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Gazeta de Alagoas

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| QUARTA-FEIRA, 15 DE OUTUBRO DE 2008 |

Divulgação

Al mare Porque navegar é preciso, pelo menos na música Adriana Calcanhotto não parece buscar um porto seguro – fascinada pelo movimento do mar, a cantora e compositora gaúcha que há quase 20 anos trocou o “cinza” de São Paulo pelo “azul” do Rio costuma dispensar certas facilidades musicais. Prova disso é Maré, seu oitavo álbum, disco cujo repertório (denso) ela mostra hoje em Maceió, no Teatro Gustavo Leite, em única apresentação

Calcanhotto: no mar, o movimento da vida

| ELEXSANDRA MORONE Editora de Cultura

Com suas cores prosaicas, o sopro de Maré é de vento e de brisa. Suave e forte, raso e profundo, lírico e soturno, o sentido poético deste que é o oitavo disco da gaúcha Adriana Calcanhotto aponta para o tema do cotidiano como ponto de partida e de chegada, numa confluência de impressões que reacende a poesia de todos os dias, do movimento, da vida. Álbum cuja temática exibe o vigor e a delicadeza característicos do “fluxo” marítimo, em cada uma de suas 11 faixas o registro parece nos dizer que, mais do que inevitável, navegar é preciso – “Quando se está no mar, não se tem certeza de coisa alguma, exatamente como na vida”, explicou ela, certa vez. Depois de passar por Portugal e Argentina – onde, aliás, fez a estréia de seu novo show –, em junho passado Adriana Calcanhotto lançou âncora nos palcos brasileiros. Com uma banda que reúne alguns dos mais festejados nomes da música “indie” nacional, a turnê (re)iniciada em São Paulo chega agora a Maceió: acompanhada dos músicos Domenico (do +2), Alberto Continentino, Marcelo Costa e Bruno Medina (ex-Los Herma-

nos), a “cantautora” se apresenta hoje (15) no Teatro Gustavo Leite, seis anos após sua última passagem pela capital. Em entrevista por e-mail à Gazeta, a cantora e compositora que se prepara para lançar seu primeiro livro – em Saga Lusa, Adriana faz um relato bem-humorado (e bastante denso) de uma série de “alucinações” produzidas por medicamentos durante sua passagem por Portugal – fala de sua relação com a poesia e com o mar, elementos que parecem guiar a “nau” de sua vida. Confira. Gazeta – De seu primeiro disco até aqui, se há um “elemento” em seu trabalho com o qual (nós, ouvintes, podemos dizer) sempre nos deparamos, este com certeza é a poesia. Ferreira Gullar, Waly Salomão, Augusto de Campos, Dorival Caymmi – quando não a sua, a de poetas de “lugares” distintos. Por que a poesia é necessária? Adriana Calcanhotto – A vida não

tem sentido sem poesia. Ferreira Gullar costuma dizer que há poesia porque a vida não basta...

Maré parece estar em movimento permanente, como num (re)fluxo, e canções como Sem

Saída, Para Lá e Sargaço Mar intensificam esse sentido. Em que medida se dá a dimensão “temática” de sua música, de sua obra?

As canções, os poemas, vão chegando, me arrebatando e o conjunto deles é que vai delinear o tema, o eixo central dos repertórios. As canções é que resolvem tudo... Desde que passou a viver no Rio, em algumas entrevistas você falou sobre os reflexos dessa mudança, para além de sua porção “geográfica”. Na faixa que dá título a este que é seu oitavo disco, por exemplo, a cidade parece estar presente em cada frase, em cada verso, numa atmosfera aprazível, quente e densa. Para uma gaúcha vinda de São Paulo, qual foi o impacto do mar na sua vida, no seu cotidiano?

Impacto enorme, diário, aliás. Ter o mar ali, no meio do caminho, além das pedras, é situante, magnífico. A partir da minha mudança para o Rio de Janeiro comecei a me envolver mais e mais com a literatura e os autores de mar, sobretudo os portugueses, de Camões aos contemporâneos. A turnê de lançamento de Ma-

ré começou no exterior, em abril último, com seqüência a partir de junho aqui no Brasil. Foi a primeira vez em que o “início” foi lá fora, no estrangeiro? Como foi a experiência?

espontâneos, relaxados e criativos, e porque são amigos e se admiram mutuamente. Comigo são amorosos e cúmplices, e dão muitos palpites no show.

Não foi a primeira vez, o show Maritmo estreou em Portugal, embora eu não considere Portugal como “estrangeiro”. Foi interessante a experiência de estrear Maré na Argentina, onde a maioria do público canta as canções na platéia junto comigo, mas na verdade não fala português. Foi bem divertido. Ficamos todos menos nervosos do que costumamos ficar em estréias brasileiras, isso com certeza.

Segundo o crítico Sábato Magaldi, a cenografia de Hélio Eichbauer, que assina o cenário do show, “não cria apenas um ambiente, mas funciona como um órgão vivo, que projeta, ilustra e até contradiz a ação dramática”. Em seu trabalho, Eichbauer traduz em linguagem plástica o sentido profundo da obra. Como se deu o processo de construção da identidade visual do show?

A banda que a acompanha atualmente tem nomes que transitam com trabalhos importantes pelo universo da chamada música “indie” nacional – Domenico, do +2, na percussão, baixo e guitarra, Alberto Continentino (baixo, guitarra, escaleta, vocais e berimbau de boca), Marcelo Costa (bateria) e Bruno Medina, ex-Los Hermanos (teclados). Como se deu o contato com essa turma? Como tem sido estar com eles na estrada?

São maravilhosos na estrada, no estúdio ou em qualquer lugar; são fáceis de lidar porque são

Concordo com Magaldi, os cenários do Hélio dialogam com o espetáculo, trazem informações a mais, iluminam as questões que os espetáculos levantam, ou seja, são e estão vivos. E são espaços muito prazerosos, interessantes de se estar para cantar, isso faz muita diferença; em qualquer cidade do mundo em que eu esteja, estou no cenário do Hélio. No caso do Maré ele lidou com fractais e com imagens de seres marinhos de Creta, do século 15 a.C. Além disso há alguns painéis com fundo azul que ele pintou de “neve marinha”, a matéria orgânica que desce lentamente até as regiões

abissais dos oceanos e que pode ser vista também como um céu estrelado, contra o fundo azul. Falo para o Hélio sobre o que estou imaginando para o show, ele assiste a um ou dois ensaios e depois aparece com uma maravilha. Você tem inserido canções que não estão no disco no repertório do show. O que os espectadores de Maceió vão poder conferir na apresentação para além das músicas que estão em Maré?

Sempre tenho nas turnês canções que são só dos shows, que não têm compromisso com os CDs, e o repertório do show está sempre aberto para a entrada de canções como Meu Mundo e Nada Mais, Tive Razão ou Poética do Eremita. Seu último show aberto em Maceió foi há seis anos, mas você esteve pelos menos outras duas vezes por aqui, antes disso. Quais as suas impressões da cidade? Alguma memória/lembrança marcante?

A memória mais marcante de Maceió é a imagem dos surfistas, flanando sobre a crista das ondas. É inesquecível e está infiltrada em algumas das imagens do Maré.

Revelações, leituras e canções Saga Lusa, livro no qual você faz um relato bem-humorado (e bastante denso) de uma série de “alucinações” produzidas por medicamentos durante sua passagem por Portugal, é de uma honestidade surpreendente. Por que você decidiu tornar público esse relato?

Porque achei que uma vez que estava escrito, seria besteira deixar numa gaveta. Observando sua carreira e sua

discografia, é possível perceber uma relação profunda com a literatura, com a poesia. Quais seus autores preferidos? O que você está lendo neste momento?

Meus autores e poetas são muitos e eles se alternam em importância dependendo do momento que eu esteja vivendo; se estou descobrindo um poeta novo, apenas lendo, compondo, gravando, depende muito. No momento estou fascinada com as

traduções de Augusto de Campos dos poemas de Emily Dickinson. Não sou Ninguém é um livro lindo, muito lindo. Sua trajetória está repleta de parcerias marcantes, com nomes pertencentes a diferentes “tribos” musicais. Como se dá o contato com esses artistas, especialmente os mais “novos”?

O contato vai se dando de maneira subjetiva, às vezes até

meio mágica, é difícil explicar e o acaso tem papel importante. Tem a ver com as afinidades, musicais, afetivas, com as eleições pessoais. Como você ouve música atualmente? Tem alguma afinidade com os suportes digitais, a exemplo de aparelhos como o Ipod?

Ouço música na internet embora não baixe músicas, por ética. Ouço o que está disponível para

ouvir e baixo muito pouca música, mesmo assim, só as que estão disponíveis para download. O que você tem ouvido ultimamente? Que trabalhos têm chamado sua atenção?

Estou ouvindo o disco do Marcelo Camelo, o do Ed Motta, o Lenine e a Mallu Magalhães. Gostei das canções do Caetano disponíveis no blog dele e tive o privilégio de ouvir a trilha do +2 para o Grupo Corpo. É incrível. |EM

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SERVIÇO O quê: show Maré, com Adriana Calcanhotto Onde e quando: no Teatro Gustavo Leite (rua Celso Piatti, s/n, Jaraguá), hoje (15), às 21h Ingressos: R$ 100 (inteira) e R$ 50 (meia), platéia; e R$ 80 (inteira) e R$ 40 (meia), mezanino Informações: 3235-5301 e 9928-8675


Adriana Calcanhotto, numa Entrevista