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Novelos de Silêncio – II

Maio ~ Setembro de 2007

eli miguel


A poesia está na vida, nas artérias imensas cheias de gente em todos os sentidos, nos ascensores constantes, na bicha de automóveis rápidos de todos os feitios e de todas as cores, nas máquinas da fábrica e nos operários da fábrica e no fumo da fábrica.

A poesia está no grito do rapaz apregoando jornais, no vaivém de milhões de pessoas conversando ou praguejando ou rindo. Está no riso da loira da tabacaria, vendendo um maço de tabaco e uma caixa de fósforos. Está nos pulmões de aço cortando o espaço e o mar.

A poesia está na doca, nos braços negros dos carregadores de carvão, no beijo que se trocou no minuto entre o trabalho e o jantar - e só durou esse minuto. A poesia está em tudo quanto vive, em todo o movimento, nas rodas do comboio a caminho, a caminho, a caminho das terras sempre mais longe, nas mãos sem luvas que se estendem para seios sem véus, na angústia da vida.


A poesia está na luta dos homens, está nos olhos abertos para amanhã. Mário Dionísio, "Arte Poética”


Há sem dúvida quem ame o infinito, Há sem dúvida quem deseje o impossível, Há sem dúvida quem não queira nada – Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles: Porque eu amo infinitamente o finito, Porque eu desejo impossivelmente o possível, Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser, Ou até se não puder ser...

Álvaro de Campos, Poemas


Puccini ,”a bocca chiusa”


O que nos chama para dentro de nós mesmos é uma vaga de luz, um pavio, uma sombra incerta. Qualquer coisa que nos muda a escala do olhar e nos torna piedosos, como quem já tem fé. Nós que tivemos a vagarosa alegria repartida pelo movimento, pela forma, pelo nome, voltamos ao zero irradiante, ao ver o que foi grande, o que foi pequeno, aliás o que não tem tamanho, mas está agora engrandecido dentro do novo olhar

Fiama Hasse Pais Brandão, Às vezes as coisas dentro de nós


Acontece um outro acontecer o lento despertar de um estranho segredo. Um rumor de bosque que se adivinha rajadas de vento brando, barcos em mĂŁos de desejo. E um olhar de ĂĄgua como que desfeito longe, mesmo muito longe, felizmente longe de qualquer razĂŁo.

Gundula Stegliz


O amor é uma ave a tremer nas mãos de uma criança. Serve-se de palavras por ignorar que as manhãs mais limpas não têm voz.

Eugénio de Andrade, Primeiros Poemas


na praia lá do guincho as velas de windsurf saltam sobre as ondas e o meu olhar, equestre, pula nos peitos das banhistas, enquanto um cachorro tenta agarrar a cauda. nos feriados tudo é insuportável menos o sol e o mar apesar das famílias. e sustendo as gaivotas na mais alta imaginação, porque hoje não vi nenhuma,

que seria de nós, bucólicos, sem esses indicadores da alma? dou

o vento traz de tudo

lume a uma italiana e enquanto

e antónio nobre e lorca às pandas roupas

ela agradece ocorre-me que despi-la já não é

que modelam os corpos em míticas figuras

cosa mentale; faz-me lembrar o algarve, mas no verão

com o seu drapejado esvoaçante,

o algarve é a continuação

entre dunas e lixo e vendedores de gelados.

da política por outros meios. antes

restaria o campo, mas

a nortada, os surfistas,

«no campo não há bicas nem paperbacks»

na crista da onda, a areia que entra no poema,

diz uma amiga minha e tem razão.

e o regresso mais cedo, quando já não se aguenta. agora que passaste muito queimada do sol o vento vem pela estrada até à duna com uma folha de jornal desdobrada aos baldões e as vozes dos piqueniques.


tu desceste da moto e foste comprar um gelado, afastando impaciente algumas crianças. era a impostura para a sede, avivada pelos guarda-sóis de cor berrante. nas rochas havia alguns pares esfregando-se mais ou menos à vista. penduraste os óculos de sol no decote da blusa e o gelado avançou para os teus dentes muito brancos. tudo isto dava uma fotografia com o teu peito em grande plano e a cena reflectida nos óculos escuros.

Vasco Graça Moura, Antologia de Convívios


Na minha juventude antes de ter saído Da casa de meus pais disposto a viajar Eu conhecia já o rebentar do mar Das páginas dos livros que já tinha lido

Chegava o mês de maio era tudo florido o rolo das manhãs punha-se a circular e era só ouvir o sonhador falar da vida como se ela houvesse acontecido

E tudo se passava numa outra vida e havia para as coisas sempre uma saída Quando foi isso? Eu próprio não o sei dizer

Só sei que tinha o poder duma criança entre as coisas e mim havia vizinhança e tudo era possível era só querer

Ruy Belo, Homem de Palavra[s]


Digo: o amor. Há palavras que parecem sólidas, ao contrário de outras que se desfazem nos dedos. Solidão. Ou ainda: medo. As palavras, podemos escolhê-las, metê-las dentro do poema como se fosse uma caixa. Mas não escondê-las. Elas ficam no ar, invisíveis, como se não precisassem dos sons com que as dizemos.

Agora, o efeito das palavras. A sua rotação na cabeça, e pelas artérias, até ao centro: o coração. Outra palavra com que se diz: o

Amo-te. Também podia dizer: a solidão

amor. Mas não falo de sinónimos; de resto,

com que te amo, ou o medo de te amar. A partir

há palavras que escondem o contrário do que

de uma palavra tudo se pode fazer, numa página,

querem dizer, e só as conhece quem ama, se

quando o que aí está é um poema. No entanto,

a vida não o levou por caminhos confusos.

essas palavras conduzem-me até ti, isto é, fazem-te viver por dentro delas. É por isso que tudo se confunde: o amor, a solidão, o medo,

e até a vida, que também é uma palavra.

Nuno Júdice, "Semiologia"


Die liebe Erde all端berall Bl端ht auf im Lenz und gr端nt aufs neu! All端berall und ewig Blauen licht die Fernen! Ewig... ewig...

Mahler - Wang Wei, "der Abschied" Das Lied von der Erde

(a um Amigo)


Eu em tudo Te vi amanhecer Mas nenhuma presença Te cumpriu, Só me ficou o gesto que subiu Às mais longínquas fontes do meu ser.

Sophia de Mello Breyner Andresen, "Gesto"


Um dia destes vou-te matar Uma certeira bala de pólen mesmo sobre o coração

Jorge Sousa Braga, "Carta de Amor"


SOBRE

O

LADO

De vez em quando a insónia vibra com a nitidez dos sinos, dos cristais. E então, das duas uma: partem-se ou não se partem as cordas tensas da sua harpa insuportável.

ESQUERDO

No segundo caso, o homem que não dorme pensa: «o melhor é voltar-me para o lado esquerdo e assim, deslocando todo o peso do sangue sobre a metade gasta do meu corpo, esmagar o coração».

Carlos de Oliveira, Trabalho Poético


Ao fim de cada construção diária, ao crepúsculo, o construtor sobe a uma torre de pedra para meditar um pouco. A plenitude da tranquilidade é perfeita nos campos fulvos e ondulados em redor, cobertos de ervas altas, de flores e arbustos e marginados por um riacho sob a penumbra verde de um arqueado tecto de folhagem. Dir-se-ia que o olhar do construtor encontrou o ser em extensão, o ser que se oferece, no seu mutismo eloquente, e ao mesmo tempo se guarda no mesmo espaço do seu tranquilo esplendor. A meditação não é mais do que a contemplação de uma matéria que contém em si o excesso da sua energia calma e a densidade materna que envolve todas as interrogações e torna supérfluo e intruso o pensamento. Por isso o construtor se integra na paisagem e, reflectindo-a, não a elabora nem a altera. Toda a sua vida está intacta e plenamente segura na indistinção entre o seu íntimo e a túmida e fresca serenidade da paisagem que o envolve. A realidade exterior passou a ser a matéria mais íntima e mais pura da relação total e, inversamente, o contemplador converteu-se num elemento da paisagem que a partir dela própria a vê e nela se vê. Esta circularidade é a mais harmoniosa manifestação do uno e o alvo da construção será criar o espaço mais propício à sua tranquila fulguração. Não há segredo mais supremo nem mais simples do que esta relação vital entre o corpo e o espaço, entre o alento e a paisagem, entre o olhar e o ser.

António Ramos Rosa, Aprendiz Secreto


OS JACARANDÁS

Em meados de junho os jacarandás de Lisboa estão em flor, a sua luz fende a pupila, acaricia o dorso da sombra. É então que - sei lá se pela última vez - a inocência volta a entrar na minha vida. Olhos, mãos, alma, tudo é novo - recomeço a prodigalizar alegria, uma alegria que não procura palavras porque o seu reino não é o da expressão. Digamos que esta nova experiência, a que não quero dar nome, não se preocupa em interrogar, talvez por já não ser tempo de dúvidas, ou então por não lhe dizerem respeito essas verdades últimas, cegas como facas. Não é um poema de obediência o que me proponho nestas linhas; trata-se de outra coisa: levar à boca fresca do ar o ardor das areias queimadas. Mas sem palavras, sem palavras.

Eugénio de Andrade, Vertentes do Olhar


Sou lindíssimo, disse o autor fascinado. Lindíssimo, lindíssimo, lindíssimo. De tal modo que não posso despegar os olhos do espel ho. E tudo o que existe, sou tentado a converter em ‗eu‘. Porque só tenho olhos para mim. Sentou-se na cadeira, cruzou as pernas e começou a devorar o mundo. Engolia, engolia, engordava sem medida e a inflação do eu era tão grande que a certa altura rebentava e caía numa chuva de estilhaços. E então pacientemente, de gatas, ia procurando os pedaços, aqui e ali, e começava a colá-los outra vez com Araldite.

Teolinda Gersão, Os Guarda-Chuvas Cintilantes


Rosa rosa rosam Rosae rosae rosa Rosae rosae rosas Rosarum rosis rosis

Jacques Brel, "Rosa"


Consuma-se o eterno em cada instante na crença de reservas infinitas

importa mais o vĂŠrtice da chama que a cera a consumir ou consumida

David MourĂŁo-Ferreira, Os Ramos Os Remos


E o mar imenso se fez lago e se tingiu de fogo brando para que os dois, amigos jĂĄ, pudessem tambĂŠm brincar.

Gundula Steglitz


Alguna vez he de volverme y mirar hacia atrás si habré de dirigir mis ojos hacia arriba o hacia abajo, pero tú, a quien no escribí un poema de amor y di más que el amor, comprenderás

Y el presente de ayer

(¿He dicho que no creo en el amor

no es ya más una soledad sin sentido

sino en la luz? Amor . . . He visto demasiado

en que se puede llamar amor a las sombras.

esas palabras: conteniendo la vida,

Porque ¿puede ser una garra el amor?

engalanando la muerte, arrastrada por lechos,

¿Puede ser un desierto el amor? ¿Puede ser

desvaneciéndose en los idiomas – love,

una alta muralla?

liebe, amore . . . amore mío, amor: sonidos,

¿Podría haber sido, yo sola, el amor y el amante

confusión de sonidos que ocultan

viendo otro cuerpo donde nada había?

algo. Luz: tan sólo en ella creo).

No sé: ¿cómo saber quién fui, quién, ellos, fueron

Nadie es su voluntad: es su destino.

sin luz?

Ni es sólo su presente: es el pasado y el futuro también – un peligroso borde

Yo, a mí misma,

donde, no siempre ciegos, caminamos -.

regresaré por esa luz - semilla de una luz ahora -

Inevitable despeñarse

restaurando los rostros mordidos por el tiempo,

mas tal vez no terrible. La luz sólo

ordenando la casa que me habita

puede liberar a las sombras,

- puesto el mirto en los vasos

derretir sus cadenas,

en honor de las sombras ancestrales -,

dar a las aguas transparencia y vida,

porque no hay que renunciar a la pena,

aire al espacio clausurado.

ni al testimonio de los escombros, sino a la destrucción.


Porque ser o no ser destruida, sólo depende de mí: de que mi mano tape la uz o la deje pasar por el pequeño espacio que entre mis ojos vive, hasta el fondo infinito, y me incluya en su círculo. En ese día inacabable en el que los vocabularios se fundan en la luz, y sea suficiente mirar, ¿para qué llamar nada a nada?

Julia Uceda, Campanas en Sansueña


Provoca o vento rápido tumulto de rubros vivos colorindo a base de os ver, como verdes, sobressaltar o fundo da pupila iluminar-se. Que escuro que é o perímetro do rubro quando o usufrui a lentidão da análise. Dói ver mover-se o luminoso fruto na sua aquosa sapidez na carne da cor que se saliva. Um vivo lustro em seu rigor constrange o volume a crescer no paladar. E o vulto na líquida retina a deslumbrar-se. Fernando Echevarria, ―Cerejas‖


ficar nas vibrações deste espaço receptivo, à espera que alguém entre, e seja o visitante esperado: Rilke, Müntzer, o pobre, Ana de Peñalosa, ou alma, ou semelhante.

Maria Gabriela Llansol, Finita, Diário 2


Some men never think of it. You did. You'd come along And say you'd nearly brought me flowers But something had gone wrong.

The shop was closed. Or you had doubts The sort that minds like ours Dream up incessantly. You thought I might not want your flowers.

It made me smile and hug you then. Now I can only smile. But look, the flowers you nearly brought Have lasted all this while.

Wendy Cope, "Flowers"


Sei um ninho. E o ninho tem um ovo. E o ovo, redondinho, Tem lรก dentro um passarinho Novo.

Mas escusam de me atentar: Nem o tiro, nem o ensino. Quero ser um bom menino E guardar Este segredo comigo. E ter depois um amigo Que faรงa o pino A voar...

Miguel Torga, "Segredo"


Olhar o interior das coisas e procurar o rumor, o brilho oculto das palavras, o estranho renascer dos sentidos, nos beirais que repousam como se voassem.

Gundula Stegliz


Nada me han enseñado los años siempre caigo en los mismos errores Tómate esta botella conmigo en el último trago nos vamos

otra vez a brindar con extraños y a llorar por los mismos dolores

quiero ver a qué sabe tu olvido sin poner en mis ojos tus manos

Tómate esta botella conmigo en el último trago me bejas esperamos que no haya testigos

Esta noche no voy a rogarte

por si acaso te diera vergüenza

Esta noche te vas de veras que difícil tratar de olvidarte sin que sienta que ya no me quieras

Si algún día sin querer tropezamos no te agaches ni me hables de frente simplemente la mano nos damos y después que murmure la gente

Nada me han enseñado los años siempre caigo en los mismos errores otra vez a brindar con extraños y a llorar por los mismos dolores

Tómate esta botella conmigo en el último trago nos vamos

Chavela Vargas, "En el último trago"


alma limpa

nas calmas águas que teus temores pairem sobre elas enquanto o reflexo do que és mergulha na profundeza do teu ser

sairás deste banho com a alma limpa

c peres feio


Flor lilás de vida efémera

Flor lilás de vida efémera

Caíste beijando a pedra nua

Caíste beijando a pedra nua

E ficaste

E ficaste adormecida…abandonada…

adormecida…abandonada… Olho-te e vejo-te perto longe. Olho-te e vejo-te perto longe.

Impossível tocar-te…

Impossível tocar-te…

Qual pedaço sublime de céu

Qual pedaço sublime de céu

Descido até cá,

Descido até cá,

Flor de jacarandá.

Flor de jacarandá. Como tu, espero irmãs Como tu, espero irmãs

Que ao cair, possam

Que ao cair, possam

Reflorir, sentir-me amada

Reflorir, sentir-me amada

E ver o milagre da vida renovada…

E ver o milagre da vida renovada…

Não te sintas sozinha. Caíste mas no beijo

Não te sintas sozinha.

Vestiste a pedra de desejo.

Caíste mas no beijo Vestiste a pedra de desejo.

Cristina Peres, "Flor lilás de vida efémera"

Cristina Peres


é em sítio nenhum que escrevo. o que parece ser eu é o lugar onde não existo.

maria azenha


Depuis l'aube, ses bras, comme des bras de plainte, Se sont tendus et sont tombés ; et les voici Qui retombent encore, là-bas, dans l'air noirci Et le silence entier de la nature éteinte.

Un jour souffrant d'hiver sur les hameaux s'endort, Les nuages sont las de leurs voyages sombres, Et le long des taillis qui ramassent leurs ombres, Les ornières s'en vont vers un horizon mort. Le moulin tourne au fond du soir, très lentement, Sur un ciel de tristesse et de mélancolie, Autour d'un vieil étang, quelques huttes de hêtre Il tourne et tourne, et sa voile, couleur de lie, Très misérablement sont assises en rond ; Est triste et faible et lourde et lasse, infiniment. Une lampe de cuivre éclaire leur plafond Et glisse une lueur aux coins de leur fenêtre.

Et dans la plaine immense, au bord du flot dormeur, Ces torpides maisons, sous le ciel bas, regardent, Avec les yeux fendus de leurs vitres hagardes, Le vieux moulin qui tourne et, las, qui tourne et meurt.

Emile Verhaeren, «le moulin»


No lugar da árvore. No lugar do ouvido. No lugar do chão. Unidade crepitante no silêncio aberto no trânsito. Tronco, calma bomba indeflagrável, dádiva de identidade.

António Ramos Rosa, Nos seus olhos de silêncio


O jardim não mudou, o silêncio está intacto. A verdade ainda não irrompeu para possuir A manhã vazia nem a hora prometida Abalou a vibração de Maio.

W.H. Auden, "Pensamento" Tradução de José Alberto Oliveira


A ria é uma longa fita de muitos verdes fios doiro de julho que reflectem acidentes de luz.

João Miguel Fernandes Jorge, Obra Poética


A minha vida é como um certo corredor sombrio de tecto baixo e lúgubre dos lados com inúmeras portas mas fechadas e só lá muito ao fundo se divisa se é que se divisa uma janela que me promete árvores e relva e um mundo de verdura que perdi até porque em criança vastamente o conheci

Ruy Belo, "Agora o verão passado"


Le silence est comme le vent : il attise les grands malentendus et n'ĂŠteint que les petits.

Elsa Triolet, L'ĂŠcrivain et le livre ou la suite dans les idĂŠes


Espero cada momento seu como se espera o rebentar das amoras

Herberto Helder, Ou o Poema ContĂ­nuo


Descobrir o valor do abstracto, esquecer qualquer realidade preexistente e construir uma nova!

Gundula Steglitz


Penso che forse a forza di pensarti potrò dimenticarti, amore mio.

Patrizia Cavalli, Poesie


Fica decretado que, a partir deste instante, haverรก girassรณis em todas as janelas, que os girassรณis terรฃo direito a abrir-se dentro da sombra; e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro, abertas para o verde onde cresce a esperanรงa.

Thiago de Mello, "Artigo III"


AsĂ­ en horas profundas sobre los campos he visto doblarse las espigas en la boca del viento.

Pablo Neruda, "Ah Vastedad de Pinos..."


E pairo nas alturas com as costas voltadas Aos séculos de pasmo que para trás deixei.

José Carlos Ary dos Santos, "Viagem"


Em que língua se diz, em que nação, Em que outra humanidade se aprendeu A palavra que ordene a confusão Que neste remoinho se teceu? Que murmúrio de vento, que dourados Cantos de ave pousada em altos ramos Dirão, em som, as coisas que, calados, No silêncio dos olhos confessamos?

José Saramago, "No Silêncio dos Olhos"


Chamo... Por um momento julgo ouvir resposta. Fico à espera. É o apelo de alguém, chamando como eu chamei. ...E assim são as conversas dos homens.

Jaime Salazar Sampaio, Em rodagem


Aqui me tenho como não me conheço nem me quis sem começo nem fim aqui me tenho sem mim

nada lembro nem sei à luz presente sou apenas um bicho transparente.

Ferreira Gullar, "Um Instante"


["78"]


há uma hora azul permeando de poesia minha existência cinza; uma hora hortênsia que se abre em fins de tarde (maybe in my mind)

Valéria Tarelho, "happy hour"


Sentada, no rasto do tempo, sem desviar o olhar, procuras-te sem procurar, longe de ti cansada de esperar o vento

Joaquim Castilho, Artesanato


Meu moinho abandonado, meu refúgio de inocente, meu suspiro impertinente, meu social transtornado.

Meu sussurro de oceano, meu ressoar de caverna, minha frígida cisterna, minha floresta de engano.

Minha toca de selvagem, meu antro de vagabundo, minha torre sobre o mundo, minha ponte de passagem.

Meu atributo coitado, meu tanger de hora serena, rolo de pedra morena, silêncio petrificado.

António Gedeão,"Moinho sem velas"


Ó dura bruta forma heroína da escassez ó teimosa que insistes e insistes e nos ensinas que a vida é feita de incessantes mortes e que a nós FEIGENBAUM, SEIT WIE LANGE SCHON IST'S MIR BEDEUTEND

suas futuras vítimas nos aguarda a todo o momento a derrocada do templo

Figueira ó árvore que irrompes da tua secura

sem nenhum outro fruto além da amargura

suportando o penoso desdobrar de teus ramos amaldiçoada ofereces ainda a doçura de teus frutos a sombra de tuas folhas a firmeza do teu apego à terra

Ó doçura porque amargas tanto a nossa tentação de florir ao mesmo tempo sendo tudo e nada ?

Ana Hatherly,"A nossa tentação de florir"


Apetece-me explicar, agora, as asas dos anjos.

Jorge de Sena, "Sem Data"


Las superficies de vagos remolinos, recuerdan en la espuma las ondinas perdidas, en su mĂşsica menuda de huidizas ondas rotas, y a los submarinos que no pueden volver a los vientos.

Vicente Gerbasi, "Vigilia del NĂĄufrago"


De todas as palavras, uma ficou gravada em minha memória, uma só, pura, insubmissa, mas ao alcance das tuas mãos. De todos os minutos, também um se encheu de uma alegria íntima, e no entanto sobrenatural, com que festejei os teus olhos e deixei que repousasse minha cabeça no teu ventre, quando meu corpo cansado e ferido, abandonando-se nos teus braços, foi o princípio da noite, o chamamento do vento, a agonia dos pássaros. Se eu pudesse dizer o teu nome essa palavra bastar-me-ia. Chamando-te, iria ao teu encontro, e não importa onde estivesses, porque não importa onde estás, e, num minuto, toda a ternura voltaria a acordar meu sangue e minhas mãos para acolher o teu corpo onde, hoje, o meu corpo treme e a minha boca vacila. Que nada, ao menos, meu amor, me possa perturbar a tua ausência, presente na alegria magoada do meu coração inquieto.

Joaquim Pessoa, os olhos de Isa


Há muito estavas longe Mas vinham cartas poemas e notícias E pensávamos que sempre voltarias Enquanto amigos teus aqui te esperassem

Sophia de Mello Breyner Andresen, Correspondência


Cuándo con qué fuerza de qué modo asumir nuestro destino

Dionisio Aymará, Vivir y otros enigmas


Onde inda vibram Do extinto amor os ecos

LuĂ­s Miguel Nava, VulcĂŁo


[...] ciò che noi conosciamo nelle cose è niente altro che noi stessi.

Antonio Gramsci, Quaderni del carcere


Creio que é isto: não a angústia crua da morte física, mas as incomparáveis agonias da misteriosa manobra mental necessária para passar de um estado do ser para outro.

Vladimir Nabokov, Transparências


Era preciso mais do que silĂŞncio, era preciso pelo menos uma grande gritaria, uma crise de nervos, um incĂŞndio, portas a bater, correrias. Mas ficaste calada

Manuel AntĂłnio Pina, Poesia Reunida


Eu tinha chegado de um outro mundo e agora era preciso que o tempo passasse para que lentamente este voltasse a tomar conta de mim.

Pedro Paix達o, A Cidade Depois


como uma flor de sono te guardo, tĂŁo impossĂ­vel, o real

Pedro Sena-Lino, as flores do sono


fui ao Douro em busca do nada olhar suas águas brilho de ónix ouvir margens enganadas pelo tempo num choro que marca a manhã com incêndios pôr de sol

esperanças em nova era morreram na barca que habito

tornar a voltar ao Douro agora num naufrágio de águas calmas nevoeiro cerrado humidade no ar em mistura com lágrimas

c peres feio, "Douro triste"


O que há de novo na tarde Verdadeiramente tarde Verdadeiramente terna É este gosto novo de cantar É esta fome absurda de verão

Amélia Pais, "Verão"


Regressas na esteira do sol ao interior do Mar.

Deixas-me a luz quente que era tua. E sei o que jรก sabia.

Fernanda Sal Monteiro, "Rosas ao fim da tarde"


Todas as manhãs o aeroporto em frente me dá lições de partir. Hei-de aprender com ele A partir de uma vez – Sem medo, Sem remorso, Sem saudade.

Manuel Bandeira, "Lua Nova"


Levanta-te, não chores. Tens de saber que às vezes é difícil

Levanta-te, vá lá, não tenhas medo

matar o que nos mata,

de apertar o gatilho as vezes necessárias

ir aguçando o gume do cutelo e movê-lo depois, logo em relâmpago, até que o monstro seja degolado e não fique sequer uma gota de sangue, da cicuta voraz que lhe corria plas veias tão geladas, sob a pele que terias beijado quase a medo em busca de um sabor que fosse o fogo e o ar e a água, mas era só veneno adocicado, daquele que vicia sem parecer viciar e nos deixa sem cura a vida inteira.

para que tudo morra - os estertores Levanta-te, bem sabes,

da tua alma ou do teu corpo

desde o tempo dos contos infantis,

mesmo assim doem menos, acredita,

que todo o mal procura disfarçar-se

que o travo torvo dos piores remorsos.

em rostos como aquele,

E se vires que é preciso

na perfeição volátil desse abismo

rasgar dentro de ti, antes de serem escritos,

a que chamam beleza e vai ardendo

os mil e um poemas

em lânguidos sorrisos e olhares

que haverias de ler, talvez sem esforço,

feitos de pura seda, seduzindo

à flor daquela face, não hesites,

espíritos como o teu,

porque a felicidade tem um preço

demasiado inocentes ou perversos

e os versos, quaisquer versos, são apenas

para desconfiar da eternidade

a memória infiel deste vento que move

ou para resistir à luz fosforescente

as árvores lá fora enquanto é noite,

que, obedecendo às leis da natureza,

mas que às primeiras horas da manhã

sempre soube atrair até à morte

deixará elevar-se um nevoeiro

o alucinado voo das borboletas.

tão espesso e esbranquiçado, que o amor será nesse momento uma palavra baça que nada te dirá, a ti ou a ninguém.

Fernando Pinto do Amaral, "Exorcismo"


Viajar! Perder países! Ser outro constantemente, Por a alma não ter raízes De viver de ver somente!

Não pertencer nem a mim! Ir em frente, ir a seguir A ausência de ter um fim, E da ânsia de o conseguir!

Viajar assim é viagem. Mas faço-o sem ter de meu Mais que o sonho da passagem. O resto é só terra e céu.

Fernando Pessoa, Cancioneiro


You said you'd come but you have gone and left no trace; I hear in the moonlit tower the fifth watch bell. In dream my cry could not call you back from distant place; In haste with ink unthickened I cannot write well. The candlelight illuminates half our broideret bed; The smell of musk still faintly sweetens lotus screen. Beyond my reach the far-off fairy mountains spread; But you're still farther off than fairy mountains green.

Li Shangyin, 300 Tang Poems


Porque está esta barca amarrada ao velho cais? para onde partiu então o homem nestas montanhas azuis? enquanto esperamos por ele façamos do poema uma pintura que possamos contemplar gritos de gansos selvagens, folhas de canas secas sombra duma pluma branca, flor fria duma campainha de água o grou no ninho, no alto dum pinheiro, a tarde

Zhang Kejiu, Cinquenta "Xiaoling" Tradução de Albano Martins


Corpo meu fará quadrado. Corpo meu duro que é Embora palavra não diga Palavras guarda. E responde.

Anónimo. China, séc.XVIII, "Poema Enigma" Tradução de Gil de Carvalho


Yuefu Songs with Regular Five-Syllable Lines A Choice Sellection Of Ancient Poemes (Chinese-English)


Quando as pessoas assumem a beleza como emanação do belo É porque a fealdade existe E quando assumem a bondade como ideia subjacente ao bom é porque existe a maldade Portanto como conceitos entre si recorrentes Prevalecem a Existência e a Não-Existência Conjugam-se o fácil e o difícil O longo e o curto rivalizam-se O alto e o baixo contrapõem-se A voz e o eco harmonizam-se A dianteira e a traseira não se distanciam

O sábio rege-se pela inacção Ensinando sem falar Deixando as dez mil coisas nascerem e crescerem Sem reivindicar nisso a sua participação Promove a sua evolução gradual Sem nisso mencionar a sua contribuição Nem reclamar por isso qualquer mérito E como não se expõe Permanece na mais absoluta solidão

Lao Za, séc. VI a.C. Tradução de João C. Reis e Mª Helena O. Reis


Em nós tudo é presente, infinito e nada

Li Bai, Poemas de Li Bai Versão de A. Graça de Abreu


CamĂľes - pormenores da estĂĄtua - Coloane


Escondido atrás de ferrolhos e barras duplas, cobertas de musgo. No fundo dos corredores, nos quartos mais recônditos deambulo. Um presságio de que irá levantar-se vento: a auréola à volta da lua. Ainda a estação das geadas, os botões por desabrochar. Um morcego atravessa a persiana. Inquietação sem fim. Um rato perturba a teia de aranha na janela, alarmado por suspeitas breves. À luz da lâmpada, falo a uma fragrância que persiste no ar E, como antes, desprevenido, canto «Levanta-te Na Noite E Vem».

Li Shang-Yin, "Primeiro mês: em casa de Ch'ung-Jang" Tradução de José Alberto Oliveira


Kublai domanda a Marco: - Quando ritornerai al ponente, ripeterai alla tua gente gli stessi racconti che fai a me? Io parlo, - dice Marco, - ma chi m'ascolta ritiene solo le parole che aspetta. Altra è la descrizione del mondo cui tu presti benigno orecchio, altra quella che farà il giro dei capannelli di scaricatori e gondolieri sulle fondamenta di casa mia il giorno del mio ritorno, altra ancora quella che potrei dettare in tarda età, se venissi fatto prigioniero da pirati genovesi e messo in ceppi nella stessa cella con uno scrivano di romanzi d'avventura. Chi comanda al racconto non è la voce: è l'orecchio.

I. Calvino, Città invisibili


Desocupado visitei um antigo mestre A bruma e as montanhas sucediam-se em camadas

O mestre mostrou-me o caminho de regresso A lua estava suspensa como redonda lanterna

O vagabundo do Dharma. 25 poemas de Han-Shan VersĂŁo poĂŠtica de Ana Hatherly


Pa vôs, Macau quirido, pequinino, Nésga di chám pa Dios abençoado, Macau cristám, qui fórça di destino Já botá na caminho alumiado; Pa vês, iou pensá vêm co devoçám, Rabiscá unga poema di amôr, Enfeitado co vôs no coraçám, Pa têm mercê di bénça di Sinhôr. II Tera qui nôsse Rê chomá lial, Sômente unga: sã vôs, bunitéza, Filo di coraçám di Portugal, Alma puro inchido di beléza. Iou querê vêm contá co sentimento, Vôsso estória pa mundo uvi! — Qui di péna fino? Qui di talento? Ai, qui saiám Camões nom-têm aqui!

Adé, José dos Santos Ferreira, "Poéma di Macau" (em Doci Papiaçam di Macau)


Muito estranho sempre me pareceu Os homens adorarem um deus. E a vida a esse deus dedicarem E diante dele se curvarem. Que os deuses são feitos por dentro Da matéria da sombra ou do vento.

Yüan Mei Tradução de Maria Ondina Braga


Usem as vossas jóias de oiro e os vossos vestidos de seda. Saboreiem enquanto é tempo os frágeis prazeres da vida. Os ramos ficarão despidos quando vier o grande frio. Sem o sol, emurchecidas as flores, que é a vida? Apenas saudade.

Tu Chiu Nang Tradução de António Ramos Rosa


Contemplo ainda a poeira do mundo exterior: Na esfera do sonho que faria eu de novo?

Han-Shan, O vagabundo do Dharma VersĂŁo poĂŠtica de Ana Hatherly


[…] la domanda del Kan ―A che ti serve tanto viaggiare?‖ si chiude con Marco che afferma: ―L‘altrove è uno specchio negativo. Il viaggiatore riconosce il oço che è suo, scoprendo il molto che non há avuto e non avrà.‖

I. Calvino, Città invisibili


L‘Empereur, penché en avant, la main sur les yeux, regardait s‘éloigner la barque de Wang qui n‘était dejà plus qu‘une tache imperceptible dans la pâleur du crépuscule. Une buée d‘or s‘éleva et se déploya sur la mer. Enfin, la barque vira autour d‘un rocher qui fermait l‘entrée du large ; l‘ombre d‘une falaise tomba sur elle ; le sillage s‘effaça de la surface déserte, et peintre Wang-Fû et son disciple Ling disparurent à jamais sur cette mer de jade bleu que Wang-Fû venait d‘inventer.

Marguerite Yourcenar, « Comment Wang-Fû fut sauvé »


Nasce o sol trabalhamos Põe-se o sol descansamos. Cavamos um poço, p'ra beber, Lavramos um campo, p'ra comer: O Imperador e o seu poder - Queremos lá saber!

China - anónimo, séc. III a.C., "Canção de bater no chão" Tradução de Gil de Carvalho


Transcorrida a sétima lua não recordo as mulheres de cuja sabedoria aprendi. Guardo o claro rosto daquela que me recebia no templo do seu corpo como se eu fora um deus.

Tao Li Tradução de Rui Knopfli


Nada é mais flexível e fraco do que a água mas para vencer o que é duro e forte, nada a ultrapassa e nada poderia substituí-la. A fraqueza vence a força; a flexibilidade vence a dureza. Todos o sabem mas ninguém o consegue pôr em prática [...]

Lao Tse, Tao te King - Livro da Vida e da Virtude Tradução de António de Melo


Une fois par an, allez quelque part où vous n'êtes jamais allé auparavant

Dalaï-Lama


Rejeitaram a vida procurando a Via. As suas pegadas diante de nós. Decisão inabalável: oferecer os pensamentos, destroçar os corpos. Julgando-o enorme um grão de milho engana-nos sobre o Universo. Julgando-o pequeno o Mundo esconde-se na ponta de uma agulha. Antes de ter o ventre cheio a ostra pensa na nova acácia. O âmbar, quando se deposita, recorda ter sido um pinheiro. Se acreditarmos nas palavras escritas nas folhas indianas Ouviremos todo o passado e o futuro num toque do sino do templo.

Li Shang-Yin, "Escrito na parede de um mosteiro" Tradução de José Alberto Oliveira


O tempo é uma indiscrição de Deus. A noção de tempo é-nos dada para nos situarmos aos pés de qualquer acção que se repetirá pelos milénios fora com a mesma

sagacidade

e

importância

inefável. Se perguntardes a um chinês quanto tempo leva a desenhar uma cena quase imperceptível numa pedra, ele dirá: ―Dois ou três anos‖. - Então, em toda a vida, não pintará senão vinte pedras‖ – direis. E ele responde: - ―Nesta vida‖.

Agustina Bessa luís, ―A Pedra Pintada‖


Mas, sobre as mulheres de Macau, nem as vinte pedras dão decerto uma ideia. A mulher oriental é um reino à parte. Vemos uma pequenina chinesa entrada na

idade

circular

entre

asslot-

machines do casino, com uma alegria pueril e ao mesmo tempo capaz de vencer o destino. Tinha uma força dinástica no pequeno corpo levíssimo; e riu-se como se tudo fosse obra dos seus sentidos. Riu-se

francamente, como

fazendo troça sem malícia, gozando uma liberdade a que se rendia a sua curiosidade por milénios insatisfeita.

Agustina Bessa Luís, ―A Pedra Pintada‖


Novelos de SilĂŞncio

Maio ~ Setembro de 2007

eli miguel


N.S. - II -