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Introdução e comentário Leon L. Morris

SÉRIE C U L T U R A BÍBLICA*

v id a m v a


O EVANGELHO DE LUCAS INTRODUÇÃO E COMENTÁRIO

Leon L. Morris, M.Sc., M.Th., Ph.D. Diretor, Ridley College, Melboume

VIDA !W VA


© 1974 de Inter-Varsity Press Título original: Luke> An lntroduction and Commentary, Traduzido da edição publicada pela Inter-Varsity Press, Leicester, Inglaterra l .a edição: 1983 Reimpressões: 1986, 1990,1996,1997, 2000,2005,2006,2007 Publicado no Brasil com a devida autorização e com todos os direitos reservados por S o c ie d a d e Re l ig io s a E d iç õ e s V id a N o v a ,

Caixa Postal 21266, São Paulo, SP 04602-970 www.vidanova.com.br Proibida a reprodução por quaisquer meios (mecânicos, eletrônicos, xerográficos fotográficos, gravação, estocagem em banco de dados, etc.), a não ser em citações breves, com indicação de fonte. Impresso no Brasil / Printed in Brazil ISBN 978-85-275-0158-3

T

radução

Gordon Chown R e visã o

Júlio Paulo Tavares Zabatiero


Todos aqueles que se interessam pelo ensino e estudo do Novo Tes­ tamento em nossos dias não podem deixar de preocupar-se com a falta que há de comentários que evitam os extremos de serem indevidamente técnicos ou tão breves que não ajudam. É a esperança do editor e dos publicadores que esta série contribua alguma coisa visando preencher esta lacuna. Seu alvo também é colocar nas mãos de estudantes e leito­ res sérios do Novo Testamento, a um preço moderado, comentários por um certo número de estudiosos que, embora sejam livres para fazer suas próprias contribuições individuais, são unidos no desejo de promo­ ver uma teologia verdadeiramente bíblica. Os comentários são primariamente exegéticos, e só de modo secun­ dário homiléticos, embora espere-se que tanto o estudante quanto o preí^dor achem-nos cheios de informações e sugestões. As questões críticas são consideradas integralmente nas seções introdutórias e, também, ao cri­ tério do autor, em notas adicionais. Os comentários nesta Série do Novo Testamento são baseados na Authorized Version (King James). Este, no entanto, é baseado na RSV, visto já terem se passado 18 anos desde a publicação do 19 título da série. Nenhuma tradução individual, no entanto, é considerada infalível, e ne'nhum manuscrito grego individual, nem grupo de manuscritos, é conside­ rado invariavelmente correto! As palavras gregas são transliteradas para ajudar aqueles que não têm familiaridade com aquela língua, e para pou­ par àqueles que sabem Grego o trabalho de descobrir qual palavra está sendo debatida. É motivo de gratidão que o interesse nesta série de comentários, agora completada [no original], tem continuado a ser firme durante os anos em que foram produzidos, e que continuam a ser considerados úteis por estudantes bíblicos em muitas partes do mundo.

R. V.G. TASKER


Todo estudioso da Bíblia sente a falta de bons e profundos comen­ tários em português. A quase totalidade das obras que existem entre nós peca pela superficialidade, tentando tratar o texto bíblico em poucas linhas, A Série Cultura Bíblica vem remediar esta lamentável situação sem que peque do outro lado por usar de linguagem técnica e de de­ masiada atenção a detalhes. Os Comentários que fazem parte desta coleção Cultura Bíblica são ao mesmo tempo compreensíveis e singelos. De leitura agradável, seu conteúdo é de fácil assimilação. As referências a outros comentaristas e as notas de roda-pé são reduzidas ao mínimo. Mas nem por isso são su­ perficiais. Reunem o melhor da perícia evangélica (ortodoxa) atual. O texto é denso de observações esclarecedoras. Trata-se de obra cuja característica principal é a de ser mais exegética que homilética. Mesmo assim, as observações não são de teor aca­ dêmico. E muito menos são debates infindáveis sobre minúcias do texto. São de grande utilidade na compreensão exata do texto e proporcionam assim o preparo do caminho para a pregação. Cada Comentário consta de duas partes: uma introdução que situa o livro bíblico no espaço e no tempo e um estudo profundo do texto a partir dos grandes temas do pró­ prio livro. A primeira trata as questões críticas quanto ao livro e ao texto. Examina as questões de destinatários, data e lugar de composição, auto­ ria, bem como ocasião e propósito. A segunda analisa o texto do livro seção por seção. Atenção especial é dada às palavras-chave e a partir delas procura compreender e interpretar o próprio texto. Há bastante “carne" para mastigar nestes comentários. Esta série sobre o N.T. deverá constar de 20 livros de perto de 200 páginas cada. Os editores. Edições Vida Nova e Mundo Cristão têm progra­ mado a publicação de. pelo menos, dois livros por ano. Com preços mode­ rados para cada exemplar, o leitor, ao completar a coleção terá um exce­ lente e profundo comentário sobre todo o N.T. Pretendemos assim, aju­ dar os leitores de língua portuguesa a compreender o que o texto neotestamentário, de fato, diz e o que significa. Se conseguirmos alcançar este propósito seremos gratos a Deus e ficaremos contentes porque este trabalho não terá sido em vão.

Richard J. Sturz


CONTEÚDO

Prefácio Geral ..................................................................................... 5 Prefácio da EdiçSo em Português........................................................ 6 Abreviaturas Principais .............................................................................. 8 INTRODUÇÃO................................................................................... 11 Autoria........................................................................................ 12 D ata............................................................................................ 20 Linguagem ................................................................................. 25 Lucas o Teólogo.......................................................................... 27 O relacionamento entre Lucas e os demais Evangelhos a. O problema Sinótico ............................................................. 46 b. Lucas e Joâo ......................................................................... 58 Análise................................................................................................. 60 Comentário.......................................................................................... 63 Uma Tabela de Passagens Paralelas........................................................325


ABREVIATURAS PRINCIPAIS A Greek-English Lexicon o f the New Testament and Other Early Christian Literature, editado por William F. Arndt e F. Wilbur Gingrich, 1957. The Ante-Nicene Fathers (reimpressão norte-americana da ANF edição de Edimburgo), sem data. The Gospel according to St. Luke, por William F. Arndt Aindt {Bible Commentcny), 1956* AV Versão Autorizada em Inglês (King James), 1611. The Gospel o f Luke, por William Barclay (Daily Study Barclay Bible), 1967. The Gnomon o f the New Testament, por John Albert Bengel, Bengel traduzido, revisado e editado por Andrew R. Fausset, 1873. BJRL Bulletin o f the John Rylands Library. Blaicklock St. Luke, por E. M. Blaicklock (Scripture Union Bible Study Books)} 1967. Browning The Gospel according to Saint Luke, por W. R. F. Browning (Torch Bible Coínmentaries)11965. f BS Bible Studies, por Adolf Deissmann, 1901. Saint Luke , por G. B. Caird (Pelican Gospel Commentaries), Caird 1963. The Catholic Biblical Quarterly. CBQ Creed The Gospel according to St. Luke , por John Martin Creed, 1950. Ellis The Gospel o f Luke , por E. Earle Ellis (New Century Bible), 1966. The Expository Times. ET The Gospel according to St. Luke por F. W. Farrar (CamFarrar bridge Greek Testament), 1893. Ford A Reading o f Saint Luke ’s Gospel, por D. W. Cleverley Ford, 1967. Geldenhuys Commentary on the Gospel o f Luke, por Norval Gelde­ nhuys (NICONT), 1952. AG


Godet

A Commentary on the Gospel o f St. Luke , por F. Godet, 2 vols., 1880. GT A Greek-English Lexicon o f the New Testament que é a Clavis Novi Testamenti, de Grimm e Wilke, traduzida, revi­ sada e aumentada por Joseph Henry Thayer, 1888. Harrington The Gospel according to St, Luke por Wilfrid J. Harrington, 1968. HDAC Dictionary o f the Apostolic Church, editado por James Hastings, 2 vols., 1915-18. JB A Bíblia de Jerusalém [em Inglês], 1966. JBL The Journal o f Biblical Literature. JTS The Journal o f Theological Studies. Leaney A Commentary on the Gospel according to St. Luke, por A.R.C. Leaney (Black ’s New Testament Commentaries), 1966. Lenski The Interpretation ofSt. Luke’s Gospel, por R. C. H. Lenski, 1961. LS A Greek-English Lexicon, compilado por H. G. Iiddeil e R, Scott, novaediçffo revisada por H. S. Jones e R. McKenzie, 2 vols., 1940.' LT The Life and Times o f Jesus the Messiah, por Alfred Edersheim, 2 vols., 1890, republicado em 1953. A Septuaginta (a versffo grega pré-cristí do Antigo Testamen­ LXX to). The Gospel o f Luke por William Manson (Moffatt New Manson Testament Commentary), 1937. Luke, por Hugh Melinsky (Modem Reader’s Guide to the Melinsky Gospels), 1966. margem. mg. Saint Luke, por D. G. Miller (Layman Bible Commentaries), Mffler 1966. The Vocabulary o f the Greek Testament, por James Hope MM Moulton e George Milligan, 1914-29. Moorman The Path to Glory, por John R. H. Moorman, 1963. The Gospel according to Luke , por G. Campbell Morgan, Morgan sem data. MS(S) manuscrito(s). O Novo Dicionário da Bíblia, editado por J. D. Douglas NDB et al., Edições Vida Nova, 1981.5 “The New English Bible/* Antigo Testamento, 1970; Novo NEB


Testamento, Segunda Edição, 1970. NTS New Testament Studies. A Criticai and Exegetical Commentary on the Gospel ac­ Plummer cording to S. Luke , por Alfred Plummer (International Criticai Commentary)f 1928. RSV “Revísed Standard Version” norte-americana, Antigo Tes­ tamento, 1952; Novo Testamento, Segunda Edição, 1971. RV “Revised Version” inglesa, 1881. Ryle Expository Thoughts on the Gospels, St. Luke , por John Charles Ryle, 2 vols., 1856, republicado em 1969. Studia Evangélica, vol i, editado por K. Aland et al., 1959. SE, i SE, iv Studia Evangélica, vol. iv, editado por F. L. Gross, 1968. SB Kommentar zum neuen Testament aus Tabnud und Midrasch por Herman L. Strack e Paul Billerbeck, 4 vols., 1922-28. SJ The Sayings o f Jesus, por T. W. Manson, 1949. SLA Studies in Luke-Acts, editado por Leandei E. Keck e J. Louis Martyn, 1966. TDNT Theological Dictionary o f the New Testament, uma tradu­ ção por Geoffrey W. Bromiley de Theologisches Worterbuch zum neuen Testament, vols. 14, editado por G. Kittel, 5 — editado por G. Friedrich, 1964. TEV “Today’s English Version” : o Novo Testamento, 1966. THB A Translator’s Handbook on the Gospel o f Luke, por J. Reiling e J . L. Swellengrebel, 1971. Thompson The Gospel according to Luke, por G. H. P. Thompson (New Ciarendon Bible), 1972. Tinsley The Gospel according to Luke , por E. J. Tinsley (Cambridge Bible Commentary), 1965. TNTC Tyndale New Testament Commentary. ZNW Zeitschrift für die Neutestamentliche Wissenschaft. As seguintes traduções da Bíblia são citadas segundo o sobrenome do tradutor: Goodspeed, Knox, Moffatt, Phillips, Rieu. Filo e Josefo são cita­ dos conforme a edição Loeb, a Mishna conforme a tradução de Danby, e o Talmude e o Midraxe conforme a tradução Soncino.


Até muito recentemente, parece que muita pouca atenção foi pres­ tada ao fato notável que Lucas é o único dos quatro Evangelistas que es­ creveu uma seqüela ao seu Evangelho.1 Por que fez assim? Os outros três escreveram livros que se concentravam na vida, na morte e na ressurrei­ ção de Jesus. Evidentemente sentiam que esta história podia ficar em pé sozinha; não precisava de suplemento. Mas Lucas escreveu Atos. Por que? Seu segundo volume, como se sabe, nos leva adiante para a histó­ ria da igreja primitiva. Conta-nos daqueles primeiros dias em Jerusalém e da maneira como os pregadores levaram o evangelho ao mundo, Pedro e João, Estêvão o mártir, Filipe e outros, mas especialmente Paulo e seus cooperadores, O grande pensamento que Lucas está expressando é, decerto, que Deus está operando Seu propósito.2 Este propósito é visto claramente na vida e na obra de Jesus, mas não terminou juntamente com o ministério terrestre de Jesus. Continuou diretamente na vida e no testemunho da igre­ ja. A igreja não representa um novo ato de Deus, completamente sem rela­ ção com aquele. Lucas está dizendo, segundo parece, que a obra de Jesus levou à vida da igreja, conforme o plano de Deus determinou que levasse. 1. Nestas duas últimas décadas (especialmente na Alemanha) a importância de ligar Lucas com Atos tem sido cada vez mais enfatizada. W. D. Davies indica que “O reconhecimento de que Lucas e Atos são duas partes da mesma obra é o fator decisivo na interpretação recente de Atos" (ínvitation to the New Testament (Lon­ dres, 1967), pág. 219). Faz parte de uma comoção de atividade nos estudos recentes de Lucas que, porém, produziu bem pouca concordância, de modo que W. C. van Unnik pôde escrever um ensaio, não faz muito tempo, com o titulo: “Luke-Acts, a Stoim Center in Contemporary Scholarship” (SLA, págs. 15 ss.). 2. Note o uso freqüente por Lucas da palavra dei para transmitir o pensa­ mento de uma necessidade divina no ministério de Jesus (2:49; 4:43; 9:22; 13:16, 33; 17:25; 22:37; 24:7, 26, 44). Assim também emprega boulé, “propósito,"duas vezes em Lucas e sete vezes em Atos, um total de nove das doze ocorrências do ter­ mo no Novo Testamento. S. Schulz enfatizou a importância do plano de Deus na teo­ logia de Lucas (ZNW, lv, 1963, págs. 104-116).


Alguns escritores gostam de i essaltar este fato ao chamar o tema de Lucas de “história da salvação,” ou chamar a atenção ao tema de promessa e cumprimento.3 Lucas entende que este propósito divino está intimamente vincula­ do com o amor e a misericórdia de Deus. Um aspecto característico des­ te Evangelho é o modo segundo o qual o amor de Deus é retratado como estando ativo de várias maneiras, entre uma variedade de pessoas. Este não é um tema ocasional, mas, sim, um que percorre a totalidade deste escrito. Conforme a expressão de A. H, McNeile, embora se possa dizer que em Mateus a nota tônica é a realeza, e em Marcos, o poder, em Lucas é o amor.4 É talvez este fato que dá ao Terceiro Evangelho sua atratividade peculiar. 0 escritor obviamente era um homem de cultura, com uma apreciação do belo, e certamente sabia escrever bem. Mas não é qualquer destes aspectos, nem a totalidade deles, que explica a beleza deste escrito. Pelo contrário, é a maneira em que o amor de Deus aparece brilhando nas parábolas, nos ditos, e na história de Jesus.5 O tema de Lucas é grandioso, e é tratado em toda a sua extensão. Seu Evangelho é o mais longo dos quatro e, quando Atos é acrescenta­ do, escreveu uma parte do Novo Testamento maior do que qualquer outro autor individual. É claro que um estudo dos seus escritos é impor­ tante para o estudante do Novo Testamento.

I. AUTORIA

Usualmente concordasse que o autor deste Evangelho deve ser identifi­ cado com o escritor de Atos. O Prefácio de Lucas (1 :l-4) é endereçado a

3. Cf. Nils A. Dahl, SLA, págs. 150ss. 4. A. H, McNeile; An Introduction to the Study o f the New Testament, 2a. ed., rev. C. S. C. Williams (Oxford, 1953), pág. 14. 5. Muitos homenagearam a qualidade atraente do livro. E. Renan falou dele como sendo “o mais belo livro que existe (le plus beau livre qu’il y ait)'1 (Les Évangiies (Paris, 1877), pág. 283), veredito este que levou C. K, Barrett a observar que Lucas “estava tnak interessado na verdade do que na beleza” (Luke the Historion in Recent Study (Londres, 1961), pág. 7). W. Manson dá o seguinte tributo: “Lucas lançou sua rede num largo círculo, e produziu o Evangelho mais volumoso e variado, mais vibrante e simpático, mais belo e docemente razoável de todos quantos possuí­ mos" (Manson, pág. xxvii). F. C. Grant vê Lucas como “o mais valioso dos nossos quatro” e Lucas-Atos como ���o escrito mais valioso no Novo Testamento" (The Gospels (Londres, 1957), pág. 133).


Teófilo e Atos 1:1 parece ser um tipo de prefácio secundário. É endere­ çado à mesma pessoa e visa, aparentemente, relembrar o primeiro.6 O es­ tilo e o vocabulário favorecem a unidade da autoria. A tradiçáo afirma unanimemente que este autor é Lucas. É atesta­ do pelo herege primitivo Márciom (que morreu c. de 160 d.C.; Lucas era o único Evangelho no seu cânon), no Fragmento Muratoriano (uma lista dos livros aceitos como parte do Novo Testamento; usualmente sus­ tenta-se que expressa a opiniáo em Roma no fim do século II), no Prólo­ go anti-marcionita de Lucas (que também diz que Lucas era nativo da Antioquia, que era médico, que escreveu seu Evangelho na Acaia, e que morreu aos 84 anos de idade, solteiro e sem filhos),7 por Irineu,8 por Tertuliano,9 por Clemente da Alexandria,10 e por outros. Às vezes esta tradição é descontada como sendo nada mais do que conjeturas, mas isto é desdenhoso demais. Lucas nío era, pelo que saiba­ mos, uma pessoa de tanto destaque na igreja primitiva ao ponto de dois volumes tio consideráveis como estes serem atribuídos a ele sem motivo. Se as pessoas estavam advinhando, nâo seria muito mais provável que su­ gerissem um apóstolo? Ou Epafras? Ou Marcos? O fato de que um homem que n£o era apóstolo, sem posiçffo de destaque que se conheça, ser univer­ salmente considerado na antiguidade como tendo sido o autor, deve re­ ceber a merecida consideração. Não devemos desconsiderai o argumento feito por Martin Dibelius de que é improvável que este livro tenha sido publicado sem o nome do autor anexado. Ressalta que o endereçamento a Teófilo pressupõe que ha­ via um desejo no sentido de circular o livro entre pessoas cultas. Para tais

6. H. Conzelmann e £ . Haenchen adotam o ponto de vista de que o Prefácio de Lucas nío visa referir-se a Atos. A maioria dos estudiosos, no entanto, entende que o Prefácio se aplica aos dois livros. Ver, por exemplo, a discussão por A. J. B. Higgins em ApostoUc History and the Gospel, ed. W. Ward Gasque e Ralph P. Martin (Exeter, 1970), págs. 78-91. 7. O texto é dado em Grego em Albert Huck, A Synopsis o f the First Three Gospels, edição em Inglês ed. F. L. Cross (Tübingen, 1936), pág. VIII, e em Inglês em Ellis, pág. 41. Huck data os Prólogos em 160-180 d.C. A maioria dos estudiosos recentes, no entanto, considera que são muito posteriores, e de pouco valor. Ver, por exemplo, a nota em E. Haenchen, The Acts o f the Apostoles (Oxford, 1971), págs. 10-12. Ellis tiata com mais respeito (Ellis, loc. cit.), assim como R, G. Heard, que acha aqui matéria biográfica primitiva e valiosa (JTS n.s., vi, 1955, págs. 9-11). 8. Adversus Haereses IÍI.i.l. 9. Adversus Marcionem iv.2. 10. Strormteis i.21.


leitores, o nome do escritor teria necessariamente sido incluído. Se o pró­ logo “citou o nome da pessoa a quem a dedicação foi endereçada, o nome do autor dificilmente poderia ter sido omitido do título.”11 A tradição não atribuiria a Lucas, de modo uniforme, um livro que era conhecido, desde sua publicação, como obra doutra pessoa. A tradição concorda com o Prefácio, que nos mostra que o autor não era testemunha ocular das coisas que registra, mas que pesquisara evidências da parte de tais pessoas. Era claramente um escritor cuidado­ so e um homem de cultura, mas não um dos primeiros seguidores de Je­ sus. A evidência interna está de conformidade com isto. Em Atos há quatro passagens em que o escritor emprega o pronome “nós” (At 16:1017; 20:5-16; 21:1-18; 27:1-28:16). Parece que estas foram tiradas do diá­ rio de um dos companheiros de Paulo. Uma das seções com “nós” dá a informação de que o escritor ficou hospedado por um certo tempo em Cesaréia com Filipe o evangelista e as quatro filhas deste (At 21:8ss.). Foi somente mais de dois anos mais tarde que ele e Paulo embarcaram com destino a Roma (At 27:1). Este período, passado com tais compa­ nheiros, deve ter dado oportunidade para descobrir muita coisa acerca de Jesus e da igreja primitiva. O vocabulário e o estilo das passagens com “nós” são idênticos aos do restante do livro, e a conclusão natural é que um só autor escreveu a totalidade. E verdade que alguns críticos negam este fato. Sus­ tentam que o autor de Atos copiou umas poucas passagens do diário doutra pessoa como seu meio de fornecer informações acerca dos evenTO tos que descreve. Ou pensam que a palavra “nós” seja apenas um arti­ fício literário.13 Tais argumentos não impressionam. O uso pelo autor 11. M. Dibelius, Studies in the Acts o f the Apostles (Londies, 1956), pág. 148. H. J. Cadbury indica que quando o título e o autor do livro eram nomeados numa etiqueta separada (que pensa ter sido provavelmente o caso de Lucas-Atos) nenhum deles aparecia no texto do rolo (The Màkingof Luke-Acts (Londres, 1958), pág. 195). Cadbury pensa que a evidência de que Lucas era o autor não é conclusiva. Mas não explica como Lucas poderia ter substituído um outro nome tão completa­ mente. 12. Por exemplo, H. Windisch sustenta que o autor de Atos não era Lucas, "mas empregou como fonte um diário de Lucas” (The Beginnings o f Christianity, ed. F. J. Foakes Jackson e K. Lake, vol. ii (Londres, 1922), pág. 342). 13. Emst Haenchen, seguindo Dibelius, adota esta linha de pensamento. Sugere que o uso de “nós” é um modo de indicar que “para algumas das viagens, ele (i.é, o autor de Atos) podia depender de relatórios de uma testemunha ocular” (,SLA, pág. 272).


de extratos das suas próprias notas é inteligível, mas seu uso por outra pessoa é muito menos. Poderíamos colocar o dilema da seguinte manei­ ra: Se o autor não está procurando valer-se do prestígio do escritor do do­ cumento anterior, para que conservar o “nós”? Se está querendo, por que não emprega o nome daquele escritor? Assim teria sido muito mais eficaz. Na realidade, sem o nome o “nós” comprova pouca coisa, con­ forme demonstra a variedade de explicações. Nada que tenha sido aduzido até agora é uma explicação tio natural quanto a explicação que sustenta que um companheiro de Paulo empregava seleções do seu próprio diário. Se pudermos aceitar esta explicação, veremos o autor como um da­ queles que estavam com Paulo nos períodos indicados pelo uso de “nós” mas que não são mencionados pelo nome na narrativa (o autor não cita­ ria seu próprio nome, mas, sim, se incluiria no “nós”). Atos termina à altura em que Paulo estava em Roma, e o autor talvez deva ser procura­ do entre aqueles que são mencionados nas Epístolas do cativeiro ou em 2 Timóteo como estando com Paulo, mas não mencionado em LucasAtos. Isto nos deixa com um grupo pequeno: Tito, Demas, Crescente, Jesus Justo, Epafras, Epafrodito, e Lucas. Não parece haver qualquer razão para acreditar que qualquer desses a não ser Lucas, tenha sido nosso autor.14 Paulo fala de Lucas como sendo “o médico amado” (Cl 4:14) e em tempos idos entendia-se que o argumento em prol da autoria lucana era fortemente apoiado pela linguagem médica que muitos discerniam em Lucas-Atos. H. J. Cadbury, no entanto, convenceu a maioria das pessoas de que a linguagem não é especialmente médica,16 ao indicar que a maioria dos exemplos citados têm paralelos entre escritores que não eram médicos. Parece ser ponto de concordância geral agora que não

14. Lucas é mencionado no Novo Testamento somente em Cl 4:14; Fm 24; 2 Tm 4:11. Alguns o identificaram cora Lúcio de Cirene (Atos 13:1) ou com o Lú­ cio a quem Paulo chama de paiente (Rm 16:21), mas os nomes são um pouco dife­ rentes e nío parece haver razão para identificai' qualquer destes com Lucas. Alguns dos Pais primitivos da Igreja pensaram que Lucas fosse “o irmão cujou louvor no evangelho está espalhado por todas as igrejas” (2 Co 8:18; cf. a oração para o dia de São Lucas no Livro de Orações da Igreja Anglicana), mas isto parece imaginativo. 15. O caso foi fortemente argumentado por W. K, Hobart, The Medicai Language o f St. Luke (Londres, 1882), e mais cautelosamente por A, Hamack, Luke the Physician (Londres, 1907). 16. H. J. Cadbury, The Style and Literary Method o f Luke (Harvard, 1920). A. Q. Morton, no entanto, vê um ponto fraco na abordagem de Cadbury, quando compara a linguagem de Lucas com a de Josefo e da Septuaginta: “Há 18.000 pala­


havia nenhuma linguagem médica técnica especial em nosso modo de usar o termo, pois escritores tais como Hipócrates e Galeno empregavam a lin­ guagem comum dos homens de cultura, segundo parece. Se, porém, Cad­ bury dificultou o conceito de pensar na linguagem de Lucas-Atos como prova de que o escritor era médico, nada trouxe à tona que fosse inconsis­ tente com esta hipótese. Há, pelo menos ocasionalmente, indícios de um interesse médico. Destarte, onde Mateus e Marcos falam apenas de uma fe­ bre, Lucas a pormenoriza como uma “febre muito alta” (Mt 8:14; Mc 130; Lc 4:38). De modo semeèhante, fala de certo homem não simplesmente como leproso, mas como “coberto de lepra” (5:12, i.é, tratava-se de um caso adiantado). Outra vez: se ele foi um médico, então trata-se de um toque muito humano quando omite a declaração que a mulher que so­ fria de uma hemorragia gastara todo o seu dinheiro com médicos (8:43; cf. Mc 5:26). A objeção mais séria à autoria lucana é a alegação de que Atos di­ fere nalguns aspectos importantes dos escritos paulinos. Tira-se a inferên­ cia de que ninguém que foi um companheiro íntimo de Paulo poderia ter escrito Atos. Destarte, o falar em “línguas” no Dia do Pentecoste parece diferente daquilo que Paulo quer dizer com “línguas” em 1 Co* ríntios 14. Além disto, não é fácil reconciliar as declarações acerca das visitas de Paulo a Jerusalém em Atos 9:26; 11:30; 15:2 com aquelas em Gálatas 1:18; 2:1. Alguns chamam a atenção a problemas em reconciliar os movimentos dos companheiros em Atos 17:16; 18:5 e em 1 Tessalonicenses 3:1, 6, ou em reconciliar as declarações acerca da vigilância em Damasco (Atos 9:24; 2 Co 11:32). Um exame apurado revela que pouca coisa há de substancial em tais objeções. Dificuldades deste tipo podem muito bem demonstrar que Atos foi escrito independentemente das Epístolas paulinas, mas pouco mais do que isto. Não há contradições reais. A verdadeira força da objeção, no entanto, diz respeito à teolo­ gia mais do que à narrativa. A teologia de Atos, dizem os que levantam objeções, até mesmo em discursos atribuídos a Paulo, é tão diferente daquela do apóstolo que não há questão de que Atos pudesse ter sido es­ crito por um dos companheiros deste. A expressão clássica deste arguvras no Evangelho segundo Lucas e 1.500.000 nas obras de Josefo e na Septuaginta.' Isto pode significar que as palavras em epígrafe são cem vezes mais oomuns em Lucas do que em Josefo (A. Q, Morton e G. H. C, Macgregor, The Structure o f Luke and Acts (Londres, 1964), pág. 3; Morton não está argumentando a favor da hipótese de Hobart, que critica severamente como “uma asseveração lunática/’ mas apenas indica uma fraqueza na refutação feita por Cadbury.


mento parece ser a que foi feita por Philipp Vielhauer, que menciona qua­ tro considerações principais* 1. No discurso do Areópago, Lucas faz Paulo expressar a idéia estóica da teologia natural. “Devido ao seu relacionamento com Deus, a raça humana é capaz de um conhecimento natural de Deus e da ética (Atos 10:35) e tem acesso imediato a Deus. A ‘palavra da cruz’ níTo tem lugar algum no discurso do Areópago.”17 2. Em Atos, Paulo é “um cristão judeu que é totalmente leal à lei.” Mais exatamente, é “um judeu verdadeiro . . . em contraste com os judeus que ficaram endurecidos.”18 Circuncida Timóteo (16:3) e ado­ ta ações que demonstram que se conforma à lei (Atos 21:21ss.). O Paulo verdadeiro está implacavelmente oposto à doutrina da lei exposta em Atos. 3. A cristologia de Atos é adocionista e pré-paulina. 4. Em Atos, “A escatologia foi removida do centro da fé paulina para o fim, e ficou sendo uma ‘seçffo sobre as últimas coisas.’ ”19 Mas nem todos concordam com este ponto de vista. Vielhauer não trata toda a evidência com justiça. Destarte, na passagem do Areópago deixa desapercebido o fato de que o discurso segue, de modo geral, as três considerações que Paulo faz em 1 Tessalonicenses 1:9-10, a saber: a importância de voltar-se dos ídolos para servir ao Deus verdadeiro, da volta de Cristo para o julgamento, e da ressurreição de Jesus.20 Além disto, nSo é realmente honesto para com Lucas dizer que seu relato do discurso ensina que o homem natural pode chegar a um conhecimento salvífico de Deus.21 Os ouvintes do discurso de Paulo nío vieram real­ mente a conhecer a Deus, e em Lucas-Atos, a ignorância deste tipo é considerada culpável. Destarte, Jesus ora pelos Seus algozes ignorantes —a ignorância deles não os justifica (Lc 23:34). Lucas repete que estes algozes eram ignorantes, porém culpados (Atos 3:17 com 2:23; 13:27-28). Além disto, Vielhauer níTo atribui valor suficiente àquele fiode ensino paulino em que o apóstolo pode dizer: “Procedi, para comos judeus, 17. SLA, pág. 37. Este trecho vem de uma tradução do seu ensaio de 195051, que parece tei fixado o padrão para boa parte do pensamento alemão subseqüen­ te. O conceito de Vielhauer foi desenvolvido ainda mais por Gcftz Harbsmeier, que sustenta que a igreja sempre deve enfrentar a alternativa fixa entre Paulo e Lucas (SLA, págs. 68-69). 18. SLA ,pág. 38. 19. SLA, pág. 45, 20. J. Rohde relata que U. Wilkens fez essencialmente esta consideração (Rediscovering the Teaching o f the Evangelists (Londres, 1968), pág. 207). 21. Ellis cita B. Gartner e E. Norden, que concordam que este discurso não contradiz o ensino paulino (Ellis, pág. 46).


como judeu, a fim de ganhar os judeus” (1 Co 9:20). Nem sequer leva su­ ficientemente em conta a consideração de que é altamente improvável que a pregação missionária do apóstolo fosse no mesmo estilo que suas cartas às igrejas.23 É verdade, além disto, conforme indica Ellis, que Pau­ lo “nunca deprecia a guarda voluntária da lei por cristãos judeus.”23 O argumento de Vielhauer acerca da cristologia parece ter sido devida­ mente respondido pelo estudo de C. F. D. Moule, “The Christology of Acts,” em que argumenta que a cristologia de Atos não é uniforme, mas que Lucas aparentemente está reproduzindo suas fontes bem fielmente.24 Quanto à escatologia, IJlrich Wükens examina o ponto de vista de muitos dos nossos contemporâneos de que, no seu esforço para retratar a história da redenção, Lucas perdeu a ênfase na escatologia que era tio típica doutros escritores primitivos. Concorda que há nisso algo de certo. Lucas realmente está interessado na história e não tem os mesmos con­ ceitos escatológicos que alguns dos escritores do Novo Testamento. Chega, porém, à seguinte conclusão: “É Paulo, existencialmente interpretado, que é tão agudamente contrastado com Lucas como o grande porém peri­ goso corruptor do evangelho paulino. Mas o Paulo existencialmente inter­ pretado não é o Paulo histórico. E os argumentos essenciais da crítica teológica dirigida contra Lucas não se baseiam tanto na própria tradição cristã primitiva quanto nos temas de uma certa escola moderna de teolo­ gia que desconsidera aspectos essenciais do pensamento cristão primitivo, ou os interpreta erroneamente.”25 Não somos compelidos a escolher en­ tre Lucas e Paulo. Esta é uma conclusão muito importante, A pergunta não é se há uma diferença entre Atos e as Epístolas, mas, sim, se a conclusão cor­ 22. Cf. C. F. D. Moule, “deve ser lembrado que é a piiori provável que haja diferenças entre a apresentação inicial do evangelho a um auditório não-cristão, por um orador, e o sermão do mesmo orador dirigido aqueles que ja se tomaram cristãos; e que, com raras exceções, os discursos de Atos pertencem ao primeiro tipo, ao passo que as Epístolas paulinas pertencem a esta última classe” (SLA, pág. 173). Nas raras exceções, Atos 2Ü:17ss. registra Paulo falando a cristãos, e v. 28 tem uma referência muito “paulina” à redenção. Passagens nas Epístolas, tais como Rm 1:3, 4; 1 Co 15Iss.; 1 Ts 1:9-10, relembram a pregação evangelística, e sío seme­ lhantes ao querigma de Atos. G. Bomkamm acha algum conflito entre Atos e Paulo, mas acha autêntico o incidente do voto (Atos 21:17ss.) (SLA, págs. 204-5). 23. Ellis, pág. 44. Cita Rm 14:20-21; 1 Co 7:18ss.; 9:20 e chama a atenção ao ponto de vista de Kirsopp Lake de que “neste aspecto, Atos oferece uma repre­ sentação fiel do ponto de vistado próprio Paulo” (HDAC, i, pág. 29). 24. SLA, págs. 159-185. 25. 5Lj4,pág. 77.


reta está sendo tirada desta diferença. Na história, tem acontecido não infreqüentemente que um companheiro íntimo de um grande homem tem dado dele um retrato diferente daquilo que aquele homem revelou de si mesmo nas suas cartas. Admitido que o escritor de Atos talvez não tenha penetrado profundamente na teologia paulina distintiva, mesmo as­ sim, é capaz de relatar aquilo que Paulo disse e fez, e é isso que parece que conseguiu fazer. Tudo quanto a objeção comprova, é que Lucas não era outro Paulo, e talvez que não tinha visto qualquer das Epísto­ las de Paulo. Estava escrevendo independentemente do apóstolo, Além distof não devemos deixar desapercebido o fato de que não há evidência alguma de que Lucas foi convertido por Paulo. A probabilidade é que não o foi, e que chegara à maturidade cristã' antes de conhecer a in­ fluência de Paulo. Se for assim, não devemos esperar que sua teologia fosse um tipo de paulinismo diluído. Além do mais, se, conforme parece quase certo, Lucas era um gentio,26 é provável que tenha achado difícil de seguir o método rabínico de argumentação usado por Paulo. As diferenças entre Atos e Paulo podem ser usadas como argumento a favor da autoria lucana tão facilmente como contra ela. Um autor que não fosse um dos companheiros de Paulo dificilmente ousaria escrever tão extensivamente acerca do apóstolo sem tomar o cuidado de fazer uso das Epístolas.27 Se fosse argumentado que não conhecias as Epístolas, surgi­ ria a pergunta adicional: Por que, então, escreveu sobre Paulo? Uma pessoa que não conhecia nem Paulo, nem suas Epístolas, não faria de Paulo a figura central na missão gentia. Não é suficiente responder que dependia 26. “Seu Grego de qualidade não é evidência disto, pois um judeu culto po­ deria muito bem ter domínio da língua. O argumento se baseia na referência a Lucas em distinção daqueles “da circuncisão” (Cl 4:11, 14). Isto provavelmente significa que Lucas era um gentio, embora alguns argumentem que a expressão significa judeus que eram “zelosos pela lei” e distintos daqueles que eram negligentes. Para a maioria das pessoas, porém, isto parece forçado. £, a não ser no seu uso de amen, evita palavras semíticas. Além disto, diz pouca coisa acerca da disputa entre Jesus e os fariseus acerca da lei, tópico este que seria interessante para um judeu, mas não muito para um gentio. Reicke, no entanto, pensa que Lucas era provavelmente judeu {The Gospel o f Luke (Londres, 1965), pág. 22), como também pçnsa Ellis (págs. 52-53). 27. Morton S. Enslín, no seu artigo “Luke the Literary Physician" em Studies in New Testament and Early Christian Literature, ed. D. A. Aune (Leiden, 1972), págs. 135-143, argumenta que Lucas realmente usou estas Epístolas. Muitos acharão que seus argumentos não convencem. Mas mesmo se forem aceitos, permanece o fato de que não há nenhum uso óbvio das Epístolas, e isto é relevante. Esperaríamos que atenção fosse chamada ao uso das Epístolas como meio de acreditar o escrito.


de um diário de um companheiro de Paulo, pois “Os heróis raramente são feitos por meio de ler os diários doutras pessoas.” Uma objeção semelhante indica que em Atos 15 Paulo aceita os de­ cretos do Concilio, inclusive as leis dietéticas, atitude esta que é difícil reconciliar com sua falta de mencionar estas coisas em Gálatas. Se, porém, Gaiatas foi escrito antes do Concilio, a objeção perde sua força. Paulo não poderia ter mencionado decretos não-existentes. Não podemos con* siderar decisiva uma objeção cujo impacto depende de um modo especí­ fico de datar Gálatas.29 Mesmo se Gálatas fosse escrita depois do Concilio, é mais do que duvidoso se a objeção ficará de pé. Mais que um estudioso já viu na diferença de ponto de vista e interesse uma explicação adequada da diferença.30 Parece, com fundamento em tudo isto, que há boas razões para sustentar que Lucas é o autor deste Evangelho (e de Atos). Embora a evi­ dência não chegue à prova definitiva, é muito forte, e nenhuma alternativa apropriada tem sido sugerida.

II. A DATA Três datas têm sido sugerido para este Evangelho com certa seriedade, a saber: cerca de 63 d.C., cerca de 75-85 d.C., e no começo do século II. A data está vinculada com a de Atos, pois Lucas deve forçosamente ser an­ terior à sua seqüela.31 Para a data mais antiga, as seguintes considerações são relevantes. 1. Atos termina com Paulo na prisão. Se Lucas soubesse da sol­ tura ou do martírio de Paulo, provavelmente o teria mencionado.

28. Ellis,pág. 5 i. 29. Para a data de Gálatas, ver as discussões em R. A, Cole, The Epistle o f Paul to the Gafatians (TNTC) (Londres, 1965), págs. 20-23, e eraGeoige S. Duncan, The Epistle o f Paul to the Galatians (Londres, 1939), págs. xxi-xxxii. 30. Poi exemplo, J. B. Lighfbot, Saint PauVs Epistle to the Galatians (Lon­ dres), 1902), p. 152; Heiman N. Ridderbos, The Epistle o f Paul to the Churches o f Galatia (Londres, 1954), pp. 78s. 31. Talvez seja necessário notar que alguns poucos eruditos têm pensado que Atos é anterior à Lucas, pelo menos em sua forma atual. Assim, C.S.C. Williams ar­ gumenta que o Proto-Lucas apareceu primeiro, depois Atos e, então, nosso presen­ te Lucas (ET, Ixiv, 1952-53, pp. 283ss). Pierson Paker apoia tal ponto-de-vista (JBL, Ixxxiv, 1965, pp. 52-58).


2. As Epístolas Pastorais parecem demonstrar que Paulo visitou Éfeso outra vez. Se Lucas tivesse escrito depois daquela data, decerto não teria deixado a profecia de Paulo no sentido que os efésios não voltariam a vê-lo (Atos 20:25, 38) constar sem comentário. 3. Lucas nota o cumprimento da profecia de Ágabo (At 11:28). Se estivesse escrevendo depois de 70 d.C., é lógico esperar que mencionas­ se em algum lugar o cumprimento da profecia de Jesus de que a cidade seria destruída (Lc 21:20). 4. Atos não demonstra conhecimento algum das Epístolas paulinas, e, portanto, deve ter uma data recuada. O fato de que foram conserva­ das demonstra que as Epístolas foram muito estimadas, e é uma inferência razoável que teriam ficado conhecidas não muito tempo depois de serem escritas. Qualquer cristão suficientemente interessado em Paulo para es­ crever sobre ele teria feito uso delas, 5. Em Atos não é mencionado nenhum evento depois de 62 d.C. Não há referências, por exemplo, à morte de Tiago (62 d.C,) nem de Pau­ lo, nem à destruição de Jerusalém. Nem todos avaliam esta evidência da mesma maneira. Pode ser ar­ gumentado que estas considerações dependem principalmente do nosso conceito daquilo que Lucas provavelmente teria incluído ou deixado de incluir, e podemos estar enganados. Alguns, portanto, sustentam que estas considerações não são obstáculos a uma data comparativamente avançada (W. G. Kümmel favorece uma data entre 80 e 90 d.C.,32 e A. F. J. Klijn, c. de 80)33. Para outros, porém, as considerações aduzidas são convincentes, e E. M. Blaiklock, por exemplo, pensa numa data c. de 62 d.C,, F. F. Bruce, não muito depois de c. de 61 d.C. (que entende ser a data de Lucas),35 e Pierson Parker, 62 ou 63 d.C.36 Bo Reícke sustenta que quando Lucas escreveu Atos, nada sabia de eventos posteriores a 62 d.C., de modo que Lucas deve ser anterior a esta data.37 Aqueles que favorecem uma data c. de 75-85 d.C. argumentam da seguinte maneira:

32. W. G. Kümmel, Introdução ao Novo Testamento, (São Paulo, 1982),pp. 33. A. F. J. Klijn, An Introduction to the New Testament (Leiden, 1967), p. 66. 34. E. M. Blaicklock, The Acts o f the Apostles (TNTC)^ (Londres, 1959), p. 17. 35. F. F. Bruce, The Acts o f the Apostles (Londres, 1951), p. 14, 36. Art. C/Y. p. 55. 37. Aune, op. cit., p. 134.


1. Alguns dos ditos de Jesus, especialmente no discurso escalológico f dão a impressão de demonstrar que Lucas estava escrevendo depois da queda de Jerusalém (19:43; 21:20, 24). Destarte, ao passo que Marcos diz: “Quando, pois, virdes o abominável da desolação situado onde não deve estar” (Mc 13:14), o equivalente lucano é: “Quando, porém, virdes Jerusalém sitiada de exércitos” (21:20). Mas se este tipo de referência for entendido como sendo uma “profecia” fabricada depois da queda de Je­ rusalém, poderá ser argumentado de modo igual que outras passagens são “profecias” não cumpridas ou errôneas pronunciadas antes disto, e.g., “Então se verá o Filho do homem vindo numa nuvem, com poder e grande glória” (21:27). Há, também, o fato bem conhecido de que, como resposta a uma revelação, a comunidade cristã fugiu de Jerusalém para Pela enquanto os romanos avançavam.38 Este fato parece mostrar que, antes de começar o sítio, as palavras de Cristo eram conhecidas, e a or­ dem “fujam para os montes” (21:21) foi tomada literalmente. Kümmel considera certo que “Lucas relembra a queda de Jerusalém” e considera isto como “decisivo” contra uma data recuada.39 Mas não leva em conta 21:27. 2. Lucas empregou o texto de Marcos e, portanto, deve ser pos­ terior a 68 d.C., a data mais recuada que a maioria dos críticos admite para Marcos (pessoalmente, acho que Marcos deve ser datado algum tempo antes). 3. Não há nenhuma boa razão para datar Lucas muito longe de Mateus, e visto que o Primeiro Evangelho é usualmente colocado na dé­ cada de 80 d.C., uma data semelhante é requerida para Lucas. 4. Lucas nos diz que muitos escreveram antes dele (1:1). Mas isto dificilmente poderia ter ocorrido antes de 70 d.C. O argumento do qual usualmente se depende é aquele da predição. Os críticos acham que uma profecia tal como aquela acerca da queda de Jerusalém provavelmente teria recebido seu formato exato depois dos eventos, não antes deles. Isto, porém, é muito dúbio, Se Lucas estava moldando a profecia depois do evento, fazendo com que se encaixasse nos fatos, por que a deixou em forma tão geral? Afinal das contas, falar de uma cidade sendo cercada por exércitos não demonstra muito conhe­ cimento do fato. Mesmo se acrescentarmos a referência ao cerco de 38. Eusébio, História Eclesiástica III.v.3. 39. W. G. Kümmel, op. cit., p. 105.Como contraste, C.F.D. Moule não se im­ pressionou com o argumento que Lucas 21:20 foi escrito após o evento. As Origens do Novo Testamento (São Paulo, 1979), p. 122.


trincheiras (19:43), não progrediremos, pois esta era a técnica normal de cerco.40 Surge uma pergunta adicional: Se Lucas está remoldando a narrativa à luz dos eventos, porque Mateus não faz o mesmo? Uma ex­ plicação mais provável é que Jesus falou tanto do “sacrilégio da desola­ ção” quanto dos exércitos que cercariam a cidade.41 Mateus e Marcos re­ têm uma das expressões, e Lucas, a outra. Os interesses dos autores pro­ vavelmente explicam sua escolha. Mateus fala do cumprimento da profe­ cia que convenceria seus leitores, ao passo que Lucas, escrevendo para os gentios, escolhe preferencialmente as palavras que falam de exércitos,42 As demais considerações não são mais convincentes. Uns poucos estudiosos sustentam que Lucas realmente não fez uso de Marcos. A maio­ ria concorda que usou mesmo, mas a data de Marcos é desconhecida e nem todos os estudiosos a colocam tão tarde como 68 d.C. Além disto, não há nenhuma boa razão para vincular a data de Lucas à de Mateus. Mesmo se o fizermos, está longe de ser certosque Mateus foi escrito na década de 80, Quanto ao ponto de vista de que “muitos” não poderiam ter escrito antes de Lucas a não ser que colocamos sua data depois de cerca de 70 d.C., depende do conceito de que os cristãos levaram cerca de quarenta anos para começar a escrever. Paulo, porém, já estava escrevendo no começo da década de 50, provavelmente, de fato, em fins da década de 40, e não há razão para pensar que ele fosse o único. Destarte, nenhum destes argu­ mentos, comprova muita coisa. Revelam-se estimativas subjetivas das pos­ sibilidades. Recentemente, alguns estudiosos argumentaram em prol de uma data no século II (e.g. J. Rnox, J. C. 0 ’Neill). Tais pontos de vista colocam o Evangelho em proximidade perigosa com o tempo de Márciom, que baseou seu cânon numa versão expurgada de Lucas. Knox sustenta que Márciom não usava Lucas mas, sim, um escrito anterior, que foi por acaso também 40. Bo Reicke é mordaz no que diz respeito ao ponto de vista de que esta profecia é depois do evento, chamando-o “um exemplo assombroso do dogmatismo nío-crítico nos estudos neotestamentários.” Argumenta que em nenhum dos Sinóticos a profecia corresponde àquilo que é sabido acerca da guerra dos judeus e da des­ truição de Jerusalém (Aune, op. cit., pág. 121). 41. F. Blass fez esta sugestão há muito tempo. Considerava que era “eviden­ te” que odiscurso de Jesus era mais longo do que o relato dele em qualquer Evan­ gelho individual. Ver Phüology o fth e Gospels (Londres, 1898), pág. 46. 42. Donald Guthrie nos relembra que a história conhece predições exatas, e cita a profecia de Savonarola de que Roma seria tomada (New Testament Intro■ 31 ^ duction (Londres, 1970), pág. 114), Não devemos subestimar a capacidade de Jesus para predizer.


usado por Lucas.43 Os ortodoxos, no entanto, baseavam seu ataque con­ tra Márciom no ponto de vista que seu Evangelho foi baseado no Lucas canônico. Seriam altamente vulneráveis se não fosse assim. Aqueies que sustentam uma data avançada mas ainda entendem que Márciom usou Lu­ cas devem enfrentar o problema difícil de explicar como o Evangelho se­ gundo Lucas pôde, dentro de dez ou vinte anos, ter granjeado autoridade suficiente para Márciom conseguir seguidores por meio de depender ex­ clusivamente dele. O ponto de vista de que Lucas tem data avançada às vezes é refor* çado por um apelo a declarações em Atos que, segundo se pensa, foram ti­ radas do historiador judeu, Josefo. Sua obra Antiguidades foi publicada c. de 93 d.C., de modo que, se Lucas dependia dela, escreveu mais tarde. A primeira destas passagens é aquela em que Josefo diz que Teudas rebe­ lou-se durante o exercício governamental de Fado, 44-46. Foi vencido, e o governador seguinte, Alexandre (46-48), executou alguns dos filhos de Ju­ das o galileu. Lucas relata que Gamaliel falou de Judas, seguido por Teu­ das. Nota-se que se trata de Judas, e não os filhos de Judas, e Gamaliel es­ tá falando cerca de doze anos antes da rebelião de Teudas. Se Lucas está dependendo dé Josefo aqui, citou-o erroneamente. A outra declaração diz respeito a Lisânias (Lc 3:1). Um homem com este nome era tetrarca de Abilene, mas foi executado por Marco Antônio em 36 (ou 34) a.C. Mais uma vez, Lucas errou se estava dependendo de Josefo. Há, porém, alguma evidência no sentido de que havia outro Lisânias44 e a referência de Lucas seria a este homem. É claro que nenhum destes exemplos demonstra que Lucas tinha li­ do Josefo. Hans Conzelmann rejeita a idéia de que Lucas depende de Jose­ fo (embora não seja contrário a uma data posterior para Atos).45 Pelo con­ trário, a suposição é inversa, pois Lucas é normalmente exato onde é pos­ sível testá-lo. É improvável que tenha tirado estas duas declarações de Jo­ sefo e errado nas duas ocasiões.46 Não consigo ver que a evidência em prol 43. SLA, pág. 287, n. 8. J. C. 0 ’Neill argumentou sua causa no cap. I de The Theology ofA cts2 (Londres, 1970). 44. W. Ramsey cita uma inscrição de Abilene que se refeie a este Lisânias entre 14 e 29 d.C. Não vê “absolutamente nenhuma justificativa paxa a acusação desarrazoada de que esta definição das datas em Lucas 3:1 eia errada” (The Bearing o f Recent Discovery on the Trustworthiness o f the New Testament (Londres, 1895), pág. 298). Ver mais a nota sobie 3:1. 45. SLA, pág. 299. 46. F. J. Foakes Jackson faz a consideração de que pouca coisa há em Josefo que seja relevante ao propósito de Lucas. É difícil entender por que perderia tempo


de uma data no século II tem muita coisa em seu favor. De modo geral, parece haver mais apoio para urna data na primeira parte da década de 60, A evidência não chega a ser prova total, mas parece haver mais que se pode dizer em prol deste ponto de vista do que em prol de qualquer dos demais.

III. LINGUAGEM Linguisticamente, este Evangelho divide-se em três seções. O Prefácio (1:1-4) é escrito num bom estilo clássico. Demonstra aquilo que Lucas sabia fazer, mas a partir de então, abandona totalmente este estilo. O resto do capítulo 1 e o capítulo 2 têm um sabor nitidamente hebraico. E tio marcante que certo número de estudiosos chegou â conclusão de que aqui temos uma tradução de um original em hebraico. Se foi assim, não temos maneira de saber se Lucas ou outra pessoa fez a tradução. A partir de 3:11 o Evangelho está escrito num tipo de grego helenístico que relembra fortemente a Septuaginta, versão grega do Antigo Testamento hebraico. 0 vocabulário é extensivo, e Lucas usa 266 pala­ vras (além dos nomes próprios) que não são achados noutras partes do No­ vo Testamente, um número bem notável quando levamos em considera­ ção que compartilha boa parte do seu assunto com Mateus e Marcos.48 O mais interessante de tudo isto é como o estilo constantemente relembra a Septuaginta. As citações vétero-testamentárias de Lucas são comumente tiradas daquela versão, e normalmente emprega as formas de nomes próprios achadas ali. Boa parte do seu vocabulário característico é aparentemente tirada da Septuaginta, bem como algumas das suas fra­ com um livro que lhe daria tão poucas informações (The Acts o f the Apostles (Lon­ dres, 1937), págs. xiv-xv). Não há razão alguma para pensar que Lucas tinha até mes­ mo lido Josefo. 47. Paia as convenções adotadas para escrever prefácios, ver H. J. Cadbury, The Style and Literary Method o f Luke, págs. 194ss. Salienta que o prefácio demons­ tra que a obra visava um público (ibid., pág. 204). Marca a obra como sendo literatu­ ra, e mostra que não tinha a intenção original de ser usada, por exemplo, para propó­ sitos litúrgicos. 48. As cifras correspondentes para Mateus e Marcos são 116 e 79, respectiva­ mente. Ver R. Morgenthaler, Statistik des Neutestamenttíchen Wortschãtzes (Frank­ furt am Main, 1958), pág. 170. Lucas tem outras 60 palavras que se acham no Nôvo Testamento, fora do seu Evangelho, somente em Atos, ao passo que Atos tem 415 que são peculiares a ele mesmo. As cifras diferem apenas levemente daquelas dadas por Sir John Hawkins em Horae Synopticae (Oxford, 1909), págs. 198ss.


ses marcantes.49 Parece que Lucas pensava no estilo da Septuaginta como sendo um bom estilo bíblico e mais apropriado para o tipo de narrativa que estava compondo. Mas isto não explica tudo. Às vezes a linguagem de Lucas contém hebraísmos e, às vezes, aramaísmos.50 Além disto, sua linguagem é mais semítica nalguns trechos do que noutros.51 Os dois grupos de fatos pare­ cem melhor explicados como sendo a reflexão das fontes de Lucas.5 Con­ forme E. Earle Ellis indica, “é difícil ver por que a história da igreja palestiniana (At 1-12) deveria ter mais “sabor” [semítico] do que a missão de Jesus na Galiléia ou o discurso de Paulo em Jerusalém (At 22).53 Pa­ rece muito mais provável que em tais trechos Lucas está seguindo de per­ to suas fontes semíticas.54 Talvez seja este o lugar apropriado para notar que sempre devemos ter em mente que nossos Evangelistas estão relatando numa língua dife­ rente daquela que foi usada por Jesus e os discípulos. Usualmente concorda-se que a língua materna de Jesus era o Aramaico (embora isto não seja totalmente certo).55 Algumas das diferenças entre os Sinotistas de­ vem-se, sem dúvida, a várias maneiras de traduzir o original, e algumas das construções gregas incomuns são, decerto, reflexões de construções que eram bem naturais no semítico original. 49. Ver o exame por H. F, D. Sparks, JTSyxliv, 1943, págs. 129ss. 50. Às vezes podemos falar de seraitismos somente quando as duas línguas têm construções semelhantes. Mas nalguns pontos diferem, e Lucas reflete ambas. Ver Creed, págs. Ixxxix-lxxxi. 51. X. Léon-Dufour ressalta esta variabilidade. Pensa que Lucas “a um ou­ vido grego parecia ao mesmo tempo refinado e freqüentemente vulgar” (Introduction to the New Testament, ed. A. Robert e A. Feuillet (Nova York, 1965), pág. 223). Nota que Lucas talvez esteja reproduzindo uma fonte (ibid., pág. 224). 52. Assim F. F. Bruce, The Acts o f the Apostles, págs. 18-21; M. Wilcox, The Semitisms o f Acts (Oxford, 1965), págs. 180-184. 53. Ellis, pág. 3. 54. E. P, Sanders.num exame cuidadoso da evidência, demonstra que os semitismos podem ser tardios bem como primitivos (The Tendencies o f the Synoptic Tradition (Cambridge, 1969), págs. 190-255). Conclui que nenhum argumento quan­ to à data pode ser seguramente solucionado com os semitismos. À luz da evidência, aduz que é difícil ver como sua conclusão pode ser resistida. Concorda, porém, que “seria impossível invalidar completamente” a posição de que, no Novo Testamento, os primeiros semitismos são mais provavelmente “remanescentes da linguagem origi­ nal” do que aspectos introduzidos nun Grego original relativamente livre de semi­ tismos (ibid., pág. 199). No presente caso, não é improvável que os semitismos de Lucas nos levem a uma fonte ou fontes primitivas. 55. Alguns sustentam que Jesus deve ter falado Hebraico. Ver, por exemplo,


IV. LUCAS O TEÓLOGO As pessoas escreviam, antigamente, livros e artigos com títulos tais como “Lucas o Historiador.” A discussão centralizava-se em derredor da ques­ tão de se Lucas era um bom ou um mau historiador, mas normalmente aceitava-se que ele realmente pretendia escrever história. Nos tempos recentes, no entanto, muitos estudiosos estão prestando atenção ao pro­ fundo propósito teológico^ que claramente subjaz Lucas-Atos. Lucas agora é geralmente considerado um dos teólogos do Novo Testamen­ to56 e é visto como sendo mais interessado em transmitir verdades reli­ giosas e teológicas do que em escrever uma história. De fato, o pêndulo avançou tanto nesta direção que muitos sugerem que o interesse de Lucas na teologia era tão grande que permitiu que afetasse seu juízo histórico. Noutras palavras, dizem que Lucas estava disposto a alterar um pouco a sua história se isto ressaltasse suas lições teológicas. Podemos começar nossa discussão deste argumento ao notar que Lucas não nos deixou no escuro quanto às suas intenções. Informa-nos que fez acurada investigação de “tudo” durante algum tempo, e que agora escreve para Teófilo “para que tenhas plena certeza das verdades em que foste instruído’* (1:4). “Isto,” escreve F. C. Grant, “está tão claro e dire­ to quanto a explicação em João 20:30-31 . . . sua intenção era esclarecer pontos de mal-entendimento ou deturpação que (supõe-se) tinham surgi­ do no mundo pagão e até mesmo (talvez) nos tribunais dos magistrados romanos.”57 Mas nem todos viram a coisa dessa maneira. Alguns dos críticos da forma, por exemplo, viram Lucas como sendo pouco mais do que um com­ pilador, um editor que ajuntou uma série de incidentes e ditos desconexos (vêem Mateus e Marcos da mesma maneira). A Crítica da Forma foi chamada por Vincent Taylor “a filha da decepção.”58 Surgiu depois de os críticos acharem que tinham levado a discussão por James Barr, BJRL, 53, 1970*71, págs. 9-29. Não é improvável que soubesse Grego, e, se for assim, alguns dos Seus ditos talvez foram relatados na lín­ gua em que originalmente foram falados. Há, porém, muitas razões para sustentar que, na maioria dos casos, o original era Aramaico ou Hebraico. 56. James D. G. Dunn, por exemplo, considera Lucas como um dos “três principais teólogos neotestamentários” {ET, Lxxxiv, 1972-73, pág. 7; Paulo e João são os outros). 57. F. C. Grant, em Current Issues in New Testament Interpretation, ed. W. Klassen e G. F. Snyder (Londres, 1962), pág. 83. 58. V. Taylor, The Gospels (Londres, 1930), pág. 16.


tão longe quanto possível a hipótese dos dois documentos.59 Foi uma ten­ tativa séria no sentido de ir além das fontes, até chegar ao tempo quando a informação acerca de Jesus circulava somente na tradição oral. Somente partes da massa muito grande de matéria originalmente disponível seriam preservadas. À medida em que as histórias e ditos eram narrados e repeti­ dos, assumiram certas formas fixas. É o estudo destas formas que dá à Crítica da Forma seu nome. Algumas histórias, por exemplo, culminam num dito notável, e parece que eram contadas por causa do dito. Os por­ menores da história não são importantes, mas o dito o é. R. Bultmann chama estas histórias de “Apotegmas” e Vincent Taylor, de “Histórias de Pronunciamentos.” Tais histórias são manifestamente diferentes, quanto à forma, das histórias de milagres. Outras “formas” também são detec­ tadas. O estudo das formas em que a tradição oral circulava é obviamente de valor. A maioria dos Críticos da Forma, no entanto, vai além disto. Pressupõem que aqueles que transmitiam a tradição oral estavam tão in­ teressados nas necessidades dos seus próprios dias que viram Jesus, não conforme Ele era,60 mas, sim, conforme falava às suas próprias neces­ sidades contemporâneas. Noutras palavras, atribujam aos ensinos de Je­ sus um sentido que achavam necessário na sua própria situação. Isto claramente vai além de um estudo das formas. Uma suposição adicional destes críticos é que a tradição foi transmitida em unidades isoladas: não havia qualquer narrativa conexa. Os Críticos da Forma fa­ lam da destruição do arcabouço da vida de Jesus. Quando os Evangelistas começaram a escrever seus Evangelhos, conforme este modo de entender a situação, acharam-se confrontados com uma série de unidades descone­ xas que forçosamente tinham de enfileirar como contas num fio. Foi re­ movida, destarte, qualquer possibilidade de ver movimento e desenvolvi­ mento na história de Jesus. Os Críticos da Forma normalmente são um pouco céticos. Têm tanta certeza de que o que temos na tradição oral é 59. Paia uma discussão desta hipótese, vei págs. 46 ss. 60. Usualmente deixam desapercebida a consideração feita por W. Barclay, “o único eixo deles {i.é, dos Críticos da Forma) é que deixam de perceber que os es­ critores dos Evangelhos procuravam despertar a fé por meio de mostrai Jesus confoime iealmente era” (The First Three Gospels (Londres, 1966), pág. 115). 61. Joachim Rohde inclui entie as “introspecções e pressuposições mais im­ portantes do método da crítica da forma” a seguinte declaração: “Os Evangelhos Sinóticos não são biografias no sentido histórico, mas, sim, testemunhos à fé do cris­ tianismo primitivo,” e, mais: “A fé pascal da comunidade não ficou sem influenciai os relatos da vida de Jesus” (Rediscovering the Teaching o f the Evangelists, pág. 5).


o Jesus conforme a igreja primitiva O via, que freqüentemente tiram a con­ clusão de que não temos meios de saber de modo algum como o Jesus his­ tórico realmente era. Estes críticos prestaram um serviço à igreja por meio de chamar a atenção à importância da etapa oral na transmissão da vida e do ensino de Jesus. Há, também, muita coisa que pode ser aprendida pelo estudo das formas em que as narrativas são conservadas. Mas parece que os Crí­ ticos da Forma cometeram alguns erros sérios. Por exemplo, sua insis­ tência de que a igreja atribuía aos ensinos de Jesus as próprias preocupa­ ções dela deixa desapercebido que os tópicos dos Evangelhos não são os tópicos que ocupavam a igreja primitiva, tópicos tais como o lugar dos ministros, o exercício dos dons do Espírito, e coisas semelhantes. Além disto, estes críticos atribuem à comunidade o poder de criar os ditos me­ moráveis dos Evangelhos, desconsiderando totalmente que, na história, são grandes indivíduos, e não comissões, que produzem linguagem notá­ vel. Além disto Paulo, pelo menos, tomava o cuidado de distinguir entre seu próprio ensino e o do Senhor (1 Co 7:10, 25), fato este que cria a suposição de que a igreja primitiva não fazia remontar seu próprio ensino indiscriminadamente ao ensino nos lábios de Jesus. Os Críticos da Forma não levaram muito em conta o modo de os mestres palestinianos do século I fazerem seu trabalho. Os rabinos tinham o costume de colocar seus ensinos em formas apropriadas para a memorização, e insis­ tiam que seus alunos as decorassem. É, portanto, relevante que boa parte dos ensinos de Jesus tem uma forma poética apropriada para este pro­ pósito. Por razões deste tipo, muitos estudiosos recentes, embora reconhe­ çam com gratidão a contribuição feita pelos Críticos da Forma, acham que foram longe demais. A evidência não sustenta suas conclusões cé­ ticas. Mais recentemente, emergiu uma nova disciplina, a saber: a Críti­ ca da Redação, ou a Crítica Editorial. Ela insiste que os Evangelistas de­ vam ser entendidos como autores verdadeiros, não simplesmente como homens com uma tesoura e cola na mão, que nada mais fizeram do que to­ mar material das suas fontes e enfileirá-las juntos uns dos outros. Os Evangelistas tinham suas razões para a disposição da sua matéria e tinham suas razões para o modo específico de colocarem em palavras seus inci­ dentes e relatos de ensino. No que diz respeito a Lucas, o grande nome é o de Hans Conzelmann. Argumenta que Lucas se empenha para escrecer acerca da histó­ ria da salvação, e esta história é vista em três etapas:


1. 0 período de Israel (16:16). 2. O período do ministério de Jesus (4:16ss: At 10*38). 3. O período desde a ascensão, i.é, o período da igreja. O título alemão da obra de Conzelmann, Die Mitte der Zeit (“O Centro do Tempo”), resume admiravelmente a posição do autor. Sus­ tenta que Lucas vê Jesus como totalmente central, e que escreve seu Evangelho baseado nessa convicção. Conzelmann entende que ele é uma obra dominada pela teologia. Ã geografia de Lucas, por exemplo, não deve ser levada a sério. Conzelmann duvida se Lucas conhecia a Palesti­ na em primeira mão, mas de qualquer maneira vê seu uso dos termos geo­ gráficos como sendo simbólico e teológico. Destarte, o Jordão é sim­ plesmente a esfera de João Batista.63 Além disto, “não há razão de ser na tentativa de localizar” o deserto onde ocorreu a tentação, visto que é apenas um símbolo da separação entre o Jordão e a Galiléia. Esta abor­ dagem à geografia é uma ênfase primária de Conzelmann, e a desenvolve em toda a Parte Primeira do seu livro. Este tipo de abordagem está aberto à crítica legítima. Muitos sen­ tem, por exemplo, que a estrutura de Conzelmann é artificial, e que Lu­ cas nunca a teria reconhecido. Objeta-se, ademais, que edifica com con­ fiança exagerada sobre sua exegese de um versículo especialmente difí­ cil como Lucas 16:16, e o sobrecarrega com um sentido atribuído por ele mesmo. Além disto, as limitações que Conzelmann impõe sobre a geografia de Lucas são feitas sem referências a Atos. Aqui descobrimos que o Monte das Oliveiras dista de Jerusalém a jornada de um sábado (Atos 1:12) e que o campo onde Judas pereceu tinha o nome de Aceldama (Atos 1:19). O autor conhece a porta Formosa do Templo e o pórtico de Salomão (Atos 3:10, 11). Refere-se a um oficial chamado “o capitão do templo” (Atos 4:1), e também ao caminho de Jerusalém a Gaza, que sabe ser um caminho deserto (Atos 8:26). Sua descrição da prisão da qual Pedro es­ capou parece pressupor conhecimento local (Atos 12:10), assim como seu conhecimento do local das reuniões do grupo local dos cristãos (At 12:12). Sabe que a sede do governo romano era Cesaréia (Atos 12:19; 23:23-26) e que havia uma coorte aquartelada em Jerusalém (Atos 21: 31). Fala bem naturalmente dos degraus que levavam à torre Antônia (Atos 21:40). Pode localizar Cesaréia a dois dias de jornada de Jerusa­ 62. H. Conzelmann, The Theology o fS t Luke (Londies, 1960), pág. 16. 63. Ibid., pág. 20. 64. Ibid., pág. 27.


lém (Atos 23:23, 31, 32; a distância é de 100 km.). Não há tantas refe­ rências verificáveis no Evangelho, mas embora todas as suas referências não possam ser averiguadas, Lucas certamente fala de modo consistente, como quem conhece a localização dos lugares sobre os quais escreve (ver 1:26, 39; 4:31; 7:11; 8:26; 9:10; 19:29, 37). Talvez valha a pena notar que Bultmann não discerniu nenhum esquema geográfico tal como Con­ zelmann postula, porque diz: “A geografia de Lucas para o ministério galileu é, em todos os lugares, a mesma que a de Marcos.”65 Depois de ter levado em conta a totalidade da crítica justa, no en­ tanto, a nova abordagem deve ser bemvinda por levar a sério o trabalho feito pelos Evangelistas. Pode ajudar*nos a procurar aquelas considera­ ções teológicas dominantes que impulsionaram os escritores dos Evange­ lhos e os induziram a escrever, É certamente importante que vejamos com eles aquilo que Deus tem feito, bem como o que aconteceu em qual dia há tanto tempo. O novo movimento, no entanto, pode ser tão cético quanto o anti­ go. É possível argumentar que, ao passo que os Críticos da Forma escon­ deram Jesus por detrás da comunidade, os Críticos da Redação O esconde­ ram por detrás dos autores. Noutras palavras, os Evangelhos podem ser abordados com a suposição de que não podemos ver Jesus como Ele era, mas, sim, somente como Mateus ou Marcos ou Lucas ou João O viam. Mas este tipo de ceticismo não é necessário. É possível ver os Evan­ gelistas como teólogos e ainda como homens com profundo respeito para com a história. Noutro lugar, já argumentei que no Quarto Evangelho, João Batista é retratado, além de toda a dúvida, somente de um ponto de vista, o de uma testemunha a Jesus. O Evangelista certamente está ensi­ nando uma lição teológica nas suas referências ao Batista. Mas uma con­ seqüência do estudo dos rolos do Mar Morto tem sido demonstrar que há algum paralelo ali a praticamente todo item de ensino atribuído a João no Quarto Evangelho. Isto convenceu uns críticos sisudos de que aquele Evangelho deva agora ser considerado uma valiosa fonte histórica para João Batista.66 O mesmo, sugiro, é aplicável noutros livros. Especificamente, é este o caso de Lucas. Seus escritos, e mais espe­ cialmente Atos, foram sujeitados a um escrutínio muito apurado. Foram 65. R. Bultmann, The History o f the Synoptic Tradition (Oxford, 1963), págs. 363-4 (grífos de Bultmann). 1. Howaid Marshall examina e rejeita as conclu­ sões de Conzelmann sobre a geografia (Luke: Historian and Theologian (Exeter, 1970), págs. 70-71). 66. Ver Leon Morris, Studies in the Pourth Gospel (Exeter, 1969), págs.

llOss.


comparados cora os doutros escritores primitivos, e os resultados das pes­ quisas arqueológicas foram levados em conta. Embora não seja verdade dizer que todos os problemas foram resolvidos, há um reconhecimento generalizado de que Lucas é um historiador fidedigno.67 Seu propósito teológico é real. Não devemos passar desapercebidos por ele. Mas sua teologia não leva sua qualidade histórica de roldão. Até mesmo Rudolph Bultmann pode dizer: “não permite que seus conceitos dogmáticos exer­ çam qualquer influência essencial no seu trabalho.”68 É muito conhecido que Sir William Ramsey começou suas pesquisas com a convicção de que Lucas era um historiador inferior, mas os fatos o levaram a ver que ele era, na verdade» da primeira categoria. As seguintes palavras dele não devem ser negligenciadas: “Nenhum escritor é correto por mero acaso, ou exato esporadicamente. É exato em virtude de um certo hábito mental. Alguns homens são exatos por natureza: outros são por natureza frouxos e inexa­ tos. Não é um ponto de vista permissível dizer que um escritor é exato oca­ sionalmente, e inexato noutras partes do seu livro. Cada um tem seu pró­ prio padrão e medida de trabalho, que é produzido por seu caráter moral e intelectual.”69 Visto que Lucas pode freqüentemente ser demonstrado

67. Isto está longe de ser universal, e muitos críticos recentes, especial­ mente entre os alemães, discordariam. V. I.H. Marshall, A tos, Intr. e Coment.t 1982, EVN, in passim.) 68. R. Bultmann, op. cit., pág. 366. Passa a dizer: “isto dificilmente pode ser chamado meritório, pois obviamente não adotou uma posição fortemente marcada com tendências específicas.” Não concordo com isto, mas o que inteiessa é que, seja meritório ou não, Lucas não permitiu que seus “conceitos dogmáticos’' dominassem sua obra. £ um historiador bom demais para isto. Nils A. Dahl tem o seguinte a di­ zer acerca da história e teologia de Lucas: “Conserva-se bem perto das suas fontes e deseja respeitar o que supõe terem sido os fatos históricos. Mesmo assim, por meio da redação, do rearranjo, e dalgumas alterações mínimas, é capaz de escrever a histó­ ria de tal maneira que simultaneamente expõe sua teologia” (SLA, pág. 154). J. H. Ropes também insiste que Lucas não '‘distorce a história” (The Synoptic Gospels (Londres, 1960), pág. 84). 69. W. Ramsay, The Bearing o f Reçent Discovery on the Trustworthiness o f the New Testament, pág. 80. Diz, ainda: ‘X) presente escritor adota o ponto de vista de que*a história de Lucas é insuperável por sua fidedignídade” (ibid., pág. 81). Não devemos, no entanto, entender que Ramsay quer dizer que se é possível demonstrar que um escritor é exato nalguns lugares, ele é fidedigno em todos os pontos. Obvia­ mente, até mesmo um escritor cuidadoso pode cometer um engano. Mesmo assim, sua consideração é válida contra aqueles que acham que Lucas é descuidadoso quanto à exatidão. Quando pode ser demonstrado em detalhe após detalhe que um escritor é exato, isto deve ser entendido como indicação da sua tendência mental.


como sendo exato (como na complicada nomenclatura dos oficiais em Atos), devemos vê-lo como um dos escritores exatos de Ramsey. Alguns acham valiosa uma distinção entre vários tipos de historiador. Destarte, C. K. Barrett ressalta o fato de que Lucas não era um historiador “do tipo modemo científico . . . mas, sim, um historiador da era helenística.” Isto dá a impressão de significar que se interessava por outras coisas além dos fatos. Mas Barre tt continua, dizendo que isto “não significa que Lucas não deve ser levado a sério como um escritor de história; a distinção entre o fato e a ficção era compreendida muito tempo antes de ele escre­ ver.”70 Thompson ressalta esta lição ao enfatizar que Lucas se conforma aos cânones aceitos para a historiografia. Indica que Luciano escreveu um ensaio com o título “Como Escrever a História,” e que, embora seja poste­ rior a Lucas (c. de 170 d.C.), pelo menos revela aquilo que pessoas cultas teriam procurado nos tempos do Novo Testamento. É portanto, impor­ tante que seus critérios incluam a verdade e a imparcialidade. Thompson resume as conclusões: “Julgado pelos critérios para a literatura histórica que Luciano preconizou, Lucas seria considerado, no seu mundo contem* porâneo, como quem atingiu um alto padrão como historiador, e seria comparado favoravelmente com outros homens de letras do seu dia.”71 Lucas, portanto, era um bom historiador, embora seja útil ter em mente que não estava procurando escrever o tipo de história que nossos historia­ dores científicos modernos procuram escrever. Conforme Barrett ainda diz, era “um dos escritores bíblicos que nos confrontam com ura teste­ munho mais que humano a Jesus Cristo.”72 Isto não significa descuido com os fatos, mas, sim, que os fatos são registrados, não por amor a eles mesmos mas sim, no cumprimento de um propósito religioso e teológico. Podemos ver algo desse propósito nos tópicos que se seguem. 1. A história da salvação. É usual ver Lucas como sendo o teó­ logo daquilo que os alemães chamam de Heilsgeschichte.73 Coloca sua nar­ 70. C. K. Barrett, Luke the Historian in Recent Study, pág. 9. Isto não impe­ de que Barrett pense que Lucas está enganado quanto a certos detalhes, como, poi exemplo, ao dar um retrato da igreja primitiva em que falta controvérsia entre seus líderes (ibid., pág. 74). 71. Thompson, pág. 16. 72. C. K. Barrett, loc. cit. 73. Ê difícil achar um equivalente em Inglês/Português. C. K. Barrett objeta que “ ‘História redentora’ sugere que a história redime, e ‘história da salvação’ sugere que a salvação é Uma instituição’' (From First Adam to Last (Londres, 1962), pág. 4, n.). Quanto àquilo que Lucas estava fazendo, H. Flender vê-lo confrontado com uma


rativa no contexto da história secular mais firmemente do que qualquer dos demais Evangelistas (2:1-2; 3:1), e vê a ação de Deus em Cristo como sendo a grande intervenção central de Deus nos assuntos dos ho­ mens, mediante a qual a salvação do homem é operada (Atos 2:36; 4:1012; 17:30-31). Jesus Cristo é o enfoque de toda a história (cf. o título da obra de Conzelmann, Die Mitte der Zeit, “O Centro do Tempo”).74 Lu­ cas enfatiza que a salvação se tornou presente em Cristo, com o uso fre­ qüente dos advérbios “agora” e “hoje”. Emprega “agora” 14 vezes (Ma­ teus 4 vezes, Marcos 3 vezes) e “hoje” 11 vezes (Mateus 8 vezes, Marcos uma vez). Em Jesus, o tempo da salvação chegou. O conceito que Lucas tem da história da salvação não para na as­ censão. Vê o ato de Deus continuado na proclamação do evangelho e na vida da igreja. Os judeus têm um lugar especial na dispensação divina, e até ao fim é “a esperança de Israel” que os pregadores do evangelho proclamam (Atos 28:20). Os judeus, porém, rejeitaram seu Messias. Isto não queria dizer que Deus foi derrotado. Na realidade, foi a oportunida­ de para uma expansão do Seu triunfo na proclamação do evangelho aos gentios. Mas o evangelho tinha de ser oferecido aos judeus primeiramente. Foi a recusa, da parte deles, da boa dádiva de Deus que importou em a igreja ficar predominantemente gentia (Atos 13:46ss.). Tiago especifica­ mente inclui os gentios em “um povo para o seu nome” (Atos 15:14). Tudo isto advém do amor e da graça de Deus. Lucas se deleita em ressaltar a maneira em que o amor de Deus é demonstrado a uma varie­ dade de pessoas. Conforme foi notado na seção inicial, é possivelmente isto que faz com que o Terceiro Evangelho seja uma obra tão atraente. A salvação divina não está sem raízes. Brota do grande amor que Deus tem para os homens. 2. A universalidade da salvação. Vemos a largura desse grande amor de Deus na universalidade da salvação acerca da qual Lucas escre­ tarefa tríplice: “Primeiramente, tinha de conservar o caráter sem igual do evento de Cristo na história que continua. Em segundo lugar, havia o problema da continui­ dade histórica entre Israel e a Igreja. Em terceiro lugar, havia o problema de como descrever a presença da salvação na comunidade cristã à medida em que passa através do tempo” (St Luke, Theologian o f Redemptive History (Londres, 1967), pág. 91). Cf. também a discussão por J. Reumann (SE, iv, págs. 86-115). 74, C. F. Evans entende que Lucas ressalta a verdade de que Jesus era o pro­ feta como Moisés de Dt 18:15, ao modelar sua grande seção central (9:51-18:14) em Deuteronômio (“The Central Section ofSt. Luke’s Gospel” em Studies in the Gospels, ed. D. E. Nineham (Oxford, 1967), págs. 37-53).


ve. A própria palavra “salvação” está ausente de Mateus e Marcos e ocor­ re uma só vez em João. Lucas, no entanto, empregou sõtèria quatro ve­ zes e sõtèrion duas vezes (outros sete exemplos das duas palavras ocor­ rem em Atos» num total de treze). Além disto, emprega o termo “Salva­ dor” duas vezes (e duas vezes mais em Atos), e empregou o verbo “sal­ var” mais freqüentemente do que qualquer outro Evangelista. I. Howard Marshall vê este interesse como sendo criticamente importante: “É nossa tese que a idéia da salvação fornece a chave à teologia de Lucas.”75 Nem se trata apenas da estatística. Lucas nos conta que a mensagem do anjo dizia respeito aos homens em geral, e não a Israel especialmente (2:14). Faz a genealogia de Jesus remontar até Adão (3:38), o progenitor da raça humana, não parando em Abraão, o pai da nação judaica (confor­ me faz Mateus). Conta-nos acerca dos samaritanos, como, por exemplo, quando os discípulos queriam invocar fogo contra eles (9:51-54), ou na bem-conhecida parábola do Bom Samaritano (10:30-37), ou na informação de que o leproso agradecido era desta raça (17:16). Refere-se aos gentios no cântico de Simeão (2:32) e nos conta que Jesus falou com aprovação acerca de não-israelitas tais como a viúva de Sarepta e Naamã, o sírio (4:25-27). Conta-nos acerca da cura do escravo de um centurião (7:2-10). Registra palavras acerca de pessoas que vém de todas as direções da bús­ sola para assentar*se no reino de Deus (13:39) e da grande comissão para pregar o evangelho em todas as nações (24:47). Sustenta-se geralmente que sua história da missão dos setenta (10:1-20) tem relevância para os gentios. Fica claro que Lucas tinha profundo interesse pela solicitude de Deus pa­ ra com todas as pessoas. Não devemos, no entanto, entender tudo isto como se ele quisesse dizer que todos seriam salvos. Vê a igreja existente num mundo hostil. Distingue entre “os filhos do mundo” e “os filhos da luz” (16:8; cf. 12:29-30, 51 ss.). O evangelho é oferecido gratuitamente a todos os ho­ mens, mas eles têm umâ responsabilidade no sentido de se arrependerem, e serão julgados no devido tempo (Atos 17:30-31). O julgamento não é um tema infreqüente neste Evangelho (cf. 12:13ss.; 17:26ss.). Nem devemos entender isto no sentido de depreciar a importância de Israel no propósito de Deus. Uma das coisas fascinantes no escrito de Lucas é a maneira em que este gentio ressalta a importância do Templo e de Jerusalém. Começa e termina seu Evangelho com pessoas no templo em Jerusalém, em contraste com o Evangelho “judaico” de Mateus, cuja cena de abertura ressalta o lugar dos magos gentios e que termina com 75. I. H. Marshall, Luke:Historian and Theologian, pág. 92. \3 5 -


uma comissão na Galiléia no sentido de os seguidores de Jesus irem para todo o mundo. Lucas menciona que Jesus foi apresentado no Templo como nenê, e que o visitou como menino. Ocorre de novo como o clí­ max da narrativa da tentação de Jesus, e como o lugar para o clímax da obra de Jesus em prol dos homens. Entre estas referências, uma seção considerável do Evangelho é ocupada com uma viagem para Jerusalém (9:51-19:45; note a ênfase em Jerusalém como o destino, 9:51, 53; 13:22; 17:11; 18:31; 19:28; cf. 13:33-34). Ao todo, refere-se a Jerusalém 31 ve­ zes em contraste com 13 vezes em Mateus, 10 vezes em Marcos e 12 vezes em João. 0 universalismo de Lucas é real, mas não devemos deixar que oculte de nós uma “qualidade judaica”76 muito real. 3. A escatologia. Lucas escreve acerca de uma grande salvação, de uma salvação que é válida por toda a eternidade e não somente para o tempo. Alguns estudiosos, é verdade, sustentam que ele negligencia o tema escatológico.77 Os demais Evangelhos, sustentam eles, foram escritos com a expectativa que Cristo voltaria dentro em breve e que estabelece­ ria o reino de Deus, expectativa esta que foi compartilhada por Paulo e outros. Lucas, porém, escreve quando a expectativa vivida tinha desvane­ cido. Para éle, a volta de Cristo já nãoé iminente. “Ninguém escreve a história da igreja se está esperando diariamente o fim do mundo.”78 Esta tese inteira, no entanto, deve ser examinada de modo mais crí­ tico do que sói acontecer. Em primeiro lugar, não fica claro que o pensa­ mento da próxima volta de Cristo realmente dominava o pensamento dos primeiros cristãos. Sem dúvida, aguardavam a vinda do Senhor, mas sem­ pre devemos ter em mente a lição ensinada tão habilmente por W. C. van Unnik:, “A fé dos cristãos primitivos não se fundamentava numa data mas, sim, na obra de Cristo.”79 A igreja certamente pensava que haveria um in­ tervalo antes da volta de Cristo, conforme é demonstrado, por exemplo, 76. G. W. H. Lampe ressalta este fato na sua Preleção “Ethel M. Wood,” St Luke and the Church o f Jerusalem (Londres, 1969). 77. Destarte, £ . KSsemann diz que, em Lucas, “A escatologia ê substituída por uma história da salvação que é extraordinariamente bem organizada e ligada, mas que, a despeito do brilho que os milagres lhe emprestam, permanece confinada den­ tro dos limites da imanência” (New Testament Questiom o f Today (Londres, 1969), pág. 21). 78. Kásemann, citado em SLA, pág. 24. 79. SLA, pág. 28. Rohde cita Hans-Wemer Bartsch com seu ponto de vista de que Lucas se preocupa, não em opor-se à expectativa iminente da parusia, mas, sim, com a identificação da ressurreição com a parusia (Rediscovering the Teaching


pelo fato de que nenhum cristão defendeu em qualquer tempo a idéia de cessar a pregação do evangelho e não há o mínimo indício de que isto devesse ocorrer somente durante Sua vida. De qualquer maneira, a igreja esperava um intervalo, e a duração deste não é especificada em lugar algum. Embora a demora da parusia fosse um problema, parece ter sido menos problema para os membros da igreja primitiva do que para alguns exposi­ tores modernos. Depois, em segundo lugar, não fica claro, de modo algum, que Lucas não tinha interesse na escatologia. O contrário é demonstrado por passa­ gens tais como 12:35ss.; 17:22ss.; 21:25ss., etc. Registra o pensamento do julgamento iminente (3:9, 17; 18:7-8) e o da proximidade do reino (10:9, 11; neste último versículo, Lucas inclui as palavras “está próximo o reino de Deus” que não estão no paralelo em Mt ÍO :^).80 Lucas talvez não te­ nha exatamente a mesma ênfase que é dada nalguns outros escritores do Novo Testamento, mas esta consideração não deve ser exagerada. Bo Reicke nem sequer concede tanto, e pôde dizer: “É um mistério como Lucas pode ser acusado de ‘desescatologizar’ no seu Evangelho;” e, outra vez, “não é verdade, de modo algum, que Lucas representa Jesus e o reino de Deus numa luz escatológica mais fraca do que fazem os demais Sinotistas.”81 Desenvolve o fato de que Lucas ressalta a idéia da alegria diante da proximidade da salvação, e acha nisto uma escatologia genuína. C. H. Talbert é outro que insiste que Lucas está interessado na escatologia. Acha “duas ênfases escatológicas dominantes em Lucas-Atos. Uma é a proclamação de que o Fim está próximo . . . a outra . . . é a tentativa de evitar uma deturpação da tradição de Jesus. . . no sentido de que o eschaton tinha sido plenamente experimentado no presente, e que podia sêlo.”82 o f the Evangeltsts, pág. 187). Embora eu não quisesse apoiai a tese de Bartsch, o fa­ to de que ele pode adotar semelhante posição demonstra que o abandono por Lucas da expectativa iminente da parusia está longe de ser tão óbvio como alguns críticos supõem. 80. Cf. C. F. D, Moule, “Não é que Lucas não espera um Dia do Juízo e uma vinda do Senhor: quanto a estes, é tão explícito quanto qualquer outro” (The Birth o f the New Testament, pág. 170; passa a notar que Lucas "ocupa-se primaria­ mente com uma estimativa positiva do período interveniente”). 81. B. Reicke, The Gospel o f Luke, págs. 77, 76. A. J. Mattill, Jr. é outro que ressalta o interesse escatológico de Lucas. Chega até a argumentar que Lucas en­ tendia que estava ajudando a promover a missão de Paulo, adiantando, assim, uma parte essencial do plano escatológico (CBQ, xxxiv, 1972, págs. 276-293). 82. C. H. Talbert, Jesus and Man’s Hope (Pittsburgh Theological Seminaxy, 1970), pág. 191.


Parece, portanto, ser uma falsa interpretação da evidência ver Lucas como quem não tem interesse pela escatologia. Pelo contrário, aguarda a vinda do Fim quando a salvação da qual escreve chegará à sua consumação. 4. O catolicismo primitivo. Alguns deixam de entender o impac­ to daquilo que Lucas está dizendo quando sustentam que ele instituciona­ lizou o cristianismo, ou, pelo menos, que escreve como representante da religião institucional. No decurso do tempo, naturalmente, a igreja acabou se estabelecendo como uma instituição. Perdeu a primeira gloriosa anima­ ção da proclamação entusiástica do evangelho e a expectativa ansiosa da volta do Senhor. Passou a interessar-se por questões da ordem e da prática sacramental, e geralmente por tudo quanto contribui para o lado institu­ cional do cristianismo. O resultado é chamado “catolicsmo primitivo” por muitos estudiosos, e vêem Lucas como sendo um dos seus primeiros expositores. Infelizmente, nem todos concordam entre si quanto ao sig­ nificado do termo. Destarte, fica sendo difícil definir se este é um aspec­ to do tratamento de Lucas, ou não. O que pode ser dito é que muitos críticos competentes têm chegado à conclusão de que Lucas é muito fiel às suas fontes,83 de modo que retrata cuidadosamente aquilo que estas dizem ao invés daquilo que acontecia nos seus próprios dias. Talbert entende que Lucas cristalizou a tradição apostólica nos seus dois volumes, e que escreveu em ordem cuidadosa a fim de refutar certos pontos de vista heréticos.84 Podemos concordar que Lucas estava escrevendo para su­ prir as necessidades dos seus próprios dias sem tirar a conclusão de que re­ flete apenas sua própria situação. Conforme Talbert também nos lembra, não devemos estar tão ocupados em perguntar por que Lucas acrescentou Atos ao seu Evangelho que nos esquecemos de perguntar por que prefixou seu Evangelho a Atos. Ê daio que se interessava pela base histórica do cris­ tianismo. Não é viável simplesmente ver Lucas expondo um tratamento convencional da religião institucional dos seus próprios dias. Via o plano 83. Por exemplo, Nils A. Dahl, SLA, pág. 154; cf. Henry J. Cadbury, “Lucas evidentemente reproduziu fielmente suas fontes, no sentido geral embora não na redação” (The Making o f Luke-Acts, pág. 365). A totalidade do argumento de Vincent Taylor, The Passion Narrative o f St Luke (Cambridge, 1972) pressupõe que Lucas é fiel às suas fontes; senão, não poderiam ser desemaianhadas. Cf. também Caird, “Chegamos, portanto, à conclusão interessante e importante de que, onde os infamadores modernos de Lucas o consideravam um historiador descuidadoso, a so­ ma das suas faltas usualmente tem sido que estava meticulosamente seguindo suas fontes” {pág. 29). 84. C. H. Talbert, op. cit., págs. 206ss.


de DeUs na igreja ao seu redor, mas também o via no Antigo Testamento e na vinda de Jesus. Não era tanto um homem da instituição quanto um homem que incluía a instituição no propósito de Deus, que a tudo abran­ gia. 5. O plano de Deus. Lucas viu que Deus estava desenvolvendo um grande plano nos negócios dos homens. Já notamos seu uso freqüen­ te de várias palavras para denotar “propósito” a fim de ressaltar o concei­ to de uma necessidade divirja operante no ministério de Jesus.85 O pro­ pósito foi visto supremamente na cruz (Atos 2:23; 3:13; 5:30-31, etc.). Lu­ cas também o ressalta com suas muitas referências ao cumprimento da pro­ fecia (Lc 4:21; 24:44, etc.). Deixou claro que os homens não derrotam a Deus. Deixou claro, também, que Deus não é algum olímpio remoto, afas­ tado dos homens e sem Se importar com o destino destes. O Deus a quem Lucas conhece está interessado na salvação dos homens, e está constante­ mente operativo nos negócios dos homens a fim de levar a efeito Seu pro­ pósito redentor. 6. Os indivíduos. Ao operar aquele grande propósito da reden­ ção, Deus, segundo o conceito de Lucas, preocupava-Se com os homens. Não pensava que o propósito divino aparecia somente nos grandes movi­ mentos das nações e dos povos: operava nas vidas de homens e mulheres humildes, pois Deus Se importa também com as pessoas de menos in­ fluência. Destarte, tem muita coisa a dizer acerca dos indivíduos, freqüentemente no caso de pessoas que não são mencionadas noutros lu­ gares. Conta-nos de Zacarias e Isabel, de Maria e Marta, de Zaqueu, de Cléopas e seu companheiro. Conta-nos da mulher que ungiu os pés de Je­ sus no lar de Simão, o fariseu, e doutras, Um fato interessante emerge do estudo das parábolas que registra. Ao passo que em Mateus as parábolas estão centralizadas no reino, em Lucas tendem a ressaltar pessoas. Lucas se interessa por pessoas. 7. A importância das mulheres. Uma parte importante da solici­ tude que Deus tem para com as pessoas é que é manifestada para com grupos que não eram altamente estimados na sociedade do século I: as mulheres, as crianças, os pobres, os de má fama.Por exemplo, dá um lugar de relevância às mulheres. No século I, as mulheres eram mantidas bem

85. Ver supra, págs. 11-12.


no seu lugar, Lucas, porém, vê-as como objetos do amor de Deus, e escre­ ve acerca de muitas delas. Nas histórias da Infância, conta de Maria, mâe de Jesus, e de Isabel e Ana. Mais tarde, escreve também de Marta e da sua irmã Maria (10:38-42), de Maria Madalena e Joana e Susana (8:2-3). Refe­ re-se a mulheres que nâo menciona pelo nome, tais como a viuva de Naim (7:11-12), a pecadora que ungiu os pés de Jesus (7:37ss.), a pequena velha encurvada (13:11), a viúva que deu a Deus tudo quanto tinha (21:14) e as “Filhas de Jerusalém” que lamentavam por Jesus enquanto Ele subia à cruz (23:27ss.). Às vezes, as mulheres aparecem também nas parábolas, como naquela da moeda perdida (15:8ss.) ou do juiz injusto (18:1 ss.). 8. As Crianças. O exemplo mais óbvio da solicitude de Lucas pa­ ra com as crianças é o das narrativas da infância. Naturalmente, o interes­ se pelas crianças nâfo é a única razão destas histórias. Lucas está preocupa­ do em enfatizar que o plano de Deus estava sendo cumprido no nascimen­ to e na juventude de Joio e de Jesus. Lembra-nos acerca do cumprimen­ to da profecia em conexão com estes eventos. Mas é interessante que descobre o plano de Deus em eventos que dizem respeito às crianças. Mateus nos diz alguma coisa acerca do nascimento de Jesus e somente ele relata a visita dos magos, mas é Lucas quem nos dá a maior parte das nossas informações acerca daqueles dias iniciais. Conta-nos, também, al­ guma coisa acerca das circunstâncias que acompanhavam o nascimento de Joio Batista. Dá-nos a única história que temos acerca de Jesus como menino, e nos conta, de vez em quando, acerca do “filho único” ou da “filha única” das pessoas sobre as quais escreve (7:12; 8:42; 9:38). 9. Os pobres. Jesus veio pregar o evangelho aos pobres (4:18), e é digno de nota que Lucas relata uma bem-aventurança para os pobres (6:20; há, por contraste, um ai para os ricos, 6:24), ao passo que Mateus fala dos “pobres de espírito” (Mt 5:3). Pregar as boas-novas aos pobres é característica do ministério de Jesus (7:22). Os pastores, aos quais vie­ ram os anjos (2:7ss.) pertenciam a uma classe pobre. Na realidade, parece que a família do próprio Jesus era pobre, pois a oferta feita na ocasião do nascimento da Criança era a dos pobres (2:24; cf. Lv 12:8). De modo geral, Lucas preocupa-se com os interesses dos pobres (1:53; 6:30; 14:1113, 21; 16:19ss.). O outro lado desta moeda é uma ênfase dada ao perigo das riquezas. Lucas tem um “Ai” para os ricos (6:24), e conta*nos que Deus manda os ricos embora, vazios (1:53). Há parábolas que advertem os ricos, tais co­ mo a do tolo rico (12:16ss.), do administrador infiel (16:1 ss.), do Rico e


Lázaro (16:19-31). Há advertências para os ricos nas histórias do jovem rico (18:18-27), de Zaqueu (19:1-10) e da oferta da viúva pobre (21:1-4). 10. Os de má fama. Lucas nos conta que em certa ocasião “Apro­ ximavam-se de Jesus todos os publicanos e pecadores para o ouvir” (15:1). Este não é um incidente, isolado no Terceiro Evangelho, pois Lucas tem a oportunidade de mencionar muitas pessoas que não eram muito respeitá­ veis. Destarte, conta-nos acerca de Zaqueu (desconsiderado pelos circunstantes como “um pecador,” 19:7), e acerca da festa que Levi fez para uma multidão descrita pelos fariseus como “publicanos e pecadores” (5 30). No mesmo estilo, narra a história da pecadora que chorou sobre os pés de Jesus e os ungiu, e de quem Jesus disse que seus muitos pecados foram per­ doados e que “ela muito amou” (7:37*50). O filho pródigo nío era exata­ mente um modelo da retidão, e os injustos têm um jeito de aparecerem nas parábolas neste Evangelho (7:41-42; 12:13-21; 16:1-12, 19-31; 18:1*8, 9*14). 11. A Paixão de Cristo. O propósito de Deus é supremamente realizado na paixão de nosso Senhor. Lucas escreve com a convicção de que Deus agiu em Cristo para trazer a salvação aos homens. Às vezes os comentaristas reagiram por demais apressadamente diante do fato de que Lucas omitiu algumas declarações importantes de Marcos acerca da cruz (e.g, Mc 10:45)86 e afirmaram que Lucas não tem nenhuma teologia da cruz.87 Na realidade, a cruz domina a totalidade da obra.88 Não longe 86. Rudolf Otto sustenta que Lucas retém a essência deste dito na sua narra­ tiva da paixão: “a idéia de um resgate por muitos era exatamente o significado da dis, tribuição do pão, e pelo ato de distribui-lo, o significado acabara de ser determina­ do” {The Kingdom o f God and the Son o f Man (Londres, 1943), pág. 272). 87. Este conceito está na moda nalguns círculos. Vale a pena, no entanto, notar que em tempos idos esta mesma evidência era interpretada de modo diferente. Plummer nos relembra que os quatro símbolos, o Homem, o Leão, o Novilho e a Águia, eram distribuídos entre os Evangelhos de várias maneiras, mas sempre o No­ vilho permaneceu sendo o símbolo de Lucas. Cita Isaac Williams: “Este animal sacer­ dotal subentende a Expiação e a Propiciação; e isto corresponde exatamente com aquilo que se supõe ser o caráter do Evangelho segundo Lucas” (Plummer, pág. xxfi). Devemos notar também a consideração feita por Marshall de que, neste aspec­ to, Lucas não difere de Mateus e Marcos de modo relevante (Luke: Historian and Theologian, págs. 170-71). 88. Bo Reicke pensa que a história da Paixão em Lucas *‘é importante e ilu­ minado» porque, juntamente com o prelúdio, abrange a totalidade do drama e lhe dá um caráter distintivo, mas especialmente porque representa o clímax do drama in­


do começo, Lucas se refere aos “dias em que devia ele ser assunto ao céu” (9:51), e acrescenta que Jesus “manifestou no semblante a intré­ pida resolução de ir para Jerusalém.” Jesus Se refere à Sua morte como sendo um batismo, e acrescenta, “quanto me angustio até que o mesmo se realize!” (12:50). Manda um recado a Herodes: “Hoje e amanhãexpul* so demônios e curo enfermos, e no terceiro dia terminarei” (13:32; passa a falar em morrer em Jerusalém). Numa das passagens Q, Lucas tem uma predição da paixão que está ausente de Mateus (17:25). De modo seme­ lhante, conta-nos na sua narrativa da Transfiguração, que Moisés e Elias falavam da morte de Jesus (9:31), fato este que não foi mencionado nos demais Evangelistas. E, é claro, a narrativa da Paixão ocupa um espaço grande no fim do Evangelho. Lucas tem certo número de referências ao cumprimento da Escritura em conexão com a Paixão que dá ao seu rela­ to um toque especial (ver 18:31; 20:17; 22:37; 24:26-27, 44, 46; prova­ velmente também 9:22; 13:33; 17:25; 24:7). Na Paixão, a vontade de Deus é realizada. É verdade que Lucas não ressalta a conexão entre a cruz e a salva­ ção conforme a maneira de Paulo ou João. Isto toma possível entender as referências de Lucas à cruz, como disse um leitor deste livro na for­ ma de manuscrito, como se a visse como “o caminho divinamente orde­ nado para chegar à ressurreição e à exaltação como Príncipe e Salvador.” Isto talvez seja possível, mas não é óbvio, de modo algum. Não há nenhum indício do triunfo final na maioria das referências lucanas, e onde o triun­ fo entra, tende a ficar sem ênfase (cf. “ao terceiro dia ressuscitará,” 18:33; não há nada mais, nenhuma palavra acerca do triunfo ou da exal­ tação). De qualquer maneira, o leitor revelou a base do seu argumento na palavra final. É isto que é importante. Lucas vê Jesus como Salvador dos homens, e isto pelo caminho da cruz. Se a relevância expiadora do sofrimento de Cristo não é ressaltada, pelo menos está presente, e vale a pena refletir que Lucas não dá qualquer indício dalgum outro significado. Tendo em vista seu nítido interesse pela salvação, a pergunta pode muito bem ser feita: Por que Lucas assim ressalta a cruz a não ser por causa da sua relevância salvífica? Não devemos, além disto, permitir que nossos pensamentos se limi­ tem ao Evangelho. No seu segundo volume, Lucas continua a enfatizar a teiro" {The Gospel o f Luke, pág. 60). Cf. Bispo Cassian, “desde a profecia de Simeão no templo, (2, 25-35), há um certo acento sobre a Paixão vindoura” (SE, i, pág. 137; Cassian não parece ver isto como aquilo que chama de “o princípio da cons­ trução” que contém um pouco de universalismo). Cf. também Tinsley, pág. 13.


importância da cruz. Ressalta o fato de que a igreja primitiva concentravase naquilo que Jesus fizera em prol da salvação do homem e especifica­ mente na cruz e na ressurreição. Aqui, descobrimos que a morte de Jesus ocorreu “pelo determinado desígnio e presciência de Deus” (Atos 2:23). Há muito mais.89 A morte de Jesus era central. 12. O Espirito Santo. O propósito de Deus não cessa na cruz. Con­ tinua na obra do Espírito Santo, que significava tanta coisa na igreja dos dias de Lucas. O interesse deste Evangelista pelo Espírito, no entanto, remonta aos dias iniciais. O Espírito é destacado neste Evangelho desde o início. Há uma profecia no sentido de que Joio seria cheio do Espírito Santo, já do ventre materno (1:15), ao passo que se diz de Isabel bem como de Zacarias que ficaram cheios do Espírito (1:41, 67). O mesmo Espírito estava “sobre” Simeão, revelou-lhe que haveria de ver o Cristo, e o guiou para o Templo no momento apropriado (2:25-27). O Espírito Santo estava ativo em conexão com o ministério de Jesus. Este fato remonta até à concepção original, pois o anjo Gabriel informou Maria que “Descerá sobre ti o Espírito Santo e o poder do Altíssimo te envolverá com a sua sombra” (1:35). Quando Jesus estava para começar Seu ministério, há várias referências ao Espírito Santo. Joio Batista pro­ fetizou que Jesus batizaria com o Espírito Santo e com fogo (3:16). Quan­ do nosso Senhor foi batizado, o Espírito Santo veio sobre Ele “em forma corpórea como pomba” (3:22), e o mesmo Espírito 0 encheu e O guiou para o deserto na ocasião da tentação (4:1). Depois de terminada a tenta­ ção, e Ele estava para entrar no Seu ministério, “Jesus, no poder do Espí­ rito, regressou para a Galiléia” (4:14). Depois, quando pregou na sinagoga de Nazaré, Jesus aplicou a Si mesmo as palavras: “O Espírito do Senhor está sobre mim” (4:18), Não há muitas referências ao Espírito durante o ministério, mas em certa ocasião Jesus “exultou no Espírito Santo” (10:21) e provavelmente devamos entender que isto indica que o Espírito estava continuamente com Ele. Além disto, disse aos Seus seguidores que, nas emergências, o Espírito Santo lhes ensinaria as coisas que deveriam di­ zer (12:12), e nffo é fácil pensar que eles teriam o Espírito Santo e Jesus, nffo. A blasfêmia contra o Espírito é o mais grave dos pecados (12:10). Je­ sus disse a Seus discípulos que o Pai daria o Espírito Santo àqueles que 89. Ver, ainda, Leon Morris, The Cross in the New Testament (Exeter, 1965), caps, 2, 3. Michael Green chama a atenção a sete considerações que demons­ tram a solicitude de Lucas para com a veidade de que a morte de Cristo tem signifi­ cado expiador (Evangetism in the Early Ckurch (Londres, 1970), págs. 73-74).


llio pedirem (11:13). Depois da ressurreição, disse: “Eis que envio sobre vós a promessa de meu Pai” e passou a assegurar os discípulos que seriam “revestidos de poder do alto” (24:49). Esta é uma clara referência à vinda do Espírito Santo, profecia esta que foi cumprida no Pentecoste. Mas, por mais importante que seja o ensino deste Evangelho acerca do Espírito Santo, é em Atos que recebemos o impacto total da ênfase de Lucas. Aquele livro está cheio do Espírito, e tem sido chamado, com ra­ zão, “Os Atos do Espírito Santo.” O Espírito está constantemente operante desde o Dia do Pentecoste. Está abundantemente claro, pois, que uma das grandes ênfases de Lucas é o Espírito Santo, Não pensa que Deus deixa os homens para servi-Lo da melhor maneira que podem com seus próprios recursos. O amor de Deus é visto no Espírito que entra nos seguidores de Jesus e lhes dá poder e os guia. Alguns têm visto a ênfase dada por Lucas ao Espírito Santo como substituto da escatologia que significa tanta coisa para os demais Evangelis­ tas. Helmut Flender nota o argumento de Conzelmann e Schweizer de que a história da redenção e a escatologia são mutuamente exclusivas. Contra isto, argumenta (com razão, segundo meu juízo) que este não é um modo verdadeiro de entender a obra do Espírito. Flender vê a exaltação de Cris­ to e o derramamento do Espírito como eventos escatológicos genuínos, mas nega que isto torne a igreja “igualmente escatológica.” Continua: “En­ tender a história da redenção desta maneira seria confundir a atividade divina com a humana, que seria intolerável. Quando falamos do Espí­ rito como sendo escatológico, queremos dizer que é escatologia tornada presente.”90 O que garante o senso genuíno da iminência, da expectativa contínua, é que o dom do Espírito não é alguma coisa institucional, como se a igreja tivesse o Espírito sob seu controle e pudesse produzir os dons do Espírito em qualquer momento que escolhesse. O Espírito Santo foi dado no Pentecoste, decerto, mas Ele podia encher as mesmas pessoas outra vez, um pouco mais tarde, como resposta à oração (Atos 4:31). A presença do Espírito “ainda é um dom sobrenatural, pelo qual os fiéis devem espe­ rar, e que devem ser prontos para receber.”91 Não se pode tratar o Espí­ rito com presunção. A igreja não pode dizer: “Temos o Espírito em nossa salvaguarda. Não precisamos esperar a vinda de nosso Senhor.” O Senhorio do Espírito sobre o processo histórico é amplamente ressaltado em Atos. E, conforme notamos numa seção anterior, Lucas 90. R. Flender, St Luke, Theohgúm o f Reâemptive History, pág. 142. 91. Flender, loc. cit.


tem mais para dizer acerca do Espírito no seu Evangelho do que qualquer um dos demais Evangelistas. Isto forma um vínculo de continuidade.92 Tanto no ministério de Jesus quanto na vida da igreja primitiva, o Espíri­ to de Deus está operante. 13. A oração. No seu ensino acerca do Espírito, portanto, Lucas nos mostra que Deus leva a efeito o Seu propósito. Esta operação exige uma atitude certa da parte do povo de Deus, e é de acordo com isto que Lucas ressalta a importância da oraçío. Há duas maneiras principais de ressaltar este interesse. A primeira é ao registrar as orações de Jesus (3:21; 5:16; 6:12; 9:18, 28-29; 10:21-22; 11:1; 22:41ss.; 23:46; sete destas cons­ tam somente em Lucas, e mostram Jesus orando antes de cada grande cri­ se da Sua vida). Somente este Evangelho registra que Jesus orou por Pe­ dro (22:31-32). Lucas nos diz que Jesus orou pelos Seus inimigos (23 34) e por Si mesmo (22:41-42). A segunda maneira acha-se nas parábolas que ensinam tanta coisa acerca da oraçSo: o amigo à meia-noite (11:5ss.), o juiz injusto (18:10ss.). Além disto, Lucas registra algumas exortações aos discípulos no sentido de orarem (6:68; 11:2; 22:40,46), e tem uma adver­ tência contra o tipo errôneo de oração (20:47). 14. O louvor. O Evangelho segundo Lucas é um Evangelho cantan­ te. Registra alguns dos grandes hinos da fé cristã': o cântico de glória dos anjos (2:14), o Magnificat, o Benedktus e o Nunc Dimittis (1:46ss., 68ss.; 2:29ss.) Bem freqüentemente, as pessoas que recebem benefícios louvam a Deus, ou glorificam a Deus, ou fazem algo semelhante (2:20; 5:25-26; 7:16; 18:43). O verbo “regozijar-se” e o substantivo “alegria” acham-se freqüentemente (e.g. 1:14, 44, 47; 10:21). Há risos neste Evangelho (6:21) e festejos (15:23, 32). Há alegria na recepção que Zaqueu fez para Jesus (19:6). Há alegria na terra quando a ovelha perdida e a moeda perdida sío achadas, e há júbilo no céu por causa da recuperação de peca­ dores perdidos (15:6-7, 9-10). E este Evangelho termina, assim como co­ meçou, com regozijo (24:52; cf. 1:14). Fica claro, com tudo isto, que Lucas escreveu com um propósito profundamente teológico. Vê Deus operando para trazer a salvação e tem prazer em ressaltar uma variedade dos aspectos desta grande obra salvífica. 92. G. W. H. Lampe pode dizer: uO fio de conexão que percorre as duas par­ tes da obra de S. Lucas é o tema da operação do Espírito de Deus” (Studies in the Gospels, ed. D. E. Nineham, pág. 159). Não posso segui-lo, porém, quando alega que nestes dois escritos “o Espírito ainda é, falando de modo geral, não-pessoal” (ibid., pág. 163).


V. O RELACIONAMENTO ENTRE LUCAS E OS DEMAIS EVANGELHOS a. O Problema Sinótico Um problema é levantado pelas semelhanças entre certas passagens dos três primeiros Evangelhos que temos. Às vezes, estão em todos os três Evangelhos, às vezes em dois deles. As semelhanças freqüentemente são muito estreitas, e as passagens podem ser quase iguais, palavra por pala» vra. Até mesmo partículas minuciosas e sem importância podem ser idênticas em todos os três relatos. Se isto ocorresse somente nas palavras de Jesus, talvez pudéssemos pensar que a fidelidade na reportagem fos­ se a explicação* Acha-se, no entanto, também nas narrativas dos eventos. O problema é como explicar estes fatos e esclarecer o relacionamento entre os três Evangelhos. Podemos expor os fatos principais do modo seguinte: 1. O esquema geral destes três Evangelhos é semelhante. Há um ministério de Jesus na Galiléia, seguido por uma viagem para Jerusalém, onde está localizada a Paixão. Há uma abordagem bem diferente em João, onde vemos Jesus fazendo certo número de visitas a Jerusalém. 2. Há passagens em todos estes três Evangelhos que se asseme­ lham estreitamente umas às outras, e.g. Mateus 9:6 = Marcos 2:10 = Lu­ cas 5:24. 3. Mateus e Marcos freqüentemente concordam na sua redação, onde Lucas é diferente, e Marcos e Lucas concordam de modo semelhan­ te contra Mateus. Mateus e Lucas concordam mais raramente contra Marcos. 4. Há passagens em Mateus e Lucas que estão ausentes das seções correspondentes de Marcos, e.g. Mateus 3:7-10 = Lucas 3:7-9; cf. Mc 1:2-8. 5. Alguma matéria acha-se em Mateus e Lucas que é semelhante, mas não idêntica, e.g. Mateus 5:3 e Lucas 6:20. 6. A matéria em comum pode ser colocada em contextos diferen­ tes, e.g. a cura do servo do centurião (Mt 8:5ss.; Lc 7:1 ss.). 7. Cada Evangelho tem matéria que nenhum dos outros dois com­ partilha com ele. Não se pode dizer que já foi oferecida uma explicação que dê conta de todos os fatos. Mesmo assim, muita coisa pode ser aprendida ao exa­ minar as soluções que têm sido propostas. Em dias anteriores, a explica­ ção usual era a tradição oral: “um Evangelho oral original, bem especí­ 4


fico no seu esboço geral e até mesmo na linguagem, que foi registrado por escrito no decurso do tempo em vários formatos especiais, segundo as for­ mas típicas que assumiu na pregaçáo de Apóstolos diferentes.”93 Hoje em dia, acha*se que esta explicação é inadequada. A tradição deve ter come­ çado em aramaico e é difícil ver porque o grego viria a ser tão semelhante. A dependência se estende até mesmo às partículas gregas. Além disto, é di­ fícil entender por que uma tradição oral teria produzido tanta coisa no sentido de uma ordem comum. Mateus e Lucas podem desviar-se da ordem de Marcos, mas sempre voltam a ela, Podemos concordai que a tradição oral não explicará todos os fatos, mas deve ser lembrado que, em qualquer hipótese, a matéria do Evangelho foi transmitida oralmente por um certo número de anos, Não é imprová­ vel que uma insuficiência de atenção tenha sido prestada à tradição oral. Parece não haver razão porque os Evangelistas não tivessem prestado aten­ ção à tradição oral que indubitavelmente existia quando escreveram. A Crítica da Forma enfatizou para nós a importância do período préliterário. A mesma coisa foi feita, proveniente de uma outra direção, pela obra de estudiosos escandinavos tais como H. Riesenfeld e B. Gerhardqa sson. Nestes dias, porém, a maioria dos críticos concorda que devamos pensar em fontes escritas. A teoria dos dois documentos sustenta que Marcos foi o primeiro dos Evangelhos a ser escrito, e que Mateus e Lucas empregaram Marcos bem como uma outra fonte usualmente designada por Q.95 93. B. F. Westcott, Introãuction to the Study o f the Gospels (Londres, 1875), pág. 188. 94. Estes homens enfatizaram o papel da transmissão oral entre os rabinos e sugeriram que os cristãos primitivos devam ser vistos dentro desta situação histó­ rica. Pensam que é provável que os primeiros cristãos tenham usado métodos bem semelhantes aos dos rabinos para continuarem a tradição. Ver H. Riesenfeld, The Gospel Traditiort (Oxford, 1970); B. Gerhaidsson, Memory and Marmscript (Upsala, 1961); Traditiort and Transmission in Early Christianity (Lund, 1964), Deve ser conservado em mente que os cristãos eram diferentes dos rabinos além de te­ rem semelhança com eles, mas esta abordagem certamente tem valor. 95. Q é a letra inicial da palavra alemã Quelle, “fonte,” e usualmente se diz com confiança que esta é a razão do símbolo. Conforme R. H. Lighfoot, no entanto, Armitage Robinson, nas suas preleções pronunciadas na década de 1890, referia-se a Maicos como P (as reminiscencias de Pedro) e o documento dos ditos como Q. Pen­ sa que alguém levou o método para a Alemanha, onde Q ficou sendo relacionado com QueUe. Tinha a idéia de que foi usado pela primeira vez na Alemanha por Wellhausen em 1903 (History and Interpretation in the Gospels (Londres, 1935),


As razões dadas pela prioridade de Marcos são as seguintes: 1. Quase a totalidade de Marcos está contida nos outros dois. Mateus tem a substância de mais de 600 dos 661 versículos de Marcos, e retém cerca de 51% das próprias palavras de Marcos, embora seu esti­ lo seja mais condensado. É difícil tirar uma conclusão exata no caso de Lucas, mas parece ter cerca de 350 versículos em comum com Marcos, e nestes, cerca de 53% das palavras são as de Marcos.96 Cerca de 90% de Marcos está em Mateus, e cerca de metade em Lucas. Somente quatro parágrafos de Marcos não aparecem em um ou outro destes dois. 2. A maneira de ser usada esta matéria parece demonstrar que Mar­ cos dificilmente poderia ter empregado os outros dois como suas fontes. F. B. Clogg comenta a cura do paralítico (Mt 9:1*8; Mc 2:1-12; Lc 5:1726): “depois da introdução, que é peculiar a cada Evangelista, nada há em Mateus e Lucas que não é achado em Marcos, mas Marcos tem muitos pormenores pictoriais que faltam nos outros dois. É pouco possível que Marcos tenha compilado sua narrativa a partir dos dois outros, e que ain­ da seja o mais viçoso e natural dos três.”97 Um comentário semelhante poderia ser feito repetidas vezes. 3. Tanto ^dateus como Lucas às vezes omitem aquilo que Mar­ cos contém, mas não concordam freqüentemente nas suas omissões. 4. Mateus e Lucas geralmente seguem a ordem de Marcos. Quando um deles deixa a ordem de Marcos, o outro normalmente o apoia. Raras vezes concordam entre si contra Marcos, quanto a detalhes. 5. Marcos revela mais franqueza do que os outros em retratar a humanidade de Jesus. Por exemplo, informa-nos que na sinagoga, depois de ter perguntado se é lícito nos sábados fazer o bem ou fazer o mal, an­ tes de curar o homem que tinha ressequida uma das mãos, Jesus “olhouos ao redor, indignado e condoído com a dureza dos seus corações” (Mc 3:5). Mateus e Lucas, porém, omitem as referências à indignação e ao pesar. 6. Marcos está mais disposto a relatar as falhas dos Doze. Destar­ te, conta-nos que, na ocasião da discussão sobre o “fermento de Herodes,” pág. 27, n. 1). W. F. Howard, no entanto, indicou que o símbolo foi usado por J. Weiss num ensaio publicado em 1891, e outra vez num livro publicado em 1892 (ET, 1,1938-39, págs. 379-80). Não se pode dizer que a questão foi resolvida. 96. B. H. Streeter, The Four Gospels (Londres, 1930), págs. 159-60. W. G. Kümmel diz que Mateus e Lucas, entre eles, têm 8.189 das 10.650 palavras de Mar­ cos (Introduction to the New Testament, pág. 45). 97. F. B. Clogg. An Introduction to the New Testament (Londies, 1940), pág. 183.


Jesus perguntou-lhes: “Tendes o coração enduTecido? tendo olhos, não vedes? e, tendo ouvidos, não ouvis?” (Mc 8:17-18). Mateus, porém, ao relatar o incidente, omite esta parte (Mt 16.-9). 7. Em Marcos há toques vividos (que decididamente dão a impres­ são de ser as lembranças de uma testemunha ocular), que Mateus e Lucas omitem nos seus relatos paralelos. Incluem detalhes como quando Jesus sentou-Se e chamou os Doze (Mc 935), quando olhou para Seus discípu­ los em derredor (Mc 10:23), e a palavra para os “grupos” das pessoas que se sentavam na ocasião em que os cinco mil foram alimentados (Mc 6:40; a palavra é empregada para canteiros do jardim). 8. Embora Mateus e Lucas sejam independentes entre si quanto às suas histórias da Infância, começam a concordar entre si (e com Mar­ cos) na altura em que Marcos começa seu Evangelho. 9. Parece haver uma tendência para Mateus e Lucas refinar o re­ lato de Marcos. Parece que adotam um tom mais reverente (ver considera­ ções 5 e 6), emendara construções desajeitadas e com gramática inferior, e omitem as expressões aramaicas. Em comparação com eles, o relato de Marcos parece mais primitivo. 10. Algumas pessoas detectam em Mateus e Lucas tentativas para esclarecer as ambigüidades de Marcos. Destarte, onde Marcos diz: “pois para isso é que eu vim” (Mc 1:38), que pode significar ‘Vim da parte de Deus,” ou “vim de Cafemaum,” Lucas diz: “pois para isso é que fui en­ viado” (Lc 4:43). De modo semelhante, Marcos 11:3 pode significar que o dono mandaria o jumento de volta para Jesus, ou que Jesus, depois de acabar de fazer uso do jumento, o devolveria ao dono (comparar ARC com ARA). Mateus 21:3, no entanto, deixa claro o sentido. Nem todas estas considerações são igualmente convincentes. Des­ tarte, considerações 5-7 decerto não passam de questões das abordagens diferentes dos diferentes autores. Além disto, a consideração 4 pode ser de­ clarada de modo exagerado. Sanders sustenta que “os fatos da ordem con­ forme usualmente são declaradas são enganosos: o fenômeno da ordem ain­ da tem de ser definido e explicado de modo adequado. O argumento basea­ do na ordem não é adequado para comprovar a hipótese dos dois documentos com o grau de certeza que seria necessário a fim de justificar o procedimento seguido por Bultmann e Taylor.”98 Algumas das outras 98. E. P. Sanders, The Tendencies o f the Synoptic Traditiort, pág. 277. Nu­ ma nota de rodapé indica que o argumento baseado na ordem é aplicável a unida­ des mais longas e completas. Nas unidades menores há lugares em que nem Mateus nem Lucas seguem a ordem de Marcos, e cita Mc 9:50; Mt 5:13; Lc 14:34.


considerações, no entanto, formam um argumento convincente. Contra ele pieiteam-se principalmente as duas considerações seguintes. 1. Há algumas concordâncias entre Mateus e Lucas contra Marcos. Por exemplo, no dito acerca de colocar vinho novo em odres velhos, Ma­ teus e Lucas dizem que o vinho se derrama, ao passo que Marcos diz que o vinho e os odres se perdem (Mt 9:17 = Mc 2:22 = Lc 5 3 7 )." De modo semelhante, na história da Paixão, Mateus e Lucas igualmente têm “di­ zendo” e “quem é que te bateu?” , que faltam em Marcos (Mt 26:67* 68 = Mc 14:65 = Lc 22:63-64). Este tipo de coisa é estranho se Mateus e Lucas dependem de Marcos. Para explicá-lo, alguns têm pensado que Mar­ cos foi revisado: houve um Marcos original (um Ur-Marcus) e uma versão revisada. Se for assim, o Marcos que agora temos deve ser o original, ao passo que Mateus e Lucas usaram a revisão. A maioria dos estudiosos, no entanto, concorda que a evidência em prol de um Ur-Marcus é insuficiente. Muitos dos argumentos deixam de convencer. Destarte, tanto Mateus quanto Lucas freqüentemente omitem, de modo independente, palavras in­ significantes que caracterizam o estilo mais verboso de Marcos. Não é sur­ preendente que às vezes coincidem. A mesma coisa acontece com as mu­ danças gramaticais, tal como a alteração do presente histórico (em Marcos 151 vezes, mas em Mateus 78 vezes e em Lucas 4-6 vezes)100 para o im­ perfeito ou o aoristo. Mas depois de levar isto plenamente em conta, mui­ tos estudiosos acham que um problema ainda permanece. 2. Se Mateus e Lucas dependem de Marcos, pergunta-se por que omitem seções inteiras da sua fonte. Mas a resposta razoável é que os dois tinham o direito de fazer uma seleção. Não eram obrigados a reproduzir a to­ talidade de quaisquer documentos que tinham em mãos. De qualquer ma­ neira, uma quantidade surpreendentemente pequena de Marcos é omitida na realidade. É, porém, enigmático que Lucas tenha omitido tudo em Marcos 6:45-8:26. Talvez esta omissão fosse acidental. Não era fácil locali­ zar uma passagem num rolo antigo, e tem sido sugerido que Lucas pudesse facilmente ter passado acidentalmente da multiplicação dos pães para as multidões em Marcos 6:42-44 para as palavras semelhantes em 8:19-21. Ou talvez achasse que já tinha paralelos suficientemente próximos da maior parte de matéria nesta seção.101 99. Vei a lista em F. Crawford Buikitt, The Gospel History and its Transmission (Edimburgo, 1907), págs. 42ss. 100. As passagens estão alistadas em Hawkins, Horae Synopticae, págs. 144149. 101. Creed acha uma variedade de explicações (pág. lxi).


Tais objeções não são consideradas decisivas. A maioria dos estudio­ sos, portanto, sustenta que Marcos foi o primeiro dos quatro Evangelhos que temos a ser escrito. Pensam que este Evangelho foi usado tanto por Mateus quanto por Lucas. Esta parece ser a interpretação mais provável da evidência, mas não podemos dizer mais do que isto. Não foi comple­ tamente comprovado,102 e devemos ter em mente que alguns estudiosos sustentam a prioridade de Mateus103 e alguns poucos, até mesmo a de Lucas.lw Voltamo-nos agora pya Q, a outra fonte na teoria dos dois docu­ mentos. As seguintes considerações são relevantes. 1. Há cerca de 250 versículos que Mateus e Lucas têm em comum, mas que faltam em Marcos. 2. O grau de semelhança varia. Algumas passagens são quase idên­ ticas, palavra por palavra (e.g. a seção da “raça de víboras”, Mt 3:8-10; Lc 3:7-10; no Grego, 60 de 63 palavras são idênticas nos dois relatos: as­ sim também Mt 6:24 é semelhante a Lc 16:13; Mt 7:3-5 a Lc 6:4142; Mt 7:7-11 a Lc ll:9-13;M t 11:4-6, 7b-11 a Lc 7:22-23, 24b-28; Mt 11:2123 a Lc 10:13-15;Mt 11:25-27 a Lc 10:21-22;Mt 12:4345 a Lc 11:24-26; Mt 23:37-38 a Lc 13:34-35;Mt 24:45-51 a Lc 12:4246). As concordâncias podem chegar a palavras e frases incomuns, e peculiaridades gramaticais. Noutras passagens, no entanto, as diferenças são tão notáveis quanto as semelhanças (e.g. as Bem-aventuranças, Mt 5:3-l 1; Lc 6:20-22). 3. A matéria em comum ocorre em contextos diferentes. Segundo Streeter, subseqüentemente à narrativa da tentação, não há um só caso em que Mateus e Lucas encaixam um trecho de matéria Q no mesmo con­ texto de Marcos. Não é surpreendente, portanto, que a ordem em que a matéria Q ocorre é diferente nos dois Evangelhos. Sustenta-se usualmente que Lucas conservou alguma coisa da ordem do original, ao passo que 102. David Wenham chama a atenção a um certo número de dificuldades no seu artigo ‘The Synoptic Problem Revisited” em Tyndale Bulletin, 23, 1972, págs. 3-38. 103. Cf. B. C. Butler, The Originality o f Matthew (Cambridge, 1951); M. L. Loane, A Brief Survey o f the Synoptic Problem (Melboume, n.d.); W. R, Faimer, The Synoptic Problem (Nova York, 1964). 104. E. P. Sanders cita W. Bussmann para o ponto de vista de que “um docu­ mento original G (Geschichtsquelle) subjazia a tradição sinótica tríplice, mas que diferentes recensões dele tinham sido usadas por nossos Evangelistas. Lucas empre­ gou a forma mais antiga, e Matem a segunda, ao passo que o próprio Marcos real­ mente é a terceira recensão do documento G” (op. cit., pág. 95). 105. B. H. Streeter, The Four Gospels, pág. 183,


Mateus dispôs sua matéria por tópicos. 4. Há pouca matéria narrativa na matéria que há em comum. Q é principalmente um documento de ditos. Teoricamente, a matéria que há em comum pode ser devida à depen­ dência direta ao invés de ao uso do mesmo documento; mas poucos acham que há qualquer justificativa para sustentar que Mateus copiou Lucas. Al­ guns estudiosos, porém, pensam que Lucas depende de Mateus. Contra eles, porém, há o fato já notado de que, depois da história da tentação, nunca achamos a matéria em comum no mesmo contexto. Por que Lucas sistematicamente tiraria a matéria de Mateus fora do seu contexto e a co­ locaria noutro lugar?106 Além disto, não parece haver motivo algum por­ que Lucas não retomou nenhum dos acréscimos que Mateus fez ao texto de Marcos. Isto parece inexplicável. Uma consideração um pouco subjeti­ va é que os estudiosos usualmente acham que, onde há leves diferenças entre a matéria em comum, o relato de Lucas é mais viçoso e parece mais original. Não parece, portanto, que qualquer destes dois Evangelhos depen­ de diretamente do outro, A maioria dos estudiosos sustenta que uma fonte tal como Q real­ mente existia, embora haja pouca concordância quanto ao conteúdo dela. James Moffatt cita dezesseis reconstruções diferentes e oferece mais uma dele mesmo.107 Streeter oferece ainda outra.108 O problema, naturalmen­ te, é com as passagens que revelam diferenças bem como semelhanças. De­ vem ser incluídas em Q? Alguns sustentam que devem, e que havia recen­ sões diferentes daquele documento. Mateus, pois, usou uma forma de Q, e Lucas, outra. Outros pensam que Q era uma fonte aramaica (talvez os logia de Mateus, referidos por Papias109) e que nossos Evangelistas este­ jam usando traduções diferentes para o Grego. Algumas das diferenças en­ tre Mateus e Lucas podem ser explicadas com base nas leves diferenças entre palavras aramaicas ou de palavras aramaicas com dois sentidos. Ou­ 106. Como exemplo da dificuldade podemos citai o argumento de W. H. Blyth Martin de que, nos Ais contra os escribas e fariseus, se Lucas usou Mateus, omitiu vários versículos e dispôs os demais na ordem de Mt 23:25-26, 23, 6-7, 27, 4, 29-31, 34-36, 13 ( Theology, lix, maio de 1956, págs. 187-8). Haiold A. Guy também ressaltou a relevância da ordem muito diferente usada por Lucas (ET, Ixxxiii, 1971-72, págs. 245ss.). K. Peter G. Curtis tem um argumento baseado no vocabulário para apoiar a hipótese Q (ET, lxxxiv, 1972-73, págs. 309-10). 107. J. Moffatt, An Introduction to the Literature o f the New Testament (Edimburgo, 1927), págs. 197ss. 108. B. H. Streeter, op. cit., pág, 291. 109. Citado em Eusébio, Historia Ecclesiastica 111.39.16.


tro fator complicante é a probabilidade de que às vezes apenas um dos nossos Evangelistas empregou Q. Os estudiosos diferem entre sí quando procuram identificar tais passagens. Aqueles que acham que a existência de Q não foi demonstrada de modo satisfatório indicam que não se pode comprovar a existência de nenhum exemplar do tipo de literatura semelhante. Talvez o Evan­ gelho segundo Tomé chegue mais perto, mas este é um documento do século II, provavelmente gnóstico. Nada semelhante a ele é conhecido nos tempos neotestamentários. As concordâncias entre Mateus e Lucas realmente apresentam um problema, mas não é incapaz de solução. Al­ guns pensam que Mateus é anterior a Lucas e que Lucas usou tanto ele quanto Marcos.110 Tais pontos de vista não estão sem dificuldades pró­ prias, mas a sua própria existência demonstra que a hipótese de que Mar­ cos e Q subjazem nosso primeiro e terceiro Evangelho não foi compro­ vada. É difícil escapar à impressão de que muitos críticos estão procu­ rando forçar um número de hipóteses dentro do documento Q. Estão desconsiderando a expressa declaração de Lucas de que muitos tinham escrito antes dele (1:1). A melhor maneira de esclarecer o problema das diferenças e das semelhanças parece ser levar a sério esta declaração de Lucas. Onde Mateus e Lucas são iguais, quase palavra por palavra, não precisamos duvidar de que estão usando um documento escrito em co­ mum. É bem possível que tenha havido mais de uma de tais fontes. Mas onde as diferenças são tão grandes quanto as semelhanças, parece melhor pensar em fontes diferentes.111 Não deixa de ser interessante que em

110. Ver, por exemplo, o ensaio por A. M. Faner, “On Dispensing with Q” em Studies in the Gospels, ed. D. E. Nineham, págs. 55-86. W. H. Blyth Martin respondeu com um artigo chamado "The lndispensability of Q,” art. cit., págs. 182-188. J. H. Ropes sustenta que nunca foi demonstrada a impossibilidade de Lucas ter usado Mateus (The Synoptic Gospels, pág. 93). N. Tumer argumentou que as con­ cordâncias entre Mateus e Lucas contra Marcos parecem ser melhor explicadas pela dependência lucana de Mateus (SE, i. págs. 223-234). Mas R. McL, Wilson propõe algumas considerações que indicam a direção oposta (SE, i, págs. 254-257). 111. W. L. Knox emprega a expressão sugestiva, “folhetos Q” (The Sources o f the Synoptic Gospels, ii (Cambridge, 1957), págs. 45ss.). Pensa que folhetos bre­ ves eram bem antigos, "Provavelmente até mesmo em fins da década de 30, e certa­ mente até o começo da década de 50” (ibid., pág. J39). C. K. Barrett argumenta em prol de certo número de fontes ao invés de um único documento Q (ET, liv, 1943-43, págs. 320ss.). Olof Linton pensa que havia um documento Q, mas que Mateus e Lucas também fizeram uso de matéria que tinha sido transmitida oral­


tempos recentes parece haver uma tendência para ser menos dogmático acerca de Q.m Muitos estudiosos o consideram nada mais do que um modo conveniente de referir-se á matéria comum a Mateus e Lucas que obtiveram da mesma origem ou origens. Empregaremos o símbolo exata­ mente desta maneira. Desde a publicação da grande obra de B. H. Streeter, muitos têm sido atraídos à teoria dos quatro documentos. Streeter aceitou Marcos e Q como dois documentos básicos, mas indicou que, além disto, Mateus e Lucas têm quantidades consideráveis de matéria peculiar a eles mesmos. Postulou origens documentárias especiais para explicar isto, e deu ao documento de Mateus a designação de M, e ao de Lucas, a de L. Pensa­ va que cada um dos grandes centros no cristianismo primitivo teria seu próprio ciclo de tradição, e liga as fontes com esses centros: Marcos com Roma, Q com Antioquia, M (que tem um tom judaico) com Jerusalém e L com Cesaréia. Quando estas tradições foram registradas nos Evangelhos como matéria sagrada, já não havia necessidade para a sua existência se­ parada e foi permitido seu desaparecimento, Esta parte da sua teoria está aberta a dúvidas, pois a igreja primitiva não deixou que Marcos pe­ recesse quando quase a totalidade dele foi incluído em Mateus ou Lucas. Um desenvolvimento interessante da teoria de Streeter é seu concei­ to da maneira em que o Evangelho segundo Lucas foi composto. Pensa que quando Lucas começou a escrever, dependia principalmente de Q e L e que somente depois de ter combinado estes num primeiro esboço de um Evangelho (que Streeter chama de Proto-Lucás) é que teve em mãos um Evangelho segundo Marcos. Passou, então, a encaixar matéria de Marcos em Proto-Lucas e formou o presente Evangelho. Antes de Streeter, o con­ ceito usual foi que Lucas tomou Marcos como base e encaixou sua maté­

mente (“The Q-Probiem Reconsidere d” em Studies in New Testament and Early Christian Literature, ed. D. A. Aune, págs. 43-59). E. P. Sanders demonstrou mais uma vez a complexidade do problema e argumentou em prol de fontes múltiplas que às vezes coincidem parcialmente (“The Overlaps of Mark and Q and the Synoptic Problem,” NTS, 19,1972-73, págs. 453-465). 112. Ropes vê a hipótese Q como tendo sido "modificada, refinada, e compli­ cada a tal ponto que, por essa razão, se por nenhuma outra, levanta dúvidas quanto à sua validez” (loc. cit.). M. Dibelius pensa que somos justificados em falar “mais de um estrato do que de um documento” (From Tradition to Gospel (Londres, 1934), pág. 235). R. H. Fuller também pensa em Q como sendo “uma expressão abreviada para uma camada comum de tradição, parcialmente escrita, e talvez par­ cialmente oral” (A Criticai Introduction to the New Testament (Londres, 1966), pág. 72). Naturalmente, muitos acham uma proveitosa hipótese de trabalho.


ria não-marcana no arcabouço marcano. Streetter, porém, rompe com o ponto de vista de que Marcos era uma fonte primária para Lucas, e nega que Marcos forneceu o arcabouço de Lucas. Caird indica que a resolução desta questão tem interesse mais do que meramente acadêmico, porque envolve nosso conceito do valor histórico deste Evangelho. Se Lucas usou Marcos como sua base, segue-se, então, que “usou de muita liberdade edi­ torial em reescrever suas fontes.”113 As evidências principais em prol de Proto-Lucas sáo as seguintes. 1. Lucas tem blocos alternados de matérias marcanas e náb-marcanas. Faz muito pouco uso de Marcos nas seções 3:1-4:30; 6:20-8:3; 9:51-18:14; 19:1*27, e sua narrativa da Paixão parece ser basicamente independente daquela de Marcos. Não dá qualquer impressão de combi­ nar suas matérias marcanas e não-marcanas dalguma maneira semelhante ao modo em que combinou os fios diferentes na sua matéria não-marcana. Por alguma razão, não registra nada tirado de Marcos 6:45-8:10. 2. Lucas 3:1 dá a impressão de ser o início de um livro. Se real­ mente o foi, a posição da genealogia, logo após a primeira menção do no­ me de Jesus, é natural. Aqueles que sustentam a hipótese do Proto-Lucas, é lógico, normalmente acreditam que este documento não incluía as nar­ rativas da Infância. 3. Às vezes, quando Lucas está aparentemente seguindo Marcos, um incidente específico é omitido. Mas o achamos numa forma diferente num lugar diferente. Tais incidentes incluem a controvérsia acerca de Belzebu (Q), o grão de mostarda (Q), a rejeição em Nazaré (L), a unção (L), etc. Caird alista dezessete lugares em que Lucas sai da ordem marcana em Marcos 1:1-14:11.114 Parece que Lucas preferia sua fonte nãomarcana, mesmo quando a versão de Marcos é mais vigorosa. Isto é inte­ ligível se Lucas tinha anteriormente incorporado aquela fonte na sua obra, mas menos inteligível se está operando tendo Marcos por base. Na realida­ de, parece que quando Lucas não está seguindo a ordem de Marcos, não está livremente corrigindo o outro Evangelista, mas, sim, simplesmente seguindo outra fonte. 4. Q + L formariam um documento consideravelmente maior do que Marcos.115 É difícil, à luz disto, ver Marcos como o arcabouço de Lucas. 113. Caiid, pág. 23. 114. Caird, págs. 24-5. 115. Streeter, The Four Gospels, págs. 211-12. Estima a matéria não-marcana em Lc 3:1-22:14 em 671 versículos, e na narrativa da Paixão em 135 versícu­ los, num total de 806 (ibid., pág. 209; há cerca de 660 versículos em Marcos).


5. Esta hipótese explicaria por que Lucas omite muito mais de Marcos do que Mateus. 6. O uso de “o Senhor” ao invés de “Jesus” na narrativa nío se acha em Mateus nem Marcos , nem ocorre na matéria marcana em Lucas. Mas acha-se quinze vezes no restante, e em números aproximadamente proporcionais em Q e L. De modo semelhante, o trato Kyrie, “Senhor,” acha-se uma só vez em Marcos (a mulher sirofenícia), mas dezesseis vezes em Lucas, das quais quatorze no Proto-Lucas (oito em L e seis em Q). Também se acha dezenove vezes em Mateus.116 Fica claro que o uso do termo não caracteriza a composição final do livro, seníto, estaria nas se­ ções marcanas. A inferência é que pertence a uma etapa anterior do es­ crito de Lucas. 7. A narrativa da Paixão, escrita por Lucas, não é uma reformu­ lação da de Marcos. Quando Lucas está empregando matéria marcana, nor­ malmente tem cerca de 53% das palavras de Marcos, mas na narrativa da Paixão, somente 27%.n7 e isto inclui muitas palavras sem as quais se­ ria quase impossível contar uma história da Paixão de modo algum. Lucas tem, além disto, uma dúzia de variações da ordem marcana.118 Há mais: os aparecimentos em Lucas estão localizados em Jerusalém. A opinião dos estudiosos está dividida entre a idéia de o Evangelho segundo Marcos originalmente ter terminado onde termina em nossos exemplares, e neste caso não houve aparecimentos depois da ressurreição, ou de ter havido um término que agora está perdido, e neste caso a maioria concorda que os aparecimentos devem ter sido na Galiléia (Mc 16:7). Em qualquer des­ tes casos, Lucas não depende de Marcos.119 S. Quando Lucas emprega matéria Q, não a encaixa simplesmente num arcabouço marcano, mas, sim, combina-a com L. Streeter conclui, a partir de evidências deste tipo, que Lucas prova­ velmente tinha completado o primeiro esboço do seu Evangelho antes de ter visto Marcos. Se este for o caso, então Proto-Lucas é extremamente antigo. Os estudiosos têm tido o hábito de atribuir valor especial a Marcos e a Q, porque, documentos mais antigos do que Mateus e Lucas, e que eram tão altamente estimados que estes dois confiavam neles, devem ser tão 116. ibid., págs. 213-14. 117. Caird, pág. 25. 118. Caird, loc. cit. 119. Ver, ainda, a discussão detalhada em Vincent Tayloi, The Passion Narrative o f St Luke. Taytor toma muito difícil sustentar que Marcos foi a fonte básica de Lucas para sua narrativa da Paixão, embora concorde que Lucas empregou Marcos nalgumas seções.


primitivos quanto fidedignos. Streeter pensa que Proto-Lucas deve ser considerado parte da mesma classe. Sua teoria ressalta o valor de muita coisa em Lucas. Nem todos foram persuadidos por ele, no entanto. Os estudiosos usualmente acham que não foi produzida evidência suficiente para com* provar que M e L existiam como documentos. Que Mateus e Lucas tinham fontes especiais de informação fica bastante claro. Que estas fontes eram incorporadas em dois documentos não fica claro. Além disto, se separar­ mos as passagens atribuídas a Proto-Lucas, alguns náó ficarão impressio­ nados. J. M. Creed chama o resultado de “uma coletânea amorfa de nar­ rativa e discurso.”130 NíTo fica sendo um Evangelho bem contornado. Aqueles, porém, que rejeitam Proto-Lucas, nâo parecem ter dado uma explicação convincente de dois fatos: 1. Lucas habitualmente com­ bina sua matéria especial com Q, mas nunca com Marcos, e 2. Lucas aparta-se de Marcos muito freqüentemente na história da Paixão. Parece que dava muita importância â sua combinação de Q e L. Era, aparentemente, sua fonte para suas narrativas da Infância, e, perto do começo do seu Evangelho há um bloco de matéria não-marcana imediatamente após suas < histórias da Infância (3:1-4:30). Há, é verdade, algumas expressões em comum com Marcos nesta seção, e alguns críticos consideram que Lucas depende de Marcos em todas as partes dela. Isto, porém, dificilmente parece justificado, pois o maior volume desta seção é claramente níTo-marcano. Há evidência de que Marcos e Q coincidiram parcialmente. Por exemplo, Lucas 8:16 aparece num contexto marcano (Mc 4:21) e 11:33, que é muito semelhante, usualmente é atribuído a Q (cf. Mt 5:15). Parece que Lucas tirou este dito das suas duas fontes. O mesmo fenômeno é re­ petido várias vezes, e isto deixa os estudiosos quase uniformemente convic­ tos que Marcos e Q coincidiam parcialmente. Sendo este o caso, Lucas nâfo precisa ter derivado de Marcos aquilo que parecer ser matéria mar­ cana em 3:1-430. Talvez teve sua origem em Q e, considerando a nature­ za e a extensío das diferenças, é isto que realmente aconteceu, conforme parece. Muitos já indicaram que se destacarmos as seções marcanas do Evan­ gelho segundo Lucas, há pouca coesão entre elas. Não d£o a impressão de serem o arcabouço do mais longo dos nossos Evangelhos. Este fato 120. Creed, pág. Ivüi n. Embora tenha objeções à hipótese de Proto-Lucas, Creed está disposto a conceder a possibilidade de que Q e alguma parte da matéria especial de Lucas “podem já ter sido combinados, e podem ter estado diante de Lu­ cas como um único documento” (ibid.).


dá a impressão de que Lucas empregou Marcos tardiamente na sua com­ posição, e nSo desde o início. A certeza e' impossível em tal situação, mas certamente parece que Lucas já tinha estado ativo muito tempo antes de conhecer o Evangelho segundo Marcos. Talvez seja um exagero alegar que já tinha produzido o Proto-Lucas de Streeter. Os fatos parecem melhor esclarecidos se Lucas estava colecionando matérias de uma variedade de fontes, tanto a tradi­ ção oral quanto quaisquer escritos que encontrou, e que combinava tu­ do num documento experimental. A combinação freqüente de Q e L parece indicar nada menos do que isto. Depois, quando achou um exem­ plar de Marcos, encaixou as seleções que achou apropriadas no seu docu­ mento parcialmente escrito, alterando a redação onde era necessário. Dalguma maneira semelhante, produziu o presente volume. Ao completar esta seção de nosso estudo, desejo ressaltar que mui­ ta coisa permanece incerta. Ao ler algumas explicações do problema sinótico, nunca se poderia descobrir que há tantas exceções às regras que os estudiosos preconizam. Os fatos são extraordinariamente complexos, e nada mais do que uma hipótese experimental pode ser justificada. O pro­ blema deve ser levado adiante. Não podemos trabalhar com estes Evange­ lhos sem hipóteses dalgum tipo. No estado presente do nosso conhecimen­ to, no entanto, não devemos ser dogmáticos demais.121

b. Lucas e João Um aspecto interessante e enigmático deste Evangelho é o grande número de pontos de contato que tem com o Quarto Evangelho. Há muito mais 121. A Wikenhauser é um pouco pessimista: "até ao presente momento, ne­ nhuma solução real foi achada que explique os fatos altamente complexos do pro­ blema sinótico, nem paiece provável que tal solução será achada” (New Testament Introduction (Nova York, 1958), págs. 231-2). D. G. A. Calvert refere-se ao “senti­ mento crescente de que o problema sinótico ainda está conosco, e que a teoria das duas fontes já não é adequada” (NTS, 18,1971-72, pág. 218). J. A. Fítzmyer susten­ ta que “a história da pesquisa sinótica revela que o problema ê praticamente insolú­ vel1' (Jesus and Man's Hope, Seminário Teológico de Pittsburgh, 1970, pág. 132). W. D. Davies pensa que é improvável que a hipótese dos quatro documentos venha a ser completamente descartada: ‘‘Mesmo assim, na erudição recente, as linhas níti­ das da análise das fontes feita por Streeter, estão sendo semi-apagadas, senão inteira­ mente apagadas” (Invitation to the New Testament, pág. 96). No estudo de E. P, Sander, The Tendencies o f the Synoptic Tradition, a complexidade da evidência é claramente mostrada, bem como o fato de que não há nenhuma tendência real.


do que em qualquer dos outros Evangelhos Sinóticos. Destarte, várias pes­ soas são mencionadas por Lucas e João somente, a saber: Maria e Marta (João fala do irmão delas, Lázaro, e Lucas emprega este nome numa pará­ bola), um discípulo chamado Judas que é diferente de Judas Iscariotes, e Anás. Estes dois escritores demonstram um interesse pela Samaria e por Jerusalém muito maior do que qualquer coisa registrada em Mateus e Marcos, e o mesmo se pode dizer das suas referências ao Templo. Há outras ligações, especialmente na narrativa da Paixão. Os dois, por exem­ plo, falam do papel de Satanás na traição (Lc 22:3; Jo 13:27); os dois nos dizem que foi a orelha direita do escravo que Pedro cortou no Jardim (Lc 22:50; Jo 18:10); que Pilatos repetiu três vezes que Jesus eia inocente (Lc 23:4, 14, 22; Jo 18:38; 19:4, 6); que o sepulcro de José não tinha sido usado antes (Lc 23:53; Jo 19:41); que havia dois anjos na manhã da res­ surreição (Lc 24:4; Jo 20:12);e que os aparecimentos da ressurreição ocor­ reram em Jerusalém (Lucas se refere-de modo breve a uma visita ao túmu­ lo, que João descreveu mais detalhadamente, Lc 24:12, 24; Jo 20:3-10). Alguns têm explicado este tipo de coisa ao sustentar que João usou Lucas como uma das suas fontes.122 Há, porém, outras evidências que tor­ nam isto improvável.123 Assim, estes dois Evangelhos têm histórias acerca de uma mulher que ungiu a Jesus, mas ao passo que Lucas fala de uma prostituta realizando a ação na casa de um fariseu (Lc 7:36ss,), João descreve a ação de Maria, uma amiga de Jesus, no próprio lar dela (Jo 12:1 ss.). Além disto, ambos contam de uma pesca maravilhosa, Lucas no início do ministério de Jesus, e João na ocasião de um dos aparecimentos depois da ressurreição (Lc 5:1 ss.; Jo 21:lss.). Outros exemplos poderiam ser citados de incidentes que são algo semelhantes, mas onde as diferenças são tão importantes como as semelhanças. Tomam muito difícil pensar em dependência direta ou no uso de fontes em comum. Nas circunstân­ cias, a conclusão de Caird não é forte demais: “A inferência inevitável é que Lucas e João estavam dependendo de duas correntes afins de tradi­ ção oral.”124

122. Cf. J. A. Bailey, The Tradítions Common to the Gospels o f Luke and John (Leiden, 1963), 123. Examinei o relacionamento entre João e os Evangelhos Sinóticos de modo geral no capítulo 1 de Studies in the Fourth Gospel, e cheguei à conclusão de que não há 'evidência convincente em prol da dependência. 124. Caird, pág. 21. P. Parker também vê a resposta na tradição oral (NTS, ix, 1962-63, págs. 317-336).


ANÁLISE

I.

AS NARRATIVAS DA INFÂNCIA (1:5-2:52) a. Predito o nascimento de João Batista (1:5-25) b. Predito o nascimento de Jesus (1:26-38) c. Maria visita Isabel (1:3945) d. O cântico de Maria (1:46-56) e. O nascimento de João Batista e sua nomeação (1:57-66) f. O cântico de Zacarias (1:67-80) g. O nascimento de Jesus (2:1*7) h. Os anjos e os pastores (2:8-20) i. O menino Jesus (2:2140) j. O menino Jesus no Templo (2:41-52)

II.

O MINISTÉRIO DE JOÃO BATISTA (3:1-20)

III.

O COMEÇO DO MINISTÉRIO DE JESUS (3:214:13) a. O batismo de Jesus (3:21, 22) b. A genealogia de Jesus (3:23-38) c. As tentações de Jesus (4:1 -13)

IV.

JESUS NA GALILÉIA (4:14-9:50) a. O sermão em Nazaré (4:14-30) b. Jesus curando (4:3141) c. Um circuito de pregação (4:4244) d. Os milagres de Jesus (5:1-26) e. A chamada de Levi (5:27-32) f. Jejum (5:33-39) g. O emprego certo do sábado (6:1-11) h. A escolha dos Doze (6:12-16) i. O sermão na planície (6:1749)


ANÁLISE j. k. 1. m. n. 0. p. q. r. s. t. u. v. w, x. y. z.

A cura do servo de um centurião (7:1-10) 0 filho da viúva de Naim (7:11-17) As perguntas de Joio Batista (7:18-35) A pecadora que ungiu os pés de Jesus (7:36-50) As mulheres que serviram a Jesus (8:1-3) A parábola do semador (8:4-l 5) A candeia e seu esconderijo (8:16-18) A mãe e os irmãos de Jesus (8:19-21) Jesus acalma uma tempestade (8:22-25) O endemoninhado geraseno (8:26-39) A filha de Jairo (8 40-56) A missão dos Doze (9:1-6) Herodes o Tetrarca (9:7-9) A multiplicação dos pães para os cinco mil (9:10-17) O discipulado (9:18-27) A transfiguração (9:28-36) Jesus e os discípulos (9:37-50)

DA GALILÉLA PARA JERUSALÉM (9:51-19:44) a. Mais lições acerca do discipulado (9:51-62) b. A missão dos setenta (10:1-24) c. A parábola do bom samaritano (10:25-37) d. Marta e Maria (10:38-42) e. A oração (11:1-13) f. Jesus e os demônios (11:14-26) g. Jesus ensina o povo (11:27-12:59) h. O arrependimento (13:1-9) 1. A cura da mulher encurvada (13:10-17) j. O reino de Deus (13:18-30) k. Os profetas perecem em Jerusalém (13:31-35) 1. O jantar com um fariseu (14:1 -24) m. O discipulado (14:25-35) n. Três parábolas dos perdidos (15:1 -32) o. Ensinos, principalmente acerca do dinheiro (16:1-31) p. Ensinos acerca do serviço (17:1-10) q. Os dez leprosos (17:11-19) r. A vinda do reino de Deus (17:20-37) s. Duas parábolas acerca da oração (18:1 -14) t. Jesus e as crianças (18:15-17) u. O jovem rico (18:18-30)


v. w. x. y. z. VI.

Outra profecia da Paixão (18:35-43) A cura do cego (18:35-43) Zaqueu (19:1-10) A parábola das dez minas (19:11 -27) A entrada triunfal (19:28-44)

JESUS EM JERUSALÉM (19:45-21:38) a. A purificação do Templo (19:45,46) b. Ensinando no Templo (19:47,48) c. A autoridade de Jesus (20:1-8) d. A parábola dos lavradores maus (20:9*18) e. Tentativas para apanhar Jesus numa palavra (20:1944) f. Advertência contra os escribas (20:45-47) g. A oferta da viúva pobre (21:1-4) h. O discurso escatológico (21:5-36) i. Ensinando no Templo (21J7 , 38)

VIL A CRUCIFICAÇÃO (22:1*23:56) a. A traição (22:1-6) b. No cenáculo (22:7-38) c. A agonia no Getsêmani (22:39-46) d. Jesus é preso (22:47-54a) e. Pedro nega a Jesus (22:54b-62) f. Os guardas zombam de Jesus (22:63-65) g. Jesus perante o Sinédrio (22:66-71) h. Jesus perante Pilatos (23:1-5) i. Jesus perante Herodes (23:6-12) j. Jesus é sentenciado (23:13-25) k. Jesus é crucificado (23:26-49) 1. O sepultamento de Jesus (23:50-56) VIII. A RESSURREIÇÃO (24:1-53) a. O aparecimento às mulheres (24:1-11) b. Pedro no sepulcro (24:12) c. A caminhada a Emaús (24:13-35) d. Jesus aparece aos discípulos (24:3643) e. O cumprimento das Escrituras (24:4449) f. A ascensão (24:50-53)


COMENTÁRIO PREFÁCIO (1:14) O parágrafo de abertura é composto por uma só sentença num bom estilo grego, com vocabulário, ritmo, e equilíbrio clássicos. Lucas tem uma incli­ nação literária, e claramente vê que um acento um pouco semítico no esti­ lo é correto para o tipo de livro que está escrevendo. Mas esta sentença perfeitamente acabada é igualmente correta para uma abertura literária. E uma abertura literária, naturalmente, dá a entender que aquilo que se segue deve entrar em circulação. Alguns dos nossos MSS mais antigos, aliás, dão ao livro o título simples: “Segundo Lucas.” 1. Lucas começa, chamando a atenção àqueles que tinham escrito antes dele. Muitos y segundo ele nos diz, empreenderam a composição de uma narração. Emprega um termo geral que deixa em aberto se escreveram evangelhos ou algum outro tipo de narrativa. Não dá qualquer indicação quanto à identidade deles, mas a maioria concorda que Marcos era um de­ les. O verbo realizaram pode ser usado para “ser plenamente persuadido”, más este significado é improvável aqui. A palavra leva consigo a impres­ são de “cumprimento” (cf. 2 Tm 4:5) e assim, é possível que Lucas estives­ se fazendo uma alusão à realização do propósito de Deus, pensamento es­ te que ficará sempre diante dele no decurso de seu Evangelho e sua se­ qüela.1 2. Lucas tem boas autoridades para aquilo que escreve, Não era pessoalmente uma testemunha ocular, mas tinha consultado outros que eram. Alguns pensaram que a referência a testemunhas oculares seja nada mais do que convencional, mas, conforme diz Creed: “um escritor antigo não alegaria a autoridade de testemunhas oculares sem esperar que sua de­ claração fosse acreditada, mais do que faria um escritor moderno.” As tes­ temunhas oculares também eram ministros da palavra. Esta expressão in-

1. H. J. Cadbury pensa que provavelmente nâo há nisto mais do que um de­ sejo de colocar uma palavra longa e sonora (The Beginnings o f Christianity, ii (Londies, 1922, pág. 496). Mas é improvável que isto seja correto.


comum, que não é achada noutra parte do Novo Testamento, parece sig­ nificar “homens que pregavam o evangelho cristão.” Não devemos, porém, olvidar os fatos de que João, na abertura do seu Evangelho, fala de Jesus como sendo “a Palavra” e de que, noutros lugares, Lucas considera pregar a Jesus e pregar a palavra como sendo aproximadamente a mesma coisa (Atos 8:4; 9:20; cf. também Atos 10:36ss.), Está se aproximando do pen­ samento de João, pois estes homens eram servos da Palavra bem como da palavra. Além disto, está dando a entender que suas autoridades não eram tanto historiadores acadêmicos quanto homens que conheciam a palavra que pregavam e que viviam a altura. Desde o princípio nos leva de volta ao ministério de João Batista. Lucas não estava perdendo qualquer coisa: estava voltando para as próprias raízes do movimento cristão. Transmi­ tiram tem um significado suficientemente largo para abranger a tradição oral e a escrita, e Lucas talvez tivesse em mente os dois tipos. 3. Declara que fez acurada investigação. Alguns (e.g. Cadbury) sustentam que isto significa que estava pessoalmente presente (e realmen­ te estava, nalguns dos eventos em Atos). Esta idéia, no entanto, parece atribuir demais à expressão que usou. Devemos entendê-la, pelo contrá­ rio, no sentido de “seguir a pista” numa investigação, pois o próprio Lu­ cas reconhecé que não era testemunha de'pelo menos uma parte daquilo que nana. MM pensam que o verbo subentende, não que Lucas “investi­ gara” todos os seus fatos de novo, mas, sim, que adquirira tamanha familia­ ridade com eles e se conservara em contato com eles “que seu testemunho é praticamente um testemunho contemporâneo.’1 Declara que seguiu os eventos de maneira “acurada.” Está dizendo que suas informações são boas. Sabe aquilo acerca do que fala. Passa a dizer que segiu a pista da his­ tória desde seu início (desde sua origem). Tem havido bastante discus­ são acerca da palavra traduzida em ordem (kathexès), usada somente por Lucas no ,Novo Testamento. Alguns sustentam que significa “em ordem cronológica” mas parece que esta expressão atribui demais ao texto. Geldenhuys, embora não deixe passar desapercebidas as possibilidades cronológicas, vê na palavra “um arranjo lógico e artístico” e um concei­ to deste tipo é provavelmente correto. Teófilo não é provavelmente um nome simbólico (a despeito do seu significado, “o que ama a Deus”). In­ dica uma pessoa genuína que provavelmente, como patrocinador de Lu­ cas, tenha pago as despesas da publicação do livro. O epíteto excelentís­ simo provavelmente indica uma pessoa de alta posição (cf. Atos 23:26; 24:3; 26:25), embora também haja a possibilidade de se tratar apenas de um título de cortesia. 4. O verbo instruído ê freqüentemente usado para a instrução dos


convertidos cristãos ou os interessados {katècheõ; ver Atos 18:25; 1 Co 14:19, etc.). Alguns deduzem que Teófilo era crente, e apoiam esta idéia com o argumento de que dificilmente teria sido o patrocinador literário de Lucas se não o fosse. Contra a idéia, no entanto, insiste-se que prova­ velmente teria sido chamado “irmão” se fosse crente. De qualquer manei­ ra, o verbo pode ser usado de um relatório tanto hostil como errado (e, g. Atos 21:21, 24), de modo que devamos conservar aberta a possibilidade de que não passasse dalguém de fora que estava interessado. Certa­ mente sabia alguma coisa acerca da fé cristã, e Lucas quer que ele saiba as verdades dela. Ned B. Stonehouse entende que a verdade é especial­ mente importante no Prólogo. O “impacto principal” do Prólogo é “que o cristianismo é verdadeiro e é capaz de confirmação mediante o apelo aquilo que acontecera.”2

I. AS NARRATIVAS DA INFÂNCIA (1:5-2:52) Nesta seção (peculiar a Lucas) temos nossa única informação acerca das origens de João Batista e algumas informações exclusivas acerca do nas­ cimento de Jesus. Há alguns paralelos notáveis entre as duas histórias dos nascimentos. Nas duas, o anjo Gabriel trouxe notícias daquilo que estava para acontecer, nas duas, as circunstâncias do nascimento e da circunci­ são são narradas, e nas duas, seguem-se pronunciamentos proféticos. Lu­ cas está ressaltando a maravilha da era messiânica. A profecia cessara no fim do período do Antigo Testamento; agora, porém, Deus estava en­ viando Seu próprio Messias, e o dom profético foi renovado. Demonstrase que João tem um lugar especial nos acontecimentos messiânicos. Não há nenhuma possibilidade de confundi-lo com o Messias no relato de Lu­ cas, pois é apenas o precursor (1:17). Não há, tampouco, qualquer possi­ bilidade de deixar de enxergar sua verdadeira grandeza. Tanto a linguagem quanto as idéias destes capítulos refletem uma si­ tuação histórica semítica. Alguns estudiosos sustentam que Lucas está traduzindo um documento hebraico ou aramaico, ao passo que outros pensam que está escrevendo em imitação do estilo da Septuaginta. Tudo por tudo, parece provável que Lucas está refletindo suas fontes, e que estas advêm da Palestina.

2. N. B. Stonehouse, The Witness o f Luke to Christ (londres, 1951)f p. 44.


a. Predito o nascim ento de João Batista (1 :5-25)

5-7. Lucas data sua narrativa no reinado de Herodes Magno (374 a.C.). Aquilo que descreve aconteceu perto do fim daquele reinado. Conta de Zacarias, um sacerdote de uma região do interior (3940), que revezava com os demais o ministério no Templo. Havia muitos sacerdotes, mas somente um Templo. Destarte, serviam por turnos (1 Cr 24:1-6). Os sacerdotes eram divididos em vinte e quatro divisões, das quais a de Abias era a oitava (1 Cr 24:10). Na realidade, somente quatro divisões voltaram do Exílio (Ed 2:36-39), mas as quatro eram subdivididas para refazer as vin­ te e quatro, com os nomes antigos. Cada divisão estava de plantão duas ve­ zes por ano, durante uma semana em cada ocasião. Zacarias estava casado com Isabel, sendo ela mesma uma filha de sacerdote. Exigia-se do sacerdote que se casasse com uma virgem israelita (Lv 21:14), mas não necessariamen­ te com uma família sacerdotal. Ter uma esposa de descendência sacerdo­ tal era uma bênção adicional para um sacerdote. A piedade deste casal é ressaltada com os adjetivos justos e irrepreensíveis. Quer dizer, natural­ mente, que serviam fielmente a Deus, não que eram impecáveis. Por isso, era difícil para eles entenderem sua situação de não terem filho, pois as pessoas sustentavam naqueles tempos que Deus abençoaria Seus servos fiéis, dando-lhes filhos. A menção da idade deles provavelmente visava dei­ xar claro que não podiam esperar qualquer mudança na situação. Zacarias pode ter sido muito velho, pois não havia aposentadoria para os sacerdotes (embora houvesse para os levitas). 8-10. Havia muitos sacerdotes, e não havia deveres sagrados em nú­ mero suficiente para todos eles; lançava-se sortes, portanto, para ver quem cumpriria cada função. Oferecer o incenso era considerado um grande pri­ vilégio. Um sacerdote não podia oferecer o incenso mais de uma vez na sua vida inteira (Mishna, Tamid 5 :2), e alguns sacerdotes nunca receberam o privilégio. Destarte, a ocasião em que Zacarias ofereceu o incenso foi o momento mais importante da sua vida inteira. Lucas não diz se o incenso foi queimado no sacrifício da manhã ou da tarde. Em qualquer caso, Zaca­ rias entraria no lugar santo com outros sacerdotes. Mas estes se retirariam, deixando-o sozinho. Ao ser dado o sinal, ofereceria o incenso. Os adorado­ res esperavam no átrio externo até que os sacerdotes cumprissem este dever (10). 11,12. Lucas não nos dá descrição alguma do anjo. Simplesmente nos conta que o visi tante celestial ficou em pé à direita do altar do incenso. Visto que as direções são freqüentemente dadas na Bíblia do ponto de vista de um homem olhando para o leste, provavelmente trata-se aqui do


lado sul. O anjo, portanto, estaria entre o altar de incenso e o candelabro de ouro. 13. O anjo primeiramente reestabeleceu a confiança de Zacarias: Não temas. Depois, continuou: a tua oração foi ouvida. O tempo aoristo parece indicar a oração numa só ocasião específica, ao invés da oração ha­ bitual. Se for assim, deve tratar-se, decerto, da oração que Zacarias ofere­ ceu no tempo do incenso. Nosso primeiro pensamento é que orara pedindo um filho. Mas, mesmo levando em conta a falta de fé com que tão freqüen­ temente oramos, a total incredulidade de Zacarias ao ser informado que teria um filho parece difícil de reconciliar com isto. Além disto, um sacerdote pode ter considerado impróprio fazer da sua preocupação par­ ticular o objeto da sua oração em semelhante momento. Há, portanto, muita coisa que pode ser argumentada em prol da idéia de que orou pela redenção de Israel. Agora, foi informado que esta oração seria cumprida. Mas isto não foi tudo: além disto, ele teria um füho. O nome do filho seria João (= “O Senhor é gracioso”). 14-17. Numa passagem poética, o anjo fala primeiramente da ale­ gria que viria a Zacarias e muitos outros com o nascimento da criança, e depois, do destino que o menino teria. Que Zacarias tivesse prazer e alegria era de se esperar mesmo. Mas este menino haveria de ser grande diante do Senhor, de modo que seu nascimento seria um motivo de ale­ gria para outros, também. Deveria abster-se do vinho e da bebida forte (como a mãe de Sansão, Jz 13:4). Alguns deduziram que seria um nazireu durante toda a sua vida (Nm 6:1-8); mas isto nunca é dito, e a ausência dalguma referência aos cabelos (os nazireus não cortavam os cabelos) parece ser contrária à idéia. Talvez seja melhor considerar que João tinha uma posição incomum, nem nazireu, nem sacerdote, mas com pontos de conexão com os dois. O que é mais importante é que, já desde o iní­ cio, João seria cheio do Espirito Santo. Já cedo, pois, Lucas começa suas referências ao Espírito,3 sem cuja ajuda a obra de Deus não pode ser fei­ ta de modo eficaz. Para o contraste entre o estímulo causado pelo vinho e o do Espírito, cf. Efésios 5:18. O menino converterá muitos israelitas ao Senhor seu Deus (que tor­ na claro que se tinham desviado dEle). Seu ministério é assemelhado àque­ le de Elias (cf. Mc 9:13), e a profecia de Malaquias 3:1; 4:5-6 é invocada. Esta ressalta tanto a grandeza de João quanto seu lugar subordinado. O cumprimento da profecia e a comparação com Elias ressaltam a grandeza deste homem. Do outro lado, porém, não era nada mais do que um pre3. Ver a Introdução, págs. 43 ss.


cursor, alguém que poderia preparar os homens para a vinda do Senhor. 0 significado de converter os corações dos pais aos filhos não é imediata­ mente óbvio. É possível que João haveria de remediar a desarmonia entre as famílias. Ou os pais podem ser uma referência aos patriarcas, os grandes ancestrais dos atuais pecadores. Aqueles, olhando a partir da sua posição que tinham no mundo do além, não estavam contentes com seus descen­ dentes. A obra de João, porém, acarretaria uma alteração tal que os pais olhariam com favor para Israel (cf. Is 29:22-23 para um pensamento semelhante). De modo semelhante, João transformaria os desobedientes de modo que aceitassem a prudência dos justos. O resultado seria um povo preparado para o Senhor. 18. Zacarias recusou-se sem rodeios a crer no anjo. Sua pergunta é idêntica àquela que fora feita séculos antes por Abraão (Gn 15:8), mas aqui é feita com um espírito diferente. É o equivalente de uma exigência por um sinal. Gideão e Ezequias, sem dúvida, pediram sinais (Jz 6:36-39; 2 Rs 20:8), mas também com um espírito bem diferente. Zacarias está falando a partir de uma posição de descrença, ao passar a relembrar ao an­ jo que tanto ele quanto sua esposa são velhos. Não precisa acrescentar que filhos não vêm a tais como eles. 19,20. O anjo responde por meio de revelar seu nome e sua posi­ ção. Gabriel significa “homem de Deus.” Sua posição diante de Deus reve­ la algo da sua dignidade. Zacarias não teria dúvida alguma quanto à impor­ tância do seu informante. E este grande Gabriel foi enviado (i.é, por Deus) para levar ao velho sacerdote boas novas. Lucas enfatiza o fato ao empre­ gar um verbo que mais tarde seria usado caracteristicamente para a prega­ ção das boas novas do evangelho. A recusa de Zacarias quanto a crer deve ser vista à luz da condescendência de Deus em enviar tal mensageiro com semelhante mensagem. Rejeitá-lo era sério, e teria suas conseqüências. Zacarias certamente receberia seu sinal, embora não fosse do tipo de que gostaria. Ficaria mudo, e não poderia falar até ao tempo em que as palavras de Gabriel fossem cumpridas. Gabriel não deixa lugar para a incerteza. O que Deus dissera, viria a acontecer. 21, 22. Oferecer o incenso não levava muito tempo, e os sacerdotes normalmente saíam logo do lugar santo (para não serem punidos ali por algum ato de presunção). O povo não tinha meios de saber o que estava detendo Zacarias tanto tempo além do período normal, e admirava-se de que tanto se demorasse. Santuário. O povo e os sacerdotes estavam todos numa ou noutra parte do Templo, mas Zacarias estava ministrando no Lu­ gar Santo. Ao sair, deveria ter acompanhado os demais sacerdotes oficiantes em pronunciar a bênção (Mishna, Tamtd 7:2). Os acenos que fazia, e o


fato de permanecer mudo, tomaram evidente que algo incomum acontecera no santuário. O povo não podia saber exatamente do que se tratava, mas tiraram a conclusão de que tivera uma visão. 23-25. Zacarias evidentemente permaneceu no Templo até termi­ nar sua semana de serviço, e depois voltou para casa. No decorrer do tem­ po, Isabel concebeu, dando assim, evidências da veracidade daquilo que Gabriel dissera. Não fica claro por que Isabel se ocultou por cinco meses. Mas durante este tempo, sua gravidez não teria dado para notar. Talvez não quisesse ser vista até que fosse óbvio para todos que o Senhor a con­ templara para anular seu *ôpróbrio (cf. Gn 30:23). A falta de filhos era usualmente considerada um castigo da parte de Deus, e decerto Isabel tinha de agüentar repreensões de pessoas que não reconheciam a* sua pie­ dade (6). Agora, já não teria mais experiências assim. b. Predito o nascimento de Jesus (1 :26-38)

O nascimento virginal é uma doutrina cristã distintiva. Alguns comenta­ ristas, embora concordem que não há paralelo judaico, sugerem que a idéia veio do mundo grego. Havia histórias semelhantes de nascimentos entre as lendas gregas, dizem, e os apologistas cristãos produziram a his­ tória num espírito de “Qualquer coisa que eles podem fazer, nós pode­ mos fazer melhor! ” Nenhum dos paralelos aduzidos, porém, é realmente relevante. Usualmente contam de uma pessoa divina tendo relações sexuais com um ser humano (usualmente um deus com uma mulher). Um nascimen­ to verdadeiramente virginal é único e sem igual. Bilis nota que o assunto es­ tá ausente dos escritores à igreja helenística, tais como Paulo e Marcos. Pensa que fosse uma tradição palestiniana que foi publicamente evitada pelos cristãos “para evitar escândalo para os judeus e o mal-entendimento 'grego’ de Jesus e do Seu messiado.” Alguns comentaristas acham que Lucas aqui está combinando suas fontes, algumas das quais não falam do nascimento como sendo de uma virgem, e usam este conceito para lançar dúvidas sobre a idéia inteira. É precário, porém, raciocinar a partir daquilo que pode ter sido o conteúdo de um documento hipotético. A evidência do Evangelho conforme o temos é clara. 26, 27. 0 sexto mês refere-se, decerto, ao sexto mês da gravidez de Isabel. Lucas nos conta primeiramente o nome da cidade à qual Gabriel foi enviado, e depois à virgem naquela cidade. Nazaré é chamada cidade, talvez porque o Grego não tem palavra para um município menor, e a al­ ternativa seria “aldeia.” Mas não era uma metrópole. Maria é descrita co­ mo desposada„ estado este que era mais obrigatório entre os judeus


daqueles dias do que um noivado entre nós. Era uma promessa solene de casamento, e tffo obrigatória que seria necessário o divórcio para desman­ chá-la. 28, 29. Gabriel saudou Maria como favorecida, mas até mesmo o acréscimo, O Senhor é contigo não deixa claro em que consistia o favor. Nem fica bem claro o que levou Maria a perturbar-se muito. Poderíamos compreender se tivesse ficado assustada diante da vista do anjo (confor­ me aconteceu a Zacarias). Mas a aflição dela liga-se com a saudação. De­ certo, na sua modéstia, não entendia por que um visitante celestial a sau­ dasse em termos tão exaltados. 30,31. Gabriel reestabelece a confiança dela, assim como fizera com Zacarias (13). Diz a Maria que não deve temer, pois ela achou graça diante de Deus. É, naturalmente, um total mal-entendido traduzir as pala­ vras assim: “Ave Maria, cheia de -graça,” e passar a entendê-las no senti­ do de que Maria haveria de ser uma fonte de graça para outras pessoas. Gabriel está simplesmente dizendo que o favor de Deus repousa sobre ela. Passa a explicar que conceberá e dará à luz um filho (cf. Is 7:14). Como no caso de João anteriormente, o anjo dá o nome à criança: a quem chamaràs pelo nome de Jesus (—Heb.Joshua = “O Senhor é salvação”). 32,33. Em palavras poéticas, Gabriel passa a falar de Jesus, e diz primeiramente que Ele será grande. Anteriormente, aplicara esta palavra a João (15), mas agora a emprega com um significado mais pleno, pois Jesus será chamado Filho do Altíssimo. Este título O destaca de todos os demais, e faz dEle Filho de Deus num sentido especial. Gabriel passa a falar dEle como herdeiro do trono de Davi, seu pai. Esperava-se que o Mes­ sias fosse da linhagem da Davi (cf. 2 Sm 7:12ss.; SI 89:29) e é claro que é isto que está em mente. É ressaltado ainda mais na referência ao seu reina­ do que nunca terá fim. Nas especulações messiânicas daqueles dias, freqüentemente entendia-se que o reino messiânico teria duração limitada. Era o reino de Deus que não teria fim. Jesus, portanto, é colocado em rela­ cionamento com este reino de Deus, reino este que não deve ser entendido como sendo um reino temporal, um domínio terrestre; pelo contrário, é o governo real de Deus, conforme Jesus haveria de deixar claro no devido tempo. 34. Enquanto Zacarias fora descrente, Maria ficou perplexa, em­ bora a razão disto não fique imediatamente óbvia. Estava para casar-se dentro em breve, de modo que não parece haver dificuldade insuperável na idéia de ela ter um filho. Alguns exegetas sustentam que a pergunta, dela dá a entender que tivesse feito um voto no sentido de permanecer virgem perpetuamente. Mas em primeiro lugar, tal idéia acrescenta alguma


coisa ao texto (e a outras passagens também, porque lemos acerca de ir­ mãos de Jesus). E em segundo lugar, não parece haver motivo de ela ca­ sar-se, se estava planejando permanecer virgem. A solução da dificuldade é, pelo contrário, que Maria entendeu que Gabriel quis dizer que daria à luz um filho sem a intervenção de um homem, talvez até mesmo que a concep­ ção seria imediata. 35. Falando com reserva reverente, Gabriel diz que o Espírito Santo descerá sobre Maria e que o poder do Altíssimo a envolverá. Esta ex­ pressão delicada exclui idéias grosseiras de uma “união” entre o Espírito Santo com Maria. Gabriel deixa claro que a concepção de Maria será o resultado de uma atividade divina. Por causa disto, o filho a ser nascido se­ ria santo . . . o Filho de Deus. Não devemos deixai de notar esta explica­ ção do que significa o Filho de Deus. 36, 37. Evidentemente, Maria não tinha ouvido dizer da experiên­ cia de Isabel. Gabriel agora a informa que já é o sexto mês da gravidez desta. Maria perceberá que para Deus não haverá impossíveis (cf. Gn 18: 14). Deve ficar encorajada pela experiência de Isabel. Alguns concluíram do fato de que Isabel é parente que Maria deve ter sido da família de Arão, conforme era Isabel (5). Concluem que, se aceitarmos o nascimento virginal, Jesus não era descendente de Davi. Mas isto é ir longe demais com muita pressa. Todas as condições são satisfeitas se um dos pais de Ma­ ria foi da família de Davi e o outro de Arão. A referência a Jesus como des­ cendente de Davi (32), feita quando a reação de José ainda não tinha sido determinada, mostra que Maria devia ter tido o direito de reivindicar a descendência davídica. 38. A resposta de Maria é de quieta submissão. Serva (doulé) signi­ fica “escrava.” Expressa a completa obediência. A escrava nada mais podia fazer senão a vontade do seu Senhor. Esta submisssão é reforçada com que se cumpra em mim conforme a tua palavra. Tendemos a entender isto como sendo a coisa mais natural do mundo, e, destarte, deixamos de per­ ceber o heroísmo de Maria. Ainda não estava casada com José. Podia-se imaginar que a reação dele à gravidez dela fosse forte, e Mateus nos conta que realmente pensou em divorciar-se dela (Mt 1:19). Além disto, ainda que a pena da morte pelo adultério (Dt 22:23*24) pareça não ter sido exe­ cutada freqüentemente, continuava em vigor. Maria não poderia ter a cer­ teza de que não sofreria, talvez até viesse a morrer. Mas reconhecia a vonta­ de de Deus e a aceitava.


c. Maria visita Isabel (139-45)

39,40. Maria foi sem demora fazer uma visita à sua parenta. Gabriel a visitou no sexto mês de Isabel (36) e Maria voltou para casa depois de uma visita de cerca de três meses (56), aparentemente antes do nascimento de João. Deve, portanto, ter partido para a visita quase imediatamente de­ pois da visita do anjo. A região montanhosa de Judá não localiza o lar de Zacarias e Isabel com qualquer precisão, mas pelo menos toma claro que eram gente do campo. Não foram bem-sucedidas as tentativas para identi­ ficar o lugar onde moravam. 41,42. No momento em que Maria saudou seus parentes, a criança estremeceu no ventre de Isabel. Movimentos do feto não são incomuns, é claro. Mas nesta ocasião Isabel estava possuída do Espírito Santo e, sob Sua inspiração, interpretou o movimento como a expressão da alegria da sua criança ainda por nascer (44). A exclamação (ou “grito,” kraugé) re­ vela sua excitação. As palavras dela são impressas como prosa em nossas Bíblias, mas realmente formam uma pequena poesia. Saúda Maria como sendo Bendita . . . entre as mulheres (que reflete uma construção hebrai­ ca que significa “a mais bendita das mulheres”). Talvez haja um contraste com Zacarias, que recebera uma visita de um anjo, mas que respondera de modo diferente. 43-45. O uso do título de meu Senhor indica que Isabel reconhe­ ceu que o filho de Maria seria o Messias (cf. SI 110:1). Passa a explicar que, com a saudação de Maria seu próprio nenê estremeceu de alegria (a palavra denota “exultação”) no ventre dela. Foi isto que a capacitou a reconhecer Maria e o que ela era agora. Termina com mais uma bênção pronunciada sobre Maria. Porque serão cumpridas: Isabel está afirmando que o cumpri­ mento certamente seria realizado, não simplesmente que Maria creu que assim seria. Não devemos deixar de perceber a ausência de quaisquer ciúmes na atitude de Isabel para com Maria. A mulher mais velha, que recebera uma bênção tão notável do Senhor, poderia muito bem ter desejado guardar zelosamente a posição dela. Com humildade genuína, porém, reconheceu a bênção superior que Deus dera a Maria. Outro aspecto interessante é o fato de que João Batista não reconheceu Jesus como o Messias até o ba­ tismo (Jo 1:32-33). Aparentemente, o reconhecimento de Isabel de que Ele é Senhor foi uma questão de inspiração bem pessoal. João teria de des­ cobrir o fato sozinho.


d. O cântico de Maria (1 :46~S6)

0 cântico de Maria (chamado o Magnificat, que é sua primeira palavra na versão latina) é um irrompimento de louvor, principalmente em linguagem vétero-testamentária. Há, em especial, um bom número de semelhanças com o cântico de Ana (1 Sm 2:1-10). Devemos, no entanto, notar uma diferença de tom. O cântico de Ana é um grito de triunfo diante das suas inimigas. O de Maria é uma humilde contemplação das misericórdias de Deus. Ford pergunta se algum poeta posterior pôde ter composto o cânti­ co para atribuí-lo a Maria; mas acha mais provável que Maria, durante sua viagem de quatro dias para Isabel, meditasse sobre a história de Ana e depois desse vazão ao seu próprio cântico inspirado. 46*48. Alguns poucos MSS em Latim registram “disse Isabel” ao invés de “disse Maria,” e alguns comentaristas (e.g. Creed) aceitam este texto. Mas a evidência textual que apoia Maria é esmagadora. Há, também uma diferença marcante de tom entre este cântico e aquele que acaba de ser considerado. As palavras de Isabel são emocionadas e tumultuosas, estas são calmas e comedidas. Não é fácil imaginar que uma só pessoa can­ tasse estes dois cânticos na mesma ocasião. Devemos aceitar Maria como sendo o texto certo. O cântico dela começa com uma expressão de louvor. Não devemos fazer uma diferença entre alma e espírito, sendo que a mudança deve-se às exigências do paralelismo. Há uma mudança de tempo que pode ser relevante: engrandece denota o ato habitual (Maria continua a engrandecer o Senhor), mas se alegrou é o aoristo que indica um ato especial de rego­ zijo, provavelmente quando o anjo trouxe sua mensagem. A palavra é enfática, e poderia ser traduzida “exultou-se” (cf. o subs. correspondente no v. 44). Deus, meu Salvador demonstra que Maria reconhecia sua neces­ sidade - era uma pecadora como outras pessoas. Alguns entendem que humildade significa “humilhação,” mas isto provavelmente vá longe demais; a palavra expressa a mesma humildade que a palavra serva (= “es­ crava;” ver sobre v. 38). Goodspeed ressalta o significado com sua tradu­ ção: “Ele notou Sua escrava na sua posição humilde.” 49,50. Maria, após expressar sua gratidão por aquilo que Deus fize­ ra por ela, volta-se à contemplação do próprio Deus. Dá ênfase a três coi­ sas: Seu poder, Sua santidade, e Sua misericórdia. Entende que ela mesma é insignificante, mas isto não importa, porque o Poderoso (Rieu) está ope­ rando. Não se deve, porém, pensar em Deus somente em termos de poder. Ele é Santo. O nome, na antiguidade, era empregado num senso mais pleno do que conosco: representava a pessoa total. Destarte, este versí­


culo níío quer dizer simplesmente que o nome de Deus é um nome santo e que deve ser usado com reverência; significa que Deus é um Deus santo. Além disto, é misericordioso. Em todas as gerações sua misericórdia é certa para aquele que O reverencia (assim é melhor do que temem em nosso modo de usar o termo). 51-53. Aqui temos uma série de seis verbos no aoristo em Grego que dão a impressão de que Maria está relembrando ocasiões específicas no passado quando Deus fez as coisas que ela enumera. Ford adota este ponto de vista e comenta: “É somente porque o Senhor poderoso fez coisas poderosas que há boas novas para contar, somente por causa dos tempos no passado que proclamam os atos de Deus é que há um evangelho para proclamar.” Ou talvez Maria se refira a atos ainda futuros que começaram a ser realizados. Talvez seja mais provável que esteja olhando para o futuro num espírito de profecia, e contando como tão certo aquilo que Deus há de fazer que pode ser mencionado como tendo sido cumprido (este estilo é freqüente entre os profetas do Antigo Testamento), Esta seção do cânti­ co fala de uma inversão total .dos valores humanos. A última palavra não es­ tá com os soberbos, nem com os poderosos, nem com os ricos. De fato, mediante Seu Messias, Deus está para derrubar todos estes. Os soberbos são mencionados com referência aos pensamentos que alimentavam no coração, i.é, são os pensamentos orgulhosos que estão em mente, e não simplesmente ações arrogantes. Os poderosos estão em tronos. Maria fala daqueles que realmente governam (NEB, “monarcas”), e não simplesmen­ te de pessoas poderosas. Há uma nota revolucionária no fartar àos famin­ tos e no despedir vazios os ricos. No mundo antigo, aceitava-se que os ricos seriam bem cuidados. Os pobres deviam ter certeza de passar fome. Maria, porém, canta de um Deus que não está restrito àquilo que os homens fazem. Faz uma reviravolta nas atitudes humanas e nas estruturas sociais. 54-56. Maria agora canta da ajuda que Deus dá ao Seu povo. 0 verbo amparou não é explicado. Mas o aoristo provavelmente continua sendo profético, e parece que Maria pensa na ajuda que virá mediante o Messias. Provavelmente devamos entender como prometera aos nossos pais como parêntese (há uma mudança de construção no Grego, com pros antes de pais mas um simples dativo com Abraão; certamente é difícil colocar pais em aposição com Abraão). Maria está dizendo que a atuação de Deus no Messias não é completamente nova, mas, sim, uma continua­ ção da Sua misericórdia a favor de Abraão. Está, também, de acordo com Suas promessas aos pais na antiguidade. Terminado o cântico, Lucas nos informa que a visita de Maria durou cerca de três meses, e depois, voltou para casa. Talvez esteja sim­


plesmente terminando esta parte da história de Maria antes de voltar a Isabel; mas parece mais provável que quer dizer que Maria despediu-se antes de João nascer. Haveria, então, muita comoção e muitas visitas. Em sua condição, talvez Maria não quisesse estar ali durante aqueles dias.

e. O nascimento de João Batista e sua nomeação (1 :57-66)

57, 58. Conforme o anjo profetizara, o nenê de Isabel foi meni­ no. O nascimento foi claramente de interesse generalizado entre os fami­ liares e amigos da mãe, e muitos vieram compartilhar da alegria dela. Lucas descreve o evento feliz em termos da misericórdia do Senhor, tó­ pico este que percorre estes capítulos iniciais. 59. A lei estipulava que um filho menino devia ser circuncidado no oitavo dia da sua vida (Gn 17:12; Lv 12:3). No Antigo Testamento, parece que o nome era dado na ocasião do nascimento, e não parece ter qualquer conexão com a circuncisão. SB notam esta passagem e 2:21 como sendo testemunhas antigas da prática, sendo que não é achada mais até no século VIII nos escritos judaicos. Alguns estudiosos, impressiona­ dos pela falta de evidência judaica contemporânea, sustentam que o cos­ tume é posterior aos tempos do Novo Testamento, e que Lucas foi influen­ ciado pelas práticas que prevaleciam no império romano. Não é, porém, fácil achar evidência clara a favor de dar nomes aos meninos no oitavo dia. Os romanos, por exemplo, davam nomes aos meninos no nono dia, e os gregos, no sétimo ou décimo. Não parece haver razão para rejeitar o con­ ceito de SB de que Lucas foi o primeiro a mencionar um costume que os judeus desenvolveram.4 É curioso que os parentes procuram dar o nome a este filho, visto que isto era o privilégio dos pais. Talvez simplesmen­ te tomaram por certo que o filho recebesse o nome do pai. Isto estava longe de ser inevitável (poucos homens no Novo Testamento parecem ter recebido seu nome assim). Nalguns escritos judaicos, porém, é consi­ derado o costume (e.g. Gênesis Rabbah 37:7), 60-63. Isabel rejeitou decisivamente a idéia (De modo nenhum é enfático). Sua declaração de que o filho seria chamado João foi recebida com a objeção imediata de que este não era um dos nomes da família. Para os amigos, tal fato excluía totalmente este nome. Tinham, porém,

4. Quanto ao dar os nomes às crianças entre os judeus, ver H. Daniel-Rop Daily Life in Palestine at the Time ofChrist (Londres, 1962), págs. 106-109.


a desvantagem de não terem o direito de nomear o filho por conta deles. Procuraram, pois, obter o apoio do pai. É curioso que fizeram acenos a ele. Ou na sua excitação esqueceram-se que Zacarias podia ouvir; ou talvez o velho sacerdote fosse surdo bem como mudo (a palavra kôphos que descreve sua enfermidade no v. 22 pode significar “surdo e mudo”). Sua resposta quando lhe deram uma tabuinha (coberta de cera, para es­ crever, SB) foi bastante clara. Não disse, como dissera Isabel, que o meni­ no seria chamado Joio, mas, sim, João é seu nome. João é colocado no começo da frase, para enfatizá-lo, e não devemos deixar desapercebida a força do presente. O anjo já dera o nome ao menino, e Zacarias aceita o nome como fato consumado. 64. O resultado foi o fim imediato da mudez de Zacarias. Que suas primeiras palavras foram de louvor a Deus é uma medida dos pensamentos aos quais se dedicara durante os meses silenciosos. 65,66. Os vizinhos ficaram impressionadíssimos (temor = profunda reverência mais do que “medo” em nosso sentido do termo). Alguns pen­ sam que Isabel tinha sido sobrenaturalmente informada do nome, e que foi isto que impressionaou os amigos. Não há, porém, razão alguma para pensar que Zacarias não tivesse comunicado à sua esposa sua história inteira, inclusive o nome do filho. Decerto, aquela tabuinha de escrever fora muito usada durante o silêncio prolongado de Zacarias! Estes eventos estranhos formaram um tópico de conversa por toda a região montanhosa da Judéia. Mas estes camponeses não ficavam simplesmente tagarelando. Guardaram no coração o conteúdo daquilo que estava sendo dito, e fica­ vam pensando qual seria o destino deste menino. Era claro que os eventos que acabaram de acontecer eram portentos dalguma ação poderosa de Deus.

f. 0 cântico de Zacarias (1 :67-80)

A grande alegria de Zacarias transborda num cântico inspirado (chamado o Benedictus, conforme sua primeira palavra em Latim). Pode ser dividido em quatro estrofes: Ações de graças pelo Messias (68-70), a grande liberta­ ção (71-75), a posição de João (76, 77), e a salvação messiânica (78, 79). Farrar fala deste cântico como sendo “a última Profecia da Antiga Dispensação, e a primeira da Nova.” Alguns vêem o cântico como sendo pri­ mariamente político, enfatizando a conquista dos inimigos de Israel (71, 74), e acrescentam que um cristão no fim do século não teria compos­ to um poema tão judaico. Podemos concordar que há uma nota genuina­


mente judaica, mas não deve ser olvidado que a libertação dos inimigos está especificamente relacionado com o servir a Deus (74). O cântico é reli­ gioso mais do que político. 67. As palavras de Zacarias devem ser entendidas como resultado da vinda do Espírito Santo sobre ele. São palavras de profecia, palavras que expressam a revelação de Deus. 68-70. Bendito seja o Senhor Deus era uma maneira comum de in­ troduzir ações de graças (cf. Sl 41:13; 72:18; 106:48). O cântico de Zacariais, portanto, é de ações de graças. Fala primeiramente que Deus visitou (um modo de falar comum no Antigo Testamento, mas somente em Lu­ cas e Hb 2:6 no Novo) e redimiu (i.é, salvou com certo custo; cf. Melinsky, “ libertar’ com um preço alto”). No original, “chifre” era um símbolo de força (como o chifre do boi), de modo que “chifre de salvação” significa plena e poderosa salvação, ou “um poderoso Salvador” (Moffatt). A refe­ rência à casa de Davi, seu servo demonstra que Zacarias está cantando acerca do Messias (cf. Sl 132:17). Revela, incidentalmente, que Maria pro­ vavelmente tivesse conexões davídicas, pois nesta ocasião Zacarias não poderia ter sabido se José se casaria com ela ou não. A referência aos san­ tos profetas ressalta o propósito divino. Deus está colocando em operação um plano, pensamento este que é ressaltado ainda mais nas referências à Sua misericórdia pelos pais, à santa aliança e ao juramento a Abraão (72-73). 71-75. A salvação que o Messias trará é referida primeiramente co­ mo libertação (71), depois, como misericórdia dos pais (não somente dos vivos; cf, v. 17), e depois, em termos da aliança. Há várias alianças no An­ tigo Testamento, mas aquela com Abraão destaca-se. O juramento era uma parte relevante de qualquer aliança, e aqui é ressaltado. Deus não voltará atrás naquilo que jurou. A aliança com Abraão será levada à sua consuma­ ção. Há um alvo religioso por detrás da libertação dos inimigos. É a fim de que o povo de Deus possa adorá-lo sem temor. Servirá a Ele em santidade (pertencerá a Deus), e justiça (viverá como deve viver o povo de Deus). 76, 77. Poderíamos ter esperado que o cântico de Zacarias disses­ se respeito ao seu menino recém-nascido. Surpreendeu-nos ao começar com o Messias que Deus estava para enviar. Mas estava muíto contente a respeito de João, e nesta parte do cântico profetiza o futuro da criança. Dirige-se diretamente a ele, e diz que será chamado profeta do Altíssimo. Não tinha havido profeta algum entre os judeus durante séculos, de modo que as palavras não devem ser tomadas de modo calmo demais. João repre­ sentava uma separação radical daquilo que tinha chegado a ser o costume. E não somente ele seria um profeta, como também prepararia o caminho do Senhor. Seria o precursor do Messias. Especificamente, contaria às pes­


soas acerca da vinda da salvação no redimi-lo dos seus pecados. Joio nio podia salvar os homens. Ninguém poderia. Mas chamaria os homens ao arrependimento e lhes contaria acerca dAquele que podia salvá-los. 78, 79. Zacarias termina seu cântico, dando ênfase à salvação vin­ doura. Viria através da entranhàvel misericórdia de Deus. A compaixão de Deus é um tema constante no Novo Testamento. O velho sacerdote pas­ sa a falar da salvação em termos da luz. O contraste entre a luz e as trevas é natural, mas nem por isso deixa de ser poderoso. É possível entender o Grego como o sol nascente, e ver na expressão um nome incomum para o Messias (assim RSV mg.; cf. Ml 4:2; 2 Pe 1:19; Ap 22:16). Mas parece mais natural entendê-la como “dia,” ou, melhor, “sol” (anatolè significa o ‘le­ vantar” do sol ou de uma estrela, e, daí, o próprio sol ou estrela), e ver o contraste entre a luz e as trevas (cf. Is 60:1-2). A nota final é a da paz, aquela paz de Deus que acalma os corações dos homens e os torna fortes para viver para Deus. “Não significa meramente o livramento dos proble­ mas; significa tudo quanto contribui para o sumo bem dos homens” (Barclay). 80. A criação de Joio é descrita de forma muito breve. Muitos as­ pectos do ensino posterior de João nos relembram de aspectos semelhantes nos Rolos do Mar Morto, Alguns estudiosos indicam que havia essênios que criavam os filhos doutros homens, e sugerem que os pais idosos de Joio talvez tenham morrido, ou que nio podiam criar seu filho sozinhos, de modo que foi criado por alguma seita deste tipo. A idéia é muito hipo­ tética, mas muitas coisas a respeito de Joio seriam explicadas se realmen­ te tivesse sido criado por alguma seita do deserto, mas que a deixara ao tor­ nar-se adulto. Caird nos lembra, também, que o deserto era “o lar tradicio­ nal da inspiração profética.” Lucas talvez queira que vejamos João como um verdadeiro profeta desde o início.

g. O nascimento de Jesus (2 :1-7)

1. Há dificuldades levantadas pelo fato de que nosso conhecimento dos tempos é imperfeito, e de aquilo que Lucas diz nio se encaixa facil­ mente naquilo que sabemos. Nio há, pois, qualquer registro dalguma lei de Augusto no sentido de ser feito um censo universal. Mas certamente reorganizou a administração romana, e há registros de censos levantados em vários lugares. No Egito, onde é improvável que o costume fosse muito diferente daquele da Síria vizinha, da qual a província da Judéia fazia par­ te, um censo era feito de quatorze em quatorze anos. Os próprios docu­


mentos de cada censo desde 20 até 270 d.C. sobreviveram (Barclay). Quando Augusto morreu, deixou escrito pelo seu próprio punho um re­ sumo de informações tais como estatísticas sobre os impostos diretos e in­ diretos, que teriam sido mais naturalmente derivadas de censos.5 A evidên­ cia parece melhor satisfeita se entendermos que o decreto do qual Lucas escreve não é uma lei formal, mas, sim, uma diretriz administrativa que co­ locou em andamento o processo inteiro e que teve seu efeito na Judéia distante. Não era, naturalmente, necessário que Lucas mencionasse o detalhe (nenhum dos outros Evangelistas o menciona). Parece, porém, ser parte do seu plano colocar sua história no contexto secular (cf. 3:1), Vê Deus como Senhor da história, e as ações do imperador na Roma distante ape­ nas servem para promover o plano e propósito divinos. 2. Há uma dificuldade adicional no papel que Quirino desempe­ nhou. Como governador da Síria, levou a efeito um censo em 6 d.C, (Jo­ sefo, Antiguidades xviii.26; é mencionado em Atos 5:37). Suscitou opo­ sição violenta, e Judas de Gamala tomou a liderança de uma rebelião (Antiguidades xviii.3ss.). Aquele recenseamento, no entanto, é tardio demais para a presçnte passagem. Mesmo assim, certas inscrições indicam que entre 10 e 7 a.C, Quirino detinha funções militares na província ro­ mana da Síria. Se o intervalo entre os recenseamentos era de quatroze anos, isto o coloca na área num cargo oficial e no tempo certo. Não há registro fora de Lucas para um censo nesta ocasião, mas nada há'de im­ provável nele. Josefo nos conta que cerca deste tempo “o povo judaico inteiro” fez um juramento de lealdade a César (Antiguidades xvii.42), que possivelmente reflete um censo. Vaie a pena notar, também, que Tertuliano diz que o censo foi feito quando Saturnino era governador da Síria 9*6 a.C. (Adversus Marcionem iv.19). Esta informação não está na Bíblia, logo, se a declaração é fidedigna (que alguns estudiosos duvidam6), Tertuliano decerto está dependendo doutras evidências. Justino, em mea­ dos do século II, assegura os romanos que podem ver os registros do cen­ so de Quirino (I Apologia 34). Alguns sustentam que o censo de 6 d.C. deve ter sido o primeiro, porque as pessoas rebelam-se contra aquilo que não lhes é familiar, ao passo que, uma vez que um censo tinha sido feito, um segundo censo seria aceito. Argumenta-se, porém, de modo razoável, 5. Tácito, Anais i. 11; Suetônio, Otaviano 101. 6. C. F. Evans, num artigo, “TertuUian’s References to Sentius Satuminus and the Lukan Census,” argumenta que a declaração de Tertuliano não se refere ao censo em Lucas (JTS, n. s., xxiv, 1973, págs. 24-39).


que na ocasião acerca da qual Lucas escreve, Herodes teria planejado os pormenores e “seria típico da perícia de Herodes em governar judeus, que disfarçasse a natureza estrangeira da ordem mediante um apelo ao pátriotismo tribal” (Easton, citado em Manson). Este conceito é apoiado pelo fato de que no recenseamento registrado em Lucas o povo voltava para seus lares ancestrais, ao passo que um registro romano teria sido no lugar da residência. 3. A nós parece um modo curioso de levantar um recenseamento, ordenando que cada um voltasse para seu lar original. Mas pelo menos uma ordem desta natureza é conservada da antiguidade: é um edital do governador do Egito que ordena a cada um que volte para casa para ser arrolado.7 4, 5. Visto que José era da família de Davi, tinha de alistar-se em Belém, chamada a cidade de Davi, embora não se registre que Davi tivesse qualquer contato com ela depois de deixá-la. De modo semelhan­ te, nunca se diz que Jesus visitasse Belém depois de ter nascido ali. A pre­ sença de Maria provavelmente nio fosse necessária. Pouco se sabe dos re­ gulamentos que governavam tal contingência, mas a probabilidade é que, mesmo se ela tivesse bens, o comparecimento de José bastaria. Talvez José não quisesse deixá-la em Nazaré. Ela ficara três meses com Isabel depois de começar sua gravidez (1:56) e não temos meios de saber quanto tempo mais tarde o casamento começou. Ficar em Nazaré talvez expuses­ se Maria a calúnias. Lucas se refere a Maria como “sua noiva” talvez por­ que, embora fossem casados (Mt 1:24), o casamento ainda não fora consu­ mado (Mt 1:25). 6,7. O nascimento do Filho de Deus é descrito com muita simpli­ cidade. Maria enfaixou-o com longas faixas que seriam passadas muitas vezes ao redor das crianças. Que a própria Maria enfaixou a criança indica um nascimento na solidão. Que Ele foi deitado numa manjedoura tem sido entendido no sentido de Jesus ter nascido num estábulo. É possível. Mas também é possível que o nascimento tenha ocorrido num lar muito pobre onde os animais compartilhavam do mesmo teto com a família. Uma tra­ dição que remonta a Justino diz que ocorreu numa caverna (Diálogo com TrifSo, 78), e pode ser correta. Alguns pensaram que o nascimento ocorreu ao ar livre (possivelmente no pátio de uma hospedaria), sendo ali que pro­ vavelmente haveria uma manjedoura. Não sabemos. Sabemos apenas, que 7. Ver A. Deissmann, Light from lhe Ancient East (Londres, 1928), pág. 271. Deissmann diz que Lucas emprega “linguagem oficial de repartição" para rela­ tar a ordem (ibid., pág. 270, n. 5).


tudo indica a obscuridade, a pobreza e até mesmo a rejeição. Não havia iugar para eles na hospedaria, É possível que José tenha deixado sua viagem para o último momento. Ou que o hospedeiro nio quisesse abrigá-los. Outra possibilidade é que a palavra não significasse hospedaria aqui, mas, sim, um quarto numa casa (como em 22:11). Talvez fosse reservado para José e Maria, mas que outros o ocupassem antes de eles terem chegado. Devemos refletir, talvez, que foi a combinação de um decreto pelo imperador na Roma distante e das línguas mexeriqueiras de Nazaré que trouxeram Maria a Belém exatamente no tempo certo para cumprir a pro­ fecia acerca do local de nascimento de Cristo (Mq 5:2). Deus opera atra­ vés de todos os tipos de pessoas para levar a efeito Seus propósitos.

h. Os anjos e os pastores (2:8-20)

8. Nffo é improvável que os pastores estivessem pastoreando reba­ nhos destinados para os sacrifícios do templo. Os rebanhos deviam sei guardados apenas no ermo (Mishna, Baba Kamma 7:7; Talmude, Baba Kamma 79b-80a), e uma regra rabínica estipula que qualquer animal acha­ do entre Jerusalém e um lugar perto de Belém deve ser considerado uma vítima sacrificial (Mishna, Shekalim 7:4). A mesma regra fala de achar ofer­ tas para a Páscoa dentro de trinta dias antes daquela festa, i. e, em feverei­ ro. Visto que rebanhos podem, portanto, estar nos campos no inverno, a data tradicional para o nascimento de Jesus, 25 de dezembro, nio está excluída. Lucas, conforme se sabe, nada diz acerca da data propriamente dita, que permanece bem desconhecida. Como classe, os pastores tinham má reputação. A natureza do seu emprego impedia-os de observarem a lei cerimonial que tanta coisa significava para as pessoas religiosas. Mais las­ timável era seu infeliz hábito de confundir o “meu” com o “teu” ao via­ jarem pelo interior afora. Não eram considerados fidedignos e não lhes era permitido dar testemunho nos tribunais (SB). Nâo há razão para pensai que os pastores em Lucas deixassem de ser homens devotos, senão, por que Deus lhes teria dado tal privilégio? Mesmo assim, pertenciam a uma classe desprezada. 9. O anjo (a palavra significa “mensageiro”) nio é identificado. Mas o aparecimento dele encheu de grande temor os pastores quando o esplendor do Senhor brilhou ao redor deles, (Phillips) 10,11. O anjo primeiramente reestabelece a confiança dos seu ouvintes (cf. 1:13, 30). Passa a explicar que trouxe novas boas e alegres (o verbo traduzido trago boas novas haveria de ser usado, mais tarde, das


boas novas do evangelho). Já cedo, a nota de grande alegria é soada. O povo (laos) normalmente significa “o povo de Israel,” e não as pessoas de modo geral. A notícia do Salvador haveria de significar muita coisa aos homens em todas as terras, mas veio em primeiro lugar ao povo antigo de Deus. O Salvador (título este que é empregado para Jesus aqui somen­ te nos Evangelhos Sinóticos; acha-se uma vez em João) é chamado Cristo, o Senhor. Esta expressão traduz uma expressão grega que não se acha nou­ tro lugar no Novo Testamento e que significa, literalmente, “Cristo Se­ nhor.” Talvez devamos entendê-la como “Cristo e Senhor” (cf. Atos 2:36; 2 Co 4:5; Fp 2:11). O termo Cristo significa “Ungido” em Grego, assim como “Messias” é nossa transliteração de um termo hebraico com um significado semelhante. A unção era para serviço especial, como o de um sacerdote ou de um rei. Os judeus, porém, esperavam que um dia Deus enviaria um libertador muito especial. Não seria simplesmente “um” un­ gido mas, sim “o” Ungido, o Messias. É a Este que o anjo anuncia. Senhor é empregado na Septuaginta para Deus (é empregado doutras maneiras também, mas é a tradução do nome Javé). Cristo, o Senhor, portanto, descreve o Menino nos termos mais altos possíveis. 12. O anjo completou sua mensagem ao dar aos pastores um si­ nal que os ajudaria a reconhecer a criança, além de atestar à veracidade das palavras do anjo. Em Belém naquela noite poderia talvez haver uma ou duas criancinhas envoltas em faixas, mas decerto somente uma deita­ da em manjedoura. 13,14. Terminado o recado, apareceu subitamente uma multi­ dão doutros anjos louvando a Deus. São chamados uma milícia, i.é, “exér­ cito”, paradoxalmente, um exército que anuncia a paz, conforme Bengel observa com sabedoria. Primeiramente, falam da Glória a Deus, um preli­ minar necessário para a verdadeira paz na terra. Há problemas tanto do texto quanto da tradução entre os homens, a quem ele quer bem (mais literalmente, “entre homens do [Seu] beneplácito”). Os anjos estão di­ zendo que Deus trará paz “para os homens sobre os quais repousa Seu favor” (NEB). A ênfase é dada a Deus, não aos homens. São aqueles que Deus escolhe, e não aqueles que escolhem a Deus, dos quais os an­ jos falam. Paz, ê lógico, significa a paz entre Deus e os homens, a cura da alienação causada pela maldade humana. 15-18. Os pastores foram apressadamente ver por si mesmos. Não é fácil traduzir o senso de urgência expressado pela partícula de, mas Leaney fez a tentativa com: “Eia! Vamos. . Acharam tudo confor­ me o anjo dissera, com a criança deitada na manjedoura. Lucas registra quão admiradas todas as pessoas ficaram ao receberem a notícia de por


L UCAS 2:19-24 que os pastores vieram. Í9. O porém de Lucas coloca Maria nalgum contraste com os pas­ tores. Ao passo que eles tinham divulgado o que ouviram, ela guardava todas estas palavras, meditando-as no coração (cf. Gn 37:11). Entesourou tudo isto, e o reteve nos recessos interiores do seu ser. 20. Lucas completa a história com a volta dos pastores. Esta­ vam cheios de louvor a Deus “pela notícia que tinham ouvido e a visão que a confirmara” (Rieu).

i. O menino Jesus (2:21-40) Lucas passa a nos contar algo acerca do menino Jesus. Sua coletânea de informações é maior do que aquela em qualquer dos demais Evangelhos. i. A circuncisão (2:21). Jesus foi circuncidado no oitavo dia de acordo com a lei judaica (Gn 17:12). Nasceu “sob a lei, para resgatar os que estavam sob a lei” (G1 4:4-5) e foi, portanto, sujeitado às exigên­ cias da lei. Lucas não enfatiza a circuncisão, e, na realidade, não diz ex­ plicitamente que ocorreu. Sua ênfase é dada à nomeáção do menino, como lhe chamara o anjo. O propósito divino deve ser visto no nome. ii. A apresentação no Templo (2:22-24). Duas cerimônias bem se­ paradas são envolvidas aqui: a apresentação do menino e a purificação da mãe. A presença da criança não era necessária, maá era natural quando os pais estavam suficientemente perto de Jerusalém. A apresentação do me­ nino segue-se do fato de que Todo primogênito [lit. “que abre a madre”] (i. é, o filho primogênito da mãe, não necessariamente do pai) ao Senhor será consagrado (a citação de Lucas não é literal, mas dá o sentido de vá­ rias passagens: Êx 13:2, 12, 15; Nm 18:15). Embora Lucas não mencione o fato, sem dúvida os cinco siclos usuais foram pagos para redimir o pri­ mogênito (Nm 18:15-16). A lei levítica estipulava que, depois do nascimento de um filho, uma mulher ficaria impura durante os sete dias até a circuncisão do menino, e que, por mais trinta e três dias, devia manter-se afastada de todas as coi­ sas sagradas (para uma filha, o tempo era dobrado; Lv 12:1-5). Na ocasião, devia sacrificar um cordeiro e uma pomba ou pombo. Se fosse pobre de­ mais para um cordeiro, bastaria uma segunda pomba ou pombo (Lv 12: 6-13). A oferta de Maria, portanto, foi a dos pobres. A referência à puri­ ficação deles é um pouco estranha. Alguns pensam que Jesus é incluído, mas parece mais provável que deles se refira às mesmas pessoas referidas no plural oculto que se segue em levaram, i.é, José e Maria. Se Maria era


cerimonialmente impura, seria quase uma certeza que José também ficas­ se impuro de contágio e que ambos precisassem da purificação. iii. 0 cântico de Simeão (2:25-32). Lucas registra a reação inspi­ rada de Simeão quando os pais trouxeram Jesus para o Templo. Parece que sempre pensamos neste homem como sendo velho, embora não haja evidência alguma senão sua alegre disposição para morrer (29). As tenta­ tivas paia identificá-lo como um sacerdote ou cidadão importante não têm fundamento. O nome era comum. Nada sabemos acerca dele à parte desta história. 25,26. Simeão era um homem reto. Justo mostra que comportava-se bem para com os homens, ao passo que piedoso (eulabês; empregado somente por Lucas no Novo Testamento) significa “cuidadoso no tocante aos deverei religiosos” (nos clássicos significa “cauteloso”)./! consolação de Israel que esperava é outro nome para a vinda do Messias (cf. SB). Es­ perava-se que esta vinda fosse antecedida por um período de grande sofri­ mento (“os ais do Messias”), de modo que Ele certamente traria consola­ ção, Nos dias em que a nação era oprimida, os homens de fé olhavam tan­ to mais intensamente para o Libertador que solucionaria seus problemas. O Espírito Santo estava sobre ele, que parece significar continuamente com ele. Na antiga dispensação, lemos que o Espírito vinha sobre as pes­ soas em ocasiões especiais, mas uma presença contínua é rara. A plenitu­ de que Simeão tinha era algo especial. O Espírito indicara a Simeão dal’ guma maneira não especificada que veria o Messias, o Cristo do Senhor (cf. 2:11) antes da sua morte. 27, 28. No cumprimento da promessa, o Espírito trouxe Simeão para o Templo ao mesmo tempo que José e Maria. Simeão estava “no Espírito" (cf. Ap. 1:10, etc.), que inclui ser movido pelo Espirito, mas também parece indicar algo mais, uma sensibilidade especial. José e Maria são chamados os pais. Isto não quer dizer que Lucas esqueceu-se de que acaba de nos contar do nascimento virginal, nem que aqui estava empre­ gando fontes que ignoravam o fato. “A palavra pais é usada simplesmen­ te para indicar o caráter em que José e Maria apareciam nesta ocasião” (Godet). O que a lei ordenava deve referir-se à oferta dos cinco siclos em nome da criança, e não ao sacrifício para a mãe» pois Lucas diz que assim fazem “para ele.” Simeão louvou a Deus, i.é, proferiu uma oração de ações de graças (que normalmente começaria: “Bendito és Tu, ó Senhor”). 29-32. Assim como acontece com os hinos no capítulo 1, este pequeno cântico é conhecido pelas suas palavras iniciais em Latim, ou se­ ja: Nunc Dimittis. O agora de Simeão é importante. Está pronto para mor­ rer em paz agora que viu a salvação divina, i.é, o Menino através de quem


Deus, no devido tempo, traria a salvaçífo. Sua linguagem é aquela que se usa para a libertação de um escravo, e talvez pense na morte como sendo “seu livramento de uma longa tarefa” (Plummer), Simeão passa a mos­ trar que esta salvação não é para uma só nação individualmente, mas, sim, para todas elas. Isto fica suficientemente claro em todos os povos, mas Simeão pormenoriza ao falar tanto dos gentios quanto de teu povo de Israel. É provavelmente apenas a estrutura poética que liga a luz para reve­ lação com os primeiros e glória com os últimos, porque traria a revelação para Israel tanto quanto para as demais nações. Há, no entanto, um aspec­ to apropriado em ligar glória com Israel. O Antigo Testamento contém muita coisa acerca da glória, especialmente em conexão com as manifes­ tações que Deus fez de Si mesmo para Seu povo. Israel, no entanto, verá a glória no seu sentido mais verídico e pleno quando vê o Filho de Deus. A luz que Ele traz para os gentios não importa em qualquer diminuição da glória de Israel mas, sim, na sua plena realização. iv. A profecia de Simeão (2:33-35). Alguns argumentam, com ba­ se no fato que José e Maria ficaram admirados, que Lucas importou a narrativa de fontes que não continham a parte anterior, porque não fica­ riam atônitos depois da visita dos pastores. Mas isto não se segue. Havia causa para admiração porque Simeão sabia tudo isto, e de qualquer manei­ ra, o que ele diz vai muito além de qualquer coisa que os pastores disseram. Agora descobrimos que a história inteira não é só de doçura e luz. A salva­ ção seria comprada a um preço alto, e Simeão sombriamente registra este fato. Invoca uma bênção sobre o pai e a mãe do menino (ver a nota sobre “os pais” no v, 27). Depois, em palavras enigmáticas, passa a falar de Jesus como sendo destinado tanto para ruína como para levantamento de mui­ tos em Israel (noutras partes do Novo Testamento a palavra traduzida levantamento é sempre usada da ressurreição). Não está certo se Simeão tem em mente um grupo de pessoas ou dois. No primeiro caso está dizen­ do que, a não ser que os homens percam todo o orgulho na sua própria realização espiritual, não há esperança para eles. Devem cair e aceitar o lu­ gar humilde; depois poderão subir (cf. o publicano na parábola, 18:9-14). No último caso, quer dizer que Jesus dividirá os homens. Aqueles que 0 rejeitam acabarão caindo (cf. Is 8:14-15). Aqueles que O aceitam subirão, entrarão na salvação. Não é de se admirar que será alvo de contradição. Que também será um “sinal” não é tão óbvio. A expressão significa que apontará à ação de Deus. Simeão passa a tratar do custo que Maria paga­ rá. A espada (rhomphaia denota uma espada grande, não a pequena machaira de 22:36, 38, 49, 52) que traspassarâ a alma de Maria é a morte de Jesus. O sofrimento dEle não a deixará incólume. As palavras finais de


Simeão apontam para a função revelatória da obra de Jesus. Os homens se declaram mediante sua atitude a Ele. Não podem ser neutros, em última análise. Quando os homens vêem Cristo sofrer, sua reação demonstra de que lado ficam. v. As ações de graças de Ana (2 36-38). À profecia de Simeão, Lucas agora acrescenta as ações de graças duma outra representante da religião organizada, uma profetisa chamada Ana. Embora muitas pes­ soas religiosas deixassem de aceitar a Jesus, este reconhecimento preco­ ce veio de pessoas que fielmente observavam as exigências da sua reli­ gião. Nada mais se sabe acerca de Ana senão aquilo que lemos aqui. 36, 37. Não tinha havido profeta algum durante séculos, de modo que é digno de nota que Deus levantara esta profetisa. Os judeus contavam somente sete profetisas (Talmude, Megillah 14a), de modo que esta distin­ ção era incomum. A ser era uma das dez tribos perdidas, mas parece que alguns membros dela sobreviveram e conservaram suas genealogias. Ana tinha sido casada durante sete anos, e depois, permaneceu viúva. Não fica bem claro se sua idade era de oitenta e quatro anos, ou se tinha ficado viúva durante aquele período de tempo. No último caso, teria sido uma se­ nhora de muita idade mesmo, de modo que muitos favorecem a primeira interpretação. Não deixava o templo, que pode significar que tinha um quarto dentro do recinto do Templo, ou, mais provavelmente, que estava constantemente nos atos religiosos (“nunca perdia um culto”! cf. 24:53). Jejuns e orações, práticas que podiam ser realizadas por indivíduos, inde­ pendentemente da adoração comunitária, indicam uma vida disciplinada. 38. Ana apareceu no momento crítico e dava graças a Deus, pre­ sumivelmente por Ele ter enviado Seu Messias. Lucas, no entanto, não dá indicação alguma do conteúdo das ações de graças. A redenção de Jerusa­ lém é outro modo de referir-se à libertação a ser levada a efeito pelo Mes­ sias. Um grupo dentro da religião antiga, portanto, estava esperando o Messias. vi. A volta para Nazaré (239, 40). Lucas completa esta parte da sua narrativa com a volta de José e Maria para Nazaré. Não faz referên­ cia alguma à fuga para o Egito (Mt 2:13ss.) e não há maneira de saber se Lucas conhecia este fato ou não, e se antecedeu ou seguiu a visita a Jeru­ salém. Fala da completação das exigências da lei, depois da qual voltaram para a Galiléia. A infância de Jesus está descrita de movo breve, em termos de desenvolvimento. Havia crescimento físico, mental e espiritual.


j.. O menino Jesus no Templo (2:41-52)

Nada sabemos da meninice de Jesus a não ser este único incidente que so­ mente Lucas relata. 41. Para seus pais, ver sobre v. 27. Todos os judeus homens tinham a obrigação de freqüentar o Templo três vezes ao ano, na Páscoa, no Pen­ tecoste e nos Tabernáculos (Êx 23:14-17). A Mishna expressamente isen­ ta as mulheres da obrigação (Hagigah 1:1), mas alguns rabinos pensavam que elas deviam subir ao Templo, e algumas, naturalmente, o faziam. A presença em todas as três festas era difícil, com os judeus espalhados em todas as partes do mundo romano e além dele, mas muitos faziam o esforço uma vez por ano. Era o costume de José e Maria subir na Páscoa, na festa que comemorava a libertação da nação do Egito (Êx 12). 42-45. Seguiram seu costume na ocasião em que Jesus atingiu os doze anos. Era com treze anos de idade que um menino judeu podia tor­ nar-se um “filho da lei” ou membro completo da sinagoga (cf. Mishna, Aboth 5:21; Niddah 5:6). Assumiria, então, todas as responsabilidades subentendidas na sua circuncisão. Para algumas observâncias, no míni­ mo, a Mishna estipula que um menino deve ser levado para a observân­ cia um ou dois anos antes de completar treze anos de idade, de modo que possa ser preparado {Yoma 8:4), e talvez tenha havido algo desta na­ tureza na presente ocasião (embora seja igualmente possível que Jesus tenha subido todos os anos; não sabemos). Nesta ocasião, Jesus ficou para trás quando Seus pais voltaram para casa. Numa grande “carava­ na” (Rieu) era bem possível que os pais não soubessem onde estava um filho. Se a prática posterior foi seguida, as mulheres iriam na frente com as ciianças pequenas, enquanto os homens seguiriam com os meninos maiores. E possível que tanto José como Maria pensassem que Jesus esta­ va com o outro. Viajaram durante um dia inteiro procurando-0 entre os viajantes, antes de concluir que Ele deveria ainda estar em Jerusalém, e, portanto, voltaram para lá. A descrição de Jesus como o menino, pais, talvez seja um contraste deliberado com “criança”, brephos, e “menini­ nho”, paidion, nos w. 16 e 40. Há um registro de desenvolvimento. 46,47. Três dias depois provavelmente significa três dias desde a hora em que primeiramente sentiram a falta de Jesus. Não deveria ter levado três dias para achá-Lo num lugar do tamanho de Jerusalém, espe­ cialmente porque estava num lugar de destaque, e não escondido. Acha­ ram-No no meio dos mestres no recinto do Templo. Este era um lugar costumário para o ensino, e evidentemente não havia problema se um jo­ vem desconhecido se juntasse ao círculo. Estava ouvindo-os e interrogan■


doos, que indica uma sede pelo conhecimento. Deve ter havido poucos mestres bons em Nazaré, e Jesus estava tirando vantagem da oportunida­ de de aprender enquanto estava na capital. O sistema educacional daque­ les dias parece ter colocado alguma ênfase sobre a discussão de proble­ mas (SB). Assim, um aluno inteligente tinha escopo para fazer perguntas e dar respostas. Os mestres muito se admiravam da sua inteligência e das suas respostas. 48. José e Maria ficaram maravilhados. Claramente, não espera­ vam nada como isto. Há repreensão na pergunta da Maria: Filho, por que fizeste assim conosco? e na sua referência à procura aflita que fizeram. 49, 50. Para Jesus, era questão de surpresa que tivesse havido qual­ quer dificuldade. O lugar natural para Ele estar era na casa de meu Pai. O Grego poderia ser interpretado “nos negócios do meu Pai” (ARC), Mas a primeira interpretação é provavelmente correta, pois os negócios do Pai poderiam ser realizados em muitos lugares, e o problema dos pais dEle era onde Ele estava, e não aquilo que fazia. A resposta de Jesus mostra que já cedo Ele tinha uma idéia clara da importância do serviço de Deus. Provavelmente também soubesse que tinha um relacionamento especial com Deus. A expressão meu Pai é digna de nota, e não parece que exista paralelo citado (os judeus acrescentavam “no céu” ou empregavam “nos­ so Pai” ou expressões semelhantes).8 As primeiras palavras registradas do Messias, portanto, são um reconhecimento do Seu relacionamento sem igual com Deus, e da necessidade (me cumpria) de Ele estar na casa do Pai. Há um midraxe que fala que o Messias conheceria Deus diretamente, sem assistência humana, distinção esta compartilhada somente por Abraão, Jó e Ezequias (Midrash Rabbah, Números 14:2). Mas Lucas está dizendo mais do que isto. Jesus tinha um relacionamento com Deus compartilha­ do por nenhum outro. José e Maria não entendiam isto. Aprenderam pou­ co a pouco o que significava o messiado de Jesus. 51. Como filho cumpridor dos Seus deveres, Jesus voltou para Nazaré e era-lhes submisso (esta é a última referência que Lucas fez a Jo­ sé; teria morrido antes de começar o ministério de Jesus?). Ainda não vie­ ra o momento para Jesus lançar-Se na Sua missão; ficou, portanto, no lar. Como anteriormente no caso dos pastores (19), Maria não se esqueceu. Talvez não compreendesse, mas lembrou-se.

8. Ver G. Dalraan, The Words o f Jesus (Edimburgo, 1902), págs. 184-194, Acerca do uso geial feito por Jesus, diz: "A linguagem da vida familiar é transferida a Deus: é a linguagem da criança dirigida ao seu pai'* (ibid., pág. 192).


52. Mais um resumo, no estilo do v. 40, completa esta seção. Je sus continuou a avançar intelectual e fisicamente. Graça diante de Deus e dos homens (cf. 1 Sm 2:26; Pv. 3:4) indica o progresso espiritual e so­ cial. No resumo semelhante no caso de João Batista (1:80) não há nada equivalente a graça diante . . . dos homens. Provavelmente houvesse uma diferença de personalidade já de início. A severidade de Joio impedia que ele fosse atraente de algum modo.

n. O MINISTÉRIO DE JOÃO BATISTA (3:1-20)

Todos os Evangelhos deixam claro que o ministério de JoSb Batista prepa­ rava o caminho para o de Jesus e que era caracterizado por uma chamada ao arrependimento. Só Lucas, no entanto, nos conta como João respondeu às perguntas das pessoas quanto à maneira de o arrependimento afetar suas vocações específicas. As respostas dele são simples e práticas, embora sem a profundidade de introspecção que marcava o ensino de Jesus. Onde João, por exemplo, não ia além dos atos individuais, Jesus exigia “nada menos do que a entrega completa da alma ao poder do Espírito divino que ali habitaria” (Manson, sobre 3:10-14). As respostas de João, no en­ tanto, revelam um reconhecimento de que cada vocação na vida tem suas próprias tentações, e que é a marca do verdadeiro arrependido resistir a elas. 1. Lucas começa com datas pormenorizadas, não no início do mi nistério de Jeuss, mas, sim, no início daquele de João. Reflete, assim, a importância crítica do reavivamento da profecia. E coloca aquilo que se segue firmemente no contexto da história secular. Visto que Augusto morreu em 19 de agosto de 14 d.C., o décimo-quinto ano do reinado de Tibério César foi de agosto de 28 d.C. até agosto de 29 d.C. Alguns argu­ mentam que a contagem deveria começar com a co-regência de Tibério com Agusuto, 11-12 d.C.; mas nenhum exemplo pode ser citado de al­ guém que em qualquer tempo calculasse a data a partir de então. As da­ tas sempre são a partir do tempo em que Tibério veio a ser imperador. Outros sustentam que Lucas está usando o método sírio mediante o qual o ano começava em 1 de outubro. 0 período de 19 de agosto até 30 de setembro seria contado como o primeiro ano do reinado, e o se­ gundo ano começaria em 1 de outubro. Assim, chegaríamos ao ano que começou em 1 de outubro de 27 d.C. Se fosse seguir um sistema judaico semelhante, o ano seria aquele que começava em 1 de Nisã (março-abril)


de 28 d.C.9 Não parece que possamos chegar mais perto de cerca de 27-29 d.C. Sendo Pôncio Pilatos governador. Esta palavra tem significado mui­ to geral, mas uma inscrição mostra que seu título era “prefeito” (e não “procurador,” conforme muitas vezes tem sido sustentado). A Judeia fa­ zia parte da região distribuída por Herodes Magno a Arqueleu, mas este reinou tão mal que seus súditos dirigiram uma petição aos romanos para que o removessem. Fizeram-no, e instalaram seu próprio governador em 6 d.C. Pilatos deteve este cargo em 26-36 d.C .Herodes é Herodes Antipas, filho de Herodes Magno. Ficou sendo tetrarca da Galiléia e da Peréia na ocasião da morte do seu pai em 4 a.C., e deteve o cargo até 39 d.C. Des­ tarte, reinou durante a maior parte da vida de Jesus sobre o território em que a maior parte do tempo de Jesus foi passada. A palavra tetrarca significa, a rigor, um soberano sobre uma quarta parte de uma região, mas veio a ser empregada para qualquer príncipe insignificante (Herodes Magno, na realidade, dividiu seu reino em três partes). O irmão de Hero­ des, Filipe, reinou sobre sua tetrarquia (que ficava ao nordeste do Mar da Galiléia) de 4 a.C. até 33 ou 34 d.C. Lisânias é um problema. Josefo menciona um homem com este nome que governou um território exten­ so a partir da sua capital de Cálquis até sua morte em 36 (ou 34) a.C. (Antiguidades xv.92) e alguns tiraram a conclusão de que Lucas enganouse. Há, porém, inscrições que se referem a um Lisânias num período pos­ terior que reinou como tetrarca de Abilene, que fica ao norte das demais regiões mencionadas (ver a Nota Adicional em Creed). Parece melhor sus­ tentar que Lucas independe de Josefo e que escreve acerca deste Lisânias posterior. Nada mais se sabe acerca deste homem. 2. Lucas passa a acrescentar uma data de especial importância aos judeus, a saber: a referência aos sumos sacerdotes. Anás era sumo sacerdo­ te em 6-15 d,C., quando, então, o governador romano Grato o depôs. Cin­ co dos seus filhos vieram a ser sumos sacerdotes no decurso do tempo, e Caifás, que deteve o cargo de 18 até 36 d.C., foi seu genro. Lucas empre­ ga o singular, que demonstra que sabia que havia um só sumo sacerdote. Parece que quer dizer que Caifás era o detentor oficial do cargo, mas que Anás ainda exercia grande influência, e talvez que ainda fosse considera­ do por muitos judeus como o verdadeiro sumo sacerdote (cf. At 4:6). Talvez valha a pena indicar que quando Jesus foi preso, foi trazido pri­ meiramente a Anás (Jo 18:13). 9. Ver G. Ogg em NDB, p. 372; J. Finegan, Handbook o f Biblical Chronology (Princeton, 1964), págs. 272-3.


L UCAS 3:3-9

Na ocasião definida de modo tão impressionante, pois, veio a pala­ vra de Deus a João. A expressão é muito semelhante àquela que se em­ prega na LXX acerca da maneira de os profetas receberem sua mensagem (cf. Jí 1:2). Provavelmente visa colocar João na sucessão profética verda­ deira. 3. Ele percorreu toda a circunvizinhança do Jordão parece signif car que João viajava muito no vale do Jordão. Diferentemente de Mateus e Marcos, Lucas nada diz acerca da aparência e dos hábitos dietéticos de João. Vai diretamente à mensagem dele. João pregava batismo de arrepen­ dimento para remissão de pecados. Trata-se de um batismo que segue o arrependimento e que é sinal dele, João conclamava as pessoas a se volta­ rem dos seus pecados, A aceitação do batismo era um sinal que assim fi­ zeram. O propósito era o perdão. 0 batismo era um rito de purificação em certo número de religiões. Parece certo que neste tempo os judeus usavam o batismo dos proséütos. Consideravam impuros todos os gen­ tios, de modo que os batizavam quando se tomavam prosélitos (além de circuncidar os homens). O ferrão que havia na prática de João era que aplicava aos judeus a cerimônia considerada apropriada para os gentios impuros. Muitos judeus esperavam que no julgamento Deus tratasse dura­ mente com os pecadores gentios, mas que os judeus, os descendentes de Abraão, o amigo de Deus, estariam seguros. João denuncia esta atitude e remove a imaginada segurança. 4-6. Em todos os quatro Evangelhos, Isaías 40:3 é aplicado a João Batista, mas somente Lucas acrescenta w. 4, 5. Todos os quatro enten­ dem que João se considerasse como nada mais do que uma voz ( “O ho­ mem inteiro era um sermão,” Plummer), e, portanto, como aquele que preparava o caminho do Senhor. Lucas, porém, acrescenta a parte do aterro dos vales, etc. (a linguagem figurada indica a preparação de uma estrada diante da aproximação de um rei), e continua até o clímax: toda a carne verá a salvação de Deus (a palavra salvação é derivada da LXX, não do Hebraico; pode ser uma interpretação da palavra que significa “glória”). Esta citação está de acordo com o propósito de Lucas de res­ saltar a universalidade do evangelho. 7-9. Ao passo que Mateus menciona fariseus e saduceus como os ouvintes de João, Lucas menciona as multidões. A mensagem de João era para a nação inteira. Suas palavras, conforme são registradas aqui, são quase idênticas com as em Mateus 3:7-10. Das sessenta e três palavras no Grego, as únicas diferenças são frutos e comeceis em Lucas (8) onde Mateus tem “fruto” e “presumis”. O parágrafo está pesado com julga­ mento. João condena seus ouvintes como sendo víboras que procuram


fugir da ira vindoura. A ira de Deus é um tópico importante nos dois Testamentos. Ressalta a continuada hostiblidade divina contra todo o mal.10 Entendemos como parte dela o machado à raiz das árvores. As árvores ainda não foram cortadas. Mas a advertência é clara. No meio destas duas advertências, João relembra aos seus ouvintes que o arrepen­ dimento deve ser demonstrado pelos frutos apropriados. Adverte-os contra a confiança na sua descendência de Abraão, Os judeus tendiam a pensar que Deus finalmente seria bondoso para com eles por causa dos méritos de Abraão, se não tivessem méritos próprios. João os relembra que fica­ mos diante de Deus como indivíduos. Há um jogo de palavras entre pedras e filhos, Aramaico ’a bmyya ' e benayya \ 10,11. O ensino de João foi rejeitado pelos líderes judaicos (730), mas levou outros a fazer perguntas. As pessoas queriam saber o que se es­ perava delas. A primeira resposta de João é intensamente prática: as pessoas devem repartir o que têm com aqueles que nada têm. Túnicas; nor­ malmente uma era usada debaixo da roupa externa (himation), mas um homem poderia usar mais de uma para sentir mais calor (Mc 6:9) ou ter uma túnica a mais que não usava. 12,13. Os romanos coletavam os impostos por meio de alugar os direitos da taxação a quem pagava mais. O vencedor da concorrência pú­ blica pagaria a Roma o montante que oferecera, mas coletaria mais do que isto para pagar suas despesas e lhe dar seu lucro legítimo. Era, po­ rém, uma forte tentação cobrar mais imposto do que era rigorosamente necessário, e embolsar a diferença. Isto provocava ressentimento, especial­ mente entre os patrióticos, que de qualquer maneira não gostavam de ver os judeus ajudarem os romanos por meio de coletar impostos para eles. Des­ ta maneira, os cobradores de impostos eram odiados. E quanto mais eram odiados, tanto mais tendiam a cobrar impostos em demasia. Era um círcu­ lo vicioso. Os publicanos que vieram ao batismo de João eram certamente os agentes dos publicanos (que negociavam com Roma) propriamente di­ tos. A pregação de João convencera alguns deles que aquilo que faziam era errado, e queriam expressar seu arrependimento no batismo. O conse­ lho de João é:Não cobreis inais do que o estipulado. 14. Lucas não diz se os soldados eram judeus ou romanos. A maio­ ria concorda que eram provavelmente judeus, e alguns pensam que talvez fossem associados com os cobradores de impostos, dando-lhes o apoio necessário para fazerem seu trabalho. De qualquer maneira, estavam nu10. caps. v, vi.

Ver Leon Morris, The Apostolic Preaching o f the Cross3 {Londres, 1965),


ma posição privilegiada em contraste com o público em geral. Os cidadãos poderiam esperar pouca reparação quando as tropas usassem violência ou falsas acusações para despojá-los. A palavra traduzida como dar denún­ cia falsa é um termo pitoresco que significa literalmente “mostrar figos.” Tem sido conjeturado que isto se referisse originalmente à denúncia de pessoas que exportavam figos da Ática (uma prática proibida), mas esta sugestão e outras são repudiadas por LS como “meras adivinhações.” João mandou os soldados a não serem presunçosos por causa da sua posição, mas, sim, contentai-vos com o vosso soldo, injunção esta com uma aplica­ ção larga. Note-se que João não conclama qualquer destes grupos a deixar seu emprego. Pelo contrário, quer que ajam com retidão no serviço. 15. Atividades tais como estas despertavam nas mentes dos ho­ mens a pergunta de se João pudesse talvez ser o Cristo (cf. Jo 1:20, 25). As expectativas messiânicas estavam no ar, e as atividades de João eram tais que fizeram com que as pessoas pensassem que talvez fosse ele quem estavam esperando. 16. João, porém, repudia esta idéia. Ressalta dois fatos: é inferior a Alguém que ainda há de vir, e seu batismo é inferior, da mesma maneira. Este Sucessor, diz João, é mais poderoso do que eu. “Nem só quanto ao po­ der, excede a João. E quando se trata do valor real, João se vê como indigno de desatar-lhe as correias das sandálias. Os mestres palestinianos não eram pagos, mas os alunos demonstravam seu apreço com uma variedade de ser­ viços. Um ditado rabínico (na sua forma presente, com data de c. de 250, mas provavelmente muito mais antigo) diz: “Todo serviço que um escravo faz para seu senhor, o discípulo fará para seu professor, menos o desatar as correias das sandálias” (SB, i, pág. 121). João, porém, seleciona exata­ mente este dever, que os rabinos consideravam por demais menial para um discípulo, -como aquilo para o que o Batista era indigno. Esta é a humil­ dade genuína.

O outro fato que João ressalta é que seu próprio batismo é com água ao passo que o mais poderoso batizará com o Espírito Santo e com fogo . Este segundo batismo é claramente metafórico. A figura de linguagem res­ salta que o Poderoso dará o Espírito com medida generosa. Alguns enten­ dem que a referência ao fogo está em aposição com Espirito, “o fogo do Espírito” (Harrington), alguns, que significa a prova (Creed), outros, que indica o julgamento. O contexto favorece esta última idéia, e W. H. Brownlee chamou a atenção a uma passagem nos Rolos do Mar Morto que se refe­ re a um fogo escatológico de julgamento, e que, segundo pensa, apoia esta


interpretação.11 Mas são as mesmas pessoas que são batizadas com o Espi­ rito Santo que também são batizadas com fogo (e os dois são governados por um único en em Grego). Parece melhor entender que Joio está pensan­ do nos aspectos positivos e negativos da mensagem do Messias. Os que 0 aceitam serio purificados como pelo fogo (cf. Ml 3:1 ss.) e fortalecidos pelo Espírito Santo. 17,18. O tema do julgamento é desenvolvido. Limpar era o proces­ so segundo o qual, o grão tendo sido solto da casca (por meio de pisotear com bois), a totalidade era lançada no ar contra uma brisa. O vento levava a palha embora, ao passo que os grãos caíam diretamente para baixo. A pá de joeirar ptuon) era o garfo ou pá que jogava o grio no ar. Por este meio, a eira era desembaraçada. O trigo era recolhido no celeiro, mas a palha era queimada comfogo inextinguivel. Esta expressão enfática ressalta que o jul­ gamento é certo e completo. Lucas completa a seção ao acrescentar que Joio pregava muitas coisas desta natureza. Note-se que inclui estas coi­ sas no evangelho que Joio pregava. 0 julgamento nio é, à primeira vista, uma nova muito boa; mas é uma parte integrante do evangelho. A nio ser que possamos ter a certeza que, no fim, o mal será decisivamente der­ rotado, nio pode haver boas novas em última análise. 19, 20. Joio era um destemido pregador da justiça, e repreendeu Herodes, o tetrarca por ter-se casado com a esposa do seu irmio. Herodias era filha de Aristóbolo, meio-irmio de Herodes Antipas, e ela estava casa­ da com Herodes, outro meio-irmio e um cidadio particular. Herodes Antipas persuadiu Herodias a deixar seu marido e casar-se com ele, embora isto envolvesse que ele se divorciasse da sua própria esposa. Era um caso bastante repugnante. Lucas menciona outras maldades de Herodes (Ma­ teus e Marcos nio fazem alusão a elas) e passa a dizer que acrescentou a tudo o mais esta maldade adicional de encarcerar Joio. De Josefo fica­ mos sabendo que o local da prisão foi a fortaleza de Maquero (Antigui­ dades xviii.119). Lucas nio está escrevendo cronologicamente, pois Joio continuava a trabalhar durante a primeira parte do ministério de Jesus. Está simplesmente completando a história de Joio, depois da qual se con­ centra no ministério de Jesus.

11. pág. 42.

The Scrotts and the New Testament, ed. K. Stendahl (Londres, 1958),


m . O COMEÇO DO MINISTÉRIO DE JESUS (3 :21-4:13)

a. O batismo de Jesus (3:21, 22) Lucas começa seu relato do ministério de Jesus com o batismo de nosso Senhor por João (sem, porém, mencionar o nome de João; já passara de João para Jesus). Esta é a única ocasião em que se registra que o Batista estava com Jesus. A história é contada de modo breve, mas é muito impor­ tante. Marca a chamada de Jesus ao Seu ministério público, chamada esta acompanhada pelo dom do Espírito Santo e confirmada por uma voz do céu. De modo inesperado, Lucas se refere ao batismo de Jesus apenas numa cláusula subordinada. Prefere enfatizar que os céus foram abertos e que o Espírito Santo desceu. A abertura do céu significa que se segue uma revelação da parte de Deus. Todos os quatro Evangelistas mencionam a descida do Espírito como pomba. Mateus e Marcos nos dizem que Je­ sus a viu, e João que o Batista a viu. Cada um pode ter falado de uma vi­ são subjetiva, mas a expressão de Lucas, em forma corpórea, mostra que havia uma realidade objetiva. O simbolismo é enigmático, visto que a pom­ ba não era um símbolo geralmente aceito do Espírito Santo (embora uns poucos escritos judaicos bem posteriores o empreguem). Pelo contrário, a pomba representava Israel. Não há, porém, dúvida alguma de que aqui se trata de um simbolismo cristão primitivo, não como alguma coisa ado­ tada de origens judaicas ou helenistas. Lucas é ó único dos Evangelistas que nos diz que a descida do Espírito ocorreu enquanto Jesus estava a orar}2 Aconteceu, portanto, não no batismo, mas, sim, imediatamente depois dele. À primeira vista, é estranho que Jesus tivesse aceito o batismo às mãos de João, pois este batismo era um “batismo de arrependimento” (3:3). Visto que Lucas retrata Jesus como sendo isento de pecado, não é óbvio por que nos diz que foi batizado desta maneira. Jesus, porém, via os pecadores indo em grandes números para o batismo de João. Clara­ mente resolveu tomar Seu lugar com eles. No começo do Seu ministério publicamente Se identificou com os pecadores que viera salvar. Lucas passa a nos falar da aprovação do Pai dada na voz do céu. Es­ ta voz se refere a Jesus como meu Filho amado (na voz semelhante na Transfiguração, Ele é “o meu Filho, o meu Eleito,” 935). Em ti me com-

12. Paia o interesse de Lucas na oração ver a Intr idução, pág. 45.


prazo significa “Sobre ti repousa meu favor (ou beneplácito)” mais do que “Estou muito contente contigo.” Tasker indica que o significado das pa­ lavras é “sobre quem se centraliza meu plano para a salvação da humani­ dade.”13 Podemos ver nelas também uma combinação dalgumas palavras do Salmo 2:7 e um eco de Isaías 42:1. No começo do Seu ministério, a voz celestial dirigiu os pensamentos de Jesus para a combinação incomum entre o Filho de Deus e o Servo Sofredor. Esta combinação haveria de de­ terminar boa parte do Seu ministério.

b. A genealogia de Jesus (3:23-38)

A genealogia registrada em Lucas é muito diferente daquela em Mateus. Lucas dá a linhagem de Adão até Abraão, e Mateus não faz assim; são praticamente idênticas de Abraão até Davi, e divergem daquele ponto em diante. Há três explicações principais da dificuldade. 1. Alguns sugerem que Mateus nos dá a genealogia de José, legal­ mente o pai de Jesus, ao passo que Lucas dá a de Maria, a linhagem real de Jesus. Este conceito entende José, filho de Heli como “José, filho de Heli por casamento.” Contra esta abordagem argumenta-se que não é isto que Lucas diz, e que, de qualquer maneira, as genealogias não eram seguidas pela linhagem feminina. Lucas, no entanto, está falando de um nascimento virginal, e não temos informação sobre como uma genealogia seria ícconhecida quando não havia pai humano. O caso é sem igual. 2. Africano (c. de 220 d.C.) sugeriu que houvesse um casamento por levirato. Pensou que quando Heli morreu sem filhos, Jacó, que tinha a mesma mãe, mas um pai diferente, casou-se com a viúva, e José nasceu. Segundo este ponto de vista, Mateus nos dá a genealogia de José através de Jacó, seu pai verdadeiro, ao passo que Lucas a dá através de Heli, seu pai legal.14 3. J. Gresham Machen argumentou o ponto de vista de Lord Harvey de que Mateus nos dá “os descendentes legais de Davi —os homens que legalmente seriam os herdeiros do trono davídico se aquele trono tives­ se sido continuado — ao passo que Lucas dá os descendentes de Davi naquela linhagem específica à qual pertenceu, finalmente, José, marido de Maria.”15 Segundo este ponto de vista, Jacó, o pai de José em Mateus, 13. TNTC sobre Mt 3:17. (Série Cultura Bíblica) 14. ANF, vi, pág. 126. 15. J. G. Machen, The Virgin Birth ofChrist (Londres, 1958, pág. 204.


e o herdeiro do trono de Davi, morreu sem filho. A sucessão passou, en­ tão, à linhagem representada por Heli. No estado atual do nosso conhecimento, é impossível dizer qual destas deva ser preferida, ou se há uma explicação melhor. O fato de Lucas ter inserido a genealogia a esta altura, depois do batismo que O marcou como Filho de Deus, e antes da tentação que aju­ dou a definir a natureza da Sua tarefa messiânica, talvez vise a ajudar-nos a ver alguma coisa da relevância messiânica de Jesus. Que a genealogia é registrada demonstra ser Ele um homem verdadeiro, não um semi-deus como aqueles na mitologia grega e romana, Que remonta até Davi indica um elemento essencial nas Suas qualificações messiânicas. Que remonta até Adão ressalta Seu parentesco não somente com Israel, mas também com a totalidade da raça humana. Que remonta até Deus relaciona-0 com 0 Criador de tudo. Era o Filho de Deus. [N. E. v. o artigo sobre as Genea­ logias de Jesus Cristo, sob o verbete “Servo de Deus”, no NDITNT, vol. 4.] 23. Devemos a Lucas a informação de que Jesus tinha cerca de trinta anos no começo do Seu ministério. Era com esta idade que os levitas começavam seu serviço (Nm 4:47) e era evidentemente considerada a idade em que um homem era plenamente maduro. O Grego é um pouco difícil, pois não há objeto para o verbo começar. ARC traduziu “E o mes­ mo Jesus começava a ser de quase trinta anos.” É muito improvável, no entanto, e devemos entender ao começar o seu ministério. O parêntese como se cuidava mostra que Lucas está conservando em mente que Jesus realmente era o filho de Maria, e n£o de José. 24-38. Lucas simplesmente alista os nomes na sua genealogia, em cada caso precedido pelo genitivo do artigo, traduzido “filho de.” Ao pas­ so que Mateus faz sua lista remontar até Abraão, Lucas continua até Adão, de acordo com seu interesse pela raça humana em geral. Miller pensa que talvez haja também uma referência a Jesus como o “último Adão” (cf. 1 Co 15:22, 45). Lucas acrescenta filho de Deus, pois devemos ver a Je­ sus em última análise no Seu relacionamento com o Pai. Nisto a genealo­ gia harmoniza-se com a narrativa anterior e a posterior, sendo que as duas dizem respeito a Jesus como o Filho de Deus.

c. As tentações de Jesus (4:1-13)

Jesus acabara de ser batizado, e agora antecipava o ministério público ao qual Se dedicara. Primeiramente, porém, passou algum tempo em refle­ xão quieta no deserto. Que tipo de Messias haveria de ser? Deveria usar


Seus poderes para fins pessoais? Ou para estabelecer um império podero­ so que dominaria o mundo com justiça? Ou para operar milagres espetacu­ lares, embora sem razão de ser? Rejeitou todos estes conceitos por aquilo que eram: tentações do diabo. O fato de que eram tentações subentende que Jesus sabia que possuía poderes incomuns. “Para nós, não é uma ten­ tação o transformar pedras em pães, ou pular de um pináculo do Templo” (Barclay). Jesus, porém, não era restrito às nossas limitações. Sabia que ti­ nha poderes que outros homens não possuem, e deveria resolver como os empregaria. Esta história inteira tem outro interesse para os crentes, a sa­ ber: deve ter vindo de ninguém mais senão o próprio Jesus. Mateus tem a segunda e a terceira tentação na ordem inversa, fato este que nunca foi explicado de modo satisfatório (as razões sugeridas são todas subjetivas). 1,2. Mateus e Marcos nos dizem que Jesus foi levado pelo Espírito ao deserto, mas somente Lucas diz que Jesus estava cheio do Espirito San­ to. Também diz que era “no (e não pelo) Espírito” que Jesus foi guiado. Satanás realmente tentou a Jesus, mas havia mais do que isto na história. Era o plano de Deus que, logo de início, Jesus enfrentasse a questão de que tipo de Messias haveria de ser. 3,4. Satanás começou com a fome de Jesus, e passou a levantar uma dúvida quanto à Sua Filiação divina. Jesus acabara de ouvir uma voz do céu chamando-0 de “Filho” (3:22). Satanás sugere que verifique Sua filiação ao transformar uma pedra em pão. O problema para Jesus era sa­ ber se a voz que agora ouvia vinha do mesmo lugar da voz celestial. Sua res­ posta veio de uma passagem da Bíblia (Dt 8:3). Aquilo que não concorda com a Escritura não vem de Deus. A essência da tentação talvez tenha si­ do o uso dos poderes milagrosos para fornecer pão aos famintos, i.é, tornar-Se um obreiro social. Mas não havia famintos com Jesus no deserto, de modo que talvez seja mais provável que a tentação fosse para usar Seus poderes para suprir Suas próprias necessidades pessoais. As palavras com que a tentação foi rejeitada têm uma aplicação ampla. O homem deve in­ teressar-se por muitas coisas além do pão (cf. Jo 4:34). Não é simplesmente um animal, vivendo no nível das necessidades físicas. 5-8. Lucas não diz, conforme diz Mateus, que o diabo levou Jesus a um alto monte para mostrar-Lhe todos os reinos do mundo. Enfatiza, não o lugar de onde foi vista a visão, mas, sim, o fato de que o Maligno fez apa­ recer diante de Jesus toda a pompa deste mundo. Alegou que era dele (para Satanás como “o príncipe deste mundo” cf. Jo 12:31; 14:30; 16:11), e prometeu dá-lo a Jesus somente se Este o adorasse. Quer dizer que Je­ sus via a possibilidade de estabelecer um reino que seria muito mais pode­ roso do que aquele dos romanos. Não é difícil ver como semelhante visão


pudesse ser considerada ura alvo legítimo. Significaria um governo ocupa­ do somente com o bem-estar genuíno do povo, e o caminho seria aberto para muita coisa boa. Mas importava em transigir. Importava em usar os métodos do mundo. Importava em expulsar os demônios por Belzebu. Para Jesus, significava virar as costas à Sua vocação. Seu reino era de um tipo bem diferente (Jo 1836-37). Já Se identificara com os pecadores que viera salvar (3:21). Isto significava que seguiria o caminho da humildade, não aquele da glória terrestre. Significava que Ele teria uma cruz, não uma coroa. Procurar a soberania terrestre era adorar à maldade, e Jesus decisivãmente a renunciou. Mais uma vez, apelou à Bíblia (Dt 6:13), indicando que a adoração a Deus é exclusiva. Nenhum outro deve ser adorado senão Ele. 9-12, A terceira tentação está localizada em Jerusalém. Jesus é convidado a lançar-Se do pinãcub do templo. O artigo mostra que um pináculo específico está em mente, mas não podemos identifica-lo com certeza (as sugestões incluem o ápice do santuário, o topo do pórtico de Salomão, e o topo do pórtico real). A tentação pode ter sido no senti­ do de operar um milagre espetacular mas sem razão de ser, a fim de compe­ lir à maravilha e à crença de certo tipo. Mas visto que não se diz que qual­ quer outra pessoa estava presente, a tentação pode ter sido, pelo contrário, conforme a resposta de Jesus parece indicar, a de ser presunçoso com Deus ao invés de confiar nEle humildemente. Farrar chama a atenção a um fato importante quando cita o comentário de Agostinho de que Sata­ nás nada mais pode fazer do que sugerir: somente a pessoa tentada pode realizar o ato errado (atira-fe para baixo). O Maligno nesta ocasião cita a Escritura (Sl 91:11-12) para assegurar Jesus que Ele ficaria bastante se­ guro. Este, porém, é um emprego errôneo da Bíblia. É torcer um texto pa­ ra servir um propósito. Jesus rejeita esta tentação, conforme fizera com as outras duas, ao apelar para o significado verdadeiro da Bíblia (Dt 6:16). Não cabe ao homem submeter Deus ao teste, nem sequer quando o homem é o próprio Filho de Deus encarnado. Note-se que em todas as três ocasiões Jesus enfrentou as tentações ao citar de Deuteronômio, e, de fato, da porção restrita entre 6:13 e 8:3. Estes capítulos se referem às experiências de Israel no deserto, o povo de Deus! É bem possível que Jesus dedicara muito pensamento a estas passa­ gens enquanto refletia sobre a missão à qual Deus O chamava. Havia parale­ los entre a experiência do antigo povo de Deus e Sua própria experiência. Estava unido com o povo de Deus. 13. No decurso de todas estas tentações, nenhum recurso especi estava aberto a Jesus. Enfrentou a tentação da mesma maneira que nós


devemos enfrentá-la, com o uso da Escritura, e ganhou a vitória. Lucas completa a narrativa com Satanás decisivamente derrotado. “Acabara de tentar Jesus de todas as maneiras” (TEV), mas Jesus nio cedera. Isto não quer dizer que a partir deste momento Jesus não seria sujeitado a mais tentações. Conzelmann sustenta que Lucas retrata Satanás como estando ausente durante o ministério de Jesus, mas isto não está de acordo com os fatos (cf. a obra de Satanás em 8:12; 10:18; 11:18; 13:16; 22:3,31, e refe­ rências a tentações ou testes, que subentendem sua atividade, em 8:13; 11: 4, 16; 22:28). O diabo O deixou somente “até que uma nova ocasião se apresentasse,” conforme a tradução de Rieu. Nesta vida, não há isenção da tentação. Não havia para Jesus, e não há para nós.

IV. JESUS NA GALILÉIA (4:14-9:50) Lucas passa a tratar do ministério de Jesus na Galiléia. Boa parte da maté­ ria nesta seção longa é compartilhada por Mateus e Marcos, mas Lucas dá à totalidade dela seu próprio cunho.

a. O sermão em Nazaré (4:14-30) Parece que Lucas está se referindo a um incidente colocado mais tarde por Mateus e Marcos. Não o considera como o início do ministério de Jesus, porque sabe de uma obra anterior (14, 15), embora não resolve descrevêla. Bem no início, porém, Lucas demonstra que Jesus cumpre a profecia de Isaías. Este era o tipo de ministério que Jesus exercia. Estes são os te­ mas que voltariam a ocorrer. 14,15. Não fica bem claro por que uma fama acerca de Jesus come­ çou a circular, porque ainda não fora descrito fazendo alguma coisa. Mas voltou do Jordão no poder do Espirito (note o interesse de Lucas pelo Espírito). Evidentemente, podia ser visto que Jesus estava cheio do Es­ pírito, e isto causava comentário. Jesus passou a aumentar Sua reputa­ ção, ensinando nas sinagogas, e Lucas nos diz que Ele era glorificado por todos. O plural, sinagogas, indica uma viagem de pregação. Para a Galb léia como o ponto inicial da missão de Jesus, cf. 23:5; At 1037. 16. Lucas nos relembra que Jesus fora criado em Nazaré, e nos conta que, naquela cidade, Jesus foi ao culto no sábado segundo o seu costume. Há muitas referências à presença de Jesus nos cultos, mas so­ mente esta nos conta que era Seu hábito. Muitos comentaristas nos con­


tam como os cultos nas sinagogas eram realizados e indicam onde Lucas concorda. Devemos, no entanto, conservar em mente que esta é a des­ crição mais antiga de um culto de sinagoga que possuímos, de modo que esta passagem é de importância crítica para o estudo da sinagoga. Pode­ mos supor que alguns costumes que conhecemos de tempos posteriores, eram de igual antiguidade, mas devemos saber com clareza que isto é apenas suposição. Lucas é nossa única autoridade para aquilo que era feito nos tempos em epígrafe. Se os costumes posteriores já começaram tão antigamente assim, o culto teria começado com uma oração, e haveria uma leitura da Lei (os livros de Gênesis até Deuteronômio) antes de Jesus ler os profetas, Não havia ministros conforme entendemos o termo, mas as au­ toridades da sinagoga local convidariam as pessoas a ler e a pregar. Parece que a Escritura sempre era lida no Hebraico original, embora uma tradução para o Aramaico teria sido feita pelo leitor ou por outra pessoa. Em Atos fica claro que não era incomum para visitantes de destaque serem convida­ dos a pregar. A sinagoga era usada para instrução bem como para a adoração; na realidade, a instrução pode ser considerada sua função pri­ mária (cf. 13:10). A sinagoga era de antiguidade incerta, mas na Palestina não era altamente desenvolvida antes da destruição do Templo. Parece não haver ruínas de sinagogas na Palestina que certamente eram de tem­ pos pré-cristãos.16 Jesus levantou-se para ler, um sinal de respeito para com a Palavra de Deus. A pregação, segundo parece, usualmente era feita sentado (20; cf. Mt 26:55, assim SB). Paulo, no entanto, ficou em pé pe­ lo menos numa ocasião (Atos 13:16) e Filo fala deste costume (de specialibus legibus ii.62). 17. Aparentemente, Jesus não selecionou o livro do qual leu, pois o rolo do profeta Isaías Lhe foi dado. Isto não significa, porém, conforme alguns pensam, que Ele leu de um lecionário fixo. Não podemos autenticar um lecionário em data tão recuada assim. A passagem pode ter sido selecio­ nada pelo chefe da sinagoga, ou Jesus pode até a ter selecionado pessoal­ mente . Isto concordaria com as palavras de Lucas: abrindo o livro, achou o lugar onde estava escrito. . . 18,19. Leu de Isaías 61 :l-2, seguido por 58:6. As palavras profeti zam o ministério do Messias às pessoas aflitas:os pobres, os cativos, os ce­ gos, e os oprimidos. A aplicação que Jesus fez das palavras a Ele mesmo mostra que o senso de vocação que veio com a voz celestial no Seu batis­ mo permaneceu forte (para a unção do Espírito, cf. At 10:38). Jesus Se

16. Ver mais, Leon Morris, The New Testament and Jewish Lectionaries (Londres, 1964), págs. 11 ss.


via chegando com boas novas para as pessoas perturbadas deste mundo. O ano aceitável do Senhor não representa, naturalmente, qualquer ano civil, mas, sim, é um modo de fazer referência á era da salvação. 20. Jesus enrolou o rolo (fechou o livro) e devolveu-o ao assistente. Sentou-se, assumindo assim a posição para pregar. Com todos agora olhan­ do para Ele com expectativa, tudo estava pronto para o sermão. 21,22. Jesus começou dizendo que a profecia que acabara de ler estava sendo cumprida. As palavras de Isaías aplicavam-se ao ministério que Ele estava começando (cf. 7:22). Hoje ê importante. Os contemporâ­ neos de Jesus não duvidavam que o reino de Deus viria algum dia. O ensi­ no de Jesus era diferente, sendo que via Deus agindo no presente, na obra dEle mesmo. “Não numa era futura, mas agora o poder do cativeiro do pecado haveria de ser quebrado, a comunhão com Deus estabelecida, e a vontade de Deus feita” (Manson). Todos lhe davam testemunho: a expres­ são de Rieu: “logo começaram a reconhecer Seu poder” é uma paráfrase, mas nos diz o que aconteceu. À medida em que falava, os aldeões come­ çaram a perceber que aquilo que tinham ouvido acerca dEle era a verdade, e assim disseram. Ficaram impressionados com Suas palavras de graça, i.é, Sua maneira ptraente de falar. Ficaram atônitos que alguém da sua própria cidade, alguém que podiam chamar de filho de José, conseguisse falar assim. Note-se que Lucas fala de espanto, mas não de admiração ou apreciação. Estranharam Sua pregação, mas não a aceitaram de coração. 23. Jesus sabia que Sua reputação se espalhara até Nazaré, e que aqueles entre os quais crescera desejariam que fosse viver à altura daque­ la reputação. Citou um provérbio (desconhecido noutro lugar, embora se achem provérbios semelhantes) cuja lição é clara. A aplicação imedia­ ta, no entanto, não fica tão simples, porque não havia qualquer questão de Jesus curar-Se a Si mesmo. Talvez o pensamento seja que a operação de milagres fosse de benefício para Ele, por salvar Sua reputação. Ou Na­ zaré pode ser considerada uma extensão do Homem de Nazaré (embora “Cura Teus concidadãos** não é a mesma coisa que “Cura-te a ti mes­ mo”). Note que dizem: tudo o que ouvimos ter-se dado em Cafarmum, não “o que fizeste . . . ” Não acreditam. Marcos cita este fato como a razão porque Jesus não operou milagres em Nazaré (Mc 6:5). Lucas não diz isto diretamente, mas provavelmente fique subentendido. 24. Queriam provas. Mas, ao invés disto (de deve ser traduzido “Mas,” e não E) Jesus seguiu uma linha de pensamento dEle mesmo. Sua resposta começa com amènt De fato . Esta palavra é empregada somente seis vezes em Lucas (prefere traduzir o termo aramaico), mas em Mateus e João está freqüentemente nos lábios de Jesus. Dá ênfase e marca as pa­


lavras seguintes como sendo especialmente signiflcantes. Jesus passa a afirmar que os profetas nio são aceitos no seu próprio local. As pessoas sempre estão mais dispostas a ver grandeza nos estranhos do que naque­ les que conhecem bem. 25,26. Jesus ilustra Seu argumento com referências a dois gran­ des profetas. Elias foi ajudado, não por uma das muitas viúvas israelitas dos seus dias, mas por uma mulher de Sarepta de Sidom (cf. 1 Rs 17:8 ss.). A repetição da palavra viúva não é rigorosamente necessária (é suben­ tendida na referência às viúvas no versículo anterior), mas ressalta a comparativa falta de importância desta estrangeira. Foi, porém, a ela que Elias foi enviado. A duração da fome é citada como sendo por três anos e seis meses (como em Tg 5:17), que é um pouco mais do que é referido na expressão “no terceiro ano” (1 Rs 18:1). O “terceiro ano” pode, natu­ ralmente, referir-se à duração da permanência de Elias em Sarepta (1 Rs 17:8) e não à duração da fome, e neste caso não haverá problema. Se a re­ ferência for à fome mesma, há várias possibilidades. Tasker pensa que os três anos e meio sejam uma dedução da passagem em Reis.17 Ou Jesus pode ter tido alguma outra fonte de informação. E de qualquer maneira, a fome teria continuado por algum tempo depois de a seca acabar. 27. O exemplo de Elias é reforçado com aquele de Eliseu, que curou, não um dos muitos leprosos em Israel, mas, sim, Naamã, o sírio (2 Rs 5:1-14). 28-30. Isto foi demais para eles. Foi suficientemente ruim quando um dentre eles demonstrou que não pertencia ao mesmo grupo que eles. Agora que Ele apelou para as maneiras de Deus tratar com os gentios, aquilo foi demais. A ira propagou-se pela congregação inteira (“Deus para os judeus”!) e se propuseram a linchar Jesus. A tentativa de precipitá-Lo do cume do monte parece ser um esforço para jogá-Lo por um precipí­ cio (embora talvez seja simplesmente um prelúdio ao apedrejamento). A identificação do local não é fácil, mas o significado geral é bastante claro. Ressalta-se também a majestade da presença de Jesus. Meramen­ te passando por entre eles, retirou-se. Não falou nenhuma palavra irada, nem operou qualquer milagre espetacular. Simplesmente andou por meio da turba. Alguns acharam que isto em si mesmo era um milagre - mas não o tipo de milagre que os nazarenos queriam! Pelo que se sabe, Jesus nunca voltou a Nazaré. A rejeição pode ser 'definitiva. Em tudo isto, temos um comentário sobre a terceira tentação.

17. James (TNTO, pág. 141.


0 povo procurou colocar Jesus na posição que Satanás sugerira. Mas Ele não deixou. b, Jesus curando (4:31-41). Lucas começa seu relato da missão de Jesus com alguns milagres de cura e uma viagem de pregação. Esta é uma das suas seções marcanas. i. O homem com um demônio imundo (4:31-37). 31, 32. Aqui temos a primeira de cinco curas no sábado narradas neste Evangelho (cf. 438-39; 6:6ss.; 13:10ss.; 14:1 ss.). Claramente, o uso correto do sábado interessava a Lucas. De Nazaré Jesus desceu a Cafamaum {desceu porque a beira do lago, onde estava a cidade, ficava num nível mais baixo; o local nio é conhecido com certeza, embora muitos defendam Tell Hum). O en­ sino de Jesus deixava as pessoas atônitas, porque a swa palavra era com autoridade. A originalidade nio era altamente prezada entre os rabinos, e era usual acreditar suas palavras ao citar antecessores ilustres. Por exem­ plo, R. Eliezer piamente negava qualquer novidade: “nunca na minha vida falei alguma coisa que nio tivesse ouvido dos meus mestres” (Sukkah 28a; uma declaraçio semelhante é feita acerca de R. Johanan b. Zakkaí, e a atividade era comum). Jesus nio fazia nada semelhante, e a autorida­ de com que falava impressionava os homens. 33,34. Na sinagoga havia um homem possesso de espírito de demô­ nio imundo. Esta última expressio nio é explicada em lugar algum. Alguns a entendem literalmente e pensam que o homem fosse sujo e desgrenhado. Outros sustentam que a referência é moral, e pensam num espírito malig­ no. É possível que os dois sentidos estejam em mente. No mundo antigo, sustentava-se de modo geral que muitos males eram causados por espíri­ tos malignos. A Bíblia diz pouca coisa acerca da possessio demoníaca an­ tes ou depois da encamaçio, mas muita coisa durante o ministério de Je­ sus. Nas Escrituras, portanto, este fenômeno faz parte do conflito entre Jesus, que veio destruir as obras do diabo (1 Jo 3:8), e o mal. (Ver, ainda, a Nota Especial em Geldenhuys, págs. 174-5). Nesta ocasiio, o endemoninhado bradou em alta voz. Vieste para perder-nos? é usualmente entendi­ do como pergunta, mas pode ser uma declaraçio. O demônio reconheceu a oposiçio entre Jesus e todos os espíritos maus do tipo dele. O Santo de Deus (noutros trechos, somente em Mc 1:24; Jo 6:69) é um título incomum, que ressalta o conceito da consagraçio ao serviço de Deus. Neste contexto, devemos vê-lo como um exemplo daquilo que Tiago tinha em mente quando escreveu: “Até os demônios crêem, e tremem” (Tg 2:19).


Ryle comenta que o conhecimento do demônio “não era acompanhado pela fé, pela esperança, ou pela caridade.” 35. Jesus fez o exorcismo com simplicidade, sem os sortilégios ti estimados pelos Seus contemporâneos. Repreendeu o demônio, que dá a entender que não deveria ter possuído o homem, e o ordenou: Cala-te (lit. “Sê amordaçado;” MM notam que a palavra era as vezes usada no sen­ tido de “prender com um sortilégio,” mas este não é o significado aqui). Jesus acrescentou: sai desse homem. O demônio lançou o homem por ter­ ra. (Marcos disse que o convulsionou). Mas isto foi tudo. Saiu dele sem lhe fazer mal. 36,37. O povo ficou admirado com esta palavra e passou a comen­ tar a autoridade e poder com os quais Jesus ordenava os espíritos. O tempo dos verbos dá a entender que Ele fazia assim habitualmente. Não estão co­ mentando este único milagre. Não era estranho que sua fama se espalhasse por toda a circunvizinhança. Jesus estava Se tornando uma figura pública. ii. A sogra de Pedro (4:38, 39). Da sinagoga, Jesus foi para a ca­ sa de Simão (Marcos acrescenta “e André" e nos informa que Tiago e João foram juntos; Lucas omite qualquer referência a eles, talvez porque ainda não narrou a chamada deles). Todos os três Sinoticistas mencio­ nam a febre, mas somente Lucas diz que era uma febre muito alta (apa­ rentemente um termo médico); que Jesus a repreendeu (isto significa que via Satanás por detrás da enfermidade?), e que, quando a mulher foi curada, levantou-se e passou a servi-los imediatamente (demonstrando quão completa fora a cura). iii. Muitas curas (4:40, 41). No fim do dia, todos os que tinham enfermos de diferentes moléstias os traziam a Jesus. Não podiam ser car­ regados no sábado, mas quando o dia do sábado chegou ao fim com o pôr do sol, o povo não perdeu tempo. Há um toque pessoal no fato de Jesus impor as mãos sobre cada um t ao curá-los. Lucas é o único que nos con­ ta este fato, e também que os demônios que foram expulsos exclamavam: Tu és o Filho de Deusl Os galileus talvez tenham pensado que Jesus não fosse mais do que um homem, mas- os espíritos malignos não cometiam tal erro. Marcos também dá a informação que Jesus não os deixava falar, mas não que Jesus os repreendia (cf. 4:35, 39). Jesus não tolerava o mal. É interessante que Lucas nos conta que já de início os demônios reconhe­ ciam ser ele o Cristo. A recusa quanto a permitir que os demônios revelas­ sem que Jesus era o Cristo foi provavelmente para evitar de antemão mo­ vimentos messiânicos nacionalistas. O entusiasmo popular teria feito de qualquer messias um herói rebelde!


c. Um circuito de pregação (4:42-44) Na manhã seguinte, Jesus foi para um lugar deserto (é interessante que é Marcos, e não Lucas, que nos diz que era para orar). Mas claramente as multidões ficaram impressionadas com os eventos que acabam de ser narrados, e não queriam perder a Jesus. Quando, porém, O acharam (Marcos nos diz que Pedro tomou a dianteira nisto) Jesus Se recusou a ficar com elas. Disse que era necessário que pregasse o evangelho noutros lugares. Note a necessidade compulsiva. Esta é a primeira vez que Lucas menciona o reino de Deus, que haveria de ser o tema predileto do ensino de Jesus. É um assunto muitíssimo grande. Aqui, basta dizer que é a soberania de Deus em açáo. Os judeus aguardavam com expectativa um tempo em que Deus Se asseveraria como Rei sobre as nações. Jesus ensi­ nava que o reino de Deus já chegara na Sua própria Pessoa, na autori­ dade com que combatia o mal. Em certo sentido, o reino era uma reali­ dade presente. Noutro sentido, ainda haveria de vir em toda a sua pleni­ tude. Há mais uma nota de propósito nas palavras de Jesus:pois para isso ê que fui enviado (quanto à idéia de Jesus ser enviado, cf. 9:48; 10:16). Há um problema no que diz respeito às sinagogas da Judéia, pois os Sinoticistas nada dizem acerca de tal viagem, a não ser aqui. ARC tem “nas sinagogas da Galiléia,” mas a atestação deste texto é inferior. Devemos, talvez, entender a Judéia aqui no sentido amplo da “Palestina,” que in­ cluiria a Galiléia (como ocorre em 23:5, etc.; Lucas, no entanto, às vezes emprega o termo para a Judéia propriamente dita, e.g. 2:4). Ou é possí­ vel que Lucas esteja falando, conforme freqüentemente ocorre, dalguma coisa que achamos em Joio. Naquele Evangelho descobrimos que Jesus tinha um ministério extensivo na Judéia.

d. Os milagres de Jesus (5:1-26) Lucas narra um trio de milagres: primeiramente, um milagre da natureza, e depois um par de curas. Ressaltam que Jesus domina as situações em que Se acha, e demonstram Sua compaixão. i. A pesca maraviilhosa (5:1-11). Alguns estudiosos sustentam que esta é uma variação da história em João 21, um aparecimento de Je­ sus de após a ressurreição. As diferenças, porém, são por demais numero­ sas e grandes. Lucas nos conta acerca de um incidente no ministério de Jesus, João relata um acontecimento bem diferente depois de Jesus ter ressuscitado. Uma observação semelhante deve ser feita acerca da histó­


ria da chamada dos discípulos em Marcos 1:13-20. Há alguma possibili­ dade de que Marcos tenha contado o incidente sem o milagre (embora haja, mesmo então, diferenças não inconsideráveis). Mas é mais provável que Lucas se refira a um incidente diferente. 1-3. Lucas coloca o cenário, A multidão, ávida para ouvir a palavra de Deus (que pode significar “a palavra que provém de Deus” ou “a pala­ vra que conta acerca de Deus”), apertava Jesus enquanto Ele ficava em pé junto ao lago de Genesaré. Lucas, aliás, sempre chama esta extensão de água de lago, ao passo que os demais Evangelistas seguem o Antigo Testamento ao chamá-lo de “mar.” Suas medidas são aproximadamente 20 km por 12 km, e é situado cerca de 220 m abaixo do nível do mar. Este é o único lugar onde é chamado Genesaré (Quinerete no Antigo Tes­ tamento; Tiberíades duas vezes em João). Jesus viu dois barcos cujos pes­ cadores desembarcaram para lavar as redes. Depois de cada saída para a pesca, o equipamento precisava ser averiguado e limpo, como preparati­ vo para a saída seguinte. Jesus, pois, entrou num dos barcos, que perten­ cia a Simão, e pediu que o afastasse um pouco da praia. Jesus, então, assentando-se, adotando a posição costumária para ensinar, instruiu o povo de onde Ele estava no barco. 4, 5. Acabada a lição, Jesus sugeriu a Pedro que fossem pescar. Respondendo, Pedro chama Jesus de Mestre (Epistata), palavra esta que é achada somente neste Evangelho no Novo Testamento. O termo não é específico como “Rabi” (que Lucas nunca usa), mas denota qualquer pessoa de autoridade. Pedro continua: havendo trabalhado toda a noite, nada apanhamosl Há, talvez, uma repreensão subentendida. A noite era considerada o melhor período para a pesca, e Pedro talvez tenha sugeri­ do que, quando peritos, pescando na hora certa, nada apanharam, era inú­ til tentar mediante o pedido de um Carpinteiro. Se for assim, a disposi­ ção de Pedro de agir conforme a sugestão de Jesus revela o reconhecimen­ to que Sua palavra não deveria ser desconsiderada em qualquer assunto que fosse. Pedro talvez não concordasse, mas poderia obedecer. 6,7. A obediência traz resultados! Pedro e seus amigos lançaram as redes e apanharam grande quantidade de peixes. Havia demais para as redes segurarem. Até mesmo quando os pescadores fizeram sinal para seus companheiros no outro barco, e eles também vieram, ainda não havia a capacidade necessária. Encheram ambos os barcos ao ponto de quase irem a pique. O número dos peixes não é citado (como o é na história em João), mas claramente a pesca era anormal. Não poderia ser explicada den­ tro dos conceitos usuais das técnicas de pesca. 8. Somente aqui no seu Evangelho Lucas faz uso do nome com­


posto Siraão Pedro. Até 6,14 (à parte deste versículo) sempre chama este homem de Simio. Depois, a não ser em passagens em que está citando outras pessoas, Lucas sempre o chama de Pedro. Talvez surpreendentemen­ te, Pedro nio ficou contente com a grande pesca. Reconheceu o milagre e reagiu como alguém que está na presença de Deus. Prostrou-se aos pés de Jesus, ou: “colocou-se de joelhos diante de Jesus” entendendo lesou como dativo. As palavras seguintes de Pedro: Senhor, retira-te de mim, porque sou pecador nos lembram da experiência dos grandes santos na presença imediata de Deus, tais como Abraão (Gn 18:27), Jó (Jo 42:6), ou Isaías (Is 6:5), Cf. a exclama çio de Israel: “Não fale Deus conosco, para que nio morramos” (Êx 20:19). Pedro reconheceu a mão de Deus, e aquilo o forçou a reconhecer sua própria pecaminosidade. O trato Se­ nhor substitui o de “Mestre” em v. 5, e provavelmente é ligado com sua apreensio aprofundada. Embora possa ser usado como nada mais do que uma forma de trato cortês (como em Português também), a palavra tam­ bém é usada consistentemente para Deus na Septuaginta, e é comum em muitas religiões como referência à divindade. Sobre a alteração, Plummer comenta: “É o ‘Mestre’ cujas ordens devem ser obedecidas, e o ‘Senhor’ cuja santidade causa agonia moral ao pecador (Dn 10:16).” Esta reaçffo, quando nada é registrado como tendo acontecido depois de milagres anteriores, provavelmente nio se deve a Lucas ter registrado o milagre fora de ordem, conforme alguns têm sugerido. Pelo contrário, ocorreu porque este foi um milagre déntro da área de perícia do próprio Pedro. Conhecia a pesca; e, portanto, sabia o que significava aquela grande quan­ tidade de peixes. 9-11. Lucas ressalta a natureza extraordinária da pesca ao refe­ rir-se à admiraçio dos pescadores. Entra em detalhes com Pedro primei­ ro, depois, com seus companheiros, e então passa a mencionar os sócios (a palavra é diferente daquela no v. 7, onde ARA tem “companheiros”) de Pedro. Lucas, entio, passa para a coisa importante, a seqüela ao milagre. Primeiramente, Jesus assegura Pedro: “Nio temas.” Acalma um medo existente. Pedro evidentemente estava atemorizado, conforme demons­ tra sua reaçío inteira. Doravante introduz um novo grupo de circuns­ tâncias. Chegou-se a um ponto crucial. A partir de agora, as coisas seriam diferentes com Pedro. A natureza da vida nova à qual Jesus o chama res­ salta-se nas palavras finais: serás pescador de homens. O tempo é contí­ nuo; está em mira uma prática habitual. E Pedro já nio se ocupará com peixes, mas, sim, com homens. Pescar, naturalmente, usa-se num senti­ do diferente: pegar para a vida e nio para a morte (zõgreõ significa “pegar


vivo,” “pegar para a vida”). Quando o grupo da pesca chegou à praia,. deixaram tudo. Deixaram a maior pesca que já viram na sua vida. A pesca nio era táo importante quanto o que lhes mostrou acerca de Jesus. Reconhe­ ceram este f a t o o seguiram. Tornaram-se discípulos no sentido mais pleno. 11. A cuia de um leproso (5:12-16), A lepra nos tempos bíblicos era o nome dado a uma variedade de enfermidades, sendo que algumas eram curáveis e outras, incuráveis. Na sua forma pior era uma doença muito temida e muito horrível. Desfigurava e era fatal, e a única defesa que o mundo antigo tinha contra ela era a quarentena (Lv 13:46). Os que sofriam da doença eram proibidos de aproximar-se doutras pessoas. Para evitar o contato acidental, exigia-se deles que clamassem: “Impu­ ro” (Lv 13:45). Náo tinham maneiras de ganhar a vida, e forçosamente dependiam da caridade. Os efeitos psicológicos de tudo isto parecem ter sido táo sérios quanto os físicos. As pessoas tinham (e freqüentemente continuam tendo) uma atitude para com a lepra diferente daquela que adotavam com outras doenças. Era contaminante. As pessoas tinham ver­ gonha dela, embora náo fosse culpa delas. Jesus curava os leprosos, e via nisto um dos sinais do Seu messiado (Lc 7:22). 12. Lucas náo localiza o incidente com precisão. Mas nalguma cidade havia um homem coberto de lepra. Somente Lucas tem coberto de ; parece ter sido um termo médico para um caso adiantado, embora Creed note que náo há paralelo exato para coberto de lepra. Era contrá­ rio à lei para um leproso entrar na cidade (Lv 13:36). Lucas talvez quei­ ra dizer que o encontro se realizou nos arrebaldes. Ou o homem, deses­ perado na sua desgraça, pode ter desrespeitado o regulamento. De qual­ quer maneira, chegou suficientemente perto de Jesus para prostrar-se diante dEle, e para falar-Lhe. Náo tinha dúvida quanto à capacidade de Jesus para curar, mas náo tinha a mesma certeza de que Jesus estaria disposto. Note-se que náo fala em ser curado, mas, sim, diz: podes purifícar-me. A lepra era uma enfermidade imunda. Contaminava. Ser cura­ do significava ser purificado. 13. A compaixáo de Jesus ressalta-se no fato de que Ele estendeu a mão (o homem estava mantendo a devida distância?), e tocou-lhe. Os homens evitavam os leprosos, e podemos dizer com segurança que nin­ guém senáo outros leprosos tinham tocado este homem durante muitos anos. Aquele toque valeu por vários livros. Depois, Jesus anunciou as pa­ lavras da cura: Quero, fica limpo\ O resultado foi a cura imediata. 14. Jesus já proibira os endemoninhados de falar dEle (4:35, 41). De modo semelhante, agora manda o leproso guardar silêncio sobre Ele. Náo diz por que. Talvez fosse para evitar o tipo de entusiasmo popu-


lar que procuraria tomar Jesus no tipo de conquistador messiânico que os nacionalistas estavam procurando. Pelo contrário, Jesus mandou-o cum­ prir o rito religioso quieto: o procedimento para a pessoa que alegava ser curada da lepra era ir ao sacerdote, que agia como um tipo de inspetor de saúde. Se o sacerdote ficava satisfeito, era oferecido um sacrifício, depois do qual a pessoa podia assumir seu lugar na comunidade (ver Lv 14). Para servir de testemunho ao povo [lit. “a eles”]. Tudo depende do significado de “eles”. Phillips interpreta: “como evidência às autoridades.” Talvez tenha razão, mas é mais provável que povo seja subentendido. As palavras provavelmente indicam uma salvaguarda para o homem curado. As pessoas saberiam que tinha sido um leproso, e seriam lentas em acei­ tá-lo. Se, porém, um sacerdote o inspecionara e aceitara sua oferta, have­ ria prova de que fora curado. Também demonstraria que Jesus sustenta­ va a lei. E seria um testemunho ao povo em geral que o poder de Deus estava operando em Jesus. 15,16. O pedido de Jesus quanto ao silêncio não foi respeitado. Lucas nos diz que o que se dizia a seu respeito cada vez mais se divulga­ va (Marcos diz que o próprio homem curado tomou a liderança nisto). O resultado inevitável foi que grandes multidões afluiram para Jesus. Isto, porém, não fazia parte do Seu plano. Já rejeitara a tentação do dia­ bo no sentido de tornar-Se um milagreiro popular. Destarte, deixou as cidades e foi para lugares solitários. Caracteristicamente, Lucas nos conta que Ele orava ali. No meio de deveres urgentes, achava necessário ficar quieto e orar. iii. A cura de um paralítico (5:17-26). A história fascinante da cura do paralítico que foi descido pelo eirado está em todos os três Si­ nóticos. Jesus enfrenta a objeção feita contra o perdão dos pecados que pronunciara, operando um milagre expressamente “para que saibais que o Filho do homem tem sobre a terra autoridade para perdoar pecados1’ (24). E o povo reagiu como quem está na própria presença de Deus. 17. Mais uma vez, Lucas não localiza o incidente (Marcos nos diz que era em Cafarnaum). Até esta altura, Jesus já tinha uma reputação con­ siderável, pois fariseus vieram até mesmo da Judéia e de Jerusalém, bem como de localidades próximas. Os fariseus levavam sua religião muito a sério. Eram tão ansiosos para não quebrar os mandamentos de Deus que “colocavam uma cerca em derredor da lei.” Por exemplo, quando a lei dizia: “Não tomaras o nome do Senhor teu Deus em vão” iam além, ao recusar-se a pronunciar o nome de modo algum. Esta cerca de todas as es* tipulações da lei (“as tradições dos anciões”) tinha o resultado infeliz de externalizar a religião. Os homens dedicavam muito esforço à parte


exterior sem necessariamente chegar a amar a Deus com seu coração. Os fariseus não eram numerosos (Josefo coloca a cifra um pouco além de 6.000, Antiguidades xvii, 42), mas tinham muita influência. Eram os líderes religiosos nío-oficiais daqueles dias, e lideravam a oposição a Jesus. Lucas nos informa, ainda, que o poder do Senhor (i.é, Deus) esta­ va com ele para curar. 18,19. Alguns homens (Marcos nos conta que eram quatro) trou xeram um paralítico no seu leito. Por causa da multidão, não podiam pô-lo diante de Jesus, de maneira que o levaram para o eirado. As casas usualmente tinham telhados rasos, freqüentemente com escadarias ex­ ternas que levavam a eles. Destarte, a multidão não era impecilho para estes homens chegarem ao eirado. Ali, o desceram no leito, por entre os ladrilhos. Marcos nada diz acerca dos ladrilhos (não diz de que era feito o eirado), mas diz que “descobriram o eirado” e que “fizeram uma aber­ tura.” A maioria dos comentaristas dizem que as casas da Palestina não tinham eirados com ladrilhos, e que Lucas descreveu casas que conhecia doutras localidades, mas não uma casa palestiniana. Mas segundo o NDB18 o telhado com ladrilhos “veio a ser usado antes dos tempos do Novo Tes­ tamento.” 20. Parece que nada foi dito, mas a ação foi um apelo mudo. De­ monstrava sua fé Note-se que a fé dos amigos é importante (para outros exemplos da fé que tinha valor para outras pessoas cf. 7:9-10; 1 Co 7:14). Realmente, alguns sustentam que é somente a fé deles que está em mente. Mas isto parece improvável. Primeiramente, o plural inqualiíicado lhes deve abranger o grupo inteiro, o doente bem como seus amigos, e, em se­ gundo lugar, é impossível achar que os pecados do homem foram perdoa­ dos se ele não tivesse fé pessoal. As primeiras palavras de Jesus têm a ver com o pecado, e não com a doença. Com linguagem autorizada, disse: Homem, estão perdoados os teus pecados. Isto é muito importante. Man­ son sustenta que “aquilo que o incidente visa ressaltar primariamente é que a autoridade de Jesus na religião começa com o perdão dos peca­ dos. Vem para libertar as almas da paralisia da energia moral e espiri­ tual.” Rejeita o argumento de Bultmann no sentido de o perdão dos pe­ cados ser um acréscimo doutrinário posterior, e o vê (ao meu ver, corre­ tamente) como sendo, pelo contrário “o âmago da narrativa original,” 21. Estas palavras produziram uma reação dos escritas e fariseus. Os escribas eram homens formados na lei (cf. “mestres da lei,” 17) e po­ deriam ser fariseus ou saduceus (Lucas os vincula com os fariseus cinco 18. NDB, art. “Casa.”


vezes e com os principais sacerdotes sete vezes). Este grupo da oposição vê corretamente que somente Deus pode perdoar o pecado, mas supQe incorretamente que Jesus é culpado da blasfêmia. Nio param para per­ guntar se o relacionamento de Jesus com o Pai é tal que pode, na reali­ dade, perdoar. Lucas, aliás, tem um pendor para perguntas que come­ çam com “Quem?” e que se referem a Jesus (7:49; 8:25; 9:9, 18, 20; 19:3). 22,23. Jesus conheceu-lhes os pensamentos. Lia os pensamentos ao invés de ouvir o que diziam (cf. em vossos corações e também Mc 2:8). Jesus respondeu ao fazer umas perguntas também. Superficialmente, pa­ rece mais fácil dizer Estão perdoados os teus pecados do que Levanta-te e anda. Esta última declaração pode ser submetida a um teste óbvio e imediato, ao passo que o espectador nfo sabe se os pecados foram per­ doados ou nio. Talvez seja este o sentido da pergunta. Mas não é impro­ vável que Jesus esteja dizendo que é muito mais difícil realmente pro­ nunciar a palavra do perdáo do que a palavra da cura. Estava fazendo mais do que os médicos dos Seus dias podiam fazer. 24. Jesus realiza a cura para que saibais que o Filho do homem tem sobre a terra autoridade para perdoar pecados. Suas palavras acerca do perdão e da cura vão juntas. Se pode fazer uma destas coisas, pode fazer a outra. Os judeus daqueles dias pensavam que toda a doença fosse devida ao pecado (cf. Jo 9:2). “R. Alexandri disse em nome de R. Hiyya b. Abba: O doente nio sara da sua doença até que todos os seus pecados lhe forem perdoados” (Nedarim 41a). Se fossem consistentes, portanto, devem ter aceito o perdáo do homem! Este é o primeiro emprego que Lucas faz da expressão o Filho do homem , que empregará, ao todo, vinte e seis vezes. É a designação predi­ leta de Jesus para Si mesmo, e acha-se mais de 80 vezes nos Evangelhos, e isto em todos os estratos que os críticos discernem em todos os quatro Evangelhos. É empregada somente por Jesus (excetuando-se Estêvão em At 7:56). Parece ser Sua maneira de referir-Se ao Seu messiado com o emprego de um termo que não despertaria as associações erradas nas mentes dos homens.19 O Filho do homem, pois, falou a palavra da cura e ordenou o paralítico que tomasse seu leito e fosse para casa. 25,26. A cura ocorreu imediatamente. O homem fez conforme Jesus lhe ordenara. Bengel comenta sobre tomando o leito em que per­

19. Ver mais, Leon Morris, The Lord fromHeaven (Londres, 1974), cap. 2. (Trad, em português pela Núcleo, Portugal).


manecera deitado, “Uma expressão feliz. O leito carregara o homem: agora o homem estava carregando o leito.” Somente Lucas nos conta que foi embora glorificando a Deus. A cura não se centraliza no Jesus humano: foi a Deus que o homem gloriflcava. Lucas passa a nos contar a reação dos circunstantes. Eles, também, viam a mão de Deus, pois davam glória a Ele, e ficavam possuídos de temor (a emoção apropria­ da na presença da divindade). O comentário deles foi: Hoje vimos pro­ dígios , ou “coisas além da expectativa;” cf. Moffatt: “Hoje vimos coisas incríveis.” A inventividade humana não poderia explicar o que aconte­ cera.

e. A vocação de Levi (5:27-32)

27,28. Jesus saiu, talvez da casa, embora alguns pensem que fosse da cidade, porque sustentam que a coletoria deve ter ficado fora da cidade. Viu Levi assentado na coletoria, que provavelmente significava em frente dela; se estivesse dentro do escritório, não teria sido fácil para Jesus vê-lo e chamá-lo. Seu nome é citado como Mateus em nosso Pri­ meiro Evangelho (e nas listas dos apóstolos em Marcos e Lucas). Para publicano (telõnês) ver a nota sobre 3:12,13. 0 sistema romano de alugar os direitos da taxação deve ter estado em vigor, embora os impostos desta área fossem pagos a Herodes Antipas, a quem os romanos alocaram as rendas (Josefo, Antiguidades xvii. 318). Os impostos que Levi coletava provavelmente fossem direitos de pedágio e alfandegários, ao invés de im­ postos per capita e similares. Os cobradores de impostos eram figadalmente odiados tanto como colaborares com os romanos quanto como extorcionistas. Como classe, eram considerados desonestos, e o Talmude os classifica como salteadores (Sanhedrin 25b). Jesus viu Levi e nada mais lhe disse senão: Segue-me\ Levi, deixando tudo (detalhe este que se acha somente em Lucas), o seguiu, Isto deve ter representado um sa­ crifício considerável, porque os publicanos eram normalmente ricos. Mateus deve ter sido o mais rico entre os apóstolos. Não devemos deixar de perceber o heroísmo envolvido nisto. Se seguir a Jesus não tivesse dado certo para os pescadores, poderiam ter voltado para sua profissão sem dificuldade. Mas quando Levi deixou seu emprego, acabou com tudo. Decerto, nunca aceitariam de volta um homem que simplesmente abando­ nara seu escritório de impostos. Quando seguiu a Jesus, foi uma dedicação definitiva. 29. Mas é claro que deu o passo, não num espírito de resignação


austera mas, sim, com as bandeiras desfraldadas. Não sentia qualquer pe­ sar; pelo contrário, reuniu um grupo numeroso para um grande banquete para celebrar (para as cenas de jantares em Lucas, ver 7:36; 8:12ss.; 10:38ss.; 11:37; 14:1; 19:7; 22:14; 24.30, 41ss.). Fica claro que Levi achava alegria emocionante em deixar as riquezas por Cristo. E provavel­ mente queria apresentar alguns dos seus associados ao seu novo Senhor. "O homem convertido nSo desejará ir para o céu sozinho” (Ryle). 30. Os fariseus não devem ter estado na recepção. Talvez a casa estava aberta, de modo que percebiam o que estava acontecendo; ou é possível que Lucas esteja nos informando da reação posterior deles quan­ do chegaram a ouvir o que acontecera. Eles e seus escribas (alguns escribas eram saduceus, mas muitos pertenciam ao partido dos fariseus) mur­ muravam contra os discípulos, i.é, queixavam-se deles. Com suas regras severas da pureza cerimonial, era impensável que tivessem comido junta­ mente com pessoas tais como Levi e seus associados. Alguns membros de semelhante grupo forçosamente seriam cerimonialmente impuros, e não havia modo mais seguro de receber contaminação por contágio do que as­ sociar-se com pecadores. Além disto, comer juntamente com um homem significava amizade, plena aceitação. Destarte, criticavam os discípulos. Como é que pessoas que professam ser religiosas toleravam pecadores tais como estes? 31,32. Os fariseus dirigiram suas queixas contra os discípulos, mas foi Jesus quem respondeu. Com lógica irretorquível, indicou que são os doentes, e não os sãos, que precisam do médico. Seu trabalho era en­ tre os pecadores. Não viera, no entanto, para deixá-los no seu pecado. Chamava-os ao arrependimento. À referência de Jesus aos justos é, natural­ mente, irônica. Mas os fariseus se consideravam assim, e, segundo as pre­ missas deles mesmos, a conduta de Jesus era justificada. O fato de que deixaram de tomar-se discípulos talvez tenha conexão com o fato de que o arrependimento não é fácil para os respeitáveis e os justos aos seus pró­ prios olhos. Lucas está muito interessado no tema do arrependimento, e o desenvolve muito mais plenamente do que Mateus ou Marcos (ver 3:3, 8; 10:13; 11:32; 13:3, 5; 15:7,10; 16:30; 17:3,4; 24:47). f. Do jejum (5 :33-39) 33. Os discípulos de Jesus eram alegres demais. Não praticavam jejuns tristes, e isto deixava perplexas algumas pessoas. Embora o único jejum estipulado na lei fosse aquele no Dia da Expiação, o jejum era pra-


ticado pelos seguidores de João Batista e por aqueles dos fariseus. Pergun­ taram a Jesus, portanto, por que Seus discípulos nio se conformavam a esta prática generalizada. A referência à orações provavelmente dizia respeito a orações prescritas em horários estabelecidos. Lucas deixa mui­ to claro que Jesus e Seus seguidores oravam freqüentemente. E até mes­ mo aqui, embora Jesus concorde que Seus seguidores nio jejuam, não diz a mesma coisa acerca da oração. 34,35. “Os hóspedes num casamento nio jejuam” é a essência da resposta de Jesus. Sua presença traz alegria como aquela de uma fes­ ta de casamento. Realmente seguir a Jesus é entrar numa experiência alegre. Enquanto Ele está com eles, os discípulos nio podem jejuar; mas prevê um dia em que Ele lhes será tirado. Esta certamente é uma referên­ cia à cruz. Talvez haja uma noção de violência no verbo aparthê. Quando assim acontecer, jejuarão. Jesus não diz “serão obrigados a jejuar” (cf. a pergunta no v. 34), e parece Se referir ao jejum voluntário. 36. Acrescenta uma parábola (a palavra pode denotar um dito curto e expressivo, e não somente uma história). Deriva-se da prática comum do lar, de remendar roupas. Remendar uma veste velha com um pedaço arrancado de uma nova é estragar ambas, pois a nova fica rasgada e a velha fica com um remendo que não combina com ela. A versão de Marcos é um pouco diferente. Fala de um pedaço de pano não encolhi­ do usado como remendo; sua força maior o fará arrancar-se do pano velho, fazendo, assim, um rasgo pior do que aquele que remendara. Claramen­ te esta ilustração foi usada mais de uma vez, em formas levemente dife­ rentes. 37-39. Outra ilustração é tirada dos odres. A carne e os ossos de animais, usualmente cabras, eram removidos, deixando as peles intactas. Podiam então ser usadas como recipientes para líquidos. De início, eram razoavelmente elásticas, mas quando ficavam velhas, faltava-lhes esta qua­ lidade, e poderiam facilmente romper-se sob a pressão. Jesus diz que vinho novo colocado em odres velhos importa no rompimento dos odres e no derramamento do vinho. Vinho novo deve ser posto em odres novos. Tanto esta ilustração como a anterior ressaltam a lição de que Jesus não está simplesmente remendando o judaísmo. Está ensinando alguma coisa radicalmente nova. Se for feita a tentativa de limitá-la dentro dos odres velhos do judaísmo (e.g., pela imposição de jejuns), o resultado será de­ sastroso. Jesus vê que este ensino não será conforme o gosto dalguns. Um homem que está bebendo vinho velho nem sequer deseja provar do novo. O velho é excelente, diz ele. Está tão satisfeito com o velho que nem sequer por um momento considera o novo.


g. 0 emprego certo do sábado (6:1-11) Todos os quatro Evangelhos deixam claro que um ponto principal no con­ flito entre Jesus e as autoridades judaicas dizia respeito à maneira de guar­ dar o sábado. Os judeus levavam o sábado a sério (um tratado inteiro da Mishna é dedicado a ele). Muitos estudiosos da rabínica sustentam que o sábado era um deleite, mas as regras para observá-lo eram certamente de­ talhadas e repressivas. O que há de interessante na abordagem de Jesus é que não estava simplesmente argumentando que os regulamentos repres­ sivos devessem ser relaxados e uma atitude mais liberal adotada. Estava dizendo que Seus oponentes deixaram de enxergar a própria razão de ser deste dia santo. Se o tivessem entendido, teriam percebido que atos de misericórdia como os dEle não eram meramente permitidos —eram obri­ gatórios (cf. Jo 7:23-24). i. O Senhor do sábado (6:1-5). A ação dos discípulos em colher e comer grãos deu início a uma disputa que levou ao pronunciamento notável de Jesus de que Ele é Senhor do sábado. 1,2. Certo sábado, enquanto Jesus caminhava pelos campos de cereais, Seus discípulos colhiam e comiam espigas. Os viajantes tinham o direito de tirar algo para satisfazer sua fome (Dt 23:25). A objeção foi feita, não à ação em si mesma, mas, sim, à sua realização no sábado. Os fariseus achariam no ato de colher as espigas uma quebra do regula­ mento que proibia a ceifa, e no ato de esfregá-las nas mãos, a quebra da proibição da debulha. Jogar de lado as palhas provavelmente representa­ va o joeirar, ao passo que o ato de comer demonstrava que tinham pre­ parado uma refeição. Quatro quebras distintas do sábado numa bocada só! O Talmude considera o ceifar e moer grãos num volume não maior do que um figo seco como ato culpável (Shabbath 70b), de modo que as quantias pequenas eram significantes. 3,4. Jesus respondeu, dirigindo a atenção dos fariseus à ação de Davi quando comeu os pães da proposição (1 Sm 21:3-6). Este era pão preparado de modo especialmente previsto e destinado para o uso somente no culto do templo (Lv 24:5-9). A ação de Davi era tecnica­ mente uma quebra da lei, porque somente os sacerdotes deveriam comer deste pão (Lv 24:9). Mas a necessidade do seu grupo sobrepujava os de­ talhes legais, e ninguém o culpava. A necessidade humana não deve ser sujeitada ao legalismo estéril. 5. Jesus agora acrescenta outra justificativa, bem diferente. Pro­ clama que Ele, o Filho do homem, é Senhor do sábado. Esta é uma ale­ gação estonteante, pois o sábado era divinamente instituído (Êx 20:8-


11). Ser senhor de uma ordenança divina é ocupar um lugar muitíssimo elevado. Alguns entendem que Filho do homem significa “o homem” (con­ forme o original aramaico freqüentemente significa). Entendem que o versículo significa que o homem é supremo sobre o sábado. Isto se en­ caixaria bem com o evento anterior; mas há dificuldades. Jesus nunca ensinou que o homem é senhor sobre uma instituição divina. Além dis­ to, nos Evangelhos Filho do homem invariavelmente se refere a Jesus. Certamente está Se referindo à Sua função messiânica. Talvez seja rele­ vante que esta declaração segue uma referência à ação de Davi. É o Fi­ lho de Davi que é Senhor. Se Davi podia sobrepujar a lei sem culpa, quan­ to mais o Filho de Davi, muito maior, poderia fazê-lo? ii. Curando a mão ressequida (6:6-11). Lucas enfatiza sua liçã ao acrescentar a história de um milagre que Jesus operou no sábado. É uma demonstração prática da Sua soberania sobre o dia e sobre a enfer­ midade. Os rabinos não objetavam à cura no sábado se houvesse qual­ quer perigo à vida, e interpretavam isto de modo liberal. “Sempre que há qualquer dúvida se a vida corre perigo, esta sobrepuja o sábado” ( Yo ma 8:6). Se, porém, não havia perigo, eram inflexíveis. Tal cura não era permitida. 6. Lucas arma o palco. Mais uma vez, não data seu incidente com precisão, mas meramente o localiza em outro sábado. Jesus estava ensi­ nando na sinagoga onde estava presente um homem com uma mão resse­ quida. Tipicamente, Lucas nos conta que era a mão direita que estava afetada. Ressequida é uma palavra usada de plantas ou de madeira seca. Aqui, parece indicar alguma forma de atrofia muscular. 7, Mais uma vez, a oposição advém de os escribas e os fariseus. Observavam-no (o verbo significa “observar atentamente”) na esperança de vê-Lo curar e de assim acharem matéria para uma acusação. Estavam interessados na acusação, e não na cura. 8,9. Jesus sentiu o desafio, e o enfrentou diretamente. Luca não nos diz como conhecia-lhes os pensamentos. Provavelmente seja esta uma das maneiras de ele ressaltar a divindade de nosso Senhor. Jesus chamou o homem com a mão inutilizada a vir ficar em pé com Ele, decer­ to num lugar de destaque onde não haveria qualquer dúvida quanto aquilo que acontecia. Então dirigiu-Se à oposição, desafiando-a com a pergjmta: É licito no sábado fazer o bem ou o mal? Não contempla a pos­ sibilidade da neutralidade. “Jesus não reconhece qualquer alternativa à prática do bem senão a prática do mal. A recusa de salvar a vida é o equi­ valente de tirar a vida” (Manson). Não há nenhum caminho no meio. O homem diante dEle estava vivendo uma vida incapacitada. Não fazer na­


da no sábado era destruir a vida. Jesus veio salvar. 10. Tendo colocado Suas alternativas, Jesus fez uma pausa mo­ mentânea enquanto fitava a todos ao derredor. Tiveram, assim, uma opor­ tunidade de responder-Lhe, mas não podiam aproveitá-la. Destarte, Jesus ordenou que o homem estendesse a mão. Ao fazê-lo, achou-a restaurada. 11. O efeito sobre os fariseus e seus aliados é que se encheram de furor. Podemos compreender que ficaram zangados porque Jesus os de­ safiara e saíra vencendo. Mas não parecia haver coisa alguma que pudes­ sem fazer, que é provavelmente a razão da discussão entre eles. Jesus co­ locara o caso diante deles, perguntou o que seria certo, e não recebera resposta alguma. Poderia declarar com razão que receberam a oportuni­ dade para dizer o que deveria ser feito, mas que se recusaram a aprovei­ tá-la.

h. A escolha dos Doze (6:12-16) 12. Mais uma vez, a referência ao tempo em Lucas é vaga {Naque­ les dias). Não está dedicando sua atenção à seqüência exata. Jesus estava enfrentando uma decisão momentosa. Os incidentes anteriores demons­ traram que Seus inimigos estavam aumentando. Um dia, O matariam. O que deveria Ele fazer? Caracteristicamente, Lucas nos diz que Ele orava. E então, escolheu um grupinho de homens que continuariam Sua obra depois dEle. 13. Ao amanhecer, Jesus chamou a si os seus discípulos. Deve tratar-se de um grupo de pessoas que se ligaram a Ele de modo informal. Um discípulo era um aprendiz, um estudante. No século I, o estudante não estudava simplesmente uma matéria; estudava com um mestre. Há um elemento de ligação pessoal no “discípulo” que falta no “estudan­ te.” Deste grupo maior de aderentes, Jesus escolheu doze. Este é o nú­ mero das tribos de Israel, número este que significa que Jesus estava es­ tabelecendo o povo de Deus, o verdadeiro Israel. Em Jesus e nos Seus seguidores “as pessoas podiam ver uma dramatização do quadro vétêrotestamentário de Deus trazendo as doze tribos de Israel à terra prome­ tida” (Tinsley). Jesus nunca estabeleceu uma organização. Estes doze ho­ mens representam a totalidade da Sua máquina administrativa. Alguns de­ les eram claramente homens de destaque, mas, de modo geral, parecem ter sido nada mais do que medianos. A maioria deles deixou pouquíssimas marcas na história da igreja. Jesus preferia operar, naqueles tempos como também agora, através de pessoas perfeitamente comuns.


A estes doze Jesus deu o nome de apóstolos. 0 termo é derivado do verbo “enviar" e significa “uma pessoa enviada ” “um mensageiro.” Lucas emprega a palavra seis vezes (com mais vinte e oito em Atos), ao passo que cada um dos demais Evangelistas a emprega uma só vez (é possível que Marcos a tenha duas vezes, dependendo da solução de um problema tex­ tual). Nos Evangelhos, o grupo usualmente é referido simplesmente como “os doze.” Marcos explica que Jesus os escolheu “para estarem com ele e para os enviar a pregar, e a exercer a autoridade de expelir demônios” (Mc 3:14-15). Esta expressão ressalta a noção de missão e a centralidade da pregação na sua função. 14-16. Há variações mínimas na ordem, mas se dividirmos os no­ mes em três grupos de quatro, os mesmos nomes ocorrem em cada grupo em todas as nossas listas, O mesmo nome lidera cada grupo, embora va­ rie a ordem dentro dos grupos. O primeiro nome em todas as listas é Simão. Jesus lhe deu outro nome, Pedro, que significa “Rocha.” Deste mo­ mento em diante, Lucas sempre emprega este nome, e nio Simão co­ mo anteriormente. Não diz quando o nome foi dado (ver Jo 1:42). O ou­ tro Simão é chamado Zelote. Talvez tenha pertencido ao grupo radical dos “Zelotes” que eram notórios por sua resistência violenta a Roma, ou o nome pode sógerir que era caracterizado por um zelo fogoso. Para Ju­ das, füho de Tiago (outra vez em At 1:13) Mateus e Marcos têm Tadeu, que parece ser outro nome para o mesmo homem. Todas as três listas co­ locam Judas Iscariotes no fim, e mencionam sua traição, mas somente Lucas diz que se tomou traidor. Parece que era fiel no início. Iscariotes provavelmente significa “homem de Queriote,” uma cidade na Judéia (Js 15:25) ou em Moabe (Jr 48:24). Se for assim, Judas era o único nãogalileu entre os Doze.

i. O sermão na planície (6:17-49)

Mateus dedica três capítulos ao Sermão da Montanha. O sermão de Lucas numa planura tem muitos paralelos, mas é muito mais curto. Além disto, no entanto, tem muita matéria semelhante espalhada pelo seu Evangelho afora. Muitos acham que o mesmo sermão subjaz os dois relatos, e usual­ mente sustentam que Mateus o suplementou ao juntar matéria de uma variedade de contextos Q. Isto é possível, mas as diferenças são muitas. Os pregadores usualmente fazem uso da mesma matéria, ou de matéria semelhante, em sermões diferentes, especialmente se falam sem notas escritas. Este hábito dos pregadores parece ser uma explicação da com-


binação de semelhanças melhor do que a atividade editorial extensiva. Este sermão começa com as bem-aventuranças e os ais, e passa a tratar do tipo de conduta apropriada para aqueles que estão dentro do reino, sendo que ressaltam-se especialmente o amor e a importância de não julgar aos outros. O princípio de que a árvore é conhecida pelos seus frutos é destacado, e Jesus termina, tirando a semelhança entre a atitude dos Seus ouvintes e a de um homem que edifica uma casa. A ca­ da passo, ficamos lembrados daquilo que significa ser um discípulo. Nio se trata apenas de palavras nobres, mas, sim, de uma maneira total de viver. i. A multidão (6:17-19). Lucas nos conta como uma multidão se reuniu. Jesus ficou em pé numa plattura (talvez no lado da montanha; não é a palavra comum para uma planície). Foi acompanhado por muitos discípulos seus, mas também por grande multidão do povo. Alguns que ainda não tinham pleiteado sua lealdade a Jesus foram atraídos por rela­ tos acerca do Seu ensino e queriam ouvir mais. Alguns queriam uma cu­ ra. Vieram de grandes distâncias, de Jerusalém no sul distante, e de Tiro e Sidom, no norte distante. Os enfermos foram curados, e Lucas menciona especialmente os atormentados por espíritos imundos (ver sobre 4:33). Jesus curava a todos. ii. As bem-aventuranças (6:20-23). Juntamente com os ais que se seguem, estas bem-aventuranças revelam o vazio dos vjilores do mundo. Exaltam aquilo que o mundo despreza e rejeitam aquilo que o mundo admira. 20. Jesus olhou para seus discípulos, para os quais as palavras que se seguem são evidentemente endereçadas. Pronunciou uma bemaventurança sobre eles por serem pobres (cf. 4:18). Não está abençoan­ do a pobreza em si mesma: ela pode ser tão facilmente uma maldição quanto uma bênção. É dos Seus discípulos que Jesus fala. São pobres e sabem que não têm recursos. Dependem de Deus, e forçosamente têm de depender dEle, pois nada têm deles mesmos em que poderiam con­ fiar. É neste espírito que no Antigo Testamento “os pobres” são fre­ qüentemente quase os equivalentes dos “piedosos” (e.g. Sl 40:17; 72:2, 4). Mateus ressalta o significado com “pobres de espírito.” Os ricos deste mundo são freqüentemente auto-confiantes. Os pobres não são assim. Estes homens humildes recebem o reino de Deus (ver sobre 4:43). Notese que Jesus diz vosso é, e não ‘Vosso será.” Os pobres entram no reino agora. 21. Em Mateus há o acréscimo “e sede de justiça” depois da bem-aventurança sobre os que têm fome. É para tornar explícito aquilo


que é implícito aqui. Mas é típico que Lucas enfatiza a necessidade. Sio aqueles que têm a necessidade que serio fartos. Mateus nio tem nenhum equivalente à bem-aventurança em Lucas sobre vós os que agora chorais. Encaixa-se com as duas bem-aventuranças anteriores. Não pode significar aqueles que acalentam alguma mágoa pessoal, mas, sim, deve referir-se às pessoas que sio sensíveis à maldade, diante da rebeldia do mundo contra Deus, e do sofrimento do mundo como conseqüência. Sio aque­ les que vêem estas realidades da vida que finalmente hio de rir. 22,23. Jesus continua com Suas bem-aventuranças inesperad sendo que esta é reservada para os perseguidos. Nio é do sofrimento em geral que Ele fala, mas sim, o sofrimento por causa do Filho do ho­ mem. Aqueles que assim sofrem nio sio objetos de dó: sio bem-aventurados. Jesus lhes diz: Regozijai-vos e exultai. Têm um galardio eterno. E estâo dentro de uma sucessio piedosa: os profetas foram tratados da mesma maneira. 0 povo de Deus nada pode esperar de diferente. Jesus prometeu aos Seus seguidores que seriam absurdamente felizes; mas também que nunca estariam livres de problemas. iii. Os ais (6:24*26). Estes ais, que sio achados somente e Lucas, formam o correlativo natural às bem-aventuranças. Pronunciam um veredito surpreendente sobre qualidades e estados que os homens universalmente têm considerado desejáveis. As bênçãos do mundo, no entanto, podem encorajar uma atitude independente para com Deus, uma atitude de auto-suficiência que é fatal ao crescimento espiritual. Ai nio transmite a força exata do ouai de Jesus. É mais como uma expressio de pesar, de lástima e compaixão, e nio uma ameaça; como “que terrível” (TEV). 24. O primeiro ai é para vós, os ricos. Nio é dirigido aos discí­ pulos, porque nio eram ricos. Pode ser o correlativo natural de “vós, os pobres” (20). Ou talvez Jesus Se dirigisse aos ricos na “grande multidio” (17). A riqueza predispõe os homens a pensar que nio têm necessidade de coisa alguma. Passam entio a depender das riquezas, e nio de Deus. A atitude deles é bem oposta àquela que é recomendada (20). Aos ricos Jesus diz: tendes a vossa consolação. O verbo que usa é freqüentemente empregado em recibos com o significado de “Integralmente pago” (ver MM). A expressio “já tiveram tudo!” é uma ilustraçio contemporânea interessante do significado. Quando tudo quanto um homem tem é a ri­ queza mundana, é muito pobre mesmo. Esse tipo de prosperidade acom­ panha um vazio no íntimo. Nunca devemos confundir o conforto com a bem-aventurança. 25. Vós o$ que estais agora fartos tem um significado muito seme­


lhante a ‘Vós, os ricos,” mas há mais ênfase dada ao estado das respecti­ vas pessoas. Não somente sio ricos como também têm tudo quanto que­ rem. Nada lhes falta. As pessoas que vivem pensando que suas posses sio suficientes para tudo, que permitem que os bens materiais sejam tudo para elas, e que pensam que nio têm necessidade de Deus, sio assegura­ das: vireis a ter fome. Isto nio se refere necessariamente à fome física. Os satisfeitos normalmente permanecem satisfeitos durante a vida. Jesus está Se referindo à realidade final. No reino de Deus são estes homens que sio os indigentes. Um dia perceberio isto por si mesmos. Um comentário semelhante deve ser feito acerca de os que agora ri­ des. Obviamente, Jesus nio está levantando objeções contra o riso em si. Seu ministério inteiro foi um protesto contra a atitude de desmanchaprazeres. Gostava da vida e deve ter rido freqüentemente. E Seus discí­ pulos também. Há, porém, o tipo de risada que é a expressío da super­ ficialidade, e é esta folia sem conteúdo que terá de ceder lugar â lamen­ tação e ao choro. 26. É um perigo quando todos vos louvem, pois isto dificilmente poderia acontecer sem o sacrifício dalguns princípios. Há, é verdade, cer­ to sentido em que “ter bom testemunho dos de fora” (1 Tm 3:7) é impor­ tante. Mas isso é diferente da popularidade universal. Sio os falsos profe­ tas que obtêm a aclamaçio geral (cf. Jr 5:31). Um profeta verdadeiro é por demais incômodo para ser popular. iv. O amor (6:27-36). O coraçio deste sermio é a necessidade do amor. Jesus ressalta que Seus seguidores devem amar os que nio sio amáveis bem como os que os atraem. Havia várias palavras para “amor” em Grego. Jesus nio estava pedindo storgê, “afeição natural,” nem erõs, “amor romântico,” nem philia, “amor-amizade,” Estava falando de agapê, que significa o amor até mesmo dos indignos, o amor que nio é atraí­ do pelo mérito da pessoa amada mas, sim, o que procede do fato de que o que ama escolhe ser uma pessoa amorosa. 27. Amai os vossos inimigos nio oferece meio-termo. Conforme Mateus relata no seu dito equivalente, as pessoas têm disposição para amar seu próximo e odiar seu inimigo (Mt 5:43). Jesus, porém, vai além disto. O seguidor dEle nio pode ser seletivo no seu amor. Deve amar todos os homens, inclusive seus inimigos, no espírito do seu Mestre. Nio basta refrear-se de atos hostis. Deve fazer o bem aos que o odeiam. Para os ho­ mens que viviam num território ocupado, tais palavras devem ter soado estranhas. Os romanos nio devem ser resistidos e odiados e feridos? Pa­ ra os homens de fortes tendências nacionalistas, o ensino de Jesus era completamente imoral. Mas, conforme diz Caird: “Aquele que retalia


pensa que está resistindo à agressão de modo varonil; na realidade, está se entregando incondicinaimente ao mal.” 28. O amor do crente acha expressão nas suas palavras. Alguns o maldizem, mas ele os bendirá, o oposto daquilo que teria sido esperado, e daquilo que o mundo fará em situação semelhante. Alguns o caluniam Não deve retaliar da mesma forma. Deve orar por tais pessoas. 29. Jesus tira uma ilustração da violência física. A face ê siagõn, que é mais o queixo. Jesus está falando de um soco no lado do queixo mais do que acerca de uma leve palmada na face. A reação na­ tural a tal golpe é ferir de volta com força. Jesus dá a injunção aos Seus seguidores no sentido de oferecer o outro lado do queixo. Está falando acerca de uma atitude. Quando recebemos um dano, não devemos buscar vingança, mas, sim, devemos estar prontos se necessário a aceitar outro dano semelhante. 0 voltar literal do outro lado do rosto nem sempre é a melhor maneira de cumprir o mandamento (cf. a própria atitude de Jesus a um golpe, Jo 18:22*23). Certo humorista mundano aconselhou: “Sempre perdoe seus inimigos. Nada os enfurece mais.” É possível per­ doar externamente sem mostrar amor verdadeiro, Mas é o amor que Jesus procura. £ este amor que subjaz Suas palavras acerca da capa e da túnica (a capa, himation, era a roupa externa normal, e a túnica, o chitõn, era a veste interna usual). Não se deve reagir com ira contra a pessoa que tira a capa, mas, sim, deve deixá-lo ficar com a túnica tam­ bém. 30. Mais uma vez é o espírito do dito que é importante. Se os cris­ tãos tomassem este dito com literalidade total, haveria uma classe de indigentes santos, que nada possuiriam, e outra classe de desocupados e ladrões prósperos. Não é isto que Jesus está procurando mas, sim, uma disposição entre Seus seguidores para dar e dar e dar. O cristão nunca deve deixar o amor às posses refreá-lo de dar. O amor deve estar pron­ to a ser privado de tudo se necessário for. Naturalmente, em determina­ do caso talvez dar não seja o caminho do amor. Mas é o amor que deve decidir se vamos dar ou reter, e não a estima pelas nossas posses. Dá, aliás, está num tempo contínuo. Jesus está falando da atitude habitual, não do impulso generoso ocasional. 31. Jesus resume tudo na regra de ouro: Como quereis que os ho­ mens vos façam, assim fazei-o vós também a eles. Este princípio abrange a totalidade da vida. Se o homem viver por ele, precisa de pouco mais como sua orientação. Na sua forma negativa, a regra é pré-cristã. O gran­ de Hilel, por exemplo, disse a alguém que lhe fazia perguntas: “O que é odioso a ti, não faz ao teu próximo: aquilo é a Torá inteira, ao passo que +

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o restante é o comentário dela” (Shabbath 31a). A forma negativa também é achada na Epístola de Aristéias 207, e ensino semelhante é dado por uma variedade de sábios em muitas culturas. É significante, no entanto, que Jesus dá a regra na forma positiva, o que ninguém mais parece ter fei­ to. Não é suficiente para Ele que Seus seguidores se refreiem de atos que nio gostariam que fossem praticados contra eles. Devem também ser ati­ vos na prática do bem. 32-34. A natureza da atitude amorosa é ressaltada com três ilus­ trações da maneira em que os cristãos devem ser melhores do que os peca­ dores. Até mesmo homens que nio reconhecem qualquer lealdade a Deus praticam algumas virtudes. Amam aos que os amam. Retribuem o bem que é feito a eles. Emprestam àqueles que precisam de dinheiro se podem ter certeza de recebê-lo de volta, ou talvez confiam em receber empréstimos por sua vez quando eles mesmos tiverem necessidade (o verbo para em­ prestar, aliás, provavelmente quer dizer “emprestar com juros”)- Se os cristãos fizerem estas coisas, não estão fazendo mais do que o mundo faz. É fácil para o cristão congratular-se por alguma virtude que imagina que detecta em si mesmo. Mas antes de poder alegar que está obedecendo ao mandamento de Cristo, deve perguntar se está fazendo alguma coisa a mais do que os ptcadores fazem em circunstâncias semelhantes. 35,36. Mais uma vez, há a atitude positiva: primeiramente, amai os vossos inimigos, depois, fazei o bem , e depois, emprestai. Há uma dificul­ dade com a expressão seguinte. O contexto parece exigir um significado como sem esperar nenhuma paga, mas o verbo apelpizõ nunca tem este sig­ nificado noutros lugares. É usado no sentido de “desesperar-se (de)’*, dando o significado aqui de “sem nunca desesperar-se,” ou “sem desesperar-se de pessoa alguma.” Provavelmente, é melhor tomar a palavra no seu significado normal. Os cristãos devem emprestar, sem desesperar-se de nada e de ninguém. Jesus diz que quando Seus seguidores viverem as­ sim, será grande o vosso galardão. Nunca conclama os homens a servirem por amor a uma recompensa. Fazer assim não passa de trocar o egoísmo material pelo egoísmo espiritual. Mas insiste que o galardão existe: é um dos fatos da vida. Browning chama a atenção a uma observação feita por K. E. Kirk, de que uma recusa de contemplar um galardão tende a levar a um sutil egocentrismo: “Desvia a mente de pensar em Deus e a força de volta para o próprio-eu e seus próprios sucessos e falhas.” De qualquer maneira, o galardão cristão deve ser entendido em termos de comunhão com Deus e de oportunidades para mais serviço. Jesus passa a indicar que é vivendo neste espírito que cumprimos nossa vocação como membros da família celestial. Deus é benigno até para com os ingratos e maus. Ê


misericordioso. Suas boas dádivas, tais como o sol e a chuva, a sementei­ ra e a colheita, são enviadas a todos os homens, ao santo e ao pecador sem distinção. E “tal Pai, tal filho.” As qualidades que são vistas no Pai são as qualidades que os filhos devem adotar como alvo deles. v. Julgando outras pessoas (6:37*42). Certo número de ditos aqui aparecem em conexão frouxa. O tema unificante é a liderança. Em mais do que um deles há uma possível aplicação dupla, e nem sempre podemos saber qual delas Jesus tinha em mente, ou se as duas aplicações estavam em mira. Nesta seção, descobrimos que mais uma aplicação do amor que Jesus procura deve ser vista em nossa atitude quanto ao julgar nosso pró­ ximo, 37. A oposição de Jesus ao nosso julgar doutras pessoas é coloca­ da num mandamento peremptório: Não julgueis. Passa para a seqüência: e não sereis julgados. Segue-se uma injunção semelhante no sentido de evi­ tar a condenação dos outros, e uma instrução no sentido de perdoar. Em tudo isto, Jesus, naturalmente, não está rejeitando os processos legais. Não está pensando em tribunais e, sim, na prática por demais comum de as pessoas tomarem sobre si o direito de criticar e condenar o próximo. Isto, diz Ele, não devemos fazer. Não fica bem claro se não sereis julgados refe­ re-se ao julgamento presente pelos homens, ou ao julgamento futuro por Deus, ou ambos. Se somos severos em nossos julgamentos doutras pes­ soas, geralmente descobrimos que nos pagam na mesma moeda, e nos acha­ mos condenados em larga escala, ao passo que, se não pronunciamos jul­ gamentos contra outras pessoas, nossos vizinhos são lentos a nos conde­ nar. Mas as palavras também se aplicam a conseqüências mais permanen­ tes. O homem que julga aos outros convida o julgamento de Deus contra > ele mesmo. E o homem com atitude de perdão que é perdoado. Não se trata da salvação pelo mérito: pelo contrário, o verdadeiro discípulo não é rápido para julgar. Quando Deus aceita um homem, a graça de Deus o transforma. Um espírito de perdão é evidência de que o homem já foi perdoado. 38. O homem perdoado tem o coração aberto, e este tipo de co­ ração traz suas conseqüências. Jesus ordena Seus ouvintes a continuarem a dar, e os relembra que quando assim fazem, os homens correspondem de igual maneira. E não somente na mesma forma, pois Ele fala de boa medida, recalcada, sacudida, transbordante. A metáfora é tirada da manei­ ra de medir grãos de tal modo que garante que o máximo volume é dado. Generosamente: literalmente “no seu colo [kolpon\, com referência a uma dobra na veste externa que pendura sobre o cinto. Era usada como um tipo de bolso. Jesus termina esta seção lembrando-nos de que há


reciprocidade nos assuntos da vida. Recebemos de volta aquilo que em­ patamos na vida. Aparentemente está fazendo uso de um dito proverbial que, numa ou noutra forma, aparece em várias ditos rabínicos.20 39. Jesus agora volta-Se à responsabilidade que incumbe aos dis­ cípulos no sentido de fazerem mais discípulos. Emprega uma série de me­ táforas para ressaltar a importância de viverem no nível mais alto enquan­ to assim fazem. Fala primeiramente de um cego que procura guiar outro cego. Visto que o líder nio enxerga melhor do que o liderado, o único futuro para ambos é o desastre. Isto importa em problemas para aqueles que colocam sua confiança em pessoas tais como os fariseus. É uma ad­ vertência acerca da liderança que os seguidores de Jesus exercerão. O cris­ tão nio pode ter esperança de servir como guia para outras pessoas a nio ser que ele mesmo veja claramente para onde está indo. Se lhe faltar amor, não enxerga mesmo. Se alguém pessoalmente nio conhecer o caminho da salvação, somente poderá guiar os outros à desgraça. 40. A segunda ilustração relembra o pequeno grupo da sua posi­ ção como discípulos. Declarações algo semelhantes sio achadas noutros lugares (22:27; Mt 10:24; Jo 13:16). Claramente é um pensamento que Jesus expressou mais de uma vez e de modos diferentes. O progresso do estudante é limitado pelo ensino que recebe: nio pode saber mais do que seu mestre. Nio devemos entender isto em termos da nossa própria situa­ ção, em que as bibliotecas e outras facilidades colocam possibilidades ili­ mitadas diante do estudante. Jesus está falando de um tempo em que o discípulo somente tinha seu rabino como sua fonte de informação. Alegar que estava acima do seu mestre era o máximo da presunção. O único al­ vo do discípulo era ser como o seu mestre, e chegava a este ponto so­ mente depois de bem instruído. Esta última expressão traduz o verbo katartizõ, que tem um significado como “tornar digno” ou “completo.” É empregado paia consertar aquilo que está quebrado (Mc 1:19) ou para suprir plenamente (como quando o mundo foi “plenamente formado,” Hb 113). O seguidor de Jesus deve fazer da semelhança a Ele seu alvo. Nio pode deixar de lado o mandamento do amor, acreditando que está acima daquele nível. Mas o impacto principal do dito diz respeito aos mestres humanos. Visto que nio é razoável esperar que um discípulo saiba mais do que seu mestre, é importante que o próprio mestre esteja pessoalmen­ te bem adiantado no caminho cristão. Especificamente, deve resguardarse contra a cegueira espiritual e a falta de amor.

20. Ver SB, i, págs. 450ss,


41,42. Jesus repreende a hipocrisia com a ilustração do argueiro e da trave. Este é outro tema às vezes empregado pelos rabinos.21 Não devemos olvidar-nos do fato de que Jesus está bem disposto a inculcar Sua lição em tom humorístico. Ficamos tão freqüentemente impressio­ nados com a solenidade das questões envolvidas em boa parte do Seu ensino que nos esquecemos que Jesus tinha um senso de humor. Aqui, escolhe o método da paródia. Retrata o hipócrita com uma grande tra­ ve projetando-se do seu olho, enquanto procura cuidadosamente tirar uma partícula do olho do seu irmão. Mesmo assim, o humor da ilustra­ ção não deve cegar-nos diante da seriedade da lição que ensina. A leve imperfeição noutras pessoas está freqüentemente mais aparente a nós do que a grande imperfeição em nós mesmos. Jesus nos exorta ao rígido auto-exame antes de nos engajarmos no julgamento dos outros. É importan­ te remover a trave do nosso próprio olho. Não é importante nos preocu­ parmos com o cisco no olho do nosso irmão. E é impossível endireitar­ mos nosso irmão antes de termos liqüidado nossas próprias falhas. Não podemos ver com clareza suficiente para fazer este trabalho. vi. A árvore e o fruto (6:43-45). Os atos do homem mostram co­ mo é o seu coração. 43,44. Jesus não explica o que quer dizer com uma árvore boa ou uma árvore má, mas a declaração seguinte mostra que o tipo de fruto que a árvore produz está em mente. Figos e uvas são contrastados com espinheiros e abrolhos. Onde se trata da vida vegetal, fica claro que cada árvore tem seu fruto característico. Não se pode colher um certo tipo de fruto de qualquer árvore senão a apropriada. Todas as demais árvores produzem outros tipos de frutos. 45. Os homens bons, como as árvores boas, produzem bons frutos. O homem bom produz fruto bom do bom tesouro do coração. É aquilo que ele é na sua natureza íntima que determina qual fruto sua vida produ­ zirá, Assim acontece também com o mau. O mal no seu íntimo somente pode produzir o mal. O princípio é declarado no fim: porque a boca fala do que está cheio o coração. Sempre há um motivo para as palavras que falamos. Nossas palavras revelam o que está em nosso coração. vii. Fundamentos (6:46-49). Este sermão, como aquele em Ma­ teus, termina com uma lembrança impressionante da importância de agir à altura do ensino que Jesus deu. Há uma diferença quanto a um porme­ nor: em Mateus a diferença entre os dois homens é que escolheram terre­ nos diferentes para construir sobre eles; aqui, diferem quanto à sua ma-


neiia de edificar nos terrenos. 46. Parece que alguns já se mostraram falsos discípulos. Destarte, Jesus pergunta por que O chamam Senhor, Senhor, mas nio 0 obedecem. Chamar alguém de “Senhor” é reconhecer que lhe é devida a lealdade. Repetir o trato é colocar certa ênfase sobre esta confissão. Mas as palavras nio sio substituto para a obediência. 47,48, Jesus agora fala do homem que presta atençio àquilo que Ele diz. Este homem é como um construtor que cavou, abriu profunda vaIa e lançou o alicerce sobre a rocha. Esta obra é essencial para construir solidamente, mas gasta muito tempo e é trabalho pesado. Alguns, portan­ to, a evitam. Quando, porém, chegarem as tempestades e as enchentes, a casa com alicerces na rocha ficará firme. O trabalho pesado acabou valen­ do a pena. Fica claro o paralelo na vida espiritual. Quando chegar o teste final no dia do juízo, é o fundamento sobre o qual nossa vida é edificada que importará (cf. 1 Co 3:11 ss.). As palavras certamente têm uma aplicaçio às tempestades desta vida. O homem com um bom fundamento nio é facilmente perturbado pelas dificuldades da vida; mas é o teste supremo e final que está especialmente em mira aqui. 49. 0 caso é diferente quando a casa está edificada sobre a terra sem alicerces. Arrojando-se o rio contra a casa edificada desta maneira, logo desabou. Nio poderia resistir o ataque. Assim é o homem que ouve o ensino de Jesus mas nio age de acordo com ele. Está edificando sua vida sem fundamento. Pode ter toda a aparência externa da respeitabilidade e pode ser notável por suas observâncias religiosas, mas faltando-lhe um fundamento, nio é nda. j. A cura do servo de um centurüo (7 :1-10).

Para um escritor que se interessa pelos gentios, esta é uma história signiflcante. Nio se diz no relato de Lucas que o oficial gentio viu a Jesus mas, sim, abordou-0 através de intermediários judeus, e foi recomenda­ do por causa da sua fé. Este era um encorajamento para os membros das igrejas gentias que nio tinham visto Jesus , mas que receberam o evangelho através de mensageiros judeus. Mateus também conta esta história, embora com algumas diferenças. Alguns sustentam que a cura do filho de um oficial do rei (Jo 4:46ss.) é uma variaçio da mesma histó­ ria, mas a evidência dificilmente apoia esta idéia.22 22. Ver meu comentário: The Gospel according to John (New London Commentary) (Londres, 1972), in loc,


1,2. Terminado Seu sermão, Jesus voltou a Cafarnaum. Lucas passa a nos contar de um centurião cujo servo estava doente. Original­ mente, um centurüo era um oficial que comandava cem soldados, mas no decurso do tempo o número era variável. Josefo fala de uma gradua­ ção de oficiais, com o decuriio abaixo do centuriffo (como o sargento abaixo do capitão) e do quiliarco e do hegemio acima dele (como o co­ ronel e o general) (Bettum v. 503). Moffatt traduz “capitão de exército” e este é provavelmente nosso equivalente mais próximo. Barclay cita o historiador Políbio para uma lista de qualificações procuradas nos centuriões: nio devem ser tanto “os que procuram o perigo quanto homens que podem liderar, firmes na luta, e fidedignos; nio devem ser demasia­ damente ávidos para correr para o meio da luta; mas quando são dura­ mente pressionados, devem estar prontos a manter sua posição e mor­ rer nos seus postos.” Claramente, homens de fortaleza e integridade eram exigidos para este cargo. Concorda com isto: que cada um dos centuriões dos quais o Novo Testamento nos dá conhecimento é um homem de caráter (cf. 23:47; At 10:22; 22:26; 23:17, 23; 2423; 27:1, 43). Este centurião era um gentio (3, 9), possivelmente um roma­ no alocado para servir com as forças de Herodes Antipas. Isto nio se sa­ be com certeza, pois alguns centuriões eram doutras raças, e, além disto, é possível que tenha havido um pequeno destacamento de romanos em Cafarnaum. A história mostra que este homem era humanitário, rico e piedoso. Mateus nos diz que o servo dele era paralítico. Lucas nio diz qual era a doença, mas torna claro que era séria. O servo estava quase à morte. O centurião estava preocupado, porque o servo era muito esti­ mado (entimos, que também pode significar “honrado”). 3-5. O centurião tinha ouvido falar a respeito de Jesus. Embora o conteúdo do relato nio é citado aqui, deve ter incluído alguma coisa acer­ ca das curas que Jesus operara. Destarte, o centurião enviou alguns anciios dos judeus com o pedido de que Jesus viesse curar o seu servo. À primei­ ra vista, parece surpreendente que um centurião romano pudesse enviar anciios judeus desta maneira, mas a razão fica sendo evidente quando falam a Jesus. Este nio era um centuriio comum. Os anciios concordam que é digno de receber a ajuda de Jesus. Mencionam especificamente duas coisas: o centurião tinha boa vontade geral para com o povo conquis­ tado, é amigo do nosso povo, e tinha dado expfessio àquela boa vontade ao ajudar o culto local, ele mesmo nos edificou a sinagoga. Nio fica certo de que ele era um adorador do Deus verdadeiro, mas um homem dificilmente teria empreendido tudo quanto está envolvido na constru­ ção de uma sinagoga sem algum interesse pelo Deus que era adorado ali.


É verdade que alguns romanos ajudavam a religião por causa de uma con­ sideração cínica pelos melhores interesses do Estado; mas este centurião era um homem de fé (9), e nio um cínico. Alguns conjeturaram que era “temente a Deus,” alguém que adorava a Deus mas que se recusava a tor­ nar prosélito do judaísmo, e isto não é improvável. 6-8. Jesus correspondeu ao pedido e foi com eles. Mas antes de che­ gar à casa, o centurião enviou amigos com um recado no sentido de Ele não precisar ir até lá. É um pouco curioso, visto que o pedido anterior foi para que Jesus “viesse” (3). No relato de Mateus, o homem falou di­ retamente a Jesus, e não se mencionam nem anciãos nem amigos. Há maneiras diferentes de tratar desta dificuldade. Alguns pensam em dife­ renças irreconciliáveis nos dois relatos, ao passo que outros as harmoni­ zam com a idéia de que o homem enviou mensageiros primeiro e depois foi em pessoa, Mas é melhor entender que Mateus abreviou a história e deixou fora detalhes que não eram essenciais ao seu propósito. Aquilo que um homem faz através de agentes, pode-se dizer que faz pessoalmen­ te. Mateus, portanto, dá a essência do comunicado que o centurião dirigiu a Jesus, ao passo que Lucas, com mais detalhes, dá a própria seqüência dos eventos. Talvez possamos discernir alguma coisa dos diferentes pro­ pósitos dos dois Evangelistas no seu tratamento dos mensageiros. Mateus estava ocupado primariamente com a fé e a nacionalidade do centurião: para ele, os mensageiros eram irrelevantes, até mesmo um distraimento. Lucas, porém, tinha interesse no caráter do homem, especificamente na sua humildade: para ele, os mensageiros eram uma parte vital da his­ tória. A mensagem do centurião começou: Senhor, não te incomodes, porque não sou digno de que entres em minha casa. O centurião era claramente um homem humilde. Não tinha conhecido Jesus pessoalmen­ te, mas sabia suficiente acerca dEle para Lhe dar um lugar de alta estima. E provável que também reconhecesse que um judeu religioso poderia ter escrúpulos quanto ao entrar na casa de um gentio. Continuou, dizendo: Por isso eu mesmo não me julguei digno de ir ter contigo . Os anciãos já tinham afirmado que ele era “digno” (4), mas na sua modéstia não alega­ ria tanto. Passou a deixar claro que não via ser necessário Jesus estar presen­ te a fim de efetuar uma cura. Tudo quanto era necessário era que mandas­ se com uma palavra (está considerando a palavra como sendo o instrumen­ to mediante o qual o propósito de Jesus seria efetuado). O poder estava na palavra que Jesus falava. Nada mais era necessário. O centurião pode ilustrar da sua própria experiência. Não precisaria de estar presente para


sua ordem cumprir aquilo que ele desejava. Podia dizer Vai ou Vem ou Faze isto e saber que em cada caso a sua palavra seria obedecida. Nio dis­ se: “Sou um homem com autoridade” conforme poderíamos ter esperado, mas, sim, Eu sou homem sujeito à autoridade. A humildade do homem res­ salta-se com sua referência à sua posição numa hierarquia graduada, quan­ do poderia muito bem ter falado apenas da sua superioridade àqueles que estavam abaixo dele. Suas palavras podem subentender que Jesus, como ele mesmo, recebia Sua autoridade de uma fonte superior. Nio há prova­ velmente qualquer relevância especial quando se refere aos soldados que vio e voltam conforme as ordens dele, e ao seu servo a quem fala Faze isto. O importante é que, de mais de uma maneira, no caso dos sol­ dados e dos servos, as ordens do centuriio sio obedecidas. 9. Jesus admirou-se dele. Somente duas vezes é que se registra que Jesus admirou-Se com pessoas, aqui, por causa da fé, e em Nazaré por causa da incredulidade (Mc 6:6). Jesus compartilhou com o povo a Sua surpresa. Voltou-se, a fim de ter a certeza de que o povo ouvisse Seu recado. Prefixou Sua declaraçio com Afirmo-vos, que decerto serviu o mesmo propósito. Esta era uma situaçio muito incomum, e Jesus nio queria que este grupo de israelitas perdesse o pleno impacto da Sua recomendaçio do militar. Continuou: nem mesmo em Israel achei fé como esta. Nio se trata de uma crítica de Israel, pois a implicação é que Jesus tinha achado fé ali, mas nio uma fé tio grande como aquela do centu­ rião. O que era surpreendente é que este gentio tivesse fé tio grande, fé maior do que aquela que se achava entre os israelitas, o povo de Deus. Uma pergunta intrigante é a natureza da fé que o homem tinha. Clara­ mente tinha fé de que seu servo seria curado. Mas é só isto? Num contex­ to cristio, falar da fé sem qualquer qualificação normalmente significa mais do que isto. Significa a confiança em Jesus e a aceitação dEle como Senhor (cf. v. 6). É possível que aquilo que este homem ouvira acerca de Jesus lhe impressionara com algo mais do que a certeza de que Ele podia curar enfermidades. Sempre deve permanecer possível que o cen­ turião nada mais tinha do que uma convicçio de que Jesus podia curar, e que dizer mais do que isto é introduzir o significado desenvolvido da fé que ficou sendo comum entre os cristios. Mas sempre permanece a impressão de que a ênfase que Lucas deu à sua fé significasse mais do que isto. 10. Lucas nio se refere a qualquer palavra de cura que Jesus fa­ lou (Mateus nos diz que Jesus disse: “Vai-te, e seja feito conforme a tua fé,” Mt 8:13; mas até isto é dificilmente uma “palavra de cura”). Simples­ mente diz que quando os mensageiros do centurião chegaram de volta à


casa encontraram curado o servo. Mateus diz que a cura ocorreu enquan­ to os homens estavam com Jesus, mas Lucas nos deixa tirar esta inferên­ cia. Não ressalta o fato. E nos deixa com a pergunta: Jesus foi além da­ quela grande fé, e curou sem sequer uma palavra?

k. O filho da viúva de Naim (7:11-17)

Esta história de uma ressurreição dentre os mortos é peculiar a Lucas, em­ bora haja outras ressurreições noutros lugares: a da filha de Jairo e a de Lázaro. Lucas ressalta a compaixão de Jesus bem como Seu poder. Pro­ vavelmente inclui a história a esta altura como preparativo para a respos­ ta aos mensageiros de João (22). 11. Em dia subseqüente liga a narrativa de modo pouco estrei­ to com a anterior. Naim é mencionada somente aqui na Bíblia. Geralmen­ te se sustenta que a localidade era a moderna Nein, cerca de 9 km ao su­ deste de Nazaré, nos encostos do Hermom Pequeno, a um dia de viagem de Cafarnaum. Para cidade ver sobre sobre 1:26. A numerosa multidão que ia com Jesus nos mostra quão popular Ele era neste período do Seu minis­ tério, Enquanto avançava de cidade em cidade, as pessoas se juntavam a Ele e iam juntas. 12. A chegada de Jesus em Naim coincidiu com a saída de uma procissão fúnebre. Lucas coloca o lugar de encontro perto da porta da cidade, lugar este que normalmente teria um bom grupo de cidadãos, pois era o lugar regular de encontro. Descreve o cenário ao contar-nos que o morto era o filho único de uma viúva. Esta é uma situação comovente. A mulher agora estava sozinha no mundo. Sem um protetor e ganha-pão masculino, ela deve ter ficado em dificuldades. Havia poucas oportunida­ des para uma mulher ganhar a vida no século I. E além da dificuldade e do senso de solidão e tristeza, havia o conhecimento de que a linhagem da família se acabara. A grande multidão da cidade que a acompanhava demonstra que a sua triste situação era geralmente compreendida e que ha­ via muita simpatia por ela. Lucas não menciona pranteadores profissionais, mas decerto estavam ali: “Até os mais pobres em Israel devem alugar não menos que duas flautas e uma carpideixa” ( Ketuboth 4:4) 13-15. Pela primeira vez num trecho de narrativa Lucas chama Jesus de o Senhor (título este que usa freqüentemente em contextos nãomarcanos; Mateus e Marcos não o usam desta maneira; João o usa ocasio­ nalmente). É indubitavelmente apropriado nesta cena em que Jesus Se re­ velará Senhor sobre a própria morte. Ninguém pediu que Jesus fizesse *


coisa alguma. Comovido com compaixão, agiu pela Sua própria inicia­ tiva. Primeiramente, dirigiu-se à viúva que chorava, e lhe disse que cessas­ se de chorar. Ela devia estar andando em frente do esquife,23 de modo que Jesus teria encontrado com ela primeiro. Depois, aproximou-Se do esquife onde jazia o corpo, envolto numa mortalha. Alguns argumentam que soros significa um “caixão,” mas MM mostram que também era usa­ do para um esquife. E, embora os judeus às vezes usassem caixões (Shabbath 23:4; Moed Katan 1:6), a prática deles era o uso do esquife aberto (e.g. Josefo, Antiguidades xvii.197; Vita 323). Está claramente pressupos­ to aqui. O ato de Jesus em tocá-lo importava em poluição de acordo com as leis cerimoniais, mas onde a necessidade humana estava em jogo nunca Se preocupava com detalhes cerimoniais. Quando tocou o esquife, para­ ram os que o conduziam. Nenhuma palavra lhes foi dirigida, mas claramen­ te viam que alguma coisa incomum estava acontecendo. Jesus passou a dirigir-Se ao cadáver com as palavras: Jovem, eu te mando: Levanta-te. E com a palavra de poder, Sentou-se o que estwera morto. Não há nada de complicado. Jesus simplesmente falou a palavra e o milagre aconteceu. Lucas acrescenta que o que estivera morto passou a falar, evidência pal­ pável dá sua volta à vida. Não se registra nada que ele disse, conforme ocor­ reu nos outros dois casos de uma ressurreição. A solicitude de Jesus para com a viúva revela-se no detalhe de que restituiu o jovem à sua mãe (con­ forme fizera Elias numa situação semelhante, 1 Rs 17:23). 16,17. Os que viram este acontecimento reagiram como homens na presença de Deus. O temor, que devemos entender como profunda re­ verência, apossou-se deles. Glorificavam a Deus, não a Jesus, interessante­ mente. Reconheciam a mão de Deus naquilo que acontecera e deram o louvor onde era devido. Mesmo assim, saudavam a Jesus, dizendo que era grande profeta. Este é um conceito inadequado de Jesus, mas prova­ velmente representasse o título mais alto que os cidadãos podiam dar a qualquer pessoa. Deve ter sido suscitado pela reflexão de que Jesus aca­ bara de fazer aquilo que dois grandes profetas fizeram em tempos anti­ gos (1 Rs 17:17ss.; 2 Rs 4:18ss.). O povo exclamou, ainda, Deus visitou o seu povo1. Esta expressão não é incomum no Antigo Testamento, onde freqüentemente denota bênçãos, como aqui (e.g. Rt 1:6; 1 Sm 2:21), embora às vezes denote julgamento. O resultado inevitável de tudo isto foi outro aumento na fama de Jesus enquanto a notícia se divulgou para longe. A Judéia é provavelmente empregada aqui no sentido mais amplo

2S. LT,i. págs. 555,557.


da Palestina em geral, ao passo que a menção de toda a circunvizinhança demonstra que a fama de Jesus era muito divulgada mesmo.

1. As perguntas de João Batista (7:18-35) i. As perguntas feitas e respondidas (7:18-23). João Batista esta­ va na prisão. Evidentemente esperava que Jesus fizesse alguma coisa espeta­ cular. Quando parecia que nada acontecia, enviou homens para Jesus para descobrir por que, e possivelmente para provocar alguma ação. 18-20. O que Jesus estava fazendo era bem conhecido na circun­ vizinhança e notícias foram levadas também a João na prisão. Destarte, chamou dois discípulos e os enviou para perguntar a Jesus: És tu aquele que estava para vir, ou havemos de esperar outro ?Aquele que está para vir (cf. 3:16; 13:35; 19:38; Hb 10:37) não era uma designação messiânica aceita, mas claramente João aqui a emprega neste sentido. Mas já que ha­ via muito tempo dera testemunho de Jesus como o mais Poderoso que vi­ ria (3:16), não fica claro por que faria esta pergunta (embora devamos ter em mente que neste Evangelho João não diz especificamente que Jesus era Aquele). Talvez a solução menos provável é que o próprio João não tinha dúvidas, mas que seus seguidores as tinham. Destarte, enviou seus discí­ pulos com um recado, sabendo que Jesus daria uma resposta satisfatória. Isto é por demais artificial para ser convincente. Semelhantemente, pare­ ce haver pouco que se pode dizer em prol do ponto de vista de que as perguntas marcam a fé que raiava em João. Até este tempo, sugere-se, João tinha continuado seu próprio movimento em oposição a Jesus, mas agora começava a perguntar-se se Jesus era o Grande que, segundo sa­ bia, haveria de vir, e se, de acordo com isto, deveria abandonar seu pró­ prio movimento. Contra isto há o fato de que João estava na prisão. Cer­ tamente não estava promovendo qualquer grupo rival nesta ocasião. Há, também, o fato que nossas fontes indicam que João realmente apontava os homens a Jesus (Mt 3:13-14; Jo l:29ss.;35-36; 10:41; At 18:25; 19:4). Outros pensam que a fé que João tinha em Jesus falhara um pouco. O confmamento na prisão de Herodes não era nada agradável e, com a incer­ teza de um dia vir a ser solto, até mesmo este homem corajoso pode ter desanimado. A objeção a isto é o caráter do homem. A explicação per­ manece possível, mas dificilmente se encaixa com aquilo que sabemos acerca de João. Uma quarta sugestão é que não era a fé de João que fa­ lhara, mas, sim, a sua paciência. Suas perguntas podem estar no espíri­ to de: “Tu és Aquele que esperávamos, não és? Então, por que não fazes


alguma coisa?” Tal coisa sempre deve permanecer sendo uma possibili­ dade. Mas talvez seja mais provável que Joio estava simplesmente perple­ xo. Profetizara que Aquele que havia de vir faria umas obras notáveis de julgamento (3:16-17). Mas Jesus não estava fazendo nada disto. Estava totalmente ocupado em obras de misericórdia. Outra pessoa, portanto, realizaria as obras de julgamento? JoSo queria saber. 21-23. A resposta de Jesus aos homens de João foi dirigir a aten­ ção deles àquilo que estava acontecendo. Ajuda estava sendo dada aos cegos (Is 35:5), aos coxos (Is 35:6), aos leprosos, aos surdos (Is 35:5), aos mortos e aos pobres (Is 61:1). Os paralelos vétero-testamentários pa­ recem demonstrar que os milagres de cura e a pregação aos pobres têm significado messiânico, São a autenticação da missão de Jesus. Era em tais obras de misericórdia e não nas vitórias espetaculares sobre os exér­ citos romanos que a obra do Mestre seria realizada. Jesus pregara acerca disto na sinagoga em Nazaré (4:18ss.). Mas esta verdade não está aberta à percepção de todos os homens. Destarte, Jesus pronuncia uma bênção sobre aquele que não achar em mim motivo de tropeço. 0 verbo tradu­ zido achar tropeço é pitoresco. Deriva-se da caça dos passarinhos, e se refe­ re à ação que abaixa a lingüeta [skandalon] e assim dispara o alçapão. É uma maneira pitoresca de referir-se à causa de problemas. ii. A grandeza de João (7:24-30). Aqueles que ouviram Jesu respondendo aos mensageiros talvez pensassem que estivesse repreen­ dendo ou até mesmo repudiando João. Remove qualquer impressão desta natureza ao deixar claro que João era o maior entre os homens. 24. Depois de os mensageiros terem ido embora, Jesus dirigiu algumas perguntas aos circunstantes, e fê-los encarar aquilo que João era e que representava. A primeira pergunta foi: Que saístes a ver no deser­ to? Multidões tinham afluído para ouvir a pregação de João. Por que? Jesus sugere uma resposta: um caniço agitado peb vento? Talvez seja esta uma referência a um lugar-comum, aquilo que pode ser visto em qualquer lugar. É mais provável que Jesus esteja dizendo que João não era nenhum caniço que se deixasse demover facilmente. A incongruência disto como descrição daquele homem severo dos desertos fica evidente. 25. A segunda pergunta de Jesus foi; Um homem vestido de rou­ pas finas? Mais uma vez, há duas maneiras de entender a expressão. Espe­ ravam achar um cortesão no deserto? Ou Jesus está perguntando: “Era João um cortesão?” A palavra fina (malakos) literalmente significa “ma­ cia ao toque,” mas adquire o significado secundário, “efeminado.” Isto claramente não se aplica a João. Jesus continua dizendo que os que se ves­ tem bem e vivem no luxo devem ser encontrados, não no deserto de João, ã


mas nos palácios dos reis. O próprio fato de que Joio tinha tido uma vi­ da dura com a comida mais primitiva no mais agreste dos lugares excluía todas as sugestões destes tipos. 26, 27. A terceira pergunta foi: Um profeta? Desta vez, a respos­ ta é correta, pois Joio era um profeta e muito mais que profeta. 0 acrés­ cimo da citaçío de Malaquias 3:1 mostra que João recebera a honra de ser o precursor do Messias. Manson nos lembra que isto nio somente indica a grandeza de Joio, mas também “pressupõe da parte de Jesus . . . a cons­ ciência da qualidade definitiva da Sua própria missio a Israel.” 28. Jesus passa a atribuir a Joio o lugar mais alto possível: Entre os nascidos de mulher, ninguém é maior do que JoSo. Jesus nio estava des­ valorizando a Joio. Colocou-o na posiçio mais alta possível. O cargo de Joio o destacava de todos os demais homens. Mas Jesus nio parou ali. O menor no reino de Deus é maior do que ele. A vinda de Jesus marcava uma Unha divisória. Veio inaugurar o reino. £ o menor naquele reino é maior do que o maior entre os homens. Esta é uma declaraçio de fato histórico. Joio pertencia à era da promessa. O menor no reino é maior, nio por causa de quaisquer qualidades que venha a possuir, mas, sim, porque pertence ao tempo do cumprimento. Jesus nio está subestimando a importância de Joio. Está colocando a membrezia do reino na sua perspectiva apropriada. 29. Freqüentemente se sustenta que os w. 29,30 sio um parênte­ se encaixado neste ponto por Lucas. Mas semelhante inserçio num discur­ so de Jesus está totalmente sem paralelo. A incerteza surge do fato de que o Grego nio tem objeto para o verbo ouviu. RSV coloca “isto,” que exi­ ge que a seçio seja um parêntese. Mas poderíamos acrescentar o (Goodspeed, ARA) ao invés de “isto,” ou “Joio” (Phillips). Entendendo-se a frase assim, Jesus segue Sua referência á grandeza de Joio com uma refe­ rência às reações à sua pregaçio. Parece ser preferível assim. Todo o povo parece suficientemente inclusivo para abranger os publicanos. Mas estes cobradores de impostos eram tio odiados e ostracizados que formavam uma raça à parte (ver sobre 5:27), de modo que sio enfatizados (até os publicanos). Mas este povo comum reconhecia a justiça de Deus, ou seja, “pronunciava que Deus era justo/’ aceitava os caminhos de Deus confor­ me verdadeiramente eram, e nio procurava constrangê-Lo para dentro de um molde da sua própria fabricaçio. Demonstravam isto ao serem batizados com o batismo de João, aquele batismo que visava o arrepen­ dimento e que indicava aos homens aquela obra que Jesus haveria de fazer. 30. Em contraste com as pessoas arrependidas, de posiçio infe­


rior, Jesus coloca os fariseus e os intérpretes da lei. Estes últimos eram homens que se dedicavam ao estudo da lei de Deus. Eram peritos em entender as minundências da lei sem em qualquer tempo chegar a se en­ tender com sua mensagem essencial. Ocupavam-se com a lei de Deus, mas nio com a vontade de Deus. Destarte, tanto eles quanto ps fariseus rejei­ taram, quanto a si mesmos, o desígnio de Deus, Ao passo que pessoas mais simples tinham ouvido a chamada de Deus ao arrependimento, e cor­ responderam a ela, estes homens, na sua complacência e na sua auto-satisfaçio complacente, nada acharam de que se arrependessem. Rejeita­ ram o caminho de Deus. Recusaram o batismo de Joio. Colocaram-se fo­ ra do alcance da bênção, e não queriam deixar Jesus ser ouvido honesta­ mente quando veio. A mente fechada leva a erro sobre erro. iii. A reação dos ouvintes (7:31-35), Jesus passa a ressaltar com os homens dos Seus dias não eram razoáveis, ao indicar que rejeitaram tan­ to JoSo Batista como Ele mesmo, mas por razões exatamente opostas. Nio havia maneira de agradá-los. 31,32. Jesus faz uma pergunta retórica acerca de como são o homens da presente geração e responde em termos de crianças brincando. Cita uma pequena copia que parece que as crianças usavam quando outras crianças nio queriam participar das suas brincadeiras. Quando tocavam flauta alegremente, seus companheiros recusavam-se a dançar. Mas quando iam ao outro extremo, e entoavam lamentações, seus amigos nio queriam cooperar naquilo, tampouco. Nio queriam brincar de alegres nem de tristes. Nio fica bem claro se os homens da presente geração estavam sendo assemelhados às crianças que tocavam flauta e entoavam lamentaçõe$i ou àquelas que nem queriam dançar nem chorar. No primeiro caso, o pensamento seria que se queixavam quando Joio Batista nio queria ser alegre, mas mudavam de tom quando Jesus veio, e recusava-Se a ser tris­ te. No segundo caso, nem correspondiam à alegria de Jesus nem à soleni­ dade de Joio. Talvez haja um pouco mais de apoio para a segunda interpre­ tação, mas de qualquer maneira a lição é basicamente igual. Nio queriam aceitar nem Jesus nem Joio. 33. Jesus ressalta este fato com referência a Joio. Era um ascéti­ co. Nio comia pio (sua comida éra “gafanhotos e mel silvestre,” Mc 1:6), e nio bebia vinho (supõe-se que bebesse água). Mas, embora esta abordagem espartana à vida fosse característica de homens santos em muitas religiões, nio tomou Joio querido aos seus contemporâneos. Seus ensinos eram demasiadamente incômodos. Destarte, descontaram-no com o veredito: Tem demônio. 34. Jesus nio seguiu a linha ascética de Joio. Comia e bebia co­


mo o povo comum. As pessoas que rejeitavam a Joio por sair da regra geral deveriam ter aceito a Jesus. Mas nada disto! Chamavam-No de glutão e bebedor de vinho, e, para completar a acusação, queixavam-se dos Seus companheiros de mesa. Era amigo de publicanos e pecadores. Já no­ tamos que as pessoas religiosas evitavam tal companhia inferior. Jesus, porém, nio Se desesperava de homem algum. Para ganhar os pecadores para Deus associava-Se livremente com eles. E mesmo assim, as pessoas se queixavam. Depois da sua atitude para com Joio, isto era pura perver­ sidade. Nio havia nela qualquer razio de ser. 35. Os sábios, porém, nio se deixam desanimai. A sabedoria é justificada por todos os seus filhos. O verbo justificada quer dizer “decla­ rada justa” ou “demonstrada como sendo justa” ou “aceita como justa,” Aqueles que sio realmente sábios (os filhos da sabedoria), pronunciarão justo o caminho justo, seja ele ascético ou social. Verio a sabedoria de Deus tanto em Joio quanto em Jesus. Nio andarío nos caminhos críti­ cos dos homens que nunca se deixam contentar. m. A pecadora que ungiu os pés de Jesus (736-50) Cada Evangelho tem uma história acerca de uma mulher que ungiu Jesus (Mt 26:6-13; Mc 14:3-9; Jo 12:1-8). Há boas razões para acreditar que os outros três estio descrevendo o mesmíssimo incidente, mas Lucas, um incidente diferente. Aqueles se referem a um incidente na última semana da vida de Jesus, e Lucas a um acontecimento muito anterior a ele. A “pe­ cadora” do relato de Lucas molhou os pés de Jesus com suas lágrimas, enxugou-os com seus cabelos, beijou-os, e os ungiu, o que é diferente daquilo que os demais Evangelistas descrevem. E a discussão que se se­ guiu é diferente. Em Lucas, diz respeito ao amor e ao perdão, e nos de­ mais, à venda do ungüento para fazer uma oferta aos pobres. Nio há ra­ zio alguma para sustentar que a mulher nos demais Evangelhos fos­ se “uma pecadora” (Joio diz que era Maria de Betânia). Alguns têm sus­ tentado que a “pecadora” em Lucas fosse Maria Madalena, mas isto é pura especulaçio. 36. Um fariseu chamado Simío (40) convidou Jesus a uma refei­ ção. Em Mateus e Marcos o hospedeiro também é chamado Simio (“Simio, o leproso), mas o nome era muito comum e não estabelece a identi­ dade. É uma marca das largas simpatias de Jesus que jantou antes com um publicano (5:29) e agora com um fariseu. 37,38. Uma mulher da cidade descrita como uma pecadora, que provavelmente significa uma prostituta, veio a saber disto>e entrou na


casa. Uma refeição tal qual aquela da qual Jesus estava participando não era particular. As pessoas podiam entrar e ver o que estava acontecendo. Ao mesmo tempo, uma prostituta nâo seria benvinda na casa de Simão, de modo que exigia coragem chegar até lá. A mulher trouxe um vaso de alabastro com ungüento. A palavra alabastros denotava um recipiente glo­ bular para perfumes. Nâo tinha alças, e era dotado de um gargalho longo que era quebrado quando se queria usar o conteúdo (AG, LS). A despei­ to do nome, o recipiente nem sempre era feito de alabastro, mas Plínio diz que recipientes desta matéria eram os melhores (História Natural xiii. 19, xxxvi.60). Podemos deduzir razoavelmente que este perfume era ca­ ro. As senhoras judias geralmente usavam um frasco de perfume pendu­ rado em uma corda ao redor do pescoço, e tanto fazia parte delas que tinham licença de usá-lo no sábado (Shabbath 63). O uso extensivo dos perfumes pode ser deduzido do fato de que os Sábios alocaram a certa mulher uma verba de 400 moedas de prata para perfume (Ketuboth 66b; mesmo assim, ela ficou insatisfeita!). Ungüento nâo é uma boa tradu­ ção, pois a referência diz respeito a um óleo perfumado, e nio a um sóli­ do. Tais óleos eram acompanhamentos comuns de ocasiões festivas. As pessoas nio se sentavam à mesa, mas, sim, reclinavam-se em divãs baixos, apoiando-se no braço esquerdo, com a cabeça em direção à mesa, e o corpo esticado para fora desta. As sandálias eram removidas antes de re­ clinar-se. A mulher, portanto, nio teria dificuldade em aproximar-se dos pés de Jesus. Decerto, pretendia ungi-los, mas enquanto ficava ali, suas emoções a dominavam, e suas lágrimas começavam a cair sobre os pés de Jesus. Imediatamente os enxugou com seus cabelos, uma açío significante, porque as senhoras judias não desatavam os cabelos em público. Claramente, estava totalmente esquecida da opinião pública, dominada como estava por sua forte emoção. Este fato também explicava por que beijava os pés de Jesus. Há exemplos de os pés de um rabino especialmen­ te honrado serem beijados (e.g. Sanhedrin 27b), mas era longe de ser fato comum. Finalmente, ungiu os pés de Jesus com o ungüento. Normalmen­ te, este teria sido derramado sobre a cabeça. Que ela o derramou nos pés é provavelmente uma marca de humildade. Tratar dos pés era uma tarefa menial que era atribuída a um escravo. É um conjectura razoável que Jesus fizera esta mulher voltar-se dos seus caminhos pecaminosos, e que tudo isto era a expressão do amor e da gratidão dela. Nâo fica claro se já conhecia Jesus pessoalmente. É possível que simplesmente estivesse entre as multidões que ouviam Seus ensinos, e que ficara tão convicta que sua vida foi transformada. Ou pode ter tido alguma conversa não registrada com Jesus. Não sabemos.


39. 0 hospedeiro viu tudo isto e teve uma pequena conversa de desaprovação consigo mesmo. A forma de frase condicional que empre­ gou dá a entender em Grego (a) que Jesus não era profeta, e (b) que nio sabia quem e qual era a mulher que lhe tocou. 40. Jesus passou a corrigir os dois conceitos falsos. O fariseu não falara em voz alta, mas Jesus respondeu aos pensamentos dele. Mostrou que sabia quem e que tipo de homem Simão era. Começou avisando que tinha uma coisa a dizer. Assim recebeu a atenção total de Simão. A resposta do fariseu:Dize-a, Mestre, é cortês mas não encorajadora. 41-43. Jesus começou com uma pequena história de dois devedo­ res cujas dívidas lhes foram perdoadas; o primeiro devia quinhentos dendrios, e o outro, cinqüenta (um denário era o salário diário de um trabalha­ dor, Mt 20:2). Não era necessário muito entendimento para reconhecer quem amaria mais o benfeitor. Mesmo assim, a resposta de Simão é dada com um pouco de má vontade, com seu Suponho antes de mencionar aquele a quem mais foi perdoado. Jesus não comentou sobre isto, mas concordou que Simão dera a resposta certa. 44-46. Depois chegou à aplicação. Voltou-Se para a mulher e per­ guntou a Simão: Vês esta mulher? Via-a mesmo? A questão é interessan­ te. “Simão não conseguiu ver aquela mulher conforme então era, porque olhava-a conforme tinha sido” (Morgan). Jesus passou a contrastar a ati­ tude dela com a do Seu hospedeiro. Agora transparece que, embora Si­ mão tivesse convidado Jesus ao seu lar, não Lhe dera o tratamento devi­ do a um hóspede honrado, Era de se esperar que o hospedeiro tivesse for­ necido água para os pés dos seus hóspedes (cf. Gn 18:4; Jz 19:21). Jesus não recebera este ato de cortesia. Mas Seus pés foram lavados pelas lá­ grimas da mulher. De modo semelhante, ao invés do beijo de boas-vindas que poderia ter esperado do Seu hospedeiro (cf. Gn 29:13; 45:15), recebeu beijos nos Seus pés. E finalmente, ao passo que Simão omitira a unção da cabeça de Jesus (cf. Sl 23:5; 141:5), a mulher ungira Seus pés (óleo é azeite, que era abundante e barato; há um contraste com bálsamo, que era um perfume raro e caro). 47. Jesus passa a dizer a Simão que os pecados da mulher são per­ doados. Ele não atenua aqueles pecados: são muitos. Mas é consistente com o ensino neotestamentário que não importa quantos ou quão gran­ des os pecados tenham sido, a graça de Deus pode perdoá-los. Devemos entender com cuidado as palavras porque ela muito amou. Jesus não es­ tá dizendo que as ações da mulher mereceram o perdão, nem sequer que seu amor o merecera. Em harmonia com Sua pequena parábola e com Suas palavras posteriores (50), Jesus está dizendo que o amor que ela


demonstrou é prova de que já tinha sido perdoada. Era a resposta dela diante da graça de Deus. JB ressalta o significado, dizendo: “seus peca­ dos, seus muitos pecados, decerto já lhe foram perdoados, senão, não teria demonstrado tão grande amor.” Por contraste, aquele a quem pouco se perdoa, pouco ama. É natural pensar em Simão. Certamente demons­ trara bem pouco amor, e a implicação é que não lhe fora perdoada muita coisa. 48-50. Jesus passa a dizer à mulher: Perdoados são os teus peca­ dos (cf. 5:21 -24). Lucas nos diz que isto provocou uma discussão entre os hóspedes. O perdão dos pecados era uma prerrogativa divina. Quem é este, perguntavam, portanto, que até perdoa pecados? Jesus, porém, não fez caso algum deles. Sua solicitude era dirigida à mulher. A tua fé te sal­ vou, disse Ele. Isto é importante, pois demonstra que o amor do qual se falara antes era a conseqüência, e não a causa, da sua salvação. Como no restante do Novo Testamento, é a fé que é o meio de receber a boa dádiva de Deus. Jesus a despediu com as palavras: vai-te em paz (cf. 8:48). O Grego é literalmente “vai para dentro da paz” e talvez valha a pena no­ tar que os rabinos sustentavam que “Vai em paz” era apropriado ao despe­ dir-se dos mortos, mas aos vivos deve-se dizer, "Vai para dentro da paz” (Moed Katan 29a).

n. As mulheres que serviram a Jesus (8:1-3)

Depois disto Jesus saiu numa viagem de pregação. Não são mencionadas sinagogas, e é muito possível que a hostilidade cada vez maior da parte da instituição das sinagogas O levasse a concentrar-Se em pregar e ensinar ao ar livre. Não tinha falta de auditório, pois há referências repetidas às multidões (cf. 7:11, 24; 8:4, 19, 40, 45). Nesta ocasião, foi acompanha­ do pelos Doze e por algumas mulheres as quais curara. Os rabinos recusa­ vam-se a ensinar as mulheres, e geralmente lhes atribuíam um lugar de grande inferioridade. Jesus, porém, livremente as admitia à comunhão, como nesta ocasião, e aceitava o serviço delas. A primeira a ser mencio­ nada é Maria chamada Madalena (o nome de um lugar, que significa “de Magdala,” i.é, “A Torre”). A imaginação cristã tem feito muita especu­ lação em tomo de Maria Madalena, e usualmente a vê como uma mulher muito bela a quem Jesus salvou de uma vida imoral. Absolutamente na­ da há nas fontes para indicar tal coisa. Lucas diz que dela saíram sete demônios, o que demonstra que Jesus a livrara de uma experiência muito angustiante. Não há, porém, razão alguma para ligar os demônios com a


conduta imoral: estão mais usualmente associados com perturbações men­ tais. Joana é mencionada outra vez em 24:10, mas fora disto nada se sabe acerca dela. O marido dela, Cuza, é mencionado somente aqui. Que era procurador de Herodes mostra que era um homem de posição, embora não esteja clara a natureza do seu cargo. A palavra traduzida procurador pode denotar o mordomo das fazendas de Herodes, ou pode indicar um cargo político. Godet conjetura que este homem pode ter sido o oficial cujo filho Jesus curou (Jo 4:46 ss.). Se for assim, explicaria por que Joana era contada entre os seguidores de Jesus, e por que recebeu licença de acompanhá-Lo nesta viagem. Nada mais se sabe de Suzarn. Lucas não en­ tra em mais detalhes; havia muitas outras, mas acrescenta apenas que the prestavam assistência com os seus bens. Esta expressão é valiosa por­ que nos dá um dos poucos vislumbres que temos da maneira pela qual as necessidades de Jesus durante Seu ministério foram supridas. Lemos que o grupo apostólico tinha uma bolsa em comum, da qual tiravam as despe­ sas para o alimento e as ofertas para os pobres (Jo 13:29), mas não somos informados como era enchida. Aqui ficamos sabendo que estas mulheres correspondiam em amor e gratidão aquilo que Jesus fizera para elas (cf. Mc 15:4041). Parece que não era incomum o caso de mulheres piedo­ sas ajudarem mestres religiosos, e Jesus fala dalguns fariseus que evidente­ mente eram bem rapaces (20:47). Acalenta o coração ao ler sobre este grupo de mulheres que davam apoio a Jesus. E vale a pena refletir que os Evangelhos não registram que alguma mulher empreendesse alguma ação contra Ele: Seus inimigos eram todos homens.

o. A parábola do semeador (8:4-15) A segunda das seções marcanas de Lucas começa aqui e continua até 9:50. Usualmente concorda-se que a parábola com que esta seção começa e que recebe destaque em todos os três Sinotistas marca um tipo de pon­ to crucial. As multidões estavam se aglomerando ao redor de Jesu?. Estava Se tornando um pregador popular. Procurava, no entanto, mais do que uma aderência superficial, de modo que intensificava Seu uso de parábo­ las, histórias que revelavam seu significado somente àqueles que estavam dispostos a perscrutá-lo. As parábolas exigem pensamento e seriedade espiritual. Separam o interessado sincero do ouvinte casual. Nos dias mais antigos, a interpretação das parábolas era pesadamen­ te sobrecarregada com alegoria. Nos tempos modernos, geralmente con­ corda-se que esta é a abordagem errada. Mas talvez o repúdio tenha sido


levado longe demais, como quando a interpretação dada a esta parábola em todos os três Sinoptistas é rejeitada. Afinal das contas, sabe-se que o Antigo Testamento, o judaísmo contemporâneo e a igreja primitiva usa­ vam a alegoria, todos eles, Não parece haver razão alguma por que Jesus nâo tivesse feito algum uso dela também. A erudição recente tem razão em evitar os excessos alegóricos que a piedade popular às vezes adota. Quando, porém, passa a alegar que a maioria das interpretações, ou todas elas, das parábolas dadas nos Evangelhos tem sua origem na igreja primi­ tiva e não com Jesus, a questão é bem diferente. Conforme Tasker nos relembra, “tais tentativas para desembaraçar elementos primários e secun­ dários sempre são forçosamente mais subjetivas do que científicas.”24 4. Lucas não nos conta com qualquer exatidão onde esta paráb la foi pronunciada. Foi num período da popularidade de Jesus, pois havia uma grande multidão e veio ter com ele gente de todas as cidades. Dificil­ mente podemos dizer mais, porém. 5-7. O semeador na Palestina semeava primeiro e arava depois (conforme ainda faz). A semente à beira do caminho talvez se refira a um caminho que o agricultor estava para passar o arado por cima, em­ bora a referência à semente pisada dê a impressão de um trilho regular. De qualquer maneira, as aves podiam comer a semente. A pedra deve ser terreno rochoso onde uma leve cobertura de terra existe espalhada sobre as rochas, sem ter profundidade de solo para reter umidade. As plantas que crescem ali logo passam a murchar. Os espinhos são plantas espinhudas de crescimento vigoroso. Crescem mais rapidamente do que o trigo e sufocam o bom grão. 8. Em contraste com as demais porções de sementes, algum caiu em boa tetra, onde deram uma colheita abundante. Mateus e Mar­ cos falam de trinta por um e sessenta por um bem como de cento por um, mas a versão de Lucas é abreviada. Simplesmente ensina sua lição de que na boa terra há uma colheita abundante. A história termina, com uma injunção àquele que tem ouvidos no sentido de fazer uso deles. 9,10. Jesus começou Sua resposta ao pedido dos discípulos po uma interpretação da história, com algumas observações gerais. Contras­ ta os discípulos com outras pessoas. Àqueles são revelados os mistérios do reino de Deus, Segredos fmustêria) são verdades que o homem nunca poderia descobrir por si mesmo> mas que Deus revelou. A palavra é co­ mum em Paulo, mas é achada somente nesta conexão dos Evangelhos. 24. NDB, art. “Parábola,” pág. 1.200.


Aos mais, porém, há a vista sem verem, e a audição sem entenderem. Ou­ vem as parábolas, mas não penetram no significado. As parábolas tanto revelam como ocultam a verdade: revelam-na ao interessado genuíno que se dará o trabalho de cavar abaixo da superfície e descobrir o signi­ ficado, mas a ocultam daquele que se satisfaz meramente em escutar a história. Este é claramente o resultado das parábolas, mas Jesus diz que também é o propósito delas (para que . . .). As parábolas são uma mina de informações para os que são sinceros, mas são um julgamento sobre os casuais e os descuidadosos. 11-15. Agora temos a explicação desta parábola. A palavra de Deus é a palavra que conta acerca de Deus, ou, mais provavelmente, a palavra que vem da parte de Deus. Os que estão à beira do caminho são aqueles que nunca realmente assimilaram a palavra. Ouviram, mas não prestaram atenção. Satanás a arrancou antes de eles crerem. Aqueles sobre a pedra têm um pouco mais de sucesso. Estão contentes ao rece­ berem a palavra (cf. Ez 33:32; Mc 6:20), mas neles não há profundida­ de. Em tempos de provocação (tentação) se desviam. ><4 que caiu entre espinhos representa as pessoas que têm muito potencial para se adiantarem espiritualmente. A vida, porém, pode conter apenas certa quantida­ de de coisas, e estas pessoas enchem sua vida com tanta coisa que não sobra lugar para o fruto espiritual. Em contraste com todas estas pes­ soas, há aquelas na boa terra. O bom e reto coração pode acompanhar retêm , mas é mais provável que acompanhe tendo ouvido (ARA). Real­ mente retêm a palavra, e frutificam. Há duas maneiras de entender esta parábola. Uma delas vé-a en­ corajando os discípulos com o contraste entre os pequenos inícios e a rica colheita final. A despeito das vicissitudes das sementes que caíram em lugares improdutivos, o resultado fmal era impressionante. A outra enfatiza a importância de uma reação certa ao ouvir a palavra. Se a assi­ milarmos, o resultado será uma rica colheita, mas se reagirmos como o caminho, a rocha, ou os abrolhos, acabaremos tendo nada. O segundo ponto de vista tem mais a favor dele.25 Tinsley argumenta a partir do destaque dado a esta parábola e da sua explicação em todos os três Sinotistas que é especialmente relevante. Da explicação, diz: “Jesus nun­ ca chega tão perto de ‘explicar’ a Si mesmo e à Sua missão . . . Jesus vê Sua missão como uma maneira de falar e agir que dará aos homens a maior oportunidade de corresponder à palavra de Deus.” 25. 11, 30-31.

Ver 1. H. Marshall, Eschatology and the Parables (Londres, 1963), págs.


p. A candeia e seu esconderijo (8:16-18)

16,17. O propósito de acender uma candeia é para ela dar luz, e desta maneira, a candeia não é escondida debaixo de um vaso (cf. 11:33) ou de uma cama. Os seguidores de Jesus devem deixar a luz que está neles brilhar e iluminar os homens. Este pensamento leva a outro: no devido tempo, tudo quanto é oculto será tomado público (cf. 12:2). Nada pode­ rá ser escondido no dia do julgamento. 18. Este dito liga-se com a parábola do semeador e também com a das minas (19:26). É importante ouvir corretamente e não ser como a semente que veio a nada na parábola. A mesma lição é demonstrada cla­ ramente com a lembrança de que ao que tiver, se lhe dará. Esta não é, naturalmente, uma mensagem de encorajamento às classes detentoras do dinheiro: está vinculada com o escutar da palavra de Deus. Se usar­ mos aquilo que Deus nos dá, aumentará. E as palavras seguintes ressal­ tam a verdade oposta: se não o usarmos, perderemos até mesmo o que pensamos que temos. Esta é perda total.

q, A mãe e os irmãos de Jesus (8:19-21).

Os demais Sinotistas colocam este pequeno evento antes da parábola do semeador (embora nenhum deles diga explicitamente que a prece­ dia cronologicamente). Não é improvável que Lucas o tenha colocado aqui por causa da maneira de ele ilustrar as parábolas. Seu relato é o mais breve dos três, e omite detalhes tais como quando Jesus olhou em derredor para os discípulos e estendeu Sua mão a eles. Lucas concentra sua atenção naquilo que foi dito. Informa-nos que a mãe e os irmãos de Jesus vieram vê-Lo, mas que não podiam aproximar-se por causa da mul­ tidão. O modo mais natural de entender os irmãos de Jesus é que eram filhos de José e Maria. Os teólogos na tradição católica usualmente sus­ tentam que Maria era perpetuamente virgem e explicam a referência como alusão aos filhos de José por um casamento anterior, ou talvez a primos de Jesus. Há pouca evidência para tais pontos de vista e deve­ mos finflar-nos no significado natural.26 Na alegação subentendida da família de que Jesus devia estar disponível a ela, há talvez um indício

26. Vei mais, Leon Morris, The Gospel according to John (New London Commentary) , págs. 187-8.


de possessividade. Jesus, porém, toma claro que agora está dedicado à obra do ministério. Sua mie e Seus irmãos são aqueles que ouvem a pala­ vra de Deus e a praticam. A referência a ouvir (ausente de Mateus e Mar­ cos) surge de modo apropriado depois da parábola do semeador. A ênfa­ se, no entanto, é dada à prática. Aqueles que estão perto de Jesus são aqueles que levam a sério seu dever diante de Deus. Não se quer dizer com isto que os laços da família não têm importância ou que podem ser desconsiderados: Jesus não está repudiando Sua família. Pensou na Sua mãe até mesmo quando estava pendurado na cruz, na agonia de rea­ lizar a redenção do mundo (Jo 19:26-27). O que Ele quer dizer é que nos­ so dever diante de Deus deve tomar a precedência sobre todas as demais coisas.

r. Jesus acalma uma tempestade (8:22-25)

Muitos que estão dispostos a aceitar os milagres de cura (pensando, talvez, que estes se encaixam no nosso conhecimento das enfermidades funcio­ nais) acham dificuldade com os milagres da natureza, e procuram outras explicações. Na presente narrativa, por exemplo, preferem sustentar que Jesus acalmou os discípulos ao invés da ondas. Este tipo de abordagem é completamente subjetivo. Se é que podemos confiar em nossas fontes, Jesus às vezes operava milagres no âmbito da natureza. O grande milagre é a encarnação. Se Deus Se tomou homem em Jesus, não precisamos espantar-nos com narrativas tais como esta. Se Ele não fez assim, então a questão dificilmente surge à tona. 22, 23. Lucas não localiza este incidente com qualquer precisão (Marcos o coloca no entardecer do dia em que Jesus contou a parábo­ la do semador). Jesus convidou os discípulos a atravessarem o lago. Enquanto navegavam, Ele adormeceu, o que se encaixa bem no relato de Marcos; Ele deve ter ficado muito cansado depois de ensinar um dia inteiro. Uma tempestade repentina rebentou. O lago da Galiléia está su­ jeito a tempestades repentinas, com sua situação cerca de 220 m abaixo do nível do mar e adjacente a regiões montanhosas. O ar frio das altu­ ras tende a vir varrendo pelos desfiladeiros precipituosos ao leste e pode açoitar em ondas os mares em pouco tempo. Nesta ocasião o barco esta­ va sendo cheio de água e os viajantes estavam em grande perigo. 24. Sendo assim, os discípulos despertaram Jesus com as pala­ vras, Mestre, Mestre, estamos perecendol Lucas omite a repreensão suben­ tendida nas palavras registradas em Marcoc: “não te importa que pereça-


mos?” e a petiçSo em Mateus: “Senhor, salva-nos!” Todos os três nos con­ tam que Jesus repreendeu o vento (cf. Sl 106:9). Seu verbo pode suben­ tender que havia uma força maligna por detrás da tempestade. Seja como for, o resultado foi uma bonança. O domínio de Jesus sobre os elementos era completo (cf. Sl 89:9). 25. Sua pergunta: “Onde está a vossa fé?” subentende que os dis cípulos não deveriam ter ficado aterrorizados. Deveriam ter confiado nEle. Diante disto, reagiram como quem está na presença divina. Ficaram cheios de reverente temor, e de admiração; perguntaram: Quem é este? Esta é a pergunta relevante que Lucas nio quer que seus leitores deixem passar desapercebida.

s. O endemoninhado geraseno (8:26-39)

L O exorcismo (8:26-33). Este milagre foi realizado nuríi am­ biente predominantemente gentio. Havia alguns judeus na área, mas a populaçío era principalmente gentia. 26,27. A terra dos gerasenos nos apresenta um problema, pois Ge rasa ficava a cerca de 64 km ao sudeste do lago. Mateus registra “a terra dos gadarenos”, mas Gadara fica a 9 km de distância, e separada pelo des­ filadeiro profundo do Iarmuque. Todos os três Sinotistas têm as duas va­ riações, e também uma terceira, “o país dos gergasenos.” Este último tex­ to era favorecido por Orígenes, que achava que os outros dois lugares es­ tavam demasiadamente distantes, e que os textos tinham surgido somen­ te porque os escribas nâo sabiam da existência da pequena cidade de Gergosa, e, portanto, substituíram-no por nomes que conheciam (ver, por exemplo, Manson). Os estudiosos modernos indicam a vila de Khersa e pensam que talvez esta tenha retido o nome antigo. Pode ser certo, mas permanece a suspeita de que o texto é achado nos MSS somente porque Orígenes deu origem a ele. Se qualquer dos outros está correto, devemos entender que a respectiva cidade controlava uma faixa de terra até à bei­ ra do lago. Quando Jesus aportou neste território, veio ao seu encontro um endemoninhado. 0 infeliz nffo usava roupas, e vivia entre os sepulcros. 28, 29, O homem era violento. Já tinha sido preso com cadeias e grilhões (i.é, algemas para as mãos e os pés). Mas ele tudo despedaçava, o que demonstra sua grande força. Quando Jesus mandou o demônio sair dele, gritou e passou a uma resposta semelhante à do endemoninhado em 4:34, só que Jesus agora é saudado como Filho do Deus Altíssimo ao in­ vés de “o Santo de Deus.”


30. Jesus perguntou ao homem qual era seu nome. A resposta é Legião, que parece ser um modo de dizer que um regimento inteiro de de­ mônios entrara nele (numa legião romana, havia cerca de 6.000 soldados). Alguns pensam que há uma referência às legiões romanas, e que alguma experiência traumática com os soldados fosse a origem da triste situação do homem. 31-33. Os demônios reconheceram que teriam de deixar o homem, e pediram que não fossem enviados para o abismo. Este é um lugar para o confinamento dos espíritos, até mesmo de Satanás (Ap 20:1 ss.)27 Ao in­ vés disto, pediram que lhes fosse permitido entrar numa grande manada de porcos que pastavam ali perto. Jesus lhes deu permissão e os demônios deixaram o homem e entraram nos porcos. Os animais se precipitaram por um despenhadeiro para dentro do lago, onde se afogaram. Há uma dificul­ dade em ver como demônios pudessem entrar nos porcos, e outro em por que os porcos agiram desta maneira. Mas já que sabemos pouca coisa acer­ ca daquilo que os demônios podem fazer, provavelmente nio devemos le­ vantar tais questões. Alguns vêem uma dificuldade adicional em que Je­ sus curou o homem às expensas dos donos dos animais. A isto, a resposta básica deve ser que a cura do homem era mais importante do que uma manada de porcos. Alguém poderia seriamente sustentar que os porcos deveriam ter sido poupados e o homem deixado sem cura? Farrar também indica que “a libertação da vizinhança do perigo e terror deste maníaco sel­ vagem era um benefício maior à cidade inteira do que a perda desta ma­ nada.” Deve ser lembrado, também, que Jesus nem enviou os demônios para os porcos (nada mais fez do que lhes dar permissão), nem mandou os porcos para o lago (a narrativa não diz que determinou a destruição dos porcos). íi. A reação (8:34-39). Lucas passa a tratar do modo em que o milagre afetou tanto o respectivo homem e o povo do distrito. 34-36. Os donos dos porcos, como seria natural, fugiram, e espa­ lharam a notícia. As pessoas passaram a vir ver por si mesmas. Acharam aquele que fora endemoninhado assentado aos pés de Jesus, vestido e em perfeito juízo. Obviamente, alguma coisa estranha acontecera, e ficaram dominados de terror. 37. Com toda a evidência de que um grande milagre tinha sido operado diante delas, estas pessoas passaram a rejeitar a maior oportunida­

27. Ver a nota em Leon Morris, Revelaticn (TNTC) (Londres, 1969), págs


de das suas vidas. Poderiam ter dado as boas-vindas a Jesus, que liberta os homens dos demônios. Ao invés disto, possuídos de grande medo, pediram-Lhe que Se retirasse. E assim, Ele partiu. O medo deles pode ter sido devido a uma reação supersticiosa ao poder sobrenatural que tio evidentemente estivera em operação. É possível que também tivesse co­ nexão com as perdas materiais envolvidas com a destruição dos porcos. Se for assim, viam Jesus como elemento perturbador, mais interessado em salvar os homens do que na prosperidade material. Era mais cômodo pedir-Lhe que Se fosse. 38,39. Com o homem curado, o caso era diferente. Rogou que fos­ se permitido acompanhar a Jesus. Ele não poderia ficar perto demais do seu Benfeitor. Mas havia trabalho para ele noutra parte. Jesus o mandou de volta para casa, com a instrução: conta aos teus tudo o que Deus fez por ti . Como resposta, o homem proclamou tudo quanto Jesus lhe tinha feito. Lucas, decerto, quer que captemos a alusão de que aquilo que Je­ sus fizera, Deus fizera. O mandamento no sentido de contar o milagre contrasta-se com a injunção ao silêncio noutros lugares (4:41). Talvez neste território predominantemente gentio haveria pouco perigo de des­ pertar especulações messiânicas. E, agora que tinham pedido que Jesus partissse, era mais importante do que nunca que nesta região houvesse alguém para testificar daquilo que Deus estava fazendo através dEle.

t. A filha de Jairo (8:40-56)

Todos os três Sinotistas colocam a cura da mulher com a hemorragia no meio da história de Jairo. As duas histórias formam uma ilustração poderosa do modo de Jesus curar e até mesmo exercer a autoridade sobre a morte. i. O pedido da cura (8:4042a). Quando Jesus voltou, havia uma multidão que esperava para Lhe dar as boas-vindas. Entre os presen­ tes havia um homem chamado Jairo (o nome no Antigo Testamento era Jair, Nm 32:41). Era um chefe da sinagoga, i.é, o oficial que era respon­ sável pela ordem do culto na sinagoga. Selecionaria, por exemplo, os que dirigiriam as orações, que leriam as Escrituras, e quem pregaria. Era, por­ tanto, um homem de eminência na comunidade. Este homem prostrouse diante de Jesus e lhe suplicou que chegasse até a sua casa. Tinha uma filha única (devemos a Lucas a informação de que era a única criança que Jairo tinha), de uns doze anos, que estava à morte. Lucas não men­ ciona qualquer pedido específico, mas uma petição para a cura está clara­


mente implídta nas palavras de Jairo. Marcos diz que pediu que Jesus impusesse sobre ela as mios para a cura. Mas o problema real se acha com Mateus, pois cita assim as palavras de Jairo: “Minha filha faleceu agora mesmo; mas vem, impõe a tua mão sobre ela, e viverá.” Isto provavel­ mente deva ser explicado, não como uma contradição de Marcos e Lu­ cas, mas, sim, como resultado do caráter muito abreviado do relato de Mateus. Os outros dois falam primeiramente de Jairo que veio a Jesus e disse-Lhe que sua filha estava ao ponto da morte. Mais tarde, veio um :mensageiro, trazendo a notícia de que a menina morrera. Mateus abre­ via a história ao fundir as duas declarações numa só. ii. A mulher com a hemorragia (8:42b-48). Agora vem uma inter­ rupção que deve ter sido muito frustrante para Jairo, embora nenhum dos relatos registre uma só palavra de queixa. 42b-44. Nas ruas estreitas de uma cidade antiga era inevitável que uma multidão formasse uma aglomeração. Lucas diz que as multidões apertavam Jesus, usando o mesmo verbo que utilizara acerca dos espinhos que sufocavam o trigo da parábola (8:14). O aperto deve ter sido conside­ rável. Incluída entre as pessoas presentes estava uma mulher que, havia doze anos, vinha sofrendo de uma hemorragia. A própria enfermidade deve ter sido aflitiva, e tinha conseqüências sociais bem como físicas. Por causa de a aflição torná-la cerimonialmente impura (Lv 15;25ss.), a enferma não tinha licença de tomar qualquer parte no culto no templo nem atividades semelhantes. Sua impureza era facilmente comunicável a outras pessoas (um toque era tudo quanto era necessário, Lv 15:27). Destarte, teria sido evitada, a fim de que outros não obtivessem dela uma impureza que, embora fosse temporária, era aborrecida. A vida decerto era muito difícil para ela. Era provavelmente a natureza da doença que a levou a fazer uma aproximação furtiva. Se tivesse vindo abertamente, em primeiro lugar as pessoas talvez não a tivessem deixado aproximar-se de Jesus (na multidão era mais fácil), e, em segundo lugar, teria que contar diante do povo todo algo sobre a doença da qual queria ser curada. Na sua vergonha, preferia o toque secreto. Lucas não nos conta, ccmo con­ ta Marcos, que muito padecera à mão de vários médicos. Nem que, em­ bora tivesse gasto nisto todo o seu dinheiro, não estava melhor, mas, sim, estava indo a pior. Isto talvez seja natural, no caso de ele ser um médico. Omite, também, a informação de que a razão porque veio por detrás de Jesus na multidão é que pensava que se apenas pudesse tocá-Lo seria cu­ rada. Lucas concentra sua atenção sobre a cura. A mulher Lhe tocou na orlà da veste. A orla deve ser aquela que fica na ponta de uma roupa qua­ drada que era jogada por cima do ombro esquerdo e caía pelas costas


(Nm 15:38ss.). Nio devemos pensar em termos da bainha inferior, pois esta nio poderia ser atingida nas circunstâncias. Imediatamente ao tocar na orla, se lhe estancou a hemorragia. 45. Jesus perguntou: Quem me tocou? Esta deve ter parecido uma pergunta curiosa feita a qualquer pessoa na multidão que apertava. De qualquer maneira, todos negaram a responsabilidade. Alguns devem ter sido forçosamente prensados contra Jesus, mas nio procuraram tocar nEle. Cada um sentiria, portanto, que nio era ele que Jesus procurava. Tipicamente, foi Pedro quem tomou sobre si o cargo de ressaltar que mul­ tidões de pessoas estavam em derredor de Jesus e apertando-O. A implicaçio é clara: tantos tinham tocado em Jesus que a pergunta perdera sua razão de ser. 46. Jesus, porém, persistiu. Explicou: Senti que de mim saiu po­ der (cf. 6:19). Há mistério aqui. O poder podia sair de Jesus mediante qualquer toque? O poder podia sair de tal maneira que Ele ficasse total­ mente inconsciente de quem o recebeu e para que o poder era usado? Parece improvável. É mais fácil sustentar que Jesus sabia muito bem o que tinha acontecido e que este parece ser o significado das palavras pos­ teriores “Vendo a mulher que nio podia ocultar-se” (47). Queria trazei a mulher abertamente diante do público. Mais de uma razio é aparente. Era bom para ela, ou, realmente, até necessário para ela, que sua cura fosse conhecida amplamente. Todos os seus conhecidos devem ter tido consciência do seu estado permanente de impureza cerimonial. Se ela houvesse de ser recebida de volta para o convívio religioso e social nor­ mais, era necessário que a cura dela se tornasse questio de conhecimento público. Jesus, portanto, tomou medidas para garantir que as pessoas soubessem o que tinha acontecido. É provável, também, que Ele quises­ se fazer outra coisa em prol da mulher. É difícil negar que houvesse um elemento de superstiçio na idéia dela de que um toque na orla de Jesus traria a cura a ela. Ao manter uma conversa com ela, Jesus nio somen­ te pôde demonstrar à mulher que era a sua fé que contava, como tam­ bém estabelecer relacionamento pessoal. As palavras também parecem indicar que Ele nio curava sem algum custo a Si mesmo. O poder saía dEle. 47. A mulher percebeu que não podia ocultar-se. Pensara que poderia tocar em Jesus, ser curada, e ir embora de modo desapercebido. Na realidade, pode ser que já tivesse começado a evadir-se, pois ela aproximou-se. Viu que Jesus sabia, e que nada lhe restava senio apresentar-se. Mas veio trêmula no seu nervosimo. Tinha feito algo errado em tocar em Jesus? Sua cura lhe seria retirada? O que pensariam todas aquelas pessoas?


Decerto, passou por maus momentos, Mas Jesus ficou esperando, e ela veio para a frente e prostrou-se. Contou, à vista de todo o povo o que fizera, por que o fizera, e como fora curada, Esta foi uma revelação completa. Todos agora sabiam da cura dela. 48. Jesus Se dirigiu a ela com ternura: Filha. Ela é a única mulher de quem há registro que Ele chamou assim. Passou a indicar-lhe que a sua fé a salvara, e a mandou partir em paz. Excetuando-se o modo de trato prefixado, Filha, as palavras são idênticas com aquelas que foram dirigi­ das à pecadora em 7:50 (ver a nota ali). iii. A filha de Jairo é ressuscitada dentre os mortos (8:49-56). interrupção párou momentaneamente a ida de Jesus para a casa de Jairo. Mas nio a impediu, e Lucas passa a mostrar como a menina foi ressusci­ tada. 49. Marcos bem como Lucas nos deixam saber que enquanto Jesus ainda falava à mulher, vieram notícias da casa de Jairo que sua filha morrera. O mensageiro continuou: não incomodes mais o Mestre. Decerto não tinha idéia alguma de que o poder de Jesus poderia estenderse além da morte. Há certa consideração para com o Mestre ocupado na sugestão de que não precisaria vir à casa, mas também há uma limitação da fé e do entendimento. 50. Jairo não falou coisa alguma. Jesus ouviu as palavras que lhe foram dirigidas, e imediatamente o mandou cessar de preocupar-se. Crê somente, disse Ele, e ela será salva. Se pudermos insistir na distinção do uso feito por Lucas do tempo aoristo, crê significa algo como “fazer um ato de fé,” “coloca tua fé em Mim” (embora não devamos deixar desapercebido o presente em Marcos, “continua crendo” ; ambos ressal­ tam a importância da fé neste momento). Jesus certamente deixou claro ao chefe da sinagoga que diante deste desastre que desabara sobre ele, precisaria ter fé. Nada mais importava. 51. O milagre anterior ocorrera desapercebido, mas Jesus insis­ tira que recebesse plena publicidade. Conforme vimos, este fato marcou Sua consideração para com a mulher. Foi igualmente uma marca da Sua consideração para a menina que, quando fosse ressuscitada dentre os mortos, não se acharia o centro de uma multidão embasbacada. Jesus não deixou ninguém entrar na casa com Ele senão o círculo interno dos Seus discípulos e os pais da criança. Esta foi a primeira vez em que desta­ cou Pedro, João e Tiago desta maneira, mas os mesmos três figuram nou­ tras ocasiões. Para esta ordem de menção cf. 9:28; At 1:13; Tiago antece­ de João em Lc 5:10; 6:14; 9:54. 52. 53. Não fica bem claro a quem se refere todos que choravam

A


e a pranteavam. Certamente seriam incluídos os familiares (à parte dos pais, que estavam com Jesus), e os vizinhos. Conforme notamos em 7:12, os pranteadores profissionais eram obrigatórios, e, visto que Mateus men­ ciona os tocadores de flauta, parece que níío tinham perdido tempo em começar seus serviços profissionais. Para aqueles que estavam ocupados numa pranteação barulhenta, Jesus disse: “Parem de prantear” (Não cho­ reis emprega uma construção que significa cessar de continuar uma ação já em andamento, e o verbo denota uma lastimação barulhenta, e não lágrimas silenciosas). Explicou: ela não está morta, mas dorme. Alguns acham que isto deve ser tomado literalmente, e que o diagnóstico de Je­ sus 0 levara à conclusão de que a menina na realidade ainda estava viva. Esta idéia, porém, é difícil de reconciliar com a expressa declaração de Lucas, sabiam (Não “pensavam”) que ela estava morta, e com suas pala­ vras posteriores, “Voltou-lhe o espírito” (55). É melhor entender que a palavra significa que aquilo que é morte para os homens nada mais é do que sono para Jesus (cf. Jo 11:11-14). No Novo Testamento, nunca se diz que os crentes morrem, mas, sim, dormem (cf. At 7:60). As palavras de Jesus, no entanto, provocaram risos e zombaria (é curioso que estes pranteadores são as únicas pessoas de quem há registro expresso no Novo Testamento de que riam). Os pranteadores sabiam que a menina estava morta, e Jesus ainda não estava na casa. 54,55. Supõe-se que foi a esta altura que Jesus entrou no quarto da falecida. Tomou a menina morta pela mãoe disse: Menina, levanta-te. Marcos conserva a palavra aramaica que a mãe da menina teria usada pa­ ra despertá-la de manhã. Lucas normalmente traduz os termos aramaicos, e assim faz aqui. Passa a descrever o milagre em termos muito simples: Vol­ tou-lhe o espirito, ela imediatamente se levantou. Jesus então mandou que lhe dessem de comer. Até mesmo no momento de um milagre estu­ pendo, não deixa desapercebido a importância de pormenores práticos. E, naturalmente, as palavras demonstram, mais uma vez, a consideração que Jesus tinha para as necessidades comuns daqueles com os quais entra­ va em contato. 56. Lucas, conforme freqüentemente faz, completa a narrativa com o efeito do milagre. Os pais da menina ficaram maravilhados. Jesus passou a adverti-los a não contar a ninguém o que acontecera. Dificil­ mente poderia ser a fim de que ninguém soubesse acerca dele. Afinal das contas, um grupo de pranteadores já tinha sido reunido, aguardando um enterro, e provavelmente seria necessário dizer-lhes que já não haveria enterro. Jesus provavelmente queria evitar que os pais da criança seguis­ sem uma tendência natural para entregar-se a comentários acerca da coi­


sa maravilhosa que acontecera. Seria melhor para eles concentrara-se no bem-estar da menina. A publicidade nâo era necessária.

u. A missão dos Doze (9:1-6) Alguns estudiosos (e.g. Bultmann) sustentam que esta viagem de prega­ ção não é histórica. Entendem que a igreja primitiva justificava suas prá­ ticas ao atribuí-las aos tempos de Jesus. Isto, porém, é altamente subje­ tivo e outros indicam que nâo há a mínima razão para pensar que Jesus não enviou Seus discípulos desta maneira. Havia sinais que Seu ministé­ rio na Galiléia não duraria muito mais tempo, e que era importante espa­ lhar a mensagem do reino e dar experiência aos discípulos. 1. Primeiramente, Jesus convocou os doze. Não devemos exage­ rar a quantidade de tempo que os apóstolos passaram juntos. Alguns de* les tinham lar e família em Cafamaum, e não precisamos duvidar que passavam parte do seu tempo em casa. Mas nesta ocasião solene, Jesus os conclamou todos juntos. Os demais Sinotistas dizem que Jesus deu autoridade aos apóstolos, mas Lucas reforça isto com a referência tam­ bém ao poder e com a informação que era sobre todos os demônios (os outros se referem a espíritos imundos, mas provavelmente não há muita diferença). Juntamente com este poder vem o de curar os enfermos, Fo­ ram, portanto, equipados com poder adequado, e com a autoridade para exercer tal poder. 2. Equipados desta maneira, foram enviados (dois a dois, confor­ me Marcos nos informa). Jesus os enviou para fazer duas coisas a pregar o reino de Deus e a curar os enfermos. Esta é claramente uma extensão do Seu próprio ministério, pois eram estas as mesmas coisas que Ele mesmo fazia. Deviam ocupar-se com os corpos humanos além de cui­ dar das almas. 3. Os Doze deviam viajar sem peso, Jesus lhes ordenou: Nada leveis para o caminho, e entrou em detalhes ao dizer; nem bordão, nem alforje, nem pão, nem dinheiro. Devem concentrar suas atenções na tarefa em andamento, e não nos preparativos minuciosos. Na realidade, devem abrir mão até mesmo daquilo que teria sido considerado a provisão normal pa­ ra uma viagem. Deus proverá aquilo que necessitam, e devem confiar nEle quanto a isto, confiança esta, conforme mais tarde concordaram, foi vindicada (22 3 5). Há um problema em nem bordão, porque em pri­ meiro lugar não é fácil demonstrar como ele, de qualquer maneira, pode­ ria ter sido um impecilho para a eficácia da pregação e as curas, e em se­


gundo lugar, no relato de Marcos, nada deviam levar, “apenas um bor­ dão” (Mc 6:8). Várias tentativas foram feitas para harmonizar os dois textos, tal como o ponto de vista de que Lucas quer dizer “nenhum bor­ dão adicional” (mas por que iam querer um bordão extra?), ou que temos traduções variadas de um original em Aramaico (que era, talvez, elíptico e poderia ser preenchido em mais de uma maneira). Mas, até agora, nenhu­ ma explicação parece realmente satisfatória. É possível que as duas manei­ ras de expressar a ordem queiram dizer: “Ide conforme estais.” Jesus está dando instruções no sentido de não fazerem preparativos especiais para esta viagem. O alforje (pèra) era a “mochila, a bolsa de viagem” (AG). Visto que não iriam fazer preparativos, semelhante mochila não era neces­ sária. A necessidade era urgente: simplesmente deviam ir. Alguns, no entanto, entendem que a pèra era a bolsa do mendigo usada, por exemplo, pelos pregadores cínicos itinerantes. Parece que alguns deles tiravam um sustento bem razoável ao apelar ao público desta maneira. Os pregadores de Jesus não deviam imitar tais pessoas. A proibição de uma segunda túni­ ca encaixa-se com as demais instruções. Nem deviam fazer os preparativos mais simples para sua viagem. Edersheim vincula tudo isto com a regra rabínica de que a pessoa não devia entrar no recinto do templo com bor­ dão, sapatos nem saco de dinheiro. “As razões simbólicas que subjazem este mandamento seriam, nos dois casos, provavelmente as mesmas: pa­ ra evitar até a mera aparência de estar ocupado noutros negócios, quando a totalidade do ser deve ser absorvida totalmente no serviço do Senhor,”28 4. Agora descobrimos como deveriam ser sustentados. Em cada lu­ gar que visitavam, deviam entrar num só lar e ali permanecer. Alguém se­ ria suficientemente interessado e hospitaleiro para prover as suas necessida­ des. Quando deixavam a cidade, deviam sair da casa para onde vieram no início. A limitação da sua aceitação da hospitalidade àquela de um chefe de família impunha um limite sobre o tempo da sua permanência. 5. Em seguida, Jesus os instruiu quanto ao seu procedimento quan­ do não achassem ninguém para lhes dar as boas-vindas. Deviam sacudir o pó dos seus pés. Havia uma idéia rabínica que o pó das terras gentias en­ volvia a contaminação,29 e diz-se que os judeus ortodoxos o removiam dos seus sapatos sempre que voltavam do estrangeiro à Palestina, O fato de os discípulos sacudirem o pó dos seus pés era em testemunho contra eles. Declarava em símbolo que os israelitas que rejeitavam o reino não

28. LT,i. pág. 643. 29. Ver SB, i, pág. 571.


eram melhores do que os gentios. Não pertenciam ao povo de Deus. Para a prática cf. At 13:51. 6. Lucas registra a obediência dos apóstolos. Percorriam todas as aldeias, o que indica uma viagem no interior. Lucas nio entra em porme­ nores, mas pelo menos nos informa que pregavam e curavam. Que assim fizeram por toda parte demonstra que, entre eles, cobriram muito terreno. Devemos, talvez, acrescentar que nâo se deve considerar que as ins­ truções aqui dadas são universalmente aplicáveis. Numa ocasião posterior, Jesus podia ordenar Seus seguidores a levarem bolsa, alforge, e espada (22:36). Estas instruções são para esta única viagem.

v. Herodes o Tetrarca (9:7-9)

Enquanto os apóstolos estão na sua viagem missionária, Lucas nos conta alguma coisa acerca de Herodes o Tetrarca. Este homem tinha ouvido fa­ lar de Jesus e ficou perplexo, 7,8. Para o tetrarca Herodes ver as notas sobre 3:1,19. Era o mo­ narca do território em que Jesus fizera a maior parte da Sua obra, de modo que teria interesse nos relatórios que chegavam a ele. O que ouvia deixavao perplexo. Algumas pessoas achavam que Jesus era João Batista, que ago­ ra ressuscitou dentre os mortos. Mateus e Marcos nos contam que este era o conceito do próprio Herodes, e é possível que Lucas queira dizer que finalmente chegou a esta conclusão. Outros viam Jesus como sendo Elias ou outro dos profetas. Tudo isto talvez implique em especulação messiânica, pois aguardava-se Elias como precursor do Messias (Ml 4:5) e os judeus pensavam que outros profetas também viriam. Fica claro que o ministério de Jesus despertou muito interesse e que dera vazão a muita conversa. Não é improvável que Herodes também tivesse ouvido falar do grupo de pregadores apostólicos que saíra em nome de Jesus. Mas, apesar de toda a conversa e de todo o interesse, as pessoas não sa­ biam que conclusão deviam tirar acerca de Jesus. 9. Herodes ficou falando consigo mesmo. “João? A ele decapi­ tei” (Rieu), disse ele. Mas o fato de ter voltado a João depois de repas­ sar na' sua mente outras sugestões demonstra que o pensamento de que João Batista pudesse ter ressuscitado dentre os mortos perturbava-o. Sua consciência talvez o perturbava quando pensava naquele homem bom. Destarte, queria ver Jesus por conta própria, talvez para averiguar se era João.


w. A multiplicação dos pães pata os cinco mil (9:10-17). Este é o único milagre, à parte da ressurreição, narrado em todos os qua­ tro Evangelhos. Claramente, tinha um atrativo especial para a igreja pri­ mitiva. Mas alguns, em tempos mais recentes, têm achado dificuldade com ele. Sugeriram que talvez o “milagre” ocorreu nos corações dos homens. Quando os discípulos de Jesus se dispuzeram a repartir toda a comida que tinham, outros ficaram envergonhados e ofereceram a comida que tinham com eles mas que nio quiseram reparti-la. Quando assim fizeram, acabou havendo mais do que suficiente para todos. Ou­ tros pensam numa refeição simbólica, como a Santa Ceia, e indicam a semelhança de linguagem com aquela que se emprega para aquele sacra­ mento. O problema de tais pontos de vista é que são subjetivos demais. Se nada mais tivesse havido na história do que isto, é difícil perceber como ela teria deixado uma marca tão forte na tradição bíblica e na igreja pri­ mitiva (cf. o tema dos pães e dos peixes na arte cristã). Não é isso que os Evangelistas estão dizendo. Todos descrevem um milagre. “É impossível reduzir o evento a dimensões humanas comuns” (Melinsky). Isto não quer dizer que não fosse simbólico. João fala dele como sendo um “si­ nal,” e isto deve ser levado plenamente a sério. O incidente ressaltou a verdade de que Deus em Cristo pode suprir qualquer necessidade. Podemos até mesmo aceitar o ponto de vista que havia algo de sacramental na re­ feição. Era, talvez, uma antecipação do banquete messiânico, da festa do Messias com Seu povo. Pode também ter havido algo de um aspecto de “adeus ao convívio” na festa, pois Jesus reconhecia que não estaria livre para Se movimentar por muito mais tempo na Galiléia. Mas tais idéias não devem ser sustentadas de tal maneira que obscureçam a parte mila­ grosa. 10. No devido tempo, os discípulos voltaram da sua viagem, e deram um relatório. É mais um exemplo da consideração de Jesus que, depois das labutas extenuantes deles, levou-os embora para um lugar quieto. Decerto, queria que tivessem a oportunidade de relaxar-se e refri­ gerar-se. Foram para Betsaida, que deve significar um lugar na vizinhan­ ça geral daquela cidade, porque Lucas nos informa que era “um lugar deserto” (12), e, portanto, não a própria cidade. 11. Deve ter sido uma decepção atravessar o lago à busca da soli­ dão, para então descobrir que não escaparam às multidões (de Marcos ficamos sabendo que alguns dentre as multidões foram na frente, de mo­ do que estavam esperando quando Jesus e Seus amigos desembarcaram). É curioso que o povo tenha seguido Jesus ao redor do lago. Teria sido


mais simples para eles esperarem Sua volta como fizeram certa vez ante­ riormente (8:40). Mas Betsaida ficava fora da jurisdição de Herodes e é bem provável que alguma ação de Herodes, não registrada aqui, tivesse convencido as pessoas que Jesus talvez não apareceria muito mais na Galiléia. A morte de JoSo Batista deve ter sido bem recente, e demonstrou a hostilidade de Herodes ao tipo de pregação à qual Jesus, e agora Seus seguidores, estava Se dedicando. Destarte, o povo foi ao Seu encontro. A despeito de ter procurado a solidão, Jesus não revelou irritação algu­ ma. Pelo contrário, acolheu-as. E continuou a obra que tão recentemen­ te estava fazendo através dos discípulos. Falava-lhes a respeito do reino de Deus e socorria os que tinham necessidade de cura. 12. Não sabemos a que horas começou tudo isto, mas durou o res­ tante do dia. Perto do entardecer, os Doze acharam que viera a hora de entrar em ação. Destarte, pediram a Jesus que mandasse o povo embora. No lugar deserto onde a multidão estava, não havia comida, de modo que deveriam ir para as aldeias e campos circunvizinhos se quisessem alimen­ tar-se. 13. Jesus repondeu, sugerindo que os discípulos dessem ao po­ vo aquilo que necessitava (vós é enfático). Mas disseram que não tinham mais que cinco pães e dois peixes. De João ficamos sabendo que eram pães de cevada (o alimento dos pobres) e que André achara um rapaz com eles. Decerto, eram as provisões do próprio rapaz. Não era muita coisa diante do tamanho da multidão. A alternativa a mandar o povo embora era ir comprar comida. Mas os discípulos consideravam impos­ sível fazer assim, tanto por estarem longe de lugares onde haveria supri­ mentos, quanto por não terem os recursos financeiros necessários (Fili­ pe indicou que nem duzentos denários seriam suficientes, Jo 6:7). 14,15. Lucas agora nos conta que havia cerca de cinco mil ho­ mens na multidão (o uso de andres indica homens, em distinção das mulheres e crianças, embora provavelmente não houvesse muitas des­ tas). Jesus mandou os discípulos fazerem o povo sentar-se em grupos de cerca de cinqüenta, evidentemente para a conveniência no atendi­ mento . 16,17. Jesus começou da maneira que os judeus normalmente começam uma refeição. Tomou a comida e “pronunciou a bênção” (NEB), olhando para o céu enquanto o fazia. O verbo abençoou não significa que dalguma maneira transmitiu uma bênção a estes objetos físicos. Se­ melhante idéia não é achada em parte alguma da Escritura. O significa­ do é que Jesus pronunciou uma oração de ações de graças, oração esta que começaria com “Bendito és Tu, ó Senhor,” seguida pela menção daquilo


em prol do que as ações de graças estavam sendo oferecidas, sendo que, neste caso, tratava-se* dos pies e dos peixes. O pio freqüentemente era quebrado enquanto esta oração era proferida, embora neste caso haveria referência também ao quebrá-lo em pedaços para a distribuição ao povo. Jesus passou a comida para os discípulos, e estes, para o povo até que to­ dos se fartaram. Isto que dizer que tiveram uma refeição integral, e não simplesmente um símbolo. Depois de acabada a refeição, os discípulos recolheram o que sobrou, enchendo doze cestos de pedaços. Embora tivesse havido suprimento abundante, nüo deveria haver desperdício.

x. O discipulado (9:18-27) A esta altura Lucas omite a seção inteira de Mc 6:45-8:26.30 Seja qual for a razão por isto, dá uma seqüência interessante, conforme indica Leaney. Herodes tinha perguntado: “Quem é, pois, este?” (9). Algumas respostas são sugeridas pela multiplicação dos pães (cf. Jo 6:14-15), os discípulos citam três outras respostas dadas pelo povo, e depois Pedro acrescenta mais uma por conta própria (19-20). O clímax vem com uma resposta inspiradora de reverente temor, dada por Deus (35). Talvez deva­ mos notar também outra seqüência aqui: o reconhecimento por parte dos discípulos de que Jesus é o Messias é seguido imediatamente pelo ensino que isto significa uma cruz para Ele, e uma cruz para eles, tam­ bém. i. A confissão de Pedro (9:18-20). Mateus e Marcos localizam este incidente na vizinhança de Cesaréia de Filipe, perto do sopé do Monte Hermom. Este era território pagão, s*endo que*a adoração do grande deus Pã se destacava de modo especial. Jesus Se retirara dos domínios de Herodes e das multidões que O tinham apertado. Aqui, poderia conversar quietamente com os discípulos e ter a oportunidade para pensamentos sem interrupções. Lucas caracteristicamente nos diz que Jesus estava orando em particular. Então, começou uma conversação ao perguntar aos discípulos Quem dizem as multidões que sou eu? A resposta deles é mui­ to semelhante aos relatos que tinham chegado a Herodes (7-8). O Grego dá a impressão de dizer que a resposta geralmente dada era João Batista, embora algumas pessoas tivessem outras idéias (assim Goodspeed). Elias ou outro profeta da antiguidade foi sugerido. Jesus continua: Mas vós,

30. Ver a Introdução, págs. 46-58,


quem dizeis que eu sou? Em todos os três Sinotistas, Sua palavra vós é enfática. Em distinção das demais pessoas, Ele está dizendo, o que é que vós pensais? O conhecimento de Cristo sempre é uma descoberta pessoal, nio o passar adiante de uma opinião aprendida doutras pessoas. Como acontece freqüentemente, Pedro é o porta-voz. Fala em nome de todos quando diz: Ê o Cristo de Deus. Para Cristo ver a nota sobre 2:11. Pedro está dizendo que Jesus é o Libertador por quem o povo de Deus estava ansiando havia tanto tempo. Que ele e seus companheiros chegaram a ver este fato nio era uma descoberta humana, mas, sim, uma revelação (Mt 16:17). Mas o que “Messias” realmente significava, nio sabiam. Destarte, Jesus passou a explicar que envolvia o sofrimento e a morte. Foi uma liçio que acharam difícil de aprender. Na realidade, ainda nio a tinham aprendido quando Jesus foi crucificado. ii. Uma profecia da paixão (9:21, 22). A resposta de Jesus às palavras é uma ordem muito firme no sentido de ser guardado silêncio. Advertindo-os, mandou, ou, conforme a expressão em NEB, “deu-lhes ordens rigorosas” . A razio deve ser a quase certeza de malentendido se a notícia fosse divulgada. Os judeus detestavam seu estado de sujeiÇ io aos romanos, e ansiavam pela libertação. Estavam dispostos a seguir quase qualquer pessoa que alegava ser o Messias, e, na realidade, houve muitas revoltas em pequena escala. Se Jesus tivesse sido saudado geral­ mente como Messias, as pessoas teriam entendido que se tratava de uma reivindicaçio política e militar. Teriam deixado totalmente de absorver aquilo que lhes ensinava. 22. Jesus passou a explicar um pouco daquilo que significava ser Messias. Era necessário que Ele' sofresse. O sofrimento, para Ele, nâo era nenhum acidente, mas, sim, uma necessidade divina compulsi­ va, A cruz era a Sua vocaçío. De acordo com isto, das muitas coisas que Ele sofreria, Jesus fala apenas da rejeição final. A palavra rejeita­ do parece ser um termo técnico para denotar a rejeição depois de um escrutínio jurídico cuidadoso feito para averiguar se um candidato para um cargo tinha qualificações (ver LS). Dá a entender aqui que a hierar­ quia consideraria as reivindações de Jesus, mas decidiria contra Ele. 0 único artigo na expressão anciãos . . . principais sacerdotes. . . escribas indica o fato de que os três formavam um grupo único no Sinédrio. Ha­ via, naturalmente, somente um sumo sacerdote, e a expressão principais sacerdotes dá a entender todos os membros das famílias das quais eram tirados os sumos sacerdotes. Os líderes da naçio é que haveriam de rejeitá-Lo em primeiro lugar. E isto nio seria meramente uma questío de palavras. Ele seria morto. Jesus nio lhes deu possibilidade alguma


de duvidar de que ser o Messias acarretava uma cruz. Mas a cruz nio é a totalidade da história. No terceiro dia o Filho do homem seria ressus­ citado . A ressurreição era tio certa quanto a crucificação. iii. Tomando a cruz (9:23*27). Jesus imediatamente acrescen­ tou à previsão da cruz uma referência a outra cruz, sendo que esta teria de ser carregada pelos Seus seguidores. Há, naturalmente, uma diferen­ ça. A cruz deles não era literal, e os sofrimentos não tinham poder expiador. Mas era (e é) real. 23. O seguidor de Jesus deve “negar a si mesmo”. Nada há de amor á boa vida em ser um cristão. Os discípulos provavelmente tinham visto um homem tomar a sua cruz, e sabiam o que significava. Quando um homem dalguma das aldeias deles tomava uma cruz e ia embora com um pequeno grupo de soldados romanos, estava numa viagem só de ida. Não estaria de volta. Esta é a primeira vez que Lucas emprega a palavra cruz e ele entra com efeito marcante. O seguidor de Cristo morreu para todo um modo de vida (cf. 14:27). Lucas nos diz que esta não é uma coi­ sa que pode ser acabada e removida do caminho: deve ser feita dia a dia. Logo, diz Jesus: siga-me. 24,25. Paradoxalmente, um homem pode perder sua vida na ten­ tativa de salvá-la (cf. 17:33; Mt 10:39; Jo 12:25). Quiser salvar indica a atitude do homem que coloca sua ênfase em obter o melhor da vida para si mesmo. Isso significa perda certa. É a pessoa que perder a vida (não “quiser perder,” mas que realmente a perde) por amor a Cristo que a sal­ va. Quando abre mão de tudo por amor a Cristo, descobre que entrou na vida que é vida de fato. Barclay diz, de modo excelente: “O cristão deve reconhecer que lhe é dada vida, não para conservá-la para ele mesmo, mas, sim, para gastá-la para outros; não para cuidar da sua chama, mas, sim, queimar-se totalmente por Cristo e pelos homens.” A vida não pode ser medida em termos de coisas materiais. Numa hipérbole magnífica, Je­ sus pergunta qual é a vantagem se alguém ganhar o mundo inteiro mas vier a perder-se, ou a causar dano a si mesmo ? Nada de material pode com­ pensar a perda da própria pessoa. 26. Jesus reforça esta declaração com uma referência a questões eternas. Agora, fala de um tempo em que Ele virá em glória e na glória do Pai e dos santos anjos. É uma referência bem clara ao fim da atual ordem mundial e do irrompimento dalguma coisa bem nova, o estado final das coisas. Ter vergonha de Jesus e do Seu ensino agora, diz Ele, é garantir que Ele terá vergonha de nós naquele dia glorioso. 27. O parágrafo é completado com um dito misterioso. Alguns daqueles que estavam presentes de maneira nenhuma passarão pela mor-


te até que vejam o reino de Deus. Nio fica claro o que significa a vinda do reino de Deus neste contexto. Alguns sustentam que Jesus Se referia à parusia e que estava enganado. Mas isto não se encaixa na linguagem usada. Se alguns nâo morrerão até que (heõs an} o evento em epígrafe, a implicação parece ser que morrerão depois dele, que é impossível no que diz respeito à parusia. Mas de qualquer maneira, esta linha de pensamen­ to é simplista demais. Plummer nota sete interpretações possíveis das pa­ lavras: a transfiguração, a ressurreição e a ascensão, o Pentecoste, a divul­ gação do cristianismo, o desenvolvimento interno do evangelho, a destrui­ ção de Jerusalém, e o segundo advento. Sustenta que a referência a alguns que aqui se encontram quer dizer que alguns (viz. os que estavam presen­ tes naquela ocasião) têm um privilégio especial em contraste com os ho­ mens em geral. Isto exclui todas as sete interpretações, excetuando-se a destruição de Jerusalém, das quais Plummer prefere esta última. Talvez tenha razão, pois essa vinda em julgamento se encaixa nas palavras tão bem como qualquer outra. Há, porém, muitas maneiras em que o reino vem, e há muita coisa que se pode dizer em prol do ponto de vista de que Jesus está Se referindo ao tempo crítico da crucificação, da ressurreição e a vinda do Espírito. O dito é complexo e, sem mais informações, é im­ possível ter certeza do sentido exato pretendido.

y. A transfiguração (9:28-36) Não é fácil ver exatamente o que aconteceu na transfiguração ou por que ocorreu. Podemos vê-la como uma revelação da glória do outro mun­ do, e talvez ela vise ser um encorajamento aos discípulos depois das pala­ vras pesadas acerca do carregar a cruz. A combinação entre a glória e a conversação acerca da morte de Cristo também será um modo de ensi­ nar os discípulos que a verdadeira glória e a cruz não são incompatíveis. Mas devemos entender, também, que tudo tinha um significado para o próprio Jesus. Na quietude, sem dúvida pensara muito tempo acerca da concretização da Sua vocação. Ele estava para subir a Jesusalém a fim de morrer em prol dos homens. Esta visão na montanha colocou o selo da aprovação divina sobre o passo que estava para dar. 28,29. Tradicionalmente tem sido entendido que o monte Tabor foi o lugar onde ocorreu a transfiguração, mas isto é quase certamente errado. É longe demais de Cesaréia de Felipe, e parece ter sido habitado naqueles tempos. Não poderia, portanto, ter oferecido a solidão para on­ de Jesus levou Seus seguidores para orar. Há muito mais evidência a fa-


vor do monte Hermom, mas isto está longe de ser certo. Caracteristicamente, Lucas nos conta que subiu ao monte com o propósito de orar (ver a Introdução, pág. 45. Enquanto orava, Sua aparência total foi alte­ rada. Lucas n5o nos oferece muitos pormenores, mas ficamos sabendo dos outros Evangelistas que o rosto de Jesus brilhava como o sol e que Suas roupas ficaram mais brancas do que qualquer lavanderia na terra poderia lavá-las. 30,31. Todos os três Sinotistas concordam que Moisés e Elias falavam com Ele, sendo eles o grande legislador e um grande representan­ te dos profetas. Juntamente indicam a hora do cumprimento de tudo quanto o Antigo Testamento prenuncia. Somente Lucas nos conta que o assunto da conversa era a partida de Jesus, i. é, Sua morte (cf. 2 Pe 1:15). Que este tópico foi escolhido nesta ocasião demonstra até que ponto a morte de Jesus ocupa uma posiçio central.31 O emprego da palavra êxo­ dos para a morte é incomum, e provavelmente devamos discernir um pou­ co da tipologia do Êxodo. O Êxodo libertara Israel da escravidão. Jesus, mediante Seu “êxodo” livraria Seu povo de uma escravidão muito pior. 32,33. Os discípulos estavam dormindo profundamente, mas acor daram (B.L.H.). É bpm possível que fosse à noite (37; cf. 6:12). Parece que enquanto Jesus orava, os discípulos adormeceram, mas foram des­ pertados pelo brilho da luz. Viram a glória de Jesus e as visitas celestiais. Quando Moisés e Elias começavam a partir, Pedro procurou reter a ex­ periência ao fazer para eles tendas, i.é, abrigos ou choupanas de folhas, de um tipo temporário; a palavra é empregada comumente para uma “ten­ da” ou “tabemáculo.” Pedro nio sabia realmente o que dizia. A experiên­ cia era assoberbante. 34,35. Agora veio uma nuvem e os envolveu. No Antigo Testamen to, uma nuvem às vezes é associada com a presença de Deus (e.g. Êx 4034-35) e nâo há motivo de duvidar que este é o caso aqui, especial­ mente tendo em vista a voz celestial. Nâo fica bem claro quem entrou na nuvem. O texto que temos (ARA) dá a impressão de que os discípulos foram incluídos. Mas é mais provável, segundo parece, que a nuvem envolvesse Jesus e os visitantes celestes;32 cf. Knox: “viram aqueles outros desaparecerem dentro da nuvem, e ficaram aterrorizados.” Que os discí­

31. H. Conzelmann comenta: “O propósito por detrás da manifestação celes­ tial é proclamar a Paixão, e por este meio é dada a prova de que a Paixão é uma coisa decretada por Deus” (The Theology o f St Luke, p. 5 7. 32. Assim A. Oepke, TDNT, iv, p. 908.


pulos estavam fora da nuvem parece ser indicado pelo fato de que a voz veio a eles de dentro (ek) dela. A voz disse: Este é o meu Filho, o meu eleito: a ele ouvil Os outros Evangelhos têm “meu Filho amado,” como também têm alguns MSS de Lucas. Eleito enfatiza outro aspecto da Pes­ soa de Jesus, um pouco como o messiado. Deus escolheu e nomeou Jesus para Seu ministério. Isto O diferencia clara e enfaticamente de Moisés e de Elias (contra as opiniões mencionadas em 8, 19). A Ele, os homens devem prestar atenção. 36. Nisto acabou a visão. Lucas deixa de mencionar que Jesus veio aos discípulos e os tocou enquanto jaziam prostrados. Simplesmente diz que depois daquela voz, achou-se Jesus sozinho. Acrescenta que naqueles dias os discípulos não contaram a visão a ninguém. Tinha sido uma experiência maravilhosa, mas não era o tipo de coisa que encoraja­ ria a tagarelice ociosa.

z. Jesus e os discípulos (9:37-50)

Lucas agora ajunta quatro incidentes curtos em que demonstra a falta de fé dos discípulos, sua lentidão em aprender, seu orgulho, e sua intolerân­ cia. É uma seqüência impressionante, e faz uma conclusão triste à sua seção galiléia. Os discípulos têm muita coisa para aprender. i. O jovem possesso (9:37-43a). A experiência no cume da mon­ tanha é seguida em todos os três Sinotistas pela incapacidade angustiante dos discípulos de tratar de um caso de possessão demoníaca. O contraste é marcante. De um lado, temos aqueles que se regozijavam na luz de Deus no cume da montanha, e, do outro lado, aqueles que estavam sendo der­ rotados pelos poderes das trevas na planície. Mas a supremacia de Jesus está evidente nos dois casos. 37. Lucas diz que este incidente ocorreu no dia seguinte. Omite a discussão acerca da vinda de Elias, e passa diretamente ao caso do meni­ no endemoninhado. Uma grande multidão estava com o menino, e agora veio ao encontro de Jesus. 38-40. Um homem na multidão clamou a Jesus em alta voz, expli­ cando sua necessidade. Tinha um filho único (cf. 7:12; 8:42), que de tem­ pos em tempos era possesso por um demônio. Os sintomas parecem seme­ lhantes aos da epilepsia, e muitos classificam a doença como tal sem mais aquela. Como, porém, a doença é atribuída à possessão demoníaca, este diagnóstico talvez seja um pouco confiante demais. O homem completa sua história de sofrimentos dizendo que rogara aos discípulos que lidas­


sem com o demônio mas que, infelizmente, eles não puderam. Não fica claro se estes discípulos incluíam alguns dos apóstolos ou não. Visto que somente três dos doze estiveram com Jesus, presume-se que havia alguns deles com a multidão. Neste caso, há um problema, pois tinham tido suces­ so em lidar com demônios na sua viagem de pregação (9:1-6). Agora o poder os tinha deixado. Deve ter havido algum fracasso na sua vida espi­ ritual (Mc 9:29 refere-se à necessidade da oração). 41. Não é fácil perceber a quem Jesus dirige as palavras Ó gera ção incrédula e perversa', (cf. Dt. 32:5). Não parece haver razão para pensar no pai, porque em primeiro lugar, não era uma “geração” e em se­ gundo lugar, foi ele quem trouxera seu filho, pela fé, para ser curado, ainda que essa fé fosse imperfeita (Mc 9:24). Mas alguns bem podem ter vindo no espírito de “Vamos ver o que estes discípulos podem fazer” e talvez, até, “o que não podem fazer”! Este parece ser o ponto crucial do argumen­ to entre os escribas e os discípulos (Mc 9:14). Devemos, pois, entender que as pessoas endereçadas eram “todas as pessoas presentes que não ti­ nham demonstrado fé suficiente para a cura do menino” (THB). As pala­ vras são importantes, porque Lucas as tornou centrais ao abreviar grande­ mente a narrativa. Omitiu várias declarações interessantíssimas, inclusi­ ve a de Jesus: “Tudo é possível ao que crê” e a do pai: “Eu creio, ajudame na minha falta de fé” (Mc 9:23, 24). A pergunta até quando , . J (cf. Nm 14:27), demonstra que Jesus estava preocupado com a falta de fé e propósito do qual falava. As pessoas estavam vendo os milagres como maravilhas, mas não como sinais da presença de Deus e da Sua exi­ gência do arrependimento. Mas imediatamente Jesus volta-Se ao homem e à necessidade dele, e pediu-lhe que trouxesse o menino a Ele. 42,43a. Enquanto o menino vinha para a frente, o demônio deu seu ímpeto final. O atirou no chão e o convulsionou. Marcos relata uma breve conversação que se seguiu, mas Lucas, como Mateus, concen­ tra-se na cura. Jesus repreendeu o espírito imundo (cf. 4:35, 39, 41; 8:24) e curou o menino. Sua solicitude para com as pessoas ressalta-se outra vez quando Ele o entregou a seu pai. O milagre deixou as pessoas maravilhadas ante a majestade de Deus. Jesus não atraía a atenção a Ele mesmo, mas, sim, trazia glória ao Pai. ii. Outra profecia da paixão (9:43b-45). Jesus desviou a aten ção dos discípulos de maravilhar-se de quanto Jesus fazia para a paixão. Fixai nos vossos ouvidos as seguintes palavras é uma chamada para prestar atenção com muita exatidão. É endereçada especialmente aos discípulos, conforme indica um “vós” enfático no Grego (“Por vossa parte,” JB). Os discípulos estão colocados em contraste com o público geral que


nada mais fazia senão maravilhar-se dos milagres. Depois desta introdu­ ção solene Jesus conta aos Seus seguidores que Ele será entregue nas mãos dos homens. Isto nio é muito específico, o que pode ser parte da razão porque não entendiam isto. Mas, mais importante, foi-lhes encoberto, que pode significar que havia oposição das forças do mal. Lucas faz um esforço especial para enfatizar a falta deles de captar a declaração, porque suas palavras são muito mais fortes do que as nos demais Evangelhos. Temiam interrogá-lo a este respeito. Esta atitude é tanto mais inexpli­ cável visto que Jesus tinha falado das mesmas coisas não havia muito tempo antes (22). Mas não O entenderam naquela ocasião tampouco, e este dito é mais curto e talvez mais misterioso. Do outro lado da cruz, deve ter sido terrivelmente difícil captar a verdade que o messiado de Jesus importava em Sua morte. iii. O orgulho dos discípulos (9:4648). Ryle nos relembra que o orgulho sempre volta a ocorrer no homem, embora “De todas as criatu­ ras nenhuma tem tão pouco direito de ser orgulhosa quanto o homem.” Acrescenta: “de todos os homens, nenhum deve ser tão humilde quanto o cristão.” 46. A distância entre os discípulos e o espírito de Jesus ressaltase na sua discussão (a palavra pode significar “pensamento” ou “arrazoar”) sobre qual deles seria o maior. Jesus acabara de falar da Sua morte sacrificial pelos homens. Eles estavam falando da primazia de lugar. Esta pode ser parte da razão pela sua incapacidade para entender. Estavam pensando em si mesmos. Jesus estava pensando nos outros. 47,48. Jesus sabia o que se lhes passava no coração (o pensamento1 oculto aqui é representado em Grego pela palavra traduzida “discussão” no versículo anterior). Repreendeu-os, portanto, ao colocar uma criança (para a atitude de Jesus para com as crianças, cf. 10:21; 17:2; 18:6) junto a Si, e disse-lhes: Quem receber esta criança em meu nome, a mim me recebe. A criança representa os indefesos e as pessoas sem importância. O teste do serviço amoroso é que recebemos os tais em nome de Cristo. Receber a criança é receber a Cristo, e receber a Cristo é receber o Pai (note a referência à missão nas palavras aquele que me enviou). A verda­ deira grandeza não é a grandeza terrestre: é sua antítese. O homem ver­ dadeiramente grande é o homem humilde. Jesus não está dizendo que o grande homem é aquele que está disposto a participar do serviço num lu­ gar humilde. Mas o que for o menor será grande. Não diz “o maior.” No reino, os homens não se comparam uns com os outros. A verdadeira grandeza consiste em serviço humilde. iv. O exorcista estranho (9:49, 50). O ministério de Jesus tinha


atraído interesse generalizado, e alguns que nunca se ligaram ao círculo dos discípulos estavam disposto a servirem a Deus no nome dEle. Um dos tais atraiu a atenção dos apóstolos ao expulsar demônios. 49. Falou João (lit. “respondeu”), que significa que estava respon­ dendo às palavras faladas por Jesus. Talvez queira dizer: “Mas decerto há limites. Isto nio seria aplicável a um caso como este.” Ou talvez vira que suas ações estavam incluídas na condenação, e sua consciência esta­ va perturbada. Seja qual for o motivo, agora contou a Jesus acerca de um homem que viram expelindo demônios em nome de Jesus. Alguns comen­ taristas rejeitam isto, dizendo que o exorcismo em nome de Jesus dificil­ mente teria sido feito durante a vida terrestre de Jesus. Pensam que Lucas está incluindo a experiência da igreja no relato dos tempos de Jesus. Mas isto parece superficial. Quando Jesus tinha tido tanto sucesso em ex­ pulsar demônios quanto demonstram os capítulos anteriores, nada é mais natural do que outra pessoa fizesse o mesmo em nome dEle. Mas Joio, e quem mais estava incluído no plural de vimos, mandaram-no parar (o imperfeito pode significar “procuramos pará-lo” ou “continuamos a pará-lo”) porque não segue conosco. Lucas nio diz que o homem alega* va ser um discípulo. Apenas expelia demônios em nome de Jesus. Mas para os discípulos nio bastava que ele pudesse fazer em nome de Jesus aquilo que eles tio recentemente e de modo tio destacado nio conse­ guiram fazer (40). Devia seguir juntamente com eles. Este tem sido o erro de cristios em todas as eras, e é interessante vê-lo na primeiríssima geraçío dos seguidores de Jesus. 50. O Mestre, nio aceitou tal atitude de modo nenhum. Não proibais, disse Ele. Acrescentou a regra importante: quem não é contra vós outros, é por vós. Nio pode haver neutralidade na guerra contra o mal. O homem que se opõe aos demônios em nome de Jesus, deve ser bem recebido, e nio alvo de oposição. Está no lado certo. Plummer indi­ ca apropriadamente que este é o teste que o homem pode aplicar aos outros, ao passo que o dito: “Quem nio é por mim, é contra mim” (11: 23) deve ser aplicado por ele a si mesmo.

V. DA GALILÉIA PARA JERUSALÉM (9:51-19:44)

Nio há qualquer paralelo verdadeiro a esta seção em qualquer dos demais Evangelhos, embora algumas partes dela sejam semelhantes a passagens em Mateus, e, depois de 18:15, em Marcos também. Lucas fala de Jesus


viajando para Jerusalém, mas Seu ministério está longe de ser acabado, e há muita coisa que ainda deve ensinar aos discípulos. Esta seção está, em grande medida, (mas nio exclusivamente), ocupada com o ensino, assim como a seção anterior se concentrara nos atos de Jesus. Nio po­ de haver dúvida quanto à idéia de uma viagem. Lucas fala várias vezes especificamente acerca de Jesus viajando para Jerusalém (9:51, 53; 13:22, 33; 17:11; 18:31; 19:11, 28), e há outras indicações, menos específicas, de uma viagem (9:57; 10:1, 38; 14:25). Surge, porém, um problema quando procuramos traçar o curso dela. Desde 9:15ss. parece que Jesus está viajando pela rota mais curta, atravessando a Samaria, mas mais tarde O vemos passando por Jericó (19:1), que ficava na rota mais longa, atra­ vessando a Peréia. Em 10*38 está na aldeia de Marta e Maria, i.é, Betânia (Jo 11:1), a poucos quilômetros de Jerusalém. Mas em 17:11 está passando “pelo meio de Samaria e da Galiléia.” Godet pensa que tudo isto se encaixa. Vê-o na sua totalidade como parte de uma só viagem feita devagar, entre a Galiléia e Jerusalém, duran­ te a qual Jesus dava boa .quantidade de ensino. Outros pensam que hou­ ve duas viagens distintas, vendo aquela que começou em 9:51 como sen­ do, talvez, a viagem para a festa dos Tabernáculos (Jo 7), ao passó que a última viagem à capital começou em 17:11 (ver a nota ali). Alguns pen­ sam que Lucas conhecia duas tradições da última viagem de Jesus a Jeru­ salém (9:51-10:42 e 17:11-19:28) e que encaixou entre élas alguma maté­ ria interessante para a qual lhe faltava informações acerca de datas ou lu­ gares. Outros pensam que a ‘Viagem” é bem artificial, e sustentam que Lucas inseriu aqui boa quantia de matéria miscelânea que nio pertencia obviamente a qualquer outro lugar. É provável que a maioria dos estudio­ sos entenda que o tema da viagem tenha relevância teológica, embora haja disputa quanto à exatamente qual era. Destarte, W. G, Kümmel cita sete estudiosos diferentes com seis opiniões diferentes no que diz respeito a esta relevância teológica. Nio se pode sustentar, portanto, que qualquer uma destas tendências seja muito marcante. Tendo em vista estas várias maneiras de aquilatar a evidência é difícil ver como se pode resistir a conclusão de Kümmel, quando nada mais diz além de que, nesta seção, “o Senhor que vai sofrer de acordo com a vontade de Deus, equipa Seus discípulos para a missão da pregação depois da Sua morte.”33 O apelo aos galileus já passou. A paixão está na frente de Je-

33. W. G. Kümmel, Introduction to the New Testament, pág. 99. (Ed. em português por Edições Paulinas).


sus, e ele viaja com firmeza em direção a ela. Mas até que ela venha, Ele deve continuar Sua obra.

a. Mais lições acerca do discipulado (9:51-62).

i. A rejeição pelos samaritanos (9:51-56). Lucas ressalta as ati tudes contrastantes de Jesus e dos Seus seguidores diante da recusa dalguns samaritanos de recebê-los. 51. Com Seu ministério aproximando-se do fim, Jesus manifestou no semblante a intrépida resolução de ir para Jerusalém. A expressão ser assunto é incomum. Realmente é um substantivo (“os dias da Sua assunção”), que ocorre somente aqui no Novo Testamento. O verbo cor­ respondente é usado certo número de vezes em Atos, às vezes acerca da ascensão de Jesus. Alguns vêem na palavra uma referência oblíqua à assunção de Elias ao céu. Esta idéia é reforçada pela referência, um pou­ co mais tarde, ao mandar descer fogo do céu como fizera Elias (54; cf. 2 Rs 1:10, 12). Seja qual for a veracidade que há nisto, Lucas decerto tem em mente a consumação da obra de Jesus na crucificação, ressurreição e ascensão. Mas em primeiro lugar nesta seqüência há a cruz, e há cora­ gem, portanto, no fato de que Jesus teve a intrépida resolução de ir para Jerusalém, 52,53. Não se declara quais eram os mensageiros de Jesus, mas provavelmente eram alguns dos Doze que foram na frente para prepa­ rar alojamentos para o pequeno grupo. Um grupo de uma dúzia ou mais seria um fardo para os recursos de uma aldeia pequena se chegassem inesperadamente; e, naturalmente, pode ter havido mais pessoas. Mas os aldeões samaritanos, vendo que decisivamente ia para Jerusalém, não queriam ter nada a ver com Jesus. Sua rixa com os judeus era tão amar­ ga que não iriam ajudar qualquer pessoa a viajar para Jerusalém, embo­ ra não tivessem objeções contra receberem galileus como tais. Josefo nos conta que os samaritanos não eram avessos a maltratar os peregrinos que subiam a Jerusalém, até ao ponto de assassiná-los nalgumas ocasiões (Bellum ii.232; Antiguidades xx.118; esta última passagem conta-nos que era o costume dos galileus passar por Samaria em tempos de festa). 54. Esta atitude de má vontade era dèmais para Tiago e João Estes “filhos do trovão” (Mc 3:17) perguntaram se Jesus queria que man­ dassem descer fogo do céu para os consumir? Há grande fé em Jesus nesta pergunta. Diante da ofensa dada ao Mestre deles, achavam que bastaria convocar o fogo em nome de Jesus e seria dado. Mas isto é mais creditá-


vel ao zelo deles e à sua devoção a Jesus do que ao modo de eles enten­ derem a natureza do serviço cristão. 55, 56. Jesus os repreendeu. Não é assim que Seus seguidores se comportam. E sem dar qualquer passo em oposição aos samaritanos, passaram para outra aldeia, talvez judaica. As palavras entre colchetes provavelmente não pertençam ao texto. Acham-se na maioria dos manus­ critos posteriores, e nalguns poucos dos mais antigos, mormente nos oci­ dentais. Mas estão ausentes dos papiros e dos grandes unciais. A maioria dos estudiosos considera-as um acréscimo dos copistas. ii. A sinceridade (9:57-62). Este parágrafo está localizado sim­ plesmente “ao longo do caminho.” Enquanto Jesus viajava, Lucas nos con­ ta que alguns anunciaram sua intenção de segui-Lo. Claramente tiveram boas intenções, mas não tinham percebido a natureza das exigências que o reino faz dos homens. 57, 58. O primeiro homem expressa sua disposição para seguir. Na­ da há de errado com o modo de ele declarar-se: está pronto a ir para onde Jesus levar. Mas a resposta mostra que não levou em conta o que isto significa. Os animais e as aves têm seu lugar de habitação, mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça. Este é um relance incidental do custo da encarnação. E demonstra que o seguidor de Jesus não deve contar com uma vida de luxo. 59,60. O segundo homem foi chamado por Jesus. Respondendo, pediu licença para sepultar seu pai. Alguns sustentam que, se o pai fosse um cadáver em casa, o homem provavelmente nem sequer estaria com Jesus; por demais ocupado com os deveres em conexão com o sepultamento. Segundo este ponto de vista, seu pedido era para ficar em ca­ sa até que seu pai morresse. Isto poderia ter significado um atraso in­ definido, e as questões do reino não podem ser adiadas. Mas as palavras teriam uma urgência ainda maior se o pai já tivesse morrido. Os judeus contavam importantíssimo um sepultamento apropriado. O dever do sepultamento tomava precedência sobre o estudo da Lei, o serviço do Tem­ plo, o matar do sacrifício da Páscoa, a observância da circuncisão e a lei­ tura da Megillah (Megillah 3b). Mas as exigências do reino eram ainda mais urgentes. Jesus não poderia esperar até que o homem passasse por to­ das as cerimônias envolvidas num sepultamento. Diz, portanto: Deixa aos mortos o sepultar os seus próprios mortos. Jesus chamara o homem, e ele deveria pregar o reino de Deus. Que aqueles sem visão espiritual cum­ pram o tipo de dever que sabem fazer tão bem. O sepultamento é uma ati­ vidade em harmonia com aqueles que estão espiritualmente mortos. Mas o homem que viu a visão não deve negar ou atrasar sua vocação celestial.


61,62. O terceiro homem, como o primeiro, ofereceu seus servi­ ços. Mas entrepôs a condição de que queria primeiro despedir-se dos de casa, Nio parece ser nada mais do que aquilo que seria razoável (cf. 5 ;29). Mas neste caso evidentemente ocultava alguma relutância quanto a dar o passo decisivo. Jesus indica que o reino não tem lugar para aqueles que olham para trás quando são chamados para avançar.

b. A missão dos sententa (10:1-24)

Somente Lucas nos conta acerca do envio deste grupo grande de dis­ cípulos. Algumas das instruções são semelhantes àquelas no relato em Mateus no envio dos Doze. Isto leva alguns estudiosos a adotarem o pon­ to de vista de que esta passagem nada mais é do que uma variação das ins­ truções que foram dadas aos Doze em Mateus. Tal idéia, na frase de Plummer, “não sustenta a crítica.” O fato de Lucas ter registrado esta missão em proximidade tão estreita com a dos Doze (que registra em 9:1-16), demonstra que ele as considerava distintas entre si. Cada uma é inteligível no seu próprio lugar. E, conforme indica Manson, é provável que Jesus utilizasse os serviços doutras pessoas fora dos Doze, e igual­ mente provável que este fato fosse esquecido em grande medida tendo em vista o lugar dado aos Doze nas reminiscências cristãs. i. A missão e a mensagem (10:1-12). Lucas registra as instr ções de Jesus ao grupo maior muito mais detalhadamente do que aque­ las que tinham sido dadas anteriormente aos Doze. 1. Um dos problemas textuais mais difíceis no Novo Testame to refere-se ao número de pessoas que Jesus enviou nesta missão. Muitos bons MSS registram setenta, conforme temos em ARA, mas também existem muitos que dizem “sententa e dois.” Com as evidências que te­ mos à disposição, a certeza é impossível (embora eu pense ser “setenta e dois” um pouco mais provável). O número parece ser um símbolo das nações do mundo, conceito este que os judeus baseavam em Gênesis 10, onde há setenta nomes no texto hebraico e setenta e dois na LXX. Outros, porém, associam o número com aquele dos anciãos nomeados por Moi­ sés (Nm 11:16-17; setenta e dois com os dois que permaneceram no arraial). Vêem Jesus como sendo o segundo Moisés. Ainda outros pensam nos setenta membros do Sinédrio, os líderes religiosos que deveriam estar se preparando para a vinda do Messias. Seja qual for a verdade por detrás destas conejcturas, Jesus enviou-os aos pares na Sua frente. Um gru­ po tão grande de precursores demonstra que Ele tinha um itinerário ati­


vo diante dEle. 2. Jesus começou Suas instruções com palavras que aparentemente usou em mais de que uma ocasião, em formas levemente diferentes (cf. Mt 9:37-38; Jo 4:35). Que a seara é grande significa que há muito traba­ lho para ser feito; que os trabalhadores são poucos, que nâo devem demo­ rar-se. Significa, também, que devem depender do Senhor da seara que mande trabalhadores para a sua seara, bem como para sua própria força e orientação. A oração pedindo mais trabalhadores para Deus é um dever que incumbe àqueles que labutam por Ele. 3,4. Não vão para qualquer tarefa fácil. Cordeiros no meio de lo­ bos não é uma situação invejável. O símile indica tanto o perigo quanto a condição indefesa. Os servos de Deus sempre estão, em certo sentido, à mercê do mundo, e na sua própria força não podem enfrentar a situação em que se acham. Devem confiar em Deus. Destarte, Jesus os manda não levar equipamento algum (cf. 93). A bolsa (ballantion) é para dinhei­ ro. A palavra é usada somente por Lucas no Novo Testamento. 0 alforje (pèra) ê um saco de viagem (ver sobre 93). Que não devem levar sandálias provavelmente significa, não que devem andar descalços, mas, sim, que não devem carregar um par extra. Devem ir conforme estão. A ninguém saudeis pelo caminho não é uma exortação à descortesia: é uma lembrança que seu negócio é urgente e que não devem atrasá-lo por meio de demorarse com conhecidos ao longe do caminho. As saudações orientais podem ser muito detalhadas e consumir muito tempo. 5, 6. Ao entrardes numa casa, deve tratar-se de aceitar alojamento quando chegam a uma cidade ou aldeia. Devem dar a saudação da paz. Se o chefe do lar for um filho da paz (um homem caracterizado pela paz, conforme a expressão idiomática semítica; diríamos “ura homem de paz”), a paz deles repousará sobre ele. Um estado de harmonia existirá. Mas se ele não for, ela voltam sobre vós. Esta é linguagem figurada que assegura os discípulos que não estariam procurando transmitir uma bênção para alguém que não deseja recebê-la. As boas dádivas de Deus não são dadas por magia. 7. Os Doze receberam ordens no sentido de permanecer numa só casa em qualquer determinada cidade (9:4) e isto se aplica aos setenta também. Não devem sentir escrúpulos quanto ao receber suas refeições gratuitamente, porque digno é o trabalhador do seu salário (cf. 1 Tm 5:18). Este é um princípio de larga aplicação que às vezes tem sido negli­ genciado nas atividades cristãs. Mas se o trabalhador é digno do seu salá­ rio, não vale mais do que isto. Não devem mudar de casa em casa. Isto significaria fazer um circuito social e receber hospitalidade muito tempo


depois de terem completado o seu trabalho. Há urgência na sua missão. Devem avançar com firmeza. 8,9. Jesus agora dá o procedimento a ser seguido quando o pregadores recebem as boas-vindas. Devem aceitar a hospitalidade, e co­ mer o que for colocado diante deles. Na área além do Jordão para onde aparentemente iam, havia muitos gentios.O alimento talvez nem sempre satisfaça o rigorista no assunto na pureza cerimonial. Os setenta não de­ veriam ser desviados para a meticulosidade exagerada no que dizia respei­ to ao alimento. Deveriam curar e pregar, sendo que o conteúdo da sua mensagem era: A vós outros está próximo o reino de Deus. A mensagem devia ser aceita, e vivida à altura por todos quanto a receberam. Mas o reino estava próximo. Este é seu dia de oportunidade. 10*12. Talvez uma cidade não os receberia. Então, devem sair pelas ruas com sua mensagem. Devem contar ao povo duas coisas. Em pri­ meiro lugar, devem sacudir contra eles o pó dos seus pés (para esta ação simbólica, ver a nota sobre 9:5). Isto informa os cidadãos de modo sim­ bólico que se colocaram fora do povo de Deus. Em segundo lugar, que a atitude deles não altera as realidades. A sua rejeição dele não altera o fa­ to de que era nada menos do que o reino de Deus que tinha estado pró­ ximo. Ao rejeitarem os pregadores não estavam rejeitando um par de pobres itinerantes, mas, sim, o próprio reino de Deus, e isso tem sérias conseqüências. As pessoas atraíram o julgamento contra si mesmas. Na­ quele dia não é explicado, mas claramente significa o dia terrível do jul­ gamento (cf. 21 '34; Mt 7:22; 2 Ts 1:10; 2 Tm 1:12,18; 4:8). Então have­ ria menos rigor para Sodoma do que para aqueles transgressores. A des­ truição de Sodoma (Gn 19:13, 24-25) fez com que aquela cidade ficasse proverbial para o julgamento divino dos perversos. A culpa daqueles que rejeitassem os mensageiros do reino de Deus é enfatizada pela alusão. ii. A condenação das cidades da Galiléia (10:13-16). A mençã daqueles que talvez rejeitassem a Jesus naturalmente leva à menção daque­ les que já o fizeram. Estas palavras podem ter sido faladas na mesma oca­ sião, ou não (Mateus as tem num contexto diferente, 11:20-24). Mas são apropriadas para o tema do julgamento. 13,14. Ai não é um grito por vingança, mas, sim, uma expressã de profundo pesar (cf. 6:24-26). A menção das cidades de Corazim (no Novo Testamento somente aqui e no paralelo em Mateus) e de Betsaida nos torna conscientes do fato de que pouca coisa sabemos da vida de Je­ sus. Absolutamente nada é sabido do Seu ministério naquela primeira cidade, e muito pouco daquele nesta última cidade. Mas estas palavras demonstram que Ele tinha trabalhado extensivamente nos dois lugares,


e operado milagres ali. Realmente os milagres (“obras poderosas”) que fizera eram de tal caráter que teriam produzido o arrependimento em Tiro e Sidom. Aquelas cidades, situadas no litoral ao norte da Galiléia, tinham formado o coração do império fenício. Tinham sido grandes cen­ tros comerciais, mas tinham pecado gravemente e tinham sido o objeti­ vo do apelo de Deus através dos Seus profetas e do Seu julgamento quando não queriam corresponder (cf. Is 23; Ez 26-28). Mesmo assim, estas cida­ des estariam em melhores condições no juízo do que Corazim e Betsaida. Tal é a seriedade de rejeitar o Filho de Deus. 15. Cafamaum era a cidade em que boa parte do ministério de Jesus tinha sido exercida. Ele passou tanto tempo ah, que ela podia ser chamada Sua própria cidade (Mt 9:1). Ela tinha visto milagres e ouvido ensinos. Mas, na sua maior parte, a cidade permanecera sem se comover. Decerto, os cidadãos de Cafamaum tinham alto conceito de si mesmos e falavam em termos de serem “elevados até ao céu.” Mas este não have­ ria de ser o destino da sua cidade: Descerás até ao inferno (cf. Is 14:13, 15). Claramente, céu e inferno aqui são usados para as alturas da glória e as profundezas da degradação. “Jesus prediz a futura humilhação da cidade . . . Hoje, o sítio deserto de Cafamaum dá testemunho eloqüen­ te e silencioso à Sua profecia” (Ellis). 16. Jesus, em certo número de ocasiões, falava palavras como este pequeno dito (Mt 10:40; Jo 13:20). Lucas evidentemente o coloca aqui porque é apropriado de modo geral e não para indicar que foi falado necessariamente nesta ocasião. Enfatiza a importância dos mensageiros que Jesus enviou. Quando Ele autoriza um homem a falar, esse homem fala com autoridade. Aquele que o ouve, ouve a Jesus, e aquele que o re­ jeita, rejeita seu Senhor. Isto coloca uma grande responsabilidade sobre todos os que ouvem a mensagem. Mas não para ali. O homem que rejeita a Jesus rejeita também, e com o mesmo ato, aquele que o enviou. Sua mensagem deve ser tomada com plena seriedade. iii. O regresso dos setenta (10:17-20). No devido tempo, os pre­ gadores voltaram. Lucas não informa quanto tempo ficaram fora, nem on­ de foram para prestar contas, mas no devido tempo juntaram-se a Jesus outra vez. 17. Os MSS estão divididos acerca da questão de setenta e “se­ tenta e dois” de modo bem semelhante ao v. 1 (ver a nota ali). O grupo voltou possuído de alegria. Sua experiência, decerto, não incluíra um número demasiado de .rejeições, e estavam contentes ao fazer seu rela­ tório. A única coisa que mencionam em especial é que os demônios eram sujeitos a eles em nome de Jesus. Presume-se que isto significa que expul­


savam os demônios dos endemoninhados, e que sentiam que estavam participando do triunfo de Jesus sobre os malignos. Visto que isto não foi mencionado no seu comissionamento, talvez nio o esperavam, e veio como jubiloso acréscimo. 18. Não é fácil perceber o significado das palavras: Eu via Sataná caindo do céu como um relâmpago. O céu aqui deve representar o pinácu­ lo do poder (assim Plummer; cf. Is 14:12). Pode ser que na missão dos se­ tenta Jesus via a derrota de Satanás, derrota esta tão repentina e inespera­ da (para as forças do mal) como um raio. Para o observador casual, tudo quanto acontecera era que uns poucos pregadores mendicantes tinham fa­ lado nalgumas cidades pequenas e curado uns poucos doentes. Mas naque­ le triunfo do evangelho Satanás sofrerá uma derrota notável. Outro ponto de vista entende que as palavras se referem à queda de Satanás que Jesus viu em tempos anteriores à Sua encarnação. Segundo este ponto de vista, os discípulos estão sendo advertidos que não devem ser demasiadamente orgulhosos por causa do resultado da sua missão bem-sucedida: devem lembar-se que até mesmo Satanás caiu. Mas o primeiro ponto de vista é preferível. 19,20. Aos setenta Jesus deu autoridade (a palavra indica o di­ reito de exercer poder, mais do que simplesmente “poder”) pára pisardes serpentes e escorpiões (cf. Sl. 91:13; Mc 16:18). Estavam imunes de da­ nos oriundos de tais enquanto realizavam a obra para a qual foram envia­ dos. Não se tem certeza se as palavras devem ser tomadas literal ou figuradamente. É provavelmente este último mòdo, pois não há registro de um pregador cristão pisando sobre serpentes e escorpiões sem sofrer da­ no (embora Paulo escapasse certa vez quando uma víbora fixou-se no seu braço, At 283-5). Além disto, tinham autoridade sobre todo o poder do inimigo. O próprio Satanás não podia prevalecer contra eles. Esta segu­ rança é enfatizada com nada absolutamente vos causam dano. Tudo isto faz um quadro deslumbrante para tais pessoas humildes. Mas Jesus passa a ensinar que devem ter suas prioridades no lugar certo. Seu verdadeiro motivo de alegria não é a sua vitória sobre os espiritos. Os homens dos quais expeliram os demônios morreriam no seu devido tempo, bem co­ mo esta terra, o cenário do seu triunfo. Muito mais importante é que seus nomes estão arrolados nos céus (cf, Êx 3232; Dn 12:1; Hb 12:23; Ap 3:5, etc.). Jesus atrai a atenção deles para realidades permanentes. iv. A alegria de Jesus (10:21-24). Caird fala disto como sendo uma exclamação inspirada e exultante por Jesus, que contém um resu­ mo sucinto da maioria dos Seus ensinos.” A seção é tão semelhante a mui­ ta coisa em João que tem sido chamada “um raio joanino no azul sinóti-


co.” É uma lembrança de que o estilo em Joio nio é tio estranho àque­ le dos sinotistas quanto alguns têm sustentado. 21. Exultou traduz êgalliasato, que significa uma exultação posi­ tiva (“emocionado com alegria”, Moffatt). Tipicamente, Lucas diz que isto era no Espírito Santo. A oração é de ações de graças. Deus é sauda­ do tanto na Sua compaixão (Pai) como na Sua grandeza (Senhor do céu e da terra). Jesus passa, então, a agradecer a Deus pela Sua revelação. Não diz o que foi revelado, mas naturalmente referiríamos estas coisas àquilo que os setenta acabaram de aprender. A revelação fora feita em ba­ ses outras que a sabedoria humana, e é por isso que Jesus dá graças. Os sábios e entendidos freqüentemente se sentem tão superiores que não po­ dem receber a revelação. Mas Deus tem falado aos humildes, aos que não são nada mais do que pequeninos. 22. Tudo me foi entregue por meu Pai, Jesus continua dizendo (cf. Jo 3:35; 13:3). Tem a posição suprema, e nada Lhe falta. Mas isto não fica óbvio, de modo algum. Ninguém sabe quem é o Filho, senão o Pai. Há profundidades na existência do Senhor que Seus seguidores não podem sondar. Jesus Se chama o Filho somente aqui nos Evangelhos Sinóticos (juntamente com o paralelo em Mateus) e em Mc 13:32, embora a expres­ são seja comum eyi JoSo. Acompanha este fato o seguinte: ninguém sabe quem é o Pai, senão o Filho. Há, porém, um acréscimo importante: e aque­ le a quem o Filho o quiser revelar. É através de Jesus, e somente através de Jesus que os homens chegam a conhecer o Pai conforme Ele é. “O Deus e Pai do Senhor Jesus” (2 Co 11:31) é uma expressão com um significado bem cheio. Que Deus é conforme Jesus O revelou é uma verdade impor­ tantíssima. 23. 24. Depois da Sua oração, Jesus tinha uma palavra para Seus discípulos. Falou-lhes particularmente, que dá a entender que as palavras anteriores foram pronunciadas dentro do alcance dos ouvidos de mais pessoas que os discípulos. Mas estas palavras eram para eles somente. Jesus lhes diz que são realmente bem-aventurados por verem aquilo que vêem. Muitos profetas e reis desejaram ver e ouvir aquilo que eles estavam vendo e ouvindo, mas sem conseguir. Jesus era o Messias espetado havia muito tempo, Aquele que ficara diante dos espiritualmente grandes na sua expectativa e no seu anseio. Mas aos discípulos é que foi dado ver o cum­ primento de tudo isto, e não foi dado a qualquer geração anterior. c. A parábola do bom samaritano (10:25-37) Esta parábola é peculiar a Lucas. Há paralelos com a conversação com o


intérprete da lei que a antecedeu, especialmente o resumo da lei no manda­ mento do amor (Mt 22:34-40; Mc 12:28-31). Mas há diferenças, notavel­ mente na cronologia e no fato de que nos demais o resumo é dado por Jesus, mas aqui, pelo intérprete da lei. Não devemos pensar que houvesse dependência. 25. Nalgum momento nio especificado, um intérprete da lei le~ vantou-se (que pressupõe que as pessoas estavam assentadas; decerto Jesus tinha estado a ensinar). O intérprete da lei nâo se ocuparia com os estu­ dos seculares, mas, sim, com a Lei no sentido judaico, os cinco primei­ ros livros do Antigo Testamento. A partir de então, teria estudado o res­ tante das Escrituras e questões incidentais. Era, portanto, um homem de quem se esperaria que fosse interessar-se por assuntos religiosos, e ser co­ nhecedor deles. Seu intuito era pôr Jesus em provas. Isto quer dizer que sua pergunta foi feita, não à procura de informações mas, sim, para ver que Jesus não conseguisse responder à altura, e que tivesse uma oportu­ nidade de desmascará-Lo. Sua pergunta: que farei. . .? mostra que esta­ va pensando nalguma forma de salvação pelas obras, e que não tinha en­ tendimento algum da graça divina. Vida eterna significa a vida que é apro­ priada à era do porvir. Denota vida que nunca terminará, mas, no modo cristão de entendê-la, a coisa mais importante é que é vida de uma quali­ dade específica, aquela vida que é dom de Deus. 26, 27. Quem fez a pergunta era um intérprete da lei, e era muito apropriado que Jesus simplesmente o referisse à Lei. Respondeu com uma combinação de passagens que o próprio Jesus também usava para resumir as exigências da Lei (Dt 6:5; Lv 19:18; cf. Mc 12:30-31). Tanto o Hebrai­ co quanto a LXX (bem como Mt 22:37) têm três faculdades com as quais os homens devem amar a Deus, ao passo que aqui e em Marcos há quatro. Mas a diferença não parece ser importante. As duas maneiras de expressar a mesma verdade significam que o homem deve amar a Deus com tudo quanto ele é. A totalidade da sua natureza está incluída. O intérprete da lei claramente tinha profundo entendimento das Escrituras quando conse­ guiu resumir a Lei desta maneira. O próximo (ho plêsion) significa mais do que o homem que vive perto (que é ho perioikos, usado, por exemplo, em 1:58). Há o pensamento de comunidade, de comunhão. 28. Jesus elogiou a resposta, e continuou: faze isto, e viverás. Al guns vêem aqui uma recomendação formal do caminho das obras. Se você quiser um caminho da salvação mediante os atos, é este (com a implicação de que não poderá segui-lo). É talvez mais provável que seja um repúdio às obras. Não é aquilo que fazemos, considerado como uma obra meritória, que importa, mas, sim, nossa atitude. Se realmente amarmos a Deus segun­


do a maneira da qual Jesus fala, então confiamos nEle, e não em nós mes­ mos. Este tipo de amor é nossa resposta ao amor que Deus tem por nós, e não a causa da Sua aceitação de nós (cf. 6:47-49). Jesus não está reco­ mendando um novo sistema de legalismo um pouco diferente do antigo, mas, sim, está apontando para o fim de todo o legalismo. O intérprete da lei queria uma regra ou coletânea de regras que pudesse observar e as­ sim merecer a vida eterna. Jesus o informa que a vida eterna não é ques­ tão de observar regras, de modo algum. Viver no amor é viver a vida do reino de Deus. Arndt indica que o dito “reconhece a importância do âm­ bito da alma e do espírito; se aquela área é sadia, a totalidade da pessoa es­ tá passando bem.” Nossa atitude para com Deus determina o resto. Se real­ mente amarmos a Ele, amaremos ao nosso próximo também (1 Jo 4:20). 29. Mas o intérprete da lei não quis deixar a questão parar ali; que­ ria justificar-se. Sua atitude básica ainda estava errada: não entendera a im­ plicação das suas próprias palavras. Passou, portanto, a perguntar: Quem é o meu próximo? Percebeu que significava mais do que o vizinho ao lado. Mas quanto mais? Havia idéias diferentes entre os judeus sobre esta ques­ tão, mas parece que todas se confinavam à nação de Israel; a idéia do amor para com a humanidade não tinha chegado a eles. Ao abordarmos a pa­ rábola, devemos ter em mente que é contada ao intérprete da lei em res­ posta à pergunta: “Quem é o meu próximo?” e não, “Que devo fazer para ser salvo?” 30. Jesus não respondeu à pergunta diretamente, mas, sim, contou uma história. O viajante na história é claramente um judeu, mas o fato não é ressaltado. É chamado, simplesmente, Certo homem. É a necessida­ de do nosso próximo, e não sua nacionalidade, que importa. A estrada de Jerusalém para Jericô passa por um declive íngreme através de terras desertas. A distância é de cerca de 28 km, e a estrada desce cerca de 1.000 metros. É o tipo de paisagem selvagem em que os salteadores poderiam muito bem sentir-se seguros. Jesus não diz que os salteadores da Sua his­ tória roubaram o homem: aquilo seria subentendido. Concentra-Se nos maus tratos violentos dados ao viajante. Deixaram-no semimorto. 31. Aconteceu que um sacerdote passou por lá enquanto o homem ainda jazia ali. Visto que o homem estava “semimorto” o sacerdote prova­ velmente não teria podido ter a certeza se ele estava morto ou não sem tocá-lo. Mas se o tocasse, e o homem realmente fosse morto, então teria incorrido a contaminação cerimonial que a Lei proibia (Lv 21:1 ss.). Pode­ a

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ria ter a certeza de conservar sua pureza cerimonial somente, por meio de deixar o homem como estava. Poderia ter certeza de que nio omitia aju­ dar um necessitado somente por meio de ir até ele. Neste conflito, a pure­ za cerimonial ganhou a batalha. Nio somente deixou de ajudar: foi para o outro lado da estrada. Deliberadamente evitou qualquer possibilidade de contato. É possível que outros fatores tenham tido valor para ele, tais co­ mo: a possibilidade que os salteadores voltassem, a natureza dos seus deveres, e assim por diante. Nio sabemos. Sabemos, isto sim, que o sacer­ dote deixou o homem ond^.estava, no seu sofrimento e na sua necessi­ dade. 32. Coisa bem semelhante aconteceu quando um levita passou por lá. Ele também era um personagem religioso de quem se poderia esperar que se interessasse em ajudar um homem na sua necessidade. Mas também era um homem interessado em questões de pureza cerimo­ nial. Ele também achava que seria melhor nio envolver-se. E ele também passou de largo. 33,34. Os ouvintes decerto esperariam que um sacerdote e um levita fossem seguidos por um israelita leigo. Quase certamente agora estariam esperando uma história com um enredo anti-clerical. Destarte, o efeito de Jesus ao introduzir o samaritano foi devastador! Tendo em vista a amargura tradicional entre os judeus e os samaritanos, um sama­ ritano era a última pessoa de quem se poderia ter esperado socorro. Mas este homem compadeceu-se do sofredor. Deu-lhe o melhor atendimento possível no local. O vinho deve ter sido usado para limpar as feridas (o ál­ cool nele teria um efeito antissético, embora, naturalmente, o homem nio poderia saber isso, apenas sabia que ajudava). O óleo, i.é o azeite, teria aliviado a dor. Parece que o óleo e o vinho eram usados de modo geral pelos judeus bem como pelos gregos. O ferido estava fraco demais para andar, de modo que o samaritano o colocou sobre o seu próprio animal (que deve ter significado que ele mesmo passou a ir a pé), e assim levou-o para uma hospedaria. Ali, tratou dele. O que isto significa nio é decla­ rado em detalhes, mas o samaritano nio considerou seu dever completa­ do antes de colocar o homem num abrigo seguro. Continuou a cuidar dele. 35. Continuou sua bondade mesmo após ter ido embora. Deu ao hospedeiro dois denários por conta, e mandou que o homem fosse cuida­ do. Segundo o historiador Políbio,35 um homem podia obter acomoda­ ção nas hospedarias da Itália nos seus tempos (c. de 150 a.C.) por meio


as por dia, i.é, 1/32 de um denário. Se os preços na Palestina no período em epígrafe eram comparáveis, o samaritano estava pagando cerca de dois meses de hospedagem. Mesmo assim, J. Jeremias produz evidência para mostrar que as rações diárias de um homem custavam 1/12 de um dená­ rio nestes tempos.36 Se esta cifra for aceita, o período para o qual o sama­ ritano estava pagando é reduzido em escala correspondente. Mesmo assim, ainda era um período que valia a pena. E isto não era tudo, pois qualquer coisa que o hospedeiro gastasse a mais, o samaritano obrigou-se a indeni­ zar no caminho de volta. É um quadro muito atraente de um homem que fez mais do que o mínimo. Viu um homem numa emergência e fez tudo quanto lhe era possível. 36,37. Jesus nio respondeu à pergunta do intérprete da lei, mas, sim, perguntou-lhe: Qual destes três te parece ter sido o próximo do ho­ mem que caiu ms mãos dos salteadores? A resposta, é claro, nâo está em dúvida. Jesus aplicou a lição com a ordem: Vai, e procede tu de igual modo. O homem perguntara “Quemé meu próximo?” Jesus o confrontou com a pergunta: “De quem estou sendo próximo?” Era um perito na Lei. Agora deve ficar pensando se o sacerdote e o levita, que escrupulosamente retinham a pureza moral requerida pela Lei, realmente guardavam a Lei, que também ordenava o amor ao próximo. Em todos os séculos, algumas pessoas têm-se deleitado em ver no bom samaritano um quadro de Jesus. Sem dúvida, um estudo devocional comovente pode ser feito, centralizando-se em Jesus como o bom samari­ tano das almas dos homens. Ê até mesmo possível que o próprio Lucas pensasse de Jesus desta maneira. Mas é coisa totalmente diferente ver isso como o significado que Jesus visava. Parece impossível sustentar tal coisa.

d. Marta e Maria (10:38-42) Esta história não é achada em nenhum outro lugar. Parece que Lucas não a colocou na seqüência cronológica, pois Betânia estava perto de Jerusa­ lém, e num tempo posterior Jesus ainda estava longe do capital (17:11). É possível que ele a tenha colocado imediatamente após a parábola ante­ rior como salvaguarda contra qualquer dos seus leitores chegarem à con­ clusão errada que a salvação é mediante as obras. Ensina a lição de que 36. J. Jeremias, Jerusalem in the Time o f Jesus (Londres, 1969), pág. 122. (A ser publicado em português por Ed. Paulinas).


esperar quietamente no Senhor é mais importante do que as atividades demasiadamente alvoroçadas. 38. Tanto a ocasião, Indo eles de caminho, e o lugar, num povoa­ do, são deixados vagos. Noutro lugar ficamos sabendo que Marta e Maria viviam em Betânia (Jo 11:1), quase 4 km de Jerusalém. Aqui se diz que a casa é de Marta, e a impressão que obtemos é que ela era a mais velha das irmãs, e a hospedeira. 39,40, Maria (o nome é “Mariam”, a forma grega do Hebraico <<Miriã”) quedava-se assentada aos pês do Senhor a ouvir-lhe os ensina­ mentos, Estava tirando pleno proveito da sua oportunidade. Marta agi­ tava-se de um lado para outro f ocupada com muitos serviços, e não apro­ vava isto. Temos a impressão que queria fazer algo especial para Jesus. O resultado foi trabalho desnecessário e com muitos serviços. Marta, que trabalhava tanto, agitava-se. Quando não podia agüentar mais, pediu que Jesus interviesse. Ha repreensão a Jesus nas suas palavras: não te im­ portas . . . ? e a Maria nas suas palavras: de que minha irmã tivesse deixa­ do que eu fique a servir sozinha? 41,42. A resposta de Jesus é de ternura. Martal Marta\ talvez de­ monstre que Jesus tendia às vezes a usar palavras duplicadas (cf. 22:31; Jo 1:51, etc.). Contrasta as preocupações e estardalhaço de Marta com tantas coisa, com uma só coisa que é realmente necessária. Jesus diz que Marta está preocupada com um número demasiado de coisas. A vida tem poucas necessidades reais, e, quando necessário, podemos passar sem mui­ tas das coisas às quais dedicamos nosso tempo. À uma só coisa não é de­ finida, mas claramente acha expressão no fato de Maria sentar-se aos pés de Jesus, aprendendo dEle. É a atitude de dependência de Jesus que im­ porta. Alguns comentaristas referem a expressão à comida: pensam que Jesus está dizendo que um prato é tudo quanto é necessário, ao invés da refeição requintada de Marta. Mas a linguagem não apóia tal idéia, especialmente a observação que se refere à escolha de Maria. Escolheu a boa parte e esta não lhe será tirada. A atitude espiritual correta é uma possessão que nunca precisamos ter medo de perder.

e. A oração (11:1-13). Lucas tem um profundo interesse na oração (ver a Introdução, pág. 45. Aqui coloca juntos a oração-padrão de Jesus e alguns ensinos acerca da oração. i. A oração dominical (11:1-4). O relacionamento entre a ora­


ção aqui registrada e a versão mais plena da oração em Mt 6:9-13 tem si­ do o assunto de boa dose de discussão. Alguns pensam que Jesus ensinou a oração mais de uma vez. Indicam que isto é inerentemente provável. Em Mateus é pronunciada no decurso de um sermão perto do começo do ministério. Aqui, vem aparentemente muito mais tarde, e é a resposta de Jesus a um pedido de um discípulo, que muito possivelmente não estivesse na ocasião anterior. A variação seria natural se Jesus tivesse interesse num padrão ao invés de uma insistência rígida numa só forma de palavras. Outros sustentam que Jesus deu a oração uma só vez (pergunto-me como; se Jesus quisesse que fosse um padrão, parece curioso que Ele nâo a repetisse). Usualmente pensam que a versão lucana, mais curta, fosse a original, mas também sustentam que Mateus nalguns luga­ res conservou mais do sabor do original aramaico. Estudiosos recentes freqüentemente vêem a oração como sendo primariamente escatológica. Consideram “venha o teu reino” como a petição central e as demais como elaborações dalguns aspectos do reino vindouro. Segundo este pon­ to de vista, a oração pede a Deus que santifique Seu nome pela destrui­ ção final de todos os Seus inimigos, e depois espera o pão do banque­ te messiânico, para o perdão que Deus dará no dia do juízo, e para o li­ vramento dos tempos finais de provação. Esta, porém, parece ser uma interpretação desnatural da linguagem empregada, e é melhor entender a oração como sendo aquela que os cristãos devem orar enquanto bus­ cam a ajuda de Deus na vida diária comum. Não é, naturalmente, impos­ sível que os cristãos (que entendem que estão vivendo nos “últimos dias”) combinassem o significado de todos os dias e o significado esca­ tológico. Mas não vejo razão alguma para sustentar que o ponto de vis­ ta escatológico é suficiente em si mesmo. Um aspecto final a ser notado é que, embora possa ser orada em particular, é essencialmente uma oração corporativa. Todos os pronomes estão no plural. 1. Impressionados com alguma coisa acerca da maneira pela qual Jesus orava, um dos seus discipubs pediu orientação do tipo que João Batista dera. Líderes religiosos daqueles dias freqüentemente ensinavam seus seguidores como orarem (ver SB). Seu pedido, Senhor, ensina-nos a orar, talvez quisesse dizer que queria uma forma de palavras que pu­ desse empregar, ou um padrão segundo o qual pudesse modelar suas orações, ou algumas instruções gerais sobre o assunto. 2. Jesus respondeu, dando uma forma de palavras. Suas palavras iniciais, Quando orardes, dizei: demonstram que Sua intenção era que a oração fosse usada exatamente como consta. Em Mateus é introduzida com as palavras: “Portanto, vós orareis assim,” que faz dela um modelo


sobre o qual podemos basear outras orações. Os cristãos têm achado úteis estas duas abordagens. Jesus começa com o simples trato: Pai, o que corresponde ao aramaico abba, o modo de uma criança se dirigir ao seu pai humano. Os judeus, nas suas orações, empregavam a forma abinu, “Nosso Pai” (achada, por exemplo, na quarta e na sexta das “De­ zoito Bênçãos”), normalmente com o acréscimo de “no céu” ou algo semelhante. Isto tendia a colocar os homens a uma distância do grande Deus, ao passo que Jesus ensinou Seus seguidores a pensarem em Deus como sendo Pai deles (que aprenderam a lição é visto em Rm 8:15; G1 4:6). Santificado quer dizer “tornado santo”, “reverenciado.” O nome na antiguidade significava muito mais do que significa para nós. Resumia a totalidade do caráter de uma pessoa, tudo quanto era conhecido ou reve­ lado acerca dela. A oração tem a ver com mais do que a maneira de as pes­ soas tomarem o nome de Deus nos seus lábios (embora isto seja incluí­ do). Refere-se a tudo quanto Deus é, e tudo quanto revelou acerca de Si mesmo, e ora, pedindo uma atitude apropriada diante disto. Não é pro­ vável que a oração deva ser entendida no sentido de que Deus devesse santificar Seu nome (cf. Ez 36:23). Pelo contrário, são os homens que deveriam demonstrar reverência para com Deus. É uma oração de que “Deus seja Deus, de modo que os homens nâo reduzissem Deus para um tamanho e formato de fácil manejo” (Melinsky). Venha o teu reino procura a introdução do reino que era o assunto constante do ensino de Jesus. Há um sentido em que é realizado aqui e agora nos corações e vidas dos homens que se sujeitam a Deus e aceitam Seu caminho para eles. Num outro sentido, porém, ele não virá até que a vontade de Deus seja perfeitamente realizada em todo o mundo (cf. o acréscimo em Mateus: “faça-se a tua vontade, assim na terra como no céu”). É por isto que oramos. 3. A petição seguinte diz respeito ao pão, i.é, o suprimento das nossas necessidades diárias. O presente contínuo, “continua dando,” e o de dia em dia tornam claro que devemos confiar em Deus constante­ mente, e não pedir suprimentos por um período longo e então esque­ cer-nos dEle. Os cristãos vivem num estado de contínua dependência de Deus. Mas o sentido exato de epiousios, cotidiano, não fica claro. É uma palavra muito rara, e a maioria das discussões está centralizada nas derivações possíveis, visto que praticamente não há nenhum uso da palavra ao qual poderíamos apelar (ver AG, MM). Os significados mais favorecidos são cotidiano; “para o amanhã” , e “a comida de que preci­ samos” (i.é, “o pão para existência;” cf. Pv. 30:8). A primeira tradução


mencionada é apropriada para o termo e se harmoniza melhor com o teor da oração. 4. A oração, perdoa-nos os nossos pecados, é seguida pela asseve­ ração de que perdoamos os que pecam contra nós (todo o que nos deve não se refere às transações financeiras, mas, sim, ao pecado, aqui consi­ derado uma dívida). Isto não faz com que uma ação humana, o perdão dos outros, seja a base do perdão. O Novo Testamento deixa claro que o perdão brota da graça de Deus e não de qualquer mérito humano. Pelo contrário, o pensamento avança do menor para o maior: visto que até mesmo homens pecaminosos como nós podem perdoar, podemos apro­ ximar-nos confiantemente de um Deus misericordioso. Alguns entendem nâo nos deixes cair em tentação no sentido de NEB: “não nos leves ao teste.” Mas isto deve ser preferido somente se entendermos a oração in­ teira como sendo escatológica. A palavra peirasmos é a palavra normal para “tentação” (embora possa significar “teste”) e tentação decerto é correta aqui. Esta palavra não dá a entender que Deus às vezes faz com que um homem seja tentado e, na realidade, Tiago nos assegura que Ele nunca faz assim (Tg 1:13). Pelo contrário, Jesus está encorajando uma atitude, a atitude que foge da tentação (cf. 1 Co 6:18; 10:14; 1 Tm 6:11; 2 Tm 2:22). O cristão reconhece sua fraqueza, reconhecendo a facilidade com que cede diante das tentações do mundo, da carne e do diabo. Ora, portanto, para que seja liberto de todas elas. ii. A parábola do amigo à meia-noite (11:5-8). Jesus prossegue, contando uma parábola com humor, que ressalta a lição de que a oração deve ser insistente e que Deus sempre está pronto para dar. 5-7. O cenário está colocado numa pequena aldeia onde não há lojas. Cada lar assaria seus próprios pães todas as manhãs. Jesus retrata um lar que já usou todo o seu suprimento, que recebe uma visita inespe­ rada de um amigo que está viajando. É à meia-noite, que provavelmen­ te significa que o amigo tinha viajado depois do escurecer a fim de evi­ tar o calor. O homem deve alimentar o amigo, pois a hospitalidade era um dever sagrado. Sendo assim, vai para um vizinho amigo, pedindo três pães, i.é, três pãezinhos que bastariam para um homem. Mas este segun­ do chefe de lar já travara sua porta e fora para a cama com seus filhos. Evidentemente era um homem pobre que vivia numa casa de um cômo­ do só. A família inteira dormiria numa plataforma elevada numa extre­ midade do cômodo, possivelmente com os animais no nível do chão. Um homem em semelhante situação não poderia levantar-se sem perturbar a fa­ mília inteira. Não levanta problemas quanto ao dar o pão, mas a pertur­ bação de levantar-se é questão bem diferente. É muito mais fácil ficar


onde está. 8. O homem, porém, é persistente. Não irá embora, nem deixa­ rá seu amigo voltar a dormir. E onde a amizade não pode prevalecer, sua importunação (lit. “falta de envergonhar-se”) ganha a vitória. A li­ ção está clara. Não devemos brincar de orar, mas, sim, devemos mostrar persistência se não recebemos a resposta imediatamente. Não é que Deus não deseje atender e precisa ser pressionado para dar uma resposta. 0 contexto inteiro deixa claro que está ansioso por dar. Mas se não quisermos aquilo que estamos pedindo, suficientemente para sermos per­ sistentes, então nSo fazemos muita questão dele. Não é uma oração té­ pida assim que é respondida. üi. Pedindo e dando (11:9-13). A parábola leva naturalmente para a maneira segundo a qual Deus dá àqueles que buscam. 9,10. Jesus diz aos Seus seguidores pedi, buscai e batei. Assegura-os que em cada caso haverá a resposta apropriada. Todos os três ver­ bos são contínuos. Jesus não está falando de atividades avulsas, mas, sim, das que persistem. Está falando de uma atitude semelhante àquela que é ensinada pela parábola. A repetição no v. 10 sublinha a certeza da res­ posta. Os homens não devem pensar que Deus está indisposto para dar; sempre está pronto para dar boas dádivas ao Seu povo. Mas é importan­ te que eles façam sua parte, pedindo. Jesus não diz, e não quer dizer que, se orarmos, sempre obteremos aquilo que pedimos. Afinal das con­ tas, “Não” é uma resposta tão específica quanto “Sim.” Está dizendo que a verdadeira oração não deixa de ser ouvida nem de ser atendida. E sempre respondida na maneira que Deus considera melhor. 11,12. Esta lição é aplicada com algumas ilustrações tiradas da conduta humana. Jesus pergunta qual pai dará coisas danificantes, uma cobra ou um escorpião, quando seu filho pede algo para comer. 13. É impensável que os homens dariam tais dádivas malignas aos seus filhos. Pelo contrário, dão boas dádivas, embora sejam maus. Mesmo quando está falando das boas coisas que os homens fazem, Je­ sus não está inconsciente do fato de que são maus. “A pecaminosidade humana inata é, para Jesus, uma pressuposição básica” (Ellis). Se, porém, os homens maus não fazem danos aos seus filhos, mas, pelo con­ trário, lhes fazem bem, quanto mais Deus fará bem aos Seus filhos? O bem que Deus fará não é deixado em termos gerais: Dará o Espírito Santo. Lucas está interessado na obra do Espírito Santo, e aqui vê o dom do Espírito como o sumo bem para o homem. Não parece haver razão para entender isto em termos dos dons “carismáticos.” A referên­ cia é mais à obra do Espírito na vida cristã de modo geral, como em


Romanos 8.

f. Jesus e os espíritos malignos (11:14-26) i. A controvérsia acerca de Belzebu (11:14-23). Todos os três Sinotistas retratam o conflito entre Jesus e as forças do mal, parcialmente por meio de mostrar que Ele constantemente expelia demônios. Que exer­ cia poder sobre os espíritos maus não parece ter sido duvidado, até mesmo pelos Seus inimigos. Procuraram, no entanto, desacreditá-Lo por meio de dizer que a fonte do Seu poder não era Deus, mas, sim, o diabo. Lucas nos dá este exemplo da crítica e da maneira de Jesus enfrentá-la. 14. O incidente não está colocado na seqüência cronológica com qualquer precisão. Lucas meramente nos conta que Jesus estava expelindo um demônio de um mudo (Mateus nos diz que era cego tam­ bém). Depois do exorcismo o mudo passou a falar. A ênfase recai sobre a controvérsia que se seguiu, de modo que Lucas conta a história do mi­ lagre de modo bem breve e nada mais acrescenta senão as multidões se admiravam. 15,16. Mas alguns dentre eles atribuíam o milagre a Belzebu, o maioral dos demônios. Mateus acrescenta a informação de que estas pessoas eram fariseus, e Marcos, que eram escribas de Jerusalém. O no­ me do príncipe dos demônios é citado nalguns manuscritos como sendo “Beezebul” (aparentemente nada mais do que um modo mais fácil de pronunciar o mesmo nome), e na Vulgata como “Beelzebub.” Parece razoavelmente claro que o nome era “Beelzebul”. Mas por que era apli­ cado e o que significa são perguntas difíceis. A forma “Baalzebub” ocor­ re como o nome do deus de Ecrom (2 Rs 1:2, 3, 6, 16; está no texto he­ braico, não na LXX). Significa “senhor das moscas” e bem pode ser um jogo de palavras em Hebraico sobre o nome original filisteu com som se­ melhante (com o nome de Ras Shamra notado abaixo). Alguns sugerem que os judeus torceram este nome ainda mais num nome de som semelhan­ te “Baalzebul,” “senhor do esterco,” como modo de referir-se ao deus pa­ gão, e que depois transferiram este nome para um demônio. Mas a forma “Baal2ebul” também ocorre nas tábuas de Ras Shamra como o nome de uma divindade cananita, e parece que o termo significasse “senhor da ha­ bitação,” ou “senhor do lugar alto.” Nossa melhor maneira de entender a evidência parece ser que os judeus tomaram este nome de um deus pagão e o entenderam em termos do Hebraico com som semelhante, “senhor do esterco.” Aplicavam-no a um demônio de destaque, talvez ao


próprio Satanás. Jesus claramente o entendeu como sendo uma referência a Satanás. Outras pessoas seguiram uma linha algo diferente. Tentavam a Je* sus ao procurar dEle um sinal do céu. Tal coisa não é essencialmente di­ ferente, pois significa que não consideravam o exorcismo que acabaram de ver como um sinal do reino. Jesus trata imediatamente da acusação sobre Belzebu, e trata da exigência de um sinal no v. 29. 17,18. Aparentemente, os comentários foram feitos em particular e não diante de Jesus. Mas Ele sabia o que este povo estava pensando. Indicou, portanto, que se eles tivessem razão, as forças do mal estariam destruindo a si mesmas. Raciocina a partir da regra universal: Todo reino dividido contra si mesmo ficará deserto. Marcos acrescenta um comentá­ rio semelhante acerca de uma casa (i.é, um lar), e Mateus inclui uma ci­ dade também. A expressão de Lucas: casa sobre casa cai parece ser uma ex­ plicação das palavras anteriores; quando um reino é destruído pela falta de união, uma casa cai depois de outra. Da verdade geral, Jesus avança para a particular com a pergunta: Se também Satanás estiver dividido contra si mesmo, como subsistirá o seu reino? As forças do mal destróem as do bem, e não umas às outras. 19. Jesus encerrou Seu argumento com um apelo à prática dos exorcistas judaicos. Se expulsar demônios significava ter parte com o dia­ bo, então os praticantes judaicos desta arte estão no mesmo caso. O ar­ gumento deles comprova demais. Vossos filhos é fortemente enfático. Pode referir-se aos próprios filhos das pessoas às quais Jesus falava, ou às quais Jesus falava, ou a expressão pode significar “vosso próprio po­ vo” (Rieu) ou “vossos seguidores” (TEV). 20. É pelo dedo de Deus (cf. Hx 8:19) que Jesus realiza Seus exorcismos, e convida Seus inimigos a contemplarem as conseqüências. Aliás, é um pouco curioso que Lucas tem dedo de Deus onde Mateus tem “o Espírito de Deus,” pois Lucas geralmente enfatiza o Espírito. As duas maneiras de expressar o fato enfatizam que o poder de Jesus sobre os demônios vem de Deus e de ninguém mais. E se é este o caso, então é chegado o reino de Deus sobre vós. A presença do reino deve ser vista, não em bons conselhos nem em práticas piedosas, mas, sim, no poder que expulsa as forças do mal. 21,22. Jesus aplica firmemente a Sua lição com um pequeno quadro do valente guardando as suas posses, i.é, o homem sob o poder dele. Sata­ nás está em controle e em paz. Quando um mais valente o vence, confor­ me Jesus acabara de fazer ao expulsar o demônio, a situação inteira é alte­ rada. A armadura de Satanás lhe é tirada. Seus despofos (provavelmente


o que tirara dos seus cativos) são divididos. Os dois termos são pitores­ cos, e representam a completa incapacidade de Satanás de ficar firme diante de Deus. 0 mal agarra*se firmemente nos homens. Mas esse aperto forte é quebrado de modo decisivo quando chega o reino de Deus. O rei­ no não consiste em belas palavras: é a derrota do mal. 23. Não pode haver neutralidade quanto a isto. Quando alguém percebe o que significa o reino, deve ser ou a favor dele, ou contra ele. O homem que não toma o partido de Cristo na batalha contra o mal está contra Ele. Se não ajunta com Cristo, espalha (a linguagem figurada diz respeito a reunir um rebanho). ii. A volta do espírito maligno (11:24-26). Jesus acrescenta uma pequena história para demonstrar que não está falando acerca dalgu­ ma reforma moral temporária, mas, sim, de uma derrota completa e de­ finitiva do mal pelo poder do bem. 24. Aqui, o espirito imundo não tem sido expulso do homem. Meramente o deixou. Os lugares desertos eram popularmente conside­ rados os lugares onde os espíritos maus freqüentavam, e Jesus retrata este espírito andando por tais htgares áridos sem achar repouso. Resol­ ve, portanto, voltar para o lugar de onde veio. Embora deixara o homem, ainda o chama minha casa. 25. Quando volta, acha a casa varrida e ornamentada. Sem o espí­ rito maligno a vida do homem é melhor. Pode ordenar as coisas devida­ mente. Jesus descreve uma limpeza moral. 26. O espírito imundo, porém, agora traz outros sete espíritos, piores do que ele, e todos vêm habitar no homem. Habitar (katoichei) sig­ nifica “estabelecer-se,” “viver permanentemente.” Agora, habitado por oito espíritos, o homem está em piores condições do que no início quan­ do tinha somente um. Quando um homem se vê livre de um espírito ma­ ligno mas não põe nada no seu lugar, está passando grave perigo moral. Ninguém pode viver por muito tempo tendo um vácuo moral na sua vida. O reino de Deus não provoca semelhante vácuo moral num homem. Sig­ nifica uma vitória tão grande sobre o mal que o mal é substituído pelo bem e por Deus.

g. Jesus ensina o povo (11:27-12:59) A esta altura Lucas tem uma seção considerável de ensino, inclusive algumas passagens interessantes e controversas. Há pouca indicação do tempo ou do lugar, embora algumas das seções tenham conexões entre si.


i. A verdadeira bem-aventurança (11:27, 28). Tipicamente é somente Lucas que nos conta acerca desta exclamação espontânea de uma mulher que estava entre a multidão. Parece que aquela senhora pensava quão maravilhoso seria ter um filho como Jesus, e pronunciou uma bemaventurança sobre aquela que O deu à luz. Suas palavras envolvem um reconhecimento do Seu messiado e são parcialmente uma saudação a Jesus. Este não rejeitou a mulher, mas passou a fazer alguma coisa mais significante. A palavra menoun, traduzida antes, “não questiona a vera­ cidade da declaração anterior, mas, sim, enfatiza a maior relevância daqui­ lo que se segue” (THB). Não é o relacionamento físico com Jesus que é de importância suprema, mas, sim, a atitude para com a palavra de Deus. O que importa é ouvir e guardar a palavra de Deus. Tal coisa indica a prá­ tica religiosa paciente e não espetacular. A palavra de Deus vinha aos ho­ mens daqueles dias através dos ensinos de Jesus bem como através do es­ tudo das Escrituras. Tinham uma certa vantagem em comparação com ou­ tras pessoas, mas Jesus está dizendo que onde os homens têm as Escrituras o caminho para a bênção está aberto, ii. O sinal de Jonas (11:29-32). As pessoas tinham pedido um si­ nal da parte de Jesus (16) além de asseverarem que exercia poder sobre os demônios com a ajuda de Belzebu. Tratou primeiro da acusação a respei­ to de Belzebu, mas agora chega ao pedido por um sinal. 29. A resposta de Jesus à exigência por um sinal foi dada enquan­ to afluíam as multidões. Evidentemente, era uma exigência generalizada, e Ele a considera característica de uma geração perversa. Os homens de­ viam confiar em Deus e não buscar milagres. O sinal não é definido, mas claramente significa alguma atividade divina milagrosa. Semelhante sinal não será dado. O único sinal que estes homens receberiam seria o de Jo­ nas. No relato de Marcos, Jesus diz simplesmente: “a esta geração não se lhe dará sinal algum” (Mc 8:12), que transmite essencialmente o mesmo significado. J. Jeremias observa: “Materialmente, não há qualquer discre­ pância entre a recusa total de dar um sinal (Mc 8:11) e a intimação do sinal de Jonas. As duas declarações deixam claro que Deus não dará sinal que é surrupiado da Pessoa de Jesus e que não causa escândalo.”37 30. Jesus explica. Jonas tinha sido um sinal para os ninivitas e Ele mesmo será sinal para esta geração. Parece melhor entender este si­ nal com referência à ressurreição, conforme fica claro na passagem cor­ respondente em Mateus. Jonas tinha estado dentro da baleia (Jn 1:17)

37. TCW7,,iii,pág.410.


antes de voltar à vida, por assim dizer. Para os ninivitas o sinal foi o reapa­ recimento de um homem que aparentemente estivera morto durante três dias. Para os homens dos dias de Jesus, o sinal seria o reaparecimen­ to do Filho do homem no terceiro dia após a Sua morte. Muitos estudio­ sos recentes pensam que o sinal aqui não é o mesmo que em Mateus, mas, sim, um apelo simples ao fato de que Jonas pregava a autêntica palavra de Deus e os ninivitas reconheceram o fato e se arrependeram. De modo se­ melhante, Jesus proclamava a palavra de Deus, e as pessoas deviam arre­ pender-se. Uma das dificuldades no caminho de aceitar este ponto de vis­ ta comumente sustentado é a de ver em que sentido a pregação pode ser corretamente chamada de sinal. Uma segunda dificuldade é que Jesus não fala das palavras de Jonas e dEle próprio como sendo sinais, mas, sim, das pessoas de Jonas e dEle. O sinal em cada caso é a pessoa. Uma tercei­ ra é o emprego do tempo futuro. Jesus não diz que é um sinal, mas, sim, que será um sinal. Isto harmoniza-se com o relato de Mateus e também com o fato de que João nos diz que, quando noutra ocasião pediram um sinal da parte de Jesus, Este indicou a ressurreição no futuro (Jo 2:19). Jesus então toma claro que quando der um sinal, será um que Ele esco­ lher, e não um que é dado mediante a exigência de uma geração incrédula. 31. Inculca a culpa daquela geração por meio de uma referência à rainha de Seba. Embora quase certamente uma pagã, estivera dispos­ ta a fazer uma viagem longa e difícil (Seba ficava no sul da Axábia, o mo­ derno Iêmen) para ouvir a sabedoria de Salomão. No juizo (i.é, no dia do juízo) os homens da geração de Jesus ficarão condenados por semelhan­ te exemplo. Não tinham que fazer viagem alguma, porque Jesus estava bem no meio deles. Num dia de supremacia masculina, o uso do termo andrõn para homens, ao invés da palavra mais geral, anthrôpôn, é prova­ velmente importante. Ela era apenas uma mulher, ao passo que eles eram homens. Mas não correspondiam. Quem ê maior (o neutro em Grego sig­ nifica mais do que uma pessoa) parece representar tudo quanto é envolvi­ do na vinda de Jesus e na inauguração do reino. Esta é uma ação de Deus muito mais poderosa do que qualquer coisa que Ele fizera através de Sa­ lomão. 32. Os ninivitas também condenarão os contemporâneos de Jesus, pois se arrependeram diante da pregação do profeta. E assim como a ação de Deus em Cristo era maior do que em Salomão, assim também era maior do que Jonas. iíi. A luz que há em ti (11:33-36). Jesus passa a dar algum ensino acerca da luz. Começa com a fuz física, e passa a falar metaforicamente da luz dentro de um homem.


33. A função da luz é brilhar. Ninguém acende uma candeia e depois a coloca em lugar onde não pode ser vista. Pelo contrário, é coloca­ da onde sua luz pode ser vista com o melhor proveito (cf. 8:16). 34. O olho é o órgão que recebe luz, e Jesus fala dele como sendo a lâmpada do teu corpo. Quando os olhos reagem à luz da maneira normal, o corpo inteiro recebe o benefício. O homem pode realizar quase qual­ quer atividade do corpo quando tem boa iluminação. Mas se seus olhos estiverem danificados de modo que ele não possa fazer uso da luz, quase toda função humana é prejudicada. A deficiência dos olhos afeta de modo adverso tudo quanto o homem faz. Há um paralelo espiritual. É possível para o olho ser sadio, onde o Grego significa “único.” O olho do homem pode fíxar-se, com um só propósito, naquilo que é bom: então, o homem inteiro será cheio de luz. Mas quando o olho é mau, quando a atenção do homem se focaliza no mal, então o homem inteiro é corrompido. Es­ tá cheio de trevas. 35,36. Visto que a totalidade da vida está envolvida e pode se entregue ao bem ou ao mal, as pessoas devem tomar cuidado para que a luz que nelas há não sejam trevas. Esse é o desastre final. Depois, o bem no homem é totalmente corrompido. Mas Jesus termina, dando o enco­ rajamento que o homem pode ser luminoso, sem ter qualquer parte em trevas. Então será todo resplandecente. A lâmpada que brilha é um exem­ plo disto. iv. A verdadeira purificação (11:37-41), A aceitação por Jesus de um convite de um fariseu para tomar uma refeição na casa deste leva. a ensinamentos em que Jesus critica agudamente certos aspectos da prá­ tica farisaica. 37,38. Lucas menciona de modo breve o convite feito por um fa riseu para uma refeição (aristaõ significa “almoçar” mais do que “jan­ tar”). Não é dado o motivo do convite. Mas já que veio depois de um discurso (ao falar, além de ser improvável, desconsidera o aoristo; melhor é JB: “Acabara de falar”), é uma inferência razoável de que o hospedei­ ro estava interessado no ensino de Jesus. Quando Jesus entrou, o fariseu admirou-se que Jesus não se lavara (o verbo é baptizõ) antes da refeição. Isto nada tinha a ver com a higiene, mas, sim, era uma regra feita visando a pureza cerimonial. Antes de comer alguma coisa, os judeus escrupulo­ sos mandavam derramar água sobre suas mãos para remover a contami­ nação contraída pelo seu contato com um mundo pecaminoso. A quan­ tidade de água e a maneira da lavagem são estipuladas com detalhes mi­ nuciosos na Mishna ( Yadaim 1 :lss.). O fariseu claramente esperava que Jesus, como ensinador religioso de renome, Se conformasse à praxe aceita.


39-41. Não se registra que o fariseu disse qualquer coisa. Mas Jesus discerniu o espanto dele e fez Seu comentário. Ressaltou a impor­ tância do interior, enquanto a multidão das regras, tão queridas aos fari­ seus, ocupavam-se somente com o exterior. O resultado disto foi que podiam guardar suas regras e ainda ter o interior cheio de rapina e perver­ são. Estavam preocupados com aquilo que a pessoa faz, mas Jesus tam­ bém com aquilo que a pessoa é. De modo aberto os critica severamente como insensatos. Passa a dar uma instrução acerca da oferta de esmolas, cujo exato sentido é disputado. RSV “Dai de esmola as coisas que estão dentro” é uma tradução razoavelmente literal. Mas quais são “as coisas que estão dentro”? Alguns entendem que são as coisas de dentro do copo e do prato. A expressão então significa que os homens devem dar alimento aos pobres ao invés de festejarem com luxo eles mesmos. Cf. NEB: “que aquilo que está no copo seja dado em caridade, e tudo fica limpo.” Outros entendem o copo e o prato como uma simbolização das posses em ge­ ral, como Knox: “deveis dar esmolas dos bens que tendes, e imediata­ mente tudo quanto é vosso se torna limpo.” Outros entendem que o dito é irônico “No que diz respeito à alma (as coisas internas), dai esmolas e tudo fica limpo (pensais vós).” Moffatt tem “É melhor limpar o que es^ tá dentro.” Esta expressão faz bom sentido, mas depende de uma conjec­ tura acerca do significado do Aramaico subjecente. Tais significados não podem ser rejeitados como sendo impossíveis. Mas parece que Jesus está ressaltando a importância das coisas interiores em contraste com as exte­ riores, e é melhor entender que as palavras se referem à importância de um estado interior correto quando damos esmolas. Devemos dar nosso coração e não meramente fazer um gesto externo. “A dádiva sem o doa­ dor é despida” (Lowell, citado em Arndt). Quando um homem dá do seu coração, tudo será limpo, Nenhuma quantidade de água derramada pode contrabalançar um estado errôneo no homem interior. v. Ai dos fariseus (11:42-44). Jesus passa a tratar doutras práti­ cas farisaicas em que a ênfase sobre o exterior leva ao erro. 42. Ai é uma expressão de pesar, não de índole vindicativa, e tem um significado como “Que pena!” (ver sobre 6:24*26). Jesus sente pesar pelos fariseus por causa das suas práticas no dizimar. O dízimo era ordena­ do na Lei (Lv 27:30; Dt 14:22, etc.), Era para ser uma alegre oferta de amor, mas este cálculo de uma décima parte de todas as hastes das ervas do jardim fazia dele uma zombaria pesada. Realmente, este tipo de detalhe não era requerido pela Lei, ao passo que a Mishna expressamente estipula que a arruda, de qualquer maneira, estava isenta do dízimo (Shebiith 9:1). Os fariseus estavam indo além daquilo que era requerido. Nada havia


de formalmente errado em fazer assim, e Jesus não diz que não deveriam ter feito isto. Mas quando os homens se concentram naquilo que é trivial, tendem a deixar desapercebido aquilo que é importante. A condenação dos fariseus achava-se, não no fato de dizimarem as ervas, mas que, no seu zelo por bagatelas, negligenciavam a justiça e o amor de Deus. 43,44. Mais um resultado da preocupação farisaica com a parte externa era o amor que estes homens tinham por estarem diante do públi­ co. Gostavam de obter a primeira cadeira ms sinagogas, i.é, um assento na frente, olhando para a congregação. Qualquer pessoa sentada ali podia ser vista com destaque, e era considerado um homem de distinção. As saudações nas praças eram claramente saudações complexas nos lugares públicos que marcavam os homens que as recebiam como homens aos quais se deveria mostrar deferência. Tudo isto impedia os homens comuns ao invés de ajudá-los. Jesus sente lástima ao passar a comparar os fariseus com sepulturas invisíveis. Entrar em contato com uma sepultura era in­ correr em contaminação cerimonial. Um problema era causado pelo fato que às vezes havia homens enterrados em sepulturas que não eram marca­ das. O viajante desprevenido poderia facilmente andar por cima de tal sepultura e, sem saber, contrair a contaminação cerimonial. Há ironia * na comparação entre os fariseus religiosos, que pensavam tão bem de si mesmos, e estas fontes inesperadas de contaminação. Os homens que pas­ savam por sepulturas não marcadas tornavam-se cerimonialmente impu­ ros. E os homens que andavam no ensino e nos caminhos dos fariseus tor­ navam-se moralmente impuros. vi. Ai dos intérpretes da lei (11:45-54). Os intérpretes da lei, confome notamos antes, eram homens que se entregavam ao estudo da Lei do Antigo Testamento. Eram homens religiosos, e muitos deles eram fariseus. Havia uma diferença nisto: o intérprete da lei como tal era um membro de uma profissão erudita, e os fariseus eram membros de um partido religioso. Havia um vínculo no fato de que a posição farisaica essencial baseava-se num estudo esmerado da Lei. 45. Não fica claro o que levou o intérprete da lei a pensar que as palavras de Jesus não visavam aplicar-se a ele e aos seus companheiros. Mas a referência ao dízimo (que tinha um sabor jurídico) talvez tenha parecido ser uma possível fonte de mal-entendido. Visto que, no ponto de vista deste homem, Jesus não poderia de modo algum ter desejado incluir os intérpretes da lei na Sua denúncia, deu-Lhe a oportunidade de declará-los uma exceção. Ofendes, ou, mais forte, “ultrajas.” 46. Jesus, porém, não tinha qualquer intenção dê deixar os in­ térpretes da lei escapar sem críticas. Pasou a destacá-los para críticas


especiais. A primeira é que exigiam de outros o cumprimento de tarefas difíceis e não os ajudavam. Os fardos superiores às suas forças eram as interpretações escribais da Lei e as tradições dos antigos. Estas eram levadas com a máxima seriedade. A Mishna determina que é mais impor­ tante observar as interpretações escribais do que a própria Lei (Sanhedrin 11:3). O raciocínio é que se era uma questão séria transgredir contra a Lei que às vezes era de difícil entendimento, era uma questão muito mais séria ofender contra a interpretação que, segundo pensavam os escribas, tornava tudo claro. Os intérpretes da lei deveriam fazer uma tal exposi­ ção da Lei de Deus que ajudasse e inspirasse aos homens. Pelo contrá­ rio, fizeram dela um fardo cansativo. A falta dos intérpretes da lei quanto ao “tocar o fardo com um só dedo” talvez signifique que não erguiam um dedo para ajudar outras pessoas, ou que suas interpretações os ca­ pacitavam a evadir-se pessoalmente. Nem sequer precisavam usar um só dedo. Talvez possamos ver algo desta situação ao considerar um exemplo. No dia do sábado, segundo ensinavam, um homem não poderia carregar um fardo “na sua mão direita nem na sua mão esquerda, nem no seu colo nem no seu ombro.” Mas pode carregá-lo “nas costas da mão, ou com seu pé, ou na sua boca, ou no seu cotovelo, ou na sua orelha, ou nos seus ca­ belos, ou na sua carteira (carregada) com a boca para baixo, ou entre sua carteira e sua camisa, ou na dobra da sua camisa, ou no seu sapato ou na sua sandália” (Shabbath, 10:3). Multiplicando isto por todos os regula­ mentos da Lei, o povo comum tem um fardo impossível de agüentar, só para saber o que pode fazer e não pode fazer. Mas há uma multidão de meios de escape para um intérprete da lei que conhecia as tradições que o capacitavam a fazer quase tudo quanto queria. 47,48. A segunda crítica foi o tratamento que os intérpretes da lei tinham dado aos profetas. Sustentavam que estavam honrando os he­ róis da fé ao edificar túmulos esplêndidos para eles. Mas realmente, nada mais faziam senão completar a obra daqueles que os mataram. O mesmo espírito operava em ambos os grupos. Sua ação dava assentimento in­ consciente aos assassinos. É sempre mais fácil honrar santos mortos do que santos vivos. As vidas dos edificadores dos túmulos dos profetas mostravam por demais claramente que eram do mesmo espírito dos as­ sassinos. 49-51. Não fica claro qual livro Jesus está citando, ou se não se trata de livro algum, com as palavras a sabedoria de Deus. O dito não é achado no Antigo Testamento, mas alguns sustentam que Jesus está citan­ do um livro não-canônico. É, naturalmente, impossível comprovar o contrário. Mas devemos ter em mente que em nenhum outro lugar Jesus


cita de um tal livro, e nenhum livro conhecido tem estas palavras. Além disto, a referência aos apóstolos vem mais provavelmente de Jesus do que de um livro não-canônico. Talvez não esteja citando, mas, sim, dizendo em efeito: “Isto está de acordo com a sabedoria de Deus” (cf. 7:35). Es­ tava dentro do propósito de Deus enviar profetas e apóstolos. Foi assim que a vontade de Deus e a palavra de Deus foram divulgadas aos homens. Mas, embora Deus soubesse que os homens rejeitariam Seus mensagei­ ros, essa rejeição não é inculpável. Os homens desta geração são severa­ mente criticados porque rejeitaram a posição essencial dos profetas e se alinharam com todos aqueles que os perseguiram e mataram. Logo, o sangue dos profetas seria requerido à mão deles. Abel, é claro, foi o pri­ meiro mártir (Gn 4:8; não fica claro porque fosse chamado profeta). A morte de Zacarias foi a última morte de um profeta mencionada no An­ tigo Testamento, tomando os livros na sua ordem hebraica normal (2 Cr 24:21-22). Jesus está dizendo que o sangue de todos aqueles que foram mortos por sua fidelidade a Deus seria requerido. É deixado para esta ge­ ração prestar contas, porque os homens daqueles dias compartilham plenamente da atitude que levou a efeito a morte dos profetas. 52. O A i final revela outro paradoxo. Os intérpretes da lei pro­ fessavam que faziam exposição do significado da lei, e que, portanto, eram os ensinadores do povo. Mas, na realidade, tomaram a chave da ciência, i.é, a chave que destrava o significado da Escritura e leva os homens ao conhecimento de Deus. Seus métodos eram tais que as pessoas não ti­ nham acesso ao significado essencial da palavra de Deus. Ao invés de abrir os tesouros do conhecimento, os intérpretes da lei os trancaram fir­ memente. Transformaram a Bíblia em livro de obscuridades, em monte de enigmas. Somente os peritos poderiam entendê-la. E os próprios peritos estavam tão satisfeitos e ocupados com os mistérios que fabricaram que deixaram de perceber a coisa maravilhosa que Deus estava dizendo. Nem entravam por si mesmos, nem deixavam que outros entrassem. Havia pessoas comuns no caminho para o conhecimento de Deus até que seus mestres as mandavam embora. 53, 54. Os oponentes de Jesus ficaram enfurecidos. Os escribas (outro nome para os intérpretes da lei) e fariseus procuravam enredar Je­ sus nas Suas próprias palavras. Que começaram a argüi-lo com veemên­ cia demonstra sua intensidade e sua determinação. Seu método era pro­ curar provocá-Lo a falar alguma coisa indiscreta que poderia ser usada contra Ele. A palavra tirar é thèreusai, que é usada para caçar feras. É uma palavra vivida para a oposição intensa. vii. O fermento dos fariseus (12:J-13). O dito acerca do fer­


mento está em todos os três Evangelhos Sinóticos, mas o dito acerca de revelar o que está encoberto falta em Marcos, e é achado num contexto diferente em Mateus. Isto não deve nos preocupar seriamente. Não há razão para sustentar que a seleção ou a disposição da matéria deva ser igual em todos os três Evangelhos. E de qualquer maneira, há toda ra­ zão para pensar que Jesus repetisse Seu ensino em ocasiões diferentes com leves variações. 1. Somente Lucas fala de miríades de pessoas aglomeradas. A pala­ vra murias significa corretamente “dez mil” (em Atos 19:19 cinco “mi­ ríades” remontam a 50.000). Mas o termo é freqüentemente usado de modo indefinido para uma grande multidão, e este deve ser o significado aqui. 0 artigo que a acompanha em Grego talvez signifique “a grande multidão usual.” Lucas também é o único que nos conta que nos diz que uns aos outros se atropelaram, tão grande era o aperto. Embora não possa haver dúvida que Jesus quisesse que a multidão ouvisse o que dizia, dirigiu Seu ensino antes de tudo aos Seus discípulos. Aqueles que profes­ sam que seguem a Jesus não podem acomodar-se confortavelmente para escutar enquanto devem entender que os ensinos do Mestre estão dirigi­ dos a eles em primeiro lugar, sejam quais forem as aplicações que possam ter para os de fora. Jesus começou nesta ocasião como uma advertência contra o fermento dos fariseus. A metáfora teria sido mais óbvia então do que agora, porque as pessoas tendiam a fazer seu próprio pão e todos teriam familiaridade com o modo em que um pouco de fermento leveda uma grande massa. Jesus, aqui, fala da penetração que é lenta, insidiosa e constante. Neste caso, o fermento é a hipocrisia. A prática de dizer uma coisa e fazer outra corrói a vida moral como um cancro. 2,3. Muitas coisas poderiam ser ditas acerca da hipocrisia. Mas nesta ocasião Jesus escolhe fazer uma indicação de que é uma política de curto prazo. No fim, tudo ficará descoberto. A arte de ser hipócrita depende da capacidade de conservar algumas coisas ocultas. Quando o ocultamento já não é possível, o hipócrita é inevitavelmente desmasca­ rado. No presente, os fariseus têm certas coisas encobertas ou ocultas. Mas no fim, no dia do juízo, tudo será conhecido. Os homens podem pensar que disseram coisas em secreto com toda a segurança, mas todas serão trazidas à plena luz. Cochicharam no interior da casa; são as salas para armazenagem que ficavam longe das paredes externas que facilmen­ te poderiam ser escavadas; assim se desenvolveu o significado secundário de “quartos internos.” Mas aquilo que foi cochichado tão secretamente será proclamado dos eirados. O eirado de uma casa ofereceria a um proclamador público uma plataforma da primeira categoria de onde poderia


soar a sua voz; Jesus, portanto, está Se referindo à máxima publicidade. viii. Estai prontos para o julgamento (12:4-12). O ensino acerca dos fariseus e do julgamento leva naturalmente para uma seção mais geral sobre o julgamento e a importância de estar preparado para ele. 4, 5. Jesus chama os discípulos de amigos somente aqui nos Evan­ gelhos Sinóticos (mas cf. Jo 15:14). Primeiramente, adverte-os que devem. colocar seus valores na ordem certa. Há uma tendência natural para temer a homens que matam o corpo. O fim desta vida parece aos homens ser o desastre final, e comumente o temem. Mas Jesus indica que os homens que matam não podem fazer nada mais do que isso. A morte é a sua realiza­ ção final. Seu poder não vai além disto. Não devemos temer aqueles cujos poderes são assim limitados. Pelo contrário, devemos temer a Deus, cuja autoridade se estende além da morte e que tem poder para lançar no infer­ no. O temor a Deus está um pouco fora de moda estes dias. Preferimos muito mais ressaltar o amor de Deus. Mas, embora haja um senso em que o perfeito amor lança fora o medo (1 Jo 4:18), há outro senso em que o temor é bem compatível com o amor. Este tipo de temor é continuamente considerado na Bíblia como sendo um ingrediente necessário no viver correto. É uma atitude que é composta de um reconhecimento da grandeza e da justiça de Deus, de um lado, e nossa propensidade ao pecado, do ou­ tro lado. O temor deste tipo protege contra a presunção, e deve achar seu lugar numa fé correta. Inferno aqui é Geena, que não deve ser confundido com Hades, também traduzido “inferno” nas versões mais antigas. Hades é um norme geral para o lugar dos espíritos dos falecidos, ao passo que Geena leva a noção do castigo. A palavra deriva-se do Hebraico gè Hin~ nôm , “o vale de Hinon.” Este era um vale adjacente a Jerusalém onde, em dias idos, crianças tinham sido oferecidas em sacrifício ao deus Moloque (Lv 18:21; 1 Rs 11:7, etc.). Josias pôs fim a tudo isto (2 Rs 23:10), mas o vale era considerado maldito (Jr 7:31 ss.; 19:6). Pelo menos um escritor antigo via esta maldição como sendo permanente: “Este vale maldito é para os que são malditos para sempre” (1 Enoque 27:2). Nos tempos do Novo Testamento o lugar era usado para depositar lixo, e, sem dúvida, um fogo sempre queimava ali. As associações do termo fizeram com que fosse um símbolo apropriado do tormento perpétuo do inferno. Alguns poucos comentaristas têm sustentado que aquele com poder para lançar no inferno é Satanás, mas isto certamente deve ser rejeita­ do. O Maligno pode operar apenas dentro das limitações que Deus lhe atribui, e não há indicação que Deus já lhe deu este poder. Além disto, não devemos temer a Satanás, mas, sim, resistir-lhe (Tg 4:7; 1 Pe 5:9). É Deus que tem poder sobre as questões eternas, e Jesus repete, Sim, digo-


vos„a esse deveis temer. 6, 7. Mas Sua solicitude básica é dar segurança aos Seus amigos, e nâo assustá-los. Passa imediatamente para o cuidado que Deus tem para com Seu povo. Tira uma ilustração dos passarinhos. Cinco pardais eram vendidos por dois asses. Mateus nos diz que dois pardais eram vendidos por um asse. Decerto, entrava um pardal de graça quando se comprava um lote duplo. Mas nenhum deles (nem aquele que ficava de graça!) está em esquecimento diante de Deus. Deus toma nota até dos passarinhos mais comuns e baratos. Muito mais, portanto, terá solicitude pelos ho­ mens. Jesus ressalta esta lição com a informação de que os cabelos da nos­ sa cabeça todos estão contados. A importância disto não se acha na pró­ pria contagem, mas, sim, no fato de que Deus Se importa suficientemente acerca do Seu povo para saber o pormenor mais minucioso acerca deles. Sabe coisas que não sabem acerca de si mesmos. Destarte, os que mais valem do que muitos pardais devem enfrentar a vida sem medo. 8, 9. Nossa atitude diante de Jesus é a da máxima importância. Se um homem O confessar diante dos homens, Jesus o confessará diante dos anjos de Deus (Mateus tem “diante de meu pai que está nos céus”). Este é encorajamento caloroso para o dia do juízo. Mas o homem que negar Jesus (“repudiar”, NEB) enfrentará a negação final. Recusou-se a ser numerado entre os seguidores de Jesus. Quando comparecer diante de Deus, sua escolha será ratificada. Jesus não deixa Seus ouvintes terem dúvida alguma de que questões eternas estão envolvidas na sua atitude para com Ele. Moorman nos relembra que há mais do que uma maneira de negar a Jesus. Nestes dias, pensa ele, é improvável que O negássemos da mesma maneira como fez Pedro, por exemplo. Mas podemos negar “a autoridade sem igual do Seu ensino, imaginando que, nalguns aspectos, sa­ bemos mais do que Ele, ou que muita coisa daquilo que Ele disse pode ser diluída por meio de explicações.” Podemos, também, negar a Sua divindade e repudiar Suas reivindicações. “Em qualquer caso, é o pecado do orgulho e da auto-suficiência, a negação final feita pelo homem da su­ premacia de Cristo e de Deus.” 10. Isto leva ao pensamento solene de que há um pecado tão sé­ rio que não pode ser perdoado. Jesus apresenta este com a declaração de que uma palavra falada contra Ele mesmo pode ser perdoada. Isto não significa que tal palavra é uma ninharia. O versículo anterior demonstrou algo da dignidade do Filho do homem: Ele não deve ser tratado leviana­ mente. Mesmo assim, até o pecado contra esta augusta personagem pode ser perdoado. Os homens podem blasfemar, mas depois arrepender-se; a blasfêmia não é sua palavra final. Mas o que blasfemar contra o Espí­


rito Santo está numa posição muito pior. Devemos entender que se trata, não do pronunciamento de qualquer forma de palavras, mas, sim, da orientação da vida inteira. Esta blasfêmia é tão séria porque diz respeito ao homem inteiro, e não a algumas poucas palavras faladas em qualquer ocasião específica. Mateus e Marcos colocam estas palavras em conexão com a controvérsia de Belzebu, e isto nos ajuda a chegar ao significado. Naquela ocasião, os oponentes de Jesus atribuíram ao diabo as obras de misericórdia que Ele realizava. Chamavam o bem de mal. Os homens em tai situação não podem arrepender-se e buscar o perdão: falta-lhes um senso de pecado; rejeitam a competência de Deus para declarar o que é certo. E esta atitude contínua que é pecado definitivo. Não diminui a capacidade de Deus para perdoar. Mas este tipo de pecador já não tem a capacidade de arrepender-se e crer.38 11,12. Mas não devemos pensar no Espírito Santo primariamente ou somente como sendo Aquele de quem devemos tomar cuidado para não blasfemá-Lo. Ele é nosso Ajudador. Ele está presente com o povo de Deus, especialmente com o povo perseguido de Deus, para lhe dar a assistência de que necessita quando fica diante das autoridades. Jesus fala primeiramente de serem trazidos diante das sinagogas, que indica uma perseguição pelos judeus. A sinagoga podia ser um tribunal ou uma escola além de ser um lugar de adoração. Fala, também, de os governado­ res e as autoridades, uma expressão compreensiva que pode referir-se a judeus, ou gentios, ou ambos. Ser acusado desta maneira poderia ser uma experiência aterrorizante, Jesus, porém, diz aos Seus que não devem ficar ansiosos em tais ocasiões acerca daquilo que devem responder (o ter­ mo grego é freqüentemente usado no sentido técnico de “fazer uma de­ fesa jurídica”). E a razão disto? Porque o Espirito Santo vos ensinará, naquela mesma hora, as coisas que deveis dizer (cf. 21:14-15). Note que o ensino do Espírito chegará naquele momento. Não instruirá os homens algum tempo antes. Deveis dizer. Jesus Se ocupa com o dever que incum­ be de modo compulsório os crentes mesmo em tal tempo de perigo. Não está dizendo como podem garantir que serão inocentados. Está lhes di­ zendo como podem servir melhor a Deus na situação difícil deles. O Es­ pírito os inspirará com uma defesa tal que, através dela, o evangelho será proclamado e os propósitos de Deus adiantados.

38. Ver mais, Leon Morris, Spirit o f the Living God (Londres, 1960), págs.


ix. A parábola do rico tolo (12:13-21). Uma interrupção que surgiu entre a multidão dá uma oportunidade para alguns ensinos sobre o uso correto das posses materiais. 13,14. Um dos ouvintes de Jesus estava tendo problemas com seu irmão acerca da divisão apropriada de uma herança. As leis judaicas da sucessão abrangiam a maioria dos casos (cf. Dt. 21:17), mas às vezes havia lugar para dúvida e neste caso o homem que falou sentia que uma injustiça estava sendo feita. Seu irmão claramente estava empossado dos bens, e este homem queria que Jesus o persuadisse de abrir mão de uma parte. Não pede que Jesus decida entre os méritos de duas reivindi­ cações: pede uma decisão a seu próprio favor. Parece que está agindo unilateralmente. Nada indica que o irmão tinha concordado em deixar Jesus decidir a causa. O homem simplesmente conclamou Jesus para in­ tervir em prol dele. Nisto, está tomando Jesus por um rabino típico, pois os rabinos costumariamente pronunciavam decisões sobre pontos dispu­ tados da lei. Jesus, no entanto, recusou-Se a ter qualquer coisa -a ver com isto. Sua forma de trató, Homem, está longe de ser cordial (cf. Bengel, “Trata-o como um estranho”). Ele viera trazer os homens a Deus, e não trazer bens materiais aos homens. Nesta situação, estava preocupado com as atitudes das pessoas envolvidas, e não com quem recebeu o que. 15. Jesus faz uma forte advertência contra toda e qualquer ava­ reza. Introduz esta advertência com: Tende cuidado e guardai-vos, que cerca a injunção com seriedade solene. Guardai-vos traduz phulassesthe: é adotar ação positiva para repelir um inimigo. Jesus passa a uma declara­ ção de princípios: porque a vida de um homem não consiste na abundân­ cia dos bens que ele possui É uma advertência importante para homens que vivem numa era de afluência. 16,17. Caracteristicamente, Jesus inculcou a lição com uma pará­ bola. Retrata um fazendeiro rico com uma boa colheita. Seus celeiros estão cheios e não têm lugar para guardar sua última colheita excepcional. 18,19, O que resolve fazer, portanto? Desmontar seus celeiros e reconstruí-los maiores. Assim será solucionado o problema do armazena­ mento. Com bastante de tudo em reserva, pode descansar e desfrutar das suas riquezas. Antevê muitos anos de prazer. Note as repetições de meu e minha que indicam um egoísmo inveterado. O homem não se preocupa em usar sabiamente suas riquezas. Não está procurando ajudar outras pes­ soas. Nem sequer se interessa em ter uma vida mais rica e plena para si. Es­ tá interessado apenas na auto-satisfação. 20, Loucol diz Deus. A vida de um homem é uma coisa incerta na melhor das hipóteses, e ninguém tem a certeza de que viverá o número de


anos que gostaria. A coisa realmente tola era a confiança fácil daquele rico de que o futuro estava no controle dele. Deus lhe disse: Esta noite te pedirão a tua alma. O plural literal, te pedirão, é uma construção comum entre os rabinos para denotar uma ação de Deus (SB), i.é, “Deus requer a tua alma. ” 0 homem, cuja vida fica pendurada por um fio, e que pode ser chamado a qualquer momento para prestar contas de si mesmo, é um tolo se depende de coisas materiais. 21. Jesus completa este ensino com um contraste entre armazenar tesouros para si mesmo e ser rico para com Deus (i.é, “rico no que diz res­ peito a Deus,” Phillips). É este último aspecto que importa. Os homens são tolos se aceitam uma condição inferior a esta. x. Buscai o reino (12:22-34). Jesus, depois de tratar dos pecados da avareza e do egoísmo, volta-Se àquele da preocupação, que de certa maneira está ligado com os outros dois. “A avareza não pode obter sufi­ ciente, a preocupação tem medo de'que não terá suficiente” (Arndt). As riquezas podem representar um perigo para os que não as possuem bem como para aqueles que as possuem. Jesus ressalta a importância da confiança em Deus e do desprendimento das coisas. 22,23. As palavras anteriores foram dirigidas à multidão, mas es tas aos discípulos de Jesus. O que Jesus passa agora a dizer advém das Suas palavras anteriores, conforme demonstra Por isso eu vos advirto. É aos Seus que Jesus diz: Não andeis ansiosos pela vossa vida. O crente pode tomar providências razoáveis de antemão para as suas necessida­ des, mas não deve preocupar-se com a comida e com as roupas. A vida é maior do que tais coisas (cf. 12:15). 24. Jesus reforça este pensamento com um apelo aos corvos, mencionados somente aqui no Novo Testamento (são os objetos do cuidado de Deus em Sl 147:9). As aves não se dedicam a atividades agriculturais, mas nem por isso passam necessidade. Deus as alimenta. Há possivelmente significado no fato de que os corvos eram impuros (Lv 11:15). Deus faz suprimento até mesmo para estas aves impuras. E Jesus continua, lembrando Seus ouvintes que têm mais valor do que as aves (cf. v. 7). 25. De qualquer maneira, os homens estão limitados. Não fica bem claro qual é a limitação que Jesus destaca aqui: a palavra hèlikia pode referir-se ou à idade (Jo 9:21) ou à estatura (19:3). Um côvado é uma medida de comprimento (a distância das pontas dos dedos para o cotovelo). Mas medidas de comprimento ocasionalmente eram aplica­ das ao tempo (e.g. “palmos” em Sl 39:5). Destarte, a expressão pode significar “acrescentar um curto período à sua vida” ou “acrescentar


meio metro à sua altura.” Aqueles que favorecem o primeiro significa­ do sustentara que poucos homens se preocupam em aumentar sua al­ tura por meio metro, mas muitos se preocupam em aumentar seu pe­ ríodo de vida. O rico tolo nâo podia acrescentar um só momento à du­ ração da sua vida quando veio a chamada de Deus. Sustentam também que esta interpretação se encaixa melhor com a referência a “coisas mí­ nimas” no versículo seguinte. Embora um aumento no decurso da vida pareça uma questão grande para nós, a lição bem pode ser que é questão mínima para Deus. Aqueles que vêem uma referência à altura indicam que, no contexto, isto se harmoniza melhor com o crescimento de plantas. As plantas não se preocupam, mas fazem grandes aumentos na sua altura. O uso mais natural dos termos parece favorecer este segundo ponto de vista. 26. A lição é inculcada. Se os homens não podem fazer uma coi­ sa tão pequena, então porque ficariam ansiosos acerca doutras coisas? Deus, que cuida do nosso crescimento, cuidará de todas as nossas neces­ sidades. 27,28. Jesus apelou às aves; agora volta-Se à vida das plantas. Os lírios provavelmente não são lírios em nosso senso do termo. AG su­ gerem que o açafrão do outono esteja em mente, ou o lírio de chapéu de turco, ou a anêmona, ou o gladíolo. Shewell-Cooper acrescenta a íris e o lírio de Martigon.39 No Antigo Testamento, é usado para a cor dos lábios (Ct 5:13), que leva alguns a favorecer a anêmona escarlate. Mas é claro que há grande incerteza, e é muito recomendável o ponto de vista de que o termo não é específico. Jesus, portanto, refere-Se às “flores” de modo geral. Estas não fabricam tecidos como os homens, mas Deus as veste com uma beleza com a qual nem sequer as vestes deslumbrantes de Salomão poderiam comparar-se. Mas as flores, agora referidas como sendo erva (que apoia o ponto de vista de que nenhuma planta especí­ fica está em mira), são muito temporárias. Vivem hoje e são queimadas amanhã. O argumento é irresistível. Se Deus faz tudo isto em prol das flores que desaparecem tão rapidamente, quanto mais vestirá Seu pró­ prio povo? Homens de pequena fé demonstra que alguns dos discípulos tinham demonstrado ansiedade. É desnecessária. 29,30. Jesus ordena (e não aconselha) Seus seguidores a não se preocuparem. A preocupação é uma grande inibidora da ação: viver preo­

39. W. E. Shewell-Cooper, Plants and Fruits o f the Bible (Londres, 1962),


cupado é perder tudo quanto é de importante na vida. Os discípulos não devem indagar (com preocupação) acerca da comida e da bebida. Isto, naturalmente, não exclui o esforço legítimo, mas certamente proíbe a concentração nestes itens. Phillips consegue o sentido com: “Não deveis colocar vosso coração naquilo que comeis ou bebeis” (cf. o rico tolo, 12:16-20). De modo semelhante, os discípulos não devem entregar-se a inquietações. A preocupação com a comida e as roupas pode ser apropria­ da para os gentios de todo o mundo (uma designação rabínica comum dos gentios; ver SB), mas não é apropriada para o povo de Deus. Vosso Pai sabe que necessitais delas; e Aquele que conhece a necessidade a su­ prirá. 31. Do lado negativo, Jesus volta-Se para o lado positivo, e ins­ trui Seus discípulos como viver. Devem buscar o seu reino, que indica uma concentração sobre tudo quanto o reino envolve. Os discípulos se comprometeram a seguir seu Mestre. Devem, portanto, dedicar seu tem­ po a fazer o trabalho dEle e a buscar Seu reino. Isto significará procu­ rar produzir nas suas próprias vidas conduta apropriada àqueles que aceitaram a regra de Deus. Significará, também, procurar trazer outras pessoas para um modo semelhante de viver, pois é desta maneira que o reino cresce. Jesus acrescenta a informação de que quando Seus segui­ dores se concentram no reino, estas coisas vos serão acrescentadas. Quan­ do os homens verdadeiramente honram a Deus, Deus honra a sua fé. Seus servos talvez não se tomarão ricos conforme o mundo entende as riquezas, mas não sofrerão falta. 32. Pequenino rebanho é uma forma incomum de trato, que se acha somente aqui no Novo Testamento. Fala do número pequeno de discípulos verdadeiros, mas também dos cuidados que podem esperar da parte do seu Pastor. E, de fato, Jesus continua imediatamente a falar dos dons do Pai ao Seu povo. Estes não são extorquidos dEle como se Ele estivesse indisposto para dar: Ele se agradou em dar. E Sua dádiva é o reino, o próprio reino que acabaram de ser ordenados a buscar. 33,34. Jesus volta à comparação entre as riquezas terrestres e ce­ lestiais. Aconselha Seus seguidores a concentrar-se nas riquezas reais, no tesouro celestial. Isto pode envolver vender bens terrestres e doar a soma apurada. Mas não devemos entender as palavras como se significassem que todos os seguidores de Jesus deviam vender todas as suas posses. Produzir uma classe de indigentes santos desta maneira seria pecar contra o amor, pois estes indigentes ficariam sendo um fardo para seus vizinhos. De qual­ quer modo é relevante relembrar que Jesus foi hospedado na casa de Mar­ ta (10:38), e que mais tarde recomendou Maria aos cuidados de João, que


a levou para o lar dele (Jo 19:27). Em nenhum destes casos Jesus repreen-: deu Seu seguidor por ter possessões. Ademais, o próprio Jesus e os após­ tolos tinham dinheiro que usavam para comprar alimentos e para dar esmolas (Jo 13:29). Parece claro que Jesus nâo está excluindo a proprieda­ de privada; mas está enfatizando que os crentes nio devem ser dominados pelas suas possessões. A confiança nas riquezas impede a confiança em Deus. Quando isto acontece, as posses ficam sendo uma barreira fatal à vida. As riquezas verdadeiras são tesouro inextinguivel que se guarda em bolsas que não desgastem. Tais riquezas estão fora do alcance dos ladrões e das traças (que vão consumindo certas formas de riquezas terrestres, e.g. vestes caríssimas). 0 coração e o tesouro vão juntos. O coração do ho­ mem, a concentração das suas energias e dos seus interesses, está sempre com seu tesouro, i.é, as coisas às quais dá mais valor. xi. A vinda do Filho do homem (12:35-40). Jesus reforça Seu en­ sino sobre o uso correto dos bens com a lembrança de que as coisas terres­ tres são temporárias, e de que a vinda do Filho do homem é certa. Natu­ ralmente interpretamos isto em termos da Segunda Vinda, mas muitos estudiosos acham que isso teria sido incompreensível para os ouvintes de Jesus. Sustentam que Jesus os adverte a estarem prontos para uma crise, que provavelmente devesse ser vista nos eventos que cercam a crucifica­ ção. É difícil excluir semelhante sentido. E há uma aplicação permanente no fato de que os seguidores de Jesus sempre devem estar prontos para enfrentarem as crises da vida no espírito do verdadeiro discipulado. Mas é impossível sustentar que isto esgota o significado. Haverá também uma re­ ferência mais completa que antevê a Segunda Vinda. 35,36. Jesus conclama os discípulos a estarem prontos. Vossos é enfático, e a expressão sede vós também tem um vós enfático. Seja o que fizerem os demais, vós deveis estar prontos. Cingii o corpo é um passo pa­ ra o estado de prontidão. Os mantos longos e flutuantes dos orientais eram pitorescos, mas tendiam a estorvar trabalhos sérios, de modo que, quando algum serviço pesado estava planejado, as partes lon^s eram dobradas dentro de um cinto ao redor da cintura. Jesus passa a retratar servos cujo senhor fora para uma festa de casamento, e que o esperam de volta a qualquer momento. Não serão achados despreparados, mas, sim, abrirão a porta tão logo ele bata, e se demonstrarão prontos para qualquer serviço que ele desejar. 37. O senhor que acha seus servos em tal estado de prontidão fi­ ca contente. Ele fica tão contente que inverte os papéis normais e os põe sentados à mesa enquanto lhes serve uma refeição. Esta reviravolta inespe­ rada não pode ser tirada da vida diária, mas, sim, é algo de extra que é i


providenciado para o povo de Deus (cf. 22:27). Mas, afinal das contas, o galardão do povo de Deus nunca é coisa corriqueira: é sempre o inespe­ rado. 38-40. A importância de estar pronto agora é ressaltada, qualquer que seja a época da vinda do Filho do homem. Jesus pronuncia uma bemaventurança sobre os servos que estão prontos quando o senhor vem na segunda vigília, quer na terceira. Os romanos dividiam a noite em quatro vigílias, mas os judeus, em três (cf. Jz 7:19). Destarte, Jesus está falando de servos que vigiam durante a noite inteira pela vinda do Senhor deles. Não sabem a ocasião da volta do senhor, mas sabem que ela bem pode ser muito adiada. Uma mudança de linguagem figurada nos relembra que nenhum chefe de um lar sofreria perda se soubesse quando o, ladrão ha­ veria de vir. A casa em epígrafe é feita de tijolos de barro comum que po­ deriam ser escavados (arrombados). O chefe do lar deve estar pronto: é a única maneira de ficar resguardado contra semelhante roubo. Jesus com­ pleta esta seção com a declaração explícita de que os discípulos não sabem quando o Filho do homem virá. A vinda é certa, mas a hora não é conhe­ cida aos filhos dos homens. Será à hora em que não cuidais. Devem, por­ tanto, viver em constante prontidão, conforme deixou claro a totalidade da seção que aqui termina. xii. A responsabilidade dos servos (12:41-48). A pergunta de Pe­ dro talvez visasse levantar a questão dos privilégios e das responsabilidades do apostolado. Certamente tem relevância à obra do ministério, tópico este que deve ter sido importante aos leitores de Lucas. Jesus não respon­ de diretamente, mas chama a atenção à responsabilidade de todos os ser­ vos. Ressalta que quanto maior o privilégio, tanto maior a responsabili­ dade. 41-44. Somente Lucas nos conta que foi Pedro quem fez a per­ gunta, que aliás está bem de acordo com o caráter dele. Jesus, conforme freqüentemente fazia, revidou com outra pergunta para levar a pessoa que indagou a pensar. 0 mordomo era um escravo (é chamado doulos no v. 43), e tinha a tarefa de gerir a fazenda inteira. Assim o dono ficava livre da administração .rotineira, e, portanto, o mordomo necessariamente tinha considerável liberdade de ação. Se fosse fiel e prudente, iria fazer com que tudo * na fazenda funcionasse devidamente,*e isto incluiria a devida alimentação dos domésticos. Jesus fala de uma situação em que o senhor está ausente mas volta inesperadamente (43). Um mordomo diligente, a quem o senhor achasse trabalhando eficientemente quando assim voltava de repente, seria promovido (44). 45,46. A prolongada ausência do senhor, porém, poderia levar um


mordomo descuidadoso a um falso senso de independência. Nada havia de impedi-lo de entregar-se a seus caprichos. Afinal das contas, era o en­ carregado. Quando um mordomo abusava da confiança nele investida, a volta do senhor o surpreenderia. O resultado seria o castigo e a degrada­ ção do gerente indigno de confiança. Castigar é uma palavra pitoresca, e indica uma penalidade severa. Que Jesus está pensando primariamente dos Seus seguidores e não no pano de fundo da pequena estória é perce­ bido no fato de o transgressor ser classificado com os infiéis. Isto não preocuparia muito um mordomo entregue às suas próprias vontades (a não ser que o tomemos no sentido de “servos sendo castigados pela sua infidelidade”), mas importaria muito a um cristão. 47,48. Jesus remata esta seção com uma advertência da certeza do castigo para os que deixam de cumprir seu dever. A responsabilida­ de recai sobre aqueles que muito receberam (cf. Am 3:2). Nota-se que os homens são castigados não simplesmente por praticarem o mal, mas também por deixarem de praticar o bem (cf. Tg 4:17). É importante que os servos de Jesus estejam ativos no cumprimento da Sua vontade. Tendemos a nos sentir perturbados pelo fato de que um homem que pecou na ignorância será castigado (48). Aqui devemos ter em mente que “não existe tal coisa como a ignorância moral absoluta (Rm 1:20; 2:14, 15)” (Farrar), e, além disto: “Nossa própria ignorância faz parte do nosso pecado” (Ryle). A ênfase, naturalmente, recai no fato de que os açoites são poucos. Mas não devemos subestimar a importância da prática da vontade de Deus. O servo de Deus deve fazer todos os esfor­ ços possíveis para descobrir qual é a vontade de Deus, e cumpri-la. Todos somos responsáveis. xiii. Fogo sobre a terra (12:49-53). Em certo sentido, Jesus veio trazer paz. Mas algumas coisas são mais importantes do que a paz, e às vezes Sua mensagem e o modo de ela ser recebida significa que haverá divisão. Jesus esclarece com pormenores. 49,50. O significado desta passagem está longe de ficar óbvio. Al­ guns têm entendido que fogo significa divisão, e outros, a santidade ou a fé. Mas o termo mais freqüentemente representa o julgamento, e este é provavelmente seu sentido aqui. A vinda de Jesus significa julgamento, por exemplo: da incredulidade. Jesus já prenuncia o momento em que começará a arder, i.é, na cruz, o enfoque de todas as Suas atividades. Al­ guns, é verdade, tomam as palavras no sentido: “E o que quero, se já está acesa?” (Rieu). Mas este parece ser um modo menos provável de entender o Grego, e o paralelismo com a frase seguinte. Jesus está di­ zendo que o plano de Deus para os homens é a salvação que envolve


julgamento. Mas é um julgamento que o Messias suportará por outras pessoas, e nio um que Ele infllngirá sobre os outros. Não é uma perspec­ tiva atraente, mas Jesus anseia pela chegada dela, pois somente assim é que a obra salvífica pode ser realizada. Passa para o pensamento da cruz como sendo um batismo, figura esta que emprega alhures (Mc 1038-39). Encai­ xa-se com o vínculo freqüente entre “batismo” e “batizar” e a morte.40 Recebemos um relance do custo da cruz para Jesus no Seu comentário: “fico sob grande constrangimento até que a ordalha tenha passado!” (NEB). A sombra da cruz pairava sobre Ele. Sabia que era inevitável: era o próprio propósito da Sua vinda. Mas embora aceitasse sua inevitabilida­ de, nada a poderia tomar atraente, 51-53. À pergunta de se achamos que Jesus veio trazer paz, a maioria de nós responderia “Sim” sem hesitação. Mas o Não de Jesus é enfático (puchf). Há, é claro, um sentido em que realmente traz a paz, aquela profunda paz com Deus que leva à paz verdadeira com os homens. Mas noutro sentido, Sua mensagem é divisiva. A cruz é um desafio aos homens. Jesus conclama os Seus seguidores a tomar sua própria cruz en­ quanto O seguem (9:23ss.; 14:27). Quando os homens não ficam à altura deste desafio, não incomumente tornam-se críticos dos que o aceitam. As divsões que assim surgem podem percorrer famílias inteiras (cf. Mq 7:6). Incidentalmente, os cinco do v. 52 não aumentaram para seis no versícu­ lo seguinte, pois a mãe e a sogra são idênticas. A família é composta de pai, mãe, filho, esposa do filho (que viria morar com eles), e filha. xiv. Os sinais dos tempos (12:54-59). Não fica claro se estas pa­ lavras foram faladas na mesma ocasião das palavras anteriores. Não há nenhuma conexão óbvia, e Mateus cita um dito semelhante como respos­ ta a um pedido por um sinal. Provavelmente Lucas está relatando um di­ to sem indicar seu contexto. 54, 55. Jesus comenta a capacidade dos Seus patrícios de prever o tempo. Tinham aprendido como interpretar as nuvens e os ventos, e suas previsões eram exatas. 56. Eram, porém, hipócritas. Concentravam-se naquilo que era superficial. Davam atenção (dokimazeiri) ao tempo, que achavam interes­ sante, mas desconsideravam aquilo que importava. “Não tinham a capaci­ dade de ver o verdadeiro caráter dos tempos porque não queriam vê-lo” (Arndt). Sábios quanto ao clima, não podiam discernir as nuvens de tem­ pestades que mesmo então estavam se aglomerando e que estavam para

40. Ver J. Ysebaert, Greek Baptismal Terminology (Nijmegen, 1962), cap. III.


romper-se no cataclisma de .66-70 d.C. Entendiam os ventos da terra, mas não os ventos de Deus; podiam discernir o céu, mas não os lugares celestiais. Seu externalismo religioso os impedia de ver o significado da vinda de Jesus. 57-59. Jesus encoraja Seus seguidores a fazer sua paz com Deus. Em questões terrestres, os homens obtêm o melhor acordo que podem fora dos tribunais, ao invés de insistirem em levar até ao fim uma causa jurídica sem esperança. Ou, num país como a Judéia, onde havia duas jurisdições, a romana e a judaica, o homem que provavelmente se veria em dificuldades com uma jurisdição poderia apelar à outra com sucesso. Mas os pecadores, não deviam ser embalados num senso de falsa segu­ rança, pensando que embora sua causa contra Deus é desesperadora, têm uma boa causa na jurisdição da terra. Se confiarem nisto, poderão acabar perdendo tudo diante do único tribunal que importa, o de Deus, pois no fim não poderão evitar Sua jurisdição. Portanto, não deviam poupar esforço algum para ficarem de bem com Deus. Quando Ele final­ mente condena um homem, a penalidade será aplicada até às últimas conseqüências.

h. O arrependimento (13:1-9). i. Homens que pereceram (13:1-5). Lucas não nos diz por que certas pessoas informaram Jesus acerca da matança dos galileus. Mas po­ dem ter sido judeus que a citavam mais ou menos com aprovação como um exemplo do tipo de julgamento do que Jesus acabara de falar. Jesus não concorda com isto, mas usa a oportunidade para inculcar a necessi­ dade urgente do arrependimento. 1. Este incidente não nos é conhecido de qualquer outra fonte his­ tórica, mas está em harmonia com aquilo que conhecemos do caráter de Pilatos. Parece que alguns homens da Galiléia tinham subido para Jerusa­ lém para adorar, e foram mortos pelo governador enquanto estavam no ato de oferecer sacrifício. Que o sangue deles se misturara com o dos seus sacrifícios era um detalhe especialmente horrível. É difícil imaginar o que poderia justificar uma execução em tal momento. 2,3. Era comumente sustentado que a desgraça era um castigo pelo pecado (cf. Jo 9:2). Destarte, Jesus imediatamente ensina a lição de que estes galileus não tinham sido destacados para uma morte horrível porque eram pecadores piores do que outros. Conclama Seus ouvintes para se arrependerem, senão, todos igualmente perecereis. É claro que


Ele não vê qualquer necessidade de argumentar que todos são pecado­ res e precisam do arrependimento. Como ocorre noutros trechos, toma a pecaminosidade universal como fato básico. Sua palavra igualmente dificilmente poderia significar que todos seriam mortos exatamente da mesma maneira. Talvez o pensamento seja que o modo da morte dos galileus nio lhes deu tempo para arrepender-se. Os ouvintes não-arrependidos de Jesus estavam seguindo um curso que significa a morte sem ar­ rependimento no devido tempo. Ou o fato central pode ser execução pelo romanos. A não ser que Seus ouvintes se arrependessem, sofreriam da mesma maneira às mãos dos romanos. 4,5. Jesus passa, então, a falar numa outra desgraça em Jerusa lém, que também nos é conhecida somente através desta referência. Seus ouvintes não devem supor que os dezoito que tinham morrido quan­ do desabou a torre de Siloé e os matou fossem mais culpados (lit. “devedo­ res”; homens que estão devendo obediência a Deus) do que outros. Mas seu fim é uma advertência ao auditório de Jesus quanto à urgência do seu arrependimento. Lucas emprega o presente do imperativo (com força con­ tínua) no v. 3, e um aoristo (para uma única ação decisiva) aqui. O arrepedimento é tanto uma coisa de uma vez por todas que molda todo o de­ curso subseqüente da vida, e um assunto de todos os dias que continua a afastar o pecado. ii. A parábola do homem procurando fruto (13:6-9). Lucas pas sa a registrar uma parábola que ressalta tanto a necessidade do arrependi­ mento quanto a longanimidade de Deus quanto a castigar. A passagem anterior enfatizou a importância do arrependimento, e esta ilumina o fa­ to de que a oportunidade não dura para sempre. 6, 7. Jesus coloca o cenário com uma figueira numa vinha (e, por tanto, em solo fértil). Faz três anos que o dono vem procurando fruto, o que parece indicar uma árvore bem-estabelecida. A falta de dar frutos em três anos parece um mal sinal. Seria improvável que tal árvore desse fruto no futuro. Destarte, o dono dá a ordem: pode cortá-la. Além de não dar frutos, estava ocupando terreno que doutra forma poderia ser produtivo. 8, 9. O vinhateiro aconselha paciência. Talvez um tratamento d solo e a aplicação de estrume por mais um ano traga resultados. Dará à árvore uma última chance para produzir. Más o vinhateiro reconhece os fatos. Se a árvore continua sem frutos, acabou-se o assunto. Mas mes­ mo assim, não diz: “Eu a cortarei,” mas, sim: mandarás cortá-la. Não tomará iniciativa alguma na destruição. Jesus ensina que, até ao fim, Deus é misericordioso.


i. A cura da mulher encurvada (13:10*17). O uso correto do sábado era uma fonte contínua de controvérsia entre Jesus e Seus oponentes, Lucas nos conta acerca de uma cura no sábado que provocou uma disputa acerca do uso correto daquele dia. 10,11. Nem a ocasião, senão que era num sábado, nem o lugar, senão que era numa sinagoga, é indicado. Esta é a última vez que se re­ gistra que Jesus ensinou numa sinagoga, ou até mesmo que entrou nalguma delas. A deformidade da mulher é descrita por A. Rendle Short como “espondilite deformans; os ossos da sua espinha foram fundidos numa massa rígida.”41 12,13, Não há indicação de que a mulher acreditava em Jesus, nem sequer de que O conhecia de modo algum. O próprio Jesus tomou a inciativa. Pronunciou-a curada, impôs as mãos sobre ela, e ela imediata­ mente se endireitou. Jesus não impunha usualmente as mãos sobre as pessoas ao realizar exorcismos. Talvez Lucas queira dizer que o espíri­ to (11) já estava expulso (12), e que Jesus agora completava a cura com a imposição das mãos. E interessante que a gratidão da mulher é demons­ trada por ela dar glória a Deus, e não a Jesus. 14. A cura irritou o chefe da sinagoga (sobre este oficial ver so­ bre 8:41). A explicação de Lucas enfatiza o dia: “foi no sábado que Je­ sus fizera a cura.” O chefe da sinagoga pode também ter achado que ha­ via uma invasão da prerrogativa dele, pois ele dirigia o que acontecia na sinagoga, e a cura foi realizada sem referência a ele. Não repreendeu a Jesus, mas falou para o povo em geral. Entendia que o quarto manda­ mento proibia curas tais como esta. As pessoas deviam procurar suas cu­ ras durante os seis dias úteis. 15,16. O plural usado por Jesus, Hipócritas, critica severamente não somente o chefe da sinagoga, como também todos aqueles que con­ cordam com ele. Sua hipocrisia consistia em falar à multidão quando sua repreensão realmente era contra Jesus, mas ainda mais no seu alega­ do zelo pela lei ao objetar a uma ação que cumpria o espírito e o pro­ pósito da lei. Jesus repreendeu a hipocrisia desta abordagem ao indicar a prática judaica de cuidar dos animais. Os rabinos estavam muito preo­ cupados com o bom tratamento dos animais. No sábado, os animais po­ diam ser levados para fora com uma corrente ou similar, posto que nada era carregado (Shabbath 5:1). A água podia ser tirada para eles e colocada

41. A. R. Short, Modern Discovery and the Bible (Londres, 1947), pág. 91.


numa gamela, embora o homem nâo devesse segurar um balde para o ani­ mal beber dele <Erubin 20b, 21a). Se os animais podiam receber tais cuidados, tanto mais uma filha de Abraão podia ser liberta dos laços de Satanás no sábado. Na realidade, Jesus usa um termo enfático, e diz que ela devia (dei) ser livrada. A aflição da mulher era devida à atividade sa­ tânica, e Satanás devia ser derrotado. Isto nâo significa, naturalmente, que a mulher era ímpia. Estava freqüentando o culto, e a descrição que Jesus dá dela parece demonstrar que ela era piedosa. Mas a doença dela era maligna. 17. O efeito foi duplo. Todos os adversários de Jesus se envergo nharam, e o povo se alegrava (os tempos verbais são contínuos). Eviden­ temente, a opinião pública estava do lado de Jesus. E o povo ficou impres­ sionado, não somente por este milagre individualmente, mas, sim, por to­ dos os gloriosos feitos que Jesus realizava.

j. O reino de Deus (13:18-30).

As duas parábolas curtas que começam esta seção também formam um par em Mateus (a do grão de mostarda, mas não a do fermento, ocorre em Mar­ cos). i. A parábola do grão de mostarda (13:18, 19). E dizia —Lucas tem “portanto” no original, demonstrando assim que este ensino surge do assunto anterior. A oposição da parte do chefe da sinagoga e dos ami­ gos deste não significava que o reino deixaria de consumar-se. As boasvindas calorosas que a multidão deu à resposta de Jesus e sua alegria em todas as obras dEle (17) demonstravam que o reino estava fazendo seu impacto. Mateus e Marcos colocam a parábola em posições diferentes, mas isto não deve ser considerado motivo para rejeitar a situação histó­ rica retratada por Lucas. Este é o tipo de história expressiva que facil­ mente poderia ser repetida e usada de maneiras diferentes. Na realidade, em Mateus e Marcos o contraste entre o tamanho minúsculo do grão de mostrarda e o tamanho grande da planta resultante é a lição da história. Lucas, no entanto, nem sequer menciona o tamanho da semente. Aqui, a lição é o resultado final: a planta fica tão grande que as aves fazem ni­ nhos nos seus ramos. Não se sabe com certeza exatamente qual planta está em mente, mas a maioria pensa na sinapis rtigra. Não é realmente uma árvore, mas em condições favoráveis pode atingir uma altura de até quátro metros. As aves que se aninham nos seus ramos freqüente­ mente são um símbolo para as nações da terra (Ez 17:23;31 ^ ;D n 4:12),


21), 0 reino será universal. Homens de todas as nações se acharão dentro dele. ii. A parábola do fermento (13:20, 21). A parábola anterior dizia respeito à expansão do reino por todo o mundo; esta trata mais do seu poder transformador. Onde era comum fazer pão em casa, as pessoas entenderiam a lição mais facilmente do que nós hoje. Não parece haver ênfase no fato de que a mulher usou três medidas de farinha, embora esta fosse a quantidade usada por Sara (Gn 18:6). É possível que fosse a quantidade normal, mas não era pequena (cerca de 25 kg de farinha). Uma pequena quantidade, apenas, de fermento é necessária para fazer crescer uma grande quantidade de massa. Fermento é freqüentemente usado na Escritura para denotar uma má influência, mas não parece haver motivo algum para entendê-lo assim aqui. A lição é que uma quantidade pequena de fermento faz sua presença ser sentida na totalidade de uma massa muito maior. Assim acontece com o reino. O fermento trabalha de modo quieto e invisível, e o reino opera através da influência de Cristo sobre os corações humanos, e não em qualquer coisa meramente externa e visível. Talvez valha a pena notar, também, que o fermento trabalha de dentro: não pode transformar a massa enquanto fica do lado de fora. Mas também é importante que o poder para fazer a transformação vem de fora, pois a massa não se transforma a si mesma. iii. Quem está dentro do reino? (13:22-30). O incidente seguin­ te aconteceu noutra ocasião, mas há conexão quanto ao assunto. Jesus deixa claro que haverá muitas surpresas quanto a membrezia do reino. 22* 23. A impressão transmitida por Lucas é que Jesus continuou viajando em direção a Jerusalém sem pressa, e com muitas paradas para ensinar tanto nas cidades grandes como nas aldeias pequenas. Nalgum lugar, alguém perguntou: Senhor, são poucos os que são salvos? A pergun­ ta era muito relevante, tendo em vista o estado confuso da religião da­ queles tempos. Há evidência de que era discutida (e.g. 4 Esdras 7:55ss.)f e que os rabinos tinham pontos de vista consideravelmente divergentes (e.g. Sanhedrin 97b). Mas parece ter sido sustentado com firmeza que a totalidade de Israel seria salvo, a não ser uns poucos pecadores desaver­ gonhados que se excluíam (Sanhedrin 10:1). 24, 25. Jesus não responde diretamente, mas conclama quem fez a pergunta, e outros com ele, a se assegurarem que farão parte do núme­ ro, por maior ou menor que este acabe sendo. Isto é muito mais impor­ tante do que fazer aritmética sobre aqueles que serão salvos da perda eter­ na. Esforçai-vos é uma palavra que denota ação feita de todo o coração. É um termo técnico para competir nos Jogos (ver LS), e dele obtemos nos­ È-


sa palavra “agonizar.” Nâo se trata de nenhum esforço desanimado. Nio se quer dizer com isto que a realização humana merece a entrada no rei­ no: é a atitude que está em mente. A porta estreita não é explicada, mas claramente é a entrada para a salvação. Os muitos que não conseguirão entrar são aqueles que não procuram até que seja tarde demais, Há rele­ vância no futuro do verbo, procurarão, que é contrastado com o presen­ te, Esforçai-vos. Os que se esforçam agora, entram. Nem aqui nem em qualquer outro lugar há qualquer indicação que os que buscam sincera­ mente se acharão excluídos do reino. Há, porém, inevitavelmente, um limite de tempo quanto à oferta da salvação. Quando a porta da opor­ tunidade for finalmente fechada, será tarde demais. As pessoas devem es­ forçar-se agora para entrar. 26. Jesus agora retrata alguns dos rejeitados insistindo que ti­ nham conhecido o Senhor. Comiam e bebiam onde Ele estava; Ele ensi­ nava onde eles estavam. Alguns rabinos, aliás, proibiam o ensino na rua aberta (Moed Katan 16a), mas Jesus, não. Ensinava abertamente a to­ dos os homens, onde quer que se achavam. Mas estes homens nada mais podiam pleitear do que a proximidade física. Não podiam alegar que já entraram em entendimento simpático daquilo que Ele ensinava. 27. Como conseqüência, serão totalmente rejeitados. O dono da casa diz que não sabe donde são, e os marca como os que praticais iniqüidades (cf. Sl 6:8). Nenhuma ação maligna específica foi mencio­ nada. Mas, afinal das contas, haverá apenas duas classes, os de dentro e os de fora. Visto que estas pessoas não deram os passos necessários para entrar, serão numeradas com os malfeitores fora. 28. Eles chorarão (expressando, assim, sua grande aflição) e rangerão os dentes (na sua fúria). Estas expressões marcam o máximo da frustração e da decepção. Mas estes homens não sentirão menos do que isto quando virem os grandes heróis da fé no reino que sempre pen­ savam que seria deles também, e se acham lançados fora. Esta última expressão parece indicar o uso de alguma força. O resultado final da sua atitude é trazer sobre si a oposição ativa de Deus. 29,30. O parágrafo termina, com o pensamento de que haverá muitas surpresas quanto à membrezia final do reino. Os homens virão dos quatro cantos da terra, o que significa que os gentios serão bem represen­ tados (cf. Is 45:6; 49:12). Será uma surpresa para aqueles judeus que pen­ sam que tem um monopólio do reino. Tomarão lugares à mesa emprega a linguagem figurada do banquete messiânico, um símbolo dos tempos do fim que os judeus apreciavam grandemente. Devem ter ficado muito atô­ nitos quando ouviram falar de gentios tomando parte em tudo isto, en­


quanto eles mesmos foram excluídos. Há uma dupla mortificação: ser excluídos eles mesmos, e ver incluídos os desprezados gentios. A inver­ são pode ser completa, conforme demonstram amplamente as palavras acerca dos primeiros e os últimos. Os caminhos de Deus não são os cami­ nhos dos homens. k. Os profetas perecem em Jerusalém (13:31-35) i. Essa raposa Herodes (13:31-33). 31. É curioso averiguar que alguns fariseus advertiram Jesus contra Herodes. Embora se opusessem vigorosamente a muita coisa que Jesus dizia e fazia, talvez reconhecessem que ficavam muito mais perto dEle do que de Herodes. É talvez mais pro­ vável que fossem agentes conscientes ou inconscientes de Herodes. Depois da sua experiência com João Batista, o tetrarca talvez não tenha desejado o assassinato de mais um profeta pesando sobre sua consciência; mas certa­ mente queria ver-se livre de Jesus. Usou os fariseus, portanto, para transmi­ tir uma ameaça de morte para Jesus. Talvez estivessem prontos para coope­ rar, na esperança de intimidar Jesus a deixar a Peréia e entrar na Judéia, onde tinham mais poder. 32. A raposa era empregada pelos judeus como símbolo de um ho­ mem ardiloso, mas mais freqüentemente para uma pessoa insignificante ou sem valor (SB). Às vezes era símbolo da destrutividade. T.W. Manson diz: “Chamar Herodes de ‘essa raposa’ era a mesma coifca de dizer que nem é um grande homem nem um homem direito; não tem nem majestade nem honra. A expressão, portanto, é de desprezo. Herodes é a única pes­ soa de que há registro, a quem Jesus tratou com desprezo. Mais tarde, lemos que queria ver Jesus operar um milagre, e que quando Jesus foi colocado dinte dele, o Mestre não lhe dirigiu palavra alguma (23:8-9). Quando Jesus nada tem para dizer a alguém, a posição daquela pessoa é desesperadora. Que Jesus manda os fariseus de volta a Herodes talvez apoie o ponto de vis­ ta de que tinham alguma conexão com o tetrarca. Mas talvez não passe de ser Sua maneira de ressaltar que não importa a Ele se Herodes vem ouvir o que Ele tem para dizer. A expulsão dos demOnios e as curas significam que Jesus continuará seu ministério. Torna claro, porém, que este ministério não durará indefinidamente. No terceiro dia significa “dentro em breve,” ou “no fim de um tempo específico,” ou ambos. Depois Jesus “termina­ rá.” A palavra (teleioumai) pode denotar o fim da Sua obra naquela re­


gião, ou a conclusão da Sua obra de redenção. Jesus está dizendo que com­ pletará o curso destinado a Ele. Deus, e não Herodes, determinará quando E!e há de morrer. 33. A mesma nota de tempo, com o mesmo problema de interpre­ tação (e a mesma solução) ocorre outra vez. Jesus segue o caminho que Deus mapeia para Ele. Este fato é reforçado com a palavra Importa (dei), que indica a necessidade divina que ditou os movimentos de Jesus. O ver­ sículo chega a um clímax irônico, “não seria apropriado para um profe­ ta perecer senão em Jerusalém!” (Moffatt). A capital era o coração da nação. Era ali que seu destino, e o dos seus profetas, era decidido. Era ali, diante do Sinédrio, que havia processos contra profetas. Era ali que a ati­ tude da nação para com Jesus tomaria seu formato final, e que a morte ocorreria, realizando o propósito de Deus para Seu Messias. li. O lamento sobre Jerusalém (13*34, 35). É possível que Lu­ cas registre o lamento sobre Jerusalém a esta altura simplesmente por cau­ sa do seu relacionamento com a matéria em discussão. Parece mais prová­ vel que ocorresse enquanto Jesus Se aproximava da cidade» conforme re­ lata Mateus. A alternativa é que Jesus pronunciou as palavras duas vezes, o que não parece provável. A ternura do trato demonstra que Jesus estava profundamente preocupado com a sorte final da cidade. Demonstra, também, que deve ter tido mais contatos com Jerusalém do que se indica nos Evangelhos Sinóticos, pois quantas vezes seria uma maneira curiosa de referir-Se aos poucos contatos com a cidade, referidos por eles. Jesus descreve Jerusalém como habitualmente rejeitando, e até matando, os mensageiros de Deus, sejam eles profetas ou outros (cf. 2 Rs 21:16; 2 Cr 24:21; Jr 26:20-21, etc.). Mas mesmo assim, ela não foi rejeitada sem mais consideração. O Filho de Deus quis muitas vezes reunir seus filhos, mas eles não quiseram vir (para uma atitude contrastante, cf. Sl 57:1). Há ternura na linguagem figurada da galinha e seus pintinhos. A respon­ sabilidade dos judeus pela sorte deles é atribuída diretamente a eles mes­ mos com a expressão final, vós não o quisestesl 35. A nação convidou o resultado final. Quando uma nação ou um homem persiste em rejeitar a Deus, o fim é inevitável. Jesus, portan­ to, diz: Eis que a vossa casa vos ficará deserta. Muitos sustentam que a casa é o Templo, mas é mais provavelmente Jerusalém inteira. Seja qual for a verdade disto, o que importa é que é abandonada (cf. Jr 22:5). Deus já não habita ali: esta é a desgraça final. Jesus passa a dizer que a cidade não mais O verá até que O saúde nas palavras do Salmo 118:26. Alguns vêem nisto uma referência à Entrada Triunfal quando estas palavras eram aplicadas a Jesus. Mas este parece ser um cumprimento inadequa­

. JÊ:


do de uma predição tio solene. E de qualquer maneira, nâo foram os homens da cidade, mas, sim, os peregrinos da Galiléia que pronunciaram as palavras naquela ocasião. Além disto, Mateus registra a predição de Je­ sus depois da entrada (Mt 23:29; a entrada é registrada em Mt 21:1-11). Outros pensam nas palavras como sendo a resposta dos judeus crentes nalguma conversão futura de Jerusalém, mas é difícil ver isto, nem nãs próprias palavras, nem na história. É melhor pensar na segunda vinda. A volta de Jesus em esplendor tirará de Jerusalém este reconhecimento do Seu Messiado, ainda que seja contra a vontade dela.

1 .0 jantar com um fariseu (14:1-24). É possível que Lucas aqui ajuntou certo número de narrativas de “fes­ tas”, conforme pensam alguns estudiosos. Mas não é impossível, de modo algum que ele realmente esteja narrando o que aconteceu numa refeição mais interessante do que era usual. i. A cura de um hidrópico (14:1-16). Mais uma vez, temos uma cura no sábado (ver sobre 4:31 ss.). Como no caso do homem com a mão ressequida (6:6ss.), Jesus desarmou a crítica ao perguntar primeiramen­ te se era lícito curar no dia do sábado, ou não. 1. Nem o lugar nem o tempo (a não ser que era num sábado) é indicado. O hospedeiro de Jesus era um homem importante. O Grego po­ de significar um príncipe (talvez um membro do Sinédrio) que também era membro do partido dos fariseus. Ou pode significar um dos principais fariseus. De qualquer modo, era uma figura de destaque. O jantar no sá­ bado parece freqüentemente ter sido uma refeição bem especial (a comi­ da toda teria sido preparada de antemão) e era comum convidar hóspedes. Os inimigos de Jesus estavam presentes em grande número, e o estavam observando. Claramente estavam esperando que 0 apanhassem fazendo alguma coisa pela qual pudessem fazer acusações formais contra Ele. 24. É possível que a presença do homem hidrópico fosse uma ar­ madilha montada pelos inimigos, que esperavam que Jesus quebrasse a lei. Apoio para isto às vezes é achado no emprego do verbo “respondendo” (iapokritheis; ARA tem dirigindo-se). Ninguém tinha falado, de modo que Jesus estava respondendo à ação, ou talvez ao pensamento dos Seus inimigos, ou o homem pode ter entrado na casa procurando socorro, de modo que sua própria presença fosse um apelo mudo ao qual Jesus “res­ pondeu.” Lucas não nos conta. Simplesmente diz que “diante dele se achava.” Devemos, naturalmente, ter em mente que ocasionalmente “res-


pondeu” pode ser usado num sentido hebraístico que pouco mais faz senão continuar a narrativa. Mas parece* mais provável que Jesus estava “respondendo” à oposição dos inimigos. Antes de atuar, Jesus perguntou se era lícito curar no sábado. Era uma pergunta de difícil resposta. Segun­ do os regulamentos rabínicos, certamente não era lícito; uma cura poderia ser realizada no dia do sábado somente quando havia perigo à vida. Neste caso, o homem provavelmente não teria morrido se a cura tivesse sido pro­ telada até ao fim do dia. Concordar com uma cura nestas circunstâncias po­ deria ter levado a uma acusação de que eram “frouxos” quanto à aplica­ ção da lei. Mas, do outro lado, lícito poderia significar “contido na lei de Moisés.” Nada há na Escritura para proibir tais curas. Foi a interpretação rabínica da Escritura que deu origem à regra. Insistir publicamente nesta interpretação poderia levá-los a serem acusados da indiferença ao sofrimen­ to humano. Não era de se admirar, portanto, que nada disseram. Mas o si­ lêncio deles antes do milagre fez com que fosse mais do que difícil para eles queixarem-se depois. Jesus curou o homem e o despediu. 5,6. Jesus passou a justificar Sua ação por meio de apelar ao pró prio procedimento deles. Não está certo se Jesus está Se referindo a um filho ou um asno. Se aceitarmos esta última forma textual, Jesus está ape­ lando à prática deles com seus animais. É verdade que os homens de Cunrã, pelo menos nalguns casos, se recusavam a tirar um animal de uma fos­ sa no sábado.43 Mas este não parece ter sido o costume judaico normal, que era marcado consideravelmente pela solicitude com os animais. Não tenho conhecimento de qualquer regulamento que especificamente trata do caso que Jesus mencionou, embora seja estipulado que forragem ou matéria semelhante devesse ser jogada num poço para capacitar um animal a sair fora num sábado (Shabbath 128b), e há uma discussão sobre como poderia ser justificada a ação de tirar fora certos animais no sábado (Sha­ bbath 117b). Jesus provavelmente quer dizer que, na ausência de um regu­ lamento, cada homem acharia alguma maneira de justificar seu procedi­ mento. Não deixaria um animal num poço no sábado. De modo geral, po­ rém, parece que a questão textual devesse ser resolvida a favor de filho , quando, então, o significado será: “Qual de vós, tendo um filho ou até mesmo um b o i . . . ? ” E até mesmo os homens de Cunrã não ensinavam que um homem devesse deixar seu filho num poço se porventura caísse nele no sábado. A implicação clara de tudo isto é que atos de misericórdia devem

43. No Documento de Damasco (ou Zadoquita). Ver T. H. Gaster, The Scriptwre ofth e Dead Sea Sect (Londres, 1957), pág. 87.


ser praticados no sábado. Os críticos de Jesus nada puderam responder. É concebível que pudessem ter argumentado que Ele estava falando acerca de emergências incomuns, ao passo que a objeção deles era uma cura de rotina. Mas talvez tenham percebido que o argumento dEle baseava-se no fato de que o sábado foi instituído para o bem do homem. Os procedimen­ tos deles em emergências davam testemunho a isto, assim como também as obras de curas de Jesus. ü. Um convite a um banquete (14:7-14). 0 comportamento dos convidados aos banquetes deu a Jesus a oportunidade para dar uma lição sobre a humildade. 7. Nos banquetes, o item básico de mobília era o sofá para três, o triclínio. Certo número de triclínios era disposto em formato de U. Os hóspedes reclinavam sobre o cotovelo esquerdo. O lugar da maior honra era a posição central no sofá na base do U. O segundo e o terceiro lugar eram o à esquerda do homem principal (i.é, reclinando atrás dele) e à sua direita (i.é, reclinando com a cabeça contra o peito deste). Depois disto em ordem de importância, segundo parece, havia o sofá à esquerda, sendo seu ocupante mais honrado o do meio, com os lugares seguintes antes e atrás dele como no caso do primeiro sofá. O terceiro sofá, com a mesma disposição dos seus ocupantes, ficaria à direita do primeiro, o quarto, â esquerda do segundo, e assim por diante.44 Muitos comentaristas reto­ mam o conceito de Plummer de que não podemos ter certeza quanto à disposição dos assentos, tendo em vista os costumes muito diferentes entre os judeus, gregos, romanos e outros. Que havia variedade é prová­ vel, mas não há motivo para duvidar da exatidão das informações acerca do costume judaico dadas em fontes rabínicas (embora sejam posterio­ res ao período em epígrafe). Nem devemos duvidar que um fariseu de destaque seguiria o costume judaico e não o estrangeiro. Nesta festa espe­ cífica, houve uma corrida pouco distinta para os lugares da maior hon­ ra, e Jesus comentou sobre isto. 8,9. Começou fazendo alusão a um convite a uma festa de casa­ mento. Esta era provavelmente mais formal do que a maioria das refeições, mas as palavras se aplicam a qualquer banquete. Jesus indicou um perigo na corrida. Quando um homem consegue um lugar de honra, corre o risco de aparecer um hóspede mais tarde que tem mais direito a ele. Quando o hospedeiro insiste em que abandone sua posição, pode descobrir que to­ dos os demais lugares estão ocupados, de modo que não lhe sobre outra


alternativa senão ocupar o último lugar, com toda a vergonha e perda de brio que isto subentende (cf. Pv 25:7). 10. É melhor ir para o último lugar logo de inicio. A maneira de chegar ao alto é começar em baixo. Se alguém escolher o lugar mais bai­ xo, a única direção em que pode ir é para cima. Relata-se que R. Akiba aconselhou os hóspedes a tomar um lugar dois ou três assentos abaixo daquele ao qual têm direito. Diz: “É melhor que as pessoas lhe digam ‘venha para cima, venha para cima/ e não lhe digam Vai para baixo, vai para baixo’ ” (Levítico Rabbah I. 5). Mas Jesus não está dando uma porÇão de conselhos humanos: está ensinando os homens a serem genuina­ mente humildes. Lembra-nos que o homem verdadeiramente humilde acabará ficando onde deve estar e que receberá a honra que lhe é devida. Godet indica que, ao seguir o conselho de Jesus, “não corremos outro risco senão o de sermos exaltados.” 11. O princípio que deve governar nossa conduta ocorre certo número de vezes em formas ligeiramente diferentes (18:14; Mt 23:12; cf. Mt 18:4; 1 Pe 5:6). Exaltar-se a si mesmo importa em ser finalmente humilhado. O caminho à verdadeira exaltação é a humildade. 12. Jesus tem um conselho para o hospedeiro: não deve confinar sua lista de hóspedes aos amigos, parentes e vizinhos ricos. Se estes forem os únicos objetos da sua generosidade, pode sofrer a triste sorte de receber convites em troca! Desta maneira, será recompensado, Dificilmente seria necessário indicar que Jesus não está proibindo a vida social normal; mas está enfatizando que não há generosidade em dar para pessoas que retri­ buirão. 13,14. A situação é diferente com os pobres, os aleijados, os coxo e os cegos. Tais pessoas não podem retribuir aos seus hospedeiros. Dar uma festa a elas é um ato de pura generosidade, Este tipo de coisa será reconhe­ cido na ressurreição dos justos, e não a jovialidade que surge das celebra­ ções entre companheiros de peito. iii. A parábola das desculpas (14:15-24). Esta história de um ban quete enfatiza a verdade de que os homens são salvos, não pelos seus pró­ prios esforços, mas, sim, ao aceitar o convite; se forem perdidos, no entan­ to, é por sua própria culpa. É tragicamente possível rejeitar o gracioso convite. Nesta parábola há semelhanças àquela das bodas (Mt 22:1-14) e alguns vêem esta como uma forma variante da mesma história. Mas as di­ ferenças são tão notáveis como as semelhanças, e é melhor considerar as duas como sendo distintas. 15. A referência que Jesus fez à ressurreição deu vazão a uma ex clamação piedosa de um dos hóspedes: Bem-aventurado aquele que co­


mer pão no reino de Deusl Claramente, não tinha dúvida de que estaria ali, seja qual for o destino dos demais. A parábola de Jesus é um desafio à sua sinceridade. Quando chegasse o momento crítico, ele realmente aceitaria o convite de Deus? Ou estaria por demais ocupado nalguma ativi­ dade que afetasse seus interesses mais imediatos? 16,17. A história que Jesus conta diz respeito a um homem que deu uma grande ceia e convidou a muitos. Parece que aceitaram o convite. De qualquer maneira, não se diz que nenhum deles recusou. Quando o ban­ quete estava pronto, um servo foi enviado para anunciar o fato. Numa era em que as pessoas não tinham relógios e o tempo era consideravelmen­ te elástico, e quando um banquete levava muito tempo para preparar, es­ ta precaução deve ter sido útil a todos. Vemos o convite duplo no Antigo Testamento (Et 5:8; 6:14), e uma observação noMidraxe de Lamentações demonstra que muito mais tarde,os homens de Jerusalém o levavam muito a sério: “Nenhum deles iria a um banquete se não fosse convidado duas vezes” (sobre Lm 4:2). 18. Os hóspedes em perspectiva, no entanto, começaram a descul­ par-se (o Grego, traduzido à uma, pode significar “todos igualmente” ou “de uma só vez”). Jesus dá uma amostra do tipo de coisa que disseram, e começa com um homem que disse que comprara um campo e que pre­ cisava ir vê-lo. A desculpa é transparentemente falsa. Ninguém compraria um campo sem uma inspecção prévia cuidadosa. E se, porventura, alguém tivesse feito assim, não haveria pressa. O campo estaria ali no dia seguinte. Fica claro que o homem não queria vir. 19. Assim também o segundo homem. Comprara cinco juntas (cin­ co pares) de bois. Vou significa “estou a caminho”, e o verbo experimentar (dokimasai) é pôr a prova, testar. Ninguém compraria bois sem primeiro assegurar-se de que fariam o serviço. E se já tivesse feito a compra, não ha­ veria mais pressa para o teste; os bois ficariam ali. 20. A desculpa do terceiro homem é certamente original. Podia apoiá-la com um apelo à Escritura, pois o Antigo Testamento estipula que o homem fica em casa durante o primeiro ano da vida conjugal (Dt 24:5). Mas este é um regulamento que visa livrá-lo do serviço militar, e não isolá-lo dos contatos sociais. Esta desculpa é tão transparente quanto as demais. O casamento certamente envolve obrigações, mas não cancela outras obrigações, especialmente coisas acerca das quais já recebera notifi­ cação. 21. O senhor ficou zangado diante do relatório do seu servo. Estava claramente resoluto quanto a fazer o banquete na ocasião determi­ nada, e não iria deixar os inventores de desculpas desfazer seus planos.


Enviou, portanto, seu servo às partes mais pobres da cidade para trazer os pobres, os aleijados, os cegos e os coxos (as mesmíssimas classes men­ cionadas no v. 13). 22, 23. A busca pela cidade, no entanto, nio trouxe hóspedes su­ ficientes. O servo fez conforme lhe fora mandado, e relatou que ainda havia lugar. Destarte, seu senhor mandou-o pelos caminhos e atalhos, Sío as estradas principais fora de uma cidade e as cercas ao longo delas, onde os indigentes talvez achassem algum abrigo. Não seria tão fácil achar pessoas ali, visto que seriam espalhadas por uma área maior. A extensão da busca a lugares menos prometedores é um modo de demons­ trar que o senhor estava falando sério, assim como também o emprego da palavra obriga (anagkason). Não se trata do emprego de força: so­ mente um servo está ali, e ele não poderia aplicar força. O uso deste versículo para justificar a perseguição é ilegítimo. O sentido é que anda­ rilhos em tais lugares levariam muita insistência para ficarem convenci­ dos que sua presença realmente era desejada num banquete na cidade. 0 servo não deveria aceitar a resposta “Não” ; a casa era para ficar cheia. Parece haver pouca dúvida de que devêssemos ver uma referência à mis­ são da igrejaí 0 convite de Deus tinha sido entregue ao povo através dos profetas. Agora, em Jesus, o segundo convite foi feito. Quando a elite religiosa o recusou, a igreja devia trazer para dentro tanto aqueles que moravam na cidade (os judeus) quanto os de fora (os gentios). Não se diz que o servo ainda cumprira a comissão para os de fora. Trazer os gentios para dentro da igreja ainda era coisa do futuro quando Jesus fa­ lou, e, quanto a isto, quando Lucas escreveu quase tudo ainda estava no futuro. 24. A parábola termina com um veredito sombrio sobre aqueles que originalmente foram convidados e que deram suas desculpas. Não ha­ veria uma segunda chance para eles. Esbanjaram a sua oportunidade e não teriam outra. Mais uma vez, vemos Jesus ressaltando a urgência da situação. Deus é gracioso e receberá todos aqueles que vêm a Ele. Mas os homens não podem molengar. Os primeiros que foram convidados talvez não aproveitassem o convite, mas outros, tanto judeus quanto gen­ tios, o aceitariam. O propósito de Deus pode ser resistido, mas não pode ser derrubado.

m. O discipulado (14:25-35) i.

O custo do discipulado (14:25-33).

25. Jesus ainda está na


Sua viagem. Que grandes multidões o acompanhavam pode ser conside­ rado como evidência a favor do ponto de vista de que Ele estava viajan­ do pela Peréia, área esta que, dentro dos limites dos nossos conhecimen­ tos, Ele nffo tinha atravessado antes. Haveria curiosidade para ver o Mes­ tre de Nazaré. Mas Lucas não disse onde foi dado este ensino, somente que Jesus voltou-se (cf. 7:9; 9:55; 10:23; 22:61; 23:28) e falou às mul­ tidões. 26. O discipulado significa dar sua primeira lealdade. Não há lu­ gar no ensino de Jesus para o ódio literal. Mandou Seus seguidores amarem até mesmo seus inimigos (6:27), de modo que é impossível que aqui lhes diga que literalmente devem odiar aqueles que na terra são mais aproxi­ mados a eles (cf. 8:20-21). Mas “odiar” pode significar algo como amar menos (Gn 29:31, 33; Dt 21:15, onde o Hebraico significa literalmente “odiada”). O que Jesus quer dizer é que o amor que o discípulo tem por Ele deve ser tão grande que o melhor amor terrestre é ódio em comparação (cf. Mt 10:37). O alistamento dos entes queridos mais próximos detalha este fato com solenidade. O homem nem sequer deve dar valor demasia­ do à sua própria vida (cf. Jo 12:25). A devoção a Cristo não pode ser nada menos do que devoção de todo o coração. 27. Para este dito ver a nota sobre 9:23, onde temos a forma po­ sitiva daquilo que é expressado de modo negativo aqui. Carregar a cruz é da essência do discipulado. 28-30. Jesus não quer discípulos que não têm consciência dos compromissos que assumiram. Contar o custo é importante. Jesus empre­ ga parábolas gêmeas (um artifício que usa freqüentemente) para inculcar a lição. Um homem que resolve construir uma torre deve pensar primeiro. Não conseguir chegar além dos alicerces é tornar-se objeto de zombaria. O homem deve, portanto, assentar-se (a questão não pode ser resolvida às pressas) e calcular a despesa. Somente então é que pode esperar sucesso. 31, 32. Uma segunda ilustração é tirada de reis na guerra. Não é fácil com dez mil soldados derrotar quem ataca com vinte mil. Um rei em tal posição pensa bastánte. Se não puder ver uma solução ao proble­ ma, não fica inativo, esperando a derrota: combina a paz enquanto o ini­ migo está ainda longe. As duas parábolas são semelhantes, mas têm lições um pouco dife­ rentes. O que constrói a torre está livre para construir ou não, conforme sua escolha, mas o rei está sendo invadido (ou outro vem contra ele). Ele é forçado a fazer alguma coisa. Cf. A. M. Hunter: “Na primeira parábola, Jesus diz: ‘Senta-te e calcula se podes pagar o preço de Me seguir.” Na segunda, diz: ‘Senta-te e calcula se podes pagar o preço de recusar Minhas

a


exigências. ”4S As duas maneiras de ver a questão são importantes. 33. A lição fica clara. Jesus não deseja seguidores que se precipi­ tam para o discipulado sem pensar naquilo que está envolvido. E fica cla­ ro quanto ao custo. O homem que vem a Ele deve renunciara tudo quanto tem. Pela terceira vez, temos o refrão solene: não pode ser meu discípulo (26, 27). Estas palavras condenam toda e qualquer tibieza. Jesus, natural­ mente, não está dest ucorajando o discipulado. Está advertindo contra uma ligação mal pensada e pusilânime, a fím de que os homens possam conhe­ cer o artigo legítimo. Quer que os homens calculem o custo e considerem tudo como perda por amor a Ele, de modo que possam entrar na experiên­ cia gratificante do discipulado vigoroso. ii. A parábola do sal (14:34, 35). Jesus acrescenta uma pequena parábola acerca do sal. O sal é certamente bom , embora Jesus não indique quais qualidades do sal Ele tem em mente. Os comentaristas indicam seu valor para preservar e para dar sabor. É, naturalmente, impossível para o sal (cloreto de sódio) perder seu sabor, mas o sal que se empregava na Pa­ lestina do século I era longe de ser puro. Era bem possível para o cloreto de sódio ser lixiviado do sal impuro que comumente se empregava, de mo­ do que o que sobrava ficasse sem o sabor de sal. Era literalmente inútil. Não podia fertilizar a terra nem decompor-se de modo útil num monturo. Lançam-no fora. Há uma qualidade adstringente no discipulado. Se um ho­ mem não a possui, então, sejam quais forem as demais qualidades que pos­ sa ter, é considerado inútil para o discipulado.

n. Três parábolas dos perdidos (15:1-32)

Este é um dos capítulos mais conhecidos e mais amados na Bíblia inteira. Três parábolas ressaltam o júbilo de Deus quando o pecador perdido é achado. i. Os pecadores se reúnem (15:1, 2). Os publicanos não eram ti dos em alta estima, porque não somente ajudavam os romanos odiados na sua administração do território conquistado, como também se enriqueciam às expensas dos seus patrícios. Eram ostracizados por muitos e considera­ dos párias pelos religiosos. Os pecadores eram os imorais, ou os que se­ guiam ocupações que os religiosos consideravam incompatíveis com a Lei. Os fariseus e os escribas tinham objeções ao acolhimento que Jesus


oferecia a tais pessoas. SB citam uma velha regra: “Não se deve associarse com um ímpio”, e indicam que a regra era levada tio a sério que os ra­ binos nío se associariam com tal pessoa nem sequer para lhe ensinar a Lei (cf. At 10:28). Comer juntamente com estas pessoas era considera* do pior do que a mera associação: subentendia as boas-vindas e o reco­ nhecimento. Jesus não deixou a censura farisaica interferir com Seu mi­ nistério, Viera ajudar os pecadores, e dificilmente o poderia fazer se não Se encontrasse com eles. Não devemos deixar que a divisão atual em capítulos nos leve a perder uma lição importante. Jesus acabara de fazer uma exigência sem meios-termos, pedindo a dedicação total enquanto demonstrava o que significava seguir a Ele. Terminou, dizendo: Quem tem ouvidos para ouvir, ouça. As palavras seguintes em Lucas nos infor­ mam que estes pecadores se aproximavam para o ouvir. Seja qual tenha sido o caso dos fariseus e seus seguidores, estes pecadores tinham senti­ do o desafio. Sabiam o que significava o discipulado. Tinham sido concla­ mados a ouvir. E estavam ouvindo. ii. A parábola da ovelha perdida (15-3-7). O grande estudioso judaico, C. G. Montefiore, viu aqui uma nota distintiva e revolucionária: Deus ativamente procura ôs pecadores e os traz para casa. Os rabinos concordavam que Deus daria as boas-vindas para o pecador arrependido. Mas é uma idéia nova que Deus é um Deus que busca, um Deus que toma a iniciativa. 3,4. Jesus apela ao costume. Se uma ovelha se desgarrasse, qual­ quer pastor deixaria as noventa e nove e procuraria a que faltava. As noventa e nove não estão passando qualquer perigo; já foram achadas. Mas a posse segura das noventa e nove não é substituto pela perda de uma. Destarte, o pastor continua procurando até encontrá-la? Faz mais do que uma busca simbólica. Quer sua ovelha. Procura até achá-la. 5,6. Achar o que era perdido é uma experiência de júbilo. Alegre­ mente, o pastor traz a ovelha para casa sobre os ombros. Não há qualquer resmungo sobre a necessidade de carregar o animal: o pastor está cheio de júbilo. A alegria de achar a perdida sobrepuja todas as outras coisas. Na sua felicidade transbordante reúne outros para compartilhar da alegria. 7. A aplicação ressalta o júbilo no céu por um pecador que se ar­ repende. Edersheim cita um ditado judaico, que diz: “Há júbilo diante de Deus quando os que O provocam perecem do mundo.”46 Jesus, po­ rém, tem um conceito de Deus bem diferente. Regozija-Se por causa do


arrependido que volta mais do que pelos muitos que estão seguros no re­ dil. Há júbilo sobre estes, mas maior júbilo sobre o pecador que se arre­ pende. iii. A parábola da dracma perdida (15:8-10). Mais uma vez temos parábolas gêmeas. Na segunda história Jesus fala de uma mulher que tinha dez dracmas. A dracma grega (somente aqui no Novo Testamento) era o salário pago a um trabalhador por um dia de serviço. As dez moedas podem representar a poupança de uma mulher pobre ou, conforme alguns pensam, podem ter sido juntadas para formar um ornamento. Parece que este detalhe não vem ao caso: de qualquer forma, a perda da moeda se­ ria um caso grave paia uma mulher pobre. Procurou-a, portanto, com de­ terminação. Uma casa oriental não teria janelas, ou só janelas minúsculas, de modo que acendeT uma candeia seria necessário para uma busca apura­ da, mesmo durante o dia. A mulher varre e procura até que a encontra. E, como o pastor, compartilha sua alegria depois de ser bem-sucedida. Desta vez, Jesus fala do júbilo diante dos anjos de Deus (na parábola ante­ rior, “no céu”), mas o significado é muito semelhante. Nos escritos rabínicos existe o tema da moeda perdida, mas é usado de modo muito dife­ rente. Se alguém procura diligentemente uma moeda perdida, tanto mais deve procurar a Lei, diziam os rabinos (Cantares Rabbak I. 1.9). Não há equivalente rabínico à ação de Deus em procurar os pecadores. iv. A parábola do filho pródigo (15:11-32). Muitos consideram esta história esplêndida como a melhor de todas as parábolas. Certamente está entre a mais querida de todas elas. O coração humano corresponde à mensagem do amor perdoador que Deus tem para os pecadores, conforme é tão claramente exposto aqui. Jesus não está tratando aqui com a totali­ dade da mensagem do evangelho, mas, sim, do único grande fato do amor perdoador de Deus. A história não é “um compêndio completo de teolo­ gia” (T. W. Manson). Alguns sustentam que, visto que ela não contém qualquer sacrifício expiador, nenhuma expiação é necessária. Esta, porém, é uma conclusão precária. Citando Manson outra vez: “Se levar a efeito o propósito de Deus leva à Cruz, como na realidade levou, então fica sen­ do o dever dos cristãos incluir a Cruz no propósito de Deus e cogitar, da melhor maneira que podem, como a morte de Cristo está envolvida no propósito de Deus na salvação dos pecadores.”47 Não se procura diminuir a importância da parábola, mas, sim, vê-la a demonstrar poderosamente o amor de Deus pelos pecadores, a força motriz do evangelho.


Às vezes tem sido argumentado que a seção final (25ss.) deve ser omitida por não fazer parte da parábola original. Nenhuma boa razão é proposta para isto, e há muita coisa contra tal idéia. Não há a mínima evi­ dência que a parábola já existia sem ela, e a lição que ela ensina é impor­ tante. Na realidade, é bem possível sustentar que o alvo principal da pa­ rábola é contrastar as reações do pai e do filho mais velho diante do pró­ digo. E na situação em que Jesus Se achou, embora fosse importante ensinar a lição de que Deus recebe os pecadores, também era importante enfatizar que aqueles que rejeitam pecadores arrependidos estão fora de harmonia com a vontade do Pai. A parábola diz alguma coisa aos “publicanos e pecadores.” Mas também tem uma mensagem para os “fa­ riseus e os escribas.” 11,12. Não devemos deixar desapercebida a referência inicial a dois filhos. O irmão mais velho está na história desde o início. 0 filho mais moço pediu ao pai a parte que lhe cabia dos bens. Deissmann nota que esta é uma fórmula técnica, empregada nos papiros para “a heran­ ça paterna.”48 Um homem podia deixar seus bens para seus herdeiros mediante seu testamento definitivo (cf. Hb 9:16-17), e neste caso, era obrigado pelas estipulações da Lei. Neste caso, o primogênito recebia dois terços da totalidade (Dt 21:17), Mas poderia distribuir dádivas antes de morrer, e isto lhe dava mais liberdade (SB). As regras para a disposição de bens são citadas na Mishna (Baba Bathra 8). Se um homem resolvia fazer doações, normalmente dava o capitai mas retinha a renda. Então, já não poderia dispor do capital, mas somente da sua parte nas rendas. Mas quem recebeu o capital nada poderia receber até à morte do doador. Poderia vender o capital se quisesse, mas o comprador não poderia obter posse dele até a morte do doador. Vemos esta situação no caso do irmão mais velho, O pai claramente manteve o domínio sobre as propriedades é o usu­ fruto dos lucros. Mas pode dizer: “tudo o que é meu é teu” (31). O filho de Siraque considerava que era uma falta de sabedoria repassar os bens ce­ do demais, e adverte contra tal coisa (Eclo. 33:19-21). Mas sua advertência demonstra que a prática existia. O que há de incomum no pedido do filho é que quis o uso imediato do capital. Este poderia ser dado, e foi dado neste caso. Mas era longe de ser comum. 13. 0 filho mais moço não deu motivo algum pek) seu pedido, mas quando o pai consentiu, logo tomou-se aparente. Uma vez que ele tinha controle da sua herança, partiu em breve para ver o mundo. A juntou tudo


o que era seu: nada deixou ali que servisse de âncora para trazê-lo de volta no decorrer do tempo. Com fundos amplos no começo, e com muita coi­ sa para ver e para fazer, dissipou seus bens. Dissolutamente pode ser enten­ dido: “com temeridade.” Phillips dá o sentido da frase assim: “esbanjou suas riquezas nos desperdícios mais desenfreados.” 14. Duas desgraças o feriram simultaneamente —esgotaram-se seus recursos, e sobreveio àquele pais uma grande fome. A primeira era inteiramente a sua própria culpa. Não é necessária vasta experiência para saber que quando o capital é gasto sem nada render, finalmente acaba sendo dis­ sipado. A fome não era a culpa dele, mas aumentou suas dificuldades. As pessoas que poderiam ter ajudado achariam suas próprias circunstâncias mais apertadas. A comida estava em falta e, como conseqüência, seu pre­ ço seria alto. Dava às pessoas a desculpa perfeita para recusar sua ajuda. As­ sim, o jovem começou a passar necessidade. Faltavam-lhe até mesmo as necessidades da vida. 15. Tinha de arranjar um emprego; mas em tempos de fome, nâo era fácil achar uma vaga. Esta é a única explicação porque se agregou a um cidadão local que o mandou para os seus campos a guardar porcos. Para um judeu, nenhum ocupação poderia ter sido mais desagradável. Um ditado rabínico diz: “Maldito o homem que cria porcos” (Baba Kamma 82b). 0 porco era imundo (Lv 11:7) e o judeu, em circunstân­ cias normais, não teria absolutamente nada a ver com ele. O jovem deve ter ficado numa angústia desesperada até mesmo para considerar este em* prego. 16. Não fica claro o que ele comia. Jesus diz que Ali desejava ele fartar-se das alfarrobas que os porcos comiam (trata-se de vagens de alfarrobeira). Mas conseguiu? Ninguém lhe dava nada parece indicar que não, especialmente se entendermos que o significado é que ninguém nem das alfarrobas lhe dava. Alguns fazem a conjectura que, visto que ninguém lhe dava nada, deve ter furtado para manter-se vivo. Se for assim, estava afundado na degradação moral bem como na física. Mas isto não é uma conclusão necessária. Seu senhor pode muito bem lhe ter fornecido algum sustento mínimo. Seria estranho se não o tivesse feito. Que ninguém aju­ dou demonstra a baixa estima em que caíra. Os porcos eram mais valiosos do que ele. 17. A desilusão veio entrando. O jovem caiu em si. A adversida­ de tem um modo maravilhoso de levar os homens a enfrentar os fatos. O pródigo refletia sobre o contraste entre a fome que ele estava passando e a fartura sendo desfrutada não somente pelo seu pai e irmão, mas tam­ bém pelos trabalhadores do seu pai. Até para estes havia pão com fartura.


18,19. O jovem resolveu voltar para casa. Se seu motivo inicial não era especialmente altaneiro (o desejo de ser melhor alimentado, 17), a confissão que planejou fazer é um clássico. Expressou tristeza, não por aquilo que perdera, mas, sim, por aquilo que fizera: pecara. Reconheceu que seu pecado era primeiramente contra Deus, sendo que céu ê uma perífrase reverente para o nome divino (a não ser que entendermos que eis ton ouranon significava que via seus pecados empilhando-se tão altos que chegavam até ao céu, c f Ed 9:6). O pecado é sempre pecado contra Deus antes de ser contra qualquer outra pessoa. Mas este jovem também pecara contra seu pai, e o percebia, embora sem especificar exatamente o que tinha em mente. É possível que percebesse que era errado gastar tu­ do sem deixar nada para cuidar do seu pai na velhice. Ou talvez percebes­ se que sua atitude inteira estivera errada: deixara de honrar seu pai confor­ me o mandamento. Reconhecia que perdera todo o direito de ser tratado como um filho, e apenas esperava a possibilidade de ser como os trabalha­ dores assalariados, i.é, pediria emprego. Pelo menos receberia então um sa­ lário para seu sustento, e isto num ambiente agradável. 20. E assim, voltou. É relevante que Jesus não diz para sua pró­ pria aldeia ou até mesmo para seu lar, sim, para seu pai. Fica claro que o velho tinha esperança em tal volta, e que ficava vigiando. Jesus enfatiza as boas-vindas que o pai deu para seu filho indigno. Viu-o enquanto esta­ va ainda longe, compadeceu-se dele, e, correndo (coisa notável num orien­ tal de idade), o abraçou (“lançou-se-lhe ao pescoço”) e o beijou (cf. o bei­ jo de perdão que Davi deu a Absalão, 2 Sm 14:33). Este último verbo, katephilèsen, pode significar “beijou-o muitas vezes” ou “beijou-o terna­ mente.” Mesmo se nenhum significado especial deva ser dado à forma com­ posta, pelo menos o verbo indica uma saudação sincera e não a cortesia forçada. 21. Não fica claro se, quando veio o momento, o filho não conseguiu levar-se a pronunciar as palavras acerca de ficar como um dos traba­ lhadores (19), ou se o pai estava tão enlevado com as boas-vindas que não o deixou acabar seu discursinho. Provavelmente foi a última hipótese. Mas de qualquer maneira o filho conseguiu falar as palavras que expres­ savam seu senso de pecado e indignidade. 22-24. O pai mandou os servos correrem. A melhor roupa era um sinal de posição, bem como o anel, especialmente se, conforme mui­ tos sustentam, há alusão a um anel de sinete (cf. Gn 41:42). Um anel des­ te tipo outorgava autoridade. Na sua indigência, o filho andava descalço. Mas isto era apropriado somente para um escravo, e as sandálias o marca­ riam como um livre. O novilho cevado era claramente um animal cuidado­


samente tratado, em prontidão para uma ocasião especial. Seu uso nesta ocasião demonstrava que o pai pensava que dificilmente poderia haver uma ocasião mais especial do que esta. O júbilo transbordante do velho acha expressão no seu contraste memorável entre morto e reviveu, perdido e achado. Na festa em que começaram a regozijar-se talvez o filho mais jovem achou algo do prazer sólido que procurara em vão no país distante. 25, 26. Não pode haver dúvida de que nas boas-vindas que o pai deu ao filho mais moço, Jesus está ensinando que o Pai celestial dá as boas-vindas aos pecadores que voltam. Quando Jesus volta Sua atenção ao filho mais velho, devemos ver Sua preocupação com os fariseus e os que eram como eles. Os líderes religiosos da nação não tinham, por enquanto, demonstrado qualquer parcela da compaixão divina para com os pecadores arrependidos. Esta seção é necessária para completar a lição integral que Jesus está ensinando. Retrata o filho mais velho, enquanto acontecia tudo isto, no campo trabalhando, decerto. O som das celebrações que ouvia enquanto se aproximava do lar deixaram-no perplexo, e procurou infor­ mações de um dos servos. A música e as danças seriam executadas por ar­ tistas, não por aqueles que estavam banque teando. 27. O servo deu um relatório conciso da situação. Confinou-se à volta do irmão mais moço e à festa com o novilho cevado. Acrescenta que a razão desta festa é que o pai o recuperou com saúde. 28-30. A reação do filho mais velho foi de ira. Não queria ter par­ ticipação em tudo isto, e recusou-se a entrar. Não se pode deixar de ver a semelhança com õs fariseus, Podemos facilmente imaginar o irmão mais velho dizendo acerca do pai: “Este recebe pecadores e come com eles” (15:2). Mas não havia nenhum orgulho falso no pai. Já tinha saído para encontrar um dos filhos, e agora saiu para conciliar o outro. Mas uma tor­ rente de palavras veio ao seu encontro, enquanto os sentimentos reprimi­ dos por muitos anos vieram saindo. O filho mais velho tinha consciência da sua própria retidão. Estava completamente justo aos seus próprios olhos. Via-se sempre como o filho-padrão. Mas seu uso do verbo douleuõ, “servir como escravo”, o desmascara. Nunca realmente entendera o que significa ser um filho. E talvez por isso nunca entendeu o que significa ser um pai. Não podia entender por que seu pai ficou tão cheio de alegria com a volta do pródigo. Queixa-se que o pai nunca lhe deu um cabrito (muito menos um novilho) para uma festa com seus amigos (que seriam pessoas respeitáveis e não como os colegas do outro filho). Os orgulhosos, que são justos aos seus próprios olhos, nunca sentem que são tratados tão bem quanto merecem. Não pode sequer referir-se ao pródigo como seu ir­ mão, mas, sim, esse teu filho. O pai poderia lhe dar as boas-vindas se qui­


sesse: o irmão mais velho o repudiava. Fala que o mais jovem dissipou o dinheiro do seu pai com meretrizes, o que vai além de qualquer coisa dita até então, e que pode ser sua própria invenção. Chega ao clímax quan­ do diz que era para ele que o pai mandou matar o novilho cevado. 31, 32. Para este filho, como para o outro, as palavras do pai são de ternura. Os dois são filhos, e ama ambos. Torna claro que dá valor à presença constante deste filho. Diz com clareza que a distribuição dos bens fica firme: tudo o que é meu é teu. Não se propõe a interferir de qualquer maneira com os direitos e as possessões do filho mais velho e fiel. Talvez possamos inferir que aquele filho estava errando ao dizer que nun­ ca tivera um cabrito para fazer uma festa com os amigos. Tinha tudo. Mas ele, como os fariseus, não reconhecia a extensão dos seus privilégios. Mas depois de dito tudo isto, o pai não reduz no mínimo as suas boas-vindas para o filho mais moço. Era preciso traduz edei. As boas-vindas para o fi­ lho mais moço não eram apenas algo de bom que poderia ter ocorrido ou não. Eram a coisa certa. O pai precisava fazer assim. O júbilo era a única reação apropriada em tal situação. Note que não fala de “meu fi­ lho,” mas, sim, de este teu irmão. O filho mais velho talvez quisesse dei­ xar de lado o laço de parentesco, mas ainda estava ali. O pai não o deixa­ rá esquecer-se dfsto, E termina, repetindo a coisa maravilhosa que aconte­ ceu: o morto reviveu, o perdido foi achado. Jesus não continua, para nos contar se o irmão mais velho corres­ pondeu ou não. Nem nos conta como o filho mais moço passou a viver em correspondência com o amor paternal que lhe deu as boas-vindas. Ao deixar estes detalhes sem resolução, lança um desafio para todos os Seus ouvintes, sejam eles como o mais velho, ou como o mais moço. Tendemos a nos ver como o pródigo e nos regozijamos no amor acolhedor de Deus. É bom fazer assim, e é ainda melhor se passamos a corresponder de modo apropriado àquele amor. Mas poderemos também refletir com proveito que, a não ser que somos muito incomuns, também podemos ver a nós mesmos no irmão mais velho. É uma falha humana comum imaginar que não somos estimados conforme deveríamos ser, que as pessoas não nos dão crédito por aquilo que fizemos. E quer sejamos religiosos, quer não, usualmente adotamos uma atitude de certa censura para com aqueles que, segundo nosso modo de ver, deixaram de viver à altura dos nossos pa­ drões, ainda que estes padrões não sejam os deles. Que Jesus deixa em aberto a reação do filho mais velho pode nos animar. Ainda poderemos fa­ zer a coisa certa. O amor de Deus é um desafio contínuo ao nosso egoísmo.


o. Ensinos, principalmente acerca do dinheiro (16:1-31) i. A parábola do administrador infiel (16:1-9). Esta é notoria­ mente uma das mais difíceis de todas as parábolas quanto à sua interpre­ tação. O problema que jaz à raiz é o elogio ao administrador, que é clara­ mente desonesto (8). O modo usual de explicar isto é que o administra­ dor é recomendado, não pela sua desonestidade, mas, sim, por atuar de modo resoluto numa crise. A vinda de Jesus forçava os homens a uma de­ cisão. Quando até mesmo pessoas mundanas desonestas sabem como e quando atuar de modo decisivo, muito mais devem saber os que seguem a Ele. É a astúcia do mordomo que é recomendada, e não suas práticas comerciais. T. W. Manson nos lembra que há um mundo de diferença entre “Aplaudo o administrador desonesto porque agiu com habilidade” e “Aplaudo o administrador hábil porque agiu desonestamente.”49 Este pon­ to de vista é freqüentemente sustentado em conjunção com a idéia que Lu­ cas acrescentou aplicações ao uso do dinheiro que não eram originais. É talvez mais provável que devamos entender a parábola à luz das prá­ ticas comerciais daqueles dias. Os judeus eram proibidos de tomar juros dos seus patrícios quando lhes emprestavam dinheiro (Êx 22:25; Lv 25:36; Dt 23:19). Aqueles que queriam ganhar dinheiro com emprésti­ mos evadiam a lei ao raciocinar que esta foi feita para proibir a explora­ ção dos pobres. Não visava proibir transações inocentes que traziam benefícios mútuos e em que o pagamento de juros eqüivalia à compartiIhação dos lucros. Se um homem tivesse até mesmo um pouco de um certo bem, não era indigente, e, portanto, emprestar a ele não era ex­ ploração. Visto que quase todas as pessoas tinham um pouco de azeite e um pouco de trigo, o caminho ficou aberto para o uso generalizado de uma ficção jurídica. Seja qual for a quantia emprestada, ela recebia um determinado valor em azeite ou trigo (e.g. oitenta medidas de trigo), os juros eram acrescidos (e.g., vinte medidas), e a promissória era emitida para o pagamento do total em termos de trigo ou azeite (neste caso, cem medidas de trigo). A transação era usurária, mas a promissória não dava indicação disto. Comumente, estas transações eram realizadas pelos admi­ nistradores, ostensivamente sem o conhecimento dos donos. A parábola, entendida desta maneira, nos apresenta um administrador que, confron­ tado com a perda do seu emprego, protegeu seu futuro por meio de cha­ mar de volta as promissórias e fazendo com que os devedores as reescre-


vessem de modo que já nio acarretassem juros. Esperava que a gratidão deles se expressasse na forma de hospedá-lo nos seus lares. Sua ação dei­ xou o dono em posição difícil. Teria a máxima dificuldade em estabele­ cer seu direito aos montantes originais agora que as promissórias origi­ nais foram destruídas. De qualquer maneira, não poderia repudiar a atua­ ção do administrador sem se ver culpado de cobrar juros. Seria extrema­ mente difícil obter seus direitos legais, e, no decurso do processo, seria comprovado contra ele que agia impiamente. Destarte, encarou a situa­ ção do modo mais positivo possível, e “elogiou” o homem. Por este mo­ do obteve para si mesmo uma reputação imerecida de piedade. O admi­ nistrador agora estava se conformando a lei, e via-se que o dono aplau­ dia esta atitude. Os dois estavam agindo de modo decisivo numa situação difícil.50 1,2. Esta história é dirigida aos discípulos, ao passo que o grupo de três que a precedia visava os fariseus (15:2-3). Mas os fariseus ainda es­ tão nos fundos, porque zombavam daquilo que Jesus disse ( \4).Adminis­ trador ou “mordomo” talvez não traduzam muito bem o Grego oikonomos (cf. 12-42), mas não é fácil achar uma tradução melhor, pois já não temos este cargo (embora tenha sido informado que o “feitor” escocês, conforme Moffatt o traduz, ainda existe, e realiza a mesma função). Usual­ mente denotava um escravo que era encarregado de uma propriedade para aliviar o dono da gerência rotineira. Nesta história, o administrador decer­ to era um liberto, e não um escravo, pois ele podia assinar contratos obri­ gatórios para seu senhor, e um escravo não poderia fazer assim. Era o en­ carregado das fazendas do seu senhor. O homem foi acusado de defraudar os bens do seu senhor. A natureza do seu cargo tornou fácil para ele des­ viar montantes para seus próprios propósitos. O senhor evidentemente pensou que a acusação era bem fundamentada, pois informou o mordo* mo que estava demitido e mandou-o preparar uma prestação final de contas. 3,4. Neste ínterim, o administrador teve tempo para excogitar um plano de ação. A perda da administração significava a perda do seu meio de vida. Pensou por momentos em trabalhar na terra, mas abando­ nou a idéia por causa das suas limitações físicas. Pensou em mendigar, mas ficou com vergonha (cf. Ecl. 40:28, “é melhor morrer do que mendi­ gar”)- Eu sei traduz um aoristo com um significado semelhante a “Tive

50. Ver mais, J. Duncan M. Deriett, Law in the New Testament (Londres, 1970), págs. 48-77.


uma idéia!” Há o conceito de uma inspiração repentina. Vê uma maneira de ele ser sustentado pelos credores do seu senhor. 5,6. Com toda a pressa, põe o plano em prática. Trata com os devedores um por um, 0 sigilo era essencial. 0 primeiro lhe deve cem cados de azeite. O cado é o bato, mencionado somente aqui no Novo Tes­ tamento. Baseados numa referência em Josefo (Antiguidades viii.57) descobrimos que se trata de 8 3/4 galões aproximadamente. A dívida, portanto, era de cerca de 875 galões de azeite (Jeremias a calcula em cerca de 800 galões, e entende que é a produção de 146 oliveiras;51 era, portanto, uma dívida considerável). O administrador o manda lavrar ou* tra promissória, colocando cinqüenta no lugar dos cem. 7. Um segundo exemplo é dado. Este homem recebe licença para entregar uma promissória para oitenta medidas de trigo em lugar de uma para cem medidas. A medida aqui é o coro, cerca de dez alqueires, ou 363,6 litros. Mil alqueires (cem coros, 36.360 litros) seria o total, que Jeremias entende ser o produto de 100 acres (4.047 m2 por acre)52 Fi­ ca claro que montantes consideráveis eram envolvidos. O administrador variava sua taxa de desconto talvez por causa da diferença entre as quantias. Era relativamente fácil adulterai azeite, de modo que a taxa de juros sobre transações com azeite era alta. Derrett indica que “quando um devedor nada mais tem para oferecer, a não ser sua própria pessoa e sua família como escravos, e uma quantidade de produtos naturais, e quando esta é um líquido como o azeite, deve pagar muito caro para os riscos aos quais submete seu credor.”53 Era muito mais difícil adulterar o trigo, e os juros eram, em correspondência com isto, mais baixos. Devemos provavelmen­ te entender que o administrador continuou o processo com os demais de­ vedores. Estes dois exemplos bastam para indicar sua linha geral de ação. 8. O senhor estava numa posição incômoda se o administrador tinha eliminado os contratos usurários. Repudiá-lo seria declarar-se um homem ímpio e opressor. A única coisa que lhe restava fazer era tirar o melhor proveito da situação por meio de louvar o administrador e assim, endossar suas ações. Isto redundaria para o crédito dele. Poderia ser su­

51. J. Jeremias, The Parables o f Jesus (Londres, 1954), pág. 127. (Editado em português poi Ed. Paulinas.) 52. Ibid. 53. J. D. M. Derreti, op. cit., págs. 71-72. Indica, também, que há muitos paralelos nos costumes da índia, e cita uma taxa de até 800% no decurso de seis anos e oito meses para óleos e vinhos, uma taxa anual de algo acima de 100% (ibid., pág. 71).


posto que o administrador fizera os contratos usurários sem o conheci­ mento do senhor, e agora ele piedosamente elogiou o cancelamento deles. Que o administrador é chamado infiel pode ser o modo de o senhor pro­ testar contra a maneira segundo a qual fora privado do seu dinheiro nes­ tas transações, ou talvez indique sua convicção de que o administrador tinha sido desonesto desde o princípio (1-2). Se não se trata de contratos usurários, devemos achar que o senhor reconhecia que tinha sido logrado por um malandro astuto, e prestou tributo à sabedoria do ato, mas não à sua moralidade. Simplesmente admirava a astúcia do mordomo embora, sem dúvida, deplorasse o efeito dela sobre si mesmo. Aqueles que têm mentalidade mundana (os filhos do mundo) são sábios segundo o modo de eles entenderem as coisas. Cf. Moffatt, “os filhos deste mundo são mais prevenidos, em tratar com sua própria geração, do que os filhos da Luz.” Os filhos da luz são os servos de Deus. Por melhores que sejam as suas intenções, freqüentemente lhes falta a sabedoria para usar o que têm tão sabiamente como os mundanos usam suas possessões com finalidades bem diferentes. 9. Jesus acrescenta a instrução no sentido de usar sabiamente as riquezas de origem iníqua. Riquezas traduz a palavra Mamom, de origem aramaica e de derivação incerta, que é usada para denotar dinheiro ou ri­ quezas de modo geral. O adjetivo nos relembra que por demais freqüen­ temente o dinheiro é adquirido de modos indignos. Não parece haver paralelo noutro lugar para a expressão exata “o Mamom da iniqüida­ de.”54 Os escritos judaicos, no entanto, contêm um contraste entre o “falso mamom” e o “verdadeiro mamom” ,55 que indica que posses podem ser honestamente adquiridas, ou o inverso. O uso do termo por Jesus pode subentender que há comumente algum elemento de injustiça na maneira de as pessoas adquirirem posses. Os seguidores de Jesus devem usar seu dinheiro para seus propósitos espirituais tão sabiamente quanto os filhos deste mundo o usam para seus alvos materiais. Visto que nosso alvo é “tesouro nos céus,” devemos usar dinheiro para propósitos tais como a doação de esmolas. Assim, obteremos amigos, e nos será uma ajuda quando o dinheiro faltar, i.é, quando morrermos e o dinheiro nada mais adiantar. O significado de esses amigos vos recebam nos tabemáculos eternos (cf. Jo 14:2) pode ser que os amigos feitos desta maneira nos darão as boasvindas no céu. Mais provavelmente temos um uso comum judaico do plu­

54. SJ, pág. 293. 55. TDNT, iv, págs. 388ss.


ral para significar “Deus” conforme uma tendência de evitar o uso do nome divino (SB). É Deus quem recebe os homens para o céu. ii. Deus e as riquezas (16:10*13). Jesus usa a atitude dos homens para com o dinheiro como meio de ensinar a lição que o discipulado deve ser de dedicação total. 10. Primeiramente, o princípio é definido. A fidelidade não é aci­ dental: surge daquilo que um homem é de fio a pavio. O que o homem faz com as pequenas coisas da vida, faz também nas coisas grandes. Sua fideli­ dade ou sua desonestidade aparece a cada passo. A vida é uma unidade. 11,12. Jesus contrasta as riquezas de origem injusta, as terrestres, com a verdadeira riqueza, a riqueza celestial que somente Deus pode dar. De acordo com o princípio definido no versículo anterior, o homem que emprega seu dinheiro da maneira errada revela-se indigno de tratar de coi­ sas mais importantes. Não deve ficar surpreendido se Deus as afasta dele. A mesma verdade é expressada de maneira altamente paradoxal. Diríamos que, se não formos fiéis em nossas próprias coisas, não estamos em condi­ ções de manusear as doutras pessoas. Jesus inverte esta ordem. O dinhei­ ro do qual pensamos que somos donos não é realmente nosso. É sempre aquilo que temos da parte de Deus (1 Cr 29:14) e não somos mais do que mordomos dele. Não o podemos levar conosco quando morremos. Se o manusearmos incorretamente, mostramos que não estamos prontos para usar as verdadeiras riquezas celestiais que doutra forma nos serão dadas como nossa possessão permanente (cf. Mt 25:34). 13. O servo é um escravo do lar, e servir (douleueih) significa “servir como escravo.” Ninguém pode ser escravo de dois senhores ao mes­ mo tempo. Pode procurar fazê-lo, mas somente um deles receberá sua dedi­ cação integral. Assim acontece com Deus e Mamom (a personificação das riquezas). O homem pode dedicar-se de todo o coração ao serviço de um ou outro, mas não de ambos (cf. Cl 3:5). iii. Os fariseus cobiçosos (16:14, 15). Esta forte antítese não agradou os fariseus. Os cobiçosos gostam de disfarçar seu pecado e ver seu dinheiro como evidência da bênção de Deus sobre suas atividades. Destarte, os fariseus O ridicularizavam. Jesus contrasta a justificação ex­ terna diante dos homens (que era o grau mais alto que os fariseus podiam atingir) com o estado do coração. Deus conhece os vossos corações (“per­ cebe vossas intenções,” NEB) é uma perspectiva amedrontadora para aqueles que amam o dinheiro. O corolário disto é que aquilo que tanto agradava os fariseus e que os homens em geral admiram, nada mais é do que abominaçSo diante de Deus. iv. A lei e os profetas (16:16,17). A vinda de Jesus marcava uma


linha divisória. Até então, a revelação de Deus tinha sido feita na lei (a rigor: os livros de Gênesis até Deuteronômio) e os profetas. A expres­ são combinada representa a totalidade do Antigo Testamento. Operava bem até aos tempos de João Batista. Conzelmann atribui muito significa­ do a esta passagem. Entende que “o período de Israel” durou até este ponto, inclusive o ministério de João. Enfatiza isto mais do que as pala­ vras de Lucas exigem, mas há, sem dúvida, uma ênfase sobre a nova situa­ ção causada pela vinda de Jesus. Agora, vem sendo anunciado o evangelho do reino de Deus. O reino é o tópico predileto de Jesus no Seu ensino (ver sobre 4:43). Representa o domínio de Deus na totalidade da vida. Há um problema com a frase todo homem se esforça por entrar nele (mais lit, “emprega força” ARC). Alguns entendem que o significado é "todo homem o trata com violência”, mas parece improvável. Pode haver o pensamento de entrar apressadamente no reino “com a máxi­ ma sinceridade, abnegação e resolução, como se fosse com violência espiritual” (Geldenhuys). Ou talvez Jesus queira dizer que aqueles que se esforçam para entrar no reino devem ser pelo menos tão zelosos como os homens violentos da Palestina que procuravam trazer o reino mediante a força das armas. No contexto, podemos pensar em homens tais como o administrador astuto. Quando percebem o valor de entrai no reino de Deus, estão dispostos a forçar caminho para dentro, em contraste com os fariseus, que não faziam uso da sua oportunidade. Knox traduz: “to­ dos os que queiem, têm pressa em entrai nele.” 17. Poderia ser pensado, portanto, que a Lei tinha passado e eia acabada. Jesus, porém, assegura Seus ouvintes que não deixará de ser cumprida. Dura mais que o céu e a terra. Jesus nunca lançou dúvida sobre a validez da Lei. Era o modo de ela ser interpretada, especialmen­ te pelos fariseus, que atraía Suas críticas. O til era um projeção peque­ na nalgumas letras hebraicas. Seu empiego indica que a Lei está cumpri­ da até o pormenor mais minucioso. v. O divórcio (16:18). Este dito acha seu lugar aqui aparente­ mente porque nos ajuda a ver de um outro ângulo o lugar da Lei. A Lei permitia que os homens divorciassem suas esposas (Dt 24:1 ss.), embora as mulheres não pudessem divorciar seus maridos. Alguns dos fariseus eram muito permissivos, e permitiam aos homens o divórcio pelos mo­ tivos mais triviais. Destarte, Hillel pensava que bastaria que uma esposa estragasse o almoço do marido, e Aquibá foi ao ponto de permitir o divóicio se o homem achasse alguém mais bonita do que sua esposa (Gittin 9:10). Fazer assim era transformar a Lei numa zombaria. Jesus ensinou que o alvo da Lei não era o divórcio. Deus instituiu o casamento de modo


que os dois se tornassem um só (Gn 2:24). 0 divórcio nada mais era do que uma disposição por causa da “dureza de coração” dos homens (Mc 10:5). O casamento era destinado para ser uma união que durasse a vida inteira. Destarte, o homem que divorcia sua esposa e casa-se de novo comete adultério, bem como o homem que casa com uma divorciada. Jesus não está sugerindo aqui uma lei para a sociedade em geral. Está dizendo que é assim que o povo de Deus considera o casamento. Alguns sustentam que Ele está fazendo uma crítica pública de Herodes Antipas f que divorciara a filha de Aretas e se casara com a divorciada Herodias. Era, portanto, culpado nos dois casos. As palavras de Jesus certamente aplicam-se a Herodes, mas é difícil pensar que foram dirigidas primaria­ mente contra ele. vi. A parábola do rico e Lázaro (16:19-31). ^ Esta parábola é peculiar a Lucas. Muitos a vêem como uma adaptação de um conto fol­ clórico popular, talvez tendo sua origem no Egito, que contrastava o des­ tino eterno de um rico mau e de um pobre virtuoso (ver Creed). Se Jesus adotou um conto popular, deu-lhe um cunho bem dEle. Conforme agora existe, marca o contraste com a atitude inculcada na parábola do admi­ nistrador infiel. Talvez possamos ir mais para trás e dizer que o capítulo desafia o filho mais velho da parábola anterior, e, juntamente com ele, to­ dos os respeitáveis, a agir no espírito do administrador infiel. Devem arrepender-se, e depois ajudar outras pessoas com seu dinheiro. A alterna­ tiva é empregar seu dinheiro de tal maneira que lhes assegure a condena­ ção eterna. 19. Jesus retrata um homem rico. Púrpura era tecido tingido com um corante muitíssimo caro (obtido do crustáceo murex). Seria usa­ da para a roupa externa, e o linho finíssimo para a roupa de baixo. Juntos, representavam a última palavra em luxo. Se regalava (euphrainomenos) soa a nota de felicidade, pois o mesmo verbo é empregado para “regozi­ jar-se” em 12:19; 15:23, 32. Este homem tinha tudo quanto poderia pedir na vida, e vivia com prazeres e despreocupação. Não se diz que cometeu qualquer pecado grave, mas vivia exclusivamente para si. Nis­ to se achava a sua condenação. 20,21. Por contraste, há o mendigo, chamado Lázaro (i.é, Eleazar; o nome significa “Deus socorreu” e talvez tenha relevância na história; cer­ tamente nenhum homem socorreu este infeliz). Este é o único personagem que recebe um nome nas parábolas de Jesus. Às vezes o rico é chamado “Dives”, mas esta é apenas a palavra em Latim para “rico.” Lázaro jazia à porta do outro, tratando-se de um portão ou pórtico grande, como o de uma cidade ou um palácio. A casa era grandiosa. Coberto de chagas


indica uma desgraça física, e esta é enfatizada com o detalhe de que os cães párias lhe lambiam as úlceras. Sua indigência é ressaltada na informa­ ção de que desejava alimentar-se (mas não necessariamente conseguia) das migalhas que caúim da mesa do rico. Um destes homens tinha tudo quan­ to queria;o outro não tinha nada. 22. Nada foi dito acerca da situação religiosa de um ou de outro. Mas Lázaro era evidentemente um fiel servo de Deus, pois quando morreu, os anjos o levaram para o seio de Abraão. A expressão não é comum, mas claramente denota a felicidade. Alguns vêem nisto o relacionamento en­ tre o filho e o pai (cf. Jo 1:18). Mas oferece uma antítese melhor com a mesa no começo da história, se entendemos que Lázaro está à mesa com Abraão (quanto ao modo de sentar-se à mesa, ver a nota sobre 14:7). A grande felicidade do salvo é retratada como uma grande festa em que o favorecido reclina sua cabeça no seio do grande patriarca (como no ca­ so de Jo 13:23; cf. Mt 8:11). Não há nenhuma felicidade semelhante para o rico depois da sua morte. 23. Hades, aqui traduzido inferno, normalmente é um termo neu­ tro. Significa a habitação dos falecidos, sejam bons, sejam maus. No Novo Testamento, porém, nunca é usado com respeito aos salvos. Aqui, parece ser o equivalente de Geena, o lugar do castigo, pois o rico estava em tor­ mentos. Não somente isto, mas também conseguia ver Lázaro e notar sua felicidade. 24. A atitude do rico para com o grande patriarca é deferencial, pois o chama de Pai Abraão, e as palavras da sua petição são suficiente­ mente humildes. Mas há uma nota de arrogância inconsciente na sua ati­ tude para com Lázaro, porque supõe que aquele pobre pode ser mandado para lhe prestar um serviço (a não ser que suas palavras queiram dizer que estava disposto a aceitar o mínimo alívio, seja qual for a sua proveniência). Não percebeu que os valores da terra já não são aplicáveis. 25,26. Abraão recusa o pedido, dando razões. Seu trato, Filho, é de ternura. Mas ele indica uma revira-volta. Na vida, o rico já desfrutara das coisas boas. O adjetivo teus é significante. Já tivera tudo quanto es­ colhera. Poderia ter passado algum tempo com as coisas de Deus, e se deleitado com a palavra de Deus. Poderia ter dado esmolas (Lázaro tinha estadç suficientemente perto!). Para o rico, os bens tinham sido púrpura e linho fino, e folguedos e festas diários. Escolhera o que quisera como suas coisas boas, e agora teria que ficar com sua escolha. Lázaro tinha re­ cebido os males. Neste caso, não há o adjetivo “seus.” Lázaro não fora culpado pelos males que sofria. Agora, indica Abraão, uma outra escala de valores opera. O equilí-


brio é corrigido. A justiça é feita. E há outro fator, está posto uma gran­ de abismo entre nós e vós. Este é sem dúvida, um detalhe pitoresco, mas significa que, na vida do além, não há passagem de um estado para outro* (o Grego dá a entender que este é o propósito, e não simplesmente o resul­ tado, do grande abismo). O rico pode saber como Lázaro está passando (e vice-versa), mas não há travessia do abismo para um ou outro. Alguns es­ critos judaicos falam de modo semelhante de uma separação permanente na vida do além, e.g. 1 Enoque, onde, de modo interessante, os justos têm a fonte brilhante de água” (1 Enoque 225). 27,28. Pela primeira vez na história, o rico demonstra algum in* teresse noutras pessoas (mas não pensa nos pobres; fica só no assunto dos seus). Pede que seus cinco irmãos sejam advertidos quanto aquilo que os aguarda. Mais uma vez, supõe que Lázaro possa ser enviado com este recado: ainda permanece seu senso profundo arraigado de superioridade. Dá a en­ tender que não fora tratado com justiça. Se realmente tivesse recebido todas as informações das quais precisava, teria agido diferentemente. Em contraste, há o silêncio impressionante de Lázaro no decurso da parábola inteira. Não fala de modo algum. Nem se queixa da sua situação difícil na terra, nem exulta sobre o rico depois da morte, nem expressa ressentimen­ to contra as tentativas do rico no sentido de enviá-lo fazer tarefas. A cada passo, aceita o que Deus lhe envia. 29-31. Abraão indica as Escrituras. Moisés, naturalmente, signifi­ ca “os escritos de Moisés,” e a combinação com os profetas indica a tota­ lidade da Escritura, como no v. 16. A Bíblia, Abraão arrazoa, dá aos ir­ mãos tudo quanto precisam. Há uma implicação de que a situação desa­ gradável do rico não se devia às suas riquezas (afinal das contas, Abraão tinha sido rico), mas, sim, à sua negligência da Escritura e do seu ensino. Mas o rico não concorda. Ele sabe como ele reagira diante do fato de pos­ suir uma Bíblia. Diz, portanto: se alguém dentre os mortos for ter com eles, as coisas seriam diferentes. Aquilo os levará ao arrependimento. Tal é a falácia do homem natural. A parábola termina, com a afirmação so­ lene de Abraão, de que o aparecimento de alguém ressuscitado dentre os mortos não trará convicção alguma àqueles que recusam a Escritura. “Se um homem (diz Jesus) não pode ser humano com o Antigo Testamento na sua mão e com Lázaro nos degraus da sua porta —nem um visitante do outro mundo nem uma revelação dos horrores do inferno —o ensina­ rão de modo diferente.”56 No contexto, aquele que ressuscitou dentre os


mortos deve ser Lázaro. Mas os leitores de Lucas dificilmente poderiam evitar pensar em Jesus. Ressuscitou. Mas aqueles que se recusaram a vê-Lo nas Escrituras e a dar atenção aquilo que está escrito, recusaram-se a se deixar convencer por Aquele que ressuscitou dentre os mortos.

p. Ensinos acerca do serviço (17:1-10) Neste capítulo, as conexões entre os vários parágrafos não são óbvias. E possível que Lucas tenha reunido fragmentos dos ensinos de Jesus que eram valiosos demais para serem perdidos, mas dos quais não sabia o contexto histórico. Do outro lado, talvez exista uma conexão, conforme é indicado nas notas. Pelo menos, isto talvez demonstre por que Lucas colocou o ensino nesta ordem. 1. Perdoando aos outros (17:1-4). O vínculo de conexão aqui pode ser a atitude dos líderes religiosos. Passavam o perigo de empregar erroneamente as suas riquezas, e também passavam o perigo de desen­ caminhar seus irmãos mais fracos. A tentação estaria presente aos seus discípulos bem como às pessoas como os fariseus. O dito começa com a inevitabilidade dos escândalos, skandala pode ser interpretado como ‘tentações ao pecado.” Significa literalmente a Ungüeta de ura alçapão, que o faz fechar-se sobre a vítima (o verbo correspondente acha-se em 7:23). Moffatt traduz “impecilhos.” Todos os impecilhos à vida espiri­ tual são incluídos, mas a tentação ao pecado é claramente o pior destes. São inevitáveis, mas isto não significa que o homem que os causa é iiiculpável. 2. Jesus não nos diz qual será o destino de tal pessoa. O “ai” do versículo anterior mostra que não será agradável, e agora ficamos saben­ do que seria melhor para ela ser afogada aqui e agora. A pedra de moi­ nho era uma pedra pesada usada para triturar grãos. Uma morte horrível é preferível a causar danos espirituais até a um destes pequeninos. Este termo pode referir-se a crentes infantis, mas também é possível vê-lo co­ mo descrição de crentes de qualquer idade (cf. Mc 10:24; Lc 10:21), indefesos como são â parte do socorro que vem de Deus. 3,4. Longe de ser motivo do pecado, o seguidor de Jesus se opo­ rá a ele. Quando alguém peca, repreende-o. Não se quer dizer que adotará uma atitude de censura, porque o contexto ressalta o perdão. Significa que será compassivo, mas não fraco. Não pode ser indiferente diante do mal, mas isto não significa que guardará ressentimentos. Se quem trans­ grediu se arrepender, o crente deve perdoar-lhe. E seu perdão deve ser


sem limites. Quando Jesus fala de sete vezes no dia não quer dizer, natu­ ralmente, que uma oitava ofensa não será perdoada (cf. Mt 18:21-22). Es­ tá dizendo que o perdão deve ser habitual. Do ponto de vista do mundo, a sétupla repetição de uma transgressão num só dia deve lançar dúvidas sobre a veracidade do arrependimento do pecador. Mas esta não é a preo­ cupação do crente. O dever dele é perdoar. ii. A fé (17:5,6). Aparentemente os apóstolos pensam que muita fé é necessária para perdoar assim. Dizem, portanto, Aumenta-nos a fé. Is­ to pode possivelmente significar: “Dá-nos fé também” (Barclay), i.é, “Dános fé além doutros dons.” Mas provavelmente o texto que temos em ARA está certo: os apóstolos querem ter mais fé. A resposta de Jesus tira deles o conceito de maior ou menor em termos de fé, para o de uma fé genuína. Se há fé real, então os efeitos se seguirão. Não é tanto uma grande fé em Deus que é exigida, quanto a fé num Deus grande. O grão de mostarda era proverbial por seu tamanho pequeno. A amoreira negra parece ser a árvo­ re em questão. Seja como for, os rabinos sustentavam que suas raízes fica­ riam na terra durante seiscentos anos (SB). Está claro que era considerada uma árvore bem arraigada, de modo que a remoção dela seria muito difícil. Jesus não está sugerindo que Seus seguidores se ocupem de coisas sem ra­ zão de ser, tais como transferir uma áryore para o mar. Está dizendo que nada é impossível à fé: “a fé genuína pode realizar aquilo que a experiên­ cia, a razão e a probabilidade negariam, se for exercida dentro da vontade de Deus” (Miller). iii. Servos inúteis (18:7-10). Quando os homens têm fé deste tipo, podem ser tentados ao orgulho espiritual. Jesus inculca a humildade ao referir-Se à praxe normal com os escravos. No fim do serviço do dia, o senhor não convida o escravo a jantar (embora nosso Mestre faça isso e muito maisí 12:37; 22:27). Pelo contrário, chama o servo para servi-lo enquanto ele come. E nem agradece o escravo por fazer aquilo que lhe foi ordenado (9). Aquilo nada mais era do que seu dever. Assim aconte­ ce com os servos (“escravos”) de Deus. Exige-se de nós que sejamos per­ feitos (Mt 5:48). Sempre que completamos uma tarefa, não podemos ale­ gar que fizemos mais do que precisaríamos. Inúteis (achreioi) é uma pala­ vra difícil, mas parece que significa "que não dá lucro” (cf. seu emprego no caso do homem que escondeu seu talento, Mt 2530). Nosso melhor serviço não nos dá qualquer direito sobre Deus (cf. 1 Co 9:16). Na melhor das hipóteses, fizemos apenas o que devíamos fazer. No mesmo espírito, relata-se que Rabi Johanan b. Zakkai disse: “Se muito fizeste na Lei, não reivindica mérito para ti mesmo, pois para isto mesmo foste criado” (Âboth 2:8),


c. Os dez leprosos (17:11-19) 11. Não é fácil perceber por que Jesus deveria estar passando pelo meio de Samaria e da Galiléia a esta altura da narrativa (ver sobre 9:51). As palavras denotam uma viagem na área fronteiriça entre as duas provín­ cias. A ordem das palavras indica uma viagem para o norte, ao passo que parece que Jesus está indo na outra direção. 0 problema levantado é que parece que Ele já tinha chegado na Peréia antes disto. É possível que Lu­ cas não está colocando tudo na seqüência cronológica, e que a história diz respeito a um incidente que ocorreu antes. Alternativamente, depois de uma viagem pela Peréia, Jesus voltou à área descrita aqui. Arndt indica que Jesus foi para uma cidade chamada Efraim depois de ressuscitar Lá­ zaro (Jo 11:54), sendo que esta cidade fica 32 km ao norte de Jerusalém. Sugere que quando a Páscoa se aproximava, Jesus continuou indo na di­ reção norte para juntar-Se aos peregrinos galileus que subiam a Jerusalém, e que foi naquela época e local que este incidente ocorreu. Esta idéia é apoiada pelo fato de que, na Sua viagem final para Jerusalém, Jesus foi pelo caminho da Peréia (Mt 19:1; Mc 10:1), que seria a continuação na­ tural da viagem que Lucas descreve aqui. A sugestão não pode ser compro­ vada, mas nada há de improvável nela. 12,13. Lucas não nos conta onde este milagre ocorreu, a não ser que foi ao entrar numa aldeia. Os leprosos eram obrigados por lei a manter distância (ver sobre 5:12) e estes ficaram de longe. Chegaram, porém, su­ ficientemente perto para gritarem um apelo por socorro. Não pediram es­ pecificamente uma cura, mas, sim, a misericórdia. Nas circunstâncias, no entanto, não poderia haver muita dúvida quanto à direção em que a mi­ sericórdia deveria operar. 14. Parece que Jesus não os viu logo de início, mas ao vê*los, cor­ respondeu. Não foi para eles, nem os tocou. Nem sequer disse: “Estais curados! ” Mandou-os, leprosos como era, ir mostrar-se aos sacerdotes. Es­ te era o procedimento normal quando um leproso era curado. O sacerdo­ te funcionava como um tipo de inspetor de saúde para certificar que a cura realmente ocorrera (Lv 14:2ss.). Jesus estava submetendo a teste a fé destes homens, ao pedir que agissem como se tivessem sido curados. E enquanto obedeciam, assim aconteceu: indo eles, foram purificados. 15,16. A cura imediatamente despertou acordes de gratidão num dos dez. Não esperou para se certificar em condições de voltar à comuni­ dade; pelo contrário, voltou a Jesus quando se viu curado. Ao dar glória a Deus em alta voz, demonstra que via a mão de Deus na cura, e que es­ tava disposto a deixar todas as pessoas saberem acerca dela. Quando chegou


a Jesus, agiu em humildade, prostrando-se em homenagem enquanto agra­ decia o Mestre. Lucas agora acrescenta a informação de que este era samaritano. Normalmente os judeus e os samaritanos nada têm a ver uns com os outros, e é uma marca do horror da lepra que aqueles que padeciam da enfermidade tinham vivido juntos, desconsiderando distinções que doutra forma teriam sido vistas como sendo obrigatórias. Poder-se-ia pensar que este samaritano fosse o último a agradecer um judeu que cura. Lucas nota que foi o primeiro, e aparentemente o único. Se os homens não agradecem rapidamente, usualmente nunca chegam a fazê-lo. 1 17,18. Numa série de perguntas, Jesus expressa decepção com os nove. Todos foram purificados e tinham igual motivo para a gratidão. Poder-se-ia esperar que todos dessem glória a Deus. Mas aparentemente os nove estavam tão absorvidos na sua nova felicidade que não poderiam reservar um pensamento para a origem desta felicidade. A única exceção era este estrangeiro, um homem que nem sequer pertencia ao povo esco­ lhido. Seu comportamento desmascara o dos judeus curados. 19. Jesus tinha uma palavra de encorajamento para o homem que voltou. Mandou-o levantar-se e ir seguindo seu caminho, e assegurou-o que sua fé o salvara. Presumivelmente os nove tinham fé também, porque es­ ta era a condição prévia comum (embora não fosse invariável) dos milagres de Jesus. Mas certamente este samaritano tinha fé e tinha gratidão. É pos­ sível que devamos entender este verbo num sentido mais amplo de que cu­ rar: pode ser literalmente “te salvou”. É possível que Jesus tenha reconhe­ cido neste homem a atitude que leva à salvação, e que o despedisse com a garantia que tudo estava tão bem com sua alma quanto com seu corpo. A plena restauração significa uma alma salva bem como um corpo sadio.

r. A vinda do reino de Deus (17:20-37) Lucas tem aqui uns ditos que são peculiares a este Evangelho, e alguns que são compartilhados com Mateus 24. A passagem ressalta a certeza do julgamento e a importância de estar preparado. 20, 21. Os fariseus podem ter feito suas perguntas por causa de um interesse genuíno pelo assunto. Ou, visto que sabiam que Jesus freqüente­ mente falava sobre o reino, talvez ténham se interessado em descobrir os pontos de vista dEle sobre a questão. A resposta de Jesus torna claro que o reino é diferente de quaisquer reinos com os quais os fariseus tinham familiaridade. A vinda dele não pode ser observada. Está dentro em vós (entos humõn), expressão esta que tem várias possíveis interpretações, a. O


reino é essencialmente interior. Mas isto não teria paralelo nos Evangelhos (cf. Rm 14:17, no entanto), b. As palavras profetizam a maneira segundo a qual o reino virá: “O reino aparecerá repentinamente entre vós.” É pos­ sível, mas neste caso as palavras não transmitem um sentido muito natural. c. “O reino está dentro do seu alcance,” i.é, pode ser atingido se a pessoa trata de procurá-lo de modo correto. Mas Jesus usualmente considera o reino “está entre vós,” i.é, está presente na Pessoa e no ministério de Jesus. Esta parece ser a maneira segundo a qual as palavras devem ser entendidas. 22. Jesus agora fala aos discípubs acerca do futuro do reino. Os homens não podem controlá-lo. Podem desejar vê-lo, mas não conseguirão. Os dias do Filho do homem não é uma expressão que se explica a si mes­ ma. Pode ser uma designação dos tempos do Messias (assim SB). Alguns pensam que em anos posteriores os discípulos relembrarão e ansiarão por um dos dias durante os quais Jesus estava com eles. Ou talvez estejam antegozando o céu, e ansiando por um dos dias com Ele ali. Bengel pensa nos dias que antecedem a vinda do Senhor, e cita 9:51 para uma constru­ ção semelhante: “os dias em que devia ele ser assunto ao céu” (sobre v. 26), Além disto, é possível entender que um é um semitismo com o signi­ ficado de “primeiro” (como em Jo 20:1). Neste caso, as palavras indicam a inauguração da era messiânica, a segunda Vinda. De modo geral, parece melhor entender que a expressão se refere aos tempos do Messias. Os ho­ mens desejarão muito ver o reino messiânico. 23-25. As pessoas pensarão que estão vendo a vinda do Filho do homem, e conclamarão os discípulos a vê-la do modo delas também. A implicação é que o reino está presente dalguma maneira secreta e inespe­ rada. Jesus abertamente rejeita tal idéia. Semelhante perscrutar cantinhos não será necessário, pois quando o Filho do homem vier, Sua vinda será tão óbvia como um relâmpago. De qualquer maneira, outras coisas devem acontecer primeiro. No futuro imediato há algo muito diferente: Seu so­ frimento e rejeição às mãos desta geração. 26,27. Até que venha o Filho do homem, a vida continuará nor­ malmente. Tudo será como nos dias de Noé. Os contemporâneos de Noé eram homens pecaminosos, mas não é isto que Jesus ressalta. Nada há de pecaminoso nas atividades que Ele alista; são o conteúdo da vida hu­ mana comum. Mas é exatamente esta lição. Aqueles homens da antigui­ dade estavam tão ocupados com os negócios normais da vida que não prestaram atenção alguma a Noé. O resultado é que foram surpreendidos pela destruição que poderiam ter evitado. 28, 29. Uma advertência semelhante é tirada da experiência de Ló. Nos dias dele, também, as pessoas prosseguiam nos negócios da vida e


não prestaram atenção ao exemplo e ao ensino dele. Mas o fato de des­ considerarem o homem de Deus não lhes trouxe isenção do julgamento de Deus. Certo dia, Deus tirou Ló da cidade, e naquele dia Sodoma foi destruída. T. W. Manson nos relembra que nem Noé nem Ló eram um “modelo de perfeição em virtudes.” Mas “os dois reconheciam que a catástrofe forçosamente viria, e os dois buscavam os meios de salvar-se. A mensagem cristã não é para aqueles que pensam que merecem um des­ tino melhor do que seu próximo, mas, sim, para aqueles que, no meio da indiferença e complacência universais, reconhecem que a situação é desesperadora, e perguntam: “O que devo fazer para ser salvo?”57 30. Jesus aplica estes fatos ao dia em que o Filho do homem se manifestar. As pessoas serão condenadas, não por serem pecadoras aci­ ma de todos os pecadores, mas porque têm sido egocêntricas. Homens co­ mo estes são tão ocupados nos seus próprios interesses, nos negócios comuns da vida, que não têm tempo e atenção sobrando para levar a sé­ rio as advertências que lhes advêm da parte de Deus. 31. Quando aquele dia vier, a situação será urgente. Jesus ressal­ ta o fato ao falar de duas coisas que os homens podem ser tentados a fazer. Um homem no eirado pode pensar em salvar alguma coisa de den­ tro da sua casa; um homem no campo pode voltar por uma razão seme­ lhante. Estes são atos naturais e inócuos. Mas no dia do Filho do ho­ mem este tipo de coisa estará fora de lugar. Então, os homens devem pres­ tar toda a sua atenção ao Filho do homem, e não aos seus bens. As palavras semelhantes em Mateus e Marcos se referem à fuga diante da queda de Je­ rusalém, e alguns estudiosos sustentam que Lucas tirou o dito do seu con­ texto e o aplicou a uma situação em que a fuga seria impossível. Mas de­ certo Lucas era suficientemente inteligente para perceber isto! É muito melhor sustentar que, quer Jesus tenha pronunciado as palavras em mais do que uma ocasião, ou Lucas as esteja aplicando corretamente a outra situação, realmente são aplicáveis ao dia em que o Filho do homem vier. Inculcam uma devoção de todo o coração ao Filho do homem, sem com­ plicações causadas por um desejo por possessões materiais. 32. A mulher de Ló chegou perto de atingir o livramento sem o conseguir, entretanto, quando ainda era possível. Fora levada totalmente fora da cidade condenada e colocada no caminho para a segurança. Mas olhou para trás e demorou-se, ansiando, evidentemente, pelos deleites que estava deixando para trás. Ao fazer assim, foi apanhada na destruição que


LUCAS 17:33-18:1 ■

sobreveio a Sodoma e pereceu com a cidade (Gn 19:26). 33. Jesus já tinha falado acerca do salvar e do perder a vida (9:24, ver a nota). Neste contexto o pensamento será que a vida de auto-afirma­ ção dos homens dos dia de Noé e dos dias de Ló (26-29) revelar-se-á autodestrutiva quando o Filho do homem vier. Por contraste, o homem que está disposto a perder sua vida agora a salvará então. 34,35. Aquele dia significará separação entre os que estão a favor do Filho do homem e aqueles cujas vidas demonstram que estão contrá­ rios a Ele. A proximidade física nada significará. De dois numa só cama, um será tomado, mas não o outro. Algumas traduções dizem “dois ho­ mens”, presumidamente porque no Grego o gênero masculino é empre­ gado em um e o outro. Mas este gênero também seria empregado se se tratasse de um casal, pois o marido poderia ser qualquer dos dois (cf. 24:25). É provável que se trate de um casal. Outra vez, de duas mulhe­ res juntas moendo, uma será tomada e deixada a outra. Jesus não expli­ ca o que Ele quer dizer com tomada, mas decerto significa ser levado para estar com Ele (cf. 1 Ts 4:17). 37. ARC inclui v. 36 entre colchetes, mas sua atestação nos MSS é inferior, e a maioria concorda que foi adotado de Mt 24:40 (embora al­ guns argumentem que um escriba pode tê-lo omitido pelo motivo de uma atividade do dia ser incompatível com a “noite” de v. 34). Os ouvintes de Jesus querem saber onde tudo isto ocorrerá, mas Ele não responde direta­ mente. Parece que está citando um provérbio que apresenta a verdade de que é o cadáver que atrai os abutres (não águias —a palavra grega signifi­ ca ambos, mas as águias não comem carniça nem se reúnem em bandos). Onde se acharem os espiritualmente mortos, ali haverá julgamento.

s. Duas parábolas acerca da oração (18:1-14). i A parábola do juiz iníquo (18:1-8). Jesus, naturalmente, não está assemelhando Deus a um juiz injusto. A parábola é da variedade do “Quanto mais . . . ” Se um homem ímpio às vezes faz o bem, me^mo por motivos maus, quanto mais Deus fará o bem. 1. Não há indicação da ocasião, mas o capítulo anterior se ocupa com a Segunda Vinda e Disse-lhes talvez indique o mesmo auditório, A história diz respeito à oração durante o longo intervalo (há uma ligação semelhante entre a oração e a parusia em 21:36). Quando os que oram não vêem sinal da resposta pela qual anseiam, é fácil para eles ficarem de­ sencorajados. Mas devem continuar orando e nunca esmorecer. O ensino


de Jesus vai além daquele dos judeus, que tendiam a limitai os peiíodos de oração, para não cansarem a Deus.58 Três vezes ao dia (conforme o modelo de Dn 6:10) era aceito como o máximo. 2,3. Um juiz que não temia a Deus nem respeitava homem algum (contrastar 2 Co 8:21) era controlado por suas piópiias idéias e inclina­ ções. A viúva eia quase um símbolo de pessoa indefesa. Não tinha condi­ ções paia oferecei dinheiro ao juiz e nenhum protetor para aplicar pres­ sões sobre ele. Ela estava armada apenas com o direito que estava do lado dela (não pedia vingança, mas, sim, justiça) e com sua própria persistência. 4 ,5. Fazia, no entanto, bom uso daquilo que tinha. A persistên­ cia dela fmalmente esgotou o juiz. No fim, fez conforme ela pedia, poi nenhum motivo mais nobie do que se ver livre dela. Ele não queiia que ela viesse a molestá-lo. O verbo é pitoresco, que significa, literalmente, “dar um olho preto”! Claiamente seu uso é metafórico aqui. 6,7. Visto que até mesmo um juiz injusto pode às vezes fazer jus­ tiça, muito mais devemos esperar que o Deus justo vindicará seus escolhi­ dos. Esta palavra enfatiza Sua escolha, embora devamos ter em mente que os eleitos são chamados para o serviço. Freqüentemente falamos co­ mo se o termo dissesse respeito exclusivamente aos privilégios. Os elei­ tos clamam a ele dia e noite. Oram com persistência incansável. Perce­ bem que estão grandemente necessitados, e reconhecem que sua única esperança é em Deus. Os recursos terrestres não servirão. RSV traduz: “Demorar-se-á muito sobre eles?” Neste caso o significado é que os elei­ tos serão vindicados muito em breve. ARC tem “embora que tardio para com eles?” Neste caso o pensamento é que Deus adia a vindicação, prova­ velmente visando um propósito gracioso em fortalecer os Seus enquanto sofrem privações. Alguns estudiosos pensam que eles são os opressores, como em Moffatt: “Será tolerante para com seus oponentes?” Mais plau­ sível é o ponto de vista de que as palavras interpretam uma expressão semítica que significa “Adia Sua ira,” i.é, a demora de Deus em vindicar os eleitos é a fim de dar aos homens a oportunidade de arrepender-se. De qualquer foima, a demoia é vista, então, como parte do propósito gracio­ so de Deus, mas se este propósito é fortalecer os eleitos ou dar oportuni­ dade para os maus se ariependerem, não podemos saber com certeza. 8. A vindicação seiá levada a efeito depressa, mas devemos enten* der esta palavra em termos do tempo de Deus (em que um dia é como mil anos, e mil anos como um dia, 2 Pe 3:8). Jesus está falando da certe%


za de ação rápida quando o tempo chegar. Quando pergunta se o Filho do homem achará porventura fé na terra, não está sugerindo que não haverá crentes. Está dizendo que a característica dos habitantes da terra naquela ocasião não será a fé. Os homens do mundo nunca reconhecem os caminhos de Deus, e não verão Sua vindicação dos Seus eleitos, ii. A parábola do fariseu e do publicano (18:9-14). Esta parábola se segue para ensinar o espírito em que as pessoas devem orar. É, além disto, um repúdio enfático de qualquer sugestão de que um homem pode ser salvo por meio de adquirir mérito. Aquilo que o fariseu dizia acerca de si mesmo era verdadeiro. Seu problema não era que não tinha progredido suficiente­ mente ao longo da estrada, era que estava na estrada totalmente errada. 9,10. Lucas não identifica os ouvintes da parábola. O erro denun­ ciado é típico dos fariseus, mas não é de modo algum confinado a eles. No templo, orações públicas eram proferidas, mas as pessoas podiam orar ali em particular, e é esta evidentemente a situação nesta parábola. O fari­ seu era um homem religioso que seria normal achar neste ambiente ocupa­ do nesta atividade. O publicano era um candidato improvável para os exer­ cícios religiosos, sendo normalmente tanto desonesto quanto um traidor dos seus próprio patrícios. 11,12. O fariseu estava posto em pé, que era a posição normal pa­ ra a oração (Mt 6:5; Mc 11:25). A oração era proferida com um espírito de orgulho, mas parece que este tipo de oração não era desconhecido. Por exemplo, R. Nehunia costumava orar assim: Graças Te dou, ó Senhor meu Deus, que Tu lançaste a minha sorte entre os que se assentam na Beth ha-Midrash (Casa da erudição) e que Tu não lançaste minha sorte com os que se assentam nas (esqui­ nas das) ruas, pois eu me levanto cedo e eles se levantam cedo, mas eu me levanto cedo para as palavras da Torá e eles se levantam cedo para conversas frívolas; eu labuto e eles labutam, mas eu labuto e recebo recompensa, e eles labutam e não recebem recompensas; eu corro e eles correm, mas eu corro para a vida do mundo futuro e eles correm para o poço da destruição.59 O fariseu na parábola fala primeiramente dalguns vícios dos quais se abstém, e depois dalgumas práticas piedosas às quais se dedica. A Lei esti-

59. Talmude, Berakoth, 28b (tradução de Soncino)


pulava um só jejum, aquele do Dia da Expiação, de modo que seu jejum duas vezes por semana era uma obra de merecimento adicional. Os piedo­ sos tinham o hábito de jejuar mais freqüentemente do que a Lei requeria, e jejuns nas segundas e quintas-feiras são atestados (e.g. Taanith 10a, 12a). O fariseu também ia além das exigências da Lei nos seus dízimos. A Lei estipulava que o dízimo devia ser pago sobre certas colheitas (Dt 14:22), mas era uma prática fariséia dizimar até mesmo as ervas do jar­ dim (11:42), O que este fariseu dizia acerca de si mesmo era rigorosamen­ te verdadeiro, mas o espírito da sua oração era totalmente errado. Nio há nenhuma consciência do pecado, nem da necessidade, nem da humilde dependência de Deus. O fariseu só não chegou a parabenizar a Deus por ter um servo tão excelente, mas faltava pouco para isto. “Olha de relan­ ce para Deus, mas fica contemplando a si mesmo” (Plummer). Depois da sua primeira palavra, não se refere mais a Deus, mas ele mesmo nun­ ca está fora de cogitação. 13. O publicano estava claramente sob grande convicção de peca­ do. Erguer os olhos ao céu ao orar era normal, mas seu senso de indigni­ dade não o deixava fazer assim. Batia no peito (o tempo denota uma ação contínua), como sinal de tristeza. Sua oração é simples: Ô Deus, sê propí­ cio a mim, pecadorl O verbo é hilasthèti, “sê propiciado,1’ “seja removida Tua ira.” Mesmo enquanto procura o perdão, reconhece o que merece. E chama-se, lit., “o” pecador, não “um” pecador —Ele, também, colocou-se numa classe à parte, mas de modo bem diferente do fariseu! Nada tem para píeitear em extenuação. Pode somente lançar-se na misericórdia de Deus. “Este publicano era um canalha; e o sabia. Pediu a misericórdia de Deus, porque misericórdia era a única coisa que ousava pedir.”60 14. Foi a petição dele que foi aceita. O publicano voltou para casa justificado, contado como justo, “inocentado dos seus pecados” (NEB). Esta é uma grande palavra paulina, vista aqui no ensino de Jesus. O princí­ pio por detrás de tudo isto é que o que se exalta, será humilhado. Ninguém tem coisa alguma da qual se pode jactar diante de Deus. Por contraste, o que se humilha, sem exaltado (cf. 14:11). O pecador arrependido que humildemente procura a misericórdia de Deus, a achará. t. Jesus e as crianças (18:15-17) Depois da longa seção desde 9:51, em que não há praticamente nenhum


paralelo marcano, Lucas agora volta a acompanhar Marcos. 15. Não somos informados quem trouxe as crianças. Usualmente supomos que foram as mães, mas o pronome traduzido os é masculino, e provavelmente inclua os pais também. Devemos entender tocar no senti­ do de “impôr Suas mãos sobre elas,” uma ação natural ao abençoar. Não fica claro por que os discípulos repreendiam os que trouxeram as crianças. Talvez pensassem que Jesus estava demasiadamente ocupado ou cansado para ter trabalho com as crianças. Ou talvez pensassem que as crianças fossem demasiadamente insignificantes para o Mestre lhes dar atenção, pois é fato que poucos dos grandes mestres religiosos do mundo têm tido muita solicitude com as crianças. Jesus é diferente. 16,17. O Mestre chamou as crianças e fez com que se sentissem â vontade. Passou a ressaltar que são as pessoas que são como crianças às quais pertence o reino de Deus. Não é um recital orgulhoso de virtudes (cf. o fariseu, 11-12) que traz os homens para dentro do reino, mas, sim, uma confiança de todo o coração, como a de uma criança. O negativo também é verdadeiro: a não ser que alguém receba o reino como uma criança, nunca entrará nele. Âs crianças nos mostram o caminho na sua total dependência, na sua franqueza e receptividade, e na sua confiança completa. ■w

u. O jovem rico (18:18-30)

18. Somente Lucas nos conta que este homem era de posição. O termo é muito geral e, segundo Gerhard Delling, “denota oficiais romanos e judeus de todos os tipos.” Neste Evangelho, vê os oficiais como um grupo de pessoas distintas dos anciãos, dos escribas e dos principais sacerdotes.61 Não podemos, portanto, ser específicos e sugerir, por exemplo, que fosse um chefe de sinagoga (de qualquer maneira, visto que Mateus nos conta que ele era jovem, isto é improvável). Mas pelo menos fazia parte das clas­ ses dominantes. Sua saudação Bom Mestre, não era empregada entre os rabinos, porque atribuía ao homem um atributo que somente Deus pos­ suía (segundo Plummer, não existe no Talmude inteiro um só exemplo de um rabino sendo assim chamado). Era um gesto de lisonja impensada. Passou a perguntar o que deveria fazer para obter a vida eterna. Supunha que a vida eterna devesse ser merecida, e que fosse necessária alguma boa obra que não estava fazendo na ocasião.


19, Jesus passa a mostrar as falhas na posição do jovem. Ninguém é bom senão um só, que é Deus não deve ser entendido como um repúdio do epíteto bom aplicado a Ele mesmo. Se fosse isto que queria dizer, Je­ sus decerto teria dito claramente que Ele era um pecador. Pelo contrário, estava convidando o oficial a refletir sobre o significado das suas próprias palavras. O que acabara de dizer tinha implicações a respeito da Pessoa de Jesus. Se Ele era bom, e se somente Deus era bom, conforme concordava todo o ensino rabínico (ver sobre v. 18), então o oficial estava falando alguma coisa importante a respeito dEle. Longe de repudiar a divindade de Jesus, conforme alguns sustentam, a pergunta parece ser um convite para o jovem refletir sobre ela. Há também, provavelmente, ainda outra profundidade de significa­ do na pergunta de Jesus (conforme sustentam estudiosos tais como Caird e Ellis). Jesus convida o jovem a refletir sobre aquilo que estava pedindo para si mesmo. A vida eterna que procurava era a vida na presença da te­ mível pureza de Deus. Se apenas refletisse sobre o que significava aquilo, decerto perceberia que estava totalmente despreparado para a bênção que procurava. Passaria então a clamar por misericórdia, ao invés de bus­ car com complacência uma recompensa. A tragédia do jovem é que não percebia o significado do comentário, e muito menos correspondia a ele. 20,21. O oficial perguntara o que devia fazer, de modo que Jesus respondeu em termos de fazer. Dirige-o aos mandamentos. Se não quiser refletir sobre as implicações da bondade de Deus, quem sabe se pensará qual é sua posição diante das exigências da Lei? Quando alguém leva a sé­ rio as exigências da Lei, está no caminho para chegar a Cristo (G1 3:24). Jesus cita cinco mandamentos que tratam do nosso dever para com o nosso próximo, mas nenhum que trata daquele para com Deus. Passará a ressaltar esta parte de outra maneira. O jovem nada vê de novo nos mandamentos, e tem certeza de que os guardou desde seus tempos de menino. Os rabinos sustentavam que a lei podia ser guardada na sua in­ teireza, e, por exemplo, R. Eliezer podia perguntar: “Akiba, eu tenho negligenciado qualquer coisa da Torá inteira?” (Sanhedrin 101a). A ale­ gação do jovem, portanto, não era grotesca, embora fosse superficial. Demonstrava que não tinha pensado com suficiente profundidade sobre aquilo que significava a guarda dos mandamentos. 22. O jovem não tinha refletido sobre o significado da bondade de Deus, nem se medira contra os mandamentos de Deus com suficiente exatidão para perceber que não estava à altura dos padrões de Deus. Agora Jesus deu um desafio que demonstrava que o jovem não estava à altura daquilo que era necessário. Mas a chamada para doar tudo era mais do


que simplesmente um desafio dramático: demonstrava que o homem nio entendera os mandamentos que professou ter guardado. O primeiro deles exige a adoração do Deus único. Quando, porém, veio a ele a escolha, viu que nunca poderia servir a Deus se se tratasse de separar-se do seu dinhei­ ro. Não era realmente Deus que ocupava o primeiro lugar no seu coração. 23-25. Lucas não chega a dizer que o jovem recusou, somente que ficou muito triste. Mas está subentendida a recusa de enfrentar o desa­ fio. Jesus passou a indicar que é muito difícil para os ricos entrarem no reino. Os afluentes sempre são tentados a depender das coisas da terra, e não acham fácíl lançar-se sobre a misericórdia de Deus (contrastar v. 13), O mesmo é verdadeiro, naturalmente, no que diz respeito àqueles cujas riquezas não são materiais: os intelectualmente destacados, os ricos em realizações morais e artísticas, e pessoas semelhantes. Tais pessoas sempre acham difícil depender de Deus mais do que dos seus próprios esforços. Tentativas têm sido feitas para explicar as palavras de Jesus acerca do camelo e do fundo de uma agulha em termos de um camelo se espremendo por uma pequena porta lateral da cidade, ou por meio de su­ gerir o texto kamilon, “cabo”, em lugar de kamêlon, “camelo.” Tais “explicações” são mal-orientadas. Deixam de perceber a lição. Jesus está usando uma ilustração humorística. 26, 27, Tudo isto representa uma inversão das idéias aceitas. Sus­ tentava-se comumente que as riquezas eram o sinal da bênção de Deus, de modo que o jovem rico tinha a melhor oportunidade para ter as coisas boas do mundo do porvir, assim como tinha neste mundo. Destarte, os que escutavam Jesus disseram: Sendo assim, quem pode ser salvo? Não pergun­ tam: “Qual rico?” mas “Quem”? Se os ricos, com todas as suas vantagens, dificilmente podem ser saivos, que esperança há para os demais? Jesus dei­ xa claro que não há mesmo. Mas o que o homem não pode fazer, Deus po­ de. A salvação, para os ricos ou para os pobres, sempre é um milagre da graça divina. Sempre é a dádiva de Deus. 28-30. Diante disto, Pedro disse: Eis que nós deixamos as nossas casas e te seguimos. Alguns entendem que a resposta de Jesus é humorísti­ ca: “De modo caprichoso Jesus promete que aqueles que deixaram o lar e a família para o serviço do reino se acharão cuidando de uma família muito maior do que aquela que deixaram” (Caird). A maioria, no entan­ to, entende que as palavras significam que Deus não fica devendo a homem algum. Se alguém abre mão de qualquer coisa por amor a Deus, será com­ pensado no presente muitas vezes mais, sem falar nada da vida eterna na era do porvir. Seria completamente fora de harmonia com esta passagem inteira entender estas palavras no sentido de que as pessoas podem seguir


a Jesus tendo em vista a obtenção de benefícios terrestres. Se seu motivo é que podem lucrar, nem sequer começaram a entender o que significa o discipulado. Mas isto não significa que Deus os abençoará com relutân­ cia. Onde houver o espírito de abnegação, ali Deus supre todas as necessi­ dades dos Seus servos (cf. Fp 4:19). Ryle pensa que devemos entender as palavras num sentido espiritual, pois “Às vezes a sabedoria de Deus acha por bem permitir que um homem convertido sofra perda em coisas tempo­ rais na sua conversão.”

v. Outra profecia da Paixão (1831-34). Esta é freqüentemente referida como sendo a terceira predição de Jesus do Seu sofrimento, mas é, na realidade, a sétima que Lucas registra, se­ guindo outras em 5'35; 9:22,4345; 12:50; 13:32-33; 17:25. 31. Lucas não nos diz quando estas palavras foram faladas. Sim­ plesmente cita a profecia, e inclui a asseveração de que vai cumprir-se ali tudo quanto está escrito por intermédio dos profetas, no tocante ao Fi­ lho do homem, O propósito de Deus será realizado. No fim, não é aquilo que agrada ao homem, mas, sim, o beneplácito de Deus que será cumpri­ do. 32,33. Jesus fala de ser entregue aos gentios, a primeira vez que esta nota foi soada. Não Se refere especificamente à crucificação, mas menciona as ofensas, danos e morte. Não deixa o assunto nisto, porém, mas passa a falar de ressuscitar ao terceiro dia. A Paixão não é uma der­ rota, mas, sim, a vitória. 34. Do outro lado da cruz, tais ditos devem ter soado muito di­ fíceis. Os discípulos não entenderam. Jesus dizia muitas coisas parado­ xais, e provavelmente arrazoavam: “Decerto não quer dizer que Ele lite­ ralmente morrerá e ressuscitará. Deve tratar-se de alguma coisa como o morrer a fim de viver que Ele exige de nós” (cf. 17:33). Foi necessária a cruz e o túmulo vazio para levá-los a entendê-lo. Por enquanto, o sen­ tido destas palavras em-lhes encoberto; que talvez signifique que foram impedidos de entender. Se for assim, o pensamento deve ser que a falta deles de captá-lo tinha seu lugar no propósito de Deus.

w. A cura de um cego (1835-43) Mateus fala de dois cegos sendo curados enquanto Jesus saía de Jericó


(sobre o que Farrar observa que é improvável que um cego estivesse totalmente sozinho). Marcos menciona um cego, citando seu nome, Bartimeu, curado enquanto Jesus saía desta cidade- Lucas não dá o nome do homem e localiza o milagre na ocasião da entrada de Jesus na cidade. Há pouca dúvida de que todos os três se refiram ao mesmo incidente, embora com as informações que atualmente possuímos talvez seja impos­ sível dar uma explicação satisfatória destas diferenças. Alguns pensam que houvesse dois cegos, dos quais Bartimeu era o mais destacado ou mais conhecido na igreja. É ressaltado também que havia duas Jericós, a antiga, famosa no Antigo Testamento, e a nova, estabelecida perto por Herodes Magno. Alguns sustentam que a cura foi realizada enquanto Je­ sus saía de uma delas para entrar na outra. 35-37. A viagem de Jesus O levava a Jerusalém passando por Jericó, uma cidade perto do Jordão e cerca de 200 m. abaixo do nível do mar. Enquanto Se aproximava da cidade, a multidão que estava com Ele atraiu a atenção de um cego que perguntou qual era a comoção, e lhe contaram que passava Jesus, o Nazareno. 38,39. Lucas não nos conta como o cego poderia ter esperado que Jesus o ajudasse. Decerto, Sua reputação tinha ido adiante dEle. O cego agarrou sua oportunidade e invocou Jesus como Filho de Davi, a única pessoa neste Evangelho que dirigiu-se a Jesus assim (a expres­ são é achada também em 20:41; Marcos tem um uso semelhante, mas o título é usado mais freqüentemente em Mateus). O título é messiâ­ nico, e o fato de que Jesus curou o homem em resposta ao uso do títu­ lo parece ser uma aceitação das suas implicações. Neste caso, reconhecia Seu destino messiânico enquanto subia a Jerusalém onde dentro em bre­ ve haveria de morrer como Messias (cf. 22:67ss.). O cego era persistente, porque quando lhe mandaram desistir, cada vez gritava mais. Não era tí­ bio ; não queria abrir mão da sua oportunidade. 40,41. Jesus não deixou sua petição passar desapercebida. Mandou que trouxessem o homem diante dEle, e perguntou-lhe o que queria. Por enquanto, o homem simplesmente pedira misericórdia, e a misericórdia poderia seguir qualquer um de várias direções. Ao ser convidado a expres­ sar seu desejo em palavras, o homem cristalizou seu anseio: Senhor, que eu tome a ver. 42,43. Mateus nos conta que Jesus tocou os olhos do homem, mas Lucas não registra qualquer ação. Menciona apenas as palavras da cura, às quais Jesus acrescentou: a tm fé te salvou. Não se quer dizer que a fé do homem criou a cura, mas, sim, que era o meio pelo qual a recebeu. Quando recuperou a sua vista, seguia a Jesus, gbrificando a Deus. Jesus


não atraía a atenção a Si mesmo, mas, sim, dirigia as pessoas ao Pai, e este fato se percebe mais uma vez na reação das pessoas que viram o milagre. Elas, também, davam louvores a Deus.

x. Zaqueu (19:1-10) A história de Zaqueu fica em contraste marcante com a do jovem rico. Vindo tão cedo depois da declaração enfática acerca da dificuldade da salvação dos ricos (18:24-25), este incidente deve ser visto como uma ma­ nifestação notável da graça de Deus (18:27). 1-3. Evidentemente Jesus não pretendia fazer uma parada em Jericó. Estava apenas atravessando a cidade. Isto, porém, deu a Zaqueu a oportunidade de vê-Lo. O nome é hebraico, com o significado de “puro” ou “justo”. O homem nos é desconhecido à parte deste incidente. Não era simplesmente um publicano como os demais que encontramos nes­ te Evangelho (ver sobre 3:13; 5:27), mas, sim, maioral dos publicanos (architelõnès). Este título não é achado em qualquer outro lugar, de modo que seu significado exato é desconhecido, mas parece indicar o chefe da repartição local de impostos. Zaqueu empregaria outros para fazer a cole-* ta propriamente dita dos impostos, ao passo que ele pagaria aos romanos a parte exigida por eles. Jericó deve ter sido um ponto bom para um nego­ ciante de impostos. Uma rota comercial importante de Jerusalém para o oriente passava por lá, e era centro de boa quantia de riqueza local, como, por exemplo, as rendas das famosas plantações de bálsamo que ali abunda­ vam. Não é surpreendente que Zaqueu era rico. Neste local, e com tal ocu­ pação, dificilmente poderia deixar de sê-lo. Mas decerto era impopular e tinha pouca vida social. Este homem ouvira falar de Jesus e queria vê-Lo. Mas tinha um problema, pois era de pequem estatura. Não poderia ver por cima das cabeças das pessoas, e poucos dariam caminho para um ho­ mem tão impopular. 4. Zaqueu, no entanto, era um homem de habilidade (nãò foi por nada que veio a ser maiorial dos publicanos), e não estava preocupado com sua posição de dignidade pessoal. Destarte, correu adiante e subiu a um sicômoro. Esta árvore “era muito semelhante à amoreira. Certamente é uma árvore fácil de se subir nela, e freqüentemente é plantada à beira do cami­ nho.”62 Acomodado ali, tinha uma boa posição para ver o Mestre de Naza­ ré enquanto Este passava. 62. W. E. Shewell-Cooper, Plants and Fruits o f the Bible, pág. 120.


5,6. Jesus, porém, não foi passando: Parou e chamou Zaqueu para descer. Não disse, “Gostaria de ficar em tua casa,” mas, sim, me convém ficar . .. Esta é uma expressão enfática. Jesus via Sua visita a Zaqueu como parte da Sua missão divina. Zaqueu respondeu com regozijo. Desceu rapi­ damente da árvore e recebeu Jesus com alegria, 7. A multidão desaprovou, e o todos registrado por Lucas demons­ tra que a desaprovação era geral. Murmuravam refere-se à resmungação que passa por uma multidão quando está se queixando. Queixavam-se por­ que condenavam Zaqueu totalmente como pecador, e criticavam Jesus por ser hóspede de tal homem. 8. Entrementes —Zaqueu é colocado em contraste com os murmuradores. Levantou-se, que talvez signifique que estava adotando uma posi­ ção. Há uma nota de formalidade nisto, que é apropriada para o aviso im­ portante que Zaqueu estava para dar. Passou a dar evidência notável daqui­ lo que a visita de Jesus fizera por ele, e anunciou a doação de metade dos seus bens aos pobres, e que faria uma restituição quádrupla a qualquer pes­ soa que tivesse defraudado. Quando era feita restituição voluntária, a Lei não requeria mais do que o montante original mais uma quinta parte (Lv 6:5; Nm 5:7), de modo que Zaqueu, com boa mente, estava concordando em fazer mais do que o necessário. Estava fazendo o que era estipulado para o roubo, com a matança ou venda de um animal (Êx 22:1; 2 Sm 12: 6; há menção de uma restituição sétupla em Pv 6:31, mas não fica claro que esta fosse exigida em qualquer tempo). Josefo fala criticamente de Herodes por vender ladrões para o estrangeiro, e diz que “as leis” nada mais requerem do que uma multa quádrupla (Antiguidades xvi. 1-3). A ex­ pressão de Zaqueu, se, nalguma coisa tenho defraudado alguém dá a en* tender que o caso era realmente assim. Levando em conta a maneira se­ gundo a qual fizera seu dinheiro, era improvável que esta fosse uma lista curta. Nota-se que emprega o tempo presente nos seus verbos. Está tão firme na sua resolução que diz que já está tratando desta distribuição. 9,10. A resposta de Jesus torna claro que Zaqueu foi salvo, mas há problemas nos pormenores. Houve salvação nesta casa deve referir-se primariamente ao publicano, mas o lar não é olvidado. Filho de Abraão deve significar um judeu verdadeiro, alguém que segue a fé de Abraão (cf. Rm 4:12), e não simplesmente um descendente linear do patriarca. Todos os judeus poderiam alegar este fato, mas nem todos os judeus eram salvos. Há também, possivelmente, uma referência a Zaqueu como um membro verdadeiro da família de Abraão, em contraste com as calúnias de que ele era um traidor. Jesus acrescenta que veio buscar e salvar o per­ dido. Este incidente demonstra claramente este fato. Jesus procurou a


Zaqueu. Ele fez o contato, e não Zaqueu. Aquele homem certamente es­ tava entre os perdidos. Mas Jesus não o deixou ali. Salvou-o.

y. A parábola das dez minas (19:11-27) Há semelhanças entre esta história e a parábola dos talentos em Mateus 25. Alguns vêem estas histórias como variantes de uma só original, mas as diferenças fazem com que esta idéia seja arriscada (ver a discussão em Arndt). É mais provável que Jesus tenha feito mais de um uso da idéia básica. Em Mateus está interessado em homens de capacidades diferen­ tes aos quais são atribuídas tarefas de acordo com suas capacidades. As somas são grandes e representam o desempenho de tarefas sérias e im­ portantes. Aqui, as somas são pequenas, e o mesmo montante é dado pa­ ra todos. Os servos estão sendo testados para ver se são dignos de tarefas maiores. A parábola em Mateus nos lembra que todos nós temos dons di­ ferentes, a em Lucas, que todos nós temos uma só tarefa básica, a de vi­ ver nossa fé na prática. A história em Mateus concentra-se nos servos e seus negócios, mas Lucas tem referências a um homem nobre que foi re­ ceber um reino, e a atitude dos seus súditos. Alguns sustentam que isto significa uma fusão de duas parábolas originalmente separadas ou por Lucas ou por sua fonte. É possível, mas a parábola pode ser facilmente interpretada conforme ela consta. 11. Por algum tempo, Lucas estava descrevendo uma viagem para Jerusalém (ver sobre 9:51). Jericó fica a cerca de 28 km. de Jerusa­ lém, de modo que a viagem estava quase no fim. Isto levou alguns a pen­ sar que o clímax estava para chegar, e que o reino de Deus havia de manifestar-se imediatamente. O clímax realmente estava para chegar, mas seria muito diferente daquele que estas pessoas imaginavam. A parábola era para ajudar a corrigi-las. 12. O homem nobre que partiu para uma terra distante, com o fim de tomar posse de um reino nos relembra irresistivelmente de um vas­ salo que fazia a peregrinagem a Roma para ser feito rei. Herodes Magno recebera seu reino daquela maneira. No seu testamento, dividiu seu do­ mínio entre três dos seus filhos, todos os quais, quando veio a ocasião certa, foram a Roma para defender suas reivindicações. Arquelau recebeu por herança a Judéia, mas o povo o detestava, e enviou representantes para pedir que o reino não fosse dado a ele. Já lhes dera boas razões para odiá-lo. Na primeira Páscoa após a sua ascensão, por exemplo, massacrara cerca de 3.000 dos seus súditos (Josefo, Bellum ii. 10-13). Era um sobe­


rano completamente mau. O imperador, porém, confirmou-o no lugar de autoridade, embora lhe negasse o título de “rei” até que comprovasse ser digno dele (o que nunca fez). Haveria uma qualidade apropriada numa alusão a Arquelau nesta região, pois edificara um palácio magnífico em Je­ rico e também fizera um aqueduto para os propósitos da irrigação (Jose­ fo, Antiguidades xvii.340). Provavelmente devemos entender de modo ale­ górico as referências ao reino. Jesus estava para completar Seu curso em Jerusalém, e isto importava em deixar esta terra. Mas voltaria no devido tempo, depois de receber o reino, A referência a uma terra distante de­ monstra que não se pode esperar que voltará dentro em breve. 13. O homem nobre fez os planos para seus negócios serem conti­ nuados durante sua ausência, ao confiar dinheiros a dez servos seus (não es­ cravos, pois o escravo não teria a autoridade necessária para as transações comerciais em vista). Mina translitera m m , uma moeda grega com o valor de cem dracmas (a dracma era o salário de um trabalhador por um dia de serviço). Os servos receberam ordens para negociar, e evidentemente cada um tinha bastante liberdade de ação, embora cada um deles soubesse que, no devido tempo, teriam de prestar contas da sua atuação. 14. 0 tema do rei reaparece. Os súditos do homem nobre não gos­ tavam dele, de modo que tomavam as medidas possíveis para evitar que ob­ tivesse a autoridade de rei. No caso de Arquelau, era justificado, embora não conseguissem seu intento. Não podemos transferir este fato à alegoria, pois Jesus é o Rei perfeito, e nada pode interferir com Sua soberania. Mas não devemos deixar desapercebida a lição de que há homens que se rebe­ lam contra tudo quanto Ele representa. 15-19. 0 homem nobre obteve seu reino e voltou para casa. Agora chama seus servos, que tinham feito negócios, para prestar suas contas. O primeiro e o segundo lucraram 1.000% e 500%, respectivamente. Ne­ nhum deles arroga crédito para si, mas cada um modestamente atribui o aumento ao dinheiro que o homem nobre deixara na mão deles, a tua mim rendeu . . . Os dois são elogiados e promovidos, e receberam cidades conforme a proporção dos seus lucros. O galardão não é descanso mas, sim, a oportunidade para serviços numa escala mais ampla. 20,21. Apenas mais um servo é entrevistado, e fica deixado à nos­ sa imaginação em que situação ficaram os outros sete. Mas os exemplos dados são suficientes, porque, afinal das contas, há apenas duas classes: os que fizeram bom uso do dinheiro e os que não fizeram. Este terceiro homem nada fez com sua mina, mas, sim, a guardou embrulhada m m lenço. Isto nem sequer estava à altura com as exigências mínimas para a segurança, que requeriam que o dinheiro fosse enterrado na terra (Tal-


mude, Baba Metzia 42a). Seu motivo declarado foi o medo. Descreveu seu mestre como homem rigoroso, com o emprego do adjetivo austeros, cujo significado é ‘severo, exigente/ um homem que espera “tirar sangue de uma pedra” (MM). Tirar o que a pessoa não colocou, e ceifar o que não semeou são, evidentemente, expressões proverbiais que significam obter ganhos dos esforços doutras pessoas. 22,23. O senhor fez das palavras do seu servo a base da condena­ ção deste. Se o servo realmente acreditasse naquilo que acabara de dizer acerca do seu senhor, deveria ter feito alguma coisa. Sem risco, poderia ter colocado o dinheiro no banco, onde teria obtido juros. Não havia, natural­ mente, bancos em nosso sentido do termo, e o Grego significa “sobre a mesa,” i.é, a mesa do agiota (podemos notar de passagem que nossa pa­ lavra “banco” é derivada do “banco” onde o agiota se sentava no seu pon­ to comercial). Teria sido possível ter colocado o dinheiro em uso, mas o servo amedrontado nada fez. 24-26. Destarte, o dinheiro foi tirado dele e dado ao homem que comprovara que sabia fazer bom uso dele. Nâo fica claro se os ouvintes que interrompem (25) são os ouvintes de Jesus ou os demais servos na história. Nem fica bem certo se as palavras que se seguem (26) são as do nobre ou as de Jesus. De qualquer maneira, definem o princípio que a parábola exemplifica. Jesus não está dizendo que os ricos ficarão mais ricos e os pobres mais pobres. As palavras devem ser vistas no seu contex­ to. E o homem cuja abundância demonstra que fez bom uso daquilo que tem que receberá mais. O homem cuja falta demonstra que, como o tercerio servo, não fez uso das suas oportunidades, perderá o pouco que tem. Cf. 8:18, É possível objetar que não havia razão de ser em dar mais uma mina para quem já tinha dez, além da autoridade sobre dez cidades. Mas há um princípio envolvido. O mínimo dom deve ser posto em bom uso. Na vida cristã não ficamos parados. Empregamos nossos dons e progre­ dimos, ou perdemos aquilo que temos. 27. A história termina numa nota de severidade amedrontadora. Aqueles que rejeitaram o homem nobre e enviaram após ele uma embai­ xada (14) não são esquecidos. Seguramente instalado no seu reino e com as contas com seus servos negociantes prestadas, o homem nobre ordena a destruição daqueles que chama com clareza esses meus inimigos. Colo­ caram-se em oposição a ele. Devem arcar com as conseqüências. O comen­ tário de T. W. Manson é possivelmente o melhor sobre isto: “Talvez fique­ mos horrorizados com a ferocidade da conclusão; mas por detrás da lingua­ gem figurada severa há um fato igualmente grave: a vinda de Jesus ao mun­ do submete cada homem ao teste, compele cada homem a tomar uma


decisão. E essa decisão não é coisa leviana. É uma questão de vida ou morte.”63 z. À entrada triunfal (19:28-44). A rigor, Lucas não nos conta acerca da entrada de Jesus em Jerusalém, triunfal ou não. Mas descreve a aproximação, e o termo “entrada” pode ser empregado sem ser enganoso. Lucas acrescenta àquilo que lemos nos demais Evangelhos ao contar do lamento de Jesus sobre Jerusalém. i. A aproximação triunfante (19:28-40). Há uma audácia neste procedimento inteiro. As autoridades eram hostis e já deram instruções no sentido de que qualquer pessoa que soubesse onde estava Jesus as informassem de modo que Ele pudesse ser preso (Jo 11:57). Mas, longe de esconder-Se, amedrontado, Jesus veio para Jerusalém de modo públi­ co e triunfante. Na época, Sua popularidade entre o povo impedia de se­ rem empreendidas ações contra Ele (48). Mas não devemos deixar desa­ percebida nem a amarga hostilidade do partido dos sacerdotes princi­ pais, nem a coragem manifestada por Jesus e Seus amigos, 28. Aparentemente, Jesus partiu de Jericó imediatamente depois de contar a parábola que acaba de ser narrada. Foi com passo firme na frente dos discípulos (há possibilidade de o Grego significar prosseguia, conforme sustenta Leaney; mas cf. Mc 10:32). Lucas nos conta de novo que Ele ia para Jerusalém, em harmonia com a ênfase que tem dado à cidade como o objeto da viagem. 29. Betânia era uma aldeia cerca de três km. de Jerusalém, nos en­ costos orientais do Monte das Oliveiras. A localização de Betfagé não é conhecida com certeza, mas claramente estava perto. No Talmude é apa­ rentemente um subúrbio de Jerusalém, sendo considerado o limite exter­ no da cidade. O Grego traduzido das Oliveiras pode significar “de olivas” ou “Pomar de Oliveiras” (Moffatt; a diferença é apenas de acento). “Olivete” vem do Latim olivetum , “pomar de oliveiras.” 30,31. Jesus dá instruções a dois dos Seus discípulos no sentido de entrarem numa aldeia para obter um jumentinho para Ele. Não dá o nome da aldeia e fala dela apenas como a aldeia fronteira. Alguns acham que é Betfagé, mas não podemos ter certeza. Ali^ disse Jesus, achareis pre­ so um jumentinho. A palavra podia denotar o “potro” de um cavalo ou de um jumento, e Lucas nunca diz qual é. Mateus e João, no entanto,


deixam claro que era um filhote de uma jumenta, e na LXX a palavra é usada regularmente sem qualificação para traduzir um termo hebraico que significa “jumento.” Lucas simplesmente está seguindo o uso segun­ do a LXX. Informa-nos que ninguém ainda montara nele. 0 pensamen­ to pode ser que o animal não fora desvalorizado por algum uso prévio e, portanto, era apropriado para propósitos sagrados (cf. Nm 19:2; 1 Sm 6:7). Jesus também acrescenta uma senha para ser usada se alguém procurar impedi-los: O Senhor precisa dele. Um problema é levantado pelo fato de que parece ser Jesus quem precisa do animal, mas a expressão “o Senhor” parece ter sido usada acerca dEle muito raramente, ou talvez nunca, du­ rante Seu ministério. É, portanto, duvidoso se uma referência ao “Senhor” sem mais explicações tivesse sido suficiente para indicar Jesus. Alguns pen­ sam que devamos entender que “o Senhor” é Deus, i.é, o animal é neces­ sário para o serviço de Deus. Tal conceito é possível, mas é difícil ver como os circunstantes poderiam ter extraído este significado das palavras. Lingüisticamente, a expressão poderia significar: “Seu dono precisa dele.” Este significado seria possível se houvesse um só dono, e este estivesse com Jesus. V. 33, porém, mostra que havia vários donos, e que estes estavam com o jumentinho, e não com Jesus. De modo geral, parece melhor enten­ der a expressão como sendo uma senha combinada de antemão. Quando os donos do animal ouvissem estas palavras, saberiam que o jumentinho era para Jesus e o deixariam ser levado a Ele. 32-34. Os discípulos obedeceram as instruções e os donos do ju­ mentinho corresponderam à informação de que o Senhor precisava do animal. O plural, seus donos, talvez indique a pobreza. Até mesmo um animal tão pequeno era compartilhado. 35,36. Puseram as suas vestes sobre o animal, claramente como um tipo de sela. Lucas não diz que Jesus montou o jumentinho, mas, sim, que os discípulos O colocaram nele. Tomaram a iniciativa. Eles, ou outros, seguiram este gesto ao estender no caminho as suas vestes, fazendo assim um tapete triunfal sobre o qual Jesus andou montado (cf. 2 Rs 9:13). Lucas nada diz acerca dos ramos que também foram espalhados, embora todos os demais Evangelistas os mencionem (João diz que eram ramos de palmeira). 37. Toda a multidão dos discípulos participou do entusiasmo na descida do Monte das Oliveiras. Era uma cena feliz, enquanto os dis­ cípulos passaram a ficar jubilosos. Louvaram a Deus por todos os mila­ gres que tinham visto, i.é, aqueles atos milagrosos que Jesus fizera no decurso do Seu ministério, e que demonstraram tão claramente que Ele viera de Deus. Lucas não esclarece em lugar algum o entusiasmo, mas


Mateus e João citam a profecia de Zacarias 9:9 que diz que o rei de Sião viria num “jumentinho, cria de jumenta.” Não pode haver dúvida alguma que a multidão via a entrada de Jesus na cidade à luz desta profecia, e que O saudava como rei. Ora, um rei montado em jumentinho era algo distin­ tivo. O jumento era a montaria do homem de paz, um comerciante ou um sacerdote. Um rei poderia montar um asno ocasionalmente, mas seria mais provável que comparecesse montado num poderoso cavalo de guerra. A profecia de Zacarias via o Messias como Príncipe da paz. Os discípulos ga­ lileus, agora subindo em grandes números para Jerusalém para a Páscoa, sabiam que Jesus operara muitas obras poderosas. Já havia muito tempo tinham esperado e observado até que Ele Se proclamasse o Messias das suas esperanças. Agora é que O viam fazer assim. Ele estava entrando na capital de uma maneira que cumpria a profecia. Demonstrava que era o Messias. Não pararam para refletir que também estava proclamando-Se um homem de paz, sem dar apoio algum para o fervor nacionalista deles. Queriam um Messias. Agora O estavam vendo. 38. Todos os quatro Evangelistas nos informam que a multidão clamava Bendito e o que vem em nome do Senhor] (cf. Sl 118:26), mas somente Lucas e João que chamava Jesus de o Rei (João acrescenta “de Israel”). Marcos refere-se ao reino mas não ao Rei. Mas, expressado ou não, isto está subentendido. A multidão queria ver o Messias reivindicar Seu reino, e seu delírio de deleite teve sua origem no fato de que 0 via fazer assim. Somente Lucas nos informa que a aclamação incluiu Paz no céu (cf. 2:14). “Deus está reconciliado com a raça humana” (Arndt), e assim é demonstrada a Sua glória. Talvez haja também uma referência à situação resultante da derrota de Satanás (10:18). Lucas omite a pala­ vra estrangeira “Hosana” (achada nos demais Evangelhos) e substitui “glória.” 39,40. Devemos a este Evangelista a informação de que alguns dos fariseus na multidão (peregrinos da Galiléia?) disseram: Mestre, repreende os teus discípulos. Teriam levantado objeções ao entusiasmo por motivos gerais, e certamente não queriam ver Jesus proclamado como Messias. Não estavam a favor do emprego da força a não ser que a prática da sua reli­ gião fosse diretamente envolvida, e teriam feito oposição a qualquer coisa que talvez provocasse a intervenção romana. Não havia esperança de aquie­ tar o tumulto ao apelar ao povo, então pediram que Jesus acalmasse as pessoas. Num dito notável, Jesus afirma que os gritos são inevitáveis. Se o povo ficasse quieto, as próprias pedras clamariam; o que talvez tenha sido um dito proverbial (cf. Hc 2:11). ii. O lamento sobre Jerusalém (19:41-44). Esta seção curta é


peculiar a Lucas. Demonstra que Jesus sabia o valor real do entusiasmo que estava testemunhando. As palavras são entendidas por alguns estudiosos como sendo uma composição posterior, escrita depois da destruição da cidade, pela razão de serem por demais pormenorizadas para terem sido pronunciadas nos tempos de Jesus. Mas, deixando de lado por enquanto a extensão dos poderes proféticos de Jesus, nada há aqui que não é comum nas técnicas dos cercos naqueles dias, e igual a muita coisa que já se acha no Antigo Testamento. Não há motivo algum para se sentir apreensivo acerca da autenticidade do parágrafo. Cf. T. W. Manson: “Descrever estes versículos como sendo uma composição cristã depois do evento é o tipo de extravagância que faz com que a crítica sóbria caia em descrédito”.64 41,42. O lamento ocorreu perto da cidade, mas Lucas não diz exa­ tamente onde. Forma uma contraste notável com a grande alegria da mul­ tidão. Chorou pode ser traduzido “pranteou.” Jesus irrompeu em pran­ tos. Lamentou a oportunidade perdida. O povo de Jerusalém não sabia o que ê devido à paz. Especialmente importante no modo hebraico de en­ tender a paz (que continua no Novo Testamento) é sua ênfase sobre a paz com Deus, o relacionamento correto entre a criatura e o Criador, como in­ grediente da paz verdadeira. Os homens de Jerusalém não tinham chegado a conhecer este aspecto. E seu fracasso quanto a entender-se com a mensa­ gem de Deus era agora definitivo. Estas coisas, disse Jesus, estão agora ocultas aos teus olhos. 43,44. A destruição da cidade é inevitável. Jesus descreve um cer­ co típico quando fala das trincheiras que os inimigos levantariam (como proteção para si mesmos e como base de onde poderiam lançar seus ata­ ques) e da cidade sendo completamente cercada (cf. Is 29:3). A palavra charax, traduzida trincheira, significa basicamente uma estaca (por exem­ plo, as que apóiam as videiras). Chega a significar madeiramento usado pa­ ra fortificar um arraial. O singular aqui é coletivo e denota uma paliçada que cerca uma cidade. Josefo nos conta que quando os romanos cerca­ ram Jerusalém, levantaram obras de cerco (Bellum, v. 262, 264). Deve ter havido boa quantidade de madeira nelas, porque os judeus as destruíram com fogo (Bellum; v. 469ss.; os romanos colocaram uma muralha no lu­ gar delas). Jesus diz, ainda, que os inimigos te arrasarão e aos teus filhos dentro de ti (cf. Sl 137:9). Isto significa a derrubada total. Não somente a cidade será tomada, como também será totalmente destruída. A repeti­ ção de tu [e suas formas] (dez vezes em dois versículos) torna tudo muito


pessoal. Jesus termina, dando a razão: porque não reconheceste a oportu­ nidade da tua visitação. Esta última palavra é muito geral. Pode significar qualquer visita, para a bênção ou a maldição. No contexto, porém, não pode haver dúvida alguma de que é a visitação divina na presença do Mes­ sias de Deus entre eles que o povo deixara de reconhecer, “o momento de Deus,” conforme traduz NEB. Há uma ignorância que é inocente, mas também há uma ignorância que é culpável. Estes homens tinham a revelação que Deus fizera conhecida nas Escrituras do Antigo Testamen­ to. Tinham a evidência continuada que Deus estava ativo na vida e no mi­ nistério de Jesus. Podiam perceber que nEle Deus nãò Se esquecera do Seu povo. Havia toda razão para eles darem as boas-vindas a Jesus confor­ me fizeram os Seus discípulos. Recusaram-se, no entanto, a aceitar toda es­ ta evidência. Rejeitaram o Messias de Deus. Agora teriam que agüentar as conseqüências da sua rejeição. Foi isto que provocou as lágrimas de Jesus.

VI. JESUS EM JERUSALÉM (19:45-2138)

Estamos quase chegando à narrativa da Paixão. Depois de Jesus chegar em Jerusalém, continuou a ensinar por um curto tempo, e Lucas relata algu­ mas das coisas que disse e fez durante aqueles dias. Tudo isto, no entanto, realmente nada mais é do que um prelúdio à Paixão.

a. A purificação do Templo (19:45,46). Todos os quatro Evangelhos têm uma história de uma purificação do Tem­ plo, embora João coloque a sua narrativa no início do ministério de Jesus, ao passo que os outros três a colocam no fim, Há motivo para pensar que houve duas purificações.65 O relato de Lucas é o mais breve de todos. Se­ gue a linha de Marcos, e a única diferença (à parte das omissões) é que on­ de Marcos cita as palavras de Jesus: “A minha casa será chamada casa de

65. Ver meu comentário: The Gospel according to John (New London Commentary), págs. 188-91, e mais detalhadamente em Explorations, Ridley CoUege Papers: 1971 (Melboume, 1971), págs. 22-28.


oração . . .” Lucas tem “A minha casa será casa de oração . . É curioso que Lucas omita as palavras “para todas as nações,” embora estejam bem adaptadas para o universalismo dele. Talvez pensasse que os gentios adora­ riam noutro lugar (cf. Jo 4:21). 45,46. Aprendemos de Marcos que este incidente ocorreu no dia depois da entrada triunfal (Mc 11:11-12, 15). Jesus descobriu negociantes no Templo. Alguns estavam trocando dinheiro (somente as moedas tirianas eram aceitas para as ofertas do Templo, e outras moedas tinham de set trocadas por este dinheiro); outros estavam vendendo animais para os sa­ crifícios. Parece que estavam fazendo seus negócios no átrio dos gentios, o único lugar no Templo onde um não-judeu poderia ir para orar e meditar. Se o sistema do Templo tinha de continuar, era necessário que fossem pro­ videnciadas tais dependências. Mas não era necessário que funcionassem no recinto do Templo, e foi isto que deu origem às objeções de Jesus. Ex­ pulsou os que ali vendiam, Lucas não menciona os que compravam, nem os cambistas, mas Mateus e Marcos nos dizem que Ele tratou deles tam­ bém. Jesus repreendeu os negociantes ao indicar a diferença entre a deso­ nestidade deles (cf. Jr 7:11) e a verdadeira natureza do Templo como casa de oração (cf. Is 56:7).

b. Ensinando no Templo (19:47,48). Durante Seu período em Jerusalém, Jesus ensinava diariamente no lugar usual para tal atividade, o templo. Lucas nos informa que Seus inimigos procuravam eliminá-lo. Já tínhamos encontrado os escribas e os princi­ pais sacerdotes, mas os maiorais do povo é uma expressão nova e intri­ gante. Indica que Jesus estava achando inimigos entre as classes dominan­ tes em gerai. Mas, embora existisse da parte dos Seus vários inimigos a von­ tade de adotar medidas extremas, não havia a oportunidade. No entusias­ mo após a entrada triunfal, o povo em geral tinha afeição demais por Je­ sus para possibilitar que algum ação fosse empreendida contra Ele. Escu­ tavam-no com grande afinco. c. A autoridade de Jesus (20:1*8) 1,2. O caráter do ensino de Jesus neste período aparece na re­ ferência à evangelização. No mesmíssimo momento em que Seus inimi­ gos estavam tramando contra Ele, Ele estava levando as boas novas de Deus ao povo. Foi interrogado pelos principais sacerdotes e os escribas,


juntamente com os anciãos\ o que dá a impressão de ser um inquérito oficial da parte do Sinédrio. As atividades recentes de Jesus não O tor­ naram querido às classes oficiais; destarte, uma delegação veio questioná-Lo. Estavam preocupados em saber com que autoridade tinha agido. A pergunta deles se refere de modo bem geral a estas coisas, mas sem dú­ vida estavam preocupados primariamente com a purificação do Templo. Que autoridade poderia justificar um homem em agir assim? Talvez Ele diria “A autoridade do Messias.” Mas então, quem Lhe dera aquela au­ toridade? 3,4. Jesus enfrentou a pergunta, dizendo: “Eu pedirei de vós uma declaração” (Rieu). João Batista tinha sido uma figura religiosa de consi­ derável destaque, e seria legítimo esperar que as autoridades eclesiásticas se pronunciassem sobre a origem do batismo dele. Além disto, a resposta à pergunta de Jesus teria dado a resposta à deles, pois João tinha testifi­ cado que Jesus era o Messias. Mas se não acreditavam na profecia feita por João a respeito do reino que se aproximava, não se poderia esperar deles que saudassem a presença dele em Jesus. 5,6. A pergunta de Jesus deixou Seus oponentes num dilema, com duas opções desagradáveis. É interessante que não parece que se preocu­ passem com os fatos do caso. Concentram-se nos efeitos que as respostas teriam, e não pensam na veracidade das respostas que vêem como possí­ veis. Nunca tinham aceito a mensagem de João. Dizer, destarte, que seu batismo era de origem celestial seria deixá-los totalmente abertos à críti­ ca, porque se fosse este o caso, deveriam ter crido nele e seguido a ele com entusiasmo. Se tivessem feito assim, teriam tido a resposta à sua pergunta, porque teriam reconhecido que Jesus derivou Sua autoridade da mesma fonte celestial que João. Não pode haver dúvida alguma de que teriam gos­ tado de dizer: Dos homens. Era assim que acreditavam. Mas a popularida­ de de João entre o povo fazia com que tal resposta não pudesse ser dada. Tinham medo de ser apedrejados pelo povo. 7,8. Destarte, não deram resposta alguma. E, da mesma forma, Jesus não deu resposta alguma a eles. Não disse que não tinha autoridade. No decurso da totalidade dos quatro Evangelhos fica claro que Ele está muito consciente de possuir a mais alta autoridade. Mas não falará acer­ ca dela a homens que não querem responder a uma pergunta direta da qual sabem a resposta. d. A parábola dos lavradores maus (20:9-18) Devemos ver esta história como sendo parcialmente uma exposição alegó­


rica do relacionamento entre Jesus e os líderes judaicos. Entendia-Se como Aquele que dirigia a eles o último apelo de Deus. Sistematicamente, os lí­ deres religiosos dos judeus rejeitaram os mensageiros de Deus (cf. Ne 9:26; Jr 7:25-26; 25:4-7; Mt 23:34; At 7:52; Hb 11:36-38). Agora o clímax es­ tá para chegar. Não é um profeta que está no meio deles, mas, sim, o Fi­ lho de Deus. Estão enfrentando a decisão mais crítica das suas vidas. 9. Jesus descreve aquilo que evidentemente era uma ação bem co­ mum da parte de um dono de terras. Plantou uma vinha e, antes de ir pa­ ra o estrangeiro, arrendou-a. Ao mesmo tempo, a linguagem relembra a linguagem vétero-testamentária acerca de Israel (cf. Is 5:1 ss.). Os inquili­ nos (geõrgoi) eram lavradores. 10-12. No devido tempo, o dono enviou um servo para receber as rendas, na forma de produtos. Mas, ao invés de pagarem o que deviam, os lavradores reagiram com violência. Cada servo que foi enviado foi tratado pior do que o anterior, e nenhum conseguiu cobrar o que era devido. Parece-nos que os lavradores se comportaram de modo írrazoável e ultrajante. Mas J. Duncan M. Derrett pensa que alguma razão pode ser dada pela con­ duta deles.66 Indica que uma vinha produziria uma receita baixíssima du­ rante os primeiros poucos anos, enquanto as videiras se estabeleciam. Du­ rante este período seria até mesmo possível que um dono, ao equilibrar as contas, devesse dinheiro aos inquilinos. Seria responsável por despesas tais como a compra de estacas, que poderiam até ultrapassar a renda. Se os inquilinos nesta história estava rejeitando a conta do dono, e alegando que ele lhes devia alguma coisa, os maus tratos dados aos mensageiros se­ riam um modo enfático de registrar seu protesto. Os despachavam “va­ zios” —’não somente sem rendas, como também tiravam dos servos o que podiam, por conta daquilo que alegavam que o dono lhes devia. Tal coisa é possível, mas não há o mínimo indício na história de Jesus de que os lavradores estavam reivindicando coisa alguma. Simplesmente rejeitavam os mensageiros, Jesus está retratando uma nação que é empedernida, e um Deus que é compassivo diante de truculência desarrazoada. Ao invés de castigar aqueles que rejeitavam os profetas, deu-lhes mais oportunidades ao enviar outros servos. 13. Na vida real, o dono decerto tomaria medidas severas. Tinha a lei de seu lado e teria tratado com dureza os trangressores. Jesus, porém, está retratando um Deus que ama além da medida e é compassivo onde tem todo direito de ser severo. Fala, portanto, do dono meditando sobre o caso, e resolvendo enviar seu filho amado (linguagem esta que nos faz


lembrar a descrição de Jesus em 3:22). Talvez o respeitem. Talvez traduz “uma expressão urbana da esperança razoável de uma pessoa” (GT). 14. Os lavradores, no entanto, reagem de modo irracional. Resol­ vem matar o herdeiro (e assim ir um passo além daquilo que fizeram com qualquer dos servos). A idéia deles é que a vinha então passará a ser deles. Há várias possibilidades aqui. Talvez pensassem que o proprietário mor­ rera e que o filho viera tomar posse. Ou o aparecimento do filho talvez lhes dera a idéia de que o pai transferira ao filho o título da vinha. Conhe­ cia-se casos em que os inquilinos reivindicavam a posse de terras que ti­ nham lavrado para proprietários ausentes (Talmude, Baba Bathra, 35b, 40b). Numa época em que a posse era às vezes incerta, qualquer pessoa que estivera usando um trecho de terra durante três anos era presumidamente o dono dela, na ausência de uma reivindicação alternativa (Mishna, Baba Bathra, 3:1). Os inquilinos claramente estavam confiando no fato de o dono estar muito longe (9). Parece que pensavam que, com toda a perturbação que a vinha lhe estava causando, nâo se daria o trabalho de fazer valer suas reivindicações. Alegariam que a vinha era deles, conforme demonstrava claramente a sua ocupação dela durante os anos anteriores, durante os quais não tinham pago aluguel a pessoa alguma. Sem dúvida, representariam o assassinato do herdeiro como sendo legítima defesa. Es­ tavam apenas repelindo um salteador que viera tirar-lhes as suas terras. São de modos semelhantes que os homens justificam o crime. A aplica­ ção alegórica demonstra que Jesus sabia que sorte O aguardava. A nação estava agindo para com Ele da mesma maneira ultrajante que os lavrado­ res se comportavam com o herdeiro. 15,16. Os lavradores levaram seu plano a efeito. Lançaram o her­ deiro fora da vinha e o mataram. Derrett sustenta que era importante que não o matassem dentro da vinha, porque isto teria contaminado a terra com o cadáver, e tomado mais difícil a venda dos frutos. Pensa que o relato de Marcos signifique que o assassinato foi levado a efeito na “tor­ re,” onde o filho poderia ser isolado num canto depois de seu séquito ser expulso da vinha. "O golpe mortal poderia ser feito lá dentro, com a es­ perança que o corpo pudesse ser carregado vivo até o muro.”67 Lucas ob­ tém o mesmo efeito com a morte ocorrendo fora da vinha. Mas os lavra­ dores não contaram com a resolução do dono. Nem desculparia nem dei­ xaria impune esta última ação. Devia ser castigada. E, visto que o crime era extremo, assim também seria o castigo. Os lavradores seriam extermina­ dos e a vinha dada a outros. Na aplicação, isto devia ser uma referência


aos gentios. Mas para os inimigos de Jesus era inconcebível que os privilé­ gios dos judeus como o povo escolhido de Deus pudessem ser dados aos gentios em circunstância alguma. Exclamam; Tal não aconteça1, (a única ocorrência desta expressão enfática em qualquer parte do Novo Testa­ mento fora dos escritos paulinos). As palavras expressam seu senso de ul* traje e horror ao interromperem, da maneira dos ouvintes em 19:25. 17. Jesus chama a atenção deles para as Escrituras. 0 que está escrito ali deve ser cumprido. Se a destruição da qual falou não deve ocorrer, então como explicam Salmo 118:22 (aliás, um texto predileto da igreja primitiva; cf. At 4:11; 1 Pe 2:7)? A principal pedra, angular era cla­ ramente uma pedra importante, mas não está certo onde ficava. Talvez tenha sido uraa pedra grande colocada numa esquina dos alicerces. Desta maneira, determinaria a posição de duas paredes e assim, o formato do edi­ fício inteiro. Ou talvez tenha sido uma pedra no cume da parede, ligando tudo junto e consumando a obra inteira. De qualquer maneira, é de gran­ de importância. Jesus está dizendo que, ainda que os homens O rejeitem, Ele é aceito por Deus, e é a aceitação dEle que conta. Ainda que os judeus façam o mesmo tipo de erro que os edificadores e O rejeitem, os propósi­ tos de Deus serão cumpridos. 18. Há uma mudança de linguagem figurada. Agora não se cogita do valor a ser atribuído à pedra, mas, sim, do poder destrutivo de uma pedra em contraste com a carne e o sangue. Cair sobre i. pedra ou sofrer a queda da pedra sobre a pessoa significa, em qualquer dos casos, a des­ truição. As pessoas podem rejeitar a Jesus e opor-se a Ele, mas são elas, e não Ele, que sofrerão. A segunda parte do dito deve referir-se ao juí­ zo futuro. Será sua atitude diante de Jesus que importará na destruição fmal dos homens dos Seus dias. A linguagem figurada aqui é derivada de Isaías 8:14-15 (cf. também Dn 2:34-35).

e. Tentativas para apanhar Jesus numa palavra (20:19-44). A parábola foi uma centelha na pólvora da oposição a Jesus. Mas tendo em vista a atitude do povo, a violência seria arriscada. Poderia provocar um motim, e ninguém poderia saber onde acabaria um motim. Os romanos, interviriam, e os privilegiados perderiam seus privilégios. Destarte, os ini­ migos de Jesus escolheram um outro método: procuravam desacreditá-Lo. i. O tributo a César (28:19-26). Ninguém gostava de pagar im­ postos aos romanos. Uma pergunta sobre os impostos parecia ter a certe­ za de resultar numa resposta que deixaria Jesus em maus lençóis, ou com


os romanos, que queriam que os impostos fossem pagos, ou com os judeus, que nio queriam. A pergunta, portanto, visava alienar o apoio de Jesus en­ tre o povo, ou, alternativamente, colocá-Lo numa posição em que os ro­ manos (nío a hierarquia judaica!) tomariam medidas contra Ele. 19, 20. As autoridades procuraram prender Jesus, mas nem Lucas nem qualquer outro dos Evangelistas nos dizem até onde foram na tenta­ tiva. Mas todos tornam claro que a razão do seu fracasso não foi qualquer falta de vontade. O que evitava a prisão era o medo que elas tinham do povo. Prender Jesus diante do entusiasmo popular era um serviço por de­ mais arriscado. Dessarte, mudaram de tática e enviaram emissários (espias), pessoas que não seriam conhecidas como inimigas, mas que procurariam provocar Jesus a fazer alguma declaração que O deixaria em má situação diante dos romanos. Isto as capacitaria a entregá-lo à jurisdição e à autori­ dade do governador. Jesus seria removido do cenário de modo eficaz, mas elas não seriam considerados culpados. 21, 22. Os questionadores começaram com lisonjas, sem dúvida pa­ ra deixar Jesus desprevenido e para dar a si mesmos a aparência de sinceros inquiridores que procuravam a verdade e que tinham sido impressionados por Sua falta de acepção das pessoas. A pergunta diz respeito ao tributo (phoros; Mateus e Marcos têm kénsos, “imposto per capita”), um impos­ to pessoal que era diferente dos direitos alfandegários cobrados das mer­ cadorias em trânsito. Ninguém gosta, em caso algum, de pagar este tipo de imposto, e pagá-lo aos romanos odiados era, decerto, especialmente desagradável. Os questionadores perguntam se isto é licito , i. é, de acor­ do com. a lei de Deus, Obviamente estava de acordo com a lei de César, mas estes homens estavam procurando um prounciamento de um mestre religioso. Conforme já notamos, devem ter esperado com confiança que, de qualquer maneira que Jesus respondesse, ficaria em situação problemá­ tica. 23-25. Jesus não foi enganado; pelo contrário, percebeu seu ar­ dil (panourgia tem implicações de falta de escrúpulos, a “disposição para fazer qualquer coisa,” AG). Mandou vir um denário. Esta era uma moe­ da de prata romana, que tinha a efígie do Imperador Tibério carimbada sobre ela. Exigia-se que o imposto fosse pago com moedas romanas. Vá­ rias outras moedas, tais como a grega e a tiriana, bem como a judaica, circulavam na Judéia naqueles tempos, e os piedosos provavelmente evi­ tassem tanto quanto possível o emprego de moedas com a cabeça de Cé­ sar carimbada nelas. Estes homens, porém, podiam produzir um denário a pedido, e, ao assim fazerem, tinham em mãos a resposta à sua pergunta, se apenas pensassem suficientemente sobre o assunto. Jesus passou a per-


guntar de quem era a efígie, e recebeu a resposta: De César. Esta resposta Lhe deu a abertura para responder: Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que ê de Deus. Derrett vê uma referência ao Antigo Testamento (Ec 8:2) e pensa que o significado das palavras é: “Obedecei os mandamen­ tos do rei e (assim) obedecereis os mandamentos de Deus.” Comenta: “A obediência até aos governantes não-judaicos está dentro da obediência compreensiva a Deus.”68 A dificuldade no caminho desta interpretação acha-se em ver por que a resposta teve o efeito que teve. Os inimigos, admirados, calaram-se. Esta resposta teria sido séria mas não surpreenden­ te. Todos os três Sinotistas tornam claro que a resposta deixou os críti­ cos confusos. Nio deixava lugar para uma acusação de deslealdade a Cé­ sar, mas também ressaltava a lealdade a Deus. Jesus está dizendo que o homem é cidadão do céu e da terra ao mesmo tempo. Não se trata de dividir a vida em compartimentos, como se os deveres de qualquer destas cidadanias pudessem ser cumpridos sem referência àqueles da outra. Sig­ nifica que o homem tem mais do que uma lealdade, e que não pode ne­ gligenciar nenhuma das duas. O Estado deve ser respeitado e suas diretri­ zes obedecidas dentro da sua própria esfera. Segue-se que o Estado corre­ tamente cobra seus impostos para desempenhar suas funções. Nota-se que em resposta ao reconhecimento de que a efígie e a inscrição são de César, Jesus diz Dai pois (toimin) . . . A obrigação surge de um reconheci­ mento do lugar de Cesar, e este é demonstrado pelo uso das moedas de César. Vale a pena notar também que, embora os questionadores pergun­ tavam se era lícito dar, Jesus responde que devem “prestar,” onde o verbo apodidòmi transmite o pensamento de “pagar o que é devido.” Aqueles que tiram benefícios do Estado têm a obrigação de prestar contas ao Estado na forma de impostos. Mas quando o homem paga a César aquilo que é devido a César, sempre deve ter em mente que os direitos de César são limitados. César não tem direitos no domínio de Deus. A pri­ meira lealdade do cristão, a sobrepujante, é a Deus. Isto não o justifica em renunciar sua lealdade a César, mas certamente significa que a área mais significante da sua vida não pertence a César. Se César se desgarra para dentro daquela área, não pode exigir lealdade alguma. 26. Lucas dá uma descrição mais completa do efeito sobre os questionadores do que os demais Sinotistas. Revelaram-se incapazes de apanhá-lo. A pergunta deles parecia certeira para produzir o efeito dese­ jado, mas revelara-se um rojão molhado. Ficaram, portanto, admirados, e foram reduzidos ao silêncio.


ii. Os sete irmãos (20:2740). O interrogatório incansável conti­ nua, sendo que o grupo de saduceus toma o lugar dos fariseus desbarata­ dos. Tendo em vista o v. 19, é possível que alguns saduceus tenham sido incluídos no grupo anterior. Seja como for, agora aparecem com uma per­ gunta só deles. . 27. Os saduceus são mencionados apenas aqui neste Evangelho. Nenhum dos escritos dos saduceus sobreviveu até nosso tempo, de modo que nossas informações acerca deles são fragmentárias, e somente vemos os saduceus através dos olhos dos seus oponentes. O nome parece ser de­ rivado de Zadoque (cf. 1 Rs 1:8; 2:35), de modo que eram “zadoquitas.” Eram o partido conservador, aristocrático, sumo-sacerdotal, de mentalidade mundana e muito dispostos a cooperar com os romanos, o que, naturalmente, os capacitou a manter sua posição de privilégio. Os nacionalistas patrióticos e os homens piedosos da religião eram igual­ mente opostos a eles. Freqüentemente se diz que reconheciam como Escritura Sagrada apenas o Pentateuco, mas nenhuma evidência é citada para isto, e parece altamente improvável. A Septuaginta é evidência de que antes dos tempos do Novo Testamento o cânon do Antigo Testa­ mento estava praticamente fixo, e nâo parece haver razão alguma porque um partido judaico de destaque tivesse rejeitado a maior parte dele. O que está atestado é que rejeitavam a tradição oral à qual os fariseus davam tanto valor, e aceitavam apenas a Escritura escrita (Josefo, Antiguidades xiii.297). Negavam a totalidade da doutrina da vida do além e das recom­ pensas e dos castigos além do túmulo (Josefo, Antiguidades xviii.16, Bellum, ii. 165; cf. At 23:8). Provavelmente pensavam na ressurreição co­ mo sendo uma idéia da última moda importada da Pérsia depois do perío­ do vétero-testamentário. 28. Procuram ridicularizar a idéia da ressurreição ao referir-se ao casamento por levirato. Trata-se de uma disposição para evitar que o no­ me e a família de um homem perecessem. Quando um homem morria sem filhos, seu irmão devia ficar com a viúva e suscitar filhos para o fale­ cido (Dt 25:5ss.). Não muitos exemplos são registrados, e, interessante­ mente, parece que aqueles poucos consideram o filho como sendo filho do pai natural e não do falecido (cf. Rt 4:5, 21). Já nos tempos do Novo Testamento, parece que este costume caíra em desuso, de modo que a pergunta era apenas acadêmica. Mas os saduceus podiam argumentar que havia disposição neste sentido na Lei, e que a Lei, portanto, pelo menos por implicação, rejeita a doutrina da ressurreição. 29-33. Contaram uma história de sete irmãos, todos os quais, nalgum tempo ou outro, tinham sido casados com a mesma mulher, em


cada caso sem ela ter filho. Os saduceus postularam o problema de quem ela seria esposa depois de vinda a ressurreição. Claramente consideravam impossível uma resposta específica, e que a impossibilidade de uma res­ posta demonstrava a impossibilidade de uma ressurreição. 34-36. Jesus falou primeiramente das condições desta vida presente. Os filhos deste mundo é uma expressão que se acha noutra parte do Novo Testamento apenas em 16:8, onde é distinguida dos “filhos da luz.” Aqui, porém, denota todos quantos vivem neste mundo. Casam-se, e dão-se em casamento. Alguns poucos MSS acrescentam “sio gerados e geram” e alguns sustentam que este texto era original. Parece improvável à luz da evidência, mas o texto indica as condições desta vida que estão em con­ traste com a do porvir. Onde a doutrina da ressurreição era sustentada entre os judeus, era usualmente vista como um prolongamento indefini­ do desta vida. Sem dúvida, haveria modificações e melhorias. Todos os inimigos seriam derrotados e os deleites seriam multiplicados. Mas essen­ cialmente seria o mesmo tipo de vida que esta. Alguns tinham tanta certeza da continuação das condições terrestres que discutiam seriamente se os ressurretos precisariam de purificação cerimonial pela razão que tinha es­ tado em contato com um cadáver (Niddah 70b). Jesus rejeita tudo isto. A vida no céu será relevantemente diferente de qualquer coisa na terra. Os relacionamentos humanos são, em grande medida, uma questão de lugar e de tempo: forçosamente serão diferentes quando nenhum destes dois for aplicável. O pensamento judaico do melhor tipo reconhecia algo disto, e ocasionalmente rejeitava o conceito do céu como um lugar de deleites materiais, e favorecia o conceito de que é basicamente “festejar-se no bri­ lho da presença divina” (Berakhoth 17a). Jesus somente fala dos salvos, não de todos os falecidos. Vê-os como havidos por dignos, que nos relem­ bra não somente que não merecem seus lugares pelos seus méritos, e tam­ bém que têm uma alta dignidade. Passa a falar deles terem alcançado a era vindoura e a ressurreição dentre os mortos. Estas expressões não são, naturalmente, diferentes, porque a ressurreição é o meio de atingir aque­ la era. Jesus não fala da ressurreição “dos mortos,” da ressurreição geral, mas, sim, daquela “dentre os mortos,” a ressurreição dos justos. Acerca das pessoas dentro deste grupo, Jesus diz três coisas. Primeiro: que o casa­ mento não se aplica a eles. Neste mundo, é um aspecto necessário da vida, mas a vida na era vindoura é diferente. Segundo:nâo podem mais morrer. O pois que liga esta declaração com a anterior é importante. As pessoas se juntam no casamento para preservar a raça humana, mas onde não há mor­ te isto não é necessário. Jesus não diz que não morrerão, mas, sim, que não podem morrer. A qualidade da vida na era vindoura será tal que a


morte nio a poderá tocar. Terceiro: são iguais aos anjos, e são filhos de Deus. Lucas pode ter cunhado a palavra isangelloi, iguais a anjos, pois não é atestada antes desta passagem. Seu significado inclui a possessão dalgumas das propriedades dos anjos, porque está envolvida mais do que a posição de dignidade. E questão também de natureza e de função, pois o casamento está especialmente em discussão aqui. Há um sentido em que os crentes já são filhos de Deus. Nasceram de novo; foram adotados na família em que podem dizer “Pai nosso.” Mas há certo sentido em que sua filiação não será consumada até a era do porvir, e que é este sentido mais pleno que está em mira aqui. A ausência do casamento não importa, por assim dizer, em nivelar para baixo os relacionamentos de modo que a vida fique num nível inferior. Pelo contrário, é ser elevado para a ple­ nitude da vida na família de Deus. Lucas acrescenta a razão: sendo filhos da ressurreição (expressão esta que não é achada nos paralelos). A ressur­ reição deles é evidência que possuem aquela qualidade da filiação que os capacita a ser comparados com anjos. 37, 38. Jesus não Se restringe a aparar a pergunta. Passa a demons­ trar que a ressurreição é .subentendida no Antigo Testamento. Além dis­ to, não apela a algum versículo obscuro, até então não notado por nin­ guém, mas, sim, àquela passagem de importância central em que Deus revelou Seu Nome, com tudo quanto ele significa. Fala do trecho refe­ rente à sarça (Êx 3:1-6). A Bíblia daqueles dias não tinha capítulos e ver­ sículos, e as referências eram feitas em termos de conteúdo. Deus aqui é chamado o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó. Cada um destes patriarcas aqui mencionados já havia muito estava morto quan­ do estas palavras foram pronunciadas. Destarte, a declaração de que Deus não é Deus de mortos, e, sim, de vivos pode ser verídica somente se es­ tão vivos além do túmulo. A alternativa é pensar que Deus é o Deus de seres não-existentes, o que é absurdo. Caird entende que o argumento pode ser reformulado nos seus termos com grande impacto em nossa era: “toda a vida, aqui e no além, consiste em amizade com Deus. . . A morte pode colocar um fim na existência física, mas não a um relacionamento que é por natureza eterno. Os homens podem perder seus amigos pela morte, mas não Deus.” Nossa certeza da ressurreição baseia-se, não nalguma doutrina especulativa da imortalidade da alma, mas, sim, no fato do amor eterno de Deus. Lucas acrescenta algumas palavras que não estão nos demais rela­ tos: porque para ele todos vivem. Para nós, estão mortos, mas não para Deus. A morte não pode romper seu relacionamento com Ele. Há um ditado judaico, aproximadamente contemporâneo: “aqueles que morrem


por amor a Deus vivem para Deus” (a construção é idêntica com aquela em Lucas) “assim como vivem Abraão e Isaque e Jacó e todos os patriar­ cas” (4 Mac. 16:25). 39,40. Isso colocou um ponto final nas perguntas dos saduceus. Alguns dos escribas, i.é, membros doutros partidos, neste caso provavel­ mente fariseus, deram a Jesus o elogio de dizer que respondera bem. Os saduceus não eram populares, e provavelmente muitas pessoas ficaram alegres em vê-los tão confusos que não ousaram mais interrogar a Jesus. iii. O Filho de Davi (20:41-44). Jesus rematou a sessão de pergun­ tas ao postular uma Ele mesmo. O problema que levantou surge do hábito na antiguidade de considerar gerações anteriores como maiores e mais sá­ bias do que a geração presente. Davi era o rei ideal, e seus descendentes eram por definição menores do que ele. Mas ele mesmo se referia ao Mes­ sias como sendo Senhor (Sl 110:1). Como, pois, poderia ser filho de Davi, conforme diziam os escribas? Lucas não quer dizer, é lógico, que Jesus está negando Sua descendência davídica. Deixou clara aquela descendên­ cia repetidas vezes (1:27, 32, 69; 2:4; 18:38-39) e sua história do nasci­ mento virginal, da qual seus leitores perceberiam que Cristo preexistia, demonstra que até mesmo segundo as premissas dos escribas, Jesus era maior do que Davi. Mas surgiu a pergunta: “Como os escribas entendiam o Salmo?” Jesus também está esclarecendo um mal-entendimento acer­ ca do Messiado. As pessoas que empregavam o título “Filho de Davi” (18:38, 38; Mt 21:9) claramente imaginavam que o Messias era alguém que derrotaria todos os inimigos de Israel e traria um novo reino davídico. Pensavam que o filho de Davi era semelhante a Davi na Sua pessoa, ponto de vista e realização. Não há falta de escritos judaicos do período que falam do Filho de Davi em termos de um nacionalismo estreito que esperava o triunfo de Israel sobre todos os seus inimigos (e.g, os Salmos de Salomão). Jesus quer que percebamos que o Messias não era filho de Davi naquele sentido mesquinho. Era Senhor, Senhor dos corações e vidas dos homens. Chamá-Lo de Senhor de modo significante é vê-Lo co­ mo sendo muito maior do que meramente um outro Davi.

f. Advertência contra os escribas (20:45-47). Jesus passa a fazer uma advertência contra os escribas. Vestes talares eram um sinal de distinção, e marcavam os que as usavam como cava­ lheiros de lazer, pois qualquer pessoa que trabalhava para seu sustento não poderia ser embaraçada com tais roupas. As saudações públicas,


bons lugares nas sinagogas, e banquetes eram mais marcas ostensivas de eminência que os escribas cobiçavam com afff. Mas embora gostas­ sem de brilhar assim diante dos homens, nâo tomavam cuidado de co­ mo apareciam diante de Deus. Devoram as casas das viúvas é uma refe­ rência a práticas que resultavam em perda para as viúvas, o grupo mais indefeso daqueles dias. Era proibido aos escribas aceitar dinheiro pelas suas aulas. Deviam tornar seus conhecimentos disponíveis sem nada co­ brar, o que faziam. Nada havia, no entanto, para impedir as pessoas de dar presentes aos ensinadores, e isto era considerado meritório. Eviden­ temente alguns dos escribas encorajavam viúvas impressionáveis a fazer ofertas além das suas possibilidades. Outra coisa que pesava contra eles era que suas orações eram destacadas pela sua duração mais do que pela sua profundidade. Tais orações davam a ilusão de piedade, mas já que eram para justificar sua desonestidade, de nada valiam diante de Deus. A pieda­ de fingida dos escribas, com sua desonestidade real, resultaria em juízo muito mais severo, maior em proporção com a estima em que levavam o povo a considerá-los, ou maior em proporção com a hipocrisia deles.

g. A oferta da viúva pobre (21 :l-4). 1,2. 0 gazofilácio era, segundo parece, o nome dado a uma seçáo do átrio das mulheres onde havia treze caixas para ofertas, com formato de trombeta. Cada uma tinha uma inscrição que indicava para qual uso seu conteúdo seria dedicado. Aqui, Jesus via os ricos fazendo suas ofertas. Lu­ cas nâo o diz, mas dá a entender que pelo menos alguns estavam dando com generosidade. Há, em contraste, a oferta de certa viúva pobre (penichra). A palavra que Lucas usa é incomum (somente aqui no Novo Testa­ mento) e talvez queira ressaltar o estado de penúria dela com o vocábulo que escolheu. Uma viúva tinha poucos meios de ganhar a vida na Judéia do século I, e normalmente achava a vida muito difícil. Uma viúva pobre, portanto, é quase proverbial para a mais pobre das pessoas. Esta fez uma oferta de apenas duas pequenas moedas (lepta de cobre). A palavra deno­ ta uma pequena moeda judaica (aliás, a única moeda judaica mencionada no Novo Testamento). Seu valor monetário era baixo (NDB o calcula em um oitavo de um centavo norte-americano —25 centavos brasileiros em fins de 1982 —e as alterações da moeda desde então importam num va­ lor ainda menor). Os comentaristas freqüentemente dizem que os adora­ dores nâo tinham licença de fazer ofertas de menos de duas lepta, de mo­ do que esta representava a oferta mínima. Mas a passagem talmúdica que


diz respeito ao problema nâo diz que uma oferta de um lepton é proibi­ da. Simplesmente diz que ninguém deve colocar um lepton na caixa de caridade a nio ser sob supervisão apropriada (Baba Bathra 1Ob). 3,4. Jesus mostra que o valor monetário de uma dádiva não é tudo. Há um sentido em que a viúva fez a maior oferta de todas. As pa­ lavras de Jesus, deu mais do que todos, significam, literalmente, não “mais do quç qualquer deles,” mas, sim “mais do que todos eles juntos.” Se a medida da oferta fosse o que sobrou depois de dar, ela certamente ultrapassou a todos eles, porque eles deram daquüo que lhes sobrava e, portanto, ainda tinham muito dinheiro. Ela deu tudo quanto tinha. Este é sacrifício real. h. O discurso escatológico (21:5-36). Cada um dos Evangelhos Sinóticos contém um relato deste discurso, em­ bora haja algumas diferenças. Há alguns problemas exegéticos enigmáti­ cos, notavelmente aqueles que são levantados pelo fato de que parte do discurso parece aplicar-se ao fim de todas as coisas, e parte à destruição de Jerusalém. Em Lucas a distinção entre os dois acontecimentos parece mais clara do que nos demais, e alguns estudiosos vêem nisto a contri­ buição distintiva de Lucas à escatologia. Ellis nota que o discurso nos apresenta problemas, mas vê dois elementos que devem ser levados em conta: Jesus “realmente anunciou um fim vindouro do mundo, e real­ mente contava com um intervalo considerável e indefinido antes do fim.” 0 discurso expressa a certeza de Jesus quanto ao triunfo final, embora houvesse dias escuros pela frente, E termina com um desafio animador aos Seus seguidores no sentido de serem vigilantes e de não se deixarem sobrecarregar com as dificuldades deste mundo. Boa parte da linguagem relembra passagens do Antigo Testamento (e.g. 2 Cr 15:6; Is 8:21-22; 13:13; Jr 34:17), que talvez seja uma maneira de enfatizar que o que Jesus estava descrevendo era uma visitação divina. i. O sinal (21:5-7). O discurso é introduzido pelo pedido dos discípulos por um sinal da destruição vindoura. Enquanto saíam do Templo (Mc 13:1) um deles comentou a magnificência da edificação. As belas pedras eram as grandes pedras usadas em erigir a construção (algu­ mas pedras enormes ainda podem ser vistas no “muro das lamentações”, mas este muro fazia parte da infra-estrutura, e não do Templo propria­ mente dito). Segundo Josefo, algumas delas tinham até quarenta e cinco côvados de comprimento. As dádivas seriam ofertas decorativas tais como a videira de ouro que Herodes deu, com “cachos de uvas tão altos como


um homem” (Josefo, Bellum v.210). A resposta de Jesus é uma profecia da sua total destruição. Os discípulos, portanto, perguntam quando is­ to acontecerá e qual sinal o antecederá, 11. O conflito entre as nações (21:8-ll). Jesus não dá um só sinal específico; mas adverte Seus seguidores a não se deixarem enganar pelos acontecimentos tumultuosos que ocorreriam no decurso do tempo. 8. Jesus adverte os discípulos a não serem enganados, e passa a fa­ lar de falsos cristos, aqueles que vêem em meu nome, i. é, que alegam ser aquilo que Cristo é. Dirão: Sou eu! Embora a pessoa nio seja defini­ da, claramente significa o Messias. A reivindicação da autoridade messiâ­ nica é seguida por uma predição de que a hora, o tempo do fim, o tempo da libertação nacional, está próxima. A relevância destas palavras não de­ ve passar desapercebida. Jesus não estava predizendo o fim do mundo dentro do período da vida dos homens que então viviam. Considerava como falsos profetas os que faziam tais predições. 9-11. Não somente haveria pretensos messias na Judéia, como também haveria calamidades entre as nações em geral. Jesus adverte Seus seguidores a não ficarem assustados com as guerras e acontecimentos semelhantes. Tais calamidades virão, bem como os fenômenos físicos tais como terremotos, epidemias e fome, e grandes sinais no céu, i.é, entre as estrelas, não especificados. iii. A perseguição (21:12-19). Fica claro que os tempos calami­ tosos dos quais Jesus falava seriam períodos de dificuldades especiais para Seus seguidores. Seriam perseguidos; mas terão recursos para enfrentar todas as dificuldades. 12. Antes das calamidades mundiais haveria problemas eclesiás­ ticos. Jesus não diz quais são aqueles que lançarão mão dos discípulos e os perseguirão. É uma referência geral a autoridades antagônicas. Ten­ demos a pensar em sinagogas como sendo lugares de culto, mas não de­ vemos olvidar suas funções mais amplas de centros de administração e educação. Eram os centros da vida judaica, e a lei judaica era administrada nelas à medida em que era aplicável (cf. 12:11). O emprego do teimo mos­ tra que os seguidores de Jesus devem esperar oposição dos judeus. Cárceres indicam a certeza da condenação, ao passo que a referência a reis e gover­ nadores demonstra que as autoridades perseguidoras serão gentias bem como judias. 13-15. Não se trata meramente de desgraças; é uma oportunidade de se dar testemunho. Este testemunho não é uma demonstração de orató­ ria virtuosa. Significa dar testemunho daquilo que Deus tem feito. E o pró­ prio Deus providenciará os meios mediante os quais poderão fazer assim.


Nem sequer devem preparar o que hào de dizer (o verbo promeletan, “meditar de antemão”, é um termo técnico para preparar um discurso; ver AG). Isto, naturalmente, nada tem a ver com sermões e preleções que o cristão deve preparar tio fielmente quanto qualquer outra pessoa. Referese às respostas que os crentes serão repentinamente chamados para dar às autoridades hostis em tempos de perseguição. Em tais ocasiões, Jesus lhes dará boca e sabedoria (cf. 12:11*12), tanto a eloqüência quanto o entendi­ mento. E isto será tão eficaz que inimigo nio terá capacidade de resistir nem contradizer. 16,17. Jesus nâo subestima a seriedade das desgraças. As famílias serio divididas, e algumas pessoas entregario parentes, até mesmo paren­ tes próximos, aos perseguidores. Jesus deixa claro que o que acabou de dizer nio significa que os crentes podem ter a certeza de que serio livra­ dos. Alguns deles nio escaparão. O crente pode ter certeza que Deus está em controle e que Ele realizará Seu propósito, mas ele nio pode ter a certeza qual posiçio ele tem naquele propósito. Pode ser morto e chegar ao seu triunfo eterno através da morte, ou pode sobreviver. A certeza dele está no triunfo de Deus, e nio em como este será realizado durante a sua vida. A oposiçio virá nio somente de dentro da família, mas também do mundo em geral. O mundo odiará os seguidores de Cristo assim como odiou a Ele (cf. Jo 15:18ss.). 18,19. A primeira vista, estas palavras contradizem os versículos anteriores. A reconcüiaçio acha-se no pensamento da soberania sobrepujante de Deus. O mundo nio pode fazer dano algum aos servos de Deus a nio ser que Ele o permita. Nâo se perderá um só fio de cabelo da vossa cabeça. Bengel pensa que vemos o significado se fizermos um acréscimo tal como “sem a providência especial de Deus, —sem seu galardio, —an­ tes do seu tempo.” Alguns vêem uma referência à segurança espiritual (e.g. Plummer), mas isto dificilmente se encaixa na linguagem. Outros sustentam que, embora os indivíduos possam perecer, a comunidade dos discípulos será segura, mas a mesma objeçío se aplica. Parece melhor entender que Jesus está dirigindo as mentes deles ao controle e propósi­ to de Deus. À luz destes, são exortados à perseverança e à constância. A perseverança até ao fim, e nio algum momento espalhafatoso porém isolado de resistência, é o que é necessário. iv. A destruição de Jerusalém (21:20-24). Lucas deixa claro que esta seçio do discurso se refere à destruição de Jerusalém e nio ao tempo do fim. Tem alguma matéria que nio se acha nos demais Sinóti­ cos, ao passo que, inversamente, omite algumas coisas que eles incluem, tais como a referência ao “sacrilégio que desola” (Mt 24:15; Mc 13:14), -fc.


que provavelmente nio tenha significado muita coisa aos seus leitores gentios. 20- É difícil seguir o raciocínio dos críticos que sustentam que este versículo demonstra que Lucas estava escrevendo após a queda de Jerusalém. A prediçio é bem geral, e nâo há indício de que Lucas tives­ se qualquer conhecimento do tipo de detalhe achado, por exemplo, em Josefo. Talvez seja signifxcante que, embora Caird date este Evangelho depois de 70 d.C., recusa-se a ver evidência em prol da sua data nesta predição. Pelo contrário, pensa que Lucas está usando fontes escritas an­ tes da destruição da cidade. Diz, também, que “nio pode haver dúvida alguma de que Jesus repetidas vezes previu o fim violento em direção do qual Jerusalém estava se apressando.” O particípio traduzido sitiada quer dizer “sendo sitiada” (cf. Rieu, “Quando virdes exércitos fechando o cerco ao redor de Jerusalém”). Se o sítio já fosse completo, as instruções de Jesus nio poderiam ser levadas a efeito. 21,22. Em tempos de guerra o povo do interior Yinha para as ci­ dades muradas, procurando proteção. Jesus diz aos Seus ouvintes que, tendo em vista a destruição iminente de Jerusalém, devem ficar tão lon­ ge dela quanto possível. Os montes seriam inacessíveis e o lugar mais se­ guro. De fato, quando os romanos começaram a investir contra Jerusa­ lém, os cristãos locais, na sua maioria, fugiram para Pela, uma das cida­ des da Decápolis e situada na Transjordânia, ao sul do mar da Galiléia (Eusébio diz que foram em resposta a “um oráculo dado por revelação,” que pode referir-se às palavras de Jesus, ou a uma injunção de um tipo semelhante da parte de um profeta cristão; ver História Ecclesiastica III.v.3). Dias de vingança, ou “o tempo da retribuição” (NEB; cf. Sl 94: 1; Is 34:8, etc), são dias em que as pessoas serio castigadas pelos seus pe­ cados. O que há de acontecer a Jerusalém nio é arbitrário, mas, sim, a penalidade devida. O cumprimento da Escritura demonstra que o julga­ mento divino está sendo executado. 23,24. Um cerco trazia sofrimentos a todos, mas especialmente a pessoas tais como mulheres grávidas e as que tinham crianças pequenas. A destruição, porém, será total. Haverá aflição em toda aquela terra, e ira contra o povo. Josefo nos diz que 97.000 foram levados cativos durante a guerra, e 1.100.000 foram mortos no cerco (Bellum vi.420). Ainda quan­ do levamos em conta qualquer exagero, fica claro que a perda de vidas foi estonteante Jesus passa a falar dos tempos dos gentios Esta nio é uma .

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69. Parece que Jerusalém não podia conter os números acerca dos quais Jose­ fo fala. J. Jeremias calcula com base em que, na Páscoa, havia três grupos de adora­


expressão fácil, e uma variedade de explicações tem sido sugerida: o tem­ po para os gentios executarem os julgamentos de Deus, ou para serem supemos sobre Israel, ou para exercerem os privilégios que dantes perten­ ciam a Israel, ou para receberem a pregação do evangelho. A referência a estes tempos como serem para ser “completados” indica que há neles um propósito divino. v. A vinda do Filho do homem (21:25-28). Na opinião da maio­ ria dos estudiosos, a atenção agora avança para a vinda do Filho do Ho­ mem. Há, naturalmente, muitos que sustentam que a referência ainda é à queda de Jerusalém, como Tasker, por exemplo, faz na sua discussão da passagem correspondente em Mateus.70 A linguagem, porém, parece mais apropriada para a parusia (e.g. v. 27; cf. 35). Jesus está indicando sinais que precederão Sua vinda, e ensinando Seus seguidores a não fica­ rem desanimados. 25,26. Em linguagem apocalíptica vivida Jesus fala dos portentos celestiais. Não é fácil perceber até que ponto as palavras visam ser tomadas literalmente. Tal linguagem é freqüentemente empregada na apocalíptica para denotar a mudança repentina e violenta, e a emergência de uma nova ordem. De qualquer maneira, esta será a parte principal do significado aqui. Os homens ficarão perplexos e amedrontados. Saberão que coisas estranhas estão acontecendo, mas não compreenderão o que lhes está para acontecer. 27, 28. Jesus diz que Ele virá com poder e grande glória. Tinsley e outros pensam que isto significa uma ida para Deus (como em Dn 7:13). Mas este seria um significado desnatural para o particípio erchomenon, que significa “vindo” ao invés de “indo.”71 Vir com glória indica o poder real. Somente Lucas preserva o mandamento exultai e erguei as vossas cabeças. dores vindo sacrificar seus animais, sendo que os dois primeiros enchiam totalmente o átrio. Computando dois homens (cada um com seu animal) por metro quadrado, o átrio poderia comportar 6.400 num aperto total. Visto que o terceiro grupo não era tão grande, o total dos três seria 18,000. Com dez adoradores por vítima sacrificial, chega-se assim a um total de 180.000 na festa da Páscoa (Jerusalem in the Time o f Jesus, págs. 77ss.). Sem os peregrinos, acha que a população normal era de 25.00030.000. 70. Ver mais a discussão em R. T, France, Jesus and the OU Testament (Londres, 1971), págs. 227-239. Está primariamente ocupado com Mc 13:24-27, mas boa parte daquilo que diz é relevante ao equivalente em Lucas. 71. F. F. Bruce argumenta que o significado da palavra “vir” no paralelo Mc 13:26 é uma vinda à terra, não uma ida ao céu {Baker ’s Dictiomry o f Theology, ed. E. F. Harrison (Grand Rapids, 1960), pág. 192).


Quando os sinais enigmáticos começam a ocorrer, os seguidores de Jesus não precisam ser desanimados. Está perto o livramento deles. Redenção significa “soltura mediante o pagamento de um preço.” Em certo sentido, a redenção foi realizada de modo definitivo sobre a cruz; mas o desdobrar da sua implicação plena ainda é futuro, e é disto que Jesus fala. vi. A parábola da figueira (21:29-33). Esta pequena parábola es­ tá em todos os Sinotistas, embora somente Lucas acrescenta e todas as árvores à referência à figueira. O aparecimento de folhas nas árvores demonstra que o verão está perto. De modo semelhante, as ocorrências dos sinais mencionados demonstra a aproximação do reino. Não é fácil perceber o que significa esta geração que não passará sem que tudo isto aconteça. Alguns vêem uma referência aos homens que então estavam vi­ vos, e vêem o cumprimento na queda de Jerusalém. O contexto parece ser contra tal idéia, a não ser, com Plummer, que vejamos a queda de Jerusa­ lém como sendo um tipo do fim. Muitos pensam que Jesus estava profeti­ zando o fim de todas as coisas dentro de uns poucos anos, e que estava enganado. Tendo em vista Sua explícita negação de ter conhecimento quanto a isto (Mc 13:22), isto parece ser muito improvável. Além disto, conforme indicaram muitos críticos, é impossível sustentar que Lucas, que registrou estas palavras, entendia que tivessem este significado. Na igreja primitiva era freqüentemente sustentado que havia referência à ge­ ração dos seguidores de Cristo, de modo que os eleitos persistiriam bem até ao fim. Outros vêem uma referência à nação judaica (e.g. Ryle). Outros pensaram que Lucas quer que entendamos o termo no sentido da “huma­ nidade” (Leaney, Harrington). Lenski chama atenção ao uso freqüente de “geração” no Antigo Testamento para denotar um tipo de homem, espe­ cialmente o mau (e.g. Sl 12:7), mas também o bom (e.g. Sl 14:5). De mo­ do semelhante, Ellis indica que nos rolos de Cunrã o termo “última gera­ ção” aparentemente “incluía várias vezes a duração de uma vida.” Parece que é algo assim que Jesus tem em mente. Este uso incomum de gemção concentra no tipo de pessoa que persistiria até ao fim. A expressão “sig­ nifica somente a última fase na história da redenção . . . A revelação públi­ ca do reino realmente está ali pertinho, mas sua data pelo calendário é deixada indeterminada” (Ellis). O parágrafo termina com a asseveração de que as palavras de Jesus têm uma permanência que não é inerente ao universo material. vii. Estai prontos (21:34-36). Os seguidores de Jesus devem vi­ ver à luz destes eventos futuros emocionantes e não ceder à tentação de imitar os homens do mundo. Conseqüências da orgia (kraipalê) é a “res­


saca”, “a palavra vulgar para aquela experiência muito vulgar.”72 As con­ seqüências da orgia e da embriaguez sio pecados completamente fora de cogitação para o cristão, mas, conforme observa Ryle, “Não há nenhum pecado tio grande que um grande santo nio possa cair nele: nio há ne­ nhum santo tio grande que nio possa cair num grande pecado.'Ms preo­ cupações deste mundo sio muito mais insidiosas, mas qualquer tipo de falha pode levar um homem a ser despreparado. V. 35 deixa claro que Je­ sus está falando acerca do fim de todas as coisas, e v. 36, que Seus segui* dores têm uma responsabilidade especial. A oraçio à qual conclama envol­ ve uma atitude de vida, atitude esta que procura fugir dos pecados munda­ nos enquanto o crente se concentra no serviço de Deus. Estar em pé na presença do Filho do homem é possuir a salvaçio final.

i. Ensinando no Templo (2137,38), Lucas arremata esta parte da sua história ao contar-nos acerca do cos­ tume de Jesus naqueles dias. Ensinava de dia no Templo, e ia pousar no monte chamado das Oliveiras à noite. Se o verbo èulizeto está sendo usa­ do rigorosamente, o significado é que Jesus acampava no monte. Mas nio podemos insistir quanto a isto, pois o termo às vezes e usado para habitar de modo mais permanente, e havia aldeias na área. VII. A CRUCIFICAÇÃO (22:1-23:56)

No decurso da totalidade da história da cruciílcaçio, Lucas tem muitos paralelos com os demais Sinotistas, mas também tem uma quantidade considerável de informações da sua própria fonte. E interessante que às vezes compartilhe matéria com Joio. Ressalta a inocência de Jesus e o cumprimento da Escritura (o que, naturalmente, importa na realizaçio do propósito de Deus). a. A traição (22:1-6)

\ . A rigor, a festa dos pães asmos era distinta da páscoa (Nm 28:' 16-17). Mas as duas ocorriam juntas e podiam ser consideradas a mesma72. Henry J. Cadbury, TheStyle andLiterary Method ofLuke, pág. 54.


festa. Josefo às vezes fala delas como sendo distintas entre si, mas, como Lucas, pode dar o mesmo nome às duas (Antiguidades xiv.21). Todos os nossos Evangelhos concordam que a crucificação ocorreu numa sexta-feira no período da Páscoa, mas se a Páscoa coincidiu com a Última Ceia (con­ forme parece fazer nos Sinóticos) ou com a própria crucificação (confor­ me parece que João nos diz) é uma das questões mais difíceis na interpre­ tação do Novo Testamento. Alguns vêem uma contradição direta e esco­ lhem entre elas. Outros pensam que a data sinótica é correta, e entendem que João realmente concorda. Ainda outros pensam que o ponto de vis­ ta de João é correto e que os Sinotistas não diferem. Possivelmente a me­ lhor explicação é que havia calendários diferentes em uso. Jesus morreu enquanto as vítimas da Páscoa estavam sendo sacrificadas de acordo com o calendário oficial; mas celebrara a Páscoa com Seus seguidores no entar­ decer anterior, de acordo com um calendário não-oficial.73 Concorda com isto o seguinte fato: embora todos os três Sinotistas falem da refeição como se fosse a Páscoa, nenhum deles menciona o cordeiro ou cabrito que era o aspecto central da observância da Páscoa (e que não podia ser obtido sem a concordância das autoridades do Templo). Plummer, aliás, considera importante a ausência da vítima sacrificial, pois Jesus esta­ va inaugurando alguma coisa nova, e não simplesmente continuando um costume antigo (sobre v. 11). 2. A iniciativa em opor-se a Jesus é tomada pelos principais sacer­ dotes e os escribas. Em todos os Evangelhos, os fariseus eram os oponentes principais de Jesus no decurso de todo o Seu ministério, mas o partido su­ mo-sacerdotal assumiu a liderança nisto no fim. Eram eles que detinham o poder político. Mas aquele poder não era ilimitado, e Lucas aponta uma dificuldade: temiam o povo. Uma detenção em público provavelmen­ te teria provocado uma amotinação entre os peregrinos excitáveis, sendo que muitos deles apoiavam Jesus. Os principais sacerdotes não ousavam assumir o risco. 3,4. Lucas explica a traição de Judas ao dizer que Satanás entrou nele (cf. Jo 13:27). Nem Lucas nem qualquer dos outros Evangelistas vi­ lipendia Judas. Simplesmente declaram os fatos e ressaltam a enormidade da traição meramente por meio de dizer que era um dos doze. Judas to­ mou a iniciativa e procurou o partido hostil. Somente Lucas nos informa que os capitães (i.é, comandantes da guarda do Templo) estavam envolvi­ dos. Não fica claro por que Judas traiu Jesus. Um dos motivos era a ava­ 73. Desejaria referir-me à minha discussão da questão em The Gospel according to John (New London Commentary), págs. 774-786.


reza decepcionada (Mt 26:14-15, que segue diretamente após a história da unçio com seu “desperdício” ; Jo 12:6). Alguns procuraram pintá-lo em cores melhores, sugerindo, por exemplo, que estava procurando levar Je­ sus a uma posiçio em que seria obrigado a exercer Seu poder e inaugurar o reino. Sem levar em conta a consideraçio, que nio deixa de ser impor­ tante, que tal fato colocaria Judas em pé de igualdade com Satanás na nar­ rativa da Tentaçio, todas as tentativas deste tipo sio especulaçio. Nio há fundamento para elas nos textos. 5, 6. Como era bastante natural, os inimigos se alegraram com es­ ta apostasia. Simplificava a tarefa deles. Combinaram o preço (citado somente em Mt 26:15). Visto que Jesus desfrutava de tanto apoio popu­ lar, era importante que fosse preso quando nio havia multidões presentes para começar um tumulto.

b. No cenáculo (22:7-38).

O relato mais completo do que ocorreu no cenáculo na noite antes da crucificaçio é dado em Joio. O de Lucas nio é tio pormenorizado, mas é mais longo do que os em Mateus e Marcos, e ele tem algumas informações só dele. i. Os preparativos (22:7*13). A Páscoa nio era apenas mais uma refeiçio, mas, sim, uma festa muitíssimo importante. Devia ser comida em posiçio reclinada, e havia exigências tais como a inclusão de ervas amargas na refeiçio. Destarte, uma quantidade considerável de prepâraçio era ne­ cessária. A refeiçio nio era solitária, mas, sim, era comida em grupos que usualmente consistiam de dez a vinte pessoas. 7. O dia dos pães asmos é uma expressio incomum, e talvez signi­ fique o dia em que todo o fermento era removido dos lares como prepa­ rativo para a festa. Era o dia em que a festa combinada começava. O dia de abertura era aquele em que as vítimas da Páscoa eram sacrificadas, conforme nota Lucas. Se temos razio em ver uma diferença de calendá­ rios, este teria sido, nio o dia em que as vítimas realmente eram sacrifi­ cadas mas, sim, aquele em que deveriam ter sido sacrificados de acordo com o calendário que Jesus estava seguindo. Os dois calendários concor­ dam que as vítimas deviam ser sacrificadas no primeiro dia: a diferença dizia respeito a qual dia era aquele. 8 , 9. Jesus encarregou Pedro e Joio de fazer os preparativos ne­ cessários para o pequeno grupo (somente Lucas dá os nomes deles aqui). Nio é contrário à razio terem perguntado onde. Eram galileus, e precisa -


riam de orientação quanto a onde deveriam ir em Jerusalém. E nesta hora adiantada, haveria poucos lugares livres, a despeito da tradicional dispo­ sição dos jerusalemitas de tornar disponíveis acomodações sem nada co­ brarem. 10,11. Parece que Jesus tinha feito um acordo secreto com o do­ no de uma casa. Ao assim fazer, impediu Judas Iscariotes de traí-Lo an­ tes da hora. Ele haveria de morrer, mas isto no devido tempo dEle, e não quando Seus inimigos escolhessem. Destarte, nenhum dos discípulos sa­ bia onde estariam para a refeição. Pedro e João deviam procurar um ho­ mem com um cântaro de água, que seria um fato distintivo, pois as mu­ lheres usualmente carregavam cântaros de água (os homens carregavam odres de água). Ele iria em frente deles onde haveriam de dizer certas palavras ao dono da casa, evidentemente uma fórmula combinada. 12,13. O dono da casa lhes mostraria um espaçoso cenáculo mobiliado. Esta última palavra é literalmente “estendido” e provavel­ mente significa que havia sofás prontos com cobertas estendidas sobre eles (Moffatt traduz “com sofás cobertos”)- Seguiram as instruções e prepararam a refeição. ii. A última ceia (22:14-20). Há aqui um problema textual de grande dificuldade. No texto “mais curto”, seguido por NEB, Goodspeed, onde w. 19b-20 são omitidos, o cálice é dado antes do pão. No texto “mais longo” (RSV, TEV, JB, ARC, ARA) o cálice é menciona­ do duas vezes. O texto mais curto é favorecido por muitos pelo motivo de que não é provável que as palavras fossem omitidas se originais, e que parecem ser uma inclusão tirada de 1 Coríntios 11.24-25 para harmoni­ zar a passagem com a praxe litúrgica corrente. Responde-se que as pala­ vras disputadas são achadas em todos os MSS gregos menos um (Códice D), que Justino Mártir a aceitava c. de 150 d.C. (Apologia i.66;este texto é mais antigo do que nossos MSS gregos mais antigos), e que é possível que tenham sido omitidas por escribas que não entendiam as duas refe­ rências ao cálice. De modo geral, parece que o texto mais longo deva ser preferido.74 14-16. A hora é o horário da sua refeição de Páscoa. Não fica cla­ ro se Jesus está dizendo que desejou comer a Páscoa e já a está comendo, ou se, a despeito do Seu desejo, não a comerá até que ela seja cumprida no reino de Deus. Talvez seja correto o primeiro ponto de vista. A refe­ rência ao cumprimento no reino de Deus indica que a Páscoa tinha signi­

74. As questões textuais são resumidas em The Greek New Testament, ed. R. V. G. Tasker (Oxford, 1964), págs. 422-3. Ver também a nota em Ellis.


ficado tipológico. Comemorava um livramento, sem dúvida, mas aponta­ va para uma libertação maior no futuro, que seria vista no reino de Deus. 17,18. Na refeiçio da Páscoa era obrigatório beber quatro cáli­ ces de vinho. Parece que aqui temos referência a um destes cálices, embo­ ra nio seja fácil ter certeza qual deles. A. Edersheim pensa que fosse tal­ vez o primeiro,75 depois do qual quebrava-se o pão (cf. Mishna, Pesahim 10:2-3). Mas um quebrar do pio e as ações de graças seguiam o segundo cálice também,76 de modo que poderia ter sido este. A participaçio do cálice era um símbolo de comunhio. Mais uma vez, o interesse escatoló­ gico de Jesus é revelado enquanto espera a vinda do reino. A vida que vi­ vera com os discípulos estava no fim. Nio haveria mais convívio familiar com eles até que o reino viesse. 19. Tomar, quebrar e distribuir o pão eram aspectos regulares da observância da Páscoa e nio causariam surpresa alguma. Mas enquanto o dava aos Seus seguidores, Jesus disse: Isto é o meu corpo. Estas palavras têm causado tremenda controvérsia na igreja. O ponto crítico é o signifi­ cado de é. Alguns argumentam em prol da transformação do pio no cor­ po de Cristo, mas o verbo pode significar tipos de identificaçio muito va­ riados, conforme vemos em declarações tais como “Eu sou a porta,” “Eu sou o pio da vida,” “aquela rocha era Cristo.” Neste caso, a identi­ dade nio pode estar em mente, pois o corpo de Jesus estava fisicamente presente na ocasiio. Deve ser usado nalgum sentido tal como “represen­ ta,” “significa” ou, talvez, “transmite” (cf. Moffatt: “Isto significa . . . ”). A declaraçio é enfática, e nio deve ser diluída, mas nem deve ser força­ da além do seu significado real. A expressão adicional, oferecido por vós, prenuncia o Calvário. Fala da morte de Jesus em prol dos homens. Nio se trata dalguma coisa que brota do ritual da Páscoa. Este falava do livramento mas nio do sacrifício vicário. Jesus está interpretando Sua morte num contexto da Páscoa e deixando claro que tem um significado salvífico. Ellis pensa que Suas palavras acerca do corpo e do sangue aqui “podem ser explicadas somente como uma referência implícita ao Servo Sofredor que, como representante da aliança, ‘derramou a sua alma na morte . . . contudo levou sobre si o pecado de muitos’ (Is 53:12).” O man­ damento, Fazei isto em memória de mim , nio significa, conforme alguns alegam, que a comunhio é essencialmente um pleitear de Cristo diante do Pai. É a fim de que nós nio nos esqueçamos, nio a fim de que Ele nio Se esqueça. 75. A. Edersheim, The Temple (Londres, n.d.), págs. 205. 76. A. Edersheim, op. cit., págs. 207-8.


20. O cálice, segundo parece, nâo era tomado imediatamente, mas, sim, algum tempo mais tarde, depois de cear. O derramamento indica para nós a morte na cruz onde uma nova aliança seria inaugurada. Israel estava num relacionamento com Deus de acordo com a aliança, mas agora haveria uma nova aliança levada a efeito pelo sangue de Cristo (cf. Jr 31:31). Sua morte estabeleceria um novo modo de aproximação a Deus. Cf. Harring­ ton: “Jesus dá a entender que Sua morte iminente está para substituir os sacrifícios da Lei Antiga,” e Manson, “A Ceia do Senhor, apresentada assim, indica e inaugura uma redenção efetuada pela morte de Cristo como um sacrifício.” iii. Jesus profetiza a traição (22:21-23). Se Lucas está escrevendo em ordem cronológica, então Judas foi um daqueles que participou do pri­ meiro culto da Santa Ceia. A dúvida é levantada porque Mateus e Marcos têm esta profecia da traição (depois da qual presume-se que Judas saiu rapidamente) antes da comunhão. Nenhum dos Evangelistas, no entanto, especificamente coloca estes eventos na seqüência, e devemos forçosamen­ te permanecer na incerteza. A profecia da traição registrada em Lucas não tem a referência ao mergulhar o pão no prato comum que os outros têm, mas a mão à mesa presumidamente tem um significado muito semelhante. É um sinal de estreita comunhão, e a traição se destaca como um ato tan­ to mais horrível à luz deste fato. Jesus passa a deixar claro que Sua morte está no propósito divino. Foi deteminado (os demais Sinotistas mencionam que a Escritura está sendo cumprida). Este fato não significa, porém, que o traidor está isento de culpa. O fato de que Deus exerce Sua providência sobre o mal que homens maus praticam, enquanto Ele leva a efeito o Seu propósito, não os toma menos maus. Permanecem sendo homens respon­ sáveis. Ai daquele, não é uma expressão vingativa, mas, sim, uma expres­ são de pesar sobre o futuro não definido aqui, mas certamente desagradá­ vel, que trouxe sobre si. Aparentemente, Judas disfarçara muito bem os seus pensamentos, pois os demais discípulos começaram a indagar entre si sobre quem seria a quem Jesus Se referia. Ninguém parece ter tido sus­ peitas quanto a ele. iv. Uma disputa sobre o maior (22:24-27). Somente Lucas nos conta acerca desta disputa no cenáculo. Mateus e Marcos têm passagens que se assemelham a esta, mas não no discurso de despedida. João regis­ tra o lava-pés, que pressupõe algo como a atitude revelada aqui, mas não relata esta contenda. É triste que, estando Jesus tão perto da cruz, Seus discípulos mais íntimos estavam tão longe do espírito dEle. 24, 25. Evidentemente, os discípulos pensavam que estava perto o reino de Deus, e discutiam sobre o melhor lugar nele. Lucas não diz que


estavam competindo entre si para o lugar melhor, mas certamente estavam interessados em saber de quem seria. Jesus os repreende ao chamar a aten­ ção à maneira segundo a qual os gentios \povos, ARA] (que aqui devem ser todos aqueles que nio sio do povo de Deus) vivem. Seus reis são au­ toritários. Seus homens de autoridade “fazem-se chamar” (kalountai é provavelmente médio mais do que passivo) benfeitores. Na realidade, cer­ to número de reis no mundo antigo adotou o título de Euergetês, “Ben­ feitor.” Os homens do mundo gostam de receber crédito por aquilo que têm feito. 26, 27. A atitude cr isti está em nítido contraste. Entre os homens de Cristo o maior deve ser como o menor, i.é, deve aceitar o lugar mais humilde. No mundo antigo, aceitava-se que a idade dava privilégios. O mais jovem era, por definiçio, o menor. No mesmo espírito, o que diri­ ge deve ser como o que serve. O lavapés que Joio registra foi uma ilustraçio notável da disposiçio de Jesus de tomar o lugar daquele que ser­ ve. Fez assim embora tivesse direito ao lugar supremo e os homens natu­ ralmente estimem o que janta como sendo superior ao garçom. Todos os três exemplos da palavra servir traduzem diakonõn, verbo este que signi­ fica em primeiro lugar o serviço do garçom e que, portanto, está muito aplicável. A partir disto» veio a significar serviço humilde em geral, e é isto que está em mente aqui. Jesus nio está dizendo que se Seus segui­ dores desejarem subir a posições muito elevadas na igreja, devem primei­ ramente ser testados numa posiçio humilde. Está dizendo que o serviço fiel num lugar humilde é em si mesmo a verdadeira grandeza. v. Doze tronos (22:28-30). Visto que havia um caminho difícil e enigmático diante dos Seus seguidores, Jesus passa a dar-lhes um pouco de encorajamento. Primeiro, chama-os de os que tendes permanecido co­ migo nas minhas tentações. Quer dizer que serviram fielmente ao lado dEle no decurso das adversidade s que Seu ministério necessariamente envolvia. Nio tinham recusado posições difíceis ou humildes. No devido tem­ po, desfrutario do banquete messiânico com Ele. O segundo “confio” do v. 29 parece, à luz do grego, referir-se às palavras seguintes, à partíci* paçio do banquete, e nio às palavras anteriores, ao reino que o Pai confe­ rira a Jesus. O estado real que desfrutario é expressado mais no seu sen­ tar em tronos para julgar as doze tribos de Israel, pois julgar aqui decerto se emprega no sentido de “reinar” (como no livro dos Juizes). Jesus fala de tudo isto na linguagem da aliança. Os verbos confiou e confio traduzem formas de diatithemai, o verbo bíblico usual para celebrar uma aliança. O futuro glorioso do qual Jesus fala é tio certo quanto a aliança de Deus. vi. A profecia das negações de Pedro (22:31-34) Todos os quatro


Evangelhos nos contam que Jesus predisse a tríplice negação da parte de Pedro e relatam como aconteceu, mas cada um o faz da sua maneira. Por exemplo, somente Lucas conta da participação de Satanás no ocorrido. 31,32. Na petição de Satanás para vos peneirar, este plural inclui todos os discípulos. O Grego parece significar “Satanás vos obteve me­ diante pedido:” há o pensamento de que a petição foi concedida. Podemos notar de passagem que Satanás não tem direito algum aqui. Ele pode pedir, mas é Deus quem é supremo. Segue-se que as provas e os testes que vêm ao povo de Deus somente são aqueles que Ele permite. A metá­ fora de peneirar com trigo não tem paralelo, mas é óbvio que significa grandes provações. Havia um futuro turbulento diante do pequeno gru­ po, e especificamente diante de Pedro. A repetição que Jesus fez do no­ me do Seu servo, Simão, Simão, dá ênfase solene às palavras que se se­ guiam. Jesus continua, assegurando Pedro que Ele orara por ele (o singu­ lar indica oração especificamente por Pedro). Nota-se que o Mestre não pediu que Seu servo fosse libertado de apuros. Enfrentar a dificuldade e a adversidade faz parte integrante do caminho cristão. A qualidade da fé de Pedro em tais circunstâncias é importante. Agora ele recebe a cer­ teza da poderosa intercessão em prol dele. Jesus fica confiante do resul­ tado final, e fala do tempo em que te converteres, ou, conforme a manei­ ra de Rieu traduzi-lo: “uma vez que tenhas voltado sobre teus passos.” Para aquela ocasião, Pedro recebe o mandamento: fortalece os teus ir­ mãos. Aquele que passou por águas profundas tem a experiência que o capacita a ajudar a outras pessoas. 33, 34. Pedro nem reconhece a seriedade da posição nem sua pró­ pria fraqueza. Impetuosamente, declara sua disposição de morrer por Je­ sus se necessário for. Jesus, porém, conhecia Seu discípulo melhor do que este conhecia a si mesmo. Esta é a única ocasião em que se registra que Je­ sus o chamou dt Pedro. Talvez Ele tenha um triste reconhecimento de que no futuro imediato Pedro precisaria de ter a qualidade de rocha que o nome denota, mas lhe faltaria. Jesus profetiza a tríplice negação feita por Pedro, especificando o número de vezes e o limite de tempo estabelecido pelo cantar do galo. Este conhecimento é mais do que humano. vii. As duas espadas (22:35-38). Lucas termina sua história do cenáculo com mais uma referência a aflições futuras. Esta seção curta é exclusiva deste Evangelho. 35. Jesus começa Sua advertência ao contrastar o que está para acontecer com tempos mais felizes em dias passados. Quando os enviara para pregar, seus recursos tinham sido mínimos (10:4; cf. 9:3), mas suas necessidades tinham sido supridas. Concordam que então não lhes falta-


ia. Nada. 36,37. Agora, as coisas seriam diferentes. Dias perigosos e difí­ ceis jazem no futuro. Haverá necessidade de bolsa e alforje, e até mesmo de uma espada. Alguns pensam que a espada é uma exigência literal (e.g. Ellis, Lenski), mas é difícil ver o assunto assim, tendo em vista o ensino geral de Jesus e da sua recusa específica de deixar Pedro usar a espada,que tinha consigo (51). Tais considerações levam outros a pensar que as pala­ vras são irônicas (e.g. Tinsley), mas é mais provável que são figuradas. É o modo vivido de Jesus inculcar que os discípulos estão enfrentando uma situação de grave perigo. “Porque Ele não estava pensando nas armas de­ les, os discípulos precisam daquela coragem que considera uma espada mais necessária do que uma roupa externa e que abre mão até da sua última possessão, mas não pode abandonar a luta” (Schlatter, citado em Geldenhuys). Jesus passa a informar os discípulos que as palavras de Isaías 53:12 estavam para ser cumpridas. Este trecho é digno de nota como um dos poucos lugares no Novo Testamento em que aquele capítulo é expli­ citamente aplicado a Jesus. Jesus vê Sua morte como uma em que Ele fica­ rá em solidariedade com os pecadores. Isto certamente indica que tal mor­ te será vícária. Ele tomaria o lugar dos homens pecaminosos. Visto que Je­ sus está em tal triste situação, os discípulos também correm perigo. Rieu ressalta o grau de perigo tanto a eles quanto ao Senhor deles com sua in­ terpretação das últimas palavras deste versículo: “Realmente, para mim a corrida já findou.” 38. Os discípulos não entenderam. Falavam em termos das armas do mundo, e disseram que poderiam apresentar somente duas espadas. A resposta de Jesus: Basta, não quer dizer: “Duas serão suficientes” mas, sim, “Basta deste tipo de conversa! ” É um modo de descartar um assun­ to no qual os discípulos estavam desesperadamente desnorteados.

c. A agonia (22:3946). Lucas localiza a agonia apenas no Monte das Oliveiras (Mateus e Marcos nos informam que era no Getsêmani). Seu relato é bem curto. Ao pas­ so que os demais Sinotistas nos dizem que Jesus foi embora e orou três vezes, e registram palavras que Ele falou entre a primeira e a segunda oca­ sião, Lucas condensa a história e nos dá uma só amostra das orações de Jesus. Nem nos conta que Jesus selecionou Pedro e Tiago e João. Tem, porém, matéria só dele, conforme veremos. Godet entende que este in­ cidente é muito importante, porque diferencia o sacrifício de Jesus, que


consentia livremente, daquele dos animais que nenhuma escolha têm no assunto. “No Getsêmani, Jesus não bebeu o cálice; consentiu em bebêlo.” Foi aqui que a verdadeira batalha foi travada. 39. Lucas não nos conta nem que Jesus foi para um jardim, nem que o lugar era chamado Getsêmani. Simplesmente diz que Jesus foi para o Monte das Oliveiras. Mas acrescenta que era o costume de Jesus. Evidentemente, no decurso desta semana, e talvez noutras ocasiões tam­ bém, tinha sido o hábito de Jesus passar a noite nos encostos deste monte. 40. Os demais Evangelistas falam das orações do próprio Jesus, mas Lucas nos conta que primeiramente instruiu os discípulos a orarem para que não entreis em tentação (cf. 46; em Mateus e Marcos esta instru­ ção é registrada entre o primeiro e o segundo período de oração de Je­ sus). Esta última palavra pode significar tentação ao pecado, ou, confor­ me alguns a interpretam, um tempo de provação severa, um oruálio. Os discípulos devem procurar ser preservados destes dois aspectos. 41,42. Jesus orou sozinho. O costume daquele tempo era orarem pé, com os olhos erguidos aos céus (cf. 18:11, 13), mas nesta ocasião especialmente solene Jesus ficou de joelhos. Sua oração revela um recuo humano natural diante da morte horrenda que O aguardava, e, portanto, pede que, se o Pai estiver disposto, que este cálice seja removido. O cáli­ ce no Antigo Testamento tem associações com o sofrimento e com a ira de Deus (cf. Sl 11:6; Is 51:17; Ez 23:33). Não era nenhuma tarefa fácil que Jesus via na Sua frente, mas a oração dEle é centralizada na vontade do Pai mais do que em ser Ele poupado. Ora que a vontade de Deus seja feita, e diz especificamente não se faça a minha vontade. Não se quer di­ zer que a vontade dEle está em oposição àquela do Pai: o próprio fato de proferir esta oração demonstra que não está. Trata-se, pelo contrário, de uma forte afirmação do Seu desejo que a vontade do Pai prevaleça. 43,44. Certo número de MSS omite estes versículos; mas a proba­ bilidade é que devam ser incluídos. Numa época em que os escribas ti­ nham certeza da divindade do seu Senhor, alguns teriam dificuldade no conceito de Ele ser fortalecido por um anjo, e considerariam os detalhes marcantes da agonia como indícios de um Jesus por demais humano. Ha­ veria muitas razões para omitir as palavras se forem originais, mas é real­ mente difícil imaginar um escriba do tempo primitivo encaixando-as num texto que não as continha. Estão bem atestadas, e devem ser aceitas. Neste momento crítico, portanto, a força angélica suplementou os recur­ sos humanos de Jesus. Recebemos algum indício da intensidade dos Seus sentimentos quando lemos acerca do suor como gotas de sangue caindo sobre a terra. A palavra agonia é achada somente aqui no Novo Testamen-


' to. Por que Jesus estava em tal perturbação enquanto enfrentava a morte? Outros, inclusive muitos que devem sua inspiração ao Mestre, enfrentaram a morte com bastante calma. Nâo pode ser a morte propriamente dita que provocou esta tremenda profundidade de sentimento. Foi, na realidade, o tipo de morte por qual Jesus passaria, aquela morte em que Ele seria abandonado por Deus (Mc 15:34), em que Deus O fez pecado por nós (2 Co 5:21). 45,46. Quando Jesus voltou aos Seus discípulos depois desta expe­ riência cruciante, achou-os dormindo de tristeza, “esgotados pelo pesar” conforme a expressão de NEB. Deve ter sido um acréscimo à Sua prova­ ção que, neste momento crítico, Seus seguidores mais próximos estavam tão insensíveis aos Seus sentimentos e àquilo que estava acontecendo em derredor deles que dormiam ao invés de orarem com Ele e para Ele. Fra­ cassaram neste teste, e Ele os manda orar para que mo entreis em tenta­ ção. A repetição da instrução (40) dá-lhe ênfase. Haverá mais testes, e eles devem orar, pedindo a atitude certa desta vez.

d. Jesus é preso (22:47-54a). O relato que Lucas dá da detenção de Jesus é mais curto que o dos demais, mas mesmo assim, inclui matéria só dele, tal como a pergunta dos discípu­ los (49), a cura da orelha (51), e a referência ao poder das trevas (53). 47,48. A detenção seguiu-se imediatamente após a volta de Jesus aos discípulos. Judas e seus acompanhantes chegaram enquanto Jesus ainda falava. Lucas se restringe a mencionar uma multidão, e não nos con­ ta, como Mateus e Marcos nos contam, acerca da sua conexão com o Sinédrio e das armas que levavam (aspectos estes que são ressaltados mais tar­ de), nem acerca dos romanos que estavam juntos, como João conta. Con­ fina-se aos essenmis. O crime é ressaltado outra vez apenas como lembran­ ça de que ele era um dos doze. Lucas diz que este discípulo aproximou-se de Jesus para o beijar, embora não mencione o beijo dê Judas propriamen­ te dito. Nem menciona que este era o sinal que Judas dera ao soldados, embora isto fique claro na reação de Jesus: Judas, com um beijo trais o Füho do homem? O beijo não era uma forma incomum de saudação quando os homens se encontravam (cf. 1 Ts 5:26). Era, portanto, uma maneira conveniente para Judas mostrar aos soldados qual do grupo era Jesus, e assegurar-se que eles não prendessem o homem errado. Mas o beijo de saudação expressava amizade e estima e, portanto, este método de traição sempre tem parecido especialmente hediondo.


49, 50. Os discípulos tentaram a resistência armada. Vendo a direção que os eventos estavam tomando, perguntaram a Jesus se deviam usar força. Ele já lhes falara acerca de possuírem espadas (36), e elicitara a resposta deles de que tinham duas (38). Evidentemente as mentes deles seguiam linhas tais que agora tiraram a conclusão apressada de que deve­ riam usar as espadas que tinham. Um deles (ficamos sabendo em Jo 18:10 que era Pedro) não esperou a resposta à pergunta. Deu uma estocada com sua espada, embora o máximo que conseguiu fazer foi cortar a orelha do servo do sumo sacerdote, 51. Jesus imediatamente proibiu esta luta com espadas, embora nâo seja claro o significado exato das palavras que empregou. Nem sequer fica além de dúvida se Ele estava falando aos discípulos ou aos soldados (cf. Goodspeed, “Deixai-me pelo menos fazer isto! ” que presumidamente é dirigido ao grupo que veio prendê-Lo). Mas a primeira interpretação é quase certa. Jesus não falou ao grupo que veio prendê-Lo até v. 52, e Suas palavras aqui “respondem” (ARA omite este verbo, mas está no Grego) as ações dos discípulos. Significam algo como “Permiti até isto,” que po­ de significar “Basta disto!” ou talvez melhor, “Deixai-os fazer sua vonta­ de” (NEB). Alguns vêem o significado como “Deixai os eventos seguirem seu decurso,” mas isto talvez não seja tão provável. De qualquer maneira, Jesus deixou claro que não quis mais lutas, e passou a demonstrar Sua vontade ao curar com um toque o ferido. Esta cura é importante. Mais tarde, Jesus haveria de contar a Pilatos que Seu reino não é “deste mun­ do” (Jo 18:36), e aduz como prova o fato de que Seus servos não estavam lutando. A ação de Pedro talvez pudesse lançar dúvidas sobre Suas pala­ vras, mas a cura da orelha ferida cancelou aquela ação e demonstrou sem possibilidade de dúvidas a solicitude que Jesus tinha para com a paz. 52,53. Se os principais sacerdotes estavam no jardim em pessoa, este fato indica quão seriamente levavam esta detenção. Mas é possível que Lucas não queira dizer mais do que homens importantes na hierar­ quia, homens numa posição de liderança entre os sacerdotes, representa­ vam os principais sacerdotes. Os capitães do templo comandam a polícia do Templo e os anciãos são membros leigos do Sinédrio. A idade deles provavelmente faria com que fossem de pouca utilidade na detenção, mas à presença deles dá dignidade e peso aos acontecimentos. Jesus chamou a atenção às armas que o grupo levava, realmente próprias para quem saís­ se contra um salteador, mas singularmente inapropriadas no caso dalguém que tinha estado com eles diariamente no templo. A implicação clara é que há algo de desleal nesta detenção clandestina. Não pusestes as mãos sobre mim pode significar “não procurastes prender-me” (TEV) ou “não


levantastes uma m��o contra mim” (Rieu). Jesus vê a razão porque agiram assim: Esta, porém, é a vossa hora e o poder das trevas. A hora no Quarto Evangelho é a hora destinada, a hora da cruz (cf. Jo 17:1) e talvez haja algo desta idéia aqui. Há também o pensamento de que o Maligno está implicado na Paixão (cf. Cl 1:13, onde a mesma expressão grega é empre­ gada; cf. também Ef 6:12). Nesta prisão as forças do mal estão atacando Deus. Moffatt traduz: “o Poder escuro faz sua vontade.” 54a. A detenção seguiu-se imediatamente. Prendendo-o (o termo não tem nenhuma implicação necessária de violência) O levaram direta­ mente à casa do sumo sacerdote. Fora ele, mais do que os romanos, que tomara a iniciativa na detenção, e para ele, portanto, o prisioneiro foi le­ vado. e. Pedro nega a Jesus (22:54b-62) A tríplice negação de Jesus por parte de Pedro está registrada em todos os quatro Evangelhos. Surgem alguns problemas. Por exemplo, ao passo que os Sinotistas as registrem todas juntas, João interpola um interroga­ tório diante de Anás entre a primeira e a segunda. Este fato, porém, tal­ vez nada mais signifique do que os Sinotistas completam esta história uma vez começada. Ninguém sustenta que as três negações se seguiram uma após outra imediatamente. Deve ter havido intervalos (cf. 58, 59) e não há razão porque algumas coisas não tivessem ocorrido durante os intervalos. Outro problema é que, depois da primeira ocasião, diz-se que pessoas diferentes desafiaram Pedro. Em Mateus, a segunda negação pa­ rece ter sido elicitada por uma pergunta de uma criada diferente da pri­ meira, em Marcos pela mesma criada, em Lucas por um homem, e em João por certo número de pessoas. Um pouco de reflexão demonstra que em tal situação, uma pergunta, uma vez feita, provavelmente teria sido reto­ mada por outras pessoas em derredor do fogo. Pessoas diferentes contan­ do o caso ressaltariam participantes diferentes no drama, 54b, 55. Plummer indica que todos os quatro Evangelhos dedi­ cam mais espaço ao julgamento de Jesus do que à Sua crucificação, e o modo segundo o qual o fazem responde a perguntas que ressaltam o sig­ nificado da cruz. “Por que Jesus foi condenado à morte pelo Sinédrio? Porque declarava ser o Filho de Deus. Por que foi condenado à morte por Pilatos? Porque declarava ser o Rei dos judeus.” Não se diz que ne­ nhum dos discípulos senão Pedro seguia a Jesus, embora João conte-nos acerca de outro que era conhecido do sumo sacerdote e que conseguiu entrada para Pedro no pátio, aparentemente o de Anás. Lucas não diz


como Pedro conseguiu estar ali. Apenas retrata-o no meio de um grupo assentado ao redor de um fogo no meio do pátio. 56,57. Todos os quatro Evangelhos concordam que o primeiro desafio veio de uma criada, e JoSo acrescenta que ela era a encarregada da porta. Olhou bem para Pedro {fitandoo indica um escrutínio de perto). Depois, ela disse: Este também estava com ele. Semelhante comentário de uma criadinha não vem a ser uma provocação pavorosa. Não ouvimos dizer de quaisquer acusações contra os discípulos, de modo que não ha* via qualquer motivo aparente para Pedro não ter reconhecido o fato. Mas ele estava entre os inimigos, e temeroso. Escolheu a saída fácil e disse :Não o conheço. 58. O segundo desafio veio um pouco mais tarde. Lucas não dá detalhes quanto à origem da pergunta, mas, sim, simplesmente se refere a outro . Mas o gênero masculino do seu pronome e Homem na resposta de Pedro, demonstram que desta vez tratava-se de um homem. Vai além daquilo que a criada dissera ao afirmar que Pedro era dos tais. Pedro sim­ plesmente o negou. 59. O terceiro desafio era mais sério. Era feito com mais confian­ ça, e Lucas diz que o homem “insistia” (afirmava, ARA) naquilo que dizia. Sua declaração não era experimental. Começa com Verdadeiramente e traz evidência para apoiar suas palavras: porque também ê galileu. Prova­ velmente quer dizer que o sotaque de Pedro o traíra. João nos diz que es­ te homem era parente do servo cuja orelha Pedro cortara, o que talvez o levasse a fitar Pedro por mais tempo e com mais cuidado do que outras pessoas, tanto no jardim quanto no átrio. De qualquer maneira, a sua acu­ sação é clara. 60. Igualmente claro é o repúdio por parte de Pedro. Chamou-o de Homem e negou todo conhecimento daquilo que o outro dizia. O repúdio dificilmente poderia ir além disto, sendo reforçado, conforme Mateus e Marcos nos contam, com uma fileira de praguejamentos. E neste momento, cantou o galo. 61,62, Não sabemos onde estava Jesus neste momento. Talvez esti­ vesse numa galeria que desse para o pátio, ou numa sala com vistas para ele, ou talvez até mesmo estivesse passando pelo átrio no Seu caminho de Anás para Caifás. De qualquer maneira, estava nalgum lugar de onde podia ver Pedro e voltou-Se e fixou os olhos em Pedro. Somente Lucas menciona este fato, mas parece que foi este olhar que despertou em Pedro a memória da profecia de Jesus. Lucas lembra seus leitores daquilo que Jesus dissera. Não deviam ter dúvida alguma quanto a isto. O efeito sobre Pedro foi es­ magador ;saindo dali, chorou amargamente.


f. 0$ guardas zombam de Jesus (22:63-65). Jesus, segundo parece, foi entregue a um grupo de soldados que foi incum­ bido de guardá-Lo até à sessão formal do Sinédrio. Aproveitaram a oportu­ nidade para divertir-se cruelmente às expensas do seu prisioneiro. Entende­ ram que Ele era tido por profeta, de modo que Lhe vendaram os olhos e O conclamaram para comprovar Seus dons proféticos por meio de dar o nome da pessoa que bateu nEle: “Agora, profeta, adivinha quem te bateu desta vez!” (Phillips). Lucas nâo dá outros pormenores. Diz apenas que acrescentaram ofensas á sua violência.

g. Jesus perante o Sinédrio (22:66-71). Não é fácil ajuntar numa única narrativa os pormenores do julgamento de Jesus, pois nenhum dos Evangelhos dá um relato completo. Mas parece claro que houve duas etapas principais. Primeiramente, houve um proces­ so judaico em que os principais sacerdotes fizeram com que Jesus fosse condenado de conformidade com a lei judaica e depois procuraram tra­ mar a melhor maneira de levar os romanos a executá-Lo. Seguiu-se, en­ tão, um processo romano, em que os líderes judaicos prevaleceram so­ bre Pilatos e sentenciar Jesus à crucificação. 0 próprio processo judaico tinha duas ou três etapas. Durante a noite havia interrogatórios informais diante de Anás (conforme JoSo nos diz) e Caifás (que tinha com ele al­ guns membros do Sinédrio). Depois do romper do dia, houve uma reu­ nião formal do Sinédrio. Esta era provavelmente uma tentativa para legi­ timar as decisões feitas durante a noite. Não era lícito conduzir um proces­ so à noite quando se tratava de uma acusação capital. Nem sequer era lí­ cito pronunciar o veredito à noite depois de um processo ter sido condu­ zido durante o dia. A hierarquia judaica, porém, estava com pressa, de mo­ do que apressadamente levaram Jesus para um interrogatório imediata­ mente depois da detenção dEle, embora fosse plena noite. Para dar a isto um ar de legitimidade, passaram a fazer uma reunião de dia, em que os essenciais da reunião noturna foram repetidos e confirmados. Mesmo as­ sim, não chegaram à altura, das exigências, pois um veredito de condena­ ção não poderia ser pronunciado senão no dia após o julgamento (Mishna, Sanhedrin 4:1), Mesmo assim, parece que pensavam que valeria a pena fa­ zer conforme fizeram, e todos os três Sinotistas nos contam acerca da reunião de dia (Mt 27:1; Mc 15:1). O relato de Lucas é bem curto. Contanos apenas do comparecimento de Jesus diante do Sinédrio formal.


66. Lucas retoma a história logo que amanheceu, quando um con­ cilio formal poderia ser legalmente convocado. Fala do Sinédrio em termos dos anciãos e passa a detalhar assim os principais sacerdotes como os escri­ bas (embora alguns entendam que o Grego indique três partes constituin­ tes do Sinédrio, e.g, BLH, “os líderes dos judeus, os chefes dos sacerdotes e os professores da Lei”). 67-69. É curioso que nenhuma acusação é levantada contra o pri­ sioneiro. Ao invés disto, o concilio convida Jesus a incriminar-Se ao dizerlhes que Ele era o Messias. Mas o caso nâo é tão simples assim. Conforme Jesus o expressou: Se vo-b disser, não o acreditareis. O modo dEle de en­ tender o messíado era tão diferente do deles que não poderia ter dado um simples “Sim” como resposta, ao passo que não O teriam acreditado se Ele tivesse feito a declaração que tinha o direito de fazer. Diz mais: se vos perguntar, de nenhum modo me respondereis. Em mais de uma ocasião, fizera perguntas penetrantes que diziam respeito ao messiado, mas deixa­ ram de responder (20:3ss., 41ss). Se agora Ele procurasse destacar a ver­ dadeira natureza do messiado por meio de perguntas, eles não responde­ riam, não Lhe dariam crédito se Ele simplesmente afirmasse Sua posi­ ção. Desde agora indica que uma mudança é iminente. De uma maneira semelhante à joanina, há o pensamento de que a glória de Jesus já come­ çou (cf. Jo 12:23-24). Sua morte, ressurreição e ascensão mudariam tu­ do. E talvez porque a discussão do messiado era fútil, Jesus mudou para Seu termo predileto “Filho do homem.” O Filho do homem, diz Ele, estará sentado . . . a direita do Todo-poderoso Deus. A mão direita era o lugar de honra, e sentar-se era a posição de descanso. Feita a Sua obra salvífica, Ele teria o lugar da mais alta honra. Os demais Evangelhos falam que estaria sentado à direita do Todo-poderoso, mas o acréscimo de Deus certamente tornaria a expressão mais inteligível aos leitores gentios. 70. Estas palavras despertaram profundo interesse. Todos par­ ticiparam da pergunta que se seguiu. Ao passo que antes pediram que Jesus dissesse se ele era o Cristo, agora fazem a pergunta direta: Logo tu és o Filho de Deus? Visto que os homens às vezes são chamados filhos de Deus, devemos entender que o artigo definido é importante aqui. Estão perguntando se Jesus reivindica ter um relacionamento especial com Deus. Sua referência ao Filho do homem e ao lugar à direita de Deus deve lhes ter parecido uma reivindicação a um lugar mais alto do que aquele que o Messias ocuparia no modo de entender deles. Para eles, uma reivindicação de ser o Messias talvez seja um engano, mas não era blasfêmia. Mas aqui havia algo diferente. A resposta de Jesus significa


algo como: “Essa palavra é vossa, nio minha. Eu não colocaria a questão nesses termos, mas já que vós o fizestes, nâo posso negar o fato.” Moffatt traduz: “Certamente sou,” mas a expressão é positiva demais. I. Abrahams nega que a expressão traduz uma expressio idiomática rabínica,77 e nio podemos entendê-la como sendo uma expressío comum. Mas o contexto demonstra que deve ser tomada como uma afirmativa. O importante é que o modo de Jesus entender o termo diferia do deles; mas Ele náo po­ dia repudiá-ío, e Sua resposta reconhece este fato. 71. Quanto ao Sinédrio, aquilo acabou com a discussão. Seus membros nSo estavam interessados nas qualificações que Jesus preferiria introduzir ou no modo segundo o qual entendia as palavras. Ele as aceita­ ra, ou pelo menos nio as negara. Aos olhos deles, isto O tomava culpado. E visto que as palavras eram dEle mesmo, nio precisavam de mais teste­ munhas. Eles mesmos ouviram o que Ele disse.

h. Jesus perante Pilatos (23:1-5)

Os líderes judaicos tinham condenado Jesus por uma variedade de moti­ vos. Os fariseus O viam como um blasfemador, e estavam sentindo as do­ res das repreensões mordazes que Ele lhes dirigira por causa da hipocri­ sia deles. Os principais sacerdotes sentiram, sem dúvida, o golpe contra suas rendas quando Ele purificou o Templo. Além disto, Caifás indicou que a existência dEle era politicamente inconveniente: Ele poderia ser a causa de os romanos lhes tirarem a pouca liberdade que lhes restava. Sendo assim, queriam que Ele fosse executado, mas nio tinham poderes para Ísto (Jo 1831). Obviamente Roma nio permitiria que um povo sú­ dito usasse seus próprios processos legais para matar os apoiadores dela, de modo que o poder de aplicar a pena de morte permaneceu nas mios do governador. Neste caso, o problema, do ponto de vista dos judeus, era que o crime de Jesus era blasfêmia, a alegação de que era o Filho de Deus. Aos olhos dos romanos, esta nio era uma transgressão que me­ recia a pena da morte. Os judeus, portanto, tinham de lavrar sua acusaçio em termos que parecessem sérios aos romanos. Fizeram-no ao acusar Jesus de ser um rei, um revolucionário político. 1,2. A profundidade do sentimento que se apossou do Sinédrio é vista no fato de que toda a assembléia trouxe Jesus a Pilatos. Este nio 77. 1967), págs. lss.

I. Abrahams, Studies in Pharisaism and the Gospels, ii (Nova Yoik,


era um caso para um ou dois representantes, embora, naturalmente, a acu­ sação formal teria sido feita por apenas um ou dois deles. Acusaram-No de três delitos: pervertendo a nossa nação (uma acusação com uma falta curiosa de especificidade, que provavelmente significa a sediçãò; cf. JB, “incitando nosso povo à revolta”), vedando pagar tributo a César (estra­ nho vestígio de 20:25!), e afirmando ser ele o Cristo, Rei (embora Jesus Se recusasse a usar o termo no interrogatório que fizeram dEle, 22:67ss.). Tanto a segunda acusaçSo quanto a terceira eram sérias, e podia-se esperar que Pilatos tivesse um péssimo conceito de qualquer pessoa culpada de uma ou outra delas. 3. A primeira pergunta que Pilatos fez a Jesus é redigida de modo idêntico em todos os quatro Evangelhos, e em todos os quatro seu tu é enfático. O que os judeus disseram o deixara pronto a um encontro com um guerrilheiro da resistência, mas uma só olhadela em direção a Jesus bas­ tava para demonstrar que tal idéia era totalmente absurda, o que arrancou dos seus lábios a pergunta incrédula. Mais uma vez, Jesus empregou uma forma de resposta que significa assentimento relutante (ver sobre 22:70). Era Rei dos Judeus (nota esta que Lucas ressalta) e nio podia, portanto, dar uma negativa direta. Mas nâo era rei no sentido que Pilatos queria di­ zer. 4. Lucas dá um relato muito abreviado do processo. Pilatos certa­ mente fez mais de uma pergunta, mas Lucas passa por cima do exame de­ talhado e chega ao momento em que o governador anunciou seu veredito aos principais sacerdotes e às multidões (i.é, é uma declaração pública, nâo simplesmente um comunicado particular para aqueles que trouxeram Jesus para ele). Não vejo neste homem crime algum, disse ele. Pilatos discerniu que fora a malícia dos judeus e nâo qualquer acusaçáo formal capital que foi o motivo de Jesus comparecer diante dele. 5. Isto, porém, nâo foi do agrado dos principais sacerdotes. Insis­ tiam, ou seja, fizeram um protesto veemente. Queixaram-se de que Jesus alvoroça o povo, outra queixa indefinida. Ressaltam a extensão da Sua influência e incluem toda a Judéia bem como a Galiléia.

i. Jesus perante Herodes (23:6-12) Esta seçâo é peculiar a Lucas. Pilatos estava claramente indisposto a tratar desta causa, fato este que todos os quatro Evangelhos deixam claro. Dis­ cerniu que os judeus eram implacáveis na sua exigência quanto à morte de Jesus. Mas também viu que o prisioneiro nada fizera que os romanos


considerassem como merecedor daquela penalidade. Destarte, Pilatos não queria ter nada a ver com o caso. Era conveniente para ele enviar Je­ sus para Herodes. 6,7. A referência à Galiléia como sendo o local do começo das atividades de Jesus era algo que Pilatos podia agarrar em desespero. Per­ guntou imediatamente se Jesus era originário daquela província, e, ao receber uma resposta afirmativa, remeteu-0 para Herodes (para Herodes, ver sobre 3:1, 19). No Império Romano, um processo jurídico era usual­ mente realizado na província onde o delito foi cometido, embora pudes­ se ser referido à província à qual pertencia o acusado. Pilatos, portanto, poderia ter prosseguido com o processo. Era, porém, um elogio gracio­ so a Herodes referir o processo a ele, e era tecnicamente possível porque, como galileu, Jesus em da jurisdição de Herodes. Herodes provavelmente subira para Jerusalém a fim de observar a Páscoa, tática esta que, segundo esperava, agradaria aos seus súditos. Estava, portanto, disponível. 8. O tetrarca ficou contente. A reputação de Jesus penetrara no palácio, e havia muito que Herodes queria vê-Lo (9:9). Ouvira dizer, tam­ bém, dos milagres de Jesus, e queria ver um pessoalmente. Sinal (sêmeion) é freqüentemente usado para os milagres de Jesus no Evangelho segundo João, mas os Sinotistas preferem dunamis, “obra poderosa.” A palavra normalmente indica que os milagres tinham significado, que eram relevan­ tes. Herodes, porém, deve ter pensado somente na parte milagrosa. 9 , 10. A entrevista deve ter sido uma decepção para Herodes. Não recebeu resposta alguma às suas muitas perguntas. O que Jesus poderia dizer a este leviano que nada mais queria do que uma pequena sensação? Nunca recusou um inquiridor sincero, mas Herodes não se classificava como tal, É a única pessoa a quem Jesus nada disse. Os principais sacer­ dotes e os escribas fizeram acusações veementes. Não queriam arriscar que Herodes soltasse Jesus. E, naturalmente, se pudessem persuadi-lo a condenar o galileu, tanto melhor, 11. Herodes, porém, não cumpriu os desejos nem de Pilatos, nem dos judeus, Quando não conseguiu o milagre que queria, seu interes­ se desvaneceu-se. Acompanhou os da guarda em zombar do prisioneiro (cf. 22:63ss.), e depois o devolveu a Pilatos. Não tinha interesse no caso e recusou-se a julgar um processo. O manto aparatoso reflete a acusação de que Jesus era um rei. O adjetivo é lampros, “brilhante,” “resplande­ cente”, que freqüentemente é usado para roupas de cor branca, mas não há indicação da cor deste manto. Provavelmente há referência a um manto real já gasto. A zombaria deixou claro que Herodes não levava a acusação a sério. Este é o aspecto assustador do incidente; com o Filho de Deus


diante dele, Herodes só sabia farrear. 12. Nada se sabe acerca desta inimizade senão aquilo que lemos aqui. Se tivesse sido uma questão de jurisdição, a disposição de Pilatos de deixar Herodes assumir controle de um processo jurídico teria sido um gesto generoso. Mas quando Herodes recusou-se a agir, pagando o elo­ gio, por assim dizer, Pilatos não tinha outra opção senão retomar a causa.

j. Jesus é sentenciado (23:13-25). Lucas agora mostra como Pilatos foi compelido a sentenciar Jesus à mor­ te. Deixa claro, no entanto, que isto era muito contrário à vontade do go­ vernador, pois reconheceu que Jesus era inocente. Na realidade, Pilatos falou assim quatro vezes (4, 14, 15, 22; cf. Jo 1838; 19:4, 6). A pres­ são dos principais sacerdotes, exigindo uma sentença contra um homem inocente constituiu-se em düema terrível para Pilatos, e os Evangelhos deixam claro que fez todo o esforço possível para evitar uma decisão. De início, procurou levar os judeus a tratar do assunto inteiro eles mes­ mos (Jo 18:31). Mais tarde, despachou-0 para Herodes (7). Procurou persuadir os judeus a aceitar Jesus como sendo o prisioneiro a ser sol­ to na Páscoa (Mc 15:6), e ofereceu-se para mandar açoitar Jesus e de­ pois soltá-Lo (16). Finalmente, no entanto, não podia evitar tomar a decisão fatídica. 13,14. Quando Pilatos reuniu todos os principais sacerdotes, as autoridades e o povo, demonstrou que estava se preparando para uma proclamação pública. Passou a repetir parte da acusação deles e a referirse ao interrogatório na vossa presença. Assim fica claro que Lucas omi­ tiu muita coisa. Deixa claro, também, que Pilatos tinha examinado mui­ to bem as acusações. E depois de ter feito assim, pronunciou Jesus inocen­ te. 15. E este veredito não era o único. Herodes o apoiou também, porque, segundo diz Pilatos, no-b tomou a enviar. “Porque a ele vos reme­ ti” [ARC] é baseado num texto inferior. Pilatos raciocina que o tetrarca não teria agido assim a não ser que tivesse convicção de que Jesus não era um malfeitor. 16. A sugestão de que Jesus deveria ser castigado antes de ser solto parece-nos curiosa. Se Ele era inocente, deveria ser solto sem mais demora. Mas no direito romano uns açoites leves às vezes eram dados juntamente com uma advertência magisterial, de modo que um acusado pudesse tomar mais cuidado no futuro. Muitos comentaristas falam disto como sendo


uma flagelação, e nos lembram que conhecia-se casos de homens que mor­ reram sob este castigo. A. N. Sherwin-White, no entanto, demonstra que o que há em mira aqui é um castigo mais leve.78 Parece que Pilatos estava querendo aplacar os judeus. Se descontasse sobre Jesus um pouco de ira jurídica, eles talvez se dessem por satisfeitos e concordassem com a soltu­ ra. 18,19. Nalguns MSS acham-se as palavras que aparecem entre col­ chetes como v. 17 em ARA, mas são inadequadamente atestadas e pare­ cem ser uma importação de Mc 15:6. Semelhante inserção seria favoreci­ da pelo fato do v. 18 não seguir o v. 16 de modo muito natural, e é bem possível que um escriba procurasse melhorar a conexão. A narrativa de Lucas está altamente concentrada. O costume de soltar um prisioneiro na Páscoa (Mc 15:6; Jo 1>1:39) não é atestado fora dos Evangelhos, mas coi­ sas deste tipo se faziam noutros lugares. Nada há de improvável nisto. Quando Pilatos falou de uma soltura, a multidão imediatamente clamou pedindo Barrabás (o nome significa “filho do pai”). Desde o início, deixa­ ram claro que era este homem, e não Jesus, a quem queriam. Era assim, sem dúvida, parcialmente porque os principais sacerdotes devem ter sabi­ do manipular o número comparativamente pequeno que podia ser amon­ toado ao redor do pretório, parcialmente porque os partidários de Barra­ bás decerto aproveitaram a oportunidade de obter a soltura do seu ami­ go, e parcialmente porque ninguém teria levado a sério a idéia de que Je­ sus era um criminoso. Se é que um prisioneiro haveria de ser solto para eles, que seja condenado verdadeiro! Barrabás era evidentemente um membro daquilo que chamaríamos de movimento de resistência, a jul­ gar pela palavra sedição. Sem dúvida, o homicídio (cf. At 3:14) ocor­ rera em conexão que este levante. 20,21. Pilatos não cessou imediatamente suas tentativas. Mas a multidão rejeitou sua abordagem e exigiu uma crucificação. Esta é a pri­ meira vez que este grito nefasto aparece. Em todos os Evangelhos, a exigência da crucificação de Jesus aparece somente depois de Pilatos ter proposto soltá-Lo como o prisioneiro favorecido na festa.

78. A. N. Sherwin-White, Roman Society and Roman Law in the New Testament (Oxford, 1963), pág. 27. Faz este comentário adicional, importante paia a nar­ rativa de Lucas em geral: “Lucas é notável nisto: que suas matérias adicionais - a ple­ na formulação das acusações formais diante de Pilatos, a referência a Herodes, e a proposta absolvição com uma admoestaçao - são todas tecnicamente coneías” (ibid., p. 32).


22, Pela terceira vez Pilatos protestou a inocência de Jesus (esta realmente é a quarta ocasião, mas v. 15 pode ser considerado como um relato do parecer de Herodes). Lucas torna muito claro que Pilatos não so­ mente tinha convição da inocência de Jesus, mas também que ele assim falou repetidas vezes. Aparentemente foi em desespero que Pilatos agora voltou à sugestão do castigo seguido pela soltura, que os judeus já rejei­ taram (16). 23. A turba era insistente. Seus grandes gritos davam a impressão de que um motim começava a formar-se. Deve ter sido óbvio a Pilatos que a situação estava se tornando cada vez mais feia. Os gritos da turba ganharam a contenda. 24,25. Pilatos deu sua decisão. Lucas começa e termina ao refe­ rir-se aos judeus, primeiramente ao pedido deles, que Pilatos atendeu, e finalmente à vontade deles à qual entregou Jesus. Não podemos deixar de perceber a ênfase sobre a responsabilidade dos judeus pela morte de Jesus. Lucas repete a informação de que Barrabás tinha sido encarcera­ do por causa da sedição e do homicídio, ressaltando, assim, o contraste com Jesus, que era inocente. É possível que haja também um indício “da morte vicária de Jesus. Aquele que é culpado da morte é perdoado (apoluõ \ cf. 6:37), e o inocente morre no seu lugar” (Ellis). Talvez deva­ mos acrescentar que Lucas não está sendo anti-semítico, e muito menos fornece bases para o anti-semitismo em nossos próprios dias. Está tratan­ do de um grupo específico de pessoas e sustentando que tramaram a mor­ te de Jesus. Não foi Pilatos nem seus romanos que exigiram a execução de Jesus: foram os principais sacerdotes judaicos e seus seguidores. Com isto, porém, não se quer dizer mais do que o seguinte: um só grupo de homens era culpado. Lucas não está culpando uma raça, e nem seus leitores devem fazê-lo.

k. Jesus é crucificado (2 3 :26-49)

i. Simão leva a cruz (23:26). Era costumário para o criminoso condenado carregar ou a cruz ou sua barra transversal para o lugar da exe­ cução, Jesus começou a caminhada para o Gólgota carregando Sua cruz (Jo 19:17), mas decerto tinha sido enfraquecido pela flagelação que era o preliminar normal à crucificação, de modo que os soldados compeliram um transeunte a fazer este serviço. Lucas nos diz que seu nome era Simão, que era de Cirene, e que, na ocasião, vinha do campo. Noutros lugares descobrimos que sua família era conhecida na igreja (Mc 15:21; talvez


Rm 16:13) e já foi conjecturado que ele foi ganho naquele dia pelo com­ portamento dAquele cuja cruz carregava. ii. As filhas de Jerusalém (23:27-31). Este incidente é achado somente em Lucas. Ressalta algo da simpatia que muitos sentiam por Je­ sus, especialmente entre as mulheres. Devemos ter em mente que aqueles que clamavam, exigindo a execução de Jesus, não eram necessariamente um grande número. Poderiam ir enchendo o espaço em derredor da sala do julgamento. Ainda havia muitos em Jerusalém que admiravam Jesus, e é acerca dalguns destes que agora ficamos sabendo. 27. Muitos ficaram entristecidos pela reviravolta dos eventos. Lucas fala de numerosa multidão inclusive pessoas que batiam no peito e o lamentavam. A impressão que recebemos é a de uma demonstração barulhenta de profundo pesar. Em harmonia com um dos seus interesses, Lucas destaca as mulheres para menção especial. 28. Jesus as saúda como Filhas de Jerusalém; logo, este grupo era composto de habitantes da cidade e não galileus que subiram para a festa. Neste momento, enquanto sai para a execução, Jesus pensa, não em Si mesmo, mas, sim, nelas. Deseja o arrependimento delas, e não sua simpatia. Não está dizendo que erraram em lamentar por Ele, mas está pensando com compaixão da cidade condenada e dos seus habitantes. As palavras dirigem as mulheres para a importância de olhar além do pre­ sente momento para as conseqüências inevitáveis dos pecados da nação. 29. 30. Virão tais calamidades que será considerado uma bênção nunca ter tido filhos, em contraste com o conceito judaico usual de que os filhos são a boa dádiva do Senhor (cf. Sl 127:3). Naqueles dias, pois, as crianças sofrerão terrivelmente e, portanto, seria melhor não ter nenhu­ ma. Nas palavras do profeta, as pessoas clamarão pedindo a morte a fim de escaparem à ira vindoura (Os 10:8; cf. Ap 6:16). 31. Este parece ser um ditado proverbial. Vários significados pos­ síveis têm sido sugeridos. Se Jesus, o inocente, sofria assim, qual será a sorte dos judeus culpados? Se os romanos tratam assim Aquele que reco­ nhecem ser inocente, o que farão aos culpados? Se os judeus tratam as­ sim a Jesus que viera trazer a salvação, qual será seu castigo por destruíLo? Se os judeus se comportam assim antes da sua iniqüidade chegar à sua consumação, como serão quando assim acontecer? Se pesar está sendo despertado pelos eventos presentes, como será quando a calamidade subse­ qüente sobrevier? Nenhum destes significados é impossível, mas talvez de­ va ser preferida a primeira sugestão. iii. A crucificação (23:32-38). De modo muito simples, Lucas conta a crucificação de Jesus, o sacrifício supremo para a salvação da hu­


manidade. Nesta forma de execução, os homens eram fixados a uma cruz (que podia ter o formato da nossa cruz convencional, ou como um T, um X, um Y ou até mesmo um I) com cordas ou pregos. As mãos de Jesus fo* ram pregadas (Jo. 20:25), e provavelmente Seus pés também (cf. 24:39), embora nenhum dos Evangelistas diga assim em termos específicos. Havia uma projeção como um chifre em que o crucificado ficava parcialmente montado. Esta tomava a maior parte do peso e não deixava que a carne se rasgasse dos pregos. A descoberta recente dos ossos de um homem cruci­ ficado no mesmo período de Jesus, levanta a possibilidade de que as per­ nas talvez tenham sido entortadas e torcidas, e depois fixadas à cruz por meio de um único prego atravessando os dois calcanhares.79 Semelhante contorção do corpo teria acrescentado à agonia. A crucificação era uma morte lenta e dolorosa, mas é digno de nota que nenhum dos Evangelistas dá ênfase ao tormento que Jesus suportou. O Novo Testamento concentrase na relevância da morte de Jesus, e não em atormentar nossos sentimen­ tos. 32,33. Havia dois outros crucificados naquela ocasião. Lucas diz apenas que eram malfeitores, Mateus e Marcos dizem que eram ladrões. Os três foram levados para um lugar chamado Calvário (Latim, ativaria, que significa “crânio”). O motivo do nome não se sabe. Usualmente sus­ tenta-se que era este o formato da colina em que Jesus foi crucificado, mas nem Lucas nem qualquer dos demais Evangelistas fala de uma coli­ na, e muito menos do seu formato. Todos os quatro Evangelistas nos di­ zem que Jesus foi crucificado entre os outros dois, evidentemente seu mo­ do de ressaltar o fato que Ele foi executado como um criminoso (cf. 22: 37). Na Sua morte, Jesus estava no meio de transgressores. 34. Há dúvida textual acerca desta oração. Está ausente dalguns dos melhores MSS, e alguns críticos argumentam que deve ser rejeitada, visto que dificilmente seria omitida se fosse genuína. Contra este fato há aquele de que outros MSS excelentes a atestam. Copistas antigos talvez tenham sido tentados a omitir as palavras pela reflexão que talvez Deus não tivesse perdoado a nação culpada. Os eventos de 70 d.C. e depois muito bem podem ter dado a impressão de qualquer coisa, menos o per­ dão. Devemos considerar as palavras como sendo genuínas. É o próprio espírito de Jesus que dita esta solicitude para com aqueles que O execu­ tavam. Não define restritamente aqueles em prol dos quais Ele ora, e Seu lhes provavelmente inclua tanto os judeus que eram responsáveis pela 79. Ver o artigo , “Jesus and Jehohanan” por J. H. Chariesworth, era ET, lxxxiv, 1972-73, págs. 147-150.


crucificação quanto os romanos que a levaram a efeito (cf. At 2:23; 3:17; 13:27-28; 1 Co 2:8). Era costume aceito que as roupas de uma pessoa crucificada eram gratificação para os algozes. Nesta ocasião, foram divididas, e lançaram-se sortes pela túnica sem costura (Jo 19:23$$.; cf. Sl 22: 18). 35. Lucas retrata o povo em geral simplesmente observando. Exe­ cuções eram funções populares, e sem dúvida havia muitas pessoas pre­ sentes nesta. Mas eram as autoridades, e nãb o povo, que zombavam (cf. Sl 22:6-8). Nâo se dirigiam a Jesus, mas, sim, falavam uns aos outros das Suas atividades salvíficas. Empregavam dois epítetos: o Cristo de Deus, e o Escolhido. Falta evidência de que Jesus tenha feito uso exten­ sivo de um ou outro deles, de modo que é um pouco misterioso o fato de as autoridades terem falado assim. Estas duas expressões, porém, indicam o favor especial de Deus, e sem dúvida estas pessoas estavam contrastan­ do palavras que falavam de favor, com a triste situação real de Jesus, ali na cruz. 36,37. Lemos que ofereceram a Jesus vinho drogado (que recu­ sou), no começo da crucificação (Mt 27:34; Mc 15:23), e que Lhe foi da­ do vinagre (i.é, vinho barato) pouco antes da Sua morte (Jo 19:29), mas somente Lucas nos conta que os soldados o usavam em conexão dalgu­ ma zombaria da parte deles (cf. Sl 69:21). Convocaram Jesus, se fosse o Rei dos Judeus, a salvar-Se a Si mesmo. 38. Todos os quatro Evangelistas mencionam a inscrição na cruz. Semelhante aviso declararia o crime para o qual o homem condenado es­ tava sendo executado. A inscrição sobre a cabeça de Jesus é relatada de modo diferente em todos os quatro Evangelhos, mas, já que a própria inscrição estava em três línguas (Jo 19:20; as palavras correspondentes aqui [entre colchetes] não são bem atestadas e devem ser rejeitadas) e não.temos meios de saber qual delas qualquer um dos Evangelistas está se­ guindo, isto não é estranho. O que fica claro é que Pilatos estava procla­ mando que Jesus morreu como Rei dos Judeus. Estava tomando sinistra vingança dos líderes judeus que o tinham pressionado. Mas também es­ tava proclamando a realeza de Jesus, tema este grandemente estimado por Lucas. iv. O ladrão arrependido (23:39-43). Esta história é privativa de Lucas, ao passo que Mateus e Lucas apenas nos dizem que os ladrões crucificados com Jesus falavam mal contra ele. Alguns pensam que aqueles Evangelistas estavam dizendo, em efeito: “E desta maneira que os criminosos reagiram” (talvez sem saberem que um dos ladrões se arre­ pendeu). Outros pensam que os dois homens começaram por blasfemar


contra Jesus, mas que um deles teve uma mudança de sentimento. 39. Esta é a atitude que vemos nos demais Sinotistas. Este mal­ feitor perguntou: Não és tu o Cristo? Sua pergunta pressupõe a resposta “Sim,’1 mas é amargamente irônica. Conclama Jesus a salvar todos eles, sem acreditar que Ele pode fazê-lo. 40,41. O companheiro virou-se contra ele. Bengel pensa que sua situação numa “cruz tremendamente dura” talvez tenha tido alguma coi­ sa que ver com a atitude transformada, pois a “conversão raramente ocor­ re num sofá macio e confortável.” Sua pergunta: Nem ao menos temes a Deus? dá a entender que talvez pudesse fazer mais do que isto, mas tendo em vista sua triste situação, certamente não poderia ter feito menos. O la­ drão transformado passa a ressaltar a verdade de que os dois estavam sen­ do castigados com justiça. Quebraram a lei, e o sofrimento deles devia ser visto à luz daquele fato. Jesus não era assim: este nenhum mal fez. Tal reconhecimento da inocência de Jesus deve ter sido generalizado. 42,43. Passou, então, a falar a Jesus, pedindo: lembra-te de num, i.é, lembrar-Se dele para o bem. Os MSS estão divididos quanto ao texto “em teu reino” (i.é, na glória apropriada à realeza; cf. “quando o senhor vier como Rei” - BLH), ou no teu reino (i.é, quando entrares no teu es* tado real; cf. NEB, “quando chegares ao teu trono”). A primeira inter­ pretação se referia mais naturalmente à volta do Messias à terra em triun­ fo, a segunda, à Sua passagem pela morte para um reino no mundo do porvir. Ambos os textos são bem atestados nos MSS [o Grego distingue claramente entre 1. dentro de; e 2, para dentro de], mas talvez o argu­ mento pende um pouco mais para “para dentro do teu reino.” Não é fácil saber quão plenamente o ladrão arrependido pudesse ter entrado num entendimento da Pessoa e obra de Jesus. Estas palavras mostram, porém, que pelo menos reconheceu que a morte não seria o fim de tudo para ele, e que além da morte permanecia o reino. As palavras de Jesus, dando-lhe confiança, deram-lhe mais do que pedira. Não somente teria um lugar no Seu reino, quando quer que este fosse estabelecido, como também, naquele mesmo dia, entraria no Paraíso. Em verdade marca as palavras que se seguem como enfáticas e importantes (ver sobre 4:24). Hoje ocasionalmente é entendido juntamente com as palavras anterio­ res, mas não parece haver motivo para isto. Quase todos os estudiosos concordam que se refere ao estar no pâraiso. Esta palavra persa que sig­ nifica “jardim” é usada no Antigo Testamento para certo número de jar­ dins. Especialmente importante é seu uso para o Jardim do Éden. Talvez a partir daí o termo veio a ser usado para a habitação dos bem-aventura­ dos no mundo do porvir (cf. 2 Co 12:3; Ap 2:7). É usado desta manei­


ra aqui. Jesus assegura este homem que terá felicidade no futuro imedia­ to, felicidade esta que seria estreitamente associada com Ele (comigo). v. A morte de Jesus (23:44-49). O relato de Lucas da morte de Jesus ressalta que foi pacífica e qual foi seu efeito naqueles que observa­ vam. 44,45. A hora sexta era meio-dia. O dia era dividido em doze par­ tes, a partir do raiar do sol. Uma hora tinha uma duração diferente em es­ tações diferentes do ano, mas a sexta hora sempre era meio-dia. No relato de João, “era cerca da hora sexta” quando Pilatos se preparou a senten­ ciar Jesus (Jo 19:14). Marcos diz que “era a hora terceira” (Mc 15:25). De­ vemos ter em mente que os antigos não eram tio precisos na sua medição do tempo quanto nós somos agora. Antes da existência de relógios de pa­ rede e de pulseira, como poderiam sê-lo? Todos os horários do dia nos do­ cumentos antigos tendem a ser aproximados. João, portanto, quer dizer que era na parte final da manhã que Pilatos pronunciou a sentença, e Lu­ cas, que Jesus estava na cruz cerca do meio-dia. Marcos talvez queira dizer que a crucificação ocorreu um pouco mais cedo, ou talvez queira dizer que a manhã estava avançada quando este evento ocorreu. Obviamente, os Evangelistas não estão meramente repetindo uns aos outros, mas não há nenhuma contradição essencial. Lucas continua, dizendo-nos que durante três horas houve trevas sobre toda a terra. Não nos diz o que a causou, e os tradutores e comentaristas que falam de um eclipse do sol estão enga­ nados. Um eclipse é impossível na lua cheia (a qual, naturalmente, deter­ minava o tempo da Páscoa), e a linguagem de Lucas não deve ser forçada para dar este significado. Certamente, está ligando as trevas, não aos fenô­ menos astronômicos, mas, sim, aos eventos tristes que levaram è morte de Jesus. Assim também era o caso do véu do santuário que se rasgou. Esta era a cortina que separava o Santo dos Santos do restante do Templo. Simbolizava o aspecto separado e remoto de Deus. O rasgar do véu a esta altura dá expressão simbólica à verdade de que a morte de Jesus abriu o caminho para a própria presença de Deus (cf. Hb 9:3, 8; 10:19ss). Talvez haja também, conforme pensa Godet, a idéia de que o Templo já não mais é a habitação de Deus. 46. As últimas palavras de Jesus são uma bela expressão de con­ fiança enquanto Se recomenda ao Pai nas palavras de um Salmo (Sl 31:5). Mateus e Marcos enfatizam a natureza terrível da morte que Jesus sofreu pelos pecadores com as palavras, “Deus meu, Deus meu, porque me desamparaste?” (Mt 27:46; Mc 15:34). Lucas não está negando este aspecto, mas o que ressalta é que naquela morte, paradoxalmente, Jesus estava em co­ munhão com o Pai. Cumprira a vontade do Pai. A palavra traduzida expi-


rou, exepneusen, não é a palavra normal para dizer que alguém morreu. Na realidade, nenhum dos Evangelistas diz: “Jesus morreu,” que talvez seja parte da maneira deles de ressaltarem a verdade de que na morte de Jesus havia algo totalmente fora do comum. 47. Lucas passa para a reação dalguns daqueles que viram Jesus morrer. O centurião, que decerto era o encarregado da execução, deu gló­ ria a Deus. Parece querer dizer que seu tributo a Jesus era um ato inconsciente de louvor. Jesus era justo , o que quer dizer que era aceitável a Deus. A implicação é que a morte dos justos deve estar de acordo com a vontade de Deus. Ao reconhecer a justiça o centurião estava, assim, lou­ vando a Deus. Mateus e Marcos têm “Filho de Deus,” mas o sentido em que um romano teria usado o termo é expressado melhor nas palavras registradas por Lucas. Plummer faz a paráfrase: “Era um homem bom, e tinha o direito de chamar Deus Seu Pai.” 48. As multidões devem ser os jerusalemitas que não tinham mui­ to interesse em Jesus mas que vieram olhar a execução. Ao invés de rece­ berem divertimento, ficaram entristecidas por tudo isto e foram para casa batendo nos peitos na sua aflição. Muitos viram nesta reação uma pre­ paração para a pregação bem-sucedida no dia de Pentecoste, quando três mil acreditaram nesta cidade (At 2:41). Por que tantos? Parte da resposta decerto é que muitos foram para casa, após a crucificação perturbados e pensativos. 49. É curioso que Lucas não menciona o efeito sobre os seguido­ res de Jesus. Diz-nos que alguns deles estavam ali, e, caracteristicamente, destaca certas mulheres para a menção especial. Mas conta-nos apenas que estas pessoas permaneceram a contemplar de longe estas coisas (tal­ vez não tivesse sido aconselhável chegar perto demais).

I. O sepultamento de Jesus (23:50-56). Todos os Evangelhos concordam que José da Arimatéia tomou a diantei­ ra no sepultamento de Jesus, e que algumas mulheres estavam associadas com ele. Nada sabemos acerca dele senão aquilo que ficamos sabendo nes­ te incidente. 50. 51. A localização de Arimatéia não é conhecida. Mas visto que tinha um túmulo perto de Jerusalém, evidentemente deixara sua cidade natal e viera morar na capital. Era membro do Sinédrio, mas Lucas deixa claro que não tinha dado seu consentimento à execução de Jesus, Deve ter estado ausente, pois o voto foi unânime (nota-se o “todos” de 22:70;


Mc 14:64). Lucas se refere ao seu bom caráter e diz que esperava o reino de Deus. Este é provavelmente o modo dele de nos contar que José era um seguidor de Jesus (cf. Mt 27:57; Jo 19:38). 52, 53. Evidentemente, era necessário obter a permissão de Pilatos para enterrar Jesus, e José assim fez. Tirou o corpo da cruz e o colocou num lençol de linho (João fala em lençóis, que devem ter sido ataduras menores, Jo 19:40; o lençol grande teria então coberto o restante). O tú­ mulo estava aberto em rocha, e não tinha sido usado antes (os túmulos, sendo caros, tendiam a receber o uso máximo; os túmulos judaicos daque­ le período que hoje ainda existem, freqüentemente têm várias câmaras de modo que possam acomodar um certo número de corpos). Numa ou­ tra passagem, ficamos sabendo que José preparara este túmulo para ele mesmo (Mt 27:60). 54. O dia da preparação era sexta-feira, o dia em que os homens preparavam-se para o sábado. Não se podia realizar trabalho algum no sá­ bado, e com a sexta-feira chegando ao fim, e com o sábado para come­ çar no momento do pôr do sol, o sepultamento tinha de ser completa­ do com certa pressa. 55,56, As mulheres galiléias fiéis acompanharam as atividades até ao fim. O costume judaico era embrulhar aromas e bálsamos com o corpo, mas para isto não havia tempo adequado. Na realidade, não era proibido ungir um corpo numa festa religiosa (Shabbath 23:5), mas havia outras restrições, tais como aquelas sobre o preparo de um caixão ou um sepul­ cro (Shabbath 23:4), ou sobre a movimentação da posição de até mesmo um membro do falecido (Shabbath 23:5). Sendo assim, o sepultamento tinha de ser apressado. Colocaram o corpo no túmulo e depois as mulhe­ res partiram para os lugares onde estavam hospedadas e prepararam os in­ gredientes necessários para fazerem uma unção apropriada depois de pas­ sado o sábado. Estando completados os preparativos, obedeceram a Lei e descansaram no sábado. Em João, as especiarias que Nicodemos trouxe foram sepultadas com o corpo, em Lucas as mulheres prepararam especia­ rias antes do sábado, em Marcos, as compraram depois do sábado, ao pas­ so que em Mateus nada é registrado acerca das especiarias. Talvez devamos entender que tudo isto significa que o sepultamento foi forçosamente, apressado, mas usavam-se as especiarias disponíveis. Depois, as mulheres fiéis, antes e depois do sábado, fizeram o que era necessário para Comple­ tar o sepultamento.


VIU. A RESSURREIÇÃO (24:1-53)

Nenhum dos quatro Evangelhos descreve a ressurreição, que, de qualquer maneira, nenhum ser humano viu. Todos, porém, ressaltam sua importân­ cia crítica, embora de maneiras grandemente diferentes. Algumas coisas existem em comum em todos os relatos, tais como o túmulo vazio, a re­ lutância dos discípulos de crerem que Jesus ressuscitara, o fato de que os primeiros aparecimentos foram a mulheres, e o número limitado de aparecimentos. Até mesmo quando estão falando do mesmo aparecimen­ to, cada Evangelista o conta da sua própria maneira individual (e.g. Lc 24:36ss.; Jo 20:19ss.). Coisas desta natureza tomam difícil a disposição dos aparecimentos numa seqüência coerente, e alguns críticos sustentam que as discrepâncias nos vários relatos tornam impossível semelhante disposição. Que esta idéia é incorreta é demonstrado pelo fato de que Arndt, por exemplo, elaborou uma harmonia possível (assim como fize­ ram outras pessoas). Podemos ou não sentir-nos capazes de aceitar a solu­ ção de Arndt, mas não se pode negar que ele elaborou uma seqüência que abrange todos os aparecimentos mencionados nos relatos. O tesouro de Lucas é a história maravilhosa da caminhada para Emaús. Suas outras histórias da ressurreição também possuem o cunho próprio dele, e são diferentes daquilo que lemos alhures. É digno de nota que concentra-se em Jerusalém e nada diz acerca dos aparecimentos do Senhor ressurreto na Galiléia.

a. O aparecimento às mulheres (24:1-11) 1. O sábado era, naturalmente, o sétimo dia, de modo que o pri­ meiro dia da semana foi nosso domingo. O sábado teria terminado ao pôr do sol no sábado, mas pouca coisa poderia ser feita durante as horas de escuridão. Destarte, as mulheres já estavam atitfas bem cedo no domingo, e foram caminhando para o túmulo no começo da aurora. Que levaram consigo os aromas demonstram que tinham em mente a completação do sepultamento de Jesus. 2,3. Marcos nos conta que enquanto caminhavam, discutiam o problema de remover a pedra pesada da entrada do túmulo. Lucas sim­ plesmente diz que quando chegaram, acharam-na já removida do sepul­ cro. Quando, mais tarde, o discípulo amado chegou aõ túmulo, sentia dificuldade quanto ao entrar nele (Jo 20:5), mas as mulheres não tinham


nenhuma hesitação desta natureza. Quando entraram, no entanto, não acharam o corpo. 4. Nio sem motivo, as mulheres estavam totalmente perplexas. Os dois homens que agora ficaram ali com vestes resplandecentes (cf. At 1:10) evidentemente devem ser entendidos como sendo anjos. Mateus fala de um anjo que removeu a pedra e também falou às mulheres. Mar­ cos se refere á um jovem com manto branco, a quem viram depois de en­ trarem no túmulo. João menciona dois anjos vestidos de branco que falaram a Maria Madalena. Fica claro que todas estas referências dizem res­ peito a anjos. O fato de que às vezes ouvimos falar de um, e às vezes de dois, não precisa preocupar-nos. Conforme indicam muitos comentaris­ tas, um porta-voz destaca-se mais do que seus companheiros e pode ser mencionado sem referência aos outros. Nem sequer devemos ser grande­ mente preocupados porque os anjos possam estar sentados (em João) ou em pé (aqui), nem que suas palavras não são idênticas em todos os vários relatos. E crítica exagerada que não permite os anjos a mudarem de posi­ ção, e não há razão alguma para sustentar que falaram uma só vez. Além disto, João fala deles em conexão com um incidente diferente. Há pro­ blemas, sem dúvida, mas a coisa principal que estas diferenças pequenas nos contam é que os relatos são independentes entre si. É possível, tam­ bém, que no caso de anjos seja requerida a percepção espiritual, e que nem todos tenham visto a mesma coisa. 5-7. A reação das mulheres era de medo. Baixar o rosto para o chão era uma marca de respeito diante de seres tão grandiosos. Os anjos pergun­ taram primeiro: Por que buscais entre os mortos ao que vive? Esta pergun­ ta surpreendente chega imediatamente à raiz do assunto. Não se deve pen­ sar que Jesus está morto: logo, não deve ser procurado entre os mortos. As palavras: Ele não está aqui, mas ressuscitou são rejeitadas por muitos críticos, visto que não se acham em um dos MSS gregos importantes, e faltam nalgumas poucas outras autoridades. É argumentado que é prová­ vel que fossem importadas de Mc 16:6. Contra isto, porém, são atesta­ das por uma maioria esmagadora de MSS, inclusive o antiquíssimo P75. Além disto, parecem ser subentendidas pelo v. 23. Devem ser aceitas. E mesmo se não fossem, o que as palavras declaram deve ser subentendido. Os anjos passam a lembrar as mulheres que isto estava de acordo com a predição feita por Jesus enquanto Ele ainda estava na Galiléia. Naquela ocasião dissera que seria crucificado e ressuscitaria no terceiro dia (cf. 9:22; este ensino continou depois da Galiléia, 17:25; 18:32-33). Mateus e Marcos omitiram esta declaração, mas nos informam, como não faz Lu­ cas, que Jesus iria para a Galiléia diante dos discípulos, e que eles O ve­


riam ali. Talvez Lucas omitisse esta parte porque nâo tinha o propósi­ to de incluir qualquer relato dos aparecimentos de Jesus na Galiléia. 8, 9. Lembraram-se, e é evidente que isto lhes trouxe certa me­ dida de convicção. Já tinham ouvido aquelas palavras antes, mas Jesus freqüentemente tinha falado metaforicamente, e provavelmente tinham entendido as palavras estranhas acerca da ressurreição de alguma maneira semelhante. Agora perceberam que Jesus pretendia que Suas palavras fossem tomadas literalmente. As mulheres foram levar suas notícias aos onze e também as contaram a todos os mais que com eles estavam, i.é, os demais seguidores de Jesus que havia naquele local. 10. Lucas passa a alistar os nomes dalgumas das mulheres. Maria Madalena, a primeira a ver o Senhor ressurreto (cf. Mc 16:9), é mencio­ nada em cada um dos quatro Evangelhos na narrativa da ressurreição. Mas à parte da sua conexão com a crucificação e a ressurreição, ouvimos falar dela somente em 8:2 (ver a nota ali). Joana é mencionada somente aqui e em 8:2 (ver a nota ali). Maria mãe de Tiago (Mc 16:1) é aparente­ mente “a outra Maria” de Mt 28:1. Estas, e as demais mulheres (que in­ cluem Salomé, mencionada em Mc 16:1) contaram aos apóstolos o que viram e ouviram. 11. Os homens altivos, no entanto, não ficaram impressionados. Consideraram a história como delírio. Lucas sublinha este conceito ao acrescentar e não acreditaram nelas. Os apóstolos não eram homens ba­ lançados à beira da crença, que precisassem de uma sombra de uma des­ culpa antes de lançar-se numa proclamação da ressurreição. Estavam to­ talmente céticos. Até mesmo quando mulheres que conheciam bem con­ tavam-lhes as experiências delas, recusaram-se a crer. É claro que evidên­ cia irrefutável seria necessária para convencer estes céticos. b. Pedro no sepulcro (24:12) Muitas autoridades omitem este versículo, presumivelmente porque é di­ fícil ver por que alguém o omitiria se fosse original. Razões podem ser sugeridas, no entanto. Alguns escribas podem ter pensado que a ausên­ cia de qualquer referência a João fosse uma contradição com o Quarto Evangelho, ou talvez tenham achado difícil harmonizar o versículo com v. 24. O versículo é incluído por quase todas nossas melhores autorida­ des para o texto, sendo que o Código Bezae e outros representantes dc texto ocidental são as únicas exceções notáveis. A sugestão de que é um resumo rápido do aparecimento narrado por João não resiste a um exa­ me. Se esta for a sua origem, por que não havia menção do discípulo


amado, especialmente porque aquela narrativa culmina na crença dele na ressurreição (Jo 20:8)? E, no que diz respeito a Pedro, o fato impor­ tante em JoSo é que Pedro entrou no sepulcro, o que Lucas não mencio­ na. Do outro lado, Lucas nos conta, e João nâo conta, que Pedro retirouse, maravilhado do que havia acontecido. Tendo em vista tais dificulda­ des, é difícil pensar que este versículo deriva de João. E se nâo tem esta origem, então, tendo em vista sua atestação esmagadora, deve ser aceito, como o é por Moffatt, Leaney, Harrington, JB, TEV, etc.80 Dá-nos a reação característica de Pedro diante da notícia trazida pelas mulheres. Correu ao sepulcro (ação esta que parece ser referida em v. 24). Nada mais viu senão os lençóis de linho, o que sublinha o fato do túmulo va­ zio. Pedro, porém, ainda não acreditava na ressurreição, pois foi para casa, maravilhado do que havia acontecido. Mas pelo menos ficou im­ pressionado. Algo de maravilhoso acontecera.

c. A caminhada para Emaús (24:13-35) Esta história encantadora é uma das mais queridas de todas as narrati­ vas da ressurreição. Há algo de muito comovedor no fato de um dos r

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80. Desde os tempos de Westcott e Hort tem havido um forte sentimento que certo número de passagens peito do fim de Lucas (e noutros lugares) são espú­ rias. Westcott e Hort as chamavam de “não-interpolações ocidentais,” um nome cu­ rioso para interpolações no texto “neutro” que tanto amavam. Os estudiosos têm si­ do influenciados por esta opinião de peso, pela grande antigüidade do texto ociden­ tal, e pela dificuldade de explicar por que os escribas omitiram passagens tão notá­ veis. Recentemente, no entanto, atenção tem sido dada aos papiros recém-descobertos, especialmente o grande P75. Agora fica claro que estes textos são tão antigos, ou provavelmente mais antigos, do que o texto ocidental, e a tendência é aceitá-los. Ver, por exemplo, o artigo por Klyne Snodgrass. ' “Western Non-Interpolations” JBL, 91, 1972, págs. 369-379. Sobre o presente versículo, Snodgrass diz: “fica muito claro que este versículo, uma das ‘não-interpolações ocidentais* mais seguras, pertence ao texto original de Lucas” (ibid., pág. 373). Antes disto, J. Jeremias indi­ cara uma grande dificuldade no caminho da atitude comum diante das não-interpolações ocidentais: “A suposição de que o arquétipo do grupo D it vet-syr sofrerá algu­ ma perda é comparativamente fácil, ao passo que é extremamente difícil visualizar a evolução de um texto em que uma interpolação pudesse encaixar-se em todo MS grego com a exceção de D somente. A originalidade do texto mais curto, portanto, poderia ser suposta somente por razões muito válidas” (The Eucharistic Words of Jesus (Oxford, 1955), págs. 91-92). K. Aland ressalta a importância de P75 na sua aceitação de um grupo considerável de passagens (inclusive esta) rejeitadas pela teo­ ria das “não-interpolações ocidentais” (NTS, xii, 1965-66, págs. 193-210).


poucos aparecimentos do Senhor ressurreto ser outorgado a estes discí­ pulos humildes, totalmente desconhecidos. A história, além disto, tem algo de tão vivido nela que decerto veio diretamente de um dos partici­ pantes, e é até possível que o próprio Lucas fosse o discípulo cujo nome nâo foi dado. Outros, no entanto, consideram este aspecto como sendo nada mais do que uma prova da arte literária deste Evangelista. 13,14. Naquele mesmo dia liga esta história firmemente com os outros acontecimentos no dia da ressurreição. Lucas não dá o nome dos discípulos acerca dos quais escreve, referindo-se simplesmente a dois de­ les. Localiza Emaús com exatidão, como estando sessenta estádios dis­ tante de Jerusalém (um stadion eqüivalia a cerca de 182 metros). Este local não pode ser identificado agora, por haver dificuldades nó caminho de toda identificação sugerida (ver AG para sugestões e documentação). Lucas não identifica o assunto da conversa deles, mas todas as coisas sucedidas deve referir-se às histórias do sepulcro vazio e dos anjos, 15,16. O verbo “aproximar-se” pode referir-se a uma abordagem de qualquer direção, mas como os dois falam de Jesus como sendo pro­ veniente de Jerusalém (18), o significado deve ser que Ele os ultrapassou enquanto eles viajavam. Em certo número de ocasiões, o Cristo ressurre­ to não foi reconhecido de início (Mt 28:17; Jo 20:14; 21:4): assim tam­ bém agora. Nesta ocasião a implicação parece ser que os discípulos foram dalguma maneira impedidos de reconhecer a Jesus. Estava dentro da pro­ vidência de Deus que somente mais tarde viessem a saber quem Ele era. Talvez Lucas queira que entendamos, conforme sugere Ford, “que não podemos ver o Cristo ressurreto, embora Ele esteja andando ao nosso lado, a não ser que Ele queira revelar-Se.” 17,18. A pergunta de Jesus acerca do assunto da conversa deles levou-os a parar, entristecidos. Claramente, tinham sido profundamente comovidos pela reviravolta dos eventos. Cléopas, agora introduzido pela primeira vez, não nos é conhecido fora desta história. Entendia que os eventos acerca dos quais estava falando com seu amigo fossem do conhe­ cimento de todos. O desconhecido, pensava ele, deve ser o único que, tendo estado em Jerusalém, ignora as ocorrências destes últimos dias. Por certo, era um tópico que estava sempre nos lábios de todos aqueles na capital naquela ocasião. 19,20. À pergunta de Jesus: Quais? deram uma resposta iluminadora. Viam Jesus como sendo um profeta. Sua percepção da Sua Pessoa era limitada. Mesmo assim, na sua esperança na redenção (21), devem ter visto Jesus como algo mais. De qualquer maneira, ficaram impressionados pelas Suas obras bem como pelas Suas palavras, e as caracterizavam igual­


mente como sendo poderosas. Tinham visto em Jesus o poder de Deus. Mas, embora Ele tivesse este caráter, explicaram que as autoridades judai­ cas O destruíram. Nota-se que não são os romanos, mas, sim, os principais sacerdotes e as nossas autoridades que tanto o entregaram quanto o cruci­ ficaram. A referência à Sua condenação à morte implica os romanos, mas a culpa principal é colocada diretamente sobre os judeus. 21. A esperança destes dois (e talvez doutros; nós pode significa “nós, os cristãos”) tinha sido que fosse ele quem havia de redimir a Israel. Tinham visto nEle o Libertador prometido. A redenção no mundo antigo significava o livramento mediante o pagamento de um preço. E inconce­ bível que Deus pagasse um preço a qualquer pessoa que fosse, de modo que quando Ele é o sujeito, o conceito é necessariamente modificado. Mas o exame apurado de tais passagens revela que tendem a transmitir o pen­ samento que Deus salva com algum custo (Ele pode, por exemplo, ser re­ tratado ao fazer um grande esforço, visando os interesses dos Seus). Antes do Calvário, ninguém podia saber quão grande era o custo. Mas o uso do conceito da redenção expressa alguma coisa da esperança de Israel e da certeza de que Deus Se importa. 22-24. Os viajantes destacam entre aquilo que ficaram sabendo da parte das mulheres como sendo o túmulo vazio e uma visão de anjos. Não dizem quem foi para o sepulcro a fim de averiguar, mas o plural, alguns dos nossos, mostra que sabiam que Pedro não estivera sozinho. A história das mulheres tivera verificada a sua exatidão, pelo menos no que dizia respeito ao sepulcro vazio. Mas estes dois terminam, com tris­ tezas: mas a ele (há ênfase nesta palavra) não no viram. Aparentemente, os que foram ver o sepulcro esperavam ver a Jesus; mas não No viram, e isto lançou certa dúvida sobre aquilo que as mulheres tinham dito. 25, 26. As palavras deles provocaram uma repreensão um pouc severa da parte do companheiro deles. Talvez O néscios seja um pouco forte para anoêtoi; outras possibilidades são: “obtusos,” “lerdos.” Mas as palavras certamente estão muito longe de ser elogiosas, e demonstram que os dois fizeram menos do que razoavelmente se poderia esperar. E até possível que o plural no masculino abrangesse um casal (cf. 17:34, ver a nota). Alguns têm pensado que o companheiro de Cléopas fosse o próprio Lucas, outros, que era chamado Simão. Mas realmente não sa­ bemos. Jesus passa a indicar que a raiz do problema é que eles não tinham aceito aquilo que se ensina nas profecias bíblicas. Os profetas tinham fa­ lado com clareza suficiente, mas as mentes de Cléopas e do seu compa­ nheiro não tinham sido suficientemente alertas paia captar aquilo que queriam dizer. A palavra todas é provavelmente importante. Sem dúvida, >

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tinham se apegado à predição da glória do Messias, mas era coisa bem diferente levar a sério as profecias que apontavam para o lado mais escu­ ro da Sua missão. Mas o lado escuro estava ali, nas profecias. E isto quer dizer que a Paixão não era simplesmente uma possibilidade que poderia ou não tornar-se uma realidade, dependendo das circunstâncias: era ne­ cessário. Já que estava escrita nos profetas, tinha de acontecer. O Cristo tinha de padecer. Mas este não é o fim de tudo. Ele devia também entrar na sua glória. Deus não está denotado. Triunfa através dos sofrimentos do Seu Cristo. 27. Jesus começou um estudo bíblico sistemático. Moisés e todos os profetas formaram o ponto de partida, mas Ele também passou para as coisas que se referiam a Ele em todas as Escrituras. O retrato que rece­ bemos é aquele do Antigo Testamento que, em todas as suas partes, apon­ ta para Jesus. Lucas não dá indicação alguma de quais passagens o Senhor escolheu, mas toma claro que a totalidade do Antigo Testamento era envolvida. Talvez devamos entender isto, não como a seleção de um certo número de textos de prova, mas, sim, como uma demonstração de que, no decurso de todo o Antigo Testamento, um propósito divino consisten­ te é desenvolvido, propósito este que, no fim envolvia, e devia envolver, a cruz. A qualidade terrível do pecado é achada em todas as partes do Antigo Testamento, mas assim também se acha o amor profundíssimo de Deus. No fim, esta combinação tornou inevitável o Calvário. Os dois ti­ nham idéias erradas daquilo que o Antigo Testamento ensinava, e, por­ tanto, tinham idéias erradas acerca da cruz. 28,29. Quando se aproximavam do fim da sua viagem, parecia que Jesus ia passar adiante. Se não tivessem insistido que Ele ficasse com eles, não há motivo para pensar que Ele teria ficado. Não devemos inter­ pretar as palavras como uma indicação de algum gesto teatral. Sem o con­ vite, Ele não teria ficado. Mas os dois tinham ficado mais do que impres­ sionados com Sua exposição da Bíblia e, portanto, o constrangeram a ficar com eles. Alguns consideram que eles foram para uma hospedaria, mas a única evidência é que Jesus tomou a iniciativa em partir o pão (30), que o hospedeiro normalmente faria. A idéia dificilmente parece adequa­ da, e é muito mais provável que fossem para um lar. Que é tarde e o dia já declina significava que já estava na hora de cessar qualquer viagem normal. Depois do anoitecer, andar seria difícil em trilhas sem iluminação, e pode­ ria haver perigos de salteadores ou de feras. Seria melhor fazer uma parada. 30,31. Na mesa, Jesus passou pelos gestos familiares no começo de uma refeição judaica, embora normalmente teriam sido feitos pelo hos­ pedeiro, e não por um hóspede. Para o procedimento, ver a nota sobre


9:16, 17. O pão era comumente partido durante a oração de ações de gra­ ças antes de uma refeição. Alguns têm visto aqui uma referência ao partir do pão no culto da Santa Ceia, mas esta parece ser forçada. Teria sido um culto muito estranho de Santa Ceia, interrompido na ação de abertura e, pelo que podemos ver, nunca completado. E teria sido completamente fora de lugar. De qualquer maneira, os dois não estavam presentes na Última Ceia (cf. 22:14; Mc 14:17), de modo que não poderiam ter relembrado as ações de Jesus naquela ocasião. Além disto, não se menciona o vinho. Mesmo assim, algo na ação despertou uma lembrança, ou talvez agora vissem as marcas dos pregos nas mãos de Jesus pela primeira vez. Ou talvez fosse simplesmente o momento certo escolhido por Deus. Então se lhes abriram os olhos talvez signifique que Deus escolheu este momen-, to para tornar claro que este era Seu Filho. De qualquer maneira, o re­ conheceram. E quando O reconheceram, ele desapareceu da presença deles. 32. O reconhecimento de que era o Senhor com quem andaram explicou-lhes o que lhes tinha acontecido na viagem. Lembravam-se co­ mo lhes tinha ardido o coração. Claramente, a exposição de Jesus os comovera profundamente. Diziam que Ele lhes expunha as Escrituras; quando Ele falava, o significado oculto nas palavras da Bíblia se tornava claro. 33-35. A reação imediata deles foi contar aos outros crentes. Parece que não completaram sua refeição, pois partiram na mesma hora (que quer dizer “imediatamente” e não “dentro de uma hora.”). Os argu­ mentos que tinham empregado com Jesus a respeito do avançado da hora aparentemente não pesavam de modo algum para eles agora. Em Jerusa­ lém, acharam os onze e outros com eles, embora Lucas não diga quais eram estes outros. Mas estava transbordando da notícia da ressurreição, porque o Senhor já apareceu a Simão! (cf. 1 Co 15:5). Não tinham esta­ do dispostos a aceitar a palavra das mulheres, mas Simão era diferente. Se ele disse que vira Jesus, então O Senhor ressuscitou mesmo. Então, Cléopas e seu amigo contaram acerca da sua caminhada com Jesus e como Ele Se tornou conhecido no partir do pão. A maneira de Ele Se fazer re­ conhecer claramente os impressionara.

d. Jesus aparece aos discípulos (24:36-43) É razoavelmente óbvio supor que este é o mesmo aparecimento que se descreve em João 20:19ss., mas as diferenças entre os dois relatos demons-


tram que são independentes. Nada se diz aqui sobre Jesus soprando sobre os discípulos, nenhuma referência ao Espírito Santo ou à declaração que os pecados são perdoados ou retidos. Mas os dois relatos se referem ao mesmo horário no Dia da Páscoa; nos dois, Jesus mostra as marcas das Suas feridas, e nos dois há provavelmente a saudação da paz. 36. Este incidente se segue imediatamente após a volta dos dois de Emaús. Falavam ainda estas coisas quando Jesus apareceu. Lucas não fala, como fala João de “portas fechadas (i.é, trancadas)”, mas isto parece ser a implicação de Jesus apareceu no meio deles. O Senhor ressurreto não era preso pelas limitações que assediam os homens em geral, e Seus aparecimentos e desaparecimentos repentinos sublinham este fato. Paz seja convosco consta do texto de todos os MSS gregos importantes me­ nos um, e o fato de também constar em João (sendo, portanto, possível que um escriba tivesse copiado as palavras de lá), não é em si motivo sufi­ ciente para alguns críticos descartarem a saudação, pois sua atestação é esmagadora. Trata-se da saudação normal daqueles dias. 37. Não é surpreendente que os discípulos ficaram surpresos. Afi­ nal das contas, o aparecimento repentino do Senhor ressurreto no meio de­ les deve ter sido um susto. Que estavam atemorizados não é tão facil­ mente explicável. Os dois de Emaús tinham acabado de dizer que “0 Se­ nhor ressuscitou.” Mas uma coisa é aceitar semelhante declaração feita por outrém acerca de uma Pessoa ausente, e coisa bem diferente aceitá-la para si mesmo quando a Pessoa está repentinamente presente a des­ peito das portas trancadas. Não admira que acreditavam estarem vendo um espirito, i.é, um fantasma! 0 medo deles era a reação natural diante do sobrenatural. 38-40. Jesus passou a acalmar e consolar Seus seguidores. Primei­ ro, perguntou a razão por estarem perturbados e pelas dúvidas deles. É bom colocar as dúvidas numa posição aberta e ver o que a causa. O con­ vite para tocar nEle e a referência a carne e ossos demonstra que o corpo ressurreto tinha aspectos físicos, ou pelo menos que podia conformar-se, segundo a vontade de Jesus, às leis físicas. Vede as minhas mãos e os meus pés é provavelmente um convite para olhar as marcas das Suas feridas co­ mo meio de verificar que era o próprio Jesus que estava em pé diante deles. Apalpá-Lo mostrar-lhes-ia que Ele não era um fantasma. V. 40 é outro trecho que algumas traduções omitem pela razão de não constar do texto ocidental. A não ser que estejamos a dar àquele texto um poder de veto, as palavras devem ser incluídas. Não podem ter sido derivadas de João, porque o relato dele fala das mãos e do lado de Jesus (Jo 20:20). In­ dicam que Jesus fez aquilo que Suas palavras subentenderam, e mostrou


aos discípulos os lugares onde estavam as marcas dos pregos. 41-43. Agora parecia ao pequeno grupo que tudo isto era bom de­ mais para ser verdadeiro. Não acreditava . . . por causa da alegria. Jesus, portanto, dissipou sua descrença ao pedir alimento que passou a comer diante deles. Além do pedaço de peixe assado, ARA, etc. acrescentam [en­ tre colchetes] e um favo de mel, mas é o texto de MSS inferiores e deve ser rejeitado.

e. O cumprimento das Escrituras (24:4449)

O cumprimento das Escrituras é um tema principal de Lucas. Entende que Deus declarou Seu propósito naqueles escritos antigos e que depois cum­ priu o que prenunciara. Não era frustrado pelas maquinações dos homens ímpios. 44. São estas as palavras que eu vos falei: “Estes acontecimentos, especificamente a ressurreição, representam a concretização das coisas que Eu vos ensinei.” Jesus incluíra no Seu ensino um número suficiente de prenúncios da Paixão e da Ressurreição para Seus seguidores não terem sido surpreendidos com aquilo que aconteceu. Podia dizer: estando ainda convosco, porque Sua presença agora (e noutras ocasiões como esta) era excepcional. O rompimento definitivo ocorrera e Ele já não habitava na terra. A divisão solene das Escrituras na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos (as três divisões da Bíblica Hebraica) indica que não há parte algu­ ma da Escritura que não dá testemunho a Jesus. Este, aliás, parece ser o único lugar no Novo Testamento onde esta tríplice divisão é explicitamen­ te mencionada. 45,46. Assim como na estrada de Emaús, lhes abriu o entendimen to (32). Demonstrou que a Bíblia indica um Messias que padeceria e ressus­ citaria. Mais uma vez, Lucas torna claro o fato sem nos contar quais eram as passagens das quais Jesus dependia para comprovar Seu argumen­ to. 47,48. Nesta ocasião, Jesus foi além de mostrar como a profecia foi cumprida na Sua Paixão e Ressurreição. Segue-se dos Seus atos salvíficos que o arrependimento para remissão de pecados deve ser pregado. Diz-se freqüentemente que Lucas não vê a cruz realizando uma função expiadora, de modo que são importantes estas palavras que vinculam o perdão com a Paixão. Lucas talvez não ressalte a expiação da mesma ma­ neira que alguns outros escritores do Novo Testamento a ressaltam, mas está ali. Em seu nome liga este arrependimento e perdão com aquilo que


Jesus é e fez. Os homens são chamados a um arrependimento baseado em princípios gerais e para receber um perdão sempre disponível. Lucas está falando acerca daquilo que Cristo fez em prol dos homens e que está dis­ ponível através dEle. 0 universalismo deste Evangelista ressalta-se na sua referência a todas as mções. Não é um perdão mesquinho, disponível pa­ ra algumas almas piedosas e nacionalistas, mas, sim, para todos os homens. As palavras seguintes, começando de Jerusalém, poderiam ser entendidas gramaticalmente com as anteriores ou as posteriores. É mais provável que seja com as anteriores (como em ARA), mas talvez nâo haja, afinal, muita diferença. O evangelho deve ser pregado a todas as nações, e o testemunho a Cristo deve ser dado. As duas ações deveriam ser realizadas por homens que nesta ocasião estavam em Jerusalém. Era ali que seu testemunho co­ meçaria, e era ali que a evangelizaçâo das nações começaria. 49. O Jesus ressurreto tem o poder para enviar o Espírito. Sua au­ toridade não é limitada como era durante os dias do Seu ministério terres­ tre. A promessa de meu Pai é uma designação incomum do Espírito San­ to, e ressalta o lugar da promessa divina na Sua vinda. Os discípulos nâo devem tentar a tarefa da evangelizaçâo com seus próprios parcos recursos, mas, sim, devem aguardar a vinda do Espírito. O equipamento que Ele forneceria é descrito de forma pitoresca em termos de os discípulos serem revestidos de poder do alto. A nota de poder é significante, e do alto lem­ brava a eles (e nos lembra também) qual é a fonte de todo o verdadeiro poder para a evangelizaçâo.

f. A ascensão (24:50-53) A ascensão é descrita mais plenamente no segundo volume de Lucas (At 1:9-11). Aqui, contenta-se em citar o fato principal e deixar-nos com um quadro dos discípulos que adoravam e se regozijavam. O relato é bem cur­ to. Lucas já tinha escrito mais do que a maioria dos rolos de papiro po­ diam conter, e está claramente apressando-se para o fim deste volume. Não explica em detalhes o que ele quer dizer com a ascensão, mas é ditícil crer que ele pensasse que Jesus subisse verticalmente e parasse uns dois ou três km. acima da terra. Mas claramente pensava na ressurreição como algo que realmente aconteceu. Conforme sustenta C. F D. Moule, devemos estar prontos a atribuir à ascensão em Lucas o mesmo tipo de historicidade que atribuímos aos aparecimentos depois da ressurreição e à transfiguração.81


E a ascensão difere radicalmente do fato de Jesus ter desaparecido diante dos olhos dos discípulos em Emaús (24:31), e de acontecimentos seme­ lhantes. Há um ar dalgo definitivo neste caso. É o fim decisivo de um capí­ tulo e o começo de outro. É a consumação da obra terrestre de Cristo, a indicação aos Seus seguidores de que Sua missão é cumprida, que Sua obra entre eles veio a um fim decisivo. Já não mais podem esperar vê-Lo segun­ do a antiga maneira. Os teólogos também vêem na ascensão o levar para o céu da humani­ dade de Jesus. A encarnação não é alguma coisa casual e fugaz, mas, sim, uma ação divina com conseqüências permanentes. E Moule argumenta que, se a ascensão importa em levar a humanidade de Cristo para o céu, “significa que, com ela será levada a humanidade que Ele redimiu —aque­ les que são de Cristo na Sua vinda. É uma expressão poderosa da redenção deste mundo, em contraste com o mero escape dele.”82 50, 51. Jesus tomou a iniciativa e levou os discípulos para Betânia Não há nenhuma nota quanto ao horário, e alguns têm pensado que Lucas está retratando a ascensão acontecendo no Domingo da Páscoa. Mas, to­ talmente à parte da dificuldade inerente na idéia de que Jesus teria levado' Seus discípulos de Jerusalém para o Monte das Oliveiras tarde de noite pa­ ra este propósito, não deveríamos fazer uma contradição com as próprias palavras de Lucas em At 1:3. Ali, ficamos sabendo que quarenta dias de­ correram entre a ressurreição e a ascensão. Betânia ficava nas encostas do Monte das Oliveiras, e a ressurreição ocorreu a partir dalgum lugar desta colina. Lucas descreve este evento com muita simplicidade. Fala apenas que Jesus foi separado dos discípulos no ato de abençoá-los. Algumas traduções omitem as palavras sendo elevado para o céu, sendo que nes­ ta ocasião o texto ocidental é apoiado por mais um MS grego, Mas as palavras devem ser incluídas, com a vasta preponderância das autori­ dades. Poderiam ter sido facilmente omitidas por um escriba que fazia questão de evitar a impressão de que a ascensão ocorreu no Domingo da Páscoa. Mas a omissão nos deixaria sem explicação para o grande júbilo dos discípulos. Não haveria, então, nenhuma referência à ascensão, e as palavras parecem indicar um desaparecimento segundo a maneira daquele no v. 31. 52, 53. Aqui, mais uma vez, devemos aceitar o texto de todos os MSS gregos menos um (o texto ocidental mais uma vez!) e 1tx\ adorando-o. Seja qual tenha sido o conceito deles da Pessoa dEle durante Seu ministé­ rio, a Paixão e a Ressurreição, e agora a Ascensão, convenceram-nos que


Ele era divino. Ele era digno de ser adorado, e deram-Lhe Sua devida ho­ menagem. A adoração é a resposta deles à Sua ascensão. É interessante que o sentimento deles nesta despedida final Mo era de pesar mas, sim, de grande júbilo (cf. Jo 14:28). Estavam entendendo mais do que tinham en­ tendido previamente. Lucas começou seu Evangelho no Templo (1:5). Agora o termina, com os discípulos sempre no templo, louvando a Deus. É um reconhecimento condigno da graça que Deus demonstrou de uma maneira tffo singular nos eventos que narrou.


Esta tabela capacitará o estudante a achar passagens nos demais Sinóticos que formam paralelos com as de Lucas. Inclui passagens que tratam do mesmo assunto mas que nâo sio paralelos no sentido rigoroso (e.g. Mt 1:18-25 e Lc 2:1-7). A tabela também capacitará o estudante a ver num relance quais passagens sâo privativas de Lucas, e o ajudará a ver como a ordem das narrativas neste Evangelho se assemelha àquela em cada um dos demais Sinóticos, e como difere dela. Mateus Prefácio Predições do nascimento de João Batista Predito o nascimento de Jesus Jvlaria visita a Isabel 0 Cântico de Maria 0 nascimento de Joio Batista e sua nomeação 0 cântico de Zacarias 0 nascimento de Jesus Os anjos e os pastores A circuncisão A apresentação de Jesus no Templo 0 cântico de Simeão A profecia de Simeão As ações de graças de Ana A volta a Nazaré 0 menino Jesus no Templo 0 ministério de Joâo Batista 0 batismo de Jesus A genealogia de Jesus As tentações de Jesus

Marcos

Lucas 1:1-4 1:5-25 1:26-38 1:39-45 1:46*56

1:18-25

3:1-12 3:13-17 1:1-17 4:1-11

1:2-8 1:9-l 1 1:12-13

1:57-66 1.67-80 2:1-7 2:8-20 2:21 2 :22-24 2:25-32 2:33-35 2:36-38 23940 2:41-52 3 :1-20 3:21*22 3 :23-38 4:1-13


Jesus na Galiléia Jesus em Nazaré O homem possesso de espírito imundo A cura da sogra de Pedro Muitas outras curas Um circuito de pregação A pesca maravilhosa A cura de um leproso A cura de um paralítico A vocação de Levi Do jejum Jesus é senhor do sábado A cura da mão ressequida A escolha dos Doze O sermão na planura A multidão As bem-aventuranças Os ais O amor Julgando outros Arvores e seus frutos Fundamentos A cura do servo de um centurião 0 filho da viúva de Naim As perguntas de João Batista A pecadora que ungiu os pés de Jesus As mulheres que serviram a Jesus A parábola do semeador A candeia e seu esconderijo Ao que tiver. . . A mãe e os irmãos de Jesus Jesus acalma uma tempestade O endemoninhado geraseno

Mateus

Marcos

Lucas

4:12-17 13:53-58

1:14-15 6:1-6

4:14-15 4:16-30

8:14-15 8:16-17 4:23

1:21-28 1:29-31 1:32-34 1:35-39

8:14 9:1-8 9:9-13 9:14-17 12:1-8 12:9-14 10:14

1:4045 2:1-12 2:13-17 2:18-22 2:23-28 3:1-6 3:13-19

4:31-37 4:38-39 4:4041 4:4244 5:1-11 5:12-16 5:17-26 5:27-32 5:33-39 6:1-5 6:6-11 6:12-16

3:7-12 5:3-12 53848 7:1-5 7:16-20; 12:35 7:21-27 8:5-13

4:24

6 :4649 7:1-10 7:11-17 7:18-35

11:2-19

13:1-23 5:15; 10:26 13:12; 25:29 12:46-50 8 :23-27 8:28-34

6:17-19 6:20-23 6:24-26 6:27-36 6:3742 6:4345

4:1-20 4:21-22

7:36-50 8:1-3 8:4-15 8:16-17

4:25

8:18

3:31-35 4:3541 5:1-20

8:19-21 8:22-25 8:26-39


A filha de Jairo A missão dos Doze A parábola do rico tolo Buscai o reino A vinda do Filho do homem A responsabilidade dos servos Fogo sobre a terra Os sinais dos tempos O arrependimento A figueira estéril A cura da mulher encurvada A parábola do grão de mostarda Herodes o Tetrarca A multiplicação dos pães para os cinco mil A confissão de Pedro Uma profecia da Paixão Levando a cruz A transfiguração A cura de um jovem possesso Outra profecia da Paixão O orgulho dos discípulos O exorcista estranho Os samaritanos não recebem a Jesus Sinceridade e entusiasmo A missão dos setenta A perdição das cidades da Galiléia O regresso dos setenta A exultação de Jesus A parábola do bom samaritano Marta e Maria A oração dominical A parábola do amigo importuno Pedindo e dando

Mateus

Marcos

Lucas

9:18-36 10:1-15

5:2143 6:7-13

8:40-56 9:1-6 12:13*21 12:22-34

6:25-33, 19-21 24:42-44 24:45-51 10:34-36 16:1-3; 5:25-26

123540 12:4148 12:49-53 12:54-59

13:31-32 14:1-2

4:30-32 6:14-16

14:13-21 16:13-19 16:20-23 16:24-28 17:1-9 17:14-21 17:22-23 18:1-5

6:30-44 8:27-29 8:30-33 8:34-9:1 9:2-10 9:14-29 9:30-32 9:33-37 9:3841

8:18-22 11:21-24 11 -25-21 13:16-17

6:9-13 7:7-11

13:1-5 13:6-9 13:10-17 13:18-19 9:7-9 9:10-17 9:18-20 9:21-22 9:23-27 9:28-36 9:3743a 9:43b45 9 :4648 9:49-50 9:51-56 9:57-62 10:1-12 10:13-16 10:17-20 10:21-24 10:25-37 10:3842 11:14 11:5-8 11:9-13


A controvérsia de Belzebu A volta do espírito imundo A verdadeira bem-aventurança O sinal de Jonas A luz que há em ti A verdadeira limpeza Discurso sobre os fariseus e os intérpretes da lei: Ai dos fariseus! Ai dos intérpretes da lei! 0 fermento dos fariseus Estai prontos para o julgamento

A parábola do rico tolo Buscai o reino A vinda do Filho do homem A responsabilidade dos servos Fogo sobre a terra Os sinais dos tempos O arrependimento A figueira estéril A cura da mulher encurvada A parábola do grão de mostarda A parábola do fermento Quem está no reino? Aquela raposa, Herodes O lamento sobre Jerusalém A cura de um hidrópico O convite a um jantar A parábola das desculpas O custo do discipulado

Mateus

Marcos

12:22-30 12:43-45

3 -22-27

12:3842 5:15; 6:22-23

8 :11-12 4:21

Lucas

11:14-23 11:24-26 11:27-28 11:29-32 11:33-36 11:3741

23:6-7, 23, 27 23:4,13, 29-36 10:26-27; 16:5-6 10:28-33, 19:20; 12:31-32

11:42-44 11:45-54 8:14-15

12:1-3

3:28-30

12:4-12 12:13-21 1222-34

6:25-33, 19-21 24:4244 24:45-51 10:34-36 16:1-3; 525-26

13:31-32 13:33

23:37-39

22:1-14 1037-38

123540 12:4148 12.49-53 12-54-59

4:30-32

13:1-5 13:6*9 13:10-17 13:18-19 13:20-21 13:22-30 13:31-33 13:34-35 14:1-6 14:7-14 14:15-24 14:25-33


A parábola do sal A parábola da ovelha perdida A parábola da dracma perdida A parábola do filho pródigo A parábola do administrador infiel Deus e as riquezas Os fariseus cobiçosos A lei e os profetas Acerca do divórcio A parábola do rico e Lázaro Perdoando aos outros A fé Servos inúteis Os dez leprosos A vinda do reino de Deus A parábola do juiz iníquo A parábola do fariseu e do publicano Jesus e as crianças O jovem rico Outra profecia da Paixão A cura de um cego Zaqueu A parábola das dez minas A entrada triunfal O lamento sobre Jerusalém A purificação do Templo Ensinando no Templo A autoridade de Jesus A parábola dos lavradores maus O tributo a César Os sete irmãos O Filho de Davi Advertência contra os escribas A oferta da viúva pobre O discurso escatológico

Mateus

Marcos

Lucas

5:13 18:12-13

9:49-50

1434-35 15:1-7 15:8-10 15:11-32 16:1-9 16:10-13 16:14-15 16:16-17

10:11-12

16:18 16:19-31 17:14

6:24 11:12-13; 5:18 19:9 18:6-7, 15, 21-22 17:20

9:42 11:23

24:2341

19:13-15 19:16-30 20:17-19 20:29-34

10:13-16 10:17-31 10:32-34 10:46-52

(25:14-30) 21:1-9

11:1-10

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11:15-17 11:18-19 11:27-33 12:1-12 12:12-17 12:18-27 12:35-37 12:38-40 12:4144 13:1-37

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Mateus Ensinando no Templo A traição Preparativos para a Páscoa A Última Ceia A profecia da traição A disputa acerca da posição Doze tronos A profecia das negações de Pedro As duas espadas A agonia no Getsêmani Jesus é preso Pedro nega a Jesus Os guardas zombam de Jesus Jesus perante o Sinédrio Jesus perante Pilatos Jesus perante Herodes Jesus é sentenciado Simão leva a cruz As filhas de Jerusalém A crucificação O ladrão arrependido A morte de Jesus O sepultamento de Jesus As mulheres no sepulcro Pedro no sepulcro A caminhada a Emaús Jesus aparece aos discípulos O cumprimento das Escrituras A ascensão

Marcos

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