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apartamentos e casas, gerando inclusive festas semanais que circulam por diversos pontos da cidade. Adjetivamente São Paulo é a meu ver a Cidade dos Desencontros, onde há muita gente querendo conhecer e ser conhecida, muito estresse, e muitos programas para relaxar e desestressar que acabam deixando as pessoas mais irritadas, seja pelo trânsito, pela chuva, pela poluição ou pela dificuldade de escolher entre tanta coisa para se fazer. Frente a todo esse caos aparente a vida na cidade se organiza através da criação de pequenos guetos de resistência, e criam-se os grupos dos descolados e seus points, o dos atores, dos arquitetos, dos artistas plásticos, cinéfilos e assim por diante. E claro que há uma interação tremenda devido ao grande número de inadequados que insistem em circular por diversos pontos possíveis, convertendo a criação em algo a ver com aquele botãozinho ao lado do endereço eletrônico: atualização. O segredo da sobrevivência nesse clichê real chamado selva de pedra.

FALA TU (Leonardo Palma) Foto por Luise Scherer

Inaugurando este espaço, uma breve conversa com o ator Tiago Teles. Participante da mobilização cultural Palco Fora do Eixo, é um dos novos integrantes da Associação de Produtores Independentes Macondo Coletivo. Circulou pelo “eixo” e optou por voltar. Aqui nos diz algo sobre isso. Tiago, “a história de sua vida” ... (risos) Meu nome é Tiago Gonçalves Teles, nasci em Porto Alegre, na feliz data de 31/08/1982, mas resido (ou resíduos) em Santa Maria desde meus 2 anos. Sou Bacharel em Artes Cênicas com habilitação em Interpretação Teatral pela universidade Federal de Santa Maria no ano de 2006. Após essa célebre data, participei de alguns grupos e espetáculos como: o grupo de Humor “O Uivo do Coiote” e os espetáculos “A Triste História do Soldado” e “Vida Acordada”, entre outros. Nos primeiros meses de 2008 fui a São Paulo e por lá fiquei até dezembro de 2009. Conta pra nós então como foi essa experiência de viver e trabalhar em São Paulo, algo que está no horizonte da maioria dos artistas santa-marienses. Como foi isso? A história é bem casual (sem querer mesmo). Lá pelo final de 2007, setembro, outubro não me lembra bem, um amigo, grande Leonel Henkes, me falou de um projeto chamado Geografia da Palavra que consistia na montagem de um espetáculo dirigido por Antonio Abujanra (o Ravengar de “que Rei sou eu?”) fomentado pela FUNARTE, em São Paulo. As inscrições estavam findando-se no dia seguinte, mas o “Leo” me mandou o site e eu, de última hora, fiz a inscrição. Fui para “Sampa” em fevereiro de 2008 fazer umas visitas e conhecer o Feverestival (festival de teatro organizado pelo LUME, em Campinas) e uns 3 dias antes de eu voltar para Santa Maria recebi um telefonema me avisando que havia passado na seleção para montagem do espetáculo. Liguei pra casa e pedi para minha mãe montar uma mala e enviar-me roupas que eu não ia voltar mais... Assim começou minha saga paulistana. No final desse projeto, que tinha duração de 6 meses, fiz a audição para a companhia Corpos Nômades de dança contemporânea e também passei. Alias, nunca achei que fosse passar em uma audição para uma Cia. de dança contemporânea, competindo com Bailarinos.

Trabalhei na Cia. Corpos Nômades durante um ano e meio, onde montei dois espetáculos, “Hotel Lautreamont – Os Bruscos Buracos do Silêncio” e “Édipus Rex – As máquinas desejantes”, além de duas esquetes, “Relinchos da Alma” e “Película da Retina”. Voltei com o intuito de ajudar minha família e reintegrarme ao meio cultural santamariense. Só fui para Sampa por causa do primeiro projeto. Nunca concordei com a idéia de deixar o que estava fazendo aqui para tentar a vida na cidade grande. Mas essas duas experiências, com uma grande figura da cultura teatral nacional e com uma Cia. de dança contemporânea, são divisoras de águas na minha carreira. Primeiro por ter aberto portas e me feito enxergar que existe um mundo além de Santa Maria. Segundo por ter me inserido em um mercado cultural, de fato. Terceiro por ter-me feito rever conceitos e maneiras do fazer artístico. E quarto por somar técnicas e experiências a minha vivência artística. E o retorno, o que te motivou a voltar para Santa Maria? E ainda, o que tu visualiza agora, o que temos pela frente, quais são as perspectivas? Durante esse período de dois anos que passei em São Paulo, acompanhei com entusiasmo a movimentação das ações culturais do Macondo Coletivo, e, além disso, me agradou a idéia de ter um novo festival de teatro na cidade, o FETISM. Vejo nesse movimento a possibilidade de construir um mercado produtivo e principalmente uma produção teatral considerável e reconhecida. O Circuito Fora do Eixo e o projeto Palco Fora do Eixo proporcionam a quebra das fronteiras da cidade, do estado e provavelmente do país. E quando falo em mercado não me refiro só ao mercado capitalista, mas também no mercado de trocas, como propõe as ações do Fora do Eixo pelo país afora. O fato de a estréia do projeto ser em São Paulo com a presença de artistas santa-marienses comprova isso. Acho que se pode sim, ao contrario do que pensam muitos, morarmos em uma cidade “do interior”, produzindo e construindo espetáculos e ações artísticas, e a partir desse local - mais agradável de se viver - mostrar nosso trabalho para o mundo.

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Editorial

(por Claudia Schulz)

As luzes se apagam, a cortina se abre lentamente, em cena: a movimentação teatral desencadeada pelo Palco Fora do Eixo. Entre diretores, atores e clowns uma mesma vontade: fazer teatro, fazer acontecer! Estimulados por essa efervescência surge o Palco de Papel com a missão de colocar em palavras e registrar o que acontece de relevante e inusitado na área das Artes Cênicas em âmbito nacional e municipal. Entrevistas com grupos em cartaz, personalidades,curiosidades, correspon-dentes, burocráticos e informativos compõem a cena dessa estréia. O Palco de Papel anuncia, como um arauto, o cortejo dos peregrinos teatrais, que não cansam nunca de girar a manivela do realejo.

Entre Gags e Qüiproquós (por Atílio Alencar) Divulgação “A Ida ao Teatro” Marcele do Nascimento e Cristiano Bittencourt

Obrigado, Tiago!

www.palcoforadoeixo.blogspot.com

O Grupo Teatro Universitário Independente (TUI) inaugura a programação anual do Palco Fora do Eixo em Santa Maria com o espetáculo A Ida ao Teatro no dia 25 de março, às 19h na Praça Saldanha Marinhas. Aqui você confere uma conversa com dois integrantes do grupo (Marcele Nascimento e Cristiano Bittencourt) sobre teatro, política e cultura. Bom, pra começar, queria que vocês falassem brevemente do espetáculo que será apresentado na estréia do palco Fora do Eixo em Santa Maria.

A montagem intitulada A ida ao Teatro, do dramaturgo Karl Valentin, trata-se de uma livre adaptação para a rua. A cena retrata o universo conturbado de dois moradores de rua que procuram pela cidade um bom local para instalar suas quinquilharias. A trama é recheada quiproquós e gags típicas dos clowns, sugeridos por Valentin, que beiram em seu cotidiano o universo de um teatro anarquista característico do período entre as duas grandes guerras mundiais. Como foi o processo de criação do espetáculo, levando em conta que é um trabalho pensado enquanto arte de rua? A pesquisa de texto neste caso é mais específica, ou vocês acreditam que não há restrições estéticas para um espetáculo de rua?

O processo de criação contou com estudos teóricopráticos e utilizamos como base teórica o livro Circo Soviético, por apresentar uma possibilidade de clowns politizados beirando o panfletário, onde os fatos do cotidiano caminham para desvendar as inúmeras opressões sofridas pelos seres humanos.

Tecnicamente utilizamos o jogo das triangulações e das dilatações espaciais para tornar possível a encenação no espaço da rua, visto que o texto é escrito para o palco italiano. Acreditamos que a rua é um espaço de popularização e democratização da arte e também serve de espaço para a resistência, visto que os teatros continuam vazios. Esteticamente qualquer texto ou idéia pode ser representada na rua, o que precisa ser feito é uma adaptação e buscar um suporte teórico (técnicas) pertinentes para a rua. Vocês acreditam no Teatro de Rua como um meio de democratizar a arte, ou o ritmo de vida contemporâneo impede as pessoas de se aterem a estas manifestações? Afinal, qual o propósito de levar o teatro para rua? SE VOCÊ NÃO VAI AO TEATRO, O TEATRO VAI ATÉ VOCÊ. Parece panfletário e é, mas a idéia é tentar resistir e contribuir para instigar nos transeuntes a necessidade de consumir bens culturais. Por mais estranho que possa parecer, o teatro precisa voltar-se para a formação de novas platéias e neste aspecto as escolas e a rua oferecem um terreno fértil e inesgotável. Já há algum tempo o Grupo TUI vem apresentando uma série de comédias - variando de verves absurdas até as mais escrachadas, daria para dizer que o grupo tem uma linha de pesquisa específica, ou vocês seguem experimentando linguagens diversas? Sempre buscamos experimentar distintas linguagens, mas não podemos negar as influencias que nos constituem enquanto humanos. E, no nosso caso, as comédias, farsas, enfim, o teatro popular, são os grandes responsáveis por sermos da maneira que somos, temos nossas convicções claras... e jamais conseguiríamos nos afastar dessa origem que é o popular, o subversivo. Enfim, pra gente ser um pouco provocativo: vocês definiriam o TUI como um grupo político, preocupado em pensar também o teatro e a cultura na cidade? Se sim, como vocês vêem o panorama teatral hoje em Santa Maria? Político sim, afinal viver é um ato político e apesar de uma parcela do grupo não gostar deste termo Teatro Político ou panfletário, historicamente o grupo se constituiu assim. E, radicalizando um pouco no aspecto cultural, um grupo que tenta há 49 anos sobreviver da arte em uma sociedade neoliberal e globalizada e além desta difícil tarefa também se propõe administrar um espaço alternativo para a comunidade artística e local - mesmo sendo inviável economicamente - me parece ter um papel político inquestionável dentro da marginalizada e repudiada arte panfletária. Teatro político sim, partidário não. Sobre o panorama teatral em Santa Maria, não gostaríamos de comprar uma briga com a classe, mas poucos o fazem com o profissionalismo que este requer, salvo que profissionalismo neste caso em nada tem a ver com formação profissional. Gostaríamos de, finalizar com a frase de Federico Garcia Lorca que muito inspirou e continua inspirando o TUI: “Um povo que não ajuda ou não fomenta seu teatro, senão está morto, está moribundo.”


EXPEDIENTE Redação: Cláudia Schulz, Vanessa Giovanella e Luise Scherer Entrevistas: Atílio Alencar de Moura Corrêa e Leonardo Retamoso Palma Colunista: Maurício Schneider Colaborador: Artur Faleiros Revisão: Talita Tibola Programação Visual: Elias Maroso

Cultura é comoAmor: Todas as Formas Valem a Pena Foto por Cláudia Schulz

E-mail: palcoforadoeixo@gmail.com Construindo um Palco (por Artur Faleiros) Integrado ao Circuito Fora do Eixo surge, em meados de Fevereiro de 2010, o Palco Fora do Eixo. Alicerçado em coletivos de São Paulo - Enxame Coletivo (Bauru) e Colméia Cultural (Araraquara) - e Rio Grande do Sul - Macondo Coletivo (Santa Maria) – o grupo pretende atuar e ser responsável pela parte das artes cênicas da rede social que tem trabalhado com difusão cultural pelo país. Com a intenção de promover, produzir, fomentar e integrar as artes - mais especificamente o teatro, a performance e o malabarismo – o Palco Fora do Eixo pretende contribuir com a rotatividade, formação e profissionalização de artistas, trabalhando com novos conceitos provenientes desta interação artística. Para aplicarmos tais conceitos, ações já estão sendo planejadas. No fim de março o Colméia Cultural promoverá o Festival Gaia, que contará com ações pontuais para iniciar os trabalhos. Também em março, acontece o lançamento do Palco Fora do Eixo em Santa Maria, realizado pelo Macondo Coletivo. Já em Junho ocorrerá o Festival produzido pelo Enxame Coletivo, o grupo terá grande destaque na grade de programação. De forma mais ampla, o Palco Fora do Eixo fará sua estréia em São Paulo, no Festival Fora do Eixo que ocorrerá em Abril oferecendo três dias de programação de palco envolvendo oficinas, apresentações e intervenções relativas às artes corporais contemporâneas. Acreditamos que o fato de ligar artistas de diferentes áreas é muito produtivo para as particularidades envolvidas como para a cultura em geral que acaba sendo incentivada com tais ações. Pretendemos fazer com que essas artes caminhem de uma forma cada vez mais íntima deixando mais rico o cenário e os diferentes palcos.

AGENDA - PROGRAME-SE A agenda do Palco Fora do Eixo! Fique de olho na programação do circuito, mês a mês. 23/03 – Ditirambo - Festa de lançamento do Palco Fora do Eixo, com cortejo saindo da frente do Macondo Lugar às 21 horas. Onde: Zepellin. Entrada: R$ 4,00. 25/03 – “Ida ao Teatro” - Espetáculo de rua, às 19hs na Praça Saldanha Marinho. Apropriando-se da linguagem clownesca e da dinamicidade do teatro de rua, o Grupo TUI acelera e enlouquece os espectadores a partir de um conflito aparentemente simples: ir ao teatro. 09,10 e 11/04 – Lançamento Palco Fora do Eixo Nacional integrado ao Festival Fora do Eixo em SP. Onde: Oficina Cultural Oswald de Andrade, Centro cultural Rio Verde e Casas noturnas em SP. 14/04 – Ditirambo – Festa de Divulgação da programação do Palco Fora do Eixo do mês de abril, com cortejo saindo da frente do Macondo Lugar às 21 horas. Onde: Zepellin. Entrada: R$ 4,00. 23/04 – “Gabriela Cravo e Canela” – às 20hs, local a confirmar. O Grupo Teatral “Por quê não?” conta a história de amor entre o árabe Nacib, dono do bar mais famoso da cidade, e a cozinheira Gabriela, retirante que chega a Ilhéus fugindo da enorme seca que assolava o sertão nordestino. O valor do ingresso é R$ 5,00, ou R$ 3,00 + 1Kg de alimento não-perecível. Para maiores informações sobre as atividades do Palco Fora do Eixo em todo o país, visite o nosso blog:

palcoforadoeixo.blogspot.com

Teatro “De Dentro pra Fora” (por Vanessa Giovanella)

A Cidade dos Desencontros (por Maurício Schneider)

Falar sobre a produção teatral nas cidades mais afastadas da capital do Rio Grande do Sul também exige que se perceba a presença intensa dos festivais de teatro na evolução dos grupos teatrais, como fonte de criação de experiências, ganas de referencial teórico, expansão das pesquisas e garantia de público. Pessoas se agregando para usar o teatro como forma instintiva de expressão, às vezes para divertir, outras para gritar suas inquietações, se multiplicam em nosso estado. À medida que os grupos vão se formando surge o contato com as primeiras necessidades para qualquer pesquisa teatral poder ser trabalhada. Questões como “Onde ensaiar?”, “Onde conseguir textos ou como produzir textos?”, “Onde apresentar os espetáculos produzidos?”, “Onde fazer oficinas específicas de teatro?” começam a tomar espaço. A maioria das cidades não possui um espaço para teatro. Começa então o trabalho dos grupos na recriação de espaços cedidos pela prefeitura, escolas ou locais alugados através de patrocínio ou apoio cultural, como os clubes usados para fazer as festas importantes dos municípios (o que é um grande reconhecimento). Essas vivências trazem dificuldades que se transformam em impulso criativo e fonte de experiência aos integrantes das Cias que se descobrem produtores culturais. Alguns grupos além de produzirem seus espetáculos, promovem encontros maiores onde se torna possível apresentar, discutir e assistir teatro, como é o caso dos festivais que aumentam todo o ano no estado. Preocupações com a contratação de iluminação necessária para que a recriação dos planos de luz possa ser montada, equipamento de som, cadeiras... muitas cadeiras, camarim, coxias - porque nem todo espetáculo é concebido pra rua - são pontos em comum nas produções independentes. Os integrantes dos grupos teatrais assumem os trabalhos internos dos eventos como portaria, venda de ingressos, recepção, alimentação, equipe de apoio, alguém para passar muitos litros de café (geralmente a mãe de um dos teatreiros), resolvendo assim, boa parte da falta de verba e fazendo com que o evento aconteça.

Ultimamente tenho tendido a considerar os possíveis enquanto material de potência produtiva, colocando assim em cheque o poder da criação. Há dois anos ainda com os pés no pampa, onde o deslocamento geográfico quase sempre abarcava a mitológica "garganta do Diabo" - hoje delicadamente convertida em "Vale do menino Deus" - ouvi de um companheiro de trabalho que era quase impossível "criar" algo representativamente novo nos tempos de hoje. Foi neste ponto exato que comecei a questionar-me quanto ao sentido da palavra criação dentro do universo artístico. Certamente o poder presente nessa palavra desperta um certo vanglorismo tóxico para quem busca se conceber sempre na medida da planificação, da rasura. Mais tarde quando a possibilidade de fechar o ciclo "boquinha do monte", e a necessidade de irromper por novas paragens se manifestou, São Paulo rasgou o horizonte das possibilidades com a seguinte sentença: "Sempre há abarrotamento de produção numa metrópole, entretanto há que fazer seu espaço." Ao ouvir essa esperançosa lamúria não preveni minhas pernas para tanta peleja. São Paulo nasceu a meus olhos com uma Avenida Paulista nem tão majestosa quanto o furor dos que por ali passavam; mas essa insatisfação pertinente não serviria em nada para incompreender a velocidade do tempo na capital Paulista, muito menos para dar suntuosidade às lanternas do primeiro bairro que desejei conhecer: Liberdade. Considero a rotina o único material passível de traçar um caminho tenha ele o sentido que tiver, e dentro dessa perspectiva risonha o dia a dia na "cidade dos desencontros" ganha uma proporção espantosa. Há, aqui, a possibilidade de nascer e morrer com cem anos podendo almoçar sem repetir o mesmo restaurante, além de escolher entre aproximadamente mil e trezentas salas de cinema quando der vontade de ver um filme. Para quem procura um contato mais pessoal pode encontrar quase quatrocentos espetáculos de Teatro, Dança, Circo e performance sendo apresentados diariamente; sem falar nos eventos de música - eternamente populares - e nas exposições de arte. Por falar nisso os paulistanos esperam ansiosamente a megaexposição de cento e setenta obras do consagrado artista da Pop Art Andy Warhol. Tamanha espera não é de se surpreender levando em conta a popularidade de Warhol, e ainda mais em se tratando de São Paulo, considerada por mim o centro Pop do Brasil. Toda essa oferta gera uma demanda inimaginável, a não ser que você perceba que pode demorar semanas ou meses para conseguir rever um amigo, ou que você pegue um metrô lotado na famosa "hora do rush" (inconcebível para mim até então) na linha vermelha. Essa linha é responsável pela revitalizarão de inúmeras ferrovias esquecidas desde a queda da economia cafeeira e proporciona também a incrível experiência de estar na estação da Sé na bendita hora em que nos sentimos "como gado a caminho do matadouro". Entretanto esse trajeto concentra em si a região mais incrível da cidade a meu ver: o antigo Centro Novo, com seus prédios destacando a arquitetura e o abandono do período de ascensão do mercado econômico nacional. Definitivamente essa é a minha região preferida da cidade, que durante o dia parece não fechar com sua atual estética residencial, e que a partir da "hora mágica" recebe todos os seres da noite sejam eles carnais ou não. A noite é uma coisa bastante controversa em São Paulo para quem gosta da rua, principalmente depois da lei anti-fumo e do "Psiu" que pegou a Rua Augusta e região no exato momento em que ela passava por uma renovação; ressurgiram casas noturnas, a Praça Roosevelt configurando-se como o point dos artistas de teatro, o Bloco de rua Baixo-Augusta, e a famosa deambulação noturna que fez da região muito mais do que uma zona de prostituição. Dizem por aqui que "praia de paulista" é shopping (lugares assustadores), entretanto a noite é certamente dos barzinhos e de um novo tipo de curtição cada vez mais popular entre os habitués noturnos: as festas em casa. Cada vez mais esse tipo de balada invade os salões de condôminos,

(por Cláudia Schulz)

Essas palavras saíram da boca de nosso excelentíssimo Ministro da Cultura, Juca Ferreira, durante sua fala na abertura da Pré-Conferência Nacional de Cultura que realizou-se entre os dia 07 e 09 de março de 2010, no gramado da Esplanada em Brasília, promovida pelo Ministério da Cultura e pela FUNARTE. Cerca de 150 delegados estaduais das setoriais de teatro, dança, circo, artes visuais, música, artes digitais, culturas populares entre outras dedicaram-se, em três dias de programação intensa, à discussão sobre as necessidades de cada setor dividindo-se em cinco grandes eixos: produção simbólica e diversidade cultural; cultura, cidade e cidadania, cultura e desenvolvimento sustentável; cultura e economia criativa e gestão e institucionalidade. Como delegada da regional sul juntamente com Maurício Rosa - técnico de iluminação e representante do SATED (Sindicato dos Artistas e Técnicos de Espetáculos de Diversões) e Márcio Silveira - representante da Rede Brasileira de Teatro de Rua; pude entrar em contato com uma diversidade de pensamentos, dificuldades e realidades que desafiam o fazer teatral nos recôncavos mais distantes de nosso Brasil, os quais não inibem que a mágica do teatro se concretize frente aos olhos e sorrisos de crianças ribeirinhas, que alimentam a vontade e estimulam os agentes teatrais a continuar e buscar novos parâmetros para a cultura. Durante estes dias de plenárias inacabáveis, os relatos das longínquas regiões me pareciam extremamente próximos e com pontos semelhantes, mesmo que divergindo em alguns momentos, divergências que não deixaram de gerar discussões saudáveis para o amadurecimento. A potencialização da diversidade cultural da setorial de teatro brasileira lutou conjuntamente pela implementação de políticas culturais que respeitem os diferentes setores artísticos bem como as necessidades de cada região, sem olhar pelo espelho retrovisor. Sinteticamente, nos cinco eixos discutidos foram formuladas propostas a serem encaminhadas e, se possível, aprovadas na II Conferência Nacional de Cultura que ocorreu de 11 a 14 de março: 1) Garantir junto ao Ministério da Educação a criação, a implementação, a ampliação e o fortalecimento de cursos de formação na área das Artes Cênicas, 2) Criação de Programas federais, estaduais e municipais de transformação e utilização de espaços públicos em Equipamentos Culturais, requalificando, inclusive, áreas urbanas, através de ferramentas que garantam a permanência e continuidade destes Equipamentos, 3) Garantir a criação de programas e políticas públicas permanentes de intercâmbio, fomento e circulação da produção teatral através de mecanismos de incentivo, 4) Readequação do projeto de lei nº 6722/2010 PROCULTURA , 5) Realização de um mapeamento do teatro brasileiro, em toda a sua diversidade cultural e em todos os elos da sua cadeia produtiva, criando uma plataforma virtual para registro e divulgação da história da produção teatral nacional. Agora permanece a expectativa de que essas diretrizes provenientes do diálogo gentil entre as diversidades que constituem a cena teatral brasileira tornem-se uma realidade, ganhem força e visibilidade fomentando uma política cultural voltada à sustentabilidade, gestão, circulação e manutenção mínima daqueles que vivem de e para o teatro, porque só amor não basta.

Os festivais de teatro acabam sendo às vezes, a única maneira de alguns grupos apresentarem suas produções ou estrearem em outras cidades. Estimulando a produção, e a qualificação das formas de se fazer teatro.

Encontros como esses são fomentados pelo IEACEN (Instituto Estadual de Artes Cênicas- Porto Alegre/ RS), que se faz presente, apoiando com debatedores de vários locais, que são profissionais da área. Debates que tornam a proximidade possível, possibilitando conhecer através de relatos, desde o laboratório até a estréia e as realidades que cada grupo enfrenta. Estimulando através de análises críticas, técnicas e artísticas, formas de se questionar montagens e estruturas dramáticas, trabalhando também com o público presente um maior entendimento da arte teatral. Além dessas preocupações, surge nos grupos, a necessidade de se ver teatro. Importantíssimo para quem trabalha com isso. Geralmente algumas produções teatrais não incluem alguns municípios em agenda e não existe um interesse político em possibilitar isso. Com menos investimento financeiro, vários grupos podem apresentar seus trabalhos e ver boas montagens e bons debates, em seus diversos entendimentos, nessas mostras de teatro. O maior contato entre pessoas que trabalham com arte dramática no estado, se dá nesses momentos. Pessoas que desde criança, agora já adultos, freqüentam os encontros, como público ou como participantes, festivais de até dezessete anos de vida proporcionam proximidade e intimidade entre pessoas que moram em cidades, estados e países diferentes. Conhecer pessoas, perceber diferentes formas de teatro, discutir teorias teatrais e sentir o público lotando os espaços abertos ao teatro, sem terem sido construídos pra isso. Discutir teatro durante turnos de vários dias sem se deslocar aos grandes centros, “de dentro pra fora”, são algumas das possibilidades que encantam a percepção desse movimento tão forte e tão real que acontece no nosso estado, no nosso “interior” de artista inquieto e faminto.


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