Page 1

GRAHAM HANCOCK

AS DIGITA IS DOS DEUSES Tradu��o de RUY JUNGMANN EDITORA RECORD 2001 Para Santha... Por estar l�, Com todo meu amor.


Sum�rio Agradecimentos Parte I Introdu��o: O mist�rio dos mapas 1. Um mapa de lugares ocultos 2. Rios na Ant�rtida 3. Impress�esdigitais de uma ci�ncia perdida Parte II Espuma do Mar: Peru e Bol�via 4. O v�o do condor 5. A trilha inca para o passado 6. Ele veio em uma �poca de caos 7. Houve, ent�o, gigantes? 8. O lago no topo do mundo 9. O antigo e futuro rei 10. A cidade no Portal do Sol 11. Indica��esde antiguidade 12. O fim dos viracochas Parte III A Serpente Emplumada: Am�rica Central 13. O sangue e o tempo no fim do mundo 14. O povo da serpente 15. Babel mexicana 16. O santu�rio da serpente 17. O enigma olmeca 18. Estrangeiros bem vis�veis 19. Aventuras no mundo subterr�neo, jornadas �s estrelas 20. Osfilhos dos primeiros homens 21. Um computador para calcular o fim do mundo 22. A cidade dos deuses 23. O sol, a lua e o caminho dos mortos Parte IV


O Mist�rio dos Mitos 1. Uma esp�cie com amn�sia 24. Ecosde nossossonhos 25. As muitas m�scaras do Apocalipse 26. Uma esp�cie nascida no longo inverno da terra 27. A face da terra escureceu e uma chuva negra come�ou a cair Parte V O Mist�rio dos Mitos 2. O c�digo da precess�odos equin�cios 28. A maquinaria do c�u 29. A primeira tentativa de decifrar um antigo c�digo 30. A �rvore c�smica e o moinho dos deuses 31. Osn�meros de Os�ris 32. Falando para o futuro Parte VI Convite a Giz�: Egito 1 33. Pontos cardeais 34. A mans�o da eternidade 35. Tumbas, e nada mais? 36. Anomalias 37. Feito por algum deus 38. Jogo interativo tridimensional 39. O local do in�cio Parte VII O Senhor da Eternidade: Egito 2 40. H� ainda segredos no Egito? 41. A Cidade do Sol, a C�mara do Chacal 42. Eras passadase enigmas 43. Procurando os Primeiros Tempos 44. Deusesdos Primeiros Tempos 45. Obras de homens e de deuses 46. O und�cimo mil�nio a.C. 47. A Esfinge 48. Medidas da terra


49. O poder da coisa Parte VIII Conclus�o: Onde est� o corpo? 50. Procurando agulha em palheiro 51. O martelo e o p�ndulo 52. Como um ladr�o na noite Notas Bibliografia Selecionada �ndice Remissivo Agradecimentos Este livro n�o poderia ter sido escrito sem o amor generoso, caloroso e encorajador de minha companheira Santha Faiia - que sempre d� mais do que recebe e que, com criatividade, bondade e imagina��o, enriquece a vida de todos que com ela convivem. Todas as fotos inclu�das neste livro s�o de sua autoria. Sinto-me tamb�m grato pelo apoio e est�mulo de nossos seis filhos Gabrielle, Leila, Luke, Ravi, Sean e Shanti -, cuja presen�a � um privil�gio para mim. Meus pais, Donald e Muriel Hancock, foram incrivelmente prestativos, ativos e interessadosneste e em numerosos outros tempos e projetos dif�ceis. Juntamente com meu tio James Macaulay, eles leram tamb�m pacientemente os esbo�os do original que, aos poucos, tomava forma, oferecendo uma grande riqueza de sugest�es positivas. Obrigado, tamb�m, a meu mais velho e mais �ntimo amigo, Peter Marshall, em cuja companhia resisti a numerosastempestades, e a Rob Gardner, Joseph e Sherry Jahoda, Roel Oostra, Joseph e Laura Schor, Niven Sinclair, Colin Skinner e Clem Vallance, pelos bons conselhos. Em 1992, descobri subitamente que tinha um amigo em Lansing, Michigan. Ed Ponist entrou em contato comigo logo depois da publica��o de meu livro anterior, The Sign and the Seal. Como um anjo da guarda, Ed se prontificou a dedicar parte consider�vel de seu tempo livre para me ajudar em pesquisas, contatos e coleta de fontes documentais nos Estados Unidos, relevantes para a prepara��o deste livro. Ele realizou um trabalho brilhante, enviando-me sempre os livros certos quando eu deles necessitava e localizando refer�ncias que eu nem sabia que existiam. Revelou-se tamb�m muito h�bil em avaliar a qualidade de meu trabalho e aprendi logo a confiar e a respeitar sua capacidade de julgamento. Finalmente, mas n�o de menor import�ncia,


quando Santha e eu visitamos o Arizona para conhecer a na��o hopi, Ed nos acompanhou e abriu caminhos... A carta inicial de Ed fez parte de um imenso dil�vio de correspond�ncia que recebi de todas as partes do mundo, depois de publicar The Sign and the Seal. Durante algum tempo, tentei responder pessoalmente a todas elas. No fim, contudo, fiquei t�o ocupado na prepara��o deste livro que tive de deixar de lado esse trabalho. Sinto-me mal a esse respeito e aproveito esta oportunidade para agradecer a todos os que me escreveram e aos quais n�o pude dar resposta. Pretendo ser mais sistem�tico no futuro, porque atribuo enorme valor a essa correspond�ncia e aprecio muito as informa��esde alta qualidade que ela freq�entemente cont�m... Entre outros pesquisadores que me ajudaram na prepara��o deste livro, n�o poderiam ser omitidos os nomes de Martin Slavin, David Mestecky e Jonathan Derrick. Al�m disso, gostaria de agradecer aos meus editores de texto em ambos os lados do Atl�ntico, Tom Weldon, na Heinemann, Jim Wade, na Crown, e John Pearce, na Doubleday Canad�, bem como a meus agentes liter�rios, Bill Hamilton e Sara Fisher, pelo interesse, solidariedade e s�bios e constantes conselhos. Envio daqui tamb�m meus calorosos agradecimentos aos pesquisadores e colegas que se transformaram em amigos no curso desta pesquisa: Robert Bauval, na Inglaterra (com quem escreverei em colabora��o dois futuros livros sobre assuntos correlatos), John Anthony West e Lew Jenkins, nos Estados Unidos, Rand e Rose Flem-Ath e Paul William Roberts, no Canad�. Finalmente, rendo homenagens a Ignatius Donnelly, Arthur Posnansky, R.A. Schwaller de Lubicz, Charles Hapgood e Giorgio de Santillana - pesquisadores que compreenderam que havia alguma coisa de profundamente errada na hist�ria da humanidade, tiveram coragem de levantar a voz contra a m� vontade intelectual e foram pioneiros da not�vel mudan�a de paradigma ora em andamento.

Parte I Introdu��o O Mist�rio dos Mapas CAP�TULO 1 Um Mapa de Lugares Ocultos

8� ESQUADR�ODERECONHECIMENTOT�CNICO(ERC)


FOR�AA�READOSESTADOSUNIDOS Basede Westover da For�a A�rea Massachusetts 6 de julho de 1960

ASSUNTO:Mapa-m�ndi do almirante Piri Reis Para: Professor Chartes H. Hapgood. Keene College Keene, New Hampshire Prezado professor Hapgood, Sua solicita��o, no sentido de que fossem avaliados por esta unidade certos aspectos inusitados do mapa-m�ndi Piri Reis, datado de 1513, foi objeto de reexame. A alega��o de que a parte inferior do mapa mostra a costa Princesa Martha, da Terra da Rainha Maud, na Ant�rtida, e a pen�nsula Palmer, � razo�vel. Julgamos ser essa a interpreta��o mais l�gica e, com toda probabilidade, correta do mapa. Os detalhes geogr�ficos mostrados na parte inferior do mapa concordam, de forma not�vel, com os resultados do perfil s�smico, levantado de um lado a outro da calota polar, pela Expedi��o Sueco-Brit�nica � Ant�rtida, realizada em 1949. Os resultados indicam que a linha costeira foi mapeada antes de ser coberta pela calota polar. A calota polar nessaregi�o tem atualmente uma espessura de cerca de 1.600m. N�o temos id�ia de como os dados constantes do mapa podem ser conciliados com o suposto estado dos conhecimentos geogr�ficos em 1513. HAROLDZ. OHLMEYER Ten.-Cel., For�a A�rea dos EUA Comandante A despeito da linguagem destitu�da de emo��o, a carta de Ohlmeyer � uma bomba. Sea Terra da Rainha Maud foi mapeada antes de ser coberta pelo gelo, o trabalho original de cartografia deve ter sido feito em um tempo extraordinariamente remoto. H� quanto tempo, exatamente?


De acordo com o saber convencional, a calota polar da Ant�rtida, em sua atual forma e extens�o, tem milh�es de anos. Um exame mais atento, por�m, revela que essa id�ia apresenta graves falhas - t�o graves que n�o precisamos supor que o mapa desenhado pelo almirante Piri Reis mostre a Terra da Rainha Maud como era h� milh�es de anos. A melhor prova recente sugere que a Terra da Rainha Maud e as regi�es vizinhas mostradas no mapa passaram por um longo per�odo livres de gelo, per�odo que talvez n�o tenha terminado inteiramente at� cerca de seis mil anos atr�s. Essa prova, que voltaremos a examinar no cap�tulo seguinte, evita-nos a tarefa ingrata de explicar quem (ou o qu�) dispunha da tecnologia necess�ria para efetuar um levantamento geogr�fico preciso da Ant�rtida h�, digamos, dois milh�es de anos a.C., muito antes de nossa esp�cie surgir na Terra. Pela mesma raz�o, uma vez que a confec��o de mapas � uma atividade complexa e civilizada, obriga-nos a explicar como uma tarefa dessa natureza poderia ter sido realizada h� seis mil anos, muito antes do aparecimento das primeiras civiliza��esaut�nticas reconhecidas por historiadores. Fontes Antigas Ao tentar essa explica��o, � importante lembrar os fatos hist�ricos e geogr�ficos b�sicos: 1. O mapa de Piri Reis, que � um documento aut�ntico e n�o uma contrafa��o qualquer tipo, foi desenhado em Constantinopla no ano 1513 d.C. de

2. O mapa mostra a costa ocidental da �frica, a costa oriental da Am�rica do Sul e a costa norte da Ant�rtida. 3. Piri Reis n�o poderia ter obtido, com exploradores da �poca, informa��es sobre esta �ltima regi�o, uma vez que a Ant�rtida permaneceu desconhecida at� 1818, mais de 300 anos depois de ele ter desenhado o mapa. 4. A costa livre de gelo da Terra da Rainha Maud mostrada no mapa constitui um quebra-cabe�a colossal, uma vez que a prova geol�gica confirma que a data mais recente em que poderia ter sido inspecionada e mapeada, em um estado de aus�ncia de gelo, foi no ano 4000 a.C. 5. N�o � poss�vel fixar exatamente a data mais antiga em que essetrabalho poderia ter sido feito, embora pare�a que o litoral da Terra da Rainha Maud pode ter permanecido


em condi��es est�veis, sem glacia��o, pelo menos durante 9.000 anos antes que a calota polar em expans�o a engolisse inteiramente. 6. A hist�ria n�o conhece civiliza��o que tivesse capacidade ou necessidade de efetuar o levantamento topogr�fico da linha costeira no per�odo relevante, entre os anos 13000a.C.e 4000 a.C. Em outras palavras, o verdadeiro enigma dessemapa de 1513 n�o est� tanto no fato de ter inclu�do um continente que s� foi descoberto em 1818, mas em mostrar parte da linha costeira desse mesmo continente em condi��es de aus�ncia de gelo, que terminaram h� 6.000 anos e que desde ent�o n�o se repetiram. De que maneira podem ser explicados essesfatos? Piri Reis, cortesmente, fornece--nos a resposta em uma s�rie de notas escritas do pr�prio punho, no pr�prio mapa. Confessa ele que n�o foi o respons�vel pelo trabalho inicial de levantamento topogr�fico e pela cartografia. Muito ao contr�rio, admite que seu papel foi simplesmente o de compilador e copista e que o mapa baseia-se em grande n�mero de mapas b�sicos. Alguns deles foram desenhados por exploradores contempor�neos ou quase contempor�neos (incluindo Crist�v�o Colombo) que, por essa �poca, haviam chegado � Am�rica do Sul e ao Caribe, embora outros fossem documentos cujas datas retroagiam ao s�culo IV a.C.ou mesmo antes. Piei Reis n�o deixou qualquer sugest�o sobre a identidade dos cart�grafos que haviam produzido os mapas mais antigos. Em 1963, contudo, o professor Hapgood prop�s uma solu��o nova e instigante para o problema. Argumentou ele que alguns mapas b�sicos que o almirante usara, em especial os que se supunha terem sido produzidos no s�culo IV a.C., haviam se baseado em fontes ainda mais antigas, que, por seu lado, teriam se baseado em fontes b�sicas de uma �poca ainda mais recuada na antiguidade. Havia, afirmou ele, prova irrefut�vel de que a terra fora extensamente mapeada, antes do ano 4000 a.C., por uma civiliza��o at� ent�o desconhecida e ainda n�o descoberta, dotada de alto grau de progresso tecnol�gico.


Parece [conclu�a ele] que informa��es exatas foram transmitidas de um povo a outro. Ao que tudo indica, as cartas tiveram for�osamente origem em um povo desconhecido, tendo sido passadas adiante, talvez pelos minoanos e os fen�cios, famosos, durante mil anos ou mais, como os maiores navegadores do mundo antigo. Temos prova de que, reunidos e estudados na grande biblioteca de Alexandria [Egito], compila��esdos mesmos foram feitas por ge�grafos que l� estudaram. Com in�cio em Alexandria, de acordo com a reconstru��o de Hapgood, c6pias dessas compila��es e alguns mapas b�sicos originais foram levados para outros centros de saber - notadamente Constantinopla. Finalmente, quando Constantinopla foi ocupada pelos venezianos durante a IV Cruzada, em 1204, os mapas come�aram a chegar �s m�os de marinheiros e aventureiros europeus: A maioria desses mapas era do Mediterr�neo e do mar Negro. Sobreviveram, por�m, mapas de outras �reas. Inclu�am eles mapas das Am�ricas e dos oceanos �rtico e Ant�rtico. Torna-se claro que os antigos exploradores viajavam de um p�lo a outro. Inacredit�vel como possa parecer, a prova, ainda assim, indica que alguns povos antigos exploraram a Ant�rtida quando suas costas estavam livres de gelo. � claro, tamb�m, que dispunham de um instrumento de navega��o para determinar acuradamente as longitudes que era imensamente superior a qualquer coisa possu�da pelos povos dos tempos antigos, medieval ou moderno at� a segunda metade do s�culo XVIII. Essa prova, de que houve uma tecnologia desaparecida, sustenta e d� credibilidade a numerosas outras hip�teses sobre uma civiliza��o perdida, em tempos remotos. Estudiosos conseguiram refutar a maioria das alegadas provas, mostrando que eram apenas mitos, mas aqui temos prova que n�o pode ser refutada. A prova requer que todas as demais provas apresentadas no passado sejam reexaminadas com mente aberta. A despeito do respeitado endosso de Albert Einstein (ver a seguir) e n�o obstante o reconhecimento posterior de John Wright, presidente da Sociedade Geogr�fica Americana, de que Hapgood "formulou hip�teses que exigem mais exames", nenhuma pesquisa cient�fica ulterior foi realizada sobre esses antigos e estranhos mapas. Al�m do mais, longe de ser aplaudido por dar uma nova e s�ria contribui��o ao debate sobre a antiguidade da civiliza��o humana, Hapgood, at� sua morte, foi esnobado pela maioria de seus colegas, que vazaram a discuss�o a que lhe submeteram a obra no que algu�m descreveu, acuradamente, como "sarcasmo flagrante e injustificado, escolhendo aspectos banais e fatores n�o suscet�veis de


verifica��o como bases para condena��o, procurando, dessa maneira, evitar as quest�es b�sicas". Um Homem � frente de seu Tempo O falecido Charles Hapgood ensinou hist�ria da ci�ncia no Keene College, New Hampshire, Estados Unidos. Ele n�o era ge�logo nem historiador da antiguidade. � poss�vel, no entanto, que gera��es futuras lembrem-se dele como o homem que abalou os alicerces da hist�ria mundial - e tamb�m de um grande peda�o da geologia. Albert Einstein foi um dos primeiros a compreender essefato, quando deu o passo sem precedentes de contribuir com o pref�cio para um livro de Hapgood escrito em 1953, alguns anos antes de ele iniciar a investiga��o do mapa de Piri Reis: Freq�entemente, recebo comunica��es de pessoas que querem me consultar sobre id�ias suas ainda in�ditas [escreveu Einstein]. Dispensa dizer que s� raramente tais id�ias t�m validade cient�fica. A primeira comunica��o que recebi do Sr. Hapgood, por�m, deixou-me eletrizado. Sua id�ia � original, de grande simplicidade e - se continuar a ser provado que tem validade - de grande import�ncia para tudo aquilo que se relaciona com a hist�ria da superf�cie da terra. A "id�ia" expressada no livro de 1953 de Hapgood � uma teoria geol�gica global, que explica elegantemente como e por que grandes regi�es da Ant�rtida permaneceram livres de gelo at� o ano 4000 a.C., juntamente com numerosas outras anomalias encontradas na ci�ncia da Terra. O argumento, em suma, � o seguinte: 1. A Ant�rtida nem sempre foi coberta de gelo e houve �poca em que era muito mais quente do que hoje. 2. E era quente porque, naquele per�odo, n�o se localizava fisicamente no p�lo Sul. Em vez disso, situava-se a aproximadamente 3.600 quil�metros mais ao norte. Essa situa��o a teria colocado fora do C�rculo Ant�rtico, em um clima temperado ou frio temperado. 3. O continente passou para sua atual posi��o, dentro do C�rculo Ant�rtico, devido a um mecanismo conhecido como "deslocamento da crosta terrestre". Essemecanismo, que n�o deve, de forma alguma, ser confundido com deslocamento de placas tect�nicas, ou migra��o de continentes, � aquele atrav�s do qual a litosfera, isto �, toda a crosta terrestre, "pode deslocar-se ocasionalmente, movendo-se por cima do


n�cleo interno mole, mais ou menos como uma pele de laranja, se estivesse solta, poderia deslocar-se em uma �nica pe�a por cima da parte interna da fruta". 4. Durante esse suposto movimento da Ant�rtida na dire��o sul, ocasionado pelo deslocamento da crosta terrestre, o continente tornou-se gradualmente mais frio, formando-se uma calota polar que se expandiu irresistivelmente durante milhares de anos, at� chegar �s atuais dimens�es. Detalhes adicionais da prova que sustenta essas id�ias radicais constam da Parte VIII deste livro. Ge�logos ortodoxos, no entanto, permanecem relutantes em aceitar a teoria de Hapgood (embora ningu�m tenha provado que ela estava errada). E a teoria provoca numerosasperguntas. Entre elas, a mais importante � a seguinte: que mecanismo conceb�vel poderia exercer uma for�a suficiente sobre a litosfera para precipitar um fen�meno de tal magnitude, como o deslocamento da crosta? Ningu�m melhor como guia do que Einstein para sumariar as descobertas de Hapgood: Nas regi�es polares, h� uma acumula��o constante de gelo, mas n�o distribu�da simetricamente em torno do p�lo. A rota��o da terra atua sobre essas massas assimetricamente depositadas e produz momento centr�fugo, que � transmitido � crosta r�gida da terra. O momento centr�fugo, em aumento constante, produzido dessa maneira, dar� origem, quando atingir um certo ponto, a movimento da crosta da terra por cima do resto do corpo da terra... O mapa de Piei Reis parece conter prova adicional surpreendente em apoio da tese de uma glacia��o geologicamente recente de partes da Ant�rtida, em seguida a um s�bito deslocamento, na direc�o sul, da crosta terrestre. Al�m do mais, uma vez que esse mapa s� poderia ter sido desenhado antes do ano 4000 a.C., s�o not�veis suas implica��es para a hist�ria da civiliza��o humana. Supostamente, antes do ano 4000 a.C.n�o havia qualquer civiliza��o. Correndo algum risco de uma simplifica��o excessiva, o consenso acad�mico �, em termos gerais, o seguinte: . A civiliza��o desenvolveu-se inicialmente no Crescente F�rtil do Oriente M�dio. . Essedesenvolvimento come�ou ap�s o ano 4000 a.C. e culminou no aparecimento das mais antigas civiliza��es aut�nticas (Sum�ria e Egito), por volta do ano 3000 a.C., seguido logo depois por outras civiliza��esno vale do Indo e na China.


. Cerca de 1.500 anos depois, a civiliza��o decolou espont�nea e independentemente nas Am�ricas. . Desdeo ano 3000 a.C.no Velho Mundo (e mais ou menos no ano 1500 no Novo Mundo), a civiliza��o "evoluiu" ininterruptamente na dire��o de formas cada vez mais refinadas, complexas e produtivas. . Em conseq��ncia, e especialmente em compara��o com a nossa, todas as civiliza��es antigas (e todas as suas obras) devem ser compreendidas como essencialmente primitivas (os astr�nomos sumerianos sentiam pelos c�us um respeito anticiendfico e at� as pir�mides do Egito teriam sido constru�das por "primitivos com conhecimentos tecnol�gicos"). A prova, sob a forma do mapa de Piri Reis, parece desmentir tudo isso. Piri Reis e suas Fontes Nos seus dias, Piri Reis foi figura bem conhecida. N�o h� a menor d�vida sobre sua identidade hist�rica. Almirante na marinha de guerra dos turcos otomanos, participou, em meados do s�culo XVI, n�o raro no lado vencedor, de numerosas batalhas navais. Era, al�m disso, considerado especialista nas terras do Mediterr�neo, e escreveu um livro de navega��o famoso, o Kitabi Bahriye, onde constava uma descri��o completa das costas, ancoradouros, correntes, baixios, pontos de desembarque, ba�as e estreitos dos mares Egeu e Mediterr�neo. A despeito de uma carreira ilustre, caiu no desagrado de seus senhores e foi decapitado no ano 1554 ou 1555 d.C. Os mapas b�sicos usados por ele para desenhar o mapa de 1513 estiveram, com toda probabilidade, arquivados inicialmente na Biblioteca Imperial, em Constantinopla, � qual se sabe que o almirante tinha acesso privilegiado. Essas fontes (que podem ter sido trazidas ou copiadas de centros de saber ainda mais antigos) n�o existem mais ou, pelo menos, n�o foram encontradas. N�o obstante, foi na biblioteca do velho Pal�cio Imperial que, em data t�o recente quanto 1929, algu�m redescobriu o mapa de Piri Reis, pintado em pele de gazela e enrolado, em uma empoeirada prateleira. Legado de uma Civiliza��o Perdida? Como o confuso Ohlmeyer reconheceu na carta escrita a Hapgood em 1960, o mapa de Piri Reis mostrava a topografia subglacial, o verdadeiro perfil da Terra da Rainha Maud, na Ant�rtida, por baixo do gelo. Esse perfil permaneceu inteiramente oculto


desde o ano 4000 a.C. (quando foi coberto pelo len�ol de gelo em expans�o) at� ser revelado, mais uma vez, como resultado de extenso levantamento s�smico da regi�o, efetuado em 1949 por uma equipe cient�fica de reconhecimento brit�nico-sueca. Se Piri Reis tivesse sido o �nico cart�grafo com acesso a essasinforma��es an�malas, seria err�neo dar qualquer grande import�ncia ao mapa. No m�ximo, poder�amos dizer: "Talvez ele seja importante, mas, tamb�m, talvez seja apenas uma coincid�ncia". O almirante turco, por�m, n�o foi o �nico a ter acesso a esse conhecimento geogr�fico aparentemente imposs�vel e inexplic�vel. Seria in�til especular ainda mais do que Hapgood j� fez, isto �, se a "corrente subterr�nea" poderia ter conduzido e preservado esse conhecimento atrav�s das idades, transmitindo fragmentos dele de uma cultura a outra, de uma �poca a outra. Qualquer que tenha sido o mecanismo, o fato � que um bom n�mero de outros cart�grafos aparentemente tomou conhecimento dos mesmos curiosos segredos. Seria poss�vel que todos esses cart�grafos tivessem compartilhado, talvez sem saber, do abundante legado cient�fico de uma civiliza��o desaparecida?

CAP�TULO 2 Rios na Ant�rtida Nas f�rias de Natal de 1959-60, Charles Hapgood procurava dados sobre a Ant�rtida na Sala de Obras de Refer�ncia da Biblioteca do Congresso, em Washington, D.C. Durante v�rias semanas consecutivas, prosseguiu nesse trabalho, absorto na pesquisa, cercado por literalmente centenas de mapas e cartas medievais. Descobri [escreveu ele] um sem-n�mero de coisas fascinantes e inesperadas e v�rias cartas mostrando o continente ant�rtico. Certo dia, virei uma p�gina e fiquei paralisado, transfixado. Lan�ando meus olhos sobre o hemisf�rio Sul de um mapam�ndi desenhado por Oronteus Finaeus em 1531, senti a convic��o imediata de que descobrira nele um mapa inegavelmente aut�ntico da verdadeira Ant�rtida. A forma geral do continente era surpreendentemente parecida com o esbo�o encontrado em mapas modernos. A posi��o do p�lo Sul, quase no centro do continente, parecia mais ou menos correta. As cordilheiras que seguiam as costas sugeriam as numerosas cadeias de montanhas descobertas na Ant�rtida em anos


recentes. Era �bvio, tamb�m, que esse mapa n�o constitu�a uma cria��o atamancada da imagina��o de algu�m. As cadeias de montanhas apareciam bem individualizadas, algumas claramente costeiras e, outras, n�o. Originando-se nelas, rios corriam em dire��o ao mar, seguindo, em todos os casos, o que pareciam bacias hidrogr�ficas naturais, muito convincentes. Esse fato sugeria, claro, que as costas deveriam ter estado livres de gelo ao ser desenhado o mapa original. O interior profundo, por�m, estava inteiramente livre de rios e montanhas, sugerindo esse fato que gelo poderia ter estado presente nessaregi�o. Um estudo mais profundo do mapa de Oronteus Finaeus, realizado por Hapgood e pelo Dr. Richard Strachan, do Massachusetts Institute of Technology, confirmou os fatos seguintes: 1. O mapa havia sido copiado e compilado de mapas prim�rios anteriores, desenhados de acordo com certo n�mero de proje��esdiferentes. 2. O mapa mostrava, de fato, condi��es n�o-glaciais nas regi�es costeiras da Ant�rtida, notamente na Terra da Rainha Maud, Terra de Enderby, Terra de Wilkes, Terra de Vit�ria (a costa oriental do mar de Ross)e Terra de Marie Byrd. 3. Tal como no caso do mapa de Piri Reis, o perfil geral do terreno e os acidentes f�sicos vis�veis correspondiam estreitamente a mapas de levantamentos s�smicos das superf�cies de terras subglaciais da Ant�rtida. O mapa de Oronteus Finaeus, concluiu Hapgood, parecia documentar "a surpreendente sugest�o de que a Ant�rtida fora visitada, e talvez colonizada, numa �poca em que as condi��es eram predominante, se n�o inteiramente, n�o-glaciais. Dispensa dizer que o mapa implicava uma antiguidade muito remota... [Na verdade] o mapa de Oronteus Finaeus leva a civiliza��o dos homens que desenharam o mapa original a uma �poca contempor�nea do fim da �ltima Idade Glacial no hemisf�rio Norte."


O Mar de Ross Prova adicional em apoio dessaid�ia � encontrada na maneira como o mar de Rossfoi mostrado por Oronteus Finaeus. Nos locais onde hoje grandes geleiras, como a Beardmore e a Scott, desembocam no mar, o mapa de 1531 mostra estu�rios, extensas ba�as e indica��es de rios. A implica��o inconfund�vel desses acidentes geogr�ficos � que n�o havia gelo no mar de Ross, ou em suas costas, quando foram desenhados os mapas prim�rios usados por Oronteus Finaeus. "Teria que haver tamb�m uma grande extens�o de terra livre de gelo para alimentar os rios. Atualmente, todas essascostas e as terras que ficavam mais para tr�s encontram-se profundamente sepultadas sob uma calota de gelo, com uma espessura de 1.600m, enquanto que, no pr�prio mar de Ross,s�o encontrados icebergs flutuantes de centenas de metros de espessura". A prova relativa ao mar de Rossimplica forte corrobora��o � id�ia de que a Ant�rtida deve ter sido mapeada por alguma civiliza��o desconhecida durante o per�odo, muito


extenso, em que a regi�o ficou livre do gelo, e que terminou por volta do ano 4000 a.C. Essa conclus�o � robustecida pelo trabalho das sondas usadas em 1949 para coleta de n�cleos-testemunho por uma das expedi��es do almirante Byrd � Ant�rtida, com o objetivo de tirar amostras dos sedimentos do leito do mar de Ross. Os sedimentos revelaram numerosas camadas de estratifica��o claramente demarcadas, refletindo diferentes condi��es ambientais em diferentes �pocas: "dep�sitos marinhos glaciais grossos", "dep�sitos marinhos glaciais m�dios", "dep�sitos marinhos glaciais finos", e assim por diante. A descoberta mais surpreendente, contudo, foi "que grande n�mero de camadas era formado de sedimentos variados, de fina granula��o, tais como os que s�o trazidos para o mar por rios que fluem de terras de clima temperado (isto �, livres de gelo)...". Usando o m�todo de data��o por i�nio, criado pelo de. W.D. Urry (que utiliza tr�s elementos radioativos diferentes encontrados na �gua do mar), pesquisadores do Carnegie Institute, em Washington, D.C., conseguiram provar, al�m de qualquer d�vida razo�vel, que caudalosos rios, trazendo sedimentos muito variados de fina granula��o, haviam realmente existido na Ant�rtida h� cerca de 6.000 anos, conforme demonstrava o mapa de Oronteus Finaeus. S� depois dessa data, por volta do ano 4000 a.C., "� que o sedimento de tipo glacial come�ou a ser depositado no leito do mar de Ross... Os n�cleos-testemunho indicam que condi��es quentes prevaleceram durante um longo per�odo, antes daquela data".

Merc�tor e Buache Os mapas de Piri Reis e de Oronteus Finaeus, portanto, proporcionam-nos um vislumbre da Ant�rtida que nenhum cart�grafo dos tempos modernos poderia ter visto, em nenhuma hip�tese. Por si mesmas, claro, essas duas pe�as de prova n�o seriam suficientes para nos convencer de que poder�amos estar olhando para as impress�es digitais de uma civiliza��o perdida. Mas tr�s, quatro, ou seis mapas desse tipo poderiam ser refutados com igual justifica��o? Seria seguro, ou razo�vel, por exemplo, continuar a ignorar as implica��es hist�ricas de alguns dos mapas elaborados pelo mais famoso cart�grafo do s�culo XVI, Gerard Kremer, conhecido tamb�m como Merc�tor? Mais lembrado pela "proje��o de Merc�tor", ainda usada na maioria dos mapas-m�ndi modernos, esse enigm�tico indiv�duo (que realizou uma inexplicada visita � Grande Pir�mide do Egito em 1563), foi, segundo consta de documentos, "infatig�vel na busca (...) do saber de �pocas


remotas", tendo passado muitos anos acumulando dili gentemente uma vasta e ecl�tica biblioteca de obras de refer�ncia de mapas prim�rios antigos.

No que � muito importante, Merc�tor incluiu o mapa de Oronteus Finaeus em seu Atlas de 1569 e mostrou tamb�m a Ant�rtida em v�rios outros mapas que ele mesmo produziu no mesmo ano. Entre as partes do continente sul ainda n�o descobertas na �poca e constantes do mapa figuram o cabo Dart e o cabo Herlacher, na Terra de Marie Byrd, o mar de Amundsen, a ilha Thurston, na Terra de Ellsworth, as ilhas Fletcher, no mar de Bellinghausen, a ilha Alexander, a pen�nsula Ant�rtica (Palmer), o mar de Weddell, o cabo Norvegia, a cordilheira Regula, na Terra da Rainha Maud (sob a forma de ilhas), as montanhas Muhlig-Hoffinan (como ilhas), a costa Pr�ncipe Harald, a geleira Shirase, como estu�rio, na costa Pr�ncipe Harald, a ilha Padda, na ba�a LutzowHolm, e a costa Pr�ncipe Olaf, na Terra de Enderby. "Em alguns casos, esses acidentes geogr�ficos s�o claramente mais reconhec�veis do que no mapa de Oronteus Finaeus",


observou Hapgood, "e parece claro, de modo geral, que Merc�tor dispunha de mapas prim�rios, al�m dos usados por Oronteus Finaeus". E n�o apenasMerc�tor. Philippe Buache, cart�grafo franc�s do s�culo XVIII, publicou um mapa da Ant�rtida muito tempo antes de o continente meridional ter sido "descoberto" oficialmente. O not�vel no mapa de Buache � que parece ter se inspirado em um mapa prim�rio desenhado antes, talvez milhares de anos antes, diferente dos usados por Oronteus Finaeus e Merc�tor. E o que Buache nos mostra em uma representa��o sobrenaturalmente precisa � como a Ant�rtida deveria ter parecido quando n�o havia l� absolutamente nenhum gelo. O mapa revela a topografia subglacial de um continente inteiro, do qual nem mesmo n�s tivemos conhecimento completo at� 1958, data do Ano Geof�sico Internacional, quando foi realizado um levantamento s�smico completo da regi�o. O levantamento simplesmente confirmou o que Buach proclamou em 1737, ao publicar seu mapa da Ant�rtida. Baseando o trabalho cartogr�fico em fontes antigas ora perdidas, o acad�mico franc�s desenhou uma clara via naveg�vel de um lado a outro do continente, dividindo-o em duas massasprincipais de terra, a leste e a oeste da linha hoje assinalada como montanhas Transant�rticas. Essa via naveg�vel, ligando os mares de Ross, Weddell e Bellinghausen, teria realmente existido, se a Ant�rtida houvesse estado livre de gelo. Conforme demonstraram os resultados do Ano Geof�sico Internacional, de 1958, o continente (que nos mapas modernos aparece como uma massade terra cont�nua) consiste de um arquip�lago de grandes ilhas, com gelo compacto de 1.600m de espessura entre elas, projetando-se acima da superf�cie do mar.


A �poca dos Cart�grafos Conforme vimos, numerosos ge�logos ortodoxos acreditam que h� milh�es de anos existiram, pela �ltima vez, vias fluviais nessasbacias ora cobertas de gelo. Do ponto de vista dos estudiosos, por�m, � igualmente ortodoxo afirmar que nenhum ser humano existia naqueles tempos remotos, quanto mais seres humanos capazes de mapear acuradamente as massascontinentais da Ant�rtida. O grande problema levantado pela prova oferecida por Buache/AGI � que essas massas parecem realmente ter sido mapeadas quando se encontravam livres de gelo. Esse fato apresenta aos estudiosos duas proposi��esmutuamente contradit�rias. Qual delas � a correta?


Seformamos com a fac��o dos ge�logos ortodoxos e aceitamos que milh�es de anos se passaram indubitavelmente desde que a Ant�rtida esteve, pela �ltima vez, inteiramente livre de gelo, ent�o toda prova de evolu��o humana, laboriosamente acumulada por cientistas ilustres desde o tempo de Darwin, deve carecer de fundamento. E parece inconceb�vel que isso tenha acontecido: o registro f�ssil deixa meridianamente claro que h� milh�es de anos existiam apenas ancestrais ainda n�o evolu�dos da humanidade - homin�deos de testa baixa, que se arrastavam pelo ch�o com as juntas dos dedos tocando a terra, incapazes de trabalhos sofisticados como a elabora��o de mapas. Dever�amos, ent�o, supor a interven��o de cart�grafos alien�genas, a bordo de espa�onaves em �rbita, a fim de explicar a exist�ncia de mapas sofisticados de uma Ant�rtida livre de gelo? Ou dever�amos pensar novamente nas implica��es da teoria de Hapgood sobre o deslocamento da crosta da terra, o que permitiria que o continente sul houvesse ficado livre de gelo h� uns 15.000 anos, da forma mostrada por Buache? Seria poss�vel que uma civiliza��o humana, suficientemente desenvolvida para ter condi��es de mapear a Ant�rtida, pudesse ter surgido cerca de 13.000 anos antes de Cristo e, em seguida, desaparecido? E, se isso aconteceu, quanto tempo depois? O efeito combinado dos mapas de Piri Reis, Oronteus Finaeus, Merc�tor e Buache � a forte, embora perturbadora, impress�o de que a Ant�rtida deve ter sido continuamente mapeada durante um per�odo de v�rios milhares de anos, � medida que a calota de gelo expandia-se gradualmente a partir do interior, aumentando seu alcance a cada mil�nio, mas s� conseguindo cobrir todas as costas do continente sul por volta do ano 4000 a.C. As fontes prim�rias dos mapas de Piri Reis e Merc�tor deveriam, portanto, ter sido preparadas perto do fim desse per�odo, �poca em que, na Ant�rtida, s� as costas se encontravam livres de gelo. A fonte usada no mapa de Oronteus Finaeus, por outro lado, parece ter sido muito anterior, quando a calota de gelo existia apenas no interior profundo do continente, ao passo que a de Buache teve origem, aparentemente, em data ainda mais antiga (por volta do ano 13000 a.C.), quando n�o havia absolutamente gelo na Ant�nida. Am�rica do Sul Teriam sido outras partes do mundo objeto de levantamento topogr�fico e mapeadas com precis�o a intervalos muito separados durante a mesma �poca, ou seja, aproximadamente dos anos 13000a 4000 a.C.?A resposta talvez se encontre, mais uma vez, no mapa de Piei Reis, que cont�m mais mist�rios do que apenas a Ant�rtida:


. Desenhado em 1513, o mapa revela um misterioso conhecimento da Am�rica do Sul n�o s� da costa oriental, mas tamb�m dos Andes no lado ocidental do continente, que, claro, eram desconhecidos na �poca. O mapa mostra corretamente o rio Amazonas nascendo nessasmontanhas inexploradas e delas correndo na dire��o leste. . Compilado � vista de mais de vinte documentos prim�rios diferentes, de antiguidade variada, o mapa de Piri Reis mostra o Amazonasn�o apenas uma, mas duas vezes (com toda probabilidade, como resultado de superposi��o n�o intencional de dois dos documentos prim�rios usados pelo almirante turco). Na primeira, o curso do Amazonas � mostrado descendo at� a foz do rio Par�, embora n�o conste a importante ilha de Maraj�. De acordo com Hapgood, esse fato sugere que o mapa prim�rio relevante deve ter sido datado de uma �poca, talvez h� 15.000 anos, quando o rio Par� era a principal ou �nica foz do Amazonas e quando a ilha de Maraj� fazia parte do continente, no lado norte do rio. A segunda vers�o do Amazonas, por outro lado, mostra a ilha de Maraj� (e em detalhes fantasticamente exatos), a despeito do fato de que essa ilha s� foi descoberta em 1543. Mais uma vez, surge a possibilidade de uma civiliza��o desconhecida, que realizava opera��es cont�nuas de levantamento topogr�fico e mapeamento da face mut�vel da terra, ao longo de um per�odo de muitos milhares de anos, tendo Piri Reis usado n�o s� os mapas prim�rios mais antigos, mas tamb�m os mais recentes deixados por essaciviliza��o. . Nem o rio Orinoco nem o seu atual delta s�o mostrados no mapa de Piri Reis. Em vez disso, como prova Hapgood, dois estu�rios, que se estendiam muito terra adentro (numa dist�ncia de 160km), foram mostrados perto do local onde se encontra o rio atual. A longitude na quadr�cula seria correta para o Orinoco e a latitude tamb�m bastante acurada. Ser� poss�vel que esses estu�rios tenham sido soterrados por sedimentos e o delta se estendido por essa dist�ncia toda, desde que os mapas prim�rios foram desenhados? . Embora permanecessem desconhecidas at� 1592, as ilhas Falkland aparecem em sua latitude correta no mapa de 1513. . A mapoteca de fontes antigas incorporada ao mapa de Piri Reis poderia explicar tamb�m o fato de mostrar convincentemente a exist�ncia de uma grande ilha no oceano Atl�ntico, a leste da costa da Am�rica do Sul, onde nenhuma ilha existe atualmente. Seria pura coincid�ncia que essa ilha "imagin�ria" tenha sido localizada


exatamente acima da cordilheira suboce�nica existente no meio do Atl�ntico, imediatamente ao norte do equador e a 1.100km a leste da costa do Brasil, onde os min�sculos rochedos de S�o Pedro e S�o Paulo se projetam acima das ondas? Ou teria sido o mapa prim�rio relevante desenhado no auge da �ltima Era Glacial, quando o n�vel dos mares era muito mais baixo do que hoje e uma grande ilha poderia, realmente, ter ficado exposta nesseponto?


N�veis do Mar e Eras Glaciais Outros mapas do s�culo XVI d�o tamb�m a impress�o de que poderiam ter-se baseado em levantamentos topogr�ficos mundiais, realizados durante a �ltima Era Glacial. Um deles foi compilado em 1559 por um turco, Hadji Ahmed, cart�grafo, que, como dizia Hapgood, devia ter tido acesso a alguns mapas prim�rios "de natureza a mais extraordin�ria". O aspecto mais estranho e que logo impressiona na compila��o de Hadji � que ela mostra, com grande clareza, uma faixa de territ�rio, de quase 1.600km de largura, ligando o Atasca � Sib�ria. Essa "ponte continental", como a chamam os ge�logos, efetivamente existiu no passado (no local onde hoje existe o estreito de Bering), mas foi coberta pelas ondas quando o n�vel do mar subiu ao fim da �ltima Era Glacial. O aumento do n�vel do mar foi causado pelo degelo tumultuoso da calota polar, que recuava celeremente por toda parte no hemisf�rio Norte, por volta do ano 10000 a.C. Por isso mesmo, � interessante que pelo menos um mapa antigo parece mostrar o sul da Su�cia coberto por geleiras remanescentes, do tipo que deve ter sido realmente predominante nessaslatitudes. As geleiras remanescentes figuram no famoso Mapa do Norte, de Claudius Ptolomeu. Compilado originariamente no s�culo II d.C., esse trabalho not�vel do �ltimo grande ge�grafo da antiguidade cl�ssica ficou perdido durante centenas de anos e s� foi redescoberto no s�culo XV. Ptolomeu trabalhava como curador da Biblioteca de Alexandria, onde era conservada a maior cole��o de manuscritos dos tempos antigos, e foi nela que ele consultou os documentos arcaicos prim�rios que lhe permitiram compilar seu pr�prio mapa. A aceita��o da possibilidade de que a vers�o original de pelo menos uma das cartas a que ele se referiu teria sido preparada por volta do ano 10000 a.C. contribui para explicar por que o mapa mostra geleiras, caracter�sticas dessa exata �poca, juntamente com "lagos (ou) sugerindo a forma dos lagos e cursos d'�gua atuais que lembram muito correntes glaciais (...) descendo das geleiras para os lagos". � provavelmente desnecess�rio acrescentar que ningu�m nos tempos romanos, �poca em que Ptolomeu elaborou seu mapa, tinha a menor suspeita de que eras glaciais poderiam ter coberto outrora o norte da Europa. Nem ningu�m no s�culo XV (quando foi redescoberto o mapa) possu�a tal conhecimento. Na verdade, � imposs�vel dizer como as geleiras remanescentes e outros acidentes geogr�ficos mostrados no mapa de Ptolomeu poderiam ter sido constatados em levantamentos, imaginados ou inventados por qualquer civiliza��o conhecida anterior � nossa. S�o �bvias as implica��es desse fato. Como tamb�m s�o as de outro mapa, o "Portolano", de lehudi Ibn Ben Zara, desenhado em 1487. Essacarta da Europa e norte


da �frica pode ter sido baseada em fonte ainda mais antiga do que a usada por Ptolomeu, porquanto aparentemente mostra geleiras muito ao sul da Su�cia (na verdade, aproximadamente na mesma latitude da Inglaterra) e o Mediterr�neo, o Adri�tico e o Egeu como devem ter sido antes do derretimento da calota europ�ia. O n�vel do mar, claro, teria sido muito mais baixo do que � hoje. � interessante notar, por exemplo, na se��o do Egeu do mapa, que existiam muito mais ilhas do que atualmente. � primeira vista, esse fato parece estranho. Contudo, se dez ou doze mil anos se passaram desde a era em que foi elaborado o mapa de Ibn Ben Zara, a discrep�ncia pode ser explicada sem dificuldade: as ilhas perdidas devem ter sido cobertas pelo n�vel do mar que subia ao fim da �ltima Era Glacial. Mais uma vez, parece que estamos olhando para as impress�es digitais de uma civiliza��o desaparecida - uma civiliza��o capaz de produzir mapas incrivelmente precisos de partes muito separadasda terra. Que tipo de tecnologia e que estado da ci�ncia e da cultura teriam sido necess�rios para realizar um trabalho dessanatureza?

CAP�TULO 3 Impress�es Digitais de uma Ci�ncia Perdida Vimos que o mapa-m�ndi de Merc�tor, datado de 1569, inclu�a uma representa��o precisa das costas da Ant�rtida, como deveriam ter parecido h� milhares de anos, quando estiveram livres de gelo. Curiosamente, esse mesmo mapa � muito menos preciso na representa��o de outra regi�o, a costa ocidental da Am�rica do Sul, do que um mapa anterior (1538) tamb�m elaborado por Merc�tor. A raz�o dessefato parece ser que o ge�grafo do s�culo XVI baseou o mapa anterior nas fontes antigas que sabemos que tinha � disposi��o, ao passo que, no tocante ao mapa mais moderno, confiou em observa��es e medi��es dos primeiros exploradores espanh�is da regi�o ocidental da Am�rica do Sul. Uma vez que eles supostamente levaram consigo para a Europa as informa��es mais recentes, dificilmente poder�amos culpar Merc�tor por t�-Ias aceito. Mas, ao fazer isso, declinou a precis�o de seu trabalho: em 1569, n�o existiam instrumentos capazes de fixar a longitude, ainda que parecesse que foram usados para preparar os documentos prim�rios antigos consultados por ele para produzir o mapa de 1538. Os Mist�rios da Longitude


Vejamos o problema da longitude, definido como a dist�ncia em graus a leste ou oeste do meridiano de refer�ncia. O meridiano de refer�ncia atual, internacionalmente aceito, � a curva imagin�ria tra�ada do p�lo Norte ao p�lo Sul que passa pelo Real Observat�rio de Greenwich, em Londres. Greenwich, portanto, representa a longitude 0�, enquanto que Nova York, por exemplo, situa-se a 74� oeste e Camberra, Austr�lia, a aproximadamente 150� leste. Poder�amos dar uma explica��o detalhada da longitude e do que precisa ser feito para fix�-Ia exatamente no tocante a qualquer dado ponto na superf�cie da terra. O que nos interessa aqui, contudo, n�o � tanto o detalhe t�cnico quanto os fatos hist�ricos aceitos sobre o conhecimento crescente da humanidade no tocante aos mist�rios da longitude. Entre esses fatos, o mais importante � o seguinte: at� a ocorr�ncia de uma inven��o inovadora no s�culo XVIII, cart�grafos e navegantes n�o conseguiam fixar a longitude com qualquer tipo de precis�o. Limitavam-se a dar palpites, que em geral erravam em muitas centenas de quil�metros, porque n�o surgira ainda a tecnologia necess�ria para que pudessem fazer corretamente o trabalho. A latitude ao norte ou sul do equador n�o criava problema dessa natureza: a latitude podia ser obtida atrav�s de medi��es angulares do sol e das estrelas, usando-se instrumentos relativamente simples. Para fixar a longitude, por�m, era necess�rio equipamento inteiramente diferente e de calibre superior, que pudesse combinar medi��es de posi��o com medi��es de tempo. Durante todo o transcurso da hist�ria conhecida, a inven��o de equipamento dessa natureza permaneceu al�m da capacidade dos cientistas. Em princ�pios do s�culo XVIII, por�m, com o aumento cada vez maior do tr�fego mar�timo, aumentou a sensa��o de impaci�ncia e urg�ncia para solu��o do problema. Ou, nas palavras de uma autoridade do per�odo: "A busca da longitude era uma sombra sobre a vida de todos os marinheiros e a seguran�a de todos os navios e cargas. A medi��o precisa parecia ser um sonho imposs�vel e 'descobrir a longitude' tornou-se uma frase padr�o na imprensa, do tipo 't�o f�cil quanto um porco voar'." Acima de tudo, precisava-se de um instrumento que controlasse o tempo (no local de partida) com exatid�o perfeita durante as longas viagens mar�timas, a despeito dos movimentos do navio e n�o obstante as condi��es adversas de tempo quente e frio, chuvoso e seco. "Um Rel�gio dessetipo", como disse Isaac Newton em 1714 a membros da Junta de Longitude, um organismo oficial do governo brit�nico, "n�o foi ainda fabricado". E, de fato, n�o havia sido. Os rel�gios do s�culo XVII e princ�pios do s�culo XVIII eram dispositivos grosseiros, que costumeiramente adiantavam ou atrasavam um quarto de hora por dia. Em contraste, o cron�metro mar�timo eficaz s� poderia adiantar ou atrasar essamargem em v�rios anos.


S� na d�cada de 1720, por�m, � que um talentoso relojoeiro ingl�s, John Harrison, come�ou a trabalhar no primeiro de uma s�rie de modelos, que resultou na fabrica��o de um cron�metro desse tipo. O objetivo de Harrison era ganhar o pr�mio de 20.000 libras oferecido pela Junta de Longitude "ao inventor de qualquer meio para determinar a longitude de um navio, com uma margem de erro de apenas 48 milhas n�uticas ao cabo de uma viagem de seis semanas". Um cron�metro capaz de atender a esserequisito teria que marcar o tempo com uma margem de erro de tr�s segundos ao dia. Foram necess�rios quase 40 anos, per�odo em que completou e submeteu a teste v�rios prot�tipos, antes que Harrison pudesse adequar-se a tais padr�es. Finalmente, em 1761, o elegante Cron�metro N� 4 deixou a Gr�-Bretanha a bordo do HMS Deptford a caminho da Jamaica, acompanhado pelo filho de Harrison, William. Nove dias depois de iniciada a viagem, e na base dos c�lculos de longitude tornados poss�veis com o cron�metro, William informou ao comandante que avistariam as ilhas da Madeira na manh� seguinte. O comandante apostou e deu uma vantagem de cinco a um de que ele


estava errado, mas concordou em manter o curso do navio. William ganhou a aposta. Dois meses depois, na Jamaica, descobriu-se que o instrumento atrasara apenas cinco segundos. Harrison havia superado as condi��es estabelecidas pela Junta de Longitude. Devido a entraves burocr�ticos no governo brit�nico, por�m, ele s� recebeu o pr�mio tr�s anos depois e antes de seu falecimento em 1776. Compreensivelmente, s� quando recebeu o dinheiro � que ele divulgou os segredos de seu projeto. Como resultado dessademora, o capit�o James Cook n�o p�de contar com as vantagens de um cron�metro quando empreendeu sua primeira viagem de descoberta em 1768. Ao realizar a terceira viagem (1778-9), por�m, conseguiu mapear o Pac�fico com uma precis�o impressionante, fixando n�o s� as latitudes corretas, mas tamb�m a longitude de todas as ilhas e costas. Da� em diante, "gra�as aos cuidados de Cook e ao cron�metro de Harrison (...) nenhum navegador teria desculpa para deixar de encontrar uma ilha no Pac�fico (...) ou por naufragar em uma costa que aparecia, surgida do nada". Realmente, com as longitudes exatas, os mapas do Pac�fico elaborados por Cook devem ser classificados entre os primeiros exemplos de cartografia precisa da era moderna. Eles nos lembram, contudo, que a elabora��o de mapas realmente dignos de confian�a exige pelo menos tr�s ingredientes principais: grandes viagens de descoberta, compet�ncia matem�tica e cartogr�fica de primeira classe e cron�metros sofisticados. Mas s� depois de o cron�metro de Harrison tornar-se de uso corrente na d�cada de 1770 � que foi atendida a terceira das pr�-condi��es. A brilhante inven��o permitiu que cart�grafos fixassem com precis�o a longitude, algo que os sum�rios, os antigos eg�pcios, os gregos e os romanos e, na verdade, todas as demais civiliza��es conhecidas anteriores ao s�culo XVIII, aparentemente n�o conseguiram fazer. Por isso mesmo, surpreende e perturba descobrir mapas imensamente mais antigos que fixam com uma precis�o moderna as latitudes e longitudes. Instrumentos de Precis�o Essas latitudes e longitudes inexplicavelmente precisas s�o encontradas na mesma categoria geral de documentos que cont�m os conhecimentos geogr�ficos avan�ados que mencionamos sumariamente acima. O mapa de Piri Reis de 1513, por exemplo, p�e a Am�rica do Sul e a �frica nas latitudes relativas corretas, o que, teoricamente, teria sido uma fa�anha imposs�vel para a ci�ncia da �poca. Piri Reis, por�m, teve a honestidade de reconhecer que o mapa


baseava-se em fontes mais antigas. Poderia ter ele tirado dessas fontes as longitudes precisas? Reveste-se tamb�m de grande interesse o denominado "Dulcert Portolano", do ano 1339 d.C., que mostra a Europa e o Norte da �frica. Neste caso, a latitude � perfeita, a despeito das dist�ncias imensas, e a longitude total dos mares Mediterr�neo e Negro � dada com uma margem de erro de apenasmeio grau. O professor Hapgood comenta que o autor da fonte prim�ria, da qual foi copiado o Dulcert Portolano, havia "alcan�ado uma precis�o altamente cient�fica, ao encontrar a raz�o entre latitude e longitude. Ele s� poderia ter feito isso se dispusesse de informa��es precisas sobre as longitudes relativas de grande n�mero de lugares espalhados pelo caminho todo, de Galway, na Irlanda, at� a curva oriental do rio Don, na R�ssia". O mapa Zeno, do ano 1380 d.C., constitui outro enigma. Cobrindo uma vasta �rea do hemisf�rio norte que chega at� a Groenl�ndia, o mapa localiza numerosos locais muito separados, em latitudes e longitudes "espantosamente corretas". � "incr�vel", declara Hapgood, "que algu�m no s�culo XIV pudesseter descoberto as latitudes exatas desses locais, para nada dizer das longitudes precisas". O mapa-m�ndi de Oronteus Finaeus merece tamb�m aten��o: coloca as costas da Ant�rtida nas latitudes e longitudes relativas corretas e d� uma �rea notavelmente exata para o continente como um todo. Esses resultados refletem um n�vel de conhecimento geogr�fico que s� se tornou dispon�vel no s�culo XX. O Portolano, de Yehudi Ibn Ben Zara, � outro mapa not�vel por sua precis�o no que concerne a latitudes e longitudes relativas. A longitude total entre Gibraltar e o mar de Azov � dada com uma precis�o de meio grau, enquanto que, no mapa em geral, os erros m�dios de longitude ficam abaixo de um grau. Esses exemplos representam apenas uma pequena fra��o do grande e instigante dossi� de provas apresentado por Hapgood. Camada ap�s camada, o efeito cumulativo desses trabalhos e an�lise detalhada sugerem que estamos nos iludindo quando supomos que instrumentos precisos para medir longitude s� foram inventados no s�culo XVIII. Muito ao contr�rio, o mapa de Piri Reis e outros indicam, com forte credibilidade, que esses instrumentos foram redescobertos nessas ocasi�es, que existiram em incont�veis eras anteriores e que foram usados por um povo civilizado, ora perdido nas brumas da hist�ria, que havia explorado e mapeado toda a terra. Al�m do mais, parece que esse povo era capaz n�o s� de projetar e fabricar instrumentos mec�nicos tecnicamente avan�ados, mas foram mestres de uma ci�ncia matem�tica muito antiga.


Os Matem�ticos Perdidos Sequeremos compreender o motivo, devemos inicialmente recordar o �bvio: a Terra � uma esfera. Quando o assunto � mape�-Ia, por conseguinte, o globo � a �nica forma que pode represent�-Ia em propor��o correta. Transferir dados cartogr�ficos de um globo para folhas lisas de papel implica inevitavelmente distor��es e isso s� pode ser feito atrav�s de m�todos matem�ticos mec�nicos e complexos, conhecidos como proje��o cartogr�fica. H� v�rios tipos de tal proje��o. A de Merc�tor, ainda usada hoje em atlas, � talvez a mais conhecida. Outras s�o designadas misteriosamente como azimutal, estereogr�fica, gnom�nica, azimutal eq�idistante, proje��o conforme, e assim por diante, mas � desnecess�rio entrar aqui em maiores detalhes sobre o assunto. Precisamos apenas observar que todas as proje��es cartogr�ficas bem-feitas exigem o uso de t�cnicas matem�ticas sofisticadas, de um tipo supostamente desconhecido no mundo antigo (particularmente na antiguidade mais remota, antes do ano 4000 a.C., quando alegadamente n�o havia qualquer civiliza��o humana, quanto mais uma capaz de criar e usar matem�tica e geometria avan�adas). Charles Hapgood submeteu sua cole��o de mapas antigos ao Massachusetts Institute of Technology, onde foi analisada pelo professor Richard Strachan. A conclus�o geral era �bvia. Ele, no entanto, queria saber precisamente que n�vel de matem�tica teria sido necess�rio para desenhar os documentos prim�rios originais. No dia 18 de abril de 1965, Strachan respondeu que um n�vel muito alto de matem�tica teria sido necess�rio. Alguns dos mapas, por exemplo, pareciam ser do tipo da proje��o de Merc�tor, datados de muito antes do nascimento do pr�prio Merc�tor. A complexidade relativa dessa proje��o (implicando expans�o de latitude) implica que um m�todo de transforma��o de coordenada trigonom�trica teria que ter sido usado. Outras raz�es por ele dadas para deduzir que os antigos can�grafos deveriam ter sido h�beis matem�ticos foram as seguintes: 1. A determina��o de localiza��es em continentes exige pelo menos m�todos de triangula��o geom�trica. No que interessa a grandes dist�ncias (da ordem de 1.600km ou mais), corre��es ter�o que ser feitas para levar em conta a curvatura da terra, o que exige alguma compreens�o de trigonometria esf�rica. 2. A localiza��o de continentes em suas posi��es relativas rec�procas requer compreens�o da esfericidade da terra e o uso de trigonometria esf�rica.


3. Culturas possuidoras dessesconhecimentos, al�m de instrumentos de precis�o para fazer as medi��es necess�rias � determina��o da localiza��o, usariam com toda certeza sua tecnologia matem�tica para confeccionar mapas e cartas. A impress�o de Strachan, de que os mapas, atrav�s de gera��es de copistas, revelavam o trabalho de uma civiliza��o antiga, misteriosa e tecnologicamente avan�ada, foi compartilhada pelos especialistas em reconhecimento a�reo da For�a A�rea americana, aos quais Hapgood submeteu suas provas. Lorenzo Burroughs, comandante do 8� Esquadr�o de Reconhecimento T�cnico, Se��o de Cartografia, da Base A�rea de Westover, realizou um estudo especialmente cuidadoso do mapa de Oronteus Finaeus. Concluiu ele que algumas das fontes sobre as quais o mapa se baseou deveriam ter sido desenhadas com aux�lio de uma proje��o semelhante � moderna Proje��o Cordiforme. Essefato, disse Burroughs, sugere o uso de matem�tica avan�ada. Al�m disso, a forma dada ao continente da Ant�rtida lembra a possibilidade, se n�o a probabilidade, de que os mapas prim�rios originais foram compilados com um tipo estereogr�fico ou gnom�nico de proje��o, implicando o uso de trigonometria esf�rica. Estamos convencidos de que as descobertas realizadas pelo senhor e por seus colegas s�o v�lidas, e que equacionam quest�es de extrema import�ncia, que afetam a geologia e a hist�ria antiga..." Hapgood faria ainda mais uma descoberta importante: um mapa chin�s copiado de um original mais antigo e transposto, no ano 1137 d.C., para um pilar de pedra. O mapa inclui exatamente o mesmo tipo de informa��es de alta qualidade sobre longitudes que os outros. Exibe uma quadr�cula semelhante e foi desenhado com uso de trigonometria esf�rica. Na verdade, examinando-se bem, descobrimos que compartilha de tantos aspectos de mapas europeus e do Oriente Pr�ximo que s� uma explica��o parece aceit�vel: esse mapa e os outros devem ter se originado de uma fonte comum. Parece, mais uma vez, que temos diante de n�s um fragmento remanescente dos conhecimentos cient�ficos de uma civiliza��o desaparecida. Mais do que isso, parece que essa civiliza��o deve ter sido, pelo menos em alguns aspectos, t�o avan�ada quanto a nossa, e que seus cart�grafos "mapearam virtualmente todo o globo com um n�vel geral uniforme de tecnologia, com m�todos semelhantes, e igual conhecimento de matem�tica e, provavelmente, com os mesmos tipos de instrumentos".


O mapa chin�s indica ainda outra coisa: um legado global deve ter sido transmitido um legado de valor inestim�vel, incluindo, com toda probabilidade, muito mais do que conhecimentos geogr�ficos sofisticados. Poderia uma parte desse legado ter sido distribu�da no Peru pr�-hist�rico pelos denominados "viracochas", estranhos, misteriosos indiv�duos barbudos que se dizia ter vindo do outro lado do mar, em uma" �poca de trevas", para restabelecer a civiliza��o ap�s uma grande calamidade na terra? Resolvi ir ao Peru para ver o que poderia descobrir.

Parte II Espuma do Mar Peru e Bol�via CAP�TULO 4 O V�o do Condor Estou no sul do Peru, voando por cima das linhas de Nazca. Acreditem em mim, depois da baleia e do macaco, o beija-flor aparece, bate as asas e estende o bico delicado para uma flor imagin�ria. Em seguida, fazemos uma volta fechada para a direita, perseguidos por nossa pr�pria min�scula sombra, enquanto cruzamos a cicatriz p�lida da rodovia Pan-Americana e seguimos a trajet�ria que nos leva por cima da fabulosa "Alcatraz" com pesco�o de serpente: uma gar�a de 270m de comprimento, concebida pela mente de um mestre ge�metra. Descrevemos um c�rculo, cruzamos a estrada pela segunda vez, passamos por um arranjo espantoso de peixes e tri�ngulos desenhados ao lado de um pelicano, viramos para a esquerda e nos descobrimos pairando acima da imagem sublime de um condor gigantesco, com as asasestendidas em um v�o estilizado. Exatamente no momento em que tento recuperar o f�lego, outro condor, quase perto o suficiente para que pudesseser tocado, materializa-se, vindo de ningu�m sabe onde, um condor aut�ntico desta vez, orgulhoso como um anjo ca�do, navegando sobre uma corrente t�rmica de volta ao c�u. Meu piloto solta um arquejo e tenta segui-lo. Por um


momento, tenho um vislumbre de olhos brilhantes e imparciais que parecem nos avaliar e nos achar aqu�m do esperado. Em seguida, como a vis�o de algum mito antigo, a criatura inclina-se e flutua desdenhosamente para tr�s na dire��o do sol, deixando nosso monomotor Cessnaafundando no ar mais baixo. Abaixo de n�s, vemos um par de linhas paralelas, de quase 3,2km de comprimento, reta como uma flecha, at� desaparecer ao longe. E ali, � direita, uma s�rie de formas abstratas, em uma escala t�o vasta - e ainda assim executada com tanta precis�o - que parece inconceb�vel que tenha sido obra de homens. Pessoas por aqui dizem que elas n�o foram trabalho de homens, mas de semideuses, dos Viracochas, que deixaram tamb�m suas impress�es digitais em outros lugares na regi�o andina, h� milhares de anos. O Enigma das Linhas O plat� de Nazca, situado no sul do Peru, � um lugar desolado, ressequido e hostil, est�ril e sem nenhum valor econ�mico. Popula��es humanas jamais viveram aqui, nem o far�o no futuro: a superf�cie da lua dificilmente parece menos hospitaleira. Se o leitor for um pintor com projetos grandiosos, por�m, esses plat�s altos e misteriosos parecem uma tela muito promissora, com 520km quadrados de planalto ininterrupto e a certeza de que sua obra-prima n�o ser� apagada pela brisa do deserto ou coberta por areia transportada pelo vento. � bem verdade que ventos fortes sopram por aqui, mas, por um feliz acidente da f�sica, s�o roubados de seu ferr�o ao n�vel do solo: os seixos que cobrem o pampa absorvem e ret�m o calor do sol, lan�ando para o alto um campo de for�a de ar quente. Al�m disso, o solo cont�m gipso suficiente para colar pequenas pedras � subsuperf�cie, adesivo este regularmente renovado pelo efeito umidificador do orvalho de come�os da manh�. Uma vez desenhadasaqui, portanto, coisas tendem a permanecer desenhadas. Quase n�o h� chuva. Na verdade, a precipita��o n�o passa de meia hora de chuvisco fino a cada d�cada. Nazca figura entre os lugares mais secosda terra. Se voc� � pintor, portanto, se tem algo grandioso e importante para expressar, e se quer ser vis�vel para sempre, estes estranhos e solit�rios plat�s parecem a resposta �s suasora��es. Especialistas deram opini�es sobre a antiguidade de Nazca, baseando-as em fragmentos de cer�mica encontrados cravados nas linhas e em resultados de testes de carbono radioativo com v�rios restos org�nicos desenterrados aqui. As datas, objeto de conjecturas, variam entre o ano 350 a.C. e 600 d.C. Realisticamente, eles nada nos dizem sobre a antiguidade das pr�prias linhas, que s�o inerentemente t�o refrat�rias �


data��o quanto as pedras removidas para risc�-Ias. Tudo que podemos dizer com certeza � que as mais recentes t�m pelo menos 1.400 anos de idade. Mas � teoricamente poss�vel que possam ser muito mais antigas do que isso - pela raz�o muito simples de que os artefatos dos quais essasdatas s�o obtidas poderiam ter sido trazidos a Nazca por povos mais recentes. A maioria dos desenhos espalha-se por uma �rea claramente definida do sul do Peru, limitada pelo rio Ingenio, ao norte, e pelo rio Nazca, ao sul, formando uma tela aproximadamente quadrada de deserto, de cor fulva, com 46km da estrada PanAmericana cortando-a obliquamente da parte superior central para o canto inferior direito. Aqui, espalhadas de modo aparentemente aleat�rio, h� li teralmente centenas de figuras diferentes. Algumas delas mostram animais e aves (um total de 18 aves diferentes). Um n�mero muito maior, por�m, tem a forma de figuras geom�tricas, sob a forma de trapez�ides, ret�ngulos, tri�ngulos e li nhas retas. Vistas do alto, estas �ltimas parecem aos olhos modernos estradas em ru�nas, como se algum engenheiro civil megaloman�aco tivesse obtido licen�a para transformar em realidade suas fantasias mais alucinadas de projeto de um campo de avia��o. N�o constitui surpresa, portanto, desde que se sup�e que o homem s� conseguiu voar em in�cios do s�culo XX, que as linhas de Nazca tenham sido identificadas por certo n�mero de observadores como campos de pouso de espa�onaves alien�genas. Trata-se de uma id�ia sedutora, mas Nazca n�o � provavelmente o melhor lugar para buscar prova desse fato. � dif�cil, por exemplo, entender por que extraterrestres avan�ados o suficiente para ter cruzado centenas de anos-luz de espa�o interestelar teriam precisado absolutamente de campos de pouso. Claro que essesseres teriam dominado a tecnologia do pouso vertical de seus discos voadores, certo? Al�m disso, n�o h� realmente a quest�o de as linhas de Nazca terem algum dia sido usadas como pistas de pouso - por discos voadores ou qualquer outro tipo de nave -, embora algumas delas pare�am exatamente isso quando vistas do alto. Vistas ao n�vel do ch�o, elas pouco mais s�o do que riscos na superf�cie, feitos pela remo��o de milhares de toneladas de seixos vulc�nicos pretos para expor a base amarela e parda do deserto. Nenhuma das �reas limpas tem mais do que alguns cent�metros de profundidade e todas elas s�o moles demais para ter permitido o pouso de m�quinas voadoras dotadas de rodas. A matem�tica alem� Maria Reiche, que dedicou meio s�culo ao estudo das linhas, estava sendo apenas l�gica quando, com uma frase seca, cortou h� alguns anos a teoria extraterreste: "Lamento dizer que os espa�onautas teriam ficado presos na terra." Se n�o foram pistas de pouso para as bigas de "deuses" alien�genas, o que mais poderiam ser as linhas de Nazca? A verdade � que ningu�m sabe para que foram


riscadas, da mesma maneira que ningu�m conhece realmente sua idade. Elas continuam a ser um aut�ntico mist�rio do passado. E quanto mais atentamente as observamos, mais enigm�ticas elas se tornam.

� claro, por exemplo, que os animais e as aves s�o anteriores � geometria das "pistas de pouso", porque muitos dos trapez�ides, ret�ngulos e linhas retas cortam em duas (e, portanto, obliteram parcialmente) as figuras mais complexas. A dedu��o �bvia � que a arte final no deserto, como a vemos hoje, deve ter sido produzida em duas fases. Al�m do mais, embora este fato pare�a contr�rio �s leis normais do progresso t�cnico,


temos de admitir que a mais antiga das duas fasesera a mais avan�ada. A execu��o das figuras zoom�rficas exigia n�veis muito mais altos de habilidade e tecnologia do que riscar linhas retas. Mas que dist�ncia separava, no tempo, os artistas mais recentes e mais modernos? Os estudiosos n�o abordam diretamente essa quest�o. Em vez disso, re�nem numa s� ambas as culturas, dando-lhes o nome de "nazcana", e as descrevem como membros primitivos de tribos que, inexplicavelmente, desenvolveram t�cnicas sofisticadas de auto-express�o art�stica e, em seguida, desapareceram do cen�rio peruano muitas centenas de anos antes do aparecimento de seus sucessoresmais conhecidos, os incas. At� que ponto foram sofisticados esses nazcanos "primitivos"? Que tipo de conhecimento teriam de possuir para deixar suas assinaturas gigantescas no plat�? Para come�ar, parece que foram astr�nomos observadores muito competentes - pelo menos na opini�o da Dra. Phillis Pitluga, astr�noma do Adler Planetarium, em Chicago. Ap�s realizar um estudo intensivo, com aux�lio de computador, dos alinhamentos estelares em Nazca, ela concluiu que a famosa figura da aranha foi criada como um diagrama terrestre da gigantesca constela��o de �rion, e que as linhas retas ligadas � figura parecem ter sido tra�adas para acompanhar atrav�s das idades as declina��esmut�veis das tr�s estrelas do Cintur�o de �rion. A import�ncia real da descoberta da Dra. Pitluga tornar-se-� clara no momento oportuno. Enquanto isso, vale notar que a aranha de Nazca mostra tamb�m acuradamente um membro de um g�nero conhecido de aranha - o Ricinulei. Acontece que este � um dos g�neros de aranha mais raros no mundo, t�o raro, na verdade, que s� foi encontrado em partes remotas e inacess�veis da floresta tropical amaz�nicas. De que modo poderiam essesartistas nazcanos, supostamente primitivos, ter viajado para t�o longe da terra natal, cruzando a formid�vel barreira dos Andes, para obter um esp�cime do inseto? Mais a prop�sito, por que deveriam eles ter desejado fazer tal coisa e como puderam duplicar os detalhes minuciosos da anatomia da Ricinulei, que s�o normalmente vis�veis apenas com aux�lio de microsc�pio, notadamente o �rg�o reprodutivo, situado na extremidade da perna direita mais longa? Mist�rios dessetipo multiplicam-se em Nazca e nenhum dos desenhos, exceto talvez o do condor, parece realmente estar � vontade aqui. A baleia e o macaco, afinal de contas, est�o t�o deslocados nesse ambiente des�rtico como a aranha amaz�nica. N�o se pode dizer que uma figura curiosa de homem, com o bra�o direito erguido como se estivesse fazendo uma sauda��o, cal�ado com pesadas botas e com olhos redondos de coruja olhando para a frente perten�a a qualquer era ou cultura. Outros desenhos representando a forma humana s�o igualmente peculiares: cabe�as envolvidas em halos de luz parecem realmente pertencer a visitantes de outros planetas. O puro


tamanho dessasfiguras � tamb�m extravagante e digno de nota. O beija-Bor tem 50m de comprimento, a aranha, 45m, o condor se estende por quase 120m do bico �s penas da cauda (como tamb�m o pelicano) e um lagarto, no ponto em que a cauda � hoje cortada pela estrada Pan-Americana, mede 190m de comprimento. Todos os desenhos foram feitos na mesma escala cicl�pica e � mesma maneira dif�cil, pelo desenvolvimento cuidadoso de contorno de uma �nica linha cont�nua. Aten��o semelhante ao detalhe � encontrada nos desenhos geom�tricos. Alguns deles tomam a forma de linhas retas de mais de oito quil�metros de comprimento, cruzando o deserto como se fossem estradas romanas, descendo para leitos secos de rios, passando por cima de proje��es rochosas e nem por um momento desviando-se da dire��o certa. Esse tipo de precis�o, embora dif�cil, n�o � imposs�vel de explicar em termos de bom senso convencional. Muito mais enigm�ticas s�o as figuras zoom�rficas. De que modo poderiam ter sido desenhadas com tanta perfei��o quando, sem uma aeronave, seus criadores n�o poderiam ter conferido o progresso do trabalho, vendo-o em sua perspectiva correta? Nenhum dos desenhos � suficientemente pequeno para ser visto do n�vel do ch�o, onde parecem simplesmente uma s�rie de sulcos informes no deserto, e s� mostram sua verdadeira forma quando vistos de uma altitude de v�rias centenas de metros. N�o h� por perto uma eleva��o que pudesse ter servido de ponto de observa��o. Riscadores de Linhas, Cart�grafos Estou voando por cima das linhas, tentando delas extrair algum sentido. Meu piloto � Rodolfo Arias, que pertenceu � For�a A�rea peruana. Ap�s uma carreira feita em ca�asa jato, ele considera o pequeno Cessnalento e mon�tono demais e tratao como se fosse apenas um t�xi com asas. J� voltamos uma vez ao aeroporto de Nazca para retirar uma janela do aparelho, de modo que minha companheira Santha pudesse assestar verticalmente suas c�maras para os misteriosos glifos. Nesse momento, estamos fazendo experimentos, de altitudes diferentes, de interpreta��o da paisagem. A algumas dezenas de metros acima da Ricinulei, a aranha da Amaz�nia, parece que ela est� se levantando sobre as patas traseiras para nos pegar com as mand�bulas. A 150m de altura, podemos ver simultaneamente v�rias figuras: um c�o, uma �rvore, um estranh�ssimo par de m�os, o condor e alguns tri�ngulos e trapez�ides. Quando subimos para 1.500m, os zoomorfos, at� ent�o predominantes, aparecem apenas como pequenas unidades espalhadas, cercadas por uma garatuja impressionante de imensas formas geom�tricas. Essas formas, nesse momento, parecem-se menos com pistas de


pouso e mais com trilhas abertas por p�s de gigantes, trilhas que cruzam o plat� no que parece, � primeira vista, uma desnorteante variedade de formas, �ngulos e tamanhos. � medida que o solo continua a afastar-se, contudo, na propor��o em que a amplia��o da perspectiva das linhas permite uma vis�o do alto mais ampla, come�o a me perguntar se, afinal de contas, n�o haveria algum m�todo nos cortes e riscos cuneiformes espalhados l� embaixo. Lembro-me de uma observa��o feita por Maria Reiche, a matem�tica que morou em Nazca e estudou as linhas desde 1946. Em sua opini�o: Os desenhos geom�tricos d�o a impress�o de ser uma escrita cifrada, na qual as mesmas palavras s�o, �s vezes, escritas em letras gigantescas e, em outras ocasi�es, em caracteres min�sculos. H� arranjos de linhas que aparecem em uma grande variedade de categorias de tamanho, com formas muito parecidas. Todos os desenhos s�o compostos de certo n�mero de elementos b�sicos... Enquanto o Cessna se sacode e corcoveia nos c�us, lembro-me tamb�m que n�o constituiu acidente que as linhas de Nazca s� tenham sido devidamente identificadas no s�culo XX, ap�s o in�cio da era dos v�os pelo homem. Em fins do s�culo XVI, um magistrado chamado Luis de Monzon tornou-se o primeiro viajante espanhol a trazer relatos de testemunha ocular a respeito dessas misteriosas "marcas no deserto" e a compilar as estranhas tradi��es que as ligavam aos Viracochas. At� que companhias de avia��o comercial come�assem a operar regularmente entre Lima e Arequipa na d�cada de 1930, por�m, aparentemente ningu�m havia percebido que a maior pe�a de arte gr�fica existente no mundo estava ali, no sul do Peru. O desenvolvimento da avia��o fez toda diferen�a, dando a homens e mulheres a capacidade divina de subir aos c�us e ver coisasbelas e enigm�ticas que, at� ent�o, lhes haviam sido veladas. Rodolfo, nesse momento, dirige o Cessna em um c�rculo suave sobre a figura do macaco - um macaco enorme preso em um quebra-cabe�as de formas geom�tricas. N�o � f�cil para mim descrever a sensa��o sobrenatural, hipn�tica, que esse desenho me produziu: era algo muito complicado e absorvente para a vista e ligeiramente sinistro, de uma forma abstrata, indefin�vel. O corpo do macaco � definido por uma linha cont�nua, ininterrupta. E sem jamais ser interrompida, a mesma linha coleia subindo degraus, passa por cima de pir�mides, em uma s�rie de ziguezagues, atrav�s de um labirinto em espiral (a cauda), em seguida recuando em certo n�mero de voltas apertadas em forma de losango. Seria um verdadeiro tour de force para um desenhista e exibi��o de per�cia art�stica reproduzir tudo isso em uma folha de papel, mas o que


t�nhamos a� era o deserto de Nazca (onde as coisas foram feitas em escala grandiosa) e o macaco tem pelo menos 120m de comprimento por 90m de largura... Teriam os riscadores de linhas sido tamb�m cart�grafos? E por que eram chamadosde Viracochas? CAP�TULO 5 A Trilha Inca Para o Passado Nenhum artefato ou monumento, nenhuma cidade ou templo, t�m durado mais, em forma reconhec�vel, do que as tradi��es religiosas mais persistentes. Fossem elas expressas nos Textos das Pir�mides, do antigo Egito, ou na B�blia hebraica, essas tradi��es figuram entre as mais imperec�veis de todas as cria��es humanas: poder�amos dizer que s�o ve�culos de conhecimento que viajam atrav�s do tempo. Os �ltimos guardi�es da heran�a religiosa antiga do Peru, os incas, tiveram suas cren�as e "idolatria" "extirpadas", e seus tesouros foram pilhados durante os trinta anos terr�veis que se seguiram � conquista espanhola, no ano de 1532. Milagrosamente, contudo, alguns dos primeiros viajantes espanh�is esfor�aram-se para documentar as tradi��es antes que elas fossem inteiramente esquecidas. Embora pouca aten��o lhes tenha sido dada na �poca, algumas dessas tradi��es referem-se surpreendentemente a uma grande civiliza��o que se acredita ter existido muitos milhares de anos antes no Peru. Mem�rias duradouras, no entanto, foram preservadas dessa civiliza��o, que algumas fontes dizem ter sido fundada pelos Viracochas, os mesmos seres misteriosos a quem se atribui o cr�dito pelo tra�ado das linhas de Nazca.

"Espuma do Mar" Ao chegarem os conquistadores espanh�is, o Imp�rio Inca estendia-se pela costa do Pac�fico e altiplanos dos Andes, desde a fronteira norte do moderno Equador, passando por todo o Peru e prolongando-se t�o ao sul quanto o rio Maule, no centro do Chile. Ligando os cantos muito separados do imp�rio havia um vasto e sofisticado sistema de estradas: duas estradas paralelas que corriam no sentido nortesul, por exemplo, uma delas com 3.600km de extens�o, bordejando a costa e, a outra, em dist�ncia semelhante, cruzando os Andes. Ambas as grandes vias eram pavimentadas e contavam com uma rede de numerosas estradas vicinais. Al�m disso,


exibiam uma interessante variedade de projetos e obras de engenharia, tais como pontes p�nseis e t�neis escavados em rocha bruta. A obra era trabalho de uma sociedade evolu�da, disciplinada e ambiciosa. Ironicamente, essas obras desempenharam um papel importante na queda do imp�rio: as for�as espanholas, sob o comando de Francisco Pizarro, usaram-nas com grande proveito para acelerar seu avan�o implac�vel at� o cora��o do imp�rio. O imp�rio tinha como capital a cidade de Cuzco, nome que na l�ngua qu�chua significa "umbigo da terra". Segundo a lenda, Cuzco fora fundada por Manco Capac e Mama Occlo, dois filhos do sol. No local, embora os incas adorassem o deus sol, a quem davam o nome de Inti, outro ser divino, muito diferente, era venerado como o Mais Sagrado de todos, o Viracocha, cujos hom�nimos teriam tra�ado as linhas de Nazca e cujo nome significa "Espuma do Mar". Constituiu sem d�vida mera coincid�ncia que a deusa grega Afrodite, nascida do mar, tenha recebido seu nome numa refer�ncia � "espuma [aphros] da qual fora criada". Al�m do mais, Viracocha era sempre descrito como inconfundivelmente humano pelos povos dos Andes. Esse fato sobre ele � incontest�vel. Nenhum historiador, por�m, pode dizer qual a antiguidade do culto a essa divindade, antes de os espanh�is chegarem para p�r fim a tudo isso. E isso aconteceu porque o culto parecia ter sempre existido. Na verdade, muito antes de os incas terem-no incorporado � sua cosmogonia e lhe constru�do um templo magn�fico em Cuzco, a evid�ncia dispon�vel sugere que o deus supremo Viracocha fora adorado por todas as civiliza��es que um dia existiram na longa hist�ria do Peru. A Cidadela de Viracocha Poucos dias depois de termos deixado Nazca, Santha e eu chegamos a Cuzco e fomos conhecer o local onde se erguia o Coricancha, o grande templo dedicado a Viracocha na era pr�-colombiana. O Coricancha, claro, desaparecera h� muito tempo. Ou, para ser mais exato, em vez de desaparecido fora sepultado por camadas de obras de arquitetura posterior. Osespanh�is haviam conservado as soberbas funda��esincaicas e as partes baixas de suas paredes fabulosamente robustas e sobre elas erigido sua pr�pria grandiosa catedral colonial. Cruzando a entrada principal da catedral, lembrei-me de que o templo incaico que ali existira fora recoberto por mais de 700 chapas de ouro puro (cada chapa pesava dois quilos) e que seu espa�oso p�tio contara com "milharais" de imita��o, cujas espigas tinham tamb�m gr�os de ouro. N�o pude deixar de me lembrar do Templo de Salom�o


na distante Jerusal�m, que a lenda diz ter sido tamb�m adornado com chapas de ouro e um pomar maravilhoso de �rvores tamb�m de ouro. Terremotos em 1650 e, mais uma vez, em 1950 tinham derrubado quase por completo a Catedral de Santo Domingo, que ocupava o local onde antes existira o templo de Viracocha, e fora necess�rio reconstru�-Ia em ambas as ocasi�es. As funda��es e as paredes inferiores, de constru��o incaica, haviam resistido a ambas as calamidades gra�as ao projeto caracter�stico usado, que empregava um engenhoso sistema de blocos poligonais interligados. Esses blocos, e a disposi��o geral do local, eram praticamente tudo que restava da estrutura original, � parte uma plataforma octogonal de pedra cinzenta, no centro do vasto p�tio retangular, que fora em priscas eras revestido com 55kg de ouro. De cada lado do p�tio, abriam-se antec�maras, pertencentes tamb�m ao templo, ostentando refinados aspectos arquitet�nicos, tais como tetos que se afilavam para cima e nichos maravilhosamente lavrados e cortados em uma �nica pe�a de granito. Demos um passeio pelas ruas estreitas e lajeadas de Cuzco. Olhando em volta, dei-me conta de que n�o era apenas a catedral que refletia a prepot�ncia espanhola sobre uma cultura mais antiga: a cidade toda parecia ligeiramente esquizofr�nica. Casas e pal�cios coloniais, espa�osos, em tons pastel, avarandados, erguiam-se altos em volta, mas quase todos assentados sobre funda��es incaicas ou incorporando estruturas completas da mesma origem, do tipo usado em Coricancha. Em um dos becos, conhecido como Hatunrumiyoc, parei para examinar um complicado quebra-cabe�a sob a forma de uma muralha constru�da com incont�veis blocos de pedra, todos perfeitamente encaixados, todos de diferentes tamanhos e formas, interligando-se em um desnorteante conjunto de �ngulos. O corte dos blocos individuais e o arranjo a eles dado na complicada estrutura s� poderiam ter sido realizados por mestres-artes�os com alto grau de habilidade, tendo por tr�s incont�veis s�culos de experimenta��o arquitet�nica. Em um �nico bloco, contei doze �ngulos e lados em um �nico plano e n�o consegui introduzir nem a ponta de uma folha de papel fino nas juntas que o ligavam aos blocos em volta. O Estrangeiro Barbudo Parecia que, em princ�pios do s�culo XVI, antes que os espanh�is come�assem a demolir a todo vapor a cultura peruana, uma est�tua de Viracocha estivera � vista no Santu�rio de Coricancha. Segundo um texto da �poca, Relacion anonyma de los costumbres antiquos de los naturales del Piru, o �dolo era uma est�tua de m�rmore do deus - uma est�tua descrita assim: "nos cabelos, cor, tra�os fision�micos, traje e


sand�lias exatamente como pintores representavam o ap�stolo S�o Bartolomeu". Outras descri��es apresentavam Viracocha como parecido com S�o Tom�. Examinei certo n�mero de manuscritos eclesi�sticos ilustrados, nos quais apareciam os dois santos. Ambos eram rotineiramente descritos como homens brancos magros, barbudos, j� al�m da meia-idade, usando sand�lias e casacos compridos e ondulantes. Conforme veremos adiante, os registros remanescentes confirmam que esta era exatamente a apar�ncia atribu�da a Viracocha pelos que o adoravam. Quem quer que fosse, portanto, ele n�o poderia ter sido um �ndio americano, que tem a pele relativamente escura e pouca barba. A frondosa barba de Viracocha e o rosto claro davam-lhe o aspecto de um tipo caucasiano. No s�culo XVI, os incas pensavam da mesma forma. Na verdade, as lendas e cren�as religiosas haviam-nos convencido tanto da apar�ncia do deus que, no in�cio, eles confundiram os espanh�is brancos e barbudos que chegavam �s suas praias com a volta de Viracocha e seus semideuses, fato este profetizado muito tempo antes e que, segundo todas as lendas, ele prometera fazer. Essa feliz coincid�ncia deu aos conquistadores de Pizarro a vantagem estrat�gica e psicol�gica decisiva de que precisavam para vencer as for�as incas numericamente superiores nas batalhas que se seguiram. Quem havia fornecido o modelo para os Viracochas? CAP�TULO 6 Ele Veio em uma �poca de Caos Atrav�s de todas as lendas antigas dos povos andinos perpassa misteriosa uma figura alta, barbuda, de pele clara, envolvida em um manto de segredo. Embora, em muitos diferentes lugares, fosse conhecido por diferentes nomes, ele era sempre reconhecivelmente a mesma figura: Viracocha, Espuma do Mar, mestre da ci�ncia e da magia que manejava armas terr�veis e que chegara em uma �poca de caos para restabelecer a ordem no mundo. A mesma hist�ria b�sica era contada com numerosas variantes por todos os povos da regi�o andina. Tudo come�ou com a descri��o v�vida de um per�odo apavorante, quando a terra fora inundada por grandes enchentes e mergulhara na escurid�o com o desaparecimento do sol. A sociedade caiu na maior desordem e o povo enfrentou um sem-n�mero de dificuldades. Mas ent�o subitamente apareceu, vindo do sul, um homem branco de grande estatura e postura autorit�ria. Esse homem tinha tal poder que transformou colinas em vales e de vales criou grandes colinas e fez com que �gua jorrasse de pedra viva...


O historiador espanhol antigo que p�s no papel essatradi��o explicou que ela lhe fora contada por �ndios que conhecera em jornadas pelos Andes: E eles ouviram essas hist�rias de seus pais, que, por seu lado, tinham-nas recebido atrav�s de velhas can��es legadas de uma gera��o a outra desde tempos muito antigos... Disseram que esse homem viajou pela rota do altiplano em dire��o ao norte, fazendo maravilhas por onde passava e que nunca mais voltaram a v�-Io... Contaram que, em muitos lugares, ele deu instru��es aos homens sobre como deveriam viver, falando-lhes com grande amor e bondade e aconselhando-os a ser bons e n�o causar danos ou mal uns aos outros, mas que se amassem e que demonstrassem compaix�o para com todos os seres. Na maioria dos locais, deram-lhe o nome de Ticci Viracocha... Entre outros nomes pelos quais era conhecida a mesma figura contavam-se os de Huaracocha, Con, Con Ticci ou Kon Tiki, Thunupa, Taapac, Tupaca e Illa. Ele era cientista, arquiteto de superior qualidade, escultor e engenheiro: "Ele mandou que terra�os e campos fossem constru�dos em encostas �ngremes de ravinas e levantados muros para sustent�-Ios. E criou tamb�m canais de irriga��o para que a �gua corresse... e viajou em v�rias dire��es, organizando muitas coisas". Viracocha foi ainda mestre e curador e ajudava os necessitados. Dizia-se que, "por onde ele passava, curava todos os que estavam doentes e restitu�a a vista aos cegos". Esse samaritano bondoso, civilizador, "super-humano", por�m, tinha um outro lado. Sesua vida fosse amea�ada, como parece que aconteceu em v�rias ocasi�es, ele tinha � disposi��o a arma do fogo dos c�us: Realizando grandes milagres com suas palavras, ele chegou ao distrito de Canas e a�, perto da aldeia conhecida como Cacha (...) o povo se levantou contra ele e amea�ou apedrej�-lo. Viram-no cair de joelhos e erguer as m�os para o c�u, como se implorando ajuda naquele perigo. Os �ndios contaram que, em seguida, viram fogo descer do c�u, que parecia cerc�-Ios por todos os lados. Aterrorizados, aproximaramse dele, que antes tencionavam matar, e imploraram que os perdoasse. Logo em seguida, viram que o fogo se apagava � sua ordem, embora pedras tivessem sido consumidas de tal maneira pelo fogo que grandes blocos podiam ser levantados com a m�o, como se fossem de rolha. Eles contaram ainda que, deixando o local onde havia acontecido tudo isso, ele se dirigiu para a costa e l�, puxando o manto para o corpo, entrou nas ondas e n�o foi mais visto. E quando ele se foi, deram-lhe o nome de Viracocha, que significa "Espuma do Mar".


As lendas eram un�nimes na descri��o f�sica de Viracocha. No Suma y Narracion de los Incas, por exemplo, Juan de Betanzos, um historiador espanhol do s�culo XVI, afirma que, de acordo com os �ndios, ele fora "um homem barbudo de alta estatura, que vestia um manto branco que lhe chegava aos p�s e que usava amarrado com um cinto". Outras descri��es, recolhidas entre povos andinos muito diferentes e muito separados entre si, aparentemente identificavam o mesmo indiv�duo enigm�tico. De acordo com uma dessasfontes, ele era: Um homem barbudo de estatura mediana, vestido com um manto bem longo... J� na meia-idade, tinha cabelos grisalhos e era magro. Andava com um cajado e dirigia-se em termos afetuosos aos nativos, chamando-os de filhos e filhas. Viajando pela terra, fazia milagres. Curava os doentes ao toc�-los. Falava todas as l�nguas melhor do que os nativos. Os �ndios chamavam-no de Thunupa ou Tarpaca, Viracocha-rapacha ou Pachacan... Outra lenda dizia que Thunupa- Viracocha fora um "homem branco de grande estatura, cujo ar e porte despertavam grande respeito e venera��o". Em outra, era descrito como "um homem branco de apar�ncia augusta, olhos azuis, barbudo, sem adere�o na cabe�a e que usava uma cusma, uma blusa ou camisa sem mangas que lhe chegava aos joelhos". Em ainda outra, que aparentemente se referia a outra fase da vida de Viracocha, ele era reverenciado como "s�bio conselheiro em assuntos de Estado" e descrito como "um velho, com barba e cabelos longos, que usava uma comprida t�nica". Miss�o Civilizat�ria Acima de tudo, Viracocha era lembrado nas lendas como um mestre. Antes de sua vinda, diziam as hist�rias, "os homens viviam em um estado de desordem, muitos andavam nus como selvagens, n�o tinham casas ou outras habita��es que n�o cavernas e delas sa�am para coletar nos campos o que podiam para comer". Atribu�a-se a Viracocha ter mudado tudo isso e dado in�cio a uma longa era de ouro, que gera��es posteriores mencionavam com nostalgia. Todas as lendas concordavam, al�m disso, que ele realizara sua miss�o civilizat�ria com grande bondade e, tanto quanto poss�vel, evitara o uso da for�a: instru��es cuidadosas e exemplo pessoal haviam sido os m�todos principais por ele usados para ensinar ao povo as t�cnicas e conhecimentos necess�rios a uma vida civilizada e produtiva. Em especial, era lembrado por ter trazido ao Peru conhecimentos t�o variados como os de medicina,


metalurgia, agricultura, cria��o de animais, a escrita (que, diziam os incas, fora ensinada por Viracocha, mas posteriormente esquecida) e conhecimentos sofisticados de princ�pios da engenharia e arquitetura. Eu j� estava impressionado com a qualidade do trabalho de cantaria dos incas em Cuzco. Continuando minhas pesquisas na velha cidade, contudo, fiquei surpreso ao descobrir que o citado trabalho de constru��o dos incas n�o podia ser atribu�do, com qualquer grau de certeza arqueol�gica, apenas a eles. Era bem verdade que haviam sido mestres na manipula��o de pedras e que numerosos monumentos em Cuzco foram, sem a menor d�vida, trabalhos deles. Parecia, no entanto, que algumas das estruturas mais not�veis que lhes eram rotineiramente atribu�das poderiam ter sido erigidas por civiliza��es mais antigas. A prova sugeria que os incas haviam muitas vezes trabalhado como restauradores dessasestruturas, e n�o como seus construtores originais. O mesmo parecia acontecer com o altamente desenvolvido sistema de estradas, que ligava partes muito distantes do imp�rio. O leitor deve lembrar-se de que essas obras tinham a forma de estradas paralelas, que corriam no sentido norte-sul, uma delas ao longo da costa e a outra cruzando os Andes. No total, mais de 24.000km de estradas pavimentadas estiveram em uso regular e eficiente ao tempo da conquista espanhola. Eu havia feito a suposi��o de que os incas tinham sido respons�veis pela constru��o dessa rede vi�ria. Nesse momento, descobri que era muito mais prov�vel que constitu�ssem um sistema herdado. O trabalho que coubera aos incas fora o de restaurar, manter e unificar a rede pr�-existente. Na verdade, embora este fato n�o fosse admitido com freq��ncia, nenhum especialista podia estimar, com seguran�a, que idade tinham essasestradas incr�veis e quem as havia constru�do. O mist�rio tornava-se ainda mais profundo dadas as tradi��es locais, que afirmavam n�o s� que o sistema de estradas e a arquitetura sofisticada j� "eram antigos no tempo dos incas", mas tamb�m que ambos "eram obra de homens brancos, ruivos" que haviam vivido milhares de anos antes". Uma das lendas descrevia Viracocha como acompanhado de "mensageiros" de dois tipos, "soldados fi�is" (huaminca) e "refulgentes" (hayhuaypanti), a quem cabia o papel de levar a mensagem de seu senhor "a todas as partes do mundo". Em outras lendas, encontramos frases como "Con Ticci voltou (...) com certo n�mero de atendentes", "Con Ticci, em seguida, convocou seus seguidores, que eram chamados de viracochas", "Con Ticci ordenou a todos, menos a dois viracochas, que seguissem para o leste...". "De um lago saiu um Senhor chamado Con Ticci Viracocha, trazendo consigo certo n�mero de homens...". "E, assim, os viracochas seguiram para os diferentes distritos que Viracocha lhes designara...".


Obra de Dem�nios? A antiga cidadela de Sacsayhuam�n situa-se a pouca dist�ncia ao norte de Cuzco. Chegamos ao local em fins da tarde, sob um c�u quase encoberto por pesadas nuvens cor de prata suja. Uma brisa fria soprava pela tundra de alta altitude, enquanto eu subia as escadarias, passava por portais com dint�is, constru�dos para gigantes, e caminhava ao longo de fileiras gigantescasde muralhas em forma de Ziguezague. Espichei o pesco�o e levantei a vista para a grande pedra de granito por baixo da qual passava meu caminho. Medindo 7 m de altura por 2m de largura e pesando muito mais de 100t, era obra de homem, n�o da natureza. Fora cortada, modelada e transformada em uma harmonia sinf�nica de �ngulos, manipulada com vis�vel facilidade (como se feita de cera ou massa) e se erguia sobre uma das extremidades em uma parede formada de outros enormes blocos poligonais, alguns deles sobre a primeira pedra, outros embaixo, outros de lado, e todos eles em uma justaposi��o perfeitamente equilibrada e organizada. Uma vez que uma dessas pe�as espantosas de pedra cuidadosamente talhada tinha uma altura de 8,5m e c�lculos falavam em um peso de 361 t (aproximadamente, o equivalente a quinhentos autom�veis de grande porte), achei que grande n�mero de perguntas de import�ncia fundamental clamava por resposta. De que maneira haviam conseguido os incas, ou seus predecessores, trabalhar pedras em uma escala t�o gargantuesca? Como haviam cortado e modelado com tal precis�o esses calhaus cicl�picos? De que modo os haviam transportado por dezenas de quil�metros desde pedreiras distantes? Atrav�s de que meios haviam-nas usado para construir muralhas, movimentando blocos isolados e erguendo-os, com aparente facilidade, muito altos acima do solo? Supostamente, essespovos n�o conheciam nem a roda, quanto mais maquinaria capaz de erguer e manipular dezenas de blocos de formas diferentes de 100t de peso e coloc�-Ios em quebra-cabe�astridimensionais. Eu sabia que os historiadores do in�cio do per�odo colonial haviam ficado t�o perplexos como eu com o que tinham visto. O respeitado Garcilaso de Ia Vega, por exemplo, que visitou o Peru no s�culo XVI, escrevera, estarrecido, sobre a fortaleza de Sacsayhuam�n: Suaspropor��es s�o inconceb�veis para os que n�o a viram com seus pr�prios olhos. E quando a olhamos de perto e a examinamos atentamente, ela parece ser algo t�o extraordin�rio que d� a impress�o de que algum m�gico presidiu � sua constru��o, que deve ter sido obra de dem�nios, e n�o de seres humanos. � constru�da de pedras


t�o grandes, e em tal n�mero, que nos perguntamos no mesmo instante como �ndios poderiam extra�-Ias de pedreiras, transport�-Ias... e cort�-Ias e coloc�-Ias umas sobre as outras com tal precis�o. Isso porque eles n�o dispunham nem de ferro nem de a�o com que pudessem perfurar a rocha e cortar e polir as pedras. Nem possu�am carro�as nem bois para transport�-Ias e, na verdade, n�o existiam nem carro�as nem bois em todo o mundo que tivessem sido suficientes para realizar esse trabalho, t�o enormes eram essas pedras e t�o �ngremes as trilhas de montanhas atrav�s das quais foram levadas... Garcilaso escreveu tamb�m sobre algo interessante. No Royal Commentaries of the Incas, ele faz um relato do modo como, nos tempos hist�ricos, um rei inca tentou imitar as realiza��es de seus predecessores, que haviam constru�do Sacsayhuam�n. A tentativa implicava trazer um �nico bloco imenso de uma dist�ncia de v�rios quil�metros para aumentar as fortifica��es: "Esse calhau foi arrastado pela montanha por mais de 10.000 �ndios. subindo e descendo colinas muito �ngremes (...) Em certo ponto, a pedra escapou das m�os que a seguravam, rolou por um precip�cio e esmagou mais de 3.000 homens". Em todas as hist�rias que examinei, este foi o �nico relato que descrevia os incas como realmente construindo, ou tentando construir, alguma coisa com blocos enormes semelhantes aos que haviam sido usados em Sacsayhuam�n. O relato sugere que eles n�o possu�am experi�ncia das t�cnicas envolvidas e que a tentativa terminou em trag�dia. Essefato, claro, nada provava por si mesmo. A hist�ria de Garcilaso, por�m, aumentou minhas d�vidas sobre as grandes fortifica��es que se alteavam muito acima de mim. Olhando para elas, achei que podiam, na verdade, ter sido constru�das antes da era dos incas e por uma ra�a infinitamente mais antiga e tecnicamente mais avan�ada. N�o pela primeira vez, lembrei-me de como era dif�cil para arque�logos fornecer datas exatas para obras de constru��o, como estradas e muralhas de pedra, que n�o continham compostos org�nicos. O teste com o r�dio-carbono era in�til nessas circunst�ncias, como tamb�m a termoluminesc�ncia. E embora novos testes promissores, como a data��o de rochas pelo Cloro-36, estivessem sendo desenvolvidos na ocasi�o, seu emprego ainda era coisa para o futuro. Dependendo de progressos ulteriores neste �ltimo campo, por conseguinte, a cronologia dos "especialistas" era ainda, na maior parte, resultado de formula��o de palpites e pressupostos subjetivos. Uma vez que se sabia que os incas haviam usado extensivamente a fortaleza de Sacsayhuam�n, eu podia facilmente compreender o motivo da suposi��o de que eles a tinham construido. Os incas, com igual probabilidade, poderiam muito bem ter encontrado as estruturas j� de p� e as ocupado.


Seassim, quem tinham sido os construtores originais? Os Viracochas, diziam os mitos antigos, os estranhos barbudos, de pele branca, os "refulgentes", os "soldados fi�is". Enquanto viaj�vamos, continuei a estudar os relatos de aventureiros espanh�is e de etn�grafos dos s�culos XVI e XVII, que haviam registrado fielmente as tradi��es antigas dos �ndios peruanos antes do contato com os europeus. O fato particularmente not�vel nessas tradi��es era a �nfase repetida em que a chegada dos Viracochas estivera ligada a um dil�vio terr�vel, que havia varrido a terra e destruido a maior parte da humanidade. CAP�TULO 7 Houve, Ent�o, Gigantes? Pouco depois das 6h da manh� o pequeno trem come�ou a mover-se com um tranco e iniciou a lenta subida pelas �ngremes encostas do vale de Cuzco. Os tri lhos, de bitola estreita, haviam sido assentados em uma disposi��o em forma de Z. Seguimos resfolegando pela linha horizontal mais baixa do primeiro Z, mudamos de marcha e voltamos em um curso obl�quo, mudamos de marcha novamente e seguimos para a frente ao longo da linha superior - e assim por diante, com numerosas paradas e recome�os, seguindo uma rota que por fim nos levou para um ponto muito acima da antiga cidade. As muralhas incas e os pal�cios coloniais, as ruas estreitas, a catedral de Santo Domingo, vista como que agachada sobre as ru�nas do templo de Viracocha, tudo aquilo parecia espectral e surrealista � luz p�rola-acinzentada do c�u matutino. Um ros�rio de l�mpadas el�tricas, lembrando contos de fada, ainda decorava as ruas, um nevoeiro fino arrastava-se pelo ch�o e a fuma�a de fog�es dom�sticos subia de chamin�s e se espalhava sobre os telhados de um n�mero incont�vel de pequeninas casas. No fim, o trem deu as costas a Cuzco e continuamos durante algum tempo em linha reta na dire��o norte-oeste, a caminho de nosso destino: Machu Picchu, a cidade perdida dos incas, a cerca de tr�s horas e 130km � frente. Minha inten��o fora ler durante a viagem, mas, embalado pelo movimento do vag�o, em vez disso, ferrei no sono. Acordei cinq�enta minutos mais tarde e descobri que estava passando atrav�s de uma pintura. O primeiro plano, brilhantemente iluminado, consistia de prados verdes planos, borrifados de pequenos trechos de orvalho que derretia, distribu�dos de cada lado de um riacho que cortava um longo e largo vale. No centro da paisagem, que era pontilhada de arbustos, vi um largo campo, no qual pastavam vacas malhadas de preto e branco. Pr�ximo a elas, distingui um povoado e,


na frente das casas, �ndios qu�chuas, de baixa estatura, pele escura, vestidos com ponchos, boinas tipo ninja e coloridos chap�us de l�. A dist�ncia, encostas cobertas com figueiras e ex�ticos eucaliptos. Meus olhos seguiram os contornos de um par de altas montanhas verdes, que, em certa altura, se separavam para revelar trechos de plat�s que se desdobravam, ainda mais altos. Atr�s deles, alteava-se um horizonte distante, dominado por uma cordilheira de picos recortados radiantes e coroados de neve. Incluindo Gigantes no Elenco Tomado de compreens�vel relut�ncia, voltei finalmente � leitura interrompida. Queria examinar com mais aten��o algumas das curiosas liga��es que eu pensava ter identificado e que conectava o aparecimento s�bito de Viracocha com as lendas sobre o dil�vio, dos incas e de outros povos andinos. Tinha diante dos olhos um trecho do Natural and Moral History of the Incas, de Frei Jos� de Acosta, no qual o culto sacerdote registrara "o que os pr�prios �ndios pensam de suasorigens": Eles fazem refer�ncias abundantes a um dil�vio que aconteceu em suas terras (...) Dizem que todos os homens morreram afogados no dil�vio, e afirmam que, do lago Titicaca, saiu um Viracocha, que permaneceu em Tiahuanaco, onde hoje podem ser vistas ru�nas de antigos e estranhos edif�cios, e da� ele veio para Cuzco, e assim a humanidade come�ou a multiplicar-se... Anotando mentalmente para me informar mais sobre o lago Titicaca e a misteriosa Tiahuanaco, li o trecho seguinte, que resumia a lenda da �rea de Cuzco: Por algum crime n�o mencionado, o povo que vivia nos tempos mais antigos foi destru�do pelo criador (...) em um dil�vio. Ap�s o dil�vio, o criador apareceu em forma humana, vindo do lago Titicaca. Em seguida, ele criou o sol, a lua e as estrelas. Depois disso, renovou a popula��o humana da terra... Em outro mito: O grande Deus Criador, Viracocha, resolveu fazer um mundo onde o homem pudesse viver. Em primeiro lugar, criou a terra e o c�u. Em seguida, come�ou a gerar seres humanos para nele viver, esculpindo grandes est�tuas de gigantes de pedra, �s quais


em seguida deu vida. No in�cio, tudo correu bem, mas, ap�s algum tempo, os gigantes come�aram a lutar entre si e recusaram-se a trabalhar. Viracocha resolveu que tinha que destru�-Ios. Transformou alguns novamente em pedra (...) e destruiu o resto com uma grande inunda��o. Id�ias muito semelhantes s�o, claro, encontradas em outras fontes inteiramente diferentes e sem conex�o com esta, tal como o Velho Testamento judaico. No Cap�tulo 6 do Livro do G�nesis, por exemplo, que descreve o desagrado do Deus hebraico com sua cria��o e a decis�o de destru�-Ia, um dos poucos trechos descritivos da era anterior ao dil�vio me deixava muito intrigado. De acordo com a linguagem enigm�tica do vers�culo: "Ora, naquele tempo havia gigantes na terra..." Poderiam os "gigantes" sepultados nas areias b�blicas do Oriente M�dio ter estado ligados de maneira desconhecida aos "gigantes" costurados no tecido das lendas americanas nativas pr�-colombianas? Tornando o mist�rio ainda mais insond�vel, havia o fato de que as fontes judaica e peruana continuavam, com muitos detalhes adicionais comuns, a descrever a irada divindade que desencadeou o dil�vio catastr�fico sobre o mundo mau e desobediente. Na p�gina seguinte do ma�o de documentos que eu reunira havia a descri��o abaixo do dil�vio, transcrita por um certo padre Molina em seu Relacion de las fabulas y ritos de los Yncas: Na vida de Manco Capac, o primeiro inca, e imitando o qual eles come�aram a bravatear que eram filhos do sol, e do qual herdaram a adora��o id�latra do sol, eles receberam uma descri��o detalhada do dil�vio. Dizem que nele pereceram todas as ra�as de homens e coisas criadas, � medida que as �guas subiam acima dos mais altos picos das montanhas do mundo. Nenhum ser vivo sobreviveu, exceto um homem e uma mulher, que permaneceram em uma caixa e, quando as �guas desceram, o vento levou-os (...) para Tiahuanaco [onde] o criador come�ou a criar os homens e as na��es que vivem naquela regi�o... Garcilaso de Ia Vega, filho de um nobre espanhol e de uma mulher inca de sangue real, j� era conhecido meu atrav�s de seu Royal Commentaries of the Incas. Ele era julgado um dos historiadores mais id�neos das tradi��es do povo de sua m�e e realizara esse trabalho no s�culo XVI, pouco depois da conquista, �poca em que essastradi��es n�o haviam sido ainda contaminadas por influ�ncias estrangeiras. Ele, igualmente, confirmou o que obviamente tinha sido uma cren�a universal e profundamente


gravada na mente do povo: "Ap�s terem descido as �guas do dil�vio, um certo homem apareceu nas terras de Tiahuanaco..." Esse homem fora Viracocha. Envolvido em seu casaco, era forte e de "semblante augusto" e caminhava com confian�a inabal�vel atrav�s das terras mais trai�oeiras. Realizava curas milagrosas e podia chamar o fogo dos c�us. Para os �ndios, esse fato tinha de significar que ele se materializara vindo do nada. Tradi��es Antigas Nesse momento, viaj�vamos h� mais de duas horas para Machu Picchu e o panorama mudara. Enormes montanhas pretas, sobre as quais nenhum tra�o de neve permanecera para refletir a luz do sol, alteavam-se sombrias acima de n�s e parecia que est�vamos correndo atrav�s de um desfiladeiro rochoso, ao fim de um vale estreito repleto de sombras escuras. O ar estava frio e, tamb�m, os meus p�s. Arrepieime todo e voltei a ler. Um fato era �bvio em meio � confusa teia de lendas que eu examinava, lendas que se suplementavam entre si, mas que ocasionalmente se contradiziam. Todos os estudiosos concordavam em que os incas haviam tomado de empr�stimo, absorvido e transmitido a seus herdeiros as tradi��es de muitos dos diferentes povos civilizados sobre os quais haviam estendido seu controle durante os s�culos de expans�o do vasto imp�rio. Nesse sentido, qualquer que seja o resultado do debate hist�rico sobre a antiguidade dos pr�prios incas, ningu�m poder� contestar-lhes seriamente o papel de disseminadores de antigos sistemas de cren�as de todas as grandes culturas arcaicas costeiras e do altiplano, conhecidas e desconhecidas - que os havia precedido nessa terra. E quem poderia dizer exatamente que civiliza��es teriam existido no Peru nos inexplorados per�odos do passado? Todos os anos, arqu�ologos anunciam novos achados, que empurram os horizontes para uma �poca ainda mais remota no tempo. Neste caso, por que n�o poderiam algum dia descobrir prova da penetra��o nos Andes, na remota antiguidade, de uma ra�a de civilizadores que veio do ultramar e que foi embora ap�s concluir seu trabalho? Isso era o que me parecia que as lendas sugeriam, lendas que, acima de tudo e com a maior clareza, haviam imortalizado a mem�ria do homem/deus Viracocha, percorrendo em passos largos as gargantas varridas pelos ventos dos Andes e fazendo milagres por onde quer que andasse: O pr�prio Viracocha, com seus dois ajudantes, viajou para o norte (...) Ele mesmo subiu a cordillera, um ajudante desceu a costa e o outro chegou at� as bordas das


florestas do leste. (...) O Criador prosseguiu em seu caminho at� Urcos, nas proximidades de Cuzco, e da� continuou para o norte e o Equador. Nessa regi�o, na prov�ncia costeira de Manta, ele se despediu de seu povo e, caminhando sobre as �guas, desapareceu no outro lado do oceano. Havia sempre essepungente momento de adeus ao fim de todas as hist�rias populares, que tinha como personagem principal o not�vel estrangeiro cujo nome signica "Espuma do Mar": Viracocha continuou em seu caminho, criando as ra�as de homens. (...) Ao chegar ao distrito de Puerto Viejo, a ele se reuniram os ajudantes que enviara antes em viagem e, quando se reuniram, ele entrou no mar em companhia deles, e o povo do local disse que ele e seus companheiros andavam sobre a �gua com tanta facilidade como se andassemsobre terra. Sempre essepungente adeus... e, n�o raro, com uma sugest�o de ci�ncia ou magia. C�psula do Tempo Do lado de fora da janela do trem, coisas estavam acontecendo. � esquerda, engrossado com �gua escura, vi o Urubamba, um tribut�rio do Amazonas e rio sagrado para os incas. A temperatura do ar subira claramente; hav�amos descido para um vale relativamente baixo, com um microclima tropical pr�prio. As encostas de montanha que subiam de cada lado dos trilhos estavam cobertas por florestas verdes fechadas, e lembrei-me de que esta era, realmente, uma regi�o de obst�culos vastos e virtualmente insuper�veis. Quem quer que tivesse se aventurado por todo este caminho, at� o centro do nada, para construir Machu Picchu, devia ter um motivo muito forte para assim proceder. Qualquer que tenha sido a raz�o, a escolha de uma localiza��o t�o remota teve pelo menos um efeito secund�rio ben�fico: Machu Picchu jamais foi descoberta pelos conquistadores e pelos frades em seus primeiros dias de zelo destrutivo. Na verdade, s� em 1911, quando a heran�a fabulosa das ra�as mais antigas come�ou a ser tratada com maior respeito, � que um jovem explorador americano, Hiram Bingham, desvendou Machu Picchu para o mundo. Imediatamente se compreendeu que esse local incr�vel abria uma janela excepcional para a civiliza��o pr�-colombiana. Em conseq��ncia, as ru�nas foram protegidas contra saqueadores e ca�adores de


suvenires e foi assim preservado um peda�o importante do passado enigm�tico, que encheria de espanto futuras gera��es. Tendo passado por uma pequenina cidade chamada Agua Caliente (�gua Quente), onde uns poucos restaurantes de terceira classe e bares ordin�rios como que olhavam debochados, de ambos os lados dos trilhos, para os viajantes, chegamos � esta��o de Puentas Ruinas, em Machu Picchu, �s 9h10m da manh�. Da�, uma viagem de meia hora de �nibus por uma estrada de terra cheia de voltas e por uma �ngreme e assustadora trilha de montanha levou-nos � pr�pria Machu Picchu, �s ru�nas, e a um hotel n�o muito limpo. �ramos os �nicos h�spedes. Embora anos tivessem se passado desde que o movimento guerrilheiro local bombardeara pela �ltima vez o trem de Machu Picchu, poucos eram os estrangeiros que ainda se sentiam interessados em conhecer essas paragens. Machu Picchu Sonhando Eram 2h da tarde. Eu me encontrava em um ponto elevado na ponta sul do local. Diante de meus olhos, as ru�nas estendiam-se na dire��o norte, em terra�os cobertos de l�quens. Grossasnuvens formavam an�is em torno dos picos das montanhas, mas o sol ainda irrompia ocasionalmente aqui e ali. Bem abaixo no vale, o rio sagrado enroscava-se em uma curva fechada em torno da forma��o central onde se ergue Machu Picchu, como um fosso em volta de um castelo gigantesco. Dessa altura, o rio parecia de um verde profundo, refletindo o verdor das encostas �ngremes da selva. Mas havia tamb�m trechos de �gua clara e lampejos deslumbrantes de luz. Olhei para as ru�nas, que se estendiam na dire��o do pico mais alto. O nome do pico � Huana Picchu e constitui presen�a obrigat�ria nos p�steres de todas as ag�ncias de viagem que mostram o local. Para meu espanto, notei nesse momento que, por uma centena de metros, mais ou menos, abaixo do pico, a montanha fora cortada em terra�os e esculpida. Algu�m estivera l� em cima e raspara com todo cuidado os penhascos quase verticais e os transformara em graciosos jardins suspensos que, em tempos imemoriais, talvez tivessem sido plantados com flores de cores vivas. Pareceu-me que todo aquele s�tio, juntamente com a moldura que o cercava, era uma obra monumental de escultura, composta em parte de montanhas, em parte de rochas, em parte de �rvores, em Parte de pedras - e tamb�m em parte de �gua. Era um local arrebatadoramente belo e, sem a menor d�vida, um dos mais belos que jamais conheci.


A despeito de seu brilho luminoso, por�m, achei que estava olhando para uma cidade de fantasmas l� embaixo. Lembrava o naufr�gio do Marie Celeste, abandonado e insone. As casashaviam sido dispostas em longos terra�os, todas min�sculas, com um �nico c�modo, dando diretamente para a rua estreita, em uma arquitetura s�lida e funcional, mas de modo nenhum refinada. Em contraste, certas �reas cerimoniais foram constru�das segundo um padr�o infinitamente superior e incorporavam blocos gigantescos, semelhantes aos que eu vira em Sacsayhuam�n. Um mon�lito em forma de pol�gono fora lixado at� atingir uma perfei��o sedosa e tinha 3,65m de comprimento por 1,5m metro de largura e 1,5m de espessura e n�o podia ter pesado menos de 200 toneladas. De que maneira os antigos construtores haviam conseguido i�ar a pedra at� aquele local? E havia tamb�m dezenas de outros, semelhantes, todos eles organizados segundo o modelo de paredes com a forma conhecida de quebra-cabe�as, com �ngulos que se encaixavam. Em um �nico bloco, consegui contar 33 �ngulos, todos eles engatando-se de forma perfeita, com um �ngulo correspondente no bloco vizinho. Havia pol�gonos maci�os e pedras de cantaria perfeitas, com quinas afiadas como navalhas. E tamb�m calhaus naturais, em bruto, integrados no desenho geral em certo n�mero de pontos. E n�o faltavam tamb�m dispositivos estranhos, como o Intihuatana, o "posto de amarra��o do sol". Esse artefato not�vel consiste de um bloco de rocha cinzento e cristalino, cortado em uma forma geom�trica complexa de curvas e �ngulos, nichos escavadose suportes externos, tendo no centro um curto espig�o vertical. Quebra- Cabe�a Qual a antiguidade de Machu Picchu? O consenso nos meios universit�rios � que a cidade n�o poderia ter sido constru�da muito antes do s�culo XV d.C. Opini�es contr�rias, no entanto, t�m sido manifestadas ocasionalmente por certo n�mero de estudiosos respeit�veis, embora mais ousados. Na d�cada de 1930, por exemplo, Rolf Muller, professor de Astronomia da Universidade de Potsdam, encontrou ind�cios convincentes que sugeriam que os aspectos mais importantes de Machu Picchu revelavam alinhamentos astron�micos importantes. A vista desses alinhamentos e com emprego de computa��es matem�ticas detalhadas sobre as posi��es das estrelas no mil�nio anterior (que gradualmente rebaixam as �pocas como resultado de um fen�meno conhecido como precess�o dos equin�cios), Muller concluiu que a disposi��o original do local s� poderia ter sido realizada na "era de 4000 a.C. a 2000 a.C".


Em termos de hist�ria ortodoxa, essa conclus�o era uma heresia de audaciosas propor��es. Se Muller tinha raz�o, Machu Picchu n�o tinha apenas uns 500 anos de idade, mas poderia ter nada menos do que 6.000. Essen�mero tornaria a cidade muito mais antiga do que a Grande Pir�mide do Egito (supondo, claro, que aceitemos a data��o ortodoxa da Grande Pir�mide como sendo do ano 2500 a.C.). Mas houve vozes discordantes no tocante � antiguidade de Machu Picchu e a maioria, como a de Muller, estava convencida de que partes do local eram milhares de anos mais antigas do que a data preferida pelos historiadores ortodoxos. Tal como os grandes blocos poligonais que constitu�am as muralhas, esta era uma id�ia que dava a impress�o de que poderia, talvez, encaixar-se em ourras pe�as do quebra-cabe�a - neste caso, o quebra-cabe�a de um passado que n�o fazia mais qualquer sentido. Viracocha era parte do mesmo quebra-cabe�a. Todas as lendas diziam que ele tivera sua capital em Tiahuanaco. As ru�nas dessa grande e antiga cidade situavam-no no ourro lado da fronteira, na Bol�via, em uma �rea conhecida como Collao, a 32km do lago Titicaca. Poder�amos l� chegar, calculei, em uns dois dias, passando por Lima e La Paz.


CAP�TULO 8 O Lago no Topo do Mundo La Paz, a capital da Bol�via, situada a mais de 3.200m acima do n�vel do mar, aninha-se no fundo, de configura��o irregular, de um espetacular buraco no ch�o. Essa ravina vertical, de milhares de metros de profundidade, foi cortada em eras primevas por uma enorme tromba-d'�gua, que trouxe de cambulhada uma mar� de pedras soltas e cascalho abrasivo. Contemplada pela natureza com um ambiente apocal�ptico desse tipo, La Paz possui um encanto excepcional, embora um tanto sujo e malcuidado. Com ruas estreitas, casasde c�modos de paredes escuras, catedrais imponentes, cinemas espalhafatosos e bares que vendem hamb�rgueres abertos at� tarde da noite, a cidade gera uma atmosfera de intriga peculiar que � esquisitamente embriagante. Andar por ali � dif�cil para pedestres, a menos que possuam pulm�es semelhantes a foles, porque toda a zona central foi constru�da acima e abaixo de morros extremamente �ngremes. O aeroporto fica a quase 1.500m acima da cidade em si, na borda do altiplano - as terras altas, onduladas, que constituem o aspecto topogr�fico dominante dessaregi�o. Santha e eu chegamos ao aeroporto depois de meia-noite, em um v�o com atraso procedente de Lima. No sal�o de chegada, cheio de correntes de ar, ofereceram-nos ch� de coca em pequenas x�caras de pl�stico, como profil�tico contra a tonteira das alturas. Depois de grande demora e trabalho, conseguimos tirar a bagagem da alf�ndega, chamamos um t�xi, bem antigo, de fabrica��o americana, e seguimos chocalhando e rangendo para cima e para baixo na dire��o das luzes amarelas da cidade, bem abaixo de n�s.


Boatos de Cataclismo Por volta de 4h da tarde seguinte, partimos para o lago Titicaca em um jipe alugado, lutamos atrav�s dos incompreens�veis congestionamentos permanentes da hora do rush, deixamos em seguida para tr�s os arranha-c�us e os corti�os e penetramos nos horizontes claros, desimpedidos, do altiplano. No in�cio, ainda perto da cidade, o caminho nos levou atav�s de uma zona de sub�rbios e favelas enormes, de aspecto s�rdido, com cal�adas ocupadas por oficinas de consertos de carros e ferros-velhos. Quanto mais dist�ncia cobr�amos, afastandonos de La Paz, contudo, mais raros se tornavam os povoados, at� que cessaram quase por completo os sinais de habita��o humana. As savanasvazias, destitu�das de �rvores, ondulantes, eram limitadas � dist�ncia pelos picos cobertos de neve da Cordillera Real, o que criava um espet�culo inesquec�vel de beleza e poder natural. Mas nessa zona percebia-se tamb�m uma atmosfera de alguma coisa sobrenatural, que parecia flutuar acima das nuvens, como um reino encantado. Embora o destino final da viagem fosse Tiahuanaco, ir�amos passar a noite na cidadezinha de Copacabana, situada em um promont�rio na extremidade sul do lago Titicaca. Para chegar ao local, t�nhamos que cruzar em barca de transporte de carros um bra�o de �gua no pequeno lugarejo de Tiquine. Em seguida, caindo j� a noite, tomamos a estrada principal, que nessa altura era pouco mais do que uma trilha estreita e irregular, subindo e passando por uma s�rie de curvas fechadas e prosseguindo paralela aos afloramentos da base de uma montanha. Desse ponto em diante, abria-se um panorama contrastante: as �guas escuras, muito escuras, do lago embaixo pareciam situar-se � beira de um oceano sem fim, mergulhando em sombras escuras, embora os picos recortados das montanhas coroadas de neve � dist�ncia ainda estivessem sendo banhadaspor uma luz solar deslumbrante. Desde o in�cio, o lago Titicaca me pareceu um lugar especial. Eu sabia que o lago se situava a 3.800m acima do n�vel do mar, que a fronteira entre o Peru e a Bol�via lhe cruzava as �guas, que tinha uma �rea de 8.290km2 e se estendia por 222km de comprimento por 115km de largura. E sabia tamb�m que era profundo, atingindo quase300m em alguns lugares e que tinha uma hist�ria geol�gica enigm�tica. Vejamos alguns de seus mist�rios e algumas das solu��es que foram propostas para eles: 1. Embora se situe atualmente a mais de 3.200m acima do n�vel do mar, a �rea em volta do lago est� coalhada de milh�es e milh�es de conchas marinhas fossilizadas. Essefato sugere que, em alguma �poca, todo o altiplano foi empurrado para cima a partir do


n�vel do mar, talvez como parte da eleva��o geral da superf�cie terrestre que formou a Am�rica do Sul como um todo. No processo, quantidades enormes de �gua do mar, juntamente com incont�veis mir�ades de criaturas marinhas, foram erguidas e postas entre as montanhas dos Andes. Acredita-se que esse processo ocorreu a nada menos do que 100 milh�es de anos. 2. Paradoxalmente, a despeito da enorme antiguidade do evento, o lago Titicaca conserva, at� os dias atuais, "uma ictiofauna marinha", ou, em outras palavras, embora nesse momento localizado a centenas de quil�metros do oceano, seus peixes e crust�ceos incluem numerosos tipos oce�nicos (em vez de animais de �gua doce). Criaturas surpreendentes trazidas � superf�cie pelas redes de pescadores incluem exemplares de Hippocampus (cavalo-marinho). Al�m disso, como observou uma autoridade, "as v�rias esp�cies de Allorquestes (hualella inermis etc.) e outros exemplos de fauna marinha n�o deixam d�vida de que este lago, em outros per�odos, foi muito mais salgado do que hoje, ou, para ser mais exato, que a �gua que o formou era do mar e que foi represada nos Andes quando o continente emergiu das �guas". 3. Mas basta dos eventos que, para come�ar, talvez tenham criado o lago Titicaca. Desde sua forma��o, esse grande "mar mediterr�neo", e o pr�prio altiplano, passaram por v�rias outras mudan�as dr�sticas e espetaculares. Entre estas, uma das mais not�veis � que o comprimento do lago parece ter variado imensamente, fato este indicado pela exist�ncia de uma antiga linha terra-�gua vis�vel em grande parte do terreno em volta. Estranhamente, essa linha terra-�gua n�o � plana, mas se inclina acentuadamente no sentido norte-sul atrav�s de uma grande dist�ncia horizontal. No ponto mais meridional at� hoje estudado topograficamente, ela chega at� 70m acima do n�vel atual do lago. A uns 650 km ao sul, ela est� a 65m abaixo do n�vel atual do lago. Desta e de provas adicionais, ge�logos deduziram que o altiplano ainda est� subindo aos poucos, mas de maneira desequilibrada, com altitudes maiores na parte norte e menores na parte sul. Pensam alguns que o processo em a��o no local tem menos a ver com mudan�as no n�vel das pr�prias �guas do Titicaca (embora tais mudan�as certamente tenham ocorrido) do que com mudan�as no n�vel de todo o terreno onde se situa o lago. 4. Muito mais dif�cil de explicar nesses termos, contudo, dados os per�odos de tempo supostamente muito longos necess�rios para que ocorram transforma��es geol�gicas, � a prova irrefut�vel de que a cidade de Tiahuanaco foi outrora um porto, completo com grandes docas, situado exatamente nas margens do lago. O problema � que as ru�nas de Tiahuanaco est�o agora encalhadas a 19 km ao sul do lago e a mais de 30m acima da atual praia. No per�odo transcorrido desde que foi constru�da a cidade,


portanto, segue-se que uma de duas coisas devem ter acontecido: ou caiu muito o n�vel do lago ou subiu comparativamente o terreno onde est� hoje Tiahuanaco. 5. O que quer que tenha acontecido, � �bvio que ocorreram mudan�asf�sicas maci�as e traum�ticas. Algumas delas, como a subida do altiplano � partir do fundo do oceano, certamente ocorreu em idades geol�gicas remotas, antes do advento da civiliza��o humana. Outras n�o s�o t�o antigas assim e devem ter ocorrido ap�s a constru��o da cidade. A d�vida, portanto, � a seguinte: quando foi constru�da Tiahuanaco? A opini�o hist�rica ortodoxa � que as ru�nas n�o podem datar de muito antes do ano 500 d.C. H�, contudo, uma cronologia alternativa, que, embora n�o aceita pela maioria dos estudiosos, parece mais congruente com a escala das eleva��es da superf�cie, nos tempos geol�gicos, que ocorreram nessa regi�o. Com base em c�lculos matem�ticos/astron�micos do professor Arthur Posnansky, da Universidade de La Paz, e do professor Rolf Muller (que contestou a data��o oficial de Machu Picchu), a fase principal da constru��o de Tiahuanaco deve ter ocorrido no ano 15000 a.C. Essa cronologia indica tamb�m que a cidade sofreu mais tarde uma destrui��o imensa, em uma cat�strofe natural fenomenal, por volta do und�cimo mil�nio a.C. e que da� em diante afastou-se rapidamente das praias do lago. No Cap�tulo 11, estudaremos as descobertas de Posnansky e Muller, resultados estes que sugerem que a grande cidade andina de Tiahuanaco floresceu durante a �ltima Era Glacial, na meia-noite escura, sem lua, da pr�-hist�ria. CAP�TULO 9 O Antigo e Futuro Rei Durante minhas viagens pelos Andes, reli v�rias vezes uma variante curiosa da tradi��o principal do Viracocha. Nessa variante, origin�ria da �rea em volta do lago Titicaca conhecida como Collao, o deus her�i-civilizador fora chamado de Thunupa: Thunupa surgiu no altiplano em tempos antigos, vindo do norte, em companhia de cinco disc�pulos. Homem branco de apar�ncia majestosa, de olhos azuis e barba, ele n�o bebia, era puritano e fazia pr�dicas contra a bebida, a poligamia e a guerra. Ap�s viajar grandes dist�ncias atrav�s dos Andes, onde fundou um reino amante da paz e ensinou as artes da civiliza��o, Thunupa foi atacado e ferido gravemente por um grupo de ciumentos conspiradores:


Colocaram-lhe o corpo sagrado em um barco de cani�os de totora e o soltaram no lago Titicaca. No lago (...) o barco navegou para longe com tal velocidade que os que haviam cruelmente tentado mat�-Io foram tomados de grande terror e espanto porque nesse lago n�o h� correntes (...) O barco chegou � praia em Cochamarca, onde hoje existe o rio Desguardero. Diz a tradi��o �ndia que o barco bateu na terra com tanta for�a que criou o rio Desguardero, que antes disso n�o existia. E nas �guas assim criadas, o corpo sagrado foi levado por muitas l�guas para a costa mar�tima, em Arica... Barcos, �gua e Salva��o H� nessa vers�o curiosos paralelos com a hist�ria de Os�ris, o antigo e poderoso deus eg�pcio da morte e da ressurrei��o. O relato mais completo do mito original que descreve essamisteriosa figura coube a Plutarco e conta que, ap�s trazer as d�divas da civiliza��o ao seu povo, ensinando-lhe todos os tipos de habilidades �teis, abolindo o canibalismo e os sacrif�cios humanos e lhe dando o primeiro c�digo legal, Os�ris deixou o Egito e viajou pelo mundo para distribuir tamb�m a outras na��es os benef�cios da civiliza��o. Ele jamais obrigou os b�rbaros que encontrou a aceitar suas leis, preferindo, em vez disso, conversar com eles e fazer apelos � raz�o. Est� consignado tamb�m que ele lhes passava os ensinamentos atrav�s de hinos e can��es, com o acompanhamento de instrumentos musicais. Em certa ocasi�o, enquanto se encontrava em viagem, 72 membros de sua corte, liderados pelo cunhado, Set, conspiraram contra ele. Ao regressar Os�ris, os conspiradores convidaram-no para um banquete, onde um bel�ssimo cofre de madeira e ouro foi oferecido como pr�mio a qualquer convidado que nele coubesse perfeitamente. Os�ris n�o sabia que o cofre fora fabricado exatamente de acordo com as medidas de seu corpo. Em conseq��ncia, quando os convidados ali reunidos tentaram, um ap�s outro, e fracassaram, Os�ris deitou-se confortavelmente dentro do cofre. Mas, antes de ter tempo de levantar-se, os conspiradores correram para o cofre, fecharam a tampa com pregos e vedaram mesmo com chumbo derretido as fissuras na madeira para que n�o entrasse ar. O cofre foi em seguida lan�ado no Nilo. Embora a inten��o fosse que o cofre afundasserapidamente, na verdade ele flutuou e afastou-se rapidamente, percorrendo uma grande dist�ncia, at� chegar � costa. Nessa altura, a deusa �sis, esposa de Os�ris, resolveu intervir. Usando de toda magia pela qual era renomada, descobriu o cofre e escondeu-o em lugar secreto. Ainda assim, seu perverso irm�o, Set, ca�ando nos p�ntanos, descobriu-o, abriu-o e, em um acesso de loucura assassina, cortou o cad�ver real em 14 partes, que espalhou pela terra.


Uma vez mais, �sis partiu para salvar o marido. Construiu um pequeno bote de junco de papiro, calafetou-o com breu e lan�ou-se ao Nilo em busca dos restos mortais do esposo. Ao encontr�-Ios, realizou poderosos encantamentos para reunir as partes esquartejadas do corpo e lhe restituir a forma original. Da� em diante, em estado intacto e perfeito, Os�ris passou por um processo de renascimento estelar e tornou-se o deus dos mortos e rei do mundo suberr�neo - do qual, segundo a lenda, voltava ocasionalmente � terra disfar�ado de mortal. Embora haja enormes diferen�as entre as tradi��es, � muito estranho que Os�ris, no Egito, e Thunupa-Viracocha, na Am�rica do Sul, tivessem em comum os seguintes pontos: . Foram grandes civilizadores; . Foram v�timas de conspira��es; . Foram gravemente feridos; . Foram postos dentro de um recipiente ou vaso de algum tipo; . Foram em seguida lan�ados na �gua; . Flutuaram para longe nas �guasde um rio . E chegaram finalmente ao mar. Dever�amos ignorar esses paralelos, considerando-os como meras coincid�ncias? Ou poderia haver entre eles alguma conex�o profunda? Os Barcos de Junco de Suriqui O ar cortava com um frio alpino. Eu me encontrava sentado na proa de uma lancha a motor que se deslocava a 20 n�s hor�rios pelas �guas geladas do lago Titicaca. O c�u azul claro refletia tonalidades de cores de �gua-marinha e turquesa da terra distante; o corpo imenso do lago, brilhando em tons acobreados e prateados, parecia estenderse � frente por toda eternidade... Ostrechos das lendas que falavam em barcos feitos de junco precisavam ser estudados com mais aten��o, uma vez que eu sabia que "barcos de cani�os de totora" constitu�am uma forma tradicional de transporte no lago. A antiga per�cia necess�ria para construir barcos desse tipo, por�m, desaparecera na maior parte em anos recentes e, nesse momento, viaj�vamos para Suriqui, o �nico local onde eles ainda eram produzidos da forma correta. Na ilha de Suriqui, em uma pequena aldeia perto da praia, descobri dois velhos �ndios construindo um barco com molhos de juncos de totora. A elegante embarca��o, que


parecia quase completa, media cerca de 4,5m de comprimento, era larga a meia-nau, mas estreita e alta na proa e popa. Sentei-me ali durante algum tempo para observ�-Ios. O mais velho dos dois, coberto por um chap�u de feltro marrom sobre um curioso gorro de l� com pontas, plantava repetidamente o p� esquerdo descal�o no lado do barco para lhe dar mais apoio, enquanto puxava e esticava as cordas que mantinham nos devidos lugares os molhos de juncos. Notei tamb�m que, de vez em quando, ele esfregava um peda�o da corda na testa suada - umedecendo-a dessamaneira para lhe aumentar a ades�o. O barco, cercado por galinhas que ciscavam por ali e ocasionalmente investigado por uma alpaca que pastava nas proximidades, encontrava-se em meio a um lixo de juncos rejeitados, no quintal de uma casa de fazenda em ru�nas. Aquele foi um dos v�rios barcos que tive oportunidade de examinar nas horas seguintes e, embora o ambiente fosse inconfundivelmente andino, repetidamente senti uma sensa��o de d�j� vu, oriunda de outro tempo e lugar. A raz�o: os barcos de totora de Suriqui eram virtualmente id�nticos, tanto em m�todo de constru��o quanto em apar�ncia final, aos belos botes feitos com junco de papiro, nos quais fara�s haviam navegado no Nilo milhares de anos antes. Em viagens pelo Egito, eu vira imagens de muitos desses barcos pintadas nas paredes de tumbas antigas. A semelhan�a provocou-me um arrepio pela espinha abaixo, ao v�-Ios nessemomento trazidos de forma t�o colorida � vida em uma obscura ilha no lago Titicaca - mesmo que a pesquisa que vinha realizando tivesse me preparado em parte para essa coincid�ncia. Eu sabia que nenhuma explica��o satisfat�ria jamais fora dada de como essas semelhan�as t�o ricamente detalhadas em projetos de barcos poderiam ocorrer em dois lugares t�o distantes um do outro. N�o obstante, repetindo as palavras de uma autoridade em navega��o antiga, que estudara o enigma: Aqui estava a mesma forma compacta, as pontas elevadas em ambas as extremidades, com cordas amarrando as pe�as desde o tombadilho at� o fundo do barco e transformando-o em uma �nica pe�a (...) Cada palha era posta em seu lugar com a m�xima precis�o para obter simetria perfeita e eleg�ncia aerodin�mica, ao mesmo tempo que os feixes de juncos eram t�o fortemente amarrados que pareciam (...) troncos dourados torcidos e transformados em um bico, em forma de tamp�o, na proa e na popa. Os barcos de junco do antigo Nilo e os do lago Titicaca (cujo projeto inicial, insistiam os �ndios, lhes fora dado pelos "ajudantes de Viracocha") tinham ainda outros aspectos em comum. Ambos, por exemplo, eram equipados com velas montadas em


fasquias peculiares, de dois elementos. Ambos haviam sido tamb�m usados para transporte � longa dist�ncia de materiais de constru��o extremamente pesados: obeliscos e blocos enormes de pedra, usados nos templos de Giz�, L�xor e Abidos, por um lado, e os misteriosos edif�cios de Tiahuanaco, por outro. Nesses tempos remotos, antes de o lago Titicaca tornar-se mais de 50m mais raso, Tiahuanaco situava-se � beira d'�gua, dando para uma paisagem de imponente e sagrada beleza. Nesse momento, o grande porto, a capital do pr�prio Viracocha, estava perdido entre colinas corro�das pela eros�o e plan�cies descampadas varridas pelos ventos. A Estrada para Tiahuanaco... Voltando de Suriqui para o continente, seguimos em nosso jipe alugado pelas colinas, levantando uma nuvem de poeira. A rota levou-nos pelas pequenas cidades de Puccarani e Laha, onde viviam est�icos �ndios aymara, que andavam em passos lentos pelas estreitas ruas lajeadas ou permaneciam sentados tranq�ilamente em pequenas pra�as batidas pelo sol. Seriam essesindiv�duos descendentes dos construtores de Tiahuanaco, como insistiam os estudiosos do assunto? Ou estariam certas as lendas?Teria sido a antiga cidade obra de estrangeiros dotados de poderes divinos, que ali haviam se estabelecido em um passado remoto? CAP�TULO 10 A Cidade no Portal do Sol Os primeiros viajantes espanh�is que visitaram a cidade boliviana arruinada de Tiahuanaco � �poca da conquista ficaram impressionados com o tamanho de seus edif�cios e com a atmosfera de mist�rio que os envolvia. "Perguntei aos nativos se esses edif�cios haviam sido constru�dos nos tempos dos incas", escreveu o historiador Pedro Cieza de Leon. "Eles riram ao ouvir a pergunta, declarando que haviam sido levantados muito tempo antes do reinado inca... e que tinham ouvido de seus antepassados que tudo o que ali se via aparecera de repente, no curso de uma �nica noite..." Outro visitante espanhol do mesmo per�odo registrou uma tradi��o que dizia que as pedras haviam sido levantadas milagrosamente do ch�o: "Elas foram levadas pelo ar ao som de uma trombeta". N�o muito depois da conquista, uma descri��o detalhada da cidade foi feita pelo historiador Garcilaso de Ia Vega. N�o ocorrera ainda qualquer pilhagem em busca de


tesouros ou de material de constru��o e, embora corro�do pelos dentes do tempo, o local continuava magn�fico o suficiente para tirar-lhe o f�lego: Temos que dizer agora alguma coisa sobre os pr�dios quase inacredit�veis de Tiahuanaco. L� existe uma colina artificial, de grande altura, erigida sobre funda��es de pedra, de modo que a terra n�o deslizar�. Existem figuras gigantescas esculpidas em pedra... grandemente desgastadas pelas intemp�ries, o que Ihes demonstra a grande antiguidade. H� paredes feitas de pedras t�o enormes que � dif�cil imaginar que for�a humana poderia t�-Ias assentado. E h� ru�nas de edif�cios estranhos, sendo os mais not�veis os portais de pedra, cortados na rocha bruta, repousando em bases que chegam a ter at� 12m de comprimento, por 4,5m de largura e uma espessura de 1,80m, sendo base e portal talhados em uma �nica pe�a (...) Como, e com uso de que ferramentas ou implementos, obras maci�as de tal tamanho poderiam ter sido realizadas s�o perguntas que n�o temos como responder (...) Nem podemos imaginar como pedras t�o enormes poderiam ter sido trazidas para aqui... Essaspalavras foram escritas no s�culo XVI. Mais de 400 anos depois, em fins do s�culo XX, senti-me t�o confuso como Garcilaso. Espalhados em volta de Tiahuanaco, desafiando saqueadores que haviam pilhado tanto o local em anos recentes, h� ainda mon�litos t�o grandes e dif�ceis de transportar, mas tamb�m t�o bem talhados, que quaseparecem obra de seres superiores. O Templo Rebaixado Tal como um disc�pulo aos p�s do mestre, sentei-me no ch�o do templo rebaixado e ergui os olhos para a face enigm�tica que todos os estudiosos de Tiahuanaco acreditam ter sido modelada para representar Viracocha. H� s�culos incont�veis, m�os desconhecidas lhe haviam talhado o semblante em um alto pilar de rocha vermelha. Embora muito corro�do atualmente, � o semblante de um homem em paz consigo mesmo. E o semblante de um homem poderoso... Tinha testa alta e grandes olhos redondos, nariz afilado, estreito no cavalete, mas abrindo-se na dire��o das narinas. L�bios carnudos. O aspecto caracter�stico, por�m, era a barba estilizada e imponente, que produzia o efeito de tornar-lhe o rosto mais largo no queixo do que nas t�mporas. Olhando com mais aten��o, notei que o escultor representara um homem cuja pele fora raspada em volta de toda a boca, com o resultado de que o bigode come�ava alto nas ma��s do rosto, aproximadamente paralelo � ponta do nariz. Dessa posi��o, curvava-se de forma extravagante para


baixo, ao lado dos cantos da boca, formando um cavanhaque exagerado, seguindo depois a linha do queixo e voltando �s orelhas. Acima e abaixo das orelhas, nos lados da face, haviam sido esculpidas estranhas representa��es de animais. Ou talvez fosse melhor descrev�-Ias como representa��es de animais estranhos, uma vez que pareciam grandes e desajeitados mam�feros pr�hist�ricos com grossascaudase p�s ungulados. Mas havia outros pontos dignos de interesse. A figura em pedra de Viracocha, por exemplo, havia sido esculpida com as m�os e os bra�os cruzados, um embaixo do outro, sobre um manto longo e ondulante. Em cada lado do manto aparecia a forma sinuosa de uma serpente desenroscando-se para cima, do n�vel do ch�o at� o n�vel do ombro. Enquanto olhava para a bela representa��o (cujo original talvez tivesse sido bordado em tecido nobre), a imagem que se formou em minha mente foi a de Viracocha como bruxo ou feiticeiro, uma figura barbuda, parecida com Merlin, usando trajes estranhos e maravilhosos, invocando o fogo dos c�us. O "templo" onde se encontra o pilar de Viracocha abre-se para o c�u e consiste em um grande buraco retangular, como se fosse uma piscina, escavado a 1,80m abaixo do n�vel do ch�o. O ch�o, de cerca de 12m de comprimento por 9m de largura, � composto de cascalho duro e liso. Suas fortes paredes verticais s�o formadas de blocos de pedra de cantaria de tamanhos variados, fortemente unidos, sem argamassa nas juntas e entremisturado com estelas altas e de acabamento tosco. Um conjunto de degraus fora escavado na parede sul e por eles eu descera para a estrutura. Dei v�rias voltas em torno da figura de Viracocha, ocasionalmente pondo os dedos no pilar de pedra, aquecido pelo sol, tentando descobrir-lhe a finalidade. O pilar tinha talvez 2,10m de altura e estava virado para o sul, dando as costas para a velha praia do lago Titicaca (originalmente a menos de 180m de dist�ncia). Alinhados atr�s desse obelisco central, al�m disso, havia dois outros, de menor estatura, possivelmente destinados a representar os lend�rios companheiros de Viracocha. As tr�s figuras, severa e funcionalmente verticais, lan�avam sombras de contornos n�tidos no ch�o, enquanto eu as observava, pois o sol j� ultrapassara o z�nite. Sentei-me novamente no ch�o e olhei devagar em volta do templo, dominado pela figura de Viracocha, como se ele fosse o maestro de uma orquestra. Ainda assim, seu aspecto mais not�vel estava em outro local: forrando as paredes, em pontos e alturas variadas, havia dezenas e dezenas de cabe�as humanas esculpidas em pedra. Eram cabe�as completas, projetando-se tridimensionalmente das paredes. S�o v�rias, diferentes (e contradit�rias) as opini�es dos estudiosos sobre a fun��o a que se destinavam.


Pir�mide Do ch�o do templo rebaixado, olhando para o oeste, vi uma imensa muralha, na qual havia um impressionante portal geom�trico feito de grandes placas de pedra. Aparecendo em silhueta no portal e iluminado pelo sol de fins da tarde, distingui a figura de um gigante. A muralha, eu sabia, cercava uma �rea com as dimens�es de um campo de parada, chamada Kalasasaya (palavra que na l�ngua aymara local significa simplesmente "Lugar das Grandes Pedras em P�"). E o gigante era uma das imensas pe�asde escultura corro�das pelo tempo mencionadas por Garcilaso de Ia Vega. Embora ansioso para examin�-Ia, tive a aten��o desviada no momento para a dire��o sul e para uma colina artificial, de uns 15m de algura, que se situava quase diretamente � minha frente, enquanto eu subia os degraus, deixando o templo rebaixado. A colina, que Garcilaso mencionara tamb�m, era conhecida como Pir�mide de Akapana. Tal como as pir�mides de Giz�, no Egito, ela estava orientada com uma precis�o surpreendente para os pontos cardeais. Mas, ao contr�rio daquelas pir�mides, seu projeto era um tanto irregular. Ainda assim, ela media aproximadamente 210m de cada lado, o que lhe dava a caracter�stica de uma enorme pe�a de arquitetura e a condi��o de principal edif�cio de Tiahuanaco. Caminhei em sua dire��o e passei algum tempo dando uma volta em torno dela e passando por cima de seu cume. Originalmente, a estrutura fora uma pir�mide escalonada de terra, recoberta com grandes blocos de andesita. Nos s�culos transcorridos desde a conquista, por�m, a pir�mide foi explorada como pedreira por empresasde constru��o civil situadas t�o longe quanto La Paz, com o resultado de que s� sobravam uns 10%dos soberbos blocos do revestimento. Que pistas, que provas, essesladr�es an�nimos levaram? Galgando as faces dilapidadas e andando em volta das grandes fossascobertas de relva no cume da Akapana, dei-me conta de que, com toda probabilidade, a verdadeira fun��o da pir�mide jamais seria conhecida. De certo apenas o fato de que n�o fora simplesmente decorativa ou cerimonial. Bem ao contr�rio, quase parecia que poderia ter funcionado como algum tipo de "dispositivo" ou m�quina arcana. Bem no fundo de suas entranhas, arque�logos descobriram uma rede complexa de dutos de pedra, em ziguezague, revestidos com finas pe�as de cantaria. Essaspe�as haviam sido colocadas em �ngulos precisos e juntadas (com uma toler�ncia de cinco mil�metros), e servido para trazer para baixo a �gua de um grande reservat�rio no topo da estrutura, atrav�s de uma s�rie de n�veis descendentes, at� um fosso que cercava todo o local e que tocava a base da pir�mide em sua face sul.


Tanto cuidado e aten��o haviam sido prodigalizados em todo esse sistema hidr�ulico, e tantos homens-hora de trabalho altamente especializado e paciente, que Akapana n�o fazia sentido, a menos que tivesse sido constru�da para uma finalidade importante. V�rios arque�logos, isso eu sabia, tinham especulado que a finalidade poderia ter estado ligada a um culto de chuva ou de rio, implicando venera��o primitiva pelos poderes e atributos da �gua corrente. Uma sugest�o de natureza sinistra, implicando que a "tecnologia" desconhecida da pir�mide poderia ter servido a uma finalidade letal, baseava-se no significado das palavras Hake e Apana, na antiga l�ngua aymara, ainda falada no local: "Hake significa 'povo' ou 'homens'; Apana significa 'morrer' (provavelmente por a��o da �gua). Akapana, por conseguinte, seria um local onde pessoasmorreriam.." Outro comentarista, depois de fazer uma cuidadosa investiga��o de todas as caracter�sticas do sistema hidr�ulico, prop�s uma solu��o diferente, isto �, que as calhas tinham sido, com maior probabilidade, parte de "uma t�cnica de processamento - de uso de �gua corrente para lavagem de min�rio, talvez?"

Portal do Sol Deixando a face oeste da enigm�tica pir�mide, dirigi-me para o canto sudoeste do espa�o fechado conhecido como Kalasasaya. Nesse momento, compreendi por que o local fora denominado de Lugar de Pedras em P�, pois era isso exatamente o que eu via. A intervalos regulares, em uma muralha constru�da com volumosos blocos trapezoidais, imensos mon�litos em forma de adaga, de mais de 3,60m de altura, haviam sido plantados na terra vermelha do altiplano. O efeito era o de uma gigantescada pali�ada, de quase 45m2, erguendo-se cerca de umas duas vezes mais acima do solo quanto o templo rebaixado fora escavado abaixo. Teria Kalasasaya sido uma fortaleza? Aparentemente, n�o. De modo geral, estudiosos aceitam hoje a id�ia de que o local funcionara como um sofisticado observat�rio celeste. Em vez de manter inimigos ao largo, sua finalidade fora a de fixar equin�cios e solst�cios e de prever, com precis�o matem�tica, as v�rias esta��es do ano. Algumas estruturas no interior das muralhas (e, na verdade, as pr�prias muralhas) pareciam ter sido alinhadas com determinados grupos de estrelas e projetadas de modo a facilitar a medi��o da amplitude do sol no ver�o, inverno, outono e primavera. Al�m disso, o famoso "Portal do Sol", que se situa no canto noroeste do espa�o fechado, era n�o s�


uma obra de arte de classe mundial, mas tamb�m considerado pelos que o haviam estudado como um calend�rio complexo e exato entalhe em pedra: Quanto mais estudamos a escultura, maior se torna nossa convic��o de que a disposi��o peculiar e o pictorialismo desseCalend�rio n�o poderiam ter sido, de forma nenhuma, apenas resultado do capricho, em �ltima an�lise insond�vel, de um artista, mas que seus glifos, revestidos de profundo sentido, constituem registro eloq�ente das observa��es e c�lculos de um cientista... O Calend�rio n�o poderia ter sido desenhado e esculpido de qualquer outra maneira. A pesquisa preliminar que realizei deixou-me muito curioso sobre o Portal do Sol e, na verdade, sobre o Kalasasaya como um todo. Acontecia isso porque certos alinhamentos astron�micos e solares, que estudaremos no cap�tulo seguinte, tornavam poss�vel calcular o per�odo aproximado em que o Kalasasaya deveria ter sido construido. Essesalinhamentos sugeriam a controvertida data de 15000 a.C. - ou cerca de dezessete mil anos passados. CAP�TULO 11 Indica��es de Antiguidade Em uma volumosa obra, Tiahunacu: the Cradle of American Man, o falecido professor Arthur Posnansky (um not�vel pesquisador germano-boliviano cujos estudos das ru�nas duraram quase 50 anos) explica os c�lculos �rqueo-astron�micos que resultaram na nova data de funda��o que ele atribuiu a Tiahuanaco. Essesc�lculos, diz ele, baseavam-se "apenas e exclusivamente na diferen�a na obliq�idade da ecl�ptica no per�odo em que o Kalasasayafoi construido e da que existe hoje". O que exatamente � "a obliq�idade da ecl�ptica" e por que ela d� a Tiahuanaco uma idade de 17.000anos? De acordo com a defini��o dos dicion�rios, a ecl�ptica � "o �ngulo entre o plano da �rbita da terra e o do equador celeste, igual a aproximadamente 23� 27"'. No intuito de esclarecer essaobscura id�ia astron�mica, vamos imaginar a terra como um navio, navegando no vasto oceano dos c�us. Tal como todos as embarca��es desse tipo (sejam elas planetas ou escunas), ela sobe e desce ligeiramente com a onda que passa por baixo do casco. Imagine-se a bordo dessaembarca��o � medida que ela sobe e desce, de p� no tombadilho, olhando para o mar. Voc� sobe na crista de uma onda e seu horizonte vis�vel aumenta, cai em uma fossa e ele diminui. O processo � regular, matem�tico, tal como o tiquetaque de um metr�nomo gigantesco: uma inclina��o


constante, quase impercept�vel, mudando perpetuamente o �ngulo entre voc� e o horizonte. Agora, imagine novamente a terra. Flutuando no espa�o, como sabe todo menino de escola, o eixo da rota��o di�ria de nosso belo planeta azul � ligeiramente inclinado em rela��o ao vertical em sua �rbita em torno do sol. Dessa situa��o segue-se que o equador terrestre e, da�, o "equador celeste" (que � simplesmente um prolongamento imagin�rio do equador terrestre na esfera celeste) deve situar-se tamb�m em um �ngulo com o plano orbital. Esse �ngulo, em qualquer ocasi�o, � a obliq�idade da ecl�ptica. Mas uma vez que a terra � um barco que ondula, sua obliq�idade muda de uma maneira c�clica em per�odos muito longos. Durante cada ciclo de 41.000 anos, a obliq�idade varia, com a precis�o e previsibilidade de um cron�grafo su��o, entre 22,1� e 14,5�. A seq��ncia em que um �ngulo segue outro, bem como a seq��ncia de todos os �ngulos anteriores (em qualquer per�odo da hist�ria), pode ser calculada atrav�s de algumas equa��es simples. Elas podem ser representadastamb�m como uma curva em um gr�fico (originariamente plotado em Paris no ano de 1911 pela Confer�ncia Internacional de Efem�rides) e � vista desse gr�fico � poss�vel comparar, com confiabilidade e precis�o, �ngulos e datas hist�ricas precisas. Posnansky conseguiu fixar a data da constru��o de Kalasasaya porque a obliq�idade do ciclo altera gradualmente a posi��o azimutal do nascer e p�r-do-sol de um s�culo a outro. Ao estabelecer os alinhamentos solares de certas estruturas b�sicas que, nesse momento, pareciam "estar deslocadas", ele demonstrou convincentemente que a obliq�idade da ecl�ptica na �poca da constru��o do Kalasasayatinha sido de 23� 8' 48". Ao ser o �ngulo plotado no gr�fico tra�ado pela Confer�ncia Internacional de Efem�rides, descobriu-se que correspondia � data de 15000a.C. Claro, nenhum historiador ou arque�logo ortodoxo estava disposto a aceitar uma origem t�o antiga para Tiahuanaco, preferindo, conforme notado no Cap�tulo 8, concordar com a estimativa conservadora de 500 d.C. No per�odo de 1927 a 1930, contudo, v�rios cientistas, origin�rios de outras disciplinas, estudaram com grande cuidado as "investiga��es astron�mico-arqueoI�gicas" de Posnansky. Essescientistas, membros de uma equipe de alto gabarito que estudou tamb�m numerosos outros s�tios arqueol�gicos nos Andes, eram o Dr. Hans Ludendorff (na ocasi�o, diretor do Observat�rio Astron�mico de Potsdam), Dr. Friedrich Becker, do Specula Vaticanica, e dois outros astr�nomos: o professor Dr. Arnold Kohlschutter, da Universidade de Bonn, e o Dr. Rolf Muller, do Instituto Astrof�sico de Potsdam. Ao fim de tr�s anos de trabalho, os cientistas conclu�ram que Posnansky estava basicamente certo. Eles n�o estavam interessados nas implica��es de suas descobertas para o paradigma em vigor da hist�ria: simplesmente confirmaram os fatos


observ�veis sobre os alinhamentos astron�micos das v�rias estruturas de Tiahuanaco. Entre estes, o mais importante era que o Kalasasaya fora projetado para conformar-se a observa��es do c�u feitas h� muito, muito tempo - muito antes dos supostos 500 a.C. O n�mero de Posnansky, de 14000 a.C., foi considerado como bem dentro dos limites das possibilidades. Se Tiahuanaco florescera realmente t�o antes do alvorecer da hist�ria, que tipos de pessoashaviam-na construido e para que fim? Figuras em Forma de Peixe No interior do Kalasasaya h� duas pe�as maci�as de estatu�ria. A primeira, uma figura apelidada de El Fraile (O Frade), ergue-se no canto sudoeste; a outra, na dire��o do centro da extremidade leste do espa�o fechado, era o gigante que eu observara de dentro do templo rebaixado. Esculpido em arenito vermelho, desgastado pelo tempo e antigo al�m de qualquer palpite, El Fraile tem cerca de 1,80m e representa um ser human�ide, andr�gino, com grandes olhos e l�bios. Na m�o direita, ele segura algo parecido com uma faca, com uma l�mina ondulada que lembra um kris indon�sio. Na m�o esquerda, tem um objeto que se assemelha a um livro articulado. Do alto desse "livro", por�m, projeta-se um dispositivo que nele foi inserido como se numa bainha. Da cintura para baixo, a figura parece vestida com um traje de escamas de peixe e, como se para confirmar essa impress�o, o escultor havia formado as escamas isoladas com fileiras e mais fileiras de cabe�as de peixe altamente estilizadas. Esse sinal foi convincentemente interpretado por Posnansky como significando peixe em gera. Parecia, portanto, que EI Fraile era a representa��o de um simb�lico ou imagin�rio "homem-peixe". A figura usa ainda um cinto esculpido com imagens de v�rios grandes crust�ceos, de modo que essa id�ia parecia ainda mais prov�vel. Qual a inten��o da escultura? Eu havia tomado conhecimento de uma tradi��o local que poderia esclarecer o assunto. Muito antiga, ela falava em "deuses do lago, com caudas de peixe, chamados de Chullua e Umantua". Na tradi��o e nas figuras vestidas como peixes parecia haver um eco curiosamente dissonante de mitos mesopot�micos, que se referiam estranhamente, e em grande extens�o, a seres anf�bios, "dotados de raz�o", que tinham visitado a terra da Sum�ria na pr�-hist�ria remota. O chefe desses seres era chamado de Oannes(ou Uan). Ou, como disse o escriba caldeu Berossus:


Todo o corpo (de Oannes) era parecido com o de um peixe e ele tinha, sob a cabe�a de peixe, outra cabe�a, e tamb�m p�s, semelhantes aos de um homem, apensados� cauda de peixe. Sua voz, tamb�m, e a linguagem, eram articuladas e humanas, e uma representa��o dele foi preservada at� este dia. (...) Quando o sol se punha, era costume desse Ser mergulhar novamente no mar e ficar toda a noite nas profundezas, pois ele era anf�bio. De acordo com a tradi��o citada por Berossus, Oannes era, acima de tudo, um civilizador: Durante o dia, ele costumava conversar com os homens, mas n�o se alimentou naquela esta��o. E lhes deu um insight de letras e ci�ncias e de todos os tipos de artes. Ensinou-lhes a construir casas, a erigir templos, a compilar leis e explicou os princ�pios do conhecimento geom�trico. Ensinou-lhes a distinguir entre as sementes da terra e mostrou como coletar frutas. Em suma, instruiu-os em tudo que poderia contribuir para suavizar maneiras e humanizar a humanidade. Desse tempo em diante, t�o universais foram suas instru��es, que nada foi acrescentado materialmente como melhoramento... Imagens remanescentes das criaturas Oannes que vi em altos-relevos babil�nicos e ass�rios representavam claramente homens vestidos como peixes. Escamas de peixe constitu�am os motivos dominantes em seus trajes, da mesma forma que acontecia com o usado por EI Fraile. Outra semelhan�a era que as figuras babil�nicas tinham objetos n�o identificados nas m�os. Se a mem�ria me servia bem (e, mais tarde, confirmei que isso acontecia), essesobjetos n�o eram absolutamente id�nticos aos que EI Fraile segurava. Mas eram semelhantes o suficiente para merecer aten��o. O outro grande "�dolo" de Kalasasaya estava situado na dire��o da extremidade oriental da plataforma, de frente para o grande portal, e era um mon�lito imponente de adesita cinzenta, imensamente espesso e com cerca de 2,70m de altura. A cabe�a larga erguia-se reta dos ombros maci�os e o rosto, parecendo uma placa de pedra, olhava sem express�o para a dist�ncia. Usava coroa, ou um tipo de testeira, com os cabelos penteados em tran�as bem dispostas em longos cachos verticais, mais claramente vis�veis nas costas. A figura era tamb�m complicadamente esculpida e decorada na maior parte de sua superf�cie, como se fosse tatuada. Tal como El Fraile, usava abaixo da cintura um traje composto de escamas de peixe e s�mbolos do mesmo tipo. E, tamb�m como El Fraile, tinha dois objetos n�o identific�veis nas m�os. Nesse caso, o objeto na m�o esquerda


parecia mais uma bainha do que um livro aniculado e dele se projetava um cabo bifurcado. Na m�o direita, o objeto era mais ou menos cil�ndrico, estreito no centro em que era seguro na m�o, mais largo nos lados e na base, estreitando-se novamente na dire��o da parte superior. O objeto parecia ser composto de se��es, ou partes diferentes, encaixadasumas nas outras, mas era imposs�vel dar um palpite sobre o que poderia representar.


Imagens de Esp�cies Extintas Deixando para tr�s as figuras em trajes de peixe, cheguei finalmente ao Portal do Sol, localizado no canto noroeste do Kalasasaya. Verifiquei que era um mon�lito isolado de andesita cinzento-esverdeada, de cerca de 3,80m de largura, 3m de altura e 45cm de espessura, pesando umas estimadas 10t.


Talvez mais bem compreendido como uma esp�cie de Arco do Triunfo, embora em escala muito menor, a pe�a parecia, nesse ambiente, uma porta de liga��o entre duas dimens�es invis�veis - uma porta entre parte nenhuma e o nada. O trabalho de cantaria era de qualidade excepcionalmente alta e autoridades concordavam em que se tratava de "uma das maravilhas arqueol�gicas das Am�ricas". Seu aspecto mais enigm�tico era o denominado "friso do calend�rio", esculpido na face que dava para o leste, ao longo da pane superior do portal. No centro, em uma posi��o elevada, o friso era dominado pelo que estudiosos do assunto julgavam ser outra representa��o de Viracocha, embora, dessa vez, em seu aspecto mais terr�vel, como o rei divino que podia invocar o fogo dos c�us. O lado suave, paternal, ainda era representado e l�grimas de compaix�o escorriam-lhe pela face. A face, por�m, era severa e dura, a tiara r�gia e imponente e, em cada m�o, segurava um raio. Na interpreta��o dada por Joseph Campbell, um dos estudiosos mais conhecidos de mitos neste s�culo, "O significado � que a gra�a que se derrama no universo atrav�s da porta do sol � a mesma energia do raio que aniquila e que � em si indestrut�vel..." Virei a cabe�a para a direita e a esquerda, estudando sem pressa o resto do friso. Era uma pe�a belamente equilibrada de escultura, com tr�s fileiras de oito figuras, 24 no total, revestindo ambos os lados da imagem central elevada. Numerosas tentativas, nenhuma delas especialmente convincente, foram feitas para explicar a suposta fun��o de calend�rio dessas figuras. Tudo que se podia dizer com certeza era que tinham um aspecto peculiar, exangue, com apar�ncia de cartum, e que havia alguma coisa friamente matem�tica, quase mec�nica, na maneira como elas pareciam marchar em linhas organizadas na dire��o do Viracocha. Algumas, aparentemente, usavam m�scaras de aves, outras tinham nariz bem agu�ado e todas seguravam nas m�os um implemento do mesmo tipo que o deus principal estava conduzindo. A base do friso era tomada por um desenho conhecido como "Meandro" uma s�rie de formas de pir�mides escalonadas gravadas em linha cont�nua e arranjadas alternadamente invertidas para baixo e em posi��o correta, que se pensava tamb�m preencher uma fun��o de calend�rio. Na terceira coluna, vista do lado direito (e, de forma menos clara, na terceira coluna, tamb�m, vista do lado esquerdo), consegui identificar o entalhe claro de uma cabe�a, orelhas e presas compridas de elefante. Era uma descoberta inesperada, uma vez que n�o h� elefantes em parte alguma do Novo Mundo. Mas tinha havido em tempos pr�-hist�ricos, como pude confirmar muito tempo depois. Especialmente numerosos na regi�o sul dos Andes, at� sua extin��o s�bita no ano 10000 a.C., essesanimais tinham sido membros de uma esp�cie chamada


de Cuvieronius, um probosc�deo semelhante ao elefante, com presas compridas e tromba, e com uma semelhan�a sobrenatural com os "elefantes" do Portal do Sol". Dei uns poucos passos � frente para examinar mais de perto esseselefantes. Constatei que todos eram compostos das cabe�as de dois condores encimados por cristas, ligados garganta � garganta (constituindo as cristas as "orelhas" e, a parte superior do pesco�o, as "presas compridas"). As criaturas assim formadas ainda me pareciam ser elefantes, talvez por um truque visual caracter�stico, que os escultores de Tiahuanaco haviam empregado repetidamente em sua arte sutil e estranha, de usar uma coisa para representar outra. Dessa maneira, uma orelha aparentemente humana em um rosto aparentemente humano poderia ser uma asa de p�ssaro. De igual maneira, uma coroa refinada poderia ser composta de cabe�as alternadas de peixes e condores, uma sobrancelha ser feita do pesco�o e cabe�a de ave, o ded�o de uma sand�lia da cabe�a de um animal, e assim por diante. Membros da fam�lia dos elefantes formados de cabe�as de condores, portanto, n�o precisavam ser necessariamente ilus�es de �tica. Ao contr�rio, essascomposi��es inventivas estariam de perfeito acordo com o car�ter art�stico geral do friso.


Entre a abund�ncia de figuras estilizadas de animais talhadas no Portal do Sol havia ainda certo n�mero de esp�cies extintas. Eu sabia por minhas pr�prias pesquisas que uma delas fora convincentemente identificada por v�rios observadores como o Toxodonte - um mam�fero anf�bio triungulado, de cerca de 2,70m de comprimento e 1,50m de altura nos ombros, lembrando um cruzamento baixo, entroncado, entre rinoceronte e hipop�tamo. Tal como o Cuvieronius, o Toxodonte florescera na Am�rica do Sul em fins do Plioceno (h� 1,6 milh�o de anos) e se extinguira ao fim do Pleistoceno, h� cerca de 12.000anos.


Para meus olhos, essas imagens pareciam confirma��o not�vel da prova astroarqueol�gica que situava Tiahuanaco em fins do Pleistoceno e que solapava ainda mais a cronologia hist�rica ortodoxa, que atribu�a � cidade apenas 1.500 anos de idade, uma vez que o Toxodonte, presumivelmente, s� poderia ter sido modelado � vista de um esp�cime vivo. Era mat�ria de alguma import�ncia, portanto, que nada menos de 46 cabe�asde Toxodontes tenham sido talhadas no friso do Portal do Sol. Tampouco era a feia caricatura do animal limitada apenas ao Portal. Muito ao contr�rio, o Toxodonte havia sido identificado em numerosos fragmentos de lou�a de barro tiahuanacana. Ainda mais convincente, fora representado em v�rias pe�as de escultura, que o mostravam em plena gl�ria tridimensional. Al�m do mais, tinham sido encontradas representa��es de outros animais extintos: as esp�cies inclu�am o Shelidoterium, um quadr�pede de h�bitos diurnos, e o Macrauchenia, um animal um pouco maior do que o cavalo moderno, com p�s triungulados bem claros. Essas imagens significavam que Tiahuanaco era uma esp�cie de livro ilustrado do passado, um registro de animais estranhos, hoje mais extintos do que o dodo, gravados em pedra para a eternidade. A confec��o do registro, por�m, chegara certo dia subitamente ao fim e a escurid�o descera sobre a terra. Essefato, igualmente, estava gravado na pedra - o Portal do Sol, essa soberba obra de arte, jamais fora completado. Alguns aspectos inacabados do friso faziam com que fosse prov�vel que alguma coisa inesperada e pavorosa tivesse acontecido, o que levou o escultor, nas palavras de Posnansky, "a deixar cair para sempre o cinzel" no momento em que "estava dando os retoques finais em sua obra".

CAP�TULO 12 O Fim dos Viracochas Vimos no Capitulo 10 que Tiahuanaco foi constru�da originalmente como porto nas margens do lago Titicaca, quando o lago era muito mais largo e mais de 30m mais profundo do que hoje. Enormes constru��es portu�rias, pieres e diques (e mesmo locais de descarga de pedra tirada de pedreiras em pontos abaixo da velha linha d'�gua) n�o deixam d�vida que tudo isso deve ter existido. De acordo com as estimativas heterodoxas do professor Posnansky, Tiahuanaco funcionava como porto muito movimentado em data t�o remota como o ano 15000 a.C., a data que ele sugeriu como a da constru��o da Kalasasaya, que continuou a servir como tal por


aproximadamente cinco mil anos e que, durante esse enorme per�odo, sua posi��o em rela��o � praia do lago praticamente n�o mudou. Durante toda essa �poca, o ancoradouro principal da cidade portu�ria esteve localizado a centenas de metros a sudoeste da Kalasasaya, em um sitio ora conhecido como Puma Punku (literalmente, o Portal do Puma). Nesse local, as escava��es de Posnansky revelaram a exist�ncia de duas docas artificialmente abertas em cada lado de um "aut�ntico pier, ou cais... onde centenas de embarca��es poderiam, a qualquer tempo, ancorar e descarregar suaspesadascargas". Um dos blocos de constru��o usados na constru��o do pier ainda se encontrava no local e pesava umas estimadas 400 toneladas. Numerosos outros pesavam entre 100 e 150 toneladass. Al�m do mais, muitos dos maiores mon�litos haviam sido claramente ligados uns aos outros por grampos de metal em forma de L. Eu sabia que, em toda a Am�rica do Sul, essat�cnica de constru��o s� havia sido encontrada em Tiahuanaco. A �ltima vez em que eu vira as depress�es caracter�sticas, em entalhes que lhe provavam o uso, tinha sido nas ru�nas da ilha de Elefantina, no Nilo, no Alto Egito.


Igualmente intrigante era a exist�ncia do s�mbolo da cruz em muitos desses antigos blocos. Repetindo-se in�meras vezes, especialmente no acesso setentrional ao Puma Punku, o s�mbolo assumia sempre a mesma forma: um crucifixo duplo em linhas muito claras, perfeitamente equilibrado e harmonioso, profundamente rebaixado na dura pedra cinzenta. Mesmo de acordo com a cronologia ortodoxa, essas cruzes tinham nada menos de 1.500 anos de idade. Em outras palavras, haviam sido ali entalhadas por um povo que nenhum conhecimento tinha do cristianismo, um mil�nio inteiro antes da chegada dos primeiros mission�rios espanh�is ao altiplano. Onde, por falar nisso, haviam os crist�os obtido a cruz? N�o s� da forma da estrutura onde Cristo fora pregado, pensava eu, mas tamb�m de uma origem muito mais antiga. Os antigos eg�pcios, por exemplo, n�o haviam usado um hier�glifo muito parecido com a cruz (a ankh, ou crux ansata) para simbolizar a vida... o h�lito de vida... a pr�pria vida eterna? Surgira o s�mbolo no Egito, ou tivera talvez origem em outro local, e em uma era ainda mais remota? Com essas id�ias se atropelando em minha mente, andei vagarosamente em torno do Puma Punku. O extenso per�metro, que formava um ret�ngulo de v�rias centenas de metros de comprimento, punha em destaque uma baixa colina de forma piramidal, nesse momento densamente coberta por relva alta. Dezenas e dezenas de enormes blocos espalhavam-se em todas as dire��es, jogados como se fossem palitos de f�sforo, argumentou Posnansky, pela terr�vel calamidade natural que se abatera sobre Tiahuanaco no und�cimo mil�nio a.C.: Essa cat�strofe foi ocasionada por movimentos s�smicos, que provocaram transbordamento das �guas do lago Titicaca e erup��es vulc�nicas... � tamb�m poss�vel que o aumento tempor�rio do n�vel do lago tenha sido causado, em parte, pelo rompimento das barreiras naturais de alguns lagos mais ao norte e situados em maior altitude (...) liberando, dessa maneira, a �gua que desceu na dire��o do lago Titicaca em torrentes impetuosase incontrol�veis. A prova de Posnansky, de que um dil�vio fora a causa da destrui��o de Tiahuanaco, inclu�a o seguinte: A descoberta de flora lacustre, Paludestrina culminea e Paludestrina andecola, Ancylus titicacensis, Planorbis titicacensis etc., misturada em dep�sitos de aluvi�o com os esqueletos de seres humanos que pereceram no cataclismo... e a descoberta de


v�rios esqueletos de Orestias, um peixe da fam�lia dos atuais bogas, no mesmo aluvi�o que cont�m os restos humanos... Al�m disso, fragmentos de esqueletos humanos e de animais foram encontrados em desordem ca�tica entre pedras trabalhadas, utens�lios, instrumentos e uma variedade intermin�vel de outras coisas. Tudo isso havia sido movido de um lado para outro, quebrado e acumulado em uma pilha desordenada. Quem quer que abrisse nesse local um buraco de dois metros de profundidade n�o poderia negar que a for�a destrutiva da �gua, em combina��o com movimentos bruscos da terra, deveria ter acumulado essesdiferentes tipos de ossos, misturando-os com lou�a de barro, j�ias, instrumentos e utens�lios (...) Camadas de dep�sitos de aluvi�o cobrem todo o campo das ru�nas; areia lacustre, misturada com conchas do Titicaca, feldspato decomposto e cinzas vulc�nicas, acumularam-se nos locais cercados por muralhas... Foi realmente terr�vel a cat�strofe que caiu sobre Tiahuanaco. E se Posnansky ti nha raz�o, isso aconteceu h� mais de 12.000 anos. Da� em diante, embora as �guas da inunda��o tivessem baixado, "a cultura do altiplano nunca mais atingiu um alto ponto de desenvolvimento, caindo, em vez disso, em decad�ncia total e definitiva". Luta e Abandono Esse processo foi acelerado pelo fato de que os terremotos, que haviam levado o lago Titicaca a cobrir Tiahuanaco, foram apenas os primeiros de muitas outras sobreleva��es na �rea. Inicialmente, esses abalos provocaram aumento do n�vel das �guas do lago e inunda��o das margens, mas logo em seguida come�aram a apresentar o efeito oposto, reduzindo lentamente a profundidade e a �rea de superf�cie do Titicaca. Passando-se os anos, o lago continuou a diminuir, cent�metro por cent�metro, isolando a grande cidade, separando-a implacavelmente das �guas que haviam desempenhado papel t�o vital em sua vida econ�mica. Simultaneamente, h� prova de que o clima na �rea de Tiahuanaco tornou-se mais frio e muito menos favor�vel � agricultura do que antes, t�o menos favor�vel que hoje culturas b�sicas como o milho n�o conseguem amadurecer bem e at� batatas nascem atrofiadas. Embora fosse dif�cil reunir todos os diferentes elementos da complicada cadeia de fatos ocorridos, parece que "um per�odo de calma seguiu-se ao momento cr�tico da perturba��o s�smica", que temporariamente havia inundado Tiahuanaco. Em seguida, lenta, mas ininterruptamente, "o clima piorou e tornou-se inclemente. Finalmente,


ocorreram emigra��es em massa dos povos andinos em dire��o a locais onde a luta pela vida fosse menos �rdua". Parece que os habitantes altamente civilizados de Tiahuanaco, lembrados nas tradi��es locais como "o povo de Viracocha", n�o se entregou sem luta. H� provas enigm�ticas em todo o altiplano de que experimentos agr�colas de natureza avan�ada e cient�fica foram realizados, com grande engenhosidade e dedica��o, numa tentativa de compensar a deteriora��o do clima. Pesquisas recentes, por exemplo, demonstram que an�lises surpreendentemente sofisticadas da composi��o qu�mica de numerosas plantas e tub�rculos venenosos de alta altitude foram, na mais remota antiguidade, realizados por algu�m nessa regi�o. Essas an�lises, al�m disso, foram acompanhadas da inven��o de t�cnicas de desintoxica��o, que tornaram in�cuos e pr�prios para alimenta��o esses vegetais, sob outros aspectos nutritivos. N�o h� ainda "explica��o satisfat�ria do desenvolvimento desses processos de desintoxica��o", reconheceu David Browman, professor-adjunto de antropologia da Washington University. De igual maneira, no mesmo per�odo antigo, algu�m ainda n�o identificado deu-se a grandes trabalhos para preparar campos elevados nas terras rec�m-expostas, que at� data bem pr�xima estavam cobertas pelas �guasdo lago - procedimento este que criou faixas corrugadas caracter�sticas de terreno alto e baixo alternado. S� na d�cada de 1960 � que foi compreendida a fun��o inicial dessespadr�es ondulados de plataformas de terra e canais rasos. Ainda vis�veis hoje, e conhecidos como waru waaru pelos �ndios, descobriu-se que faziam parte de um projeto agr�cola complexo, aperfei�oado em tempos pr�-hist�ricos, que "superava as t�cnicas agr�colas modernas". Em anos recentes, os campos elevados foram reconstru�dos por arque�logos e agr�nomos. Essas glebas experimentais produziram invariavelmente tr�s vezes mais batatas do que as glebas convencionais mais produtivas. De id�ntica maneira, durante um per�odo especialmente frio, uma geada forte "pouqu�ssimo dano causou aos campos experimentais". No ano seguinte, as culturas plantadas nas plataformas elevadas sobreviveram a uma seca igualmente ruinosa e, em seguida, "desenvolveu-se alta e seca durante uma inunda��o que cobriu as terras agr�colas vizinhas". Na verdade, essa t�cnica agr�cola simples, mas eficaz, inventada por uma cultura t�o antiga que ningu�m pode hoje sequer lembrar-lhe o nome, teve tal sucesso na Bol�via rural que atraiu a aten��o de �rg�os locais e internacionais e foi tamb�m submetida a provas em v�rias outras partes do mundo. Uma L�ngua Artificial


Outro poss�vel legado de Tiahuanaco, e dos Viracochas, faz parte da l�ngua hoje falada pelos �ndios aymara locais - l�ngua esta considerada por alguns especialistas como a mais antiga do mundo. Na d�cada de 1980, Ivan Guzman de Rojas, um cientista boliviano especializado em computadores, descobriu acidentalmente que a l�ngua aymara poderia ser n�o apenas muito antiga, mas, o que � muito importante, ser uma l�ngua "inventada" - alguma coisa deliberada e habilmente concebida. De interesse especial � o car�ter aparentemente artificial de sua sintaxe, rigidamente estruturada e inequ�voca a um ponto considerado inconceb�vel na fala normal "org�nica". Essa estrutura sint�tica e altamente organizada implicava que a l�ngua aymara podia ser transformada, com a maior facilidade, em algoritmo de computador e ser usada para traduzir uma l�ngua em outra. "O algoritmo aymara � usado como l�ngua-ponte. A l�ngua de um documento original � traduzida para a aymara e, em seguida, em qualquer n�mero de outras l�nguas". Seria apenas coincid�ncia que uma l�ngua aparentemente artificial, estruturada por uma sintaxe com afinidade com computadores, fosse falada hoje apenas nas imedia��es de Tiahuanaco? Ou poderia a l�ngua aymara ser um legado da alta cultura que a lenda atribui aos Viracochas?Se assim, que outros legados poder�o existir? Que outros fragmentos incompletos de uma sabedoria antiga e esquecida podem estar espalhados pela terra - fragmentos que talvez tenham contribu�do para a riqueza e diversidade de muitas culturas que evolu�ram nessaregi�o durante os 10.000 anos que antecederam a conquista? Talvez tenha sido a posse de fragmentos como esses que tornou poss�vel o tra�ado das linhas de Nazca e permitiu aos predecessores dos incas construir as muralhas de pedra "imposs�veis" de Machu Picchu e Sacsayhuaman? M�xico A imagem que eu n�o conseguia tirar da mente era a da partida do povo de Viracocha, "andando sobre as �guas" do oceano Pac�fico, ou "viajando milagrosamente" pelo mar, como contam tantas lendas. Para onde teriam ido os navegantes? Qual teriam sido seus objetivos? E por que, por falar nisso, eles haviam feito um esfor�o t�o obstinado para permanecer em Tiahuanaco por tanto tempo, antes de reconhecer a derrota e ir embora? O que haviam tentado realizar ali e que fora t�o importante para eles? Depois de v�rias semanas de trabalho no altiplano, em viagens de ida e volta entre La Paz e Tiahuanaco, tornou-se claro para mim que nem as ru�nas sobrenaturais nem as


bibliotecas da capital iriam me fornecer mais respostas. Na verdade, pelo menos na Bol�via, parecia que a pista desaparecera. S� quando cheguei ao M�xico, a 3.200km ao norte, � que lhe reencontrei os vest�gios.

Parte II I A Serpente Emplumada Am�rica Central CAP�TULO 13 O Sangue e o Tempo no Fim do Mundo

Chichen Itza, norte de Yucat�n, M�xico �s minhas costas, varando o ar a quase 35m de altura, erguia-se um zigurate perfeito, o Templo de Kukulkan. Suas quatro escadarias tinham 91 degraus cada Juntamente com a plataforma superior, que contava tamb�m como mais um degrau, o total chegava a 365 degraus, o que correspondia ao n�mero de dias completos do ano solar. Al�m disso, o projeto geom�trico e a orienta��o da antiga estrutura haviam sido graduados com uma precis�o de rel�gio su��o para atingir um objetivo t�o espetacular quanto esot�rico: nos equin�cios da primavera e outono, com a regularidade de um mecanismo de rel�gio, padr�es triangulares de luz e sombra se combinavam para criar a ilus�o de uma serpente gigantesca, ondulando na escadaria norte. Em ambas as ocasi�es, a ilus�o durava tr�s horas e 22 minutos, exatamente! Deixei para tr�s o Templo de Kukulkan e tomei a dire��o leste. � minha frente, desmentindo redondamente a fal�cia freq�entemente repetida de que os povos da Am�rica Central jamais conseguiram usar a coluna como recurso arquitet�nico, erguia-se uma floresta de colunas de pedra branca que, em alguma ocasi�o no passado, deviam ter sustentado um telhado maci�o. O sol brilhava forte e quente atrav�s do azul transl�cido de um c�u sem nuvens e as sombras frias e profundas da �rea constitu�am um convite tentador. Passei pelo local e dirigi-me para o p� dos degraus altos que levavam ao Templo dos Guerreiros, uma estrutura adjacente.


No alto dos degraus, e tornando-se inteiramente vis�vel apenas depois de eu ter come�ado a galg�-Ios, destacava-se uma figura gigantesca, o �dolo de Chacmool, meio deitado, meio sentado, em uma postura estranhamente dura e expectante joelhos dobrados projetando-se para a frente, panturrilhas fortes puxadas para tr�s, tocando as coxas, calcanhares juntos colados �s n�degas, cotovelos plantados no ch�o, m�os dobradas sobre o ventre, segurando um prato vazio, e as costas em um �ngulo estranho, como se a figura estivessejustamente pronta para erguer-se. Setivesse feito isso, calculei, ela teria cerca de 2,40m de altura. Mesmo reclinada, enrascada e fortemente comprimida, parecia transbordar de uma energia feroz e impiedosa. As fei��es quadradas tinham l�bios finos e implac�veis, t�o duros como a pedra em que haviam sido talhados, os olhos virados para oeste, que era tradicionalmente a dire��o das trevas, da morte e da cor preta. Lugubremente, continuei a subir os degraus do Templo dos Guerreiros Como se fosse um peso na mente, havia o fato inesquec�vel de que rituais de sacrif�cios humanos haviam sido rotineiramente praticados nesse local em tempos pr�-colombianos. O prato vazio que Chacmool segurava junto ao est�mago servira em eras remotas para receber cora��es rec�m-extra�dos do peito. "Se o cora��o de uma v�tima ia ser extirpado", escreveu um observador espanhol do s�culo XVI, ela era conduzida com


grande pompa (...) e colocada sobre a pedra sacrificial. Quatro ajudantes seguravamlhe os bra�os e as pernas, estirando-os. Chegando em seguida o carrasco, com uma faca de s�lex na m�o, ele, com grande per�cia, fazia uma incis�o entre as costelas do lado esquerdo e abaixo do bico do seio. Em seguida, enfiava a m�o e, como se fosse um tigre faminto, arrancava o cora��o vivo, que depositava no prato... Que tipo de cultura poderia ter cultivado e celebrado essecostume demon�aco?Ali, em Chichen Itza, entre ru�nas com mais de 1.200 anos de idade, tinha havido uma sociedade h�brida, produto do cruzamento de elementos maias e toltecas. Essa sociedade, por�m, n�o fora absolutamente excepcional na propens�o para cerim�nias cru�is e b�rbaras. Muito ao contr�rio, todas as grandes civiliza��es ind�genas que se sabe que floresceram no M�xico praticaram o exterm�nio ri tualizado de seres humanos. Matadouros Villahermosa, Prov�ncia de Tabasco Nesse momento, eu olhava para o Altar de Sacrif�cio de Beb�s. O local, cria��o dos olmecas, a denominada "cultura-matriz" da Am�rica Central, tinha mais de 3.000 anos de idade. Era um bloco de granito maci�o, de cerca de 1,20m de espessura, tendo nos lados, em alto-relevo, quatro homens usando curiosos adere�os de cabe�a. Todos tinham nas m�os um beb� sadio, gordinho, esperneando em um pavor claramente vis�vel. A parte posterior do altar era destitu�da de decora��o; j� na frente, era representada uma figura tendo nos bra�os, como uma oferenda, o corpo de uma crian�a morta. Osolmecas foram a civiliza��o antiga mais avan�ada do M�xico antigo e o sacrif�cio de seres humanos constitu�a um de seus costumes tradicionais. Dois mil e quinhentos anos mais tarde, por ocasi�o da conquista espanhola, os astecas eram os �ltimos (mas n�o os menos importantes) dos povos da regi�o que davam prosseguimento a uma tradi��o extremamente antiga e profundamente enraizada. E praticavam-na com fan�tico entusiasmo. Consta dos anais, por exemplo, que Ahuitzod, o oitavo e mais poderoso imperador da dinastia real asteca, "celebrou a inaugura��o do templo de Huitzilopochtli, em Tenochitl�n, mandando formar prisioneiros em quatro fiIas, que marcharam diante de equipes de sacerdotes que trabalharam durante quatro dias seguidos para dar cabo de todos eles. Nessa ocasi�o, nada menos de 80.000 indiv�duos foram sacrificados em um �nico rito cerimonial".


Osastecasgostavam de se enfeitar com a pele arrancada das v�timas sacrificiais. Bernardino de Sahagun, um mission�rio espanhol, compareceu a uma dessas cerim�nias pouco depois da conquista: Os celebrantes esfolavam e esquartejavam os cativos. Em seguida, lubrificavam seus corpos nus com sebo e vestiam a pele. (...) Escorrendo sangue e gordura, esseshomens sinistramente vestidos corriam atrav�s da cidade, apavorando aqueles a quem perseguiam... O rito do segundo dia incluiu tamb�m um banquete de carne humana para a fam�lia de cada guerreiro. Outro sacrif�cio em massa foi presenciado por Diego de Dur�n, historiador espanhol. Nesse caso, as v�timas foram t�o numerosas que, quando os riachos de sangue, que desciam pelos degraus do templo, "chegaram ao ch�o e coagularam, formaram grossos torr�es, o suficiente para apavorar todos que se encontravam ali". No total, estima-se que o n�mero de v�timas sacrificiais no imp�rio asteca como um todo chegou a cerca de 250.000ao ano, no in�cio do s�culo XVI. A que fim servia essadestrui��o insana de vidas humanas?De acordo com os pr�prios astecas,o ritual era praticado para retardar o fim do mundo. Os Filhos do Quinto Sol Tais como os muitos e diferentes povos e culturas que os precederam no M�xico, os astecas acreditavam que o universo funcionava de acordo com grandes ciclos. Os sacerdotes afirmavam, como fato corriqueiro, que quatro desses ciclos, ou "S�is", j� haviam transcorrido desde a cria��o da ra�a humana. Na �poca da conquista, prevalecia o Quinto Sol, o mesmo Quinto Sol, ou �poca, que a humanidade ainda vive hoje. A explica��o seguinte foi extra�da de uma cole��o rara de documentos astecas, conhecida como Vaticano-Latin Codex: Primeiro Sol, Matlacli Atl; dura��o: 4.008 anos. Os que viveram nesse tempo comiam milho d'�gua, chamado atzitzintli. Nessa�poca, viviam os gigantes. (...) O Primeiro Sol foi destruido pela �gua no signo Matlactli Atl (Dez �guas). Foi chamado de Apachiohualiztli (inunda��o, dil�vio), ou a arte da feiti�aria da chuva permanente. Os homens foram transformados em peixes. Dizem alguns que escapou apenas um casal, protegido por uma velha �rvore que crescia perto da �gua. Outros dizem que houve sete casais, que se esconderam em uma caverna at� passar a enchente e baixarem as �guas. Eles repovoaram a terra e foram adorados como deusesem suasna��es...


Segundo Sol, Ehecoatl; dura��o: 4.010anos. Osque viveram nessa�poca comiam frutos silvestres, como o acotzintli. EsseSol foi destru�do por Ehecoatl (Serpente do Vento) e os homens foram transformados em macacos. (...) Um homem e uma mulher, no alto de uma rocha, foram salvos da destrui��o... Terceiro Sol. Tleyquiyahuillo; dura��o: 4.081 anos. Os homens, descendentes do casal sobrevivente do Segundo Sol, comiam uma fruta chamada tzincoacoc. Esse Terceiro Sol foi destru�do pelo fogo... Quarto Sol. Tzontlilic; dura��o: 5.026 anos. Os homens morreram de fome ap�s um dil�vio de sangue e fogo... Outro "documento cultural" dos astecas que sobreviveu � destrui��o da conquista � a denominada "Pedra do Sol", de Axayacatl, o sexto imperador da dinastia real. Esse mon�lito gigantesco, talhado em basalto maci�o por volta do ano 1479 d.C., pesa 24,5t e consiste numa s�rie de c�rculos conc�ntricos com inscri��es, todas elas ostentando intrincadas afirma��es simb�licas. Da mesma forma que no c�dex, essas afirma��es concentram-se na cren�a em que o mundo j� passou por quatro �pocas, ou S�is. A primeira e mais antiga delas � representada pelo Ocelotonatiuh, o deus jaguar: "Durante esse Sol, viveram os gigantes criados pelos deuses, mas eles foram finalmente atacados e devorados pelos jaguares". O Segundo Sol � representado pela cabe�ade serpente de Ehecoatl, o deus do ar. "Durante esseper�odo, a ra�a humana foi destru�da por fortes ventos e tuf�es, tendo sido os homens transformados em macacos". O s�mbolo do Terceiro Sol era a nuvem de tempestade e o fogo celestial: "Nessa �poca, tudo foi destru�do por uma certa chuva de fogo que caiu do c�u e por forma��o de lava. Todas as casas foram queimadas. Os homens foram convertidos em aves para sobreviver � cat�strofe". O Quarto Sol � representado pela cabe�a da deusa da �gua, Chalchiuhlicue: "A destrui��o chegou sob a forma de chuvas torrenciais e de inunda��es. As montanhas desapareceram e os homens foram transformados em peixes". O s�mbolo do Quinto Sol, a �poca atual, � a face de Tonatiuh, o pr�prio deus-sol. Sua l�ngua, apropriadamente descrita como uma faca de obsidiana, projeta-se faminta da boca, sinalizando a necessidade de alimento sob a forma de sangue e cora��es humanos. Suas fei��es s�o enrugadas, a fim de indicar idade avan�ada, e ele aparece dentro do s�mbolo Ollin, que significa Movimento. Por que ser� o Quinto Sol conhecido como "O Sol do Movimento"? Porque, "dizem os anci�os: nele haver� um movimento da terra e disso todos n�s morreremos".


E quando acontecer� essa cat�strofe? Logo, segundo os sacerdotes astecas. Acreditavam eles que o Quinto Sol j� era muito velho e que se aproximava do fim de seu ciclo (da� as rugas na face de Tonatiuh). Tradi��es antigas da Am�rica Central datavam o in�cio dessa �poca em um per�odo remoto correspondente ao quarto mil�nio a.C. de acordo com o calend�rio crist�o. O m�todo para lhe calcular o fim, por�m, havia sido esquecido ao tempo dos astecas. Na falta dessa informa��o essencial, sacrif�cios humanos eram aparentemente realizados na esperan�a de adiar a cat�strofe iminente. Na verdade, os astecas vieram a considerar-se um povo eleito. Estavam convencidos de que haviam sido encarregados da miss�o divina de fazer guerra e oferecer o sangue dos cativos para alimentar Tonatiuh, preservando, dessa maneira, a vida do Quinto Sol. Stuart Fiedel, autoridade na pr�-hist�ria das Am�ricas, resumiu toda essa quest�o nas palavras seguintes: "Os astecas acreditavam que, para prevenir a destrui��o do universo, que j� ocorrera quatro vezes no passado, os deuses tinham que ser propiciados com uma dieta regular de cora��es e sangue humano." A mesma cren�a, com um n�mero notavelmente pequeno de varia��es, foi compartilhada por todas as grandes civiliza��es da Am�rica Central. Ao contr�rio dos astecas, por�m, alguns dos povos mais antigos calcularam exatamente quando um grande movimento da terra poderia ser esperado, levando ao fim o Quinto Sol.

O Portador da Luz Nenhum documento, salvo esculturas sombrias e amea�adoras, chegou at� n�s com origem na era olmeca. Os maias, por�m, com toda raz�o considerados como a maior civiliza��o antiga surgida no Novo Mundo, deixaram uma grande riqueza de calend�rios. Traduzidos em termos do moderno sistema de data��o, essas inscri��es enigm�ticas transmitem uma mensagem muito curiosa: o Quinto Sol, ao que parece, vai chegar ao fim no dia 23 de dezembro de 2012. No clima intelectual racional de fins do s�culo XX, � coisa fora de moda levar a s�rio profecias sobre o dia do Ju�zo Final. O consenso � que elas s�o produtos de mentes supersticiosas e que podem ser ignoradas sem perigo. Enquanto viajava pelo M�xico, no entanto, de vez em quando eu era incomodado pela intui��o insistente de que as vozes dos s�bios antigos poderiam merecer, afinal de contas, alguma aten��o. Quero dizer, suponhamos que, por algum acaso maluco, eles n�o fossem os selvagens


supersticiosos que sempre acreditamos que tenham sido. Suponhamos que soubessem de alguma coisa que n�o sabemos. Mais pertinente que tudo, suponhamos que a data projetada para o fim do Quinto Sol acabe sendo correta. Suponhamos, em outras palavras, que alguma cat�trofe geol�gica realmente horr�vel j� esteja se desenvolvendo, bem no fundo das entranhas da terra, como previram os s�bios maias. No Peru e na Bol�via, tornei-me consciente do interesse obsessivo pelos c�lculos sobre o tempo demonstrado pelos incas e seus predecessores. Nesse momento, no M�xico, eu descobria que os maias, que acreditavam ter descoberto a data do fim do mundo, haviam sido v�timas da mesma compuls�o. Na verdade, para esse povo, praticamente tudo se resumia em n�meros, na passagem dos anos e nas manifesta��es de fatos. A cren�a era que, se os n�meros que davam subst�ncia �s manifesta��es pudessem ser compreendidos, seria poss�vel prever com exatid�o o momento em que os pr�prios fatos aconteceriam. Eu nenhuma inclina��o sentia para ignorar as implica��es l�gicas das destrui��es repetidas da humanidade, descritas de forma t�o v�vida nas tradi��es da Am�rica Central. Completas com gigantes e dil�vios, essas tradi��es eram sobrenaturalmente semelhantes �s da distante regi�o andina. Al�m do mais, eu estava muito interessado em seguir outra e correlata linha de indaga��o, que dizia respeito a uma divindade barbuda, de pele branca, chamada Quetzalcoatl, que se acreditava ter, na antiguidade remota, chegado ao M�xico pelo mar. A ele era dado o cr�dito pela cria��o das avan�adas f�rmulas matem�ticas e relativas � confec��o de calend�rios que os maias usariam mais tarde para calcular a data do fim do mundo. Ele exibia tamb�m uma semelhan�a not�vel com Viracocha, o deus branco dos Andes, que chegara a Tiahuanaco "no tempo das trevas", trazendo as d�divas da luz e da civiliza��o. CAP�TULO 14 O Povo da Serpente Depois de passar tanto tempo mergulhado nas tradi��es do Viracocha, o deus barbudo dos Andes distantes, fiquei intrigado ao descobrir que Quetzalcoatl, a principal divindade do pante�o mexicano, era descrito em termos que me pareciam muito conhecidos. Um mito pr�-colombiano recolhido no M�xico por Juan de Torquemada, historiador espanhol do s�culo XVI, por exemplo, afirmava que Quetzalcoatl era "um homem louro e corado, com uma longa barba". Outro mito referia-se a ele dizendo "era Hombre blanco; homem alto, de testa larga, olhos enormes, cabelos compridos, e uma barba espessae redonda - Ia barba grande y redonda". Outro descrevia-o ainda como


uma pessoa misteriosa (...) um homem branco de corpo possante, testa larga, olhos grandes e barba ondulante. Vestia um manto longo e branco que lhe chegava aos p�s. Ele condenou os sacrif�cios, exceto de flores e frutos, e era conhecido como o deus da paz... Conta-se que, quando lhe falaram sobre o assunto guerra, ele tapou os ouvidos com os dedos. De acordo com uma tradi��o particularmente not�vel da Am�rica Central, esse "s�bio instrutor" veio do outro lado do mar em um barco que se movia por si mesmo, sem remos. Ele era um homem branco, alto, barbudo, que ensinou o povo a usar o fogo para cozinhar. Construiu tamb�m casase mostrou a casais que poderiam viver juntos como marido e mulher e, uma vez que pessoas freq�entemente brigavam naqueles dias, ele lhes ensinou a viver em par. O G�meo Mexicano de Viracocha O leitor certamente se lembra que Viracocha, em suas jornadas pelos Andes, era conhecido por diversos nomes. O mesmo aconteceu com Quetzalcoatl. Em algumas partes da Am�rica Central (notamente entre os maias quiche) era chamado de Gucumatz. Em outros locais, como, por exemplo, em Chichen Itza, tinha o nome de Kukulkan. Quando as duas palavras foram traduzidas para o ingl�s, descobriu-se que significavam exatamente a mesma coisa: Serpente Emplumada (ou de Penas). Este era tamb�m o significado da palavra Quetzalcoatl. Havia outras divindades, especialmente entre os maias, cuja identidade parecia fundir-se estreitamente com a de Quetzalcoatl. Uma delas, Votan, um grande civilizador, era descrito tamb�m como de pele clara, barbudo e vestido com um longo manto. Os estudiosos n�o conseguiram descobrir uma tradu��o para seu nome, embora seu s�mbolo principal, tal como o de Quetzalcoatl, fosse uma serpente. Outra figura muito parecida atendia pelo nome de lzamana, o deus maia da cura, um indiv�duo barbudo, vestido com um manto e cujo s�mbolo tamb�m era a cascavel. O que emergiu de tudo isso, como concordaram as principais autoridades nesse particular, foi que as lendas mexicanas compiladas e passadas adiante pelos historiadores espanh�is � �poca da conquista eram, com freq��ncia, produtos confusos e fundidos de tradi��es orais extremamente antigas. Por tr�s de todas elas, contudo, parecia que teria que haver alguma s�lida realidade hist�rica. Na opini�o de Sylvanus Griswold Morley, decano dos estudos sobre os maias: O grande deus Kukulkan, a Serpente Emplumada, foi a contrapartida maia do Quetzalcoatl asteca, o deus mexicano da luz, dos conhecimentos e da cultura. No pante�o maia, ele era considerado como tendo sido o grande organizador, o fundador


de cidades, o elaborador de leis e o criador do calend�rio. Na verdade, seus atributos e biografia s�o t�o humanos que n�o � improv�vel que ele possa ter sido um personagem hist�rico real, algum grande legislador e organizador, persistindo, ap�s sua morte, as recorda��es de seus atos de benemer�ncia, e cuja personalidade acabou por ser divinizada. Todas as lendas diziam inequivocamente que Quetzalcoatl/Kukulkan/Gucumatz/Votan/Izamana chegara � Am�rica Central procedente de algum lugar muito distante (do outro lado do "Mar Oriental") e que, em meio a grande tristeza, ele viajara novamente na dire��o de onde viera. As lendas acrescentavam que ele prometera solenemente que voltaria um dia - uma clara reedi��o da hist�ria de Viracocha que seria quase uma maldade atribuir � coincid�ncia. Al�m disso, vale a pena lembrar que a partida de Viracocha atrav�s das ondas do oceano Pac�fico era descrita nas tradi��es andinas como um fato milagroso. A partida de Quetzalcoatl, ao deixar o M�xico, teve tamb�m uma estranha conota��o, dizendo as lendas que ele se fora em "uma jangada feita de serpentes". Tudo bem pesado, acho que Morley teve raz�o ao procurar um ambiente hist�rico factual subjacente aos mitos maia e mexicano. O que as tradi��es pareciam indicar era que o estrangeiro de pele clara chamado Quetzalcoatl (ou Kukulkan, ou o que quer que fosse) n�o fora uma �nica pessoa,mas provavelmente v�rias, ali chegadasprocedentes do mesmo lugar e pertencentes a um tipo �tnico que evidentemente nada tinha de �ndio (barbudo, pele branca, etc.). Essefaro foi sugerido n�o s� pela exist�ncia de uma "fam�lia" de deuses obviamente aparentados, embora ligeiramente diferentes, que compartilhavam o s�mbolo da serpente. Quetzalcoatl/ Kukulkan/Izamana era claramente descrito em numerosas hist�rias mexicanas e maias como tendo chegado acompanhado de "atendentes", ou "assistentes". Alguns mitos mencionados nos textos maias religiosos antigos conhecidos como Livros de Chilam Balam, por exemplo, diziam que "os primeiros habitantes de Yucat�n constitu�am o 'Povo da Serpente', que chegara em barcos, do outro lado do mar, encabe�ados por Izamana, a 'Serpente do Leste', um curador que podia salvar vidas com imposi��o das m�os e ressuscitar os mortos". "Kukulkan", dizia outra tradi��o, "chegou com dezenove companheiros, dois dos quais eram deuses dos peixes, dois outros, deuses da agricultura, e, um, deus do trov�o... Eles permaneceram dez anos no Yucat�n. Kukulkan elaborou leis s�bias, fez-se ao mar em seguida e desapareceu na dire��o do sol nascente...". De acordo com Las Casas, historiador espanhol, "os nativos afirmavam que, nos tempos antigos, chegaram ao M�xico vinte homens, cujo chefe era chamado Kukulkan (...) Eles usavam mantos ondulantes e sand�lias, tinham longas barbas e cabe�as


calvas... Kukulkan instruiu o povo nas artes da paz e foi respons�vel pela constru��o de v�rios edif�cios importantes...". Entrementes, Juan de Torquemada registrava a tradi��o seguinte, muito espec�fica e anterior � conquista, a respeito dos estrangeiros imponentes que haviam chegado ao M�xico em companhia de Quetzalcoatl: Eles eram homens de boa presen�a, bem vestidos, usavam mantos de linho preto, abertos no peito, sem pelerine, gola baixa no pesco�o, com mangas curtas que n�o chegavam aos cotovelos. (...) Essesseguidores de Quetzalcoatl eram homens de grande saber e artistas h�beis em todos os tipos de obras finas. Como se fosse algum g�meo, h� longo tempo perdido, de Viracocha, a divindade andina branca e barbuda, Quetzalcoatl era descrito como tendo trazido para o M�xico todas as per�cias e ci�ncias necess�rias para criar uma vida civilizada, dando assim in�cio a uma idade �urea. Acreditava-se, por exemplo, que ele tivesse introduzido a arte da escrita na Am�rica Central, inventado o calend�rio e sido o mestre-construtor que ensinou ao povo os segredos da cantaria e da arquitetura. Foi o pai da matem�tica, da metalurgia, da astronomia e se dizia que havia "medido a terra". Fundou ainda a agricultura produtiva e descobriu e introduziu o milho - literalmente a cultura alimentar b�sica nessas antigas terras. Grande m�dico e mestre no uso de rem�dios, foi o patrono dos curadores e adivinhos "e revelou ao povo os mist�rios das propriedades das plantas". Al�m disso, era reverenciado como legislador, protetor dos artes�ose patrono de todas as artes. Como se poderia esperar de indiv�duo t�o refinado e culto, ele proibiu o horrendo costume dos sacrif�cios humanos durante o per�odo de sua ascend�ncia no M�xico. Ap�s sua partida, os sanguinolentos rituais voltaram com redobrada f�ria. N�o obstante, at� os astecas, os cultores mais ferrenhos de sacrif�cios que jamais existiram na longa hist�ria da Am�rica Central, lembravam-se "com uma esp�cie de nostalgia" dos tempos de Quetzalcoatl. "Ele foi um mestre", lembrava uma lenda, "que ensinou que nenhuma coisa viva devia ser prejudicada e que n�o deviam ser feitos sacrif�cios de seres humanos, mas apenasde aves e borboletas." Guerra C�smica Por que Quetzalcoatl teria ido embora? Qual foi o problema? As lendas mexicanas forneceriam respostas a essas perguntas? Diziam elas que o esclarecido e benevolente governo da Serpente Emplumada foi encerrado por


Tezcatilpoca, cujo nome significava "Espelho Esfuma�ado" e cujo culto exigia sacrif�cios humanos. Parece que uma guerra quase c�smica entre as for�as da luz e das trevas ocorreu no M�xico antigo e que estas �ltimas triunfaram... N�o se acredita que o suposto palco dessesacontecimentos, ora conhecido como Tula, tenha sido muito antigo - teria n�o muito mais de 1.000 anos -, muito embora as lendas que os contam estejam ligadas a uma �poca infinitamente mais remota. Nesses tempos, � margem da hist�ria, o local era conhecido como Tollan. Todas as tradi��es concordam que foi em Tollan que Tezcatilpoca derrotou Quetzalcoatl e obrigou-o o abandonar o M�xico. Serpentes de Fogo Tula, prov�ncia de Hidalgo Eu me encontrava nesse momento sentado no cume plano de uma pir�mide denominada, sem nenhuma imagina��o, de Pir�mide B. O sol de fins da tarde brilhava forte em um claro c�u azul. De frente para o sul, olhei em volta. Na base da pir�mide, nos lados norte e leste, vi murais mostrando jaguares e �guias, banqueteando-se com cora��es humanos. Imediatamente �s minhas costas, quatro pilares alinhados e quatro assustadores �dolos de granito, todos eles com 1,90m de altura. � minha frente e � esquerda, vi a parcialmente escavada Pir�mide C, um monte coberto de cacto, de uns 12m de altura, e, mais adiante, mais montes ainda n�o estudados por arque�logos. � direita, estendia-se uma arena de jogos. Nesse local comprido, em forma de L, terr�veis lutas de gladiadores haviam sido realizadas nos tempos antigos. Equipes, quando n�o apenas dois indiv�duos, lutavam pela posse de uma bola de borracha. Osderrotados eram degolados. Uma aura solene e intimidadora envolvia os �dolos da plataforma, �s minhas costas. Levantei-me e examinei-os com mais aten��o. O escultor lhes dera faces duras, implac�veis, narizes aduncos e olhos rasos que pareciam destitu�dos de qualquer simpatia ou emo��o. O que mais me interessava, por�m, n�o era a apar�ncia dos �dolos, mas o que eles seguravam nas m�os. Arque�logos, embora reconhecessem que n�o sabiam realmente o que eram esses objetos, ainda assim identificaram-nos provisoriamente. A identifica��o "pegou" e hoje � aceita como indiscut�vel que lan�adores de dardos, conhecidos como atl-atls, eram os objetos que os �dolos seguravam na m�o direita, e "dardos ou flechas e sacolas de incenso", na m�o esquerda. Pouco importava que os objetos em nada se parecessemcom atl-atls, lan�as, flechas, ou sacolas de incenso.


As fotografias tiradas por Santha Faiia ajudar�o o leitor a formar uma id�ia sobre esses objetos peculiares. Enquanto estudava os objetos em si, senti a clara impress�o de que eles se destinavam a representar dispositivos que, originalmente, haviam sido feitos de metal. O dispositivo na m�o direita, que parecia sair de uma bainha ou guarda de m�o, tinha forma de um losango com borda inferior curva. O dispositivo da m�o esquerda poderia ter sido um instrumento ou arma de algum tipo. Lembrei-me de lendas que diziam que os deusesdo antigo M�xico usavam os xiuhcoatl ou "serpentes de fogo", como armas. Elas, aparentemente, emitiam raios capazes de queimar, perfurar e desmembrar corpos humanos. Seriam "serpentes de fogo" os objetos que os �dolos de Tula tinham nas m�os? O qu�, por falar nisso, eram essastais serpentes de fogo? O que quer que fossem, ambos os dispositivos pareciam produtos de tecnologia. E ambos, de certas maneiras, lembravam os objetos igualmente misteriosos que os �dolos da Kalasasaya,em Tiahuanaco, t�m nas m�os.


O Santu�rio da Serpente Santha e eu t�nhamos vindo a Tula/Tollan porque o local estivera estreitamente associado a Quetzalcoatl e a seu arquiinimigo, Tezcatilpoca, o Espelho Esfuma�ado. Sempre jovem, onipotente, onipresente e onisciente, Tezcatilpoca aparecia, nas lendas, ligado � noite, �s trevas e ao jaguar sagrado. Ele era "invis�vel e implac�vel, aparecendo algumas vezes ao homem sob a forma de uma sombra voadora, quando n�o como monstro pavoroso". Freq�entemente representado como uma caveira brilhante, diziam as lendas que fora dono de um objeto misterioso, o Espelho Esfuma�ado, que acabou por lhe dar o nome, e que o usava para observar a dist�ncia as atividades de homens e deuses.Estudiosos sup�em, com l�gica irrepreens�vel, que a tal coisa deve ter sido uma obsidiana, usada para fins divinat�rios: "A obsidiana revestia-se de uma santidade toda especial para os mexicanos, como se comprova com as facas sacrificiais usadas pelos sacerdotes. (...) Segundo Bernal Dias [historiador espanhol], os nativos davam a essa pedra o nome de 'Tezcat'. Com ela eram feitos tamb�m espelhos com finalidades divinat�rias, usados por feiticeiros." Representando as for�as das trevas e da maldade rapace, Tezcatilpoca, segundo as lendas, esteve envolvido em conflitos com Quetzalcoatl que se prolongaram durante um n�mero imenso de anos. �s vezes, um parecia estar vencendo a luta e, em certas ocasi�es, o outro. Finalmente, a guerra c�smica chegou ao fim na ocasi�o em que o bem foi derrotado pelo mal, com o resultado de que Quetzalcoad foi expulso de Tollan. Da� em diante, sob a influ�ncia do culto aterrador de Tezcatilpoca, os sacrif�cios humanos reapareceram na Am�rica Central. Conforme vimos acima, acreditavam os nativos que Quetzalcoatl fugira para a costa e fora levado para longe em uma jangada feita de serpentes. Diz uma lenda: "Ele queimou suas casas, feitas de prata e de conchas, enterrou seu tesouro e viajou pelo Mar do Leste, precedido por seus ac�litos, que haviam sido transformados em aves de cores brilhantes". Pensa-se que esse momento amargo da partida ocorreu em um local chamado Coatzacoalos, palavra que significa "O Santu�rio da Serpente". No lugar, antes de despedir-se, Quetzalcoatl prometeu a seus seguidores que voltaria um dia para acabar com o culto de Tezcatilpoca e dar in�cio a uma era em que os deuses voltariam a aceitar "o sacrif�cio de flores" e deixariam de clamar por sangue humano. CAP�TULO 15 BabeI Mexicana


Abandonando Tula na dire��o sudeste, contornamos a Cidade do M�xico, percorrendo uma s�rie de vias expressas que nos levaram, arrastando-nos, at� as bordas da polui��o da capital, que faz os olhos lacrimejarem e os pulm�es arderem. Prosseguindo na viagem, chegamos �s montanhas cobertas de pinheiros, deixando para tr�s o cume nevado do Popocatepetl e da� seguindo por pistas orladas de �rvores atrav�s de campos e fazendas. Em fins da tarde, chegamosa Cholula, uma sonolenta cidadezinha de 11.000habitantes e espa�osa pra�a central. Ap�s virar para leste atrav�s de ruas estreitas, cruzamos trilhos de estrada de ferro e paramos � sombra da tlahchiualtepetl, a "montanha feita pelo homem", que era o objetivo de nossavisita. Outrora consagrado ao culto pac�fico de Quetzalcoatl, mas, nesse momento, tendo no alto uma ornamentada igreja cat�lica, esse imenso edif�cio foi classificado entre os projetos de engenharia mais extensos e ambiciosos jamais empreendidos em qualquer local no mundo antigo. Na verdade, com uma �rea de 18ha e altura de 64m, � tr�s vezes mais maci�o do que a Grande Pir�mide do Egito. Embora com os contornos tornados indistintos pela idade e os lados cobertos por relva densa, era ainda poss�vel reconhecer que a constru��o fora outrora um zigurate imponente, que subia para os c�us em quatro "degraus" de �ngulos bem n�tidos. Medindo quase meio quil�metro ao longo de cada lado da base, a estrutura conseguira, apesar de tudo, preservar uma beleza digna, ainda que violada. O passado, embora muitas vezes seco e lac�nico, raramente � est�pido. Ocasionalmente, pode expressar-se em termos apaixonados. E me pareceu que isso acontecia nesse local, prestando testemunho da degrada��o f�sica e psicol�gica imposta aos povos nativos do M�xico quando o conquistador espanhol, Hern�n Cort�s, quase displicentemente, "decapitou uma cultura, da mesma forma que um transeunte pode cortar a flor de um girassol". Em Cholula, que fora outrora um grande centro de peregrina��o, com uma popula��o de cerca de 100.000almas por ocasi�o da conquista, a decapita��o de tradi��es e estilos de vida antigos exigiram que um ato especialmente humilhante fosse praticado contra a montanha artificial de Quetzalcoatl. A solu��o foi achatar e profanar o templo que outrora se erguera no cume do zigurate e substitu�-Io por uma igreja. Embora Cort�s e seus homens fossem poucos e os cholulanos muito numerosos, ao entrarem na cidade, o conquistador e sua gente contavam com uma grande vantagem: barbudos e de pele clara, usando armaduras brilhantes, eles pareciam a realiza��o de uma profecia - n�o fora sempre prometido que Quetzalcoatl, a Serpente Emplumada, voltaria "do mar do Leste" com sua tropa de seguidores?


Devido a tal expectativa, os ing�nuos e confiantes cholulanos permitiram que os conquistadores subissem os degraus do zigurate e entrassem no grande p�tio do templo, onde receberam as boas-vindas de mo�as alegremente vestidas, cantando e tocando instrumentos, enquanto outros nativos andavam de um lado para o outro trazendo travessasde p�o e carnes finas cozidas. Um dos historiadores espanh�is, testemunha ocular dos acontecimentos que se seguiram, menciona o povo da cidade, a adora��o nos olhos de pessoas de todas as situa��es sociais, "desarmados, de rostos ansiosos e felizes, reunidos ali para ouvir o que os homens brancos iriam dizer". Compreendendo � vista dessa inacredit�vel recep��o que seus intuitos sequer eram objeto de suspeita, os espanh�is cerraram fileiras, colocaram guardas em todas as entradas, sacaram suas armas de a�o e assassinaram seus anfltri�es. Seis mil nativos morreram nesse massacre horripilante, compar�vel em selvageria aos rituais mais sanguinolentos dos astecas. "Os moradores de Cholula foram tomados de surpresa. Sem armas ou escudos, receberam os espanh�is. Ainda que desarmados, foram massacrados sem aviso. Foram assassinados em um ato de pura deslealdade." Era ir�nico, pensei, que os conquistadores, no Peru e no M�xico, tivessem tirado proveito, da mesma maneira, de lendas locais que profetizavam a volta do deus barbudo, de pele clara. Se esse deus era realmente um ser humano deificado, como parecia prov�vel, ele deveria ser origin�rio de uma civiliza��o altamente evolu�da e dotado de um car�ter exemplar - ou, com maior probabilidade ainda, duas pessoas diferentes da mesma origem, o primeiro trabalhando no M�xico e servindo de modelo para Quetzalcoatl, e o segundo no Peru, como Viracocha. A semelhan�a superficial dos espanh�is com os antigos estrangeiros de pele clara abriu numerosas portas que, de outra maneira, teriam permanecido fechadas. Mas, ao contr�rio de seus s�bios e benevolentes predecessores, Pizarro, nos Andes, e Cort�s, na Am�rica Central, eram lobos famintos. Devoraram as terras, os povos e as culturas que atacaram. Destru�ram quasetudo... L�grimas pelo Passado Com os olhos velados pela ignor�ncia, fanatismo religioso e cobi�a, os espanh�is, ao chegarem ao M�xico, apagaram uma heran�a preciosa da humanidade. Ao assim proceder, privaram o futuro de qualquer conhecimento detalhado sobre as civili za��esbrilhantes e not�veis que outrora floresceram na Am�rica Central. Qual, por exemplo, a hist�ria real do "�dolo" resplandecente que respousava em um santu�rio sagrado em Achiotl�n, a capital misteca? Sabemos da exist�ncia desse curioso objeto gra�asa uma testemunha ocular do s�culo XVI, o padre Burgoa:


O material era de maravilhoso valor, pois era uma esmeralda do tamanho de um polpudo cacho de pimenta [capsicum], sobre a qual uma pequena ave fora gravada com a maior habilidade poss�vel e, com a mesma per�cia, uma pequena serpente, enroscada e pronta para dar o bote. A pedra era t�o transparente que brilhava a partir de dentro com o fulgor de uma chama de vela. Era uma j�ia muito antiga e n�o h� qualquer tradi��o remanescente sobre a venera��o e o culto que lhe eram propiciados. O que n�o aprender�amos se pud�ssemos examinar hoje essa j�ia "antiq��ssima" E qual, realmente, sua antiguidade? Jamais saberemos, porque frei Benito, o primeiro mission�rio a chegar a Achiotl�n, tomou-a dos �ndios. "Ele mandou mo�-Ia, embora um espanhol lhe oferecesse tr�s mil ducados pela pedra, dissolveu o p� em �gua, derramou-a na terra e pisou em cima...". Igualmente caracter�stico do desperd�cio criminoso das riquezas intelectuais ocultas no passado mexicano foi o destino compartilhado por dois presentes dados a Cort�s por Montezuma, o imperador asteca. Foram dois calend�rios circulares, do tamanho de rodas de carro�a, um de prata maci�a e, o outro, de ouro, tamb�m maci�o, detalhadamente gravados com belos hier�glifos que podem ter contido material de grande interesse. Cort�s, na hora, mandou derret�-Ios e transform�-Ios em lingotes. De forma ainda mais sistem�tica, em toda a Am�rica Central, imensos reposit�rios de conhecimentos acumulados desde tempos antigos foram laboriosamente reunidos, empilhados e queimados por religiosos fan�ticos. Em julho de 1562, por exemplo, na pra�a principal de Mani (que se situa imediatamente ao sul da moderna M�rida, na prov�ncia de Yucat�n), frei Diego de Landa queimou milhares de c�dices, hist�rias ilustradas e hier�glifos maias inscritos em pergaminhos de pele de cervo. Destruiu tamb�m incont�veis "�dolos" e "altares", todos os quais descreveu como "obras do dem�nio, criados por Satan�s para enganar os �ndios e impedir que aceitem o cristianismo... Em outro contexto, voltou a discorrer sobre o mesmo tema: Descobrimos grande n�mero de livros [escritos nos caracteres usados pelos �ndios], mas, como eles nada continham, exceto supersti��es e falsidades do dem�nio, queimamos todos, o que os nativos receberam muito mal e lhes causou grande dor. Mas n�o foram apenas os "nativos" que sofreram essa dor, mas todos - na ocasi�o como agora - que gostariam de saber a verdade sobre o passado.


Numerosos outros "homens de Deus", alguns ainda mais implacavelmente eficientes do que Diego de Landa, participaram da sat�nica miss�o espanhola de apagar os bancos de mem�ria da Am�rica Central. Entre eles, destacou-se Juan de Zum�rraga, bispo do M�xico, que bravateava ter destru�do 20.000 �dolos e 500 templos �ndios. Em novembro de 1530, condenou � fogueira um aristocrata asteca cristianizado por ter ele supostamente voltado � adora��o do "deus da chuva", e mais tarde, na pra�a do mercado em Excoco, mandou construir uma imensa fogueira de documentos sobre astronomia, pinturas, manuscritos e textos hierogl�ficos que os conquistadores haviam confiscado dos astecas nos onze anos precedentes. Enquanto esse tesouro insubstitu�vel de conhecimentos e hist�ria subia nas chamas, a humanidade perdia para sempre uma oportunidade de sacudir, pelo menos, parte da amn�sia coletiva que ora turva nossacompreens�o. O que resta dos registros dos povos antigos da Am�rica Central? A resposta, gra�as aos espanh�is, � menos de vinte c�dices e pergaminhos originais. Ouvimos nas lendas que numerosos documentos reduzidos a cinzas pelos frades continham "registros de passadaseras". O que diziam essesregistros perdidos? Que segredos guardavam? Gigantes de Desmesurada Estatura Enquanto continuava a orgia de queima de livros, alguns espanh�is come�aram a compreender que "uma civiliza��o realmente grandiosa existira no M�xico, antes dos astecas". Estranhamente, um dos primeiros a agir, ao compreender essefato, foi Diego de Landa. Aparentemente, ele passou por uma "experi�ncia de convers�o, do tipo experimentado por Paulo na estrada para Damasco" ap�s ter montado seu auto-da-f� em Mani. Anos depois, decidido a salvar o que pudesse da sabedoria antiga, que tanto fizera para destruir, tornou-se colecionador apaixonado das tradi��es e hist�rias orais dos povos nativos do Yucat�n. � grande nossa d�vida para com Bernardino de Sahagun, frade franciscano e historiador da �poca. Consumado ling�ista, conta-se que ele "procurou os nativos mais cultos e, freq�entemente, os mais velhos, e lhes pediu que, utilizando a escrita pictogr�fica, contassem tudo de que pudessem lembrar-se com clareza da hist�ria, religi�o e lendas astecas". Dessa maneira, Sahagun conseguiu acumular informa��es detalhadas sobre a antropologia, a mitologia e a hist�ria social do antigo M�xico, que mais tarde transcreveu em uma culta obra em doze volumes, obra esta destru�da pelas autoridades espanholas. Por sorte, sobreviveu uma c�pia, embora incompleta.


Diego de Dur�n, colecionador consciencioso e corajoso de tradi��es ind�genas, foi outro franciscano que lutou para recuperar o conhecimento perdido do passado. Visitando Cholula no ano 1585, em uma �poca de mudan�a r�pida e catastr�fica, entrevistou um anci�o, venerado na cidade, que se dizia contar mais de 100 anos de idade, e que lhe contou a hist�ria seguinte sobre a constru��o do grande zigurate: No come�o, antes de ser criada a luz do sol, este lugar, Cholula, era coberto por escurid�o e trevas, todo o terreno era plano, sem uma colina ou eleva��o, cercado d'�gua por todos os lados, sem �rvores ou qualquer coisa criada. Imediatamente depois de surgir a luz e subir o sol no leste, apareceram gigantes de estatura desmesurada, que se apossaram da terra. Apaixonados pela luz e a beleza do sol, resolveram construir uma torre t�o alta que chegasseao c�u. Tendo reunido materiais para este fim, descobriram uma argila e betume fortemente adesivos e come�aram a construir rapidamente a torre... Tendo eles levado a constru��o � maior altura poss�vel, conseguindo que ela tocasse o c�u, o Senhor dos C�us, enfurecido, disse aos habitantes do c�u: "Observastes como eles da terra constru�ram uma alta e arrogante torre para chegar at� aqui, tendo ficado apaixonados pela luz do sol e sua beleza? Vinde e destruam-nos, porque n�o � certo que eles da terra, vivendo na carne, devam misturar-se conosco." Imediatamente, os habitantes do c�u atacaram como se fossem raios, destru�ram o edif�cio e dividiram e espalharam os construtores por todas as partes da terra. E foi essahist�ria, parecida mas n�o id�ntica � hist�ria b�blica da Torre de Babel (em si a refundi��o de uma tradi��o mesopot�mica muito mais antiga), que me trouxe a Cholula. Essaslendas da Am�rica Central e do Oriente M�dio guardavam, evidentemente, uma estreita rela��o. Na verdade, ningu�m podia deixar de notar as semelhan�as, mas havia tamb�m diferen�as importantes demais para ser ignoradas. Claro, as semelhan�as poderiam ser devidas a contatos pr�-colombianos, n�o registrados em quaisquer anais, entre culturas do Oriente M�dio e do Novo Mundo, embora houvesse maneira de explicar, em uma �nica teoria, as semelhan�as e as diferen�as. Suponhamos que as duas vers�es da lenda evolu�ram separadamente durante v�rios milhares de anos, mas que, antes disso, ambas provieram do mesmo ancestral muito antigo. Sobreviventes


Vejamos o que o Livro do G�nesis diz sobre a "torre que chegou ao c�u": Ora em toda a terra havia apenas uma linguagem e uma s� maneira de falar. Sucedeu que partindo eles do Oriente, deram com uma plan�cie na terra de Sinear; e habitaram ali. E disseram uns aos outros: "Vinde, fa�amos tijolos e queimemo-Ios bem". Ostijolos serviram-Ihes de pedra e, o betume, de argamassa. Disseram: "Vinde, edifiquemos para n�s uma cidade, e uma torre cujo topo chegue at� os c�us, e tornemos c�lebre nosso nome, para que n�o sejamos espalhados por toda a terra". Ent�o desceu o Senhor [lav�, o Deus hebreu] para ver a cidade e a torre, que os filhos dos homens edificavam, e disse: "Eis que o povo � um, e todos t�m a mesma linguagem. Isto � apenas o come�o; agora n�o haver� restri��o para tudo que intentam fazer. Vinde, des�amos, e confundamos ali sua linguagem, para que um n�o entenda a linguagem do outro". Destarte, o Senhor os dispersou dali pela superf�cie da terra. O vers�culo que mais me interessava sugeria, com grande clareza, que os antigos construtores da Torre de Babel queriam construir um monumento duradouro a si mesmos, de modo que seu nome n�o fosse esquecido - mesmo que isso acontecesse com sua civiliza��o e linguagem. Seria poss�vel que as mesmas considera��es se aplicassem a Cholula? Segundo os arque�logos, apenas um punhado de monumentos no M�xico tem mais de 2.000 anos. Cholula era indiscutivelmente um deles. Na verdade, ningu�m podia dizer com certeza em que �poca remota seus contrafortes come�aram a ser constru�dos. Durante milhares de anos, antes que o desenvolvimento e prolongamento da estrutura come�assema todo vapor no s�culo 300 a.C., parecia que alguma outra estrutura, mais antiga, poderia ter existido no local em que, nesse momento, estava sendo constru�do o grande zigurate de Quetzalcoatl. Um precedente refor�ava ainda mais a intrigante possibilidade de que restos de uma civiliza��o realmente antiga pudessem estar ainda ocultos na Am�rica Central, � espera de descoberta. Imediatamente ao sul do campus da universidade, na Cidade do M�xico, ao lado da estrada principal que liga a capital a Cuernavaca, existe uma pir�mide escalonada circular de grande complexidade (com quatro galerias e uma escadaria central). Parcialmente escavada, sob um manto de lava, na d�cada de 1920, ge�logos foram chamados ao local para ajudar a datar a lava e efetuar um exame detalhado do s�tio. Para surpresa geral, conclu�ram eles que a erup��o vulc�nica que cobrira inteiramente tr�s lados da pir�mide (e que se espalhara e cobrira cerca de 155


quil�metros quadrados do terreno em volta) deveria ter ocorrido h� pelo menos sete mil anos. Aparentemente, a prova geol�gica foi ignorada por historiadores e arque�logos, que n�o acreditam que qualquer civiliza��o capaz de ter constru�do uma pir�mide possa ter existido no M�xico em data t�o remota. Vale lembrar, por�m, que Byron Cummings, o arque�logo americano que inicialmente escavou o s�tio por conta da National Geographical Society, convenceu-se, � vista de estratifica��o claramente demarcada de camadas acima e abaixo da pir�mide (depositadas antes e depois da erup��o vulc�nica), que aquele era "o templo mais antigo at� agora descoberto no continente americano". E foi ainda mais longe do que os ge�logos, declarando que esse templo "transformou-se em ru�nas h� cerca de 8.500 anos". Pir�mides sobre Pir�mides Entrar na pir�mide de Cholula d� realmente a impress�o de que penetramos em uma montanha constru�da pelo homem. Os t�neis (e havia mais de 9,5km deles) n�o eram antigos, mas deixados ali pelas equipes de arque�logos que haviam escavado laboriosamente o local desde 1931 e at� que os recursos financeiros acabassem em 1966. De alguma maneira, essescorredores estreitos, de teto baixo, haviam tomado de empr�stimo, da vasta estrutura circundante, uma atmosfera de antiguidade. �midos e frios, ofereciam ao visitante uma escurid�o convidativa e misteriosa. Seguindo o feixe de uma lanterna, penetramos profundamente na pir�mide. As escava��es arqueol�gicas haviam revelado que a obra n�o fora produto de uma �nica dinastia (como se pensa que aconteceu com a pir�mide de Giz�, no Egito), mas que prosseguira durante um per�odo muito longo de tempo - dois mil anos, mais ou menos, em uma estimativa conservadora. Em outras palavras, a obra era um projeto coletivo, criado por uma for�a de trabalho que englobava gera��es, e recrutada em muitas e diferentes culturas, tais como olmecas, teotihuacanos, toltecas, zapotecas, mistecas, cholulanos e astecas, que haviam passado por Cholula desde os prim�rdios da civiliza��o no M�xico. Embora n�o se soubesse quem haviam sido os primeiros construtores, o imponente edif�cio mais antigo, tanto quanto foi poss�vel apurar, existente no s�tio fora uma alta pir�mide c�nica, com a forma de um balde invertido, nivelado no topo, onde se constru�ra um templo. Muito tempo depois, outra estrutura semelhante foi constru�da sobre o cume dessemonte inicial, isto �, um segundo balde invertido de argila e pedra compacta fora constru�do diretamente sobre o primeiro, elevando a plataforma do templo para mais de 60m acima da plan�cie em volta. Da� em diante, durante os 500


anos seguintes, mais ou menos, umas estimadas quatro ou cinco outras culturas contribu�ram para a apar�ncia final do monumento. Fizeram isso prolongando-lhe a base, em v�rios est�gios, mas nunca mais elevando a altura m�xima. Dessa maneira, quase como se um plano-diretor estivesse sendo implementado, a montanha artificial de Cholula ganhou gradualmente suas caracter�sticas de zigurate em quatro n�veis. Atualmente, os lados na basemedem quase450m - cerca de duas vezes o comprimento dos lados da Grande Pir�mide de Giz� -, tendo seu volume total sido estimado em uns estonteantes tr�s milh�es de metros c�bicos. Essas propor��es, disse sucintamente uma autoridade no assunto, transformam-na "no maior edif�cio jamais erigido na terra". Por qu�? Por que todo essetrabalho? Que tipo de nome esses povos da Am�rica Central estavam tentando criar para si mesmos? Andando pela rede de corredores e passagens,inalando o ar frio e recendendo a argila, senti-me desagradavelmente consciente do grande peso e massada pir�mide acima de mim. Ali estava o maior edif�cio do mundo e fora constru�do nesse local em homenagem a uma divindade centro-americana sobre a qual quase nada se sabe. Temos de agradecer aos conquistadores e � Igreja Cat�lica por nos deixarem em escurid�o t�o profunda sobre a verdadeira hist�ria de Quetzalcoatl e seus seguidores. A demoli��o e profana��o desse templo antigo, a destrui��o de seus �dolos, altares e calend�rios e as grandes fogueiras alimentadas com c�dices, pinturas e pergaminhos com hier�glifos haviam quase conseguido silenciar as vozes do passado. As lendas, por�m, nos ofereciam uma pe�a convincente e v�vida de imag�stica: a recorda��o dos "gigantes de estatura desmesurada", que diziam ter sido os primeiros construtores. CAP�TULO 16 O Santu�rio da Serpente Saindo de Cholula, viajamos para leste, passando pelas pr�speras cidades de Puebla, Orizaba e C�rdoba, a caminho de Veracruz e do golfo do M�xico. Cruzamos os picos cobertos pela n�voa da Sierra Madre Oriental, onde o ar era frio e rarefeito, e descemos em seguida para o n�vel do mar e para plan�cies cobertas de planta��es luxuriantes de palmeiras e bananeiras. Est�vamos penetrando no cora��o da civiliza��o mais antiga e mais misteriosa do M�xico, a dos chamados olmecas, cujo nome significa "povo da borracha".


Datando do segundo mil�nio a.C., os olmecas se extinguiram cerca de 1.500 anos antes da ascens�o do imp�rio asteca. Os astecas, no entanto, haviam preservado intrigantes tradi��es relativas a esse povo e eram mesmo respons�veis por lhes dar nome, numa refer�ncia � �rea produtora de borracha da costa do Golfo, onde se acredita que tivessem vivido. Essa �rea se situa entre a moderna Veracruz, a oeste, e Ciudad del Carmen, a leste. Nessazona, os astecas encontraram grande n�mero de objetos rituais antigos, produzidos pelos olmecas e, por motivos desconhecidos, conservaram-nos e deram-lhes posi��o de destaque em seus pr�prios templos. No mapa que eu usava, a linha azul do rio Coatzecoalcos penetrava no golfo do M�xico mais ou menos no ponto central da lend�ria terra ancestral dos olmecas. Atualmente, no local onde antes havia seringueiras, prospera a ind�stria do petr�leo, transformando um para�so tropical em alguma coisa que lembra o c�rculo mais baixo do Inferno de Dante. Desdeo grande surto da explora��o de petr�leo em 1973, a cidade de Coatzecoalcos, outrora agrad�vel e hospitaleira, embora relativamente pobre, floresceu e transformou-se em centro de transporte e refino de petr�leo, com hot�is dotados de ar condicionado e uma popula��o de meio milh�o de almas. O local se situa perto do cora��o negro de uma terra industrializada devastada, na qual virtualmente tudo de interesse arqueol�gico que escapou das depreda��es dos espanh�is no tempo da conquista foi destru�do pela expans�o voraz da ind�stria petrol�fera. N�o era mais poss�vel, portanto, na base de prova robusta, confirmar ou negar a sugest�o intrigante aparentemente transmitida pelas lendas: que alguma coisa de grande import�ncia deve ter acontecido nessa�rea. Lembrei-me que Coatzecoalcos significa "Santu�rio da Serpente". Aqui, na remota antiguidade, Quetzalcoatl e seus companheiros teriam desembarcado ao chegar ao M�xico, vindos do outro lado do mar, em barcos cujos "costados brilhavam como escamas de pele de serpente". E fora daqui que se acreditava que ele viajou (em uma jangada de serpentes), quando deixou a Am�rica Central. O Santu�rio da Serpente, al�m disso, estava come�ando a parecer como o nome da terra olmeca, que inclu�ra n�o s� Coatzecoalcos, mas v�rios outros s�tios situados em �reas menos assoladas pelo desenvolvimento econ�mico.


Inicialmente em Tres Zapotes, a oeste de Coatzecoalcos, e em seguida em San Lorenzo e La Venta, a sul e a leste, numerosas pe�as de escultura caracteristicamente olmecas haviam sido desenterradas. Eram, sem exce��o, mon�litos talhados em basalto ou em materiais analogamente dur�veis. Alguns tinham a forma de cabe�as gigantescas, que pesavam at� 30 toneladas. Outras eram estelas maci�as, gravadas com cenas de encontros que envolviam aparentemente duas ra�as distintas da humanidade, nenhuma delas amer�ndia. Quem quer que tivesse produzido essas not�veis obras de arte havia, obviamente, pertencido a uma civiliza��o refinada, bem organizada, pr�spera e tecnologicamente avan�ada. O problema era que nada absolutamente restava dela, exceto as obras de arte, das quais se poderia deduzir o que se quisesse sobre o car�ter e origens de tal civiliza��o. Era claro apenas que "os olmecas" (os arque�logos aceitaram contentes a designa��o que lhes fora dada pelos astecas) haviam se materializado na Am�rica Central por volta do ano 1500 a.C., com uma cultura sofisticada j� plenamente desenvolvida. Santiago Tuxtla


Passamos a noite no porto pesqueiro de Alvarado e continuamos no dia seguinte a viagem para leste. A estrada serpenteava por colinas e vales f�rteis, dando-nos uma vis�o ocasional do golfo do M�xico, antes de embicar para o interior. Passa mos por prados verdes pontilhados de arbustos carregados de flores vermelhas e amarelas e pequenas aldeias aninhadas em depress�escobertas de relva. Aqui e ali, v�amos hortas particulares, onde porcos enormes procuravam comida entre restos de lixo dom�stico. Em seguida, chegamos ao alto de uma colina, de onde descortinamos uma paisagem vast�ssima de campos e florestas, limitados apenas pelo nevoeiro da manh� e as silhuetas desmaiadasde montanhas distantes. Alguns quil�metros � frente, descemos para um buraco, em cujo fundo se estendia a velha cidade colonial de Santiago Tuxtla. O local era uma balb�rdia de cores: fachadas espalhafatosas de lojas, telhados vermelhos, chap�us de palha amarelos, coqueiros, bananeiras, crian�as vestidas com roupas de cores vivas. De v�rias lojas e caf�s sa�a m�sica atrav�s de alto-falantes. Na Zocalo, a pra�a principal, fomos envolvidos por ar denso de umidade e o farfalhar de asas e can��es de aves tropicais de olhos brilhantes. Um pequeno parque de �rvores frondosas ocupava o centro da pra�a e, no centro do parque, como se fosse um talism� m�gico, vimos um enorme calhau cinzento, de quase 3m de altura, esculpido na forma de uma cabe�a africana coberta por um capacete. L�bios grossos e nariz forte, olhos serenamente fechados e mand�bula inferior repousando solidamente no ch�o, a cabe�aexibia uma sombria e paciente gravidade. Ai, ent�o, estava o primeiro mist�rio dos olmecas: uma pe�a monumental de escultura, de mais de 2.000 anos de idade, mostrando um sujeito de fei��es inconfundivelmente negr�ides. N�o havia, claro, negros africanos no Novo Mundo h� 1.000 anos e nenhum chegou a estas paragens at� come�ar o tr�fico de escravos, muito depois da conquista. H�, contudo, prova paleoantropol�gica robusta de que uma de muitas migra��es diferentes para as Am�ricas, durante a �ltima Era Glacial, consistiu, de fato, de indiv�duos de ra�a negr�ide. Essamigra��o teria ocorrido por volta do ano 15000a.C. Conhecida como a "Cabe�a de Cobata", numa refer�ncia ao estado onde foi encontrado, o imenso mon�lito de Zocalo � a maior de 16 esculturas olmecas semelhantes at� agora escavadas no M�xico. Pensa-se que foi esculpida n�o muito tempo antes da �poca de Cristo e pesa mais de 30 toneladas. Tres Zapotes


Deixando Santiago Tuxtla, viajamos 25km na dire��o sudoeste, passando por campo virgem e luxuriante em dire��o a Tres Zapotes, um centro olmeca importante mais recente, que se pensa ter florescido entre os anos 500 a.C. e 100 d.C. Atualmente reduzido � condi��o de uma s�rie de c�moros espalhados atrav�s de milharais, o s�tio passou por extensos trabalhos de escava��o em 1939-40, realizados pelo arque�logo americano Matthew Stirling. Lembrei-me de que historiadores dogm�ticos que estudaram esse per�odo sustentam tenazmente a opini�o de que a civiliza��o maia foi a mais antiga da Am�rica Central. Pode-se afirmar esse fato com confian�a, argumentam eles, porque o sistema maia de calend�rio, composto de pontos e barras (e que foi recentemente decodificado) tomrnu poss�vel a data��o precisa de um n�mero imenso de inscri��es cerimoniais. A data mais antiga jamais encontrada em um s�tio maia corresponde ao ano 228 d.C. do calend�rio crist�o. Por isso mesmo, o status quo acad�mico sofreu um rude choque quando Stirling desenterrou uma estela em Tres Zapotes que revelava uma data anterior. Entalhada no c�digo conhecido de pontos e barras do calend�rio maia, a pe�a correspondia ao dia 3 de setembro do ano 32 a.C. O chocante em tudo isso era que Tres Zapotes n�o era um s�tio maia - de nenhuma maneira conceb�vel. Era inteira, exclusiva e inequivocamente olmeca. Esse fato sugeria que os olmecas, e n�o os maias, deveriam ter sido os inventores do calend�rio e que eles, e n�o os maias, deveriam ser reconhecidos como a "cultura-m�e" da Am�rica Central. A despeito da oposi��o ferrenha de gangues de maianistas furiosos, surgiu gradualmente a verdade que a p� de Stirling desenterrara em Tres Zapotes. Os olmecas eram muito, muit�ssimo mais antigos do que os maias. Tinham sido um povo inteligente, civilizado, tecnologicamente avan�ado e, de fato, pareciam ter inventado o sistema de pontos e barras da nota��o do calend�rio, com a enigm�tica data inicial de 13 de agosto do ano 3114 a.C., e que previa o fim do mundo no ano 2012 de nossa era. Nas proximidades da estela do calend�rio, em Tres Zapotes, Stirling desenterrou tamb�m uma cabe�agigantesca. Nessemomento, eu me encontrava sentado em frente a ela. Datada de cerca do ano 100 a.C., a cabe�a mede aproximadamente 1,80m de altura, com 5,48m de circunfer�ncia e pesa mais de 10 toneladas. Tal como sua contrapartida em Santiago Tuxtla, � inconfundivelmente a cabe�a de um africano, usando capacete bem justo, preso por um longo barbicacho. Os lobos das orelhas s�o furados e fechados com enfeites. As fei��es negr�ides pronunciadas s�o cortadas por fundas rugas em cada lado do nariz e toda a face projeta-se para a frente, acima de l�bios grossose encurvados para baixo, olhos abertos e vigilantes, amendoados e frios. Por baixo do curioso capacete, as sobrancelhas grossasparecem eri�adas e iradas.


Espantado com a descoberta, Stirling comentou-a nas palavras seguintes: A cabe�a era simplesmente uma cabe�a, esculpida em um �nico bloco maci�o de basalto. Repousava sobre uma funda��o preparada de lajes brutas de pedra. (...) Uma vez retirada a terra em volta, ela representava um espet�culo digno de admira��o. A despeito do grande tamanho, o trabalho artesanal � delicado e seguro e perfeitas as propor��es. De car�ter excepcional entre esculturas nativas americanas, � not�vel pelo seu tratamento real�stico. As fei��es s�o bem n�tidas e espantosamente negr�ides... Pouco depois, o arque�logo americano realizou outra descoberta perturbadora em Tres Zapotes: brinquedos de crian�a sob a forma de pequenos c�es com rodas. Esses interessantes artefatos colidiam de frente com a opini�o arqueol�gica predominante que sustenta que a roda n�o foi conhecida na Am�rica Central at� o tempo da conquista. Os "cachorrom�veis" provaram, no m�nimo, que o princ�pio da roda era conhecido pelos olmecas, a civiliza��o mais antiga da Am�rica Central. E se um povo t�o f�rtil em recursos como os olmecas havia descoberto o princ�pio da roda, parece improv�vel que a tenha usado apenasem brinquedos de crian�a. CAP�TULO 17 O Enigma Olmeca Ap�s Tres Zapotes, nossa parada seguinte seria San Lorenzo, um s�tio olmeca situado a sudoeste de Coatzecoalos, no cora��o do "Santu�rio da Serpente" mencionado nas lendas sobre Quetzalcoad. Em San Lorenzo, arque�logos haviam realizado os primeiros testes de data��o com carbono em um s�tio olmeca e encontrado a data de 1500 anos a.C. N�o obstante, parecia que a cultura olmeca j� estava plenamente desenvolvida nessa �poca e nenhuma prova havia de que a evolu��o tivesse ocorrido nas vizinhan�as de San Lorenzo. Nessasitua��o havia um mist�rio. Os olmecas, afinal de contas, tinham constru�do uma civiliza��o importante, capaz de realizar obras prodigiosas de engenharia, e desenvolvido a capacidade de esculpir e manipular imensos blocos de pedra (v�rias cabe�as monol�ticas, pesando vinte toneladas ou at� mais, haviam sido transportadas por uma dist�ncia de at� 100km, depois de extra�da a pedra nas montanhas de Tuxtla). Dessa maneira, onde, sen�o na antiga San Lorenzo, a per�cia tecnol�gica e a organiza��o sofisticada dos olmecas haviam sido experimentadas, desenvolvidas e refinadas?


Curiosamente, a despeito de todos os trabalhos dos arque�logos, nem uma �nica indica��o isolada de algo que pudesse ser descrito como a "fase de desenvolvimento" da sociedade olmeca foi desenterrada em qualquer parte do M�xico (ou, por falar nisso, em qualquer parte do Novo Mundo). Esse povo, cuja forma caracter�stica de express�o art�stica consistia na cria��o de imensas cabe�as negr�ides, parecia ter surgido do nada. San Lorenzo Chegamos a San Lorenzo em fins da tarde. Nesse local, nos prim�rdios da hist�ria da Am�rica Central, os olmecas haviam constru�do um c�moro artificial de mais de 35m de altura, como parte de uma estrutura imensa de cerca de 1.200m de extens�o e 600m de largura. Escalamos o c�moro que domina o local, neste momento densamente coberto pela vegeta��o tropical e, do topo, estendemos a vista por quil�metros em volta. Grande n�mero de c�moros menores eram tamb�m vis�veis e, em volta deles, numerosas valas profundas, que o arque�logo Michael Coe abriu quando escavou o s�tio em 1966. A equipe de Coe realizou grande n�mero de descobertas nesselocal, incluindo mais de 20 reservat�rios artificiais, ligados por uma rede altamente sofisticada de canaletas revestidas de basalto. Parte do sistema foi constru�da sob a forma de uma barragem, tendo sido redescoberto que �gua ainda escorria dali durante chuvas fortes, como havia acontecido cerca de 3.000 anos antes. A principal linha de drenagem corria de leste para oeste. Ela recebia, ligadas por comportas de desenho avan�ado, as �guas de tr�s linhas subsidi�rias. Depois de examinar exaustivamente o s�tio, os arque�logos admitiram que n�o podiam compreender a finalidade desse esmerado sistema de eclusase obras hidr�ulicas. Tampouco encontraram solu��o para outro enigma: o enterro deliberado, de acordo com alinhamentos espec�ficos, de cinco das maci�as pe�as de escultura com fei��es negr�ides, agora geralmente conhecidas como "cabe�as olmecas". Nessas sepulturas peculiares e aparentemente ritual�sticas foram encontrados tamb�m mais de 60 objetos e artefatos preciosos, incluindo belos instrumentos de jade e estatuetas primorosamente esculpidas. Algumas delas haviam sido sistematicamente mutiladas antes do enterro. A maneira como as esculturas de San Lorenzo foram enterradas tornou extremamente dif�cil precisar-lhe a verdadeira idade, embora fragmentos de carv�o vegetal tenham sido encontrados nos mesmos estratos que alguns objetos ali sepultados. Ao contr�rio das esculturas, essas pe�as de carv�o podiam ser submetidas � data��o pelo carbono.


Feito isso, obtiveram-se resultados na faixa de 1200 a.C. Esse fato, no entanto, n�o significava que as esculturas tivessem sido feitas no ano 1200 a.C.Podiam ter sido. Mas podiam ter origem em um per�odo centenas ou mesmo milhares de anos antes. N�o era absolutamente imposs�vel que essas grandes obras de arte, com sua beleza intr�nseca e poder numinoso indefin�vel, pudessem ter sido preservadas e veneradas por muitas e diferentes culturas, antes de serem enterradas em San Lorenzo. O carv�o vegetal encontrado juntamente com elas provava apenas que as esculturas eram de pelo menos 1.200 anos a.C.Mas n�o estabelecia qualquer limite final � sua antiguidade.

La Venta Deixamos San Lorenzo no momento em que o sol se punha. Dirigimo-nos para a cidade de Villahermosa, situada a mais de 150km a leste, na prov�ncia de Tabasco. Para chegar ao nosso destino, retomamos a estrada principal que corre de Acayuc�n a Villahermosa e passamosao largo do porto de Coatzecoalcos, na zona das refinarias de petr�leo, de torres altaneiras e pontes p�nseis ultramodernas. A mudan�a de ritmo entre a zona rural modorrenta, onde se localiza San Lorenzo, e a paisagem pontilhada de instala��es industriais, como se fossem marcas de bexiga, em Coatzecoalcos, era quase chocante. Al�m do mais, a �nica raz�o por que os contornos desgastados pelo tempo do s�tio olmeca podiam ainda ser vistos em San Lorenzo era que n�o havia sido ainda encontrado petr�leo no local. Mas fora encontrado em La Venta - para perda eterna da arqueologia... Nesse momento est�vamos passando por La Venta. Diretamente ao norte, tomando uma estrada vicinal que se bifurca ao sair da via expressa, essacidade do petr�leo, iluminada por l�mpadas de vapor de s�dio, brilhava no escuro como uma vis�o de cat�strofe nuclear. Desde a d�cada de 1940, o local fora extensamente "desenvolvido" pela ind�stria petrol�fera: uma pista de pouso cortava o s�tio onde antes existira uma pir�mide de forma incomum e chamin�s lan�avam rel�mpagos contra o c�u escuro, no mesmo lugar onde vigilantes celestes olmecas deviam ter outrora procurado localizar o aparecimento de planetas no firmamento. Lamentavelmente, os buld�zeres dos exploradores do local haviam nivelado virtualmente tudo de interesse, antes que as escava��es apropriadas pudessem ser realizadas, com o resultado de que muitas das antigas estruturas n�o foram absolutamente estudadas. Jamais saberemos o que poderiam ter informado sobre os indiv�duos que as constru�ram e usaram.


Matthew Stirling, que realizou escava��es em Tres Zapotes, dirigiu o grosso do trabalho arqueol�gico feito em La Venta, antes que o progresso e o dinheiro do petr�leo acabassem com o local. A data��o com carbono sugeria que os olmecas haviam se estabelecido na regi�o entre os anos 1500 e 1100 a.C. e que continuaram a ocupar o local - que consistia de uma ilha no meio dos p�ntanos a leste do rio Tonala at� mais ou menos o ano 400 a.C. Nessa ocasi�o, as obras de constru��o foram subitamente abandonadas, procedendo-se � desfigura��o cerimonial ou demoli��o das estruturas, com o enterro ritual de v�rias imensas cabe�as de pedra e outras pe�as menores, em cerim�nias peculiares, exatamente como acontecera em San Lorenzo. As sepulturas de La Venta foram primorosa e cuidadosamente preparadas, forradas com milhares de min�sculas telhas azuis e aterradas com camadas de argila multicolorida. Em um local, cerca de 4.500m3 de terra foram escavados na abertura de um buraco enorme que, em seguida, teve o fundo revestido com blocos, depois do que toda terra foi recolocada no local. Foram encontrados tamb�m tr�s pavimentos de mosaico, intencionalmente cobertos por v�rias camadasalternadas de argila e adobe. A principal pir�mide de La Venta situa-se na extremidade sul do local. Aproximadamente circular no n�vel do ch�o, tem a forma de um cone pregueado, consistindo os lados arredondados em dez arestas verticais, com depress�es entre elas. A pir�mide media 22m de altura, com um di�metro de quase 65m e uma massa total que girava em torno de 8.500m3 - um monumento impressionante sob qualquer �ngulo. O restante do s�tio prolongava-se por quase meio quil�metro ao longo de um eixo que apontava precisamente para 8� a oeste do norte. Centralizadas nesse eixo, com todas as estruturas alinhadas impecavelmente, havia v�rias pir�mides e pra�as menores, plataformas e c�moros, cobrindo uma �rea total de mais de 5,5km2. La Venta passa a impress�o de algo deslocado e estranho, a sensa��o de que sua fun��o original n�o foi devidamente compreendida. Arque�logos descrevem o s�tio como um "centro cerimonial" e, com toda probabilidade, ele foi exatamente isso. Mas, se quisermos ser honestos, temos de reconhecer que poderia ter sido tamb�m v�rias outras coisas. A verdade � que nada se sabe sobre a organiza��o social, as cerim�nias e os sistemas de cren�as dos olmecas. Desconhecemos a linguagem que falavam ou as tradi��es que transmitiam aos filhos. Nem mesmo sabemos a que grupo �tnico pertenciam. As condi��es de umidade excepcional do golfo do M�xico impediram que fosse encontrado sequer um �nico esqueleto olmeca. Na verdade, a despeito dos nomes que lhes demos e das opini�es que sobre eles formamos, essesindiv�duos, para n�s, permanecem na escurid�o. � mesmo poss�vel que as enigm�ticas "esculturas" que deixaram, que supomos os representassem, n�o tenham sido absolutamente trabalho "deles", mas de um povo


muito mais antigo e esquecido. N�o pela primeira vez, quando dei por mim, estava me perguntando se algumas das grandes cabe�as e outros artefatos not�veis atribu�dos aos olmecas n�o poderiam ter sido passados, como uma esp�cie de j�ias da fam�lia, talvez ao longo de v�rios mil�nios, �s culturas que finalmente come�aram a construir os c�moros e as pir�mides de San Lorenzo e La Venta. Se assim, de quem estamos falando quando usamos o termo "olmeca"? Dos construtores dos c�moros? Ou dos homens poderosos e imponentes de fei��es negr�ides que forneceram os modelos para as cabe�asmonol�ticas?

Por sorte, cerca de 50 pe�as da escultura "olmeca" monumental, incluindo tr�s cabe�as gigantescas, foram resgatadas em La Venta por Carlos Pelicer Camara, um poeta e historiador local que agiu decisivamente quando descobriu que as perfura��es petrol�feras da PEMEXamea�avam as ru�nas. Pressionando fortemente os pol�ticos de Tabasco (prov�ncia que abrange La Venta), ele conseguiu que descobertas importantes fossem levadas para um parque nos arredores de Villahermosa, a capital regional.


Tomadas em conjunto, essas descobertas constituem um registro cultural precioso e insubstitu�vel - ou melhor, uma biblioteca inteira de registros culturais - deixados por uma civiliza��o desaparecida.


Deus Ex Machina Villahermosa, provinda de Tabasco Nesse momento, eu olhava para um alto-relevo de fino acabamento, denominado "Homem com Serpente" pelos arque�logos que o haviam encontrado em La Venta. De acordo com opini�o abalizada, a pe�a mostrava "um olmeca usando um toucado e segurando uma sacola de incenso, e envolvido por uma serpente emplumada". O alto-relevo havia sido talhado em uma laje de granito maci�o, medindo cerca de 1,20m de largura por 1,50m de altura e mostrava um homem sentado, as pernas estiradas � frente, como se estivesse estendendo os p�s � procura de pedais. Na m�o direita, segurava um objeto pequeno, em forma de balde. O "toucado" que usava era uma pe�a estranha e complicada. Em minha opini�o, parecia mais funcional do que cerimonial, embora eu n�o pudesseimaginar qual poderia ter sido sua fun��o. Sobre o toucado, ou talvez fosse um console ou painel acima da cabe�a, eram vis�veis duas cruzes em forma de X. Voltei a aten��o para o outro elemento importante na escultura, a "serpente emplumada". Em um n�vel, a pe�a mostrava, de fato, exatamente isso: uma serpente emplumada, ou de penas, o antiq��ssimo s�mbolo de Quetzalcoatl, que os olmecas, por conseguinte, deviam ter adorado (ou, pelo menos, reconhecido). Estudiosos do assunto n�o p�em em d�vida essa interpreta��o. De modo geral, aceita-se que o culto de Quetzalcoatl era imensamente antigo, tendo surgido na Am�rica Central em tempos pr�-hist�ricos e que da� em diante foi objeto de devo��o de numerosas culturas durante o per�odo hist�rico. A serpente emplumada, nessa escultura particular, por�m, apresentava certas caracter�sticas que a colocavam em uma categoria � parte. Ela parecia ser algo mais do que um mero s�mbolo religioso. Na verdade, havia algo r�gido e estruturado nela que fazia com que parecessemais uma pe�a de maquinaria. Sussurros de Antigos Segredos Mais tarde naquele mesmo dia, abriguei-me sob a sombra gigantesca lan�ada por uma das cabe�asolmecas que Carlos Pellicer Camara resgatara de La Venta. Era a cabe�a de um velho, de nariz largo e chato e l�bios grossos. Os l�bios ligeiramente entreabertos mostravam dentes fortes, quadrados. A express�o do rosto sugeria sabedoria antiga, paciente, e os olhos pareciam fitar sem medo a eternidade, tal como os da Grande Esfinge de Giz�, no baixo Egito.


Seria provavelmente imposs�vel a um escultor, pensei, inventar todas as diferentes caracter�sticas combinadas de um aut�ntico tipo racial. A representa��o de uma combina��o aut�ntica de caracter�sticas raciais, por conseguinte, implicava convincentemente que fora usado um modelo humano. Andei umas duas vezes em volta da grande cabe�a. Ela mede 6,70m de circunfer�ncia, pesa 19,8t, tem uma altura de quase 2,50m, foi esculpida em basalto s�lido e revela claramente uma "aut�ntica combina��o de caracter�sticas raciais". Na verdade, exatamente como no caso de outras pe�as que eu tinha visto em Santiago Tuxtla e em Tres Zapotes, ela, inconfund�vel e inequivocamente, representa um negro. O leitor pode formar sua pr�pria opini�o, ap�s examinar as fotos relevantes neste livro. Minha pr�pria opini�o � que as cabe�asolmecas nos proporcionam uma imagem fisiologicamente exata de indiv�duos reais, de ra�a negr�ide - africanos carism�ticos e poderosos, segundo a explica��o dos estudiosos do assunto, mas cuja presen�a na Am�rica Central ainda n�o explicaram. Tampouco h� certeza de que as cabe�as tenham sido esculpidas nessa �poca. A data��o, pelo m�todo do carbono, de fragmentos de carv�o vegetal encontrados nos mesmos buracos revelam apenas a idade do carv�o. Calcular a verdadeira antiguidade das pr�prias cabe�as � assunto muito mais complicado. Com esses pensamentos, continuei meu lento passeio entre os estranhos e maravilhosos monumentos de La Venta. Eles contavam em sussurros segredos antigos - o segredo do homem na m�quina... o segredo das cabe�as de negro... e, por �ltimo, mas de import�ncia n�o menor, os segredos de uma lenda trazida � vida. Isso porque me pareceu que carne poderia ter recoberto os ossos m�ticos de Quetzalcoatl, quando descobri que v�rias esculturas de La Venta continham ef�gies real�sticas n�o s� de negros, mas de caucasianos altos, de fei��es finas, nariz longo, cabelos lisos e barba cerrada, usando mantos ondulantes... CAP�TULO 18 Estrangeiros bem Vis�veis Matthew Stirling, o arqu�ologo americano que realizou escava��es em La Venta na d�cada de 1940, fez no local uma s�rie de descobertas espetaculares. E a mais espetacular foi a Estela do Homem Barbudo. O plano do antigo s�tio olmeca, conforme dissemos acima, desenvolve-se ao longo de um eixo que aponta para 8� a oeste do norte. Na extremidade sul do eixo, ergue-se a grande pir�mide em forma de cone canelado, de 25m de altura. Pr�ximo a ela, no n�vel do ch�o, havia o que parecia um meio-fio de cerca de 30cm de altura, fechando uma


espa�osa�rea retangular de cerca de um quarto do tamanho de um quarteir�o urbano t�pico. Ao come�ar a desencavar o meio-fio, os arque�logos, com grande surpresa, descobriram que ele consistia das partes superiores de um pared�o de colunas. Mais escava��esatrav�s de camadas intactas de estratifica��o que haviam ali se acumulado revelaram que as colunas tinham 3,30m de altura. Havia mais de 600 delas, constru�das t�o pr�ximas uma da outra que formavam uma pali�ada quase inexpugn�vel. Talhadas em basalto s�lido e trazidas para La Venta de pedreiras situadas a mais de 100km de dist�ncia, as colunas pesavam aproximadamente duas toneladas cada. Por que essetrabalho todo? A pali�ada tinha sido constru�da para proteger o qu�? Mesmo antes de come�ar a escava��o, a ponta de um bloco maci�o de rocha estivera vis�vel, projetando-se do solo no centro da �rea fechada, cerca de 1,20m mais alta do que o suposto "meio-fio" e inclinando-se fortemente para a frente. O bloco era coberto de entalhes, que se estendiam para baixo, perdendo-se nas profundezas, abaixo das camadasde terra que enchiam a antiga pali�ada at� uma altura de 9,30m. Stirling e seu grupo trabalharam durante dois dias para soltar a grande pedra. Ao ser exposta � vista, verificaram que se tratava de uma imponente estela de 4,50m de altura, 2,25m de largura e quase 90cm de espessura. Os entalhes mostravam o encontro entre dois homens altos, ambos usando mantos complicados e sapatos elegantes, com as biqueiras voltadas para cima. Eros�o ou mutila��o deliberada (praticada com grande freq��ncia em monumentos olmecas) haviam causado o desfiguramento completo de uma das figuras. A outra estava intacta. A pe�a mostrava com tanta clareza um homem caucasiano de nariz afilado e barba longa e ondulante que os confusos arque�logos imediatamente a batizaram como "Tio Sam". Andei vagarosamente em torno da estela de 20 toneladas, lembrando ao mesmo tempo que ela estivera ali enterrada durante mais de 3.000 anos. Apenas durante um curto meio s�culo, mais ou menos, desde as escava��esde Stirling, ela voltara a ver a luz do dia. Qual seria seu destino nesse momento? Ficaria ali por mais trinta s�culos, como objeto de venera��o e esplendor para as gera��es futuras olharem boquiabertas e a reverenciarem? Ou, em um per�odo de tempo t�o dilatado assim, seria poss�vel que as circunst�ncias pudessem mudar tanto que ela fosse, mais uma vez, sepultada e escondida? Talvez nenhuma das duas coisas acontecesse. Lembrei-me do antigo sistema de calend�rio da Am�rica Central, inventado pelos olmecas. Segundo o sistema, e de acordo com seus sucessores mais famosos, os calend�rios maias, talvez simplesmente n�o nos restasse tanto tempo assim, quanto mais tr�s mil�nios. Com o Quinto Sol esgotado, um terremoto terr�vel estava tomando forma para destruir a humanidade, dois dias antes do Natal do ano 2012 d.C.


Voltei a aten��o para a estela. Duas coisas me pareciam claras: o encontro mostrado na cena deveria, por alguma raz�o, ter sido de imensa import�ncia para os olmecas e da� a grandiosidade da pr�pria estela e a constru��o de uma pali�ada not�vel de colunas para proteg�-Ia. E, como acontecia tamb�m com as cabe�asde negros, era �bvio que a face do caucasiano barbudo s� poderia ter sido esculpida � vista de um modelo humano. A verossimilhan�a racial era boa demais para que um artista a tivesse inventado. A mesma conclus�o aplicava-se a duas outras figuras caucasianas, que consegui identificar entre os monumentos remanescentes de La Venta. Uma delas havia sido talhada em baixo-relevo em uma laje pesada e aproximadamente circular de uns 65cm de di�metro. Usando o que pareciam perneiras justas, as fei��es dessa figura eram de um anglo-sax�o. Ele usava barba cerrada em ponta e tinha na cabe�a um curioso bon� de aba mole. Na m�o esquerda, mostrava uma bandeira, ou talvez fosse uma arma de algum tipo. A m�o direita, espalmada sobre o centro do peito, parecia estar vazia. Em volta da cintura fina, um faixa ondulante amarrada. A outra figura caucasiana, dessa vez talhada em um lado de um pilar estreito, era tamb�m barbuda e se vestia da mesma maneira. Quem eram essas figuras t�o patentemente estrangeiras? O que estariam fazendo na Am�rica Central? Quando haviam chegado? E que relacionamento mantinham com os outros estrangeiros que haviam se estabelecido nessa quente e �mida floresta de seringueiras - os indiv�duos que haviam servido de modelos para as grandes cabe�as de negros? Alguns pesquisadores radicais, rejeitando o dogma do isolamento do Novo Mundo antes de 1492, haviam sugerido o que parecia uma solu��o vi�vel para o problema: os indiv�duos barbudos de fei��es finas poderiam ter sido fen�cios do Mediterr�neo, que haviam cruzado os Pilares de H�rcules [estreito de Gibraltar] e chegado ao outro lado do Atl�ntico j� no segundo mil�nio a.C. Defensores dessa teoria foram ainda mais longe e sugeriram que os negros mostrados nos mesmos s�tios arqueol�gicos eram "escravos" dos fen�cios, capturados na costa oeste da �frica, antes da viagem transatl�ntica. Quanto mais pensava no car�ter estranho das esculturas de La Venta, mais insatisfeito eu ficava com essasid�ias. Provavelmente, os fen�cios e outros povos do Velho Mundo haviam cruzado o Atl�ntico muito antes de Colombo. Havia prova s�lida nessesentido, embora elas se situem fora do escopo deste livro. O problema era que os fen�cios, que haviam deixado exemplos inconfund�veis de seu artesanato caracter�stico em numerosas partes do mundo antigo, n�o haviam feito o mesmo em s�tios arqueol�gicos olmecas na Am�rica Central. Nada nas cabe�asde negro, nem nos altos-


relevos que mostravam caucasianos barbudos, continha quaisquer sinais de qualquer coisa remotamente fen�cia em estilo, artesanato ou car�ter. Na verdade, do ponto de vista estil�stico, essas impressionantes obras de arte n�o pareciam pertencer a qualquer cultura, tradi��o ou g�nero conhecidos. Aparentemente, n�o tinham antecedentes nem no Novo nem no Velho Mundo. Elas pareciam soltas no ar... e isso, claro, era imposs�vel, porque todas as formas de express�oart�stica t�m ra�zes em algum lugar. Uma Hipot�tica Terceira Parte Ocorreu-me que uma explica��o plaus�vel poderia ser encontrada em uma variante da teoria da "hipot�tica terceira parte", proposta originalmente por certo n�mero de destacados egipt�logos para explicar um dos grandes enigmas da hist�ria e cronologia eg�pcias. A evid�ncia arqueol�gica sugeria que, em vez de desenvolver-se lenta e laboriosamente, como � normal nas sociedadeshumanas, a civiliza��o do antigo Egito, tal como a dos olmecas, emergiu de repente e inteiramente desenvolvida. Na verdade, o per�odo de transi��o de sociedade primitiva para avan�ada parece ter sido t�o curto que n�o faz qualquer tipo de sentido hist�rico. Per�cias tecnol�gicas que deviam ter levado centenas ou mesmo milhares de anos para evoluir foram postas em uso quase que da noite para o dia - e, aparentemente, sem quaisquer antecedentes. Restos do per�odo pr�-din�stico, por volta do ano 3500 a.C., por exemplo, nenhum tra�o mostram de escrita. Pouco depois dessa data, s�bita e inexplicavelmente, os hier�glifos, encontrados em tantas ru�nas do antigo Egito, come�aram a aparecer em estado perfeito e completo. Muito longe de ser meros desenhos de objetos ou a��es, essa linguagem escrita foi, desde o in�cio, complexa e estruturada, com sinais que representavam exclusivamente sons e um detalhado sistema de s�mbolos num�ricos. At� mesmo os hier�glifos mais antigos eram estilizados e seguiam conven��es. � claro que uma escrita cursiva adiantada estava em uso comum quando do surgimento da Primeira Dinastia. O not�vel � que n�o havia tra�os de evolu��o do simples para o sofisticado e o mesmo acontecia com a matem�tica, a medicina, a astronomia, a arquitetura e um sistema espantosamente rico e complicado religioso-mitol�gico (at� mesmo o conte�do b�sico de obras refinadas, como o Livro dos Mortos, existia j� no come�o do per�odo din�stico). A maioria dos egipt�logos recusa-se a levar em conta as implica��es da antiga sofistica��o do Egito. Essas implica��es s�o espantosas, de acordo com certo n�mero


de pensadores mais ousados. John Anthony West, especialista no in�cio do per�odo din�stico, pergunta: De que modo uma civiliza��o complexa surge inteiramente desenvolvida? Vejam o autom�vel de 1905 e comparem-no com o carro de hoje. N�o h� como negar o processo de "desenvolvimento". No Egito, por�m, n�o encontramos paralelos. Tudo estava l�, desde o in�cio. A solu��o do mist�rio �, claro, �bvia. Mas como se choca com o molde predominante do pensamento moderno, ela raramente � levada em conta. A civiliza��o eg�pcia n�o foi um "desenvolvimento", mas um legado. West tem sido h� muitos anos um espinho na carne do "Sistema" egiptol�gico. Outros estudiosos, de opini�es mais tradicionais, por�m, confessaram tamb�m sua confus�o com a subitaneidade com que apareceu a civiliza��o eg�pcia. Walter Emery, o falecido professor da C�tedra Edwards de Egiptologia, da Universidade de Londres, resumiu o problema da seguinte maneira: Em um per�odo de aproximadamente 3.400 anos antes de Cristo uma grande mudan�a ocorreu no Egito e o pa�s passou rapidamente de um estado de cultura neol�tica, com um complexo car�ter tribal, para outro de monarquia bem organizada... Na mesma ocasi�o, apareceu a arte da escrita, a arquitetura monumental, as artes e of�cios desenvolveram-se em um grau impressionante, ao mesmo tempo em que todas as indica��es sugeriam a exist�ncia de uma civiliza��o luxuosa. Tudo isso foi realizado em um per�odo de tempo relativamente curto, pois parece ter havido poucos ou nenhum antecedente dessesprogressosb�sicos na escrita ou na arquitetura. Uma explica��o poderia simplesmente ser que o Egito recebeu seu s�bito e decisivo empurr�o cultural de alguma outra civiliza��o conhecida do mundo antigo. A Sum�ria, no baixo Eufrates, Mesopot�mia, parece o candidato mais prov�vel. A despeito de numerosas diferen�as b�sicas, uma grande variedade de t�cnicas de constru��o e estilos arquitet�nicos comuns sugerem, de fato, um elo entre as duas regi�es. Mas nenhuma dessas semelhan�as � suficientemente forte para justificar a infer�ncia de que a conex�o poderia ter sido de qualquer maneira causal, com uma sociedade influenciando diretamente a outra. Muito ao contr�rio, como sugere o professor Emery:


A impress�o que formamos � de uma conex�o indireta e, talvez, a exist�ncia de uma terceira parte, cuja influ�ncia espalhou-se pelo Eufrates e pelo Nilo... Estudiosos modernos t�m se inclinado a ignorar a possibilidade de emigra��o para ambas as regi�es, procedente de alguma �rea hipot�tica e at� agora n�o descoberta. N�o obstante, uma terceira parte, cujas realiza��es culturais tivessem sido transmitidas independentemente ao Egito e � Mesopot�mia, seria a melhor explica��o para aspectos comuns e diferen�as fundamentais entre as duas civiliza��es. Entre outras coisas, essateoria lan�a luz sobre o fato misterioso de que os eg�pcios e os sumerianos, estes da Mesopot�mia, parecem ter adorado divindades lunares virtualmente id�nticas, que figuraram entre as mais antigas em seus respectivos pante�es. (Thoth, no caso do Egito, e Sin, no caso dos sumerianos.) De acordo com o eminente egipt�logo sir E.A. Wallis Budge, "A semelhan�a entre os dois deuses � forte demais para que seja acidental. (...) Seria err�neo dizer que os eg�pcios tomaram empr�stimos aos sumerianos ou que estes fizeram o mesmo com os eg�pcios, mas pode-se sugerir que os literati de ambos os povos tomaram seus sistemas teol�gicos emprestados de uma fonte comum, mas extremamente antiga". A quest�o, por conseguinte, consiste em saber o seguinte: qual era essa"fonte comum, mas extremamente antiga", essa "�rea hipot�tica mas ainda n�o descoberta", essa avan�ada "terceira parte" a que se referem Budge e Emery? E se ela deixou um legado de alta cultura no Egito e na Mesopot�mia, por que n�o teria feito o mesmo na Am�rica Central? N�o basta argumentar que a civiliza��o "decolou" muito mais tarde no M�xico do que no Oriente M�dio. � poss�vel que o impulso inicial pudesse ter sido sentido simultaneamente em ambos os lugares, mas que o resultado subseq�ente possa ter sido inteiramente diferente. De acordo com esse cen�rio, os civilizadores teriam obtido um sucesso brilhante no Egito e na Sum�ria, criando nessasregi�es culturas duradouras e not�veis. No M�xico, por outro lado (como tamb�m parece ter acontecido no Peru), eles sofreram alguns graves reveses - talvez come�ando bem, ocasi�o em que as cabe�as de pedra gigantescas e os altos-relevos de homens barbudos foram feitos, mas em seguida despencando rapidamente ladeira abaixo. A luz da civiliza��o jamais teria sido inteiramente perdida, mas talvez as coisas n�o se arrumassem novamente at� por volta do ano 1500 a.C., ou no chamado "horizonte olmeca". Por essaaltura, as grandes esculturas j� seriam velh�ssimas, rel�quias antigas de imenso poder espiritual, com suas origens praticamente esquecidas e envolvidas em mitos de gigantes e civilizadores barbudos.


Se assim, podemos estar olhando para faces de um passado muito mais remoto do que imaginamos, quando fitamos os olhos amendoados de uma das cabe�asde negro ou os tra�os angulosos, nitidamente cinzelados, de "Tio Sam". N�o � absolutamente imposs�vel que essas grandes obras preservem as imagens de homens de uma civiliza��o desaparecida que englobava v�rios diferentes grupos �tnicos. Essa,em resumo, � a teoria da "hipot�tica terceira parte", da forma aplicada � Am�rica Central: a civiliza��o do M�xico antigo n�o emergiu sem influ�ncia externa e tampouco como resultado de influ�ncia do Velho Mundo. Em vez disso, certas culturas do Velho e do Novo Mundo podem ter recebido um legado de influ�ncias e id�ias de uma terceira parte, em uma data extremamente remota. De Villahermosa a Oaxaca Antes de deixar Villahermosa, visitei o CICOM, o Centro de Investiga��o das Culturas Olmeca e Maia. Eu queria saber com os estudiosos desse estabelecimento se havia algum outro s�tio arqueol�gico olmeca importante na regi�o. Para minha surpresa, eles sugeriram que eu procurasse muito mais longe, em Monte Alb�n, na prov�ncia de Oaxaca, a centenas de quil�metros na dire��o sudoeste, onde arque�logos haviam aparentemente desenterrado artefatos "olmec�ides" e certo n�mero de altos-relevos que se pensava que representassemos pr�prios olmecas. Eu e Santha hav�amos pensado em seguir diretamente de Villahermosa para a pen�nsula de Yucat�n, que fica a nordeste. Embora a viagem a Monte Alb�n implicasse uma volta enorme, resolvemos faz�-la, na esperan�a de que pudesse lan�ar mais alguma luz sobre os olmecas. Al�m do mais, prometia ser uma viagem espetacular, atrav�s de montanhas imensas e at� o cora��o do vale escondido onde se situa a cidade de Oaxaca. Seguimos quase diretamente para oeste, deixando para tr�s o s�tio arqueol�gico perdido de La Venta, mais uma vez Coatzecoalcos, Sayula e Loma Bonita, at� o entroncamento ferrovi�rio na cidade de Tuxtepec. Ao fazer isso, demos gradualmente as costas ao campo cheio de cicatrizes e enegrecido pela ind�stria petrol�fera, cruzamos baixas encostas atapetadas de luxuriante relva verde e corremos entre campos plantados e em plena produ��o agr�cola. Em Tuxtepec, onde as sierras realmente come�am, viramos bruscamente para o sul, seguindo a Estrada 175 at� Oaxaca. No mapa, parecia pouco mais do que a metade da dist�ncia que hav�amos coberto desde Villahermosa. Descobrimos, no entanto, que a estrada era um ziguezague complicado, de dar nos nervos e cansar os m�sculos, de curvas fechadas intermin�veis - estreita, tortuosa e costeando precip�cios - e que


entrava nas nuvens como uma escada no c�u. Passamos por muitas diferentes camadas de vegeta��o tipo alpino, cada uma delas ocupando um nicho climatol�gico especializado, at� que a estrada nos levou, acima das nuvens, a um lugar onde plantas conhecidas floresciam em formas gigantescas, tal como as tr�fides de John Wyndham, criando uma paisagem surrealista e extraterrena. Precisamos de 12 horas para cobrir os 700 quil�metros que separam Villahermosa de Oaxaca. Ao terminar a viagem, eu tinha as m�os cheias de bolhas, por segurar o volante com for�a demais, por tempo longo demais, atrav�s de um n�mero grande demais de curvas fechadas. Sentia os olhos turvos e continuava a ver retrospectivamente os abismos vertiginosos pelos quais hav�amos passado na Estrada 175, nas montanhas, onde cresciam as tr�fides. A cidade de Oaxaca � famosa pelos cogumelos m�gicos, pela maconha e por D.H. Lawrence (que a descreveu e a usou em parte como cen�rio de seu romance The Plumed Serpent, publicado na d�cada de 1920). Persiste no local uma atmosfera bo�mia e at� tarde da noite uma corrente de excita��o parece ondular entre as multid�es que enchem os bares e os caf�s, as ruas lajeadas estreitas, os velhos pr�dios e as espa�osas pra�as. Tomamos um quarto de frente para um dos tr�s p�tios abertos do Hotel Las Golondrinas. A cama era confort�vel, estrelas brilhavam no c�u, mas, embora cansado, eu n�o conseguia dormir. O que me mantinha acordado era a id�ia sobre os civilizadores... os deuses barbudos e seus companheiros. No M�xico, como no Peru, eles aparentemente haviam amargado um fracasso. Era isso o que as lendas insinuavam, e n�o apenas elas, como descobri quando chegamosa Monte Alb�n na manh� seguinte. CAP�TULO 19 Aventuras no Mundo Subterr�neo, Jornadas �s Estrelas A teoria da "hipot�tica terceira parte" explica as semelhan�as e diferen�as fundamentais entre o antigo Egito e a antiga Mesopot�mia, ao sugerir que ambos receberam, do mesmo ancestral remoto, um legado comum de civiliza��o. Nenhuma sugest�o s�ria, no entanto, foi feita sobre o local onde poderia ter existido essa civiliza��o ancestral, sua natureza, ou quando floresceu. Tal como um buraco negro no espa�o, ela n�o podia ser vista. Ainda assim, podemos deduzir-lhe a presen�a pelos efeitos que produziu sobre coisas que podem ser vistas - neste caso, as civiliza��es da Sum�ria e do Egito. Seria poss�vel que o mesmo ancestral misterioso, a mesma invis�vel fonte de influ�ncia, pudesse ter deixado sua marca no M�xico? Se assim, caberia esperar


encontrar certas semelhan�as culturais entre as antigas civiliza��es do M�xico e as da Sum�ria e do Egito. E tamb�m imensas diferen�as, resultantes dos longos per�odos de evolu��o divergente que separaram essas �reas nos tempos hist�ricos. Mas poder�amos esperar tamb�m que as diferen�as fossem menores entre a Sum�ria e o Egito, que mantiveram contatos regulares entre si no per�odo hist�rico, do que entre as duas culturas do Oriente M�dio e as culturas da distante Am�rica Central, que, na melhor das hip�teses, teriam tido apenas contatos ocasionais, superficiais e intermitentes, antes da "descoberta" do Novo Mundo por Colombo em 1492. Devoradores de Mortos, Monstros da Terra, Reis Estelares, An�es e Outros Parentes Por alguma curiosa raz�o que n�o foi ainda explicada, os antigos eg�pcios tinham uma prefer�ncia especial e rever�ncia por an�es. O mesmo aconteceu com os povos civilizados da antiga Am�rica Central, retroagindo diretamente ao tempo dos olmecas. Em ambos os casos, acreditava-se que os an�es mantinham contato direto com os deuses. E ainda em ambos os casos, eram preferidos como dan�arinos e mostrados nessepapel em obras de arte. Nos prim�rdios do per�odo din�stico do Egito, h� mais de 4.500 anos, uma "En�ade" de nove divindades onipotentes era objeto de uma adora��o especial dos sacerdotes de Heli�polis. De id�ntica maneira, na Am�rica Central, tanto os astecas quanto os maias acreditavam em um sistema todo-poderoso de nove divindades. O Popol Vuh, o livro sagrado dos antigos maias quiche do M�xico e da Guatemala, cont�m v�rias passagensque indicam claramente a cren�a no "renascimento estelar" a reencarna��o dos mortos como estrelas. Depois de terem sido mortos, por exemplo, os G�meos Her�icos chamados Hunahpu e Xbalanque "ergueram-se em meio � luz e, no mesmo instante, foram levados para o c�u... Em seguida, o arco do c�u e a face da terra foram iluminados. E eles habitaram o c�u". Na mesma ocasi�o, subiram tamb�m 400 companheiros dos g�meos, que haviam sido tamb�m mortos, "e assim eles se tornaram novamente companheiros de Hunahpu e Xbalanque e foram transformados em estrelas no c�u". A maioria das tradi��es sobre o deus-rei Quetzalcoatl, como vimos acima, focaliza-se em suas fa�anhas e ensinamentos como civilizador. Seusseguidores no M�xico antigo, por�m, acreditavam tamb�m que sua manifesta��o humana havia experimentado a morte e que, em seguida, ele havia renascido como estrela. � pelo menos curioso, para dizer o m�nimo, descobrir que no Egito, na Era das Pir�mides, h� mais de 4.000 anos, a religi�o oficial girava em torno da cren�a de que o


fara� morto renascia como estrela. Eram entoados encantamentos que tinham a finalidade de facilitar o r�pido renascimento nos c�us do monarca falecido. "Oh, rei, tu �s a Grande estrela, o Companheiro de �rion, que cruza o c�u com �rion... sobes do leste do c�u, sendo renovado em tua devida esta��o e rejuvenescido em teu devido tempo...". Vale lembrar aqui que j� encontramos a constela��o de �rion nas plan�cies de Nazca e que iremos reencontr�-la... Entrementes, estudemos o Antigo Livro Eg�pcio dos Mortos. Parte de seu conte�do � t�o antigo quanto a pr�pria civiliza��o do Egito e serve como uma esp�cie de Baedecker [guia tur�stico] para a transmigra��o da alma. O livro instrui o morto sobre a maneira de superar os perigos da vida ap�s a morte, permite-lhe assumir a forma de v�rias criaturas m�ticas e fornece-lhe as senhas necess�rias para ter entrada nos v�rios est�gios, ou n�veis, do mundo subterr�neo. Seria uma coincid�ncia que os povos da antiga Am�rica Central tivessem uma vis�o paralela dos perigos da vida ap�s a morte? Reinava a cren�a geral de que o mundo subterr�neo consistia de nove estratos, pelos quais os mortos viajariam durante quatro anos, superando obst�culos e perigos, Os estratos tinham nomes autoexplicativos, tais como "lugar onde as montanhas se chocam", "lugar onde flechas s�o disparadas", "montanha das facas", e assim por diante, Na antiga Am�rica Central e no antigo Egito, acreditava-se que a viagem do morto atrav�s do mundo subterr�neo era feito em barco, acompanhado de "deuses remadores", que o levavam de um est�gio a outro. Descobriu-se que a tumba de "Pente Duplo", governante maia da cidade de Tikal, no s�culo VIII, continha uma representa��o dessa cena. Imagens semelhantes s�o encontradas em todo o Vale dos Reis, no Alto Egito, especialmente na tumba de Tutm�sis III, um fara� da VIII Dinastia. Seria uma coincid�ncia que os passageiros da barca do falecido fara� e a canoa na qual Pente Duplo fez sua viagem final inclu�ssem (em ambos os casos) um c�o ou divindade com cabe�a de c�o, uma ave ou divindade com cabe�ade ave, um s�mio ou divindade com cabe�ade s�mio? O s�timo estrato do antigo mundo subterr�neo mexicano era denominado Teocoyolcualloya, "lugar onde feras devoram cora��es". Seria uma coincid�ncia que um dos est�gios do submundo do Egito antigo, "a Galeria do Julgamento", implicasse uma s�rie quase id�ntica de s�mbolos? Nesse momento crucial, o cora��o do morto era pesado em compara��o com uma pena. Se estivesse cheio de pecado, o cora��o inclinaria a balan�a em sua dire��o. O deus Thoth anotava o julgamento em uma paleta e o cora��o era imediatamente devorado por uma terr�vel fera, parte crocodilo, parte hipop�tamo, parte le�o, que era chamada de "a Devoradora de Mortos".


Por �ltimo, voltemos ao Egito da Era das Pir�mides e � condi��o privilegiada do fara�, que lhe permitia evitar o julgamento no submundo e renascer como estrela. Encantamentos rituais faziam parte do processo. Igualmente importante era uma cerim�nia misteriosa, conhecida como "abertura da boca", sempre realizada ap�s a morte do fara� e que arque�logos acreditam datar dos tempos pr�-din�sticos. O sumo sacerdote e quatro atendentes participavam do rito, usando o peshenkhef, um instrumento cerimonial de corte, empregado para "abrir a boca" do deus-rei falecido, medida esta julgada necess�ria para lhe garantir a ressurrei��o nos c�us. Altos-relevos e vinhetas remanescentes mostrando a cerim�nia n�o deixam d�vida de que o cad�ver mumificado recebia um duro golpe f�sico com o peshenkhef. Al�m disso, surgiu recentemente prova indicando que uma das c�maras na Grande Pir�mide de Giz� pode ter servido como local da cerim�nia. Tudo isso tem uma contrapartida estranha e deturpada no M�xico. Vimos que eram gerais os sacrif�cios humanos nos tempos anteriores � conquista. Seria uma coincid�ncia que o altar sacrificial fosse uma pir�mide, que da cerim�nia se encarregassemum sumo sacerdote e quatro atendentes, que um instrumento de corte, a faca sacrificial, fosse usada para aplicar um forte golpe f�sico no corpo da v�tima, e que se acreditasse que sua alma subia diretamente para o c�u, evitando os perigos do submundo? � medida que essas"coincid�ncias" continuam a multiplicar-se, � razo�vel perguntar se n�o pode ter havido entre elas alguma liga��o subjacente. Este � certamente o caso quando aprendemos que o termo geral para "sacrif�cio" em toda a Am�rica Central antiga era p'achi, que significava "abrir a boca". Poderia acontecer, por conseguinte, que os fatos que aqui estudamos, ocorridos em �reas geogr�ficas t�o distantes entre si e em diferentes per�odos da hist�ria, n�o fossem apenas coincid�ncias espantosas, mas alguma obscura e deturpada mem�ria, com origem na antiguidade mais distante? Nada indica que a cerim�nia eg�pcia de abertura da boca tenha influenciado diretamente a cerim�nia mexicana do mesmo nome (ou vice-versa, por falar nisso). As diferen�as fundamentais entre os dois casos eliminam essa possibilidade. O que de fato parece poss�vel, no entanto, � que suas semelhan�as possam ser resqu�cios de um legado comum, recebido de um ancestral comum. Os povos da Am�rica Central fizeram uma coisa com o legado e, os eg�pcios, outra, embora algum simbolismo e nomenclatura comum fossem conservados por ambas. Este n�o � o lugar para nos alongarmos sobre a minha impress�o de que existiu uma liga��o antiga e vaga, que emerge da prova eg�pcia e meso-americana. Mas, antes de continuar, importa notar que uma "conectividade" semelhante liga os sistemas de


cren�a do M�xico pr�-colombiano e os da Sum�ria, na Mesopot�mia. Mais uma vez, a evid�ncia sugere mais um antigo ancestral comum do que qualquer influ�ncia direta. Vejamos o caso de Oannes, por exemplo. "Oannes" � a vers�o grega do Uan sumeriano, o nome do ser anf�bio descrito, na Parte lI, que se acreditava que trouxe as artes e as per�cias da civiliza��o � Mesopot�mia. Lendas que datam de pelo menos 5.000 anos contam que Uan vivia no fundo do mar, emergindo todas as manh�s das �guas do golfo P�rsico para civilizar e ensinar � humanidade. Ser� uma coincid�ncia que uaana, na l�ngua maia, significasse "aquele que mora na �gua"? Vejamos tamb�m o caso de Tiamat, a deusa sumeriana do oceano e das for�as do caos primitivo, sempre apresentada como um monstro devorador. Segundo a tradi��o mesopot�mica, Tiamat voltou-se contra outras divindades e desencadeou um holocausto de destrui��o, antes de ser finalmente destru�da por Marduk, o her�i celestial: Ela, Tiamat, abriu a boca para devor�-lo. Ele liberou o vento maligno, e ela n�o conseguiu mais fechar os l�bios. Osventos terr�veis encheram-lhe a pan�a e o cora��o foi capturado, Ela ficou de boca escancarada, Ele lan�ou uma flecha, que lhe perfurou a pan�a, Suaspartes internas ele fendeu, e partiu-lhe em dois o cora��o, Tornou-a impotente e destruiu-lhe a vida, Derrubou-lhe o corpo e em cima dele se p�s de p�. De que maneira dar prosseguimento a um ato como esse? Marduk podia fazer isso. Olhando o cad�ver monstruoso da advers�ria, "concebeu obras de arte" e o grande plano da cria��o do mundo come�ou a tomar forma em sua mente. Seu primeiro ato foi abrir em dois o cr�nio de Tiamat e cortar-lhe as art�rias. Em seguida, quebrou-a em duas partes "como se fosse um peixe seco", usando uma metade para fazer o telhado dos c�us e a outra para criar a superf�cie da terra. Dos seios de Tiamat fez montanhas, do cuspe, nuvens, e ordenou que os rios Tigre e Eufrates flu�ssem de seus olhos". Lenda estranha, violenta, e antiqu�ssima. As antigas civiliza��es da Am�rica Central tiveram sua pr�pria vers�o dessahist�ria. Neste caso, Quetzalcoatl, em sua encarna��o de divindade criadora, assumiu o papel de Marduk, enquanto o de Tiamat era representado por Cipactli, o "Grande Monstro da Terra". Quetzalcoatl agarrou as pernas de Cipactli "enquanto ela nadava nas �guas


primevas e partiu-lhe o corpo em duas metades, uma parte formando o c�u e, a outra, a terra". Usando-lhe os cabelos e a pele, criou a relva, flores e ervas, "de seus olhos, po�os e fontes, e de seus ombros, montanhas". Ser�o esses paralelos peculiares entre os mitos sumeriano e mexicano apenas pura coincid�ncia ou poderiam ambos ter sido marcados pelas impress�es digitais de uma civiliza��o perdida? Se assim, as faces dos her�is dessa cultura antiga podem ter sido realmente talhadas em pedra e transmitidas como heran�as atrav�s de milhares de anos, �s vezes � vista de todos, em outras ocasi�es sepultadas, at� que fossem desenterradas, pela �ltima vez, por arque�logos em nossa era e recebido r�tulos como "Cabe�aOlmeca" e "Tio Sam". As faces desses her�is aparecem tamb�m em Monte Alb�n, onde, aparentemente, contam uma triste hist�ria. Monte Alb�n: A Queda dos Poderosos S�tio arqueol�gico que se pensa ter uns 3.000 anos, Monte Alb�n situa-se no topo de uma imensa colina artificialmente nivelada, a cavaleiro de Oaxaca. O s�tio consiste de uma enorme �rea retangular, a Grande Plaza, cercada por grupos de pir�mides e outros pr�dios, dispostos em rela��es geom�tricas precisas entre si. A impress�o geral causada pelo local � de harmonia e propor��o, emergindo de um plano bemestruturado e sim�trico. Seguindo os conselhos dos estudiosos do CICOM,com quem eu havia conversado antes de deixar Villahermosa, dirigi-me em primeiro lugar para o canto sudoeste mais distante do s�tio. Ali, empilhado frouxamente contra o lado de uma pir�mide baixa, estavam os objetos que haviam me levado a fazer toda aquela viagem: v�rias dezenas de estelas entalhadas, mostrando negros e caucasianos... iguais na vida... iguais na morte. Se uma grande civiliza��o realmente se perdeu nas brumas da hist�ria, e se essas esculturas contam parte de sua hist�ria, a mensagem transmitida � de igualdade racial. Ningu�m que tenha visto o orgulho, ou sentido o carisma, das grandes cabe�as de negros de La Venta poderia imaginar realmente que os modelos originais dessas esculturas magistrais tivessem sido escravos. Nem os homens de rosto fino e barba cerrada davam a impress�o de que tivessem dobrado os joelhos diante de algu�m. Eles, tamb�m, exibiam uma postura aristocr�tica.


Em Monte Alb�n, contudo, parecia ter sido talhado na pedra um registro da queda desses homens poderosos. E nada indicava que essa decad�ncia pudesse ter sido obra dos mesmos homens que haviam criado as esculturas de La Venta. O padr�o de artesanato era baixo demais para isso. Mas era ineg�vel - quem quer que tenham sido e por mais inferior que fosse seu trabalho - que essesartistas haviam tentado mostrar os mesmos sujeitos negr�ides e os mesmos caucasianos barbudos que eu vira em La Venta. Neste �ltimo local, as esculturas haviam refletido for�a, poder e vitalidade. Ali em Monte Alb�n, os estrangeiros not�veis eram cad�veres, todos nus, a maioria castrada, alguns dobrados em posi��o fetal, como se para evitar uma chuva de golpes, enquanto outros pareciam ca�dos, com as pernas frouxamente abertas. Arque�logos disseram que as esculturas mostravam "cad�veres de prisioneiros capturados em combate". Que prisioneiros? De que origem?


O local, afinal de contas, situava-se na Am�rica Central, no Novo Mundo, tinha sido constru�do milhares de anos antes de Colombo. Por isso mesmo, n�o era estranho que essas imagens de baixas no campo de batalha n�o mostrassem um �nico americano nativo, mas apenase exclusivamente tipos raciais do Velho Mundo? Por alguma raz�o, estudiosos ortodoxos nada achavam de enigm�tico nessa situa��o, mesmo que, por seus pr�prios c�lculos, as esculturas fossem extremamente antigas (datando de alguma �poca entre os anos 1000 e 600 a.C.). Como em outros locais, esse marco temporal fora obtido em testes com mat�ria org�nica encontrada conjuntamente com elas, e n�o nas pr�prias esculturas, que haviam sido entalhadas em estelas de granito e que por isso mesmo era dif�cil de datar objetivamente. Legado Uma inscri��o hierogl�fica refinada, ainda n�o decifrada, mas inteiramente desenvolvida, foi encontrada em Monte Alb�n, grande parte na mesma estela que as grosseiras figuras negr�ide e caucasiana. Acreditam especialistas que se trata "da escrita mais antiga conhecida no M�xico". Era claro tamb�m que o povo que vivera nesse local havia sido constitu�do de construtores talentosos e mais do que habitualmente preocupados com astronomia. Um observat�rio, consistindo de uma estrutura estranha, em forma de ponta de flecha, orienta-se em um �ngulo de 45� em rela��o ao eixo principal (que foi deliberadamente desviado em v�rios graus em rela��o � linha norte-sul). Penetrando no laborat�rio, descobri que era um labirinto de t�neis min�sculos, estreitos e de �ngremes escadasinternas, proporcionando linhas de visada para diferentes regi�es do c�u. O povo de Monte Alb�n, tal como o de Tres Zapotes, deixou prova clara de seu conhecimento de matem�tica, sob a forma de computa��es em barras e pontos. Haviam usado tamb�m o not�vel calend�rio, criado pelos olmecas e fortemente ligado aos maias, que surgira depois, e que prev� o fim do mundo no dia 23 de dezembro do ano 2012 de nossaera. Se o calend�rio e a preocupa��o com o tempo haviam sido partes do legado de uma civiliza��o antiga e esquecida, os maias devem ser classificados como seus herdeiros mais fi�is e inspirados. "O tempo", como disse o arque�logo Eric Thompson em 1950, "era o mist�rio supremo da religi�o maia, um tema que saturava o pensamento desse povo em uma extens�o sem paralelo na hist�ria da humanidade". Enquanto continuava minhas jornadas pela Am�rica Central, eu me sentia cada vez mais profundamente atra�do para os labirintos desseenigma estranho e intimidador.


CAP�TULO 20 Os Filhos dos Primeiros Homens Palenque, prov�ncia de Chiapas

A noite estava caindo. Sentado exatamente embaixo do canto nordeste do Templo das Inscri��es, de origem maia, olhei para o norte, por cima da selva que mergulhava na noite e onde a terra ca�a na dire��o da plan�cie de inunda��o de Usumacinta. O Templo, composto de tr�s c�maras, repousava no alto de uma pir�mide de nove n�veis, de pouco mais de 30m de altura. As linhas suaves e harmoniosas da estrutura davam-lhe uma apar�ncia de delicadeza, mas n�o de fraqueza. O monumento parecia s�lido, fincado na terra, duradouro - uma cria��o de pura geometria e imagina��o. Olhando para a direita, o Pal�cio, um espa�oso complexo retangular assentado sobre uma base piramidal, dominado por uma torre estreita de quatro andares, que se pensa ter sido usada como observat�rio astron�mico por sacerdotes maias. Por toda parte em volta, onde papagaios e araras de cores vivas passavam em v�os rasantes pelo topo das �rvores, havia certo n�mero de outras estruturas espetaculares, meio engolidas pela floresta que avan�ava. Entre elas, destacavam-se o Templo da Cruz Ornamentada com Folhas, o Templo do Sol, o Templo do Conde e o Templo do Le�o - nomes, sem exce��o, dados por arque�logos. Uma parte enorme daquilo que os maias haviam representado, cultivado, acreditado e lembrado de passadaseras estava irrecuperavelmente perdida. Embora tiv�ssemos h� muito tempo aprendido a ler as datas que eles atribu�am a determinados acontecimentos, est�vamos justamente come�ando a obter progresso na decifra��o de seus complicados hier�glifos. Levantei-me, subi os �ltimos degraus e entrei na c�mara central do Templo. Encaixada na parede dos fundos, vi duas grandes lajes cinzentas e nelas, inscritos em linhas organizadas como pe�as em um tabuleiro de xadrez, observei 620 glifos maias separados. Tinham a forma de faces, monstruosas e humanas, juntamente com um besti�rio de criaturas m�ticas, vistas em contor��es. O que diziam aqueles glifos? Ningu�m sabia ao certo, porque as inscri��es, que constitu�am uma mistura de escrita pictogr�fica e s�mbolos fon�ticos, n�o haviam sido ainda inteiramente decodificadas. Era evidente, no entanto, que certo n�mero de glifos referiam-se a �pocas recuadas milhares de anos no passado e que falavam de homens e deusesque haviam desempenhado algum papel em eventos pr�-hist�ricos.


A Tumba de Pacal � esquerda dos hier�glifos, aberta nas imensas lajes do piso do templo, uma escada �ngreme descia para um n�vel que conduzia a uma c�mara, escondida profundamente nas entranhas da pir�mide, a tumba do Senhor Pacal. Os degraus, de blocos de pedra calc�ria altamente polidos, eram estreitos e surpreendentemente escorregadios e �midos. Movendo-me de lado como caranguejo, acendi a lanterna el�trica e desci cauteloso pela escurid�o, apoiando-me o tempo todo na parede sul. Essaescada �mida tinha sido uma passagem secreta desde a data em que fora fechada, por volta do ano 683 d.C., at� junho de 1952, �poca em que o arque�logo mexicano Alberto Ruz levantou as lajes do ch�o do templo. Embora uma segunda tumba do mesmo tipo fosse descoberta em Palenque no ano de 1994, Ruz teve a honra de ser o primeiro homem a descobrir essa caracter�stica no interior de uma pir�mide do Novo Mundo. A escada fora deliberadamente enchida com entulho pelos construtores e mais de quatro anos se passaram antes que os arque�logos desimpedissem o local e chegassemao fundo.


Nesse momento, eles penetraram numa c�mara estreita, sustentada por modilh�es. Espalhados no ch�o, viram os esqueletos bolorentos de cinco ou, possivelmente, seis jovens v�timas sacrificiais. Uma imensa laje triangular era vis�vel na extremidade mais distante da c�mara. Ao remov�-la, Ruz descobriu uma tumba not�vel. Descreveu-a mais tarde como "uma enorme sala que dava a impress�o de talhada em gelo, um tipo de caverna, cujas paredes e teto pareciam ter sido planejados como superf�cies perfeitas, ou uma capela abandonada, com uma c�pula afestonada por cortinas de estalactites e de cujo ch�o subiam estalagmites, como gotas de cera de uma vela". A sala, com o teto tamb�m sustentado por modilh�es, media 9m de comprimento por 7m de altura. Nas paredes em volta, em altos-relevos de estuque, podiam ser vistas as figuras dos Senhores da Noite, com as pernas abertas - a "En�ade" das nove divindades que reinavam sobre as horas da escurid�o. No centro, e dominadas por essas figuras, havia um enorme sarc�fago monol�tico, fechado com uma laje, pesando cinco toneladas, de pedra caprichosamente entalhada. No interior do sarc�fago foi encontrado o esqueleto de um homem alto, vestido com um tesouro de ornamentos de jade. Uma m�scara mortu�ria composta de 200 fragmentos de jade havia sido afixada � face da caveira. Estes, supostamente, eram os restos mortais de Pacal, monarca de Palenque no s�culo VII d.C. As inscri��es informavam que o monarca tivera 80 anos � �poca de sua morte, embora o esqueleto vestido de jade encontrado pelos arque�logos parecessepertencer a um homem de metade dessaidade. Tendo chegado ao p� da escada, a uns 25m abaixo do ch�o do templo, cruzei a c�mara, onde se espalhavam os restos das v�timas sacrificiais, e olhei para a tumba de Pacal. O ar ali era �mido, recendendo a bolor e podrid�o e surpreendentemente frio. O sarc�fago, encaixado no piso da tumba, tinha uma forma curiosa, alargando-se estranhamente nos p�s, como se fosse um antigo caix�o de m�mia eg�pcia. Os caix�es, de madeira, possu�am bases largas, uma vez que, freq�entemente, eram colocados na vertical. O caix�o de Pacal era de pedra maci�a e se encontrava em posi��o rigorosamente horizontal. Por que, ent�o, os artes�os maias se deram a tanto trabalho para alargar sua base, quando deviam ter sabido que ela n�o serviria a nenhum fim �til? Poderiam estar eles copiando mecanicamente o projeto de algum modelo antigo, muito depois de a raison d'�tre do projeto ter sido esquecida? Tal como a cren�a sobre os perigos da vida ap�s a morte, o sarc�fago de Pacal n�o poderia ser exemplo de um legado comum que ligava o Egito antigo �s culturas antigas da Am�rica Central? De forma retangular, a pesada tampa de pedra do sarc�fago media 25cm de espessura, por 90cm de largura e 3,80m de comprimento. A tampa, igualmente, parecia ter sido modelada de acordo com o mesmo original que inspirara os magn�ficos blocos entalhados que os antigos eg�pcios haviam usado para id�ntico fim. Na verdade, a


tampa n�o teria parecido deslocada no Vale dos Reis. Mas havia uma grande diferen�a. A cena entalhada na parte superior do sarc�fago diferia de tudo que jamais saiu do Egito. Iluminada pelo feixe da lanterna, ela mostrava um homem de rosto escanhoado, vestido com o que parecia um traje justo, com mangas e pernas de cal�a fechadas nos pulsos e tornozelos com abotoaduras refinadas. O homem estava semi-reclinado em um assento individual de encosto curvo, que dava apoio � parte baixa das costas e �s coxas, com a nuca encostada confortavelmente em algum tipo de descanso para a cabe�a, enquanto olhava atentamente � frente. As m�os pareciam em movimento, como se estivesse operando alavancas e controles, os p�s descal�os cruzados frouxamente � frente. Seria ele Pacal, o rei maia? Em caso afirmativo, por que era mostrado operando algum tipo de m�quina? Ningu�m supunha que os maias tivessem possu�do m�quinas. Pensava-se que nem mesmo haviam descoberto a roda. Ainda assim, com pain�is laterais, rebites, tubos e outras engenhocas, a estrutura onde Pacal se encontrava reclinado lembrava muito mais um dispositivo tecnol�gico do que "a transi��o da alma viva de um homem para o reino dos mortos", como alegou uma autoridade, ou o rei "caindo nas mand�bulas descarnadasdo monstro da terra", como argumentou outra. Lembrei-me do "Homem como Serpente", o alto-relevo olmeca descrito no Cap�tulo 17. A imagem tamb�m parecia uma representa��o ing�nua de um artefato tecnol�gico. Al�m do mais, o "Homem como Serpente" fora achado em La Venta, onde estivera ligado a v�rias figuras barbudas, aparentemente caucasianas. A tumba de Pacal era pelo menos mil anos mais recente do que qualquer um dos tesouros de La Venta. N�o obstante, uma min�scula estatueta de jade encontrada junto do esqueleto, dentro do sarc�fago, parecia ser muito mais antiga do que outros artigos funer�rios tamb�m colocados no mesmo local. A estatueta representava um caucasiano idoso, usando manto longo, com barba pontuda em cavanhaque. A Pir�mide do Mago Uxmal Y�catan

Em uma tarde tempestuosa, a 700km ao norte de Palenque, comecei a subir os degraus de mais uma pir�mide. Era uma estrutura �ngreme, de forma oval e n�o mais quadrada, com 75m de comprimento na base e 27,50m de largura, e, al�m disso, muito alta, erguendo-se a 35m acima da plan�cie em volta.


Desde tempos imemoriais, essa estrutura, que de fato lembrava o castelo de um necromante, era conhecida como a "Pir�mide do Mago" e tamb�m como a "Casa do An�o". Esses nomes tinham origem numa lenda maia, que dizia que um an�o dotado de poderes sobrenaturais havia constru�do toda a estrutura em uma �nica noite. Os degraus, � medida que eu os galgava, pareciam cada vez mais perversamente estreitos. O instinto me dizia para me inclinar para a frente, me achatar contra o lado da pir�mide, e me agarrar ali com todas as for�as. Em vez disso, levantei a vista para o c�u irado e nublado. Bandos de aves voavam por ali, piando feito loucas, como se procurando abrigo contra um desastre iminente, e a grossa camada de nuvens baixas que havia tapado o sol algumas horas antes mostrava-se nesse momento t�o agitada por ventos fortes que parecia ferver. A Pir�mide do Mago n�o era absolutamente excepcional no sentido de estar associada a poderes sobrenaturais de an�es, cujas per�cias como arquitetos e pedreiros eram renomadas na Am�rica Central. "O trabalho de constru��o era f�cil para eles", declarava uma t�pica lenda maia. "Para eles, bastava assoviar e pesadas rochas se encaixavam em seus lugares." Uma tradi��o muito semelhante, como o leitor talvez se lembre, alega que os gigantescos blocos de pedra da misteriosa cidade andina de Tiahuanaco haviam sido "transportados pelo ar ao som de uma trombeta". Na Am�rica Central e nas distantes regi�es dos Andes, portanto, sons estranhos estiveram ligados � levita��o miraculosa de rochas maci�as. O que devia eu deduzir de tudo isso? Talvez, devido a alguma coincid�ncia, duas "fantasias" quase id�nticas tinham sido inventadas independentemente em �reas geograficamente muito distantes entre si. Esse fato, por�m, n�o parecia muito prov�vel. Tamb�m digna de considera��o era a possibilidade de que recorda��es comuns de uma antiga tecnologia de constru��o pudessem ter sido preservadas em hist�rias como essas, uma tecnologia capaz de i�ar pedras enormes do ch�o com "milagrosa" facilidade. Poderia ser relevante neste particular que mem�rias de milagres quase id�nticos tivessem sido preservadas no antigo Egito? Nessa regi�o, contava uma tradi��o local t�pica que um mago erguera no ar "um cofre imenso de pedra de 200 c�vados de comprimento por 50 de largura"?


Os lados da escada que eu subia eram ricamente decorados com o que o explorador americano do s�culo XIX, John Lloyd Stephens, descreveu como "uma esp�cie de mosaico esculpido". Curiosamente, embora a Pir�mide do Mago tivesse sido constru�da muitos s�culos antes da conquista, o s�mbolo mais mostrado nesses mosaicos era algo muito parecido com uma cruz crist�. Na verdade, havia dois tipos diferentes de cruzes "crist�s": a primeira, a croix-patte de bra�os largos, preferida pelos templ�rios e outras ordens de cruzados dos s�culos XII e XIII, e, a segunda, a cruz em forma de X de Santo Andr�. Ap�s subir mais um curto lance de degraus, cheguei ao templo, situado no pr�prio topo da Pir�mide do Mago. Consistia a estrutura de uma c�mara com teto sustentado por modilh�es, no qual se penduravam in�meros morcegos. Tal como as aves e as nuvens, eles estavam visivelmente perturbados com a sensa��o de que uma grande tempestade era iminente. Em uma massapeluda, eles se mexiam inquietos para cima e para baixo, fechando e abrindo as pequenasasascori�ceas. Parei para descansar um pouco na alta plataforma em volta da c�mara. Da�, olhando para baixo, vi muito mais cruzes. Elas estavam literalmente em todos os lugares nessa bizarra e antiga estrutura. Lembrei-me da cidade andina de Tiahuanaco e das cruzes nela gravadas, nos distantes tempos pr�-colombianos, em alguns dos grandes blocos


de pedra espalhados em volta do edif�cio conhecido como Puma Punku. No "Homem como Serpente", a escultura olmeca de La Venta, duas cruzes de Santo Andr� j� haviam sido gravadas muito antes do nascimento de Cristo. E nesse momento, na Pir�mide do Mago, no s�tio arqueol�gico maia de Uxmal, eu as reencontrava. Homens barbudos... Serpentes... Cruzes... Que probabilidade havia de que fosse mero acaso que s�mbolos t�o diferentes como esses se repetissem em culturas separadas por enormes dist�ncias e em diferentes per�odos da hist�ria? Por que eram gravados com tanta freq��ncia no contexto de obras de arte e esculturas sofisticadas? Uma Ci�ncia de Profecia N�o pela primeira vez, desconfiei que pudesse estar olhando para signos e �cones deixados por algum culto ou sociedade secreta que tentara manter, acesa na Am�rica Central, a luz da civiliza��o (e, talvez, em outros locais) em longas eras de trevas. Achei not�vel que os temas do homem barbudo, da Serpente Emplumada e da cruz reaparecessem em todas as ocasi�es, e em todos os locais, onde eram encontrados ind�cios de que uma civiliza��o tecnologicamente avan�ada e ainda n�o identificada poderia, outrora, ter mantido contato com culturas nativas. E uma atmosfera de grande antiguidade envolvia esse contato, como se tivesse ocorrido em uma data t�o remota que fora quaseesquecida. Pensei mais uma vez na maneira s�bita como os olmecas haviam surgido, por volta de meados do segundo mil�nio a.C., emergindo dos redemoinhos nevoentos de uma pr�hist�ria opaca. Toda evid�ncia arqueol�gica indicava que, desde o in�cio, eles haviam venerado enormes cabe�as de pedra e estelas com representa��es de homens barbudos. Eu me sentia cada vez mais atra�do para a possibilidade de que algumas dessas not�veis pe�as de escultura pudessem ter sido parte de uma vasta heran�a de civiliza��o, transmitida aos povos da Am�rica Central muitos milhares de anos antes do segundo mil�nio a.C. e, em seguida, confiada � guarda de um culto de sabedoria secreta, talvez o culto de Quetzalcoatl. Muita coisa havia sido perdida. N�o obstante, as tribos dessa regi�o - em especial, os maias, os construtores de Palenque e Uxmal - haviam preservado algo ainda mais misterioso e maravilhoso do que os mon�litos enigm�ticos, algo que se proclamava, com uma insist�ncia ainda maior, ser o legado de uma civiliza��o mais antiga e mais adiantada. Veremos no cap�tulo seguinte que se tratava da ci�ncia m�stica de um povo


antigo que consultava as estrelas, de uma ci�ncia do tempo, de medi��o e de predi��o - at� mesmo uma ci�ncia antiga de profecia - que os maias preservaram com a maior perfei��o. Juntamente com essa ci�ncia, eles herdaram mem�rias de uma inunda��o terr�vel e destrutiva da terra e um legado peculiar de conhecimento emp�rico, conhecimento este de uma ordem mais alta que eles, realmente, n�o podiam ter possu�do, conhecimento este que s� recentemente readquirimos.

CAP�TULO 21 Um Computador para Calcular o Fim do Mundo Os maias sabiam a origem de seus conhecimentos adiantados. Eles lhes haviam sido transmitidos, diziam, pelos Primeiros Homens, as criaturas de Quetzalcoatl, que eram chamados de Balam-Quitz (o Jaguar do Doce Sorriso), Balam-Acab (o Jaguar da Noite), Mahucutah (O Nome Ilustre) e Iqui-Balam (o Jaguar da Lua). Segundo o Popol Vuh, esses antepassados eram dotados de intelig�ncia; viam e instantaneamente podiam enxergar longe; tinham sucesso em ver o que queriam; conseguiam saber tudo o que havia no mundo. Sem precisar se mover inicialmente, viam � dist�ncia coisas ocultas... Grande era a sabedoria deles; sua vista alcan�ava as florestas, as rochas, os lagos, os mares, as montanhas e os vales. Na verdade, eram homens admir�veis... Podiam saber tudo e examinavam os quatro cantos, os quatro pontos do c�u, e a face redonda da terra. As realiza��es dessa ra�a despertaram a inveja de v�rias das divindades mais poderosas. "N�o � bom que nossas criaturas saibam tudo", opinaram esses deuses. "N�o poderiam eles, talvez, se tornarem iguais a n�s, seus Criadores, que podemos ver longe, que sabemostudo e vemos tudo?... Dever�o eles, tamb�m, ser deuses?" Evidentemente, n�o se poderia permitir que continuasse tal estado de coisas. Ap�s alguma delibera��o, foram dadasordens e tomadas as medidas apropriadas: Que a vista deles alcance apenas o que est� pr�ximo; que eles vejam apenas um pouco da face da terra. (...) Em seguida, o Cora��o do C�u soprou-lhes nevoeiro nos olhos, como acontece quando se respira sobre um espelho. Velados os seus olhos, eles s� puderam ver o que estava perto, s� o que para eles era claro. (...) Dessa maneira, a sabedoria e todo conhecimento dos Primeiros Homens foram destru�dos.


Quem quer que conhe�a bem o Velho Testamento lembrar� que a raz�o da expuls�o de Ad�o e Eva do Jardim do �den teve a ver com preocupa��es divinas semelhantes. Depois de ter o Primeiro Homem comido do fruto da �rvore do conhecimento do bem e do mal, o Senhor Deus disse: "V�de, o homem tornou-se igual a n�s e conhece o bem e o mal. Ora, para que ele n�o estenda a m�o e tome tamb�m a �rvore da vida, dela coma e viva para sempre, expulsemo-Io do Jardim do �den..." O Popol Vuh � aceito por estudiosos como um grande reposit�rio de tradi��o pr�-colombiana isenta de contamina��o. Por isso mesmo, � estranho encontrar tais semelhan�as entre essas tradi��es e as que est�o registradas na hist�ria do G�nesis. Al�m do mais, tal como tantos outros elos entre o Velho Mundo/ Novo Mundo que j� identificamos, o car�ter das semelhan�as em nada sugere qualquer tipo de influ�ncia direta de uma regi�o sobre outra, mas duas interpreta��es diferentes do mesmo conjunto de eventos. Assim, por exemplo: . O Jardim do �den b�blico parece uma met�fora do estado de conhecimento bemaventurado, quase"divino", possu�do pelos "Primeiros Homens" do Popol Vuh. . A ess�ncia desseconhecimento era a capacidade de "ver tudo" e "saber tudo". N�o foi essa, exatamente, a capacidade que Ad�o e Eva adquiriram quando comeram do fruto proibido, que crescia nos ramos da "�rvore do conhecimento do bem e do mal"? . Finalmente, exatamente como Ad�o e Eva foram expulsos do �den, o mesmo aconteceu com os quatro Primeiros Homens do Popol Vuh, que foram privados da capacidade de "ver longe". Da� em diante, "seus olhos foram velados e eles s� puderam ver o que estava perto...". O Popol Vuh e o G�nesis, portanto, contam a hist�ria da queda da humanidade. Em ambos os casos, esseestado de gra�a esteve estreitamente associado a conhecimento e o leitor n�o pode ter d�vida de que o conhecimento em quest�o era t�o not�vel que conferia poderes divinos �queles que o detinham. A B�blia, adotando um tom sombrio e abafado, descreve-o como "conhecimento do bem e do mal" e nada mais tem a acrescentar. O Popol Vuh � muito mais informativo. Diz que o conhecimento dos Primeiros Homens consistia na capacidade de "ver coisas ocultas na dist�ncia", que eles eram astr�nomos que "examinavam os quatro cantos, os quatro pontos do arco do c�u", e tamb�m que eram ge�grafos que conseguiram "medir a face redonda da terra". Geografia diz respeito a mapas. Na Parte I, vimos a prova de que cart�grafos de uma civiliza��o ainda n�o identificada poderiam ter mapeado o planeta, com grande


minuciosidade, em uma data muito remota. Poderia o Popol Vuh estar transmitindo alguma mem�ria deturpada da mesma civiliza��o, quando falava nostalgicamente dos Primeiros Homens e do conhecimento geogr�fico milagroso que eles possu�am? Geografia diz respeito a mapas e astronomia diz respeito a estrelas. Com grande freq��ncia, as duas disciplinas andavam de m�os dadas, porque estrelas eram essenciais � navega��o em longas viagens mar�timas de descobrimento (e essas viagens eram essenciais � produ��o de mapas exatos). Teria sido por acaso que os Primeiros Homens do Popol Vuh fossem lembrados n�o s� por estudar "a face redonda da terra", mas por contemplarem o "arco do c�u"? E teria sido coincid�ncia que a realiza��o not�vel da sociedade maia fosse a astronomia baseada na observa��o, com a qual e com aux�lio de c�lculos matem�ticos avan�ados foi elaborado um calend�rio inteligente, complexo, sofisticado e, sobretudo, exato? Conhecimento que n�o se Encaixava Em 1954, J. Eric Thompson, uma destacada autoridade em arqueologia da Am�rica Central, confessou profunda confus�o diante de certo n�mero de disparidades gritantes, que havia identificado entre as realiza��es, em geral banais, dos maias como um todo e o avan�ado estado de seus conhecimentos de astros e calend�rio. "Que peculiaridade", perguntou ele, "teria levado a intelligentsia maia a mapear os c�us, mas, ainda assim, n�o conseguir compreender o princ�pio da roda; a visualizar a eternidade como nenhum povo semi-civilizado jamais fez, mas ignorar o curto passo do modilh�o para o verdadeiro arco; a contar em milh�es, mas nunca ter aprendido a pesar um saco de milho?". Talvez a resposta a essas perguntas seja muito mais simples do que Thompson pensava. Talvez a astronomia, a compreens�o profunda do tempo e os c�lculos matem�ticos aplic�veis a longo prazo n�o fossem "peculiaridades", absolutamente. Talvez fossem partes constituintes de um corpo de conhecimentos coerentes, mas muito espec�ficos que os maias herdaram, mais ou menos intacto, de uma civiliza��o mais antiga e mais s�bia. Essa heran�a explicaria as contradi��es observadas por Thompson e nenhuma necessidade h� de discutir esseponto. J� sabemos que os maias receberam o calend�rio, sob a forma de legado, dos olmecas (mil anos antes, os olmecasusavam exatamente o mesmo sistema). A pergunta pertinente, portanto, deve ser: onde os olmecas o conseguiram? Que tipo de n�vel de desenvolvimento tecnol�gico e cient�fico era necess�rio a uma civiliza��o para elaborar um calend�rio t�o perfeito como esse?


Vejamos o caso do ano solar. Na moderna sociedade ocidental, usamos ainda o calend�rio solar adotado na Europa em 1582 e que se baseia no melhor conhecimento cient�fico ent�o dispon�vel: o famoso calend�rio gregoriano. O calend�rio juliano, que ele substituiu, computava o per�odo da �rbita da terra em torno do sol em 365,25 dias. A reforma do papa Greg�rio XIII substituiu-o por um c�lculo mais refinado e exato: 365,2425 dias. Gra�as aos progressos cient�ficos realizados desde 1582, sabemos agora que a extens�o exata do ano solar � de 365,2422 dias. O calend�rio gregoriano, por conseguinte, cont�m um pequen�ssimo erro a mais, apenas 0,0003 de um dia - com uma precis�o impressionante para o s�culo XVI. Curiosamente, embora sua origem esteja envolvida na n�voa de uma antiguidade muito mais remota do que o s�culo XVI, o calend�rio maia revela uma exatid�o ainda maior, pois calculava o ano solar em 365,2420 dias, ou um erro para menos de apenas 0,0002de dia. Analogamente, os maias conheciam o tempo levado pela lua para completar uma �rbita da terra. Estimavam esse per�odo em 29,528395 dias - resultado este extraordinariamente pr�ximo do n�mero exato de 29,530588 dias, computado pelos m�todos modernos mais apurados. Ossacerdotes maias dispunham tamb�m de tabelas muito precisas para previs�o de eclipses solares e lunares e estavam cientes de que esses fen�menos ocorrem apenas dentro de mais ou menos 18 dias do nodo (isto �, quando a trajet�ria da lua cruza a trajet�ria aparente do sol). Para finalizar, os maias eram matem�ticos de extraordin�ria compet�ncia. Dominavam uma t�cnica avan�ada de c�lculo m�trico, usando um dispositivo em forma de tabuleiro de xadrez que s� descobrimos (ou redescobrimos) no s�culo passado. Eles, al�m disso, compreendiam perfeitamente e usavam o conceito abstrato do zero, e estavam por dentro da numera��o decimal. Essescampos s�o de natureza esot�rica. Ou, como observou Thompson: A cifra (zero) e os n�meros decimais fazem parte t�o integral de nossa heran�a cultural e parecem conveni�ncias t�o �bvias que � dif�cil compreender como sua inven��o possa ter demorado tanto. Ainda assim, nem a antiga Gr�cia, com seus grandes matem�ticos, nem a antiga Roma, tiveram a menor id�ia do zero ou dos n�meros decimais. Escrever 1848 em numerais romanos exigia onze letras: MDCCCXLVIII. Os maias, por�m, tinham um sistema de nota��o decimal muito parecido com o nosso, em uma �poca em que os romanos ainda usavam seu desajeitado m�todo.


N�o � estranho que essa tribo centro-americano, sob outros aspectos comum, tivesse topado por acaso, em uma data muito remota, com uma inova��o que Otto Neugebauer, historiador da ci�ncia, descreveu como "uma das mais f�rteis inven��es da humanidade". Ci�ncia de Alguma Outra Civiliza��o? Estudemos agora a quest�o de V�nus, um planeta que teve imensa import�ncia simb�lica para todos os povos antigos da Am�rica Central, que o identificavam ineludivelmente com Quetzalcoatl (Gucumatz ou Kukulkan, como a Serpente Emplumada era conhecida nos dialetos maias). Ao contr�rio dos gregos antigos, mas da mesma forma que os eg�pcios antigos, os maias sabiam que V�nus era simultaneamente "a estrela matutina" e a "estrela vespertina". E compreendiam tamb�m outras coisas. A "revolu��o sin�dica" de um planeta � o per�odo de tempo que ele leva para voltar a qualquer dado ponto no c�u da forma como � visto da terra. V�nus faz uma volta completa do sol a cada 224,7 dias, enquanto a terra segue sua �rbita ligeiramente mais longa. O resultado combinado desses dois movimentos � que V�nus surge no mesmo lugar no c�u da terra a aproximadamente cada 584 dias. Quem quer que tivesse inventado o sofisticado sistema de calend�rio herdado pelos maias sabia desse fato e encontrara maneiras engenhosas de integr�-lo em outros ciclos interligados. Al�m disso, � claro, tendo em vista a matem�tica que reuniu esses ciclos, que os antigos mestres do calend�rio compreendiam que 584 dias eram apenas uma aproxima��o e que os movimentos de V�nus n�o eram absolutamente regulares. Eles, em conseq��ncia, computaram o n�mero exato, estabelecido pela ci�ncia moderna, para a revolu��o sin�dica m�dia de V�nus durante um longo per�odo de tempo. Esse n�mero, de 583,92 dias, foi inclu�do no contexto do calend�rio maia atrav�s de numerosas, intrincadas e complexas maneiras. A fim de concili�-lo com o chamado "ano sagrado" (o tzolkin de 260 dias, que era dividido em 13 meses de 20 dias cada), o calend�rio previa uma corre��o de quatro dias, a ser feita a cada 61 anos venusianos. Al�m disso, durante cada quinto ciclo, uma corre��o de oito dias era feita ao fim da 57�. revolu��o. Uma vez tomadas essas provid�ncias, o tzolkin e a revolu��o sin�dica de V�nus ficavam entrela�ados t�o fortemente que o grau de erro ao qual a equa��o estava sujeita - espantosamente pequeno - era de um dia em 6.000 anos. E o que tornou tudo isso ainda mais not�vel foi que uma s�rie posterior de ajustamentos, calculados precisamente, manteve os ciclos de V�nus e os tzolkins n�o s� em harmonia entre si, mas em rela��o exata com o ano solar. Repetindo, isso foi feito de uma


maneira que assegurava que o calend�rio era capaz de realizar seu trabalho, virtualmente livre de erros, durante vastas extens�esde tempo. Por que os "semi-civilizados" maias precisavam desse tipo de precis�o de alta tecnologia? Ou teriam herdado, em bom estado, um calend�rio elaborado para atender as necessidadesde uma civiliza��o muito mais antiga e muito mais adiantada? Vejamos a j�ia m�xima do calend�rio maia, a chamada "Contagem � Longo prazo". Esse sistema de calcular datas expressava tamb�m cren�as no passado principalmente, a cren�a amplamente aceita de que o tempo operava em Grandes Ciclos, durante os quais ocorriam repetidas cria��o e destrui��o do mundo. De acordo com os maias, o atual Grande Ciclo come�ou na escurid�o em 4 Ahau 8 Cumku, uma data correspondente a 13 de agosto de 3114 a.C. em nosso calend�rio. Conforme vimos acima, eles acreditavam tamb�m que o ciclo chegaria ao fim, em meio a uma destrui��o global, no dia 4 Ahau 3 Kankin: ou 23 de dezembro de 2012 em nosso calend�rio. A fun��o da Contagem � Longo Prazo consistia em registrar a passagem do tempo desde o in�cio do atual Grande Ciclo, ou literalmente riscar, um ap�s outro, os 5.125 anos concedidos � nossaatual cria��o. A Contagem � Longo Prazo pode ser talvez mais bem compreendida como um tipo de m�quina de somar celeste, calculando e recalculando constantemente a escala de nossa d�vida crescente com o universo. Cada �ltimo tost�o dessa d�vida vai ser cobrado quando o n�mero no mostrador chegar a 5.125. Ou, pelo menos, era assim que os maias pensavam. Os c�lculos no computador da Contagem � Longo Prazo n�o eram, claro, feitos com os nossos algarismos. Os maias usavam uma nota��o pr�pria, que receberam dos olmecas, que a receberam... ningu�m sabe de quem. A nota��o era uma combina��o de pontos (significando um, unidades, ou m�ltiplos de vinte), barras (significando cinco, ou m�ltiplos de cinco vezes vinte) e um glifo em forma de concha que significava zero. Per�odos de tempo eram contados em dias (kin), per�odos de vinte dias (uinal), "anos computados" de 360 dias (tun), per�odos de 20 tuns (conhecidos como katun), e per�odos de 20 katuns (conhecidos como bactun). Havia tamb�m per�odos de 8.000-tun (pictun) e per�odos de 160.000-tun (calabtun), para abranger c�lculos ainda mais vastos. Tudo isso deve deixar claro que, embora acreditassem que estavam vivendo em um Grande Ciclo que certamente chegaria a um fim violento, os maias sabiam tamb�m que o tempo era infinito e que continuava com suas misteriosas revolu��es, ignorando vidas e civiliza��es individuais. Ou, como Thompson resumiu em seu grande estudo sobre a quest�o:


No esquema maia, a estrada percorrida pelo tempo estendia-se desde um passado t�o distante que a mente humana n�o lhe podia compreender a antiguidade. Ainda assim, os maias, destemidamente, voltaram a percorrer essa estrada, em busca de seu ponto de partida. Uma nova vis�o, levando-os ainda mais para tr�s, desdobrava-se em cada est�gio, s�culos completos fundiam-se em mil�nios e estes em dezenas de milhares de anos, enquanto esses incans�veis buscadores exploravam cada vez mais profundamente a eternidade do passado. Em uma estela encontrada em Quiriga, na Guatemala, aparece computada uma data de 90 milh�es de anos passados; em outra, era mostrada outra data, anterior em 300 milh�es de anos � primeira. Elas s�o computa��es reais, delas constando corretamente as posi��es de dia e m�s, e se comparam a c�lculos em nosso calend�rio que d�o as posi��es de meses em que a P�scoa teria ca�do em dist�ncias equivalentes no passado. O c�rebro cambaleia com essesn�meros astron�micos... N�o ser� tudo isso um tanto avant-garde para uma civiliza��o que, em muitos outros aspectos, n�o se distinguiu? � bem verdade que podemos considerar boa a arquitetura maia, dentro de limites. Mas pouqu�ssimo mais houve que esses �ndios, habitantes de florestas, fizessem de modo a sugerir que poderiam ter tido a capacidade (ou a necessidade) de conceber per�odos realmente longos de tempo. Passaram-se menos de dois s�culos desde que a maioria dos intelectuais do Ocidente abandonou a opini�o do bispo Usher, de que o mundo foi criado no ano 4004 a.C, e aceitou que ele deve ser infinitamente mais velho. Em palavras simples, isso significa que os antigos maias tinham uma compreens�o muito mais precisa da verdadeira imensid�o do tempo geol�gico, e da enorme antiguidade de nosso planeta, do que qualquer pessoa na Gr�-Bretanha, Europa e Am�rica do Norte, at� que Darwin prop�s a teoria da evolu��o. Se assim, como foi que os maias se tornaram t�o h�beis em lidar com per�odos de centenas de milh�es de anos? Seria isso uma aberra��o de desenvolvimento cultural? Ou teriam eles herdado as ferramentas do calend�rio e da matem�tica, que facilitaram seu trabalho e os tornaram capazes de desenvolver essa compreens�o sofisticada? Se houve uma heran�a, � leg�timo perguntar com que finalidade os inventores originais dos circuitos, semelhantes � fia��o de computadores, do calend�rio maia os criaram. Para que o haviam preparado? Teriam-no simplesmente concebido, com toda a sua complexidade, para criar "um desafio ao intelecto, uma esp�cie de gigantesco anagrama", como alegou uma autoridade?. Ou poderiam ter visado um objetivo mais pragm�tico e importante?


Vimos que a preocupa��o obsessiva da sociedade maia, e, na verdade, de todas as culturas antigas da Am�rica Central, consistia em calcular - e, se poss�vel, adiar - o fim do mundo. Poderia ser essa a finalidade para a qual o misterioso calend�rio fora concebido? Poderia ter sido um mecanismo para prever alguma terr�vel cat�strofe c�smica ou geol�gica? CAP�TULO 22 A Cidade dos Deuses A mensagem, em maioria esmagadora, de grande n�mero de lendas centroamericanas � que a Quarta Era do mundo acabou muito mal. A um dil�vio catastr�fico seguiu-se um longo per�odo no qual a luz do sol desapareceu do c�u e o ar se encheu de tenebrosa escurid�o. Em seguida: Osdeusesreuniram-se em Teotihuac�n ["o lugar dos deuses"] e perguntaram ansiosos uns aos outros quem devia ser o pr�ximo Sol. S� o fogo sagrado [a representa��o material de Huehueteotl, o deus que, no in�cio, criou a vida] poderia ser visto na escurid�o, ainda presente em seguida ao caos recente. "Algu�m vai ter que se sacrificar, lan�ar-se ao fogo", exclamaram eles. "e s� ent�o haver� um Sol." Seguiu-se um drama, no qual duas divindades (Nanahuatzin e Tecciztecatl) imolaramse pelo bem comum. Um deles queimou rapidamente no centro do fogo sagrado; o outro deixou-se assar lentamente nas brasasao lado da fogueira. "Os deusesesperaram durante longo tempo, at� que, finalmente, o c�u come�ou a ficar vermelho, como no amanhecer. No leste, apareceu a grande esfera do sol, sustentador de vida e incandescente..." E foi nesse momento de renascimento c�smico que Quetzalcoatl se manifestou. Sua miss�o tinha a ver com a humanidade da Quinta Era. Por isso mesmo, assumiu a forma de ser humano - de um homem branco barbudo, exatamente igual a Viracocha. Nos Andes, a capital de Viracocha foi Tiahuanaco. Na Am�rica Central, a de Quettalcoatl foi o suposto local de nascimento do Quinto Sol, Teotihuac�n, a cidade dos deuses. A Cidadela, o Templo e o Mapa do C�u Teotihuac�n, 50km a nordeste da Cidade do M�xico


No espa�o cercado, batido pelo vento da Cidadela, olhei para o norte, atrav�s da n�voa da manh�, e para as Pir�mides do Sol e da Lua. Aninhados em terreno verdeacizentado coberto de arbustos e emoldurados por distantes montanhas, esses dois grandes monumentos representavam seu papel em uma sinfonia de ru�nas enfileiradas ao longo do eixo da denominada "Rua dos Mortos". A Cidadela situa-se aproximadamente no centro dessa larga avenida, que corre em linha reta perfeita por mais de quatro quil�metros. A Pir�mide da Lua ergue-se na extremidade norte e, a do Sol, mais ou menos a leste. No contexto de um s�tio geom�trico dessa natureza, uma orienta��o exata norte-sul ou leste-oeste poderia ter sido esperada. Por isso mesmo, era surpreendente que os arquitetos que haviam planejado Teotihuac�n tivessem resolvido de caso pensado desviar a Rua dos Mortos a 15� 30' a leste do norte. H� v�rias teorias sobre o motivo por que essa orienta��o exc�ntrica foi escolhida, embora nenhuma especialmente convincente. N�meros crescentes de estudiosos, contudo, come�am a se perguntar se alinhamentos astron�micos n�o poderiam estar envolvidos, nesse caso. Um deles, por exemplo, sugeriu que a Rua dos Mortos poderia ter sido "constru�da para ficar de frente para o local onde se punham as Pl�iades, na �poca de sua constru��o". Outro, o professor Gerald Hawkins, aventou a hip�tese de que o eixo "S�rius-Pl�iades" poderia ter desempenhado tamb�m um papel na escolha da orienta��o. Stansbury Hagar (secret�rio do Departamento de Etnologia, do Brooklyn Institute of the Arts and Sciences), pensa que a rua poderia representar a Via L�ctea. Na verdade, Hagar foi ainda mais longe, vendo uma representa��o de planetas e estrelas espec�ficos em muitas das pir�mides, c�moros e outras estruturas, que pairavam como sat�lites fixos em torno do eixo da Rua dos Mortos. Sua tese completa diz que Teotihuac�n foi projetada como uma esp�cie de "mapa do c�u": "Ela reproduz na terra um suposto plano celeste do c�u-mundo onde residiam as divindades e o esp�rito dos mortos".


Nas d�cadasde 1960 e 1970, as intui��es de Hagar foram submetidas a testes de campo por Hugh Harleston Jr., engenheiro americano residente no M�xico, que realizou um levantamento matem�tico exaustivo em Teotihuac�n. Em outubro de 1974, no Congresso Internacional de Americanistas, Harleston divulgou seus resultados. O trabalho, rico em id�ias ousadas e inovadoras, cont�m algumas informa��es muito curiosas sobre a Cidadela e sobre o Templo de Quetzalcoatl, localizado na extremidade leste dessagrande pali�ada quadrada. O templo � considerado pelos estudiosos como um dos monumentos arqueol�gicos mais bem preservados da Am�rica Central. Isso aconteceu porque a estrutura original, pr�-hist�rica, foi parcialmente sepultada sob outro c�moro muito posterior, situado imediatamente � frente, na dire��o oeste. Escava��es realizadas nesse c�moro


revelaram a elegante pir�mide em seis n�veis que eu tinha nesse momento diante dos olhos, com 22m de altura e uma �rea de base de 7,615 m2. Exibindo ainda vest�gios da pintura original multicolorida que a revestira na antiguidade, o templo, nesse momento � vista, constitu�a um espet�culo belo e estranho. O motivo escultural predominante � uma s�rie de imensas cabe�as de serpente, projetando-se em tr�s dimens�esdos blocos laterais e revestindo os lados da maci�a escadaria central. As mand�bulas alongadas desses r�pteis estranhamente human�ides eram ricamente providas de presas e no l�bio superior podia-se ver uma esp�cie de bigode, tipo guidom de bicicleta. O pesco�o de todas as serpentes era orlado por um refinado conjunto de penas - o s�mbolo inconfund�vel de Quetzalcoatl. O que as investiga��es de Harleston demonstraram foi que uma rela��o matem�tica complexa parecia existir entre as principais estruturas alinhadas ao longo da Rua dos Mortos (e, na verdade. al�m dela). A rela��o sugeria algo de extraordin�rio, isto �, que Teotihuac�n poderia ter sido originalmente projetada como um modelo, em escala precisa, do sistema solar. De qualquer modo, se a linha central do Templo de Quetzalcoatl fosse aceita como denotando a posi��o do sol, marcadores dela, partindo na dire��o norte e ao longo do eixo da Rua dos Mortos, pareceriam indicar as dist�ncias orbitais corretas dos planetas interiores, do cintur�o de aster�ides, de J�piter, de Saturno (representado pela denominada Pir�mide do "Sol"), de Urano (pela Pir�mide da "Lua") e Netuno e Plut�o por c�moros ainda n�o escavados, situados a alguns quil�metros mais ao norte. Se essas correla��es foram mais do que coincid�ncias, ent�o, no m�nimo, elas indicavam a presen�a em Teotihuac�n de uma astronomia de observa��o avan�ada, que s� foi ultrapassada pela ci�ncia moderna em data relativamente recente. A exist�ncia de Urano permaneceu desconhecida de nossos pr�prios astr�nomos at� 1787, Netuno at� 1846 e Plut�o at� 1930. At� mesmo a estimativa mais conservadora da antiguidade de Teotihuac�n, em contraste, sugere que os principais elementos do plano urbano (incluindo a Cidadela, a Rua dos Mortos e as Pir�mides do Sol e da Lua) devem datar, de pelo menos, do tempo de Cristo. Nenhuma civiliza��o conhecida dessa�poca, no Velho ou no Novo Mundo, teria supostamente qualquer conhecimento dos planetas exteriores - quanto mais informa��es exatas a respeito das dist�ncias orbitais que eles mantinham entre si e em rela��o ao sol. Egito e M�xico - Meras Coincid�ncias? Ap�s completar estudos das pir�mides e avenidas de Teotihuac�n, concluiu Stansbury Hagar: "N�o compreendemos ainda a import�ncia, o refinamento, ou a distribui��o


geral, em toda a Am�rica antiga, do culto astron�mico, do qual o plano celeste era um aspecto e do qual Teotihuac�n foi um dos principais centros." Mas teria sido simplesmente um "culto" astron�mico? Ou foi alguma coisa que se aproximasse mais daquilo que poder�amos chamar de ci�ncia? E, fosse culto ou ci�ncia, seria real�stico supor que tivera "distribui��o geral" apenas nas Am�ricas, quando existem tantos ind�cios ligando-a a outras regi�es do mundo antigo? �rqueo-astr�nomos, por exemplo, usando os programas de computador mais modernos de mapeamento estelar, demonstraram recentemente que as tr�s mundialmente famosas pir�mides do Egito, no plat� de Giz�, formam um diagrama terrestre exato dos tr�s cintur�es de estrelas da constela��o de �rion. Mas essen�o foi o limite do mapa celeste criado pelos sacerdotes do antigo Egito nas areias da margem oeste do Nilo. Inclu�do na vis�o geral, conforme veremos nas Partes VI e VII deste livro, havia um acidente geogr�fico natural - o rio Nilo - que estava exatamente onde devia ter estado, se tivesse sido criado para representar a Via L�ctea. A incorpora��o de um "plano celeste" em s�tios arqueol�gicos de grande import�ncia no Egito e no M�xico n�o exclu�a, de maneira alguma, fun��es religiosas. Pelo contr�rio, o que mais quer que tenha sido sua finalidade, � certo que os monumentos de Teotihuac�n, como os do plat� de Giz�, desempenharam importantes pap�is religiosos na vida das comunidades a que serviam. As tradi��es centro-americanas, compiladas pelo padre Bernardino de Sahagun no s�culo XVI, davam express�o eloq�ente � cren�a geral que Teotihuac�n preenchera pelo menos uma fun��o religiosa espec�fica e importante nos tempos antigos. De acordo com essas lendas, a Cidade dos Deuses era assim conhecida porque "os Senhores l� enterrados, n�o pereceram ap�s sua morte, mas se transformaram em deuses...". Em outras palavras, Teotihuac�n era "o local onde homens se transformavam em deuses". E era ainda conhecida como "o lugar daqueles que palmilhavam a estrada dos deuses" e "o lugar onde deuseseram criados". Seria uma coincid�ncia, especulei, que esta parecesse ter sido a finalidade das tr�s pir�mides de Giz�? Os hier�glifos arcaicos dos Textos das Pir�mides, o conjunto coerente mais antigo de escrita existente no mundo, pouco espa�o deixa para d�vida de que o objetivo final dos rituais realizados no interior dessasestruturas colossais era produzir a transfigura��o do falecido fara� - "escancarar as portas do firmamento e abrir uma estrada", de modo que ele pudesse"ascender para a companhia dos deuses". A id�ia de pir�mides como meios destinados (presumivelmente, em algum sentido metaf�sico) a "transformar homens em deuses" era, em minha opini�o, excessivamente estranha e peculiar para ter surgido independentemente no antigo


Egito e no antigo M�xico. O mesmo acontecia com a id�ia de usar a planta arquitet�nica dos s�tios sagrados para incorporar um plano celeste. Al�m disso, havia outras estranhas semelhan�asque mereciam ser investigadas. Da mesma forma que em Giz�, tr�s pir�mides principais haviam sido constru�das em Teotihuac�n: a Pir�mide/Templo de Quetzalcoatl, a Pir�mide do Sol e a Pir�mide da Lua. Como em Giz�, o plano do s�tio n�o era sim�trico, como se poderia ter esperado, e envolvia duas estruturas em alinhamento direto entre si, enquanto que a terceira parecia ter sido deliberadamente deslocada para um lado. Por �ltimo, em Giz�, os topos da Grande Pir�mide e da Pir�mide de Qu�fren est�o no mesmo n�vel, mesmo que a primeira seja uma estrutura mais alta do que a segunda. De igual maneira, em Teotihuac�n, os topos das pir�mides do Sol e da Lua est�o no mesmo n�vel, mesmo que a primeira seja mais alta. A raz�o era a mesma em ambos os casos: a Grande Pir�mide havia sido constru�da em terreno mais baixo do que a Pir�mide de Qu�fren e, a Pir�mide do Sol, em terreno mais baixo do que a Pir�mide da Lua. Poderia tudo isso ser coincid�ncia? N�o seria mais l�gico concluir que houve uma liga��o entre o M�xico e o Egito nos tempos antigos? Pelas raz�es que descrevi nos Cap�tulos 18 e 19, eu duvidava que tivesse havido um elo direto, causal - de qualquer modo, nos tempos hist�ricos. Mais uma vez, contudo, como no caso do calend�rio maia e dos velhos mapas da Ant�rtida, n�o seria bom manter a mente aberta para a possibilidade de estarmos lidando com um legado; que as pir�mides do Egito e as ru�nas de Teotihuac�n pudessem expressar a tecnologia, o conhecimento geogr�fico, a astronomia baseada na observa��o (e, talvez, tamb�m na religi�o) de uma civiliza��o esquecida, que havia outrora, como alega o Popul Vuh, "examinado os quatro cantos, os quatro pontos do arco do c�u e a face redonda da terra"? H� acordo geral entre os especialistas sobre a antiguidade das pir�mides de Giz�, que eles pensam ter cerca de 4.500 anos. Mas nenhuma unanimidade semelhante existe no tocante a Teotihuac�n. Nem a Rua dos Mortos, nem o Templo de Quetzalcoatl, nem as pir�mides do Sol e da Lua foram jamais definitivamente datadas. A maioria dos estudiosos acredita que a cidade floresceu entre os anos 100 a.C. e 600 d.C., embora outros argumentem convincentemente que elas deviam ter surgido muito mais cedo, entre os anos 1500 e 1000 a.C. Mas h� ainda outros que tentam, baseados principalmente em fundamentos geol�gicos, empurrar a data da funda��o para o ano 4000 a.C., antes da erup��o do Xitli, um vulc�o pr�ximo. Em meio a toda incerteza sobre a idade de Teotihuac�n, n�o fiquei surpreso ao descobrir que ningu�m fazia a mais vaga id�ia da identidade dos que tinham realmente constru�do a maior e mais not�vel metr�pole que jamais existiu no Novo


Mundo pr�-colombiano. Tudo que se podia dizer com certeza era o seguinte: quando os astecas, em sua marcha para obter o poder imperial, descobriram acidentalmente, no s�culo XII d.C., a misteriosa cidade, seus edif�cios e avenidas colossais j� eram velhos al�m do que se podia imaginar e t�o densamente cobertos por vegeta��o que pareciam mais aspectos naturais do que obra do homem. Ligados a eles, por�m, havia um fio de lenda local, transmitido de uma gera��o a outra, que dizia que as estruturas haviam sido constru�das por gigantes e que tinham por finalidade transformar homens em deuses. Ind�cios de uma Sabedoria Esquecida Deixando para tr�s o Templo de Quetzalcoatl, voltei a cruzar a Cidadela, tomando a dire��o oeste. N�o havia evid�ncia arqueol�gica de que esse enorme espa�o fechado tivesse algum dia servido como cidadela - ou, por falar nisso, servido a qualquer tipo de fun��o militar ou defensiva. Tal como tantas coisas mais a respeito de Teotihuac�n, as obras tinham sido planejadas com laborioso cuidado e executadas com um esfor�o enorme, embora a cultura moderna n�o tenha conseguido identificar sua verdadeira finalidade. Nem mesmo os astecas, os respons�veis pelos nomes de Pir�mides do Sol e da Lua (nomes que "pegaram", embora ningu�m tenha a menor id�ia do nome pelo qual os construtores as haviam designado), conseguiram inventar um nome para a Cidadela. Coube aos espanh�is fazer isso - uma vaidade compreens�vel, j� que o p�tio central de 14ha da La Ciudadela era cercado por um aterro maci�o de mais de 7 m de altura e 45m de comprimento de cada lado. O passeio levou-me nesse momento � extremidade oeste do p�tio. Subi um abrupto lance de degraus, cheguei ao alto do aterro e virei-me para o sul e a Rua dos Mortos. Mais uma vez, tive de lembrar a mim mesmo que isto n�o era, quase com certeza, o que os teotihuacanos (quem quer que tivessem sido) chamaram de a imensa e impressionante avenida. O nome espanhol, Calle de los Muertos, era de origem asteca, e baseado aparentemente na especula��o de que os numerosos c�moros de cada lado da rua eram sepulturas (o que, descobriu-se mais tarde, n�o eram). J� consideramos a possibilidade de que o Caminho dos Mortos possa ter servido como uma contrapartida terrestre da Via L�ctea. De interesse nesse particular foi o trabalho de outro americano, Alfred E. Schlemmer, que - tal como Hugh Harleston Jr. - era engenheiro. O campo de estudo de Schlemmer era a previs�o tecnol�gica, com refer�ncia espec�fica � previs�o de terremotos31, sobre a qual apresentou um trabalho


na XI Conven��o Nacional de Engenheiros Qu�micos (realizada na Cidade do M�xico, em outubro de 1971). O argumento de Schlemmer era que a Rua dos Mortos talvez jamais tivesse sido uma rua. Em vez disso, poderia ter sido constru�da originariamente como uma s�rie de po�os refletores interligados, cheios de �gua, que descia atrav�s da Pir�mide da Lua, situada na extremidade norte, por interm�dio de uma s�rie de eclusas que terminavam na Cidadela, ao sul. Andando na dire��o norte para chegar � ainda distante Pir�mide da Lua, achei que essa teoria tinha v�rios pontos em seu favor. Para come�ar, a "rua" era bloqueada a intervalos regulares por altos muros divis�rios, aos p�s dos quais os restos de eclusas bem-feitas podiam ser vistos claramente. Al�m do mais, o tipo do terreno teria facilitado um fluxo hidr�ulico norte-sul, uma vez que a base da Pir�mide da Lua se situava em um terreno aproximadamente 33m mais alto do que a �rea em frente � Cidadela. As se��es separadas poderiam ter sido facilmente enchidas com �gua e, na verdade, ter servido como po�os refletores, criando um espet�culo muito mais dram�tico do que os oferecidos pelo Taj Mahal ou os famosos Jardins Shalimar. Finalmente, o Projeto de Mapeamento Teotihuac�no (financiado pela Funda��o Nacional de Ci�ncias, de Washington, D.C., e dirigido pelo professor Rene Millon, da Universidade de Rochester) havia demonstrado conclusivamente que a antiga cidade possu�ra "numerosos canais e sistemas de distribui��o de �gua cuidadosamente constru�dos, artificialmente dirigidos para segmentos retos de um rio, que formava uma rede dentro de Teotihuac�n e seguia na dire��o do lago Texcoco, neste momento situado a 16km de dist�ncia, embora, talvez, no passado, mais perto". Era grande a discuss�o sobre o fim para o qual fora constru�do esse enorme sistema hidr�ulico. O argumento de Schlemmer era que a rede especial que descobrira tinha sido constru�da para servir a uma finalidade pragm�tica, como "monitor s�smico a longo prazo" - como "parte de uma ci�ncia antiga, ora desconhecida". Observou ele que terremotos que ocorrem em locais remotos "podem fazer com que ondas se formem em uma superf�cie l�quida at� no outro lado do planeta", e sugeriu que os po�os refletores cuidadosamente graduados e espa�ados da Rua dos Mortos poderiam ter sido constru�dos "para permitir aos teotihuac�nos interpretar, � vista das ondas ali formadas, a localiza��o e a for�a de terremotos em todo o globo, o que lhes permitiria prever uma ocorr�ncia dessetipo em sua pr�pria �rea".


N�o havia, claro, prova da teoria de Schlemmer. N�o obstante, quando me lembrei da obsess�o com terremotos e inunda��es, vis�vel em toda a mitologia mexicana, e da preocupa��o, igualmente obsessiva, com a previs�o de acontecimentos futuros,


evidente no calend�rio maia, senti-me menos inclinado a ignorar as conclus�es aparentemente for�adas do engenheiro americano. Se Schlemmer tinha raz�o, se os antigos teotihuacanos haviam realmente compreendido os princ�pios da vibra��o ressonante e os pusera em pr�tica na previs�o de terremotos, a implica��o era que dispuseram de uma ci�ncia avan�ada. E se indiv�duos como Hagar e Harleston estivessem certos - se, por exemplo, um modelo em escala do sistema solar havia sido tamb�m introduzido na geometria b�sica de Teotihuac�n -, tudo isso sugeria que a cidade era cria��o de uma civiliza��o cientificamente evolu�da e ainda n�o identificada. Continuei a andar na dire��o norte ao longo da Rua dos Mortos e virei para o leste e para a Pir�mide do Sol. Antes de chegar a esse grande monumento, contudo, parei para examinar o p�tio arruinado, cujo principal aspecto era um antigo "templo", que escondia um enigm�tico mist�rio sob seu ch�o de rocha. CAP�TULO 23 O Sol, a Lua e o Caminho dos Mortos Algumas descobertas arqueol�gicas s�o saudadas com grandes fanfarras; outras, por uma s�rie de raz�es, n�o. Nesta �ltima categoria temos de incluir a espessae extensa camada de l�minas de mica encontrada espremida entre dois dos n�veis superiores da Pir�mide do Sol, quando sondada em 1906 para fins de restaura��o. A falta de interesse com que a descoberta foi recebida, e a aus�ncia de quaisquer estudos de acompanhamento para determinar sua poss�vel fun��o, s�o inteiramente compreens�veis, porque a mica, que tinha um grande valor comercial, fora retirada e vendida logo que escavada. A culpa coube, aparentemente, a Leopoldo Bartres, que havia sido contratado pelo governo mexicano para restaurar a pir�mide corro�da pelo tempo. Houve uma descoberta muito mais recente de mica em Teotihuac�n (no "Templo da Mica"), mas que passou quase despercebida. Neste caso, � mais dif�cil explicar a raz�o do desinteresse,uma vez que a mica n�o foi saqueadae continua no mesmo lugar. Fazendo parte de um grupo de estruturas, o Templo da Mica situa-se em um p�tio a cerca de 300m da face oeste da Pir�mide do Sol. Imediatamente abaixo de um piso de pesadas lajes de rocha, as escava��es de arque�logos financiados pela Viking Foundation revelaram duas l�minas maci�as de mica, que haviam sido cuidadosa e deliberadamente instaladas, em alguma era extraordinariamente remota, por um povo que deve ter sido h�bil em cortar e manipular esse material. As folhas t�m 8,50m2 e formam duas camadassuperpostas.


A mica n�o � uma subst�ncia uniforme e cont�m tra�os de diferentes metais, dependendo do tipo de forma��o rochosa em que � encontrada. Costumeiramente, os metais incluem pot�ssio, alum�nio e tamb�m, em quantidades vari�veis, material ferroso e f�rrico, magn�sio, l�tio, mangan�s e tit�nio. Os elementos residuais no Templo da Mica em Teotihuac�n indicam que as l�minas sob o piso pertencem a um tipo que ocorre apenas no Brasil, a 3.200km de dist�ncia. Evidentemente, por conseguinte, os construtores do Templo devem ter sentido uma necessidade espec�fica desse tipo particular de mica e se mostraram dispostos a percorrer grandes dist�ncias para obt�-la, pois, de outra maneira, poderiam ter usado, com muito maior facilidade e simplicidade, a variedade dispon�vel no local. Ningu�m pensa imediatamente em mica como material de piso de finalidade geral. Seu uso para formar camadas sob pisos e, portanto, inteiramente ocultas, parece muito esquisito, quando nos lembramos que nenhuma outra estrutura nas Am�ricas, ou em qualquer outro lugar no mundo, apresenta uma caracter�stica como essas. � frustrante reconhecer que jamais poderemos determinar a posi��o exata, quanto mais a finalidade da grande l�mina que Bartres escavou e removeu em 1906 da Pir�mide do Sol. As duas camadasintactas no Templo da Mica, por outro lado, estando em um lugar onde n�o tinham qualquer finalidade decorativa, d�o a impress�o de que foram instaladas para realizar um determinado trabalho. Vale notar, de passagem, que a mica possui caracter�sticas que a tornam especialmente apropriada para uma larga faixa de aplica��es tecnol�gicas. Na ind�stria moderna, � usada na fabrica��o de capacitores e muito valorizada como isolante t�rmico e el�trico. � tamb�m opaca a n�utrons r�pidos e pode servir como moderador em rea��esnucleares. Apagando Mensagens do Passado Pir�mide do Sol, Teotihuac�n

Tendo subido uma s�rie de lances de degraus de pedra de mais de 60m de altura, cheguei ao cume e olhei para o z�nite. Era meio-dia do dia 19 de maio e o sol estava diretamente acima de mim, como voltaria a estar no dia 25 de julho. Nessasduas datas, e n�o por acaso, a face oeste da pir�mide fica orientada precisamente para a posi��o do sol poente. Um efeito mais curioso, mas igualmente deliberado, podia ser observado nos equin�cios, 20 de mar�o e 22 de setembro. Nessecaso, a passagem dos raios do sol, da dire��o sul para o norte, resultava, ao meio-dia, no apagamento progressivo de uma sombra perfeitamente reta, que corria ao longo de um dos n�veis mais baixos da


fachada oeste. O processo todo, de sombra total para ilumina��o completa, leva exatamente 66,6 segundos. O fen�meno se repete sem falha, um ano ap�s outro, desde que a pir�mide foi constru�da e continuar� assim at� que a estrutura gigantesca se desfa�a em p�. O que isso significa, claro, � que pelo menos uma das muitas fun��es da pir�mide tinha sido a de servir como um "rel�gio perene", assinalando com precis�o os equin�cios e, dessa maneira, facilitando corre��es do calend�rio, como e quando necess�rias, para indiv�duos aparentemente obcecados, como os maias, com a passagem e a medi��o do tempo. Outra implica��o � que os mestres-construtores de Teotihuac�n devem ter possu�do um conjunto enorme de dados astron�micos e geod�sicos e que os consultaram para erguer a Pir�mide do Sol na orienta��o precisa necess�ria para obter os desejadosefeitos relativos aos equin�cios. Nesse caso, houve planejamento e arquitetura da mais alta ordem. As pir�mides sobreviveram � passagem de mil�nios e a todo o trabalho de remodelamento de grande parte da casca externa, realizada na primeira d�cada deste s�culo pelo auto nomeado restaurador Leopoldo Bartres. Al�m de saquear uma prova insubstitu�vel, que poderia nos ter ajudado a compreender melhor as finalidades para as quais havia sido constru�da a enigm�tica estrutura, esse repulsivo lacaio do corrupto ditador do M�xico, Porfirio Diaz, mandou retirar a camada externa de pedra, argamassae reboco at� uma profundidade de mais de seis metros das faces norte, leste e sul. Osresultados foram catastr�ficos: a superf�cie subjacente de adobe come�ou a se dissolver com as pesadas chuvas e a acusar um deslizamento que amea�ava destruir toda a estrutura. Embora o deslizamento fosse detido com apressadas medidas de conten��o, nada poderia mudar o fato de que a Pir�mide do Sol tinha sido privada de quase todos os seus aspectos externos originais. De acordo com os modernos padr�es arqueol�gicos, cometeu-se, dessa maneira, um ato imperdo�vel de profana��o. Por causa dele, jamais compreenderemos a import�ncia de numerosas esculturas, inscri��es, altos-relevos e artefatos, que foram quasecom certeza eliminados com essesseis metros da cascaexterna. Mas essan�o foi a �nica ou mesmo a mais lament�vel conseq��ncia do vandalismo grotesco de Bartres. H� surpreendentes indica��es que sugerem que os construtores desconhecidos da Pir�mide do Sol poderiam ter incorporado intencionalmente dados cient�ficos em muitas das principais dimens�es da grande estrutura. Essa indica��o foi recolhida e extrapolada com base na face oeste intacta (que, n�o por acaso, era tamb�m a face onde os efeitos do equin�cio que se pretendia mostrar ainda podiam ser vistos), mas, gra�as a Bartres, nenhuma informa��o semelhante tem a menor probabilidade de ser colhida nas outras tr�s faces, devido �s altera��es arbitr�rias que nelas foram feitas.


Na verdade, ao distorcer a forma e tamanho originais de parte t�o grande da pir�mide, o "restaurador" mexicano privou possivelmente a posteridade de algumas das li��es mais importantes que os teotihuacanos teriam para ensinar. N�meros Eternos O n�mero transcendente pi � fundamental � matem�tica avan�ada. Com um valor ligeiramente superior a 3,14, � a raz�o entre o di�metro de um c�rculo e sua circunfer�ncia. Em outras palavras, se o di�metro de um c�rculo � de 30cm, a sua circunfer�ncia ser� de 30cm x 3,14 = 94,2cm. De id�ntica maneira, desde que o di�metro de um c�rculo � exatamente o dobro do raio, podemos usar pi para calcular, � vista do raio, a circunfer�ncia de qualquer c�rculo. Neste caso, contudo, a f�rmula � o comprimento do raio multiplicado por 2pi. Como ilustra��o, tomemos novamente um c�rculo de 30 cm de di�metro. O raio ser� de 15cm e a circunfer�ncia poder� ser obtida da seguinte maneira: 15cm x 2 x 3,14 = 75,36cm. Analogamente, um c�rculo com um raio de 24cm ter� uma circunfer�ncia de 150,72cm (24cm x 2 x 3,14) e um c�rculo com um raio de 17cm ter� uma circunfer�ncia de 106,76(17cm x 2 x 3,14). Essas f�rmulas, usando o valor de pi para calcular a circunfer�ncia, baseando-se em di�metro ou raio, aplicam-se a todos os c�rculos, qualquer que seja seu tamanho e, tamb�m, claro, a todas as esferas e hemisf�rios. Elas parecem relativamente simples mas s� quando adotamos um olhar retrospectivo. Ainda assim, pensa-se que essa descoberta, que representou um progresso revolucion�rio na matem�tica, s� foi feita relativamente tarde na hist�ria humana. A opini�o ortodoxa � que coube a Arquimedes, no s�culo 3 a.C. calcular pi corretamente, pela primeira vez, com o valor de 3,148. Pesquisadores n�o aceitam que qualquer matem�tico do Novo Mundo tenha jamais chegado perto do n�mero pi, antes da chegada dos europeus, no s�culo XVI. Por isso mesmo � de deixar a pessoa tonta descobrir que a Grande Pir�mide de Giz� (constru�da mais de 2.000 anos antes do nascimento de Arquimedes) e a Pir�mide do Sol, em Teotihuac�n, muito anterior � conquista, incorporam o valor de pi. E, al�m do mais, fazem isso em grande parte da mesma maneira, o que n�o deixa d�vida de que os construtores antigos de ambos os lados do Atl�ntico conheciam perfeitamente esse n�mero transcendente.


Os principais fatores implicados na geometria de qualquer pir�mide s�o os seguintes: 1) a altura do �pice sobre o solo e 2) o per�metro do monumento no n�vel do ch�o. No caso da Grande Pir�mide, a raz�o entre a altura original (146m) elevado a 9 e o per�metro (921m) elevado a 10 � a mesma que a raz�o entre o raio e a circunfer�ncia de um c�rculo, isto �, 2pi. Dessa maneira, se tomamos a altura da pir�mide e a multiplicamos por 2pi (como far�amos com o raio de um c�rculo para lhe calcular a circunfer�ncia), temos uma medida exata do per�metro do monumento (146m x 3,14 = 921m). Alternativamente, se viramos a equa��o pelo avesso e come�amos com a circunfer�ncia no n�vel do ch�o, obtemos um n�mero igualmente exato da altura do �pice (921m divididos por 2 dividido por 3,14 = 146m). Uma vez que � quase inconceb�vel que uma correla��o matem�tica t�o precisa pudesse ter sido obtida por acaso, somos obrigados a concluir que os construtores da


Grande Pir�mide conheciam bem o pi e que deliberadamente lhe incorporaram o valor �s dimens�esdo monumento. Vejamos agora a Pir�mide do Sol, em Teotihuac�n. O �ngulo de suas arestas � de 43,5� (contra os 52� no caso da Grande Pir�mide). O monumento mexicano tem uma inclina��o mais suave porque o per�metro de sua base, de 893m, n�o � muito menor do que o de sua equivalente eg�pcia, embora seu �pice seja consideravelmente mais baixo (de aproximadamente 71m, antes da "restaura��o" feita por Bartres). A f�rmula de 2pi que funcionou no caso da Grande Pir�mide n�o funciona com essas medidas. Com uma f�rmula de 4pi isso acontece. Dessa maneira, se tomamos a altura da Pir�mide do Sol (71m) e a multiplicamos por 4pi, obtemos mais uma vez uma leitura bem exata do per�metro: 71m x 4 x 3,14 = 893m. Esse resultado, claro, n�o pode ser mais coincid�ncia do que a rela��o de pi extrapolada a partir das dimens�es do monumento eg�pcio. Al�m do mais, o pr�prio fato de ambas as estruturas incorporarem as rela��es de pi (o que n�o acontece com qualquer outra pir�mide em ambos os lados do Atl�ntico) sugere convincentemente n�o s� a exist�ncia de conhecimento matem�tico avan�ado na antiguidade, mas algum tipo de finalidade comum subjacente. Conforme vimos, a desejada raz�o altura/per�metro da Grande Pir�mide (2pi) exigia a especifica��o de um �ngulo dif�cil e peculiar da inclina��o de suas arestas: 52�. De igual maneira, a desejada raz�o altura/per�metro da Pir�mide do Sol (4pi) exigia a especifica��o de um �ngulo igualmente exc�ntrico da aresta: 43,5�. Se n�o houvesse um motivo ulterior, teria sido certamente mais f�cil para os antigos arquitetos eg�pcios e mexicanos ter optado por 45� (que poderiam ter obtido facilmente e conferido dividindo em dois um �ngulo reto). Qual poderia ter sido o objetivo comum que levou os construtores, em ambos os lados do Atl�ntico, a ter tanto trabalho para estruturar o valor de pi com tanta precis�o nessesdois not�veis monumentos? Uma vez. que parece n�o ter havido contato direto entre as civiliza��es do M�xico e do Egito nos per�odos em que as pir�mides foram constru�das, n�o ser� razo�vel deduzir que, em alguma data remota, ambas herdaram certas id�ias de uma fonte comum? Ser� poss�vel que a id�ia compartilhada e expressa na Grande Pir�mide e na Pir�mide do Sol pudesse ter alguma coisa a ver com esferas, uma vez que estas, tais como as pir�mides, s�o objetos tridimensionais (enquanto que c�rculos, por exemplo, t�m apenas duas dimens�es)? O desejo de simbolizar esferas em monumentos tridimensionais com superf�cies planas explicaria por que tanto trabalho foi investido para assegurar que ambas incorporassem inconfund�veis rela��es de pi. Al�m do mais, parece prov�vel que a inten��o dos construtores dos dois monumentos n�o foi


simbolizar esferas em geral, mas focalizar aten��o em uma �nica esfera em particular: o planeta Terra. Passar� ainda muito tempo antes que arque�logos ortodoxos estejam prontos para aceitar a id�ia de que alguns povos do mundo antigo foram avan�ados o suficiente em ci�ncia para ter possu�do boas informa��es sobre a forma e o tamanho da Terra. N�o obstante, de acordo com os c�lculos de Livio Catullo Stecchini, professor americano de Hist�ria da Ci�ncia e especialista conhecido em medi��es antigas, � irrefut�vel a prova da exist�ncia desses conhecimentos an�malos na antiguidade. As conclus�es de Stecchini, que se relacionam principalmente com o Egito, s�o particularmente impressionantes, porque obtidas de dados matem�ticos e astron�micos que, por consenso, est�o al�m de qualquer d�vida bem fundamentada. Um exame mais completo dessasconclus�es, e da natureza dos dados em que se ap�iam, � apresentada na Parte VII. Nesta altura, contudo, algumas palavras de Stecchini podem lan�ar mais luz sobre o mist�rio que enfrentamos: A id�ia b�sica da Grande Pir�mide foi que ela deveria ser uma representa��o do hemisf�rio setentrional da terra, um hemisf�rio projetado sobre superf�cies planas, como � feito na elabora��o de mapas. (...) A Grande Pir�mide era uma proje��o sobre quatro superf�cies triangulares. O �pice representava o p�lo e o per�metro representava o equador. Esta � a raz�o por que o per�metro est� em uma rela��o de 2pi com a altura. A Grande Pir�mide representa o hemisf�rio setentrional em uma escala de 2:43.200. Na Parte VII veremos por que motivo foi escolhida essaescala. A Cidade Matem�tica Erguendo-se � frente enquanto eu me dirigia para a extremidade norte da Rua dos Mortos, a Pir�mide da Lua, por sorte n�o danificada pelos restauradores, mantivera a forma original de zigurate em quatro n�veis. A Pir�mide do Sol, igualmente, consistira de quatro andares. Bartres, por�m, havia caprichosamente criado um quinto n�vel entre o os originais terceiro e quarto. Havia, contudo, um aspecto original na Pir�mide do Sol que Bartres n�o conseguira desfigurar: uma passagem subterr�nea que sa�a de uma caverna natural situada sob a face oeste. Ap�s ter sido descoberta por acaso em 1971, a passagem havia sido exaustivamente estudada. De 2,10m de altura, descobriu-se que corria para leste por mais de 70m, at� chegar a um ponto pr�ximo do centro geom�trico da pir�mide. Ali


desembocava em uma segunda caverna, de generosas dimens�es, que havia sido artificialmente alargada e recebido uma forma muito semelhante a de um trevo de quatro folhas. As "folhas" eram c�maras, cada uma delas com cerca de 18m de circunfer�ncia, contendo grande variedade de artefatos, tais como discos de ard�sia belamente entalhados e espelhos altamente polidos. Havia tamb�m um complexo sistema de drenagem, formado por segmentos interligados de canos abertos na rocha. Este �ltimo aspecto era o mais enigm�tico, porque n�o havia dentro da pir�mide nenhuma fonte conhecida de �gua. As eclusas, por�m, pouca d�vida deixavam de que �gua deveria ter estado presente na antiguidade e, provavelmente, em grande quantidade. Essefato fazia-nos lembrar a prova de que �gua correu certa vez pela Rua dos Mortos, fato confirmado pelas comportas e divis�rias que eu vira antes ao norte da Cidadela e pela teoria de Schlemmer, referente a po�os refletores e previs�o de abalos s�smicos. Na verdade, quanto mais pensava no caso, mais me parecia que a �gua devia ter sido um motivo dominante em Teotihuac�n. Embora eu mal tivesse notado naquela manh�, o Templo de Quetzalcoatl fora decorado n�o s� com ef�gies da Serpente Emplumada, mas com um simbolismo aqu�tico inconfund�vel, notadamente um desenho ondulante sugestivo de ondas e grande n�mero de belos entalhes de conchas marinhas. Com essasimagens em mente, cheguei � larga pra�a � base da Pir�mide da Lua e a imaginei cheia d'�gua, como pode ter acontecido, a uma profundidade de uns 4m. O local teria parecido magn�fico, majestoso, impressionante e sereno. A Pir�mide Akapana, na distante Tiahuanaco, fora tamb�m cercada de �gua, que l� havia sido o motivo dominante - como nesse momento eu descobria que acontecia em Teotihuac�n. Comecei a subir a Pir�mide da Lua. Era menor do que a do Sol, na verdade, de menos da metade do tamanho e se estimava que tivesse uma massa de um milh�o de toneladas de pedra e terra, contra os dois milh�es e meio no caso da Pir�mide do Sol. Os dois monumentos, em outras palavras, tinham um peso combinado de tr�s e meio milh�es de toneladas. Era considerado improv�vel que esse volume de material pudesse ter sido manipulado por menos de 15.000 homens e se calculava ainda que mesmo tal for�a de trabalho teria levado pelo menos 30 anos para completar o enorme trabalho. Trabalhadores em n�mero suficiente teriam certamente existido nas vizinhan�as: o Projeto de Mapeamento de Teotihuac�n havia demonstrado que a popula��o da cidade, em seu auge, deveria ter chegado a umas 200.000 almas, tornando-a uma metr�pole maior do que a Roma Imperial dos C�sares. O Projeto provara ainda que os principais monumentos hoje vis�veis cobriam apenas uma pequena parte da �rea total


da antiga Teotihuac�n. No seu auge, a cidade devia ter coberto uma �rea de mais de 31km2, com aproximadamente 50.000 resid�ncias individuais e 200 blocos de apartamentos, 600 pir�mides e templos secund�rios, e 500 �reas de "f�bricas", especializadas em cer�mica, estatuetas, lapida��o, conchas marinhas, basalto, ard�sia e trabalho de moagem de pedra. Parei no topo da Pir�mide da Lua e virei-me lentamente. Do outro lado do ch�o do vale, que descia suavemente na dire��o sul, toda Teotihuac�n se estendia nesse momento diante de meus olhos - uma cidade geom�trica, projetada e constru�da por arquitetos desconhecidos, antes do in�cio do tempo hist�rico. A leste, a cavaleiro da Rua dos Mortos, reta como uma flecha, erguia-se, enorme, a Pir�mide do Sol, "imprimindo" eternamente a mensagem matem�tica com que fora programada h� longas eras, uma mensagem que parecia dirigir nossa aten��o para a forma da Terra. Tinha-se quase a impress�o de que a civiliza��o respons�vel pela constru��o de Teotihuac�n fizera a op��o deliberada de codificar informa��es complexas em monumentos duradouros e fazer isso usando linguagem matem�tica. Mas por que linguagem matem�tica? Talvez porque, pouco importando por que mudan�as e transforma��es extremas pudesse passar a civiliza��o humana, o raio de um c�rculo multiplicado por 2pi (ou metade do raio multiplicada por 4pi) daria sempre o n�mero correto da circunfer�ncia da terra. Em outras palavras, uma linguagem matem�tica poderia ter sido escolhida por motivos pr�ticos: ao contr�rio de qualquer l�ngua verbal, esse c�digo poderia ser sempre decifrado, at� mesmo por povos de culturas sem qualquer rela��o entre si que viessem a existir milhares de anos depois no futuro. N�o pela primeira vez, senti-me diante da possibilidade vertiginosa de que um epis�dio inteiro da hist�ria da humanidade pudesse ter sido esquecido. Na verdade, pareceu-me nessa ocasi�o, enquanto olhava do alto da Pir�mide da Lua para a cidade matem�tica, que nossa esp�cie poderia ter padecido de alguma forma terr�vel de amn�sia e que o per�odo de trevas t�o ing�nua e displicentemente denominado de "pr�-hist�ria" pudesseesconder verdades inimaginadas sobre nosso passado. O que � a pr�-hist�ria, afinal de contas, sen�o um tempo esquecido - um tempo sobre o qual faltam-nos registros? O que � a pr�-hist�ria sen�o uma �poca de obscuridade impenetr�vel, atrav�s da qual passaram nossosancestrais, mas sobre a qual n�o temos lembran�a consciente? E foi como remanescente dessa �poca de obscuridade, configurada em um c�digo matem�tico, de acordo com princ�pios astron�micos e geod�sicos, que Teotihuac�n, com todos os seus enigmas, chegou at� n�s. Dessa mesma �poca vieram as grandes esculturas olmecas, o calend�rio inexplicavelmente preciso e exato que os maias herdaram de seus predecessores, os geoglifos


inescrut�veis de Nazca, a misteriosa cidade andina de TIahuanaco... e tantas outras maravilhas cujas origens desconhecemos. Era quase como se tiv�ssemos despertado para a luz ensolarada da hist�ria ap�s um sono longo e sobressaltado e continu�ssemos ainda sobressaltados pelos ecos baixos, mas insistentes de nossossonhos...

Parte IV O Mist�rio dos Mitos 1. Uma Esp�cie com Amn�sia CAP�TULO 24 Ecos de Nossos Sonhos Em alguns dos mitos mais impressionantes e duradouros que herdamos dos tempos antigos, parece que nossa esp�cie reteve uma recorda��o confusa, mas persistente, de uma pavorosa cat�strofe global. De onde vem essesmitos? Por que, embora procedam de culturas sem rela��o entre si, seus temas s�o t�o parecidos? Por que est�o imbu�dos de um simbolismo comum? E por que falam, com tanta freq��ncia, dos mesmos personagens e enredos padronizados? Se s�o realmente mem�rias, por que n�o existem registros hist�ricos das cat�strofes planet�rias a que parecem aludir? Poderia acontecer que os pr�prios mitos sejam registros hist�ricos? Poderia acontecer que essashist�rias interessantes e imortais, compostas por g�nios an�nimos, tenham sido o meio usado para conservar informa��es desse tipo e transmiti-las ao longo do tempo, antes que come�assea hist�ria documentada? E a Arca Flutuou sobre a Face das �guas Houve na antiga Sum�ria um rei que buscava a vida eterna. Seu nome era Gilgamesh. Conhecemos suas aventuras atrav�s dos mitos e tradi��es da Mesopot�mia, que foram gravadas em escrita cuneiforme em tabuinhas de argila cozidas em forno. Milhares dessastabuinhas, algumas datadas do in�cio do terceiro mil�nio a.C., foram escavadas nas areias do moderno lraque. Elas contam uma hist�ria �mpar de uma cultura desaparecida e nos lembram que, mesmo naqueles dias da alta antiguidade, seres


humanos preservavam mem�rias de tempos ainda mais remotos tempos dos quais estavam separados pelo intervalo de um grande e terr�vel dil�vio: Proclamarei ao mundo as fa�anhas de Gilgamesh. Ele era o homem para o qual todas as coisas eram conhecidas; ele era o rei que conhecia os pa�ses do mundo. Ele era s�bio, enxergava dentro de mist�rios, conhecia coisas secretas e nos trouxe a hist�ria dos dias anteriores ao dil�vio. Ele partiu em uma longa jornada, ficou cansado, esgotado pela viagem. Ao voltar, repousou e gravou em uma pedra toda a hist�ria. A hist�ria trazida por Gilgamesh lhe foi contada por um certo Utnapishtim, um rei que governara seu povo milhares de anos antes, que sobrevivera ao grande dil�vio e fora premiado com o dom da imortalidade, porque tinha preservado as sementes da humanidade e de todas as coisasvivas. Isso aconteceu h� muito, muito tempo, disse Utnapishtim, numa �poca em que os deuses viviam na terra: Anu, senhor do firmamento, Enlil, o executor das decis�es divinas, Ishtar, a deusa da guerra e do amor sexual, e Ea, o senhor das �guas, amigo e protetor natural do homem. Naqueles dias, o mundo fervilhava de atividade, os homens se multiplicavam, o mundo mugiu como um touro e o grande deus foi acordado pelo clamor. Enlil ouviu o clamor e disse aos deuses, reunidos em conselho: "O barulho da humanidade � intoler�vel e sono n�o � mais poss�vel devido � balb�rdia." Em vista disso, os deuses concordaram em exterminar a humanidade. Ea, por�m, teve pena de Utnapishtim. Falando atrav�s da parede de cani�o da casa do rei, avisou-o da cat�strofe iminente e disse-lhe que constru�sse um barco, no qual ele e sua fam�lia poderiam sobreviver: Derruba tua casae constr�i um barco, abandona tuas possese procura a vida, despreza os bens mundanos e salva tua alma. (...) Derruba tua casa e constr�i um barco com suas dimens�es em propor��o - largura e comprimento em harmonia. P�e a bordo do barco as sementes de todas as coisasvivas. No momento exato, Utnapishtim construiu o barco, da forma ordenada. "Carreguei o barco com tudo o que tinha", disse ele, "carreguei-o com as sementes de todas as coisasvivas":


Embarquei todos os meus parentes, embarquei o gado, os animais selvagens da natureza, todos os tipos de artes�os. (...) O prazo foi cumprido. Quando a primeira luz do amanhecer surgiu, uma nuvem negra surgiu da base do c�u e trovejou no lugar onde Adad, o senhor da tempestade, cavalgava. (...) Um estupor de desespero subiu ao c�u, quando o deus da tempestade transformou a luz do dia em trevas, quando esmagou a terra como se ela fosse uma ta�a. (...) No primeiro dia, a tempestade soprou feroz e trouxe o dil�vio. (...) Nenhum homem podia ver seu companheiro. Nem os homens podiam ser diferenciados do c�u. At� os deuses ficaram com medo do dil�vio. Retiraram-se, subiram para o c�u de Anu e agacharam-se nas proximidades. Os deuses acovardaram-se como c�es de rua, enquanto Ishtar chorava, e exclamava em voz alta: "Dei � luz esses meus pr�prios filhos apenaspara encher o mar com seus cad�veres, como se eles fossem peixes?" Enquanto isso, continuou Utnapishtim: Durante seis dias e noites o vento soprou, e torrente, tempestade e inunda��o varreram o mundo, a tempestade e o dil�vio rugiram juntos como hostes em guerra. Ao raiar o s�timo dia, a tempestade vinda do sul amainou, o mar ficou calmo, o dil�vio parou. Olhei para a face do mundo e havia sil�ncio. A superf�cie do mar estendia-se t�o plana como um telhado. Toda a humanidade retornara ao p�. (...) Abri uma escotilha e luz caiu sobre minha face. Em seguida, curvei-me, sentei-me e chorei, l�grimas escorrendo pelo meu rosto, pois, por todos os lados, s� havia o deserto de �gua. (...) A quatorze l�guas de dist�ncia apareceu uma montanha e nela o barco encalhou. Na montanha de Nisir o barco se prendeu fortemente � terra, ficou im�vel e n�o se mexeu. (...) Quando o s�timo dia amanheceu, soltei uma pomba no ar. Ela voou para longe, mas, n�o achando lugar para pousar, voltou. Soltei em seguida uma andorinha, ela voou para longe, mas, n�o encontrando lugar para pousar, voltou. Soltei um corvo, ele viu que as �guashaviam baixado, comeu, voou em volta, grasnou e n�o voltou. Utnapishtim soube que, nessemomento, era seguro desembarcar: Verti uma liba��o sobre o cume da montanha. (...) Juntei madeira, cana, cedro e murta... Quando os deuses sentiram o doce aroma, eles se reuniram como moscas sobre o sacrif�cio. (...) Esses textos n�o s�o absolutamente os �nicos que chegaram at� n�s, com origem na terra antiga da Sum�ria. Em outras tabuinhas - algumas delas com quase 5.000 e,


outras, menos de 3.000 anos de idade - a figura "semelhante a No�" de Utnapishtim era variadamente conhecida como Zisudra, Xisuthros ou Atrahasis. Ainda assim, ele � sempre reconhec�vel como o mesmo personagem patriarcal, avisado pelo mesmo deus compassivo, que sobrevive ao mesmo dil�vio universal na arca sacudida pela tempestade e cujos descendentes repovoaram o mundo. H� muitas semelhan�as �bvias entre o mito do dil�vio mesopot�mico e a famosa hist�ria b�blica de No� e o dil�vio. Estudiosos discutem interminavelmente sobre a natureza dessas semelhan�as. O importante, por�m, � que, em todas as esferas de influ�ncia, a mesma tradi��o solene foi preservada para a posteridade - uma tradi��o que conta, em linguagem v�vida, uma cat�strofe global e a aniquila��o quase total da humanidade. Am�rica Central Mensagem id�ntica foi preservada no Vale do M�xico, muito distante dos montes Ararat e Nisir, ambos situados no outro lado do mundo. No M�xico, cultural e geograficamente isolado das influ�ncias judaico-crist�s, e em longas eras antes da chegada dos espanh�is, eram contadas tamb�m hist�rias sobre um grande dil�vio. Como o leitor recordar� pelo que dissemos na Parte III, reinava a cren�a em que o dil�vio assolara toda a terra, ao fim do Quarto Sol. "A destrui��o aconteceu sob a forma de chuvas torrenciais e inunda��es. As montanhas desapareceram e os homens foram transformados em peixes... De acordo com a mitologia asteca, sobreviveram apenas dois seres humanos: um homem, Coxcoxtli, e a esposa, Xochiquetzal, que um deus avisara do iminente cataclismo. Os dois escaparam em um imenso barco que haviam recebido ordens para construir e desembarcaram no cume de uma alta montanha. L� desceram e tiveram muitos filhos, todos mudos, que assim permaneceram at� que uma pomba, no alto de uma �rvore, lhes deu o dom das l�nguas. Essasl�nguas diferiam tanto entre si que as crian�as n�o podiam se entender. Uma tradi��o centro-americana semelhante, a de Mechoacanesecs, apresenta uma semelhan�a ainda mais not�vel com a hist�ria contada no G�nesis e por fontes mesopot�micas. De acordo com essa tradi��o, o deus Tezcatilpoca resolveu destruir toda a humanidade com um dil�vio, salvando apenas um certo Tezpi, que embarcou em uma espa�osacanoa com a esposa, filhos, e grande n�mero de animais e aves, bem como suprimentos de cereais e sementes, cuja preserva��o era essencial para o sustento futuro da ra�a humana. A canoa encalhou no cume de uma montanha, depois de ter Tezcatilpoca ordenado que as �guasdo dil�vio se retirassem. Desejando saber se era seguro desembarcar nesse momento, Tezpi soltou um abutre que, alimentando-se


das carca�as que cobriam a terra, n�o voltou. Ele enviou outras aves, das quais s� voltou o beija-flor, com um galho folhudo no bico. Com esse sinal de que a terra come�ava a se renovar, Tezpi e fam�lia desceram da arca, multiplicaram-se e repovoaram a terra. Recorda��es de uma terr�vel inunda��o causada por desagrado divino foram tamb�m preservadas no Popol Vuh. De acordo com esse texto arcaico, o Grande Deus resolveu criar a humanidade logo depois do in�cio do tempo. Era um experimento e ele come�ou com "figuras feitas de madeira, que pareciam homens e que falavam como homens". Essas criaturas ca�ram em desgra�a porque "n�o se lembravam de seu Criador": E assim um dil�vio foi desencadeado pelo Cora��o do C�u, um grande dil�vio foi formado e caiu sobre a cabe�adas criaturas de madeira. (...) Uma pesadaresina caiu do c�u. (..,) a face da terra se tornou escura e uma chuva negra come�ou a cair, dia e noite. (..,) As figuras de madeira foram aniquiladas, destru�das, quebradase mortas. Nem todos morreram, por�m. Tal como os astecas e os mechoacanesecas,os maias de Yucat�n e da Guatemala acreditavam que uma figura semelhante a No� e esposa, "o Grande Pai e a Grande M�e", sobreviveram ao dil�vio para povoar novamente a Terra, tornando-se, dessa maneira, os ancestrais de todas as gera��es subseq�entes da humanidade. Am�rica do Sul Passando � Am�rica do Sul, encontramos os chibcas, da regi�o central da Col�mbia. De acordo com seus mitos, eles viveram inicialmente como selvagens, sem leis, agricultura ou religi�o. Certo dia, por�m, apareceu entre eles um velho de ra�a diferente. Ele usava barba espessa e longa e seu nome era Bochica. Ele ensinou aos chibcas como construir cabanase viver juntos em sociedade. A esposade Bochica, muito bela, chamada Chia, veio depois dele, mas era m� e gostava de contrariar-lhe os trabalhos altru�sticos. Uma vez que n�o podia anular diretamente o poder do marido, usou de meios m�gicos para causar um grande dil�vio, no qual morreu a maioria da popula��o. Profundamente irado, Bochica exilou-a da terra para o c�u, onde ela se tornou a lua e recebeu o trabalho de iluminar as noites. Ele fez tamb�m com que se dissipassem as �guas do dil�vio e trouxe para baixo os poucos sobreviventes que haviam se refugiado no cume de uma montanha. Em seguida, deulhes leis, ensinou-lhes a cultivar a terra e instituiu a adora��o do sol, com festivais,


sacrif�cios e peregrina��esperi�dicas. Em seguida, dividiu entre dois chefes o poder de governar e passou o resto de seus dias na terra em tranq�ila contempla��o, como asceta. Quando subiu ao c�u, tornou-se um deus. Ainda mais ao sul, os canarianos, uma tribo de �ndios do Equador, contam uma hist�ria antiga de dil�vio, do qual dois irm�os escaparam por terem subido para o cume de uma montanha. � medida que a �gua subia, o mesmo acontecia com a montanha, de modo que os dois irm�os puderam sobreviver � calamidade. Ao serem descobertos, os �ndios tupinamb�s, do Brasil, veneravam uma s�rie de her�is civilizadores, ou criadores. O primeiro desses her�is era Monan (antigo, velho), que eles diziam ter sido o criador da humanidade, mas que em seguida destruiu o mundo com �gua e fogo... O Peru, como vimos na Parte II, � particularmente rico em lendas sobre o dil�vio. Uma hist�ria t�pica fala de um �ndio que foi avisado do dil�vio por uma lhama. Juntos, homem e lhama fugiram para uma alta montanha, chamada Vilca-Coto: Quando chegaram ao alto da montanha, viram que todos os tipos de aves e animais j� haviam se refugiado ali. O mar come�ou a subir e cobriu todas as plan�cies e montanhas, exceto o cume de Vilca-Coto e, mesmo l�, as ondas batiam t�o altas que os animais foram obrigados a se apertarem numa �rea estreita. (..,) Cinco dias depois, a �gua recuou e o mar voltou a seu leito. Mas todos os seres humanos, exceto um, morreram afogados e dele descendem todas as na��esda terra. Os araucnaianos do Chile pr�-colombiano preservaram uma tradi��o que dizia que houve outrora um dil�vio, do qual poucos �ndios escaparam. Os sobreviventes refugiaram-se em uma alta montanha chamada Thegtheg (a "trovejante" ou "faiscante"), que tinha tr�s picos e a capacidade de flutuar na �gua. Na extremidade sul do continente, uma lenda dos yamanas, da Terra do Fogo, informa: "A mulher-lua causou o dil�vio. Isso aconteceu no tempo da grande eleva��o da superf�cie da terra. (...) A lua estava cheia de �dio aos seres humanos. (...) Nessa ocasi�o, todos morreram afogados, com exce��o dos poucos que conseguiram escapar para cinco picos de montanhas que a �gua n�o cobriu." Outra tribo da Terra do Fogo, a pehenche, associa o dil�vio a um prolongado per�odo de escurid�o. "O sol e a lua ca�ram do c�u; e o mundo permaneceu assim, sem luz, at� que, finalmente, dois condores gigantescoslevaram de volta o sol e a lua para o c�u." Am�rica do Norte


Enquanto isso, no outro lado das Am�ricas, entre os inu�tes do Alasca, havia a tradi��o de um dil�vio terr�vel, acompanhado por um terremoto, que varreu t�o rapidamente a face da terra que s� uns poucos homens conseguiram escapar em canoas, petrificados de terror, ou refugiar-se nos picos das montanhas mais altas. Os luisenos, da Baixa Calif�rnia, tinham uma lenda que dizia que uma inunda��o cobriu as montanhas e destruiu a maior parte da humanidade. Salvaram-se apenas uns poucos, porque fugiram para os mais altos picos e que foram poupados quando a �gua inundou todo o mundo. Os sobreviventes ali permaneceram at� que passou a inunda��o. Mais ao norte, mitos semelhantes foram registrados entre os hurons. E uma lenda dos montagnais, grupo pertencente � fam�lia algonquina, contava que Michabo, ou a Grande Lebre, com ajuda de um corvo, uma lontra e um rato almiscarado, recriou o mundo. O History of the Dakotas, de Lynd, um trabalho respeitado do s�culo XIX que preservou numerosas tradi��es ind�genas que, de outro modo, teriam sido perdidas, refere-se ao mito iroqu�s de que "o mar e as �guas haviam, um dia, invadido a terra, e toda vida humana foi destru�da". Os chickasaws afirmavam que o mundo fora destru�do pela �gua, "mas que havia sido salva uma fam�lia e dois animais de todos os tipos." Ossioux falavam tamb�m de um tempo em que n�o havia terra seca e quando todos os homens desapareceram. �gua, �gua, por Todos os Lados At� que dist�ncia e com que abrang�ncia as repercuss�esdo grande dil�vio chegaram �s mem�rias preservadasem mitos? At� grande dist�ncia, sem a menor d�vida. Em todo o mundo s�o conhecidas mais de 500 lendas que falam do dil�vio e, em um levantamento de 86 delas (20 na �sia, 3 na Europa, 7 na �frica, 46 nas Am�ricas e 10 na Austr�lia e no Pac�fico), um pesquisador especializado, o Dr. Richard Andree, concluiu que 62 eram inteiramente independentes das vers�esmesopot�micas e hebraicas. Antigos estudiosos jesu�tas, que figuraram entre os primeiros europeus a visitar a China, por exemplo, tiveram oportunidade, na Biblioteca Imperial, de examinar um vasto conjunto de obras, composto de 4.320 volumes, que se dizia ter sido herdado de tempos antigos e que continham "todos os conhecimentos". Esse grande livro inclu�a certo n�mero de tradi��es citando as conseq��ncias que se seguiram quando a humanidade se rebelou contra os grandes deuses e o sistema do universo despencou na desordem: "Os planetas mudaram seus cursos. O c�u afundou na dire��o do norte, o


sol, a lua e as estrelas mudaram seus movimentos. A terra desfez-se em peda�os e as �guasno seu seio jorraram violentas para o alto e inundaram a terra". Na floresta tropical de Chewong, na Mal�sia, os nativos acreditavam que, com grande freq��ncia, o mundo em que viviam, que chamavam de Terra Sete, virava de cabe�a para baixo e tudo era inundado e destru�do. N�o obstante, gra�as � interven��o do Deus Criador Tohan, a nova superf�cie plana do que fora antes o lado de baixo da Terra Sete � moldada e transformada em montanhas, vales e plan�cies. Novas �rvores s�o plantadas e nascem novos seres humanos. Um mito do dil�vio origin�rio do Laos e da regi�o norte da Tail�ndia diz que seres chamados thens viviam h� muito tempo no alto reino, enquanto os senhores do baixo mundo eram tr�s grandes homens, Pu Leng Seung, Khun K'na e Khum K'et. Certo dia, os thens anunciaram que, antes de tomar qualquer refei��o, os homens deveriam lhes dar uma parte da comida, como sinal de respeito. Oshomens recusaram-se a cumprir a ordem e, irados, os thens provocaram um dil�vio que destruiu toda a terra. Os tr�s grandes homens constru�ram uma jangada, no alto da qual fizeram uma pequena casa e embarcaram com certo n�mero de mulheres e crian�as. Dessa maneira, eles e seus descendentes sobreviveram ao dil�vio. De forma semelhante, os karens da Birm�nia t�m tradi��es de um dil�vio global, do qual dois irm�os se salvaram em uma jangada. Um dil�vio do mesmo tipo faz parte da mitologia do Vietn�, na qual se diz que um irm�o e uma irm� sobreviveram dentro de um grande caix�o de madeira, que continha tamb�m dois esp�cimes de todos os tipos de animais. V�rios povos abor�gines australianos, especialmente aqueles cujas terras tradicionais se situavam ao longo da costa tropical no norte, atribuem sua origem a uma grande inunda��o, que acabou com a terra e a sociedade anteriores. Paralelamente, nos mitos sobre a origem de certo n�mero de outras tribos, a serpente c�smica Yurlunggur (associada ao arco-�ris) � julgada respons�vel pelo dil�vio. Existem tamb�m tradi��es japonesas, de acordo com as quais as ilhas do Pac�fico na Oceania foram formadas depois de baixarem as �guas de um grande dil�vio. Na pr�pria Oceania, um mito dos habitantes nativos do Hava� conta que o mundo foi destru�do por uma inunda��o e, mais tarde, recriado por um deus chamado Tangaloa. Ossamoanos acreditam que, no passado, aconteceu uma inunda��o que destruiu quase toda a humanidade. S� sobreviveram dois seres humanos, que se fizeram ao mar em um barco que, finalmente, chegou � terra no arquip�lago samoano. Gr�cia, �ndia e Egito


No outro lado do mundo, a mitologia grega era tamb�m assombrada por mem�rias de um dil�vio. Neste caso, por�m (como, ali�s, na Am�rica Central), a inunda��o n�o era vista como um evento isolado, mas como uma etapa em uma s�rie de destrui��es e recria��es do mundo. Os astecas e maias falavam em termos de "S�is", ou �pocas sucessivas (das quais pensavam que a nossa era a quinta e �ltima). De forma semelhante, as tradi��es orais da Gr�cia antiga, compiladas e redigidas por Hes�odo no s�culo VIII a.C., relatam que, antes da presente cria��o, houve quatro ra�as anteriores de homens. Julgavam os gregos que cada uma delas fora mais adiantada do que a que a seguiu. E todas elas, na hora aprazada, haviam sido "engolidas" em um cataclismo geol�gico. A primeira e mais antiga cria��o fora a "ra�a de ouro" da humanidade, que "vivera como os deuses,sem cuidados, sem problemas ou sofrimentos... Dotados de corpos que n�o envelheciam, eles se regalavam em seus banquetes... Quando morriam, era como homens vencidos pelo sono". Com a passagem do tempo e por ordem de Zeus, a ra�a de ouro "mergulhou finalmente nas profundezas da terra". Foi sucedida pela "ra�a de prata", suplantada pela "ra�a de bronze", substitu�da por sua vez pela ra�a dos "her�is" e seguida pela ra�a de "ferro" - a nossa-, a quinta e mais recente cria��o. O destino da ra�a de bronze � o que mais nos interessa aqui. Descrita nos mitos como tendo "a for�a de gigantes e m�os poderosas em bra�os poderosos", esses homens formid�veis foram exterminados por Zeus, o rei dos deuses, como castigo pelas m�s a��es de Prometeu, o tit� rebelde que deu o fogo � humanidade. o mecanismo usado pela vingativa divindade para limpar a terra foi uma inunda��o que a tudo cobriu. Na vers�o mais conhecida da hist�ria, Prometeu engravidou uma humana. Ela lhe deu um filho, chamado Deucali�o, que governou a P�tia, na Tess�lia, e tomou como esposa Pirra, "a ruiva", filha de Epimeto e Pandora. Quando Zeus tomou a terr�vel decis�o de destruir a ra�a de bronze, Deucali�o, avisado por Prometeu, construiu uma caixa de madeira, encheu-a de "tudo que era necess�rio" e entrou nela com Pirra. O rei dos deusesdespejou dos c�us chuvas torrenciais, inundando a maior parte da terra. Toda a humanidade pereceu no dil�vio, exceto alguns que haviam fugido para as montanhas mais altas. "Aconteceu tamb�m nesse tempo que as montanhas da Tess�lia foram fendidas ao meio e toda a regi�o, at� o Istmo e o Peloponeso, tornou-se um �nico len�ol de �gua." Deucali�o e Pirra flutuaram nessa caixa durante nove dias e nove noites e chegaram finalmente ao monte Parnaso. A�, quando cessaram as chuvas, desembarcaram e fizeram sacrif�cio aos deuses. Em resposta, Zeus enviou Hermes a Deucali�o, com permiss�o para pedir tudo que quisesse.Ele quis seres humanos. Zeus ordenou-lhe que


pegasse pedras no ch�o e que as jogasse por cima do ombro. As pedras jogadas transformaram-se em homens e, as jogadaspor Pirra, em mulheres. Da mesma forma que os hebreus se lembravam de No�, os gregos dos tempos hist�ricos lembravam-se de Deucali�o - como ancestral da na��o e fundador de numerosascidadese templos. Uma figura semelhante era reverenciada na �ndia v�dica h� mais de 3.000 anos. Certo dia (conta a hist�ria), quando um s�bio chamado Manu estava fazendo suas ablu��es, encontrou, na concha da m�o, um peixinho, que lhe implorou que o deixasse viver. Sentindo pena do peixinho, ele o colocou em um jarro. No dia seguinte, por�m, o peixinho crescera tanto que ele teve que lev�-lo para um lago. Logo depois, o lago ficou pequeno demais. "Jogue-me no mar", pediu o peixe [que era, na realidade, uma manifesta��o do deus Vishnu], "e eu me sentirei mais confort�vel." Em seguida, ele avisou Manu do dil�vio que estava por acontecer. Enviou-lhe um grande navio, com ordens para que o enchesse com duas criaturas vivas de todas as esp�cies e sementes de todas as plantas, e que, em seguida, subissepara bordo. Manu mal havia acabado de cumprir as ordens quando o oceano subiu e submergiu tudo e nada podia ser visto, exceto Vishnu em sua forma de peixe - nesse momento uma criatura enorme, de um �nico chifre e escamasdouradas. Manu amarrou o navio no chifre do peixe e Vishnu rebocou-o pelas �guas altas at� parar no cume da "Montanha do Norte": o peixe disse: "Eu te salvei, amarra o navio a uma �rvore, porque a �gua pode varr�-lo para longe, enquanto estiveres na montanha e, na propor��o em que as �guas descerem, tu tamb�m descer�s." Manu desceu com as �guas. O Dil�vio havia destru�do todas as criaturas e Manu permaneceu sozinho. Com ele, e com os animais e plantas que ele salvara da destrui��o, come�ou uma nova era no mundo. Ap�s um ano, das �guas emergiu uma mulher, que se apresentou como "a filha de Manu". Os dois casaram e tiveram filhos, tornando-se, dessa maneira, os ancestrais da atual ra�a da humanidade. Por �ltimo, mas n�o menos importante, as tradi��es eg�pcias referem-se tamb�m a uma grande inunda��o. Um texto funer�rio descoberto na tumba do Fara� Seti I, por exemplo, conta a destrui��o, por um dil�vio, da humanidade pecadora. As raz�es da cat�strofe est�o expostas no Cap�tulo CLXXV do Livro dos Mortos, que atribui o discurso seguinte ao Deus da Lua, Thoth: Eles lutaram entre si, a�ularam conflitos, praticaram o mal, criaram hostilidade, cometeram massacres, causaram problemas e opress�o... [Por conseguinte], vou apagar tudo que fiz. Esta terra entrar� em um abismo aquoso por interm�dio de uma inunda��o furiosa e ela se tornar� vazia como no tempo primevo.


Na Pista de um Mist�rio Com as palavras de Thoth fechamos o c�rculo, que inclui os dil�vios sumeriano e b�blico. "A terra estava corrompida � vista de Deus, e cheia de viol�ncia", diz o G�nesis: Viu Deus a Terra e eis que estava corrompida, porque todo ser vivente havia corrompido seu caminho na terra. Ent�o disse Deus a No�: "Resolvi dar cabo de toda a carne, porque a terra est� cheia da viol�ncia dos homens; eis que os farei perecer juntamente com a terra". Tal como a inunda��o de Deucali�o, a inunda��o de Manu, a inunda��o que destruiu o "Quarto Sol" dos astecas, o dil�vio b�blico foi o fim de uma era mundial. Uma nova era sucedeu-a: a nossa, povoada pelos descendentes de No�. Desde o pr�prio in�cio, por�m, era entendido que esta era tamb�m acabaria no devido tempo, em um fim catastr�fico. Ou como diz uma velha can��o: "Deus deu a No� o sinal do arco-�ris; n�o mais �gua, ser� o fogo, na pr�xima vez." A fonte escritural dessa profecia de destrui��o do mundo � encontrada em 2 Pedro, vers�culo 3: Tendo em conta, antes de tudo, que, nos �ltimos dias, vir�o escarnecedores com os seus esc�rnios, andando segundo as pr�prias paix�es e dizendo: onde est� a promessa de sua vida. Porque, desde que os pais dormiram, todas as coisas permanecem como desde o princ�pio da cria��o. Porque, deliberadamente, esquecem que, de longo tempo, houve c�us bem como terra, a qual surgiu da �gua e atrav�s da �gua, pela palavra de Deus, pelas quais veio a perecer o mundo daquele tempo, afogado em �gua. Ora, os c�us que agora existem, e a terra, pela mesma palavra t�m sido entesourados para o fogo, estando reservados para o dia do ju�zo e destrui��o dos homens �mpios. H�, todavia, uma coisa, amados, que n�o deveis esquecer: que, para o Senhor, um dia � como mil anos e mil anos como um dia. N�o retarda o Senhor a sua promessa, como alguns a julgam demorada; pelo contr�rio, ele � long�nimo para convosco, n�o querendo que nenhum pere�a, sen�o que todos cheguem ao arrependimento. Vir�, entretanto, como ladr�o, o dia do Senhor, no qual os c�us passar�o com estrepitoso estrondo e os elementos se desfar�o abrasados; tamb�m a terra e as obras que nela existem ser�o atingidas. A B�blia, por conseguinte, imagina duas eras do mundo, sendo a nossa a segunda e a �ltima. Em outros locais, em outras culturas, s�o registrados diferentes n�meros de


cria��es e destrui��es. Na China, por exemplo, as eras desaparecidas s�o denominadas kis, dez das quais teriam passado desde o come�o dos tempos at� Conf�cio. Ao fim de cada ki, "em uma convuls�o geral da natureza, o mar sai de seu leito, montanhas saltam da terra, rios mudam seus cursos, seres humanos e tudo mais s�o arruinados, e apagadosos tra�os antigos..." As escrituras budistas falam dos "Sete S�is", todos eles levados ao fim por �gua, fogo, ou vento. Ao fim do S�timo Sol, o atual "ciclo mundial", � esperado que a "terra irrompa em chamas". Tradi��es abor�gines de Sarawak e Sabah lembram que o c�u foi outrora "baixo" e nos dizem que "seis S�is pereceram (...) No presente, o mundo � iluminado pelo s�timo Sol". Analogamente, os Livros Sibilinos falam em "nove S�is que s�o nove eras" e profetizam duas eras ainda por vir - as do oitavo e do nono Sol". No outro lado do oceano Atl�ntico, os �ndios hopi (que s�o parentes distantes dos astecas) mencionam tr�s S�is anteriores, todos culminando em uma grande aniquila��o, seguida do reaparecimento gradual da humanidade. Na cosmologia asteca, claro, houve quatro S�is antes do nosso. Essas pequenas diferen�as sobre o n�mero exato de destrui��es e cria��es mencionadas nesta ou naquela mitologia n�o devem nos fazer esquecer a converg�ncia not�vel das tradi��es antigas. Em todo o mundo, essas tradi��es parecem rememorar uma s�rie de cat�strofes. Em muitos casos, o car�ter de cada cataclismo sucessivo � obscurecido pelo uso de linguagem po�tica e o ac�mulo de met�foras e s�mbolos. Com grande freq��ncia, al�m disso, pelo menos dois diferentes tipos de calamidade podem ser descritos como tendo ocorrido simultaneamente (com mais freq��ncia, inunda��es e terremotos, embora, �s vezes, fogo e apavorante escurid�o). Tudo isso contribui para a cria��o de um quadro confuso e atabalhoado. Os mitos dos hopi, por�m, destacam-se por sua franqueza e simplicidade. E o que eles nos dizem � o seguinte: O primeiro mundo foi destru�do, como castigo de m�s a��es praticadas pelo homem, por um fogo consumidor, que veio de cima e de baixo. O segundo mundo terminou quando o globo terrestre inclinou-se para a frente a partir de seu eixo e tudo foi coberto pelo gelo. O terceiro mundo terminou em um dil�vio universal. O atual mundo � o quarto. Seu destino depender� de seus habitantes se comportarem ou n�o de acordo com os planos do Criador. Aqui, estamos na pista de um mist�rio. E muito embora n�o possamos jamais alimentar a esperan�a de sondar os planos do Criador, podemos chegar a uma conclus�o sobre o enigma de mitos convergentes de destrui��o global.


Atrav�s dessesmitos, os antigos nos falam diretamente. E o que � que est�o tentando nos dizer? CAP�TULO 25 As Muitas M�scaras do Apocalipse Da mesma forma que os �ndios hopi da Am�rica do Norte, os arianos av�sticos do Ir� pr�-isl�mico acreditavam que, antes da nossa, houve tr�s �pocas de cria��o. Na primeira, o homem era puro e sem pecado, de alta estatura, longevo, mas, pouco antes de terminar esse tempo, o Maligno declarou guerra a Ahura Mazela, o deus sagrado, do que se seguiu um cataclismo pavoroso. Na segunda, o Maligno nenhum sucesso teve. Na terceira, o bem e o mal estiveram exatamente equilibrados. Na quarta (a atual �poca do mundo), o mal triunfou logo no princ�pio e manteve a supremacia desde ent�o!. O fim da quarta �poca est� previsto para breve, mas � o cataclismo que aconteceu ao fim da primeira que nos interessa aqui. N�o foi uma inunda��o, mas coincidiu de tantas maneiras com numerosas tradi��es globais de dil�vio que n�o podemos deixar de entrever uma forte liga��o entre elas. As escrituras av�sticas levam-nos de volta a um tempo de para�so na terra, quando os ancestrais remotos do antigo povo iraniano viviam na fabulosa Airyana Vaejo, a primeira e feliz cria��o de Ahura Mazda, que floresceu na primeira era do mundo: o ber�o m�tico e lar original da ra�a ariana. Naqueles dias, Airyana Vaejo gozava de um clima suave e produtivo, com sete meses de ver�o e cinco de inverno. Rico em vida silvestre e em colheitas, em prados cortados por rios, essejardim de del�cias foi convertido em um deserto inabit�vel, de dez meses de inverno e apenas dois de ver�o, como resultado do ataque de Angra Mainyu, o Maligno: A primeira das boas terras e pa�ses que eu, Ahura Mazela, criei foi Airyana Vaejo. (...) Em seguida, Angra Mainyu, que � a encarna��o da morte, criou uma oposi��o a ela, uma poderosa serpente e a neve. Dez mesesde inverno nela existem agora, dois meses de ver�o, estes s�o frios como a �gua, frios como a terra, frios como as �rvores. (...) L�, durante o ano todo, cai neve em abund�ncia, que � a pior das pragas... O leitor concordar� que essas palavras indicam uma s�bita e dram�tica mudan�a de clima em Airyana Vaejo. As escrituras av�sticas n�o nos deixam em d�vida a esse respeito. Antes, elas descrevem um encontro dos deuses celestiais, convocado por


Ahura Mazda, e nos dizem que o "louro Yima, O deus pastor, de grande renome em Airyana Vaejo", compareceu a essareuni�o em companhia de todos os seus excelentes mortais. � nesse ponto que come�am a surgir os estranhos paralelos com o dil�vio b�blico, porque Ahura Mazda aproveita a reuni�o para alertar Yima sobre o que vai acontecer, como resultado do uso dos poderes do Maligno: E Ahura Mazda falou a Yima, dizendo: "Yima, o louro... Sobre o mundo material, um inverno fatal est� prestes a descer, que trar� uma geada forte e destruidora. Sobre o mundo corp�reo descer� o mal do inverno e nele a neve cair� com grande abund�ncia. E todos os tr�s tipos de animais perecer�o, os que vivem nas florestas, os que vivem nos cumes das montanhas e os que vivem nas profundezas dos vales sob abrigo dos est�bulos. Por isso, faz para ti um var (hipogeu, ou espa�o fechado subterr�neo), com o comprimento, nos quatro lados, de uma pista de corrida de cavalos. Para l� levar�s representantes de todos os tipos de animais, grandes e pequenos, de gado, de todos os animais de carga, e de homens, de c�es, de aves, e de fogos que queimam vermelhos. L� far�s �gua correr. L� colocar�s as aves nas �rvores, ao longo da beira da �gua, em um verdor que ser� eterno. L� colocar�s esp�cimes de todas as plantas, as mais lindas e mais perfumadas, e de todos os frutos os mais suculentos. Todos essestipos de coisas e criaturas n�o perecer�o enquanto estiverem no var. Mas n�o p�e nele criatura deformada, ou impotente, ou louca, nem m�, nem enganadora, nem rancorosa, nem ciumenta, nem homem com dentes tortos, nem leproso... � parte a escala da opera��o, s� h� uma diferen�a aut�ntica entre o var divinamente inspirado de Yima e a arca divinamente inspirada de No�: a arca � um meio para sobreviver a uma inunda��o terr�vel e devastadora, que destruir� todas as criaturas vivas ao afogar o mundo em �gua; o var � um meio para sobreviver a um terr�vel e devastador "inverno", que destruir� todas as criaturas vivas ao cobrir a terra com um len�ol congelante de gelo e neve. No Bundahish, outra das escrituras zoroastrianas (que se acredita que contenha material antigo de uma parte perdida do Avesta original), mais informa��es s�o dadas sobre o cataclismo da glacia��o que destruiu Airyana Vaejo. Quando Angra Mainyu enviou a "geada forte e destruidora", ele tamb�m "atacou e desorganizou o c�u". O Bundahish nos diz que o ataque permitiu ao Maligno "dominar um ter�o do c�u e cobrilo de escurid�o", � medida que o gelo invasor apertava sua empunhadura.


Frio, Fogo, Terremotos e Desorganiza��o Indescrit�veis nos C�us Osarianos av�sticos do Ir�, que se sabe que emigraram para a �sia ocidental vindos de alguma outra terra natal distante, n�o foram os �nicos possuidores de tradi��es arcaicas que lembram, de maneiras que dificilmente seriam coincid�ncias, o ambiente b�sico do grande dil�vio. Na verdade, embora essas tradi��es estejam mais comumente ligadas ao dil�vio, aos temas conhecidos de aviso divino e de salva��o do resto da humanidade da calamidade universal, elas s�o tamb�m encontradas em muitas diferentes partes do mundo, ligadas ao inesperado aparecimento de condi��es glaciais. Na Am�rica do Sul, por exemplo, os �ndios toba, da regi�o do Gran Chaco, que se estende pelas atuais fronteiras do Paraguai, Argentina e Chile, ainda repetem um mito antigo da chegada do que chamam de "o Grande Frio". O aviso � dado por um her�i semi-divino chamado Asin: Asin disse a um homem que juntasse toda madeira que pudesse e que cobrisse sua cabana com uma grossa camada de palha, porque ia chegar um tempo de grande frio. Logo que a cabana foi preparada, Asin e o homem se trancaram dentro dela e esperaram. Quando o grande frio chegou, pessoas tremendo dos p�s � cabe�a apareceram para lhes implorar um peda�o de lenha aceso. Asin era duro de cora��o e deu brasas apenas �queles que haviam sido seus amigos. Os pedintes estavam congelando e choraram a noite inteira. � meia-noite, todos haviam morrido, jovens e velhos, homens e mulheres... Esseper�odo de gelo e granizo durou por longo tempo e todos os fogos foram apagados. A geada era t�o grossaquanto couros. Da mesma forma que nas tradi��es av�sticas, parece que o grande frio foi acompanhado por grande escurid�o. Nas palavras de um anci�o toba, essas afli��es haviam sido mandadas "porque, quando est� cheia de gente, a terra tem que mudar. A popula��o tem que ser dizimada para salvar o mundo... No caso da longa escurid�o, o sol simplesmente desapareceu e o povo passou fome. Acabando o alimento, os homens come�aram a comer os filhos. No fim, todos morreram..." O Popol Vuh maia fala em uma inunda��o com "muito granizo, chuva negra, nevoeiro e frio indescrit�vel". E diz tamb�m que foi um per�odo "nublado e de penumbra em todo o mundo (...) as faces do sol e da lua estavam cobertas". Outras fontes maias confirmam que esses fen�menos estranhos e terr�veis foram experimentados pela humanidade, "no tempo dos anci�os. A terra escureceu... Aconteceu que o sol ainda


estava brilhante e claro. Em seguida, ao meio-dia, escureceu... A luz do sol s� voltou vinte e seis anos depois do dil�vio". O leitor talvez se lembre de que numerosos mitos sobre dil�vio e cat�strofes cont�m refer�ncias n�o s� � descida de uma grande escurid�o, mas a outras mudan�as no aspecto dos c�us. Na Terra do Fogo, por exemplo, dizia-se que a terra e a lua "ca�ram do c�u" e, na China, que "os planetas alteraram seus cursos. O sol, a lua e as estrelas mudaram seus movimentos". Osincas acreditavam que, "nos tempos antigos, os Andes foram fendidos em dois, quando o c�u fez guerra contra a terra". Os tarahumara do norte do M�xico preservaram lendas da destrui��o do mundo baseadas em uma mudan�a na trajet�ria do Sol. Um mito africano do baixo Congo diz que, "h� muito tempo, o sol encontrou a lua e contra ela lan�ou lama, o que a tornou menos brilhante. Quando ocorreu esse encontro, houve uma grande inunda��o..." Os �ndios cahto da Calif�rnia dizem simplesmente que "o c�u caiu". Os antigos mitos greco-romanos contam que o dil�vio de Deucali�o foi imediatamente precedido de pavorosos acontecimentos no c�u. Esses eventos s�o vividamente simbolizados na hist�ria de Faetonte, filho do sol, que aprestou a carruagem do pai mas n�o conseguiu dirigi-Ia pelo curso que ele seguia: Logo depois, os �rdegos cavalos sentiram que as r�deas estavam em m�os inexperientes. Empinando as patas dianteiras e virando-se para o lado, seguiram para onde quiseram. Nessemomento, toda a terra espantou-se ao ver que o glorioso Sol, em vez de manter seu curso majestoso e ben�fico pelo c�u, parecia correr torto no alto e descer furioso como se fosse um meteoro. Este n�o � o lugar para especular sobre o que pode ter causado as alarmantes perturba��es nos aspectos do c�u que aparecem ligadas a lendas sobre cataclismos em todo o mundo. Para os nossos atuais objetivos, � suficiente notar que essas tradi��es parecem referir-se � mesma "desorganiza��o do c�u" que acompanhou o inverno fatal e o espalhamento dos len��is de gelo descritos no Avesta iraniano. Mas ocorrem tamb�m outras liga��es. O fogo, por exemplo, freq�entemente precede ou segue a inunda��o. No caso da aventura de Faetonte com o Sol, "a grama murchou; as colheitas foram crestadas; os bosquessubiram em fogo e fuma�a; e em seguida sob eles a terra nua rachou e desmoronou e rochas enegrecidas partiram-se violentamente sob efeito do calor". Vulcanismo e terremotos s�o freq�entemente mencionados em conjunto com inunda��es, especialmente nas Am�ricas. Os auracanianos do Chile dizem explicitamente que "a inunda��o foi resultado de erup��es vulc�nicas, acompanhadas


de violentos terremotos". Os mam maias, de Santiago Chimaltenango, nas montanhas da regi�o oeste da Guatemala, conservam mem�rias de "uma inunda��o de breu fervente" que, dizem, foi um dos instrumentos da destrui��o do mundo. No Gran Chaco da Argentina, os �ndios mataco falam de "uma nuvem negra que veio do sul na �poca da inunda��o e cobriu todo o c�u. Raios ca�ram e trovejou. Mas, as gotas que ca�ram n�o eram iguais �s de chuva. Elas eram de fogo..." Um Monstro Perseguiu o Sol H� uma cultura antiga que, talvez mais do que qualquer outra, preserva mem�rias mais v�vidas de seus mitos, a da denominada cultura das tribos teut�nicas da Alemanha e Escandin�via, uma cultura mais lembrada pelas can��es dos bardos e pelos s�bios n�rdicos. As hist�rias contadas por essas can��es t�m ra�zes em um passado que talvez seja muito mais remoto do que os estudiosos imaginam e combinam imagens conhecidas com estranhos artif�cios simb�licos e linguagem aleg�rica para relembrar um cataclismo de pavorosa magnitude: Em uma distante floresta no leste, uma mulher gigante trouxe ao mundo uma prole inteira de jovens lobos, cujo pai era Fenrir. Um dessesmonstros perseguiu o sol, para dele se apossar. Durante muito tempo, a persegui��o foi v�, mas, a cada esta��o, o lobo tornava-se mais forte e, finalmente, alcan�ou o sol. Seus raios brilhantes foram, um ap�s outro, apagados. O sol adquiriu uma tonalidade vermelha sangrenta e, em seguida, desapareceu por completo. Da� em diante, o mundo foi envolvido por um horrendo inverno. Tempestadesde neve desciam de todos os pontos do horizonte. Guerras explodiram por toda a terra. Irm�o matou irm�o, filhos n�o mais respeitaram os la�os de sangue. Nessetempo, os homens n�o eram melhores do que os lobos, ansiosos como estavam para se destru�rem mutuamente. Antes de muito tempo, o mundo ia mergulhar no abismo do nada. Entrementes, o lobo Fenrir, que os deuses muito tempo antes haviam acorrentado com todo cuidado, soltou-se finalmente e escapou. Sacudiu-se todo e o mundo tremeu. O freixo Yggdrasil (que se imaginava fosse o eixo da terra) tremeu das ra�zes at� os mais altos galhos. Montanhas desmoronaram ou se partiram de cima a baixo. Osan�es que tinham nelas suas moradas subterr�neas procuraram em desespero e em v�o entradas conhecidas h� tanto tempo, mas que nessemomento n�o existiam mais. Abandonados pelos deuses, os homens foram expulsos de seus lares e a ra�a humana foi varrida da superf�cie da terra. A pr�pria terra estava come�ando a perder sua forma. As estrelas j� come�avam a mover-se � deriva pelo c�u e a cair no vazio


abismal. Elas eram como andorinhas que, cansadasde uma viagem longa demais, caem e desaparecem nas ondas. O gigante Surt ateou fogo a toda a terra e o universo nada mais era do que uma imensa fornalha. Chamas jorravam de fissuras nas rochas e em toda parte se ouvia o silvo de vapor. Todas as coisas vivas, toda vida vegetal, foram destru�das. Restou apenas o solo nu, mas, tal como o pr�prio c�u, a terra nada mais era do que rachaduras e fendas. Nesse instante, todos os rios, todos os mares, subiram e transbordaram. De todos os lados, ondas se chocavam. Engrossaram e ferveram lentamente sobre todas as coisas. A terra mergulhou sob o mar... Ainda assim, nem todos os homens pereceram na grande cat�strofe. Fechados dentro da madeira do freixo Yggdrasil - que as chamas devoradoras da conflagra��o universal n�o conseguiram consumir - os ancestrais de uma futura ra�a de homens escaparam da morte. Nesse abrigo, eles descobriram que seu �nico alimento fora o orvalho da manh�. E foi assim que, dos destro�os de um mundo antigo, um mundo novo nasceu. Lentamente, a terra emergiu das ondas. Montanhas subiram novamente e delas escorreram cataratas de �guascantantes. Esse novo mundo que o mito teut�nico anunciava � o nosso. Dispensa dizer que, tal como o Quinto Sol dos astecas e maias, ele foi criado h� muito tempo e n�o � mais jovem. Poderia ser uma coincid�ncia que um dos muitos mitos de dil�vio da Am�rica Central sobre a "quarta �poca", 4 Atl ("�gua"), n�o coloque o casal No� em uma arca, mas dentro de uma grande �rvore, exatamente igual ao Yggdrasil? O 4 Atl foi destru�do por inunda��es. As montanhas desapareceram... Duas pessoas sobreviveram, porque um dos deuses lhes ordenou que abrissem um buraco no tronco de uma �rvore muito grande e rastejassem para dentro dela quando os c�us ca�ssem. O casal entrou e sobreviveu. SeusfIlhos repovoaram a terra. N�o � estranho que a mesma linguagem simb�lica continue a reaparecer nas tradi��es antigas de tantas regi�es t�o separadas do mundo? Como explicar esse fato? Estaremos falando sobre alguma enorme onda subconsciente de telepatia intercultural, ou poderiam os elementos constituintes dessesnot�veis mitos universais ter sido concebidos, em tempos imemoriais, por indiv�duos inteligentes e com uma finalidade em vista? Qual dessaship�teses improv�veis tem maior possibilidade de ser a verdadeira? Ou haver� outras explica��espara o enigma dos mitos? Voltaremos a essasquest�es no devido tempo. Enquanto isso, o que devemos concluir sobre as vis�es apocal�pticas de fogo e gelo, inunda��es, vulcanismo e terremotos, presentes em todos os mitos? Em todos eles identificamos um realismo insistente e conhecido. Poderia isso acontecer porque eles nos falam de um passado que


suspeitamos ser o nosso, mas que nem podemos lembrar claramente nem esquecer de todo? CAP�TULO 26 Uma Esp�cie Nascida no Longo Inverno da Terra Em tudo aquilo que chamamos de "hist�ria" - tudo que lembramos claramente sobre n�s mesmos como esp�cie -, a humanidade nem uma �nica vez chegou perto da aniquila��o total. Em v�rias regi�es e em tempos variados ocorreram terr�veis calamidades naturais. Mas n�o houve uma �nica ocasi�o nos �ltimos 5.000 anos em que se possadizer que a humanidade como um todo enfrentou o perigo de extin��o. Mas foi sempre assim? Ou ser� poss�vel, se recuarmos bastante no passado, descobrir uma �poca em que nossos ancestrais foram quase riscados da face da terra? S�o justamente �pocas como essas que parecem constituir o tema principal dos grandes mitos sobre cataclismos. De modo geral, estudiosos os atribuem a fantasias de poetas antigos. Mas, e se os pesquisadores estiverem enganados? E se uma s�rie terr�vel de cat�strofes naturais reduziu efetivamente nossos ancestrais pr�-hist�ricos a um punhado de indiv�duos espalhados por aqui e ali na face da terra, bem separados e sem contatos entre si? Estamos � procura de uma �poca que se ajuste t�o bem aos mitos como o sapatinho ao p� de Cinderela. Nessa busca, contudo, evidentemente n�o h� raz�o para investigar qualquer per�odo anterior ao aparecimento de seres humanos reconhecidamente modernos neste planeta. N�o estamos interessados aqui no Homo habilis, no Homo erectus ou mesmo no Homo sapiens neanderthalensis. Interessa-nos apenaso Homo sapiens sapiens, nossa pr�pria esp�cie, e a verdade � que n�o estamos aqui h� tanto tempo assim. Estudiosos do homem primitivo discordam at� certo ponto sobre quanto tempo vivemos na Terra. Alguns pesquisadores, como teremos oportunidade de ver, alegam que restos humanos parciais de mais de 100.000 anos podem ser "inteiramente modernos". Outros defendem uma antiguidade reduzida, na faixa de 35.000-40.000 anos, ao passo que terceiros prop�em um n�mero conciliat�rio de 50.000 anos. Mas ningu�m sabe com certeza. "A origem de seres humanos inteiramente modernos, denotada pelo nome da subesp�cie Homo sapiens sapiens continua a ser um dos grandes enigmas da paleoantropologia", reconhece uma autoridade. Cerca de tr�s e meio milh�es de anos de evolu��o mais ou menos relevante s�o sugeridos pelo registro f�ssil. Para todos os fins pr�ticos, o registro come�a com um pequeno homin�deo b�pede (apelidado de Lucy), cujos restos foram descobertos em


1974 na se��o et�ope do Great Rift Valley, na �frica Oriental. Com uma capacidade cerebral de 400cc (menos de um ter�o da m�dia moderna), Lucy, definitivamente, n�o era humana. Mas tampouco era um s�mio e tinha alguns aspectos notavelmente "parecidos com os humanos", especialmente o andar ereto, a forma da pelve e os maxilares. Por essas e outras raz�es, a esp�cie de Lucy - classificada como Australopithecus afarensis - � aceita pela maioria dos paleoantropologistas como nosso mais antigo ancestral direto. A cerca de dois milh�es de anos, representantes do Homo habilis, os membros fundadores da linhagem Homo � qual n�s mesmos pertencemos, come�aram a deixar cr�nios e esqueletos fossilizados. � medida que passava o tempo, essa esp�cie demonstrava claros sinais de evolu��o para uma forma ainda mais "graciosa" e refinada e para um c�rebro maior e mais vers�til. O Homo erectus, que coincidiu com o Homo habilis e o sucedeu, surgiu h� cerca de 1,6 milh�o de anos, com uma capacidade cerebral na faixa de 900cc (contra os 700cc do habilis). No milh�o de anos, mais ou menos, que se seguiu, e chegando a 400.000 anos no passado, nenhuma mudan�a evolutiva ocorreu - ou nenhuma que tenha comprova��o nos f�sseis remanescentes. Em seguida, o Homo erectus cruzou os portais da extin��o e entrou no o�sis do homin�deo e, devagar - bem devagar -, come�ou a aparecer o que os paleoantropologistas chamam de "o grau sapiente": � dif�cil saber quando come�ou exatamente a transi��o para uma forma mais sapiente. Acreditam alguns estudiosos que a transi��o, envolvendo aumento da capacidade do c�rebro e redu��o da espessura dos ossos cranianos, come�ou j� h� 400.000 anos. Por azar, simplesmente n�o h� f�sseis suficientes desse importante per�odo que nos d�em certeza do que estava acontecendo. O que, definitivamente, n�o estava acontecendo h� 400.000 anos era o aparecimento de qualquer coisa identific�vel como nossa subesp�cie Homo sapiens sapiens, contadora de hist�rias e criadora de mitos. H� consenso em que "seres humanos sapientes devem ter evolu�do do Homo erectus" e � verdade que certo n�mero de popula��es "arcaicas sapientes" de fato surgiu entre os anos 400.000 e 100.000 no passado. Infelizmente, est� longe de clara a rela��o entre essas esp�cies de transi��o e a nossa. Conforme notado antes, os primeiros candidatos � filia��o ao clube exclusivo do Homo sapiens sapiens foram datados por alguns pesquisadores como pertencentes � �ltima parte desse per�odo. Mas essesrestos s�o incompletos e de modo nenhum sua identifica��o � geralmente aceita. O mais antigo, parte de uma calota craniana, � um suposto esp�cime humano moderno, de cerca de 113.000 anos a.C. Por volta dessa �poca,


surgiu o Homo sapiens neanderthalensis, uma subesp�cie bem distinta e que a maioria de n�s conhece como "Homem de Neandertal". Alto, com m�sculos fortemente desenvolvidos, arcadas superciliares proeminentes e face afocinhada, o Homem de Neandertal tinha um tamanho m�dio de c�rebro maior do que o dos seres humanos modernos (1.400cc contra nossos 1.360cc). A posse de um c�rebro t�o grande constitu�a sem d�vida um ativo para essas"criaturas inteligentes, espiritualmente sens�veis, f�rteis em recursos" e o registro f�ssil sugere que elas foram a esp�cie dominante no planeta desde 100.000 at� 40.000 anos no passado. Em algum momento nesse per�odo longo e pouco compreendido, o Homo sapiens sapiens estabeleceu-se, deixando para tr�s restos f�sseis de cerca de 40.000 anos de idade que s�o inequivocamente de seres humanos modernos, suplantando por completo os Neandertais por volta do ano 35000a.C. Em suma, seres humanos como n�s, pelos quais poder�amos passar na rua sem piscar, se eles estivessem barbeados e usando roupas modernas, foram as criaturas humanas dos �ltimos 115.000 anos, no m�ximo - e, com maior probabilidade, apenas nos �ltimos 50.000 anos. Segue-se que se os mitos do cataclismo que vimos estudando refletem uma �poca de subleva��o geol�gica experimentada pela humanidade, essas subleva��es ocorreram nos �ltimos 115.000 anos e, com maior probabilidade, nos �ltimos 50.000. O Sapatinho da Cinderela Constitui uma coincid�ncia estranha da geologia e da paleoantropologia que o in�cio e o desenvolvimento da �ltima Era Glacial, e o aparecimento e prolifera��o do homem moderno, ocorreram na mesma �poca. � curioso tamb�m que muito pouco se saiba sobre ambos. Na Am�rica do Norte, a �ltima Era Glacial � conhecida como Glacia��o Wisconsin (nome dado como refer�ncia a dep�sitos rochosos estudados no estado de Wisconsin) e sua fase mais antiga foi datada pelos ge�logos como tendo ocorrido h� 115.000 anos. Ap�s essadata, ocorreram v�rios avan�os e recuos do len�ol de gelo, tendo a taxa mais r�pida de acumula��o ocorrido entre 60.000 e 17.000 anos atr�s - processo este que culminou no Avan�o Tazwell, quando a glacia��o atingiu sua extens�o m�xima, por volta do ano 15.000 a.C. No ano. 13000 a.C., por�m, milh�es de metros quadrados de gelo haviam derretido, por motivos que nunca foram devidamente explicados, e, por volta do ano 8000 a.C., a Wisconsin havia se retirado inteiramente. A Era Glacial foi um fen�meno global, que afetou tanto o hemisf�rio Norte quanto o Sul. Condi��es clim�ticas e geol�gicas semelhantes, portanto, prevaleceram tamb�m


em muitas outras partes do mundo (notadamente, na �sia oriental, Austr�lia, Nova Zel�ndia e Am�rica do Sul). Houve glacia��o maci�a na Europa, descendo o gelo da Escandin�via e Esc�cia para cobrir a maior parte da Gr�-Bretanha, Dinamarca, Pol�nia, R�ssia, grandes regi�es da Alemanha, toda a Su��a e grandes peda�os da �ustria, It�lia e Fran�a. (Conhecida tecnicamente como Glacia��o Wurm, essaIdade de Gelo europ�ia come�ou h� uns 70.000 anos, um pouco mais tarde do que sua contrapartida americana, mas chegou � extens�o m�xima na mesma �poca, 17.000 anos no passado, ocorrendo em seguida a mesma r�pida retirada e compartilhando da mesma data terminal). Os est�gios cruciais da cronologia da Idade de Gelo, portanto, parecem ter sido os seguintes: 1. Cerca de 60.000 anos atr�s, quando a Wurm, a Wisconsin e outras glacia��es j� estavam bem adiantadas; 2. Cerca de 17.000 anos atr�s, quando os len��is de gelo atingiram sua extens�o m�xima tanto no Velho quanto no Novo Mundo; 3. Os7.000 anos de degelo que se seguiram. O aparecimento do Homo sapiens sapiens, portanto, coincidiu com um longo per�odo de turbul�ncia geol�gica e clim�tica, um per�odo assinalado, acima de tudo, por violento congelamento e inunda��es. Os muitos mil�nios durante os quais o gelo avan�ou implacavelmente devem ter sido terr�veis e apavorantes para nossos ancestrais. Os 7.000 anos finais do fim da glacia��o, em especial os epis�dios de degelo muito r�pido e extenso, devem ter sido os piores. N�o devemos, no entanto, chegar a conclus�es apressadas sobre o estado do desenvolvimento social, religioso, cient�fico ou intelectual dos seres humanos que sobreviveram ao colapso demorado dessa tumultuosa �poca. Talvez seja errado o estere�tipo popular de que todos eles foram habitantes primitivos de cavernas. Na realidade, pouco se sabe sobre eles e quase que a �nica coisa que se pode dizer com certeza � que foram homens e mulheres exatamente iguais a n�s em termos fisiol�gicos e psicol�gicos. � poss�vel que, em v�rias ocasi�es, tivessem estado pr�ximos da extin��o total; � poss�vel tamb�m que os grandes mitos de cataclismo, aos quais os estudiosos nenhum valor hist�rico atribuem, possam conter registros precisos e relatos de testemunhas oculares de eventos reais. Conforme veremos no cap�tulo seguinte, se estamos procurando uma �poca que se ajuste t�o bem aos mitos como o sapatinho ao p� de Cinderela, parece que a �ltima Era Glacial � a candidata mais forte.


CAP�TULO 27 A Face da Terra Escureceu e Uma Chuva Negra Come�ou a Cair For�as terr�veis foram desencadeadas sobre todas as criaturas viventes durante a �ltima Era Glacial. Podemos deduzir a maneira como elas afligiram a humanidade pela prova firme de suas conseq��ncias para outras grandes esp�cies. Freq�entemente, essa prova parece confusa. Ou, como disse Charles Darwin, ap�s visitar a Am�rica do Sul: Ningu�m, acho, pode ter ficado mais at�nito com a extin��o de esp�cies do que eu. Quando encontrei em La Plata [Argentina] o dente de um cavalo enterrado com os restos de mastodontes, megat�rios, toxodontes e outros monstros extintos, todos os quais coexistiram em um per�odo geol�gico muito posterior, fiquei cheio de espanto. Isso porque, constatando que os cavalos, desde sua introdu��o pelos espanh�is na Am�rica do Sul, haviam corrido selvagens por toda a regi�o e aumentado em n�mero a uma taxa sem paralelo, perguntei a mim mesmo o que poderia ter exterminado, em data t�o recente, o antigo cavalo, em condi��es de vida aparentemente t�o favor�veis? A resposta, claro, foi a Idade de Gelo. Foi ela que exterminou os antigos cavalos das Am�ricas e certo n�mero de outros mam�feros antes bem-adaptados. A extin��o tampouco se limitou ao Novo Mundo. Muito ao contr�rio, em diferentes partes da terra (por diferentes motivos e em ocasi�es diferentes), na longa �poca de glacia��o, ocorreram v�rios epis�dios bem distintos de extin��o. Em todas as �reas, a vasta maioria das muitas esp�cies destru�das acabou nos sete mil anos finais, por volta dos anos 15000 a 8000 a.C. Nesta fase de nosso estudo, nenhuma necessidade h� de comprovar a natureza espec�fica dos eventos clim�ticos, s�smicos e geol�gicos ligados aos v�rios avan�os e recuos dos len��is de gelo que exterminaram os animais. Podemos, com bons fundamentos, especular que maremotos, terremotos, ciclones gigantescos e a chegada e desaparecimento s�bitos de condi��es glaciais tiveram um papel nesse particular. Muito mais importante - quaisquer que tenham sido as causas -, � a pura realidade f�sica, de que extin��o em massa de animais ocorreu realmente, como resultado da turbul�ncia da �ltima Era Glacial. A turbul�ncia, como concluiu Darwin em seu Journal, deve ter "abalado toda a estrutura do globo". No Novo Mundo, por exemplo, mais de setenta g�neros de grandes mam�feros desapareceram entre os anos 15000 e 8000 a.C., incluindo todos os membros norte-americanos de sete fam�lias e uma ordem completa, a dos


probosc�deos. Essasperdas estonteantes, implicando a oblitera��o violenta de mais de quarenta milh�es de animais, n�o ocorreram uniformemente em todo o per�odo; na verdade, a vasta maioria da extin��o ocorreu em apenas dois mil anos, entre os anos 11000 e 9000 a.C. Ou, para colocar o assunto em perspectiva, nos 300.000 anos anteriores apenas20 g�neros haviam desaparecido. O mesmo modelo de extin��o recente e maci�a repetiu-se em toda a Europa e �sia. Nem mesmo a distante Austr�lia escapou, perdendo talvez dezenove g�neros de grandes vertebrados, nem todos mam�feros, em um per�odo de tempo relativamente curto. Alasca e Sib�ria: O Congelamento S�bito Parece que as regi�es do norte do Alasca e Sib�ria foram as mais afetadas pelas subleva��es letais ocorridas entre 13.000 e 11.000 anos no passado. Em uma grande faixa de morte, em volta da borda do C�rculo �rtico, os restos de n�meros incont�veis de grandes animais foram encontrados - incluindo numerosas carca�as com a carne ainda intacta e quantidades assombrosas de longas presas de mamute perfeitamente conservadas. Na verdade, em ambas as regi�es, carca�as de mamutes foram descongeladas para alimentar c�es de tren� e bifes da mesma origem eram oferecidos como atra��o nos card�pios em Fairbanks. "Centenas de milhares de indiv�duos devem ter sido congelados imediatamente ap�s a morte e assim permaneceram, pois, de outra maneira, a carne e o marfim teriam se estragado... Alguma poderosa for�a geral esteve certamente em a��o para produzir essacat�strofe". O Dr. Dale Guthrie, do Institute of Arctic Biology, apresentou um argumento interessante sobre a pura variedade de animais que floresceram no Alasca no d�cimo primeiro mil�nio a.C.: Constatando a exist�ncia dessa ex�tica mistura de tigres-de-dente-de-sabre, camelos, cavalos, rinocerontes, jumentos, cervos com galhadas gigantescas, le�es, fur�es etc., n�o podemos deixar de especular sobre o mundo em que viveram. Essa grande diversidade de esp�cies, t�o diferente da que prevalece hoje, provoca uma pergunta �bvia: n�o � prov�vel que o resto do ambiente fosse tamb�m diferente? Os sedimentos onde foram escavados esses restos parecem uma terra de fina granula��o, cinzenta escura. Duras e congeladas no interior dessa massa, diz o professor Hibben, da Universidade do Novo M�xico, encontram-se partes emaranhadas de animais e �rvores, misturadas com l�minas de gelo e camadas de


turfa e l�quens... Bis�es, cavalos, lobos, ursos, le�es. (...) Rebanhos inteiros foram aparentemente mortos na mesma ocasi�o, v�timas de algum agente comum. (...) Essas pilhas de corpos de animais ou de homens simplesmente n�o ocorrem por a��o de qualquer agente natural (...)". Em alguns n�veis, artefatos de pedra foram encontrados "congelados in situ em grandes profundidades e em associa��o com fauna da Idade de Gelo, o que confirma que o homem foi contempor�neo dos animais extintos no Alasca". Em todos os tipos de terra do Alasca, foi encontrada tamb�m prova de perturba��es atmosf�ricas de viol�ncia sem paralelo. Mamutes e bis�es foram rasgados e desfigurados como se pela m�o c�smica de um deus irado. Em um local, deparamos com as pernas dianteiras e ombros de um mamute, com partes de carne, unhas e p�los ainda presos aos ossos enegrecidos. Perto, vimos o pesco�o e o cr�nio de um bis�o, com as v�rtebras ainda coladas com tend�es e ligamentos, e intacta a casca quitinizada dos chifres. N�o h� marca de faca ou de instrumento de corte [como aconteceria, por exemplo, se ca�adores humanos estivessem envolvidos]. Os animais foram simplesmente esquartejados e espalhados pela paisagem como outros tantos bonecos de palha, mesmo que alguns deles pesassemv�rias toneladas. Misturadas com pilhas de ossos, encontramos �rvores, tamb�m retorcidas e empilhadas em grupos emaranhados, e o conjunto todo coberto por areia fina, que desde ent�o foi congelada e tornou-se s�lida. Grande pane da mesma situa��o foi encontrada na Sib�ria, onde mudan�as clim�ticas catastr�ficas e subleva��es geol�gicas ocorreram mais ou menos na mesma �poca. Nessa regi�o, cemit�rios congelados de mamutes, "minerados" para a retirada de marfim desde a era dos romanos, continuaram a produzir uns estimados 20.000 pares de presasa cada d�cada nos in�cios do s�culo XX. Repetindo, algum fator misterioso parece ter estado em a��o para ocasionar essa extin��o em massa. Com sua pelagem lanuda e pele grossa, os mamutes eram em geral considerados adaptados ao tempo frio e n�o nos surpreendemos em encontrar seus restos na Sib�ria. Mais dif�cil de explicar � que seres humanos morreram ao lado deles, bem como numerosos outros animais que, em nenhum sentido, se poderia considerar como esp�cies adaptadasao frio: As plan�cies do norte da Sib�ria abrigaram imensos n�meros de rinocerontes, ant�lopes, cavalos, bis�es e outras criaturas herb�voras, enquanto uma grande variedade de carn�voros, incluindo o tigre-de-dentes-de-sabre, se alimentava deles. (...) Tal como os mamutes, essesoutros animais habitavam zonas que se estendiam do


norte da Sib�ria �s praias do oceano �rtico e ainda mais ao norte, chegando a Lyakhov e as Novas Ilhas Siberianas, a apenascurta dist�ncia do P�lo Norte. Pesquisadores confirmaram que, entre as 34 esp�cies de animais que viviam na Sib�ria antes das cat�strofes do s�culo XI a.C. - incluindo o mamute Ossip, o cervo gigante, a hiena de caverna e os le�es de caverna -, nada menos de 28 s� eram adaptados a condi��es temperadas. Nessecontexto, um dos aspectos mais enigm�ticos da extin��o, e inteiramente contr�rio ao que as condi��es geogr�ficas e clim�ticas modernas nos levariam a esperar, � que quanto mais ao norte se estendiam as pesquisas, maior o n�mero dos mamutes e de outros animais. Na verdade, algumas das ilhas da Nova Sib�ria, bem dentro do C�rculo �rtico, foram descritas por seus primeiros exploradores como sendo constitu�das quase inteiramente de ossos e longas presas de mamutes. A �nica conclus�o l�gica, como disse Georges Cuvier, zo�logo franc�s do s�culo XIX, era que "esse frio eterno n�o existiu antes nessas partes do mundo, onde os animais foram congelados, uma vez que eles n�o poderiam ter sobrevivido nessas temperaturas. No mesmo instante em que essas criaturas foram privadas de vida, a regi�o inteira que eles habitavam congelou". H� grande volume de outras provas a sugerir que um congelamento s�bito ocorreu na Sib�ria no s�culo XI a.C. No levantamento que fez das ilhas Nova Sib�ria, o explorador �rtico bar�o Eduard Von Toll encontrou os restos "de um tigre-de-dentes-de-sabre e de uma �rvore frut�fera que tivera 30m de altura. A �rvore estava bem preservada no gelo eterno, conservando ainda ra�zes e sementes. Folhas verdes e frutos maduros ainda se encontravam presos a seus ramos... Atualmente, o �nico representante de vegeta��o nas ilhas � um salgueiro que s� cresce at� 2,4m de altura". Igualmente indicativo da mudan�a catacl�smica que ocorreu no in�cio do grande frio na Sib�ria foi o alimento que os animais extintos estavam comendo quando morreram: "Os mamutes morreram de repente, em meio a frio intenso e em grande n�mero. A morte aconteceu t�o r�pida que a vegeta��o engolida n�o havia sido sequer digerida. (...) Folhas de relva, copos-de-leite, jun�a tenra e feij�es silvestres foram encontrados, ainda identific�veis e intactos, na boca e est�mago dessesanimais." Dispensa dizer que essa flora n�o cresce hoje em nenhum lugar da Sib�ria. Sua presen�a nessa regi�o no s�culo XI a.C. obriga-nos a aceitar a hip�tese de que a regi�o tinha um clima ameno e produtivo - temperado ou mesmo quente. O motivo por que o fim da Era Glacial em outras partes do mundo deveria ter sido o in�cio do inverno fatal nesse antigo para�so � uma quest�o que deixaremos para responder na Parte VIII. O certo, por�m, � que em alguma �poca entre os 12-13.000 anos no passado, uma temperatura abaixo do ponto de congelamento desceu com horr�vel rapidez sobre a


Sib�ria e nunca mais afrouxou seu dom�nio. Em um eco sobrenatural das tradi��es av�sticas, uma terra que desfrutara antes sete meses de ver�o foi convertida, quase que da noite para o dia, em uma terra de gelo e neve, com dez meses de inverno inclemente e congelamento geral. Mil Krakatoas, no Mesmo Instante Numerosos mitos sobre cataclismos falam em frio terr�vel, c�us escuros e chuva negra, causticante, betuminosa. Durante s�culos, deve ter sido assim durante todo o arco de morte, que abrangeu trechos imensos da Sib�ria, Yukon e Alasca. Nesses locais, "misturada nas profundezas da terra e, �s vezes, com pilhas de ossose grandes presas, s�o encontradas camadas de cinza vulc�nica. N�o h� d�vida que, coincidindo com a extin��o dos animais, houve erup��esvulc�nicas de tremendas propor��es". H� um volume not�vel de prova de grande atividade vulc�nica durante o decl�nio da calota polar Wisconsin. Muito ao sul das terras congeladas do Alasca, milhares de animais e plantas pr�-hist�ricos foram, de repente, ilhados nos famosos po�os de breu La Brea, na �rea de Los Angeles. Entre as criaturas desenterradas foram encontrados bis�es, cavalos, camelos, pregui�as, mamutes, mastodontes e, pelo menos, setecentos tigres-de-dentes-de-sabre. Foi encontrado tamb�m um esqueleto humano desarticulado, inteiramente coberto de betume, juntamente com os ossos de uma esp�cie extinta de abutre. De modo geral, os restos de La Brea ("quebrados, esmagados, torcidos e misturados numa massa a mais heterog�nea poss�vel") falam eloq�entemente de um s�bito e pavoroso cataclisma vulc�nico. Achados semelhantes de aves e mam�feros t�picos da Era Glacial mais recente foram desencavados de asfalto em dois outros locais na Calif�rnia (Carpinteria e McKittrick). No San Pedro Valley, foram descobertos esqueletos de mastodontes ainda em p�, no meio de grandes montes de cinza vulc�nica e areia. F�sseis do glacial lago Floristan, no Colorado, e da John Day Basin, no Oregon, foram tamb�m desenterrados de tumbas de cinza vulc�nica. Embora as tremendas erup��es que criaram essas sepulturas coletivas possam ter estado no auge durante os �ltimos dias da Wisconsin, parece que se repetiram durante grande parte da Idade de Gelo n�o s� na Am�rica do Norte, mas nas Am�ricas Central e do Sul, no Atl�ntico Norte, na �sia continental e no Jap�o. � dif�cil imaginar o que esse vulcanismo geral possa ter significado para indiv�duos que viveram nesses tempos estranhos e terr�veis. Mas os que lembram as nuvens de poeira, fuma�a e cinzas em forma de couve-flor ejetadas na atmosfera superior pela erup��o do monte Saint Helens em 1980 compreender�o que um grande n�mero


dessas explos�es (ocorrendo em seq��ncia, durante um longo per�odo, em diferentes pontos em volta do globo) n�o s� teria produzido efeitos locais devastadores, mas causado uma grav�ssima deteriora��o do clima do mundo. O monte Saint Helens cuspiu um estimado quil�metro c�bico de rocha e foi caf� pequeno em compara��o com o vulcanismo t�pico da Era Glacial. Uma impress�o mais fiel do que aconteceu seria o vulc�o Krakatoa, na Indon�sia, que, em 1883, entrou em erup��o com tal viol�ncia que matou mais de 36.000 pessoas,tendo o som da explos�o sido ouvido a 4.600km de dist�ncia. Com epicentro no estreito de Sunda, tsunamis de 35 metros de altura varreram o mar de Java e o oceano �ndico, jogando navios a vapor a quil�metros terra adentro e causando inunda��esa uma dist�ncia t�o grande quanto a �frica Oriental e as costas ocidentais das Am�ricas. Dezoito quil�metros c�bicos de rochas e quantidades imensas de cinzas e poeira foram lan�ados na atmosfera superior e o c�u em volta do mundo tornou-se visivelmente mais escuro durante mais de dois anos, enquanto o p�r-do-sol ficava reconhecidamente mais vermelho. As temperaturas m�dias globais ca�ram durante esse per�odo, fato este confirmado por medi��es, porque as part�culas vulc�nicas de poeira refletiam os raios do sol de volta ao espa�o. Durante os epis�dios de intenso vulcanismo que caracterizaram a Idade de Gelo, temos que imaginar n�o um s�, mas muitos Krakatoas. O efeito combinado seria, no in�cio, uma grande intensifica��o das condi��es glaciais, � medida que a luz do sol era cortada pelas nuvens de poeira fervente e temperaturas j� baixas ca�am ainda mais. Os vulc�es injetaram ainda enormes volumes de di�xido de carbono na atmosfera. Como o di�xido de carbono � um dos chamados "gases de estufa", � razo�vel supor que, quando a poeira come�ou a assentar em per�odos de calma relativa, teria ocorrido certo grau de aquecimento global. Numerosas autoridades atribuem os avan�os e recuos repetidos dos grandes len��is de gelo a essa intera��o tipo gangorra entre vulcanismo e clima.

Inunda��o Global Ge�logos concordam em que, por volta do ano 8000 a.C., os grandes len��is de gelo Wisconsin e Wurm haviam recuado. A Era Glacial tinha acabado. N�o obstante, os sete mil anos transcorridos antes dessa data haviam presenciado turbul�ncias clim�ticas e geol�gicas em uma escala quase inimagin�vel. Oscilando de cataclismo a desastre


ecol�gico e de afli��es a calamidades, as poucas tribos dispersas de seres humanos sobreviventes devem ter levado vidas de terror e confus�o constantes: teria havido per�odos de calma, quando poderiam ter esperado que o pior j� houvesse passado. Enquanto continuava o derretimento das geleiras gigantescas,contudo, essesper�odos de tranq�ilidade teriam sido marcados repetidamente por violentas inunda��es. Al�m do mais, partes da crosta da terra at� ent�o sepultadas na astenosfera por bilh�es de toneladas de gelo teriam sido liberadas pelo degelo e voltado a subir, �s vezes rapidamente, produzindo terremotos devastadores e enchendo o ar de um som terr�vel. Algumas �pocas foram muito piores do que outras. O grosso da extin��o de animais ocorreu entre os anos 11000 a.C. e 9000 a.C., quando houve violentas e inexplic�veis varia��es clim�ticas. (Nas palavras do ge�logo John Imbrie, "uma revolu��o clim�tica ocorreu por volta de 11.000 anos atr�s".) Houve tamb�m um grande aumento de taxas de sedimenta��o e um abrupto aumento de temperatura de 6 a 10 graus cent�grados na superf�cie das �guas do oceano Atl�ntico. Outro epis�dio turbulento, novamente acompanhado de extin��o de animais em grande escala, ocorreu entre 15000 a.C. e 13000a.C.Vimos no cap�tulo anterior que o Avan�o Tazewell levou os len��is de gelo � sua extens�o m�xima h� cerca de 17.000 anos e que da� se seguiu um espetacular e prolongado derretimento, descongelando milh�es de quil�metros quadrados na Am�rica do Norte e Europa em menos de dois mil anos. Mas ocorreram algumas anomalias: toda a regi�o ocidental do Alasca, o territ�rio do Yukon no Canad�, e a maior parte da Sib�ria, incluindo as Novas Ilhas Siberianas (que hoje figuram entre os lugares mais frios do mundo), permaneceram intactas at� que a Era Glacial aproximou-se do fim. Elas s� adquiriram seu clima atual cerca de 12.000 anos atr�s, aparentemente de forma muito brusca, quando mamutes e outros grandes mam�feros foram mortos de repente. Em outras partes do mundo, a situa��o era diferente. A maior parte da Europa estava sepultada sob uma camada de gelo de 3km de espessura. O mesmo acontecia com quase toda a Am�rica do Norte, onde o len�ol de gelo havia se espalhado de centros nas proximidades da ba�a de Hudson para envolver toda a zona leste do Canad�, Nova Inglaterra e grande parte do Meio-Oeste at� o paralelo 37 - bem ao sul de Cincinnati, no vale do Mississippi, e a mais da metade do caminho at� o equador. No seu auge h� 17.000 anos, calcula-se que o volume total de gelo que cobria o hemisf�rio norte situava-se por volta de 4,5 milh�es de metros c�bicos e, claro, houve extensas glacia��es no hemisf�rio Sul, conforme notado tamb�m acima. Os suprimentos extras de �gua, dos quais esses numerosos len��is de gelo eram


formados, haviam sido fornecidos pelos mares e oceanos do mundo que, na ocasi�o, tinham um n�vel 120m mais baixo do que hoje. E foi nesse momento que o p�ndulo do clima mudou violentamente para a dire��o oposta. O grande degelo come�ou com tanta rapidez e em uma �rea t�o vasta que foi descrito como "um tipo de milagre". Ge�logos chamam-na de a fase da fervura do clima quente na Europa, e como "Interstadial Brady", na Am�rica do Norte. Em ambas as regi�es: Uma calota glacial que talvez tenha levado 40.000anos para se formar desapareceu, na maior parte, em 2.000 anos. Deve ser �bvio que isso n�o pode ter sido resultado de fatores clim�ticos que atuassem gradualmente, e que s�o em geral invocados para explicar as idades de gelo. (...) A rapidez do degelo sugere que algum fator extraordin�rio estava afetando o clima. As datas indicam que esse fator fez-se sentir inicialmente h� 16.500 anos, que destruiu a maioria, talvez tr�s quartos das geleiras uns 2.000 anos depois, e que [o grosso desses fen�menos dram�ticos ocorreu] em um mil�nio ou menos. Inevitavelmente, a primeira conseq��ncia foi uma eleva��o brusca dos n�veis dos mares, chegando talvez a uns 100m. Ilhas e pontes continentais desapareceram e vastas extens�es de linha costeira continental baixa ficaram submersas. De vez em quando, grandes maremotos surgiam para engolfar tamb�m terras mais altas. Recuaram depois, mas, nesse processo, deixaram tra�os inconfund�veis de sua presen�a. Nos Estados Unidos, "aspectos marinhos da Era Glacial est�o presentes ao longo da costa do golfo, a leste do rio Mississippi, alguns em altitudes que podem exceder 60m". Em p�ntanos que cobrem dep�sitos glaciais em Michigan foram descobertos os esqueletos de duas baleias. Na Ge�rgia, dep�sitos marinhos s�o encontrados a uma altura de 60m. No Texas, bem ao sul do prolongamento mais meridional da Glacia��o Wisconsin, os restos de mam�feros terrestres da Era Glacial s�o encontrados em dep�sitos marinhos. Outro dep�sito marinho, contendo le�es-marinhos, focas e pelo menos cinco g�neros de baleias, cobre a costa dos estados do nordeste e da costa do �rtico do Canad�. Em numerosas �reas ao longo da costa do Pac�fico da Am�rica do Norte, dep�sitos marinhos da Idade de Gelo "estendem-se por mais de 320km terra adentro". Ossosde uma baleia foram encontrados ao norte do lago Ont�rio, a cerca de 130m acima do n�vel do mar e, outro, em Vermont, a mais de 150m, bem como um terceiro na �rea Montreal-Quebec, a mais de 180m de altura.


Mitos sobre o dil�vio em todo o mundo descrevem, t�pica e repetidamente, cenas em que seres humanos e animais fogem das �guas que sobem e se refugiam no topo de montanhas. O registro f�ssil confirma que esse fato realmente aconteceu durante o derretimento dos len��is de gelo e que as montanhas nem sempre eram altas o suficiente para salvar da morte os refugiados. Fissuras nas rochas no topo de colinas isoladas no centro da Fran�a, por exemplo, est�o cheias do que � conhecido como "brechas oss�feras", que consistem de ossos partidos de mamutes, rinocerontes lanudos e outros animais. O pico de 435m de altura do monte Genay, na Barganha, "tem uma brecha que cont�m restos de mamute, rena, cavalo e outros animais". Bem ao sul, o mesmo acontece com a Rocha de Gibraltar, onde um "molar humano e algumas pe�as de s�lex trabalhadas pelo homem paleol�tico foram descobertas entre ossosde animais". Restos de hipop�tamos, juntamente com ossos de mamutes, rinocerontes, cavalos, ursos, bis�es, lobos e le�es foram encontrados na Inglaterra, nas vizinhan�as de Plymouth, � margem do canal da Mancha. As colinas em volta de Palermo, na Sic�lia, revelaram uma "quantidade extraordin�ria de ossosde hipop�tamos - em hecatombes completas". Com base nessa e em outras provas, Joseph Prestwich, ex-professor de geologia na Universidade de Oxford, concluiu que a Europa Central, a Inglaterra e as ilhas da C�rsega, Sardenha e Sic�lia ficaram submersas em v�rias ocasi�es durante o r�pido derretimento dos len��is de gelo: Os animais naturalmente se retiraram cada vez mais, � medida que as �guas avan�avam, cada vez mais profundamente para as colinas, at� que ficaram ilhados. (...) Aglomeraram-se juntos em enormes multid�es, atropelando-se para entrar nas cavernas mais acess�veis, at� que foram alcan�ados pelas �guas e destru�dos. (...) Rocha mi�da e grandes blocos das encostas das colinas foram jogados para baixo pela for�a das �guas, partindo e esmagando ossos. (...) Algumas comunidades de homens primitivos devem ter sofrido nessacat�strofe geral. � prov�vel que inunda��es calamitosas desse tipo tenham ocorrido na China, mais ou menos na mesma �poca. Em cavernas nas proximidades de Pequim, ossos de mamutes e b�falos foram encontrados juntos com restos de esqueletos humanos. Numerosas autoridades atribuem a mistura, que aparentemente ocorreu de forma violenta, de carca�as de mamutes com �rvores lascadas e partidas na Sib�ria a "um grande maremoto, que arrancou florestas e sepultou a emaranhada carnificina em um dil�vio de lama. Na regi�o polar, esse material congelou, endureceu e preservou a prova em gelo eterno at� o presente".


Em toda a Am�rica do Sul, igualmente, f�sseis da Idade de Gelo foram desencavados, "entre os quais tipos incongruentes de animais (carn�voros e herb�voros) aparecem misturados promiscuamente com ossos humanos. N�o menos importante � a associa��o, em �reas realmente vastas, de criaturas fossilizadas de terra e mar, sem nenhuma ordem, mas ainda assim sepultadas no mesmo horizonte geol�gico". A Am�rica do Norte foi tamb�m duramente castigada por inunda��es. Ao derreterem, os grandes len��is de gelo do per�odo Wisconsin formaram imensos (embora tempor�rios) lagos, que se encheram com incr�vel rapidez, afogando tudo em seu caminho, e sendo em seguida esvaziados em algumas centenas de anos. O lago Agassiz, por exemplo, o maior lago glacial no Novo Mundo, ocupou outrora uma �rea de trinta mil quil�metros quadrados, cobrindo grandes �reas do que s�o hoje Manitoba, Ont�rio e Saskatchewan, no Canad�, e Dakota do Norte e Minnesota, nos Estados Unidos. Curiosamente, esse lago durou menos de um mil�nio, o que indica um epis�dio catastr�fico e s�bito de derretimento e inunda��o, seguido de um per�odo de calma. Um S�mbolo de Boa F� Durante muito tempo, acreditou-se que seres humanos s� chegaram ao Novo Mundo h� cerca de 11.000anos. Descobertas recentes, por�m, empurraram cada vez mais para tr�s esse horizonte. Implementos de pedra datando do ano 25000 a.C. foram identificados por pesquisadores canadenses na Old Crow Basin, no territ�rio do Yukon, no Alasca. Na Am�rica do Sul (t�o ao sul como o Peru e Terra do Fogo), foram encontrados restos humanos e artefatos seguramente datados como do ano 12.000 a.C. - bem como outro grupo com datas de 19000 e 23000 a.C. Levadas em conta essas e outras provas, "uma conclus�o muito razo�vel sobre o povoamento das Am�ricas � que o processo come�ou h� pelo menos 35.000 anos, embora possa ter tamb�m inclu�do ondas de imigrantes em datas posteriores". Esses novos americanos da Idade de Gelo, chegando da Sib�ria em pequenos grupos atrav�s da ponte continental de Bering, teriam enfrentado as condi��es mais pavorosasentre os anos 17000e 10000a.C.Foi nessaocasi�o que as geleiras Wisconsin, todas elas no mesmo instante, iniciaram o violento derretimento, for�ando um aumento de uns 100m nos n�veis globais do mar, em meio a cenas de turbul�ncia clim�tica e geol�gica sem precedentes. Durante sete mil anos de experi�ncia humana, terremotos, erup��es vulc�nicas e inunda��es gigantescas, alternados com surpreendentes per�odos de tranq�ilidade, devem ter dominado o dia-a-dia dos homens do Novo Mundo. Talvez seja por isso que tantos de seus mitos falem com


tanta convic��o de fogo e inunda��es, tempos de escurid�o e de cria��o e destrui��o de s�is. Al�m do mais, conforme vimos, os mitos do Novo Mundo n�o est�o, neste particular, isolados daqueles do Velho Mundo. Em todo o globo, uma uniformidade not�vel � encontrada no tocante a quest�es como o "grande dil�vio", o "grande frio" e "o tempo do grande levantamento da superf�cie da terra". N�o acontece apenas que as mesmas experi�ncias estejam sendo recontadas uma vez ap�s outra, o que, por si mesmas, seriam inteiramente compreens�veis, j� que a Idade de Gelo e seus efeitos posteriores foram fen�menos globais. Muito mais curiosa � a maneira como os mesmos motivos simb�licos continuaram a repetir-se: o homem bom e sua fam�lia, o aviso dado por um deus, o salvamento das sementes de todas as coisas vivas, o barco que permitiu a sobreviv�ncia, os espa�os fechados contra o frio, o tronco de uma �rvore, onde os progenitores da humanidade futura se esconderam, as aves e outras criaturas soltas ap�s o dil�vio para encontrar terra... e assim por diante. N�o � tamb�m estranho que tantos mitos contenham descri��es de figuras como Quetzalcoatl e Viracocha, que dizem que chegaram no tempo das trevas, depois do dil�vio, para ensinar arquitetura, astronomia, ci�ncia e o imp�rio da lei a tribos dispersase desmoralizadasde sobreviventes? Quem foram esses her�is civilizadores? Foram cria��es da imagina��o primitiva? Ou deuses? Ou homens? Se foram homens, poderiam ter eles manipulado os mitos de alguma maneira, transformando-os em ve�culos para transportar conhecimentos atrav�s dos tempos? Essasid�ias parecem fantasiosas. Mas, como veremos na Parte V, dados astron�micos de uma natureza perturbadoramente exata e cient�fica reaparecem continuamente em certos mitos, t�o antigos no tempo e t�o universais em sua distribui��o como os do grande dil�vio. De onde teria vindo todo esseconte�do cient�fico? Parte V O Mist�rio dos Mitos 2. O C�digo da Precess�o dos Equin�cios CAP�TULO 28 A Maquinaria do C�u


Embora n�o espere que um texto sobre mec�nica celeste seja t�o f�cil como uma can��o de ninar, o leitor moderno insiste em que tem capacidade de compreender imediatamente "imagens" m�ticas, porque s� pode respeitar como "cient�ficas" f�rmulas de aproxima��o de uma p�gina de extens�o, e coisasassim. Ele n�o pensa na possibilidade de que conhecimentos igualmente importantes possam ter sido outrora expressos em linguagem do dia-a-dia. Jamais desconfia dessa possibilidade, embora as realiza��es vis�veis de culturas antigas - bastando mencionar as pir�mides e a metalurgia - devam ser raz�es convincentes para que ele conclua que homens inteligentes e s�rios trabalharam atr�s do palco, homens que for�osamente deveriam ter usado linguagem t�cnica...


A cita��o acima � do falecido Giorgio de Santillana, professor de hist�ria da ci�ncia, do Massachusetts Institute of Technology. Nos cap�tulos que se seguir�o, vamos aprender alguma coisa sobre seus estudos revolucion�rios de mitologia antiga. Em curtas palavras, por�m, a id�ia de Santillana era a seguinte: h� muito tempo, indiv�duos s�rios e inteligentes criaram um sistema para esconder a terminologia t�cnica de uma ci�ncia astron�mica adiantada por tr�s da linguagem comum do mito.


Teve ele raz�o? E, se teve, quem foram esses indiv�duos s�rios e inteligentes - esses astr�nomos, essesantigos cientistas - que trabalharam nos bastidores da pr�-hist�ria? Comecemoscom alguns dados b�sicos. A Louca Dan�a Celeste A terra faz uma volta completa em torno de seu eixo a cada 24 horas e tem uma circunfer�ncia equatorial de 40.068km. Segue-se, portanto, que um homem im�vel no equador est�, na verdade, em movimento, revolvendo com o planeta a pouco mais de 1.600km por hora. Vista do espa�o exterior e olhando de cima para baixo e para o p�lo Norte, a dire��o do movimento � no sentido anti-hor�rio. Enquanto gira diariamente em torno de seu eixo, a terra descreve tamb�m uma �rbita em torno do sol (mais uma vez, em sentido anti-hor�rio), em vez de ser inteiramente circular. Segue essa �rbita a uma velocidade realmente alucinante, viajando em uma hora - 107.159km - tanto quanto a dist�ncia que um motorista t�pico cobriria em seis anos. Traduzindo esses c�lculos em escala mais modesta, isso significa que estamos percorrendo o espa�o muito mais r�pido do que qualquer bala, � raz�o de 29km por segundo. No tempo que voc�, leitor, precisou para ler este par�grafo, viajamos cerca de 884km na trajet�ria da terra em volta do sol. Sendo necess�rio um ano para completar o circuito completo, a �nica prova que temos da vertiginosa corrida orbital de que participamos � encontrada na lenta marcha das esta��es.E, na sucess�odas pr�prias esta��es,torna-se poss�vel identificar um maravilhoso e imparcial mecanismo em funcionamento que distribui eq�itativamente a primavera, o ver�o, o outono e o inverno em torno do globo, atrav�s dos hemisf�rios Norte e Sul, ano ap�s ano, com regularidade absoluta. O eixo de rota��o da terra � inclinado em rela��o ao plano de sua �rbita (em 23,5� em rela��o � vertical). Essainclina��o, respons�vel pelas esta��es, "aponta" o p�lo Norte, e todo o hemisf�rio Norte, para longe do sol durante seis meses por ano (enquanto o hemisf�rio Sul desfruta seu ver�o) e aponta o p�lo Sul e o hemisf�rio sul para longe do sol pelos seis meses restantes (enquanto o hemisf�rio Norte goza seu ver�o). As esta��es s�o resultado da varia��o anual no �ngulo ao qual os raios do sol atingem qualquer ponto particular na superf�cie da terra, e da varia��o anual no n�mero de horas de luz solar recebida por ela em diferentes ocasi�esdo ano. A inclina��o da terra � denominada, em linguagem t�cnica, de "obliq�idade". O plano de sua �rbita, estendendo-se para fora para formar um grande c�rculo na esfera celeste, � conhecido como a "ecl�ptica". Astr�nomos falam tamb�m em "equador celeste", que � um prolongamento do equador da terra na esfera celeste. O equador


celeste est� hoje inclinado a cerca de 23,5� em rela��o � ecl�ptica, porque o eixo da terra est� inclinado a 23,5� em rela��o � vertical. Esse �ngulo, denominado de "obliq�idade da ecl�ptica", nem � fixo nem imut�vel todo tempo. Ao contr�rio (como vimos no Cap�tulo 22 em rela��o � data��o da cidade andina de Tiahuanaco), est� sujeito a oscila��es constantes, embora muito lentas. Elas ocorrem em uma faixa de ligeiramente menos de 3�, aproximando-se mais da vertical a 22,1� e afastando-se no m�ximo a 24,5�. Um ciclo completo, de 24,5� a 22,1�, e de volta a 24,5�, leva aproximadamente 41.000 anos para ser completado. Nosso fr�gil planeta, portanto, inclina-se e gira enquanto percorre em velocidade alucinante sua trajet�ria orbital. A �rbita leva um ano e, o giro, um dia, ao passo que a inclina��o tem um ciclo de 41.000 anos. Uma louca dan�a celeste parece estar ocorrendo, enquanto saltamos, raspamos e mergulhamos na eternidade e sentimos o pux�o de �nsias contradit�rias: cair dentro do sol, por um lado, e soltarmo-nos e partir para a escurid�o exterior, por outro. Influ�ncias Ocultas Sabe-se agora que o dom�nio gravitacional do sol, nos c�rculos internos dos quais a terra � mantida cativa, estende-se por mais de 24 trilh�es de quil�metros, quase que a metade do caminho at� a estrela mais pr�ximas. A atra��o que o sol exerce sobre nosso planeta, portanto, � colossal. Somostamb�m afetados pela gravidade dos demais planetas com os quais compartilhamos o sistema solar. Todos eles exercem uma atra��o que tende a puxar a terra para fora de sua �rbita regular em torno do sol. Os planetas s�o de diferentes tamanhos, contudo, e giram em torno do sol a velocidades diferentes. A influ�ncia gravitacional que podem exercer, portanto, varia com o tempo, de formas complexas, ainda que previs�veis, e a �rbita muda de forma constantemente como rea��o. Uma vez que a �rbita � uma elipse, essas mudan�as afetam seu grau de alongamento, conhecido tecnicamente como "excentricidade". Esta excentricidade varia de um valor baixo pr�ximo de zero (quando a �rbita aproxima-se da forma de um c�rculo perfeito) para um valor alto de 6%, quando est� em sua forma mais alongada e el�ptica. H� ainda outras formas de influ�ncia planet�ria. Embora nenhuma explica��o tenha ainda sido dada, sabe-se que as freq��ncias de r�dio de onda curta s�o perturbadas quando J�piter, Saturno e Marte ficam alinhados. E, neste particular, surgiu tamb�m prova de uma estranha e inesperada correla��o entre as posi��es de J�piter, Saturno e Marte, em suas �rbitas em torno do Sol, e perturba��es el�tricas violentas na atmosfera superior da Terra. Essefato parece indicar que os planetas e o Sol fazem parte de um mecanismo c�smico-el�trico de equil�brio, que se estende por bilh�es de


quil�metros a partir do centro de nosso sistema solar. Esse equil�brio el�trico n�o � explicado nas teorias astro-f�sicas correntes.

O New York Times, do qual foi extra�do a not�cia acima, n�o tentou esclarecer mais o assunto. Seus jornalistas provavelmente n�o se davam conta do quanto se pareciam com Berosus, o historiador, astr�nomo e vidente caldeu do s�culo III a.C., que realizou um profundo estudo dos portentos que, acreditava, pressagiariam a destrui��o final do mundo. Concluiu ele: "Eu, Berosus, int�rprete de Bellus, afirmo que toda a terra ser� condenada �s chamas quando os cinco planetas se reunirem em C�ncer, t�o organizados em fila que uma linha reta poderia passar atrav�s de suasesferas". Uma conjun��o de cinco planetas, que se pode esperar exer�a profundos efeitos gravitacionais, ocorrer� no dia 5 de maio do ano 2000, quando Netuno, Urano, V�nus, Merc�rio e Marte se alinhar�o com a Terra no outro lado do sol, iniciando uma esp�cie


de cabo-de-guerra c�smico. Note-se tamb�m que astr�logos modernos que inseriram em seus mapas a data maia para o fim do Quinto Sol [o fim do mundo, no ano 2012 de nossa era] calculam que, nessa data, haver� uma configura��o muito estranha dos planetas, na verdade, uma configura��o t�o estranha "que s� pode ocorrer uma vez a cada 45.000 anos... � vista dessa configura��o extraordin�ria, bem que podemos esperar um efeito extraordin�rio".

Ningu�m em seu ju�zo perfeito correria para aceitar essa conclus�o. Ainda assim, n�o se pode negar que influ�ncias m�ltiplas, muitas das quais n�o entendemos bem, parecem estar em a��o em nosso sistema solar. Entre essas influ�ncias, a de nosso pr�prio sat�lite, a Lua, � especialmente forte. Terremotos, por exemplo, ocorrem com mais freq��ncia quando a lua est� cheia ou quando a terra se encontra entre o sol e a lua; quando a lua est� na fase de nova ou entre o sol e a terra; quando ela cruza o meridiano da localidade afetada e quando est� mais perto da terra em sua �rbita. Na verdade, quando ela atinge este �ltimo ponto (tecnicamente chamado de "perigeu"), sua atra��o gravitacional aumenta em 6%. Essefato acontece uma vez a cada 27 dias e


um ter�o. A atra��o sobre as mar�s que ela exerce nessas ocasi�es afeta n�o s� os grandes movimentos de nossos oceanos, mas tamb�m os reservat�rios de magma quente, presos dentro da fina crosta da terra (que j� foi descrita como um saco de papel cheio de mel ou melado, viajando a uma taxa de mais de 1.600 km/hora em rota��o equatorial, e a mais de 106.000km/h em �rbita). O Bamboleio de um Planeta Deformado Todo esse movimento circular, claro, gera imensas for�as centr�fugas e estas, como sir Isaac Newton demonstrou no s�culo XVII, fazem com que o "saco de papel" da terra torne-se abaulado no equador. O corol�rio disso � o achatamento dos p�los. Em conseq��ncia, nosso planeta desvia-se ligeiramente da forma de uma esfera perfeita e pode ser descrito mais corretamente como um "esfer�ide oblato". Seu raio no equador (6.377.068km) � 22 km mais longo do que o raio polar (6.355.422km). Durante bilh�es de anos, os p�los achatados e o equador inchado t�m estado empenhados em uma intera��o matem�tica oculta com a influ�ncia oculta da gravidade. "Uma vez que a Terra � achatada", explica uma autoridade, "a gravidade da Lua tende a inclinar o eixo da Terra, para que ele se torne perpendicular � �rbita da Lua e, em menor extens�o, isso tamb�m se aplica no caso do Sol". Simultaneamente, a incha��o equatorial - a massa extra distribu�da em volta do equador - atua como a borda de um girosc�pio para manter a terra firme em seu eixo. Ano ap�s ano, em escala planet�ria, � esse efeito girosc�pico que impede que o pux�o do sol e da lua altere radicalmente o movimento de rota��o do eixo da terra. A atra��o que esses dois astros exercem conjuntamente �, contudo, suficientemente forte para obrigar o eixo a "precessar", o que significa que ele bamboleia lentamente em dire��o hor�ria, oposta ao giro da terra. Esseimportante movimento � a assinatura caracter�stica de nosso planeta no sistema solar. Quem quer que j� tenha um dia jogado um pi�o deve poder compreender esse fato sem muita dificuldade. O pi�o, afinal de contas, � simplesmente um outro tipo de girosc�pio. Em giro completo sem interrup��o, ele permanece na vertical. Mas, no momento em que o eixo � desviado da vertical, ele come�a a exibir um segundo tipo de comportamento: um bamboleio lento e obstinado, invertido, em volta de um grande c�rculo. Esse bamboleio, que � uma precess�o, muda a dire��o em que o eixo aponta, enquanto se mostra constante em um novo �ngulo inclinado. Uma segunda analogia, de enfoque um tanto diferente, pode ajudar a esclarecer ainda mais o assunto:


1. Imagine a terra, flutuando no espa�o, inclinada a aproximadamente 23,5� em rela��o � vertical e girando em torno de seu eixo a cada 24 horas. 2. Imagine esse eixo como um piv�, ou parafuso central, maci�o e forte, passando pelo centro da terra, saindo pelos p�los Norte e Sul e da� estendendo-se para fora em ambasas dire��es. 3. Imagine que voc� � um gigante, percorrendo o sistema solar com ordens de realizar um trabalho espec�fico. 4. Imagine-se aproximando-se da terra inclinada (que, por causa de seu grande tamanho, nessemomento n�o lhe parece maior do que uma roda de moinho). 5. Imagine-se estendendo as m�os e agarrando as duas extremidades do eixo prolongado. 6. E imagine-se come�ando lentamente a fazer uma inter-rota��o, isto �, empurrando uma extremidade e puxando a outra. 7. A terra j� estava girando quando voc� chegou. 8. Suas ordens, por conseguinte, eram de n�o se meter em sua rota��o axial, mas transmitir a ela o outro movimento: o bamboleio no sentido hor�rio denominado precess�o. 9. Para cumprir a ordem, voc� teria que empurrar a ponta do eixo prolongado para cima e em volta de um grande c�rculo no hemisf�rio celeste norte e, ao mesmo tempo, puxar a ponta sul em volta de um c�rculo igualmente grande no hemisf�rio celeste sul. Esse trabalho implicaria um lento movimento tipo pedalagem com suas m�os e ombros. 10. Cuidado, por�m. A "roda de moinho" da terra � mais pesada do que parece, t�o mais pesada, na verdade, que voc� vai precisar de 25.776 anos para girar as duas pontas do eixo atrav�s de um ciclo completo de precess�o (ao fim do qual eles estar�o apontando para os mesmos pontos na esfera celeste, como no momento em que voc� chegou). 11. Oh, por falar nisso, agora que iniciou o trabalho, podemos lhe dizer que voc� jamais vai ter permiss�o para ir embora. Logo que um ciclo de precess�o acaba, outro tem de come�ar. E outro... mais outro... e mais outro... e assim por diante, interminavelmente, para sempre e todo o sempre. 12. Se quiser, voc� pode pensar nisso como um dos mecanismos b�sicos do sistema solar ou, se preferir, como um dos mandamentos fundamentais da vontade divina.


No processo, pouco a pouco, enquanto voc� lentamente passao eixo prolongado pelos c�us, as duas pontas apontar�o para uma estrela ap�s outra nas latitudes polares do hemisf�rio celeste sul (e, �s vezes, claro, para o espa�o vazio), e para uma estrela ap�s outra nas latitudes polares do hemisf�rio celeste norte. Estamos falando aqui sobre um tipo de dan�a de cadeiras entre as estrelas circumpolares. E o que mant�m tudo isso em movimento � a precess�o axial da terra - um movimento impulsionado por gigantescas for�as gravitacionais e girosc�picas, um movimento regular, previs�vel e relativamente f�cil de esclarecer com ajuda de equipamento moderno. Assim, por exemplo, a estrela polar norte � atualmente Alfa Ursa Menor (que conhecemos como Estrela Polar). C�lculos de computador, por�m, permitem-nos dizer com certeza que, no ano 3000 a.C., Alfa Draconis (Drag�o) ocupava a posi��o polar; na �poca dos gregos, a estrela polar norte era Beta Ursa Menor; e, no ano 14000d.C. ser� Vega. Um Grande Segredo do Passado N�o nos far� mal algum lembrar alguns dos dados fundamentais sobre os movimentos da terra e sua orienta��o no espa�o: . Ela se inclina em cerca de 23,5� em rela��o � vertical, �ngulo este do qual pode variar at� 1,5� em per�odos de 41.000anos. . Completa um ciclo completo de precess�ode equin�cio a cada 25.776anos. . Gira em torno do pr�prio eixo a cada 24 horas. . Descreve em torno do sol uma �rbita completa a cada 365 dias (na verdade, 365,2422 dias). . A influ�ncia mais importante sobre as esta��es� o �ngulo no qual os raios do sol atingem-na em v�rios pontos de sua trajet�ria orbital. Notemos tamb�m que h� quatro momentos astron�micos cruciais no ano, marcando o in�cio oficial de cada uma das quatro esta��es. Essesmomentos (ou pontos cardeais), que eram de imensa import�ncia para os antigos, s�o os solst�cios do inverno e ver�o e os equin�cios da primavera e outono. No hemisf�rio Norte, o solst�cio de inverno, o dia mais curto, cai no dia 21 de dezembro e, o de ver�o, o dia mais longo, em 21 de junho. No hemisf�rio Sul, por outro lado, tudo est� virtualmente de cabe�a para baixo: nele o inverno come�a em 21 de junho e o ver�o em 21 de dezembro.


Os equin�cios, em contraste, s�o os dois pontos no ano em que noite e dia t�m igual dura��o em todo o planeta. Mais uma vez, contudo, como acontece com os solst�cios, a data que marca o in�cio da primavera no hemisf�rio Norte (20 de mar�o) marca o outono no hemisf�rio Sul, e a data do in�cio do outono no hemisf�rio Norte (22 de setembro) marca o in�cio da primavera no hemisf�rio Sul. Tal como as varia��es mais sutis das esta��es, tudo isso � conseq��ncia da benevolente obliq�idade do planeta. O solst�cio de ver�o no hemisf�rio Norte cai nesse ponto da �rbita quando o p�lo Norte est� apontado da forma mais direta na dire��o do sol; seis meses depois, o solst�cio de inverno marca o ponto em que o p�lo Norte


aponta mais diretamente para longe do sol. E, com bastante l�gica, o motivo por que o dia e a noite s�o de dura��o absolutamente igual em todo o planeta nos equin�cios de primavera e outono � que eles assinalam os dois pontos em que o eixo de rota��o da terra se encontra transversal ao sol. Examinemos agora um estranho e belo fen�meno de mec�nica celeste. Essefen�meno � conhecido como "precess�o de equin�cios". Possui caracter�sticas matem�ticas r�gidas e repetitivas, que podem ser analisadas e previstas com exatid�o. �, no entanto, de observa��o extremamente dif�cil e ainda mais dif�cil de medir precisamente, a n�o ser com instrumenta��o sofisticada. Nesse fen�meno talvez possa existir pista para solucionar um dos maiores mist�rios do passado. CAP�TULO 29 A Primeira Tentativa de Decifrar um Antigo C�digo O plano orbital da terra, projetado para fora e formando um grande c�rculo na esfera celeste, � conhecido como ecl�ptica. Em volta da ecl�ptica, em um cintur�o estrelado que se estende aproximadamente em 7� ao norte e sul, encontramos as doze constela��esdo zod�aco: �ries, Touro, G�meos,C�ncer, Le�o, Virgem, Libra, Escorpi�o, Sagit�rio, Capric�rnio, Aqu�rio e Peixes. Essas constela��es t�m tamanho, forma e distribui��o irregulares. N�o obstante (e, supomos, por acaso!), seu espa�amento em torno da borda da ecl�ptica � suficientemente uniforme para conferir um senso de ordem c�smica ao nascer e ao p�r-do-sol durante o dia. Para compreender o que est� envolvido aqui, fa�a o seguinte: 1) marque um ponto no centro de uma folha de papel em branco; 2) desenhe um c�rculo em torno do ponto, a mais ou menos cent�metro dele; 3) feche esse c�rculo dentro de um segundo c�rculo, mais largo. O ponto representa o sol. O menor dos dois c�rculos conc�ntricos representa a �rbita da terra. O c�rculo mais largo representa a borda da ecl�ptica. Em volta do per�metro desse c�rculo mais amplo, por conseguinte, voc� deve desenhar em seguida doze caixas, a uma dist�ncia uniforme uma da outra, para representar as constela��es do zod�aco. Uma vez que h� 360� em um c�rculo, pode-se considerar que cada constela��o ocupa um espa�o de 30� ao longo da ecl�ptica. O ponto � o sol. O mais interno dos dois c�rculos conc�ntricos � a �rbita da terra. Sabe mos que a terra percorre essa �rbita em dire��o anti-hor�ria, de oeste para leste, e que em cada 24 horas ela faz tamb�m uma rota��o completa em torno de seu eixo (mais uma vez, de oeste para leste). Dessesdois movimentos, resultam duas ilus�es:


1. Todos os dias, enquanto o planeta gira de oeste para leste, o sol (que, claro, � um ponto fixo) parece "mover-se" pelo c�u de leste para oeste. 2. Aproximadamente a cada trinta dias, enquanto a terra, girando, viaja ao longo de sua trajet�ria orbital em torno do sol, o pr�prio sol parece "passar" lentamente atrav�s de uma ap6s outra das doze constela��es zodiacais (que s�o tamb�m pontos fixos) e, mais uma vez, d� a impress�o de "mover-se" em uma dire��o leste-oeste. Em qualquer dia do ano, em outras palavras (correspondendo em nosso diagrama a qualquer ponto que quisermos escolher em torno do c�rculo conc�ntrico interno que marca a �rbita da terra), � �bvio que o sol se situar� entre um observador na terra e uma das doze constela��es zodiacais. Nesse dia, o que o observador ver�, enquanto estiver acordado antes do amanhecer, � o sol erguendo-se no leste, na parte do c�u ocupada por essaconstela��o particular. Sob os c�us claros e sem polui��o do mundo antigo, � f�cil compreender que seres humanos poderiam se sentir tranq�ilizados por movimentos celestes regulares como esses. � igualmente f�cil compreender por que motivo os quatro pontos cardeais do ano - os equin�cios da primavera e outono e os solst�cios do inverno e ver�o - foram considerados em toda parte como de imensa import�ncia. Maior import�ncia ainda era atribu�da � conjun��o desses pontos com as constela��es do zod�aco. Mais importante que tudo, por�m, era a constela��o onde se via o sol nascendo na manh� do equin�cio de primavera (ou vernal). Devido � precess�odo eixo da terra, os antigos descobriram que essa constela��o n�o era fixa ou permanente durante todo tempo, mas que a honra de "abrigar" ou "transportar" o sol no dia do equin�cio vernal circulava - lenta, muito lentamente - entre todas as constela��esdo zod�aco. Nas palavras de Giorgio de Santillana: "A posi��o do sol entre as constela��es no equin�cio vernal era o ponteiro que indicava as 'horas' do ciclo de precess�o - horas muito compridas, na verdade, uma vez que o sol equinocial ocupava cada constela��o do zod�aco durante quase2.200anos".


A dire��o da lenta precess�o axial da terra � no sentido hor�rio (isto �, de leste para oeste) e, dessa maneira, contr�ria � dire��o da trajet�ria anual do planeta em torno do sol. Em rela��o �s constela��es do zod�aco, fixas no espa�o, esse fato faz com que o ponto em que ocorre o equin�cio de primavera "mova-se obstinadamente ao longo da ecl�ptica na dire��o oposta ao curso anual do sol, que ocorre contra a seq��ncia "certa" dos signos do zod�aco (Touro - �ries - Peixes - Aqu�rio, em vez de Aqu�rio Peixes - �ries - Touro). Este, resumidamente, � o significado da "precess�o de equin�cios". E � isso exatamente o que est� implicado na id�ia de "alvorecer da Era de Aqu�rio". O verso famoso do musical Hair refere-se ao fato de que, todos os anos, nos �ltimos 2.000 anos, mais ou menos, o sol nasceu em Peixes no equin�cio vernal. A era de Peixes, contudo, aproxima-se neste momento do fim e o sol vernal, em breve, deixar� o setor de Peixes e come�ar� a nascer contra o novo pano de fundo de Aqu�rio. O ciclo de 25.776 anos de precess�o � o motor que impulsiona esse majestoso jogo de for�as celeste em sua viagem eterna pelos c�us. Vale a pena conhecer tamb�m os detalhes de como, exatamente, a precess�omuda os pontos equinociais de Peixes para Aqu�rio - e da� para a frente em volta do zod�aco. Lembre-se de que o equin�cio ocorre apenas nas duas �nicas ocasi�esdo ano em que o eixo inclinado da terra est� transversal ao sol. Isso acontece quando o sol nasce exatamente � leste em todo o mundo e o dia e a noite t�m igual dura��o. Uma vez que o eixo da terra est� fazendo uma lenta mas ininterrupta precess�o em uma dire��o oposta � da sua pr�pria �rbita, os pontos nos quais est� transversal ao sol t�m de ocorrer em uma fra��o de tempo mais cedo na �rbita, todos os anos. Essasmudan�as anuais s�o t�o pequenas que se tornam quase impercept�veis (uma mudan�a de um grau ao longo da ecl�ptica - equivalente � largura de nosso dedo mindinho erguido contra o horizonte - requer aproximadamente 72 anos para se completar). N�o obstante, como observa Santillana, essas mudan�as min�sculas acumulam-se em pouco menos de 2.200 anos em uma passa gem de 30� atrav�s de uma casa completa do zod�aco e, em pouco menos de 26.000 anos, em uma passagem de 360� atrav�s de um ciclo completo de precess�o. Quando teriam Os Antigos Descoberto a Precess�o? Na resposta a essa pergunta h� um grande segredo, e mist�rio, do passado. Mas, antes de tentar penetrar no mist�rio e aprender o segredo, temos que nos familiarizar com a linha "oficial". A Enciclop�dia Brit�nica, que � um reposit�rio t�o bom quanto qualquer


outro da sabedoria hist�rica convencional, ensina-nos o seguinte sobre um erudito chamado Hiparco, o suposto descobridor da precess�o: Hiparco (nascido em Nic�ia, Bit�nia, e falecido ap�s o ano 127 d.C. em Rodes), astr�nomo e matem�tico grego que descobriu a precess�o dos equin�cios. (...) Essa not�vel descoberta foi resultado de exaustivas observa��es, efetuadas por uma mente aguda. Hiparco observou as posi��es das estrelas e, em seguida, comparou seus resultados com os de Timocharis de Alexandria, referentes a um per�odo anterior em 150 anos e com observa��esmais antigas realizadas na Babil�nia. Descobriu ele que as longitudes celestes eram diferentes e que essa diferen�a era de uma magnitude que excedia aquela que podia ser atribu�da a erros de observa��o. Ele, em conseq��ncia, sugeriu a precess�o para explicar a magnitude da diferen�a e deu um valor de 45' ou 46' (segundos do arco) �s mudan�as anuais. Este resultado aproxima-se muito do n�mero de 50,274segundos do arco, hoje aceito. (...) Em primeiro lugar, uma quest�o de terminologia. Segundos de arco s�o as menores subdivis�es de um grau do arco. H� 60 segundos de arco em cada minuto de arco, 60 minutos em um grau e 360 graus no c�rculo completo da trajet�ria da terra em torno do sol. Uma mudan�a anual de 50,274 segundos de arco representa uma dist�ncia de cerca de pouco menos de um sexag�simo de grau, de modo que s�o necess�rios aproximadamente 72 anos (uma vida humana inteira) para que o sol equinocial migre apenas um grau ao longo da ecl�ptica. Devido �s dificuldades de observa��o implicadas na detec��o dessa taxa de passo de caracol, o valor achado por Hiparco no s�culo II a.C.foi considerado pela Brit�nica como uma descoberta not�vel. Mas essa descoberta pareceria t�o not�vel se viesse a ser apurado que foi uma redescoberta? As realiza��es matem�ticas e astr�nomicas dos gregos brilhariam com tanto fulgor se pud�ssemosprovar que o dif�cil desafio de medir a precess�ofoi aceito milhares de anos antes de Hiparco? E que esse ciclo celeste, de quase 26.000 anos de dura��o, tivesse sido objeto de investiga��o cient�fica exata, muito antes do suposto alvorecer do pensamento cient�fico? Na busca de respostas a essas perguntas, h� muita coisa talvez relevante que jamais seria aceita em qualquer tribunal de justi�a como prova concreta. Tampouco iremos aceit�-Ia. Vimos que Hiparco prop�s o valor de 45 ou 46 segundos de arco para um ano de movimento de precess�o. Evitemos, portanto, desalojar o astr�nomo grego de seu pedestal como descobridor da precess�o, a menos que possamos achar um valor significativamente mais exato, registrado em uma fonte significativamente mais antiga.


Claro, s�o muitas as fontes potenciais. Neste ponto, contudo, no interesse da brevidade, vamos limitar nossa indaga��o a mitos universais. J� examinamos em detalhe um deles (as tradi��es do dil�vio e cataclismo estudadas na Parte IV) e vimos que eles incluem uma grande faixa de caracter�sticas intrigantes. 1. N�o h� a menor d�vida de que eles s�o imensamente antigos. Vejamos a hist�ria mesopot�mica do dil�vio, vers�es da qual foram encontradas inscritas em tabuinhas nos estratos mais antigos da hist�ria sumeriana, ou por volta do ano 3000 a.C. Essas tabuinhas, que nos chegaram do alvorecer do passado documentado, n�o deixam margem � d�vida de que a tradi��o de uma inunda��o que destruiu o mundo j� era antiga nessa ocasi�o e que, portanto, teve origem muito tempo antes desse alvorecer. N�o sabemosquando. Mas resta o fato de que nenhum erudito jamais p�de estabelecer uma data para a cria��o de qualquer mito, quanto mais dessastradi��es vener�veis e gerais. Em um sentido bem real, parece que elas sempre existiram - como parte da bagagem permanente da cultura humana. 2. N�o podemos descartar a possibilidade de que essaaura de antiguidade remot�ssima n�o seja uma ilus�o. Ao contr�rio, vimos que muitos dos grandes mitos sobre cataclismo parecem conter descri��es exatas, de testemunhas oculares, das condi��es reais pelas quais passou a humanidade na �ltima Era Glacial. Em teoria, por conseguinte, essashist�rias poderiam ter sido concebidas quase na mesma ocasi�o do aparecimento de nossa subesp�cie Homo sapiens sapiens, talvez h� 50.000 anos. A prova geol�gica, no entanto, sugere uma origem mais recente e identificamos acima a �poca de 15.000-8.000 anos a.C. como a mais prov�vel. S� nessa ocasi�o, no conjunto da experi�ncia humana, ocorreram r�pidas mudan�asclim�ticas na escala convulsiva que os mitos descrevem com tanta eloq��ncia. 3. A Era Glacial e seu tumultuoso desaparecimento foram fen�menos globais. Por isso mesmo, talvez n�o deva surpreender que as tradi��es de cataclismo de tantas culturas diferentes, largamente espalhadas em volta do globo, sejam caracterizadas por alto grau de uniformidade e converg�ncia. 4. O que surpreende, contudo, � que os mitos descrevem n�o s� experi�ncias compartilhadas, mas que o fa�am no que parece ser uma linguagem simb�lica tamb�m comum. Os mesmos "motivos liter�rios" reaparecem uma vez ap�s outra, os mesmos "macetes" estil�sticos, os mesmos personagens reconhec�veis e os mesmos enredos. De acordo com o professor Santillana, esse tipo de uniformidade sugere uma m�o orientadora em a��o. No Hamlets Mill, uma fecunda e original tese sobre mitos antigos,


escrita em colabora��o com Hertha Von Dechend (professora de hist�ria da ci�ncia da Universidade de Frankfurt), argumenta ele que: A universalidade �, por si mesma, um teste, quando associada a um padr�o fir me, Quando alguma coisa encontrada, digamos, na China, surge tamb�m nos textos astrol�gicos babil�nicos, temos de supor que ela � importante se revela um complexo de imagens incomuns que ningu�m poderia alegar que surgiram independentemente, por gera��o espont�nea. Vejamos a origem da m�sica, Orfeu e sua horr�vel morte podem ser uma cria��o po�tica, nascida em mais do que um �nico caso em lugares diferentes. Mas quando personagens que n�o tocam lira, mas flautas, s�o esfolados vivos por v�rias raz�es absurdas, e seu fim id�ntico � repetido em v�rios continentes, ent�o ficamos com a impress�o de que descobrimos alguma coisa, uma vez que tais hist�rias n�o podem ser ligadas por seq��ncia interna. E quando o flautista surge tanto no mito alem�o de Hamelin quanto no M�xico antes de Colombo, e est� ligado em ambos os lugares a certos atributos, tal como a cor vermelha, essefato dificilmente pode ser uma coincid�ncia. (...) De igual maneira, quando encontramos n�meros como 108, ou 9 x 13, reaparecendo sob a forma de v�rios m�ltiplos nos Vedas, nos templos de Angkor, na Babil�nia, nas sombrias palavras de Her�clito, e tamb�m no Valhalla escandinavo, n�o lidamos com um acaso... Ligando os grandes mitos universais de cataclismo, ser� poss�vel que essas coincid�ncias, que n�o podem ser coincid�ncias, e acasos que n�o podem ser acasos, possam denotar a influ�ncia global de uma m�o orientadora antiga, embora ainda n�o identificada? Se assim, poderia ser ela a mesma m�o que, durante e ap�s a �ltima Era Glacial, desenhou a s�rie de mapas-m�ndi altamente precisos e tecnicamente avan�ados que estudamos na Parte I? E n�o poderia a mesma m�o ter deixado suas impress�es digitais sobrenaturais em outro corpo de mitos universais, como os que falam na morte e ressurrei��o de deuses, grandes �rvores em torno das quais revolvem a terra e os c�us, e v�rtices, batedeiras, furadeiras e outros aparelhos semelhantes para mexer e moer? Segundo Santillana e Von Dechend, todas essasimagens se referem a eventos celestes e fazem isso, al�m do mais, na linguagem t�cnica refinada de uma ci�ncia astron�mica e matem�tica arcaica, mas "imensamente sofisticada", Essa linguagem ignorava cren�as e cultos locais. Concentrava-se em n�meros, movimentos, medidas, marcos de refer�ncia gerais, esquemas- na estrurura dos n�meros, na geometria. De onde teria vindo essa linguagem? O Hamlet's Mill � um labirinto de erudi��o brilhante, embora deliberadamente evasivo, e n�o nos d� uma resposta direta a tal pergunta. Aqui e ali, contudo, quase que com embara�o, encontramos palpites


inconclusivos. A certa altura, por exemplo, os autores dizem que a linguagem, ou "c�digo" cient�fico, que acreditam ter identificado, � de "uma antiguidade impressionante". Em outra ocasi�o, fixam com mais precis�o a profundeza de tal antiguidade em um per�odo de pelo menos "6.000 anos antes de Virg�lio" - em outras palavras, h� 8.000 anos ou mais. Que civiliza��o conhecida da hist�ria poderia ter criado e usado uma linguagem t�cnica sofisticada h� mais de 8.000 anos? A resposta honesta a essa pergunta � "nenhuma", seguida pela confiss�o franca de que aquilo que est� sendo objeto de conjectura � nada menos que um epis�dio esquecido de alta cultura tecnol�gica na pr�-hist�ria. Mais uma vez, Santillana e Von Dechend mostram-se vagos, falando apenas no legado que todos n�s devemos a "alguma quase inacredit�vel civiliza��o ancestral", a "primeira que ousou compreender o mundo como criado de acordo com n�mero, medida e peso". A heran�a, claro, tem a ver com pensamento cient�fico e informa��es complexas de natureza matem�tica. Mas como � extremamente antiga, a passagem do tempo extinguiu-a: Quando os gregos entraram em cena, a poeira dos s�culos j� havia assentado sobre os restos dessagrande constru��o arcaica, de �mbito mundial. Ainda assim, alguma coisa sobreviveu em ritos tradicionais, em mitos e contos de fada que n�o mais compreendemos. (...) Estes s�o os fragmentos instigantes de um todo perdido. E levam-nos a pensar naquelas "paisagens enevoadas", nas quais os chineses s�o mestres, que mostram aqui uma rocha, uma cumeeira, ali a ponta de uma �rvore e deixam o resto � imagina��o. Mesmo nos casos em que o c�digo produziu resultados, quando as t�cnicas se tornaram conhecidas, n�o podemos esperar avaliar o pensamento desses nossos ancestrais remotos, envolvidos como est�o em seus s�mbolos, uma vez que desapareceram para sempre as mentes criativas, organizadoras, que inventaram os s�mbolos. O que temos aqui, portanto, s�o dois ilustres professores de hist�ria da ci�ncia, de universidades renomadas em ambos os lados do Atl�ntico, alegando ter descoberto os restos de uma linguagem cient�fica codificada, muitos milhares de anos mais velha do que as mais velhas civiliza��es humanas identificadas pelos estudiosos. Al�m do mais, embora se mostrem de modo geral cautelosos, Santillana e Von Dechend alegam tamb�m ter "decifrado parte dessec�digo". Trata-se de uma declara��o extraordin�ria, tendo sido feita por dois respeit�veis professores universit�rios.


CAP�TULO 30 A �rvore C�smica e o Moinho dos Deuses No brilhante e abrangente estudo Hamlet's Mill, os professores Santillana e Von Dechend apresentam um conjunto formid�vel de evid�ncia m�tica e iconogr�fica para demonstrar a exist�ncia de um fen�meno curioso. Por alguma raz�o inexplic�vel, e em alguma data desconhecida, parece que certos mitos arcaicos de todo o mundo foram "cooptados" (nenhuma outra palavra seria mais apropriada) para servir como ve�culos de um conjunto de dados t�cnicos complexos relativos � precess�o dos equin�cios. A import�ncia dessa espantosa tese, como uma destacada autoridade em medi��es antigas observou, foi ter disparado a primeira salva no que talvez venha a ser "uma revolu��o copernicana nas concep��es correntes sobre o desenvolvimento da cultura humana". O Hamlet's Mill foi publicado em 1969, h� mais de um quarto de s�culo, de modo que a revolu��o demorou muito a acontecer. Durante esse per�odo, o livro nem foi muito lido pelo p�blico geral nem muito compreendido por estudiosos do passado remoto. Esse estado de coisas, note-se, n�o aconteceu devido a quaisquer problemas ou fraquezas inerentes ao livro. Em vez disso, nas palavras de Martin Bernal, professor de estudos governamentais da Universidade Cornell, aconteceu, sim, porque "poucos arque�logos, egipt�logos e historiadores dos tempos antigos reuniam a combina��o de tempo, trabalho e per�cia necess�rios para entender os argumentos sumamente t�cnicos de Santillana". Esses argumentos tratam predominantemente da transmiss�o repetida e recorrente de uma "mensagem sobre a precess�o" em uma grande faixa de mitos antigos. E, curiosamente, muitas das principais imagens e s�mbolos que surgem nesses mitos notadamente as que dizem respeito a um "enlouquecimento dos c�us" - foram encontrados tamb�m inseridos nas tradi��es antigas de cataclismo, de �mbito mundial, que passamosem revista nos Cap�tulos 24 e 25. Na mitologia escandinava, por exemplo, vimos que o lobo Fenrir, que os deuses haviam acorrentado com todo cuidado, quebrou finalmente as correntes e fugiu: "Ele se sacudiu e o mundo tremeu. O freixo Yggdrasil foi abalado das raizes at� os ramos mais altos. Montanhas desmoronaram ou foram fendidas de cima a baixo. (...) A terra come�ou a perder sua forma. As estrelas j� come�avam a perder o rumo no c�u." Na opini�o de Santillana e Von Dechend, esse mito mistura o tema conhecido da cat�strofe com o tema inteiramente separado da precess�o. Por um lado, temos um desastre na terra em uma escala que parece tornar caf� pequeno at� o dil�vio de No�.


Por outro, ouvimos falar em aziagas mudan�as que est�o ocorrendo nos c�us e que as estrelas, que perderam o rumo no c�u, est�o "caindo no abismo". Essa imag�stica celeste, repetida in�meras vezes, com varia��es relativamente pequenas, em mitos origin�rios de muitas diferentes partes do mundo, pertence a uma categoria classificada no Hamlet's Mill como "n�o um simples ato de contar hist�ria, do tipo que ocorre naturalmente". Al�m disso, as tradi��es escandinavas que falam do monstruoso lobo Fenrir e do abalo sofrido por Iggdrasil relatam tamb�m o apocalipse final, no qual as for�as do Valhalla formam no lado da "ordem" para participar da �ltima e terr�vel batalha dos deuses - uma batalha que termina em destrui��o apocal�ptica: Quinhentas e quarenta portas s�o Abertas nas muralhas do Valhalla; Oitocentos guerreiros por cada porta passam, E para a guerra contra o Lobo v�o. Com uma leveza de toque quase subliminar, essa estrofe estimulou-nos a contar os guerreiros do Valhalla, obrigando-nos, momentaneamente, a focalizar a aten��o em seu n�mero total (540 x 800 = 432.000). Esse total, como veremos no Cap�tulo 31, est� matematicamente ligado ao fen�meno da precess�o. � improv�vel que tenha aberto caminho por acaso para a mitologia escandinava, especialmente em um contexto que havia antes especificado "uma loucura nos c�us" suficientemente grave para fazer com que as estrelas perdessem o rumo, deixando suasposi��esno firmamento. Para entender o que est� acontecendo, � essencial apreender a imag�stica b�sica da antiga "mensagem", que Santillana e Von Dechend alegam ter descoberto por acaso. Essa imag�stica transforma o domo luminoso da esfera celeste em uma enorme e complicada pe�a de maquinaria. E, tal como uma roda de monjolo, um v�rtice, uma batedeira, um moinho de m�o, essa m�quina gira, gira, gira interminavelmente (com seus movimentos calibrados o tempo todo pelo sol, que nasce primeiro em uma constela��o do zod�aco, em seguida em outra, e assim por diante, durante todo o ano). Os quatro pontos principais do ano s�o os equin�cios da primavera e outono e os solst�cios do inverno e ver�o. Em cada ponto, naturalmente, v�-se o sol nascer em uma constela��o diferente (assim, se o sol nasce em Peixes no equin�cio de primavera, como acontece no presente, ele ter� de nascer em Virgem no equin�cio de outono, em G�meos no solst�cio de inverno e em Sagit�rio no solst�cio de ver�o). Em cada uma dessas quatro ocasi�es, pelo menos nos �ltimos 2.000 anos, ou por a�, foi exatamente isso o que o sol andou fazendo. Conforme vimos antes, contudo, a precess�o dos


equin�cios significa que o ponto vernal mudar�, em futuro n�o muito distante, de Peixes para Aqu�rio. Quando isso acontecer, as tr�s outras constela��es que marcam os tr�s pontos principais mudar�o tamb�m, de Virgem, G�meos e Sagit�rio para Le�o, Touro e Escorpi�o quase como se um mecanismo gigantesco do c�u tivesse majestosamente mudado de marcha... Tal como o eixo de roda de um moinho, explicam Santillana e Von Dechend, Yggdrasil "representa o eixo do mundo" na linguagem cient�fica arcaica que identificaram: um eixo que se estende para fora (para o observador que se encontra no hemisf�rio Norte) e para o p�lo Norte da esfera celeste: Isso sugere instintivamente um poste reto, vertical (...) mas seria simplificar demais. No contexto m�tico, � melhor n�o pensar no eixo em termos anal�ticos, em uma linha de cada vez, mas consider�-Io no marco de refer�ncia ao qual est� ligado como um todo. (...) Da mesma maneira que o raio lembra automaticamente o c�rculo, o eixo, da mesma maneira, deve invocar os dois grandes c�rculos determinantes na superf�cie da esfera, os coluros equinocial e solisticial. Essescoluros s�o os aros imagin�rios, cruzando-se no p�lo Norte celeste, que ligam os dois pontos equinociais na trajet�ria da terra em volta do sol (isto �, o ponto em que ela se encontra nos dias 20 de mar�o e 22 de setembro) e os dois pontos solsticiais (onde se situa nos dias 21 de junho e 21 de dezembro). A implica��o � que "a rota��o do eixo polar n�o deve ser separada dos grandes c�rculos que mudam juntamente com ele. A estrutura � concebida como id�ntica ao eixo". Santillana e Von Dechend est�o certos de que o que temos aqui n�o � uma cren�a, mas uma alegoria. Insistem em que a id�ia de uma estrutura esf�rica composta de dois aros que se cortam, suspensa de um eixo, n�o deve, em circunsdncia alguma, ser entendida como a maneira como a antiga ci�ncia concebia o cosmo. Em vez disso, deve ser considerada como um "instrumental para o pensamento", destinado a focalizar a mente de pessoas suficientemente inteligentes para decifrar o c�digo do fato astron�mico, dif�cil de detectar, da precess�odos equin�cios. � um instrumental para o pensamento que continua a aflorar, em numerosos disfarces, em todos os mitos do mundo antigo. No Moinho com Escravos


Um exemplo, desta vez da Am�rica Central (que fornece, al�m disso, mais uma ilustra��o das curiosas "permuta��es" simb�licas entre mitos de precess�o e mitos de cat�strofe), foi sumariado no s�culo XVI por Diego de Landa: Entre a grande multid�o de deuses adorados por esse povo (o maia) havia quatro conhecidos pelo nome de Bacab. Eles eram, dizem, quatro irm�os colocados por Deus, quando criou o mundo, nos seus quatro cantos para sustentar o c�u e evitar que ele ca�sse. Dizem tamb�m que essesBacabsfugiram quando o mundo foi destruido por um dil�vio. Santillana e Von Dechend pensam que os astr�nomos-sacerdotes maias n�o aceitavam nem por um momento a id�ia simplista de que a terra era plana e que tinha quatro cantos. Em vez disso, dizem nossos autores, a imagem dos quatro Bacabs foi usada como uma alegoria t�cnica, destinada a lan�ar luz no fen�meno da precess�o dos equin�cios. Os Bacabs, em resumo, representavam o sistema de coordenadas de uma era astroI�gica. Ou seja, representavam os coluros equinociais e solsticiais, ligando as quatro constela��esnas quais o sol continuava a nascer nos equin�cios da primavera e outono e nos soIst�cios de inverno e ver�o durante pouco menos de 2.000 anos. Claro, era entendido que quando ocorriam mudan�as de marcha do c�u, a antiga era desmoronava e uma nova era nascia. Tudo isso, at� agora, � imag�stica de rotina no caso das precess�es. O que sobressai, no entanto, � a liga��o expl�cita com uma cat�strofe terrena - neste caso, uma inunda��o - � qual os Bacabs sobrevivem. Talvez seja tamb�m relevante que altos-relevos encontrados em Chichen Itza representem inconfundivelmente os Bacabscomo homens barbudos e de apar�ncia europ�ia. Seja o que for, a imagem dos Bacabs (ligados a certo n�mero de refer�ncias malcompreendidas aos "quatro cantos do c�u", � "terra quadrangular", e assim por diante) � apenas uma entre muitas que parecem ter sido concebidas para servir como instrumental de pensamento para entender a precess�o. Arquet�pica entre elas, claro, h� o "moinho" do t�tulo do livro de Santillana - Hamlet's Mill. Descobre-se que o personagem de Shakespeare, "do qual o poeta fez um de n�s, o primeiro intelectual infeliz", esconde um passado, como ser lend�rio, suas fei��es predeterminadas, preformadas por um mito muito antigo. O Amlodhi original (ou, �s vezes, Amleth), o nome que tinha na lenda islandesa, "demonstra as mesmas caracter�sticas de melancolia e fino intelecto. Ele tamb�m era um fi lho decidido a vingar o pai, um expositor de verdades cr�pticas, mas incontest�veis, um vetor esquivo do Destino, que sairia de cena t�o logo realizada sua miss�o..."


Na imag�stica rude e v�vida dos escandinavos, Amlodhi era apresentado como dono de um famoso moinho, ou azenha, que, alternadamente, mo�a ouro, paz e prosperidade. Em muitas das tradi��es, duas donzelas gigantes (Fenja e Menja) foram admitidas para trabalhar por prazo fixo, acionando essagrande engenhoca, que n�o podia ser mudada do lugar por nenhuma for�a humana. Alguma coisa deu errado e as duas gigantes foram obrigadas a trabalhar dia e noite, sem descanso: Para a bancada do moinho foram trazidas, Para p�r em movimento a cinzenta m�; Nem descanso nem paz ele lhes dava, Atento ao rangido do moinho. O canto delas era um uivo, Despeda�ando o sil�ncio "Abaixem a tulha, aliviem as pedras!" Mas ele as obrigava a moer ainda mais. Rebeladas e enfurecidas, Fenja e Menja esperaram at� que todos foram dormir e, em seguida, come�aram a imprimir ao moinho um giro louco, at� que seus grandes suportes, embora revestidos de ferro, se quebraram em dois. Imediatamente depois, em um epis�dio confuso, o moinho foi roubado por um rei do mar chamado Mysinger e levado para seu navio, juntamente com as gigantes. Mysinger ordenou � dupla que voltasse a moer, mas, desta vez, sal. � meia-noite, elas lhe perguntaram se ele n�o estava cansado de tanto sal. Ele lhes ordenou que voltassem a moer. Elas continuaram a trabalhar, mas, pouco tempo depois, quando afundou o navio: Osenormes suportes soltaram-se da tulha, Osrebites de ferro quebraram-se com estrondo, A �rvore do eixo tremeu, E a tulha mergulhou no mar. Ao chegar ao fundo do mar, o moinho continuou a girar, mas mo�a rocha e areia, criando um imenso v�rtice, o Maelstrom. Essas imagens, afirmam Santillana e Von Dechend, significam a precess�o dos equin�cios. O eixo e os "suportes de ferro" do moinho serviam como um sistema de coordenadas na esfera celeste e representavam o contexto de uma era do mundo. Na verdade, o contexto define uma era do mundo. Uma vez que o eixo polar e os coluros formam um todo invis�vel, o contexto, no todo, torna-se defeituoso se uma parte �


movida. Quando isso acontece, uma nova estrela Polar, com seus apropriados coluros, tem que substituir o aparelho obsoleto. Al�m do mais, o v�rtice que a tudo engolia pertence � mat�ria habitual da f�bula antiga. Ela aparece na Odiss�ia como Caribde no estreito de Messina, e repetidamente em outras culturas no oceano �ndico e no Pac�fico. � l� encontrada, curiosamente, como uma alta figueira, a cujos galhos o her�i pode se agarrar enquanto o navio afunda, seja o Satyavrata na �ndia, ou o Kae, em Tonga. (...) A repeti��o dos detalhes exclui livre inven��o. Essas hist�rias devem ter pertencido � literatura cosmogr�fica desde a antiguidade. O aparecimento de um sorvedouro na Odiss�i, de Homero (que � uma compila��o de mitos gregos j� velhos de mais de 3.000 anos) n�o deveria nos surpreender, porque o grande Moinho da lenda islandesa nele aparece, tamb�m (o que acontece, al�m do mais, em circunst�ncias conhecidas). Acontece na �ltima noite antes da confronta��o final. Ulisses, disposto a se vingar, desembarca em �taca e est� escondido sob o encantamento m�gico da deusa Atena, que o protege para que n�o seja reconhecido. Ulisses reza a Deus, pedindo-lhe que lhe envie um sinal encorajador, antes da grande prova��o: Imediatamente, Zeus trovejou do alto do refulgente Olimpo (...) e o puro Ulisses ficou feliz. Al�m disso, uma mulher, uma trabalhadora do moinho, pronunciou palavras de aug�rio dentro de uma casa pr�xima, onde ficavam os moinhos do pastor do povo. Nesses tr�s moinhos manuais, vinte mulheres ao todo trabalhavam, fazendo, de refei��es de cevada e trigo, o tutano dos ossos dos homens. Nesse momento, todos as outras dormiam, porque haviam mo�do sua quota de gr�o, mas s� essa n�o fora repousar ainda, sendo a mais fraca de todas. Nesse instante, parou sua rainha e pronunciou a palavra: "Que os [inimigos de Ulisses] neste dia, pela �ltima vez, banqueteiem-se e se regozijem em seus agrad�veis sal�es. Eles me amoleceram os joelhos com o cruel trabalho de lhe moer a refei��o de cevada e que agora se sirvam da �ltima!" Santillana e Von Dechend argumentam que n�o � por acaso que a alegoria do "orbe do c�u que gira como uma pedra de moinho e sempre faz alguma coisa m�" tamb�m fa�a seu aparecimento na tradi��o b�blica de Sans�o, "cego em Gaza, no moinho, com os escravos". Seuscaptores implac�veis amarram-no para que "os divirta" no templo. Em vez disso, com seus �ltimos restos de for�a, ele segura os pilares do meio da grande estrutura e provoca o desmoronamento de todo edif�cio, matando todos que ali est�o. Como Fenja e Menja, ele tamb�m tira sua vingan�a.


O tema ressurge no Jap�o, na Am�rica Central, entre os maoris da Nova Zel�ndia e nos mitos da Finl�ndia. Neste �ltimo caso, a figura de Hamlet/Sans�o � conhecida como Kullervo e o moinho tem um nome estranho: o Sampo. Como o moinho de Fenja e Menja, acaba por ser roubado e posto em um navio. E como o moinho das duas, termina reduzido a peda�os. Acontece que a palavra "Sampo" tem suas origens na skambha, palavra s�nscrita que significa "pilar ou mastro". E, no Atharvaveda, uma das pe�as mais antigas da literatura do norte da �ndia, encontramos um hino inteiro dedicado a Skambha: Na terra, na atmosfera de quem, no c�u de quem ela se encontra, onde est�o o fogo, a Lua, o Sol, o vento? (...) O Skambha sustenta o c�u e a terra; o Skambha sustenta a larga atmosfera; o Skambha sustenta as seis largas dire��es; o Skambha penetra em toda exist�ncia. Whimey, o tradutor (Atharvaveda, 10:7), comenta com certa perplexidade: "O Skambha, ilumina��o, escora, apoio, pilar, � estranhamente usado neste hino como contexto do universo." Ainda assim, se compreendemos o complexo de id�ias que ligam moinhos c�smicos, v�rtices, �rvores do mundo e assim por diante, o arcaico uso v�dico n�o deve parecer t�o estranho assim. O que est� sendo sugerido nessecaso, como em todas as demais alegorias, � a estrutura de uma era mundial - o mesmo mecanismo celeste que gira h� mais de 2.000 anos, com o sol nascendo sempre nos mesmos quatro pontos cardeais e, em seguida, mudando lentamente essas coordenadas para quatro novas constela��es,onde ficar� nos pr�ximos dois mil anos. Esseo motivo por que o moinho sempre quebra, porque as imensas escoras sempre se soltam de uma maneira ou de outra, porque os rebites de ferro explodem, porque o tronco da �rvore treme. A precess�o dos equin�cios merece essa imag�stica porque, a intervalos muito separados do tempo, ela realmente muda, ou rompe, as coordenadas estabilizadoras de toda a esfera celeste. Desbravadores do Caminho O not�vel em tudo isso � a maneira como o moinho (que continua a servir como alegoria de processos c�smicos) continua a afIorar teimosamente, mesmo nos casos em que o contexto entrou em desordem ou se perdeu. Na verdade, no argumento de Santillana e Von Dechend n�o importa realmente se o contexto se perde. "O m�rito particular da terminologia m�tica", dizem, "� que ela pode ser usada como ve�culo para transmitir s�lidos conhecimentos, independentemente do grau de insight dos


indiv�duos que se encarregam de contar as hist�rias, f�bulas etc." O que importa, em outras palavras, � que certa fantasia central sobreviva e continue a ser transmitida todas as vezes em que a hist�ria � contada, por mais que elas possam se afastar da linha narrativa original. Um exemplo desse desvio (juntamente com a reten��o das imagens e informa��es essenciais) � encontrado entre os cherokees, cujo nome para a Via L�ctea (nossa gal�xia) � "Lugar por onde o c�o correu". Em tempos antigos, de acordo com a tradi��o dos cherokees, "o povo no Sul tinha um moinho de milho", do qual farinha era repetidamente roubada. No devido tempo, os donos descobriram o lar�pio, um c�o, "que fugiu correndo e ganindo para sua casa no Norte, com a farinha pingando da boca, enquanto ele corria, deixando atr�s uma trilha branca onde hoje vemos a Via L�ctea, que os cherokeesat� estes dias chamam de "Lugar por onde o c�o correu". Na Am�rica Central, um dos muitos mitos sobre Quetzalcoatl mostra-o desempenhando um papel decisivo na regenera��o da humanidade, ap�s o dil�vio arrasador que acabou com o Quarto Sol. Juntamente com seu companheiro de cabe�a de c�o, Xolotl, ele desceu ao inferno para recuperar os esqueletos das pessoas mortas no dil�vio. Consegue fazer isso depois de enganar Miclatechuhtli, o deus da morte, e os ossos s�o levados para um lugar chamado Tamoanchan. A�, como se fosse milho, os ossos s�o mo�dos em uma m�, transformados em fina farinha. Sobre essa farinha mo�da, os deuses vertem em seguida sangue, criando dessa maneira a carne da presente era de homens. Santillana e Von Dechend recusam-se a pensar que a presen�a de um personagem canino nas duas variantes acima do mito do moinho c�smico seja acidental. Lembram que Kullervo, o Hamlet finland�s, tinha tamb�m a companhia do "c�o negro Musti". De igual maneira, ap�s voltar �s suas propriedades em �taca, Ulisses � inicialmente reconhecido pelo seu fiel c�o e, como se lembrar�o todos os que freq�entaram uma escola dominical, Sans�o aparece ligado a raposas (300 delas, para sermos exatos), que s�o membros da fam�lia dos c�es. Na vers�o dinamarquesa da saga Amleth/Hamlet, "Amleth prosseguiu em sua viagem e um lobo cruzou seu caminho no meio do bosque". Por �ltimo, mas n�o menos importante, em uma vers�o revista da hist�ria de Kullervo, de origem finlandesa, o her�i (de forma muito estranha) � "enviado � Est�nia para latir embaixo de uma cerca. Ele latiu durante um ano (...)". Santillana e Von Dechend t�m certeza de que toda essa "cachorrice" � intencional, outra pe�a de um c�digo antigo, ainda n�o decifrado, persistentemente digitando sua mensagem de um lugar a outro. Eles listam esses e numerosos outros s�mbolos caninos, entre uma s�rie de "indicadores morfol�gicos", que identificaram com probabilidade de sugerir a presen�a, em mitos antigos, de informa��es cient�ficas


relativas � precess�o dos equin�cios. Esses indicadores podem ter possu�do significados pr�prios ou ter sido criados para alertar a plat�ia-alvo de que um conjunto de dados s�rios vai surgir na hist�ria que est� sendo contada. Com inten��o de enganar, podem ter sido tamb�m concebidos para servir como "desbravadores do caminho" - como condu�tes para permitir aos iniciados seguir a trilha da informa��o cient�fica de um mito a outro. Dessamaneira, mesmo que nenhum dos conhecidos moinhos e v�rtices esteja � vista, devemos talvez prestar aten��o quando somos informados de que o �rion, o grande ca�ador do mito grego, possu�a um c�o. Quando ele tentou violentar a deusa virgem �rtemis, ela tirou da terra um escorpi�o que o matou e, tamb�m, o c�o. �rion foi transportado para o c�u, onde se tornou a constela��o que hoje tem seu nome, sendo o c�o transformado em S�rius, a estrela Canis. Exatamente a mesma identifica��o de S�rius foi feita pelos antigos eg�pcios, que ligaram a constela��o de �rion especificamente ao deus Os�ris. Foi no Egito antigo, igualmente, que o car�ter do fiel c�o celeste recebeu seu mais completo e mais expl�cito refinamento m�tico, sob a forma de Upuaut, uma divindade com cabe�a de chacal, cujo nome significa "Desbravador de Caminhos". Seseguimos essedesbravador de caminhos ao Egito, viramos os olhos para a constela��o de �rion e entramos no poderoso mito de Os�ris, descobrimos que estamos envolvidos em uma teia de s�mbolos conhecidos. O leitor deve lembrar-se de que o mito apresenta Os�ris como v�tima de uma conspira��o. Os conspiradores livraram-se dele fechando-o dentro de uma caixa e jogando-a � deriva nas �guas do Nilo. Neste particular, n�o lembra ele Utnapishtim, No�, Coxcoxtli e todos os outros her�is do dil�vio em suas arcas (ou caixas, ou cofres) flutuando nas �guasda grande inunda��o? Outro elemento conhecido � a imagem cl�ssica da precess�o do mundo-�rvore e/ou telhado-pilar (neste caso, combinados). O mito nos diz que Os�ris, ainda preso no interior do caix�o, foi levado para o mar e que deu � praia em Biblos. As ondas depositaram-no entre os ramos de uma �rvore, uma tamargueira, que cresceu rapidamente e adquiriu um tamanho majestoso, fechando o caix�o no interior do tronco. O rei do pa�s, que admirava muito as tamargueiras, derruba-a e transforma a parte que cont�m Os�ris no pilar de sustenta��o do telhado de seu pal�cio. Mais tarde, �sis, a esposa de Os�ris, tira o corpo do marido de dentro do pilar e leva-o para o Egito, onde ele renascer�. O mito de Os�ris inclui tamb�m certos n�meros decisivos. Seja por acaso ou inten��o, esses n�meros permitem acesso a uma esp�cie de "ci�ncia" da precess�o, conforme veremos no cap�tulo seguinte.


CAP�TULO 31 Os N�meros de Os�ris A �rqueo-astr�noma Jane B. Seller, que estudou egiptologia no Instituto Oriental, da Universidade de Chicago, passaos invernos em Portland, Maine, e os ver�es em Ripley Neck, um enclave do s�culo XIX na "baixa" costa rochosa do Maine. "Nesse lugar", diz ela, "os c�us noturnos podem ser t�o claros como no deserto e ningu�m se importa se a gente l� em voz alta, para as gaivotas, os Textos das Pir�mides..." Sendo uma das poucas estudiosas s�rias a submeter a teste a teoria proposta por Santillana e Von Dechend no Hamlet's Mill, Seller vem sendo elogiada por ter chamado aten��o para a necessidade de usar a astronomia e, de modo especial, a precess�o, para o estudo correto do Egito antigo e de sua religi�o. Em suas palavras: "Os arque�logos, de modo geral, n�o compreendem bem a precess�o e este fato lhes afeta as conclus�es sobre mitos antigos, deuses antigos e alinhamentos de templos antigos. (...) Para os astr�nomos, a precess�o � um fato sobejamente comprovado. Os que trabalham no campo de estudo do homem antigo t�m a responsabilidade de compreend�-Ia." Alega Sellers, de forma eloq�ente em seu livro recente, The Death of Gods in Ancient Egypt, que o mito de Os�ris pode ter sido deliberadamente codificado com um grupo de n�meros-chaves, que constituem "excesso de bagagem" no que interessa � narrativa, mas que oferecem um c�lculo eterno atrav�s do qual valores surpreendentemente exatos podem ser derivados para se obter o seguinte: 1. O tempo necess�rio para que o lento bamboleio do ciclo de precess�ofa�a com que a posi��o do nascer do sol no equin�cio de inverno complete uma mudan�a de um grau ao longo da ecl�ptica (em rela��o ao fundo estelar); 2. O tempo necess�rio para que o sol passeatrav�s de um segmento zodiacal completo de trinta graus; 3. O tempo necess�rio para que o sol passe atrav�s de dois segmentos zodiacais completos (totalizando sessenta graus); 4. O tempo necess�rio para ocasionar o "Grande Retorno", isto �, para que o sol mude 360 graus ao longo da ecl�ptica, encerrando um ciclo completo de precess�o ou "Grande Ano". Computando o Grande Retorno


Os n�meros da precess�o destacados por Sellers no mito de Os�ris s�o 360, 72, 30 e 12. A maioria deles � encontrada em uma se��o do mito que nos fornece detalhes biogr�ficos sobre os v�rios personagens. Esses n�meros foram convenientemente resumidos por E.A Budge, ex-curador das Antiguidades Eg�pcias, do Museu Brit�nico: A deusa Nut, esposa do deus do sol, R�, era amada pelo deus Geb. Ao descobrir a intriga, R� amaldi�oou a esposa e determinou que ela n�o teria filho em qualquer m�s do ano. Em seguida, o deus Thoth, que tamb�m amava Nut, jogou cartas com a Lua e ganhou dela cinco dias completos. Ele juntou estes aos 360 dias que, nessa ocasi�o, compunham o ano [it�licos nossos]. No primeiro desses cinco dias, nasceu Os�ris e, no momento de seu nascimento, uma voz foi ouvida proclamando que nascera o senhor da cria��o. Em outro trecho, o mito nos informa que o ano de 360 dias consiste em "12 meses de 30 dias cada". E, de modo geral, observa Sellers, "s�o usadas frases que estimulam c�lculos mentais simples e aten��o aos n�meros". At� agora, fornecemos ao leitor tr�s dos n�meros de Sellers referentes � precess�o: 360,12 e 30. O quarto n�mero, que aparece mais tarde no texto, � de longe o mais importante. Conforme vimos no Cap�tulo 9, a divindade perversa chamada Set liderou um grupo de conspiradores na trama para matar Os�ris. Eram 72 os conspiradores. Com este �ltimo n�mero, sugere Sellers, estamos em condi��es de dar o boot e p�r para rodar um antigo programa de computador: 12 = n�mero das constela��esdo zod�aco; 30 = n�mero de graus destinados, ao longo da ecl�ptica, a cada constela��o zodiacal; 72 = n�mero de anos necess�rios para que o sol equinocial complete uma mudan�a de precess�ode um grau ao longo da ecl�ptica; 72 x 30 = 2.160 (n�mero de anos necess�rios para que o sol complete uma passagem de 30 graus ao longo da ecl�ptica, isto �, passe inteiramente por qualquer uma das 12 constela��esdo zod�aco); 2.160 x 12 (ou 360 x 72) = 25.920 (n�mero de anos em um ciclo completo de precess�o, o "Grande Ano", e, dessamaneira, o n�mero total de anos necess�rios para produzir o "Grande Retorno"). Emergem tamb�m outros n�meros e combina��esde n�meros, como, por exemplo: 36, o n�mero de anos necess�rios para que o sol equinocial complete uma mudan�a de precess�o,de metade de grau, ao longo da ecl�ptica; 4.320, n�mero de anos necess�rios


para que o sol equinocial complete uma mudan�a de precess�o de 60 graus (isto �, duas constela��eszodiacais). Estes, acredita Sellers, constituem os componentes b�sicos de um c�digo de precess�o, que reaparece sempre, com uma estranha persist�ncia, em mitos antigos e na arquitetura sagrada. Em comum com grande parte da numerologia esot�rica, trata-se de um c�digo que permite que se mude � vontade casasdecimais para a esquerda ou a direita e que use quase todas as combina��es, permuta��es, multiplica��es, divis�es e fra��es conceb�veis dos n�meros essenciais (todos os quais se relacionam precisamente com a taxa de precess�odos equin�cios). No c�digo, o principal n�mero � o 72. A ele � freq�entemente adicionado o n�mero 36, obtendo-se 108, e � permiss�vel multiplicar 108 por 100 para obter 10.800, ou dividi-Io por dois para obter 54, que poder� ser em seguida multipli cado por 10 e expressado como 540 (ou como 54.000, 540.000, 5.400.000, e assim por diante). De alta significa��o � tamb�m o n�mero 2.160 (o n�mero de anos necess�rio para que o ponto equinocial percorra uma constela��o zodiacal), que � �s vezes multiplicado por 10 e por fatores de dez (obtendo-se 216.000, 2.160.000, e assim por diante) e, ocasionalmente, por 2 para produzir 4.320, ou 43.200,432.000,ou 4.320.000,ad infinitum. Melhor do que Hiparco Se Sellers est� correta em sua hip�tese, de que o c�lculo necess�rio para gerar esses n�meros foi deliberadamente codificado no mito de Os�ris, a fim de fornecer informa��es aos iniciados, encontramos uma anomalia intrigante. Se eles se referem realmente � precess�o, esses n�meros est�o deslocados no tempo. A ci�ncia que cont�m � avan�ada demais para que tenham sido calculados por qualquer civiliza��o conhecida da antiguidade. N�o devemos esquecer que eles aparecem em um mito contemporineo do pr�prio aparecimento da linguagem escrita no Egito (na verdade, elementos da hist�ria de Os�ris s�o encontrados nos Textos da Pir�mide, que datam de cerca de 2450 a.C., em um contexto que sugere que eram extremamente antigos mesmo nessa �poca). Hiparco, o indigitado descobridor da precess�o, viveu no s�culo II a.C. Ele prop�s um valor de 45 ou 46 segundos de arco para um ano do movimento de precess�o. Esses n�meros produzem uma mudan�a de um grau em 80 anos ao longo da ecl�ptica (a 45 segundos de arco por ano) e em 78,26 anos (a 46 segundos de arco por ano). O n�mero exato, calculado pela ci�ncia de nosso s�culo, � de 71,6 anos. Se a teoria de Sellers est� correta, portanto, os "n�meros de Os�ris", que fornecem um valor de 72 anos, s�o


significativamente mais exatos do que os encontrados por Hiparco. Na verdade, dentro dos limites �bvios impostos pela estrutura de narrativa, � dif�cil entender como o n�mero 72 poderia ter sido melhorado, mesmo que um n�mero mais exato tivesse sido conhecido dos antigos criadores de mitos. Dificilmente podemos inserir 71,6 conspiradores em uma hist�ria, ao passo que 72 se encaixam perfeitamente. Trabalhando com esse n�mero arredondado, o mito de Os�ris pode gerar um valor de 2.160 anos para uma mudan�a na precess�o atrav�s de uma casa completa do zod�aco. O n�mero correto, de acordo com os c�lculos modernos, � de 2.148 anos. Os n�meros de Hiparco s�o de 2.400 e 2.347,8 anos, respectivamente. Por �ltimo, Os�ris permitenos calcular 25.920 como o n�mero de anos requeridos para que se complete um ciclo de precess�o atrav�s das 12 casas do zod�aco. Hiparco fornece-nos 28.800 ou 28.173,6 anos. O n�mero correto, de acordo com as estimativas de hoje, � de 25.776 anos. Os c�lculos de Hiparco para o Grande Retorno, portanto, est�o cerca de 3.000 anos errados. Os c�lculos de Os�ris erram o n�mero certo em apenas 144 anos e isso pode ter acontecido porque o contexto de narrativa obrigou a um arredondamento do n�mero-base, do valor correto de 71,6 para um n�mero mais manipul�vel de 72. Tudo isso, contudo, d� como certo que Sellers tenha raz�o em supor que os n�meros 360, 72, 30 e 12 n�o entraram por acaso no mito de Os�ris, mas foram nele deliberadamente inseridos por indiv�duos que compreeendiam - e haviam medido corretamente - a precess�o. Ter� Sellers raz�o? Tempos de Decad�ncia O mito de Os�ris n�o � o �nico que cont�m o c�lculo da precess�o. Os n�meros relevantes continuaram a aflorar sob v�rias formas, m�ltiplos e combina��es, em todo o mundo antigo. A esse respeito demos um exemplo no Cap�tulo 33 - o mito escandinavo dos 432.000 guerreiros que sa�ram do Valhalla para lutar contra "o Lobo". Um novo exame desse mito mostra que ele cont�m v�rias permuta��esde "n�meros ligados � precess�o". De id�ntica maneira, conforme vimos no Cap�tulo 24, conta-se que antigas tradi��es chinesas, com refer�ncias a um cataclismo universal, foram postas no papel em um grande texto que consistia exatamente de 4.320volumes. A v�rios milhares de quil�metros de dist�ncia, teria sido uma coincid�ncia que o hinoriador babil�nico Berossus (s�culo III a.C.) tenha atribu�do um reinado total de 432.000 anos aos reis m�ticos que governaram a terra da Sum�ria antes do dil�vio? E


seria tamb�m coincid�ncia que esse mesmo Berossus atribu�sse 2.160.000 anos ao per�odo "entre a cria��o e a cat�strofe universal"? Agora uma pergunta: os mitos de antigos povos amer�ndios, como o maia, cont�m tamb�m ou nos permitem computar n�meros tais como 72, 2.160, 4.320 etc.? Provavelmente, jamais saberemos, gra�as aos conquistadores e frades fan�ticos que destru�ram a heran�a tradicional da Am�rica Central e nos deixaram com t�o pouca coisa com que trabalhar. O que podemos dizer, contudo, � que os n�meros relevantes surgem tamb�m, em relativa profus�o, no Calend�rio Maia de Longa Contagem. Os n�meros necess�rios para calcular a precess�o s�o encontrados nas f�rmulas seguintes: 1 Katun = 7.200 dias; 1 Tun = 360 dias; 2 Tuns = 720 dias; 5 Baktuns = 720.000; 5 Katuns = 36.000; 6 Katuns = 43.200; 6 Tuns = 2.160 dias; 15 Katuns = 2.160 dias. Tampouco parece que o "c�digo" de Sellers se limite � mitologia. Nas selvas de Kampuchea, o complexo de templos de Angkor d� a impress�o de que poderia ter sido constru�do intencionalmente como uma met�fora da precess�o. O complexo, por exemplo, possui cinco port�es, a cada um dos quais chega uma estrada que passa por cima do fosso, infestado de crocodilos, que cerca todo o s�tio. Todas essasestradas s�o ladeadas por uma fileira de gigantescas figuras de pedra, 108 por avenida, 54 de cada lado (540 est�tuas no total) e cada uma delas segura uma imensa serpente Naga. Al�m disso, como destacam Santillana e Von Dechend no Hamlets Mill, as figuras n�o "seguram" a serpente, mas s�o mostradas "puxando-a", o que indica que essas 540 est�tuas est�o "batendo o Oceano de Leite". Todo Angkor "transforma-se, dessa maneira, em um modelo colossal constru�do com aut�ntica fantasia e incongruidade hindus para expressar a id�ia de precess�o". A mesma coisa talvez aconte�a no famoso templo de Java, o Borobudur, com suas 72 stupas em forma de sino e talvez tamb�m nos meg�litos de Baalbeck, no L�bano - que se considera como os maiores blocos de pedra cortada existente no mundo. Muito anteriores �s estruturas romanas e gregas existentes no local, as �rvores que formam a chamada "Trilithion" t�m a altura de pr�dios de cinco andares e pesam 600 toneladas cada uma. Um quarto meg�lito tem quase 24m de comprimento e pesa 1.100 toneladas. Surpreendentemente, esses blocos gigantescos foram cortados, modelados com perfei��o e, de alguma maneira, transportados para Baalbeck procedentes de uma pedreira situada a v�rios quil�metros de dist�ncia. Al�m disso, foram encaixados habilmente, a uma grande altura acima do n�vel do ch�o, nos muros de arrimo de um templo magn�fico. Esse templo era cercado por 54 colunas de tamanho e altura imensos. No subcontinente da �ndia (onde a constela��o de �rion � conhecida como Kal-Purush, que significa Tempo-Homem), descobrimos que os n�meros de Os�ris a que se refere


Sellers s�o transmitidos atrav�s de uma larga variedade de meios e isto de uma maneira cada vez mais dif�cil de atribuir ao acaso. Existem, por exemplo, 10.800 tijolos no Agnicayana, o altar do fogo indiano. O Rigveda, o mais antigo dos textos vedas e rico reposit�rio de mitologia indiana, � composto de 10.800 estrofes. Cada estrofe � composta de 40 s�labas, com o resultado de que a composi��o, no total, consiste de 432.000 s�labas... nem mais, nem menos. No Rigveda 1:64 (uma estrofe t�pica), lemos sobre "a roda de 12 aros, na qual est�o estabelecidos 720 filhos de Agni". Na Cabala hebraica, h� 72 anjos atrav�s dos quais os Sephiroth (poderes divinos) podem ser abordados ou invocados por aqueles que lhes sabem os nomes e n�meros. A tradi��o Rosacruz fala de ciclos de 108 anos (72 mais 36), de acordo com os quais a fraternidade secreta manifesta sua influ�ncia. Analogamente, o n�mero 72 e suas permuta��es e subdivis�es s�o de grande import�ncia para as sociedades secretas chinesas, como as Tr�ades. Um antigo ritual exige que cada candidato � inicia��o pague uma taxa, incluindo "360 cash para 'fazer trajes', 108 cash 'para a bolsa', 72 cash 'para instru��o' e 36 cash para decapitar o 'sujeito trai�oeiro"'. O "cash" (a velha moeda de cobre usada em toda a China, com um buraco quadrado no centro) n�o est� mais, claro, em circula��o, embora tenham sobrevivido os n�meros transmitidos aos p�steros desde tempos imemoriais. Assim, na moderna Cingapura, candidatos � filia��o numa Tr�ade pagam uma j�ia que � calculada de acordo com sua situa��o ftnanceira, mas que deve sempre consistir de m�ltiplos de US$I,80, US$3,60, US$7,20, US$10,80 (e, portanto, de US$18, US$36, US$72, US$108,00, ou US$360, US$720, US$ 1.080, e assim por diante).


Entre todas as sociedades secretas, a mais misteriosa e antiga �, de longe, a Liga Hung, que estudiosos acreditam ser "a deposit�ria da velha religi�o dos chineses". Em um ritual de inicia��o Hung, o ne�fito passapor uma sess�ode perguntas e respostas mais ou menos assim: P. O que foi que voc� viu em seu passeio? R. Vi dois vasos com bambu vermelho. P. Sabequantas plantas havia neles? R. Em um vaso havia 36 e, no outro, 72, e juntos, 108. P. Levou alguns para casapara usar? R. Levei, levei para casa108 plantas... P. De que maneira pode provar isso? R. Possoprovar isso com um verso. P. Como � esseverso? R. O bambu vermelho de Cant�o � raro no mundo. Nos bosquesh� 36 e 72 deles. Quem � no mundo que conhece o significado disso? Quando come�armos a trabalhar, saberemos o segredo. A atmosfera de curiosidade despertada por trechos como esse � acentuada pelo componamento reticente da pr�pria Liga Hung, uma organiza��o que lembra a Ordem dos Templ�rios, uma organiza��o medieval (e os graus mais altos da moderna ma�onaria), de muitas maneiras que n�o cabe no escopo deste livro descrever. � curioso ainda que o caractere chin�s hung, composto de �gua e muitas, significa inunda��o, isto �, o Dil�vio. Finalmente, voltando � �ndia, vale a pena estudar o conte�do das escrituras sagradas conhecidas como Puranas. Falam elas de "quatro eras da terra, denominadas Yugas, que, juntas, se estenderiam por 12.000 "anos divinos". As respectivas dura��es dessas �pocas, em "anos divinos", s�o Krita Yuga = 4.800; Treta Yuga = 3.600; Davpara Yuga = 2.400 e Kali Yuga = 1.200anos. Os Puranas ainda nos dizem que "um ano dos mortais � igual a um dia dos deuses". Al�m do mais, e exatamente como no mito de Os�ris, descobrimos que o n�mero de


dias nos anos de deusese mortais foi estabelecido artificialmente em 360, de modo que

um ano dos deusesequivale a 360 anos dos mortais. A Kali Yuga, portanto, com 1.200 anos dos deuses, tem uma dura��o de 432.000 anos dos mortais. Uma Mahayuga, ou Grande Era (constitu�da dos 12.000 anos contidos nas quatro Yugas inferiores), equivale a 4.320.000anos dos mortais. Mil dessasMahayugas (que constituem um Kalpa, ou Dia de Brahma) estendem-se por 4.320.000.000 anos comuns, fornecendo, mais uma vez, os d�gitos para os c�lculos b�sicos da precess�o. Separadamente, seguem-se os Manvantaras (per�odos de Manu), sobre os quais as escrituras dizem que "cerca de 71 sistemas de quatro Yugas ocorrem durante cada Manvantara". O leitor deve recordar-se que um grau do movimento de precess�o ao longo da ecl�ptica requer 71,6 anos para ser completado, n�mero este que pode ser arredondado para baixo, "mais ou menos 71" na �ndia, com tanta facilidade com que � arredondado para cima, chegando a 72 no antigo Egito. A Kali Yuga, com uma dura��o de 432.000anos dos mortais, �, por falar nisso, a era em que vivemos. "Na Era de Kali", dizem as escrituras, "a decad�ncia aumentar�, at� que a ra�a humana se aproxime da aniquila��o."

C�es, Tios e Vingan�a E foi um c�o que nos trouxe at� estes tempos de decad�ncia. Chegamos aqui passando por S�rius, a estrela Canis, que se encontra ao leme da gigantesca constela��o de �rion, onde ela aparece alta no c�u, acima do Egito. Nessa terra, conforme vimos, �rion � Os�ris, o deus da morte e da ressurrei��o, cujos n�meros - talvez por acaso - s�o 12, 30, 72 e 360. Mas poder� o acaso explicar o fato de que esses e outros n�meros, que fazem parte do c�lculo da precess�o, continuam a aflorar em mitologias origin�rias de regi�es em todas as partes do mundo, supostamente sem nenhuma rela��o entre si, e em ve�culos duradouros como sistemas de calend�rio e obras de arquitetura? Santillana e Von Dechend, Jane Sellers e um n�mero crescente de outros pesquisadores excluem a possibilidade de acaso, argumentando que a persist�ncia dos detalhes indica uma m�o orientadora. Se est�o errados, precisamos encontrar outra explica��o para o motivo por que esses n�meros espec�ficos e inter-relacionados (cuja �nica fun��o �bvia consiste em servir


para calcular a precess�o) poderiam, por acaso, ter impregnado de maneira t�o profunda a cultura humana. Mas vamos supor que eles n�o estejam errados. Suponhamos que certa m�o orientadora esteve realmente por tr�s das cenas. �s vezes, quando estudamos o mundo de mito e mist�rio de Santillana e Von Dechend, podemos quase sentir a influ�ncia dessa m�o... Vejamos o caso do c�o... ou do chacal, do lobo, ou da raposa. A maneira sutil como esse misterioso canino se esgueira de um mito a outro � peculiar - deixando-nos curiosos, em seguida perplexos, mas sempre nos puxando para a frente. Na verdade, foi essa isca que seguimos desde o Moinho de Amlodhi at� o mito de Os�ris, no Egito. Ao longo do caminho, de acordo com a inten��o de antigos s�bios (se Sellers, Santillana e Von Dechend t�m raz�o), fomos inicialmente encorajados a formar uma clara imagem mental da esfera celeste. Em seguida, eles nos forneceram um modelo mecanicista, de modo a que pud�ssemos visualizar as grandes mudan�as que a precess�o dos equin�cios introduz periodicamente em todas as coordenadas da esfera. Finalmente, depois de permitir que S�rius abrisse os caminhos para n�s, eles nos deram os n�meros para calcular a precess�ocom relativa exatid�o. S�rius, por�m, em seu posto eterno ao leme de �rion, n�o � o �nico personagem canino em volta de Os�ris. Vimos no Cap�tulo 11 que �sis (simultaneamente esposa e irm� de Os�ris) procurou o cad�ver do marido assassinado por Set (que, incidentalmente, era tamb�m seu irm�o e de Os�ris). Na busca, de acordo com a tradi��o antiga, ela foi ajudada por c�es (chacais, em algumas vers�es). De id�ntica maneira, textos mitol�gicos e religiosos de todos os per�odos da hist�ria eg�pcia afirmam que o deus-chacal An�bis cuidou do esp�rito de Os�ris ap�s a morte e que lhe serviu de guia no submundo. (Vinhetas remanescentes mostram An�bis com uma apar�ncia virtualmente id�ntica � de Upuaut, o Desbravador de Caminhos.) Finalmente, mas n�o de menor import�ncia, acreditava-se que o pr�prio Os�ris assumiu a forma de lobo quando voltou do submundo para ajudar o irm�o H�rus na batalha final contra Set. Investigando esse tipo de material, sentimos �s vezes a sensa��o sobrenatural de que estamos sendo manipulados por uma intelig�ncia antiga, que descobriu uma maneira de chegar at� n�s atrav�s das imensid�es do tempo e que, por alguma raz�o, nos prop�e para solucionar um enigma que usa a linguagem do mito. Os caminhos entre os dois mitos muito diferentes de Os�ris e o Moinho de Amlodhi (embora pare�a que ambos cont�m dados cient�ficos exatos sobre a precess�o dos equin�cios) s�o mantidos abertos por outro estranho fator comum. H� relacionamentos familiares em jogo. Amlodhi/ Amleth/Hamlet � sempre um filho que


vinga o assassinato do pai, encurralando e matando o assassino. O assassino, al�m disso, � sempre o irm�o do pai, isto �, o tio de Hamlet. Esse� precisamente o cen�rio do mito de Os�ris. Ele e Seth s�o irm�os. Seth assassina Os�ris. H�rus, filho de Os�ris, vinga-se do tio. Outro desvio � que o personagem Hamlet mant�m algum tipo de relacionamento incestuoso com a irm�. No caso de Kullervo, o Hamlet finland�s, h� uma cena pungente, na qual o her�i, voltando para casa ap�s longa aus�ncia, encontra uma donzela no bosque, colhendo amoras. Deitam-se juntos. S� depois descobrem que s�o irm�o e irm�. A mo�a suicida-se por afogamento. Mais tarde, com o "c�o negro Musti" seguindo-o aos tornozelos, Kullervo entra na floresta e se joga contra a pr�pria espada. N�o h� suic�dios no mito eg�pcio de Os�ris, mas h� incesto, entre ele e a irm�, �sis. Dessauni�o nasce H�rus, o vingador. Em vista disso, parece mais uma vez razo�vel perguntar: o que � que est� acontecendo? Por que todas essasvis�veis liga��es e conex�es?Por que temos essa "fieira" de mitos, aparentemente sobre assuntos diferentes, todos os quais s�o capazes, � sua pr�pria maneira, de lan�ar luz sobre o fen�meno da precess�o dos equin�cios? E por que, em todos essesmitos, perpassam c�ese personagens que parecem estranhamente propensos ao incesto, ao fratric�dio e � vingan�a? E, certamente, � levar o ceticismo aos seus limites sugerir que tantos recursos liter�rios id�nticos poderiam continuar a reaparecer apenaspor acasoem tantos contextos diferentes. Se n�o por obra do acaso, contudo, quem foi exatamente o respons�vel por criar esse modelo complicado e habilmente interligado? Quem foram os autores e executores desseenigma e que motivos poderiam ter tido? Cientistas com Algo a Dizer Quem quer que tenham sido, n�o h� d�vida de que foram sabidos - sabidos o suficiente para ter observado o arrastamento infinitesimal do movimento de precess�o ao longo da ecl�ptica e calculado sua taxa com um valor extraordinariamente pr�ximo do que � obtido pela avan�ada tecnologia de hoje. Segue-se, portanto, que estamos falando de indiv�duos altamente civilizados. Na verdade, estamos falando de indiv�duos que merecem ser chamados de cientistas. Eles devem, al�m do mais, ter vivido em uma antiguidade extremamente remota, porque podemos ter certeza de que a cria��o e dissemina��o da heran�a comum de mitos sobre a precess�o, em ambos os lados do Atl�ntico, n�o ocorreu em tempos hist�ricos.


Ao contr�rio, a prova sugere que todos essesmitos "estavam cambaleando de velhice" quando aquilo que chamamos de hist�ria come�ou, h� cerca de 5.000 anos. O grande poder das hist�rias antigas era o seguinte: al�m de estarem para sempre � disposi��o de todos e poderem ser adaptadas sem necessidade de pagamento de direitos autorais, elas, como se fossem camale�es intelectuais, sutis e amb�guos, tinham capacidade de mudar de cor para adequar-se ao ambiente. Em ocasi�es diferentes, em continentes diferentes, as hist�rias antigas podiam ser recontadas de uma grande variedade de maneiras, mas sempre reter seu simbolismo b�sico e continuar a transmitir os dados codificados sobre a precess�o, que desde o in�cio haviam sido codificados para fazer. Mas com que fim em vista? Conforme veremos no cap�tulo seguinte, os longos e lentos ciclos das precess�esn�o se limitam, em suas conseq��ncias, a mudar o aspecto do c�u. Esse fen�meno celeste, causado pelo bamboleio do eixo da terra, produz efeitos diretos sobre a pr�pria terra. Na verdade, parece que � um dos principais correlatos do aparecimento s�bito de idades de gelo e de sua retirada igualmente s�bita e catastr�fica. CAP�TULO 32 Falando para o Futuro � compreens�vel que uma imensa faixa de mitos origin�rios de todo o mundo antigo descrevam cat�strofes geol�gicas em n�tidos detalhes. A humanidade sobreviveu ao horror da �ltima Era Glacial e a fonte mais plaus�vel de nossasduradouras tradi��es de dil�vio e congelamento, vulcanismo maci�o e terremotos devastadores est� nas subleva��es tumultuosas desencadeadas durante o grande degelo dos anos 15.000 a 8.000 a.C. A retirada final dos len��is de gelo e a conseq�ente eleva��o de 90m e 120m dos n�veis do mar em todo o globo ocorreram apenasalguns milhares de anos antes do in�cio do per�odo hist�rico. Por isso mesmo, n�o � de surpreender que todas as primeiras civiliza��es tenham conservado v�vidas mem�rias dos imensos cataclismos que apavoraram seus ancestrais. Muito mais dif�cil de explicar � a maneira peculiar, mas caracter�stica, como os mitos do cataclismo parecem revelar a marca inteligente de uma m�o orientadora. Na verdade, o grau de converg�ncia entre essas antigas hist�rias �, com freq��ncia, t�o not�vel que desperta a suspeita de que todas elas devem ter sido "escritas" pelo mesmo "autor", Poderia esse autor ter alguma coisa a ver com a maravilhosa divindade, ou super-homem, mencionado em tantos mitos que estudamos acima, que apareceu imediatamente ap�s ter sido o mundo despeda�ado por uma horripilante


cat�strofe geol�gica, trazendo o consolo e as d�divas da civiliza��o a sobreviventes chocados e desmoralizados? Branco e barbudo, Os�ris � a manifesta��o eg�pcia dessa figura universal e talvez n�o tenha sido um acaso que um dos primeiros atos pelos quais � lembrado no mito tenha sido a aboli��o do canibalismo entre os primitivos habitantes do vale do Nilo. Conta-se que Viracocha, na Am�rica do Sul, iniciou sua miss�o civilizadora imediatamente ap�s uma grande inunda��o; Quetzalcoatl, o descobridor do milho, trouxe o benef�cio das colheitas, da matem�tica, da astronomia e de uma cultura refinada ao M�xico, depois de o Quarto Sol ter sido apagado por um dil�vio devastador. Poderiam esses estranhos mitos conter um registro de encontros entre tribos paleol�ticas dispersas, que sobreviveram � �ltima Era Glacial, e uma civiliza��o avan�ada, ainda desconhecida que florescia na mesma �poca? E poderiam os mitos ter sido tentativas de comunica��o? Uma Mensagem na Garrafa do Tempo "Entre todas as outras inven��es estupendas", observou certa vez Galileu, que mente sublime deve ter possu�do aquele que concebeu como comunicar seus pensamentos mais secretos a qualquer outra pessoa, embora muito distantes no tempo ou lugar, falando com aqueles que est�o nas �ndias, falando com aqueles que ainda n�o nasceram, nem nascer�o pelos pr�ximos mil ou dez mil anos? E sem maior dificuldade do que os v�rios arranjos de duas dezenasde pequenos sinais no papel? Que esta seja a marca caracter�stica de todas as inven��esadmir�veis do homem. Se a "mensagem sobre a precess�o" identificada por estudiosos como Santillana, Von Dechend e Jane Sellers foi, na verdade, uma tentativa deliberada de comunica��o por parte de alguma civiliza��o perdida da antiguidade, por que n�o foi simplesmente escrita e deixada para que a encontr�ssemos?N�o teria sido mais f�cil do que codific�Ia em mitos? Talvez. N�o obstante, suponhamos que qualquer mensagem que tivesse sido escrita fosse destru�da ou corro�da pelo tempo ap�s muitos milhares de anos. Ou suponhamos que a l�ngua em que foi escrita tivesse sido mais tarde inteiramente esquecida (tal como a escrita enigm�tica do vale do Indo, que tem sido estudada atentamente h� mais de um s�culo mas que at� agora resistiu a todas as tentativas de decodific�-Ia). Deve ser �bvio que, nessas circunst�ncias, um legado escrito para o futuro n�o teria absolutamente valor, porque ningu�m poderia compreend�-Io. O que procurar�amos, por conseguinte, seria uma linguagem universal, o tipo de linguagem que seria compreens�vel em qualquer sociedade tecnologicamente


avan�ada, em qualquer �poca, mesmo a mil ou dez mil anos no futuro. Essas linguagens s�o poucas e com poucas liga��es entre si, muito embora a matem�tica seja uma delas - e a cidade de Teothuac�n talvez seja o cart�o de visita de uma civiliza��o perdida, escrita na linguagem eterna da matem�tica. Dados geod�sicos, relacionados com o posicionamento exato de pontos geogr�ficos f�sicos e com a forma e tamanho da terra permaneceriam tamb�m v�lidos e reconhec�veis durante dezenas de milhares de anos e poderiam ser expressados da forma a mais conveniente por interm�dio da cartografia (ou na constru��o de monumentos geod�sicos gigantescos, como a Grande Pir�mide do Egito, conforme veremos). Outra "constante" em nosso sistema solar � a linguagem do tempo: os intervalos grandes, mas regulares de tempo, calibrados pelo arrastamento lent�ssimo do movimento de precess�o. Agora, ou dentro de dez mil anos no futuro, uma mensagem que forne�a n�meros como 72, 2.160, 4.320 ou 25.920 deve ser imediatamente intelig�vel para qualquer civiliza��o que tenha desenvolvido at� mesmo um modesto talento para a matem�tica e a capacidade de detectar e medir o bamboleio reverso quase invis�vel que o sol parece fazer ao longo da ecl�ptica, contra o fundo das estrelas fixas (um grau em 71,6 anos, 30 graus em 2.148 anos, e assim por diante). A impress�o de que existe uma correla��o � refor�ada por algo mais. N�o t�o firme nem t�o definida como o n�mero de s�labas no Rigveda. N�o obstante, parece relevante. Atrav�s de poderosos la�os estil�sticos e simbolismo comum, mitos a respeito de cataclismos globais e precess�o de equin�cios freq�entemente se entremisturam. Uma interliga��o detalhada existe entre essas duas categorias de tradi��o, e ambas, al�m disso, mostram o que parecem ser as marcas reconhec�veis de uma concep��o consciente. De modo muito natural, portanto, somos estimulados a descobrir se n�o poder� haver uma liga��o importante entre a precess�o dos equin�cios e cat�strofes globais.

O Moinho da Dor Embora v�rios diferentes mecanismos de natureza astron�mica e geol�gica pare�am estar envolvidos, e embora nem todos sejam inteiramente compreendidos, o fato � que o ciclo de precess�o correlaciona-se real e fortemente com o desencadeamento e o fim das eras glaciais.


V�rios fatores desencadeantes t�m de coincidir, o que � o motivo por que nem todas as mudan�as de uma era astron�mica para outra est�o implicadas. N�o obstante, � um fato aceito hoje que a precess�o produz realmente um impacto sobre a glacia��o e o degelo, a intervalos muito separados. O conhecimento de que isso de fato acontece s� foi provado por nossa pr�pria ci�ncia em fins da d�cada de 1970. Ainda assim, a prova dos mitos sugere que o mesmo n�vel de conhecimento pode ter sido atingido por uma civiliza��o ainda n�o identificada, nas profundezas da �ltima Era Glacial. A clara sugest�o que ela queria que compreend�ssemos � que os terr�veis cataclismos do dil�vio, do fogo e do gelo descritos pelos mitos eram, de alguma maneira, provocados pelos majestosos movimentos das coordenadas celestes atrav�s do grande ciclo do zod�aco. Nas palavras de Santillana e Von Dechend, "N�o era id�ia estranha aos antigos que os moinhos dos deuses mo�am devagar e que o resultado era geralmente dor". Sabe-se agora que tr�s fatores principais, que j� encontramos antes, est�o profundamente implicados no in�cio e no recuo das eras glaciais (juntamente, claro, com os cataclismos de natureza diferente que se seguem a congelamentos e a degelos s�bitos). Essesfatores est�o ligados a varia��es na geometria orbital da terra. S�oeles: 1. A obliq�idade da ecl�ptica (isto �, o �ngulo de inclina��o do eixo de rota��o do planeta, que � tamb�m o �ngulo entre o equador celeste e a ecl�ptica). Este, conforme vimos, varia em imensos per�odos de tempo entre 22,1 graus (o ponto mais pr�ximo em que o eixo chega da vertical) e 24,5 graus (o ponto mais distante em que cai em rela��o � vertical); 2. A excentricidade da �rbita (isto �, se a trajet�ria el�ptica da terra em volta do sol � mais ou menos alongada em qualquer dado per�odo); 3. A precess�o axial, que faz com que os quatro pontos cardeais na �rbita da terra (os dois equin�cios e os solst�cios de inverno e ver�o) se arrastem muito, muito lentamente para tr�s, em torno da trajet�ria orbital. Neste particular, estamos pondo o bedelho na seara de uma disciplina cient�fica especializada - na maior parte fora dos objetivos deste livro. Leitores interessados em informa��o detalhada devem consultar o trabalho multidisciplinar do Projeto CLIMAP, da US National Science Foundation, e um ensaio de grande import�ncia de autoria dos professores J.D. Hays e John Imbrie, intitulado "Variations in me Earth's Orbit: Pacemaker of the Ice Ages". Resumidamente, o que Hays, Imbrie e outros provaram � que o in�cio das eras glaciais pode ser previsto quando ocorrem as seguintes desastrosas e hostis conjun��es de


ciclos celestes: 1) excentricidade m�xima, que leva a terra para milh�es de quil�metros mais longe do sol no "af�lio" (a extremidade de sua �rbita) do que o normal; 2) obliq�idade m�nima, o que significa que o eixo da terra e conseq�entemente os p�los Norte e Sul aproxima-se muito mais da vertical do que o comum; e 3) a precess�o dos equin�cios, que, � medida que continuam os grandes ciclos, faz finalmente com que o inverno ocorra em um hemisf�rio quando a terra est� no "peri�lio" (o ponto mais pr�ximo do sol). Isso, por seu lado, significa que o ver�o ocorre no af�lio e �, assim, relativamente frio, de modo que o gelo depositado no inverno n�o consegue derreter durante o ver�o seguinte e ocorre uma implac�vel acumula��o de condi��es glaciais. Potencializada pela geometria mut�vel da �rbita, a "insola��o global" - os volumes e intensidade diferentes de luz solar recebida em v�rias latitudes em qualquer dada �poca - pode ser um fator desencadeante importante das eras glaciais. Seria poss�vel que os antigos criadores de mitos estivessem tentando nos avisar do grande perigo quando, com tanto cuidado, ligaram a dor do cataclismo global ao lento trabalho de tritura��o do moinho do c�u? A essa quest�o voltaremos em tempo oportuno. Entrementes, talvez seja suficiente observar que, ao identificar os efeitos significativos da geometria orbital sobre o clima e o bem-estar do planeta, e ao combinar essa informa��o com medi��es precisas da taxa do movimento de precess�o, cientistas desconhecidos de uma civiliza��o n�o identificada parecem ter encontrado uma maneira de nos despertar a aten��o, de lan�ar uma ponte entre os abismos das eras e a comunicar-se diretamente conosco. Se ou n�o vamos escutar o que eles t�m para nos dizer cabe inteiramente, claro, a n�s mesmos.


Templo dos Guerreiros, em Chichen Itza, Yucat�n, M�xico. No primeiro plano, o �dolo Chacmool, olhando para o oeste, a dire��o tradicionalmente ligada � morte. No segundo plano, nos fundos do templo, atr�s do �dolo, pode ser visto o altar sacrificial, montado sobre pilares baixos. O prato que o �dolo segura nas m�os, de um lado a outro da barriga, era usado para receber os cora��es rec�m-extra�dos das v�timas, sacrificadas devido � cren�a em que a morte delas poderia retardar a chegada do fim do mundo.


ParteVI Convite a Giz� Egito I CAP�TULO 33 Pontos Cardeais

Giz�, Egito, 16 de mar�o de 1993, 3h30min.

Cruzamos o sagu�o deserto do hotel e entramos no Fiat branco que nos esperava. O carro era dirigido por um eg�pcio magro e nervoso chamado Ali, que nos devia fazer passar pelos guardas estacionados na Grande Pir�mide e nos tirar de l� pouco antes do amanhecer. Ele estava nervoso porque, se as coisas dessem errado, Santha e eu ser�amos deportados do Egito e ele iria mofar na pris�o durante seis meses. Claro, ningu�m esperava que as coisas dessem errado. E esse era o motivo por que Ali ia nos levar. No dia anterior, der�mos a ele 150 d�lares americanos, que ele trocara por libras eg�pcias e distribu�ra entre os guardas apropriados. Eles, por seu lado, tinham concordado em ignorar nossapresen�a nas duas horas seguintes. Fomos de carro at� uns 800m da pir�mide e, em seguida, andamos o resto do caminho - em volta do lado do aterro �ngreme que fica a cavaleiro da aldeia de Nazlet-el-Saman e leva � face norte do monumento. Nenhum de n�s falou muito, enquanto and�vamos com dificuldade pela areia solta, guardando dist�ncia das luzes de seguran�a. Sent�amo-nos simultaneamente nervosos e apreensivos. Ali n�o tinha absolutamente certeza de que o suborno iria funcionar. Durante algum tempo, permanecemos im�veis nas sombras, olhando para o volume monstruoso da pir�mide, adentrando a escurid�o acima e bloqueando as estrelas situadas na parte sul do c�u. Logo depois, uma patrulha de tr�s homens armados com espingardas e entolados em cobertores para proteger-se do frio da noite, apareceu no canto nordeste, a uns 45m de dist�ncia, onde o grupo parou para dividir as tragadasde um cigarro. Indicando com um gesto que dev�amos ficar calados, Ali saiu para a luz e dirigiu-se aos guardas. Conversou com eles durante v�rios minutos, falando, ao que parecia, em tom acalorado. No fim, chamou-nos com um gesto, indicando que dev�amos ir ao seu encontro.


- H� um problema - explicou. - Um deles, o capit�o aqui [indicou um tipo baixo, barba por fazer, despenteado, com ar aborrecido], est� insitindo em que a gente pague mais trinta d�lares, ou ent�o nada feito. O que � que o senhor vai fazer? Enfiei a m�o no bolso, tirei a carteira, contei trinta d�lares e entreguei-os a Ali. Ele dobrou-os e entregou-os ao capit�o. Com um ar de dignidade ofendida, o capit�o enfiou o dinheiro no bolso da camisa e, finalmente, todos n�s trocamos apertos de m�o. - Tudo bem - disse Ali. - Vamos. Precis�o Inexplic�vel Enquanto os guardas continuavam a ronda na dire��o oeste, ao longo da face norte da Grande Pir�mide, demos a volta em torno do canto norte e seguimos ao longo da base da face leste. H� muito tempo eu adquirira o h�bito de me orientar de acordo com os lados do monumento. A face norte era alinhada, de modo quase perfeito, com o norte verdadeiro, a face leste quase perfeitamente com o leste verdadeiro, a sul com o sul verdadeiro e a oeste com o oeste verdadeiro. O erro m�dio era de apenas tr�s minutos de arco (que ca�a para menos de dois minutos na face sul) - uma precis�o incr�vel para qualquer pr�dio, em qualquer �poca, e fa�anha inexplic�vel, quase sobrenatural, no Egito h� 4.500 anos, quando se sup�e que a pir�mide tenha sido constru�da. Um erro de tr�s minutos de arco representa um desvio infinitesimal do n�mero verdadeiro, de menos de 0,015%. Na opini�o de engenheiros especializados em estrutura, com os quais conversei sobre a Grande Pir�mide, era imposs�vel compreender a necessidade de tal precis�o. Do ponto de vista deles, como construtores pr�ticos, a despesa, dificuldades e tempo gasto para conseguir essa precis�o n�o teria sido justificada pelos resultados aparentes: mesmo que a base do monumento tivesse se desviado nada menos que dois ou tr�s graus do verdadeiro (um erro de, digamos, 1 %), a diferen�a para o olho nu teria sido pequena demais para ser notada. Por outro lado, a diferen�a na magnitude dos trabalhos necess�rios (para conseguir uma precis�o de tr�s minutos, em contraste com tr�s graus) teria sido imensa.


Obviamente, por conseguinte, os mestres-construtores que ergueram a pir�mide no pr�prio alvorecer da civiliza��o humana deviam ter tido poderosos motivos para querer os alinhamentos em conson�ncia com a dire��o dos pontos cardeais. Al�m disso, uma vez que haviam atingido esse objetivo com uma precis�o espantosa, eles deveriam ter sido altamente qualificados, gente culta e competente, com acesso a excelente equipamento de topografia. Essa impress�o � confirmada por muitas das demais caracter�sticas do monumento. Os lados na base, por exemplo, s�o quase exatamente do mesmo comprimento, com uma margem de erro muito menor do que se esperaria que arquitetos modernos conseguissem hoje na constru��o de, digamos, um bloco de escrit�rios de tamanho m�dio. Mas n�o havia ali um bloco de escrit�rios, mas a Grande Pir�mide do Egito, uma das maiores estruturas jamais constru�das pelo homem e uma das mais antigas. Seu lado norte tem 230m e 12cm de comprimento; o lado oeste, 230,23m; o lado leste, 230,26m; e o lado sul, 233,247m. Isso significa que h� uma diferen�a de menos de 20cm entre seus lados mais curto e mais longo, erro este


que equivale a uma fra��o min�scula de 1 % no comprimento m�dio dos lados, de 230,75m. Repetindo, eu sabia que, do ponto de vista de engenharia, os duros n�meros nenhuma justi�a faziam ao imenso cuidado e per�cia requeridos para obt�-Ios. Eu sabia, tamb�m, que os estudiosos n�o haviam chegado a uma explica��o convincente de como exatamente os construtores da pir�mide mantiveram invariavelmente esses altos padr�es de precis�o. O que realmente me interessava, por�m, era um ponto de interroga��o ainda maior no tocante a outra quest�o: por que impuseram a si mesmos padr�es t�o rigorosos? Se tivessem permitido uma margem de erro de 1 a 2% - em vez de menos de um d�cimo de 1 % - eles poderiam ter simplificado o trabalho sem nenhuma vis�vel perda de qualidade. Por que n�o haviam feito isso? Por que tinham insistido em tornar as coisas t�o dif�ceis? Por que, em suma, em um momumento de pedra supostamente "primitivo", constru�do h� mais de 4.500 anos, est�vamos vendo essa observ�ncia obsessiva de padr�es de precis�o da idade da m�quina? Buraco Negro na Hist�ria Nosso plano era escalar a Grande Pir�mide - algo que fora considerado absolutamente ilegal desde 1983, quando quedas desastrosas de v�rios turistas temer�rios obrigara o governo do Egito a baixar uma proibi��o. Eu reconhecia que est�vamos sendo tamb�m temer�rios (em especial por tentar a escalada � noite) e n�o me sentia l� muito bem em infringir o que era basicamente uma lei sensata. Por essa altura, contudo, meu interesse profundo pela pir�mide e o desejo de aprender tudo que pudesse sobre ela haviam superado o bom senso. Nesse momento, despedindo-nos da patrulha no canto nordeste do monumento, continuamos a seguir discretamente, pelo lado leste, na dire��o do canto sudeste. Eram densas as sombras entre as pedras fora de prumo e quebradas que serviam de pavimento entre a Grande Pir�mide e as tr�s pir�mides "subsidi�rias" muito menores, que se situavam imediatamente a leste. E havia tamb�m tr�s grandes, profundos e estreitos buracos cortados na rocha que pareciam sepulturas gigantescas. Eles tinham sido encontrados vazios pelos arque�logos que os escavaram, mas eram constru�dos como se a inten��o fosse us�-Ios para abrigar os cascos de barcos aerodin�micos, de proa alta. Mais ou menos a meio caminho ao longo da face oriental da Pir�mide, encontramos outra patrulha. Dessa vez, ela consistia de dois guardas, um dos quais devia ter uns oitenta anos de idade. Seu companheiro, um adolescente com acne pustulenta no


rosto, informou-nos que o dinheiro pago por Ali era insuficiente e que mais cinq�enta libras eg�pcias teriam de ser pagas, antes que pud�ssemos prosseguir. Eu j� tinha as notas na m�o e entreguei-as sem demora ao rapaz. N�o me interessava o quanto isso tudo estava custando. Eu queria simplesmente escalar a pir�mide, descer e ir embora antes do amanhecer, sem ser preso. Continuamos a andar, chegando ao canto sudeste pouco depois de 4h15min da manh�. Pouqu�ssimos pr�dios modernos, at� mesmo as casas onde moramos, t�m cantos que consistam de �ngulos retos perfeitos de noventa graus. � muito comum que estejam um ou mais graus longe do verdadeiro. Estruturalmente, isso n�o faz qualquer diferen�a e ningu�m nota erros t�o min�sculos. No caso da Grande Pir�mide, por�m, eu sabia que os antigos mestres-construtores haviam encontrado maneiras de reduzir a margem de erro para quase nada. Dessamaneira, ficando aqu�m dos noventa graus perfeitos, o canto sudeste tinha uns impressionantes 89� 56' 27". O canto nordeste media 90� 3' 2"; o sudoeste, 90� 0' 33"; e o noroeste apenas dois segundos de grau fora do verdadeiro, em 89� 59' 58". Essa precis�o era, claro, extraordin�ria. E tal como quase tudo mais sobre a Grande Pir�mide, era tamb�m extremamente dif�cil de explicar. T�cnicas de constru��o apuradas desse tipo - t�o exatas quanto as melhores que temos hoje s� podiam ter evolu�do depois de milhares de anos de desenvolvimento e experimenta��o. Ainda assim, n�o havia prova de que qualquer processo dessetipo ti vessealgum dia ocorrido no Egito. A Grande Pir�mide e suas vizinhas em Giz� pareciam ter sa�do de um buraco negro da hist�ria arquitet�nica, um buraco t�o profundo e largo que nem seu fundo nem seus lados jamais haviam sido identificados. Navios no Deserto Guiado por um Ali cada vez mais suarento, que n�o havia ainda explicado por que era necess�rio dar a volta em torno da pir�mide antes de iniciar a escalada, come�amos a andar nesse momento na dire��o oeste, ao longo do lado sul do monumento. A�, tamb�m, havia dois outros buracos com a forma de barco, um dos quais, embora ainda fechado, fora estudado com c�meras de fibra �ptica e se sabia que continha um barco de proa alta, capaz de navegar no mar, e com mais de 33m de comprimento. O outro buraco havia sido escavado na d�cada de 1950. Seu conte�do - um barco mar�timo ainda maior, com nada menos de 42m de comprimento - fora levado para o chamado Museu do Barco, uma estrutura moderna feia, montada sobre palafitas, embaixo da face sul da pir�mide.


Feito de cedro, o belo barco conservado no museu continua em perfeitas condi��es, 4.500 anos depois de constru�do. Com um deslocamento de cerca de 40 toneladas, tem um projeto especialmente instigante, incluindo, nas palavras de um especialista, "todas as propriedades caracter�sticas de um barco mar�timo, com proa e popa altas, mais altas do que em um barco viking, apropriado para enfrentar ondas e mar grosso, e n�o para navegar nas pequenasondas do Nilo". Outra autoridade pensava que o projeto cuidadoso e inteligente desse estranho barco da pir�mide poderia, potencialmente, t�-Io tornado "mais seguro no mar do que qualquer coisa usada por Colombo". Al�m do mais, os especialistas concordavam em que o barco fora constru�do de acordo com um modelo que s� podia "ser criado por construtores navais de um povo com longa e s�lida tradi��o de navega��o em altomar". Presentes j� no pr�prio in�cio da hist�ria de 3.000 anos do Egito, quem teriam sido esses construtores navais desconhecidos? Eles n�o haviam acumulado essa "longa e s�lida tradi��o de navega��o em alto-mar" enquanto aravam os campos do vale do Nilo, cercado de terra. Se assim, onde e quando desenvolveram essas per�cias mar�timas? Mas havia outro quebra-cabe�a. Eu sabia que os antigos eg�pcios tinham sido muito h�beis em fazer modelos em escala e maquetes, para finalidades simb�licas, de todos os tipos de coisas. Por isso mesmo, achava dif�cil compreender por que eles teriam se dado tanto trabalho para construir, e em seguida enterrar, um barco t�o grande e sofisticado como esse, se sua �nica fun��o fosse, como alegaram egipt�logos, servir de s�mbolo de uma barca espiritual, que levaria para o c�u a alma do falecido rei. Isso poderia ter sido conseguido com igual efici�ncia com uma embarca��o muito menor, e apenas uma teria sido necess�ria, e n�o v�rias delas. A l�gica, por conseguinte, sugeria que essas embarca��es gigantescas deveriam ter sido constru�das para outro prop�sito, inteiramente diferente, ou ent�o revestia-se de uma import�ncia simb�lica inteiramente diferente e ainda n�o descoberta... Hav�amos chegado mais ou menos � metade da face sul da Grande Pir�mide quando, finalmente, compreendemos o motivo por que est�vamos sendo levados nesse longo passeio. O objetivo era aliviar-nos de modestas somas de dinheiro em cada um dos quatro pontos cardeais. A conta era at� essemomento de 30 d�lares na face norte e 50 libras eg�pcias na face leste. Nesse momento, desembolsei mais 50 libras para outra patrulha, que Ali deveria ter subornado no dia anterior. - Ali - sibilei -, quando � que vamos escalar a pir�mide?


- Imediatamente, Sr. Graham - respondeu nosso guia. Come�ou a andar em passos confiantes, gesticulando direto para a frente. Em seguida, acrescentou: - Vamos subir pela aresta sudoeste... CAP�TULO 34 A Mans�o da Eternidade Voc� j� escalou uma pir�mide � noite, com medo de ser preso, com os nervos � flor da pele? Trata-se de uma coisa extremamente dif�cil de fazer, especialmente no que se refere � Grande Pir�mide. Embora seus �ltimos 9m n�o estejam mais intactos, a plataforma que ora existe no topo ainda se situa a mais de 135m de altura. A pir�mide consiste, al�m do mais, de 203 carreiras separadas de blocos de cantaria, cada carreira com altura m�dia de cerca de 75cm. M�dias n�o nos dizem coisa alguma, como descobri logo depois de come�ar a subir. Verifiquei que as carreiras s�o de altura desigual, algumas mal chegando ao n�vel do joelho, enquanto outras quase me tocavam o peito e criavam obst�culos formid�veis. Simultaneamente, eram muito estreitas as sali�ncias entre cada um dos passos, �s vezes apenas um pouco mais larga do que meu p� e, al�m disso, descobri que muitos dos enormes blocos de pedra calc�ria, que haviam parecido t�o s�lidos vistos de baixo, estavam quebrados e se esfarelando. Cerca de 30 carreiras acima, Santha e eu come�amos a compreender a enrascada em que hav�amos nos metido. T�nhamos os m�sculos doloridos e os joelhos e dedos duros e arranhados - ainda que tiv�ssemos percorrido apenas um s�timo do caminho at� o cume e houvesse ainda mais de 170 carreiras para escalar. Outra preocupa��o era o abismo vertiginoso que se alargava cada vez mais abaixo de n�s. Acompanhando com os olhos os contornos serrilhados que marcavam a linha da aresta sudoeste, fiquei pasmo ao notar o quanto j� hav�amos subido e experimentei um moment�neo e estonteante pressentimento de como seria f�cil para n�s despencar dali, girando cambalhota como Jack e Jill, ricocheteando das imensas carreiras de pedra e quebrando a cabe�al� embaixo. Ali nos concedeu uma pausa de alguns minutos para que pud�ssemos recuperar o f�lego. Nessemomento, por�m, ele fez um sinal e recome�ou a subida. Ainda usando a aresta como orienta��o, ele, rapidamente, desapareceu na escurid�o acima de n�s. Um tanto menos confiantes, Santha e eu o seguimos. Tempo e Movimento


A 35�. carreira de pedras foi dif�cil de vencer, sendo feita de blocos bem s�lidos, muito maiores do que quaisquer outros que hav�amos encontrado at� ent�o (excetuados os da pr�pria base). Essefato contrariava a l�gica da engenharia e do bom senso, ambos os quais requeriam uma diminui��o progressiva do tamanho e peso dos blocos que tinham de ser transportados para o cume, � medida que a pir�mide se tornava cada vez mais alta. As carreiras 1-18, que diminu�am de uma altura de cerca de 1,40m no n�vel do ch�o para pouco mais de 55cm na carreira 17, obedeciam a essa norma. De repente, por�m, na carreira 19, a altura do bloco subiu para quase 90cm. Simultaneamente, as demais dimens�es dos blocos aumentaram tamb�m e seu peso passou das relativamente manobr�veis 2-6 toneladas, que era o comum nas primeiras 18 carreiras, para a faixa mais volumosa e dif�cil de manipular de 10-15 toneladas. Esses, portanto, eram mon�litos realmente grandes, que haviam sido extra�dos de pedra calc�ria s�lida e i�ados mais de 30m no ar, antes de ser colocados, sem uma falha, nos respectivos lugares. Para trabalhar com tanta efici�ncia, os construtores da pir�mide deviam ter possu�do nervos de a�o, a agilidade de cabritos-monteses, a for�a de le�es e a confian�a de limpa-chamin�s. Com o frio vento da manh� a�oitando-me as orelhas e amea�ando me lan�ar em v�o, tentei imaginar o que teria sido para eles, equilibrados perigosamente dessa maneira (e em uma altura muito maior), i�ando, manobrando e posicionando com exatid�o uma linha de produ��o intermin�vel de alentados mon�litos de pedra calc�ria - o mais leve dos quais pesava dois modernos carros tipo fam�lia. Quanto tempo fora necess�rio para terminar a constru��o da pir�mide? Quantos homens haviam nela trabalhado? Reinava ainda concord�ncia geral de que o projeto de constru��o n�o fora obra de anos inteiros, mas havia sido limitado (na depend�ncia da for�a de trabalho dispon�vel) � esta��o anual de pousio obrigat�ria, imposta pela cheia do Nilo. Enquanto continuava a subir, lembrei-me das implica��es de tudo isso. O motivo da preocupa��o dos construtores n�o havia sido apenasas dezenasde milhares de blocos, cada um deles pesando 15 toneladas ou mais. Um ano ap�s outro, as crises aut�nticas teriam sido causadaspelos milh�es de blocos de tamanho m�dio, pesando, digamos, 2,5 toneladas, que teriam de ser trazidos tamb�m ao canteiro de obras. Estimou-se, com bons fundamentos, que a pir�mide cont�m um total de 2,3 milh�es blocos de pedra. Supondo que os pedreiros trabalhassem dez horas por dia, durante 365 dias do ano, o c�lculo matem�tico indicava que eles teriam de colocar em posi��o, a cada hora, 31 blocos (cerca de um bloco a cada dois minutos) para completar a pir�mide em 20 anos. Supondo que o trabalho de constru��o tivesse sido limitado ao pousio anual de tr�s


meses, o problema se agravava: quatro blocos por minuto teriam de ser assentados, ou cerca de 240 por hora. Esses cen�rios, claro, s�o a mat�ria-prima dos pesadelos dos mestres-de-obras. Imagine-se, por exemplo, o grau dific�limo de coordena��o que teria de ser mantido entre os pedreiros e as pedreiras para assegurar a taxa necess�ria do fluxo de blocos atrav�s do canteiro de obras. Imagine-se tamb�m o caos, se at� mesmo um �nico bloco de 2,5 toneladas tivesse despencado, digamos, da 175�. carreira. Osobst�culos f�sicos e administrativos devem ter sido enormes, mas, al�m deles, havia o desafio geom�trico representado pela pr�pria pir�mide, que devia terminar com o cume posicionado exatamente sobre o centro da base. At� mesmo o erro mais leve na base do �ngulo de inclina��o de um dos lados teria resultado em um grande desalinhamento das arestas no cume. Uma precis�o incr�vel, portanto, tinha de ser mantida durante toda a obra, em cada carreira de blocos, a dezenas de metros acima do solo, usando-se grandes blocos de pedra de peso assassino. Estupidez Rampante Como havia sido feito essetrabalho? Segundo a �ltima contagem, circulavam mais de 30 teorias concorrentes e conflitantes que tentavam responder a essa pergunta. A maioria dos egipt�logos acad�micos argumentava que rampas de algum tipo deviam ter sido usadas.Esta era a opini�o, por exemplo, do professor I.E.S. Edwards, antigo curador de Antiguidades Eg�pcias do Museu Brit�nico, que afirmou categoricamente: "S� havia um m�todo dispon�vel aos antigos eg�pcios para erguer grandes blocos, isto �, atrav�s de rampas de tijolos e terra, subindo em ladeira a partir do n�vel do ch�o at� qualquer altura desejada." John Baines, professor de egiptologia da Universidade de Oxford, concordou com a an�lise de Baines e levou-a um passo adiante: "� medida que a pir�mide crescia, o comprimento da rampa e a largura de sua base foram aumentadas a fim de manter um gradiente constante (cerca de 1 em 10) e para impedir que ela desmoronasse. Provavelmente, foram usadas v�rias rampas, que chegavam � pir�mide vindas de v�rios lados". Levar um plano inclinado ao topo da Grande Pir�mide, com um gradiente de 1:10, teria exigido uma rampa de cerca de 150m e mais de tr�s vezes t�o maci�a quanto a pr�pria estrutura (com um volume estimado de 8 milh�es de metros c�bicos, contra os 2,6 milh�es da pir�mide). Grandes pesos n�o poderiam, por meios normais, ter sido rebocados para cima a um gradiente mais �ngreme do que esse. Se um gradiente mais


baixo tivesse sido escolhido, a rampa teria que ser ainda mais absurda e desproporcionalmente grande. O problema � que rampas de cerca de 1.600m para chegar a uma altura de cerca de 150m n�o poderiam ter sido feitas de "tijolos e terra", como supunham Edwards e outros egipt�logos. Ao contr�rio, modernos construtores e arquitetos provaram que essasrampas teriam cedido sob seu pr�prio peso, se consistissem de qualquer material menos dispendioso e menos est�vel do que as pedras de rocha calc�ria da pr�pria pir�mide. Uma vez que tal solu��o, obviamente, n�o fazia sentido (al�m do mais, para onde haviam sido levados os 8 milh�es de metros c�bicos excedentes de blocos, depois de completado o trabalho?), outros egipt�logos propuseram o uso de rampas em espiral, feitas de tijolos de argila e ligadas aos lados da pir�mide. Essas rampas, sem d�vida, teriam requerido menos material para construir, mas tampouco teriam chegado ao cume. Elas teriam criado problemas mortais e talvez insuper�veis para equipes que tentassem arrastar os grandes blocos atrav�s de seus cantos, em curvas fechadas. E teriam desmoronado por efeito do uso constante. Mais problem�tico que tudo, essas rampas teriam envolvido toda a pir�mide, tornando imposs�vel aos arquitetos checar a precis�o do assentamento dos blocos durante a constru��o. Os construtores, por�m, haviam checado a precis�o do assentamento e conseguido com que fosse feito da maneira certa, porque o cume da pir�mide se encontra exatamente posicionado sobre o centro da base, com �ngulos e arestas corretas, cada bloco no lugar correto e cada carreira assentada na horizontal - em uma simetria quase perfeita e em alinhamento quase perfeito com os pontos cardeais. Em seguida, como se para demonstrar que esses tours-de-force t�cnicos foram meras banalidades, os antigos construtores prosseguiram em seu trabalho para fazer alguns inteligentes jogos matem�ticos com as dimens�es do monumento, fornecendo-nos, por exemplo, como vimos no Cap�tulo 23, um uso exato do n�mero transcendente pi na raz�o entre a altura e o per�metro da base. Por alguma raz�o, al�m disso, dera na cabe�a deles posicionar a Grande Pir�mide quase exatamente no Paralelo 30, � latitude de 29� 58' 51". Esses n�meros, como observou certa vez um astr�nomo real escoc�s, era "um desvio sens�vel de 30�", mas n�o necessariamente um erro: Isso porque, se o projetista original tivesse desejado que o homem visse com o corpo, e n�o com os olhos mentais, o p�lo do c�u visto da base da Grande Pir�mide, a uma altitude de 30�, ele teria que levar em conta a refra��o da atmosfera e esse fator teria tornado necess�rio que o edif�cio estivesseposicionado n�o a 30�, mas a 29�58' 22".


Em compara��o com a posi��o verdadeira de 29� 58' 51", o erro era de menos da metade de um minuto de arco, sugerindo esse fato, mais uma vez, que a per�cia topogr�fica e geod�sica usada devia ter sido da mais alta ordem. Sentindo-nos bastante reverentes, continuamos a escalada, passamospelas carreira 44 e 45 da imensa e enigm�tica estrutura. Na carreira 46, uma voz irada em �rabe gritou conosco da pra�a embaixo. Olhando para baixo, vimos um homem min�sculo, usando turbante e cafet� embalonado. A despeito da dist�ncia, ele havia tirado a espingarda do ombro e estava se preparando para atirar em n�s. O Guarda e a Vis�o Ele era, claro, o guarda da face oeste da pir�mide, o patrulheiro do quarto ponto cardeal, e n�o havia recebido o pagamento extra feita aos seus colegas das arestas norte, leste e sul. Pela respira��o de Ali, compreendi que est�vamos em uma situa��o potencialmente complicada. O guarda estava nos ordenando para descer imediatamente e sermos presos. - Essa possibilidade, contudo, poder� provavelmente ser evitada com um pagamento extra - explicou Ali. - Ofere�a a ele cem libras eg�pcias - rosnei. - Isso � demais - avisou Ali. - E vai deixar os outros ressentidos. Vou oferecer cinq�enta. Foram trocadas mais palavras em �rabe. Na verdade, nos poucos minutos seguintes, Ali e o guarda conseguiram manter uma conversa bem demorada acima e abaixo da quina sudoeste da pir�mide, �s 4h40min da manh�. Em dado momento, ouvimos o som de um apito. Em seguida, guardas da face sul apareceram por um breve instante e entraram em confer�ncia com o colega da face oeste, que nesse momento contava com a companhia de mais dois membros de sua patrulha. Justamente quando pareceu que Ali havia perdido qualquer discuss�o que estava mantendo por nossa conta, ele sorriu e exalou um suspiro de al�vio. "O senhor vai pagar mais 50 libras quando voltarmos ao ch�o", explicou. "V�o deixar que a gente continue, mas disseram que se um oficial superior aparecer, eles n�o poder�o nos ajudar." Nos dez minutos seguintes, mais ou menos, continuamos a nos arrastar para cima em sil�ncio at� chegarmos � carreira 100 - aproximadamente a marca de metade do caminho e j� a mais de 75m acima do ch�o. Olhamos por cima do ombro para o sudoeste, onde uma vis�o de beleza estonteante, que s� aparece uma vez na vida, se


descortinava para n�s. A lua em quarto crescente, que se encontrava baixa no c�u a sudoeste, havia emergido de tr�s de um banco de nuvens e projetava sua luz fantasmag�rica direto sobre as faces norte e leste da vizinha Segunda Pir�mide, supostamente constru�da por Qu�fren, fara� da Quarta Dinastia. Esse espantoso monumento, que s� perde em tamanho e majestade para a Grande Pir�mide (sendo apenas alguns metros mais baixa e 15m mais estreita), pareceu iluminado, como se energizado a partir de dentro, por um fogo p�lido e sobrenatural. Atr�s dela e � dist�ncia, ligeiramente deslocada entre as sombras escuras do deserto, vimos a pir�mide menor, a de Miquerinos, medindo 110m de cada lado e com cerca de 65m de altura. Durante um momento, contra o pano de fundo cintilante do c�u escuro, senti a ilus�o de que estava em movimento, de p� � popa de algum grande navio dos c�us, olhando para tr�s e para dois outros navios, que aparentemente vinham em minha esteira, alinhados em ordem de batalha �s minhas costas. Para onde estava indo essecomboio, esseesquadr�o de pir�mides? E essasprodigiosas estruturas teriam sido apenas obras de fara�s megaloman�acos, como acreditavam os egipt�logos? Ou haviam sido projetadas por m�os misteriosas para viajar eternamente atrav�s do tempo e do espa�o, no rumo de um objetivo ainda n�o identificado? Dessaaltitude, embora o c�u do sul estivesseparcialmente oculto pelo enorme volume da Pir�mide de Qu�fren, eu podia ver todo o c�u do oeste, descendo em arco do p�lo Norte celeste em dire��o � borda distante do planeta, a revolver em torno do eixo. Pol�ris, a estrela Polar, estava muito longe � minha direita, na constela��o da Ursa Menor. Baixa no horizonte, a cerca de dez graus a nordeste, Regulus, a estrela-�ncora da constela��o imperial de Le�o, preparava-se para desaparecer. Sob C�us Eg�pcios Pouco acima da fileira 150, Ali silvou para n�s, dizendo para mantermos a cabe�a baixa. Um carro de pol�cia aparecera em volta da aresta noroeste da Grande Pir�mide e, nesse momento, dirigia-se para o flanco oeste do monumento, com a luz azul revolvendo lentamente. Permanecemos im�veis nas sombras at� que o carro passou. Em seguida, recome�amos a escalada com um renovado senso de urg�ncia, dirigindonos com toda rapidez poss�vel para o cume, que nesse momento imaginamos que pod�amos ver projetando-se acima de nevoeiro que precede o amanhecer. Durante o que pareceram cinco minutos, subimos sem parar. Quando ergui a vista, por�m, o topo da pir�mide parecia ainda t�o longe como sempre. Voltamos a subir, arquejando e suando, e mais uma vez o cume recuou diante de nossos olhos como se


fosse algum lend�rio pico gaul�s. Mas em seguida, quando j� hav�amos nos resignado a uma sucess�o intermin�vel de desapontamentos, chegamos ao topo, sob um dossel de estrelas de deixar qualquer um sem f�lego, a mais de 130m acima do plat�, na mais extraordin�ria plataforma de observa��o existente em todo o mundo. Ao norte e a leste, de um lado a outro do largo e inclinado vale do rio Nilo, estendia-se a cidade do Cairo, uma mistura de arranha-c�us e tradicionais telhados planos, separados por escuros desfiladeiros de ruas estreitas e misturados com os minaretes finos como agulhas de mil e uma mesquitas. Uma pel�cula de luz de rua refletida tremeluzia sobre toda a cena, fechando os olhos do Cairenes moderno para as maravilhas das estrelas, mas, ao mesmo tempo, criando a alucina��o de uma terra de contos de fada, iluminada em verde, vermelho, azul e amarelo sulfuroso. Achei que tinha sorte em presenciar essaestranha miragem eletr�nica desseponto de observa��o t�o incr�vel, na plataforma do cume da �ltima maravilha sobrevivente do mundo antigo, pairando no c�u sobre o Cairo como Aladim em seu tapete m�gico. N�o que a carreira 203 da Grande Pir�mide possa ser descrita como um tapete! Medindo apenas pouco menos de 9m de cada lado (em compara��o com o per�metro na base que chega a 230m) ela consiste de v�rias centenas de blocos de calc�rio da altura da cintura, cada um dos quais pesa cerca de cinco toneladas. A carreira n�o � inteiramente plana: havia falta de alguns blocos ou estavam quebrados e, subindo na dire��o sul, eu podia ver restos substanciais de quase metade de uma carreira adicional de cantaria. Al�m do mais, no centro exato da plataforma, algu�m mandara construir um andaime triangular de madeira, no centro do qual se erguia um poste grosso, de pouco mais de 9,5m de altura, que marca a verdadeira altura original do monumento, que era de 146,66m. Embaixo do poste, picha��esali deixadas no calc�rio por gera��esde turistas. A escalada total da pir�mide consumira cerca de meia hora e, nessemomento, passava justamente das 5h da manh�, a hora da adora��o matutina. Quase em un�ssono, as vozes de mil e um muezins ecoou dos terra�os dos minaretes do Cairo, chamando os fi�is � ora��o e proclamando a grandeza, a indivisibilidade, a clem�ncia e compaix�o de Deus. �s minhas costas, as �ltimas 22 carreiras da Pir�mide de Qu�fren, ainda vestida com as pedras originais de revestimento, parecia flutuar como um iceberg em um oceano de luz da lua. Sabendo que n�o poder�amos ficar muito tempo nesse lugar encantado, sentei-me e olhei em volta dos c�us. Na dire��o oeste, estendiam-se as areias infind�veis do deserto, Regulus mergulhara sob o horizonte e o resto do corpo do Le�o estava prestes a segui-lo. As constela��es de Virgem e Libra desciam tamb�m baixas no c�u e, muito


distante ao norte, eu podia ver as constela��es da Ursa Maior e Ursa Menor em seu ciclo eterno em torno do p�lo celeste. Olhei para o sudeste, para o outro lado do vale do Nilo, e l� a lua em quarto crescente ainda espalhava seu brilho espectral da borda da Via L�ctea. Seguindo o curso do rio celeste, olhei diretamente para o sul: cruzando o meridiano, destacava-se a resplandecente constela��o de Escorpi�o, dominada por Antares, estrela de primeira magnitude - uma supergigante vermelha, com um di�metro 300 vezes maior do que o do sol. A nordeste, acima do Cairo, navega Cygnus, o cisne, as penas de sua cauda marcadas por Deneb, a supergigante azul-branca vis�vel para n6s de uma dist�ncia de 1.800 anos-luz de espa�o interestelar. Por �ltimo, mas n�o de menor import�ncia, no c�u do norte, vi o drag�o Draco enrodilhado sinuosamente entre as estrelas circumpolares. Na verdade, h� 3.500 anos, quando a Grande Pir�mide foi supostamente constru�da para o fara� Qu�ops, da Quarta Dinastia, uma das estrelas de Draco estivera perto do p�lo norte celeste e havia servido como estrela Polar. O nome dessaestrela � Alpha Draconis, tamb�m conhecida como Thuban. Com a passagem dos mil�nios, contudo, ela fora gradualmente deslocada de sua posi��o de implac�vel moinho celeste da precess�o do eixo da terra, de modo que a estrela Polar de hoje � Pol�ris, na constela��o da Ursa Menor. Deitei-me de costas, descansei a cabe�a nas m�os cruzadas e olhei diretamente para o z�nite do c�u. Atrav�s das frias e lisas pedras onde eu descansava, pensei que podia sentir sob mim, como uma for�a viva, a estupenda gravidade e massada pir�mide. Pensando como Gigantes Cobrindo cinco hectares e meio na base, a pir�mide pesa cerca de seis milh�es de toneladas - mais do que todos os pr�dios da Milha Quadrada da City de Londres, juntos, consistindo, como vimos, de aproximadamente 2,3 milh�es de blocos separados de calc�rio e granito. A eles fora outrora acrescentado um revestimento espelhado de 9 hectares, de cerca de umas calculadas 115.000 pedras altamente polidas, cada uma delas pesando 10 toneladas e que originariamente lhe cobrira as quatro faces. Depois de terem se soltado com o fort�ssimo terremoto ocorrido no ano 1302 d.C., a maioria dos blocos da fachada fora retirada para a constru��o do Cairo. Aqui e ali em torno da base, por�m, eu sabia que havia sobrado o suficiente para permitir que o grande arque�logo do s�culo XIX, W.M. Flinders Petrie, realizasse um detalhado estudo desses blocos. Ele ficara at�nito ao encontrar toler�ncias de um cent�simo de polegada e juntas cimentadas t�o precisas, e alinhadas com tanto cuidado, que era


imposs�vel at� enfiar entre os blocos a l�mina de um canivete. "O simples fato de p�r essas pedras em contato exato teria exigido trabalho cuidadoso", reconheceu, "mas fazer isso com cimento em uma junta parece quase imposs�vel. E � para ser comparado com o trabalho dos melhores �ticos, em uma escala de hectares". Claro, o rejuntamento das pedras da fachada n�o foi absolutamente o aspecto "quase imposs�vel" da Grande Pir�mide. Os alinhamentos com o norte, o sul, o leste e o oeste verdadeiros foram "quase imposs�veis", como tamb�m as arestas de noventa graus quase perfeitas e a incr�vel simetria dos quatro enormes lados. E tamb�m a log�stica de engenharia, de i�ar milh�es de pedras a uma altura de mais de uma centena de metros. Quem quer que tenham sido, por conseguinte, os arquitetos, engenheiros e pedreiros da antiguidade que projetaram e conseguiram construir esse monumento estupendo devem ter, realmente, "pensado como homens de 30m de altura", como disse certa vez Jean Fran�ois-Champollion, o fundador da egiptologia moderna. Ele viu claramente o que gera��es de seus sucessores se recusaram a ver: que os construtores da pir�mide s� podiam ter sido homens de estatura intelectual gigantesca. Ao lado dos eg�pcios de antanho, acrescentou ele, "n�s, na Europa, somos liliputianos".

CAP�TULO 35 Tumbas, e Nada Mais? Descer da Grande Pir�mide machucou mais os nervos do que subir. N�o est�vamos mais lutando contra a for�a da gravidade, de modo que era menor o esfor�o f�sico. Mas as possibilidades de uma queda fatal pareciam maiores, nesse momento em que nossa aten��o se dirigia exclusivamente para a terra, e n�o mais para os c�us. Escolhemos o caminho com um cuidado exagerado at� a base da enorme montanha de pedra, escorregando e deslizando entre os trai�oeiros blocos de cantaria, sentindo-nos como se tiv�ssemossido reduzidos � condi��o de formigas. Ao completar a descida, a noite j� tinha acabado e a primeira pintura de luz p�lida espalhava-se pelo c�u. Pagamos as 50 libras eg�pcias prometidas ao guarda da face oeste da pir�mide e em seguida, com uma enorme sensa��o de liberta��o e exulta��o, afastamo-nos em passos arrogantes do monumento, em dire��o � Pir�mide de Qu�fren, situada a algumas centenas de metros a sudoeste.


Khufu, Khafre, Menkaure... Qu�ops, Qu�fren, Miquerinos. Fossem eles chamados por seus nomes eg�pcios ou gregos, restava o fato de que esses tr�s fara�s da Quarta Dinastia (2575-2467 a.C.) foram universalmente aclamados como os construtores das Pir�mides de Giz�. Tal era a fama deles, pelo menos desde que antigos guias tur�sticos eg�pcios haviam dito ao historiador grego Her�doto que a Grande Pir�mide tinha sido constru�da por Qu�ops. Her�doto incluiu essa informa��o na descri��o remanescente mais antiga dos monumentos, e que continuava com as seguintes palavras: Qu�ops, disseram eles, reinou durante 50 anos e por ocasi�o de sua morte o reino foi assumido pelo irm�o, Qu�fren. Este construiu tamb�m uma pir�mide... 12m mais baixa do que a do irm�o, mas, � parte isso, da mesma grandeza. (...) Qu�fren reinou por 56 anos (...) e em seguida foi sucedido por Miquerinos, filho de Qu�ops (...) Esse homem deixou uma pir�mide muito menor do que a do pai.


Her�doto conheceu os monumentos no s�culo V a.C., mais de 2.000 anos depois de terem sido constru�dos. N�o obstante, foi principalmente seu testemunho que embasou todo julgamento subseq�ente da hist�ria eg�pcia. Todos os demais


comentaristas, at� o presente, continuaram, sem nenhum senso cr�tico, a seguir nas pegadas do historiador grego. E, atrav�s das eras - embora, no in�cio, esse conhecimento pouco mais fosse do que boatos -, a atribui��o da Grande Pir�mide a Khufu, a segunda a Khafre e, a terceira, a Menkaure, assumiu a estatura de fatos inatac�veis. A Banaliza��o do Mist�rio Tendo nos despedido de Ali, Santha e eu continuamos a andar pelo deserto. ladeando a imensa aresta sudoeste da Segunda Pir�mide, tivemos os olhos atra�dos para o cume. Nele notamos, mais uma vez, as pedras intactas do revestimento, que ainda cobriam as 22 carreiras mais altas. Notamos tamb�m que as primeiras carreiras acima da base, cada uma delas com uma "pegada" de cerca de cinco hectares, eram compostas de blocos de calc�rio realmente enormes, quase que altos demais para ser escalados, com cerca de 6m de comprimento por 1,80m de espessura. Essesextraordin�rios mon�litos, como eu descobriria mais tarde, pesavam 200 toneladas cada e inclu�am-se em um estilo diferente de cantaria, que seria encontrado em v�rios locais diferentes e muito separados na necr�pole de Giz�. Nos lados norte e oeste, a Segunda Pir�mide assentava-se sobre uma plataforma plana, cortada no leito rochoso circundante e, portanto, estava fechada dentro de uma larga vala de mais de 4m de profundidade em alguns lugares. Andando em linha reta para o sul, paralelamente ao flanco oeste dilapidado do monumento, seguimos a borda da vala, a caminho da Terceira Pir�mide, muito menor, que ficava a uns 400m � nossa frente no deserto. Khufu... Khafre... Menkaure... De acordo com todos os egipt�logos ortodoxos, as pir�mides haviam sido constru�das como tumbas - e s� como tumbas - para essestr�s fara�s. Ainda assim, essas conclus�es enfrentavam algumas dificuldades s�rias. A espa�osac�mara funer�ria da Pir�mide de Khafre, por exemplo, tinha sido encontrada vazia quando foi aberta em 1818 pelo explorador europeu Giovanni Belzoni. Na verdade, mais do que vazia, a c�mara era nua e austeramente despojada. O sarc�fago de granito polido engastado no ch�o tamb�m havia sido encontrado vazio, com a tampa ao lado, quebrada em dois peda�os. Como explicar essefato? Para os egipt�logos, a resposta parecia �bvia. Em alguma antiga data, provavelmente n�o muitas centenas de anos ap�s a morte de Khafre, ladr�es de sepulturas haviam penetrado na c�mara e levado tudo que ali havia, incluindo o corpo mumificado do fara�.


Quase a mesma coisa parecia ter acontecido com a Terceira Pir�mide, a menor, na dire��o da qual Santha e eu est�vamos nos dirigindo - a pir�mide atribu�da a Menkaure. Neste caso, o primeiro europeu a penetrar no local fora um coronel brit�nico, Howard Vyse, que chegara ao interior da c�mara mortu�ria em 1837. Ele encontrou um sarc�fago vazio de basalto, uma tampa de caix�o para antrop�ide, feita de madeira, e alguns ossos. A suposi��o natural era de que aqueles ossospertencessem a Menkaure. A ci�ncia moderna, por�m, conseguiu provar que os ossos e a tampa do caix�o datavam de come�osda era crist�, isto �, de 2.500 anos ap�s a Era das Pir�mides e, portanto, representavam o "enterro intrusivo" de um indiv�duo muito posterior (costume este muito comum em toda a hist�ria do Egito antigo). Quando ao sarc�fago de basalto - bem, poderia ter pertencido a Menkaure. Infelizmente, ningu�m teve oportunidade de examin�-lo, porque a pe�a se perdeu no mar quando o navio usado por Vyse para envi�-Ia � Inglaterra afundou ao largo da costa da Espanha. Desde que estava registrado que o sarc�fago havia sido encontrado por Vyse, mais uma vez fezse a suposi��o de que o corpo do fara� devia ter sido dali tirado por ladr�es de sepultura. Suposi��o an�loga foi feita sobre o corpo de Khufu, tamb�m desaparecido. Neste caso, o consenso dos estudiosos, expressado t�o bem como por qualquer outra pessoa, por George Hart, do Museu Brit�nico, dizia que "n�o depois de 500 anos ap�s o funeral de Khufu" ladr�es penetraram na Grande Pir�mide para "roubar o tesouro do sepultamento". A implica��o era que o arrombamento devia ter ocorrido no ano 2000 a.C., ou por a�, uma vez que se acreditava que Khufu falecera no ano 2528 a.C. Al�m disso, o professor I.E.S. Edwards, uma autoridade reconhecida nesses assuntos, sup�s que o tesouro funer�rio tinha sido retirado do famoso recinto sagrado, ora conhecido como C�mara do Rei, e que o "sarc�fago de granito" que existia na extremidade oeste do recinto "havia abrigado outrora o corpo do rei, provavelmente dentro de um caix�o interno feito de madeira". Tudo isso � erudi��o ortodoxa, corrente, moderna, aceita inquestionavelmente como fato hist�rico e ensinado como tal em universidadespor todo o mundo. Mas vamos supor que isso n�o seja verdade. O Arm�rio estava Vazio O mist�rio da m�mia desaparecida de Khufu come�a com as anota��es do califa AlMa'mun, governador mu�ulmano do Cairo no s�culo IX d.C., que usou uma equipe de pedreiros para abrir um t�nel, come�ando no lado norte da pir�mide, e estimulandoos com promessasde que encontrariam tesouros. Gra�asa uma s�rie de felizes acasos,


o "Buraco de Ma'mun", como os arque�logos agora o chamam, desembocou em uma das v�rias passagens internas do monumento, no "corredor descendente", que conduzia a um n�vel inferior a partir da porta original oculta na face norte (cuja localiza��o, embora conhecida nos tempos cl�ssicos, havia sido esquecida � �poca de Ma'mun). Devido a outro feliz acaso, as vibra��es causadas pelos �rabes com suas marretas e furadeiras desalojaram um bloco de calc�rio do teto do corredor descendente. Ao ser examinado o espa�o de onde ca�ra o bloco, descobriu-se que ocultava a abertura de outro corredor, desta vez ascendente, que levava �s entranhas da pir�mide. Havia um problema, contudo. A abertura estava bloqueada por uma s�rie de enormes cunhas de granito maci�o, evidentemente da mesma �poca da constru��o do monumento, que eram mantidas em seus lugares pelo estreiramento da extremidade mais baixa do corredor. Os pedreiros n�o conseguiram quebrar nem abrir passagem atrav�s das cunhas. Em vista disso, abriram um t�nel no calc�rio ligeiramente mais mole que as cercava e, ap�s v�rias semanas de trabalho exaustivo, voltaram a estabelecer liga��o com o corredor ascendente mais alto - tendo vencido um obst�culo formid�vel nunca antes superado.

As implica��es eram �bvias. Uma vez que nenhum ca�ador de tesouros anterior havia penetrado tanto assim no monumento, o interior da pir�mide devia ser ainda territ�rio virgem. Os pedreiros devem ter lambido os bei�os em preliba��o das imensas quantidades de ouro e j�ias que, nesse momento, esperavam encontrar. Analogamente - e talvez por motivos diferentes, Ma'mun devia ter ficado impaciente para ser o primeiro a entrar nas c�maras que seriam descobertas. Dizia-se que seu principal motivo em dar in�cio a essa investiga��o n�o fora a ambi��o de aumentar a sua j� imensa riqueza pessoal, mas o desejo de obter acesso a um reposit�rio de sabedoria e tecnologia antigas que, acreditava, devia estar enterrado no monumento. Nesse reposit�rio, de acordo com tradi��o muito antiga, os construtores da pir�mide haviam depositado "instrumentos de ferro e armas que n�o enferrujavam, vidro que podia ser encurvado e n�o quebrava, e estranhos sortil�gios". Ma'mun e seus pedreiros, por�m, nada encontraram, nem mesmo qualquer tesouro comum - e com certeza nada de qualquer pl�stico antigo de alta tecnologia ou instrumentos de ferro ou armas � prova de ferrugem - e tampouco estranhos encantamentos. A erroneamente denominada "C�mara da Rainha" (que se situava ao fim de uma longa passagem horizontal que se bifurcava a partir do corredor ascendente) estava inteiramente vazia - e era apenasum aposento de apar�ncia severa, geom�trico.


Mais decepcionante ainda, a C�mara do Rei (onde os �rabes chegaram depois de subir a imponente Grande Galeria) pouca coisa de interesse oferecia. O �nico m�vel era um cofre de granito, grande o suficiente apenas para conter o cad�ver de um homem. Mais tarde identificado, sem fundamentos dos melhores, como o "sarc�fago". Ma'mun e seus homens aproximaram-se cheios de medo da caixa de pedra, destitu�da de qualquer decora��o. Descobriram que ela n�o tinha tampa e que estava vazia, como tudo mais na pir�mide. Por que, como e quando, exatamente, a Grande Pir�mide fora esvaziada de seu conte�do? Quinhentos anos ap�s a morte de Khufu, como sugeriam egipt�logos? Ou n�o seria mais prov�vel, como a prova estava come�ando a sugerir, que as c�maras interiores haviam estado sempre vazias, desde o in�cio, isto �, desde o dia em que o monumento fora inicialmente fechado? Ningu�m, afinal de contas, havia chegado � parte superior do corredor ascendente antes de Ma'mun e seus pedreiros. E era certo


tamb�m que ningu�m cortara um caminho atrav�s das cunhas de granito que bloqueavam a entrada dessecorredor. O bom senso eliminava a possibilidade de qualquer penetra��o anterior - a menos que houvesseoutra maneira de entrar na pir�mide. Gargalos no Po�o da Coluna Havia outra maneira de entrar. Mais abaixo no corredor descendente, a mais de 60m al�m do ponto onde havia sido encontrada a extremidade fechada com uma cunha, descobriu-se a entrada oculta para outra passagem secreta, escavada profundamente no leito rochoso subterr�neo do plat� de Giz�. Se Ma'mun tivesse descoberto essa passagem, poderia ter evitado muitos problemas, uma vez que fornecia uma rota sob medida em volta das cunhas que bloqueavam o corredor ascendente. Sua aten��o, no entanto, fora desviada pelo desafio de abrir um t�nel atrav�s das cunhas e nenhuma tentativa fez de investigar os espa�os mais baixos do corredor descendente (que ele acabou usando como dep�sito de entulho das toneladas de pedra que seus pedreiros removiam do n�cleo da pir�mide). A plena extens�o do corredor descendente, contudo, era bem conhecida e fora explorada nos tempos cl�ssicos. O ge�grafo greco-romano Estrab�o deixou uma descri��o muito clara de uma grande c�mara subterr�nea, na qual o corredor se abria (a uma profundidade de quase 1,80m abaixo do cume da pir�mide). Riscos (graffitti) do per�odo da ocupa��o romana do Egito foram tamb�m encontrados no interior da c�mara subterr�nea, confirmando o fato de que ela havia sido habitualmente visitada. Ainda assim, uma vez que fora t�o habilmente ocultada no in�cio, a porta secreta que dava para um dos lados, situada a cerca de dois ter�os do caminho descendente da parede oeste do corredor descendente, permaneceu fechada e desconhecida at� o s�culo XIX. A passagem levava a uma chamin� estreita, de cerca de 50m de extens�o, que subia quaseverticalmente pelo subestrato rochoso e em seguida, passando por mais de vinte carreiras completas dos blocos de calc�rio do cora��o da pir�mide, ligava-se ao principal sistema de corredores internos, situados na base da Grande Galeria. N�o h� prova indicativa do fim a que poderia ter servido esse estranho aspecto arquitet�nico (embora v�rios estudiosos tenham arriscado palpites). Na verdade, a �nica coisa clara � que foi projetado por ocasi�o da constru��o da pir�mide e n�o constituiu resultado de intrus�o de ladr�es de sepulturas, que teriam cavado t�neis. Continua em aberto,


por�m, a quest�o de se essesladr�es n�o poderiam ter descoberto a entrada oculta para o po�o e a usado para retirar os tesouros das C�marasdo Rei e da Rainha. N�o se pode ignorar essa possibilidade. N�o obstante, um exame do registro hist�rico pouco indica em seu favor. O astr�nomo de Oxford, John Graves, por exemplo, conseguiu entrar na extremidade superior do po�o partindo da Grande Galeria. Desceu at� uma profundidade de uns 18m. Em 1765, outro brit�nico, Namaniel Davison, chegou a uma profundidade de 45m, mas encontrou o caminho bloqueado por uma massa impenetr�vel de areia e pedras. Mais tarde, em 1830, o capit�o G.B. Caviglia, um aventureiro italiano, desceu � mesma profundidade e encontrou o mesmo obst�culo. Mais empreendedor de que seus predecessores, ele contratou trabalhadores �rabes para come�ar a escavar o entulho, na esperan�a de que pudesse haver embaixo alguma coisa de interesse. Seguiram-se v�rios dias de escava��o em condi��es capazes de provocar claustrofobia, antes que fosse descoberta a liga��o com o corredor descendente. Ser� prov�vel que essa chamin� apertada, bloqueada, possa ter sido uma passagem vi�vel para os tesouros de Khufu, supostamente o maior fara� da magn�fica Quarta Dinastia? Mesmo que a chamin� n�o tivesse sido fechada com entulho e tapada na extremidade inferior, ela n�o poderia ter sido usada para tirar dali mais do que uma min�scula fra��o dos tesouros t�picos de uma tumba real. E isso acontecia porque a chamin� s� tinha 90cm de di�metro e nela havia v�rias se��esverticais de escalada dif�cil. No m�nimo, por conseguinte, quando Ma'mun e sua gente abriram caminho para a C�mara do Rei, por volta do ano 820 d.C., teria sido de esperar que algumas das pe�as maiores e mais pesadas do sepultamento original ainda continuassem ali - como as est�tuas e santu�rios que ocupavam tanto espa�o na tumba muito posterior, e presumidamente de qualidade inferior, de Tutanc�mon. Nada, por�m, foi encontrado dentro da Pir�mide de Khufu, tornando esta e a alegada pilhagem do monumento de Khafre trabalho dos �nicos ladr�es de sepultura na hist�ria do Egito a conseguir fazer uma limpeza completa, sem deixar nenhum vest�gio - nem um peda�o de pano rasgado, nem um caco de lou�a partida, nem uma estatueta desprezada, nem uma �nica esquecida pe�a de joalheria mas apenas pisos e paredes nuas e as bocas abertas de sarc�fagos vazios. Diferente das Outras Tumbas Nesse momento, passava das 6h da manh� e o sol banhava os cumes das pir�mides de Khufu e Khafre com uma leve tonalidade de luz pastel-rosada. Uma vez que era cerca


de 60m mais baixa do que as duas outras, a Pir�mide de Menkaure continuava envolvida nas sombras, enquanto Santha e eu pass�vamos por sua aresta noroeste e continu�vamos nosso passeio pela areia solta do deserto em volta. Eu continuava a pensar na teoria de arrombamento e roubo do conte�do da tumba. Tanto quanto podia compreender, a �nica "prova" aut�ntica em favor dela era a falta de objetos e m�mias que, para come�ar, ela havia sido formulada para explicar. Todos os demais fatos, especialmente no que interessava � Grande Pir�mide, pareciam argumentar convincentemente contra a ocorr�ncia de qualquer roubo. A quest�o n�o era apenas o espa�o apertado e a inconveni�ncia da chamin� como rota de retirada para um volumoso tesouro. O outro aspecto not�vel da Pir�mide de Khufu era a aus�ncia total, em todos os lugares, de inscri��es ou efeitos decorativos na imensa rede de galerias, corredores, passagens e c�maras. A mesma coisa acontecia nas Pir�mides de Khafre e Menkaure. Em nenhum dessesespantosos monumentos palavra alguma fora escrita em louvor dos fara�s cujos corpos elas supostamente abrigavam. Esse fato era excepcional. Nenhum outro local comprovado de sepultamento de qualquer monarca eg�pcio jamais foi encontrado sem motivos decorativos. O costume em toda a hist�ria do Egito era de as tumbas dos fara�s serem extensamente decoradas, pintadas de maneira bela de cima a baixo (como no Vale dos Reis, em L�xor, por exemplo) e com abundantes inscri��es de encantamentos e invoca��es rituais, destinados a ajudar o morto em sua jornada para a vida eterna (como nas pir�mides de Saqqara, a apenas30km de Giz�). Por que Khufu, Khafre e Menkaure teriam feito as coisas de maneira tao diferente? N�o teriam eles constru�do seus monumentos n�o para servir absolutamente de tumba, mas para alguma outra finalidade, mais sutil? Ou seria poss�vel, como sustentavam algumas tradi��es �rabes e esot�ricas, que as pir�mides de Giz� tivessem sido erigidas muito antes da Quarta Dinastia pelos arquitetos de uma civiliza��o mais antiga e mais avan�ada? Por motivos muito f�ceis de entender, nenhuma dessas hip�teses era muito popular entre os egipt�logos. Al�m do mais, embora admitindo que n�o havia nenhuma inscri��o interna na Segunda e Terceira Pir�mide, tendo sido omitidos at� os nomes de Khafre e Menkaure, os estudiosos citaram certas "marcas de pedreira" em hier�glifos (graffitti garatujados em blocos de pedra antes de deixarem a pedreira) e que foram encontrados dentro da Grande Pir�mide e que, de fato, pareciam trazer o nome de Khufu.

Um Certo Cheiro...


A descoberta das marcas de pedreira coube ao coronel Howard Vyse, durante as escava��es destrutivas que realizou em Giz� no ano de 1837. Prolongando uma passagem existente, ele abriu um t�nel para uma s�rie de cavidades estreitas, denominadas de "c�maras de descarga", que se situam imediatamente acima da C�mara do Rei. As marcas de pedreira foram encontradas nas paredes e tetos das quatro cavidadesmais altas e diziam coisascomo as seguintes: A TURMA DOSARTES�OS.COMO� PODEROSAA COROABRANCADEKHNUM-KHUFU KHUFU KHNUM-KHUFU ANODEZESSETE Tudo aquilo era muito conveniente. Exatamente no fim de uma onerosa e, sob outros aspectos, infrut�fera esta��o de escava��es, exatamente quando era necess�ria uma grande descoberta arqueol�gica para legitimar as despesas que fizera, Vyse trope�ou por acaso na descoberta da d�cada - a primeira prova inefut�vel de que Khufu havia sido realmente o construtor da at� ent�o an�nima Grande Pir�mide. Caberia pensar que uma descoberta de tal natureza teria eliminado, de uma vez por todas, quaisquer d�vidas persistentes sobre a propriedade e finalidade do enigm�tico monumento. As d�vidas, por�m, continuaram, principalmente porque, desde o in�cio, um "certo cheiro" pairou sobre a prova de Vyse: 1. Era estranho que as marcas constitu�ssem os �nicos sinais do nome Khufu jamais encontrados dentro da Grande Pir�mide. 2. Era estranho que tivessem sido encontrados em um canto obscuro e pouco examinado da imensa estrutura. 3. Era estranho que tivessem sido absolutamente encontradas em um monumento, sob outros aspectos, inteiramente destitu�do de inscri��es de qualquer tipo. 4. E era muit�ssimo estranho que tivessem sido encontradas apenas nas quatro cavidades superiores das cinco c�maras de descarga. Inevitavelmente, mentes desconfiadas come�aram a se perguntar se as "marcas de pedreira" n�o poderiam ter tamb�m aparecido na mais baixa das cinco c�maras, se ela tivesse sido descoberta por Vyse (e n�o por Namaniel Davison, setenta anos antes). 5. Por �ltimo, mas n�o de menor import�ncia, era estranho que v�rios hier�glifos nas "marcas de pedreira" tivessem sido pintados de cabe�a para baixo, que alguns fossem


irreconhec�veis e que outros tivessem sido escritos erradamente ou usados com desprezo pelas regras da gram�tica. Teria sido Vyse um fals�rio? Conhe�o um argumento plaus�vel apresentado para sugerir que ele foi exatamente isso e, embora tudo indique que a prova final jamais ser� encontrada, parecia-me falta de cuidado da egiptologia acad�mica ter aceito, sem fazer perguntas, a autenticidade das marcas de pedreira. Al�m do mais, havia prova hierogl�fica alternativa, convincente, de origem mais pura, que parecia indicar que Khufu n�o poderia ter constru�do a Grande Pir�mide. Curiosamente, os mesmos egipt�logos que atribu�ram de imediato import�ncia imensa �s marcas de pedreira de Vyse apressaram-se em minimizar a import�ncia dessesoutros hier�glifos em sentido contr�rio, que constam de uma estela retangular de pedra calc�ria, que ora se encontra no Museu do Cairo. A Estela do Invent�rio, como � chamada, foi descoberta em Giz� no s�culo XIX pelo arque�logo franc�s Auguste Mariette. A estela foi uma esp�cie de bomba, porque seu texto indicava claramente que a Grande Esfinge e a Grande Pir�mide (bem como v�rias outras estruturas encontradas no plat�) j� existiam muito antes de Khufu subir ao trono. A inscri��o referia-se tamb�m a �sis como a "Senhora da Pir�mide", implicando essas palavras que o monumento fora dedicado � deusa da magia e de maneira nenhuma a Khufu. Finalmente, havia a forte sugest�o de que a pir�mide de Khufu pudesseter sido uma das tr�s estruturas subsidi�rias situadas ao longo do fIanco leste da Grande Pir�mide. Tudo isso parecia prova contundente contra a cronologia ortodoxa do antigo Egito. E contestava tamb�m a opini�o consensual de que as pir�mides de Giz� haviam sido constru�das como tumbas, e apenas como isso. N�o obstante, em vez de estudar as declara��es antigas constantes da Estela do Invent�rio, os egipt�logos resolveram desmoraliz�-Ias. Nas palavras do respeitado estudioso americano James Henry Breasted, "Essas refer�ncias seriam da mais alta import�ncia, se a estela fosse contempor�nea de Khufu. As evid�ndas ortogr�ficas de que tem data posterior, por�m, s�o irrefutavelmente conclusivas...". Breasted queria dizer com essaspalavras que o sistema de escrita hierogl�fica usado na inscri��o n�o era compat�vel com o usado na Quarta Dinastia, pertencendo a uma �poca mais recente. Todos os egipt�logos concordaram com essa an�lise e o julgamento final, ainda aceito hoje, era que a estela havia sido entalhada na 21�. Dinastia, cerca de 1.500 anos ap�s o reinado de Khufu e que, por conseguinte, devia ser considerado como uma obra de fic��o hist�rica.


Dessa maneira, citando evid�ncia ortogr�fica, uma disciplina acad�mica inteira descobriu raz�es para ignorar as implica��es revolucion�rias da Estela do Invent�rio e, em nenhum momento, deu a devida considera��o � possibilidade de que ela tivesse se baseado em uma inscri��o aut�ntica da Quarta Dinastia (da mesma maneira que a Nova B�blia Inglesa baseia-se em um original muito mais antigo). Exatamente os mesmos estudiosos, contudo, haviam aceitado a autenticidade de um duvidoso conjunto de "marcas de pedreira" sem a menor reserva, fechando os olhos para suas peculiaridades ortogr�ficas e de outra natureza. Por que essa ambig�idade? Poderia ter sido porque as informa��es contidas nas "marcas de pedreira" confirmavam rigorosamente a opini�o ortodoxa, de que a Grande Pir�mide havia sido constru�da como tumba para Khufu, ao passo que as informa��esconstantes da Estela do Invent�rio a contradiziam? Vis�o do Alto Por volta de sete da manh�, Santha e eu hav�amos penetrado profundamente no deserto a sudoeste das pir�mides de Giz� e est�vamos sentados confortavelmente � sombra de uma imensa duna de areia que oferecia um panorama desimpedido de todo aquele s�tio. Na data, 16 de mar�o, est�vamos a apenas alguns dias do Equin�cio de Primavera, uma das duas ocasi�es no ano em que o sol se levanta exatamente no leste verdadeiro em qualquer lugar no mundo. Marcando os dias como o ponteiro de um metr�nomo gigantesco, o sol cortou ao meio, nessa manh�, o horizonte em um ponto a uma dist�ncia de um fio de cabelo do leste verdadeiro e j� subira o suficiente no c�u para dissipar os nevoeiros do Nilo, que ainda cobriam como uma mortalha grande parte da cidade do Cairo. Khufu, Khafre, Menkaure... Qu�ops, Qu�fren. Miquerinos. Sejam eles chamados por seus nomes eg�pcios ou gregos, n�o havia d�vida de que os tr�s famosos fara�s da Quarta Dinastia haviam sido consagrados pelas estruturas mais espl�ndidas, mais honrosas, mais belas e maiores jamais vistas no mundo. Al�m do mais, era claro que esses fara�s deviam, na verdade, ter mantido uma estreita li ga��o com os monumentos, n�o s� por causa do folclore compilado e transmitido � posteridade por Her�doto (e que, com certeza, tinha alguma base nos fatos), mas tamb�m porque inscri��es e refer�ncias a Khufu, Khafre e Menkaure haviam sido encontradas em volume moderado fora das tr�s grandes pir�mides, em v�rias partes diferentes da necr�pole de Giz�. Essas descobertas tinham ocorrido invariavelmente dentro e em


volta das seis pir�mides subsidi�rias, tr�s das quais se situam � leste da Grande Pir�mide e as outras tr�s ao sul da Pir�mide de Menkaure. Uma vez que grande parte dessa evid�ncia externa era amb�gua e incerta, eu achava dif�cil entender por que motivo os egipt�logos se sentiam t�o felizes em continuar a cit�-Ia como confirma��o da teoria das "tumbas e apenasisso". O problema era que, com essa mesma evid�ncia, podia-se dar respaldo igualmente v�lido - a um bom n�mero de interpreta��es diferentes e mutuamente contradit�rias. Para dar apenas um exemplo, a "estreita liga��o" observada entre as tr�s grandes pir�mides e os tr�s fara�s da Quarta Dinastia poderia, na verdade, ter surgido porque eles as haviam constru�do como suas tumbas. Mas poderia ter acontecido tamb�m se os monumentos gigantescos do plat� de Giz� houvessem estado l� muito antes do alvorecer da civiliza��o hist�rica, conhecida como Egito Din�stico. Nesse caso, bastaria supor que, no devido tempo, Khufu, Khafre e Menkaure haviam constru�do certo n�mero de estruturas subsidi�rias em volta das tr�s pir�mides mais antigas algo que teriam toda raz�o para fazer, porque, dessamaneira, teriam se apropriado do alto prest�gio dos monumentos originais an�nimos (e seriam, quase com certeza, considerados pela posteridade como seus construtores). Mas havia ainda outras possibilidades. O importante, contudo, era que a prova relativa a quem, exatamente, constru�ra a grande pir�mide, quando e para que fim, era fraca demais para justificar o dogmatismo da teoria ortodoxa de "tumbas e s� isso". Com toda honestidade, n�o estava claro quem tinha constru�do as pir�mides, nem em que �poca haviam sido constru�das e de maneira nenhuma clara qual havia sido sua fun��o. Por todas essasraz�es, elas est�o cercadas por um maravilhoso e impenetr�vel v�u de mist�rio e, enquanto eu olhava para elas daquela altura no deserto, pareceu-me que elas vinham marchando pelas dunas em minha dire��o...

CAP�TULO 36 Anomalias Visto de nosso ponto de observa��o elevado no deserto, a sudoeste da necr�pole de Giz�, o plano do s�tio arqueol�gico das tr�s grandes pir�mides nos pareceu majestoso, mas muito estranho. A pir�mide de Menkaure era a que ficava mais pr�xima de n�s, tendo por tr�s, na dire��o nordeste, os monumentos de Khafre e Khufu. Estas duas estavam situadas ao


longo de uma diagonal quase perfeita - uma linha reta ligando as arestas sudoeste e nordeste da pir�mide de Khafre e, se prolongada para o nordeste, passaria tamb�m atrav�s das arestas sudoeste e nordeste da Grande Pir�mide. Presumivelmente, tal configura��o nada tinha de acidental. Do ponto em que est�vamos sentados, por�m, era f�cil ver que, se a mesma linha imagin�ria fosse estendida na dire��o sudoeste, ela erraria inteiramente a Terceira Pir�mide, uma vez que toda sua massa estava deslocada para leste da diagonal principal. Egipt�logos, por�m, recusaram-se a ver nisso qualquer anomalia. E por que deveriam ver? No que os interessava, n�o havia em Giz� um plano do s�tio arqueol�gico. As pir�mides eram tumbas, e nada mais, constru�das para tr�s fara�s diferentes em um per�odo de cerca de 75 anos. Fazia sentido presumir que cada governante procurara expressar sua personalidade e idiossincrasias atrav�s de um monumento e fora por isso, provavelmente, que Menkaure "sa�ra da linha". Osegipt�logos estavam enganados. Embora eu n�o soubessedessefato naquela manh� de mar�o de 1993, uma grande descoberta fora feita, provando, al�m de qualquer d�vida, que a necr�pole obedecia, de fato, a um plano geral do s�tio que determinava o posicionamento exato das tr�s pir�mides n�o s� nas rela��es entre si, mas tamb�m em rela��o ao rio Nilo, que corria alguns quil�metros a leste do plat� de Giz�. Com sobrenatural fidelidade, esse imenso e ambicioso projeto reproduzia um fen�meno celeste - o que era talvez o motivo por que os egipt�logos (que se orgulhavam de olhar exclusivamente para o ch�o sob os p�s) n�o o haviam descoberto. Em uma escala realmente gigantesca, como veremos em outros cap�tulos, o plano refletia tamb�m a mesma preocupa��o obsessiva com orienta��es e dimens�es, demonstradas em cada um dos monumentos. Uma Opress�o Estranha Giz�, Egito, 16 de mar�o de 1993, 8h da manh�

Com uma altura de pouco mais de 60m (e com comprimento nos lados da base de 108m), a Terceira Pir�mide tem menos da metade da altura e bem menos da metade da massa da Grande Pir�mide. N�o obstante, ostenta uma impressionante e imponente majestade pr�pria. Saindo do sol do deserto e penetrando em sua imensa sombra geom�trica, lembrei-me do que o escritor iraquiano Abdul Latif disse sobre a estrutura, quando a visitou no s�culo XII: "Ela parece pequena em compara��o com as outras duas. Mas, vista a curta dist�ncia e com exclus�o das outras, ela produz na


imagina��o uma estranha opress�o e n�o pode ser contemplada sem que afete dolorosamente a vista...". As dezesseis carreiras inferiores do monumento ainda estavam revestidas, como haviam se apresentado desde o in�cio, com blocos de granito vermelho ("t�o duro", nas palavras de Abdul Latif, "que o ferro precisa de muito tempo e dificuldade para nele deixar uma marca"). Alguns dos blocos s�o muito grandes, bem juntos e habilmente encaixados em um padr�o completo de quebra-cabe�a interligado, que lembra muito o trabalho de cantaria cicl�pico de Cuzco, Machu Picchu e outros s�tios arqueol�gicos no long�nquo Peru. Como era o normal, a entrada para a Terceira Pir�mide situava-se na face norte, bem acima do ch�o. Da�, em um �ngulo de 26� 2', um corredor descendente ca�a como uma lan�a para baixo e para dentro da escurid�o. Orientado diretamente no sentido nortesul, esse corredor � constitu�do de se��es retangulares e � t�o apertado que tivemos quase que nos dobrar em dois para conseguir entrar. Nos locais em que passa atrav�s da cantaria do monumento, o teto e paredes consistem de blocos de granito bem ajustados. E, mais surpreendentemente ainda, esses blocos continuam por alguma dist�ncia abaixo do n�vel do ch�o. A cerca de 20m a partir da entrada, o corredor se nivela e abre-se para uma passagem, onde podemos ficar de p�. Esta passagem leva a uma pequena antec�mara com apainelamento entalhado e sulcos cortados nas paredes, aparentemente para receber lajes de porta levadi�a (tipo guilhotina). Chegando ao fim dessa c�mara, tivemos que nos agachar novamente para entrar em outro corredor. Dobrados em dois, continuamos na dire��o sul por cerca de 12m, antes de chegar � primeira das tr�s principais c�maras funer�rias - se � que foram isso. Esses c�modos sombrios, onde reina um sil�ncio sepulcral, haviam sido abertos na rocha maci�a. O aposento onde nos encontr�vamos era retangular e orientado no sentido leste-oeste. Medindo cerca de 9m x 4,5m de largura x 4,5m de altura, possui teto plano e uma estrutura interna complexa, com um buraco grande e irregular na parede oeste, que leva a um espa�o escuro, semelhante a uma caverna, situado no outro lado. H� ainda uma abertura perto do centro do piso, que d� acesso a uma rampa, inclinada na dire��o oeste, e que conduz a n�veis ainda mais profundos. Descemos a rampa. Ela termina em uma passagem curta, horizontal, � direita da qual, com acesso por um umbral estreito, existe uma pequena c�mara vazia. Seis celas, tais como enxergas de monges medievais, haviam sido abertas nas paredes: quatro no lado leste e dois no lado norte. Egipt�logos pensam que serviram como "armaz�ns (...) para guardar objetos que o rei morto queria perto de seu corpo".


Saindo dessa c�mara, viramos novamente para a direita e voltamos � passagem horizontal, no fim da qual encontramos outra c�mara vazia, com um projeto excepcional entre as pir�mides do Egito. Com cerca de 3,5m de comprimento por 2,5m de largura e orientada no sentido norte-sul, suas paredes e piso muito danificados s�o feitos de um granito peculiarmente denso, de cor de chocolate, que parecia absorver ondas de luz e som. O teto consiste de dezoito enormes placas do mesmo material, nove de cada lado, assentadasem cumeeiras que d�o frente uma para a outra. Uma vez que haviam sido furadas a partir de baixo para formar uma superf�cie acentuadamente c�ncava, o efeito dessesgrandes mon�litos � de uma ab�bada arqueada perfeita, quase o que poder�amos esperar encontrar na cripta de uma catedral rom�nica. Refazendo os passos, deixamos as c�maras mais baixas e subimos a rampa de volta para a grande sala, de teto plano, cortada na rocha, que se estende acima. Passando pela abertura irregular da parede oeste, quando demos por n�s, est�vamos olhando diretamente para os lados superiores das dezoito lajes que formam o telhado da c�mara embaixo. Dessa perspectiva, a verdadeira forma dessas lajes, como cumeeiras pontudas, fica imediatamente vis�vel. O que estava menos claro, para come�ar, era como elas haviam sido trazidas para ali, quanto mais assentadas em uma posi��o perfeita. Cada uma delas deve pesar muitas toneladas, e s�o pesadas o suficiente para tornar extremamente dif�cil mov�-Ias, em qualquer circunst�ncia. E essas circunst�ncias nada tinham de ordin�rias. Como se para tornar deliberadamente as coisas mais complicadas para si mesmos (ou, quem sabe, porque achavam f�ceis esses trabalhos?), os construtores da pir�mide n�o haviam nem pensado em reservar uma �rea de trabalho adequada entre as lajes e o leito rochoso acima. Rastejando para dentro da cavidade, consegui verificar que o v�o varia de aproximadamente 60cm na extremidade sul para apenas alguns cent�metros na extremidade norte. Em um espa�o t�o restrito assim n�o havia possibilidade de que os mon�litos pudessem ter sido arriados na posi��o que ocupavam. Logicamente, por conseguinte, deviam ter sido i�ados a partir do ch�o da c�mara, mas como fizeram isso? A c�mara � t�o pequena que apenas uns poucos homens poderiam ter nela trabalhado em qualquer ocasi�o n�mero este pequeno demais para reunir a for�a bruta muscular necess�ria para i�ar as lajes. Supostamente, n�o havia gruas na Era das Pir�mides (mesmo que houvesse, n�o existia espa�o suficiente para mont�-Ias). Teria sido usado algum sistema desconhecido de alavancas? Ou poderia haver mais fundamento do que pensavam os estudiosos nas antigas lendas eg�pcias, que falavam em pedras imensas que eram erguidas no ar sem esfor�o por sacerdotes ou m�gicos, quando pronunciavam "palavras de poder"? N�o pela primeira vez, quando confrontado com os mist�rios das pir�mides, eu sabia que olhava, nesse momento, para uma fa�anha de engenharia


imposs�vel, que, n�o obstante, fora levada a cabo de acordo com padr�es impressionantemente altos e precisos. Al�m do mais, se f�ssemos dar cr�dito aos egipt�logos, o trabalho de constru��o ocorrera supostamente no alvorecer da civiliza��o humana, realizado por um povo que n�o acumulara ainda qualquer experi�ncia em maci�os projetos de constru��o. Havia a�, claro, um surpreendente paradoxo cultural e para o qual nenhuma explica��o adequada foi dada por um especialista acad�mico. O Dedo M�vel Escreve e, Tendo Escrito, Continua a Mover- se Deixando as c�maras subterr�neas, que pareciam vibrar no �mago da Terceira Pir�mide como se fosse o cora��o convoluto, de multiv�lvulas, de algum Leviat� adormecido, seguimos pelo estreito corredor de entrada e sa�mos para o ar livre. Nosso objetivo nesse momento era a Segunda Pir�mide. Contornamos sua face oeste (de pouco menos de 215m de comprimento), viramos para a direita e chegamos finalmente ao ponto em sua face norte, a uns 12m a leste do eixo principal norte-sul, onde se localizam as principais entradas. Uma delas havia sido escavada diretamente no subestrato rochoso ao n�vel do ch�o, a cerca de 9m em frente ao monumento; a outra tinha sido aberta na face norte, a uma altura de pouco menos de 15m. A partir desta �ltima, um corredor desce em um �ngulo de 25� 55'10. Com in�cio no primeiro, pelo qual entramos nessemomento na pir�mide, outro corredor penetra bem fundo e, em seguida, se nivela por uma curta dist�ncia, dando acesso a uma c�mara subterr�nea, sobe em um alto gradiente e por fim volta a nivelar-se em uma comprida passagem horizontal, que se dirige diretamente para o sul (no qual desemboca tamb�m o corredor superior que desceda entrada localizada na face norte).


Com altura suficiente para que fic�ssemos de p� e revestido inicialmente de granito e depois de pedra calc�ria bem polida, a passagem oriental situa-se quase que no n�vel do ch�o, isto �, fica diretamente abaixo da carreira mais baixa de cantaria da pir�mide. � tamb�m muito comprida, seguindo em linha reta por mais 60m, at� desembocar em uma �nica "c�mara funer�ria" no cora��o do monumento. Como j� dissemos acima, nenhuma m�mia foi jamais encontrada nesta �ltima c�mara, nem quaisquer inscri��es, o que tornava a chamada Pir�mide de Khafre inteiramente an�nima. Aventureiros de uma �poca muito posterior, por�m, haviam entalhado seus nomes nas paredes - notadamente o ex-h�rcules de circo Giovanni Battista Belzoni


(1778-1823), que entrou � for�a no monumento em 1818. Sua enorme e pitoresca picha��o, garatujada em tinta preta bem alta no lado sul da c�mara, � um lembrete da natureza humana b�sica: o desejo que todos sentimos de ser reconhecidos e lembrados. Era claro que o pr�prio Khafre esteve longe de ficar imune a essaambi��o, uma vez que refer�ncias repetidas � sua pessoa (bem como um bom n�mero de est�tuas lisonjeiras) aparecem no complexo funer�rio circundante. Se ele havia realmente constru�do a pir�mide como sua tumba, parece inconceb�vel que um homem desse tipo tivesse deixado de gravar seu nome e identidade em algum lugar no interior da estrutura. Mais uma vez, comecei a me perguntar por que os egipt�logos demonstravam tanta m� vontade em considerar a possibilidade de que o complexo funer�rio possater sido trabalho de Khafre e a pir�mide de algum outro indiv�duo. Mas quem havia sido esseindiv�duo? De muitas maneiras - e n�o por causa da aus�ncia de marcas identificadoras - este era o problema principal. Antes dos reinados de Khufu, Khafre e Menkaure, n�o houve qualquer fara� isolado cujo nome poderia ter sido apresentado como candidato. Acredita-se que o pai de Khufu, Snefru, o primeiro rei da Quarta Dinastia, construiu as pir�mides "Vergada" e "Vermelha" de Dhashur, situadas a cerca de 48km de Giz� uma atribui��o em si mesma misteriosa (se as pir�mides fossem, na verdade, tumbas), porquanto parece estranho que um fara� precisasse de duas pir�mides para ser sepultado. Alguns egipt�logos davam tamb�m a Snefru o cr�dito pela constru��o da Pir�mide "Desmoronada" de Meidum (embora certo n�mero de autoridades insista em que esta era a tumba de Huni, o �ltimo rei da Terceira Dinastia). Os �nicos outros construtores no Per�odo Arcaico tinham sido Z�ser, o segundo fara� da Terceira Dinastia, a quem se atribui a constru��o da "Pir�mide Escalonada de Saqqara", e seu sucessor, Sekhemkhet, cuja pir�mide se situa tamb�m em Saqqara. Por conseguinte, a despeito da falta de inscri��es, supunha-se nesse momento, como se fosse �bvio, que as tr�s pir�mides de Giz� deviam ter sido constru�das por Khufu, Khafre e Menkaure e for�osamente para lhes servir como as respectivas tumbas. N�o precisamos repisar aqui as muitas falhas da teoria das "tumbas, e nada mais". N�o obstante, essas falhas n�o se limitaram �s pir�mides de Giz�, mas tamb�m a todas as outras pir�mides da Terceira e Quarta Dinastias mencionadas acima. Em nenhum desses monumentos jamais foi encontrado o corpo de qualquer fara� ou quaisquer sinais de sepultamento real. Algumas delas nem mesmo sarc�fagos continham, como, por exemplo, a Pir�mide Desmoronada de Meidum. A Pir�mide de Sekhemkhet, em Saqqara (aberta pela primeira vez pela Organiza��o de Antiguidades Eg�pcias), possu�a, de fato, um sarc�fago - e que certamente permaneceu fechado e intacto desde sua instala��o na "tumba". Ladr�es de sepulturas jamais conseguiram descobrir


maneiras de viol�-Ia, mas, quando foi aberta, descobriu-se que o sarc�fago estava vazio. Se assim, o que estava acontecendo? Como explicar que 25 milh�es de toneladas de pedras tivessem sido empilhadas para formar as pir�mides de Giz�, Dhashur, Meidum e Saqqara, se o �nico objetivo desse trabalho todo fora instalar sarc�fagos vazios em c�maras vazias? Mesmo admitindo os excessos hipot�ticos de um ou dois megaloman�acos, parecia improv�vel que uma s�rie inteira de fara�s tivesse sancionado essedesperd�cio todo. Caixa de Pandora Sepultados sob as cinco milh�es de toneladas da Segunda Pir�mide de Giz�, Santha e eu entramos nesse momento na espa�osac�mara interna do monumento, que poderia ter sido uma tumba, mas, tamb�m, ter servido para outra finalidade ainda n�o identificada. Medindo 14m de comprimento no sentido leste-oeste e 5m de largura no sentido norte-sul, esse aposento despojado e est�ril � coroado por um teto em cumeeira imensamente forte, que chega a uma altura de 6,5m da base ao �pice. As lajes da cumeeira, todas elas maci�os mon�litos de pedra calc�ria de 20 toneladas de peso, haviam sido assentados em um �ngulo de 53� 7' 28" (que corresponde exatamente ao �ngulo de inclina��o dos lados da pir�mide). A� n�o havia c�maras de descarga (como acima da C�mara do Rei, na Grande Pir�mide). Em vez disso, por mais de 4.000 anos - talvez muito mais -, o teto em cumeeira vem sustentando o peso imenso da segunda maior estrutura de pedra do mundo. Olhei em volta da c�mara, que refletia, em minha dire��o, um brilho brancoamarelado. Cortado diretamente no subestrato rochoso, as paredes n�o t�m em absoluto qualquer polimento, como poderia ter sido esperado, e s�o visivelmente �speras e irregulares. O piso � tamb�m de uma constru��o peculiar, em dois n�veis, com um degrau de cerca de 30cm de altura separando suas metades leste e oeste. O suposto sarc�fago de Khafre est� localizado perto da parede oeste, encravado no ch�o. Medindo pouco mais de 1,80m de comprimento, muito raso e de certa maneira estreito demais para ter contido uma m�mia enfaixada e embalsamada de um nobre fara�, seus lados lisos de granito vermelho chegam mais ou menos � altura do joelho. Enquanto olhava para seu escuro interior, tive a impress�o que ele se abria como uma porta para outra dimens�o.


CAP�TULO 37 Feito por Algum Deus Embora tivesse escalado a Grande Pir�mide na noite anterior, ao aproximar-me dela sob o pleno fulgor do sol de meio-dia n�o experimentei nenhuma sensa��o de triunfo. Pelo contr�rio, junto � base no lado norte, senti-me insignificante, como se fosse uma mosca - uma criatura tempor�ria de carne e osso que se via frente � frente com o esplendor aterrador da eternidade. Tive a impress�o de que a pir�mide devia ter estado ali desde sempre, "feita por algum deus e depositada inteira na areia em volta", como comentou o historiador grego Diodoro de Sic�lia no primeiro s�culo a.C. Mas que deus a fizera, se n�o o Rei-Deus Khufu, cujo nome foi ligado a ela por gera��es de eg�pcios? Pela segunda vez em 12 horas, comecei a escalar o monumento. Bem perto a esta luz, indiferente �s cronologias humanas e sujeita apenas �s for�as corrosivas lentas do tempo geol�gico, a pir�mide erguia-se acima de mim como um penhasco intimidador, apavorante. Por sorte, eu tinha que subir apenas seis carreiras de blocos, ajudado em muitos lugares por degraus modernos, antes de chegar ao Buraco de Ma'mun, que � usado atualmente como principal entrada da pir�mide. A entrada original, ainda bem escondida no s�culo IX, quando Ma'mun ini ciou a abertura do t�nel, fica a cerca de dez carreiras mais alta, a uns 17m acima do n�vel do ch�o e a 7,5m a leste do eixo norte-sul. Protegido por gigantescas cumeeiras de pedra calc�ria, a� come�a o corredor descendente, que leva para baixo a um �ngulo de 26� 31' 23". Estranhamente, embora me�a apenas cerca de 1,02m x 1,07m, este corredor est� imprensado entre blocos do teto de 2,55m de espessura e 3,65m de largura e por uma laje de piso (conhecida como o "Len�ol do Por�o") de 45cm de espessura e 10m de largura. Caracter�sticas estruturais ocultas como essas abundam na Grande Pir�mide, revelando incr�vel complexidade e uma falta de prop�sito gritante. Ningu�m sabe como blocos desse tamanho foram instalados, nem tampouco como foram postos em alinhamento t�o cuidadoso com outros blocos, ou em �ngulos t�o precisos (porque, como o leitor deve ter compreendido, a inclina��o de 26� do corredor descendente faz parte de um padr�o deliberado e regular). Ningu�m tampouco sabe por que tais coisas foram feitas. O Farol


Entrar na pir�mide pelo Buraco de Ma'mun n�o me pareceu a coisa certa a fazer. Era como penetrar numa caverna ou grota aberta na encosta de uma montanha. Falta � coisa um sentido de finalidade deliberada, geom�trica, que teria sido transmitido pelo corredor descendente original. Pior ainda, o t�nel horizontal escuro e hostil d� a impress�o de alguma coisa feia, deformada, e ainda conserva as marcas de viol�ncia nos lugares onde os trabalhadores �rabes haviam alternadamente aquecido e esfriado as pedras com fogo forte e vinagre frio, antes de atac�-Ias com martelos e talhadeiras, marretas e perfuradeiras. Por um lado, esse vandalismo parece grosseiro e irrespons�vel. Por outro, uma surpreendente possibilidade tem de ser levada em conta: n�o haver� um sentido em que a pir�mide d� a impress�o de que foi projetada para convidar seres humanos dotados de intelig�ncia e curiosidade a penetrar em seus mist�rios? Afinal de contas, se voc� fosse um fara� que queria garantir que seu cad�ver permaneceria intacto por toda a eternidade, teria feito mais sentido: a) anunciar para a sua e todas as gera��es futuras o local de seu sepultamento; ou b) escolher um local secreto e desconhecido, sobre o qual jamais falaria e onde nunca seria descoberto? A resposta � �bvia: voc� preferia sigilo e isolamento, como fez a vasta maioria dos fara�s do antigo Egito. Por que, ent�o, se tivesse realmente o car�ter de tumba real, a Grande Pir!mide era t�o consp�cua? Por que ocupava uma �rea de mais de cinco hectares? Por que tinha quase 150m de altura? Por que, em outras palavras, se a inten��o fora esconder e proteger o corpo de Khufu, havia sido projetada de maneira que n�o poderia deixar de chamar aten��o - em todas as �pocas e em todas as circunst�ncias imagin�veis - de aventureiros loucos por tesouro ou de intelectuais xeretas e imaginosos? N�o dava simplesmente para imaginar que os brilhantes arquitetos, pedreiros, agrimensores e engenheiros que a haviam criado ignorassem psicologia humana b�sica. A imensa ambi��o e beleza transcendente, o poder e refinamento art�stico do trabalho dessa gente falava em per�cias de alta classe, introvis�es profundas e completo entendimento de s�mbolos e padr�es primordiais, atrav�s dos quais pode-se manipular a mente do homem. A l�gica, por conseguinte, sugeria que os construtores da pir�mide deviam ter sabido exatamente tamb�m que tipo de farol estavam erguendo (com uma precis�o incr�vel) no plat� varrido pelos ventos, na margem oeste do Nilo, naqueles tempos antiq��ssimos. Deviam, em suma, ter desejado que a not�vel estrutura exercesse um fasc�nio perene: para ser violada por intrusos, para ser medida com graus crescentes de exatid�o, para assombrar a imagina��o coletiva da humanidade como um fantasma teimoso, sugerindo um segredo profundo e h� muito tempo esquecido.


Jogos Mentais dos Construtores da Pir�mide O ponto em que o Buraco de Ma'mun corta o corredor descendente de 26� estava fechado por uma moderna porta de a�o. Do outro lado, na dire��o norte, o corredor sobe at� chegar �s cumeeiras da entrada original do monumento. Ao sul, conforme vimos, o corredor desce novamente por quase 106m pelo leito rochoso, antes de desembocar em uma imensa c�mara subterr�nea a uns 185m abaixo do cume da pir�mide. Era espantosa a precis�o dessecorredor. Do alto at� o fundo, o desvio m�dio da vertical � de menos de meia polegada nos lados e de 2/10 no teto. Cruzando a porta de a�o, continuei a percorrer o t�nel de Ma'mun, respirando o ar antigo e acostumando a vista �s l�mpadas el�tricas de baixa voltagem que o iluminam. Em seguida, baixando a cabe�a, comecei a subir a se��o �ngreme e estreita que fora cortada pelos trabalhadores �rabes no esfor�o febril para ladear a s�rie de cunhas de granito que bloqueavam a parte inferior do corredor ascendente, No alto do t�nel, podem ser vistas duas das cunhas originais, ainda in situ, embora parcialmente expostas pelo trabalho de desbastamento. Egipt�logos supunham que elas haviam deslizado de cima para a atual posi��os - numa descida de 40m pelo corredor ascendente, a partir do piso da Grande Galeria. Construtores e engenheiros, cuja maneira de pensar � talvez mais pr�tica, observam que � fisicamente imposs�vel que as cunhas tenham sido instaladas dessa maneira. Dado o espa�o fino como uma folha que as separa das paredes, ch�o e teto do corredor, o atrito teria posto a perder qualquer opera��o de "deslizamento" em uma quest�o de cent�metros, quanto mais de 30 metros. A implica��o enigm�tica, portanto, � que o corredor ascendente devia ter sido fechado enquanto a pir�mide era constru�da. Mas por que algu�m teria desejado bloquear a entrada principal para o monumento, em uma fase prematura na constru��o (embora, ao mesmo tempo, continuasse a alargar e refinar as c�maras interiores)? Al�m do mais, se o objetivo fora impedir a entrada de intrusos, n�o teria sido muito mais f�cil e eficiente fechar o corredor descendente desde a entrada, na face norte, at� um ponto abaixo de sua liga��o com o corredor ascendente? Esta teria sido a maneira mais l�gica de fechar a pir�mide e tornaria desneces s�ria a instala��o de cunhas no corredor ascendente. S6� havia uma certeza: desde o come�o da hist�ria, o �nico efeito conhecido das cunhas de granito de maneira alguma fora impedir o acesso de intrusos; em vez disso, tal como a porta fechada do Barba-Azul, o obst�culo atraiu a aten��o de Ma'mun e lhe inflamou de tal modo a curiosidade que ele se sentiu obrigado a abrir um t�nel


contornando-o, convencido de que alguma coisa de valor inestim�vel devia estar no outro lado. N�o teria sido isso o que os construtores da pir�mide quiseram que sentisse o primeiro intruso que chegasse at� essa dist�ncia? Seria prematuro eliminar essa possibilidade estranha e perturbadora. De qualquer maneira, gra�as a Ma'mun (e �s constantes previs�veis da natureza humana), consegui me introduzir nesse momento pela se��o aberta do corredor ascendente original. Uma abertura cortada com esmero, medindo 1,03m de largura x 1,18m de altura (exatamente as mesmas dimens�es do corredor descendente), subia inclinada pela escurid�o a um �ngulo de 26� 2' 30" (contra os 26� 31' 23" do corredor ascendente). Que interesse meticuloso era esse pelo �ngulo de 26� e seria coincid�ncia que ele equivalesse� metade do �ngulo de inclina��o dos lados da pir�mide - 52�? O leitor talvez se lembre da import�ncia desse �ngulo. Ele � um elemento decisivo da f6rmula sofisticada e avan�ada atrav�s da qual os construtores conseguiram que o projeto da Grande Pir�mide correspondesse exatamente � din�mica da geometria esf�rica. A altura original do monumento (146m) e o per�metro da base (921m) mantinham a mesma raz�o entre si que o raio de uma esfera com sua circunfer�ncia. Essaraz�o � de 2pi (2 x 3,14), e para consegui-Ia os construtores haviam sido obrigados a especificar o dif�cil e idiossincr�tico �ngulo de 52� para os lados da pir�mide (uma vez que uma inclina��o maior ou menor teria significado uma raz�o altura-per�metro diferente). No Cap�tulo 23, vimos que a denominada Pir�mide do Sol, em Teotihuac�n, no M�xico, revela tamb�m o conhecimento e o uso deliberado do n�mero transcendente pi. Nesse caso, a altura (71m) mantinha uma rela��o de 4pi com o per�metro da base(1.184m). O ponto crucial, portanto, � que o monumento mais not�vel do antigo Egito e o monumento mais not�vel do antigo M�xico utilizaram as rela��es de pi muito antes, e em lugares muito distantes, da "descoberta" oficial dessen�mero transcendente pelos gregos. Al�m do mais, a prova convidava � conclus�o de que alguma coisa estava sendo sugerida com o uso de pi - quasecom certeza a mesma coisa em ambos os casos. N�o pela primeira, nem pela �ltima vez, fui tomado por uma sensa��o de contato com uma intelig�ncia antiga, n�o necessariamente eg�pcia ou mexicana, que descobrira uma maneira de cruzar as eras e atrair pessoas como se fosse um farol. Algumas poderiam procurar tesouros; outras, cativadas pela maneira enganosamente simples como os construtores haviam usado o pi para demonstrar o dom�nio que possu�am dos segredos dos n�meros transcendentes, poderiam sentir-se inspiradas a pesquisar mais epifanias matem�ticas.


Dobrado quase em dois, as costas raspando o teto de pedra calc�ria polida, comecei, com esses pensamentos em mente, a rastejar pelo gradiente de 26� do corredor ascendente, que parecia penetrar no imenso volume das seis milh�es de toneladas como se fosse um dispositivo trigonom�trico. Depois de bater com a cabe�a no teto umas duas vezes, contudo, comecei a me perguntar por que os engenhosos indiv�duos que haviam projetado o corredor n�o o tinham feito uns 5 ou 8cm mais alto. Se, para come�ar, podiam construir um monumento como esse (o que obviamente podiam) e equip�-lo com corredores, certamente n�o teria ficado al�m da capacidade que possu�am tornar os corredores suficientemente espa�osos para que uma pessoa pudesse ficar de p�, certo? Mais uma vez, fui tentado a concluir que aquilo era resultado de decis�o deliberada dos construtores: haviam projetado o corredor ascendente dessa maneira porque queriam que fosse assim (e n�o porque essas dimens�eslhes tivessem sido impostas.) Haveria algum motivo na aparente maluquice dessesarcaicos jogos mentais?

Uma Dist�ncia Desconhecida e Sombria No alto do corredor ascendente, emergi para outro aspecto inexplic�vel da pidr�mide, "o mais famoso trabalho arquitet�nico sobrevivente do Velho Reino" - a Grande Galeria. Subindo ao majestoso �ngulo de 26�, que continuava, e quase desaparecendo inteiramente na escurid�o ventilada acima, o espa�oso teto arqueado em modilh�o deixou-me at�nito. Mas eu n�o tinha, ainda, a inten��o de subir a Grande Galeria. Bifurcando-se diretamente para o sul a partir da base, h� uma longa passagem horizontal, de 1,13m de altura por 38m de comprimento, que leva � C�mara da Rainha. Eu queria revisitar esse aposento, que admirara por sua pura beleza desde que havia estado na Grande Pir�mide v�rios anos antes. Nesse dia, contudo, para grande irrita��o minha, a passagemestava bloqueada a alguns metros da entrada. A raz�o, que eu ignorava na ocasi�o, era que um engenheiro alem�o especializado em rob�tica, Rudolf Gantenbrink, estava trabalhando ali dentro, lenta e laboriosamente manobrando um rob�, avaliado em US$ 250,000, que subia a estreita chamin� sul da C�mara da Rainha. Contratado pela Organiza��o de Antiguidades Eg�pcias para melhorar a ventila��o da Grande Pir�mide, ele j� usara equipamento de alta tecnologia para retirar o entulho da estreita "chamin� sul" da C�mara do Rei (que,


para come�ar, egipt�logos acreditavam que havia sido projetada como um duto de ventila��o) e instalara na boca do equipamento um ventilador el�trico. Em princ�pios de mar�o de 1993, dirigiu suas aten��es para a C�mara da Rainha, usando Upuaut, um rob� miniaturizado operado por controle remoto para explorar a chamin� sul desse aposento. No dia 22 de mar�o, cerca de 60m ao longo da chamin� muito �ngreme (que sobe a um �ngulo de 39,5� e tem apenas 20cm de altura x 22cm de largura), o ch�o e as paredes tornaram-se inesperadamente bem polidos, enquanto Upuaut rastejava para dentro de uma se��o de fina pedra calc�ria Tura, o tipo normalmente usado para revestir �reas sagradas, tais como capelas e tumbas. Esse fato em si j� era muito intrigante, mas, ao fim desse corredor, e aparentemente levando a uma c�mara fechada bem dentro da cantaria da pir�mide, foi encontrada uma porta de calc�rio maci�o, com acess�rios de metal... H� muito tempo se sabia que nem a chamin� sul nem sua contrapartida na parede none da C�mara tinham qualquer sa�da na face da Grande Pir�mide. Al�m disso, e tamb�m inexplicavelmente, nenhuma delas fora cortada na rocha at� o fim. Por alguma raz�o, os construtores haviam deixado intactos os 12cm finais do �ltimo bloco, onde ficaria a boca de cada uma delas, tornando-as, dessa maneira, invis�veis e inacess�veis a um intruso casual. Por qu�? Para terem certeza de que elas nunca seriam encontradas? Ou para terem certeza de que seriam, algum dia, nas circunst�ncias certas? Afinal de contas, desde o in�cio tinha havido duas chamin�s vis�veis na C�mara do Rei, penetrando nas paredes norte e sul. N�o teria ficado al�m da capacidade mental dos construtores prever que, mais cedo ou mais tarde, algum curioso sentiria a tenta��o de procurar chamin�s tamb�m na C�mara da Rainha. No caso, ningu�m realmente as procurou durante mais de mil anos, depois de ter o califa Ma'mun aberto o monumento para o mundo no ano 820 d.C. Em 1872, por�m, um engenheiro ingl�s chamado Waynman Dixon, um ma�om que "foi levado a suspeitar da exist�ncia das chamin�s devido � presen�a delas na C�mara do Rei, que ficava acima", come�ou a dar pancadinhas em torno das paredes da C�mara da Rainha e localizou-as. Abriu inicialmente a chamin� sul, mandando seu "carpinteiro e pau-pra-toda-obra, Bill Grundy, fazer com martelo e talhadeira de a�o um buraco naquele lugar. O fiel empregado come�ou a trabalhar, e com tal disposi��o que, logo depois, abriu um buraco na pedra mole (calc�rio) nesse ponto, ocasi�o em que, olhem s�, ap�s um n�mero relativamente pequeno de golpes, a ponteira varou alguma coisa". Descobriu-se que a "alguma coisa" que a talhadeira de Bill Grundy havia aberto era um canal tubular, horizontal, retangular, 22,5cm por 16cm de largura e altura, que chega a


uma parede a 2,10m de dist�ncia e que em seguida sobe em �ngulo para uma dist�ncia desconhecida, escura...

E foi subindo esse �ngulo e para dentro da dist�ncia "desconhecida, escura" que, 121 anos depois, Rudolf Gantenbrink enviou seu rob� - a tecnologia de nossa esp�cie finalmente se emparelhando com nosso poderoso instinto de xeretar. Esse instinto evidentemente n�o era mais fraco em 1872 do que em 1993. Entre muitas coisas interessantes, a c�mera operada por controle remoto conseguiu filmar, nas chamin�s da C�mara da Rainha, as extremidades distantes de uma longa barra de metal, dividida em se��es, de um tipo caracter�stico do s�culo XIX, que Waynman Dixon e seu fiel Bill


Grundy haviam secretamente introduzido no misterioso canal. Previsivelmente, eles supuseram que, se os construtores da pir�mide haviam se dado a todo esse trabalho para abrir e, em seguida, fechar as chamin�s, eles deviam ter escondido l� dentro alguma coisa que merecia ser vista. A id�ia de que, desde o come�o, tenha havido a inten��o de estimular essas investiga��es pareceria inteiramente implaus�vel, se o resultado final da descoberta e explora��o das chamin�s tivesse sido um beco sem sa�da. Em vez disso, como vimos acima, foi encontrada uma porta - uma porta m�vel, levadi�a (em guilhotina), com curiosos acess�rios de metal e uma convidativa abertUra na base, na qual o farolete a laser projetado pelo rob� de Gantenbrink desapareceu por completo... Mais uma vez, parecia haver ali um claro convite para ir mais al�m, o �ltimo em uma longa s�rie de convites que encorajara o califa Ma'mun e seus homens a romper caminho para as passagens e c�maras centrais do monumento, que ti nham esperado que Waynman Dixon submetesse a teste a hip�tese de que as paredes da C�mara da Rainha pudessem conter chamin�s ocultas e que continuara a esperar at� despertar a curiosidade de Rudolf Gantenbrink, cujo rob� de alta tecnologia revelou a exist�ncia da porta oculta e p�s ao alcance do homem quaisquer segredos - ou decep��es, ou quem sabe, mais convites - que poderiam existir do outro lado. A C�mara da Rainha Em cap�tulos posteriores, ouviremos falar mais de Rudolf Gantenbrink e de Upuaut. No dia 16 de mar�o de 1993, por�m, nada sabendo a esse respeito, fiquei frustrado ao descobrir interditada a C�mara da Rainha e olhei ressentido para a grade de metal que fechava o corredor de entrada. Lembrei-me de que a altura desse corredor, 1,13m, n�o � constante. A aproximadamente 33m diretamente para o sul do lugar onde eu me encontrava e a apenas 4,50m da entrada da C�mara, um rebaixamento inesperado do piso aumenta a altura do corredor para 1,72m. Ningu�m at� este momento deu uma explica��o convincente desseaspecto peculiar. A C�mara da Rainha em si - aparentemente vazia desde o dia em que foi constru�da mede 5,22m de norte a sul e 5,72cm de leste para oeste. Possui um elegante teto em cumeeira, a 7,12m de altura, que se situa exatamente ao longo do eixo leste-oeste da pir�mide. O piso, no entanto, � o oposto de elegante e d� a impress�o de inacabado. Sente-se uma constante emana��o salgada de suas paredes claras, de superf�cie irregular, o que deu origem a um sem-n�mero de especula��esinfrut�feras.


Nas paredes norte e sul, ainda conservando a legenda ABERTA EM 1872, ficam as aberturas retangulares encontradas por Waynman Dixon e que levam para dentro da dist�ncia escura das misteriosas chamin�s. A parede oeste � inteiramente despojada. Perturbada a pouco mais de 60cm de sua linha central, a parede leste � dominada por um nicho em forma de ab�bada sustentada por modilh�es, de 4,60m de altura e 1,60m de largura na base. Originariamente de 1m de profundidade, mais uma cavidade fora aberta, nos tempos medievais, no fundo do nicho, por ca�adores de tesouros �rabes que andavam � procura de c�maras ocultas. Eles nada haviam encontrado. Egipt�logos tampouco conseguiram chegar a conclus�es convincentes sobre a fun��o original do nicho ou, por falar nisso, da C�mara da Rainha como um todo. Tudo era confus�o. Tudo era paradoxo. Tudo era mist�rio.

Instrumento A Grande Galeria esconde tamb�m seus mist�rios. Na verdade, ela figura entre os mais misteriosos dos aspectos internos da Grande Pir�mide. Medindo 2,04m de largura no n�vel do ch�o, suas paredes sobem verticalmente a uma altura de 2,28m; acima desse n�vel, mais sete carreiras de pedras de cantaria (todas elas se projetando para dentro cerca de 7,5cm al�m da carreira imediatamente abaixo), levam o teto abaulado � sua altura m�xima, de 8,53m, e culminam em uma largura de 1,03m. O leitor precisa lembrar que, estruturalmente falando, a galeria deveria suportar, para sempre, o peso de muitos milh�es de toneladas dos tr�s quartos superiores do maior e mais pesado monumento de pedra jamais constru�do no planeta Terra. N�o era realmente not�vel que um grupo de supostos "primitivos tecnol�gicos" tivessem n�o s� concebido e projetado tal monumento, mas tendo-o completado com todo sucesso, cerca de 4.500 anos antes de nossa�poca? Mesmo que tivessem constru�do a Galeria com apenas 7m de comprimento e pensado em erigi-Ia em n�vel plano, a tarefa j� teria sido muito dif�cil - na verdade, dific�lima. Mas haviam resolvido erigir essaespantosa ab�bada, sustentada por modilh�es, a uma inclina��o de 26� e prolongar-lhe o comprimento para uns impressionantes 46,5m. Al�m do mais, haviam feito isso com meg�litos de pedra calc�ria perfeitamente aparelhada - blocos imensos, polidos at� ficarem macios, cortados e transformados em paralelogramas inclinados e assentados t�o juntos e com tanta precis�o que as juntas se tornaram invis�veis a olho nu.


Os construtores haviam ainda inclu�do nesse trabalho algumas simetrias interessantes. A largura culminante da galeria no seu �pice, por exemplo, � de 1,3m, com uma largura no piso de 2,4m. No centro exato do piso, correndo por todo comprimento da galeria - e espremido entre rampas de pedras planas de 50cm de largura - h� um canal rebaixado de 30cm de profundidade e 1,3m de largura. Qual teria sido a finalidade desse entalhe? E por que tinha sido necess�rio que correspondesse t�o exatamente � largura e forma do teto, que parecia tamb�m um "entalhe" espremido entre as duas carreiras superiores de cantaria? Eu sabia que n�o era o primeiro que, no in�cio da Grande Galeria, fora tomado pela impress�o desorientadora de que "estava dentro de um instrumento enorme de algum tipo". Quem poderia dizer que essas intui��es estavam inteiramente erradas? Ou, por falar nisso, que estavam certas? N�o havia qualquer registro sobre fun��o, al�m de refer�ncias m�sticas e simb�licas em certos textos lit�rgicos eg�pcios antigos. Esses textos pareciam indicar que as pir�mides haviam sido consideradas como meios destinados a transformar mortos em seres imortais, "em escancarar as portas do firmamento e abrir uma estrada", de modo que o fara� morto pudesse "subir para a companhia dos deuses". Eu n�o tinha dificuldade em aceitar que essesistema de cren�as pudesseter estado em a��o ali e, obviamente, ele poderia ter fornecido um motivo para todo aquele trabalho. N�o obstante, eu continuava intrigado com a raz�o por que mais de seis milh�es de toneladas de aparelhos f�sicos, complicadamente interligados com canais e tubos, corredores e c�maras, haviam sido considerados necess�rios para atingir um objetivo m�stico, espiritual e simb�lico. Estar no interior da Grande Galeria dava-me a impress�o de me encontrar dentro de um enorme instrumento. A Galeria produzia um ineg�vel impacto est�tico sobre minha pessoa (reconhe�o, um impacto pesado e dominador), mas tamb�m inteiramente destitu�do de aspectos decorativos e de tudo (imagens de divindades, altos-relevos de textos lit�rgicos etc.) que pudessem sugerir adora��o ou religi�o. A impress�o que ela produzia em mim era de funcionalismo e inten��o rigorosos - como se tivesse sido constru�da para realizar um certo tipo de trabalho. Simultaneamente, eu me dava conta da concentrada solenidade de estilo e gravidade de maneiras, que pareciam exigir nada menos do que uma s�ria e completa aten��o. Por essa altura, eu havia subido ininterruptamente at� cerca de metade da galeria. � minha frente, e atr�s de mim, sombras e luz faziam brincadeiras entre as imponentes paredes de pedra. Parando, virei a cabe�a e olhei para cima atrav�s da escurid�o do teto arqueado, que sustentava o peso esmagador da Grande Pir�mide do Egito.


De repente, assaltou-me o pensamento obcecante e inquietante de como ela era velha e como toda minha vida dependia, nesse momento, da per�cia dos antigos construtores. Os grandes blocos que forravam o teto distante eram exemplos dessa per�cia - todos eles assentados a um gradiente ligeiramente mais �ngreme do que o da galeria. Conforme observou o grande arque�logo e top�grafo Flinders Petrie, isso fora feito para que a borda inferior de cada pedra encaixasse como um dente na engrenagem cortada no alto das paredes, e da�, nenhuma pedra pode exercer press�o sobre a que est� embaixo, de modo a ocasionar uma press�o cumulativa atrav�s de todo o teto, e cada pedra � separadamente sustentada pelas paredes laterais que est�o � sua frente. E seria isso trabalho de um povo cuja civiliza��o acabara de emergir da ca�a-coleta de alimentos do per�odo neol�tico? Comecei a subir novamente a galeria, usando o entalhe central de 60cm de profundidade. Um revestimento moderno, auxiliado por ripas convenientes e corrim�os laterais, tornava a subida relativamente f�cil. Na antiguidade, contUudo, o ch�o fora de pedra calc�ria bem polida, lisa, que, a um gradiente de 26�, devia ter sido quaseimposs�vel de subir. De que maneira fora feito isso? Teria sido feito, de fato? Alteando-se � frente e no fundo da Grande Galeria, vi a abertura escura da C�mara do Rei, chamando os peregrinos curiosos para penetrar no �mago do enigma.

CAP�TULO 38 Jogo Interativo Tridimensional Chegando ao fim da Grande Galeria, passei por cima de um grosso degrau de granito de uns 90cm de altura. Lembrei-me de que aquela pe�a se encontrava, exatamente como o telhado da C�mara da Rainha, ao longo do eixo leste-oeste da Grande Pir�mide, e, por conseguinte, marcava o ponto de transi��o entre as metades norte e sul do monumento. Tendo de certa maneira a apar�ncia de um altar, o degrau proporciona tamb�m uma s�lida plataforma horizontal, imediatamente de frente para o baixo t�nel quadrado que serve de entrada para a C�ma do Rei. ra Parando por um momento, voltei a olhar para a galeria, notando, mais uma vez, a falta de decora��o, de iconografia religiosa e de todo e qualquer simbolismo reconhec�vel geralmente associado ao sistema de cren�as arcaico dos antigos eg�pcios. Tudo que ficou gravado em minha mente, juntamente com todos os 46,63m dessa magn�fica


abertura geom�trica, foi a regularidade como que casual e sua pura simplicidade mec�nica. Erguendo a vista, consegui distinguir, ainda que com alguma dificuldade, a boca de uma abertura escura, cortada no alto da parede leste, acima de minha cabe�a. Ningu�m sabia quando ou por quem esse agourento buraco fora aberto ou at� que profundidade penetrara inicialmente. A abertura leva � primeira das cinco c�maras de descarga acima da C�mara do Rei e foi prolongada em 1837, ocasi�o em que Howard Vyse a usou para abrir caminho para as quatro restantes. Olhando novamente para baixo, pude distinguir, ainda que precariamente, o ponto na parte inferior da parede oeste da galeria, onde a chamin� quase vertical iniciava sua vertiginosa descida de 48m para encontrar-se com o corredor descendente, bem abaixo do n�vel do ch�o. Por que havia sido necess�rio todo esse complicado sistema de canos e passagens? � primeira vista, a coisa n�o fazia sentido. Mas, tamb�m, nada na Grande Pir�mide fazia muito sentido, a menos que estiv�ssemos dispostos a dedicar muita aten��o a ela. De maneiras imprevistas, quando faz�amos isso, ela, uma vez por outra, nos recompensava. Se voc� fosse suficientemente bom em mat�ria de n�meros, por exemplo, a pir�mide, conforme vimos acima, responderia a suas perguntas sobre a altura e per�metro da base, "imprimindo" o valor de pi. E, se voc� estivesse disposto a investigar ainda mais, conforme veremos, ela faria o download de outros �teis fragmentos matem�ticos, cada um deles mais complexo e mais dif�cil de compreender que o anterior. Havia uma sensa��o programada a respeito de todo esse processo, como se ele tivesse sido pr�-arranjado com o m�ximo cuidado. N�o pela primeira vez, quando dei por mim estava querendo pensar na possibilidade de que a pir�mide pudesse ter sido projetada como um gigantesco desafio ou como uma m�quina did�tica - ou, melhor ainda, como um quebra-cabe�a tridimensional interativo, colocado no deserto para que a humanidade o solucionasse. A Antec�mara Tendo apenas 1,65m de altura, a entrada para a C�mara do Rei exige que todo ser humano de estatura normal se abaixe. Cerca de 1,20m adiante, por�m, cheguei � "Antec�mara", onde o n�vel do telhado sobe inesperadamente para 3,65m acima do ch�o. As paredes leste e oeste da Antec�mara s�o de granito vermelho, no qual haviam sido entalhados quatro pares opostos de largos sulcos paralelos, que egipt�logos pensam que sustentaram grossaslajes levadi�as (tipo guilhotina). Tr�s dessespares de sulcos desciam at� o ch�o e estavam vazios. O quarto (o mais ao norte) s� havia sido


cortado at� o n�vel do teto da passagem de entrada (isto �, 1,3m acima do n�vel do ch�o) e continha ainda uma grossa folha de granito, talvez de 22cm de espessura e 1,82m de altura. H� um espa�o horizontal de apenas 91 cm entre essapedra levadi�a e a extremidade norte da entrada, pela qual eu acabava de passar. Notei ainda uma abertura de pouco mais de 60cm de profundidade entre a parte mais alta da pedra levadi�a e o teto. Qualquer que fosse a fun��o para a qual devia servir, era dif�cil concordar com a opini�o dos egipt�logos, de que essa estrutura peculiar fora ali constru�da para impedir o acessode ladr�es de sepulturas.


Realmente confuso, passei por baixo dela e me espiguei novamente na parte sul da Antec�mara, que tinha cerca de 3,48m de comprimento e mantinha a mesma altura do teto, de 3,65cm. Embora muito desgastados, os sulcos destinados �s tr�s "pe�as levadi�as" restantes continuavam ainda vis�veis nas paredes leste e oeste. Nenhum sinal havia das pr�prias lajes e, na verdade, era dif�cil compreender como pe�as t�o pesadasde pedra poderiam ter sido instaladas em um espa�o de trabalho t�o ex�guo. Lembrei-me que Flinders Petrie, que realizara um levantamento topogr�fico sistem�tico da necr�pole de Giz� em fins do s�culo XIX, fizera coment�rios sobre um quebra-cabe�assemelhante, que encontrara na Segunda Pir�mide: "As pe�as levadi�as de granito na passagem inferior mostram grande habilidade na movimenta��o de massas, uma vez que seriam necess�rios de 40 a 60 homens para ergu�-Ias. Ainda assim, elas foram erguidas e colocadas no lugar em uma passagem estreita, onde apenas uns poucos homens podiam alcan��-Ias"'. Exatamente as mesmas observa��es aplicavam-se �s pe�as levadi�as da Grande Pir�mide, se eram lajes levadi�as - isto �, portas capazesde ser erguidas e baixadas. O problema era que a f�sica de i�amento e abaixamento exigia que elas fossem mais curtas do que toda a altura da Antec�mara, de modo que pudessem ser puxadas para dentro do espa�o do teto, a fim de permitir a entrada e sa�da de pessoas habilitadas, antes do fechamento da tumba. Isso significava, claro, que quando as bordas da parte inferior das lajes descessem at� o ch�o para bloquear a Antec�mara nesse n�vel, um espa�o igual e oposto teria sido aberto entre as bordas superiores das lajes e o teto, atrav�s do qual qualquer ladr�o de sepulturas empreendedor teria certamente podido passar. A Antec�mara qualificava-se, sem a menor d�vida, como outro dos muitos intrigantes paradoxos da pir�mide, nos quais a complexidade da estrutura era combinada com uma fun��o aparentemente sem sentido. Um t�nel de sa�da, da mesma altura e largura do de entrada e revestido de granito vermelho maci�o, abre-se a partir da parede sul da Antec�mara (tamb�m de granito, mas incorporando uma camada de pedra calc�ria de 30cm na parte mais alta). Cerca de 2,70m adiante, o t�nel desemboca na C�mara do Rei, uma sala vermelha escura, feita inteiramente de granito, que projeta uma atmosfera de prodigiosa energia e poder. Enigmas em Pedra Dirigi-me para o centro da C�mara do Rei, cujo eixo longo est� perfeitamente orientado no sentido leste-oeste e, o mais curto, em perfeita orienta��o norte-sul. A


C�mara tem exatamente 5,81m de altura e forma um ret�ngulo exato de dois por um, medindo exatamente 10,42m de comprimento por 5,21m de largura. Com um piso formado por 15 maci�as pedras de pavimenta��o e paredes compostas de 100 gigantescos blocos de granito, cada um deles pesando 70 toneladas ou mais e assentados em cinco carreiras, com um teto que se estende por mais nove blocos de granito, cada um deles pesando aproximadamente 50 toneladas, o efeito � de uma compress�ointensa e esmagadora. Na extremidade oeste da C�mara, h� um objeto que, se f�ssemos dar cr�dito aos egipt�logos, toda a Grande Pir�mide fora constru�da para abrigar. Esseobjeto, talhado em uma �nica pe�a de granito escuro, cor de chocolate, contendo gr�nulos especialmente duros de feldspato, quartzo e mica, � o caix�o sem tampa que se presumia ter sido o sarc�fago de Khufus. No interior, suas medidas s�o de 1,98m de comprimento, 86,5cm de profundidade e 68cm de largura. As medidas externas s�o de 2,27m de comprimento, 1,04m de altura, e 1,02m de largura, 2,5cm a mais, incidentalmente, para que tivesse sido trazido atrav�s da entrada (nesse momento fechada) do corredor ascendente. Alguns jogos matem�ticos de rotina haviam sido inseridos nas dimens�es do sarc�fago. A pe�a, por exemplo, tem um volume interno de 1.166,4 litros e um volume externo de exatamente o dobro, isto �, 2.332 litros. Essa coincid�ncia exata n�o poderia ter acontecido por acaso: as paredes da urna funer�ria haviam sido cortadas com toler�ncias da idade da m�quina, por artes�os de imensa per�cia e experi�ncia. Parecia, al�m disso, como reconheceu Fliders Petrie com alguma perplexidade, ap�s completar o exaustivo levantamento das medidas da Grande Pir�mide, que esses artes�ostiveram acessoa ferramentas "que n�s mesmos s� agora reinventamos..." Petrie examinou com cuidado especial o sarc�fago e concluiu que a pe�a devia ter sido cortada de seu bloco de granito circundante com uma serra reta de 2,50m de comprimento ou mais. Uma vez que o granito em causaera extremamente duro, ele s� podia presumir que as serras deviam ter usado l�minas de bronze (o metal mais duro supostamente dispon�vel na �poca) com "pontos de corte" de pedras preciosas ainda mais duras: "O car�ter do trabalho indica certamente o diamante como tendo sido a pedra preciosa usada no corte e s� as considera��es de sua raridade em geral e aus�ncia no Egito � que interferem nesta conclus�o..." Um mist�rio ainda mais profundo cercava a opera��o de tornar c�ncavo o sarc�fago, obviamente um trabalho muito mais dif�cil do que separ�-Io de um bloco de rocha. Neste particular, Petrie concluiu que os eg�pcios deveriam ter adaptado seus princ�pios de trabalho de serralharia e lhes dado uma forma circular, e n�o mais retilinear, encurvando a l�mina em volta de um tubo, que abria um orif�cio circular


atrav�s de rota��o. Dessa maneira, desgastando os n�cleos de pedra deixados nos sulcos, conseguiam abrir grandes buracos com um m�nimo de trabalho. Essas furadeiras circulares variavam em di�metro de 5/4 a 5 polegadas e de 1/30 a 1/5 de espessura... Claro, como reconheceu Petrie, nenhuma furadeira ou serra com dentes de diamante jamais foi encontrada pelos egipt�logos. A prova vis�vel dos tipos de perfura��o e trabalho de serralharia que haviam sido feitos, contudo, levaram-no a inferir que esses instrumentos deviam ter existido na �poca. Ele ficou particularmente interessado por esseassunto e ampliou o estudo para incluir n�o s� o sarc�fago da C�mara do Rei, mas numerosos outros artefatos de granito e "n�cleos de perfura��o" que colecionou em Giz�. Quanto mais aprofundava a pesquisa, contudo, mais misteriosa se tornava a tecnologia de corte de pedra dos antigos eg�pcios: O volume de press�o, demonstrado pela rapidez com que as furadeiras e serras penetravam nas pedras duras, � motivo de grande surpresa. Provavelmente, uma carga de uma ou duas toneladas era aplicada �s furadeiras de quatro polegadas que cortavam o granito. No n�cleo de granito n�mero 7, a espiral do corte penetrou uma polegada na circunfer�ncia de 6 polegadas, com uma taxa de desbastamento espantosa. (...) Esses r�pidos sulcos em espiral de maneira alguma podem ser atribu�dos a outra coisa que � descida da furadeira no granito sob enorme press�o... N�o era estranho que, no suposto in�cio da civiliza��o humana, h� mais de 4.500 anos, os antigos eg�pcios tivessem adquirido o que parece ser perfuratrizes da era industrial, com uma press�o de uma tonelada ou mais e capaz de fatiar pedras duras como uma faca quente na manteiga? Petrie nenhuma explica��o conseguiu dar para esse enigma. Tampouco p�de explicar o tipo de instrumento usado para cortar hier�glifos em certo n�mero de tigelas de diorita, com inscri��es da Quarta Dinastia, que descobriu em Gaza: "Os hier�glifos foram cortados com ponta livre. N�o foram arranhados nem desbastados, mas abertos na diorita, com bordas n�tidas acompanhando as linhas..." Esse fato incomodou o l�gico Petrie, porque ele sabia que a diorita � uma das pedras mais duras existentes na terra, muito mais dura do que o ferro. Ainda assim, estava sendo cortada no Egito antigo com incr�vel for�a e precis�o por alguma ferramenta de grava��o ainda n�o identificada: Uma vez que as linhas t�m apenas 1/150 de polegada de largura, � evidente que a ponta cortante deve ter sido muito mais dura do que o quartzo e resistente o


suficiente para n�o se partir, quando um gume t�o fino estava sendo usado, provavelmente com largura de apenas 1/200 de polegada. As linhas paralelas foram gravadasa apenas2/30 de separa��o de centro para centro. Em outras palavras, ele imaginava um instrumento com uma ponta agu�ada como agulha, de dureza excepcional, sem precedentes, capaz de penetrar e abrir sulcos com a maior facilidade na diorita e de suportar tamb�m as enormes press�es necess�rias durante toda a opera��o. Que tipo de instrumento era esse? Atrav�s de que meios a press�o fora aplicada? Como puderam os eg�pcios manter a precis�o suficiente para riscar linhas paralelas a intervalos de apenas1/30 de polegada? Pelo menos, era poss�vel evocar uma imagem mental de furadeiras circulares com dentes de diamante, que Petrie supunha que deveriam ter sido usadas para se obter a concavidade do sarc�fago da C�mara do Rei. Descobri, contudo, que n�o era f�cil fazer a mesma coisa no tocante ao instrumento desconhecido capaz de riscar hier�glifos em diorita no ano 2500 a.C., ou, de qualquer outro modo, sem supor a exist�ncia de um n�vel de tecnologia muito mais alto do que os egipt�logos estavam dispostos a aceitar. Mas o caso n�o dizia respeito apenas a alguns hier�glifos e tigelas de diorita. Em minhas primeiras viagens pelo Egito, eu havia examinado muitos vasos de pedra datando alguns deles, em alguns casos, dos tempos pr�-din�sticos que haviam sido misteriosamente escavados em forma c�ncava em uma grande faixa de material, tais como diorita, basalto, quartzo, cristal existo metam�rfico. Mais de 30.000 desses vasos, por exemplo, haviam sido encontrados nas c�maras situadas sob a Pir�mide Escalonada de Z�ser, em Saqqara, da �poca da Terceira Dinastia. Esse fato significa que os vasos eram, pelo menos, t�o velhos quanto o pr�prio Z�ser (isto �, cerca de 2.650 anos a.C.). Teoricamente, poderiam ter sido ainda mais antigos do que isso, uma vez que vasos id�nticos tinham sido descobertos em estratos pr�-din�sticos datados de 4.000 anos a.C. e ainda antes, porque o costume de legar objetos de grande valor de uma gera��o a outra estava profundamente enraizado no Egito desde tempos imemoriais. Tivessem sido feitos no ano 2500 a.C., no ano 4000 a.C., ou mesmo antes, os vasos de pedra da Pir�mide Escalonada eram not�veis por seu fino acabamento artesanal, que, mais uma vez, parecia ter sido conseguido atrav�s de alguma ferramenta sequer imaginada (e, na verdade, quaseinimagin�vel). Por que inimagin�vel? Porque muitos dos vasos eram altos, com longos, fi nos e elegantes pesco�os e interiores muito abertos, n�o raro incluindo asas inteiramente ocas. Nenhum instrumento ainda inventado era capaz de escavar e de dar a vasos formas como essas, porque ele teria que ser ainda mais estreito para passar atrav�s


dos pesco�os e suficientemente forte (e da forma certa) para ter escavado as asas e o interior redondo. E de que maneira press�o suficiente para cima e para fora poderia ter sido gerada e aplicada dentro de vasos para se obter essesresultados? Osvasos altos n�o foram absolutamente os �nicos de tipo enigm�tico desencavadosna Pir�mide de Z�ser e em certo n�mero de outros s�tios arcaicos. Foram encontradas urnas monol�ticas com al�as ornamentais delicadas, deixadas na parte externa pelos artes�os. E foram descobertas tamb�m tigelas, mais uma vez com pesco�os estreitos como os vasos e com interior bem largo, arredondado. E n�o faltaram tigelas abertas e frascos quase microsc�picos e ocasionais objetos estranhos em forma de roda, cortados em xisto metam�rfico, com bordas enroladas para dentro t�o finas que eram quase transl�cidas. Em todos os casos, o que causava realmente perplexidade era a precis�o com que haviam sido trabalhadas as partes interna e externa desses vasos para corresponder uma � outra - curva � curva - em superf�cies macias e polidas, sem nenhuma marca vis�vel de ferramenta. N�o havia, ao que se soubesse, tecnologia dispon�vel na �poca, com a qual os antigos eg�pcios pudessem obter esses resultados. Nem, por falar nisso, qualquer gravador moderno em pedra poderia ficar � altura deles, mesmo que trabalhasse com as melhores ferramentas de carboneto de tungst�nio. A implica��o, portanto, � que uma tecnologia desconhecida ou secreta foi usada no antigo Egito. A Cerim�nia do Sarc�fago De p� na C�mara do Rei, virado para o oeste - a dire��o da morte entre os antigos eg�pcios e os maias -, descansei levemente as m�os sobre a borda gran�tica �spera do sarc�fago que, insistem os egipt�logos, fora constru�do para abrigar o corpo de Khufu. Olhei para sua escura profundidade, para o lugar onde a fraca ilumina��o el�trica da tumba parecia ter dificuldade de penetrar e vi part�culas de poeira girando em uma nuvem dourada. Era simplesmente um efeito de luz e sombra, claro, muito embora a C�mara do Rei estivesse cheia dessasilus�es. Lembrei-me que Napole�o Bonaparte passou uma noite sozinho aqui, durante a conquista do Egito, em fins do s�culo XVIII. Na manh� seguinte, reapareceu p�lido e abalado, tendo experimentado alguma coisa que o perturbou profundamente, mas sobre a qual jamais disse coisa alguma. Teria ele tentado dormir no sarc�fago? Obedecendo a um impulso, entrei no grande caix�o de granito e me deitei, rosto para cima, os p�s apontados para o sul e a cabe�apara o norte.


Napole�o era baixote, de modo que deve ter se encaixado confortavelmente ali. Para mim havia tamb�m espa�o suficiente. Mas Khufu estivera tamb�m ali? Relaxei e tentei n�o me preocupar com a possibilidade de um dos guardas da pir�mide entrar e me encontrar nessa posi��o embara�osa e, possivelmente, proibida. Na esperan�a de n�o ser perturbado durante alguns minutos, cruzei as m�os sobre o peito e soltei um som baixo e cont�nuo - algo que eu havia tentado v�rias vezes antes em outros pontos da C�mara do Rei. Nessas ocasi�es, no centro do piso, eu havia notado que as paredes e teto pareciam captar o som, isol�-lo, amplific�-Io e projet�-Io de volta a mim, de tal modo que pude sentir as vibra��es refletidas atrav�s dos p�s, couro cabeludo e pele. Nesse momento, dentro do sarc�fago, senti mais ou menos o mesmo efeito, embora aparentemente amplificado e concentrado muitas vezes. Era como estar na caixa de resson�ncia de algum gigante, em um instrumento musical ressonante destinado a emitir para sempre apenas uma nota reverberante. O som era intenso e profundamente perturbador. Imaginei-o saindo do sarc�fago e refletindo-se das paredes e teto de granito, subindo com grande rapidez atrav�s dos po�os de "ventila��o" sul e norte e espalhando-se pelo plat� de Giz� como uma nuvem s�nica em forma de cogumelo. Com essa vis�o ambiciosa em mente, e com o som de minha nota em baixo timbre ecoando nos ouvidos e fazendo o sarc�fago vibrar ao meu redor, fechei os olhos. Quando os abri, seis minutos depois, vi um espet�culo embara�oso: seis turistas japoneses, de idades e sexos variados, haviam se reunido em torno do sarc�fago - dois deles a leste, dois a oeste e um em cada uma das faces norte e sul. Todos eles olharam para mim... at�nitos. E tamb�m fiquei assim ao v�-Ios. Devido a ataques recentes de extremistas isl�micos, quase n�o havia mais turistas em Giz� e eu esperara ter a C�mara do Rei s� para mim. O que � que fazemos em uma situa��o como essa? Reunindo tanta dignidade quanto pude, sentei-me e comecei a espanar a roupa. Os japoneses recuaram um passo e saltei do sarc�fago. Adotando um jeit�o s�rio e tranq�ilo, como se fizesse coisas assim o tempo todo, dirigi-me ao ponto, a dois ter�os do caminho ao longo da parede norte da C�mara do Rei, onde se localiza a entrada que os egipt�logos chamam de "po�o de ventila��o norte", e comecei a examin�-Io cuidadosamente. Medindo 20,22cm de largura por 22,86cm de altura, eu sabia que o t�nel tinha mais de 60m de comprimento e que se abria para o ar livre na carreira 103 da cantaria. Presumivelmente por inten��o, e n�o por acaso, a boca do t�nel aponta para as regi�es circumpolares dos c�us do norte, a um �ngulo de 32�. Essa orienta��o, na Era


da Pir�mide, por volta do ano 2500 a.C., teria significado que ela se dirigia para o z�nite de Alfa Draconis, uma estrela importante na constela��o do Drag�o. Para grande al�vio meu, os japoneses terminaram rapidamente a visita � C�mara do Rei e foram embora, encurvando-se, sem um olhar para tr�s. Logo que eles sa�ram, dirigi-me para o outro lado da c�mara para dar uma olhada no po�o de ventila��o sul. Uma vez que havia estado ali alguns meses antes, notei que sua apar�ncia mudara horrivelmente. A boca continha nesse momento uma maci�a unidade el�trica de ar condicionado, instalada por Rudolf Gantenbrink, que nessa mesma ocasi�o dirigia a aten��o para as negligenciadaschamin�s da C�mara da Rainha. Alguns egipt�logos estavam convencidos de que as chamin�s na C�mara do Rei haviam sido constru�das para fins de ventila��o e nada viam de estranho em usar tecnologia moderna para aumentar a efici�ncia dessa fun��o. Ainda assim, t�neis horizontais n�o teriam sido mais eficientes do que inclinados, se o objetivo principal fosse ventilar, e mais f�ceis de construir? Por isso mesmo, provavelmente n�o era por acaso que a chamin� sul da C�mara do Rei estivesse voltada para os c�us do sul a um �ngulo de 45�. Durante a Era da Pir�mide, esta era a localiza��o do tr�nsito do meridiano de Zeta Orionis, a mais baixa das tr�s estrelas do Cintur�o de �rion - um alinhamento, como eu descobriria em tempo oportuno, que revelaria ser da mais alta import�ncia para pesquisasfuturas sobre a pir�mide. O Mestre do Jogo Nessemomento, eu tinha, mais uma vez, a C�mara s� para mim. Fui at� a parede oeste, no lado mais distante do sarc�fago, e virei para o leste. A imensa c�mara tinha uma capacidade intermin�vel de gerar indica��es de jogos matem�ticos. Sua altura (5,7m) era exatamente a metade do comprimento da diagonal do ch�o (11,41 m). Al�m disso, uma vez que a C�mara do Rei forma um ret�ngulo perfeito de 1 x 2, seria conceb�vel que seus construtores n�o soubessem que haviam feito com que ela expressassee exemplificassea "se��o �urea"? Conhecido como phi, a se��o �urea � outro n�mero irracional, tal como o pi, que n�o pode ser encontrado aritmeticamente. Seu valor � a raiz quadrada de 5 mais 1 dividido por 2, que equivale a 1,6180327. Descobriu-se que este � o "valor limite da raz�o entre n�meros sucessivos na s�rie Fibonacci - a s�rie de n�meros que come�a com 0, 1, 2, 3, 5, 8, 13 - na qual cada termo � a soma dos dois termos anteriores". Pode-se ainda obter o phi esquematicamente, dividindo uma linha A-B em um ponto C, isto de tal maneira que toda a linha A-B seja mais longa do que a primeira parte, A-C, na mesma propor��o que a primeira parte, A-C, seja mais longa do que o resto, C-B.


Essa propor��o, que se descobriu ser muito harmoniosa e agrad�vel � vista, foi supostamente descoberta pelos gregos pitag�ricos, que a incorporaram ao Parthenon, em Atenas. N�o h� absolutamente d�vida, por�m, que phi foi ilustrado graficamente e obtido pelo menos 2.000 anos antes na C�mara do Rei da Grande Pir�mide de Giz�. A fim de compreend�-lo, � necess�rio imaginar o piso retangular da C�mara como dividido em dois quadrados imagin�rios de igual tamanho, dando-se ao comprimento do lado de cada quadrado o valor de 1. Se um desses dois quadrados for dividido pela metade, formando, dessamaneira, dois novos ret�ngulos, e se a diagonal do ret�ngulo mais pr�ximo da linha central da C�mara do Rei fosse girada para a base, o ponto onde sua ponta tocassea base seria o phi, ou 1,618, em rela��o ao comprimento do lado (isto �, 1) do quadrado original. (Uma maneira alternativa de obter phi, inclu�do tamb�m nas dimens�esda C�mara do Rei, � mostrada a seguir.) Desde o pr�prio in�cio de sua hist�ria din�stica, o Egito herdou, de predecessores desconhecidos, um sistema de medi��es. Expressado nessas medidas antigas, as dimens�esdo piso da C�mara do Rei (20,36m x 10,25m) s�o exatamente iguais a 20 x 10 "c�vados reais", enquanto que a altura das paredes laterais at� o teto � de exatamente 11,18 c�vados reais. A semi-diagonal do piso (A-B) � tamb�m, exatamente, de 11,18 c�vados reais e pode ser "girada" para C, a fim de confirmar a altura da c�mara. Phi � definido matematicamente como a raiz quadrada de 5+1+2, isto �, 1,618. Ser� uma coincid�ncia que a dist�ncia C-D (isto �, a altura da parede da C�mara do Rei, mais a metade da largura de seu piso) seja igual a 16,18 c�vados reais, incorporando, dessa maneira, os n�meros essenciais de phi?


Osegipt�logos acharam que tudo isso fora puro acaso. Ainda assim, os construtores da pir�mide nada haviam feito por acaso. Quem quer que tenham sido, eu achava dif�cil imaginar indiv�duos possuidores de uma mente mais sistem�tica e matem�tica. Mas eu j� havia tido mais do que o suficiente desses jogos matem�ticos por um dia. Deixando a C�mara do Rei, contudo, n�o pude esquecer que ela se localiza na carreira n�mero 50 nas obras de cantaria da Grande Pir�mide, a uma altura de quase 45m acima do ch�o. lsso significa, como havia dito Flinders Petrie com algum espanto, que os construtores haviam conseguido coloc�-la "em um n�vel onde a se��o vertical da pir�mide � dividida ao meio, onde a �rea da se��o horizontal � a metade da �rea da


base, onde a diagonal de uma aresta a outra � igual ao comprimento da base, onde a largura de uma face � igual � metade da diagonal da base". Confiantes e eficientemente mexendo com mais de seis milh�es de toneladas de pedra, criando galerias, c�maras, chamin�s e corredores mais ou menos � vontade, obtendo simetria quase perfeita, �ngulos retos quase perfeitos e alinhamentos tamb�m quase perfeitos com os pontos cardeais, os misteriosos construtores da Grande Pir�mide haviam descoberto tempo para realizar tamb�m muitas outras brincadeiras com as dimens�esda enorme estrutura. Por que a mente dessa gente teria trabalhado dessa maneira? O que haviam eles tentado dizer ou fazer? E por que, tantos milhares de anos ap�s sua constru��o, o monumento continua a exercer uma influ�ncia magn�tica sobre tantas pessoas, de posi��est�o diferentes na vida, que com ela entram em contato? Havia uma Esfinge nas vizinhan�as, de modo que resolvi submeter a ela esses enigmas...

CAP�TULO 39 O Local do In�cio Giz�, Egito, 16 de mar�o de 1993, 15h30min.

Em meados da tarde, deixei a Grande Pir�mide. Refazendo o caminho que Santha e eu hav�amos seguido na noite anterior, quando escalamos o monumento, dirigi-me para leste, costeando a face norte, e para o sul. Acompanhando o flanco da face leste, passei por cima de montes de entulho e tumbas antigas pr�ximas uma da outra nessa parte da necr�pole e sa� para o leito rochoso de calc�rio, coberto de areia, do plat� de Giz�, que nesselocal inclina-se nas dire��es sul e leste. No fundo dessaladeira longa e suave, a cerca de meio quil�metro da aresta sudeste da Grande Pir�mide, a Esfinge aparece agachada em seu fosso aberto na rocha. Medindo mais de 20m de altura por mais de 73m de comprimento, com uma cabe�a de 4,16m de largura, ela �, por larga margem, a maior pe�a escultural isolada no mundo - e a mais famosa: Uma forma com corpo de le�o e cabe�ade homem.


Um olhar vazio e implac�vel como o sol. Aproximando-me do monumento pelo noroeste, cruzei o antigo passadi�o que liga a Segunda Pir�mide ao denominado Templo do Vale, de Khafre, uma estrutura muito estranha, localizada a 15,24m exatamente ao sul da pr�pria Esfinge, na borda leste da plan�cie de Giz�. Acredita-se h� muito tempo que esse templo � muito mais antigo do que o per�odo de Khafre. Na verdade, durante a maior parte do s�culo XIX, o consenso entre os estudiosos era que a estrutura fora constru�da na remota pr�-hist�ria e que nada tinha a ver com a arquitetura do Egito din�stico. O que mudou tudo isso foi a descoberta de certo n�mero de est�tuas de Khafre, com inscri��es, sepultadas no recinto do templo. Embora a maioria estivesse muito estragada, uma delas, encontrada de cabe�a para baixo em um buraco profundo em uma antec�mara, fora achada quase intacta. De tamanho natural, e refinadamente esculpida em diorita preta, uma pedra dura como diamante, ela representava o fara� da Quarta Dinastia sentado no trono, olhando para a eternidade com serena indiferen�a. Nesse ponto, o racioc�nio, afiado como navalha, da egiptologia entrou em a��o e encontrou uma solu��o de um brilhantismo quase ofuscante: se as est�tuas de Khafre tinham sido encontradas no Templo do Vale, o templo, portanto, fora por ele constru�do. O geralmente sensato Flinders Petrie resumiu a quest�o da seguinte maneira: "O fato de os �nicos restos suscet�veis de data��o encontrados no Templo terem sido de Khafre demonstra que a estrutura � de seu per�odo, uma vez ser sumamente improv�vel que ele tenha se apropriado de um edif�cio mais antigo." Mas por que a id�ia era t�o improv�vel assim? Durante toda hist�ria do Egito Din�stico, numerosos fara�s apropriaram-se de edif�cios de seus predecessores, �s vezes removendo deliberadamente os cartuchos dos construtores originais e substituindo-os pelos seus. N�o havia nenhuma boa raz�o para supor que Khafre teria se abstido de ligar-se ao Templo do Vale, particularmente se o mesmo n�o estivesse associado em sua mente a qualquer governante anterior registrado na hist�ria, mas apenas aos grandes "deuses", que os antigos eg�pcios diziam ter trazido a civiliza��o ao Vale do Nilo, na distante e m�tica �poca que chamavam de Primeiros Tempos. Em tal local de poder arcaico e misterioso, no qual n�o parece que ele tenha interferido de qualquer maneira, Khafre pode ter pensado que instalar est�tuas belas e fi�is de sua pessoa poderia trazer benef�cios eternos. E se, entre os deuses, o Templo do Vale estivera associado a Os�ris (a quem Khafre tinha o objetivo de reunir-se na vida ap�s a morte), o uso de sua est�tua para forjar um forte elo simb�lico teria sido ainda mais compreens�vel.


O Templo dos Gigantes Depois de cruzar o passadi�o, o caminho que eu escolhera para chegar ao Templo do Vale levou-me atrav�s de entulho a um campo de "mastabas", no qual figuras menos not�veis da Quarta Dinastia tinham sido enterradas em tumbas subterr�neas, sob plataformas de pedra em forma de banco (mastaba � uma palavra �rabe moderna que significa banco, e da� o nome dado a essas tumbas). Segui ao longo da parede sul do templo, lembrando-me de que esse antigo pr�dio estava quase perfeitamente orientado para o sul, como acontecia com a Grande Pir�mide (com um erro de apenas 12 minutos de arco). O templo era quadrado, com 44,80m de cada lado, constru�do na ladeira do plat�, mais alta no oeste do que no leste. Em conseq��ncia, enquanto a parede oeste ficava a apenaspouco mais de 7m de altura, a leste excedia 12m. Visto do sul, a impress�o era de uma estrutura em forma de cunha, baixa e transmitindo uma sensa��o de poder, apoiada firmemente sobre o leito rochoso. Um exame mais atento revelava que a estrutura possu�a v�rias caracter�sticas inteiramente estranhas e inexplic�veis para o olho moderno, que deveriam ter parecido tamb�m quase t�o estranhas e inexplic�veis para os antigos eg�pcios. Para come�ar, a aus�ncia total, tanto dentro quanto fora da estrutura, de inscri��es e outras marcas de identifica��o. Neste particular, como o leitor deve compreender, o Templo do Vale poderia ser comparado a alguns dos demais monumentos an�nimos e absolutamente infensos � data��o existentes no plat� de Giz�, incluindo as grandes pir�mides (e tamb�m uma misteriosa estrutura existente em Abidos, conhecida como Osireion, que estudaremos em detalhes em um cap�tulo posterior), mas, � parte isso, nenhuma semelhan�a apresentava com os produtos t�picos e bem conhecidos da antiga arte e arquitetura eg�pcia - todos eles copiosamente decorados, embelezados e cobertos de inscri��es. Outro aspecto importante e incomum do Templo do Vale � que sua estrutura central foi constru�da inteiramente, inteiramente, de gigantescosmeg�litos de pedra calc�ria. A maioria deles mede 5,48m de comprimento x 3,48m de largura x 2,43m de altura, havendo alguns que medem 9,14m de comprimento x 3,65m de largura x 3,48m de altura. Excedendo geralmente um peso de 200 toneladas, todos eles s�o mais pesados do que uma moderna locomotiva diesel - e h� centenas dessesblocos. Essefato seria, de alguma maneira, misterioso? Aparentemente, os egipt�logos n�o pensavam assim. Na verdade, poucos entre eles se deram ao trabalho de comentar o fato, exceto da maneira a mais superficial poss�vel -


seja sobre o tamanho espantoso dessesblocos ou a log�stica assombrosa que teria sido necess�ria para serem postos em seus lugares. Conforme vimos antes, mon�litos de at� 70 toneladas, todos eles com um peso de 100 carros tamanho fam�lia, haviam sido i�ados para o n�vel da C�mara do Rei na Grande Pir�mide - mais uma vez, sem provocar muitos coment�rios da comunidade de egipt�logos -, de modo que a falta de curiosidade sobre o Templo do Vale talvez n�o fosse motivo para surpresa. N�o obstante, o tamanho dos blocos era realmente extraordin�rio, parecendo que pertenciam n�o s� a outra �poca, mas inteiramente a outra �tica - uma �tica que refletia preocupa��esest�ticas e estruturais incompreens�veis e sugeria uma escala de prioridades inteiramente diferente da nossa. Por que, por exemplo, insistir em usar essesinc�modos mon�litos de 200 toneladas, quando poderiam simplesmente fati�-los em blocos de 10, 20, 40 ou 80 toneladas, menores e mais f�ceis de mover? Por que tornar as coisas t�o dif�ceis, quando podiam conseguir praticamente o mesmo efeito visual com muito menos esfor�o? E de que maneira os construtores do Templo do Vale i�aram essesmeg�litos colossais a uma altura de mais de 12m? Atualmente, s� h� no mundo dois guindastes terrestres capazesde erguer pesos dessa magnitude. Nas pr�prias fronteiras mais avan�adasda tecnologia de constru��o, esses guindastes s�o m�quinas enormes, industrializadas, com lan�as que se projetam a mais de 60m no ar, e que exigem contrapesos, no alto, de mais de 160 toneladas, para impedir que caiam para a frente. O tempo de prepara��o para um �nico i�amento � de cerca de seis semanas e requer a per�cia de equipes especializadas de at� 20 indiv�duos. Em outras palavras, construtores modernos, com todas as vantagens de engenharia de alta tecnologia, mal conseguem i�ar pesos de 200 toneladas. N�o era, portanto, algo surpreendente que os construtores de Giz� i�assem esses pesos quase que em base rotineira? Aproximando-me mais da imponente parede sul do templo, observei mais uma coisa nos imensos blocos de pedra calc�ria: eles n�o s� eram ridiculamente grandes, mas, como se para complicar ainda mais uma tarefa imposs�vel, haviam sido cortados e encaixados em um padr�o multiangular, semelhante ao que havia sido empregado nas cicl�picas estruturas de pedra de Sacsayhuaman e Machu Picchu, no Peru (ver Parte II). Outro aspecto que notei � que parece que as paredes do templo foram constru�das em dois est�gios. O primeiro, cuja maior parte est� intacta (embora profundamente corro�da) consiste do embasamento, forte e pesado, de blocos de 200 toneladas. Em ambos os lados desses blocos foi enxertada uma fachada de granito trabalhado que


(conforme teremos oportunidade de ver) est� intacto na maior parte no interior do pr�dio, mas que desabou quase todo na parte externa. Um exame mais atento de alguns dos blocos remanescentes do revestimento externo, nos pontos onde se soltaram do n�cleo, revela um fato curioso. Nos tempos em que foram aqui colocados na antiguidade, a parte posterior dessesblocos foi cortada para encaixar-se e amoldarse �s bases c�ncavas e reentr�ncias profundas das marcas de intemperismo existentes no bloco. A presen�a dessas marcas parece implicar que os blocos do n�cleo devem ter estado aqui, expostos � a��o dos elementos, durante um per�odo imenso de tempo, antes de terem sido revestidos de granito. O Senhor de Rostau Dirigi-me nesse momento para a entrada do templo, localizada perto da extremidade norte da parede leste, que tem 13,10m de altura. Notei que, a�, o revestimento de granito continua em condi��es perfeitas e que consiste de imensas lajes que pesam entre 70 e 80 toneladas, e que protege os blocos de pedra calc�ria do embasamento como se fosse uma armadura. Servido por um corredor alto, estreito e aberto para o alto, esta escura e imponente entrada orienta-se inicialmente para oeste, faz em seguida uma volta em �ngulo reto para o sul, e acabou me levando a uma espa�osa antec�mara. Foi neste local que se descobriu a est�tua de diorita em tamanho natural de Khafre, de cabe�a para baixo e, ao que parecia, ritualmente enterrada em um fundo buraco. Revestindo todo o interior da antec�mara, observei um majestoso quebra-cabe�as de blocos de granito polidos com perfei��o (encontrados da mesma forma em todo o edif�cio). Exatamente como acontece com os blocos de alguns dos maiores e mais estranhos monumentos pr�-incaicos no Peru, estes t�m �ngulos m�ltiplos, finamente entalhados nas juntas e formando um padr�o geral complexo. De interesse especial � a maneira como certos blocos como que se dobram em torno de arestas e s�o recebidos por �ngulos reentrantes abertos em outros blocos. Da antec�mara, passei atrav�s de um elegante corredor que segue na dire��o oeste e desemboca em um espa�oso sal�o em forma de T. Na barra do T, olhei para oeste ao longo de uma avenida imponente de colunas monol�ticas. Com uma altura de quase 5m de altura e medindo 1,4m de cada lado, as colunas sustentam vigas de granito, de forma quadrada, todas elas com 1,4m de cada lado. Uma fileira de mais seis colunas, tamb�m sustentando vigas, corre ao longo do eixo norte-sul do T, produzindo um efeito geral de simplicidade, impressionante mas refinada.


Para o que havia sido constru�do esse edif�cio? De acordo com egipt�logos que o atribu�am a Khafre, a finalidade era �bvia. Fora projetado, diziam, como local para certos rituais de purifica��o e renascimento, necess�rios ao funeral do fara�. Os pr�prios antigos eg�pcios, por�m, nenhuma inscri��o deixaram confirmando essa conclus�o. Ao contr�rio, a �nica prova escrita que nos chegou indica que o Templo do Vale n�o podia (pelo menos, originariamente) ter mantido qualquer rela��o com Khafre, pela raz�o muito simples de que foi constru�do antes de seu reinado. A prova escrita nesse particular � a Estela do Invent�rio (mencionada no Cap�tulo 35), que indica tamb�m uma idade muito maior para a Grande Pir�mide e a Esfinge. O que a Estela do Invent�rio diz sobre o Templo do Vale � que este j� existia durante o reinado do predecessor de Khafre, Khufu, �poca em que fora considerado n�o como pr�dio recente, mas antiqu�ssimo. Al�m do mais, � claro pelo contexto que n�o se pensava que tivesse sido obra de algum fara� anterior. Em vez disso, acreditava-se que era um monumento dos "Primeiros Tempos" e que tinha sido constru�do pelos "deuses" que haviam se estabelecido no Vale do Nilo naquela �poca remota. Na estela, o templo era designado de forma bem expl�cita como "Casa de Os�ris, Senhor do Rostau (Rostau � um nome antigo da necr�pole de Giz�). Como teremos oportunidade de ver na Parte VII, Os�ris foi, em numerosos aspectos, a contrapartida eg�pcia de Viracocha e Quetzalcoatl, as divindades civilizat�rias dos Andes e da Am�rica Central. Com eles, Os�ris compartilhou n�o s� uma miss�o comum, mas uma enorme heran�a de simbolismo comum. Parecia apropriado, portanto, que a "Casa" (santu�rio, ou templo) de um mestre e legislador t�o s�bio tivesse sido constru�da em Giz�, � vista da Grande Pir�mide e na vizinhan�a imediata da Grande Esfinge.

Vasta, Remota e Fabulosamente Antiga Seguindo a dire��o dada pela Estela do Invent�rio - que declara que a Esfinge se situa "a noroeste da Casade Os�ris" - fui at� a extremidade norte da parede oeste, que cerca o sal�o em forma de T do Templo do Vale. Passei por um portal monol�tico e entrei em um longo e inclinado corredor com ch�o de alabastro (orientado tamb�m na dire��o noroeste) e que finalmente se abre para a extremidade mais baixa do passadi�o que leva � Segunda Pir�mide. Da borda do passadi�o eu tinha uma vista desimpedida da Esfinge, situada imediatamente ao norte. Com o comprimento de um quarteir�o urbano, altura de um


pr�dio de seis andares, a escultura est� perfeitamente orientada diretamente para leste e, dessa maneira, de frente para o sol nascente nos dois dias equinociais do ano. Com cabe�a de homem, corpo de le�o, agachada como se pronta, finalmente, a mover as pernas ap�s mil�nios de sono p�treo, a Esfinge foi esculpida em uma �nica pe�a, em uma �nica corcova de pedra calc�ria, em um s�tio que deve ter sido milagrosamente pr�-selecionado. As caracter�sticas excepcionais desse s�tio, bem como a vista para o Vale do Nilo embaixo, � que sua constitui��o geol�gica cont�m um c�moro de pedra dura, que se projeta a 9m acima do n�vel geral da crista de pedra calc�ria. Nesse c�moro, foram esculpidas a cabe�a e o pesco�o da Esfinge, enquanto abaixo, o vasto ret�ngulo de pedra calc�ria que seria transformado no corpo foi isolado do leito rochoso circundante. Os construtores haviam conseguido isso escavando uma vala de 5,5m de largura por 75m de profundidade em volta de toda a pe�a, criando, dessa maneira, um mon�lito isolado. A primeira e duradoura impress�o produzida pela Esfinge e pelo espa�o que a cerca � de velhice, de grande antiguidade - n�o apenas um mero punhado de mil�nios, como a Quarta Dinastia de fara�s, mas vasta, remota e fabulosamente antiga. Era dessa maneira que os antigos eg�pcios de todos os per�odos da hist�ria desse povo consideravam o monumento, que acreditavam guardar "O Lugar Espl�ndido do Come�o de Todo o Tempo" e que reverenciavam como o ponto focal de "um grande poder m�gico que se estende por toda regi�o". Esta, como j� vimos, � a mensagem geral da Estela do Invent�rio. Ou, para ser mais espec�fico, � tamb�m a mensagem da "Estela da Esfinge", a� erigida por volta do ano 1400 a.C. por Tutm�sis IV; um fara� da 18�. Dinastia. Ainda de p� entre as patas da Esfinge, essa lousa de granito ensina que, antes do reinado de Tutm�sis, a Esfinge esteve enterrada na areia at� o pesco�o. Turm�sis libertou-a, removendo a areia e mandando confeccionar a estela para comemorar essetrabalho. Nos �ltimos 5.000 anos, n�o ocorreram mudan�as importantes de clima no plat� de Giz�. Segue-se, por conseguinte, que durante todo esse per�odo o espa�o em que se encontra a Esfinge esteve t�o sujeito ao avan�o da areia como na �poca em que Tutm�sis mandou remov�-la - e, na verdade, como ainda acontece hoje. A hist�ria recente prova que esse espa�o pode se encher rapidamente, se n�o for cuidado. Em 1818, o capit�o Caviglia mandou retirar a areia para realizar escava��es e, em 1886, quando Gaston Maspero chegou para reinici�-las no s�tio arqueol�gico, foi obrigado, mais uma vez, a mandar remover a areia. Trinta e nove anos depois, em 1925, a areia voltara com plena for�a e a Esfinge estava enterrada at� o pesco�o, quando o Servi�o de Antiguidades do Egito iniciou, mais uma vez, sua limpeza e restaura��o.


Ser� que esse fato sugere que o clima poderia ter sido muito diferente quando foi aberto na rocha o espa�o ora ocupado pela Esfinge? Que sentido faria erigir essa imensa est�tua se seu destino fosse apenas o de ser engolida pelas areias movedi�as da regi�o oriental do Saara? N�o obstante, uma vez que o Saara � um deserto jovem, e desde que a �rea de Giz� em particular era �mida e relativamente f�rtil h� 11.00015.000 anos, n�o valeria a pena estudar um cen�rio inteiramente diferente? N�o ser� poss�vel que o espa�o da Esfinge tenha sido escavado na rocha, naqueles distantes mil�nios verdes, quando a camada superior [ar�vel] do solo ainda estava presa � superf�cie do plat� pelas ra�zes de relva e arbustos e quando o que � hoje um deserto de areia varrida pelo vento lembrava mais as savanas onduladas dos modernos Qu�nia e Tanz�nia? Nessas condi��es clim�ticas favor�veis, a constru��o de um monumento semisubterr�neo como a Esfinge n�o teria ofendido o bom senso. Os construtores n�o teriam raz�o para prever o lento ressecamento e desertifica��o do plat�, que acabariam por acontecer. Ainda assim, ser� vi�vel imaginar que a Esfinge poderia ter sido constru�da quando Giz� ainda estava verde - h� muito, muito tempo? Conforme veremos, embora essasid�ias sejam an�tema para os egipt�logos modernos, eles, ainda assim, s�o obrigados a reconhecer (para citar o Dr. Mark Lehner, diretor do Projeto de Mapeamento de Giz�) que "n�o h� maneira direta de datar a pr�pria Esfinge, porque ela foi esculpida diretamente do material do pr�prio leito rochoso". Na aus�ncia de testes mais objetivos, Lehner lembrou que arque�logos tinham mesmo era que "datar as coisas pelo contexto". E o contexto da Esfinge, isto �, da necr�pole de Giz� - um s�tio arqueol�gico bem conhecido da Quarta Dinastia -, tornava �bvio tamb�m que a Esfinge pertencia � Quarta Dinastia. Tal racioc�nio, por�m, nada tinha de axiom�tico para os ilustres predecessores de Lehner no s�culo XIX, que, em certa ocasi�o, estavam convencidos de que a Esfinge era muito anterior � Quarta Dinastia. De quem � a Esfinge, afinal de contas? No Passing of Empires, publicado em 1900, o ilustre egipt�logo franc�s Gaston Maspero, que realizou um estudo especial do conte�do da Estela da Esfinge, constru�da por Tutm�sis IV; escreveu: A estela da Esfinge cont�m, na linha 13, o cartucho de Khafre em meio a um espa�o vazio. (...) Isso, acredito, � uma indica��o [de uma restaura��o ou limpeza] da Esfinge,


realizada no reinado desse pr�ncipe e, em conseq��ncia. a prova mais ou menos incontest�vel de que a Esfinge j� estava coberta pela areia no tempo de Khufu e de seus predecessores... O igualmente ilustre Auguste Mariette concordou - o que era muito natural, uma vez que fora ele o descobridor da Estela do Invent�rio (que, como vimos, informa, como coisa natural, que a Esfinge j� existia no plat� de Giz� muito antes do tempo de Khufu). De modo geral, concordaram tamb�m com essa opini�o estudiosos como Brugsch (Egypt under the Pharaohs, Londres, 1891), Petrie, Sayce e numerosos outras figuras eminentes do per�odo. Autores de livros de viagens, como John Ward, afirmaram que "a Grande Esfinge deve ser incont�veis anos mais antiga do que as Pir�mides". E em data t�o recente quanto 1904, Wallis Budge, o respeitado curador de Antiguidades Eg�pcias do Museu Brit�nico, n�o hesitou em fazer a afirma��o inequ�voca seguinte: A mais antiga e melhor est�tua de um le�o com cabe�a humana � a famosa "Esfinge" de Giz�. Essa pe�a maravilhosa j� existia nos dias de Khafre, o construtor da Segunda Pir�mide e era, com toda probabilidade, j� muito antiga naquele remoto per�odo... Pensava-se que a Esfinge estava ligada, de alguma maneira, a estrangeiros ou a uma religi�o estrangeira que datava dos tempos pr�-din�sticos. Entre o in�cio e o fim do s�culo XX, contudo, mudaram espetacularmente as opini�es dos egipt�logos sobre a antiguidade da Esfinge. Atualmente, n�o h� um �nico egipt�logo ortodoxo que queira discutir, quanto mais analisar seriamente, a sugest�o maluca e irrespons�vel, outrora muito comum, de que a Esfinge pudesse ter sido constru�da milhares de anos antes do reinado de Khafre. De acordo com o Dr. Sahi Hawass,por exemplo, diretor encarregado de Giz� e Saqqara, da Organiza��o de Antiguidades Eg�pcias, muitas foram as teorias propostas, todas as quais "o vento levou", porque "n�s, egipt�logos, temos s�lida prova para declarar que a Esfinge data do tempo de Khafre". De id�ntica maneira, Carol Redmont, arqu�ologa da Universidade da Calif�rnia, campus de Berkeley, mostrou-se incr�dula quando lhe foi sugerido que a Esfinge poderia ser milhares de anos mais antiga do que Khafre: "N�o h� simplesmente maneira de isso ser verdade. O povo daquela regi�o n�o teria possu�do a tecnologia, as institui��es de governo ou mesmo a vontade de construir uma estrutura desse porte, milhares de anos antes do reinado de Khafre". Quando comecei a pesquisar esse assunto, pensei, como Hawass parecia alegar, que alguma nova e incontroversa prova devia ter surgido e que solucionava a quest�o da


identidade do construtor do monumento. Mas n�o se tratava de nada disso. Na verdade, havia apenas tr�s raz�es contextuais por que a constru��o da an�nima e enigm�tica Esfinge era, nessemomento, atribu�da com tanta confian�a a Khafre: 1. Por causa do cartucho de Khafre, na linha 13 da Estela da Esfinge, mandada erigir por Tutm�sis IV: Maspero dava uma explica��o absolutamente perfeita para a presen�a desse cartucho: Tutm�sis fora o restaurador da Esfinge e prestava homenagem a uma restaura��o anterior do monumento - efetuada por Khafre, durante a Quarta Dinastia. Essa explica��o, que encerra a implica��o �bvia de que a Esfinge j� devia ser velha no tempo de Khafre, � rejeitada pelos egipt�logos modernos. Com a habitual concord�ncia mental telep�tica, eles concordam agora que Tutm�sis colocou o cartucho na estela para deixar claro que Khafre havia sido o construtor original (e n�o um mero restaurador). Uma vez que s� havia esse�nico cartucho - e desde que haviam desaparecido os textos de ambos os seus lados ao ser escavada a estela, n�o � um tanto prematuro chegar a conclus�es t�o categ�ricas assim? Que ci�ncia � essaque permite que a mera presen�a do cartucho de um fara� da Quarta Dinastia (em uma estela erigida por um fara� da 18�. Dinastia) determine a identifica��o irrefut�vel de um monumento, � parte esse fato, inteiramente an�nimo? Al�m do mais, at� esse cartucho desapareceu por desgaste e n�o p�de ser examinado... 2. Porque o Templo do Vale pr�ximo tamb�m � atribu�do a Khafre: Essaatribui��o de autoria (baseada em est�tuas que podem muito bem ter sido intrusas) �, para dizer o m�nimo, extremamente d�bil. Ainda assim, ela recebeu o apoio irrestrito dos egipt�logos, que, nesse processo, resolveram atribuir tamb�m a Khafre a constru��o da Esfinge (uma vez que ela e o Templo do Vale est�o obviamente ligados). 3. Porque pensam que a face da Esfinge lembra a est�tua intacta de Khafre encontrada em um buraco no Templo do Vale: O que, claro, � uma quest�o de opini�o. Eu nunca encontrei a menor semelhan�a entre as duas faces. Nem, por falar nisso, artistas do Departamento de Pol�cia de Nova York, especialistas em retratos falados, que foram recentemente trazidos para fazer uma compara��o entre a Esfinge e a est�tua (conforme veremos na Parte VII). Tudo bem pesado, portanto, enquanto eu me encontrava olhando do alto para a Esfinge, naquele fim de tarde de 16 de mar�o de 1993, conclu� que o j�ri ainda estava muito longe decerto na quest�o da atribui��o correta de autoria dessemonumento - a Khafre, por um lado, ou aos arquitetos de uma grande civiliza��o ainda n�o identificada da antiguidade pr�-hist�rica, por outro. Pouco importando qual pudesse ser a moda do m�s (ou do s�culo) entre os egipt�logos, inegavelmente ambos os


cen�rios eram plaus�veis. O que se precisava, por conseguinte, era alguma prova inteiramente s�lida e inequ�voca que resolvesse a quest�o de uma maneira ou de outra.

Parte VII O Senhor da Eternidade Egito 2 CAP�TULO 40 H� Ainda Segredos no Egito? Em princ�pios da noite de 26 de novembro de 1922, o arque�logo brit�nico Howard Carter, juntamente com seu patrocinador, lorde Carnarvon, entrou na tumba de um jovem fara� da 18�. Dinastia, que governou o Egito nos anos 1352-43 a.C. O nome desse fara�, que desde ent�o vem ressoando em volta do mundo, era Tutanc�mon. Duas noites depois, no dia 28 de novembro, o "Tesouro" da tumba foi aberto. O local era ocupado por um imenso santu�rio de ouro e dava acesso a outra c�mara, atr�s da primeira. De forma bem estranha, essa c�mara, embora empilhada com um n�mero estonteante de artefatos belos e preciosos, n�o tinha porta: sua entrada era vigiada por uma ef�gie de apar�ncia extraordinariamente viva do deus da morte, An�bis, que tem cabe�a de chacal. Com as orelhas empinadas, o deus estava agachado como um c�o, as patas dianteiras estendidas para a frente, sobre a tampa de um caix�o dourado de madeira, de 1,20m de comprimento, 90cm de altura e 60cm de largura. Museu Eg�pcio, Cairo, dezembro de 1993

Ainda em cima de seu caix�o, mas nesse momento guardado em uma vitrine empoeirada, An�bis prendeu minha aten��o durante um longo e silencioso momento. A ef�gie fora esculpida em madeira, revestida inteiramente de resina preta e em seguida laboriosamente marchetada de ouro, alabastro, calcita, obsidiana e prata -


materiais esses usados com efeito especial nos olhos, que brilhavam vigilantes, transmitindo um senso inquietante de intelig�ncia feroz e concentrada. Simultaneamente, as costelas finamente desenhadas e os m�sculos de apar�ncia flex�vel davam-lhe uma aura de for�a, energia e gra�a controladas. Capturado pelo campo de for�a dessa presen�a misteriosa e poderosa, lembrei-me vividamente dos mitos universais da precess�o dos equin�cios, que eu vinha estudando h� um ano. Figuras caninas entram e saem desses mitos, isso de uma maneira que, as vezes, parece quase intencional em sentido liter�rio. Eu havia come�ado a especular se o simbolismo dos c�es, lobos, chacais, e assim por diante, n�o poderia ter sido empregado deliberadamente por construtores de mitos h� muito desaparecidos para guiar os iniciados, atrav�s de um labirinto de pistas, at� reservat�rios secretos de conhecimentos cient�ficos. Entre esses reservat�rios, eu desconfiava que um deles era o mito de Os�ris. Muito mais do que um mito, ele havia sido dramatizado e representado todos os anos no antigo Egito, sob a forma de uma pe�a de mist�rio - uma cria��o liter�ria "artificial", transmitida aos p�steros como valiosa tradi��o desde tempos pr�-hist�ricos. Essa tradi��o, como vimos na Parte V, continha valores relativos � taxa do movimento de precess�o dos equin�cios, t�o exatos e t�o coerentes que dificilmente se poderia atribu�-los ao mero acaso. Tampouco parecia um acaso que tivesse sido atribu�do ao deus chacal um papel central no drama, servindo como esp�rito guia de Os�ris em sua jornada pelo inferno. Era tentador, igualmente, especular se havia alguma significa��o no fato de que, nos tempos antigos, An�bis era chamado pelos sacerdotes eg�pcios como o "guardi�o" do segredo e dos escritos sagrados. Sob a borda sulcada do caix�o dourado, onde nesse momento se agacha sua ef�gie, foi encontrada uma inscri��o que dizia: "iniciado nos segredos". Tradu��es alternativas do mesmo texto hierogl�fico apresentavam as vers�es seguintes: "aquele que est� prestes a descobrir os segredos" e "guardi�o dos segredos". Mas havia ainda algum segredo a desvendar no Egito? Ap�s mais de um s�culo de intensivas pesquisas arqueol�gicas, poderiam as areias dessaterra antiga ainda guardar outras surpresas? As Estrelas de Bauval e as Pedras de West Em 1993, uma nova e not�vel descoberta sugeriu haver ainda muito mais coisas a descobrir sobre o antigo Egito. A descoberta, al�m disso, n�o coube a algum arque�logo com problemas de astigmatismo, a tentear seu caminho atrav�s da poeira das idades, mas a um estranho ao campo: Robert Bauval, um engenheiro civil belga


com jeito para astronomia, que observou uma correla��o nos c�us que os especialistas jamais haviam notado, tal era a fixa��o deles na terra sob os p�s. O que Bauval viu foi o seguinte: quando as tr�s estrelas do cintur�o da constela��o de �rion cruzavam o meridiano de Giz�, elas n�o ocupavam uma linha inteiramente reta, alta no c�u do sul. As duas estrelas mais baixas, Al Nitak e Al Nilam, formavam uma diagonal perfeita, ao passo que a terceira, Mintaka, aparecia deslocada para a esquerda do observador, isto �, na dire��o leste. De forma muito curiosa (como vimos no Cap�tulo 36) este � exatamente o plano do s�tio arqueol�gico das tr�s enigm�ticas pir�mides do plat� de Giz�. Bauval compreendeu que uma vista a�rea da necr�pole de Giz� mostraria a Grande Pir�mide de Khufu ocupando a posi��o de Al Nitak, a Segunda Pir�mide, de Khafre, a posi��o de Al Nilam, enquanto a Terceira, a de Menkaure, apareceria deslocada para leste da diagonal formada pelas duas outras - completando, dessa maneira, o que parecia inicialmente ser um imenso diagrama das estrelas. Seria isso, na verdade, o que as pir�mides de Giz� representavam? Eu sabia que o trabalho posterior de Bauval, entusiasticamente endossado por matem�ticos e astr�nomos, tinha-lhe confirmado o inspirado palpite. A prova que apresentou (estudada em detalhes no Cap�tulo 49) indicava que as tr�s pir�mides constitu�am um mapa terrestre inacreditavelmente exato das tr�s estrelas do cintur�o de �rion, refletindo, com precis�o, os �ngulos entre cada uma delas e mesmo (mediante seus respectivos tamanhos) proporcionando alguma indica��o de suas magnitudes individuais. Al�m do mais, esse mapa estendia-se nas dire��es norte e sul para abranger v�rias outras estruturas do plat� de Giz� mais uma vez, com precis�o impec�vel. N�o obstante, a verdadeira surpresa revelada pelos c�lculos astron�micos de Bauval foi a seguinte: a despeito do fato de que alguns aspectos da grande Pir�mide relacionam-se, na verdade, com a Era das Pir�mides, os monumentos de Giz�, como um todo, foram dispostos para proporcionar um mapa do c�u (que muda de apar�ncia atrav�s das idades como resultado da precess�o dos equin�cios) n�o como era ao tempo da Quarta Dinastia, por volta do ano 2500 a.C., mas como havia parecido - e apenas como havia parecido - por volta do ano 10450a.C. Eu viera ao Egito para percorrer o s�tio arqueol�gico de Giz� em companhia de Robert Bauval e para lhe fazer perguntas sobre sua teoria de correla��o estelar. Al�m disso, queria conhecer-lhe as opini�es sobre que tipo de sociedade humana, se ela de fato existiu, poderia ter o know how tecnol�gico necess�rio, em �poca t�o remota no passado, para medir acuradamente as altitudes das estrelas e tra�ar um plano t�o matem�tico e ambicioso como o da necr�pole de Giz�.


E viera tamb�m encontrar outro pesquisador que contestou a cronologia ortodoxa do antigo Egito, com a alega��o, bem fundamentada, de ter encontrado prova robusta da exist�ncia de uma civiliza��o avan�ada no Vale do Nilo no ano 10000 a.C., ou mesmo antes. Tal como os dados astron�micos de Bauval, a prova estivera � disposi��o de todos, mas n�o conseguira atrair a aten��o de egipt�logos ortodoxos. O homem respons�vel por coloc�-la � vista do p�blico era um estudioso americano, John Anthony West, que argumentou que os especialistas a haviam ignorado - n�o porque n�o a tivessem encontrado, mas porque a encontraram mas n�o conseguiram interpret�-la corretamente. A prova de West focalizava certas estruturas importantes, notadamente a Grande Esfinge e o Templo do Vale, em Giz�, e, muito distante ao sul, o misterioso Osireion, em Abidos. Argumentou ele que essesmonumentos no deserto apresentam numerosos sinais cientificamente inconfund�veis de terem sofrido intemperismo de �gua, um agente erosivo ao qual poderiam ter sido expostos em quantidades suficientes apenas durante o per�odo "pluvial" �mido que acompanhara o fim da �ltima Era Glacial, por volta do und�cimo mil�nio a.C. A implica��o desse padr�o peculiar e extraordinariamente caracter�stico de intemperismo por "precipita��o induzida" era que o Osireion, a Esfinge e outras estruturas associadas tinham sido constru�das antes do ano 10000a.C. Um jornalista investigativo brit�nico resumiu o efeito nas seguintes palavras: West �, realmente, o pior pesadelo que pode acontecer a um acad�mico, porque l� vem algu�m inteiramente estranho ao campo, com uma teoria bem-elaborada, bemapresentada, coerentemente descrita, cheia de dados que ele n�o pode refutar e que lhe puxa o tapete sob os p�s. Se assim, como � que ele enfrenta a situa��o? Ignora-a. Alimenta a esperan�a de que ela desapare�a... e ela n�o desaparece. A raz�o por que a nova teoria n�o desaparecia, em nenhuma circunst�ncia, a despeito de ter sido repelida por dezenas de "competentes egipt�logos", era que ela recebera apoio geral de outro ramo das ci�ncias - a geologia. O Dr. Robert Schoch, professor de geologia da Universidade de Boston, desempenhou um papel importante na valida��o das estimativas de West sobre a verdadeira idade da Esfinge, tendo suas opini�es sido endossadas por quase 300 de seus colegas na conven��o anual de 1992, da Sociedade Geol�gica da Am�rica. Desde ent�o, quase sempre travada na penumbra, uma acrimoniosa discuss�o come�ou a queimar entre ge�logos e egipt�logos. E embora poucas pessoasal�m de John West estivessem dispostas a dizer isso, o que estava em jogo nessa discuss�o era uma reviravolta completa nas id�ias aceitas sobre a evolu��o da civiliza��o humana.


Diz West: Disseram-nos que a evolu��o da civiliza��o humana � um processo linear que ocorreu dos broncos homens das cavernas para n�s, os espertos, com nossas bombas de hidrog�nio e pasta de dente listrada. Mas a prova de que a Esfinge � muitos, muitos milhares de anos mais velha do que pensam os arque�logos, que precedeu em muitos milhares de anos at� o Egito din�stico, significa que certamente existiu, em algum ponto distante da hist�ria, uma civiliza��o avan�ada e sofisticada - como afirmam todas as lendas. Minhas pr�prias viagens e pesquisas nos quatro anos anteriores haviam aberto meus olhos para a possibilidade eletrizante de que essaslendas pudessem ser verdadeiras e este era o motivo por que eu voltava ao Egito para me encontrar com West e Bauval. Eu estava impressionado com a maneira como suaslinhas de pesquisa, at� ent�o muito separadas, haviam convergido de modo t�o convincente, no que pareciam ser as impress�es digitais astron�micas e geol�gicas de uma civiliza��o perdida, uma civiliza��o que poderia ou n�o ter surgido no Vale do Nilo, mas que parecia j� ter existido em �poca t�o remota quando o und�cimo mil�nio a.C. O Caminho do Chacal An�bis, guardi�o dos segredos, deus da c�mara funer�ria, divindade de cabe�a de chacal, desbravadora dos caminhos dos mortos, guia e companheiro de Os�ris... Eram 5h da tarde, tempo de encerramento do expediente no Museu do Cairo, quando Santha disse que estava satisfeita com as fotos que havia tirado da sinistra ef�gie negra. No andar inferior, guardas usavam seus apitos e batiam palmas, enquanto procuravam tanger para fora dos sal�es os �ltimos visitantes, embora, no segundo andar do pr�dio de cem anos, onde o antigo An�bis se agachava em sua vigil�ncia eterna, tudo estivesseem sil�ncio, im�vel. Deixamos o sombrio museu e sa�mos para a luz do sol, que ainda banhava a movimentada pra�a Tahrir, no Cairo. An�bis, refleti, compartilhara seus deveres como esp�rito guia e guardi�o dos textos sagrados com outro deus, cujo s�mbolo e tipo haviam sido tamb�m o chacal e cujo nome, Upuaut, literalmente significa Desbravador de Caminhos. Ambas as divindades caninas estiveram ligadas desde tempos imemoriais com a cidade antiga de Abidos, no alto Egito, cujo deus original, Khenti-Amentiu (o estranhamente denominado "O Maior dos Ocidentais") havia sido representado tamb�m como membro da fam�lia dos c�es, geralmente deitado sobre uma coluna preta.


Haveria alguma import�ncia no reaparecimento constante em Abidos de todas essas refer�ncias m�ticas e simb�licas a c�es, com a promessa de segredos vitais prestes a ser revelados? Valia a pena tentar descobrir, uma vez que as extensas ru�nas existentes nesse local inclu�am a estrutura conhecida como Osireion, que a pesquisa geol�gica de West indicava que poderia ser muito mais antiga do que pensavam os arque�logos. Al�m disso, eu j� havia combinado me encontrar com West dentro de alguns dias na cidade de L�xor, no alto Nilo, a menos de 200km ao sul de Abidos. Em vez de voar diretamente do Cairo para L�xor, como pensara inicialmente fazer, compreendi nessemomento que seria inteiramente vi�vel ir por estrada de rodagem e visitar Abidos e v�rios outros s�tios arqueol�gicos ao longo do caminho. Nosso motorista, Mohamed Walili, esperava-nos em um estacionamento subterr�neo nas vizinhan�as da pra�a Tahrir. Homem idoso, grandalh�o, alegre, ele era dono de um escalavrado t�xi Peugeot, do tipo que geralmente faz ponto no lado de fora do hotel Mena House, em Giz�. Nos �ltimos anos, em nossas freq�entes viagens de pesquisa ao Cairo, hav�amos feito amizade com ele e, nesse momento, Walili era nosso motorista oficial sempre que visit�vamos o Egito. Pechinchamos durante algum tempo sobre a di�ria apropriada para a longa viagem de ida e volta a Abidos e L�xor. Numerosas quest�es precisavam ser levadas em conta, incluindo o fato de que algumas �reas pelas quais passar�amos haviam sofrido recentemente ataques terroristas de militantes isl�micos. No fim, concordamos sobre o pre�o e combinamos partir bem cedo na manh� seguinte. CAP�TULO 41 A Cidade do Sol, a C�mara do Chacal Mohamed veio nos buscar no hotel, em Heli�polis, �s 6h da manh�, quando ainda estava meio escuro. Tomamos pequenas x�caras de caf� preto em uma barraca � beira da estrada e, em seguida, partimos para oeste, ao longo de estradas de terra ainda quase desertas, na dire��o do rio Nilo. Pedi a Mohamed que passasse pela pra�a Maydan al-Massalah, dominada por um obelisco eg�pcio intacto que � um dos mais antigos do mundo. Pesando estimadas 170 toneladas, o obelisco de granito vermelho, de 51m de altura, foi mandado construir pelo fara� Senuseret I (nos anos 1971-1928 a.C.) Originariamente, era parte de um par de obeliscos � porta do grande Templo do Sol, onde havia um culto a esse astro. Nos 4.000 anos transcorridos, o pr�prio templo desaparecera por completo, como tamb�m o segundo obelisco. Na verdade, quase toda a antiga Heli�polis estava nesse momento obliterada, canibalizada para obten��o de


suas belas pedras trabalhadas e de material de constru��o, pronto para uso, por incont�veis gera��esde moradores do Cairo. Heli�polis (Cidade do Sol) mencionada na B�blia como On, fora originariamente conhecida na l�ngua eg�pcia como Innu, ou Innu Mehret - que significa "o pilar" ou "o pilar norte". Trata-se de uma zona de grande santidade, ligada a um estranho grupo de nove divindades solares e estelares e j� era antiq��ssima quando Senuseret escolheu aquele local para mandar erigir seu obelisco. Na verdade, juntamente com Giz� (e a distante cidade meridional de Abidos) acredita-se que Innu/Heli�polis havia sido parte da primeira terra a emergir das �guas primevas no momento da cria��o, a terra dos "Primeiros Tempos", onde os deusestinham iniciado seu reinado na terra. A teologia de Heli�polis baseava-se em um mito de cria��o caracterizado por certo n�mero de aspectos �nicos e curiosos. Ensinava ele que, no in�cio, o universo era apenas um nada escuro, aquoso, denominado Nun. Nesse oceano c�smico inerte (descrito como "informe, escuro com a escurid�o da noite mais escura") surgiu um monte de terra seca, sobre o qual R�, o Deus-Sol, materializou-se em sua forma autocriada como Atum (�s vezes descrito como um velho barbado, apoiado em um cajado): O c�u n�o havia sido criado, a terra n�o havia sido criada, os filhos da terra e os r�pteis n�o haviam sido formados naquele lugar... Eu, Atum, criei a mim mesmo... N�o existia ningu�m para trabalhar comigo... Consciente de estar sozinho, esse ser santo e imortal deu um jeito de criar dois filhos divinos, Shu, o deus do ar e da secura, e Tefnut, a deusa da umidade: "Enfiei meu falo em minha m�o fechada. Fiz minha semente entrar em minha m�o. Coloquei-a em minha pr�pria boca. Evacuei sob a forma de Shu e urinei sob a forma de Tefnut". A despeito dessas origens aparentemente inauspiciosas, Shu e Tefnut (sempre descritos como "G�meos" e freq�entemente representados como le�es) cresceram e se tornaram adultos, copularam e geraram uma prole pr�pria: Geb, o deus da terra, e Nut, a deusa do c�u. Estes dois coabitaram tamb�m, gerando Os�ris e �sis, Set e Nepthys e, dessa maneira, completaram a En�ade, o grupo completo dos Nove Deuses de Heli�polis. Entre os nove, diziam as lendas que R�, Shu, Geb e Os�ris governaram o Egito como reis, seguidos por H�rus e, finalmente durante 3.226 anos - pelo deus da sabedoria, Thoth, que tinha cabe�ade �bis. Quem eram essas pessoas - criaturas, seres ou deuses? Teriam sido cria��es da imagina��o de sacerdotes, s�mbolos ou n�meros? As hist�rias contadas sobre eles teriam sido recorda��es m�ticas v�vidas de fatos reais, que haviam ocorrido milhares de anos antes? Ou teriam sido, talvez, parte de uma mensagem codificada dos antigos,


que fora se transmitindo por si mesma, repetidamente, ao longo das �pocas - uma mensagem que s� agora come�a a ser desvendada e compreendida? Essas id�ias parecem fantasiosas. Ainda assim, eu dificilmente podia esquecer que dessa mesma tradi��o surgira o grande mito de �sis e Os�ris, transmitindo secretamente um c�lculo preciso da taxa do movimento da precess�o dos equin�cios. Al�m do mais, os sacerdotes de Innu, que tinham a responsabilidade de guardar e alimentar essastradi��es, haviam sido famosos em todo o Egito por sua alta sabedoria e profici�ncia em profecia, astronomia, matem�tica, arquitetura e artes m�gicas. E renomados tamb�m pela posse de um objeto poderoso e sagrado conhecido como o Benben. Os eg�pcios davam a Heli�polis o nome de Innu, o pilar, porque a tradi��o dizia que o Benben havia sido conservado ali nos remotos tempos pr�-din�sticos, onde se equilibrava sobre o alto de um pilar de pedra toscamente cortada. Acreditava-se que o Benben tinha ca�do dos c�us. Infelizmente, havia se perdido h� tanto tempo que ningu�m se lembrava mais de sua apar�ncia quando Senuseret subiu ao trono em 1971 a.C. Nesseper�odo (12�. Dinastia) tudo de que havia clara lembran�a era que o Benben tivera forma piramidal, fornecendo dessamaneira (juntamente com o pilar onde se equilibrava) um prot�tipo para a forma de todos os obeliscos futuros. O nome Benben era tamb�m aplicado ao piramidi�o, ou capitel, geralmente colocado no cume das pir�mides. Em sentido simb�lico, estava tamb�m estreita e diretamente associado a R�-Atum, sobre o qual diziam textos antigos: "Vieste alto das alturas; subiste alto, como a pedra Benben na Mans�o da F�nix..." A Mans�o da F�nix era o nome do primeiro templo de Heli�polis onde Benben fora conservado. O nome refletia o fato de que o misterioso objeto tinha servido tamb�m como duradouro s�mbolo da m�tica F�nix, a divina ave Bennu, cujos surgimentos e desaparecimentos, segundo se acreditava, estavam ligados a violentos ciclos c�smicos e � destrui��o e renascimento das eras no mundo. Liga��es e Similaridades Rodando pelos sub�rbios de Heli�polis por volta de 6h30m da manh�, fechei os olhos e tentei conjurar um quadro da paisagem, como deveria ter sido nos Primeiros Tempos m�ticos, depois que a Ilha da Cria��o - o primordial monte de R�-Atum - surgira do dil�vio de Nun. Era tentador ver uma liga��o entre essaimag�stica e tradi��es andinas que falam do deus civilizador Viracocha emergindo das �guas do lago Titicaca, ap�s um dil�vio que destruiu a terra. Al�m do mais, havia a figura de Os�ris para levar em conta - uma figura conspicuamente barbuda, tal como Viracocha e, tamb�m,


Quetzalcoatl -, que era lembrado por ter abolido o canibalismo entre os eg�pcios, por lhes ter ensinado a agricultura e a cria��o de animais e lhes dado os rudimentos de artes tais como a escrita, a arquitetura e a m�sica. Era dif�cil deixar de notar as similaridades entre as tradi��es do Velho e Novo Mundo, por�m, mais dif�cil ainda, interpret�-las. Era poss�vel que fossem apenas uma s�rie de coincid�ncias enganosas. Por outro lado, era tamb�m poss�vel que pudessem revelar as impress�esdigitais de uma civiliza��o global antiga e n�o identificada - impress�es digitais que eram essencialmente as mesmas, quer aparecessem nos mitos da Am�rica Central, nos altos Andes, ou no Egito. Os sacerdotes de Heli�polis, afinal de contas, haviam ensinado como acontecera a cria��o, mas quem lhes ensinara isso? Teria o mito surgido do nada ou seria mais prov�vel que a doutrina que ensinavam, com todo seu simbolismo complexo, fosse produto de um longo refinamento de id�ias religiosas? Seassim, quando e onde haviam surgido essasid�ias? Abri os olhos e descobri que hav�amos deixado Heli�polis para tr�s e que costur�vamos nosso caminho atrav�s das ruas barulhentas e congestionadas do centro do Cairo. Chegamos � outra margem do Nilo, cruzando a ponte Seis de Outubro e, logo em seguida, entramos em Giz�. Quinze minutos depois, passando pelo volume maci�o da Grande Pir�mide � nossa direita, viramos para o sul e tomamos a estrada para o alto Egito, uma estrada que segue o curso meridional do rio mais longo do mundo, atrav�s de uma paisagem de palmeiras e campos verdes, orlada pelas terras �ridas invasoras de desertos implac�veis. As id�ias dos sacerdotes de Heli�polis haviam influenciado todos os aspectos da vida secular e religiosa do antigo Egito, mas teriam essasid�ias se desenvolvido localmente ou haviam sido introduzidas no Vale do Nilo procedentes de outras paragens? As tradi��es eg�pcias fornecem uma resposta inequ�voca a perguntas como essas. Toda sabedoria de Heli�polis era uma heran�a, dizia ela, e essa heran�a fora passada � humanidade pelos deuses. D�diva dos Deuses? Cerca de 15km ao sul da Grande Pir�mide, sa�mos da estrada principal para visitar a necr�pole de Saqqara. Erguendo-se � margem do deserto, o s�tio arqueol�gico � dominado por um zigurate em seis camadas, a pir�mide escalonada de Z�ser, fara� da Terceira Dinastia. Essemonumento imponente, de quase60m de altura, � datado como tendo sido de aproximadamente 2650 a.C. Situa-se no interior de um espa�o pr�prio, cercado por uma elegante muralha fechada e � considerado por arque�logos como a


mais antiga constru��o maci�a de pedra jamais tentada pela humanidade. Diz a tradi��o que teve como arquiteto o lend�rio Imhotep, "Grande da Magia", um alto sacerdote de Heli�polis cujos outros t�tulos inclu�am S�bio, Feiticeiro, Astr�nomo e M�dico.

Em um cap�tulo posterior, teremos mais coisas a dizer sobre a pir�mide escalonada e seu construtor. Nesta ocasi�o, por�m, eu n�o tinha vindo a Saqqara para v�-Ia. Meu �nico objetivo era passar alguns momentos na c�mara funer�ria de uma pir�mide pr�xima, a de Unas, um fara� da Quinta Dinastia, que reinara de 2356 a 2323 a.C. As paredes dessa c�mara, que eu visitara numerosas vezes antes, continham inscri��es,


do ch�o ao teto, com o mais antigo dos Textos da Pir�mide, um conjunto de inscri��es hierogl�ficas dando voz a um conjunto de id�ias not�veis - em agudo contraste com os interiores mudos e despojados das pir�mides da Quarta Dinastia, em Giz�. Fen�meno exclusivo da Quinta e Sexta Dinastias (2465-2151 a.C.), os Textos da Pir�mide s�o escrituras sagradas, parte das quais pensa-se que foi escrita por sacerdotes de Heli�polis no terceiro mil�nio a.C., e partes que eles teriam recebido de tempos pr�-din�sticos e que passaram aos p�steros. E eram essas partes dos Textos, datando de uma antiguidade remota e impenetr�vel, que haviam me despertado a maior curiosidade quando come�ara a pesquis�-los alguns meses antes. Eu havia tamb�m achado divertida - e um pouco dif�cil de entender - a maneira como parecia que arque�logos franceses do s�culo XIX tinham sido quase que dirigidos para a c�mara oculta dos Textos da Pir�mide por um mitol�gico "desbravador de caminhos". De acordo com relatos razoavelmente bem documentados, um capataz eg�pcio de escava��esque vinham sendo feitas em Saqqara, acordou e levantou-se certa manh� e, quando deu por si, estava junto de uma pir�mide arruinada, olhando para os brilhantes olhos cor de �mbar de um chacal do deserto: Era como se o animal estivesse escarnecendo de seu observador humano... e convidando o confuso indiv�duo a ca��-lo. Lentamente, o chacal dirigiu-se para a face norte da pir�mide, parando por um momento antes de desaparecer em um buraco. O confuso �rabe resolveu seguir a indica��o. Ap�s esgueirar-se pelo apertado buraco, descobriu que estava rastejando para as escuras entranhas da pir�mide. Logo em seguida, emergiu no interior de uma c�mara e, erguendo uma luz, viu que as paredes estavam cobertas de cima a baixo de inscri��es hierogl�ficas, que haviam sido cortadas com refinada arte artesanal na pedra calc�ria s�lida e pintadas em turquesa e dourado. Hoje, a c�mara forrada de hier�glifos no interior da pir�mide arruinada de Unas � ainda alcan�ada atrav�s da face norte e da longa passagem em declive escavada pela equipe francesa, logo depois da surpreendente descoberta do capataz. A c�mara consiste de duas salas retangulares separadas por uma divis�ria, na qual h� uma porta baixa. Ambas as salas s�o cobertas por um teto em cumeeira, pintado com uma mir�ade de estrelas. Emergindo encurvado pela passagem apertada, Santha e eu entramos na primeira das duas salas e cruzamos a porta de liga��o para a segunda. Esta era a c�mara da tumba propriamente dita, com o maci�o sarc�fago de granito negro de Unas na extremidade oeste e os estranhos pronunciamentos dos Textos da Pir�mide fazendo-se ouvir em todas as paredes.


Falando-nos diretamente (e n�o atrav�s de enigmas e f�rmulas m�gicas matem�ticas, como as paredes despojadas da Grande Pir�mide), o que era que diziam esses hier�glifos? Eu sabia que a resposta depende, at� certo ponto, da tradu��o que usamos, principalmente porque a linguagem dos Textos da Pir�mide cont�m tantas formas arcaicas e tantas alus�es mitol�gicas estranhas que os estudiosos foram obrigados a preencher com palpites os claros em seus conhecimentos. N�o obstante, aceita-se em geral que o falecido R.O. Faulkner, professor de l�ngua eg�pcia antiga do University College, de Londres, produziu a vers�o mais autorizada. Faulkner, cuja tradu��o estudei linha ap�s linha, descreveu os textos como constituindo "o mais antigo corpus de literatura religiosa e funer�ria eg�pcia ora existente", e acrescentou que "formam a menos corrompida de todas essascolet�neas e revestem-se de import�ncia fundamental para o estudante da religi�o eg�pcia (...)". A raz�o porque os textos s�o t�o importantes (como concordam numerosos estudiosos) � que constituem o �ltimo canal inteiramente aberto, ligando o per�odo relativamente curto do passado de que a humanidade se recorda, com o per�odo muito mais longo que foi esquecido: "Eles nos desvendam vagamente um mundo desaparecido de pensamento e fala, o �ltimo de eras incont�veis, atrav�s das quais o homem pr�hist�rico passou, at� que, finalmente, (...) ingressou na era hist�rica". � dif�cil discordar de sentimentos como os seguintes: os textos revelam, de fato, um mundo desaparecido. Mas o que me intrigava mais a respeito desse mundo era a possibilidade de que pudesse ter sido habitado n�o s� por selvagens primitivos (o que seria de esperar na pr�-hist�ria remota), mas por homens e mulheres de mentes iluminadas por conhecimento cient�fico do cosmo. O quadro geral, no entanto, era equ�voco: havia elementos autenticamente primitivos nos Textos da Pir�mide, lado a lado com seq��ncias mais esclarecidas de id�ias. N�o obstante, em todas as ocasi�es em que eu me aprofundava naquilo que os egipt�logos chamam de "esses antigos sortil�gios", ficava impressionado com os estranhos vislumbres que eles pareciam dar de uma alta intelig�ncia em a��o, projetando-se de tr�s de n�veis de incompreens�o, relatando experi�ncias que o "homem pr�-hist�rico" jamais poderia ter tido e manifestando id�ias que ele jamais teria podido formular. Em suma, o efeito produzido pelos textos, atrav�s de hier�glifos, era semelhante ao efeito obtido pela Grande Pir�mide atrav�s da arquitetura. Em ambos os casos, a impress�o dominante era de grande antiguidade - de processos tecnol�gicos avan�ados, usados ou descritos em um per�odo na hist�ria humana em que supostamente n�o havia qualquer tipo de tecnologia... CAP�TULO 42


Eras Passadas e Enigmas Olhei em volta da c�mara de paredes cinzentas da pir�mide de Unas, correndo a vista para cima e para baixo das longas carreiras de hier�glifos, nas quais haviam sido gravados os Textos da Pir�mide. Gravados, ali�s, em uma l�ngua morta. N�o obstante, a afirma��o constante, repetida uma vez ap�s outra nessascomposi��es antigas, era a de vida - vida eterna - que seria obtida atrav�s do renascimento do fara�, como estrela, na constela��o de �rion. Como o leitor deve recordar-se pelo que leu no Cap�tulo 19 (onde comparamos as cren�as eg�pcias com as do M�xico antigo), conhecemos v�rios pronunciamentos que manifestavam explicitamente tal aspira��o: �, Rei, tu �s a Grande Estrela, o Companheiro de �rion, aquele que cruza os c�us com �rion... Subiste do leste do c�u, sendo renovado na devida esta��o e rejuvenescido no devido tempo... Embora inegavelmente belos, nada havia de inerentemente extraordin�rio nesses sentimentos e n�o era em absoluto imposs�vel atribu�-los a um povo considerado pelo arque�logo franc�s Gaston Maspero como tendo "permanecido sempre meio selvagem". Al�m do mais, desde que Maspero fora o primeiro egipt�logo a penetrar na pir�mide de Unas, e havia sido considerado uma grande autoridade nos textos, dificilmente deveria surpreender que sua opini�o tivesse inspirado todas as rea��es acad�micas a tal literatura, desde que ele come�ou a publicar tradu��es da mesma na d�cada de 1880. Maspero, com a pequena ajuda de um chacal, dera ao mundo os Textos da Pir�mide. Da� em diante, o dom�nio de seus preconceitos sobre o passado funcionou como um filtro para o conhecimento, inibindo interpreta��es diferentes das declara��es mais opacas ou enigm�ticas. Para mim, isso foi, para dizer o m�nimo, uma infelicidade. O que isso significava era que, a despeito dos enigmas t�cnicos e cient�ficos configurados por monumentos como a Grande Pir�mide de Giz�, os estudiosos ignoraram as implica��esde algumas passagensnot�veis dos textos. Essestrechos pareciam, suspeitosamente, tentativas de expressar imag�stica t�cnica e cient�fica complexa em uma linguagem inteiramente impr�pria. Talvez fosse coincid�ncia, mas o resultado lembrava aquilo que poder�amos esperar hoje, se tent�ssemos traduzir a Teoria da Relatividade, de Einstein, para o ingl�s chauceriano ou descrever um avi�o supers�nico em um vocabul�rio derivado da Alta Idade M�dia alem�. Imagens Deformadas de uma Tecnologia Perdida?


Vejam, por exemplo, o equipamento e ajudas peculiares que o fara� deveria usar quando viajassepara seu local de repouso eterno entre as estrelas: Osdeusesque est�o no c�u vieram a ti, os deusesque est�o na terra se reuniram por ti, eles colocam as m�os sob teu corpo, fazem uma escada para ti, para que por ela subas ao c�u, as portas do c�u se escancaram para ti, as portas do firmamento estrelado se abrem inteiramente para ti. O fara� que subia aos c�us era identificado, e freq�entemente chamado, de "um Os�ris". O pr�prio Os�ris, como vimos acima, era muitas vezes ligado e associado � constela��o de �rion. Diziam os antigos eg�pcios que Os�ris-�rion fora o primeiro a subir a grande escada constru�da pelos deuses. E v�rias frases n�o deixam d�vida de que essa escada n�o se estendia para cima, da terra para o c�u, mas tamb�m para baixo, do c�u para a terra. Ela era descrita como uma escada de corda e a cren�a era de que pendia de um "prato de ferro" suspenso no c�u. Estar�amos lidando aqui, perguntei a mim mesmo, simplesmente com os produtos da imagina��o de sacerdotes semi-selvagens? Ou poderia haver alguma explica��o para refer�ncias como essas? Na Declara��o 261, encontramos: "O rei � uma chama, movendo-se � frente do vento at� os confins do c�u e os confins da terra (...) O rei viaja no ar e cruza a terra (...) A ele foi concedido um meio de subir ao c�u..." Passando para o di�logo, a Declara��o 310 proclama: "Oh, tu, cuja vis�o est� em tua face e cuja vis�o est� na parte de tr�s de tua cabe�a, traze isso para mim!" "Que barca te ser� trazida?" "Traze-a para mim: 'Ela voa e pousa." A Declara��o 332, supostamente de autoria do pr�prio rei, confidenciava: "Eu sou aquele que escapou da serpente enroscada, eu ascendi em uma explos�o de fogo, tendo me transformado inteiramente. Osdois c�us v�m a mim." Na Declara��o 669, uma pergunta � feita: "Com que meios pode o rei ser levado a voar?" E uma resposta � dada: "A ti ser� trazido a barca-Hnw [palavra em it�lico, intraduz�vel] e... [falta de texto] da ave-hn [palavra em it�lico, intraduz�vel]. Com isso, voar�s. Voar�s alto e leve." Outros trechos, ao que parece, mereciam um exame mais cuidadoso do que o recebido dos estudiosos. Vejamos alguns exemplos:


�, meu pai, grande Rei, a fresta da janela do c�u est� aberta para ti. A porta do c�u no horizonte abre-se para ti, os deusesest�o felizes por te receber... Que possas sentar nesse trono de ferro que � teu, como o Supremo que est� em Heli�polis. �, Rei, que possasascender... O c�u cambaleia com tua presen�a, a terra treme diante de ti, as Estrelas Imperec�veis te temem. A ti eu vim, � ser cujos tronos est�o ocultos, que eu possate abra�ar no c�u... A terra fala, o port�o do deus da terra est� aberto, as portas de Geb est�o abertas para ti (...) Que possassubir para o c�u em teu trono de ferro. �, meu pai, � Rei, tal � o teu caminho quando tiveres ido embora como um deus, viajando como um ser celestial (...) Tu te levantas nos Conclaves do horizonte (...) E te sentas neste trono de ferro, ante o qual os deusesse maravilham... As refer�ncias constantes a ferro, embora f�ceis de passar despercebidas, eram estranhas. O ferro, eu sabia, fora um metal raro no Egito antigo, sobretudo na Era das Pir�mides, quando, supostamente, s� era encontrado em forma de meteoritos. Ainda assim, nos Textos da Pir�mide, parecia n�o haver car�ncia de riqueza em ferro: pratos de ferro no c�u, tronos de ferro e, em outro trecho, um cetro de ferro (Declara��o 665C)e mesmo ossosde ferro para o rei (Declara��es325,684e 723). Na l�ngua do antigo Egito, o ferro era conhecido como bja, palavra que significa literalmente "metal do c�u" ou "metal divino". O conhecimento do ferro, portanto, era considerado como outra d�diva dos deuses... Reposit�rios de uma Ci�ncia Perdida? Que outras impress�es digitais esses deuses poderiam ter deixado nos Textos da Pir�mide? Em minhas leituras - aqui e ali entre as mais arcaicas das Declara��es -, eu encontrara v�rias met�foras que aparentemente se referiam � passagem de �pocas em que haviam ocorrido precess�es de equin�cios. Essas met�foras se destacavam no texto porque eram fraseadas no que se tornara uma terminologia clara e conhecida para mim: a da linguagem cient�fica arcaica identificada por Santillana e Von Dechend no Hamlet's Mill.


O leitor talvez se lembre que um "diagrama" c�smico dos quatro suportes do c�u constitu�a um dos instrumentos de pensamento padr�o empregado na linguagem antiga. Tinha por finalidade facilitar a visualiza��o de quatro faixas imagin�rias, concebidas como emoldurando, sustentando e definindo uma era mundial precessional. Sendo o que astr�nomos designam hoje como "coluros equinociais e solsticiais", elas eram vistas como descendo em espiral do p�lo Norte celeste e marcando as quatro constela��es contra o pano de fundo das quais, em per�odos de 2.160 anos de cada vez, o sol se levantaria invariavelmente nos equin�cios de primavera e outono e nos solst�cios de inverno e ver�o. Aparentemente, os Textos da Pir�mide cont�m v�rias vers�es desse diagrama. Al�m do mais, como freq�entemente acontece com mitos pr�-hist�ricos que transmitem dados astron�micos irrefut�veis, o simbolismo da precess�o � fortemente entrela�ado com imagens violentas de destrui��o terrestre - como que para sugerir que a "quebra do moinho do c�u", isto �, a transi��o a cada 2.160 anos de uma era zodiacal para outra, poderia, em circunst�ncias agourentas, desencadear influ�ncias catastr�ficas sobre eventos terrestres. O texto, por exemplo, dizia que R�-Atun, o deus que criou a si mesmo, foi inicialmente o rei dos deusese dos homens. A humanidade, por�m, conspirou contra sua soberania, pois ele come�ava a envelhecer, seus ossos se tornavam de prata, sua carne de ouro e seus cabelos ficavam [como] l�pis-Iaz�li. Quando compreendeu o que estava acontecendo, o idoso Deus do Sol (que lembra tanto Tonatiuh, o sanguin�rio Quinto Sol dos Astecas), resolveu que puniria os rebeldes, exterminando a maior parte da ra�a humana. O instrumento da calamidade que desencadeou foi simbolizado, em certas �pocas, como uma leoa furiosa, chapinhando em sangue, e, em outras, como a aterradora deusa Sekhmet, de cabe�ade le�o, "que expelia fogo" e acabou com a humanidade em um �xtase de mortic�nio. A destrui��o terr�vel prosseguiu sem pausa durante um longo per�odo. Finalmente, R� interveio para salvar a vida de um "resto", os ancestrais da atual humanidade. A interven��o tomou a forma de um dil�vio, que a leoa, sedenta, bebeu e em seguida caiu no sono. Ao acordar, n�o estava mais interessada em continuar com a destrui��o e a paz desceu sobre o mundo devastado. Entrementes, R� decidiu "retirar-se" do que sobrara de sua cria��o. "Enquanto vivo, meu cora��o est� cansado de permanecer com a Humanidade. Exterminei-a [quase] at� o �ltimo homem, de modo que o resto [insignificante] n�o � assunto meu..." Em seguida, o Rei Sol subiu para o c�u montado nas costas da deusa Nut que (para as finalidades da met�fora sobre a precess�o que estava por vir) se transformou em uma vaca. Antes de muito tempo - em uma estreita analogia com "o mancal do eixo" que


"tremeu" no moinho de Amlodhi, que girava furiosamente -, a vaca "ficou tonta e come�ou a sacudir-se e a tremer, porque estava muito acima da terra". Quando se queixou a R� sobre esse prec�rio estado de coisas, ele ordenou: "Que meu filho Shu fique embaixo de Nut para montar guarda por mim, enquanto passo pelos suportes celestes - que existem no p�r-do-sol. Coloque-a em cima de sua cabe�a e mantenha-a a�." T�o logo Shu tomou seu lugar embaixo da vaca e lhe equilibrou o corpo, "os c�us acima e a terra embaixo foram criados", No mesmo momento, "as quatro pernas da vaca", como o egipt�logo Wallis Budge comentou em seu cl�ssico estudo, The Gods of the Egyptians, "transformaram-se nos quatro suportes do c�u, nos quatro pontos cardeais". Tal como a maioria dos estudiosos, Budge, compreensivelmente, sup�s que os "pontos cardeais" mencionados nessa antiga tradi��o eg�pcia tinham conota��esestritamente terrestres, e que o "c�u" nada mais representava que o c�u acima de nossas cabe�as. Aceitou como certo que o objetivo da met�fora era que visualiz�ssemos as quatro pernas da vaca como posicionadas nos quatro pontos cardeais da b�ssola - norte, sul, leste e oeste. Pensou tamb�m - e, mesmo hoje, poucos egipt�logos discordariam dele que os simpl�rios sacerdotes de Heli�polis haviam realmente acreditado que o c�u tinha quatro cantos, que eram sustentados por quatro pernas, e que Shu, "o sustentador do c�u par excellence", permanecera im�vel como uma pilastra no centro de todo o edif�cio. Reinterpretados � luz das descobertas de Santillana e Von Dechend, contudo, Shu e as quatro pernas da vaca celestial lembram muito mais os componentes de um s�mbolo cient�fico arcaico, que descreve as circunst�ncias de uma era mundial precessional - o eixo polar (Shu) e os coluros (as quatro pernas ou "suportes" que marcam os pontos cardeais equinociais e solsticiais no giro anual do sol). Al�m do mais, � tentador especular sobre qual a era mundial que estava sendo sugerida neste caso... Estando envolvida uma vaca, poderia ser a Era de Touro, embora os eg�pcios soubessem, como todo mundo, qual a diferen�a entre touros e vacas. Mas uma candidata muito mais prov�vel - pelo menos sobre fundamentos puramente simb�licos - seria a era de Le�o, de aproximadamente 10970 a 8810 a.C. A raz�o � que Sekhmet, a respons�vel pela destrui��o da Humanidade mencionada no mito, tinha forma leonina. Que melhor maneira de simbolizar o nascimento complicado da nova Era de Le�o, do que descrever seu arauto como um le�o em f�ria, particularmente porque a Era de Le�o coincidiu com o derretimento final e catastr�fico da �ltima Era Glacial, durante a qual n�meros imensos de esp�cies de animais em toda a terra foram s�bita e violentamente extintas. A humanidade sobreviveu �s imensas inunda��es,


terremotos e r�pidas mudan�as clim�ticas que ocorreram na �poca, embora, com toda probabilidade, em n�meros muito reduzidos e em situa��o material muito pior. A Comitiva do Sol e o Morador de S�rius Claro, a capacidade de reconhecer e definir em mitos eras mundiais ocasionadas pela precess�o implica que os antigos eg�pcios possu�am uma astronomia de observa��o mais apurada, e uma compreens�o mais sofisticada da mec�nica do sistema solar do que a creditada a qualquer povo at� ent�o. N�o h� d�vida de que conhecimento desse calibre, se existiu absolutamente, teria sido levado em alta conta pelos antigos eg�pcios, que o transmitiriam, de forma secreta, de uma gera��o a outra. Na verdade, teria sido considerado entre os maiores conhecimentos arcanos confiados � guarda da elite sacerdotal em Heli�polis e passado adiante principalmente sob a forma de tradi��o oral e inici�tica. Se, por acaso, tivesse entrado nos Textos da Pir�mide, n�o seria prov�vel que sua forma fosse velada em met�foras e alegorias? Cruzei lentamente o ch�o empoeirado da c�mara da tumba, da pir�mide de Unas, notando o ar muito parado, lan�ando ao mesmo tempo os olhos para as desmaiadas inscri��es em azul e dourado. Em linguagem codificada, v�rios mil�nios antes de Cop�rnico e Galileu, algumas das passagens gravadas nessas paredes pareciam oferecer pistas para a verdadeira natureza helioc�ntrica do sistema solar. Em uma delas, por exemplo, R�, o Deus Sol, � mostrado sentado no trono de ferro, cercado por deuses menores, que se moviam constantemente em volta dele e que ali se diz que formam sua "comitiva". De forma parecida, em outro trecho, insiste-se com o fara� morto que "se ponha de p� � frente de duas metades do c�u e pense bem nas palavras dos deuses,dos anci�os, que revolvem em torno de R�". Se ficasse provado que os "anci�os" e os "deuses circundantes" que revolviam em torno de R� eram partes de uma terminologia que se referia aos planetas de nosso sistema solar, os autores originais dos Textos da Pir�mide deveriam for�osamente ter tido acesso a alguns dados astron�micos notavelmente avan�ados. Eles deviam ter sabido que a terra e os planetas revolviam em torno do sol, e n�o o contr�rio. O problema criado por essa possibilidade � que nem os antigos eg�pcios em nenhum est�gio de sua hist�ria, nem mesmo seus sucessores, os gregos e, por falar nisso, tampouco os europeus at� a Renascen�a, possu�am dados cosmol�gicos de qualquer coisa que se aproximasse dessa qualidade. Como, por conseguinte, poderia a presen�a desses dados ser explicada em composi��es escritas que datavam do alvorecer da civiliza��o eg�pcia?


Outro mist�rio (talvez correlato) diz respeito � estrela S�rius, que os eg�pcios identificavam com �sis, a irm� e esposa de Os�ris e m�e de H�rus. Em uma passagem dirigida ao pr�prio Os�ris, declaram os Textos da Pir�mide: Tua irm� �sis vem a ti, rejubilando-se em seu amor por ti. Tu a colocas sobre ti, teu membro nela penetra e ela torna-se grande com filho, como a estrela Sept [S�rius, a estrela c�o], H�rus-Sept sai de ti sob a forma de H�rus, que habita em Sept. Numerosas interpreta��es dessa passagem s�o, claro, poss�veis. O que me intrigava, por�m, era a clara implica��o de que S�rius devia ser considerado como uma entidade dual, compar�vel, de alguma maneira, a uma mulher "grande com filho". Al�m do mais, ap�s ter nascido (ou sa�do) essa crian�a, o texto toma um cuidado especial em nos lembrar que H�rus continuou a "habitar em Sept", presumivelmente sugerindo que ele permaneceu ligado � m�e. S�rius � uma estrela incomum. Ponto brilhante de luz, especialmente vis�vel nos meses de inverno nos c�us noturnos do hemisf�rio Norte, consiste de um sistema estelar bin�rio, ou melhor, ela �, na verdade, como sugerem os Textos da Pir�mide, uma "entidade dual". A maior componente da dupla, S�rius-A, � a que vemos. S�rius-B, por outro lado - a estrela an� que revolve em torno de S�rius A -, � absolutamente invis�vel a olho nu. Sua exist�ncia s� se tornou conhecida da ci�ncia ocidental em 1862, quando o astr�nomo americano Alvin Clark observou-a, usando um dos maiores e mais modernos telesc�pios da �poca. De que maneira poderiam os escribas que gravaram os Textos da Pir�mide ter obtido a informa��o de que S�rius era duas estrelas em uma? Eu sabia que no The Sirius Mistery, um livro importante publicado em 1976, seu autor americano, Robert Temple, dera algumas respostas extraordin�rias a essa pergunta. Seu estudo concentrou-se nas cren�as tradicionais da tribo dogon, na �frica Ocidental - em cren�as nas quais o car�ter bin�rio de S�rius era especificamente descrito e onde o n�mero de 50 anos era dado para o per�odo da �rbita de S�rius-B em torno de S�riusA. Temple argumentou convincentemente que essa informa��o t�cnica de alta qualidade fora passada aos dogon pelos antigos eg�pcios, atrav�s de um processo de difus�o cultural, e que era para eles que dever�amos nos voltar para a solu��o do mist�rio de S�rius. Concluiu ele ainda que os antigos eg�pcios deveriam ter recebido a informa��o de seres inteligentes oriundos da regi�o de S�rius. Tal como Temple, eu come�ara a desconfiar que os elementos mais avan�ados e sofisticados da ci�ncia eg�pcia s� faziam sentido se entendidos como parte de uma heran�a. Mas, ao contr�rio de Temple, n�o via raz�o urgente para atribuir a heran�a a extraterrestres. Na minha opini�o, o conhecimento sobre a estrela an�mala que os


sacerdotes de Heli�polis aparentemente possu�am era explicado, de forma mais plaus�vel, como o legado de uma civiliza��o humana perdida que, na contram�o da hist�ria, atingira um alto n�vel de avan�o tecnol�gico na antiguidade remota. Pareciame que a constru��o de um instrumento capaz de detectar S�rius-B talvez n�o tivesse estado al�m da engenhosidade dos exploradores e cientistas desconhecidos que haviam desenhado os not�veis mapas do mundo pr�-hist�rico discutidos na Parte I. Tampouco isso teria sido dif�cil para os astr�nomos e calculadores do tempo que legaram aos antigos maias um calend�rio de espantosa complexidade, um banco de dados sobre os movimentos de corpos celestes que s� podia ter sido produto de milhares de anos de observa��es anotadas com precis�o, e uma facilidade com n�meros muito grandes que pareciam mais apropriados �s necessidades de uma sociedade tecnol�gica complexa do que �s de um "primitivo" reino na Am�rica Central. Milh�es de Anos e Movimentos das Estrelas N�meros muito grandes aparecem tamb�m nos Textos da Pir�mide, na simb�lica "barca de milh�es de anos", por exemplo, nos quais se diz que o Deus do Sol navegava pelas �guas escuras e vastid�es destitu�das de ar do espa�o interestelar. Thoth, o deus da sabedoria (aquele que calcula no c�u, o contador de estrelas, o que mede a terra) possu�a especificamente o poder de conceder uma vida de milh�es de anos ao fara� mortal. Os�ris, "rei da eternidade, senhor do eterno", � descrito como vivendo milh�es de anos. E n�meros como "dezenas de milh�es de anos" (bem como o mais estonteante ainda, "um milh�o de milh�es de anos") reaparecem com uma freq��ncia suficiente para sugerir que certos elementos, pelo menos da cultura eg�pcia, devem ter evolu�do, para conveni�ncia de indiv�duos de mente cient�fica, com mais do que uma introvis�o espor�dica da imensid�o do tempo. Esse povo, naturalmente, teria necessitado de um excelente calend�rio um calend�rio que teria facilitado c�lculos complexos e exatos. N�o constituiu, portanto, motivo de surpresa descobrir que os antigos eg�pcios, tal como os maias, dispunham de um calend�rio desse tipo e que a compreens�o que tinham de seu funcionamento aparentemente declinou, em vez de aumentar, � medida que se sucediam as eras. Era tentador interpretar essefato como eros�o gradual de um corpus de conhecimento herdado de um tempo extremamente remoto, impress�o esta apoiada pelos pr�prios antigos eg�pcios, que n�o faziam segredo da cren�a em que o calend�rio que usavam era um legado que haviam recebido "dos deuses".


Estudaremos com mais detalhes, nos cap�tulos seguintes, a poss�vel identidade desses deuses. Quem quer que tenham sido, eles devem ter passado parte muito grande de seu tempo observando as estrelas e acumulando um fundo de conhecimentos avan�ados e especializados sobre a estrela S�rius, em particular. Prova ulterior dessa conclus�o surgiu sob a forma da d�diva, mais �til, de um calend�rio que os deuses supostamente deram aos eg�pcios; o ciclo Sothico (ou de S�rius). O ciclo Sothico baseava-se no que � chamado em jarg�o t�cnico de "retorno peri�dico da ascens�o heliacal de S�rius", isto �, o primeiro aparecimento da estrela ap�s uma aus�ncia sazonal, surgindo ao amanhecer imediatamente antes de o sol nascer, na parte leste do c�u. No caso de S�rius, o intervalo entre um desses aparecimentos e o seguinte equivale a exatamente 365,25 dias - um n�mero matematicamente harmonioso, sem complica��o de mais casas decimais, e que � apenas doze minutos mais longo do que a dura��o do ano solar. O curioso sobre S�rius � que entre umas 2.000 estrelas vis�veis a olho nu, ela � a �nica a erguer-se heliacalmente nesseintervalo preciso e belamente redondo de 365 dias e um quarto de dia - um produto �nico de "seu movimento pr�prio" (a velocidade de seu pr�prio movimento atrav�s do espa�o), combinado com os efeitos da precess�o dos equin�cios. Al�m do mais, � sabido que o dia da ascens�o heliacal de S�rius - o Dia do Ano-Novo no calend�rio eg�pcio antigo - era tradicionalmente calculado em Heli�polis, onde foram compilados os Textos da Pir�mide, e anunciado com antecipa��o a todos os principais templos acima e abaixo do Nilo. Lembrei-me de que S�rius � mencionado diretamente nos Textos da Pir�mide por "seu nome, do Ano-Novo". Juntamente com outras declara��es relevantes (como, por exemplo, a 669), o fato confirmava que o calend�rio sothico era pelo menos t�o antigo quando os pr�prios Textos e que suas origens retroagiam �s brumas da distante antiguidade. O grande enigma, por conseguinte, � o seguinte: nesseper�odo t�o antigo, quem poderia ter possu�do o know how necess�rio para observar e anotar a coincid�ncia do per�odo de 365,25 dias com a ascens�o heliacal de S�rius - uma coincid�ncia descrita pelo matem�tico franc�s R.A Schwaller de Lubicz como "um fen�meno celeste inteiramente excepcional"? N�o podemos deixar de admirar a grandeza de uma ci�ncia capaz de descobrir tal coincid�ncia. Foi escolhida a estrela bin�ria S�rius porque � a �nica que se move na dist�ncia necess�ria e na dire��o certa, contra o pano de fundo das outras estrelas. Este fato, conhecido quatro mil anos antes de nosso tempo e esquecido at� nossosdias, obviamente exige uma observa��o extraordin�ria e prolongada do c�u.


E foi dessa heran�a - constru�da atrav�s de longos s�culos de uma astronomia de observa��o e cient�fica - que o Egito parece ter se beneficiado no in�cio do per�odo hist�rico, e que � descrita nos Textos da Pir�mide. Nessefato existe tamb�m um mist�rio. C�pias ou Tradu��es? Escrevendo em 1934, ano de sua morte, Wallis Budge, ex-curador de Antiguidades Eg�pcias, do Museu Brit�nico, e autor de um respeitado dicion�rio de hier�glifos, fez esta franca confiss�o: Os Textos da Pir�mide est�o cheios de dificuldades de todos os tipos. S�o desconhecidos os significados exatos de grande n�mero de palavras neles encontradas. (...) A constru��o das senten�as frustra constantemente todas as tentativas de traduzi-Ias e, quando elas cont�m palavras inteiramente desconhecidas, o texto se torna um enigma indecifr�vel. � apenas razo�vel supor que esses textos foram freq�entemente usados para finalidades funer�rias, mas � tamb�m muito claro que o per�odo em que foram usados no Egito teve pouco mais de cem anos. N�o h� explica��o para o motivo por que foram subitamente postos em uso ao fim da Quinta Dinastia e deixaram de ser usados ao fim da Sexta. Poderia a resposta ser que os Textos fossem c�pias de uma literatura mais antiga que Unas, o �ltimo fara� da Quinta Dinastia, juntamente com v�rios de seus sucessores na Sexta, tentaram gravar para sempre em pedra nas c�maras funer�rias de suaspr�prias pir�mides? Era o que pensava Budge, e achava que a prova sugeria que pelo menos alguns documentos b�sicos deveriam ser extremamente antigos: V�rios trechos cont�m prova de que os escribas que desenharam as c�pias, baseadas nas quais os gravadores de inscri��es trabalharam, n�o compreendiam o que estavam escrevendo. (...) A impress�o geral � que os sacerdotes que desenharam as c�pias fizeram extratos de v�rias composi��es de diferentes idades e com conte�dos diferentes... Tudo isso pressupunha que os documentos b�sicos, quaisquer que tenham sido, deveriam ter sido escritos em uma forma arcaica da l�ngua eg�pcia. Havia, contudo, uma possibilidade alternativa que Budge ignorou. Suponhamos que a tarefa dos sacerdotes n�o tivesse sido apenas de copiar material, mas de traduzir para hier�glifos


textos originariamente compostos em outra l�ngua inteiramente diferente? Se essa l�ngua inclu�a terminologia t�cnica e refer�ncias a artefatos e id�ias para os quais n�o havia equivalentes no Egito antigo, este fato daria uma explica��o para a estranha impress�o provocada por certas declara��es. Al�m do mais, se o trabalho de c�pia e tradu��o dos documentos b�sicos originais tivesse sido completado ao fim da Sexta Dinastia, era f�cil compreender por que nunca mais foram gravados "Textos da Pir�mide": o projeto teria chegado ao fim quando cumprido seu objetivo - que teria sido o de criar um registro hierogl�fico permanente de uma literatura sagrada que j� vinha cambaleando de velhice quando Unas assumiu o trono do Egito, no ano 2356 a.C. �ltimos Registros pela Primeira Vez? Uma vez que quer�amos cobrir antes do anoitecer, tanto quanto poss�vel, a dist�ncia at� Abidos, Santha e eu decidimos, relutantes, que era tempo de voltar � estrada. Embora tiv�ssemos resolvido antes passar ali apenas alguns minutos, a escurid�o sombria e as vozes antigas da c�mara da tumba de Unas nos haviam anestesiado os sentidos e quase duas horas se haviam passado desde nossa chegada. Abaixando-nos para sair, deixamos a tumba e subimos a passagem �ngreme at� a sa�da, onde paramos por um instante para que nossosolhos se acostumassem� forte luz solar de meados da manh�. Enquanto o faz�amos, aproveitei a oportunidade para examinar a pr�pria pir�mide, que havia ca�do em um estado t�o dilapidado que mal se conseguia reconhecer sua forma original. As obras de cantaria b�sicas, reduzidas a um estado de pouco mais do que uma pilha de escombros informes, era evidentemente de qualidade med�ocre e at� mesmo os blocos do revestimento - alguns dos quais ainda se conservavam intactos careciam da finesse e per�cia artesanal exibidas pelas pir�mides mais antigas de Giz�. Havia a� um fato dif�cil de explicar em termos hist�ricos convencionais. Se os processos evolutivos normais que presidem ao desenvolvimento de per�cia e id�ias arquitet�nicas estiveram em curso no Egito, seria de esperar que houvesseacontecido o oposto: o projeto, o trabalho de engenharia e cantaria da Pir�mide de Unas deveriam ter sido superiores aos do grupo de Giz� que, de acordo com a cronologia ortodoxa, tinha sido constru�do cerca de dois s�culos antes. O fato embara�oso de que isso n�o acontecia (isto �, que Giz� era "melhor" do que Unas, e n�o o contr�rio) representou espinhosos desafios para os egipt�logos e inspirou perguntas para as quais nenhuma resposta satisfat�ria foi dada. Ou, para repetir o problema fundamental: tudo nas tr�s espantosas e soberbas pir�mides de Khufu, Khafre e Menkaure proclamava que elas eram os produtos finais de centenas,


talvez milhares, de anos de experi�ncia arquitet�nica e de engenharia acumulada. Tal fato, por�m, n�o era confirmado pela prova arqueol�gica, que nenhuma d�vida deixava de que elas figuravam entre as primeiras pir�mides jamais constru�das no Egito - em outras palavras, elas n�o eram produtos da fase madura do experimento de constru��o do pa�s, mas, estranhamente, cria��es de sua inf�ncia. Outro mist�rio clamava tamb�m por uma solu��o. Nas tr�s grandes pir�mides de Giz�, a Quarta Dinastia criara mans�es para a eternidade - obras-primas de pedra sem precedentes e insuperadas, de mais de cem metros de altura, pesando cada uma delas milh�es de toneladas, e que inclu�am um sem-n�mero de aspectos extremamente avan�ados. Nenhuma pir�mide de qualidade compar�vel fora jamais constru�da. Mas, apenas pouco tempo depois, embaixo de superestruturas menores e mais pobres das pir�mides da Quinta e Sexta Dinastias, uma esp�cie de Galeria de Registros parecia ter sido deliberadamente criada: uma exposi��o permanente de c�pias, ou tradu��es, de documentos arcaicos que eram, simultaneamente, obras-primas insuperadas e sem precedentes da arte dos escribas e da escrita hierogl�fica. Em suma, tal como as pir�mides de Giz�, parecia que os Textos da Pir�mide haviam explodido em cena sem antecedentes vis�veis e ocupado o centro do palco por aproximadamente cem anos, antes das "opera��es terminais", e que nunca mais seriam ultrapassadas. Poder�amos presumir que os reis e s�bios antigos que haviam organizado essascoisas sabiam o que estavam fazendo? Se assim, eles for�osamente teriam um plano e a inten��o de estabelecer uma forte conex�o vis�vel entre as pir�mides de Giz�, inteiramente destitu�das de inscri��es (mas tecnicamente brilhantes), e as pir�mides dotadas de inscri��es brilhantes (mas tecnicamente de segunda classe) das Quinta e Sexta Dinastias. Eu desconfiava, tamb�m, que pelo menos parte da solu��o do problema poderia estar no campo de pir�mides de Dahshur, pelo qual passamos quinze minutos depois de deixar Saqqara. Era a� que se localizavam as denominadas pir�mides "Vergada" e "Vermelha". Atribu�das a Sneferu, pai de Khufu, esses dois monumentos (segundo todas as opini�es, muito bem preservados) haviam sido fechados ao p�blico h� muitos anos. Uma base militar fora constru�da em volta delas e durante muito tempo fora imposs�vel visit�-las - em quaisquer circunst�ncias, jamais... Continuando nossa jornada para o sul, atrav�s das cores brilhantes daquele dia de dezembro, fui tomado pela sensa��o irresist�vel de que o Vale do Nilo fora palco de eventos importantes para a humanidade, muito tempo antes de come�ar a hist�ria documentada da humanidade. Todos os registros e tradi��es mais antigos do Egito falam desses fatos e ligam-nos a uma �poca durante a qual os deuses reinavam na


terra: os fabulosos Primeiros Tempos, que eram chamados de Zep Tepi. Nos dois cap�tulos seguintes, iremos examinar essesregistros. CAP�TULO 43 Procurando os Primeiros Tempos Vejamos o que os antigos eg�pcios tinham a dizer sobre os Primeiros Tempos, sobre o Zep Tepi, a �poca em que os deuses reinavam na terra: diziam que fora uma idade �urea, durante a qual as �guas do abismo recuaram, a escurid�o primeva foi banida e a humanidade, emergindo para a luz, recebeu as d�divas da civiliza��o. Falavam tamb�m de intermedi�rios entre deuses e homens - os Urshus, uma categoria de divindades menores, cujo t�tulo significava "os Vigilantes". E conservavam recorda��es especialmente v�vidas dos pr�prios deuses, os seres poderosos e belos denominados de Neterus, que conviviam na terra com a humanidade e exerciam sua soberania em Heli�polis e outros santu�rios acima e abaixo do Nilo. Alguns desses Neterus eram machos e, outros, f�meas, mas todos possu�am uma grande faixa de poderes sobrenaturais, que inclu�am a capacidade de aparecer, � vontade, como homens ou mulheres, animais, aves, r�pteis, �rvores ou plantas. Paradoxalmente, parecia que seus atos e palavras refletiam paix�es e preocupa��es humanas. De id�ntica maneira, embora fossem descritos como mais fortes e mais inteligentes do que os seres humanos, os antigos acreditavam que eles podiam adoecer - ou mesmo morrer, ou ser mortos - em certas circunst�ncias. Registros da Pr�- Hist�ria Arque�logos s�o inflex�veis na opini�o de que a �poca dos deuses, que os antigos eg�pcios chamavam de Primeiros Tempos, nada mais foi do que um mito. Os antigos eg�pcios, por�m, que podem ter sido mais bem-informados sobre seu passado do que n�s, n�o compartilhavam dessa opini�o. Os registros hist�ricos que conservaram em seus templos mais vener�veis inclu�am listas completas de todos os reis do Egito: listas dando o nome de todos os fara�s de todas as dinastias reconhecidas hoje pelos estudiosos. Algumas dessaslistas iam ainda mais longe, retroagindo al�m do horizonte hist�rico da Primeira Dinastia e penetrando nas profundezas desconhecidas de uma antiguidade remota e abissal. Duas listas de reis dessa categoria sobreviveram �s devasta��es das idades e, tendo sido tiradas do Egito, s�o hoje preservadas em museus europeus. Estudaremos com mais detalhes essas listas ainda neste cap�tulo. Elas s�o conhecidas respectivamente como Pedra de Palermo (datando da Quinta Dinastia - ou seja, por volta do s�culo 25


a.C.) e Papiro de Turim, um documento de templo da D�cima Nona Dinastia, escrito na forma cursiva de hier�glifos conhecida como hier�tica e que data do s�culo XIII a.C. Al�m disso, temos o testemunho de um sacerdote de Heli�polis chamado Manetho. No s�culo III a.C., ele compilou uma hist�ria abrangente e altamente respeitada do Egito, contendo extensas listas de reis de todo o per�odo din�stico. Tal como o Papiro de Turim e a Pedra de Palermo, a hist�ria de Manetho retroage ao passado remoto e fala de uma �poca distante, quando os reis reinaram no Vale do Nilo. O texto completo de Manetho n�o nos chegou �s m�os, embora pare�a que c�pias dele circularam em data t�o recente quanto o s�culo IX d.C. Por sorte, contudo, fragmentos do texto foram preservados nas obras do historiador judeu Josephus (ano 60 d.C.) e de autores crist�os, como Africanus (ano 300 d.C.), Eus�bio (ano 340 d.C.) e George Syncellus (ano 800 d.C.). Essesfragmentos, nas palavras do falecido professor Michael Hoffman, da Universidade da Carolina do Sul, proporcionam "o marco para o enfoque moderno do estudo do passado do Egito". Essas palavras representam a inteira verdade. N�o obstante, egipt�logos est�o dispostos a usar Manetho apenas como fonte para estudo do per�odo hist�rico (din�stico) e repudiam os estranhos insights que ele fornece da pr�-hist�ria, quando fala sobre a remota idade �urea dos Primeiros Tempos. Por que dever�amos ser t�o seletivos na confian�a depositada em Manetho? Qual a l�gica de aceitar dele trinta dinastias "hist�ricas" e rejeitar tudo o que tem a dizer sobre �pocas anteriores? Al�m disso, desde que sabemos que sua cronologia do per�odo hist�rico foi confirmada pela arqueologia, n�o seria um tanto prematuro de nossa parte supor que sua cronologia pr�-din�stica est� errada, porque escava��es ainda n�o produziram prova que a confirme? Deuses, Semi-deuses e Esp�ritos dos Mortos Se queremos deixar que Manetho diga o que tem a dizer, nenhuma op��o nos resta sen�o estudar os textos em que foram preservados fragmentos de sua obra. Um dos mais importantes neste particular � a vers�o arm�nia da Chronica, de Eus�bio. Come�a ela nos informando que a extraiu "da Hist�ria Eg�pcia, de Manetho, que faz seu relato em tr�s livros. Tratam eles dos Deuses, Semi-deuses, Esp�ritos dos Mortos e reis mortais que governaram o Egito..." Citando diretamente Manetho, Eus�bio come�a desenrolando uma lista dos deuses, que consiste, basicamente, da conhecida En�ade de Heli�polis - R�, Os�ris, �sis, H�rus, Set, e assim por diante:


Estes foram os primeiros a exercer poder no Egito. Em seguida, a soberania passou de um a outro, em uma sucess�o ininterrupta (...) durante 13.900 anos. (...) Ap�s os Deuses,os Semi-deusesreinaram durante 1.255 anos; e, uma vez mais, outra linhagem de reis exerceu o poder por 1.817 anos; em seguida, vieram mais 30 reis, que reinaram por 1.790 anos; e, mais uma vez, dez reis que governaram por 350 anos. Deles se seguiu o reinado dos Esp�ritos dos Mortos (...) durante 5.813anos. (...) O total de todos esses per�odos chega a 24.925 anos e nos leva muito al�m da data b�blica da cria��o do mundo (em alguma ocasi�o, no quinto mil�nio a.C.). Uma vez que o texto em causa sugeria que a cronologia b�blica estava errada, esse fato causou dificuldades a Eus�bio, um ardoroso comentarista crist�o. Ap�s um momento de pensamento, por�m, ele, de forma inspirada, resolveu o problema: "Acho que o ano � lunar, consistindo, isto �, de 30 dias: o que agora chamamos de m�s, os eg�pcios usavam antigamente como um ano..." Claro que eles n�o faziam nada disso. Atrav�s desse golpe de prestidigita��o, por�m, Eus�bio e outros conseguiram reduzir o grandioso per�odo pr�-din�stico de quase 25.000 anos para um n�mero higi�nico de pouco mais de 2.000 anos, que se encaixa confortavelmente nos 2.241 anos que a cronologia b�blica ortodoxa aceita entre Ad�o e o Dil�vio. Uma t�cnica diferente para reduzir a import�ncia das implica��es cronol�gicas embara�osas da prova de Manetho foi usada pelo monge George Syncellus (circa ano 800 d.C.). Esse comentarista, que usava exclusivamente a invectiva, escreveu: "Manetho, sumo sacerdote dos amaldi�oados templos do Egito [fala-nos] de deuses que nunca existiram. Essesdeuses,diz ele, reinaram por 11.895anos..." V�rios outros n�meros curiosos e contradit�rios afloram nos fragmentos. Em particular, dizem repetidamente os comentaristas que Manetho deu o assombroso n�mero de 36.525 anos para toda dura��o da 13�. (e �ltima) dinastia de reis mortais. Esse n�mero, claro, inclui os 362,25 dias do ano sothico (o intervalo entre duas ascens�esheliacais consecutivas de S�rius, da forma descrita no �ltimo cap�tulo). Com maior probabilidade, mais por inten��o do que por acaso, o n�mero representa tamb�m 25 ciclos de 1.460 anos sothicos e 25 ciclos de 1.461 anos de calend�rio (j� que o ano civil eg�pcio era constru�do em torno de um "ano vago", de exatamente 365 dias). O que, se � que alguma coisa, significa tudo isso? � dif�cil ter certeza. Na grande massa de n�meros e interpreta��es, contudo, emerge, em voz alta e clara, um aspecto da mensagem original de Manetho. A despeito de tudo que nos ensinaram sobre o desenrolar ordenado da hist�ria, o que ele parece estar dizendo � que seres civilizados (fossem deuses ou homens) estiveram presentes no Egito durante um per�odo


imensamente longo, antes do surgimento da Primeira Dinastia, por volta do ano 3100 a.C. Diodoro de Sic�lia e Her�doto Nessaafirma��o, Manetho teve grande apoio de autores cl�ssicos. No primeiro s�culo a.C., o historiador grego Diodoro de Sic�lia visitou o Egito. Ele foi corretamente descrito por C.H. Oldfather, seu tradutor mais recente, como "um compilador imparcial, que utilizou boas fontes e as reproduziu fielmente". Em palavras simples, o que isso significa � que Diodoro n�o tentou impor seus preconceitos e preconcep��es ao material que reuniu. Ele, portanto, � especialmente valioso para n�s, porque seus informantes inclu�ram sacerdotes eg�pcios que ele interrogou sobre o passado misterioso de sua terra. E o que eles lhe disseram foi o seguinte: "No in�cio, deuses e her�is governaram o Egito durante pouco menos de 18.000 anos, tendo sido H�rus, filho de �sis, o �ltimo dos deuses reinantes. (...) Mortais, dizem eles, foram reis do pa�s por um pouco menos de 5.000 anos. (...)" Revisemos "imparcialmente" esses n�meros e vejamos o que eles nos dizem. Diodoro escreveu no primeiro s�culo a.C. Se retroagimos a partir dessa data por 5.000 anos, durante as quais "reis mortais" supostamente governaram, chegamos ao ano 5100 a.C. Seretroagimos ainda mais, at� a era dos "deusese her�is", descobrimos que chegamos ao ano 23100 a.C., quando o mundo ainda estava firmemente nas garras da �ltima Era Glacial. Muito antes de Diodoro, o Egito foi visitado por outro e mais ilustre historiador grego: o grande Her�doto, que viveu no s�culo V a.C.Ele tamb�m parece ter mantido contato com sacerdotes e sintonizou com tradi��es que falavam em uma alta civiliza��o no Vale do Nilo, em alguma data n�o especificada da antiguidade remota. Her�doto descreve essastradi��es de um per�odo pr�-hist�rico imenso da civiliza��o eg�pcia no Livro lI, de sua Hist�ria. No mesmo texto, sem coment�rios, ele nos fornece uma curiosa pepita de informa��o que colheu entre os sacerdotes de Heli�polis: Durante essetempo, disseram eles, houve quatro ocasi�es em que o sol nasceu fora de seu local costumeiro - duas vezes nascendo onde agora se p�e e, duas vezes, pondo-se no lugar onde ora nasce. O que � que significa isso?


De acordo com o matem�tico franc�s Schwaller de Lubicz, o que Her�doto est� nos dizendo (talvez sem saber) � uma refer�ncia velada e deturpada a um per�odo de tempo isto �, ao tempo que leva para o amanhecer no equin�cio vernal realizar a precess�o contra o pano de fundo estelar, atrav�s de um e meio ciclos completos do zod�aco. Conforme vimos, o sol equinocial passaaproximadamente 2.160 anos em cada uma das doze constela��es do zod�aco. Um ciclo completo de precess�o de equin�cios, portanto, leva quase 26.000 anos para completar (12 x 2.160 anos). Segue-se que um ciclo e meio corresponde a quase39.000anos (18 x 2.160 anos). No tempo de Her�doto, o sol no equin�cio vernal subia exatamente a leste ao amanhecer, contra o fundo estelar de �ries - momento em que a constela��o de Libra estava "em oposi��o", exatamente a oeste, onde o sol iria se p�r 12 horas depois. Se giramos para tr�s por meio ciclo o rel�gio da precess�o,contudo seis horas do zod�aco ou aproximadamente 13.000 anos -, descobrimos que prevalece a configura��o oposta: o sol vernal nasce nesse momento exatamente a leste, em Libra, enquanto �ries se situa, em oposi��o, diretamente a oeste. Mais 13.000 anos para tr�s, e a situa��o se inverte mais uma vez, com o sol vernal nascendo novamente em �ries e com Libra em oposi��o. Essesc�lculos nos levam a 26.000anos antes de Her�doto. Se recuarmos mais 13.000 anos, isto �, a metade de outro ciclo de precess�o, para 39.000 anos antes de Her�doto, o nascer do sol vernal volta a Libra e �ries se encontra novamente em oposi��o. O importante � o seguinte: com 39.000 anos temos uma extens�o de tempo durante a qual se pode descrever o sol como "nascendo duas vezes onde agora se p�e", isto �, em Libra no tempo de Her�doto (e novamente a 13.000 e a 39.000 anos antes), e como "pondo-se duas vezes onde agora nasce", isto �, em �ries no tempo de Her�doto (e, mais uma vez, 13.000e 39.000anos antes). Sea interpreta��o de Schwaller est� correta - e h� todas as raz�es para supor que est� -, ela sugere que os informantes sacerdotais do historiador grego deviam ter acesso a registros exatos do movimento de precess�o do sol que retroagiam a pelo menos 39.000anos antes de nossaera. O Papiro de Turim e a Pedra de Palermo O n�mero de 39.000 anos concorda surpreendentemente bem com a prova testemunhal do Papiro de Turim (uma das duas listas remanescentes de antigos reis eg�pcios e que retroage aos tempos pr�-hist�ricos, anteriores � Primeira Dinastia). Tendo feito parte inicialmente da cole��o do rei da Sardenha, o papiro quebradi�o e se desfazendo em p�, de 3.000 anos de idade, foi enviado em uma caixa, sem forro


protetor, para seu atual lar, no Museu de Turim. Como qualquer estudante poderia ter previsto, o papiro chegou quebrado em incont�veis fragmentos. Especialistas foram obrigados a trabalhar durante anos para reunir e extrair sentido do que restava, e fizeram neste particular um trabalho soberbo. Ainda assim, verificou-se que foi imposs�vel reconstituir mais da metade do conte�do desse precioso registro. O que n�o poder�amos ter aprendido sobre os Primeiros Tempos se o Papiro de Turim tivesse permanecido intacto? Os fragmentos remanescentes s�o intrigantes. Em um registro, por exemplo, lemos os nomes de dez Neterus com cada nome dentro de um cartucho (um espa�o oblongo fechado), segundo um estilo muito parecido com o adotado em per�odos posteriores e relativos a reis hist�ricos. � tamb�m dado o n�mero de anos em que se acreditava que cada um dos Neterus tivesse reinado, embora a maior parte desses n�meros esteja faltando nessedocumento danificado. Em outra coluna, vemos a lista de reis mortais que governaram o alto e baixo Egito depois dos deuses, mas antes da suposta unifica��o do reino sob Men�s, o primeiro fara� da Primeira Dinastia, no ano 3100 a.C. � vista dos fragmentos que sobraram, � poss�vel verificar que s�o mencionadas nove "dinastias" desses fara�s pr�-din�sticos, entre os quais os "Vener�veis de M�nfis", "os Vener�veis do Norte" e, por �ltimo, os Shemsu Hor (os Companheiros, ou Seguidores, de H�rus), que reinaram at� o tempo de Men�s. As duas �ltimas linhas da coluna, que parecem representar um sum�rio, ou invent�rio, s�o particularmente provocantes. Dizem elas: "... Vener�veis Shemsu-Hor, 13.420anos; Reinados antes dos Shemsu-Hor, 23.000anos; Total, 36.620anos". A outra lista de reis que trata dos tempos pr�-hist�ricos, a Pedra de Palermo, n�o nos leva tanto para tr�s no passado quanto o Papiro de Turim. Os primeiros de seus registros remanescentes menciona os reinados de 120 reis que governaram o alto e baixo Egito em fins do per�odo pr�-din�stico: os s�culos imediatamente anteriores � unifica��o do pa�s no ano 3100 a.C. Mais uma vez, contudo, n�o fazemos realmente id�ia de quantas outras informa��es, talvez relativas a per�odos muito anteriores, poderiam ter sido gravadas nessa enigm�tica laje de basalto negro porque, essa pe�a, tamb�m, tampouco nos chegou intacta. Desde 1887, sua maior pe�a isolada vem sendo preservada no Museu de Palermo, na Sic�lia; uma segunda pe�a est� em exposi��o no Museu do Cairo; e um terceiro fragmento, muito menor, faz parte da Cole��o Petrie, da Universidade de Londres". Arque�logos pensam que ela foi arrancada do centro de um mon�lito que deveria ter medido originariamente cerca de 2,13m de comprimento por 60cm de altura (a pedra repousava sobre o lado comprido). Al�m disso, como observou certa autoridade:


� inteiramente poss�vel - mesmo prov�vel - que existam ainda muitas outras pe�as desse monumento, de valor incalcul�vel, se apenas soubermos onde procur�-las. Da forma como est�o as coisas, somos confrontados com um conhecimento irritante e frustrador, de que existia um registro com o nome de todos os reis do Per�odo Arcaico, juntamente com o n�mero de anos de seus reinados e principais eventos ocorridos durante o tempo em que ocuparam o trono. Esseseventos foram compilados na Quinta Dinastia, apenas cerca de 700 anos ap�s a Unifica��o, de modo que a margem de erro seria, com toda probabilidade, muito pequena. O falecido professor Walter Emery, cujas palavras transcrevemos acima, estava naturalmente preocupado com a aus�ncia de detalhes indispens�veis concernentes ao Per�odo Arcaico, dos anos 3200 a.C. a 1900 a.C, que constitu�a seu principal interesse como especialista. Caberia tamb�m pensar, contudo, no que uma Pedra de Palermo intacta poderia nos dizer sobre �pocas ainda mais antigas, notadamente sobre o Zep Tepi - a idade �urea dos deuses. Quanto mais penetramos nos mitos e mem�rias do longo passado do Egito, e quanto mais nos aproximamos dos Primeiros Tempos fabulosos, mais estranhas se tornam as paisagensem torno de n�s... Como veremos adiante. CAP�TULO 44 Deuses dos Primeiros Tempos De acordo com a teologia de Heli�polis, os nove deuses originais que apareceram no Egito nos primeiros tempos foram R�, Shu, Tefnut, Geb, Nut, Os�ris, �sis, Nepthys e Set. A prole dessasdivindades inclu�a figuras bem conhecidas, como H�rus e An�bis. Al�m disso, eram reconhecidos outros pante�es de deuses, notadamente em M�nfis e Herm�polis, onde cultos importantes e muito antigos eram prestados a Pt� e a Thoth. Essasdivindades dos Primeiros Tempos foram todas, em um ou outro sentido, deuses de cria��o, que haviam dado forma ao caos, exercendo sua vontade divina. Do caos eles formaram e povoaram a terra sagrada do Egito e, durante muitos milhares de anos, reinaram sobre os homens como fara�s divinos. Mas o que era esse"caos"? Os sacerdotes de Heli�polis que conversaram com o historiador grego Diodoro de Sic�lia no primeiro s�culo a.C. fizeram a sugest�o intrigante de que o "caos" foi um dil�vio - identificado por Diodoro como o dil�vio que destru�ra a terra de Deucali�o, o No� grego.


De modo geral, eles disseram que, se no dil�vio que ocorreu na �poca de Deucali�o foi destru�da a maioria das criaturas vivas, � prov�vel que os moradores do sul do Egito tenham sobrevivido, e n�o quaisquer outros... Ou se, como sustentam alguns, a destrui��o das criaturas foi completa e a terra em seguida gerou novas formas de animais, apesar de tudo e at� mesmo de acordo com essa suposi��o, a primeira gera��o de criaturas vivas cabe muito bem a este pa�s... Por que deveria o Egito ter sido t�o aben�oado?Diodoro foi informado de que isso teve alguma coisa a ver com a situa��o geogr�fica, com a grande exposi��o das regi�es meridionais ao calor do sol e com o enorme aumento das chuvas que os mitos dizem que o mundo sofreu em seguida ao dil�vio universal: "Porque, quando a umidade das chuvas abundantes que ca�ram sobre outros povos misturou-se com o calor intenso que prevalece no pr�prio Egito (...) o ar tornou-se muito bem temperado para a primeira gera��o de todas as criaturas vivas. (...)" Curiosamente, como � bem conhecido, o Egito n�o desfruta uma situa��o geogr�fica especial e as linhas de latitude e longitude que se cruzam exatamente ao lado da Grande Pir�mide (30� e 31� leste) passam por mais terras secas do que quaisquer outras. Curiosamente, ainda, ao fim da �ltima Era Glacial, quando milh�es de quil�metros quadrados de glacia��o estavam derretendo no norte da Europa, quando o n�vel do mar em eleva��o inundava �reas costeiras em todo o globo, e quando o imenso volume de umidade extra, que entrou na atmosfera atrav�s da evapora��o das calotas de gelo, desceu sob a forma de chuva, o Egito beneficiou-se durante v�rios milhares de anos com um clima excepcionalmente �mido e favor�vel � fertilidade das terras. N�o � dif�cil compreender que esse clima poderia, de fato, ter sido lembrado como "bem temperado para a primeira gera��o de todas as criaturas vivas". Temos, portanto, que fazer a pergunta seguinte: de onde procedia a informa��o sobre o passado, que estamos recebendo de Diodoro? E ser� uma coincid�ncia a descri��o aparentemente fiel do luxuriante clima no Egito durante o fim da �ltima Era Glacial ou uma tradi��o extremamente antiga, que nos chega hoje uma mem�ria, talvez, dos Primeiros Tempos? O H�lito da Serpente Divina Acreditavam os antigos eg�pcios que R� foi o primeiro rei dos Primeiros Tempos. Velhos mitos dizem que enquanto permaneceu jovem e vigoroso, ele reinou pacificamente. Osanos, por�m, cobraram-lhe um tributo, e ele � descrito ao fim de seu


reinado como um homem velho, enrugado, tr�pego, com a boca tr�mula, da qual saliva escorria ininterruptamente. Shu sucedeu-o como rei na terra, embora tivesse um reinado prejudicado por conspira��es e conflitos. Embora derrotasse os inimigos, no fim ele foi t�o destru�do pela doen�a que at� mesmo seus mais fi�is seguidores rebelaram-se. "Cansado de reinar, Shu abdicou em favor do filho Geb e refugiou-se nos c�us, ap�s uma tempestade apavorante que durou nove dias...". Geb, o terceiro fara� divino, substituiu obedientemente o pai no trono. Seu reinado foi tamb�m agitado e alguns mitos descrevendo o que aconteceu refletem a velha linguagem dos Textos da Pir�mide, com imag�stica cient�fica complexa e t�cnica. Uma tradi��o especialmente not�vel, por exemplo, fala de uma "caixa dourada", na qual R� guardou certo n�mero de objetos - descritos, respectivamente, como seu "bast�o" (ou cajado), um cacho de seu cabelo e sua uraeus (uma cobra empinada, com o capelo estendido, feita de ouro, que era usada em seu real adere�o de cabe�a). Talism� poderoso e perigoso, a caixa, juntamente com seu estranho conte�do, permaneceu fechada em uma fortaleza "na fronteira oriental" do Egito, at� muitos anos depois da subida de R� ao c�u. Ao assumir o poder, Geb ordenou que ela lhe fosse trazida e aberta em sua presen�a. No momento em que a caixa foi aberta, um raio de fogo (descrito como "o h�lito da serpente divina") dela saiu, matou todos os companheiros de Gebe queimou gravemente o pr�prio rei. � tentador especular se aquilo que encontramos nessa descri��o n�o poderia ser uma vers�o deturpada de um dispositivo que funcionou mal, feito pelo homem: uma recorda��o confusa, cercada de medo, de um instrumento monstruoso constru�do por cientistas de uma civiliza��o perdida. Credibilidade � acrescentada a essas especula��es ousadas quando nos lembramos de que esta n�o foi absolutamente a �nica caixa dourada no mundo antigo que funcionou como m�quina letal e imprevis�vel. Essa pe�a apresenta grande n�mero de semelhan�as com a enigm�tica Arca da Alian�a hebraica (que matou tamb�m pessoasinocentes com raios de energia letal, que era "toda revestida de ouro" e que se dizia que continha n�o s� as duas t�buas dos Dez Mandamentos, mas tamb�m "o pote de ouro que continha man�, e o cajado de Aar�o"). Um estudo correto das implica��es de todas essas estranhas e maravilhosas caixas (e de outros artefatos "tecnol�gicos" referidos nas tradi��es antigas) situa-se al�m dos objetivos deste livro. Para nossas finalidades aqui, basta notar que uma atmosfera peculiar de magia perigosa e quase tecnol�gica parece ter cercado muitos dos deuses da En�adede Heli�polis.


�sis, por exemplo (esposa e irm� de Os�ris e m�e de H�rus), desprende um forte cheiro de ci�ncia laboratorial. De acordo com o Papiro Chester Beatty, que se encontra no Museu Brit�nico, ela era "uma mulher sabida (...) mais inteligente do que incont�veis deuses.(...) Nada ignorava do que havia no c�u e na terra". Famosa pelo uso h�bil de feiti�aria e magia, era particularmente lembrada pelos antigos eg�pcios como "poderosa de l�ngua", isto �, tinha dom�nio de palavras de poder "que conhecia, com a pron�ncia correta, e n�o se detinha em sua fala, era perfeita tanto em dar o comando como em pronunciar a palavra". Em suma, acreditava-se que ela, simplesmente com a voz, era capaz de vergar a realidade e revogar as leis da f�sica. Essesmesmos poderes, embora talvez em maior grau, eram atribu�dos � sabedoria do deus Thoth, que embora n�o fosse membro da En�adede Heli�polis, o Papiro de Turim e outros documentos antigos reconheciam como o sexto (e ocasionalmente o s�timo) fara� divino do Egito. Freq�entemente representado em paredes de templo e tumba como um �bis, ou um homem com cabe�a de �bis, era venerado como a for�a reguladora respons�vel por todos os c�lculos e anota��es celestes, como o senhor e multiplicador do tempo, o inventor do alfabeto e o patrono da magia. Estava especialmente ligado � astronomia, matem�tica, topografia e geometria e era descrito como "aquele que calcula no c�u, o contador de estrelas e o medidor da terra". Era tamb�m considerado como uma divindade que compreendia os mist�rios "de tudo que est� oculto sob a ab�bada do c�u" e que tinha a capacidade de conceder sabedoria a indiv�duos escolhidos. Dizia a lenda que ele escrevera seus conhecimentos em livros secretos e que os escondera na terra, com a inten��o de que fossem procurados por futuras gera��es, mas encontrados "apenas pelos justos" - que deveriam usar suas descobertas em benef�cio da humanidade. O que sobressai com mais clareza a respeito de Thoth, portanto, al�m de suas credenciais como antigo cientista, � seu papel como benfeitor e civilizador. Neste particular, ele lembra muito seu predecessor Os�ris, o deus supremo dos Textos da Pir�mide e o quarto fara� divino do Egito, "cujo nome se torna Sah (�rion), cuja perna � longa e tem passadalarga, o Presidente da Terra do Sul..."

Os�ris e os Senhores da Eternidade Ocasionalmente mencionado nos textos como o neb tem, ou "senhor universal", Os�ris � descrito como humano, mas tamb�m sobre-humano, sofrendo, mas, ao mesmo tempo, imperioso. Al�m do mais, ele expressa seu dualismo b�sico governando no c�u (como constela��o de �rion) e na terra como rei entre homens. Tal como Viracocha,


nos Andes, e Quetzalcoatl, na Am�rica Central, sua conduta � sutil e misteriosa. Exatamente igual a eles, � excepcionalmente alto e sempre descrito como usando a barba curva da divindade. E, tamb�m como eles, embora dispusesse de poderes sobrenaturais, evitava tanto quanto poss�vel usar de for�a. Vimos no Cap�tulo 16 que, segundo a lenda, Quetzalcoatl, o rei-deus dos mexicanos, partiu da Am�rica Central por mar, viajando em uma jangada de serpentes. Por isso mesmo, � dif�cil evitar um senso de d�j� vu quando lemos no Livro dos Mortos eg�pcio que o lar de Os�ris "repousava sobre a �gua" e que tinha paredes feitas de "serpentes vivas". No m�nimo, � not�vel a converg�ncia do simbolismo que liga dois deuses e regi�es muito distantes. Mas h� ainda outros paralelos �bvios. Os detalhes principais da hist�ria de Os�ris foram contados em cap�tulos anteriores e n�o precisamos repis�-los aqui. O leitor certamente n�o esqueceu que essedeus - mais uma vez, como Quetzalcoatl e Viracocha - era lembrado principalmente como um benfeitor da humanidade, como um portador da ilumina��o e grande l�der civilizat�rio. Recebia o cr�dito, por exemplo, por ter acabado com o canibalismo e conta a lenda que ensinou agricultura aos eg�pcios - em especial, o cultivo do trigo e da cevada - e a arte de fabricar implementos agr�colas. Uma vez que gostava muito de bons vinhos (os mitos n�o dizem onde ele adquiriu esse gosto), ele tomou um cuidado especial em "ensinar � humanidade a cultura da uva, bem como a maneira de colher os frutos e armazenar o vinho..." Al�m das d�divas da boa vida que distribuiu entre seus s�ditos, Os�ris ajudou-os a livrar-se de "suas maneiras horr�veis e b�rbaras", ao lhes dar um c�digo de leis e iniciar o culto dos deusesno Egito. Depois de p�r a casa em ordem, entregou o controle do reino a �sis, deixou o Egito e permaneceu afastado durante muitos anos, perambulando pelo mundo com a �nica inten��o, disseram os sacerdotes a Diodoro de Sic�lia, de visitar toda a terra habitada e ensinar � ra�a dos homens como cultivar a uva e semear o trigo e a cevada, porque supunha que, se os homens renunciassem � sua selvageria e adotassem um d�cil estilo de vida, ele receberia honras imortais pela magnitude de sua benemer�ncia... Os�ris viajou primeiro para a Eti�pia, onde ensinou o cultivo da terra e a cria��o de animais aos primitivos ca�adores-coletores de alimentos que encontrou. E iniciou tamb�m certo n�mero de obras de engenharia e hidr�ulica em grande escala: "Ele construiu canais, com eclusas e comportas (...) elevou as margens do rio e tomou precau��es para evitar que o Nilo transbordasse. (...)" Mais tarde. dirigiu-se � Ar�bia e da� passou para a �ndia, onde fundou numerosas cidades. Transferindo-se para a Tr�cia, matou um rei b�rbaro que se recusou a adotar seu sistema de governo. Essa conduta n�o combinava bem com ele. De modo geral, Os�ris era lembrado pelos


eg�pcios como n�o tendo for�ado homem algum a seguir suas instru��es e atrav�s de suave convencimento e apelo � raz�o conseguiu induzi-los a praticar o que pregava. Muitos de seus s�bios conselhos foram transmitidos aos seus ouvintes em hinos e can��es,que eram cantados com o acompanhamento de instrumentos musicais. Mais uma vez, � dif�cil evitar o paralelo com Quetzalcoatl e Viracocha. Durante uma �poca de trevas e caos - com toda possibilidade ligada a um dil�vio - um deus, ou homem, barbado, materializou-se no Egito (ou na Bol�via e no M�xico), possuidor de grande riqueza de conhecimentos e per�cias cient�ficas, do tipo ligado a civiliza��es maduras e altamente desenvolvidas, que usou altruisticamente em benef�cio da humanidade. Ele era instintivamente bondoso, mas capaz de grande firmeza quando necess�rio. Motivado por forte senso de finalidade, ap�s ter estabelecido sua sede em Heli�polis (ou em Tiahuanaco ou Teotihuac�n), viajou com um grupo seleto de companheiros para impor a ordem e restabelecer o equil�brio perdido do mundo. Deixando de lado por ora a quest�o de se ou n�o estamos lidando com homens ou deuses, com produtos da imagina��o primitiva ou com seres de carne e osso, resta o fato de que os mitos falam sempre de um grupo de civilizadores: Viracocha e seus "companheiros", como acontece tamb�m com Quetzalcoatl e Os�ris. �s vezes, ocorrem ferozes conflitos internos dentro desses grupos e talvez lutas pelo poder: as lutas entre Seth e H�rus e entre Tezcatilpoca e Quetzalcoatl constituem exemplos claros neste particular. Al�m disso, aconte�am esses fatos m�ticos na Am�rica Central, nos Andes ou no Egito, o resultado � sempre muito parecido: o civilizador �, no fim, v�tima de conspira��o e expulso ou morto. Os mitos dizem que Quetzalcoatl e Viracocha jamais voltaram (embora, conforme vimos, a volta deles �s Am�ricas fosse esperada ao tempo da conquista espanhola). Os�ris, por outro lado, realmente voltou. Embora fosse assassinado por Set pouco depois de ter completado sua miss�o mundial para levar o homem "a renunciar � selvageria", ganhou vida eterna com sua ressurrei��o na constela��o de �rion, como o todo-poderoso deus dos mortos. Da� em diante, julgando almas e dando um exemplo imortal de conduta real, dominou a religi�o (e a cultura) do antigo Egito durante todo o per�odo da hist�ria conhecida dessaterra. Estabilidade Serena Quem pode imaginar o que as civiliza��es dos Andes e do M�xico poderiam ter realizado se elas tamb�m tivessem se beneficiado com essa poderosa continuidade simb�lica? Neste particular, contudo, o Egito � excepcional. Na verdade, embora os Textos da Pir�mide e outras fontes arcaicas reconhe�am um per�odo de subleva��o e


tentativa de usurpa��o por Set (e seus 72 conspiradores "precessionais"), elas descrevem tamb�m a transi��o para o reinado de H�rus, Thoth e os fara�s divinos posteriores como tendo sido relativamente suave e inevit�vel. Essa transi��o foi imitada, atrav�s de milhares de anos, por reis mortais do Egito. Desde o in�cio at� o fim, eles se consideraram como descendentes lineares e representantes vivos de H�rus, o filho de Os�ris. � medida que as gera��es se sucediam, era cren�a geral que o fara� morto renascia no c�u como "um Os�ris" e que cada sucessor ao trono se tornava um "H�rus". Esse esquema simples, refinado e est�vel j� estava plenamente evolu�do e instalado no inicio da Primeira Dinastia - por volta do ano 3100 a.C. Estudiosos aceitam esse fato. A maioria aceita igualmente que estamos tratando aqui de uma religi�o altamente desenvolvida e sofisticada. Estranhamente, pouqu�ssimos egipt�logos e arque�logos questionam quando e onde essareligi�o tomou forma. N�o ser� um desafio � l�gica supor que id�ias sociais e metaf�sicas bem-acabadas, como as do culto de Os�ris, surgiram inteiramente formadas no ano 3100 a.C. ou que poderiam ter assumido essa forma perfeita nos 300 anos que os egipt�logos, �s vezes de m� vontade, lhes concedem para isso? For�osamente deve ter transcorrido um per�odo de desenvolvimento muito mais longo do que isso, estendendo-se por v�rios milhares e n�o v�rias centenas de anos. Al�m do mais, conforme vimos, todos os registros remanescentes nos quais os antigos eg�pcios nos falam diretamente sobre seu passado afirmam que essa civiliza��o era um legado "dos deuses", que "foram os primeiros a governar no Egito". Os registros s�o internamente coerentes: alguns atribuem uma antiguidade muito maior � civiliza��o do Egito do que outros. Todos, contudo, dirigem clara e firmemente nossa aten��o para uma �poca distante, muito distante no passado - para alguma coisa de 8.000a 40.000anos, antes da funda��o da Primeira Dinastia. Arque�logos insistem em que nenhum artefato material jamais foi encontrado no Egito que sugira que uma civiliza��o evolu�da existiu nessas datas t�o antigas, mas essa alega��o tampouco � rigorosamente verdadeira. Conforme vimos na Parte VI, existem alguns objetos e estruturas que n�o foram ainda conclusivamente datados por quaisquer meios cient�ficos. A antiga cidade de Abidos esconde um dos mais extraordin�rios desses enigmas indat�veis... CAP�TULO 45 Obras de Homens e de Deuses


Entre os inumer�veis templos arruinados do antigo Egito, h� um excepcional n�o s� pelo seu estado maravilhoso de conserva��o, que (na verdade, algo muito raro!) inclui um telhado intacto, mas pela fina qualidade de muitos hectares de belos altos-relevos que lhe decoram os majestosos muros. Em Abidos, a 144km do curso atual do Nilo, encontramos o Templo de Seti I, monarca da famosa 19�. Dinastia, que reinou de 13061290 a.C. Seti � conhecido principalmente como pai de um filho famoso, Rams�s II (1290-1224 a.C.), o fara� do �xodo b�blico. Por m�rito pr�prio, contudo, ele foi uma grande figura hist�rica, l�der de grandes campanhas militares al�m das fronteiras do Egito, inspirador da constru��o de v�rios excelentes edif�cios e, cuidadosa e conscientemente, respons�vel pela remodela��o e reforma de muitos outros, mais antigos. Seu templo em Abidos, conhecido evocativamente como "A Casa de Milh�es de Anos", foi dedicado a Os�ris, o "Senhor da Eternidade", sobre o qual dizem os Textos da Pidmide: Tu foste embora, mas retornar�s, tu dormiste, mas despertar�s, morreste, mas viver�s. (...) Seguepelo curso d'�gua, subindo o rio (...) viaja para Abidos na tua forma espiritual, que os deusesordenaram que fosse a tua. A Coroa de Atef Eram 8h da manh�, hora ensolarada e fresca nessas latitudes, quando entrei na escurid�o silenciosa do Templo de Seti I. Algumas se��es de suas paredes eram iluminadas na parte inferior por l�mpadas el�tricas fracas. A n�o ser isso, a �nica ilumina��o era a planejada pelos arquitetos do fara�: alguns isolados raios de luz que penetravam atrav�s de frestas nas pedras de cantaria externa, como se fossem feixes de radia��o divina. Pairando entre os pontos de poeira que dan�avam nesses feixes e infiltrando-se no ar parado e denso entre as grandes colunas que sustentavam o telhado da Galeria das Colunatas, era f�cil imaginar que a forma espiritual de Os�ris ainda poderia estar ali presente. Na verdade, isso era mais do que apenas imagina��o, porque Os�ris estava fisicamente presente na espantosa sinfonia de altos-relevos que adornavam as paredes - altos-relevos que descreviam o antigo e futuro rei civilizador em seu papel de deus dos mortos, entronizado e servido por �sis, sua bela e misteriosa irm�. Nessas cenas, Os�ris usava grande variedade de diferentes e refinadas coroas, que estudei com toda aten��o, enquanto ia de um alto-relevo a outro. Coroas semelhantes a essasforam, sob muitos aspectos, adere�os importantes no guarda-roupa dos fara�s


do Egito antigo, pelo menos se consideramos como prova disso os altos-relevos que os mostram. Curiosamente, por�m, em todos esses anos de intensas escava��es, arque�logos jamais encontraram um exemplo sequer de uma coroa real, um fragmento e, ainda menos, um esp�cime dos complicados adere�os cerimoniais de cabe�aligados aos deusesdos Primeiros Tempos. A coroa de Atef revestia-se de um interesse especial. Incluindo a uraeus, o s�mbolo da serpente real (que no M�xico era a cascavel, mas, no Egito, a cobra-de-capelo pronta para dar o bote), o n�cleo central dessa estranha cria��o era reconhec�vel como um exemplo do hedjet, o capacete de guerra branco, em forma de garrafa, do alto Egito (mais uma vez, conhecido apenas atrav�s de altos-relevos). Erguendo-se de ambos os lados dessaparte central, havia o que pareciam duas finas folhas de metal e, na frente, um dispositivo sob a forma de duas l�minas encurvadas, que os estudiosos descrevem geralmente como um par de chifres de carneiro. Em v�rios altos-relevos do Tempo de Seti I, Os�ris � mostrado usando a coroa de Atef, que parecia ter cerca de 60cm de altura. De acordo com o Ancient Egyptian Book of the Dead, a coroa lhe fora dada por R�: "Mas, no primeiro dia em que a usou, Os�ris teve muitas dores de cabe�a e, quando R� voltou � noite, estava zangado e com a cabe�a inchada devido ao calor da coroa de Atef. R�, em seguida, fez uma pun��o para drenar o pus e o sangue." Tudo isso era contado de forma simples, embora - quando paramos para pensar no assunto -, que tipo de coroa era essa que irradiava calor e fazia a pele verter sangue e romper-se em feridas pustulentas?


Dezessete S�culos de Reis Penetrei na escurid�o ainda mais profunda e acabei encontrando o caminho para a Galeria dos Reis. Ela come�a na borda oeste da Galeria das Colunatas, a cerca de 60m da entrada do templo. Cruzar a galeria era como cruzar o pr�prio tempo. Em uma parede � direita, vi uma lista de 120 deuses do Egito antigo, juntamente com os nomes dos principais santu�rios. � direita, cobrindo uma �rea de talvez 3m x 1,80m, estendia-se a lista dos 76 fara�s que haviam precedido Seti I no trono. Todos esses nomes eram esculpidos em hier�glifos dentro de cartuchos ovais. Essequadro em pedra era conhecido como "A Lista Real de Abidos". Brilhando na cor de ouro derretido, devia ser lido da esquerda para a direita e era dividido em cinco


registros verticais e tr�s horizontais. A lista cobria uma grande extens�o de tempo, de quase 1.700 anos, come�ando com o ano 3000 a.C., iniciando-se com o reinado de Men�s, o primeiro rei da Primeira Dinastia, e terminando com o reinado do pr�prio Seti, por volta do ano 1300 a.C. Na extrema direita, duas figuras em p� refinadamente entalhadas em alto-relevo: Seti e o jovem filho, o futuro Rams�slI. Hipogeu Pertencendo � mesma classe de documentos hist�ricos que o Papiro de Turim e a Pedra de Palermo, a lista falava eloq�entemente da continuidade da tradi��o. Parte inerente � tradi��o era a cren�a, ou mem�ria, nos Primeiros Tempos, h� muito, muito tempo, quando os deuseshaviam reinado no Egito. O principal entre essesdeusesfora Os�ris e era, por conseguinte, apropriado que a Galeria dos Reis desse acesso a um segundo corredor, levando aos fundos do templo, onde se localiza um pr�dio maravilhoso - ligado a Os�ris desde o come�o da hist�ria documentada do Egito e descrito por Estrab�o, o ge�grafo grego (que visitou Abidos no s�culo I a.C.), como "uma estrutura not�vel, constru�da de pedra maci�a... [contendo] uma fonte de grande profundidade, � qual se pode descer atrav�s de galerias com teto abobadado, constru�das com mon�litos de extraordin�rio tamanho e trabalho artesanal. H� um canal que chega at� o local, vindo do grande rio..." Algumas centenas de anos ap�s a visita de Estrab�o, quando a religi�o do antigo Egito fora suplantada pelo novo culto do cristianismo, o lodo do rio e as areias do deserto come�aram a entrar no Osireion, enchendo-o gradualmente, um s�culo ap�s outro, at� que seus mon�litos verticais e imensos lint�is foram sepultados e esquecidos. E assim permaneceram, longe da vista e do conhecimento de todos, at� o come�o do s�culo XX, quando os arque�logos Flinders Petrie e Margaret Murray iniciaram escava��es. Na etapa de escava��o de 1903, eles descobriram partes de um corredor e passagem, situados no deserto, a uns 60m a sudoeste do Templo de Seti I e constru�dos no estilo arquitet�nico caracter�stico da 19�. Dinastia. Espremidos entre essesrestos e os fundos do Templo, por�m, encontraram ainda sinais inconfund�veis de que havia ali enterrado um grande pr�dio. "Esse hipogeu", escreveu Margaret Murray, "pareceu ao professor Petrie ser o mesmo lugar mencionado por Estrab�o, geralmente conhecido como Po�o de Estrab�o". Foi um bom palpite de parte de Petrie e Murray. Falta de dinheiro, por�m, fez com que a teoria de ambos, de um pr�dio sepultado sob a areia, s� fosse submetida a teste na temporada de escava��esde 1912-13. Nessa ocasi�o, sob a dire��o do professor Naville, do Fundo de Explora��o do Egito, foi escavada uma longa c�mara transversal, ao fim da qual, na dire��o nordeste, os arque�logos


encontraram um maci�o portal de pedra, constru�do com cicl�picos blocos de granito e arenito. Na temporada seguinte, 1913-14, Naville e sua equipe voltaram ao trabalho com 600 trabalhadores locais e diligentemente limparam todo o imenso pr�dio subterr�neo: O que descobrimos (escreveu Naville) foi uma obra gigantesca, de cerca de 30m de comprimento por 18m de largura, constru�da com as pedras de maior tamanho que podem ser vistas no Egito. Nos quatro lados dos muros circundantes, encontramos celas, em n�mero de 17, da altura de um homem e sem ornamenta��o de qualquer tipo. O pr�dio em si � dividido em tr�s naves, com a central mais larga do que as laterais. A divis�o entre elas � obtida por interm�dio de duas s�ries de colunatas feitas de imensos mon�litos de granito, que sustentam arquitraves de igual tamanho.


Com certo espanto, Naville comentou as dimens�es de um bloco, que mediu no canto da nave norte do pr�dio, um bloco de mais de 7,5m de comprimento. Igualmente surpreendente era o fato de que as celas cortadas nas paredes circundantes n�o tinham piso, descobrindo-se, � medida que prosseguiam as escava��es, que estavam cheias de areia cada vez mais �mida: As celas s�o ligadas por uma laje estreita de 60cm e 90cm de largura. H� outra laje, no lado oposto da nave, mas nenhum piso, absolutamente, e, ao escavar at� uma profundidade de 3,5m, encontramos infiltra��o de �gua. At� mesmo embaixo do grande portal n�o existe piso e, quando houve �gua diante dele, as celas eram provavelmente alcan�adascom aux�lio de um pequeno bote. O Mais Antigo Edif�cio de Pedra do Egito �gua, �gua por toda parte - esta parecia ser a constante do Osireion, que se encontra no fundo da imensa cratera que Naville e seus trabalhadores escavaram em 1914. O pr�dio se situa a cerca de 15m abaixo do n�vel do ch�o do Templo de Seti I, quase na mesma altura do len�ol fre�tico, e o acesso a ele � feito atrav�s de uma escada moderna, que se curva para baixo na dire��o sudeste. Tendo descido, Passei por baixo das lajes do lintel do grande portal descrito por Naville (e Estrab�o) e cruzei uma estreita ponte de madeira - mais uma vez, moderna - que me levou a um grande pedestal de arenito. Medindo 24 x 12m de largura, esse pedestal � feito de enormes blocos de pavimenta��o e inteiramente cercado de �gua. Dois tanques, um retangular e, o outro, quadrado, foram cortados no pedestal ao longo do centro de seu eixo longo e, em cada extremidade, escadaslevam a uma profundidade de cerca de 2,60m abaixo do n�vel da �gua. O pedestal sustenta tamb�m as duas colunatas maci�as que Naville mencionou em seu relat�rio, ambas de cinco grossos mon�litos de granito cor-de-rosa de 75cm2 por 3,60m de altura e pesando, em m�dia, por volta de 100 toneladas. As partes superiores dessas imensas colunas eram ligadas por lint�is de granito e h� prova de que toda a estrutura teve um telhado constitu�do de uma s�rie de mon�litos ainda maiores. Para compreender bem a estrutura do Osireion, achei conveniente erguer-me, pela imagina��o, diretamente sobre ela, de modo a poder olhar para baixo. Esse exerc�cio foi facilitado pela aus�ncia do telhado original, o que tornou mais f�cil imaginar, em um n�vel plano, todo o edif�cio. �til tamb�m era o fato de que �gua se infIltrara e enchera todos os tanques do pr�dio, celas e canais, at� uma profundidade de algumas


polegadas abaixo da borda do pedestal central, como aparentemente fora a inten��o dos projetistas originais. Olhando para baixo dessamaneira, era claramente vis�vel que o pedestal formava uma ilha retangular, cercada nos quatro lados por um fosso cheio de �gua, de uns 3m de largura. O fosso era delimitado por um muro enorme, retangular, de nada menos de 6m de espessura, feito de blocos muito grandes de arenito vermelho, assentados em um padr�o de quebra-cabe�a poligonal. Na enorme espessura do muro haviam sido abertas as 17 celas mencionadas no relat�rio de Naville. Havia seis delas a leste, seis a oeste, duas ao sul e tr�s ao norte. Saindo da cela que ficava no centro das tr�s celas do norte estendia-se uma longa c�mara transversal, com cobertura de pedra calc�ria. Uma c�mara transversal semelhante, tamb�m de pedra calc�ria, mas sem telhado intacto, come�ava imediatamente ao sul do grande portal. Finalmente, toda a estrutura era fechada dentro de um muro externo de pedra calc�ria, completando, dessa maneira, uma seq��ncia de ret�ngulos que se encaixavam, isto �, da parte externa para dentro, muro, parede, fosso, pedestal. Outro aspecto not�vel e surpreendentemente incomum do Osireion � que o pr�dio n�o se encontra nem mesmo aproximadamente alinhado com os pontos cardeais. Em vez disso, tal como o Caminho dos Mortos, em Teotihuac�n, no M�xico, � orientado para leste do norte verdadeiro. Uma vez que o antigo Egito foi uma civiliza��o que podia, e geralmente conseguia, fazer alinhamentos precisos de seus pr�dios, parecia-me improv�vel que essa orienta��o, aparentemente torta, tivesse sido acidental. Al�m do mais, embora 15m mais alto, o Templo de Seti I estava orientado exatamente de acordo com o mesmo eixo - e, mais uma vez, n�o por acaso. A quest�o era: qual deles era o pr�dio mais antigo? Teria o eixo do Osireion sido predeterminado pelo eixo do templo, ou vice-versa? Essa d�vida, conforme descobri, foi outrora objeto de acesa controv�rsia, desde ent�o esquecida. Em um debate que teve muitas semelhan�as com o que cerca a Esfinge e o Templo do Vale, em Giz�, arque�logos eminentes haviam inicialmente argumentado que o Osireion era um edif�cio de uma antiguidade realmente imensa, opini�o esta manifestada pelo professor Naville, no Times, de Londres, no dia 17 de mar�o de 1914: Esse monumento sugere v�rias quest�es importantes. Quanto � sua data, a grande semelhan�a que revela com o Templo da Esfinge [como o Templo do Vale era ent�o conhecido] demonstra que a estrutura foi da mesma �poca, quando pr�dios eram constru�dos com pedras enormes, sem qualquer ornamento. Essefato � caracter�stico da arquitetura mais antiga do Egito. Eu diria mesmo que poderemos consider�-lo como o edif�cio de pedra mais antigo do Egito.


Descrevendo a si mesmo como tomado de profundo respeito pela "grandiosidade e simplicidade severa" da galeria central do monumento, com seus not�veis mon�litos de granito, e pelo "poder dessespovos antigos, que podiam trazer de lugares distantes e assentar esses blocos gigantescos", ele fez uma sugest�o sobre a finalidade para a qual o Osireion poderia ter sido originariamente constru�do: "Evidentemente, essa imensa constru��o constitu�a um grande reservat�rio, onde era armazenada �gua durante a cheia do Nilo. (...) � curioso que aquilo que poder�amos considerar como o in�cio da arquitetura nem � um templo nem uma tumba, mas uma piscina gigantesca, uma obra de hidr�ulica..." Curioso realmente e merecedor de mais estudo, algo que Naville tinha esperan�a de fazer na temporada seguinte. Infelizmente, estourou a Primeira Guerra Mundial e nenhum trabalho ulterior de arqueologia p�de ser feito no Egito durante v�rios anos. Em conseq��ncia, s� em 1925 � que o Fundo de Explora��o do Egito p�de enviar outro grupo, nessa ocasi�o n�o mais dirigido por Naville, mas por um jovem egipt�logo chamado Henry Frankfort.


Os Fatos de Frankfort Mais tarde professor de antiguidade pr�-cl�ssica da Universidade de Londres, Frankfort passou v�rias temporadas procedendo a uma nova limpeza e escavando exaustivamente o Osireion entre os anos de 1925 e 1930. No curso desse trabalho, ele realizou descobertas que, no que o interessava, "fixou conclusivamente a data do pr�dio":


1. Um encaixe de granito em posi��o no alto do lado sul da principal entrada do corredor central, gravado com o do cartucho de Seti I. 2. Um encaixe semelhante em posi��o, no interior da parede leste do corredor central. 3. Cenas e inscri��es astron�micas de autoria de Seti I, entalhadas em alto-relevo no teto da c�mara transversal norte. 4. Restos de cenas semelhantes na c�mara transversal sul. 5. Uma ostracon (pe�a de cer�mica quebrada) encontrada na passagem da entrada, com a legenda: "Seti � �til a Os�ris". O leitor lembrar� o comportamento de lemingue que resultou em uma mudan�a espetacular da opini�o acad�mica sobre a antiguidade da Esfinge e do Templo do Vale (devido � descoberta de algumas est�tuas e de um �nico cartucho que pareciam sugerir algum tipo de liga��o com Khafre). As descobertas de Frankfort em Abidos causaram uma volte-face semelhante sobre a antiguidade do Osireion. Em 1914, a estrutura era "o edif�cio de pedra mais antigo do Egito". Em 1933, ele havia sido promovido no tempo ao reinado de Seti I - por volta do ano 1300 a.C. -, que, nesse momento, passou a ser considerado como o cenot�fio dessefara�. Dentro de uma d�cada, os textos egiptol�gicos padr�o come�aram a atribuir a Seti I a constru��o do monumento, como se fosse fato inquestion�vel, verific�vel atrav�s de experi�ncia ou observa��o. Mas n�o h� nenhum fato desse tipo, apenas a interpreta��o que Frankfort deu � prova que encontrou. Os�nicos fatos ineg�veis s�o que certas inscri��es e motivos decorativos deixados por Seti aparecem em uma estrutura, sob outros aspectos, inteiramente an�nima. Uma explica��o plaus�vel � que ela tenha sido constru�da por Seti, como sugeriu Frankfort. A outra, que as decora��es, cartuchos e inscri��es med�ocres por ele encontradas poderiam ter sido colocadas no Osireion como parte de restaura��o e reparos iniciados no tempo de Seti (o que implicaria que a estrutura j� era, por essa �poca, antiga, como Naville e outros pesquisadores sugeriram): Quais os m�ritos dessas proposi��es mutuamente contradit�rias, que identificam o Osireion como, a) o pr�dio mais antigo do Egito e b) uma estrutura relativamente recente do Novo Reino? A proposi��o b - o pr�dio como cenot�fio de Seti - � a �nica aceita pelos egipt�logos. Examinando-se bem o assunto, verifica-se que ela repousa sobre a prova circunstancial dos cartuchos e inscri��es, que nada provam. Na verdade, parte dessa prova parece contradizer o argumento de Frankfort. A ostracon com a legenda "Seti � �til a Os�ris" parece menos um elogio �s obras do construtor original do que o elogio a


um restaurador que talvez tenha acrescentado alguma coisa a uma estrutura antiga, identificada com o deus Os�ris, dos Primeiros Tempos. Outra pequena quest�o inc�moda foi tamb�m ignorada. As "c�maras transversais" norte e sul, que cont�m detalhadas decora��es e inscri��es de Seti I, ficam no lado de fora do muro externo que, de modo t�o claro, define o n�cleo imenso, sem decora��o alguma, do edif�cio. Esse fato despertou uma razo�vel suspeita na mente de Naville (embora Frankfort tivesse resolvido ignor�-la), de que as duas c�maras em quest�o "n�o eram contempor�neas do resto do edif�cio", mas haviam sido acrescentadas muito depois, durante o reinado de Seti I. "provavelmente quando ele construiu seu pr�prio templo". Para resumir, por conseguinte, tudo a respeito da proposi��o b baseia-se, de uma maneira ou de outra, na interpreta��o n�o necessariamente infal�vel de Frankfort no tocante a v�rios fragmentos de evid�ncia possivelmente intrusa. A proposi��o a - de que o edif�cio central do Osireion foi constru�do mil�nios antes do tempo de Seti - repousa sobre a natureza da pr�pria arquitetura. Conforme observou Naville, a semelhan�a do Osireion com o Templo do Vale, em Giz�, "mostra que � da mesma �poca, quando as constru��es eram feitas com pedras enormes". De id�ntica maneira, at� o fim da vida, Margaret Murray continuou convencida de que o Osireion n�o era absolutamente um cenot�fio (e ainda menos que tudo, de Seti). Disseela: A estrutura foi constru�da para a celebra��o dos mist�rios de Os�ris e � at� agora excepcional entre todos os pr�dios remanescentes do Egito. � evidentemente antiga, uma vez que os grandes blocos de que foi constru�da s�o do estilo do Antigo Reino. A simplicidade do pr�dio sugere tamb�m que ele � de data muito antiga. A decora��o foi acrescentada por Seti I que, dessa maneira, arrogou-se o direito sobre o pr�dio, mas, sabendo-se com que freq��ncia um fara� apropriava-se do trabalho de seus predecessores, a de acrescentando seu nome, esse fato n�o tem muito valor probat�rio. No Egito, � o estilo do pr�dio, o tipo de cantaria, o trabalho feito nas pedras, e n�o o nome de um rei, que lhe fixam a data. Havia a� uma advert�ncia � qual Frankfort deveria ter dado mais aten��o, porquanto ele mesmo observou, confuso, a respeito de seu "cenot�fio": "Temos de admitir que nenhum edif�cio semelhante � conhecido na 19�. Dinastia." Na verdade, n�o se trata simplesmente de uma quest�o da 19�. Dinastia. � parte o Templo do Vale e outros edif�cios cicl�picos existentes no plat� de Giz�, nenhum outro pr�dio que lembre mesmo remotamente o Osireion � conhecido como de qualquer outra �poca da longa hist�ria do Egito. Esse punhado de estruturas


supostamente do Velho Reino, constru�das com meg�litos gigantescos. parece incluirse em uma categoria sem igual. Lembram umas �s outras muito mais do que lembram qualquer estilo conhecido de arquitetura e, em todos os casos, h� pontos de interroga��o sobre sua identidade. N�o seria isso exatamente o que esperar�amos de pr�dios n�o constru�dos por qualquer fara� do per�odo hist�rico, mas retroagindo a tempos pr�-hist�ricos? N�o confere sentido � maneira misteriosa como a Esfinge e o Templo do Vale, e agora tamb�m o Osireion, parecem tornar-se vagamente ligados aos nomes de determinados fara�s (Khafre e Seti I), sem jamais produzir uma �nica indica��o que, clara e inequivocamente, prove que esses fara�s constru�ram a estrutura em causa? Os la�os muito t�nues n�o indicariam muito mais o trabalho de restauradores, que procuraram ligar seus nomes a monumentos antigos e vener�veis, do que dos arquitetos originais desses monumentos - quem quer que possam ter sido e em que �poca possam ter vivido? Navegando por Mares de Areia e de Tempo Antes de deixar Abidos, havia outro enigma que eu queria investigar. O enigma estava enterrado no deserto, a cerca de um quil�metro a noroeste do Osireion, do outro lado de areias ondulantes coalhadasde cemit�rios antigos, atravancadosde t�mulos. Entre esses cemit�rios, muitos do quais datam de princ�pios dos tempos din�sticos e pr�-din�sticos, os deuses chacais, An�bis e Upuaut, reinaram supremos, segundo a tradi��o. Desbravadores de caminhos, guardi�es do esp�rito dos mortos, eu sabia que eles haviam desempenhado um papel fundamental nos mist�rios de Os�ris, que tinham sido encenados todos os anos em Abidos - aparentemente durante todo o transcurso da antiga hist�ria eg�pcia. Eu achava que havia um sentido em que eles ainda guardavam os mist�rios. Pois o que era o Osireion sen�o um enorme mist�rio sem solu��o, que merecia estudo mais atento do que recebera de estudiosos cujo trabalho consiste em examinar esses assuntos? E o que significava o sepultamento, no deserto, de doze barcos de proa alta, com capacidade para navegar no mar, se n�o um mist�rio que clamava por solu��o? E era para conhecer o local do sepultamento desses barcos que eu estava nesse momento cruzando os cemit�rios dos deuseschacais: The Guardian, Londres, 21 de dezembro de 1991: Uma frota de 5.000 anos de idade de

barcos reais foi encontrada enterrada a 130km do Nilo. Arque�logos americanos e eg�pcios descobriram em Abidos doze grandes barcos de madeira. (...) Especialistas


disseram que os barcos - que medem de 15 a 18m de comprimento - t�m cerca de 5.000 anos de idade, o que os torna os barcos reais mais antigos do Egito e os mais velhos jamais encontrados em qualquer outro local. (...) Dizem ainda os peritos que os barcos, descobertos em setembro, foram provavelmente constru�dos para que fossem enterrados, de modo que a alma dos fara�s pudesse ser neles transportada. "Nunca esperamos encontrar tal frota, especialmente t�o longe do Nilo", disse David O'Connor, o chefe da expedi��o e curador da Se��o Eg�pcia do Museu Universit�rio da Universidade da Pensilv�nia... Os barcos haviam sido enterrados � sombra de um gigantesco espa�o fechado, constru�do com tijolos de argila, supostamente o templo mortu�rio de um fara� da Segunda Dinastia, chamado Khasekhemwy, que reinou no Egito no s�culo XXVII a.C. O'Connor, por�m, tinha certeza de que os barcos n�o estavam ligados diretamente a Khasekhemwy, mas, sim, a um espa�o fechado (na maior parte em ru�nas) "constru�do para o fara� Djer, em princ�pios da Primeira Dinastia. As sepulturas dos barcos n�o s�o provavelmente mais recentes do que esse tempo e podem, na verdade, ter sido constru�das para Djer, embora essefato precise ainda ser provado". Uma forte e s�bita pancada de vento varreu o deserto, espalhando len��is de areia. Refugiei-me por algum tempo � sombra dos muros imponentes do espa�o fechado de Khasekhemwy, perto do ponto onde os arque�logos da Universidade da Pensilv�nia haviam, por quest�es leg�timas de seguran�a, reenterrado os doze misteriosos barcos que descobriram acidentalmente em 1991. Eles tinham esperan�a de voltar em 1992 para recome�ar as escava��es. Mas surgiram v�rios contratempos e, em 1993, a escava��ocontinuava ainda adiada. Durante minha pesquisa, O'Connor me enviara o relat�rio oficial da temporada de escava��es de 1991, mencionando de passagem que alguns barcos poderiam ter at� 22m de comprimento. Ele observou ainda que as sepulturas, revestidas de tijolos, em que estavam fechados os barcos, e que deveriam ter tido uma altura muito acima do n�vel do deserto circundante nos primeiros tempos din�sticos, deviam ter produzido um efeito extraordin�rio quando recentes: Todas as sepulturas haviam sido originariamente revestidas com reboco de barro e cal, de modo que a impress�o teria sido de doze (ou mais) enormes "barcos" ancorados no deserto, brilhando vivamente sob o sol eg�pcio. A id�ia de que estavam ancorados foi levada t�o a s�rio que um pequeno calhau de forma irregular foi colocado perto da "proa" ou da "popa" de v�rias das sepulturas. Esses calhaus n�o poderiam estar ali naturalmente ou por acaso. A coloca��o deles parece ter sido deliberada, e n�o obra do


acaso. Podemos pensar neles como "�ncoras" destinadas a ajudar a "amarrar" os barcos. Tal como o barco oce�nico de 140 p�s encontrado enterrado ao lado da Grande Pir�mide de Giz� (ver Cap�tulo 33), uma coisa ficou imediatamente clara sobre os barcos de Abidos - eles eram de projeto avan�ado, capazes de cruzar as ondas mais altas e ag�entar as piores condi��es de tempo em mar aberto. De acordo com Cheryl Haldane, arque�loga especializada em assuntos n�uticos, da Texas A & M University, eles exibiam "um alto grau de tecnologia, combinada com eleg�ncia". Exatamente como acontecia com o barco da pir�mide (mas pelo menos 500 anos mais antigos), a esquadra de Abidos parecia indicar que um povo capaz de usar a experi�ncia acumulada de uma longa tradi��o de viagens mar�timas estivera presente no Egito desde o pr�prio in�cio de sua hist�ria de 3.000 anos. Al�m do mais, eu sabia que os murais mais antigos encontrados no Vale do Nilo, datando talvez de 1.500 anos antes do enterro da frota de Abidos (por volta do ano 4500 a.C.), mostravam os mesmos barcos longos, esguios, de proa alta. Poderia uma ra�a experiente de antigos marinheiros ter mantido contato com os habitantes nativos do Vale do Nilo, em algum per�odo indeterminado, antes do in�cio oficial da hist�ria do pa�s, por volta do ano 3000 a.C.? Esse fato explicaria a curiosa e paradoxal obsess�o - mas ainda assim duradoura - do Egito com navios no deserto (e refer�ncias, ao que parecia, a barcos sofisticados nos Textos da Pir�mide, incluindo um que se dizia ter medido mais de 610m)? Ao fazer essas conjecturas, eu n�o tinha d�vida de que existira no Egito um simbolismo religioso no qual, como observaram incansavelmente especialistas, barcos eram designados como ve�culos para a alma do fara�. Ainda assim, tal simbolismo n�o solucionava o problema criado pelo alto n�vel de progresso tecnol�gico dos barcos enterrados, uma vez que esses projetos evolu�dos e sofisticados exigiam um longo per�odo de desenvolvimento. N�o valeria a pena estudar a possibilidade - mesmo que fosse apenas para exclu�-Ia - de que os barcos de Giz� e Abidos pudessem ter sido partes de uma heran�a cultural e n�o de um povo agr�cola amante da terra, morador de margem de rio, tal como os eg�pcios antigos, mas de uma na��o mar�tima avan�ada? Seria de esperar que esses marinheiros fossem navegadores, que teriam sabido como estabelecer um curso pelas estrelas e que talvez tivessem desenvolvido as per�cias necess�rias para desenhar mapas e cartas exatas dos oceanos que tivessem cruzado.


Poderiam eles ter sido tamb�m os arquitetos e os pedreiros cujo material de constru��o caracter�stico tinha sido blocos megal�ticos poligonais, como os encontrados no Templo do Vale e no Osireion? E poderiam eles ter sido ligados, de alguma maneira, aos deuses lend�rios dos Primeiros Tempos, que as lendas diziam ter trazido para o Egito n�o s� a civiliza��o, a astronomia, a arquitetura e o conhecimento da matem�tica e da escrita, mas tamb�m um grande conjunto de habilidades e d�divas �teis, a mais not�vel e mais importante das quais foi a agricultura? H� provas de um per�odo extraordinariamente antigo de progresso e experimenta��o agr�cola no Vale do Nilo, mais ou menos ao fim da �ltima Era Glacial no hemisf�rio Norte. As caracter�sticas desse grande "salto � frente" sugerem que ele s� poderia ter ocorrido com a chegada de novas id�ias, procedentes de alguma fonte ainda n�o identificada. CAP�TULO 46 O Und�cimo Mil�nio a.C. Se n�o existisse a impressionante mitologia de Os�ris e se essa divindade civilizadora, cient�fica, legisladora, n�o fosse lembrada em particular por ter introduzido culturas agr�colas �teis ao homem no Vale do Nilo, na �poca remota e fabulosa conhecida como os Primeiros Tempos, provavelmente n�o seria assunto de grande interesse que, em algum momento entre os anos 13000 e 10000 a.C., o Egito desfrutou um per�odo daquilo que foi descrito como a mais antiga revolu��o agr�cola no mundo, identificada com certeza pelos historiadores. Conforme vimos em cap�tulos recentes, fontes como a Pedra de Palermo, Manetho e o Papiro de Turim cont�m v�rias cronologias diferentes e, �s vezes, contradit�rias. Todas elas, no entanto, concordam sobre uma data muito antiga para os Primeiros Tempos de Os�ris: a idade �urea em que os deuses supostamente reinaram no Egito. Al�m disso, essas fontes demonstram uma not�vel converg�ncia no tocante � import�ncia atribu�da ao und�cimo mil�nio em particular, a Era de Le�o, no que interessa � precess�odos equin�cios, quando os grandes len��is de gelo no hemisf�rio Norte estavam passando pelo final e tumultuoso derretimento. Talvez por coincid�ncia, prova desenterrada desde a d�cada de 1970 por ge�logos, arque�logos e especialistas em pr�-hist�ria, como Michael Hoffman, Fekri Hassan e o professor Fred Wendorff confirma que o und�cimo mil�nio a.C. foi, na verdade, um per�odo importante na pr�-hist�ria do Egito, �poca em que inunda��es imensas e devastadoras varreram repetidamente o vale do Nilo. Fekri Hassan especulou que essa s�rie prolongada de calamidades naturais, que atingiu o auge por volta ou


imediatamente depois do ano 10500 a.C. (e continuou a se repetir periodicamente) pode ter sido respons�vel pelo encerramento de qualquer experimenta��o agr�cola antiga". De qualquer modo, o experimento chegou realmente ao fim (por qualquer que tenha sido a raz�o) e parece que n�o foi novamente tentado por, pelo menos, mais 5.000 anos. Pontap� Inicial H� algo misterioso na denominada "revolu��o agr�cola paleol�tica" do Egito. Vejamos, em cita��es extra�das de textos padr�o (Egypt before The Pharaohs, de Hoffman, e Prehistory ofthe Nile Valley, de Wendorff e Schild), alguns fatos importantes no pouco que se sabe sobre o grande salto para a frente que ocorreu, de forma inexplic�vel, perto do fim da �ltima Era Glacial: 1. Pouco depois do ano 13000 a.C., m�s e l�minas lustrosas de foice (resultado de corte de talos que ficaram colados ao gume das foices) aparecem na caixa de ferramentas de fins do Paleol�tico... � claro que as m�s foram usadas para preparar alimento de origem vegetal. 2. Em numerosos s�tios arqueol�gicos � beira de rios, exatamente nessa �poca, o peixe deixou de ser fonte de alimento importante e tornou-se insignificante, como � comprovado pela aus�ncia de seus restos. "O decl�nio da pesca como fonte de alimentos relacionou-se com o aparecimento de um novo recurso alimentar, os gr�os mo�dos. O p�len associado nessescasossugere fortemente que essecereal era a cevada e, no que � muito importante, essa grande relva-p�len, provisoriamente identificada como cevada, faz um aparecimento s�bito nos perfis de p�len exatamente antes de os primeiros povoados serem estabelecidos nessa�rea..." 3. "T�o espetacular quanto o aparecimento da proto-agricultura no Vale do Nilo, em fins do Paleol�tico, foi sua r�pida decad�ncia. Ningu�m sabe exatamente por que, mas, ap�s o ano 10500 a.C., mais ou menos, desapareceram as antigas l�minas de foice e as m�s, e foram substitu�das em todo o Egito por ca�a, pesca e coleta de alimentos por povos epipaleol�ticos que usavam instrumentos de pedra." Escassa como possa ser a prova, fica claro, em suas implica��es gerais, o seguinte: o Egito desfrutou uma idade �urea de prosperidade agr�cola que come�ou por volta do ano 13000 a.C. e acabou abruptamente pelas alturas de meados do und�cimo mil�nio a.C. O pontap� inicial no processo parece ter sido dado pela introdu��o da cevada


domesticada no Vale do Nilo, seguida imediatamente pela funda��o de certo n�mero de povoados agr�colas, que exploraram o novo recurso. Os povoados possu�am instrumentos agr�colas e acess�rios simples, mas extremamente eficazes. Ap�s o und�cimo mil�nio, por�m, ocorreu uma prolongada reca�da em estilos de vida mais primitivos. Nossa imagina��o sente a tend�ncia de vaguear livremente sobre esses dados, em busca de uma explica��o - e todas as explica��es desse tipo s� poder�o mesmo ser palpites. O certo � que nenhuma prova sugere que a "revolu��o agr�cola" paleol�tica no Egito pudesse ter sido uma iniciativa local. Muito ao contr�rio, parece, de todas as maneiras, um transplante. Um transplante aparece de repente, afinal de contas, e pode ser rejeitado com igual rapidez se mudam as condi��es, da mesma maneira que a agricultura praticada por comunidades com resid�ncia fixa parece ter sido rejeitada no Egito antigo, ap�s as grandes cheias do Nilo no und�cimo mil�nio a.C.

Mudan�a Clim�tica Como era o tempo naquela �poca? Em cap�tulos anteriores, observamos que o Saara, um deserto relativamente jovem, era uma savana verde por volta do d�cimo mil�nio a.C. A savana, pontilhada de lagos, pululava de ca�a, estendia-se por parte muito grande do alto Egito. Mais ao norte, a �rea do delta era pantanosa, mas com muitas ilhas, grandes e f�rteis. De modo geral, o clima era muito mais frio, mais nublado e mais chuvoso do que hoje, Na verdade, durante os dois ou tr�s mil anos antes e cerca de mil anos ap�s o ano 10500 a.C., choveu ininterruptamente. Em seguida, como que assinalando um momento ecol�gico decisivo, chegaram as inunda��es. Ao passar esse per�odo, surgiram condi��es cada vez mais �ridas. Esseper�odo de ressecamento durou at� aproximadamente 7000 a.C., quando come�ou o "Neol�tico Subpluvial", acompanhado por cerca de mil anos de pesadaschuvas, seguidas por 3.000 anos de precipita��o moderada que, mais uma vez, revelou-se ideal para a agricultura: "Durante algum tempo, os desertos floresceram e sociedades humanas colonizaram �reas que, desde ent�o, t�m sido incapazes de sustentar popula��esnumerosas." Por ocasi�o do in�cio do Egito din�stico, pelos anos 3000 a.C., o clima deu nova meiavolta e come�ou um novo per�odo de ressecamento - que continua at� os dias presentes.


Este, ent�o, foi, em termos gerais, o palco ambiental onde se desenrolaram os dramas de mist�rio da civiliza��o eg�pcia: chuva e inunda��es entre 13000 e 9500 a.C.; um per�odo seco at� o ano 7000 a.C.; chuvas novamente (embora cada vez menos freq�entes) at� mais ou menos o ano 3000 a.C.; e da� em diante um novo e duradouro per�odo seco. O per�odo de anos � muito grande, mas, se estamos procurando os Primeiros Tempos, cujo espa�o temporal possa coincidir com a idade �urea dos deuses, nossos pensamentos voltam-se naturalmente para a �poca misteriosa dos come�os da experimenta��o agr�cola, que seguiu de perto as grandes chuvas e inunda��esentre os anos 13000e 10500a.C. Conex�es Ocultas? Essa �poca foi de import�ncia crucial n�o s� para os antigos eg�pcios mas para numerosos povos de outras �reas. Na verdade. como vimos na Parte IV ocorreram nesse tempo espetaculares mudan�as de clima, eleva��o r�pida do n�vel dos mares, subleva��es da crosta terrestre, inunda��es, erup��es vulc�nicas, chuvas betuminosas e c�us escuros que constitu�ram as raz�es mais prov�veis dos muitos mitos mundiais sobre cataclismo universal. Mas poderia ter sido essa tamb�m uma �poca em que "deuses" realmente andaram pela terra, como dizem as lendas? No altiplano boliviano, esses deuses eram conhecidos como Viracochas e estiveram ligados � impressionante cidade megal�tica de Tiahuanaco, que pode ter sido anterior �s imensas inunda��es nos Andes, ocorridas no und�cimo mil�nio a.C. Da� em diante, de acordo com o professor Arthur Posnansky, embora as �guas do dil�vio baixassem, "a cultura do altiplano n�o mais voltou a atingir um alto ponto de desenvolvimento; ao contr�rio, caiu em uma decad�ncia total e definitiva". Claro, as conclus�es de Posnansky geram controv�rsias e t�m de ser aceitas pelos seus pr�prios m�ritos. N�o obstante, � interessante que o altiplano boliviano e o Egito tenham sido devastados por imensas inunda��es no und�cimo mil�nio a.C. Em ambas as �reas, igualmente, h� sinais de que experimentos agr�colas em tempos muito remotos - aparentemente baseados em t�cnicas introduzidas nessa �poca no local foram feitos e em seguida abandonados. Em ambas as �reas, surgiram importantes perguntas sobre a data��o de monumentos: Puma Punku e o Kalasasaya, em Tiahuanaco, por exemplo, que Posnansky argumentou que poderiam ter sido constru�dos em dada t�o remota quanto o ano 15000 a.C., e, no Egito, estruturas megaliticas como o Osireion, a Grande Esfinge e o Templo do Vale de Khafre, em Giz�,


que John West e o ge�logo Robert Schoch, da Universidade de Boston, dataram, sobre fundamentos geol�gicos, como anteriores ao ano 10000a.C. Poderia haver uma conex�o oculta entre todos esses belos e enigm�ticos monumentos, os estranhos experimentos agr�colas no per�odo 13000-10000 a.C., e as lendas de deusescivilizadores, como Os�ris e Viracocha? "Onde est� o Resto dessa Civiliza��o?" Partindo de Abidos em dire��o a L�xor, onde dever�amos nos encontrar com John West, dei-me conta de que havia um sentido em que todas as conex�es cuidariam de si mesmas, se a quest�o b�sica da antiguidade dos monumentos pudesse ser resolvida. Em outras palavras, se os achados geol�gicos de West provassem que a Esfinge tinha mais de 12.000 anos de idade, a hist�ria da civiliza��o humana teria que ser revista. Como parte desse emocionante processo, todas as demais estranhas, antigas, "impress�es digitais de deuses", que continuavam a aparecer em todo o mundo, e a impress�o de que havia uma corrente subterr�nea de antigas conex�es ligando civiliza��esaparentemente sem liga��o entre si, come�ariam a fazer sentido. Ao ser apresentada na reuni�o anual de 1992, da Associa��o Americana pelo Progresso da Ci�ncia, a prova de West fora levada suficientemente a s�rio para ser debatida publicamente pelo egipt�logo Mark Lehner, da Universidade de Chicago, diretor do Projeto de Mapeamento de Giz�, que - para espanto de quase todos os presentes - n�o conseguiu fazer uma refuta��o convincente. "Quando o senhor diz que algo t�o complexo como a Esfinge data de 9.000 a 10.000 anos a.C.", arrematou Lehner, isso significa, claro, que houve uma civiliza��o muito adiantada, capaz de construir a Esfinge naquele per�odo. A pergunta que um egipt�logo tem que fazer, portanto, � a seguinte: "Se a Esfinge foi constru�da naquela �poca, onde est� o resto dessa civiliza��o, onde est� o resto dessa cultura?" Lehner, contudo, n�o estava compreendendo o ponto importante. Se a Esfinge, de fato, data do per�odo de 9.000 a 10.000 anos a.C., n�o cabia a West o �nus de produzir outras provas da exist�ncia da civiliza��o que a constru�ra, mas aos egipt�logos e arque�logos explicar como haviam entendido t�o mal as coisas, de forma t�o invari�vel, e por tanto tempo. Poderia West provar a antiguidade da Esfinge? CAP�TULO 47 A Esfinge


"Os egipt�logos", diz John West, "s�o as �ltimas pessoasno mundo a estudar qualquer anomalia." Claro, s�o numerosas as anomalias no Egito. A anomalia a que West se referia nessas palavras era a das pir�mides da Quarta Dinastia: anomalia por causado que acontecera durante as Terceira, Quinta e Sexta Dinastias. A Pir�mide Escalonada de Z�ser, em Saqqara (Terceira Dinastia), � uma estrutura imponente, mas foi constru�da com blocos relativamente pequenos, f�ceis de manusear, que cinco ou seis homens trabalhando juntos poderiam carregar, e suas c�maras internas s�o estruturalmente defeituosas. As pir�mides das Quinta e Sexta Dinastias (embora adornadas na parte interna com os belos Textos da Pir�mide) tiveram uma constru��o med�ocre e desmoronaram de forma t�o completa que, hoje, quase todas pouco mais s�o do que montes de entulho. As pir�mides da Quarta Dinastia, em Giz�, por�m, foram maravilhosamente bem constru�das e v�m suportando, mais ou menos intactas, a passagemde milhares de anos. West achava que os egipt�logos deviam ter dado maior aten��o a essa seq��ncia de fatos ou, melhor, suasimplica��es. - H� uma discrep�ncia no cen�rio que fala em "construir pir�mides med�ocres, estruturalmente defeituosas, e, de repente, construir pir�mides absolutamente inacredit�veis, que s�o, estruturalmente, as coisas mais incr�veis j� concebidas pelo homem e, logo em seguida, voltar a pir�mides estruturalmente med�ocres". Isso n�o faz sentido. O cen�rio paralelo na ind�stria automobil�stica, digamos, seria inventar e construir o Ford Modelo-T, e, em seguida, subitamente, inventar e construir um Porsche 93, fabricar apenas alguns deles e, logo depois, esquecer como fazer isso e voltar a produzir o Ford Modelo-T. Civiliza��esn�o funcionam dessamaneira. - O que � que voc� est� querendo dizer com isso? - perguntei. - Est� dizendo que as pir�mides da Quarta Dinastia n�o foram absolutamente constru�das por ela? - Minha intui��o � que n�o foram. Elas em nada se parecem com as mastabasque est�o � sua frente. Tampouco parecem com qualquer outra estrutura da Quarta Dinastia... Elas n�o parecem se encaixar... - E tamb�m n�o a Esfinge? - Tamb�m, n�o. Mas a grande diferen�a � que n�o temos de confiar em nossas intui��es no que se refere � Esfinge. Podemos provar que ela foi constru�da muito antes da Quarta Dinastia... John West


Santha e eu nos tornamos f�s de John Anthony West desde que come�amos a viajar pelo Egito. Seu guia, The Traveller's Key, foi uma introdu��o brilhante e indispens�vel aos mist�rios dessaterra antiga, e ainda o levamos para toda parte. Simultaneamente, seus livros eruditos, notadamente Serpent in the Sky, abriu-nos os olhos para a possibilidade revolucion�ria de que a civiliza��o eg�pcia - com os m�ltiplos vislumbres que fornece de uma ci�ncia muito adiantada, que n�o poderia existir naquele tempo talvez n�o tivesse se desenvolvido exclusivamente nos confins do Vale do Nilo, mas pudesse ter sido legado de uma civiliza��o anterior, mais avan�ada e ainda n�o identificada, anterior por mil�nios ao Egito din�stico e a todas as demais civiliza��es conhecidas". Alto e de porte atl�tico, West est� em princ�pios da casa dos 60 anos. Cultivando uma barba branca bem aparada, encontrei-o usando traje saf�ri e um exc�ntrico capacete de corti�a tipo s�culo XIX. Tem maneiras jovens e en�rgicas e uma fa�sca brincalhona nos olhos. Est�vamos nesse momento sentados no conv�s superior de um barco de cruzeiro do Nilo, ancorado ao largo de L�xor, a apenas alguns metros rio abaixo do Winter Palace Hotel. A oeste, do outro lado do rio, um enorme sol vermelho, distorcido pela refra��o atmosf�rica, estava justamente se pondo por tr�s dos penhascos do Vale dos Reis. A nossa direita estendiam-se as ru�nas devastadas mas nobres dos templos de L�xor e Karnak. Abaixo de n�s, transmitidas atrav�s do casco do barco, sent�amos as pequenas pancadase o fluxo da �gua, rolando em seu curso na dire��o do distante delta. West apresentou inicialmente sua tese, sobre uma Esfinge mais antiga do que se pensava, no Serpent in the Sky, uma exposi��o exaustiva do trabalho do matem�tico franc�s R. A. Schwaller de Lubicz. As pesquisas realizadas por Schwaller no Templo de L�xor entre 1937 e 1952 desencavaram prova matem�tica, sugerindo que a ci�ncia e cultura eg�pcias haviam sido muito mais avan�adas do que pensavam os estudiosos modernos. N�o obstante, como observara West, a prova tinha sido apresentada em linguagem dif�cil de compreender, complexa, e sem nenhuma concess�o ao leitor... Poucos leitores se sentiam confort�veis com o Schwaller puro. Era a mesma coisa que tentar entrar em f�sica de alta energia sem um cuidadoso estudo preliminar. Osprincipais livros de Schwaller, ambos publicados originariamente em franc�s, s�o o maci�o Temple de l'Homme, em tr�s volumes, que se concentra em L�xor, e o mais geral Roi de la th�ocratie Pharoanique. Nesta �ltima obra, traduzida para o ingl�s com o t�tulo Sacred Science, Schwaller faz, de passagem, refer�ncia �s imensas inunda��es e chuvas que devastaram o Egito no und�cimo mil�nio a.C. Quase como se fosse um segundo pensamento, ele acrescentou:


Uma grande civiliza��o deve ter precedido as grandes precipita��es pluviom�tricas sobre o Egito, o que nos leva a supor que a Esfinge j� existia, esculpida na rocha do penhasco oeste de Giz� - uma esfinge cujo corpo leonino, com exce��o da cabe�a, demonstra sinais incontest�veis de eros�o pela �gua. Enquanto escrevia o Serpent, West ficou impressionado com a poss�vel significa��o dessaobserva��o e resolveu aprofund�-la: - Compreendi que, se pudesse provar empiricamente essa observa��o de Schwaller, feita de passagem, teria prova definitiva da exist�ncia de uma alta civiliza��o, ainda n�o identificada, na distante antiguidade. - Por qu�? - Uma vez provado que a �gua foi o agente que corroeu a Esfinge, a solu��o � de uma simplicidade quase infantil. Ela poderia ser explicada a qualquer leitor do National Enquirer ou do News of the World. Seria de uma simplicidade que at� um d�bil mental poderia entender... Pensa-se que a Esfinge foi constru�da por Khafre no ano 2500 a.C., mas, desde o in�cio dos tempos din�sticos, digamos, do ano 3000 a.C. em diante, simplesmente n�o houve chuva suficiente no plat� de Giz� para ter causado a eros�o, muito extensa, observada em todo o corpo da Esfinge. Temos realmente que retroagir a antes do ano 10000 a.C. para encontrar um clima �mido o suficiente no Egito para explicar intemperismo desse tipo e nessa escala. Da�, portanto, a Esfinge deve ter sido constru�da antes do ano 10000 a.C. e, desde que � uma obra de arte maci�a, sofisticada, � l�gico tamb�m que deve ter sido constru�da por uma civiliza��o avan�ada. - Mas, John - perguntou Santha -, como � que voc� pode ter tanta certeza de que o intemperismo foi causado por �gua de chuva? Os ventos do deserto n�o poderiam ter feito tamb�m o mesmo trabalho? Afinal de contas at� egipt�logos ortodoxos admitem que a Esfinge existe h� quase 5.000 anos. Esse per�odo n�o � suficientemente longo para que essesefeitos tenham sido causadospor eros�o e�lica? - Naturalmente, essa foi uma das primeiras possibilidades que tive de excluir. S� se conseguisse demonstrar que areia abrasiva soprada pelo vento n�o poderia, de maneira alguma, ter posto a Esfinge na sua atual situa��o, haveria alguma raz�o para estudar mais a fundo as implica��esda eros�o pela �gua. A Geologia de Robert Schoch: Solucionando o Enigma da Esfinge Descobriu-se que uma quest�o importante dizia respeito � profunda vala que cerca o monumento por todos os lados.


- Uma vez que a Esfinge repousa em um lugar raso - prosseguiu West -, a areia se empilha at� a altura de seu pesco�o em quest�o de algumas d�cadas,se nada for feito... E ela foi, com grande freq��ncia, deixada ao abandono durante os tempos hist�ricos. Na verdade, gra�as a uma combina��o de refer�ncias textuais e extrapola��es hist�ricas, � poss�vel provar que, durante os 4.500 anos transcorridos desde que teria sido aparentemente constru�da por Khafre, ela esteve enterrada at� o pesco�o por nada menos que 3.300 anos". Isso significa que, durante todo essetempo, s� houve um total cumulativo de mil anos, no qual o corpo esteve sujeito � eros�o e�lica. Durante todo o resto do tempo, ela esteve protegida dos ventos do deserto por um enorme len�ol de areia. O importante � que, se a Esfinge tivesse sido realmente constru�da por Khafre, no Velho Reino, e se a eros�o pelo vento fosse capaz de infligir tal dano em um per�odo de tempo t�o curto, ent�o as demais estruturas do Velho Reino nessa �rea, constru�das com a mesma pedra calc�ria, deveriam demonstrar efeitos semelhantes de intemperismo. Mas nenhuma delas mostra isso... voc� sabe, tumbas inconfundivelmente do Velho Reino, cheias de hier�glifos e inscri��es... nenhuma delas exibe o mesmo tipo de intemperismo que a Esfinge. Na verdade, nenhuma. O professor Robert Schoch, ge�logo da Universidade de Boston e especialista em eros�o de rochas que desempenhou papel decisivo na valida��o da prova de West, convenceu-se da raz�o desses estragos. O intemperismo exibido pela Esfinge - e pelas paredes do espa�o fechado cortado na rocha - n�o foi causado absolutamente pela abras�o do vento, mas por milhares de anos de chuvas torrenciais, em longas eras antes do estabelecimento do Velho Reino. Tendo convencido seus colegas na Conven��o da Sociedade Geol�gica da Am�rica, realizada em 19924, Schoch explicou em seguida suas descobertas a uma plat�ia muito mais ampla e ecl�tica (incluindo egipt�logos), na reuni�o anual de 1992, da Associa��o Americana pelo Progresso da Ci�ncia (AAAS). Come�ou ele dizendo aos delegados que "o corpo da Esfinge e as paredes da vala onde ela se encontra est�o profundamente corro�dos, com efeitos de intemperismo... Essa eros�o tem alguns metros de largura em alguns lugares, pelo menos nas paredes. Ela � muito profunda, muito antiga em minha opini�o, e exibe um perfil ondulado e cont�nuo... ". Essas ondula��es s�o facilmente reconhec�veis por especialistas em estratigrafia e paleontologia como tendo sido causadaspor "intemperismo induzido por precipita��o pluviom�trica". Como indicam as fotografias da Esfinge e do espa�o fechado, feitas por Santha, esse tipo de intemperismo assume a forma clara de uma combina��o de profundas fissuras verticais e entalhes c�ncavos ondulantes e horizontais - "um exemplo de livro de texto escolar", nas palavras de Schoch, "do que acontece a uma


estrutura de pedra calc�ria se castigada por chuva durante milhares de anos... Foi claramente a precipita��o de chuva que causou essesaspectos de eros�o". A eros�o por vento/areia apresenta um perfil muito diferente de canais horizontais de bordas n�tidas, seletivamente abertos, nas camadas mais macias da rocha afetada. Em nenhuma circunst�ncia, pode causar as fissuras verticais, especialmente vis�veis no muro do espa�o fechado onde est� a Esfinge. Elas s� poderiam ser "formadas por �gua descendo pelo muro", o resultado de chuva em volume imenso, caindo em cascata sobre a ladeira do plat� de Giz� e penetrando no espa�o fechado da Esfinge embaixo. "A chuva atacou os pontos fracos da rocha", explicou Schoch, "e neles abriu fissuras de alto a baixo - prova clara para mim, como ge�logo, de que esse aspecto de eros�o foi causado por chuvas." Embora obscurecido em alguns lugares por blocos instalados por numerosos restauradores durante mil�nios, a mesma observa��o se aplica �s estrias fundas, ondulantes, verticais, que correm por todo o comprimento do corpo da Esfinge. Mais uma vez, esses resultados s�o caracter�sticos de intemperismo causado por chuva, porque apenas longos per�odos de chuvas pesadas, martelando as partes superiores da imensa estrutura (e descendo em cascata pelos lados) poderiam ter produzido esses efeitos. A confirma��o vem do fato de que a pedra calc�ria onde foi esculpida a Esfinge n�o tem composi��o uniforme, mas consiste de uma s�rie de camadas duras e moles, nas quais algumas das rochas mais dur�veis resistem mais do que as menos dur�veis. Esse perfil simplesmente n�o poderia ter sido produzido por eros�o e�lica (que teria cortado seletivamente as camadas mais moles da rocha), mas seria "inteiramente consistente" com intemperismo induzido por precipita��o pluviom�trica, caso em que �gua, �gua de chuva, desce batendo. As rochas localizadas na parte superior do monumento s�o mais dur�veis, mas se encontram tamb�m em profundidade maior do que as menos dur�veis nas se��esmais protegidas. No seu sum�rio na reuni�o da AAAS,concluiu Schoch: � bem sabido que o espa�o fechado onde se encontra a Esfinge enche-se de areia com grande rapidez, em uma quest�o de d�cadas, nas condi��es des�rticas do Saara. E a areia tem de ser removida periodicamente. E isso vem acontecendo desde tempos antigos. Ainda assim, observa-se esse perfil dram�tico ondulado de eros�o nos muros do espa�o fechado da Esfinge... Em termos simples, portanto, o que estou sugerindo � que esse perfil ondulado, esses aspectos vistos no corpo e na vala da Esfinge, retroagem a um per�odo muito antigo, quando havia mais precipita��o pluviom�trica nessa�rea, mais umidade, mais chuva no plat� de Giz�".


Como ele pr�prio reconheceu, Schoch n�o foi o primeiro ge�logo a notar o "an�malo intemperismo induzido por precipita��o pluviom�trica no n�cleo do corpo da Esfinge". Ele foi, por�m, o primeiro a participar de um debate p�blico sobre as imensas implica��es hist�ricas desse intemperismo. A atitude que adotou foi a de preferir ficar adstrito � geologia: Disseram-me um sem-n�mero de vezes que os povos do Egito, tanto quanto sabemos, nem tinham a tecnologia nem a organiza��o social necess�rias para esculpir o n�cleo do corpo da Esfinge nos tempos pr�-din�sticos... N�o vejo nisso, por�m, nenhum problema para mim como ge�logo. N�o estou querendo transferir o �nus para ningu�m, mas cabe realmente aos egipt�logos e arque�logos descobrir quem a esculpiu. Se meus fatos est�o em conflito com suas teorias sobre o aparecimento da civiliza��o, ent�o talvez seja oportuno que eles reavaliem a teoria. N�o estou dizendo que a Esfinge foi esculpida por atlantes, por marcianos, ou por outros extraterrestres. Estou simplesmente seguindo a ci�ncia aonde ela me leva, e ela me leva a concluir que a Esfinge foi constru�da muito mais cedo do que se pensava antes... Civiliza��es Lend�rias Quanto tempo antes? John West contou-nos que ele e Schoch est�o empenhados em um debate cordial sobre a idade da Esfinge: - Schoch situa a data em algum per�odo entre os anos 5000 e 7000 a.C., no m�nimo, [a �poca do per�odo Subpluvial Neol�tico], principalmente por assumir a opini�o mais cautelosa permitida pelos dados de que disp�e. Como professor de geologia de uma grande universidade, ele � quase obrigado a adotar uma postura conservadora... e � verdade que houve chuvas entre os anos 7000 e 5000 a.C. N�o obstante, por uma grande variedade de raz�es intuitivas e acad�micas, acho que a data � muito, mas muito mais antiga e que a maior parte do intemperismo sofrido pela Esfinge ocorreu no per�odo chuvoso anterior, antes do ano 10000 a.C... Para ser franco, se ocorreu em uma �poca relativamente recente, como 5000 a 7000 a.C., acho que ter�amos provavelmente encontrado outras provas da civiliza��o que a esculpiu. Um bocado de provas desse per�odo foi encontrado no Egito. Nelas h� algumas anomalias estranhas, reconhe�o, mas a maior parte dela... o grosso delas... � realmente muito rudimentar. - Nessecaso, quem construiu a Esfinge, se n�o foram os eg�pcios pr�-din�sticos? - Minha conjectura � de que todo esseenigma est� ligado, de alguma maneira, �quelas civiliza��es lend�rias mencionadas em todas as mitologias do mundo. Voc� sabe quais


s�o: as que dizem que houve grandes cat�strofes, que alguns homens sobreviveram, andaram vagueando pela terra e que um pouco de conhecimento foi preservado aqui, outro tanto acol�... Meu palpite � que a esfinge est� ligada a tudo isso. Se fosse desafiado a fazer uma aposta, eu diria que � anterior ao fim da �ltima Era Glacial e, provavelmente, mais antiga do que 10.000 anos a.C., talvez at� mais antiga do que 15.000 anos a.C. Minha convic��o... na verdade, mais do que uma convic��o... � de que ela � imensamente velha. E era tamb�m uma convic��o que eu compartilhava cada vez mais - e, lembrei a mim mesmo, uma que a maioria dos egipt�logos do s�culo XIX havia tamb�m aceitado. N�o obstante, a apar�ncia da Esfinge era um argumento contra essasintui��es, porquanto n�o havia d�vida de que sua cabe�aparecia convencionalmente fara�nica. - Se ela � t�o velha quanto voc� pensa - perguntei nesse momento a John -, de que modo explica que os escultores a tenham apresentado usando o adere�o nemes de cabe�ae a uraeus dos tempos din�sticos? - Esse fato n�o me incomoda. Na verdade, como voc� sabe, egipt�logos alegam que a face da Esfinge lembra a face de Khafre... a �nica raz�o por que eles alegam que a est�tua foi mandada esculpir por ele. Schoch e eu estudamos esseassunto com o maior cuidado. Pensamos, � vista das propor��es da cabe�a em rela��o ao resto do corpo, que ela foi reesculpida durante os tempos din�sticos e � por essemotivo que ela parece muito din�stica. Mas n�o pensamos que houvesse a inten��o de representar Khafre. Como parte de nossa pesquisa em andamento sobre essas quest�es, pedimos ao tenente Frank Domingo, artista especializado em retratos falados do Departamento de Pol�cia de Nova York, que viesse at� aqui e que fizesse compara��es, ponto por ponto, entre a face da Esfinge e a face da est�tua de Khafre conservada no Museu do Cairo. A conclus�o dele foi que de nenhuma maneira houve inten��o de que a Esfinge representasse Khafre. N�o se trata apenas de a face ser diferente... ela �, provavelmente, de uma ra�a diferente. Trata-se, portanto, de um monumento muito antigo, que foi reesculpido em data muito posterior. Originariamente, talvez nem mesmo tivesse uma face humana. Talvez tenha come�ado com um focinho de le�o, e n�o s� com o corpo. Magalh�es e o Primeiro Osso de Dinossauro Ap�s meus pr�prios estudos em Giz�, eu queria saber se a pesquisa de West lan�ara alguma d�vida sobre a data��o ortodoxa de qualquer um dos outros monumentos do plat�, em especial o do chamado Templo do Vale, de Khafre.


- Acho que h� muita coisa que talvez seja mais antiga - respondeu ele. N�o apenas o Templo do Vale, mas tamb�m o Templo Mortu�rio, no alto da colina, t�m provavelmente alguma coisa a ver com o complexo de Menkaure e talvez mesmo com a Pir�mide de Khafre... - O qu�, no complexo de Menkaure? - Bem, o Templo Mortu�rio. E na verdade estou apenasusando por conveni�ncia agora a atribui��o convencional de autoria de constru��o das pir�mides... - Tudo bem. De modo que voc� pensa que � poss�vel tamb�m que as pir�mides sejam t�o antigas quanto a Esfinge? - � dif�cil dizer. Acho que havia alguma coisa nos locais onde est�o atualmente aquelas pir�mides... por causa da geometria. A Esfinge era parte de um plano-mestre. E a Pir�mide de Khafre talvez seja a mais interessante nesse aspecto, porque foi definitivamente constru�da em dois est�gios. Se olhar para ela... e talvez tenha: notado... ver� que a base consiste de v�rias carreiras de blocos gigantescos, semelhantes em estilo aos blocos da cantaria do n�cleo do Templo do Vale. Superposto sobre a base, o resto da pir�mide � composto de material de menor dimens�o, assentado com menos precis�o, do ponto de vista de engenharia. Mas, quando olhamos para ela, sabendo o que procuramos, verificamos imediatamente que ela foi constru�da em duas etapas separadas. Quero dizer, n�o posso deixar de pensar que os imensos blocos da base datam de um per�odo anterior - do tempo em que a Esfinge foi constru�da... e que a segunda parte foi acrescentada mais tarde... mas, mesmo nessa �poca, n�o necessariamente por Khafre. Aprofundando-se no assunto, voc� descobrir� que, quanto mais aprende, mais complexas se tornam as coisas. Pode at� mesmo ter havido uma civiliza��o intermedi�ria, por exemplo, que, na verdade, corresponderia aos textos eg�pcios. Eles falam sobre dois longos per�odos anteriores. No primeiro, o Egito foi supostamente governado por deuses... os Neterus... e, no segundo, pelos Shemsu Hor, os "Companheiros de H�rus". � por isso que digo que os problemas se tornam cada vez mais complicados. Por sorte, o fundamental permanece simples. O fundamental � que a Esfinge n�o foi constru�da por Khafre. A geologia prova que ela � muito, mas muito mais antiga... - N�o obstante, os egipt�logos recusam-se a aceitar essa conclus�o. Um dos argumentos que usaram contra voc�... Mark Lehner fez isso... � mais ou menos o seguinte: "Se a Esfinge foi constru�da antes do ano 10000 a.C., ent�o por que n�o pode nos mostrar o resto da civiliza��o que a construiu?" Em outras palavras, por que n�o tem outra prova a apresentar sobre a presen�a de sua lend�ria civiliza��o perdida, � parte algumas estruturas no plat� de Giz�?O que � que me diz disso?


- Em primeiro lugar, h� estruturas fora de Giz�... como, por exemplo, o Osireion, em Abidos, de onde voc� acaba de vir. Achamos que esse espantoso edif�cio pode relacionar-se com nosso trabalho sobre a Esfinge. Mesmo que o Osireion n�o existisse, contudo, a falta de outras provas n�o me incomodaria. Quero dizer, para dar destaque ao fato de que prova confirmat�ria adicional n�o foi encontrada ainda e para usar essa circunst�ncia para acabar uma discuss�o, � a mesma coisa que dizer a Magalh�es: "Onde est�o os outros caras que fizeram a volta do mundo?" Claro, isso n�o prova nada. Ou, em 1838, quando foi encontrado o primeiro osso de dinossauro, teriam dito: "Claro, n�o h� essa tal coisa de um animal gigantesco extinto. Onde est� o resto do esqueleto? S� encontraram um osso." Mas logo que algumas pessoas come�aram a compreender que esse osso s� podia ser de um animal extinto, nos vinte anos seguintes os museus do mundo se encheram de esqueletos completos de dinossauros. De modo que a coisa � mais ou menos assim. Ningu�m se preocupou em procurar nos lugares certos. Tenho absoluta certeza de que outras provas ser�o encontradas, logo que algumas pessoascome�arem a procurar nos lugares certos... ao longo das margens do antigo Nilo, por exemplo, que est� a quil�metros do Nilo atual, ou mesmo no fundo do Mediterr�neo, que ficou seco durante a �ltima Era Glacial. O Problema da Transmiss�o Perguntei a John West por que ele pensava que os egipt�logos e os arque�logos tinham tanta m� vontade em pensar em que a Esfinge pudesse ser uma pista para a exist�ncia de um epis�dio esquecido na hist�ria humana. - A raz�o, acho, � que eles t�m uma id�ia fixa sobre a evolu��o linear da civiliza��o. Acham dif�cil aceitar a id�ia de que possa ter havido povos, h� mais de doze mil anos, que eram mais sofisticados do que somos hoje... A Esfinge, e a geologia que lhe prova a antiguidade, e o fato de que a tecnologia requerida para constru�-Ia est�, de muitas maneiras, muito al�m de nossa pr�pria capacidade, desmentem a cren�a em que civiliza��o e tecnologia evolu�ram de forma direta, linear... Isso porque, mesmo com a melhor tecnologia moderna, praticamente n�o poder�amos realizar as v�rias tarefas envolvidas no projeto. A pr�pria Esfinge n�o � uma fa�anha assombrosa nesse particular. Quero dizer, se conseguirmos juntar escultores em n�mero suficiente para cortar a pedra, eles poderiam esculpir uma est�tua de um quil�metro e meio de comprimento. A tecnologia teve a ver com escolher as pedras, extrair as pedras das pedreiras, libertar a Esfinge de seu leito rochoso e, em seguida, us�-las para construir o Templo do Vale a uns duzentos metros de dist�ncia... Isso era novidade para mim.


- Voc� quer dizer que os blocos de duzentas toneladas do Templo do Vale foram extra�dos do espa�o fechado da Esfinge? - Isso mesmo, n�o h� a menor d�vida a esse respeito. Geologicamente, pertencem ao mesmo tipo de rocha. Os blocos foram extra�dos e levados para o local do Templo... s� Deus sabe como... e com eles constru�das paredes de doze metros de altura... mais uma vez, s� Deus sabe como. Estou falando dos imensos blocos de pedra calc�ria do n�cleo, n�o do revestimento de granito. Acho que o granito foi acrescentado muito tempo depois, possivelmente por Khafre. Mas se examinar os blocos de pedra calc�ria do n�cleo, ver� que eles t�m as marcas de exatamente o mesmo tipo de intemperismo induzido por precipita��o pluviom�trica, tal como as marcas encontradas na Esfinge. De modo que a Esfinge e a estrutura do n�cleo do Templo do Vale foram feitas na mesma �poca, pelas mesmaspessoas... quem quer que possam ter sido. - E voc� acha que essas pessoas e os eg�pcios din�sticos posteriores foram ligados entre si de alguma maneira? No Serpent in the Sky voc� sugere que uma heran�a deve ter sido passadaadiante... - Isso ainda � uma sugest�o. Tudo que sei com certeza, com base em nosso trabalho sobre a Esfinge, � que uma civiliza��o muito, muit�ssimo sofisticada, capaz de implementar projetos de constru��o em escala grandiosa, esteve presente no Egito em passado muito distante. Em seguida, caiu muita chuva. Milhares de anos depois, no mesmo lugar, a civiliza��o fara�nica surgiu inteiramente formada, aparentemente saindo do nada, com todos os seus conhecimentos completos. Disso podemos ter certeza. Mas se ou n�o o conhecimento que o Egito antigo possu�a era o mesmo que o conhecimento que produziu a Esfinge, n�o posso realmente dizer. - O que � que voc� acha da seguinte id�ia? A civiliza��o que produziu a Esfinge n�o teve origem aqui, pelo menos n�o no in�cio... - especulei. - Ela n�o se localizava no Egito. Ela colocou aqui a Esfinge como uma esp�cie de marco ou posto avan�ado... - Inteiramente poss�vel. Poderia acontecer que a Esfinge, para essa civiliza��o, fosse igual, digamos, ao que Abu Simbel (na N�bia) foi para o Egito din�stico. - Nesse caso, essa civiliza��o chegou ao fim, extingui-se devido a alguma cat�strofe terr�vel, e foi nessa ocasi�o que a heran�a de altos conhecimentos passou a outras m�os... Uma vez que tinham deixado aqui a Esfinge, sabiam da exist�ncia do Egito, conheciam este lugar, conheciam este pa�s, tinham uma liga��o aqui. Talvez essepovo tenha sobrevivido ao fim da civiliza��o. Talvez eles tenham vindo para c�... Isso faz sentido para voc�? - Bem, � uma possibilidade. Mais uma vez, voltando �s mitologias e lendas do mundo, muitas delas falam em uma cat�strofe como essa e de poucos sobreviventes... a hist�ria de No�, que se repetiu atrav�s de civiliza��es incont�veis... que, de uma ou de


outra maneira, conservaram e transmitiram a outros esse conhecimento. O grande problema com tudo isso, de meu ponto de vista, � o processo de transmiss�o da heran�a: como, exatamente, o conhecimento � passado de uma m�o a outra durante milhares e milhares de anos, entre a constru��o da Esfinge e o florescimento do Egito din�stico? Teoricamente, estamos numa esp�cie de beco sem sa�da... voc� n�o est�?... no que interessa a esseenorme per�odo em que os conhecimentos foram transmitidos. N�o � f�cil descartar essa conclus�o. Por outro lado, sabemos, de fato, que as lendas que estamos mencionando foram transmitidas, palavra por palavra, ao longo de incont�veis gera��es e, na verdade, a transmiss�o oral � um meio muito mais seguro de transmiss�o do que a escrita, porque a linguagem pode mudar, mas enquanto quem estiver contando a hist�ria disser que ela � verdadeira, em qualquer que seja a linguagem do tempo... ela reaparece 5.000 anos depois em sua forma original. De modo que, talvez haja maneiras... em sociedades secretas e cultos religiosos, ou atrav�s da mitologia, por exemplo, em que os conhecimentos poderiam ter sido preservados e transmitidos antes de voltar a florescer. O importante, acho, com problemas t�o complexos e importantes como esses, � simplesmente n�o descartar quaisquer possibilidades, por mais absurdas que possam inicialmente parecer, sem investig�-las profundamente... Segunda Opini�o John West estava em L�xor, chefiando um grupo de estudo sobre os s�tios arqueol�gicos sagrados do Egito. Cedo no dia seguinte, ele e seus estudantes dirigiram-se para Assu� e Abu Simbel, no sul. Santha e eu viajamos novamente para o norte, de volta a Giz� e aos mist�rios da Esfinge e das pir�mides. �amos nos encontrar com o �rqueo-astr�nomo Robert Bauval. Conforme veremos, suas correla��es estelares proporcionaram surpreendente confirma��o, independente da prova geol�gica, da imensa antiguidade de Giz�.

CAP�TULO 48 Medidas da Terra Siga as instru��es abaixo com o m�ximo cuidado: Risque verticalmente duas linhas retas paralelas, de cima a baixo de uma folha de papel, de mais ou menos 18cm de comprimento e um pouco menos de 7,5cm de


dist�ncia uma da outra. Trace uma terceira linha, tamb�m vertical e tamb�m paralela de igual tamanho, exatamente no centro das duas. Escreva a letra "S" - significando "Sul" - na extremidade superior do diagrama (a extremidade mais distante de voc�), e a letra "N", significando "Norte", na extremidade inferior. Acrescente as letras "L", significando "Leste", e "O", significando "Oeste" em suas posi��es apropriadas em cada lado do diagrama, o Leste � esquerda e o Oeste � direita. O que voc� est� vendo s�o os contornos de um mapa geom�trico do Egito, usando uma perspectiva muito diferente da nossa (onde o "Norte" � sempre igual a "No alto"). Este mapa, onde o "No Alto" � o "Sul", parece ter sido preparado em um tempo imensamente remoto por cart�grafos que dispunham de conhecimentos cient�ficos sobre a forma e tamanho de nosso planeta. A fim de completar o mapa, voc� deve marcar agora um ponto na linha central das tr�s paralelas, mais ou menos a 2,5cm, ao sul (o "alto"), a partir da extremidade norte do diagrama. Em seguida, trace mais duas linhas diagonais descendo desse ponto, respectivamente para o nordeste e o noroeste, at� que elas alcancem as extremidades norte das duas paralelas externas. Finalmente, ligue diretamente essas linhas paralelas a linhas horizontais, correndo de leste para oeste, nas extremidades norte e sul do diagrama. A forma obtida � um ret�ngulo ao sul (orientado no sentido norte-sul). Esseret�ngulo mede 17,8cm de comprimento por pouco menos de 7,5cm de largura e tem um tri�ngulo demarcado em sua extremidade norte (inferior). O tri�ngulo representa o delta do Nilo e, o ponto no �pice do tri�ngulo, o �pice do delta um ponto no solo a 30� 06' norte e 31 � 14' leste, muito pr�ximo da localiza��o da Grande Pir�mide.


Marco Geod�sico


O que mais que ela possa ser, matem�ticos e ge�grafos sabem h� muito tempo que a Grande Pir�mide serve como um marco geod�sico (geod�sia � o ramo da ci�ncia que trata de determinar a posi��o de pontos geogr�ficos e a forma e tamanho da terra). A compreens�o desse fato surgiu em fins do s�culo XVIII, quando os ex�rcitos da Fran�a revolucion�ria, comandados por Napole�o Bonaparte, invadiram o Egito. Bonaparte, que sentia um profundo interesse pelos enigmas das pir�mides, trouxe consigo grande n�mero de pesquisadores, 175 no total, incluindo v�rios "s�bios" reunidos em v�rias universidades, que tinham fama de ter adquirido "profundo conhecimento de antiguidades eg�pcias" e, no que foi mais �til, um grupo de matem�ticos, cart�grafos e top�grafos. Um dos trabalhos que os s�bios receberam ordens de fazer, depois de completada a conquista, foi levantar mapas detalhados do Egito. Ao se lan�arem ao trabalho, descobriram que a Grande Pir�mide est� perfeitamente alinhada com o norte verdadeiro - e, claro, com o sul, leste e oeste, tamb�m, como vimos na Parte VI. Isso significa que a misteriosa estrutura era um excelente ponto de refer�ncia e triangula��o, tomando eles a decis�o de usar o meridiano que passava por seu �pice como linha-base para todas as demais medi��es e orienta��es. A equipe, em seguida, come�ou a produzir os primeiros mapas exatos do Egito desenhados na era moderna. Terminado o trabalho, notaram intrigados que o meridiano da Grande Pir�mide cortava em duas metades iguais a regi�o do delta do Nilo. Descobriram tamb�m que, se diagonais correndo do �pice da pir�mide para seus cantos nordeste e noroeste fossem prolongadas (formando linhas no mapa que correriam nos sentidos nordeste e noroeste at� chegar ao Mediterr�neo), o tri�ngulo assim formado conteria perfeitamente toda a �rea do delta. Mas voltemos ao nosso mapa, que inclui tamb�m um tri�ngulo que representa o delta. Seustr�s outros principais componentes s�o os tr�s meridianos paralelos. O meridiano leste est� na longitude de 32� 38' leste - a antiga fronteira oficial do antigo Egito desde o in�cio dos tempos din�sticos. O meridiano oeste est� na longitude de 29� 50' oeste - a fronteira oeste oficial do antigo Egito. O meridiano central est� na longitude de 31� 14' leste, exatamente a meio caminho entre os dois outros (a 1� 24' de cada um). O que vemos nesse momento � a representa��o de uma faixa na superf�cie do planeta terra que tem exatamente 2� 48' de largura. Qual a extens�o dessa faixa? As antigas fronteiras "oficiais" norte e sul do Egito (que n�o tinham mais rela��o com padr�es de coloniza��o do que as fronteiras oriental e ocidental) s�o marcadas pelas linhas horizontais nas partes superior e inferior do mapa e localizadas respectivamente a 31 � 6' norte e 24� 6' norte. A fronteira norte, situada em 31� 6' norte, liga as duas extremidades externas do estu�rio do Nilo. A fronteira sul, em 24� 6' norte, assinala a


latitude exata da ilha de Elefantina, em Assu� (Seyne), onde existiu um importante observat�rio astron�mico e solar durante toda a hist�ria eg�pcia conhecida. Parece que essa terra arcaica, sagrada desde o in�cio dos tempos - cria��o e habita��o dos deuses - foi originariamente concebida como um constructo geom�trico a exatamente sete graus terrestres de comprimento. De acordo com esseconstructo, parece que a Grande Pir�mide foi localizada, com todo cuidado, como marco geod�sico para o �pice do delta. Este �ltimo, que indicamos em nosso mapa, localiza-se a 30� 6' norte, 31� 14' leste - um ponto na metade do comprimento do rio Nilo, situado na borda norte da moderna Cairo. Entrementes, a pir�mide est� na latitude de 30� N (corrigida para levar em conta a refra��o atmosf�rica) e na longitude de 31� 9' leste, ou um erro de apenas alguns minutos do arco terrestre nas dire��es sul e oeste. Esse "erro", contudo, n�o parece ter sido resultado de relaxamento ou imprecis�o por parte dos construtores da pir�mide. Ao contr�rio, um exame atento da topografia da �rea sugere que a explica��o desse fato deve ser buscada na necessidade de encontrar um local apropriado para todas as observa��es astron�micas, que tinham de ser feitas para a localiza��o exata do s�tio arqueol�gico, com uma estrutura geol�gica suficientemente est�vel sobre a qual assentar, para sempre, um monumento de seis milh�es de toneladas, de quase 150m de altura, com uma basede mais de cinco hectares. O plat� de Giz� atende a essas especifica��es em todos os sentidos: perto do �pice do delta, elevado acima do vale do Nilo e possuidor de excelentes funda��es de s�lido leito rochoso de pedra calc�ria. Trabalhando em Graus Est�vamos viajando de L�xor para Giz� na parte traseira do Peugeot 504 de Mohamed Walilli - uma viagem de apenas quatro graus de longitude, isto �, do paralelo de 25� 42' norte para o 30� paralelo. Entre Asiut e EI Minya, um corredor de conflitos em meses recentes entre extremistas isl�micos e for�as de seguran�a eg�pcias; recebemos uma escolta armada de soldados, um dos quais usava trajes civis e que se sentou no assento do passageiro, ao lado de Mohamed, acariciando uma pistola autom�tica. Os demais, mais ou menos uma d�zia, armados com fuzis de assalto AK47, distribu�am-se igualmente entre duas picapes, que nos espremiam pela frente e por tr�s. "Gente perigosa mora por aqui", confidenciou Mohamed pelo canto da boca, quando fomos detidos em um ponto de inspe��o em Asiut e recebemos ordem de esperar pela escolta. Embora obviamente irritado por ser obrigado a acompanhar a alta velocidade dos ve�culos de escolta, Mohamed parecia apreciar muito a situa��o de fazer parte de


um comboio impressionante, com luzes relampejando e sirenes uivando, costurando o caminho por entre o tr�fego mais lento na principal estrada de rodagem entre o alto e o baixo Egito. Durante algum tempo, olhei pela janela do carro para o espet�culo imut�vel do Nilo, para suas margens verdes f�rteis e para o nevoeiro vermelho do deserto, a alguns quil�metros de dist�ncia, nas dire��es leste e oeste. Este era o Egito, o verdadeiro Egito org�nico de ontem e hoje, que coincidia (mas se espalhava por uma dist�ncia muito maior) com o estranho Egito "oficial" do mapa descrito acima, uma fic��o retangular medindo exatamente sete graus terrestres de comprimento. No s�culo XIX, o renomado egipt�logo Ludwig Borchardt expressou o que ainda � a sabedoria convencional de seus colegas, quando observou: "Temos de excluir absolutamente a possibilidade de que os antigos possam ter feito medi��es em graus." Era um julgamento que parece cada vez mais insustent�vel. Quem quer que possam ter sido, � �bvio que os planejadores e arquitetos originais da necr�pole de Giz� pertenceram a uma civiliza��o que sabia que a terra era uma esfera, conheciam-lhe as dimens�es quase t�o bem quanto n�s mesmos e a haviam dividido em 360 graus, exatamente como fazemos hoje. A prova dessefato reside na cria��o de um "pa�s" oficial simb�lico, de exatamente sete graus terrestres de comprimento, e na localiza��o e orienta��o admiravelmente geod�sica com os pontos cardeais da Grande Pir�mide. Igualmente convincente � o fato, j� abordado no Cap�tulo 23, de que o per�metro da base da pir�mide mant�m uma rela��o de 2pi com a altura e que todo o monumento foi aparentemente concebido para servir como proje��o cartogr�fica - em uma escala de 1:43.200 - do hemisf�rio Norte de nosso planeta: A Grande Pir�mide � uma proje��o sobre quatro superf�cies triangulares. O �pice representa o p�lo e, o per�metro, o equador. Esta � a raz�o por que o per�metro tem uma rela��o de 2pi com a altura. A Raz�o Pir�mide/Terra J�demonstramos o emprego do pi na pir�mide, e n�o precisamos voltar a esseassunto. Al�m do mais, a exist�ncia da rela��o de pi, embora interpretada como acidental por estudiosos ortodoxos, n�o � contestada por eles. Mas dever�amos tamb�m aceitar, com toda seriedade, que o monumento pode ser tamb�m uma representa��o do hemisf�rio Norte da terra, projetada sobre superf�cies planas, em uma escala de 1:43.200?Vamos relembrar essesn�meros.


De acordo com as melhores estimativas modernas, baseadas em observa��es de sat�lite, a circunfer�ncia equatorial da terra � de 39.844km, com um raio polar de 6.319km". O per�metro da base da Grande Pir�mide � de 1.203,73m e sua altura de 921,24m. A redu��o � escala, conforme se verifica, n�o � absolutamente exata, mas est� muito pr�xima. Al�m do mais, quando nos lembramos da dilata��o do equador da terra (uma vez que o nosso planeta � um esfer�ide oblato, e n�o uma esfera perfeita), os resultados obtidos pelos construtores da pir�mide ficam ainda mais pr�ximos de 1:43.200. Mais perto at� que ponto? Se tomarmos a circunfer�ncia equatorial da terra, 39.844km, e a reduzirmos (dividirmos) por 43.200, obteremos o resultado de 0,5764 de milha. H� 5.280 p�s (30,5cm por p�) por milha. O passo seguinte, portanto, consiste em multiplicar 0,5764 por 5.280, que produz o n�mero de 3.043,39 p�s. A circunfer�ncia equatorial da terra, reduzida em escala de 43.200 vezes, �, portanto, de 3.043,39 p�s. Em compara��o, como vimos, o per�metro da Grande Pir�mide � de 3.023,16 p�s (92,24m). Isso representa um erro de apenas 6m - ou cerca de tr�s quartos de 1%. Dada a precis�o extraordin�ria dos construtores da pir�mide, contudo (que normalmente trabalhavam com margens de toler�ncia ainda menores), � menos prov�vel que o erro tenha resultado de falhas de constru��o do gigantesco monumento do que de subestima��o da verdadeira circunfer�ncia do planeta por apenas 262km, provavelmente causadapor n�o ter sido levada em conta a dilata��o equatorial. Vejamos o raio polar da terra, de 3.949,921 milhas (6.319km). Se o reduzimos a uma escala de 43.200, obtemos 0,0914 de milha, ou 481,59 p�s (146,90m). O raio polar da terra reduzido � escala de 1:43.200, portanto, � de 481,59 p�s, ou 146,90cm. Em compara��o, a altura da Grande Pir�mide � de 481,3949 p�s - apenas um p� a menos (30,48cm) do n�mero ideal, ou seja, um erro que nem chega a um quinto de 1%. T�o perto que n�o faz diferen�a, portanto, o per�metro da base da Grande Pir�mide �, na verdade, de 1:43.200 da circunfer�ncia equatorial da terra. E, mais uma vez, t�o pr�ximo que n�o faz diferen�a, a altura acima da base �, na verdade, de 1:43.200 do raio polar da terra. Em outras palavras, durante todos os s�culos de trevas pelos quais passou a civiliza��o ocidental, quando o conhecimento das dimens�es de nosso planeta se perdeu para n�s, tudo que precis�vamos fazer era medir a altura e o per�metro da baseda Grande Pir�mide e multiplic�-los por 43.200! Qual a probabilidade de tudo isso ser um "acaso"? A resposta, baseada no bom senso, � "nada prov�vel, absolutamente", uma vez ser �bvio para qualquer pessoa sensata que aquilo para o que estamos olhando s� poderia ser resultado de uma decis�o de planejamento deliberada e cuidadosamente calculada.


O bom senso, por�m, jamais foi uma faculdade levada em alta conta por egipt�logos e �, por conseguinte, necess�rio perguntar se h� alguma coisa mais nos dados que possa confirmar que a raz�o de 1:43.200 constitui uma manifesta��o intencional de intelig�ncia e conhecimento, e n�o de algum feliz acaso. A rela��o em si parece fornecer a confirma��o, pelo motivo muito simples de que 43.200 n�o � um n�mero aleat�rio (como, digamos, 45.000 ou 47.000, 50.500 ou 38.800). Ao contr�rio, � um de uma s�rie de n�meros, e m�ltiplos desses n�meros, que se relacionam com o fen�meno da precess�o dos equin�cios e que se enraizaram em mitos arcaicos encontrados em todo o mundo. Como o leitor pode confirmar voltando � Parte V, os n�meros b�sicos da raz�o Pir�mide/ Terra afIoram repetidamente nesses mitos, �s vezes claramente como 43.200, ou �s vezes como 432, 4.320, 432.000, 4.320.000,e assim por diante. O que parece � que temos aqui duas proposi��es not�veis, costas contra costas, como se destinadas a se refor�arem mutuamente. � na verdade mais do que not�vel que a Grande Pir�mide seja capaz de servir como um modelo em escala exata do hemisf�rio Norte do planeta Terra. Mas � ainda mais not�vel que a escala impl�cita inclua n�meros que se relacionam exatamente com um dos principais mecanismos planet�rios terrestres. Isto �, a precess�o fixa e aparentemente eterna da rota��o de seu eixo em torno do p�lo da ecl�ptica, fen�meno este que faz com que o ponto vernal emigre em torno da faixa do zod�aco a uma taxa de um grau a cada 72 anos e 30 graus (uma constela��o zodiacal completa) a cada 2.160 anos. A precess�o atrav�s de duas constela��esdo zod�aco, ou 60 graus ao longo da ecl�ptica, leva 4.320 anos. A repeti��o constante desses n�meros ligados � precess�o em mitos antigos poderia, talvez, ser coincid�ncia. Considerado isoladamente, o aparecimento do n�mero 43.200 na raz�o pir�mide/terra poderia ser tamb�m uma coincid�ncia (embora sejam astron�micas as probabilidades contra esse fato). Mas quando encontramos n�meros ligados � precess�o em meios de express�o muito diferentes - mitos antigos e monumentos antigos -, realmente � for�ar a credulidade supor que coincid�ncia � tudo que est� em jogo. Al�m do mais, da mesma maneira que o mito teut�nico das muralhas do Valhalla leva-nos ao n�mero 43.200, convidando-nos a calcular os guerreiros que "v�o � guerra contra o Lobo" (quinhentos e pouco multiplicados por 800, conforme vimos no Cap�tulo 33), de id�ntica maneira a Grande Pir�mide leva-nos ao n�mero 43.200 ao demonstrar, atrav�s da rela��o de pi, que poderia ser um modelo em escala de parte da terra e, em seguida, convida-nos a calcular essaescala. Pares das Mesmas Impress�es Digitais?


Em EI Minya, os ve�culos da escolta nos deixaram, embora o soldado � paisana continuasse no assento do passageiro ao lado do motorista at� o Cairo. Paramos para um almo�o tardio de p�o e falafel em uma aldeia barulhenta e em seguida continuamos a viagem para o norte. Durante todo esse tempo, meus pensamentos continuaram focalizados na Grande Pir�mide. Obviamente, n�o era por acaso que uma estrutura t�o grande e intrigante ocupasse uma localiza��o geogr�fica e geod�sica da mais alta import�ncia, em uma parte do mundo que parecia, estranhamente, ter sido concebida e "geometrizada" como um constructo simb�lico, retangular, com um comprimento exato de sete graus terrestres. Mas era a outra fun��o da pir�mide, como proje��o cartogr�fica tridimensional do hemisf�rio Norte, que mais me interessava, porque sugeria uma "identidade" com os mapas antigos mais avan�ados do mundo, descritos na Parte I. Essesmapas, que usavam trigonometria esf�rica e uma grande variedade de proje��es sofisticadas, proporcionavam, segundo o professor Charles Hapgood, prova tang�vel, documental, de que uma civiliza��o avan�ada, com extenso conhecimento do globo terrestre, deveria for�osamente ter florescido durante a �ltima Era Glacial. Nesse momento, a� estava a Grande Pir�mide, provando que tinha uma fun��o cartogr�fica vis-�-vis o hemisf�rio Norte e incluindo tamb�m uma proje��o sofisticada. Ou, como explicou um especialista: Todas as faces planas da pir�mide foram projetadas para representar uma quarta parte curva do hemisf�rio Norte, ou quadrante esf�rico de 90 graus. Para projetar corretamente um quadrante esf�rico sobre um tri�ngulo plano, o arco, ou base, do quadrante tem que ser do mesmo comprimento que a base do tri�ngulo, e ambos precisam ter a mesma altura. Isso acontece apenas com um corte transversal ou bissec��o meridiana da Grande Pir�mide, cujo �ngulo de inclina��o d� a rela��o de pi entre altura e base... Seria poss�vel que as c�pias e compila��es remanescentes de antigos mapas como o mapa de Piri Reis, por exemplo - pudessem, em alguns casos, retroagir a document�rios b�sicos produzidos pela mesma cultura que incluiu seu conhecimento sobre o globo terrestre nas dimens�es da Grande Pir�mide (e, na verdade, nas dimens�escuidadosamente geometrizadas do pr�prio antigo Egito)? Eu dificilmente poderia esquecer que Charles Hapgood e sua equipe haviam passado meses tentando fixar onde fora centralizada a proje��o inicial do mapa de Piri Reis. A resposta que finalmente obtiveram foi o Egito e, especificamente, Seyne (Assu�) no


alto Egito - onde, conforme vimos acima, houve um importante observat�rio astron�mico, situado na latitude de 24� 6' norte, a fronteira sul oficial. Dispensa dizer que observa��es astron�micas precisas teriam sido essenciais para c�lculos da circunfer�ncia da terra e das posi��es de latitude. Mas, por quanto tempo antes do per�odo hist�rico os antigos eg�pcios e seus ancestrais estiveram realizando essas observa��es? E haviam realmente aprendido essas per�cias, como declararam francamente em suastradi��es, com os deusesque, no passado, conviveram com eles? Navegantes na Barca de Milh�es de Anos Os antigos eg�pcios acreditavam que coube ao deus Thoth ensinar os princ�pios da astronomia a seus ancestrais: "Ele que calcula no c�u, o contador de estrelas, o enumerador da terra e de tudo que nela existe, e medidor da terra." Normalmente descrito como um homem que usava uma m�scara de �bis, Thoth era membro importante do grupo de elite das divindades dos Primeiros Tempos que dominaram a vida religiosa do antigo Egito desde o in�cio at� o fim dessa civiliza��o. Eles eram os grandes deuses, os Neterus. Embora os antigos acreditassem, em um sentido, que eram auto-criados, tamb�m reconheciam francamente e compreendiam que eles mantinham uma conex�o especial de algum tipo com outra terra - um pa�s fabuloso e distante, denominado nos textos antigos de Ta-Neteru, a "terra dos deuses". Pensavam ainda que o Ta-Neteru teve uma localiza��o precisa na terra, em algum lugar muito ao sul do antigo Egito - a mares e oceanos de dist�ncia mais longe ainda que o pa�s das especiarias, Punt (que provavelmente se situava na costa somali da �frica Oriental). Para confundir ainda mais a situa��o, eles se referiam tamb�m a Punt como a "Terra Divina", ou "Terra de Deus", e fonte dos incensos e da mirra de que os deusestanto gostavam. Havia ainda outro para�so m�tico ligado aos Neterus - "lar dos santos", para onde os melhores seres humanos eram �s vezes levados - e que acreditavam que se "situava muito longe, al�m de uma grande extens�o de �gua". Conforme observou Wallis Budge em seu importante estudo, Osiris and the Egyptian Resurrection, "os eg�pcios acreditavam que essa terra s� podia ser alcan�ada de barco, ou com ajuda pessoal dos deuses, que para l� transportavam seus favoritos..." Os que tinham sorte suficiente para merecer ingresso descobriam que se encontravam em um jardim m�gico, feito de "ilhas, ligadas umas �s outras por canais cheios de �gua corrente, que faziam com elas fossem sempre verdes e f�rteis". Nas ilhas desse jardim, "o trigo crescia at� uma altura de cinco c�vados, as espigas tinham dois c�vados e, os talos, tr�s, e a cevada crescia at�


uma altura de sete c�vados, tendo as espigas tr�s c�vados de comprimento e, os talos, quatro". Teria sido de uma terra como essa, com irriga��o soberba e cultivada cientificamente, que o introdutor da agricultura, Os�ris, cujo t�tulo era "Presidente da Terra do Sul", viajou para o Egito, no alvorecer dos Primeiros Tempos? E teria sido de uma terra como essa, acess�vel apenas por barco, que Thoth, o de m�scara de �bis, viajou tamb�m, cruzando mares e oceanos para conceder as d�divas, de valor inestim�vel, da astronomia e da medi��o da terra aos habitantes primitivos do pr�-hist�rico Vale do Nilo? Qualquer que fosse a verdade por tr�s da tradi��o, os antigos eg�pcios lembravam-se de Thoth e o reverenciavam como o inventor da matem�tica, da astronomia e da engenharia. "Acreditavam", de acordo com Wallis Budge, "que era a sua vontade e poder que mantinham em equil�brio as for�as do c�u e da terra. E era a sua grande per�cia em matem�tica celeste que fazia uso apropriado das leis sobre as quais repousava a funda��o e a manuten��o do universo". Atribu�a-se ainda a Thoth o cr�dito por ter ensinado aos ancestrais dos eg�pcios as ci�ncias da geometria e da topografia, medicina e bot�nica. E tamb�m que havia sido o inventor "dos n�meros, das letras do alfabeto, e das artes da leitura e escrita". Ele era o "Grande Senhor da Magia", que podia mover objetos com o poder da voz, "o autor de todos os trabalhos, em todos os ramos dos conhecimentos, tanto humanos quanto divinos". Aos ensinamentos de Thoth - que eles guardavam zelosamente em seus templos e diziam que foram transmitidos de uma gera��o a outra sob a forma de 42 livros de instru��o - eles atribu�am sua sabedoria mundialmente respeitada e o conhecimento dos c�us. Esse conhecimento foi mencionado quase com rever�ncia pelos comentaristas cl�ssicos que visitaram o Egito, do s�culo V a.C.em diante. Her�doto, o primeiro dessesviajantes, observou: Os eg�pcios foram os primeiros a descobrir o ano solar e dividir seu curso em doze partes. (...) E foi a observa��o do curso das estrelas que os levou a adotar essa divis�o. (...) Plat�o (s�culo IV a.C.) deixou consignado que os eg�pcios haviam observado as estrelas "por dez mil anos". Mais tarde, no s�culo I a.C., Diodoro de Sic�lia escreveu uma vers�o ainda mais detalhada dessefato: As posi��es e arranjos das estrelas, bem como seus movimentos, sempre foram objeto de observa��o cuidadosa entre os eg�pcios. (...) Desde os tempos antigos at� hoje, eles


preservaram registros a respeito de cada uma dessas estrelas, durante um n�mero incr�vel de anos. (...) Por que deveriam os eg�pcios ter cultivado um interesse quase obsessivo por observa��es a longo prazo das estrelas e por que, em especial, deveriam ter mantido registros de seus movimentos "durante um n�mero incr�vel de anos"? Essas observa��es detalhadas seriam dispens�veis, se seu �nico interesse, como sugeriram, com toda seriedade, numerosos estudiosos, fosse de natureza agr�cola (a necessidade de prever as esta��es, o que qualquer pessoa nascida no campo pode fazer). Deve ter havido alguma outra finalidade. Al�m do mais, para come�ar, como foi que os antigos eg�pcios se iniciaram em astronomia? N�o se trata do tipo de hobby que um povo morador em um vale fechado desenvolveria por iniciativa pr�pria. Talvez fosse bom levar mais a s�rio a explica��o que eles mesmo deram: que um deus ensinou seus ancestrais a estudar as estrelas. Poder�amos tamb�m dar mais aten��o a numerosas refer�ncias de natureza inegavelmente mar�tima contidas nos Textos da Pir�mide. E novas e importantes infer�ncias poderiam ser tiradas da arte religiosa antiga, na qual os deuses s�o mostrados viajando em barcos belos, aerodin�micos, de proa alta, constru�dos de acordo com as mesmas especifica��es avan�adas para navega��o oce�nica exibidas pelos barcos da pir�mide, em Giz�, e a misteriosa esquadra ancorada nas areias do deserto, em Abidos. De modo geral, indiv�duos que vivem em terras longe do mar n�o se tornam astr�nomos, o que acontece, por�m, com povos de navegadores. N�o seria poss�vel que a iconografia mar�tima dos antigos eg�pcios, o projeto de seus barcos e igualmente, a not�vel obsess�ocom a observa��o das estrelas pudessem ter sido parte de uma heran�a transmitida a seus ancestrais por uma ra�a de navegadores, na pr�hist�ria remota? Realmente, s� uma ra�a, s� uma civiliza��o mar�tima esquecida, � que poderia ter deixado suasimpress�esdigitais sob a forma de mapas que mostravam exatamente como era o mundo, antes do fim da �ltima Era Glacial. Realmente, s� uma civiliza��o como essa, tra�ando seu curso pelas estrelas "durante dezenas de milhares de anos", poderia ter observado e previsto acuradamente o fen�meno da precess�o de equin�cios, com a exatid�o atestada por antigos mitos. E, embora hipot�tica, s� essa civiliza��o poderia ter medido a terra com precis�o suficiente para ter chegado �s dimens�esreduzidas � escala na Grande Pir�mide.

A Assinatura de uma Data Distante


Era quase meia-noite quando chegamos a Giz�. Hospedamo-nos no Siag, um hotel com excelente vista da pir�mide, e ficamos sentados no terra�o, observando, enquanto as tr�s estrelas do cintur�o de �rion cruzavam lentamente os c�us do sul. E foi a disposi��o dessas tr�s estrelas, como demonstrou recentemente o arqueoastr�nomo Robert Bauval, que serviu como gabarito celeste para o plano do s�tio arqueol�gico das tr�s pir�mides de Giz�. Esse fato em si constituiu uma descoberta not�vel, sugerindo um n�vel muito mais alto de astronomia de observa��o e de per�cia em topografia e em projeto, que estudiosos atribu�am aos antigos eg�pcios. Ainda mais not�vel, contudo - e a raz�o por que combinei me encontrar com ele em Giz� na manh� seguinte - era a alega��o de Bauval de que o padr�o tra�ado no ch�o (com quase quinze milh�es de toneladas de pedras perfeitamente aparelhadas) correspondia exatamente ao modelo do c�u durante a �poca de 10.450anos a.C. Se Bauval tinha raz�o, as pir�mides haviam sido projetadas, usando-se as mudan�as que a precess�o provoca nas posi��es das estrelas, como assinatura arquitet�nica permanente do und�cimo mil�nio a.C. CAP�TULO 49 O Poder da Coisa Numa escala de 1:43.200, a Grande Pir�mide serve de modelo, e proje��o cartogr�fica, do hemisf�rio Norte da terra. O que exclui por completo a possibilidade de que isso possaser uma coincid�ncia � o fato de que a escala usada est� ligada numericamente � taxa de precess�o dos equin�cios - um dos mecanismos planet�rios mais caracter�sticos da terra. � claro, por conseguinte, que temos aqui a manifesta��o de uma decis�o deliberada de planejamento: tomada com a inten��o de ser reconhecida como tal por qualquer cultura que tivesse adquirido a) conhecimento preciso das dimens�esda terra e b) conhecimento preciso da taxa do movimento precessional. Gra�as ao trabalho de Robert Bauval, podemos ter agora certeza de que outra decis�o deliberada de planejamento foi implementada na Grande Pir�mide (a qual - como se torna cada vez mais claro - deve ser entendida como um projeto destinado a preencher muitas diferentes fun��es). Neste caso, o plano realmente ambicioso incluiu tamb�m as Segunda e Terceira Pir�mides, numa decis�o que mostra as impress�es digitais dos mesmos antigos arquitetos e construtores que conceberam a Grande Pir�mide como modelo da terra reduzido a uma dada escala. O sinal caracter�stico desses seres parece ter sido a precess�o � talvez porque gostassem de sua regularidade e previsibilidade matem�tica - e a usaram para elaborar um plano


que poderia ser corretamente compreendido apenas por culturas cientificamente avan�adas. Nossa cultura � uma dessas e Robert Bauval foi o primeiro a decifrar os par�metros b�sicos do plano - descoberta esta pela qual recebeu consagra��o p�blica e, no devido tempo, receber� o reconhecimento cient�fico que merece. Belga de nacionalidade, nascido e criado em Alexandria, � um homem alto, magro, rosto escanhoado, na casa dos 40 anos. Seu aspecto mais not�vel � uma mand�bula teimosa, que lhe caracteriza a personalidade obstinada, curiosa. Fala com um sotaque h�brido franc�s-eg�pcio-ingl�s e � decididamente oriental em suas maneiras. Possui uma mente de primeira classe e est� sempre acumulando e analisando incessantemente novos dados relevantes para seus interesses, descobrindo novas maneiras de focalizar velhos problemas. Nesse processo, inteiramente por acaso, conseguiu transformar-se em uma esp�cie de mago de conhecimentos esot�ricos.

O Mist�rio de �rion As origens das descobertas de Bauval retroagem � d�cada de 1960, quando o egipt�logo e arquiteto Dr. Alexander Badawy e a astr�noma americana Virginia Trimble demonstraram que a chamin� sul da C�mara do Rei, na Grande Pir�mide, apontara como um cano de arma para o cintur�o de �rion durante a Era das Pir�mides - cerca de 2600 a 2400 a.C. Bauval resolveu submeter a teste a chamin� sul da C�mara da Rainha, que Badawy e Trimble n�o haviam investigado, e provou que ela apontara para a estrela S�rius durante a mesma era. A evid�ncia que provava essa conclus�o foi fornecida pelo engenheiro alem�o Rudolf Gantenbrink, como resultado de medi��es realizadas por seu rob�, Upuaut, em mar�o de 1993. Este rob� fez a not�vel descoberta de uma porta tipo guilhotina que bloqueava a chamin� a uma dist�ncia de cerca de 60m da C�mara da Rainha. Equipado com um clin�metro de alta tecnologia, a pequena m�quina forneceu a primeira leitura inteiramente exata do �ngulo de inclina��o da chamin�: 39� 30'. Ou, como explica Bauval: Fiz os c�lculos, que provaram que a chamin� estivera apontada para o meridiano do tr�nsito de S�rius por volta do ano 2400 a.C. N�o podia haver absolutamente qualquer


d�vida a esse respeito. Calculei tamb�m o alinhamento do cintur�o de �rion, elaborado por Badawy e Trimble, com os novos dados que Gantenbrink me forneceu sobre a inclina��o da chamin� sul da C�mara do Rei. Ele mediu um �ngulo de exatamente 45�, ao passo que Badawy e Trimble haviam trabalhado com a medi��o ligeiramente menos precisa de Flinders Petrie, de 44� 30'. Os novos dados permitiram que eu refinasse a data fornecida por Badawy e Trimble para o alinhamento. O que descobri foi que a chamin� apontava diretamente para AI Nitak, a mais baixa das tr�s estrelas do cintur�o, que cruzou o meridiano � latitude de 45� por volta do ano 2475 a.C. At� esse ponto, as conclus�es de Bauval se encaixavam bem nos limites cronol�gicos estabelecidos por egipt�logos ortodoxos, que normalmente datavam a constru��o da Grande Pir�mide por volta do ano 2520 a.C. No m�nimo, os alinhamentos que os arqueoastr�nomos haviam descoberto sugeriam que as chamin�s tinham sido constru�das um pouco mais tarde, e n�o mais cedo, do que o conhecimento convencional admitia. Como j� sabe o leitor, contudo, Bauval fez tamb�m outra descoberta, de natureza muito mais inquietante. Mais uma vez, ela dizia respeito �s estrelas do cintur�o de �rion: Elas est�o inclinadas numa diagonal na dire��o sudoeste, em compara��o com o eixo da Via L�ctea, enquanto que as pir�mides est�o inclinadas ao longo de uma diagonal, tamb�m na dire��o sudoeste, mas em compara��o com o eixo do Nilo. Se olharmos atentamente em uma noite escura, veremos que a menor das estrelas, a que fica na parte mais alta, que os �rabes chamam de Mintaka, fica ligeiramente deslocada para leste da principal diagonal formada pelas outras duas. Esse padr�o � reproduzido no ch�o, onde vemos que a Pir�mide de Menkaure est� deslocada em exatamente o mesmo volume a leste da principal diagonal formada pela Pir�mide de Khafre (que representa a estrela do meio, AI Nilam), e a Grande Pir�mide, que representa AI Nitak. � realmente muito claro que todos esses monumentos foram projetados de acordo com um plano de s�tio arqueol�gico unificado, que tomou como modelo, com precis�o extraordin�ria, essastr�s estrelas... O que eles fizeram em Giz� foi construir, no solo, o cintur�o de �rion. Mas havia ainda mais. Usando um programa sofisticado de computador, capaz de plotar mudan�as induzidas pela precess�o nas declina��es de todas as tr�s estrelas vis�veis no c�u em qualquer parte do mundo, em qualquer �poca, Bauval descobriu


que a correla��o Pir�mides/cintur�o de �rion era geral e �bvia em todas as �pocas, mas espec�fica e exata em apenasuma:

No ano 10450 a.C. - e apenas nessa data -, descobrimos que a disposi��o das pir�mides no solo constitu�a um reflexo perfeito da disposi��o das estrelas no c�u. Quero dizer, havia uma identidade perfeita - impec�vel - que n�o podia ser um acaso, porque todo arranjo descreve corretamente eventos celestiais muito estranhos que ocorreram apenas naquele tempo. Em primeiro lugar, e puramente por acaso, a Via L�ctea, como era vis�vel em Giz� no ano 10450 a.C., reproduzia exatamente o curso meridional do Vale do Nilo; em segundo, a oeste da Via L�ctea, as tr�s estrelas do cintur�o de �rion estavam na altitude mais baixa do ciclo precessional, com AI Nitak, a estrela representada pela Grande Pir�mide, cruzando o meridiano a 11� 8'. O leitor j� sabe como a precess�o axial da terra faz com que o nascer do sol no equin�cio vernal migre ao longo da faixa do zod�aco durante um ciclo de cerca de 26.000 anos. O mesmo fen�meno afeta tamb�m a declina��o de todas as estrelas vis�veis, produzindo, no caso da constela��o de �rion, mudan�as muito lentas, mas


importantes em altitude. Dessa maneira, de seu ponto mais alto no tr�nsito do meridiano (58� 11' acima do horizonte Sul, como visto a partir de Giz�), AI Nitak precisa de 13.000 anos para descer ao ponto baixo, registrado pela �ltima vez no ano 10450 a.C., isto �, imortalizado em pedra no plat� de Giz� - isto �, 11� 8'. Passando-se mais 13.000 anos, o cintur�o de estrelas sobe lentamente, at� que AI Nitak volta a 58� 11'. Em seguida, durante os pr�ximos 13.000anos, as estrelas cair�o mais uma vez para 11� 8'. Esse ciclo � eterno: 13.000 anos para cima, 13.000 anos para baixo, 13.000 para cima, 13.000para baixo, para sempre. A configura��o precisa de 10.450 anos a.C. � o que vemos no plat� de Giz� como se um mestre-arquiteto tivesse chegado aqui naquela �poca e resolvido tra�ar no ch�o um mapa imenso, utilizando uma mistura de aspectos naturais e artificiais. Ele usou o curso meridional do Vale do Nilo para mostrar a Via L�ctea, tal como lhe parecia na ocasi�o. Construiu as tr�s pir�mides para representar as tr�s estrelas, exatamente como elas pareciam nessa �poca. E colocou-as exatamente na mesma rela��o com o Vale do Nilo que as tr�s guardavam ent�o com a Via L�ctea. Foi uma maneira muito inteligente, muito ambiciosa, muito exata de marcar uma �poca - congelar uma determinada data em uma obra de arquitetura, se quiserem...

Os Primeiros Tempos Eu achei complicadas e misteriosas as implica��esda correla��o de �rion. Por outro, as chamin�s sul da Grande Pir�mide "ligavam precessionalmente" o monumento a Al Nitak e a S�rius no per�odo 2475-2400 a.C., datas estas que coincidiam perfeitamente com a �poca em que egipt�logos diziam que ela fora constru�da. Por outro lado, a disposi��o de todas as tr�s pir�mides em rela��o ao Vale do Nilo indicava eloq�entemente a data muito mais antiga de 10.450 anos a.C. Este n�mero coincidia com os achados geol�gicos controversos de John West e Robert Schoch em Giz�, que sugeriam a presen�a de uma civiliza��o muito avan�ada no Egito no und�cimo mil�nio a.C. Al�m do mais, a disposi��o das pir�mides no terreno n�o fora feita por qualquer processo aleat�rio ou acidental, parecendo ter sido deliberadamente escolhida, porque marcava um fato precessional importante: o ponto mais baixo, o in�cio, dos Primeiros Tempos no ciclo "para cima" de 13.000 anos de �rion.


Eu sabia que Bauval acreditava que esse evento astron�mico esteve ligado simbolicamente aos m�ticos Primeiros Tempos, de Os�ris - os tempos dos deuses, quando a civiliza��o supostamente chegou ao vale do Nilo - e que seu racioc�nio para chegar a essa conclus�o baseava-se na mitologia do Egito antigo, que liga diretamente Os�ris � constela��o de �rion (e �sis com a de S�rius). Teriam os arqu�tipos hist�ricos de Os�ris e �sis chegado aqui nos Primeiros Tempos, h� 12.500 anos? Minha pesquisa sobre as mitologias da Era Glacial me haviam convencido de que certas id�ias e lembran�as podiam perdurar na psique humana durante muitos mil�nios, transmitidas de uma gera��o a outra pela tradi��o oral. Eu, portanto, n�o conseguia ver raz�es prima facie porque a mitologia de Os�ris, com suas caracter�sticas estranhas e an�malas, n�o devia ter tido origem em data t�o remota quanto 10450a.C.


N�o obstante, foi a civiliza��o do Egito din�stico que elevou Os�ris ao status de poderoso deus da ressurrei��o. Essa civiliza��o era uma daquelas que teve poucas precursoras conhecidas e nenhuma delas, ao que se sabia, de modo algum na �poca remota do und�cimo mil�nio a.C. Se a mitologia de Os�ris havia sido transmitida ao longo de 8.000 anos, portanto, que cultura fora respons�vel por isso? E teria sido essa cultura tamb�m respons�vel por ambos os alinhamentos astron�micos que se provou que as pir�mides representam: 10450a.C.e 2450 a.C.? Estas eram algumas das perguntas que eu pensava fazer a Robert Bauval, � sombra das pir�mides. Santha e eu combinamos encontr�-lo, ao amanhecer, no Templo Mortu�rio de Khafre, de modo que pud�ssemosos tr�s observar o sol nascer sobre a Esfinge. A Plataforma Situado ao lado da face leste da Segunda Pir�mide, o Templo Mortu�rio, que se encontra na maior parte em ru�nas, era um lugar fantasmag�rico, cinzento e frio a essahora. E como John West sugerira durante nossa conversa em L�xor, pouca d�vida podia haver de que o templo enquadrava-se no mesmo estilo de arquitetura severo, imponente, destitu�do de decora��o que o mais conhecido Templo do Vale. Ali, de qualquer modo, estavam os blocos enormes, pesando 200 toneladas ou mais cada. E ali estava tamb�m a mesma atmosfera intang�vel de grande antiguidade e de uma intelig�ncia que despertava, como se alguma epifania estivesse para acontecer. At� mesmo em seu estado atual, dilapidada, em escombros, essaestrutura an�nima, que os egipt�logos chamam de Templo Mortu�rio, era ainda um local de poder, que parecia extrair sua energia de uma �poca muito distante no passado. Ergui a vista para a enorme massa da face leste da Segunda Pir�mide, imediatamente atr�s de n�s, � luz p�rola-acinzentada do amanhecer. Mais uma vez, como observara John West, havia muita coisa a sugerir que ela pudesse ter sido constru�da em dois est�gios diferentes. As carreiras mais baixas, at� uma altura de talvez 12m, consistem principalmente de meg�litos cicl�picos de pedra calc�ria, tais como os encontrados nos templos. Acima dessa altura, contudo, o restante do gigantesco n�cleo da pir�mide � formado de blocos muito menores, pesando cerca de duas a tr�s toneladas cada (tal como a maioria dos blocos da Grande Pir�mide). Teria havido um tempo em que uma plataforma megal�tica de seis hectares e 40m de altura existira ali na "colina de Giz�", a oeste da Esfinge, cercada apenaspor estruturas quadradas e retangulares an�nimas, tais como os Templos do Vale e Mortu�rio? Em outras palavras, era poss�vel que as carreiras mais baixas da Segunda Pir�mide


pudessem ter sido assentadas primeiro, antes das outras pir�mides - talvez muito tempo antes, em uma era muito anterior? O culto Essas d�vidas persistiam em minha mente quando chegou Robert Bauval. Ap�s uma troca de algumas frases banais geladas sobre o tempo - um vento frio do deserto soprava pelo plat� -, perguntei: - Como � que voc� explica essefuro de oito mil anos em suascorrela��es? - Furo? - Isso mesmo, chamin�s que parecem alinhadas com o ano 2450 a.C. e um plano de s�tio arqueol�gico que mapeia as posi��esde estrelas no ano 10450a.C. - Na verdade, h� duas explica��es, ambas fazendo algum tipo de sentido - respondeu Bauval -, e acho que a solu��o tem que ser uma ou outra... Ou as pir�mides foram projetadas como um tipo de "rel�gio estelar" para assinalar duas �pocas especiais, 1450 e 10450 a.C., caso em que n�o podemos dizer realmente quando elas foram constru�das. Ou foram constru�das a mais... - Pare no primeiro ponto - interrompi. - O que � que voc� quer dizer com "rel�gio estelar"? E que n�o podemos saber quando elas foram constru�das? - Bem, vamos supor, por um momento, que os construtores da pir�mide conheciam a precess�o. Vamos supor que fossem capazes de calcular retroativa e antecipadamente a declina��o de grupos estelares particulares, exatamente como podemos fazer hoje com computadores... Supondo que pudessem fazer isso, pouco importa em que �poca tenham vivido, eles teriam sido capazes de construir um modelo de como seriam os c�us sobre Giz� nos anos 10450 e 2450 a.C., exatamente como poder�amos fazer hoje. Em outras palavras, se constru�ram as pir�mides no ano 10450 a.C., n�o teriam dificuldade em calcular os �ngulos corretos de inclina��o das chamin�s sul, de tal modo que elas ficariam apontadas para AI Nitak e S�rius por volta do ano 2450 a.C. De id�ntica maneira, se tivessem vivido no ano 2450 a.C., nenhuma dificuldade haveria em calcular o plano correto do s�tio para refletir a posi��o do cintur�o de �rion no ano 10450a.C.Concorda? - Concordo. - Muito bem. Essa � uma das explica��es. A segunda, por�m, que � a que prefiro... e que penso que a prova geol�gica tamb�m confirma... � que toda a necr�pole de Giz� foi projetada e constru�da em um per�odo imensamente longo de tempo. Acho mais do que poss�vel que o local tenha sido originariamente planejado e plotado por volta do ano 10450 a.C., de modo que a geometria refletisse os c�us como eram na �poca, mas


que o trabalho foi completado, e alinhadas as chamin�s da Grande Pir�mide, mais ou menos no ano 2450 a.C. - De modo que voc� pode estar dizendo que o plano do local das pir�mides pode retroagir a 10450a.C.? - Acho que foi isso o que aconteceu. E acho que o centro geom�trico do plano localizava-se mais ou menos onde estamos agora, em frente � Segunda Pir�mide... Apontei para os grandes blocos das carreiras inferiores da imensa estrutura. - At� parece que ela foi constru�da em dois est�gios, por duas culturas inteiramente diferentes... Robert Bauval deu de ombros. - Vamos especular... Talvez n�o tenham sido duas culturas. Talvez tenha sido uma �nica cultura, ou culto... o culto de Os�ris, talvez. Talvez fosse um culto de longu�ssima dura��o, antiq��ssimo, dedicado a Os�ris, que teria estado aqui no ano 10450 a.C. e tamb�m no ano 2450 a.C. Aconteceu, talvez, que a maneira como esse culto fazia as coisas mudou com o tempo. Talvez usassem blocos imensos no ano 10450 a.C. e blocos menores em 2450 a.C... Acho que h� muita coisa aqui que d� sustenta��o a essa id�ia, muita coisa que diz "um culto muito antigo", um bocado de provas que simplesmente nunca foram examinadas... - Por exemplo? - Bem, obviamente, os alinhamentos astron�micos do local. Fui dos primeiros a come�ar a estudar esse assunto a s�rio. E a geologia: o trabalho que John West e Robert Schoch fizeram na Esfinge. Temos aqui duas ci�ncias... ambas pr�ticas, emp�ricas, buscadoras de provas... que nunca foram aplicadas antes a essesproblemas. Mas agora que passamos a us�-las, estamos come�ando a obter uma leitura inteiramente nova da antiguidade da necr�pole. E penso honestamente que apenas arranhamos a superf�cie e que, no futuro, muito mais coisas emergir�o da geologia e da astronomia. Al�m disso, ningu�m realizou ainda um estudo realmente detalhado dos Textos da Pir�mide, de outra perspectiva que n�o a denominada "antropol�gica", o que significa uma id�ia preconcebida de que os sacerdotes de Heli�polis formavam um bando de feiticeiros semi-civilizados, que queriam viver para sempre... Na verdade, eles, de fato, queriam viver para sempre, mas certamente n�o eram feiticeiros... Eram altamente civilizados, homens com alta inicia��o e, � sua pr�pria maneira, cientistas, pelo que podemos julgar � vista de seus trabalhos. Por isso mesmo, sugiro que � como documentos cient�fificos ou, pelo menos, quase cient�ficos, que os Textos da Pir�mide devem ser lidos, e n�o como uma algaravia sem sentido. J� estou convencido de que eles est�o de acordo com a parte da astronomia que trata da precess�o. Mas pode haver tamb�m outras ci�ncias em jogo: matem�tica, geometria -


em especial a geometria... Simbolismo... Precisamos, na verdade, de um enfoque multidisciplinar para compreender os Textos da Pir�mide... e compreender as pr�prias pir�mides, incluindo astr�nomos, matem�ticos, ge�logos, engenheiros, arquitetos, at� mesmo fil�sofos para compreender o simbolismo enfim, todos que possam trazer uma vis�o nova e novas per�cias para o estudo desses importantes problemas devem ser encorajados a colaborar. - Por que � que voc� acha que os problemas s�o t�o importantes? - Porque eles ter�o uma influ�ncia colossal sobre nossa compreens�o do passado de nossa pr�pria esp�cie. O planejamento e escolha do local, que parecem ter sido feitos aqui no ano 10450 a.C. s� poderiam ter sido trabalho de uma civiliza��o altamente desenvolvida, provavelmente tecnol�gica... - Ao passo que ningu�m sup�e que uma civiliza��o desse porte tenha existido em qualquer parte da terra nessa�poca... - Exato. Isso foi na Idade da Pedra. Supostamente, a sociedade humana estava em um estado muito primitivo, nossosancestrais cobriam-se com peles de animais, viviam em cavernas, seguiam o estilo de vida de ca�adores, e assim por diante. Por isso mesmo, � altamente perturbador descobrir que parece ter vivido em Giz�, no ano 10450 a.C., um povo que compreendia muito bem a obscura ci�ncia da precess�o, que tinha capacidade t�cnica para descobrir que estavam olhando para o ponto mais baixo do ciclo de precess�o de �rion - e, dessa maneira, o in�cio da jornada ascendente de 13.000 anos da constela��o - e que se disp�e a criar um memorial permanente a esse momento, aqui neste plat�. Ao colocar no ch�o o cintur�o de �rion, da maneira como o fizeram, eles sabiam que estavam congelando um momento muito espec�fico no tempo. Ocorreu-me um pensamento maldoso: - De que maneira podemos ter tanta certeza de que o momento que estavam congelando era o ano 10450 a.C.? Afinal de contas o cintur�o de �rion assume essa mesma configura��o no c�u do sul, a oeste da Via L�ctea, a onze e tantos graus acima do horizonte, a cada 26.000 anos. Se assim, por que eles n�o estavam imortalizando o ano 36450 a.C. ou mesmo o ciclo de precess�o que come�ou 26.000 anos antes dessa data? Robert estava evidentemente preparado para a pergunta. - Alguns registros antigos sugerem realmente que a civiliza��o eg�pcia tem ra�zes que retroagem a quase 40.000 anos - respondeu ele, pensativo -, como o estranho relato em Her�doto sobre o sol nascendo onde antes se punha e se pondo onde antes nascia... - O que � tamb�m uma met�fora sobre a precess�o...


- Isso mesmo. Mais uma vez, a precess�o. � muito estranha a maneira como ela continua sempre a aflorar... De qualquer modo, voc� tem raz�o, eles poderiam estar marcando o in�cio do ciclo precessional anterior... - E voc� pensa que estavam? - N�o. Acho que 10450 a.C. � a data mais prov�vel. Est� mais de acordo com o que sabemos sobre a evolu��o do homo sapiens. E embora deixe ainda um bocado de anos para explicar, antes do aparecimento do Egito din�stico por volta do ano 3000 a.C., n�o � um per�odo t�o longo assim... - T�o longo para o qu�? - � a resposta para sua pergunta sobre o furo de oito mil anos entre o alinhamento do s�tio arqueol�gico e o alinhamento das chamin�s. Oito mil anos s�o um bocado de tempo, mas n�o t�o longo para um culto dedicado, altamente motivado, ter preservado, alimentado e transmitido fielmente os grandes conhecimentos de um povo que inventou este lugar no ano 10450a.C.

A M�quina At� que ponto era avan�ado o conhecimento dessesinventores pr�-hist�ricos? - Eles conheciam suas �pocas- respondeu Bauval - e o rel�gio que usaram foi o rel�gio natural das estrelas. A linguagem de trabalho que usavam era a astronomia precessional e esses monumentos expressam essa linguagem de uma maneira clara, inequ�voca, cient�fica. Eles foram tamb�m top�grafos altamente competentes... quero dizer, o povo que originariamente preparou o local e providenciou as orienta��es para as pir�mides porque trabalharam de acordo com uma geometria exata e porque sabiam como alinhar perfeitamente plataformas base, ou o que quer que constru�ssem, com os pontos cardeais. - Voc� acha que eles sabiam tamb�m que estavam marcando o local da Grande Pir�mide na latitude trinta graus Norte? Bauval soltou uma risada e disse: - Tenho certeza de que sabiam. Acho que conheciam tudo sobre a forma da terra. Conheciam sua astronomia. Tinham uma boa compreens�o do sistema solar e de


mec�nica celeste. Eram tamb�m incrivelmente exatos e precisos em tudo que faziam. De modo que, levado tudo em conta, n�o acredito que alguma coisa tenha acontecido aqui por acaso pelo menos n�o entre os anos 10450 e 2450 a.C. Tenho a impress�o que tudo foi planejado, e intencional e cuidadosamente executado... Na verdade, tenho a impress�o de que eles estavam cumprindo um objetivo � longo prazo... algum tipo de finalidade, se quiser, e que a levaram � frui��o no terceiro mil�nio a.C... - Sob a forma de pir�mides inteiramente constru�das, que, em seguida, ancoraram precessionalmente a AI Nitak e a S�rius ao completar a obra? - Sim. E tamb�m, acho, sob a forma dos Textos da Pir�mide. Meu palpite � que os Textos da Pir�mide fazem parte do enigma. - O software para o hardware das Pir�mides? - � bem poss�vel. Por que n�o? De qualquer modo, � certo que existe uma conex�o. Acho que o que isso significa � que, se queremos decodificar corretamente as pir�mides, vamos ter que usar os textos... - Qual � o seu palpite? - perguntei. - Na sua opini�o, qual pode ter sido realmente a finalidade dos construtores das pir�mides? - Eles n�o fizeram isso porque queriam uma tumba eterna - respondeu com firmeza Bauval. - Em minha opini�o, eles n�o tinham d�vida nenhuma de que viveriam eternamente. Eles fizeram isso... quem quer que o tenha feito... transmitiram o poder de suas id�ias atrav�s de algo que, para todos os fins e finalidades, � eterno. Conseguiram criar uma for�a que � em si mesma funcional, contanto que a compreenda, e que essafor�a s�o as perguntas que ela desafia voc� a fazer. Meu palpite � que eles conheciam com perfei��o a mente humana. Conheciam o jogo do ritual... Certo? Estou falando s�rio. Eles sabiam o que estavam fazendo. Sabiam que podiam iniciar pessoas, ainda no futuro distante, em sua maneira de pensar, mesmo que n�o pudessem estar presentes nesse momento. Sabiam que poderiam fazer isso criando uma m�quina eterna, cuja fun��o seria gerar perguntas. Acho que devo ter dado uma impress�o de perplexidade. - As pir�mides s�o a m�quina! - exclamou Bauval. - Na verdade, o todo da necr�pole de Giz�. E olhe s� para n�s. O que estamos fazendo? Estamos fazendo perguntas. Estamos aqui, tremendo de frio, em uma hora atroz, observando o sol nascer, e estamos fazendo perguntas, um mont�o de perguntas, exatamente como fomos programados para fazer. Estamos nas m�os de verdadeiros magos, magos que sabiam que, com s�mbolos... os s�mbolos certos, com as perguntas certas... eles poderiam lev�-lo a iniciar-se por si mesmo. Contanto, isto �, que voc� seja uma pessoaque fa�a perguntas. E se �, ent�o, no minuto em que come�a a fazer perguntas sobre a pir�mide, come�a


tamb�m a trope�ar numa s�rie de respostas, que o levam a outras perguntas, e ent�o a mais respostas, at� que, finalmente, voc� se inicia a si mesmo... - Plantar a semente... - Isso mesmo. Eles estavam plantando a semente. Acredite em mim, eles foram magos e conheciam o poder das id�ias... Sabiam como fazer as id�ias crescerem e desenvolver-se na mente das pessoas. E se voc� come�a com essas id�ias e segue o processo de racioc�nio como eu fiz, voc� chega a coisas como �rion e ao ano 10450 a.C. Em suma, trata-se de um processo que se desenvolve por si mesmo. Quando ele penetra, quando se fixa no subconsciente, ocorre uma convers�o volunt�ria. Uma vez penetre, voc� n�o pode nem mesmo resistir... - Voc� est� falando como se este culto de Giz�, o que quer que tenha sido, girando em torno da precess�o, da geometria, das pir�mides e dos Textos da Pir�mide, ainda existisse. - Em certo sentido, ainda existe - respondeu Robert. - Mesmo que o motorista n�o esteja mais no volante, a necr�pole de Giz� � ainda uma m�quina que foi projetada para provocar perguntas. - Interrompeu-se e apontou para o �pice da Grande Pir�mide, que Santha e eu hav�amos escalado, nas horas mortas da noite, nove meses antes. - Olhe para aquele poder - continuou. - Cinco mil anos depois, ele ainda o captura. Envolve-o, queira voc� ou n�o... For�a-o a iniciar um processo de racioc�nio... for�a-o a aprender. No momento em que faz uma pergunta sobre esse poder, voc� pergunta tamb�m sobre engenharia, pergunta sobre geometria, pergunta sobre astronomia. De modo que ele o obriga a aprender alguma coisa sobre engenharia, geometria e astronomia e, gradualmente, voc� come�a a compreender como esse poder � sofisticado, como devem ter sido incrivelmente inteligentes, competentes e cultos seus construtores, que o obrigam a fazer perguntas sobre a humanidade, sobre a hist�ria humana e, no fim, tamb�m sobre voc� mesmo. Voc� quer descobrir. Este � o poder da coisa.

A Segunda Assinatura Sentados no plat� de Giz� naquela manh� fria de dezembro de 1993, Santha, Robert e eu observamos o sol de inverno, nesse momento muito pr�ximo do solst�cio, erguendo-se sobre o ombro direito da Esfinge, quase t�o ao sul do leste como viajaria em sua jornada anual antes de voltar novamente ao norte.


A Esfinge � um marco equinocial, com o olhar dirigido exatamente para o ponto em que o sol nasce no equin�cio vernal. Faria isso, tamb�m, parte do "plano-mestre" de Giz�? Lembrei a mim mesmo que, em qualquer �poca, e em qualquer per�odo da hist�ria ou da pr�-hist�ria, o olhar da Esfinge, voltado diretamente para leste, estaria sempre fixado no nascimento equinocial do sol tanto no equin�cio vernal quando no outonal. Como o leitor certamente se lembrar� pelo que leu na Parte V, contudo, o equin�cio vernal era o que o homem antigo considerava como o marco da era astron�mica. Ou, nas palavras de Santillana e Von Dechend: A constela��o que subia no leste, pouco antes de o sol aparecer, marcava o "lugar" onde o sol dormia. (...) A constela��o era conhecida como a "transportadora" do sol e o equin�cio vernal era reconhecido como o ponto firme do 'sistema', que determina o primeiro grau do ciclo anual do sol. (...) Por que um marco equinocial foi constru�do com a forma de um gigantesco le�o? Em nosso pr�prio tempo, o ano 2000 d.C., uma forma mais conveniente de tal marco se algu�m quisesse constru�-lo - seria a representa��o de um peixe. Isso porque o sol, no equin�cio vernal, nasceu contra o fundo estelar de Peixes, como tem feito por aproximadamente os �ltimos 2.000 anos. A era astron�mica de Peixes come�ou por volta do tempo de Cristo. Os leitores ter�o que julgar por si mesmos se � uma coincid�ncia que o principal s�mbolo usado para Cristo pelos crist�os mais antigos n�o foi a cruz, mas o peixe. Na era precedente, que em termos gerais abrange o primeiro e segundo mil�nios a.C., cabia � constela��o de �ries - o carneiro - a honra de transportar o sol no equin�cio vernal. Mais uma vez, os leitores t�m que julgar se � uma coincid�ncia que a iconografia religiosa daquela �poca fosse predominantemente orientada para o carneiro. Seria uma coincid�ncia, por exemplo, que Iav�, o Deus de Israel do Velho Testamento, tenha fornecido um carneiro como substituto de Isaac, o filho que Abra�o ofereceu em sacrif�cio? (Estudiosos da B�blia e arque�logos sup�em que Abra�o e Isaac viveram em princ�pios do segundo mil�nio a.C.) Seria igualmente coincid�ncia que carneiros, em um ou outro contexto, sejam mencionados em quase todos os livros do Velho Testamento (composto inteiramente durante a Era de �ries), mas em nenhum livro do Novo Testamento? E seria um acaso que o advento da Era de �ries, pouco antes do in�cio do segundo mil�nio a.C., fosse acompanhado, no Egito antigo, por um recrudescimento da adora��o do deus Amon, cujo s�mbolo era um carneiro com chifres encurvados? O trabalho de constru��o do principal santu�rio de Amon - o


Templo de Karnak, em L�xor, no alto Egito - come�ou por volta do ano 2000 a.C. e, como se lembrar�o aqueles que o visitaram, seus principais �cones s�o carneiros, longas filas dos quais guardam as entradas. A predecessora imediata da Era de �ries foi a Era de Taurus - o Touro -, que cobriu o per�odo entre os anos 4380 e 2200 a.C. E foi durante essa�poca precessional, quando o sol no equin�cio vernal nascia na constela��o de Touro, que floresceu o culto do Touro na Creta min�ica. Durante essa �poca, igualmente, a civiliza��o do Egito din�stico explodiu na cena hist�rica, inteiramente formada, aparentemente sem antecedentes. Os leitores t�m de julgar se foi uma coincid�ncia que os eg�pcios, no pr�prio in�cio de seu per�odo din�stico, j� estivessem venerando os touros �pis e Mnevis - sendo o primeiro considerado uma teofania do deus Os�ris e, o �ltimo, o animal sagrado de Heli�polis, uma teofania do deus R�. Por que teria um marco equinocial sido constru�do na forma de um le�o? Khafre, o fara� da Quarta Dinastia que os egipt�logos acreditam tenha mandado esculpir o monumento no leito rochoso, por volta do ano 2500 a.C., foi um monarca da Era de Touro. Durante quase 1.800 anos antes de seu reinado, e mais de 300 anos depois, o sol nasceu no equin�cio vernal, sem o menor desvio, na constela��o de Touro. Segue-se que se um monarca em tal �poca tivesse resolvido criar um marco equinocial em Giz�, ele teria todas as raz�es para mandar esculpi-lo com a forma de um touro, e nenhuma para fazer isso na forma de um le�o. Na verdade, e � �bvio, s� houve uma �nica �poca em que o simbolismo celeste de um marco equinocial leonino teria sido apropriado. A �poca, claro, foi a Era do Le�o, de 10.970a 8.810anos a.C. Por que, ent�o, deveria um marco equinocial ter sido constru�do com a forma de um le�o? Por que foi constru�do durante a Era do Le�o, quando o sol no equin�cio vernal nascia contra o fundo estelar da constela��o do Le�o, marcando, dessa maneira, as coordenadas de uma �poca precessional que n�o experimentaria o "Grande Retorno" antes de mais 26.000anos? Por volta do ano 10450 a.C., as tr�s estrelas do cintur�o de �rion atingiram o ponto mais baixo em seu ciclo precessional: a oeste da Via L�ctea, 11� 8' acima do horizonte sul no tr�nsito do meridiano. No terreno a oeste do Nilo, esseevento foi congelado em arquitetura sob a forma das tr�s pir�mides de Giz�. A disposi��o delas no local formava a assinatura de uma �poca inconfund�vel de tempo precessional. Mais ou menos no ano 10450 a.C., o sol, no equin�cio vernal, nasceu na constela��o do Le�o. No ch�o, em Giz�, essefato foi congelado em arquitetura sob a forma da Esfinge, um marco equinocial gigantesco, leonino, que, tal como a segunda assinatura em um documento oficial, poderia ser considerado como uma confirma��o de autenticidade.


O und�cimo mil�nio a.C., em outras palavras, logo depois de ter quebrado o "Moinho do C�u", mudando o nascer do sol no equin�cio de primavera, de Virgem para a constela��o do Le�o, foi a �nica �poca em que a Esfinge, voltada diretamente para leste, teria manifestado exatamente o alinhamento simb�lico correto, exatamente no dia certo - observando o sol vernal nascer no c�u do amanhecer contra o pano de fundo de sua pr�pria contrapartida celeste... For�ando a Quest�o - N�o pode ser uma coincid�ncia que um alinhamento t�o perfeito do terrestre e do celeste ocorra por volta do ano 10.450 a.C. - disse Robert. - Na verdade, n�o acredito que coincid�ncia esteja ainda em quest�o. Para mim, a verdadeira pergunta �: por qu�? Por que foi feito isso? Por que eles tiveram tanto trabalho para formular essa enorme declara��o sobre o und�cimo mil�nio a.C.? - Obviamente, porque era uma ocasi�o importante para eles - sugeriu Santha. - A declara��o devia ter sido muito, muit�ssimo importante. Ningu�m faz nada assim, ningu�m cria uma s�rie de imensos marcos precessionais como esses, esculpe uma Esfinge, constr�i tr�s pir�mides que pesam 15 milh�es de toneladas, a menos que tenha uma raz�o imensamente importante. De modo que a pergunta �: que raz�o era essa? Eles for�aram a pergunta formulando essa declara��o forte, imperativa, no ano 10450 a.C., mais ou menos. Realmente, eles for�aram a pergunta. Queriam chamar nossaaten��o para o ano 10450a.C.e cabe a n�s descobrir a raz�o. Ficamos calados durante algum tempo, enquanto o sol subia no c�u a sudeste da Grande Esfinge.

Parte VII I Conclus�o Onde Est� o Corpo? CAP�TULO 50 Procurando Agulha em Palheiro


Alguns mesesap�s ter iniciado este estudo, meu assistente de pesquisa me enviou uma carta de quinze p�ginas, explicando por que resolvera pedir as contas. Nesse est�gio, eu n�o havia ainda come�ado a reunir as pe�as do quebra-cabe�a e trabalhava mais por palpite do que baseado em prova s�lida. Sentia-me atra�do por todos os mist�rios, anomalias, anacronismos e enigmas e queria descobrir tanta coisa quanto pudesse sobre o assunto. Meu pesquisador, enquanto isso, estivera estudando os processos demorados, lentos, atrav�s dos quais algumas civiliza��es conhecidas tinham ingressado na hist�ria. Havia, na opini�o dele, certas precondi��es econ�micas, clim�ticas, topogr�ficas e geogr�ficas importantes, que tinham de ser atendidas, antes que uma civiliza��o pudesseemergir: De modo que, se o senhor est� � procura de uma civiliza��o at� agora desconhecida de grandes criadores, que a constru�ram sozinhos, separada de todas as demais que j� conhecemos, o senhor n�o est� procurando por agulha em palheiro. Est� procurando por alguma coisa mais parecida como uma cidade dentro do palheiro. O que o senhor est� procurando � uma enorme regi�o que ocupou uma �rea de terra de, pelo menos, uns 3.200km de largura. Esta seria uma massa de terra t�o grande quanto o golfo do M�xico, ou duas vezes o tamanho de Madag�scar. Ela teria possu�do grandes cadeias de montanhas, imensas bacias hidrogr�ficas e um clima, de mediterr�neo para subtropical, protegido pela latitude contra os efeitos prejudiciais de esfriamento clim�tico a curto prazo. E ela teria necessitado que esse clima relativamente est�vel durasse pelo menos dez mil anos... Em seguida, a popula��o, de v�rias centenas de milhares de sofisticados habitantes, ter�amos que acreditar, desapareceu de repente, juntamente com a terra, deixando pouqu�ssimos vest�gios f�sicos, restando apenas alguns sobreviventes, sabidos o suficiente para notar que o fim estava pr�ximo, eram bastante ricos e se encontravam no lugar certo, com os recursos de que necessitavam, para poder fazer alguma coisa que Ihes permitisse escapar do cataclismo. De modo que, l� estava eu sem pesquisador. Minha proposi��o era, a priori, insustent�vel. N�o poderia haver uma civiliza��o perdida avan�ada, porque uma massa de terra grande o suficiente para sustentar tal civiliza��o era grande demais para ser perdida. Impossibilidades Geof�sicas


O problema era grave e continuou a me atanazar a mente atrav�s de todas as minhas pesquisas e viagens. E foi na verdade esse exato problema, mais do que qualquer outro, que desmoralizou a lenda da Atl�ntida, de que falou Plat�o, como tema s�rio de estudos. Ou, como disse um cr�tico da teoria do continente perdido: Nunca houve uma ponte continental atl�ntica desde o aparecimento do homem no mundo; n�o h� uma massa continental submersa no Atl�ntico; o oceano Atl�ntico deve ter existido, em sua forma atual, por pelo menos um milh�o de anos. Na verdade, � uma impossibilidade geof�sica que a Atl�ntida de Plat�o tenha existido no Atl�ntico... Esse tom inflex�vel, dogm�tico, como eu tinha aprendido muito tempo antes, era inteiramente justificado. Ocean�grafos modernos mapearam exaustivamente o leito do oceano Atl�ntico e, definitivamente, nenhum continente perdido existe nesselocal. Mas, se a prova que eu estava coletando representa, de fato, as impress�es digitais de uma civiliza��o desaparecida, um continente devia ter se perdido em algum lugar. Se assim, onde? Durante algum tempo, usei a hip�tese de trabalho �bvia de que ele poderia estar sob algum outro oceano. O Pac�fico era muito grande, mas o oceano �ndico parecia mais promissor, porque se localizava relativamente pr�ximo do Crescente F�rtil do Oriente M�dio, onde haviam emergido v�rias das civiliza��es hist�ricas conhecidas mais antigas, com uma subitaneidade extrema, por volta do ano 3000 a.C. Eu tinha planos de ir verificar a verdade de boatos sobre pir�mides antigas nas ilhas Maldivas e ao longo da costa somali da �frica Oriental, em busca de algumas pistas sobre um para�so perdido da antiguidade. Pensei que poderia mesmo incluir uma viagem �s Seychelles. O problema era, novamente, os ocean�grafos. O leito do oceano �ndico fora tamb�m mapeado e nele n�o havia sido encontrado quaisquer continentes perdidos. O mesmo se aplicava aos outros oceanos e a todos os mares. Parecia n�o haver agora lugar nenhum sob �gua, onde uma massade terra suficientemente grande para ter abrigado uma civiliza��o avan�ada pudesseter desaparecido. Ainda assim, � medida que prosseguia nas pesquisas, continuavam a aumentar as provas de que uma civiliza��o desse tipo existira no passado. Comecei a desconfiar que poderia ter sido uma civiliza��o mar�tima: uma na��o de navegantes. Em apoio a essa hip�tese, entre outras anomalias, havia os not�veis mapas antigos do mundo, os "Barcos da Pir�mide", no Egito, os vest�gios de conhecimentos astron�micos avan�ados no espantoso sistema de calend�rio dos maias e as lendas de deusesligados ao mar, como Quetzalcoatl e Viracocha.


Uma na��o de navegantes, ent�o. E de construtores, tamb�m: construtores de Tiahuanaco, construtores de Teotihuac�n, construtores de pir�mides, construtores da Esfinge, construtores que podiam, com aparente facilidade, erguer e assentar blocos de 200 toneladas de pedra calc�ria e alinhar enormes monumentos, com uma precis�o sobrenatural, com os pontos cardeais. Quem quer que fossem, esses construtores aparentemente deixaram suas impress�es digitais em todo o mundo, sob a forma de cicl�picas obras de cantaria poligonais, de plota��o de s�tios arqueol�gicos que envolviam alinhamentos astron�micos, enigmas matem�ticos e geod�sicos, e mitos sobre deuses em forma humana. Mas uma civiliza��o avan�ada o suficiente para construir estruturas desse porte - suficientemente rica, suficientemente bem organizada e madura para ter explorado e mapeado o mundo de um p�lo a outro, uma civiliza��o suficientemente inteligente para ter calculado as dimens�es da terra simplesmente n�o podia ter evolu�do em uma massa de terra insignificante. A terra natal dessa gente, como observara corretamente meu pesquisador, devia ter sido aben�oada com grandes cadeias de montanhas, imensas bacias hidrogr�ficas e um clima ameno, al�m dos muitos outros pr�-requisitos ambientais �bvios para o desenvolvimento de uma economia avan�ada e pr�spera: boas terras agr�colas, recursos minerais, florestas, etc. Se assim, onde essa massa de terra poderia ter se localizado, se n�o sob um dos oceanos do mundo? Anjos de Biblioteca Onde ela poderia ter se localizado e quando poderia ter desaparecido? E se tinha desaparecido (desde que nenhuma outra explica��o serviria), ent�o como, porque e em que circunst�ncias?

Falando s�rio, como � que podemos perder um continente? O bom senso sugeria que a resposta deveria estar em um cataclismo de algum tipo, uma calamidade planet�ria capaz de varrer quase todos os vest�gios f�sicos de uma grande civiliza��o. Mas, se assim, por que n�o havia registros desse cataclismo? Ou, quem sabe, havia? Enquanto dava prosseguimento �s pesquisas, estudei muitos dos grandes mitos de dil�vio, fogo, terremotos e eras glaciais, passados de uma gera��o a outra em todo o mundo. Vimos na Parte IV que era dif�cil resistir � conclus�o de que os mitos descreviam eventos geol�gicos e clim�ticos reais, com toda possibilidade com efeitos locais diferentes, em todos os casos,dos mesmoseventos.


Durante a curta hist�ria da presen�a da humanidade neste planeta, descobri que s� havia uma �nica cat�strofe conhecida e documentada que se encaixava: o derretimento espetacular e letal da �ltima Era Glacial, entre os anos 15000 e 8000 a.C. Al�m do mais, como acontecia de forma mais �bvia nos casos de rel�quias arquitet�nicas, como Teotihuac�n e as pir�mides do Egito, muitos dos mitos relevantes pareciam ter sido compostos para servir como ve�culos de informa��o cient�fica codificada, o que era mais uma indica��o daquilo que eu estava come�ando a considerar como "impress�esdigitais de deuses". Eu tinha me tornado especialmente sens�vel, embora n�o compreendesse devidamente as implica��es na �poca, � possibilidade de que uma forte liga��o pudesse existir entre o caos destruidor da Era Glacial e o desaparecimento de uma civiliza��o arcaica, que fora a mat�ria-prima de lendas durante mil�nios. E foi nessemomento que os anjos de biblioteca fizeram seu aparecimento... A Pe�a que Faltava no Quebra- Cabe�a O romancista Arthur Koestler, que sentia um grande interesse por sincronicidade, cunhou a express�o "anjo de biblioteca" para descrever a entidade desconhecida respons�vel por afortunadas descobertas que pesquisadores fazem, e que fazem exatamente com que a informa��o certa lhes caia nas m�os exatamente no momento certo. Exatamente no momento certo, uma dessas oportunidades afortunadas se abriu para mim. Esse momento ocorreu no ver�o de 1993. Eu me encontrava na fossa, f�sica e espiritualmente, ap�s meses de viagens dif�ceis, e a impossibilidade geof�sica de perdermos realmente uma massa de terra do tamanho de um continente estava come�ando a minar minha confian�a na solidez de minhas descobertas. Nessaocasi�o, recebi uma carta enviada de Nanaimo, na Col�mbia Brit�nica, Canad�. A carta referiase a meu livro anterior, The Sign and the Seal, no qual mencionei, de passagem, a teoria da Atl�ntida e as tradi��es de her�is civilizadores que haviam sido "salvos da �gua": 19 de julho de 1993. Prezado Sr. Hancock, Ap�s 17 anos de pesquisas sobre o destino final da Atl�ntida, minha esposa e eu conclu�mos um livro intitulado When the Sky Fell (O dia em que o c�u caiu). Nossa frustra��o � que a despeito das respostas positivas sobre o enfoque usado no livro, dos


poucos editores que o leram, a simples men��o da Atl�ntida fecha a mente das pessoas. No The Sign and the Seal, o senhor escreve sobre "uma tradi��o de sabedoria secreta, iniciada pelos sobreviventes de um dil�vio...". Nosso trabalho estuda locais onde alguns sobreviventes poderiam ter se estabelecido. Lagos de alta altitude de �gua doce constituiriam bases ideais p�s-dil�vio para os sobreviventes da Atl�ntida. O lago Titicaca e o lago Tana [na Eti�pia, que serviu de cen�rio � grande parte do The Sign and the Sea] atendem aos crit�rios clim�ticos. O ambiente est�vel desses locais proporcionou as mat�rias-primas para o rein�cio da agricultura. Tomamos a liberdade de anexar � presente um esbo�o do When the Sky Fell. Se estiver interessado, teremos prazer em lhe enviar uma c�pia dos originais. Sinceramente, Rand Flem-Ath Examinei o material anexo e nele, nos primeiros par�grafos, encontrei a pe�a que faltava do quebra-cabe�a que estivera procurando. Ela se encaixava, perfeita, nos mapas globais antigos que eu estudara - mas que descreviam acuradamente a topografia subglacial do continente da Ant�rtida (ver Parte I). A pe�a conferia sentido a todos os grandes mitos mundiais sobre cataclismo e calamidade planet�rias, com seus diferentes efeitos clim�ticos. Explicava o enigma dos n�meros imensos dos mamutes "subitamente congelados" no norte da Sib�ria e no Alasca, e as �rvores frut�feras de 27m de altura encerradas no gelo eterno, bem dentro do C�rculo �rtico, em uma latitude onde agora nada cresce. Fornecia uma solu��o para o problema da subitaneidade extrema com que se derreteu a �ltima Era Glacial no hemisf�rio Norte, ap�s o ano 15000 a.C. Solucionava tamb�m o mist�rio da excepcional atividade vulc�nica em todo o mundo que acompanhou o degelo. Dava tamb�m resposta � pergunta "Como se perde um continente?". E se baseava solidamente na teoria do "deslocamento da crosta terrestre", de Charles Hapgood - uma hip�tese geol�gica radical, que eu j� conhecia: A Ant�rtida � o nosso continente menos compreendido [escreveu Flem-Aths no resumo do livro]. A maioria de n�s sup�e que essa imensa ilha foi coberta pelo gelo durante milh�es de anos. Novas descobertas, por�m, provam que partes da Ant�rtida estiveram livres de gelo h� milhares de anos, o que � hist�ria recente pelo rel�gio geol�gico. A teoria do "deslocamento da crosta terrestre" explica o misterioso aumento e redu��o do imenso len�ol de gelo da Ant�rtida.


O que os pesquisadores canadenses estavam mencionando era a sugest�o de Hapgood de que, at� o fim da �ltima Era Glacial - digamos, no und�cimo mil�nio a.C. -, a massa terrestre da Ant�rtida estivera posicionada a cerca de 3.200km mais ao norte (em uma latitude amena e temperada) e que se deslocara para sua atual posi��o, dentro do C�rculo Ant�rtico, como resultado de um deslocamento maci�o da crosta da terra. Esse deslocamento, continuavam os FIem-Aths, havia deixado tamb�m outras provas de sua visita letal em um anel de morte em volta do globo. Todos os continentes em que ocorreu extin��o r�pida e maci�a de esp�cies animais (notadamente nas Am�ricas e na Sib�ria) sofreram mudan�asenormes em suaslatitudes... As conseq��ncias de um deslocamento s�o monumentais. A crosta terrestre ondula por cima da parte interna e o mundo � abalado por incr�veis terremotos e inunda��es. O c�u parece cair, enquanto continentes gemem e mudam de posi��o. Nas profundezas do oceano, os terremotos geram enormes maremotos, que se chocam contra as costas, inundando-as. Algumas terras mudam de posi��o para climas mais quentes, enquanto outras, empurradas para as zonas polares, sofrem os piores invernos. O derretimento das calotas de gelo eleva cada vez mais o n�vel dos oceanos. Todas as coisasvivas t�m que se adaptar, migrar ou morrer... Se o horror do deslocamento da crosta terrestre acontecesse no mundo interdependente de hoje, o progresso de milhares de anos seria arrancado de nosso planeta como se fosse uma fina teia de aranha. Os que vivem pr�ximos de altas montanhas poderiam, talvez, escapar dos maremotos globais, mas eles seriam obrigados a deixar, nas terras baixas, os frutos lentamente acumulados da civiliza��o. S� nas marinhas mercante e de guerra do mundo poderia restar alguma evid�ncia de civiliza��o. Os cascos que se enferrujavam de navios e submarinos acabariam finalmente, mas os mapas valiosos que eles conduziam seriam salvos e conservados pelos sobreviventes, talvez por centenas ou mesmo milhares de anos, at� que a humanidade, mais uma vez, pudessenavegar pelo oceano mundial em busca de terras perdidas... Enquanto lia essas palavras, lembrei-me da descri��o de Charles Hapgood, de como a camada de terra que os ge�logos chamam de litosfera - a crosta externa delgada mas r�gida de nosso planeta - poderia ser �s vezes deslocada, movendo-se como uma pe�a s� "sobre o corpo interior mole, de forma muito parecida como a casa de uma laranja, se ela se soltasse,poderia deslizar, como uma pe�a s�, sobre a parte interna da frutas". At� esse momento, eu me sentia em terreno conhecido, Mas, em seguida, os pesquisadores canadensesfizeram duas conex�esvitais, que eu n�o havia percebido.


Influ�ncias Gravitacionais A primeira delas era a possibilidade de que influ�ncias gravitacionais (bem como varia��es na geometria orbital da terra, discutidas na Parte V) pudessem, atrav�s do mecanismo de deslocamento da crosta, desempenhar um papel no desencadeamento e decl�nio das Eras Glaciais: Quando, em 1837, o naturalista e ge�logo Louis Agassiz apresentou a id�ia de Era Glaciais � comunidade cient�fica, ela foi recebida com grande ceticismo. N�o obstante, � medida que provas se acumulavam em seu apoio, os c�ticos foram obrigados a aceitar que a terra havia, na verdade, ca�do nas garras de invernos letais. O gatilho dessas Eras Glaciais paralisantes, por�m, permaneceu um enigma. S� em 1976 � que surgiu prova s�lida sobre os per�odos em que ocorreram esses fen�menos. A explica��o foi encontrada em v�rias caracter�sticas astron�micas da �rbita terrestre e na inclina��o de seu eixo. Fatores astron�micos desempenharam claramente um papel importante no tocante � ocasi�o em que ocorreram as Eras Glaciais. Mas esse� apenas parte do problema. De igual import�ncia foi a geografia da glacia��o. E � aqui que a teoria de deslocamento da crosta terrestre desempenha papel importante na solu��o do mist�rio.


Albert Einstein investigou a possibilidade de que o peso dos len��is de gelo, que n�o s�o simetricamente distribu�dos em torno dos p�los, possa causar tal deslocamento. Escreveu ele: ''A rota��o da terra atua sobre essas massas assimetricamente depositadas e produz impulso centr�fugo, que � transmitido � crosta r�gida do planeta. O aumento constante do impulso centr�fugo produzido dessa maneira dar� origem,


quando atingir certo ponto, a um movimento da crosta sobre o corpo interno, que deslocar� as regi�espolares para a regi�o do equador."

Quando Einstein escreveu essas palavras [1953], as causas astron�micas das Eras Glaciais n�o eram bem compreendidas. Quando a forma da �rbita da terra se desvia de um c�rculo perfeito em mais de 1%, a influ�ncia gravitacional do sol aumenta, exercendo mais atra��o sobre o planeta e suas maci�as calotas de gelo. Esse peso enorme pressiona a crosta, e essa press�o imensa, combinada com a maior inclina��o do eixo da terra [outro fator mut�vel da geometria orbital], for�a crosta a deslocarse... Estaria a� a liga��o entre o in�cio e o fim das Eras Glaciais? Muito claro. Em um deslocamento, as partes da crosta situadas nos p�los Norte e Sul (e que est�o, por conseguinte, t�o cobertas de gelo como acontece hoje na Ant�rtida) mudam de repente para latitudes mais quentes e come�am a derreter com extraordin�ria rapidez. Reciprocamente, terra que estivera at� ent�o localizada em latitudes mais quentes � deslocada com igual rapidez para as zonas polares, sofrendo uma devastadora mudan�a de clima, e come�a a desaparecer sob uma calota de gelo que avan�a rapidamente. Em outras palavras, quando partes imensas do norte da Europa e da Am�rica do Norte estavam na maior parte cobertas de gelo, no que consideramos como a �ltima Era Glacial, isso n�o acontecia por causa de algum fator clim�tico de a��o lenta, mas sim porque essas �reas de terra estavam na ocasi�o situadas muito mais perto do p�lo Norte do que hoje. Analogamente, quando as glacia��es Wisconsin e Wurm, descritas na Parte IV, iniciaram o derretimento por volta do ano 15000 a.C., o fato desencadeante n�o foi uma mudan�a global do clima, mas um deslocamento das calotas de gelo para latitudes mais quentes... Em outras palavras: uma Era Glacial est� acontecendo neste exato instante - dentro do C�rculo �rtico e na Ant�rtida. O Continente Perdido A segunda liga��o estabelecida pelos Flem-Aths era uma conseq��ncia l�gica da primeira: se havia um fen�meno geol�gico recorrente, c�clico, como o deslocamento da crosta terrestre, e se o �ltimo empurrara a enorme massa de terra que chamamos de Ant�rtida para fora de latitudes temperadas e para dentro do C�rculo Ant�rtico, �


poss�vel que restos substanciais de uma civiliza��o perdida da antiguidade remota possam estar hoje sob 3,2km de gelo no p�lo Sul. Tornou-se subitamente claro para mim como uma massa de terra de dimens�es continentais, que fora o lar de uma grande e pr�spera sociedade durante milhares de anos, podia perder-se quase sem deixar vest�gios. "� para a gelada Ant�rtida que temos de olhar para encontrar respostas sobre as pr�prias ra�zes da civiliza��o respostas que talvez ainda estejam preservadas nas profundezas congeladas da esquecida ilha-continente." Puxei dos arquivos o pedido de demiss�o de meu pesquisador e comecei a verificar suas precondi��es para o aparecimento de uma civiliza��o adiantada. Ele queria "grandes cadeias de montanhas". Queria "imensas bacias hidrogr�ficas". Queria uma regi�o vasta que ocupasse uma regi�o de pelo menos uns 3.200km de largura. E tamb�m um clima est�vel, ameno, durante milhares de anos, a fim de dar tempo a uma cultura desenvolvida para evoluir. A Ant�rtida n�o �, de maneira nenhuma, uma agulha num palheiro. � uma gigantesca massa de terra, muito, mas muito maior do que o golfo do M�xico, cerca de sete vezes maior do que Madag�scar - na verdade, aproximadamente do tamanho dos Estados Unidos continentais. Al�m disso, como levantamentos s�smicos demonstraram, h� grandes cadeias de montanhas na Ant�rtida. E como v�rios mapas antigos parecem provar, cart�grafos pr�-hist�ricos desconhecidos, que possu�am compreens�o cient�fica de latitude e longitude, desenharam essas cordilheiras antes que desaparecessem sob a calota de gelo que as cobre hoje. Esses mesmos antigos mapas mostram tamb�m "imensas bacias hidrogr�ficas" descendo das montanhas, irrigando extensos vales e plan�cies e desembocando no oceano vizinho. E essesrios, como eu j� sabia pelos n�cleos-testemunhos extra�dos do leito do mar de Ross, haviam deixado prova f�sica de sua presen�a na composi��o dos sedimentos do fundo do oceano. Por �ltimo, mas n�o de menor import�ncia, notei que a teoria de deslocamento da crosta terrestre n�o colidia com os requisitos de 10.000anos de clima est�vel. Antes do suposto deslocamento s�bito da crosta, por volta de fins da �ltima Era Glacial no hemisf�rio Norte, o clima da Ant�rtida teria sido est�vel, talvez por um per�odo muito mais longo do que 10.000 anos. E se a teoria estava certa, ao sugerir que a latitude da Ant�rtida naquela �poca era de cerca de 3.200km (30 graus do arco) mais ao norte do que hoje, suas regi�es setentrionais deveriam ter-se situado nas vizinhan�as da latitude de 30� sul, e, por conseguinte, teria desfrutado um clima de mediterr�neo a subtropical. Teria a crosta terrestre realmente se deslocado? E poderiam as ru�nas de uma civiliza��o perdida estar realmente sob o gelo do continente sul?


Conforme veremos nos cap�tulos seguintes, poderiam ter estado... e ainda estar l�. CAP�TULO 51 O Martelo e o P�ndulo Embora esteja al�m da inten��o deste livro, uma exposi��o detalhada da teoria do deslocamento da crosta terrestre pode ser encontrada no When the Sky Fell, de Rand e RoseFlem-Ath (publicado pela Stoddart, Canad�, 1995). Conforme notado antes, essa teoria geol�gica foi formulada pelo professor Charles Hapgood e validada por Albert Einstein. Em resumo, o que ela sugere � um deslizamento completo da litosfera, de cerca de 50km de espessura de nosso planeta, sobre os quase 10.800km do n�cleo central, empurrando grandes regi�es do hemisf�rio ocidental para o equador e da� para o C�rculo �rtico. Essemovimento n�o � considerado como tendo acontecido ao longo do meridiano verdadeiro norte-sul, mas num curso rotativo - girando, por assim dizer, em torno das plan�cies centrais do que s�o hoje os Estados Unidos. O resultado foi que o seguimento nordeste da Am�rica do Norte (no qual se localizou antes o p�lo Norte, precisamente na ba�a de Hudson) foi puxado do C�rculo �rtico para o sul e para regi�es mais temperadas, ao mesmo tempo que o segmento noroeste (Alasca e Yukon) girava para o norte e penetrava no C�rculo �rtico, juntamente com grandes regi�es do norte da Sib�ria. No hemisf�rio Sul, o modelo de Hapgood mostra a massa de terra que hoje denominamos de Ant�rtida - grande parte dela se situara antes em latitudes temperadas ou mesmo quentes - sendo empurrada inteiramente para o C�rculo Ant�rtico. O movimento geral � considerado como tendo ocorrido na regi�o de 30 graus (aproximadamente 3.200km) e se concentrado, quase todo, entre os anos 14500 a.C. e 12500 a.C. - embora com maci�os choques secund�rios em escala planet�ria, que continuaram a intervalos muito separados at� cerca de 9500 anos a.C. Suponhamos que, antes do deslocam