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"O sertão é de noite [...] Quando se vem vindo sertão a dentro, a gente pensa que não vai encontrar coisa nenhuma." - João Guimarães Rosa, Buriti EDITORIAL - MEMORIAÇÕES E SERTÃO Ao visitar o sertão, suas imagens, visitamos o poema. Cidade, sertão, livro de poemas. O sertão fareja a poesia, como as abelhas o pólen. Giro, giramos nessa relação entre as imagens, as coisas e a cidade. Tocados pelo sertão, pela sede, pela claridade e a poesia. Mais o sentimento que o sentido; mais a vida e a comunidade que os seres. Mais viagem que barco, Mais sertão que estrada. E ao relatar imagens, repousamos o tempo no orvalho. O processo das imagens é o processo da memória. Memoriar é desinventar, com suas metamorfoses

e

arribações.

Disse

Luís

Buñel:

“a

memória

é

perpetuamente invadida pela imaginação e fantasia”. A memória é a minha imaginação. Memória da cidade que me acolhe e me é, o sertão que sou. Não perco a memória imaginando ou esquecendo: perco a exatidão dos acontecimentos. Um tigre é a imagem de um tigre. Não importa se é velho ou jovem. Ataca. E o poema sabe disso. Como sabe a crônica e o conto que as palavras girafloram. Giram ao redor do sol, da terra-pedra e das águas. Os escritores só têm suas palavras, os tubos da linguagem. São meninos que se preservam a criação nos côncavos do mar, entre conchas, dejetos, pássaros. Um menino que se descobre sertão, entre as pedras, a água escondida nos cactos, as ranhuras da terra e o ardido do sol. A poesia, as artes visuais, a música, os lamentos do sertão tem uma ligação etérea, telúrica com os mistérios de Eleusis dos velhos gregos: terra, mitos, amores. Pessoas ligadas a terra, sustento, amor, vida


e morte; o heroísmo da luta contra a morte, morte que está na terra, na pedra, na palavra. O sertão é paisagem e é dentro, é o ser humano em conflito com o ambiente e consigo próprio. A valorização da cultura sertaneja num momento histórico em que predomina um discurso utilitarista/ tecnológico/ globalizado coloca o artista na contramão do mercado de arte brasileiro que, praticamente desde seu início, defendeu a modernização do país. Por trás da atitude do sertanejo está a percepção de que o progresso condenaria ao silêncio o mundo dos contadores de histórias. Desse modo, homem e mundo, realidade e devaneio, mundano e divino aparecem sempre em contraste e nos colocam diante de muita angústia, aridez e ceticismo; mas a poesia que perpassa o mundo sertanejo nos remete a momentos do próprio mundo interior das personagens que, por vezes, retratam nosso desejo de lutas, perdas e glórias. O sertão é um lugar político e econômico, mas também um lugar metafórico e metafísico, refletindo perturbações interiores e seus grandes questionamentos. Depois de ligar as palavras ao mundo e elas à consciência e à relação entre as pessoas, nós descobrimos não só um animal político, amoroso, metafísico ou poético, mas ser que repousa no Absoluto, no Ser-tão. Para Manuel Bandeira, há um céu de passarinhos. Para Ramón Jiménez, há um céu de burricos e ali descansa Platero. Assim, no imaginar, no memoriar, há um céu a estes seres estranhos, as palavras, a arte. Assim como ao sertão: ora particular, pequeno e próximo; ora universal e infinito, pois "o sertão é o mundo" ou, melhor ainda, "o sertão é a alma de seus homens" (J.G.Rosa). Poesia-sertão: paraíso-cidade pra onde também somos conduzidos salvos pelo sortilégio da poesia. Nina Rizzi, janeiro, 2013.


TRÊIS DEDIM DE PROSA De súbito, porém, ondula um frêmito sulcando, num estremação repentino, aqueles centenares de dorsos luzidios. Há uma parada instantânea. Entrebatem-se, enredam-se, trançam-se e alteiam-se fisgando vivamente o espaço, e inclinam-se, e embaralham-se milhares de chifres. Vibra uma trepidação no solo e a boiada estoura [...] A boiada arranca. Nada explica, às vezes, o acontecimento, aliás vulgar, que é o desespero dos campeiros. Origina-o o incidente mais trivial – o súbito vôo rasteiro de uma araquã ou a corrida de um mocó esquivo. Uma rês se espanta e o cantágio, uma descarga nervosa subitânea, transfunde o espanto sobre o rebanho inteiro. É um solavanco único, assombroso, atirando, de pancada por diante, revoltos, misturando-se embolados, em vertiginosos disparos, aqueles maciços corpos tão normalmente tardos e morosos. E lá se vão: não há mais contêlos ou alcançá-los. Acamam-se as caatingas, árvores dobradas, partidas, estalando em lascas e gravetos; desbordam de repente as baixadas num marulho de chifres; estrepitam, britando e esfarrelando as pedras, torrentes de cascos pelos tombadores; rola surdamente pelos tabuleiros ruído soturno e longe de trovão longínquo [...]. [Euclides da Cunha, Os sertões, 1902] * Vai o gado na estrada, mansamente, rota segura e limpa, ao tom monótono dos eias dos vaqueiros. Caem as patas no chão em bulha compassada. Na vaga doçura dos olhos dilatados transluz a inconsciente resignação das alimárias, oscilantes as cabeças, pendentes à margem dos perigalhos, as aspas no ar em silva rasteira por sobre o dorso da manada. Dir-se-ia a paciência em marcha, abstrata de si mesma, ao tintinar dos chocalhos em pachorrenta andadura, espertada automaticamente pela vara dos boiadeiros. Eis senão quando, não se atina por que, a um incidente mínimo, um bicho inofensivo que passa a fugir, o grito de um pássaro na capoeira, o estalido de uma rama no arvoredo, se sobressalta uma das reses, abala, desfecha a correr, e após ela se arremessa, em douda arrancada, atropeladamente o gado todo.


Nada mais o reprime. Nem brados, nem aquilhadas o detêm, nem tropeços, voltas, ou barrancos por davante. E lá se vai, incessantemente, o pânico em desfilada, como se os demônios o tangessem, léguas e léguas, até que, exausto o alento, esmorece e cessa, afinal, a carreira, como começou, pela cessação do seu impulso. Eis o “estouro da boiada”. [Rui Barbosa, O estouro da boiada, 1910.] * Aquele lugar, o ar. Primeiro, fiquei sabendo que gostava Diadorim – de amor mesmo amor, mal encoberto em amizade. Me a mim, foi de repente, que aquilo não se esclareceu: falei comigo. Não tive assombro, não achei ruim, não me reprovei – na hora. Melhor alembro. Eu estava sozinho, num repartimento dum rancho, rancho velho de tropeiro, eu estava deitado, numa esteira de taquara. Ao perto de mim, minhas armas. Com aquelas, reluzentes nos canos, de cuidadas tão bem, eu mandava a morte em outros, com a distância de tantas braças. Como é que, dum mesmo jeito, se podia mandar o amor? O rancho era na borda-da-mata. De tarde, como estava sentado, esfriava um pouco, por pejo de vento – o que vem da Serra do Espinhaço – um vento com todas almas. Arrepio que fuxicava as folhagens ali, e ia, lá adiante longe, na baixada do rio, balançar esfiapado o pendão branco das canabravas. Por lá, nas beiras, cantava era o joão-pobre, pardo, banhador. Me deu saudade de algum buritizal, na ida duma vereda em capim tem-te que verde, termo da chapada. Saudades, dessas que respondem ao vento; saudade dos Gerais. O senhor vê: o remôo do vento nas palmas dos buritis todos, quando é ameaço de tempestade. Alguém esquece isso? O vento é verde. Aí, no intervalo, o senhor pega o silêncio põe no colo. Eu sou donde eu nasci. Sou de outros lugares. Mas, lá na Guararavacã, eu estava bem. O gado ainda pastava, meu vizinho, cheiro de boi sempre alegria faz. [...] [João Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas, 1956] *


Nina Rizzi, Onde andam a caminhar meus olhos, 2. 2010.

FRAGMENTOS - MODINHAS DE VIOLA Eu quero que o meu patrão Venha ser um sertanejo Casando com a moça rica Com a boca cheirando a queijo ! * Eu sou filho do sertão Tenho saúde p’ra dá : Me criei bebendo leite Na porteira do currá ! * Neste mundo de meu Deus Foi boa a repartição : Piauhy p’ra criar gado, Pagehú p’ra valentão, Cariry p’ra rapadura, Rio do Peixe p’ra algodão !

- Boi Lavrador ! Boi Coração ! Interrompe o grito fino, insistente, do rapazinho tangendo os bois, em cima, na roda de engenho. Esta cantiga que eu canto Ha muito tempo aprendi O mestre que me ensinou Foi meu mestre Jurity * Si me deres uma galinha Vos digo o que quero della: Quero a pontinha das azas Quero a olha da panella, Quero o couro do pescoço Quero a carne da titella, Não despenso as duas côchas, Não despenso nem costella, Não despenso nem miúdos,


Nem a gostosa moélla !

Que eu te dou madapolão !

Responda minha Senhora De mim não fique espantada, Em falta gosto de óvos De queijo e de carne assada ! * Eu não sei de que me serve Ser beija-flor nesta vida : Ter azas e não voar E só comer de cantiga ! * Eu pensava que o Pindóba Agora fosse p’ra riba ; Mas enganei-me, coitado ! Elle está na pindahyba ! * Menina quando te fores Me escreves lá do caminho, Si não tiveres papel Nas azas de um passarinho !

Menina diz a teu pae Que si quer ser meu amigo, Ou me pague o meu dinheiro Ou case você commigo ! * Eu vi teu rasto na areia E me puz a considerar : Grande mimo tem teu corpo Si teu rasto faz chorar ! * Eu amo duas meninas Agora é vou contá, Vou dizer o que elas são Para o mundo apreciá : Totonha p’ra querer bem. Chiquinha p’ra carinha, Como Totonha não tem Como Chiquinha não ha ! * E lá vae o sol se pondo Em procura de meu bem O coração só me pede Que bata os pés, vá também !

Da bocca faz o tinteiro Da lingua Penna aparada Dos dentes lettra miúda Dos olhos carta fechada ! * Essa noite eu tive um sonho Meu Deus ! que sonho atrevido

Quem diz que amor não dóe Não conhece amor então : Queira bem e viva ausente Veja lá si dóe ou não ! *

Meu Deus ! que sonho atrevido... Sonhei que tinha na rêde A fôrma do teu vestido !... A fôrma do teu vestido !... * Menina teu pae é pobre Tua mãe veste algodão, Menina casa comigo

[IN: José Carvalho, Perfis Sertanejos: Costumes do Ceará, 1897.]

***


Maria Silvia Vargas Boaventura, Pinhas – Cerâmica.

À PROCURA DO “QUEM DAS COISAS” Maria Sílvia Vargas Boaventura Bom mesmo é sertanejar em Nossa Senhora das Maravilhas do Morro da Garça, lugar onde “os passarinhos são assim, de propósito: bonitos não sendo da gente”, e “pica pau voa é duvidando do ar”. Lugar de ser e viver a nossa criança. Dia destes, descalça, pisei de novo naquela terra vermelho rubro e sentei-me nos velhos degraus de tapiocanga , para conferir a pitada de verde da paleta da Marijô , no azul intenso daquele céu. Lá estava ela em degradée, se espalhando na planura do Arraial do Benguela até o Arrepiado,povoado onde viviam os índios da tribo dos Arrepiados. Bem longe, o Morrão escaleno, com seus ninhos de garças e recados roseanos. Absorta no silêncio de lonjuras passadas ,uma fala infantil e sertaneja me desperta. “Ah bão, ela pisca!” O menino segue com o amigo na bicicleta lilás, após constatar que sou um ser vivo. Pisco, portanto existo.


FOTOGRAFIAS ENCONTRADAS EM UMA MEMÓRIA ABANDONADA Carina Castro, Tudo é Coisa [http://tudoecoisa.wordpress.com/]

Nina Rizzi, Onde andam a caminhar meus olhos, 3, 2010.

dentro do cacto, a alma úmida

miragem... o boi foi-se

tece flores de chita

virou areia na margem deserto de areia de boi

os secos mares da lua se acalmam dentro da cisterna

badalos nos pensamentos o silêncio fazendo sombra

a fala pra dentro, o vento no nada

seu tronco um templo

respiro, ar entra varrendo a alma

aos membros de barro do tempo

no breu os olhos se acendem

sonhou sementes,

luz muito de perto incandeia

no relicário esquecido

o traje da noite é do avesso

um retrato do seu sorriso de safra

vaza o melaço e parece lágrima

águas subterrâneas

estranho engenho

ouvidos atrás das paredes

entranhas gemem

sentires atrás da pele, carne de sol

nas veias terra vermelha um inverno de meio-sol

e solene

uma vida de meio-dia

soa um sol maior no lugar do peito


VIVER TRANQUILO Roberto Soares

Nina Rizzi, Onde andam a caminhar meus olhos, 4, 2010.

Mire veja: viver é perigoso, sobretudo no sertão. Engana-se soberbamente quem acredita na cidade, particularmente a metrópole, como sendo o cerne da periculosidade, a selva de pedra que está pronta e ansiosa por te engolir. Não nos convença as opiniões fáceis. Um farol fechado em uma rua escura na alta madrugada é de somenos. Não se iluda com o perigo de incêndio ateado numa favela, tampouco com sequestros relâmpagos. Relativize a probabilidade de estar no momento exato da detonação de dinamite em um caixa eletrônico. Desconsidere os furtos, os assédios, as discussões cotidianas. Talvez, sim, tenha que tomar cuidado com o Governo e sua polícia.


Porém, nada disso se compara com os riscos que sofre uma pessoa quando se embrenha no sertão. A tranquilidade, o marasmo, a bonacheirice das pessoas, a vida idílica no campo, não passa de literatura, e das mais fantasiosas. Minha teoria é que o fato de acreditarmos nesse engodo nos deixa despreparados para enfrentar os iminentes ou sorrateiros perigos. Andar sossegadamente pelos campos, sentindo o cheiro de mato, tentando distinguir os pássaros pelo canto, descobrindo a primavera das coisas, pode nos revelar desagradáveis surpresas. Eu, morador da grande metrópole, não me arrisco nessas paragens. Principalmente depois de ouvir algumas histórias. Quem contava era um homenzinho lá do sertão, com idade indefinida, cuja voz ganhava insuspeita força na medida em que avançava nos relatos. Aliás, também sua estatura crescia conforme convencia a plateia da sua coragem e denodo em enfrentar a vida num lugar daqueles. Rincão onde a qualquer momento um jagunço perigosíssimo, que bota nossas pernas a tremer apenas com a dureza do olhar, pode despontar no alpendre da nossa propriedade. Vá lá que no fim possa ter batido à nossa porta unicamente para tirar uma dúvida vernácula. Mas então já poderemos ter tido um desarranjo intestinal ou um infarto. O sertão também é lugar de feiticeiros poderosos, orações de esconjuro e vinganças tenebrosas, como quase instantaneamente perdermos a visão entranhados no mato, na beira de uma lagoa, e precisarmos orar com fé para nos livrarmos da bruxaria. Imaginem a proporção do perigo, privados de enxergar, repentinamente imersos no cerrado? À parte as topadas com grossos troncos de árvores, os cipós e os capins cortantes, à espreita pode estar a insensível boicininga ou uma jararacuçu. Há onças. E homens que se transformam em felinos. Tem pessoas que, na noite sem luar, procuram escondidas veredas para pactuar com o diabo. Nas ruas há redemoinhos. Já está decidido. Não abandono de forma alguma essa vida tranquila da cidade. O sertanejo, com seus relatos primorosos e estonteantes, me convenceu definitivamente que lá eu não vivo, e de passagem só vou se estiver temulento.

***


Patrícia Sousa, Ser -Tão. Xilogravura em MDF, 20 cm. x 25cm.


SAGARAnaGENS FULINAÍMICAS Artur Gomes [www.oficinacinevideo.blogspot.com]

teu

guima meu mestre guima

grande

serTão

vou

cumer

em mil perdões eu vos peço por esta obra encarnada na carne cabra da peste da hygia ferreira bem casta aqui nas bandas do leste

nem joão cabral severino nem virgulino de matraca nem meu padrinho de pia me ensinou usar faca ou da palavra o fazer

a fome de carne é madrasta a ferramenta que afino

ave palavra profana cabala que vos fazia veredas em mais sagaranas a morte em vidas severinas tal qual antropofagia

roubei

do

mestre

drummundo que o diabo giramundo é o narciso do meu Ser


KUNTA KINTÊ Ricardo Pedrosa Alves [naturalismopsicodelico.blogspot.com.br]

Nina Rizzi, Onde andam a caminhar meus olhos, 5, 2011.

vinham velozes e tonitruantes, mas tudo num mesmo instante, vaqueiros de José de Alencar, de Euclides da Cunha, vinham, volutas no tempo quando se torna momento, intervalos que agora entorno lentos, os pés no vento, vinham, piás de um time, múltiplos, vinham a pontapés no inimigo, vinham, e as pessoas, eu, davam passagem!, saudosos de suor e selvageria (uns bravos), sob o impacto do instante, em que inicialmente atravessaram, lentos, a rua do Terminal, e no tubo eu já ouvia de um grupinho que aqui, afinal, é Zona Sul, e o Capão Raso, e não entendi bem, mas o Capão Raso seria, daí a segundos, o objeto do escalpo, camiseta paranista curiosamente por cima de um moletom adidas branco de uns duzentos reais, numa tarde de calor em bicas, perto de uma noite de


clássico, escalpo que os guris do Sítio, de bonés de marca e calça de marca e tênis de marca (tanta a remarcação providencialmente pirata), o que não indica que sejam ricos, pois, além do celular de marca é tudo o que possuem, uma ou duas peças relativamente boas para competir com os guris ricos da cidade e para impressionar as minas de rosa ou azul bebê e tênis hemp e pulseirinha da Jamaica, que logo percebem a farsa posto que os piás usam as mesmas uma ou duas peças de marca a semana toda, gatinhas, porém, que não se incomodam, e passam a soprar a piazada do bairro, andar nas suas mobiletes, exibir-lhes os piercings, fumando e matando aula, tomando tubão, rindo dos meninos, coçando as sardas, falando no celular de outdoor, algumas vestindo camisetas de time, mas as meninas não estavam ali, onde só estávamos nós, onde só eu estava, vendo os piás darem a volta para a outra plataforma, esquecendo deles um pouco, pois não pensava que fosse rolar nada, e voltando a esperar o Bairro Novo para o Centro pra eu voltar pro Instituto, e voltando a garantir meu terceiro lugar na fila, fazemos nada, e, saudosos de suor e selvageria, assistimos ao espetáculo de socos e chutes de uns vinte sobre um, todos de menor, de menor, muitos já pais e ali, naquela hora, à toa um país em busca de um paranista, que apareceu para invocar, um idiota, se eu tivesse uma arma, saía atrás deles, intimava todos, dava uns cascudos nalguns, uns pedalarrobinho noutros, mandava calar a boca e deitar no chão, segurava o paranista pelo colarinho, pois eu também seria musculoso como o Kunta Kintê, e então eu seria também fortão, perguntaria aos meninos no chão, sob a arma e sua mira, iria com ira perguntar o que eles queriam, seria a camiseta, eu daria um pedalarrobinho de novo e um cala a boca aí filha da puta, trouxa, quem manda vir provocar aqui?, derrubando sob meus pés o rapazinho paranista, que parecia mais novo que os perseguidores, quando passaram como novilho e como aprendizes de caubóis, chutando-o, socando-o, parando-o aos poucos, até que o fizessem deitar perto cachorro do caixa eletrônico, e a mulher disse que não tem polícia, que ninguém faz nada, e me olhava, mas se eu fosse forte, se eu fosse o Kunta Kintê iria lá com a doze, e eles não precisariam ter mandado o paranista abrir a mochila, também de marca, para ver se não tinha mais nada do time lá dentro, e ele abriu, meio sonolento, atordoado, tonto de socos, e depois saiu meio cambaleante, indo aos poucos, logo tomando um rumo que eu não vi, peguei o ônibus. e agora tudo se tornou imagem e imagem de imagem e contemplo as nuvens do céu e as da tela de descanso do laptop. ***


Nina Rizzi, Onde andam a caminhar meus olhos, 6, 2010

239 - CANÇÃO DE PLENA ALVORADA Assis Freitas, [mileumpoemas.blogspot.com]

Não choveu, amor A nossa fonte, nosso jardim Nossos sonhos de cristais Tudo isso o tempo comeu Como as nossas carnes Desbastadas pela natureza


Não choveu, amor A frieza do relógio impõe-se As taças erguidas em vão Em meio a tantos vendavais Tudo isso o tempo comeu Em sacrossanta castidade

Não choveu, amor E eu ainda fito a paisagem E repito em versos o canto Aquele que faz soar o coração Que o tempo só há de comer Se murcharem as pedras


EMBORNAL ENCANTADO Matheus Pazos [http://cronicasexilicas.blogspot.com.br] Para seu Tonhe, que me ensinou a prever tempestades. Avisto, da minha janela, uma caminhonete que passa na estrada de chão. Deixa, como rastro evidente de sua passagem ligeira, o ar empoeirado e aquela sensação de que o sertão pode ser reduzido ao pó. Filhos do velho Jó adentram aquele caminho, acomodados como podem na velha caminhonete. Voltam da feira e retornam, exaustos, para suas casas devidamente espalhadas pela zona rural [um desses nomes ‘modernosos’ para aquilo que nós designamos como roça por aqui]. Apesar da globalização ou paulistanização [os sertanejos preferem sumpaulo aos states ou, até mesmo, às capitás do Nordeste, bem sabemos], ainda é possível encontrar homens e mulheres que viajam nessas caminhonetes, usam chapéus, lenços na cabeça e tem por modo de vida ser da terra [ou da poeira para aqueles que, acostumados com florestas alemãs, não enxergam outra coisa no sertão]. Eles não conhecem outra vida ou se experimentaram outras paragens e modos de vida, não aprovaram e sentiram que aquilo era suicídio [pecado que deve ser impedido, crendeuspai]. Nos carros que cruzam as estradas do sertão, esses homens e mulheres anseiam o retorno à casa. Talvez, pensam na semana árdua que terão. Trabalho duro sob um Sol forte. Tudo amarelo [empoeirado para nossos olhos mal treinados]. Viajam com seus netos e filhos que, certamente, ouvem os novos ritmos que embalam uma Bahia globalizada e repleta de ‘realezas’ do forró [a sanfona de Gonzagão anda meio fora de moda]. Algum neto mais estudado e franzino pode até ter mencionado ao avô que muita gente escreveu sobre o sertão, a seca e até sobre cães famintos, mas fiéis ao dono. Pouco importa essas histórias, afinal o feijão catador não cresce só. Alguém precisa operar o milagre de extrair vida da poeira. Estranhamente, esses viajantes parecem ser parte de uma exótica descrição do passado. Os habitantes do sertão somem na poeira e se perdem no cotidiano. Ser da roça, usar chapéu todos os dias, fumar cigarro de palha, tomar uma pinga boa, cuidar do chão arredio e seco não resistiu ao progresso que tudo dilacera? Evidentemente, não é o caso. Sinto, da cozinha, o cheiro do feijão catador na panela. Sei onde comprar fumo de corda e uma boa ‘água que boi não bebe’. Além do mais, o chão árido invade meu olhar e não há nada de folclórico nisso.


Basta, simplesmente, enxergar melhor. Lavar o rosto na muringa que nunca seca, olhar novamente e avistar o incenso amarelo que invade as estradas ensolaradas. A poeira não existe. São raízes, meu senhor e minha senhora, raízes. Poções - BA, Festa dos Santos Reis, 2013.

Nina Rizzi, Onde andam a caminhar meus olhos, 7, 2010


O SERTANEJO FALANDO João Cabral de Melo Neto, A educação pela pedra, 1962-1965

1.

2.

A fala a nível do sertanejo engana:

Daí porque o sertanejo fala pouco:

as palavras dele vêm, como rebuçadas

as palavras de pedra ulceram a boca

(palavras confeito, pílula), na glace

e no idioma pedra se fala doloroso;

de uma entonação lisa, de adocicada.

o natural desse idioma fala à força.

Enquanto que sob ela, dura e endurece

Daí também porque ele fala devagar:

o caroço de pedra, a amêndoa pétrea,

tem de pegar as palavras com cuidado,

dessa árvore pedrenta (o sertanejo)

confeitá-la na língua, rebuçá-las;

incapaz de não se expressar em pedra.

pois toma tempo todo esse trabalho.


Nina Rizzi, Onde andam a caminhar meus olhos, 8, 2010

O CRESPO Julia Oliveira Godoy O Crespo andava ensimesmado. Percorreu a torre de vigia com suas botas de veludo, reservadas para aquelas semanas em que era escalado para o plantão noturno. Com seus binóculos de longo alcance, observava a total ausência de acontecimentos relevantes através das fendas entre os velhos tijolos da torre. A torre de vigia havia sido construída há exatos 809 anos por um herói audacioso de quem o Crespo não recordava o nome. Associava-o a uma antiga gravura que vira em seu livro de história na única ocasião em que o abrira: um homem hirsuto, dotado de um imponente bigode que encobria, como um vegetal parasita de rara beleza, mais da metade do seu rosto. No momento em que percebeu que o pesado livro de história era composto em sua maior porção por palavras, notadamente de difícil compreensão, e não por figuras de heróis destemidos e seus bigodes pomposamente enegrecidos, o Crespo perdeu o pouco que lhe restava de interesse pelos estudos. Manteve-se no Instituto Educacional Ribeirinho devido unicamente à sua paixão pelos saborosos grumilhos preparados pela quituteira Moréia, uma receita passada de mãe para filha, da qual, apesar de insistentes apelos, ninguém fora da família detinha qualquer conhecimento.


O Crespo salivou ao lembrar-se dos grumilhos: crocantes na superfície e deliciosamente macios e suculentos em seu interior. Derretiam na boca em segundos, deixando qualquer mortal ansioso por mais um pedaço. Moedas acumuladas no decorrer de longos anos tilintavam ruidosas nos bolsos pesados do Crespo. Ele hesitou por um instante. Estaria disposto a exercitar o desapego por um fragmento momentâneo da deliciosa recordação de sua infância? Naquele exato momento, Carmelita Doceira passava mancando com seu carrinho de mão pela Rua dos Turcos, vendendo os preciosos quitutes que aprendera a preparar com sua falecida mãe. Era só descer a escada em espiral no centro da torre, correr em direção àquela jovem e depositar em suas pequeninas mãos uma brilhante moeda. Apenas uma. O Crespo tremia. Um arrepio em forma de espiral nasceu em seu umbigo (o centro do seu universo) e percorreu em ondas circulares toda a extensão do seu corpo. A torre de vigia, normalmente uma amiga acolhedora e desprovida do sopro vital, parecia se voltar contra ele e engoli-lo em uma fração de segundo. A sensação era de afogamento. Não. Era como se o deus do rio, em pessoa, torcesse sua espinha como uma lavadeira faria com um trapo encharcado. Sua mão ossuda enfiou-se involuntariamente em seu bolso esquerdo e seus dedos fechavam-se, contra a sua vontade, ao redor das moedas. O Crespo não compreendia aquele estranho fenômeno, em que forças invisíveis se apropriavam dos seus membros, forçando-os a executarem movimentos indesejáveis. Ele não acreditava em espíritos vingativos e todas aquelas bobagens. Nem mesmo quando surrupiava as moedas deixadas pelas viúvas nos túmulos de seus maridos. Ou quando, nas noites frias, os guardas se reuniam ao redor da chama sinuosa de uma fogueira e disparavam a contar histórias de assombração, e o Gago soprava em seu ouvido fazendo estranhos ruídos com a boca. Não mesmo. O Crespo, cético que era, não se deixava engambelar por essas baboseiras místicas envoltas em uma aura de magia e mistério. Ele pisoteava fadinhas e degolaria um elfo sem nenhuma culpa, se acaso encontrasse um. Magia e mistério são para os fracos! Homens como ele preferem pão duro com calabresa! Então, em vez de descer as escadas com seus bolsos balouçantes, o Crespo arremessou uma grande pedra que atingiu em cheio a Carmelita, pondo fim a uma longa tradição culinária.


SAPIÊNCIA Adriano Wintter [http://adrianowintter.wordpress.com]

quando chegar à maturidade sensível e for (enfim) Jacó abençoado de palma calosa e a derme bem áspera de fronte rugosa e a calva ossuda herdeiro da dor e tribuno das lágrimas que fez da luz a sua dinamis e escalou do amor o Himalaia após longas e insones madrugadas estreladas lembrando os crivos íngremes do árduo itinerário na fase exata da vida em que a razão se inflama e a paixão se apaga, depois de décadas agrestes de jejum celibatário reviverei sem qualquer dor meu peito sendo apunhalado (sete vezes) pelo diabo


José da Costa Leite, São Saruê.

NÃO ERA UM ZÉ QUALQUER Roberto Lima [http://www.ellenismos.com/p/primeira-pessoa-roberto-lima.html] José Roque sofria de vitiligo e as manchas brancas já tinham consumidos as mãos morenas, espalhando-se pelos cotovelos e pela parte de inferior do pescoço, o que dava-lhe um aspecto de gato malhado, destes de rua. Andava sempre arrumadinho, sapatos lustrados, cabelo penteado de lado e engomado com loção Trim. Ele não era, definitivamente, um Zé qualquer. A Venda do Zé Roque ocupava toda a parte da frente da construção, uma casa larga pintada de amarelo, com telhas cumbucas esparramadas como num acento circunflexo. Na parte de trás vivia uma viúva e seus filhos já graúdos, todos imprestáveis. Duas portas de madeira, grossas, davam acesso para quem vinha da rua. Ao lado de uma destas portas tinha um galinheiro onde ele, aos fins de semana, expunha garnizés e galinhas caipiras.


Na parede tinha um cartaz de propaganda dos cigarros Hollywood e a frase "Ao Sucesso". E uma bexiga de salame do tamanho de um extintor de incêndio. O balcão de quase cinco metros de largura tinha uma vitrine e guardava tesouros: martarochas, pães de sal, tatu, jacaré, sovado e doce, além de tarecos, bolos-estrela e de fubá, biscoitos de polvilho e quebra-quebra, e brevidades. Para os que bebiam uma branquinha, havia sempre um torresmo, um chouriço de sangue, uma carne de panela ou um pedaço de dobradinha, que eram para 'tirar o gosto'. Atrás da porta do lado direito era o ofertório, onde era despejada a parte “do santo”. Em cima do balcão ficava uma balança Filizzola e pesos de diferentes tamanhos. E folhas de um papel pardo, que o Zé usava para embrulhar as compras. Na prateleira atrás do balcão ficavam garrafas de conhaque de alcatrão de São João da Barra, Jurubeba Leão do Norte, cachaça das marcas Praianinha e Tatuzinho, cera Parquetina para lustrar o assoalho, água sanitária Globo e álcool. Em cima do balcão - em forma de trapézio - havia um varal onde ele dependurava linguiças defumadas. Nos sacos de estopa - ou algodão - colocados em um dos cantos da venda, eram expostos os grãos da casa, produção de agricultores ribeirinhos: milho, feijão, arroz, canjiquinha, fubá e açúcar. Zé Roque tinha também fumo de rolo, palha de milho para cigarro e canivete com cabo de osso ou de chifre de boi. Num gavetão do lado esquerdo do balcão ele estocava pedras de naftalina para combater traças, latas de creolina para desinfetar ferida de animais e tabletes de anilina, que as lavadeiras usavam para clarear as roupas. Na venda havia ainda latinhas de pomada minâncora (uma maravilha no combate da velha sudorese, o conhecido "cecê"), polvilho antisséptico Granado (muito bom para combater chulé), talcos de três qualidades, sabonetes Lux e Gessy. Para curar as dores do mundo ele tinha comprimidos de Cibalena, Neovalgina, Melhoral, Sonrizal, pílulas de Lussen e Regulador Xavier. Zé Roque oferecia Neocid para exterminar piolhos e espirais e Detefon para espantar pernilongos. E, claro, bombinhas flit, artesanais, feitas de lata, como os carrinhos – brinquedos dos meninos – e seus pneus recortados de velhas sandálias havaianas.


De lata e artesanais também eram as lamparinas, os lampiões e os cortadores de feijão. Para as donas de casa ele tinha vassoura de piaçava e espanador de penas. Para outros fins ele tinha esteiras feitas de tabuá e varas de pescar, de bambu e ubá. Tinha anzol, chumbada e linha de pescar e de costurar. E chumbinho para as espingardas de ar-comprimido, usados no caçar. Num canto, à esquerda da venda, Zé Roque mantinha uma espécie de montra, onde ele expunha tomates, cenouras, laranjas, bananas, legumes quase sempre murchos e mosquitinhos. E duas bacias de água sempre clarinha onde nadavam molhos de coentros, salsinhas, cebolinha, alface e couve. Quem tinha dinheiro, comprava. Quem não tinha, comprava também. Zé Roque anotava tudo na sagrada caderneta, um caderno de capa dura em que a despesa era anotada com honestidade, tintim por tintim. E ninguém precisava assinar nada, pois desconfiança e desonestidade ainda não havia nascido. Antes dos cartões de crédito existiu a caderneta. E o fio do bigode, garantia de pagamento de todo homem de bem. A venda do Zé Roque viria a ser o primeiro shopping Center de minha vida. O primeiro e derradeiro.

Osvaldo Goeldi (carioca, 1895-1961), A briga. Xilogravura.


SERTÃO Marise Hansen

II Eu quase que nem não acredito: estudei – verdade ou mito? – na Rua João Guimarães Rosa.

Constança Lucas [http://constancalucas.blogspot.com.br/], Gravura em Metal (água forte), 2012.


[SER]TÃO DE DENTRO Clewton Nascimento [http://www.ellenismos.com/p/clewton-nascimento.html] Nasci menino-índio, na mesma região de origem de meus pais. No sopé de uma serra, lugar que tem muito de Sertão também. E esse Sertão, meus pais trouxeram para Fortaleza, através dos hábitos, costumes, experiências – sofridas – de vida. Esse Sertão foi vivenciado e (re) construído nos espaços de nossa casa, lá na Barra do Ceará. O Sertão se deslocou do sopé da serra e foi ao encontro do mar. Por isso, posso afirmar que trago o sertão dentro de mim. E o incorporei à minha trajetória acadêmico-pessoal. O Sertão foi meu tema de Trabalho Final de Graduação, Também foi tema de dissertação de mestrado e tese de doutorado. Um Sertão materializado, nas cidades históricas cearenses. Através de seus edifícios e espaços públicos, vi os ensinamentos de meus pais, para a vida. Por meio das apreensões dessas cidades, pude “ganhar o mundo”, em busca de compreender as relações construídas entre esses “lugares de resistência” frente à lógica global contemporânea. Foi esse Sertão “se abrindo”, “se mostrando” para o mundo, que vivenciei durante os últimos anos.

Sertão pra fora 1 – Largo do Theberge, Icó, CE


Sertão pra fora 2 – Largo do Rosário, Sobral, CE

Agora, o caminho trilhado toma o sentido inverso: descobri o Sertão do Seridó (RN), a partir do “de dentro”: da religiosidade mística, do catolicismo penitente, da unidade de produção pecuarista, responsável pela conformação territorial de boa parte do interior nordestino. Voltei ao Sertão, pelas casas de fazendas, notáveis pela sua simplicidade, pelo sentido de “fortaleza”, espaço fechado, circunscrito, típico da sociedade que se fez, a partir da “civilização do couro”. É esse [Ser]tão de Dentro que hoje me acompanha. É através dele que retomo o contato com minhas origens, com o que foi a base para a constituição deste “Sertanejo com olhos de nissei”.

Sertão de dentro 1 – Igreja de Nossa Senhora do Rosário, Acari, RN


Sertão de dentro 2 – Sede da fazenda Timbaúba dos Gorgônios, Seridó, RN

Sertão de dentro 3 – Cela. Fazenda Umary, Seridó, RN

Esses riscos são uma homenagem aos meus pais: eles são o meu [Ser]tão de Dentro.


H-ORTOGRAFIAS - DOIS POEMAS DE ANTÓNIO SAIAS – PLATERO [http://www.ellenismos.com/p/h-ortografias-antonio-saias.html]

Deborah Erê, Braços invisíveis. Xilogravura, 30 cm X 45 cm.


AQUENTEJO

dois outeiros - um verde-seara talvez trigo

outro castanho-escuro ávido de sementes

por detrás um céu Azul-indigo

cenário de Van GOGH à espera de poentes

[Imagens: Deborah Erê, sem título Xilogravura, 30 cm X 45 cm.]


MEMÓRIA DOS SONS

pelo som e significado esplenético

gosto das palavras pelo som

traz-me à memória um animal infeliz

como das vacas ou ovelhas pelos chocalhos nas noites de verão

e escanzelado - perdoa-me o pecado meu país

interrompo o trabalho para escrever a palavra rodovalho dxtó - de enxotar cães esplenético esparadrapo mesmo sem saber o que nomeia -você não gosta da palavra esparadrapo? não é mas soa a trapos esplenético eu gosto não só pelo som como pelo que diz esplenético é sinónimo de triste macambúzio desanimado

Deborah Erê, Habitação. Xilogravura, 30 cm X 45 cm. [Mais obras da artista aqui: http://deborahere.wordpress.com/]


A ÍNDICA FORMA DE DAR UM BEIJO AO MAR POR INTERMÉDIO DE UM POEMA – ensaio fotográfico prosopoético Eduardo Quive [http://www.ellenismos.com/p/xitiku-ni-mbaula.html]

Para Eduardo White, este poeta que amou sobre o Índico Índico. Cidade mítica escondida no mar. Uma cidade onde escorem as mãos dos deuses. Este nosso mar não tem Deus. Lá do longe, dos pés molhados de uma criança, nasce o Ocidente. É tudo uma viagem perdida. Não há barcos que nos levem a tão longe! Porém há um olhar nas janelas que se abrem. Há, porém, uma distância transparente, para onde o homem puxa o barco. As cordas nos levarão até qualquer parte. Penduradas no pescoço dão-nos a beleza da morte e o sabor da coragem. Penduradas nas mãos firmes e negras, tem outro sentido. Já nos foi o cárcere, agora há muitas milhas por alcançar. O sol aça as costas, mas na costa não há vida, não há Índico. As areias por onde a infância passa velozmente, de lá vêm a mesma sede dos deuses de comer camarão ou de comer as gentes. Mas lá, no Índico, há chuva e há vida. Sathana ou Xikwembus. São todos nossos. O olhar infinito, agudiza a sede do Atlântico e do Pacífico, mas por onde passam os navios há caminhos subterrâneos. Os pássaros nos levarão pelos céus. Do chão a barco a vela. Velaremos até chegar ao azul preto e branco das cores do mundo. O desejo à infinitude é maior para as areias que não se acabam. Iremos. Iremos. Iremos da Ka Tembe, da Costa do Sol, para Mussulo à Iracema, passando pelo Sal, Santana. Este Índico saudoso nos levará, de peitos fermentados, com sal na mão e manga verde na boca. Da Ilha de Moçambique olharemos para longe e não mais veremos as luzes. Veremos águas e mais águas. O Norte é mais distante de perto que de longe. E os pássaros nos levam, pelos caminhos podres dos navios, estes barcos fartos de vida na costa. ________________________________ Sathana – diabo, satanás Xikwembus – deuses, espíritos. Ka Tembe – nome de um distrito da capital moçambicana Maputo com uma praia do mesmo nome. Costa do Sol – nome de uma praia da cidade de Maputo. Mussulo – ilha angolana com uma praia do mesmo nome. Iracema – nome de uma praia da cidade de Fortaleza. Sal – Ilha do Sal em Cabo Verde. Santana – Ilha de Santana, São Tomé e Príncipe.


EU E O SERTÃO Patativa do Assaré, Cante lá que eu canto Cá - Filosofia de um trovador nordestino, 1982

Sertão, argúem te cantô, Eu sempre tenho cantado E ainda cantando tô, Pruquê, meu torrão amado, Munto te prezo, te quero E vejo qui os teus mistéro Ninguém sabe decifrá. A tua beleza é tanta, Qui o poeta canta, canta, E inda fica o qui cantá. ***


ENSAIO - SER TÃO Por Dieter Heidemann e Rosa Haruco Tane [Coordenadores da Oficina de Leitura João Guimarães Rosa no IEB/USP]

Era uma vez, na roda de leitura... Há um cantinho singelo dentro do Instituto de Estudos Brasileiros na Universidade de São Paulo. Um lugar chamado Oficina de Leitura João Guimarães Rosa, ou simplesmente roda de leitura. A Oficina de Leitura João Guimarães Rosa foi constituída para ser um lugar de encontro pelo prazer de leitura. Encontro entre amigos que gostam ou querem conhecer a literatura de Guimarães Rosa. Sem formalidades, sem taxa ou necessidade de fazer inscrições. Sem ter presença obrigatória nem desenvolver algum trabalho ou pesquisa. Vem quem quer, quando puder apenas pelo prazer de leitura em grupo. Um happy hour literário semanal, às quartas feiras das 18 às 20 horas no IEB. Ao fazer a leitura, ao ouvir o outro, ao ler em grupo, passagens do conto não entendidas, esquecidas ou não reparadas aparecem com precisão. Leituras com sotaques regionais e estrangeiros. Leituras dos livros de Guimarães Rosa em alemão, italiano, espanhol, francês, inglês. Não é preciso entender ou falar outras línguas. Cada língua tem o seu ritmo, a sua cadência compreensível a qualquer ouvinte. Até uma matéria escrita em japonês sobre um conto do escritor, enviado por um amigo, foi apresentado ao grupo... Sertão tamanho do mundo. (Grande Sertão: Veredas) São inúmeras leituras e releituras no decorrer de quase dez anos de roda de leitura, mas continuamos engasgando, engolindo s, r, fazendo acentos equivocados, se atrapalhando ao pronunciar as onomatopéias, os neologismos, palavras arcaicas, regionais ou estrangeiras; e quantas vezes não soubemos dar entonação frente a tantos pontos e vírgulas; dois pontos; travessão; aspas; parênteses; negritos; itálicos, pontos de exclamação ou interrogação. E sempre se divertindo, se surpreendendo, dando muitas gargalhadas. O estranhamento da linguagem do escritor, o não entendimento do conto, o desconforto, a frustação de não entender levantado por um participante era compartilhado por todos. E compartilhar tudo isso, ouvindo as mais diversas interpretações ou até mais dúvidas ou criando mais confusões, dava ao grupo a


possibilidade de entrosamento; mesmo que fosse compartilhar o não saber, o não entender, para ir em busca do saber. A Oficina de Leitura contou com a participação de professores e pesquisadores convidados que apresentaram as mais diferentes abordagens, o que nos proporciou momentos de surpresas, reflexão e de maior conhecimento. E sempre que foi preciso, a Profa. Nilce San’Anna esteve presente através do seu Léxico de Guimarães Rosa. Presença constante, inseparável nas nossas leituras. E esteve presente várias vezes pessoalmente para elucidar o quanto nonada é tão presente. A Profa. Adélia Bezerra de Menezes veio mostrar as cores das palavras de Guimarães Rosa em Cores de Rosa. Na Garupa do Cavaleiro Ambulante a Profa. Ana Lúcia Magela abriu nossas trilhas para as Primeiras Estórias. A Profa. Sandra Vasconcelos, atual curadora do acervo de Guimarães Rosa no IEB veio mostrar como se deu a organização do arquivo do escritor. O Prof. Berthold Zilly veio mostrar porque foi preciso uma nova versão de Grande Sertão: Veredas para alemão. E junto com mais dois professores alemães, Willi Bolle e Dieter Heidemann, ficamos um bom tempo versando sobre a palavra nonada e do significado cultural do quintal sertanejo. Professores enviaram seus orientandos para conhecer a dinâmica da roda de leitura. A apresentação de teses de graduação e pós-graduação de estudantes de várias faculdades de diferentes universidades nos mostrou a diversidade de linguagens que a obra rosiana propicia. Ao ouvir os contadores de estórias, tanto aqueles da nossa roda como também o famigerado Zé Maria de Cordisburgo ou as mestras Dôra e Elisa de Belo Horizonte, os contos ficavam claros. Bonito! Emocionante! Com vigor! Lágrimas, sorrisos, palmas. Fechando os olhos para viajar nas imagens que a mente nos propicia ouvindo o narrar de estórias. Lembranças dos momentos de vida vinham à baila... Ele tinha uma voz. Singular, que não se esperava, por isso muitos já acudiam, por ouvir... Se não fosse o Velho Camilo, poucos podiam perceber o contado. (Uma estória de amor) E os contadores de estórias de Andrequicé, Morro da Garça, Cordisburgo e de Belo Horizonte estiveram todo o tempo conectados conosco.


Os músicos, os cantores, os poetas, os artistas trouxeram a magia e o encantamento da beleza das palavras, dos sons, tons, movimentos, imagens, gingados, o colorido... belo como uma palavra... (Recado do Morro) Pessoas que não tiveram condições de comparecer aos nossos encontros,contribuíram enviando revistas, livros, matérias jornalísticas, crônicas, fotografias, mensagens, filmes, áudios e vídeos. E conhecemos diversos trabalhos on-line. Recebemos mensagens de carinho ou um simples alô para dizer que não poderiam comparecer. A não presença deles à nossa roda não significou ausência. Recebemos inúmeros convites de lançamentos de livros, CDs, filmes, espetáculos, exposições, defesas de teses, palestras, simpósios, performances dos artistas, todos inspirados e pesquisados na obra do nosso escritor. Contamos com a presença de pessoas de Brasília, Belo Horizonte, Campo Grande, Cordisburgo, do interior de São Paulo que vieram trazer suas experiências, suas pesquisas, suas vivências com a obra do escritor. O Diretor do Museu Casa Guimarães Rosa de Cordisburgo esteve presente também. Colegas que participaram de nossos encontros transformaram as suas sensações vivenciadas na roda de leitura em textos, músicas, poemas, e alguns conseguiram ter insights para seus trabalhos acadêmicos ou artísticos. E tivemos o privilégio de conhecer os sabores do sertão. Colegas que viajaram pelo sertão mineiro nos trouxeram doces, biscoitos, frutas, bebidas e comidas locais. Saberes através dos sabores. Convivemos com deslumbramentos, descobertas, alegrias, surpresas, dores e perdas. Tivemos encontros inesquecíveis. No ano de 2010, fizemos a Nossa Virada Cultural. 34 horas de leitura completa de Grande Sertão: Veredas. Começamos às 10 horas do sábado e terminamos às 20 horas de domingo. Com pequenos intervalos para café e lanches, exercícios físicos, cantando, dançando, ouvindo poesias e músicas, e lendo, lendo, lendo Grande Sertão. Um dos momentos principais deste ano de 2012 foi a leitura na íntegra das duas cadernetas de viagem de 1952, durante um dia inteiro no IEB. 60 anos atrás, Guimarães Rosa viajou no lombo de sua Balalaika, junto à comitiva comandada por Manuelzão, e deixou um importante legado que nos propiciou através da leitura de suas cadernetas, o viajar junto para conhecer estórias e histórias do dia a dia da viagem. Identificando cada frase, cada palavra anotadas pelo escritor nas


cadernetas e colocadas em diversos livros. E nesse dia conhecemos ainda o documentário “A Boiada” dos estudantes de Geografia fazendo o rioteiro da viagem de 1952 de Guimarães Rosa; e vestimos o manto do vaqueiro, confeccionado pela Joana e Beth Ziani. Todo bordado por muitas mãos de bordadeiras sertanejas e paulistas, e também pelos participantes da roda de leitura. A visita ao acervo de Guimarães Rosa em grupo foi outro momento de emoção ao pegar com a própria mão, a escrita original, os rascunhos, os bilhetes, os rabiscos, os desenhos, as anotações, as fotografias, do escritor e entender todo processo criativo dele. Comparar as diversas versões do mesmo conto até a sua publicação. E de sentir o carinho com que a equipe do IEB trabalha para o restauro e conservação dos documentos. Tudo isso ocorre porque temos uma instituição como o IEB que nos acolhe e nos dá retaguardas. As equipes da difusão, informática, biblioteca, cursos, administração, secretárias, recepção, cozinha, arquivo e a diretoria nos deram sempre todo apoio institucional. A Difusão Cultural do IEB e Guia de Cultura da Pró Reitoria divulgaram a roda de leitura e noticiaram as nossas atividades proporcionando a vinda de muitas pessoas ao nosso encontro. Nos 50 anos de fundação do Instituto de Estudos Brasileiros neste ano, a Oficina de Leitura João Guimarães Rosa encerrou as atividades do ano, fazendo uma homenagem de agradecimento à instituição. Neste dia ouvimos a história de como iniciou a roda de leitura; narrações de contadores de estórias; exposição de bordados sobre a vida e obra do escritor; músicos e poetas homenageando sertanejo sábio sabido. Tivemos a honra de receber a visita de familiares de Guimarães Rosa. Uma colega da roda de leitura, pesquisadora das receitas no acervo de Dona Aracy Guimarães Rosa e da face culinária da obra de Guimarães Rosa preparou um cardápio para que todos os participantes e convidados da roda de leitura, funcionários, professores e alunos do IEB, degustassem juntos os sabores e saberes em volta da mesa de degustação. Para findar juntos, mais este ano profícuo de emoções. Uma casa onde queremos ficar por muitos e muitos anos, lendo e ouvindo sempre Guimarães Rosa. Uma obra infinita. Inesgotável. Ser tão, ser tao, tão ser sertão na cidade grande...


Referências Bibliográficas: Rosa, João Guimarães, Corpo de Baile, Editora nova Fronteira, volume 1, Edição Comemorativa 2006 Rosa, João Guimarães, Grande Sertão: Veredas, Editora Nova Fronteira, 1986 ***

MALUNGOS E VAPORES Elder Oliveira, Malungos e Vapores [http://malungosevapores.blogspot.com.br]

Mensageiro de água das estâncias, e corpo de espelho. Hei de polir a pedra no limo dos caminhos Cavaleiro guapo das estepes, gen dos invisíveis. Brutamonte fera coração de seda Violeiro dos tangos e fandangos, e calangos e congadas.


CAMPESINO Florisvaldo Mattos [http://www.jornaldepoesia.jor.br/floris.html] Como folhas caindo num deserto, humanas resistências vão caindo sobre campo sem sol. Peito coberto de um só grito esperança vai cobrindo. Rude labor de enxadas consumindo sangue que dá de sangue um sonho certo, esperanças do amanho já sumindo na sede de esperança que está perto. Amargas deslembranças param, vendo no íntimo do espetáculo chuvoso a aparecido desaparecendo. Antes que o amor se ausente ao chão sem húmus, já baixam sobre o campo generoso, as águas da manhã movendo rumos.


FLORES DO MAL : TAKES PARISIENSES (iii) Ronald Augusto

Feito o sol, em nossa visão cosmonáutica, Baudelaire em “Le soleil”, também se posta no centro; neste micro-sistema − ou seja, o poema, máquina verbal por meio da qual exercita sua estranheza −, ele, então, se retrata a si mesmo, e na consecução do seu processo de composição. Ao acionar seus recursos de linguagem, ao otimizá-los às vezes num espasmo negativo, lançando mais além os marcos expressivos do gênero, Baudelaire também alarga as marginais de seu entourage, assim como penetra e queda nos cantos (“coins”) mais recuados e ignotos das vielas da capital parisiense, retida em seus versos “desde há muito tempo já sonhados”. O poeta olho-do-sol arroja seus punhais (palavras-raio) até as esquinas e os antros mais abjetos da cité; o exercício da escrita − em que não se despreza a dimensão de physis nela contida − se transforma numa “fantasque escrime” (“wordswordswords/ swords”, José Paulo Paes dixit). Benjamin fala a respeito do suor, do esforço, que Baudelaire considerava imprescindível associar ao trabalho de fatura do poema. Escritura-esgrima que, não obstante a exatidão


como fundamento − isto é, o necessário virtuosismo dos golpes precisos −, requer, por outro lado, a colaboração do acaso, le hasard, e do impreciso:

Sur la ville et les champs, sur les toits et le blés, Je vais m’exercer seul à ma fatasque escrime, Flairant dans tous les coins les hasards de la rime, Trébuchant sur les mots comme sur les pavés, Heurtant parfois des vers depuis longtemps rêvés. (...) Quand, ainsi qu’un poëte, il descend dans les villes, Il ennoblit le sort des choses les plus viles, Et s’introduit en roi, sans bruit et sans valets, Dans tous les hôpitaux et dans tous palais.

Sobre a cidade e o campo, os tetos e os trigais,/ Exercerei a sós a minha estranha esgrima,/ Buscando em cada canto os acasos da rima,/ Tropeçando em palavras como nas calçadas,/ Topando imagens desde há muito já sonhadas. (...) Quando às cidades ele vai, tal como o poeta,/ Eis que redime até a coisa mais abjeta,/ E adentra como rei, sem bulha ou serviçais,/ Quer os palácios, quer os hospitais.

Nas três estrofes de versos alexandrinos que compõem o poema “Le soleil” (duas oitavas e um quarteto), a estrofe intermediária corresponde a uma passagem bucólica que evoca o motivo da écloga (poesia campestre onde o poeta é a


personificação do pastor seduzido pela cena natural e a vida rústica), espécie de recidiva romântica. Detença em que Baudelaire parece denunciar seu ânimo indecidível com relação a um tempo-espaço que atravessa uma etapa de oscilação: um acabar-começar civilizatório, e a respeito do qual ele, Baudelaire, se vê coagido a propor uma reflexão crítico-estética que não só o problematize, mas que também, no lance de traduzi-lo, a partir dos parâmetros da “signagem” poética, ponha a descoberto sua beleza fragmentária e em trânsito. Não são poucos os que se referindo ao poeta como “romântico”, utilizam-se do termo em tom acusatório. Outros apontam sua falta de convicção, de conhecimento, de constância. Um desses críticos escreve: “ele pode mudar sua fisionomia como um condenado em fuga” 8. Baudelaire escapa de raspão ao romantismo, por outro lado, não chega a se inscrever na irmandade simbolista. Ele é não-romântico e não-simbolista. Confisca de ambas as ficções os insumos que considera indispensáveis para tornar possíveis, isto é, imateriais, “les grands ciels qui font rever d’éternité” sua Paris material. Estamos, portanto, diante de um poeta, ou melhor, de um homem que inventou um assunto: a metrópole moderna. De certa forma, Baudelaire nos legou um questionamento que chega até os nossos dias sem que se tenha produzido uma solução para o mesmo. E a pergunta subjacente ao seu percurso de poeta-crítico pode ser assim formulada: a metrópole é arte ou não-arte? Nos “Quadros Parisienses”, a metrópole-arte se abre em labirinto estético, monturo glamourizado, morredouro-nascedouro de signos na devoração das próprias entranhas. Ao fim e ao cabo, a Paris histórica, civil, cidade em obras, se submete a um déficit de realidade porque se reflete e se anula no atrito com esse verdadeiro “poema visual transitável” − para usar a denominação com que Joan Brossa (19191998) intitulava suas obras espacio-corporais −, a metrópole-arte de Baudelaire: réplica satânica e lésbica que emerge do plano-piloto dos seus versos. § Leia a primeira e segunda parte do ensaio aqui: [http://www.ellenismos.com/p/decoupagens-assim.html]


BÊNÇÃO José Inácio Vieira de Melo [http://jivmcavaleirodefogo.blogspot.com.br]

Para Aloísio Vieira de Melo Meu pai, beijo suas mãos, não como um homem pretende beijar as de Deus, mas como uma árvore beija suas raízes.


SUPLEMENTO ESPECIAL DE POESIA


EXERCÍCIOS – POESIA, POETAS, PINTORES, POÉTICA

A criança de seis anos me diz: sou poeta amadora. Então compreendo essa condição de amadores de poesia. E todos são bem-vindos, suaves ao coração – os mais ferozes, os mais duros ou brandos. As imagens de Antonio Bokel são peixes que nadam. E como os poemas se guardam, entre porta e chave. E o imaginário são vastas plantações de imagens. Prosperam na sociedade civil, sem o expansionismo capitalista ou societário. Independe-lhes. É de ressaltar o parentesco com as idéias. Unem-se na duração. Brotam, crescem, morrem. Às vezes, se enxertam. Ou se metamorfoseiam. Suas imagens humanizam, as idéias não. Mas ambas se propagam em escala crescente, e é como se pode diferenciar a prosa da poesia - deixo-me manobrar pelas idéias: proseio; deixo-me manobrar pelas imagens: poemizo. Aprendemos que as palavras, as pinturas, têm cheiro, gosto, cor. Há todo um mundo escondido nelas. É preciso chegar a esse mundo silencioso. Toda grande arte é de pensamento. Não um pensamento lógico, que a faria despencar no discurso retórico e fechado. Um pensamento de prodígios, reunindo real e sonho. O artista só é pensador na medida em que é artista. Também

dos

desequilíbrios

se

nutre

a

criação.

Os

murais

desproporcionados, as desconexões entre o verso e sua claridade. O mundo nunca é perfeito. Apenas caminha para a perfeição. As demasiadas medidas podem denotar falta de explosão. E o cuidado acerbo de domá-las é um vulcão sob a neve. Quem pode domar o abismo? O assunto, seu didatismo, o partido e o dogma. O intento de ser fiel a eles pode gerar a infidelidade à poesia. Pois o poema encaixa em precisas divisas de loucura, razão. Ou agonia, afasia. Transgredi-las é tombar. Como sucede, por exemplo, em alguns versos religiosos de Paul Claudel, ou políticos de Maiakóvski,


Brecht e Neruda. Por imprudência de planar matéria pesadíssima, pouco afeita às levitações. Há uma lei física a reger o poema: a lei da gravidade das palavras. Raciocinar os poemas é desmontá-los no mistério, retirando aos pássaros, as plumas. Desraciociná-los é dar-lhes tempo para se recuperarem do mistério. Como peixes, com água se reanimam. Os conceitos são tonéis jogados ao mar. O poeta ou faz deles um barco, ou se afunda com o poema. Roman Jakobson em O que fazem os poemas com as palavras, refere com enorme acuidade que “a questão fundamental reside, em poesia, nas relações entre som e sentido”. E é real na medida em que o poema não deve ficar apenas nas estruturas rítmicas, aliteração ou rima. Deve integrar o som ao sentido e esse ao som, pois tudo significa e ao mesmo tempo, respira. O som é o sentido que soprou. E o sentido é o som que está vendo. Vige uma gramática vital, a do sentido, que os poetas, às vezes, esquecem, levados pelo rumor inebriante das palavras. Põem-nas em movimento ou rodopio, ludicamente, sem estabelecer o nexo entre elas. Soltas, extraviam-se, caem no redemoinho do universo, sem salvação possível, permanecendo o percurso. Nem isso. Talvez o burburinho de um repuxo extinto. É o mesmo Jakobson que chama atenção para o papel das categorias gramaticais no poema. Com pertinência. Embora a poesia siga a gramática dos símbolos, existindo com e pela metáfora, cabe ao poeta o conhecimento da linguagem, o seu fluxo e refluxo, onde estão implícitas as categorias gramaticais. E maior ou menor será, também na proporção em que souber utilizar o material lingüístico. Não há poeta maior sem estrutura cultural e intelectual. A dádiva, o miraculoso dom das palavras pressupõem suporte humanista, inserção crítica dentro do mundo criado. Assim o milagre é poderosamente cultivado.


Quando é poesia, não existe hermetismo, a não ser aquela névoa que cobre, levemente, a terra. Herméticas são as pessoas, não os poemas. Sobretudo, as que chamam herméticos os poemas, tentando afastar o possível leitor. Borges refere que a poesia intelectual tem, como exemplo, a silva, de Luis de Léon: “Viver quero comigo, Gozar quero do bem que devo ao Céu [...]” Onde não há imagens, mas abstrações. Contudo, ao dizer “Viver quero comigo”, está, conceitualmente, dizendo o que é a imaginação de viver, assegurou. Minhas palavras já estão vivendo. Já viveram, quando eu disse. Viverão, quando eu não as disser mais. Ao endoidarem as imagens, enlouquecemos. Ou a imagem pode enganarse a nosso respeito e endoidarem sem nós. Também a linguagem se ilude, “inexistindo linguagem sem engano”, conforme Ítalo Calvino, em As cidades invisíveis. Mas seria o que Mallarmé almejava no poema “a linguagem elamesma”? Pomba é pomba, ou é palavra que pombou, alçando-se? “A fala não é suficiente” a Valéry. O sonho não é suficiente para a vida. E a ‘profissão’ do criador de imagens é a de gozar a alma. Há ainda, claro, as influências. Não as chamaremos de subalternas. Porque, antes, subalterna é a memória de buscá-las. Sim, somos nós que a buscamos. Não elas que nos encontram. Buscamos, vivendo. Como vem a sede, a fome. As influências pertencem ao nosso metabolismo mais antigo. Já viram um leopardo armando as patas para o salto? Só ele mesmo, quando salta. Machado de Assis defendia a teoria de colher especiaria alheia, temperando-a com molho de sua fábrica. Essa junção é mais que um molho, é o húmus da plantação de violetas, alternadas com cravos amarelos (!). O grau de espírito do que brota é o mesmo grau do espírito do que plantamos. Mas a lei de


Helvécio também foi semeada. E o que nasceu: a lei dos movimentos constelados no céu móvel das árvores. “L’influence ne crée rien: elle éveille” (André Gide, Prétextes). A influência desperta as tendências que pré-existiam em nós adormecidas. Revelam nossas “partes ignoradas”. Não devemos temer o que nos teme. Nem esquecer o que nos esquece. Toda a memória se agita com o que não queremos despertar. “A poesia sai da poesia” (Emerson). Um livro sai de outros livros. E se reproduz a criação, sem reflexos. Só imagens, indefinidamente. Pondo a cabeça para fora da água, como focas. Até gerarem, pela acumulação, a enciclopédia sucessiva do tempo. Não se responde a nada, salvo ao que nos fala dentro. Pegamos essas chamas. Devagar. Elas não nos queimam, porque têm abas noutra extremidade do mistério. E o criador vai explicando, por palavras e imagens, o que as chamas espalham. Por ser uma simples flauta, o toque da metáfora. Pode ser uma letra deitada sob a pedra. Pode ser uma pedra. Devemos nos aproximar mais do poema, lendo-o, aceitando-o, ser vivo, inteiro, com as mãos, braços. Às vezes um pouco mais magro, gordo, alto ou baixo. A vida salta adiante. Contrapõe-se, desafia. Muitas vezes não se pode alcançá-la. Um poema lido em voz alta pode tomar compreensão que parece não ter no seu silêncio na página. Embora o poema também se alimente de silêncio. Como as ervas se nutrem, densamente, de orvalho. A poesia vale não somente pelo que sugere. Mas também pelo que deixou de sugerir. A sombra do poema sempre, ou quase sempre, é maior que o poema. Ernesto Sábato alerta: “Um leitor desconhecido que jamais criou nada, ou um anônimo ou modesto jornalista podem ser capazes de notar a presença do criador. Nos inclinamos a pensar que, nesses seres, existe latente o gênio criador [...] É por eles e para eles, que o artista trabalha e sofre” [O escritor e seus fantasmas, p. 123-24, Ed. Francisco Alves, 1982].


O leitor que nos ama, leitor-amador como a poeta de seis anos, por vezes é o mais anônimo. Carolina Suriani Caetano e Raul Macedo: uma épica contemporânea O tempo é a característica fundamental da épica de Raul Macedo, porque alimenta o canto, dá-lhe sua matéria. Invenção do homem, vai, aos poucos, o inventando com seu toque pungente ou mágico. O tempo em sua poesia é a ação e a palavra se torna julgamento, vidência. Volta o poeta à condição de vate. Está no acontecimento, acontecendo com ele e acontecendo-se. Leva-o no estopim do canto ou na trincheira da metáfora. Vive-o na morada do que vê e sonha. Portanto, é um antecipador e seu acompanhante íntimo nas coisas, numa época – essa triste época nossa – em que a poesia é muito mais de um mundo particular, de poetas, que algo experimentado coletivamente, um diário e não um testemunho. O relato de feitos heroicos na Odisseia ou Eneida – na epopeia grecoromana – transforma-se na épica do instante, expressão feliz que Afonso Ávila propôs em A Poesia e a Consciência Crítica (Vozes, 1969), ou que Nelly Novaes Coelho vislumbrou em Épica do Instante (O gesto épico da poesia, in: O Estado de SP, 8.9.1970); porque apanha o tempo nos seus novelos, no seu desdobrar incessante que é o mundo na ação do homem capaz de tecer a história nos teares do trabalho cotidiano e do espanto. Assim, o tempo em Jorge de Lima, de Invenção de Orfeu, é interior; o de Carlos Drummond de Andrade é dramático; o de Cassiano Ricardo, crítico; o de Ezra Pound é “caminho” e o de T.S. Eliot, como Dante, é circular. Raul Macedo, se por vezes é um homem contemporâneo que está comprimido, demarcado, preso às teias da própria criação, entre guerras e máquinas, também se faz transformador da realidade, pois traz a palavra com o tempo dentro e assim é capaz de mudar, mudando-se. As pessoas, por vezes, são obscuras, mas o tempo é sempre luminoso. E pode ser humano. O poema é isso. E Macedo em sua dialética tende a imprimir e colher os passos do homem, recuperar a sua entranhada humanidade, tal como Spitteler denomina privilégio do poeta


épico tornar tudo um acontecimento vivo (citado por Emil Staiger IN Conceitos Fundamentais da Poética, Tempo Brasileiro, 1975, pg. 96). O tempo entra pela porta do realismo crítico, pois modernidade é consciência. E o poeta não se aparta nunca da visão do real, é uma consciência do inconsciente coletivo. Não intenta narrar os poemas, embora neles ocorra algum traço descritivo. Tudo se faz canto, e sendo-o, é o poeta narrado no tempo e o tempo se narrando como um rio infindável entre as margens do dizível e indizível. E existirá tema mais impositivo que a condição humana ou a condição do poeta? Se “o mito narra como, graças às façanhas sobrenaturais, uma realidade que passou a existir, seja uma realidade total, o cosmos ou apenas um fragmento” (Mircea Eliade, Mito e Realidade, Perspectiva, 1972, pg. 11), Macedo, e outros os poetas de sua, digamos, ‘linhagem’, fundam o mito e fundam o real, tornado-o coletivo. Entre o mito e a história, caminham e tecem no mito a história, e nessa, o mito. Pois a criação mítica sobrepaira com o que a poesia tem de magia, crença primitiva no poder da palavra, rito. E a ação domina este universo, a cosmogonia, podendo levar de roldão as águas de vários gêneros (o lírico, o dramático), sem extingui-los, fazendo-os desembocar na afluência comum. José H. Dacanal (Nova Narrativa Épica no Brasil, Editora Sulina, 1973, pg. 42-43), consigna: “Epopéia: portanto, ação e celebração da ação do homem sobe o mundo que o cerca. Na finitude: portanto: ação no tempo, no fluxo geral do mundo”. Assim, a épica de Macedo, como a de Carolina Suriani Caetano, uma épica contemporânea, é a épica do homem comum, dos joões e marias-ninguém do cotidiano. São eles Ulisses ou Heitor ou Enéas. Não há a Queda de Troia, mas a história que cai silenciosa por dentro da vida de todos e cada um. Porque o tempo é soberano e dá um rosto a cada um, o rosto indivisível de seu povo. Esta poeta-poetisa Caetano - tão poeta quanto qualquer poeta homem e poetisa porque esta palavra nos remete às sagradas sacerdotisas, ancestrais desse reconhecimento da palavra e rito que nos entrega nossa contemporânea -, não pode


nos dar o poema vivente sem o ritmo vivo - outra característica da épica contemporânea -, pois lhe fornece o andamento, a velocidade límpida, coesa, vedora. A variação que afasta a monotoneidade. O ritmo é música. Como escreveu Octavio Paz: “Não creio no fim da escritura, creio que cada vez mais o poema tenderá a ser uma partitura. A poesia voltara a ser a palavra pronunciada” (Signos em rotação, Perspectiva, 1971, pg. 27). Para Léopold Senghor, “o poema só se realiza totalmente quando é canto, palavra e música ao mesmo tempo”. E o ritmo é a massa elocutiva que se desloca com a precisão de uma seta e a presteza de um avanço de tropas. Carolina Suriani Caetano é dura, maleável, plástica, cheirando a universo. “É um filho, com vida independente (o poema) e não um membro que se amputa, incompleto e incapaz de viver por si mesmo. Ora, apesar de ser primordialmente artista, este poeta é, antes de tudo, de seu tempo” – pondera João Cabral de Melo Neto, em Poesia e Composição (Revista Critério, n. 2, dezembro, 1975, Lisboa). Digo mais: a poesia de Caetano é um pai também em certa razão, porque se cresce dela e há uma feição nela que nos filia. Sua poesia, como a de Macedo e toda Verdadeira Poesia, é a descoberta da outridade, do convívio. É o princípio do epos, tornando-se a linguagem não um meio, mas um ser, como assinalou Jacques Rivière em seu estudo sobre o dadaísmo. Porque escrevo esta – tão longa - Apresentação? Talvez para aproximar o leitor da poesia e das artes plásticas contemporâneas pelas afinidades eletivas (minhas, dele). Talvez para desvendar intuições ou depor sobre o silêncio aprendido e transeunte na poesia de Carolina Suriani Caetano e Raul Macedo. Descobrir-se na linguagem e sua renovada vitalidade. Para juntar os poemas e percebê-los como um ser à parte e simultaneamente integrado no existente, como poema e habitante de um todo – esse Suplemento Especial de Poesia Ilustrada. Talvez para perceber o sítio ou quintal, em que guardam a imagem do universo. Ou sobreviver talvez palavra, para que nós nela sobrevivamos.


Há quase vinte horas atrás, eu não devia poder. Pensei em teu pai. Pensei duas e três vezes em teu pai e principalmente lembrei-me de teu pai – este lugar que não conheço. Não me queres a pensar em teu pai. Certamente o lugar onde eu não podia. Foi há vinte horas atrás. O teu pai tornou-me viril de alguma maneira subscrita nos gestos com que escovei os dentes. Lembro-me da forma como ele indicava, há quase vinte anos, a quantidade de força que tu deverias atribuir às pernas e a quantidade de força que deverias atribuir aos braços quando saltares. Há poucas horas, sonhei que dávamo-nos as mãos e saltávamos dum prédio que não se terminava. Instalamos as quantidades de força dos dois corpos nossos em nossas mãos. Distribuía-se pela minha mão esquerda e pela tua mão direita. Eu estava de óculos. Tu soubeste por duas ou três vezes onde estávamos quando eu pensei que o prédio terminava-se. Lembro-me da forma como teu pai ensinava-te, há quase vinte anos, quais são os prédios que terminam-se e quais os que não. Há mais de vinte idiomas devidos de se aprender quando salta-se dum prédio que termina. Há quase dois idiomas despencando fronte ao prédio que não se termina. Lembro-me de como tornei-me pouco mais viril há quase vinte horas. O teu pai parece escolher-se a si próprio pelos dentes. [Carolina Suriani Caetano, de diálogos para Carla Diacov]


EXERCÍCIOS DE AFASIA “I have heard the mermaids singing, each to each, I do not thing they will sing to me.” - T.S. Eliot

I Quis um verso arrancado de minha costela

não se vê no poema, digo o inexistente por demasia. IV

para dizer o que me impede

O cão do meu vizinho morreu.

todo poema

Um poema teria para isto:

o amor é uma falha

“O cão do meu vizinho morreu.”

sob a figueira de fogo dos séculos

Tento ser trágico. Uma só linha.

não sei mais dizer o amor

O título seria “Baleia”.

não sei mais dizer nada.

O poema não me deixa.

II

É tudo o que (não) digo.

Neste poema, sinto que

V

arrefece o que tenho de melhor minha morte, também ternura minha sorte, meu ódio, meu amor que é travessia que agora eu não digo, no mais não peço mais nada. Pressinto coisas de outro mundo. Que sejam coisas de outro mundo. III

Amo sem saber o que dizer como maçãs sem saber o que dizer mato-me sem saber o que dizer mato-te sem saber o que dizer olho-me no espelho sem saber o que dizer sem saber o que dizer afasto-me Afásico como uma pedra ou uma costela em um prato.

A trote largo os carros da manhã trazem nascentes, pássaros, mas isto

[Raul Macedo]


caderno dos sonhos absurdos – sonhos com selos I Consecutivos na parede são três selos o primeiro estriado fez-te pensar, sobre o Atlântico, venta-se muito sobre um oceano, porque a cal demonstrava vento na parede e tu já vias o aviãozinho contra o ar sobre o Atlântico estriado o primeiro selo trazia-te a porção quadrilátera, invisível, do mar. O segundo e o terceiro selos eram o aviãozinho e o carteiro, propriamente, supondo-se que o carteiro era quem esperava-te ao contrário do itinerário proposto tu chegas depois, dias depois das tuas mãos, das que já cuidava o carteiro, esperando-te chegar. Tu chegavas ao encontro das mãos e o carteiro olhava-te clemente para que abrisses com zelo os olhos a boca e o peito para as mãos com o zelo, abrires então o apanhado abaixo dos selos, levares à casa e sentares-te sobre a estampa estriada da cadeira e que inteira com o zelo tu te abras e que não te acordes ainda, espera: tu te afastas das mãos quando depositas os ventos oceano acima, as estrias sobre o Atlântico. Quando te acordas, miúda uma gota do teu suor oceânico e à frente do suor o horizonte e o horizonte quilômetros para dentro da tua fronte.


II Desde que parti nós dormimos estamos a dormir onde vamos mas tu por vezes te moves e esticas, range o estrado, o estalo das madeiras irremovíveis das pernas da cama, fixados no ar para o sempre. E tu fazes o que queres quando dormes, e o que queres vem a ser sempre aquilo que já fazes, antes ainda que assim o pudesses, que tu vens a merecer de tanta merecendência daquilo que queres – daí mostro-te as belezas que explodem de tua boca quando tudo e qualquer dizes, e tu te ris, ris com a abertura animalesca da boca, e as coisas maiores eu vejo: que um selo tens em cada dente de cada federação, dum estado, um rancho alimentos irremovíveis então do que dizes – quando tudo e qualquer dizes. III o muro coberto de selos próximo da esquina que atravessas trazes ao redor uns e outros torvelinhos seus de companhia. Tudo perde-se dos nomes sacudido pelos teus companheiros sobre as ruas. O muro estampado de selos rodopia com um torvelinho atrás de ti, então uma erupção de papeizinhos de dentro do rodopio, os selos pairam arrancados do muro que gira, os selos direcionam-se para ti, como tudo, e tu estás estampada dos selos, coberta, e tens os braços e as pernas tão compridos e os teus olhos, teus comprimentos com capacidades para comportar todos os países para a correspondência. Carregas assim a geografia. Tens tão comprida a tua língua, então capaz de dedicar-se a cada selo e lamber depois teus dedos enormes ainda a cada selo, alto os levam para cima, pressionas com o indicador que tu pregas ao céu


IV Viajávamos na pequena caixa pelada, a nada inscrita. E ao nada nunca chegamos ou nem não paramos de ir. Viajamos com certa estupidez tal qual a esperança dos animais na caixinha ao lado. Os selos para dentro da caixa, que tu percorres com os dedos para demorar. E é certo que demorar é que vamos ou nem nunca pudemos partir e é certo que a demorar estamos e já não se para, pois, de se ir. [Carolina Suriani Caetano, variações sobre o que dizes, para Carla Diacov]


CECI N'EST PAS UN POÈME D'AMOUR [Raul Macedo] “and the lovers lie abed,/ with all their griefs in their arms..." Dylan Tomas Não pense que este é um poema de

o estatuto da guerra entre homens

amor,

que amam se amar por oximoro.

pois nunca mais os escreverei. Não me importam mais as traições, O Eu-lírico? Não existe.

as ternuras, as pequenas

A maior farsa de todos os tempos.

delinquências

E tu, leitor, mesmo que existas,

de umas mãos estendidas para o

para mim já é esquecimento.

corpo das rosas, mãos feridas escrevendo

Não se iluda com poemas de amor.

ridículos poemas sobre amores,

Poemas de amor são maçãs de

que já não me importam mais.

plástico em travessas ressentidas de carne,

Definitivamente, não me importam

forjadas em nenhures, ribaltas

mais os desesperados versos

de teatros encenados por suicidas.

que esperam flores nascendo do asfalto

Nunca mais. Que seja assim então:

que esperam músicas dilacerando

ofereço-te o decreto dos desiludidos,

pautas

pois nunca mais nunca mais

e desafi(n)am a mentira do silêncio.

e eu repito: nunca mais escreverei poemas de amor.

Isto não é um poema de amor, pois o amor, poeta, é metalinguístico

Não me importam, por exemplo,

como a dor, como a morte, como as

serafins

flores

inalcançáveis, em vão invocados

como tantas outras coisas belas

por amantes, tão puros!, debruçados

como tu a quem dedico estes versos

na janela da manhã, dissolvendo

pro esquecimento, onde me carregas.


Oitavo diálogo – a imagem da hora [Carolina Suriani Caetani, diálogos para Carla Diacov] Agora a hora é um abismo distraído -

de guardar horas - prateleiras sobre

andamos para frente sem o

prateleiras

sobressalto. E a próxima hora terá de

nomeamos intensamente

distrair-se.

Tudo consente e andamos

Tudo consente e andamos

por todos os lados da hora (é preciso

trabalhamos intensamente - basta

distrair-se antes da chegada da

ver-nos

próxima hora)

com os olhos parados ao fundo

distraímo-nos. Vens correndo o

comprido duma linha

perfil do meu rosto

esticada, comprida

as paragens antes de chegar

basta ver-nos a extrair minérios sob

tu corres e também

minérios

estou a correr - basta ver-nos com

e pedras a mais - intensamente

essas nossas caras

trabalhamos

e esses olhos

e temos um salão inteiro a lavar - ou

esses olhos a ter com a vida.

um campo


3. AVENIDA ORFEU

Era uma boca impossível; uma boca desdentada, boca suja escancarada para os dentes da cidade. Ela cantava aos autos, às vitrines consumadas, aos letreiros escarrando seus gorjeios de néon. E os prédios, furibundos, cerravam suas janelas, como um acorde, à espera do silêncio, como um tiro. Era uma boca impossível, cantando na madrugada.

5. SUBÚRBIOS Labirintos forjados na cinza, no suor das casas, nas vendas, nos terrenos baldios, botecos, nas igrejas, becos, ruelas. Há uma confluência de aço nestes corpos seminus leves leves leves nas pedras, torneando os muros. A Kombi, em velocidade, contorna uma linha de trem, e o motorista rasga a calçada, ribombando o silêncio... e o calor na calçada ferve ferve ferve

[Raul Macedo, CIDADE DE QUANDO EM NUNCA]


Décimo terceiro diálogo – olhamo-nos de imenso sono Deixamos nosso idioma dormir por mais tempo miras os meus olhos, tudo fora de teus olhos é o tempo, dentro deles secular um líquido estremece é o único ruído interminável a caminhar, liberta umas escorregadias visões deixamos nosso idioma escorregar enquanto dorme O líquido convulso dentro dos teus olhos confunde as margens da pupila às da íris, tudo fora deles é o silêncio, dentro deles o ruído é largo como um campo recoberto por uma só cor Eu entro enorme no planeta e posso ser a água minando a lugar nenhum, e posso ser a pluma, e posso ser mesmo o ruído estremecido de teus olhos: eu entro enorme no planeta e confundem-se as margens da pupila dentro da íris os teus olhos resvalam para os meus enquanto miras, enquanto a dentro estremeces o mar tudo fora destes olhos são as margens confusas entre as pontas dos pêlos e o resto da vida: o nosso idioma descansa e é certo que jamais morreremos. [ Carolina Suriani Caetano, diálogos para Carla Diacov]


NOVA LINGUAGEM Quero palavras que lambem tudo, não quero mais clavículas poéticas nem poesia imaculada, como se o tempo fosse uma virgem, que a gente não comesse toda hora, que a gente não comece toda hora. A poesia charlando me aborrece também agora (eu que cometi o erro de me pronunciar de falar muito de mim a mim e de coisas que eu não lambi com língua de beijo quente, ir além da herpes semântica, estrangular silêncios não é mais crime, dependendo do Sujeito e do Objeto chega até a ser perdoável. Fecha parênteses - sou ninguém, hypocrite lecteur, você é também? Tem de ser para que vigore. Para que eu não tenha lido Barthes em vão, e se ele estiver certo, agora eu posso ser até sua mão, até sua roupa grudando nos braços, a sensação de ter ou não cabelo, e posso ser a tua morte ou a vida, Ninguém sabe mais de nada e eu posso até sua mãe gritando: - É melhor parar de ler esses malucos, esses poetas malucos, Vitória.

[Raul Macedo]


Vigésimo quarto diálogo – a imagem do caminho de sempre Demasiados caminhos vão à casa a que tornam

O mundo é paciencioso

os filhos, os cães de outrora e os rastros

e já é tempo: a hora espreguiça em teus

aventurados das manhãs passadas

olhos

os velhos lençóis agarrados aos mastros

um barco alimenta-se do sono

tornam, os veleiros e a brisa ainda menina

pelo rio de teus braços, pelo dorso de teus

ao interminável caminho da casa

anos,

cada dia deste longo nascimento

às margens de teu pescoço

o mundo é paciencioso

Amor, o tempo que anseias são baías à margem do teu pescoço, descansa o

retesar e eriçar e esticar e grunhir sobre a

mundo

hora-espreguiçadeira

paciencioso.

e olharmo-nos: já é tempo. Os nossos corpos sobre a palha amontoada de nossas vidas

[Carolina Suriani Caetano, diálogos para

olharmo-nos para dormir

Carla Diacov]

enquanto nosso veleiro torna


POÉTICA GOOGLEPLEX "The googolplex then, is a specific finite number, with so many zeros after the 1 that the number of zeros is a googol..." (Edward Kasner an James Newman, in "Mathematics and the Imagination") I Um zero repetido à exaustão faz o um ficar mais magro, como uma reta - infindo silêncio em que o início não se iguala à sua meta, que então se esborracha no imaginado que, já memória, forja sua ponte incompleta sobre o rio, que não de Heráclito, do esquecimento, este sim incalculável em movimentos ou códigos cinéticos. II Seus algoritmos, fechados, herméticos, um hieróglifo para ser não decifrado antes do avanço da pronúncia que não prevê, porém procura o leitor, seu ponto de angular que é o outro que finda a busca como o zero ao um no fim se encaixa. III Assim é o poema quando se exaspera nos desvios da palavra, e fala à folha herética, na lábia do que é para ser oração em parte, mas também é música, de precisão imaginada imprecisa de forma única, porém vária.

[Raul Macedo]


Décimo segundo diálogo – a imagem pela fresta Vejo-te no dia em que escondi-me via-te da fresta, de trás dela, onde eu arfava de suspense, onde todos os anos erguiam-se do meu lado e arfavam de suspense, pela hora de entrar Mas tu estavas nas condições de não suspeitar, à beira duns seis anos de idade, abrindo uma caixa e olhando para os lados, uma caixa vazia, e olhavas novamente para os lados, punhas as mãozinhas uma de cada lado da boca, abrias os cotovelos para isto, tocava a grande boca da caixa com a tua, a tua pequenina, e depositavas certas palavras, uma a uma, lançadas para dentro das paredes de papelão umas com cautela, outras com ardor, outras ainda com pequenas quantidades de saliva depois tu te desfazias da tampa, que tornava-se tu, a tampa e te deitavas a vedar a boca da caixa que encobrias com a superfície do ventre até pouco abaixo dos ombros, deixando os braços descansados para baixo, como mesmo dependurados a cumprir o seu descanso e pressionavas-te para baixo, impelindo as palavras a entrar umas nas outras, no útero escuro e quente da caixa pressionavas-te para baixo e sentias o montinho pequenino de teu sexo a coagir uma das abas


pressionavas o montinho e te esquecias suavemente das palavras ou as sentias brevemente a beliscarem tua barriga para sair, e te mexias para frente e para os lados, vagarosamente, pressionavas, pressionavas como se já conhecesses o futuro e dele pudesses desfazer tu te desfazias doutros corpos e recebias as palavras, e tu sufocavas as palavras e também a um pouco de ti mesma, quando deixavas que gravasse em teu corpo o formato do quadrado que pressionavas depois tu te movias com mais conhecimento das coisas que pareciam pouco remotas no tempo, e tu revezavas a força e o embalo com que rebaixava e remexia o montinho contra a aba da tua caixa - e a tua caixa era a tua caixa e tu estavas a conhecer do verdadeiro amor e da verdadeira responsabilidade entre dois seres - o teu espírito começava a ficar trêmulo em teus olhos, e só havia teu espírito em teus olhos que tremiam Tu levaste as mãos sobre os olhos, abriste os cotovelos para isto, e deixaste os olhos abertos sob as conchas das mãos ou fechados - tu já não sabias - pousaste as mãos sobre os olhos e já não sabias o que fazer com o corpo, e a maior coisa da vida é quando não sabes o que fazer com o corpo tu não podias sequer perceber a violência de teus movimentos, e tu não podias prever, e tu não podias compreender, e tu não podias cessar a misericórdia de teu corpo pela caixa Depois suor inteiro desprendia de teu corpo e percorria pela caixa e então era o papelão a fraquejar as palavras derretiam-se a explodir sob os respingos de tua pele e tu não sabias que tuas mãos continuavam sobre os teus olhos e que o teu corpo ainda se movia contra a caixa desde que o mundo era o mundo, como se não mais fosses voltar a ouvir os sons e os ares de normalmente então o papelão cedeu completamente e teu corpo despencava para o chão de taco sem que pudesses perceber e entraram as palavras infiltrando pelo tronco de teu corpo que as espremia e entramos, eu e os anos, infiltrando pela fresta eu estou deitada sobre a caixa de teu corpo


e pressionamos os montes um contra o outro por misericórdia de nossos corpos as tuas palavras estão a beliscar-me a barriga salpicadas entre as estrelas que ainda derramas sobre o tronco antes de dormir, e dormes coberta das estrelas dispersas ou guiadas por minhas mãos, ao redor do umbigo, ao redor dos seios. [Carolina Suriani Caetano, diálogos para Carla Diacov]


OSTEOPOROSE Não rimarei a palavra amor com a correspondente palavra serotonina. Nem rimarei a palavra sono com a morfética palavra diazepan. Não vou rimar nada. Estou negando tudo. Estou em cima do muro de Troia. Olho meus companheiros e as flechadas vindouras não me atravessam. Sou uma gárgula de ouro que nem Édipo decifrará. Nem Júlio César (que agora eu citei aleatoriamente) penetrará no mistério estanque que é o meu poema agora. Vou ficar Aqui. Isso mesmo, fechado como uma ostra. Um objeto de fora. Um rio parado. Ninguém entra, ninguém sai . Duro de roer. [Raul Macedo]


INQUEBRÁVEL Harmônico silêncio de ruínas, O amor é um tiro no espelho,

tão puro de beijar e se ferir

intangível ao corpo estilhaçado.

de inocência.

[Raul Macedo]


Canção a certos sonhos [Carolina Suriani Caetano, A Mulher da Manhã ou da Noite, 1 para Carla Diacov] I Corramos violentamente ao mar Tudo que é móvel inicia-se pela manhã e estou a esgotar: é noite, já não me peçam Deixem-me cobrir os dois olhos e o corpo, pelas pálpebras, lençóis. Ainda quer mover-se o corpo quando se deita, certo vôo a direções que nem este poderia saber já é noite e parece-me cada hora encerrar-se, anterior a outra deixem. Quero mais deitar, mais que isto feito pelo corpo. Como a água que ainda mais pode espalhar-se. Tenho-me levado a sendas a que desvejo, não devo, pois, perceber a infância veio a parecer com palavra que não existe: estamos a não poder perceber as coisas quando estão sempre estivemos. Deixem-me cobrir pelas coisas que estão em demasia, porque há o pensamento. Penso que muito delicado é o instante em que o dia instala-se na noite e essa nesse. E depois. Tudo são sendas temporárias. II Sôbolos sonhos que tive: eu a amo. Penso que em pouco devemo-nos beijar. Algumas horas encerram-se. Ainda. Ela aguarda, está bem. Penso que tudo está bem. Quero ainda mais deitar-me que isto, as águas. Os pés hão de molhar-se, ela aguarda para recolher. Deixem-me tocá-la antes que o mundo (então esquecia-me... O mundo...)


Penso que o mundo pode-se ter ido, dias desses, a ir por si. E jĂĄ nĂŁo posso com isso tenho certo gosto pela vida. E ela aguarda-me: dos mais sonhos que tive.


EXERCÍCIOS/ MEMÓRIA EM DESCONSTRUÇÃO/ para Nina Rizzi Em vaga luminosidade percorreremos séculos sem guerras sem alarde um homem que na biblioteca esfarinha suas mãos entre os livros silêncio físsil de uma espada, lírica lombada que restaura esta Bastilha, basílicas quedadas nossas mãos, aviões a tudo isto, à falta destilada de memória, nós tratamos numa tarde de avistar aquele ataque imprevisto à um porto aquela revolução para ninguém aquela túnica carbonizada, internos menos que eternos, revolvemos às violentas epístolas balsâmicas, aos arabescos gregos na cerâmica de um vaso, aos exílios, ao acaso de chegarmos aqui, como Acrópoles em upgrades de palavras e invenções de mãos que se dão ao que virá para voltar em lusco-fusco, cada vez menos quando ainda mais, quando tudo se apaga em algum quadro-negro de-formativo, de um Rei deposto noutro que é desnudo como um tempo-outro inventando esses óculos caídos no chão de madeira de algum século que inventamos e desconheceremos. [Raul Macedo]


caderno dos sonhos curtos e medrosos – sonhos com o medo I Um punhado de grãos e as mãos e a boca medrosa a rir ocupamos a rua de nozes e castanhas menores, sobrepondo seu asfalto, duma margem à outra, de infinitos punhados a rua, duma esquina à outra enchemo-la caminhamos para trás trinta passos à espera dum automóvel ao rés da vinda ansiávamos com medo, ríamos, uma boca enorme e duas rindo ao que nada vinha, essa débil ocorrência do deserto que nasce pelo hálito da rua à volta tudo prosseguia e nem um vizinho por detrás qualquer de janela a partilhar desta hora trêmula, iminência, tu vestias-me do medo e ríamos ao que nada vinha que dirão nossos pais? – desta rua aquém desses automóveis II noutro sonho os teus olhos gigantes inflavam e tomavam o terminal rodoviário. Homenzinhos espremidos contra seus pastéis manobravam os corpos para ingeri-los. Outro tentava levar a mão ao bolso, recolhia níqueis com dificuldade. Riem apreensivos e esperam que beijemo-nos às pressas beijamo-nos com um excesso de saliva que pingava sobre teu pé esquerdo e o bico do meu pé direito, beijamo-nos e babamo-nos de medo, como fazem sapientes os cães filhotes


mas tu foste àquela hora como que a girafa dentro do torvelinho sem envergar além de teus olhos crescentes, parecias com a hora boa de receber-me torvelinhos, torvelinhos, medrosos, são gases dentro do peito e eu respirei para partir eu, como eflúvio de teu corpo, a partir como dum sítio pela inédita vez me arrancasse depois o ônibus ia mover-se arranhando os teus olhos. Mas tu foste àquela necessidade como que uma grande rocha secular com dois seios a que chamamos de mãe. E ainda és. Espécie de girafa e de mãe com dois grandes olhos com dois grandes seios III então nasceu o medo e ainda menino estivera a rodear entre veleiros, homens do mar e os bichos d’água. Acordamos ao centro duma ilha exposta pela janela. Minha mãe ao vão da porta aquecia as mãos e pedia-nos que algo fizéssemos para comer IV este cavalo explode a correr sobre a várzea assustada pelo possível limiar de destamparse do solo, este cavalo corre parecendo com mula, parecendo com burro, parecendo com pássaro como os pássaros que arrebentam contra seu peito, este cavalo arrebenta-se contra o meu peito, este cavalo vem sendo um bom homem, vem sendo um bom filho, vem sendo um bom medo, este cavalo corre, este cavalo corre, este cavalo há de morrer quando perguntarem-lhe o nome [Carolina Suriani Caetano, variações sobre o que dizes, para Carla Diacov]


CARTILHA PARA BLANCHOT

ENGLISH GARDEN Seria melhor plantar uma árvore

Que me importa o que disse Blanchot eu estou aqui sentado e ouço o tilintar do teclado como um relógio descontínuo e sei que sou futura transmigração para não dizer parabiose semântica se alguém estiver do seu lado e lhe chamar pelo nome, mas não é o caso depois, agora você escreve e

ou ter um filho, do que escrever uma coisa já dita e se não dita, um óbvio que grifa e é lançado em alguma península à sotavento "o homem não é ilha", disse John Donne que raptou uma moça de 16 anos em plena Inglaterra Elisabetana e era um narcisista obcecado com a morte e com mais nada.

subitamente eu sou você (percebeu) para que um milagre

Queimarei meus livros, queimarei e

aconteça diga “eu”

agora

sem pensar na minha morte

plantarei carvalhos ciprestes

e olha essas pedras se abrindo.

jacarandás (quem sabe apenas um Bonsai) álamos irredimíveis ao gume do tempo que não terão biografias nem filhos a não ser frutos sementes folhas caídas e sua boa sombra para que descansem os homens que passarem por ali. E mesmo que nada mais nos reste que o universo se contraia até o caroço os homens impossíveis passarão serão homens impossíveis serão e passarão, de alguma maneira.

[Raul Macedo]


Sexto diálogo – a imagem do cachecol As cores, as cores para os fios e os fios estes fios parecem-me confortáveis e então trançá-los trançá-los e trançá-los e trançá-los até que cresçam, enlargueçam, para os lados daí postá-los em torno de teu pescoço o teu colo sob a cor duns fios que repousam e aquecê-lo somos coisas tão primitivas e aguardamos o estio, o fruto e o retorno de sempre duma bola alaranjada sobre as cabeças incansáveis somos coisas primitivas depois o verão há de enrolar seus braços por nós, pelos troncos, abaixo das axilas e esparramará por trás de nossas cabeças deixando-se cair das alturas do corpo até o finito chão que o refletirá ao céu, nesta hora em que tudo parece já não ter fim daí os fios repousados na cor de teu colo, havemos de desfiá-los desfiá-los e desfiá-los e desfiá-los até que o teu pescoço surpreenda o dia e os teus fios corram, corram pelos dedos do vento, e de mais um vento com mais dedos somos coisas tão primitivas que é capaz de podermo-nos amar e então trançá-lo e trançá-lo e trançá-lo até que cresça, enlargueça, para os lados daí postá-lo ao redor de cada casa e amolecer de tão quente amolecer a nossa vizinhança – somos coisas tão primitivas e aguardamos a noite para darmo-nos boa noite.

[Carolina Suriani Caetano, diálogos para Carla Diacov]


UM PRELÚDIO AO NADA

INTERLÚDIO

Uma guerra que acendesse a cidade não diga isso me dizem das fotografias bordando essa dor carregada de séculos de ausência saturada e desfaz-se o soldado e a criança que não berra, roldana silenciosa este tempo da memória que deserta uma frincha que explode fora de alcance, na barricada onde nada nada parece vir do trinchar malogrado das granadas, que separam destinatário e remetente deste tempo falso que afoga como se nada.

Entre um e outro poema desfaleça a ânsia da paisagem fugaz <indecifráveis palmeiras> não vulgarize entre um e outro poema sua alta-voltagem, o percalço de palavras, está descalço quando entre um e outro e mais outro poema, quando lhe acenam da morte, respeite, ninguém sabe-se poeta até que... não olhe para trás, não resgate o começo do incompleto, e esqueça que a poesia esboça memória e desejo, oblitera o caminho das palavras e elida o tempo no silêncio, pois o seu último poema foi (descalço) andar na areia e lhe deixou a ver navios. Entre agora em outro poema. Agora.

[Raul Macedo]

Agora.


Décimo diálogo – a imagem do bigode e da casa O primeiro homem a entrar em nossa casa verá o gato e dirá qualquer do gato; e em cada móvel sobre o qual os seus olhos buscarem se instalar verá o gato, o mesmo gato, do qual não dirá; espanta-se e vai pela porta. O segundo homem a entrar em nossa casa verá o mesmo gato deitado em infinitas posições sobre o tapete (haverá também o tapete para o segundo homem entrar), será o mais breve homem a espantar-se e partir. O terceiro homem entra e vê o gato. Depois não se percebe de mais nada, enquanto tu o apressas “são fantasmas, são sempre uns fantasmas entrando e saindo e ali, ali então, naquele cantinho, tá assim ó...” e o homem afasta o gato com o pé e o gato está a mover-se como se a dizer-te que é assim mesmo, que move-se como um gato, e não há nada, nada a fazer, porque enfim o homem, tudo fica seguro com um homem afastando o gato com o pé e averiguando os cantos, tudo sossega com o homem. E tu ris, tu ris, ris tão apropriadamente, e podes rindo dizer-me que “tira, vai, pode tirar, bonina, tira esse bigode, eu já sei, bonina, sua boba, eu já sei” e ris, e tu ris tão apropriadamente, tão apropriadamente. E penso que nunca mais farás outra coisa. [Carolina Suriani Caetano, diálogos para Carla Diacov]


QUASE SONETO DE UM POETA QUASE CANSADO "Be secret and exult/ Because of all things know That is most difficult." W.B. Yeats Hoje eu acordei meio siléptico, ontem estava mais anacreôntico, como diz o ditado: "hoje hipérbole, amanhã metonímia, sem delongas". Talvez ande até meio sofístico, metáforas cada vez mais rotas, hiatos perambulam minha boca, lacunas de poema concretista. Os paradoxos virão - é óbvio, agora isto não convêm ao caso. Para isto não virar um monólogo Hei de acabar logo com esse dístico: que um decassílabo não me detenha de meus resquícios de poeta lírico.


Pensas num bocado de homens I A sobrancelha em tua testa, uma lagarta. Querem dar-te o tijolo e as asas, ensinam-te a palavra, e o tempo acaba-se com a noite a cada noite que acaba. Um bocado de homens trabalha, queres comer e com a tarde ir pingando para dentro da tarde. Um bocado de homens pode cansar-se ou mastigar os talheres ao invés do feijão enquanto tu contorces a sobrancelha para o alto. Pedes perdões pelas demoras e o amor em demasia, pedes para que os homens façam o que de ser feito tiver-se. E dói pensares em homens, a esta altura dos braços, das mãos em demasia, a tudo se vai mastigando, mal sabem os homens, querem não morrer, querem nem a vida, a tudo se vai lambuzando, com o tijolo e o medo que arrebentam-se contra a parede. II A palavra tijolo e a palavra medo estão em mais de quarenta maneiras inscritas pelas paredes e sobretudo a palavra demasia que pratica a culpa acerca do vento, pousa sobre o objeto mãe, cama, cachaça, sobre o objeto galinha, e que arranca tua sobrancelha para cima faz o bocado de homens funcionarem, beijarem as portas ao invés das suas filhas. Esquece-te, queres deitar a lagarta sobre a testa macia. Vai-se a tudo mastigando, respira, dentro do muro e sob o mar, perdoai a vontade do fumo, a vontade do sono, a vontade da vida, perdões pelas demoras e o amor em demasia. [Carolina Suriani Caetano, A Mulher da Manhã ou da Noite, 8, para Carla Diacov]


EM MODO AVIÃO “You're on Earth. There's no cure for that.” Samuel Beckett Neste momento em que eu escrevo, há talvez uma tropa avançando, rumo a faixa de gaza ou mortes estridentes rasgando esquinas suburbanas, e se eu ralho a tudo isto e só vejo este Boeing atravessando o dia 3 de Outubro, sobre as nuvens, abaixo de mim em branco-azul impermeável (As máscaras de oxigênio não vieram como tétricos sudários, como fora anunciado pela asséptica aeromoça que há pouco também me informara that i have to speak english or hablar español, parlez-vous Français ? sempre estive ao lado da saída de emergência), eu penso: talvez tenhamos sorte de estarmos neste planeta extremamente improvável e violento, escrevendo poemas que decolam esta vida como pássaros libertos, sem um plano de voo, com turbulências incalculáveis por torres de comando invisíveis anunciando qualquer coisa de arbitrário; “tripulação preparar para o pouso”, mas eu nego o declínio das espáduas da poltrona e os cintos que sufocam, e me finjo livre: pelo menos agora.

[Raul Macedo]


Carolina Suriani Caetano, mil novecentos e oitenta e nove. Uberaba, MG. [http://porcarolinacaetano.blogspot.com] Raul Macedo, milnovecentoeelenãonosdisse. Rio de Janeiro, RJ. Seu livro sai em 2013. Antonio Bokel, mil novecentos e setenta e oito. Rio de Janeiro, RJ [http://www.antoniobokel.com.br/] PARA TERMINAR, CONTINUE ELLENIZANDO! MÚSICA: Almir Sater e Renato Teixeira, Tocando em frente http://www.youtube.com/watch?v=OuiNZpLwJfQ Gilberto Gil, Refazenda http://www.youtube.com/watch?v=fiwq5G4zpFU LuIz Gonzaga, A morte do vaqueiro http://www.youtube.com/watch?v=jSWwftxuSQQ CINEMA: Vladimir Carvalho, O País de São Saruê (Brasil, 1971) http://www.youtube.com/watch?v=g8gAxQuoypU LEIA MAIS: - Ensaio de Edigar de Alencar sobre Raimundo Ramos, o Cotoco, na Revista da Academia Cearense de Letras, de 1962: [http://www.ceara.pro.br/acl/revistas/revistas/1962/ACL_1962_15_Ramos_Cotoco_Edigar _de_Alencar.pdf]


Editora Responsável: Nina Rizzi Iconografia: A imagem de capa e as fotografias ‘Ande andam a caminhar meus olhos’ e as não tituladas que compõe esta edição são ensaios (com exceção do Suplemento Especial de Poesia), são de Nina Rizzi sobre fotografias de Francisco Benedito, José Albano e do Sertão Central Cearense. Página Oficial: www.ellenismos.com Endereço eletrônico: ellenismosrevista@gmail.com © 2013 Ellenismos - Diálogos com a Arte. ISSN: 2316-1779. A presente edição presta homenagem ao hackerativista Aaron Swartz, que ‘se enforcou em sua residência, no dia 11 de janeiro de 2013 em New York. De acordo com amigos próximos, ele não admitia a ideia de que poderia pegar até 35 anos de prisão por ter disponibilizado quase 5 milhões de artigos científicos de graça na internet. Isso mesmo: esse hacker distribuiu (e não roubou) 5 milhões de artigos para compartilhamento.’ [Fonte: http://afinsophia.com/2013/01/13/jovem-hackerativistaque-desafiou-o-mercado-academico-tem-suicidio-induzido/]. A Revista Ellenismos – diálogos com a arte - tem caráter educativo-cultural sem fins lucrativos. Conferimos atribuição de autoria a todo o material aqui publicado, sem exceção, apresentando-os com as devidas referências bibliográficas que indicam autor, título da obra, tradutor, editora, local, ano de publicação, suporte e, quando possível, apresentamos também um link para a página do artista. Com este procedimento intencionamos não apenas informar, mas também incentivar o leitor a adquirir o material citado e ir buscar mais, caso este o interesse. Isto só é possível porque compreendemos que não existe nenhuma produção INDIVIDUAL, antes todo conhecimento só é possível e útil quando compartilhado, se não for assim é de todo mal. Como escreveu Henri-Frederic Amiel, em 1880: "NADA É NOSSO//Você diz: ‘esse pensamento é meu’. Não, meu / irmão,/ Está em você, nada é seu/ Todos tiveram ou terão isso.// Capturador / imprudente,/ Longe de removê-lo do domínio comum,/ Ofereça-o como um depósito: / compartilhar é tão doce!”


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Revista Ellenismos, 25: SERTÃO  

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