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EM BUSCA DO

REI THIAGO DE BARROS FONTOURA


CAPÍTULO III O ÍNDIO TAPUIA E A VIAGEM DE VOLTA PARA CASA


N

o pequeno rádio digital, encostado na escrivaninha ao lado da cama onde dormiam Dora e sua mãe, apontavam quatro horas e trinta minutos. O som que emanava de suas profundezas demorou pouco mais de dois segundos para começar a fazer sentido na cabeça ainda embriagada da princesa. Processo muito delicado esse de perceber, todas as manhãs, a realidade. Em um momento, a áurea dos sonhos envolve as pessoas de forma tão poderosa, em uma simulação tão bem elaborada que, se fosse possível, causaria inveja a muito computador de última geração, em um outro, as coisas como são invadem os sentidos, como um enxame de abelhas adentrando por uma casa totalmente aberta. Primeiro, a mais leve luz, depois o som, a textura do travesseiro e o cheiro do pó. Para Dora foi um pouco mais desagradável. A alegre marcha de carnaval, que cantava coisas de Copacabana, a fizera despertar de um sonho terrível. Sonhara que o Embaixador de Pragadasa aparecera em sua casa para dizer coisas de golpe de Estado e proferir uma terrível notícia, a de que seu pai havia desaparecido. Deus sabe como foi horrível para a princesa sonhar com tão tenebrosa ideia. Em pleno sonho, Dora pensava em acordar, acabar logo com aquilo, abraçar seu pai e partir em viagem para sua terra. O sonho, no caso, era poder pensar que estava sonhando. Ao abrir os olhos lentamente e perceber que estava junto de sua mãe na mesma cama, Dora começara a relembrar, uma a uma, todas a palavras proferidas por Laffayete Hermeto Alegre, e pode, de uma triste maneira, sentir o gosto ruim da realidade. Seria equivocado descrever o sono de Dora como algo profundo, que se sucedeu logo após seu corpo cansado ir ao encontro ao colchão macio de sua mãe. Nada mais longe da realidade, Dora despertara de um sono leve, quarenta minutos, se nos fosse permitido estimar. Passara a noite toda em claro. O pensamento não parara um instante sequer, avaliava tudo o que o


embaixador tinha dito, tentara recriar os últimos passos de seu pai, calculava onde ele poderia ter ido, a pé, quanto tempo levaria, onde seria mais sensato procurá-lo, e nesse momento ela percebera como a missão seria difícil, por um único detalhe, para ela, seu pai era só um pai. Falar sobre os defeitos e qualidades assim como os gostos e desgostos de sua mãe seria tarefa fácil, já falar de seu pai... Seria como tentar decifrar uma charada, como não conhecer alguém tão próximo? Esse mistério, sabia bem Dora, fazia parte de seu carisma, era tratado como um astro pop, e poucas as vezes ele próprio possibilitou uma abertura maior de sua alma. Tantos amigos, e Dora começou a questionar em meio ao silêncio da madrugada, envolta nos braços de sua mãe, se algum deles conhecia, de fato, a pessoa embaixo da coroa. Plano, se é que em algum momento ele existira, se desfizera naquele momento. Dora apenas se empenhou em descansar nos braços de sua mãe. Afinal, é comprovado, que não existe melhor lugar para calar as mágoas, relaxar a alma, e ficar em par com o mundo do que o colo de mãe. Pouco depois disso, a princesa foi transportada de uma realidade repleta de planos e pensamentos mais elaborados, sobre a vida, a família, os amigos e o pai, para um ambiente sombrio do sonho que, guiado pelo subconsciente, que teima em permanecer ligado, reconstituiu uma a uma as palavras tenebrosas do embaixador. Falar de novo o que se sucedeu depois do sonho seria desnecessário. Para nós, que apenas acompanhamos as linhas e buscamos sentido nas entrelinhas desta obra, basta dizer que Dora e a mãe acordaram ao som da marchinha de carnaval, que cantava coisas de Copacabana. Levantaram-se como quem vai à guerra. Nenhuma delas sabia o que era ir à guerra, mas se estivessem em uma, agiriam da mesma forma. As malas já se posicionavam em lugar estratégico desde a noite anterior, mãe e filha levariam poucas mudas de roupa, já que em Pragadasa elas não teriam que se preocupar


com vestimentas ou moda, tudo do bom e do melhor estaria esperando por elas. Banharam-se as duas, uma depois da outra, banho curto, típico dos felinos, vestiram-se com roupas confortáveis e de pouco glamour, mas nem por isso de maneira displicente. Dora sabia exatamente qual camiseta combinaria melhor com a calça e o par de sandálias leves. Depois de vestidas, trataram as duas de procurar pelo hóspede e pelo sapo. Acordar o menino Estevão provou ser uma tarefa difícil. Para cada chamada, cutucão ou chacoalho, ele respondia dormindo, coisas que pouco faziam sentido e menos ainda serviriam para alguma coisa ao serem descritas nessas linhas. O jeito foi usar de uma linguagem que fosse mais bem recebida pelos sentidos do garoto. Dora aumentou o volume de seu som portátil e colocou no gabinete do CD o melhor álbum de metal que possuía. O susto, o salto e a cara de terror dele conseguiram uma façanha inédita desde o dia anterior: extrair um sorriso largo no rosto das duas. — Bom dia, Estevão. Como passou a noite? — Disse Dora sorridente, ao amigo. — Você fala como se estivesse um grande Sol lá fora; veja a lua; ouça os grilos e as corujas. — resmungou o amigo, já colhendo os edredons estirados no chão. — Eu entendo você, meu querido — Dora caminhou em direção ao armário e pegou uma toalha — Tome, procure não demorar muito no chuveiro, pois o embaixador não costuma se demorar. Saiba também que o Sapo Virgílio não tolera atrasos. Estevão pareceu entender o recado da princesa, e, por um breve momento, ela confiou no senso de pontualidade do amigo. O que mais tarde se mostrou um grande erro. Enquanto Dora passava seu tempo tentando acordar o amigo Estevão, Diadora caminhava pelos corredores da casa até chegar ao quarto de Virgílio.


Era um quarto simples, uma pequena cama, um pequeno armário, que já se encontrava vazio, uma escrivaninha encostada à base da janela e alguns jornais de Pragadasa, que, abertos, cobriam-na como toalhas. O Sapo já não se encontrava no ambiente. Estava na cozinha, preparando o desjejum de todos. — Alguém pergunte ao jovem Estevão o que ele gosta de comer de manhã. — berrou em ronco que aterra, o sapo com seu tom inconfundível. — Ele come o que tiver, Virgílio — disse Dora chegando ao local. — Pão e leite com café para ele também — nessa altura Virgílio podia ouvir o garoto tomando banho e já estava calculando o tempo que ele perdera desde que entrara no banheiro. Seria óbvio imaginar que o pensamento do Sapo era que o garoto não servia para as causas do exército. — Virgílio, não poderia esperar outra coisa de você — chegou sorridente Diadora à cozinha e já se sentou em seu lugar de costume. Por um breve momento estavam os três a desfrutar de uma manhã agradável como sempre fizeram, sem perceber que por esse breve instante haviam os três afastado a lembrança desagradável do motivo que os fizera levantar mais cedo naquele dia. O café já estava servido. Os três estavam à mesa a esperar pelo garoto Estevão, educados como devem ser os membros de uma família Real, ninguém tocou na comida até o garoto chegar. — Desculpem o atraso pessoal, é que eu estava despenteando o cabelo — disse Estevão ao ver a irritação das pessoas e do Sapo à mesa. — Despentear o cabelo... Pelo menos essa é a desculpa mais original que já ouvi. — disse o Sapo — comentário digno de sua geração, que perde tanto tempo se arrumando para os cabelos parecerem bagunçados. Deixaram de lado as questões de horário e passaram a comer. Correto seria dizer “engolir” a comida. Quem pudesse presenciar a cena perceberia uma mesa onde pães, frutas e jarras com leite, bule de café e suco em um


momento estavam, e no seguinte, não mais. Puseram-se todos na sala a esperar pelo soar da campainha que não tardou tanto a vir. Diadora tratou de abrir a porta e dar os bons-dias ao embaixador que, diferente do dia anterior, trajava uma calça xadrez em tons pastéis e uma camisa branca, o chapéu era maior e mais arejado, aparentemente para suportar melhor o calor. O tempo foi o suficiente para entrar, pegar as poucas malas e colocar no jipe que esperava do lado de fora. — Nossa! que maneiro! Admirou-se Estevão com o tamanho do automóvel — Vai me dizer que vamos de jipe até lá? O embaixador gargalhou e mostrou estar recuperado da tristeza profunda que o abatera tempo atrás. — Por terra não chegamos, meu jovem, tão pouco pelos ares, não podemos confiar. A única maneira é por via fluvial, afinal, não importa a quantas andam as coisas aqui em cima, embaixo d’água é sempre molhado e tranquilo. — Você disse “embaixo d’água”? — preocupou-se Estevão. Sabia que poderia se tratar de uma doce brincadeira, um trote no calouro, mas também poderia muito bem ser verdade. Só faltava todo o mundo sair mergulhando por aí, com tubos de oxigênio nas costas. — Não se preocupe, Estevão ­— Disse Dora ao colocar a mão no ombro do amigo. — É melhor que não saiba muito sobre a viagem, tudo tem seu tempo. Estevão então percebeu outro peso, momentâneo, pois o sapo Virgílio havia usado seu ombro para impulsão necessária que o levasse até a porta dianteira com mais rapidez. — Espero que não se importe, jovem Estevão. Estevão gaguejou e não conseguiu esconder o desconforto da situação. — Onde está sua fantasia... digo... sua... bem, você sabe... — Não vou precisar mais dela, meu jovem, por um bom tempo.


Entraram todos no jipe com o emblema Real na porta e partiram em viagem, em direção ao nascer do Sol. Ninguém na rua, além dos mendigos e dos trabalhadores que sofrem ao pegar três a quatro ônibus por dia. Logo, o veículo encontrava as primeiras curvas da rodovia que levava a outros tantos lugares. Um ou outro caminhão, magistralmente conduzido por esses bem-aventurados seres que são os caminhoneiros, cruzou a sua frente, no sentido contrário da estrada. Por um longo período, apenas o jipe, os campos verdes cercados por morros e o céu limpo formavam a bela paisagem. As duas damas que seguiam no banco de trás já se colocavam a dormir, como se só a leve sensação de estar se movendo em direção ao encontro do pai confortasse aqueles dois corpos cansados, e calasse as vozes que naquelas cabeças teimavam em falar sem freios. Estevão, o único em questão que conseguira dormir e, portanto, o único a manter os olhos bem atentos na estrada – com exceção do embaixador, que conduzia o carro e o sapo Virgílio que estava executando seu trabalho – tentava mapear o caminho em sua cabeça, para, inutilmente, saber exatamente como se chegava a tal reino que teimava em se manter desconhecido de toda a raça humana. — O que tanto prende sua atenção nessas estradas vazias, meu jovem Estevão? — Perguntou o Embaixador, ao perceber a dedicação e o esforço em demasia, delatados pelos movimentos das mãos e pelos murmúrios emitidos pela boca do jovem. — Nada não, senhor Hermeto. Estou apenas tentando memorizar o caminho. O Embaixador não pôde segurar uma gargalhada doce. Estevão, lógico, ficara desconcertado com a atitude; afinal, era compreensível que alguém se preocupasse em conhecer os caminhos para um lugar desconhecido, ainda mais o Reino de Pragadasa.


— Que tem de mais nisso, senhor embaixador? — perguntou o rapaz. — Realmente é louvável que tente memorizar o caminho jovem Estevão. Mas o fato é que olhando assim você jamais descobrirá como chegar à Pragadasa. — Não me diga uma coisa dessas, senhor Hermeto. Estava muito curioso para saber quais e quais curvas levam até seu reino; queria saber se era fácil ou difícil. — manteve-se, assim, firme o menino Estevão, ao defender sua posição ao nobre embaixador. — Gosto da sua postura, meu querido. Mas volto a insistir que, olhando assim, como um dos que sempre viveu nas abas de cá da vida, você jamais será capaz de ver como chegar à Pragadasa. — Não entendi seu ponto, embaixador. — Retrucou o garoto. Nesse momento, o sapo Virgílio saiu de seus ombros para então se acomodar próximo à janela. Já temendo que o que viria pela frente seria uma conversa de tamanha amolação para seus pequenos, mas poderosos ouvidos. — Não é à-toa, jovem Estevão, que Pragadasa permanece bem escondida da maioria das pessoas. Afinal, são poucas as pessoas capazes de encontrar seu caminho e menor ainda é o número delas que merece conhecer o reino. A introdução deixou Estevão calado, apenas seus olhos diziam ao embaixador que era preciso continuar nas argumentações. — Não sei bem como acontece rapaz, só sei que para conhecer o caminho de Pragadasa você precisa estar bem consigo mesmo e com todo o resto. E isso é quase impossível nos dias de hoje. Sempre há uma pendência, com Deus, com o Diabo, com a vida. Sempre há do que se queixar, é da natureza humana a não conformidade com as coisas como são. Estevão tratou de repreender o Embaixador, clamando para este não apelar para assuntos de astrologia, religião ou filosofia. Estevão era daqueles que assumia o gosto de ser humano, elevava ao status de gozo pleno o direito


de errar e estar, de vez em quando, em conflito consigo mesmo. O embaixador tratou de acalmar o menino, dizendo que não era daquilo que estava a falar. Mas sim de ver as coisas com outros olhos. — Passar pela mesma rua todos os dias, no caminho do trabalho é uma coisa. Perceber todas as alterações, todas as pessoas novas que cruzam a sua frente, entender que o ar de hoje é diferente do de ontem, que as folhas que estavam ontem em seus galhos poderiam estar hoje no chão. Que o sabiá que cantava ontem poderia estar a procurar comida hoje são coisas distintas. — Estou começando a entender, Senhor Hermeto. — Deixemos um pouco a teoria maçante e vamos logo a um exemplo prático, nada melhor para acalmar a ansiedade do conhecimento do que a prática. — disse o embaixador — Olhe a sua volta, menino Estevão, digame o que vê. Apressadamente e ingenuamente, o garoto tratou de parecer inteligente e adivinhar a charada de cara, para surpreender o embaixador. — Um campo verde, alguns formigueiros gigantes, cercas, umas cem cabeças de gado, a estrada e um morro que vem lá. O embaixador riu em demasia novamente. — Como disse, você viu, mas não viu nada. Procure respirar e olhe de novo em direção ao morro que vem lá. Surpreendentemente, como passe de mágica, Estevão percebeu uma placa, velha e mal-tratada, tingida de verde, junto à mata selvagem, com os seguintes dizeres: PRAGADASA, 150 METROS À ESQUERDA Antes que pudesse se dar por conta do que vira, o carro virou uma curva inexistente na estrada, arrebentou com as cercas de arame farpado, tão


cuidadosamente armadas pelo proprietário das terras, que agora repousa no requinte de sua cama, sem sonhar com a existência de Pragadasa, do Rei, da Princesa e dos sapos falantes. O chão era tortuoso, o veículo mais parecia um liquidificador gigante. Por várias vezes, o jovem Estevão deu de encontro com sua cabeça no teto do jipe. Dora e sua mãe jamais conseguiriam dormir com tamanha balburdia. — Pelo visto já encontrou a passagem, meu caro embaixador. — disse Diadora, parecendo já bem acostumada com essas pequenas surpresas. — Sim, Majestade. Peço desculpa pelo infortúnio, cada vez mais eles escolhem caminhos inusitados para nosso destino. Entre um pulo e outro, uma topada e outra, Estevão tentava manter seus pensamentos em ordem, para continuar a conversa com o embaixador, já que a cabeça, essa sim, nada mais que ossos, pele e cabelo, servia apenas de proteção para o cérebro e se encontrava cada hora em um canto do automóvel. — Diga-me, Embaixador, aquela placa sempre estivera ali? Exatamente naquele ponto? — Óbvio que não, jovem Estevão — disse o Embaixador, mantendo seus olhares fixos nos campos verdejantes — a cada viagem elas são colocadas em lugares diferentes, mas elas sempre nos conduzem para o mesmo lugar. — Que lugar seria esse embaixador? — perguntou Estevão, já parando de chacoalhar um pouco. A mata densa estava dando lugar a um gramado mais suave e em pouco tempo se tornaria areia e de um lugar estratégico poderia se sentir a brisa e as ondas do mar poderiam ser ouvidas ao morrerem em calmas praias paradisíacas. — O mar, oras bolas. Já havia lhe dito que o melhor caminho para Pragadasa se dá por vias fluviais. — Estamos chegando, gente. — Exclamou a princesa. Havia permanecido


em silêncio durante os momentos de terremoto dentro do carro, mas pôde observar com carinho as preocupações de Estevão e prestar atenção em sua conversa com o embaixador. As terras do proprietário que dormia em cama macia sem sonhar com Pragadasa já ficaram para trás havia alguns minutos. Uma bela praia aparentemente habitada por uma pequena vila de pescadores surgia como presente dos deuses, coisa de gente megalomaníaca, em dispor de tanto tempo livre para se dedicar a caprichos tais, que fazem nós, pobres mortais, a ficar boquiabertos e maravilhados com essas e outras imagens. O Sol meio corde-rosa da manhã, que a pouco deixara de estar em convívio harmônico com as águas mornas e calmas, já avisara que aquele dia seria especial. — Chegamos. — disse o embaixador ao parar o carro em terra firme. — tratemos de pegar nossas bagagens e levar até o encontro daquela vila. Todos obedeceram e Estevão pôde reparar espantado o sorriso dos pescadores, homens simples, em sua maioria sem camisa e bermudas rasgadas. Luxo, não existia, tão pouco fazia lembrar-se. As casas, que mais pareciam cabanas de pau-a-pique promoviam em Estevão certo ar de descrédito, que alguma delas poderia oferecer o conforto que uma família Real necessitava. Para sua surpresa, trataram Dora e sua mãe por Majestade, deram os bons-dias entusiasmados, que só as pessoas simples e de bom coração são capazes de dar. — Eles conhecem vocês. — concluiu Estevão, dirigindo-se à amiga. — Conhecem sim, Estevão, todos nessa vila são amigos de Pragadasa e prestam, com prazer, grandes favores a meu pai. Em troca, peixe nunca falta por aqui. Essa última sentença de Dora soou um tanto estranha, muito mais à razão do que aos ouvidos de Estevão. Como seria possível dizer que peixes não haveriam de faltar? Como controlar tal ação da natureza? Preferiu não tentar entender, pensou ter ouvido errado e ateve-se a prestar atenção a al-


guns bem encorpados e calados homens, caboclos bronzeados pelas ações do sol que trajavam nada mais que calções de banho e chapéus em suas cabeças. A presença deles se fazia perceber, pois em muito seus corpos e suas belezas contrastavam com os habitantes atarracados da vila dos pescadores. — E esses? — perguntou Estevão a sua amiga — Quem são? Ouviu em resposta uma doce respiração, que só a admiração feminina poderia executar. — Ai, ai... são os botos. — Disse Dora. — É bom que eu e minha mãe fiquemos longe deles, não são muito confiáveis. — Melhor ficar de olho nas malas, então. — Disse Estevão, ingenuamente, já preocupado com a situação. Dora riu em demasia e deu um leve tapa nos ombros do amigo. — Quem me dera eles levassem as malas das damas, ao invés de seus corações. Depois de tudo o que vira e ouvira, sobre peixes que não faltariam à mesa, placas misteriosas que surgiam de fronte à fuça, vila de pescadores escondida no meio do nada e agora sobre botos, Estevão achou melhor colocar as tais dúvidas para fora, já percebera que era o único na situação que não estava familiarizado com nada do que estava acontecendo. Perguntar dos tais botos já seria uma grande providência. — Agora já não me vem nenhuma ideia na cabeça, Dora. Juro que suas frases soam um tanto desconexas aos meus ouvidos. — Ora, Estevão — Sorriu Dora — Vai me dizer que não conhece a história do boto? — Nem de longe — Respondeu impaciente o garoto. — Os botos são peixes que vivem nas nossas águas, se parecem com os golfinhos... — Disso eu sei, Dora. — Resmungou o amigo apreensivo da princesa —


O que não entendo é por que vocês chamam esses sujeitos de botos. — Veja como é apreçado. Venha cá, que é melhor para contar. — Dora, habituada a pegar o amigo pelo braço, o arrastou até um ponto confortável, onde pudessem observar as pessoas em suas tarefas de carregar as bagagens até a vila. Naquela situação confortável e longe dos ouvidos dos outros, Dora pôde continuar suas explicações. — Os botos têm a capacidade de se transformar em belos pedaços de homem. Rezam as más e as boas línguas, afinal, gosto para tudo se tem nessa vida, que quando caem as noites, esses peixes, em forma de homens, se misturam ao meio dos bailes e festas da região e seduzem meninas solteiras, desaparecendo no dia seguinte. Estevão definitivamente não estava acostumado com aquilo. O silêncio e o semblante incrédulo entregavam sua falta de vontade para se interar dos assuntos de tamanha estranheza. — Se não acredita em mim, vá lá. Tire o chapéu de sua cabeça. — Desafiou Dora. — Que tem demais o chapéu? — Os botos usam os chapéus para esconderem os buracos que carregam na cabeça. É por ali que respiram. A afirmação, que mais parecia um apanhado de ideias sem sentido, agiu como combustível para uma atitude quase impensável do garoto. Estevão deus as costas para sua amiga e partiu em direção ao comboio. Nas caminhadas fortes e compassadas, pode dar um breve “olá” ao sapo Virgílio, que pegava carona em uma das malas, carregadas pelos simplórios moradores da vila. Passou pelo embaixador que levava sozinho sua bagagem, até chegar perto de um dos caboclos com o chapéu. Sem pensar duas vezes, Estevão recostou seu braço sobre o chapéu de maneira tal que as demais pessoas pensariam que fosse de causa acidental, o evento que sucedeu.


No breve intervalo entre a queda do almejado objeto e a fúria com que se voltou contra ele, o caboclo, Estevão percebeu o furo na cabeça, profundo e escuro, como nas bolas de boliche. “ É verdade!” foi a única coisa que deu tempo de pensar antes de dar com a garganta nos dedos fortes do boto. — Tome cuidado com os gestos espaçados, garoto. Ainda pode se machucar nessa história. De pronto aviso o sapo Virgílio já saltou em direção ao fuzuê. O Embaixador fez o que pode para chegar a tempo e os pescadores trataram de afastar o boto do menino Estevão. — Apenas me contenho por estar na presença da Princesa, filha do Rei de Pragadasa, senhor que admiro e respeito muito. Não fosse por isso já estaria com a cara enterrada na areia. “Foi sem querer” não iria adiantar naquela situação. Estevão preferiu esperar pela amiga que vinha logo atrás, em passos curtos e saltitantes. — Não falei? — Estou aprendendo a deixar minha razão de lado, hoje pude mostrar a ela que ela não entende nada de nada. — disse Estevão já se recuperando do susto. — Realmente, esses sujeitos não são confiáveis. — Trate de relaxar, meu querido. Ainda temos muito tempo nessa vila até o Tapuia chegar. Não se sabe ao certo o tempo em que ficaram os membros da família Real sentados na areia fofa, é bem verdade que, nem sempre, em todo o tempo de espera eles ficaram por lá. Diadora passou a maior parte de seu tempo visitando as pequenas casas onde era sempre muito bem recebida. Aproveitava para colocar a conversa em dia com amigas de longa data. O sapo Virgílio preferiu usar de seu tempo para a caça de insetos exóticos, perdidos embaixo da areia da praia.


O embaixador pôs-se a tocar algumas músicas. Acompanhado de seu velho bandolim, o senhor Lafayette entreteve a princesa, seu amigo Estevão e outros tantos pescadores que, para a surpresa do garoto, sabiam as letras de cor. Quase todas falavam de Maria, São João, São Pedro, mas todas, sendo tocadas uma depois da outra e acompanhadas com tamanha devoção e alegria pelos pescadores, despertaram no menino Estevão uma grande comoção. Seu silêncio e suas palmas, geralmente fora do ritmo, mostravam para a amiga Dora que o garoto estava entusiasmado com uma nova descoberta: a beleza das coisas simples. Seu momento de deslumbre foi interrompido com a certeza de que Estevão não tinha visto por perto nenhum dos botos. “Devem estar aprontando alguma, estou certo disso.” Pensou o garoto. As desconfianças não duraram muito. Dora logo os avistou adentrando no mar e rumando em direção a uma pequena embarcação que chegava ao final do horizonte. — Já não era sem tempo — disse Dora — lá vem o índio Tapuia. A cantoria terminou. As pessoas logo se colocaram a preparar as malas em ordem, para que as mais pesadas fossem transportadas primeiro e as mais leves em seguida. Diadora já estava voltando do último casebre para se juntar a sua querida filha. — A cada viagem, ele está demorando mais. A sua chefa deve estar exigindo demais e pagando de menos. — Que seus ditos não cheguem aos ouvidos dele, minha mãe. Ou você não sabe que esse índio é inconstante das ideias. Estevão estivera tempo demais entusiasmado com a cantoria do Embaixador e esqueceu-se de ficar curioso com o fato mais importante de toda essa história de viagem: Quem afinal era esse Tapuia, que tinha a missão de levar a família Real de volta para Pragadasa? Sua dúvida, no mesmo instante que bateu como pedra que quebra a vidra-


ça da janela da sala de estar, logo foi saciada com a imagem imponente de um índio corpulento de aproximadamente 1,90 m, correto seria dizer que estava desnudo, mas uma pequena túnica feita de materiais rudimentares não deixa concluir a sentença de tal forma. Os cabelos eram longos e o semblante era ameaçador, não havia nada de cativante em sua figura calada. O máximo que fez para dar a entender como um cumprimento foi um leve inclinar com a cabeça para a família Real. Ao se aproximar para pegar as malas, Estevão pode reparar que o índio possuía membranas entre os dedos, como nadadeiras. A pele, bronzeada, reluzia de tão brilhante, o motivo de tal brilho estava em sua textura que mais se assemelhava com as escamas dos peixes. O espanto do garoto foi repreendido pelo índio com um inóspito grunhido, como o de um felino de porte grande e com um olhar gélido que congelou até o último vestígio de coragem que havia em sua alma. Ninguém tocou nas malas, somente Tapuia e os botos, que trouxeram a embarcação até a areia, para facilitar o embarque. Não se iluda quem pense que a embarcação é grande, um navio ou coisa que o valha, bem pior é a imagem que viu Estevão, o único na cena a se espantar com toda a sequência de fatos. Era uma canoa um pouco maior do que a usual, própria para levar um número razoável de pessoas e suas bagagens, mas nem por isso menos simples. Era toda de madeira e suas condições já não inspiravam nenhuma confiança ao menino Estevão. — A gente vai de canoa até Pragadasa? — perguntou em baixo tom ao ouvido da amiga. — Não, Estevão, fique tranquilo. Tapuia vai nos levar até o cais onde pegaremos nossa embarcação oficial. Logo após as malas, foi a vez das pessoas se acomodarem da melhor maneira possível. Cabiam todos na embarcação, desde que dobrassem bem os joelhos e mantivesses as colunas eretas. Todos preferiram o silêncio às


reclamações, ou por estarem acostumados, ou por perceberem que reclamações não iriam adiantar, assim deduziu Estevão que preferiu calar-se para não arranjar mais encrenca, com botos, índios ou qualquer outra surpresa que o aguardasse. A dor no joelho foi aliviada com uma espantosa calmaria que tomou conta do mar a sua volta. A essa altura, as águas o fizeram lembrar um grande espelho. Distante deles, a agitação continuava como sempre, repleta de ondas tortuosas e furiosas. Estevão preferiu não se manifestar e tentar fechar os olhos para não mais precisar brigar com sua razão. Neste momento em que tentava amenizar as brigas internas de seu ser, o garoto foi tomado de assalto por um grande susto, regado de uma quantidade considerável de água salgada: um peixe enorme começara a saltar ao seu lado, era o boto, não qualquer boto, mas aquele com quem se estranhara na praia. Pode perceber isso, é claro, pela maneira com que o grande golfinho cor de rosa de testa avantajada o encarava com os olhos. ­— Não dê bola, Estevão, ele não fará nada ­— Disse Dora segurando a mão do amigo para transmitir um pouco mais de tranquilidade. Já abusando um pouco da compaixão, o menino colocou-se entre os braços da amiga e recebeu uma bela carícia nos cabelos bagunçados e agora molhados. Os demais botos seguiam em frente, sempre em direção ao Sol. Quanto mais andavam, mais Estevão percebia uma plataforma de madeira estendida no meio do oceano. Para todos os demais lados que se olhava só se encontrava uma bela vastidão azul. — Chegamos, meu jovem rapaz — Disse o Embaixador. — Logo você vai poder, enfim, descobrir como chegamos à Pragadasa. Sentaram-se todos nos bancos encontrados no enorme cais, com exceção do embaixador que foi refrescar-se com um refrigerante, encontrado em uma pequena, porém aconchegante lanchonete. Perguntou se alguém gos-


taria de algo. Dora pediu um refrigerante com zero caloria e o jovem Estevão pediu a boa e velha Coca-Cola. Seria bom ver algo natural aos seus olhos no meio de tantas imagens dignas de sonho. Se bem que, parando para pensar, beber uma Coca Cola em um cais localizado em meio ao oceano, onde somente um índio com escamas e um bando de peixes que tomam a forma de caboclos, seriam capazes de chegar, não faz do momento refrescante algo que possa ser chamado de natural. O índio foi auxiliado mais uma vez pelos botos para retirar as bagagens. ­— Já posso sentir. Nossa embarcação está chegando. Por alguma estranha razão, o jovem Estevão não ficou confortado com a sentença proferida pelo Tapuia. Pelo contrário, os tremores que tomaram conta da madeira em que estavam todos alojados o fizeram temer o tipo da embarcação que estaria chegando. Os tremores eram compassados, começaram como uma leve vibração, sentida pelas pontas dos pés e ignoradas pela cabeça. Aos poucos, as vibrações foram se transformando em algo maior, podiam-se ver as tábuas de madeira balançar soltas e exigirem certo equilíbrio dos que permaneciam em pé. No contratempo das tremedeiras, o jovem Estevão via cada vez mais perto um aparente enorme rabo de baleia. Os tremores pararam por um breve instante. As ondas acalmaram-se e um corpulento dorso pôs-se exposto sobre as águas. Agora, ao invés dos pés, o coração, que insistia em tentar sair pela boca, sentia que algo muito ruim estava para acontecer. Dito e feito. Depois desse breve momento, o que se viu e ouviu foi um silvo ensurdecedor, produzido por um forte jato d’água expelido com extrema força pelo animal que começava a se mover em direção ao cais. — Meu Deus! Só faltava essa, Dora. Está vindo uma baleia gigante — Exclamou, mais preocupado e mais amedrontado do que nunca o rapaz a sua sempre tranquila amiga.


— Já não era sem tempo, pensei que nunca ia chegar. Duas coisas simultâneas para se preocupar: a corpulenta ameaça que chegava cada vez mais perto e a total indiferença de sua amiga e dos demais presentes. Quando as águas se acalmaram por completo, o ser submergiu e desapareceu aos olhos dos que esperavam a embarcação real. Estevão, porém, pode acompanhar pela movimentação das águas a enorme sombra que cobria quase a totalidade do cais. Cinquenta, setenta, cem metros, qualquer número gigantesco que combinasse com o exagero que só um garoto seria capaz de criar em sua cabeça, era esse o tamanho do medo e da ansiedade do jovem aventureiro. Mas o frio na espinha, o calafrio e o espanto foram infinitamente maiores. O corpo parou, o cérebro se desligou, a razão enfim retirou-se para dormir. Coube aos olhos incrédulos, mas livres da tremenda responsabilidade de distinguir real de fantasia, verdade de mentira, a tarefa de assistir à monumental baleia azul, toda moldada em chapas de aço e enormes parafusos, emergir das profundezas do oceano, com um estrondoso som de engrenagens trabalhando a todo vapor, tais quais os grandes navios transatlânticos. Olhava-se para os céus e não se via o final da monstruosidade; olhava-se para a esquerda ou para a direita e não se enxergava início nem fim. A paisagem transformou-se diante do garoto, a imensidão azul dos mares foi substituída por outra imensidão, a de um ser colossal que parecia vivo até pouco tempo atrás, mas agora se parecia mais e mais com uma embarcação. — Tinha que ser algo assim — riu o garoto e falou baixo a sua amiga. — Uma baleia gigante. Essa é a embarcação que leva vocês à Pragadasa? Estevão sentiu a mão do embaixador pousar levemente em seu ombro.


— Se eu te contasse no caminho, você jamais iria acreditar. Essa é Estrela Brilhante. A embarcação real de Pragadasa. Foi projetada pelo ilustríssimo Capitão Dias e patrocinada pelo próprio Rei e pelo fiel amigo Tibério Sempronio, construída para se portar como uma verdadeira baleia e acomodar com todo o luxo e requinte os amigos do Rei. Próximo a todos eles, um compartimento abriu-se e deitou-se sobre a passarela rústica. Do escuro de seu interior, saiu um senhor moreno e um pouco baixo, cultivava um longo bigode e usava quepe e roupas de marinheiro, muito bem decoradas por medalhas e pingentes que só os militares, principalmente os de Pragadasa, são capazes de ostentar. Dirigiu-se tranquilamente e sorridente até a família Real e proferiu: — Bom-dia a todos. Espero que não eu tenha feito Vossa família esperar muito. Sou o Capitão Dias. Sejam todos muito bem vindos à Estrela Brilhante.



Em Busca do Rei # 3 - O Índio tapuia e a Viagem de Volta para Casa