Alma entre Águas

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A L M A entre

Á G U A S UMA PRODUÇÃO A PARTIR DE MARIE-LOUISE VON FRANZ OS SONHOS E A MORTE

JULHO 2021



ALMA ENTRE ÁGUAS equipe editorial

direção de arte diagramação textos

fotografia ilustrações

arte final e-mail

instagram

Aparecida Silva Dênis Peixoto Araújo Jheynne Scalco Eduardo Marques Wellington Barbosa Jheynne Scalco Jheynne Scalco Dênis Peixoto Araújo Aparecida Silva Dênis Peixoto Araújo Jheynne Scalco Eduardo Marques Wellington Barbosa Jheynne Scalco Aparecida Silva Dênis Peixoto Araújo Jheynne Scalco Eduardo Marques Wellington Barbosa Jheynne Scalco

grupoestudos.vfranz@gmail.com @em_barco


ÍNDICE GRUPO EM-BARCO - QUEM SOMOS? - 1 SOBRE O GRUPO E A OBRA ESCOLHIDA - 2 OS SONHOS E A MORTE E SUA AUTORA - 4 CARTA AO LEITOR - 5 Capítulo - 1 - O Mistério do Corpo, o Renascimento e a Morte - 7 Alma - 8 A-ponte - 10 Raízes - Morte e Vida - 11 Travessia - 18 Barco, Caixa e Vaso - Este Segredo - 20 Capítulo - 2 - A Passagem, o Outro em Nós Mesmos e a Morte - 24 A Passagem - 25 A Serpente de Pedras - 27 Joelhos - 30 O Encontro com a Morte - 33


ÍNDICE Capítulo - 3 - A Transformação pelo Fogo e a Morte - 35 O Corpo Criado em Pedra - 36 Recortes - 37 O Simbolismo do Cão e a Morte - 40 A Água que Queima - 45 Capítulo - 4 - Opostos que Formam o Todo - 48 Roda Viva - 49 A Chama Branca - 51 Ex - Pulsão - 53 Alma Corpo e a Transformação Psicofísica - 54 A MORTE DO NOSSO TEMPO E OS SONHOS - 59



GRUPO EM-BARCO QUEM SOMOS?

JHEYNNE P. SCALCO Fotógrafa e Ecóloga Rio Claro - SP

DÊNIS PEIXOTO ARAÚJO

WELLINGTON BARBOSA

Psicólogo junguiano Fortaleza - CE

Psicólogo junguiano Fortaleza - CE

APARECIDA SILVA Psicóloga junguiana Fortaleza - CE

EDUARDO MARQUES Psicólogo junguiano Salvador - BA

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SOBRE O GRUPO E SOBRE A OBRA ESCOLHIDA Aqui vamos nós de novo. Alguns meses se passaram depois da nossa primeira produção “Em-barco”. Foi uma grande aventura compilar as produções deste primeiro e-book. Para “uma grande aventura”, leia-se: muita dedicação, cabeças fritas, horas e horas de leitura e reuniões, risos às vezes de alegria, às vezes de desespero, mas no fim deu tudo certo e conseguimos colocar no mundo aquele primeiro trabalho produzido a partir da primeira leitura de nossa adorada Marie-Luise von Franz. A gente gostou tanto que seguiu em frente. O grupo foi batizado com o mesmo nome da nossa primeira obra conjunta, ganhou mais alguns navegantes e o barco seguiu.

Escolhemos nossa segunda leitura: “Os sonhos e a Morte”. Frio na barriga foi pouco para descrever o que sentimos ao dar início ao estudo deste profundo e dramático tema. Ainda não sabemos até onde foi coincidência ou escolha certeira, ler uma obra que fala sobre a morte em um período no qual as notícias diárias trazem consigo a consciência de uma das únicas certezas do ser humano e também uma das palavras mais evitadas nas conversas. Sim, o período no qual estudamos este texto foi o auge da pandemia - de janeiro a abril de 2021.

Para quem abrir estas páginas daqui a algum tempo, quando este momento já estiver no passado (oremos!), vale a lembrança: este foi o pior período, o mais crítico e no qual o número de mortes causadas pela covid-19, foi o maior e mais inimaginável. Pois é. Não dá para achar que é só coincidência, não é mesmo? Caso tenha sido, foi uma coincidência significativa. Seja como for, encaramos o desafio e nos lançamos neste oceano de sabedoria produzido por nossa autora guia. Vamos contar um pouco de como as imagens e os textos que se seguem foram elaborados. Você pode estar se perguntando: como esse grupo se achou neste momento tão difícil e quando os encontros verdadeiros estão escassos? O que esta galera está fazendo e por que escreveram um ebook? Como será que eles juntam desenhos, fotos, ilustrações, textos? Qual a finalidade disto?

Calma, respira. Aqui tem muito afeto e muita disponibilidade de explicar e contar histórias. Para começo de conversa, já adianto, tem muita entrega aqui. Se você se emocionar, saiba que estamos juntos.

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Vamos começar contando um pouco do nosso método, se é que podemos dar este nome tão pragmático. De qualquer forma, foi assim: toda semana a gente se encontrava e lia juntos um capítulo (ou o quanto nosso cérebro fosse capaz de achar que absorveu) e depois discussões, divagações e compartilhamentos de percepções, entendimentos e dúvidas. A cada três capítulos a proposta foi elaborar uma produção expressiva, cada um com a linguagem que melhor lhe coubesse. Pois fomos navegando neste mar desconhecido e colocando para fora nossos filhotes – textos, filhotes – desenhos, filhotes – fotos, pedaços de algo que escapou ou que fizemos sair. Mostrávamos aos outros, que de forma calorosa e acolhedora, iam trazendo traços do texto que tínhamos lido, dentro do que produzimos. Mesmo isolados em isolamento geográfico, estivemos próximos o suficiente para partilhar nossos afetos e aprendizados.

O isolamento na contemporaneidade é algo muito diferente de outros momentos na história. Dessa vez devido a tecnologia da informação e comunicação foi possível (ainda está sendo) um isolamento com ausência de solidão, pelo menos foi assim que esse grupo se encontrou e constrói a cada encontro um fortalecimento nas relações além do conhecimento nas leituras e conversas. Assim, os encontros de hoje não podem ser presenciais, mas o encontro no mundo virtual se tornou algo verdadeiro e duradouro. A união pela via da paixão é sempre trabalhosa, mas também leva os sujeitos na direção do viver. Por este motivo, esta galera se encontra nas quintas-feiras à noite para fazer suas leituras e discutir os temas, mas só isso não bastava. Pois os pensamentos, sentimentos, intuições e sensações que apareciam durante aquelas poucas horas deveriam estar em público para que outras pessoas comparassem e talvez descobrissem ou reconhecessem em si mesmas aquelas palavras, assim a ideia de um e-book surge. E esse trabalho árduo, mas gratificante, aparece de formas diversamente criativas, vindo das profundezas, mas tocado na superfície através das palavras do Outro e depois no olhar de todos, assim todo conteúdo nesse e-book foi visto e revisto pelo grupo, pensado e sentido.

Mas a última pergunta fica pendente, qual a finalidade? Esta questão faz lembrar, nesse momento, que os gregos tinham uma noção interessante sobre a felicidade. Para eles era impossível definir enquanto vida e somente depois da morte os outros poderiam dizer se um homem foi ou não feliz. Assim, acho que essa pergunta se encaixa bem também, pois o grupo se iniciou com uma finalidade e acredito que essa tal finalidade só será descoberta no fim e através de sua opinião, leitor. Ainda estaremos juntos mesmo depois disso já que nossas palavras ecoarão através de você, assim como ecoaram através de nós. Por: Jheynne Scalco e Wellington Barbosa

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OS SONHOS E A MORTE E SUA AUTORA Marie-Louise von Franz nasceu em Munique, em 1915, filha de pais austríacos, que se mudaram para a Suíça em 1918. Ela se tornou cidadã suíça, obteve o grau de Ph.D. em línguas clássicas pela universidade de Zurique e adotou esse país como seu lar permanente. Conheceu Jung em 1933 e trabalhou com ele até sua morte, em 1961. Especialista em Latim Medieval, seu campo de colaboração com Jung era o estudo da alquimia. A dra. Von Franz é fundadora do C. G. Jung Institute, de Zurique.

A autora confirma o seu dom excepcional para transcrever material esotérico, simbólico, para a experiência do cotidiano, mostrando que as imagens e os motivos, que tanto interesse despertam nos alquimistas, eram de natureza arquetípica e, como tais, aparecem constantemente em nossos sonhos e nos desenhos modernos.

"Os sonhos e a morte" foi um dos últimos livros escritos por Von Franz, sendo um dos livros verdadeiramente importantes, por seu tema polêmico, necessário e pelo modo único como é tratado ao longo de todas as discussões. A maneira como a dra. Von Franz interpreta, amplifica e explica os impressionantes sonhos apresentados neste livro é uma verdadeira oportunidade para terapeutas/ psicoterapeutas/ psicólogos das diversas áreas de atuação e/ ou para qualquer pessoa que consiga estabelecer um contato verdadeiro com a vida e com o inconsciente. Como sempre, a autora demonstra seu conhecimento exacerbado e gerador de novos questionamentos, novas pesquisas e respostas. Por: Aparecida Silva

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CARTA AO LEITOR Caro leitor, Enquanto encaro a página em branco do smartphone, esperando a deusa inspiração me agraciar com as palavras necessárias para expressar o que quero dizer, temo que, talvez, ela me abandone nessa empreitada. Não por um capricho ou má vontade, mas pelo simples fato de que nada que possa ser escrito nessas páginas será suficiente para atingir o que a obra exprime com tanta maestria. No "Os sonhos e a morte", a dra. Von Franz trata de um assunto extremamente delicado, que levanta muitos mal entendidos e é muito polêmico. Suas palavras envolvem, como uma canção de ninar cantada de forma tão tenra e suave que enlaça e transporta o ouvinte para um outro campo, isso, é claro, sem perder em ponto algum o profundo conhecimento, a robustez e rigor impressos em suas linhas tão bem escritas.

Este livro [Os sonhos e a morte] é uma obra densa e muito rebuscada, apesar de curta, é incrivelmente escrita de forma simples e acessível. Exige, no entanto, do leitor, um certo conhecimento prévio sobre os assuntos abordados, temáticas que demandam um saber de diversas áreas de conhecimento; navegando em nosso barco, passamos pelas várias ilhas dos saberes humanos, a Antropologia, a Etnologia, Teologia, Filosofia, a Física e, é claro, a própria Psicologia. Guiados por uma bússola bem calibrada e pelo sopro, nas velas, daquelas palavras simples, mas com a sofisticação única e bem característica que é marca registrada de suas obras, M.-L. von Franz nos convida a conhecer aquele algo a mais que habita oculto no mundo e em nós mesmos, fazendo ressoar todas as cordas comuns em nós e arrancando acordes com a destreza, a delicadeza, que somente uma hábil menestrel, com sua vasta sabedoria, conseguiria.

Fotografia: Jheynne Scalco

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Cair de cabeça nesse mar, sem antes testar as águas, não é recomendado. Não sem o risco de se perder nessa tsunami de informações. Deve-se ter sempre um ponto de alicerce para nunca perder de vista o que realmente está se tratando ali, isto é, a complexidade da vida humana.

Desta forma, não é ocioso ressaltar que, ao tratar da morte, a dra. Von Franz não se propõe a discutir eventos metafísicos. A morte aqui é tratada enquanto vivência psicológica. Ninguém sabe o que existe após a morte. Uma estudiosa de temperamento empírico, e veia agnóstica, sabe muito bem quais são seus limites e que não deve ultrapassá-los. Entretanto, ainda respeitando certos limites, pode-se observar o que a psique nos revela sobre os eventos que circundam a morte e seu riquíssimo simbolismo.

Uma riqueza dessa magnitude, ao ser lida, choca, impacta e desperta em nós as mais incríveis percepções sobre o mundo - esse novo mundo que nos é apresentado. Eis o Em-barco: a tentativa - honesta, dedicada, esforçada, calorosa, gentil, muito bem humorada e humilde - de nós membros, em exprimir em textos, poemas, desenhos, colagens e fotografias, os efeitos que o poder dessa Lua tem sobre nós.

Este e-book traz a mais nova coletânea de expressões artísticas, surgidas de almas efervescentes por conhecimento, ansiosas e instigadas pela vontade de saber, que, com esforço hercúleo, buscaram e acenderam em si mesmas aquelas tímidas fagulhas, acesas pelas impressões das leituras semanais. Dessas pequenas brasas, eis a chama mor. Fogo ardente, incandescente e caloroso, que exprime para nós a experiência que foi ler este livro.

Ler "Os sonhos e a morte" para nós (tomo aqui a liberdade e até mesmo assumo conscienciosamente a arbitrariedade que é falar por muitas vozes) foi, sem dúvidas, uma experiência única e cheia de novos significados. Espero, portanto, que através deste singelo e-book - Alma entre Águas, escrito a dez mãos, nossas vivências possam te alcançar, querido leitor; que elas possam expressar o sentimento que é viver tal obra; que seja, ao menos, uma porta de acesso, um atalho ao inenarrável oculto naquelas palavras suaves, porém, rigorosas desse mar aberto chamado "Os sonhos e a morte". Por: Eduardo Marques

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CAPÍTULO 1 O MISTÉRIO DO CORPO, O RENASCIMENTO E A MORTE

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ALMA O que é a alma? Para alguns religiosos é a essência do ser. O divino em nós. A fagulha do criador. A energia que nos permite existir. Para os egípcios, era algo dual, a ka, sua parte celeste e a ba, a parte ctônica. Após a morte da pessoa, uma seguia a trajetória para junto de Rá e o acompanhava na sua jornada pelos céus; a outra permanecia no corpo e partilhava do seu destino. Para os chineses essas eram a hun e a p'o.

Na Psicologia, temos a anima e o animus, complexos funcionais do psiquismo. Analogias entre os conceitos devem ser feitas com muito cuidado, pois são fenômenos distintos. O que podemos dizer é que estas

definições

descrevem

fenômenos

de

características

semelhantes.

Mas o que é a alma, finalmente? E por que razão ela é tão importante? Não é ela aquela que vitaliza, enche de colorido, sentido e vontade a vida? Não seria ela a própria vida? A perda da alma te consome, exaure, suga sua vitalidade, e disso já sabiam os povos primevos.

Perder a alma é perder o motivo de viver, é ter o maior bem entregue nas mãos humanas, perdido entre as preocupações da gaveta da escrivaninha.

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É navegar no breu total da escuridão, sem vela e sem vento. Nas tribos primitivas eram os xamãs os responsáveis por trazer a alma de volta. Esta podia ter sido roubada por algum espírito ou ser celestial. O xamã seguia o rastro da alma e a resgatava, trazendo-a de volta ao corpo do enfermo. A perda de alma poderia se expressar tanto em doenças do espírito como doenças corporais.

Psicologicamente esta é a anima: o tesouro oculto no centro do labirinto; o cálice que carrega a água da vida; a rainha adormecida no mundo celeste; a princesa acorrentada prestes a ser sacrificada ao monstro devorador; é o objetivo final e o próprio caminho para a bem-aventurança; conquistá-la é conquistar a si mesmo, é conquistar a própria vida, pois ela é a vida; conhecê-la é encontrar a sabedoria oculta, é conhecer a si mesmo.

Poucos a conhecem, e muito menos são os que se atrevem a tentar a perigosa jornada para encontrá-la. Mas a ironia sobre a vida é que para ser conquistada, ela deve ser perdida todos os dias. Vida e morte formam o complemento do mesmo fenômeno, que é a existência, pois sem morte não há vida e sem o constante risco de morrer todos os dias, não se vive.

Ilustração e Texto: Eduardo Marques

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A-PONTE coração nascente entre a última noite e o primeiro dia qual dádiva de um é a esmola para dois?

coração nascente manhã é começo ou fim? do que importará para o coração que já raiou lá no alto, mais alto.

coração nascente aponte para quem atravessa entre caixas e caixões

coração nascente és tu ressuscitado pelo vento soprado recurso de deus

coração nascente deixa de ser quando a ponte atravessa? banho de lágrimas aos que ficam

coração agora em baixo mais baixo . lá no fundo.

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Ilustração e Poema: Dênis Peixoto Araújo


RAÍZES: MORTE E VIDA

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"A morte é sempre um evento brutal, como bem observa Jung, e "brutal não apenas no sentido físico, mas ainda mais psicologicamente: um ser humano é arrancado de nós e o que resta é o silêncio da morte". (p. 49)

Todos nós paramos devido a pandemia. "Corona" deixou de ser só um nome de cerveja e passou a ser também o nome de um vírus. Como o nome pandemia já indica, esse vírus se manifestou em grande escala e trouxe com ele a morte. Eu já havia tido contato com a morte por diversas vezes. Quando eu era criança, minha avó sempre fazia questão de levar a mim ou meu irmão, quando visitava o túmulo do meu tio. Ela sempre aproveitava a ocasião para ver quem estava indo em direção à cova. Era como se ela estivesse sempre esperando reconhecer alguém naquelas salas de velório. Então eu sabia o que acontecia quando não restava nada além de um corpo físico, mas para mim, era incompreensível e curioso o fato de as pessoas próximas estarem chorando por sentirem uma dor que eu não havia sentido... ainda. No entanto, quem está vivo precisa lidar com a morte. Anos depois, entendi aquela dor e voltei aquele cemitério, dessa vez, sozinho.

"Nossas oferendas de flores e coroas nos enterros simbolizam por certo não apenas nossos sentimentos de pesar mas também, inconscientemente, uma magia de ressurreição", um símbolo para o retorno dos falecidos a uma nova vida - e aí também é significativa a forma de mandala da coroa". (p.57)

Sendo assim, a morte já tinha aparecido na minha vida, levando consigo a pessoa que eu mais amava: minha avó. O ano de 2020 estava só começando e o que era para ser uma doença que jamais chegaria aqui, chegou. Algo que supostamente duraria pouco meses, continua por aqui. No momento, só nos resta esperar pela vacina e tomarmos os devidos cuidados pra não nos contaminar ou espalhar o vírus. De repente, a morte não era mais só “coisa que a gente vê na TV”. Ela anda circulando bem próxima a mim, mais uma vez. Um memento mori, me encarando e piscando pra mim, só esperando a chance de chegar mais perto. Nos primeiros meses de pandemia, essa realidade me trouxe o desespero. Então era isso: a morte me rondando e o desespero segurando minha mão. Foi preciso tempo, relações, paciência, cuidados, sonhos, palavras, fé e muitas outras coisas até que o desespero soltasse minha mão. O medo ainda existe, mas já é possível viver.

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"Mas ao passo que o desesperado caminha rumo ao nada, aquele que deposita sua fé no arquétipo segue o trilho da vida e vive por inteiro até morrer. Ambos, é claro, continuam na incerteza, mas um vive contra seus instintos e o outro não". (p.12)

Aonde quero chegar com esse relato, pessoal? Depois de tantos meses de pandemia, graças ao grupo de estudos Embarco, deparei-me com uma obra de Marie-Louise von Franz chamada “Os sonhos e a morte”, logo depois de ler o livro “A Busca do Sentido”. Eu já tinha lido esses textos na faculdade, mas isso foi antes do coronavírus. Nessa segunda leitura, o conteúdo me atingiu de forma profunda e me fez compreender algo que aconteceu e acontece durante estes tempos pandêmicos.

"Os sonhos de individuação, em princípio, não diferem em seu simbolismo arquetípico dos sonhos de morte". (p.15)

Minha avó gostava muito de plantas. Meu avô me conta que, por diversas vezes, ela se encantava com uma plantinha na rua e levava pra casa, mesmo que fosse só mato. Porém, uma vovó gostar de plantas não é nenhuma surpresa. Dizem que pessoas idosas gostam de plantas para ocupar o tempo ou para ter a chance de cuidar de algo novamente, mas acho essa ideia muito vaga. A Von Franz me apresentou uma hipótese que talvez complemente essas outras opções. Digo isto, pois andei experienciando esse mesmo fenômeno, mesmo que por outra perspectiva.

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"...pois tudo indica que certas estruturas arquetípicas básicas existentes nas profundezas da alma costumam aflorar durante o processo de morte". (p.10)

No início do ano, antes mesmo de começar todo o caos, comprei algumas plantas para a nova casa que eu e minha então namorada, hoje noiva, havíamos nos mudado. Inicialmente, foram poucas. Eu queria ter apenas algumas frutíferas e espécies que espantavam escorpiões que andavam aparecendo muito por aqui. Aos poucos, a quantidade foi aumentando, assim como o tempo investido no cuidado com elas. Na época, eu estava lendo “Imagens do Inconsciente” da Nise da Silveira e me lembro que ela fala sobre a importância de animais e plantas como recipientes e condensadores dos afetos. Achei a observação interessante, mas eu era como o menino que olhava as pessoas chorando sem compreender sua dor.

Pois sempre que o homem se confronta com algo misterioso ou desconhecido (como, por exemplo, a questão da origem do universo ou o enigma do nascimento), o inconsciente produz modelos simbólicos e míticos, isto é, arquetípicos, que aparecem projetados no vazio. (p.15)

Então o coronavírus chegou. Nos primeiros meses, em uma mão eu segurava um regador e a outra, era o desespero quem ainda a segurava. Foi quando Von Franz me mostrou como a germinação, plantas, flores, árvores e água estão relacionadas com a morte e a ressureição. Naquele momento, eu entendi a relação da minha avó com as plantas e com os mortos em seus velórios. Presenciar o processo infinito de morte e vida era para ela uma forma de se preparar para o próximo passo. Assim, também compreendi que eu estava fazendo a mesma coisa que ela: compreendendo, através das plantas, as mortes que estavam acontecendo e, mesmo com medo, me preparando para o próximo passo que poderia se apresentar a qualquer momento. Portanto, esse projeto consiste na união de trechos dos textos da Von Franz com fotos tiradas por mim no meu processo com as plantas.

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...tradição alquímica, ou seja, a busca de um ponto de vista universal que encare psique e matéria como realidade una e a morte como separação apenas parcial entre "matéria" e "psique". (p.18)

Quando comecei a cuidar das plantinhas, eu não tinha nenhuma experiência, então precisei estudar, já que não sou adepto do sistema de tentativa e erro, embora eu tenha aderido a ele algumas vezes, posteriormente. Como cada espécie exige um cuidado diferente, assisti a muitos vídeos, entrei em muitos fóruns e li muitos textos sobre o assunto. O que também ajudou foi conversar com pessoas que já tinham experiência com jardinagem. Inclusive, certa vez, um amigo me contou que já tinha chegado a ter 80 plantas em casa. Na época eu fiquei chocado com aquele número, mal sabia que em menos de um ano eu teria a mesma quantidade.

"Em seu ensaio "A Árvore Filosófica", Jung nota que na tradição alquímica a árvore é também considerada símbolo do opus alchemicum. Psicologicamente, ela simboliza o processo de individuação, ou seja, o contínuo crescimento interior em direção a uma consciência superior, durante o qual novas luzes são vistas. Essa mesma árvore também existe na Jerusalém celestial do Apocalipse: 'No meio da praça ... há árvores da Vida que frutificam doze vezes ... e suas folhas servem para curar as nações' " (Ap 22:2). (p.45)

Entre todas as espécies, a que eu menos me apeguei foi o cacto, mesmo sendo a mais adaptável à região quente onde moro. Um dia, assistindo She-Ra, apareceu uma personagem chamada Perfuma, cujo poder mágico é sua conexão com as plantas. Em um episódio, ela diz que não gosta de cactos. Como assim a Deméter da She-Ra, a doida das plantas, não gostava de cactos? Ela teve que passar por toda uma jornada para entender a importância dos cactos e a força de suas raízes. Ter em mente que cactos têm raízes ajuda a lembrar que eles também são plantas verdes, como todas as outras. Seus espinhos são somente para proteção, afinal, a natureza não faz mal por vontade. Ela apenas se protege.

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"Na Idade Média, o verde era considerado a cor do Espírito Santo, da vida, da procriação e da ressurreição". (p.43)

Um dos processos mais difíceis que aprendi no mundo das plantas foi o de germinar sementes. Testei várias formas: copinhos, sementeiras, direto na terra, diferentes substratos. Algumas davam certo, outras não. Aliás, alecrim não precisa ser dourado pra ser difícil de aparecer, sabia? Enfim, estudando, descobri que algumas sementes precisam de um processo chamado escarificação a frio para germinarem. É bem simples: você só precisa deixá-las na geladeira por um mês, e depois é só plantar. Isso engana a semente, fazendo com que ela pense que o inverno acabou e é hora de acordar. Ainda mais surpreendentes são as sementes que precisam passar pelo fogo para germinar.

"Mais adiante, lemos que essas plantas, antes de voltarem a viver, são "estragadas" pelo fogo. Atrás dessa imagem está por certo o padrão da vegetação, que mesmo cortada pelo homem ou ressecada pelo sol volta a brotar e sobrevive". (p.48)

Outra coisa que as plantas mudaram na minha vida foi minha maneira de dar presentes. Antes, eu sempre dava livros. Hoje, dou um livro e uma muda que combine com a pessoa presenteada. Por exemplo, no Natal, dei à minha mãe uma flor chamada Bela Emília, já que o nome da minha mãe é Emília.

"O último sonho de uma impressionante série relatada por Jane Wheelewright, de uma jovem morrendo de câncer, é o seguinte: "Eu era uma palmeira, entre duas outras árvores. Ia começar um terremoto que destruiria tudo o que era vivo, e eu não queria morrer. "Como nota a autora, entre outras coisas, a árvore é um símbolo materno. A árvore do sonho representa, portanto, uma devoção à 'mãe natureza' ". (p.44)

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Mas talvez a maior surpresa de todas foi conhecer e começar a cuidar de espécies carnívoras. Sim, elas existem, mas não são como aquelas do Mario Bros. Cada uma delas se alimenta de um jeito e a morte dos insetos ajuda no desenvolvimento das plantas.

"Compreendei que a natureza recompensa a si mesma, e quando tiverdes juntado tudo em harmonia, a natureza superará a si mesma e eles terão prazer um com o outro". ( Komarios, p.62).

Hoje, eu consigo segurar o regador com as duas mãos ou, às vezes, o regador em uma e um vaso na outra. O desespero deu lugar à certeza de que toda vida que nasce, cresce e morre, deixa uma semente para que tudo possa começar novamente. Fotos e Texto: Wellington Barbosa

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TRAVESSIA Será que um dia eu vou conseguir produzir uma ilustração que não tenha uma serpente? (risos nervosos!!!) Gostaria de iniciar pelo final da nossa última leitura (A Busca do Sentido) quando Von Franz diz: “É o sentido que nos sustenta na vida: enquanto houver um sentido, pode-se viver, mesmo em condições muito pouco favoráveis". O grupo de estudos, as leituras e todo o caos do momento que estamos vivendo estão sendo os verdadeiros opostos que eu preciso sustentar para continuar a caminhada que ainda parece seguir. Lembro de Von Franz quando ela diz: “aqueles que durante a vida aceitaram a luta dos opostos interiores terão talvez mais chances de terminar em paz” (p.41). Que assim seja!

A experiência que me faz pensar na morte com todos os seus paradoxos, talvez, seja a da tenra infância, a vida como um grande mistério, e a morte, por sua vez, a grande certeza. Acredito que se as fantasias e a memória não estiverem tentando me enganar, foi o que eles me disseram. Quando criança eu pensava que morrer devia ser algo maravilhoso, afinal, as pessoas iam para o Céu (tínhamos aqui uma criança cristã? Sim, senhores!). Eu nunca ouvi ninguém dizendo que o falecido merecia outro lugar. E digo isso com toda a experiência de alguém que é filha de um senhor que nunca perde um velório/ enterro na cidade. Logo, ir a esses “eventos” era quase um passeio familiar pra mim. Mas por que uma criança cristã pensava que morrer seria maravilhoso? Ora, vocês já ouviram alguém falando sobre o Paraíso? O lugar dos escolhidos? O Céu era descrito como sendo o lugar mais incrível de todos, o melhor, mais bonito e habitado por seres bondosos, amorosos, especiais, igualmente.

que

viviam

É

nesse

para lugar

servir

a

também

todos que

encontramos aquele que nos deu a vida e que é o nosso verdadeiro Pai, o dono da nossa vida e dos nossos caminhos. Como alguém poderia achar ruim morrer? O choro, o desespero, a revolta e todos os demais acontecimentos eram explicados pela saudade que nós sentimos daqueles que

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foram morar no Céu.


Mas precisamos nos conformar, pois era chegada a hora daquela pessoa retornar ao seu verdadeiro lar e ficar ao lado da sua verdadeira família. Afinal, sua missão na terra estava cumprida. A vitória havia chegado.

Por muito anos esses argumentos me pareceram lógicos, suficientes e até mesmo agradáveis... Até o dia que eu perdi alguém muito próximo. Como diz Von Franz: “a morte é sempre um evento brutal, como bem observa Jung e 'brutal' não apenas no sentido físico, mas ainda mais psicologicamente: um ser humano é arrancado de nós e o que resta é o silêncio da morte” (p.49). Nesse dia, a conversa e todos esses argumentos me pareceram insuportáveis e pela primeira vez eu questionei: "Que Deus Pai é esse que precisa matar seus filhos?". Depois disso, o pior foi lidar com a ideia que a qualquer momento Deus poderia levar/ matar outra pessoa ou todas as pessoas, ou quem ele quisesse matar. Não fazia sentido. Eu não reconhecia mais esse lugar ou esse Deus. Eu me arrisco a dizer que essa tenha sido umas das travessias mais difíceis que eu fiz. Ou será que ainda estou fazendo?

É complicado entender que a vida não é só sobre viver/ sobreviver. Depois dessa primeira leitura, eu fiquei pensando na relação da morte com o elemento água. Não é à toa que minha serpente se encontra na água, aparentemente, confortável com a presença de mais alguém naquele ambiente. É como se ela estivesse esperando um confronto, mas, por enquanto, ela parece tranquila. Afinal, aquele local pode ser o mais vantajoso para ela. Consegui até pensar nela experimentando outras formas de “água” ou líquido. Como eu coloquei em destaque esse elemento, acredito que seja interessante falar um pouco sobre o simbolismo da água.

Segundo o Mircea Eliade, a água existia antes da terra (conforme se exprime no Gênesis “as trevas cobriam a superfície do abismo, e o espírito de Deus planava sobre as águas”). Para esse autor, as águas simbolizam a soma universal das virtualidades: fons et origo, o reservatório de todas as possibilidades de existência; precedem toda forma e sustentam toda criação. O simbolismo da água implica tanto morte quanto renascimento. O contato com a água comporta sempre uma regeneração; por um lado, porque a dissolução é seguida de um “novo nascimento”, por outro lado, porque a imersão fertiliza e multiplica o potencial de vida. Na mitologia Cristã esse elemento tem uma função muito importante, principalmente no ritual de batismo, o rito batismal, o nascimento em Cristo. Esse ritual também representa a morte e a sepultura, a vida e a ressurreição. Há a valorização do batismo como descida ao abismo das águas para um duelo com o monstro marinho. Essa descida tem um modelo: o Cristo no Jordão, que era ao mesmo tempo uma descida nas águas da morte; é feito a partir da água (Eliade, M. O sagrado e o profano: a essência das religiões. p.109/110). De acordo com minha produção expressiva, por enquanto, eu não percebo o perigo na serpente, nem na água, estamos convivendo bem. Sobre os três primeiros capítulos é isso o que eu tenho para compartilhar. Para saber mais, acompanhe as produções dos próximos capítulos. Texto e ilustração: Aparecida Silva

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BARCO, CAIXA E VASO ESTE SEGREDO

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BARCO, CAIXA E VASO ESTE SEGREDO

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BARCO, CAIXA E VASO ESTE SEGREDO

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BARCO, CAIXA E VASO ESTE SEGREDO Ela sonha e Dentro do sonho um barco Passa diante, flutuante, segue adiante cheio se despede ou convida?

Um sonho dentro do sonho Desce um degrau e conta: Este segredo Pairam no vazio Arca que guarda e emana (cinzas?) chumbo escuro que preserva - brilha Vaso de cerâmica útero A serpente mora nele jiboia verde Renova refaz

Vida em si In – di – ví – dua Renasce e Segue Fotografia e poema: Jheynne Scalco

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CAPÍTULO 2 A PASSAGEM, O OUTRO EM NÓS MESMOS E A MORTE

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A PASSAGEM

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Tentativas de começo, idas sem voltas e textos tão inesperadamente curtos marcaram a minha vontade de escrita sobre esse tema. Sorte a minha que no Em-barco nós podemos brincar com certas normas e que por isso posso partir da experiência. Um começo. Este texto ainda continua sendo uma tentativa, agora não mais de começo e sim de elaboração. No capítulo seis do livro “Os sonhos e a morte”, intitulado “A Passagem Escura para o Nascimento e o Espírito de Desalento”, M.- L. von Franz apresenta uma série de amplificações sobre a temática da passagem e do (re) nascimento em relação com a morte. Enquanto eu lia o capítulo, pensava em muitos momentos sobre a imagem do parto. O rompimento da placenta, a passagem pelo canal vaginal e o encontro com o outro mundo, o encontro com aquilo que está para além. Nós que estamos por aqui a mais tempo somos lembrados de que a vida que passa a ser vivida depois do nascimento é também um processo de morte. Nó que somos incapazes de desfazer. Diante de tal incapacidade a psique modela, através do aspecto compensatório, maneiras de nos colocar como sujeitos implicados nesses processos, capazes de, em relação consigo e com os outros, fornecer respostas para perguntas que nos acompanham enquanto humanidade. Ou pelo menos tentar. Nas diversas possibilidades de elaboração inconsciente sobre a morte, a passagem pode aparecer como uma travessia necessária para chegar em um outro lugar, o Além. É comum que esse Além seja representado como uma luz no final do caminho, assim como acompanhado da sensação de que algo está lá. Geralmente se diz que há luz no fim do túnel para encorajar pessoas em momentos difíceis. Assim parece ser o recado do si-mesmo para algumas pessoas que estão próximas de morrer. Em contraponto, faz-se necessário lembrar que essa experiência não é só composta por sonhos que geram bons sentimentos e sensações. Há sonhos em que a passagem escura aparece como elemento opressor, do qual é difícil atravessar e que provoca muito terror. Von Franz conta que “na tradição islâmica, os mortos devem atravessar a Ponte Sirat, 'mais fina que um fio de cabelo, mais afiada que uma espada e mais escura que a noite', mas os piedosos 'chegam lá tão depressa quanto um raio' " (p. 82). Extrapolando a própria imagem, pode-se pensar que a travessia da morte se torna menos difícil quando em vida se mantém um compromisso consigo, um olhar para si cuidadoso que pode gerar movimentos autênticos de vida. Quando se entende profundamente o que importa para cada um de nós e, sem enrijecimentos, mantém-se fiel a isso. Não à toa é que os símbolos que aparecem no processo de individuação são tão similares aos que aparecem antes da morte, dizer sim à vida é também dizer sim à morte. Note que alguém precisa ser o emissor da decisão. A passagem pode ser um elemento indicador de transformação, de continuidade ou de fim. O sentido é encontrado naquele que sonha. Fico com o sentimento de um texto mais confuso do que deveria, mas sei que é melhor que seja assim. Apontei o motivo da passagem, pela proximidade que me pareceu haver, nesses casos, entre o nascer e o morrer. Texto e colagem: Dênis Peixoto Araújo

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A SERPENTE DE PEDRAS

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Uau! A serpente agora está super colorida! (risos nervosos). Neste grupo eu já sou conhecida como a pessoa que só desenha cobras e só faz amplificações com esse tema, mas o que eu posso fazer? A ideia não é fazer uma produção expressiva/ projetiva a partir da leitura dos capítulos? Então, a minha é essa. Kkkkk. Pode parecer piada, mas essa produção não é sobre serpentes e sim sobre as pedras, flores, e o “Outro” que a Von Franz comenta durante o texto.

Esses três capítulos me deixaram pensando sobre os elementos que aparecem nos sonhos de pessoas próximas da morte. A imagem que desenhei/ pintei foi inspirada no sonho relatado por Von Franz no capítulo 4, é o sonho de uma mulher que logo em seguida veio a falecer. O sonho é o seguinte: “Parece que acordo e vejo um círculo colorido que é lançado sobre a cortina da janela de nosso quarto.... Ando com o maior cuidado em torno desse círculo, que parece negro, porque senão posso cair nele. Evidentemente, é um fosso, o buraco negro”. (p. 82)

Eu acredito que um dos elementos que podem representar a vida e a morte mais conhecido seja o simbolizado pela árvore, segundo a Von Franz, “a árvore é a vida inconsciente que se renova e continua a existir eternamente, depois que a consciência humana se extinguiu". (p. 44).

Além da árvore, ela também explica sobre o simbolismo da flor, a autora diz, “a flor é assim a imagem da alma que se liberta da matéria vulgar do corpo; ao mesmo tempo, é uma imagem da existência humana após a morte. Em geral as flores têm forma de mandala (a flor dourada de buda) o que faz delas símbolos apropriados do self ” (p.54-56).

Na ilustração que exponho aqui, talvez, não fique claro, mas a “serpente é de pedras”, escolhi desenhar uma cobra porque essas nascem dos ovos e isso tem muito a ver com a explicação sobre o nascimento e as pedras, lembro quando Von Franz diz que no texto de Komarios, a produção de ouro, ou da "pedra dos sábios", era representada como algo que resultava de uma gravidez ou como o nascimento de uma criança. Esse é um motivo que atravessa séculos de tradição alquímica. Ao falar do nascimento, ela comenta que desde o princípio dos tempos, o homem sempre se perguntou, fascinado, como é que um ovo, que se aberto contém apenas substâncias "mortas" semilíquidas, pode produzir um ser vivo, bastando para isso ser aquecido, sem interferência de qualquer agente externo. Os alquimistas comparavam a produção de sua pedra a esse "milagre". (p,77)

Às vezes a morte é descrita nos sonhos não como túnel ou passagem, mas como uma mancha escura que se espalha e paira sobre o sonhador, ou como uma nuvem que oblitera por completo qualquer visão do mundo exterior.

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O círculo é uma imagem do Self; no sonho citado acima, ele é colorido, isto é, cheio de vida, mas fica preto quando a sonhadora se aproxima, como um buraco negro que ela ansiosamente preferia evitar. Paradoxalmente, a aproximação do Self ao mesmo tempo ocasiona atração e medo. Portanto, em última análise, o medo da morte é o medo do Self e do confronto íntimo e final com ele (p. 80-81).

Eu sei que tem outros elementos na ilustração (a vela, o fogo, a água), mas eles estarão presentes também na próxima produção e lá eu falarei de cada um deles. Por hoje é só, pessoal.

Texto e ilustração: Aparecida Silva

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JOELHOS

A porta

Atravesso

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Me atravessa


JOELHOS Atravesso a porta me atravessa Pela fresta Vejo ela me vê A chuva inundou o chão Uma nova porta se abriu Atravesso a fresta me atravessa

Dois mundos Divididos por joelhos Mas quem vem lá? Um convite ou intimação Algo se estende Acho que é uma mão Como é seu rosto? Qual é seu nome? Silêncio De árvore quieta colocada com suas folhas rebrotadas

Joelho é articulação Quarto de baixo De um corpo que anda Para atravessar a porta atravessar Tem joelho que dói quando vai chover Ou tem chuva que cai, quando o joelho faz doer? O primeiro caminhar é de joelhos Mas eu andei direto, disse minha mãe Em uma revelação

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Meia vida, chão molhado Abriu um portal para o mundo De onde, sei não... Nascer é morrer ao contrário? E viver? É sinônimo de quê? Ou antônimo... Como haveremos de saber

A porta abriu uma fresta Para cima e para baixo A porta mora dentro De algum canto Mais dia menos dia Meus joelhos Me levarão A aceitar o convite E atravessar a porta me atravessar Fotografia e poema: Jheynne Scalco

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O ENCONTRO COM A MORTE

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Em uma conversa com a Morte, perguntei-lhe por que estava me buscando tão cedo. Ela disse que o tempo, para ela, não passa do mesmo modo que os humanos percebem. Para ela, eu já estava lá há muito tempo, bem antes de nascer, bem antes mesmo dos meus antepassados mais próximos sequer existirem. Fiquei sem entender o que isso significava, mas ela mostrou um grande fio, um fio prateado, bem fino, quase invisível, que vinha de longe, tão longe a se perder de vista, transpassava meu corpo e seguia adiante, perdendo-se no horizonte. Esta linha, ela explicou, não determinava quem eu era, mas que eu era. Bem antes de mim mesmo.

Nesta linha estavam contidas as memórias daqueles que vieram antes. Não a memória de suas vidas, é claro, mas de suas existências, perpétuas e atemporais. Percebi que haviam várias outras linhas vindas de diversos pontos do horizonte, por todas as direções. Algumas eram tão soltas que pareciam voar livremente pelo céu, outras tão tesas que o vento podia tirar melodias delas. Vi que a minha linha pendia com folga, ela planava no ar com leveza, como se fosse carregada por uma brisa suave. A Morte disse, novamente, que a linha era determinada, mas não determinante de quem eu era. Quanto mais retesada ela estivesse, mais preso aos eventos daquele passado eu estaria, mais determinante ela seria para mim. "Esta linha não representa quem você é, mas de onde você veio, quem você pode ser", ela disse. Parecia não se referir a mim diretamente, mas a várias pessoas diferentes, várias existências, que culminavam, naquele momento, em mim.

Percebi que algumas das outras linhas entrecortavam a minha. Essas, a Morte revelou, são aquelas das pessoas que cruzaram minha vida em algum ponto. Algumas seguiam próximas, indo na mesma direção, outras separavam e seguiam caminhos bem distintos. Perguntei para onde essas linhas iam. "Elas vão para onde você está indo agora", respondeu a Morte. "Mas para onde estou indo?", continuei a perguntar. "Para onde tudo começa". Vi pela primeira vez um sorriso solene em seu rosto. Não tinha notado o quão perturbadoramente horrenda e bela era sua face. Seu rosto era duplo. Um dos lados era cadavérico, grotesco e sem vida, corroído e tristonhamente distorcido numa tentativa de sorriso, que parecia, ao mesmo tempo forçado, irônico e perverso; mas do outro, levemente coberto pelo capuz, um semblante vivo, que alternava entre a solene tristeza e a empática esperança. Os dois rostos - e um rosto somente - complementavam-se um ao outro em sua perversidade descarnada e desalmada, e uma empatia acolhedora, ávida e viva, que acalenta o mais pobre dos coitados e convida a viver o desconhecido. Estendendo a mão ossuda e decomposta, ela me chamou. E ali a Vida começou.

Texto e ilustração: Eduardo Marques

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CAPÍTULO 3 A TRANSFORMAÇÃO PELO FOGO E A MORTE

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O CORPO CRIADO EM PEDRA

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Colagem: Dênis Peixoto Araújo


RECORTES De um sonho longo, vieram recortes vermelhos: folhas que se arranjavam sobre uma mesa também longa. Sobre o papel branco, recortes em forma de folhas, só que vermelhas. Vieram também recortes de fotografias preto e brancas. Há uma interferência de outra pessoa nos meus recortes vermelho-quente em forma de folhas grandes. Uma ação que muda a figura, mas configura uma outra obra. As fotografias recortadas estavam sobre outra mesa, que na beira de um lago, assiste a crianças que saltam na água fazendo grandes ondas. Uma onda molha a mesa onde estão as fotos recortadas, molha as fotos recortadas também e bagunça minhas fotos, mas não as destrói.

Foi este o sonho que deu origem a esta colagem em tempos em que líamos o terceiro quarto do livro “Os sonhos e a morte”. Esta foi a primeira obra que produzi, dentro destas produções, que partiu de um sonho. No começo achei que não fazia o menor sentido, entretanto, depois de um pouco de reflexão e conversas profundas com meus amigos do grupo de estudos, entendi que algo estava estampado ali naqueles recortes digitais.

Para a surpresa de todos (e para a minha própria), surgira uma produção expressiva onde o preto e branco, a linguagem que eu uso com toda facilidade, se uniu a cores improváveis para a minha pessoa: vermelho, laranja e dourado. Acho que foi a primeira vez na vida que eu fiz uma criação sem saber onde ia chegar e nem o porquê de estar fazendo aquilo. De início rolou um grande estranhamento. Olhei e pensei: isto está horrível. No entanto a estética é nada diante de algo que vem lá de dentro de um sonho, sendo assim, persisti em conviver com a imagem, mesmo ela me causando incômodo. Esta é uma das funções da arte, afinal, não é – mexer, cutucar, inquietar? Daí vem um certo “porém”. E quando a obra incomoda a própria pessoa que a criou? Pegadinha do inconsciente isso? Ou seria coincidência significativa? Recadinho que vem dentro...

Independente de qual era o sentido desta criação, baixei a guarda, deixei sair. Todos os recortes fotográficos foram vasculhados nos arquivos, selecionados e dispostos de maneira mais ou menos ordenada, sendo as pernas, as minhas; as figuras do homem e da mulher, pessoas que fotografei em tempos de Projeto Habitats, mas isto já é outra história; a flor de lótus, fotografada em tempos de muita determinação. Um detalhe interessante sobre as pernas, é que ela foi a foto final de um longo ensaio de autorretratos feito ao longo de meses, ao qual eu dei o nome de “fantasmas” e este é o recorte da única foto focada somente nos membros inferiores do meu corpo.

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Os demais elementos: círculo laranja e traços dourados, foram mais aleatórios na composição, embora, ao colocar a memória para funcionar, eu tenha ciência de que inúmeras vezes, ao longo da obra lida, Von Franz se refere a formas circulares como símbolos do Self. Da mesma forma, o elemento “ouro”, que tem a cor dourada, se trata, segundo a autora, de uma parte muito importante da alquimia, representando estágios finais de processos de depuração e a ressurreição.

Dito tudo isto, encerro minha fala por aqui, de forma que, explicar uma obra, faz com que ela perca completamente o sentido, pelo menos para mim, ocupando, humildemente, o lugar de artista. Para escrever estas linhas, eu fiz um gigantesco esforço para conectá-la ao que eu havia lido, no entanto, o máximo que consegui, foi falar sobre os elementos que compuseram a colagem, e de onde eles vieram. Depois de tudo relatado, compreendi que talvez esta fosse a melhor forma de conectar a obra lida e a obra criada por esta que vos escreve. O título encontrei somente agora, e deixo aqui neste fim: “juntada”.

Texto e colagem: Jheynne Scalco

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O SIMBOLISMO DO CÃO E A MORTE Vamos falar de cachorros! Tem quem goste e tem quem prefira gatos - vai entender. Apesar disso, é inegável que os cães representam algo muito intenso e profundo na psique humana, que atribuiu a esses animais toda sorte de significados. E esse é um longo percurso, seu contato e domesticação pelos humanos data do Paleolítico Tardio, desde 15,000 A.C. Devo mencionar que a imagem e o simbolismo do cão está muito conectada à imagem dos seus "primos caninos" (chacais, coiotes, lobos, cães selvagens e raposas), compartilhando muitas vezes aspectos entre si. Isso se dá pois a psique humana não é um sistema hipostasiado, em que sempre o mesmo estímulo desencadeará a resposta correspondente. Desta forma, um estímulo diferente pode desencadear uma mesma resposta e isso se deve também à capacidade de plasticidade cerebral que, diferente de outros animais, permite uma adaptação menos geral aos estímulos recebidos. Campbell descreve o exemplo do pintinho recémnascido que, mesmo nunca tendo visto um gavião, consegue reconhecer sua ameaça e buscar abrigo. Estamos falando de um sistema de "chavefechadura", em que A (gavião) sempre desencadeia B (procurar abrigo). No caso dos seres humanos, este sistema é mais aberto, podendo ser adaptado às situações específicas da vida do indivíduo, pois nem sempre será um gavião a ameaça fatal. No nosso caso, essa "ameaça" poderia vir na forma de um lobo, ou cão selvagem, raposa… Perceba que são figuras diferentes, mas todos representam, nesse contexto, um mesmo fator uma ameaça. Isso nos leva a considerar o caráter energético por trás dessa formulação.

Em "A energia psíquica", Jung nos fala dos fatores de intensividade e extensividade. Esta primeira se trata da intensidade (considerando uma escala subjetiva de valores) que o estímulo terá. O fator de intensividade pode passar de um conteúdo para outro sem "arrastar" consigo as características do seu conteúdo anterior. Temos que um medo intenso desaparece e ressurge como uma raiva também muito intensa. Assim, a forma de expressão mudou, mas a intensidade permanece. No caso do fator de extensividade, no entanto, alguma característica do elemento anterior é repassado ao novo conteúdo. Em algumas culturas, o mal devorador será representado por um lobo, em outras por uma serpente, por mais distintas que sejam as imagens, o elemento estrutural ainda persiste. No nosso texto, teremos ora lobo, ora cão, ora coiote ou raposa compartilhando simbolismos para representar uma mesma situação análoga.

Mas agora voltemos aos cachorros. A cultura se incumbiu de expressar de maneiras diversas os simbolismos que cercam estes seres tão amados e odiados. Na cultura antiga e contemporânea, seu aspecto de cuidado e proteção estão presentes desde os Cãezinhos do canil, animação dos anos 80, à recente Patrulha canina; no oriente há os Inugamis, imponentes e assustadores cães-leão, que guardam as entradas dos templos e locais sagrados; na Grécia vemos a figura de Cérbero, o cão de três cabeças, que guarda os portões do submundo.

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Sua lealdade aparece intensamente em Lassie; Benji; e o Hachiko, do filme "Sempre ao seu Lado"; em Harry Potter e a Ordem da Fênix, o Patrono de Ron Weasley toma forma de um cão da raça beagle, agitado e brincalhão; já o Scooby-Doo não é exemplo de coragem, mas nunca saiu do lado do Salsicha.

Von Franz nos fala que, para os gregos, o cão estava relacionado à cura e à condução da alma para o mundo do Além. Os cães são animais sensíveis e podem pressentir e até mesmo ver espíritos. Este aspecto está representado pelo cão Dante, da animação Viva. O cão Xolotl, dos astecas, tem esse mesmo papel de guia, retornando à vida os mortos. Esse aspecto também aparece, já no tempo dos antigos egípcios, na figura de Anúbis, representado com

cabeça

cachorro

ou

chacal,

deus

do

embalsamamento, agente da ressurreição e do ritual da mumificação.

Deve-se notar que todo símbolo é polar, possuindo duas faces opostas, uma de aspecto positivo e uma face negativa. Desta forma, a figura do cão também deve possuir seu lado obscuro e aterrador. Este aparece nas imagens dos cães ou lobos que caçam e atacam os rebanhos dos fazendeiros. Atrás de Hécate, a deusa da noite, da lua, matrona dos mistérios e da feitiçaria, ladra uma matilha de cães selvagens.

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No folclore popular, a bruxa, figura canibal, está associada ao lobo, representada por vezes vestindo a pele e também se transformando nesse animal. Na mitologia céltica, diz-se que a deusa Morrigan pode ser vista nos campos de batalha assumindo a forma de um corvo e também de um lobo, animais associados a Odin. O lobo, assim como o cão, está ligado com a guerra e a morte, como nos relata Von Franz em um sonho que Jung teve um dia antes da morte de sua mãe: Eu estava numa floresta lúgubre e cerrada. [...] A paisagem tinha uma atmosfera heróica, primordial. De repente, ouvi um silvo penetrante. [...] Meus joelhos tremeram. Em seguida, ouvi um estrondo no mato rasteiro e vi passar correndo um gigantesco lobo, com a ameaçadora bocarra aberta. [...] Velozmente ele passou por mim e de repente eu sabia: o Caçador Selvagem lhe ordenou que levasse embora uma alma humana. [...] Na manhã seguinte, recebi a notícia da morte de minha mãe (VON FRANZ, p. 91).

O Caçador Selvagem, ela ressalta, é uma das alcunhas de Odin. Em Harry Potter e o prisioneiro de Azkaban, uma das figuras mais impressionantes é a do Sinistro (Grim, no inglês), um grande cão negro que traz maus augúrios e dizem ser um presságio de morte. Vale ressaltar que Grim é também um dos nomes atribuídos a Odin no Gylfaginning.

Fenrir, por sua vez, está associado ao cão infernal Cérbero. É o grande lobo devorador da mitologia nórdica, filho do traiçoeiro Loki; irmão de Hel, a governante do submundo - Helheim, devoradora dos mortos perversos; irmão de Jörmungandr, a serpente do mundo, também conhecida como lobo do mar. Outra figura lupina presente no fim dos tempos é Garm, "a mais vil das criaturas'', o cão infernal que guarda Helheim. No Ragnarok, ele quebrará suas correntes e travará batalha feroz contra o deus Tyr, nesse confronto um matará o outro.

Os caninos estão associados também à enganação. No folclore nativo-americano, Coiote rouba o fogo da Gente do Fogo. Mais recentemente, o Willy Coyote ainda usa seus estratagemas para tentar capturar, em vão, o Papaléguas. Na Europa, o trickster assume a forma de Reynard, a Raposa. Em Dragon Age, os elfos possuem sua própria mitologia e divindades, os Evanuris. Nessa franquia, os elfos foram vítimas de guerras e disputas, sendo por fim escravizados. Suas grandes cidades, sabedoria, longevidade e conhecimento mágico são coisas do passado. O que era um grande e poderoso império, tornou-se pó do dia para a noite. Nos mitos, no entanto, existe a explicação para essa abrupta queda. Fen'harel, The Dread Wolf, o Lobo do Terror, é o deus élfico da traição. Entre as divindades era o único que gozava de livre passagem entre os Evanuris e os deuses antigos (Forgotten Ones). Conhecido como traiçoeiro e enganador, por meio de suas mentiras, Fen'harel conseguiu aprisionar os deuses dos elfos no reino deles, ao mesmo tempo em que aprisionou os deuses antigos no seu. Este evento selou os deuses do contato com o mundo material e separou os elfos da sua fonte de poder, abrindo espaço para que outras raças (os humanos) os sobrepujassem.

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Os elfos perderam contato com suas raízes, possuindo apenas trechos vagos de uma vasta história cultural, agora apagada e arrasada. Há, no entanto, mais nessa lenda e na figura de Fen'harel que permite uma longa consideração sobre suas atitudes e motivações, como é revelado em jogos posteriores da franquia. Fico, no entanto, com esse trecho da lenda pois no jogo, para o povo élfico, essa é a imagem que o Lobo do Terror representa. Curiosamente, no mito de Coiote, ele tem como companheiros a Raposa e o Lobo.

A imagem do lobo representa a destruição e o fim devorador. Em sua Edda Poética, Snorri Sturluson descreve o Ragnarok como um tempo em que: "Irmãos irão batalhar e matar uns aos outros, primos romperão laços. Será difícil para os heróis, muita depravação, era do machado, era das espadas, escudos fendidos, era dos ventos, era dos lobos, até o mundo estar em ruínas" (Grifo meu). Os eventos que se desenrolam mostram o impacto da presença dos lobos nessa mitologia: Sköll engolirá o Sol "e as pessoas acharão este um grande desastre"; Hati, por sua vez, alcançará e devorará a Lua "e ele também causará muita ruína". O lobo Fenrir se libertará e então os oceanos transbordarão "pois a serpente de Midgard surgirá em grande fúria, dirigindo-se à costa".

Psicologicamente, o Ragnarok representa o evento final. O caos cósmico em que o mundo cessará de existir engolfado em destruição e devorado pela boca do lobo (ou dos lobos); o evento da dissolução psicológica no vazio primordial - o inconsciente. Ellis Davidson reforça essa ideia: "O motivo do Ragnarok pode certamente ser visto como uma grande e aterradora imagem de um surto mental, ou como a completa desintegração da mente na morte [...]". Para os nórdicos, o aglomerado de estrelas Híades (constelação de Touro), muito associado a eventos eclípticos, representava a boca devoradora do lobo, para Langer, esse aglomerado "trata-se de um conjunto de estrelas brilhantes que formam um V oblíquo em redor da estrela Aldebarã".

Em A natureza da psique, Jung descreve o inconsciente coletivo como "toda a vida psíquica dos antepassados desde os seus primórdios. É o pressuposto e a matriz de todos os fatos psíquicos [...]". A estrutura inconsciente, portanto, precede a consciência, pois antes de haver uma noção de "eu", um complexo funcionamento psíquico já está em funcionamento.

"Os processos psíquicos", Jung afirma, "precedem, acompanham e sobrevivem à consciência. A consciência é um intervalo num processo psíquico contínuo; provavelmente é ponto culminante que exige considerável esforço fisiológico e por isso tende a desaparecer emquestão de dias. O processo psíquico que está na raiz da raiz da consciência é automático; não sabemos de onde se origina nem para onde se encaminha".

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A Mitologia nos indica intuitivamente, por meio das suas imagens, a ideia primordial de um evento de origem e criação, que caminha infalivelmente para sua própria dissolução. A boca do lobo representa este vácuo devorador, - paradoxalmente também a origem de toda existência -, que intenta seduzir e engolir todos os incautos, pois o inconsciente é a origem e o final derradeiro da existência psicológica. Seja na imagem dos cães, dos lobos ou chacais, o ser humano sempre encontrou nesses animais uma estampagem propícia para expressar algo do seu fundo psicológico que desvela um intenso drama interior. Essas figuras suscitam as mais variadas significações, que por vezes são as melhores formas de expressar algo apenas obscuramente pressentido, mas presente e real. Tão real que cá estamos falando sobre cachorros. Ou será que estamos falando sobre nós mesmos? C. G. Jung. A energia psíquica vol. 8/1; _________. A natureza da psique vol. 8/2; Hilda Ellis Davidson. Gods and myths of northern Europe; Joseph Campbell. As máscaras de Deus vol. 1; Johnni Langer (org.). Dicionário de mitologia nórdica; Marie-Louise von Franz. Os sonhos e a morte; Snorri Sturluson. Prose Edda. Texto e ilustração: Eduardo Marques

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A ÁGUA QUE QUEIMA

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A passagem do fogo pela água é o capítulo que chamou minha atenção para a produção da colagem para esta parte do livro. Eu entendo que existem várias maneiras de interpretar a passagem, é bem comum ouvir que quando alguém morre essa pessoa fez a passagem, também tem um sentido próximo quando pensamos no tempo ou nas fases determinadas de maneira cronológicas ou próprio nascimento. A expressão “passagem estreita'' traz esse sentido também, de superação. Os ritos de passagem são exemplos deste mesmo movimento, no qual acredita-se que ao chegar determinada época, algumas pessoas específicas ou gerais precisam realizar a “morte simbólica” e renascer para uma vida nova.

Muitas vezes esses rituais buscam uma transformação. Alguns elementos alquímicos são usados há muito tempo na tentativa de explicar esses acontecimentos, por exemplo, a afirmação de que as substâncias são "testadas" no fogo e que uma criança ou ser imortal nasce "do útero do fogo" (p. 99).

Na alquimia grega é comum a alusão de que a psique é kaustike, "ardente". Por exemplo, o alquimista Zózimos diz o seguinte: "Desde o início, chamamos a psique de natureza ardente e divina". Ou então: "Psique quer dizer a natureza divina que arde desde os tempos primordiais; o espírito (pneuma) opera em conjunção com ela, salvando-a e purificando-a através do fogo, se este for bem preservado, porque não pode ser destruído (p. 100).

O elemento fogo nem sempre aparece com características positivas o fogo que transforma, também pode destruir ou punir, como bem explica Von Franz, aqui o fogo "testa" o trabalho humano, separando o eterno do efêmero. Durante longo tempo não houve uma diferenciação mais precisa desse fogo que "pune" (o do inferno), ou purga e "testa" (o do purgatório). O mesmo se deu com respeito ao estado intermediário, que de início nem sempre era descrito como um lugar de fogo, mas de refrigerium (refrigeração) com água corrente (p. 102).

As ideias cristãs remetem obviamente ao antigo simbolismo egípcio, onde aparecem com toda a sua vividez original e primitiva. No mundo dos mortos egípcio, há um lago ou cavidade de fogo (também chamado ilha), cuja água ao mesmo tempo é fogo. Osíris "respira através da inacessível água desse buraco de fogo''. O deus-sol diz aos mortos o seguinte sobre este lago: "Sua água vos pertence, mas seu fogo não vai contra vós, seu calor não vai contra vosso corpo morto". Os maus, por outro lado, são torturados e queimados por esse fogo, pois nesse caso o fogo-água "testa'' tudo o que nele se encontra (p.103). Segundo o Eliade (2018), convém precisar que todos os rituais e simbolismos da passagem exprimem uma concepção específica da existência humana: uma vez nascido, o homem ainda não está acabado; deve nascer uma segunda vez, espiritualmente; torna-se homem completo passando de um adulto. Numa palavra, pode-se dizer que a existência humana chega à plenitude ao longo de uma série de ritos de passagem, em suma, de iniciações sucessivas.

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De um ponto de vista psicológico, o fogo evidentemente não deve ser tomado em termos concretos. Os velhos alquimistas o usavam como símbolo; equiparando-o com seu oposto, a água, revelando portanto que, para eles, tratava-se de um fogo místico. O fogo, em si, é um símbolo de energia psíquica: aquele "algo" psíquico desconhecido que se manifesta por impulsos, desejos, vontades, afetos, atenção, capacidade de trabalho, etc. e seus diversos graus de intensidade (p.103).

Texto e ilustração: Aparecida Silva

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CAPÍTULO 4 OPOSTOS QUE FORMAM O TODO

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RODA VIVA

"Uma velha zulu me explicou isso de forma muito direta. Estendendo a mão com a palma para cima, ela disse: 'é assim que vivemos'. Daí ela virou a mão com a palma para baixo e completou: 'é assim que os ancestrais vivem'. Não pode haver modo mais claro de expressar a ideia de que o mundo dos vivos e dos mortos formam um todo".

Marie-Louise von Franz em Os sonhos e a morte

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Roda viva Na simetria fina, se equilibram Morte e vida, vida e morte Poderia chamar “sina”, Ou para os otimistas, sorte Opostos se sustentam Para além do que chamamos tempo Na dança do desconhecido Da vida e morte, morte e vida Sortilégios lançados ao vento No infinito há posição? Ou somente vãos caminhos Estendidos Segredos hão No fim, mora um começo Notável processo Individuação? Na vida, a morte ecoa Será o inverso verdadeiro? Ou haveremos de chegar o dia do fim Atravessar o desfiladeiro Ouvindo o eco que na encosta, ressoa E depois de trilhar longa jornada Seguir em frente, mais nada Fotografia e poema: Jheynne Scalco

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A CHAMA BRANCA

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Essa parte das produções finaliza e inicia meu contato com os sonhos que apontam para a morte, mas não necessariamente para o fim total da existência. A ideia de continuidade me parece muito interessante. Espero conseguir estudar e pesquisar mais sobre esse assunto. Von Franz explica que “os sonhos das pessoas próximas da morte indicam que o inconsciente, isto é, nosso mundo instintivo, prepara a consciência não para um fim definitivo, mas para uma profunda transformação e para uma espécie de continuação do processo vital que a consciência cotidiana não consegue sequer imaginar" (p.179).

Escolhi ilustrar a parte final dos capítulos com a luz/ chama branca, uma vez que a autora comentou bastante sobre o aparecimento dessa luz nos sonhos e nos relatos de pessoas que já passaram por uma experiência de quase morte. A imagem da luz aparece com mais frequência do que qualquer outra no material que citamos. Jung defendia a suposição de que a realidade psíquica poderia localizar-se num nível supra luminoso de frequência, isto é, além da velocidade da luz. A "luz", neste caso, seria muito a propósito o último fenômeno transicional do processo de torna-se inobservável, antes que a psique "torne irreal" o corpo por completo, como diz Jung, e sua primeira aparição após encarnar-se no continuum espaço-tempo, deslocando sua energia para uma engrenagem inferior (p.169).

O mistério com relação à morte e ao momento em que alguém é tido como morto ainda permanece. É como se “a estrela saísse do nosso tempo e desaparecesse da nossa observação, apesar de ainda estar lá”. Algo análogo é simbolicamente encontrado no sonho de uma mulher que teve apenas algumas sessões com Von Franz. Essa mulher não conhecia Jung pessoalmente, mas o venerava à distância. No dia em que Jung morreu, sem ter conhecimento do fato, ela teve o seguinte sonho: Ela estava numa festa ao ar livre e havia muitas pessoas no gramado. Jung estava entre elas. Seu traje era muito estranho: o paletó e as calças eram verdes na frente e pretos nas costas. Então ela viu um muro negro com uma abertura que tinha exatamente o mesmo recorte que a figura de Jung: De repente ele se encaixou nessa abertura e então só se via uma superfície totalmente preta, embora todos soubessem que ele ainda estava lá. Nesse momento, a mulher olhou para si mesma e descobriu que suas roupas também eram verdes na frente e pretas atrás (p.176).

Para Von Franz, esse sonho parecia querer dizer que “a morte é um problema de limiar de percepção entre os vivos e os mortos” (p.178).

Texto e ilustração: Aparecida Silva

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EX-PULSÃO

Colagem: Dênis Peixoto Araújo

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ALMA, CORPO E A TRANSFORMAÇÃO PSICOFÍSICA A psique humana sempre se interessou pelos grandes mistérios da vida. Desde seus primórdios, a humanidade tece questionamentos e explicações para o intangível que fascina as diversas civilizações. Com a morte não seria diferente, pois esse é um dos maiores mistérios que põe em polvorosa a fantasia humana e estimula a criação de cultura. Um acontecimento tão impressionante que deixou no psiquismo marcas inegáveis de caminhos virtuais comuns, que se exprimem vez após vez na história da humanidade e ganha seu colorido característico pelas variedades das culturas humanas.

Ao tratar da morte, Von Franz não se propõe a discutir eventos metafísicos. Ninguém sabe o que existe após a morte. E uma estudiosa de temperamento empírico, que possui veia agnóstica, sabe muito bem quais são seus limites e que não deve ultrapassá-los. Entretanto, ainda respeitando certos limiares, pode-se observar o que a psique nos revela sobre os eventos que circundam a morte e seu riquíssimo simbolismo. Em suas próprias palavras, a autora nos diz: Para mim, a mistura de realidade e fantasia que caracteriza o espiritismo é muito difícil de deslindar. Esse aspecto tem sido desanimador, muito embora eu não duvide do caráter genuíno de certos fenômenos parapsicológicos. Por essa razão, limitei-me a referências ocasionais ao simbolismo arquetípico desses fenômenos, sem entrar na questão de sua "realidade". Pois a única certeza é que a maioria dos eventos parapsicológicos seguem certos padrões arquetípicos, que podem ser compreendidos e interpretados psicologicamente. Não posso concluir, no entanto, se são realmente os mortos que se manifestam nas sessões espíritas, ou apenas os complexos dos participantes ou os conteúdos ativados do inconsciente coletivo (o que, de qualquer forma, é muito frequente)" (grifo meu) (p.16). Von Franz jamais se propõe a responder a pergunta derradeira sobre vida após a morte. "Pelo contrário, seu [do livro] assunto principal é aquilo que o inconsciente - o mundo dos instintos e dos sonhos - tem a dizer sobre o fato da iminência da morte". É deste ponto de vista que se trata a discussão, "pois tudo indica que certas estruturas arquetípicas básicas existentes nas profundezas da alma costumam aflorar durante o processo de morte'' (p.9)

Em seu livro O Poder do Mito, Joseph Campbell nos apresenta as quatro funções da mitologia. Dentre elas, a função mística, que consiste em conectar as pessoas com a "verdade" - os mistérios - da existência. A revelação que está presente desde os primórdios: da morte se cria vida, assim como da vida se faz a morte. São dois lados da mesma moeda, polos opostos do mesmo fenômeno, que fazem a roda da existência girar. Para vivermos, outros seres vivos têm que morrer. A morte faz parte da vida, pois ela é vida. A natureza gesta vida e também a devora.

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Tal dualidade se expressa sobremaneira nos simbolismos da árvore da vida e da morte, com um lado viçoso e verde e o outro, seco e frágil; também nas personificações de deuses do mundo dos mortos, com suas faces de um lado formosas e bem conservadas e do outro, descarnadas e putrefatas. Segundo Gaiman, ao descrever Hel, deusa do submundo nórdico: "[...] do lado direito do rosto, a face era branca e rosada, o olho do mesmo tom de verde dos de Loki, os lábios cheios e carmesins. Do lado esquerdo, a pele era manchada e estriada, com marcas inchadas da morte, havia um olho cego e podre, pálido e sem vida, e a boca sem lábios estava murcha e repuxada sobre dentes marrons". Ou ainda, na imagem do Chefe Morte, dos contos da tribo Basumbwa, da África Ocidental, relatado por Campbell: "Um lado dele era bonito, mas o outro estava podre, com vermes caindo no chão".

Somos então convidados a repensar nossa perspectiva sobre a morte e o morrer. Não somente enquanto um processo que se inicia ao nascer ou mesmo antes, na fecundação - mas como um ciclo contínuo que se manifesta de forma individual nas existências particulares de cada um dos seres humanos, e que se estende além de suas individualidades. Tal qual os ciclos cosmogônicos representados nos mitos, que possuem um estágio de emanação ao qual se segue sempre uma dissolução, somente para iniciar tudo novamente.

Os povos primevos entendiam tanto essa realidade que seus ritos e mitos forneciam meios de lidar e se conectar com as transformações que o simples viver engendra: aquilo que arrebata a humanidade - o tremendo e o fascinante. Os mitos, portanto, são portas de entrada e saída para os fenômenos da vida - são transformadores de energia; facilitam a passagem de um estágio de desenvolvimento para outro, criam um senso de identidade e coesão social, explicam de onde vêm e para onde vão as coisas. Desta forma, a morte é também mais uma transformação e sua passagem está diretamente ligada as nossas realizações, conquistas e falhas e omissões em vida. Assim conclui Von Franz: "A morte seria então, em essência, uma transformação psicofísica" (p. 18).

Esse processo não se deve restringir somente ao âmbito espiritual, ou psicológico. O corpo também tem uma participação nesse processo. Já em Orígenes, Von Franz afirma, temos a concepção de que há no corpo a "centelha" que dará prosseguimento ao desenvolvimento da individualidade do indivíduo. Da mesma forma, para os egípcios, o corpo morto, agora identificado com Osíris, era "o segredo" onde residia o mistério dessa transformação.

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"Na minha opinião, isso indica que os antigos egípcios viam algo misterioso no cadáver, algo que a ''imagem" do falecido retinha e de que, como veremos, se origina o processo de ressurreição, depois da desintegração e transformação do corpo. Portanto, assim como Orígenes, os egípcios acreditavam que a ressurreição era um processo contínuo que se iniciava a partir do cadáver concreto, só que para Orígenes o processo não principia com a múmia ou com a " imagem" no corpo, mas com aquele misterioso spintherismos (emissão de centelhas)" (p.23). O simbolismo da vegetação demonstra esse caráter de transformação que envolve a morte e o renascimento. Os grãos e sementes que brotam da escuridão do subsolo, gestados no ventre da terra, para nascer como novas flores, árvores, novas vidas que por sua vez, consumirão e gestarão mais vida. Tal qual o bebê, que sai da escuridão primordial do solo materno para florescer fora do útero após seu período de incubação. Não somente no nascimento de um novo ser podemos encontrar analogias, mas também no perecer deste, pois "do pó viemos e ao pó voltaremos". É também no simbolismo da vegetação que nos deparamos com a identificação do corpo morto que, como as plantas, são depositados no solo para renascer em uma nova instância de vida. Devo ressaltar que não estamos falando de reencarnações ou renascimentos ao modo metafísico religioso, mas do simbolismo que gravita ao redor da temática da morte, perpetrado ao longo dos séculos pela elaboração litúrgica e ritualística dos diversos povos da nossa humanidade.

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Para os egípcios, ao morrer, uma parte da alma, a ba, comumente representada como um pássaro ou estrela, seguia para o espaço, onde se juntava ao deus solar Rá na sua procissão em sua barca solar; sua outra parte, a ka, tinha o mesmo destino do corpo falecido, se dirigindo ao submundo.

Nos rituais fúnebres egípcios, encontramos uma analogia dos processos alquímicos com a transfiguração da matéria, através da qual o corpo pode realizar sua unificação com a ba e a ka. Nesse processo, as partes e órgãos do corpo são identificados com diferentes deuses do panteão. O ritual unifica essas partes segmentadas numa totalidade, um uno identificado agora com a deidade suprema Rá. Psicologicamente, Von Franz indica que: "[...] o corpo morto transforma-se numa imagem do inconsciente coletivo e, em seu aspecto de unidade, transforma-se no Self. Do ponto de vista egípcio, a ka (sombra, duplo) e a ba (individualidade espiritual) do morto posteriormente unem-se a esse corpo transfigurado, e juntos tornam-se uma unidade inseparável. A ressurreição é, portanto, uma unificação do self individual com o self coletivo; e ao mesmo tempo é uma incorporação de ambos no corpo transfigurado" (p.116). Percebemos assim o delineamento do que seria um objetivo finalista, representado pela realização da personalidade, algo que se desenrola ao longo da vida e parece estender-se para além dela, fazendo da morte não o fim ou um apêndice incorpóreo da vida, mas a continuação do processo cíclico (ao olhar de curto alcance que é a breve vida humana) de uma constante transformação que alcança a humanidade como um todo.

Joseph Campbell - O poder do mito Neil Gaiman - Mitologia nórdica Marie-Louise von Franz - Os sonhos e a morte

Texto e ilustrações: Eduardo Marques

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A MORTE DO NOSSO TEMPO E OS SONHOS

Fotografia: Jheynne Scalco

A pandemia rolando solta e a gente estudando, lendo sobre “os sonhos e a morte''. Será que isso faz bem? Não sei. Toda quinta, no mesmo horário. Gatilhos? A leitura é feita com a voz participativa, ativa de quem gosta de ler, participar, se fazer presente de maneira atenta e sensível. Entre perguntas, piadas, dicas e questionamentos, seguimos tentando aprender.

As mortes simbólicas e reais continuaram e não demorou muito para chegar até aos nossos, as pessoas que fazem parte do nosso ciclo familiar. Um primo, uma amiga, um sobrinho, familiares de amigos: quantos já se foram? Nunca foram números! O luto sem pausa, sem homenagens, sem culto, sem rito. Morte voraz e luto lento.

Estudar, no espaço seguro, parece oferecer alguns minutos de normalidade, mas o tema não é a morte? Eu devo parar? Não! Vamos seguir. É preciso confiar e observar atentamente os frutos desses processos e o que ele tem a nos ensinar. Compartilhar dor e sentir a impotência crescer, florescer, desafiar, vencer. Amanhã será outro dia.

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Se falar de morte faz mal eu não sei, mas é certeza que calar sobre ela não faz bem. É por meio dessa fala, fala significativa, fala que toca, mexe, aperta o peito e espreme o coração, que a morte ganha forma, delineia suas curvas e se faz presente. Ausente nunca esteve. Não. Mas agora as curvas sinuosas das suas mãos se fazem visíveis ao redor de pescoços expostos.

E estamos todos expostos. Uns mais do que outros. Outros muito mais do que uns. Se o vírus contagia, o afeto muito mais. Te pega pelos cabelos, faz rodar três vezes, e na tontura da indiferença, te nocauteia com uma invasão de emoções. Inunda. Transborda. Transporta para todo lado e para todos. O eu vira tu, o tu vira nós, e nós viramos o todo. Entramos num balaio de gato e somos também o próprio balaio, indiferenciados, perdidos nos outros, desencontrados de nós mesmos.

Curiosamente o desencontro pode possibilitar que algo apareça e o caminho surja como uma aparência de obviedade. Talvez o motor para isso seja o compromisso. Elo que se afrouxa e acocha conforme as necessidades, ainda permanece como acordo que fazemos e refazemos uns com os outros. A morte, os sonhos, a dor e o conforto, cada um presente entre pensamentos imperfeitos e dúvidas perfeitas.

O dia a dia é corrido, muitos afazeres, deveres, produções, etc. Tudo isso acarreta dificuldades que encaramos para estarmos presentes nos encontros, para desenvolvermos pensamentos, para darmos a atenção necessária às leituras e para fortificarmos nossas relações com as pessoas. E quando acontecem imprevistos e um encontro precisa ser cancelado, ele faz uma falta enorme não só na linha do pensamento, mas também na do sentimento.

Assim esse grupo procura sempre estar de forma paciente e solidária ajudando uns aos outros, sempre trazendo pitadas de sorrisos, pois o humor salva e como diria Paulo Gustavo “rir é um ato de resistência”. Talvez o leitor do futuro esteja pensando que durante nossos encontros estávamos só enfrentando um vírus, como já deixamos destacado, mas a bola de neve é bem maior, pois o sistema político e econômico também passam por crises que contribuíram com vírus.

O e-book terminou, mas como você, caro leitor, pode notar, o momento que ficará marcado para sempre na história de cada um de nós e de toda humanidade, ainda persiste. Uma partícula invisível aos olhos, que na divisão dos seres vivos, tem um reino só para si, coroou milhões com o rito de passagem, cuja iminência é sabida de todos, mas também temida e deveras, evitada. Nós que permanecemos, na base da resistência e insistência, nesta coisa chamada vida, neste pequeno grupo, sondamos bastante o lado de lá nos últimos meses. Sondamos com cuidado, segurando virtualmente as mãos que escrevem cada palavra aqui derramada, este outro lado – restam mais dúvidas do que conclusões. Por estranho que pareça, isto nos fortaleceu. A certeza que fica é a frase que dá nome ao filme e também ao cemitério de algum lugar por aí afora: “Nós que aqui estamos, por vós esperamos”.

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Texto: Jheynne Scalco, Dênis Peixoto Araújo , Aparecida Silva, Eduardo Marquies e Wellington Barbosa


A L M A entre

Á G U A S UMA CRIAÇÃO COLETIVA

O próximo e-book será baseado na obra de Marie-Louise Von Franz: O CAMINHO DOS SONHOS

Acompanhe as novidades no Instagram: @em_barco Conte o que sentiu lendo este e-book no: grupoestudos.vfranz@gmail.com


Aparecida Silva Dênis Peixoto Araújo Eduardo Marques Jheynne Scalco Weelingtton Barbosa


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