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Gazeta de Alagoas

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| DOMINGO, 07 DE NOVEMBRO DE 2010 |

A cultura africana se espalhou pelo mundo, mas somente no Brasil ela encontrou ícones tão distintos quanto um líder quilombola, os orixás e o deus do Islã. No mês da Consciência Negra, a Gazeta revê a história marcante, mas praticamente desconhecida, dos escravos muçulmanos no País. Os chamados malês foram trazidos para a Bahia, mas há indícios de sua presença em Penedo, em Alagoas, no início do século 19, quando promoveram uma rebelião contra os brancos da localidade. Nesta edição, você vai conhecer detalhes dessa saga a partir dos estudos de pesquisadores que se debruçaram sobre o assunto. Vale a pena conferir

ivo GA

Malês: religião e semântica

/Arqu

Após sua morte, no dia 20 de novembro de 1695, a figura de Zumbi dos Palmares se tornou ícone das causas do povo negro no Brasil. A escravidão foi extinta por lei em 1888, mas na prática o preconceito e as injustiças contra os afro-descendentes continuaram. Com o intuito de promover reflexões sobre a questão, a data da morte de Zumbi foi escolhida para celebrar o Dia da Consciência Negra. Desde 1971, todo mês de novembro passou a contar com um calendário festivo recheado de atividades promovidas por grupos, entidades e instituições representativas espalhadas por todo o País. Mas a história dos africanos no Brasil possui outros capítulos cruciais para a compreensão da presença negra no País, os quais muitas vezes ficam obscurecidos pela força do mito que comandou o Quilombo dos Palmares. Um deles diz respeito aos malês, povo de origem africana e de religiosidade muçulmana originalmente trazido para a Bahia, mas com indícios de aparições em Alagoas. Eis aí um aspecto peculiar da ascendência afro no País, mas ainda relativamente pouco esmiuçado. Em meados do século passado, antropólogos como Nina Rodrigues, Arthur Ramos e Abelardo Duarte (autor de Negros Muçulmanos nas Alagoas: os Malês, Edições Caetés, 1958), entre outros, iniciaram alguns estudos e levantaram aspectos e teorias sobre como esses contingentes se estabeleceram no Brasil. Mas foi somente na década de 80, com as pesquisas do historiador baiano João José Reis, que os estudos sobre o tema foram aprofundados. Ele investigou o levante malê na Bahia, ocorrido em 1835, em Salvador, e publicou a seminal obra Rebelião Escrava no Brasil – A História do Le-

vante dos Malês em 1835. Lançado originalmente em 1986, o livro ganhou edição revista e atualizada em 2003 pela Companhia das Letras. O mais curioso é que antes disso, em 1815, indícios levam a crer que houve uma rebelião malê em Penedo, aqui em Alagoas. As pesquisadoras Mariza de Carvalho Soares e Priscilla Leal Mello escreveram sobre o tema em Kulé Kulé – Visibilidades Negras (Edufal, 2006), volume que reúne diversos artigos sobre a história dos negros no estado. Mesmo com pesquisas relativamente esparsas, há alguns consensos na abordagem dos estudiosos sobre os malês. Além da identificação étnica e religiosa – eles eram negros muçulmanos trazidos da África –, o povo malê sabia ler e escrever, pois só assim poderia compreender os textos sagrados de sua religião. A partir daí, desenvolveram surpreendente organização administrativa e militar – pois já travavam guerras com outros povos africanos que os perseguiam em função de sua religiosidade. Esse aspecto ajuda a desmistificar o falso conceito de que os escravos eram quietos ou passivos. O levante dos malês na Bahia é apenas um registro entre as centenas de rebeliões engendradas por comunidades, quilombos e senzalas durante o período da escravatura. Em Bantos, Malês e Identidade Negra (Autêntica, 2006), Nei Lopes anota o perfil diferenciado dos malês em relação a outras etnias de escravos. “Dado o grau considerável de escolaridade e consciência política com visão e experiência militar, com maior capacidade de organização e conhecendo técnicas mais novas de fabricação e uso de armas, certamente transmitiam aos outro(as) negros(as), juntamente com as informações sobre o que se passava em África, o germe da revolta e da insubmissão”.

eitosa

Repórter

José F

| FERNANDO COELHO

severança, do IHGAL: meia-lua remete à simbologia do Islã

Oxóssi, Ogum, Iemanjá e Oxum. Os nomes dos orixás remetem aos cultos e religiões afro-brasileiras, mas houve um período na história da colonização africana no Brasil em que os povos nagôs e haussás trouxeram consigo a simbologia sagrada do islamismo. Oriundos do norte da Nigéria e do leste do Benin, eles chegaram ao território brasileiro na condição de escravos após serem feitos prisioneiros em função das jihad (guerras santas) em seu continente. Em geral, os autores reconhecem que, ainda na própria África, houve uma espécie de sincretismo entre o Islã e as religiões africanas. Os ensinamentos de Alá e Maomé já chegaram adulterados e lá foram associados a ritos e regimentos tribais, fato que originou uma comunidade muçulmana com características bastante particulares. “Eles reconhecem que a penetração da crença islâmica se deu em nível diferenciado entre os diversos povos africanos”, escreveu a pesquisadora Maria Christina Moreira, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), no artigo O Levante dos Malês: uma Discussão dos Conceitos Religiosos. No Brasil, a assimilação se deu de forma mais superficial, sendo os nagôs mais adeptos do sincretismo com os tradicionais orixás e os haussás mais restritos aos fundamentos do Islã. “[Os autores] afirmam que os malês mais velhos se dedicavam a passar seus ensinamentos, apesar das dificuldades impostas pela escravidão”, diz a pesquisadora.

CONOTAÇÃO PEJORATIVA A história dos malês tem outro aspecto inusitado: eles não se chamavam pela alcunha que ficaram conhecidos, pois o termo carregava conotação pejorativa para o povo muçulmano. No texto Denominações para os Muçulmanos no Sudão Ocidental e no Brasil, Rolf Rezchert explica que “a palavra malê era somente dita por afiliados de outras crenças e nunca pelos próprios ‘malês’”. Em seus estudos, o antropólogo Arthur Ramos observou a introdução do islamismo no Brasil via África pelos haussás e reiterou a rejeição do termo “malê” pelos próprios. “Os negros haussás mahometanos na Bahia, verdadeiros musulmis [muçulmanos], desconheciam o termo malê, para eles qualificativo de desprezo”. Em Negros Muçulmanos nas Alagoas: os Malês, Abelardo Duarte complementa: “Tanto assim é que os haussás, considerados os verdadeiros negros maometanos, os que praticaram o culto a Alá com maiores rigores, tomavam o termo malê como deprimente, ofensivo”. Gostando ou não do nome a eles atribuído, os malês chegaram a Alagoas. No mês da da Consciência Negra, a Gazeta descortina alguns detalhes dessa história com a ajuda do clássico estudo de Abelardo Duarte e das pesquisas realizadas por Mariza de Carvalho Soares e Priscilla Leal Mello. É a partir desses trabalhos que você vai saber como até no folclore há resquícios da presença malê em solo alagoano. Confira a seguir. |FC

Continua nas págs. B2 e B3


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CONTINUAÇÃO DA PÁGINA B1 Fotos: José Feitosa/Arquivo GA

Escravos muçulmanos viveram em Alagoas Os registros não são numerosos, mas pesquisadores confirmam que há indícios da religião muçulmana na história da presença africana no estado | FERNANDO COELHO Repórter

Embora o Censo 2010 do IBGE esteja em processo de finalização, os dados anteriores apontavam que 46% da população brasileira era formada por afro-descendentes, ou seja, classificados como negros e pardos. Em Alagoas, esse percentual subia para 68,8%. Em alguma fração dessa estatística há supostamente remanescentes dos malês que habitaram Penedo no início do século 19. Mas além dos textos de Abelardo Duarte, Alfredo Brandão, Mello Moraes e, mais recentemente, dos estudos realizados pelas pesquisadoras Priscilla Leal Mello e Mariza de Carvalho Soares, não há muitas informações sobre os aspectos humanos, sociais e culturais da presença malê em território alagoano. Ao esmiuçar a obra Negros Muçulmanos nas Alagoas: os Malês, as pesquisadoras Priscilla Mello e Mariza Soares constataram que os malês chegaram ao estado após uma fuga da Bahia, durante o governo do Conde dos Arcos (1810-1818). Estima-se que a vinda para Alagoas tenha acontecido após uma das revoltas ocorridas em 1814. Uma parte dos escravos fugitivos rumou para a região do Recôncavo Baiano, e a outra veio para Alagoas. A presença malê na Bahia era igualmente proporcional às dificuldades que enfrentavam numa sociedade escravagista e extremamente católica. Assim, os malês eram duplamente discriminados. Organizados, letrados e com conhecimentos administrativos e militares, os escravos muçulmanos pareciam sempre dispostos a se firmar aonde chegavam. Não tardou e, em 1815, eles

organizaram um levante contra os brancos em Penedo. Ao final, o saldo foi negativo para o lado dos malês, com escravos mortos e feridos. “Outros continuaram a honrar a Deus e jejuar, e provavelmente participar das comemorações coletivas do lugar, como os folguedos natalinos”, escreveu Mariza Soares no texto “O Restou Perdeu-se” – História e Folclore: o Caso dos Muçulmanos de Alagoas, publicado na coletânea Kulé Kulé – Visibilidades Negras lançada pela Edufal. Além dos artefatos encontrados na Coleção Perseverança, presente no acervo do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas (IHGAL) que reúne peças remanescentes dos cultos afro-brasileiros realizados em Alagoas ao longo dos séculos 18 e 19, há resquícios da religiosidade malê na chegança, folguedo natalino. De um lado a guerra, do outro a festa. O folclorista Théo Brandão apontou traços e alusões à religião islâmica em festejos populares que celebravam a expulsão dos mouros e a constituição do Reino de Portugal, como apontam Mariza Soares e Priscilla Leal, embora as letras dos cânticos misturem referências geográficas aparentemente distintas ao citar Turquia e não a Nigéria, por exemplo. “A chegança relata e revive uma guerra religiosa referida a um passado distante e confuso em sua geografia e cronologia. Mas é curioso pensar que pelo menos uma pequena parte da população cristã alagoana tivesse, no início do século 20, uma imediata ancestralidade muçulmana”, escrevem as pesquisadoras. “Se provavelmente a maioria deles não conseguiu chegar ao novo século, seus filhos o fizeram”.

CURIOSIDADES DOS MALÊS NO BRASIL Marcas na paisagem A presença malê na Bahia foi devidamente registrada não somente em documentos oficiais, mas também na arquitetura, nas vestes, nos costumes, palavras e até em inscrições em árabe encontradas na Igreja da Lapinha. De branco às sextas Outra teoria acredita que o hábito dos baianos se vestirem de branco às sextas-feiras não é originário do candomblé, e sim dos africanos muçulmanos que integraram a Revolta dos Malês, em 1835. Até as típicas roupas baianas podem ter sido inspiradas nos malês. Banho e lavagem Na religião islâmica há a orientação para o corpo e o templo serem sempre limpos para a realização das orações a Alá. Diz-se que a lavagem das escadarias do Bomfim, em Salvador, bem como o hábito de banhos perfumados com água de cheiro, veio dos malês. Nos morros cariocas Devido às perseguições após as rebeliões em Salvador, uma parte dos malês migrou para o Rio de Janeiro e foi responsável pela ocupação de alguns morros cariocas. Há inclusive teorias sobre uma possível ligação entre a cultura malê e o samba.

No Ceará A estudiosa Priscilla Leal Mello encontrou indícios – numa única referência bibliográfica – de malês que também chegaram ao estado do Ceará. Madrassas Priscilla Mello destaca a criação pelos escravos das chamadas escolas corânicas ou madrassas. “Imagine isso na Salvador do século 19, no Império do Brasil, neste país que ainda hoje debate que rumos dar à educação e ainda faz dela eterno instrumento de barganha política”, compara Priscilla. “Esse fenômeno, inclusive, também é observado em outras regiões para onde muçulmanos foram levados como escravos. Um exemplo é o Caribe”, destaca a estudiosa. “Infelizmente, não temos para Alagoas as madrassas que encontramos na Bahia. O que não significa, obviamente, que não possam ter existido”. Adaptação do Ramadã A pesquisadora explica que houve adaptação do Ramadã (celebração muçulmana) em festas realizadas em Penedo. “Se bem me recordo, eles festejavam por três dias o jejum. Depois, a quebra com o arroz d’aussá e a carne de carneiro. Os rituais de ablução também são citados nas fontes”.

| SINCRETISMO | A religião muçulmana praticada pelos escravos africanos já chegou ao Brasil com aspectos bastante particulares; posteriormente, pode ter sofrido influência dos cultos aos orixás, como mostram algumas peças que integram a Coleção Perseverança

“Há indícios da presença malê em Penedo” Em maio de 2009, a pesquisadora Priscilla Leal Mello defendeu na Universidade Federal Fluminense (UFF) a tese de doutoramento intitulada Leitura, Encantamento e Rebelião. O Islã Negro do Brasil do Século XIX. Ela, portanto, é especialista no assunto. Entre o final de 2005 e o início de 2006, Priscilla veio a Alagoas para obter informações sobre a presença malê no estado. Deparou-se com material relevante, embora acreditasse inicialmente que haveria mais vestígios do que de fato encontrou. A seguir, a estudiosa esclarece em entrevista alguns pontos relativos à presença dos escravos malês em Alagoas e no Brasil. Gazeta – Além dos textos de Abelardo Duarte, Alfredo Brandão e dos artefatos encontrados na Coleção Perseverança – alguns deles com simbologia supostamente da religião islâmica –, há outros indícios ou reminiscências da presença dos malês em Alagoas? Priscilla Mello – Os vestí-

gios são ainda hoje visíveis em alguns candomblés, que em Alagoas vocês chamam de xangôs. Também encontramos referências orais acerca de candomblés malês na Bahia e no Rio de Janeiro. Há inflexões, como a que os árabes mais ortodoxos utilizam para a oração a Alá. Há vestígios de orações e de amuletos, ainda hoje utilizados pelos adeptos da religião que acolheu vestígios de tantas outras. No caso das Alagoas do século 19, que foi o período que eu e a professora doutora Mariza de Carvalho Soares buscamos, há indícios da presença malê na cidade de Penedo, a chamada Ouro Preto do Nordeste. São vestígios raros, mas muitíssimo ricos. Um deles está publicado na Festa dos Mortos, do historiador Mello Moraes. Outros indícios da presença malê em Penedo, cidade que visitamos em 2005 em busca de fontes que pudessem ampliar o rol de que dispúnhamos, referem-se a dois testamentos de escravos. Um deles é de Bebiana Maria da Conceição, datado de 1886, que traz uma série de ricas informações acerca das confluências étnico-religiosas de seu tempo. Devota confessa do culto a Maomé, ela pede

para ser enterrada nos moldes do catolicismo. Um outro documento, também um testamento, é o de um homem de nome Benedicto Dultra. Esse de 08 de julho de 1888. Veja como as referências islâmicas, via diáspora africana, persistem mesmo após a Abolição. Além da beleza dessas fontes, a descrição de Mello Moraes traz relatos fantásticos de como foi possível manter viva a memória da cultura trazida da África distante em ambiente católico e escravo. Deixamos Alagoas com uma grande frustração: onde estariam os outros testamentos da época, que tanto poderiam esclarecer-nos acerca da vida daquelas comunidades? Pelos cálculos que fizemos, acreditamos que eles tenham habitado uma região a que hoje dão o nome de Barro Vermelho. Além das práticas religiosas, é possível identificar outros traços (étnicos e culturais) que diferenciavam os malês dos outros povos africanos trazidos para o Brasil?

O traço mais interessante, e que foi o que eu explorei ao máximo em minha pesquisa, é a escrita árabe. Não foi poss��vel identificar documentos escritos em árabe na região das Alagoas. Para Salvador, na Bahia, os exemplos são fartos. Um estudo dos documentos deixados, e traduzidos por especialistas da Biblioteca de Paris, revela igualmente – como nos testamentos de Bebiana e Benedicto – um feixe de diferentes influências étnicas. A partir de um rol de 30 documentos, que hoje fazem parte do Acervo Público do Estado da Bahia, é possível identificar a riqueza de procedimentos linguísticos empregados por aqueles escravos, sobretudo homens. A explicação para isso não está, obviamente, em uma questão de gênero. Mas nas linhas gerais da diáspora islâmica, que destinava homens para as Américas e mulheres para a escravidão no Norte da África e em outras regiões do mundo muçulmano. Fato é que esses homens realizavam procedimentos de escrita que tinham o árabe como alfabeto, mas outras línguas africanas como linguagem. O que eu quero dizer é que eles escreviam, por exemplo, em língua haussá, mas usando a lín-

gua árabe. Por tudo isso, já se pode perceber a grandiosidade de traços étnicos e culturais que o Mundo Atlântico produziu. Em Alagoas, houve o levante de 1815, num movimento dos malês locais contra os brancos da cidade de Penedo. Quais os principais aspectos desse levante? Ele teve alguma ligação ou influência com a revolta de 1835, quando os malês tentaram uma malograda insurreição em Salvador?

Nas entrelinhas do rol de fontes da Devassa, onde fui buscar dados acerca de modos de escrita e madrassas improvisadas na Bahia, encontrei uma referência muitíssimo interessante acerca dessa ligação entre os malês de Salvador e do Recôncavo com outros grupos dispersos pela região. De uma forma um tanto ousada, eu chamo esse fenômeno de “conexão Nordeste”. Mas acredito que minha hipótese tenha grandes chances de ser confirmada, embora eu aqui vá me referir ao que se poderia chamar de um fiapo de memória, tão restrita é a referência a essa ligação. Embora tenha durado apenas três horas, qual a dimensão histórica desse episódio ocorrido na Bahia?

Sempre que penso na dimensão da rebelião, busco a comparação que João José Reis, autor de um livro fundamental sobre o tema – Rebelião Escrava no Brasil –, faz entre a Salvador de 1835 e a Salvador de hoje. Segundo palavras do próprio João, “se uma rebelião das mesmas proporções acontecesse na virada para o século 21 em Salvador, com seus quase três milhões de habitantes, resultaria na punição de cerca de 24 mil pessoas”. Isso, segundo ele, “dá uma ideia da dramática experiência vivida pelos africanos e outros habitantes da Bahia em 1835”. Imagine o que um episódio como esse, que percorreu os jornais e o ouvidizer de norte a sul do Império, poderá ter provocado... Aqui, teríamos uma longa e penosa discussão historiográfica a percorrer. Teses que afirmam ter a Rebelião de 1835 resultado em ferozes perseguições em outras regiões do Império, inclusive no Rio de Janeiro. E outras teses que questionam a força dessas narrativas, apontando a possibilidade dessa “perseguição” ter sido agigantada mais por interesses políticos na busca de maior controle sobre a população do que por uma crença verdadeiramente fundada em uma real ameaça islâmica. |FC Arquivo pessoal

Priscilla Mello (UFF) veio a AL em busca de informações


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| programe-se | MÚSICA Concerto aos Domingos. Um dos mais importantes projetos musicais desenvolvidos em Maceió, hoje (07) o Concerto aos Domingos celebra o centenário da Sociedade Musical Filarmônica Santa Cecília, de Marechal Deodoro. Sob a regência do maestro Florisjan Cahet, como de costume o concerto tem como palco o Salão Nobre do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas (IHGAL). No programa, peças de nomes como Waldir Azevedo, Perez Prado, Ary Barroso e Andrew Lloyd Webber, entre outros. ›› Salão Nobre do IHGAL. Rua do Sol, 382, Centro. Hoje (07), às 10h. Entrada franca. Mais informações: 8836-0048.

Nordeste Cantat. Em sua 12ª edição, o festival que presta homenagem ao compositor Noel Rosa (19191937) leva para as cidades de Arapiraca, Coqueiro Seco, Coruripe, Delmiro Gouveia, Maragogi, Marechal Deodoro, Penedo, Pilar, Piranhas, Porto Calvo, União dos Palmares e Viçosa, além de Maceió, atividades que vão de oficinas de técnica vocal e regência coral a apresentações de coros de Alagoas, de outros estados e de países vizinhos. No interior, o evento começa hoje (07); na capital, a programação vai de 10 a 14 de novembro, sempre às 19h30, no Teatro Deodoro. Já no dia 11 de novembro os grupos de canto coral soltam a voz na Paróquia de São Pedro Apóstolo, na Ponta Verde, também a partir das 19h30. ›› Teatro Deodoro. Pç. Mal. Deodoro, s/n, Centro. De 10 a 14 de novembro, sempre a partir das 19h30. Entrada: 1kg de alimento não-perecível. ›› Paróquia de S. Pedro. Rua Gaspar Ferrari Moura, 251, Ponta Verde. No dia 11 de novembro, às 19h30. Entrada: 1kg de alimento não-perecível. Mais informações: 8837-5011.

Fora do Eixo. E Maceió volta a figurar no roteiro da turnê indie cuja promoção – na capital – é assinada pelo coletivo Popfuzz em parceria com o Circuito Fora do Eixo. Atração no dia 09 de novembro no Banga Bar, em Jaraguá, dessa vez o público vai conferir os shows do grupo argentino Falsos Conejos, d’A Banda de Joseph Tourton, do Recife, e do trio Cross The Breeze, de Maceió. Esta é a maior turnê

que a rede já realizou: serão 34 datas em 43 dias, passando por dez estados. ›› Banga Bar. Rua Sá e Albuquerque, 474, Jaraguá. No dia 09 de novembro, a partir das 20h. Ingressos: R$ 5. Mais informações: 9620-1215 e no site www.popfuzz.com.br.

›› GAZETA INDICA

André Azevedo/Arquivo GA

Corujão Sesi. Projeto que agita as

Guilherme Arantes. Autor de sucessos que marcaram a memória de quem aprecia música brasileira, o cantor e compositor Guilherme Arantes vem a Maceió para única apresentação, no dia 12 de novembro, na casa de festas Renaissance. Com mais de 30 anos de carreira, o músico brindará o público com as canções que todos esperam ouvir, mas também com faixas de Lótus, seu mais recente álbum, no qual oferece uma bem dosada mistura de pop, baladas e bossa-nova contemporânea. Na abertura da noite, a dupla formada por Mannú (violão e voz) e Miran Abs (violoncelo). ›› Renaissence Festas & Eventos. Rua Pref. Abdon Arroxelas, 539, Ponta Verde. No dia 12 de novembro, a partir das 22h30. Preço: R$ 300 (mesa p/4 pessoas). Ponto de venda: Cia. das Havaianas (Maceió Shopping). Mais informações: 3235-4280 e 9979-5959.

CINEMA

MÚSICA ›› Concerto aos Domingos A Sociedade Musical Filarmônica Santa Cecília, que acaba de completar 100 anos, é a atração de hoje no projeto: às 10h, no IHGAL

madrugadas da capital com sua mistura de cinema e música, o Corujão tem nova edição no dia 13 de novembro, com a participação do diretor alagoano Cacá Diegues – ele acompanhará a exibição de 5x Favela – Agora por Nós Mesmos, filme que traz sua assinatura na produção. A programação tem início às 23h, com a apresentação do longa, seguida de um debate com a plateia. Após o bate-papo, que também contará com a presença de Renata Magalhães, esposa de Cacá e coprodutora de 5x Favela, o público vai conferir o filme Eu Matei Minha Mãe, de Xavier Dolan. Na sequência, às 03h15, tem show com a banda Anônimos da Sociedade Underground; às 04h, começa a projeção de O Profeta, de Jacques Audiard. Às 06h30, será servido o café da manhã. ›› Cine Sesi. Centro Cultural Sesi. Av. Dr. Antônio Gouveia, 1113, Pajuçara. No dia 13 de novembro, a partir das 23h. Ingressos: R$ 18 (inteira) e R$ 9 (meia). Mais informações: 3235-5191 e www.centroculturalsesi.com.br.

DANÇA

O Samba Pede Passagem. Com a

Nanda Oliveira/Divulgação

proposta de promover shows com artistas de samba a cada três meses, o projeto faz sua estreia no dia 13 de novembro, no Stella Maris Grill. Entre as atrações desta 1ª edição, os compositores Ibys Maceioh e Wanderley Monteiro – que se apresenta na casa na companhia de músicos locais. ›› Stella Maris Grill. Rua Eng. Paulo Brandão Nogueira, 290, Jatíuca. No dia 13 de novembro, a partir das 14h. Preço: R$ 100 (mesa p/4 pessoas). Mais informações: 9900-9279 e 9947-0190.

das na arte do sapateado, Felipe e Chikako se apresentam em Maceió no dia 13 de novembro: ao lado do duo Divina Supernova, eles mostrarão toda sua expertise no teatro do Espaço Cultural Linda Mascarenhas, num espetáculo calcado na improvisação. ›› Espaço Cultural Linda Mascarenhas. Av. Fernandes Lima, 1047, Farol. No dia 13 de novembro, às 20h. Mais informações: 9132-5828.

Blubearoll. Misturando blues, Beatles e rock’n’roll, a 5ª edição do festival itinerante terá como palco a Fazenda Baixa Funda, no município de Viçosa, a 90km de Maceió. Atração entre os dias 13 e 15 de novembro, a programação do evento reúne os grupos Bocão e a Casa Flutuante, Vagalume Blues Band e Papel de Parede, além do músico Rafael Aïssa e do DJ Peso, encarregado da projeção de imagens e da discotecagem. ›› Faz. Baixa Funda. Ligação ViçosaChã Preta, Km 6. De 13 a 15 de novembro. Mais informações: 9978-4519.

Místico Clã de Sereia. Com texto de Fernando Gomes e coreografia de Maria Emília Clark, o espetáculo da Academia e Companhia de Dança Maria Emília Clark celebra a obra do cantor e compositor alagoano Djavan. Atração nos dias 19, 20 e 21 de novembro no Teatro Gustavo Leite, a montagem marca também a passagem dos dez anos da companhia. ›› Teatro Gustavo Leite. Centro Cultural e de Exposições. Rua Celso Piatti, s/n, Jaraguá. Nos dias 19 e 20 de novembro, às 19h, e no dia 21, às 16h e às 19h. Mais informações: 3336-8292.

Felipe Galganni e Chikako Iwahori. Dupla das mais conceitua-

CINEMA ›› Corujão Sesi Com presença confirmada no evento, no dia 13, o cineasta alagoano Cacá Diegues assina a produção de 5x Favela – Agora por Nós Mesmos

Contatos: lekemorone@gazetaweb.com | Avenida Aristeu de Andrade, 355, Farol - Maceió-AL - Cep.: 57051-090

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Na Bahia, o levante em busca do poder Mariangela Nogueira/Divulgação

A Revolta dos Malês durou apenas três horas, deixou 70 escravos mortos e tornou-se o episódio mais marcante da histórica presença dos negros muçulmanos em Salvador | FERNANDO COELHO Repórter

“Ó humanos, em verdade, Nós vos criamos de macho e fêmea e vos dividimos em povos e tribos para reconhecerdes uns aos outros”. Onde quer que chegas-

sem, os malês tentavam colocar em prática o mandamento de Alá escrito no versículo 13 da 49ª Surata do Alcorão. Na Bahia não foi diferente. No intuito de estabelecer uma comunidade livre e lutar contra as injustiças sociais, os escravos muçulmanos promo-

CURIOSIDADES DA REVOLTA DE 1835 ›› O dia escolhido para a revolta era estratégica. Além de ser o domingo da festa de Nossa Senhora da Guia, a data representava o 25 de Ramadã, data sagrada para os muçulmanos e, segundo o historiador João José Reis, bem próxima do “Lailat al-Qadr, expressão traduzida para os idiomas ocidentais ora como Noite da Glória, ora como Noite do Poder”. ›› Segundo João José Reis, a maioria dos integrantes da rebelião era formada por escravos urbanos, que trabalhavam como alfaiates, pescadores, canoeiros, barbeiros, vendedo-

PARA SABER MAIS OS NEGROS MUÇULMANOS NAS ALAGOAS: OS MALÊS Autor: Abelardo Duarte Editora: Edições Caetés Preço: esgotado – disponível para consulta na biblioteca do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas (IHGAL) REBELIÃO ESCRAVA NO BRASIL – A HISTÓRIA DO LEVANTE DOS MALÊS DE 1835 Autor: João José Reis

res de frutas, legumes e carnes, transportadores de cargas e de pessoas (atividade comum na época) ou na casa de seus senhores, e encontravam melhores situações para se reunir do que os escravos rurais que trabalhavam nas lavouras do Recôncavo. ›› Os negros nascidos no Brasil, chamados de crioulos, não participaram da rebelião, que teve somente adeptos de origem africana. ›› Nem todos os escravos muçulmanos que viviam em Salvador participaram da revolta.

Editora: Companhia das Letras Preço: R$ 85, em média KULÉ KULÉ – VISIBILIDADES NEGRAS Autores: Bruno César, Rachel Rocha e Clara Suassuna (org.) Editora: Edufal Preço: R$ 25, em média BANTOS, MALÊS E IDENTIDADE NEGRA Autor: Nei Lopes Editora: Autêntica Preço: R$ 45, em média

veram diversos levantes contra uma opressora sociedade branca, católica e historicamente colonizada sob o domínio do Império Português. O mais famoso deles ficou conhecido como A Revolta dos Malês, ocorrida em 1835 em Salvador. Entre os estudiosos do tema, o historiador João José Reis, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), tornou-se referência após a publicação da obra Rebelião Escrava no Brasil: a História do Levante dos Malês em 1835. O pesquisador baiano aponta que a rebelião “não foi uma explosão espontânea, resultado de apressada decisão, como por vezes acontecera com revoltas escravas anteriores”. Na verdade, Reis estima que os primeiros planos foram traçados no ano anterior, num longo período de gestão que envolvia a elaboração de táticas, marcação de datas e repasse de informações aos escravos. Para a pesquisadora Maria Christina Moreira, da UERJ, a postura dos malês era de fato muito mais política do que religiosa. Mas, se daí eles pretendiam conquistar o poder e transformar Salvador numa espécie de nação malê, é outro ponto a ser discutido. Na visão de João José Reis, o principal estímulo para os escravos muçulmanos organizarem uma rebelião de maior porte foi um revide ao episódio em que o inspetor de quarteirão Antônio Marques interrompeu a celebração religiosa do Lailat al-Miraj em novembro de 1834. Na sequência, houve a destruição da “mesquita” da Vitória. “(…) lançou a discórdia e o abatimento sobre a comunidade malê. Feriu-lhe o orgulho e revelou sua fraqueza para a cidade. Os muçulmanos precisavam agir logo, fazer algo que evitasse uma debandada e uma

65 mil era o número de habitantes em Salvador na época da Revolta dos Malês

40 %

da população da capital baiana era formada por escravos

60 %

dos escravos de Salvador na época eram nascidos na África. Desses, cerca de 80% eram nagôs crise de confiança em sua causa”, escreveu o historiador. Assim, se a força era necessária para tornar o mundo um lugar melhor, os malês se prepararam para o confronto. Numa época em que o simples fato de celebrar suas cerimônias religiosas virava caso de polícia, os escravos tinham pouco a perder. E perderam. Na madrugada de 25 de janeiro de 1835, cerca de 600 homens se preparavam para se rebelar pelas ruas, mas antes disso uma primeira “tropa” foi surpreendida por uma patrulha que tinha sido avisada do levante. Depois de uma primeira batalha com cerca de 60 homens, as lutas atravessaram as ruas da capital baiana e duraram cerca de três horas, com um saldo de 70 mortos do lado dos escravos e dez dos oponentes e centenas de presos que foram punidos com açoites, deportação ou mesmo com a morte.

Obra do historiador João José Reis é referência sobre o tema

MALÊS INSPIRARAM BLOCO DE CARNAVAL Um dos mais tradicionais blocos do carnaval baiano, o Malê Debalê foi inspirado na Revolta dos Malês. É considerado o maior balé afro do mundo e chega a realizar apresentações com mais de dois mil dançarinos. Além de ser o primei-

ro bloco campeão, no carnaval de 1980, na categoria de bloco afro de Salvador, o Malê Debalê se tornou uma associação de moradores que presta serviços de valorização da cultura negra e de desenvolvimento comunitário. Fernando Vivas/Divulgação

O bloco Malê Debalê desfila durante o carnaval baiano


Alagoas dos Malês