se não tem a intenção de arrumar uma, deve ter talento para rechaçá-las. Vai atrair dez potenciais noivas na primeira vez que descer a rua atrás dessas belezas.


- E aí eu paro, explico a elas que tenho um título nobiliário e sou rico, e pergunto-lhes se se importariam de se casar comigo? Disse Hugo, perguntando-se o que seu pai pensaria da compra de dois cavalos que eram duas vezes mais caros que os outros, simplesmente porque eles combinavam. - Meu caro amigo. - Flavian estremeceu teatralmente. - É preciso manter-se mais misterioso. Cabe às ladies descobrirem esses fatos por si mesmas e despertar-lhe a atenção. Ladies são brilhantes em tais manobras. - Devo dirigir pela a rua, então, - disse Hugo - e esperar que as ladies me ataquem. - Elas irão fazê-lo, sem dúvida, com mais sutileza do que suas palavras sugerem - disse Flavian. - Mas, sim, Hugo. Nós vamos fazer de você um cavalheiro notável. Vai comprar a parelha castanha antes que alguém o faça? Hugo os comprou. Assim tinha sido capaz de se oferecer para conduzir, ao convidar Lady Muir para passear no parque, ao invés de pedirlhe para caminharem a pé. Ele sentia-se como um idiota frívolo, empoleirado sobre a carruagem para todo o mundo o ver. Era como se o estivessem olhando, e descobriu-se meio constrangido. Embora tenha passado por certo números de outros veículos elegantes e modernos a caminho de Grosvenor Square, apenas um pouco mais de duas horas depois de passar por ali com Constance, sua carruagem atraiu sua parcela de olhares de admiração e até mesmo um assovio de apreciação. Pelo menos os cavalos eram manejáveis, apesar de Flavian os descrevesse como um tanto alarmantes para um principiante. Lady Muir já estava pronta. Na verdade, ele nem sequer teve tempo de tocar no batente de porta. No momento em que


chegava à entrada, a porta se abriu e ela saiu para o exterior. A reclamação à Constance ao dizer que não tinha nada para vestir, era claramente uma mentira descarada. Ela estava extremamente deslumbrante num vestido verde pálido, luvas de pelica e com um chapéu de palha combinando. Aparatado com flores prímulas e folhas verdes artificiais, devia ser a mais recente moda, supôs. Ela desceu os degraus da casa sem ajuda e se aproximou dele na calçada, enquanto ele estendia a mão para ajudá-la a subir até o assento elevado. Percebeu seu coxear novamente. Ele dificilmente poderia ignorá-lo, de fato. Não era um ligeiro coxear. - Obrigada. - Ela sorriu para ele enquanto colocava a mão enluvada na sua e montava em seu assento, sem qualquer problema. Ele endireitou-se e reuniu as rédeas em suas mãos novamente. Não sabia por que diabo estava fazendo aquilo. Ela não era, efetivamente, a pessoa que mais gostava no mundo. Ela tinha recusado sua proposta de casamento, o que, é claro, tinha o perfeito direito de fazer, o que não lhe surpreendia, quando se lembrava exatamente com que brilhantismo verbal havia proposto. Mas ela não tinha se contentado com a recusa. Ela se ofereceu para ajudar Constance, de qualquer maneira, e o convidara a cortejá-la - sem nenhuma garantia de que consideraria mais favoravelmente a proposta se ele a renovasse no final da temporada. Como se atirava uma mão cheia de sementes secas a um pássaro. Como se jogava um osso seco para um cão. Mas ele estava ali, de qualquer forma, mesmo que fosse completamente desnecessário. Ela e sua prima, Lady Ravensberg, já haviam arranjado para Constance fazer uma


espécie de estreia na sociedade, e Connie estava além de animada. Então, não havia necessidade de fazer este convite. Nem precisava ter comprado este brinquedo extravagante e espalhafatoso que estava dirigindo. Teria comprado isto com ela em mente? Era uma pergunta cuja resposta ele não queria saber. Nesse meio tempo, estava ficando desconfortavelmente consciente de que o assento de um cabriolé era estreito e realmente concebido para acomodar apenas uma pessoa, especialmente quando essa pessoa era grande. Ela estava quente e suave, era toda feminilidade, como, é claro, descobrira em uma determinada praia na Cornualha. E estava usando aquele perfume caro. - Este é um cabriolé muito elegante, Lorde Trentham - disse ela. - É nova? - É - confirmou, guiando seus cavalos ao passar ao lado de uma grande carroça de legumes empilhados, principalmente repolhos, que não pareciam nem um pouco frescos. Um pouco mais tarde, virou para o parque. Precisava se juntar ao passeio da moda, supôs, embora nunca em sua vida tivesse feito isso. Era onde começava a chegar grande quantidade de nobres ao final da tarde, para exibirem suas melhores roupas uns aos outros, trocarem fofocas e, por vezes, talvez até alguma notícia real. - Lorde Trentham, - disse ela - desde que deixamos Grosvenor Square, só falou duas palavras. E parece um tormento para o senhor quando há uma questão que exija um pouco mais que uma resposta afirmativa ou negativa. E o senhor está de cara amarrada. - Possilvemente esteja - disse ele, olhando para a frente. - A senhora prefere ser levada para casa, ao invés de continuar?


Ele desejou que não a tivesse convidado. Tinha sido uma coisa impulsiva, mesmo que tenha comprado a carruagem para tal ocasião. Bom Deus, ele estava confuso. Sentia-se muito fora de sua personalidade e em perigo iminente de um afogamento. A cabeça dela estava voltada para ele. Ela o estava estudando atentamente, ele poderia sentir sem virar a cabeça. - Eu não gostaria disso - disse ela calmamente. - Sua irmã está feliz, Lorde Trentham? - Eufórica - disse ele. - Mas eu não estou convencido de que esteja fazendo a coisa certa por ela. Ela não sabe o que está diante dela. Pensa que sabe, mas não imagina. Pois jamais será um deles - um de vocês. - Se for assim - disse ela - ela perceberá e, então, nenhum dano terá sido feito. Ela vai seguir em frente com sua vida e encontrar a felicidade em um mundo que lhe é mais familiar. Mas você talvez esteja enganado. Somos uma classe diferente, mas somos todos da mesma espécie. - Por vezes, - disse ele - eu tenho minhas dúvidas sobre isso. - E, no entanto, - ela disse - alguns dos seus amigos mais próximos são da minha classe. E você é um de seus amigos mais próximos. - Isso é diferente - disse ele. Mas não houve tempo para mais conversa. Eles foram em direção à arraia-miúda e forçosamente juntaram-se a um passeio de veículos em movimento lento, desfilando sobre o enorme oval vazio. A maioria dos veículos estava descoberta para que os ocupantes pudessem cumprimentar e conversar com os conhecidos com facilidade. Cavalos entravam e saíam entre eles, e também paravam com frequência para que seus cavaleiros trocassem sutilezas sociais. As pessoas caminhavam nas proximidades, longe o suficiente para não serem pisadas, mas


perto o suficiente para verem e serem vistas, e para saudarem e serem saudadas. Lady Muir conhecia todo mundo, e todo mundo a conhecia. Ela sorriu, acenou e conversou com todos que pararam ao lado da carruagem. Se fosse um breve intercâmbio, ela não o apresentava. Ocasionalmente fazia-o, e Hugo sentia os olhos sobre ele, de forma indiscreta, avaliando e especulando. Ele se encontrou assentindo ou acenando a cabeça bruscamente para as pessoas cujos nomes, ou até mesmo rostos, ele nunca iria se lembrar ou esquecer. Se não fosse por Constance, estaria consolando-se com a promessa interior de que nunca faria algo assim novamente. Mas havia Constance, a promessa que fizera e o convite para o baile de Lady Ravensberg na próxima semana, que já tinha sido planejado e aceito. Ele estava comprometido agora. Mas não para cortejar Lady Muir, por Deus! Ele não era um fantoche na mão de ninguém. Apenas na noite passada ele tinha jantado com a família de um de seus primos, e o outro hóspede na mesa era uma mulher bastante jovem que recentemente perdera a mãe, viúva, com quem tinha ficado em casa, obedientemente, muito depois de seus irmãos e irmãs terem se casado . Ela estava perto da idade dele, Hugo tinha conjecturado, era encantadora e sensata, tinha uma figura atraente, um rosto natural. Teve uma boa conversa com ela e acompanhou-a à casa. Seus primos tinham sido contidos para com ele, é claro. Mas pensou que poderia se interessar. Ou, pelo menos, ele pensou que deveria estar interessado. Em seguida, sua mente, que seguia distraída, voltou ao presente. Dois cavalheiros passavam a cavalo e pararam ao lado da carruagem. Hugo, parou olhando o mais próximo, não os reconhecendo. Não era surpreendente, pois não conhecia ninguém.


O outro foi que falou com Lady Muir. - Gwen, minha menina querida! - Ele exclamou com uma voz que era tão familiar que o estômago de Hugo imediatamente ficou com náuseas. - Jason - disse ela. O tenente-coronel Grayson, não estava com o uniforme hoje, estava friamente bonito e tão arrogante e desdenhoso como sempre. Ele era um dos poucos oficiais militares que Hugo conhecia e que realmente odiava. Grayson tinha feito de sua vida um inferno desde o primeiro dia até o último, e tinha o poder de fazê-lo com grande prazer. Por duas vezes ele tinha conseguido impedir as promoções que Hugo tinha ganhado, tanto por categoria superior como por proezas. Subir na graduação tinha sido um processo lento, enquanto os olhos de Grayson estavam sempre nele, olhando com desprezo ao longo do comprimento do seu nariz aristocrático. Seus olhos estavam observando Hugo agora. - O herói de Badajoz - disse ele, fazendo com que as suas palavras soassem de forma grosseira. – Lorde Trentham? Tem certeza de que sabe o que está fazendo, Gwen? Está certa de que não concedeu o favor de sua companhia à uma miragem? - Acho que, Jason, - Lady Muir disse enquanto Hugo olhava fixamente de volta para ele, com a sua mandíbula apertada - você conhece Lorde Trentham? Ele foi, de fato, o comandante mais brilhantemente bem sucedido no Forlorn Hope em Badajoz? O senhor já o conheceu, Sir Isaac? Sir Isaac Bartlett, Lorde Trentham. Ela estava se referindo ao outro cavaleiro. Hugo mudou o seu olhar e inclinou a cabeça. - Bartlett - disse ele.


- Eu não sabia que estava na cidade, Gwen - disse Grayson. - Vai dar-me a honra de me convidar a … Kilbourne House? - Sim - disse ela. - Ao que parece, - ele disse - Kilbourne é demasiado indulgente. Você precisa de aconselhamento e orientação do chefe da família do seu falecido marido, já que você não está recebendo isso da sua própria. Ele acenou com a cbeça e montou. Sir Isaac Bartlett sorriu para os dois, tirou o chapéu para Lady Muir, e o seguiu. O ódio era inútil, Hugo decidiu mover a carruagem para a frente. O que tinha acontecido durante seus anos no serviço militar ficara no passado e permaneceria lá. Mas ele estava muito preocupado em reprimir o ódio que sentia, de qualquer maneira, para concentrar toda a atenção sobre Lady Muir, que estava ao lado dele conforme completavam o circuito e chamava alegremente a uma série de conhecidos. Ele ficou surpreso, então, quando virou a cabeça para perguntar se ela queria fazer o circuito mais uma vez, como a maioria das pessoas parecia estar fazendo, e descobriu que seu rosto estava pálido e cansado. Até mesmo os lábios estavam sem cor. - Leve-me para casa - disse ela. Ele retirou a carruagem longe da multidão sem demora. - A senhora está bem? - Ele perguntou. - Só um pouco ... fraca - disse ela. - Vou ficar bem depois de tomar uma xícara de chá. Virou-se para olhá-la novamente. E ouviu o eco das palavras que ela tinha trocado com Grayson, ou, mais especificamente, as palavras que ele tinha falado para ela. - O tenente-coronel Grayson aborreceu-a? - Perguntou. Provavelmente, o homem tinha um grau mais elevado agora.


- Visconde Muir? - Ela disse. Ele franziu a testa em incompreensão. - Ele é Visconde Muir agora - disse ela. - Era primo e herdeiro de Vernon. Ah. Que mundo pequeno. Mas as últimas palavras do homem agora foram explicadas. - Tem perturbado você? - Ele disse. - Ele matou Vernon - disse ela. - Ele e eu juntos. Virou a cabeça para não o olhar diretamente, como se a carruagem mudasse de direção. Apenas a aba do seu chapéu com as prímulas e folhas eram visíveis para ele. Ela não olhou para ele novamente, ou disse qualquer outra coisa. Não ofereceu nenhuma explicação. E Hugo não conseguia pensar em outra coisa abençoada para dizer.

Surpreendentemente, Gwen não tinha visto Jason, Visconde Muir, uma vez que ele conseguira o título, pelo menos não desde o funeral de Vernon. Ou talvez não fosse tão surpreendente. Ele não tinha desistido de sua carreira, quando herdara o título. E ainda não desistira, até onde Gwen sabia. Ele era um general agora. Ele era, presumivelmente, um homem muito importante no exército. Provavelmente, estivera longe da Inglaterra durante muito tempo, ou, então, em partes do país longe de Londres. Se ele já tinha passado algum tempo na cidade, devia ter sido quando ela não estava aqui. Ela tinha prendido a respiração a cada ano, com medo de vê-lo.


Ele era dois anos mais velho que Vernon, e tinha dominado seu primo mais jovem de todas as maneiras imagináveis, exceto, possivelmente, na aparência e na hierarquia social. Ele era maior, mais forte, mais bem sucedido na escola, mais atlético, mais popular com seus colegas, mais firme no caráter. Sempre que tinha uma folga prolongada de seu regimento, passava muito tempo com eles. Ele tinha necessidade de manter um olho em sua herança, sempre dizia com uma gargalhada, como se estivesse fazendo uma piada. Vernon sempre tinha rido com ele, com alegria genuína. A risada de Gwen tinha sido mais reservada. Vernon adorava Jason, e Jason parecia gostar dele. Ele havia tentado alegrar Vernon, tirando-o de seu lado sombrio sempre que encontrava-o mal humorado, advertindo-o de que ele tinha um título para preservar, tinha que ser mais homem e um bom marido para sua esposa bonita. Ele sempre fora brincalhão com Gwen, dizendo que ela devia apressar-se a produzir um herdeiro, bem como um reserva para que ele pudesse relaxar e concentrar-se em sua carreira. Sempre ria alto de sua própria piada, e Vernon tinha rido com ele. Uma vez ou outra tinha colocado um braço sobre os ombros de Gwen e abraçado seu lado, embora nunca tivesse feito qualquer avanço mais evidente para ela. Ela sempre se encolhera com repulsa, de qualquer maneira. Aparentemente, tinha sido o primeiro a chegar ao seu lado quando ela caíra de seu cavalo. Ele tinha estado com eles naquela ocasião, montando a uma curta distância atrás dela - uma distância muito curta, quando ela tinha saltado, quase como se ele sentisse que precisava incitar seu cavalo para saltar alto o suficiente. Tinha chorado inconsolávelmente com a morte de Vernon e novamente em seu funeral. Gwen nunca tinha sabido o quanto ele era sincero e o quanto era artifício. Ela nunca soube se ele amava Vernon ou odiava-o, se cobiçava o título ou era indiferente a ele, se ficara


realmente triste com o aborto espontâneo ou estava secretamente feliz.

E, é claro que ele não tinha, literalmente, matado Vernon, mais do que ela tinha. Ela sempre o havia odiado com paixão e sentia-se culpada porque ele nunca fizera nada para merecer isso ostensivamente e poderia ter vindo a fazer uma injustiça terrível. Que outro militar, afinal, iria chorar publicamente sobre a morte de um primo? Ele fora um dos poucos parentes sobreviventes de Vernon e o único que tinha sido, de alguma forma, atento a ele. O pai de Vernon tinha morrido jovem e sua mãe não tinha vivido muito mais tempo. Vernon tinha herdado seu título com a idade de quatorze anos e tinha sido governado por um par de guardiões competentes até que atingisse a maioridade. Ele não tinha irmãos ou irmãs. Agora ela tinha visto Jason novamente, após sete anos. E ele estava ameaçando ir a Kilbourne House. Neville, ele teve o descaramento de dizer, era demasiado indulgente com ela. Ele queria dar-lhe conselhos como chefe da família de seu falecido marido. Como se ele fosse chefe de sua família. O que ela sentia por ele não era melhor agora do que ela sentia nos anos passados. Irritou-se interiormente, mas não disse nada em casa. Visitou Lorde Trentham pela manhã, apresentando-se à sua lânguida madrasta, que se parecia com sua filha num grau notável. Gwen levou a senhorita Emes à sua própria costureira. O passeio às compras animou-a muito, por mais cansativo que fosse. Sempre gostou de fazer compras, e ter uma jovem bonita para vestir da cabeça aos pés, para quaisquer futuras eventualidades ou ocasiões, foi tão divertido como ela esperava que fosse. Especialmente quando o irmão da jovem lhes tinha dado carta branca para gastar tanto quanto quisessem.


Ela tinha perdido a visita de Jason enquanto estava fora. Assim como sua mãe e Lily, que tinham ido passar o dia com Cláudia, a esposa de Joseph, que estava sofrendo de enjôos devido à sua segunda gravidez. Mas Neville tinha estado em casa. - Disse algo sobre sentir-se responsável por você como chefe da família - disse Neville a Gwen enquanto estavam sentados em um almoço tardio. - Fui obrigado fazer cara de desentendido e peguntar-lhe exatamente a que família estava se referindo. Sem querer ofender, Gwen, mas os Grayson não vêm lutando para cuidar de você desde o falecimento de Vernon, têm? - Suponho que - disse Gwen - ele pensou que deveria estar abaixo da dignidade de um Grayson, até mesmo a viúva de um Grayson, ser vista no Hyde Park com um ex-oficial militar cujo heroísmo era tão extraordinário que o próprio rei o recompensou com um título. - Ele insinuou - disse Neville - que o Capitão Emes - é a forma como ele se referiu a Trentham - talvez não fosse tão heroico nessa ocasião, como o rei e entre outros foram levados a acreditar. Eu não o incitei a estender a visita. Lamento, Gwen. Deveria ter feito? Você nunca falou muito sobre o primo e sucessor de Vernon. Se você gosta, está disposta a seguir os conselhos dele? - Nenhum, - disse Gwen - e eu nunca gostei dele, embora deva admitir que ele nunca me deu um motivo em particular. Espero que o informe, Nev, que já atingi a maioridade anos atrás e já não tenho um marido a quem devo obediência. Espero que você lhe diga que sou bem capaz de escolher meus próprios amigos e acompanhantes. - É quase exatamente o que lhe disse - disse Neville. - Eu até me diverti com a ideia de usar um monóculo, mas decidi que seria muito afetação. Você está lamentando ter recusado a oferta de Trentham em Newbury?


- Não. - Ela fez uma pausa ao comer e olhou para ele. Estava feliz de que sua mãe não estivesse presente. - Mas tinha concordado em introduzir sua irmã na alta sociedade, Neville, portanto, vou vê-lo. E eu gosto dele. Você desaprova? Ele colocou os cotovelos sobre a mesa e juntou os dedos contra sua boca. - Porque ele não é um cavalheiro? - Disse. - Não, eu não desaprovo, Gwen. Eu não sou a Wilma, deve ficar feliz em saber. Eu confio em seu julgamento. Eu me casei com Lily na Península, lembra-se, quando eu achava que ela era a filha do meu sargento. Mesmo assim a amava, e só mais tarde descobri que ela era realmente filha de um duque. A aparente mudança em seu status não fez diferença alguma nos meus sentimentos por ela. Trentham apenas parece ... rabugento. - Ele é - disse ela. - Ou melhor, é mal-humorado e usa uma máscara na qual se sente mais confortável. Gwen sorriu e nada mais foi dito sobre o assunto. Jason não visitou de novo Kilbourne House.


Capítulo 15 Fiona sucumbira a uma doença misteriosa, que a mantinha confinada à cama num quarto escuro. Ninguém, além de Constance, conseguia trazer algum consolo a ela. Seu médico, a quem Hugo chamara a seu pedido, não poderia dar um diagnóstico sobre o que a afligia, mas afirmou que sua paciente era de uma constituição frágil e deveria ser protegida de quaisquer grandes mudanças em sua vida. De acordo com ele, ela ainda não recuperara a saúde após a morte prematura de seu marido há pouco mais de um ano. Constance estava disposta a devotar seu tempo para cuidar de sua mãe, ou sacrificar-se, Hugo pensou. Ele foi ver sua madrasta em seu quarto. - Fiona, disse ele, sentando-se na cadeira ao lado da cama, que sua irmã tinha ocupado com muita frequência nos últimos dias - Lamento que você esteja doente. Sua família lamenta também. Na verdade, eles estão bastante preocupados. Ela abriu os olhos e virou a cabeça no travesseiro para olhálo. - Eu fui à sua loja visitá-los ontem, disse ele. -Eles estão progredindo e felizes. Me receberam muito bem. A única tristeza deles é nunca vê-la, nem receber notícias suas. Sua mãe, irmã e cunhada ficariam muito felizes se você as chamasse aqui para passar um tempo com você, para ajudar sua enfermeira a trazer de volta a sua saúde e alegria. Ele não sabia se a alegria era mesmo possível para Fiona. Ele suspeitara, por mais doloroso que fosse para ele, uma vez que fora seu pai quem ele pensou que tinha sacrificado tudo na real esperança de felicidade quando lhe oferecera a chance de se casar com um homem tão rico que fora impossível recusá-lo.


Ela olhou para ele com olhos cansados e avermelhados. - Os lojistas! - Ela disse. - Lojistas prósperos e felizes, disse ele. - O negócio está bem o bastante para sustentar a todos, isto inclui os seus dois sobrinhos, filhos do seu irmão. Sua irmã está prometida em casamento a um advogado, filho mais novo de um cavalheiro de meios modestos. Eles estão bem, Fiona. E eles te amam. Anseiam para ajudar Constance. Ela puxou o lençol que a cobria. - Eles não teriam nada - disse ela, - se eu não tivesse casado com o seu pai e se ele não tivesse gasto uma pequena fortuna com eles. - Eles estão bem conscientes disso - ele disse - e não sentem nada menos que gratidão a você e ao meu pai. Mas o dinheiro é mal gasto apenas quando é desperdiçado. A ajuda financeira que meu pai lhes prestou por serem seus parentes e ele a adorava, foi usada bem e com sabedoria. Eles nunca pediram a ele mais, pois nunca precisaram. Deixe a sua mãe vir para te ver. Ela me perguntou se você ainda era tão deslumbrantemente linda como costumava ser e eu lhe disse que sim, ou que você ficará quando estiver bem novamente. Ela virou a cabeça para ele mais uma vez. - Você é o senhor da casa agora, Hugo - disse ela amargamente. - Se você optar por trazer minha mãe aqui, eu não posso impedi-lo. Ele abriu a boca para dizer mais, porém, em seguida, a fechou novamente. Ela não sentia que podia concordar com ele sem, de alguma forma, perder a dignidade. Então ela tinha colocado a responsabilidade da decisão sobre seus ombros. Bem, eles eram largos o bastante.


- É hora do medicamento - disse ele, levantando-se. - Vou trazer a Constance para você. Todas as pessoas, ele suspirava, enquanto saia do quarto, tinham seus próprios demônios para combater, ou não. Talvez isso durasse a vida toda. Talvez a vida fosse um teste para ver como lidamos com nossos demônios particulares e, com muita compaixão, mostrar aos outros como trilhar seu próprio caminho pela da vida. Como alguém dissera uma vez, isso estava na Bíblia? Era fácil o suficiente ver um cisco nos olhos de outra pessoa enquanto permanece inconsciente do seu próprio. - Sua mãe está pronta para seu medicamento, disse à Constance, que estava pálida, abatida e com os olhos bastante aborrecidos. Ele colocou um braço sobre os ombros dela. - Eu vou trazer sua avó, para vê-la, Connie. Talvez amanhã. Já está na hora. No entanto, você irá ao baile de Lady Ravensberg ou a quaisquer outros eventos em que Lady Muir esteja disposta a levá-la e você deseje participar. Terá uma chance de ter o seu próprio “felizes para sempre” depois. Eu prometi que o faria e eu não quebro minhas promessas. Seus olhos brilharam. - Minha avó? - Ela perguntou. - Você nem sabia que ela existia? - Ele a abraçou um pouco mais firmemente a seu lado. Mas parte de sua mente estava sempre em outro lugar. Como Grayson matara o marido de Lady Muir? Ou teria sido ela? As perguntas zumbiam dentro de sua cabeça como abelhas presas, desde aquele passeio no parque há três dias. Ela quisera dizer as palavras literalmente? Bem, é claro que ela não. Ele a conhecia bem para acreditar que fosse capaz de


um assassinato a sangue frio. Mas ela também não estava brincando. Ninguém brincaria com uma coisa dessas. Então, qual o sentido dela matar seu marido? Ou por que se sentia responsável por sua morte? E por que ela juntava o seu próprio nome com o de Grayson? Ele estaria bastante satisfeito em considerar Grayson capaz de matar. Se ele queria respostas, pensou ele, teria que descobrir por seus meios. Ele ia ter que perguntar.

A noite do baile Ravensberg inevitavelmente chegou, apesar das tentativas de Hugo de pensar nisso como uma coisa confortável, bem longe no futuro. Enquanto o baile se aproximava, sentia que não era tão diferente do que sentira quando se aproximava de uma grande e sangrenta batalha, só que na batalha ele poderia, pelo menos, olhar para frente e agir, sabendo que, uma vez que começasse, ele se esqueceria de tudo, até mesmo de seus medos. Ele teve a sensação terrível de que o medo o paralisaria enquanto caminhava em direção ao baile. Ele poderia simplesmente ir embora, supôs, desde que Lady Muir concordara em apoiar Constance e sua presença não seria necessária. Isso não seria justo, no entanto, com Lady Muir, que estava sendo gentil com Constance só por causa dele. E não era justo com Connie, a quem ele havia prometido levar a um baile. Seria bom se ele soubesse dançar. Ah, ele podia mover-se com o tempo aproximado da música, assim como a maioria das outras pessoas, supôs. Ele assistira algumas reuniões sociais nos últimos anos e nunca se humilhara, exceto, talvez, com a valsa. Mas dançar em um baile em Londres durante a temporada? Era uma combinação tripla para enchê-lo de terror. Ele preferia


oferecer-se para outra Forlorn Hope. Ele estava ali para acompanhar sua irmã até a casa de Redfield, em Hanover, o local do baile e Lady Muir os encontraria lá. Hugo se vestiu com cuidado, Connie não era a única que tinha roupas novas para a ocasião, e esperou no andar de baixo, na sala de estar com Fiona, sua mãe e irmã. As duas últimas haviam chegado pela primeira vez no dia anterior. Hugo não testemunhara o encontro com Fiona em seu quarto. Mas quando saíam, elas o tinham informado que iriam retornar nesta noite para fazerem companhia, enquanto Constance e ele estivessem no baile. Fiona tinha descido pela primeira vez em uma semana e se sentara, largada e pouco comunicativa, perto da lareira. Sua mãe, gorda, de faces rosadas e pálidas, sentara-se ao seu lado, segurando uma de suas mãos flácidas e acariciando-a. A irmã de Fiona, doze anos mais jovem do que ela, sentara-se em frente a elas, trabalhando em silêncio em algum crochê que trouxera. Ela se parecia com sua mãe mais do que a sua irmã, que ainda tinha a magreza da juventude. Era uma situação promissora, Hugo pensou. - Eu irei à cozinha eu mesma, Fee, assim que Constance e Hugo saírem, e vou fazer um pouco de sopa, - a mãe de Fiona estava dizendo quando Hugo entrou no quarto. - Não há nada melhor para melhorar a sua saúde do que uma boa sopa quente. Ah meu Deus! Ela tinha avistado Hugo. Ele conversou com ela apenas por alguns minutos. Constance não estava disposta a se atrasar para seu primeiro baile. Ela surgira próxima a eles, olhando como se estivesse, literalmente, prestes a explodir, e depois ficara perto da porta da sala de estar, corando e insegura, mordiscando o lábio inferior. - Ah, meu Deus! - Disse a avó novamente.


Como uma noiva, ela não tinha permitido que ninguém visse o vestido que usaria esta noite, nem mesmo soubesse nada sobre isso. Ela estava toda de branco, da cabeça aos pés. Mas não havia nada suave em sua aparência, Hugo concluiu, apesar do fato de seu cabelo ser loiro. Ela brilhava como a luz da lâmpada. Ele não era um especialista em moda, especialmente das mulheres, mas podia ver que havia duas camadas para seu vestido, a interior de seda, a exterior de renda. Era de cintura alta, logo abaixo dos seios, e ela estava jovem, bonita e perfeita. Ela calçava sapatos brancos, luvas brancas, um leque de prata, e as fitas brancas enroscadas através de seus cachos. - Você parece tão bonita como uma imagem, Connie - disse ele, sem originalidade alguma. Ela virou a cabeça em direção a ele e sua avó chorou e enxugou as lágrimas em seus olhos com um grande lenço de algodão. - Ah - ela gritou - você se parece com sua mãe, Constance. Você está como uma princesa. Não é, Hilda, meu amor? Sua filha mais jovem concordou com um sorriso, após deixar seu crochê no colo. - Constance. - Sua mãe estendeu a mão pálida em sua direção. - Seu pai iria aconselhá-la a não esquecer suas raízes. Eu a aconselharia a fazer o que a fará feliz. Era um pronunciamento notável vindo de Fiona. Constance pegou sua mão e segurou-a perto de seu rosto por um momento. - Você não se importa se eu for, mamãe? - Ela perguntou. - Sua avó me fará uma sopa - disse Fiona. - Ela sempre fez a melhor sopa do mundo. Cinco minutos depois, Hugo e sua irmã estavam em sua carruagem a caminho de Hanover.


-Hugo, - ela disse, colocando a mão enluvada na dele - você é como uma rocha de estabilidade. Estou tão assustada que tenho certeza que meus dentes estarão batendo a ponto de abafar o som da orquestra quando eu chegar lá, todo mundo franzir a testa para mim e Lady Ravensberg me acusar de arruinar seu baile. Claro, você não tem que ter medo. Você é o Lorde Trentham. Meus avós são lojistas. Embora seja uma doce avó, não é? E a tia Hilda tem olhos que cintilam gentilmente quando fala. Eu gosto dela. E eu ainda tenho o meu avô, tio, tia e primos para conhecer, e o Sr. Crane, noivo da tia Hilda. Eu tenho outra família inteira, assim como familiares da mamãe e você e todos do papai, mesmo que eles sejam apenas lojistas. Isso não importa, não é? Papai costumava dizer que ninguém, nem mesmo o mais humilde varredor de rua deveria ser humilhado por quem ele é. Ou ela. Eu sempre costumava dizer "ele ou ela" papai, e ele ria e dizia novamente para mim. Acho que mamãe está feliz em ver a vovó, não é? E acho que ela está ficando melhor novamente. Você acha... Ah, eu estou tagarelando. Eu nunca tagarelo. Mas estou apavorada. - Ela riu suavemente. Ele apertou a sua mão e concentrou-se em ser como uma rocha de estabilidade. Se ela soubesse! Eles não foram capazes de conduzir até a grande mansão iluminada na Rua Hanover e desaparecem lá dentro para encontrar algum canto escondido no qual pudessem se esconder. Havia uma fila de carruagens e eles tiveram que aguardar sua vez. E, quando chegou à vez deles, tiveram que permitir que um lacaio, perfeitamente uniformizado, abrisse a porta da carruagem, e eles desceram num tapete vermelho, que se estendia desde a borda do pavimento até os degraus da casa. E, quando entraram na casa, finalmente, encontraram-se em um grande salão, com pé-direito alto, iluminado sob as luzes brilhantes de um grande candelabro e, no meio de uma multidão de damas e cavalheiros tagarelas, maravilhosamente vestidos. Hugo, olhando em volta, descobriu sem surpresa alguma que ele


não conhecia nenhum deles. Mas, pelo menos, Grayson não estava entre eles. - Então, vamos ir lá em cima, Connie - ele disse à sua irmã silenciosa, sua voz soando a seus próprios ouvidos notavelmente como a do Capitão Emes ordenando a seus oficiais subordinados para formarem as linhas de batalha. Mas a ampla escadaria, que, presumivelmente, levava até o salão de baile, não estava melhor que o salão. Era tão bem iluminado, e estava lotada com o tagarelar e os risos das pessoas que estavam aguardando sua vez. Hugo logo percebeu que seria anunciado antes de passar ao longo da linha de recepção. Oh, meu Deus, dê-me duas Forlorn Hopes. - Não falta muito tempo agora - disse ele, com a jovialidade saudável, dando um tapinha e agarrando a fria mão de sua irmã. - Hugo - ela sussurrou. - Eu estou aqui. Eu estou realmente aqui. E ele olhou para ela, percebendo que estava cheia de emoção e felicidade que realmente sentia. E ele tinha brincado com a vergonhosa ideia de sugerir que eles fugissem. - Eu acredito que você esteja certa - disse ele, sorrindo para ela. E, então, eles chegaram ao topo das escadas e um mordomo rigidamente formal, que o lembrou do mordomo de Stanbrook, inclinou o ouvido para escutar suas identidades, e anunciou-lhes em voz alta, num tom firme. - Lorde Trentham e Senhorita Emes. A linha de recepção era composta de quatro pessoas, visconde e viscondessa de Ravensberg, a quem Hugo lembrou-se da sala de estar em Newbury Abbey, e o conde e a condessa de Redford, que deviam ser os pais de Ravensberg. Ele curvou-se.


Constance fez uma reverência. Saudações e brincadeiras foram trocadas. Lady Ravensberg tinha admirado o vestido de Constance e realmente piscou para ela. Ela olhou para ele e achou melhor não piscar. Era tudo surpreendentemente fácil. Mas a aristocracia era hábil em fazer tais ocasiões fáceis. Eles sabiam como transformar uma simples conversa na conversa mais difícil do mundo, na experiência de Hugo. Eles entraram no salão de baile. Hugo teve uma impressão rápida do grande salão, das centenas de velas acesas no lustre central e em arandelas de parede em torno do perímetro, dos bancos de flores e do piso de madeira brilhante, dos espelhos e colunas, da flor da sociedade vestida em toda a sua elegância e usando todas as suas joias mais preciosas. Para Constance, a impressão foi mais do que momentâneo. Hugo ouviu seu grito e a viu virar a cabeça de lado a lado e de cima e para baixo, como se ela nunca pudesse obter o suficiente de uma olhada em seu primeiro baile. Mas foi um pequeno pedaço da cena que logo atraiu atenção de Hugo. Lady Muir vinha vindo encontrá-los. Ela estava vestida com um primaveril verde pálido novamente. O tecido de seu vestido - seda? cetim? - brilhava a luz das velas. Ele roçava as curvas de seu corpo, revelando uma deliciosa quantidade de seios e uma sugestão tentadora de pernas bem torneadas, mesmo que uma fosse mais curta do que a outra. Suas luvas e sapatos eram de um ouro fosco. Ela usava uma corrente de ouro simples com um pequeno pingente de diamante em torno do pescoço, e ouro e diamantes piscavam dos lóbulos de suas orelhas sob os cabelos. Um leque de marfim pendia de um de seus pulsos. Ela era tudo o que era belo, desejável e inatingível. Como ele poderia ter tido o descaramento de fazer-lhe uma proposta de casamento não muito tempo atrás? No entanto, ele tinha


possuído uma vez aquele corpo elegantemente lindo. E, após ter recusado sua oferta, ela o convidara a cortejá-la. Será que ele se atreveria? Será que ele queria mesmo? E, exatamente, quantas vezes ele fez a si mesmo aquelas perguntas? Ela estava sorrindo - para sua irmã. - Senhorita Emes - Constance, disse ela – você está absolutamente encantadora. Ah, eu não ficaria nada surpresa se você dançasse todas as músicas e, até mesmo, tivesse que afastar potenciais parceiros. Felizmente, ninguém está se apresentando no baile, por isso o foco da atenção não estará sobre nenhuma outra jovem em particular. Venha. - E estendeu o braço para Constance segurar. Ela olhou para Hugo, após Constance tomar seu braço. E Hugo teve a satisfação de ver suas faces corarem. Então, ela não era completamente indiferente a ele. - Lorde Trentham, - ela disse – o senhor pode se misturar com os outros convidados, se preferir, ou mesmo retirar-se para a sala de jogos. Sua irmã estará segura comigo. Seria excluído. Para se misturar. Essa simples atividade. Mas com quem conversaria? No entanto, seria um pouco ridículo entrar em pânico. Ela tinha mencionado uma sala de jogos. Ele poderia se esconder lá dentro. Mas antes de ir, queria ver Constance dançar pela primeira vez em um baile. Poderia confiar em Lady Muir para fazer com que ela dançasse e que fosse com alguém respeitável. Ele falou, antes que ela levasse Constance para longe entre a multidão. - Espero, Lady Muir, - disse ele – que a senhora vá dançar esta noite. E que guarde uma dança para mim.


Ela dançava, apesar de sua claudicação. Ela lhe dissera isso em Penderris. - Obrigada - disse ela, e ele estava interessado em observar que ela parecia quase sem fôlego. - A quarta dança será uma valsa. É a dança da ceia. Oh senhor. Uma valsa. A esposa do vigário e algumas das outras senhoras da aldeia haviam empreendido a tarefa gigantesca de ensinar-lhe os passos em uma reunião, há cerca de dezoito meses, ou mais, em meio a muitas risadas provocadas neles e em todos os outros mortais ali reunidos para a ocasião. Ao final, ele acabara dançando com a mulher do boticário, com muitos aplausos e risadas. O melhor que se poderia dizer era que ele não tinha nenhuma vez pisado nos dedos da boa senhora. Ele havia prometido a si mesmo nunca dançar novamente. - Eu ficarei grato, então, milady, - disse ele - se a senhora reservá-la para mim. Ela assentiu com a cabeça, fitando-o por um momento, e depois se afastou com Constance. Hugo foi salvo de se sentir terrivelmente em evidência e constrangido, talvez carrancudo, em um baile, quando o conde de Kilbourne e o Marquês de Attingsborough juntaram-se a ele e iniciaram uma pequena conversa, do tipo que sua classe era tão talentosa. Outros homens se uniram a eles em breves diálogos ou foram apresentados ou reapresentados. Alguns deles estavam naquela sala em Newbury Abbey. Em seguida, Hugo viu Ralph. Na verdade, ele conhecia alguém. Constance, brilhando visivelmente com a felicidade, dançou a primeira valsa com um jovem cavalheiro ruivo que parecia bem-humorado e que podia ou não ser considerado bonito para um jovem, apesar de suas sardas. Ele estava sorrindo para ela,


conversando e dançando os passos intricados de uma dança facilmente praticada. Lady Muir estava dançando com um de seus primos. Seu coxear era completamente menos perceptível enquanto dançava. Seus olhos encontraram os de Hugo e permaneceram com eles por alguns momentos. Prendeu a respiração e ouviu seu batimento cardíaco batucando em seus ouvidos.


Capítulo 16 Gwen dançou as duas primeiras peças com os primos. Foi capaz de relaxar e conversar com eles, mantendo um olho em Constance Emes. Mas não havia nada com que se preocupar ali. Ela era bonita e animada o bastante para atrair mais do que parceiros suficientes, mesmo que não tivesse mais nada para recomendá-la. Mas, na verdade havia muito mais. Ela tinha Lady Muir como patrocinadora, e era a irmã de Lorde Trentham, o famoso herói de Badajoz. Esse fato agitou rapidamente o salão de baile, após ter sido sussurrado em poucos ouvidos, provavelmente, Gwen adivinhou, pelos próprios parentes. E, talvez o mais importante de tudo, havia rumores de a senhorita Emes ser tão rica quanto qualquer uma das herdeiras mais ansiosamente cortejadas da alta sociedade. A tarefa de Gwen para o resto da noite seria composta por nada mais árduo do que fazer a triagem dos senhores que disputariam dançar um conjunto com a menina, de modo que não fosse concedido o favor a cafajestes óbvios ou caçadores de fortuna. Constance dançou a primeira dança com Allan Grattin, filho mais novo de Sir James Grattin, a segunda com David Rigby, sobrinho através da mãe do Visconde Cawdor, e a terceira com Matthew Everly, herdeiro de uma propriedade decente e fortuna de linhagem antiga, embora não houvesse título na família. Eram todos jovens cavalheiros perfeitamente respeitáveis. O Conde de Berwick, um dos membros do Clube dos Sobreviventes, ficou com a dança anterior a ceia embora estivesse ciente do fato de que ela não poderia valsar até que fosse permitido fazê-lo por uma das patrocinadoras do Almack. Ainda que ser vista na companhia dele para essa dança e durante o jantar, faria nada mais que bem a garota. Gwen dançou a terceira peça com Lorde Merlock, com quem manteve termos amigáveis nos últimos dois ou três anos e a quem ela dera permissão para beijá-la em Vauxhall no ano


passado. Eles sorriam calorosamente um para o outro e ele a elogiou por sua aparência. - A senhora é a única mulher que conheço, - disse ele - que realmente fica mais jovem a cada ano. Certamente chegará ao ponto em que serei acusado de tentar lhe roubar do berço. - Que absurdo - disse Gwen, rindo enquanto os outros pares se afastavam deles por alguns momentos. Depois de beijá-la, ele a pedira em casamento. Ela havia dito não sem hesitação, e ele aceitou a rejeição muito bem. Até mesmo riu da sua previsão, de que ele provavelmente ficaria imensamente aliviado pela manhã. Ela se perguntava agora se ele ficara aliviado. Ela poderia tê-lo encorajado a renovar a paquera este ano, se já não tivesse convidado Lorde Trentham para fazer a mesma coisa. Desejou não ter feito isso. Embora não conhecesse Lorde Merlock muito bem, estava bastante confiante de que ele seria um marido agradável. Ele era bem-educado, bem-humorado e comportava-se bem e - bem, sem complicações. Se havia algum esqueleto no armário, ela não sabia. Embora ninguém nunca realmente soubesse, não é? De qualquer forma, tinha feito o convite a Lorde Trentham, e definitivamente não iria complicar a própria vida se amarrando a dois pretendentes ao mesmo tempo. O senhor Trentham deixou o salão de baile dez minutos depois que a primeira dança começou. Gwen sabia o momento da saída dele, mesmo que não estivesse a observá-lo diretamente. Ela se perguntava se ele não voltaria. Mas é claro que o faria. Ele havia pedido a ela uma dança. Além disso, ele gostaria de manter um olho sobre a irmã. Ele voltou. Claro que sim. E ele nem sequer esperou até o último momento antes da quarta dança começar. Ficou ao lado


dela, logo que terminou a terceira dança, e então a ignorou completamente. Ao invés disso ele falou com a irmã, que estava ansiosa para lhe dar um relato exaustivo de cada momento do baile. Ela transbordava de emoção enquanto falava. A menina não sabia nada sobre a moda de demonstrar tédio, Gwen pensou graças a Deus. Não havia nada mais ridículo do que uma jovem, recém-saída da sala de aula e do interior, enfeitada de branco virginal, parecer entediada e cansada do mundo em mais um baile, e ainda um outro parceiro. O Conde de Berwick se juntou a eles, e a senhorita Emes olhou para a cicatriz na face dele. - O senhor era um oficial, milorde? - Perguntou ela. - E conheceu Hugo na Península? - Ai de mim, não, senhorita Emes, - disse ele - embora eu o conhecesse. Não havia um soldado nos exércitos aliados, dos generais até o mais novo recruta nas fileiras, que não conhecessem o Capitão Emes, mais tarde major Lorde Trentham. Ele era o que todos nós aspirávamos ser e não conseguimos nos tornar. Poderíamos odiá-lo com paixão se ele não fosse tão malditamente modesto. Eu o conheci em Penderris Hall, Cornualha, enquanto ambos estávamos nos recuperando de nossas experiências de guerra, e fiquei impressionado, sem palavras até que ele me pediu para não ser tão estúpido. Ele mencionou a existência de uma irmã. Tenho certeza que sim. Mas ele não mencionou, o malandro, o fato de que ela era - e é - uma das damas mais bonitas na face da terra. Ele tinha atingido o tom certo com ela. Ela olhou com adoração o irmão por alguns instantes e, em seguida - ruborizada - para Lord Berwick. Como era maravilhoso ser ainda tão inocente, Gwen pensou. Ele falou de tal forma, que a bajulação pareceu mais amável do que uma paquera. Sua maneira era quase paternal, de fato, embora certamente estivesse apenas em seus vinte e poucos anos.


Ele deveria ter deixado à juventude para trás em um campo de batalha na Espanha ou Portugal. Lorde Trentham era um membro silencioso do grupo, e ainda não tinha sequer lançado um olhar a Gwen. Ela poderia ter ficado exasperada se não tivesse começado a compreendê-lo muito bem. Feroz e sisudo enquanto observava - e ele parecia ambos neste momento, apesar do carinho nos olhos quando os pousava sobre a irmã -, ele se sentia muito inseguro em uma situação social. Em um evento da sociedade, em todo caso. Ele poderia protestar que era de classe média e se orgulhava disso, e até poderia ser verdade. Provavelmente fosse, de fato. Mas também era verdade que ele se sentia intimidado pela sociedade. Até mesmo por ela. Ela tinha lembranças espontâneas dele sair do mar com uma graça inconsciente naquela enseada em Penderris, a água escorrendo do corpo quase nu, a roupa intima agarrada aos quadris e coxas. E dele tirando aquela roupa mais tarde, depois de a carregar para o mar. Ele não tinha sido intimidado por ela então. Casais estavam se reunindo no salão para a valsa. Lorde Berwick fez uma reverência para Constance e estendeu a mão para ela. - Devemos ir em busca de um copo de limonada e um sofá confortável a partir do qual poderemos observar a dança? Sugeriu. - Embora seja provável que teria olhos apenas para uma determinada pessoa. - Bobo - Constance disse com uma risada, enquanto colocava a própria mão sobre a dele. Gwen os observou fazer o caminho para a sala de descanso e esperou. Sentiu-se um pouco divertida - e ficou quase sem fôlego de antecipação.


- Eu valsei em apenas uma ocasião em minha vida, - Lorde Trentham disse abruptamente, com os olhos sobre a partida da irmã. - Não esmaguei os dedos da minha parceira e não balancei em uma direção enquanto ela flutuava graciosamente para outra. Mas o meu desempenho incitou o riso, assim como aplausos de escárnio, de todos os outros presentes naquela reunião particular. Oh, Deus. Gwen riu e abriu o leque. - Eles devem ter gostado muito de você - disse ela. Fixou os olhos nos dela e franziu a testa em incompreensão. - Pessoas educadas - disse ela - não dão risadas de alguém ou aplaudem ironicamente, a menos que saibam que esse alguém vai entender o afeto deles e participar das risadas. Você riu? Ele continuou a franzir a testa para ela. - Acredito que sim - disse ele. - Sim, devo ter. O que mais eu poderia fazer? Ela abanou o rosto e se apaixonou um pouco mais profundamente por ele. Como gostaria de ter visto isso. - E assim, - disse ela - você está cheio de medo agora. - Se você olhasse para baixo, - disse ele - veria que os meus joelhos estão batendo. Se não houvesse tanto barulho no salão, iria ouvi-los também. Ela riu novamente. - Dancei três quadrilhas vigorosas em seguida - disse ela - e embora meu tornozelo não esteja doendo, doerá se eu não usar de algum bom senso e descansá-lo. Confio no conde de Berwick. E você?


- Com a minha vida - disse ele. - E com a vida e a virtude da minha irmã. - Há uma varanda além das janelas francesas - ela disse - e um belo jardim abaixo. Não está uma noite muito fria. Caminha comigo lá fora? - Eu, provavelmente, estou privando você do prazer de sua dança favorita - disse ele. Ele estava. - Eu acredito, - disse ela – que vou desfrutar de um passeio com o senhor mais do que valsar com outra pessoa, Lorde Trentham. Palavras imprudentes, de fato. Ela não as tinha planejado. Não era uma namoradeira. Ou nunca tinha sido, de qualquer maneira. Falou a simples verdade. Mas, às vezes, verdades, mesmo as mais simples, eram mais bem guardadas para si mesmo. Ele ofereceu o braço e ela o tomou. Ele a conduziu, saíram para a varanda deserta e desceram os degraus íngremes para o jardim igualmente deserto. Não estava totalmente escuro, no entanto. Pequenas lanternas coloridas oscilavam dos galhos das árvores e iluminavam os caminhos de cascalho que serpenteavam através de canteiros cercados por sebes baixas. A partir do salão de baile vinha à melodia de uma valsa cadenciada. - Devo agradecê-la, - disse ele com firmeza - pelo que fez e está fazendo por Constance. Não acho que ela poderia estar mais feliz do que está hoje à noite. - Mas tenho sido, pelo menos parcialmente egoísta - disse ela. - Apresentá-la me deu grande prazer. E receio que nós tenhamos gastado uma grande parte de seu dinheiro.


- Dinheiro do meu pai - disse ele. - O dinheiro do pai dela. Mas ela será tão infeliz em um futuro próximo como está feliz agora? Ela certamente não pode esperar muitos mais convites para bailes ou outros eventos, e certamente não pode esperar que qualquer um dos cavalheiros que dançam com ela esta noite, dancem com ela novamente. A mãe dela, Lady Muir, está sentada em casa com a mãe e a irmã. Elas vivem uma vida modesta a partir de uma pequena mercearia e dificilmente se qualificam como pessoas de classe média. - E ela é a irmã de Lorde Trentham de Badajoz - disse ela. Ele virou a cabeça para fitá-la na escuridão. - O senhor, provavelmente, nem sequer percebeu que o salão está zumbindo com a sua fama - disse ela. - Durante anos, as pessoas esperaram por algum vislumbre seu e, de repente, aqui está o senhor. Alguns fatores transcendem linhas de classe, Lorde Trentham, e este é um deles. O senhor é um herói de proporções quase míticas, e Constance é sua irmã. - Essa é a coisa mais maluca que já ouvi na minha vida disse ele. - Isso é aquela sala de estar em Newbury Abbey novamente. - E, de sua parte, - disse ela - suponho que seria o suficiente para fazê-lo correr de volta para o interior, aos seus cordeiros e repolhos. Mas não pode fazer isso, pois tem a felicidade de sua irmã a considerar. E a felicidade dela é mais importante para você do que a sua própria. - Quem disse isso? - Perguntou ele, franzindo a testa. - O senhor disse isso com suas ações - disse ela. - Nunca precisou colocar em palavras, como sabe, apesar de ter chegado perto de vez em quando. - Maldição - disse ele. - Deus amaldiçoe tudo.


Gwen sorriu e esperou por um pedido de desculpas para a linguagem chocante. Não veio nenhum. - Além disso, - disse ela - mesmo para além da sua fama, há rumores também rondando de que a senhorita Emes é fabulosamente rica. Uma jovem dama bonita e gentil que está devidamente acompanhada, irá despertar o interesse em qualquer lugar, Lorde Trentham. Quando também é ricamente dotada, é bastante irresistível. Ele suspirou. Havia um banco de madeira na extremidade do jardim à sombra de um velho carvalho. Ficava entre os canteiros de flores, de frente para a casa iluminada. Sentaram-se lado a lado, e por alguns instantes houve silêncio novamente. Ela não seria a única a quebrá-lo, Gwen decidiu. - Eu deveria estar cortejando-a - disse ele abruptamente. Ela virou a cabeça para olhar para ele, mas seu rosto estava na sombra. - Não deveria, - disse ela - só se desejar fazê-lo. E com nenhuma promessa de que seu cortejo será recebido favoravelmente. - Não tenho certeza de que desejo - disse ele. Bem. Bruscamente falado, como de costume. Ela deveria estar aliviada, Gwen pensou. Mas seu coração parecia ter afundado até as solas das sapatilhas de dança. - Não acho que quero cortejar uma assassina, - disse ele - se é isso que você é. Embora eu não devesse objetar, eu não sei, pois eu mesmo poderia ser acusado de assassinatos múltiplos, sem torcer muito a verdade. E confiei minha irmã ao seu cuidado.


Bem. Tanto romance e conversa esclarecedora eram adequados para a ocasião festiva de um baile durante a temporada. Ele não tinha mais a dizer. Houve mais alguns instantes de silêncio entre eles. Desta vez, ela teria de quebrá-lo. - Eu não matei, literalmente, Vernon - disse ela. - Nem Jason. Mas sinto como se nós dois o tivéssemos feito. Sinto que causamos sua morte, de qualquer maneira. Ou que eu fiz. E minha consciência ficará sempre pesada com a culpa. Realmente faz bem em não me cortejar, Lorde Trentham. O senhor carrega culpa o suficiente sem ter sua alma escurecida com a minha. Nós dois precisamos de alguém para nos livrar desse peso. - Ninguém pode fazer isso por você - disse ele. - Nunca se case com essa esperança. Ficará frustrada antes que se passem quinze dias. Gwen engoliu em seco e alisou o leque sobre o colo. Ela podia ver as sombras dos dançarinos através das janelas francesas na distância. Podia ouvir música e risos. Pessoas sem nenhuma preocupação no mundo. A ingênua suposição. Todos tinham alguma preocupação no mundo. - Jason estava nos visitando, como sempre fazia quando tinha folga - disse ela. - Eu odiava essas visitas, tanto quanto Vernon amava. Eu o odiava, embora nunca poderia explicar bem o porquê. Ele parecia gostar bastante do meu marido e se preocupar com ele. Embora ele tenha ido longe demais no final. Uma noite, Vernon estava nas profundezas de um de seus humores mais sombrios e tinha ido para a cama cedo. Se desculpou na mesa de jantar, deixando Jason e eu juntos. Como nós acabamos conversando no corredor em vez de estar ainda na sala de jantar, não me lembro, mas era onde estávamos.


Era um salão em mármore, frio, duro, ecoando, bonito em um sentido puramente arquitetônico. - Jason pensava que Vernon deveria ser levado a algum tipo de instituição - disse ela. – Conhecia um lugar onde ele iria ter um bom atendimento e onde, com um pouco de companhia e tratamento especializado, iria aprender a se recompor e superar a perda de uma criança que nunca sequer nasceu. Vernon sempre tinha sido um pouco fraco emocionalmente, ele disse, mas poderia ser fortalecido com o tratamento adequado. Enquanto isso, Jason iria tirar uma licença mais longa e gerenciar a propriedade para que Vernon ficasse livre de preocupações enquanto recuperava o ânimo e aprendia a fortalecer a mente. O exército teria sido bom para ele, ele disse, mas sempre esteve fora de questão porque Vernon havia herdado o título quando tinha quatorze anos. Mesmo assim, seus guardiões não deveriam ter sido tão suaves com ele. Gwen abriu o leque no colo, mas na escuridão ela não podia ver as flores delicadas pintadas ali. - Eu disse a ele - disse ela - que ninguém colocaria meu marido em qualquer instituição. Ele estava doente, mas não era louco. Ninguém iria lidar com ele, com firmeza ou habilmente ou de qualquer outra forma. E ninguém iria reforçar seu caráter. Ele estava doente e era sensível, e gostaria de cuidá-lo e convencê-lo a ter pensamentos mais alegres. E se ele nunca viesse a melhorar, então que assim fosse. Ela fechou o leque com um piscar de olhos. - Ele não tinha ido para a cama - disse ela. -Estava em pé na galeria, sem luz, olhando para nós e ouvindo cada palavra. Nós só soubemos que ele estava lá quando ele falou. Lembro-me de cada palavra. Meu Deus, ele disse, não sou insano, Jason. Você não pode acreditar que esteja louco. Jason olhou para ele e disse-lhe muito claramente que ele estava. E Vernon olhou para mim e disse, eu não estou doente, Gwen. Ou


fraco. Você não pode pensar isso. Você não pode pensar que preciso de cuidados ou adaptação. E foi assim que eu o matei. O leque tremia em seu colo. Ela percebeu que eram as mãos dela que tremiam somente quando uma mão grande e quente cobriu as suas fortemente. - Não agora, Vernon - eu disse a ele. Estou cansada. Estou mortalmente cansada. E eu virei para ir à biblioteca. Eu precisava ficar sozinha. Fiquei muito chateada com o que Jason tinha sugerido, e fiquei ainda mais chateada que Vernon tivesse ouvido. Senti que um ponto de crise tinha sido alcançado, e eu não estava em estado de espírito para lidar com isso. Eu tinha a mão na maçaneta da porta quando ele chamou meu nome. Ah, a angústia em sua voz, o sentimento de traição. Tudo em uma palavra, o meu nome. Eu estava me virando para ele quando ele se atirou sobre a balaustrada, e então eu vi tudo, do início ao fim. Suponho que durou um segundo, embora parecesse uma eternidade. Jason tinha os braços erguidos em direção a ele como se para pegá-lo, mas não poderia ser feito, é claro. Vernon estava morto antes que eu pudesse abrir a boca ou Jason pudesse se mover. Não acredito que ainda gritava. Houve um silêncio bastante longo. Gwen franziu a testa, lembrando-se, algo que quase nunca se permitia fazer. Lembrando que havia algo enigmático, algo... que não combinava. Mesmo na época, sua mente não tinha sido capaz de entender o que era. Era impossível fazê-lo agora. - Você não o matou - disse Lorde Trentham. - Sabe muito bem que não. Embora Muir estivesse deprimido, ele tomou a decisão deliberada de se jogar para a morte. Nem mesmo Grayson o matou. No entanto, entendo por que você se sente culpada, por que você sempre se sentirá. Compreendo. Isso a tocou estranhamente, como uma bênção.


- Sim, - ela disse – você, entre todas as pessoas, sabe como a culpa, onde não há culpa real, pode ser quase pior que a culpa onde há. Não há expiação a ser feita. - Stanbrook me disse uma vez, - disse ele - que o suicídio é o pior tipo de egoísmo, bem como muitas vezes é um apelo a pessoas específicas que são deixadas encalhadas na terra dos viventes, incapazes, por toda a eternidade, de responder a este fundamento. Seu caso é semelhante, em muitos aspectos, ao dele. Por um momento você foi incapaz de lidar com a tarefa constante e gigantesca de cuidar das necessidades do seu marido e, por esse lapso momentâneo, ele a puniu por todos os tempos. - Você coloca a culpa nele? - Ela disse. - Dificilmente - disse ele. - Acredito que ele estava doente, que não poderia simplesmente ficar livre de seus maus humores, como Grayson parecia pensar que podia, especialmente com um pouco de manipulação firme. Também acredito que você se deu toda, exceto quando seu todo drenou e secou, e por um momento você decidiu que precisava de um pouco de tempo para pensar e recuperar um pouco de força, de modo que pudesse se dar a ele novamente. Não estou surpreso que por sete anos você ainda não pensou em outro casamento. Ela tinha virado uma de suas mãos, percebeu, de modo que foi apertada na dele. Seus dedos estavam entrelaçados. Sua própria mão foi ofuscada. Sentia-se curiosamente segura. - Diga meu nome - disse ela, quase num sussurro. - Gwendoline? - Disse. - Gwendoline. Ela fechou os olhos. - Muitas vezes, - disse ela - eu ouço só outro nome, falado repetidas vezes em sua voz. Gwen, Gwen, Gwen.


- Gwendoline - disse ele novamente. - Você já contou essa história para alguém? - Não - ela disse. - E você não pode dizer, neste momento, que é a casa que tem atraído tais confidências de mim. Não estamos em Penderris. Deve ser você. - Você sabe, instintivamente, - disse ele - que vou entender, não acusá-la ou esfregar seus sentimentos de culpa. De quem você se sente mais perto do que qualquer outra pessoa no mundo? Você, ela quase disse. Mas isso não podia ser verdade. A mãe dela? Neville? Lily? Lauren? - Lauren - disse ela. - Será que ela sofreu? - Ele perguntou a ela. - Oh, mais do que quase qualquer um que eu sei- ela disse a ele. - Ela cresceu com a gente porque a mãe se casou com meu tio e partiu em uma viagem de casamento da qual nunca mais voltaram. Os parentes do pai dela não queriam nada com ela, e o avô materno não iria levá-la. Ela cresceu esperando casar com Neville, e ela o amava muito. Mas quando ele foi para a guerra, se casou secretamente com Lily, considerou que ela foi morta em uma emboscada no dia seguinte, e voltou para casa sem dizer uma palavra a qualquer um de nós sobre ela. Seu casamento com Lauren foi planejado. Eles estavam na igreja de Newbury, cheia de convidados. Ela estava prestes a caminhar pelo corredor em direção a ele e seu felizes para sempre, quando Lily chegou, parecendo uma mendiga. E assim todos os sonhos de Lauren, toda a sua sensação de segurança, tudo o que ela era foram destruídos novamente. Foi um milagre enorme que ela conhecesse Kit. Sim, ela sofreu. - Então ela é a pessoa ideal para você - disse ele. - Diga a ela. - Sobre... o que aconteceu? - Ela franziu a testa.


- Diga-lhe tudo - disse ele. - Seu sentimento de culpa vai continuar. Sempre será parte de você. Mas compartilhá-lo, permitindo que as pessoas a amem mesmo assim, vai lhe fazer muito bem. Segredos precisam de uma saída, senão eles apodrecem e tornam-se um fardo insuportável. - Eu não gostaria de sobrecarregá-la - disse ela. - Ela não vai se sentir sobrecarregada. - Ele apertou os dedos sobre os dela. - Você acha que ela imagina que seu casamento foi perfeito, mas marcado por tragédias. Ela provavelmente acredita que, como os outros fazem, que você era vítima de abuso. Você foi uma vítima, mas não exatamente de abuso. Ela ficará aliviada ao saber a verdade. Ela será capaz de oferecer o conforto que, eu ouso dizer, você deu a ela durante o sofrimento muito mais público dela. - Clube dos sobreviventes - disse ela baixinho. - Isso é o que eles fizeram por você. - O que temos feito um para o outro - disse ele. - Nós todos precisamos ser amados, Gwendoline, total e incondicionalmente. Mesmo quando o ônus da culpa e a crença em nos mesmos são totalmente indignos. O ponto é que ninguém é digno. Eu não sou um homem religioso, mas acredito que é sobre isso que as religiões falam. Ninguém merece, ainda somos todos, de alguma forma, dignos de amor. Gwen ergueu o olhar para o salão de baile distante. Incrivelmente, todo mundo ainda estava dançando. A peça ainda não tinha terminado. - Perdão - disse ela. - Esta é uma ocasião social. Eu deveria estar ajudando você a se divertir, porque você não gostou de vir aqui e não teria feito isso se não fosse por sua irmã. Eu deveria estar fazendo você relaxar e rir. Eu deveria ser...


Ela parou abruptamente. O braço livre dele estava sobre seus ombros, e a mão que estava segurando a dela estava vagamente abraçando seu pescoço, o queixo mantido firmemente na fenda entre o polegar e o indicador. Ele ergueu o queixo e virou a cabeça. Ela não podia vê-lo claramente. - Às vezes, - disse ele - você diz as coisas mais tolas. Deve ser a aristocrata em você. E ele a beijou, a boca firme na dela, quente, aberta. A língua invadindo sua boca. Ela agarrou seu pulso e beijou-o de volta. Não era um breve abraço. Nem era lascivo ou mesmo particularmente ardente. Mas era algo que sentia a raiz do seu ser. Pois, por mais físico que fosse, não era sobre o físico. Era sobre... eles. Ele a estava beijando, porque ela era Gwendoline, e ele se preocupava com ela, apesar de tudo. Ela o estava beijando porque ele era Hugo e ela se preocupava com ele. Depois que terminou, quando ele retirou a mão de seu queixo, a fim de segurar a mão dela em seu colo novamente, e ela inclinou a cabeça de lado para descansar em seu ombro, ela sentiu a dor de lágrimas não derramadas na garganta. Ela, estava claro, estava apaixonada por ele. Ou simplesmente o amando, enfim. Quando ele tinha se tornado o sol e a lua para ela, o próprio ar que respirava? E quando a impossibilidade se tornara apenas uma improbabilidade? Ela não deveria ser influenciada pelo romance. E, talvez, era só o que era. E as consequências de seu desabafo.


Quando ele tinha ficado tão sábio, tão compreensivo, tão gentil? Depois que sofreu? Era isso o sofrimento? Era isso o fazia para uma pessoa? Ele moveu a cabeça e beijou sua testa, seu rosto. - Não chore - ele murmurou. - A dança deve estar quase no fim. E olhe, há um outro casal na varanda e eles estão pairando no topo da escadaria. É melhor irmos para que eu possa me sentar com Constance e Berwick na ceia. Para que possamos sentar com eles. Ela levantou a cabeça, secou o rosto com as palmas das mãos, e ficou de pé. - Eu ainda tenho que decidir, - disse ele enquanto ela tomava seu braço - se eu quero cortejá-la ou não. Vou deixar você saber. Não tenho certeza de que posso cortejar uma mulher que manca. Eles estavam debaixo da árvore, e a luz da lâmpada iluminava seu rosto quando ela olhou para ele, surpresa. Ele não estava olhando para ela. Mas havia um brilho de algo em seus olhos que podia, eventualmente, ser um sorriso.


Capítulo 17 O condenável era que Lady Muir estava certa. O salão de baile realmente se movimentou com a notícia de sua fama. Uma dúzia ou mais homens queria apertar a mão dele durante o jantar, e onde quer que olhasse, tinha interceptado as cabeças e plumas acenando e olhares de admiração. Ele estava tremendamente embaraçado e acabou olhando para seu prato mais do que qualquer outro lugar, sentindo-se desajeitado e muito em exposição. Passou o resto da noite esquivando-se de um canto sombreado para outro, mas não parecia ajudar muito. E ele tinha sido incapaz de sair mais cedo, pois Constance dançou até o último acorde final ser tocado. Agora, esta manhã houve um verdadeiro dilúvio de notas, quase todas convites para vários entretenimentos: festas no jardim, concertos privados, saraus, café da manhã Veneziano, seja o diabo que isso for, noites musicais. – como podiam ser diferentes de concertos? E como poderia ser um café da manhã programado para começar durante a tarde? Não era uma contradição? Ou será que isso significava que a sociedade dormia durante toda a manhã na temporada, algo que faria sentido, na verdade, uma vez que, obviamente, embriagaram-se a noite toda? Quase todos os convites que lhe foram dirigidos incluíam Constance, fato que dificultou simplesmente ignorá-los ou enviálos de volta com uma recusa firme. Houve alguns convites endereçados apenas para Constance, bem como três buquês - de Ralph, do jovem Everly, e alguém que tinha assinado o seu cartão com um floreio tão extravagante que seu nome era ilegível. Hugo saiu para passar a manhã com William Richardson, seu gerente, deixando Constance com sua mãe e avó e dois meninos pequenos que esta última tinha trazido com ela esta manhã. Estranhamente, Fiona não pareceu excessivamente angustiada por sua energia e perguntas incessantes, e Constance


estava em êxtase com a oportunidade de conversar e brincar com estes novos primos. Ela estava se dirigindo para o Hyde Park no final da tarde com Gregory Hind, um dos parceiros da noite passada, aquele com a voz alta, que ria zurrando e tinha a tendência para achar tudo engraçado. Ele tinha passado em um escrutínio rigoroso de Lady Muir, no entanto, e Connie gostava dele. E, aparentemente, a irmã de Hind e seu noivo iam acompanhá-los, então tudo era perfeitamente respeitável. Hugo mergulhou em um longo trabalho para o campo. Ele não tinha certeza se queria cortejar Lady Muir. Ela mancava. Realmente, muito sensivelmente. Mas quando ele riu baixinho com a lembrança de dizer isso a ela, ele ganhou para si um olhar perplexo de Richardson e depois uma risada de resposta, como se o homem pensasse que devia ter perdido uma piada, mas fingia que não. Não, não tinha certeza se queria a cortejá-la. Ele não seria bom para ela. Ela precisava de alguém para estimá-la, mimá-la e fazê-la rir. Ela precisava de alguém de seu próprio mundo. E ele precisava de alguém... Mas ele realmente precisava de alguém depois de tudo? Ele precisava de alguém para gerar um filho, para que seu pai pudesse descansar em paz. Ele precisava de alguém para o sexo. O filho podia esperar, no entanto, e sexo poderia ser apreciado em outros lugares sem ser no casamento. Um pensamento deprimente. Ele não precisava de Gwendoline, Lady Muir. Só que ela o tinha levado, ontem à noite, a mais escura profundidade de sua alma e ele se sentiu curiosamente agradado. E ela o havia beijado como se ... Bem, como se, de alguma forma, ele importasse. E quando ele tinha dito que ela era manca, ela havia jogado a cabeça para trás e rido com pura alegria. E sem esquecer de que ele a tinha possuído na enseada em Penderris e ela o acolhera. Sim, ela tinha. Ela tinha, e ele, que sempre teve só prostitutas


antes dela, tinha conhecido a diferença, embora a ela tivesse faltado à maioria dos conhecimentos delas. Ele sentiu-se desejado, querido, amado. Amado? Bem, talvez tivesse ido um pouco longe demais. Mas ele ansiava por mais dela? Era ela o que desejava? Ou mais do mesmo. Ou era o amor que ele ansiava? Mas ele tinha negligenciado por muito tempo a coleta de lã e voltou sua atenção para o trabalho com determinação. No final da tarde, foi bater à porta da mansão Kilbourne, em Grosvenor Square e pediu ao mordomo que descobrisse se Lady Muir estava em casa e disposta a recebê-lo. Ele esperava que ela tivesse saído. Era o momento em que todos estavam fora, caminhando ou dirigindo no parque e estava um dia bastante decente, mesmo que o sol não estivesse brilhando constantemente. Hind estava fora com Constance, zurrando de rir com algo que ela tivesse dito. Talvez por isso ele tivesse vindo agora, porque ele podia ter bastante certeza de que ela não estaria. Se ele amadurecesse o bastante para compreender a si mesmo, Hugo decidiu, seria um milagre de primeira ordem. Não só ela estava em casa, como ia recebê-lo. Desceu as escadas em pessoa, logo à frente do mordomo. Ela estava parecendo pálida e apática, e com os olhos um pouco pesados. - Vamos para a biblioteca - disse ela. - Neville e Lily estão fora, e minha mãe está descansando. Ele a seguiu e fechou a porta.


- O que está errado? - Perguntou. Ela virou-se para olhar para ele e sorriu levemente. - Nada, na verdade - disse ela. - Acabo de passar à tarde com Lauren. Ela franziu o cenho e estendeu as mãos para ele. - Eu sinto muito - disse ela. - Eu estava certo? - Perguntou ele. Bom Deus, e se ele não estivesse? - Sim - ela disse, abaixando suas mãos, seus músculos faciais sob controle novamente. - Sim, você estava certo. Passamos quase uma tarde inteira chorando como idiotas. Começo a entender que eu sou o maior ovo de ganso que já nasceu para manter tudo preso dentro de mim por tanto tempo. - Não, - ele disse - você não é um ovo de ganso. Ela estava errada. Quando nos sentimos como ovos podres, preferimos que ninguém rache nossas cascas. - Eu sou um ovo podre, então. - Ela riu trêmula. - Sua irmã está feliz hoje? Tenho a intenção de visitá-la amanhã de manhã. - Ela está passeando com Hind e sua irmã - disse ele. - A sala de estar da casa parece e cheira como um jardim de flores. Ela recebeu cinco convites, sem contar os treze que eu recebi e que a incluíam. Sim, ela está feliz. - Mas você, nem tanto assim? - Perguntou ela. - Ah, venha e sente-se, Hugo. Vou ter um torcicolo de tanto olhar para cima. Ele se sentou em um divã, enquanto ela se sentou na cadeira de couro velho em frente a ele.


- Eu ficaria muito feliz em fazer uma fogueira com todos esses convites, - ele disse - mas eu tenho que pensar em Connie. Eu vim para pedir o seu conselho sobre quais convites aceitar. - Desses? - Ela acenou para o maço de papéis que ele tinha na mão. - Sim - disse ele, segurando-os em sua direção. - Os de Constance estão em cima, os meus embaixo. Quais devemos ir? Uma temporada na sociedade foi o que prometi, depois de tudo, e não quero criar expectativas pouco razoáveis nela. - Ela pode encontrar a felicidade só entre sua própria classe, é o que você acha? - Ela perguntou, pegando a pilha de convites dele e colocando sobre seu colo. - Não necessariamente. - Ele podia sentir sua mandíbula endurecer. Ela estava tirando sarro dele. - Mas, provavelmente. Ela levou alguns minutos para olhar os convites, um por um. Ele olhou para ela e estava irritado. Ele queria dar um passo para pegá-la em seus braços como tinha feito em Penderris quando tinha todas as desculpas para fazê-lo, e levá-la de volta para o seu colo. Ela ainda estava pálida. Mas ele não era o seu guardião. Ele não era de forma alguma responsável por tê-la confortável ou qualquer outra coisa. Suas costas estavam eretas. Não, isso era injusto. Estavam em linha reta, mas sua postura era relaxada, graciosa. Sua coluna não tocava o encosto da cadeira, no entanto. Seu pescoço arqueou como de um cisne. Ela era uma dama do topo da cabeça até a ponta dos dedos dos seus bem cuidados pés delicadamente calçados. E ele a queria ferozmente. - Recebi a maioria destes convites eu mesma - disse ela. Não me atreveria a dizer-lhe quais deve aceitar ou recusar, Lorde Trentham. Mas há alguns que seriam mais sensatos para Constance recusar e alguns que seriam muito vantajosos para ela


aceitar. Na verdade, existem três eventos aos quais eu estava com muita esperança de que ela fosse convidada, para que eu não tivesse que me esforçar para assegurar-lhe um convite. Ela riu baixinho e olhou para ele. - Você não deve se sentir obrigado a ir com ela - disse ela. Eu terei prazer de levá-la comigo e ser uma acompanhante atenciosa. No entanto, a sociedade ficará desapontada se o herói de Badajoz desaparecer da face da terra novamente depois de ontem à noite, quando muitos deles não tiveram a oportunidade de falar com você e apertar sua mão ou, então, nem sequer estavam presentes. A sociedade é uma entidade inconstante, apesar de tudo. Depois de um tempo a novidade de vê-lo finalmente será substituída por outra coisa e você não será mais o foco da atenção onde quer que vá. Mas todo mundo vai querer a chance de vê-lo um bom número de vezes antes que isso aconteça. Ele suspirou. - Vou acompanhar Constance a esses três eventos - disse ele. - Diga-me quais são, e eu vou enviar uma aceitação. Ela colocou os três por cima e entregou o pacote de volta para ele. - Como eu adoraria um pouco de ar fresco - disse ela. - Vai me levar para caminhar, Lorde Trentham, ou será muito embaraçoso que eu manque junto a você? Ela sorriu quando disse isso, mas havia algo de melancólico em seus olhos. Ele se levantou e empurrou a pilha de convites no bolso do casaco, puxando a roupa da moda horrivelmente fora de forma. - Você sabe que eu estava brincando na noite passada disse ele. - Ser manca é parte de você, Gwendoline, embora eu desejasse, para o seu bem, que não fosse. Você é linda, para mim,


como você é. - Ele estendeu a mão para ela. - Mas eu ainda não decidi se quero cortejá-la. Um desses três convites é para uma festa no jardim? Ela riu e, finalmente, houve um pouco de cor em suas faces. - É - disse ela. - Você vai sair-se bem o suficiente, Hugo, se lembrar de uma coisa pequena. Quando você bebe chá, segure a alça da xícara com o polegar e três dedos, mas não com o seu dedo mindinho. Ela estremeceu teatralmente. - Vá buscar a sua capa - ele disse a ela. - Eu decidi não cortejá-la - disse ele. Eles foram andando pela calçada na direção do Hyde Park, o braço de Gwen enfiado através de seu. Estava se sentindo cansada até a medula dos seus ossos, apenas há pouco tempo depois de voltar de Lauren. Ela provavelmente teria ficado em sua cama se Hugo não tivesse chegado. E estava feliz que ele tivesse vindo. Ainda estava se sentindo cansada, mas estava relaxada também. Quase feliz. Eles não tinham falado. Parecia desnecessário fazê-lo. Ela estava se sentindo... segura. - Ah? - Ela disse. Por que, desta vez? - Eu sou muito importante para você - disse ele. - Eu sou o herói de Badajoz. Ela sorriu. Foi a primeira vez que ele tinha falado voluntariamente sobre esse episódio em sua vida. E ele tinha feito uma piada sobre isso. - Ai de mim, - disse ela - é um argumento muito verdadeiro. Mas eu me consolo pelo fato de que você é muito importante para


qualquer pessoa. Você deve se casar com alguém, no entanto. Você é um homem vigoroso, mas muito importante para frequente... Oh, Deus, ela não foi feita para esse tipo de brincadeira. - Bordéis? - ele disse. - Bem, - disse ela - você é muito importante. E se você deve se casar, supõe-se que você também deva cortejar a dama de sua escolha. - Não - disse ele. - Eu sou muito importante para isso. Eu apenas tenho que estalar meus dedos e ela virá correndo. - A fama não lhe deixou vaidoso, por acaso? - Perguntou ela. - Nem um pouco - disse ele. - Não há nada pretensioso sobre reconhecer a verdade. Ela riu suavemente, e quando o olhou, viu o que poderia ser um sorriso espreitando sobre os cantos dos lábios dele. Ele estava tentando fazê-la rir. - Você planeja - ela perguntou - estalar os dedos para mim? Houve uma longa pausa antes de sua resposta enquanto eles atravessavam a rua e ele jogava uma moeda para o jovem varredor que tinha tirado uma pilha fumegante de estrume para fora do seu caminho. - Eu não decidi - disse ele. - "Eu vou lhe avisar. Gwen sorriu novamente, e eles entraram no parque. Passaram a área de moda, onde as multidões ainda estavam dirigindo ou andando a pé, embora eles não se demorassem lá. Mesmo assim, sua chegada foi notada com muito mais interesse do que se ela estivesse só, Gwen pensou, e inúmeras pessoas acenaram ou mesmo pararam para uma breve


troca de cumprimentos. Ambos ficaram satisfeitos por ver o duque de Stanbrook a cavalo com o Visconde Ponsonby. O duque os convidou para tomar chá com ele na tarde seguinte. Constance Emes acenou alegremente da carruagem do Sr. Hind a alguma distância. Mas eles passaram adiante, em vez de andar no circuito como todo mundo, onde passavam muito menos veículos e pedestres. - Conte-me sobre sua madrasta - disse ela. - Fiona? - Ele olhou para ela com alguma surpresa. - Meu pai se casou com ela quando eu tinha treze anos. Ela estava trabalhando na loja de uma modista na ocasião. Ela era extremamente bela. Ele se casou com ela dentro de uma semana ou duas depois de conhecê-la. Eu nem sabia sobre ela até que ele abruptamente anunciou, um dia, que iria se casar no próximo. Foi um choque desagradável. Suponho que a maioria dos rapazes, imagine que seus pais viúvos amavam suas mães tanto que poderiam nunca mais sequer olhar para outra mulher com desejo. Eu estava totalmente preparado para odiá-la. - E depois? - Ela disse, apontando para um trio de cavaleiros que passaram, tiraram seus chapéus para ela e olharam para Hugo com temor aberto. Ele parecia nem saber de sua existência. - Eu gosto de pensar que teria recuperado algum senso comum - disse ele. - Eu tinha meu pai e o adorava, mas tinha treze anos e já sabia que a minha vida não giraria em torno dele. Logo ficou óbvio que ela estava terrivelmente aborrecida. Era óbvio por que ela se casara com ele, é claro. Acho que não há nada de mais terrivelmente errado em se casar com um homem por seu dinheiro. É feito o tempo todo. E acho que ela nunca foi infiel, mas teria estado comigo alguns anos mais tarde, se eu tivesse permitido. Então, ao invés disso, eu fui para a guerra.


- Esse foi o seu motivo para ir? - Ela olhou para ele, os olhos arregalados. - O engraçado foi - disse ele - que eu nunca poderia suportar matar até mesmo a menor e mais feia criatura. Eu estava sempre levando aranhas e besourinhos para fora de casa para deixá-los na porta. Estava sempre resgatando ratos de armadilhas, nas raras ocasiões em que eles ainda estavam vivos. E sempre trazendo aves domésticas com asas quebradas, e cães e gatos vadios. Por um tempo, meus primos costumavam me irritar me chamando o gigante gentil. E eu acabei matando homens. Muito foi explicado, Gwen pensava. Ah, muito. - E a sua madrasta não se relacionava com seus tios, tias e primos? - Ela perguntou. - Ela se sentia inferior a eles - disse ele - e, consequentemente, acreditava que a desprezavam. Eu não acredito que eles o fizessem. Eles a teriam amado e recebido se lhes tivesse sido dada a oportunidade. Todos eles vieram de origens humildes, afinal. Ela parou de ver sua própria família, na crença, suponho, que eles iriam arrastá-la para baixo do nível que tinha atingido ao se casar com meu pai. Eu fui visitá-los há uma semana. Eles nunca deixaram de amá-la e desejá-la. Incrivelmente, eles não parecem ressentir-se dela. Sua mãe e sua irmã tem passado algum tempo com ela, e esta manhã sua mãe trouxe seus dois netos, sobrinhos de Fiona. Há ainda o pai, o irmão e a cunhada por conhecer, mas eu estou esperançoso de que isso vá acontecer. Talvez Fiona vá ter sua vida de volta. Ela é relativamente jovem, e ainda tem boa aparência. - Você ainda a odeia? - Ela perguntou. Ele moveu-a para o lado do caminho para uma carruagem aberta que estava vindo na direção deles. - Não é fácil odiar, - disse ele - quando se tem vivido o suficiente para saber que todo mundo tem um caminho difícil a


caminhar pela vida e nem sempre fazem escolhas sábias ou admiráveis. Há muito poucos vilões reais, talvez nenhum. Embora existam alguns que chegam muito perto. Eles olharam para os ocupantes do carro que estava para ultrapassá-los. Eram a Viscondessa Wragley com seu filho mais novo e a nora. Gwen sempre sentiu pena pelo o Sr. Carstairs, que era magro, pálido e aparentemente doente. E pela Sra. Carstairs, que sempre parecia descontente com a sua sorte na vida, mas estava sempre ao lado de seu marido. Gwen não sabia bem, uma vez que eles evitavam a maioria dos entretenimentos mais vigorosos da temporada. Ela sorriu para eles e desejou-lhes uma boa tarde. A viscondessa inclinou a cabeça regiamente. A Sra. Carstairs voltou à saudação de Gwen com uma voz apática. O Sr. Carstairs não falou. Nem Lorde Trentham. Mas Gwen, de repente, tornou-se ciente de que os dois homens estavam olhando um para o outro e que a atmosfera se tornara inexplicavelmente tensa. E então o Sr. Carstairs se inclinou para o lado da carruagem. - O herói de Badajoz - ele chiou, sua voz cheia de desprezo. E cuspiu no chão, bem longe deles. - Francis! - Exclamou a viscondessa, sua voz friamente chocada. - Frank! - A Sra. Carstairs lamentou. - Vá em frente, cocheiro - disse o Sr. Carstairs, e o cocheiro obedeceu. Gwen ficou congelada no lugar.


- A última vez que o vi, - Lorde Trentham disse - ele cuspiu diretamente em mim. Ela virou a cabeça bruscamente e olhou para o rosto dele. - O Sr. Carstairs era o tenente que você me falou? - Ela perguntou. - O que queria abortar o ataque à fortaleza? - Não era esperado que ele sobrevivesse - disse ele. - Ele obviamente teve ferimentos internos, bem como uma abundância de externos. Estava tossindo um monte de sangue. Foi enviado para casa para morrer. Mas, de alguma forma, ele viveu. - Ah, Hugo - disse ela. - Sua vida está arruinada - disse ele. - É óbvio. Deve ser duplamente difícil para ele para saber que eu estou aqui e que estou sendo saudado como um grande herói. Ele é tão grande herói como eu, se essa palavra se aplica a qualquer um de nós. Ele queria abortar o comando, mas ele seguiu quando eu fui em frente. - Ah, Hugo - disse ela novamente e, por um momento, ela descansava o lado da capa contra a manga dele. Ele não se moveu de volta para o caminho, mas a levou através de uma extensão de grama em direção a uma linha de árvores antigas e, entre elas, ao longo de um caminho muito mais limitado que estava bastante deserto. - Lamento que você tenha sido exposta a isso - disse ele. Vou levá-la para casa se quiser e ficar longe de você no futuro. Você pode levar Constance para a festa no jardim e os outros dois lugares, se for bom ou não, você escolhe. Você já fez uma grande coisa por ela pela bondade de seu coração. - Será que isso significa - ela perguntou-lhe - que você nunca vai estalar seus dedos para mim?


Ele virou a cabeça e olhou para ela, como o soldado sombrio que ela já conhecia. - É o que significa - ele disse. - Isso é uma pena - disse ela. - Eu estava começando a pensar que eu poderia, só poderia, ver com bons olhos o seu namoro. Embora o orgulho, reconhecidamente, pudesse me impedir de ir correndo em direção a um dedo torto. - Não posso, nunca, expô-la a qualquer coisa desse tipo de novo - disse ele. - Devo ser protegida contra a vida, então? - Ela disse. - Não pode ser feito, Hugo. - Eu não sei absolutamente nada sobre namoro - disse ele depois de um breve silêncio. - Eu não li o manual. - Você dança com a mulher em questão - disse ela. - Ou, se é uma valsa e você está com medo de tropeçar nos pés ou pisar no dela, então você pode passear ao ar livre com ela e ouvi-la deitar fora todos os seus mais profundos e obscuros segredos sem qualquer olhar entediado ou de julgamento. E então você pode beijá-la e fazê-la se sentir de alguma forma ... perdoada. Você pode visitá-la quando ela está se sentindo cansada até os ossos e levá-la para passear a pé. Você não deixaria de levá-la ao longo de um caminho obscuro e deserto de modo que você pudesse beijála. - Um beijo a cada dia? - Perguntou. - Isso é um requisito? - Sempre que possível - disse ela. - É preciso engenho em alguns dias. - Eu posso ser engenhoso - disse ele. - Eu não duvido - ela disse a ele. Caminharam lentamente para a frente.


- Gwendoline, - ele disse - eu posso parecer um grande e duro indivíduo, mas não tenho certeza se sou. - Ah - ela disse suavemente. - Eu tenho muita certeza de que não é, Hugo. Não em todas as maneiras que importam, de qualquer forma. Eu não sou dura também. Ou tentadora. Pelo menos ela não achava que ele era uma tentação. Ela precisava desesperadamente parar para pensar. Ela ainda estava muito cansada. Tinha dormido apenas um sono inquieto na noite passada, e hoje houve a tarde dolorosamente emocional com Lauren e agora ... isto. - Um beijo a cada dia - disse ele. - Mas não necessariamente como um sinal de corte. Um beijo, simplesmente porque as condições são favoráveis e desejamos. - Soa como uma razão boa o suficiente - disse ela, rindo. Beije-me, então, Hugo, e me resgate hoje de algum lugar... triste. Galhos de árvores carregadas de seu casaco de folhas verde claro de primavera acenavam acima de suas cabeças. O ar era perfumado com o cheiro delas. Um coro de aves invisíveis estava ocupado com suas misteriosas, comunicações em doce sonoridade. Ao longe, um cão latiu e uma criança deu uma risada alta. Ele virou as costas para um tronco de árvore e inclinou seu corpo contra o dela. Seus dedos empurraram os lados do chapéu em seu cabelo enquanto as palmas das mãos em concha envolviam suas faces. Seus olhos, olhando para os dela, à sombra das árvores, estavam muito escuros. - Todos os dias - disse ele. - É um pensamento inebriante. - Sim. - Ela sorriu.


- Jogos de cama todas as noites - disse ele. - Várias vezes por noite. E muitas vezes durante o dia também. Seria o resultado natural do namoro. - Sim - disse ela. - Se eu estivesse cortejando você - disse ele. - Sim - disse ela. - E se eu visse esse namoro com bons olhos. - Gwendoline - ele murmurou. - Hugo. E seus lábios tocaram os dela, escovaram-nos levemente, e recuaram. - Da próxima vez, - disse ele - se houver uma próxima vez, eu quero você nua. - Sim - disse ela. - Se existir uma próxima vez. Quais eram as razões pelas quais tudo isso era uma improbabilidade, mesmo que não seja uma impossibilidade? O que era uma dessas razões? Mesmo uma. Ele a beijou novamente, envolvendo ambos os braços sobre a cintura dela e puxando-a para longe da árvore em seu corpo, enquanto os braços dela se enroscavam em seu pescoço. Foi um beijo firme, quente, suas bocas abertas pressionadas juntas, as suas línguas duelando, acariciando-se, na sua boca, na dela, e de volta novamente. Eles respiravam pesadamente contra a face um do outro. E, finalmente, eles se beijaram suavemente e calorosamente e com os lábios somente, murmurando palavras ininteligíveis. - Eu acho - disse ele quando terminou - que é melhor eu te levar para casa.


- Eu também penso assim - disse ela. - E então é melhor você puxar esses convites do seu bolso antes que ele adquira uma protuberância permanente. - Não seria bom andar por aí parecendo um cavalheiro imperfeito - disse ele. - Não, na verdade. - Ela riu e pegou o braço dele. E ela, imprudentemente, foi atualizando suas chances de um futuro com ele todo o caminho, do improvável ao possível. Embora ainda não fosse provável. Ela não era tão imprudente.


Capítulo 18 Constance, parecia a Hugo, que estava tendo o melhor momento de sua vida. Ela foi às compras com Lady Muir, sua prima e a cunhada, pela manhã e terminou em uma loja de chá, com um admirador e a mãe dele. Ela passou uma outra tarde em uma rodada de visitas, com as mesmas três damas e foi escoltada para casa pelo filho, no final, com uma criada que seguia logo atrás, e que foi enviada por insistência da avó dele. Ela foi caminhar no parque em outras duas tardes com diferentes escoltas. E todas as manhãs traziam um fluxo de convites, embora até agora ela tinha assistido apenas a um baile. Ela fora bem lançada na sociedade e, ao que parecia, estava feliz. Não apenas consigo mesma, no entanto. - Todos os cavalheiros, que procuram a minha atenção, querem falar sobre você, Hugo - ela disse a ele durante o café da manhã. - É muito gratificante. - Sobre mim? - Ele franziu a testa. - E ainda assim eles estão cortejando você? - Bem, - disse ela - eu suponho que é bom para o prestígio deles ser visto com a irmã do herói de Badajoz. Hugo estava terrivelmente cansado de ouvir esta frase ridícula. - Mas, eles estão cortejando você? - Disse ele. - Ah, você não deve se preocupar, Hugo - ela disse. - Eu não vou me casar com nenhum deles. - Você não vai? - Perguntou Hugo, suas sobrancelhas se juntando. - Não, claro que não - disse ela. - Eles são todos muito doces, divertidos e muito...bem muito bobos, mas não, isso é cruel. Eu


gosto de todos eles. Eles são muito amáveis, e todos têm um terrível respeito por você. Eu duvido, que qualquer um deles tenha coragem até de pedir minha mão, caso quisesse fazê-lo. Você tem uma carranca feroz, você sabe. Constance, talvez, fosse mais sensata do que ele tinha percebido. Ela não estava depositando suas esperanças matrimoniais sobre qualquer um dos cavalheiros que conhecera até então. Era surpreendente, é claro. Seu primeiro baile tinha sido há menos de uma semana. Talvez ele tenha confundido seus motivos para querer assistir ao baile. Talvez não fosse mesmo tão importante para ela subir na escala social ao se casar. Era uma ideia que parecia ser confirmada por outras coisas acontecendo na vida dela. Ela foi até a mercearia uma tarde, com sua avó, e encontrou outros parentes lá. Ela os adorou imediatamente e foi adorada em troca. Após essa primeira visita, ela passou a ir todos os dias para vê-los, isto é, quando eles não estavam em sua casa dando toda atenção à Fiona. E ela falou deles, da loja e dos vizinhos, com tanto entusiasmo como o que ela demonstrou ao descrever suas relações com a aristocracia. Havia uma loja de ferragens ao lado da mercearia. O antigo dono tinha morrido recentemente, mas seu filho tinha prometido a todos os seus clientes que a manteria aberta e não mudaria nada. Era, de acordo com Constance, um verdadeiro esconderijo de Aladim, com corredores estreitos que torciam e viravam tanto, que era perigoso alguém ficar perdido. Eles eram tão estreitos que, as vezes, era difícil de se virar. E ele tinha absolutamente de tudo na loja. Assim como seu pai, antes dele, ele sabia exatamente onde pegar até mesmo o menor e mais obscuro item que acontecesse de alguém precisar. E havia vassouras, escadas penduradas nas paredes, pás, forcados no teto e... A história continuou e continuou.


E Constance ia lá todos os dias, sempre com um ou outro de seus parentes, especialmente aqueles que eram amigos do Sr.Tucker. De fato, sua avó tinha quase o adotado como filho extra, agora que seu pai tinha falecido. Ele era da mesma idade que Hilda, de acordo com Constance, talvez um ou dois anos mais jovem. Talvez três. Ele era engraçado. Ele brincava com Constance sobre seu sotaque refinado, embora ela não falasse de modo muito diferente de todos os outros, seu sotaque não era demasiado cockney. Ela podia entendê-lo perfeitamente bem. Ele brincava com ela sobre suas bonitas toucas. Ele deixava Colin e Thomas, os dois meninos, correrem em sua querida loja, embora, quando eles derrubaram duas caixas de pregos diferentes e tendo misturados todos no chão, fez com que eles os pegassem e, em seguida, sentassem no balcão para classificá-los novamente. Eles levaram quase uma hora, e ele trouxera-lhes leite e biscoitos, para tornar seus dedos mais ágeis. E então, quando terminaram, ele bagunçou seus cabelos, disse que eles eram bom rapazes, deulhes um penny cada, na condição de que eles deixassem a loja imediatamente e não voltassem por pelo menos uma hora. Ele contava a Constance histórias engraçadas de seus clientes. Em uma tarde que chovia, ele insistiu em caminhar com ela todo o caminho de casa, mantendo sobre sua cabeça um guarda-chuva, que ele encontrou nos fundos da loja. Ele disse que não poderia dormir aquela noite, se a deixasse ir para casa sem ele e assim, causar a perda de sua touca. Hugo ouviu as longas histórias com entusiasmo e interesse. Havia um certo brilho em sua irmã quando ela falava do ferreiro, que não estava lá quando ela falava de qualquer um dos cavalheiros com quem dançara em sua apresentação. Tudo sugeria que Hugo poderia ter evitado todo esse negócio com a sociedade. Ele não precisaria ter ido ao baile de Redfield, e não estar lá na próxima festa no jardim. E não precisaria ter tido qualquer renovação de amizade com Lady Muir.


Sua vida seria mais tranquila se ele não a tivesse visto novamente após Penderris. Eles estavam começando a se apaixonar um pelo outro. Não, na verdade, eles estavam mais que apenas começando. E era mútuo. Ele tinha até começado a pensar que tudo era possível entre eles. Ela também. Mas a paixão não duraria para sempre. Não que ele tivesse alguma experiência pessoal com a paixão, mas todas as suas observações da vida tinham ensinado isso a ele. O importante era o que restava de um relacionamento enfraquecido, após passada a primeira euforia da paixão. O que seria deixado para ele e Gwendoline, Lady Muir? Duas vidas que eram tão diferentes, quanto à noite e o dia? Alguns filhos, talvez se ela pudesse tê-los? E decisões a tomar sobre onde eles seriam educados. Ela sem dúvida, gostaria de enviá-los a escolas chiques, logo que tivessem passado a fase de andar. Ele gostaria de mantê-los em casa para desfrutar. Haveria alguma coisa restante de amor quando a paixão enfraquecesse? Ou toda energia seria usada e gasta com a tentativa de unir duas vidas que não poderiam ser unidas? - O que acontece com o amor, quando a paixão se acaba, George? - Ele perguntou ao Duque de Stanbrook, na tarde em que ele e Lady Muir tinham ido para o chá como convidados. O Duque e a Duquesa de Portfrey também estavam lá, mas choveu de forma inesperada, na mesma tarde que Tucker caminhou com Constance da loja para casa. O Duque e a Duquesa tinham levado Lady Muir para casa em sua carruagem, uma vez que Hugo não tinha trazido a sua. - É uma boa pergunta - disse o amigo com um sorriso irônico. - Quando jovem, eu fui ensinado por todos os que tinham influência e autoridade sobre mim, que os dois nunca devem se misturar, não alguém da minha posição social, de qualquer maneira. Paixão era para amantes. Amor, embora nunca tenha sido determinado, era para esposas. Eu amei Miriam, de


qualquer modo. Eu desfrutei de algumas aventuras amorosas, nos primeiros anos de casamento, embora eu lamente agora. Eu devia a ela o melhor. Se eu fosse jovem agora Hugo, acredito que procuraria o amor, a paixão e o casamento tudo no mesmo lugar, e mandaria ao diabo quem me dissesse que a paixão nos torna fracos e o amor mais fracos ainda. Lamento por isso na minha vida, mas não adianta, não é? Neste momento estamos, ambos, exatamente no ponto em que trouxemos nós mesmo, através do nascimento e nossas experiências de vida, através das inúmeras escolhas que fizemos ao longo do caminho. A única coisa sobre a qual temos controle é a seguinte decisão que tomamos. Mas, me perdoe. Você fez uma pergunta. Eu não sei a resposta, lamento dizer e suspeito que não haja nenhuma. Cada relacionamento é único. Você está apaixonado por Lady Muir, não está? - Suponho que sim - disse Hugo. - E ela está apaixonada por você. - Era uma afirmação, não uma pergunta. - É impossível. - Hugo disse. - Não há nada além de um romance. - Isso não é assim - disse o duque. - Há mais Hugo. Conheço você muito bem, então, eu sei o que está por debaixo do escudo de granito quase taciturno com que você se camufla a vista do público. Eu não conheço Lady Muir de todo, mas eu sinto algo...Hum. Eu não encontro a palavra apropriada. Sinto profundidades em seu caráter que podem se igualar a você mesmo. Solidez é talvez a palavra que venha a minha mente. - Ainda é impossível. - Hugo disse. - Talvez. - O duque concordou. - Mas aqueles que são mais parecidos obviamente no amor e bem adaptados um ao outro, muitas vezes não suportam o primeiro teste que a vida lança no caminho. E a vida sempre faz isso, mais cedo ou mais tarde. Pense no caso do pobre Flavian e sua antiga noiva. Quando duas


pessoas não são adequadas e sabem, mas estão apaixonadas de qualquer jeito, então, talvez estejam melhor preparados para enfrentar e combater todos os obstáculos em seu caminho com todas as armas à sua disposição. Eles não esperam que a vida seja fácil e, claro, nunca é. Eles têm a chance de fazê-la ser, de qualquer maneira. Tudo isso é pura suposição Hugo. Eu realmente não sei. Não havia mais ninguém para perguntar. Hugo sabia o que diria Flavian; Ralph não tinha experiência. Ele não iria pedir a qualquer um de seus primos. Eles iriam querer saber por que ele perguntara e, em seguida, todos saberiam e todos estariam em êxtase, porque Hugo por fim se apaixonara. E quereriam saber quem ela era e conhecê-la. Ele não suportava nem o pensamento. Além disso, como tinha dito George, ninguém poderia dizerlhe sobre amor e paixão ou o que aconteceria se você se casasse e a paixão acabasse por desaparecer. Você só poderia descobrir por si mesmo, ou não descobrir. Você poderia enfrentar o desafio ou se afastar dele. Você poderia ser um herói ou um covarde. Você poderia ser sábio ou um tolo. Um homem cauteloso ou um imprudente. Havia alguma resposta a qualquer coisa na vida? A vida era como caminhar em uma fina e desgastada corda bamba, sobre um abismo profundo com pedras irregulares e alguns animais selvagens esperando embaixo. Era tão perigosa e excitante. Arrgghh!


O dia estava perfeito para uma festa no jardim. Aquilo foi à primeira coisa que Hugo percebeu, quando saiu da cama pela manhã e abriu as janelas de seu quarto. Mas, pela primeira vez, a luz do sol não lhe trouxe alegria. Talvez nuvens chegassem mais tarde. Talvez, pela tarde, poderia chover. Seria muito tarde, porém, para cancelar a festa no jardim. Provavelmente seria tarde demais, mesmo que já tivesse começado a chover muito lá fora. Sem dúvida os anfitriões teriam um plano alternativo. Eles provavelmente tinham um ou dois salões de baile escondidos em sua mansão, apenas esperando receber e acomodar a nata da sociedade, bem como a ele e Constance. E eles estariam todos suntuosamente decorados para parecerem jardins internos. Não, não havia como evitar isso. Além disso, Constance estava muito animada e tinha declarado, na última noite, que ela duvidava que pudesse dormir. E ele não tinha visto Lady Muir por três dias. Desde que ela tinha saído da casa de George com os Portfreys e ele teve que se contentar com um simples roçar de lábios sobre o dorso de sua mão enluvada. Muito para um beijo a luz do dia. Mas ele não estava realmente a cortejando, estava? A tarde estava tão perfeita como a manhã e Constance, depois de tudo, devia ter dormido, uma vez que ela se via bonita, os olhos brilhantes e com vigorosa energia hoje. A coisa toda não podia ser evitada. A carruagem de Hugo estava na porta cinco minutos mais cedo, Hilda e seu noivo Paul Crane chegaram no mesmo momento e acenaram-lhes no caminho. Eles tinham vindo buscar Fiona para uma caminhada, sua primeira aparição em um longo tempo. Constance segurou a mão de Hugo, assim que se aproximaram de seu destino.


- Eu não estou tão assustada, quanto eu estava indo para o baile de Ravensberg - disse ela. - Agora que conheço as pessoas, eles são realmente muito gentis, não são? É claro, ninguém vai ter olhos para mim, quando estou com você, por isso não vou estar consciente de todos. Você está apaixonado por Lady Muir? Ele ergueu as sobrancelhas e limpou a garganta. - Isso seria tolo, não é? - Não, tolo seria eu me apaixonar pelo Sr. Hind, Sr. Rigby ou Sr. Everley, ou qualquer um dos outros - ela disse. - Você está apaixonada por ele? - Perguntou a ela. - Ou por qualquer um deles? - Não, claro que não - disse ela. - Nenhum deles faz qualquer coisa Hugo. Eles vivem com dinheiro que lhes é dado. Que é o que eu faço, suponho, mas é diferente para uma mulher, não é? Espera-se que um homem trabalhe para viver. - Essa é uma ideia muito de classe média - disse ele sorrindo para ela. - Parece mais viril trabalhar - disse ela. Ele sorriu para si mesmo. - Oh - ela disse. - Eu não posso esperar para ver os jardins e como todos estão vestidos. Você gosta do meu chapéu? Eu sei, o avô diria que é absurdo, mas seus olhos brilham quando diz isso. E o Sr. Tucker concordaria com ele e balançaria a cabeça daquela maneira que ele faz, quando ele realmente não quer dizer o que ele diz. - É um espetáculo de se ver - disse ele. - Muito esplêndido, na verdade. E então eles chegaram.


Os jardins ao redor da mansão Brittling em Richmond eram cerca de um décimo do tamanho do parque de Crosslands. Eram cerca de cem vezes menos áridos. Havia gramados aparados, canteiros de flores exuberantes e árvores que pareciam ter sido colocadas todas juntas para dar o máximo de efeito pitoresco. Havia um caramanchão, um laranjal, um coreto, uma casa de veraneio, uma pista gramada ladeada de árvores tão retas como soldados, estátuas, fonte, um terraço com três fileiras descendo da casa com flores em vasos de pedra. Devia ter parecido desesperadamente confuso. Não devia ter sido deixado nenhum espaço às pessoas. Mas parecia magnífico e fez Hugo pensar com insatisfação em seu próprio parque. E com vontade de estar lá. Teriam todos os cordeiros sobrevivido? Estavam todas as sementes plantadas? Teriam crescido ervas daninhas em seu canteiro de flores? Excepcional, canteiro de flores? Lady Muir tinha vindo com sua família e chegara lá antes deles. Ela veio correndo na direção deles, assim que eles chegaram, as mãos estendidas para Constance. - Aí está você - disse ela. - Você preferiu colocar o chapéu rosa ao invés de um de palha. Eu acho que você fez a escolha certa. Este tem um considerável movimento. Vou apresentá-la às pessoas que você não tenha conhecido antes, a pedido deles, na maioria dos casos. Você tem um irmão famoso, você vê, embora eles vão querer sua companhia por você mesma, depois que a tiverem conhecido. Ela olhou para Hugo quando o mencionou e a cor em suas faces se acentuou. Ela combinou o céu azul com seu vestido azul e chapéu amarelo com flores azuis.


- Venha conosco, Lorde Trentham - disse ela, enquanto tomava Constance pelo braço. - Caso contrário, vai ficar parecendo como um peixe fora d’água e franzindo o cenho a todos que desejem apertar sua mão. - Oh - disse Constance, olhando com surpresa de um para o outro. - Você não tem medo de falar assim com Hugo? - Eu o tenho em alto conceito, - Lady Muir disse - depois que ele carregou aranhas suavemente para fora da casa, quando era um menino, em vez de esmagá-las sob seus pés. - Oh. - Constance riu. - Ele ainda faz isso. Ele fez isso ontem, quando mama gritou enquanto um enorme inseto de pernas longas corria através do tapete. Ela queria alguém para pisar nele. Hugo caminhava com elas, as mãos cruzadas nas costas. Que ridículo era essa coisa de fama, ele pensou, como as pessoas de fato se curvavam e tocavam nele e olhavam com reverência que muitas vezes pareciam deixá-los sem palavras. Para ele, Hugo Emes. Não havia ninguém mais comum. Não havia ninguém que fosse mais que ninguém. E então ele viu Frank Cartairs sentado no caramanchão, uma manta sobre os joelhos, xícara e pires na mão, sua esposa olhando descontente ao seu lado. E Cartairs o viu, franziu seus lábios e olhando claramente à distância. Cartairs tinha causado algumas noites perturbadoras na semana passada. Ele tinha sido um tenente valente, sério, trabalhador e respeitado por ambos, soldados e colegas oficiais. No entanto, espalhou-se a história de que seu avô tinha jogado fora toda a fortuna da família e ele tinha ficado pobre como rato de igreja, além de ser apenas um filho mais novo. Daí sua necessidade de ganhar sua promoção e vez de comprá-la.


Constance foi logo arrebatada por um grupo de jovens de ambos os sexos. Eles estavam indo caminhar até o rio, o que poderia ser alcançado ao longo de um caminho privado, alinhado com convidativas árvores e flores. - O rio fica a pelo menos um quarto de milha de distância Lady Muir disse a Hugo. - Eu acho que ficarei aqui. Meu tornozelo estava um pouco inchado ontem e eu tive que mantê-lo para cima. Às vezes me esqueço que não sou inteiramente normal. - Agora eu sei, - disse Hugo - o que tem em você que me incomodava. Você é anormal. Tudo está explicado. Ela riu. - Eu estou indo me sentar na casa de veraneio - disse ela. “Mas você não deve se sentir obrigado a me fazer companhia. Ele lhe ofereceu o braço. Eles sentaram e conversaram por quase uma hora, embora eles não estivessem sozinhos todo esse tempo. Um grande número de seus primos ia e vinha. Ralph fez uma breve aparição. O Duque e a Duquesa de Bewcastle e o Marquês e Marquesa de Halmere pararam para uma apresentação. A Marquesa era irmã de Bewcastle e Bewcastle era vizinho de Ravensberg no campo. Era tudo muito atordoante, tentar descobrir quem era quem na aristocracia. - Como você se lembra quem é quem? - Hugo perguntou quando ele e Lady Muir ficaram sozinhos novamente. Ela riu. - Da mesma forma que você se lembra quem é quem em seu mundo, eu suponho - ela disse. - Eu tive uma vida toda de prática. Eu estou com fome e sede. Devemos ir até o terraço?


Hugo realmente não queria ir lá, mesmo que a ideia de ter um pouco de chá fosse tentadora. Carstairs tinha deixado o caramanchão e estava sentado no segundo terraço, não muito longe das mesas de comida. No entanto, ficar ali não era uma opção, como de repente ele percebeu. Grayson, o Visconde Muir, havia aparecido do nada e estava caminhando na direção deles, apesar de ter sido parado no momento por uma grande matrona sob o que parecia ser um chapéu ainda maior. Hugo se levantou e ofereceu o braço. - Vou tentar me lembrar de estender o dedo mindinho quando eu segurar minha xícara de chá. - Ah - ela disse. - Você é um bom aluno. Estou orgulhosa de você. E ela riu para ele, enquanto eles cruzavam o gramado em direção aos terraços. - Gwen - uma voz imperiosa chamou quando eles chegaram ao pé do menor terraço. Ela se virou, as sobrancelhas levantadas. - Gwen - disse Grayson novamente. Ele estava de pé a uma curta distância, mas longe o suficiente para ter que levantar um pouco a voz e manter suas palavras longe de serem privadas. - Eu vou ter a honra de caminhar com você ou escoltá-la até seu irmão. Estou surpreso que ele permita que você deixe esse sujeito se pendurar em seu braço. Eu certamente não permitiria. Eles foram cercados, de repente, por uma pequena poça de silêncio..., uma poça que incluía alguns hóspedes atentos. Ela tinha empalidecido, Hugo viu. - Obrigada, Jason, - ela disse com voz firme, mas um pouco sem fôlego - mas eu escolho minhas próprias companhias.


- Não quando você é um membro da minha família, - disse ele - mesmo que apenas pelo casamento. Eu tenho que honrar meu velho primo, seu marido, bem como defender o nome Grayson que você ainda carrega. Esse sujeito é um covarde e uma fraude, além de ser da ralé. Ele é uma vergonha para os militares britânicos. Hugo soltou o braço dela e apertou as mãos às costas. Ele afastou os pés, se manteve ereto e em silêncio, enquanto olhava diretamente para seu adversário, muito consciente de que a poça de silêncio em torno deles havia se tornado mais do tamanho de um lago. - Oh, eu disse - alguém comentou e foi imediatamente silenciado. - Que absurdo você fala - disse Lady Muir. - Como você se atreve, Jason? Como você ousa? - Pergunte a ele como ele sobreviveu ao Forlorn Hope sem um arranhão, - Grayson disse - quando quase trezentos homens morreram e poucos os que não foram gravemente feridos. Pergunte a ele. Não que ele vá responder com sinceridade. Essa é a verdade. Capitão Emes liderou por trás, bem atrás. Ele enviou seus homens a caminho da morte e seguindo apenas depois que eles abriram uma brecha que permitiu o resto das forças atravessar o outro lado. E então ele correu e reivindicou a vitória. Não havia sobrado muitos homens para contradizê-lo. Houve suspiros de quebrar o silêncio. - Que vergonha! - Disse alguém antes de ser silenciado. Mas não estava claro se ele se dirigiu a Grayson ou a Hugo. Hugo podia sentir todos os olhos sobre ele, mesmo sem olhar a lugar nenhum, mas mantinha os seus em Grayson. - É a sua palavra contra a minha, Grayson - ele disse. - Eu não pretendo brigar com você.


Pelo canto do olho, ele pode ver Constance. Dane-se tudo, ela estava de volta do rio e já estava entre o círculo de ouvintes. Ele virou-se para Lady Muir e inclinou a cabeça rigidamente. - Eu peço licença, minha senhora, - disse ele – mas levarei minha irmã para casa. E então uma voz fraca, e um pouco débil, mas perfeitamente audível falou atrás dele. - Há um sobrevivente aqui para contradizer você, Muir disse Frank Cartairs. - Eu não tenho nenhuma razão para gostar de Emes. Ele tomou o comando que deveria ter sido meu naquele dia. E, em seguida, sua bravura mostrou a minha covardia e tem roubado minha consciência a cada momento e a cada dia desde então. Eu queria abortar o ataque quando os homens começaram a morrer em grande número, mas ele nos obrigou a seguir. Não, melhor, ele seguiu a frente, sem olhar para trás para ver se o seguíamos. E ele estava certo. Em um arranque inteiro, nós estávamos em Forlon Hope. Nos voluntariamos para a morte. Fomos à bucha de canhão que permitiria o verdadeiro ataque romper atrás de nós. Capitão Emes liderou a frente e ele ganhou todos os elogios desde então. Hugo não se virou. Nem se moveu. Sentia-se preso no meio do pior momento de sua vida, certamente ainda pior que no dia que ele saíra de sua cabeça. Embora não, talvez não pior que isso. Nada poderia ser pior do que isso. - Meu Deus - disse uma voz lânguida. - Eu estou indo para meu chá. Lady Muir, Trentham, se juntem a mim e Cristine em nossa mesa. Tem a vantagem de estar na sombra. Era um homem que tinha acabado de conhecer, Hugo viu quando finalmente olhou para longe de Grayson. Ele tinha um ar aristocrático, os olhos pratas e o monóculo, que estavam focados


agora sobre a figura, de repente, acuada de Grayson. O Duque de Bewcastle. - Obrigada - Lady Muir pegou o braço de Hugo. - Teremos o maior prazer, Sua Graça. E a sombra será realmente bem-vinda. O sol torna-se desconfortavelmente quente quando se está fora por um tempo, não é? E, de repente, todo mundo estava andando novamente, conversando e rindo de novo, como se nada de desagradável tivesse acontecido. Carstairs não estava olhando em sua direção, Hugo viu quando olhou diretamente para ele, mas ele estava falando bastante enfaticamente com sua esposa. Era à maneira da alta sociedade, Hugo logo percebeu. Mas, sem dúvida, trocariam cumprimentos educados nas salas de estar e clubes em Londres nos dias que viriam.


Capítulo 19 - Eu decidi, - Lorde Trentham disse – que eu não vou cortejá-la. Gwen pegou seu bordado, sem realmente perceber o que estava fazendo, e começou a bordar. Ela estava prestes a perguntar: Tem certeza desta vez? Mas não havia nada em seu rosto que sugeria que ele pudesse estar convidando-a para uma disputa verbal. Ele tinha chegado quando ela estava prestes a sair com Lily e sua mãe. Elas iriam fazer uma rodada de visitas com Lauren. Neville estava na Câmara dos Lordes. - Muito bem - disse ela. Ele estava de pé no meio da sala de estar, em sua postura militar de costume, embora o tivesse convidado a sentar. Ele estava carrancudo. Ela sabia que estava. Não tinha que levantar a cabeça para confirmar o fato. - Se você tiver a gentileza de escoltar Constance para os entretenimentos restantes nos quais ela concordou em participar, - disse ele - eu ficaria muito grato a você. Mas não importa se não puder fazê-lo. Ela começou a entender que o mundo da alta sociedade não é necessariamente a terra prometida. - Eu certamente vou fazer isso - disse ela. - E ela pode aceitar mais convites também, se desejar. Eu terei prazer em continuar a apadrinhá-la. Não há nenhum lugar como a terra prometida, mas seria tolo rejeitar até mesmo uma terra não prometida sem primeiro inspecioná-la completamente. Ela tem se dado bem com a sociedade e pode-se esperar que ela combine perfeitamente com um cavalheiro respeitável de sua escolha, se ela assim o desejar.


Ele ficou lá olhando para ela, e ela desejava não ter pego seu bordado. Ela teve de se concentrar firmemente para manter a mão firme. E seu fio de seda verde, ela percebeu, estava preenchendo a ampla pétala de uma rosa, em vez da folha no seu caule. As outras pétalas eram de um rosa profundo. Ela decidiu que não seria a única a quebrar o silêncio. - Eu ouso dizer, - disse ele – que a sua família teve uma ou duas coisas a dizer sobre você se permitir a ser apanhada nessa cena indecente ontem. - Deixe-me ver. - Ela segurou o fio acima de seu trabalho por um momento. - Meu irmão era a favor de bater uma luva no rosto de Jason, chamá-lo para fora e tratar do fato dele ter me insultado publicamente - e a ele mesmo. Mas Lily o convenceu de que seria um castigo muito pior para um homem como Jason, ser tranquilamente ignorado. Meu primo Joseph também queria chamá-lo para fora, mas Neville disse que ele deveria ficar na fila. Lily sugeriu que adicionássemos a Sra. Carstairs à nossa lista de senhoras a serem visitadas esta tarde, já que seu marido fez algo extraordinário ontem e a senhora sempre parece tão desesperadamente só, de qualquer maneira. Mamãe disse que ela nunca ficara mais orgulhosa de mim do que quando eu disse a Jason que eu escolhia minhas próprias companhias, e quando eu tomei seu braço e o duque de Bewcastle nos convidou a participar de sua mesa, junto à duquesa, para o chá. Ela acrescentou que, tanto quanto ela podia ver, eu escolhia minhas companhias muito bem e sabiamente. Lauren me disse que, depois de assistir você tomar essa agressão verbal com tal dignidade estoica, ela suspeitava que toda mulher solteira dentro da faixa de audição e algumas casadas também, cairiam de amores sobre você. Elizabeth, minha tia, pensa que deve ter sido muito doloroso para mim, ver o Visconde Muir, o homem que sucedeu ao título do meu marido, se comportar tão mal em público. Ao mesmo tempo, ela pensa que eu deva estar orgulhosa de como meu companheiro escolhido, conduziu-se com tal dignidade e


contenção. Ela o considera um verdadeiro herói britânico. O duque, seu marido, acredita que, em vez de manchar a sua reputação, as mentiras cruéis de Jason e sua exposição pelo Sr. Carstairs, realmente a melhoraram. Devo continuar? Ela atacou seu bordado com vigor renovado. - Seu nome vai estar na boca de toda a Londres hoje - disse ele. - Vai ser acoplado ao meu. Sinto muito por isso. Mas não vai acontecer novamente. Vou ficar na cidade por mais algum tempo por causa de Constance, mas vou permanecer no meu próprio ambiente, entre os da minha classe. Fofoca da sociedade, já ouvi falar, logo morre sufocada quando não há nada novo para alimentá-la. - Sim, - ela disse - você está muito certo sobre isso. - Sua mãe vai ficar aliviada - disse ele - apesar do que ela disse para você ontem. O mesmo acontecerá com o resto de sua família. Ela tinha acabado de bordar a verde pétala da rosa. Não iria continuar. Seria mais fácil desfazer mais tarde, se não o fizesse. Enfiou a agulha através do tecido de linho e o colocou de lado. - Suponho que em algum lugar no mundo, - disse ela - haja alguém com tão grande senso de inferioridade como você possui, Lorde Trentham, embora, certamente, deve ser impossível que haja alguém com um sentido maior. - Eu não me sinto inferior - disse ele. - Só diferente e realista sobre isso. - Bobagem - disse ela, deselegantemente. Ela olhou para ele. Ele fez uma careta de volta.


- Se você realmente me quisesse, Hugo, - disse ela - se você realmente me amasse, você lutaria por mim mesmo que eu fosse a rainha da Inglaterra. Ele olhou para ela. Sua linha da mandíbula era de granito de novo, seus lábios uma marcada linha fina, seus olhos escuros e ferozes. Ela se perguntou, por um momento, como ela podia amálo. - Isso seria idiota - disse ele. Idiota. Uma de suas palavras favoritas. - Sim - disse ela. - É idiota acreditar que você poderia me querer. É idiota imaginar que você poderia me amar. Ele se parecia com nada mais do que uma estátua de mármore. - Vá embora, Hugo - disse ela. - Vá e nunca mais volte. Nunca mais quero vê-lo novamente. Vá. Ele foi - até a porta. E ficou com a mão na maçaneta, de costas para ela. Ela olhou para suas costas, impulsionada pelo ódio e determinação. Mas ele deve ir em breve. Ele deve ir agora. Por favor, deixe-o ir agora. Ele não iria. Ele baixou a mão da maçaneta e virou-se para encará-la. - Deixe-me mostrar o que eu quero dizer - disse ele. Ela olhou para ele, sem compreender. Em suas mãos estavam todos os alfinetes e agulhas, percebeu. Ela devia tê-los apertado firmemente.


- Tem sido uma via de mão única - disse ele. – Desde o início. Em Penderris você estava em seu próprio mundo, mesmo se você se sentir estranha ao chegar lá sem ser convidada. Em Newbury Abbey você estava em seu próprio mundo e entre a sua própria família, nem um único dos quais, eu notei, deixava de ostentar um título. Aqui você está bem no centro do seu mundo em casa, no circuito da moda no Hyde Park, no baile em Redfield House, no jardim da festa de ontem. Em cada uma dessas vezes, esperava-se que eu entrasse em um mundo que não é meu e me provasse digno de estar lá para que eu possa aspirar à sua mão. Eu tenho feito isso - repetidamente. E você me critica por eu não me sentir em casa. - Por se sentir inferior - disse ela. - Por me sentir diferente - ele insistiu. – Tudo isso não parece um pouco injusto? - Injusto? - Ela suspirou. Talvez ele estivesse certo. Ela só queria que ele se fosse. Ele iria, eventualmente, de qualquer maneira. Ele poderia muito bem ir agora. Seu coração não ficaria menos quebrado em uma semana ou um mês. - Venha ao meu mundo - disse ele. - Estive em sua casa e me encontrei com sua irmã e sua madrasta - ela lembrou. Ele olhou fixamente para ela, sem qualquer relaxamento de sua expressão. - Venha ao meu mundo - disse ele novamente. - Como? - Ela franziu a testa para ele. - Se você me quer, Gwendoline, - disse ele - se você imaginar que me ama e acha que pode passar sua vida comigo, venha ao meu mundo. Você vai descobrir que querer, mesmo amando, não é suficiente.


Seus olhos vacilaram e ela olhou para suas mãos. Ela esticou os dedos em um esforço de se livrar dos alfinetes e agulhas. Era verdade. Ele tinha sido o único a fazer de tudo para se adaptar. E ele o fizera bem. Exceto que ele se sentia desconfortável, inseguro de si mesmo e infeliz em um mundo que não era o seu. Ela não iria perguntar “como” de novo. Ela não sabia como. Provavelmente, ele também não. - Muito bem. - disse ela, olhando para cima novamente, olhando para ele desafiante, quase com desagrado. Ela não queria que seu mundo confortável ruísse, mais do que já tinha sido, por conhecê-lo e amá-lo. Seus olhos continuaram a batalha por alguns momentos, em silêncio. Então ele se inclinou abruptamente para ela, e sua mão descansou na maçaneta da porta novamente. - Você terá notícias minhas - disse ele. E se foi.

Quando Gwen e Lily passeavam na Bond Street, esta manhã, encontraram Lorde Merlock e ficaram conversando com ele por um tempo, antes que ele se oferecesse para levá-las a uma casa de chá nas proximidades para se refrescarem. Lily fora incapaz de aceitar. Ela havia prometido a seus filhos que estaria em casa a tempo para um almoço antecipado, antes que todos eles fossem para a Torre de Londres com Neville. Mas Gwen aceitara. Ela também havia aceitado um convite para partilhar a seu camarote no teatro esta noite com seus outros quatro convidados. Ela iria. E iria fazer o seu melhor para se apaixonar por ele.


Oh, era absolutamente absurdo. Como se alguém pudesse se apaixonar por vontade. E como seria injusto com Lorde Merlock se ela flertasse com ele como uma espécie de bálsamo para seu próprio desgosto, sem qualquer consideração para com seus sentimentos. Ela iria como sua convidada, sorriria e seria amável. Só isso, nada mais. Como desejava, desejava, desejava não ter feito aquela caminhada ao longo da praia de pedrinhas depois de brigar com Vera. E como desejava que, tendo feito isso, tivesse escolhido voltar pela mesma rota. Ou que tivesse subido a ladeira com maior cuidado. Ou que Hugo não tivesse escolhido aquela manhã para descer à praia sozinho e, em seguida, sentar-se na borda do penhasco, apenas esperando que ela subisse e torcesse o tornozelo. Mas esses desejos eram tão inúteis como desejar que o sol não tivesse despontado esta manhã, ou que ela não tivesse nascido. Na verdade, ela odiaria não ter nascido. Oh, Hugo, ela pensou quando pegou seu bordado de novo e olhou em desespero à encantadora pétala verde de seda de sua rosa. Oh, Hugo. Gwen não vira nem ouvira falar de Hugo por uma semana. Parecia um ano, embora ela enchesse todos os momentos de cada dia com atividades movimentadas e risse com suas brilhantes companhias, mais do que tinha feito em anos. Ela adquirira um novo flerte - Lorde Ruffles, que fora um libertino desde a juventude até o início da meia-idade, e tinha chegado a uma fase da vida perigosamente perto de velhice antes de decidir que era hora de se tornar respeitável e cortejar a dama mais bela da face da terra. Essa foi à história que ele contou a


Gwen, de qualquer maneira, quando dançou com ela no baile Rosthorn. E quando ela riu e disse a ele que era melhor que não perdesse mais tempo, então, em procurar a dama, ele colocou uma mão ligeiramente artrítica sobre o coração, olhou comoventemente em seus olhos, e informou-a de que já havia feito. Ele era seu devotado escravo. Ele era espirituoso, divertido e ainda tinha traços de sua boa aparência jovem, e não tinha mais interesse em se estabelecer, Gwen supunha, do que ele tinha em voar para a lua. Ela permitiu que ele flertasse escandalosamente com ela onde quer que se encontrassem durante essa semana, e ela flertara de volta, sabendo que não seria levada a sério. Ela se divertiu muito. Ela levara Constance Emes com ela a quase todos os lugares em que estivera. Gostava realmente da menina, e foi refrescante vê-la desfrutar dos eventos da temporada com tal prazer inocente. Ela adquirido uma corte considerável de admiradores, aos quais tratava com cortesia e gentileza. No entanto, ela surpreendeu Gwen um dia. - O Sr. Rigby me visitou esta manhã - disse ela, no baile Rosthorn. - Ele veio se oferecer para mim. - E? - Gwen olhou para ela com interesse e abanou o rosto contra o calor do salão de baile. - Oh, o recusei - disse Constance, como se fosse uma conclusão precipitada. - Espero que não o tenha magoado. Eu não acredito que tenha, embora ele tenha ficado compreensivelmente desapontado. Ela dissera aquilo, sem qualquer presunção. - Eu acredito, - a garota acrescentou – que seus bolsos vão agradecer, pobre cavalheiro.


- Ele teria sido um muito bom par para você, no entanto disse Gwen. - Seu avô, pelo lado de sua mãe, era um visconde. Ele é bonito e gentil. Ele teria lhe tratado bem, eu acredito. Mas, se você não sentir qualquer profunda afeição por ele, então nenhuma dessas coisas importa e eu posso ser a única a felicitála por ter tido a coragem de recusar a sua primeira oferta. - Se ele não tem dinheiro, - Constance disse - pode ter algum parente que compre uma comissão no exército para ele, ou pode se tornar um clérigo. Ambas são consideradas carreiras irrepreensíveis nas classes mais altas. Ele pode ser mordomo ou secretário de alguém, se apenas reduzir um pouco de seu orgulho. Casar com uma mulher rica não é a sua única opção. - E isso é o que ele estava tentando fazer com você? Perguntou Gwen. – Ele admitiu isso? - Ele fez quando eu o pressionei - disse Constance. - E ele estava quase envergonhado em tudo. Assegurou-me que tínhamos ativos iguais para trazer a um casamento, dinheiro da minha parte e linhagem social da parte dele. E me garantiu, creio que sinceramente, que tinha afeição por mim. - Mas você não estava convencida de que era uma troca igual? - Perguntou Gwen. A menina franziu a testa e abriu seu próprio leque. - Oh, eu suponho que era - ela admitiu. - Mas o que ele iria fazer para o resto de sua vida, Lady Muir? Ele teria todo o meu dinheiro para ser ocioso, mas ... por quê? Por que qualquer homem escolher ser ocioso? Gwen riu. - O Sr. Grattin está chegando para reclamar sua dança com você - disse ela.


A menina abriu um grande sorriso ao seu parceiro que se aproximava. Ela não tinha mencionado Hugo. Ela não o mencionara por toda a semana, e Gwen não perguntou. Você terá notícias minhas, ele dissera na última vez em que o tinha visto. E ela esperava ouvi-las no dia seguinte, ou no próximo. Mas que estúpida. E então ela ouviu. Ele enviou uma carta, que estava ao lado de seu prato no café da manhã, junto a um pacote de convites. - Os avós de Constance estarão celebrando o quadragésimo aniversário de seu casamento daqui a duas semanas - escreveu ele. - São os pais da minha madrasta, os donos de uma mercearia. Um primo, do lado de meu pai, e sua esposa, estarão comemorando seu vigésimo, alguns dias mais tarde. Ambos os lados da família concordaram em passar cinco dias comigo em Crosslands Park, em Hampshire, a fim de celebrar as ocasiões. Se você não se importar de se juntar a nós, você pode viajar no carro com minha madrasta e irmã. Não havia saudação de abertura, nenhuma mensagem pessoal, não havia datas específicas, e nenhuma dedicatória na qual se declarava seu devoto servo ou qualquer tipo de cortesia. Apenas a sua assinatura, corajosamente rabiscada, mas sem qualquer afetação. Era perfeitamente legível. "Trentham." Gwen sorriu tristemente para a folha de papel. Venha ao meu mundo. - É uma piada que você é capaz de compartilhar, Gwen? Perguntou Neville de seu lugar na cabeceira da mesa.


- Recebi um convite para uma festa de cinco dias no campo, no meio da temporada – ela disse. - Oh, que adorável - disse Lily. – De quem? - De Lorde Trentham - disse ela. - É em comemoração a dois aniversários de casamento, um do lado da família do pai e outro da sua madrasta de. Ambas as famílias serão lá, em Crosslands Park, que fica em Hampshire. Me pergunta se eu me importo de ir. Todos olharam para ela, um inquérito silencioso por alguns momentos, enquanto dobrava a nota cuidadosamente e devolvia-a ao lado do prato. - Ele deseja apresentá-la à sua família - disse Lily. - Isso é significativo, Gwen. Ele é sério sobre você. - Mas é um pouco estranho - disse a mãe de Gwen - que ele tenha convidado somente Gwen. Ele está prestes a renovar seu pedido, Gwen? - Pelo contrário - disse ela. - Quando veio aqui na semana passada, foi para me informar que ele tinha decidido não me cortejar. Ele foi terrivelmente envergonhado por essa cena no jardim da festa Brittling, você sabe, e temia que tivesse me envergonhado demais. - No entanto, ele convidou-a para uma festa no campo? Disse a mãe. - E você deve ser a única convidada que não é um membro da família dele ou da irmã? E por que ele veio aqui para dizer-lhe que ele não cortejaria você? - Eu o convidei a me cortejar, - disse Gwen com um suspiro quando ele esteve em Newbury Abbey. - Não! - Exclamou Lily. - Eu tenho estado certa o tempo todo. Admita-o, Neville. Gwen e Lorde Trentham estão apaixonados um pelo outro.


- Quem são as pessoas da família da Sra. Emes? Perguntou a mãe de Gwen. - Eles são pequenos comerciantes - disse Gwen com um sorriso triste. – A família dele é de bem-sucedidos empresários. Assim como ele. Ele também é um fazendeiro em pequena escala. Sua cabeça, creio eu, está com suas empresas, mas seu coração está firme com seus cordeiros, galinhas e gado. E com suas culturas e seu jardim. - E assim, - disse Neville - tendo cortejado você na primeira parte da temporada, agora Trentham a está convidando a cortejálo na segunda parte, não é Gwen? Faz algum sentido. Você deve saber o que irá enfrentar ao se casar com ele. - Não se trata de me casar com ele - disse ela. - Não? – Disse ele. - Então você vai recusar o convite? Por que submeter-se à companhia de lojistas e empresários, afinal de contas, se não existe nenhum sério propósito para isso? - Gwen não deve ser empurrada, Neville - sua mãe surpreendeu ao dizer. - Claramente ela tem ternos sentimentos por Lorde Trentham, como ele tem por ela. Mas a união deles não seria fácil ou comum - para qualquer um deles. Ele se saiu bem nos encontros da sociedade, especialmente durante esse episódio sórdido no jardim da festa, no qual ele não teve nenhuma culpa. Mas ele nunca pareceu bastante confortável, apesar de toda sua fama bem merecida. Gwen ainda não sabe o quão confortável ela estaria em um encontro de sua classe, especialmente um que está destinado a durar cinco dias. Como ele foi inteligente em pensar nisso. Apenas os mais românticos seriam tolos o suficiente para acreditar que um casamento não diz respeito a ninguém, exceto às duas pessoas envolvidas. Tratase de algo muito além disso, não menos que suas famílias e a sociedade com a qual eles estão acostumados a se misturar.


- Tem toda a razão, Mãe - disse Lily, olhando ao longo da mesa para Neville. - Mas, mesmo assim, são as duas pessoas em questão que mais importam. Não me atrevo a pensar o que minha vida seria agora se Neville não tivesse lutado por mim quando eu acreditava que um casamento viável entre nós era uma impossibilidade. - Não se trata de casamento entre mim e Lorde Trentham disse Gwen novamente. O que era uma coisa ridícula de dizer, é claro. Por que mais ele a tinha convidado? Se você me quer, Gwendoline, se você imaginar que me ama e acha que pode passar sua vida comigo, venha ao meu mundo. Você vai descobrir que querer, mesmo amando, não é o suficiente. E por que ela estava pensando em aceitar? Não, ela deveria ser honesta consigo mesma. Por que ela aceitaria? Porque ela o queria? Porque ela imaginava que o amava? Porque ela queria passar o resto de sua vida com ele? Porque ela estava determinada a provar que ele estava errado? Ela não imaginava que o amava. - Então não vá - disse Neville. - Oh, eu vou - disse ela. Neville balançou a cabeça e deu um meio sorriso. Lily apertou suas mãos sobre o peito e seus olhos brilharam com prazer. A mãe de Gwen estendeu a mão e acariciou a mão dela, sem nenhum comentário adicional. - Eu vou levar Sylvie e Leo para o parque esta manhã, enquanto Neville está na Câmara - disse Lily. - Vem conosco? Eu posso levar o bebê também, se você for. Você pode fazê-los correr


atrás das bolas. Parece que eles nunca vão aprender a pegá-las. Ela riu. - Claro que eu vou - disse Gwen, ficando de pé. - Talvez eles não possam pegar, coitadinhos, porque sua mãe não pode atirar. Tia Gwen vai salvá-los.

Durante três anos, Hugo tinha guardado zelosamente sua vida privada no campo, pela primeira vez em seu chalé e, em seguida, em Crosslands. Era seu próprio domínio, seu refúgio do mundo tumultuado. Ele nunca tinha convidado ninguém a ficar, nem mesmo seus colegas do Clube dos Sobreviventes, e apenas raramente tinha convidado vizinhos para jantar e jogar cartas. Mas as coisas tinham mudado. Na verdade, tudo tinha mudado. Venha ao meu mundo, ele tinha dito à Gwendoline. E, de repente, lhe doía à necessidade de dar a ela a chance de fazer exatamente isso, e não por uma mera tarde de chá e conversa ou uma noite de chá e cartas, mas para ... bem, para um período suficiente para que ela soubesse qual era a sensação de estar fora de seu próprio domínio confortável. Você vai descobrir que querer, mesmo amando, não é o suficiente. E ele sentiu uma expectativa desesperada, uma necessidade de provar que estava errado. Ele poderia e iria misturar-se com o mundo dela sempre que fosse necessário fazê-lo, desde que pudesse manter as rédeas de suas empresas em suas próprias mãos e retirar-se para o campo por vários meses a cada ano. Mas ela poderia misturar-se com o seu mundo? Mais importante, ela iria? Ou, como Fiona, ela iria ignorá-los se eles se casassem, fingiria que eles não existiam?


Ele não seria capaz de suportar isso. Sua família era importante para ele, apesar do fato de que ele a tinha negligenciado por anos. Ele os tinha redescoberto recentemente e ele iria deixá-los novamente. Ou se casar com uma mulher que o faria ignorá-los. E tinha descoberto a família de Fiona e gostado deles, mesmo que não fossem relacionados com ele. De qualquer forma, eles eram a família de Constance. Ele sabia sobre os próximos aniversários há algum tempo. E tinha brincado com a ideia de convidar ambas as famílias para Crosslands por um curto período de tempo durante o verão. Não poderia ser mais que isso. Eram pessoas que trabalhavam e não podiam se dar ao luxo de tirar férias longas. Mas por que não convidar a todos à Crosslands para os aniversários? Por que esperar até o verão? A possibilidade surgiu em sua mente durante a semana após sua última visita a Gwendoline. Quando ele tinha dito que ela teria notícias suas, não sabia quais seriam. E quando a tinha convidado para vir ao seu mundo, não sabia muito bem como poderia ser feito. Mas então ele soube. E tudo tinha funcionado maravilhosamente bem. Apesar do curto prazo, todos foram capazes de fazer arranjos para estar longe do trabalho por uma semana. E todos estavam animados com a perspectiva de ver sua grande propriedade rural e estarem juntos lá, celebrando esses dois grandes eventos. A única coisa que restava para ser vista, era se Gwendoline seria capaz de deixar Londres no meio de todas as atividades da temporada. E se ela desejaria. E se ela iria. Não importava, de qualquer maneira, ele disse a si mesmo. Ele queria ir para o bem de sua família. Já era tempo de


abrir toda a sua vida a eles. E Crosslands, com tudo o que ele tinha lá, era uma grande e significativa parte de sua vida. Se Gwendoline não pudesse ir ou não quisesse, então, seria o fim de tudo. Não tentaria vê-la novamente. Iria juntar os pedaços de seu coração e seguir em frente com sua vida. Se ela fosse, por outro lado ... Mas não podia, não iria pensar além disso. Tinha dito a ela que querer, mesmo amando, não seria o suficiente para eles. Ele não tinha certeza se acreditava nisso. Mas não acreditava nisso também. E então recebera uma breve nota dela, aceitando o convite. Sua casa, lembrou-se então, era como um celeiro. Apesar de ter sido totalmente mobiliada, ele tinha sempre utilizado apenas três cômodos dela. Os outros foram fechadas permanentemente e coberto de camadas de poeira. Seus servos poderiam facilmente gerenciar esses três cômodos e atender às suas necessidades quando ele estava lá, mas eles seriam completamente esmagados por uma festa na casa. Seus estábulos e cocheira foram bem gerido por um preparador e seu jovem ajudante. Eles iriam precisar de mais ajuda, porém, quando todo um desfile de carruagens e seus respectivos cavalos baixassem sobre Crosslands. Seu parque era estéril, seu jardim de flores, desnudo. Havia roupa de cama suficiente? Houve suficientes toalhas? Suficientes pratos e talheres? De onde viria toda a comida extra? E quem iria cozinhar para todos? Mas Hugo não era filho de seu pai por nada. Anunciou que procurava um mordomo e escolheu com cuidado entre os sete candidatos. Depois disso, tudo foi tirado de suas mãos e ele teve que compreender que qualquer interferência de sua parte não era


necessária nem bem-vinda. Seu novo mordomo era um homem que seguiria sua vontade. Mesmo assim, foi para o campo vários dias antes da data que seus convidados deveriam chegar. Queria ver como sua casa parecia sem as camadas de poeira. Queria ver o que os jardineiros, que o mordomo havia contratado, tinham feito com o parque em um prazo tão curto. Queria ter certeza de que o quarto de hóspedes com a melhor vista havia sido designado para Gwendoline. Tudo parecia bastante respeitável. Estava aliviado e impressionado com o que encontrara. O mordomo tinha se transformado em um eficiente tirano, que exigia trabalho duro e perfeição de todos, e tinha ambos - bem como total devoção, mesmo dos membros da equipe que estiveram com Hugo por mais de um ano e poderiam ter se ressentido com o recém-chegado. O dia em que todos chegaram foi bom embora não ensolarado. E todos fizeram boa viagem. Mas isso era de se esperar de pessoas que madrugavam todos os dias para trabalhar em vez de dormir até o meio-dia pelos excessos da noite anterior. Hugo cumprimentou a todos conforme chegaram e os entregou aos cuidados de sua governanta. E, finalmente, viu seu próprio carro se aproximando da casa e sentiu um incômodo vazio em seu estômago. E se ela tivesse decidido não vir, depois de tudo? E se não tivesse gostado da companhia de Fiona, Constance e Philip Germane, seu tio por parte de mãe, e insistisse em voltar para a cidade, sem mais delongas? Não, ela não faria isso. Ela tinha os modos de uma dama perfeita. A carruagem se deteve diante da casa, ele abriu a porta e se aproximou. Fiona veio primeiro, parecendo muito menos pálida


do que Hugo esperava. Na verdade, ela parecia consideravelmente mais jovem do que aparentava quando ele chegara pela primeira vez a Londres. Então veio Gwendoline, vestida em vários tons de azul, parecendo tão fresca como se ela tivesse acabado de sair de seu toucador. Ela olhou em seus olhos enquanto colocava a mão enluvada na sua. - Lorde Trentham - disse ela. - Lady Muir. Ela desceu os degraus. Ele sempre se esquecia de que ela mancava quando não estava com ela. Ela não sorriu. Nem o olhou furiosa. E, em seguida, Constance estava fora do carro, ajudada por seu tio, e exigia saber se todos tinham chegado e onde estavam. - Vamos todos nos reunir na sala de estar para o chá em meia hora ou menos - disse Hugo. - Fiona e Connie, a governanta vai mostrar seus quartos. O seu também, Philip. Ele apertou a mão de seu tio calorosamente. E então ele se virou para Gwendoline e estendeu um braço para ela. - Permita-me mostrar-lhe o seu quarto - disse ele. - Mereço um tratamento especial? - Ela levantou as sobrancelhas quando tomou seu braço. - Sim - disse ele. Seu coração batia em seu peito como um tambor.


Capítulo 20 Gwen não sabia o que esperar de Crosslands Park. Deveria ser grande, porém, ela concluiu, se era para abrigar um número considerável de membros da sua família por quase uma semana, além dela. Era grande, mesmo que não o bastante na escala de Newbury Abbey ou Penderris Hall. A casa quadrada de pedra cinzenta era do estilo georgiano. Não era muito velha. O parque circundante era muito quadrado e deveria abranger vários acres. Era possível que a casa estivesse no centro dela. A calçada que atravessava o parque até a casa era tão reta como uma flecha. Havia árvores, algumas em bosques ou florestas. E havia gramados, que tinham sido recém-cortados. Havia estábulos e uma cocheira em um lado da casa principal e uma grande praça de terra nua do outro lado. Havia algo potencialmente magnífico sobre o lugar, ainda que tudo parecesse curiosamente ... estéril. Ou subdesenvolvido era talvez uma palavra melhor. Enquanto os outros ocupantes da carruagem contemplavam seus aposentos e Constance fazia alguns comentários animados, Gwen se perguntava sobre os proprietários originais. Se tinham falta de imaginação ou ... o quê? Ela sabia, porém, por que a propriedade tinha atraído Hugo. Era grande e sólida, sem nenhuma bobagem, assim como ele. Ela sorriu com o pensamento e juntou as mãos um pouco mais firmemente em seu colo. Este foi o seu exame - o exame de seus olhos e de seu íntimo. Venha ao meu mundo.


Ela não sabia como iria funcionar. Mas ela tinha apreciado a viagem de carruagem. Constance, que surpreendentemente nunca deixara Londres antes, era exuberante em sua apreciação do campo, de cada pousada e pedágio em que eles haviam parado. Sua mãe era tranquila, mas razoavelmente alegre. Mr. Germane tinha uma conversa interessante. Ele trabalhara para uma empresa de chá e tinha viajado extensivamente no Extremo Oriente. Ele era tio de Hugo, porém, não parecia ser muito mais velho. Como seria passar vários dias aqui? Quão diferente seria de seu próprio mundo e rodeada por sua própria gente? Quão bem eles a receberiam? Será que ela seria vista como uma estranha? Será que ela se ressentiria? Será que ela se sente como uma estranha? Lily sentara-se com ela na noite antes de sair. Ela contou a Gwen da luta que tinha atravessado para transformar-se da filha selvagem de um sargento, errante analfabeta de uma infantaria, vagando pelo mundo no trem de um exército em guerra, para uma dama inglesa, sob a supervisão de Elizabeth, que ainda era solteira na época. - Havia apenas uma maneira de torná-lo possível, - ela disse em um ponto. - Eu tive que querer fazê-lo. Não porque eu precisasse provar algo a todos. Não porque eu sentisse que devia algo à Elizabeth, embora eu devesse. Não para ganhar Neville de volta - Eu nem sequer queria fazer isso depois que descobri que não estávamos casados legalmente depois de tudo. Ele era de um mundo alienígena, e eu não queria nada disso. Não, só foi possível, Gwen, porque eu queria isso para mim. Todo o resto fluiu daí. As pessoas, especialmente algumas pessoas religiosas, querem nos fazer acreditar que é errado, mesmo um pecado, amar a si mesmo. Não é. Isto é o amor básico, essencial. Se você não amar a si mesma, não pode amar mais ninguém. Não plena e verdadeiramente.


Gwen sabia da transformação de Lily, é claro, e de seu novo e definitivo casamento com Neville. Ela não sabia os detalhes internos das lutas de Lily. Tinha a escutado, encantada. E percebera por que Lily havia escolhido aquela noite especial para compartilhar sua história. Ela tinha dito a Gwen que, claro, era possível se ajustar a um mundo diferente do qual se tinha conhecido a vida toda, mas que havia uma única razão que poderia fazer a mudança valer a pena. Ela tinha que querer. Para ela mesma. No entanto, a mudança, no caso dela, certamente não seria tão grande. Hugo era rico. Ele era dono de tudo isto. Ele era titulado. Esta era apenas uma festa, ela dissera a si mesma conforme a carruagem parava nas etapas antes de chegar a casa. Mas ela estava nervosa. Que estranho. Ela era sempre confiante e cheia de antecipação prazerosa ao chegar a uma festa. Ela adorava festas. Hugo estava no pé da escadaria. Mestre de seu próprio domínio. Ele não esperara o cocheiro saltar para abrir a porta da carruagem. Ele mesmo se adiantara e fizera isso, se dispondo a ajudar a Sra. Emes descer. E, em seguida, foi à vez dela. Seus olhos se encontraram com os dela enquanto ele estendia a mão para ela. Olhos escuros e inescrutáveis. Mandíbula dura. Não sorriu. Ela esperava algo diferente? Oh, Hugo. - Lorde Trentham - disse ela. - Lady Muir. - Sua mão se fechou sobre a dela e ela desceu para o terraço.


Mr. Germane veio em seguida, e se virara para ajudar Constance descer. A menina era toda conversa e excitação. Serviriam o chá na sala de estar em meia hora. A governanta iria mostrar-lhes seus quartos para que pudessem refrescar-se. Mas não, não foi bem assim. Hugo ia mostrar-lhe o seu quarto. - Eu mereço um tratamento especial? - Ela disse, conforme tomava o braço dele. - Sim - disse ele. E isso foi tudo o que disse. Ela se perguntou se ele se arrependera de tê-la convidado. Ele poderia relaxar agora com sua família, se não o tinha feito. Havia dois aniversários de casamento para comemorar. O hall de entrada, não de forma inesperada, era grande e quadrado, as paredes creme cobertas por grandes paisagens de mérito artístico medíocres emolduradas em dourado. Uma ampla escadaria à frente deles subia até um patamar, antes de se desdobrar em dois ramos para alcançar o piso superior. A governanta e seu grupo tomaram o ramo direito, enquanto Hugo e Gwen tomaram o esquerdo. E, em seguida, os outros desapareceram por um longo corredor à esquerda, enquanto Hugo levava Gwen para a direita. O arquiteto, Gwen pensou, deve ter tido um problema para criar curvas. E ainda havia um certo esplendor sobre a casa. Ela brilhava com a limpeza e um leve cheiro de polimento. Pinturas semelhantes às do hall cobriam as paredes. Era tudo, de alguma forma, bastante impessoal, como um hotel. O som de vozes, algumas tranquila, poucas mais animadas, vinham de trás das portas fechadas.


Hugo parou e abriu a porta no final do corredor. Liberou seu braço do dela e ficou para trás para ela entrar. Ele não tinha falado uma palavra durante todo o caminho. Não tinha sequer perguntado sobre sua viagem. Parecia bastante sombrio. - Obrigada - disse ela. Então ele a surpreendeu ao entrar no quarto atrás dela e fechar a porta. Será que ele não percebia ...? Não, provavelmente não. Além disso, ele estar aqui com ela não era tão impróprio. Outra porta, conduzindo presumivelmente a um quarto de vestir, estava entreaberta, e ela podia ouvir sua empregada dentro. - Espero que você goste do quarto - disse ele. - Eu o escolhi para você por causa da vista, mas depois percebi que realmente a vista é bastante sombria. Não houve oportunidade de plantar as flores. No ano passado todas floresceram, mas não este ano. Vou arrumá-las direito no próximo ano, mas isso só será possível enquanto estiver hospedado aqui. Eu deveria tê-la colocado em outro lugar, com uma vista sobre a casa, talvez. Ele tinha cruzado o quarto enquanto estava falando e olhava pela janela. Mesmo agora, pensou Gwen enquanto ela colocava o chapéu, as luvas e a bolsa na cama, ela poderia se iludir pensando que os olhares sombrios de Hugo denotavam um humor melancólico. No entanto, o tempo todo, enquanto a carruagem se aproximava, enquanto ela descia, enquanto ele a tinha escoltado até aqui, ele tinha, provavelmente, sido consumido pela ansiedade. Ela caminhou até ele.


Sua janela dava para o grande quadrado de terra nua que tinha visto da entrada de carruagens. Dali de cima ela podia ver que o solo havia sido revirado e capinado nos últimos dias. Além dele, havia um gramado até as árvores mais ao longe. Ela teria rido se não temesse machucá-lo. - Eu pensei que você não viesse - disse ele. - Eu esperava abrir a porta da carruagem e descobrir apenas Fiona, Constance e Philip dentro. - Mas eu disse que viria - disse ela. - Eu pensei que você fosse mudar de ideia. - Se eu tivesse feito isso, - ela disse a ele - eu teria que deixá-lo saber. Eu sou uma – dama, ela estava prestes a dizer. Mas ele teria interpretado mal a palavra. - Sim, - disse ele - você é uma dama. Seus dedos estavam espalhados ao longo da janela. Ele estava olhando para fora, não para ela. - Hugo, - ela disse, colocando a mão levemente em seu braço, - não faça disso uma questão de classe. Se alguém de sua família tivesse mudado de opinião, por algum motivo, eles teriam feito com que você soubesse. É simples cortesia. - Eu pensei que você não viria - disse ele. - Eu me preparei para não vê-la. O que ele estava dizendo? Na verdade, era bastante óbvio o que ele estava dizendo e Gwen deslizou sua mão de seu braço. Seu coração parecia estar batendo em sua garganta mais do que em seu peito. Ela olhou de volta através da janela. - Há muito potencial lá - disse ela.


- No jardim? - Ele virou a cabeça brevemente para olhar para ela. - O parque é essencialmente plano, tanto quanto eu pude ver, quando estávamos subindo à calçada - disse ela. "Mas veja, há uma queda além do seu canteiro de flores. Você poderia ter um pequeno lago lá embaixo, se desejar. Não, isso seria demais. Uma grande lagoa de lírios seria melhor, com samambaias altas e juncos crescendo além dela, entre ela e as árvores. E os jardins de flores poderiam ser reformulados seguindo a curva para baixo, em direção à lagoa, com arbustos e flores mais altas para os lados e flores mais curtas cobrindo o solo formando um caminho sinuoso através dele, e alguns lugares para apreciar a vista. Poderia serEla parou abruptamente e se sentiu envergonhada. - Eu imploro seu perdão - disse ela. - As flores serão adoráveis quando você plantá-las. E a vista não é muito ruim. É uma visão do país. Não há mar à vista e nem sal no ar. Eu prefiro a paisagem do interior do país. Aqui é mais bonito do que Newbury. Estranhamente, ela não estava mentindo ou simplesmente sendo educada. - A lagoa de lírios - disse ele, apoiando os cotovelos no peitoril e olhando para fora, os olhos apertados. - Seria bonita. Sempre pensei nessa queda da terra como uma inconveniência. Eu não tenho imaginação, você sabe. Não para decoração, de qualquer maneira. Eu posso desfrutar ou criticar quando a vejo, mas não posso imaginar. Posso ver todas aquelas pinturas nas paredes, por exemplo, e saber que são lixo, mas não posso imaginar os tipos de pinturas com as quais eu iria substituí-las se as removesse todas e as jogasse ao monte de lixo. Eu teria que vagar por galerias nos próximos dez anos, escolher e escolher, e, em seguida, talvez nada combinasse com


qualquer outra coisa, ou então pareceriam erradas nos quartos onde eu tinha decidido coloca-las”. - Às vezes, - disse ela - ter tudo combinado e simétrico não é mais agradável aos olhos ou à mente do que a falta disso. Às vezes você tem que confiar em sua intuição e agir com o que você tem. - Isso é fácil para você dizer - disse ele. - Você pode olhar pela janela e ver uma lagoa de lírios e um curvado jardim de flores e plantas, de diferentes tipos e alturas, e lugares para desfrutar da paisagem. Tudo o que vejo é um bom quadrado de terra apenas esperando por flores, se eu só soubesse que flores plantar. E uma queda problemática de gramado para além dela e as árvores na distância. Eu não podia sequer pensar em um caminho no meu próprio jardim. No ano passado, quando todas as flores estavam florescendo, eu tinha que andar por toda a borda da cama para vê-las ou vir até aqui para olhar para baixo sobre elas. - Mas que visão gloriosa que deve ter sido! - Ela colocou a mão em seu braço novamente. – E, às vezes, um respingo breve e glorioso de cor e beleza é suficiente para a alma, Hugo. Pense em um disparo de um fogo de artifício. Não há nada mais breve e nada mais esplêndido. Ele virou a cabeça finalmente e olhou para ela. Foi um longo olhar, que ela retornou. Ela não podia ler seus olhos. - Bem-vinda à minha casa, Gwendoline - ele disse suavemente, finalmente. Ela engoliu em seco e piscou várias vezes. Ela sorriu para ele. E maravilhosamente, milagrosamente, ele sorriu de volta.


- Eu devo descer, - disse ele, endireitando-se, - e conhecer todos na sala de estar. Você irá descer quando estiver pronta? - Vou - disse ela. - Como você vai explicar a minha presença? - Você tem tido Constance sob sua asa, - disse ele - e a capacitou para atender alguns entretenimentos da sociedade, como convém a seu status como minha irmã. Meus parentes se divertem e se impressionam com meu título, você sabe. Mas eles não são pessoas pouco inteligentes. Eles vão entender logo, se os rumores não chegaram a seus ouvidos, que você está aqui porque eu estou cortejando você. - Você está? - Ela perguntou a ele. - A última vez que te vi, você disse muito claramente que você não estava. Eu pensei que fui convidado para cortejá-lo ou, pelo menos, para descobrir por mim mesma por que é impossível para você me cortejar. Ele hesitou antes de responder. - Meus parentes vão concluir que eu estou cortejando você disse ele. - Todo mundo ama o que parece ser um romance desabrochando, especialmente quando um membro da família está envolvido. Se eles estão certos ou errados, se verá. Mas, talvez, seus parentes não amariam este particular romance desabrochando, Gwen pensava. Eles bem poderiam ressentir-se. Ela não disse isso em voz alta, no entanto. Ela sorriu novamente. - Eu descerei em breve - disse ela. Ele inclinou a cabeça e saiu do quarto. Fechou a porta silenciosamente atrás dele. Gwen ficou onde estava por um tempo curto. Voltou seu pensamento para o dia na praia da Cornualha quando sentiu uma onda de solidão. Se não tivesse sentido naquele dia, teria


sentido alguma vez? E, se não tivesse, teria ficado encapsulada em segurança na tristeza e culpa que tinham crescido tão abafados que não tinha sequer percebido como haviam paralisado sua vida? Estranhamente, tinha sido um casulo confortável. Ela meio que desejava que ainda estivesse dentro dele, ou que, se tivesse sido forçada a sair, então encontrasse um silencioso, confortável, simples cavalheiro com o qual ela havia sonhado, como se essa pessoa realmente existisse. Mas ela conheceu Hugo em seu lugar. Ela balançou a cabeça um pouco e caminhou para o quarto de vestir para que pudesse se lavar, mudar de roupa e ter seu cabelo bem penteado antes de entrar totalmente no mundo de Hugo. Os pais de Fiona estavam se sentindo um pouco oprimidos, Hugo logo percebeu, sentados em uma espécie de grupo com os membros de sua própria família. Mesmo os parentes políticos de Fiona deviam lhes parecer grandes pessoas, e ele sabia que eles o encaravam com algum temor. Demasiado tarde ele percebeu que deveria ter instruído seu mordomo, sempre engenhoso, para encontrar alguém que ficasse atrás dos dois meninos durante a festa. Eles estavam sentados em um sofá com seus pais, o mais jovem esmagado entre os dois, o mais velho no outro lado de seu pai. Os parentes de Hugo eram barulhentos, como geralmente eram em companhia uns dos outros. Mas talvez houvesse um pouco de bom-senso adicionado hoje, por estarem em um lugar estranho e haviam outras pessoas presentes, uns virtuais estranhos. Fiona sentou-se junto à lareira com Philip. Sua mãe estava olhando melancolicamente para ela.


Constance estava voando entre os grupos, de braços dados com Gwendoline. Ela a apresentava a todos como a dama que a tinha apresentado à sociedade, a dama que a apadrinhara. Era Hugo que deveria estar fazendo as apresentações, mas ele estava feliz por Constance estar fazendo isso por ele e, involuntariamente, deixando claro o fato de Gwendoline ter sido convidada por causa dela. Ned Tucker estava em pé, atrás do grupo de seus amigos da mercearia e parecia bem-humorado. Hugo queria convidá-lo apenas para descobrir o que, se alguma coisa, existiu entre ele e Constance. E sua avó tinha tornado mais fácil para ele. Quando ele tinha ido à mercearia emitir o convite, Tucker estava com eles, e avó de Constance tinha colocado a mão em sua manga e dito a Hugo que ele era como um membro da família. Hugo o tinha incluído prontamente no convite. E Hugo, observando os grupos à sua volta, percebeu que ele era parte da cena também. Ele estava ali em pé, no meio de tudo isso, como um soldado em desfile. Desejou ter algumas virtudes sociais. Deveria ter aprendido mais enquanto estava em Penderris. Mas nunca tinha precisado graças sociais para misturar-se com sua família. Nunca tinha conhecido um momento de autoconsciência ou autodúvida, quando estava crescendo entre eles. E ele não precisava de graças sociais para reunir-se com a família de Fiona. Ele apenas precisava mostrar a eles que era humano, que, na realidade, não era diferente deles apesar de seu título e sua riqueza. Ou talvez isso era o que graças sociais eram. Lá estava Gwendoline, ainda com o braço de Constance através do dela, falando com Tucker, e todos os três riam, como Hugo podia ver. Gwendoline não levava seu nariz empinado, como tinha com ele algumas vezes, e Tucker não estava balançando a cabeça e puxando seu topete. Hilda e Paul Crane levantaram-se de seus assentos e se juntaram a eles e, logo, estavam todos rindo.


Hugo tinha a sensação de que poderia estar carrancudo. Como ele podia manter esses grupos distintos juntos, fazer uma festa em casa e relaxar com isso? Realmente, tinha sido uma ideia louca. Ele foi resgatado pela chegada da bandeja de chá e outra, maior, tendo todos os tipos de suntuosas guloseimas. Ele virou-se para sua madrasta. - Você faria a gentileza de servir, Fiona? - Perguntou. - Claro, Hugo - disse ela. E ele percebeu que ela estava se divertindo como uma pessoa de importância para todos na sala, desde que sua madrasta se sentia a anfitriã. Não lhe havia ocorrido que precisaria de uma. Mas, é claro, que precisava. Alguém tinha de servir o chá, sentar-se à cabeceira de sua mesa de jantar e estar ao seu lado para cumprimentar os convidados quando chegassem para as festas de aniversário em um alguns dias. - Obrigado - disse ele, e começou a circular entre os convidados, distribuindo pratos e guardanapos antes de circular com a bandeja de guloseimas, convencendo todos a tomar um ou dois. Enquanto isso, a prima Theodora Palmer, recentemente casada com um banqueiro próspero, entregava uma xícara de chá para todos conforme Fiona servia, e sua cunhada, Bernadine Emes, esposa do primo Bradley, cruzava a sala e falava com os meninos. Seus próprios filhos, ela disse a eles, juntamente com alguns dos seus primos, estavam tomando chá em uma adorável sala no sótão. E depois de terem terminado, sua tutora iria leválos para fora para brincar. Talvez Colin e Thomas gostassem de ir com eles?


Thomas se escondeu atrás de manga de seu pai e espiou com um olho. O rosto de Colin se iluminou com ânsia, e ele olhou para seu pai para pedir permissão. - Não temos férias, muitas vezes, não é? - Hugo ouviu Bernadine dizendo para Mavis e Harold. - Nem nossos filhos. Nós também podemos todos desfrutar isso completamente enquanto pudermos. Há duas tutoras, ambas completamente confiáveis. As crianças as obedecem e as adoram. Seus meninos estarão bastante seguros com elas. - Tenho certeza de que estarão - disse Mavis. - Não temos uma tutora. Gostamos de manter os nossos filhos conosco. - Oh, eu também! - Disse Bernadine. - Eles crescem tão rápido. Quando eu tive meu primeiro ... Hugo abriu a porta da sala de estar, chamou um dos novos servos, que pairava lá fora e disse-lhe para informar à tutora da Sra. Bradley Emes que ela precisava parar ali quanto estivesse a caminho do lado de fora, a fim de coletar mais duas crianças. Gwendoline estava falando com tia Rose e tio Frederick Emes, e o primo Emily, de quatorze anos, estava olhando para ela com admiração. Constance estava conduzindo seus avós em direção à tia Henrietta Lowry, viúva, irmã mais velha de seu pai, matriarca da família. Roma não foi construída em um dia, Hugo pensou sem grande originalidade. Mas foi construído. E, talvez, sua festa não fosse um desastre absoluto. Ele provavelmente estava se sentindo estranho e ansioso só porque Gwendoline estava ali e ele queria que tudo fosse perfeito. Ele não estaria preocupado se ela não estivesse, estaria? Ele foi falar com Filipe, que não tomava parte de nenhum grupo, mas parecia perfeitamente confortável, de qualquer


maneira, enquanto olhava para Fiona que servia as segundas xícaras de chá. Eles formavam um belo casal, Hugo pensou com alguma surpresa. Philip e Fiona. Agora havia um pensamento. Talvez ele se transformasse em um casamenteiro em sua velhice. Eles devem ser muito próximos em idade também. E, em seguida, o chá tinha acabado, as bandejas foram removidas e Hugo explicou que todos estavam livres para permanecerem onde estavam, ou para se removerem aos seus aposentos para descansar, ou passear ao ar livre para um pouco de ar fresco. A maioria das pessoas se dispersou. A mãe e o pai de Fiona circulavam lentamente pela sala com a tia Henrietta, admirando as pinturas. Constance saiu ao ar livre com um grande grupo de jovens que incluía vários dos primos Emes, Hilda e Paul, e Ned Tucker. Gwendoline estava conversando com Bernadine e Bradley. Hugo se juntou a eles. - Vou levar todas as crianças para ver os novos cordeiros, bezerros e potros amanhã de manhã - disse ele para Bernadine. Há alguns gatinhos e cachorrinhos também. Acho que eu teria pensado que tinha morrido e ido para o céu, se alguém tivesse feito isso para mim quando eu era uma criança. - Todos nos lembramos seus vira-latas, Hugo - disse Bradley, rindo. - O tio costumava suspirar quando você voltava para casa com mais um gato vesgo enlameado ou um esquelético cachorro de três pernas. - As crianças vão adorar - disse Bernadine. - Só não permita, eu imploro, Hugo, que qualquer um deles, especialmente uma das meninas, o convença a permitir que levem um filhote de cachorro, ou um gatinho, ou um cordeiro ou dois, para casa com eles quando partirem.


Hugo riu e chamou a atenção de Gwendoline. - Talvez vocês gostassem de ver os cordeiros agora - disse ele. - Eles ainda estão no pasto. - Oh, Hugo! - Bernadine disse com um suspiro. - A viagem foi longa e o ar do campo está me matando – de uma forma completamente boa, apresso-me a acrescentar. E nossos filhos estão brincando lá fora. Vou para minha cama até a hora de me vestir para o jantar. - Brad? - Disse Hugo. - Outra vez, talvez - disse Bradley. - Eu deveria gastar os bolinhos de creme extras que não pude resistir, mas a cama em nosso quarto está chamando insistentemente agora. - Lady Muir? - Hugo parecia educado para ela. - Eu vou ver os cordeiros - disse ela. - Ah, - disse Bernardine - Lady Muir está sendo educada. Você logo aprenderá a ser mais egoísta se passar mais tempo com a gente, Lady Muir. Mas ela riu enquanto tomava o braço de Brad, afastando-se com ele sem esperar por uma resposta. - Às vezes, - disse Gwendoline, olhando para Hugo, - eu acho que já sou a mais egoísta dos mortais. - Você não tem que vir - disse ele. - Não comece. - Ela riu e tomou seu braço ainda que ele não tivesse sequer oferecido.


Capítulo 21 Caminhando à sala de estar para o chá, tinha tomado uma quantidade surpreendente de coragem, Gwen achava. Ela não sabia muito o que esperar. Temia que todos olhassem para ela com temor excessivo ou com hostilidade ressentida, cada um dos quais a isolaria e teria se tornado difícil se comportar com qualquer grau de facilidade. Constance tinha deixado mais fácil, mesmo que, provavelmente, tivesse feito isso inconscientemente. Embora houvesse algum sinal de temor conforme a garota a apresentava, Gwen não tinha detectado nenhuma hostilidade. E até mesmo o pouco temor, ela acreditava, havia se dissipado durante o chá. Talvez, depois de tudo, ia ser um pouco mais viável do que ela temia. Ela não se importava de qualquer maneira. Estava quase ferozmente feliz por ter vindo. Mesmo a hostilidade aberta de cada um de seus familiares valeria a pena ser enfrentado apenas para isso. E isso era a visão de Hugo alimentando um cordeiro, o menor do rebanho. Sua mãe tinha morrido dando à luz a ele, e as ovelhas para as quais tinha sido dado, apesar de terem perdido seu próprio filhote, nem sempre estavam dispostas a deixá-lo mamar. Hoje era um daqueles dias, e por isso lá estava Hugo, sentado de pernas cruzadas no pasto, a metade cordeiro no colo dele sugando avidamente garrafa com algum tipo de mamilo. Ele estava falando com o bichinho. Gwen podia ouvir sua voz, embora não conseguisse distinguir as palavras exatas. Ela se inclinou contra a parte exterior da cerca, os braços apoiaram-se na parte superior, observando-os, embora acreditasse que ele tinha esquecido tudo sobre ela. Havia tanta ternura em sua voz e em seus gestos, que ela poderia ter chorado.


Ele não tinha esquecido, no entanto. Mesmo enquanto ela pensava isso, ele olhou para cima e sorriu para ela. Não, não era apenas um sorriso. Foi mais como um sorriso de menino. - Me desculpe - disse ele. - Eu deveria ter levado você de volta para a casa primeiro. - Não comece - disse ela novamente. E ele riu e voltou sua atenção para o cordeiro, que foi finalmente mostrando sinais de ter mamado o suficiente. - Ou eu deveria ter chamado alguém para fazer a alimentação - disse ele um pouco mais tarde, conforme deixava o pasto. - Existem alguns trabalhadores. É melhor não te oferecer meu braço. Devo estar cheirando ovelhas. Ela tomou seu braço, mesmo assim. - Eu cresci no campo ela lembrou. Ele cheirava fracamente à ovelha. E ainda estava usando as roupas muito elegantes que tinha usado para o chá. Ele não tomou o caminho que conduzia aos limites do pasto diretamente para os estábulos. Em vez disso, ele a levou ao perímetro do parque, onde havia mais árvores. Elas não eram amplamente espaçadas, porém, o suficiente para caminhar entre elas. - Eu posso entender - disse ela - por que você se fechou aqui no campo há alguns anos atrás e não queria mais nada a ver com o mundo exterior. - Você pode? - Disse. - Isso não pode ser feito indefinidamente, no entanto. A morte do meu pai me arrastou para fora mais uma vez. De modo geral, eu não tenho desculpas. - Nem eu - disse ela.


Ele virou a cabeça para olhar para ela, mas não fez nenhum comentário. - Eu percebi uma coisa, - disse ele - quando eu estava alimentando esse cordeiro e você estava ali de pé assim, pacientemente, observando. Eu mantenho as minhas ovelhas pela lã, não sua carne. Eu mantenho minhas vacas para o seu leite e queijo, não por sua carne. Eu mantenho frangos por seus ovos. Eu me senti muito orgulhoso disso. Mas eu como carne. Concordo na morte de outros animais desconhecidos para que eu possa ser alimentado. E quase todas as criaturas caçam para se alimentar. É tudo muito cruel. Um pode se impor sobre o outro e tornar tudo muito triste. Mas essa é a lei da vida é. É um equilíbrio contínuo de opostos. Há ódio e violência, por exemplo, e há bondade e gentileza. E às vezes a violência é necessária. Eu tento imaginar Bonaparte tendo sido autorizados a chegar às nossas costas com seus exércitos. Invadindo nossas cidades e a zona rural. Pilhando alimentos e outros bens. Atacando a minha família e a sua. Atacando você. Se nada disso tivesse acontecido, eu nunca poderia ter notado a santidade da vida humana e a ternura da minha consciência. - Você se perdoou, então? - Perguntou ela. Ele tinha parado de andar e estava de pé com as costas contra uma árvore, com os braços cruzados sobre o peito. - É engraçado, não é? - Disse. - Carstairs tem vivido com a culpa todos esses anos, embora tenha ordenado o recuo, o que teria economizado pelo menos algumas das vidas de seus homens. E mesmo ele tendo sido gravemente ferido no ataque e sofrido as consequências desde então. Ele se sente culpado porque acredita que seu instinto foi covarde e minhas ações estavam certas. Ele me odeia, mas acredita que eu estava certo. - Você estava certo - disse ela. - Você sempre soube disso. Ele balançou a cabeça lentamente.


- Eu não acredito que há certo ou errado - disse ele. - Não é só fazer o que se deve fazer sob as circunstâncias e viver com as consequências e tecer cada experiência, boa e má, no tecido da vida de um modo que, finalmente, pode-se ver o padrão de tudo e aceitar as lições que a vida ensinou. Nós nunca podemos esperar atingir a perfeição em uma só vida, Gwendoline. Pessoas religiosas pessoas diriam que é o que se necessita para ir ao céu. Eu acho que seria uma vergonha. É muito fácil e muito preguiçoso. Eu prefiro pensar que, talvez, nos seja dada uma segunda chance - e uma terceira e uma trigésima terceira - até obter tudo certo. - Reencarnação? - Ela disse. - É assim que chamam? - Ele deixou cair os braços para os lados e olhou para ela. - Eu me pergunto se eu encontraria a mesma mulher em cada vida e descobriria, a cada vez, que havia um problema. E a solução que me ocorreria seria imprudente ou corajosa? Para resistir ou abraçar? Errada ou certa? Você vê o que eu quero dizer? Ela deu um passo adiante, se inclinou contra ele, estendeu as mãos sobre seu peito e descansou a testa entre elas. Ela sentiu seu batimento cardíaco e seu calor e inalou a estranhamente sedutora mistura do cheiro de água de colônia, de homem e de ovelhas. - Oh, Hugo - disse ela. Os dedos de uma mão acariciavam o pescoço dela. - Sim, - ele disse baixinho - eu me perdoei por estar vivo. - Eu te amo - disse ela no tecido da sua gravata. Por um momento ela ficou horrorizada. Ela tinha realmente falado em voz alta? Ele não respondeu. Mas inclinou a cabeça e beijou suavemente e breve oco entre o ombro e o pescoço.


E assim que as palavras tinham sido ditas em voz alta – por ela, pelo menos. E realmente não importava. Ele deveria saber, de qualquer maneira. Assim como ela sabia que ele a amava. Será que ela sabia disso? É claro que ela sabia. Ele tinha acabado de dizer isso em outras palavras. Gostaria de saber se eu iria encontrar a mesma mulher em cada vida ... O amor pode não ser suficiente. Ele havia dito em Londres, quando viera dizer-lhe que ele não ia cortejá-la. E então, novamente, pode ser. Talvez o amor fosse tudo. Talvez isso fosse o que eles iriam aprender se tivessem trinta e três vidas juntos. - Algumas pessoas têm áreas silvestres em suas propriedades - disse ele. - Eu pensei que talvez devesse ter uma também. Mas eles geralmente têm colinas, maciços de árvores, pontos de vista e perspectivas, e todos os tipos de outras atrações. Eu não tenho nenhuma dessas coisas. Uma área silvestre aqui seria apenas isso: uma área silvestre. Seria idiota. - Idiota? - Ela disse, levantando a cabeça e olhando para ele. Ele inclinou a cabeça para um lado. - Isso não é uma palavra muito elegante para uma dama usar - disse ele. Ela riu. - Um caminho sinuoso definido pela floresta seria agradável - disse ela. - E há espaço aqui para mais árvores, talvez alguns rododendros, outras árvores floridas ou arbustos. Talvez algumas flores que crescem bem na sombra e não são demasiado berrantes. Bluebells na primavera, por exemplo. Narcisos. Poderia haver alguns bancos, especialmente em lugares


onde há algo para se ver ao longe. Notei, alguns momentos atrás, que eu podia ver a torre da igreja da aldeia. Eu ouso dizer mais longe, por aqui, podemos ver a casa. Poderia haver um pequeno pavilhão de verão, um lugar para sentar-se, mesmo quando está chovendo. Algum lugar para ficar quieto e relaxar. Ou ler. É tudo o que Crosslands é, depois de tudo, e por que você se sentiu atraído por ele. Não é um lugar espetacular por sua beleza pitoresca e suas perspectivas, mas apenas uma declaração simples de algo bom - da paz e alegria que vêm com o comum, talvez. Ele estava olhando-a nos olhos. - Ele não precisaria fontes, estátuas, jardins de topiaria, roseiras, lagos com barcos, vielas, labirintos e Deus sabe o que mais? - Disse. - O parque, quero dizer. Ela balançou a cabeça. - Ele poderia ter alguns toques delicados aqui e ali, - disse ela - mas não muito. É adorável como é. - Mas um pouco no lado estéril? - Disse. - Apenas um pouco. - E a casa? - Disse. - As pinturas precisam sair. - Ela sorriu para ele. - A casa estava totalmente mobiliada quando você a comprou? - Estava - disse ele. - Ela foi construída por um homem que, como meu pai, fez o seu dinheiro no comércio. Ele a construiu com todos os melhores materiais, decorou com os melhores móveis e nunca realmente viveu nela. Ele a deixou para seu filho quando morreu. Mas seu filho não a queria. Foi para a América, para fazer sua própria fortuna, eu suponho, e deixou a casa com um agente para ser vendida. Triste, ela pensou.


- Assim como eu fui para a guerra e deixei o meu próprio pai - disse ele. - Mas você voltou, - ela lembrou a ele - e o viu antes dele morrer. Você foi capaz de assegurar a ele que você assumiria os cuidados com seus negócios, sua esposa e filha. - E eu percebi outra coisa - disse ele. - Ele teria quebrado seu coração se eu tivesse sido morto. Então eu me alegro, por ele, de não ter morrido. - E por minha causa? - Ela disse. Ele emoldurou seu rosto com suas grandes mãos e seguroua inclinada para cima, sob o dele. - Eu tenho certeza que eu seja muito como um presente disse ele. - O que você acha da minha família e da Connie? - Eles são pessoas - disse ela. - Estranhos que se tornarão conhecidos, talvez até mesmo amigos durante os próximos dias. Eles não são tão diferentes de mim, Hugo, e talvez eles descubram que eu não sou muito diferente deles. Estou ansiosa para conhecer a todos. - Uma resposta diplomática - disse ele. E talvez um pouco ingênua, sua expressão parecia dizer. Talvez fosse. Sua vida era tão diferente como poderia ser, possivelmente, da de Mavis Rowlands, por exemplo. Mas isso não significava que eles não poderiam desfrutar a companhia uma da outra, encontrar um terreno comum sobre o qual conversar. Ou era uma crença ingênua? - A resposta verdadeira - disse ela. - E quanto a Mr. Tucker? - O que tem ele? - Perguntou. - Ele não é um parente - disse ela. - Há algo entre Constance e ele?


- Eu acho que pode haver - disse ele. - Ele é dono de loja de ferragens ao lado da mercearia de seus avós. Ele é sensível, inteligente e amável. - Eu gosto dele - disse ela. - Constance vai ter uma grande variedade de escolhas, não é? - A coisa é, - ele disse - que ela acha que seus meninos, aqueles que você apresenta a ela em bailes e festas, são doces, para usar sua palavra, mas um pouco bobos. Eles não fazem nada com suas vidas. - Oh, querida. - Ela riu. - Ela lhe disse isso também, não disse? Mas ela é enormemente grata a você - disse ele. - E mesmo se ela se casar com Tucker ou alguém de fora da sociedade, ela sempre vai se lembrar qual era a sensação de dançar em um baile da sociedade e passear no jardim de um aristocrata. E ela vai se lembrar de que ela poderia ter se casado com um deles, mas escolheu o amor e felicidade em seu lugar. - E ela não podia encontrar isso com um cavalheiro? perguntou a ele. - Podia. - Ele suspirou. - E, de fato, ainda pode. Como você diz, ela tem escolhas. Ela é uma garota sensata. Vai escolher, eu acredito, tanto com sua cabeça como com seu coração, mas não um à exclusão do outro. E você? Ela queria perguntar-lhe. Você vai escolher com sua cabeça e seu coração? Ela não disse nada, mas deu um tapinha com as mãos contra o peito. - Eu vou ter que levá-la de volta para casa em breve, - disse ele - se você quiser descansar antes do jantar. Por que estamos perdendo nosso tempo falando? Ela olhou-o nos olhos.


Ele abaixou a cabeça e beijou-a com a boca aberta. Ela deslizou as mãos em seus ombros e se agarrou a ele. Uma onda de intenso anseio, tanto físico como emocional, tomou conta dela. Esta era a sua casa. Este era o lugar onde ele iria passar a maior parte do resto de sua vida. Será que ela estaria aqui com ele? Ou esta prova seria apenas um episódio de uma semana e nada mais? Nem mesmo uma semana, na verdade. Ele levantou a cabeça e roçou seu nariz através dela. - Devo dizer-lhe o meu mais profundo e escuro sonho? Perguntou a ela. - É apropriado para os ouvidos de uma dama? - Perguntou ela em troca. - Não é, de forma alguma - disse ele. - Então me diga. - Eu quero ter você em meu quarto de dormir, na minha própria casa - disse ele. - Na minha cama. Quero despir você um ponto de cada vez e amar cada polegada de você, e fazer amor com você uma e outra vez até que ambos estejam muito cansados para continuar. Eu quero dormir com você, então, até que tenhamos a nossa energia de volta para começar tudo de novo. - Oh, querido, - disse ela - isso é realmente impróprio para meus ouvidos. Eu me sinto muito fraca nos joelhos. - Eu vou fazer - disse ele - um dia destes. Vamos fazêlo. Ainda não, embora. Não na casa, de qualquer maneira. Não enquanto eu tenho convidados. Não seria apropriado. Não na casa, de qualquer maneira. - Não faremos - ela concordou. - E Hugo? Eu não posso ter filhos.


Agora, por que ela teve de introduzir a realidade na fantasia? - Você não sabe - disse ele. - Eu não concebi na enseada em Penderris - disse ela. - Fizemos amos uma vez - disse ele. - E eu não estava mesmo tentando. - Mas o que se-? Ele a beijou novamente e levou o seu tempo sobre isso também. Ela passou os braços em volta do seu pescoço. - Essa é a emoção da vida - disse ele quando acabaram. - O não saber. Muitas vezes, é melhor não saber. Nós sabemos que não vamos realmente fazer amor à noite toda na minha cama na casa aqui, não é? Mas podemos sonhar com isso. E eu acho que isso vai acontecer. Chegará o tempo, Gwendoline, quando você vai ser encharcada com a minha semente. E eu acho que pelo menos uma delas vai enraizar. E se isso não acontecer, pelo menos vamos ter nos divertido ao tentar. Ela sentia falta de ar novamente e consideravelmente mais fraca sobre os joelhos. E ela podia ouvir o som das vozes das crianças que se aproximam à distância. Tipicamente das crianças, todos eles pareciam estar falando, ou melhor, gritando de uma vez. - Exploradores, - disse ele - vindo para cá. - Sim - ela disse, e deu um passo para trás. Ele ofereceu seu braço e ela o tomou. E o mundo estava no mesmo lugar. E para sempre diferente.


Hugo tinha trabalhado muito durante seus anos como oficial militar, provavelmente mais do que a maioria, pois ele tinha muito a provar-lhes, e para si mesmo. Ele havia trabalhado duro durante as semanas anteriores, aprendendo sobre as empresas de novo, tomando as rédeas do controle em suas próprias mãos, tornando-se todo seu. No entanto, parecia a ele, durante o curso da estada no campo, que ele nunca tinha trabalhado mais do que fazia agora. Ser sociável era trabalho duro. Ser sociável quando tinha toda a responsabilidade de ser anfitrião era infinitamente mais difícil. Cuidar para que todos se divertissem. E não era sempre fácil. Ele duvidava que já tivesse se divertido tanto em qualquer semana. Proporcionar entretenimento não era realmente nenhum problema. Mesmo um parque estéril era como um pedaço do céu para as pessoas que viveram suas vidas em Londres, e numa pequena parte de Londres, como foi o caso com parentes de Fiona. E até mesmo para seus próprios parentes, a maioria dos quais tinham viajado um pouco mais, a chance de caminhar sobre um parque privado por quase uma semana inteira, sem a pressão de trabalho e os ruídos contínuos de uma grande cidade, era uma coisa maravilhosa. E a casa encantara a todos, mesmo aqueles que poderiam ver suas deficiências. Hugo, que nunca tinha sido capaz de explicar a si mesmo o que estava exatamente errado com a casa, agora sabia. Seu antecessor tinha mobilhado e decorado tudo, provavelmente usando os serviços de um designer profissional. Isso foi caro, elegante e impessoal. Ela nunca tinha sido habitada até que ele se mudara no ano passado. Aqueles de seus hóspedes que podiam ver os problemas por si mesmos enquanto vagavam interminavelmente, faziam sugestões. Seus parentes nunca tinham sido tímidos.


Havia uma sala com uma mesa de bilhar que provou ser popular. Não havia instrumentos musicais. Havia uma biblioteca, suas paredes forradas do chão ao teto com prateleiras, todas cheias com grandes blocos de livros que Hugo estava quase certo de que ninguém tinha lido ou mesmo aberto. Ele tinha lido alguns preciosos, não sendo particularmente inclinado aos livros de sermões, ou livros das leis da antiga Grécia, ou livros de poesia de poetas latinos que ele nunca tinha ouvido falar - e em latim também. Mas mesmo aqueles livros divertiam alguns de seus parentes, e todas as crianças adoraram as escadas e corriam para cima e para baixo e se juntavam para empurrar de locais diferentes, fazendo carruagens e imaginários balões de ar quente lá fora, e até mesmo uma torre da qual gritavam por socorro para algum príncipe que estivesse passando embaixo. A família de Fiona tendia a se amontoar para trocar confidências, no primeiro dia, pelo menos. Mas com a ajuda de Hugo, Mavis e Harold descobriram um terreno comum com os outros pais jovens entre os seus primos, e Hilda e Paul foram logo atraídos para a companhia daqueles dos primos que não estavam casados ou que ainda não tinha filhos. Hugo se certificou de que a Sra. Rowlands conhecesse todas as suas tias e ela desenvolveu uma espécie de amizade com a tia Barbara, cinco anos mais jovem do que a tia Henrietta e um pouco menos que uma matriarca real. O Sr. Rowlands se aproximou de alguns dos tios e parecia razoavelmente confortável com eles. Fiona não mencionou uma única vez a sua saúde na presença de Hugo. Deve ter ficado claro para ela, depois o primeiro dia, que o lado Emes da família não a estava olhando com desprezo, mas, na verdade, olhavam para ela como sua anfitriã. E, obviamente, ela era a grande, a adorada em sua própria família. Ela floresceu diante dos olhos de Hugo, restaurada sua saúde e beleza madura. E ele ficaria muito surpreso se um romance de não estivesse se desenvolvendo entre ela e seu tio.


Quanto a Tucker, ele era um jovem que estaria confortável em quase qualquer ambiente social, Hugo suspeitou. Misturou-se facilmente com todos e parecia particularmente popular entre os primos mais jovens, tanto homens como mulheres. Constance voava por toda parte, transbordando de exuberância. Se ela fantasiava com Tucker, e se ele gostava dela, eles certamente não ficavam agarrados um ao outro, tornando isso óbvio. E, no entanto, Hugo estaria disposto a apostar, que eles fantasiavam um com o outro. E Gwendoline, com a graça tranquila, ajustando-se onde quer que estivesse. Tias que meio congelaram com apreensão no início, logo relaxaram em sua empresa. Tios congratulavam-se com a conversa. Primos logo a incluíram em seus convites para caminhar ou jogar bilhar. Meninas que subiam em seu colo para admirar seus vestidos, embora ela se vestisse com simplicidade deliberada durante esses poucos dias, Hugo suspeitava. Constance conversava com ela e passeavam de braços dados. E ela fez um esforço deliberado para conhecer a Sra. Rowlands, que a olhou com terror quase aberto num primeiro momento. Hugo as encontrou uma manhã no final de um corredor no andar de cima, de braços dados, discutindo uma das pinturas. - Temos apenas passado uma meia hora agradável Gwendoline explicou - indo de um lado do corredor e para o outro, olhando para todas as pinturas e decidindo qual é a nossa favorita. Eu acho que um com as vacas bebendo na lagoa é meu. - Oh, - disse a Sra. Rowlands - o meu é o da rua da aldeia com a menina e o filhote de cachorro latindo em seus calcanhares. Com seu perdão, milady. Parece que o céu, não é, aquela aldeia? Não que eu gostaria de viver nele. Na verdade, não. Eu sinto falta da minha loja. E de todo o povo.


- Essa é a maravilha das pinturas - disse Hugo. - Elas oferecem uma janela para um mundo que nos seduz, mesmo que nós não quiséssemos entrar nele se pudéssemos. - Como você tem, Hugo, - disse a Sra. Rowlands com um suspiro – de poder olhar para estas pinturas todos os dias de sua vida. Quando você está no país, de qualquer maneira. - Eu sou afortunado - disse ele, olhando para Gwendoline. E ele era. Como ele poderia ter previsto tudo isso até poucos meses atrás? Ele tinha ido até Penderris, sabendo que seu ano de luto estava no fim e com ele a sua vida no campo como um ermitão. Ele esperava que seus amigos pudessem oferecer alguns conselhos sobre como ele poderia encontrar uma mulher para casar, alguém que o iria servir sem interferir demais com sua vida ou, de qualquer forma, desarranjando suas emoções. Em vez disso, ele conheceu Gwendoline. E depois, tinha ido a Londres para arrancar Constance das garras de Fiona e lhe encontrar um marido, logo que possível, mesmo que isso significasse ter que se casar com uma mulher escolhida às pressas. E ele tinha encontrado uma Fiona que não era exatamente a vilã que ele lembrava de sua juventude, e Constance com firmes ideias próprias sobre o que ela queria para além das portas de sua casa. E ele tinha proposto casamento a Gwendoline, foi rejeitado e, então, foi convidado a cortejá-la. O resto foi tudo um pouco vertiginoso e era prova suficiente de que não era sempre uma boa ideia tentar planejar o futuro. Ele nunca poderia ter previsto isso. Sua casa sem todas as capas de poeira parecia muito diferente. Era elegante, mas sem coração. Ainda que, de alguma forma, seus visitantes fizessem o lugar alegre e habitável, e ele sabia que iria passar os próximos anos adicionando o coração que estava faltando. Seu parque parecia nu, mas cheio de potencial e realmente não muito ruim como achava. Com uma lagoa de lírios, um curvo canteiro de flores, alguns caminhos e lugares, e uma


área silvestre com mais árvores e bancos e um pavilhão, seria transformada. E talvez ele plantasse alguns olmos altos ou limes em ambos os lados da calçada. Se alguém deve ter uma unidade em linha reta, esse alguém pode também acentuar o fato. Sua fazenda era o caloroso coração pulsante de sua propriedade. Ele estava feliz, descobriu com alguma surpresa durante esses dias. Ele realmente não tinha pensado sobre felicidade com referência a si mesmo desde ... oh, desde que seu pai se casou com Fiona. Agora, ele estava feliz novamente. Ou, pelo menos, ele ficaria feliz se ... Ou melhor quando ... Eu te amo, ela havia dito. Era suficientemente fácil dizer. Não, não era. Era a coisa mais difícil do mundo para dizer. Pelo menos para um homem. Para ele. Era mais fácil para uma mulher? Que pensamento idiota. Ela era uma mulher que não conhecia a verdadeira felicidade, ele suspeitava, por anos e anos - provavelmente não desde o começo de seu casamento. E agora … Ele poderia fazê-la feliz? Não, claro que não podia. Era impossível fazer alguém feliz. Felicidade tinha de vir de dentro. Ela poderia ser feliz com ele? Eu te amo, ela havia dito. Não, essas palavras não teriam chegado facilmente a Gwendoline, Lady Muir. O amor a tinha decepcionado em sua


juventude. Ela tinha tido medo, desde então, de dar seu coração novamente. Mas ela tinha dado agora. A ele. Isto é, se ela realmente quis dizer as palavras. Ela lhe tinha dito. Sua língua tinha ficado presa no céu da boca, ou tinha se amarrado em um nó, ou feito alguma coisa para tornar impossível para ele responder. Isso era algo que ele deveria consertar antes do final da sua estadia aqui. Normalmente, ele tinha falado muito livremente sobre fazer amor com ela. Ele até gostava de ser muito ultrajante. Mas ele não tinha sido capaz de dizer o que realmente importava. Ele diria. Ele ofereceu os braços a ambas as senhoras. - Há uma ninhada de cachorros em uma baia dos estábulos quase pronta para ser liberada a um mundo desprevenido - disse ele. - Gostariam de vê-los? - Oh, - disse a Sra. Rowlands - assim como a da pintura, Hugo? - Border Collies, na verdade - disse ele. - Eles são bons com as ovelhas. Ou, pelo menos, um ou dois serão. Vou ter que encontrar lares para o resto. - Casas? - Ela disse enquanto eles desciam. - Você quer dizer que está disposto a vendê-los? - Eu estava pensando mais em termos de dá-los - disse ele. - Oh, - ela disse - podemos ter um, Hugo? Temos o gato para manter os ratos para fora da loja, é claro, mas toda a minha vida


eu quis um cachorro. Podemos ter um? É muito atrevido de minha parte perguntar? - É melhor vê-los primeiro - disse ele, rindo e girando a cabeça para olhar para Gwendoline. - Hugo, - disse ela suavemente - você realmente deve rir mais vezes. - Isso é uma ordem? - Perguntou a ela. - Certamente é - disse ela severamente, e ele riu de novo.


Capítulo 22 As celebrações dos aniversários tinham sido planejadas para dois dias antes do retorno a Londres. Isso poderia ser melhor assim, Hugo tinha decidido, de modo que todos teriam um dia para relaxar antes da viagem. Além disso, era a data real do aniversário do Sr. e da Sra. Rowlands. Era para ser um banquete familiar no início da noite. Então vizinhos da aldeia e das propriedades vizinhas – pessoas de todas as classes sociais – viriam para algumas danças no pequeno salão de baile, que Hugo esperava nunca usar. Ele contratou os mesmos músicos que sempre tocavam nas assembleias locais. - Não espere muito - avisou a Gwendoline quando estava mostrando o salão de baile a ela e a alguns de seus primos mais novos na manhã de celebrações. - Os músicos são mais famosos por seu entusiasmo do que por sua musicalidade. Não haverá bancos de flores. E eu convidei meu administrador e sua esposa. E o açougueiro e o estalajadeiro. E algumas outras pessoas comuns, incluindo as pessoas que moravam nas redondezas, quando estive em meu chalé. Ela ficou de pé em frente a ele e falou apenas para seus ouvidos. - Hugo, - disse ela - você acharia irritante se cada vez que você participasse de um evento da sociedade, eu falasse em tom de desculpa para você, sobre o fato de que havia três duquesas presentes, uma exposição de flores suficientes para esvaziar várias estufas e uma orquestra que tinha tocado para a realeza europeia em Viena apenas um mês antes? Ele olhou para ela e não disse nada. - Eu acredito que você ficaria irritado - disse ela. - Você me disse para vir ao seu mundo. Eu acredito que consigo me lembrar suas palavras exatas: Se você me quer, se você imagina que me


ama e acha que pode passar sua vida comigo, venha ao meu mundo. Eu vim, e você não tem que pedir desculpas pelo que eu vou encontrar aqui. Se eu não gosto, se eu não posso viver com isso, vou dizer-lhe isso quando voltar para Londres. Mas tenho estado ansiosa para este dia, e você não deve estragá-lo para mim. Foi uma explosão tranquila. Tudo ao redor de seus primos eram risadas, exclamações e explorações. Hugo suspirou. - Eu sou apenas um homem comum, Gwendoline - disse ele. - Talvez isso seja o que eu tenho tentado dizer a você todo esse tempo. - Você é um homem extraordinário - disse ela. - Mas eu sei o que você quer dizer. Eu nunca esperei que você fosse mais do que você é, Hugo. Ou menos. E não espere isso de mim também. - Você é perfeita - disse ele. - Mesmo que eu manque? - Ela perguntou. - Quase perfeita - disse ele. Ele sorriu lentamente para ela, e ela sorriu de volta. Ele nunca tinha tido um relacionamento com qualquer mulher - ou qualquer tipo de relacionamento que importasse. Era tudo novo e estranho para ele. E maravilhoso. - Gwen, - a prima Gillian chamou de uma curta distância, venha ver a vista das janelas francesas. Você não concorda que deve haver um jardim de flores lá fora? Talvez até mesmo alguns lugares formais para os convidados do baile passearem? Oh, eu poderia me acostumar com muita facilidade a viver no campo. Ela se aproximou, tomou o braço de Gwendoline e a levou para dar sua opinião.


- Haverá convidados a bailes aqui talvez uma vez a cada cinco anos, Gill - Hugo disse atrás delas. Ela olhou atrevidamente por cima do ombro e falou-lhe com voz alta o suficiente para todo mundo ouvir. - Eu ouso dizer que Gwen terá algo a dizer sobre isso, Hugo - disse ela. Oh, sim, sua família não tinha sido lenta para perceber que ela estava aqui, não só porque tinha introduzido Constança na sociedade. Foi um dia agitado, embora olhando para trás mais tarde, Hugo percebeu que ele poderia muito bem ter ficado em sua cama durante todo o dia, os tornozelos cruzados, as mãos cruzadas atrás da cabeça, examinando o projeto do dossel sobre a cabeça. Seu mordomo tinha tudo totalmente sob controle e, na verdade, teve o descaramento para olhar irritado em uma maneira completamente bem-educada, é claro, toda vez que Hugo ficou sob os pés dele. Ele tinha até conseguido flores de algum lugar para decorar a mesa de jantar. E quando Hugo olhou para o salão de baile de novo, pouco antes do jantar, para garantir que o chão estava brilhando novamente depois de ser pisado durante a manhã - por ele - ficou surpreso ao ver que foi decorado com flores também, e muitas delas. Quanto ele estava pagando ao seu mordomo? Teve a consciência de que iria ter que dobrar o salário. O jantar foi excelente, e todos estavam em espíritos exuberantes. Houve conversa e riso. Houve discursos e brindes. O Sr. Rowlands, que se levantou para agradecer a todos, impulsivamente se inclinou e beijou a Sra. Rowlands nos lábios, o que criou um elogio efusivo em torno da mesa. Então, é claro, o primo Sebastian, para não ficar atrás, teve de ficar de pé para


agradecer a todos suas felicitações por seu aniversário que se aproximava, e teve que dobrar-se para beijar sua esposa nos lábios e criar outro rugido de apreciação. Hugo perguntou fugazmente se qualquer jantar da sociedade incluiria tais demonstrações estridentes e fixou o pensamento em sua mente. Gwendoline estava inclinada à frente em sua cadeira, batendo palmas e sorrindo calorosamente para Sebastian e Olga. E então ela foi virando a cabeça para falar animadamente com Ned Tucker à sua direita. Dois pequenos bolos, primorosamente decorados foram servidos, um para cada casal, e as duas senhoras os fatiaram, para o aplauso de todos os outros, e os dois homens serviram os pratos para todos ao redor. E todos pareciam concordar, quando a refeição terminou e era hora de passar ao salão de baile para a chegada dos convidados de fora, que não seriam capazes de engolir um outro pedaço de comida, pelo menos até amanhã. - Eu ouso dizer que todas as guloseimas da ceia terão de ser consumidas pelos meus vizinhos, então - disse Hugo. - Não vamos ter pressa, rapaz - disse seu tio Frederick. – Vamos dançar, não vamos? Isso vai gerar um novo apetite em breve, especialmente se as músicas forem animadas. E, finalmente, era hora de ficar na porta do salão, cumprimentando os convidados de fora conforme chegavam. Hugo tinha Fiona ao lado dele e Constance ao lado dela e só desejava que seu pai pudesse estar aqui agora para vêlos. Ele teria ficado feliz. Ele olhou ao redor do salão, vendo todos os rostos familiares, sabendo que ele tinha feito uma boa coisa trazendo todos aqui por alguns dias. A coisa certa para eles e, definitivamente, a coisa certa para ele mesmo. Talvez haveria sempre um pouco de escuridão em sua alma quando se lembrasse da brutalidade da guerra. Agora ele preferia nutrir a vida do que a tomá-la. Mas, como ele havia explicado a Gwendoline em


palavras diferentes, a vida não era composta de negros puros e brancos, mas de um vasto turbilhão de vários tons de cinza. Ele deixaria de abater-se sobre o que tinha feito. Talvez, ao fazê-lo, tivesse evitado um mal maior. E talvez não. Quem saberia? Ele poderia só continuar sua jornada pela vida, esperando que, juntamente com a experiência, estivesse adquirindo alguma sabedoria. Se havia alguma escuridão em sua alma, então havia também uma quantidade considerável de luz. Um raio brilhante que estava no outro lado do salão de baile, vestida lindamente, mas simples em um sedoso vestido de seda limão pálido, com bainhas recortadas, mangas curtas bufantes, um modesto decote e uma corrente de ouro simples como seu único ornamento. Gwendoline. Ela estava conversando com Ned Tucker e Philip Germane e olhando de volta para ele com um sorriso no rosto. Ele piscou para ela. Piscou. Ele não conseguia se lembrar de ter piscado antes em sua vida. Mas seu administrador estava entrando no salão com sua esposa, e o vigário, sua esposa, filho e filha estavam vindo atrás deles. Hugo voltou sua atenção para os seus hóspedes. Foi tudo realmente muito delicioso, Gwen decidiu durante a próxima hora. Ela fez uma pausa para examinar seu pensamento, mas não houve condescendência nele. As pessoas eram pessoas, e essas pessoas estavam desfrutando a ocasião com prazer ousado. Não havia nada contido e nem o educado tédio que encontrava, muitas vezes, em sociedade, muitos de cujos membros pareciam acreditar que era simplório ou vulgar desfrutar de tudo com grande exuberância. A orquestra tinha em entusiasmo o habilidade. A maioria dos conjuntos eram rurais. Gwen dançou todas, tendo assegurado que ousaram o suficiente para perguntar se

que faltava em vigorosas danças às poucas pessoas seu coxear não a


impedia de dançar. E em todos os momentos se via que ela estava corada e rindo. A Sra. Lowry, a tia Henrietta de Hugo, puxou-a de lado entre a segunda e a terceira dança e perguntou a ela, sem preâmbulos, se ela ia se casar com Hugo. - Foi-me pedido uma vez e disse que não - Gwen disse a ela. - Mas isso foi há muito tempo atrás, e se eu fosse ser indagada novamente, eu poderia dar uma resposta diferente. Sra. Lowry assentiu. - Seu pai foi meu irmão favorito - disse ela - e Hugo sempre foi o meu sobrinho favorito, mesmo eu não tendo posto os olhos nele por anos. Ele nunca deveria ter ido embora, mas ele o fez, e sofreu, e agora está de volta, assim como de coração terno como sempre, parece-me. Eu não quero ver o seu coração partido. Gwen sorriu para ela. - Nem eu - disse ela. A Sra. Lowry assentiu com a cabeça novamente assim como umas poucas tias à volta delas. O próximo conjunto era para ser uma valsa. A notícia movimentou o salão de baile. Alguns dos vizinhos de Hugo de tinham solicitado e ele tinha dado a ordem para o líder de orquestra e agora havia um coro de risadas dos mesmos vizinhos que, em voz alta, pediam a Hugo para dançar. Ele, curiosamente, estava rindo muito e, em seguida, levantou às duas mãos, com as palmas para fora. Por um momento, ao vê-lo, algo se prendeu nas bordas da mente de Gwen, mas ela se recusou a deixar vir ao foco e deixou passar. - Eu vou dançar valsa, - disse ele - mas só se a minha parceira escolhida entender claramente que, na pior das hipóteses, ela pode estar lidando com dedos esmagados ao final


da mesma e, na melhor das hipóteses, ela pode ter se colocado em uma situação ridícula. Houve alguns elogios, algumas vaias, e mais risadas - de todos, desta vez. - Vamos, Hugo - Mark, um de seus primos, chamou. Mostre-nos como se faz, então. - Lady Muir, - Hugo disse, voltando-se e olhando totalmente para ela, - vai me dar a honra? - Sim, vá em frente, Gwen! - Bernardine Emes insistiu. Nós não vamos rir de você. Apenas de Hugo. Gwen deu um passo adiante e caminhou em direção a ele conforme ele caminhava em direção a ela. Eles se encontraram no meio da pista de dança brilhando, sorrindo um para o outro. - Os meus olhos me enganando? - Ele perguntou a ela quando eles se encontrar. - Ninguém mais vai dançar conosco? - Todos estão, provavelmente, dando atenção ao seu aviso sobre dedos esmagados - disse ela. - O inferno e danação - ele murmurou e não se desculpou. Gwen riu e colocou a mão esquerda em seu ombro. Ela estendeu a outra mão e ele a apertou. Sua mão direita veio para descansar na parte de trás de sua cintura. E a música começou. Levou alguns momentos para ele coordenar seus pés ao som da música aos seus ouvidos e o ritmo da dança em seu corpo, mas, em seguida, ele realizou todos os três e dançou com ela, segurando-a com firmeza na cintura para que ela se sentisse como se seus pés flutuassem sobre o piso e não havia nenhum desconforto pelo fato de que suas pernas não tinham igual comprimento.


Houve aplausos de toda sua família e convidados se reuniram em torno do perímetro da sala, alguns comentários em voz alta, um pouco de riso, um assobio cortante. Gwen sorriu para o rosto dele, e ele sorriu de volta. - Não me incentive a relaxar - disse ele. - É quando o desastre vai atacar. Ela riu e de repente sentiu um grande bem-estar de felicidade. Ele foi, pelo menos, igual à onda de solidão que sentira na praia de Penderris pouco antes de conhecer Hugo. - Eu gosto do seu mundo, Hugo - disse ela. "Eu amo isso. - Não é realmente tão diferente do seu, não é? - Disse. Ela balançou a cabeça. Não era muito diferente. Era diferente o suficiente, é claro, essas mudanças entre eles não seriam sempre fáceis, se era isso o que ia acontecer. Mas ela estava muito feliz para especular neste momento preciso. - Ah! - Disse ele, e ela olhou ao redor para ver que os outros estavam tomando a pista e começando a valsa, e o foco da atenção já não estava exclusivamente neles. Ele girou sobre um canto da pista e apertou a mão contra a parte de trás de sua cintura. Eles não estavam se tocando, mas estavam definitivamente mais perto do que deveriam estar. Deveriam estar de acordo com quem? - Hugo, - disse ela, olhando em seus olhos, seus adoráveis, escuros, intensos olhos, sorrindo. E ela esqueceu o que estava prestes a dizer.


Eles dançaram em silêncio por alguns minutos. Gwen estava muito consciente de que estes minutos estavam entre os muito felizes de sua vida. E então, antes que a música terminasse, ele inclinou a cabeça para murmurar em seu ouvido. - Você notou - disse ele - que há um loft na ponta dos estábulos? Onde os filhotes estão? - Percebi - disse ela. - Eu subi lá com a Sra. Rowlands, não disse? Quando ela escolheu seu filhote? - Eu não posso ter você em minha cama aqui, - disse ele enquanto eu tenho família e convidados em minha casa. Mas depois de todos terem ido para casa e para a cama, eu vou levá-la lá para fora. Nenhum dos cavalariços dorme lá. Eu limpei o loft, espalhei palha fresca esta manhã e tirei cobertores e travesseiros. Vou fazer amor com você para o que resta da noite. - De verdade? - Ela disse. - A menos que você diga não - disse ele. Ela devia. Assim como deveria ter dito na enseada em Penderris. - Eu não vou dizer não - disse ela quando a música chegou ao fim e ele lançou-a em mais uma pirueta. - Mais tarde, então - disse ele. - Sim. Mais tarde. Ela não sentiu nenhum dilema de consciência. E aquela pequena vibração na borda da sua consciência que ela sentira quando ele ergueu as mãos espalmadas para abordar os fundamentos sobre a valsa, se abriu como uma cortina à frente de uma janela, e ela podia ver o que estava dentro.


Gwen não queria que a noite terminasse e, ainda assim, terminou. Havia a grandeza de um baile aristocrático que ela sempre desfrutara, mas não havia o calor humano que fez deste, pelo menos, igualmente agradável. Ela adorava a maneira como todos os convidados na casa a tinham chamado pelo seu primeiro nome, logo que ela os tinha convidado a fazê-lo no segundo dia aqui. E ela amava o jeito informal, afetuoso em que os vizinhos de Hugo o tratavam. Ele era um anjo disfarçado, a esposa do açougueiro disse a Gwen em um ponto à noite, sempre consertando as pernas de cadeiras, ou limpando bloqueios nas chaminés, ou serrando os ramos das árvores que estavam em perigo de cair em um telhado se o vento já soprava com força suficiente, ou trabalhando ao longo de um jardim para alguém que estava ficando muito idosos para fazê-lo sem um grande esforço doloroso. - E é Lorde Trentham - disse a mulher. Você poderia ter nos derrubado a todos com uma pena quando descobrimos no ano passado, milady. Mas ele ainda continuou a fazer, como se fosse um simples homem qualquer. Não que muitos homens comuns fariam o que ele faz, veja, mas sabe o que quero dizer. Gwen sabia. E, finalmente, a noite chegou ao fim e todos os convidados de fora partiram ou andaram na direção da aldeia, segurando lanternas no alto e balançando na brisa. Parecia uma eternidade antes que o último dos convidados fosse para a cama, mas era apenas um pouco depois da meia-noite, Gwen descobriu quando chegou ao seu próprio quarto. Mas, claro, todas essas pessoas trabalhavam, e mesmo quando eles estavam de férias eles não desviavam muito de seu início da manhã e início da noite. Gwen dispensou sua empregada para a noite e colocou roupas diferentes. Ela colocou o manto sobre a cama - o vermelho, que ela estava usando quando torceu o tornozelo. E se sentou na beirada da cama, esperando.


Esperando seu amante, ela pensou, fechando os olhos e apertando as mãos no colo. Ela não iria começar a considerar se isso era certo ou errado, se ela deveria ou não. Ela ia passar o resto da noite com seu amante e era isso. E, finalmente, houve uma leve batida na porta e virou a maçaneta calmamente. Ele também tinha se trocado, Gwen viu quando ele chegou a seus pés, atirou sua capa sobre seus ombros, apagou as velas e a puxou do quarto junto a ele para o corredor longo e escuro. Ele estava segurando uma vela em um suporte. Ele pegou sua mão e se inclinou para beijá-la na boca. Eles não falaram enquanto passavam pelo corredor e desciam as escadas em frente ao hall. Ele entregou-lhe a vela enquanto soltava a tramela da porta e abriu-a. Então, ele tomou a vela de volta, soprou-a e a colocou sobre uma mesa perto da porta. Seria desnecessária do lado de fora. As nuvens, que tinham escurecido a noite quando os convidados estavam saindo, deviam ter se afastado, e uma lua quase cheia e milhões de estrelas faziam uma lâmpada ser completamente desnecessária. Ele tomou sua mão novamente e virou-se na direção dos estábulos. Ainda assim eles não falaram. O som de vozes era elevado muito durante a noite, e algumas pessoas não teriam ido à cama há mais do que meia hora. Os estábulos estavam nas trevas até que Hugo tirou uma lanterna de um gancho no interior da porta grande e os iluminou. Cavalos relinchavam sonolentos. O cheiro familiar de feno e couro não era desagradável. Eles andaram o comprimento da passagem estreita entre as baias, lado a lado, seus dedos entrelaçados. E então ele soltou sua mão para iluminar seu caminho até a escada íngreme para o loft antes de seguir atrás dela. Dois ou


três dos filhotes estavam guinchando em sua grande caixa de madeira, e um tranquilo latido indicou que a sua mãe estava com eles. Hugo pendurou a lanterna em um gancho por baixo de uma viga de madeira inclinou-se para espalhar um cobertor sobre a palha fresca. Ele jogou algumas almofadas sobre o cobertor e se virou para olhar para Gwen. Ele tinha que se inclinar um pouco para que a cabeça não batesse contra o teto. - É melhor eu dizer uma coisa em primeiro lugar, - ele disse secamente - e tirá-lo do caminho. Caso contrário, eu não vou ter um momento de paz. Ele estava franzindo a testa e olhando realmente muito rabugento. - Eu te amo - disse ele. Ele olhou para ela com a mandíbula firme e os olhos ferozes. Rir seria absolutamente a coisa errada a fazer, Gwen decidiu, reprimindo a vontade de fazer exatamente aquilo. - Obrigada - ela disse e deu um passo adiante para colocar a ponta dos dedos contra seu peito e levantar o rosto para seu beijo. - Eu não fiz isso muito bem, não é? - Ele disse e sorriu. E em vez de rir, ela se encontrou piscando para conter as lágrimas. - Diga isso de novo - disse ela. - Você poderia me torturar, não é? - Perguntou a ela. - Diga isso de novo. - Eu te amo, Gwendoline - disse ele. - Na verdade, é um pouco mais fácil a segunda vez. Eu te amo, eu amo você, eu te amo.


E seus braços vieram sobre ela e ele a abraçou com força suficiente para deixá-la sem respiração. Gwen riu com o fôlego que lhe restava. Ele a dominou, olhou em seus olhos, e abriu o fecho no pescoço de sua capa. - É tempo de agir, em vez de apenas palavras - disse ele. - Sim - ela concordou conforme a capa caiu para a palha em seus pés. Só uma coisa havia mantido sua vida amorosa na enseada em Penderris longe de ser perfeita na memória de Hugo. Ele a tinha tocado, naquela ocasião, e ele a tinha penetrado longa e profundamente, mas ele não a tinha tido nua. Ele não conhecia a sensação de pele contra pele, como um homem deve conhecer a mulher que ama. Conhecer, no sentido bíblico, que foi. Hoje à noite os dois estariam nus, e eles conheceriam um ao outro sem nenhuma barreira, nenhum artifício, nenhuma máscara. - Não - ele murmurou quando ela ameaçou ajudá-lo a despila. Não, ele não ficaria privado disto. E não havia pressa real. Deve ser pelo menos uma hora já, e os cavalariços estariam aqui por volta das seis. Mas isso ainda deixava muito tempo para fazer amor e, talvez, um pouco de sono entre uma vez e outra. Ele nunca tinha dormido com uma mulher. Ele queria dormir com Gwendoline quase tanto quanto ele queria ter relações sexuais com ela. Bem, talvez não tanto. Ele a despiu lentamente, seu vestido primeiro - ela não estava usando roupa íntima - e embaixo de seu corpo até que apenas as meias de seda permaneceram. Ele se afastou para olhá-la à luz do lampião. Ela era linda, perfeitamente em forma. Ela tinha o corpo de uma mulher, em vez de uma menina. O corpo da mulher para combinar ao corpo de seu


homem. Ele passou as mãos levemente para baixo sobre os seios, em sua cintura e sobre o alargamento de seus quadris. Ela estremeceu, embora não com o frio, ele adivinhou. - Eu ainda tenho um pouco de consciência - disse ela. - Eu nunca fiz isso antes. Sem roupa, quero dizer. O que? Que raio de homem tinha sido Muir? - Você está vestindo roupas - disse ele. - Ainda tem suas meias. Ela sorriu. - Venha - disse ele, tomando-lhe a mão. - Deite-se no cobertor. Eu vou tirar minhas próprias roupas e, em seguida, cobri-la com o meu corpo, e assim restaurar a sua modéstia. - Oh, Hugo - disse ela, rindo baixinho. Deitou-se, e ele caiu de joelhos para retirar suas meias, uma de cada vez. Beijou o interior de suas coxas, joelhos, panturrilhas, tornozelos, o arco de seus pés conforme as tirava. E depois, naturalmente, ele queria libertar-se e levá-la ali mesmo. Ele estava pronto. Ela estava pronta. Mas ele havia se prometido que seria pele contra pele neste momento. Ajoelhou-se sobre os calcanhares e tirou seu casaco. - Você quer minha ajuda? - Perguntou ela. - Uma outra vez - disse ele. - Agora não. Ela observou-o, assim como ela tinha visto na praia, quando ele tirou suas cuecas molhadas. - Eu sou um grande brutamontes, eu temo - disse ele quando estava nu. - Desejava ser mais elegante para você. Ela olhou nos olhos dele quando ele se ajoelhou entre suas pernas novamente e abriu os joelhos sob suas coxas.


- Não pode haver qualquer outro homem modesto como você, Hugo - disse ela. - Eu não mudaria nada sobre sua aparência. Você é perfeitamente belo. Ele riu suavemente quando ele se inclinou sobre ela, as mãos apoiando-se em ambos os lados de seus ombros, e abaixouse para que pudesse sentir seus seios escovando levemente o peito. - Mesmo quando eu olho feio? - Disse. - Mesmo assim - disse ela, levantando as mãos para seu pescoço. - Sua carranca não me engana nem por um momento. Nem por um único momento. Ele a beijou suavemente enquanto sua pele queimava com um calor urgente. - Eu queria que isso fosse perfeito - disse ele contra seus lábios. - A primeira noite de amor. Eu queria jogar interminavelmente antes de levar você para as alturas de êxtase e saltar para o vazio com você. Ela riu novamente. - Acho que podemos dispensar o jogo - disse ela - e guardá-lo para outra altura. - Podemos? - Perguntou. - Você tem certeza? Ela apertou seus lábios contra os dele, levantou os seios contra seu peito e entrelaçou as pernas sobre seus quadris, e ele se esqueceu de que o jogo de palavra sequer existia. Encontrou-a e mergulhou nela. E se ele temia que ela não estivesse totalmente pronta para ele, ele foi logo desmentido. Ela estava quente e lisa, e seus músculos internos se apertaram sobre ele e o convidaram a penetrar profundamente. Ele retirou-se e mergulhou novamente e estabeleceu um ritmo que os levaria ao clímax dentro de momentos. A pressa não


importava. Não se tratava de resistência ou de bravura. E a memória veio inundando-o, não uma memória que nunca tinha sido posto em palavras, mas que ele tinha sentido no centro de seu coração - Gwendoline era a única mulher em sua vida com a qual o sexo era subordinado a fazer amor. Ela era a única mulher com a qual o sexo tinha sido uma coisa compartilhada e não apenas algo para satisfazer sua própria vontade e prazer físico. Ele diminuiu o ritmo por um momento, levantou a cabeça e olhou em seus olhos. Ela o olhou de volta, seus olhos meio fechados. Ela parecia quase em dor. Seus dentes fechados sobre seu lábio inferior. - Gwendoline - disse ele. - Hugo. - Meu amor. - Sim. Ele se perguntou brevemente se qualquer um deles poderia recordar as palavras. Sem dizer nada e dizendo tudo. Ele abaixou a testa em seu ombro e dirigiu a ambos à beira do pináculo e mais além, em uma descida gloriosa para o nada. Para tudo. Ele a ouviu gritar. Ouviu-se gritar. Ele ouviu um gemido de cachorro e, em seguida, um sugar. E ele suspirou em voz alta contra seu pescoço e se permitiu o luxo de relaxar brevemente todo seu peso sobre seu quente e úmido, requintadamente belo corpo.


Ela suspirou também, mas não em protesto. Era um suspiro de satisfação perfeito, de perfeito contentamento. Ele tinha certeza disso. Ele afastou-se dela, estendeu a mão para o outro cobertor que tinha trazido ontem - ou pela manhã, ele supôs - e espalhou-o sobre eles. Ele levantou sua cabeça em seu braço e descansou a face contra o topo de sua cabeça. - Quando eu tiver mais energia, - disse ele – vou me oferecer para fazer de você uma mulher honesta. E quando você tiver mais energia, vai dizer sim. - Vou? - Ela perguntou. - Com um muito obrigada, senhor? - Sim, será suficiente - disse ele e prontamente adormeceu.


Capítulo 23 - Hugo - ela sussurrou. Ele estava dormindo há algum tempo, mas vinha fazendo sons de agitação nos últimos minutos. Ela observou a luz fraca da lamparina tremeluzir em seu rosto. - Humm - disse ele. - Hugo, - disse ela - eu lembrei de algo. - Humm - disse ele novamente e então inalou alto. - Eu também. Tenho apenas a lembrança deste momento, e se você me der alguns instantes, estarei pronto para criar mais lembranças. - Sobre... sobre o dia em que Vernon morreu - disse ela, e ele abriu os olhos. Eles olharam um para o outro. - Sempre me esforcei para não lembrar daqueles poucos minutos - disse ela. - Mas é claro que me lembrei. Nada pode apagar as imagens. Ele estendeu a mão sobre o lado do rosto dela e a beijou. - Eu sei - disse ele. - Eu sei. - E algo sempre ficou flutuando - disse ela. - Algo que não se encaixava de alguma forma. Nunca tentei muito descobrir o que era, porque não queria lembrar de tudo. Eu ainda não sei. Ainda gostaria de poder esquecer por completo. - Você se lembrou do que não se encaixava? - Perguntou. - Foi o que aconteceu na noite passada, - disse ela - quando todos os seus vizinhos estavam tentando persuadi-lo a valsar e todo mundo estava rindo e levantou as mãos para que pudesse dar uma resposta.


Ele usou o polegar para acariciá-la na bochecha. - Você levantou as mãos com as palmas para fora - disse ela. -É o que as pessoas fazem, não é, quando querem dizer algo ou parar alguma coisa. Ele não disse nada. - Quando eu... - ela começou e engoliu em seco. - Quando me virei ... quando Vernon caiu da galeria, Jason estava virado para ele já, e ele estava segurando as mãos acima da cabeça para detêlo. Foi um gesto fútil, é claro, mas um compreensível sob as circunstâncias. Exceto aquilo... Ela franziu a testa, mesmo agora tentando imaginar o que ela dizia. Mas ela estava certa. - As palmas das mãos dele estavam voltadas para dentro? ele perguntou. - Empurrando ao invés de parar? - Talvez eu tenha me enganado - disse ela. Embora ela soubesse que não tinha. - Não - disse ele. - Memórias como essa são indeléveis, mesmo se a mente não as admitir durante sete anos ou mais. - Ele não teria sido capaz de fazer isso, - disse ela - se eu não tivesse virado as costas, se eu tivesse ido até Vernon, em vez de ir à biblioteca. - Gwendoline, - disse ele - se nada tivesse acontecido, quanto tempo você permaneceu na biblioteca? Ela pensou sobre isso. - Não muito tempo - disse ela. - Não mais do que cinco minutos. Provavelmente menos. Ele precisava de mim. Ele tinha acabado de ouvir algo muito perturbador. Eu entendi isso assim que entrei na sala. Eu teria dado algumas respirações profundas, como fiz em outras ocasiões, e ido para ele.


- Como ele recebeu a perda do filho? - Perguntou. - Ele culpou a si mesmo - disse ela. - E ele precisava de conforto - disse ele. - Ele lhe deu conforto? - Ele estava doente - disse ela. - Sim, - ele concordou - ele estava. E se vocês tivessem vivido por mais de cinquenta anos, ele teria continuado doente e você teria continuado a amá-lo e confortá-lo. - Eu prometi para melhor ou pior, na doença ou na saúde disse ela. - Mas o deixei para baixo no final. - Não - disse ele. - Você não era a carcereira dele, Gwendoline. Você não poderia estar de pé o vigiando durante as vinte e quatro horas de todos os dias. E doente ou não, ele não estava sem juízo, estava? Você tinha perdido um filho tanto quanto ele. Mais. Mas ele tomou a carga de culpa sobre si mesmo e no processo, roubou de você o conforto que você tão desesperadamente necessitava. Mesmo nas profundezas do seu desespero, ele deveria saber que estava colocando um fardo insuportável em cima de você e não fez nada para cumprir o que havia prometido a você. Doença, a menos que seja loucura total, não é uma desculpa para um grande egoísmo. Você precisava de amor tanto quanto ele. Ele caiu. Ninguém o empurrou. Ele acenou e provocou. Mas ele foi o único que caiu deliberadamente, ao que parece. Eu entendo porque você se culpa. Eu melhor do que ninguém, talvez, posso entender isso. Mas eu absolutamente a absolvo de toda a culpa. Deixe-o ir, meu amor. Grayson realmente não pode ser acusado de assassinato, não pode, mesmo que sua intenção fosse, sem dúvida, assassina. Deixe-o à consciência dele, embora duvido que ele tenha uma. Deixe-o à sua maldade. E se deixe ser amada. Deixe-me amar você.


- Ele estava conosco quando eu caí, - ela disse - quando o meu cavalo não pulou a cerca. Ele nunca tinha falhado um salto antes e não foi a mais alta das cercas que ele tinha saltado. Jason estava conosco. Ele estava atrás de mim, me empurrando, tentando incentivar o meu cavalo a dar o salto, eu sempre pensei. Ele não poderia ter ... podia? Ela o ouviu inalar lentamente. - É possível - disse ela - que eu não tenha matado o meu próprio filho? Ou isso é a ânsia se manifestando, porque percebi que ele queria Vernon fora do caminho? Até mesmo morto? Será que ele queria nossa criança morta também? Será que ele me queria morta? - Ah, Gwendoline - disse ele. - Ah, meu amor. Ela fechou os olhos, mas não conseguia parar as lágrimas quentes, escaldantes derramadas sobre suas bochechas e que escorreriam para o cobertor e faziam uma poça ao lado de seu nariz. Ele a tomou nos braços, espalhando uma grande mão atrás de sua cabeça, e beijou seu rosto molhado, as pálpebras, a fonte, os lábios molhados. - Silêncio - ele sussurrou. - Silêncio agora. Deixe tudo ir. Deixe-me amar você. Você tem amado errado, Gwendoline. Não é tudo dar, dar, dar. É tomar também. É permitir que o outro tenha o prazer e a alegria de dar. Deixe-me amar você. Ela pensou que seu coração certamente quebraria. Toda a vida, ao que parecia, ou desde o casamento, de qualquer maneira, se segurou, tentando sempre estar alegre, tentando não ser negativa ou amarga. Ela já havia tentado amar, e tinha aceitado amor em troca, desde que fosse o tranquilo e constante amor de sua mãe ou do irmão, ou Lauren ou Lily ou o resto de sua família.


Mas… - Seria como saltar para fora da borda do mundo - disse ela. - Sim- disse ele. - Eu estarei lá para pegar você. - E você? - Ela disse. - Você pode me pegar quando eu saltar - ele disse a ela. - Você vai me esmagar - disse ela. E ambos estavam rindo, abraçados juntos nos braços um do outro, um tanto úmidos de lágrimas. - Gwendoline, - disse ele quando estavam finalmente em silêncio de novo - vai casar comigo? Ela o segurou, os olhos fechados, e inalou os aromas misturados de colônia, suor e masculinidade. E o algo indefinível maravilhoso que era o próprio Hugo. - Você acha que posso ter filhos? - Ela perguntou. - Acha que mereço outra chance? E se eu não puder? Ele estalou a língua. - Ninguém sabe ao certo - disse ele. - Nós vamos descobrir como o passar do tempo. E sim, você merece ter filhos de seu próprio corpo. Quanto a mim, não se preocupe. Gostaria de casar com você mil vezes e não ter filhos do que casar com qualquer outra mulher no mundo e ter uma dúzia. Na verdade, eu acho que não vou casar com ninguém, se você não me quiser. Terei que começar a ir a bordéis. Eles estavam bufando de rir novamente depois. - Bem, nesse caso... - disse ela. - Sim? - Ele recuou a cabeça e olhou para ela à luz do lampião.


- Vou me casar com você - ela disse, preocupada. - Oh, Hugo, não me importo quantos mundos diferentes temos de atravessar, a fim de encontrar o nosso próprio pequeno mundo. Não me importo. Vou fazer o que tem de ser feito. - Eu também - disse ele. E eles sorriram um para o outro até que ambos tinham lágrimas nos olhos. Ele sentou-se e remexeu na pilha de roupa até que encontrou o relógio. Ele o segurou contra a luz da lâmpada. - Duas e meia - disse ele. - É melhor estar fora daqui por volta das 5:30. Três horas. O que podemos fazer em três horas? Alguma sugestão? Ele se virou para olhar para ela. Ela abriu os braços para ele. - Ah, sim - disse ele. - Uma excelente sugestão. E três horas dá muito tempo para jogar, bem como festejar. - Hugo - disse ela enquanto ele fechava os braços sobre ela de novo e se deitava de costas, trazendo-a para cima dele. - Oh, Hugo, eu te amo, eu te amo. - Mmm- disse ele contra seus lábios.

Hugo fez o anúncio durante um café da manhã tardio, que todos participaram. Ele deveria talvez ter falado com o irmão de Gwendoline primeiro, mas já tinha feito isso uma vez. E, talvez, o anúncio deveria ter sido feito para a família em primeiro lugar, mas... por quê? A família dela seria informada logo que eles retornassem a Londres.


- Ah, - disse Constance, olhando em volta da mesa e soando melancólica - toda a emoção acabou, e amanhã vamos voltar para Londres. - Mas cada momento da nossa estadia foi maravilhoso, Constance - disse Fiona, a voz quente e animada de uma forma que Hugo nunca a ouvira falar antes desta semana. - E ainda há hoje para desfrutar. - E a emoção não acabou totalmente - disse Hugo a partir da cabeceira da mesa. - Pelo menos, para mim não acabou. E para Gwendoline também não. Para nós que ficamos noivos recentemente e pretendemos passar o dia desfrutando o nosso novo status. Ela lhe disse ontem à noite que ele poderia fazer o anúncio hoje se quisesse. Ela sorriu agora e mordeu o lábio enquanto a sala se encheu com os sons de exclamações e gritos e aplausos e todos falando de uma só vez e cadeiras raspando no chão. Hugo encontrou sua mão sendo apertada, recebendo tapinhas nas costas, as bochechas sendo beijadas. Gwendoline, ele viu, estava sendo abraçada e beijada também. Ele se perguntou se os membros da família dela reagiriam com tal entusiasmo desenfreado, e ocorreu-lhe que muito possivelmente o fariam. - Você me deve dez guines, creio eu, Mark, - o primo Claude disse do outro lado da mesa. - Eu disse até o final da semana. E havia testemunhas. - Você não poderia ter esperado mais um dia ou dois, Hugo? - Perguntou Mark. - E quando ocorrerão Henrietta. -E onde?

as

núpcias?

-

Perguntou

tia


- Em Londres - disse Hugo. - Provavelmente em St. George, na Hanover Square. Assim que os proclamas forem lidos. Queremos estar casados e de volta para o verão. Eles tinham discutido outras possibilidades, - Newbury Abbey, Crosslands Park, mesmo Penderris Hall - mas eles queriam que ambas as famílias participassem, e em qualquer lugar fora de Londres parecia impraticável, em parte por causa do número de pessoas que deviam ser acomodadas, e em parte porque os membros de sua própria família já tinham tirado férias de vários dias. Além disso, a estação ainda estaria em pleno andamento e o Parlamento ainda em sessão. Eles realmente não queriam esperar até o verão. - St. George - disse tia Rose. - Grande! Espero que todos nós sejamos convidados. - Nós não poderíamos nos casar, - disse Gwendoline precipitadamente - se vocês todos não estivessem lá, bem como toda a minha família. - Mas não tenho nada para vestir - disse Constance e riu alegremente. - Oh, estou tão feliz que poderia estourar. - Não toda a comida, por favor Con - disse o primo Claude. Hugo estava cansado. Ele tinha dormido por talvez uma hora após o segundo, vigoroso ato sexual, mas tinha usado toda a energia renovada em uma terceira vez, que acabou perigosamente perto de 05:30, o tempo pelo qual ele decidiu que deveriam deixar os estábulos. Teria sido uma vergonha medonha serem descobertos lá por um cavalariço. Gwendoline tinha ido para cama quando voltaram para casa. Ele não. Ele estava muito animado - como um colegial. Estava cansado agora, mas agradavelmente. Seu corpo foi saciado e relaxado, a mente centrada na felicidade. E ele não iria permitir a entrada de quaisquer avisos mentais sobre a


felicidade ser um estado precariamente temporário ou sobre o romance ser ainda mais frágil. Ele não estava apenas apaixonado pela noiva. Ele a amava. E não tinha ilusões sobre felizes para sempre depois. Ele sabia que a felicidade era algo que tinha de ser trabalhada tão duramente e tão diligentemente quanto ele trabalhou quando menino em seguir os passos do pai e mais tarde em ser o melhor oficial militar no exército britânico. Ele não tinha medo do fracasso. Fiona passeou ao ar livre com ele por um tempo, depois do café, de braços dados. Era uma tardia manhã fria e muito nublada. - Isso tudo é tão bonito, Hugo - disse ela. - Todo o tempo que estivemos aqui, as pessoas têm vindo dizer o que acham que se deve fazer para desenvolver o parque, e você disse a si mesmo que fará algumas mudanças. Não faça muitas. Às vezes a natureza simplesmente basta. Ele olhou para ela e ficou surpreso com a quantidade de afeto que sentia por ela, esta mulher a quem seu pai havia amado e com quem ele havia gerado uma filha - Constance. - Eu não vou mudar muita coisa - disse ele. - Não vou fazer uma grande, chamativa atração daqui. Constance e eu fomos a uma festa em um jardim em Richmond, há pouco tempo, você pode recordar. O jardim era bastante impressionante em sua magnificência. Mas eu não trocaria meu parque aqui por aquilo de maneira nenhuma no mundo. - Bom. - Ela caminhou em silêncio ao lado dele por um tempo. - Hugo, eu sei o que fiz. Eu sei que o guiei a uma vida para a qual você não se adequava, apesar do fato de você ter se distinguido tão brilhantemente. Se você tivesse morrido, eu... Ele colocou a mão sobre a dela.


- Fiona, - disse ele, - ninguém me levou a nada. Eu escolhi ir. E se eu não tivesse feito isso, você sabe, eu seria um homem diferente hoje. Talvez melhor, talvez pior, talvez a mesma coisa. No entanto, é, eu não gostaria de ser diferente. Eu não gostaria de ficar sem as experiências que me trouxeram até onde estou neste momento. Se eu não tivesse ido, eu nunca teria conhecido Gwendoline. E eu não morri, não é? - Você é generoso - disse ela. - Você está dizendo que me perdoa. Obrigada. Talvez eu acabe por me perdoar. Seu pai era um homem bom. Mais do que bom. Ele merecia alguém melhor do que eu. - Ele escolheu você - disse ele. - Ele escolheu você, porque ele a amou. - Eu queria perguntar...- ela disse. - A razão pela qual procurei você esta manhã foi para perguntar a você... Ele inclinou a cabeça em direção a ela. - Philip, o senhor Germane, - disse ela - tem perguntado se pode me visitar em Londres. Ele quer me mostrar os jardins botânicos de Kew e o pagode que há lá. Ele quer me levar ao teatro, porque eu não estive lá há anos, e aos jardins de Vauxhall, porque eu nunca estive lá. Será que isso... irá irritar você, Hugo? Seria desrespeitoso com seu pai? Seria desagradável para você, uma vez que ele é irmão de sua falecida mãe? Hugo tinha assistido à predileção que Fiona e Philip tinham mostrado um para o outro durante toda a semana. Tinha visto com um certo prazer. Philip se casou há anos quando era um homem muito jovem, pouco antes de Hugo partir para a guerra, mas a esposa dele morreu no parto menos de um ano depois. Ele permaneceu sozinho desde então. E Fiona, apesar de sua recente depressão e problemas de saúde e do apego egoísta de Constance, de repente


floresceu em um prazo maior. Ela tinha carregado um pesado fardo de infelicidade e culpa, mas parecia estar fazendo um grande esforço para arrumar sua vida novamente. Quem sabia se um encontro entre os dois, se era para isso ocorrer, lhes traria felicidade duradoura? Era uma pergunta que Hugo não tinha como responder. Mas podia desejar-lhes felicidade. Ele acariciou a mão dela. - Certifique-se de que ele a leve a Vauxhall em uma noite quando há fogos de artifício - disse ele. - Ouvi dizer que essas são as melhores noites. Ela suspirou profundamente. - Estou muito feliz por você, Hugo - disse ela. - Quando Lady Muir veio pela primeira vez a casa para buscar Constance para comprar roupas, eu estava preparada para odiá-la. Mas não consegui mesmo assim. E esta semana vi como completamente afetada suas maneiras são e como ela não é condescendente com ninguém, mas parece genuinamente desfrutar a companhia de todos, mesmo da Mama. E eu vi o quanto ela o ama. Vocês pareciam tão lindos juntos quando estavam dançando na noite passada, apesar do coxear. Seu anúncio no café da manhã não foi realmente uma surpresa para ninguém, você sabe. Ele riu, lembrando-se de como ele havia se preparado para isso. As primeiras gotas de chuva os levou de volta para dentro de casa. Ele fez uma visita à sala de bilhar um pouco mais tarde e assistiu a um jogo em andamento. Quando saiu, Ned Tucker o seguiu. - Você está ocupado? - Perguntou. - Posso ter uma palavra?


Hugo levou-o para a biblioteca, lembrando-se de que teria que encontrar algum lugar para doar a maioria dos livros horríveis. A ausência deles iria deixar as prateleiras meio vazias, mas ele preferiria isso que do que o que enfrentava agora toda vez que entrava na sala. Iria substituí-los gradualmente com livros de sua própria escolha e de Gwendoline. Talvez ela tivesse algumas sugestões sobre o que fazer com as prateleiras vazias no entretanto. - Foi ruim da minha parte, - disse Tucker - aceitar seu convite para vir aqui quando você ofereceu apenas porque eu estava lá quando você convidou a família da senhorita Emes, e a Senhora Rowlands disse que eu era como um filho para ela. Você realmente não teve uma escolha, não foi? Mas eu deveria ter dito não. Eu disse que sim porque eu queria vir, e me diverti muito e muito obrigado. - Fiquei mais do que feliz em recebê-lo -, disse Hugo, servindo a cada um deles uma bebida da garrafa do canto da mesa e duas cadeiras, indicando a mais de perto da janela. Ainda estava chovendo, ele podia ver, embora fosse garoa em vez de chuva absoluta. As estradas não devem ser muito afetadas para a jornada de amanhã. - Sua irmã está aproveitando a primavera imensamente disse Tucker, olhando para o copo enquanto ele rodava lentamente seu porto. - Ela esteve pranteando o pai no ano passado, e antes disso, ela era apenas uma garota. Hugo esperou. - Ela se associou mais com os primos do lado do pai e seus amigos - disse Tucker. - Com sua própria espécie. E ela foi misturando-se à sociedade, andando e passeando com um número de cavalheiros. Estou certo de que todos eles são dignos dela, ou você ou Lady Muir ou ambos iriam acabar com a associação. Ela é muito jovem e também, nova à vida para fazer escolhas


ainda. Não que isso impeça um monte de gente. Mas ela é extraordinariamente sensível para a sua idade, ou assim pareceme. E depois há... Ele parou para tomar a bebida do copo, os movimentos um pouco irregulares. - Você? - Hugo sugeriu. - Eu sou quem sou - disse Tucker. - Posso ler e escrever e calcular. Possuo minha própria pequena casa e a loja. A loja traz em uma renda estável embora nunca me trará fortuna. Mas as pessoas sempre vão precisar de equipamentos. Ouso dizer que vou manter a loja toda a minha vida e entregá-la ao meu filho quando eu morrer, assim como meu pai fez comigo. Eu me aventuro em algumas coisas na parte de trás, alguma coisa de carpintaria e serralharia. Fiz algumas casas de bonecas e casas de cachorro e os vendi com um bom lucro. Não me importaria de tentar algo um pouco maior. Um galpão, talvez, embora gostaria de ser capaz de usar um pouco de imaginação. - Uma casa de verão? - Hugo sugeriu. - Um pavilhão no jardim? Tucker considerou. - Isso seria grande, - disse ele - embora não sei quem precisa de nada disso. - Você está olhando para uma pessoa - disse Hugo. Tucker olhou para ele e depois sorriu. - Sério? - Disse. - Realmente - disse Hugo. - Falaremos sobre isso em algum momento. - Certo - disse Tucker e voltou sua atenção para o conteúdo dificilmente empobrecido de seu copo.


- Não estou pedindo pela mão dela - disse ele. - Nada como isso. Não estou sequer pedindo permissão para cortejá-la. Não acho que ela esteja pronta para a corte de ninguém. O que estou pedindo... - Ele fez uma pausa e respirou fundo. - Quando chegar o tempo que ela estiver pronta, e se ela estiver inclinada a gostar de mim, sabendo muito bem que poderia conseguir melhor, quer com o seu próprio pessoal ou com as classes mais altas, seria melhor se eu fingisse não estar interessado, talvez até mesmo se eu fingir que há outra pessoa? Este era um assunto delicado. Ou talvez não tão muito complicado, afinal. - Você a ama? - Perguntou Hugo. Tucker encontrou seus olhos. - Espantosamente - disse ele. - Então vou confiar em você para fazer o que é certo - disse Hugo. -E vou confiar em Constance. Eu já confio. A decisão deve ser sua e dela. E da mãe dela também se vier a ocorrer. Não fingiria nada, porém, se fosse você. É melhor ser honesto e confiar nela para tomar uma decisão sábia. - Obrigado - disse Tucker, e ergueu o copo e bebeu o porto. Obrigado. Agora, onde você quer esse caramanchão? E quão grande você está pensando? Hugo olhou para a janela. Parecia que a chuva tinha parado no momento, embora as nuvens ainda pairassem baixas. - Venha - disse ele. - Vou mostrar a você. Melhor ainda, vou procurar Gwendoline para ir conosco também. Talvez Constance queira ir conosco. Na verdade, ele não podia esperar para ver Gwendoline novamente, para ter uma desculpa para passar mais tempo com ela. Era só que como o anfitrião de uma festa, mesmo que fosse


apenas um grupo de membros da família, ele se sentia obrigado a passar tempo com todos, exceto sua recém-noiva. Às vezes a vida era um negócio tolo. E às vezes era mais maravilhosa do que ele jamais poderia sonhar.


Capítulo 24 Estava chovendo na manhã do dia do casamento. Muito fortemente. Hugo, que não acreditava em presságios, no entanto, pensou que a luz do sol, ou, pelo menos, o bom tempo, teria sido mais conveniente para todos os interessados, quando havia um casamento para assistir. Mas quando o sol saiu, exatamente quando ele estava saindo de casa, e as ruas e calçadas começaram quase instantaneamente a secar, pensou que, talvez, ele acreditasse em presságios apenas um pouco, afinal. Ele havia pedido a Flavian para ser seu padrinho, esperando não ofender ao menos meia dúzia de primos. Mas Flavian ainda se sentia quase tão perto dele como seu próprio coração. E ele tinha aceitado depois de apenas um atraso de tempo suficiente para levantar as sobrancelhas, suspirar profundamente e entregar-se a um discurso curto, lânguido. - Hugo, meu querido velho amigo, - disse ele - o mundo iria dar uma olhada em você e concluiria que você deveria ser o último homem na Terra a sucumbir a algo tão frágil como o amor romântico. Mas qualquer um dos sobreviventes teria sido capaz de dizer ao mundo, há muito tempo, que se alguém fosse provável a cair, seria você. E isso apesar de toda sua conversa muito sensível no início do ano sobre encontrar uma adequada companheira. Sim, sim, eu vou ser seu padrinho. E eu seria capaz de apostar que você ainda vai estar olhando para sua noiva com os olhos do romance quando ela tiver oitenta e você alguns anos mais. E ela vai estar olhando de volta para você da mesma forma. É quase o suficiente para restaurar a fé abalada no felizes para sempre.


- Um simples sim teria bastado, Flave - Hugo disse a ele. - Isso mesmo - concordou Flavian. Todos os membros da família de Hugo foram assistir ao casamento, é claro. Assim como George e Ralph. Imogen tinha surpreendido Hugo ao aceitar seu convite. Ela viria a Londres por alguns dias e ficaria com George, havia dito em sua carta. Ben estava no norte da Inglaterra, visitando sua irmã. Vincent não estava em casa, e sua família não sabia para onde ele tinha ido. Mas ele tinha levado suas roupas e seu criado com ele, e o homem que sempre tinha se mostrado bastante capaz de cuidar de todas as suas necessidades. Ninguém estava preocupado ainda. A família de Gwendoline tinha sido convidada também, bem como alguns amigos. Mas não era para ser um casamento típico da sociedade durante a temporada. A igreja não estaria transbordando com o crème-de-la-crème da sociedade inglesa. Embora a lista de convidados fosse inevitavelmente grande, os dois queriam uma atmosfera íntima, com apenas aqueles mais próximos a eles para testemunhar a ocasião. - Eu acho - disse Hugo, quando ele chegou à igreja e foi recebido por uma pequena multidão de curiosos que inevitavelmente cresceria dentro da próxima hora – que eu preferiria estar diante de outro Forlorn Hope. - Se você tivesse acabado de comer o café da manhã, como me aconselhou, - disse Flavian - você estaria se sentindo muito melhor, meu velho. - Um parecer emitido da voz da experiência? - Perguntou Hugo. - Nem um pouco - disse Flavian. - Eu nunca cheguei ao altar e nem mesmo tenho isso em vista. Hugo fez uma careta. Isso tinha sido insensível.


- Por essa bênção eu serei eternamente grato - disse Flavian. - Seria uma decepção, você não acha, descobrir, depois de um casamento, que quando a noiva prometeu que o amaria para o melhor ou para o pior, o que ela realmente quis dizer é que poderia lhe amar para o melhor, mas correria como o inferno, se alguma vez fosse confrontada com a pior? Sim, Hugo pensou, seria. E lembrou-se de que, quando Gwendoline tinha dito essas palavras para seu primeiro marido, ela cumprira sua promessa. Ele estendeu a mão e apertou o braço de seu amigo conforme entravam na igreja. - Não, eu lhe peço, Hugo, - Flavian disse com um estremecimento – não se torne sentimental comigo. Eu estou começando a me perguntar se eu mesmo não preferiria o Forlorn Hope do que ver seu melhor homem com uma alma romântica. Hugo riu. No momento em que sua noiva chegou, algum tempo depois, mas nenhum um minuto atrasada, ele estava se sentindo muito mais relaxado. E animado. E ansioso para começar a sua nova vida. Para viverem felizes para sempre. Oh, sim, embora ele não acreditasse nisso, às vezes se esquecia de ser cético. E certamente isso poderia ser dispensado no dia do seu casamento. Ela havia chegado. O órgão tinha começado a tocar, e o clérigo tinha tomado seu lugar. Hugo não podia decidir se deveria ficar rigidamente voltado para o altar, ou se deveria se virar e vêla avançando para ele. Tinha esquecido de perguntar o que era a coisa certa a fazer. Ele se decidiu. Se virou e ficou rigidamente a observá-la vir, no braço de seu irmão. Ela estava vestindo um rico rosa choque e parecia... Bem, às vezes o inglês era uma língua miserável pela falta de palavras. Os olhos dela estavam nos dele, e ele podia ver que por trás do véu de luz que cobria seu rosto, estava sorrindo.


Ele fez uma verificação mental de sua própria expressão. Seus dentes estavam bem presos juntas. Isso significava que sua mandíbula estava dura. Suas sobrancelhas estavam tensas. Ele quase podia sentir a ruga entre elas. Suas mãos estavam em suas costas. Meu Deus, ele deveria parecer como se estivesse em uma parada. Ou participando do funeral de alguém. Por quê? Ele estava com medo de sorrir? Ele estava, percebeu. Não seria capaz de manter tudo o que estava dentro dele no lugar se ele sorrisse. Iria se sentir malditamente vulnerável, para dizer a verdade. Vulnerável ao que, embora? Ao amor? Ele já tinha saltado fora da extremidade da terra e fora pego com segurança nos braços de amor. O que mais havia a temer? Que depois de tudo ela não viesse? Ela estava aqui. Que ela não diria “sim”, ou “eu aceito”, ou seja lá o que o diabo diria quando chegasse o momento? Ela diria. Que ele não seria capaz de amá-la para todo o sempre? Ele o faria, e até mais do que isso. Ele deixou as mãos caírem para os lados. E ele sorriu quando sua noiva se aproximou dele. Será que ele imaginava uma espécie de suspiro coletivo da congregação reunida lá? Que estranha à vida era, pensou Gwen. Se ela não tivesse lido aquela carta de sua mãe em voz alta para Vera naquele dia no início de março e Vera não a tivesse atacado, se ela não tivesse


caminhado ao longo da praia rochosa e parado para olhar o mar distante, ela poderia até não ter percebido o quão profundamente solitária ela estava. Poderia ter negado a realidade por muito mais tempo. E se ela não tivesse subido a encosta íngreme e torcido o tornozelo, ela não teria conhecido Hugo. Ela nunca tinha acreditado no destino. Ela ainda não acreditava. Era tudo uma total liberdade de escolha, e era através dessa liberdade que trabalhávamos nosso caminho através da vida e aprendíamos o que precisávamos aprender. Mas, às vezes, parecia-lhe que havia algo, algum sinal, para nos cutucar a seguir em uma determinada direção. O que se escolhia fazer com a cutucada dependia da pessoa. Seu acidente, a presença de Hugo nas proximidades, ambos caminhando tão cedo depois de sua percepção de que era solitária, era certamente mais do que apenas coincidência. E talvez fosse realmente certo que não existisse tal coisa como a coincidência. As chances contra seu encontro com Hugo, o conhecer profundamente, penetrar sob sua fachada de militar sisudo e chegar até amá-lo, era maciça. Mas tinha acontecido. Ela o amava mais do que pensava que era possível amar. Sua família toda aprovava o casal, com a possível exceção de Wilma, cuja opinião não contava. Todos eles pareciam entender que o que sentia por Hugo era extraordinário, que se ela estava preparada para amar e se casar com um homem aparentemente tão errado para ela, então ele deveria realmente ser certo para ela. E, claro, todos eles ficaram aliviados por finalmente ela ter saído do casulo no qual ela tinha residido com segurança desde a morte de Vernon e estivesse pronta para viver novamente.


Sua mãe derramou lágrimas por ela. Então tinha Lauren. Lily a tinha levado para comprar roupas de noiva. E agora estava acontecendo. Finalmente. Um mês para os proclamas serem lidos, por vezes, poderia parecer como um ano. Mas a espera acabou, e ela estava dentro de St. George em Hanover Square, e ela sabia que toda a sua família e a dele estavam reunidos lá, embora realmente não olhasse para ver. Agarrou-se ao braço de Neville e viu apenas Hugo. Ele lhe parecia muito bonito, tanto quanto tinha parecido naquela encosta acima da praia, exceto que, na ocasião, ele estava usando um sobretudo e agora estava vestido elegantemente para um casamento. Ele estava de cara feia para ela. Ela sorriu. E, em seguida, maravilhosamente, incrivelmente, apesar do fato de que ele estava em evidência em uma igreja cheia de pessoas, ele sorriu de volta para ela, um sorriso quente que iluminou seu rosto e o deixou incrivelmente bonito. Um murmúrio em toda a igreja sugeriu que todos também tinham notado. Ela tomou seu lugar ao lado dele, o órgão parou de tocar, e o serviço de casamento começou. Era como se o tempo abrandou. Ela ouviu cada palavra, ouviu cada resposta, incluindo a sua própria, sentiu a frieza lisa do ouro quando seu anel deslizou para o dedo, parando por apenas um momento em sua junta antes de encaixar. E então, muito breve, mas, oh, por fim, o serviço nupcial tinha acabado e eles eram marido e mulher e nenhum ser


humano iria separá-los. Ele apertou sua mão e sorriu para ela, olhando quase como um garotinho transbordando de emoção, levantou o véu e arranjou-o sobre a copa do chapéu. Ela olhou para ele. Seu marido. Seu marido. E depois o resto do serviço procedeu, o registro foi assinado e eles estavam deixando a igreja, sorrindo agora para ambos os lados para fazer contato visual com o maior número de seus parentes e amigos. Seus braços se entrelaçavam e suas mãos estavam firmemente unidas. A luz do sol os cumprimentou atrás das portas da igreja. E um elogio caloroso da pequena multidão reunida à frente. Hugo olhou para ela. - Bem, esposa - disse ele. - Bem, marido. - Isso soa bem? - Perguntou a ela. - Ou soa ótimo? - Umm - disse ela. - Ótimo, eu acho. - Eu também, Lady Trentham - disse ele. - Vamos fugir para a carruagem antes de todos os cumprimentos fora da igreja atrás de nós? - Estamos muito atrasados, eu acredito - disse ela. E com certeza, a carruagem aberta que era iria levá-los até Kilbourne House para o café da manhã de casamento estava enfeitada com fitas, arcos, botas velhas e até mesmo uma chaleira de ferro. E havia Kit, Joseph e Mark Emes e o conde de Berwick em uma emboscada com punhados de pétalas de flores


que eles atiraram quando Hugo e Gwen corriam para a carruagem, rindo. - Eu espero - disse Hugo, ao dar ao cocheiro o sinal de partida e a carruagem cambalear em um bem arqueado movimento e sacudir para fora da praça – que ninguém tenha a intenção de usar essa chaleira nunca mais. - Todo mundo vai nos ouvir chegar por, pelo menos, cinco milhas - disse Gwen. - Há duas coisas que podemos fazer, amor - disse Hugo. Podemos nos encolher no chão do veículo - e essa alternativa realmente tem muito a ser dito em seu favor. Ou podemos nos atrever e ajudar as pessoas a esquecerem do barulho. - Como? - Perguntou ela, rindo. - Assim - ele disse, virando-se para ela, segurando seu queixo em sua mão grande, e abaixando a cabeça para beijá-la com a boca aberta. Em algum lugar alguém estava aplaudindo. Alguém mais assobiou estridentemente, o suficiente para ser ouvido acima do barulho da chaleira. A segunda alternativa, por favor, Gwen teria dito se tivesse sua boca para si mesma. Mas ela não o fez.

A Proposta (O Clube dos Sobreviventes #1) - Mary Balogh  

O ex-soldado Hugo Emes, Senhor Trantham, aspira apenas para esquecer os horrores da guerra e encontrar uma esposa simples e modesto, com que...

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