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Faculdades de Campinas Curso de design

Emerson da Silva Dias

O desenho como forma de manifestação política Trabalho de conclusão de curso apresentada às Faculdades de Campinas como requisito parcial para a obtenção do título de bacharel em Design Orientador: Profa. Dra. Cecilia Consolo

Campinas 2013


Faculdades de Campinas Curso de design

Trabalho de conclusão de curso intitulado, “O desenho como forma de manifestação política”, de autoria do graduando Emerson Da Silva Dias, aprovado pela banca examinadora constituída pelos seguintes professores:

Professora Dra. Cecilia Consolo- Orientadora Professor Luciano Cardinali Professor Renato Brolezzi


Agradecimentos À minha orientadora Professora Dra. Cecilia Consolo por ter acreditado no projeto desde o início e ter me incentivado o tempo todo. Aos professores Luciano Cardinali e Renato Brolezzi por me auxiliarem no direcionamento do projeto Aos meus amigos que me ajudaram em todo o processo de aplicação prática do projeto, são eles: André Zilioti Amorim, Betuel Moraes, Érico Mukuno, Felipe Rossi, Pedro Henrique Bertti Cruz, Marcelo Caruso e Mateus Kurzhals


“Pinturas não são feitas para decorar apartamentos. São armas de guerra” Pablo Picasso (1881- 1973)


Resumo Este é um projeto no qual será discutido a questão do desenho como forma de manifestação, seja com o intuito social, artístico, ou político. Neste projeto tento me utilizar do desenho com o objetivo de mostrar as pessoas meus posicionamentos, ideias e pontos de vista. A parte prática do projeto se trata da apropriação de um espaço público para a execução de uma pintura mural, foi cedido um muro do campus da faculdade para a realização desta proposta de pesquisa experimental. O principal objetivo deste projeto é de alterar a o cotidiano de todas as pessoas que transitam por entre o campus da faculdade, fazendo com que elas tenham um momento de reflexão ao se deparar com o grafite. Grande parte dessa monografia possui um caráter empirista, no qual, acabo aprendendo com o processo de realização do projeto.


Abstract This is a project in which discussed the issue of drawing as a form of expression, whether with the social order, artistic, or political. In this project, I try to use the design in order to show people my placements, ideas and viewpoints. The practical part of the project deals with the appropriation of public space for the execution of a mural, was given a wall located on the college campus to implement this proposal for experimental research. The main objective of this project is to change the daily lives of all who cross between the college campus, causing them to have a moment of reflection when faced with graffiti. Much of this monograph has an empirical character, which I end up learning from the process of realization of the project.


Sumário Introdução ........................................................................................................8 1 O início do processo de pesquisa ............................................................ 9 1.1 Mind map- a organização da pesquisa .....................................................................10 1.2 Segundo Mind Map- procurando um foco ................................................................11 1.3 É começada a pesquisa .............................................................................................13

2 Definindo “Desenho” e o campo de estudo ......................................... 14 2.1 O que é desenho ..........................................................................................................15 2.2 Produção do desenho .................................................................................................17 2.3 Finalidades do desenho .............................................................................................21

3 Projeto- Processo criativo .........................................................................25 3.1 Experiência 1- O primitivo moderno ..........................................................................27 3.2 Experiências 2- Humanos ...........................................................................................30 3.3 Experiência 3- Grito X Silêncio ....................................................................................33 3.4 Experiência 4- Espirito mecanizado ...........................................................................35 3.5 Experiência 5- O homem mecanizado ........................................................................37 3.6 Experiência 6- A rede social .......................................................................................39 3.7 Experiência 7- Admiráveis novos mundos .................................................................41 3.8 Experiência 8- Árvore .................................................................................................44 3.9 Experiência 9- Sem titulo ............................................................................................46 3.10 Experiência- Projeto ...................................................................................................49

4 Processo de execução do mural .............................................................54 4.1 Relatório do primeiro dia de pintura ..........................................................................55 4.2 Relatório do segundo dia de pintura ..........................................................................58 4.3 Relatório do segundo dia de pintura .........................................................................61

5 Mural finalizado .........................................................................................64 6 Aplicação dos questionários ....................................................................66 6.1 Questão 1 .....................................................................................................................67 6.2 Questão 2 .....................................................................................................................68 6.3 Questão 3 ......................................................................................................................70 6.4 Questão 4 ......................................................................................................................71 6.5 Questão 5 .....................................................................................................................72

Anexos ......................................................................................................................................

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Introdução O trabalho de conclusão de curso pode ser dividido em três partes principais, uma breve pesquisa teórica, a execução pratica do projeto, e a parte final que consiste na análise dos resultados do meu projeto. A seção teórica da monografia é constituída pelos dois primeiros capítulos. O primeiro capitulo é a construção de uma linha de pesquisa do grafite, citando os artistas que revolucionaram o modo de fazer arte para chegarmos no contexto artístico atual. O segundo capitulo se trata da definição do desenho, o capitulo é composto por três questões principais, o que é desenho, como é a produção do desenho e quais as finalidades do desenho. Para explicar o que é o desenho apresento uma taxonomia do desenho na qual estão classificados todos os tipos de desenho possíveis e suas finalidades. Em seguida apresento modos de se produzir o desenho partindo de dois princípios, os modos de se utilizar o traço e como lidar com o plano de representação. Para finalizar o capitulo tento expor os benefícios do desenho, expresso que através do desenho podemos desenvolver três sistemas principais, o sistema que faz, o sistema que percebe e o sistema que sente. Os capítulos três, quatro e cinco se enquadram na parte projetual da monografia. No terceiro capitulo mostro todo o processo de criação do grafite, explicando todos os meus raciocínios e ideias que me fizeram chegar ao desenho final, mostro também a evolução de uma série de desenhos que ajudaram a compor a ilustração final. O capitulo quatro se trata da aplicação do mural, ele é composto por relatórios de fatos interessantes que aconteceram enquanto pintava o muro do campus neste capitulo encontramos uma série de fotos que mostram o processo de execução do projeto prático. O quinto capitulo expõe o produto final do projeto, isto é, uma série de fotos que retratam o grafite aplicado ao muro. O último capitulo possui um caráter conclusivo, no qual analiso as todos os efeitos causados, os pontos positivos e negativos do meu projeto, o ultimo capitulo foi uma forma de ouvir as pessoas através de questionários distribuídos sendo assim, podemos dizer que o capitulo seis é uma reflexão sobre os comentários do público que se relacionou com a minha obra.

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Capitulo I O inĂ­cio do processo de pesquisa

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1.1: Mind map - a organização da pesquisa Para o início da monografia é necessário a produção dos chamados “Mind Maps”. O Mind Map nada mais é do que um diagrama no qual você organiza suas propostas de forma gráfica, tais diagramas nos auxiliam a direcionar o trabalho, mostrando assim qual o melhor caminho a ser seguido para o desenvolvimento do trabalho. Então a primeira etapa da pesquisa trata-se do roteiro a ser seguido. A partir das orientações, produzimos este caminho de pesquisa. No início do trabalho minha intenção era abordar vários temas em uma só monografia. Meu intuito era desenvolver vários temas que se relacionassem com meu tema principal, o grafite. Porém essa seria uma forma errada de se produzir uma monografia, em um trabalho de conclusão de curso deve-se abordar um tema muito especifico, é necessário um recorte principal, para só assim pesquisar e aprofundar sobre este tema. Minha intenção seria abordar três questões principais. A primeira questão seria o grafite em si, ou seja, pesquisar suas principais características, o segundo assunto a ser abordado seria a questão social que envolve o grafite , como o grafite e o design podem mudar os aspectos de uma sociedade, o ultimo tema seria a ideia das tipografias usadas no grafite e entender como elas se manifestam. Porém isso não seria uma monografia consistente, pois assim estaria abordando vários temas, mas de uma forma muito superficial, cada tema seria um trabalho a parte e não um trabalho de conclusão de curso. Deste modo resolvemos direcionar o trabalho para um foco, que seria o grafite. Mesmo depois de ter escolhido o assunto principal descobrimos que o assunto grafite é um tema muito amplo, pois existem vários tipos de grafites e várias questões a serem abordadas, dessa forma era necessário recortar novamente o trabalho, tendo foco em uma única questão, era preciso escolher um fio condutor para direcionar toda a pesquisa.

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IMAGEM 1.1 - Primeiro Mind Map

1.2: Segundo mind map - procurando um foco Após ter definido o tema central da pesquisa, que seria o grafite, era necessário fazer uma linha de pesquisa sobre o contexto histórico deste tema, então, com o auxílio dos professores foi definido uma linha cronológica sobre o grafite. Decidimos pesquisar a história do grafite através de cada artista que foi importante no sentido da arte em geral, optamos por artistas que quebraram os paradigmas tradicionais da arte. Tais artistas foram essências para que ocorressem as mudanças no modo de se ver e de se pensar arte, resultando na arte como ela é vista atualmente. O caminho de pesquisa que estava a ser seguido inicialmente se iniciaria nos afrescos do pintor Giotto (1266-1337), em seguida passaria vagamente pelos artistas de vanguarda, depois pelo artista de rua Jean Michel Basquiat (1960-1988) e por último seriam estudados

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os principais artistas atuais. Seria como uma linha do tempo de artistas que tinham em sua obra elementos encontrados no grafite, e quebraram paradigmas sobre o significado da arte. Por exemplo, o artista muralista mexicano Diego Rivera (1886-1957) possuía o ideal de que a arte deveria ser facilmente vista por todas as pessoas e não estar trancada em museus, o pintor Marcel Duchamp (1887-1968) acreditava que qualquer pessoa poderia ser um artista e que qualquer coisa pode ser vista como arte, já o pintor Claude Monet (1840-1926) tinha a ideia de representar cenas do cotidiano para mostrar sua visão de sociedade, todos esses conceitos citados podem ser encontrados no grafite.

IMAGEM 1.2 - Segundo Mind Map

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1.3: É começada a pesquisa Como já comentado anteriormente, o projeto de pesquisa deve ter um foco principal, isto é, um fio condutor que direcione todo o trabalho. A partir das orientações, decidimos qual seria este tema direcional do projeto, as orientações fizeram-me compreender que o tema grafite continua sendo muito abrangente, logo decidimos o tema principal que será “desenho como forma de representação política”. A pesquisa deve ter uma direção muito clara dos objetivos pretendidos, desse modo tudo o que for pesquisado deve em torno do tema principal, a utilização do desenho como manifestação política. As orientações serviram-me também para refinar a linha de pesquisa, a linha anterior era um roteiro cronológico que não possui uma direção tão concreta, ao produzir essa linha de pesquisa encontrei vários artistas que foram essenciais para enxergarmos a arte como ela é hoje, porém esses artistas são de épocas totalmente distintas, e possuem certas características divergentes. Dessa forma nos deparamos novamente com o mesmo problema, a linha de pesquisa feita anteriormente abrangeria várias questões, porém não tinha um foco principal, os artistas não tinham relações tão diretas entre si, pois cada artista era de uma época e de um contexto diferente. Assim era preciso traçar outro plano de pesquisa refinando o plano anterior. Para este problema de pesquisa encontramos uma solução muito mais pratica e definida, a figura 1.3, logo abaixo, mostra a nova proposta de pesquisa. O roteiro de pesquisa será dividido em duas etapas, artistas atuais e artistas do passado, cada etapa é composta por três artistas. Diferente do roteiro anterior, no qual os artistas não tinham relações tão explicitas, nesta nova linha todos os artistas possuem relações entre si, no sentido de que todos desembocam na mesma temática.

IMAGEM 1.3 - Segundo Mind Map

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capitulo 2 Definindo “Desenho� e o campo de estudo

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2.1: O que é desenho Para compreendermos determinado assunto é essencial primeiramente buscarmos a etimologia da palavra ou tema que estamos abordando. Segundo o dicionário Aurélio (2007), a palavra desenho tem por significado: “A representação de formas sobre determinada superfície por meio de linhas, pontos, manchas, com objetivo lúdico, artístico, científico ou técnico”. A partir disso podemos argumentar que desenho é o modo como o projetista relaciona e expõe suas intenções que de alguma forma já estão fermentadas em sua mente, a ferramenta do desenho permite que a pessoa se expressar a partir de seu ponto de vista. A origem da palavra “se refere não só a um procedimento, um ato de produção de uma marca, de um signo, como também, e principalmente, ao pensamento, ao desígnio que essa marca projetava”. Em outras palavras, o desenho não envolve somente a área técnica ou o ato físico de se desenhar em alguma superfície, o desenho envolve também o ato de pensar, ou seja, o desenho se trata também de psicologias, signos e intenções que se manifestam através de uma superfície. Podemos então como ponto de partida resumir que desenho é a relação entre a técnica e a intenção de cada desenhista em particular. A técnica de desenho é considerada a primeira forma de comunicação e de auto reconhecimento do homem. Segundo Manfredo Massironi (1996) tudo o que ocorreu antes da invenção da escrita é classificado como Pré- história, as técnicas de desenho são antecessoras da escrita logo o desenho teve seu início antes mesmo da história, a própria técnica da escrita foi concebida a partir do desenho. As inscrições gráficas são extremamente importantes para história humana, e provavelmente devem ter sido ferramentas indispensáveis para evoluirmos socialmente e culturalmente. O desenho sempre foi uma forma de autoconhecimento, ele é uma ferramenta para o homem entender a si próprio e compreender o meio onde vive. Massironi trata o desenho, manual como a primeira mídia de armazenamento de conteúdo e de transmissão de informação e apesar do rápido avanço da tecnologia, a técnica de desenho está longe de sua extinção. Esta técnica nos proporciona inúmeras possibilidades, por isso esse ato de se expressar graficamente nunca se esgotará, pode se dizer que o desenho é uma ferramenta atemporal e que a tecnologia não é capaz de substitui-lo e sim renovar as técnicas de manifestação gráfica Ainda seguindo essa linha de raciocínio do autor Massironi (2002), percebemos que a maioria das pessoas veem o desenho somente como o ato de gerar imagens a partir de técnicas, isso é uma definição válida, mas muito superficial para educarmos a nossa visão em relação ao desenho precisamos ir muito além desta simples definição, que é como a maioria das pessoas enxergam o desenho, as manifestações gráficas partem de uma estrutura complexa devemos entender o desenho como uma análise psicológica, entender as metodologias ,signos e percepções contidas no ato de desenhar. O desenho é como

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se fosse uma extensão de nosso pensamento, assim como a filosofia o desenho existe para nos expressarmos além de nossas limitações como ser humano, o ato de desenhar proporciona possibilidades que não são encontradas na escrita ou em outras áreas. Os primeiros desenhos feitos na era rupestre já eram completos de certa forma, afirma Manfredo Massironi (2002), eles eram funcionalmente perfeitos no sentido de que o desenhista enxergava tudo o que estava ao seu redor e transmitia isso da forma que ele percebia determinado ser, os primeiros desenhistas já tinha essa preocupação de registrar a história e seu cotidiano em uma superfície. Os desenhos da era rupestres são completos também no sentido de que olhamos para eles hoje e conseguimos compreender o que aquela imagem está representando e entendemos a intenção do transmissor, estes desenhos eram tão completos que a partir dessas representações enxergamos o que é o desenho na sua mais pura essência. A partir do meu ponto de vista essa essência do desenho não se modificou ao longo do tempo, o que mudaram foram as técnicas, mas o sentido de desenhar é único, se colocar em meio à natureza e deixar um registro de sua história. O desenho atual, assim como o desenho pré- histórico é um meio de auto reconhecimento do homem.

Taxonomia do desenho Para compreender melhor os fundamentos contidos por trás das manifestações gráficas, o autor Massironi (2002) cria uma taxonomia do desenho, ou seja, ele produz um diagrama classificando todos os tipos de desenhos possíveis, essa classificação se deve a partir das técnicas de representações e as finalidades de cada tipo de desenho, Manfredo Massironi (2002) explica que o objetivo do diagrama é ilustrar os diversos usos do desenho na comunicação humana em diferentes épocas e para muitas finalidades”. Massironi (2002) propõe que todas as imagens gráficas podem ser divididas em dois grandes grupos: Imagens representacionais e imagens abstratas, ou não representacionais. Ele divide os desenhos em duas vertentes distintas, porém esses dois polos podem ser relacionáveis, ou seja, certas imagens podem ser tanto representacionais quanto abstratas. A figura 2.1 é a representação através de um diagrama da ideia proposta por Massironi, é um, diagrama em forma de arvore para classificar todos os tipos de representações gráficas possíveis. Massironi (2002) explica que cada item numerado deste gráfico representa um conjunto de produções gráficas que estão de certa forma bem definidas, pois seguem as mesmas regras de construção, a direção da esquerda para a direita corresponde a uma linha do tempo, na linha horizontal superior (representada pelo número 2) estão as imagens consideradas figurativas, ou representacionais, na linha horizontal inferior (representada pelo número 3) estão as imagens originarias do abstrato, as linhas horizontais restantes definem uma região central de imagens que são tanto representacionais quanto abstratas. Alguns itens possuem ligações diretas e outros possuem subitens, como por exemplo, o item 5, que possui cinco subitens isso se deve porque a pictografia fez com que originasse outras áreas.

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IMAGEM 2.1- Taxonomia do Desenho

Fonte: Manfredo Massironi (1996)

2.2: Produção do desenho Após entendermos um pouco mais sobre o que é desenho e seus fundamentos principais, cabe agora analisarmos as questões fundamentais referentes à produção do desenho, no sentido de entender como o desenho funciona em relação à produção e as técnicas intrínsecas no ato de desenhar. Seria uma tarefa extremamente complicada explicar como se deve desenhar, pois podem existir vários pontos de vistas sobre essa questão, sendo assim cabe a esta fase do trabalho apresentar uma linha de raciocínio sobre como uma ideia adquire uma forma através do desenho. Manfredo Massironi (1996) diz que o desenho pode ser uma ferramenta complexa que possui uma vasta gama de possibilidades, com isso para entendermos os princípios de execução do desenho é necessário buscar a essência do desenho em sua forma simples. O ideal para entendermos os percursos técnicos utilizados na produção do desenho é desconstruir os mecanismos destas representações e analisarmos todos os elementos que compõem tais representações gráficas, essa desconstrução é feita a partir da percepção do observador. Com o intuito de analisar os elementos do desenho, e desmontar os componentes e processos essenciais contidos na manifestação gráfica, Manfredo Massironi (1996) propõe

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a divisão dos elementos construtivos do desenho, esta separação consiste em duas famílias, os elementos primários e os elementos secundários. Os elementos primários são os essenciais para a composição do desenho Manfredo Massironi (1996) propõe três aspectos importantes que compõem os elementos primários do desenho, o primeiro aspecto é a característica do traço que compõe o desenho, o segundo aspecto consiste na posição do plano de representação, ou seja, como a área contida entre o traço se apresenta, o último aspecto contido nos elementos primários é o processo de enfatizar ou excluir os elementos em função da representação. Os elementos secundários para Manfredo Massironi são os elementos de desenho referentes à cultura ao tempo e ao lugar onde é produzido o desenho, estes elementos são originários de um estilo de desenho que pode ser diferenciado de acordo com cada cultura e com cada pessoa. Estes aspectos secundários podem ser infinitos e impossíveis de se analisar, pois tais aspectos oferecem inúmeras possibilidades que serão individuais de cada desenhista. Como os elementos secundários são inúmeros cabe aqui compreendermos somente os elementos primários, ou seja, a essência e a raiz do desenho.

Características do traço De acordo com Manfredo Massironi (1996), o elemento do traço pode ser definido como a marca que um instrumento, manipulado pelo homem deixa em determinada superfície com a finalidade de comunicar algo. Massironi (1996 apud ARNHEIN, 1974) explica de uma forma resumida que a linha pode se apresentar de três modos diferentes em uma obra gráfica, a linha objeto, linha contorno e a linha como textura, na visão de Massironi não existe algum outro tipo de uso das linhas além destes três, sendo assim qualquer manifestação gráfica deverá usar alguma dessas opções. A linha objeto é quando o traço assume a própria forma do desenho, de acordo com Manfredo Massironi (1996, p. 25), “A característica deste tipo de sinal é de ser aberto e apresentar-se isomorfo relativamente a um objeto autónomo independentemente do significado a que pode ser reportado”. Este tipo de manifestação gráfica geralmente não representa de forma realística os objetos, mas são formas que remetem aos objetos reais.

IMAGEM 2.2- Linha usada como objeto

Fonte: Imagem escaneada do livro Ver Pelo Desenho de Manfredo Massironi (1996)

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Outro modo de linha possível, de acordo com Massironi (1996), é o traço contorno, neste tipo de caso o desenho já não é representado somente pelo traço, mas este desenho agora possui uma linha e uma área fechada. Com isso a linha deixa de ser o elemento único e principal do desenho, pois agora esta linha deve se relacionar com a área dentro dela, este tipo de desenho tem a capacidade de ser mais descritivo em relação aos desenhos que usam a linha como estrutura. Este modo de usar o traço é encontrado em grande parte dos desenhos, principalmente nos desenho técnicos, nos quais o desenhista tenta descrever fielmente o objeto desenhado.

IMAGEM 2.3 - Traço contorno

Fonte: Imagem escaneada do livro Ver Pelo Desenho de Manfredo Massironi (1996)

O último modo de utilizar o traço para criar manifestações gráficas trata-se da linha usada em função da textura, segundo Manfredo Massironi (1996), a característica deste tipo de traço é que através de repetições a linha toma a forma de texturas, que podem ser entrecruzadas, tracejadas, ponteadas, imprecisas entre outras. Essas linhas que compõem texturas permitem ao desenhista uma gama de possibilidades, pois através destas texturas podemos imitar as superfícies da natureza através da relação entre luz e sombra, assim podemos representar as texturas das pedras, das árvores ou da agua. Este tipo de linha permite também que tenhamos a percepção de profundidade através do plano, logo a partir da relação entre o cruzamento das linhas, a luz e a sombra o artista produz um aspecto de tridimensionalidade em sua obra.

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IMAGEM 2.4 - Traço textura

Fonte: Imagem escaneada do livro Ver Pelo Desenho de Manfredo Massironi (1996)

Plano de representação De acordo com o texto de Massironi (1996), o plano de representação, ou plano de visão se define no modo em que o ilustrador apresenta determinada figura, isto é a forma na qual o desenhista representa a imagem a partir de um ponto de vista, este ponto de vista irá estruturar toda a imagem e fazer com que o observador tenha a percepção correta do modo em que o objeto está posicionado em determinada superfície. Para Manfredo Massironi (1996) existem dois tipos de plano de representação, o frontal e o inclinado, o plano de visão frontal se refere no caso em que o observador consegue enxergar somente uma face do objeto, como por exemplo, a imagem de um mapa na qual o projetista descreve somente a vista de topo de determinado território. Já o plano de visão inclinado trata-se do caso em que podemos enxergar duas faces ou mais do objeto desenhado, isso se dá através de técnicas de perspectivas, nas quais o ilustrador cria um aspecto de tridimensionalidade e profundidade na imagem representada sobre uma superfície plana. Alguns artistas conseguem unir os dois tipos de planos de visão, o frontal e o inclinado em uma só imagem, criando estruturas complexas que tem o poder de iludir nossa percepção.

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IMAGEM 2.5 - Modos de plano de representação

Fonte: Imagem escaneada do livro Ver Pelo Desenho de Manfredo Massironi (1996)

Apresentamos aqui as ferramentas primárias para a produção de manifestações gráficas, cabe ao desenhista saber relacionar essas técnicas primarias de acordo com a intenção do seu trabalho. Por exemplo, se a produção do artista for um gráfico ou um mapa, é preferível que o desenhista se utiliza da visão frontal para que o observador tenha facilidade ao analisar a imagem, o artista também deverá se utilizar da linha como contorno, e não como textura ou como estrutura. Já se a obra do artista se tratar de uma paisagem ele certamente irá manipular a linha criando texturas que imitam a natureza, ele também poderá se utilizar da vista inclinada para dar profundidade a sua obra.

2.3: Finalidades do desenho Os motivos para se desenhar podem ser inúmeros, porém esta etapa deste capitulo terá como fio condutor uma questão somente, como o desenho ou a arte torna-se uma ferramenta importante para o desenvolvimento humano. Segundo o autor Howard Gardner (1994), o desenho é um aspecto essencial para o desenvolvimento humano pois, tanto a arte como o ato de desenhar permite o desenvolvimento de três sistemas básicos de nosso organismo, o fazer, o perceber e o sentir. O ato de fazer se refere diretamente na capacidade de execução, ou seja, a partir do

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desenho podemos ampliar nossa capacidade de execução de projetos. Já o sistema que sente se refere na forma que determinada obra nos afeta, isso significa que sofremos uma mudança no sentir ao nos relacionarmos com determinada obra. O sistema que percebe faz com que a pessoa aprenda a diferenciar os objetos ao redor, e perceber cores e formas em geral, a partir do sistema de percepção podemos sentir afetos que podem resultar diretamente em ações. Para Howard Gardner (1994) esses três sistemas comportamentais devem ser constantemente exercitados, pois se a pessoa não tem nenhuma estimulo de afeto, o seu sistema de senti não tem a capacidade de evoluir, ou se algum não realiza qualquer ação o seu sistema de fazer fica adormecido.

Sistema que faz Howard Gardner (1994) explica que o sistema que faz se trata dos comportamentos que nós indivíduos executamos, tais atos podem ser chamados de manifestos, estes atos sempre estão sujeitos a análise dos observadores. As ações do sistema executor incluem andar, falar, comer, deitar etc...., porém podemos incluir o ato de desenhar e de produzir arte em geral como parte do sistema que faz. Segundo Gardner (1994) alguns atos tratam-se de mecanismos psicológicos incluindo o ato de desenhar ou tocar algum instrumento, esses atos podem ser desenvolvidos de acordo com a quantidade de execuções, ou seja quanto mais a pessoa treina sua capacidade de execução, mais preparada ela estará para desenvolver algo. O sistema executor, então, consiste em elementos que tendem a serem aperfeiçoados com o tempo. Howard Gardner (1994 apud FISCHER) aponta que o comportamento para se executar algo pode ser dividido em quatro etapas principais. A primeira etapa consiste em vários atos que estão relativamente desconectados e desorganizados, nesta primeira etapa o artista Ira se deparar com vários problemas, e várias opções sendo assim será necessário voltar ao início várias vezes. Na segunda etapa o executor permanece com dúvidas, porém ele já está focado em uma única ideia, sem a necessidade de pausas e nem recomeços. Na terceira etapa a ação começa a adquirir forma e por último na quarta etapa a ação está quase pronta sendo menos suscetível a alterações. O sentido de fazer serve então para desenvolver estas etapas de forma natural. Para Gardner as operações do sistema executor está diretamente ligado a nossa capacidade de definir e resolver problemas, uma vez que nos propomos a resolver determinado problema, devemos esclarecer primeiramente nossos objetivos e em seguida buscarmos a solução em nosso arsenal de habilidades, essas habilidades desenvolvemos ao longo do tempo através do sistema que faz. A resolução de problemas envolve uma escolha de atos comportamentais, a tarefa de qualquer artista ao se deparar com a tela é de escolher quais ações resultarão no fim desejado.

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Sistema que percebe Como vimos o sistema executor consiste em um gerador de ações, já o sistema perceptivo é o contraste disso, isto é, a percepção consiste em um ato somente, o de observar para saber disseminar o mundo externo. Howard Gardner diz que enquanto o sistema executor trata-se de ações e de várias partes do corpo, o sistema perceptivo se utiliza somente dos órgãos sensoriais. Há uma grande diferença entre a percepção de um bebê e a percepção de um crítico de arte por exemplo, um bebê possui apenas uma ou duas formas de perceber algo, já um crítico possui várias possibilidades perceptivas que foram adquiridas no decorrer do tempo. Howard Gardner (1994) explica que o primeiro tipo de percepção que adquirimos é a tropística, nesta fase conseguimos distinguir somente linhas, extremidades e contornos. O outro tipo a ser considerado é a percepção preferencial consiste na fase em que começamos a escolher quais estímulos nos afeta, começamos a nos sentir mais atraídos por determinada cor ou determinado som, este tipo de percepção está diretamente ligada as experiências que é tivemos anteriormente, por exemplo, se alguém tem a preferência pela cor azul é porque esta pessoa teve experiências agradáveis com essa cor anteriormente. Existe também outro modo de perceber as coisas, trata-se da percepção de gestalt, este tipo de percepção se refere na capacidade de reconhecer objetos e formas que estão inseridas em determinado contexto, quando temos uma percepção de gestalt apurada possuímos a capacidade de analisar o contexto que tal imagem está inserida e qual corrente artística ela pertence, conseguimos ver além da imagem através da percepção de gestalt. Esta percepção gestaltica é o que nos permite enxergar símbolos que combinados podem representar algo, ou seja, esta percepção que nos permite entender símbolos como a escrita. Um indivíduo ao analisar uma pintura poderá se utilizar dos três tipos de percepção, os contornos, a luminosidade e o contraste do quadro irá estimular sua percepção tropístca, a harmonia entre as cores e as linhas irá satisfazer a sua percepção preferencial, e por último as texturas características e os aspectos sociais inseridos, irão remeter a percepção gestaltica. Logo a pintura, um desenho, ou qualquer obra em geral tem a capacidade de despertar toda a gama de sistemas de percepção.

Sistema que sente O último sistema que podemos evoluir principalmente através do desenho e do contato com a arte é o sistema que sente. Qualquer discussão sobre desenho, ou processo artístico envolve a questão do sentir, pois na maioria dos casos é este o discurso do artista, o de comunicar seus sentimentos através da arte. As manifestações artísticas nos permitem a maior integração entre o sistema que sente e outros sistemas, por exemplo, quando o desenhista está sentindo algo ele precisa externar isso através da ação de desenhar, temos ai uma relação direta entre o sistema que sente e o sistema que faz. A intenção de cada artista é capturar em seu trabalho uma serie de sentimentos e experiências que tenham sentido ao público e a ele próprio.

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A relação entre uma obra de arte e a pessoa que observa está interligada ao sistema de sentir, Pois uma pessoa só pode ser afetada com um trabalho estético se aquela obra tiver o poder de estimular sentimentos ao observador, só assim a obra desperta interesse do público e torna-se uma obra atrativa e desejável. Podemos concluir então que o sistema que sente é de essencial importância para a compreensão e produção de manifestações artísticas.

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capitulo 3 Projeto- Processo criativo

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Neste capitulo irei documentar como foi o processo de criação para chegar ao resultado final do trabalho, descreverei etapa por etapa, erros e acertos, o objetivo principal desta parte é de abordar o processo de evolução das ideias e mostrar como foi o caminho perseguido para alcançar a proposta conceitual do projeto. Antes de tudo eu gostaria de esclarecer que a proposta da monografia trata-se puramente de um exercício de percepção, a partir de desenhos eu tentarei expressar o meu ponto de vista e meu modo de pensamento, Logicamente seria interessante ter algum respaldo bibliográfico sobre alguns temas que abordarei como pesquisas sobre sociedade e cultura, Porém com esse trabalho pretendo exercitar a minha percepção de mundo me utilizando como base tudo que eu aprendi e vivi até aqui. Eu vejo o grafite justamente desta forma, um modo de se manifestar e fazer com que as pessoas entendam sua individualidade e seu modo de pensar. Para a criação da ilustração que será aplicada em alguma parede localizada dentro do campus da faculdade, era necessário a escolha de um assunto que poderia ser abordado graficamente através da ilustração, para escolha deste tema tive que pensar sobre duas questões principais, a primeira questão era que este assunto deveria ser algo que fizesse sentido não só para mim mas também para todas as pessoas que irão conviver com a obra, são eles os funcionários, alunos e professores da faculdade, são essas pessoas que vão ter que se relacionar com abra dia após dia. A segunda questão principal é o fato de que para a execução do trabalho seria preciso a autorização dos diretores da faculdade, sendo assim eu não poderia abordar sobre um tema que horrorizasse as pessoas de forma inconveniente. Em certa altura do trabalho me deparei com uma enorme dificuldade que era justamente quais seriam os critérios para a escolha do tema a ser abordado. Qual seria o tema mais relevante para retratar dentro de um campus de uma faculdade. Para descobrir qual seria o assunto ideal para o grafite, comecei a treinar o meu modo de ver as a faculdade, passei a ser uma pessoa muito mais atenta ao ambiente em que eu estava inserido passei a entrevistar colegas perguntando que ideias e conceitos seriam interessantes para serem discutidos em uma parede através do grafite. A partir de minha observação e das conversas com meus colegas consegui levantar a primeira sugestão de um tema. Algo que nos chama muita atenção na Facamp é a quantidade de arvores presentes no campus, essas arvores estão espalhadas por todo lado da faculdade e são muito distintas, sendo assim o primeiro tema a ser levantado seria a questão da “sustentabilidade”, tal tema está extremamente presente em nossas vidas, logo seria um tema muito relevante. Porém fui orientado pela professora de que não faria muito sentido buscar um tema dentro da faculdade, pois os alunos e funcionários da Facamp já estão acostumados a enxergar arvores por todos os cantos, com isso não faria sentido nenhum ter árvores em muros. A ideia da “ecologia e sustentabilidade” foi deixada de lado por enquanto, era preciso voltar e repensar outro tema de abordagem. Comecei a reparar aos eventos que acontecem na faculdade e nisso um cartaz me chamou a atenção, o cartaz era sobre uma instituição

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sem fins lucrativos que é composta por alunos fazem trabalhos voluntários, havia vários modelos de cartazes desta instituição porém um cartaz me chamou atenção, nele estava escrito a conhecida frase recitada por Martin Luther king: “O que me incomoda não é o grito dos maus e sim os silêncio dos bons”. Depois de refletir sobre isso eu pensei que com o meu projeto de grafite eu poderia ajudar e promover a iniciativa desta instituição sem fins lucrativos, o que eu queria mesmo é que a partir da mensagem do meu projeto mais pessoas aderissem à campanha e resolvam ser voluntários. Porém fui orientado novamente pela minha orientadora de que esse não seria o melhor caminho a seguir, pois o meu grafite não deveria promover nenhuma instituição, ele deveria promover a si mesmo, ou seja o grafite teria que ter um fim nele próprio. Era preciso retirar do foco a instituição e começar a pensar em um desenho refletindo sobre a própria frase que foi o que mais me chamou atenção. Os atendimentos feitos com minha orientadora fez com que eu mudasse a minha estrategia. Como comentado antes encontrei muitas dificuldade para buscar um assunto, logo decidimos adotar um outro método para a execução do trabalho, ao invés de ficar me embaralhando a procura de um assunto, decidimos adotar o processo reverso, primeiramente eu farei uma serie de desenhos e com base nessas ilustrações irão surgir assuntos e pontos para se refletir. Eu particularmente achei que esse seria o melhor modo para se trabalhar, pois através do desenho eu consigo me expressar melhor e mostrar minhas intenções. Eu comecei a desenhar simplesmente pelo fato de não conseguir me expressar muito bem pela fala ou pela escrita. Com o exercício de desenhar eu consigo refletir melhor,como consequência consigo pensar sobre questões que estão envolvidas na sociedade em que vivemos, questões como: Quais são os novos padrões de comportamento dessa nova sociedade, quais são as novas prioridades e os novos valores dessa sociedade, o que diferencia a nossa geração das anteriores, o que essa geração está produzindo, o que ela está gerando.

3.1: Experiência 1 - O primitivo moderno A primeira ilustração que produzi eu intitulei de “O primitivo moderno”. O desenho se trata de um macaco que incorporou o modo de ser dos jovens desta época, seria como se alguém retirasse o animal de seu habitat e inserisse ele no cotidiano das cidades, a ideia do desenho é sobre a forma que este macaco iria se comportar, como seria essa adaptação já que ele não possui ideias formadas assim como nós, ideias essas que adquirimos ao longo da vida. Esse desenho é uma critica direta aos modismos da sociedade, o macaco nesta ilustração representa uma pessoa inocente, ou seja alguém que não tenha um senso critico para escolher algo que seja relevante ou não, esta é uma relação que eu faço entre esse animal e as pessoas que consomem as coisas simplesmente pela imposições da sociedades. Por exemplo eu vejo varias pessoas que estão usando óculos parecidos com o que o personagem da ilustração esta usando, os jovens estão adotando esse estilo justamente

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pelo fato de que todos possuem óculos deste mesmo estilo. Eu quis retratar esta mesma proposta ao cabelo arrepiado, a camisa xadrez e aos brincos, todo esses são elementos que percebo muito nos jovens da faculdade e também de outros lugares. O objeto mais interessante da primeira ilustração se trata do celular em forma de banana, faz parte da natureza do macaco se alimentar de banana, eles nunca recusam esta fruta. Neste desenho eu fiz uma ponte, ou seja assim como o macaco não pensa o porque ele se alimenta desta fruta, as pessoas não pensam o porque elas precisam consumir objetos tecnológicos, como por exemplo o celular mais novo do mercado. O ultimo ponto a ser comentado sobre esta ilustração é o fundo, este macaco esta inserido em uma metrópole que é onde tudo acontece ao mesmo tempo, ao meu entender a metrópole e os grandes centros são os lugares que mais representam a nossa sociedade, as pessoas que vivem em tais lugares são acostumadas a um ritmo muito acelerado, a noção de tempo é diferente de outros lugares, as pessoas não tem tempo para se conhecerem , sentar em uma praça e admirar a paisagem

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IMAGEM 3.1 - ilustração 1, O primitivo moderno

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3.2: Experiências 2 - Humanos A segunda ilustração tem o título de “humanos”. Ela se trata de uma reflexão que eu faço sobre o modo que as pessoas se relacionam no ambiente da faculdade. Este desenho faz referência à uma imagem muito conhecida que se chama “os três macacos sábios”, pelo que eu sei essa imagem tem origem japonesa, trata-se de três macacos o primeiro macaco é surdo pois ele está tapando seus ouvidos, o macaco do meio é mudo pois ele está cobrindo seus olhos e o terceiro macaco é mudo pois está cobrindo a sua boca. A mensagem principal desta imagem que tomei como referência é de que não devemos ouvir o mal, falar o mal e ver o mal. Através do meu desenho tento transpor a mensagem dos três macacos para os dias de hoje, só que ao invés de macacos comecei a pensar nas pessoas, o que será que torna as pessoas cegas, surdas e mudas. A primeira relação que consegui fazer foi com a cegueira, quando começo a reparar nas pessoas que transitam no campus da faculdade vejo que a maioria das pessoas usam óculos escuros mesmo que não seja um dia ensolarado. Para mim a utilização desses óculos escuros causam uma certa cegueira pois as pessoas não podem mais se olhar nos olhos, não existe mais este contato visual. Quando eu vejo alguém de óculos escuros sem necessidade, a primeira impressão que tenho é de que aquela pessoa é alguém individualista, que se importa só com ela e não consegui ver nada além do seu próprio nariz, logico que a maioria das pessoas não são desta forma, mas essa é a impressão particular que eu tenho. A outra relação que encontrei é a da audição, algo que eu sempre percebo é que as pessoas da minha idade se utilizam muito de aparelhos portáteis para ouvir música como mp3 e celulares. A invenção destes aparelhos trouxe vantagens e desvantagens, o lado positivo desta musica portátil é que você pode se distrair em certas situações por exemplo se você estiver em uma viajem longa de ônibus você pode fazer com o trajeto seja menos cansativo. A desvantagem deste modo de ouvir música é que você se distancia das pessoas, quando você usa os fones de ouvido é como se você se trancasse em um mundo próprio, você fica surdo por prestar atenção nas músicas e não ouvir as pessoas que estão do seu lado. Outra desvantagem dos aparelhos de música portáteis é que os jovens não conseguem mais se concentrar, pois eles estudam ao mesmo tempo que ouvem música e assistem televisão, A tecnologia traz a falsa impressão de que estamos fazendo várias coisas ao mesmo tempo mas na verdade não estamos produzindo nada. Uma dificuldade que encontrei ao produzir esta segunda ilustração foi de como eu iria fazer referência ao personagem mudo dos três macacos sábios, inicialmente eu coloquei na boca do meu personagem um x que expressa uma certa censura como se ele tivesse algo a dizer mas não pudesse se expressar. Depois do desenho finalizado me veio a ideia dos fast-foods, as tecnologias e as maquinas fazem com que o nosso cotidiano fique muito acelerado, as pessoas não podem mais perder tempo pois tempo é dinheiro, desta forma as pessoas recorrem aos famosos fast-foods que são uma forma de economizar o tempo na hora da alimentação, graças a essas redes de fast-foods as pessoas se alimentam muito mal, nos tornando uma geração não muito saudável.

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Para fazer os personagens desta segunda ilustração me inspirei na obra do artista Pablo Picasso, inspirado pelas mascaras africanas Picasso fazia rostos sem expressão nenhuma ao contrário de Leonardo Da Vinci que era mestre em expressões humanas, os rostos que eram compostos por Picasso pareciam mascaras eles não são tristes muito menos felizes. No meu trabalho esse rosto sem nenhuma expressividade representa a indiferença das pessoas, pois estamos em um momento de muitas mudanças porem nada nos abala, nada nos emociona, o mundo está em constante movimento, mas a gente está estagnado. Além de tudo estamos vivendo em uma era de bombardeamento de informações, não conseguimos assimilar essa quantidade imensa de informação logo ficamos indiferentes. Cada personagem da minha ilustração possui uma cor diferente isso remete a diversidade das pessoas pois cada pessoa tem sua aparência individual. Uma estratégia que adotei foi de usar as cores primarias, essas cores quando misturadas geram todas as cores isso significa que esses três personagens do meu desenho devem se relacionar entre si compartilhar ideias, ou seja ele devem enxergar as outras pessoas, ouvir o próximo e se comunicar com as pessoas diferentes deles. O último elemento que gostaria de chamar a atenção para a minha ilustração é o fato de que os três personagens possuem a cabeça vazia, o que eu quis dizer com isso é simplesmente que se eles não conseguem se relacionar eles não possuem conteúdo, quando você se relaciona com as pessoas e para de pensar em si mesmo, você começa a adquirir experiências conhece outros pontos de vistas, você entenderas outras pessoas e sai da sua zona de conforto você deixa de ser uma pessoa vazia.

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IMAGEM 3.2 - ilustração 2, Humanos

A

B

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3.3: Experiência 3 - Grito X Silêncio A inspiração para o terceiro desenho foi a frase de Martin Luther King já citada anteriormente “O que me incomoda não é o grito dos maus e sim os silêncio dos bons”. Comecei a pensar o desenho ao refletir sobre essa frase, então novamente me fiz algumas perguntas, o que significa esse silencio e esse grito nos dias atuais. A minha ilustração é separada em dois polos contrastantes, o personagem da esquerda representa o silencio dos bons, já o personagem da direita simboliza o grito dos maus. O personagem do silencio está com a boca costurada, isso remete aquelas pessoas que sempre tem algo bom para falar, sempre vão acrescentar algo, porém elas não compartilham isso, este personagem também mostra aquelas pessoas que tem algo de interessante a compartilhar porém a sociedade não quer ouvi-la. Um exemplo disso o que sempre vemos no sensacionalismo da televisão que se interessa em mostrar o pior do ser humano para ter mais audiência, e se esquecem das atitudes boas que algumas pessoas exercem. O personagem que representa o grito dos maus está com a sua boca bem aberta, ele tenta mostrar aquelas pessoas que não possuem um bom conteúdo, porém são as que mais falam e mais são ouvidas, por exemplo alguns políticos e alguns humoristas. Uma outra relação que faço entre o grito e o silencio, é a contraposição estre o livro e a televisão. Para mim a televisão remete ao grito dos maus, ou seja ela é chamativa, ela consegue prender sua atenção ao ponto de pessoas ficarem o dia inteiro assistindo televisão, entretanto ao mesmo tempo em que ela é chamativa, ela é desinteressante, pois dificilmente a televisão irá transmitir um conteúdo que te acrescente algo e te faça pensar. Os livros são exatamente o contrário da televisão, logo os livros não gritam, e não são chamativos como a televisão, apesar disso, você pode encontrar conteúdos extremamente interessantes e que podem mudar seu jeito de ver o mundo. Para a composição dos personagens desta obra me inspirei novamente nos rostos feitos por Pablo Picasso, Rostos sem muita expressão facial, adotei também uma geometrização e simplificação das formas. As cores que me utilizei foram três azul para o primeiro personagem, vermelho para o outro personagem e o roxo para alguns detalhes, o personagem que representa o silêncio é da cor azul, que por ser uma cor fria ela passa uma sensação de tranquilidade, clareza, é uma cor que te traz paz, calma, é a cor do silêncio. A cor vermelho é o contraste do azul, é uma cor quente, que te traz um certo incomodo, ela é chamativa, expressiva, ou seja é uma cor gritante. A cor roxa que usei em alguns detalhes representa o equilíbrio desses dois polos contrastantes de que discursei até agora.

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IMAGEM 3.3 - ilustração 3,Grito X Silêncio

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3.4: Experiência 4 - Espirito mecanizado A quarta ilustração que desenhei possui o título de “espirito mecanizado”. A partir deste desenho podemos encontrar algumas reflexões sobre a relação entre homem e máquina, nesta ilustração representei o esqueleto de uma cabeça. Na minha concepção o crânio remete ao interior das pessoas, algo mais profundo do que podemos enxergar, ou seja, o crânio mostra a pessoa como ela realmente é por dentro sem maquiagens, ou mascaras. Este crânio é composto por formas que remetem a estética da máquina, a mensagem que está por trás disso é de que estamos tão acostumados ao cotidiano das maquinas que de certa forma nos tornamos em um elemento só, isto é, nos tornamos homens mecanizados, tivemos que nos adequar ao tempo e espaço imposto pela máquina. Nesta ilustração tive a intenção de representar um aspecto de movimento, temos a impressão de que o personagem está se deslocando de um ponto para o outro, isso simboliza a compressão do tempo, a ideia é mostrar como nosso cotidiano ficou acelerado com a inserção das maquinas, parece que sempre nos falta tempo, estamos sempre atrasados, não temos tempo para conhecer pessoas novas e lugares diferentes. Outro aspecto interessante desta ilustração é a utilização das cores, foram usadas basicamente o ciano, magenta, amarelo e o preto essas cores formam um sistema conhecido como CMYK, com a mistura destas cores podemos formar todas as outras cores. A ideia de representar um crânio pode simbolizar um aspecto de morte, algo que eu não queria mostrar no meu desenho, com isso me utilizei de cores vivas justamente para que a ilustração mantenha um certo equilíbrio. A partir disso podemos estabelecer a relação entre vida e morte, as maquinas podem representar a morte pois elas não são seres vivos, já o esqueleto pode representar a vida, pois antes de ser um crânio ele era um ser vivo. O último ponto a ser mostrado nessa ilustração é o aspecto do material utilizado, nesta ilustração usei a técnica de aquarela, ela faz com que o desenho tenha um aspecto de algo diluído, algo não muito concreto, a técnica do aquarela faz com que o desenho se dissolva no papel.

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IMAGEM 3.4 - ilustração 4, Espirito mecanizado

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3.5: Experiência 5 - O homem mecanizado

A quinta ilustração produzida possui uma temática muito semelhante ao desenho anterior chamado “espirito mecanizado”. Podemos dizer que está ilustração é quase que uma outra versão do desenho número 4. Mesmo assim está quinta ilustração possui algumas particularidades nela mesma, o nome deste desenho é o “homem mecanizado” Novamente enxergamos no desenho a questão das relações entre o homem e a máquina. Nesta ilustração está representado o homem maquina por inteiro, diferente do desenho anterior. O conceito principal é de mostrar um ser que tenha a aparência de homem e de máquina ao mesmo tempo. Um elemento muito particular e muito interessante deste desenho é a característica do traço, a maioria das linhas são retas, elas possuem uma certa rigidez, dureza. Essas linhas reta remetem ás características contidas na máquina, passam uma sensação de frieza, de algo muito racional, sem vida, a linha reta remete ao espirito das maquinas, sem muita improvisação tudo muito racionalizado, sem autonomia. Podemos reparar neste desenho outro elemento interessante, várias linhas deste desenho são continuas, algumas linhas vão até o limite do papel. Essas linhas em conjunto se transformam em um emaranhado ou uma teia. O personagem deste desenho está preso neste emaranhado de linhas, ele não só está preso como ele faz parte desta teia, pois ela é composta por suas próprias linhas A técnica de pintura utilizada neste desenho foi também o aquarela, do mesmo modo que a ilustração anterior. Algo que difere este desenho do anterior é a não utilização das cores, na ilustração 4 me utilizei de cores vivas para manter o equilíbrio, já neste desenho quis utilizar somente o preto e o bege para transmitir uma sensação de monotonia, algo desinteressante. O personagem não possui vida, essa ilustração se trata de uma cena de angustia e de tedio.

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IMAGEM 3.5 - ilustração 5, Homem mecanizado

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3.6: Experiência 6 - A rede social

A sexta ilustração surgiu de uma angustia muito pessoal, este desenho tem um sentido muito particular, ela se trata de algo individual que de certa forma estou compartilhando por meio desta ilustração, O título do desenho é “a rede social”. Como este desenho é algo pessoal gostaria de relatar um pouco a história que gerou a ilustração. Moro em uma pequena cidade, a grande diferença entre uma metrópole e uma cidade do interior é a relação entre as pessoas, na cidade em que moro todas as pessoas são muito próximas e quase todos se conhecem e se cumprimentam. Na época em que produzi esses desenho comecei a reparar que eu não tinha esta relação próxima com as pessoas que moram próximo da minha casa, havia alguns amigos que eu não encontrava a anos mesmo eles morando muito próximo a mim. Então comecei a perceber que um dos fatores disso estar acontecendo é o fenômeno da internet e das redes sociais, quando damos muita importância a este mundo virtual, acabamos nos trancando nele e esquecendo do mundo real. Através das redes sociais podemos conhecer pessoas de todo o mundo, porém esquecemos do nosso vizinho, na minha percepção o mundo virtual está dominando o mundo físico, as coisas estão sendo geradas através da internet, essa é a mensagem do meu desenho, o mundo real está girando em torno do mundo virtual. Na ilustração vemos um globo terrestre saindo de dentro de um notebook, isso remete ao conceito que comentei anteriormente de que o mundo real está sendo gerado a partir do mundo virtual. Todos os continentes são compostos por uma textura que remete a uma teia, está textura representa o fenômeno das redes sociais. Todos os continentes estão conectados de algum modo conectado através das linhas, a internet tem esse poder de conectar as pessoas, não há mais fronteiras, as pessoas podem estar em vários lugares ao mesmo tempo. Todo o desenho está se diluindo, é como se este mundo criado pela internet estivesse derretendo, a intenção disso é mostrar a fragilidade do mundo em que vivemos, nós somos tão dependentes da internet e da luz elétrica que não conseguimos ficar um dia sem usar essas ferramentas. O mundo que representei está conectado ao notebook por raízes, isso mostra que o mundo real está brotando do mundo virtual, este novo mundo está preso a internet e não consegue se libertar, não tem a capacidade de ser independente. As cores desta ilustração tem uma função meramente descritiva, para pintar o mundo usei as cores tradicionais que todos usam para representar o globo terrestre, o marrom das raízes também foi inspirado nas cor dos troncos de arvore.

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IMAGEM 3.6 - ilustração 6, A rede social

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3.7: Experiência 7 - Admiráveis novos mundos Todas as ilustrações comentadas até agora foram feitas ao longo de uma semana, para criar esses desenhos anteriores adotei a postura de fazer um desenho por dia, com isso eu tinha seis desenhos para apresentar a minha orientadora. Cada desenho que fiz era uma possibilidade de um mural, cada desenho tinha uma proposta e mensagem diferente. Ao me reunir com a orientadora e apresentar os desenhos ela me propôs um novo caminho a seguir, tentar reunir todas as ideias em uma só ilustração, todos os conceitos explicados até agora iriam se reunir em um só desenho. A ilustração iria ser um conjunto de vários desenhos, ao reunir todos os desenhos em um só estarei criando não só uma ilustração, mas também uma história na qual vários personagens irão se relacionar. Ao ter que reunir todos os desenho em um só percebi que alguns desenhos se tratam de dois polos contrastantes como é o caso do desenho número 3, de um lado está representado o grito e de outro o silêncio. Resolvi adotar a mesma postura para essa ilustração final, percebi que nos meus desenhos existem duas linhas de pensamento, algumas ilustrações possuem uma aparência mais orgânica com formas que são encontradas na natureza, outros desenhos possuem uma aparência mais dura com as formas inspiradas pelas maquinas. Com isso a ilustração número 7 se trata de dois pontos de vista, é como se fosse uma guerra entre dois mundos. Todos os elementos localizados a esquerda do desenho representam o mundo natural e orgânico, remete as formas da natureza e a um pensamento de sustentabilidade, algo que está muito presente nos dias atuais, diariamente nos deparamos com movimentos que pregam a sustentabilidade, ligamos a televisão e vemos empresas se utilizando disso para vender produtos, vemos campanhas governamentais que tentam nos educar para que tenhamos atitudes sustentáveis. Os elementos posicionados a direita simbolizam o mundo das maquinas, das novas tecnologias e da internet, muito disso já foi discursado na quinta e na sexta ilustração. Os elementos da direita mostram esse novo mundo em que as pessoas se relacionam virtualmente, é um mundo frio e racional imposto pelas tecnologias. Nesta ilustração temos três personagens semelhantes ao centro do desenho, esses personagens são os mesmos encontrados na ilustração número 2 , o conceito inserido nesses personagens centrais é que eles são seres sem expressões faciais, pois não estão alegres e nem tristes, a intenção era de fazer faces que se parecessem com máscaras. Essas três figuras ao centro tem a função de retratar as pessoas em geral, elas representam também as pessoas em construção, por isso os personagens possuem a mente aberta, todos nós somos seres em formação e há sempre algo novo a aprender, o fato das mentes abertas está também ligado ao ambiente universitário, pois é esse o dever das escolas e faculdades, formar cidadãos para o mundo. Cada figura central tem um significado em si mesma, o personagem localizado a esquerda faz parte do mundo orgânico, o personagem da direita representa o mundo tecnológico, já o personagem ao centro simboliza o equilíbrio do mundo orgânico e do tecnológico.

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Podemos enxergar nesta ilustração três mundos que surgem das cabeças dos três personagens principais, isso mostra as novas possibilidades que estão surgindo a partir desses dois pensamentos, a sustentabilidade e a tecnologia, agora temos a capacidade de gerar novos mundos e decidir sobre como seremos no futuro. Novamente temos a mesma ideia que se insere em todo o desenho, o mundo da esquerda está simbolizando a natureza, o mundo da direita simboliza a tecnologia, o mundo do centro representa o equilíbrio destes polos contrastantes, o mundo da esquerda possui formas mais curvas que remetem as coisas orgânicas, já o mundo da esquerda possui linhas retas e frias que remetem as maquinas. Cada lado da ilustração possui um personagem adicional, a esquerda vemos a representação de uma mulher, as formas da mulher sempre remetem a natureza pois a mulher possui mais curvas que os homens, a beleza da mulher pode ser comparada com outros elementos da natureza. A direita do desenho vemos representado o “homem mecanizado” inspirado pela ilustração 5, novamente me utilizei das linhas retas para mostrar a frieza das máquinas, podemos comparar as formas do homem com a estética da máquina, o homem possui formas muito mais retas do que a mulher. As cores usada para este desenho foram tons de azul e tons de verde, a cor azul faz alusão a tecnologia, este azul foi escolhido para dar um efeito de luzes. A cor verde foi usada para simbolizar a natureza, pois esta é a cor que mais encontramos nas florestas.

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IMAGEM 3.7 - ilustração 7, Adimiráveis novos mundos

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3.8: Experiência 8 - Árvore Esta oitava ilustração surgiu no meio do projeto por acaso, pois até então o desenho que iria compor o mural estava definido, quando produzi este desenho, eu não estava pensando na pintura mural, esta era uma ilustração que tinha feito há muito tempo antes do início do meu trabalho de conclusão de curso. A minha orientadora se deparou com essa ilustração por acaso e achou muito interessante, consequentemente ela teve a ideia de inserir esse desenho na ilustração final. A intenção deste desenho foi mesclar a aparência de uma arvore e de uma mão em um objeto só, o tronco da árvore tem a forma da palma da mão de uma pessoa, ela possui uma textura que lembra um tronco de arvore e ao mesmo tempo remetem os nossos músculos que estão por dentro de nossa pele. Cada dedo da mão possui uma mancha vermelha, esse pingo de tinta significa os frutos gerados pela arvore O elemento mais interessante neste desenho é a composição de cor, todas elas são muito saturadas, são cores que de certa forma chamam sua atenção e tornam o desenho mais cativante, além do mais essas cores dão vida ao desenho e faz com que isso seja o ponto principal da imagem.

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IMAGEM 3.8 - ilustração 8, Árvore

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3.9: Experiência 9 - Sem titulo

A ilustração 9 consiste em um aperfeiçoamento do desenho número 7,este desenho foi entregue aos diretores da faculdade para que aprovassem a execução pratica do mural. Na sétima ilustração que produzi havia três personagens muito semelhantes ao centro, acima desses personagens havia três mundos parecidos, esses fatores fazem com que o desenho se torne algo repetitivo e monótono, para que isso não aconteça eu juntamente com a orientadora tomamos a decisão de refazer o desenho número 7. A figura da arvore comentada no oitavo desenho foi inserida ao desenho final, justamente para que o desenho não seja repetitivo, agora existem dois polos no desenho, e a arvore surge como um elemento neutro. Ao produzir está figura tive que redesenhar todos os elementos, algo muito importante que reparei foi que ao refazer cada desenho eu estou de certa forma aperfeiçoando-o, percebi que houve uma evolução no desenho ao refazer cada objeto. As formas da mulher estão muito mais agradáveis e fluidas que no desenho anterior, isso acontece também com os ornamentos que estão melhor definidos, um dos motivos da evolução dessas formas orgânicas foi o fato de eu ter buscado inspiração no movimento artístico conhecido como Art Noveau, cujo os princípios estão fundamentados nas formas orgânicas da natureza. Os elementos que representam a tecnologia também foram todos redesenhados, podemos enxergar também a evolução nas formas destes objetos, a linha reta foi melhor aproveitada nesta ilustração, a evolução destes elementos retos se deve ao fato de eu ter buscado inspiração em outro movimento artístico, conhecido como futurismo, os artistas futuristas são os que pregam a beleza estética das maquinas. Algo novo que encontramos nesta ilustração é a utilização da cor amarela, neste desenho ela tem a função de criar efeitos de luzes para dar a impressão de profundidade, além disso, a cor amarela é a única que transita por toda a ilustração, ela está no lado tecnológico e na parte ecológica do desenho, a utilização do amarelo em todo o desenho serviu para dar unidade a ilustração final. Esta era a ilustração que estava definida para a execução do mural até então, como dito anteriormente, este foi o desenho que serviu para a liberação do espaço que iria ser aplicado a pintura, este desenho foi o que agradou os diretores da faculdade e que permitiu a realização da pintura mural, o desenho final sofreu muitas alterações, mesmo este sendo o desenho aprovado pelos responsáveis da faculdade. No meio do projeto de conclusão de curso acontece o que chamamos de pré-banca, isso nada mais é que uma consultoria na qual os professores irão avaliar o andamento do trabalho e direcionar qual caminho o aluno deve seguir, está banca é composta por três professores capacitados para orientar o trabalho. Este desenho final foi apresentado aos professores como o resultado de todos os estudos feitos até então, porém várias críticas foram feitas ao desenho que propus para o mural, críticas que me ajudaram a evoluir ainda mais o desenho.

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A primeira crítica que pode ser feita a esse desenho é sobre o aspecto simétrico que envolve toda a ilustração, essa simetria não agradou muito os professores que me orientaram, a proposta da minha ilustração é de mostrar dois pontos de vista, do lado direito do desenho vemos objetos que remetem a tecnologia e do lado esquerdo os objetos que remetem ao mundo natural, o problema encontrado nesta divisão é que esses dois mundos, o natural e o tecnológico, não podem ser separados desta forma, se pensarmos bem esses mundos acabam se misturando em certos pontos, e não enxergamos isso na ilustração que propus. Segundo os professores a composição de cor deste desenho não funciona como deveria. A característica do grafite é a utilização de cores vivas e marcantes, a cor tem o poder de chamar atenção das pessoas e deixar o ambiente mais alegre Porém não encontramos isso nesta ilustração, as cores desta ilustração deixam o desenho com um aspecto entediante, elas não são atrativas e não transmitem vida. Volta à tona a questão da simetria, usada também nas cores, metade do desenho possui tons de verde a outra metade tons de azul, isso pode remeter a algo extremamente racional, o que não é o foco do desenho. Os professores repararam através deste desenho que eu tinha uma grande dificuldade no uso das cores, eles disseram que me dedico muito na forma do desenho e esqueço da importância das cores, esses dois elementos, a forma do desenho e a cor devem ser pensadas de forma conjunta. Outro defeito encontrado nessa nona ilustração é a questão de transposição do desenho feito no papel para o muro, ao produzir este desenho não levei em conta as limitações técnicas que existem ao desenhar em uma parede. A folha de papel A4 e um muro, São duas superfícies muito distintas, devem ser levadas em conta questão como escala, limitações técnicas e limitações dos materiais. Este ilustração número nove possui alguns erros de design que dificultam a transposição do desenho para o mural, o principal erro é a espessura do traço, algumas linhas deste desenho são extremamente finas, como é o caso das linhas que compõem a arvore, esses traços finos acabam se tornando um empecilho para a reprodução do desenho no mural Para evoluir este desenho era necessário um melhor uso das linhas retas, as linhas localizadas a direita da ilustração estão meio confusas, elas deveriam ser mais trabalhadas, além do mais a linha reta poderia ser mais explorada e não contida como vemos neste desenho, os professores me disseram que a linha reta foi muito bem explorada na ilustração 5, o homem mecanizado, para agregar qualidade ao desenho final era necessário um melhor aproveitamento desses traços que encontramos na quinta ilustração. O último fator que incomodou os professores foi a ausência de contraste na imagem, as áreas de sombra precisam ser mais definidas, a ausência de contraste ao desenho faz com que alguns elementos se misturem dificultando a compreensão da imagem, isso é o que acontece com os dois personagens que representam a tecnologia, não há nenhuma diferenciação de sombra e de cor sobre eles. Através da aplicação de áreas de sombra na imagem poderei definir melhor a posição dos elementos no espaço e deixar evidente qual objeto está atrás e qual personagem está sobreposto sobre o outro.

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IMAGEM 3.9 - ilustração 9, sem titulo

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3.10: Experiência - Projeto

A ilustração número 10 foi a última ilustração que produzi com o intuito de executar a pintura mural, definimos este desenho como o modelo para a aplicação do grafite, A ilustração número 10 consiste no redesenho e aprimoramento da ilustração 9. Ao realizar este desenho tive que refletir a analisar todas as críticas feitas ao desenho número 9, tive que levar em conta tudo o que foi comentado pelos orientadores para poder corrigir alguns erros e assim executar um projeto com melhor qualidade. Nesta ilustração foi adotada uma estratégia diferente das demais, percebemos que ao fazer um desenho complexo em uma folha A4 eu acabava me perdendo, os desenhos ficavam confusos, sendo assim decidimos desenhar cada elemento separadamente, desta forma posso me dedicar a cada figura como se fosse única, posso dar mais atenção a cada detalhe, com isso foram feitos cinco desenhos cada um em uma folha A4, em seguida recortei cada desenho e produzi uma grande colagem, está técnica permitiu com que eu fizesse testes de posicionamento sem precisar refazer o desenho, foram feitos vários testes analisando cada possibilidade até chegar ao resultado esperado. O primeiro elemento que redesenhei foi a figura da arvore, na ilustração 9 a arvore estava mal desenhada por falta de referências, agora a arvore está mais semelhante a palma de uma mão do que a figura de uma arvore, nesta nova versão desenhei a imagem da arvore tomando como inspiração as formas da minha própria mão, comecei a tirar várias fotos da palma da minha mão para compor a imagem, a partir das fotos reparei como se comportam as áreas de sombra e de luz, isso serviu para estruturar a textura que constitui a arvore. As linhas da arvore foram simplificadas justamente pensando na execução do grafite, todas as linhas possuem uma espessura que permite a reprodução da ilustração na parede. Este redesenho da arvore possui um elemento novo que não vemos nas versões anteriores, ao traçar as texturas da arvore surgiu por acaso a forma de um losango, logo me lembrei do losango que compõe a bandeira nacional, dessa forma resolvi fazer essa referência a bandeira do Brasil na ilustração final. Podemos enxergar a evolução que tive não processo do projeto ao analisarmos a imagem da mulher que representa a natureza, vemos que as formas da mulher estão melhor trabalhadas, toda a composição está melhor definida se compararmos com as versões anteriores, a cada redesenho eu procurava encontrar mais referências que me ajudaram a construir cada desenho, nesta nova versão a imagem da mulher possui uma certa fluidez que remete ao mundo orgânico. O personagem que representa o homem mecanizado, também foi todo redesenhado, todas as linhas foram projetadas pensando mas limitações que existem ao desenhar em um muro, novamente vale a pena dizer que houve uma evolução em sua forma, a repetição e a busca de novas referências são os responsáveis por esse avanço constante.

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Os dois personagens que são semelhantes foram os que menos sofreram alterações, mas mesmo assim conseguimos ver o progresso do desenho, Os mundos que estão acima deles também sofreram mudanças, O que mais me agrada nesses personagens são as raízes que conectam os mundos aos personagens, nesta versão esses elementos foram desenhados com muito mais cuidado do que os desenhos antigos, como já comentado antes esse é o benefício de desenhar cada personagem separado, você pode dar mais atenção aos detalhes . Foi adotada uma nova estratégia de cores na ilustração final, todas as cores estão mais vibrantes se comparada com os desenhos anteriores, para compor os efeitos de luzes me utilizei de um tom de amarelo fluorescente que torna a imagem mais viva e chamativa, a intenção dessas cores é justamente de prender a atenção do espectador, este tom de amarelo está presente em todos os personagens. Um problema que havia no desenho anterior era a falta de contraste na imagem, este problema foi resolvido através das áreas de sombra, que estão mais adequadas ao desenho. Depois de ter redesenhado todos os personagens separados, era preciso compor o desenho que serviria de modelo para a pintura mural, desta forma tive que recortar todos os personagens e fazer testes para uma nova criação. Na consultoria que tive com os professores, eles me aconselharam a utilizar mais as linhas retas, com isso em mente acabei criando o fundo do desenho a partir de cruzamentos de linhas retas. O personagem que representa o homem mecanizado serviu como um ponto de partida para a organização do desenho, posicionei o personagem a direita do desenho e através dele comecei a traçar linhas continuas que iriam compor o fundo da ilustração, todos os elementos do desenho foram posicionados através das linhas geradas pelo personagem do homem mecanizado, todas essas linhas que constituem o fundo do desenho estão conectadas aos próprios personagens, essas linhas poderiam também ajudar na ampliação do desenho, pois através das linhas eu posso enxergar os pontos de conexão e assim saber exatamente onde posicionar cada objeto que integra a imagem. As cores que usei para preencher o fundo da imagem são as mesmas usadas nos personagens, a parte do fundo que está localizada a esquerda possui as cores que remetem a natureza, a parte do fundo localizada a direita possui as cores que remetem a tecnologia, algumas áreas de sombra foram incorporadas ao fundo simplesmente para estabelecer uma relação de contraste entre fundo e imagem, ou seja para diferenciar o que é personagem principal e o que é fundo. A minha intenção ao fazer esse último desenho foi de não mostrar dois polos totalmente separados, isso era um dos erros encontrados na versão anterior do desenho, a ideia deste novo desenho é de mostrar uma progressão, não no sentido de melhor ou pior, mas sim como uma linha do tempo, esse desenho tenta indica como éramos e o que estamos nos tornando

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IMAGEM 3.10 - ilustração 10, elementos separados

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IMAGEM 3.11 - , processo de produção da composição final

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IMAGEM 3.12 - , Composição final

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capitulo 4 Processo de execução do mural

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4.1: Relatório do primeiro dia de pintura

No dia dedicado para fazer a pintura mural eu estava com tudo pronto, eu já possuía todos os materiais em mãos e já possuía um acordo com a faculdade, pois já tinha a autorização para começar o trabalho. Neste dia cheguei na faculdade uma hora mais cedo do que de costume, todos os funcionários responsáveis pela manutenção do campus já estavam avisados de que eu iria começar a pintar o muro, O homem que é o responsável pelo campus me disse a seguinte frase: “ontem me avisaram que alguém iria “pichar” o muro da faculdade. Já enxergamos aqui algo que iria me incomodar muito ao longo do dia, as pessoas começam a usar alguns termos que não são corretos como, pichação, vandalismo e rabiscar parede. A parede que foi selecionada para a aplicação do desenho era uma sala utilizada pelo curso de direito, ao saber disso eu fiquei um pouco apreensivo, pois estava preocupado se ao pintar o muro eu estaria atrapalhando a aula de outro curso. Eu precisava conversar com o professor do curso de direito para que ele autorizasse a pintura no momento de sua aula. Eu como aluno de design já possuía em minha mente uma opinião formada sobre as pessoas de direito, minha previsão era que um professor de direito não iria gostar do meu projeto de grafitar os muros. Porém eu estava totalmente errado, quando expliquei meu projeto ao professor ele gostou muito da proposta e disse que se sentiria honrado em ter a sua sala ilustrada. Nesta etapa de execução do projeto, percebi que seria muito mais prático se eu convidasse alguns amigos para me ajudar, (essas pessoas serão citadas nos créditos finais), com isso uma pessoa era o responsável pelas fotos, outras me ajudavam a pintar, e outra pessoa anotava frases importantes que o público dizia, ter pessoas me auxiliando me ajudou muito, pois eu estava muito inseguro em relação ao comportamento das pessoas. A ajuda dos meu colegas foi essencial também pelo fato de que eu teria mais tempo para me comunicar com público e receber o feedback do meu trabalho. Quando começamos a pintar o muro de branco vieram alguns alunos de design que já sabiam que eu iria pintar o mural, eu expliquei toda a proposta do trabalho e eles ficaram muito animados alguns me diziam que gostavam de desenhar e estavam dispostos a me ajudar no que precisasse, alguns desses alunos já estavam preocupados na execução de seus trabalhos de conclusão de curso e acharam muito interessante a minha proposta. Outra pessoa que veio falar comigo neste mesmo momento foi um aluno do curso de publicidade e propaganda, esse aluno é estagiário de uma empresa de energéticos e ele organiza ações publicitarias dentro do campus da faculdade, ele queria organizar um evento publicitário através do meu grafite, isso mostra o poder que o grafite tem de atrair pessoas e de chamar a atenção.

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No primeiro momento éramos simplesmente alunos que estavam pintando uma parede de branco, muitos não sabiam o que estava acontecendo, ficavam nos olhando sem saber o porquê estávamos lá, acharam que estava acontecendo algo muito estranho, uma aluna disse a seguinte frase com um tom irônico: “isso só deve ser coisa do povo de design”. Eu senti que a pintura do muro estava de certa forma chocando as pessoas, a pergunta que mais ouvi nesse dia foi a seguinte: O que você está fazendo tem a autorização dos diretores da faculdade? Tive que responder a esta pergunta inúmeras vezes, as pessoas ficavam chocadas ao saber que eu tinha o aval da faculdade e que além disso foi a própria Facamp que me forneceu os materiais, isso foi algo que os alunos não acreditavam, chegava a causar até um certo espanto. Neste primeiro dia de trabalho percebi que existiam três tipos de pessoas, os que simplesmente elogiavam meu trabalho e minha atitude, os que queriam saber a mensagem por trás do desenho e as pessoas que tentavam entender os significados da ilustração por elas mesmas. A grande maioria das pessoas com quem me deparei no primeiro dia pertencem ao primeiro grupo de pessoas, foram inúmeras as pessoas que elogiavam meu trabalho somente pela estética, elas não queriam saber o que significava, porém gostavam do fato de colorir o campus da faculdade. Essas pessoas eram de todos os tipos, alunos de todos os cursos, professores e funcionários da manutenção do campus. Isso já é algo que me agradou muito, pois para mim o fato das pessoas gostarem de uma parede ilustrada, independente da mensagem implícita no desenho, isso já é gratificante. As pessoas diziam elogios do tipo: Nossa, vai ficar muito legal, que “da hora”. Algo que eu reparei com essas pessoas é que elas usavam muitas gírias para elogiar o meu trabalho, na minha opinião isso se deve pela essência do grafite que é as ruas. O segundo tipo de pessoas são as que procuram saber mais sobre a obra, elas querem saber o que cada elemento do desenho significa, infelizmente este tipo de espectador foi uma pequena minoria neste primeiro dia de trabalho, cerca de dez pessoas que vieram falar comigo e me questionaram sobre a obra, a maioria dessas pessoas eram professores. O mais interessante é que esses espectadores perdiam um certo tempo para ouvir o que eu tenho a dizer, eles me davam parabéns quando entendiam o conceito do meu trabalho. O último tipo de expectador é aquele que tenta encontrar o significado da obra sem antes eu explicar, surgiram alguns palpites sobre o que seria o meu grafite, a primeira sugestão foi dita por um professor, ele disse que o desenho parece um quadro cubista, isso foi interessante pelo fato de ter me inspirado na obra de Pablo Picasso para compor alguns personagens, uma outra pessoa disse que a mão localizada ao centro seria o troféu da copa do mundo, frases como essa são sempre bem vindas, pois cada pessoa pode ter uma relação diferente com o meu desenho assim gerando vários significados. O palpite que mais me interessou foi o que um outro professor comentou, ele disse que a mão que desenhei poderia ser uma citação do Memorial da América Latina, obra de Oscar Niemeyer. Alguns alunos me disseram que esse projeto deveria ser estendido pela faculdade inteira, ou seja, mais muros deveriam ser ilustrados e coloridos, ao longo do dia eu ouvi muito esta frase, o que é um ótimo sinal. Alguns alunos de design me disseram que gostariam de

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grafitar a porta das salas de design porém eles não estavam muito seguros se a faculdade iria permitir, eles disseram que ao ver meu trabalho se sentiram empolgados persistir neste projeto para terem suas portas ilustradas. A última pessoa que vale a pena ser citada neste primeiro dia de trabalho é um professor do curso de marketing, ele é responsável pelo marketing da faculdade, ele disse que queria usar o meu trabalho em um projeto de divulgação da Facamp, ele ficou com meu contato para projetos futuros. Algo importante que reparei enquanto fazia o grafite foi que várias pessoas que passavam queriam tirar fotos para postarem nas redes sociais, muitas coisas que aconteceram comigo neste dia também aconteceram nas redes sociais, como por exemplo a grande maioria elogiou meu desenho, muitos se impressionaram pelo fato da direção ter autorizados, muitas pessoas usavam termos que me ofendiam, como pichação e vandalismo. IMAGEMS 4.1 - Primeiro dia de pintura

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4.2: Relatório do segundo dia de pintura

No segundo dia a interação com o público foi ainda maior que o primeiro, pois no segundo dia o grafite estava evoluindo e tomando forma, isso com certeza estava gerando mais interesse e curiosidade do público. Neste segundo dia mais pessoas queriam saber sobre o significado do desenho, os alunos interagiram mais com o desenho. Os primeiros alunos que vieram falar comigo neste dia foram os alunos do curso de direito eles tiveram a mesma reação que a maioria das pessoas, duvidaram sobre a questão da autorização, elogiaram meu trabalho e disseram que era um projeto inovador, quiseram saber sobre o significado do grafite, porém uma atitude me chamou a atenção, uma menina estava com um trabalho escrito em mãos e fez uma comparação com o que eu estava fazendo, ela disse a seguinte frase: “olha o trabalho deles e olha o nosso, o deles parece muito mais legal”. Depois disso expliquei o conceito do meu trabalho para este grupo de alunos, uma outra aluna me disse que se eu não tivesse explicado ela nunca iria entender a mensagem do desenho. Uma outra aluna de direito veio me perguntar sobre o que representava o desenho que eu estava fazendo na parede, depois de ter explicado os motivos da minha ilustração, esta menina do curso de direito me disse que seria interessante se outras salas fossem grafitadas, inclusive mais salas de direito, pois ela disse que deixaria o ambiente muito mais colorido, eu comecei a reparar nesta aluna de direito e percebi que ela estava explicando o meu desenho para vários outros colegas, Isso aconteceu muito durante a pintura, as pessoas que sabiam o significado do desenho compartilhavam isso com outros colegas, podemos dizer então que a mensagem do desenho estava sendo repassada, multiplicando assim a quantidade de pessoas que irão refletir sobre o desenho. Neste mesmo dia estava passando um grupo de amigos e viram que estávamos pintando a parede um desses alunos disse bem alto com um tom de desabafo: “Nossa, até que enfim um grafite nesta faculdade. Uma professora que estava passando me disse que poderiam fazer grafites em todas as paredes, pois isso deixa o ambiente muito mais alegre. Um pouco mais tarde, um aluno me contou que tinha certeza que eu iria grafitar o bloco inteiro, ele disse que ouviu vários boatos confirmando isso, alguns alunos estavam convictos de que a faculdade inteira iria ser ilustrada. Um Professor do curso de publicidade e propaganda que já tinha se deparado com o meu desenho veio me abordar, ele foi uma daquelas pessoas que tentavam encontrar significado no desenho, e chegou a dizer que era um quadro cubista, desta vez ele me perguntou sobre o que eu estaria abordando no meu desenho, ao ter esclarecido sobre o meu grafite, o professor aplaudiu a iniciativa, ele tentou olhar meu desenho com mais paciência e disse que o legal da minha ilustração é que quando você olha para o desenho, você vai enxergando aos poucos todos os elementos.

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Uma professora de inglês achou empolgante o projeto e pediu para que eu explicasse sobre o intuito do meu desenho, eu expliquei e ela disse que tinha uma interpretação totalmente diferente do meu desenho, ela achava que era sobre a revolução industrial e a evolução da sociedade, o mais instigante foi que ela disse que cada pessoa pode ter uma interpretação diferente do desenho, esta mesma professora propôs que eu elaborasse um questionário para ter um feedback mais preciso do projeto. Algo que aconteceu no segundo dia e que não tinha ocorrido até então, foi que as pessoas começaram a dar opiniões e queriam participar do desenho, uma menina do curso de direito propôs que fosse desenhado um sapo, isso porque o sapo é o mascote do curso de direito, outra moça de direito disse que o fundo do meu desenho tinha que ser preto para destacar as outras cores. Neste segundo dia de trabalho muitas pessoas se juntavam em frente a parede que estávamos grafitando, durante os intervalos das aulas muitas pessoas se juntavam para acompanhar a processo da obra, eu e meus amigos começamos a reparar que o meu grafite fez com que aquele lugar se tornasse um ponto de encontro dos alunos, enquanto estava pintando eu ouvi um aluno falando para o outro:” Nossa, não te vejo mas na faculdade. O meu grafite fez com que esses dois amigos se encontrassem, esse foi um dos pontos positivos do meu grafite, ele foi capaz de promover encontros e relacionamentos. Percebemos outro fator durante o segundo dia de pintura, muitas pessoas estavam passando em frente ao muro que estávamos pintando, geralmente o número de pessoas que passam pelo local é bem menor, podemos dizer então que a pintura do mural alterou a rotina das pessoas e fez com que elas mudassem a sua rota. Neste dia aconteceu um fato que muito me agradou e que estava esperando desde que comecei a pintar o mural, pela primeira vez alguém identificou a mensagem por trás do desenho sem que eu precisasse explicar, uma menina do curso de publicidade e propaganda veio me perguntar qual o intuito do mural, expliquei para ela que o mural fazia parte do meu projeto para a conclusão do curso, ela me parabenizou e me disse que entendeu o conceito do meu desenho que era uma guerra entre dois polos, o mundo natural e o mundo tecnológico, e que as linhas retas representam as maquinas e as linhas orgânicas representam a natureza, isso foi algo muito gratificante para mim, infelizmente não houve outros casos como esse neste dia. Outra questão que vale a pena retratar é o fenômeno das redes sociais, várias pessoas estavam com seus celulares tirando fotos para postar nessas redes sociais, algumas pessoas tomaram conhecimento do mural através das redes sociais e em seguida vieram conferir meu trabalho pessoalmente, isso faz relação direta com questões que tento abordar no meu trabalho, o mundo virtual pode determinar as ações no mundo real, algumas manifestações acontecem primeiro nas redes sociais e se tornam manifestações físicas. O último acontecimento deste dia que gostaria de relatar se trata de uma experiência pessoal. Moro em uma cidade vizinha de onde se localiza a minha faculdade, depois de ter passado o dia inteiro em pé pintando o mural voltei para minha casa de ônibus, eu estava muito cansado e preocupado pelo fato de que eu teria que escrever o relatório de tudo

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que aconteceu naquele dia, ao chegar na rodoviária de campinas me deparei com uma manifestação artística, um grupo de músicos estavam tocando música popular brasileira dentro da rodoviária. Me senti na obrigação de dedicar um tempo para apreciar a arte que estava sendo executada ali, pois assim como eu queria que os alunos da faculdade enxergassem o meu trabalho, os músicos da rodoviária queriam quebrar a rotina daquele lugar e transmitir uma mensagem ao público. A rodoviária é um lugar onde as pessoas sempre estão correndo, ninguém conversa com ninguém, todos querem chegar logo em casa depois de um dia inteiro trabalhando, a minha faculdade não é diferente, todas as pessoas estão preocupadas com trabalhos, provas e notas, ninguém possui tempo para apreciar uma manifestação artística. Naquele dia em especial me desliguei dos meus problemas pessoais, me permitindo escutar as ideias de um grupo de músicos.

IMAGEMS 4.2 - Segundo dia de pintura

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4.3: Relatório do terceiro dia de pintura Nos dois primeiros dias muitas pessoas vieram me perguntar sobre os significados do mural, foram inúmeras as pessoas que pararam para me escutar, nesses dois primeiros dias tive que explicar a obra tantas vezes que eu já possuía um discurso pronto e ensaiado, eu estava cansado de repetir as mesmas frases várias vezes. Para evitar essa repetição resolvi levar todos os desenhos que fizeram parte do processo para a execução do mural, com isso eu pude mostrar as pessoas que estavam ali todo o processo criativo da ilustração, explicar todos os raciocínios contidos no meu desenho, além disso, levei outras ilustrações minhas para que os espectadores conheçam ainda mais sobre o meu trabalho em geral. Outro motivo de ter levado os outros desenhos para a pintura, foi a dificuldade que tinha para explicar sobre o elemento da árvore, ela foi um elemento que surgiu por acaso na ilustração e não fazia parte nem do mundo orgânico e muito menos do mundo tecnológico, me senti muito mais à vontade para explicar meu desenho ao mostrar todo o processo da ilustração. Neste terceiro dia de pintura aconteceu algo que até então não tinha ocorrido, algumas pessoas sentiram falta de um título para a obra, vários desenhos que fiz para esse projeto possuem títulos, porém não intitulei esse desenho final, a falta de título para o desenho pode ter um ponto positivo porque assim as pessoas podem pensar em títulos por elas mesmas, quando você intitula uma obra você acaba limitando outras interpretações do seu trabalho. Continuando nesta questão de como discursar sobre o mural para as pessoas, percebi neste terceiro dia que eu tinha uma certa facilidade de explicar a obra para os alunos de design, a maioria das questões abordadas no meu desenho são abordadas também no curso de design, neste terceiro dia vieram alunos do primeiro ano de design e me perguntaram sobre o mural, ao explicar os elementos do meu desenho eu disse que muitas coisas implícitas na ilustração iriam ser abordadas durante o curso como por exemplo os movimentos artísticos que me inspiraram. Algumas pessoas estavam acompanhado todo o processo de pintura desde o primeiro dia, essas pessoas dedicavam uma parte do seu intervalo para observar o andamento do meu trabalho, algumas dessas pessoas acabaram se tornando até amigos. Grande parte dos alunos com quem conversei diziam que tinham contato com o ato de desenhar, o que mais me impressionou foi que grande parte as pessoa que diziam que tinham o hábito de desenhar, não eram do curso de design, alguns faziam direito outros faziam relações internacionais, eu senti que essas pessoas que desenhavam valorizavam ainda mais meu trabalho, pois eles imaginavam a dificuldade de produzir um desenho em grande escala. Um aluno do curso de relações internacionais me chamou atenção neste dia, ele foi uma das pessoas que me disse que gostava muito de desenhar, ele me mostrou os desenhos que ele produzia, que eram tão bons que perguntei a ele se ele não estaria no curso errado, esse mesmo aluno aplaudiu a minha iniciativa de pintar o muro, ele me disse que não gostava da cor salmão que preenche os outros muros da faculdade, disse que essa cor é entediante e que lembra a casa de sua avó, para terminar ele elogiou dizendo que é impressionante o modo que o grafite muda totalmente o ambiente.

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Houveram duas professoras de espanhol que vieram me falar sobre o mural, essas duas professoras me deixaram muito feliz, elas conseguiram identificar as mensagens do grafite por elas mesmas, e me disseram que entenderam todo o significado por trás do desenho. Houve também um professor de publicidade e propaganda que veio admirar a obra neste dia, eu já tinha explicado sobre o trabalho para ele no dia anterior, ele gostou tanto da obra que disse que estava pensando em uma pintura dentro de seu apartamento, analisando melhor o trabalho este professor disse algo que me agradou muito, ele disse que enxergava um certo contraste na minha obra, ele enxergava um tom de crítica e opressão no meu desenho, mas ao mesmo tempo enxergava uma mensagem de libertação através das cores, depois desse comentário expliquei a esse professor que isso é um elemento que tento retratar nos meus desenhos e mostrei minhas outras ilustrações para que ele enxergasse esta característica. A maioria das pessoas que passavam em frente ao grafite elogiavam como se o desenho estivesse terminado, para a maioria do público o desenho estava finalizado neste terceiro dia, porém faltavam muitos detalhes para terminar, levamos seis dias ao todo para terminar o grafite, entretanto só tivemos esta interação com o público nos três primeiros dias, nos três últimos dias de pintura a faculdade estava fechada e não estava funcionando.

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IMAGEMS 4.3 - Terceiro dia de pintura

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capitulo 5 Mural finalizado

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IMAGEMS 5.1 - Mural finalizado

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capitulo 6 Aplicação dos Questionários

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Depois do mural finalizado era preciso uma forma de ouvir as pessoas, para saber as opiniões do público, para ter uma avaliação concreta sobre os efeitos do trabalho elaboramos um questionário. Minha intenção inicial era de produzir um questionário com perguntas de múltiplas escolhas, esse questionário poderia gerar gráficos para gerar comparações, eu tinha a preferência em fazer o questionário desta forma para não ocupar o tempo das pessoas, ao responder um questionário de múltipla escolha você não precisa gastar tempo elaborando uma resposta, é uma forma pratica de obter informações. A partir de conversas com a minha professora orientadora chegamos à conclusão de que o melhor a se fazer era um questionário aberto no qual os alunos iriam escrever, comentar e dar opiniões sobre o trabalho realizado, foram feitas então cinco perguntas neste capitulo irei apresentar cada uma delas e comentar sobre as melhores respostas Para a distribuição dos questionários eu precisava convidar o público para ver o resultado final, quanto mais pessoas se aglomerassem em frente ao muro, mais questionários seriam distribuídos. Para que muitas pessoas respondessem as questões eu tive a seguinte ideia, convidar meu colega, que é responsável pelo marketing de uma marca de energéticos, para distribuir o produto para quem quisesse responder ao questionário, no dia marcado para a distribuição das questões vieram várias pessoas, assim como o esperado, e foram distribuídos cinquenta questionários ao todo. Ao distribuir os questionários comecei a enxergar um problema muito sério, muitas das pessoas que estavam ali queriam somente energéticos grátis e não estavam preocupadas com minha manifestação artísticas, sendo assim grande parte dos questionários foram respondidos sem nenhuma seriedade ou respeito pela obra. Dos cinquenta questionários que entreguei cerca de trinta foram respondidos relaxadamente, houveram inúmeras respostas que continham uma ou duas palavras, várias pessoas responderam simplesmente sim ou não, muitas pessoas não souberam responder as perguntas e deixavam em branco, alguns usavam um humor desnecessário em suas respostas, como essas pessoas não queriam gastar seu tempo escrevendo as respostas, muitas questionários estavam ilegíveis, através desses questionários mal respondidos podemos concluir que alguns alunos não compreenderam o verdadeiro sentido de uma manifestação artística que é chamar a atenção das pessoas para pensar e refletir sobre o trabalho. Apesar dessas respostas desanimadoras, houveram cerca de vinte questionários bem respondidos por pessoas que queriam comentar verdadeiramente sobre o trabalho, algumas dessas pessoas eram do curso de design, alguns eram amigos meus e outros eram pessoas de cursos diferentes que decidiram responder as perguntas com seriedade.

6.1: Questão 1 A primeira questão implícita no questionário foi a seguinte: Qual seria o título deste trabalho para você? Nos dias que estava pintando muitas pessoas vieram me perguntar qual seria o título do mural, porém ele não tinha título algum, os alunos agora podem dar título ao grafite por eles mesmos através dessa pergunta, ao invés de me perguntarem o título da minha obra. A principal intenção desta pergunta é fazer com que os alunos pensem em um título por eles mesmos e não fiquem imaginando o que eu pensei como título, por isso a questão está formulada desse modo: Qual seria o título da obra para você e não para o autor do trabalho.

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Muitas respostas eram títulos que poderiam definir a ilustração de verdade, poderiam ser realmente o título da obra, pois definiam os elementos que retratei no mural, alguns exemplos de títulos que definem a obra são: Natureza versus industrial, contraste da sociedade, o orgânico moderno, megânico (já unção das palavras mecânico e orgânico). Houveram muitos títulos como esses, isso mostra que parte das pessoas entenderam certamente o que estava sendo retratado no mural, algumas pessoas fizeram questão de explicar o porquê de sua resposta, por exemplo neste caso: “O título do trabalho seria “natureza versus maquinas”, pois na minha interpretação mostra um lado de formas curvas e outro com formas criadas por maquinas, duras e racionais”. Esta foi a resposta mais completa que encontrei ela define diretamente o desenho e se assemelha ao discurso que usei para explicar o significado do desenho, provavelmente o dono dessa resposta deve ter me ouvido discursar sobre o meu projeto. Outra resposta que me chamou a atenção e gostaria de citar é a seguinte:” O paradoxo do mundo. Pois o mundo apesar de ser orgânico formado por plantas, animais e seres humanos. A racionalidade se torna predominante e as maquinas são as que evoluem, no entanto para a máquina existir ela precisa do orgânico. Esta foi a resposta que mais admirei, esta pessoa conseguiu fazer uma análise ainda mais completa da ilustração, o mais interessante nesta resposta é a relação de dependência colocada entre máquina e o mundo orgânico, apesar de serem dois pontos distintos existe sim esta relação de dependência mutua, o mundo orgânico não pode mais sobreviver sem o mundo tecnológico e a tecnologia não sobrevive sozinha, sem o mundo natural, podemos concluir através dessa resposta que a relação entre dois mundos, não é uma relação de disputa e sim de contribuição. Gostaria de retomar aquela questão dos questionários mal respondidos, ao ler cada questionário comecei a reparar que apesar de respostas ruins haviam vários títulos interessantes que podemos utilizar, haviam vários títulos criativos e inesperados. Alguns exemplos de títulos interessantes são: Quebrando barreiras, as faces do mundo, arte para o desenvolvimento, abstração da Facamp, a vida, sociedade evolutiva, realidade virtual, o mundo das ideias, corpo e mente. Esses foram os melhores títulos que encontrei, infelizmente seria muito difícil comentar sobre essas respostas, pois esses título pertencem aos questionários mal respondidos.

6.2: Questão 2 A segunda pergunta encontrada no questionário foi a seguinte: O que você gostaria que esse desenho representasse? Podemos dizer que essa é a principal pergunta do questionário, pois ao responde-la o aluno poderá explicar toda a mensagem que ele enxerga por trás do desenho. Existe um fator importante na elaboração da questão, o foco da pergunta é perguntar o que o aluno gostaria que a obra representasse e não o que ela realmente representa. A maioria das respostas para essa pergunta foram o que eu já esperava, eram muito semelhantes ao discurso real do desenho, isso se deve pelo fato de que muitas pessoas que responderam ao questionário me ouviram discursar sobre o projeto e acabaram

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limitando suas respostas, nesta etapa do trabalho achei melhor apresentar as respostas menos esperadas. Houveram algumas respostas semelhantes, certas respostas diziam que a ilustração se trata de pontos de vistas distintos, as palavra diversidade e contraste foram muito utilizadas para definir a obra, houveram várias respostas que definiam o desenho como um contraste entre a loucura e a razão, contrastes sociais e culturais e contrastes entre pensamentos. Deste grupo de respostas que definiam o desenho como um contraste decidi destacar uma que poderia ser definitiva: “Acredito que o desenho representa a questão da mudança de visão e pensamento da sociedade, através das formas orgânicas e geométricas”. Duas pessoas resolveram definir o desenho não como um contraste e sim um equilíbrio de forças: “Gostaria que o desenho representasse o equilíbrio do mundo, a ambiguidade de nossa vidas, o equilíbrio da indústria e da natureza”. Para mim essa característica de equilíbrio faz dessa resposta um ótimo comentário, devemos encontrar um meio termo entre a tecnologia e a natureza, como dito antes, a ideia é que os dois mundos não sejam rivais e sim que um mundo complemente o outro. Houveram algumas pessoas que enxergaram no meu desenho uma característica extremamente critica de pessoas enxergaram no meu desenho uma forma de protesto político, a crítica é um elemento que esta intrínseco em grande parte dos grafites, a arte de rua acaba se tornando uma ferramenta para que as minorias se manifestem, tais minorias geralmente não possuem uma voz ativa na sociedade, assim o grafite se torna a voz dos que nunca são ouvidos. Gostaria de apresentar a resposta desse aluno que enxergou no desenho uma forma de crítica: “O desenho poderia representar o domínio do mundo, o modo que as redes de televisão, o capitalismo e o consumismo dominam as pessoas, já que vivemos na Facamp, um lugar dominado pela alienação e pelo consumismo”. Esta resposta me interessou muito, porém vejo um certo radicalismo na resposta desse aluno, na minha opinião meu desenho refletiu questões que já estavam manifestadas dentro desse aluno, ou seja, ele enxergou na ilustração angustias pessoais, colocando na resposta o seu modo de ver o mundo. Ao pensar esse grafite não fiz críticas a nenhuma instituição como redes de televisão ou a própria faculdade, a intenção do meu desenho é chamar a atenção das pessoas para as mudanças da sociedade, mudanças de valores e de pensamentos, o objetivo do meu desenho não é de dizer o que é certo e o que está errado, a intenção da ilustração é apresentar um ponto de vista, existem vários outros modos de percepção, cabe a cada pessoa escolher individualmente. Certas respostas realmente se destacaram das demais, aproximadamente três pessoas dedicaram seu tempo realmente e se esforçaram para compor respostar totalmente completas, essas pessoas me deixaram extremante feliz por suas reflexões sobre o meu trabalho. Gostaria de destacar aqui a resposta que mais me agradou, ela diz exatamente o seguinte: “O desenho deveria, ou parece, representar a oposição de pensamentos. Enquanto de um lado encontramos uma mente aberta ao mundo, representando a aceitação de diversidades, de outro lado verificamos as ideias “quadradas”, tradicionais, que recusam aceitar qualquer tipo de mudança. Essa dicotomia social é verificada na nossa rotina e deveria ser cada vez mais discutida. As ideias abertas ao novo, ao meio ambiente

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e progresso social (enquanto sociedade) encontra como barreira os tradicionalistas e os preocupados com o desenvolvimento econômico e urbano”. Respostas como essa acabam se tornando motivadoras, na verdade o ideal seria que mais pessoas produzissem respostas do tipo, essa resposta mostra realmente que o grafite causou algum efeito na vida das pessoas especialmente neste aluno que produziu este comentário. Este aluno que foi citado conseguiu identificar o ponto chave da ilustração, mostrou seu ponto crítico e foi além disso, o aluno conseguiu colocar pontos subjetivos em sua interpretação, levantando questões que ainda não tinha pensado e ainda propõe uma ampliação dessa discussão quando diz a seguinte frase: “Essa dicotomia social é verificada na nossa rotina e deveria ser cada vez mais discutida”. A questão que achei mais interessante nesta resposta foi o contraste entre o desenvolvimento pessoal e o desenvolvimento tecnológico, o aluno diz que certas pessoas se preocupam somente com o desenvolvimento urbano e econômico e se esquecem do desenvolvimento social, eu concordo plenamente com essa afirmação, pois a tecnologia se desenvolve em um ritmo alucinante mas o bem estar social está estagnado. Se pensarmos bem, as maquinas deveriam servir para facilitar as nossas vidas e nos poupar de determinados esforços, porém o que acontece é justamente o reverso, quanto mais as maquinas evoluem, mais preocupações nós temos.

6.3: Questão 3

Uma das características importantes do desenho é a composição de cor, a composição questão três pede para que as pessoas façam seus comentários sobre as cores usadas na ilustração, a partir dessas respostas posso analisar o efeito que as cores causam no cotidiano das pessoas. Como comentado anteriormente, houveram cerca de três questionários que foram muito bem respondidos, um desses questionário consegue definir a minha intenção no uso das cores: “As cores fazem um diálogo do contraste entre a natureza, o mundo orgânico e o universo da racionalidade, da tecnologia. Enquanto para representar o universo orgânico temos a predominância do verde e de cores quentes, temos para representar o universo tecnológico tons frios e predominância do azul. Esse contraste torna a obra harmônica e bonita”. Podemos considerar que esse comentário se trata de um resumo de todas as minhas intenções de cores, isso me faz perceber que as pessoas estavam em sintonia com as questões que tentei levantar nesta ilustração. A grande maioria dos comentários sobre as cores eram muito parecidos, várias pessoas escreveram que as cores contrastantes, fortes, saturadas, chamativas, vibrantes e vivas, cerca de 18 pessoas tiveram esta mesma opinião. A intenção das cores era justamente essa, cores capazes de prender a atenção das pessoas, aguçar o olhar e deixar o ambiente mais vivo e alegre. Várias pessoas conseguiram identificar também que as cores estão diretamente ligadas a mensagem do desenho, os tons de verdes e marrom representam o mundo orgânico enquanto os tons de azuis e laranjas representam o mundo tecnológico.

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Houve uma resposta que se destacou das demais por ser única, o aluno dono dessa resposta enxergou nas cores uma relação de tempo, pare esse aluno as cores verde e marrom remetem a um tempo antigo anterior a revolução industrial, já as cores azul e laranja remetem aos tempos atuais, o avanço da modernidade e da tecnologia. Vários pessoas comentaram que as cores estão combinando, estão agradáveis, harmônicas, porém houve um comentário que dizia exatamente ao contrário, um aluno comentou que as cores estavam extremamente pesadas e densas, isso faz com que a imagem fique conturbadora, segundo o comentário esse ruído das cores é exatamente o reflexo do ambiente em que vivemos, uma sociedade conturbada.

6.4: Questão 4

Em todos os dias que pintei ouvi inúmeras pessoas me dizendo que meu projeto deveria ser estendido por toda a faculdade, os alunos queriam que fossem aplicados murais em outras paredes da faculdade, eles diziam que a ilustração alterou totalmente o ambiente do campus dando mais cor e vida para a faculdade, para mim isso é um sinal de que grande parte do público aprovou a execução da pintura mural. A partir de consultorias feitas com a professora orientadora decidimos formular então a seguinte questão: Como você imagina a continuidade deste trabalho? Através desta pergunta podemos analisar se o projeto foi bem aceito entre os alunos da faculdade. Cerca de 6 alunos dos 20 questionários usados responderam exatamente o que eu esperava, eles gostariam que todas as paredes do campus fossem grafitadas. Certas pessoas responderam que mais alunos deveriam ter essa iniciativa de se expressar através de projetos como esse. Gostaria de destacar uma resposta em especial: “Outros projetos como esse poderiam ser trabalhados no curso de design e aplicados ao redor da faculdade pois incentiva os alunos a exporem suas ideias e pensamentos”. Esta é uma das respostas mais completa que encontrei, porém eu a complementaria dizendo que alunos de todos os cursos poderiam também expressar suas ideias publicamente, através de projetos como o meu ou outros tipos de trabalho, para a execução deste trabalho tive que sair da minha zona de conforto me expondo ao público. Esse mural me trouxe uma evolução pessoal hoje tenho mais facilidade de me comunicar com as pessoas, de receber críticas e de expressar minhas ideias. Esta quarta pergunta que produzimos possui um caráter ambíguo, grande parte das pessoas entenderam a questão de outra forma, vários alunos responderam como seria a continuidade do próprio desenho, ou seja como eles complementariam a minha ilustração, quais temas seriam abordados. A grande maioria desse grupo de respostas semelhante afirmaram que a continuidade do desenho seria manter essas relações de contrastes pensando em vários outros pontos de vistas, outro disseram que a continuidade do trabalho seria pensar justamente no equilíbrio dessas duas forças. Houve também uma

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resposta totalmente diferente das demais, determina aluno comentou que a continuidade do trabalho não estaria na parede e sim na reação das pessoas ao ver o trabalho, ou seja a extensão do trabalho estaria dentro de cada pessoa que se permitiu refletir sobre a obra. A última resposta que vale a pena comentar tem um caráter no mínimo curioso: “O curso que faço não trabalha com a imaginação e criatividade! Não consigo responder essa pergunta”. Essa é uma argumentação totalmente inusitada tendo em vista que o dono dessa resposta foi a pessoa que produziu o questionário mais completo. Na minha opinião pessoal, todas a pessoas podem se utilizar da imaginação e da criatividade independente do curso que ela faz, nos dias que pintei conheci várias pessoas que tinham o ato de desenhar se utilizando da imaginação, tais pessoas eram de cursos diversos como direito e relações internacionais, para mim o grafite prega esse caráter democrático da arte, qualquer tipo de pessoa é capaz de produzir e de aprender com o grafite.

6.5: Questão 5 A última questão do questionário surgiu de um comentário que ocorreu nas redes sociais, um professor de filosofia criticou o meu trabalho questionando se a minha ilustração poderia ser considerada uma manifestação artística, ele afirmou que meu desenho não pode ser considerado arte, para este professor o grafite está a um nível muito abaixo de outras correntes artísticas. Eu particularmente não me importo com nomenclaturas, mas senti que a intenção desse comentário era de rebaixar o meu trabalho, esse professor foi a única pessoa que de certa forma falou mal do projeto, porém o comentário foi feito através das redes sociais, na internet as pessoas são mais sinceras e falam o que pensam. Depois deste ocorrido decidimos formular uma questão para que os aluno comentem sobre a definição do trabalho, ou seja, a partir desse projetos eu posso ser considerado um artista, um grafiteiro, ou um designer? Os nomes que se utilizaram para me definir como autor do trabalho foram, artista, grafiteiro, ilustrador e designer. As pessoas que me definiram como artista disseram que o caráter crítico e reflexivo da obra pode me enquadrar como artista, pois a arte é uma ferramenta de expressar pensamentos e ideias, outro aluno comentou que a ideia de arte depende do contexto que meu desenho está inserido, se estivesse localizado dentro de uma galeria muitos iriam considerar meu trabalho como arte. As pessoas que me classificaram como designer justificaram que houve um projeto, ou seja um planejamento antes de execução do mural, outro argumento é que a minha ilustração se trata de uma comunicação direcionada a um público especifico. Os que me chamaram de ilustrador, ou desenhista explicaram que o projeto exige técnicas especificas de desenho. O termo grafiteiro se deve pela questão do muro e das técnicas de grafite, as tintas e os sprays. Nos dias em que pintei o mural fui chamado por um termo que julgo pejorativo “pichador”, porém não aconteceu o mesmo nos questionários, nenhuma pessoa adotou esse termo para me definir.

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Referências GARDNER, Howard. As artes e o desenvolvimento humano. São Paulo: Editora Artes Medicas Ltda. 1994 MASSIRONI, Manfredo. A psicologia das imagens gráficas: Vendo, desenhando e comunicando.2002. (tradução para o português de Cecilia Consolo) MASSIRONI, Manfredo. Ver pelo desenho: Aspectos técnicos, cognitivos, comunicativos. Edições 70, 1996

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Anexos

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Requerimento de autorização para a execução do mural À Facamp, Aos cuidados Professora Dra. Liana Aureliano Professora Dra. Eveline Borges Prezadas professoras

Sou Emerson da Silva Dias, RA 201012044, aluno regular do 4° ano do curso de Design da FACAMP, e venho solicitar a disponibilização de um espaço livre, especificamente em uma área externa das edificações do Campus, onde gostaria de realizar uma pintura mural como parte do meu Trabalho de Conclusão de Curso. A minha proposta para a realização desse trabalho, consiste em se apropriar do espaço do Campus da faculdade para fazer uma intervenção gráfica através de uma pintura mural. A pintura mural é um modo de pintura que se insere no cotidiano de certo local, chamando a atenção das pessoas para a mensagem. É um modo democrático de arte, pois é uma arte pública. Permitindo o acesso às pessoas sem necessariamente irem aos museus para ter contato com o trabalho plástico. No desenvolvimento da minha monografia estou definindo e relacionando a pintura mural com design, isso faz com que eu tenha uma base teórica para produzir um desenho que tenha relação com as pessoas e com a instituição. Além disso, estou pesquisando sobre as técnicas que vários artistas utilizam para aplicarem seus desenhos nas paredes. Enquanto aplico o desenho na parede a minha proposta seria documentar o processo dessa obra, ou seja, analisar como os alunos reagem ao mural, e principalmente, o que a obra mudou no cotidiano da faculdade. Eu irei tirar fotos diárias da obra ao longo do semestre, e também deixarei uma caixa de diálogo para que a comunidade expresse suas opiniões, comentários e sugestões para o desenvolvimento do mural. Esse seria o conceito principal do projeto. O tema do meu projeto é o conhecimento e desenvolvimento dos homens através da cultura. Apresento um esboço do projeto para sua apreciação e desejo ansiosamente que eu consiga a liberação para a execução do mural. Agradeço desde já a atenção dispensada.

Campinas, ___ de___ de 2013. ______________________________________

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Principais questionรกrios

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O desenho como forma de manifestação política