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Samus Revista Samus - edição 1


Samus Editora Chefe Emily Moura

Planejamento gráfico Emily Moura

Revisão gráfica Emily Moura

Orientação Anna Flavia Feldmann

Seja muito bem vinda! Um dos ambientes mais hostis para as mulheres é definitivamente o mundo dos jogos digitais. Não é incomum ainda hoje, presenciarmos cenas de desrespeito à jogadoras, principalmente em partidas online. Pelo terceiro ano consecutivo as mulheres são indicadas como maioria entre gamers wwbrasileiros. Mesmo com grandes produções produzidas e protagonizadas por mulheres, os principais meios de comunicação de games, raramente dão destaque ao público feminino. Além disso, um importante passo foi dado para a representatividade LGBT. Com o lançamento da sequencia do game The Last Of Us II, que mais uma vez traz a história de Ellie, que agora é uma jovem adulta, lésbica que terá que lutar por sua sobrevivência. Mesmo sendo um jogo muito esperado pelos fãs da franquia, não teve grande destaque em revistas importantes de games e foi alvo de duras críticas homofóbicas nas redes sociais. Pensando em mostrar como o público feminino e LGBT não é coadjuvante, criamos a revista SAMUS, que leva o nome de uma das primeiras protagonistas de games, Samus Aran, do jogo Metroid. Para mostrar a forte presença LGBT e feminina em vários ambientes de games, nossa revista nãos se restringiu apenas aos jogos propriamente ditos. Vamos falar das jogadoras, e como o movimento de conscientização #MygameMyname é importante, das programadoras de jogos e como lidam com um ambiente majoritariamente masculino e das jornalistas de games, que lidam com um tipo de jornalismo muito fechado e é ainda mais difícil para mulheres conseguirem ocupar espaço neste ramo do jornalismo. Agora aproveite, pois o jogo só está começando!

Emily Moura –


Índice Curiosidades

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Solta a voz

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Personagens de destaque

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Girl Power

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Conheça

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Gamers

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Para se inspirar - conheça Carol Shaw 28 Visão - com Bia Coutinho

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Curiosidades

Porque os games ficaram conhecidos como coisa de menino? Por Emily Moura

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Em pleno 2018 não é incomum encontrar pessoas rotulando jogos como uma prática masculina, ou, afirmando que garotas jogam apenas jogos voltados para moda e beleza. Infelizmente o mundo dos games nem sempre é tão receptivo com as mulheres. A verdade é que jogos não devem ser separados entre gêneros de pessoas. Pois, as principais intenções dos games são: estimular o raciocínio lógico, entreter e divertir os jogadores. Mas, porque muitas pessoas pensam que jogos são apenas para meninos? Se eu contar que nem sempre foi assim, e existe uma explicação para esse tipo de pensamento você acredita? O youtuber americano Adam Ruins Everything, fez um vídeo explicando como os jogos começaram a ser direcionados principalmente pra meninos. Pasme, a Nintendo é uma das responsáveis por isso. Jogos como Pong e Pac-man eram unissex e mais, seu público era muito maior entre as mulheres. Não só existiam jogadoras como muitas desenvolvedoras de games na época como Carol Shaw. Porém esse cenário sofreu uma reviravolta com a crise do vídeo game em 1983. Tudo corria bem, o Atari estava forte no mercado e pronto para lançar seu novo game E.T o extraterreste, que era baseado no filme de Steven Spielberg. O mercado americano de games era o mais bem sucedido e o Atari era um dos consoles de maior sucesso da época. Até que aconteceu o que conhecemos como Crise do vídeo game. E.T foi um grande fracasso de vendas, deixando os produtores do Atari com um prejuízo de mais de 100 milhões de dólares.

Acontece que o jogo foi produzido em um cinco semanas, o que resultou em uma baixíssima qualidade. Claro que o fracasso do novo game do Atari não foi a única causa do declínio da indústria de games. A grande quantidade de consoles e a chegada dos computadores também tiveram influência na crise. Pois é, os anos 80 foram épocas de grande importância para a tecnologia, com altos e baixos, muitos dos aparelhos que usamos hoje, só são da forma que conhecemos por causa desta época. Com a indústria americana de games em crise, a Nintendo, marca japonesa, tomou a frente do negócio (e até hoje é uma das principais marcas de games). O que antes era direcionado para toda a família, passou a ser divulgado como mais um brinquedo. E, como na época a sessão infantil era dividida entre meninos e meninas, a Nintendo escolheu direcionar os games como um jogo para meninos e investiu pesado em propagandas e estratégia de marketing para isso. Hoje os jogos ainda são estereotipados como “coisa de menino” por uma série de fatores, que começou lá nos anos 80. Mesmo devagar é notório que muitos produtores de games querem mudar esse rótulo, colocando personagens femininas que antes eram apenas NPCs como jogáveis, e investindo em propagandas unissex como é o caso dos comerciais do console Nintendo Switch, que mostra homens e mulheres de todas as idades jogando com games clássicos da Nintendo.

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Solta a voz

A parte tóxica da c ‘‘Já ouvi todo tipo de ameaça de morte por ser gay (Meu nick no jogo é Dona Bicha) e outras ofensas que até Deus duvida. Nossa inteligência é subestimada nos jogos, mas nada supera como ofendem e subestimam as mulheres. O próprio roteiro dos jogos às vezes ofende transsexuais como eu, usando termos pejorativos como “trap” para designar pessoas com outro gênero que não seja seu gênero de nascimento’’.

“Mulher não sabe nada de jogo” “Mulher jogado só pode ser sapatão” “Se a gente perder a culpa é sua que é mulher” “Desiste e vai fazer faxina” “Você é mulher mesmo?”

“não sabe jogar pq é mulher” “não quer adicionar pq é feia” “não é mulher, tem voz de homem” “vagabunda” “para de jogar, vai jogar barbie”

Os relatos acima sã já foram vítimas de partidas de jogos, c do que já ouviram e 8


comunidade gamer ‘‘vai lavar uma louça ou chupar uma rola...coisas piores e por ai vai,tanto que em qualquer jogo online,não entro no chat,não sou obrigada a ouvir macho escroto’’

‘‘Sua puta, ta fazendo o que aqui? vai lavar uma louça....... sua vaca noob ....... pq não pega na minha pica como pega nesse mouse? e vai por ai....’’

‘‘Não costumo jogar online mas das vezes que joguei era sempre algum xingamento por ser mulher e não devesse jogar. O mais comum é chamar de “puta”, quase todas as vezes eu jogava afirmando ser homem para evitar’’

ão reais. Pessoas que ofensas durante contaram um pouco em games online. 9


Personagens

Nem sempre personagens importantes taque. Por isso, essa parte da revista ĂŠ e representatividade de personagen publico feminino e LGBT nĂŁo ĂŠ coadju


de destaque

s para os games tem o devido desreservada para mostrar a evolução ns que estão ai para mostrar que o vante.


Personagens de destaque

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Samus Aran Talves você não a conheça, ou nunca tenha jogado nenhum jogo da franquia. Mas saiba que a Samus Aran foi uma das pioneiras entre as protagonistas femininas nos games! Além disso, a personagem quase não teve apelo sexual, pois usava uma armadura, a Power Suit, durante todo o jogo. Protagonista dos jogos da série Metroid da Nintendo, Samus Aran teve estreia em 1986 para a plataforma NES. De primeira quem jogava o game não sabia que Samus era uma personagem feminina, até mesmo na sinopse do game essa informação não estava explicita. Apenas no final do jogo Samus tirava o capacete e revelava ser uma mulher. O fato de a verdadeira identidade da Samus ter sido revelada somente no final do jogo, é, com certeza um dos motivos do sucesso do game. A inspiração para a protagonista do game veio da personagem Ellen Ripley interpretada pela atriz americana Sigourney Weaver na franquia de filmes Allien. No jogo, Samus é uma caçadora de recompensas e é ambientado no espaço. Durante a maioria dos jogos Samus usa uma armadura chamada de Power Suit. Ao todo foram lançados 12 jogos protagonizados pela caçadora e em alguns deles é possível vê-la com a power suit ou a zero suit que no caso é ela vestida com um macacão e usando uma arma laser. Ok, tudo parece ótimo com o jogo: uma protagonista forte, independente e não sexualizada. Mas infelizmente a Samus QUASE não teve apelo sexual. No primeiro game da franquia existe uma “premiação” para quem conseguir terminar todo o jogo em uma hora. A recompensa meus amigos, é a nossa querida Samus vestida apenas de biquíni. Pois é, um completo absurdo, sem sentido. Além de reforçar o estereótipo de jogos serem coisa de menino, não há sentido algum em colocar a personagem em roupas de praia sendo que ela está em uma aventura espacial. Mesmo com seu lado ruim, podemos dizer que o saldo deste game é bem positivo. Metroid foi um grande jogo de sucesso e até hoje faz parte da Tríade principal da Nintendo (Mario, Zelda e Metroid). Metroid não é importante apenas por ter uma protagonista feminina, mas sim, porque em meio a tantos jogos consolidados em um mercado pós crise do vídeo game, uma personagem forte como Samus conseguiu seu lugar de destaque e nunca mais saiu dele.

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Personagens de destaque

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Lara Croft A Arqueóloga inglesa Lara Croft, é a protagonista de todos os jogos da franquia de Tomb Raider. Com mais de 20 anos de sucesso o game já teve adaptações para o cinema, livros e HQs. Lara Croft que teve seu primeiro game lançado em 1996 tem muita história para contar, e uma grande evolução em sua representação. Lara teve ao todo mais de 18 jogos lançados para consoles e PCs. Seu sucesso é inegável. Como arqueóloga, Lara passa por diversas aventuras, desde tumbas perdidas até dinossauros. É de se esperar que a protagonista esteja vestida como Indiana Jones para aventuras como essa, mas não foi bem assim. Em 1996 quando o desenvolvedor Toby Gard estava brincando com o modelo em 3D da personagem, ele aumentou em 150% o tamanho dos seios dela. Mesmo que sem querer a equipe acabou aprovando o modelo e assim Lara ficou conhecida nos jogos seguintes. Além de seios enormes, Lara usava shorts e regata justos, tinha curvas acentuadas, conclusão tínhamos uma personagem feminina totalmente voltada para o público masculino. O rebote Tomb Raider lançado em 2013 começou a mudar este cenário. Em entrevista Rhianna Pratchett que faz parte da equipe da nova fase de Tomb Raider, comentou que a sexualização da personagem tinha sido feita por fins publicitários, e que essa abordagem é algo do passado. A própria Pratchett admitiu que se distanciou do jogo quando era mais jovem, pois não sentia que era feito para ela. A nova fase de Tomb Raider traz uma trilogia que teve seu final neste ano de 2018. O novo game teve tanto sucesso quando os anteriores e o melhor, Lara foi repaginada e não é apenas um símbolo sexual dos games. Com proporções reais e uma história muito bem contextualizada, Croft finalmente começou a se parecer com uma arqueóloga. Antigamente, todas as roupas que Lara usava tinham apelo sexual, marcavam o corpo da personagem e suas proporções corporais não tinham nenhuma relação com a realidade. Atualmente as roupas da Lara são exatamente o que ela deveria usar, como uma blusa de frio em uma nevasca (e não regata e shorts).

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Personagens de destaque

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Ellie Willians The last of us é um jogo exclusive para Playstation que foi lançado em 2013. O jogo se passa em um mundo pós apocalíptico, em que grande parte da humanidade foi dizimada pelo vírus fungo Cordyceps, transformando as pessoas em uma espécie de zumbis. Como protagonistas temos o Joel que tem por volta de 50 anos e Ellie, uma adolescente de 14 anos. Basicamente, se for mordido por alguma das pessoas infectadas, você também será infectado. E foi exatamente isso que aconteceu com a Ellie, ela foi mordida, porém ela não se transformou, e isso chamou a atenção para uma possível cura. A missão de Joel é levar Ellie até a resistência para que possam desenvolver uma cura. O jogo é incrível, com uma história envolvente e ganhou prêmios como o melhor jogo do ano quando foi lançado. O game que fez sucesso em 2013, voltou a ser destaque na E3 (maior evento de games do mundo) deste ano. Foi divulgado oficialmente o novo trailer do The Last Of Us II, agora com uma Ellie adulta de 19 anos. O que muitos não sabem e ficaram sabendo apenas na E3 deste ano, é que Ellie é lésbica. Durante o trailer temos o beijo entre Ellie e Dina, que acontece em uma festa e logo após a cena, somos levados para o game propriamente dito, com Ellie matando um inimigo. O trailer é cheio de cenas violentas e muito sangue. Ao conferir todo o conteúdo do trailer e ver as críticas ao beijo de Ellie, é possível perceber a enorme discrepância do discurso de pessoas preconceituosas. Não existe sentido em criticar uma cena de amor e simplesmente tomar como normal toda a violência do game. Público preconceituoso a parte, a equipe de The Last oF Us tem feito um trabalho muito bom com a representatividade de Ellie. Um ano depois do lançamento do jogo de 2013, o game recebeu uma extensão totalmente focada na personagem, a Left Behind. Essa extensão conta um pouco sobre a história da protagonista, um mês antes dos acontecimentos centrais do game. Lá somos apresentados a Riley, melhor amiga de Ellie. Em um dia enquanto as duas estavam explorando um velho shopping abandonado, Ellie beija a amiga, porém logo depois as duas são atacadas por infectados. Como sabemos Ellie é imune ao vírus e por isso, apenas a amiga dela morre. É difícil encontrar uma boa representatividade LGBT nos games, e Ellie é o que mais se aproxima de uma representação satisfatória. Mostrando a personagem como uma criança LGBT e permanecendo assim até a fase adulta.

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Personagens de destaque

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Poison Infelizmente é muito comum ver em jogos de luta poucas personagens femininas, e na maioria das vezes elas são fortemente sexualizadas. E convenhamos, acredito que seja muito difícil lutar com a roupa que a Mai Shiranui usa no game The King Of Fighters, onde os seios da personagem não param de pular.w E com a Poison de Street Fighter não é diferente. Porém este não é o ponto principal deste artigo. A verdade é que a Poison faz parte da lista de personagens transgêneros dos games, ela é uma mulher trans. Seria incrível se ela apenas fosse uma mulher trans e Street fighter trouxesse essa representatividade para uma de suas personagens. Porém, o motivo de o autor do jogo ter feito de Poiosn uma mulher transgênero é bem sombrio e degradante. Poison teve sua primeira aparição em 1989 no jogo Final Fight. No game ela era uma das vilãs e fazia parte de uma gang. Até ai tudo bem, mas há rumores (nada foi realmente confirmado pela produtora do jogo) de que Poison só é transgênero pois na época o jogo poderia ser censurado pelas campanhas feministas americanas. Então colocaram a personagem como transgênero pois assim “não estariam batendo em uma mulher de verdade”. Ou seja, por mais que seja interessante a presença de juma personagem trans, no início ela foi colocada por um motivo preconceituoso. Ainda muito sexualizada (assim como outras personagens femininas do game), ainda há muita controvérsia sobre a Poison. Mesmo que ela não tenha uma representação correta, é necessário discutir sobre o assunto, para que as empresas de games não repitam esse tipo de desrespeito.

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Girl Power

A ativista que luta pela representação da mulher nos games A indústria de games tem se mostrado muito mais aberta a diminuir a sexualização das personagens femininas atualmente. Mas ainda há muito o que melhorar quando falamos da representação das personagens femininas. Mesmo que quase metade do publico dos games seja composto por mulheres, é comum ver a objetificação do corpo da mulher em vários tipos de games. Desde a caracterização até os ângulos que a câmera do jogo pega. Uma das ativistas que luta pela igualdade na representação dos games é a canadense Anita Sarkeesian. Ela fundou a organização Feminist Frequency, que promove discussões sobre o machismo em diversos setores da cultura geek, como filmes, séries e games.

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Tudo começou em 2009, quando Anita começou a discutir a representações das mulheres em seu site. A ativista que é formada em comunicação pela California State University, ganhou visibilidade de vários setores da mídia, como o The New York Times e pode expandir a discussão de gênero na cultura pop. Infelizmente também houveram ameaças de morte e estupro contra Anita por haters. Chegaram a divulgar informações pessoais e a fazer montagens sexuais com o rosto dela. Anita não se calou, atualmente ela continua com seu canal no youtube, porém devido ao grande assédio e ameaças ela desativou os comentários de todos os vídeos.


Conheça

3 Personagems LGBT+ Existem personagens homossexuais ou bissexuais em alguns games, porém na maioria das vezes essa representação é sexualizada ou usada de forma a ridicularizar o personagem. Mas, recentemente algumas empresas, como Blizard e a Naughty Dog, estão representando de forma correta o publico LGBT+. Para exaltar e mostrar a vocês, nós separamos 3 dos personagens mais bem representados dos games.

Ellie - The Last Of US

Kung Jin – Mortal Kombat

Tracer – Overwatch

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Gam


mers


Gamers

Jogue como O

s games online não são muito receptivos para as mulheres. Por sofrerem com assédio e violência moral, muitas jogadoras acabam usando nomes masculinos em jogos online. O assédio nos games é muitas vezes um problema velado e se você não faz parte da comunidade gamer, provavelmente nem faz ideia do que acontece dentro das partidas Foi pensando em combater o assédio dentro dos games, que o movimento My game My name nasceu. A ong americana Wonder Woman Tech iniciou o projeto e logo homens e mulheres do cenário gamer apoiaram a causa.

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o uma garota N

o Brasil, a Woman Up Games, uma organização que visa inserir as mulheres nos jogos digitais, está apoiando o movimento. Além disso, diversos youtubers famosos se uniram para denunciar o assédio online. Com um experimento social, o My game My name, juntou diversos jogadores masculinos que são considerados como os melhores players da atualidade, para jogarem com nomes femininos e sentir na pele o que as mulheres aguentam durante uma partida online. O resultado é chocante e você pode conferir acessando QR code disponível.

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Gamers - Entrevista

Play Like a Girl Conheça Thaís, uma carioca de 19 anos, que sempre foi apaixonada por tecnologia. Ela acredita que parte do seu amor pela área eletrônica, seja influência de seu pai que sempre trabalhou com TI. E por amar tecnologia, Thaís também se apaixonou pelos games. Como uma mulher que está presente no cenário gamer atual, ela vai contar um pouquinho de suas experiencias pra gente.

Quais jogos você costuma jogar?

Eu tenho uma mente muito aberta quando se trata de jogos. Amo todo gênero de jogo. Mas, tenho uma queda por jogos de história, puzzles ou de simulação. Ando jogando jogos como GTA V Online, Slime Rancher, Planet Coaster e Far Cry.

Sei que dificilmente os pais compram consoles para as filhas, mas seus pais de alguma forma estimularam seu hobbie em games?

Por incrível que pareça eu sempre tive muito apoio da minha família. Eu tinha um Nintendo quando era pequena e meu pai vivia instalando diversos jogos no meu computador. Toda semana a gente saía e comprava aquelas revistas que vinham com CDs com 500 jogos. Na minha adolescência, minha mãe comprou meu PS3 e, sempre que dava, me ajudava financeiramente a comprar jogos tanto para o computador quando para o console.


Você já se sentiu desconfortável enquanto jogava?

Já. Em jogos online tem sempre alguém que chega com gracinhas por eu ser mulher. Já passei por casos que vão desde assédio até xingamentos. Isso sem contar com o fato de que se o seu time perde a partida, a culpa é toda sua que não jogou direito.

Você já se sentiu representada em algum game que jogou? Se sim, qual foi a importância dessa representatividade para você?

Eu nunca me senti totalmente representada. É até esquisito como eu só tenha reparado isso agora, o que me deixou bem triste. Me senti um pouco representada em LiS, pois, aparentemente, a Max era uma mulher bissexual, mas acho que acabou ai. É muito difícil você ver uma mulher negra sendo a personagem principal de um jogo, ou aparecendo como um ser importante dentro da história. É um cenário que precisa ser explorado de forma urgente. Além da cor de pele, ainda há a questão do corpo. Quantas vezes você já viu uma personagem principal gordinha? Fica cada vez mais difícil sentir algum tipo de conexão.

Qual sua opinião sobre a representação feminina atualmente?

Acho que demos alguns passos, mas ainda falta muito o que percorrer. É muito legal e importante como temos personagens femininas como protagonistas fortes e independentes, como é o caso de Life Is Strange, Horizon Zero Dawn e Hellblade. Por outro lado, ainda rola uma grande sexualização do corpo feminino, como acontece nos jogos da Lara Croft e em jogos de luta. Ainda há muito o que batalhar, mas é reconfortante saber que o cenário já está sendo alterado.


Pra se inspirar

Carol Shaw A primeira mulher a programar um game na histรณria


Pra se inspirar

É fácil encontrar grandes nomes da indústria de games, como o Nolan Bushenell conhecido como pai dos vídeos games por criar o Atari, David Crane, criador do jogo Pitfall, ou até mesmo o criador do jogo pong, um dos primeiros game de sucesso da história, Allan Alcorn. Mas você conhece Carol Shaw? Ela foi a primeira mulher a programar um game na história! Carol criou o famoso game de Atari, River Raid, em 1982. O game vendeu mais de um milhão de cópias, o que na época foi um dos maiores sucessos de vendas do console Atari.

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Como tudo começou

Carol Shaw nasceu em 1955 na Califórnia (Estados Unidos). Seus pais sempre a encorajaram a estudar matemática e ciências (na época não era esperado que uma garota estudasse exatas). Carol se formou em Ciências da Computação pela universidade de Berkeley, e começou a trabalhar para a Atari em 1978. Iniciou ali sua carreira de programadora e fez história como a primeira mulher a desenvolver esta função. Enquanto ainda trabalhava para a Atari, Carol desenvolveu seus primeiros games: Polo e Tic Tac Toe.


Somente em 1982 quando a programadora estava trabalhando para a Actvision (produtora de games para Atari) foi que River Raid nasceu e ficou mundialmente conhecido.

Carol atualmente

a representatividade feminina nos games

O apoio e estimulo dos pais foi fundamental para que Carol seguisse sua carreira promissora. Como pioneira na área, ela mostrou à milhares de garotas que, sim, é possível se destacar em campos majoritariamente masculinos. Atualmente, existe o curso de programação de games em várias instituições de ensino, e mesmo, mais de 36 anos após o destaque de Carol Shaw, ainda é uma área que as mulheres estão lutando muito para se destacar. É preciso que cada vez mais as meninas tenham em quem se inspirar e ver que elas podem ser o que quiser.

Carol se aposentou relativamente cedo, no inicio dos anos 90. Desde então tem dedicado sua vida a trabalhos voluntários relacionados a tecnologia. Todo ano a indústria dos games tem uma premiação muito similar ao Oscar, conhecido como Game Awards. Em 2017 Carol Shaw foi premiada como ícone da indústria de games e homenageada pela sua contribuição com o game River Raid. Em seu discurso, a programadora aposentada comenta que go- - Por Emily Moura staria que seus pais pudessem ver onde ela conseguiu chegar e agradece a todos que estavam com ela durante toda sua trajetória.

A importância de Carol para

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Visão

O jornalismo de games por um viés feminino Por Emily Moura

O mercado de jornalismo de games (assim como qualquer outra vertente do jornalismo), têm sofrido várias alterações ao longo dos anos. A quinze anos era comum ver inúmeras revistas voltadas para o público gamer, com reviews e tutoriais de jogos. Hoje as revistas de games perderam muito espaço dentro das bancas e a maior parte da cobertura de jogos acontece na internet. Existem diversos criadores de conteúdo gamer e isso de certa forma, acaba influenciando nas redações dos portais gamers, que estão bem menores hoje em dia. No caso do jornalismo brasileiro de games, também existe a dificuldade de que muitos produtos chegam no Brasil depois de um longo tempo de espera, ou que algumas marcas nem produzam aqui, como é o caso da Nintendo. Para saber como é o mercado atual de games e como as mulheres se encaixam nesse

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cenário majoritariamente masculino, entrevistamos a Beatriz Coutinho, repórter do Versus Esports, um portal que é uma extensão do IGN Brasil e foca na parte de e-esports. A Beatriz cobre principalmente a área de esportes nos games, ou seja, as partidas oficiais de jogos como: Rainbow Six, LOL e CS:GO. Bia contou que apesar de muitas vezes o público do portal comentarem coisas como: ”você é linda”, para as jornalistas de lá, ao invés de comentarem algo sobre o conteúdo da matéria, dentro da redação existe uma quantidade equilibrada de homens e mulheres. E também mulheres que ocupam cargos de liderança, como é caso da chefe dela. Bia nos contou que costuma usar fontes femininas em suas matérias para dar visibilidade a mulheres incríveis que muitas vezes passam despercebidas. Ela ressaltou que os times


femininos de e-esports não tem apoio suficiente, e isso acaba fazendo com que as mulheres tenham menos oportunidades de jogar profissionalmente. Dentro das competições de games é muito difícil para uma mulher conseguir apoio e destaque. O apoio fica menor ainda quando se trata de mulheres trans, Bia ressaltou que a comunidade gamer pode ser bem hostil com pessoas LGBT+. O olhar da Bia sobre o cenário é muito importante. Além de falar das dificuldades de mulheres se destacarem no meio, ele aponta que a união entre as gamers é fundamental para que enfrentem juntas essa quest difícil. E que o descaso de mulheres cis à mulheres trans, só atrapalha o avanço das meninas neste mercado. Conheça um pouco do trabalho da Bia no Versus. Ela cobriu o maior evento de games da América Latina, a Brasil Game Show (BGS), confira tudo o que rolou na feira.

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Juntas somos


s mais fortes


Revista - Samus  

Projeto feito para a matéria de jornalismo alternativo e contra-hegemônico, no curso de jornalismo da PUC-SP

Revista - Samus  

Projeto feito para a matéria de jornalismo alternativo e contra-hegemônico, no curso de jornalismo da PUC-SP

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