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Gazeta de Alagoas

| DOMINGO, 28 DE DEZEMBRO DE 2008 |

ESPECIAL

| DA ACADEMIA À LIVRARIA Sete décadas após seu lançamento, estudiosos analisam o romance que acaba de ganhar uma edição especial pela Record

| LEITURA E MEMÓRIA Pouco ‘freqüentada’ pelos estudantes, obra que marcou a vida de escritores e poetas é quase desconhecida na terra de Graciliano

| DA IMAGEM E DO SOM Num ensaio fotográfico e no filme do diretor Nelson Pereira dos Santos, duas (re)leituras para um clássico atemporal


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DOMINGO, 28 DE DEZEMBRO DE 2008

VIDAS SECAS, 70 ANOS

Todos os sertões da existência Mais do que retratar a saga de uma família de miseráveis, a obra de Graciliano ilumina aspectos universais da condição humana | POR FERNANDO COELHO

Qual o prazo de validade de uma obra literária? Difícil precisar. Há casos em que nem mesmo o tempo, com sua força corrosiva, é capaz de determinar. Quarto romance escrito por Graciliano Ramos (1892-1953), Vidas Secas chegou aos 70 anos de seu lançamento em 2008. 107 edições depois, o título mais importante do escritor alagoano permanece atual e instigante. Pelas mãos de Graciliano, temas emblemáticos do universo sertanejo nordestino – a fome, a seca, a miséria e a ignorância – receberam um tratamento inédito, que ilumina aspectos universais da condição humana – solidão, sofrimento, desejo e esperança. No tocante à narrativa, Vidas Secas sedimentou as qualidades literárias do Velho Graça: originalidade, apuro e concisão. Ao desfiar o argumento e remontá-lo à sua linguagem, Graciliano concebeu uma das obras mais influentes da nossa literatura. Influente não apenas para outros escritores, mas, fundamentalmente, para o leitor, para o ser humano, seja ele alagoano, nordestino ou brasileiro. Após devorar as pouco mais de 100 páginas de Vidas Secas, nosso conceito sobre o sentido da

existência ganha novos significados. No septuagésimo aniversário deste marco da literatura brasileira, a Gazeta oferece ao leitor um caderno especial sobre a obra e seu autor. Nesta edição, você vai saber por que Vidas Secas segue no panteão das leituras obrigatórias – especialistas, teóricos, acadêmicos, pesquisadores, escritores, estudantes e apreciadores dos textos de Graciliano falam do impacto do livro em suas vidas e apontam as razões de sua longevidade, além de explicar as principais características de sua prosa. Diretora editorial da Record (“casa” do autor há 33 anos), a jornalista Luciana Villas-Boas e o repórter fotográfico Evandro Teixeira comentam a recémlançada edição comemorativa de Vidas Secas, enquanto o cineasta Nelson Pereira dos Santos lembra das gravações do filme homônimo que conquistou a Palma de Ouro em Cannes, em 1963. E mais: por que Vidas Secas é indicação obrigatória para o vestibular em várias universidades brasileiras e não nas de Alagoas? O que resta da memória de Graciliano na terra natal Quebrangulo e em Palmeira dos Índios, onde ele viveu e chegou a ser prefeito por dois anos? Confira a seguir.

PARECE MAS NÃO É É possível encontrar paralelos ou obras equivalentes a Vidas Secas na literatura brasileira? Confira o que os pesquisadores e acadêmicos entrevistados pela Gazeta têm a dizer sobre a questão.

Escrita de contenção para tornar visível o invisível

‘Dicção’ contemporânea para transpor o tempo Leitor esporádico ou contumaz, mero apreciador ou amante inveterado da literatura. Em quaisquer dos casos, não há como ficar indiferente à leitura de Vidas Secas. A partir de um cenário desolador, Graciliano Ramos concebeu uma família unida pela desnutrição física e intelectual. Os mesmos fatores que dificultam suas vidas também formam o único e frágil elo de suas relações. Para especialistas, a obra do escritor alagoano encerra o chamado ciclo do regionalismo brasileiro. “Com Vidas Secas, Graciliano Ramos realiza o que se poderia chamar de transcendência do regionalismo, devido à força inventiva presente numa narrativa densa, plena de vigor social e psicológico”, explica Lourdes Kaminski Alves, autora do livro Os Narradores das Vidas Secas: Da Construção do Texto à Constituição do Sujeito (Scortecci, 2007) e doutora em Teoria Literária e Literatura Comparada pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp). Um romance que se diferencia de todos os romances que tratam da seca. É essa a opinião de Wander Melo Miranda. “Ele é muito diferente tanto de Guimarães Rosa, de Grande Sertão: Veredas, quanto de Euclides da Cunha, de Os Sertões. Essa dicção ao mesmo tempo clássica e moderna é que é o grande trunfo dele. Tem uma legibilidade ainda muito contemporânea”, observa ele. Embora sem fazer referência a qualquer cidade ou estado, o Nordeste sertanejo descrito por Graciliano em Vidas Secas é o mesmo que conhecemos. Quente, seco, inclemente e marcado por um convívio social pautado pelos abusos de poder. Símbolos culturais da região emolduram o texto, mas é na criação dos personagens vítimas dessa realidade que a genialidade do escritor sobressai e arrebata. Lourdes Kaminski amplia a análise. “A grandeza dramática de Graciliano Ramos não reside tão somente na inutilidade trágica do homem, na sua

inquietude, nem na materialidade psicológica com a qual as personagens foram revestidas; o drama maior estaria situado no fato do homem ser consciente de sua inconsciência”, avalia. Muito além do estilo literário, o diferencial do Mestre Graça está, segundo Wander Melo Miranda, na forma como ele atua diante da língua. “Não é só a forma com que ele escreve, e sim como ele trabalha nesses estreitos limites da língua, de uma maneira minimalista”, pondera o autor de Folha Explica Graciliano Ramos (Publifolha). LEGADO Mesmo explorado, esmiuçado e dissecado à exaustão, Vidas Secas continua a servir de objeto para pesquisas e teses acadêmicas. “Vidas Secas ainda encontra muito a dizer em estudos mais especializados”, confirma Lourdes Kaminski. Sua longevidade também se confirma nos números expressivos de comercialização – a editora Record informa que até hoje foram vendidos 1,6 milhão de exemplares. “É daquelas obras que são ainda lidas com prazer nas escolas por jovens e adolescentes”, complementa a pesquisadora. “O interesse por Vidas Secas, 70 anos depois, reside, principalmente, no estilo meticuloso do autor e na riqueza humana que impregna indissoluvelmente sua obra, além do aspecto de universalidade que a individualiza”. A atualidade das discussões propostas nos textos de Graciliano – “Seja no campo da literatura, seja quanto ao País” – é um dos aspectos destacados por Susana Souto, pesquisadora, doutora em Literatura e professora do curso de Letras da Universidade Federal de Alagoas (Ufal). “Penso que Graciliano é uma das contribuições de Alagoas para a inteligência do mundo. É um autor estudado aqui e em diversos lugares, do Brasil e do mundo, um escritor que faz o leitor refletir sobre as infinitas possibilidades da língua e que nos faz pensar também sobre o Brasil e o Nordeste”.

CARACTERÍSTICAS DA NARRATIVA “GRACILIÂNICA” “Vidas Secas é uma espécie de passagem dos romances de primeira pessoa para o relato de cunho autobiográfico. A diferença de Vidas Secas é que instaura um novo elemento nessa série. É importante ressaltar a maneira como ele faz isso, usando uma terceira pessoa, que não é uma terceira pessoa clássica, onisciente, mas uma terceira pessoa que permite, através do discurso indireto livre, que ele se aproxime dessas personagens e não fale no lugar delas. Nisso ele é extraordinário”, diz Wander Melo Miranda. “O estilo, para o autor de Vidas Secas, é a eliminação de tudo o que não é essencial, como um escultor que busca a maior objetividade possível. O recurso estilístico do símile é largamente utilizado pelo narrador, construindo uma imagem da degradação da personagem, ora através de comparantes do meio animal ora do meio vegetal”, diz Lourdes Kaminski Alves. “A narrativa ‘graciliânica’, como destacado pelos seus principais críticos, é marcada pela visualidade e pela preocupação com a exatidão. Em Vidas Secas, especialmente, o texto se constrói a partir de poucos elementos que compõem o espaço, a trama e as personagens do romance com um mínimo de elementos”, aponta Susana Souto.

Publicado originalmente em 1938, Vidas Secas possui 13 capítulos. Escrito como uma coleção de contos independentes, mas interligados pelos personagens, o livro apresenta a situação vivida por uma família fugida da seca a vagar pelo sertão. O pai Fabiano, a mulher Sinha Vitória, “o menino mais novo”, “o menino mais velho” e a cachorra Baleia cruzam a terra árida e desolada na tentativa de encontrar uma nova morada. De um lado, Vidas Secas explicita um cenário vazio de perspectiva e de conhecimento, preenchido pelo silêncio e pela quase inexistência da linguagem, que gera relações sociais desumanas. Como pano de fundo, a miséria. Embora o tema não fosse novidade, principalmente para os escritores da Geração de 30, na qual o Velho Graça se situava, foram o enfoque com mira na psicologia dos personagens e o estilo narrativo enxuto que fizeram de Vidas Secas uma obra gigante na literatura brasileira. Teórico responsável pela reedição da obra completa do escritor para a editora Record, Wander Melo Miranda, professor titular de Literatura Brasileira da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), minimiza a importância do tema frente à capacidade de Graciliano de se aproximar da subjetividade dos personagens. “A subjetividade era o que interessava a Graciliano”, acredita. “Criar a subjetividade desses retirantes e, a partir daí, abrir espaço para aqueles que de alguma forma não eram visíveis. Como são essas pessoas que sofrem? Como é possível se aproximar desse sofrimento? Isso seria de alguma forma inventar. Como é que ele vai abraçar para o leitor o que uma cachorra sente? É nessa invenção, nessa criação, que ele abre espaço para

aquilo que a gente não conhece. Então isso é o mais importante”. Professor de Literatura Brasileira da Universidade de São Paulo (USP), Alcides Villaça aponta a habilidade do narrador em se colocar ora como testemunha dos fatos ora como investigador da interioridade dos personagens. “Dessa dupla operação, de aproximação e distanciamento, resulta uma linguagem que tanto funciona como uma câmera objetiva que descreve e narra, como parece aderir às inquietações das criaturas, traduzindo, compreendendo e fazendo compreender as particularidades de cada uma e a condição geral da família”. Pesquisadora da obra de Graciliano Ramos, a professora de Teoria da Literatura da Universidade Federal do Ceará (UFCE), Fernanda Coutinho, ressalta a dualidade dramática encontrada no livro. “Uma de suas características principais é estar ao mesmo tempo imersa no mundo do áspero sertão e da delicadeza de sentimentos”, assinala. “Se a penúria provocada pela seca leva a família de Fabiano a sofrer uma série de dificuldades, por outro lado há cenas de profundo enternecimento, quando, por exemplo, a cachorra Baleia suporta a excessiva expansão do menino mais velho, num momento em que a criança se torna alvo da incompreensão dos pais”. Wander Melo Miranda destaca outra dualidade: “De fazer a gente ver aquilo que a gente não quer ver”. “Acho que ele abre nossos olhos para esses excluídos não como um panfleto político nem como um livro de sociologia. Ele é escritor sofisticadíssimo, requintadíssimo. Então, através da linguagem, ele chama a atenção para isso que a gente não quer, não pode ou não consegue ver”.

“Eu não encontro paralelo. Mas eu acho que como todo artista genial ele tem uma obra única. Não é só uma questão autoral, mas um agenciamento de autoria, de anunciações. Ele é capaz de articular essas anunciações para criar uma coisa nova. Isso o coloca na categoria dos gênios da literatura brasileira”. Wander Melo Miranda “Apesar de ter escrito poesia, pode-se dizer que há muitos pontos de contato entre os textos de João Cabral de Melo Neto e as narrativas de Graciliano Ramos. Os adjetivos graciliânico e cabralino são bastante próximos. Ambos valorizam a visualidade, ambos buscam a perfeição e a redução da linguagem ao fundamental. Em seus textos, perseguem uma escrita que se pauta na economia dos elementos, não nos excessos”. Susana Souto “Cada escritor possui seus traços peculiares, porém seria o caso de dizer que Graciliano Ramos e Guimarães Rosa recriam a idéia de sertão, circunscrevendoo nos limites geográficos de cada um e, ao mesmo tempo, expandindo seus domínios para os limites dos confins, lugar onde habitam o homem e suas inquietações”. Fernanda Coutinho “Os grandes autores são justamente os que acabam não encontrando um paralelo. No caso de nossa ficção, escritores como Machado de Assis, Graciliano, Clarice Lispector e Guimarães Rosa criaram perspectivas, muito diversas entre si, que abrem para uma compreensão e uma expressão inteiramente orgânicas do mundo, cada um a seu modo. A grandeza de suas linguagens não é para ser imitada em sua particularidade, mas para ser lembrada como desafio para a criação pessoal”. Alcides Villaça

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VIDAS SECAS | 70 ANOS

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VIDAS SECAS, 70 ANOS

O início, o meio e o fim da obra Baleia, conto que originou o romance, foi escrito no período em que Graciliano morou numa pensão no bairro do Catete, no Rio 1937. O Brasil entrava a plenos pulmões no Estado Novo da era Vargas. Três meses após sair da prisão em Ilha Grande, no Rio de Janeiro, após passar dez meses trancafiado sob a acusação de comunismo, Graciliano Ramos morava com a esposa e os filhos numa pensão no bairro do Catete, no Rio. Foi lá que ele esboçou a primeira história de Vidas Secas. Baleia nasceu como um conto independente inicialmente publicado no suplemento literário do matutino carioca O Jornal. Até então, o autor alagoano não tinha idéia de que esse seria um dos capítulos mais emocionantes de seu próximo livro. Em depoimento na década seguinte, o próprio Graciliano detalhou a gênese da obra: “No começo de 1937 utilizei num conto a lembrança de um cachorro sacrificado. (...) Transformei meu avô no vaqueiro Fabiano; minha avó tomou a figura de Sinha Vitória; meus tios pequenos reduziram-se a dois meninos. Publicada a história, não comprei o jornal e fiquei dois dias em casa, esperando que meus amigos

esquecessem Baleia. O conto me parecia infame – e surpreendeume falarem dele. (...)”, disse Mestre Graça. A partir de Baleia, Vidas Secas tomaria forma e cresceria costurada pelos desdobramentos que integram a saga de uma família sertaneja que foge da seca e da miséria. Sinha Vitória, Cadeia, O Menino Mais Novo... Um a um, semana após semana, Graciliano formatava o que, para muitos, é o ápice de sua literatura. Novamente, o escritor revelou seu processo de criação. “Habitueime tanto a eles [os personagens] que resolvi aproveitá-los de novo. Escrevi Sinha Vitória. Depois apareceu Cadeia. Aí me veio a idéia de juntar as cinco personagens numa novela miúda – um casal, duas crianças e uma cachorra, todos brutos”. Um artigo escrito por Pedro Moacir e publicado no Diário Oficial de Alagoas, em 1992, levanta a hipótese de Graciliano ter voltado o olhar para o regionalismo sertanejo – tema na época considerado esgotado pela “inteligentsia” literária – por influên-

cia do escritor argentino Benjamim de Garay. O “hermano” se tornou admirador da obra do Velho Graça e, nas muitas correspondências que trocaram, teria sugerido a produção de um conto sobre a árida região brasileira para ser publicado num jornal de seu país. Em 1938, finalmente Vidas Secas foi lançado pela editora José Olympio. Graciliano já era escritor conhecido e renomado, com os livros Caetés (1933), São Bernardo (1934) e Angústia (1936) publicados. Mas havia uma novidade em relação aos antecessores: este era seu primeiro romance escrito na terceira pessoa. Segundo o escritor Ricardo Sérgio, embora a primeira tiragem de mil exemplares de Vidas Secas tenha levado dez anos para se esgotar, “a repercussão foi favorável”, observa o professor Wander Melo Miranda. “Ele já era um escritor respeitadíssimo porque ele trazia essa nova visão. Num momento importante, no final dos anos 30, num momento de repressão, ele traz uma espécie de sopro de liberdade”.

Graciliano já era escritor conhecido e renomado quando lançou Vidas Secas. Mas havia uma novidade em relação aos seus trabalhos anteriores: este era seu primeiro romance escrito na terceira pessoa Mestre Graça escrevia à mão e somente depois mandava datilografar os originais. Lia, relia e enxugava. Tirava excessos, secava as gorduras de seu texto. Extremamente crítico de si mesmo, raramente estava satisfeito com o resultado de sua expressão lite-

rária. Em 1948, ao ser perguntado por Homero Sena se acreditava na permanência de sua obra, respondeu: “Não vale nada; a rigor até já desapareceu...”. Feliz engano. Vidas Secas ganhou edições em 16 línguas – do inglês ao grego, do búlgaro ao turco, do flamengo ao russo –, e hoje se encontra na 107ª edição brasileira, totalizando mais de 1,5 milhão de exemplares vendidos. Desde 1975, a obra passou a integrar o catálogo da editora Record. Em novembro último, em virtude das comemorações do 70 anos de lançamento de Vidas Secas, a editora publicou uma edição especial, ilustrada com fotos do premiado repórter fotográfico Evandro Teixeira. O baiano autor de livros como Canudos 100 Anos e 68 Destinos – Passeta dos 100 Mil percorreu os caminhos de Mestre Graça ao visitar as cidades alagoanas em que ele nasceu e viveu, além de penetrar sertão adentro em busca dos Fabianos, Sinhas e Baleias que povoam o chão permanentemente castigado pelo descaso social e pela seca.

CURIOSIDADES EDITORIAIS ›› Os direitos de publicação da obra de Graciliano foram renovados até o ano de 2018. ›› Entre 2005 e 2008, as vendas de seus livros subiram 20%. ›› Lançado em 1938, Vidas Secas está na 107ª edição e já vendeu mais de um milhão e meio de exemplares. ›› Graciliano está na Record desde 1975. ›› A cada ano, até 2018, um título será escolhido pela editora para um trabalho diferenciado, como o de Vidas Secas edição especial, projeto que, por sinal, já vendeu seis mil exemplares.

Fotos: reprodução

Na estrada, Evandro Teixeira persegue o ‘rastro retirante’

Dois dos instantâneos produzidos pelo repórter fotográfico Evandro Teixeira durante sua viagem pelos sertões do Nordeste

Sob os cuidados da Record desde 1975 Desde 1975, a obra de Graciliano Ramos está sob os cuidados da editora Record. Carro-chefe do maior grupo editorial da América Latina – além dela são mais sete editoras, que totalizam três mil autores em catálogo –, a Record iniciou em 2006 um minucioso trabalho de reedição dos títulos de Mestre Graça. Todos os seus livros ganharam um novo projeto gráfico, num processo que contou com revisão e consultoria de Wander Melo Miranda, um dos principais estudiosos dos “escritos graciliânicos” no País. O último da leva foi Memórias do Cárcere, que foi publicado em volume único pela primeira vez. “O trabalho consistiu em confrontar os textos publicados com os datiloscritos corrigidos por ele”, explica Wander. “Foram corrigidos alguns problemas que havia nas edições que estavam circulando. Nada de grande ou que fosse muito

grave. Algumas coisas pequenas que, às vezes, mudavam o sentido do texto. Tentamos ser o mais fiel aos originais”. O mais recente lançamento da editora chegou como um presentão de Natal para os admiradores da literatura do alagoano: uma edição ilustrada de Vidas Secas, com fotos magistrais de Evandro Teixeira. A tiragem de dez mil exemplares é única. A Record informa que seis mil livros da nova edição já foram vendidos. À frente de todo o processo, uma inveterada fã do escritor. Como diretora editorial da Record, a jornalista Luciana Villas-Boas confessa, em entrevista à Gazeta, que sua maior frustração profissional foi não ter sido a responsável por levar os títulos de Graciliano para a editora. O lado bom da história é que, quando ela chegou à Record, as obras-primas do autor já integravam o catálogo do

grupo. A seguir, Luciana explica as motivações para o tratamento carinhoso e luxuoso dispensado ao “compêndio graciliânico” e fala da longevidade de Vidas Secas. Gazeta – O que motivou a Record a relançar a obra de Graciliano após submetê-la a uma revisão editorial? Luciana Villas-Boas – Era

necessário. A edição tinha que ser modernizada, embelezada. O processo começou no início de 2006 e nós o concluímos em 2008, com um só volume de Memórias do Cárcere. Com isso, ficou relançada toda a obra de Graciliano. Nos íamos fazer uma edição comemorativa de dois mil exemplares. Aí começamos a sentir que havia interesse nesse livro. Aí, aumentamos para 3 mil, depois para 4 mil, para 7 mil e finalmente para 10 mil, mas é única. Não vamos mais editar. Quem quiser,

vai ter que comprar agora. No caso de Vidas Secas, foi lançada recentemente a edição comemorativa com fotos de Evandro Teixeira. Por que em relação a essa obra houve outro tipo de tratamento?

Pelo aniversário, pela efeméride e porque nós valorizamos muito essa obra. Eu sempre disse que era uma honra trabalhar na editora que publicava Graciliano Ramos. E já disse, várias vezes, que a minha frustração na carreira é não ter sido responsável pela vinda de Graciliano para a Record, já que eu faço um trabalho tão voltado para a literatura brasileira. Eu não tenho a menor dúvida que Vidas Secas é o maior dos livros da literatura brasileira. Fui eu quem convidou o Evandro. Eu conheço muito o trabalho dele, nós fomos colegas no Jornal do Brasil e eu sabia que era um tema para ele, que inclusive já fez trabalhos assemelhados como Canudos. Ficamos satisfeitíssimos com o trabalho dele, muito felizes. A longevidade do livro é um aspecto unânime entre seus apreciadores. Hoje, qual a sua avaliação sobre a obra?

É a dor do ser humano que ainda está longe de ser extinta. E ninguém escreveu tão bem quanto ele e ninguém escreveu de forma tão sintética na sua profundidade. Esse livro nunca ficará datado, mesmo que se resolva a seca do Sertão. Certamente eu não alcanço os problemas sociais do Nordeste resolvidos, mas se eu visse eu tenho certeza que ainda assim a leitura de Vidas Secas teria um impacto renovado para as gerações que tivessem vindo nesse período.

Para produzir a edição comemorativa de Vidas Secas, a editora Record não teve dúvidas na hora de escolher um fotógrafo para ilustrar o romance de Graciliano Ramos: Evandro Teixeira. “Um roteiro de alegria, de vivência, de emoções e de aprendizado. Tudo isso foi um grande aprendizado”. Foi com essa autêntica lição de humildade que o mais importante repórter fotográfico do Brasil resumiu sua mais recente experiência visual. Aos 73 anos, o baiano continua a nos emocionar com seu olhar atento e sensibilidade aguçada. As imagens captadas por Evandro para a versão especial de Vidas Secas arrepiam. O fotógrafo optou pelo caminho oposto ao de Graciliano: extraiu a beleza singular da terra esquecida e da gente sofrida, num harmonioso enlace entre texto e fotografia. “Eu quis fazer uma coisa mais plástica. Não quis revelar um sertão tão dramático como ele descreve”, diz, em entrevista por telefone. Por outro lado, também nos mostrou que Fabiano e sua família continuam a perambular caatinga adentro, ano após ano, em ciclos intermináveis de sofrimento e esperança. As trilhas de chão batido da região não são estranhas ao artista. Evandro nasceu no interior da Bahia, percorreu todo o Nordeste como repórter fotográfico do Jornal do Brasil e, com a máquina a tiracolo, registrou cenas memoráveis da realidade sertaneja no clássico Canudos 100 Anos, lançado em 1997. “Depois que lancei

esse livro, todo ano eu volto a Canudos”, observa. A viagem pelas cidades em que Graciliano Ramos viveu começou por Alagoas. O início se deu em Quebrangulo; depois vieram Viçosa e Palmeira dos Índios. De lá para Buíque, no sertão pernambucano, onde o autor passou os primeiros anos de sua infância. Não satisfeito com o resultado inicial, Evandro enveredou por municípios sertanejos da Bahia e de Pernambuco em mais dois outros roteiros. Afinal, o cenário de Vidas Secas não se limita a um ou outro estado, e sim a todo o semi-árido. “Quando a editora Record me convidou para fazer esse livro, eu fiquei emocionado e gratificado”, conta ele. “Fazer um trabalho em cima de Vidas Secas, de Graciliano, que eu conhecia, de quem eu li e vi o filme do Nelson Pereira dos Santos, foi uma emoção grande. Esse convite me caiu do céu. Foi um desafio fazer um trabalho em cima de um dos maiores escritores do País e de um dos maiores livros da literatura brasileira”. A passagem por Alagoas foi especialmente marcante. “É um estado de que eu gosto muito, um lugar do qual tenho gratas lembranças das minhas vivências. Reviver Alagoas, Santana do Ipanema, Palmeira dos Índios, esses lugares todos que eu conhecia como a palma da mão, reencontrar essa gente do meu Nordeste que eu tenho um carinho muito grande, isso tudo me deixou muito emocionado”.

NOTAS DE VIAGEM ›› Na cidade pernambucana de Buíque, Evandro Teixeira encontrou um vaqueiro de 102 anos de idade que tinha convivido com Graciliano Ramos. ›› Evandro não sabe precisar o número total de fotos tiradas para o livro. “Foi muito mais de mil, pelo amor de Deus. Estou com uma caixa de DVDs gravados. É foto que nem ladrão acaba”. ›› Antes de chegar à edição final, o livro alcançou a marca de 280 páginas. “E aí, todo dia, eu tinha que cortar fotos. Isso foi muito penoso, mas o livro ficou bonito e estou muito satisfeito com o resultado”.

SERVIÇO Título: Vidas Secas – Edição Especial Autor: Graciliano Ramos (com fotografias de Evandro Teixeira) Editora: Record Preço: R$ 99 (208 págs.)


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Wado Schlickmann

VIDAS SECAS, 70 ANOS

Comemoração em Alagoas e em outros estados

O BRASIL CELEBRA A OBRA DE MESTRE GRAÇA Se em Alagoas o aniversário de 70 anos de Vidas Secas foi comemorado de maneira tímida, outros estados brasileiros promoveram eventos e atividades diversas em torno do romance do escritor. Confira. Rio de Janeiro Com a participação das atrizes Elisa Lucinda e Mel Lisboa, a editora Record organizou em setembro uma série de leituras dramatizadas de Vidas Secas na estação central do metrô da capital carioca.

Por aqui, quase todo mundo esqueceu que a data merecia celebração à altura “Graciliano Ramos eleito o alagoano do século”. Foi com essa manchete que a edição de 1º de janeiro de 2000 da Gazeta anunciou o resultado de uma pesquisa promovida pelo matutino. No ano seguinte, o feito se repetiu noutra enquete com o mesmo tema realizada com mais de 22,8 mil votantes. O escritor venceu nomes não menos ilustres como a médica-psiquiatra Nise da Silveira, o antropólogo Arthur Ramos e o poeta Jorge de Lima. Uma prova do reconhecimento de conterrâneos do Velho Graça. Em Alagoas, seu nome batiza escolas, praças, prédios, ruas e até um conjunto habitacional da capital, onde atua a ONG Graciliano é uma Graça, inspirada no escritor e que promove a disseminação de sua obra entre os jovens do bairro. Desde 2001, a Imprensa Oficial do Estado passou a se chamar Imprensa Oficial Graciliano Ramos, um justo reconhecimento àquele que dirigiu a instituição entre os anos de 1930 e 1931. Também em 2001, foi instituído – pelo então governador Ronaldo Lessa – o chamado “Ano Graciliano”.

Finalmente, em 2008, nas comemorações dos 70 anos da principal obra do nosso maior escritor, Alagoas parece ter esquecido que uma data tão importante merecia celebração à altura. Não fosse a publicação da revista Graciliano, pela Imprensa Oficial, e a I Jornada de Literatura – promovida numa parceria entre o Serviço Social do Comércio (Sesc AL) e a Universidade Federal de Alagoas (Ufal) –, o emblemático aniversário teria passado em branco. Em Quebrangulo, a cidade natal do escritor, a prefeitura informou que não promoveu atividades comemorativas. O mesmo ocorreu em Palmeira dos Índios, onde Graciliano viveu e chegou a ser prefeito. Por fim, a Secretaria de Estado da Cultura (Secult) também parece ter esquecido a data e nada realizou para celebrar os 70 anos de Vidas Secas. O vexame para Alagoas só não foi maior porque o Sesc e a Ufal promoveram a I Jornada de Literatura, que teve como tema o livro Vidas Secas. Entre os dias 25 e 29 de novembro, uma série de debates, palestras, ciclos de lei-

tura e encenações teatrais foi realizada nas unidades do Sesc em Teotônio Vilela, Palmeira dos Índios e Maceió – no campus universitário e no Centro da capital. Entre os convidados, as pesquisadoras Susana Souto (Ufal) e Lúcia Betterncourt (UFRJ); o artista multimeios Ricardo Aleixo (MG); as artistas plásticas Beth Krisam (AL) e Myrna Maracajá (PE); os grupos de teatro Cia. Teatro da Meia-Noite e Cia. do Chapéu (AL), e os escritores Moacyr Scliar (RS) e Luciano Pontes (PE). O mote do evento foi “Ler, ouvir e interpretar Vidas Secas”. “É preciso comemorar os livros, eles são mesmo acontecimentos memoráveis, no melhor sentido da palavra”, aponta Susana Souto. “Esse livro é tão forte que

atravessou décadas, chegou ao cinema, ao teatro, à pintura, enfim a muitas outras artes, e é citado com freqüência como referência por muitos escritores”. Coordenadora do projeto, a técnica em Literatura do Sesc Alagoas, Wellima Kelly, explica que a estréia da jornada com Graciliano foi motivada pelo aniversário de Vidas Secas, mas que a idéia de trabalhar o autor era anterior. “Na verdade, sentimos a necessidade de abordar a obra de Graciliano como um todo. Pegamos esse mote dos 70 anos de Vidas Secas, mas propondo uma reflexão que fugisse do regionalismo. Infelizmente, muita gente ainda enxerga os livros de Graciliano apenas como o revelar das mazelas do Nordeste”.

Distrito Federal Entre os dias 03 e 05 de dezembro, a Universidade de Brasília (UnB) promoveu um colóquio sobre Vidas Secas. O encontro reuniu professores e pesquisadores da instituição e da Universidade de São Paulo (USP), Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e Universidade Federal da Bahia (UFBA). Bahia No dia 27 de outubro, em Salvador, a Fundação Casa de Jorge Amado realizou uma programação especial dedicada a Vidas Secas. Além da exibição do filme homônimo e do lançamento do livro Colóquio Graciliano Ramos, a professora doutora Elizabeth Ramos (neta do Velho Graça) proferiu uma palestra sobre a obra.

Santa Catarina O curso de Letras da Universidade do Sul de Santa Catarina (Unisul) realizou no dia 25 de outubro o Colóquio Graciliano Ramos. No evento, professores da instituição trouxeram discussões sobre o tema Graciliano Ramos e os Canibais da Nova Sociedade Burguesa e reflexões sobre o poema Graciliano Ramos:, do pernambucano João Cabral de Melo Neto. Ceará Realizado nos centros culturais do Banco do Nordeste (BNB) de Fortaleza e do Cariri, o evento multimídia Vidas, para Sempre Secas?, dedicado ao escritor alagoano, contou com atividades durante todo o mês de novembro. Além de oficinas de leitura, debates, exposição temática e bibliográfica e seminário, houve ainda exibição de filmes e documentários e de depoimentos. Entre os convidados, professores de diversas universidades brasileiras, como Wander Melo Miranda (UFMG), Fernanda Coutinho (UFC), Zenir Campos Reis (USP) e Hermenegildo Bastos (UnB), entre outros.


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VIDAS SECAS, 70 ANOS

No vestibular, o xis da questão Enquanto a Ufal não indica obras literárias, as principais universidades do Brasil exigem a leitura de Vidas Secas para o exame Tipo de discurso: indireto livre. Foco narrativo: terceira pessoa. Metáfora e prosopopéia como figuras de linguagem. Eis os aspectos básicos do estudo da linguagem em Vidas Secas. Questões possivelmente encontradas nos vestibulares de algumas das principais universidades do País, a exemplo de instituições como

Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Universidade de São Paulo (USP), Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Universidade Federal da Bahia (UFBA), Universidade Federal do Pará (UFPA), Universidade Federal do Recôncavo Baiano (UFRB) e Universidade Federal do Acre (Ufac).

Em comum, todas indicaram Vidas Secas como leitura obrigatória para o vestibular 2009. Já em Alagoas a pró-reitoria de Graduação da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) informa que desde 2005 não exige a leitura de obras da literatura brasileira para o exame vestibular. “Não há uma lista de livros. Nós indi-

camos o conteúdo e os temas e aí qualquer autor pode entrar”, explica Graça Tavares, pró-reitora de Graduação da instituição. “Não importa o autor ou a obra. O mais importante é o conteúdo. Não há questões sobre os livros, e sim sobre as escolas e os movimentos literários”, reforça. A justificativa apresentada

Pré-vestibulandos: dificuldade de leitura E os candidatos ao vestibular, o que pensam desse método? A Gazeta ouviu três deles, que leram – ou ao menos tentaram – Vidas Secas. A opinião foi unânime: a garotada prefere o modelo adotado atualmente, sem a indicação de livros para leitura. Aos 21 anos, Amanda Figueira é só expectativa. Apesar de aprovada em vestibulares de instituições particulares, seu objetivo é cursar Nutrição numa universidade pública. Ela diz ser leitora assídua de títulos brasileiros, o que a coloca numa posição privilegiada diante dos concorrentes pouco habituados à leitura. Ainda assim, prefere o sistema vigente. “Enquanto pré-vestibulanda, eu acho melhor assim. Fica mais fácil. Mas sei que esse método não incentiva a leitura”. Provocada por uma professora, aceitou o desafio de ler Memórias do Cárcere aos 15 anos. Foi seu primeiro contato com uma obra do Mestre Graça. “Passei um ano inteiro para ler”, confessa. Ela achou a prosa difícil.

“Quando a gente é adolescente, não dá muita atenção para esse tipo de literatura”, observa. Dois anos depois, ao ser presenteada por uma amiga com uma série composta por obras literárias nacionais, deparou-se com Vidas Secas. “A análise psicológica de Fabiano em relação à sua vida e à sua terra é o aspecto mais interessante do livro”. Mas é bom não se enganar. A compreensão da obra de Graciliano pelos jovens nem sempre é a regra. Vidas Secas não deixou marcas tão profundas em Alan Viana, 18, aluno do terceiro ano da Escola Estadual Irene Garrido. Há cerca de seis meses, ele se interessou pelo título após assistir a uma aula sobre o modernismo. Pegou o livro emprestado na biblioteca da escola e leu por completo, mas ao ser perguntado sobre quais passagens achou mais interessantes, não conseguiu responder. “Não lembro muito bem”, disse, para logo depois ensaiar uma resposta mais elaborada. “O livro fala

do Nordeste e das dificuldades dos homens nordestinos, mas de uma forma universal. Não precisa ser daqui para compreender”. O estudante, que prestou vestibular para Física, garante que gosta de ler e cita Machado de Assis como um de seus autores preferidos. Sobre o vestibular, ele prefere o método atual, sem indicação de obras para leitura. “Antes os estudantes só liam porque o livro ia cair no vestibular, e não pelo gosto pela literatura”.

Arquivo pessoal

DOIS CAPÍTULOS Com Lais Cavalcante, 17, candidata a uma vaga para o curso de Letras da Ufal, foi ainda pior. Ela leu os dois primeiros capítulos de Vidas Secas e desistiu. “Eu achei um livro muito monótono”, conta. Lais não é leitora esporádica. Cita Charles Bukowski, José Saramago, Clarice Lispector e Edgar Allan Poe como seus autores preferidos, mas Graciliano realmente não a conquistou. Na escola, a primeira vez que falaram sobre Graciliano foi há

Laís: “Livro muito monótono”

pelo coordenador da pró-reitora de Graduação, José Geraldo, para a mudança no processo, é a seguinte: “Resumos dos livros indicados eram vendidos até em bancas de jornal, e aí o estudante não chegava a ler a obra inteira. Isso, na verdade, não estimulava a leitura”. Segundo José Geraldo, no pas-

sado, Vidas Secas chegou a constar como uma das obras indicadas para o exame vestibular. “A gente entende que o objetivo fundamental é saber se o indivíduo é capaz de identificar os estilos literários. Não nos interessa saber se o camarada leu a obra. Cabe às escolas apresentar os livros a ele”.

O CLÁSSICO NA GRANDE REDE O mundo virtual é generoso para estudantes, vestibulandos, leitores e amantes em geral da escrita de Graciliano Ramos. Pelas conexões da grande rede é possível encontrar estudos e teses sobre Vidas Secas e até versões em PDF para download do texto, que são oficialmente ilegais, pois a obra ainda está em catálogo. Confira alguns links. SITE OFICIAL ›› Em www.graciliano.com.br há biografia, fotos e informações sobre toda a obra do Mestre Graça. ANÁLISE DA OBRA ›› Na seção de teses acadêmicas listadas pelo Google – scholar.google.com.br –, há dezenas de arquivos em PDF que utilizam a obra como tema para pesquisas.

poucos meses, numa aula sobre a geração modernista da década de 30. “A aula foi muito boa mas, mesmo assim, não me fez voltar ao livro”. Sobre o vestibular, ela engrossa o coro dos que preferem não ler obras indicadas. “A interpretação que cada pessoa pode fazer de um livro é algo muito subjetivo, muito pessoal, e o vestibular tem questões bem objetivas”, justifica.

VESTIBULAR ›› Em www.mondovestibular.com.br há uma análise detalhada da obra para estudantes e vestibulandos. FILME ›› Nos endereços www.nagadownloads.com/?p=4539 e www.cyberfilmes.org/2008/10/vidas-secas.html, os sites Nagadownloads e Cyberfilmes oferecem versões digitalizadas de Vidas Secas. DOWNLOAD ›› Vidas Secas em PDF pode ser baixado no site www.institutoriobranco.files.wordpress.com/2008/07/graciliano-ramos-vidas-secas.pdf.


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ESPECIAL

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VIDAS SECAS, 70 ANOS

Por que ler essa obra-prima Os escritores Moacyr Scliar e Milton Hatoum e o poeta Fernando Fiúza falam de sua relação com o romance Vencedor de três prêmios Jabuti, consecutivamente entre os anos de 2004 e 2006, o escritor Milton Hatoum considera a cachorrinha Baleia uma das grandes personagens da literatura brasileira. Ele foi um dos muitos leitores levados às lágrimas ao fim do capítulo originário de Vidas Secas. “Vidas Secas foi um dos romances mais importantes da minha juventude. Para mim, Graciliano é um dos três grandes narradores brasileiros, um dos maiores da nossa língua”, disse o amazonense, em entrevista à Gazeta. A lista de escritores renomados fãs da obra-prima de Graciliano Ramos vai do contemporâneo Daniel Piza ao eterno João Cabral de Melo Neto, que lhe dedicou o poema Graciliano Ramos: (assim mesmo, com dois pontos). “Ele e Flaubert me ensinaram que a linguagem prevalece sobre o tema, e que este depende sempre da forma de narrar. É um erro, talvez um preconceito, afirmar que Graciliano Ramos é um autor regionalista”, sugere Hatoum. “Na obra dele, tudo é dramatizado, até a paisagem. Vidas Secas surgiu quando muitos escritores da América Latina ainda se preocupavam com a cor local, com uma literatura que afirmasse uma nacionalidade. A meu ver, um dos grandes achados da obra é o enlace da carência social com o desejo de saber numa região específica do Nordeste. A impossibilidade de nomear as coisas e os seres é um dos dramas dos perso-

nagens. Mas esse drama é transcendente e universal. E isso só pode ser alcançado por meio da linguagem de um grande escritor”, avalia ele. IMPACTO NO SUL Nascido em Porto Alegre, no ano em que Graciliano escrevia Vidas Secas, o escritor e contista gaúcho Moacyr Scliar recorda ter lido a história de Fabiano e família entre os 12 e 13 anos de idade. Para o garoto ambientado com o bom padrão de vida da região sul do Brasil, o árido cenário descrito no livro causou espanto. “Realmente, para nós, era uma coisa dolorosa ver a situação em que viviam os nordestinos”, diz, em entrevista por telefone. “Aquela realidade é uma coisa que escapava à nossa compreensão. Você não podia conceber tanta pobreza, uma vida tão difícil quanto a que eles levavam”. A admiração se transformou em influência, conforme reconhecida pelo autor de Ciclo das Águas. “A influência para mim é bem clara. O que realmente me fascinava na literatura do Graciliano era essa precisão, essa economia, essa objetividade. Em poucas palavras ele constrói um verdadeiro painel da situação. Isso me impressionou muito”. Em outubro último, Moacyr Scliar esteve em Maceió, onde proferiu uma palestra sobre literatura. A obra de Graciliano, obviamente, foi um dos temas abordados. “Falei sobre a relação da minha geração, que começou

a publicar no final dos anos 60, com a obra de Graciliano”, conta. “Nós fomos todos muito influenciados pelo Graciliano, inclusive do ponto de vista político. Até porque a nossa geração ainda era uma geração política porque a gente viveu o período da ditadura. O exemplo de coragem do Graciliano, que transpareceu na literatura dele, foi muito importante para nós”. Apesar de oficializado apenas em 1945, com a filiação de Graciliano ao Partido Comunista, o engajamento político do autor de São Bernardo já constava nas entrelinhas de seus romances, uma vez que ele pertencia a uma geração que tinha nomes como Raquel de Queiroz e Jorge Amado, que abraçaram a “causa” socialista de modo mais explícito anteriormente. “No caso do Jorge Amado, ele seguiu o modelo chamado realismo socialista”, ressalta Scliar. “Mas no caso do Graciliano não, ele era muito independente para seguir modelos e para cumprir as ordens dos gurus culturais do partido. Felizmente, porque o Jorge Amado estragou boa parte da obra dele ao transformá-la num veículo de propaganda”, pondera. O gaúcho compara o legado do Velho Graça ao que foi deixado pelo sociólogo Gilberto Freyre e pelo historiador Sérgio Buarque de Hollanda. “Ela se tornou um dos símbolos do Brasil. Uma daquelas portas de entrada para a realidade brasileira que nunca se fecham”.

Nossos entrevistados lembram o que sentiram ao ter contato com o romance de Graciliano Ramos pela primeira vez. “Vidas Secas e Infância foram leituras fundamentais quando eu estudava no Colégio Estadual do Amazonas (Manaus), antigo Pedro II. Esses dois livros me convidaram a refletir sobre uma região muito diferente da Amazônia. Era o avesso do mundo da água e da floresta, o avesso da Amazônia, quase sempre superlativa. A obra de Graciliano me desintoxicou da literatura regionalista, balofa e pesadona, comprometida com a ‘representação’ da vida de ribeirinhos e seringueiros”. Milton Hatoum “O primeiro foi ainda, digamos, quando eu era muito jovem, com 12, 13 anos. Não foi uma indicação de colégio, foram amigos que recomendaram. Eu fiquei absolutamente fascinado. Era algo totalmente novo para mim. Eu sou do Sul, eu não tinha ido ao Nordeste, a gente conhecia muito pouco, incluindo a literatura do Nordeste. Se bem que nessa altura eu já estava lendo Jorge Amado com entusiasmo. Mas em Graciliano a gente sentia um poderoso escritor. Vidas Secas foi uma verdadeira revelação. Foi a descoberta de um Brasil completamente diferente. O Brasil do Sertão, da seca, da pobreza”. Moacyr Scliar

| ARTIGO |

Forma e poesia em Vidas Secas | FERNANDO FIÚZA *

Vidas Secas é importante na literatura brasileira não do ponto de vista do assunto tratado, pois em seguida o cinema e a televisão fizeram e ainda fazem aquele tipo de denúncia de maneira mais explícita e eficaz. O livro é importante pela forma com que foi escrito (para Flaubert, “é sempre a forma que escandaliza”): é o modelo da prosa enxuta, clara, objetiva, sem rodeios, sem firulas, utilizada pelo bom jornalismo. Toda vez que vejo um Pedro Bial querendo fazer “poesia” de fancaria em suas reportagens televisivas, vem-me à cabeça: esse sujeito precisa (re)ler Vidas Secas. Portanto, a prosa média praticada no Brasil (em reportagens, relatórios, monografias, teses e artigos de ciências humanas) tem como horizonte, como modelo, a prosa de Vidas Secas. Quando os problemas fundiári-

os do País se resolverem, quando não houver mais sem-terra, nem na polícia soldados amarelos, ainda assim continuaremos a ler Vidas Secas, por ser ele um clássico e o clássico transcende o tema. É sua forma, que enfeixa as grandes questões da natureza humana, que o eterniza. Não há mais guerra de lança e espada entre nações por causa de uma mulher, mas continuamos a ler a Ilíada. Adoto este livro em minhas aulas de Teoria da Literatura, por vários motivos. A começar por ser curto, tem pouco mais de 100 páginas, o que facilita o trabalho de leitura comentada em sala. Segundo por ser um romance moderno, e não apenas modernista, em alguns aspectos: em sua “estrutura desmontável”, como disse Rubem Braga quando do seu lançamento – podemos ler os capítulos em outra ordem que aquela que o autor

lhes deu; podemos ler os capítulos também como contos autônomos, pois sua origem foi um conto, Baleia, que na versão final do romance transformou-se no nono capítulo. Um de seus temas principais é a linguagem – quem a tem, tem o poder, e, no capítulo O Menino mais Velho, é posta em jogo uma das mais importantes questões da filosofia da linguagem: a antinomia entre signo motivado e signo arbitrário, ou seja, se as palavras têm ou não a ver com as coisas que designam. O menino mais velho acha a palavra “inferno” bonita e não se conforma com seu terrível significado. Vidas Secas ainda é moderno pelo emprego do discurso indireto livre – quando voz, pensamento e percepção do narrador se fundem às vezes aos dos personagens. Moderno por tratar, sem sentimentalismo nem dogmatismo científico, do limiar entre o

homem e o bicho – os seres humanos são zoomorfizados e a cachorra Baleia humanizada. Moderno porque num ambiente nada propício, onde os personagens são despossuídos até da linguagem, o narrador põe em cena a questão da verossimilhança na narrativa, no capítulo Inverno. Gostaria ainda de ressaltar os aspectos estruturalmente poéticos de Vidas Secas: o emprego massivo da comparação (“como bicho”, “como porcos”, “como tatu”, “como onça”, “como periquito”, “como bois doentes dos cascos”, “como um pato”, “como um frango molhado”, “como uma cascavel assanhada”, “como um cururu”); o emprego discreto mas preciso e surpreendente da metáfora, como, por exemplo, quando chama o céu de “tampa anilada”. O céu, para o senso comum, é símbolo de liberdade, de infinito, jamais “uma tampa anilada”, nem seu “azul

terrível” (a imagem do céu como algo opressivo já é encontrada num soneto que Graciliano publicou, quando tinha apenas 17 anos, no jornal carioca O Malho); o emprego ainda de temas recorrentes, que funcionam como uma espécie de refrão, de ritornelo, tais como o desejo de Sinha Vitória por uma cama de couro e uma saia de ramagem, a barba ruiva e os olhos azuis de Fabiano. João Cabral de Melo Neto, um poeta que me é muito caro, tem o Graciliano de Vidas Secas como seu paradigma, basta ler, para confirmar, o poema Graciliano Ramos: (assim mesmo, com dois pontos), que se encontra em seu livro Serial. João Cabral fez na poesia o que o Velho Graça fez na prosa, limpou-a do “resto de janta abaianada”. * É poeta, professor e doutor em Língua e Literatura Francesa

SOBRE O CHÃO DE GRACILIANO Fotos: divulgação

Da conexão Ceará-Alagoas nasceu O Chão de Graciliano (Tempo D’Imagem, 2007), o livro que se ramificou em exposição. O jornalista alagoano Audálio Dantas casou a proposta de fazer um livro baseado num ensaio fotográfico com imagens das regiões em que o autor de Vidas Secas viveu com o sonho do fotógrafo cearense Tiago Santana de conhecer as terras de Mestre Graça. O negócio deu tão certo que a obra recebeu três prêmios, incluindo o da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA), em 2007. E se transformou numa exposição que rodou o Brasil, passando, naturalmente, por Alagoas. Radicado em São Paulo, Audálio pôde constatar que o Brasil e, por tabela, Alagoas, não preservam a memória de seus filhos ilustres. Em Viçosa, por exemplo, onde Graciliano teve contato mais aprofundado com

a literatura, “não há nada que lembre que Graciliano passou por lá”. “Os vestígios foram apagados”, lamenta. “A casa, o colégio, não há nenhum centro, nada. Em Palmeira dos Índios, uma escola que se chamava Graciliano Ramos mudou de nome. Foi um trabalho que me deu grande alegria, e ao mesmo tempo essa decepção”. Vidas Secas foi o primeiro livro de Graciliano lido pelo jornalista. “Acho que é o livrosímbolo da literatura dele e acho que isso inclusive influiu muito em minha formação de jornalista. Porque é aquele texto seco, bem construído, despido de enfeites”, aponta. Para ele, o capítulo Baleia “é um dos grandes momentos da literatura brasileira”. “Ainda hoje é uma emoção inesquecível. Ali, ele humanizou o bicho e o colocou ao lado dos seres humanos de maneira muito marcante”.

A PRIMEIRA VEZ DE VIDAS SECAS

MEMÓRIA E LEMBRANÇA Imagens da exposição O Chão de Graciliano, resultado da “migração” do projeto editorial para o terreno audiovisual

“Vidas Secas foi o primeiro romance para adultos que li, devia ter de 12 para 13 anos, numa edição da Martins. Não fui um leitor de ficção infanto-juvenil, não li o Monteiro Lobato para crianças, preferia ler jornais, revistas, enciclopédias e poesia. Vidas Secas não me surpreendeu tematicamente, pois conhecia aquela realidade. Era sinal de status dizer aos colegas, que ainda estavam no gibi, que tinha lido Vidas Secas”. Fernando Fiúza “Eu consigo me lembrar, ainda adolescente, entre 14 e 16 anos. Não foi por escola nem nada. Me interessei muito pelo livro e a partir daí comecei a ler as outras obras. Fui sempre um leitor da obra dele. Sempre gostei muito das obras dele. Talvez, como eu gosto muito de cachorro, o que tenha me prendido no livro foi o episodio de Baleia, que eu acho uma obra-prima. Depois, o filme do Nelson Pereira... tudo isso me levou a me aproximar do livro, que eu considero uma das nossas obras-primas mais importantes”. Wander Melo Miranda “Li Vidas Secas ainda adolescente, cumprindo tarefa escolar. Discutimos o livro em sala de aula (bons tempos, da boa escola pública...), e a impressão geral dos jovens leitores, a minha inclusive, era a de que conhecêramos um romance muito bem escrito a que faltava, no entanto, um pouquinho mais de ação... Mas o capítulo centrado na morte da cachorra Baleia tocou a todos. Não sabíamos que tudo tinha começado por ele, que Graciliano viu em seu pequeno conto a possibilidade de um desdobramento em romance. E que romance...”. Alcides Villaça


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VIDAS SECAS, 70 ANOS

FLAGRANTES E INSTANTÂNEOS NA TRILHA DE VIDAS SECAS O repórter fotográfico Ricardo Lêdo

Mulheres lavam roupa no rio que margeia a rodovia: cena comum no interior de Alagoas

‘clicou’ paisagens e personagens da vida real nas cidades de Palmeira dos Índios, Quebrangulo e Minador do Negrão, onde foi rodado o filme Vidas Secas

Cadela posa para a câmera em Quebrangulo: uma entre as muitas “Baleias” encontradas pelo caminho

Crianças carregam saco de algaroba na paisagem seca da zona rural de Minador do Negrão

Propriedade rural abandonada no acesso a Minador do Negrão

Mulher ‘varre’ fava numa das ruas da cidade de Quebrangulo

Gado magro, mato seco e açude quase vazio: sinais da estiagem que começa a atingir o agreste alagoano

Árvore de galhos sem folhas num caminho estreito na zona rural de Minador do Negrão

Vaqueiro fecha a porteira após tanger o gado: uma das poucas habilidades de Fabiano na história

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Fotos: Ricardo Lêdo

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PELOS CAMINHOS QUE LEVAM A GRACILIANO RAMOS Na segunda parte do ensaio fotográfico, o registro de locais importantes na vida do escritor – como o interior da casa em que ele nasceu em Quebrangulo – e instituições que levam seu nome, como uma biblioteca municipal e uma fundação cultural

Garoto anda sobre os trilhos na estação de trem da cidade de Quebrangulo: infância

Panorâmica de Quebrangulo: semelhanças com a maioria das pequenas cidades do interior alagoano

Placa em frente à Casa Museu Graciliano Ramos, em Palmeira dos Índios: única indicação

Fachada da Fundação Graciliano Ramos: arte em alto revelo retrata personagens de Vidas Secas

Placa em uma das entradas de Quebrangulo: terra natal não esqueceu o filho ilustre por completo

Sala de estar da casa em que nasceu Graciliano: portas e janelas originais

Biblioteca de Quebrangulo ‘ganhou’ o nome do romancista


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E9 Fotos: Ricardo Lêdo

VIDAS SECAS, 70 ANOS

O que resta da memória de Mestre Graça A Gazeta esteve em Quebrangulo e Palmeira dos Índios para ver como (e se) o legado do filho e cidadão ilustre é lembrado Quebrangulo e Palmeira dos Índios – Primogênito de 16 filhos do casal Sebastião Ramos de Oliveira e Maria Amélia Ramos, Graciliano Ramos de Oliveira nasceu em Quebrangulo, no dia 27 de outubro de 1892. Na pequena cidade, distante 118 quilômetros da capital Maceió, o futuro escritor viveu por apenas dois anos. Espalhada num amplo vale e cortada por um agonizante rio Paraíba do Meio, Quebrangulo não é muito diferente de qualquer outra cidade do interior de Alagoas com pouco mais de dez mil habitantes. A Gazeta esteve no município para saber como a terra natal do autor cuida da memória de seu filho ilustre. O ponto de partida fica em frente à praça Dr. Getúlio Vargas, vizinho à prefeitura, na casa azul de número 54. Nesse endereço nasceu Graciliano Ramos. Proprietário da residência há 45 anos, o agropecuarista Sebastião

Silveira Lima, 80, convida a reportagem para conhecer o interior da morada. São quatro quartos espaçosos, duas salas, corredor amplo, cozinha e quatro tarefas de terra no quintal. As portas e as janelas são originais, da época em que Graciliano nasceu, garante Sebastião. As visitas são freqüentes. E não apenas de forasteiros ou admiradores da obra do escritor. Sebastião conta que, quando era viva, a viúva Heloísa Ramos vinha anualmente. Depois, a filha Luísa passou a repetir o itinerário. “Eles vinham para conversar besteira. Diziam que queriam comprar a casa para fazer um museu, mas nunca fizeram nada”, entrega. “Se derem o valor que eu peço, eu vendo. Elas podiam falar com a prefeitura ou com o Estado para comprar”. Na cozinha, um papagaio nos faz lembrar o de Vidas Secas, única obra do ex-morador lida por

Sebastião. “Para mim [morar na casa] não é motivo nem de orgulho nem de aborrecimento”, observa, antes de puxar o maço de cigarros. “O nome dele não é grande coisa aqui não. Aqui tinha a escola Graciliano Ramos, mas aí veio um prefeito e rebatizou para Mirta Correia”. De fato, foi em 2003 que a Escola Municipal Mirta Correia ganhou o nome que tem hoje – em homenagem a uma professora popular na região. Na rua, populares comentam que a professora, já falecida, era parente do ex-prefeito. O descaso oficial só não é mais grave porque, desde 2000, a biblioteca do município ganhou nova sede e passou a se chamar Biblioteca Municipal Graciliano Ramos. Fora isso, apenas a fanfarra da cidade e uma fundação recebem o nome do escritor e lembram aos moradores que Graciliano era seu conterrâneo.

Palmeira tem a “cara” de Graciliano Em 1894, a família de Graciliano Ramos trocou Quebrangulo por Buíque, no sertão de Pernambuco. O retorno para Alagoas aconteceu dez anos depois, em 1904. Viçosa foi a cidade escolhida. Lá Graciliano Ramos teve contato com a literatura brasileira e publicou seus primeiros textos, nos jornais O Dilúculo e Echo Viçosense. Hoje, não há nada preservado da passagem do romancista pelo município, nem mesmo a casa em que ele morou. Em 1905, uma nova mudança o trouxe a Maceió. Na capital, o aspirante a escritor publicou sonetos no Jornal de Alagoas e em O Malho sob os pseudônimos de Almeida Cunha e Soares Lobato. Cinco anos depois,

Graciliano fixou residência em Palmeira dos Índios. Após uma temporada de um ano no Rio de Janeiro, onde trabalhou como revisor de jornais, voltou para Palmeira dos Índios. Em 1927, foi eleito prefeito da cidade, cargo ao qual renunciou em 1930, pouco antes de passar nova temporada em Maceió até ser preso acusado de comunismo e enviado para o Rio de Janeiro, em 1936, para nunca mais voltar. Localizada a 138km de Maceió, no coração do agreste alagoano, Palmeira dos índios tem mais o “clima” e a “cara” de Graciliano do que sua cidade natal. Com mais de 72 mil habitantes, a cidade exibe logo na entrada uma recém instala-

da escultura da cabeça do escritor. Esculpida em cimento e medindo mais de dois metros de altura, a obra dá as boasvindas para quem chega a Palmeira dos Índios. Se o município não “respira” Graciliano como deveria, ao menos a figura do autor de outras obras tão importantes como Vidas Secas – a exemplo de São Bernardo, Angústia e Memórias do Cárcere – parece mais presente do que em Quebrangulo. Além da Casa Museu Graciliano Ramos, seu nome batiza uma escola, uma rua e até um laboratório de hemodiálise (!). Na prefeitura, apenas uma foto na parede lembra a passagem do escritor pela administração da cidade.

RELÍQUIAS NA CASA MUSEU Totalmente climatizada e com novos projetos de iluminação e sonorização, a Casa Museu Graciliano Ramos reabriu as portas no dia primeiro de dezembro depois de 11 meses fechada. O único problema é que a reforma não previu uma identificação na fachada. Exceto por uma placa colocada no canteiro central, não há como saber que ali é a casa onde morou Graciliano. O acervo é relativamente pequeno, mas guarda preciosidades. Na sala de entrada,

há documentos – como certidão de nascimento, identidade, passaporte, termos de posse e diplomas – e objetos pessoais, como a máquina de datilografar Remington modelo 12, adquirida em 1921. E mais: o birô e a cadeira do gabinete de Graciliano; um pijama e um jaleco; um estojo de barbear em bronze polido e o relógio de pulso, entre outros. Na casa que preserva portas e janelas originais, as paredes estampam fotos do escritor e de sua família. Na

sala dos livros, há toda a coleção de Graciliano Ramos, acrescida de edições de São Bernardo, Vidas Secas e Angústia lançadas em países como Venezuela, Alemanha e Portugal. Por fim, a Sala Vidas Secas exibe objetos e peças do figurino utilizadas pelo atores no filme de Nelson Pereira dos Santos, como espingarda, facão, chicote, bainha, gibão, sandálias, bolsas, caneca, sela do cavalo, chocalho, funil e até a cama de Sinha Vitória.

Na entrada de Palmeira dos Índios, uma escultura da cabeça do escritor nos dá as boas-vindas

A MEMÓRIA DE GRACILIANO EM QUEBRANGULO Biblioteca Municipal Graciliano Ramos Localizada na avenida Cícero de Góis Monteiro, em frente à estação de trem da cidade, a instituição possui mais de dois mil livros, entre eles todas as obras – algumas com mais de um exemplar – lançadas por Graciliano Ramos, disponíveis para consulta e empréstimo. Na sala de leitura, fotocópias de fotos do escritor e de sua família decoram a parede. A biblioteca funciona de segunda a sexta-feira, das 7h às 12h, das 13h às 17h e das 18h às 21h, com um movimento médio de 100 pessoas por dia. Banda Musical Graciliano Ramos

A banda de música da cidade também recebe o nome do escritor, mas o maestro mora em Palmeira dos Índios e a sede, em frente à estação de trem de Quebrangulo, estava fechada e sem identificação. Fundação Graciliano Ramos Há cerca de um ano, foi iniciada na rua 15 de Novembro a construção da Fundação Graciliano Ramos. A iniciativa partiu de um empresário paranaense que mora na cidade. Ele sugeriu a alguns amigos que transformassem a proposta de montar uma associação artística para reciclagem na Fundação Graciliano Ramos. Segundo o artista plástico Edmilson Oliveira, vice-presidente da fundação, o estatuto foi criado há um

A MEMÓRIA DE GRACILIANO EM PALMEIRA DOS ÍNDIOS Casa Museu Graciliano Ramos Transformada em museu em 1974, a casa em que Graciliano Ramos morou por seis anos em Palmeira dos Índios foi tombada como patrimônio cultural pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Durante todo o ano de 2008 esteve fechada para uma reforma estrutural, numa parceria entre a prefeitura da cidade e o Iphan. O acervo da instituição reúne material pessoal e edições nacionais e estrangeiras de livros do escritor. Localizada na rua José de Pinto Barros, 90, a casa museu não possui telefone, mas funciona diariamente, das 7h às 18h, com entrada franca. Escola Construída em 1956, a Escola Estadual Graciliano Ramos traz em seu nome a homenagem ao escritor. A secretaria

Na fachada da casa museu não há identificação visual

informa que não houve comemorações pelos 70 anos de Vidas Secas, mas afirma que uma palestra sobre o escritor foi realizada no início de dezembro. Rua Curiosamente, a rua Graciliano Ramos, um prolongamento da José de Pinto Barros – a mesma da casa museu –, é uma das poucas do município que possui placas de

CURIOSIDADES SOBRE O “VELHO GRAÇA”

identificação. Laboratório O Núcleo de Hemodiálise Graciliano Ramos foi fundado em 2000. A homenagem foi idéia de seu proprietário, que mora em Arapiraca. Hotel O principal hotel da cidade, São Bernardo, teve o nome inspirado na obra homônima do Mestre Graça.

A PRODUÇÃO DO ESCRITOR

›› Graciliano Ramos teve oito filhos, frutos de seus dois casamentos. ›› Em 1927 foi eleito prefeito da cidade de Palmeira dos Índios. Empossado em 1928, renunciou ao cargo em 1930. Seus relatórios oficiais são considerados autênticas obras literárias. ›› Ao voltar para Maceió, em 1930, é nomeado diretor da Imprensa Oficial do Estado. ›› Publica Caetés, seu primeiro romance, aos 41 anos. ›› Preso em 1936, acusado de ser conspirador comunista, é enviado ao Rio de Janeiro de navio. Solto em 1937, fixa residência na capital carioca e passa a trabalhar nos principais jornais e revistas da cidade. ›› Filia-se ao Partido Comunista em 1945. ›› A convite de José Olympio, traduz o romance A Peste, de Albert Camus, em 1950. ›› Foi presidente da Associação Brasileira de Escritores entre 1951 e 1952. ›› Em 1952, após viagem para o Leste Europeu, onde visitou a antiga Tchecoslováquia e a Rússia, é submetido a um tratamento de pulmão em Buenos Aires, na Argentina.

Raridades da casa museu: a máquina Remington 12 e um busto na Sala Vidas Secas

ano e desde então as obras começaram, mas atualmente estão paradas por falta de verba. Sem fins lucrativos, a fundação tem entre seus objetivos divulgar as obras de Graciliano através de outras artes, como o teatro e a pintura. A sede conta com salas para ateliê de desenho e pintura e oficinas de informática e de artes cênicas. Nos fundos, está sendo construído um pequeno teatro para que as obras literárias de Mestre Graça sejam adaptadas para espetáculos cênicos. Na fachada, uma pintura em alto revelo feita por Edmilson retrata os personagens de Vidas Secas. Não há previsão para a conclusão do prédio ou para o início das atividades.

›› Morre vítima de câncer de pulmão no dia 20 de março de 1953, no Rio de Janeiro.

OBRAS PUBLICADAS 1933 Caetés (romance) 1934 São Bernardo (romance) 1936 Angústia (romance) 1938 Vidas Secas (romance) 1944 Histórias de Alexandre (literatura infantil) 1945 Infância (memórias) 1946 Histórias Incompletas (literatura infantil) 1947 Insônia (contos) OBRAS PÓSTUMAS 1953 Memórias do Cárcere (memórias) 1954 Viagem (memórias) 1962 Alexandre e Outros Heróis (contos) 1962 Linhas Tortas (crônicas) 1962 Viventes das Alagoas (crônicas) 1980 Cartas (correspondência) 1984 O Estribo de Prata (literatura infantil) 1992 Cartas a Heloísa (correspondência)


E10 ESPECIAL

Gazeta de Alagoas

DOMINGO, 28 DE DEZEMBRO DE 2008

VIDAS SECAS, 70 ANOS

No cinema, adaptação fidedigna e premiada Considerado o marco inicial do Cinema Novo, o filme Vidas Secas, do diretor Nelson Pereira dos Santos, foi bem-sucedido na operação de transpor a obra para as telas Um manual sobre a seca. Assim Nelson Pereira dos Santos tratava Vidas Secas no final dos anos 50. Com a obra debaixo do braço, o cineasta paulistano tentava esboçar um roteiro que não saía de sua cabeça: um filme sobre a seca no sertão nordestino. O ano era 1958 e a região era castigada pela chamada “seca do Juscelino”. Convidado pelo produtor Isaac Rozemberg para dirigir um documentário no Vale do São Francisco, na Bahia, o diretor amadureceu a idéia ao conferir in loco a aridez da paisagem. “Aquilo foi tão chocante, violento para mim. Eu só sabia que existia isso através dos livros”, diz, em entrevista por telefone à Gazeta. Logo ele percebeu que o rotei-

ro que procurava já estava pronto. “Lá pelas tantas eu me dei conta que uma grande obra, definitiva, abordando a questão, era o livro do Graciliano Ramos. Numa das vezes que eu o consultei, disse: ‘Vou fazer esse filme que está escrito aqui’. O roteiro já estava pronto, feito por uma pessoa que tinha toda a autoridade para contar aquilo tudo”. No ano seguinte, Nelson Pereira dos Santos voltou ao sertão baiano e foi surpreendido por um temporal que levou por água abaixo seus planos de filmar a obra de Mestre Graça. Improvisou e terminou por realizar outro filme, Mandacaru Vermelho, lançado em 1960. “Deus me ajudou porque se eu fosse fazer daque-

la vez... Eu não entendia nada sobre a vida do sertanejo. Inventei um outro filme, fiquei lá conhecendo melhor aquela realidade, mas sempre pensando na possibilidade de fazer Vidas Secas. Foi ótimo, depois eu voltei e fui para o lugar certo”. E o lugar certo não poderia ser outro senão Alagoas. Aqui, com locações ambientadas nas cidades de Palmeira dos Índios e Minador do Negrão, Nelson Pereira dos Santos concebeu um filme seminal. Considerado o marco inicial do Cinema Novo, o longa foi lançado no final de 1963. Público e crítica, no Brasil e no mundo, foram arrebatados. Poucas adaptações da literatura para o cinema foram tão fiImagens: reprodução

dedignas. Com exceção da alteração na ordem de alguns capítulos – Cadeia e Festa foram unificados e Baleia lançado para o final – em virtude da estrutura cinematográfica, o filme traduziu com rara perfeição o romance de Graciliano Ramos: a caracterização dos personagens, a luz natural na fotografia de Luiz Carlos Barreto e a linguagem cinematográfica a dialogar com a estética “graciliânica”. Entre outros, dois elementos explicitam o rigor do diretor na operação de transpor com o máximo de fidelidade a prosa para a tela: a casa que serviu como cenário para a fazenda e a cadela que fez o papel de Baleia, esta última numa “interpretação” acachapante. Impossível não se impressionar. Após seu lançamento, Vidas Secas teve uma bem-sucedida trajetória internacional, colecionando prêmios e posições nas listas que elegem os filmes mais importantes de todos os tempos. Foi indicado à Palma de Ouro no Festival de Cannes em 1964 e saiu de lá com o Prêmio OCIC, concedido pela Organização Católica Internacional de Cinema. No ano seguinte, levou o prêmio de filme do ano pela Resenha de Cinema de Gênova, na Itália. Na Espanha, faturou o prêmio Ciudad de Valladolid. Vidas Secas também consta na lista das 360 obras fundamentais para uma cinemateca apontada pelo British Film Institute e entre os 100 filmes mundiais da humanidade segundo a revista inglesa Sight and Sound.

NOVA VERSÃO SERÁ LANÇADA EM DVD

CRÍTICOS FALAM DE VIDAS SECAS

Inédito em DVD no Brasil – exceto pela versão pirateada a partir da cópia em VHS e por uma edição lançada em 2006 no mercado norte-americano –, Vidas Secas ganhará em janeiro uma versão digital remasterizada. O lançamento é da Regina Filmes, do próprio Nelson Pereira dos Santos, e vem recheado de extras. Destaque para o premiado curta-metragem Como Se Morre no Cinema, de Luelane Loiola Corrêa, que reconstitui a morte do papagaio e da cadela Baleia em Vidas Secas. Depoimentos de Nelson Pereira dos Santos, Luiz Carlos Barreto e do poeta alagoano Lêdo Ivo, que analisa a obra de Graciliano Ramos e fala de sua importância para literatura brasileira, estão no material adicional.

“Nelson Pereira dos Santos soube esperar 15 anos para filmar o romance de Graciliano. Entre 1938, data de lançamento do livro, e o final do governo Jango, o cinema aprendera a se fazer livre, com câmera na mão, no meio da rua, com o neo-realismo e a nouvelle vague. Esse movimento em direção ao sol veio, no caso de Nelson Pereira, acompanhado de uma compreensão importante sobre o uso do ponto-de-vista subjetivo, colocando o espectador no interior desconfortável da seca e da miséria. Mais do que um filme que entendeu e respeitou Graciliano Ramos, o filme de Nelson Pereira dos Santos engrandece o romance: a seqüência do filho fascinado pela figura paterna durante o adestramento do cavalo ultrapassa o quadro do texto literário, incorporando a este uma dimensão dramática superior. Essa dramaturgia propriamente fílmica está também na interpretação contida e silenciosa de Átila Iório como Fabiano e na encenação geral da paisagem, transformada em protagonista. É assim que a releitura de Vidas Secas por Nelson Pereira dos Santos abre as portas para o melhor cinema brasileiro de todos os tempos. Sem Vidas Secas de Nelson Pereira dos Santos não teria havido Deus e o Diabo na Terra do Sol, nem O Baile Perfumado e nem Central do Brasil”. Paulo Cunha, professor de Cinema da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE)

NELSON PEREIRA DOS SANTOS: TRAJETÓRIA DE UM “IMORTAL”

Primeiro diretor de cinema eleito para a Academia Brasileira de Letras, Nelson Pereira dos Santos é um dos precursores do Cinema Novo. Além de Vidas Secas, constam entre seus 18 filmes os clássicos Rio 40 Graus (1955) e Memórias do Cárcere (1983), outra adaptação para uma obra de Graciliano Ramos. Este ano, o diretor ganhou um Candango no Festival de Cinema de Brasília pela sua contribuição ao cinema brasileiro.

“Agora eu sou alagoano”, dizia Nelson após o filme Divulgação

REALISMO « Com locações nas cidades alagoanas de Palmeira dos Índios e Minador do

Negrão, Vidas Secas conquistou diversos prêmios e teve uma bem-sucedida carreira internacional

O CINEASTA REVELA CURIOSIDADES DAS FILMAGENS DE VIDAS SECAS Baleia “Ela foi a grande estrela do filme. Chegamos até a levála para Cannes porque o pessoal da sociedade protetora dos animais achou que ela tivesse sido morta de verdade na cena. A história da Baleia é a seguinte: eu e Raimundo fomos à feira, em Palmeira dos Índios. E ao chegar numa barraquinha, o Raimundo perguntou de quem era a cachorra e se queriam vendê-la. O vendedor disse: ‘É mil’. Aí eu disse: ‘Eu levo’. E o vendedor: ‘Mas tem uma coisa, tem em que levar o meu sobrinho também. Ela só obedece a ele’. Ele sabia que a produção estava procurando uma cadela. No final, o garoto foi ótimo, ajudou muito, e ainda foi para o Rio de Janeiro. Mas não se adaptou e voltou para Palmeira dos Índios”. Jofre Soares “Para poder ‘adestrar’ a cadela, eu pensei em utilizar o método Pavlov de condicionamento. Ela não podia comer

durante o dia, só à noite, depois das filmagens. Ela tinha que ficar com fome, porque assim a gente a conduzia de longe, com um pedação de carne. Mas desde o primeiro dia eu percebi que ela não queria nada de carne, ela queria sombra. Fui lá, coloquei a mão na barriga da Baleia e a barriga estava durinha: ‘Alguém está dando de comer para a cachorra’. E aí, evidentemente, toda a equipe olhou para o Jofre. Até descobrirem que, na hora de comer, o Jofre levantava, saía andando e jogando comida no chão. Aí eu disse: ‘Jofre, a partir de agora você vai dirigir a Baleia’. E não é que deu certo? A Baleia até bocejou em cena. O Jofre, do lado de fora, deu um bocejo e ela imitou”. Os meninos “Os irmãos também foram selecionados em Palmeira. O pai deles era dono de uma pensão e eles cantavam. Eu os vi cantando numa festinha. Os meninos eram ótimos, eles

já tinham o hábito de enfrentar o público e deram uma grande contribuição”. A ‘aparição’ do Velho Graça “Na equipe, tinha um pessoal que era da umbanda. Quando começamos a filmagem, o ator ficou doente, teve um problema intestinal. Ele melhorou e a atriz ficou com um problema na garganta. O Domingos, nosso ‘maquinista-faz tudo’, deu um grito e saiu correndo pela caatinga, gritando e arrebentando os galhos. Deitado no chão, ele dizia que era o Graciliano. Aí um outro umbandista da equipe perguntou: ‘O que você quer, Graciliano?’. E ele disse: ‘Eu quero que rezem uma missa para mim’. Aí o Jofre foi falar com o padre. O padre concordou e fez um sermão muito bonito: ‘Para mim é uma grande satisfação rezar pela alma de Graciliano, que não gostava dessas coisas’ [risos]. Depois disso, melhorou tudo. Foi uma filmagem maravilhosa. Eu tenho saudade daquele tempo”.

Atualmente com 80 anos, a última vez que Nelson Pereira dos Santos esteve em Alagoas foi em 1992, nas comemorações do centenário de nascimento de Graciliano Ramos. Mas sua primeira passagem pelo estado deixou boas recordações. “Eu gostei muito do povo. Quando eu cheguei ao Rio de Janeiro, eu disse: ‘Agora eu sou alagoano’”, diz, ao soltar a gargalhada. Como as filmagens de Vidas Secas foram realizadas entre os anos de 1962 e 1963, o diretor passou o Natal e chegou a romper o ano-novo em Palmeira dos Índios. “Eu sinto saudade de Palmeira dos Índios, daquele tempo, das festas, do mocotó, joelho de porco. Eu gostava de ver as cavalhadas e aquela festa em que o vaqueiro pega e derruba o boi”, conta ele, que foi condecorado com o título de cidadão-honorário de Alagoas. Nas duas primeiras semanas de produção do filme, o cineasta recrutou Jofre Soares como assistente de produção e logo o contratou para fazer o papel de fazendeiro. “Foi o primeiro filme de mais de 100 que ele fez”. Ex-marinheiro, o ator iniciante tinha então 45 anos. “Era Jofre quem cuidava da Baleia”, conta Nelson. “Tudo que a Baleia fez foi o Jofre quem inventou”. Para filmar um cenário mais próximo da realidade sertaneja, o diretor procurou locações em algumas cidades vizinhas e optou por Minador do Negrão. “No final de 1962, quando eu fui filmar, Palmeira dos Índios já estava desenvolvida. Não era mais aquele cenário do livro, de aspecto bem rural. Então, achei Mina-

Nelson: 80 anos e na ativa

dor mais apropriada”, explica. Numa das cenas do filme, um reisado anima a festa na cidade. Para encontrar o grupo, Nelson Pereira dos Santos teve a ajuda de ninguém menos que Théo Brandão. “Théo Brandão nos recomendou ir a Mata Grande, disse que lá tinha o melhor reisado da região. Aí, meu diretor de produção, o Raimundo Gino, foi lá e soube que quem fazia o reisado estava morando em Palmeira, onde nós estávamos. Ficou ainda mais fácil. Nós produzimos as roupas, os ensaios e fizemos a cena”. Clóvis Ramos, irmão de Graciliano, e o filho Ricardo Ramos, também serviram de consultores durante as filmagens. “Ricardo Ramos me ajudou muito. Ele revelou a curiosidade quase científica do Graciliano em buscar as palavras exatas para cada coisa. E o Clóvis confirmou isso”, conta. E Graciliano, teria aprovado a versão cinematográfica de Vidas Secas? “Ele era muito inteligente. Eu duvido que ele tivesse gostado 100%. Ele teria cobrado alguma coisa”, brinca o diretor.

“Quando eu li o livro do Graciliano Ramos, ainda na época do colégio, a cena da morte da Baleia, a maior personagem que a literatura brasileira já produziu, me deixou perplexo e apaixonado. Anos depois fui assistir ao filme de Nelson Pereira dos Santos, meio desacreditado de que qualquer cineasta pudesse recriar aquele momento, essencialmente um momento de literatura. E o que eu vi na tela só pode ser descrito com adjetivos que ultrapassam o factual: foi realmente mágico, inexplicável. Nelson era mais do que um tradutor, ele havia incorporado a maneira de narrar, a poesia árida de Graciliano. Mais do que fiel à linguagem, aquele filme era o livro. E a cena em que Baleia agoniza até morrer era um daqueles momentos mágicos em que você entende o poder de encantamento do cinema. Era filme, era livro. Era a vida, seca, sendo infinitamente reproduzida”. Chico Fireman, criador do blog Filmes do Chico

FICHA TÉCNICA Vidas Secas Ano: 1963 (108 min.) Direção: Nelson Pereira dos Santos Roteiro: Nelson Pereira dos Santos, adaptado da obra de Graciliano Ramos Produção: Herbert Richers, Danilo Trelles e Luiz Carlos Barreto Fotografia: Luiz Carlos Barreto e José Rosa Montagem: Rafael Justo Valverde Música: Remo Usai Elenco: Átila Iório (Fabiano), Maria Ribeiro (Sinha Vitória), Orlando Macedo (Soldado Amarelo), Jofre Soares (Fazendeiro), Gilvan Lima, Genivaldo Lima e Baleia


Vidas Secas - 70 Anos  

Edição especial sobre os 70 anos de lançamento do romance do escritor alagoano Graciliano Ramos (1892-1953)

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