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Créditos Ligeiramente Imoral Título original

SLIGHTLY SINFUL Copyright © 2004 por Mary Balogh A presente obra é disponibilizada por Star Books Digital, com o objetivo de oferecer conteúdo para uso parcial em pesquisas e estudos acadêmicos, bem como o simples teste da qualidade da obra, com o fim exclusivo de compra futura. É expressamente proibida e totalmente repudiável a venda, aluguel, ou quaisquer uso comercial do presente conteúdo

Digitalização


CAPÍTULO 1

Depois de ter passado praticamente a totalidade de seus vinte e cinco anos de vida na Inglaterra e, portanto, isolado da maioria das hostilidades que tinham assolado o resto da Europa da chegada ao poder de Napoleão Bonaparte, lorde Alleyne Bedwyn, terceiro irmão do duque de Bewcastle, não tinha experiência em batalhas campais. Embora tivesse escutado com ávido interesse as histórias de guerra que lhe tinha contado seu irmão mais velho, lorde Aidan Bedwyn, um coronel de cavalaria que acabava de retirar-se, e acreditava ter uma ideia clara de no que consistiam. Enganou-se. Imaginou linhas perfeitas, com os ingleses e seus aliados a um lado e os inimigos ao outro, separados por uma esplanada como os campos de jogo de Eton. Imaginou à cavalaria, à infantaria e à artilharia, vestidas com seus melhores trajes, deslocando-se em linhas ordenadas como se estivessem em um tabuleiro de xadrez. Imaginou a rápida sucessão dos disparos, que romperiam, mas não eliminariam por completo, o silêncio. Imaginou uma visibilidade perfeita, a capacidade de ver o campo de batalha por completo em todo momento, a capacidade de avaliar o progresso da luta a cada passo. Imaginou se acaso lhe tinha passado pela cabeça semelhante ideia, um ar limpo e puro. Enganou-se completamente. Não era um militar. Fazia muito pouco tempo que tinha chegado à conclusão de que já era hora de fazer algo útil com sua vida, de modo que tinha optado pela carreira diplomática. O tinham destinado a embaixada de La Haja, às ordens de sir Charles Stuart. Entretanto, tanto o embaixador como vários de seus subordinados, entre os quais ele se encontrava, deslocaram-se a Bruxelas enquanto as tropas aliadas ao comando do duque do Wellington se reuniam na cidade, como resposta à ameaça que voltava a supor Napoleão Bonaparte, que tinha escapado da ilha de Elba na primavera e estava reunindo um formidável exército na França. Esse dia em concreto, a esperada e iminente batalha entre os dois exércitos se estava travando nos campos e colinas do povoado de Waterloo. E ele estava no coração da batalha. Ofereceu-se como voluntário para levar uma carta de sir Charles ao Wellington e para retornar com a correspondente resposta. Agradecia enormemente ter saído de Bruxelas sozinho. Talvez lhe tivesse sido impossível ocultar a seus companheiros de viagem que não tinha tido tanto medo em toda a vida. O ruído dos canhões era o pior de tudo. Era muito mais que ruído. Brocava-lhe os tímpanos e lhe retumbava no estômago, Além disso, havia a fumaça, que lhe congestionava os pulmões, irritava os seus olhos e reduzia seu campo de visão a pouco mais de alguns metros. Os homens e os cavalos se moviam de um lado para outro na lama ocasionada pelas fortes chuvas da noite no que lhe parecia um caos absoluto. Os oficiais e sargentos gritavam ordens e inclusive conseguiam fazer-se ouvir.


O aroma acre da fumaça se mesclava com o fedor do que supunha que era sangue e vísceras. Podia ver mortos e feridos em qualquer parte a pesar da fumaça. Era uma cena saída do inferno. Aquilo se deu conta, era a guerra. O duque do Wellington era famoso por estar sempre no centro da batalha, ali onde era mais cruenta, expondo-se sem medo ao perigo e saindo ileso de forma milagrosa. Esse dia não era uma exceção. Depois de perguntar a alguns oficiais o paradeiro de seu comandante, lorde Alleyne por fim deu com ele em uma colina da qual se divisava uma granja situada em um ponto estratégico em La Haja Sainte, lugar que os franceses estavam assaltando com todas suas forças e que uma tropa de soldados alemães defendia com igual bravura. O duque não poderia ter escolhido um lugar mais exposto ao fogo inimigo. Entregou-lhe a carta e pôs todo seu empenho em controlar o seu cavalo. Tentou não pensar no perigo que corria sua própria pessoa, mas era muito consciente de como trovejavam os canhões e dos assobios dos disparos dos mosquetes perto. Sentia um medo atroz. Teve que esperar que Wellington lesse a carta e depois ditasse a resposta a um de seus ajudantes. A espera se fez interminável enquanto contemplava o confronto para controlar a granja... Através da espessa fumaça que provocavam as milhares de armas. Viu como morriam os homens e esperou que lhe chegasse a morte. Voltaria a ouvir com normalidade se sobrevivesse? Perguntou-se. Voltaria sequer para ser como antes? Por fim se fez a carta de resposta, guardou-a com supremo cuidado em um bolso interior e partiu. Jamais tinha estado mais agradecido na vida. Como tinha suportado Aidan semelhante vida durante doze anos? Que milagre tinha feito com que sobrevivesse, casasse-se com o Eve e se assentasse na Inglaterra para desfrutar de uma vida no campo? Sentiu uma dor aguda na coxa esquerda que tomou a princípio por uma cãibra provocada por uma má postura. Entretanto, quando baixou a vista viu o buraco nas calças e o sangue que brotava dele, e se deu conta do que tinha acontecido como se o visse através dos olhos de outra pessoa que o observasse desapaixonadamente. – Maldição! – exclamou. Me acertaram. Sua voz parecia provir de muito longe. Ficava amortecida pelas contínuas descargas das armas e pelo zumbido que troava nos ouvidos. O sangue pareceu abandoná-lo ante a impressão de saber que lhe tinham disparado. Não lhe ocorreu deter-se nem descer do cavalo para procurar assistência médica. Só pensava em sair dali a toda pressa, em retornar sem demora à segurança de Bruxelas. Tinha coisas importantes que fazer na cidade. Claro que nesse momento não recordava nenhuma delas, mas sabia que não podia atrasar-se. Além disso, o pânico começava a apoderar-se dele. Continuou cavalgando um pouco mais em busca da tranquilidade que houvesse em um lugar menos perigoso. Mas então a dor da perna já era insuportável. Embora o pior fosse a hemorragia. A única coisa que tinha a mão para tapar a ferida era um enorme lenço. Tirou-o do bolso com o temor de que não fosse bastante grande para lhe abranger a coxa, mas ao dobrá-lo em diagonal comprovou que tinha o comprimento necessário. Com mãos trêmulas e suarentas o atou em torno da coxa e a dor esteve a ponto de lhe


fazer perder a consciência. À bala, percebeu, devia continuar incrustada na perna. Cada batimento de seu coração ia acompanhado de uma dor angustiante. Estava enjoado. Havia milhares de homens com feridas mais graves que a sua, recordou-se com severidade enquanto continuava seu caminho. Muitíssimo piores. Seria uma covardia desfrutar-se em sua dor. Devia obrigar-se a superá-la. Assim que chegasse a Bruxelas completaria sua missão e procuraria um médico para que lhe extraísse a bala (não queria nem pensar nisso!) e o costurasse. Sobreviveria... Ou esperava isso. E sua perna também... Ou esperava isso. Não demorou para chegar ao bosque do Soignes. Afastou-se um pouco para o oeste do caminho para evitar o denso tráfico que circulava em ambas as direções. Passou junto a numerosos soldados no bosque, alguns deles mortos e outros muito feridos como ele; havia um grande número de desertores que fugiam do horror do fronte... ou isso lhe parecia. Não podia culpá-los. A dor piorou se acaso fosse possível, à medida que a impressão de saber-se ferido aumentava. E continuava sangrando, embora não de forma tão copiosa como antes graças ao improvisado torniquete. Tinha frio e estava enjoado. Devia retornar junto ao Morgan. Sim, sim, era isso! Morgan, sua irmã caçula (só tinha dezoito anos), esperava-o em Bruxelas, já que a família com a que estava tinha tomado arriscada decisão de ficar em vez de partir com outros ingleses que tinham viajado de turba à cidade ao longo dos dois últimos meses. Os Caddick se viram apanhados em Bruxelas, já que o exército tinha requisitado todas as carruagens, e Morgan com eles. Embora o pior tivesse sido que a deixassem sair sozinha na rua num dia semelhante. Quando saiu de Bruxelas a caminho do fronte, descobriu-a na Porta do Namur com outras mulheres, atendendo a aos feridos que tinham começado a chegar à cidade. Havia-lhe dito que retornaria o antes possível e que se encarregaria de levá-la a um lugar seguro, a Inglaterra se fosse possível. Pediria que o relevassem temporalmente de seu posto para acompanhá-la em pessoa. Não queria nem pensar no que podia lhe acontecer se os franceses se proclamavam vencedores da batalha. Tinha que retornar junto à Morgan. Tinha prometido a seu irmão mais velho, o duque do Bewcastle, que lhe poria um olho embora tivesse confiado a tutela aos condes do Caddick ante a insistência de Morgan, que queria acompanhar a sua amiga e filha dos condes, lady Rosamond Havelock. Pelo amor de Deus! não era mais que uma menina. E era sua irmã! Sim, sim, e também tinha que entregar a carta a sir Charles Stuart. Quase se tinha esquecido da carta. O que podia ser tão importante para cavalgar para frente para entregar uma carta e depois retornar com a resposta? Perguntou-se. Um convite para jantar? Não o surpreenderia nada absolutamente que fosse algo tão corriqueiro. Começava a questionar a carreira que tinha escolhido. Talvez devesse ter aceitado alguma das cadeiras do Parlamento controlado pelo Wulf; claro que não tinha o menor interesse na política. Às vezes lhe inquietava o fato de não saber o que fazer com sua vida. Embora um homem fosse bastante rico para poder viver sem ter que fazer nada, como era seu caso, devia contar com algo que lhe avivasse o sangue e lhe animasse o espírito. Sentia a perna como se fosse um globo a ponto de explodir. Embora, ao mesmo tempo e por estranho que parecesse, era como se tivesse um montão de algo parecido as


facas e lhe palpitasse em um milhar de lugares de uma vez. Tinha a cabeça inchada. O ar que respirava lhe gelava os pulmões. Morgan... concentrou-se nela. Na jovem, enérgica e obstinada Morgan. Na caçula da família. Tinha que retornar a seu lado. Quanto faltava para Bruxelas? Tinha perdido a noção do tempo e do espaço. Ainda escutava os disparos. Ainda estava no bosque. O caminho corria a sua direita, lotado de carretas, carruagem matos e pessoas. Apenas algumas semanas atrás tinha participado de um jantar campestre à luz da lua organizado pelo conde do Rosthorn nesse mesmo bosque. Era-lhe quase impossível acreditar que fosse o mesmo lugar. Rosthorn, cuja reputação distava muito de ser imaculada, tinha flertado com Morgan até roçar a indiscrição e tinha suscitado incontáveis rumores. Apertou os dentes. Não estava seguro de que pudesse continuar muito mais tempo. Jamais imaginou que fosse possível sentir tanta dor. Uma dor lacerante que o destroçava a cada passo do cavalo. Entretanto, não se atrevia a desmontar. Não seria capaz de dar um só passo sem ajuda. Recorreu às escassas forças que ficavam e fez provisão de toda sua força de vontade para seguir no caminho. Se pudesse chegar até Bruxelas... Não obstante, o terreno era irregular e a enervante experiência que tanto seu cavalo como ele tinham sofrido no fronte de batalha tinha assustado ao animal, que nesse momento não sabia como enfrentar ao peso morto do cavaleiro que levava. O cavalo tropeçou com as raízes de uma árvore e se encabritou. Em circunstâncias normais, teria podido controlá-lo sem problemas. Entretanto, essas não eram circunstâncias normais. Caiu de costas sem mais. Por sorte, não ficou enganchado nos estribos. Embora não fosse capaz de realizar nenhum dos movimentos defensivos que poderiam ter amortecido sua queda. Caiu como um peso morto e golpeou a cabeça na mesma raiz com a qual tinha tropeçado o cavalo. Imediatamente ficou inconsciente. De fato, estava tão pálido pela perda de sangue e pela queda que qualquer um que passasse por ele assumiria que estava morto. E não teria sido uma ideia descabelada muito menos. O bosque do Soignes, inclusive tão ao norte do campo de batalha, estava semeado de cadáveres. O cavalo se ergueu uma vez mais sobre as patas traseiras e ato seguido saiu disparado. A tranquila e aparentemente respeitável casa situada na rue d"Aremberg, em Bruxelas, que quatro "damas" inglesas tinham alugado dois meses antes era em realidade um bordel. Bridget Clover, Flossie Streat, Geraldine Ness e Phyllis Leavey tinham viajado de Londres com a ideia (acertada, por certo) de que o negócio em Bruxelas seria uma mina de ouro enquanto aquela loucura militar não se resolvesse. E estavam a ponto de alcançar o objetivo que as tinha levado a entabular uma relação comercial e a fazer-se amigas íntimas quatro anos atrás. Seu objetivo, seu sonho, era economizar o suficiente para retirar-se de sua ocupação e comprar uma casinha em algum lugar da Inglaterra onde regeriam uma casa de hóspedes para damas respeitáveis. Esperavam ser mulheres livres quando retornassem a Inglaterra. Entretanto, acabavam de fazer em pedacinhos seus sonhos.


No mesmo dia que os canhões de guerra soavam ao sul da cidade para proclamar que as hostilidades tinham acabado por fim depois de uma batalha campal de proporções épicas, descobriram que seu mundo se desmoronara, que todo o dinheiro que tanto trabalho lhes havia custado se esfumara. Tinham-no roubado. E a culpa era de Rachel York. Ela mesma lhes tinha comunicado a notícia ao retornar à cidade em lugar de continuar a caminho da Inglaterra como praticamente a totalidade dos ingleses que tinham estado na Bélgica. Inclusive muitos dos aldeãos estavam fugindo para o norte. Mas Rachel tinha retornado. Havia retornado para lhes contar a terrível verdade. Claro que em lugar de afligi-la com recriminações, como tinha esperado que fizessem as damas a tinham acolhido porque não tinha outro lugar onde ir e lhe tinham dado o único dormitório livre da casa. Converteu-se na nova residente do bordel. A mera ideia a teria espantado pouco tempo atrás. Ou lhe teria achado graça, porque tinha bom senso de humor. Mas nesse preciso momento estava muito triste para reagir ao fato de viver com prostitutas. Eram mais de doze. Essa noite não trabalhavam, coisa que teria agradecido se tivesse pensado com clareza. Mas depois dos nervos que tinha sofrido durante os dois dias de viagem até retornar à cidade e lhes comunicar as horríveis notícias, só se sentia intumescida. Intumescida e terrivelmente culpada. As cinco estavam na saleta. Não tinham vontade de meter-se na cama para dormir, e o estrondo da batalha que se travara com o passar do dia piorava os ânimos. Os ruídos tinham chegado à cidade apesar dos vinte quilômetros que a separavam do fronte, se os rumores eram certos. Porque tinham circulado muitos rumores e tinha estendido o pânico quando os cidadãos que não fugiram em seu momento começaram a temer que se jogasse sobre eles uma horda de soldados franceses. Entretanto, nessa mesma tarde tinham chegado notícias de que a batalha tinha terminado e de que os ingleses e seus aliados tinham ganho e foram perseguir aos franceses até Paris. – Grande tarefa para nós... – foi o comentário da Geraldine, que estava de pé com as mãos em seus generosos quadris. – Esses homens tão encantadores correndo para Paris e nós aqui sentadas como quatro devotas. Mas não foram as notícias da batalha a única coisa que lhes roubou o sono. O desânimo, a fúria e a irritação, somados a um inflamado desejo de vingança, eram os culpados. Geraldine estava passeando de um lado para outro e cada uma de suas passadas fazia que o robe de seda púrpura que levava se agitasse atrás dela enquanto a camisola violeta se amoldava a sua voluptuosa figura. O cabelo solto pelas costas e o punho em alto lhe conferiam o aspecto de uma atriz em plena cena trágica. Sua ascendência italiana era muito evidente nesse momento, pensava Rachel, sentada junto à chaminé e com um xale nos ombros embora a noite não fosse fria. – Esse asqueroso inseto rasteiro...! – exclamou Geraldine. – Esperem que lhe ponha as mãos em cima. Vou esquartejá-lo. Vou espremê-lo até deixá-lo rígido.


– Primeiro temos que encontrá-lo, Gerry – disse Bridget, ajeitada em uma poltrona com aspecto cansado. Sua aparência também era muito chamativa, já que levava um gritante robe rosa que lhe assentava fatal como falso tom vermelho de seu cabelo. – Penso encontrá-lo, que não lhe caiba dúvida, Bridget. – Geraldine ergueu as mãos em frente de seu rosto e fez um gesto que deixava bem claro o que faria se o pescoço do reverendo Nigel Crawley tivesse a bondade de aparecer ante ela nesse preciso momento. Não obstante, Nigel Crawley se fora fazia muito. A essas alturas já estaria possivelmente na Inglaterra, levando em sua enfeitada, piedosa e infame pessoa uma enorme quantidade de dinheiro que não lhe pertencia. Rachel era da opinião de que seria muito mais satisfatório atiçar nos seus dois olhos e fazer que engolisse seus perfeitos dentes, e isso porque ela costumava ser uma pessoa bastante pacífica que rara vez recorria à violência... Se não fosse por ela, o tipo jamais teria conhecido a essas mulheres. E se não as tivesse conhecido, não se teria fugido com suas economias. Flossie, que também passeava de um lado para outro, se arrumava de algum jeito para não se chocar com o Geraldine. Ao ver seus curtos cachos loiros, seus enormes olhos azuis, sua diminuta figura e a eterna cor pastel de sua roupa, qualquer um acreditaria que só tinha pássaros na cabeça, mas sabia ler e escrever, e também se dava bem com os números. Era a tesoureira da sociedade. – Temos que encontrar ao Crawley, o Crápula – disse. – Embora não tenho nem ideia de como, de onde nem de quando, porque pode esconder-se em qualquer parte da Inglaterra... O que digo da Inglaterra! De todo o mundo! E apenas resta dinheiro com o qual persegui-lo. Mas o encontrarei embora seja a última coisa que faça nesta vida. E se você reclamar seu pescoço, Geraldine, já buscarei eu outra parte de sua anatomia para lhe fazer um nó... – Certamente a tem muito pequena para lhe fazer um nó, Floss – comentou Phyllis. Gordinha, bonita e de aparência tranquila, com o cabelo castanho sempre penteado sem excessos e vestida de forma discreta e simples, Phyllis era a menos parecida a uma prostituta aos olhos da Rachel. Além disso, era a mais prática do grupo em qualquer situação, qualidade de que tinha feito mostra ao retornar a saleta com uma grande bandeja com chá e massas. – De qualquer forma é muito possível que quando o encontrarmos já gastou nosso dinheiro. – Razão de mais para não lhe deixar nem um osso são – replicou Geraldine. – A vingança pode ser muito doce, Phyll. – Mas como vamos dar com ele? – perguntou Bridget enquanto passava os dedos por seu cabelo avermelhado. – Você e eu vamos escrever a todas as irmãs que saibam ler – respondeu Flossie. – Conhecemos companheiras de Londres, Brighton, Bath e Harrogate, e também de outros lugares, não? Faremos correr a voz e o encontraremos. Mas vamos necessitar de dinheiro com o qual persegui-lo. Suspirou e deixou de passear um instante. – A única coisa que temos que fazer é arquitetar o modo de nos fazer ricas já – declarou Geraldine, que voltou a agitar o braço. – Alguma ideia? Há algum ricaço por aqui ao quem possamos


depenar? Todas começaram a soltar nomes de cavalheiros, claramente clientes, que tinham estado ou estavam em Bruxelas. Rachel reconheceu alguns dos nomes. Entretanto, as damas não falavam a sério. Calaram-se depois de sugerir alguns e puseram-se a rir alegremente. Um alívio, sem dúvida, depois de receber as terríveis notícias de que todas suas economias se esfumaram, roubados por um descarado que se fazia passar por clérigo. Flossie se deixou cair no divã e agarrou um dos bolos da bandeja. – É possível que haja uma maneira – disse, – mas temos que agir depressa. E não seria um roubo como tal. Não se pode roubar aos mortos, verdade? Já não podem usar suas coisas. – Mãe do amor formoso! Floss – exclamou Phyllis, que se sentou a seu lado com uma taça de chá nas mãos, – do que está falando? Não penso em me pôr a roubar tumbas se for isso o que lhe ocorreu. Grande ideia! Imagina às quatro, com pás ao ombro...? – Refiro aos mortos da batalha – explicou Flossie enquanto as demais a olhavam de marco em marco e Rachel se embrulhava mais com o xale. – Haverá um montão de pessoas fazendo o mesmo. Aposto o cangote como centenas de pessoas estão fazendo isso agora mesmo, fingindo que procuram a seus seres queridos quando em realidade andam atrás de um butim. É muito fácil para as mulheres. Só temos que compor uma expressão espantada e gritar o nome de um homem. Embora teremos que ir sem perda de tempo se quisermos encontrar algo de valor. Poderíamos recuperar tudo o que perdemos com um pouco de sorte... e se nos apressarmos. Rachel escutou que alguém chiava os dentes e ao dar-se conta de que eram os seus, apertou os lábios. Roubar aos mortos... Era horripilante. Era de pesadelo. – Não sei, Floss – aduziu Bridget com voz hesitante. – Não me parece correto. Embora de qualquer forma não está falando a sério, não é verdade? – Por que não? – perguntou Geraldine ao mesmo tempo em que estendia os braços. – Tal como disse Floss, não seria roubar, ou sim? – E não faríamos mal a ninguém – seguiu Flossie, – já estão mortos. – Valha-me Deus! – exclamou Rachel, levando as mãos ao rosto. – Sou eu quem deveria procurar uma solução. Ao fim e ao cabo, é minha culpa. As quatro se viraram para ela. – Não o é, querida – lhe assegurou Bridget. – Muitíssimo menos. Se alguém tiver a culpa, sou eu por ter deixado que me visse e por te haver permitido entrar nesta casa. Não sei no que estaria pensando. – Não é sua culpa, Rachel – concordou Geraldine. – É nossa culpa. Nós temos muitíssimo mais experiência com os homens que você. Acreditava-me capaz de distinguir a um libertino a quilômetros de distância com os olhos enfaixados. Mas este bem parecido rufião me enganou tanto como a você. – E a mim também somou-se Flossie. – Estava a quatro anos guardando com zelo nossas economias até que ele apareceu com suas bonitas palavras sobre nos querer e nos respeitar por ter a mesma profissão que Maria


Madalena, a quem Jesus queria. Ficaria torta se isso servisse de algo. Fui eu quem lhe deu nossas economias para que as depositasse em um banco inglês. Deixei-lhe levar o dinheiro... Até lhe agradecia! E agora se esfumou. Sou eu quem tem a culpa de tudo. – Nada disso, Floss – corrigiu-a Phyllis. – Todas estivemos de acordo. Isso é o que sempre temos feito: planejar juntas, trabalhar juntas, tomar as decisões juntas. – Mas eu o apresentei – insistiu Rachel com um suspiro. – Estava tão orgulhosa dele por não a rechaçar... Eu o trouxe aqui. Fui eu quem as traiu. – Tolices, Rachel – replicou Geraldine com brusquidão. – Você também perdeu tudo o que tinha por sua culpa, não é verdade? O mesmo que nós. E teve a coragem de voltar e contar-nos sabendo que, no pior dos casos, poderíamos ter lhe arrancado a cabeça. – Discutindo quem tem a culpa não vamos chegar a nenhum lugar – falou Flossie, – muito menos quando sabemos claramente quem é o culpado. Como não decidimos ir ao lugar da batalha sem perda de tempo, não restará nada que recolher. – Eu penso ir, Floss, embora tenha que fazê-lo só – disse Geraldine. – Estou segura de que haverá um bom butim e tenho toda a intenção de conseguir uma parte. Quero conseguir o dinheiro com o qual perseguir a esse rufião desalmado. A nenhuma lhe ocorreu que em caso de conseguir semelhante quantidade de dinheiro dessa maneira, poderiam usá-lo para substituir o que tinham perdido e recuperar seu sonho sem mais, esquecendo do reverendo Nigel Crawley, que saberia Deus onde estaria. Claro que, às vezes, o ultraje e a necessidade de vingança deslocavam aos sonhos. – Tenho um cliente para amanhã pela tarde... Bom, para esta tarde, melhor dizendo – disse Bridget, cruzando os braços por debaixo do peito e encurvando os ombros. – O jovem Hawkins. Não disporei de muito tempo, assim não serviria de nada que fosse, não é? – disse com voz trêmula, conforme percebeu Rachel. – E eu não penso ir embora careça da desculpa do Bridget – declarou Phyllis com expressão contrita ao mesmo tempo em que soltava a xícara de chá. – Sinto muito, mas cairia redonda ao chão só de ver o sangue e não lhes seria de nenhuma ajuda. Além disso, teria pesadelos toda a vida e despertaria no meio da noite com meus gritos. Certamente os terei só por tê-lo pensado. Ficarei aqui e atenderei a porta se por acaso aparece alguém enquanto Bridget está trabalhando. – Trabalhando! – exclamou Flossie com um gemido. – A menos que façamos algo para mudar nossa situação, estaremos trabalhando até que sejamos umas velhas decrépitas, Phyll. – Eu já o sou – afirmou Bridget. – O que vai ser! – corrigiu-a Flossie com firmeza. – Está na flor da vida. Há um montão de jovenzinhos que escolhem você em vez de uma de nós, sobre tudo os virgens. – Isso é porque recordo a suas mães – aduziu Bridget. – Com esse cabelo? – perguntou Geraldine com um bufo nada elegante. – O duvido muitíssimo. – Comigo não ficam nervosos nem temem falhar na tentativa – insistiu.


– Digo que é perfeitamente normal que não tenham a técnica as primeiras vezes dominada. Que homem alcança a perfeição na primeira? A maioria nunca o faz. A conversa estava conseguindo ruborizá-la contra sua vontade, percebeu Rachel. – Pois então iremos você e eu, Gerry – decidiu Flossie, ficando em pé. – Não me dá medo ver uns quantos cadáveres. Nem tampouco me dão medo os pesadelos. Iremos, faremos uma fortuna e depois nos encarregaremos de que esse tipinho se arrependa de ter nascido. – Eu também iria – disse Bridget, – mas o jovem Hawkins insistiu em vir hoje. Quer que lhe ensine como impressionar a sua noiva quando se casar no outono. Bridget teria trinta e poucos anos, supôs Rachel. Muito tempo antes, seu recém enviuvado pai a tinha contratado para que fosse sua babá. Entretanto, quando ele perdeu sua fortuna nas mesas de jogo (coisa que tinha acontecido com inquietante regularidade ao longo de sua vida adulta), viu-se obrigado a despedi-la. Fazia coisa de um mês, ambas se tinham reencontrado por acaso em uma rua de Bruxelas e assim descobriu como ganhava sua vida a querida babá. Apesar das dúvidas de Bridget, Rachel tinha insistido em vê-la de novo. Nesse momento ficou em pé sem ser consciente de tudo do que ia fazer... nem do que ia dizer a seguir. – Eu também vou – anunciou. – Também vou com Geraldine e Flossie. Seu oferecimento foi seguido por um coro de comentários e se converteu no centro de atenção. Entretanto, levantou as mãos para sossegar os protestos. – Eu sou a máxima responsável por que tenham perdido suas economias – afirmou. – Tanto faz o que digam para me fazer sentir melhor, mas é a pura verdade. Além disso, tenho uma conta pendente com o senhor Crawley. Enganou-me para que o admirasse e respeitasse, para que aceitasse a ser sua esposa. Roubou-lhes e me roubou, e logo tentou me mentir como se fosse uma idiota sem remédio além de uma boazinha. Se formos atrás dele, coisa para a que necessitamos de dinheiro, eu também porei meu grãozinho de areia. Vou com Geraldine e Flossie para revistar os cadáveres em busca de objetos de valor. Tomara se tivesse ficado sentada, pensou, já que teve a repentina sensação de que suas pernas eram de gelatina. – Não, não, querida – protestou Bridget ao mesmo tempo em que ficava em pé e dava um passo para ela. – Deixa-a tranquila – disse Geraldine. – Me caiu bem do primeiro momento, Rachel, porque é uma pessoa normal e não uma dessas damas de linhagem que torcem o gesto e enrugam o nariz quando passamos por seu lado como se cheirássemos a cão morto. Mas esta noite me cai muitíssimo melhor. Porque tem caráter e não vai nos deixar sem esforçar-se. – Certamente que não – lhe assegurou. – Este último ano fui uma dama de companhia insignificante e insípida. Odiei todos e cada um dos trezentos e sessenta e cinco dias. Se não fosse por isso, não teria caído tão facilmente nas garras de um sorridente rufião. Assim vamos deixar de bate-papo e nos pôr em marcha. – Um viva por Rachel! – exclamou Flossie. De caminho ao seu quarto para trocar de roupa e pôr um vestido abrigado e prático, tentou não pensar no


que estava a ponto de fazer. "Vou com Geraldine e Flossie para revistar os cadรกveres em busca de objetos de valor", pensou.


CAPÍTULO 2

À luz mortiça do amanhecer, o caminho que partia de Bruxelas em direção sul parecia uma cena tirada do inferno. Era quase impossível transitar por ele devido à quantidade de carretas, carruagens e transeuntes, alguns dos quais levavam macas, ajudavam a outros companheiros a caminhar ou diretamente os levavam nas costas. Quase todos estavam feridos, alguns com gravidade. Retornavam da batalha que tinha tido lugar ao sul do povoado do Waterloo. Rachel jamais tinha visto um horror tão espantoso e incessante. A princípio teve a impressão de que Flossie, Geraldine e ela eram as únicas pessoas que caminhavam em direção contrária ao tráfico. Embora, evidentemente, equivocava-se. Também havia outras pessoas e algum ou outro veículo que se dirigia ao sul. Um desses veículos, uma carruagem conduzida por um soldado andrajoso com o rosto enegrecido pela pólvora, deteve-se junto a elas. O soldado se ofereceu para levá-las o resto do caminho e tanto Flossie como Geraldine, muito convincentes em seu papel de esposas preocupadas, aceitaram na hora. Ela declinou o convite. A valentia que a tinha levado até ali começava a desvanecer-se com rapidez. O que estava fazendo? Perguntou-se. Como podia ter pensado sequer em lucrar-se de semelhante infortúnio? – Vão vocês adiante – lhes disse. – No bosque deve haver muitos feridos. Eu procurarei por ali. Estarei atenta se por acaso vejo Jack e ao Sam – acrescentou, elevando a voz com a intenção de que o condutor da carruagem e qualquer outra pessoa que pudesse estar perto a ouvissem. – Façam o mesmo por mim no sul e procurem Harry. O engano e as mentiras fizeram que se sentisse suja e imoral, embora era improvável que alguém estivesse prestando atenção. Separou-se do transitado caminho para internar-se entre as árvores do bosque do Soignes, embora não se afastasse muito por temor a perdê-lo de vista e despistar-se. Que complicações ia fazer? Perguntou-se. Não podia seguir com o plano. Era impossível. Via-se incapaz de arrebatar sequer um lenço ao cadáver de um pobre homem. A mera ideia de encontrar um fazia que lhe subisse a bílis à garganta. Entretanto, retornar com as mãos vazias sem havê-lo tentado seria egoísta e covarde. Recordou as advertências do senhor Crawley na saleta da rue d"Aremberg sobre o risco de guardar uma soma importante de dinheiro em uma cidade que corria o perigo de acabar saqueada, dado os tempos tão revoltos que viviam, e seu oferecimento de levar o dinheiro a Londres para depositá-lo em um banco que lhes reportasse uns interesses decentes. Durante a conversa, ela esteve sentada a seu lado com um sorriso orgulhoso nos lábios pelo fato de haver apresentado às damas a um homem tão amável, considerado e generoso. Inclusive agradeceu depois. Acreditou que pela primeira vez em sua vida tinha dado com um homem sensato, honesto e responsável. Por


um instante se acreditou apaixonada por ele. Apertou os punhos a ambos os lados do corpo e torceu o gesto. Entretanto, a crua realidade que a rodeava não demorou para impor-se às inúteis lembranças. Devia haver milhares de feridos nessas carretas e macas, supôs ao mesmo tempo em que afastava o olhar do caminho que ficava a sua esquerda. Apesar de todo esse horror, ela estava ali para revistar aos mortos e roubar qualquer objeto de valor que pudesse levar consigo. Era incapaz de fazê-lo. Simples e sinceramente. Nesse momento seus olhos se cravaram no primeiro dos cadáveres que tinha ido roubar e sentiu que lhe contraía o estômago como se estivesse a ponto de vomitar. O homem estava estendido de flanco contra o tronco de uma das muito altas árvores, oculto aos olhos daqueles que transitavam o caminho e definitivamente morto. Além de nu. Sentiu que o estômago lhe contraía de novo quando deu um relutante e hesitante passo para ele. Não obstante, em lugar de vomitar lhe escapou um risinho tolo. Levou uma mão à boca, mais horrorizada por sua inapropriada reação do que o teria estado em caso de ter acabado vomitando no chão diante de milhares de homens. Que graça tinha o fato de que não ficasse nada que saquear? Alguém tinha chegado até esse homem antes que ela e o tinha deixado pelado. De qualquer forma, não teria sido capaz de fazê-lo. Soube com absoluta certeza nesse preciso instante. Não poderia lhe ter tirado nada embora tivesse estado totalmente vestido e tivesse levado dez custosos anéis, um relógio de ouro com seu correspondente bolso do mesmo metal e uma espada também de ouro. Porque teria sido um roubo. Era um homem jovem e seu cabelo parecia surpreendentemente escuro em contraste com a palidez de sua pele. A nudez era patética em extremo nessas circunstâncias, concluiu. Só era um despojo humano inerte com uma espantosa ferida em uma coxa e um atoleiro de sangue sob a cabeça, sinal de que tinha uma brecha aberta. Era o filho de alguém, o irmão de alguém, talvez o marido de alguém ou o pai de alguém. Sua vida teria sido preciosa para ele e possivelmente para muitas outras pessoas. A mão que levou a boca começou a tremer. Sentia-a fria e pegajosa. – Socorro! – gritou com um fio de voz, virando a cabeça para o caminho. Pigarreou para limpar a garganta e voltou a gritar com voz mais firme: – Socorro! Salvo por alguns olhares curiosos, ninguém lhe prestou atenção. Saltava à vista que tinham bastante com suas próprias penas. Nesse momento fincou um joelho no chão junto ao cadáver, decidida a fazer algo, embora não soubesse muito bem o que. Ia rezar por ele? A velá-lo? Acaso não merecia a morte de um homem, embora para ela fosse um estranho, um pouco de atenção? No dia anterior estava vivo. Tinha uma história, esperanças, sonhos e preocupações. Estendeu uma trêmula mão e lhe tocou a rosto com delicadeza como se lhe estivesse dando a bênção. Pobre homem. Ai, pobre homem!, exclamou para si mesma. Estava frio. Mas não gelado. Sua pele continuava morna. Afastou a mão com brusquidão e a desceu com


gesto inseguro até o pescoço em busca do pulso. Descobriu o fraco pulsado do coração sob seus dedos. Continuava vivo! – Socorro! – gritou de novo, ficando de pé e tentando desesperadamente chamar a atenção de algum transeunte. Ninguém lhe fez o menor caso. – Está vivo! – chiou a pleno pulmão. Necessitava de ajuda. Talvez ainda pudessem lhe salvar a vida. Ou talvez não. Gritou com mais força que pôde: E é meu marido. Por favor, que alguém me ajude! Viu que a olhava um cavalheiro que ia a cavalo, embora não fosse militar, e por um momento acreditou que se aproximaria para ajudá-la. Entretanto, um homem gigantesco (um sargento, comprovou), que levava umas ataduras ensanguentadas ao redor da cabeça e sobre um olho, abandonou o caminho e pôs-se a andar com muita dificuldade para onde gritava: – Já vou, senhora. Está muito ferido, gravemente? – Não sei. Receio que é muito grave. – Estava soluçando, percebeu de repente, como se o ferido lhe importasse de verdade. – Por favor, ajude-o. Por favor, ajude-o! Rachel tinha suposto tolamente que tudo iria bem uma vez que estivessem de volta em Bruxelas; que haveria um batalhão de médicos e cirurgiões esperando para atender única e exclusivamente aos feridos do grupo ao qual se somou. Fazia o trajeto a pé, junto da carruagem onde o sargento William Strickland tinha conseguido encontrar um lugar ao homem nu e inconsciente. Alguém tirou de algum lugar um desfiado parte de lona para cobri-lo e ela contribuiu com seu xale. O sargento, que caminhou em todo momento a seu lado, apresentou-se e lhe explicou que tinha perdido um olho na batalha, mas que teria retornado com seu regimento depois de que o atendessem no hospital de campanha se não o tivessem licenciado do exército, onde ao que parecia não havia capacidade para sargentos caolhos. Tinham-lhe dado a quitação, tinham cotado seu afastamento em sua carteira militar e acabou-se. – Toda uma vida no exército atirada a latrina como se fosse um cubo de água suja, para dizê-lo de algum modo – concluiu com tristeza. – Mas não importa. Já me arrumarei. Já tem bastante com a preocupação por seu marido para ter que aguentar minhas penas. Ficará bem, se Deus quiser. Quando pôr fim chegaram a Bruxelas, havia tal quantidade de feridos e moribundos na Porta do Namur que o homem inconsciente jamais teria sido atendido por um cirurgião se o sargento não tivesse exercido uma autoridade que já não lhe correspondia para ordenar a vozes que abrissem passagem até um dos hospitais de campanha. Afastou a vista enquanto lhe extraíam uma bala de mosquete da coxa. Graças a Deus que estava inconsciente, pensou, um pouco enjoada ante a mera ideia do que lhe estavam fazendo. Quando voltou a olhá-lo, tinham-lhe enfaixado a perna e a cabeça e estava coberto por uma tosca manta. O sargento Strickland tinha conseguido uma maca e tinha ordenado a um par de soldados rasos que transportassem ao ferido. – O açougueiro acredita que seu marido sobreviverá se não tiver febre e se não partiu a cabeça com o golpe – disse o homem. – Aonde o levamos, senhora? A pergunta fez que o olhasse boquiaberta. Aonde o levavam? Isso mesmo gostaria de saber ela. Quem era o ferido e onde devia estar? Não havia modo de saber até que recuperasse a consciência. Enquanto isso, tinha-o


reclamado. Tinha-o identificado como seu marido em um desesperado, embora eficaz, esforço por chamar a atenção de alguém no bosque. Mas aonde ia levá-lo? O único lar que tinha em Bruxelas era o bordel. E ali só era uma convidada. Uma convidada que dependia por completo de suas anfitriãs, para tudo, pois mal tinha dinheiro para pagar sua manutenção. E o pior de tudo era saber-se culpada de que tanto Bridget como as outras três mulheres tivessem perdido também todas suas economias. Como ia apresentar se ali com o ferido e lhes pedir que o atendessem e o alimentassem até que averiguassem sua identidade para poder levá-lo com os seus? Entretanto, o que outra coisa podia fazer? – Senhora, está emocionada – disse o sargento, que a puxou pelo cotovelo com gesto solícito. – Respire fundo e solte o ar muito devagar. Ao menos está vivo. Há milhares que não estão. – Vivemos na rue d’Aremberg – lhe informou, meneando a cabeça como se quisesse se limpar. Sigam-me, por favor. E pôs-se a andar em direção ao bordel. Pegaram Phyllis com as mãos na massa... do pão. Os criados tinham fugido de Bruxelas antes da batalha. Bridget estava preparando-se para receber ao senhor Hawkins. Ao ouvir o alvoroço na porta principal, saiu de seu dormitório com a cabeleira ruiva segura na cabeça por uma fita rosa para mantê-la afastada do rosto. Pôs ruge nas faces e sombra azul em um olho já perfilado com uma grosa linha negra em ambas as pálpebras, o que fazia que o outro, ainda sem pintar, parecesse surpreendentemente nu em comparação. – Que o Senhor nos ajude! – exclamou Phyllis com os olhos cravados no sargento Strickland. – Um gigante caolho e eu sou a única disponível. – Rachel está com ele – indicou Bridget. – Querida, o que acontece? Colocou-se em problemas? Não o fez com má intenção, sargento. Só queria... – Ai, Bridget, Phyllis! – interrompeu-a com presteza, disposta a soltar tudo de repente. – Estava procurando no bosque quando me topei com esse homem que está na maca. Pensei que estava morto, mas quando o toquei me dei conta de que continuava com vida, embora lhe tinham disparado na perna e tinha uma terrível ferida na cabeça. Gritei pedindo ajuda, mas nenhum dos homens que voltava para a cidade me fez caso até que gritei que estava vivo e que era meu marido. Então chegou o sargento Strickland para me ajudar e o levou até uma carruagem. Quando chegamos a Bruxelas, atendeu-o um cirurgião e o sargento lhe procurou uma maca e a ajuda destes soldados. Ao me perguntar onde o levávamos não me ocorreu outro lugar que este. Sinto-o muito. Eu... – Não é seu marido, senhora? – perguntou o sargento, que observava ao Bridget fascinado. Os dois soldados sorriam encantados pelo que viam. – Levava algo em cima? – perguntou Bridget com essa expressão tão desconcertante que provocava a disparidade na maquiagem de seus olhos. – Nada – respondeu ela. Nesse momento se sentiu mais culpada que nunca. Aparecia com as mãos vazias e


ainda por cima carregava a suas amigas com outra boca para alimentar. Se acaso o homem recuperasse a consciência, claro estava. – Tinham tirado tudo dele. – Mas tudo, tudo? – Bridget se aproximou da maca e ergueu um dos extremos da manta. – minha Mãe! – Sargento, tem jeito de estar a ponto de cair redondo ao chão – disse Phyllis ao mesmo tempo em que limpava a farinha das mãos com seu enorme avental. O homem tinha perdido um olho. Observou-o com atenção pela primeira vez e se envergonhou ao dar-se conta de que sua preocupação pelo desconhecido a tinha levado a passar por cima das feridas do sargento. O pobre homem tinha muito má cor de rosto. – Não será sangue isso que lhe mancha as ataduras, não é? – continuou Phyllis. – Porque se o for, estou a ponto de desmaiar. – Onde o deixamos, sargento? – perguntou um dos soldados. – Fez o correto, querida – lhe assegurou Bridget. – Vamos ver onde podemos acomodar a este pobre homem. Parece meio morto. Além dos quartos do apartamento de cobertura destinados à criadagem, não havia quartos desocupados na casa. No dia anterior lhe tinham dado o último dormitório livre. – Em meu dormitório – ofereceu. – Podemos lhe dar meu quarto, eu dormirei no apartamento de cobertura. Conduziu aos soldados escada acima e, uma vez em seu dormitório, afastou os lençóis para que pudessem deitar ao ferido em uma cama que nem sequer tinha chegado a utilizar. Phyllis estava falando com o sargento no corredor. – Se não tem nenhum lugar aonde ir, sargento – estava dizendo sua amiga, – e certamente não tem, prepararemos uma cama em um dos quartos do apartamento de cobertura. Vou fazer lhe um caldinho e um chá. Não, não discuta. Parece meio morto de cansaço. A única coisa que peço é não ter que lhe trocar essas ataduras jamais. Por favor. – Poderia me dizer que lugar é este? – escutou que perguntava o sargento. – Por acaso não será...? – Pelo amor de...! – exclamou Phyllis. – além de caolho deve estar cego se precisa perguntar. – É obvio que o é! O estado do sargento Strickland piorou muitíssimo devido a uma terrível dor de cabeça e a uma febre galopante quando pôr fim claudicou à insistência do Phyllis e se deitou para que o atendessem. Apesar de seus débeis protestos, Rachel e Phyllis se alternaram para velá-lo durante o resto do dia, assim como fez Bridget assim que o senhor Hawkins partiu. Rachel se surpreendeu pela indiferença com a que se enfrentava ao feito de compartilhar casa com uma prostituta em pleno desempenho de seu trabalho. Não sentia comoção, nem constrangimento, nem repulsão. Tinha coisas muito mais importantes para pensar. Passou grande parte da tarde e da noite em seu dormitório, velando ao desconhecido. Um desconhecido cuja identidade talvez nunca descobrisse, compreendeu. Não tinha dado nenhum sinal de


melhoria. Estava extremamente pálido, quase tanto como as ataduras que lhe rodeavam a cabeça e como a enorme camisa de dormir que Bridget tinha procurado e que lhe tinha posto com a ajuda do Phyllis depois de expulsá-la do dormitório. Coisa que teria achado graça se tivesse estado de humor. Ela o tinha encontrado nu e, entretanto, sua antiga babá pensava que deviam proteger seu pudor. Esteve tentada a lhe buscar o pulso no pescoço algumas vezes para comprovar que continuava vivo. Flossie e Geraldine voltaram à primeira hora da noite, com as mãos vazias. – Chegamos até o povoado de Waterloo e inclusive até o lugar onde se travou a batalha ontem – disse Flossie assim que estiveram reunidas na saleta, onde tudo estava disposto para a noite de cartas dessa noite... Por isso Rachel deduziu que essa noite trabalhavam. – Bridget, não pode imaginar o que é aquilo. A pobre Phyll teria desmaiado no primeiro momento. – Havia muitas coisas de valor – seguiu Geraldine. – Poderíamos nos ter feito de ouro, se não nos tivéssemos topado com algumas avaras. O primeiro cadáver que encontramos era o de um jovem oficial que não passaria dos dezessete anos, verdade Floss? Havia duas mulheres despojando-o de seu elegante uniforme com a mesma delicadeza que se estivessem movendo um saco de batatas. Assim lhes disse algumas verdades, é claro que sim. – Pô-las em seu lugar, sim, senhor – afirmou Flossie com admiração. – E então uma delas cometeu o engano de zombar de Geraldine. Deixei-a sem sentido de um murro. Olhe, Bridget, ainda tenho os nódulos vermelhos. Demorarei alguns dias em voltar a ter as mãos de uma dama. E quebrou uma de minhas preciosas unhas. Agora terei que me cortar as demais para tê-las iguais. Odeio levar as unhas curtas! – Montei guarda ao lado do cadáver enquanto Floss ia em busca de um grupo de enterradores para que tratassem ao pobre moço com respeito – tomou a substituição Geraldine. – Pobrezinho. Inchei-me a chorar por ele, e não me envergonha dizê-lo. – Depois disso – seguiu Flossie um tanto envergonhada, – já não fomos capazes de saquear nenhum cadáver, não é, Gerry? Não podíamos deixar de pensar que todos esses homens tinham mãe. – E as aprecio por isso – assegurou Phyllis. – Eu também – acrescentou Bridget. – Não o disse em seu momento, mas me alegrei de que me tocasse atender ao jovem Hawkins esta tarde porque isso me deu uma desculpa para não acompanhá-las. Não me parecia correto. Prefiro acabar em uma casa de beneficência antes de fazer uma fortuna à custa das mortes desses valentes moços. – Teremos que encontrar outro modo – replicou Geraldine. – Não vou tomar isso com calma e me esquecer do assunto, nem tampouco vou passar outros dez anos abrindo as pernas para ganhar os feijões, que saiba Bridget. Não digo que não acabe fazendo-o, mas não antes que encontremos a esse tipo e lhe demos seu castigo. Assim que o faça, a prostituição não me parecerá tão desagradável, embora não recuperemos nem um penny de nosso dinheiro. Mas me conte, Rachel, que tal lhe foi? Encontrou algo? Ambas a olharam com expressão esperançada. – Temo que nada de valor – respondeu com uma careta. – Só mais peso. – Rachel encontrou um homem ferido e inconsciente no bosque – lhes explicou Phyllis, – e o trouxe para


casa. Estava nu. – Isso deve ter sido muito emocionante – falou Flossie com interesse. – Verdade, Rachel? Valeu a pena vê-lo? – Certamente, Floss – respondeu Phyllis, – sobre tudo ali onde você já sabe. Impressionante! Está na cama do Rachel, ainda inconsciente. – Também temos a um sargento no apartamento de cobertura – acrescentou Bridget. – Ajudou Rachel a trazer o ferido, mas o pobre estava meio morto. Perdeu um olho na batalha, assim lhe preparamos uma cama. – De modo que agora têm três bocas mais que alimentar – apostilou ela, – e tudo por minha culpa. Se esse jovem oficial tivesse estado vivo, teriam sido capazes de deixá-lo ali para que morresse? Ou teriam feito o mesmo que eu? – Flossie e eu estaríamos discutindo para decidir quem lhe cedia a cama – respondeu Geraldine. – Não se preocupe, Rachel. Já nos ocorrerá o modo de encontrar a esse rufião para recuperar nosso dinheiro. E o seu. Enquanto isso toca-nos fazer de anjos compassivos. Estou desejando começar. – Será melhor que vamos ver os pacientes enquanto temos tempo, Gerry – disse Flossie, ficando em pé. – dentro de nada teremos que começar a nos arrumar para o trabalho. Recorda que temos que ganhar o pão de cada dia. Ao cabo de uns minutos, as cinco debatiam sobre o mistério da identidade do ferido, reunidas em torno de sua cama e sem lhe tirar a vista de cima. Não havia forma de descobrir quem era, é obvio. Mas todas estavam de acordo em que se tratava de um cavalheiro. Um oficial. Em primeiro lugar, porque havia indícios de que ia a cavalo quando o feriram. Tanto o corte como o golpe que tinha na cabeça não eram feridas próprias de alguém que caíra enquanto caminhava pelo bosque. Encaixavam melhor com uma queda de um cavalo. Em segundo lugar, havia outros pequenos detalhes, como o fato de que tivesse as mãos suaves e as unhas bem cuidadas, tal como assinalou Flossie. Seu corpo tampouco mostrava sinais de sofrer abuso algum, salvo as feridas recentes. Não tinha marcas de chicotadas nas costas que sugerissem seu status de soldado raso, apontou Bridget. Seu cabelo escuro estava cortado na moda, acrescentou Rachel, embora nesse momento ficasse virtualmente oculto sob a bandagem. Tinha um nariz proeminente, aristocrático, segundo Geraldine, embora o detalhe não fosse concludente na hora de determinar sua posição social. Rachel o velou durante toda a noite, embora não houvesse nada a fazer salvo olhá-lo e lhe tocar as faces e a fronte de vez em quando para comprovar se tinha febre; buscar o pulso no pescoço; e escutar as alegres conversas procedentes do piso de baixo, que mais tarde foram substituídas por outros ruídos muito diferentes que provinham dos quartos. Nessa ocasião a incomodaram. Mas não podia esgrimir uma superioridade moral com respeito a suas amigas e tampouco julgava o modo com o qual tinham escolhido para ganhar a vida, no hipotético caso de que tivessem escolha. Não a culparam pelo que tinha passado, embora destrambelharam e jogaram pestes sobre o senhor Crawley, com quem ela tinha abandonado Bruxelas poucos dias antes. Estavam-na mantendo com o pouco


dinheiro que lhes tinha ficado e continuariam fazendo-o, sem dúvida alguma, com o dinheiro que estavam ganhando nesse momento e com o que ganhariam nos dias e nas noites vindouras. Enquanto isso, ela levava a existência de uma dama ociosa, sem contribuir em nada. Talvez devesse emendar esse detalhe, disse-se. Não estava para o trabalho de se aprofundar no assunto nesse momento, apesar de que a única distração que apresentava essa noite de vigília era o homem que estava na cama. Supôs que, em circunstâncias muito distintas, seria muito bonito. Tentou imaginar-lhe com os olhos abertos e o rosto animado, mas sem a atadura na cabeça. Tentou imaginá-lo que diria, o que lhe contaria sobre si mesmo. Subiu algumas vezes ao apartamento de cobertura para ver se o sargento Strickland necessitava de algo, mas o encontrou dormido em todas as ocasiões. Que imprevisível era a vida, pensou. Depois de sofrer uma infância e uma adolescência precárias por culpa de um pai que não parava de apostar e que apenas se mantinha um passo por diante de seus credores, depois de aceitar um emprego como dama de companhia de lady Flatley quando ele morreu (um emprego espantoso, diga-se de passagem), poucos dias antes acreditou ter encontrado a segurança econômica e a felicidade no papel de noiva de um homem que merecia seu respeito e sua lealdade. Inclusive seu afeto. Entretanto, aí estava, tão solteira como o dia que nasceu, vivendo em um bordel enquanto velava a um ferido anônimo e perguntando-se o que seria de sua vida. Bocejou e ficou adormecida na cadeira.


CAPÍTULO 3

A dor o alagou e tentou escapar dele afundando-se uma vez mais no bendito esquecimento da inconsciência. Mas lhe foi impossível. De fato, a dor era tão intensa que nem sequer era capaz de localizar sua origem, embora estivesse seguro de que grande parte procedia da cabeça. Em realidade lhe doíam até as pestanas. Embora tivesse as pálpebras fechadas, sabia que havia luz porque via um brilho alaranjado. Muita luz. Inclinou a cabeça para fugir dela, mas sentiu que uma dor lacerante lhe atravessava o crânio e o deixava paralisado. Só o atávico instinto de sobrevivência evitou que lançasse um alarido, o que pioraria ainda mais a situação. – Está despertando – disse uma voz. Uma voz feminina. – Acha que deveria trazer os sais e pô-los debaixo do nariz, Bridget? – perguntou outra voz feminina. – Não – respondeu a primeira voz. – Não queremos despertá-lo de repente, Phyll. A dor de cabeça que vai sofrer será descomunal. Já o sofria, corrigiu-a para si mesmo. "Descomunal" era pouco. – Isso quer dizer que vai sobreviver? – escutou que perguntava uma terceira voz feminina. – Passei a noite e o dia temendo que morresse. Está tão branco como o travesseiro. Inclusive tem os lábios brancos. – O tempo o dirá, Rachel – respondeu uma quarta voz, rouca e sedutora. – A ferida da cabeça o terá feito perder muito sangue. São as piores para as hemorragias. É um milagre que tenha sobrevivido. – Não falemos de sangue, peço-lhe por favor, Gerry – disse uma das mulheres. Estava às portas da morte? Perguntou-se Alleyne com certa surpresa. Continuava estando em perigo de morte? De verdade se referiam a ele? Abriu os olhos. A intensa luz fez que desse um pulo e entrecerrasse os olhos. Viu quatro rostos observando-o de cima, todos inclinados sobre ele. O que tinha mais perto, a um palmo como muito, estava muito maquiado, com os lábios e as faces de um vermelho intenso, os olhos perfilados de negro, as pestanas obscurecidas e as pálpebras pintadas de azul céu. Era o rosto de uma mulher que tentava aparentar dez anos menos e fracassava estrepitosamente. Um rosto emoldurado por uns cachos acobreados pintado com mechas escarlates e laranjas. Desviou o olhar para outra das mulheres, uma beleza morena de aspecto latino envolta em seda esmeralda, com um elegante penteado ondulado, e penetrantes olhos negros. O atrativo de seu rosto ficava ressaltado por um sutil uso dos cosméticos. Tinha um antiquado lunar com forma de coração na comissura direita dos lábios. Junto a ela se encontrava uma mulher mais baixa, de curvas voluptuosas e rosto com forma de coração, rodeado por um halo de cachos castanhos. Esses enormes olhos azuis de olhar honesto se beneficiavam de um ligeiro toque de cor na pálpebra


superior. O quarto rosto, gordinho, atraente, e também maquiado, estava emoldurado por um brilhante cabelo castanho claro. Era ligeiramente consciente da presença de uma quinta pessoa ao pé da cama, agarrada a um dos postes, mas não se atrevia a mover a cabeça para olhá-la. Além disso, já tinha visto mais que suficiente para chegar a uma conclusão desconcertante. – Morri e fui ao céu – murmurou, fechando os olhos uma vez mais. – E o céu é um bordel. Ou é que o inferno é um lugar cruel? Porque temo que não estou em condições de me aproveitar de minha boa sorte. As risadas satisfeitas das mulheres lhe provocaram tal agonia que recebeu a inconsciência com os braços abertos. Tinham acertado ao supor que era um cavalheiro, pensou Rachel enquanto velava ao desconhecido outra noite mais, já que tinha dormido quase todo o dia a insistência do Bridget antes de ajudar na cozinha e de trocar, junto com o Geraldine, as vendagens ao sargento Strickland. A tarefa não era apta para espíritos diminutos. O sargento insistia em levantar-se, mas tal como Geraldine lhe tinha explicado, já não estava com seus soldados e não poderia lhes dirigir mediante gritos e juramentos. A partir desse momento teria que se ver com cinco mulheres, que eram muitíssimo mais temíveis que toda uma companhia de soldados. Depois da diatribe, o sargento acabou recostando-se mansamente sobre os almofadões. Durante o breve lapso de consciência, o homem misterioso tinha falado com uma dicção própria de um cavalheiro. Talvez fosse um oficial ferido na batalha. Talvez tivesse familiares em Bruxelas que esperavam com ansiedade notícias da sorte que lhe tinha cabido. Que irritante era não poder lhes dizer que estava bem, embora isso ainda estava por ver-se, pensou Rachel ao mesmo tempo em que se levantava pela décima vez para lhe tocar a fronte, que sem dúvida estava mais quente que antes. Ainda podia morrer dessa espantosa ferida na cabeça, uma feia brecha que deveriam lhe ter costurado, mas que continuava aberta, e um galo do tamanho de um ovo. Podia morrer se o assaltava a febre como acontecia a tantos e tantos homens depois de passar pela faca do cirurgião. Ao menos não lhe tinham amputado a perna. Deveria subir nas pontas dos pés ao apartamento de cobertura para dar outra olhada ao sargento Strickland. Tinha ouvido dois homens abandonar a casa durante a última hora, mas as outras duas damas deviam continuar ocupadas. Talvez devesse descer à cozinha e preparar chá para todas. Sem dúvida estariam cansadas e famintas depois da jornada trabalhista. Era surpreendente a rapidez com a qual se estava adaptando ao lugar. Ou fazia algo nesse mesmo momento ou acabaria dormindo outra vez na cadeira. De repente, percebeu que o ocupante da cama se movera ligeiramente. Ficou muito quieta e suplicou em silêncio que vivesse, que se recuperasse das feridas, que abrisse os olhos. Por estranho que parecesse, sentia-se responsável por sua vida. Se ao menos sobrevivesse, pensou, talvez poderia perdoar-se a si mesma por ter ido ao bosque para fazer algo tão sórdido. Porque se não tivesse ido, não o teria encontrado. Ninguém o teria feito... e ele teria morrido quase com total segurança. Acabava de convencer-se de que tinha imaginado o movimento quando o desconhecido abriu os olhos e cravou a vista no teto com expressão desorientada. Ela ficou de pé de um salto e se inclinou sobre a cama, de modo que o homem não tivesse que girar a cabeça para olhá-la. Seus olhos se moveram e se cravaram nela ajudados pela luz da vela que tinha às costas. Eram escuros e a convenceram de que tinha acertado em outra


questão: era muito bonito. – Sonhei que estava no céu e que o céu era um bordel – disse o homem. – E agora estou sonhando que estou no céu com um anjo loiro. Acho que eu gosto mais desta versão. – Fechou os olhos e esboçou um sorriso. Tinha senso de humor. Sim, senhor. – Valha-me Deus! – replicou ela, – asseguro que é um paraíso muito terrestre. Continua lhe doendo muito? – Bebi todo um barril de rum? – perguntou ele. – Ou sobre a cabeça me fiz isso de outra maneira? – Golpeou a cabeça – respondeu. – Acredito que caiu de um cavalo. – Grande estupidez de minha parte – disse. – Que vergonha se for certo. Nunca caí de um cavalo na vida. – Tinham-lhe disparado na perna – lhe explicou. – Montar a cavalo deve ter sido muito difícil e doloroso. – Tinham me disparado na perna? – Franziu o cenho e abriu os olhos. Moveu as duas pernas e soltou um impropério muito grosseiro antes de desculpar-se. – Quem me disparou? – Suponho que um soldado francês – respondeu. – Espero que não fosse um de seu próprio lado. Seus olhos se cravaram nela. – Não estamos na Inglaterra, não é verdade? – quis saber. – Estou na Bélgica. Havia uma batalha. Ela se deu conta de que tinha as faces avermelhadas pela febre. E também se apreciava em seus olhos, muito brilhantes à luz da solitária vela que brilhava no aposento. Virou-se para a bacia cheia de água que havia na mesinha de noite, escorreu o pano que havia dentro e o passou pelas faces e pela testa. Escutou-o suspirar, agradecido. – É melhor não pensar nisso – lhe aconselhou. – Mas estou segura de que lhe agradará saber que ganhamos a batalha. Certamente seguia em pleno apogeu quando deixou o fronte. O desconhecido a olhou com o cenho franzido um momento antes de voltar a fechar os olhos. – Receio que tem um pouco de febre – lhe disse. – A bala seguia alojada em sua coxa e um cirurgião teve que extraí-la. Por sorte, tudo se fez enquanto estava inconsciente. Acho que deveria beber um pouco de água. Me deixe ajudá-lo a endireitar-se para que possa beber do copo. Não lhe será fácil, já que tem um espantoso galo na cabeça. E uma brecha. – Dá-me a impressão de que o galo tem o tamanho de uma bola de criquet – comentou. – Estou em Bruxelas? – Sim – respondeu, – o trouxemos de volta à cidade. – A batalha. Agora o recordo – seguiu ele com o cenho franzido. Mas não acrescentou nada mais. Não estava segura de querer escutar os detalhes mais mórbidos. Ajudou-o a beber uns goles de água embora a dor de levantar a cabeça devia lhe ser insuportável. Em seguida, recostou-o sobre o travesseiro com muito tato, enxugou o fio de água que lhe corria pelo queixo e apertou novamente o pano úmido sobre sua fronte. – Tem família na cidade? – perguntou-lhe. – Algum amigo? Alguém que espere notícias sobre a sorte que correu?


– Eu... – Olhou-a uma vez mais com o cenho franzido. – Eu... Não estou certo. Tenho alguém? – Nós adoraríamos lhes dizer que está a salvo, que se encontra em Bruxelas – explicou. – Embora talvez toda sua família esteja na Inglaterra. Se o desejar, amanhã posso escrever uma carta por você. O que o desconhecido disse a seguir a pilhou totalmente despreparada: – Quem demônios sou? – perguntou. Teve a sensação de que era uma pergunta retórica. Embora de qualquer forma a deixou gelada. O desconhecido, por sua parte, voltava a estar inconsciente. Já era de dia quando voltou a despertar, embora não tinha passado toda a noite mergulhado no esquecimento da inconsciência. Sabia que a febre lhe tinha ocasionado momentos de intenso calor seguidos de outros que o tinham deixado tiritando de frio. Sabia que tinha estado sonhando e que tinha tido umas estranhas alucinações (das quais não recordava nenhuma). E também que tinha gritado em várias ocasiões. Sabia que alguém o tinha estado velando toda a noite, que lhe tinha estado refrescando o rosto com panos úmidos, tampando-o com mantas para mantê-lo quente, obrigando-o a beber água e lhe murmurando palavras de consolo. Entretanto, despertou totalmente desorientado. Onde demônios estava? Tinham-lhe disparado na perna, recordou, e tinha sofrido uma queda do cavalo que lhe sacudiu todo o corpo e que lhe provocou uma terrível comoção. Tinham-no recolhido e o tinham levado a um bordel, onde viviam ao menos quatro prostitutas pintadas e um anjo loiro. Tinha-lhe subido a febre tinha tido alucinações toda a noite. Talvez todo o anterior fora um sonho sem pés nem cabeça. Abriu os olhos. O anjo não era produto de sua imaginação. Estava-se levantando da cadeira que havia junto à cama para inclinar-se sobre ele. Notou o toque frio de sua mão na testa. Seu cabelo era um halo do loiro mais puro e sua tez, pálida e de faces rosadas. Seus olhos, de um incerto tom esverdeado, eram enormes e tinham pestanas vários tons mais escuras do que seu cabelo. Tinha os lábios carnudos e o nariz reto. Não era magra nem gordinha. Tinha umas proporções perfeitas e era muito feminina. Seu aroma era adocicado, embora não distinguia perfume algum. Era a mulher mais formosa que tinha visto na vida. Acabava de apaixonar-se, disse-se meio em brincadeira. – Sente-se melhor? – perguntou-lhe o anjo. Que também vivia, se não se equivocou, no bordel. Isso a convertia em uma...? – Tenho uma dor de cabeça colossal – lhe respondeu, concentrando-se em sua condição física. Algo muito simples quando sua condição pedia a gritos que lhe prestasse atenção. – É como se me houvessem recolocado todos os ossos do corpo à força, e nem me atrevo a mover a perna esquerda. Tenho muito calor, mas também estou tremendo. Incomoda-me a luz. Salvo por esses detalhes sem importância, acredito que sim me sinto melhor. – Tentou lhe sorrir, mas experimentou uma pontada de dor a um lado da cabeça, onde teria a brecha, sem dúvida alguma. – fui um mal paciente? Acho que sim.


Viu-a sorrir. Tinha os dentes muito brancos e direitos. O sorriso suavizou seu olhar e aumentou seu atrativo, já que sua beleza era patente. Também lhe deu um ar travesso e brincalhão. Certamente que se apaixonou. Até as sobrancelhas. Estava preso a ela. Claro que passou a noite refrescando-o e lhe murmurando tolices enquanto ardia de febre. Que homem com sangue nas veias não estaria preso? Sobre tudo quando a moça em questão tinha o rosto de um anjo. Além disso, ainda continuava delirando. – Nem pensar – lhe assegurou ela, – salvo pelo fato de que tem o feio costume de me mandar ao inferno cada vez que tento lhe levantar a cabeça para que possa beber água. – Não! De verdade demonstrei semelhante falta de cavalheirismo? – perguntou. – Peço-lhe desculpas. Ainda continuo pensando que estou morto e fui ao céu, onde me atribuíram um anjo da guarda só para mim. Se estou equivocado, poderia me beijar para despertar. A moça riu entre dentes, coisa que não afetou a sua dolorida cabeça; mas, por desgraça, não aceitou o convite. Nesse momento entrou na habitação outra pessoa. Era a beleza latina de cabelo negro e olhos penetrantes que tinha visto ao recuperar a consciência. Viu-a deixar uma bacia de água limpa, apoiar as mãos em seus generosos quadris (postura pensada para ressaltar tanto os quadris como seus peitos) e olhá-lo de cima abaixo muito devagar. Deu-lhe a sensação de que esses olhos atravessavam as mantas. – Ah, com os olhos abertos e um pouco de cor nas faces está para comê-la – disse a recém chegada, – embora acredite que estará melhor quando o tiver liberado da bandagem. Olhe que pensa que foi ao céu e descobriu que é um bordel...! Grande sorte a sua! É hora que deite-se e descanse um pouco, Rache. Bridget diz que esteve acordada toda a noite. Agora fico eu. Por acaso necessita que lhe troque a bandagem da coxa? A julgar pela expressão de seus olhos, soube que gostava do que via. Fez uma careta enquanto o olhava. Essa manhã não se maquiou, mas o halo de sensualidade que a envolvia proclamava sua profissão aos quatro ventos. Ele pôs-se a rir, mas deu um pulo de dor e se arrependeu de ter sucumbido ao descarado flerte, por conta das consequências para sua cabeça. – Só vou enxaguar lhe o rosto uma vez mais para descer a febre, Geraldine – disse o anjo de cabelo loiro. Tinha-a chamado Rachel ou Rache. – Depois sairei um momento. Porque estou cansada. Mas também deve estar você. A beleza de cabelo negro, Geraldine, encolheu os ombros, lhe piscou um olho com descaramento e levou a bacia de água suja. – Estou em um bordel? – perguntou. Tinha que está-lo, até que não deveria havê-lo perguntado em voz alta a julgar pelo rubor de Rachel. – Não lhe cobraremos pelo uso da cama – respondeu com certa tensão. Supôs que essa era sua maneira de lhe dizer que sim. O que a convertia em uma... Percorreu o quarto com o olhar. Estava decorado com bom gosto em bege e dourado, sem rastro de escarlate. A cama era relativamente estreita... Embora supôs que seria bastante larga para cumprir com o encargo


atribuído. Deu-se conta de que era o quarto de uma mulher. Viu escovas, potes e um livro na penteadeira. – É seu quarto? – perguntou-lhe. – Não enquanto você continue nele. – Olhou-o nos olhos com as sobrancelhas arqueadas. Estava zangada. – E sim, vivo aqui. – Nesse caso, peço-lhe perdão – disse. – Tirei-lhe a cama. – Não tem por que desculpar-se assegurou ela. – Ao fim e ao cabo não a exijo, não é verdade? Nem sequer a pediu. Trouxe-o aqui depois de encontrá-lo no bosque. O sargento que me ajudou, que ajudou aos dois, também está aqui, deitado no apartamento de cobertura. Perdeu um olho na batalha e sofre muito mais do que está disposto a admitir. A perda do olho foi especialmente dolorosa porque por sua causa o licenciaram do exército e essa é a única vida que conhece desde que tinha treze anos. – Encontrou-me no bosque? No bosque do Soignes? Que demônios estaria fazendo ali? Recordava vagamente as ensurdecedoras descargas da artilharia, mas por mais que o tentava não recordava nenhum detalhe concreto da batalha. Travou-se contra as tropas de Napoleão Bonaparte e levava forjando-se vários meses, até aí alcançava. Devia ter participado da luta. Mas por que se internou no bosque? E por que o tinham abandonado seus homens? Estava sozinho? Claro que se o tinham ferido na batalha, por que não tinha procurado atenção médica no fronte? – Pensei que estava morto – explicou ela ao mesmo tempo em que molhava o pano na água fresca e o escorria antes de levá-lo à fronte. – Se não me tivesse detido para tocá-lo, não me teria dado conta de que continuava vivo. Teria morrido ali atirado, sem dúvida. – Então estou em dívida com você – disse – e também com o sargento a quem as agradecerei em pessoa assim que possa. – De repente lhe ocorreu algo e sentiu um imenso alívio, sobre tudo tendo em conta que havia algo muito mais importante que a batalha e que não podia recordar. – O que fez com meus pertences? Antes de responder, enxaguou e escorreu o pano algumas vezes. – Tinham-lhe roubado – respondeu. – Tudo. – Tudo... – Olhou-a sem dar crédito. – Tudo! A roupa também? Viu-a assentir com a cabeça. Mãe do amor formoso! Tinha-o encontrado nu? Entretanto não foi a vergonha o que o levou a fechar os olhos e a apertar os dentes, esquecendo por um momento a dor que o gesto ia provocar lhe. Sentia que o pânico ia tomando conta dele e ameaçava consumi-lo. Queria afastar os lençóis, saltar da cama e fugir do quarto. Mas aonde iria? O que faria? Procurar sua identidade? Não restava nada que o pudesse ajudar a recordar. – Acalme-se – disse – acalme-se. Caiu do cavalo e levou um golpe na cabeça bastante forte para lhe provocar uma comoção. A dor que sentia era prova disso. Tinha sorte de continuar vivo. Certamente teria um galo do tamanho de uma bola de criquet na cabeça. Devia dar a seu cérebro uma oportunidade para esclarecer-se. Devia dar tempo ao inchaço para que baixasse, tempo a suas feridas para que sarassem. Devia dar tempo à febre para que desaparecesse por completo. Não havia pressa. Nesse mesmo dia, ou no dia seguinte, ou no seguinte,


recuperaria a memória. – Como se chama? – perguntou ela ao mesmo tempo em que pressionava o pano contra a face. – Vá para o inferno! – exclamou, e ao logo abriu os olhos para olhá-la contrito. A moça estava mordendo o lábio inferior enquanto o observava com olhos como pratos. – Sinto muito... – Desculpe-me... Disseram ao uníssono. – Não recordo nada – admitiu com voz cortante, esmagando deliberadamente o pânico que sentia. – Não deve preocupar-se por isso. – Sorriu-lhe. – Logo recuperará a memória. – Maldição! Nem sequer sei como me chamo. Essa espantosa realidade lhe contraiu o estômago como se alguém o estivesse apertando com força. Lutou contra as náuseas ao mesmo tempo em que a agarrava os pulsos. Era consciente de que lhe doíam os braços. Percebeu que tinha o direito coberto de feridas e arranhões. – Está vivo – recordou ela, inclinando-se um pouco – e está consciente de novo. Baixou-lhe bastante a febre. Foi um milagre que não fraturasse nenhum osso ao cair. Bridget diz que vai viver e eu confio em sua palavra. Dê um pouco de tempo. Logo recordará tudo. Até esse momento, deixe que sua mente descanse ao mesmo tempo em que seu corpo. Se puxasse um pouco ela, pensou, acabaria beijando-a depois de tudo. Que ideia mais absurda quando protestavam todos e cada um dos ossos do corpo! Se a beijasse, com certeza descobriria que também lhe doíam os lábios. – Devo-lhe a vida – lhe disse. – Obrigado. As palavras ficam muito curtas algumas vezes. A moça escapou de suas mãos com supremo cuidado e voltou a empapar o pano. – É uma delas? – perguntou de repente enquanto fechava os olhos ante o assalto de uma nova onda de náuseas. – É uma...? Trabalha aqui? Durante um momento só se escutou a destilação da água. Tomara pudesse retirar a pergunta. – Estou aqui, não? – respondeu ela, de novo com voz severa. – Não parece... É diferente das outras – comentou. – Está dizendo que elas parecem prostitutas e eu não? – quis saber. O tom de sua voz deixou claro que a tinha ofendido. – Suponho que sim – respondeu. – Desculpe-me. Não deveria ter perguntado. Não é de minha incumbência. Ela pôs-se a rir baixo, embora o som não foi agradável muito menos. – Esse é meu maior atrativo – declarou, – que pareço inocente, que pareço uma dama. Sou como um anjo, tal como você mesmo me disse. Necessitam de mulheres de todo tipo para que um bordel tenha êxito. Os homens têm gostos muito variados no referente às mulheres cujos favores estão dispostos a comprar. Eu ofereço o refinamento e a ilusão da inocência. Fingir inocência me dá muito bem, não acha? Eu que o diga, pensou.


Quando abriu os olhos, viu que estava Sorrindo enquanto secava as mãos com uma toalha. Era um sorriso que encaixava com a voz que estava usando: não de todo agradável. – Peço-lhe perdão de novo – disse. – Parece que só consegui insultá-la desde que recuperei a consciência. Espero que este comportamento tão pouco cavalheiresco não seja próprio de mim. Perdoa-me? Por favor? Sentia a cabeça como um globo a ponto de estalar. A dor palpitante da perna parecia seguir o ritmo de um tambor. Além disso, havia um sem-fim de dores que reclamavam sua atenção com menor insistência. – É claro – assegurou ela. – Mas não acredito que esta profissão seja vergonhosa nem degradante. Nem acredito que minhas companheiras... prostitutas sejam menos humanas ou menos importantes que qualquer outra mulher. Virei logo. Geraldine cuidará de você enquanto isso. Tem fome? – A verdade é que não – respondeu. Tinha a ofendido, pensou depois que se fosse. E tinha todo o direito do mundo a estar zangada com ele. Se não fosse por ela, a essas alturas já estaria morto. Suas amigas tinham lhe aberto as portas de sua casa. Tinha renunciado a seu quarto por ele. Estavam cuidando dele as vinte e quatro horas do dia. Poderia ter saído muito pior para ele se o tivesse encontrado uma dama respeitável. De fato, qualquer dama se teria posto a gritar e se teria posto a correr, ou se teria desmaiado ao ver seu corpo nu e o teria deixado a sua sorte. Imaginou a cena e riu entre dentes, embora isso voltou a lhe provocar náuseas. E com elas voltou o pânico. E se não recuperasse a memória?


CAPÍTULO 4

A cozinha estava inundada de deliciosos aromas quando Rachel desceu depois da sesta para ver se podia ajudar em algo. Phyllis estava removendo a sopa que se cozia em uma enorme panela. O pão recém assado e um bom número de bolachas de passas esfriavam em uma das grelhas. A água fervia no bule desentupido, que estava sobre um dos fogões. – Dormiu bem? – perguntou-lhe Phyllis. – Todas estão no quarto de William. Seja boa e prepare o chá, quer? – Levaremos ele ao apartamento de cobertura e tomaremos ali. Continua dormindo o outro pobrezinho? Não tinha entrado para comprová-lo. Ainda lhe envergonhava um pouco o que o tinha feito acreditar: que formava parte do bordel, que trabalhava com Bridget, Phyllis e as outras duas. Entretanto, estava irritada consigo mesma por sentir-se envergonhada. E também a irritavam as perguntas que lhe tinha feito. Essas mulheres a tinham acolhido quando não tinha nenhum outro lugar aonde ir. Tinham acolhido a ele. Que interessava que fossem prostitutas? Eram boa gente. O sargento Strickland se converteu no preferido de todas. Embora tivesse perdido um olho e também seu emprego, negava-se a deixar-se levar pela autocompaixão. De fato, havia custado a vida convencê-lo de que devia guardar cama durante alguns dias mais para que suas feridas sarassem por completo. Rachel lhe tinha muito carinho, já que ele tinha ajudado a um estranho com feridas muito mais graves que as suas. – Não estará tão mal uma vez que a órbita sare e ponha uma venda – estava dizendo Bridget quando entrou no quartinho do apartamento de cobertura com a bandeja do chá, seguida de Phyllis, que levava um prato de fatias de pão com uma camada generosa de manteiga. Bridget tinha limpado a ferida e estava lhe colocando uma nova atadura ao redor da cabeça. – Acabo de perder o apetite – disse Phyllis. – Vai parecer um pirata, Will – assegurou Geraldine, – embora me pareça que não foi bonito em sua vida, não é verdade? – Certamente que não, moça – respondeu ele com uma alegre gargalhada. – Mas ao menos tinha dois olhos com os quais servir no exército. Isso é o que fiz desde que era uma criancinha. Não sei fazer outra coisa. Mas já encontrarei algo para ganhar o pão. Sobreviverei. – É obvio que sim – concordou ela, inclinando-se para lhe dar uns tapinhas em uma de suas grandes mãos. – Mas vai ficar um par de dias mais na cama. É uma ordem. Eu mesma o meterei nela se tentar mover-se. – Não acredito que o consiga – replicou ele, – mas certamente que tentará com todas suas forças. Sinto-me um pouco ridículo aqui deitado tendo em conta que só perdi um olho. Mas há um momento me levantei para ver


como ia a esse pobre homem que trouxemos e quando cheguei à escada descobri que tremia como uma folha, assim tive que dar a volta. É por estar tanto tempo deitado. – Ah, pão recém feito! – exclamou Flossie. – Nossa Phyll é a melhor cozinheira do mundo. Está desperdiçando seus talentos sendo puta. – Deveria ajudá-la a levar essa bandeja tão pesada, senhorita – disse o sargento ao Rachel. – Mas temo que acabaria me grudando contra a mesa e pondo a todo mundo perdido de chá fervendo. Amanhã estarei melhor, é claro que sim. Por acaso não necessitarão dos serviços de um homem forte cuja aparência já era bastante feroz antes de ver-se obrigado a pôr uma venda no olho e que agora assustaria mesmo ao demônio? Talvez para vigiar a entrada enquanto estão ocupadas com seu trabalho e pôr de quatro na rua qualquer um que não se comporte como é devido. – William, de verdade quer se rebaixar a porteiro de bordel depois de ter sido sargento do exército? – perguntou-lhe Bridget antes de dar uma dentada a uma fatia de pão com manteiga. – Não me importaria até centre, por dizê-lo de algum jeito – respondeu. – Me conformaria com um prato de comida e esta cama como pagamento. – O que se passa, Will – falou Geraldine, – é que temos pensado partir o antes possível. Agora que os exércitos partiram e até mesmo a maioria dos visitantes que chegaram à cidade para fazer companhia, o negócio se estancou. Temos que voltar para casa e, quanto antes o façamos, melhor. Nos propusemos apanhar a um malfeitor para despedaçá-lo e estamos dispostas a persegui-lo até o fim do mundo. – Levou todo o dinheiro que conseguimos economizar durante quatro anos de duro trabalho – explicou Bridget. – E queremos recuperá-lo. – Entretanto – declarou Geraldine, – ele nos interessa mais que o dinheiro. Esse inseto mentiroso e traiçoeiro... – Ele roubou as economias? – perguntou o sargento com expressão carrancuda enquanto aceitava o prato com duas enormes fatias de pão com manteiga que Phyllis lhe oferecia. – E pensam ir atrás do ladrão? As acompanharei. Deixará de rir assim que me veja, asseguro – isso. Já me encarregarei de que não se esqueça de meu rosto na vida. Aonde se foi? – Esse é o problema – respondeu Bridget com um suspiro. – Estamos quase certas de que partiu para a Inglaterra, mas não sabemos exatamente aonde, William. Inglaterra é muito grande. – Bridget e Flossie escreveram a todas as companheiras do ramo que sabem ler – disse Geraldine. – Certamente alguma delas dará com ele, mas mesmo se não for assim o encontraremos. Embora demoremos um ano em fazê-lo. Ou mais. Só necessitamos de um plano. – O que necessitamos, Gerry – a corrigiu Flossie com brusquidão enquanto Rachel servia o chá, – é dinheiro. Se formos percorrer a Inglaterra, nos fará falta muitíssimo. E se formos estar de um lado para outro, não poderemos continuar trabalhando. – É possível que a perseguição não nos sirva de nada e que jamais recuperemos nossas economias – sentenciou Phyllis. – De modo que teremos gasto muito dinheiro sem ganhar nada. Possivelmente fosse mais


sensato deixar as coisas como estão, ir a casa e começar a economizar de novo. – Mas, Phyll – protestou Geraldine, – é uma questão de princípios! Por minha parte, não estou disposta a deixar que se vá sem mais. Esse inseto acredita que pode fazê-lo simplesmente porque somos putas. Com o resto de suas vítimas não se mostrou tão desdenhoso. Segundo Rache, tirou dinheiro a lady Flatley e a outras damas, mas disse que era para obras de caridade. É muito possível que nunca cheguem a inteirar-se de que se meteu o dinheiro no bolso e não vai soltá-lo. Mas jamais nos mencionou suas obras de caridade. Limitou-se a levar tudo e ainda por cima lhe agradecemos! Por isso me ferve o sangue. Porque riu que nós! – Sim – reconheceu Phyllis. – Temos que lhe dar uma lição, embora acabemos pedindo pelas esquinas. – O que precisamos é de dinheiro – repetiu Flossie, dando batidinhas na borda de seu prato com um dedo. – Muito dinheiro. Isso sim, não sei como vamos conseguir... além da forma mais óbvia, claro. – Tomara pudesse dispor de parte de minha fortuna – disse Rachel com veemência. As batidinhas cessaram e todo mundo a olhou com interesse. – Tem uma fortuna, Rache? – perguntou Geraldine. – É sobrinha do barão Weston por parte de mãe – disse Bridget. – Minha mãe me deixou suas joias – prosseguiu ela. – Mas não poderei tomar posse delas até dentro de três anos, quando completar os vinte e cinco. Sinto muito havê-las mencionado, porque agora mesmo não nos servem de nada. Durante os próximos três anos serei a mais pobre das cinco. – Onde estão? – quis saber Flossie. – Em algum lugar onde possamos agarrá-las? Porque não seria como se as roubássemos, não é? São tuas! – Cobertas com capas e máscaras, e com adagas nas orelhas enquanto sobem pela hera da fachada ao amparo da escuridão de uma noite fechada? – interveio Geraldine. – Estou imaginando isso... nos diga onde estão, Rache. Limitou-se a voltar a rir enquanto meneava a cabeça. – Não tenho a menor ideia – respondeu. – Só sei que as tem meu tio, mas não sei onde as guarda. Evidentemente, existia um modo de possuir as joias antes de cumprir os vinte e cinco anos, mas dada a situação era irrelevante. – E o que se passa com o homem que descansa abaixo? – perguntou o sargento Strickland. – Tinha eu razão ou não? É um aristocrata? – É um cavalheiro, sim – respondeu ela. – Quem é? – perguntou o sargento. – Não o recorda – respondeu. O sargento estalou a língua. – O golpe na cabeça o deixou sem memória, não é? – disse ele. – Pobre homem. Mas se for um aristocrata, sua família estará buscando-o, asseguro isso. Inclusive é possível que alguns familiares continuem aqui em


Bruxelas em vez de haver partido nas primeiras mudanças como fizeram muitos. Com certeza estarão dispostos a lhes entregar uma generosa recompensa por havê-lo salvado e cuidado. – Mas e se nunca recordar quem é? – perguntou Phyllis. – Poderíamos pôr um anúncio com sua descrição em todos os periódicos belgas e londrinos – sugeriu Bridget. – Embora isso nos levaria tempo e nos custaria muito dinheiro. E talvez sua família não queira nos pagar. – O que poderíamos fazer é ocultar seu paradeiro quando pusermos o anúncio e... – Geraldine fez uma pausa, – pedir um resgate. Dessa forma podemos exigir mais que se quiséssemos uma simples recompensa. Retê-lo não será problemático, não? Ao fim e ao cabo não tem mais roupa que a camisa de dormir que Bridget encontrou. Não poderá fugir a menos que queira arriscar-se a que o vejam correndo nu pela rua. Além disso tampouco pode sair correndo de qualquer jeito com a ferida que tem na perna. E, aonde ia? Nem sequer sabe como se chama... – Eu poderia me encarregar de que não escapasse ofereceu o sargento. – Quanto podemos pedir? – perguntou Bridget. – Cem guinéos? – Trezentos – sugeriu Phyllis. – Quinhentas – a corrigiu Geraldine, agitando uma mão no ar de modo que parte do chá se derramou no pires. – Eu não me conformaria com menos de mil – sentenciou Flossie. – Mais os gastos. Nesse momento todos explodiram em gargalhadas, incluída ela. Sabia, é obvio, que não estavam falando a sério no que se referia ao sequestro. Apesar de sua curtida aparência, todas tinham um coração de ouro. O fato de que não tivessem sido capazes de roubar aos mortos do campo de batalha o tinha deixado muito claro. – Enquanto isso – prosseguiu Phyllis, – teremos que lhe tirar a camisa de dormir para lhe dificultar a fuga. – E amarrá-lo aos postes da cama – acrescentou Flossie. – Aos quatro. – Ai, Deus, vai ter um desmaio! – exclamou Geraldine, abanando o rosto com a mão que antes se agitava no ar. – Não poderemos nem tampá-lo com os lençóis, não é? Poderia atá-lo e escapar pela janela e, uma vez na rua, amarrá-lo como se fora uma toga romana. Ofereço-me voluntária para fazer turnos duplos e vigiá-lo dia... e noite. – Enfim, terei que ficar com vocês – disse o sargento. – Vão necessitar de meus músculos para levantar os sacos com o dinheiro do resgate. – William, seremos ricas! – exclamou Flossie, meneando a cabeça de modo que seus cachos se agitaram em todas direções. Todos explodiram de novo em gargalhadas. – Agora a sério – disse Rachel quando o ataque de hilaridade passou, – sua perda de memória poderia acabar sendo um problema grave, sobre tudo porque demorará um tempo em voltar a andar. Não saberá aonde ir e vocês estão ansiosas por voltar para a Inglaterra logo. Eu também estou. – Poremos ele de quatro na rua assim que estejamos prontas para partir, Rache – afirmou Geraldine.


Não falava a sério, claro. Todas sabiam que seriam incapazes de abandoná-lo sem mais. Se pudesse ter acesso a sua fortuna, pensou, poderia fazer muito mais além de financiar a busca de Nigel Crawley, coisa que no fim de contas era uma ideia descabelada. Poderia devolver a suas amigas tudo o que tinham perdido; poderia lhes devolver seu sonho. Poderia ajudá-las a deixar esse emprego e a levantar os olhos respeitáveis que todas ansiavam. Poderia aliviar os remorsos de ter sido a culpada de que perdessem tudo. E, é obvio, conseguiria ser independente. Entretanto, sonhar era uma tolice, concluiu com um suspiro. – Vou ver que tal está o paciente – disse ao mesmo tempo em que se punha em pé e deixava a xícara e o pires na bandeja. – Talvez esteja acordado e necessite de algo. Quando voltou a despertar pela tarde, Alleyne estava sozinho. Sentia-se bastante melhor, embora não se atrevia a mover a cabeça nem tampouco a perna esquerda. Supôs que a febre tinha cedido. Decidiu que se mostraria alegre e despreocupado quando uma das mulheres entrasse no quarto, de modo que ensaiou o que lhe diria. "Ah, boa tarde!", começaria. "me permita me apresentar. Sou..." Entretanto, apesar de sua mente limpa, ao sorriso que esboçou e ao gesto de sua mão, continuou sem encontrar o esquivo nome. Que ridículo era haver-se esquecido de seu próprio nome! Que sentido tinha ter sobrevivido no último instante para ver-se obrigado a viver sem saber quem era? Não obstante, era absurdo que começasse a curvar-se desse modo, decidiu enquanto tocava a atadura que tinha em torno da cabeça em um esforço por localizar o galo e comprovar seu tamanho. A porta do quarto se abriu nesse momento e apareceu o anjo loiro. Rachel. Embora já não pudesse chamá-la assim. – Ah, já despertou! – exclamou. – Vim antes, mas estava dormindo. Quando lhe devolveu o sorriso, descobriu que o gesto já não supunha uma agonia. Decidiu falar antes de pensar melhor e perder a coragem. – Acabo de despertar – disse. – Boa tarde. Me permita me apresentar. Sou... Como era de esperar, acabou olhando-a com expressão idiota e a boca aberta, como um peixe que alguém tivesse tirado do lago para sustentá-lo pela cauda. Apertou com força a mão direita, que descansava sobre a capa. – Encantada de conhecê-lo, senhor Smith – replicou ela com uma breve gargalhada enquanto se aproximava com a mão direita estendida. – Jonathan Smith, há dito? – Talvez seja lorde Smith – aventurou ele, obrigando-se a rir entre dentes. – Ou Jonathan Smith, conde Não sei quê. Ou Jonahan Smith, duque de Não sei de onde. – Deveria chamá-lo "Excelência"? – perguntou com olhar risonho. Aceitou a mão que lhe oferecia e exibiu de sua suavidade; do delicado aroma de limpeza que a rodeava. Era para agradecer que o animasse a rir de si mesmo. Por que não? Ao fim e ao cabo, o que outra alternativa tinha? Sustentou sua mão com mais firmeza e a levou aos lábios. Viu-a morder o lábio inferior ao mesmo tempo em que ela desviava o olhar. Caramba! Certamente que representava o papel de inocente.


Nenhuma mulher tinha direito a ser tão bela. – Talvez seja melhor que não o faça – lhe disse. – Seria humilhante descobrir ao cabo de um tempo que não sou nenhum duque, um simples cavalheiro. Tampouco acredito que me chame Jonathan nem que tenha o sobrenome de Smith. – Então, se é um simples cavalheiro sem título, posso chamá-lo "senhor" seco? perguntou-lhe, Sorrindo de novo enquanto escapava de sua mão e se inclinava sobre ele para desatar a atadura da cabeça. Sem tocá-lo, examinou o dano que ele mesmo se tinha feito. – A ferida já não sangra, senhor. Acho que já podemos deixá-la ao ar. Se gostar, é obvio... senhor. Esses olhos esverdeados o olharam com um brilho alegre quando se endireitou. Era agradável voltar a sentir o ar na cabeça. Ergueu uma mão para passar os dedos pelo cabelo e descobriu muito a seu pesar que estava gordurento e que necessitava de uma lavagem com urgência. – Devo ser senhor Fulanito, verdade? – perguntou-lhe. – Seria uma excentricidade não ter nome. Que mãe batizaria a seu filho com o nome de Senhor? Claro que não posso ser um cavalheiro de alta linhagem, como um duque ou um conde. Se fosse assim, não estaria lutando nessa batalha. Devo ser o caçula da família. – Mas o duque de Wellington participou da batalha – lhe recordou. Seus olhos pareciam mais verdes que castanhos, talvez por causa da cor do vestido. Estava olhando-o com dissimulação, embora tivesse a impressão de que também o fazia com certa compaixão e ternura. Era absurdo sentir-se ligeiramente perturbado por sua proximidade, pensou, e se perguntou se poria olhos de cordeirinho degolado a todas as desconhecidas formosas com quem se cruzava. Além de absurdo, era ridículo. Tinha a sensação de que lhe tinha passado um elefante por cima. – Sim, é claro! – exclamou, estalando os dedos de uma mão. – Talvez esse seja eu. Mistério resolvido. Tenho nariz, certamente. – Mas se for assim – objetou ela e nesse momento percebeu pela primeira vez do detalhe mais delicioso de seu rosto: tinha uma covinha junto à comissura esquerda da boca, – todo mundo estaria buscando-o. Recorda a batalha de Waterloo? Acho que lhe puseram esse nome. Tinha enrolado a atadura e a deixou nesse momento junto à bacia. Sentou-se na cadeira, embora se inclinasse um pouco para que continuasse sentindo sua proximidade. De repente, ele caiu na conta de que talvez fosse uma profissional e estivesse tentando seduzi-lo de forma deliberada. Se fosse assim, estava-conseguindo. – Sim, lembro. – Franziu o cenho e tentou recordar algo. Algo, mas foi em vão. – Ao menos sei que a batalha teve lugar. Lembro os tiros de canhão. Eram ensurdecedores. Não, eram muito pior que isso. – Sim, sei – afirmou ela. – Escutamos eles daqui. Como sabe que seu nariz se parece com a do duque do Wellington? Olhou-a encantado. – Parece-se? – perguntou-lhe.


Ela assentiu com a cabeça. – Geraldine diz que é um nariz aristocrático. Observou-a enquanto ficava em pé e atravessava o quarto para uma cômoda. Tinha uma figura incrivelmente feminina de curvas voluptuosas que era muitíssimo mais atraente que a de muitas mocinhas magras em excesso que exemplificavam os cánones de beleza vigentes. Entretanto, devia ser muito jovem ou, ao menos, aparentava-o. Viu-a abrir uma das gavetas e depois se virou para ele levando um espelho na mão. Olhou o objeto com receio e umedeceu os lábios com nervosismo. – Não tem por que olhá-lo tranquilizou, embora o aproximasse de qualquer forma. – Sim, devo fazê-lo. – Estendeu um braço e agarrou o espelho com cautela. E se não reconhecesse o rosto que estava a ponto de ver? De certo modo seria muito mais aterrador que não recordar seu nome. Mas sabia que tinha um nariz grande e ela o tinha confirmado. Ergueu o espelho e se olhou. Estava branco como a cera. Devia ter o rosto muito mais afilado e consumido do que o normal. Como resultado, seu nariz parecia mais proeminente. Tinha o cabelo emaranhado e gordurento. As faces e o queixo estavam cobertos por uma barba em toda regra. Tinha os olhos ligeiramente avermelhados e debaixo deles se apreciavam escuras olheiras. Seu aspecto era o de um doente descuidado, mas conhecia esse rosto. Era o seu. Nesse momento se teria posto a chorar pelo alívio. Mas quando se olhou nos olhos, procurando respostas em suas profundidades, só encontrou um vazio infinito e a impenetrável barreira do anonimato. Era como olhar-se a si mesmo e, ao mesmo tempo, ver um estranho. – É estranho que não tenha saído gritando do quarto – disse enquanto ela voltava a sentar-se. Percebeu que o fazia como uma dama, com as costas reta e sem tocar o espaldar da cadeira. – Pareço um malfeitor perigoso... com fobia à água. – Acho que necessitaria de uma pistola em uma mão e uma faca na outra para ser convincente – falou ela ao mesmo tempo em que inclinava a cabeça e o olhava de novo com expressão risonha. – Graças a Deus que não temos pistolas na casa e que Phyllis guarda com zelo as facas de cozinha. É o rosto que esperava encontrar? – Mais ou menos – respondeu, lhe devolvendo o espelho, – embora acredite que costumo ter um aspecto menos desalinhado. Entretanto, continua sendo um rosto sem nome. Assim será melhor que me arrume com o que há. Jonathan Smith a seu serviço. O senhor Smith, sem título de nobreza. – Senhor Smith – repetiu ela com uma alegre gargalhada. – Sou Rachel York. – Senhorita York. – Inclinou a cabeça e imediatamente desejou não havê-lo feito. – Encantado de conhecê-la. Olharam-se uns instantes antes que ela ficasse de novo em pé e o surpreendesse sentando-se na borda do colchão para lhe tocar a ferida. Era muito consciente da delicada pele que deixava à vista o atrevido decote quadrado de seu vestido, adornado com uma extremidade bordada. Era muito consciente do sutil aroma de sabão e de seu cabelo loiro, que à luz da tarde parecia um halo dourado recortado contra a janela. Conteve o fôlego até que se deu conta de que não poderia fazê-lo indefinidamente.


A beleza dessa mulher o afetava. O fazia pensar em lençóis enrugados, extremidades entrelaçadas e corpos suarentos. Só ele podia ter a má sorte de acabar em um bordel sem levar um penny sequer... – O corte está sarando muito bem – lhe disse. Notou o fresco toque de seus dedos, que não lhe fizeram o menor dano. – E isso porque o cirurgião não o costurou. O galo está baixando, mas ainda continua aí. – Confirmou-o tocando-o com deliciosa suavidade. E nesse momento descobriu que o estava olhando e não precisamente às feridas, mas aos olhos e de muito perto. Sua expressão já não era risonha, mas sim terna e compassiva. – Dê tempo para recuperar-se – disse. – Recordará tudo. Prometo isso. Uma promessa absurda, já que concernia a um aspecto de sua vida que escapava por completo a sua vontade. Mas a promessa o reconfortou de qualquer forma. Enquanto o olhava umedeceu o lábio superior, de comissura a comissura, com a língua. Em seguida se ruborizou e ficou em pé. Por um instante ele se perguntou se voltava a ter febre. Já não se expunha se a moça havia se proposto seduzi-lo de forma deliberada. Estava claro que sua forma de paquerar era muito mais sutil que a de suas companheiras, as quais se comportavam com mais atrevimento e descaramento com ele. Entretanto, era um flerte em toda regra. Sim, estava ferido gravemente e mal podia mover-se sem sofrer uma dor angustiante, mas não estava morto. Era capaz de reagir a um estímulo sexual embora não pudesse atuar como desejava e ela tinha que ser idiota para não sabê-lo. Não acreditava que tivesse um só fio de tola. – O deixarei descansar – disse sem olhá-lo nos olhos. – Se não houver muito trabalho, voltarei logo. Alguém lhe trará o jantar. Deve ter fome. Uma vez que a moça se foi, fechou os olhos. Mas lhe foi impossível conciliar o sono. Sentia-se sujo, desconfortável, inquieto, faminto e... Maldita seja! Estava meio excitado! Precisava lavar-se e barbear-se. Mas de repente compreendeu que nem sequer tinha um pente nenhuma navalha de barbear. De algum modo, a falta desses insignificantes utensílios lhe recordou a magnitude do problema no qual se encontrava. Nem sequer tinha dinheiro para comprá-los. Nem um mísero quarto de penny. Que demônios ia fazer se não recuperasse a memória? Vagar nu pelas ruas de Bruxelas até que alguém o reclamasse? Entrar em algum quartel com a esperança de que alguém o reconhecesse ou de que algum oficial tivesse sido declarado desaparecido em combate? Ridículo... Haveria dezenas de desaparecidos em combate a quem ninguém teria reclamado. Nesse caso, teria que recorrer a uma embaixada. Entraria em uma embaixada e pediria que localizassem uma família de classe alta com um filho ou um irmão desaparecido. Talvez o caçula da família. Havia alguma embaixada em Bruxelas? Acreditava recordar que havia uma em La Haja, mas quando tentou se recordar, foi incapaz de obter algum dado pessoal. Qual era seu regimento? E se posto? Pertencia à cavalaria ou à infantaria? À artilharia possivelmente? Tentou imaginar-se com seus homens em meio a uma carga da cavalaria, ou liderando um avanço da infantaria. Mas foi


em vão. Sua imaginação era incapaz de despertar lembranças reais. "Voltarei logo", havia dito a senhorita York... "Se não houver muito trabalho." Torceu o gesto. Onde levava a cabo seu trabalho se ele estava ocupando seu quarto? Não era de sua incumbência. Como tampouco o era a moça. Mesmo assim, estava em dívida com ela e não lhe ocorria o modo de lhe pagar. Além disso, era uma mulher espantosa e ele se estava comportando como um colegial encantado e excitado com seu primeiro amor. A partir de amanhã, disse-se com firmeza, me esforçarei por plantar os pés no chão (figurativamente falando, já que fisicamente é uma impossibilidade) e me recuperar. Estava farto de sentir-se indefeso. Amanhã recordarei tudo, decidiu. Certamente que sim.


CAPÍTULO 5

Rachel não retornou ao quarto nesse dia. Tinha confirmado uma vez mais o incômodo poder que tinha sobre os homens. Sabia que a consideravam bela embora lhe teria encantado se a pontuassem meramente de atraente. Entretanto, o espelho lhe dizia que era verdade. Além disso, os homens ficavam observando-a com velada (e não tão velada) admiração durante anos. Nenhuma só vez tinha decidido utilizar esse poder. Justamente o contrário, de fato. Apesar da descuidada educação que tinha recebido das mãos de um pai que sempre tinha vivido na corda frouxa, à beira da pobreza, com períodos transitivos de grande abundância cada vez que a sorte lhe sorria nas mesas de jogo, tinha crescido como uma dama e as damas não faziam alarde de sua beleza. Sem esquecer que o tipo de cavalheiros que tinha conhecido antes da morte de seu pai, seus companheiros habituais, distavam muito de serem pessoas com as quais quereria ter uma relação de qualquer tipo. Desde a morte de seu pai, desde que passara a ocupar a posição de dama de companhia de lady Flatley, tinha tentado que seu aspecto físico passasse inadvertido. Uma das coisas que mais tinha gostado em Nigel Crawley era que nunca fizera menção de sua beleza. Porque parecia admirá-la como pessoa. Nada mais longe de sua intenção que despertar a admiração do ferido. Só queria mostrar sua preocupação e seu apoio. Entretanto, sua reação física tinha sido evidente, igual à tensão que tinha vibrado entre eles ao inclinar-se sobre a cama. Grande estupidez a sua! A simples ideia de estar a sós com um homem em um dormitório deveria escandalizá-la. De modo que sentar-se em sua cama, inclinar-se sobre ele, lhe tocar a fronte e olhá-lo nos olhos... Tinha sido extremamente insensato. E francamente tinha que admitir que ele não tinha sido o único em reagir à proximidade física. Ela também se havia sentido muito perturbada. Sim, estava ferido e não podia fazer nada, mas continuava sendo um homem jovem e bonito. E incrivelmente viril. Uma ideia que lhe provocou um súbito rubor. Manteve-se afastada de seu quarto até a manhã seguinte, momento em que lhe pareceu mais seguro entrar porque estava cheia de gente. As damas tiveram a noite livre, como costumavam fazer uma vez na semana, de modo que tinham madrugado e estavam muito animadas. Phyllis levou ao senhor Smith o café da manhã e ficou com ele para conversar. Bridget e Flossie chegaram vinte minutos depois, armadas com uma camisa de dormir limpa, ataduras novas, água quente, panos e toalhas. Geraldine levou o café da manhã ao sargento Strickland, que continuava no apartamento de cobertura, porque queria perguntar se lhe prestaria ao senhor Smith os utensílios de barbear. Tinham decidido chamar "senhor Smith" ao homem misterioso. Quando terminou de lavar os pratos e de recolher a cozinha, já estavam todos no quarto do doente, incluído o sargento. Ficou na porta, observando a cena enquanto escutava a conversa. – Confesso que me sinto cinco quilos mais leve... – estava dizendo o senhor Smith.


– Não, que sejam seis. A graxa do cabelo tinha que pesar ao menos um quilo. – Já lhe disse que seria tão cuidadosa como sua mãe, querido – disse Bridget com descaramento enquanto dobrava a toalha. – Com certeza diz isso a todos – replicou ele. – Só aos jovenzinhos – assegurou Bridget. – Não lhe diria isso em circunstâncias normais. – Em realidade – prosseguiu ele, e Rachel viu que estava Sorrindo e desfrutando lindamente, – ontem à noite recuperei a memória e recordei que sou um monge. Fiz votos de pobreza, castidade e obediência. – Com esse corpo? – perguntou Geraldine no mais puro estilo melodramático e com os braços na cintura. – Que desperdício! – Eu gosto do voto da obediência – confessou Phyllis. – Um monge muito bonito e pobre em um bordel – comentou Flossie. – Faria chorar a mais pintada. – Estará mais bonito ainda sem essa barba – disse Geraldine. – Pedi a navalha ao Will, mas insistiu em descer comigo. – Um rival? – perguntou o senhor Smith ao mesmo tempo em que levava uma mão ao peito. – Acaba de me destroçar. Todos estavam se divertindo, era indiscutível. Todos flertavam. Tomara ela pudesse ser tão descarada. Suas amigas estavam vestidas com simplicidade, sem maquiagem nem penteados elegantes nem vestidos decotados. As quatro eram muito formosas e pareciam muito mais jovens vestidas dessa maneira. – Apresento-o ao sargento William Strickland – disse Geraldine. – Feriram-no na batalha. – Perdi um olho, senhor – declarou o sargento. – Ainda não me acostumei a ver com um só, mas tudo se arrumara. – Ah... – disse o senhor Smith estendendo a mão, – você deve ser o sargento que ajudou à senhorita York a me salvar a vida, não? Não sabe quanto o agradeço. O sargento olhou a mão estendida com evidente confusão e lhe deu um rápido apertão ao mesmo tempo em que executava uma reverência forçada. – Queríamos que nos emprestasse sua navalha de barbear, não sua pessoa completa, William – disse Flossie. – Deveria estar na cama. – Não me dê bronca, moça – replicou o aludido. – Não posso ficar na cama todo o dia. Deveria estar de volta com meus homens, mas o exército não me quer com um olho a menos. – Já me estou imaginando isso: seus homens partindo para o oeste enquanto você, meu querido William, vai para oeste porque estão em seu lado cego – zombou ela. – Não lhes serviria de nada, não lhe parece? E em vingança quer fatiar o pescoço do senhor Smith, não? Pois me deixe lhe dizer que seria terrível perder a um jovem tão encantador. Me ocorrem coisas muito mais interessantes para fazer com ele – concluiu, lançando um olhar lascivo ao senhor Smith. – Se alguém tiver a bondade de me ajudar a me endireitar na cama – interveio o dito – acho que me barbearei


sozinho. – Algo que tenha que ver com as camas é de minha competência – afirmou Geraldine. – Saia do meio, Will. – Claro que se em realidade sou um duque – aventurou o senhor Smith, que encolheu ligeiramente quando Geraldine o ajudou a endireitar-se e lhe colocou os almofadões atrás das costas, – é provável que nunca tenha feito isto e esteja a ponto de me cortar o pescoço do mesmo modo que o teria feito o sargento Strickland. – Que nos pegue confessados! – exclamou Phyllis, que afastou Geraldine com uma cotovelada. – Não quero escutar nenhuma só menção ao sangue. Barbeei a muitíssimos homens ao longo de minha vida. – Sobreviveram todos? – perguntou ele com um sorriso. – Quase – respondeu Phyllis. – Mas estiveram de acordo em que seria uma maravilhosa forma de morrer. Olhe este queixo, Gerry. Viu algum tão viril e firme? Pelo amor de Deus, está para comer... Justo nesse momento os risonhos olhos do senhor Smith se cravaram em Rachel, que continuava na porta. O olhar alegre continuou, mas pareceu ficar extasiado um instante, detalhe que indicou que seus sentimentos para ela eram diferentes aos que albergava por suas amigas. De repente, ficou sem fôlego e muito morta de calor. O senhor Smith estava muito pálido; o asseio e a conversa o tinham deixado exausto e estava quase segura de que sofria dor de cabeça. Entretanto, com a camisa de dormir limpa, o cabelo úmido e esse sorriso picasse, estava muito bonito. No dia anterior lhe tinha dado uma impressão equivocada, disse-se enquanto Phyllis lhe ensaboava o queixo e fazia um floreio no ar com a navalha de barbear. Não deveria haver-se sentado com tanto descaramento na cama. Entretanto, quando os outros abandonaram o quarto uns dez minutos mais tarde, ainda rindo e de muito bom humor, foi ela quem ficou para correr as cortinas e impedir que o sol entrasse em torrentes. Depois se aproximou da cama e alisou os lençóis embora Bridget o tivesse feito antes de ir-se. Ele a estava observando. Tentava dissimular o sorriso, mas seus olhos o delatavam. – Bom dia – saudou-a. – Bom dia. – Descobriu que sentia um súbito impulso de acanhamento. – Salta à vista que está cansado. E que lhe dói a cabeça. – Estou cansado de não fazer nada. – O sorriso desapareceu e foi substituído por uma expressão muito mais sombria. – Esta manhã despertei apavorado, rebuscando uma carta nos bolsos que não tenho. – Que carta? – inclinou-se ligeiramente sobre ele e franziu o cenho. – Não tenho a menor ideia. – Levantou uma mão e tampou os olhos. – Era um sonho sem sentido ou era um retalho de informação que tentava atravessar a névoa? – Era uma carta dirigida a você ou você a dirigia a outra pessoa? – perguntou ela por sua vez. Escutou-o suspirar ao cabo de uns momentos e viu que tirava a mão dos olhos. – Não tenho a menor ideia – repetiu, mas tinha recuperado o sorriso. – Mas não esqueci tudo. Você é a


senhorita York. A senhorita Rachel York. E eu sou Jonathan Smith, um senhor normal e comum. Viu que boa memória tenho quando se trata de coisas que aconteceram estes últimos dias? Ele estava tomando a brincadeira, mas compreendeu de repente que a perda de memória constituía para ele uma ferida mais grave que as outras, muito mais óbvias. Embora sua intenção não fosse a de ficar com ele, sentou-se de todas maneiras depois de aproximar a cadeira à cama. Supôs que o terror ainda seguia latente a pesar da demonstração de humor matinal. – O que lhe parece se recapitularmos o que sabemos sobre você? – sugeriu. – Sabemos que é inglês. Sabemos que é um cavalheiro. Sabemos que é um oficial. Sabemos que lutou na batalha do Waterloo. – Estava contando com os dedos. Tocou o polegar. – Que mais? – Sabemos que sou um mau cavaleiro – acrescentou ele. – Caí do cavalo. Isso quer dizer que não pertenço à cavalaria? Talvez nunca tinha cavalgado antes desse momento. Talvez roubei o cavalo. – Mas lhe dispararam na coxa – recordou-lhe. – A bala continuava alojada ali. Certamente lhe doía muitíssimo, e não parava de sangrar. E estava bastante longe do campo de batalha. Não tem por que ser um mau cavaleiro. – É você muito amável – replicou com um meio sorriso. – Mas quando me feriram por que demônios...? Me perdoe Por que não me levaram meus homens até o médico mais próximo? Por que estava sozinho? por que voltava para Bruxelas? Porque suponho que me dirigia para aqui. Estava desertando? – Talvez tenha família na cidade – aventurou – e estivesse voltando com eles. – Possivelmente tenho uma esposa – disse ele. – E seis filhos. Não havia tornado a pensar nessa questão desde que descobriu que estava vivo. Claro que não tinha por que sentir-se decepcionada ante a lógica possibilidade de que estivesse casado. Talvez estivesse felizmente casado. E talvez tivesse filhos de verdade. – Nesse caso, ela não teria trazido os meninos a Bruxelas – afirmou. – Teria ficado na Inglaterra com eles. Quantos anos tem? – Está tentando me pegar despreparado para que recorde outro detalhe, senhorita York? – replicou ele. – Quantos aparento? Vinte? Trinta? – Algo intermediário, suponho – respondeu. – Nesse caso diremos que tenho vinte e cinco – declarou ele. – Teria que ter sido um homem muito ocupado para ter seis filhos na minha idade. – Sorriu e seu semblante se tornou alegre e travesso apesar da palidez. – Três pares de gêmeos? – sugeriu. – Ou dois pares de trigêmeos. – pôs-se a rir. – Mas não me teria esquecido de uma esposa, não é verdade? Nem de filhos. Ou talvez sejam o motivo de que minha memória tenha decidido tomar umas férias. – Também sabemos que tem um grande senso de humor – declarou ela. – Tudo isto deve ser muito desconcertante para você, mas continua fazendo brincadeiras e rindo-se da situação. – Mmmm, isso já me parece mais interessante – repôs ele. – Tenho senso de humor. É uma peça chave do


quebra-cabeças. Agora poderemos averiguar quem sou. Embora talvez não... Já não restam muitos bufões, não é? Adeus a nossa peça chave. – cobriu os olhos com um braço e suspirou. Olhou-o com pena. Embora não pudesse dizer-se que sua vida tivesse sido alegre, não gostava de despertar um bom dia e descobrir que tudo o que tinha sido, que tudo o que tinha conhecido, apagara-se de sua memória. O que ficaria? – Talvez sou o homem mais afortunado da terra, senhorita York – prosseguiu ele como se lhe tivesse lido o pensamento. – Normalmente nos anima a ver o lado positivo das coisas, inclusive quando acontecem as piores catástrofes, não é assim? Graças a minha perda de memória, não me vejo preso pelo passado nem por suas cargas. Posso ser quem me dê vontade. Posso me reinventar e criar um futuro sem as restrições de um passado. No que acredita que deveria me converter? Embora talvez a pergunta adequada seja em quem deveria me converter. Que classe de pessoa vai ser Jonathan Smith? Essas palavras fizeram que fechasse os olhos e engolisse em seco. Tinha falado com leveza, como se a situação fosse engraçada. A ela, em troca, era-lhe aterradora. – Só você pode decidi-lo respondeu em voz baixa. – Cheguei nu a essa vida que não recordo – disse ele, – e nu cheguei a esta outra. Pergunto-me se quando nascemos também esquecemos tudo o que aconteceu até o momento. William Wordsworth teria tentado nos convencer de que é assim. Tem lido seus poemas, senhorita York? Tem lido Ode à imortalidade? Soa-lhe "Nosso nascer é só dormir e esquecer"? – Pois já sabemos algo mais sobre você – assinalou. – Gosta de ler poesia. – Talvez também a escreva – sugeriu ele. – Talvez vá por aí declamando trechos inúteis e espantosos. Talvez esta morte e meu posterior renascimento sejam o maior favor que jamais tenha feito a meus poemas. Rachel soltou uma gargalhada ao escutá-lo e ele se tirou o braço do rosto e pôs-se a rir também. – Você, é obvio – continuou ele, – caiu do céu pelo buraquinho de uma nuvem. Decidi que é a única explicação possível. Ela riu de novo e baixou a vista enquanto afastava uma bolinha invisível da saia. Ali estava de novo, a sós com ele, experimentando uma vez mais o relutante atrativo de sua masculinidade. Mas ele era um inválido. E ela sua enfermeira. – De modo que tive a sorte de desfrutar de dois nascimentos no transcurso de uma só vida – disse. – Salvo que nesta ocasião não conto com uma mãe que me alimente e me cuide. Estou completamente sozinho. – Não, não, não diga isso – repreendeu-o ao mesmo tempo em que se inclinava para ele. – Nós o ajudaremos em tudo, senhor Smith. Não o abandonaremos. Seus olhares se entrelaçaram. Nenhum dos dois falou durante um momento, mas a tensão crepitou no ar. Voltou a perguntar-se se ela era a culpada e afastou o olhar. – Obrigado – disse ele. – É muito amável. Todas o são. Mas não quero ser uma carga para vocês mais tempo


do que o necessário. Já lhes devo mais do que nuca poderei pagar. A conversa ameaçava tornar-se muito pessoal. – Será melhor que o deixe sozinho – sugeriu. – Estou segura de que precisa descansar. – Fique. – Viu-o estender o braço para ela, mas o deixou em seguida sobre a colcha, antes que pudesse se perguntar sequer se queria que lhe agarrasse a mão. – Se puder, é obvio, e se gosta. Sua presença me reconforta. – pôs-se a rir baixo. – Bom, às vezes. Ficou adormecido quase imediatamente. Nesse momento poderia ter escapulido do quarto. Mas ficou onde estava, olhando-o e perguntando-se quem era, perguntando-se o que faria quando se recuperasse o suficiente e abandonasse a casa. Perguntando-se se era normal sentir uma... uma atração física por um homem a quem tinha salvado a vida. Durante a semana seguinte as feridas da cabeça se curaram o suficiente para que pudesse mover o pescoço sem problemas, sempre que não fizesse movimentos bruscos. E já podia sentar-se durante um bom tempo sem enjoar. As piores equimoses já estavam desaparecendo, igual às dores. A perna se curava mais devagar, pois a bala parecia ter prejudicado algum músculo ou tendão da coxa, e não podia apoiar o peso sobre ela. Geraldine o tinha ameaçado amarrá-lo à cama se o tentasse sequer. – Nu! – tinha acrescentado enquanto saía, lhe arrancando uma gargalhada. Entretanto, estava subindo pelas paredes. Não podia ficar na cama para sempre, debilitando-se dia após dia. De modo que começou a mover a perna e a fazer exercícios com o pé e o tornozelo sob as mantas. Cada vez que ficava sozinho, sentava-se na borda da cama para exercitar a perna de todas as maneiras que lhe ocorriam, sem apoiar o peso sobre ela e sem que lhe fosse excessivamente doloroso. O que necessitava, compreendeu, era de muletas. Mas como ia pedi-las se não podia pagá-las? Sentia-se como um prisioneiro. Se por acaso sua invalidez não fosse suficiente, não tinha nada, nem sequer as camisas de dormir que eram delas. Ansiava comprar roupa, mas não podia sair da casa nem do quarto nu! Ardia em desejos de partir, de sair em busca de pistas sobre sua identidade embora, conforme lhe havia dito Phyllis, a maioria dos ingleses já tinha voltado para casa. Perguntou-se por que seguiam elas ali, já que o lógico era que tivessem ido fazer negócio, aproveitando a presença dos soldados e dos visitantes ingleses. Nesse momento se deu conta de que talvez fosse sua presença o que as retinha em Bruxelas e deu um pulo. De qualquer forma, as damas continuavam com seu trabalho. Quase todas as noites escutava o ruído das farras que corriam no piso de baixo e, mais tarde, outros sons muito mais reveladores na privacidade dos quartos contíguos. Era muito irritante. A quem mais via era Rachel York. Sentava-se a seu lado várias vezes ao dia embora já não necessitava que o velasse constantemente. Costumava levar algum trabalho de costura que a mantinha ocupada enquanto conversavam ou mergulhavam em um agradável silêncio até que ficava adormecido. Às vezes lhe lia o livro que tinha visto na penteadeira, um exemplar das aventuras do Joseph Andrews do Fielding. Foi curioso averiguar que sabia ler... Uma prostituta ilustrada... Tentou com todas suas forças não utilizar essa palavra quando se referia a ela. Era algo muito estranho.


Gostava muito das outras quatro damas apesar de sua profissão. Entretanto, incomodava saber que ela era como as demais. Talvez porque nenhum cavalheiro gostava de admitir que estava apaixonando-se por uma prostituta. Esperava com ânsia cada uma de suas visitas. Gostava de olhá-la e também gostava de escutar sua voz. Gostava de seus silêncios. Gostava de sua capacidade para excitá-lo e fazer que se sentisse com excesso de sangue. Entretanto, não havia tornado a flertar com ele de forma tão descarada como a tarde que se sentara na cama para lhe tocar o galo. Talvez tivesse interpretado mal a situação, disse. Talvez só houvera tensão sexual de sua parte, talvez excitara-o sua beleza, sua proximidade e sua compaixão. O sargento Strickland tinha tomado o costume de passar por seu quarto algumas vezes ao dia para ver se necessitava de algo. – A situação é a seguinte, senhor – disse um dia sem necessidade de que o perguntasse, – já estou bastante recuperado para partir. A verdade é que tampouco estava tão mal para ter que ficar, mas as damas me trataram como se estivesse em meu leito de morte, para que nos entendamos. E agora que estou bem, não tenho a coragem de partir. Aonde vou? Ser soldado é o único ofício que conheço. – Entendo-o perfeitamente – lhe assegurou. – Estive dando voltas à ideia de acompanhar às damas quando voltarem a Inglaterra – prosseguiu Strickland, – como uma espécie de guarda-costas. Deveriam ter um, senhor, porque são damas e as damas devem ir acompanhadas de um homem, embora haverá quem se negue a referir-se a elas assim. Mas não sei se de verdade me necessitam ou desejam minha companhia. Todos os dias levava água limpa, a navalha de barbear e se oferecia a barbeá-lo, embora sempre recusava a oferta e o fazia ele mesmo. Estava se barbeando uma manhã quando o sargento lhe fez outra proposta. – Suponho que não necessitará de um criado de quarto, não é, senhor? – perguntou com um suspiro lastimoso. – Há mulheres de sobra para atender suas necessidades, mas nenhum homem. Todo cavalheiro deveria ter um criado de quarto. – Sargento Strickland – replicou com ironia, – você tem seus próprios utensílios de barbeado e talvez alguma ou outra coisa mais além do uniforme e das botas. Talvez inclusive algumas moedas no bolso. Eu não tenho onde cair morto. O sargento voltou a suspirar. – Bom, se mudar de ideia, senhor – disse, – suponho que ficarei alguns dias mais. Poderíamos chegar a algum acordo. Um cego guiando a outro cego, pensou depois de que Strickland voltasse para sua habitação do apartamento de cobertura. Ou o caolho que guiava ao coxo, para ser mais exato. Começava a temer (em realidade, era um pânico espantoso que o paralisava por completo) que jamais recuperasse a memória. Podia existir alguém sem passado? Tinha valor humano uma pessoa que não sabia quem era? Que valor ou que importância tinha o que tivesse feito na vida se bastava uma queda para apagar tudo? A quem tinha deixado atrás com tanta efetividade como se tivesse morrido? Quem chorava por ele? Era uma tolice, sabia, mas desejou que Rachel York estivesse a seu lado. Desejou que, como se fosse sua mãe, desse-lhe um beijinho na ferida para lhe aliviar a dor. Embora certamente não


pensava nela como em uma mĂŁe. Conseguiria umas muletas como fosse, decidiu, e roupa. NĂŁo ficava mais remĂŠdio que sair dali.


CAPÍTULO 6

As damas estavam ansiosas e impaciente por voltar para casa. Estavam desesperadas por seguir a pista ao reverendo Nigel Crawley. A determinação de enfrentar a ele, de castigá-lo e recuperar seu dinheiro, não tinha minguado nem um ápice. Afirmaram que não iriam permitir que se fosse tão tranquilo depois de cometer semelhante delito... e depois de ter rido delas, por muito imunes aos enganos dos homens que se acreditaram. Flossie e Bridget tinham escrito a todas conhecidas que sabiam ler e escrever, mas tinham especificado que enviassem as respostas a Londres já que a princípio não esperavam atrasar-se tanto em Bruxelas. Estavam ansiosas por descobrir se alguém lhes tinha respondido. Uma tarde, aproveitando que o sargento Strickland estava com o senhor Smith, mantiveram uma reunião na cozinha. Primeiro tinham que atar alguns cabos soltos. Todas menos Rachel contavam com numerosos conhecidos entre a população masculina de Bruxelas. E Flossie e Geraldine tinham muito bom olho para medir a um homem, literalmente, sem necessidade de recorrer a uma fita métrica. Fizeram uma lista com a roupa que necessitaria o senhor Smith para poder mover-se com liberdade pela casa até que pudesse partir e se comprometeram a conseguir os trajes necessários. Phyllis afirmou conhecer alguém que lhes daria, ou ao menos lhes emprestaria, umas muletas. Entretanto, tinham que resolver um problema muito mais urgente antes de poder partir. – Ainda não recorda absolutamente nada do acontecido antes de despertar na cama de Rachel, não é? – perguntou Geraldine. – De modo que nem podemos mandá-lo a nenhum lugar nem tem nenhum lugar onde ir. – De qualquer forma – assinalou Phyllis, – ainda não pode nem andar. – E estará tão fraco como um recém-nascido depois de passar mais de uma semana na cama – acrescentou Bridget. – É um homem encantador – disse Flossie com um suspiro, – mas as vezes eu adoraria mandá-lo a passeio. – Se pudesse retroceder no tempo e fazer as coisas de outra maneira – replicou Rachel, – o deixaria na Porta do Namur. Certamente alguém o estava procurando. Teriam reconhecido que era um oficial assim que tivesse recuperado a consciência e alguém se teria ocupado de descobrir sua identidade. Entretanto, tinha sido incapaz de abandoná-lo. E não suportava que o tratassem como se fosse uma carga. – Minha mãe, é muito bonito! – exclamou Phyllis com um suspiro. – Estou a ponto de me apaixonar por ele. – A todas passa o mesmo, Phyll, mas não é só por seu físico, não é? – perguntou Geraldine. – Tem esse brilho malicioso nos olhos. Não, não se arrependa de tê-lo trazido aqui, Rachel. Não invejo os dez dias que passou o pobre aqui... Nem os do Will Strickland tampouco.


– Mas temos que fazer algo com eles, Gerry, e logo – insistiu Flossie. – Não podemos ficar aqui para sempre. Quero tanto a Inglaterra que estou a ponto de me pôr a chorar. – Alguma sugestão do que podemos fazer com o senhor Smith? – perguntou Bridget. – Poderíamos sair à rua – sugeriu Phyllis – e ir de porta em porta perguntando se alguém perdeu a um belo cavalheiro com olhos maliciosos e nariz aristocrático. Puseram-se a rir. – O problema é que nem todas falamos francês, Phyll – recordou Flossie. – Poderíamos lhe oferecer um trabalho em Londres – sugeriu Geraldine, – e assim poderia trabalhar enquanto nós perseguimos Crawley. – As damas fariam fila para vê-lo e tomariam a rua – assegurou Bridget. – Nossos clientes não poderiam nem aproximar-se da porta quando fossem ver nos. – Poderíamos lhe cobrar um tanto por cento de seus ganhos a modo de aluguel – disse Flossie. – Nos faríamos tão ricas que poderíamos montar duas casas de hóspedes. Menos mal que tinham senso de humor, pensou Rachel enquanto punham-se a rir de novo, porque o futuro se apresentava muito negro. Havia poucas possibilidades de que dessem com o Nigel Crawley; e em caso de que o fizessem, era improvável que recuperassem o dinheiro roubado. Entretanto, sabia que a indignação e o orgulho as obrigariam a persegui-lo e, quando admitissem a derrota e retornassem ao trabalho, estariam endividadas até as sobrancelhas. Menos mal que ao menos podiam rir de si mesmas. Tomara lhe ocorresse algum modo de ajudá-las. Por muito rica que fosse dentro de três anos, nesse preciso momento era mais pobre que os ratos. – Acho que nós estamos esquecendo de algo – interveio. – O senhor Smith perdeu a memória, mas não a inteligência. Está-se recuperando das feridas, e não acredito que lhe faça muita graça ficar na cama e depender de nós muito mais tempo. Talvez não nos corresponda decidir o que fazer com ele. Talvez ele tenha algo que dizer a respeito. – Meu pobrezinho – replicou Phyllis. – Possivelmente tenha que ir de porta em porta perguntando às pessoas. – Pois certamente que ficará na primeira que abra – assegurou Geraldine com um suspiro. – Embora suponha que deveríamos perguntar a ele. – Eu o farei – se ofereceu Rachel. – Farei companhia a ele esta noite enquanto vocês estão ocupadas. Se não lhe ocorrer nada, teremos que voltar a reunimos. Uma vez que resolvamos este problema, poderemos nos concentrar por completo na tarefa de conseguir o dinheiro necessário para perseguir o senhor Crawley. Não gostava absolutamente de referir-se a ele como se fosse um problema. Como tampouco gostava de pensar no dia, muito próximo sem dúvida, que já não as necessitasse e se fosse. – Continuo preferindo a ideia de subir pela trepadeira uma noite fechada para nos fazer com suas joias, Rachel – concluiu Geraldine, fazendo com que todas explodissem em gargalhadas.


Rachel ficou em pé e levou as xícaras vazias e os pratos para lavá-los na pilha. Phyllis lhe levou o jantar e anunciou que teria muletas na manhã seguinte. Quando lhe disse que estava tão contente que poderia beijá-la, a muito descarada se aproximou rebolando da cama e se inclinou com os lábios franzidos para que o fizesse. Pôs-se a rir enquanto a agarrava pela nuca e a aproximava para lhe dar um casto beijo nos lábios. – De onde saíram as muletas? – perguntou-lhe enquanto ela se endireitava e se abanava o rosto com uma mão, pestanejando de forma exagerada. – Não se preocupe – respondeu. – Conheço alguém. Isso foi o mesmo que disse Geraldine mais tarde, quando foi recolher a bandeja da comida e lhe comunicou que logo disporia de roupa... Talvez inclusive na manhã seguinte. – Conhecemos gente – replicou, lhe piscando um olho e adotando sua pose habitual: braços na cintura e busto para fora. Nessa mesma noite escutou como se abria e fechava a porta de entrada e também o murmúrio de vozes masculinas mescladas com as risadas femininas. Todas as noites se jogava cartas, havia-lhe dito Strickland, e as damas faziam de banca e de anfitriãs. Não obstante, havia toque de silêncio à uma, momento no qual elas passavam a sua outra ocupação. Como não tinha sentido dar voltas e voltas a sua situação, entregou-se uma vez mais por analisar a ironia de ter acabado em um bordel e de estar a ponto de converter-se em um homem mantido. Tinha muito claro de onde iriam sair as muletas e a roupa. Era evidente que as damas não iriam comprá-las. Coisa que o tranquilizava, mas também lhe provocava uma sensação muito incômoda se o analisasse em profundidade. Decidiu voltar a rir. Algum dia não muito longínquo, quando recuperasse a memória e retomasse sua vida normal, lançaria o olhar atrás e recordaria esse episódio com um enorme sorriso. Ao menos no dia seguinte já poderia mover-se pelo quarto. Além disso, se chegasse a roupa, inclusive poderia sair. Talvez em poucos dias fosse capaz de ir em busca de sua identidade. Ia ser uma tarefa hercúlea, dado que se encontrava em uma cidade estrangeira e que a maioria dos visitantes ingleses partira, fosse para seguir às tropas até Paris ou para retornar a Inglaterra. O importante era que pôr fim poderia fazer algo. Talvez assim conseguisse controlar o pânico. Como estava aborrecido, agarrou As aventuras do Joseph Andrews, que Rachel York tinha deixado na mesinha de noite. Entretanto, ao cabo de vários minutos descobriu que estava olhando a mesma página sem lê-la e que tinha o cenho franzido. Nessa mesma tarde havia tornado a despertar com a sesta embargada pelo pânico, procurando a carta. Que carta? Maldição! Pensou. Que carta? Intuía que se conseguisse recordar a resposta a essa pergunta, todo o resto retornaria em tropel. Entretanto, a única coisa que retornou foi a já familiar dor de cabeça. Fechou o livro, devolveu-o à mesinha e cravou o olhar no dossel da cama.


Continuava com a vista cravada no teto quando se abriu a porta do quarto. Era Rachel York... e ficou sem fôlego ao vê-la. Usava um simples vestido de noite de cetim azul celeste. Claro que sua beleza não necessitava de nada sofisticado. O decote baixo e a cintura alta ressaltavam seus seios. O suave e leve tecido se amoldava a suas generosas curvas e torneadas pernas. Levava um penteado mais complicado do habitual, formado por trancinhas e cachos recolhidos no alto da cabeça, embora tivesse deixado várias mechas soltas que lhe caíam sobre o pescoço e nas têmporas. Não sabia se o rubor que cobria suas faces era natural ou, se pelo contrário, devia-se aos cosméticos. Fosse como fosse, estava mais encantadora que nunca. Era a primeira vez que a via vestida para trabalhar, pensou. E preferiria de todo coração não havê-lo feito. Nesse momento se deu conta de que chamava as demais por seus nomes de batismo enquanto que a ela sempre se dirigiu como "senhorita York". Não gostava de pensar nela como uma prostituta. – Boa noite – o saudou. – Se sente abandonado? – Mas bem estado parado, como uma baleia na praia – respondeu. – Mas me disseram que amanhã terei muletas e roupa. Não sabe quanto lhes agradeço tudo o que estão fazendo. – Estamos encantadas de lhe ser de ajuda. – Sorriu-lhe. – Não está trabalhando? – quis saber, mas se arrependeu na hora de perguntar. – Esta noite não – respondeu. – vim para lhe fazer companhia um momento. Parece-lhe bem? Apontou a cadeira a modo de resposta e a observou enquanto se sentava com sua elegância habitual. Nesse momento se escutou uma gargalhada procedente do piso inferior e lhe agradou que ela não estivesse ali. – Certamente se alegra de poder mover-se de novo e de recuperar as forças – escutou-a dizer. – Mais do que se imagina – assegurou. – Prometo que não as incomodarei muito mais tempo. Assim que possa me mover com um pouco de agilidade e tenha um pouco de roupa, partirei para descobrir quem sou e aonde pertenço. – De verdade? – perguntou. – Esta mesma tarde estivemos falando de como podíamos ajudá-lo, mas nos ocorreu que talvez você tenha seus próprios planos. O que vai fazer? Como vai tentar averiguar sua identidade? – Ainda devem restar militares na cidade – respondeu, – e algum membro da aristocracia inglesa. Alguém poderia me reconhecer ou recordar que me deram por desaparecido. Se não encontrar respostas em Bruxelas, me arrumarei para ir a Haja. Ali está a embaixada britânica. Ali me ajudarão. Ou ao menos poderão me ajudar a voltar para a Inglaterra. – Ah, de modo que tem feito planos. – Olhou-o com esses maravilhosos olhos esverdeados. – Mas não há pressa. Não é preciso que se sinta obrigado a partir tão cedo. Esta é sua casa durante todo o tempo que a necessite. O desejo o assaltou de súbito e com força. – Nem pensar – recusou. – há a possibilidade de que muita gente tenha estado me procurando e pensando o pior durante as duas semanas que levo aqui sem saber quem sou nem de onde provenho. Embora o pior é que as


retive muito tempo quando é lógico que estejam desejando partir para a Inglaterra. – O tempo nos passou voando – assegurou ela. – foi um prazer para todas nós tê-lo aqui. Sentirei falta de você de quando se for. Um prazer para todas, mas seria ela quem sentiria falta dele. Não lhe escapou a pontuação. Ele também sentiria falta dela. Sem pensar no que fazia, estendeu a mão para ela, que a olhou em silêncio um bom momento. Teria retirado ela se tivesse podido fazê-lo sem que fosse desconfortável. Entretanto, ela acabou aproximando-se para aceitá-la. Sua mão era cálida, de pele suave e dedos finos. Deu-lhe um apertão. – A buscarei – assegurou – e encontrarei a maneira de saldar parte da imensa dívida que contraí com você. Embora não há modo de recompensá-la por me haver salvado a vida. – Não me deve nada – replicou ela. De repente, deu-se conta de que o brilho de seus olhos esverdeados era produto das lágrimas. Deveria lhe soltar a mão e mudar de assunto. Certamente havia um sem-fim de assuntos para conversar sem problemas. Possivelmente deveria lhe pedir que lhe lesse outro capítulo das aventuras do Joseph Andrews. Em troca, apertou-lhe a mão com mais força. – Aproxime-se – disse em voz baixa. Por um instante pareceu desconcertada, e acreditou que ia negar se... o que estaria bem considerando a tensão que reinava no ambiente. Entretanto, viu-a ficar de pé e sentar-se na borda da cama, sem soltar sua mão em nenhum momento. Estava muito perto. O quarto pareceu ficar sem ar. De repente, captou o perfume que sempre associava com ela. – Rosas? – perguntou-lhe. – Gardênias. – Estava-o olhando nos olhos. – É o único perfume que utilizo. Meu pai me dava de presente isso sempre em meu aniversário. Inspirou muito devagar. – Gosta? – escutou-a dizer e de repente lhe ocorreu que estava paquerando com ele desse modo tão sutil. Teria planejado a cena? – Sim – respondeu-lhe. Observou-a lamber o lábio superior com lenta deliberação de uma comissura a outra. O movimento apanhou seu olhar. Tinha os lábios mais suaves e apetitosos que tinha visto na vida... Ou acreditava nisso, porque era impossível que estivesse seguro a respeito. – Senhorita York – disse, – não deveria tê-la convidado para que se aproximasse tanto. Temo que estou a ponto de me aproveitar de sua amabilidade ao aceitar sentar-se a meu lado. Desejo beijá-la. Aconselho-lhe que retorne a sua cadeira ou que saia pela porta se me considerar impertinente ou presunçoso.


Esses encantadores olhos se abriram ainda mais. O rubor de suas faces se intensificou. Seus lábios, ainda úmidos pelo toque da língua, entreabriram-se. Mas não se moveu. "Fingir inocência me dá muito bem, não acha?" Quando lhe disse essas palavras, uns dias antes, acreditou nelas ao pé da letra. Nesse momento estava completamente de acordo. – Não o considero presunçoso – replicou tão baixo que mal era um sussurro. Soltou-lhe a mão e ao agarrá-la pelos braços se deu conta de que tinha a pele de galinha. Esfregou os braços várias vezes e depois insistiu para inclinar-se para frente. Apoiou-se em seu peito quando seus lábios se tocaram. Beijou-a com delicadeza, acariciando os lábios até que os separou. Uma vez que o fez, lambeu-os antes de introduzir a língua para explorar seu úmido e quente interior. Mas, evidentemente, isso não era suficiente. Além disso ela não fez a menor tentativa para pôr fim ao abraço, como tinha suposto que faria. Não se afastou, nem lhe sorriu com malicia antes de partir para atender aos clientes que pagariam. Menos mal! Deixou-se levar um pouco mais, abraçou-a com força e a atraiu para seu peito enquanto a beijava com avidez e explorava com a língua as profundidades de sua boca. Uma das trancinhas se escapou do coque e acabou lhe roçando a face. Era tão fascinante como em sua imaginação, e a relativa inocência do momento não desmereceu sua atrativo nem sua voluptuosa e delicada beleza. Entretanto, era consciente de que tinha começado beijando-o como uma inocente, com os lábios fechados e um pouco franzidos, e que só os tinha separado sob a insistência de sua língua. Era uma mulher incrivelmente excitante. A mescla dessa inocência fingida com a aberta sexualidade que transparecia era assombrosa. Dadas as circunstâncias, era um pouco incômodo estar tão excitado, embora nesse preciso momento lhe fosse igual. Ela se separou ao cabo de uns minutos para olhá-lo com as pálpebras entreabertas e expressão interrogativa. Quando insistiu para a aproximar-se de novo beijou-a com mais ternura e devorou sua boca com deliciosa minuciosidade. No final foi ele quem se afastou, embora lhe custasse à própria vida. – Sinto muito – disse. – Talvez não goste muito disso quando tinha planejado ter a noite livre. Nem sequer posso pagar seus honorários, sejam seis pennies ou cem libras. Além disso, eu gosto de você e jamais me aproveitaria de sua amabilidade. Viu algo parecido à confusão em seus olhos esverdeados e depois algo diferente. Sem dizer nada, inclinou a cabeça para apoiar-se em seu ombro e se recostou de novo sobre ele. Seu cabelo fazia cócegas na sua face e no seu nariz. Semelhante tolice ia custar lhe caro. Rachel York não merecia algo assim depois de tudo o que tinha feito por ele. Se sua amizade, porque tinham feito uma espécie de amizade, sobrevivia ao que ia acontecer essa noite, poderia considerar-se afortunado. Entretanto, antes de enfrentar ao mal -estar que suportava o arrependimento


tinha que lutar com os desconfortos dessa noite. Tinha uma dolorosa ereção. Não tinha nem ideia do tempo que levava sem deitar-se com uma mulher, mas lhe parecia uma eternidade e suspeitava que não lhe valeria qualquer uma. Por todos os demônios! Pensou. Tinha permitido que seu amor por Rachel York chegasse muito longe. Talvez pela falta de atividade com a qual diminuir o tédio e seu excesso de energia. – Não estava pensando em meus honorários – disse ela. – E não acredito que se esteja aproveitando de mim. – Nesse caso, foi justo ao contrário – replicou com uma breve gargalhada, tentando aliviar a situação. – Você estava se aproveitando de mim. – Porque está fraco por causa de suas feridas? – Levantou a cabeça e, sem afastar as mãos de seu peito, olhou-o com expressão angustiada – Fiz isso? Não era minha intenção. Irei embora agora mesmo. Maldição! Pensou. Tinha feito mal com o comentário. Não deveria ter mencionado sua profissão. Era evidente que não estava trabalhando nesse momento. Sabia perfeitamente que não podia lhe pagar. Impediu-a que se afastasse agarrando-a pelos braços. – Rachel – disse, – não vá. Por favor. Só queria me assegurar de que não estava ofendendo-a... mas, de qualquer forma, acabei fazendo-o. Perdoa-me? Assim que a viu assentir com a cabeça, colocou-lhe uma mão na nuca e voltou a puxá-la para beijá-la outra vez. – Quer ficar comigo? – perguntou-lhe contra os lábios. Escutou-a engolir saliva. – Sim – lhe respondeu. – Tem fechadura a porta? – quis saber. – Sim. – Pois passe a chave – lhe disse. – Assim teremos um pouco de intimidade. – Sim – voltou a dizer ao mesmo tempo em que ficava em pé; mas, em lugar de retornar à cama depois de passar a chave, demorou-se uns instantes junto à porta, lhe dando as costas. Caiu na conta de que estava a ponto de fazer amor a essa mulher e de que não se sentia culpado. Acabava de lhe dizer que não estava pensando em honorários, o que significava que desejava estar com ele de verdade. Muito bem, pensou. Se desejavam na mesma medida, passariam bem enquanto estivessem juntos e se despediriam com um sorriso quando chegasse o momento. Ambos teriam entesourado boas lembranças. Entretanto, quando Rachel se virou e viu o intenso rubor que tingia suas faces lhe pareceu que era a moça inocente que às vezes fingia ser... e o intenso desejo que o embargava lhe pareceu ligeiramente imoral.


CAPÍTULO 7

Rachel compreendeu o que tinha feito e o que estava a ponto de fazer quando chegou junto à porta e passou a chave. Tinha percebido que pensava beijá-la e não o tinha detido. Não tinha querido detê-lo. Depois, havia-lhe dito que ficasse e ela aceitou sabendo de suas intenções. Ia deitar se com ela. E lhe havia dito que sim. Acaso estava louca? Tinha perdido por completo o juízo? Apenas o conhecia! De fato, nem sequer sabia seu verdadeiro nome. Dentro de pouco desapareceria de sua vida, iria para sempre apesar de sua promessa de procurá-la algum dia para saldar a dívida que tinha contraído com ela. Achava-a uma prostituta. Pensava que para ela só seria um encontro prazenteiro sem dinheiro no meio. Ainda não era muito tarde. Ainda podia lhe dizer que não, abrir a porta e voar escada acima, para seu quarto do apartamento de cobertura. Entretanto, tinha vinte e dois anos e sua vida tinha carecido por completo de emoções, tanto no âmbito sensual como em todos outros. Os homens que tinha tido a oportunidade de conhecer, incluindo os cavalheiros que cultivavam a amizade de lady Flatley e que a tinham acreditado uma presa fácil pelo mero fato de ser uma espécie de criada, sempre lhe tinham sido recusáveis. E quando escolheu de forma deliberada depois de meditar bem e aceitou casar-se com o senhor Crawley, porque pensava que era diferente a todos outros, descobriu que era um rufião desalmado. Queria fazer o que estava a ponto de fazer. Desejava-o. Desejava fazê-lo com ele, com Jonathan Smith. Não havia ilusões nem promessas. Não havia futuro. Só essa noite. Não suportava a ideia de abrir a porta e partir. Estava certa de que se o fizesse, o passaria resto da vida felicitando-se por ter demonstrado ter bom senso e fingindo não sentir-se arrependida por não ter tido a coragem de fazer o que queria fazer. Esse homem a atraía de forma irresistível. Todos esses pensamentos passaram por sua cabeça rapidamente. Depois, tomou uma funda respiração e se afastou da porta. Talvez se arrependesse no dia seguinte, mas teria tempo para pensar nisso então. O problema, admitiu enquanto o olhava e percebia que o desejo tinha mudado esse belo rosto bronzeado, era que não sabia o que fazer. Se não tivesse abandonado a cama, não teria caído na conta de sua ignorância; mas ali estava, no outro extremo do quarto sem saber o que fazer a seguir. Sorriu-lhe.


– Terá que me ajudar a tirar o vestido e o espartilho – lhe disse. Aproximou-se de novo da cama, sentou-se na borda de costas a ele e inclinou o peito para frente. Ele guardou silêncio, mas sentiu que seus dedos trabalhavam muito com os botões, as forquilhas e as fitas. Ela segurou o vestido e o espartilho sobre o peito quando notou que se abriam pelas costas e sentiu a fresca carícia do ar na pele nua. O toque de suas mãos nos ombros e nas costas, enquanto a despojavam do vestido, provocou-lhe um calafrio. Nesse momento se levantou e soltou o vestido, que deslizou por seu corpo junto com o espartilho até que ambas as roupas ficaram amontoadas a seus pés. Só levava postas a leve regata, que estava grudada ao corpo pelo espartilho, e as meias. Voltou a sentar-se na cama e foi enrolando até passá-la pelos pés. Enquanto isso, ele tirou a camisa de dormir, que acabou no chão sobre seu vestido. Virou-se para olhá-lo. Apesar de ter estado em cama durante duas semanas, pareceu-lhe largo de ombros, musculoso e masculino. Esses penetrantes olhos negros a estavam observando por sua vez e, de repente, a desmedida paixão que vibrava entre eles lhe pareceu muito aterradora. Embora já fosse muito tarde para mudar de ideia. Além disso, o medo ia acompanhado de uma espécie de fascinação, de uma atração entristecedora. – Solte o cabelo – escutou-o dizer. Mas antes que tivesse erguido os braços, lhe imobilizou as mãos. – Não, deixe que eu o solte. Geraldine a tinha ajudado a recolhê-lo quando subiu a sua habitação para conversar um pouco antes que começasse a farra noturna; nada mais a fazer, pegou a escova sem lhe pedir nem sequer permissão. A criação era toda uma obra de arte, e lhe tinha encantado porque queria estar bonita quando descesse para fazer uma visita ao Jonathan. Ele passou o tempo lhe tirando as forquilhas e desfazendo as tranças. Seus rostos estavam muito juntos, já que tinha inclinado a cabeça para frente para lhe facilitar o trabalho, e à medida que seu cabelo ficava solto ia ocultando-a como uma cortina. A tarefa foi interrompida algumas vezes porque Jonathan a aproximou para beijá-la com muita ternura. Nas pálpebras, no nariz e nos lábios. Sentia uma espécie de tensão nos seios que era quase dolorosa. Também sofria uma sensação palpitante no abdômen e entre as coxas, que reconheceu imediatamente como o efeito físico do desejo sexual. Tudo era terrivelmente imoral, pensou. Mas também incrivelmente erótico. Como não lhe soltasse logo o cabelo, acabaria explodindo em chamas. – Receio... – escutou-o dizer por fim enquanto lhe desenredava as longas mechas com os dedos e puxava ela para voltar a beijá-la nos lábios, – que a ferida da perna me impede de me mover como eu gostaria. Vai ter que se pôr em cima e fazer a maior parte do trabalho. Levante um momento. Quando o fez, viu-o afastar a roupa para que se metesse na cama com ele. Os joelhos se afrouxaram nesse instante e estiveram a ponto de delatar seu nervosismo. Quase se esqueceu de respirar. Colocou um joelho no colchão e, justo então, ele agarrou a bainha de sua regata com ambas as mãos. Ergueu os braços para ajudá-lo a passá-la pela cabeça e o traje acabou no chão com o resto da roupa.


Era muito consciente da vela acesa na mesinha de noite, junto à cama. Jonathan a estava observando com os olhos entrecerrados e os lábios franzidos. – Em solidariedade com o resto das mulheres – disse, – deveria ter algum defeito físico. Mas se o tem, não o encontro. Venha. Tinha vinte e dois anos e não ignorava por completo o que ia acontecer. Entretanto, ele esperaria um esbanjamento de experiência. Recordou que lhe havia dito que gostava de fingir uma pudica inocência. – Deve me instruir – lhe disse. – Sou nova nisto, não o recorda? Escutou-o rir entre dentes. – Sente-se escarranchada sobre mim – respondeu – e lhe darei toda uma lição em lides amorosos, embora suponha que acabarei sendo um aluno mais que um instrutor. Nesse momento agradeceu que tivesse a coxa enfaixada. O fato de ter que ficar sobre ele com cuidado para não lhe fazer mal sem querer aliviou o desconforto e o intenso constrangimento que teria sentido em outras circunstâncias ao colocar-se em semelhante postura. Sentia o calor de seu corpo na face interna das coxas. Invadiu-a uma espécie de debilidade que subiu até a garganta, criando a sua passagem uma sensação dolorosa. Apoiou as mãos nesses largos ombros e se inclinou para diante sem afastar o olhar de seus olhos. Jonathan tomou as rédeas nesse instante e, depois de lhe colocar uma mão na nuca, puxou-a para beijá-la de novo com frenesi. Sentiu o toque de sua língua no interior da boca e a carícia fez com que seu corpo se visse consumido por uma série de desejos que jamais teria imaginado. A partir desse momento não houve lugar de seu corpo que ficasse sem suas carícias. Tocou-a com as Palmas das mãos, com os dedos, com as pontas dos dedos, com os polegares, com os lábios, com a língua e com os dentes. Tocou-a de forma que ela nem sequer conhecia. Beijou-lhe os seios, umedeceu os mamilos com a língua, mordiscou-os com suavidade e os chupou até que estivessem endurecidos e insuportavelmente sensíveis. Colocou-lhe uma mão nesse lugar tão íntimo de seu corpo que parecia palpitar e a deixou à beira da loucura quando seus dedos começaram a indagar, a explorar, a acariciar, a arranhá-la com delicadeza... e a afundar-se em seu interior. Primeiro um e depois dois. Notou que estava úmida e que uns músculos cuja existência desconhecia até esse momento se esticavam com força em torno deles. Entretanto, não assumiu uma postura passiva enquanto ele a instruía nos preliminares. Suas mãos exploraram esse corpo com prazer, deleitando-se com sua firme masculinidade e detendo-se por puro instinto para acariciar as zonas mais sensíveis. Como lhe tinha chupado os mamilos, inclinou a cabeça e lhe lambeu um, lhe arrancando um ofego e uma exclamação. Ergueu a cabeça e o olhou com um sorriso. – Gostou? – Bruxa! – respondeu. Inclinou-se de novo, mas para o outro mamilo. – Se continuar assim – advertiu ele, – acredito que vou acabar antes de estar dentro de ti.


Apesar de tudo, não esperou que ela tomasse a iniciativa. Aferrou-a pelos quadris e insistiu para ela mudar de postura até que sentiu o toque de sua dura masculinidade nesse lugar que palpitava dolorosamente por causa do intenso desejo. Guiou-a ainda mais abaixo e notou que a penetrava. Sentiu-o afundar-se nela e a incômoda invasão alcançou um ponto doloroso depois do qual o notou mais para dentro do que jamais teria imaginado. Sua mente demorou uns instantes em voltar a funcionar com normalidade. A impressão física da perda da virgindade anulou todos seus pensamentos. Mordeu o lábio inferior quando o escutou amaldiçoar entre dentes: – Por todos os...! Nenhum dos dois se moveu durante uns minutos. Mas depois Jonathan começou a lhe fazer coisas que voltaram a deixá-la meio enjoada pela impressão. Ergueu os quadris sem permitir que seu membro saísse dela e continuou repetindo o movimento cada vez mais depressa, uma e outra vez até que suas mãos a aferraram com força e a imobilizaram. Nesse momento notou algo quente em seu interior e compreendeu que tudo tinha acabado. Sentiu uma estranha desilusão. A pesar do crescente prazer que a experiência lhe tinha reportado ao princípio, tudo tinha acabado muito rápido. O ato em si lhe parecia quase anticlimático. Mesmo assim, não se arrependeria no dia seguinte. Nem pensar. Tinha-o feito porque o desejava e ponto. E se a última parte não tinha sido deslumbrante, era culpa dela. De qualquer forma, tinha sido agradável explorar sua feminilidade livremente e deitar-se com um homem por quem tinha experimentado uma crescente atração durante essas duas últimas semanas. Apoiou a fronte em seu ombro enquanto recuperava o fôlego. Tomara não o tivesse decepcionado muito. – Estou em brasas por escutar a explicação que vai oferecer me, senhorita York – o escutou ele dizer com uma voz que lhe foi surpreendente por sua tranquilidade, – mas lhe peço que me desculpe porque agora mesmo estou muito cansado para escutá-la. Fechou os olhos com força. Que humilhante! Não o tinha enganado nem um pouco. A dor pulsante da perna era insuportável. Passou por cima e se concentrou na irritação. Tinha cedido à tentação de passar uma noite com uma mulher que tinha acreditado experimentada e, em troca, tinha acabado deflorando a uma virgem. Deveria ter feito caso a seu instinto, disse-se, embora já fosse muito tarde. Em sua mente sempre tinha sido uma dama. Até esse momento sempre a tinha chamado senhorita York. Por que demônios o tinha permitido ela? Pelo amor de Deus, sentia-se como um violador! De qualquer forma, não deveria ter cedido à tentação mesmo se ela fosse uma prostituta com vinte anos de experiência a suas costas. Tinha-lhe salvado a vida. Tinha cuidado dele sem descanso e ele lhe agradecia desejando-a e deitando-se com ela... Deflorando-a... Mas não foi à força, pelo amor de Deus! recordou-se. Ela poderia tê-lo detido em qualquer momento, quando tivesse querido.


Estava aborrecido com ela, mas muito mais aborrecido consigo mesmo. Pelo amor de Deus! Nem sequer tinha tentado para que a experiência sexual lhe fosse prazenteira. E tudo porque a surpresa o havia comocionado... Ela se tinha afastado e tinha abandonado a cama pouco depois de lhe falar. Depois de agarrar sua roupa, tinha cruzado o aposento em busca do amparo do biombo colocado em um canto. Uma demonstração de pudor absurda dava conta do que acabavam de fazer. Apesar do risco de piorar a dor da perna, aproximou-se da borda da cama e esticou o braço em busca da camisa de dormir, que não demorou para vestir. Entrelaçou os dedos sob a cabeça, cravou a vista no simples dossel da cama e esperou. Ao cabo de um momento a viu sair detrás do biombo nas pontas dos pés; talvez com a esperança de que ficara adormecido. Tinha esquecido das forquilhas. Afastou o cabelo do rosto segurando-o atrás das orelhas, mas os gloriosos cachos dourados caíam enredados por suas costas. Estava mais espantoso que nunca, concluiu muito a seu pesar. – Achei que estaria dormindo – disse depois de lhe lançar um olhar fugaz. – Ah, sim? – perguntou. – Sente-se, senhorita York, e me explique o que significa tudo isto. Sentou-se na cadeira e o olhou nos olhos. – Por que não me disse isso? – perguntou-lhe. – Se sentiu coagida? Disse ou feito algo que a tenha induzido a sentir-se obrigada? Percebeu que um intenso rubor lhe cobria as faces enquanto mordia o lábio inferior. Tinha as mãos unidas no regaço e baixou a vista uns instantes. Continuou observando-a em silencio com algo parecido ao desprezo. Talvez não devesse importar que fosse uma prostituta ou uma virgem, mas importava. Muitíssimo. Ele não era (e estava convencidíssimo) dos que iam por aí deflorando virgens. Isso quer dizer que costumava ir a bordéis? Não sabia, mas esperava que não. Pelo amor de Deus, eram todas mulheres! Eram pessoas! Pensou em Geraldine e nas demais. Sim, eram pessoas. – Senhor Smith – disse ela por fim, – lhe ocorreu pensar que sempre há uma primeira vez para toda mulher? – Recordo-lhe que para uma mulher respeitável – replicou, – para uma dama, essa primeira vez deveria ser no tálamo nupcial. Nem sequer posso lhe oferecer matrimônio. Dá-se conta? Talvez esteja casado! Viu-a morder o lábio de novo, mas o gesto já tinha perdido o encanto a essas alturas. – Não me casaria com você embora fosse livre como um pássaro – lhe assegurou ela – e me pedisse isso de joelhos com um bonito discurso. Não sou tola, senhor Smith, embora fosse virgem até a uns minutos. Fiz isso pelo mesmo motivo que você. Porque queria fazê-lo, porque me sentia atraída por você. Minha virgindade não muda as coisas, mas seu aborrecimento empanou o que deveria ter sido uma lembrança agradável. Por que está zangado? Tanto o decepcionei? Porque eu me senti decepcionada, que saiba isso. Olhou-a encantado e, muito a seu pesar, sentiu o indício de um sorriso nos lábios.


– Não! Decepcionei-a? – perguntou-lhe. – Admito que me comportei como um colegial inexperiente, é verdade. Pegou-me totalmente despreparado. Ela o olhou com expressão obstinada. – Estou desejando escutar sua história – prosseguiu, – senhorita York. É uma dama e era virgem até agora e, entretanto, vive em um bordel com quatro prostitutas à quem professa tal carinho que inclusive afirma ser uma delas para não dar a impressão de que se acha moralmente superior. Talvez agora inclusive ache ser uma delas. Quanto tempo está aqui? – Desde quinze de junho – respondeu. – Desde o dia da batalha de Waterloo. – Desde o mesmo dia que eu cheguei? – perguntou de novo, olhando-a com os olhos entrecerrados. – Desde o dia anterior – respondeu. – Mas estivemos acordadas toda a noite e nem sequer cheguei a dormir neste quarto. A dor da perna era tão insuportável que mudou de postura em um esforço para aliviá-la. Deveria lhe pedir que o deixasse sozinho. Certamente ela estava desejando partir. Por Deus bendito, tinha-a decepcionado! Uns minutos antes ardia em desejos de perdê-la de vista. Entretanto, suas vivencias no bordel tinham sido muito peculiares até esse momento, e suspeitava que o seriam ainda mais se escutasse a história da senhorita York. Além disso, sabia que não ia pregar olho embora o deixasse sozinho. – O que a trouxe para este lugar? – quis saber. – Poderia me contar os detalhes? Ela voltou a cravar o olhar em suas mãos. – Minha mãe morreu quando eu tinha seis anos – começou. – Meu pai contratou a uma babá para que me cuidasse. Chamava-se Bridget Clover e se converteu em uma segunda mãe para mim, e embora devia ser muito jovem naquela época, coisa que compreendi recentemente. Queria-a muitíssimo. Mal tinha relação com outros meninos ou com outros adultos. Vivíamos em Londres e meu pai quase nunca estava em casa. Fiquei destroçada quando Bridget teve que partir. Tinha doze anos naquele momento. Segundo meu pai, já não necessitava de nenhuma babá, mas sabia que só era uma desculpa. Já não podia lhe pagar um salário. Sempre estava ganhando e perdendo grandes somas de dinheiro nas mesas de jogo, e naquela época passava por uma má fase bastante prolongada. Passaram dez anos até que voltei a ver a Bridget... em uma rua de Bruxelas, faz uns dois meses. – Devia ter sido uma surpresa – disse. – Diz isso por sua aparência? – perguntou ela. – Certo que tingiu o cabelo de um vermelho intenso e que ia vestida de forma um tanto chamativa, mas não ia maquiada. O caso é que a reconheci imediatamente e nem sequer me dei conta de que tinha mudado seu aspecto. Era minha querida Bridget, nada mais. Observou como retorcia as mãos no regaço. – Quando se quer muito a alguém – continuou, – perde-se a objetividade. Vê-se com o coração. Naquele momento me perguntei por que evitava minhas perguntas sobre o que estava fazendo aqui e sobre seu lugar de trabalho. Perguntei-me por que não deixava de olhar a outros transeuntes como se estivesse envergonhada e desejasse afastar-se de mim imediatamente. Senti-me muito doída. – Mas você não se deixa intimidar tão facilmente, não é? – perguntou-lhe.


– Não – respondeu com um suspiro. – Teria sido melhor para Bridget e para as demais que tivesse erguido o nariz no ar toda indignada quando descobri a verdade, coisa que fiz em questão de minutos, e lhe tivesse dado as costas. Não lhe fiz nenhum favor ao insistir em vir de visita. Embora só me permitiu isso quando lhe contei que eu também tinha um emprego como dama de companhia de lady Flatley, que me sentia sozinha e que tinha saudades da Inglaterra. Meu pai morreu faz um ano e a única coisa que me deixou foram dívidas. – Assim começou a vir ao bordel para vê-la – afirmou. Grande inocência a sua. Embora também se comportasse com valentia, admitiu, ao reger-se por seus princípios em lugar de seguir as convenções sociais. – Sim – confirmou ela ao mesmo tempo em que erguia o olhar e sorria pelas lembranças. – A primeira tarde que vim estavam todas reunidas na saleta de estar, vestidas de forma quase respeitável, e fizeram demonstração de seu melhor comportamento. Tive carinho por elas imediatamente. Eram... nem sequer estou segura da palavra que procuro. Eram sinceras. Eram pessoas genuínas, não como lady Flatley e suas esticadas amizades. Esperou que continuasse e descrevesse os acontecimentos que a levaram a viver no bordel. – Conheci reverendo Nigel Crawley em casa de lady Flatley – prosseguiu. – Costumava ir frequentemente, umas vezes só e outras vezes com sua irmã. Era um homem encantador que tinha a todas as damas no bolso. Não ocupava nenhuma paróquia na Inglaterra porque, segundo ele, queria liberdade para dedicar-se em corpo e alma a suas obras de caridade e à arrecadação de dinheiro para causas nobres. Veio a Bruxelas porque acreditou que poderia oferecer consolo aos milhares de homens que enfrentariam à morte na batalha. – Mas cada regimento tem seu capelão – assinalou ele. – Sei – afirmou, – mas ele aduzia que dedicavam todo seu tempo aos oficiais, descuidando desse modo das necessidades dos soldados. – Suponho que se apaixonou por ele imediatamente – aventurou com um tom zombador. – Era bonito? – Muito bonito! – exclamou ela. – Alto, loiro e com um sorriso maravilhoso. Mas a princípio só o admirava à distância. De fato, ele nem sequer reparou em mim. Tenha em conta que eu era pouco mais que uma criada. Possivelmente, pensou ele com ironia, foi mais porque carecia de dinheiro para encher as arcas do piedoso reverendo. – Começo a pensar que o reverendo não era o que parecia, estou certo? – perguntou. Ela franziu o cenho. – Quando pôr fim se fixou em mim – seguiu – e começou a me cortejar, achei-o irresistível. Não por seu físico ou porque me apaixonasse por ele, mas sim pela paixão com a que abraçava sua fé e seu trabalho. E porque era um homem virtuoso, sensato, generoso e responsável. Não conheci a muitos homens em minha vida e naquele momento fiquei deslumbrada. A senhorita Crawley se converteu também em minha amiga. – Isto começa a prestar, definitivamente – replicou. – Embora suponha que foi seu físico o que o atraiu, já que não o fez sua fortuna. Suponho que será você pobre, não? Percebeu o rubor que lhe cobria as faces, mas não captou nada mais porque voltou a cravar a vista no regaço. – Começou a falar comigo cada vez que ia de visita a casa de lady Flatley – disse.


– Me acompanhava para dar passeios quando dispunha de uma hora livre. A senhorita Crawley me convidou para tomar o chá... Tudo parece que passou faz séculos! Que inocente fui, Por Deus. Quando me propôs matrimônio, aceitei sem titubear. Talvez me conquistou o dia que nos topamos com a Geraldine e Bridget durante um de nossos passeios e me pediu que as apresentasse, embora deve lhe ter sido óbvio o que eram. Esteve conversando amavelmente com elas e em um dado momento, ainda não sei nem como passou, convidaram-nos a tomar o chá aqui no bordel. O teor de seu silêncio e o modo como engoliu seco em algumas vezes, o relato devia lhe ser doloroso. Esperou que continuasse enquanto tentava colocar a perna em uma postura um pouco mais cômoda. Viu-a entrecruzar os dedos para dentro e logo unir as mãos com força. – Era muito habilidoso na hora de surrupiar informação a todo mundo – disse. – Sem me dar conta, falei-lhe sobre minha herança antes que começasse sequer a me cortejar a sério. E não recordo se foi Geraldine ou Bridget quem lhe falou sobre seu sonho de economizar o suficiente para comprar uma casa de hóspedes na Inglaterra e assim poder abandonar sua profissão. Acredito que inclusive chegaram a lhe dizer que já estavam a ponto de conseguir a quantia necessária, mas que não confiavam nos bancos para guardar o dinheiro. Se era uma herdeira, pensou surpreso, por que demônios se pôs a trabalhar como dama de companhia e depois tinha acabado vivendo em um bordel? Apesar da curiosidade, não pensava interrompê-la com suas perguntas. – Senti-me ridiculamente agradecida porque tratava a minhas amigas com tanto respeito e amabilidade – prosseguiu ela. – E levou todo seu dinheiro? – perguntou, torcendo o gesto. – Deve ser muito preparado, sim. As prostitutas não costumam deixar-se fraudar de qualquer jeito. – Foi muito amável e muito amistoso com elas – aduziu. – Um dia chegou a dizer inclusive que sentia especial admiração pelas prostitutas porque nosso Senhor Jesus Cristo as tratou com respeito. Convenceu-as de que o fato de estar em um país estrangeiro em tempos tão revoltos as convertia em presas fáceis para os ladrões. Convenceu-as para que lhe confiassem o dinheiro porque estava a ponto de partir da Bélgica. Prometeu-lhes levá-lo a Londres e depositá-lo em um banco, onde depositaria seus interesses. – Pobrezinhas – disse com sinceridade. A essas alturas tinha tomado carinho a todas. – E assim partiu – prosseguiu ela, – com o dinheiro economizado durante anos de duro trabalho. E também com as generosas doações que fizeram lady Flatley e a metade das damas de Bruxelas para suas obras de caridade. Lady Flatley estava a ponto de partir também a Inglaterra, mas se ofendeu quando lhe disse que ia casar me com o senhor Crawley, que me despediu sem mais. Parti com os Crawley. Íamos nos casar na Inglaterra para poder reclamar a herança a meu tio. Mas então os escutei por acaso enquanto esperávamos termos passagens livres para a Inglaterra. Supunha-se que ia ficar em meu quarto para escrever uma carta de despedida ao Bridget, mas decidi ir ao refeitório da estalagem para tomar o café da manhã. Estavam rindo-se a gargalhadas enquanto planejavam o que fazer com o dinheiro. Não se pareciam em nada às duas pessoas que eu conhecia. Continuou com a vista cravada nas mãos uns instantes e a viu franzir o cenho, coisa que o levou a perguntar-se se seria capaz de seguir com o relato. Por fim, olhou-o com expressão ausente e preocupada.


– Encarei-os imediatamente – confessou. – Nem sequer me ocorreu fingir. Exigi-lhes que me devolvessem o dinheiro de minhas amigas e também o meu, já que o tinha dado ao senhor Crawley para que o guardasse durante a viagem embora não fosse uma soma considerável. Mas ambos defenderam sua inocência e tentaram me convencer de que tinham estado brincando. Voei escada acima em busca do dinheiro, mas eles me seguiram. Evidentemente não o encontrei em nenhum de seus quartos. De qualquer forma sabia que ele não me deixaria levar E se ia em busca de um oficial, o que podia lhe dizer? Flossie lhe tinha dado o dinheiro por própria vontade e com o beneplácito das demais. Eu lhe tinha entregue voluntariamente o meu. Era sua noiva! Nesse momento recordei que levava pistolas para o caso de nos encontrarmos com algum ladrão ou com algum salteador de caminhos, e me deixei vencer pelo medo. Desculpei-me por minhas absurdas dúvidas e voltei para meu quarto que, graças a Deus, estava no piso de baixo. Escapei pela janela e voltei até aqui para contar à Bridget e às demais que as tinham enganado e que eu tinha sido, sem querer, a responsável por tudo. – Isso requereu muita coragem – assegurou. Ela continuou olhando-o com expressão ausente. – Não me fizeram nem uma só recriminação por minha participação no roubo – prosseguiu. – Soltaram pestes e destrambelharam contra ele e contra a maldade que tinha cometido, mas Bridget se limitou a me abraçar com força e a chorar. Preocupava mais a possibilidade de que o engano de que tinha sido vítima me tivesse destroçado. – E foi assim? – quis saber. – Talvez destroçou a pouca confiança que tinha nos homens – respondeu ela, encurvando os ombros, – e isso sim foi doloroso. Mas meus sentimentos apenas se ressentiram. Tinha aceitado me casar por motivos que tinham bem pouco de românticos. Agora só sinto vergonha e incredulidade por ter sido incapaz de ver além de seu disfarce. – Não deveria ser tão dura consigo mesma – lhe aconselhou. – Flossie, Geraldine e as demais tampouco suspeitaram de sua verdadeira natureza e som mulheres de mundo muito experimentadas. Embora suponha que se sente em dívida com elas pelo dinheiro que seu antigo noivo lhes roubou. – Sim – afirmou, assentindo com a cabeça. – Mas pouco posso fazer para ajudá-las. Nosso primeiro plano para reunir dinheiro e lhe dar caça fracassou quando o encontrei a você. Nesse mesmo dia. Flossie e Geraldine encontraram o corpo de um pobre moço a quem estavam roubando. – ruborizou-se e se mordeu o lábio. – Tínhamos ido ao bosque do Soignes em busca de algum objeto valioso que pudesse ter ficado depois da batalha, mas voltamos com as mãos vazias. – Não! – Foi incapaz de conter as gargalhadas. – Já imagino. Três mulheres partindo com resolução ao campo de batalha para roubar aos mortos e uma vez ali descobrem que são incapazes de fazê-lo. Assim em lugar de algum tesouro, encontrou você meu corpo nu. Pobre senhorita York... – Mas prefiro tê-lo encontrado! – assegurou-lhe ela, envergonhada. – Obrigado – replicou com um sorriso. Mas recuperou a seriedade ao recordar o motivo porque estava despenteada. Maldição! Não deveria ter acontecido. Que inseto lhe tinha picado? Claro que era uma pergunta


retórica porque a resposta saltava à vista: a luxúria. – Tomara pudesse voltar atrás e mudar as coisas – disse ela com veemência. – Tomara pudesse lhes devolver seu sonho. Mas não posso. Não herdarei minhas joias até que cumpra os vinte e cinco. Três anos é muito tempo de espera. Poderia consegui-las antes, claro, mas para isso teria que me casar com o consentimento de meu tio, e não acredito que isso aconteça. Demorarei muitíssimo em voltar a confiar em outro homem. – Arre! – exclamou. – Por fim entendo as intenções do Crawley. Suponho que lhe falou das condições para tomar posse de sua herança, não é? – Sim – respondeu, olhando-o com expressão carrancuda. – Fui uma boazinha e uma idiota, não? – Certamente – concordou ele enquanto voltava a mudar de postura. – Encontra-se mau? – disse ela, e sua expressão se tornou preocupada. – Estou um pouco desconfortável – admitiu. – Suponho que o exercício que tenho feito não é muito adequado para minha condição atual. Poderia dizer-se que me tenho bem castigado. – Dói-lhe a perna? – perguntou-lhe ao mesmo tempo em que ficava em pé de um salto. – Irei em busca de água para lhe limpar a ferida e a cobrirei com mais unguento e ataduras limpas. Me deixe ver. Está sangrando? Entretanto, ergueu a mão para detê-la antes que se aproximasse da cama. – Acredito que seria melhor para meu equilíbrio mental que se mantivesse a certa distância, senhorita York – lhe disse. – Pois ambos estamos de acordo em que o que aconteceu esta noite foi um engano garrafal, e como parece que nos decepcionamos mutuamente, seria muito melhor que evitássemos a possibilidade de uma repetição. Ela o olhou com os olhos como pratos uns instantes enquanto se ruborizava ao máximo. Em seguida deu meia volta e se aproximou da porta com tal rapidez que seus movimentos foram desajeitados e lhe custou trabalho girar a chave na fechadura. Uma vez aberta, saiu do quarto como se a levasse o diabo e fechou a porta atrás de si sem olhar. Maldição! pensou. O discurso não tinha sido precisamente cavalheiresco. Acabava de dizer a uma dama depois de sua primeira experiência sexual que tinha cometido um engano garrafal e que o tinha decepcionado. Teria que arrastar-se para que o perdoasse no dia seguinte. Nem sequer queria pensar no dia seguinte...


CAPÍTULO 8

Se não despertou em pleno ataque de pânico, tentando sair da cama antes de recordar que não podia fazê-lo, teria pensado que não tinha pregado olho em toda a noite. Tinha que chegar à Porta do Namur. Ela o estava esperando e a possibilidade de que estivesse em perigo era aterradora. A dor teve um duplo efeito, já que serviu para limpá-lo por completo e para cortar o sonho pela raiz... se acaso se tratava de um sonho. Ficou estendido muito quieto, com uma mão sobre a palpitante ferida da coxa e a outra aferrando o lençol, enquanto fazia um desesperado esforço para recordar. Quem o estava esperando? por que? A que perigo enfrentava? Era só um sonho? Ou era uma lembrança? Desistiu de seu esforço uns minutos depois e experimentou pela enésima vez resolver o quebra-cabeça do que lhe tinha acontecido antes de recuperar a consciência nessa casa. Estava-se afastando a cavalo da batalha do Waterloo em direção a Bruxelas. Ou, ao menos, essa era a direção que devia supor que levava, já que o normal era pensar que foi ferido na batalha. Havia uma carta. E também havia uma mulher que o esperava às portas da cidade. Entretanto, e por mais que o tentasse (e o tentou com tanto afinco que acabou com dor de cabeça e a fronte empapada de suor), foi incapaz de recordar algo mais. Para cúmulo, não parecia haver relação entre os detalhes fragmentados que bem podiam ser lembranças reais, ou meros sonhos. Se tinha tomado parte na batalha do Waterloo, por que ia ao norte para encontrar-se com uma mulher? E por que era tão importante a carta que levava? Tinha-a enviado ela para lhe pedir que a protegesse de algum perigo? Mas em meio a uma batalha? Não, não tinha nenhum sentido. Foi um alívio escutar que batiam na porta, embora virou a cabeça com certo receio, temendo que fosse Rachel York. Ainda não estava preparado para voltar a vê-la. Entretanto, tratava-se do sargento Strickland, que entrou com a navalha de barbear na mão, umas muletas sob o braço e um enorme sorriso no rosto apesar das bandagens que continuavam lhe cobrindo uma parte do rosto. – Hoje poderá levantar-se, senhor – anunciou depois de saudá-lo alegremente. Deixou os utensílios de barbear em uma mesinha e soltou as muletas aos pés da cama. – Com certeza isso o animará. Darei uma mão depois. – Me animarei muito mais quando tiver roupa – lhe assegurou. – Levo muito tempo inválido e dependendo de outros. Estou ansioso por me levantar. Preciso descobrir quem sou e retomar minha vida. – Se não se importar, senhor – prosseguiu Strickland, – vou barbeá-lo hoje. Já me estou acostumando a ver com um só olho.


Olhou-o com expressão interrogativa. – Sua ambição de converter-se em criado de quarto é real, não é? – perguntou-lhe. – Tenho que buscar uma ocupação – respondeu o sargento enquanto passava sabão no pincel de barbear. – fui soldado toda minha vida. Era um girino quando me alistei. Ou isso ou me convertia em ladrão e acabava na forca. Nunca me chamou a atenção o roubar... e a forca muito menos. Mas agora tenho que procurar outro emprego. Por que não o de criado de quarto? Estou a seis anos obedecendo ordens de aristocratas e fazendo com exatidão, desde que me nomearam sargento. Para vesti-lo, barbeá-lo e lhe preparar a roupa não me fazem falta os dois olhos, com um me basta. – Seguimos tendo o problema de minha absoluta pobreza – lhe recordou. De qualquer forma, deixou que o sargento lhe ensaboasse o rosto e fez à ideia de que iam fatiar lhe o pescoço. – Tenho dinheiro, senhor – replicou Strickland. – Suponho que não muito do ponto de vista de um cavalheiro, mas sim o suficiente para durar durante um tempo. Mais que o dinheiro, o que preciso é me sentir útil, sentir que tenho um lugar no mundo, ao menos até que me centre. – Compreendo perfeitamente como se sente – respondeu com certa tristeza. – Mas poderia buscar a alguém melhor. Nem sequer estamos seguros de que seja um cavalheiro... – É obvio que sim – lhe assegurou o sargento. – Não o duvide nem por um instante, senhor. Conheci a cavalheiros e a outros homens que não o são, e também a alguns que fingiam sê-lo. Você é dos primeiros, não tenha a menor dúvida. O que não sei é quem é, porque não estava em meu regimento e não o tinha visto até que o encontramos no bosque. Mas sim sei o que é. Ficou muito quieto enquanto a navalha fazia seu trabalho e o rosto do sargento, enfaixado e cheio de equimoses, abatia-se sobre o seu com o cenho franzido pela concentração. – Não tem medo, Strickland? – perguntou. – Deveria ser você que tivesse agora mesmo – respondeu com um enorme sorriso que deixou ao descoberto uns dentes grandes e bastante separados. – É a primeira vez que barbeio a outro homem. E só tenho um olho para ver se o estou fazendo bem. – Refiro-me ao medo de ter perdido seu modo de vida assim de repente – lhe explicou – e ver-se obrigado a buscar outro caminho. O sargento se endireitou depois de lhe haver barbeado meio rosto. – Medo? – repetiu. – Nunca tive medo na vida, senhor. Bom, ao menos nunca o chamei assim. Soa muito pouco viril, não acha? Mas possivelmente não seja tanto o medo como o que fazemos com ele, não? Possivelmente o tenha em ocasiões, mas não tem sentido deixar-se levar por ele, não é? Há todo um mundo à margem do exército. E eu vou averiguar o que me pode proporcionar esse mundo. Talvez eu goste mais que o que vivi até agora. Ou talvez não. Mas se eu não gostar, procurarei outra coisa. Nada vai deter me salvo a morte, mas chegará quando ela queira, com independência do que eu faça. – inclinou-se para ele para atacar a outra metade do rosto. – Se lhe disser a verdade, ter medo não é uma covardia. É o que sempre dizia a meus meninos antes de


entrar em combate, sobre tudo aos recrutas recém chegados da Inglaterra que acabavam de deixar as saias de suas mães. Se jamais tivéssemos medo, senhor, não descobriríamos nunca da massa que somos feitos nem do que somos capazes. Não melhoraríamos como pessoas. Talvez seja isso o que você descubra; a massa da que é feito e o que é capaz de fazer. E quando pôr fim recorde quem é, talvez descubra que se converteu em um homem melhor que o que era. Talvez fosse um homem que não chegou a amadurecer quando deixou atrás a infância, ou pode ser que necessitasse de algo drástico como uma perda de memória para sair do poço onde estava metido. Sem ânimo de ofender, senhor. Às vezes a língua me perde. – Está na cara que você é um filósofo, Strickland – lhe disse. – Me pergunto se terei a força de vontade para não defraudá-lo e levar a cabo tudo o que espera de mim. Fez-me algum corte? – Nenhum só- respondeu o sargento, endireitando-se de novo para contemplar seu trabalho antes de lhe tirar o sabão do rosto com uma toalha limpa. – Supus que já tinha perdido sangue para todo um mês. – Obrigado – murmurou ao mesmo tempo em que passava uma mão pelo queixo, suave uma vez mais, e refletia sobre as palavras do sargento. É obvio, estava morto de medo, embora lhe parecesse constrangedor admiti-lo. Possivelmente o seu fosse um dos piores destinos: perder-se e carecer por completo das lembranças entesouradas durante uma vida de vinte e tantos anos. Teria a coragem e a vontade necessárias para criar uma nova identidade e uma nova vida talvez melhores que as anteriores? Não obstante, nem sequer o sargento era tão valente como suas palavras sugeriam. Seguia no bordel apesar de ter liberdade de movimentos, mas poderia ter partido em qualquer momento, e com tal não enfrentava Sozinho ao mundo e estava disposto a atar-se a um homem que não tinha nem um penny para lhe pagar. Enfrentar-se sozinho ao mundo... Era uma ideia aterradora. Embora estava impaciente por deixar o bordel, de repente se deu conta de que também morria de vontade de ficar ali, de encontrar qualquer desculpa que atrasasse o inevitável momento. O sargento Strickland estava levando tempo para limpar o pincel e a navalha na bacia. – Gosto das damas, senhor – disse sem olhá-lo no rosto e depois de pigarrear. – Ontem à noite estive vigiando a porta para que pudessem atender a seus clientes com a tranquilidade se soubesse seguras se algum dos cavalheiros ficava difícil. Não me importa o que fazem para ganhar os feijões. Mas me pergunto por que vive com elas a senhorita York. Não é uma delas. Não é verdade? Olhou ao sargento com os olhos entrecerrados. – Conforme soube – respondeu, – é uma dama. – Já sabia, senhor – replicou Strickland. – Desde o primeiro momento que a vi, gritando que você era seu homem e que estava ferido gravemente, soube que era uma dama. Mas sempre existe o risco de que seu nome fique manchado por viver em um bordel. Não queremos lhe dificultar as coisas, não é, senhor? Seguro que sabe a que me refiro. O que quer que faça com estas forquilhas? Eu não gostaria que as outras damas as vissem quando lhe trouxessem o café da manhã e fizessem uma ideia equivocada. De repente se sentiu como um soldado raso a quem seu sargento acabava de pôr em seu lugar com uma sutil embora inconfundível reprimenda. Horror, esqueceram das forquilhas! Pensou. Quem dera tudo tivesse sido um sonho. Mas a presença das forquilhas era uma prova irrefutável de que não era assim.


– Recolha-as, sargento, se for amável – disse – e guarde-as na primeira gaveta da cômoda. Sofreu uma dor de cabeça ontem à noite enquanto me fazia companhia e tirou as forquilhas para aliviá-la um pouco. Que desculpa mais ridícula! – Certamente, senhor – replicou o sargento com cordialidade enquanto recolhia as forquilhas. – Protegeria com minha vida à dama se alguém tentasse lhe fazer mal... ao igual a faria você, estou muito certo. Jamais a esquecerei enquanto chorava sobre seu corpo depois de que confessara que não era seu homem. A dama tem um coração de ouro, senhor. – Sou muito consciente de que lhe devo a vida, sargento, e muitíssimo mais que isso – lhe assegurou. O sargento Strickland não insistiu mais. Recolheu os utensílios de barbear e partiu. Sem esperar sequer que chegasse o café da manhã, afastou os lençóis, passou as pernas pela borda da cama com muito cuidado e agarrou as muletas. Sentia-se inquieto, fraco, irritável e culpado... e decididamente imoral. Ao menos podia fazer algo para remediar as duas primeiras aflições. E as outras? Ia ter que engenhar para fazer as pazes com Rachel York, mas tinha a impressão de que não bastaria uma simples desculpa. Teria que pensar em algo. Colocou as muletas sob os braços e se ergueu, apoiando todo o peso na perna direita. Rachel se manteve ocupada na cozinha grande parte da manhã, ajudando ao Phyllis a amassar pão e bolachas e a cortar batatas e cortar verduras. As outras damas não abandonaram seus quartos até bastante tarde, coisa que agradeceu muito. Surpreendeu-lhe que Phyllis não percebesse nenhuma diferença em sua pessoa. Tinha a sensação de que as atividades da noite anterior se refletiam em seu rosto com absoluta clareza. Também agradecia enormemente que o sargento Strickland tivesse assumido o papel de criado de quarto do senhor Smith e se encarregasse de todas suas necessidades essa manhã. Antes do almoço se ofereceu como voluntária para ir comprar e se apressou a sair da casa. Tinha tentado estar fora o menos possível desde sua volta a Bruxelas por temor a que alguma das amizades de lady Flatley a visse e a acusasse de ser cúmplice do senhor Crawley, embora reconhecia que era muito pouco provável que estivessem a par de sua perfídia. De fato, talvez a maioria não se inteirasse nunca a menos que queriam informar-se das obras de caridade para as quais acreditavam ter contribuído. Mas nesse dia em concreto estava desesperada por desfrutar de do ar livre e fazer um pouco de exercício, e lhe importava muito pouco com quem se encontrasse. Nem sequer caiu na conta de que em Londres jamais tinha saído sem acompanhante enquanto seu pai vivia. Afastou-se mais do que seus recados requeriam. Inclusive deu um pequeno passeio pelo parque de Bruxelas, onde se entreteve observando aos cisnes no lago e se deixou envolver pela calidez do sol. Era meio da tarde quando pôr fim decidiu retornar à casa, mas temia fazê-lo. Teria que enfrentar de novo com o senhor Smith, uma ideia que lhe provocava pavor. Como ia olhá-lo no rosto depois do que tinha passado a noite anterior? Ao escutar vozes e risadas procedentes da saleta, decidiu que primeiro passaria por ali para tomar uma xícara de chá e recuperar um pouco o ânimo. Abriu a porta muito devagar e deu uma olhada, temerosa de que suas amigas estivessem recebendo clientes,


embora rara vez o faziam durante o dia. Sua surpresa foi que se encontrou com um cavalheiro... um cavalheiro muito arrumado. Ao princípio não o reconheceu, mas percebeu a presença de umas muletas apoiadas em uma cadeira próxima a que ele ocupava. – Rachel! – chamou-a Bridget. – Entre, querida, para que lhe apresentemos ao cavalheiro que veio de visita. – Que é muito bonito? – perguntou Phyllis alegremente. Geraldine estava de pé junto à janela com os braços na cintura. – Com roupa está estupendo, admito-o – disse. – É uma lástima que tenha os bolsos vazios. – Não sei se me importa, Gerry – comentou Phyllis. – Vamos fazer que o pobre se ruborize – advertiu Flossie enquanto Rachel entrava na saleta e fechava a porta. – Mas reconheço que qualquer moça sensata acabaria brigando com suas melhores amigas por ele. Estavam flertando e brincando como de costume. O senhor Smith sorria e suportava suas brincadeiras com bom aspecto. Entretanto, jogou as muletas e se levantou da poltrona assim que a viu. Fez-lhe uma reverência muito elegante dadas as circunstâncias. – Senhorita York – a saudou. Quando a olhou nos olhos, viu que sua expressão não era tão risonha como antes. Ela não queria ruborizar-se. Vendo-o nesse momento, era-lhe inconcebível que tivessem estado nus e juntos menos de vinte e quatro horas antes. Mas a coisa já era irremediável, e desejou que a engolisse a terra nesse instante. "Pois parece que nos decepcionamos mutuamente...", recordou. Escutava essas palavras com tanta clareza como se as estivesse pronunciando nesse preciso momento. Não se tinha dado conta de quão alto era. Embora suas roupas não tivessem sido confeccionadas pelo melhor alfaiate do mundo, a camisa era de um antigo branco, a gravata estava engomada e atada com elegância, a jaqueta azul ressaltava a largura de seus ombros e de seu peito, e as estreitas calças cinza se amoldavam a suas esculturais e musculosas pernas... Desde que se passasse por cima a bandagem da coxa esquerda. Levava sapatos de pele em vez de botas altas, que teria sido o mais indicado para esse traje, mas mesmo assim Phyllis tinha razão. Estava para comê-lo. Acabava de lavar o cabelo e uma mecha escura lhe caía de forma tentadora sobre a sobrancelha direita. – Fica bem a roupa nova, senhor Smith? – perguntou-lhe, fazendo um grande esforço por mostrar-se amigável e natural. – Salvo uma jaqueta – respondeu ele. – E por desgraça é a que mais eu gosto. Mas nem com a ajuda da considerável força do sargento Strickland fui capaz de pôr isso. – Equivocamo-nos, Floss – anunciou Geraldine com pesar. – É mais largo de peito do que supusemos. – E também de ombros, Gerry – acrescentou a aludida, observando-o sem dissimulações. – Prestamos muita atenção a esse belo rosto e ao sorriso malicioso que o acompanha. Não voltarei a cometer o mesmo engano. – Poderiam me ter perguntado minhas medidas – disse o senhor Smith, que se voltou a sentar com muito


cuidado uma vez que ela fez o mesmo. – Assustava a possibilidade de que não se lembrasse porque teria sido eu a encarregada de tomar as medidas – explicou Phyllis. – Vendo assim aprendem a não sair de casa sem sua fita métrica. E assim continuou a conversa durante dez minutos com as conseguintes risadas enquanto ela tentava recuperar a compostura e pensar no que diria quando pôr fim ficassem a sós, coisa que aconteceria indevidamente cedo ou tarde. E foi antes do que esperava. – Durante minha instável excursão pela casa – disse o senhor Smith, – descobri que há um precioso jardim na parte traseira e que alguém teve a consideração de colocar um banco de madeira sob o salgueiro que há junto ao lago dos nenúfares. Se me desculparem, vou dar um passeio pelos atalhos empedrados antes de me sentar no banco e desfrutar do ar livre. – Não vá fazer muito exercício – lhe advertiu Bridget. – Recorda que é o primeiro dia que se levanta da cama. – E nós não gostaríamos de ter que levá-lo nos braços – lhe disse Phyllis. – Fala por você, Phyll – assinalou Geraldine. – Tomarei cuidado – prometeu. – Senhorita York, seria amável de me acompanhar? Bridget sorriu e lhe deu seu consentimento com um gesto de cabeça como se ainda fosse sua babá. De modo que soltou a xícara e o prato e ficou em pé. Teria dado algo por evitar esse encontro, disse-se. Ainda não estava preparada para esse momento. Mas o estaria alguma vez? Além disso, como não podia retroceder no tempo e mudar o acontecido a noite anterior, a única solução era seguir adiante e enfrentar ao constrangimento de estar a sós com ele. Abriu a porta da saleta e a segurou enquanto o senhor Smith passava junto a ela com ajuda das muletas. Avançava com passo lento mas seguro, percebeu a caminho do jardim. Depois de fechar a porta traseira, ficou a seu lado e levou as mãos às costas. – Bom, senhorita York – lhe disse sem rastro do tom alegre e brincalhão que tinha utilizado na saleta, – temos que falar. – De verdade? – perguntou-lhe com a vista cravada na pavimentação pela qual avançavam. Como o faziam os meninos, evitou pisar nas juntas. – Preferiria não fazê-lo. O fato, fato está. Não foi nada do outro mundo, não é? – Grande reverso para meu orgulho masculino! – exclamou. – Que não foi nada do outro mundo? Sou consciente de que em circunstâncias normais agora mesmo lhe estaria propondo matrimônio. Sentiu-se mais envergonhada que nunca. – Não o aceitaria – replicou. – Grande tolice! – Me alegro de que pense assim – seguiu ele. – Porque, evidentemente, não posso lhe propor nada... ao menos ainda. Não teria nome com o que assinar na licença nem na ata matrimonial. E é possível que já esteja


casado. Esqueceu-se dessa possibilidade. Sentiu que lhe revolvia o estômago. – Não o aceitaria nunca – reiterou com veemência. – Embora descubra que não está casado quando recuperar sua identidade. Já aceitei um compromisso matrimonial este ano sem pensar muito nisso, senhor Smith. Não tenho intenção de repetir a experiência tão cedo. – E o que pensa fazer? – perguntou ele. Sentia-se em desvantagem com ele de pé. Estava acostumada a olhá-lo de cima. Inclusive na noite anterior, enquanto estavam... Não, era muito melhor não pensar nisso. – Não decidi – respondeu. – Possivelmente procure outro emprego. – Suponho que necessitará de uma carta de referência de lady Flatley – declarou. – Ela a dará? A pergunta fez que torcesse o gesto. – As damas querem sair em busca do senhor Crawley assim que retornem a Inglaterra – disse, – desde que consigam o dinheiro suficiente para ajudar os gastos, claro está. Pensei em acompanhá-las. Não acredito que seja fácil dar com ele e há muito poucas probabilidades de que possam recuperar o dinheiro, mas me sinto na obrigação de ajudá-las na medida do possível. – Essas damas não necessitam de sua ajuda, senhorita York – lhe assegurou ele. – São mulheres curtidas pela vida. Sobreviverão. – Sim – concordou ao mesmo tempo em que se detinha em metade do caminho e se virava para olhá-lo lançando faíscas pelos olhos, – é obvio que o farão. Sobreviverão. Tanto faz que a única coisa que consigam, embora nunca possam ser livres nem felizes nem tenham seus próprios recursos. Ao fim e ao cabo, só são prostitutas. Escutou-o suspirar. – A única coisa que queria dizer é que você não é responsável por elas, da mesma maneira que não é responsável por mim – assinalou, – nem eu o sou por você. Em certas ocasiões devemos deixar simplesmente que outros tomem suas próprias decisões na vida por muito que nos doam os resultados. Olhou-o com o cenho franzido. Preparou-se para uma boa discussão. Mas ele não tinha mordido o anzol. – Se lhe parece – prosseguiu, – poderíamos nos sentar antes de continuar com esta conversa. Eu não gostaria de tropeçar e cair a seus pés, lhe dando assim uma impressão equivocada. Adiantou-se até o banco, mas esperou que ele se sentasse com cuidado e apoiasse as muletas no braço de ferro antes de sentar-se na outra ponta. Tomara fosse um pouco mais longo. – Me fale de seu tio – lhe pediu. – É o barão Weston do Chesbury Park, no Wiltshire – disse. – E pouco mais lhe posso dizer. Era o irmão de minha mãe, mas a deserdou quando fugiu aos dezessete anos para casar-se com meu pai. Só o vi uma vez, depois da morte de minha mãe, quando foi a Londres para assistir a seu funeral e ficou alguns dias. – É o único parente vivo que resta? – quis saber.


– Até onde sei, sim – respondeu. – Talvez devesse recorrer a ele – sugeriu. – Não acredito que lhe desse as costas, não? Virou a cabeça para olhá-lo com incredulidade. – Desde que tinha seis anos só recebi notícias suas duas vezes – replicou. – Uma quando se negou a me dar minhas joias ao cumprir os dezoito, e outra quando as voltei a pedir faz um ano, depois da morte de meu pai. Nessa última ocasião me respondeu que não me daria, mas me convidou a viver com ele se estava desamparada e se ofereceu para me procurar marido. – De modo que pode recorrer a ele – murmurou ele. – Se estivesse em meu lugar – respondeu, zangada de novo, – recorreria você a ele, senhor Smith? Recorreria a alguém que cortou toda relação com sua mãe quando se casou e que jamais se preocupou por você salvo por um breve período de tempo quando tinha seis anos? A alguém que estava tão ansioso por voltar a vê-lo que o convidou a viver com ele só se encontrava em uma situação de desamparo e com a velada ameaça de casá-lo com uma pessoa de sua escolha se o fizesse? Recorreria a essa pessoa? Sua proximidade era desconcertante. Sobre tudo porque inclusive sentada tinha que levantar o rosto para olhá-lo nos olhos. Parecia um gigante a seu lado; era muito maior e imponente do que lhe tinha parecido quando estava na cama. – Suponho que não – respondeu. – Um simples "não" é curto. Certamente diria a esse mal nascido que se fosse ao diabo. O comentário a surpreendeu e escandalizou tanto que pôs-se a rir. Ele esboçou um sorriso torcido. – Percebeu que estava olhando a sua covinha, um traço físico que sempre lhe tinha parecido muito infantil. – Me fale das joias – lhe pediu ele. – Nunca as vi – disse ao mesmo tempo em que desviava a vista para o lago, – mas sei que são muito valiosas. Minha avó as deixou a minha mãe com a condição de que estivessem em mãos de meu tio até que se casasse com alguém de sua aprovação ou cumprisse os vinte e cinco anos. Embora se casara sem o consentimento de meu tio e morreu aos vinte e quatro anos, devia manter algum tipo de contato com ele antes de sua morte. Legou-me as joias com as mesmas condições. – Talvez as acreditasse mais seguras com seu tio que com seu pai – aventurou. A humilhante possibilidade já lhe tinha ocorrido a ela muito antes. Pobre papai, pensou, teria perdido tudo nas mesas de jogo e se teria posto a chorar pelos remorsos antes de voltar a jogar com a esperança de recuperar tudo. – Talvez meu tio acredite que estão mais seguras com ele que comigo – declarou. – Meu pai já tinha morrido quando as pedi o ano passado. E são minhas. Se fosse um homem, jamais lhe teria ocorrido reter minha herança ao ser maior de idade. Tomara fosse minha neste momento. Devolveria a minhas amigas tudo o que perderam para que pudessem fazer realidade seu sonho. Isso as alegraria muitíssimo. Também me alegraria.


Mordeu o lábio inferior ao sentir que lhe enchiam os olhos de lágrimas. – Mas existe um modo de jogar a luva a sua herança antes de tempo, não é? – perguntou-lhe. A pergunta lhe arrancou uma gargalhada desdenhosa. Virou-se para olhá-lo e viu que ele a observava com expressão entusiasmada. – Teria que me casar – disse. Viu-o arquear uma sobrancelha. – Com a aprovação de meu tio – acrescentou. A outra sobrancelha também se ergueu ao mesmo tempo em que aparecia em seus olhos a mesma expressão risonha com a que estava acostumado a enfrentar às brincadeiras de suas amigas. – Senhor Smith – disse com voz cortante, – não podemos nos casar. Você mesmo o disse e, além disso, seria incapaz de me casar com o único propósito de herdar minhas joias. – Admirável – murmurou ele com um sorriso. – De qualquer maneira, como ia conseguir sua aprovação? – perguntou-lhe. – Nem sequer sabe como se chama. De repente, começou a menear as sobrancelhas e o gesto lhe outorgou um aspecto juvenil, peralta e incrivelmente irresistível. – Sabe o que é uma farsa, senhorita York? Ou deveria chamá-la Rachel? – perguntou-lhe. – Como diz? – Olhou-o com olhos arregalados. – Fingirei ser seu marido – especificou ele – e irei ao Chesbury Park com você para arrancar sua fortuna das garras desse descarado avaro e sem coração que tem por tio. Depois poderá fazer com ela o que deseje muito, embora lhe advirto que lhe custará a mesma vida convencer a essas damas para que aceitem um só penny de você. – Mas se está desejando partir daqui para encontrar sua família e seu lar! – exclamou. Sua recriminação fez que torcesse o gesto e apagou a alegria de seus olhos. – Sim, tem razão – reconheceu, – mas não sabe o que me aterra a ideia. E se depois de procurar não encontro pistas sobre minha identidade? E se descobrir uma grande família e um montão de amigos, totalmente desconhecidos para mim? Isso seria muitíssimo pior. Dá-se conta de que é uma ideia aterradora? Talvez se adiar o périplo em busca de minha personalidade, recupere a memória sem mais. – Mas... – protestou enquanto as ideias formavam redemoinhos em sua cabeça até tal ponto que a impediam de pensar com clareza, – não posso lhe pedir que faça isso por mim. – Não me pediu isso. – Voltou a lhe sorrir de novo e, de repente, ela sentiu o impulso de estender a mão para acariciar sua vibrante energia. – Eu me ofereci. Me salve do terror experiência de ver-me exposto a enfrentar ao desconhecido, senhorita York. Diga que sim. Possivelmente haveria um milhão de razões para negar-se a fazer algo assim... Um milhão seria pouco. Entretanto, a única coisa que via nesse momento era o rosto de Flossie quando entregasse a quantia exata de


dinheiro que deu aquele dia ao Nigel Crawley com ela como sorridente testemunha. Podia fazer-se realidade essa imagem. Além disso, não tinha por que sentir-se culpada por representar uma farsa. Tratava-se de seu dinheiro, e o tio Richard se comportara de uma forma espantosa com ela. Não lhe devia nada. – Muito bem – disse com um sorriso. Viu-o apoiar um braço no espaldar do banco sem que o abandonasse esse sorriso de colegial peralta que não se encaixava com sua desconcertante atitude. – Espero que não me saia com essa de que tenho de cravar um joelho no chão para me declarar – comentou ele. – Temo que não seria capaz de me levantar.


CAPÍTULO 9

Uma hora depois de voltar do jardim, continuava acordado na cama. Doíam-lhe todos os ossos e articulações, e suspeitava que lhe tinha inchado ligeiramente a perna esquerda. Era desconcertante saber-se tão fraco, embora ao mesmo tempo se sentisse satisfeito de poder mover-se porque assim poderia começar a recuperar as forças e a vitalidade. Entretanto, tinha descoberto que era um covarde, e se perguntava se o teria sido sempre. Levava quase duas semanas desejando sair da cama, desejando voltar a ficar em pé para sair da casa e descobrir sua ditosa identidade; entretanto, chegado o momento da verdade, deixou-se levar pelo pânico. Havia dito a verdade a Rachel York. E, por todos os Santos! Em grande embrulhada se colocou. A única coisa que pretendia era ajudá-la. Fazer algo positivo por ela, por muito aborrecido que se houvesse sentido a noite anterior ao descobrir que não o tinha avisado do que estava a ponto de fazer, privando-o assim da oportunidade de deixar intacta sua virgindade. Além de tudo, tinha-lhe salvado a vida. Tinha muito claro que teria morrido no bosque do Soignes se ela não tivesse aparecido e lhe tivesse conseguido ajuda. Além disso, tinha-o cuidado toda uma semana. E se tinha afeiçoado a ela. Falso. Gostou muito dela desde que abriu os olhos e a viu. De modo que desejava fazer algo por ela. Tinha-a convidado a sair ao jardim com a intenção de averiguar algo sobre seu tio e descobrir se era possível que pudesse ir viver com ele. Sua ideia era oferecer-se para acompanhá-la até lá. Não teria sido muito em comparação com o que tinha feito por ele, mas ao menos teria sido um detalhe. Um detalhe racional, sensato e honroso. Além disso, tinha decidido que se descobrisse que era solteiro, saberia aonde ir procurá-la para lhe oferecer matrimônio tal como ditava a honra. E o que tinha feito em troca? O mais curioso de tudo era que o pânico que o tinha invadido com o passar do dia se esfumara assim que fez a proposta e foi substituído pela euforia que provocava um desafio imprudente. O que lhe dizia isso de seu caráter? Tinha o costume de comportar-se desse modo? Como um jovenzinho de vinte e cinco anos disposto a fazer qualquer loucura? Se acaso tinha vinte e cinco anos, claro estava. Talvez tivesse trinta. Torceu o gesto.


Já era muito tarde para mudar de opinião a respeito dessa loucura em concreto, embora quisesse. E não estava certo de querê-lo. Ia assumir uma nova identidade e uma esposa no processo, a quem teria que amar com loucura. Porque definitivamente tinha que ser um matrimônio por amor. Devia convencer ao barão Weston de sua notável respeitabilidade e firmeza de caráter. Estalou a língua. Um desafio era justo o que necessitava, e esse era de proporções colossais. Sentia-se seguro de que voltava a sentir o mesmo de sempre. Embora a ideia voltasse a mergulhá-lo na melancolia. Fechou os olhos e os cobriu com o dorso da mão. Esperava passar o resto do dia na cama, ou ao menos em seu dormitório, mas o sargento Strickland apareceu no vão da porta a última hora da tarde para lhe informar de que era a noite livre das damas, quem o tinha enviado para convidá-lo para jantar com elas se gostasse. – Embora deva lhe advertir – acrescentou, – senhor, de que eu também estou convidado. – E talvez não me pareça apropriado jantar com um sargento, refere-se a isso? – perguntou-lhe com as sobrancelhas arqueadas. – Strickland, nem sequer sei que posição ocupa minha verdadeira identidade no escalão social, mas lhe asseguro que a identidade que lhe fala está encantada de jantar com um sargento e com quatro damas da noite também. Ter companhia viria como pérolas, decidiu enquanto o sargento o ajudava a vestir a jaqueta e a se pentear ao mesmo tempo em que ele tentava atar a gravata de forma medianamente decente. De repente, suas mãos se detiveram o cair na conta, não sem certo humor, de que alguém ficaria horrorizado se o visse de semelhante maneira. Entretanto, face à firmeza da ideia, foi incapaz de achar um rosto ou um nome. Quem ficaria horrorizado? Por um momento acreditou estar a ponto de encontrar um nome no fundo de sua mente. Como se um véu ocultasse as profundidades de suas lembranças e de súbito se visse agitado por uma rajada de ar que ameaçava afastar e deixar à vista tudo o que havia atrás dele. Mas o obstinado véu continuou em seu lugar. Tentou elucidar algo ao menos. Tratava-se de um homem ou de uma mulher? Quem demônios cruzava por sua mente quando estava totalmente despreparado? Todos seus esforços foram em vão. – Dói-lhe, senhor? – perguntou o sargento. – Não, não me passa nada – respondeu. Assim que entrou na sala de jantar pensou que o sargento devia estar confundido a respeito da noite livre. As damas estavam bem. Saias de cetim de brilhantes cores, decote que corriam o risco de deixar tudo à vista, espartilhos apertadíssimos, complicados coques com cachos, toucados muito altos de plumas, perfume florais intensos e cosméticos faciais. A imagem lhe recordou sua primeira impressão ao conhecê-las. Saudou com uma reverência tão pronunciada e elegante como lhe permitiram as muletas. – Continuo convencido de que morri e estou no céu – lhes disse.


Percebeu de que o diminuto lunar negro com forma de coração que Geraldine levava em ocasiões perto da boca descansava essa noite sobre o peito esquerdo. Arrumaram-se para ele, concluiu. Porque ia jantar com elas. Teria posto a rir, mas não queria arriscar-se a ofendê-las. Tinha muitíssimo carinho a elas. Rachel York ia vestida igual à noite anterior com a diferença de seu penteado, que nessa ocasião era um simples coque. Seu cabelo brilhava como ouro brunido à luz do candelabro colocado no centro da mesa. Repreendeu-se mentalmente. Devia ter perdido o uso da razão ao havê-la tomado por mais uma trabalhadora do bordel. Uma vez tirada à atadura dos olhos, estava muito claro que era uma dama irrepreensível e elegante. Ainda estava perturbado com ela; ou talvez consigo mesmo por ter sido tão tolo. Foi um jantar estranho. Não tinha criados, tal como tinha suposto. Ao que parecia, Phyllis se encarregava da cozinha e, por sorte, era bastante boa nos fogões. Entretanto, as cinco colaboraram na hora de servir a comida, de levar à sala de jantar as bandejas com os pratos quentes e de retirá-los depois. A conversa foi amena e inteligente. Falaram sobre Bruxelas; sobre o contraste entre o que tinha sido a cidade algumas semanas atrás, imersa nos deslumbrantes eventos organizados pela aristocracia, e o que era nesse momento uma vez que todos os visitantes partiram. Falaram sobre a guerra e suas consequências; sobre as probabilidades de conseguir a paz e a prosperidade para a Europa depois de ter apanhado de novo Napoleão Bonaparte. Pediram ao sargento Strickland sua impressão a respeito da estratégia utilizada na batalha. Falaram sobre Londres, seus teatros e suas galerias de arte. Rachel York, que se tinha mantido muito calada durante todo o jantar, falou por fim depois que tivessem dado boa conta da sobremesa. Cravou o olhar nele e com um profuso rubor nas faces disse: – Acho que dei com o modo de me fazer com minhas joias. – Vai deixar me subir pela hera, não é verdade? – perguntou Geraldine. – O senhor Smith me acompanhará ao Chesbury Park – explicou – e fingirá ser meu marido. Conseguiremos que meu tio aprove nosso matrimônio e assim me entregará a herança. Depois venderei um par de peças e iremos em busca do senhor Crawley, se ainda querem fazê-lo, enquanto o senhor Smith vai em busca de sua família e seu lar. Produziu-se um incompreensível alvoroço quando quatro vozes femininas se elevaram ao uníssono. Foi Bridget quem ganhou a batalha. – Querido, vai fingir ser seu marido? – perguntou. – E por que não se casa de verdade? – Bridge, se o fizer, me vestirei de luto rigoroso – protestou Geraldine, – em solidariedade com o resto das mulheres do mundo. O negro me favorece. – É uma ideia estupenda! – exclamou Flossie. – Não sei como não nos ocorreu antes. Certamente funciona. – Não pode ser um matrimônio legítimo – explicou ela. – O senhor Smith nem sequer recorda quem é. Além disso, decidi que se alguma vez me casar, será por amor. Foi uma estupidez me conformar com menos quando o senhor Crawley me propôs matrimônio. Graças a Deus que percebi a tempo do engano. – Será um êxito – disse Phyllis, levando-as mãos ao peito. – Assim que o barão o olhe, sairá correndo pelas


joias. – Phyll, não acredito que devamos dar por sentado que o barão vai cair rendido aos pés do senhor Smith como nos aconteceu – lhe advertiu Flossie. – Terá que utilizar seu encanto de um modo muito distinto, mas me atrevo a dizer que estará à altura das circunstâncias. Esse brilho malicioso que tem nos olhos me diz que adora estas situações e que representará o papel. – Além disso – acrescentou Geraldine, – tem esse ar aristocrático que cheira a família de ascendência, a dinheiro e a poder. Ai, que me sai o coração! Rache, crê que seu tio o engolirá se me faço passar por você e finjo ser a senhora Smith? – Nem em sonhos, Gerry – respondeu Phyllis. – Mas viu quão romântico é tudo isto? Certamente o senhor Smith se apaixona por Rachel e ela por ele, e acabam casados, felizes e comendo perdizes. – Não me surpreenderia nada – assegurou o sargento Strickland, – se me desculpar por expressar minha opinião embora ninguém a tenha pedido, senhorita. E se você me desculpar, senhor. Às vezes me perde a língua. A situação era tão cômica que lhe arrancou um sorriso. A senhorita York parecia muito desconfortável. – Mas antes de nada temos que arquitetar uma história para o senhor Smith – disse Bridget, tentando pôr ordem. – Temos que inventar toda uma vida e não deixar nada ao azar. Depois terá que aprendê-la de cor, e a própria Rachel terá que aprender sua parte. Aconteceram numerosas sugestões, a maioria descabeladas, por isso as gargalhadas foram a tônica durante um momento. Enquanto isso, ele se manteve em silêncio, mas acabou erguendo a mão para chamar a atenção dos presentes. – Nego-me a ser um limpador de chaminés que acaba de descobrir que é um príncipe – disse – ou um duque que na verdade é o filho ilegítimo do rei e sua amante preferida, embora reconheça que as duas sugestões são brilhantes e muito tentadoras. Talvez me resolva por um baronete com uma propriedade no norte da Inglaterra. Embora acredite que seria melhor que fôssemos a senhorita York e eu quem decidisse os detalhes e depois os expuséssemos para lhes pedir opinião. – A senhorita York! – exclamou Phyllis. – A partir deste momento deve chamá-la Rachel! E ela deve chamá-lo de Jonathan. A menos que prefira o nome de Orlando, tal como sugeri faz um momento, que é muitíssimo mais romântico. – Resta uma garrafa de vinho – disse Flossie. – Está na despensa, debaixo da última estropia da estante, no chão. Pode ir buscá-la, William? Tínhamos ela reservada para uma ocasião especial e acredito que já chegou. Devemos celebrar um matrimônio fictício. Percebeu que Rachel York estava aflita quando chegou o momento dos brindes, como se realmente estivessem celebrando suas bodas. Outros, em troca, pareciam transbordantes de alegria. Entretanto, o que até então era um plano desatinado estava a ponto de transformar-se em uma loucura em toda regra. – Senhor, não pode aparecer na porta do barão sem um criado de quarto – disse o sargento Strickland, que acabava de deixar a taça vazia na mesa. – Não pode dizer-se que seja a melhor opção como criado de quarto,


sobre tudo por minha corpulência, minha brutalidade ao falar e meu passado militar, mas pelo menos dá uma pedra. Irei com você. Não é preciso que se preocupe com a falta de salário. Como já lhe disse, tenho o suficiente para pagar a passagem a Inglaterra e cobrir minhas necessidades durante um mês mais ou menos, assim isto me dará a oportunidade de fazer algo enquanto me centro, por dizê-lo de algum modo. Olhou-o com as sobrancelhas arqueadas. O tipo estava certo. Que impressão ia causar se aparecia no Chesbury Park como marido de Rachel sem um criado de quarto? Sem dinheiro, nem bagagem. Para falar a verdade, só tinha o que tinha posto. De repente, compreendeu que deviam traçar planos muito detalhados antes de partir para o Wiltshire. Não obstante, Bridget tomou a palavra antes que pudesse dar uma resposta ao sargento. – Além disso, Rachel não pode chegar com a única companhia do senhor Smith – assinalou, – embora supostamente esteja casada com ele. Ao fim e ao cabo, o matrimônio é muito recente e devemos dar ao barão Weston a impressão de que contou com a companhia de uma dama decente em Bruxelas. Eu serei sua dama de companhia, querida. Que não nos esqueçamos que, como não estão realmente casados, não seria adequado que viajassem juntos sem acompanhante. – Mas, Bridge – declarou Flossie, – com esse cabelo o barão Weston saberá que é uma puta embora esteja cego. – Posso tingi-lo – afirmou. – Tingirei de minha cor natural. Um bonito e respeitável castanho claro. – Entretanto, Bridget – interveio Geraldine, – não podemos deixar que você seja a única que se divirta. Se tirar férias durante umas semanas, não vejo por que as demais não podem fazer o mesmo. Por minha parte, não tenho nem um pingo de vontade de voltar a trabalhar em Londres antes de ter dado seu castigo a esse inseto do Crawley e não poderemos fazê-lo até que alguma das garotas nos dê uma pista sobre seu paradeiro, não é? Se formos passar esse tempo pensando na morte da bezerra, bem poderíamos nos divertir um pouco. Já me imagino no papel de criada de uma dama. Me dou bem em arrumar o cabelo, todas me disseram isso, e também o de escolher os objetos que melhor lhes assentam. Irei com vocês no papel de sua criada, Rachel. Seria estranho que não tivesse uma. Com sorte, acharei que a criadagem do barão Weston está infestada de altos e bonitos lacaios, de cavalariços bonitos e fortes, e de jardineiros bonitos e bronzeados. Mas não se preocupe porque não a farei ficar mau. Sei como me levar com decoro quando a ocasião o requer. Sentado ao outro lado da mesa, dividido entre a risada e a consternação, Alleyne se perguntou se Rachel também sentiria que a situação lhe escapava das mãos. Conforme seu silêncio, isso era justo o que estava pensando. – E nós o que? – perguntou Phyllis com voz ofendida. – O que vamos fazer Flossie e eu enquanto vocês duas se divertem no Chesbury Park? – Por Deus, Phyll, utiliza a imaginação! – exclamou Flossie, piscando de forma exagerada ao mesmo tempo em que levava uma mão a seus cachos loiros em um gesto muito coquete. – Damas e cavalheiros, apresento-lhes à senhora Floresce Streat, respeitável e respeitada viúva do defunto capitão Streat, e boa amiga da senhorita Rachel York, a quem viu sair de sua casa para contrair matrimônio. E você, linda – acrescentou, Sorrindo ao Phyllis com elegância, – é minha querida cunhada se não me engano. A


irmã de meu defunto marido, casada com o capitão Leavey quem, neste momento, encontra-se de serviço em Paris. – Floss, não posso acreditar nisso! – replicou Phyllis depois de beber sua taça de vinho. – Tem problemas para reconhecer a sua cunhada, depois de haver partido juntas da Inglaterra aonde voltaremos também juntas? – Passando pelo Wiltshire antes de retornar a casa – prosseguiu Flossie, – porque queremos acompanhar a nossa querida amiga, a deslumbrante lady Smith, e a seu marido ao Chesbury Park. – Vá Por Deus! – protestou Geraldine. – Agora me arrependo de me haver condenado eu só à cozinha. Embora talvez não. Ao menos terei a todos esses lacaios, cavalariços e jardineiros para mim quando não estiver escovando o cabelo de Rachel. E poderei fofocar com o Will. Nesse momento Alleyne decidiu pigarrear e os quatro tocados de plumas se agitaram no ar quando as damas viraram a cabeça para olhá-lo. – Não obstante, devemos ter presente que isto não é uma brincadeira – lhes recordou. – O principal é conseguir que a senhorita York... que Rachel e eu lhe demos uma impressão bastante boa a seu tio para que lhe entregue o que de qualquer modo seria seu ao cumprir os vinte e cinco anos. Isso fez com que recuperassem a seriedade na hora e o olhassem com expectativa. – Mas também pode ser divertido – replicou Geraldine depois de um breve silêncio. E o alegre bate-papo começou de novo. – De qualquer forma, teremos que esperar ao menos uma semana ou um pouco mais antes de partir – disse Rachel, falando por fim. – Até que o senhor Smith se sinta um pouco mais forte e o sargento Strickland se livre das ataduras. – Chama-se Jonathan, Rachel – lhe recordou Phyllis. – Terá que começar a chamá-lo Jonathan. Ou Orlando. Veem-no com pinta de chamar-se Orlando? – Consegui um tapa-olho – anunciou o sargento. – Mas não pus isso ainda porque os hematomas não desapareceram. Não quero assustar as damas. – Pois eu acredito, Will, que lhe assentará divinamente com hematomas ou sem eles – replicou Phyllis. – Desde que não haja sangue, claro está. – Não é preciso que atrasemos os planos por minha culpa – assegurou ele. – quanto antes comecemos com a farsa, melhor. Assim ele, um homem sem dinheiro, sem identidade e sem posses, estava destinado a viajar a Inglaterra com uma esposa fictícia, rodeado de um séquito composto por um ex-militar com pinta de pirata como seu criado de quarto e quatro prostitutas espantosas no papel de damas de companhia e criadas. Se por acaso isso fosse pouco, seu objetivo ao viajar ao país não era outro que o de arrebatar a um cavalheiro respeitável uma fortuna em joias. E tudo tinha começado com a impulsiva sugestão que tinha feito essa tarde no jardim. – Dói-lhe a perna, senhor Smith – lhe disse Rachel de repente, – e cai de cansaço. Com certeza se excedeu


hoje e já não pode mais. Amanhã terá que ser mais cuidadoso. Estava certa, é obvio. Levava já um momento sem querer fazer caso aos sintomas, embora não sabia como tinha força para continuar erguido na cadeira a essas alturas. A dor pulsante da perna não lhe dava trégua e começava a sentir uma dor de cabeça em um ponto situado depois dos olhos. Viu-a ficar em pé. – Vamos – disse, – o levarei a seu quarto. Suas palavras lhe fizeram arquear as sobrancelhas. Ia levá-lo a seu quarto? Como se não pudesse chegar sozinho? Decidiu não pigarrear. – Sim, acompanha-o, Rache – lhe disse Geraldine. – E agasalha-o para que não passe frio esta noite. – Mas veja se vai ocorrer-lhe se colocar na cama com ele, né? – soltou Flossie. – Recordo-lhe que este é um estabelecimento respeitável e que seu matrimônio é fictício. – E não fique muito tempo, querida – acrescentou Bridget, como se sua antiga pupila não tivesse passado dias inteiros em seu quarto durante as últimas duas semanas. – Deixa a porta entreaberta. – Ai, como eu gosto das histórias românticas! – exclamou Phyllis com um suspiro. – Embora sejam de mentira. – Há algo certo sobre as mentiras – disse Alleyne à Rachel quando saíram da sala de jantar e se certificou de que não os ouviam. – Assim que se soltam, crescem como a espuma. Está preocupada com o que acaba de escutar aí dentro? – Estou preocupada com tudo o que estou escutando desde esta tarde – lhe respondeu ela enquanto fechava a porta de seu dormitório, embora não passou a chave. – Mas não vou pôr travas a ninguém. Graças a sua ajuda poderei fazê-las felizes, e precisam afastar um tempo da vida que levaram estes últimos anos. Apesar do que possa parecer, não são pessoas vulgares. São minhas amigas, senhor Smith. E embora acabem por descobrir, ou acabem por descobrir a você, que mais dá? Não posso acabar pior do que já estou, não é? Meu tio não poderá me negar a herança que me corresponde uma vez que complete os vinte e cinco. – Deveríamos seguir os conselhos que nos deram – respondeu. – Será melhor que me chame Jonathan e eu vou chamá-la de Rachel de agora em diante. Supostamente vamos estar enamoradíssimos e não vamos ser o tipo de casal que se trata de senhor e senhora. Ela o olhou carrancuda. – Muito bem, de acordo – cedeu. – Mas devemos deixar uma coisa clara desde o começo, senhor Jonathan. O de ontem à noite não pode repetir-se e não vai haver nenhuma paquera; por nenhuma das duas partes. É possível que esteja casado mas, embora não fosse assim, você não gostaria de acabar carregando uma esposa antes inclusive de ter recuperado sua vida normal. Além disso, não estou pelo trabalho de me casar. Embora o estivesse quando conheci o senhor Crawley, desde que me liberei dele me dei conta de que valorizo muito minha independência, muito para renunciar a ela sem um motivo de peso. – Para não mencionar – acrescentou – para não ser menos, ontem à noite nos decepcionamos mutuamente. – Sim... isso – concordou ela, que inclusive teve a delicadeza de ruborizar-se.


– Apesar das amostras de carinho que nos veremos obrigados a fazer diante de outras pessoas, não haverá nada entre nós no âmbito privado – acordou enquanto Rachel desviava o olhar. Descobriu que o estava passando em grande, e isso que estava morto de cansaço e que lhe doíam até as pestanas. Sentou-se na borda da cama, apoiou as muletas na cabeceira e ergueu uma mão para detê-la antes que acudisse disposta a ajudá-lo. – Rachel – lhe disse, – já não é preciso que esteja a minha inteira disposição para satisfazer minhas necessidades. Para falar a verdade, ficaria muitíssimo mais tranquilo se a partir deste momento se mantivesse afastada de mim. Suas palavras a deixaram sem respiração. – Muito bem. Nesse caso – replicou, – direi ao sargento Strickland que suba. E com isso deu meia volta e saiu sem dizer nem meia palavra mais. Certamente que não era uma prostituta, mas uma inocente dos pés à cabeça. Nem sequer tinha entendido o que lhe tinha deixado cair. Tinha suposto que não suportava que o tocasse. E estava certo, mas não pelas razões que certamente se estava imaginando. Seguia aborrecido com ela e admitia que talvez seu bom senso o tivesse abandonado ao sabor dos acontecimentos do dia. Não, corrigiu-se, não havia "talvez" que valesse. Mas não estava morto. E Rachel continuava sendo a criatura mais formosa e sedutora que tinha visto na vida. Já era muito tarde, mas acabava de compreender que traçar um plano que o mantivesse perto dela (muito perto, em realidade) era possivelmente a estupidez maior do mundo. E ficava deficitário. Quem ia pensar que uma queda do cavalo poderia causar semelhante caos na vida de um homem? Tentava levantar a perna esquerda para subi-la na cama quando o sargento Strickland chegou para ajudá-lo. – Fez o correto, senhor, e lhe peço desculpas por expressar minha opinião apesar de não me ter pedido isso – disse o homem enquanto lhe tirava a jaqueta e colocava as suas pernas sobre a cama. – Obrigado, Strickland – replicou. – Mas como suspeito que está acostumado a dar sua opinião a peçam ou não, não é necessário que se desculpe cada vez que o faça. – Agradeço, senhor – respondeu o sargento, que nesse momento lhe estava tirando as calças. – Afrouxou a atadura. Quer que volte a colocá-la? – Sim, por favor – respondeu. – Suponho que ficou claro que meu matrimônio com a senhorita York será totalmente fictício, não é? – O que me ficou claro é que se comprometeu a atuar como marido e protetor da dama, senhor – respondeu Strickland, – sem importar se o matrimônio é ou não fictício. E como é um cavalheiro e um cavalheiro jamais evita uma relação de semelhante natureza a menos que a dama lhe ponha fim, não acredito que haja nada fictício no assunto. Fez você o correto e o honroso depois da dor de cabeça que a obrigou ontem à noite a tirar as forquilhas enquanto lhe fazia companhia. O seguinte passo corresponde a ela, não lhe parece? Terá que decidir se quiser que o matrimônio seja real ou fictício. Evidentemente, refiro à quando recuperar você a memória e descubra se é ou não um homem casado. – Obrigado, sargento – replicou com brusquidão e, enquanto seu novo criado de quarto lhe tirava a atadura e


a enrolava para voltar a colocá-la, percebeu que a ferida estava sarando com rapidez embora ainda tivesse a perna inchada e a dor não tivesse desaparecido. – me fazia falta esse homem dado a repreensão sobre minhas obrigações como cavalheiro. – Não, senhor, não fazia falta – corrigiu o homem. – Mas é que eu tenho a língua muito longa. Não há sinal de putrefação na ferida, vê? Em algumas semanas estará como novo, embora certamente que as feridas internas são mais graves que as externas. Suas palavras o fizeram olhá-lo de forma pensativa enquanto se endireitava, uma vez completado seu trabalho. – Strickland, estaria você disposto a me prestar a metade de seu dinheiro? – perguntou-lhe. O sargento sacudiu os ombros e lhe respondeu sem titubear: – Estive pensando como poderia lhe oferecer dinheiro, embora não seja muito, sem ofendê-lo, senhor. Um cavalheiro deve dispor de recursos, não? Não estaria bem que esperasse que as damas afrouxassem o bolso cada vez que goste de refrescar o gogó com uma cerveja. E não é preciso que o considere um empréstimo. É um presente de minha parte. Tenho de sobra. – Mesmo assim, será um empréstimo – insistiu com firmeza. – E espero devolvê-lo logo. O que sabe de Bruxelas? Estava destinado na cidade antes da batalha do Waterloo? Conhece algum estabelecimento onde se aceitem apostas fortes? Além deste, é obvio. – Jogos de cartas? – perguntou Strickland por sua vez enquanto o ajudava a despojar do resto da roupa e lhe punha a camisa de dormir. – Conheço alguns lugares, sim, mas não costuma frequentá-los os de sua classe, senhor. – Não importa – assegurou. Embora apetecível em certo modo, a possibilidade de que pudessem reconhecê-lo se pisasse em algum estabelecimento frequentado pela classe alta poderia complicar muito as coisas depois de ter aceitado acompanhar Rachel York a Inglaterra. – O que você escolher estará bem. – Vai jogar, senhor? – quis saber o sargento, que nesse momento lhe estava colocando um almofadão sob o joelho esquerdo, o qual aliviou a dor imediatamente. – Está seguro de que recorda as regras? – A perda de memória é algo estranho – respondeu. – Ou, ao menos, a minha o é. Acredito recordar tudo salvo os detalhes concernentes a minha identidade. – Tinha sorte com as cartas, senhor? – voltou a perguntar Strickland. – Não tenho a menor ideia – respondeu. – Mas assim o espero. Se não, o casamento que aparecerá às portas do Chesbury Park dentro de uns dias será tão pobre como os ratos. E estarei endividado de forma vergonhosa com você além de com as damas que me atenderam. – A sorte lhe sorriu no amor – comentou o homem com voz alegre, decidido aparentemente a acreditar que o casamento acabaria sendo de verdade e ainda por cima contraído por amor. – Tomaremos como um bom presságio, senhor. Perguntarei por aí qual é o melhor estabelecimento. Pode ser que as coisas tenham mudado um pouco depois da batalha. Se me permitir, acompanharei o, senhor. Para


lançar um olho em caso de que alguém queira passar dos limites, coisa que não espero nem por brincadeira. E também para tentar a sorte. – Trato feito – aceitou. – Tão cedo me vai deixar na escuridão para que durma? Strickland estava apagando as velas antes de partir. – Está cansado, senhor – disse, a modo de resposta. – Não era preciso que a senhorita York me dissesse isso, porque salta à vista. Cansado e preso em uma cama na escuridão, a uma hora em que supunha que a maioria de seus pares se dispunham a sair para a farra, pensou. Tomara pudesse recordar uma só noite em que ele tivesse feito o mesmo. Tomara pudesse afastar esse denso véu e recuperar alguma lembrança. Uma só. Porque estava seguro de que atrás dela, outras iriam de roldão. Entretanto, a carência de lembranças com que se distrair para conciliar o sono o levou a rememorar as últimas horas. E ao cabo de uns instantes estava rindo-se entre dentes.


CAPÍTULO 10

Rachel não se acreditava capaz de reconhecer a seu tio quando voltasse a encontrar-se com ele. Não o tinha visto desde que tinha seis anos. Naquela época lhe tinha parecido alto, forte e musculoso, nobre e simpático. Entretanto, suas impressões não demoraram para azedar-se. Embora estava uma hora sem chover, a carruagem deu uma sacudida por causa de um buraco cheio de barro e o movimento fez que um de seus joelhos roçasse o de Jonathan Smith, que estava sentado em frente. Por sorte, era o joelho de sua perna sã, embora a outra se curara com bastante rapidez ao longo das duas semanas e meia que estava utilizando as muletas. Já podia apoiar um pouco de peso sobre essa perna, embora ainda utilizasse uma bengala para caminhar. Apressou-se a afastar a perna e seus olhos se encontraram antes que desviasse a vista para aparentar que estava interessada na paisagem que se via do outro lado da janela. Ambos tinham completado com todo o rigor o pacto que combinaram depois que lhe sugerira essa farsa. Apenas se haviam tocado, apenas se tinham ficado a sós, mal tinham mantido uma conversa privada. Como resultado, em lugar de encontrar-se mais confortável em sua presença, era justamente o contrário. Ainda não dava crédito ao ocorrido àquela ditosa noite. Resultava-lhe impossível. Devia tê-lo sonhado. Mas, cada vez que chegava a essa conclusão, vinham a sua mente uma série de imagens incrivelmente detalhadas de si mesma, dele, dos dois e tinha vontade de atirar-se de cabeça ao poço mais próximo para esconder-se e refrescar-se. O fato de que ele estivesse cada dia mais forte, mais saudável, mais atraente, mais masculino e mais... mais de tudo! Tampouco ajudava muito. Jamais teria imaginado que sua vida tomaria semelhante rumo, pensou ao mesmo tempo em que se aferrava ao cabo de couro que tinha sobre o ombro quando a carruagem deu outra sacudida. Era muito estranho. A sacudida despertou Bridget, que tinha ficado adormecida. Endireitou-se e colocou bem a touca. – Quase fico adormecida – soltou. – Eu adoro seu novo aspecto, Bridget – lhe disse. – Isso é porque pareço uma respeitável mulher casada, querida – aduziu a aludida com ironia. – Não, é porque volta a se parecer com minha querida babá – corrigiu-a, lhe dando um apertão no braço. Flossie, Phyllis e Geraldine viajavam na carruagem que os seguia, com o sargento Strickland. As quatro damas tinham abandonado sua escandalosa vestimenta antes de deixar Bruxelas e vestiam trajes que quase eram cômicos por sua respeitabilidade. Bridget, com o rosto lavado e o cabelo de um castanho suspeitosamente uniforme, tinha recuperado sua antiga aparência.


Também parecia mais jovem, embora jamais tivesse admitido. Jonathan também parecia mais bonito e elegante do que devesse. Seu novo guarda-roupa era muito caro. Tinha dinheiro. Embora não tinha sabor de conhecimento certo como o tinha conseguido, tampouco era preciso ser um gênio para adivinhar. Tinha saído algumas vezes com o sargento Strickland, e na segunda ocasião retornou com um baú cheio de roupa nova, umas botas e uma bengala... e também com quantidades enormes de comida para a casa. Pagou a passagem de volta a Inglaterra e também tinha pago a sua, embora tinha toda a intenção de lhe devolver o dinheiro assim que tomasse posse de suas joias e vendesse algumas peças. Também tinha pago por sua conta o aluguel dos cavalos quando pisaram em chão inglês. Se em sua outra vida foi um jogador, estava claro que não tinha perdido sua habilidade. Devia ter ganho uma fortuna. Não obstante, se havia alguém a quem desprezasse por cima de algo era aos jogadores. Seu pai o tinha sido. Menos mal que não se havia apaixonado por Jonathan Smith e que seu matrimônio não fosse real. Os jogadores não eram maridos responsáveis nem pessoas de quem se pudesse depender... E isso era um eufemismo como uma catedral. Havia momentos de abundância e extravagantes caprichos, mas também semanas, meses e inclusive anos de pobreza extrema e de dívidas asfixiantes. Para cúmulo, tinha outros defeitos. A que outro cavalheiro lhe teria ocorrido um plano semelhante e o teria levado a cabo? Quem o teria posto em marcha com tanto entusiasmo? Tinham passado horas discutindo os detalhes com ele e sempre tinha dado mostras de estar desfrutando lindamente. Seus olhos já eram bastante bonitos por si, pensou ressentidamente, sem necessidade de que os iluminasse esse brilho malicioso e travesso que aparecia tão frequentemente. Nesse momento os olhou e descobriu que estavam cravados nela. – Logo chegaremos – escutou-o dizer. Durante a última mudança de cavalos lhes tinham assegurado que não era preciso nenhum mais. Desejou por um momento encontrar-se em qualquer lugar do mundo menos ali, nas imediações do Chesbury Park. Sentia um terrível nó no estômago e o pânico a consumia por momentos. Que coisa estava fazendo? Reclamar o que era seu, o que sua mãe lhe tinha legado, simples e sinceramente. De qualquer modo, já era tarde para mudar de planos, embora a julgar pela expressão com a que Jonathan a estava olhando suspeitava que ele sabia que estava a ponto de fazer precisamente isso. Olhava-a com expressão risonha. E isso também a irritava. Como era possível que seus olhos rissem dela enquanto mantinha o rosto impassível? Certamente era consciente de como estava atraente com essa expressão. – Que tal lhe parece este lugar? – perguntou-lhe. – É a Inglaterra – respondeu ele, encolhendo-se de ombros. – Não esqueci o país, Rachel, só o lugar que ocupo nele. Mal prestou atenção a sua resposta. A carruagem acabava de deixar atrás uma grade de ferro forjado,


momento no qual se deu conta de que tinham chegado ao Chesbury Park. Além da grade corria um caminho de cascalho que atravessava um arvoredo de carvalhos e castanheiras. Tudo lhe parecia enorme e grandioso. A audácia do plano que tinham tramado voltou a deixá-la perplexa. A partir desse momento vislumbrou entre as árvores rápidos retalhos de uma imponente mansão de pedra cinza, muito maior do que tinha esperado. Ali tinha crescido sua mãe? Esse era seu lar? Ao redor da mansão se estendiam imensos prados salpicados de árvores, conforme comprovou cada vez que o arvoredo o permitia, e também viu um enorme lago além dos estábulos. Além de um extenso jardim com flores paralelo à fachada principal da mansão. Quando a carruagem chegou à altura do lago e tomou a curva fechada que deixava atrás o estábulo e conduzia ao terraço que separava a mansão do canteiro, percebeu de que talvez seu tio não se encontrasse em casa. Grande decepção levariam todos! Tomara acontecesse, desejou. Claro que desse modo ficariam atirados no meio de o Wiltshire sem um penny e sem um plano alternativo. Jonathan se tinha inclinado para frente para lhe colocar uma mão no joelho. – Acalme-se – disse. – Tudo sairá bem. A única coisa que conseguiu foi que desse um pulo pelo contato e que se sentisse mais intranquila. A carruagem se deteve ao pé de uma ampla escadaria de pedra que conduzia a uma enorme porta de dupla folha. Estava fechada totalmente e ninguém saiu para averiguar a identidade dos viajantes que acabam de chegar em duas carruagens desconhecidas. Tampouco apareceu algum cavalariço dos estábulos. O cocheiro saltou da boleia, abriu a portinhola e desceu os degraus. O ar quente estival inundou o interior da carruagem, que estava bastante carregada. Jonathan desceu com cuidado e depois a ajudou a apear-se, apoiando-se na bengala. Os outros também estavam descendo da outra carruagem, conforme comprovou. Geraldine e o sargento Strickland ficaram junto ao veículo. A pesar do insignificante vestido cinza, da capa e da volumosa touca que levava sob o chapéu, sua amiga continuava tendo o aspecto de uma voluptuosa atriz italiana. Um aspecto que outras criadas odiariam a primeira vista e que provocaria mais de uma briga entre seus colegas masculinos. O sargento Strickland, com um tapa-olho negro sobre a órbita vazia e o rosto coberto de hematomas cujos tons iam do amarelado ao cinzento, parecia um feroz pirata tal como Geraldine havia predito. As outras duas ocupantes da segunda carruagem caminharam pelo terraço enquanto Jonathan ajudava Bridget a descer. Phyllis tinha o aspecto de uma mulher agradável e simples que não tinha tido um pensamento pecaminoso na vida. Flossie, com o cabelo loiro recolhido sob um gorro negro e embutida em um vestido da mesma cor, apresentava uma imagem frágil, atraente e tão respeitável como a da esposa de qualquer pároco. – Não consigo me acostumar a olhar seu cabelo sem ter que entrecerrar os olhos, Bridget – disse Phyllis. – Belisque as faces, Rachel – aconselhou Flossie. – Parece um fantasma. Jonathan voltou a surpreendê-la ao lhe agarrar a mão para colocá-la no braço. Quando o olhou, viu que a observava com manifesta adoração.


– Que comece o jogo – o escutou dizer. – Sim – respondeu com um sorriso deslumbrante. Ajudou-a a subir os degraus da entrada e bateu na porta com o cabo da bengala. Passou um minuto, ou isso lhes pareceu, antes que um ancião abrisse e os olhasse a todos como se tivessem duas cabeças. – A senhora Streat, a senhora Leavey, a senhorita Clover e sir Jonathan com lady Smith, de solteira York, para ver o barão Weston – disse Jonathan com voz brusca ao mesmo tempo em que estendia ao ancião um cartão. – Se encontra em casa? – Vou ver senhor – foi a evasiva resposta do criado, embora se fizesse a um lado para deixá-los entrar. Jonathan tinha se recordado até dos cartões de visita! Do chão axadrezado do vestíbulo se erguiam fileiras de altas colunas estriadas para suportar o peso do piso superior. O teto era dourado e estava decorado com o que pareciam anjos. Vários bustos de mármore sobre seus correspondentes pedestais os olhavam dos nichos com expressões severas. Uma ampla escadaria se erguia bem em frente da porta e se dividia em dois lances ao chegar ao patamar, de onde subiam em curva. Sobre ela pendia um enorme lustre. Era um vestíbulo desenhado para assombrar ao visitante, pensou. E com ela o tinha conseguido. O criado desapareceu escada acima. Sempre tinha imaginado que Chesbury Park seria uma casa de considerável tamanho, rodeada de jardins, mas não esperava que fosse uma grande mansão nem que estivesse rodeada por uma imensa propriedade. Pela primeira vez compreendeu a magnitude do desafio de sua mãe quando se casou contra a vontade do tio Richard. Tinha trocado tudo isso pelos escuros e desmantelados alojamentos que costumavam alugar em Londres. – É enorme – murmurou Phyllis. Todos estavam olhando a seu redor com os olhos arregalados, salvo Jonathan, percebeu. Em seu rosto viu certo interesse, mas parecia estar como peixe na água. Queria dizer que estava acostumado a semelhante esplendor? Ao cabo do que lhe pareceu uma eternidade, o criado retornou e lhes pediu que o acompanhassem. Guiou-os pelo lance esquerdo da escadaria até o segundo patamar, de onde partiam dois amplos corredores. Entretanto, não entraram em nenhum, mas os conduziu rapidamente para a porta que tinham bem em frente e que dava para um salão. As paredes, revestidas com brocado vinho, estavam repletas de retratos e paisagens com molduras douradas. O teto abobadado estava decorado com cenas procedentes da mitologia grega, e as enormes janelas tinham cortinas de luxuoso veludo. Um tapete persa cobria quase todo o chão, e as peças do mobiliário, todas elas douradas e volumosas, estavam distribuídas em pequenos grupos, embora o principal se achava diante da enorme chaminé de mármore esculpido. De costas à chaminé havia um cavalheiro. Não era muito grande, embora a primeira vista desse essa impressão. Era magro, com o cabelo vetado de cinza (de fato, esse parecia ser a cor predominante em sua pessoa, porque tinha até a pele cinzenta) e os ombros encurvados. Entretanto, embora tivesse estado erguido, sua altura


não teria ultrapassado a média. Fazia dezesseis anos sem ver seu tio, de modo que o estudou com atenção. Não se parecia em nada ao homem que recordava. Seria o mesmo? Uns olhos penetrantes situados sob umas sobrancelhas grossas e grisalhas a observaram enquanto se adiantava e o fazia uma reverência formal. Reconheceu-o nesse momento. Recordava esses olhos, que sempre a tinham olhado diretamente. Poucos adultos olhavam as crianças de verdade. – Tio Richard? – perguntou-se se deveria cortar a distância que os separava e lhe dar um beijo na face, mas tinha duvidado muito e foi impossível fazê-lo. Além disso, esse homem era um estranho para ela embora fosse seu único parente conhecido. – Rachel? – Correspondeu, com as mãos às costas enquanto inclinava a cabeça de forma elegante, mas fria. – Parece-se com sua mãe. Assim casou-se, não? – Sim – respondeu. – A semana passada em Bruxelas, onde estava desde antes da batalha de Waterloo. – Virou a cabeça e esboçou um sorriso radiante quando Jonathan se colocou a seu lado. – Permita-me que o apresente a sir Jonathan Smith, tio? Jonathan, este é o barão Weston. Saudaram-se com um gesto de cabeça. – Antes de contrair matrimônio vivia com umas boas amigas – seguiu explicando – e como também tinham planejado retornar a Inglaterra esta semana, foram amáveis de nos acompanhar até aqui. Tenho o prazer de lhe apresentar à senhora Streat, a sua cunhada, a senhora Leavey, e à senhorita Clover, que teve a amabilidade de ser minha acompanhante quando deixei meu emprego com lady Flatley. A apresentação foi seguida pelas saudações e reverências de rigor. – Phyllis e eu insistimos em acompanhar a nossa querida amiga até sua porta antes de seguir nosso caminho – explicou Flossie. – Evidentemente era desnecessário pois se casou com sir Jonathan e conta com a companhia de nossa querida Bridget. Mas é que a queremos muitíssimo! – De algum modo, se compôs para parecer formosa e esgotada ao mesmo tempo, como se a viagem tivesse sido um nobre sacrifício e um calvário ao mesmo tempo. – Asseguramos a nossa querida Rachel que você se zangaria conosco se a abandonássemos a assim que chegássemos a Inglaterra – acrescentou Phyllis com um sorriso amável, como se fosse uma rainha rebaixando-se a falar com um plebeu. – Embora esteja segura de que não se teria zangado muito, já que agora é uma dama casada. Ainda não conseguimos acreditar, não é assim, Floss...Flora? Foi um cortejo vertiginoso e um casamento muito emotivo. – Por favor, senhoras, sentem-se – sugeriu seu tio. – E você também, Smith. O chá chegará em seguida. Ordenarei que lhes preparem os quartos. Ninguém se irá daqui sem ter descansado como é devido. – É muito amável, milorde – disse Flossie. – Receio que não suporto muito bem as viagens e confesso que estou exausta depois de vários dias de caminho. – E eu sofro de náuseas espantosas cada vez que me separa uma simples tábua de madeira das profundidades marinhas – afirmou Phyllis. – Suponho que "vômito" seria uma palavra menos vulgar, não? Receio que sou famosa por falar sem disfarces, não é assim, Flora?


Rachel se sentou em um divã e Jonathan o fez a seu lado. Seus olhares se encontraram. O ligeiro mal -estar que expressavam seus olhos contrastava com o velado humor que aparecia nos de seu suposto marido, embora até o momento tivesse interpretado à perfeição o papel de digno cavalheiro. Desejou que Flossie e Phyllis não falassem muito. Seus pensamentos não demoraram para retornar a seu tio. Observou-o com preocupação. Esse era o mesmo homem alto, forte e jovial que recordava de sua infância? Até considerando o fato de que era muito pequena naquela época e de que o tinha olhado com os olhos de uma menina, tinha mudado muitíssimo durante esses dezesseis anos. Parecia doente. Não, não parecia. Estava. Estava esquálido e parecia esgotado. Tinha suposto que se veria obrigada a medir seu engenho com o de um homem robusto, vociferante e obstinado com o de um homem a quem não teria reparos em mentir e desafiar. De modo que se sentiu mal ao ver seu aspecto tão frágil. Também a inquietava um pouco e a assustava em certa medida. Esse homem era, até onde sabia, o único familiar que ficava com vida, a única pessoa que fazia com que não estivesse sozinha no mundo. Era uma preocupação absurda quando o único contato que tinha tido com ele durante vinte e dois anos se reduzia aos poucos dias que tinham passado juntos quando ela era uma menina e às duas cartas onde lhe negava o que lhe tinha pedido. De qualquer forma, sentia-se mau. Alleyne se alegrava de estar na Inglaterra. Tinha a sensação de estar em casa, embora não soubesse o lugar exato onde estava seu lar. Também se achava muito confortável no Chesbury Park, embora a propriedade lhe fosse totalmente desconhecida. Assim como era lorde Weston, embora tinha considerado a possibilidade de que o barão o reconhecesse. Claro que as coisas se teriam complicado muito nesse caso. Weston não se parecia em nada ao que tinha imaginado, um homem intransigente e grosseiro. É obvio, os inválidos podiam ser petulantes e bastante desagradáveis, e saltava à vista que Weston era um inválido. Fosse como fosse, estava entusiasmado pelo desafio implícito na farsa que acabavam de pôr em marcha. Essas últimas semanas se tinham feito intermináveis, sobre tudo desde que se recuperara da ferida da perna o bastante para viajar. Entretanto, saltava à vista que Rachel estava desconcertada. Algo compreensível. Esse homem era seu tio, seu único parente. Agarrou-lhe a mão e a colocou sobre o braço antes de lhe dar um apertão. Flossie estava elogiando a beleza da mansão e informando-os do enorme semelhança que guardava com a casa de seu cunhado no Derbyshire... A casa do irmão do Phyllis, recordou de repente. – Não lhe parece, Phyllis? – perguntou com um sorriso afável. – Estava pensando o mesmo, Flora – concordou a aludida. – Como está, tio Richard? – perguntou Rachel, que se inclinou ligeiramente para ele. – Bastante bem – respondeu Weston enquanto se sentava em uma poltrona próxima à chaminé, embora parecia ter um pé na tumba. – Tudo isto é bastante repentino, não, Rachel? Viajou a Bruxelas como a dama de companhia de lady Flatley. Já conhecia o Smith naquela época?


– Sim – respondeu ela. Evidentemente a resposta formava parte da história que inventaram. – Nos conhecemos em Londres o ano passado, pouco depois da morte de meu pai. E depois voltamos a nos encontrar em Bruxelas, onde Jonathan começou a me cortejar. Lady Flatley decidiu retornar a Londres antes da batalha do Waterloo e Bridget se ofereceu a me acolher em sua casa, junto com estas damas, suas amigas. – Bridget é nossa amiga de coração – declarou Flossie se por acaso Weston não tinha entendido bem que era uma relação especialmente estreita. – E foi minha babá durante seis anos, depois da morte de minha mãe – acrescentou Rachel. – Levei uma grata surpresa ao me reencontrar com ela em Bruxelas, de modo que aceitei encantada seu convite, sobre tudo quando Floresce e Phyllis insistiram em que o fizesse. E depois Jonathan me convenceu de que nos casássemos antes de voltar para casa. Weston o estava observando com atenção, mas antes que pudesse dizer algo, levaram o chá. Phyllis se colocou junto à bandeja sem dizer uma palavra e procedeu a servir e a repartir as xícaras. – Chegamos à conclusão, milorde – disse Bridget ao Weston, – de que devia acompanhar a lady Smith até aqui já que é recém casada. Flora e Phyllis não puderam resistir e se somaram à viagem. Ainda lhe parecia engraçado olhar para Bridget e ver uma mulher bastante jovem, respeitável e formosa cuja voz, casualmente, era a mesma que tinha utilizado a Bridget Clover de Bruxelas. Enquanto isso, Weston havia tornado a cravar o olhar nele. – E você, Smith? – quis saber. – Quem é você exatamente? Smith é um sobrenome muito comum. Há uma família bastante decente no Gloucestershire. Está aparentado com eles? – Duvido-o muito, senhor – respondeu. – Sou do Northumberland e a maior parte de minha família reside ali há gerações. Northumberland era a região mais setentrional onde se localizar suas origens sem mandá-lo a Escócia diretamente. Passou a explicar ao barão que dois anos atrás tinha herdado de seu pai uma modesta fortuna e uma propriedade de considerável tamanho, que não era nem excessivamente extensa nem excessivamente próspera, embora Geraldine e Phyllis o teriam convertido em um homem mais rico que Creso se tivessem saído com a sua. Com a ajuda do Rachel lhes tinha feito entender que devia ser a classe de cavalheiro que lorde Weston aprovasse e para isso sua existência no Northumberland não resultaria suspeita. Tinha ido a Bruxelas, seguiu explicando, porque o regimento de seu primo estava aquartelado na cidade. – E ali me encontrei de novo com Rachel – disse, virando a cabeça para lhe sorrir com afeto ao mesmo tempo em que lhe dava um apertão à mão que tinha sobre o braço. – Não a tinha esquecido. Teria sido impossível fazê-lo. Apaixonei-me perdidamente por ela assim que voltei a vê-la. Foi muito interessante ver como se ruborizava e mordia o lábio inferior. – Nunca vi nada tão bonito como a ternura do amor que se desenvolvia sob o atento olhar de nossa querida Bridget – confessou Phyllis com um suspiro – e sob o benevolente olhar de Flora e ao meu próprio, milorde.


– Sir Jonathan me recorda muitíssimo a meu querido e defunto esposo, o coronel Streat – disse Flossie, que de repente tinha um lenço na mão. – Morreu como um herói na Península faz dois anos. Streat tinha sido promovido de forma vertiginosa, pensou. Porque há algumas semanas só era um capitão, não? Tomara as damas não planejassem exagera as mentiras a menos, é obvio, que tivessem muito boa memória. O barão soltou a xícara de chá. – Confesso-lhes que estou decepcionado – disse – ao ver que Rachel considerou apropriado casar-se sem me comunicar. Sou consciente de que já é maior de idade e de que podia casar-se com quem quisesse há mais de um ano. Não necessitava de minha permissão muito menos. Mas teria gostado que solicitasse minha bênção. E se tivesse chegado à conclusão de que o enlace merecia minha aprovação, teria gostado de celebrar as bodas no Chesbury Park. Mas ninguém me consultou. Esse era o motivo da desvantagem que sofria a olhos do barão, pensou Alleyne. Weston o via como a um homem a quem a paixão o tinha levado a cometer uma indiscrição. Não tinha levado Rachel a casa para casar-se, não a tinha levado ao Northumberland para apresentar-lhe a sua família e não a tinha levado ao Chesbury Park para solicitar a bênção de seu tio. Qualquer um com dois dedos de fronte se perguntaria por que não tinha feito nenhuma dessas três coisas. Mas, enfim... Weston nunca tinha demonstrado o menor interesse por sua sobrinha. A preocupação que demonstrava era, quanto menos, hipócrita. – Sir Jonathan é incrivelmente romântico e impulsivo – aduziu Phyllis, que tinha levado as mãos ao peito. – Não houve modo de convencê-lo, milorde, porque estava decidido a que as bodas se celebrassem em Bruxelas para trazer Rachel para a casa como sua esposa. Meu querido coronel Leavey é igualzinho. – O mesmo passava ao coronel Streat – acrescentou Flossie. – Insistiu em que seguisse às tropas por toda a Península, fosse inverno ou verão. Ah, outro coronel. E não se queixou Flossie de que as viaje não eram o seu? – Mas o casal veio por fim – disse Weston, pendente deles dois. – Não é difícil supor para que. Deu-se conta de que Rachel estava olhando fixamente a seu tio com o queixo em alto. – Casei-me com um homem contra o que não pode objetar nada – declarou, – embora ache que nos tenhamos casado com excessiva precipitação. Por que ia vir ao Chesbury Park a me casar? Jamais demonstrou o menor interesse por minha pessoa. Jamais quis me conhecer. Quando morreu meu pai e me convidou a viver com ele, sua única intenção era a de me casar a menor oportunidade e se liberar de mim de uma vez por todas. Bem, pois economizei o aborrecimento. Vim em busca de minhas joias, a herança que me deixou minha mãe. Já não tem nenhum motivo para se negar. Suas beligerantes palavras e sua hostilidade não eram muito acertadas nem formavam parte do plano que tinham esboçado. Entretanto, admirava-a por não ter escolhido lhe dar ouvidos. Ao menos tinha decidido mostrar seus verdadeiros sentimentos, embora todo o resto fora uma mentira. Apertou-lhe a mão com força. – Não era consciente de que necessitasse um motivo, Rachel – disse Weston.


Escutou-a ofegar pela surpresa. Entretanto, deu-lhe uns tapinhas na mão e tomou a palavra antes que ela pudesse fazê-lo. – Sua preocupação pelo bem-estar de sua sobrinha e suas reservas com respeito a minha pessoa são compreensíveis, inclusive elogiáveis, senhor – afirmou. – Teria estranhado muito que as notícias de nossas inesperadas bodas o tivessem alegrado, sobre tudo se seguidamente lhe pedimos que entregue ao Rachel as joias que a difunda senhora York lhe encomendou. O único que lhe peço é que me dê tempo para lhe demonstrar que sou merecedor da mão de sua sobrinha, que ela escolheu com a cabeça além de com o coração, que não sou um caça fortunas e que nenhum dos dois esbanjará sua herança. De fato, rogo-lhe que nos permita ficar todo o tempo que achar conveniente como período de prova. É obvio, estou ansioso por levar a minha esposa a casa, mas farei o que lhe faça feliz. E ganhar sua confiança e sua bênção a fará feliz. O problema de interpretar um papel, acabava de descobrir, era a facilidade com a que alguém podia deixar-se levar. Apesar de falar com convicção, quase tudo o que saía de sua boca era uma mentira. Salvo sua intenção de vê-la feliz, obviamente. – Muito bem – aceitou Weston, que assentiu com brusquidão depois de havê-lo submetido a um enervante e pensativo escrutínio. – Já veremos o que acontece um mês, Smith. Embora haja descuidado de meus deveres como anfitrião. Quanto tempo passou na Península com seu marido, senhora? – perguntou ao Flossie. Um mês! Flossie se lançou a uma exuberante e detalhada descrição de seus anos na Península enquanto ele observava ao barão com mais detalhe. O fato de que estivesse doente tinha ficado patente desde o começo. Entretanto, sua tez tinha adquirido uma cor muito mais apagada durante os últimos minutos. Pelo esforço de atender a cinco hóspedes inesperados? Pela emoção de voltar a ver Rachel e de enfrentar a sua hostilidade? Ou por algo diferente? Alleyne cravou o olhar no Rachel. Ao ver que também estava muito pálida, primeiro lhe sorriu e depois lhe piscou um olho. Para bem ou para mau, era seu devoto marido durante o mês que tinham pela frente. Estavam arrumados! Pensou. Tinha suposto que bastariam uns dias ou uma semana no máximo... Enfim, só lhes restava continuar com o plano. Levou suas mãos unidas aos lábios e lhe beijou o dorso enquanto a olhava nos olhos com ternura, muito consciente de que o gesto não passaria inadvertido para o resto dos ocupantes da sala. De fato, esperava que todos o vissem. Apenas a havia tocado nessas duas semanas e meia, e acabava de dar-se conta de que manter a distância tinha sido o mais sensato. Era muito bela e muito atraente para sua tranquilidade. Seria melhor que reduzisse as amostras de afeto ao mínimo. Pelo amor de Deus, um mês! Um mês completo. Enfim, ele era o culpado de tudo, não?


CAPÍTULO 11

– Os lacaios parecem rãs e os cavalariços, doninhas – disse Geraldine. – Ainda não vi nenhum jardineiro, assim ainda restam esperanças, mas tampouco parece que haja muitos. A cozinheira está zangada porque agora tem mais bocas que alimentar. – Geraldine! – exclamou Rachel entre gargalhadas. – Como é capaz de julgar às pessoas com essa rapidez? Não é preciso que me penteie. Posso fazê-lo sozinha. Entretanto, Geraldine agarrou a escova com um gesto resolvido e a agitou no ar. – Se vou ganhar a vida como a criada de uma dama – concluiu – terei que penteá-la, atar as fitas do espartilho, abotoar e ajustar os vestidos e agasalhá-la às noites. Além disso, não terei muito que fazer. O senhor Edwards, o mordomo que nos abriu a porta, não para de dizer aos criados quão elegantes são Floss e Phyll, essas duas grandes damas, assim já pode fazer uma ideia de quão perspicaz é o homem. Fui incapaz de olhar ao Will por temor a estalar em gargalhadas. – Agora a sério – replicou, – isto não é para levar na brincadeira. Meu tio está doente e sua recepção foi fria, para dizê-lo de modo suave, embora haja sido muito educado, sobre tudo com o Flossie e Phyllis. Desaprova meu matrimônio ou, ao menos, as circunstâncias nas quais se celebrou. Vamos demorar muitíssimo em convencê-lo de que nascemos um para o outro, de que nossa união será próspera e estável, e de que sou eu quem deveria ter as joias que me pertencem por direito. Dá-me a sensação de que jamais poderemos sair em busca do senhor Crawley. – Não se preocupe por isso – a tranquilizou Geraldine enquanto começava a lhe escovar o cabelo da raiz às pontas. – Um homem como Crawley seguirá fazendo das suas até que alguém lhe pare os pés. O encontraremos e lhe daremos seu castigo, embora tenhamos que esperar um ano para fazê-lo. Floss mandou um aviso a Londres para que reenviem aqui qualquer carta de nossas irmãs. Além disso, Rachel, não tem que se sentir na obrigação de financiar a busca. Mas, embora o fizesse, lhe devolveríamos até o último penny. Se lhe disser a verdade, estamos aqui porque fomos incapazes de resistir a tomar umas férias e a participar de uma aventura semelhante. Assim não tem que preocupar-se absolutamente por nós. Enquanto Geraldine a penteava, sua mente insistiu em lhe recordar que seu closet e o do Jonathan estavam separados por um arco sem porta e que cada aposento se comunicava com seus respectivos dormitórios. Menos mal que nenhum dos dois desejava aprofundar em sua relação além dos limites que marcava a farsa. Entretanto, era muito embaraçoso descobrir que lhes tinham atribuído uma suíte completa sem separação real entre seus dormitórios, como se fossem um matrimônio de verdade. Jonathan estava nesse momento em seus aposentos com o sargento Strickland, arrumando-se para o jantar. Escutava o murmúrio de suas vozes. – Caramba, está incrível! – exclamou Geraldine quando acabou de penteá-la. – Com sua permissão, vou


desmaiar. Sobressaltada, Rachel ergueu a vista, mas descobriu que não se referia a ela. Jonathan as observava do arco que separava seus closets. E Geraldine não tinha exagerado absolutamente. Estava muito elegante vestido com o traje formal: calças de cor marfim, meias brancas, sapatos negros, colete de cor ouro velho, fraque negro e camisa branca. Devia haver-se atado a gravata ele mesmo, já que era impossível que o sargento Strickland tivesse realizado um nó tão elaborado. Levava o cabelo penteado para trás (tinha-lhe crescido muitíssimo em um mês), embora a mecha rebelde lhe caísse sobre a sobrancelha direita como de costume. Teria preferido que a torturassem antes que admiti-lo, mas se alegrava de estar sentada. Tinham afrouxado seus joelhos. Até a bengala que levava era elegante. – A criada de minha senhora esposa demonstra ser deliciosa em seus comentários... – replicou ele com um sorriso. Em seguida, cravou o olhar nela e a observou da cabeça aos pés. Tinha escolhido um vestido de noite verde claro que já tinha três anos, embora estivesse virtualmente novo porque mal tinha tido oportunidade de usá-lo. – De qualquer forma, seguiremos contando com seus serviços, Geraldine. Faz maravilhas com o cabelo de lady Smith. Ou talvez a responsável por que me tenha desbocado o coração seja a mulher que há debaixo do dito cabelo. Dado que seu tio não estava presente, semelhantes palavras eram desnecessárias. Entretanto, quando percebeu que Jonathan piscava um olho à Geraldine, compreendeu que estava rindo dela. Ficou em pé imediatamente enquanto fazia girar a aliança que ele se recordara de comprar quando chegaram a Inglaterra. – São as duas coisas – escutou dizer ao Geraldine. – Esse cabelo dourado forma parte da mulher e às vezes faz que me dê coragem que minha mãe fosse italiana. Será melhor que vá falar com o Will para ver o que opina deste lugar. E com isso desapareceu pelo arco. – Bom, Rachel – lhe disse Jonathan, levando-as mãos atrás das costas, – o que opina você? – Opino... – respondeu com o queixo elevado. – Opino que deveríamos fingir que há um muro muito largo justo debaixo desse arco. Até sabendo de que Geraldine e o sargento Strickland provavelmente se encontrassem a escassos metros de distância, a situação lhe parecia muito íntima. O comentário fez que Jonathan arqueasse uma sobrancelha, gesto que acentuou sua atitude e lhe outorgou um ar bastante arrogante. – Descemos, milady? – perguntou-lhe com uma elegante reverencia ao mesmo tempo em que lhe oferecia um braço. – Não posso deixar de pensar que este foi o lar de minha mãe até que completou os dezessete anos e fugiu com meu pai – disse enquanto aceitava o braço e saíam do aposento. – Aqui foi onde cresceu. Se as coisas fossem diferentes, estaria familiarizada com este lugar. Teria vindo de visita com ela em numerosas ocasiões. Teria passado aqui os Natais e outras férias, inclusive depois de sua morte. Teria conhecido bem a meu tio. Teria tido outro parente além de meu pai. – Mas Weston nunca perdoou a sua mãe – assinalou ele.


– Quanto desejei ter irmãos, primos e tios enquanto crescia! Embora só fosse um tio...- confessou com um suspiro, embora na hora se sentiu ridícula por haver-se justificado desse modo. – Espero que não se arrependa de estar fazendo isto, Rachel – lhe disse Jonathan. – Já é muito tarde, não é? Assim teremos que seguir com a farsa. – Não me arrependo – lhe assegurou. – Meu tio estava mentindo quando afirmou que teria gostado que viéssemos antes do casamento para poder celebrá-lo aqui. E também ao afirmar que esperará um mês para decidir. Não me quer. O único que me afeta é saber que está doente. Acha que está morrendo? A possibilidade continuava perturbando-a, embora não sabia por que. Esse homem não significava nada para ela... ele mesmo se encarregara disso. Jonathan lhe deu uns tapinhas na mão que descansava sobre seu braço. Flossie e Phyllis já estavam no salão, conversando com seu tio. Bridget também estava presente. Todas se comportavam com muita educação e tinham um aspecto muito respeitável. Que fácil era mentir, pensou. Salvo que teriam que seguir fazendo-o durante um mês inteiro. Seriam capazes de manter a farsa todo esse tempo? Seu tio estava como uma obra pintada, embora continuasse lhe parecendo consumido e curvado. Sentiu uma pontada de remorsos e se repreendeu por isso. Se gozasse de boa saúde, certamente lhe seria igual estar enganando-o. Que mais dava que estivesse doente? Ao fim e ao cabo, não a queria. E era sua sobrinha, o único familiar próximo que tinha. O jantar foi muito menos tenso do que se temeu. Todos fizeram um esforço para que a conversa não decaísse, e ninguém disse nada a respeito da insípida comida e do fato de que os pratos estivessem quase frios. Jonathan expressou seu interesse pela propriedade quando o jantar chegava a seu fim. – Direi a meu administrador que o acompanhe em uma visita – disse o tio Richard. – Ultimamente estive um pouco indisposto e não saí muito de casa. Drummond o levará aonde você quiser. E à Rachel também, se gostar, embora suponha que não lhe interessará muito. As damas costumam ter outros interesses. – Interessa-me, tio Richard – corrigiu-o, aborrecida. – Admito minha total ignorância sobre o assunto, já que salvo estes últimos meses, minha vida transcorreu em Londres. Mas estou ansiosa por aprender agora que me casei com o Jonathan e vou viver no campo. Estaria mais familiarizada com a vida rural se ele a houvesse convidado alguma ou outra vez ao longo de sua infância. – Em meu caso, as vacas, os porcos e a colheita de feno não me interessam o mínimo – admitiu Flossie. – Mas estou desejando explorar os jardins e os bosques durante os próximos dias. Com sua permissão, milorde, é claro. – Me sentiria profundamente decepcionado se não estivesse confortável durante sua estadia no Chesbury Park, senhora. – Como é seu estábulo, senhor? – perguntou Jonathan. – Poderia utilizar um de seus cavalos enquanto estiver aqui? – Parece-lhe sensato, sir Jonathan? – interveio Bridget. – Sua perna ainda não sarou de tudo.


Tinham explicado ao tio Richard que Jonathan ferira a perna enquanto tentava controlar um cavalo desenfreado nas ruas de Bruxelas. – Preciso fazer exercício – declarou ele. – Já não tenho tantos cavalos como antes – disse seu tio – mas sinta-se livre de escolher o que quiser. Rachel olhou ao Jonathan com um sorriso e estendeu o braço para lhe tocar a mão. Fingir lhe custava mais que a outros. Mas devia acostumar-se a fazer gestos carinhosos em público ao homem que supostamente era seu deslumbrante marido. – Tenha muito cuidado, Jonathan – lhe disse. – Tem que montar comigo, meu amor – respondeu ele, sorrindo-lhe com tal ternura que teve que fazer um tremendo esforço para não afastar-se e aumentar a distância que os separava. – Não sei montar – replicou. – Acaso se esqueceu? Percebeu o brilho surpreso que apareceu em seus olhos. – Nem eu tampouco, Rachel – comentou Bridget. – E não me sinto mal por isso. – Eu passava os dias montando enquanto estava na Península com o coronel Streat – afirmou Flossie. – Me afeiçoei muito com os cavalos. Jonathan lhe cobriu a mão que descansava na mesa. – É obvio que não me esqueci, meu amor – lhe assegurou. – Mas devemos remediar a situação sem demora se queremos passar os dias juntos. Terá que aprender a montar. Eu a ensinarei. – Seus olhos tinham adquirido essa expressão risonha que já lhe era tão familiar. – Mas não gosto de fazê-lo – protestou, tentando escapar de sua mão em vão, já que a agarrou imediatamente enquanto o sorriso chegava aos lábios. – Não me diga que tem medo! – exclamou. Levou suas mãos aos lábios como fez antes no salão. – Se for viver no campo como minha esposa, terá que montar comigo. Darei a primeira aula pela manhã. – Jonathan – disse, desejando que o assunto tivesse surgido estando sozinhos para assim poder negar-se com firmeza – preferiria não fazê-lo. – Mas o fará – insistiu ele sem perder o sorriso. E era um sorriso que destilava ternura, admiração, carinho... e malicia. Soltou um suspiro muito sentido. Ao mesmo tempo em que Phyllis. – Ai! – exclamou esta. – eu adoro as cenas entre apaixonados. Ajuda-me a aguentar, em certa medida, a separação de meu querido coronel Leavey, cujas obrigações o mantêm em Paris com seu regimento. Rachel deu um pulo. Um coronel com um só regimento sob suas ordens? Menos mal que seu tio não pareceu dar-se conta do deslize. – Mas já montou a cavalo, Rachel – disse lorde Weston. – Cavalgamos juntos quando fui a Londres para assistir ao funeral de sua mãe. Tinha esquecido esse detalhe em concreto de sua visita, mas o recordou na hora. Aquela menina de seis anos


que era então devia entender que sua mãe estava morta. Inclusive recordava ter chorado de forma inconsolável junto à tumba, obstinada à mão de seu pai e com o rosto grudado a uma de suas coxas. Não obstante, talvez pela forma de ser dos meninos, tinha sido muito feliz nos dias seguintes precisamente porque o tio Richard tinha estado com ela desde que se levantava até que se deitava e a tinha levado a lugares onde nunca tinha estado... e aos que não havia tornado após em alguns casos. Tinha-a levado a Torre de Londres a ver os animais e à exibição equestre do Astley’s Amphitheater. Tinha-lhe comprado sorvetes no Gunter’s. Tinha dado de presente uma boneca de porcelana que um dos amigões de seu pai destroçou pouco depois ao atirá-la ao chão. Mas o melhor e o mais divertido de tudo foi montar a cavalo com ele. Entretanto, não queria recordar. Tinha-a abandonado aos poucos dias. Não havia tornado a saber nada dele até que ela mesma escreveu aos dezoito anos para lhe informar de que necessitava desesperadamente de suas joias porque seu pai levava meses endividado até as sobrancelhas e tinham que comprar a crédito a pouca comida que levavam a boca. – Isso faz muito tempo – replicou com tensão. – Sim – concordou ele. – Muito. Estava cinzento e gasto e parecia mortalmente exausto. Mesmo assim, irritava-a que tivesse trazido à luz o passado. Irritava-a a fragilidade de seu aspecto. E ao mesmo tempo ansiava lhe jogar os braços ao pescoço e tornar-se a chorar por alguma estranha razão que não conseguia compreender. – Faz bastante tempo que não aceito convites e que não recebo visitas – disse, – mas tenho que desculpar os enganos do passado. Convidarei a meus vizinhos para que conheçam minha sobrinha, e a seu deslumbrante marido e ao resto de minhas hóspedes. Organizarei algum tipo de evento para celebrar seu recente matrimônio, Rachel, pois já é muito tarde para celebrar as bodas em si. Um baile, talvez. Abriu os olhos de par em par, consternada. Nem sequer lhe tinha passado pela cabeça que tivessem que fingir diante de outras pessoas além de seu tio. Claro que tampouco tinha pensado que tivessem que ficar tanto tempo. Ia convidar a seus vizinhos? Ia organizar um baile para celebrar suas bodas? Olhou ao Jonathan, mas não lhe ofereceu nenhuma solução. Limitou-se a lhe sorrir enquanto a contemplava com um olhar transbordante de... adoração. – Será esplêndido, meu amor – disse. – Não teremos que esperar para estar em Northumberland para dançar. Para dançar, Seu tio havia dito algo de celebrar um baile. Embora tinha aprendido a dançar, jamais tinha ido a um baile. Esse tinha sido um de seus sonhos mais recorrentes durante a infância e a adolescência. Um desejo forte substituiu por um instante a consternação. Talvez houvesse um baile no Chesbury Park. E ela seria a convidada de honra. Ia dançar! Com o Jonathan. – Não, tio Richard! – exclamou de volta à realidade. – Não é preciso que tome tantas preocupações. Não esperávamos nada semelhante e Jonathan não pode dançar. Ainda tem que utilizar a bengala para poder andar. – Mas minha perna melhora dia a dia – protestou ele. – Um baile! – exclamou Flossie, radiante de alegria. – Ajudarei a organizá-lo, milorde. – E eu também – se ofereceu Phyllis. – Ai, como eu gostaria que estivesse aqui meu querido coronel Leavey


para poder dançar com ele! – exclamou depois do que soltou um fundo suspiro. – Certamente que o faremos, Rachel – lhe assegurou seu tio. – Não será nenhuma perturbação, justamente o contrário. Não tenho filhos, já que minha esposa morreu faz oito anos sem descendência. E minha única irmã só teve uma filha, você. Sim, certamente que a ocasião merece celebrar-se. – A ideia parecia agradá-lo muitíssimo. Não obstante, algo a confundiu. Seu tio tinha estado casado? Ela tinha tido uma tia? sentiu-se abandonada, entristecida pela morte de alguém cuja existência tinha ignorado até esse preciso momento. E se sentiu muito aborrecida porque a tinham deixado à margem, porque ninguém o houvesse dito alguma vez. E apesar de tudo seu tio se empenhava em celebrar um baile aduzindo que era a filha de sua única irmã? Ficou em pé de repente, afastando a mão da do Jonathan e empurrando a cadeira com as pernas ao fazê-lo. – Flora, Phyllis, Bridget – disse, – deixaremos ao Jonathan e a meu tio e iremos ao salão. – Mas quando olhou a seu tio sem esforçar-se por dissimular seu aborrecimento, comprovou que sua pele tinha de novo essa cor cinzenta e que estava consumido. – Tio Richard, receio que abusamos de suas forças. Parece cansado. Por favor, não se sinta obrigado a se reunir conosco para seguir com seus deveres de anfitrião. Igual a Jonathan, pôs-se em pé quando ela o fez. – Talvez me retire cedo – replicou. – Agora mesmo, de fato. Smith seria amável de acompanhar às damas ao salão? O chá já estará preparado. Me dê licença de vocês até manhã. Boa noite. Não tinha esperado algo assim, concluiu enquanto abria a marcha para o salão uns minutos depois. Não tinha esperado sentir-se unida emocionalmente a um homem com quem estava ressentida desde há anos nem a uma mansão em que jamais tinha posto um pé. Quando aceitou a levar a cabo o desatinado plano do Jonathan para obter suas joias mediante o engano, nem lhe tinha passado pela cabeça a possibilidade de que pudesse albergar sentimentos por um passado do qual nem sequer tinha formado parte. Não tinha sido consciente de como eram profundas as feridas que sofrera em sua infância. – Haverá visitas – disse Flossie o mar de contente quando chegaram ao salão e tomou assento em uma poltrona. – E uma celebração por cima. Possivelmente um baile. Verão como protesta Gerry quando souber! – Esse homem está doente – comentou Bridget. – Terei que pôr à cozinheira de quatro na rua – declarou Phyllis. – Não deveriam permitir que voltasse a pisar em uma cozinha no que resta de vida. – Acredito que isso é parte do problema, Phyll – aventurou Bridget. – Precisa comer pratos saborosos, que lhe abram o apetite e que estejam preparados como é devido. – Tudo isto é intolerável – disse ela quando chegou ao centro da sala, com os punhos apertados a ambos os lados do corpo. – Não podemos permitir que os vizinhos venham nos conhecer a Jonathan e a mim como se realmente fôssemos marido e mulher. Não podemos permitir que se celebre um baile em nossa honra. Temos que fazer algo! O que podemos fazer? Jonathan, tire esse odioso sorriso de seu rosto agora mesmo. Você nos colocou nisto. Assim você nos tire. Seu semblante adotou de repente uma expressão suspeitamente indecifrável enquanto tomava posse de suas mãos.


– Rachel, meu amor – disse, – isto é justo o que tínhamos planejado, não? Seu tio te aceitou como sobrinha e aprova nosso matrimônio, embora não termine por gostar da pressa com as que o celebramos. Está-nos oferecendo a ocasião perfeita para que deslumbremos a seus vizinhos, para que nos mostremos frente a ele e frente a todo este universo rural como o casal perfeito. Que mais se pode pedir? – Tem razão, Rachel – assinalou Bridget. – Não tinha imaginado que o barão Weston chegasse a cair tão bem. Está mais que disposto a reconhecê-la como sua sobrinha e a tratá-la como merece seu parente mais próximo. – Mas não veem que esse é o problema? – perguntou-lhes ao mesmo tempo em que tentava escapar das mãos do Jonathan, embora só conseguiu que ele a segurasse com mais força. – A última coisa que preciso é de seu carinho, se é que é isso o que sente. Estou aqui para extorqui-lo, para enganá-lo a fim de que me dê as joias. – Poderia lhe dizer a verdade – sugeriu Bridget. – De fato, isso seria o melhor, querida. Necessita de seu tio na mesma medida que ele necessita de você. – Dizer-lhe a verdade! – exclamou, horrorizada. – Impossível. – Além disso, o barão Weston cancelaria o baile se o faz- declarou Flossie. Seria uma lástima, não lhes parece? Embora suponha que Gerry adoraria. Jonathan ergueu as mãos de Rachel e as pegou com força contra o peito. – Rachel – lhe disse, – estamos aqui porque eu o sugeri e é muito possível que subestimasse tanto seus sentimentos como os do Weston. Quer que vá vê-lo e confesse tudo agora mesmo? Farei se for o que quer. Olhou-o nos olhos e descobriu com horror que todos estavam falando a sério. Que ele estava falando a sério! A decisão era dela. Podia pôr fim à farsa nesse mesmo momento, nessa mesma noite, se assim o desejasse. Poderiam partir a qualquer outro lugar agora mesmo ou a primeira hora da manhã em só dizê-lo. Era muito consciente da expressão interrogativa com a que esses olhos escuros a estavam observando. E de suas três amigas, que a olhavam de suas respectivas poltronas contendo o fôlego. Se a verdade saísse à luz essa noite, se partisse pela manhã, jamais voltaria a ver seu tio. Não lhe cabia a menor dúvida a respeito. – É muito tarde – disse, erguendo o queixo. – E está claro que seus planos não nascem do carinho que me professa. Ainda se acha com direito a não me entregar o que me pertence. O que quer é nos ter na incerteza todo este mês só porque lhe incomodou que não lhe pedíssemos permissão para nos casar. Por que teríamos que tê-lo feito? Não é meu tutor. E tampouco significa nada para mim. Jonathan lhe estava Sorrindo, mas justo quando mais precisava ver esse brilho malicioso em seu olhar, não havia nem rastro dele. – Ainda não trouxeram a bandeja do chá – comentou Phyllis. – Aposto que não chegará nunca. Meus sentimentos para a cozinheira e seus ajudantes não são muito benévolos que digamos. – Foi um dia muito ocupado – disse Jonathan sem lhe soltar as mãos e sem afastar o olhar de seus olhos. – Talvez seria melhor que seguíssemos todos o exemplo do Weston e nos retirássemos cedo para descansar.


– Uma boa ideia – replicou Bridget, que ficou em pé. – Além disso, – acrescentou ele, sorrindo-lhe por fim com sua habitual malicia coisa que a tranquilizou, – amanhã tem que madrugar, meu amor. É o melhor momento do dia para montar. Afastou as mãos de seu peito com brusquidão. – Não tenho a menor intenção de aprender a montar – lhe disse. – vivi muito contente durante vinte e dois anos com os pés bem plantados no chão e não gosto de me converter em uma consumada amazona, ou em uma desastrosa. – É uma covarde – a acusou ele com um brilho alegre nos olhos. – Rachel, todas as damas devem saber montar – interveio Bridget, – e por fim terá a oportunidade de aprender. – Pensa na maravilhosa imagem que oferecerão a lorde Weston quando se levantar amanhã e os veja ocupados com sua primeira aula de equitação – acrescentou Flossie. – Se não quiser receber lições das mãos de sir Jonathan, eu estarei encantadíssima de substituí-la. – Mas, Flossie, você já é uma consumada amazona – lhe recordou ele, alongando o sorriso. – percorreu a Península a cavalo com o coronel Streat. – Enfim, tinha que tentá-lo se por acaso penetrava... – replicou a aludida, que o olhava pestanejando de forma exagerada. – Sir Jonathan e você oferecerão uma imagem muito romântica cavalgando juntos sob o sol da manhã, Rachel – disse Phyllis. – Meu amor, não me obrigue a chamá-la de covarde a sério – insistiu Jonathan. – Não se preocupe, se levantará cedo – lhe prometeu Flossie enquanto ficava em pé. – Direi à Gerry que jogue uma jarra de água fria pela cabeça se se negar a sair da cama por sua própria vontade. – E se Geraldine não o fizer – acrescentou ele, – o farei eu. – Poderão me obrigar a ir aos estábulos se quiserem – disse, indignada, ao mesmo tempo em que seu olhar passava de um a outro, – mas não subirei a lombos de um cavalo. Asseguro isso. Todos fizeram ouvidos surdos a seus protestos enquanto se desejavam boa noite com alegria e punham-se a andar para seus respectivos dormitórios. Teria dado algo por estar de novo em Bruxelas, na casa da rue d"Aremberg, em seu quarto do apartamento de cobertura. Em troca, estava no Chesbury Park, onde fora a casa de sua mãe, na mansão de seus antepassados.


CAPÍTULO 12

Levantou-se na alvorada, depois de ter passado uma má noite. A princípio lhe custou conciliar o sono pelo fato de que só dois closets sem porta o separassem do dormitório de Rachel. O vestido verde claro e o penteado que Geraldine lhe tinha feito para o serão lhe sentavam maravilhosamente e, de certo modo, irritava-o que lhe fosse tão atraente quando estava mais que decidido a evitar qualquer vínculo emocional com ela. Não obstante, supunha que tampouco era de estranhar depois de ter se deitado com ela em uma ocasião. Um acontecimento que preferia esquecer. Embora isso fosse impossível, é claro. Tomara tivesse mais lembranças com as quais mantê-lo afastado de sua mente. Depois, quando pôr fim ficou adormecido, seu descanso se viu perturbado por uma série de sonhos confusos que lhe pareceram verídicos até que tentou recordá-los uma vez acordado. O da carta e a mulher que o esperava na Porta do Namur era recorrente. Entretanto, teve um novo do qual só recordava uma fonte de mármore circular colocada no centro de um jardim florido, com um jorro de água que se erguia a quase dez metros de altura. A luz do sol se refletia na água e transformava as gotinhas em um resplandecente arco íris. Por mais que o tentasse, não foi capaz de reconhecer o lugar onde estavam a fonte e o jardim. A princípio pensou que talvez estivesse recordando a fachada principal do Chesbury Park, mas na hora caiu na conta de que a única coisa que havia em frente à mansão era um extenso canteiro alongado. Claro que se tratava de uma lembrança, era de supor que tinha aflorado pelo ambiente rural onde se encontrava. Que sonho mais absurdo e inútil, pensava enquanto caminhava para os estábulos com ajuda da bengala, embora tentasse em todo momento não apoiar-se muito nela. Claro que os outros sonhos tampouco eram de muita utilidade, já que se tratavam de fragmentos de outras lembranças ou o que fosse que fossem. Tinha madrugado muito, mas queria dar uma olhada nos cavalos para escolher suas montarias antes que Rachel aparecesse. E, sobre tudo, ansiava comprovar se era capaz de subir à sela. Ainda não tinha recuperado o uso normal da perna esquerda. Muito a seu pesar, tinha pedido ao sargento Strickland que o acompanhasse. Ao chegar ao pátio pavimentado dos estábulos viram que só havia um cavalariço levantado, e não podia dizer-se que se estivesse esforçando muito, já que estava plantado em uma das baias com o olhar perdido enquanto se coçava. Quando os ouviu chegar, olhou-os e bocejou antes de desaparecer no interior do estábulo. – O estábulo tem o mesmo jeito que a cozinha – disse o sargento. – É como se não houvesse ninguém ao leme, senhor. E teve que lhe dar razão, porque o abandono que padecia o lugar saltava à vista. Enquanto exploravam ficou claro que aos cavalos não faltava comida nem água, mas nenhum parecia particularmente bem cuidado, salvo o


garanhão negro, que pertencia ao administrador da propriedade, o senhor Drummond, como descobriu pouco depois. O aspecto e o aroma delatavam que as baias estavam vários dias sem limpar-se. – Sele estes dois cavalos e leve-os para o pátio – ordenou ao cavalariço, que voltou a deixar-se ver assim que ficou patente que não iriam deixá-lo tranquilo para que continuasse olhando para o nada enquanto se coçava. – Este com uma sela de amazona. – Quero essas duas baias limpas e com o chão coberto de feno fresco quando voltarem – acrescentou Strickland. – Aqui as ordens as dá o senhor Renny – replicou o moço com insolência. Nesse momento e frente aos assombrados olhos do cavalariço, o criado de quarto se transformou no sargento do exército que tinha sido até fazia bem pouco. – Ah, sim? – perguntou-lhe. – Pois se o senhor Renny ainda está dormindo devido ao duro trabalho que fez ontem, você obedecerá as ordens de quem lhe diga o que tem que fazer e como tem que fazê-lo para ganhar o ordenado que lhe paga o barão. Deixa de coçar as picadas das pulgas e ponha-se firme. Por surpreendente que parecesse, o moço o obedeceu, como o faria um soldado raso submetido ao escrutínio de seu sargento. – Vai acordando – acrescentou Strickland com voz mais amável – e busca as selas. A cena o fez rir entre dentes, embora recuperasse a seriedade na hora. O barão tinha soltado o leme fazia já um tempo. Sua enfermidade tinha feito que se relaxasse a disciplina nos trabalhadores dos estábulos e, ao que parecia, também na cozinha. Coisa que tinha ficado patente com o jantar da noite anterior, que Weston apenas tinha provado. Entretanto, era difícil acreditar que a propriedade tivesse estado sempre tão descuidada. As dependências não pareciam ter sofrido anos de negligência. Subir à sela cinco minutos depois foi tão difícil como tinha suposto. Depois de algumas tentativas falhadas e depois de negar-se a que o sargento o erguesse, solucionou o problema subindo não sem certa dificuldade pelo lado direito do cavalo, de modo que a única coisa que tivesse que suportar sua perna esquerda fosse o movimento ao passá-la por cima do animal. Por sorte, uma vez que esteve sentado, as dores cessaram. – Strickland – disse ao sargento enquanto agarrava as rédeas, – dá-se conta de que isto deve ter sido a última coisa que fiz antes de cair no bosque do Soignes e de que o golpe me privasse da memória? – Mas salta à vista que é um cavaleiro consumado, senhor – respondeu Strickland, que se afastou quando o cavalo se encabritou e se moveu para um lado entre bufos, reação que deixou bem claro que estava há um tempo sem que o montassem. Nem sequer tinha percebido que o animal não tinha reagido com docilidade a sua presença na sela. O sargento estava certo, pensou, e essa ideia subiu muitíssimo o moral. Tinha respondido ao cavalo e o tinha controlado de forma inconsciente, como se tivesse lançado mão de habilidades adquiridas muito tempo atrás em sua vida anterior. – Espere aqui – disse. – Vou dar uma volta pelo pátio. Sentia-se tão à vontade no lombo de um cavalo que soube que tinha montado durante toda sua vida. Guiou ao animal até a parte posterior do estábulo e trotou pelo prado que se estendia atrás do edifício enquanto tentava


imaginar-se a si mesmo cavalgando com outras pessoas, galopando com eles, saltando cercas e sebes, ou caçando. Tentou imaginar-se carregando para a batalha. À cabeça de uma carga da cavalaria ou dirigindo um avanço da infantaria. Tentou recordar os últimos momentos no bosque, atormentado pela angustiante dor da perna e preocupado tanto pela carta como pela mulher que o esperava na Porta do Namur. Tentou recordar o que tinha provocado a queda e como golpeou a cabeça com tanta força que tinha perdido a memória. Entretanto, a única coisa que conseguiu foi provocar uma ligeira dor de cabeça, conforme comprovou ao retornar ao estábulo. Rachel já tinha chegado e estava conversando com o sargento sem tirar o olho de cima do cavalo com evidente apreensão. Levava um prático vestido de viagem azul e se recolheu o cabelo, que ficava parcialmente oculto por um chapeuzinho que lhe caía para os olhos em um ângulo atrevido. Estava a plena luz do sol e, se não tivesse levado o chapéu, teria tornado a ser seu anjo loiro. Sentiu-se um tanto incômodo. O dia anterior não tinha transcorrido nem por sombra conforme o esperado. Muito se temia que Weston não fosse o monstro frio que Rachel descrevia e que ela não era tão indiferente para com ele como lhes queria fazer acreditar ou, talvez, como ela mesma acreditava. – Bom dia. – tirou o chapéu e inclinou a cabeça. – Bom dia – replicou ela. À medida que se aproximava e, portanto também o fazia seu cavalo, viu-a abrir os olhos de par em par, ao mesmo tempo em que a cor abandonava suas faces. – Ai, não! Nem pensar. Não posso fazê-lo. É inútil. Se tivesse aprendido de menina, a estas alturas seria uma amazona medianamente competente. Mas não posso começar a aprender aos vinte e dois anos! De qualquer maneira, já vai sendo hora de que desça daí antes que volte a fazer machucado na perna. Por incrível que lhe fosse o fato de que tivesse passado vinte e dois anos sem montar a cavalo, compreendeu que era impossível esperar que subisse a uma sela de amazona e saísse ao galope sem mais. Talvez nem sequer fosse capaz de subir a um cavalo no primeiro dia. Mas ia montar. É obvio que ia fazê-lo. Acabava de descobrir que possuía uma veia obstinada. – Tem que ver a vida da perspectiva que outorga um cavalo – lhe disse. – Assim que o faça, sentirá tal euforia que saberá que não há nada comparável no mundo. – Acredito em você sem necessidade de comprová-lo – replicou. – Volto para a casa. Cortou o passo com o cavalo. – Não até que me tenha demonstrado que não é uma covarde – desafiou-a. – Primeiro montará aqui comigo. Não lhe acontecerá nada, de verdade. Embora esteja claro que na Bélgica caí do cavalo, não deixarei que lhe aconteça o mesmo, prometo-lhe. – Montar com você! – exclamou, jogando a cabeça para trás de modo que seus olhares se entrelaçaram. Vá... Compreendeu-a imediatamente embora não se explicou com palavras. O mero fato de sentir suas mãos contra o peito a noite anterior lhe tinha subido a temperatura. Saber que estava dormindo em um quarto a escassos metros de distância do seu e sem portas no meio o tinha mantido acordado durante a metade da noite.


Como lhe tinha ocorrido convidá-la a montar com ele? Em realidade, tinha ido mais à frente. Não a havia convidado, tinha-a desafiado. Enfim, que seja o que Deus quiser, pensou. Tinha decidido que aprenderia a montar e certamente que ia aprender. – Em circunstâncias normais, lhe diria que apoiasse um pé em minha bota esquerda para poder erguê-la até aqui – disse. – Mas temo muito que sou incapaz de fazer semelhante alarde de virilidade e força. Strickland poderia erguer lady Smith? A pergunta fez que Rachel soltasse uma espécie de grito rouco. – Certamente, senhor – respondeu o sargento. – Se me perdoa o atrevimento, senhorita. O senhor Smith... digo, sir Jonathan. Me esqueci e também me esqueci de chamá-la lady Smith. Veja só! Sir Jonathan a manterá a salvo enquanto estiver sentada com ele. Salta à vista que é um cavaleiro consumado, tal como lhe disse há um momento. E me atrevo a afirmar que uma vez que esteja com ele, vai passar em grande. Como o sargento também a via como uma espécie de anjo, duvidava muito que fizesse nada contra os desejos dela. Entretanto e por sorte, ou talvez por desgraça, Strickland se adiantou, agarrou-a pela cintura enquanto ela abria a boca (sem dúvida para protestar) e a ergueu até a sela. Uma vez sentada, Alleyne a segurou rodeando-a com um braço. – Ai! – exclamou. – Ai! – repetiu ao mesmo tempo em que se aferrava a ele, aterrada. – Relaxe – lhe disse, abraçando-a com mais força. – Só correrá perigo se puser a lutar comigo. Relaxe, meu amor. – Sorriu-lhe enquanto a olhava nos olhos, abertos como pratos e com uma expressão aturdida. – Já está, senhorita... digo, lady Smith – comentou o sargento. – Não parece você muito solta na sela, mas está estupenda entre os braços de sir Jonathan. Em seguida deu a volta enquanto ria entre dentes por sua ocorrência e desapareceu no interior do estábulo, sem dúvida para meter em ordem os cavalariços, supôs. Enquanto isso, Rachel pareceu relaxar um pouco, embora continuasse sem mover nem um músculo. De fato, nem sequer tinha virado a cabeça e seguia com a vista cravada na frente. – Suponha que está fingindo estar sentada em um salão – aventurou ele, – tentando se decidir entre a costura ou uma novela. – Jamais o perdoarei por isso – disse com voz severa e afetada. Fez girar ao cavalo enquanto ria entre dentes e voltou a sair ao pátio. Talvez ele tampouco se perdoasse nunca, pensou enquanto o afligia o calor de seu corpo e o perfume a gardênia. Quando se olhava a um cavaleiro do chão, não se tinha a impressão de que estivesse tão alto. Entretanto, quando se convertia no cavaleiro, ou ao menos no acompanhante do cavaleiro (que era mais ou menos o mesmo), a terra parecia ficar a uma distância alarmante. Rachel era horrivelmente consciente do espaço vazio que se estendia frente a ela, debaixo dela e a suas costas. Se o cavalo ficasse quieto, talvez teria reposto da


impressão ao cabo de um momento; mas estar-se quieto não era próprio dos cavalos. O animal começou a encabritar-se e a avançar de lado enquanto bufava. E depois se moveu ainda mais. Deu um giro completo fazendo que os cascos ressoassem nos paralelepípedos e pôs-se a andar para o pátio. Estava convencida de que em qualquer momento acabaria caindo de bruços, ou de costas, no chão e de que alguém teria que recolher seus pedacinhos. Ou talvez acabasse despertando ao cabo de uns dias em algum lugar desconhecido com um galo do tamanho de um ovo e sem lembranças. Nem sequer desse mesmo instante, seu primeiro passeio a cavalo em dezesseis anos. A solidez e a proximidade do peito de Jonathan parecia muito reconfortante, assim vista pela extremidade do olho. Estava a escassos centímetros de seu ombro esquerdo. Se quisesse, poderia apoiar-se nele e assim sentir-se relativamente segura. Entretanto, negava-se a mostrar semelhante sinal de fraqueza. Endireitou as costas. Jonathan lhe rodeava a cintura com um braço, notou nesse instante. Seguraria a – a e impediria que fosse ao chão embora escorregasse da sela. Sustentava as rédeas com o outro braço, que por sua vez a segurava pela parte dianteira da cintura, lhe oferecendo uma barreira bastante sólida entre sua pessoa e o chão. De fato, sentia-se agasalhada pelo calor de seu corpo e o aroma que desprendia, fosse de sua colônia ou de seu sabonete. Além disso, havia outra coisa que a protegia de acabar de costas no chão. A coxa direita dele, compreendeu de repente ao senti-la junto a seu traseiro. Porque junto a seus joelhos estava a face interna da coxa esquerda. Resultou-lhe estranho que sua presença tivesse ficado relegada a um segundo plano, por trás do cavalo e do perigo. Claro que tampouco tinha demorado tanto em dar-se conta. Acabavam de sair ao pátio, onde voltaram a trocar de direção para afastar-se da entrada principal da mansão e avançar seguindo o lago por um prado que se estendia até um longínquo arvoredo. – Isto é inútil – lhe disse. – Jamais me converterá em uma amazona. – Sim farei isso – replicou ele. – decidi que aprenderá e também me dei conta de que devo ser um homem muito obstinado que impõe sua vontade a todos aqueles que o rodeiam. Certamente era um general ou, pelo menos, um coronel. Talvez fosse amigo íntimo do coronel Leavey e do coronel Streat. Sem girar a cabeça, porque não se atreveu a fazê-lo, soube que Jonathan estava Sorrindo. Ele estava passando em grande, igual ao dia anterior, como se não tivesse nenhuma preocupação na vida. – Suponho que todos seus homens lhe odiavam – comentou com voz desagradável, arrancando-lhe uma gargalhada. – É impossível viver no campo sem montar a cavalo – assegurou. – Seria uma ridicularia como a copa de um pinheiro. – Salvo pelos últimos meses, passei toda a vida em Londres – recordou-lhe – e ali voltarei quando tudo isto acabar. – O que vai fazer quando retornar? – quis saber ele. – Encontrarei um novo emprego – respondeu. – Ou, se consigo me fazer com minha herança, viverei do que


restar da venda das joias depois de ter devolvido a minhas amigas o que lhes devo. O que está fazendo? – Incitando o cavalo para que deixe de arrastar-se como um caracol e vá ao passo – respondeu Jonathan. – De verdade acha que vai persuadir-me para fazer isto sozinha algum dia? – perguntou-lhe. – Eu sozinha em meu próprio cavalo? – Esperava que esse dia fosse hoje – respondeu. – Mas já vejo que fui muito otimista quando pedi que lhe selassem um cavalo. Terá que ser amanhã. – O que está fazendo? – perguntou-lhe de novo. – Fazendo que vá ao trote. – Estalou a língua. – Rachel, relaxe. Não vou pôr o ao galope estendido consigo e tampouco não vamos saltar nenhuma cerca. Nos limitaremos a trotar por este prado tão fofo para que se acostume ao passo do animal. Não deixarei que lhe aconteça nada. – A trotar? – Inclusive lhe pareceu que sua voz soava lastimosa. O fresco ar matutino era revigorante, percebeu de repente. Não se deu conta quando saíram da mansão, mas nesse momento o sentiu no rosto e, quando reuniu a coragem necessária para relaxar os músculos do pescoço e virar a cabeça com a intenção de dar uma olhada a seu redor, viu a bonita imagem que apresentava o lago junto ao prado. Suas águas estavam tranquilas e as árvores que se erguiam do outro lado tingiam de verde a superfície. O prado pelo que trotavam também era muito bonito, embora levassem tempo sem cortar a erva. Estava coberto de margaridas, ranúnculos e trevos, o que lhe conferia um aspecto mais agreste. Um grupo de mariposas e outros insetos elevaram o voo ao passo do cavalo. As coloridas mariposas seguiram revoando sobre esse tapete verde, branca e amarela que se estendia sob seus pés. Os pássaros voavam sobre suas cabeças. Os cascos do cavalo golpeavam a terra com uma relaxante cadência. De repente, aflorou a sua memória a lembrança daquele passeio a cavalo que desfrutou quando tinha seis anos, sentada na sela com o tio Richard enquanto percorriam as ruas de Londres e Hyde Park, e que a levou a pensar que não havia nada mais emocionante no mundo que cavalgar. Aquela menina tinha estado certa, disso não havia a menor dúvida, pensou ao mesmo tempo em que percebia que estavam trotando, ou melhor, cavalgando para o meio galope. Escutou-se rir e girou a cabeça para compartilhar a euforia que a embargava com o homem sentado atrás dela. Esses olhos escuros a olharam com uma expressão muito séria. Decidiu não dizer nada, já que descobriu que as mariposas também revoavam em seu estômago. Jonathan tampouco disse nada. Virou a cabeça para continuar contemplando a paisagem, embora se sentisse confusa. A euforia não se desvaneceu e a ela se somava a poderosa reação física que lhe provocava a proximidade desse homem. Perguntou-se de repente se teria tido a coragem de fazer o que tinha feito com ele em Bruxelas se o tivesse visto vestido e em movimento, fosse a pé ou a cavalo, e se tivesse percebido o viril e vital que era quando não estava prostrado na cama por causa das feridas. Talvez tivesse saído correndo do quarto e não teria tornado a entrar jamais. Ou não. Ao fim e ao cabo, não se tinha deitado com ele porque o houvesse visto débil e indefeso, não é? Deixou-se levar pela loucura e ponto.


Tinha cometido uma terrível insensatez. Uma tremenda irresponsabilidade. E depois tinha aceitado pôr-se nessa descabelada farsa. Em certa época de sua vida tinha chegado a se considerar uma mulher tremendamente sensata. Não lhe tinha ficado mais remédio se quisesse evitar que a casa de seu pai fosse um caos. Embora não pensava dar mais voltas a esse assunto. Estava-se divertindo contra todo prognóstico. As árvores que antes pareciam estar a tanta distância se aproximavam com rapidez. Logo voltariam para o estábulo e sua primeira aula (se acaso podia chamar-se assim) de equitação teria concluído. Admitiu a contra gosto que não gostava. – E bem? – perguntou-lhe Jonathan, rompendo o longo silencio ao chegar ao limite do arvoredo. Tinha refreado ao cavalo, de modo que foram a passo. – Devo confessar que me foi agradável – respondeu com voz afetada. – Mas estou total e absolutamente convencida de que não poderei fazer isto sozinha. – Sim que poderá e o fará – a contradisse. Jonathan não açulou ao cavalo para voltar imediatamente tal como ela tinha esperado. Em troca, seguiu para diante e se internou entre as árvores. Em mais de uma ocasião se viram obrigados a agachar a cabeça quando consideraram que os ramos eram muito baixos. No limite a erva continuava alta; mas à medida que avançavam entre os troncos, virtualmente desapareceu. A espessura das copas fazia difícil que crescesse algo ali embaixo. Não avançaram muito mas, quando se detiveram, chegou-lhes o som borbulhante da água. – Ah, tal como suspeitava! – exclamou Jonathan. – Sabia que devia haver um arroio que alimentasse o lago. Vamos investigar? – A espessura é muito densa – lhe assinalou. – Iremos a pé – disse ele. – Fique quietinha. Só será um momento. E com isso desmontou, depois do que fez uma evidente careta de dor. – Esqueceu-se da ferida, não é? – repreendeu-o, invadida de repente pela insegurança. – E nem sequer trouxe a bengala. Entretanto, o sorriso tinha voltado para seus lábios quando ergueu os braços para baixá-la, a pesar da tremenda dor que devia estar sofrendo ver-se a força com a que apertava os dentes. – Estou farto de ser um inválido, Rachel – lhe disse, – e de caminhar com uma bengala como se fosse um octogenário – prosseguiu enquanto guiava o cavalo para uma árvore. – vamos procurar o arroio. Por sorte, já que Jonathan ia coxeando, não estava muito longe. De qualquer forma, a paisagem valeu a pena. O arroio não era muito largo, mas corria pela fralda da colina, a sua direita. A encosta não era suficiente para criar uma cascata, mas a água baixava com força sobre um leito formado por pedras de diferentes tamanhos que em alguns pontos ficavam cobertas pela espuma. As árvores se erguiam junto a ambas as margens, criando uma paragem preciosa. Embora a beleza do lugar


transcendia o que via com os olhos. Também estava o fervo da água e o aroma da erva úmida que crescia em suas bordas. E os gorjeios dos pássaros, de centenas deles conforme parecia, embora estivessem ocultos entre os ramos das árvores. Depois de ter passado toda a vida na cidade, aquilo lhe pareceu um pedaço do paraíso. Estava deslumbrada. Tinha a impressão de que lhe tivessem atirado um murro no estômago que a tinha deixado sem fôlego. – Sentamos? – sugeriu ele. Deu-se conta de que estavam de pé sobre uma rocha plana, em cujo redor corria a água com rapidez. E também percebeu que Jonathan estava apertando a coxa esquerda com a mão. – Idiota – disse. – Deveria continuar na cama. – Ah, sim? – replicou, lhe dando de presente sua expressão mais altiva. Tinha arqueado as sobrancelhas e a olhava por cima desse proeminente nariz. – Com você como enfermeira? Acredito que a inocência daqueles dias desapareceu para sempre. Não me engane. A perna está melhorando e não penso me mostrar brando com ela muito menos. Dito isso se agachou com muito cuidado para sentar-se com a perna esquerda estendida à frente e a direita dobrada. Deixou o braço sobre ela e se apoiou na mão esquerda. Rachel se sentou a seu lado, tão longe como as dimensões da pedra o permitiram, e rodeou os joelhos com ambos os braços. Às vezes parecia tão malicioso e divertido que se esquecia que também era um homem atazanado pelo pânico. Não era sir Jonathan Smith. Ela não sabia quem era. E tampouco sabia ele. – Mas como vai voltar a montar? – perguntou-lhe. – Isso mesmo me estava perguntando eu – respondeu com uma breve gargalhada. – Pensarei nisso quando chegar o momento. Este lugar é muito bonito, e está muito resguardado. É perfeito para desfrutar de um interlúdio romântico, se estiver disposta, claro. – Mas não estamos – se apressou a lhe assegurar. – Não – concordou ele, – certamente que não. Por estranho que parecesse, suas palavras lhe foram ofensivas. Por que tinha que recalcar tanto que a estupidez que demonstrasse aquela noite lhe tinha roubado todo o atrativo? Tinha-o decepcionado. Que humilhação mais espantosa! Apoiou o queixo nos joelhos e passeou o olhar pelos arredores. Decidiu que um lugar como esse poderia curar as feridas da alma. Não recordava que a beleza natural a tivesse afetado tanto como nesse momento. Sempre tinha pensado que aborreceria o campo. – A vida na cidade nos priva de muitas coisas – disse. – Isto é lindo – replicou ele. – Cresceu no campo? – quis saber. – Uma pergunta capciosa, Rachel? – perguntou Jonathan por sua vez depois de um breve silêncio.


– Mas acredito que posso respondê-la. Devo ter crescido em uma propriedade rural, ou ao menos devo ter passado grande parte de minha vida em uma. O entorno não me resulta familiar e não acredito ter estado nunca aqui. Além disso, seu tio não deu amostras de me reconhecer, não é? Mas me sinto confortável. Como se este fosse meu lugar, como se pertencesse a este mundo, embora não ao lugar em concreto. Virou a cabeça para olhá-lo, mas deixou a face apoiada sobre os joelhos. – Está se encontrando consigo mesmo, acredito – aventurou. – recorda algo embora seja insignificante? Viu-o negar com a cabeça. Havia entrecerrado os olhos para olhar a água, que resplandecia à luz do sol da manhã. – Não – respondeu. – Salvo os sonhos recorrentes, que nem sequer estou seguro de que sejam mais que isso, sonhos. Se me concentrar muito neles, é possível que acabe ainda mais perdido. Talvez me levem a criar uma realidade que não se pareça o mínimo à verdade. E a mulher que me estava esperando na Porta do Namur... Havia alguma mulher por ali quando Strickland e você me levaram a cidade? – Muitíssimas – respondeu, – além de centenas ou milhares de homens. Tudo era caótico, embora houvesse algumas pessoas tentando manter um pouco de ordem. Ninguém o reclamou, e havia várias mulheres procurando freneticamente entre os rostos dos feridos com a esperança de reconhecer a algum familiar, suponho. – Nesse caso, talvez a mulher só seja produto do sonho – disse. – Mas se não for assim, quem era? Quem é? Era impossível encontrar uma resposta que o tranquilizasse. Abraçou-se os joelhos com mais força. – E ontem à noite tive um sonho novo – prosseguiu ele. – Uma fonte com um jorro de água muito alto, situada no centro de um jardim circular. Nada mais. Não vi os arredores. Quando escutei correr a água do arroio, acreditei que talvez recordaria a origem do sonho. Mas o entorno da fonte era um jardim muito bem cuidado. O sol se refletia na água, igual a aqui, mas ali criava um arco íris. Há pessoas que se negam a admitir que sonhamos em cor. Mas eu vi esse arco íris em todo seu esplendor. Pergunto-me se isso será uma prova de que a fonte existe de verdade em algum lugar. O que significado pode ter para mim? – Talvez esteja na casa onde cresceu – aventurou. – Em sua casa. Jonathan guardou silêncio e ela voltou a concentrar-se no som da água, nos gorjeios dos pássaros e na distração que brindava o lugar. Perguntou-se se sua mãe teria ido a esse mesmo lugar para brincar quando era pequena ou para sonhar já de adolescente. Teria ido meditar a decisão que lhe mudaria a vida? Para decidir se renunciava a seu pai ou se, pelo contrário, desafiava ao tio Richard fugindo com ele? Houve um tempo (um tempo já longínquo, talvez anterior inclusive à morte de sua mãe) no qual seu pai tinha sido muitíssimo mais vital, encantador e alegre que nos últimos anos de sua vida, quando o vício ao jogo e, em menor medida, à bebida o converteram em um homem amargurado, de temperamento volátil e imprevisível. Era fácil entender naquele longínquo então por que sua mãe o tinha jogado tudo pela amurada por ele. Embora, claro estava, se tivesse vivido um ano mais, teria tido acesso às joias que nesse momento estavam fora de seu alcance. Teriam tido mais dinheiro... até que seu pai tivesse perdido tudo nas mesas de jogo, como era de se esperar. – Acredito que sempre hei sentido um grande apego pela terra – disse Jonathan. – Me pergunto se isso


chegou a me entristecer, por aquilo de ser talvez o caçula da família, destinado desde o começo a acabar no exército. Ou talvez enterrasse esse apego sabendo de que jamais herdaria nenhuma propriedade e de que nunca poderia viver perto do lugar onde cresci. – Falou que os riscos de depositar muitas esperanças nos sonhos – lhe recordou. – Parou para pensar na possibilidade de que nem sequer as hipóteses que faz sobre você mesmo sejam reais? Como pode estar seguro de que era um oficial do exército? Viu-o virar a cabeça e olhá-la com as sobrancelhas arqueadas. Enquanto a observava em silêncio, descobriu que lhe era impossível escapar desses olhos escuros. – Não o estou – respondeu ao final. Pôs-se a rir, embora suas gargalhadas não fosse muito alegre. – Não sei se o era ou não, como vou sabê-lo? Mas se não era militar, o que estava fazendo no fronte? Tentar que me pegassem um tiro por gosto? Pareço um tipo temerário, não é? De modo que se assumirmos que era um civil, é mais fácil entender por que estava sozinho e por que me afastava do fronte a cavalo. – Só é uma possibilidade – lhe recordou. – Eu sei tanto como você. Mas me ocorreu outra coisa. Caso tenha vinte e cinco anos mais ou menos, o normal é que leve cinco ou seis anos no exército. Entretanto, além das feridas que sofria no dia que o encontrei, não tem nenhuma cicatriz no corpo. Refiro a cicatrizes produzidas por antigas feridas de guerra. Isso é bastante estranho, não? Mas bem improvável, diria eu. – Talvez sempre fosse um tipo com sorte – respondeu. – Ou talvez tivesse o costume de me esconder atrás de um sargento corpulento ou algum soldado raso cada vez que se aproximava alguém com um mosquete ou um sabre na mão. Inclusive é possível que não tivesse saído da Inglaterra antes que mandassem ao Waterloo. Afastou o olhar dele e voltou a apoiar o queixo nos joelhos. Tomara pudesse fazer algo para ajudá-lo a recordar, porque assim se livraria da sensação de que seu único mérito tinha sido lhe salvar a vida. Poderia vê-lo recuperar sua verdadeira identidade e a seus seres queridos. Poderia albergar boas lembranças dele quando se fosse, uma vez que se assegurasse de que se encontrara a si mesmo. Haveria algo que pudesse fazer? Perguntou-se. Alguma pesquisa que pudesse levar a cabo por sua conta? Tinha algumas amizades em Londres. E se lhes escrevesse e perguntasse se sabiam de algum aristocrata que tivesse desaparecido durante a batalha do Waterloo? Seria uma tolice perguntar sequer. Haveria centenas de desaparecidos. Mas as famílias dos oficiais teriam sido notificadas, não? Claro que suas amizades não se moviam nos círculos mais seletos da sociedade. Deveria tentá-lo ao menos? Jonathan tinha ido ao Chesbury Park com a intenção de ajudá-la. – Suponho – o escutou dizer, interrompendo desse modo o fio de seus pensamentos depois de vários minutos de silêncio – que já estivemos aqui o tempo suficiente para convencer a seu tio de que estou disposto a educá-la e de que minha natureza é bastante apaixonada para aproveitar todo o possível os momentos que passemos a sós. Voltou a olhá-lo no rosto. Sorria com indolência, esquecida uma vez mais a seriedade que mostrara antes ou talvez enterrada sob a superfície de novo.


De repente, inclinou-se para ela e, antes que pudesse compreender suas intenções, beijou-a na boca. Afastar-se teria sido muito simples. Teria bastado ficar em pé, sacudir as saias e retornar ao lugar onde o cavalo os aguardava entre as árvores. Salvo os lábios, nenhuma outra parte de seu corpo a tocava. Entretanto, a ideia nem sequer lhe passou pela cabeça. Continuou sentada, paralisada pela surpresa e alguma outra emoção bastante mais sedutora. Foi um beijo terno e pausado durante o qual se umedeceram os lábios com as línguas sem que estas chegassem a roçar-se. Não foi lascivo nem os pôs em perigo de acabar encetados em um abraço muito mais carnal. Mas tampouco foi fraternal nem amistoso, porque havia um matiz muito sexual nele. O beijo, as emoções e seus pensamentos acabaram mesclando-se com as sensações que lhe provocava o entorno, com a beleza do lugar, com a agitação da água, com o sussurro das folhas e com os gorjeios dos pássaros. Isso era o que seu coração estava desejando toda a vida, pensou. Claro que em realidade não estava pensando, e teria sido uma conclusão estranha havê-lo feito. Quando Jonathan se afastou, olhou-o com expressão entusiasmada, os lábios separados e com as emoções a flor da pele. – Isso é – disse ele. – Já está ruborizada e tem todo o jeito de que acabam de a beijar, Rache. Esse é o aspecto que deve ter quando voltarmos à mansão. – E sorriu. Sentiu-se como uma bobinha. Tudo formava parte da farsa, nada mais. Ficou em pé sem perda de tempo e limpou as mãos na saia. – Não recordo lhe ter dado permissão para que me chame Rache – lhe recriminou bobamente. Jonathan pôs-se a rir. – Isso sim que é tentar à sorte – replicou. – A partir de agora te chamarei Rache. Se quiser, pode se vingar me chamando Jon. Pôs-se a andar entre as árvores sem esperá-lo, embora a prudência fez que se detivesse a certa distância do cavalo. E justo então se deu conta de que Jonathan era incapaz de dissimular a claudicação. O fato de haver-se sentado no chão depois da cavalgada devia lhe ter endurecido os músculos de forma considerável. – Será melhor que vá caminhando aos estábulos para ver se podem vir buscá-lo com um coche, uma carreta ou algo do gênero – disse. – Rache, Se lhe ocorrer dar um só passo nessa direção – replicou ele, – esquecerei ter escutado alguma vez a palavra "joia" e me perderei pelo distante horizonte... ou melhor, mancarei ajudado por minha fiel bengala e será você quem se verá obrigada a explicar ao Weston por que deveria te entregar sua herança antes que cumpra os vinte e cinco anos quando seu marido acaba de abandoná-la. – Poderia se limitar a me dizer que não – protestou. Nesse momento já estava junto ao flanco direito do cavalo e isso fez que subisse à sela com estupidez. Mas subiu, é obvio, e para que ficasse tranquila, supôs, só a força com a que apertava os dentes delatasse a dor que sentia, embora não demorou para dissimulá-la com um sorriso enquanto a olhava de cima.


– Será melhor que venha também por este lado, Rachel – lhe disse, – embora acabasse olhando do lado contrário. – Voltarei caminhando – respondeu. – É uma lástima que não possamos saber se seu tio nos está olhando de alguma janela – declarou. – Se soubesse com certeza, cruzaria as suas costas com o chicote para lhe deixar bem claro que escolheste um marido que sabe como colocá-la na ordem. Ponha o pé em minha bota direita se não quer que desça agora mesmo e a suba no cavalo como se fosse um saco de batatas. Apesar da indignação que lhe provocaram suas palavras e ao desejo de teimar, a última ameaça fez que o obedecesse entre gargalhadas. Nenhum dos dois teria gostado de executar a manobra diante de testemunhas, mas depois de muitas resistências, puxões, ofegos e risadas (por ambas as partes), ao final acabou sentada diante dele, embora olhando para a direita em lugar da esquerda. – Terei a mesma vista que quando viemos – protestou. – Isso é uma queixa? – perguntou-lhe Jonathan. – Se quiser, posso fazer que o cavalo caminhe para trás até os estábulos, embora não acredito que gostasse muito. Ou também poderia passar as pernas por cima do pescoço e sentá-la olhando para o outro lado. Ambos explodiram em gargalhadas outra vez, como se fossem um par de meninos tolos, concluiu muito depois. O que tiveram essas palavras para que se tomasse sua ridícula sugestão como um desafio? Ao fim e ao cabo, só tinha sido uma brincadeira. Ainda tinha a sensação de estar a quilômetros do chão. Entretanto, viu que havia um ramo à mão e quando se agarrou a ele, experimentou uma falsa sensação de segurança e uma coragem que não sentia de verdade. Passou primeiro uma perna e logo a outra por cima do pescoço do cavalo, deixando expostos tanto os tornozelos como as panturrilhas no processo. Quando pôr fim esteve sentada com as pernas pendentes pelo flanco esquerdo do cavalo e com a cintura rodeada por um dos braços do Jonathan assim como antes, descobriram que tinham conseguido não cair do animal e que os dois estavam mortos de risada. Jamais se tinha visto envolvida em uma cena tão constrangedora. – E se lhe sugerisse que fizesse o trajeto sobre o lombo do cavalo, enquanto faz girar uns quantos aros na cintura, no pescoço, nos braços e na perna elevada? – perguntou-lhe ele. Soltou um chiado como resposta. – Poderia ganhar uma fortuna no Astley’s Amphitheater... – assegurou-lhe enquanto conduzia ao cavalo até o prado, onde o pôs a um trote suave e logo ao meio galope. – Que desfrutarei quando tiver quebrado todos os ossos do corpo – seguiu ela. – Nem sequer me farão falta as joias. No trajeto de ida tinha estado observando o lago e seus arredores. Agora se estendiam em frente a ela os pastos, que ao longe davam passagem a uma série de colinas meio cobertas por zonas de bosque. Ainda lhe surpreendia que isso fosse Chesbury Park, o lar de sua mãe, um lugar que sempre tinha imaginado muito menor e


modesto. – E pensar que só restavam trinta dias em diante... – disse Jonathan. – Acredito que este mês tem trinta e um, igual ao seguinte. Julho e agosto. Trinta e um dias cada um. – Pois vai necessitar de todos se quer me convencer para que suba à sela de amazona e cavalgue por este prado – lhe advertiu. – Caramba! – exclamou ele. – Já vejo que a experiência a encantou. Em realidade, assim era. Não queria que o passeio a cavalo acabasse. Estava desejando que chegasse o seguinte. Claro que a próxima vez cavalgaria sozinha e indubitavelmente estaria aterrada. Mas já perdera muitas coisas na vida ao haver-se visto obrigada a levar uma precária existência em Londres por culpa de seu pai. Talvez não fosse muito tarde para recuperar o tempo perdido. – Pois não muito, na verdade – mentiu. – Mas não tenho a intenção de passar trinta e um dias olhando para o nada. – Tal como imaginava – replicou Jonathan. – Encantou-a – repetiu, jogando a cabeça para trás e dando gargalhadas.


CAPÍTULO 13

Tomou o café da manhã sozinha... uma triste fatia de beicon frio, salsichas meio cruas, uma torrada queimada e uma xícara de café reaquecido e aguado. Optou por não tocar os ovos, que pareciam estar gelados apesar de encontrar-se no aquecedor do aparador. Depois de retornar dos estábulos, Rachel tinha subido diretamente a seu quarto. Para escrever uma carta, ou tinha dito isso. Quando saiu para dar uma olhada pelo jardim, encontrou a duas das damas frente ao canteiro. Estavam sentadas em um enorme banco, uma a cada lado do barão. Flossie ia vestida de negro dos pés à cabeça, incluída a sombrinha bordada, enquanto que Phyllis ia de rosa. Formavam uma imagem muito respeitável. Reprimiu a vontade de pôr-se a rir enquanto se aproximava, tentando não apoiar-se muito na bengala. A perna estava aguentando bastante bem depois do passeio a cavalo. – Ah, chega aqui sir Jonathan – disse Flossie, fazendo girar a sombrinha. – Bom dia. – Weston inclinou a cabeça ao mesmo tempo em que ele os saudava com uma reverência. – Vimos vocês pela janela há um momento, sir Jonathan! – exclamou Phyllis, – não é, Flora? E convencemos ao querido lorde Weston para que saísse conosco e desse uma olhada. Se arrumou às mil maravilhas para que Rachel não corresse perigo enquanto montava. E me deixe lhe dizer que faziam um casal maravilhoso e muito romântico. Alleyne ouviu suas palavras com um sorriso. – Demos com o arroio que corre pelo arvoredo, senhor, e nos demoramos um momento. É um lugar maravilhoso. Weston assentiu com a cabeça. Seu aspecto não parecia ter melhorado depois de uma noite de sono. – O encarregado dos estábulos me transmitiu suas queixa – disse o barão. – Segundo ele, seu criado de quarto esteve interferindo no manejo dos estábulos. Quando saíram dali depois de soltar o cavalo, Strickland estava sem camisa, limpando as baias ajudado por alguns cavalariços. Tinha-se oferecido a acompanhá-lo à mansão para ajudá-lo a tirar o traje de montar, mas tinha declinado a oferta. – Peço-lhe desculpas, senhor – assegurou. – Meu criado de quarto foi sargento de infantaria até que perdeu o olho na batalha do Waterloo. Está acostumado a trabalhar duro e a ordenar a outros homens que façam o mesmo quando há trabalho por fazer. – E havia trabalho por fazer nos estábulos? – perguntou o barão com o cenho franzido. Titubeou ao responder. Permitir que seu criado de quarto desse ordens aos cavalariços do Chesbury Park para arrumar os estábulos era uma falta de etiqueta que não o ajudaria a granjeá-la amizade do barão Weston.


– Era muito cedo, senhor – disse – quando Strickland acompanhou-me aos estábulos para me ajudar a montar, já que era a primeira vez que subia a um cavalo desde que feri a perna. Só havia um cavalariço e um sem-fim de coisas para fazer para atender aos cavalos e limpar as baias. Estou seguro de que as tarefas já se teriam feito ou estariam a ponto de completar-se se tivéssemos chegado uma hora mais tarde. Direi a meu criado de quarto que no futuro restrinja seus serviços a minha pessoa. Weston seguia franzindo o cenho. – Não saí da casa desde que tive o ataque faz vários meses – disse. – Talvez a disciplina se relaxou um tanto. Me encarregarei do assunto. Fez-lhe graça ver que Flossie colocava ao barão uma mão no braço. – Mas não deve fatigar-se, milorde – lhe recordou. – De nenhuma maneira, nem sequer para nos entreter. Asseguro-lhe que somos perfeitamente capazes de fazê-lo sozinhas. E nos esforçaremos para lhe fazer mais agradável a vida, não é assim, Phyll? – É muito amável, senhora – replicou o barão. Mas sua expressão continuava sendo carrancuda e parecia distraído. – O jardim está infestado de más ervas. Também havia ervas pelos atalhos de cascalho. – Até as más ervas têm seu encanto – disse Flossie. – A verdade é que nunca compreendi por que algumas plantas são qualificadas de flores enquanto que outras, igualmente formosas, são tachadas de más ervas. – Está tentando que me sinta melhor, senhora Streat – protestou lorde Weston com um sorriso,- e o está conseguindo. De qualquer forma, falarei com o jardineiro chefe. – Eu sim, gostaria de dizer um par de coisas a sua cozinheira – replicou ela ao mesmo tempo em que baixava a sombrinha aberta de modo que a ponta ficou apoiada no chão, – Milorde. Sem ânimo de ofender, acredito que necessita de alguns conselhos. O comentário o sobressaltou. Nesse dia iriam acabar de quatro na rua se não andavam com cuidado com o que diziam. Flossie pôs-se a rir, um risinho comedido totalmente oposto às gargalhadas que costumava proferir quando algo lhe fazia graça. – Não é preciso uma longa relação com minha cunhada para saber que é uma apaixonada da cozinha, milorde – comentou. – O coronel Leavey tem sua própria cozinheira quando está em casa, mas a pobre costuma a acabar de braços cruzados. Phyllis é incapaz de passar o dia fora da cozinha. É muito exigente com os pratos de outros, só os seus superam sua fita de seda. E me deixe lhe dizer que está bastante alta. O barão suspirou. – Ultimamente não tive muito apetite – confessou-lhes – mas apesar de tudo me dei conta de que a comida que prepara minha cozinheira deixa muito a desejar. Encontrar uma substituta aqui no campo vai ser difícil. De qualquer maneira, não posso permitir que uma convidada trabalhe na cozinha, senhora. – Asseguro-lhe que será um prazer para mim, milorde – o tranquilizou Phyllis. – Acho que irei agora mesmo


à cozinha e darei uma olhada ao menu para hoje. Estou segura de que me ocorrerão algumas mudanças muito oportunas. – ficou em pé sem mais demora, ansiosa, encantada e radiante. Flossie também se levantou e olhou ao barão enquanto dava voltas à sombrinha sobre sua cabeça. – Foi muito amável ao nos acompanhar aqui fora, milorde – lhe disse, – mas agora deveria voltar para a casa e descansar um pouco. Sobre tudo se formos receber visitas esta tarde. Acompanho-o ao interior. – Tenho que escrever algumas cartas, assim lhe agradeceria muito que me indicasse onde encontrar papel e pena. – agarrou o braço do Weston quando o barão ficou em pé e os dois se afastaram pelo atalho com passo tranquilo e, ao que parecia, muito bem concordes. Phyllis ficou com ele. – Pobre homem – disse quando se afastaram o bastante para que não pudessem ouvi-la – se estão aproveitando dele com total falta de vergonha. Parece que os estábulos estão mal atendidos, igual aos jardins. Gerry diz que a cozinheira toma genebra, e a governanta, à genebra e o porto e mal sai de seu quarto. Além disso, o mordomo é um desses velhos moles incapazes de controlar à criadagem. – Não me cabe dúvida de que, entre a Geraldine e você – replicou com um sorriso, – solucionarão ao menos a situação da cozinha. Confesso que meu estômago esteve protestando pelo que lhe serviram até o momento, embora seja de má educação que um convidado se queixe. – Pois já pode se preparar para um almoço de chupar os dedos – lhe prometeu. – Rodarão cabeças quando entrar na cozinha. Respalda-me toda a autoridade do coronel. – Soltou uma maliciosa gargalhada. Pôs-se a rir enquanto a via afastar-se. Flossie já estava ajudando ao barão a subir os degraus. Que par! Pareciam estar desfrutando lindamente. Essa tarde iriam ter visita? A farsa se emaranhava cada vez mais. Enfim, era inútil lhe dar mais voltas. Já estavam metidos nela até o pescoço e, como um personagem literário (talvez Macbeth) disse retroceder a essas alturas era tão difícil como avançar. Sentou-se no banco que tinham deixado livre. Tinha saído com a intenção de procurar o administrador para que o levasse a ver os campos de trabalho, mas talvez seria melhor deixar para outro dia e estar com Rachel quando chegassem as visitas. Além disso, Strickland já estava deixando seu selo nos estábulos e Phyllis ia invadir a cozinha. Tinha que evitar que o interesse que pudesse mostrar pela propriedade fosse pontuado de interferência. O problema era que lhe interessava de verdade. Seguia lhe dando voltas às palavras que havia dito à Rachel um pouco antes. Sim, devia ter crescido no campo. Sentia-se imerso nesse tipo de vida. E sem dúvida devia ter amado a terra. Lançou uma olhada a seu redor e o que viu o alegrou tanto depois das semanas passadas em Bruxelas e na viagem que se teria posto a chorar de boa vontade. Era o caçula de alguma família? Era um oficial do exército? Que mal devia sentir-se ao saber-se incapaz sequer de considerar a opção de ficar em uma terra que não era sua, mas sim de seu pai e, posteriormente, de seu irmão mais velho. Como tinha enfrentado a seus sentimentos? Zangou-se, converteu-se em uma pessoa sofrida e rancorosa? Não se imaginava dessa maneira, mas quem sabia?


A perda de memória poderia explicar uma mudança de personalidade? Tinha suprimido o que sentia, a inquietação e a insatisfação? Tinha odiado a vida militar ou tinha fingido que gostava? limitou-se a tirar o melhor partido das circunstâncias? Talvez nem sequer fosse um oficial. Dedicou-se a dar tombos pela vida sem mais? Tinha desfrutado dos meios para permitir-se ser isso? Talvez procurasse emprego como administrador se não recuperasse nunca a memória e lhe fosse impossível encontrar a sua família. Talvez tivesse sido precisamente isso. Ao fim e ao cabo, era uma posição respeitável para um cavalheiro, e, embora se sabia um cavalheiro, desconhecia sua relevância no escalão social. Talvez o trabalho sempre tivesse sido uma obrigação para ele. Mas o que fazia um administrador rondando pelo bosque de Soignes com uma bala na coxa enquanto se travava a batalha do Waterloo? Invejava Rachel e Flossie por estar escrevendo cartas. Talvez não fosse uma atividade que gostasse especialmente, mas desejou que houvesse alguém, qualquer um, a quem escrever. Tinha sido ele o autor da carta que aparecia constantemente em seus sonhos?, perguntou-se. Ou a tinha enviado alguém? Uma terceira possibilidade que não lhe tinha ocorrido até o momento era que nem a tivesse escrito ele nem tampouco estivesse dirigida a sua pessoa. Talvez só fora o mensageiro. Fechou os olhos e tentou imaginar o possível cenário. De quem? Para quem? E assunto do que estava ele envolvido? A já conhecida dor de cabeça fez sua aparição atrás dos olhos. Quando os abriu de novo, alegrou-se de ver Bridget e Rachel passeando pelo jardim. Ficou em pé para as saudar. Rachel tinha posto um vestido matinal de musselina bordada. Nesse momento recordou com certo desconforto que havia tornado a beijá-la junto ao arroio. Prometeu-se não voltar a fazê-lo jamais. Embora tivesse tentado emendar o engano com uma desculpa plausível, não tinha sido sua intenção beijá-la. O problema era que estava radiante no campo. Maldição! Pensou. Para cúmulo, suas piruetas no lombo do cavalo tinham feito que caíssem em risadas como dois meninos, e lhe tinham dado um atrativo irresistível. Quando lhe sugeriu acompanhá-la ao Chesbury Park não pensava achá-la irresistível. Queria sentir-se livre quando a deixasse com seu tio. Não podia averiguar as cargas emocionais e pessoais que tinha deixado atrás pela perda de memória e que voltaria a recuperar quando ela voltasse. Evidentemente não lhe faziam falta mais problemas. Deu-se conta de que Rachel não levava gorro. Seu cabelo brilhava como ouro brunido ao sol. Bridget levava uma cesta longa e estreita sob o braço. Com o cabelo castanho, o chapéu de palha e o sorriso relaxado, parecia muito mais jovem que em Bruxelas. Era uma mulher muito agradável e bonita embora devesse ter mais de trinta anos. – Pensava em cortar umas flores para alegrar a casa – lhe disse quando estiveram mais perto. – Sente-se, que Rachel ficará consigo. Deveria descansar a perna todo o possível. – Sim, senhora – acessou com um sorriso e aguardou a que Rachel se sentasse para fazer o mesmo. – Está segura de que distingue as flores das más ervas?


– Está tudo infestado de más ervas! – exclamou ao mesmo tempo em que percorria o canteiro com um olhar crítico. – Deveria ter trazido uma enxada. Eu adoraria pôr mãos à obra com o jardim. Está que dá pena. – Pois me parece perfeito, Bridget – disse Rachel. – Isso é porque cresceu na cidade, querida – replicou a aludida. – E você não? – perguntou-lhe ele. – Não – respondeu. – Cresci em uma casa paroquial. Meu pai era pároco, mas muito pobre. E éramos sete irmãos. Eu era a mais velha. Eu adorava ajudar a minha mãe no jardim e na horta. As flores estavam na parte dianteira e as hortaliças, na traseira. Afundar as mãos na terra é a sensação mais maravilhosa do mundo. Acredito que me teria casado com o Charlie Perrie se sua casa tivesse tido um jardim, algumas galinhas e inclusive um porco, apesar de sua seriedade e a sua mesquinharia. Mas não tinha jardim, de modo que fui a Londres com dezesseis anos para me lavrar um futuro. O senhor York me fez a mulher mais feliz do mundo quando me contratou como babá de Rachel e o trabalho durou seis anos. Não me queixo da vida que levei depois, mas ter um jardim é um sonho feito realidade. Se podemos nos permitir a casa de hóspedes, vai ter um jardim enorme. E uma cozinha muito grande para o Phyll. Enfim, já lhes aborreci o bastante. Será melhor que me vá para cortar algumas flores. Caminhou entre as flores antes de agachar-se e pôr mãos à obra. – Foi Bridget quem a ensinou a ler? – perguntou à Rachel. – Acho que deve ter sido minha mãe – respondeu ela. – Ou talvez meu pai. Gostava de ler e era um homem muito culto. Costumava ler para mim quando era muito pequena. – Como era sua vida? – quis saber. – Acho que tinha uma relação muito estreita com minha mãe – respondeu depois de meditar um momento na resposta. – Recordo que armei umas quantas manhas de criança quando Bridget apareceu... para ocupar seu lugar, tal como o via então. Mas logo cheguei a querê-la como a uma segunda mãe. Assim inconstante é a infância. Entristeci-me muitíssimo quando partiu e a coisa foi piorando devido à afeição de meu pai pelo jogo e a bebida. Embora eu gostei de me fazer com as rédeas, ser a responsável pela casa, e acredito que me dei bastante bem. Aprendi a levar uma vida frugal e a economizar todo o possível durante os bons tempos para poder sobreviver às más rajadas, embora durante os últimos anos foram uma constante. Queria a meu pai e guardo com muito carinho as lembranças daqueles dias nos quais me demonstrava seu amor incondicional com alegria e me permitia querê-lo. Mas para o final de sua vida era muito raro que isso acontecesse. – Alguma vez foi à escola? – perguntou-lhe. – Não. – Meneou a cabeça. – Tinha amigos? – Alguns. – Baixou a vista para as mãos. – Tinham uns bons vizinhos com quem continuo me mantendo em contato. Tinha sido uma menina muito solitária e falta de carinho, pensou enquanto contemplava seu perfil com os


olhos entrecerrados. E supôs que, desde que Bridget partiu, tinha passado anos desejando que alguém a quisesse. Desejando ter amigos. Mas tinha tirado o melhor partido para sua situação. Não era nenhuma pusilânime. Tinha tomado a decisão equivocada, concluiu. Em lugar de lançar-se de cabeça a essa farsa como um menino atordoado, deveria ter insistido para que aceitasse sua primeira ideia. Esse era o lugar onde deveria viver para sempre. Devia ser a senhorita York do Chesbury Park. Começava a ter sérias dúvidas sobre a opinião que Rachel tinha de seu tio. Nesse momento ela virou a cabeça para olhá-lo. – Não foi uma má vida – lhe assegurou. – Não quero lhe dar a impressão de que meu pai era cruel comigo, de que não me tratava bem ou de que eu o odiava. Porque não foi assim muito menos. Acredito que estava doente. Não pôde evitar que acabássemos na ruína. Depois pegou o que parecia um resfriado inofensivo e morreu depois de três dias. – Sinto muito – disse. – Eu não. – Esboçou um sorriso hesitante. – Sua vida acabou sendo uma tortura. Para ele e para mim. Entretanto, mordeu o lábio superior e afastou a vista com rapidez para lhe ocultar as lágrimas. Viu que alguma caía sobre o dorso de sua mão. Resistiu ao impulso de lhe passar um braço pelos ombros. Não agradeceria sua pena. – E agora acha que suas joias podem resolver todos seus problemas – concluiu – e que lhe permitirão viver feliz para sempre. Viu-a levantar a cabeça bruscamente, com os olhos ainda cheios de lágrimas. – Não, é obvio que não! – gritou enquanto ficava em pé de um salto e o fulminava com o olhar. – O dinheiro não devolverá meu pai nem fará que volte a ser como era antes, nem como foi quando conheceu minha mãe e se apaixonaram. O dinheiro não me fará feliz. Não sou estúpida, Jonathan. Mas só a gente que nada em dinheiro pode lhe fazer ascos. Para o resto dos mortais é importante. Ao menos pode pôr um prato de comida na mesa e pode comprar roupa, e ao menos pode alimentar nossos sonhos. Deve proceder de uma família muito rica, do contrário jamais haveria dito algo assim. E acredito que se parece muito a meu pai. É um jogador. A última vez que jogou, quando estávamos em Bruxelas, teve a casualidade de que a sorte esteve de seu lado e ganhou o suficiente para despreocupar-se do dinheiro. Pode ser que a próxima vez não seja tão afortunado. – Rachel, não era isso o que queria dizer – lhe assegurou, inclinando-se para a frente para tentar lhe agarrar a mão, embora ela a separou de um puxão. – Certamente que sim! – exclamou. – É o que se está acostumado a dizer quando se ofende a alguém. A quem não se foi referir? Sou a filha de um esbanjador e tive que viver de meu engenho, isso é o que estava pensando. E acha que se consigo lhe jogar a luva a minhas joias, esbanjarei a fortuna da mesma maneira que meu pai esbanjava seus lucros, de modo que voltarei a ser pobre. Para cúmulo, só sou uma mulher. Isso era o que estava pensando, não? O que sabem as mulheres de fazer planos de economia e de moderar-se nos gastos? – Está fazendo muitas conjeturas sobre o que penso – replicou. – De qualquer forma, sinto não ter medido


minhas palavras. Sinto-o muito. O que ele tinha querido dizer era que necessitava de muito mais que dinheiro. Necessitava de uma família e amigos. Necessitava de um lar. Precisava encontrar o amor, ou que o amor a encontrasse a ela. Não necessariamente um amor sexual, embora sem dúvida alguma também o encontraria com o tempo. Necessitava de um lar. Necessitava de Chesbury Park e de Weston, mas tinha sido muito teimosa depois da morte de seu pai para dar-se conta e nesse momento se pôs em uma situação muito comprometida que talvez impossibilitasse uma reconciliação entre eles. Maldição! Pensou. Ele era o culpado. O que tinha querido dizer era que talvez essa mansão escondesse um tesouro muito mais fabuloso que suas joias. E que Weston estava tão só e tão falto de carinho como ela. Entretanto, reconhecia que se expressara com suma estupidez e que tinha sido o indutor dessa fraude urdida para que se fizesse com as joias antes de tempo. – Não – o corrigiu, – não o sente. Os homens nunca o sentem. Os homens estabelecem as regras e as mulheres só são umas criaturas estúpidas e incapazes de saber o que nos fará felizes. Mas eu sei que não quer estar aqui e isso que foi você quem sugeriu que viéssemos assim, fingindo o que não somos. Está apanhado durante um mês. Não me importa nada o que opine de mim ou de meu desejo de dirigir minha fortuna! Nada! Ficou em pé sem a ajuda da bengala. Saltava à vista que ela estava muito alterada; muito alterada para a ofensa que tinha sofrido. De modo que o atribuiu ao descobrimento de que a realidade de encontrar-se no Chesbury Park era totalmente diferente do que imaginara. Isso aumentava seus remorsos. – Rachel, talvez devêssemos acabar com esta farsa – disse, e não pela primeira vez. – Explicarei a situação a seu tio, as damas poderão partir para reorganizar sua vida conforme lhes convenha e você poderá ficar vivendo aqui. – Claro, como não! – exclamou. – Típico de você sugerir algo assim uma vez passada a novidade da brincadeira. Sabia que me deixaria aqui onde não me querem e onde eu não quero estar, que me obrigaria a abandonar a minhas amigas à sorte de uma vida que não quero nem imaginar. Pois não vai ser assim, tenha como certo. – Estendeu o braço e lhe deu um empurrão no peito. Embora não o fez com muita força, pegou-o desequilibrado porque estava tentando apoiar-se um pouco na perna esquerda. Assim caiu de costas com muito pouca elegância sobre o banco. Arqueou as sobrancelhas. – Olhe o que me obrigou a fazer – protestou, zangada. – É a primeira vez que atiro a alguém com um empurrão! – Eu diria que é a primeira vez que me atiram com um empurrão – replicou. – Embora suponha que mereço isso. Não escolhi bem as palavras, coisa que recordarei para a próxima vez que queira ser amável com você quando estiver suscetível. – Amável! – repetiu com desdém. – Eu não estou suscetível! Entretanto, antes que pudesse seguir com sua diatribe, Bridget apareceu de um nada com a cesta cheia de flores. – O que se passou? – perguntou. – caiu? Disse-lhe que...


– É só uma rixa de apaixonados – respondeu com um sorriso, embora se sentisse bastante idiota. – A primeira. E é minha culpa, é obvio. Rachel me empurrou. – Tudo isto parecia uma ideia muito brilhante em Bruxelas – murmurou Rachel. – Todo mundo acreditou que seria muito divertido. E assim foi, e assim seguirá sendo. Acredito que o tio Richard está morrendo. – ergueu as vaporosas saias do vestido depois de pronunciar o discordante comentário e se afastou quase correndo pelo atalho, de volta à casa. Teria ido atrás dela, mas Bridget o deteve lhe pondo a mão no braço. – Deixa que se vá – aconselhou. – Lembro que costumava chorar desconsolada todas as noites por sua mãe. E também recordo o dia que um dos amigões do senhor York fez em pedacinhos sua preciosa boneca de porcelana. Recolheu os pedaços em uma velha manta e chorou sobre eles um sem-fim de noites. Mas em realidade chorava por seu tio. Depois da morte de sua mãe irrompeu em sua vida como um raio de sol e lhe deu de presente a boneca. Depois desapareceu tão rápido como tinha chegado. Sobrepôs-se a tudo em um ano e logo se converteu em uma menina de incrível fortaleza e força de vontade. Agora me pergunto se de verdade se sobrepôs. Odeia a lorde Weston. Embora em realidade está desesperada por querê-lo e jamais o admitirá, nem sequer ante si mesmo. É o irmão de sua mãe... O único vínculo que fica com suas raízes. – Valha-me Deus! – murmurou com um suspiro. – Justo o que imaginava. Olhe o embrulho no que a coloquei. – Não se preocupe – o tranquilizou. – Tudo sairá bem, já o verá. Tomara pudesse ser tão otimista...


CAPÍTULO 14

Meia hora depois, sem que Rachel tivesse tido apenas tempo para recuperar a compostura depois da briga que parecia ter surgido de um nada e que a tinha alterado até o ponto de atacar a outro ser humano, bateram à sua porta e Geraldine entrou sem esperar que lhe desse permissão. – Grande se armou, Rache! – exclamou. – Phyll está liberando uma batalha na cozinha. Fez-se encarregada das ajudantes da cozinheira e também dos fogões, mas a cozinheira se retirou para reagrupar-se e lançar o contra-ataque. A governanta e ela recorreram à genebra para fortalecer-se. Quando se armarem de coragem, as caçarolas e os juramentos começarão a voar de um lado para outro, digo-lhe eu. E como não quero perder isso irei ao ponto: o barão quer vê-la em seus aposentos. Será melhor que vá. Se descobrir onde tem suas joias, esta noite me planto a capa e a máscara, ponho uma faca entre os dentes e procuro alguma hera pela qual subir quando a lua tenha desaparecido. Pôs-se a rir muito a seu pesar, embora desejasse estar em qualquer outro lugar enquanto caminhava para os aposentos de seu tio. De repente, todas as mentiras e os enganos lhe pareceram desprezíveis. Entretanto, o que outra coisa podia fazer a não ser seguir com o plano? De qualquer forma, não era a única implicada nessa farsa. Não desmarcaria suas amigas. Odiava ao Jonathan. Odiava-o de verdade. Certamente era um ricaço arrogante, frio e desalmado em sua outra vida. Passou por cima o detalhe de que não lhe havia devolvido o empurrão, mas sim se tinha desculpado com ela. – Entre e sente-se, Rachel – lhe indicou seu tio depois de que seu criado de quarto a fizesse entrar. Percebeu que não ficava em pé para recebê-la. Tinha as pernas erguidas sobre uma banqueta. Embora parecesse exausto, seus olhos a observaram com atenção enquanto atravessava a sala e se sentava onde lhe tinha indicado. Estavam de frente a uma janela com vistas ao jardim da fachada principal e aos prados. – Tio Richard – lhe disse, – como está? Quero saber como está de verdade. – É um problema de coração – lhe respondeu. – Me está falhando lentamente... ou rapidamente. Quem sabe? Sofri alguns ataques durante os últimos três anos, o mais recente foi em fevereiro. Estava-me recuperando bastante bem, mas aconteceu algo que me alterou. E depois apareceu você. Metia-a no mesmo saco que ocupava o acontecimento que o tinha alterado fazia pouco? Bom, tampouco tinha direito a protestar. Depois de rechaçar o convite que seu tio lhe fez no ano anterior, ia e se apresentava de repente. Nem sequer lhe tinha escrito para avisá-lo de sua chegada. E para cúmulo levava uma multidão de pessoas consigo. Nem sequer lhe tinha ocorrido que teria envelhecido nesses dezesseis anos. Nem que estivesse delicado de saúde. Tinha esperado encontrar-se com o mesmo homem forte e seguro de si mesmo mas nesse caso teria sabido a que ater-se.


– Iremos amanhã se quiser – disse. – Hoje mesmo. – Não referia a isso – assinalou ele. – Conhece bem ao senhor Smith, Rachel? Até que ponto? É bonito e encantador, admito-o... Ao menos, quando lhe convém. Não se terá casado com ele porque como dama de companhia suas opções eram limitadas, não é? Porque isso teria sido uma tolice. Algum dia será uma mulher muito rica. Já o seria se tivesse casado com meu consentimento durante este último ano. – Amo ao Jonathan – assegurou. – E sei que é um homem com o que posso levar uma vida tranquila e feliz. Não poderia ter escolhido melhor homem para mim de que escolhi eu, tio Richard. – E, entretanto – replicou, – esta manhã manteve uma violenta discussão. Suponho que a insultou e por isso você o empurrou. Fechou os olhos um instante. É obvio! Teria visto a briga com todo luxo de detalhes da janela. Via perfeitamente o banco onde se sentaram sem ter sequer que estirar o pescoço. Menos mal que não tinha aberto a janela e, portanto, não tinha escutado nenhuma só palavra. – Não foi nada – afirmou. – Um par de comentários saídos de tom que esquecemos em seguida. De verdade. – Não no momento da discussão – recalcou seu tio. – Partiu zangada e ele não tentou detê-la. – Não foi nada sério – repetiu, abrindo as mãos sobre o regaço. – Espero de todo coração que não tenha cometido o mesmo engano que sua mãe, Rachel – disse. Levantou a cabeça com brusquidão para olhá-lo. – Como sabe que foi um engano? – perguntou-lhe. – Opôs a seu matrimônio e depois, quando fugiu, cortou a relação com ela e não voltou a vê-la até que morreu. Como sabe se foi ou não feliz durante todos esses anos? Como sabe se teria sido feliz ou não se tivesse sobrevivido a meu pai? Seu tio suspirou. – Não falarei mal dos York – disse. – Era seu pai e estou convencido de que o queria. Seria antinatural que não o fizesse. – Adorava-o – replicou com veemência, embora fosse muito consciente de que estava à defensiva. Tinha querido a seu pai até o final, mas não tinha sido uma tarefa simples. Às vezes o tinha detestado. – Que direito tem a nos julgar? – perguntou-lhe. – Que direito tinha a cortar a relação com sua única irmã porque não aprovava ao homem que tinha escolhido como marido e a aparecer anos depois para desfrutar sobre sua tumba? Que direito tinha a ganhar o carinho de uma menina, a comprá-la com sorvetes, bonecas e passeios a cavalo, para desaparecer de sua vida ao pouco tempo e deixá-la com a crescente suspeita de que se mostrara indigna de seu amor? Era sua sobrinha! Que culpa tinha eu de que desaprovasse a meu pai? Esqueceu que também era a filha de sua irmã. Uma pessoa por direito próprio. – Rachel... – Viu-o fechar os olhos e apoiar a cabeça contra o espaldar da poltrona enquanto levava a mão ao peito. – Rachel... Ficou em pé com as pernas trêmulas. – Sinto muito – disse. – Sinto muito, tio Richard. Por favor, me perdoe. Nunca discuto... e esta manhã já o


tenho feito em duas ocasiões e com duas pessoas distintas. Vim ao Chesbury Park livremente. É imperdoável que tenha pego consigo como se fosse você quem invadiu minha casa. Tudo isso aconteceu faz muito tempo e a verdade é que me ofereceu seu lar quando meu pai morreu, embora o oferecimento levasse a ameaça implícita de me casar com alguém de sua escolha. – A ameaça... – pôs-se a rir baixo. – Rachel, tinha vinte e um anos e, até onde eu sabia, não tinha tido a oportunidade de conhecer nenhum pretendente aceitável. Seu pai não tinha organizado nenhum tipo de apresentação em sociedade. Só quis lhe fazer um favor. – Enfim – replicou, – essa não foi à impressão que me deu sua carta. Embora talvez foi porque estava predisposta ao contrário. Não me deu os pêsames pela morte de meu pai. – Porque me alegrei – confessou com um deixe fatigado na voz. – Acreditei que sua morte lhe daria pôr fim a oportunidade de desfrutar da vida e de sua juventude. Fui muito desconsiderado ao não compreender que você estaria de causar pena. – Já não importa – lhe assegurou. – aproveitei minha oportunidade de ser feliz, mas não às cegas, tio Richard. Escolhi a um homem que é aceitável e agradável. Escolhi a alguém a quem posso querer e que a sua vez me quer. Nesse momento se encontrava tão metida no papel que estava absolutamente convencida de que adorava ao Jonathan. – Trago-lhe algo? – perguntou-lhe. – Algo de beber, talvez? – Não. – Negou com a cabeça. – Não sabia que estava doente – lhe assegurou. – Desgostei-o ao vir. Deveria me ter mantido afastada. – Faz vinte e três anos que sua mãe partiu desta casa – replicou seu tio. – Era quinze anos mais jovem que eu; para mim era mais uma filha que uma irmã. Queria-a muitíssimo. Mas era impulsiva, teimosa e uma romântica sem remédio. Não dirigi bem a situação com os York e, embora meu matrimônio foi satisfatório, houve um vazio em minha vida desde que sua mãe se foi. Me alegro de que tenha vindo. – Fechou os olhos. Um vazio que ela poderia ter preenchido em qualquer momento desde a morte de sua mãe, pensou, dividida entre uma dor indescritível e uma ira galopante. Mas não voltaria a brigar com ele. Realmente tinha sido uma pessoa muito tranquila até esse momento. Graças a isso tinha podido dirigir seu pai, seus amigos e o caos de suas vidas. – Tio Richard, me dê minhas joias – lhe pediu. – Saberei utilizá-las, assim como Jonathan. Ficaremos alguns dias mais e logo lhe deixaremos em paz. Escreverei. Virei de visita. Escreveria, jurou-se. Confessaria tudo. E se a perdoasse, iria visitá-lo sempre que pudesse. Tentaria não esgrimir o passado em seu contrário. Talvez inclusive pudessem iniciar uma relação normal entre tio e sobrinha. – Não tenho pressa para que parta – disse ele. – Passou muito tempo desde a última vez que houve gente jovem nesta casa. E eu gosto de suas amigas. São umas damas encantadoras. Passou muito tempo desde a última vez que tive convidados. Só vejo meus vizinhos na igreja. Passaram pelo menos vinte anos desde a última vez que se celebrou um baile no Chesbury Park. Celebraremos um este mês. Fica para que possamos nos conhecer e para


que possa conhecer seu marido. Mordeu o lábio. A magnitude do engano se fazia mais evidente e dolorosa com cada hora que passava. – E as joias? – perguntou-lhe. Seu tio levou tempo antes de responder: – Não posso prometer que lhe darei isso, Rachel, nem sequer no final do mês – respondeu. – Já veremos. Se Smith é capaz de manter o que disse, é certo, de modo que não precisa vendê-las. Quanto a pôr isso... Bom, são peças antigas e muito recarregadas para uma moça tão jovem. São uma herança de família encomendada a meu cuidado. Primeiro por minha mãe e depois pela tua. De modo que a farsa não serviria para nada, pensou... Só tinha o raio de esperança desse "Já veremos". Poderia ter discutido. Mas percebeu que havia tornado a levar a mão ao peito e que seu rosto tinha adquirido esse tom cinzento. Não tinha aberto os olhos. Olhou-o alarmada. Entretanto, embora se inclinasse para ele, foi incapaz de tocá-lo. – Esgotei-o, tio Richard – disse. – Quer que avise a seu criado de quarto? Saiu apressadamente da sala sem esperar resposta, mas não foi preciso que fosse a procura do criado de quarto porque estava do outro lado da porta, passeando com nervosismo de um lado para outro. Tinha sido uma manhã muito estranha, pensou enquanto descia as escadas. Tinha-lhe parecido tão longa como um dia... ou como uma semana. Emocionalmente se sentia exausta. Jamais tinha havido grandes paixões em sua vida, nem positivas nem negativas. Nesse momento a paixão parecia inundar tudo. A cozinheira e a governanta contra-atacaram expondo sua situação ao barão Weston. A governanta tirou o ás que guardava na manga imediatamente. Se sua senhoria não confiava nela para contratar às pessoas mais qualificadas para cada posto da casa, demitiria se na hora, anunciou. Não pensava tolerar que uma completa desconhecida invadisse sua cozinha e incomodasse a sua cozinheira até o ponto de que a pobre mulher fosse incapaz de preparar um prato decente enquanto a senhora Leavey seguisse no Chesbury Park. O barão Weston despediu a cozinheira e aceitou a demissão da governanta. – Não me tinha percebido de como insossas tinham chegado a ser as comidas – disse essa noite no salão depois do jantar. – Agradeço-lhe de todo coração, senhora. Nem no Carlton House teriam servido um jantar mais delicioso do que nos preparou esta noite. Acreditei que não tinha apetite, mas comi bastante. Phyllis se ruborizou. – E as massas que tomamos esta tarde com o chá estavam deliciosas – continuou. – Todos meus vizinhos tentarão me tirar a minha cozinheira. – pôs-se a rir e seu aspecto melhorou de repente, pensou Alleyne. O senhor e a senhora Rothe tinham ido essa tarde para tomar o chá, acompanhados por seu filho e suas duas filhas. Igual à senhora Johnson, sua irmã, a senhorita Twigge, e o reverendo e sua esposa, a senhora Crowell. Todos tinham confessado estar encantados de conhecer a sobrinha do barão e a seu deslumbrante marido. Todos se tinham ficado maravilhados com o Flossie e Phyllis, que tinha abandonado seus deveres culinários durante uma hora. A senhora Crowell tinha desfrutado de uma agradável conversa com Bridget. Tinham falado de flores,


hortaliças, sebes e vários assuntos relacionados com a jardinagem, a julgar pelo pouco que tinha escutado. – É obvio, não espero que siga trabalhando na cozinha, senhora – concluiu com um suspiro. – Amanhã verei que solução propõe meu administrador. – Mas, milorde, estarei encantada de fazê-lo! – protestou Phyllis. – Eu gosto de me manter ocupada... tal como lhe diria o coronel Leavey se estivesse aqui. Cozinhar é minha grande paixão, assim como são a costura ou a pintura para outras damas. – Com sua permissão, milorde – interveio Flossie, – amanhã descerei aos aposentos da governanta e darei uma olhada às contas. Também organizarei as tarefas dos criados. Não será nenhum aborrecimento. Embora o coronel Streat contratasse a toda uma legião de criados quando estávamos em casa, eu sempre insistia em fiscalizá-los de perto. – É um oferecimento muito amável de sua parte, senhora – disse lorde Weston, compreensivelmente surpreso por essas palavras. – Estou aflito. Enquanto o barão falava, Bridget pegou uma almofada para colocá-la atrás da cabeça e também uma banqueta para que erguesse os pés. Já lhe havia dito durante o jantar que prepararia uma infusão benéfica para o coração que teria que tomar antes de ir para a cama. Era surpreendente que não os tivesse jogado a todos por ter removido tantos vespeiros em tão pouco tempo. Claro que as comidas tinham melhorado muitíssimo. E quanto aos estábulos, Strickland lhe havia dito enquanto o ajudava a vestir-se para o jantar que tinham tido que limpar pelo menos um mês de sujeira acumulada enquanto o encarregado dava ordens a direita e esquerda, pendente de que se cumpriam a rigor. – Disse-lhe que talvez esteja deprimido porque o barão vendeu a maioria dos cavalos de caça e já nem sobe nem usa a carruagem – explicou o sargento. – Mas que essa não é desculpa para não estar orgulhoso de um trabalho bem feito nem para desatender seu dever quando lhe dão pagamento, teto e comida pelo que faz. Disse-lhe que se fosse um soldado, esperaria se dele que tivesse o fuzil limpo e carregado, a equipe bem cuidada e pouco rum no estômago embora não estivesse em meio de uma guerra, porque nunca se sabe quando vão brigar nossos governantes com os de outro país e se vai armar a confusão de novo. Entretanto, não os tinha posto de quatro na rua. Ao contrário, Weston parecia estar desfrutando de sua companhia. Passou grande parte do jantar observando Rachel, sabendo de que o fazia com expressão meditabunda. Ela era a única que não se esforçava para enganar o barão... nem por representar o papel de feliz recém casada que tinha concordado interpretar. Compreendeu que ainda seguia zangada com ele. Isso era, claro. Deitaram-se cedo, tal como tinham feito a noite anterior. Conforme disse Bridget quando o barão não a escutava, deitar-se cedo era um luxo do que nunca se cansaria, e Phyllis lhe deu a razão, mais que nada porque teria que levantar-se cedo para preparar o café da manhã. Ele não estava tão seguro de que o horário que se seguia no campo fora de seu agrado. Sentia-se inquieto. Ocorreu-lhe descer de novo e sair para dar um passeio, mas comprovou da janela de seu dormitório que nublara em algum momento da noite. No exterior reinava a escuridão e não conhecia a propriedade o bastante para aventurar-se a sair sem luz. Além disso, se Weston o ouvia, perguntaria se por que o marido de sua sobrinha


abandonava sua cama quando estavam de lua de mel. Deixou que Strickland o ajudasse a tirara ajustada jaqueta e conversou com ele vários minutos, mas o despachou antes de despir-se por completo. Era muito consciente do silêncio enquanto olhava pela janela. Geraldine também devia haver-se retirado, porque pouco antes a tinha escutado falar e rir com o Rachel. Entrou no closet. Não havia luz no do Rachel, mas se distinguia o resplendor de uma vela no dormitório contínuo. Isso queria dizer que continuava acordada. Titubeou um instante. Um dormitório não era o melhor cenário para um enfrentamento a essas horas da noite, mas ao menos desfrutariam de certa intimidade. – Vou entrar – disse em voz alta. – Se quer proteger sua virtude, agora é o momento. Estava em frente à janela, igual a ele pouco antes, vestida com uma discreta e prática camisola de algodão que, como não, ressaltava seu atrativo do mesmo modo que o faria uma bordada e transparente em qualquer outra mulher. Geraldine lhe tinha escovado o cabelo até deixá-lo brilhante. Levava-o solto pelas costas. Tinha os pés descalços. Seu rosto mostrava surpresa e indignação ao mesmo tempo. Aferrava-se com força os braços, cruzados por diante do peito. – Não se preocupe – lhe disse, – não vim para exigir meus direitos conjugais. – E para que veio? – perguntou-lhe enquanto seus olhos percorriam sua pessoa, vestida com a camisa, as calças e as meias três-quartos. Tinha prescindido da bengala. – Aqui não perdeu nada. Vá embora. – Supõe-se que somos marido e mulher, Rachel – lhe recordou. – Se supõe que nos casamos por amor. Supõe-se que devemos estar radiantes de felicidade pela dimensão que nossas noites de paixão outorgam a nosso amor. Entretanto, apenas nos falamos e quase não podemos nos ver. Parece-lhe que é a melhor maneira de convencer a seu tio de que nosso matrimônio é ideal? Deu-lhe as costas e cravou de novo o olhar no exterior enquanto ele apoiava um ombro na ombreira do arco que separava o closet do dormitório. – Quando planejamos esta farsa – disse ela, – nos esquecemos que teríamos que levá-la a cabo juntos. É muitíssimo melhor ator que eu. – Isso quer dizer que me detesta? – Suspirou e a olhou com exasperação. – Houve um tempo bastante recente no qual alegrava meus dias só entrando em meu quarto. Fiquei apaixonado por você assim que abri os olhos e a vi. Sabia? E houve um tempo quando procurava minha companhia e se sentava comigo para falar ou ler quando já não havia razão médica para que o fizesse. Acha que é possível que esqueçamos o acontecimento que mudou as coisas? – Não – respondeu ela depois de um longo silencio. – Não é possível. Algo assim não se pode esquecer por mais que se queira. Mostrei-me torpe e desajeitada, e consegui que me aborrecesse. – Maldição, Rachel! – exclamou novamente exasperado. – De verdade acha que me importou a estupidez ou a falta de experiência? O que me incomodou foi que não me dissesse isso. Mas isso pertence ao passado. É hora de que o esqueçamos. – É impossível esquecê-lo – insistiu ela. – É uma tolice que o sugira sequer.


– Pelo amor de...! – resmungou. – Só estamos falando de uma noite de paixão. Não foi uma experiência transcendental, bom, talvez sim embora por motivos diferentes, mas tampouco foi tão mau. Só foi sexo. – Exatamente – recalcou ela. – As mulheres, é obvio, tomavam esses assuntos de uma maneira distinta aos homens. Sabia, embora não sabia de onde tinha saído essa certeza. Tinha sido uma estupidez dizer isso. Aos olhos de Rachel, o fato de que só tivesse sido sexo era o pior de tudo. Sabia que para ela tinha sido transcendental, embora não de um modo agradável. Maldita seja! Pensou, a essas alturas poderia estar coxeando pelas ruas de Bruxelas ou de Londres, descobrindo amigos e parentes debaixo das pedras. Como demônios se envolveu até o ponto de arquitetar esse plano? Embora conhecesse a resposta. Rachel queria ajudar a suas amigas e ele queria ajudar Rachel porque lhe devia a vida e porque talvez continuasse um pouco apaixonado por ela. – Bom – disse ao fim, – pois amanhã vai ter que se esforçar um pouco mais na hora de interpretar, Rachel. Vai ter que fingir que está apaixonada por mim e vai deixar que esse amor goteje por todos os poros de seu corpo. Porque se não, nossa viagem terá sido em balde e iremos dentro de um mês tal como viemos. Virou-se para olhá-lo. – Meu tio tem o coração delicado – lhe recordou. – Poderia morrer em qualquer momento. Diz que se alegra de que tenha vindo e que quer que fiquemos para poder nos conhecer melhor... apesar de que esta manhã nos viu discutir pela janela. Diz que houve um vazio em sua vida desde que minha mãe fugiu com meu pai. Está decidido a celebrar um baile em nossa honra. Mas poderia ter feito tudo isto faz anos. Poderia me haver convidado a vir com frequência durante estes dezesseis anos. Poderia ter perdoado a minha mãe antes que morresse para que as duas viéssemos a vê-lo. E agora está morrendo. – cobriu a boca com a mão, mas era evidente que estava mordendo o lábio superior para controlar suas emoções. – Rachel – disse, – talvez tenha chegado o momento de que o perdoe. – Como vou perdoá-lo? – quis saber ela. – Como? Minha vida também esteve vazia. Às vezes pensava que era mais uma mãe que uma filha para meu pai. Cuidar dele foi uma carga muito dura. Olhou-a com tristeza. Que lastro arrastavam as pessoas por culpa de seu passado... Seria uma vantagem ter perdido a memória por completo? Que carga levava ele em cima quando caiu do cavalo e golpeou a cabeça? – Odeio isto – confessou ela de repente ao mesmo tempo em que punha-se a andar para a cama para afastar os lençóis de um puxão. – Odeio esta auto compaixão, esta tristeza, esta melancolia. Não sou assim. Esta não sou eu. Jamais fui por aí dizendo que minha vida foi terrível e vazia. Limitei-me a vivê-la. Por que de repente a vejo assim? – Talvez porque ao vir abriu uma porta a seu passado – aventurou. – E talvez a força dessas emoções tão negativas se deva ao fato de ter vindo pelos motivos equivocados. Coisa de que eu sou culpado. – Não me venha outra vez com essa de que vai confessar a verdade ao tio Richard. – sentou-se na cama e se aferrou ao colchão, alheia ao convite que poderia estar enviando. – É muito tarde para isso. – Não sei se percebeu que embora consiga se fazer com sua fortuna, estas quatro damas não aceitarão nem um só penny em compensação pelo que perderam em mãos do Crawley. – É obvio que o aceitarão. – Abriu os olhos de par em par. – É minha culpa. Seu sonho é a única coisa que


as ajuda a seguir adiante. – Duvido-o muito – replicou. – São mulheres curtidas, Rachel. Sobreviveram a algumas das provas mais duras da vida e seguirão fazendo-o a seu modo. Não são sua responsabilidade... nem minha. Não quereriam sê-lo. – Encontrarei o modo de convencê-las – assegurou. – Tenho que fazê-lo. Mas antes tenho que convencer a meu tio. Esta manhã me disse que não tem pressa por me dar às joias. Aduziu que você poderá me manter e que, portanto não as necessito de verdade. É tão injusto! Não deveria suplicar para consegui-las. Se me quisesse, não poria objeções a me dar o que me pertence. De repente, caiu na conta de que o que Rachel necessitava com urgência por cima de todas as coisas era um pouco de alegria. Não parecia haver rido muito ao longo de sua vida. Entretanto, a risada a tinha transformado por completo essa manhã quando deu a volta ao lombo do cavalo e lhe enredaram as saias, deixando à vista uma indecente quantidade de panturrilha. Era o responsável por que estivesse metida nesse embrulho e era sua responsabilidade tirá-la do mesmo. Mas no processo talvez lhe ocorresse à maneira de fazê-la rir outra vez... e muitas mais. Era algo que podia fazer por ela. – Amanhã, Rachel – lhe advertiu, – vamos atuar como se tivéssemos passado a noite fazendo o amor nessa cama. Vamos entregar-nos, os dois, em corpo e alma a esta farsa, já que não me permite lhe pôr fim. Me sorria. – Como? – Olhou-o sem compreender. – Sorria para mim – repetiu. – Certamente não é tão difícil. Já o fez antes. Vamos, sorri. – Grande tolice! – Sorria. Fez isso. Seus lábios se esticaram com uma expressão desafiante e envergonhada. Devolveu-lhe o sorriso. – Volta a tentá-lo disse. – Imagine que me quer com loucura. Imagine que acabamos de desfrutar de um momento de luxúria e que agora mesmo vou a por outro. Sorria. Alegrou-se de não haver-se movido e de seguir com o ombro apoiado na ombreira e as pernas cruzadas à altura dos tornozelos. Porque quando Rachel lhe sorriu essa vez lhe fez um nó nas entranhas. Sentiu o assalto do desejo, mas o reprimiu, consciente de que as calças que levava eram extremamente reveladoras. Devolveu-lhe o sorriso com lentidão e percebeu que a força com a que se agarrava ao colchão lhe tinha deixado os nódulos brancos. – Nos veremos no estábulo amanhã à mesma hora – disse em voz baixa. – Boa noite, meu amor. Rachel não lhe respondeu. O silêncio o seguiu até seu dormitório, onde pagou o preço de seu pequeno experimento com uma hora de desconforto pelo desejo insatisfeito.


CAPÍTULO 15

A aula de equitação matutina teve que ser cancelada porque as nuvens da noite anterior tinham levado a chuva consigo e não descampou até passado o meio-dia. Logo que clareou, foi em busca do Paul Drummond, o administrador do Chesbury Park, que tinha aceitado a lhe mostrar os campos de trabalho e a granja que abasteciam à propriedade. A experiência o convenceu ainda mais de que tinha passado longas temporadas em um entorno rural. As paisagens, os sons e os aromas da granja e os estábulos faziam que se sentisse como peixe na água. O percurso lhe foi fascinante: o ondulante mar verde das espigas dos cereais balançadas pela brisa; os torrões do aro obscurecidos pela chuva; as vacas e as ovelhas que pastavam nos prados; os porcos em suas pocilgas; as galinhas e os patos que brincavam de correr pelos currais; as extensas parcelas dedicadas ao cultivo de hortaliças; os pomares de frutos; e o celeiro com seu aroma de feno e a esterco, onde não podia faltar a vaca com um bezerrinho adoentado, as carroças com feno, o arado e os forcados. – A primeira vista parece uma propriedade próspera – comentou enquanto retornavam ao estábulo. – É, senhor – lhe assegurou o administrador. – E o seria ainda mais com algumas melhorias e reformas, é obvio, mas sua senhoria perdeu interesse na terra desde que caiu doente. Permite-me levar as rédeas, mas não quer ouvir nenhuma só palavra sobre fazer mudanças. Não tentou lhe surrupiar nada mais. Não era assunto seu. Embora entendesse o desânimo do administrador. Se se transbordava de energia e de entusiasmo mas não lhes dava saída, um homem podia perder a ilusão pela vida. Tinha-lhe passado o mesmo em algum momento de sua vida? Tinha pensado que sua vida carecia de sentido? Que estava perdido? De repente, recordou o que o sargento Strickland lhe disse em Bruxelas: "Quando pôr fim recorde quem é, possivelmente descubra que se converteu em um homem melhor que o que era." Possivelmente fosse um homem que não chegou a amadurecer quando deixou atrás a infância. Possivelmente necessitava algo drástico como uma perda de memória para sair do poço onde estava metido. De algo estava seguro. Sua vida estava no campo. Com a terra. Se depois do mês que devia passar no Chesbury Park descobrisse que era verdadeiramente um oficial, venderia seu cargo. Se era o caçula da família e não contava com fortuna nem com ganhos, procuraria um emprego como


administrador embora seus parentes, quaisquer pessoas que fossem, acreditassem que estava manchando o sobrenome familiar. Não sabia com certeza que classe de homem tinha sido. Mas o homem que era nesse momento estava preparado para agarrar as rédeas de sua vida e fazer dela exatamente o que queria. Suas reflexões se viram interrompidas no momento em que Drummond começou a lhe fazer perguntas sobre sua propriedade no Northumberland. A facilidade com a que respondeu e criou uma propriedade fictícia reafirmou sua opinião de que ao menos tinha o conhecimento necessário para conseguir que as mentiras fossem convincentes. Quando deixou o cavalo nos estábulos a primeira hora da tarde e pôs-se a andar para a mansão, sentia-se revitalizado e muito mais alegre que os dois últimos dias. Bridget estava arrancando ervas em um extremo do canteiro. Havia dois jardineiros fazendo o mesmo, um no centro e outro no extremo oposto. Quatro homens mais estavam disseminados pelo prado que se estendia ao outro lado, cortando a erva com outras tantas foices enquanto dois moços a amontoavam. O intenso aroma de erva úmida e recém cortada flutuava no ar. Rachel estava no atalho de cascalho, observando tudo, mas se virou ao escutar seus passos para recebê-lo com um sorriso deslumbrante. perguntou-se o que teria feito para congraçar-se com ela, mas depois recordou a conversa que mantiveram a noite anterior em que lhe disse que o gabinete privado de seu tio dava para a fachada principal. Devolveu-lhe o sorriso, rodeou a cintura com um braço e a beijou nos lábios. SE arrumou para que a demonstração afetuosa não fosse nem muito longa (o que se teria considerado vulgar havida conta de que Bridget e vários criados estavam presentes) nem muito curta. Quando ergueu a cabeça, sorriu de novo e manteve o braço em torno de sua cintura. – Estive longe de ti duas horas – disse – e me pareceram toda uma eternidade, meu amor. – Eu passei a manhã me arrependendo por não tê-lo acompanhado – assegurou ela. – Foi interminável. Perguntou-se se os atores se encontrariam em estado de perpétua excitação no cenário. Sorriu e a apertou fugazmente contra seu corpo antes de dar uma olhada a seu redor. – Suponho que isto... – disse, apontando com a cabeça o torvelinho de atividade que se desenvolvia em frente a eles – é coisa de Bridget, não? – Flossie convocou a toda a criadagem – explicou – e Bridget esteve presente. Segundo o que me contou Geraldine, parece que Flossie fez que se afogassem em pranto enquanto arengava para que demonstrassem a lealdade que merecia um senhor que sempre tinha sido amável e generoso com eles, mas que se encontrava tão abatido pela enfermidade que não se dava conta de que estavam desatendendo suas obrigações. Esta foi a resposta dos jardineiros. Como era de esperar, Bridget não pôde resistir à tentação de unir-se a eles. Quando o olhou nos olhos, ambos se puseram a rir. Essa manhã tinha escolhido um vestido amarelo limão e Geraldine havia tornado a fazer maravilhas com seu cabelo, convertendo-o em um halo dourado de cachos e caracóis. Claro que Rachel não necessitava de


semelhantes adornos. Era o epítome da beleza embora levasse uma simples camisola de algodão e se deixasse o cabelo solto. Deu-lhe um beijo na ponta do nariz, no caso de seu tio estar olhando da janela. – Vê a diferença, Rachel? – perguntou-lhe Bridget, que se endireitou nesse momento para enxugar o suor da fronte com uma mão protegida por uma luva. – Sim – respondeu ela ao mesmo tempo em que passeava o olhar pela zona do canteiro que já estava livre de más ervas. – As cores das flores parecem muito mais alegres. E a erva recém cortada cheira a glória! Viu-a fechar os olhos para respirar fundo. A felicidade que irradiava era cativante. – Conseguiremos convertê-la em uma mulher de campo, Bridget disse. O olhar da aludida passou de um a outro antes que sorrisse. – Isso espero – respondeu. – Pelo bem dos dois, sir Jonathan. Depois da visita do Jonathan, Rachel tinha passado quase toda a noite acordada, desvelada por uma miríade de pensamentos, nenhum muito agradável. Entretanto, tinha chegado à conclusão de que a única coisa que podia fazer durante o que restava de mês era continuar com o que tinha começado e interpretar seu papel o melhor possível. Decidiu deixar os preconceitos de lado e aproveitar a oportunidade para conhecer de verdade a seu tio. Ao fim e ao cabo, talvez não dispusesse de outra. Talvez o tio Richard não conseguisse recuperar-se de outro ataque ao coração. De todas formas, não podia dizer-se que tivesse ido roubar lhe exatamente. Se desentenderia do sentimento de culpa, disse-se, e também da tristeza. Já estava farta de ambas as coisas. Havia uma verdade irrefutável: jamais poderia mudar o passado. Só podia viver o presente e formar o futuro na medida do possível. De modo que nas duas semanas seguintes aprendeu a montar a cavalo, com supremo cuidado, determinação e empenho, e foi recompensada com a gratificação do triunfo e com uma euforia que lhe era desconhecida. Passou muito tempo com seu tio, a quem procurou de forma deliberada algumas vezes em vez de resignar-se a suportar sua companhia. Recebeu a todos vizinhos que foram visitá-los e devolveu algumas visitas acompanhada do Jonathan e Bridget. Inclusive Flossie a acompanhou as vezes, embora passava grande parte de seu tempo enfrascada com os livros de contas da governanta, tentando enquadrar as cifras ou escutando como o senhor Drummond lhe explicava com a paciência do santo Job as distintas colunas de cifras cotadas nos livros de contabilidade geral. Também assistiu à missa. E ajudou ao Bridget e ao Flossie na tarefa de redigir os convites para o baile, seguindo a lista que seu tio lhes tinha proporcionado. Além disso, e fazendo caso do que lhe dissera, deixou que o amor que sentia pelo Jonathan saísse por todos os poros de seu corpo. Compartilhou sorrisos e gargalhadas com ele; passeios a cavalo e caminhadas; visita aos campos de trabalho atento a suas explicações enquanto se davam as mãos. Permitiu-lhe que lhe beijasse a mão e os lábios cada vez que se apresentava a oportunidade. Sentou-se a seu lado, conversou com ele, olhou-o com admiração e devoção. Em resumidas contas, comportou-se como qualquer recém casada em sua lua de mel. Em certas ocasiões inclusive esquecia que tudo era uma farsa. Por ambas as partes.


O espelho lhe dizia que seus olhos não tinham estado tão brilhantes nem suas faces tão ruborizadas desde que era menina. Por muito que desejasse que o calvário desse mês chegasse a seu fim, e apesar de saber que suas amigas deviam estar impacientes por conseguir os recursos com os que iniciar a longamente adiada busca do Nigel Crawley, em parte temia que chegasse o momento de abandonar Chesbury Park e voltar para Londres, onde teria que procurar outro emprego se seu tio continuasse negando-se a lhe entregar as joias. Durante um abundante e saboroso almoço elaborado pelo Phyllis e que consistia em sopa de verdura, pão recém feito, queijo, pudim de maçã e mingau, percebeu do muito que tinha melhorado o aspecto de seu tio ao longo da última semana. Tinha ganhado peso. Tinha o rosto mais cheio e melhor cor de rosto. Ainda parecia melancólico e abatido em certas ocasiões, sobre tudo quando a olhava a ela, mas tinha recuperado as forças suficientes para participar de algumas atividades e parecia muito mais feliz. Também dava a sensação de que se afeiçoou muito à Flossie, Bridget e Phyllis. Olhou-o com um sorriso. – O reitor e sua esposa virão esta tarde de novo – lhe disse ele. – Suponho que quererá tratar algum assunto comigo e sua esposa se entreterá falando de jardinagem com a senhorita Clover. Drummond vai mostrar a ferraria à senhora Streat e a senhora Leavey insiste, como sempre, em preparar o chá e o jantar. Por que não aproveita para escapar com seu marido, Rachel? Tivemos um tempo muito rude, mas hoje faz um dia quente e ensolarado. Seria uma pena que o desperdiçassem ficando em casa. Além do tempo que passavam juntos durante as aulas matutinas de equitação, quase nunca estavam sozinhos. E tampouco tinha muito claro querer está-lo sem cavalos nem nenhuma outra coisa que a distraísse. Virou-se para Jonathan com expressão interrogativa, pedindo-lhe sem palavras que ocorresse alguma desculpa. Ela não era a única cujo aspecto físico tinha mudado graças ao ar do campo, pensou. Jonathan estava bronzeado apesar desses últimos dias nublados, e parecia mais bonito que nunca. Devolveu-lhe o sorriso e a olhou com total admiração enquanto lhe cobria as mãos com uma das suas. – Uma ideia esplêndida – disse. – Aonde nos sugere que vamos, senhor? – Ao lago, talvez- respondeu o tio Richard. – Ainda não passeou no barco, não é verdade? Podem remar até a ilha. Suponho que este ano estará um pouco descuidada, mas sempre foi um refúgio muito tranquilo. Há uma cabana de pedra da qual se pode admirar uma linda panorâmica da propriedade. – Ai, sim! Leve ao Rachel à ilha, sir Jonathan – disse Flossie. – Deve ser um lugar muito lindo. E ali estarão a sós – soltou, olhando-a com uma expressão maliciosa. – Leve uma sombrinha para se proteger do sol, Rachel – lhe advertiu Bridget. – Dá-me medo a água – disse ela. – Tolices, meu amor! – Jonathan lhe sorriu e lhe deu um apertão em uma mão. – Durante a travessia desde Ostende passava o dia junto à amurada do convés e não parecia assustada absolutamente. – Mas era um navio grande – protestou. – Agora estaremos em um barco, justo em cima da água. – Acaso não confia em mim? – perguntou-lhe ao mesmo tempo em que inclinava a cabeça para ela.


– Caramba! – exclamou. – Sabe que poria minha vida em suas mãos, Jonathan – respondeu. – Muito bem. – levou suas mãos aos lábios. – Decidido. Senhor, Agradeço-lhe por nos desculpar da visita desta tarde. Confesso-lhe que a ideia de passar a tarde a sós com minha esposa é muito emocionante. – Preparei-lhes uma cesta com o lanche – disse Phyllis, levando-as mãos ao peito. E assim, menos de uma hora depois, Jonathan colocava a cesta com a comida no barco que o jardineiro chefe lhes tinha mostrado como a mais segura enquanto ela contemplava a água e o barco com receio. O lago sempre lhe tinha parecido grande, mas nesse preciso momento parecia muito imenso, quase como um pequeno mar. Não sabia nadar, detalhe que não tinha tido a menor importância durante a travessia da Inglaterra a Bélgica e vice-versa. Em ambas as ocasiões tinha chegado à conclusão de que se o navio se afundasse, de pouco serviria a um náufrago o saber nadar. – Acha que isto era necessário? – perguntou. – Depois de que seu próprio tio o sugerisse? – perguntou ele por sua vez. – Eu diria que sim. Além disso, preferiria ter que passar a tarde suportando ao honorável reitor e a sua esposa? Supôs que se tratava de uma pergunta retórica, embora não estava muito segura de que lhe tivesse dado a resposta que ele esperava se tivesse insistido em conhecer sua opinião. Nesse instante o viu estender uma mão para ajudá-la a subir ao barco. Parecia bastante seguro de si mesmo, e isso que mal tinham passado dois dias desde que deixou de utilizar a bengala. O barco se balançou de forma alarmante quando subiu, de modo que se apressou a ocupar um dos assentos, resignada a seu destino. Jonathan tirou a jaqueta antes de sentar-se no assento oposto e a deixou no fundo, junto com a cesta. Depois fez o mesmo com o chapéu. Quando a brisa lhe alvoroçou as longas mechas, percebeu que tinha um aspecto saudável e viril. – Parece muito contente – lhe disse ao mesmo tempo em que abria a sombrinha para proteger a nuca dos raios do sol. – Por que não ia estar? – perguntou-lhe enquanto agarrava os remos e fazia as manobras necessárias para que o barco entrasse no lago. Enquanto isso, ela se agarrou à lateral com a mão livre. – Este sol animaria a qualquer um. – Acreditava que os dois íamos evitar com todas nossas forças ficar a sós – assinalou. Baixou a vista até sua perna esquerda, cujos músculos se esticavam e se relaxavam ao remar. Custava-lhe acreditar que esse fosse o mesmo homem que tinha estado a um passo da morte em sua cama do bordel. Quem era? Perguntou-se. Às vezes esquecia que não era Jonathan Smith. Era estranho não conhecer sequer seu verdadeiro nome. Para ele devia ser ainda pior. – Mas não somos crianças para estar brigando a todas as horas, não é, Rache? – perguntou ele. – O que lhe parece se nos limitarmos a desfrutar juntos da tarde livre? – Suponho que tem razão – respondeu, virando a cabeça para lançar um olhar a seu redor. A superfície do lago brilhava à luz do sol. As árvores da borda oposta pareciam mais verdes do que o


habitual. Em certo modo, a água não era tão ameaçadora vista de "dentro". Talvez porque era evidente que Jonathan era um perito nos remos. – Sabe nadar? – Outra de suas perguntas capciosas? – perguntou ele por sua vez. – Atiro à água e o comprovamos? O que faria se descobríssemos que a resposta for negativa e a última coisa que visse de mim fosse uma borbulha na superfície do lago? Poderia ficar à deriva o resto de sua enviuvada vida. Sim, Rachel, sei nadar. Que estranho que saiba essas ninharias sobre minha pessoa, não lhe parece? Você sabe nadar? – Não. – Meneou a cabeça enquanto colocava a mão livre na água. Não podia dizer-se que estivesse fria, mas bem fresca. – Nunca tive oportunidade de aprender. – Pois essa será outra das carências que teremos que remediar – replicou ele. Não discutiu. Sempre tinha acreditado que nadar seria muito agradável. Adoraria ser capaz de mover-se em um meio diferente ao habitual e flutuar envolta no mistério da aparente delicadeza da água. Nesse momento ansiou mais que nunca aprender tudo aquilo que perdeu por ter crescido em Londres, longe do campo. Jamais tinha saído da cidade nem para fazer uma visita fugaz. – Como se divertia quando era pequena? – perguntou-lhe Jonathan. Nem sequer estava segura de que tivesse conhecido o significado do verbo "divertir-se" durante sua infância. – Lia – respondeu, – costurava e bordava. Às vezes pintava. Bridget me levava a passear ao Hyde Park e a outros lugares. E acredito que minha mãe também o fazia. Às vezes levávamos uma bola. – E quando Bridget se foi? – voltou a lhe perguntar. – Tinham-na proibido sair sem uma criada – respondeu. – Às vezes ia à biblioteca... quando tínhamos criada, claro. Em algumas ocasiões fui às compras com os vizinhos. – Ir a Bruxelas deve ter sido uma grande aventura para você – disse ele. – De certo modo – sorriu. – Mas lhe recordo que fui em qualidade de dama de companhia e minhas obrigações me mantiveram muito ocupada. – Acompanhava a lady Flatley quando saía? – quis saber Jonathan. – A bailes, serões ou festas? – Não. – Meneou a cabeça. – Foi a Bruxelas porque seu filho era oficial de cavalaria. Sua noiva, a senhorita Donovan, também se transladou à cidade acompanhada de seus pais. Minha presença não era necessária salvo pelas manhãs e aquelas tardes quando havia visitas, já que me encarregava de servir o chá e de atender aos convidados. – Ah! – exclamou ele. – Nesse caso é impossível que me visse. – Certo – concordou. – O mais perto que estive de assistir a um evento social foi a noite do jantar ao ar livre no bosque do Soignes. Lady Flatley queria que fosse carregar seus xales se por acaso refrescasse. Mas o senhor Donovan decidiu a última hora que acompanharia a sua esposa e a sua filha, de modo que já não houve lugar para mim na carruagem. Coisa que lhe provocou uma horrível desilusão.


Jonathan a estava olhando, piscando com rapidez. Tinha deixado de remar. – O que acontece? – inclinou-se para diante. – Esteve ali? No jantar ao ar livre? Percebeu a tensão de seu rosto, do esforço que estava fazendo por recordar. Viu como o suor banhava a fronte. Entretanto, ao cabo de uns instantes, acabou meneando a cabeça. – Quem o organizou? – perguntou-lhe. – Não o recordo – respondeu depois de uns momentos de reflexão. – Acredito que era um conde. Não tinha muito boa reputação, e depois dessa noite se converteu na fofoca da cidade porque esteve a ponto de comprometer a uma mocinha que foi bastante tola, ou isso suponho, para sucumbir a seu encanto. Não. Seu nome me escapa. Não estava entre os cavalheiros que visitavam lady Flatley. – Às vezes – disse ele com um suspiro, – tenho a sensação de que há um véu em minha mente que se agita e está a ponto de levantar-se. Mas sempre volta a cair sem me deixar ver o que há detrás. Suponho que participaria do jantar se estava na Bélgica naquela época. Durante um momento tive a certeza de que era assim. Mas estas intermináveis reflexões sobre o lamentável estado de minha mente devem lhe ser pesadas. Trouxe-a para o lago para desfrutar da tarde. Está passando isso bem? – Sim – respondeu. E era certo. De fato, à medida que passavam os dias a vida campestre a subjugava cada vez mais. Montar a cavalo, explorar os bosques, visitar os vizinhos, passear pelos jardins em flor e remar no lago... Tudo parecia um longo idílio. Se esquecia, claro estava, de todos os aspectos negativos que estavam ligados a sua estadia no Chesbury Park e que poderiam lhe danificar o momento se pensasse muito neles. Entretanto, levava vários dias relegando-os ao fundo de sua mente. Jonathan remava de novo e estava manobrando para aproximar-se sem incidentes ao pequeno embarcadouro que havia na ilha. Amarrou o barco a um dos postes e a ajudou a descer. A ilha era maior do que parecia da margem do lago e seu terreno se erguia conforme entrava. Realizaram a íngreme ascensão entre a erva, depois de descartar os caminhos cobertos de erva que se afastavam a esquerda e direita e que presumivelmente percorriam o perímetro da ilha. Jonathan levava a cesta com o lanche embora ela se oferecesse a fazê-lo em consideração a sua perna esquerda, que ainda protegia ligeiramente ao caminhar. O fraldo da colina estava coberta por algumas árvores e arbustos, mas ao chegar ao topo descobriram que só havia uma ampla extensão de erva e uma espécie de cabana de pedra semi arruinada que claramente tinha sido desenhada dessa maneira para dar um toque pitoresco à paisagem. Sob o beiral do íngreme telhado de ardósia havia um banco de madeira onde se podia refugiar-se das inclemências do tempo e também desfrutar de uma esplêndida panorâmica do lago, dos estábulos e da mansão. Entretanto, o atrativo do dia ensolarado e da brisa temperada não convidava a procurar o refúgio da sombra. Uma vez que Jonathan deixou a cesta no chão, que ela protegeu do sol cravando a sombrinha a seu lado, deram um passeio pela esplanada enquanto desfrutavam da vista em todas direções. A mais bonita era a do arroio que corria sobre o leito pedregoso até desembocar no lago perto da ilha. Sentia


a cálida carícia do sol nos braços nus e também em todo o corpo. Sobre suas cabeças reinava o intenso azul do céu. O ar cheirava a erva úmida, a flores e a água. Não recordava haver-se sentido jamais tão à vontade em toda a vida. Nem sequer a manhã que passaram sentados junto ao arroio podia comparar-se com esse momento. Jogou a cabeça para trás para deixar que a luz e o calor do sol lhe banhassem o rosto, estendeu os braços em cruz e foi girando lentamente. – Não lhe parece que o mundo é um lugar muito lindo? – perguntou. Jonathan tinha retornado ao lugar onde descansava a cesta. Apoiado em um joelho, estava tirando a manta que Phyllis tinha guardado para estendê-la no chão. O chapéu e a jaqueta ficaram no barco. A brisa agitava sua camisa. E também seu cabelo. Olhou-a com os olhos entrecerrados para proteger do brilho do sol. – Certamente que sim – afirmou. – E a mulher que está em seu topo não o é menos. Embargou-a uma emoção entristecedora que despertou todos seus sentidos. Deixou cair os braços e se arrependeu do pueril arranque de euforia que tinha sofrido. A ilha lhe pareceu de repente um lugar muito afastado. E ali estava Jonathan, mais vital e atraente do que qualquer homem devia ser. Continuou ajoelhado um bom tempo enquanto a tensão crepitava no ar que os rodeava. Ele foi o primeiro em afastar o olhar. Ficou em pé, desceu a tampa da cesta e estendeu a manta no chão. – O problema, Rachel – disse com uma nota irritada na voz, – é que cada vez que nos olhamos mais da conta voltamos a sentir esta atração mútua, mas sempre aparece a lembrança do desagradável episódio que danificou o que tínhamos. Eu cedi à luxúria, você à tentação e nossa amizade se desintegrou. Depois nada foi igual. A beleza e a alegria do dia se esfumaram. Como se nuvens tivessem aparecido de repente para ocultar o sol, embora em realidade o céu continuasse limpo como antes. Cruzou os braços em frente do peito e segurou os antebraços como se quisesse se proteger do frio. Luxúria. Tentação. Tinha existido uma amizade entre eles alguma vez? Sim, é obvio que existiu. E certa ternura, talvez por parte dos dois. – Me leve para casa – lhe disse, – faça a bagagem e vá embora. Explicarei tudo ao tio Richard. Já não tem que preocupar-se, não está em dívida comigo. – Não queria dizer isso – replicou ele com um suspiro. – É que sinto falta da relação que tínhamos e me pergunto se lhe passa o mesmo. – Não tínhamos nenhuma relação! – contradisse-o. – É obvio que sim – insistiu Jonathan com certa impaciência. – Não me cabe dúvida de que a incerteza que sempre acompanhou a sua vida impulsiona a conseguir o dinheiro necessário para se estabelecer com segurança antes de pensar em se casar e ter filhos. Eu estou desejando descobrir meu passado, para assim recuperar de algum modo meu presente e meu futuro. Quando o mês chegar a seu fim, tomaremos caminhos distintos e provavelmente não voltaremos a nos ver jamais. Mas sempre ficará algo entre nós. Uma espécie de relação. Jamais nos esqueceremos, queiramos ou não. Nunca esquecerei à mulher que me salvou a vida e estou seguro de


que você nunca esquecerá ao homem que salvou da morte. Ou prefere que nos recordemos tal como nos sentimos agora mesmo? O mês que passou desde aquela noite não foi agradável nem reportou felicidade a nenhum dos dois, não acha? Entretanto, ela tinha sido feliz essa última semana. Jonathan tinha transbordado alegria e vitalidade. Comportaram-se como um par de recém casados loucamente apaixonados cada vez que estavam com mais pessoas. Mas tinha razão. Com a condição das lições de equitação matutinas, não se haviam sentido confortáveis um com o outro como aconteceu em Bruxelas, durante as duas semanas prévias a que acabassem na cama. – Então, o que sugere que façamos? – perguntou ela – Que arrumemos as coisas com um apertão de mãos? Virou a cabeça e passeou o olhar pelo lago até detê-lo no arroio. Tinha vontade de chorar. Podia dizer-se que tinha estado apaixonada por ele até aquela noite. Depois só sentia atração, uma atração puramente física, e o sentimento não era muito reconfortante. E também tinham sido amigos. Aquela noite perdeu a um amigo. – O que temos que fazer, Rachel – respondeu ele, – é retroceder e entesourar novas lembranças que nos acompanhem no futuro. Lembranças mais agradáveis. – Como o que? – perguntou-lhe, olhando-o por cima do ombro. – Temos que voltar a fazer amor – respondeu, – mas de forma muito mais prazenteira, alegre e terna. Com uma conclusão satisfatória e plena. Aqui, ao ar livre, sob o sol, sob o calor do verão. Precisamos fazê-lo, Rachel.


CAPÍTULO 16

A ideia lhe ocorreu enquanto a olhava. Enquanto falavam. Entretanto e apesar de saber que certamente acabaria arrependendo-se de suas palavras assim que parasse pra refletir (a essas alturas já se dera conta de que devia ser uma pessoa muito impulsiva), não lamentava tê-lo dito. A ideia não se devia só a sua inegável beleza, nem tampouco à oportunidade que lhes brindava a solidão da ilha. A luxúria tampouco era a culpada, embora sabia que a desejava com todas suas forças. Que a desejava a todas as horas. Não obstante, tinha falado com sinceridade. Não podia olhá-la sem recordar aquela noite. Se naquele momento o que tinham feito lhes pareceu ligeiramente imoral, o episódio tinha adquirido proporções épicas depois. Tinha afetado sua relação e, portanto, tinha manchado as lembranças que albergariam no futuro. Entre eles houve algo muito terno, uma amizade, pudesse ser que algo mais, antes daquela noite, e queria recordar a Rachel aqueles dias, queria recuperar as emoções que despertara nele. Queria que ela o recordasse como o homem a quem apreciava até o ponto de velá-lo quando suas feridas não necessitavam atenção constante. Tinham que emendar o engano daquela noite em Bruxelas. Rachel o estava olhando por cima do ombro com os olhos dilatados. – Ficou louco? – perguntou-lhe. – Louco para acreditar que um engano se emenda com outro engano? – perguntou por sua vez. – É possível. Embora naquela ocasião o afeto estivesse misturado com a luxúria, em poucas palavras: eu acreditava estar com uma prostituta. É horrível para mim pensá-lo sequer, mas não posso negá-lo. E moralmente não me deixa em muito bom lugar que digamos. Quando descobri a verdade, culpei-a por não me ter dito isso. Depois de tê-la decepcionado, é claro... Era sua primeira vez, e eu a converti em uma experiência espantosa para você. – Você não teve toda a culpa – assegurou ela. – Não me seduziu. Mas foi bem ao contrário. Fiz você acreditar que trabalhava ali e que essa noite estava disponível. E depois fui tão torpe que... Enfim, que mais dá. De repente, enquanto a contemplava, caiu na conta de que era uma jovem de bom berço, vestida com um elegante e favorecedor vestido de musselina, com o cabelo recolhido sob um chapeuzinho de palha e uma sombrinha que nesse momento protegia da luz do sol a comida que tinha guardada na cesta. Deveria estar cortejando-a com sutileza, não convidando-a a deitar-se com ele no chão. Entretanto, a vida de Rachel não tinha corrido pelos roteiros habituais. E desde em quinze de junho a sua tampouco. Viu que continuava olhando-o fixamente apesar da distância que os separava, uns cinco metros. Entretanto, tinham perdido o fio da conversa e de repente foi consciente do calor do sol, dos brilhos da água do lago, do zumbido dos insetos que revoavam sobre a erva e dos gorjeios de um passarinho oculto em alguma árvore.


O olhar de Rachel baixou até o chão. – Não lhe porei um dedo em cima sem sua permissão – tranquilizou-a. – Se for o que quer, nos esqueceremos de tudo o que dissemos e nos sentaremos na manta para desfrutar do lanche que Phyllis nos preparou antes de voltar para a mansão. Retomaremos a farsa e tentaremos tirar o maior partido para esta situação até que chegue o momento de nos separar e de tentar nos esquecer um do outro. Nada mais longe de minha intenção que piorar as coisas entre nós. Rachel esteve a ponto de dizer algo, porque a viu abrir a boca, mas devia pensar melhor porque a fechou e cravou o olhar em suas mãos. Tinha-as estendido à altura da cintura com as Palmas para baixo. A aba do chapéu lhe ocultava o rosto. – Não sei nada sobre... fazer amor – confessou. – Levei uma vida muito protegida com meu pai e muito restringida com lady Flatley... até que conheci o Nigel Crawley. Embora ele nem sequer chegou a me beijar a mão. Aquela noite em Bruxelas não sabia o que estava fazendo. Não sei como fazer que seja... prazenteiro. Sua confissão o fez fechar os olhos com força e de repente se deu conta de que os sentimentos que nutria por Rachel York talvez fossem muito mais profundos do que se atrevia admitir. – Não é preciso que saiba como fazê-lo disse. – Eu sim sei. Quero que tenha boas lembranças de mim. Quero levar boas lembranças de você. Só quero saber uma coisa, Rachel. Aquela noite teve consequências? Passou um mês. Já deve sabê-lo. A pergunta tingiu de rosa suas faces e fez que voltasse a olhá-lo. – Não – respondeu. – E tampouco haverá consequências depois desta tarde – assegurou. – Prometo-lhe isso. Deixe-me fazer amor com você. Viu-a erguer o queixo sem deixar de olhá-lo nos olhos. – Muito bem. De acordo – disse. E pôs-se a andar. Não se deteve ao chegar à manta, mas seguiu caminhando por cima até colocar-se frente a ele. A escassa distância lhe permitiu desatar o laço de seu chapéu, que tinha amarrado sob o queixo. Assim que o jogou no chão, segurou seu rosto com ambas as mãos e a beijou na boca. Evidentemente aquilo não era um exercício desapaixonado e clínico com o mero propósito de arrumar as coisas entre eles. A atração tinha sido mútua desde o primeiro momento e não tinha diminuído com o passar do tempo apesar de que sua amizade tinha se ressentido. De fato, era mais que amizade. Sempre tinha sido. Era um profundo desejo, uma paixão desmedida. De ambas as partes. E foi consciente disso imediatamente. Desejavam-se e, uma vez que decidiram pôr remédio a esse desejo mútuo, não houve restrições impostas pela moral ou o pudor que apagassem o fogo que os consumia e que pouco tinha que ver com o calor do sol. Rachel lhe jogou os braços ao pescoço e se apoiou contra seu corpo enquanto ele rodeava sua cintura com força e estendia a outra mão sobre seu traseiro para abraçá-la mais se fosse possível. O beijo se tornou incendiário. Devorou sua boca com a língua e quando ela a chupou, esteve a ponto de perder o controle. Entretanto, queria que entre eles houvesse algo mais além desse desejo irrefreável e


enlouquecedor. Separou-se de seus lábios para olhá-la nos olhos, e teve que entreabrir as pálpebras devido a sua proximidade e ao brilho do sol. Ela o olhou por sua vez com os lábios úmidos e entreabertos e os olhos entrecerrados por causa de um desejo tão potente como o seu. Era Rachel. Era seu anjo loiro. Sorriu-lhe e ela respondeu com outro sorriso. Beijou-a na testa e depois nas pálpebras, primeiro em uma e depois na outra. Depois a beijou nas têmporas e em ambas as faces. Para adoçar a paixão. Quando retornou a sua boca, beijou-a com ternura, saboreando seus lábios com a língua e mordiscando-os com suavidade. Ela o imitou com uma sensualidade ingênua e comovedora. O desejo o consumiu. Nesse instante pensou que sempre se deveria fazer o amor ao ar livre para sentir o frescor da brisa e o calor do sol. Para perceber seu brilho através das pálpebras e escutar o zumbido dos insetos na erva, cuja suavidade sentia sob os pés. E pensou também que sempre quereria ter uma mulher de cabelo dourado entre os braços. Entretanto, recordou de repente que estavam em um lugar de onde se via a mansão. Isso queria dizer que qualquer um que estivesse observando dali poderia vê-los. Tampouco importava muito, ao fim e ao cabo se supunha que eram marido e mulher. Mas assim que estivessem deitados no chão ficariam ocultos pelas árvores e os arbustos, conforme tinha comprovado pouco antes, quando se agachara para tirar a manta. – Será melhor que nos joguemos na manta – lhe disse sem separar-se de seus lábios. – Sim. Rachel se sentou e colocou as saias primorosamente em um repentino alarde de modéstia. Voltava a estar nervosa e envergonhada. De modo que fincou um joelho no chão a seu lado e se inclinou para beijá-la de novo nos lábios com delicadeza. Acariciou um seio por cima do vestido e o rodeou com a palma da mão. Passou o polegar repetidamente sobre o mamilo até que o toque fez com que se endurecesse e se esticasse contra a fina musselina que o cobria. Depois repetiu a operação com o outro seio e seguiu descendo, passando por cima do abdômen até deter-se em sua entre perna. Ali estendeu os dedos enquanto a beijava, embora não demorasse para afastar-se um pouco para olhar seu rosto. Viu-a sorrir. Fez isso devagar, quase com indolência, e o resultado foi muito sensual. Sua mão continuou descida, disposta a explorar os contornos dessas pernas torneadas. Uma vez satisfeito, ergueu as saias por cima dos joelhos, mas não muito, já que não queria que se sentisse desconfortável. Tirou-lhe os sapatos e depois as meias, que enrolou devagar por suas pernas antes de jogar sobre a erva. Inclinou-se para lhe beijar os pés, os tornozelos, a face interna dos joelhos e as coxas. Não foi mais à frente. Ela não tinha experiência e ele estava decidido a fazê-la desfrutar. Que ambos desfrutassem. Não queria arriscar-se a escandalizá-la. Baixou-lhe o sutiã e deslizou as mangas pelos braços. Assim que esteve nua da cintura para cima, inclinou a cabeça para lhe chupar um mamilo e logo o outro. Enquanto isso, enterrou os dedos no seu cabelo, mas não demorou para descer as mãos para lhe tirar a camisa das calças e as introduzir sob a roupa. Suas carícias nas


costas lhe provocaram um sem-fim de calafrios e o deixaram sem fôlego. Entretanto, as preliminares foram lânguidas e sensuais. A paixão estava à espreita sob cada movimento, mas queria aguardar momento oportuno para liberá-la. Não havia pressa. A paixão ia acompanhada de um intenso prazer. – Mmm – murmurou enquanto a beijava de novo na boca. – Mmm – imitou-o ela. Aproveitou esse instante para lhe erguer as saias ainda mais e acariciar sua pele nua. E o fez com suavidade. Descobriu que estava úmida e muito excitada. Os sons que suas carícias provocaram nesse lugar empapado fizeram que a ereção que já tinha se tornasse insuportável. Uma ereção que Rachel acariciou com muita delicadeza, embora não fez gesto de lhe desabotoar as calças. Separou suas dobras com dois dedos, penetrou-a e soube que não podia seguir evitando o desejo que pulsava em suas veias. Que já não era preciso continuar evitando-o. Estava preparada. – Excitada e úmida – disse, lhe mordiscando os lábios. – Sabe como é irresistível essa combinação para um homem que está convidado ao festim? – Não é um pouco constrangedor? – perguntou ela por sua vez com uma trêmula gargalhada. Sua ingenuidade lhe pareceu enternecedora. Tão cego tinha estado para passá-la por cima na primeira vez? Claro que aquele episódio já não importava. Essa vez era a importante. Essa vez era tudo. Começou a deslizar os dedos dentro e fora de seu corpo. – Impossível de resistir – corrigiu. – O corpo de uma mulher pronta para o sexo. Seu corpo preparado para me receber. – OH! – escutou-a exclamar enquanto voltava a beijá-la. Desabotoou a calça para liberar-se e foi subindo pela manta até colocar-se sobre ela, separando suas coxas com o joelho no processo. – Rachel – disse contra seus lábios quando deslizou as mãos sob seu traseiro para lhe erguer os quadris e pô-la na posição adequada para penetrá-la, – este é o momento que sempre recordarei e que quero que recorde. A outra vez já está apagada e esquecida... para sempre. Seus lábios esboçaram um sorriso sob os seus. Ergueu a cabeça enquanto a penetrava devagar mas sem deter-se e percebeu que ela continuava Sorrindo, embora a viu morder o lábio inferior e fechar os olhos quando esteve enterrado até o fundo nela. Deteve-se um instante que ela aproveitou para dobrar as pernas e plantar os pés no chão. Assim que garantiu a postura, notou que seus músculos o capturavam com força em seu interior. Tirou-lhe as mãos do traseiro e se apoiou nos antebraços. O instinto o impulsionava a seguir e alcançar o clímax, mas o prazer da experiência o refreava. A mulher com quem estava fazendo amor era formosa até o inexprimível, e tanto seus olhos como seu corpo eram conscientes desse fato. O dia era perfeito, assim como o lugar onde se encontravam. Alegrava que tudo estivesse acontecendo ao ar livre em lugar de em uma cama situada em um espaço


fechado. De algum modo tinha a impressão de que contavam com a bênção da natureza, como se formassem parte dela. Parte de sua beleza, de sua luz e de seu calor. Parte de sua exuberância. Alargou o momento tudo o que pôde e seguiu imóvel, saboreando a sensação de estar enterrado em seu corpo, saboreando sua imagem e seu aroma. Saboreando o instante no qual abriu os olhos, transbordantes de desejo, e esse sorriso sonhador e sensual se alargou. O prazer era tão intenso que raiava a dor, mas se tornava magnífico pela certeza de que logo, muito em breve, reportaria a paz e a tranquilidade aos dois. Talvez inclusive o êxtase. E então sentiu como se contraía de novo em torno dele e a viu fechar os olhos. Nesse instante soube que não haveria paz até que tivesse aliviado sua dor. Inclinou a cabeça para apoiar a fronte sobre a manta, ao lado da do Rachel, e se retirou de seu interior sem chegar a sair de todo antes de afundar-se de novo nela. Repetiu o movimento devagar mas com firmeza, pendente das respostas de seu corpo e sem esquecer exercer um férreo controle sobre suas próprias necessidades, por temor a que tudo acabasse muito rápido e ela voltasse a ficar insatisfeita e decepcionada. Porque tinha que agradá-la. Só assim obteria a redenção e a paz. O ambiente se foi esquentando por momentos. Ao cabo de uns minutos ambos estavam acalorados, suarentos e ofegantes por culpa do sol e do esforço. Mas Rachel não adotou um papel passivo. Nem sequer a princípio, apesar de que seus movimentos eram torpes e desajeitados. Por estranho que parecesse, essa falta de experiência conseguiu excitá-lo ainda mais. Notou como se adaptava pouco a pouco ao ritmo, contraindo e relaxando os músculos internos ao mesmo tempo em que erguia os quadris do chão e os movia para incrementar a fricção e o prazer. Agradá-la era uma doce agonia. E acabou sendo uma agonia sem mais. Não obstante, esperou-a até que soube por instinto e sem lugar a dúvida que estava a ponto de alcançar o clímax. Nesse momento a surpreendeu ao incrementar o ritmo e começou a penetrá-la com investidas rápidas e profundas. Escutou-a ofegar e gemer enquanto esticava o corpo e erguia ainda mais os quadris. Ao cabo de um instante se estremeceu e deixou escapar um grito. Apesar da agonia que tinha sofrido, o momento de redenção foi glorioso. Como se até então tivesse estado sujo e acabasse de desencardir-se. Seus braços o rodearam com força enquanto os estremecimentos a sacudiam até que a tensão a abandonou por fim. Ele sabia que, para a mulher, alcançar o clímax não era algo habitual. O que não sabia era se em seus encontros sexuais se preocupava de dar prazer além de recebê-lo. Em caso de não ser assim, sua nova personalidade tinha descoberto um segredo: a satisfação sexual era insuperável quando se compartilhava com a outra pessoa. Quando pôr fim notou que se relaxava entre seus braços, aumentou o ritmo de suas apostas em busca de seu próprio prazer e quando chegou ao limite de sua resistência saiu de seu corpo. Ao fim e ao cabo, pouca redenção ia encontrar na experiência se a deixava grávida...


Seguiu imóvel sobre ela durante uns minutos, desfrutando do prazer, e com a certeza de que Rachel estava fazendo o mesmo ao perceber a lassidão que a embargava. Depois se afastou e se estendeu a seu lado, protegendo-os olhos do sol com um braço enquanto recuperava o fôlego e se normalizavam os batimentos de seu coração. A fresca carícia da brisa no rosto teve sabor de glória. Procurou a mão de Rachel, a agarrou e entrelaçou os dedos com os seus. E agora o que? Perguntou-se de repente. Tinha fechado uma ferida para abrir outra? Recordou que se apaixonara por ela antes da ditosa noite em Bruxelas, mas naquele tempo tinha atribuído seus sentimentos à debilidade física que padecia. Em troca, o que acabava de fazer lhe parecia muito romântico. Fazia "amor"! Enfim, já pensaria nesse problema mais adiante. Exausto, deixou-se vencer pelo sono embalado pelo zumbido dos insetos. A erva fazia cócegas nas pernas e nos pés. O sol tinha esquentado o vestido e lhe dava no rosto, que não contava com o amparo do chapéu nem da sombrinha. Além disso, no flanco esquerdo sentia o calor que irradiava o corpo de Jonathan. A mão que o segurava suava. Um casal de pássaros passou voando sobre eles para algum lugar desconhecido. Não acreditava ter sido tão feliz em toda a vida. Não, isso não era certo. Sabia sem dúvida que jamais tinha sido tão feliz. E também sabia, é obvio que sabia, que estava apaixonada por ele. Que talvez estivesse há muito tempo apaixonada. Mas não podia permitir que essa complicação lhe prejudicasse a felicidade do momento. Jonathan pertencia a um mundo diferente ao seu. Se suas suspeitas eram certas, estava acima dela no escalão social, apesar de que sua mãe tivesse sido a filha de um barão. E o mais importante de tudo: havia toda uma vida oculta em algum lugar de sua extraviada memória e, embora tal vida não incluísse uma esposa ou uma noiva, não lhe cabia a menor dúvida de que era uma vida cheia de gente e de experiências nas quais ela não tinha capacidade. Era ao Jonathan Smith a quem amava. O homem que foi antes que ela o encontrasse era um completo desconhecido. Até seu nome o era. Amava a uma miragem, a uma ilusão, que por acaso tinha o aspecto de um homem de carne e osso. Estava apaixonada, mas jamais seria um sentimento possessivo, não poderia sê-lo. Era algo efêmero, temporário, e não pensava fazer nada para mudar as coisas. Não se arriscaria a que lhe partisse o coração quando ele fosse embora. Se limitaria recordá-lo. Porque contava com a mais maravilhosa e perfeita das lembranças, uma que entesouraria para rememorá-la ao longo desse futuro que teria que viver sem ele. Que maravilhoso dom era a memória. E ele a tinha perdido! De repente compreendeu a magnitude de sua perda e virou a cabeça para olhá-lo. Estava contemplando o céu com as pálpebras entreabertas e o dorso da mão, que pouco antes tinha estado lhe protegendo os olhos, apoiado na fronte. – Não sei você, Rache – lhe disse, – mas eu estou empapado de suor dos pés à cabeça. Se tivesse estado esperando algum comentário romântico, teria levado uma boa decepção. Riu baixo.


– Jonathan, não sabe que as damas não suam? – recriminou. – Nesse caso, quer que a deixe aqui com sua perfeição feminina enquanto eu vou dar um mergulho de cabeça? – perguntou ele por sua vez. Até esse momento o calor do sol lhe tinha parecido agradável, mas quando virou o corpo notou que tinha o vestido grudado às costas. E quando ergueu a mão livre para afastar uma mecha de cabelo da face, descobriu que estava empapada. Igualmente estava sua fronte. De repente, o calor de que tinha estado desfrutando lhe pareceu opressivo. – Certamente é muito profundo para mim – respondeu com tristeza. – Não sei nadar. – Não há muita profundidade na zona do embarcadouro – lhe assegurou ele. – E, embora não saiba nadar, pode... chapinhar. Riu de novo. – Nunca chapinhei em minha vida – confessou. Embora sentisse um súbito desejo de fazê-lo, de comportar-se como uma menina, de divertir-se... sem mais. Jonathan se endireitou e lhe soltou a mão para tirar a camisa, que passou pela cabeça. Em seguida tirou as botas de montar e ficou de pé para despojar-se das calças. Sorriu-lhe quando esteve coberto só pelas cuecas. A única imperfeição que distinguiu em sua pessoa foi a cicatriz da coxa esquerda. Tinha um corpo maravilhosamente esculpido e de proporções perfeitas. De repente, recordou as palavras que lhe dissera em uma ocasião, quando lhe assegurou que se havia alguma imperfeição física nela, era incapaz de distingui-la. – Não terá vergonha, não é? – perguntou com um sorriso ao mesmo tempo em que separava os braços do corpo. – Me viu ainda com menos roupa. – Claro que não – respondeu. Por que ia ter vergonha? Acabava de estar dentro de seu corpo. Ainda sentia uma agradável ardência nesse lugar, como se estivesse muito sensível. – Se formos chapinhar, Rache – lhe disse, – terá que tirar o vestido. Ficou em pé e tirou o vestido para ficar só com a regata. Longe de sentir-se envergonhada, invadiu-a uma sensação eufórica e libertadora. Ia banhar se ao ar livre pela primeira vez em sua vida. Tirou as forquilhas do cabelo e meneou a cabeça para que lhe caísse pelas costas antes de virar-se para ele com uma gargalhada. Uma gargalhada que não tinha uma causa concreta salvo a felicidade que a embargava. Jonathan a estava olhando com os olhos entrecerrados. – Estou pronta para chapinhar – afirmou. – Me leve até a água agora mesmo porque corro o risco de explodir em chamas – lhe disse. De modo que o precedeu colina abaixo e correu entre gargalhadas para a margem do lago. Gritou cada vez que seus pés descalços encontravam uma pedra afiada, mas não se deteve em nenhum momento.


CAPÍTULO 17

Talvez um dos principais atrativos de Rachel York, concluiu quando a alcançou, adiantou-a e se lançou à água antes dela, era que parecia totalmente alheia a sua extraordinária beleza. Porque era pouco menos que deslumbrante. Não sabia que tipo de vida encontraria ao partir dali, quando descobrisse a parte que faltava de sua pessoa. Não sabia que tipo de relações, compromissos ou devoções conformavam a vida desse homem que de algum jeito tinha deixado atrás no bosque do Soignes. Evidentemente isso suportava a necessidade de não jogar raízes na vida que forjara depois. Entretanto, nesse preciso instante estava apaixonado por Rachel. E ia desfrutar do momento. Nem mais nem menos. O passado se ocultava atrás de um véu em sua cabeça e o futuro lhe era muito mais indecifrável que para a maioria das pessoas. Mas esse dia era maravilhoso. Assim como ela... deslumbrante e maravilhosa. Viu-a colocar um pé na água e afastá-lo com uma gargalhada. Tinha as pernas longas e torneadas. A escassa distância da margem, onde ele se encontrava, a água chegava ao peito. Se desse alguns passos mais, passaria a lhe chegar pelos ombros e um pouco mais à frente o cobriria por inteiro. Mas a zona onde se fazia pé era bastante ampla para que alguém que não soubesse nadar se sentisse a salvo. Viu-a provar a água com o outro pé antes de afastá-lo também. Alleyne colocou as mãos na água e as tirou com força para salpicá-la. Rachel proferiu um grito. Em seguida se lançou à água, meteu-se até a cintura e em um abrir e fechar de olhos só se viu dela seu cabelo loiro flutuando na superfície. Voltou a sair cuspindo água e esfregando-os olhos fechados. Estava olhando-a com um sorriso encantado quando um enorme jorro de água lhe deu totalmente no rosto, fazendo com que ficasse a tossir e cuspir. Talvez não soubesse nadar, mas era uma digna oponente nas guerras de água. – Isto é maravilhoso! – exclamou depois de voltar a mergulhar e aparecer de novo. – A água está quente. afastou o cabelo do rosto. A longa cabeleira aderia à cabeça, às costas e flutuava na superfície. – Como faço para nadar? – Primeiro necessita de algumas lições e muita prática – lhe respondeu. – Estava pensando em me desafiar a uma corrida de ida e volta à outra margem? – Ensine-me – exigiu.


Parecia que a reticência com a que se enfrentava aos cavalos, e que estava superando a base de coragem e determinação, não se aplicava à água. Ensinou-lhe a flutuar, uma habilidade que aprendeu com surpreendente rapidez depois de afundar algumas vezes e engolir água, situações que requereram uns fortes tapinhas nas costas. Inclusive depois de aprender a fazê-lo, só era capaz de manter-se flutuando uns instantes antes de ir mergulhando pouco a pouco. Mas era um começo muito prometedor. – Antes que termine o verão conseguirei que nade inclusive de costas – lhe assegurou, antes de recordar que partiriam dali muito antes que o verão chegasse a seu fim. Deixou-a na zona onde fazia pé e entrou no lago com poderosas braçadas, desfrutando do reencontro com sua força física e com a frescura da água. Junto à margem, não muito longe do embarcadouro, erguia-se uma árvore cujos ramos se estendiam sobre a água. Nadou até elas e percebeu que nesse ponto em concreto o lago era mais profundo. – Aonde vai? – perguntou Rachel quando o viu sair e impulsionar-se até a margem, que nesse ponto estava bastante escarpada, enquanto a água lhe escorria pelo corpo. – Me lançar de cabeça – respondeu com um sorriso. Subir a uma árvore estando quase nu não era muito agradável, evidentemente, embora tivesse a certeza de que o tinha feito em incontáveis ocasiões. Sentou-se em um dos ramos e se aproximou da extremidade muito devagar, indo com supremo cuidado para não levar uma surpresa se resultava ser mais frágil do que parecia. Entretanto, aguentou seu peso sem dobrar-se nem partir-se. – Tome cuidado! – exclamou Rachel de certa distância. Estava de pé no lago, com uma mão sobre os olhos para proteger do brilho do sol. Sorriu-lhe do ramo e ficou em pé muito devagar, guardando o equilíbrio com os braços. O ramo aguentou. Tinha que mostrar-se em frente a ela. Caminhou até o extremo do ramo, fez uma pose com o corpo muito erguido e os braços estendidos em frente. Depois dobrou os joelhos e se lançou com os braços por cima da cabeça, o queixo contra o peito, as pernas juntas e os pés esticados para trás. Mergulhou de cabeça e desceu até quase roçar o fundo, momento no qual deu meia volta para retornar à superfície. Invadiu-o a euforia que sempre acompanhava às façanhas perigosas e atrevidas que lhe tinham proibido na infância e emergiu enxugando a água dos olhos para sorrir a seus igualmente ousados companheiros de travessuras. Mas só viu Rachel York, com a mão na boca, porém a afastou para sorrir com evidente alívio. Sentiu uma repentina e profunda desorientação. A quem tinha esperado ver? A quem? Porque havia mais de uma pessoa. Só quero recordar a uma pessoa, disse para si mesmo. Só a uma. Sim? Por favor, só a uma. Rachel avançou para ele, com expressão preocupada, mas se deteve quando a água lhe chegou à altura dos ombros e sentiu que o fundo do lago continuava descendo.


– O que acontece? – perguntou. – Machucou-se, não é? Mas como é. Bateu a cabeça? Venha aqui. Começou a flutuar na água. Olhou-a mas não se aproximou dela, porém nadou para a margem, saiu da água e começou a subir a ladeira sem olhar para trás. Não havia motivo algum para que não pudesse recordar, não? A ferida da cabeça já devia estar curada, tanto por dentro como por fora. Já não sofria dores de cabeça salvo quando se esforçava por recordar. Tinha decidido ser paciente. Tinha sido paciente. Mas as vezes o assaltava o pânico como um ladrão em plena noite. Sentou-se na manta com as pernas cruzadas, apoiou os pulsos nos joelhos e baixou a cabeça. Tentou concentrar-se na respiração. Tentou concentrar-se em outra coisa que não fosse o medo vertiginoso que lhe assaltava a mente nesses momentos. Não a ouviu aproximar-se. Percebeu que estava a seu lado quando notou o frio toque de seus braços nos ombros e na cintura. Apoiou-lhe a cabeça no ombro, sem olhá-lo. Sentia o toque úmido de seu cabelo no braço. Compreendeu que se ajoelhara a seu lado. Mas não disse nada. – Às vezes – murmurou ao cabo de um momento, – sinto-me completamente à deriva. – Sei – disse ela. – Ai, Jonathan...! – Esse não é meu nome – replicou. – Me roubaram até o nome. Não sei nem quem nem o que sou, Rachel. Conheço-me menos do que conheço à Geraldine, ao sargento Strickland ou a você. Ao menos você pode me contar anedotas de sua vida com as quais formo uma opinião de sua pessoa, que é produto de sua educação embora também a tenha forjado com sua particular forma de ser. Eu não tenho anedotas. Minha primeira lembrança é o momento em que despertei na casa da rue d"Aremberg sob o olhar de quatro damas maquiadas. E isso recentemente a mais de um mês. – Eu sei quem é – afirmou ela. – Não sei o que fazia antes. Não conheço nenhuma anedota de sua vida salvo as que protagonizamos juntos. Mas sei que é um homem alegre, vital, generoso e atrevido. Não acredito que tenha mudado tanto. Continua sendo você mesmo. Fui testemunha de sua coragem durante estas semanas. Talvez em momentos como este ache que se derrubará e deixará que a vida lhe escape de entre os dedos porque é algo que já não vale a pena. Mas sobreporá a estes momentos. Sei porque o conheço. Conheço-o de verdade. Tomara pudesse chamá-lo por seu verdadeiro nome porque os nomes são importantes, convertem-se em parte da identidade de uma pessoa. Mas mesmo sem esse nome conheço-o. Voltou a concentrar-se em sua respiração, mas passados uns minutos percebeu que tinha virado a cabeça até apoiá-la sobre a de Rachel. – Sabe por que sugeri esta farsa? – perguntou-lhe. – Nem sequer me tinha dado conta do motivo até agora. Não foi só por seu bem, embora em seu momento acreditei que arrebatar sua fortuna a um tirano que não se preocupava com você seria o melhor que podia lhe passar. Mas também foi por mim, para não ter que sair em busca de minha identidade. – Tinha medo de não averiguar quem é? – quis saber ela. – Não! – Apertou a face contra seu cabelo úmido. – Tinha medo de fazê-lo. Temia reencontrar com meus


pais e não reconhecê-los. Ou com meus irmãos ou irmãs. Ou com uma esposa e filhos. Dava-me medo olhá-los no rosto e ver uns desconhecidos. Poderia ver um menino, Rachel, a um menino que eu engendrei e a quem queria, e que se teria convertido em um desconhecido para mim. E por isso inventei um motivo para atrasar o momento. Acreditei que talvez minha memória voltasse por si só se esperasse um pouco. Ou suponho que isso é o que acreditei. Não tomei a decisão de maneira consciente. – Jonathan... – disse ela em voz baixa e o abraçou um bom tempo enquanto enfrentava ao mais escuro desespero. – Como não comemos até o último bocado – disse quando pôr fim levantou a cabeça, – Phyllis se sentirá mortalmente ofendida. – Sim – concordou ela. – Tem fome? – Um pouco – admitiu. – A verdade é que morro de fome. – Pois eu poderia comer uma vaca – confessou um pouco surpreso ao dar-se conta de que era verdade, embora não literalmente, é obvio. – Deveríamos nos surpreender de estar esfomeados depois de nos haver deleitado com um ardoroso interlúdio e um bom mergulho de cabeça? Rachel não lhe respondeu. Observou-a enquanto se aproximava da cesta e a abria para procurar algo em seu interior. Tinha o rosto oculto depois do cabelo, que caía a ambos os lados do rosto como um véu dourado, de modo que o impedia de ver sua expressão. Parecia haver-se esquecido de vestir-se antes de comer. Olhou-a atentamente, mas não com lascívia. O que teria feito sem ela durante todas essas semanas? O que faria sem ela quando o mês chegasse a seu fim? A vida em Chesbury Park adquiriu certa rotina depois da tarde da ilha. E, apesar de saber-se metida em uma boa confusão da qual se via incapaz de sair, Rachel quase era feliz. Adorava viver no campo. Passear pelos jardins e pelos prados; montar a cavalo com Jonathan (com crescente soltura e confiança); aprender a nadar e a remar; lanchar em alguns dos lugares mais pitorescos da propriedade, sentar-se na janela do salão durante os dias tormentosos para contemplar a chuva; visitar diferentes zonas da granja com Jonathan, Flossie e o senhor Drummond; Levar aos trabalhadores as cestas de comida que preparava Phyllis; visitar os vizinhos com a carruagem; explorar as lojas do povoado e deixar que o senhor Crowell lhe mostrasse a igreja e o cemitério... Estava convencida de que jamais se cansaria dessas coisas. Poderia ser feliz em Chesbury Park sem sentir falta das frenéticas atividades de Londres. Tinha a sensação de estar fazendo o correto, de que pertencia a esse lugar. Também desfrutava da companhia de seu tio; embora a princípio o fez com certa reticência, pouco a pouco esta se foi transformando em evidente gratidão e alegria. Tomou por costume visitá-lo de manhã em seu gabinete privado enquanto descansava. Às vezes se sentavam olhando a janela, sem mal falar, embora seus silêncios jamais eram incômodos. Às vezes seu tio chegava a ficar adormecido. Outras vezes lhe contava histórias de seus avós e de sua mãe. Era como se estivesse reconstruindo pouco a pouco uma herança da qual nem sequer tinha sido


consciente. Uma tarde chuvosa que não receberam visitas levou ao Jonathan e a ela à galeria dos retratos de família, situada no piso superior. Embora a sala não estivesse fechada com chave, tinha-a evitado até esse momento. Seu tio foi explicando o parentesco com o grupo grande de ancestrais retratados e, à medida que o vazio e a solidão que tinham imperado em sua vida começavam a desaparecer, percorreu-a uma onda de emoção. Esse era seu lar. O único retrato de sua mãe era de um quadro de família, pintado quanto tinha três anos e o tio Richard era um jovenzinho magro e bonito de cabelo loiro. A princípio teve certa atenção em olhá-lo, mas depois observou com avidez a essa garotinha de faces rosadas e caracóis loiros. Não obstante, foi incapaz de associar o rosto dessa menina com a vaga lembrança que tinha de sua mãe. – Parece-se com ela em sua adolescência – lhe disse o tio Richard. – Meu pai sempre se arrependeu de não ter encomendado seu retrato – comentou. – Às vezes não consigo recordar seu rosto por mais que o tente. Estava de mãos dadas com Jonathan, mas não percebeu até esse instante, quando ele entrelaçou os dedos e lhe deu um apertão. Estava consolando-a, e ela ao menos sabia quem era sua mãe. Recordava a seu pai à perfeição. O tio Richard continuava vivo. Esse era o lar de sua família e ali estavam os retratos de seus antepassados. Virou a cabeça para sorrir a Jonathan. Desde a tarde que tinha passado na ilha sua relação estava tingida de uma espécie de ternura, embora tivessem feito um grande esforço para não repetir o fato do lago. Nenhum tinha posto um pé no closet do outro. E, entretanto, ficava essa ternura, que nenhum deles fingia, mas que qualquer modo estava ganhando o favor do tio Richard com muito mais eficácia que os anteriores esforços por parecer um casal loucamente apaixonado. Alegrava-se de poder recordá-lo depois dessa maneira... embora sentisse uma dor quase insuportável no peito cada vez que pensava que se aproximava o dia de sua separação. E Jonathan também se sentia contente de certa forma. Era evidente que gostava da agricultura. Passava muito tempo nos campos de trabalho ou conversando com o senhor Drummond. Também passava muito tempo com o tio Richard, e sabia que falavam sobre cultivos e gado, e que frequentemente Jonathan trazia à baila as ideias ou as melhoras que o senhor Drummond tinha sugerido ou que tinham ocorrido a ele sozinho. O tio Richard inclusive tinha aprovado algumas sugestões. Seu tio gostava de Jonathan. Respeitava-o. Tomara houvesse uma maneira simples e indolor de sair da embrulhada em que se colocaram, mas não a via nenhum jeito. E se negava a dar voltas ao assunto. Assim que tudo acabasse, confessaria a verdade e pediria perdão, depois seria coisa de seu tio que a perdoasse ou não. Suas quatro amigas também pareciam ser mais felizes que nunca no Chesbury Park. Geraldine tinha assumido quase todas as obrigações da governanta salvo as contas da casa, devido ao fato de que não sabia ler nem escrever. Organizava com supremo gosto e eficiência as tarefas dos criados, inclusive os de mais alto nível, pois o mordomo era muito mais velho e nem se dera conta de que tinha perdido o controle; de modo que sua amiga tinha recrutado toda a criadagem para levar a cabo um inventário da roupa branca, da porcelana, da cristaleira, a baixela e qualquer outro objeto de valor. A casa começava a reluzir como uma patena sob seu mando. Ainda insistia em trabalhar como sua criada, mas em seus momentos livres se sentava na saleta da


governanta e cerzia. Não se parecia em nada a Geraldine que tinha conhecido em Bruxelas, mas parecia estar em seu meio por estranho que parecesse. Além disso, tinha estado conversando com o sargento Strickland até que aceitou (sem protestar muito, a verdade) a tarefa de dirigir aos criados e assumir as tarefas do mordomo, embora o senhor Edwards conservasse o título. Phyllis cozinhava e governava mais contente que umas castanholas seus novos domínios: a cozinha do Chesbury Park. E como era uma cozinheira excelente e também uma pessoa muito agradável, ninguém pareceu se importar com a intromissão. Flossie, além de levar os livros de contas da casa com meticulosidade, estava muito ocupada deixando-se cortejar pelo senhor Drummond. – Não têm que se preocupar com nada, de verdade – assegurou Flossie uma noite em seu closet enquanto o sargento Strickland as observava do arco que separava os closets com os braços cruzados em frente de seu enorme peito. – Contei a verdade ao senhor Drummond sem lhe falar de vocês. Sabe quem sou e mesmo assim o muito idiota continua querendo casar-se comigo. – Pelo amor de Deus, Floss! – exclamou Phyllis, levando-as mãos ao peito. – Que romântico! Acho que vou me pôr a chorar. Ou desmaiar. – Nem lhe ocorra, Phyll – aconselhou Bridget, – porque então bateria sua cabeça contra o lavatório...e depois desmaiaria de novo ao ver seu próprio sangue. – Vai aceitar sua proposta? – perguntou-lhe Geraldine. – eu adoraria ser sua dama de honra, Floss, mas seria estranho tendo em conta que sou a criada de Rachel, não lhe parece? – É um cavalheiro – disse Flossie com tom dramático. – E o que? – Geraldine pôs os braços na cintura e a olhou com expressão beligerante. Flossie não respondeu. Bridget visitava a reitoria várias vezes ao dia para ver a senhora Crowell e seu jardim. Também desaparecia pela propriedade com diferentes utensílios de jardinagem, um enorme avental e seu chapéu de palha de aba longa cada vez que se apresentava a ocasião. Nenhuma das quatro parecia impaciente por sair atrás do malfeitor que lhes tinha roubado tanto seu dinheiro como seus sonhos. E Jonathan já lhe tinha falado de sua relutância a empreender a busca de sua identidade. De modo que relaxou, decidida a desfrutar das semanas que precederam ao baile que o tio Richard tinha insistido em celebrar. Os numerosos preparativos tinham feito com que o baile se convertesse em um acontecimento, e toda a vizinhança se agitava ante o feliz evento. Nenhuma outra família em vários quilômetros ao redor contava com um salão de baile e, embora se organizassem festas nos salões da estalagem do povoado, era evidente que a ideia de um baile particular em um salão de baile também particular tinha todo mundo maravilhado. O que faria, decidiu, seria desfrutar do baile ao máximo e depois, assim que terminasse, tomaria as decisões sobre seu futuro. Pediria uma vez mais as joias ao tio Richard e se por acaso as desse nessa ocasião, partiria,


venderia algumas e procederia com o plano segundo o previsto. Se não aceitasse dar-lhe retrocederia em seu empenho e partiria sem mais. Suas amigas teriam que arrumar-se sozinhas. Assim como Jonathan. Tinha tentado ajudá-lo. Tinha escrito a três conhecidos que viviam em Londres e já tinha recebido as respostas de dois deles. Nenhum sabia de um cavalheiro que tivesse desaparecido da batalha do Waterloo. Claro que tampouco tinha esperado que tivessem notícias. Mesmo assim, teve que admitir que se sentiu decepcionada. Teria gostado de ajudá-lo a recuperar o que perdeu ao cair do cavalo nos subúrbios de Bruxelas. Supunha que já não voltaria a vê-lo mais uma vez quando se fossem de Chesbury Park. Talvez tampouco voltasse a saber dele, jamais saberia se tinha reencontrado com sua família e seu passado. Era uma ideia demolidora. Mas se negava a lhe dar muitas voltas. Tampouco estava disposta a pensar no que faria quando partisse de Chesbury Park. Em grande parte dependeria se levasse as joias consigo ou não. E o que passaria com seu tio? Como se sentiria ao averiguar a magnitude do engano? Também dependia se lhe entregasse as joias ou não. Continuava sem estar segura da profundidade dos sentimentos de seu tio. Apesar de tudo isso, esperava a chegada do baile quase com grande emoção. Jamais tinha ido a um evento de semelhante calibre, nem a um baile mais simples. Só sabia dançar porque seu pai gostava de fazê-lo e lhe tinha ensinado durante os momentos alegres e despreocupados, enquanto cantarolava as melodias e lhe ensinava a executar os passos com precisão e elegância. Mas dançar com outros cavalheiros em um salão de baile e com uma orquestra de verdade... Dançar com Jonathan... Não havia palavras para expressar o que sentia. O tio Richard tinha mandado chamar à costureira do povoado e lhe tinha encarregado para que ficasse em Chesbury Park uns dias para confeccionar os trajes das damas se assim o desejassem. A ela não a deixou replicar. Ia ter um vestido de noite para o baile e não deviam reparar em gastos. Houve uma pequena discussão entre Jonathan e seu tio sobre quem devia pagar o vestido, mas este último não admitiu que lhe contrariassem. – Rachel é minha sobrinha, Smith – concluiu ao mesmo tempo em que levantava a mão para sossegá-lo. – Se tivesse podido, a teríamos apresentado em sociedade aos dezoito anos e as faturas teriam saído de meu bolso. Tal qual estão as coisas, este baile é tanto para celebrar o matrimônio e para apresentá-la em sociedade, e não consentirei que me neguem o prazer de vesti-la para a ocasião. A estranha escolha de palavras a inquietou um pouco, mas quem era ela para indignar-se por uma mentira? De qualquer forma, a predisposição que mostrava seu tio para emendar os enganos do passado a emocionou muito mais do que estava disposta a admitir. – Obrigada, tio Richard – disse à beira das lágrimas. – É muito generoso e amável.


Jonathan se limitou a render-se a seus desejos e deixou de discutir. Teria podido lhe pagar o vestido? Perguntou-se. Quanto restava do que tinha ganho em Bruxelas? Os dias anteriores ao baile passaram felizmente, como se o tempo voasse. E por fim chegou o tão ansiado dia. A manhã passou em um constante ir e vir de criados, muitos dos quais tinham sido contratados para a ocasião, que trabalhavam em excesso para ter tudo preparado a tempo. E a tarde passou rapidamente, até que pôr fim chegou o momento de retirar-se aos quartos para arrumar-se. Não foi consciente do que estava passando até que entrou no closet e viu o elegante vestido que a esperava e a Geraldine junto a uma banheira fumegante. Tinha o estômago um pouco revolto pelos nervos... No fim de contas, esse era seu primeiro baile. Mas também era o princípio do fim. No dia seguinte... Não pensaria no dia seguinte. Primeiro tinha que desfrutar dessa noite.


CAPÍTULO 18

– Ai, Rachel, me poria a chorar! – exclamou Geraldine. – Mas em vez disso, vou procurar um cantinho tranquilo onde possa passar toda a noite dançando com Will, ele queira ou não. Rachel também sentia um nó na garganta. Jamais se tinha visto com um aspecto tão esplêndido. Levava um vestido verde e branco bordado sobre anáguas de cetim branco. Apesar da cintura alta que marcava o estilo império, as saias eram muito amplas, embora lhe grudassem ao corpo se não se movesse. O babado que rematava a bainha estava composto por uma longa tira bordada debruado com hojitas verdes e bordado com um delicado motivo floral. O diminuto sutiã era de cetim verde claro. As mangas, pequenas e de balão, de cetim com riscas verdes e brancas. Os escarpines também eram de cetim verde e as luvas, longas e de seda branca. Geraldine lhe tinha prendido o cabelo no alto da cabeça, embora tivesse deixado algumas mechas soltas nas têmporas e na nuca para suavizar o efeito. Seu Toucado constava de duas plumas brancas seguras na parte posterior da cabeça e dispostas de tal maneira que se inclinavam para frente em um ângulo muito coquete. – Fez maravilhas com meu aspecto, Geraldine – lhe disse com um suspiro enquanto se observava no espelho de pé de seu closet. – Acredito que o mérito é da natureza – acrescentou outra voz. – Geraldine se limitou a dar uns retoques finais. Jonathan estava sob o arco que separava seus closets. Virou-se para olhá-lo. Estava mais bonito que nunca, vestido com o traje de gala que utilizara a primeira noite que passaram no Chesbury Park. Entretanto, tinha mudado depois. Estava mais moreno pelo sol e mais forte. Cortou o cabelo, embora a rebelde mecha continuasse caindo sobre a sobrancelha direita. Até sendo objetiva, não recordava ter visto um homem mais bonito em sua vida. – Mãe do amor formoso! – exclamou Geraldine. – Está para comê-la! Tomara lhe tivéssemos amarrado aos postes da cama em Bruxelas quando tivemos a oportunidade. O sorriso que esboçou enquanto a repreendia com um gesto da mão aumentou seu atrativo. Seus dentes pareciam muito brancos em contraste com o tom bronzeado de sua pele. – Geraldine – replicou, – sei que entre as quatro me teriam deixado exausto e a estas alturas seria uma sombra do que sou. – Mas até essa sombra estaria para chupar os dedos – lhe assegurou Geraldine. – Will continua em seus aposentos? Tenho que ensiná-lo a dançar. – escapuliu para o piso inferior – respondeu. – Para fugir desse pavoroso destino, acredito.


– Pobrezinho – respondeu a suposta criada com carinho enquanto saía do quarto. – É incapaz de reconhecer a derrota. Jonathan lhe sorriu e nesse momento compreendeu que jamais poderia ser objetiva no que a ele se referia. Tinha passado quase um mês interpretando o papel de esposa devota, e a farsa tinha tido um efeito inequívoco em suas emoções. Além disso, havia a tarde que tinham passado na ilha. Uma tarde que não havia tornado a repetir-se e a que jamais tinham feito alusão, embora nenhum deles a tivesse esquecido. Como ia esquecê-la? – Está linda. De verdade – disse ele enquanto entrava no closet. – Obrigada. – Sorriu com certa tristeza. – Tenho a intenção de me divertir como nunca. É meu primeiro baile e talvez seja o último. É o fim, Jonathan. Sabe, não é? Amanhã iremos falar com meu tio e lhe pediremos de novo as joias. Mas se negar a me dar isso não penso continuar tentando. Iremos depois de amanhã, aconteça o que acontecer. E depois será livre. – Você acha? – perguntou-lhe em voz baixa. – Rachel, temos que... Os interromperam umas batidinhas na porta. Observou-o enquanto se aproximava para abrir e era seu tio, que entrou e se deteve em seco. – Rachel! – exclamou ao mesmo tempo em que a olhava de cima abaixo. – Não sabe quanto desejei vê-la desta maneira. Nem quanto desejei ver sua mãe arrumada para seu primeiro baile. Negava-se a discutir com ele essa noite em particular, mas a pergunta brotou de seus lábios antes que pudesse morder a língua. – Por que disse que me teria apresentado em sociedade aos dezoito anos se tivesse saído com a sua? Viu-o recusar a cadeira que Jonathan lhe oferecia. – Seu pai se negou totalmente – respondeu. – E também se negou a deixá-la passar aqui as férias quando era pequena ou a que enviasse a uma academia de senhoritas. Por isso contou estas semanas, suponho que nunca lhe deu os presentes que lhe mandei todos os anos por Natal e por seu aniversário. Depois de casar-se com sua mãe, não lhe permitiu ficar em contato comigo até que esteve em seu leito de morte. Mas já não o culpo por tudo o que aconteceu. Não levei nada bem seu compromisso. Naquele tempo era jovem, ditatorial e muito intransigente. Fui eu quem os empurrou para que fugissem. Mas agora não me arrependo, como vou fazê-lo se você é o fruto dessa união? Se fazia estranho compreender quão simples era a verdade. A facilidade com a que podia apagar dezesseis anos de mal -entendidos. O tio Richard não lhe tinha dado as costas, nem a tinha dado a sua mãe. Todos tinham sofrido anos de separação e infelicidade pelo simples fato de que dois homens obstinados brigaram por causa de uma mulher. Um deles se amparou no status de irmão e tutor, e o outro no de pretendente apaixonado. – Tio Richard... – disse, dando alguns passos para ele. Entretanto, deteve-se quando o viu erguer uma mão. – Amanhã nos sentaremos para falar, Rachel – afirmou. – Seu marido, você e eu. Falaremos longo e extenso


sobre muitas coisas, mas isso será amanhã. Esta noite nada vai prejudicar a festa. Por fim poderei vê-la dançar em um baile do qual sou o anfitrião, com um marido digno de você e capaz, estou convencido, de fazê-la tão feliz como merece. Teve a impressão de que acabavam de apunhalá-la com sanha no estômago. Que dolorosas eram as consequências do engano! Jonathan tinha levado as mãos às costas e a olhava fixamente. – Trouxe isto – prosseguiu seu tio ao mesmo tempo em que erguia um estojo de veludo no qual não se fixara até esse momento. – Eram de sua tia e agora serão suas. Alegra-me que não leve outras joias. Ao abri-lo descobriu uma fileira de pequenas pérolas da qual pendia uma esmeralda engastada entre diamantes. A um lado descansavam os brincos de esmeraldas e pérolas combinando. – Meu presente de casamento – concluiu. Nesse instante acreditou que lhe falhariam as pernas. Mas Jonathan foi em sua ajuda na hora lhe passando um braço pela cintura. – É lindo, senhor – afirmou. – Não sabe quanto lamentei não ter tido a oportunidade de comprar joias a minha esposa. Mas agora quase me alegro de que seja assim. Permite-me? De modo que foi Jonathan quem tirou o colar e o colocou no pescoço. Sentiu seu peso e sua frieza no decote. A impressionante esmeralda descansava justo entre seus seios. Uma vez que lhe pôs os brincos, sorriu-lhe qual consumado ator, como se não lhe afetasse a terrível tragédia do que estava acontecendo. – Tio Richard. – Cortou a distância que a separava dele e o tocou pela primeira vez. Jogou os braços ao pescoço e apoiou a face contra a sua. Entretanto, não foi capaz de encontrar as palavras que pudessem atravessar o doloroso nó que tinha na garganta. – Tio Richard... Deu-lhe uns tapinhas nas costas. – Não as necessita para realçar sua beleza, asseguro – disse. – Mas por fim estão onde têm que estar. A quem senão você ia dar as joias de Sarah? Só tenho um primo longínquo e sua esposa, mas nem sequer os conheço. Teria que devolvê-la no dia seguinte, é obvio. O peso do colar em torno do pescoço lhe pareceu muito um jugo. Mas se tinha prometido desfrutar dessa noite. E o mais importante de tudo: o devia a seu tio. Talvez no futuro, e tomara Deus não o levasse muito em breve, conseguisse perdoá-la pelo que tinha feito ou ao menos recordasse essa noite sem sentir a dor que lhe provocaria a verdade quando a contasse. Separou-se dele com um sorriso e o puxou pelo braço. – Descemos? – perguntou. Em seguida olhou ao Jonathan, a quem também puxou pelo braço. O apertão que lhe deu a reconfortou, mas além disso que consolo podia lhe oferecer? O plano que tinham esboçado parecia tão engraçado quando o sugeriu em Bruxelas... E ela o tinha aceito. Assim não podia culpá-lo pelas consequências. Era um baile rural que não poderia comparar-se com algumas das grandes festas aristocráticas da temporada às quais estava certo de que teria ido em Londres, mas o entusiasmo dos convidados supria seu escasso número e


a simplicidade de seus trajes. Ao que parecia, todos estavam dispostos a passar em grande. E isso fizeram assim que a orquestra começou a tocar uma contradança atrás de outra e se lançaram a executar os alegres e complicados passos das danças. Embora ninguém eclipsou Rachel. Nem tirou tanto proveito da noite. Sua alegria o deslumbrou. Igual a muitos outros convidados, conforme pôde comprovar. Estava mais que deslumbrado. Evidentemente, estava apaixonado por ela até as sobrancelhas. E sabia da tarde que passaram na ilha. Tinha sido uma agonia espantosa manter-se afastado dela em privado depois, sobre tudo quando se viam obrigados a trocar contínuas amostras de amor e devoção em público. A falta de portas entre seus dormitórios se converteu em uma tentação quase irresistível. Entretanto, em lugar de conduzi-la a uma situação que complicaria mais as coisas e que só lhe partiria o coração quando recuperasse sua verdadeira identidade, tinha decidido fazer algo por ela. Desde o dia que chegaram a Chesbury Park tinha sido tão claro como a água que seu tio a queria e que ali tinha a oportunidade de ser feliz. Uma conclusão que se viu reforçada com a breve explicação que Weston lhes tinha dado pouco antes no closet de Rachel a respeito de sua suposta indiferença. O lugar de Rachel estava ali, no Chesbury Park. Esse era seu lar. Tinha decidido voltar quando Rachel estivesse em Londres. Ia confessar tudo ao barão, e assumir a responsabilidade do acontecido (coisa que era a pura verdade) e interceder por ela. Se a queria tanto como suspeitava, quer dizer, incondicionalmente, a perdoaria e a faria retornar à propriedade. Com o tempo se casaria, formaria um lar e encontraria seu lugar no mundo inclusive depois que Weston morresse. Talvez a busca de seu passado o levasse a descobrir que não estava casado nem comprometido e... Mas ainda não se atrevia a pensar nisso. Dançaram juntos a contradança que abriu o baile. Se estivessem em Londres celebrando sua apresentação em sociedade, pensou, suas maneiras seriam severamente censuradas pelos mais cuidadosos. Entre as jovens pertencentes à aristocracia, se pôs em moda mostrar uma atitude indolente, como se a transição da sala-de-aula ao salão de baile precisasse que a alegria juvenil se transformasse no cinismo da maturidade. Rachel era a personificação da alegria. Conhecia os complicados passos da dança e ao princípio os executou com cuidadosa precisão, até que de repente e com uma súbita gargalhada soltou o cabelo, figuradamente falando, e tirou os escarpines. – Talvez devesse guardar um pouco de energia para mais tarde – lhe disse com uma gargalhada. – por que? – Tinha as faces avermelhadas e lhe brilhavam os olhos. – por que sempre temos que deixar o melhor para o final? Quero viver o momento. Porque possivelmente seja a única coisa que tenha. – É a única coisa que temos todos – reconheceu, rindo de novo enquanto se deixava contagiar por seu entusiasmo. Entretanto, a frase ficou gravada na mente. Pela extremidade do olho viu o Weston, acompanhado por um de seus vizinhos e perto da porta do salão de baile. Estava observando a sua sobrinha com semblante alegre e satisfeito ao mesmo tempo em que seguia o


ritmo da música com a cabeça. Ainda não parecia um homem saudável, mas já não tinha aquela tez cinzenta nem aquela magreza tão extrema. Já não parecia ter um pé na tumba. Tomara pudesse viver alguns anos mais. Por Rachel. Trocou de par para as seguintes peças e dançou entre outras com o Flossie e Bridget. Tinha abandonado a esperança, ou o temor, de que algum vizinho o reconhecesse. Conforme tinha descoberto, muito poucas famílias iram a Londres com assiduidade, e as que o faziam não se acotovelavam com a flor e nata da sociedade. A orquestra interpretou uma valsa antes do jantar. A única da noite. Vários casais se apressaram até a pista de baile, mas não tantas como nas peças anteriores. Rachel estava com seu tio, a quem tinha pego pelo braço. – Não vai dançar a valsa? – perguntou-lhe Alleyne quando chegou junto a ela. – Não! – exclamou. – Se não sei os passos... – Nesse caso, já é hora de que os aprenda – replicou ao mesmo tempo em que lhe estendia a mão. – Aqui? Agora? Nem pensar – recusou, com os olhos como pratos. – É uma covarde, meu amor? – Sorriu. – Eu a ensinarei. – Vamos, Rachel – a animou seu tio. A princípio pensou que ia negar se. Mas depois se pôs a rir e aceitou a mão que lhe estendia. – Por que não? – disse. – Se acabo sendo o bobo da noite, suponho que pelo menos terei conseguido que os vizinhos o passem bem e lhes terei dado assunto de conversa para toda uma semana. Não era fácil ensinar a alguém a dançar a valsa com música, com outros casais girando na pista de baile e com espectadores. Entretanto, os ditos espectadores não demoraram para compreender a situação e prorromperam em gritos de ânimo, risadas e aplausos, o que deixou bem claro que o estavam passando melhor que nunca. Rachel estava radiante enquanto dava tropeções, entupia-se, ria e tratava de seguir com determinação as instruções de Alleyne. Até que de repente, depois de uns poucos minutos, pegou o ritmo e os passos, e Sorrindo o olhou nos olhos e se esqueceu dos pés. – Estou dançando a valsa – disse ela em um dado momento. – Está dançando a valsa – lhe confirmou. – Relaxe e me deixe que a guie. E isso fez. Em um abrir e fechar de olhos estavam movendo-se com certa elegância, embora não tentou executar nenhum giro atrevido nem qualquer outro floreio. Viu-a morder o lábio inferior e percebeu que seu sorriso se esfumara. Estava-o olhando nos olhos. Ele a estava abraçando pela cintura. Tinha colocado uma mão no seu ombro. A outra estava unida à sua. Seus corpos ficavam separados por escassos centímetros. Sentia o calor que irradiava. Cheirava seu perfume a gardênia. Tinha cavalgado com ela, passeado com ela e inclusive nadado com ela desde aquela tarde na ilha. Mas apenas a havia tocado e tinha evitado aproximar-se muito. Como ela mesmo. Não obstante, nesse momento a situação escapava a seu controle. Estavam dançando no salão de baile do


Chesbury Park sob o escrutínio de dúzias de olhos em companhia de outros casais. E, entretanto, de certo modo tinha a sensação de que estavam sozinhos, girando devagar por um mundo mágico condenado a desaparecer breve. Era muito possível que ao cabo de dois ou três dias não voltasse a vê-la nunca mais. Sua preciosa Rachel. Seu anjo loiro. – Enfim – disse depois de um silêncio que se prolongou durante uns minutos, – qual é seu veredicto sobre seu primeiro baile? – Foi mágico – respondeu, fazendo-se eco de seus pensamentos. – É mágico, no presente. Ainda não acabou. Embora estava claro que era muito consciente de que o final se aproximava. Tratava-se de um baile rural. Ali as pessoas não ficavam dançando toda a noite como se usava durante a temporada social em Londres, onde a maioria das pessoas não tinha nada que fazer no dia seguinte salvo dormir e preparar-se para a seguinte festa. O baile acabaria pouco depois do jantar. E o jantar se serviria justo depois da valsa. Seu olhar parecia haver-se apagado um tanto quando o olhou. Mas não demorou para resplandecer de novo... devido às lágrimas que tentou ocultar agachando a cabeça a toda pressa. Por sorte, estavam muito perto das portas francesas que davam ao balcão. Sem deixar de dançar, levou-a a exterior e se deteve junto à balaustrada de pedra. O frescor da brisa noturna teve sabor de glória depois do ambiente carregado do interior. – Jonathan – disse ela, segurando a esmeralda com uma mão, – não posso seguir com isto. Sabia exatamente ao que se referia. Colocou-lhe uma mão na nuca. – Jamais me passou pela cabeça que poderia chegar a querê-lo confessou. – Que ele poderia me querer. Jamais me passou pela cabeça que poderia haver uma explicação para sua aparente indiferença. – Deveria ter aceito seu convite – lhe disse. – Quando morreu meu pai? – Desviou o olhar para o lago, cuja superfície ficava dividida pelo reflexo da luz da lua. – Me sentia ferida e destroçada. Acreditei que se tivesse albergado algum tipo de sentimento por mim, teria ido em pessoa assim como fez quando morreu minha mãe. Não me ocorreu que talvez estivesse doente e que não pudesse viajar. E suponho que a ele não lhe me ocorreu dizer isso. Talvez acreditou que eu já sabia. Sua carta me pareceu brusca e imperiosa. Pareceu-me fria. – Se tivesse vindo então – lhe disse, – não teria ido a Bruxelas nem teria conhecido ao Crawley. Não teria acabado sentindo-se em dívida com suas amigas. Não se veria envolvida nesta farsa. – E não o teria conhecido – acrescentou ela. – Coisa que não é para levar na brincadeira – replicou com um leve sorriso. – Se tivesse vindo ao Chesbury Park o ano passado quando seu tio a convidou, certamente eu estaria morto agora mesmo. – Acho que isso não me faria muita graça – confessou. – Nem a mim tampouco – assegurou com veemência. – Olhe – disse Rachel, apontando para baixo.


No prado situado atrás dos estábulos, um casal dançava à luz da lua. O homem era corpulento e um pouco torpe; a mulher, alta e voluptuosa. Geraldine e Strickland. – Esses dois sim que parecem um para o outro – disse antes de virar-se e apoiar as costas na balaustrada para olhar Rachel no rosto. – Me diga, qual é o plano? – Amanhã vou explicar às garotas que não posso ajudá-las – respondeu, – embora sempre me considerarei em dívida com elas e pagarei a elas quando puder; quer dizer, dentro de três anos. Depois de amanhã iremos todos sem pedir as joias ao tio Richard. Depois, quando já estivermos em Londres, lhe escreverei para lhe contar toda a verdade. E também lhe devolverei estas joias. Você será livre para fazer o que achar conveniente. Poderá procurar a sua família. Dei-me conta de que ao aceitar seu plano acabei prejudicando a seus seres queridos. Mantive-o afastado deles um mês mais do que o necessário. Devem estar destroçados! – Por que esperar estar longe daqui? – quis saber. – Rachel, seu tio a quer. Sempre o fez. Viu-a menear a cabeça. – Me deixe ir falar com ele amanhã- insistiu – para contar-lhe tudo. Acredito que serei capaz de explicar-lhe de modo que a perdoe. Como não vai fazer o quando souber que todo este engano foi minha ideia e que aceitou pelo carinho que professas a suas amigas e pela dívida de honra que acredita ter contraído com elas? E, além disso, porque seu pai foi o responsável para que não soubesse nunca nada do amor que sempre te professou nem de todos seus esforços por ser um bom tio. Compreenderá que o engano lhe é intolerável agora que teve a oportunidade de conhecê-lo e querê-lo. me deixe fazê-lo por você. Rachel virou a cabeça para olhá-lo. – Não – recusou. – Eu me meti nesta confusão e eu sozinha sairei dela. Poderia me haver negado a pôr em marcha esta farsa. Não sou uma marionete incapaz de raciocinar. – Pois então lhe diga em pessoa – lhe aconselhou. – Faça-o amanhã, Rachel, e confia em seu amor por você. Quis você toda a vida. – Já é muito tarde – replicou ela, – não mereço a confiança de ninguém. Nem o amor de ninguém. Perdi o direito a essas duas coisas. A música está chegando a seu fim. Temos que entrar para o jantar, e devemos parecer felizes e contentes. Meu tio parece contente esta noite, não é? E tem muito melhor aspecto que quando chegamos, não é? Devemos deixar que desfrute ao menos do baile. Ou melhor dizendo, devo deixar que desfrute ao menos do baile. Se alguém lhe fizesse o enorme favor de lhe pôr uma pistola na têmpora, ele mesmo apertaria o gatilho na hora, pensou enquanto lhe oferecia o braço. Embora soubesse que o baile se celebrava em parte para festejar seu matrimônio, Rachel não esperava os discursos e brindes durante o jantar, nem tampouco o enorme bolo que Jonathan e ela cortaram e repartiram de mesa em mesa, até que todos os convidados receberam uma porção. Não deixou de sorrir apesar de que se sentisse triste por dentro. Que néscia tinha sido ao acreditar que esse seria um bom modo de conseguir o dinheiro para que suas amigas pudessem percorrer a Inglaterra e levar a cabo sua vingança.


Entretanto, o pior estava por chegar. Tinham voltado para sua mesa depois de repartir o bolo e os convidados começavam a preparar-se para voltar para o salão de baile e desfrutar das últimas peças da noite quando o tio Richard voltou a ficar em pé e ergueu as mãos para pedir silêncio. Um silêncio que inundou a sala imediatamente. – Acredito que é apropriado fazer este anuncio em público – começou, – embora tinha pensado comunicá-lo amanhã em particular a minha sobrinha e a meu sobrinho por afinidade. De certo modo, também concerne à vizinhança. Provavelmente todos sabem que sou o último varão de minha linhagem, por isso o título desaparecerá comigo quando chegar o momento. Por sorte, tanto a propriedade como minha fortuna são meus para dispor deles como quero, pois não estão vinculados ao título. Durante um tempo pensei em legar meus bens a um primo longínquo pelo ramo materno, apesar de que vive na Irlanda e de que só o vi em algumas ocasiões. Minha intenção sempre foi a de deixar grande parte de minha fortuna a minha sobrinha Rachel, agora lady Jonathan Smith, já que é minha parente mais próxima. Entretanto, durante estas passadas semanas cheguei a conhecê-la e a querê-la muito, assim como conheci a sir Jonathan, quem me parece um jovem sensato e responsável com um óbvio interesse pela terra, muito elogiável. Dispus trocar meu testamento amanhã. Minha sobrinha será minha herdeira universal quando meus dias chegarem a seu fim. Não ouviu o aplauso dos convidados nem os vivas que celebraram o anúncio. A única coisa que ouviu foi um zumbido nos ouvidos enquanto o sangue lhe abandonava a cabeça, deixando-a gelada. Compreendeu que estava a ponto de desmaiar. Inclinou a cabeça para diante, cobriu-o rosto com as mãos e começou a respirar fundo, muito devagar, ao mesmo tempo em que Jonathan lhe acariciava a nuca. Quando voltou a erguer a cabeça, viu que seu tio estava ao seu lado. Ficou em pé e o abraçou sem dizer nada, o que provocou um murmúrio de aprovação entre a assistência, acompanhado de uma nova salva de palmas. – É a única coisa que me fará feliz, Rachel – disse ele com um sorriso deslumbrante enquanto a afastava para olhá-la no rosto. – Imensamente feliz. – Não quero que morra – replicou antes de lhe jogar os braços no pescoço outra vez e enterrar o rosto em seu ombro. Mas ela queria morrer, compreendeu de repente. Queria morrer nesse mesmo instante. Não soube como se arrumou para sobreviver ao resto da noite. Mas o fez, Sorrindo e compartilhando gargalhadas com os desconhecidos ao mesmo tempo em que evitava a aqueles a quem conhecia. Concentrou-se em interpretar o papel da noiva radiante e o conseguiu, graças a Deus. Também se arrumou para escapulir-se até seu dormitório aproveitando o revoo que se produziu com a marcha dos convidados. Entretanto, não tinha contado com a desconsideração de suas amigas para com as portas fechadas. Claro que tampouco havia nenhuma entre seu dormitório e o do Jonathan... De modo que poucos minutos depois de que se encerrasse em seu quarto, chegaram em turba a seu closet. Bridget, Flossie, Geraldine e Phyllis, acompanhadas pelo sargento Strickland que, com os braços cruzados em frente desse amplo peito, plantou-se no arco que separava os closets.


– Bom, Rache – disse Geraldine, – agora sim que está em uma boa confusão. – Nem sequer o ouvimos naquele momento porque estávamos fora – declarou o sargento com algo que em outro homem poderia haver-se tachado de rubor. – Geraldine e eu, quero dizer. Estávamos lançando um olho aos cavalos. – Estávamos dançando, Will – corrigiu a sobredita. E nos beijando. E depois voltamos e Phyll nos contou isso. – Querida – interveio Bridget, – será melhor que nos vamos daqui. – Que nos vamos? – Phyllis parecia pasmada. – Que vamos? Bridget! Quem vai cozinhar para o barão? – Vim em busca de minha herança – lhes recordou. – Naquele momento me pareceu lógico fingir que estava casada e chegar acompanhada de meu suposto marido para convencer ao tio Richard de que podia me confiar as joias. Estava desesperada para ajudá-las a encontrar ao senhor Crawley e para devolver o que lhes roubou. Agora não poderei fazê-lo. Não poderei ajudá-las. Vamos A... – Não tão depressa, Rachel – a interrompeu Flossie, erguendo uma mão. – O que é isso de que quer nos devolver o que nos roubou? Por que tem que nos devolvê-lo o que ele nos roubou quando também se aproveitou de você e levou o pouco que tinha? Perdeu a cabeça? – Se não fosse por mim – insistiu, – não o teriam conhecido. – Rachel, querida – interveio Bridget, – não nos ocorreria aceitar nem um penny de você, salvo a quantia que íamos lhe pedir emprestada para iniciar as pesquisas e que depois pensávamos em lhe devolver. Phyllis atravessou o aposento correndo para abraçá-la com força. – Mas a ideia é maravilhosa, Rachel. Um gesto de afeição precioso – afirmou. – Sabe quanto tempo passou desde que alguém teve um gesto de afeição conosco? E tudo isto foi precioso. A estadia em Chesbury Park. Foram os dias mais felizes de toda minha vida. E acredito que falo por todas. Temos que lhe agradecer por nos haver produzido estas fantásticas férias. Assim não se sinta culpada por nós, porque já tem muito em cima. – É um grande problema, Rachel – disse Geraldine. – O que deve fazer, senhorita, embora não tenha pedido minha opinião, e embora deveria me pôr um ponto na boca porque não sou mais que um criado torto e com muito trecho por diante... – declarou o sargento Strickland. – Ao que ia... O que tem que fazer, senhorita, e você também, senhor, embora esteja em seu dormitório em lugar de ter vindo a aqui a aguentar o toró... Vamos, que o que têm que fazer é casar-se de verdade e assunto arrumado. – Seria tão romântico! – exclamou Phyllis. – Tem toda a razão, Will. – Não – os contradisse ela com veemência. – Essa opção não é viável. Tenho a intenção de arrumar as coisas dentro de pouco e depois organizarei minha vida. Não necessito de um casamento forçado. E Jonathan, muitíssimo menos. Já encontrarei a maneira de endireitar as coisas. Embora não tivesse nem ideia de como fazê-lo. O tio Richard parecia tão feliz... Até essa noite nem sequer sabia que a fortuna e a propriedade não estavam vinculadas ao título. A possibilidade nem lhe tinha passado pela cabeça.


Suas amigas tinham muito mais que dizer, mas fez ouvidos surdos a seus conselhos. O sargento Strickland se refugiou no outro closet e, ao final, as quatro partiram tagarelando depois de abraçá-la. Até que Geraldine recordou que era sua criada e retornou correndo para ajudá-la a despir-se e lhe escovar o cabelo. Depois do que lhe pareceu uma eternidade, meteu-se na cama e se tampou a cabeça com os lençóis.


CAPÍTULO 19

Uma hora depois de que o sargento Strickland por fim partisse de seu quarto, sem dizer uma palavra embora deixando bem claro seu desgosto, continuava junto à janela, com a vista cravada nos prados iluminados pela lua. Duvidava muito que Rachel estivesse dormindo. perguntou-se se deveria ir falar com Weston no dia seguinte sem dizer nada a ela. Não, não o deixava claro. Já lhe tinha feito bastante mal e não queria lhe roubar a oportunidade de que se encarregasse do assunto, tal como desejava fazer. Notou sua presença, já que não ouviu nem percebeu nenhum movimento, e ao virar a cabeça a viu no arco do closet. Embora não houvesse nenhuma vela acesa, seus olhos se acostumaram à escuridão. Levava a mesma camisola branca que a noite em que foi a seu dormitório. E tinha solto o cabelo. – Acreditei que já estaria dormindo – disse ela. – Não. – Ah... – Será melhor que entre – lhe disse ao vê-la ali plantada, como se tivesse ficado sem nada que dizer. Obedeceu-lhe apressadamente e se deteve a dois passos dele. – Quero que vá – anunciou. – Pela manhã. – Vá... – replicou. – Sim – disse ela. – vou contar tudo ao meu tio. Tenho que fazê-lo. Não posso deixar que mude o testamento a meu favor, não é? Mas culpará a você tanto como a mim. Acusará você de me ter comprometido e insistirá em que se case comigo. Ou poderia fazê-lo desde que não se limite a nos expulsar da propriedade. Mas tenho que pensar em todas as possibilidades e estar preparada para qualquer eventualidade. Não consentirei que o obriguem a se casar comigo, Jonathan. – Não podem – assegurou. – Já falamos nisso, não se lembra? Até que não averigue minha identidade e até que não saiba se já estou casado, não posso me casar com você e nem com nenhuma pessoa... Nem sequer posso prometer que me casarei consigo. – Mas o averiguará – replicou ela. – E talvez descubra que está solteiro. Não consentirei que ninguém tente obrigá-lo a se casar comigo. Seria muito injusto para você. Tudo isto tem feito por mim, e eu me prestei a seguir o jogo livremente. Além disso, não quero me casar com você. É possível que não me case nunca, mas se o fizer, será porque encontre ao amor de minha vida e esteja segura de que serei feliz... Bom, ao menos tão segura como se pode estar nestas coisas, claro está. E não o digo com propósito de ofendê-lo, Jonathan. Sei que é tão resistente como eu à ideia de que o obriguem a se casar e por isso falo sem disfarces, para que não se sinta obrigado a me propor matrimônio, chegado o momento. De qualquer modo, não penso deixar que isso aconteça.


Vai partir. Bem cedo. Antes que o tio Richard desperte. – Então, isto é uma despedida? – quis saber. – Sim... sim. Agarrou-lhe uma mão. Estava gelada. Esfregou-a. – Não o farei – lhe disse. – iremos vê-lo juntos pela manhã. Tanto a honra como a preocupação pela Rachel lhe exigiam que enfrentasse ao Weston junto a ela, se essa era sua intenção. O barão tinha chegado a confiar nele. Tinha que olhá-lo nos olhos e confessar que não merecia tal confiança. Sentiu como Rachel tremia. – Será melhor que vamos para a cama – disse ele. – Juntos? Não se tinha referido a isso. Mas percebia que ela necessitava de companhia e talvez algo mais. Necessitava que a abraçassem. E que Deus o ajudasse porque ele queria abraçá-la. – De verdade o deseja? – levou sua mão aos lábios. Viu-a assentir com a cabeça. – Sim, se você o desejar... Pôs-se a rir baixo e a abraçou. Rachel ergueu a cabeça e suas bocas se encontraram... Famintas, ofegantes e com a necessidade de oferecer consolo tanto como de recebê-lo. Como o tinha chamado Geraldine? Uma boa confusão. Estavam metidos em uma boa confusão. Pela manhã, para bem ou para mau, sairiam dela. Mas enquanto isso restava essa noite. Agachou-se um pouco e a levantou nos braços pela simples razão de que podia fazê-lo, já que sua perna se recuperara e voltava a estar forte. Levou-a nos braços até a cama e a deixou no meio do colchão antes de despir-se e reunir-se com ela. Fizeram amor uma só vez. E o fizeram muito devagar, entregues às sensações, quase com frouxidão. Não era somente sexo, compreendeu de repente enquanto estava imerso no momento... Ao menos, não era sexo no sentido mais sórdido da palavra. Claro que tampouco era amor, já que parecia que Rachel não o amava do modo com o que sonhava amar algum dia a alguém. Mas foi algo precioso. Uma terna troca de consolo. Porque estavam se consolando. Rachel ficou adormecida antes inclusive de que saísse de seu corpo e de que se estendesse a seu lado, embora se aconchegasse contra ele imediatamente. Apoiou a face em sua cabeça e se deixou arrastar atrás dela para o esquecimento. Rachel afastou o prato do café da manhã sem tocar a comida. Custava-lhe inclusive olhar para Jonathan. Tinha ido vê-lo no meio da noite para convencê-lo de que se fosse do Chesbury Park essa manhã cedo e, em troca, tinha acabado dormindo em sua cama. E não só dormindo... Era constrangedor. Embora Jonathan não fosse o culpado de que tivesse perdido o apetite. O tio Richard já se levantou, embora


estivesse tomando o café da manhã em seus aposentos como era seu costume. Tinha enviado seu criado de quarto para perguntar a Jonathan e a ela se podiam ir vê-lo assim que fosse possível. Geraldine estava no piso superior, fazendo sua bagagem. Partiriam todos depois do almoço ao mais tardar. Tentou concentrar-se nessa ideia. O problema era que ainda tinha que sobreviver a essa manhã. Além disso, como ia aliviar a ideia de partir quando estava a ponto de lançar tantas coisas pela amurada e de dar as costas a seu tio, deixando-o triste e decepcionado pela traição? E depois teria que enfrentar à separação do Jonathan. A vida parecia tão negra em certas ocasiões que o único consolo era a certeza de que não poderia piorar mais. Ficou em pé e afastou a cadeira com as pernas. Jonathan fez o mesmo ao vê-la. De forma excepcional, nem Bridget nem Flossie disseram uma palavra quando saíram da sala. O tio Richard ocupava seu lugar habitual, embora tivesse virado a poltrona e estava de costas à janela. Percebeu que voltava a ter mau aspecto. A noite anterior lhe tinha sido sobrecarregada. E nessa manhã... – Sente-se pediu seu tio com gesto sério. – Tio Richard – começou ela, – tenho que lhe dizer algo. Não tem sentido que demore mais tempo. Só... – Por favor, Rachel. – Interrompeu-a levantando uma mão. – Tenho que lhe dizer algo antes. Até este momento não tinha reunido a coragem suficiente, mas chegou a hora. Sente-se, por favor. Você também, Smith. Aflita, sentou-se na beira de uma cadeira enquanto Jonathan o fazia em outra. – Acho que teria tomado a decisão que anunciei ontem à noite embora não contasse com mais incentivos – afirmou seu tio. – Sempre quis que estivesse aqui comigo, Rachel, e que descobrisse que este é seu lar. E agora já tenho provas disso, e sei que é feliz com um marido que a quer e que compreende a terra, uma terra que cuidará sempre embora estabeleçam sua residência no norte do país, longe daqui. – Tio Richard... – Não. – Voltou a levantar a mão. – Me deixe terminar. Acredito que teria tomado a decisão de qualquer modo, embora em algum momento pudesse lhe ter dado a impressão de que queria comprá-la para apaziguar minha consciência. Tinha pensado em lhe dizer hoje que não daria as joias até que cumprisse os vinte e cinco anos, dado que esse era basicamente o desejo de sua mãe. Convenci-me me dizendo que já estaria morto então. – Não diga isso. – inclinou-se para ele. – Nem sequer quero as joias. Seu tio suspirou de novo e apoiou a cabeça nas almofadas. Percebeu que voltava a ter a pele de uma cor cinzenta. – Desapareceram, Rachel – confessou. – Desapareceram? – As roubaram – explicou. Jonathan ficou em pé, serviu um copo de água da jarra que havia na bandeja colocada junto a seu tio e o deixou perto para que pudesse pegá-lo se quisesse. Depois se afastou até a janela e cravou o olhar nos jardins.


– Roubado? – repetiu Rachel com um fio de voz. – Nem sequer sei nem quando, nem como, nem quem – seguiu seu tio. – Simplesmente não estavam em seu lugar quando olhei na caixa forte uma semana antes que aparecesse você. Era-me impossível suspeitar dos criados, embora é certo que o serviço piorou bastante estes dois últimos anos. Entretanto, o único desconhecido que entrou na biblioteca e que viu onde guardava os objetos de valor foi um clérigo... Um homem justo e caridoso, nada menos. Seria um disparate suspeitar dele. Jonathan a olhou por cima do ombro. – Um clérigo – repetiu ela. – Nigel Crawley? – Nathan Crawford – corrigiu seu tio. – Alto, loiro, bonito? – perguntou-lhe com o olhar arregalado. – Encantador em extremo? Entre os trinta e os quarenta anos? Acompanhava-o sua irmã? Seu tio a olhou sem dar crédito. – Conhece-o? – perguntou-lhe. – Foi culpa minha que viesse aqui. – Soltou uma gargalhada trêmula. – Conheci-o em Bruxelas quando trabalhava para lady Flatley. Inclusive me comprometi com ele. Íamos retornar a Inglaterra para nos casar e logo viríamos aqui para convencê-lo de que me entregasse às joias. Mas escutei-o falar com sua irmã, estavam-se rindo enquanto planejavam o que fazer com todo o dinheiro que lhes tinham dado para suas obras de caridade. Também se fizeram com uma soma importante de dinheiro das amigas que me acompanharam até aqui. As economias de toda uma vida, de fato. O tio Richard tinha fechado os olhos. Estava tão branco como o papel. – Muitos vizinhos lhe entregaram donativos para suas obras de caridade – disse. – Eu também o fiz. Dei-lhe dinheiro quando estávamos na biblioteca, nem sequer tentei lhe ocultar a existência da caixa forte. A primeira vista parecia um homem de confiança. Suponho que veio pelas joias. Chesbury Park é um lugar bastante acessível, e de um tempo a esta parte meus criados estão um pouco despistados. Rachel, a questão é que desapareceram e que não fiz nada para recuperá-las. Não sabia o que fazer nem de quem suspeitar. Por estranho que parecesse dado os extremos aos que tinha estado disposta a chegar para lhe jogar a luva às joias, nesse momento lhe preocupava muito mais seu tio. As joias tinham sido uma fonte constante de sofrimento. Por ela, como se desapareciam para sempre. Ficou em pé, aproximou-se de seu tio, ajoelhou-se no chão diante dele e apoiou a face em seus joelhos. – Não importa, tio Richard – lhe assegurou. – De verdade que não. Não lhe fez mal, isso é a única coisa importante. Nem sequer vi as joias. Não sentirei falta do que nunca tive. Quase me alegro de que tenham desaparecido. – Possivelmente não é consciente de seu enorme valor – aventurou seu tio ao mesmo tempo em que lhe colocava uma mão na cabeça. – Não posso me perdoar pela mentira que estive vivendo desde que chegou. Deveria ter dito isso


imediatamente. Deveria ter ido buscá-la assim que me dei conta de que tinham desaparecido. – Tio Richard – disse, – você não sabe o que é uma mentira. Seu tio seguiu lhe acariciando o cabelo. Jonathan pigarreou junto à janela. E a ela lhe saltou o coração. – Se estava comprometida com o Crawford, Crawley ou como quero que se chame – disse seu tio, rompendo o silêncio, – como...? – Senhor – interveio Jonathan, – foi Rachel quem pôs suas amigas em contato com o Crawley. O desalmado lhes roubou as economias de toda uma vida, com seu consentimento e o dela, sob a falsa promessa de pôr a salvo o dinheiro em um banco de Londres. Rachel se culpa por tudo o que perderam e jurou (sem que suas amigas soubessem algo) que lhes devolveria até o último penny. Para isso necessitava sua herança. Tinha que vender algumas joias. Rachel fechou os olhos ao escutá-lo. – E onde encaixa você em tudo isto? – perguntou o tio Richard. – Devo-lhe a vida – declarou Jonathan. – Me encontrou atirado e meio morto depois da batalha do Waterloo, e me cuidou até que me recuperei. Necessitava de um marido se quisesse convencê-lo de que lhe entregasse sua herança antes do tempo. – Isso quer dizer que não é seu marido de verdade? – perguntou seu tio. – Não, senhor. Era injusto que ele carregasse com todo o peso das explicações, pensou. De fato, não tinha sido essa sua intenção. Mas manteve os olhos fechados. Essa espantosa manhã parecia haver lhe escapado das mãos por completo. – Por que não? – perguntou outra vez seu tio em voz baixa e séria. – Quando recuperei a consciência, descobri que tinha perdido a memória – explicou Jonathan. – Não sei absolutamente nada de meu passado. Nem sequer sei se já estou casado. – Não é você sir Jonathan Smith? – quis saber seu tio. – Não, senhor – respondeu Jonathan. – Não sei como me chamo. – E não tem uma propriedade no Northumberland nem fortuna alguma. – Não, senhor. – É tudo minha culpa – interveio Rachel nesse momento. – Jonathan se sentia em dívida comigo e sabia que estava ansiosa por dispor das joias. Por isso se ofereceu para me ajudar. É tudo minha culpa. Tudo. Ele não tem a culpa de nada. Mas já não podia seguir com esta farsa, sobre tudo depois do que se passou ontem à noite. Jamais soube nada dos presentes de aniversário nem da oferta de me enviar ao colégio nem de me apresentar em sociedade. Acreditei que te tinha esquecido de mim. Acreditei que me odiava. E a situação se fez insuportável quando me deu o colar e os brincos de minha tia e logo disse a todos que tinha decidido me legar toda sua fortuna porque me queria. Vim esta manhã disposta a lhe confessar a verdade. Jonathan insistiu em me acompanhar.


– Caramba! – exclamou seu tio depois de uma breve pausa. E em seguida fez algo tão inesperado que Rachel deu um pulo. Pôs-se a rir. A princípio só foi uma espécie de tremor que poderia haver-se atribuído à ira, mas se transformou em um bufo semelhante aos estertores da morte e que acabou convertendo-se em uma gargalhada inconfundível. Sentou-se nos calcanhares e o olhou sem saber o que fazer. De qualquer forma, a risada sempre lhe tinha sido contagiosa embora não soubesse do que ria a gente. E não tinha nem ideia do motivo pelo qual ria seu tio. Mas notou que aparecia um sorriso a seus lábios e sentiu que a risada borbulhava em sua garganta, até que foi incapaz de conter-se e, embora cobrisse o rosto com as mãos, acabou explodindo em gargalhadas. – Sim, é certo que em geral é um pouco cômico – murmurou Jonathan com ironia. E em seguida se estavam rindo os três às gargalhadas pelo que pouco antes lhes tinha parecido uma tragédia insolúvel... Coisa que sem dúvida voltariam a pensar assim que se acalmassem e recordassem a situação. Entretanto, quando muito mais tarde teve tempo para refletir, chegou à conclusão de que as farsas, em certas ocasiões, geravam mais farsas. Nem sequer tinham tido tempo de recuperar do ataque de hilaridade quando a porta se abriu de repente sem prévio aviso e Flossie entrou como um torvelinho, seguida de Geraldine, Phyllis e Bridget. Flossie agitava uma folha de papel. – Está em Bath, Rachel! – anunciou. – O malfeitor está em Bath, deslumbrando a essas pobres viúvas para lhes roubar suas pensões com o nome do Nicholas Croyden. Mas é ele, com certeza. – Vamos atrás dele, Rache – disse Geraldine. – Will o segurará enquanto lhe arranco as unhas dos pés uma a uma. – E eu vou atiçar lhe no nariz até que lhe saia pela nuca – acrescentou Phyllis. Muito em consonância com suas palavras, tinha os braços melados de farinha e levava um pau de macarrão nas mãos. – E eu vou arrancar lhe o cabelo, preencherei uma almofada com ele – interveio Bridget – e logo farei que o engula. – Esta carta... – disse Flossie, agitando o papel – é de uma das irmãs. Vai manter o vigiado até que cheguemos. Vem conosco, Rachel? O tio Richard... limpou a garganta. – Rachel – começou, – acredita que chegou o momento de que apresente como é devido a minhas amigas e a você... isto, a sua criada. Todos iriam ao Bath. A princípio tudo parecia indicar que Phyllis ficaria atrás, angustiada ante a ideia de deixar a lorde Weston sem um menu decente que o ajudasse a recuperar a saúde e o peso que tanto necessitava. E depois Rachel tentou convencer ao Jonathan para que fosse para Londres sem demora, dado que a farsa tinha chegado a seu fim. Ela ficaria no Chesbury Park, afirmou, se seu tio a aceitasse. Bridget aproveitou esse momento para anunciar sua intenção de ficar com Rachel, já que necessitava a presença de uma acompanhante pois tinha recuperado sua posição de jovem solteira. Strickland, que não se


moveu da porta do gabinete do Weston desde que entraram, explicou com grande verborreia e grande eloquência que embora gostasse de acompanhar às damas para protegê-las e moer a golpes a esse Crawley em seu nome, sentia que era seu dever acompanhar ao senhor Smith como seu criado de quarto, ao menos até que se centrasse, por dizê-lo de algum jeito. Em seguida, Geraldine recordou que era a criada de Rachel... claro que como já se tinha descoberto a embrulhada, tinha deixado de sê-lo. De qualquer maneira, era contra partir quando pôr fim estava metendo em linha à criadagem e quase tinha terminado o inventário dos objetos da casa. Nesse momento, Flossie pôs olhinhos de cordeiro degolado e mencionou que Drummond a tinha levado ao lago a noite anterior e lhe tinha pedido em casamento à luz da lua; e embora não lhe havia dito que sim, tampouco lhe havia dito que não. Tinha prometido que lhe responderia nesse dia ou no seguinte o mais tardar. E deu-se a sensação de que, portanto, ninguém iria ao Bath. Embora a impressão só durou até que interveio Weston. – Parece um pouco pusilânime que todos prefiram ficar aqui quando a ação está em Bath – disse. – Nesse caso, suponho que terei que ir eu sozinho... – Maravilhosa ideia! – exclamou Flossie, que apertou a carta contra o peito. – É você um encanto, milorde! O senhor Drummond pode esperar sua resposta uns dias mais. E nesse momento se formou um barulho tremendo porque todos encontraram razões de peso para ir ao Bath em lugar de ficar no Chesbury Park. Rachel não aceitou a decisão de seu tio sem mais, é obvio. – Deve ficar aqui, tio Richard – lhe disse. – Não está bastante recuperado para viajar. Eu ficarei consigo, outros podem ir. Menos Jonathan. – Rachel – replicou seu tio, – esperava que esta manhã fosse uma das piores de minha vida. Em troca, me concedeu uma segunda oportunidade. Apesar do desaparecimento de suas joias, que talvez não recuperemos nunca, jamais me tinha divertido tanto na vida. E não penso perder a ação por nada do mundo. A Alleyne ninguém perguntou o que pensava, e ele tampouco o disse. Mas percebeu que Rachel o olhava com os olhos como pratos depois de que seu tio tivesse falado... Uma expressão idêntica a das quatro damas e a de Strickland, que se tinha ficado no corredor e que não chegou a abrir tanto seu único olho. – Londres pode esperar, assim como Drummond – anunciou com um sorriso. – Assim como minhas lembranças e minha vida anterior. Por estranho e alarmante que pareça, dá-me a sensação de que a vida que levo agora não se diferencia muito da que levava antes. Me envolver com pessoas impulsivas em farsas impulsivas parece ser uma espécie de dom natural... Além disso, não fui eu quem sugeriu tudo isto? Penso ir ao Bath embora ninguém mais me acompanhe. – Bem – disse Geraldine. – ouviu isso, Will? Isso quer dizer que você também virá. E Alleyne notou que ela se ruborizou. Interessante... Entretanto, distraiu-se quase imediatamente, já que Rachel lhe estava Sorrindo e o olhava com uma


expressão radiante de felicidade. – Talvez descubramos que Bath é uma cidade muito pequena para todos nós – disse. – Espero isso – replicou com uma piscada. Nenhuma pessoa alheia à trama que entrasse nesse momento haveria dito que quase todos tinham sido vítimas de um desalmado, e que todos tinham estado envolvidos em uma longa e complexa farsa que acabavam de confessar poucos minutos antes. Puseram-se a rir ao imaginar as consequências que sua chegada teria na respeitável e séria sociedade de Bath. Era extraordinário, disse-se. E também era um alívio não ter que fingir mais tempo e saber que Rachel tinha encontrado por fim seu lugar no mundo e que seria feliz e estaria a salvo em seu lar uma vez que tivessem resolvido esse assunto... e que ele partira. De qualquer modo, já pensaria na separação quando chegasse o momento. Enquanto isso, o barão Weston falou com seu advogado, conforme o planejado, e mudou seu testamento. E na manhã seguinte, bem cedo, partiram para Bath com um verdadeiro desfile de carruagens e veículos carregados de bagagem, decididos a fazer que Nigel Crawley, aliás Nathan Crawford, aliás Nicholas Croyden, arrependesse-se inclusive de ter nascido.


CAPÍTULO 20

O barão Weston alugou quartos para todos no York House Hotel, o melhor estabelecimento de Bath, e isso apesar os protestos das damas, que disseram que não podiam permitir-lhe Ou que não poderiam fazê-lo até haver jogado a luva ao Nigel Crawley e ter recuperado suas economias. Lorde Weston afirmou que os gastos corriam de seu bolso e que não havia mais que falar. Não permitiu que ninguém pigarreasse. Por sugestão de sua senhoria, todos conservaram as identidades que tinham escolhido ao chegar ao Chesbury Park, salvo Rachel, que recuperou seu nome de solteira, e Geraldine, que foi elevada à classe de senhorita Geraldine Ness, irmã da senhora Leavey, com quem guardava a mesma semelhança que tinham um cavalo e um coelho... O barão passou os dois dias seguintes a sua chegada na cama, totalmente exausto depois da viagem e da excitação que o tinha precedido. Rachel passou grande parte do tempo lhe fazendo companhia, mais preocupada com sua saúde que pelas joias e pelos malfeitores. Entretanto, seu ânimo melhorou quando o médico a quem chamaram para que o atendesse lhe comunicou que só se tratava de um caso de cansaço extremo e que não havia sinais de que sua doença cardíaca tivesse piorado. Durante esses momentos ela conversava se ele se sentia com forças ou guardava silêncio se estava cansado ou dormindo. De vez em quando lhe lia passagens de algum ou outro livro. A situação recordou a outro doente ao que tinha velado não muito tempo atrás. Embora parecia ter passado séculos desde aquele tempo. Via muito pouco ao Jonathan e se resignou ao fato de que esse era o verdadeiro princípio do fim. Supôs que não voltaria com ela ao Chesbury Park. O tio Richard a tinha convidado a viver com ele e tinha aceito. Nem o convite nem o fato de que ela aceitasse tiveram nada que ver com o sentido do dever, disso estava segura. Por incrível que lhe parecesse, seu tio a queria. Continuava a querendo apesar de tudo o que lhe tinha feito. E talvez o mais incrível fosse que também o queria. Durante esses dois dias deixou que a luz desse amor incondicional e generoso a inundasse. Seu tio inclusive tinha aceitado a suas amigas, embora lhe tinham confessado quem eram e a que se dedicavam. Para falar a verdade, não só as tinha aceito. Tinha-lhes carinho! – Rachel – lhe disse uma tarde depois que despertou da sesta, – não pode dizer-se que respeitasse muito a seu pai, mas conseguiu te educar como é devido. Não muitas damas se rebaixariam a manter uma amizade com quatro mulheres pertencentes a uma classe rechaçada pelo grosso da sociedade só porque uma delas fosse sua babá. Nem se sentiriam em dívida com elas nem chegariam aos extremos aos que você chegou para saldá-la. Mas acredito que suas ações deram seus frutos, suas recompensas. São suas amigas e não acredito que pudesse


encontrar melhores amizades entre seus pares. – São sim, tio Richard – reconheceu. – Me acolheram com os braços abertos quando me encontrei sem nada embora elas também acabassem de perder as economias com as quais pensavam trocar de vida. – E a senhora Leavey é uma magnífica cozinheira – acrescentou ele com um suspiro. Dava-se por satisfeita, disse-se. Encontrassem ao Nigel Crawley ou não, recuperassem seu dinheiro e as joias ou não, essa aventura tinha acabado sendo muito mais proveitosa do que merecia. E lhe alegrava ver tão pouco ao Jonathan. Embora mais lhe alegraria vê-lo partir para sempre. Porque a partir desse momento seu coração começaria a sarar e talvez fosse capaz de encontrar a felicidade além de certo grau de satisfação. Entretanto, ao mesmo tempo temia o dia de sua partida. Assim que tudo acabasse, disse-se, estaria bem. Só seria o mau gole do momento em si. Repassou mentalmente o que lhe diria, o aspecto com o que o despediria. O sorriso com o qual lhe diria adeus. Enquanto isso, as quatro damas passaram esses dois dias visitando essas amizades às quais chamavam "irmãs" e reunindo informação sobre o clérigo que respondia no nome do Nicholas Croyden e que se alojava com sua irmã em uma casa de hóspedes no Sydney Agrada, e que frequentemente se via enganando viúvas e solteironas de meia idade que abundavam na cidade. Sabia-se que acudia todas as manhãs à Sala da Fonte para dar o acostumado passeio e beber a água, embora nenhuma das irmãs com as que falaram tinha pisado no ditoso lugar na vida. – Mas nós sim pisaremos – replicou Flossie enquanto jantavam no refeitório privado do barão nas segunda noite que passaram em Bath. – É um lugar claramente respeitável para a senhora Streat, viúva do coronel Streat, para sua cunhada, para sua irmã e para sua querida amiga, a senhorita Clover. Iremos amanhã mesmo. – Certamente – respondeu Jonathan, depois do que virou a cabeça para olhar para Rachel e a inclinou com elegância antes de lhe sorrir. – Me concede a honra de acompanhá-la, senhorita York? Com a permissão de seu tio, é claro, e sob o atento olhar da senhorita Clover, sua acompanhante, já que a ocasião requer sua presença. Ele estava passando em grande, pensou Rachel. No fundo era um trapaceiro. Suspeitava que sempre o tinha sido, e de repente se lamentou por não tê-lo conhecido antes e por seguir sem conhecê-lo uma vez que retornasse a sua verdadeira vida. – Obrigada, sir Jonathan – respondeu. – Sua companhia será um prazer. – O mesmo digo – interveio seu tio. – Não vai me deixar atrás. Esperemos que não levemos a triste desilusão de que ao cavalheiro lhe peguem os lençóis e não apareça amanhã para o tão falado passeio matinal. – Tio Richard... – começou; entretanto, ele a interrompeu elevando uma mão. – Rachel, a maioria da gente vem ao Bath por duas razões – falou. – Porque vivem do aluguel de suas propriedades ou de uma pequena pensão e a cidade é barata, ou porque sua saúde não é tão boa como deveria ser e desejam provar a água medicinal. Eu me enquadro na segunda categoria. Provarei a água... amanhã pela manhã na Sala da Fonte.


– E nós... – tomou a palavra Geraldine com desembaraço. – Bom, estamos na primeira razão. Embora não por muito tempo. Já me encarregarei eu de espremer a esse rufião mal nascido até que lhe saia o dinheiro pelas orelhas! – Mas que fina é, Gerry – disse Flossie, estalando a língua. – me Faça o favor de recordar quem é. As damas não espremem a ninguém nem utilizam a palavra "mal nascido". O que vai fazer é "espremer" a esse "malvado" rufião. Com minha ajuda. – O que não consigo entender – confessou Rachel enquanto afundava a colher no pudim e franzia o cenho – é por que escolheu Bath para fazer uma aparição pública quando a estas alturas deve haver muita gente na Inglaterra que o conhece. – É um risco calculado – respondeu Jonathan. – Não se esqueça de que a maioria da gente lhe deu o dinheiro para suas obras de caridade por própria vontade. Em vez de atar-se a murros com ele se o virem, é provável que voltem a ajudá-lo com outra contribuição. Embora sentiriam estranheza pela mudança de nome. Entretanto, seria muita casualidade que se encontrasse aqui com algum conhecido de Bruxelas. As pessoas que estiveram na Bélgica na primavera não são das que frequentam Bath. Seu seguinte destino será algum lugar parecido a este, como Harrogate, outra cidade balneária, mas como está situada muito ao norte não é provável que atraia à mesma clientela. – Pois desta vez colocou a pata até o fundo – afirmou Phyllis. – Deveria nos ter deixado tranquilas. Embora possivelmente não o tivéssemos encontrado se não tivesse utilizado um nome tão parecido ao que nós conhecíamos, não é? por que o terá escolhido? Se fosse ele, desta vez me teria posto Joe Bloggs. – Phyll, quem ia dar uma doação para os pobres órfãos a um tipo chamado Joe Bloggs? É um nome muito comum! – explicou Geraldine. – Pensa um pouco. – Talvez tenha razão – reconheceu Phyllis. Jonathan não demorou para lhes dar boa noite e assim que ele se foi, outros também se retiraram cedo. Um bom número de pessoas reconheceu e se deteve para saudar o barão Weston quando apareceu na manhã seguinte na Sala da Fonte. Entretanto, foram seus acompanhantes os que mais revoo provocaram, já que todos eram jovens, com a exceção do Bridget; e inclusive esta contava com uns bons vinte ou trinta anos menos que a grande maioria dos que estavam passeando, fofocando e, um ou outro, bebendo a água medicinal. Flossie e Phyllis não demoraram para ser monopolizadas por um general retirado que se colocou entre ambas e deu-lhes o braço, depois do que se dispôs a passear pelo lugar enquanto perguntava sobre suas vivencias no exército e lhes contava a própria. Geraldine e Bridget acabaram sob a asa de uma altiva viúva, toda adorada com uma touca muito alta coroada com um toucado de plumas, e com uns óculos que não parava de agitar no ar qual extravagante diretor de orquestra com sua batuta. Rachel ficou com seu tio junto à mesa da água e para escutar os louvores da constante procissão de assíduos à água medicinal. E ele se encontrou conversando com um casal mais velho que afirmavam conhecer os Smith do Northumberland e insistiam em averiguar se tinham parentesco com o ramo familiar de sir Jonathan. Nigel Crawley não fez ato de presença. Claro que Alleyne não o tinha visto nunca, de modo que era impossível que o reconhecesse. Entretanto, conhecia sua descrição. Um jovem loiro, alto e bonito não passaria


despercebido entre a exígua multidão que se congregava na Sala da Fonte. Podia-se dizer que era uma decepção, sobre tudo pelo contagioso entusiasmo de que tinham feito mostra as damas ao sair do York House Hotel. Quando as levasse de volta para tomar o café da manhã, pensou, se aproximaria em pessoa até o Sydney Agrada para averiguar se o tipo e sua irmã continuavam na cidade. Fazia um dia bastante agradável apesar da hora tão cedo. Os que tinham ido à Sala da Fonte não tinham pressa alguma por retornar a casa. Como se não tivessem conversado e fofocado bastante no interior, muitos prosseguiram com a conversa no pátio da abadia. O general Sugden não estava disposto a renunciar a suas duas encantadoras acompanhantes e lhes deu de presente outra história de uma batalha em que tinha jogado o papel de herói conquistador. A viúva muito adornada confiava em ver a senhorita Ness e à senhorita Clover nos Salões de festas alguma noite, e convidou-as a tomar o chá com ela no dito estabelecimento. O convite incluía o barão Weston, a sua sobrinha e a sir Jonathan Smith. Um grupo formado por três damas e dois cavalheiros retiveram o barão e ao Rachel, e o casal mais velho que conhecia os Smith do Northumberland recordou de súbito que em realidade que os ditos conhecidos se chamavam Jones; um engano compreensível por sua parte, dado que "Smith" e "Jones" eram tão parecidos que se prestavam a confusão... A partir desse momento insistiram em saber se sir Jonathan estava aparentado com algum dos Jones do Northumberland. Justo então saiu um pequeno grupo de fiéis da abadia, onde devia haver-se celebrado um serviço matutino, que se uniu aos já congregados no pátio para fazer exatamente o mesmo que estavam fazendo eles: demorar para conversar. Um ou outro se uniu aos grupos dos que acabavam de sair da Sala da Fonte. Entre os ditos fiéis se encontrava um cavalheiro loiro, alto e bonito, acompanhado por uma dama de cabelo claro que ia pelo seu braço. Com eles estava um grupinho de damas de idade indefinida e que escutavam extasiadas o que fosse que o cavalheiro loiro lhes estivesse dizendo. Alleyne lançou um olhar ao Rachel e as poucas dúvidas que tinha se esfumaram assim que viu sua expressão. Tinha a vista cravada no homem que acabava de sair da igreja e parecia muito pálida. Desviou o olhar para o desconhecido no mesmo momento em que este percebia a presença de Rachel ou talvez da presença de seu tio. Ou de ambos de uma vez. O sorriso que esboçava se desvaneceu enquanto inclinava a cabeça e se aferrava a aba do chapéu com a mão livre a fim de despedir-se das damas em voz baixa. Em seguida deu meia volta, sem dúvida com a intenção de desaparecer sem perda de tempo. – Deixe que eu me encarregue disto – disse o barão Weston ao Alleyne quando se aproximou deles e tomou ao Rachel pelo braço com firmeza. Entretanto, já era muito tarde para a discrição. Phyllis acabava de localizar a sua presa e se jogou sobre ele com um grito, soltando ao general e deixando-o com a palavra na boca. Uma vez que o alcançou, agarrou-o pelo cangote e saltou sobre suas costas, lhe rodeando a cintura com as pernas. – Por fim o tenho! – gritou. – Rufião!


Flossie lhe pisava nos calcanhares. – Vá, vá, pois não é o reverendo Crawley o Crápula? – perguntou-lhe ao mesmo tempo em que lhe dava um pontapé na tíbia. Geraldine levava uma sombrinha que brandiu a modo de lança qual guerreira amazona enquanto se precipitava para ele. – Onde está nosso dinheiro? – exigiu saber ao mesmo tempo em que o golpeava nas costelas. – Canalha sem escrúpulos! O que fez com ele? Fala de uma vez! Não fique calado! – Por todos os Santos! – exclamou Bridget, que correu para unir-se à refrega. – Lhe caiu o chapéu, senhor Crawley, e como alguém o pisou, parece uma pena... Dito o que, o tirou com um tapa e procedeu a saltar sobre o caro objeto até que ficou amassado como um acordeão e cheio de pó. Em um primeiro momento, os numerosos espectadores assistiram a essa demonstração tão vulgar em completo silêncio. Até que todo mundo se moveu e começou a falar de uma vez. O general avançou ao resgate de suas damas com a bengala no alto; a viúva se benzeu antes de levar os óculos aos olhos e procurar com o olhar alguma amizade com quem compartilhar o delicioso escândalo; um bom número de recém chegados se congregou no pátio da abadia, saídos de Deus saberia onde; a dama do cabelo claro gritou pedindo ajuda; as quatro paroquianas que tinham saído da igreja com o casal prorromperam em alaridos, gritos e súplicas para que as quatro atacantes deixassem em paz a seu queridíssimo senhor Croyden; as atacantes não lhes fizeram o menor caso; o barão, Rachel e ele se aproximaram um pouco; e a vítima decidiu defender-se. – Nada mais longe de minha intenção que julgar a alguém, já que tomei os hábitos do sacerdócio e portanto amo a todos os seres humanos por igual tal como o fez nosso Senhor Jesus Cristo – se arrumou para dizer ao mesmo tempo em que se esquivava da sombrinha e tirava Phyllis das costas... enquanto alguns dos espectadores vaiavam pedindo silêncio a outros, – mas estas quatro mulheres não deveriam aproximar-se nem a um quilômetro de um lugar decente. Não é apropriado. São putas! A bengala do general foi uma arma mais efetiva que a sombrinha de Geraldine. Crawley se encolheu e grunhiu de dor quando o ancião lhe atirou um golpe no flanco. – Jovenzinho – repreendeu-o com dureza o general, – semelhante comentário merece um encontro com pistolas ao amanhecer. A multidão guardava silêncio, já que sem dúvida alguma não queria perder nenhuma só palavra por temor a que depois não pudesse relatar fielmente o incidente aos conhecidos que tinham tido a má fortuna de não vê-lo com seus próprios olhos. – São! – insistiu Crawley. – Quase me arrependo de ter cultivado sua amizade em Bruxelas, onde regiam um bordel. Mas o Senhor nos ensinou a amar a todas suas criaturas... incluindo as mulheres. – Onde está nosso dinheiro, descarado? – É um ladrão mentiroso, isso é o que é! – Roubou-nos o dinheiro e agora mesmo vai devolver nos até o último penny.


– E roubou as joias de Rachel! Vou tirar lhe os olhos! As quatro exclamaram de uma vez. Elevaram-se vozes entre a assistência, a essas alturas surpreendida e indignada, cuja simpatia se inclinava para o bonito clérigo contra as damas que tão pouco decoro e elegância estavam demonstrando. Nesse momento os olhos do Crawley se posaram sobre Rachel, transbordantes de malícia. Endireitou as costas, tirando Phyllis de cima com o súbito movimento, e estendeu um braço com um dedo acusador. – E ela... – disse enquanto parte da multidão vaiava pedindo silêncio e a outra parte cravava a vista em Rachel. – Ela também o é! Não é mais que uma puta! Embora Rachel não fosse esposa nem viúva de nenhum militar, o general bem lhe teria atiçado um novo golpe com a bengala pelo insulto em um arranque de cavalheirismo. Entretanto, Alleyne chegou primeiro e o afastou com uma cotovelada. Nem sequer se parou a pensar que Crawley era quase tão alto como ele e que provavelmente pesasse o mesmo. Agarrou-o pelas lapelas da jaqueta, erguendo-o do chão. – Como disse? – perguntou-lhe entre dentes. Crawley tentou escapar e plantar de novo os pés no chão, mas foi em vão. – Não ouvi sua resposta – lhe disse. – Fale. A quem se referia faz um momento? – Não acredito que este assunto seja de sua incumbência... O comentário fez que o sacudisse como ao rato que era. – A quem se referiu? – repetiu. O silêncio era tal que se teria escutado o ruído de um alfinete ao cair ao chão. – A Rachel – respondeu Crawley. – A quem? – insistiu ele, erguendo-o e aproximando-o um pouco mais. – À senhorita York – emendou. – E o que disse dela? – Nada – respondeu Crawley gritando. Houve outra surriada de comentários que foi rapidamente sufocada pelas vaias. – O que disse? – Disse que ela também o é – respondeu. – E o que é? – Aproximou a cabeça um pouco mais a do rufião de modo que seus narizes quase se tocaram. – Uma puta – respondeu. O murro que lhe atirou no nariz foi tão certeiro que teve a satisfação de vê-lo sangrar imediatamente. A dama do cabelo claro gritou. Assim como o séquito de paroquianas que os tinha acompanhado à saída da igreja. – Talvez gostaria de retirar suas palavras – sugeriu ao mesmo tempo em que o sacudia de novo. – O que é a senhorita York? Crawley murmurou algo com voz nasal enquanto tentava em vão levar as mãos ao nariz.


– Não o ouço! – bradou. – Uma dama – murmura Crawley. – É uma dama. – Ah! – exclamou. – Nesse caso, mentiu. E o que tem que a senhora Streat, da senhora Leavey, da senhorita Ness e da senhorita Clover? – Também são damas. – O sangue emanava de seu nariz e lhe manchava a gravata branca. – Todas são damas. – Nesse caso, todas merecem um paladín – repôs antes de lhe atiçar outros quatro murros, duas com cada mão. Dois no queixo, outro mais no nariz e o último na mandíbula. Crawley caiu ao chão sem fazer o menor esforço para defender-se. Ali ficou, apoiado sobre um cotovelo enquanto cobria o nariz e choramingava de dor. Quase todos os espectadores se sentiram inclinados a aplaudir, inclusive a aclamar. Outros, particularmente as damas que tinham acompanhado ao casal de vigaristas, pareciam indignados e consternados, e pediam a gritos a qualquer que lhes prestasse atenção que avisasse ao oficial. Ninguém fez conta, talvez porque não queriam perder nem um momento do espetáculo. A audiência o olhava em espera de seu seguinte movimento, compreendeu enquanto a fúria remetia um pouco e voltava a ser consciente de onde se encontrava. Virou a cabeça e cravou a vista em Rachel, que estava a escassa distância, olhando o com o rosto pálido. Seu tio lhe rodeava os ombros com um braço. – Bem feito, sir Jonathan – o felicitou o barão. – Por Deus! Se tivesse vinte anos menos, eu mesmo o teria moído a pauladas. – Acredito que no Bath o conhecem como Nicholas Croyden – disse Alleyne à multidão, erguendo a voz para que todos pudessem ouvi-lo. – Em Bruxelas, antes da batalha do Waterloo, era Nigel Crawley, e no Chesbury Park e seus arredores, onde esteve pouco depois de voltar da Bélgica, se fazia chamar Nathan Crawford. Entretanto e com independência de onde se encontre, finge ser um clérigo entregue ao serviço da humanidade e das obras de caridade. Solicita doações para tais obras de caridade, inexistentes por certo, e depena a suas vítimas sem mais se lhe surgir a oportunidade. – Não! – gritou a dama de cabelo claro. – Não é certo. Meu irmão é o homem mais carinhoso e amável do mundo. – Vergonha deveria lhe dar! – exclamou a dama situada junto a ela, dirigindo-se ao Alleyne. – Confiaria minha fortuna e até minha vida ao prezado senhor Croyden. – A estas damas... – prosseguiu, apontando suas quatro amigas que pareciam estar desfrutando lindamente – roubou-lhes suas economias com a falsa promessa de ingressá-las em um banco londrino. – E isso fiz – protestou Crawley, tentando tirar um lenço de um bolso. – Ingressei até o último penny. – E à senhorita York roubou todo seu dinheiro – prosseguiu. – Deu-me para que o guardasse! – disse Crawley. – E depois fugiu para voltar com essas P.... com essas


damas e fazer correr toda esta fileira de mentiras. Tenho-o guardado para devolver-lhe. – São acusações muito graves, sir Jonathan – disse o general. – Talvez devesse ficar em contato com o banco de Londres onde Croyden afirma ter depositado o dinheiro. – A senhorita York confiava nele até tal ponto – continuou Alleyne – que lhe falou da fortuna em joias que seu tio custodiava e que lhe seriam entregues no dia de seu vigésimo quinto aniversário. Assim que Crawley pisou em chão inglês, dirigiu-se ao Chesbury Park, onde se congraçou com o barão Weston de modo que obteve um donativo para uma de suas obras de caridade e depois retornou ao amparo da noite para roubar as joias. Escutou-se um coro de murmúrios irados procedente da multidão. – Se descobrirmos alguma dessas joias nos aposentos do Crawley – prosseguiu, – acredito que não ficará mais remédio que aceitar que é o ladrão que lhes digo que é. Tenho a intenção de acompanhá-lo aos ditos aposentos sem mais demora. O barão Weston pigarreou. – A senhorita Crawford, ou Crawley ou Croyden, traz um broche pertencente à coleção – afirmou. A dama levou uma mão ao peito. – Isso é falso! – gritou. – Está mentindo, senhor. Minha mãe me deu de presente este broche faz vinte anos. – Irei com você, sir Jonathan – se ofereceu o general dando-se ares de importância. – Deveria haver uma autoridade presente e alheia a qualquer das partes para confirmar seus achados. E como não podemos usar o broche como prova irrefutável já que tanto lorde Weston como a senhorita Croyden afirmam ser os donos, rogo a sua senhoria que me dê uma descrição detalhada de tantas peças como possa recordar. A emoção se apropriou de novo da multidão quando a senhorita Crawley tentou escapulir sub-repticiamente, e quatro damas, com Geraldine à cabeça, jogaram-se em cima com evidentes mostra de ira e uma enxurrada de insultos... embora os mais coloridos e malsoantes saíram de lábios da senhorita Crawley. Não obstante, essas foram as últimas rabadas do espetáculo. Lorde Weston aconselhou a todo aquele que tivesse feito um donativo para alguma das obras de caridade do Crawley que reclamasse a devolução do mesmo sem perda de tempo e a aqueles que estivessem pensando em fazer um, que reconsiderassem sua decisão. Uma das damas que tinha acompanhado ao casal ao sair da igreja deixou escapar um grito e desmaiou. Outras duas afirmaram estar dispostas a defender ao pobre homem até a morte se fosse preciso. Enquanto isso, Rachel se tinha aproximado de Nigel Crawley, que ainda não se pusera de pé, talvez por temor a que alguém voltasse a atirar o de um murro. – É curioso todo o bem que pode nascer da maldade e do que parecia ser uma desgraça – lhe disse. – Graças a você e as suas maldades, senhor Crawley, descobri o verdadeiro significado da amizade, do amor e da compaixão. Espero que sua maldade e a desgraça a que agora se enfrenta acabem reportando algo bom também a você. – Uma vez dito isso, virou-se para a dama que o acompanhava. – E a você também, senhorita Crawley, embora receio muito que não será assim. Enquanto Rachel falava, Alleyne levantou o Crawley do chão sem muita dificuldade e o obrigou a atravessar


o pátio da abadia em direção à galeria porticada da entrada, onde o fez entrar em uma das carruagens que os esperavam desde que saíram da Sala da Fonte. A multidão se afastou para lhes abrir passo e a senhorita Crawley, custodiada por suas quatro guardas femininos, pôs-se a andar para a carruagem. Rachel e o barão Weston os seguiram fechando a comitiva. – É o mais emocionante que presenciamos no Bath – escutou Alleyne que um cavalheiro dizia a outro enquanto passavam junto a eles, – desde que lady Freyja Bedwyn acusasse ao marquês do Hallmere de ser um perseguidor de mulheres inocentes e indefesas no meio da Sala da Fonte. Estava você presente aquele dia? O comentário ficou gravado na mente sem saber por que, embora não tinha tempo para analisá-lo nesse momento. Estava muito ocupado empurrando ao Crawley para que entrasse na carruagem e fazer ele o mesmo, depois do qual teve que ajudar ao barão Weston e ao general a acomodar-se com eles. Enquanto isso, as seis damas subiram a outro veículo, ao que parecia dispostas a acompanhá-los ao Sydney Agrada. Rezou em silêncio para que ninguém mandasse chamar o oficial ainda.


CAPÍTULO 21

Rachel mal era capaz de olhar Nigel Crawley no rosto. Era muito humilhante dar-se conta de que durante um tempo o respeitou e o admirou o suficiente para aceitar a casar-se com ele. Como tinha sido tão ingênua? Além de ser um mentiroso e um ladrão, era um covarde de tomo e lombo. Embora fosse da mesma estatura que Jonathan e ninguém o tinha retido no pátio da abadia, nem sequer tinha tentado defender-se. E, uma vez que caiu ao chão, ficou ali choramingando. Nesse momento estava sentado em uma das cadeiras de seus aposentos, onde Jonathan o tinha deixado, com aspecto derrotado e lançando contínuos olhares pelo quarto como se estivesse procurando uma escapatória. Seria estranho que encontrasse alguma. Geraldine, Flossie e Phyllis o vigiavam com expressão triunfal enquanto Bridget fazia o mesmo com a senhorita Crawley, que estava sentada não muito longe de seu irmão. Seu único consolo, disse-se, era que também muitas outras mulheres e inclusive alguns homens tinham acreditado em suas mentiras... Claro que nenhuma tinha estado a ponto de casar-se com ele. Havia uma enorme quantidade de dinheiro em seus aposentos, assim como o cofre com as joias que tinham roubado da caixa forte da biblioteca do Chesbury Park. O tio Richard identificou todas as peças e o general Sudgen confirmou que se ajustavam à descrição que lhe tinha dado durante o trajeto até o Sydney Agrada. O general tinha tomado o comando desde que chegaram e, em sua opinião, estava desfrutando lindamente. Nesse instante estava sentado à mesa que havia no meio da saleta com papel, pena e tinta, objetos cedidos pela caseira, elaborando uma lista de tudo o que tinham descoberto e que não entrava na categoria de móveis nem de objetos pessoais dos dois culpados. A lista, entretanto, adoecia de umas quantas omissões importantes. Antes de sentar-se, o general tinha contado a quantidade exata que Flossie lhe havia dito que correspondia às economias de suas amigas e lhe tinha posto o dinheiro nas mãos com uma elegante reverencia militar. Em seguida, tinha dado à Rachel a pequena quantia que tinha deixado em mãos do Nigel Crawley quando partiu de Bruxelas com ele. Também tinha devolvido ao tio Richard a quantia que tinha doado para obras de caridade, mas seu tio a tinha recusado. Só depois disse a quão caseira mandasse chamar o oficial. Não estava convencida de que o que tinha feito o general fosse legal. Mas ninguém discutiu com ele, nem sequer os Crawley. Além disso, era muito consciente de que se esperavam a que se fizesse justiça, podiam ir-se despedindo do dinheiro. No final de contas, o general parecia ser um homem poderoso e autoritário que prevaleceria por cima de qualquer magistrado que descobrisse o que tinha feito e tivesse a temeridade de questionar sua decisão.


– Com sua permissão, Weston – disse o general quando deixou a um lado a pena -, as joias servirão de prova. O dinheiro não é prova suficiente de roubo já que seria quase impossível averiguar a quem pertence. Mas a presença das joias, sobre tudo o fato de que a suspeita usava uma delas quando foi presa, será uma prova irrefutável de que são uns malfeitores e uns descarados. Esteve a ponto de enjoar ao olhar as joias que se amontoavam no pesado cofre. Eram muitas mais do que tinha imaginado. Seu valor devia ser impressionante, certamente que sim. Nesse preciso momento lhe ocorreu algo que a levou a cruzar a saleta e plantar-se diante do Nigel Crawley. – Não tinha intenção de casar-se comigo, não é? – perguntou-lhe. – Teria procurado qualquer desculpa para esperar até ter ido ao Chesbury Park. Só queria que o conduzisse até as joias. O farsante a olhou com desdém mal dissimulado. Embora foi a senhorita Crawley quem lhe respondeu. – Casar-se com você? – perguntou com uma gargalhada desdenhosa. – Acha que porque é loira e tem uns bonitos olhos azuis é o sonho de qualquer homem? Não se casaria com você nem que fosse a última mulher da terra. Além disso, não poderia fazê-lo embora quisesse. Já está casado comigo. – Ah. – Fechou os olhos. – Graças a Deus! Bridget deu umas batidinhas, não muito suaves, no ombro da senhorita Crawley, ou melhor dizendo, à senhora Crawley ou como se chamasse a mulher. – Será melhor que feche a boca – lhe disse – e que fale quando lhe perguntarem. Nesse momento a porta se abriu de repente e o sargento Strickland entrou como se lhe levasse o demônio. – Chegou-me a mensagem – disse com a vista cravada no Geraldine – e aqui estou. De maneira que este é o malfeitor, não? – Fulminou ao Nigel Crawley com um olhar severo. – E fica sentado quando há damas presentes? – Que damas? – murmurou o dito. – Isso não esteve bem, moço – lhe recriminou ao mesmo tempo em que se aproximava mais a ele, – nem tampouco foi muito sensato. Em pé. – E como! -disse-lhe Crawley. O sargento estendeu uma de suas enormes mãos, agarrou-o pelo pescoço da jaqueta e o levantou como se não pesasse mais que um minúsculo saco de batatas. – Chamou-nos putas, Will – disse Geraldine, – no meio do pátio que há diante da Sala da Fonte. À Rachel também. E depois sir Jonathan lhe rompeu o nariz e o atirou ao chão. Estivemos a ponto de desmaiar de alegria. Jonathan estava esplêndido enquanto lhe batia. – Isso sim que foi uma insensatez, moço. – O sargento Strickland meneou a cabeça com tristeza enquanto olhava ao Nigel Crawley, que tentava tornar-se invisível. – Muito bem. Firmes. O senhor Crawley o olhou sem compreender. – Atenção! O homem ficou firme. – Muito bem, senhor – disse o sargento em direção ao Jonathan, – o que vamos fazer com ele?


– Mandamos chamar o oficial – lhe explicou ele. – As damas já recuperaram o dinheiro e também demos com as joias da senhorita York. – Muito bem feito, senhor – declarou o sargento. – Nesse caso vigiarei ao prisioneiro até que chegue o oficial enquanto que lorde Weston e você acompanham às damas de volta ao hotel para que tomem o café da manhã. Vista à frente, moço! – Ai, Will! – exclamou Geraldine. – Me dão palpitações de verte assim! Se tivesse acompanhado às tropas consigo, teria passado todo o tempo meio desmaiada e a emoção. Desde já te aviso que estou me apaixonando por você. – Deve ser você um sargento – comentou o general com manifesta aprovação, – e dos bons, se não me engano. Seria uma honra que servisse em meu batalhão... se ainda o tivesse, claro, mas faz dez anos que minha esposa me convenceu para que me retirasse. O sargento Strickland executou uma saudação impecável. – Descuide, senhor – disse. – De todas formas me licenciaram depois de perder o olho no Waterloo, mas agora sou um criado de quarto... até que me centre de novo, por dizê-lo de algum jeito. Vista à frente, moço!, e que não tenha que lhe repetir isso a não ser que queira ver-me zangado. Nigel Crawley estava de pé como um soldado em um desfile e seu aspecto era muito ridículo. Para cúmulo, tinha o nariz como um tomate. Rachel olhou ao Jonathan e descobriu que ele a estava olhando com expressão risonha e algo mais profundo nos olhos. Tinham sido algumas horas muito caóticas durante as quais apenas trocaram uma palavra ou um olhar. Mas tinha sido seu paladíno durante todo esse tempo. Embora aborrecia a violência, porque estava convencida de que as diferenças de opinião se podiam solucionar de forma pacífica, jamais esqueceria a satisfação que tinha sentido ao ver o nariz do Nigel Crawley jorrando sangue depois de que a tivesse insultado em público. Se não estivesse já apaixonada pelo Jonathan, teria caído rendida a seus pés naquele preciso momento. Entretanto, sua associação estava chegando a seu fim. Não havia nada que os retivesse a seu tio e a ela no Bath uma vez detido o senhor Crawley e recuperadas as joias. Não havia nada que impedisse ao Jonathan partir para Londres. Certamente esse seria o dia das separações. Devolveu-lhe o sorriso e sentiu que a pena lhe inundava o coração. Pouco depois chegaram dois oficiais e se produziu um alvoroço quando várias pessoas tentaram contar a história ao mesmo tempo. Entretanto, a calma retornou ao pouco tempo já que partiram para levar aos prisioneiros ante um magistrado, acompanhados do general Sudgen, do sargento Strickland e das quatro damas. Bridget ficou com o Rachel em um primeiro momento, mas ao ver que estava desejando acompanhá-los, lhe disse que se fosse. Ao fim e ao cabo, contava com seu tio para guardar as aparências. Seu tio parecia exausto de novo. Retornaram ao hotel e pediu que lhe servissem o café da manhã em seu quarto. Ela o acompanhou em todo momento, relutante a separar-se dele até assegurar-se de que estava descansando. Jonathan não foi com eles.


A única coisa que podia fazer era rezar para ter a oportunidade de despedir-se em privado. Certamente iria embora no dia seguinte... inclusive nessa mesma tarde. Seria incapaz de suportar uma despedida em público. Mas suportaria uma em privado? Seu tio dormiu uma hora depois de retornarem ao York House Hotel. Assim que se convenceu de que estava dormindo, ela ficou em pé e começou a olhar as cartas que lhe tinham enviado desde o Chesbury Park. Não havia nada mais que o retivesse em Bath. A farsa tinha chegado a seu fim assim como a caça. O ladrão que tinha causado todas as dores de cabeça de Rachel tinha sido prendido e também haviam devolvido a suas amigas o dinheiro do que ela se sentia responsável. Não podia reclamar a glória do final feliz, mas mesmo assim era agradável saber que Rachel ia levar a vida que deveria ter estado vivendo desde a morte de seu pai. Era a senhorita York do Chesbury Park, uma rica herdeira e, o melhor de tudo, tinha a um tio que a queria como se fosse sua própria filha. Não havia nada que o atasse. Nenhuma desculpa de última hora. Na noite seguinte poderia estar em Londres. E um dia depois poderia ter encontrado já a alguém que o reconhecesse ou que lhe desse alguma informação sobre sua identidade. Era uma ideia alegre e estimulante. Sem dúvida alguma quando visse um rosto que lhe fosse familiar, o reconheceria na hora e sua memória voltaria para ele sem mais. Entretanto, não se sentia nem estimulado nem alegre enquanto contemplava através da janela como a repentina chuva molhava a rua. De fato, sentia-se muito deprimido. Rachel já não o necessitava. Não o queria. Estava com seu tio, como devia ser, e com o tempo se casaria com... Como lhe havia dito? Sim, com o tempo se casaria com o amor de sua vida. Daria com semelhante homem. Como não ia fazê-lo? Um enxame de cavalheiros iria a ela como moscas ao mel. Poderia escolher a quem quisesse. Decidiu que partiria assim que deixasse de chover. Se Strickland voltava logo, inclusive poderiam partir de Bath nesse mesmo dia em lugar de esperar o dia seguinte... Desde que o sargento quisesse acompanhá-lo, é obvio. Talvez quisesse ficar com Geraldine. Por onde começaria com suas pesquisas? Perguntou-se. E que pistas tinha reunido até o momento para dar com sua identidade? Não tinha tido mais sonhos desde que sonhara com a fonte nem tinha tido a sensação de reconhecer nenhum gesto nem situação desde que se atirara de cabeça ao lago. Ao menos, não acreditava ter tido nada disso. E entretanto... Tinha sonhado a noite anterior? Havia algo recente, algo que tinha acontecido ou que tinha sonhado. Mas do que se tratava? Franziu o cenho enquanto se concentrava. Esperava que sua memória a curto prazo não começasse também a lhe jogar males passados.


Afastou-se da janela ao cabo de vários minutos, irritado por não conseguir nada. Ia sair, chovesse ou não. Tornaria-se louco se continuasse ali encerrado. Entretanto, alguém bateu a sua porta e o distraiu. – Adiante – disse, esperando que fosse Strickland ou uma das garçonetes que não sabia que se encontrava ali. Era Rachel. Viu-a entrar no aposento e fechar a porta atrás de si. – Rachel. – Sorriu-lhe. – Espero que os acontecimentos desta manhã não tenham trazido um esforço demasiado para o coração de seu tio nem lhe tenham causado mal -estar. Deve estar muito contente de ter recuperado tudo e de que esse casal de vadios esteja bem guardados. Não voltarão a roubar a ninguém mais durante muitíssimo tempo. – A verdade é que sim. – O problema era que estava muito pálida, disse-se. Além disso, não lhe devolveu o sorriso enquanto se aproximava dele com as mãos estendidas, embora o olhasse fixamente no rosto. – Obrigada, Alleyne. Obrigada por tudo. A princípio, quando a tocou, achou que a sensação estranha que experimentou se devia ao frio de suas mãos. Mas também enjoou. – Como disse? – Olhou-a sem compreender. – Lorde Alleyne Bedwyn – repetiu ela em voz baixa. Segurou-lhe as mãos como se estivesse afogando e ela fosse seu salva-vidas. – Como disse? – repetiu. – Lembra do nome? – perguntou ela. Não, não recordo. A sua mente não soava. Entretanto, todo seu corpo reagia ao escutá-lo com algo muito parecido ao pânico. – Onde ouviu esse nome? – Nem sequer era consciente de que estava sussurrando. – Recebi uma carta de meus antigos vizinhos de Londres – lhe explicou ela. – Me reenviaram de Chesbury Park com o correio do tio Richard. O único cavalheiro desaparecido do que se tem notícia é lorde Alleyne Bedwyn, que morreu na batalha do Waterloo, embora não encontrassem seu corpo. Minha amiga soube porque estava perto do Saint George em Hanover Square quando acabou a missa que o duque do Bewcastle organizou em memória de seu irmão e viu a multidão sair da igreja. Alleyne Bedwyn. Bedwyn... Bedwyn. "É o mais emocionante que presenciamos no Bath desde que lady Freyja Bedwyn acusasse ao marquês do Hallmere de ser um perseguidor de mulheres inocentes e indefesas em meio da Sala da Fonte." Isso era o que lhe rondava pela cabeça uns minutos antes... Freyja Bedwyn. – É você? – quis saber Rachel. Voltou a olhá-la nos olhos sem vê-la. Sabia que o era... sabia que era Alleyne Bedwyn. Mas só seu corpo era consciente dessa verdade. Sua mente continuava em branco. – Sim – respondeu. – Sou Alleyne Bedwyn.


– Alleyne. – Seus olhos se encheram de lágrimas e mordeu o lábio superior. – Combina muito mais que Jonathan. Alleyne Bedwyn. Freyja Bedwyn. O duque do Bewcastle... Seu irmão. Só eram palavras para sua cabeça e um pânico paralisante para seu corpo. – Deve escrever ao duque do Bewcastle imediatamente – prosseguiu Rachel com um sorriso radiante. – Imagina quão feliz o fará a notícia, Jon... Alleyne. Irei procurar papel e pena. Deve... – Não! – recusou com brusquidão ao mesmo tempo em que lhe soltava as mãos. Separou-se dela para aproximar-se da cama e, lhe dando as costas, entreteve-se em endireitar a vela que descansava no candelabro da mesinha de noite. – Terá que lhe dar a notícia – insistiu ela. – Deixa que eu... – Não! – Virou-se para ela e a fulminou com o olhar. – Me deixe sozinho. Saia daqui. Rachel o olhou com os olhos arregalados. – Disse que saia! – Apontou a porta. – Me deixe sozinho. Viu-a dar meia volta a toda pressa e correr para a porta. Mas não a abriu. Ficou diante dela um momento com a cabeça encurvada. – Alleyne, não me afaste – lhe pediu. – Por favor... Por favor, não o faça. Em seguida, viu-a virar o pescoço para olhá-lo com expressão atormentada. E soube que se ela saísse por essa porta, ele se derrubaria. Estendeu os braços para ela e se reuniram no meio do quarto, onde se abraçaram com força. – Não me deixe – lhe suplicou. – Não me deixe. – Não o farei. – Levantou o rosto de seu ombro, onde a tinha enterrado. – Jamais o deixarei. Beijou-a, segurando-a contra seu corpo como se não quisesse deixá-la partir. E quando deixou de beijá-la, enterrou o rosto no pescoço e pôs-se a chorar. Teria se afastado, horrorizado e morto de calor, mas ela o apertou com força enquanto lhe sussurrava palavras de consolo e ele continuou chorando para expulsar toda a pena que levava dentro, com dilaceradores soluços até que ficou exausto. – Bom – disse com voz trêmula ao mesmo tempo em que se afastava um pouco para utilizar o lenço, – Já sabe que classe de pessoa é lorde Alleyne Bedwyn. – Sempre o soube – afirmou. – Só que não sabia seu nome até hoje. É um cavalheiro que me agrada e a quem admiro e respeito. Um cavalheiro por quem sinto um grande afeto. Guardou o lenço em um bolso e depois passou os dedos pelo cabelo. – Albergava a esperança de que se recuperasse uma pequena lembrança – disse, – todas outras chegariam de roldão. Mas meus piores temores se confirmaram. Esta manhã no pátio da abadia alguém pronunciou o nome de


lady Freyja Bedwyn e senti como se me tivesse atravessado um raio, embora nesse momento estivesse muito ocupado para analisar a sensação. Quando pronunciou o nome de lorde Alleyne Bedwyn, soube na hora que esse era meu nome. E reconheci o nome do duque do Bewcastle. Mas o véu que oculta minhas lembranças segue aí, Rachel. Freyja... que relação nos une? Sei que estamos aparentados. Já sei quem sou. Sei que ao menos tenho um irmão mais velho. Mas é como se só fora meu corpo o que reagisse ante a verdade, como se minhas vísceras soubessem quem sou mas minha cabeça não se inteirasse ainda. Sou incapaz de recordar. Agradeceu o silêncio de Rachel, o fato de que não tentasse consolá-lo nem lhe oferecer esperanças. Limitou-se a ficar junto a ele, com uma mão em seu braço e a cabeça apoiada contra seu ombro. Levou-a até a cama e estiveram deitados nela um bom tempo. Tinha um braço sob a cabeça de Rachel e o outro, sobre os olhos. Rachel estava de lado, encolhida contra ele, com a cabeça em seu ombro e um braço sobre sua cintura. Sentia um imenso alívio. Era Rachel. Seu amor. Sua âncora nesse turbulento mar de águas insondáveis. – Suponho que não muita gente pode dizer que sobreviveu a seu próprio funeral – disse. – E devo isso a você. – Beijou-a na cabeça. Ela se limitou a aproximar-se mais. E então voltou a ver a fonte. Mas agora a viu diante de uma enorme mansão com uma estranha embora não desagradável mescla de estilos arquitetônicos que abrangiam vários séculos. – Minha casa – disse. – É minha casa. – Não recordava como se chamava, mas podia vê-la. E descrevê-la à Rachel... Ao menos o exterior. Não recordava o interior. – Já recordará tudo – assegurou ela. – Sei que o fará, Alleyne. Alleyne... Alleyne. Eu gosto de seu nome. – Todos temos nomes estranhos. – Franziu o cenho e logo meneou a cabeça. – Acredito que foi nossa mãe quem nos pôs os nomes. Era uma leitora insaciável de romances antigos e suponho que detestava a ideia de nos chamar George, Charles ou William... Ou Jonathan. Rachel lhe beijou a orelha. O nervosismo se apalpava no ambiente essa noite, quando se reuniram para o jantar. Nigel Crawley e sua esposa teriam que comparecer ante o magistrado e as damas estavam ansiosas por contar os detalhes que perderam ao retornar ao hotel. Inclusive o sargento Strickland se procurou uma desculpa para estar presente na sala e ocupava uma respeitosa posição atrás da cadeira de Alleyne, embora de vez em quando cedia à tentação de contribuir à conversa com seus extensos comentários. As damas também estavam encantadas de ter recuperado o dinheiro, coisa que tinham acreditado impossível. Já podiam considerar-se oficialmente retiradas de sua profissão, um anúncio que se celebrou com um brinde secundado por todos os pressentes. Por fim podiam retomar seu sonho e decidir em que parte da Inglaterra queriam assentar-se para ir em busca de um edifício adequado onde abrir sua casa de hóspedes. No dia seguinte partiriam a Londres para organizar os detalhes e fazer planos definitivos. Rachel as deixou falar até que esgotaram o assunto de conversa. Depois olhou a todos os presentes e levou as mãos ao peito.


– Tenho algo que lhes dizer – informou. Nem sequer o tio Richard sabia ainda. Passou-se toda a tarde dormindo. Ela mesma tinha estado toda a tarde no quarto de Alleyne. Inclusive tinha conseguido dormir. Igual a ele, por incrível que parecesse. – Ah, sim? – replicou Bridget. – Nós já falamos o bastante, verdade? Mas não me negará que foi um dia muito emocionante... – O que é, Rache? – perguntou Geraldine. – Quero lhes apresentar a alguém – respondeu ela. – Alguém a quem morrem por conhecer a muito tempo. – pôs-se a rir. Alleyne a estava olhando com um brilho intenso, quase febril, nos olhos. Apontou-o com a mão. – Tenho a honra de lhes apresentar a lorde Alleyne Bedwyn – anunciou, – irmão do duque do Bewcastle. Flossie soltou um grito de alegria bastante vulgar. – Que Deus o benza, senhor – disse o sargento Strickland. – Sempre soube que era um ricaço de verdade. – Bewcastle? – repetiu o tio Richard, observando ao Alleyne com atenção. – Do Lindsey Hall no Hampshire? A propriedade não fica muito longe do Chesbury Park. Teria que me ter dado conta da semelhança. – Mãe do amor formoso! – exclamou Phyllis. – Estou jantando com o irmão de um duque de verdade. Bridget, se não se importar, segure-me enquanto desmaio. – Já dizia eu que esse nariz era aristocrático – comentou Geraldine. – Disse ou não disse? – Disse-o, Gerry – respondeu Flossie. – E tinha razão. – Conhece o duque do Bewcastle e a sua família, tio Richard? – quis saber ela. – Conheço-o de passagem – respondeu seu tio, – mas não ao resto da família. Se não me engano, há vários irmãos e irmãs, mas não conheço seus nomes. Claro que lorde Alleyne lhe poderá dizer isso. – Ainda não recuperei a memória, senhor – assinalou Alleyne. – Só retalhos. Produziu-se um breve silêncio enquanto outros assimilavam esse fato, mas depois ficaram a falar ao mesmo tempo, a fazer perguntas e sugestões, a oferecer palavras de consolo. Todos queriam saber como tinha descoberto lorde Alleyne sua identidade, se ainda não recordava tudo. Foi Flossie quem sugeriu que fizessem outro brinde. – Por lorde Alleyne Bedwyn! – exclamaram ao uníssono. Partiria o dia seguinte para o Lindsey Hall. Isso disse em resposta à pergunta que lhe fez Geraldine. A pergunta e a correspondente resposta provocaram um novo silêncio. Percorreu com o olhar aos ocupantes da sala e descobriu que todos tinham deixado de sorrir. Possivelmente não fosse a única em sentir-se deprimida. – Sentirei falta da cozinha do Chesbury Park – disse Phyllis – e também sentirei falta de cozinhar para sua senhoria. Acredito que estes foram os dias mais felizes de minha vida. Não, não acredito. Sei.


– Ainda não dei uma resposta ao senhor Drummond – recordou Flossie com um suspiro. – Não me pareceu bem lhe dizer que sim quando é um cavalheiro e eu sou o que sou. Mas sabia a verdade sobre mim e disse que não lhe importava. E sinto falta dele uma barbaridade. – Eu não acabei de organizar a casa como Deus manda – afirmou Geraldine, – nem tampouco terminei o inventário. Faria um bom trabalho como governanta se soubesse ler e escrever. – Eu poderia ensiná-la, Gerry – se ofereceu Bridget. – Mas isso terá que esperar. Será melhor que vão a Londres sem mim. Acho que tenho que ficar com Rachel. Continua necessitando de uma dama de companhia que se faça de acompanhante e não será nenhum sacrifício voltar com ela ao Chesbury Park. Fiz amigos ali. As outras três damas a olharam com inveja enquanto o tio Richard pigarreava. – Necessito desesperadamente de uma governanta e de uma cozinheira – anunciou. – E receio muito que se meu administrador não encontrar logo uma esposa decente, a solidão o fará renunciar a seu cargo. E eu não gostaria de nada que o fizesse. É um bom homem. E é evidente que Rachel vai necessitar de uma dama de companhia. Embora o último que quero é destroçar seus sonhos, se consentissem em adiá-los ou em esquecer-se deles por completo, estaria encantado de sugerir que retornássemos todos juntos ao Chesbury Park. A gritaria foi instantânea, já que as quatro começaram a falar de uma vez. Era quase impossível distinguir os comentários de cada uma, mas ao que parecia todas estavam de acordo, Phyllis ficou em pé, aproximou-se da cabeceira da mesa e, depois de abraçar ao tio Richard, deu-lhe um beijo na face. As gargalhadas generalizadas foram muito mais alegres que as de antes. – Suponho, senhora Leavey – disse o tio Richard, – que pelo bem de meus vizinhos será melhor que matemos ao coronel Leavey em Paris. E também será melhor que morra pobre, o que explicaria que se veja obrigada a aceitar o posto de cozinheira em minha casa. – E também temos que inventar uma história para Rachel – lhes recordou Geraldine. – Suponho que teremos que dizer que a abandonou seu terrível e mulherengo marido. A menos que nos ocorra algum modo de lhe devolver o celibato para que os cavalheiros possam cortejá-la. Alguma sugestão? Mas a ninguém lhe ocorreu nada. E o abatimento voltou a apoderar-se de todos. Alleyne iria a Lindsey Hall na manhã seguinte.


CAPÍTULO 22

Alleyne não se despediu em particular de Rachel. Poderia havê-lo feito, talvez a primeira hora, se tivesse batido na porta do dormitório que compartilhava com Bridget. Estava convencido de que esta teria encontrado alguma desculpa para deixá-los a sós. Em troca, desceu ao refeitório público do hotel para tomar o café da manhã um pouco mais cedo do que o habitual e depois saiu para dar um passeio até que percebeu o bulício que ocasionaram as carruagens que levariam o grupo de volta ao Chesbury Park. Na noite anterior o barão tinha decidido retornar sem perda de tempo. Supunha que estaria cheio de felicidade pelo fato de voltar com sua sobrinha, embora a companhia das outras quatro damas também devia ser motivo de alegria para ele. A vida no Chesbury Park seria muito mais alegre do que tinha sido apenas um mês antes. Talvez tivesse surgido algo bom de seu desconjurado plano depois de tudo, pensou, embora esperava ter aprendido a lição de que as mentiras e os enganos não eram o melhor meio para conseguir um objetivo. Tinha decidido despedir-se dos outros antes de empreender sua própria viagem. Outra tática dilatória? Perguntou-se. Não, antes do meio-dia estaria de caminho... para o Lindsey Hall, no Hampshire. A noite anterior tinha recordado que atrás da porta principal havia um magnífico vestíbulo medieval com uma galeria superior e uma persiana esculpida, com uma enorme mesa central de carvalho e com as paredes adornadas por armas e pendões. Geraldine foi a primeira em sair. Strickland ia com ela, levando uma bolsa que devia ser da dama. O sargento mostrava uma atitude estoica e ela parecia a protagonista de uma tragédia clássica. As outras três damas saíram atrás deles e, por último, fizeram-no Rachel e Weston. Deveria ter ido à Sala da Fonte ou, melhor ainda, a dar um longo passeio, decidiu. Despedida. – Elas eram espantosas. Não gostavam de ninguém, embora pareciam um mal necessário. Weston se despediu com um apertão de mãos enquanto lhe desejava um bom dia e uma boa viagem, depois do qual subiu à carruagem assistido por seu criado de quarto. Bridget o abraçou antes de seguir os passos do barão. Depois chegou o turno do Flossie e do Phyllis. Geraldine se encontrava com o sargento junto à segunda carruagem, na qual subiu depois que o fizeram as outras duas. E então chegou a vez de Rachel. Não o abraçou. Nem tampouco se apressou a reunir-se com seu tio e com Bridget na carruagem. Ficou um momento olhando-o, pálida, séria e sem lágrimas nos olhos, até que ele a olhou por sua vez e se arrependeu de não ter ido despedir no seu quarto.


Entretanto, quando seus olhares se encontraram, viu-a esboçar um radiante sorriso ao mesmo tempo em que se aproximava e estendia as mãos. – Alleyne – lhe disse, – adeus. Que tenha uma boa viagem. E não tenha medo. Assim que chegue ao Lindsey Hall e veja o duque do Bewcastle e ao resto de sua família, recordará tudo. Levará um pouco de tempo, mas o conseguirá. Adeus. Um discurso alegre, educado... claramente ensaiado. Segurou suas mãos e se inclinou sobre elas. Levou-as aos lábios e beijou-as, primeiro uma e depois a outra. E de repente esqueceu por que deixava que o abandonasse desse modo. Claro que estava o detalhe de que não tinha nada que lhe oferecer, de que era possível que nem sequer fosse um homem livre e de que ela, depois da vida que tinha levado esses vinte e dois anos, merecia a oportunidade de ser a senhorita York do Chesbury Park, livre para desfrutar da corte de um amplo número de cavalheiros. Era lógico que os embargasse a emoção e ficassem um pouco sentimentais em um momento como esse. Tinham passado muitas coisas juntos durante os dois últimos meses. Significavam muito um para o outro. – Seja feliz, Rachel – lhe disse. – É a única coisa que lhe desejo. E assim lhe soltou uma mão para ajudá-la a subir à carruagem e a observou arrumar as saias antes de fechar a portinhola, depois do que se afastou para que o veículo ficasse em marcha. Ergueu uma mão a modo de despedida e sorriu. A partida das duas carruagens, seguidas por uma terceira que transportava a bagagem, provocou um enorme estrépito até que a comitiva dobrou a esquina e desapareceu da vista. Os ocupantes dos veículos se despediram agitando as mãos do interior, salvo Rachel, que se manteve apoiada no assento e nem sequer olhou para fora. Geraldine tinha baixado a janela estava agitando um lenço com os olhos cravados em Strickland. Estava chorando. Maldição! Eu mesmo estou a ponto de chorar, pensou. Manteve a vista afastada de seu criado de quarto. Estava apaixonado por Rachel. Amava-a! – Acabarei de fazer sua bagagem, senhor – lhe disse o sargento depois de soltar um fundo suspiro. – É impossível não querê-las, não é? Têm uns corações que não lhes cabem no peito, sem importar como ganhassem a vida. Claro que não me importa. Jamais menosprezei a essas damas como fazem alguns, inclusive os que utilizam seus serviços. Todo mundo tem direito a ganhar o pão. E não posso dizer que ganhar o salário matando gente seja melhor que o que elas faziam. Ordenarei que tragam a carruagem dentro de uma hora, parece-lhe bem? – Sim – respondeu. – Não, melhor ao meio-dia. Preciso dar um passeio para me limpar um pouco. Melhor espera a minha volta. Ao fim e ao cabo, não temos pressa, não é? Nem sequer retornou ao hotel. Enfiou-se por Milsom Street e se dirigiu ao centro da cidade. Dali atravessou o pátio da abadia, deixou esta atrás e seguiu para o rio. Esteve um momento com a vista cravada em suas águas, mas depois seguiu caminhando pela borda até chegar à Ponte do Pulteney.


Nada mais que cruzá-lo, seguiu pelo Great Pulteney Street a passo rápido em direção aos jardins do Sydney. A princípio seus pensamentos se centraram em Rachel. Perguntou-se onde estaria exatamente em cada momento, se estaria conversando alegremente com seu tio e com Bridget, se sentiria falta dele... se sentiria vazia sem ele. E depois, sem prévio aviso, recordou ao Morgan. Sua irmã. A mulher que o esperava na Porta do Namur. Tinha encontrado ela atendendo aos soldados feridos quando saiu de Bruxelas e sua máxima prioridade era retornar por ela para levá-la de volta à segurança da Inglaterra. A princípio foi incapaz de recordar que fazia Morgan em Bruxelas e por que estava na Porta do Namur. Além disso, tampouco sabia por que partira da cidade em lugar de partir com ela para a Inglaterra sem demora. Mas então recordou que tinha dezoito anos, que tinha sido apresentada em sociedade nessa mesma primavera em Londres e que tinha ido a Bruxelas acompanhada por uma amiga e os pais desta. Não recordava seus nomes, mas que o pai ostentava o título de conde. Justo nesse momento recordou a imagem do rosto do Morgan e deixou de caminhar para fechar os olhos. Um rosto ovalado, com olhos escuros (como o seus) e cabelo moreno. Um rosto lindo. Era a beldade dos Bedwyn. A única que não tinha herdado o nariz da família. Quantos eram? Freyja devia ser uma. Devia ser sua irmã. O que era o que tinha escutado no dia anterior no pátio da abadia? "É o mais emocionante que presenciamos no Bath desde que lady Freyja Bedwyn acusasse ao marquês do Hallmere de ser um perseguidor de mulheres inocentes e indefesas em meio da Sala da Fonte." Freyja Bedwyn. O marquês do Hallmere. Hallmere. E nesse instante recordou que estavam casados. Ele mesmo tinha assistido à bodas, celebrada não fazia muito. No verão anterior, possivelmente? E Freyja o tinha acusado de ser um perseguidor de mulheres inocentes e indefesas no meio da Sala da Fonte? Estalou a língua, surpreendendo-se a si mesmo. Sim. Típico da Freyja. A boa do Free, baixa, apaixonada e disposta a utilizar sua afiada língua ou seus punhos, ou ambas as coisas de uma vez, a menor provocação. Recordou-a de repente. Possuía uma estranha beleza com sua ingovernável cabeleira loira, suas sobrancelhas escuras e seu proeminente nariz. Passou horas sentado nos jardins do Sydney, observando os esquilos sem lhes prestar muita atenção, saudando com uma breve inclinação de cabeça a outros passeantes e reunindo pouco a pouco algumas peças desordenadas de sua vida. Ainda tinha lacunas imensas, mas o pânico começava a ceder. O fato de ter recordado certas coisas era garantia de que não tinha perdido a memória por completo e para sempre. O resto chegaria com o tempo. Talvez tudo. Haveria alguma esposa oculta em alguma escura curva dessas lembranças que ainda não tinha recuperado? Onde estaria Rachel? Quando pôr fim ficou em pé para empreender o caminho de volta ao George Street e aos os York House Hotel, percebeu com surpresa e graças à posição do sol que já tinha caído a tarde. Aonde se tinha ido o dia?


Era muito tarde para partir para o Hampshire. Esperaria o dia seguinte. Em realidade, não havia pressa. Tinham celebrado um serviço religioso em sua lembrança em Londres. Um dia mais não lhes suporia muita diferença. Seria incapaz de enfrentar a eles sem reconhecê-los. Recordou os momentos que passou no dia anterior na cama, com Rachel encolhida a seu lado, enquanto assimilava a ideia de que era lorde Alleyne Bedwyn. Sua ausência lhe provocava uma dor quase real. Era difícil que em algum momento de sua vida se houvesse sentido tão só como nesse instante. Rachel estava há cinco dias em Chesbury Park. Em seu lar. Essa devia ser a palavra mais maravilhosa do dicionário, pensou. Porque esse era seu lar. Poderia viver nele durante o resto de sua vida se o desejasse. Seria seu lar até depois de que a vida do tio Richard chegasse a seu fim. Entretanto, esperava que o dito acontecimento se atrasasse muito. A viagem desde o Bath o tinha esgotado, embora não necessitara tanto tempo para recuperar-se como no trajeto de ida. Era um homem feliz, compreendeu. E a queria. Seu lar tinha voltado para a vida de repente. Geraldine tinha sido nomeada governanta oficial e se lançou totalmente ao trabalho com uma enorme demonstração de energia. O resto da criadagem parecia apreciá-la muito, sobre tudo os homens. Bridget já lhe estava ensinando a ler. Phyllis quase não saía da cozinha e não demorou para descobrir os pratos favoritos de seu tio para poder lhe dar o gosto cada poucos dias. O senhor Drummond tinha anunciado seu compromisso com o Flossie e tinha obtido o beneplácito de seu senhor. Bridget tinha assumido o cuidado do canteiro da fachada principal da mansão, que estava em plena floração apesar de já estarem no fim de agosto. E ela se mantinha ocupada lendo, costurando, bordando e fazendo companhia a seu tio. Passou toda uma tarde chuvosa na galeria dos retratos, contemplando de novo a semelhança de seus antepassados maternos e recordando o parentesco exato que os unia. Passou dez minutos observando o rosto e a figura da menina que tinha sido sua mãe. O resto das tardes esteve passeando pela propriedade, aproveitando o bom tempo, algumas vezes acompanhada por Bridget e Flossie e outras sozinha. Também passeou a cavalo seguida de um cavalariço a certa distância, e comprovou com orgulho que era capaz de fazê-lo sozinha. Inclusive utilizou o barco em uma ocasião, embora nem se aproximou da ilha. O tio Richard estava decidido a se recuperar o suficiente para acompanhar a na primavera a Londres e apresentá-la rainha, depois do que fariam um baile para apresentá-la em sociedade e desfrutariam dos diferentes eventos da temporada. Tinha chegado à conclusão de que gostaria, apesar de ser um pouco mais velha, converter-se em uma debutante. Não estava disposta a levar uma vida de reclusão pelo simples fato de ter o coração partido. Claro que essa descrição era ridícula e melodramática. Não tinha o coração partido. Só dolorido, noite e dia. Ocupava o mesmo quarto que antes. Embora tivesse estado em uma só ocasião no dormitório do Alleyne, na noite que dormiu com ele, o silêncio e o vazio do aposento lhe pareciam opressivos.


Nem sequer o tinha pisado ainda; mas isso não impedia que sentisse sua presença a todas as horas. Tomara houvesse uma porta em sua memória que pudesse fechar para manter afastadas essas lembranças. Porque pensava nele constantemente. Perguntava-se que tal lhe teria ido em sua volta ao Lindsey Hall e tentava imaginar a cena. Como o teria recebido o duque do Bewcastle? Estaria acompanhado de algum outro membro de sua família? Teria recordado deles ao vê-los? Continuaria lutando por recuperar seu passado? Teria descoberto que o aguardava uma esposa? Cedo ou tarde teria notícias suas, dado que se moviam nos mesmos círculos sociais. Talvez inclusive voltasse a vê-lo; talvez na primavera. Talvez estivesse em Londres. Embora esperasse que não fosse assim. Possivelmente ao cabo de dois ou três anos pudesse vê-lo de novo e sentir somente uma onda de afeto e alegria. Mas a primavera chegaria muito em breve. Muito logo. Tinha saído a passear pelo perímetro do lago, ao longo de uma alameda que os jardineiros tinham capinado e destruído pouco antes. Em uma curva do caminho tinha descoberto um lugar sombreado onde sentar-se, já que o dia era bastante quente. De modo que ali estava, aspirando o fragrante perfume da vegetação estival, observando a beleza dessa zona da propriedade e contemplando o lago com os olhos entrecerrados para protegê-los do reflexo do sol. Desde esse lugar vislumbrava parte do telhado de ardósia da cabana que havia na ilha. Ver a cabana a entristeceu e prejudicou seu bom humor. Decidiu retornar à mansão cortando em diagonal pelo prado. Estava a meio caminho quando se deteve e levou uma mão à testa para protegê-los olhos do sol. As portas principais estavam abertas, algo habitual desde que retornaram, e havia uma pessoa plantada no degrau superior. Não era seu tio. Algum cavalheiro que tinha ido de visita? Ninguém tinha ido vê-los desde que retornaram do Bath, de modo que não se viram na necessidade de ter que oferecer uma explicação aos vizinhos a respeito de sua mudança de nome e de status. Nesse preciso momento desceu a mão e a embargou uma poderosa emoção que lhe provocou um nó na garganta enquanto erguia as saias e punha-se a correr. – Alleyne! – gritou com o coração transbordante de alegria e sem perguntar-se sequer que fazia ali. Ele saiu a seu encontro, ergueu-a nos braços e deu duas voltas completas com ela no ar antes de deixá-la no chão e separar-se um pouco, o bastante para que se desse conta de que estava Sorrindo e de que a alegria iluminava seu olhar. – Posso supor que se alegra de ver-me? – escutou-o perguntar. – É uma alegria para a vista, Rachel, embora eu gostasse de ser capaz de lhe dizer isso de outro modo em lugar de recorrer a esse clichê gasto. Senti falta de você. Sem saber como, encontrou-se olhando para a janela do dormitório de seu tio por cima do ombro de Alleyne. Estava-os observando sentado em sua poltrona. Alleyne percebeu e também olhou enquanto ela se afastava um pouco. – Não estava quando cheguei – disse. – estive falando com seu tio.


– Mas o que faz aqui? – quis saber. Uma vez passada a incontida alegria inicial se arrependia de ter voltado a vê-lo. O sofrimento que tinha padecido esses últimos cinco dias reapareceria quando partisse. – Como é que sua família permitiu que a abandonasse tão cedo? foi um reencontro feliz, Alleyne? Reconheceu a todos? Recordou-o tudo? Aproveitou cada palavra que pronunciava para deleitar-se com sua imagem, como se o tivesse esquecido e tivesse que gravar todos os detalhes em sua memória para o futuro. Não levava chapéu. A leve brisa lhe alvoroçava o cabelo e erguia a rebelde mecha que, como de costume, caía-lhe sobre a fronte. – Não fui vê-los – respondeu. – Como? – perguntou-lhe, assombrada. – Sou o maior covarde do mundo, Rache – afirmou. – Fiquei no Bath, me aferrando a qualquer desculpa para demorar minha partida uma hora mais ou outro dia mais. Não podia enfrentar a eles até ter recordado tudo ou, ao menos, até ter recordado o suficiente para não ficar ali plantado como um idiota depois de ter batido na porta do Lindsey Hall perguntando se havia alguém que me reconhecesse. Inclinou a cabeça e o puxou pelas mãos de modo instintivo. – E recuperou a memória? – perguntou-lhe. – O bastante para que não me entre o pânico – respondeu ele. – Cada dia recordo algo novo. Já não tenho nenhuma desculpa para demorar a viagem ao Lindsey Hall. E agora estou desejando ir. É quase o que mais desejo na vida. – E, em troca, veio ao Chesbury Park. – Olhou-o com expressão interrogativa. – Tremem-me os joelhos cada vez que penso em voltar – confessou, Sorrindo de novo, – em me plantar diante do Bewcastle ou de qualquer outro membro de minha família e lhes anunciar que seu irmão retornou de entre os mortos. Acredito que uma das piores experiências que sofri durante os últimos dias foi descobrir que tinham celebrado um serviço em minha memória, que tinham celebrado uma espécie de funeral, só que sem corpo. Saber que me deram por morto quando estava vivo... Não, não sei te explicar o que se sente, Rachel. Apertou-lhe as mãos com força. – Não posso ir se você não for comigo – disse. – Não me diga que não soou pusilânime... O antigo Alleyne Bedwyn jamais haveria dito algo assim nem se haveria sentido intimidado até esse ponto. Era um homem arrogante, despreocupado, independente e resistente. Mudei muito desde aquele tempo. Não posso fazer isto sem você, Rachel. Virá comigo? – Ao Lindsey Hall? – perguntou-lhe com os olhos como pratos. – Se não por outros motivos – respondeu, – ao menos porque você me salvou a vida, Rache. Bewcastle quererá agradecer-lhe. Se não me acompanhar, virá ao Chesbury Park, asseguro-lhe, e essa sim que será uma experiência aterradora para você. Sua arrogância é legendária. Disse-o com um sorriso, mas percebeu que não era alegre muito menos. Necessitava-a com desespero. – Irei com você – aceitou – se o tio Richard me der permissão.


– Já o tem – lhe assegurou Alleyne. – E Bridget aceitou vir também. Mas só se você aceitar me acompanhar por sua própria vontade. Posso fazê-lo só se não ficar outro remédio, Rachel. Faltaria mais. Mas preferiria fazê-lo consigo. Observou como levava uma de suas mãos aos lábios para beijá-la e lhe sorriu. – Há uma coisa que deveria saber, Rachel – seguiu. – Não estou casado. Não há nenhuma esposa e não tenho nenhum filho. Não há nenhuma noiva, nem estava apaixonado. Afastou o olhar dele e sentiu como começava a nascer uma dolorosa esperança. Por que havia voltado? Por que era tão importante para ele que o acompanhasse ao Lindsey Hall? Só porque lhe tinha salvado a vida? – Quero que me conte tudo o que tem feito estes últimos cinco dias – lhe disse Alleyne. – Tem certeza que foram só cinco? Pareceram-me uma eternidade. E quero lhe contar tudo o que recordei. Quero lhe falar de mim. Damos um passeio? Assentiu com a cabeça e aceitou o braço que lhe oferecia enquanto se perguntava se o sol lhe teria afetado a mente de algum modo. Era real todo aquilo? Claro que o braço ao que se aferrava era de carne e osso, e também percebia o calor que irradiava seu corpo. Se quisesse, poderia fechar os olhos e apoiar a cabeça em seu ombro. Era real e estava ali. E não estava casado! Caminharam sem rumo fixo. Rodearam a casa e atravessaram o prado, cuja erva tinham cortado desde aquela manhã em que saíram a cavalgar pela primeira vez, embora as margaridas, os ranúnculos e os trevos florescessem de novo em qualquer parte. Falou da volta ao Chesbury Park e também dos últimos dias porque seu interesse parecia genuíno. Enquanto o fazia, esses olhos escuros se mantiveram cravados em seu rosto e escutou suas gargalhadas quando lhe contou seus passeios a cavalo e em barco. – Espero que esteja tão orgulhosa de você mesma como o estou eu – lhe disse. – Converteu-se em uma intrépida dama rural. Certamente que estava orgulhosa de seus lucros. – Mas ainda não aperfeiçoei a arte de me pôr em pé sobre um cavalo enquanto faço girar uns quantos aros – confessou. – Recorda que o cavalo tem que estar galopando – declarou ele, fazendo com que ambos explodissem em gargalhadas. Entretanto, foi Alleyne quem levou o peso da conversa, porque havia muitas coisas que ela queria saber e outras muitas coisas que ele estava ansioso por lhe contar. O duque do Bewcastle era um homem poderoso por cujas veias corria a arrogância aristocrática desde que nasceu. Regia seu mundo como um déspota, embora não precisava recorrer à violência para fazer-se obedecer; bastava-lhe arquear uma sobrancelha e erguer seu monóculo. Chamava-se Wulfric. O segundo irmão era Aidan e até há um ano tinha sido coronel de cavalaria. Vendeu o cargo quando contraiu matrimônio no ano anterior e se estabeleceu na propriedade rural de sua esposa com seus dois filhos


adotivos. Depois havia Rannulf, a quem estavam acostumados a chamar Ralf, que parecia um guerreiro viking e que estava casado com uma ruiva espantosa (essas foram suas palavras exatas). Freyja, a dama a que fizeram referência no Bath, era a mais velha de suas duas irmãs, uma mulher de forte temperamento, casada com o marquês do Hallmere que por alguma misteriosa razão era capaz de lutar com ela sem que parecesse arder em desejos de estrangulá-la dia sim e dia também. Por último havia Morgan, a caçula da família, que só tinha dezoito anos. – Ela é a dama que me estava esperando na Porta do Namur – lhe explicou. – A dama do sonho. Sua dama de companhia não a levou da cidade apesar de que o perigo era iminente e ainda por cima lhe permitiram sair a atender aos feridos no dia que se travou a batalha do Waterloo. Tinha prometido ao Bewcastle que lhe daria uma olhada, embora não tivesse ido a Bruxelas sob minha tutela. Estava desesperado por retornar a procurá-la. – Qual era seu regimento? – quis saber. – Ah! – exclamou. – Deveria ter começado por aí. Não sou militar. Ia ser diplomata. Era um agregado da embaixada de La Haja, às ordens de sir Charles Stuart. Tinham-me enviado ao fronte com uma carta para o duque do Wellington e retornava a Bruxelas com sua resposta. Essa era a ditosa carta que não deixava de aparecer em meus sonhos. Mudei tanto, Rachel... Seria incapaz de retomar essa vida, embora pusessem a embaixada a meus pés. Tinha demorado cinco dias em recordar tudo isso e, tal como lhe havia dito antes, ainda ficavam algumas lacunas que o intrigavam e que prosseguiam obrigando-o a esforçar-se por recordar. – Mas o que mais sinto falta são os sentimentos – lhe confessou, – por chamá-los de algum jeito. Reconheço todas essas coisas sobre minha família, minha vida e sobre mim mesmo, mas com desapego, como se esses detalhes pertencessem à vida de outra pessoa. Sinto-me desligado, como se não tivesse nada que ver comigo. E quase me envergonha retornar, porque tenho a sensação de que deveria me desculpar por não ter morrido. Segurou-lhe a mão que descansava em seu braço e a partir desse momento seguiram caminhando com as mãos entrelaçadas. – Note – lhe disse. – chegamos ao limite do arvoredo e não deixei você colocar palavra. A incapacidade de manter uma conversa educada deixa a um cavalheiro em muito mau lugar. – Isto não é uma conversa educada, Alleyne – o repreendeu. – Sou sua amiga e o aprecio. – Sério? – Olhou-a com um sorriso. – sério, Rache? Meu comportamento foi um pouco egoísta, não lhe parece? – Mas por uma boa razão – assegurou. – Embora acredite que lhe parece isso porque passou cinco dias dando voltas a seus pensamentos e a suas lembranças sem nada mais que fazer. Antes tinha passado todo o tempo concentrado em me ajudar, embora não escolhemos a melhor maneira que digamos. E depois se converteu em meu paladíno enfrentando a Nigel Crawley. Às vezes acredito que deveria me remoer a consciência quando me emociono ao recordar que o atirou ao chão de um murro e começou a lhe sangrar o nariz. Mas me passa logo. – Vamos ao arroio? – sugeriu.


Fazia calor sob as árvores, mas a posição do sol deixava em sombra a rocha plana em que se sentaram aquele dia. Voltaram a acomodar-se nela. Alleyne deitado de lado e ela com as pernas dobradas enquanto abraçava os joelhos. – Sou poderoso e rico por nascimento – continuou ele. – Coisa que não tem por que ser boa, embora suponha que é preferível a nascer no seio de uma família pobre como os ratos. Possuo uma fortuna que me permite ser independente. Não tinha por que procurar emprego porque não me fazia falta trabalhar. Mas era um homem inquieto, sem objetivos na vida, negligente e cínico a quem não importava nada nem ninguém. Recordo-o muito bem. Mas também recordo que havia um vazio em minha vida. Pensei em me dedicar à política mas acabei me decantando por uma carreira diplomática. Suponho que me pareceu mais emocionante. – Mas não a retomará – aventurou. – Não – confirmou, meneando a cabeça. – Sou da terra. Agora sei. É estranho... Lembro que Ralf também descobriu o ano passado quando esteve de visita em casa de nossa avó, onde agora vive. Valha-me Deus! Acabo de recordá-la. A minha avó. A mãe de minha mãe. Vive no Leicestershire. É uma mulher diminuta e de aspecto frágil. Aidan também descobriu seu vínculo com a terra quando decidiu abandonar o exército e viver com o Eve no campo. Possivelmente quando nos despojamos das travas impostas pelo dinheiro e o poder, isso é o que somos os Bedwyn. Uma família vinculada à terra, aos prazeres simples da vida. E ao amor. Viu que tinha o olhar cravado na água e os olhos entrecerrados. Nesse momento se perguntou se algum dia, quando estivesse sozinha, se sentaria ali mesmo e recordaria esse instante. Ou se... percebeu que a estava olhando. – Isso, certamente que sim – reiterou, embora não o disse como se acabasse de descobri-lo. Parecia que tivesse meditado a respeito com antecedência, mas ao mesmo tempo acabasse de aplicar-lhe a si mesmo. – É o amor o que marca a diferença. Poderia dizer-se que perder a memória foi o melhor que pôde me acontecer, porque me desvinculou por completo de meu passado e me brindou a oportunidade de começar de novo, de voltar a cometer os mesmos enganos para aprender a lição correta nesta ocasião. Mas só pude aprendê-la porque existe uma nova dimensão em minha vida, uma dimensão que nunca tinha experimentado com antecedência, uma que tem suposto uma grande diferença. Sem afastar os olhos dele, apoiou o rosto nos joelhos. – Sempre foi uma tradição familiar – seguiu Alleyne – que nos casemos tarde, mas que quando o fizermos seja por amor. Espera-se que um Bedwyn seja fiel a seu cônjuge, até no caso dos mais descarados. O ano passado vi como acontecia ao Aidan, Ralf e Freyja, mas não terminei por acreditar nisso. Não as tinha todas comigo. Em realidade não o entendia. E agora sim. Abraçou-se as pernas com força quando viu que esse sorriso se alongava. – Sei que está desfrutando da liberdade pela primeira vez em sua vida, Rachel – afirmou. – E que pela primeira vez está ocupando a posição que pertence por direito. Não me deve nada, mas bem justamente o contrário. E embora o amor se centre em uma pessoa em concreto, naquela da qual estamos apaixonados, não é um sentimento possessivo nem implica dependência. Não quero que se sinta apanhada, nem que se deixe levar pela compaixão. Se tiver que viver sem você, o farei. Irei sozinho ao Lindsey Hall se isso for o que deseja. Ah, já


apareceu a covinha! Disse algo engraçado? – Não – respondeu. – Mas fala muitíssimo, Alleyne. Deve ter lhe contagiado o sargento Strickland. Seguiu olhando-o enquanto ele ria a gargalhadas, surpreendida de que um homem tão bonito e encantador que tinha levado uma vida de poder e privilégios, que obtinha todos os caprichos que desejava muito, a cujos pés caíam rendidas todas as damas com um simples sorriso, sentisse-se tão inseguro a seu lado para dar tantos rodeios. – Sim – disse. – Sim? – repetiu Alleyne, arqueando as sobrancelhas com esse gesto arrogante tão dele. – Sim, me casarei com você – esclareceu. – E como agora me diga que não era aí aonde queria chegar com tudo esse bate-papo, me atirarei ao arroio e chegarei até o lago para me afundar no esquecimento. Era isso o que queria me perguntar? Olhou-o com expressão horrorizada e com as faces acesas como se o sol lhe estivesse dando na cabeça. Alleyne riu de novo, endireitou-se e, depois de tomar o rosto entre as mãos, beijou-a. – Não – respondeu. – Mas não é uma má ideia, não é verdade? Sua resposta lhe fez dar um grito ao mesmo tempo em que o afastava com um empurrão. Ele a segurou de novo, mas dessa vez pelo queixo, e voltou a beijá-la. – De fato – prosseguiu, – é uma genialidade, Rache. Quer se casar comigo, meu amor? Porque isso é o que é. É minha vida, a nova vida que lavrei, e embora possa viver sem ti, prefiro não fazê-lo. Quer se casar comigo? Em lugar de responder, beijou-o nos lábios. – Isso é um sim, Rache? – Sim – respondeu. Viu-o afastar-se e sorrir, mas nessa ocasião não havia nem pingo de malicia em sua expressão. O que havia nas profundidades desses olhos a deixou sem fôlego. Ergueu uma mão, que lhe tremia sem razão aparente, e a colocou em uma de suas faces. – Amo-a – confessou. – Se tivesse que fazê-lo, poderia levar uma vida produtiva e feliz aqui no Chesbury Park, só salvo pela companhia de meu tio e de minhas amigas. Mas preferiria que você vivesse comigo, meu amor. Trocaram um olhar transbordante de assombro e um tanto risonho. – Estive falando com seu tio antes de sair para buscá-la – disse Alleyne. – As proclamas estarão prontas no próximo domingo e inventaremos algum conto para os vizinhos. Deixaremos que Strickland e as damas improvisem uma explicação muito emocionante e rocambolesca. Mas falta um mês até que nos casemos e possa te levar a tálamo nupcial. É capaz de esperar tanto? Negou com a cabeça enquanto mordia o lábio inferior. – Boa garota – replicou ele, lhe colocando uma mão na nuca. – Eu tampouco.


Beijou-a de novo e puxou-a enquanto se deitava na morna superfície da rocha. Provavelmente não fosse o leito mais fofo do mundo, mas entregues como estavam nos prazeres sensuais, não repararam em nenhum desconforto. Entretanto, não foi um momento irrefletido. Ela era muito consciente de que poucas horas antes tinha estado convencendo-se de que poderia chegar a sentir-se satisfeita sem ele. De que alguns anos possivelmente pudesse vê-lo sem sentir essa dor que a embargava. E também era muito consciente do calor, da agitação da água e dos gorjeios dos pássaros. Fizeram amor com paixão, frenesi e desejo. Depois, Alleyne lhe passou um braço sob a cabeça e descansaram o um junto ao outro, acalorados, ofegantes e relaxados, contemplando as copas das árvores e sorrindo de vez em quando. – Como soube que estava vivo? – perguntou-lhe. – Toquei-a – respondeu. – Toquei a face e a notei morna. E depois lhe toquei o pescoço e encontrei o pulso. – Deu-me a vida – lhe assegurou. – Uma vida nova. Já o disse desde o começo, não é verdade que sim? Que tinha morrido e estava no céu, onde me aguardava um anjo loiro. – Mas essa foi à segunda versão – lhe recordou ela. – Na primeira afirmava ter descoberto que o céu era um bordel. Alleyne soltou uma gargalhada enquanto virava para colocar-se sobre ela e voltar a deixá-la sem fôlego com seus beijos.


CAPÍTULO 23

Alleyne tinha decidido que o melhor seria chegar pela manhã ao Lindsey Hall. Era mais provável que Bewcastle se encontrasse em casa a essa hora... se estivesse em casa, é claro. Mas como estavam no fim de agosto, seria estranho que estivesse em Londres. Passaram a noite em uma estalagem a vários quilômetros da propriedade porque não queria que o reconhecessem, e reprenderam o caminho novamente depois do café da manhã. Rachel e ele, porque Bridget ficou na estalagem. Já estava bem entrada a manhã desse ensolarado dia quando a carruagem se aproximou da mansão. Reconheceu o lugar assim que o veículo entrou na reta avenida de entrada ladeada de olmos qual soldados em um desfile. Aproximou o rosto à janela para ver a mansão ao longe, diante da qual estava o jardim circular com a fonte no centro. Tomara não tivesse tomado o café da manhã, porque a comida não lhe tinha sentado muito bem. Embora poderia limitar-se a dar meia volta e sair correndo para não voltar nunca, pensou. Essa relutância a voltar para o lar, a plantar-se diante do Bewcastle era absurda. Era absurdo sentir-se na obrigação de seguir morto porque celebraram um funeral em sua lembrança. Deveria haver escrito ao Bewcastle antes de nada, tal como Rachel quis que fizesse no Bath. Entretanto, nesse momento sentiu a cálida mão de Rachel na sua e se virou para lhe sorrir. Ela se manteve em silêncio, bendita fosse. Limitou-se a olhá-lo com tanto amor nos olhos que se tranquilizou na hora. Sua antiga vida se abateu sobre ele (a carruagem estava rodeando a fonte), mas o acompanhava sua nova vida... e nada voltaria a ser igual. Nada nem ninguém seria mais importante que Rachel. Desceu de um salto assim que a carruagem se deteve e o cocheiro abriu a portinhola. Virou-se, ajudou Rachel apear-se e a puxou pelo braço. Não foi preciso que batesse na enorme porta de dupla porque em seguida se abriu e apareceu o mordomo do Bewcastle. O homem se afastou para fazer uma reverência formal com algo parecido a um sorriso no rosto. E então o olhou no rosto. O sorriso desapareceu ao ficou boquiaberto e muito pálido. – Bom dia, Fleming – o saudou. – Está Bewcastle em casa? Fleming não levava quinze anos como mordomo do Bewcastle em balde. Repôs-se da surpresa com uma rapidez admirável. Enquanto isso, ele ajudou ao Rachel a subir os degraus e a convidou a entrar. – Neste momento não se encontra em casa – respondeu Fleming.


Ficou plantado assim que pôs um pé no interior. O vestíbulo medieval, uma de suas primeiras lembranças, estava preparado para celebrar um banquete. Os criados transportavam tirando pratos, colocando flores, endireitando cadeiras... mais de um ficou pasmado olhando-o até que Fleming os repreendeu com um gesto e retomaram seus afazeres imediatamente. – Sua excelência está... – começou o mordomo. Interrompeu-o com um gesto da mão. – Obrigado, Fleming – disse. – Voltará logo? – Sim, milorde – respondeu. Estavam a ponto de celebrar um acontecimento importante com grande pompa. Na mansão havia uma sala de jantar formal. O vestíbulo só se utilizava para os eventos mais incomuns e festivos. O último foi as bodas de Freyja. Um casamento? O do Bewcastle? Entretanto, não pensava tomar o caminho fácil e perguntar ao Fleming. Ficou onde estava, olhando a seu redor, mais agradecido que nunca pelo silencioso consolo de ter Rachel a seu lado, agarrada em seu braço. Acreditavam-no morto. Tinham celebrado uma espécie de funeral em sua memória. E depois a vida tinha seguido seu curso. Esse dia, apenas dois meses e meio depois do Waterloo, tinha lugar um acontecimento bastante importante para celebrá-lo muito bem. Perguntou-se se sentia doído. Como era possível que a vida seguisse como se ele alguma vez tivesse existido? Claro que era impossível que a vida tivesse detido seu curso durante mais de dois meses. Não o tinha feito em seu caso. Sua vida tinha continuado; de fato, tinha a impressão de ter vivido mais, de ter amadurecido mais ao longo desses dois meses do que o tinha feito nos vinte e seis anos de vida. Tinha encontrado Rachel. Tinha encontrado a satisfação, a felicidade e tinha lançado raízes. Tinha encontrado o amor. Olhou-a. – É grandioso – disse ela. – Não tenho palavras. Abriu a boca para falar, mas nesse momento escutaram algo a pesar do bulício que reinava no vestíbulo... O ruído dos cascos de cavalos no caminho e o som das rodas de uma carruagem. Fechou os olhos um instante. – Ficarei aqui – disse ela. – Saia você sozinho, Alleyne. Precisa fazê-lo sozinho. Depois o recordará como um dos dias mais felizes de sua vida. Coisa que lhe parecia pouco provável porque continuava com a sensação de estar a ponto de vomitar e já tinham passado várias horas do café da manhã. Entretanto, sabia que Rachel tinha razão. Tinha que fazê-lo sozinho.


Saiu ao terraço. A carruagem era um cabriolé ocupado por duas pessoas, um homem e uma mulher. Percebeu que estavam abraçados e beijando-se, alheios a qualquer um que os observasse da mansão, ao mesmo tempo em que via as fitas de cores e as botas velhas atadas à parte traseira do veículo. Era uma carruagem adornada para um casamento. A do Bewcastle? Entretanto, quando a carruagem tomou a curva da fonte e o casal se separou, deu-se conta de que o homem não era Bewcastle. Era... Valha-me Deus! Pensou. Era o conde do Rosthorn! O homem que tinha organizado o jantar campestre no bosque do Soignes que tinha comentado com o Rachel. O homem que tinha estado revoando ao redor de Morgan com escassa discrição. As lembranças o assaltaram de repente e desapareceram com a mesma rapidez. Porque só tinha olhos para a mulher, para a noiva... Morgan, muito elegante de branco e lavanda. Era incapaz de pensar. Mal podia respirar. Morgan o olhou com expressão radiante e risonha quando o cabriolé se deteve... Momento no qual o sorriso desapareceu, ficou pálida e ficou em pé com dificuldade. – Alleyne – murmurou. Ele tinha tido algumas semanas para fazer ideia. Entretanto, duvidava muito que a impressão que sentia não fosse tão forte como a de sua irmã. Separou os braços e Morgan se lançou para eles sem abrir a portinhola do cabriolé. Estreitou-a com força um bom momento. Nem sequer tinha deixado que pusesse os pés no chão. – Alleyne, Alleyne. – Sussurrava seu nome uma e outra vez em lugar de gritá-lo, como se não confiasse no que seus sentidos lhe transmitiam. – Morg – disse quando pôr fim a deixou no chão. – Não podia perder seu casamento, não é verdade? Bem, pelo menos o banquete. Assim se casou com Rosthorn... O conde desceu da carruagem de um modo mais convencional, mas Morgan continuava presa a ele e o olhava no rosto como se fosse incapaz de deixar de fazê-lo. – Alleyne – repetiu em voz alta. – Alleyne. Talvez necessitasse de uns minutos mais para recuperar-se e dizer algo mais que seu nome. Mas os noivos não tiravam muita vantagem à comitiva nupcial. Todo um desfile de carruagens avançava pela avenida. O primeiro já estava rodeando a fonte para deter-se no lugar onde o tinha feito o cabriolé, que já tinha desaparecido. Tudo ia sair bem, pensou. A desconfiança, o desapego, a desconexão com suas lembranças... Tudo tinha desaparecido assim que abraçou Morgan. Tinha retornado ao lar onde crescera e, por uma estranha coincidência, tinha-o feito durante um alegre acontecimento familiar; um acontecimento no qual todos estariam presentes. Olhou com certa ansiedade em direção à carruagem que se deteve e viu sua avó com Ralf e Judith, com quem também viajava Freyja e Hallmere. Por estranho que parecesse e apesar de que tanto Freyja como sua avó olharam com ternura ao Morgan, ninguém reparou nele. Ralf desceu da carruagem de um salto e se virou para


ajudar a sua avó, mas Morgan o chamou. Seu irmão a olhou por cima do ombro com um sorriso deslumbrante... e ficou gelado assim como acontecera ao Morgan pouco antes. – Meu deus! – exclamou. – meu Deus! Alleyne! E depois de deixar que sua avó se arrumasse sozinha, cruzou a distância que os separava e se jogou sobre ele com um grito para lhe dar um abraço que o esmagou. Produziu-se um verdadeiro escândalo e muita confusão, já que o estranho comportamento de Rannulf alertou a todo mundo e o homem a quem abraçava com tanto entusiasmo se converteu no centro de atenção. Também houve muitos abraços, exclamações, perguntas e alguma ou outra lágrima. Abraçou a sua avó com muito cuidado. Estava mais frágil que nunca, pensou enquanto lhe dava uns tapinhas na face com uma mão ossuda sem dar crédito ao que via. – Querido – disse – está vivo. Só Freyja se manteve à margem do alvoroço, embora outros se afastassem para lhe deixar passagem. Estava olhando com altivez, mas sua palidez era evidente. Aproximou-se caminhando a grandes passadas, de modo que estendeu os braços para recebê-la; mas em lugar de abraçá-lo, jogou o braço direito para trás e lhe atirou um bom murro no queixo. – Onde esteve? – exigiu saber. – Onde esteve? – Jogou-se sobre ele, com a cabeça encurvada, e o abraçou com tanta força que o deixou sem respiração. – vou fazê-lo em pedaços com minhas próprias mãos. Juro isso. – Free – lhe disse, ao mesmo tempo em que movia a mandíbula, – já sei que está de brincadeira. E embora o dissesse a sério, não a deixaria. Hallmere me protegerá. Eve e Aidan chegaram de repente com os meninos na segunda carruagem, e os dois pequenos se aproximaram correndo e gritando enquanto Eve o olhava sem mover-se, com as mãos sobre a boca e os olhos arregalados. Aidan seguiu a seus filhos imediatamente. – Alleyne, Por Deus, está vivo! – exclamou, declarando o evidente ao mesmo tempo em que o abraçava. Não acreditava ter recebido tantos abraços em toda a vida. Pôs-se a rir e ergueu as mãos para tentar sossegar a chuva de perguntas. – Depois – lhes disse. – Deixe-me desfrutar um pouco mais de vê-los todos juntos e me deem uns minutos para me recuperar do murro da Freyja. Esse seu braço continua sendo letal, Free. Viu o tio e à tia Rochester desembarcando de uma carruagem com outras duas damas a quem não conhecia, e a surpresa que mudou o altivo e aristocrático rosto de sua tia foi quase cômica. Onde estava Bewcastle? E então o viu. Estava no terraço, um pouco afastado do resto, e sua presença era tão poderosa que os outros pareceram perceber e se separaram dele ao mesmo tempo em que deixavam de falar. Ainda havia barulho, é claro, provocado pelos cascos dos cavalos, pelas rodas das carruagens. As vozes, a água da fonte... Mas em seus ouvidos não havia mais que um silêncio absoluto. Bewcastle já o tinha visto. Esses olhos cinza e penetrantes de expressão inescrutável o olhavam fixamente. Viu-o aproximar a mão para o cabo do monóculo de ouro e pedras preciosas que sempre levava quando se vestia


de gala e uma vez que o agarrou, ergueu-o com esse gesto tão habitual, e o deixou a meio caminho do olho. Porque pôs-se a andar pelo terraço com uma rapidez inusitada e não se deteve até que o teve abraçado com força sem mediar palavra. Um abraço que se prolongou todo um minuto e durante o qual Alleyne apoiou a cabeça no ombro de seu irmão e sentiu que pôr fim estava a salvo. Foi um momento extraordinário. Mal era um menino quando seu pai morreu, e Wulfric só contava com dezessete anos. Jamais o tinha considerado uma figura paterna. De fato, em muitas ocasiões lhe incomodava a autoridade que seu irmão exercia sobre eles fazendo demonstração de uma inquebrável severidade, além de uma aparente insensibilidade e de uma evidente falta de senso de humor. Sempre tinha acreditado que seu irmão mais velho era frio, insensível e totalmente autossuficiente. Um bloco de gelo. E, entretanto, foi nos braços de Wulf onde experimentou as boas-vindas finalmente. Por fim se sentia total e completamente querido. Foi um momento muito extraordinário, sem dúvida alguma. Tentou conter as lágrimas, porque se sentiu envergonhado de repente. Menos mal que não tinha cedido ao constrangedor impulso de voltar a chorar, porque Bewcastle se separou dele e voltou a lançar mão do monóculo. Talvez ele também estivesse envergonhado depois de ter protagonizado semelhante cena em público. Entretanto, tinha recuperado sua habitual atitude, altiva e desapaixonada. – Alleyne – lhe disse, – não me cabe a menor dúvida de que está a ponto de nos explicar esta prolongada ausência. Alleyne sorriu e depois soltou uma gargalhada. – Quando tiverem algumas horas livres – replicou enquanto os olhava a todos... a sua família, e aos conhecidos que continuavam chegando junto com outros convidados que não conhecia. – Porque parece que minha chegada roubou protagonismo à noiva, algo imperdoável. Mas devo lhes pedir que me concedam um pouco mais de tempo. Olhou para a porta aberta da mansão e viu Rachel do outro lado, entre as sombras. Sorriu-lhe enquanto se aproximava dela e lhe estendia a mão. Sabia que estava aterrada, mas mostrou uma aparência sossegada quando aceitou a mão e se deixou guiar para os outros. Estava linda, pensou, embora o vestido de viagem verde claro e o chapeuzinho combinando não podiam competir com os ornamentos dos convidados à bodas. – Tenho a honra de lhes apresentar Rachel York – disse ao mesmo tempo em que se virava de novo para sua família, – sobrinha e herdeira do barão Weston do Chesbury Park, no Wiltshire, e também minha noiva. Produziu-se um novo alvoroço enquanto Rachel sorria, radiante e ruborizada. Entretanto e como era de esperar, foi Bewcastle quem teve a última palavra. – Senhorita York – a saudou enquanto executava uma rígida reverência, – conheço seu tio. Bem-vinda ao Lindsey Hall. Não me cabe a menor dúvida de que Alleyne nos dará de presente inumeráveis histórias dentro de


algumas horas e nos próximos dias. Mas esta manhã temos um casamento para celebrar, convidados para atender e um banquete que nos aguarda. O conde e a condessa do Rosthorn abrirão a comitiva para a casa. O conde e a condessa de... Estava se referindo à Morgan que, depois de ter se reposto de vê-lo retornar de entre os mortos, olhava com um sorriso radiante a Rosthorn... quem por sua vez a olhou com evidente adoração enquanto lhe oferecia o braço. Wulfe fez uma reverência à Rachel e fez o mesmo. Rachel tinha razão, pensou Alleyne quando sua avó aceitou seu braço e Freyja se aferrou ao outro como se não quisesse soltá-lo jamais. Sem dúvida alguma recordaria esse dia como um dos mais felizes de sua vida. Mas o devia à Rachel. Sem ela, teria adiado esse momento até que tivesse oitenta anos pelo menos. Algumas das árvores que rodeavam o lago começavam a amarelar. Rachel as olhou através da janela de seu dormitório. Setembro tinha sido muito chuvoso e frio, mas no dia anterior havia tornado a brilhar o sol e depois parecia que o verão tinha retornado para celebrar a ocasião. O dia de suas bodas teria sido glorioso embora chovesse ou trovejasse, mas supunha que todas as noivas sonhavam com que as recebesse um dia azul e límpido quando saíssem da igreja pelo braço de seu marido. Estava pronta para ir à igreja. Mas ainda era cedo. Geraldine tinha aparecido em seu closet ao raiar da alvorada, seguida de dois criados com a banheira e uma fila de criadas com baldes de água quente. Geraldine tinha insistido em ficar com ela para lhe esfregar as costas e depois ajudá-la a colocar o vestido bordado de cetim marfim que seu tio tinha insistido em que encomendasse especialmente para a ocasião, junto com um assombroso enxoval. Entre risadas, havia dito à Geraldine que não estava bem visto que a governanta fizesse as vezes de criada. Mas sua amiga tinha continuado obstinada. – Rache – declarou, vou ser a esposa de um criado de quarto antes do Natal, assim isso me converte mais ou menos em uma camareira por matrimônio, não? – A risada a impediu de continuar falando. – Mas você me ouviu? Uma camareira por matrimônio! Eu... uma camareira! Ninguém lhe arruma o cabelo como eu, e hoje tem que estar melhor que nunca para que lorde Alleyne possa admirá-lo o dia todo e depois soltá-lo quando forem para a cama. Suponho que não necessita que lhe dê conselhos sobre esse assunto embora não tenha mãe, não é verdade? As outras damas foram aparecendo ao longo da manhã, embora Phyllis não se demorasse muito porque havia hóspedes e tinha insistido em preparar o menu do banquete com suas próprias mãos. – Tudo sairá bem – lhe assegurou antes de ir-se – se consigo tirar da cabeça que vou dar de comer a um duque de verdade. Vi-o. parece-se muito a lorde Alleyne, mas dá a impressão de que se alguém lhe pusesse um cubinho de gelo na mão, ficaria ali toda a vida sem derreter-se. – Quando fui ao Lindsey Hall depois de que lorde Alleyne me mandasse chamar, saudou-me com uma


reverência – comentou Bridget com um suspiro – e me perguntou que tal estava. Estive a ponto de cair redonda ao chão! Claro que não sabia quem sou de verdade. Flossie lhe colocou o véu sobre o toucado depois que Geraldine assegurasse ao penteado e se afastou um pouco para ver o efeito. – É a noiva mais bonita que vi na vida, Rachel – afirmou, – e eu estava bastante bonita há duas semanas. Quando chegou o momento de partirem para a igreja, voltou a abraçar a todas. Ela não podia descer tão cedo. Alleyne tinha passado a noite no Chesbury Park, embora não em seu antigo quarto, é claro. Toda sua família estava ali. Não queria encontrar-se com ninguém antes de chegar à igreja. Fazê-lo poderia lhe trazer má sorte. As carruagens chegaram nesse momento ao terraço, de modo que se afastou da janela antes que algum dos passageiros saísse da casa. Tinha passado quase uma semana inteira no Lindsey Hall antes de retornar com Bridget para preparar o casamento. A princípio se sentiu muito desconfortável, e isso era um eufemismo como uma catedral. Os Bedwyn gotejavam altivez aristocrática. Eram uma família que não andava com rodeios e que se expressava gritando. Entretanto, acabou por acostumar-se a eles. Acabaram lhe parecendo agradáveis... e inclusive lhes tinha carinho. Até mesmo ao duque do Bewcastle. Era muito poderoso, despótico e reservado até o ponto de parecer frio. Nunca ria nem sorria. Mas tinha visto seu rosto durante o longo abraço que deu a Alleyne no terraço. Possivelmente fora a única pessoa que o tinha visto, porque naquele momento o duque estava de costas a todos outros. E tinha sido testemunha do profundo amor que expressava seu rosto. Depois disso lhe professava um carinho especial. Ao longo da semana tinha chegado a conhecê-los todos e a tinham aceito sem nenhum tipo de reserva aparente. É obvio, pensou, teriam aceito a qualquer um nas mesmas circunstâncias. Tinham recuperado a seu irmão depois de passar dois meses acreditando que tinha morrido enquanto levava a resposta do duque do Wellington ao embaixador britânico em Bruxelas. Tinham encontrado a carta no bosque. Alleyne tinha deixado bem claro quase desde o começo que lhe tinha salvado a vida. Escutou vozes no piso de baixo, seguidas de várias batidas de porta e do ruído das carruagens ao ficar em marcha. Ao cabo de uns minutos alguém bateu a sua porta e quando lhe deu permissão para que entrasse descobriu que era o sargento Strickland. – Todos se foram à igreja – informou – e o barão a espera embaixo. Valha-me Deus! Está como uma rosa, embora não seja apropriado que o eu diga porque só sou um humilde criado de quarto. – Pode dizê-lo quanto quiser, sargento – corrigiu-o com um sorriso ao mesmo tempo em que atravessava o aposento movida pelo impulso de lhe jogar os braços no pescoço e lhe dar um beijo na face. – Estarei eternamente agradecida a você. Você lhe salvou a vida. Não teria podido fazê-lo sem você.


Obrigada, meu amigo. O sargento a olhou com um sorriso deslumbrante, embora também parecia muito constrangido. E apenas uns minutos depois, ia na carruagem junto a seu tio, com cãibras nas mãos, o coração batendo forte e a cabeça nas nuvens. Nem sequer nesse momento... Não, especialmente nesse momento, era incapaz de acreditar em como se sentia feliz. Tinha ido ao bosque para roubar aos mortos. Tinha aceitado participar de uma farsa cheia de enganos e mentiras. Tinham tomado Bath ao assalto, Alleyne tinha recuperado a memória... e a tinha deixado. E ao final... Ao final tinha acabado correndo para ele enquanto retornava do lago, para seus braços, para a felicidade que a embargava nesses momentos. Seu tio lhe pegou uma mão e lhe deu um apertão. – Suponho que não posso dizer que sou o homem mais feliz da terra, Rachel – disse, – porque seria muito estranho tirar essa honra ao noivo. Mas insisto em me declarar o segundo mais feliz. Virou a cabeça para lhe sorrir. Não tinha o melhor aspecto do mundo nem tampouco parecia muito são. Mas tinha melhorado enormemente desde a tarde que chegaram ao Chesbury Park. Tanto que quase era impossível acreditar que se tratava do mesmo homem. Congregou-se uma multidão de aldeãos às portas da igreja. E havia vários vizinhos entre os convidados que aguardavam no interior. As explicações tinham sido um pouco difíceis. Tinham-lhes explicado sobre a perda de memória e que tinham escolhido o nome de sir Jonathan Smith porque decidiram que era o melhor até que lorde Alleyne Bedwyn se recordasse de sua verdadeira identidade. Portanto, como poderiam surgir dúvidas a respeito da validez de seu matrimônio, já que o noivo tinha assinado com um nome incorreto e como as duas famílias perderam a primeira cerimônia, tinham tomado a decisão de repetir seus votos. Ninguém tinha perguntado a respeito da propriedade em Northumberland, de modo que não tinham tido que inventar nada a respeito. Em um abrir e fechar de olhos esteve na igreja, onde a esperava Bridget para lhe arrumar o vestido e assegurar-se de que seu toucado não tivesse sofrido a menor imperfeição durante o trajeto da casa. – Já está preparada, querida – disse ao mesmo tempo em que se afastava com um sorriso e um brilho suspeito nos olhos. – Vá e seja feliz. Alguém devia ter avisado ao organista. A música ressoou na igreja enquanto ela avançava pelo corredor pelo braço de seu tio. Todos os bancos estavam ocupados e todos os presentes se viraram para vê-la avançar. Mas não foi consciente de seus olhares, não os via. Só foi consciente de Alleyne, que se encontrava no extremo do corredor ao lado do Rannulf. Não estava Sorrindo. Mas tinha os olhos cravados nela e a olhava com inegável adoração. Vestia-se de negro, marfim e branco e estava muito bonito. Em seguida chegou até ele e se colocou a seu lado. E Alleyne lhe sorriu. Piscou para conter as lágrimas enquanto lhe devolvia o sorriso.


– Queridos irmãos... – disse o senhor Crowell. Teria sido pouco menos que um milagre que os Bedwyn não tivessem saído da igreja enquanto assinavam o registro para preparar aos noivos uma recepção como mereciam. Alleyne se pôs-se a rir quando saiu da igreja com Rachel em seu braço e os viu todos. O cabriolé estava adornado de forma similar ao que utilizaram Morgan e Rosthorn no mês anterior, embora acreditou ver duas chaleiras velhas atadas à parte posterior. Sua família se alinhava a ambos os lados do caminho, todos armados com pétalas de flores e folhas de distintas cores. Eve e Aidan, Davy e Becky, Freyja e Joshua, Judith, Morgan e Gervase... e Rannulf que passou por seu lado como um vento para ocupar seu lugar. – Muito temo, meu amor – disse, – que enfrentamos ao que os Bedwyn consideram divertido. – Suponho que você fez o mesmo em seus casamentos, não? – Menos no do Morgan – admitiu – e no do Aidan, mas só porque se casou com uma licença especial e nos inteiramos muito depois. – Grande desmancha-prazeres! – disse ela e pôs-se a rir, e lhe pareceu tão linda que se fez um nó na garganta. – eu adoro a ideia que têm os Bedwyn de diversão – dito o que, agarrou seu braço, levantou o queixo e pôs-se a andar muito devagar pelo caminho junto a ele, rindo-se à medida que os deixavam atrás e seu delicioso vestido de noiva ficava coberto com todas as cores do arco íris. – Deram-se conta? – perguntou em voz alta. – Me casei com uma mulher digna do sobrenome Bedwyn. Não se conforma em agachar a cabeça e pôr-se a correr. Ajudou-a a subir à carruagem antes de segui-la. Enquanto colocava as saias sem sacudiras pétalas e as folhas de cima, ele ficou de pé para jogar um punhado de moedas aos meninos do povoado, que correram para as agarrar entre gritos de júbilo. Depois se sentou a seu lado e lhe pegou a mão, entrelaçando seus dedos quando a carruagem ficou em marcha e empreendeu o caminho para o Chesbury Park. Fez caso omisso dos vivas e assobios que se erguiam atrás deles, embora percebeu o alegre repicar dos sinos da igreja... e do tinido das duas chaleiras que arrastavam à sua passagem. – Bem, meu amor – disse. – Bem, meu amor. Puseram-se a rir ao mesmo tempo e lhe deu um apertão na mão. – Quem ia dizer que acabaria agradecendo que me disparassem na coxa, que caísse do cavalo e que perdesse a memória? – perguntou-lhe. – Quem ia dizer que o que parecia um desastre acabaria convertendo-se no melhor que me passou na vida? – E quem ia dizer que eu acabaria agradecendo esse espantoso trabalho como dama de companhia e o desastroso compromisso com um malfeitor que enganou a minhas amigas e a mim? Quem ia dizer que minha incursão no bosque em busca de objetos de valor com os que financiar sua perseguição me conduziria até você? – perguntou ela por sua vez. – Jamais voltarei a dizer que não acredito no destino – lhe assegurou, – nem negarei que temos um caminho


traçado na vida que nos conduzirá à felicidade sempre que o sigamos sem vacilar. Rachel ergueu o rosto e lhe deu um beijo fugaz nos lábios. – Está me ouvindo? – perguntou-lhe. – Alleyne Bedwyn dissertando sobre a vida quando o destino nos pôs em bandeja estes minutos a sós antes de nos ver imersos no banquete. Faltam séculos para esta noite, mas temos uns minutos. Soltou-lhe a mão para lhe jogar o braço pelos ombros e apertá-la contra ele. – Já lhe disse antes que fala muito – replicou ela. – Insubordinação! – exclamou ao mesmo tempo em que lhe esfregava o nariz com o seu. – Agora é minha esposa. É lady Alleyne Bedwyn e tem que se mostrar respeitosa e obediente. – Sim, milorde – aceitou com expressão risonha. – Pois me beije – lhe ordenou. – Sim, milorde. Ela explodiu em gargalhadas. Mas depois lhe obedeceu, e para fazê-lo mais conscientemente se virou no assento e o abraçou. Seu anjo loiro. Sua esposa. Seu amor.


SOBRE A AUTORA

Mary Balogh nasceu e foi criada no País de Gales. Ainda jovem, se mudou para o Canadá, onde planejava passar dois anos trabalhando como professora. Porém ela se apaixonou, casou e criou raízes definitivas do outro lado do Atlântico. Sempre sonhou ser escritora e tinha certeza de que, no dia em que escrevesse um livro, ele seria ambientado na Inglaterra do Período da Regência. Quando sua filha mais nova tinha 6 anos, Mary finalmente encontrou tempo para se dedicar ao antigo sonho. Depois de três meses escrevendo na mesa da cozinha, a primeira versão de sua obra de estreia estava pronta. Publicada em 1985, deu a Mary o prêmio da Romantic Times de autora revelação na categoria Período da Regência. Em 1988, depois de vinte anos de magistério, ela passou a se dedicar apenas aos livros. Hoje Mary Balogh é presença constante na lista de mais vendidos do The New York Times e vencedora de diversos prêmios literários. www.marybalogh.com


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Ligeiramente Imoral (Os Bedwyn #5) - Mary Balogh  

Durante o fragor da batalha do Waterloo, lorde Alleyne Bedwyn é ferido e dado por morto. Quando dias depois recupera a consciência, não reco...

Ligeiramente Imoral (Os Bedwyn #5) - Mary Balogh  

Durante o fragor da batalha do Waterloo, lorde Alleyne Bedwyn é ferido e dado por morto. Quando dias depois recupera a consciência, não reco...