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No primeiro momento éramos simplesmente alunos que estavam pintando uma parede de branco, muitos não sabiam o que estava acontecendo, ficavam nos olhando sem saber o porquê estávamos lá, acharam que estava acontecendo algo muito estranho, uma aluna disse a seguinte frase com um tom irônico: “isso só deve ser coisa do povo de design”. Eu senti que a pintura do muro estava de certa forma chocando as pessoas, a pergunta que mais ouvi nesse dia foi a seguinte: O que você está fazendo tem a autorização dos diretores da faculdade? Tive que responder a esta pergunta inúmeras vezes, as pessoas ficavam chocadas ao saber que eu tinha o aval da faculdade e que além disso foi a própria Facamp que me forneceu os materiais, isso foi algo que os alunos não acreditavam, chegava a causar até um certo espanto. Neste primeiro dia de trabalho percebi que existiam três tipos de pessoas, os que simplesmente elogiavam meu trabalho e minha atitude, os que queriam saber a mensagem por trás do desenho e as pessoas que tentavam entender os significados da ilustração por elas mesmas. A grande maioria das pessoas com quem me deparei no primeiro dia pertencem ao primeiro grupo de pessoas, foram inúmeras as pessoas que elogiavam meu trabalho somente pela estética, elas não queriam saber o que significava, porém gostavam do fato de colorir o campus da faculdade. Essas pessoas eram de todos os tipos, alunos de todos os cursos, professores e funcionários da manutenção do campus. Isso já é algo que me agradou muito, pois para mim o fato das pessoas gostarem de uma parede ilustrada, independente da mensagem implícita no desenho, isso já é gratificante. As pessoas diziam elogios do tipo: Nossa, vai ficar muito legal, que “da hora”. Algo que eu reparei com essas pessoas é que elas usavam muitas gírias para elogiar o meu trabalho, na minha opinião isso se deve pela essência do grafite que é as ruas. O segundo tipo de pessoas são as que procuram saber mais sobre a obra, elas querem saber o que cada elemento do desenho significa, infelizmente este tipo de espectador foi uma pequena minoria neste primeiro dia de trabalho, cerca de dez pessoas que vieram falar comigo e me questionaram sobre a obra, a maioria dessas pessoas eram professores. O mais interessante é que esses espectadores perdiam um certo tempo para ouvir o que eu tenho a dizer, eles me davam parabéns quando entendiam o conceito do meu trabalho. O último tipo de expectador é aquele que tenta encontrar o significado da obra sem antes eu explicar, surgiram alguns palpites sobre o que seria o meu grafite, a primeira sugestão foi dita por um professor, ele disse que o desenho parece um quadro cubista, isso foi interessante pelo fato de ter me inspirado na obra de Pablo Picasso para compor alguns personagens, uma outra pessoa disse que a mão localizada ao centro seria o troféu da copa do mundo, frases como essa são sempre bem vindas, pois cada pessoa pode ter uma relação diferente com o meu desenho assim gerando vários significados. O palpite que mais me interessou foi o que um outro professor comentou, ele disse que a mão que desenhei poderia ser uma citação do Memorial da América Latina, obra de Oscar Niemeyer. Alguns alunos me disseram que esse projeto deveria ser estendido pela faculdade inteira, ou seja, mais muros deveriam ser ilustrados e coloridos, ao longo do dia eu ouvi muito esta frase, o que é um ótimo sinal. Alguns alunos de design me disseram que gostariam de

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O desenho como forma de manifestação política  

trabalho de conclusão de curso feito no ano de 2013, pelo curso de design da instituição de ensino Facamp,

O desenho como forma de manifestação política  

trabalho de conclusão de curso feito no ano de 2013, pelo curso de design da instituição de ensino Facamp,

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