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FELIPE BRASIL

Domingo 26/08/2012

Se cada cabeça é um mundo, como se diz por aí, o conteúdo que delas emerge também se apresenta sob múltiplas formas, com texturas, códigos e colorido próprios. Expostas à ação do tempo, memórias são territórios de ordem particular – cada um lembra das coisas como quer. Essa subjetividade, porém, não lhes subtrai um milímetro de importância. A capacidade de acessá-las, e de lá retirar o substrato daquilo que chamamos de história, é algo do que de melhor o ser humano dispõe. Prova disso é o artigo que o dramaturgo, ator e artista plástico Lael Correa assina neste domingo na Gazeta, no segundo número da série Memórias da Cidade. Situada numa Maceió pouco afeita ao pensamento e à crítica – possíveis apenas num ambiente de estímulo –, a narrativa do fundador do grupo teatral Infinito Enquanto Truque se move no sentido de revelar as origens e os (muitos) percalços das nossas artes cênicas, mas ao fazê-lo acaba por descortinar todo um hábitat cultural. Das montagens que ocupavam galpões nos arredores do porto de Jaraguá às casas de espetáculo surgidas no rastro do desenvolvimento econômico verificado em diferentes fases da formação da capital, o percurso feito por este verdadeiro homem de teatro é repleto de caminhos sinuosos. Mas é preciso percorrê-los Leia nas págs. B2, B5 e B6


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GAZETA DE ALAGOAS, 26 de agosto de 2012, Domingo FOTOS: FELIPE BRASIL

TEATRO DE ARENA SÉRGIO CARDOSO

Era uma vez LAEL CORREA COLABORAÇÃO PARA A GAZETA

Na região, às margens do oceano Atlântico, havia três portos. O lugar originariamente se chamava Maçay-o-k, que na língua tupi significa “o que tapa o alagadiço”. Com o passar do tempo a área foi se refinando mais que o açúcar dos engenhos e passou a se chamar Maceió. Em 1815 a localidade foi elevada à categoria de cidade e em 1839 se tornou a capital da Província de Alagoas. Por mais de um século a vida da capital girou em

torno do porto de Jaraguá, que era o maior de todos – os outros dois se localizavam onde hoje estão os municípios de Marechal Deodoro e Maragogi. Não havia nenhum espaço para as artes e logicamente não havia teatros. As companhias que aportavam em Maceió apresentavam-se nos armazéns em troca de sustento para continuar a viagem e nem sequer se afastavam do porto. Deste modo, as memórias de um teatro local são relativamente recentes e mesmo com a inauguração do seu primeiro teatro (o Deodoro, em 1910), Maceió demoraria muitas décadas até poder começar a contar sua própria história artístico-cultural. Simplificando dados historiográficos e abrindo algumas janelas da memória, a cena local bem poderia começar a ser lembrada sem maiores rigores ou datas; mas, utilizandose do antigo e simbólico “Era uma vez...”

Ação em três atos Era uma vez uma cidade que possuía apenas três teatros. A década de 1970 já chegava ao final e no primeiro teatro, o Deodoro, que era o maior, mais antigo e mais requintado dos três, rolavam os preparativos finais para a grande exibição da noite, um monólogo com uma estrela de TV. A atriz carioca dispensara o “ensaio corrido”; mas, ao final da tarde faria “reconhecimento de palco” e iria conferir a eficácia da montagem de luz, de som e da sala de estar cenográfica. Concentração absoluta de toda a equipe técnica e eis que chegou a estrela para inspecionar a cena. Caminhou pelo palco com ostensivo desdém, enquanto ia testando focos de refletores, microfones e detalhes do cenário. Exigiu, reclamou, resmungou, gritou e, num chilique apoteótico, sentenciou que nunca mais faria “teatro de roça!”. Ao final da noite, após a ovacionada apresentação, a estrela recolheu-se ao hotel mais elegante da cidade, o Luxor, na Praia da Avenida; e no dia seguinte voou de volta para a sua broadway. Era domingo e as colunas sociais dos jornais locais reiteraram os aplausos, absolutamente deslumbradas.

atores amadores. Lá pelo meio do espetáculo o cenário começou a se desarticular. Lentamente, as frágeis paredes de madeira compensada começaram a se deslocar, ameaçando desabar no meio do palco. Mas, enquanto os atores continuavam a representação, alheios ao desmoronamento iminente da ‘casa’, o diretor da peça entrou em cena. Munido de um banquinho e um martelo, danou-se a consertar as paredes cenográficas com vigorosas marteladas. A peça continuou se desenrolando, enquanto todos, tanto no palco quanto na plateia, fingiam não notar o indiscreto incidente. As risadas só foram ouvidas depois, do lado de fora do teatro.

Vários anos depois, o mais modesto dos três teatros, o Teatro de Bolso Lima Filho, habituado a mostrar encenações de pouca ou nenhuma relevância, começou a despertar admiração e satisfação com as montagens de um encenador até então desconhecido por estas plagas: Moncho Rodriguez. O criativo encenador, nascido na Galícia, e criado no Ceará, estava em Maceió atendendo convite da Universidade Federal de Alagoas. Em um curto período realizou espetáculos inesquecíveis e conseguiu transformar o acanhado e Alguns anos depois, no se- deficiente palco do Teatro de Bolso em um espaço gundo teatro, o pequeno Teatro de Arena Sérgio Car- inacreditavelmente fértil e envolvente. doso, apresentava-se um grupo maceioense. A peça misturava temas dramáti- Afinal, nem tudo estava para sempre perdido nos cos e sensuais em atuapalcos de Maceió. ções fervorosas de jovens

no teatro Dos armazéns de Jaraguá aos palcos ‘oficiais’, janelas para a memória

A colmeia, seus clímaxes e anticlímaxes Nos anos de 1980 os três teatros de Maceió eram instituições públicas sujeitas às mais discutíveis administrações. De todos os modos, conseguiam manter características muito peculiares, quer seja pela estrutura física, pela idade ou pelo perfil do público que os frequentava. O Teatro Deodoro era uma espécie de abelharainha, onde as entradas eram mais caras, o veludo das cortinas era mais vistoso e a arquitetura do início do século 20 era propícia para acalentar sonhos de uma nobreza só realizável no teatro. Po r m a i s d e meio século manteve uma aura de reduto burguês e era quase inacessível às produções locais. Um teatro que, hoje centenário, protagonizou muitas histórias e várias lendas. Lembrando também que era no espaçoso hall do Teatro Deodoro que funcionava uma das galerias de arte mais concorridas da cidade, a galeria Miguel Torres. E não era raro que diversos eventos culturais e artísticos se esbarrassem nessa mesma quadra. Era sempre possível que numa mesma semana houvesse uma exposição de artes plásticas, um velório e uma companhia teatral ocupando as diversas dependências do velho teatro. Nada havia nisso que parecesse obtuso ou estranho. Estranho é que se alternem desfiles de miss, solenidades de colação de grau e encenações religiosas em uma casa de espetáculos. Por outro lado, foi no Teatro Deodoro que a capital alagoana teve contato com produções de alto nível artístico. Peças de teatro históricas como Macunaíma, encenada por Antunes Filho, espetáculos de dança fundamentais produzidos por grupos como o Cisne Negro e shows inesquecíveis como os do Projeto Pixinguinha. O Teatro de Arena e o Teatro de Bolso, as “abelhas-operárias”, atendiam

a outro público e a outros interesses. De certa maneira, eles correspondiam às modestas exigências da classe artística local e também permitiam uma política que simulava uma razoá-

sua quase absoluta indigência técnica, acolhia grupos amadores, ‘oficineiros’ e diletantes dos quatro cantos da cidade. Esse jogo nos três teatros transcorreu tranquila-

PRAÇA MARCÍLIO DIAS

“Entre vários contrapesos para projetos tão valorosos foi inventado no mesmo Teatro de Bolso, por exemplo, o Festival Estudantil de Teatro; uma bobagem lucrativa que o Sindicato dos Artistas – SATED ainda mantém viva, atualmente no palco do Teatro Deodoro”

vel democratização da cultura. No exíguo Teatro de Arena Sérgio Cardoso, anexo ao Deodoro, espremiam-se montagens de pequeno porte que atendiam aos grupos da cidade; mas, nele também se exibiam obras importantes como Entre Quatro Paredes (Jean-Paul Sartre) e As Moças (Isabel Câmara), além de atores respeitados nacionalmente, como Carlos Vereza (Nó Cego). Por sua vez, o Teatro de Bolso Lima Filho, anexo ao Centro de Belas Artes, era uma espécie de “primo do interior” das outras salas. Entretanto, apesar da

mente por vários anos e permitiu alguns projetos teatrais marcantes. É nesse contexto que brilharam espetáculos como Comeram o Bispo D. Péro Fernão de Sardinha (1980) e Duvidamos? (1981), ambos da Associação Teatral de Alagoas – ATA. Eram ousadias pioneiras que, certamente, abriram caminho para projetos surpreendentes como as supracitadas encenações de Moncho Rodriguez. Com a colaboração de atores alagoanos, Moncho superou inteiramente as deficiências do Teatro de Bolso e produziu grandes espetáculos como Escola de Mulheres, de Molière, e Laudamuco – Senhor de Nenhures, de Roberto Vidal Bolaño. No entanto, entre vários contrapesos para projetos tão valorosos foi inventado no mesmo Teatro de Bolso, por exemplo, o Festival Estudantil de Teatro; uma bobagem lucrativa que o Sindicato dos Artistas – SATED ainda mantém viva, atualmente no palco do Teatro Deodoro.

Tais dicotomias, que muitas vezes beiravam o nonsense, permeiam diversos períodos artísticos vividos por Maceió ao longo do seu desenvolvimento cultural. Para cada acontecimento enriquecedor invariavelmente houve o seu avesso e a sua resposta negativa. Para cada proposta criativa que apareceu, como as de Moncho Rodriguez, houve uma antítese. Então, foi por essa época que começaram a surgir os profissionais-de-teatro-cinema&-TV em Maceió. Eles geralmente vinham do Rio de Janeiro ou São Paulo e aplicavam cursos para atores amadores em todas as capitais do Brasil – especialmente nas capitais nordestinas. Exibiam suas participações em cinema e televisão, cobravam caro pelas ricas lições para os amadores locais e esmeravam-se em elogiar a nossa gente hospitaleira, as nossas praias e os nossos coqueirais. É lógico que os profissionais-de-teatro-cinema-&-TV não permaneciam mais que um verão à sombra dos coqueirais nativos; em pouco tempo desapareciam da cidade sem deixar nada além de dívidas em hotéis, restaurantes e lojas. De qualquer modo, deve ter sido graças a esses personagens que se criou entre os artistas amadores de Maceió a crença de que um cursode-ator-&-manequim é uma condição sine qua non para se alcançar fama & sucesso na carreira artística. É bem verdade que até hoje as receitas para se chegar ao estrelato não mudaram muito. Também até hoje muitos dos atores locais ainda acreditam que é melhor investir em boas roupas ou cosméticos do que em bons livros ou ideias. De qualquer maneira, depois a capital viria a dispor de cursos profissionalizantes de artes, fornecendo diplomas, legitimando ambições e prepotências. LC ‡


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Domingo, 26 de agosto de 2012, GAZETA DE ALAGOAS FOTOS: FELIPE BRASIL

Entre ambiências, surpresas e frenesis

Heranças e conexões numa terra dividida entre os mangues, as lagoas e o mar

LAEL CORREA COLABORAÇÃO PARA A GAZETA

TEATRO DEODORO

CORETO DE JARAGUÁ

Até o final da década de 1980, tanto as casas de espetáculos quanto as galerias de arte tornavam estimulante e promissora a ambiência artística e cultural maceioense. Não havia patrocinadores e nenhum produtor contava com concursos ou prêmios de instituições públicas. Ainda nem ao menos se falava em leis de incentivo cultural e a Embratel ainda não cogitava em se tornar a patrocinadora mor da cultura brasileira. Apesar disso, ou por isso mesmo, as ações culturais se realizavam com uma vitalidade que, sob um olhar 2.0, parece inacreditável. A despeito de toda a espontaneidade e entusiasmo da produção cultural da segunda metade do século 20 em Maceió, não há razões para saudades e seria pilhéria afirmar que “éramos felizes e não sabíamos”. Mas, na área artístico-cultural não existem fatos isolados, desconectados do passado e livres da conexão com o futuro. Os diversos acontecimentos culturais relevantes sempre deixam heranças que, positiva ou negativamente, definem as deficiências e potencialidades de cada cidade, região ou país. Especialmente numa terra dividida entre os mangues, as lagoas e o mar, não seria espantoso pensar que exista uma ‘produção cultural líqui-

“Especialmente numa terra dividida entre os mangues, as lagoas e o mar, não seria espantoso pensar que exista uma ‘produção cultural líquida’, no sentido baumaniano. Variável a cada novo governo, Maceió já teve diversos bairros eleitos como ‘polos culturais’. Nos anos de 1970 o point era o próprio centro da cidade, com suas igrejas, bares, boates, cinemas e teatros”

da’, no sentido baumaniano. Variável a cada novo governo, Maceió já teve diversos bairros eleitos como “polos culturais”. Nos anos de 1970 o point era o próprio centro da cidade, com suas igrejas, bares, boates, cinemas e teatros. Depois houve uma decadência da região, que passou a conviver apenas com a cultura do mendigo, do sem-teto e do cheira-cola. Então o frenesi da diversão & cultura migrou para uma área que abarcava vários trechos entre a Praça Sinimbu, a Praia da Avenida e o Riacho Salgadinho. Ali pipocavam espaços de variadas tendências estéticas e interesses culturais. Aconteciam, por exemplo, performances no Bar do PT e na boate OffMusic, shows no inferninho Katintendo e, talvez para cultivar algum resquício de glamour, exposições na Aliança Francesa! Enquanto isso, os cursos de teatro se profissionalizavam e o Espaço Cultural da Praça Sinimbu juntava gregos e alagoanos para o encantamento das artes cênicas. Além disso, na mesma

área havia a Pinacoteca da Universidade Federal e o Museu Théo Brandão, que conferiam alguma seriedade e solidariedade ao movimento plástico da capital. Porém, em decorrência da necessidade recorrente que a cidade tem de “liquefazer” ações, nos anos de 1990 o antigo bairro de Jaraguá já estava eleito como lugar ideal para “revigorar a nova cultura alagoana”. Bares, cafés, boates, casas de shows, museus e (até) livrarias faziam faiscar a menina dos olhos de muitos políticos, empresários e (até) artistas. O bairro de Jaraguá era assim, por quase dois mandatos municipais, um paraíso de águas rasas para a cultura da capital alagoana. Enquanto isso, os palcos de Maceió morriam de inanição. Salvo exceções, como a extraordinária apresentação do Grupo Piolim (PB) com o belo espetáculo Vau da Sarapalha, no Circo Pirueta, o teatro local já não se alimentava. Estava distante dos ricos manjares e até do fast-food mais básico da cena nacional, pois a partir de 1990 os três únicos teatros da cidade foram interditados e o cardápio cênico fora levado pela correnteza. Talvez a do Riacho Salgadinho. Se até o final da década de 1980, os acontecimentos toscos e risíveis rolavam lado a lado com ações originais e valorosas, a década final do século 20 começou sem maiores perspectivas para os palcos de Maceió. A interdição dos três únicos teatros marcaria sem piedade a produção cultural da década de 1990. É importante lembrar que a relevância dos teatros não era e nem é restrita apenas aos produtores teatrais. Outras áreas, como a música, a dança e as artes plásticas sempre necessitaram dele.

Uma nova cartografia

De qualquer modo, as manifestações artísticas não desapareceram. Aconteciam espetáculos em bares, ruas, museus e circos. No entanto, entre os produtores que migraram, os que trocaram de ofício e os que inventaram palcos alternativos, quase todos sobreviveram. Enquanto aguardava a morte dos cupins e do descaso, a classe artística articulou passeatas, manifestos e abaixoassinados. Esperava que a proximidade do novo milênio acelerasse a reabertura dos teatros e que novos palcos fossem inaugurados na cidade. Tais anseios se efetivaram após dez anos, mas aí a maioria das galerias de arte e dos grupos teatrais havia desaparecido; e entre os pro-

dutores culturais que sobreviveram nem todos estavam aptos a atravessar os portais do novo século. Ainda assim, o novo ciclo da produção cultural maceioense foi inaugurado. A partir do ano 2000 o panorama começou a mudar. Dois dos antigos teatros foram reabertos e novos teatros e galerias começaram a ganhar notoriedade, ampliando o mapa artístico e cultural, inclusive geograficamente. Os paradigmas começaram a ser reconstruídos e, mais uma vez, Maceió voltou a alternar produções artístico-culturais de relevância com projetos pífios e insignificantes. Novamente as plateias tinham ao seu dispor um farto menu: da riqueza artística inesquecível de

Mary Stuart (Denise Stoklos) aos marqueteiros Monólogos da Vagina (Vera Setta); da grandeza genial do Diário de um Louco (Diogo Vilela) ao imbecilizante Diálogo dos Pênis (Marcos Weinberg). E as produções locais, em estágio de profissionalização a fórceps, seguiram a cartilha. Porém, com exceção do aumento significativo das montagens de comédias fuleiras, não houve grandes alterações. Felizmente, um novo prato foi disponibilizado ao distinto público maceioense: a performance. Nunca antes se viu tantos performers e nem tantas intervenções urbanas. Ações ainda tímidas e esparsas; porém, capazes de ampliar as alternativas cênicas da cidade. LC ‡

ESPAÇO CULTURAL


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GAZETA DE ALAGOAS, 26 de agosto de 2012, Domingo FELIPE BRASIL

‘Apenas Maceió’

JARAGUÁ

Dificuldades são dificuldades aqui, ali ou em qualquer lugar

LAEL CORREA COLABORAÇÃO PARA A GAZETA

Maceió é uma capital que hoje cresce a olhos vistos e frequentemente esboça modificações curiosas. No entanto, as alterações se dão apenas na superfície e raramente estão vinculadas a reais transformações políticas, sociais e culturais. Ao se iniciar o novo século/milênio a cidade havia ganhado contornos

inusitados em seu aspecto físico. Novas áreas urbanas, shopping centers, teatros e cinemas; tudo fazia crer que Maceió preparava-se cuidadosamente para um novo tempo, o novo século. Uma busca de expansão onde um dos dados mais simbólicos foi ter seu aeroporto incluído nas rotas de voos internacionais. A pequena capital nordestina estabelecia novas metas e acenava para o horizonte: do Aeroporto Zumbi dos Palmares para o mundo! A “estrela radiosa” da infância maceioense, tão singela e ingênua, com seus pudores provincianos e recatos brejeiros; aos poucos adquiriu ares de capital em desenvolvimento. Os condomínios de luxo se multiplicaram, a cocaína já era facilmente adquirida e até se começava a falar em metrô! Tudo muito contemporâneo e avançado; numa perspectiva onde as atrocidades da política, do analfabetismo, da pobreza e da violência passavam a ficar mal acomodadas nos desvãos da memória e da realidade. De qualquer modo, todos esses dados se refletem na arte e na cultura produzida em Maceió a partir do ano 2000 – seja engrandecendo-a ou barateando-a, expandindo-a ou enfraquecendo-a. Basta pensarmos que na década de 1980 Maceió contava com quase uma dúzia de galerias de arte. Esse nú-

mero foi diminuindo ao longo da década de 1990 e atualmente os poucos espaços dedicados às artes plásticas nem de longe alcançam o dinamismo que galerias como a Karandash, por exemplo, alcançaram no século passado. Nos espaços teatrais o tempo agiu de modo irônico: nunca houve tantas casas de espetáculos em Maceió como agora. Com uma quase dezena de teatros, a cidade nunca antes viu tantos espetáculos e parece ter se livrado do “teatro de roça”. Entretanto, entre as diversas produções, quer estejam preocupadas com a arte ou com o lucro; poucas são realmente importantes, novas ou decisivas para os caminhos da arte local. Em seus quase duzentos anos vividos à beira-mar, Maceió tem mais problemas do que a maioria das capitais brasileiras. O baixo índice de desenvolvimento humano e de educação básica e os altos níveis de violência e de insegurança já se tornaram notícias antigas. Porém, no que se refere à produção, difusão e consumo da produção artísticocultural, há distinções. Como bem nos diz o cordelista Pedro Saruê, “em todo canto do mundo se fala da vida dura enfrentada pela arte e pela cultura e aqui não é melhor nem é pior, é apenas Maceió”. É possível reclamar da rima, mas é provável que o poeta esteja com a razão.

Truque no telão

Era outra vez. E desta vez a memória é recente, pois a cena aconteceu naquela que hoje é a maior e mais requintada casa de espetáculos de Maceió, o Teatro Gustavo Leite, inaugurado em 2005. O teatro superlotado aguarda o início da sessão, uma peça com atores celebrizados pela TV. Uma comédia bastante banal, dessas onde a ação transcorre em sala de estar, mas, já não é a velha sala de 1970. Agora se trata de uma sala ultramoderna, com palco móvel e incríveis truques cenográficos. Ao abrir das cortinas um telão é baixado no proscênio e nele são projetadas as logomarcas dos patrocinadores e apoiadores do evento. Finalizando as projeções, como numa manifestação direta do Deus-Ex-Machine, surge no telão o símbolomor dos promotores do espetáculo: Rede Globo. Numa rápida espiada pela plateia, é perceptível o desconforto que a imagem causa em alguns espectadores. A maioria, no entanto, permanece impassível, aguardando o início do ritual cênico. Após um rápido blecaute, começa o espetáculo. Só então se abrem os véus da virtualidade e podemos constatar que, definitivamente, Maceió aterrissou no século 21. LC ‡ RICARDO LÊDO/ARQUIVO GA

* LAEL CORREA, 48, é dramaturgo, ator e artista plástico e fundador do grupo teatral Infinito Enquanto Truque (IET)


Maceió: Memórias Culturais em Série - Parte 2