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Algumas matérias feitas para o Diário de Natal, complementando a função de editora 11/09/2009

Petrosal já tem dono e ele é mossoroense Estatal que o governo federal quer criar para cuidar do pré-sal tem o mesmo nome de uma pequena empresa do RN Emídia Felipe emidiafelipe.rn@diariosassociados.com.br A Petrosal já tem dono e endereço. Carlos Guerra, microempresário de Mossoró - cidade do oeste potiguar , já sabe disso desde 2006, quando ele deu entrada no processo de registro da marca no Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI). Agora, depois da surpresa em ver que o governo federal teve uma ideia igual a sua, Carlos se divide entre a manutenção de sondas de perfuração de petróleo e a negociação com a Petrobras em torno do cobiçado nome. Prestadora de serviços para empresas terceirizadas da Petrobras, a Petrosal mossoroense tem 420 metros quadrados, 17 funcionários e funciona em um bairro próximo ao centro da cidade, segunda maior do Rio Grande do Norte, com 234 mil habitantes. Reservado, Carlos prefere não falar em faturamento, mas já se considera um pequeno empresário. "Passei de micro pra pequeno há uns dois anos", conta, orgulhoso dos seis anos de sua firma, gerida por ele e sua sócia (a esposa, Marlucia), o irmão e a cunhada. O orgulho agora é maior: o nome da empresa - a dele, de Mossoró - está em toda a mídia nacional. "Fico alegre, né? É o nome de uma estatal". Ontem, ele perdeu as contas de quantas ligações de repórteres atendeu. Uma das informações mais repetidas foi o porquê do nome: "Sou de Mossoró. Aqui tem o quê? Petróleo e sal. Eu trabalho com petróleo e sal. Então, Petrosal". Quando deixou de ser empregado, depois de duas décadas trabalhando para uma terceirizada da Petrobras que deixou a cidade, ele resolveu abrir o próprio negócio: a Petrosal Serviços Industriais LTDA. Dois anos depois, entrou com o pedido de registro da marca no INPI, que foi finalmente concedido em 2008. Além de fazer manutenção nas sondas, aparelhos que retiram petróleo do solo, a Petrosal de Mossoró também vende peças à Petrobras e atende indústrias de refino de sal, outra riqueza abundante no Rio Grande do Norte. Independente do futuro da marca que criou, o caminho promissor traçado pelo engenheiro mecânico já tem uma posível herdeira, a filha caçula,de 19 anos, que está na faculdade de engenharia de energia. Os outros dois filhos não devem seguir os passos do pai, mas também estão na universidade: um estuda jornalismo e outro medicina. Do alto de seu contentamento com o andamento da firma, o pequeno empresário demonstra estar pouco à vontade com a fama recente, sobretudo quando o assunto é a relação dele com o governo federal sobre a propriedade da marca. Não revela nada. "Aí só o grupo fala", diz, apressadamente. Ele se refere ao Grupo Princesa Marcas e Patentes, que cuida da marca Petrosal. Objetivo é a venda da marca "Estamos tentando manter seu Carlos calmo", diz Marta Castagna, agente da Propriedade Industrial do grupo, "ele está tentando absorver o impacto da novidade". Ela foi acionada por Carlos na semana passada, depois que ele assistiu a um pronunciamento do presidente Luís Inácio Lula da Silva sobre o pré-sal e a Petrosal estatal, que será responsável por gerir os contratos e recursos das novas reservas. O grupo está tentando entrar em contato com a Petrobras, mas ainda não há qualquer reunião marcada. De todo modo, a venda da marca está na pauta, mas o valor, como destaca a executiva, está condicionado do apego da Petrobras e do governo federal pelo nome Petrosal. "Tudo depende do interesse da Petrobras", despista, "o valor de uma marca pode ser de R$ 1 milhão ou R$ 100 milhões, vai de acordo com o que o dono vai precisar para se reconstruir caso fique sem ela". Sobre o peso que a notoridade deu à empresa potiguar, Marta lembra que, às vezes ela ajuda, mas, dependendo do caso, pode só "trazer aborrecimento". Sem conversa O ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, declarou ontem que o governo não sabia da existência da Petrosal do Rio Grande do Norte e não tem interesse em comprar a marca. Ele admitiu ainda que, diante do impasse, o nome poderá ser alterado. Mas esse é um problema que o Congresso terá que resolver. "Se for feita alteração, será por iniciativa de deputados e senadores, não do governo". Marta Castagna mostra-se tranquila nesse ponto e não considera a Petrosal do governo uma ameaça: "As marcas são protegidas por


segmento e a marca do nosso cliente está segura". Consultado no fim da tarde de ontem, o INPI alegou não ter tempo hábil para dar um parecer sobre o assunto. No site do órgão, a Lei 9279/96, que trata da propriedade industrial (marcas e patentes), determina que designações ou siglas de entidades ou órgãos públicos não precisam ser registrados para estarem protegidas. Mas, como a marca de Carlos veio mais de um ano antes do anúncio do governo, ele não precisa se preocupar.


20/12/2009

McDonald's em busca do equilíbrio Mostrar a qualidade dos alimentos, diversificar de cardápio e aproximar-se da onda "verde" mundial tem sido preocupação constante da rede Emídia Felipe emidiafelipe.rn@dabr.com.br Cinco anos depois do lançamento do documentário Super Size Me, em que o cineasta Morgan Spurlock engorda mais de 11 quilos e compromete seu fígado devido a 30 dias de refeições apenas no McDonald's, a maior rede de fast-food do mundo quer mostrar a qualidade de seus alimentos. Na verdade, fast-food nem é um termo que os executivos da companhia estejam usando. Eles afirmam que não são lanchonetes, são restaurantes. E não têm comida rápida, têm serviço rápido. Na semana passada, a empresa promoveu seu novo programa de relacionamento, o Portas Abertas, pela primeira vez no Nordeste. A intenção é mostrar o quão frescos e bem cuidados são os ingredientes usados nas lojas. A iniciativa faz parte de uma tentativa velada de subverter a imagem construída por muitos que, mais do que a batida pecha de "símbolo do imperialismo americano", vêem no McDonald's uma séria ameaça à vida saudável, sobretudo das crianças. A programação do Portas Abertas, promovido em Recife, começou na loja da praia de Boa Viagem, com os itens de café da manhã - que ainda não tem salada de frutas, mas há quem diga que está em estudo. Em seguida, o grupo de jornalistas foi para a Refricon, empresa que fornece os vegetais para o McDonald's: do campo para os restaurantes até o cliente em menos de 10 dias. Alfaces, tomates, cebolas e afins são cultivados no interior de Pernambuco e cercados de cuidados até a entrega. Antes disso, os produtos passam por um processamento minucioso que pode fazer a mercadoria sair 50% menor do que entrou, devido à retirada de imperfeições, limpeza e cortes. Outra parte da visita foi a Martin-Brower, responsável pela logística de todos os produtos das lojas, do material de limpeza à carne. As duas empresas não trabalham exclusivamente com o McDonald's. A Refricon, por exemplo, tem uma linha de conservas chamada Mr.Salad, produzida na unidade de Mato Grosso do Sul e que deve chegar nos supermercados do Nordeste no próximo ano. As companhias, afirmam os executivos, também não têm o McDonald's como acionista, mas têm nele seu maior e mais importante cliente. Entre uma informação técnica e outra, os executivos mostravam a qualidade dos produtos e ressaltavam a preocupação do McDonald's com a segurança alimentar e, consequentemente, com a saúde dos clientes. A média de ida aos restaurantes da marca é menor do que três vezes por mês, afirmou o diretor de Suplly Chain (cadeia de suprimentos) da Arcos Dourados (master franqueado para a América Latina), Celso Cruz. "E as outras refeições? E os exercícios?", questiona, ao citar reclamações que põem sobre empresas como o McDonald's a culpa da obesidade no mundo. Ele lembrou ainda que a companhia tem prezado pela diversidade no cardápio: quem quer comer BigMac, come; quer quer salada também sai satisfeito. O McDonald's sentindo-se culpado ou não, o fato é que a inserção de saladas e itens como iogurte entre as opções para os clientes começou no ano de lançamento do documentário de Spurlock; e outras iniciativas voltadas para uma imagem mais "light" estão aparecendo. Muitas lojas já estão ganhando nova decoração, em tons marros e verdes escuros. Este mês, completa um ano de inauguração do primeiro restaurante "verde" da cadeia no Brasil e segundo no mundo, em Bertioga, São Paulo. Nele, o consumo de energia elétrica caiu 14% e o de água 50%, entre outras ferramentas ecologicamente corretas. No próximo ano o modelo deverá ser reproduzido em outros estados. Gourmet O fim da programação parecia mesmo uma missão impossível para os mais céticos: um menu degustação de alta gastronomia apenas com ingredientes que são usados no McDonald's. Servidos no charmoso e contemporâneo restaurante recifense É, os pratos tiveram sua aura gourmet enriquecida com a presença da sommelier paulista Alexandra Corvo, convidada especialmente para o evento. Ela levou rótulos como o vinho branco Trimbach Pinot. No cardápio, combinações curiosas como Moqueca de Mcfish com redução de leite de coco; Mix de folhas, com tomate grape marinado e queijo parmesão, acompanhado de espuma picante de Fanta Laranja; e Ensopado de Chicken Grill com pirão de farinha de pão. Tudo criado pela nutricionista Maria Luiza Ctenas, que usou a desconstrução - técnica da gastronomia contemporânea - para montar seu menu, uma ideia que fez tanto sucesso que está sendo replicada pela companhia em outros países.


Falando assim, um desavisado pode correr para alguma loja McDonald's para checar se isso realmente existe. Mas esta é uma ferramenta de relacionamento que a empresa está usando apenas em ocasiões especiais. Além da inusitada combinação de ingredientes, Maria Luiza também misturou texturas e usou níveis diferentes de "força" nos pratos. Enquanto a delicadeza da musse de queijo parmesão combinava com a crocância da cenoura, o Barreado de BigTasty com tostada de Pão de BigMac e farofa de banana mostrava toda a imponência do sabor de um prato paranaense, que precisa ser cozido em panela de barro por dez horas. Obviamente com algumas mínimas "licenças poéticas", como frisou a nutricionista, Maria Luiza diz que sua criação reforça a qualidade dos ingredientes e mostra como a criatividade pode sempre nos surpreender.


13/02/2010

Secretário é sepultado Ruy Pereira morreu em acidente automobilístico a caminho de Recife, onde encontraria sua mulher e seus filhos Emídia Felipe emidiafelipe.rn@dabr.com.br

Filho de um sapateiro e uma agricultora, Ruy teve que dar muitos "adeus" dolorosos na vida. Um deles foi quando tinha 18 anos: a mãe morreu de câncer. A mesma doença que levou a irmã Elisa que tinha apenas 24 anos. Mas ontem, em Recife, era por ele que cerca de 100 pessoas da Paraíba, do Rio Grande do Norte e de Pernambuco, choravam, oravam e cantavam. O enterro foi no dia seguinte ao acidente automobilístico que lhe tirou a vida, na BR-101, quando ele ia da capital potiguar para o carnaval pernambucano. A governadora Wilma de Faria (PSB) decretou luto oficial de três dias. Sua trajetória política (veja texto abaixo) em 60 anos de vida reuniu personalidades na cerimônia de ontem. Wilma, o vice-governador Iberê Ferreira de Souza (PSB), o deputado federal João Maia (PR) e a deputada federal Fátima Bezerra (PT) estavam entre os representantes das autoridades políticas do RN. O secretário estadual das Cidades de PE e ex-ministro da Saúde Humberto Costa e o deputado federal Maurício Randis (PT-PE) também estavam entre os presentes. Familiares paraibanos prestavam suas últimas homenagens. Mas nem todos ali eram nomes conhecidos ou tinham ligação direta com o secretário estadual de Educação Ruy Pereira. A agente de saúde Maria José Santos, 57, soube por colegas de trabalho que Ruy havia morrido. Choravam também. "Ele foi muito bom aqui para a comunidade Planeta, melhorou o posto de saúde, fez saneamento. A gente quer muito bem a ele", relata Maria José, referindo-se a uma área na periferia de Recife, a cerca de 20km do centro, próxima ao cemitério Parque das Flores, onde Ruy foi enterrado, no mesmo sepulcro da irmã Elisa. As lembranças dela são da década de 80, quando ele fez parte da equipe do então prefeito Jarbas Vasconcelos. Escoteiros de PE e do RN também demonstraram seu respeito: um projeto de Ruy vai fazer com que até o fim do ano haja pelo menos uma representação do escotismo em cada município potiguar. Para um dos três filhos, Artur, de 23 anos e que estuda medicina,essa admiração é fruto da característica que ele mais vai se lembrar de Ruy, a honestidade. Entre as lágrimas, Artur conseguiu esboçar um sorriso quando recordou outros traços do pai: o modo enérgico de enfrentar os problemas e a gargalhada marcante. Enérgicos também foram os aplausos que se repetiram quando o caixão foi fechado e coberto com bandeiras do RN, PE e PB. Como Ruy adorava carnaval, recebeu ainda um coro do frevo Último Regresso. As homenagens seguiram com discursos e mais aplausos até o corpo ser, por fim, enterrado, antes de escurecer.


19/11/2009

PIB do RN cresce menos do que o do NE Valor dos produtos e bens finais do estado foi de R$ 22,92 bilhões em 2007, apontou IBGE Emídia Felipe emidiafelipe.rn@dabr.com.br Principal indicador de qualquer economia, o Produto Interno Bruto (PIB) do Rio Grande do Norte dá sinais de desgaste. Segundo dados divulgados ontem pelo IBGE, o PIB potiguar somou R$ 22,92 bilhões: crescimento real de 2,6%, distante da média nacional (6,1%) e quase metade da nordestina (4,8%). Além disso, o estado perdeu posições em relação ao ranking de 2006. Naquele ano, o incremento do valor dos bens e serviços produzidos no RN era o sexto no Nordeste; em 2007 virou o sétimo - perdemos o lugar para o Ceará. Considerando apenas o volume de dinheiro, o PIB potiguar manteve seu quinto lugar. Levando-se em conta o crescimento de cada setor, que aponta seu comportamento individual, o IBGE dividiu a economia em apenas três partes: agropecuária, que caiu 8% no RN; indústria, que não se moveu; e serviços, no qual também está incluso o comércio, cujo incremento foi de 4,3%. É dentro dos serviços que estão os destaques potiguares de 2007: comércio e serviços e da administração pública, únicos que aumentaram suas participações no PIB em relação a 2006. Agropecuária teve recuo de 8% Dois anos atrás, o setor de comércio e serviços de reparação e manutenção (nome "completo" do setor medido pelo IBGE) representou 14,2% do total do PIB do RN, 1,5 ponto percentual a mais do que em 2006. A administração pública, com seus salários e investimentos, aumentou seu peso em 1,7 p.p. e chegou a 27,5%. Porém, se observada a série do governo Lula, iniciada em 2003, foi o comércio e serviços o que mais ocupou espaços, saindo de uma representação de 11,9% para 14,2% em 2007. Serviços A maior quantidade de dinheiro movimentada na economia potiguar ficou por conta dos serviços além da manutenção e reparação (já inclusos no comércio). Foram R$ 6,67 bilhões gerados em serviços finais - o IBGE não conta produtos, serviços e impostos usados antes do final, para que não haja dupla contagem. São atividades como alojamento e alimentação, transportes, intermediação financeira, saúde e educação. O grande destaque entre eles foram os serviços imobiliários e aluguéis, que representou 27,5% do setor e girou R$ 1,83 bilhão. Em segundo lugar, ficaram as áreas de saúde, educação e seguridade social da administração pública, que registram a segunda maior participação na economia do RN, com R$ 6,304 bilhões, destacando a importância do poder público no estado.


Colaboração para a Revista O Grito (online)

INQUIETUDE QUE MUDA Novo espaço no Recife agrega produções locais num só lugar e dá pista para revelar efervescência cultural que a cidade vive Por Emídia Felipe Colaboração para a Revista O Grito!, em Recife Seja lá onde estiver, o poeta baiano Castro Alves deve estar feliz. Uma casa onde ele morou no Recife agora é ponto de encontro de artes: o Espaço Muda, que, até que alguém reclame o contrário, se mostra como o novo fenômeno cultural da cidade. Aberto há seis meses, já caiu nas graças dos jornalistas da área, apareceu na MTV, virou queridinho de quem faz e consome teatro e entrou na agenda de quem apenas se alimenta dessas coisas que alegram a alma. Resultado de um investimento de quase R$ 100 mil, sonhos, trabalho e dedicação, o Muda é iluminado de luz verde na Rua do Lima, em Santo Amaro, bairroda área central do Recife, praticamente vizinho dos dois maiores jornais do estado. Apesar de não ser o primeiro – nem será o último – a engrossar o circuito de points descolados que estão metamorfoseando a área, chama a atenção pela sua pluralidade. Apresenta propostas que envolvem artes visuais, teatro, música, cinema, literatura e gastronomia. Depois de se encantar com a fachada, obra da artista plástica Thainne Cavalcanti, o visitante entra no primeiro ambiente, uma galeria de arte, que se estende da sala ao corredor, onde o visual não muda (esse verbo pode ser muito usado aqui) somente com os quadros móveis. Instalações e as paredes também são usadas. Estas aliás, são incansavelmente pintadas e repintadas. Com portas para este mesmo corredor, está um brechó, para felicidade das meninas, com roupas, sapatos e acessórios. Passos adiante, uma saleta onde estão os freezers e o caixa. Dois ou três passos depois, o bistrô, onde também fica o banheiro, e, por último e com o maior espaço da casa, a área de apresentações.

“Aqui no Recife tínhamos uma gama de manifestações culturais acontecendo, mas desconectadas. E no Espaço Muda nós juntamos tudo”, diz Feó De início, como contam a proprietária do lugar, Paulina Albuquerque, e seu parceiro de empreitada, Jorge Feó, a busca dos dois era por um lugar para ensaios, privilégio apenas de grandes grupos de teatro ou de quem paga a pauta dos espaços privados, da prefeitura ou do governo estadual. Ela, atriz; ele, diretor. Apaixonada pela Rua da Aurora, Paulina queria algo pela área. Mas os dois sempre esbarravam em galpões comprados por uma grande construtora – em alguns anos, certamente veremos espigões por lá. Foi quando apareceu a casa da Rua do Lima, nº 280, no início do ano passado. Construção Com o dinheiro que Paulinha juntou desde os 16 anos – hoje ela tem 30 – e o conhecimento dos dois em trabalhos de produção, a ideia foi tomando forma. Paulina e Jorge têm outros talentos. Na moda, ela também é estilista e ele criativo da Seaway, que acabou por se tornar uma patrocinadora da aposta da dupla. Só que era preciso mais. Eles perceberam que tinham nas mãos algo que ia muito além de um lugar para ensaiar. “Aqui no Recife tínhamos uma gama de manifestações culturais acontecendo, mas desconectadas. E no Espaço Muda nós juntamos tudo”, conta o diretor. Para realizar o projeto, buscaram a parceria da estilista Carol Monteiro e da curadora Giovanna Simões, e contaram com os serviços do arquiteto Diogo Viana, do chef Hugo Souza e de contadores. Mesmo assim, ainda foi preciso bater muito a cabeça. “Tivemos que lidar na marra


com coisas que nunca tínhamos feito na vida”, conta Feó, ao falar sobre trâmites burocráticos como as pendências do prédio junto à Compesa, estatal que cuida do abastecimento de água e saneamento em Pernambuco. Todos os espaços têm peças recicladas, colhidas em ferros velhos e lojas de móveis usados. Nas mãos dos artistas e do arquiteto, elas se transformaram em poderosos objetos de decoração, valorizados por uma boa iluminação e inspirados principalmente no que eles, especialmente Paulina, viam em cidades como Rio de Janeiro, Nova York e Berlim. Feó destaca que a prática da reutilização de materiais, móveis e roupas é comum na Europa e que o Muda prova como também é aplicável, com sucesso, por aqui. Eles aproveitaram ainda a beleza histórica da casa. O piso original, por exemplo, foi descoberto embaixo da cerâmica colocada recentemente. Mesmo machucados, os ladrilhos verdes enriqueceram o ambiente. Cada ambiente tem sua cabeça. A Galeria Muda é gerida por Giovanna Simões – que está de saída, mas haverá outra pessoa. O Espaço Moda é cuidado por Carol Monteiro. O Espaço Galpão é a área de Jorge Feó. Quem toma conta do bristrô Beco da Muda – que figurou entre os indicados da Veja Recife este ano – é Paulina que, aliás, dá conta de tudo. Todo o caixa do lugar passa por ela, inquieta. “Paulina tem ideias de cinco em cinco minutos, é um inferno”, brinca o amigo Feó. Essa liga que Paulina e Feó criaram tem atraído cada vez mais elementos. Feó conta dos planos para fazer isolamento acústico no Espaço Galpão, cujo tempo de apresentação de bandas mais “animadas” é reduzido para evitar incômodo à vizinhança ainda muito residencial que há por ali: “Não esperávamos que o pessoal da música fosse nos abraçar tanto”. Na verdade, o poder de atração do espaço e de seus projetos inovadores – como o Curta Teatro e o Camarim-up – parecem mesmo inesperados. Na quinta-feira passada, por exemplo, circularam pelo menos 300 pessoas e foi preciso realizar duas sessões do Curta Teatro, ambas lotadas. Um movimento que acabou chamando a atenção da mídia. Apesar da vizinhança, “Os jornais não vieram fácil”, revela o diretor. “Quando viram que tínhamos regularidade e que as pessoas estavam vindo, começaram a vir também”. No fim do mês passado, graças à ligação com a cantora Catarina Dee Jah, o programa Na Pista, da MTV, levou o Muda para a TV, em uma reportage que mostrou dicas de passeios noturnos e festas na cidade. O vaivém no local é, em maior parte, por gente ligada às artes, como as amigas Domitila Menezes, 23 anos, e Iara Sales, 25. Elas trabalham com produção. Encantada pela aura do lugar e consumidora de teatro e música, Domitila, que mora em Olinda, vai pelo menos duas vezes por semana ao Espaço Muda. Já Iara curtia os ambientes pela primeira vez na quinta-feira passada. “Vim deixar uns cartazes uma vez, mas saí rápido. Hoje vim ver detalhes de uma exposição que vou participar, de um coletivo que também envolve gente de São Paulo e Salvador. Resolvi ficar”. Mas nem só de gente da área vive o Muda. Quinze dias atrás, Ricardo Souza e Mônica Cavalcanti – ambos de 42 anos – entraram no Muda por engano; iam para o N.A.V.E, também na Rua do Lima, ver o show de um amigo. Gostaram tanto do engano que resolveram voltar e experimentar. “É muito bom”, atesta o funcionário público. “A energia é muito boa”, complementa a administradora e professora universitária”. O desafio agora é cuidar de tantos fãs. “Nossa prioridade agora é o relacionamento com os clientes”, conta Feó.


Colaboração para o JC Online Artesanato

Menino mostra talento com dobraduras da palha de coqueiro Publicado em 02.06.2010, às 16h15 Entre o burburinho que uma noite com shows musicais gera na já movimentada Porto de Galinhas, Jackson José da Silva procura um espaço. Ele quer para sua arte a atenção do visitante da badalada praia a 70 km do Recife. Bem articulado, especialmente para uma criança pobre de nove anos de idade, ele se oferece para montar um peixe ornamental sendo pescado e uma rosa a partir de palhas de coqueiro que, sem a transformação do menino, não têm a mínima graça. Pés sujos e descalços, roupa velha e rasgada, Jackson é reflexo da desigualdade que reina em Ipojuca, município ao qual Porto pertence e onde 37% da população é analfabeta apesar de o PIB per capita ser de R$ 61.959 - cinco vezes maior que o do Recife. Mas sua situação não o intimida, seu talento parece lhe dar a segurança necessária para sair de mesa em mesa, de turista em turista. Com a habilidade de quem já faz isso há dois anos para ajudar nas contas da casa, ele monta a rosa em dois minutos. Enquanto trabalha, quer saber mais dos admiradores. "Vocês são da onde?", "É a primeira vez que vêm aqui?". Aparentemente satisfeito com as repostas, complementa, cortês: "Bem-vindo a Porto de Galinhas". Quarenta segundos a menos, mas com a mesma impressionante rapidez, Jackson cria um lindo e pequeno peixe acará, metamorfoseado sob os atentos olhos do cliente, a partir de dobraduras e cortes feitos com as pequenas sujas unhas. Cursando o segundo ano do ensino fundamental, Jackson aprendeu com um dos dois irmãos a rentabilidade das dobraduras, mesmo sem as bases teóricas necessárias à idade - "Não sei ler muito não, mas escrever sei". No fim da apresentação, quando questionado sobre o preço dos bibelôs, ele é sereno e surpreendente: "É quanto vale o trabalho do artista".


Colaboração para a Agência de Notícias de Direitos Animais (Anda) Criatividade para ajudar o caixa

ONG que cuida de cães em Recife vende CDs para ajudar a pagar as contas 27 de maio de 2010 Emídia Felipe emidiafelipe@gmail.com Lá está você, nativo ou turista, em um bar no Recife (PE). Entre uma cerveja e outra, uma menina aparece oferecendo um CD de forró por R$ 5. “Até que está barato”, você pensa. Mas quando compra um desses discos das sorridentes moças que percorrem os points da capital pernambucana, você também dá uma pequena dose de esperança aos cães carentes da PET PE, ONG local que serve de casa de passagem para cachorros abandonados. Funcionando há um ano e oito meses, a PET PE está instalada em uma ampla casa de espaçosa varanda em Candeias, em Jaboatão dos Gararapes (Região Metropolitana do Recife). Descrevendose assim, pode parecer se tratar de uma instituição de fartos recursos, mas a fartura deve ser mesmo de força de vontade. O empresário Jaime Medeiros, 32 anos, e a estudante de enfermagem de 26 anos Amanda Fonseca contam com a ajuda de alguns voluntários para manter o projeto, que tem despesa mensal por volta dos R$ 6 mil e atende até 50 cães de uma vez só. Todos os cômodos da casa são ocupados pelos animais, de vários portes e mazelas. Até dias atrás, havia 44 cachorros à espera de adoção. Muitos chegam severamente debilitados, como Faísca, cuja pata traseira estava em carne viva – possivelmente queimada intencionalmente, segundo a avaliação de Amanda – e Alvinha, que tem cinomose – da qual um dos sintomas é a paralisia – e está sendo tratada com acupuntura. Outras aparecem com pequenas surpresas: duas cadelas tiveram filhotes durante a passagem pela ONG. Quando fala em passagem, Amanda frisa que a ONG é uma casa de passagem. “Ficamos o mínimo de tempo possível, para evitar que eles acreditem ter achado um lar e logo tenha que partir novamente, evitando que eles se sintam abandonados outra vez”, esclarece. Levados por alguém ou encontrados pelos coordenadores, os cães são tratados, castrados, vermifugados e disponibilizados para adoção somente quando estão saudáveis. O custo do primeiro mês com cada animal chega perto dos R$ 300. Para fazer frente às despesas, a PET PE conta com 11 padrinhos fixos – que pagam R$ 50 por mês pelo afilhado, para ajudar nas despesas , algumas poucas doações, venda de CDs – que vão acompanhados de fotos dos animais – e parcerias com empresas. Mesmo assim, o caixa está sempre pedindo socorro, mesmo com o dinheiro vindo do bolso de Amanda e Medeiros. Ele mora em um espaço menor do que o dedicado aos cachorros, nos fundos da sede da PET PE. O impulso para o investimento a fundo perdido e a disposição necessária – atualmente eles funcionam todos os dias – vêm da satisfação em colecionar finais felizes, como os descritos no site www.petpe.com.br. “Não tem coisa melhor pra nós do que vê-los melhorando, nos apaixonamos desde quando chegam e vibramos quando achamos um novo lar”, conta Medeiros. Adoção Com cerca de 20 adoções por mês, a ONG faz cadastro dos interessados com documentos e é assinado um contrato em que a pessoa se compromete em cuidar bem do animal. “Esse


instrumento nos dá segurança para cobrarmos isso até juridicamente, se for o caso”, comenta Medeiros, relatando a cautela da PET PE para garantir que o cão não será abandonado. Recém-casados e crianças com menos de 10 anos estão fora do perfil aceito para quem vai adotar na PET PE. Amanda e Medeiros explicam que eles compõem o grupo em que há mais casos de devolução, especialmente porque descobrem que cuidar de um cão não é como ter um objeto de decoração em casa. Após adotado, o animal e a família são acompanhados, com fotos e visitas surpresas. Atualmente, Amanda e Medeiros fazem planos. Eles pretentem implantar prestação de serviços a baixo custo, como hotel e vacinação, voltados para as pessoas que têm cachorros adotados na PET PE. Além de gerar uma pequena renda para a ONG, é mais atraente para os tutores dos animais, incentivando a deixá-los em um local seguro ao invés de abandoná-los durante períodos como as férias. Serviço PET PE www.petpe.com.br (81) 3478-8080/8898-8080



Matérias publicadas no Diário de Natal e outras