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Kara Crawford é uma advogada que sabe como guardar um segredo, ainda mais depois de ter sido desprezada por um ex-namorado ao lhe ter revelado suas fantasias sexuais. Ela não esperava encontrar alguém que pudesse realizar seus desejos mais íntimos e extremos, até vivenciar uma das noites mais incríveis de sua vida ao lado de um homem que há muito admirava. O sexualmente dominante Dante de Matteo conhecia Kara dos tempos do colégio e jamais havia imaginado que as fantasias mais sombrias de uma mulher pudessem ser tão compatíveis com as suas. Mas nenhum dos dois acreditava que aquela paixão pudesse passar de uma noite. Quando Dante é contratado pelo escritório onde Kara trabalha, os dois são confrontados diariamente com as faíscas daquela química explosiva e não sabem como lidar com isso. À medida que o desejo intenso os aproxima, temores bem profundos ameaçam separá-los e eles precisam aprender a abraçar da mesma maneira o medo e o prazer do amor. Vão conseguir? No limiar do desejo é o segundo livro da trilogia de romance erótico, de Eve Berlin, iniciada com o sucesso Luxúria. Conheça a história de como Kara Crawford satisfaz todas as suas fantasias sexuais com o antigo colega de escola Dante de Matteo, com quem passa a trabalhar. Uma história cheia de erotismo, tensão e intensidade.


Eu sabia que queria levar uns tapas desde que me deparei com a ideia ao ler um romance vitoriano da minha avó. Todas aquelas anáguas de seda franzidas ao redor da cintura da heroína, enquanto o herói a segurava com irmeza sobre seus joelhos, a mão dele caindo com força sobre a bunda rosada, a reclamação da moça soando falsa até os meus ouvidos juvenis e, mesmo assim, de alguma forma tornando tudo ainda mais delicioso. A descrição me deixava molhada. Ainda me deixa. Entretanto, não passa de uma fantasia não realizada que mantenho em segredo. Se já não suspeitasse disso, as palavras cruéis ditas por Jake quando inalmente admiti meus desejos foram uma comprovação. É melhor deixar algumas coisas ocultas. Mesmo quando fazem parte do lado mais verdadeiro de uma pessoa. DO DIÁRIO DE KARA CRAWFORD


UM

Não havia motivos para Kara estar pensando em levar umas palmadas na festa de inauguração da nova casa de Lucie, sua melhor amiga, muito menos no que escrevera no diário na noite anterior. A não ser, talvez, porque ela tinha tomado vinho demais por ainda sentir pena de si mesma, quase seis meses depois de se separar de Jake. Ela voltou a encher a taça mesmo assim e estava dando um gole quando o avistou do outro lado da sala lotada. Dante De Matteo. Ela não o via desde a última semana do penúltimo ano do colegial. Pouco depois de ele meter a porrada no cretino do seu então namorado. Brady fez por merecer. Ela o lagrou traindo-lhe e, quando foi tirar satisfação, ele reagiu agarrando seu braço, machucando-a e gritando na cara dela. E se já não tivesse uma paixão maluca pelo Dante antes desse incidente, com certeza o fato de ele vir salvá-la como se fosse seu próprio cavaleiro de armadura branca teria contribuído para isso. Ela se lembrava do rosto do Dante enquanto Brady gemia no chão e dois professores corriam para segurá-lo, provavelmente para impedi-lo de bater novamente no outro. Lembrava-se de seus olhos escuros, de como eram tristes. Ferozes. Vulneráveis, quando ele olhou para ela, coisa que a surpreendeu. Ela desejava falar alguma coisa. Agradecê-lo. Perguntar por que a tinha defendido. Mas ela era jovem demais para saber como lidar com aquilo. Depois Dante levou uma suspensão. E logo a seguir foi embora fazer faculdade, e ela nunca mais o viu. Já haviam se passado mais de doze anos, mas ainda o reconheceria em qualquer lugar. Ele ainda tinha aquele rosto bonito, como que esculpido à mão, ombros largos, músculos grandes e delgados, mas tudo icara muito mais re inado, elegante. O cabelo castanho-escuro que costumava cair sobre o rosto agora estava curto. E aqueles olhos... Para ela, a maioria das


pessoas diria que eram castanhos, mas ela se lembrava de como brilhavam dourados ao sol. Logo começou a sentir a pele esquentar, como se fosse engolida por chamas. Sensações a mil. Precisava olhar para o outro lado. E ir embora dali. Eu desisti dos homens. Desisti! Ela abaixou a cabeça e foi em direção à porta dos fundos, com a taça de vinho irme na mão. Ela não iria pensar no quanto desejara Dante tantos anos atrás, à época do colegial. E, pela forma como o coração estava disparado, aparentemente ainda o desejava. Do lado de fora, a noite de começo de janeiro era fria e úmida, mas ela estava acostumada, pois crescera em Mercer Island, do outro lado da ponte de Seattle, onde Lucie e a colega de quarto, Tyler, agora moravam. E Kara precisava do frio para sossegar o corpo, a cabeça. Nada de homens agora. A vida estava muito mais calma desde o im do último relacionamento. Nada de drama. Nada de expectativas. Tudo legal e tranquilo, e ela gostava desse jeito. Ou, ao menos, era o que vivia se repetindo. Era a forma de explicar para si mesma por que praticamente não saíra desde o rompimento, algo que não era típico dela. Kara teve muitos homens antes de Jake. Ela não queria pensar em como aquela relação a tinha afetado, abalando sua confiança. Então, o vibrador era seu melhor namorado. E daí? Ela podia voltar para casa, pegar o amigo plástico cor-de-rosa e imaginar que Dante De Matteo estava no meio das suas coxas... Ela estremeceu, apertou as pernas e suspirou. Sentou-se no balanço da varanda, as ripas de madeira mordiam as coxas pelo vestido de tricô. Acomodada sobre uma pequena pilha de almofadas, respirando o ar revigorante da noite, ela tomou um grande gole de vinho tinto e cruzou as pernas. Estava bêbada o su iciente para logo voltar a se ressentir por estar sozinha. Todas as amigas de Lucie e Tyler estavam felizes com seus pares, ao menos aparentemente, a casa cheia de casais abraçados. Até o Dante chegar. Ela percebeu que ele parecia estar sozinho. Feito ela. Não que não estivesse melhor sozinha agora. Talvez para sempre. Ainda tinha se passado muito pouco tempo após o desastre com Jake para ela estar de outra forma, para desejar viver um relacionamento de novo. Ainda não tinha se livrado por completo da amargura. Ela icou se ressentindo por mais um tempo, ignorando o quanto estava


abalada por rever o Dante. Ou assim ingia. Então ouviu passos nas tábuas rangentes da varanda. Ela olhou para cima e viu uma silhueta alta, um contorno escuro contra a luz saindo pelo vão da porta. Alto, cheio de músculos e gostoso pra caramba. Dante. O corpo inteiro estremeceu. – Kara? É você mesma? – Dante. Oi. O que está fazendo aqui? Ele chegou mais perto, sob a luz da varanda. Estava bem-vestido, com calças escuras e um suéter que parecia ter sido feito sob medida para seu corpo. Talvez fosse mesmo. Ele parecia bem demais. – Topei com a Lucie um dia desses e ela me convidou pra festa. Eu não te vejo desde o fim do colegial. Você fez o curso de artes que tanto queria? Ela deu de ombros, tentando parecer calma, tentando manter a calma. No entanto, lagrar aqueles mesmos olhos a encará-la com uma admiração descarada, como ela fantasiava desde os catorze anos, aquilo tudo era demais. Respirou fundo, tentando se acalmar novamente. – Fiz várias aulas de artes na faculdade, mas meus pais não queriam muito que eu seguisse essa carreira. Depois de um tempo, eu abandonei. – Se bem me lembro, você era uma boa pintora. Você não expôs num concurso estadual durante aquela época? – Não acredito que se lembre disso. – Ela sentiu as bochechas esquentarem. Ele se inclinou contra a esquadria da porta, numa pose que somente os homens mais con iantes poderiam manter e ainda transparecer a mais completa naturalidade e relaxamento. – Eu me lembro de muita coisa sobre você, Kara. – Lembra? Ele sorriu, mostrando as covinhas. Como é que um homem podia parecer tão sossegado e, ao mesmo tempo, exibir toda uma meninice? Ela conseguia ver o adolescente que ele fora sob os traços mais masculinos do rosto. Embaixo do visual mais so isticado, as roupas imaculadas, ele continuava sendo o velho Dante, disso ela estava certa. Ele sempre foi gentil. Até mesmo durante o colegial, quando a maioria dos garotos é idiota. Dante era o tipo de cara que falava com todos na escola, não apenas com os atletas ou os caras maneiros. Que defendia os menores atormentados por valentões. Ele tinha defendido ela. E ela estava enfeitiçada por ele como sempre.


– Eu me lembro de você dirigindo um fusca velho –, ele falou, se aproximando. – Era azul bebê. Você ainda tem? – Quê? Não, é claro que não – ela riu. Meu Deus, ele era lindo. Maravilhoso. O suéter combinava perfeitamente com os ombros largos, delineando toda sua extensão. Sem dúvida, havia muito músculo ali embaixo. – Hoje em dia valeria muito – ele continuou. – Eu vendi depois do colegial e comprei algo mais maduro – ela respondeu, sorrindo. – Eu iz a mesma coisa. Vendi meu Camaro antigo e comprei um sedan compacto logo depois da faculdade. É engraçado como a gente tinha um monte de ideias sobre o que signi icava ser adulto. Eu gostaria de ainda ter aquele carro. – O que você fez depois da faculdade, além de vender seu possante? Você ia estudar direito, né? Sua família inteira se mudou, não é mesmo? – Eu estudei em Yale, iz direito lá. Morei uns tempos em Nova York, onde trabalhei numa empresa. Meus pais se aposentaram e mudaram para o Colorado bem na época em que terminei a faculdade. Mas o Lorenzo, meu irmão, ainda mora aqui em Seattle. Lembra dele? – Ele é um pouco mais velho do que você, né? Acho que ele se formou quando eu estava no primeiro ano do colegial. Ele se parecia bastante com você. Dante concordou com a cabeça. – Ele é engenheiro civil, se casou no ano passado. Somos muito unidos. Voltei para Seattle já faz uns anos. Pensei que seria legal icar perto da família. A sua família ainda mora aqui? – Meus pais nunca saíram da ilha, embora os dois ainda trabalhem na cidade. – Você não tinha irmãos, né? – Não. Era somente eu. A mãe dela, dona de um dos maiores escritórios de arquitetura de Seattle, nunca teve tempo para mais de um ilho. Ela nunca teve tempo mesmo para Kara. Já o pai, homem severo e desaprovador, era dono de uma empresa de advocacia, coisa que significava longos expedientes. Ainda que a personalidade deles tivesse a ver com ter ilhos, isso não acontecia com os empregos. Ela tinha escolhido um homem igualzinho ao pai quando icou com Jake. Ríspido. Crítico. Idêntico ao Brady no colegial, pensando bem. Aparentemente, o pai arruinou sua capacidade de escolher um homem.


Outro bom motivo para querer distância deles. E ela manteria aquela inclinação. Até mesmo com Dante De Matteo, sua paixonite desde a adolescência, parado do ladinho dela. Falando com ela. Observando-a com um olhar de aprovação e sorrindo, fazendo-a latejar inteirinha. – Então, nada de diploma de arte, Kara? O que você faz da vida? – Também terminei cursando direito. Estou é surpresa de nunca termos nos esbarrado. – Eu também. E levou um tempão até eu encontrar a Lucie, mas ainda bem que a encontrei – as covinhas voltavam a faiscar para Kara –, e ela me convidou para vir aqui, para, inalmente, topar com você. – Gesticulando com o queixo, ele perguntou: – Posso me sentar com você? O corpo dela sentiu outra onda de calor. – Sim. Pode se sentar. Ele caminhou pela varanda e icou diante dela após dar passos largos, recostando o corpo alto e delgado ao seu lado no balanço da varanda. Ela sentiu seu aroma, algo sombrio e masculino, com um toque de almíscar que a fez tremer por dentro. E ela percebia o calor emanando dele. Ou, quem sabe, o calor fosse o dela, crescendo, espiralando, com ele ao seu lado. – Você exerce a pro issão? – ele questionou e, a seguir, fez que não com a cabeça. – Sempre a vi como uma artista. – Eu também, durante um bom tempo... Para Kara, era tão estranho ouvi-lo falar essas coisas. Uma artista... Era o que ela sempre quis ser. Como ele podia se lembrar do quanto a arte era importante para ela? A ideia fez o coração se acelerar um pouco mais. Ele a observava, com um olhar sombrio, intenso. – Você devia correr atrás do que deseja, Kara. Ela cruzou as pernas, colocou a mão sobre o joelho, onde o vestido justo mostrava um pouco da coxa nua entre a bainha e a parte de cima da bota de camurça marrom de cano alto. – Acha mesmo? Nem sempre é tão simples quanto parece. Teve a nítida impressão de que ele a estava paquerando. E, claramente, ela correspondia. Ele concordou com a cabeça. – Uma oportunidade perdida só causa remorso. – Concordo. – Sempre gostei de você no colegial – ele disse de repente, num tom de voz mais baixo. – Gostou? – Sim. Sempre. Eu me lembro de você com catorze, quinze anos. Que


pernões... Ele mexeu o joelho, encostando contra o dela. Ela se esquentou toda, sentindo uma onda agradável de calor. – Ei, vocês dois aí! Querem mais bebida? – Lucie trazia uma garrafa de vinho na mão. O cabelo louro estava arrumado sobre a cabeça, as bochechas, rosadas, brilhando graças ao frio ar noturno e, provavelmente, a algumas taças de vinho. – Quase me esqueci que vocês se conhecem da escola. – Era disso mesmo que estávamos falando. Não vou beber hoje. Quer mais vinho, Kara? Dante se ofereceu, pegou o copo, seus dedos tocaram os dela. Ele pegou a garrafa de Lucie, encheu o copo de Kara e a devolveu. Desta vez ele se demorou, seus dedos se encostaram por um longo momento. Ele sorriu para ela. Ela se esquentou toda, uma fornalha fumegando de puro desejo. – Está bem, então... Eu vou... entrar. – Lucie falou, desaparecendo dentro da casa. Mas Kara mal a ouviu. Ela inspirou profundamente e tomou outro gole de vinho. Preciso me acalmar. O sorriso dele era deslumbrante. Não havia outra palavra para descrevê-lo. O rosto era cheio de ângulos e planos masculinos: um queixo belamente esculpido, bochechas altas, quase agudas. A boca era toda suculenta. Generosa. E as covinhas... Quando ele sorria, o corpo inteiro de Kara derretia. Ela se sentia novamente uma adolescente, pasmada com aquele sorriso. Levantou a taça e bebeu, percebendo somente após haver engolido todo o vinho que não estava tão bêbada quanto pensava. Quem sabe o choque de ver Dante, seu comportamento em reação a ela, a tivessem deixado sóbria. – Você continua linda como sempre, Kara – Dante falou do nada, com aquele olhar dourado sobre ela. – Tomara que não se importe com minhas palavras. Ela fez que não. Fale, Kara. – Obrigada. – Linda mesmo – ele murmurou. Ele a encarava. O rosto dela esquentou ainda mais, aquele ponto caloroso e carente entre as coxas. – Você vai corar ainda mais se eu perguntar se é solteira?


– Sim – suspirou. – Ah, desculpe. Não é da minha conta. Perdão. Seus modos eram à moda antiga. Sempre foi assim: um cavalheiro, até mesmo no colegial. Ela adorava, e continuou adorando. – Não, digo, sim, sou solteira. Terminei com uma pessoa faz uns seis meses. Bem, ele terminou comigo. – Ele foi um tolo. Ela deu de ombros. – Talvez. E você? É casado? – Não, nunca me casei. E estou... na minha. – Ah. – De repente, ela se sentiu embaraçada. Geralmente, Kara não tinha problemas para conversar com as pessoas. Ela se considerava extrovertida. Era advogada de tribunal, pelo amor de Deus! Por que não conseguia falar duas frases inteligentes em sequência? – Kara, estou te deixando incomodada? Não queria fazer essas perguntas pessoais. É que faz tanto que não nos vemos. Quero icar a par de tudo. – Não, tudo bem. Sem problemas. – Ela deu uma risadinha. – Não sei o que deu em mim. Acho que bebi vinho demais. – Era mentira. Kara sentia apenas os primeiros prenúncios de uma bebedeira, mas uma desculpa conveniente. – Eu também quero botar as fofocas em dia. Ele sorriu para ela, as covinhas formavam pregas nas bochechas e aceleravam ainda mais o coração. Depois, ele esticou a mão e esfregou as costas dos dedos sobre seu pulso, quase de forma distraída. Só que, quando olhava para ele, Dante a observava, com aquele brilho dourado voltado para ela. O rosto dele possuía uma expressão curiosa e demorou um tempo até Kara reconhecer se tratar de puro desejo. Mesmo com as roupas que vestia, ela sentia o calor proveniente dele, propagando-se feito um pequeno choque por causa de sua mão no braço dela. Ela inspirou fundo, tonta com aquela sensação. Isso não pode estar acontecendo. Só que estava. Era apenas química. Ela tinha uma queda pelo Dante há anos, e aqui estava ele, como num passe de mágica. Mais bonito do que nunca. E ele era legal. Inteligente. Fácil de falar. Era uma reação perfeitamente normal. Uma mulher teria de ser cega e completamente frígida para não reagir a Dante De Matteo. Kara tinha a certeza de nunca ter sido tocada por ele antes. Ela queria que ele repetisse a dose. Ela se concentrou em sua boca um instante, depois levantou o olhar até


o dele. Ah, sim, dava para ver a fome. E algo mais... Como uma pergunta não verbalizada. Engoliu em seco, lançou o olhar para a escuridão do quintal e, além dele, na rua, o brilho âmbar dos postes iluminando a cerração. – Kara? Eu disse algo errado? Ela se voltou para ele. – Quê? Não, é claro que não. É que... É meio estranho ver você de novo. – Sim. Estranho, mas bom. Ele sorriu, um sorriso de mil watts. Havia um convite nele. Ela começava a se esquecer exatamente por que não queria mais saber dos homens. Não era como se ela fosse se envolver com o Dante. Sem dúvida alguma, ela não estava aberta a um relacionamento. E nem era inibida. Talvez estivesse na hora da seca imposta por ela chegar ao im. Se ele estava interessado e ela também, então não via nada errado em deixar rolar um pequeno flerte. Quem sabe levando a algo mais... Ela acompanhava enquanto ele a observava. E estava contente por sempre vestir uma lingerie bacana. Kara decidiu que se a noite terminasse com ela levando Dante para casa, quem sabe aquilo fosse melhor do que icar sentada sentindo pena de si mesma. E com Dante por perto, não haveria nada a lamentar. Kara retribuiu o sorriso, exibindo olhos convidativos. Olhos como aqueles eram metálicos, feitos de prata, ouro, guarnecidos de verde... Dante se sentia atordoado por ela. Ele não a via há 12 anos, mas o corpo reagia igualzinho a quando era adolescente. O pulso estava quente, acelerado. Ele precisava controlar o desejo dentro de si, tentar não icar excitado. Mas a garota com quem sonhara durante os dois últimos anos do colegial estava sentada ao seu lado. De repente, Dante se lembrou do choque no rosto dela quando ele socou o safado do Brady Metcalf. E do jeito como aquele choque se transformou num sorriso brilhante, somente para ele. Por causa daquele sorriso, tinha valido a pena ser suspenso na última semana de aula do colegial. Ele teria agido assim de qualquer forma. Brady estava sendo bruto com ela, e, sem sombra de dúvida, ele não deixaria acontecer alguma coisa com a Kara. Mas nunca se esqueceu daquele sorriso... Naquela época, ela era jovem demais, e ele nunca se atreveu a ter nada com Kara. Ela ainda estava no colegial enquanto ele se preparava para ir


embora e cursar a faculdade. Contudo, agora ela estava crescida. Calorosa e feminina, com a pele clara iluminada pela luz âmbar da varanda. Enquanto conversavam, ela foi se inclinando em sua direção, dando um sinal sutil. E agora seu sorriso – doce e sensual, re letindo o mesmo desejo que ele sentia como uma corrente viva luindo pelo organismo – praticamente o nocauteou. O cabelo castanho-claro dela era comprido, como nos tempos do colegial, formando madeixas encorpadas e suaves de ios brilhantes. Ele desejava tocá-los. Ele desejava tocá-la. Ele a desejava. Pega leve, parceiro. Seu corpo não queria esperar, mas ela era alguém que ele conhecia havia anos, não uma garota qualquer para catar num bar ou no Pleasure Dome, o clube de escravidão sexual e sadomasoquismo que frequentava há vários anos. Não era uma mulher para ter um lance rápido e jamais voltar a ver. Kara era praticamente uma vizinha. E ele sempre tomava muito cuidado com garotas “normais”. Não que não curtisse transar com uma mulher desinteressada nos seus joguinhos brutos. Ele curtia. E muitas vezes transava com elas. Porém, esse tabu deixava tudo mais excitante. Contar aquilo para uma pessoa nova sempre era uma situação delicada. Abrir o jogo para alguém que conheceu na adolescência, então... Mas eles não eram mais garotos. Nossa, ele estava pensando como se ela já se tivesse se oferecido para passar a noite com ele, se entregado a ele numa bandeja de prata. Não que se importasse se ela agisse assim. Sentiu tesão ao pensar naquilo. E não conseguia evitar. Relaxa. Ele inspirou profundamente o frio ar noturno e exalou. – Quer que eu vá buscar mais vinho pra você? –Dante indagou, pensando que alguma distração poderia ser uma boa ideia, um momento dentro da casa no qual pudesse se acalmar. – Não, eu não quero mais. Obrigada. Ela colocou a taça no chão da varanda. Sorriu novamente para ele. Aquela boca doce. Os lábios deveriam ser tão macios… E, de repente, ele não conseguia pensar em nenhum motivo para não se inclinar e beijá-la. Foi o que Dante fez, com uma das mãos tocando o rosto dela, ele foi chegando cada vez mais perto, dando-lhe a chance de escapar. Porém, tudo que Kara fez foi abrir os lábios, com os grandes olhos castanho-claros a encará-lo, fechando-os quando ele se aproximou.


Os lábios dela eram macios, mais até do que imaginara. E ela foi se entregando por inteira, com o corpo relaxado inclinando-se sobre ele. Submissão era algo que Dante reconhecia facilmente. E essa mulher tinha isso, essa capacidade de se entregar, sabendo disso ou não. Kara abriu os lábios e ele fez a língua escorregar para dentro. Ela tinha gosto de vinho, líquido e doce. E ela retribuía o beijo, recebendo-o com a boca. Atraindo-o para dentro. Ela gemeu baixinho, e ele reagiu como se levasse um choque. Dante continuou a beijá-la, somente a beijá-la, e estava duro como se ela o segurasse com as mãos, ou o envolvesse com a maravilhosa boca. Nossa. Ele recuou, e ela se manteve completamente parada, de olhos fechados, a boca ainda levemente aberta. Os lábios dela eram aveludados, meio inchados por conta do beijo. Ele desejava beijá-la outra vez, mas temia que, se o izesse, poderia pressioná-la demais, e rápido demais. Porque, na verdade, ele queria tirar a roupa dela, deitá-la de costas sobre o estreito balanço da varanda e mergulhar nela. Fazendo tudo com que sempre sonhara no colegial. E outras coisinhas aprendidas desde então. Ele suspirou. Os cílios dela se estremeceram; seus olhos se abriram. – Dante? – Sim. Preciso me desculpar? – Não. A culpa foi tão minha quanto sua. – Alguém aqui precisa levar a culpa? – ele perguntou, precisando saber, para ter certeza de não haver imaginado que Kara o desejava. – Acho que não. Aquele sorriso doce reapareceu. Meu Deus, ela era fabulosa. Dante percebeu ainda estar com a mão no rosto de Kara. A bochecha era suave ao toque da palma, a pele sedosa e fria no gelado ar noturno. – Está com frio? – ele quis saber. – Não estou, não. Tudo bem. Ela parecia meio entorpecida. Parecia estar exatamente do jeito que ele se sentia. Tomado pela luxúria. Nunca uma mulher tinha causado esse efeito nele, não que pudesse recordar. Seria por causa do despertar daquelas fantasias adolescentes presas há tanto tempo? Ou era simplesmente por causa dela? Ele icou meio incomodado, mas não o bastante para dar meia-volta e ir embora. Dante somente conseguia pensar no corpo dela nu deitado sob o dele. Melhor ainda se ela o deixasse fazer as coisas que mais adorava.


Bater nela. Levá-la ao orgasmo com aquela excruciante mistura de prazer e dor. No entanto, como tocar no assunto com ela? Era muito mais fácil com as mulheres que conhecia no Pleasure Dome. Lá, todo mundo sabia o que esperar. Ninguém frequentava o maior e mais re inado clube de BDSM da cidade sem nem ao menos ter uma ideia do que rolava lá dentro. Sem ter os mesmos tipos de desejo. Mas no im das contas, ele estava tão atraído por ela que a queria independentemente do sexo radical. Agora, isso não era tão importante quanto costumava ser. Tanto quanto deveria. O que aquilo significava? Ele não queria questionamentos em excesso. Simplesmente queria ela. Descontrolado, feito um adolescente tomado pelos hormônios. Dante a desejava como nunca quis outra mulher antes. Depois de quinze minutos de conversa com ela. Depois de todos esses anos. Eu preciso possuí-la. Depois, pensaria no que estava acontecendo com ele. – Kara. Vou fazer uma pergunta e não quero que se ofenda, mas eu serei curto e grosso. – Tudo bem... Ele se inclinou, mantendo a voz baixa. – Não acredito que topei com você hoje, depois de todo esse tempo. Preciso dizer uma coisa, se estivéssemos no colegial, teria sido a realização de um sonho. O simples fato de beijá-la. Mas sou adulto agora. Você também. E eu quero mais. Os olhos dela se arregalaram, o hálito saía numa pequena lufada de ar quente. Depois, ela sorriu novamente e ele percebeu que estava tudo bem. Kara se voltou para ele, olhou para Dante através das longas pestanas escuras. Era o olhar de uma sedutora, mas, mesmo assim, ainda havia algo doce, quase inocente nela. – Nós dois somos adultos, Dante. O que você quer? Ele pegou a mão dela, entrelaçando os dedos. – Eu quero você. Quero tanto que não consigo esperar pela conversa educada de praxe. E esta não é uma cantada ensaiada. Eu não acredito nessas coisas, de verdade. Eu apenas... Desejo você. Kara perdeu o fôlego. A honestidade brutal parecia algum tipo de afrodisíaco maluco. Aquela sinceridade e a forma como ele a encarava, com a boca macia aberta e ainda úmida por beijá-la.


O cara sabia beijar. Sem dúvida. Ela desejava outro beijo. Queria que ele não ficasse apenas no beijo. E ela queria já. Kara deu de ombros, tentando manter a naturalidade, mesmo quando o coração tremia de vontade. – Então me possua, Dante. Ele sorriu para ela, tomada de calor e por um prazer cozinhando a fogo brando. Dante se levantou e a ajudou a icar de pé. Ele icava ainda mais alto quando parava ao seu lado, fazendo seu 1,72m parecer menor. Ela adorava aquilo, amava se sentir pequena e feminina ao lado dele. Inspirou profundamente, inalando o aroma misterioso e almiscarado que vinha dele. Um tremor a percorreu, um prazer estremecendo feito uma nota musical longa e contínua que percorria seu corpo. Sim, eles eram adultos. E talvez fosse justamente disso que ela precisasse. Talvez ele fosse a solução. Ela tinha icado se remoendo tempo demais. Dante De Matteo, depois de todos esses anos. Uma fantasia prestes a se realizar.


DOIS

Uma parte dela não conseguia acreditar que estava fazendo aquilo, indo embora de uma festa acompanhada por um cara com quem não encontrava havia anos. Um cara que não tinha conhecido direito no colegial, com quem não tinha mais contato. Mas ela se sentia segura com ele. Inexplicavelmente, talvez, exceto pelo fato de Lucie e Tyler também o conhecerem, o que dava um pouco mais de segurança. Kara tinha ido à festa de carona com outra amiga que ela e Lucie havia muito já conheciam; se despediu delas rapidamente e entrou no BMW prata de Dante. O carro combinava com ele. Era elegante. Sofisticado. Veloz. Ela se virou para ver o per il de Dante enquanto ele cruzava a ponte, voltando à cidade. Ele era muito europeu, com o cabelo escuro e pele morena, queixo marcante e harmonioso. Dante daria um modelo perfeito para a GQ. Quase havia beleza nele, tirando o fato de os traços serem tão angulosos. Tão puramente masculino. No entanto, as covinhas suavizavam o visual. E aquela boca... Ela estremeceu, querendo se esticar, para tocar os lábios dele com as pontas dos dedos. Simplesmente querendo tocá-lo. Ah, mas ela o tocaria. E ele a tocaria... Ela esfregou as mãos contra as coxas, alisando o tricô roxo do vestido macio. Calma. – Está com frio? – ele perguntou, ligando o aquecimento do carro. – Não, estou bem. – Quente demais, talvez. – O aquecimento do banco funciona muito bem. Ele se virou e sorriu para ela por um instante, antes de voltar a olhar para a estrada. Meu Deus, até o jeito de ele reduzir a marcha enquanto se aproximavam do lado de Seattle era sexy. O corpo inteiro dela gemia por antecipação. – Tudo bem se eu não falar muito? – Dante perguntou, trocando a


marcha novamente para acelerar. A rodovia estava praticamente deserta, o céu trazia uma série de camadas escuras de nuvens. Logo iria chover. – Não é que eu não queira conversa com você. – Sem problemas. Você precisa prestar atenção na estrada. – Não é isso. – Não? Então o que é? Ele deu outra olhada nela, rapidamente, com os olhos escuros cintilando sob a luz âmbar do painel de instrumentos. Um leve sorriso se deixava entrever no canto da boca. – Sinceramente, sou péssimo na hora de bater papo. E não quero falar nada tão estúpido que a faça mudar de ideia. – Você não me parece o tipo de cara que teria problemas para bater papo. – Geralmente, não. Mas preciso dizer uma coisa, Kara... – Sua voz icou mais baixa, num ronco surdo de fumaça e desejo. – Se eu não te levar logo pra minha casa, se eu não tiver você nos próximos minutos, vou perder a cabeça. Então vou icar de boca fechada até te levar pra casa. Tirar sua roupa. Te tocar com as minhas mãos. – Ah... Ela não sabia o que responder. Estava atordoada pela necessidade que tomava conta de seu corpo. De forma tão rápida, tão intensa. Ela estava entorpecida com aquilo. Tirar sua roupa. Te tocar com as minhas mãos. Ah, sim, era exatamente o que desejava, mas ela não podia dizer aquilo. Ela estava molhada, ansiosa. Dentro de sua cabeça, uma frase se repetia sem parar, até não conseguir pensar em outra coisa. Preciso dele agora... Ele observava a estrada com cuidado enquanto atravessavam a cidade. Ambos estavam quietos quando ele saiu da Interestadual 90 e seguiu rumo ao norte. Ela não se importava com o fato de não conversarem. Não havia nada de desconfortável nisso, como poderia acontecer com outra pessoa. Ela não sabia por quê. Kara somente sabia que o silêncio e a expectativa estavam misturados, deixando-a com a impressão de estarem dentro de uma espécie de bolha. Afastados do resto do mundo. E ela gostava. A chuva começou enquanto cruzavam as ruas, passando por prédios comerciais, restaurantes, bares. A iluminação pública brilhava na calçada úmida, jogando luzes e sombras pelas janelas do carro. E o aquecedor do banco, confortável a princípio, quase adorável, parecia forte demais agora que a necessidade crescia em seu corpo, aquecendo-a por inteiro. En im, eles entraram no estacionamento de um dos novos prédios altos


da Avenida Elliott. Os imóveis daqui eram caros. Ela se recordava vagamente de Dante ser um dos meninos ricos no colegial. Não que ele se gabasse, mas Mer​ cer Island era uma comunidade pequena, e todo mundo da escola sabia alguma coisa dos outros. Nada disso tinha importância alguma para ela. Kara nunca saiu com um homem por causa do seu dinheiro, embora preferisse homens com um pouco de ambição. Entretanto, agora ela só queria saber de estacionar o diabo do carro e entrar. Ir para um lugar fechado. Com ele. Quando foi a última vez que ela sentiu essa urgência com um homem, mesmo sem ter sido beijada ou tocada por quase uma hora? Em circunstâncias normais, o limiar agudo do desejo já teria se esgotado a esta altura. Mas não hoje. Não com Dante. Ele entrou no estacionamento, desligou o motor e, a seguir, olhou para ela. Uma olhada rápida, com aquele sorriso breve e devastador. Num segundo ele estava fora do carro, abrindo a porta para ela, agarrando-a em seus braços. Ela podia sentir seu perfume novamente, aquele adorável e misterioso aroma de carne masculina limpa, misturado com um pouco de escapamento, de óleo de motor e dos pneus da garagem, que apenas o deixavam mais essencialmente masculino. Ele era tão alto, e a abraçava tão de perto, que ela tinha de inclinar a cabeça para trás para olhá-lo nos olhos. Os dele também estavam carregados com a mesma carência propulsora que Kara sentia no corpo. Formigando. Dando choques. Se ele pelo menos a beijasse... – Vamos te levar lá pra cima. O braço dele não saiu de sua cintura enquanto a levava ao elevador, e eles subiram, um andar depois do outro. Ele olhava para o rosto dela o tempo todo, os olhos de um castanho-dourado chamuscavam os dela. Hipnotizando. Ele se inclinou e murmurou ao ouvido, encostando o rosto em seus cabelos: – Estamos quase lá. Você não faz ideia do quanto te desejo, Kara. Nem me atrevo a te beijar, ainda. Se eu te beijar, vai rolar aqui mesmo no elevador. – Eu não me importaria – ela respondeu baixinho, sorrindo, deslumbrada por ele. Ele riu, com um som grave e rouco. – A gente pode deixar isso para mais tarde, quando os vizinhos estiverem todos dormindo. Mas eu adorei você não ser contra a ideia de sexo no elevador. Em algum lugar onde possam


ver a gente. – Parece... excitante. Qualquer coisa com o Dante parecia excitante. Tudo. As portas se abriram, e ela estava quase sem fôlego enquanto caminhavam pelo corredor, ele abria a porta e a deixava entrar. O apartamento era um desses lofts espaçosos, com janelas indo do chão ao teto e vista para a cidade. A casa estava escura, mas havia luz su iciente vindo da rua para iluminar a silhueta dos móveis. Porém, Kara não tinha tempo para olhar, não estava interessada. Dante pôs as mãos sobre ela e a empurrou de costas contra a porta da frente. Ela só conseguia pensar numa coisa: Sim. Agora. E ele inclinou a cabeça para beijá-la. Sua boca era a um só tempo áspera e macia. Lábios de veludo, língua úmida invadindo a sua. As mãos de Kara tocaram seus ombros, a cabeça estava a mil. Ela estava debilitada pelo desejo, as pernas começaram a tremer imediatamente. Kara esperou ele se afastar o bastante para tirarem os casacos e jogá-los no chão; as bocas não se separaram. Ele continuou a beijá-la, a beijá-la, e ela escorou as mãos na porta atrás dela enquanto ele a apertava. O corpo dele era feito de músculos rígidos: coxas fortes, o peito, os ombros largos. E aquele pau fazendo pressão em sua barriga. Duro, grande e, ah... Ela estava ofegando quando ele liberou sua boca e começou a despi-la. Em segundos, assim pareceu, ela estava só de sutiã e calcinha, sem nem saber como aquilo ocorreu exatamente, com o vestido e as botas formando uma pilha no chão. – Não saia daí – ele falou num baixo tom de comando, e algo dentro dela reagiu, reverberando com aquela voz. Ele se afastou e tirou a roupa, observando-a. Ela mal conseguia distinguir o brilho escuro de seus olhos, mas os sentia feito brasa, aquecendo a pele, queimando-a. – Dante... – Shh. Eu sei do que você precisa, Kara. Não se mexa. Me deixa te olhar. Te tocar. Eu farei o resto. Ela sentiu o corpo inteiro se soltando. Havia algo nas coisas ditas a ela, na forma como proferia as palavras, que a deixavam... entregue. Era esquisito. Normalmente, ela era agressiva em termos sexuais. Só que, com ele, não sentia nenhuma necessidade de ser assim. Nadica de nada. Como se pudesse obedecer facilmente às suas ordens. Não se mexer. Deixar tudo com ele. Ela não compreendia. Não era preciso.


O ar era fresco na pele quase nua, a madeira da porta dura e fria nas costas. Mas o contraste só aumentava o calor irradiado pela ponta do dedo dele enquanto traçava uma longa e lenta linha atravessando a barriga dela. Ela estremeceu, tentando não se mexer. Ele chegou à parte de cima da calcinha, e ela suspirou baixinho. – Gosta quando te toco, Kara? – Gosto – ela sussurrou. – Kara. Fale alto para eu escutar. – Sim – ela respondeu, com a voz ecoando no apartamento de pé-direito alto, soando alto demais para seus ouvidos. Ela estava derretendo por dentro. Uma sensação estranha ligada à forma como ele a tratava. Como se Dante estivesse completamente no comando. E estava. Ela sabia. E alguma coisa dentro dela adorava a sensação. Não pense nisso. Não questione. A mão dele subiu, pelas costelas, mais alto, até o dedo se aninhar no estreito espaço entre os seios. Os mamilos enrijeceram. – Não aguento icar sem te tocar. Te tocar de verdade. Mas é bom demais me torturar um pouquinho desse jeito. – Ele fez uma pausa. – Está sentindo, Kara? O quase insuportável prazer de esperar? – Outra pausa. Ela não conseguia recuperar o fôlego para responder. – Não precisa me dizer. Eu sinto na tensão do seu corpo. No jeito como você icou em silêncio. Sinto no calor da sua pele. Um desejo intenso se formou entre suas coxas. Sim, quase insuportável. – Dante, por favor... – Por favor o quê? – ele perguntou num tom tão baixo que ela mal ouvia. – Por favor, me toque agora. Ele deu uma risadinha, mas não havia nada condescendente nele. Dante estava apenas satisfeito. E ela se excitou ao saber que ele assim se encontrava. O que estava acontecendo com ela? – Você pede tão delicadamente – ele falou. – Tão docemente. Mas seu corpo será ainda mais doce sob as minhas mãos. A minha boca. E você está bem aqui, simplesmente à minha espera... Um suspiro, depois dois, enquanto ambos permaneciam perfeitamente estáticos. Ela somente conseguia ouvir a respiração dos dois. Num instante, ele a tocava. Uma das mãos pegou o cabelo, agarrando as longas madeixas diretamente no couro cabeludo. Os lábios tocaram o pescoço dela, quentes


e macios, depois úmidos quando a língua apareceu, lambendo a pele. – Ah, Dante... Ele chegou mais perto, pressionando o corpo no dela, e através do macio algodão da cueca boxer, a ereção era sólida, pressionando a carne dela. Meu Deus, senti-lo dentro dela... Porém, naquele exato momento, ela estava quase distraída demais com o que ele fazia: chupava seu pescoço, lambendo, com os dentes afundando na medida certa. As mãos dele não icavam quietas: nos lancos, nas coxas, depois soltando o sutiã. Ele encheu as mãos com sua carne e ela se projetou sobre ele, os mamilos enrijecidos contra as palmas. – Nossa – ele murmurou, tirando a boca do pescoço dela, fazendo uma pausa para olhar seus seios durante um bom tempo. A seguir, ele abaixou a cabeça e abocanhou um mamilo. – Ai, meu Deus, Dante... Isso! As mãos de Kara tocaram o cabelo dele, tão macio e sedoso. E não o soltou, manteve-o agarrada a ela enquanto a língua passeava pela carne ansiosa. Dante lambeu sem parar aquele botãozinho duro, fazendo o desejo luir feito luz pelo seu corpo. O sexo dela estava úmido e pulsando. Carente. – Vem, Dante. Ela nem sabia ao certo o que pedia. Apenas mais. – Shh. Quieta, Kara. A ordem a deixou mole, com os músculos relaxados e quentes. Sim, simplesmente para entregar tudo a ele. Deixá-lo no comando... Ele a empurrou contra a porta usando as mãos: uma no ombro, outra na barriga. Depois, ele mexeu as mãos para tirar a calcinha. – Você é tão linda – ele falou baixinho. – Tão, tão linda. Ele se ajoelhou e, mais uma vez, pressionando-a com força contra a porta com uma das mãos no quadril, ele empregou a outra para abrir suas coxas. Ela sentia seu respirar quente na parte de cima das coxas. E enquanto ele se inclinava, o sexo dela se contraiu em expectativa. – Quer sentir minha boca em você, Kara? – Sim, Dante... Ah... A língua saiu da boca, dando uma lambida breve sobre o botão rígido do clitóris. – Ai, meu Deus… Ele a segurou com mais força contra a porta. Inclinou-se e lambeu. Uma lambida longa e lenta por toda extensão daquela abertura molhada.


O prazer gemia, uma corrente penetrante a fazia arquear o corpo. Subindo do sexo para a barriga e os seios. Ele lambeu novamente e, uma vez mais, outra descarga de puro prazer. – Você tem gosto de mel, Kara. Eu juro – ele murmurou contra a carne desejosa. Ele lambeu de novo. E novamente. A língua era macia, sedosa e quente. O movimento a queimava por dentro. De prazer. Com uma necessidade que ia crescendo, subindo mais e mais. A língua dele se mexia mais rápida, deslizando sobre os lábios de seu sexo, pelo clitóris rijo. Mas ela precisava de mais. E sem Kara falar nada, ele pareceu perceber. Afastando-se, ele lhe disse: – Abre as pernas para mim, agora. Isso, desse jeito. Perfeito. Nossa, você tá tão molhada... Tão perfeita. Ele usou os dedos para abrir os lábios da boceta e até a forte pressão dos dedos na carne era deliciosa. Ficou melhor ainda quando ele inclinou a cabeça novamente, abocanhou o clitóris e o chupou. – Ah! Ela pensou que ele faria uma pausa, para provocá-la. Em vez disso, Dante se entregou ao trabalho, chupando, chupando o clitóris. A língua deslizando pelo botão duro, para frente e para trás. Ela iria gozar a qualquer momento. Quando ele en iou dois dedos dentro dela, a sensação foi chocante. Intensa. Ela havia segurado o clímax, desejando apenas sentir tudo: a boca, os dedos dentro dela, começando agora a bombear, feito um pequeno pau. Ela respirou profundamente, tentando não gozar, mas estava tomada pela sensação. Ele meteu os dedos mais fundo, sugou-a, bebeu-a. E o clímax a fez tremer por dentro como as janelas de um trem de carga quando escutam um trovão. Prazer e prazer. Sensação após sensação. Tudo aquilo no fundo do sexo, no fundo do ventre. Sentiu as pernas fracas demais para segurá-la, mas a mão de Dante continuava em seu quadril, forçando-a contra a porta. Era a tempestade repentina que sacudia a porta? Ou era ela? Ainda estremecendo pelo gozo em pequenas espirais fugidias pelo corpo. – Ai, meu Deus – ela sussurrou, com a cabeça caindo contra a porta. – De novo, ele ordenou. – Quê? Eu não consigo. Vamos, Dante. Leve-me para a cama. – Ainda não. Quero fazer você gozar de novo. Aqui. – Ah... Ela quis protestar, mas a boca novamente a tocava, uma mão acariciava


o seio, envolvendo-o por completo e amassando com carinho. E a boca... a boca estava mais suave desta vez, adivinhando que ela estava bastante sensível após o clímax. Deu uma lambida gentil no clitóris e se abaixou para penetrá-la. Ela abriu mais as coxas, apoiada nos ombros dele para se irmar. Kara tinha consciência da forma fantástica como a pele dele era macia sob suas mãos. Ela queria tocá-lo, no peito, no pau. Mas depois. Depois que ele terminasse aquilo. Depois de ele a fazer gozar novamente. O que se daria em breve. A língua se mexia dentro dela, entrando e saindo. A sensação era incrível. O prazer, inegável. Depois, Dante fez algo que ela nunca tinha experimentado. Ele voltou a en iar os dedos dentro dela, levando-os até o ponto G. Ela arqueou as cadeiras e gemeu. A seguir, deslizou a língua exatamente contra a fenda, assim icava di ícil saber onde os dedos terminavam e começava a língua. Ele remexia os dois em movimentos ondulantes suaves. O quadril arqueava seguindo seu ritmo. E o prazer brotou novamente, de forma rápida e diferente. Quando ela gozou desta vez, não foi tão agudo quanto antes, mas veio de maneira mais profunda, estrondando por dentro, com o clitóris pulsando no ritmo. O prazer parecia um núcleo sólido em seu corpo, espesso e doce feito mel circulando pelo corpo. Tomando conta dela. – Ai... Ai... Ela só conseguia gemer, movendo o quadril contra seu dedo, sua boca. Ela estava entorpecida. As pernas bambearam, e ela se sentiu caindo. – Eu tô te segurando. De alguma maneira, ele a segurou e a colocou no chão, deitada sobre seus joelhos. Seus braços a envolviam com irmeza. Ela ainda se arrepiava com o orgasmo, como se ele tivesse deixado algo para trás. Uma fagulha de luz viajando por dentro dela, incendiando-a pelo seu interior. Ela olhou para ele no cômodo praticamente às escuras. O olhar dele era quente, ardendo em meio à luz difusa a invadir as janelas. A pele era quente ao toque, o corpo, músculos sólidos. Ela somente conseguia descansar os braços, tentando recuperar o fôlego. – Deus do céu, menina. – As palavras saíram num sopro arfante. Cheio de desejo. Baixo e fumegando. – Foi lindo. Eu preciso repetir a dose. Comer você. Te fazer gozar. Sem parar. Sim… eu preciso fazer você gozar de novo. Gemer era a única coisa que ela conseguia fazer. Ele a segurou enquanto se levantava, levando-a consigo. E antes que Kara pudesse reclamar dizendo ser capaz de andar, Dante a carregava pelo cômodo. Ela conseguia escutar os pés se arrastando suaves sobre o


chão de madeira polida. Ela vislumbrou novamente a paisagem arrebatadora da janela enquanto era carregada por trás da cortina e deitada numa cama grande. – Espera aí. Ele se reclinou sobre a cama e puxou o cobertor, colocou-a sobre os lençóis frescos e depois foi se juntar a ela, deitando o corpo totalmente nu sobre o de Kara. – Eu preciso entrar em você, Kara. Quero foder você com força. Você aguenta? – Sim. – Fala que você quer. Meu Deus, o corpo dele parecia seda ardente contra o dela. A pele tão macia. O pau tão duro, pousado entre as coxas dela. – Fala, Kara – ele ordenou. – Sim, eu aguento. Eu quero com força. Eu gosto com força. – Uma foda com força? Ou mais? – Mais? – Por que o fôlego se prendeu na garganta quando ele fez aquela pergunta? Ele estava pedindo mesmo aquilo que ela pensava? – Dante? Ele beijou a nuca, com lábios irmes e suaves. Deu uma mordidela, e a dor se mostrou apenas um prazer agudo. Ele tracejou os lábios gentilmente com as pontas dos dedos e Kara podia sentir seu próprio aroma de oceano. Esse homem era feito de contradições. Ela adorava aquilo. Amava ser tocada por inteiro ao mesmo tempo. Uma sobrecarga de sensação. – Curto uma sacanagem meio bruta – ele lhe disse, beijando mais uma vez a nuca e, a seguir, a curva do queixo. – Ah... – Você ficou chocada? – Não. Pouca coisa me choca. – Gosta da ideia, Kara? Pois eu acho que gosta. Quando eu falei isso, seu corpo inteiro se soltou. – Meu Deus, Dante. Eu... Sim. Eu gosto. É o que desejo. Justamente o que desejo. Foi a vez dele gemer. – Ah, você é perfeita – Dante falou. Então, após mais alguns instantes esbaforidos, ele repetiu: – Eu gosto quando é bruto. Gosto de meter com vontade. De morder. Beliscar mamilos. – Isso… Nossa, ele estava mesmo falando aquelas coisas? Suas fantasias mais selvagens se concretizando. As que izeram o ex-namorado, Jake, correr


dela, acusando-a de louca. Que esquisitice. Mas ela não desejava pensar nele agora. Dante falou baixinho: – Meu maior desejo é cobrir você de palmadas. – Ah! – Agora, sim, eu choquei você. – Não. Nada disso. – O que foi? – Isso é... o que sempre sonhei. Ansiei. Ela sentiu um tremor atravessá-lo. Ocorreu uma longa pausa antes de ele voltar a falar: – Então, vai ser muito bom. Eu prometo, Kara. O corpo inteiro dela tremia. Esperando. Ela estava completamente encharcada. Desejando. Deslumbrada. E nem sequer acontecera ainda. Mas estava prestes a acontecer. Dante a observava de perto, mas tudo que via e sentia nela era puro desejo. O corpo de Kara queimava de febre sob o dele. Os seios, a curva rasa da barriga. Estava quente e úmido o pequeno sexo dela. Pronto para ele. Dante nunca esteve tão duro em toda sua vida. Ele desejava vê-la gozando novamente. Sem parar. Nada o excitava mais do que a visão de uma mulher gozando. Sentir o coração pulsar dentro dela. Ouvindo seus gemidos e gritos de prazer. E nunca com mais intensidade do que com aquela mulher. Kara. Talvez por obra daquela paixão escolar. Ele não sabia. Agora, pensar era di ícil demais, com o corpo dela ali do seu lado. Não, ele precisava tocá-la. Provar sua pele. Deslizar dentro dela e meter até ela gritar… Ele passou a mão entre o corpo dos dois e a en iou em seu sexo, fazendo-a ofegar. Ela estava tão molhada. Ele mal conseguia resistir. O aroma de seu gozo... Novamente. Sim, ele a faria gozar novamente. Dante escorregou pelo corpo dela, abriu as doces coxas com as mãos. E ela permitiu, não tentou resistir nem controlar nada. Perfeito. Ele parou diante do sexo aberto de Kara, olhando para ela na luz fraca e nevoenta da lua, prata perfurando a camada de nuvens, o brilho turvo da iluminação da rua. Ela estava praticamente toda depilada. Somente uma tira estreita de pelos, bem do jeitinho que ele gostava. Quase pelada. Tentadora. E quando


usou os dedos para abrir aqueles lábios rosados e aveludados, viu a brilhante carne interna. – Adoro o formato de uma mulher – ele disse, com a voz brotando de um fôlego áspero. – É lindo demais. Ele se inclinou e passou a língua na abertura, adorando o tremor da reação. Ele adorava chupar uma mulher. Amava aquele sabor esfumaçado do desejo. Ele a lambeu novamente, com suavidade. Sabia que Kara estaria sensível, um tanto estimulada em excesso. Mas ele poderia fazê-la gozar novamente, se fizesse a coisa certa. Ele a faria gozar de novo. Dante pressionou a língua sobre o grelo, circulando-o em giros lentos. Enquanto assim procedia, as coxas dela se retesavam, elevando o quadril ao encontro da boca que a buscava. Ele deixou a língua mergulhar fundo nela, depois sair e correr para o botãozinho rígido do clitóris. E de novo, e de novo. Ele ouviu a respiração arquejante dela, sentiu as mãos agarrarem seu cabelo. E quando mergulhou dois dedos dentro dela, ela gozou, gritando. O corpo tremia. Ele adorava o gosto dela na língua, quente, doce e picante. En im, ela parou de apertar seus dedos, mas continuava com aquela maciez incrível por dentro. Inacreditavelmente quente. Se ele não icasse dentro dela nos próximos segundos, iria perder a cabeça. Ele sentou, esticou-se sobre o corpo lácido e ofegante dela para pegar uma camisinha na caixa laqueada em cima da mesa de cabeceira. Mantendo-se de joelhos, ele se vestiu. Ela o observava com os olhos indo do rosto para as mãos e o pênis. Kara lambeu os lábios. Eles estavam opacos, inchados, embora ele quase não a tivesse beijado. Não tanto quanto desejava. Quando foi que ele teve essa necessidade violenta de simplesmente beijar uma mulher? É só comê-la. Estar dentro dela. O resto se resolverá sozinho. E recomponha-se. Mantenha a garota sob controle. Sob seu comando. Ele agarrou suas coxas, com os dedos afundando na carne. – Pronta para mim, Kara? – Sim, estou. – O que você quer? Ele já tinha perguntado isso a outras mulheres. Por que agora parecia uma espécie de teste? – Quero você. Quero apenas... mergulha dentro de mim, me come com


força. Faz... essas coisas que me falou. Me morder, me beliscar... – Bater? Ela icou em silêncio por um instante, e ele esperou a resposta como se ambos estivessem suspensos no tempo. Era importante demais, caramba. Finalmente, ela suspirou: – Isso, Dante. Eu quero. Quero que me bata. Nunca fiz isso antes, mas é algo que sempre desejei. Sempre. Ele deu um gemido. Essa garota seria perfeita pra cacete. Ele sentia suas tendências à submissão. Dante costumava acertar, mas com Kara ele estava um tanto inseguro. Desconcertado pela força de sua atração por ela. O sexo teria sido bom mesmo sem o resto da coisa. Da sacanagem. Da troca de poder. Porém, agora ele sabia. Ela queria. E seria perfeito pra cacete. Ela seria perfeita.


TRÊS

Kara estava exausta. Fraca. Mas de alguma forma queria mais. Principalmente se ele fosse bater nela... Ah, sim, aquilo a acendeu por dentro feito uma noite de réveillon, toda fogo brilhante e cintilando luz. Apenas com a ideia. Ela gemia suavemente enquanto Dante a virava com facilidade, como se fosse uma boneca em suas mãos grandes. Ele botou um travesseiro debaixo da barriga dela, deitando-a em cima dele. – Abre as pernas para mim, Kara. Assim, desse jeito. Ele a ajudou a separar as coxas. Ela já ansiava por ele, mesmo tendo gozado várias vezes. Tantas vezes que os orgasmos se fundiam. Um momento interminável de sensações. Intenso. Entorpecendo-a. Mas agora aconteceria algo completamente diferente. Finalmente. As mãos acariciaram a bunda, no meio das coxas, esfregando-se contra o sexo. Ela percebeu não saber se ele a espancaria ou comeria primeiro, deixando tudo ainda mais excitante. Além de estar nervosa, mas de um jeito bom. Ela não conseguia pensar direito. – Kara, me escuta. Respire. Devagar e profundamente. Deixe o ar sair. Bom. De novo. A voz era suave, ajudando a mente a se acalmar. Devagar e profundamente, como se ela pudesse cair naquele som. E as mãos dele se moviam sobre o corpo dela, aquecendo sua pele, seu sexo. Agora, ele massageava a carne irme da bunda e das coxas, com as mãos fortes, enquanto verbalizava ordens. – Quero que ique paradinha para mim. Não importa o que eu faça – ele afirmou. Havia um quê de ameaça nessa frase? Mas era adorável. Emocionante. Ela inalou profundamente o ar outra vez e o soltou. Tremia de desejo. – Vou bater em você agora – ele disse baixinho. E antes mesmo que


pudesse entender, a mão desceu estalando forte na carne. – Ah! – Eu a surpreendi, Kara? É justamente o que desejo. Pra você icar se perguntando. Na expectativa. E levar. Ele bateu novamente nela, uma pequena palmada que ecoou no frio ar parado. E embora existisse um pouquinho de dor, o prazer era ainda mais forte, um minúsculo arco elétrico estremecendo na pele. – Respire, Kara. Continue respirando. Ela fez como pedido, sem questionar. Nada dentro dela desejava questioná-lo, desafiá-lo. Outro tapa, mais forte desta vez. Porém, ela simplesmente respirou, esperando a ferroada se transformar em prazer. – Lindo – Dante murmurou, golpeando outra vez a pele: na bunda, nas coxas, mergulhando fundo entre elas. – Você tá tão molhada... Menina linda. Ele enfiou dois dedos dentro tão inesperadamente que ela saltou. – Ah, paradinha, Kara. Boa menina. Ela mal conseguia aguentar. O prazer era muito agudo. Muito novo. Dor e prazer misturando-se em seu corpo de um jeito com o qual ela somente fantasiara. E alguma coisa estava acontecendo dentro da cabeça. Algo no qual não queria pensar. Um soltar-se. Uma estranha forma de confiança. As mãos dele eram suaves na pele dela, deslizando, se mexendo. Ela se acalmava enquanto ele a acariciava. Quando ele se inclinou e deu um beijo na parte um pouco antes da bunda, ela se arrepiou toda. E estremeceu. – Você reage tão bem – Dante falou, a voz mais parecendo um sussurro. – É inacreditável para quem nunca fez isso antes. A mão dele desceu com tão tanta força, tão inesperadamente, que ela saltou de novo. Kara não conseguia se segurar. – Ah! Ele deu uma risadinha. Para ela, isso indicava que Dante estava satisfeito com ela, e a ideia a excitou. – Como está se sentindo, Kara? Bem? – Sim. Bem. Eu... quero mais. – Eu também. Eu quero você. Não se mexa. As mãos dele tocaram suas coxas, abrindo-a; depois, ele icou atrás dela, com os quadris a pressioná-la, o pau duro posicionado na sua entrada. Ela deveria ter se voltado contra ele, ela o queria, mas se sentia imobilizada. Pelo desejo de permanecer imóvel. Pelo desejo dela por ele. Ele mexeu o quadril e o pau escorregou para dentro. Somente a cabeça, mas o prazer a percorreu como um choque.


– Ai, que gostoso... – Shh – ele falou. Ele icou parado durante uma respiração, duas. Então, meteu fundo nela. Tudo de uma vez, resoluto. Duro e potente, até o final. – Ai, meu Deus, Dante! – Que delícia! Você é tão gostosa, menina bonita. Ambos estavam arquejando. Então, ele começou a se mexer. Uma estocada forte após a outra, o pau grosso e desejado dentro dela. Machucando um pouco, ele era tão grande, mas gerando um prazer ainda mais profundo. Ele mantinha a mão sobre as costas dela, pressionando-a para baixo. Ela adorava aquilo, adorava tudo. Ele investiu com mais força, e ela estava indefesa debaixo dele. Mole, largada, mesmo enquanto suas entranhas se revolviam, comprimidas com desejo, levando-a novamente àquele limiar. Um tapa forte na bunda, e ela quase ultrapassou esse limite. – Ai, Dante! Ele começou a bater nela de verdade. Uma sequência de pequenos golpes no mesmo ritmo dos quadris. Ele estava fodendo, espancando. Ela iria explodir. – Dante... por favor... – Por favor o quê? – ele disse, ofegante, num tom áspero. – Por favor... não pare. – Ah, eu não vou parar. Ele metia nela, o pau era um ponto grave de prazer entrando no corpo de Kara. Os tapas queimavam a pele. Mas ela adorava. Ela precisava. Mais uma estocada, uma porrada, e ela caiu, trôpega, naquele lugar sombrio. Luzes piscavam atrás de seus olhos. O prazer rosnava pelo organismo. E, enquanto o sexo se contorcia numa agonia deliciosa, Dante se retesava atrás dela. – Ai, meu Deus, Kara... estou gozando! Ele bombava nela. A mão pressionava suas costas, e Kara adorava ouvir seus gemidos e gritos. Sabendo que ele gozava dentro dela. Quando terminou, ele caiu sobre ela. A respiração era quente na nuca de Kara. Ela estava meio entorpecida. Mal conseguia pensar. Incapaz de se mexer. Depois de vários minutos, ele se mexeu, caindo de lado e a trazendo consigo. Ela aninhou a cabeça no peito dele. O coração dele martelava em sua bochecha. Aquilo havia acontecido mesmo?


Havia sido, de longe, a melhor transa de sua vida. Em parte por causa da realização de suas fantasias: fazer sexo com uma paixão juvenil. Os tapas. Porém, em parte, fora simplesmente ele. Dante. Não vá ficar piegas. Não, ela não faria isso. Não por um bom tempo, se é que voltaria a acontecer. Kara tinha pagado caro demais por causa disso no passado. Com sua noção de si mesma. Ela não estava disposta a se entregar a nenhum homem. Já seu corpo… Bem, essa era outra história. Ela havia adorado essa parte. Mais do que teria imaginado. O que aquilo dizia a seu respeito? Ela estava cansada demais, completamente exausta, para pensar. Raciocina no quanto havia con iado em Dante, dando-lhe permissão para fazer tais coisas com ela. Kara não entendia, mas agora somente desejava curtir estar ali, com o quente e sólido corpo de Dante próximo ao dela. Com o perfume dele na sua cabeça. O aroma do sexo. Haveria tempo de sobra para questionar tudo depois. Amanhã, se ele a deixasse passar a noite ali. Dante não parecia inclinado a levá-la para casa no momento. Por ela, tudo bem. Ela estava feliz ali. Feliz... pela primeira vez em muito tempo. Quando ela abriu os olhos foi porque o sol brilhava, pálido e dourado, por entre as pálpebras fechadas. Ela as abriu lentamente, deixando que se ajustassem à luz do dia. Estava um tanto nublado lá fora, o céu de Seattle carregado de nuvens e o sol matinal rompendo-as aqui e ali. Nada incomum para um mês de janeiro nesta cidade. Incomum era a maneira como ela se sentia. Kara estava um tanto dolorida, por dentro e por fora, mas era gostoso. E o corpo de Dante próximo ao dela era melhor ainda. Também era estranho o fato de ela ter dormido a noite inteira. Um sono profundo, não interrompido por sonhos. Ela não dormia bem. Geralmente era pior quando tentava dormir com um namorado. Kara icava deitada acordada durante horas, levantava meia dúzia de vezes à noite, muito consciente o tempo todo do som de outra pessoa respirando. Que estranho haver dormido pesadamente com Dante. Dante. Ela se virou de lado para olhá-lo e o encontrou fazendo o mesmo. O coração dela disparou.


Havia ainda mais dourado no castanho de seus olhos à luz do dia enquanto ele a encarava. Minúsculas pintas douradas cercando os centros escuros, ganhando um tom castanho vivo, feito uísque, nas pontas das pupilas. E as pestanas eram tão escuras, tão grossas. – Oi. – A voz dele estava áspera de sono. – Oi. Ela sorriu. Kara não conseguiu evitar. Nem sequer cogitaria se tratar de uma daquelas estranhas manhãs seguintes. Contudo, ele sorriu de volta. O corpo dela estremeceu. Com necessidade e um repentino anseio quente que nada tinham a ver com sexo. Será? Ele se apoiou num braço, olhando para ela. Durante um instante, ela pensou se estava descabelada, se a fronha tinha deixado marcas na cara. Porém, estava fascinada demais por ele, pelas covinhas marcando as bochechas, pela barba rala escura sombreando o queixo, deixando-o ainda mais belo e masculino do que nunca. Era di ícil pensar em outra coisa. Era difícil sentir vergonha sob seu olhar. Aqueles olhos castanho-dourados estavam cheios de desejo. E quando ela percebeu, ele a puxou para perto com um pequeno gemido, a ereção pressionando os quadris. Ela ficou molhada num instante. – Kara... – Ele beijou a bochecha, a boca. – Espero que goste de sexo matinal. Ela riu, virou de lado e pressionou os quadris nos dele. – Entendo sua resposta como um sim, mas, diga-me uma coisa, está dolorida? – Vai ser di ícil sentar direito durante um dia ou dois, mas tudo bem. Eu gosto. Eu sinto... – Ela fez uma pausa, tentando escolher o que falar. – Como se o dolorido fosse... um distintivo de coragem. Marcado por você. – Ah... Eu não tinha pensado nisso. Ela se contorceu, tentando olhar sobre o ombro, precisando ver. – Isso a preocupa? Preciso tomar mais cuidado com você? – Não. Não, tudo bem. Como ela conseguiria lhe dizer que esperava ser marcada? Que adorava essa ideia? Que adorava até mesmo a palavra? Ele se esticou e a virou de bruços, passando a mão sobre a bunda nua. – Existem algumas contusões pequenas. – Ele esfregou novamente a mão nela. Sua voz era grave, baixa. – Eu sinto você tremer quando a toco, Kara. Quando encosto nas marcas que deixei na sua pele.


– Eu gosto. Não sei por quê. – Acho que eu sei. Ele a rolou, até icarem novamente cara a cara. A boca era suave e suculenta. Havia desejo nela. E algo mais. Algo que ela não conseguia identificar, mas pulsava em seu corpo. – Kara, eu devia ter te contado, provavelmente deveria der dito na noite passada, que não curto apenas dar uns tapas. – Como assim? – Sou um dominador. Um dominador sexual. É uma coisa que pratico. Faz anos. Não quis que se assustasse e fugisse, mas eu deveria ter aberto o jogo quando vi que você queria apanhar. Pra mim não se resume a isso, não se trata apenas de um joguinho para apimentar as coisas no quarto. Eu frequento clubes. Vou ao Pleasure Dome, aqui em Seattle, em particular. Tenho amigos lá. Uma comunidade. Foi onde conheci meu melhor amigo, Alec, anos atrás. Eles estavam mesmo deitados na cama tendo aquela conversa? Ela estava fascinada. – Isso não me assusta, se era esse o seu temor. – Que bom. Fico feliz em ouvir. Tem alguma pergunta? Sobre o que eu faço? Por onde começar? Ela andou lendo algumas coisas. Muitas, na verdade. Todavia, ela não entendia direito como a icção excitante que lia se traduzia na vida real. – Não sei muito bem o que signi ica ser um dominador sexual. Quem é o tipo de frequentador desses clubes. Mas pelas histórias que li, o signi icado é um pouquinho diferente pra cada pessoa. – É verdade. – O que significa pra você, Dante? – Pra mim signi ica que sou honesto comigo mesmo em relação a quais são os meus desejos. Desejos dos quais tenho consciência desde a adolescência e, de formas estranhas, até antes. Tinha uma pequena emoção em brincar de pirata quando criança. Amarrar alguém numa árvore. Mandar outros meninos andarem na prancha ou qualquer outra brincadeira. Existem muitas pessoas interessadas na cena da escravidão sexual e do sadomasoquismo com históricos similares. Não signi ica necessariamente que sexualizamos essas coisas quando crianças; geralmente isso acontece depois. Porém, como eu disse, a emoção sempre esteve presente. – Acho que tive algumas dessas experiências bem cedo. Entendo o que


quer dizer. Era uma revelação para ela, explicava tanta coisa sobre a forma pela qual percebia determinados aspectos da vida. – Muita gente deixa terminar aí – ele disse, dando de ombros. – Talvez tenham uma vida de fantasia ativa, mas, para mim, é algo que busco continuamente, embora não exija. – Mas você prefere. Fazer sexo com alguém... Não sei bem como chamar. – Jogo de poder. Troca de poder. Porque é uma troca. Não se resume simplesmente em eu ser um dominante, querer te bater ou qualquer que seja o desejo em particular. O mundo BDSM não é um ato solitário. As necessidades do bottom, o seu poder, entram em cena na mesma medida que as minhas. Mais até, na verdade. É daí que vem a emoção. O verdadeiro poder. – Já ouvi esse termo, “bottom”. Submisso. É isso que eu sou, então? Porque gosto dos… tapas? – Você não precisa se rotular, se não desejar. Certamente, você tem tendências submissas. Notei isso de cara. Desde o momento em que a toquei pela primeira vez, mas ainda é preciso saber até onde isso vai. Se decidir seguir nesse caminho. Ela concordou. A cabeça estava girando. De certa forma, era um alívio ter um nome para colocar nos desejos. Uma forma de identi icá-lo. Uma maneira pela qual as outras pessoas identi icavam desejos semelhantes. Ela se sentiu menos solitária. – Obrigada, Dante. – Pelo quê? – Por... me deixar explorar isso. Por fazer ser tão gostoso pra mim. Ele sorriu, um sorriso largo cheio de covinhas e charme de menino. Estranho, como ele podia ser tão completamente masculino e dominante sem deixar de transparecer aquela meninice. Fazia parte de seu charme. Devastador. – Dante... – Sim? – Gostaria de repetir a dose. – Ah, eu também. E já. Ele correu a mão pelo cabelo dela, os dedos agarrando com irmeza, puxando com a força certa para ela entender novamente que ele detinha comando absoluto sobre ela. O prazer a percorreu, um estremecer de luz e calor. Dante pressionou o corpo contra o dela novamente. Ele continuava duro.


O sexo se encharcava de desejo, só de pensar nele entrando nela. Quando ele dedilhou o mamilo, as entranhas se contorceram. – Dante... vem. Ele deu uma risadinha. – Logo, logo, menina bonita. Então, ela soube que ele a provocaria, se demoraria. Controlando o ritmo. Sim. Ela ofegou quando ele beliscou o mamilo, o prazer corria pelo corpo como um choque adorável. – Você já gozou somente assim? – ele questionou, novamente assumindo um tom áspero. – Apenas com alguém brincando com seus mamilos? – Não. – Meu Deus, ela já mal conseguia respirar. Somente com aquela pergunta dele! – Vamos tentar? Ela só conseguia gemer quando ele icou de joelhos ao lado dela para poder usar as duas mãos. As coxas nuas eram fortes, musculosas, cobertas com um pouco de pelo escuro e macio. E, entre elas, o pau era uma lança de maravilhosa carne dourada. Ela mal conseguia acreditar que ele estava duro novamente. A visão daquela carne sólida lhe deu água na boca, mas Kara estava distraída demais por aquelas mãos nos seios. Ele acariciava a carne: a face interior, a elevação no alto dos seios, traçando o contorno. Mantendo-se longe dos mamilos. Eles latejam pela necessidade de serem tocados. Torturados. Mas ele mantinha os dedos caminhando por todas as partes, menos ali. – Dante. – Ela arfou, com o corpo retesando em suas mãos. – Não, Kara. Fique quieta. Respire. Relaxe. Ela quase quis choramingar, mas adorava demais a autoridade naquele tom de voz para não obedecer. Ela respirou. Ele continuava acariciando a pele. Insuportável, mas maravilhoso. Os mamilos latejavam. O sexo pulsava até doer, inchado e cheio de necessidade. Ela desejava apertar as pernas para reduzir a dor, mas mordeu o lábio e permaneceu imóvel. Por fim, ele esfregou os dedos nos dois mamilos e ela ofegou. – Gostou? – Ele perguntou. – Ah, sim! – Não quero que se preocupe com isso, sobre se pode ou não gozar. Quero apenas que aproveite o momento, concentrando-se apenas no prazer. Vamos ver no que vai dar. Deixa rolar, Kara. Seu olhar dourado mirava os seios dela. A língua dardejou para lamber


o lábio e ela desejou levar a sua até lá, mas não ousou se mexer. Ele esfregou novamente os mamilos, num toque muito leve. O prazer lembrava uma chama queimando sem pressa, num crescendo, num ritmo quente e grave pulsando dentro dela. A intensidade era inacreditável simplesmente com Dante tocando seus seios. Sendo o centro de sua completa atenção. Ela não se lembrava de homem algum se concentrando tanto nela. Kara não sabia como viveria sem aquilo. Ela não tirava os olhos do rosto dele. Dante era o homem mais lindo que já vira. E aquilo somente aumentava o desejo. Ele mantinha o ritmo, com os dedos suaves, mas os mamilos enrijeceram tanto que o menor toque parecia uma abrasão. Porém agradável, maravilhosa. A sensação crescia, intensificada a cada carícia. Ela gemeu. – Tá ficando mais intenso? – ele perguntou. – Sim. Sim... – Bom. De repente, ele a beliscou com força e o corpo dela se arqueou na cama. – Ah! A dor foi acompanhada por uma onda de prazer. – Gosta disso, não é, Kara? – Sim. Por favor, Dante. Eu quero mais. Ele sorriu, beliscando novamente. Outra vez mais, o corpo dela se elevou da cama, o prazer feito uma corrente elétrica. Chocante. O corpo inteiro formigava. Intensi icado quando ele utilizava a mão para prendê-la ao colchão. Ela adorava a sensação de estar sendo controlada. Kara não conseguia pensar por quê. Não fazia sentido para ela. Entretanto, ela estava entregue por demais àquilo tudo para questionar de verdade. E somente sabia que era bom. Ele se inclinou e sussurrou: – Vou botar dentro da minha boca, agora. – E ele fez justamente aquilo, tocando a ponta úmida da língua num mamilo e no outro, antes de chupar a carne inflamada. A boca era quente, sedosa. Os mamilos estavam duros feito pedras. O prazer era ainda mais intenso, como algo sólido a se movimentar dentro dela. O sexo pulsava no fundo do corpo, uma sensação estranha, diferente de tudo que já tinha experimentado, numa estranha combinação de Dante manipulando os mamilos e da sensação de estar sob suas mãos, sob seu controle. Ele não parava, chupando, mordendo, beliscando as laterais dos seios. Ela não sabia quanto tempo tinha passado – podia muito bem ser uma


hora. A pele era toda umidade, a respiração, um ofegar áspero aos ouvidos. A sensação escalava pelo corpo. Inacreditável. Ela ia gozar. – Dante... Falta tão pouco... Ele chupou com mais força, dor e prazer se misturavam até ela não saber onde um começava e o outro terminava. – Ai, meu Deus... O corpo pairava naquele delicioso limiar. – Por favor, Dante... Ele levantou a cabeça e murmurou: – Você se saiu muito bem, menina bonita. Goza agora. A boca caiu novamente sobre o mamilo e o prendeu. E a mão desceu entre as coxas, agarrando o clitóris e esfregando-o entre os dedos. – Ai, meu Deus! O orgasmo disparou através dela, forte, intenso. Quase demais para aguentar. Ela berrou, o corpo inteiro arqueou, se contorcendo num prazer tão forte que mal conseguia suportar. Ela ainda estava estremecendo quando ele montou sobre ela, o pau deslizando por entre as coxas para dentro dela. Ela se sentia indefesa debaixo dele, quando começaram as estocadas. Deliciosas. Bombando dentro dela, o pau era uma sólida lecha de carne. Justamente como ela precisava. E, a exemplo da noite anterior, ele estabeleceu um ritmo forte e violento, socando dentro dela. Os quadris dos dois se batiam. O prazer do corpo dele no dela era quase tão grande quanto aquele pau, escavando uma sensação mais e mais profunda. Até que Kara sentiu novamente o começo das contorções, outro orgasmo a percorrê-la. – Nossa, garota... você é tão linda. Tão gostosa... Ah! Ele estremeceu, com a boca apertando o pescoço dela enquanto gozava. E ela ficou quietinha, com os braços ao redor do seu. Ela tentou pensar no que eles haviam conversado. De como seu comando sobre ela a afetava, deixando o sexo tão intenso. Mas ela estava cansada demais, exaurida demais. Fechou os olhos e, com ele amolecendo dentro dela, adormeceu.


QUATRO

Dante abriu os olhos, esforçando-se para ver o relógio na mesa de cabeceira. Eles dormiram um tempinho. Já era começo da tarde. E ele estava morrendo de fome. – Kara. Ela não se mexeu. Ele a observou dormindo, como izera antes. Por que estava tão fascinado por aquela mulher? Ela era maravilhosa. Ele adorava seu corpo irme e delgado, as pernas in initamente longas. A curvatura perfeita da bunda. A pele aveludada e pálida. Amava seu longo e sedoso cabelo, da maneira como a luz o fazia parecer um entrelaçado de ouro e bronze. Caramba, de repente ele tinha virado poeta. Que diabos acontecia com ele? Ele passou a mão sobre a barba rala, pensando. Ou, quem sabe, tentando não pensar. Ele precisava parar de meditar e desfrutar da presença dela ali. Em sua casa. Na sua cama. Era sábado. Quem sabe ele conseguiria mantê-la ali o fim de semana inteiro. Comê-la novamente. Bater nela... talvez algo mais. O pau acordou, mas ele estava faminto demais para lhe dar bola. Primeiro, comida. Depois, sexo. Se ela estivesse disposta. Ele daria um jeito para que estivesse. – Ei, Kara. – Ele tocou a bochecha, e as pálpebras se abriram, para depois fechar. – Está na hora de acordar. – Hum, quê? Ela levantou os olhos castanhos semicerrados até ele. Havia algo doce nela, toda sonolenta assim. Vulnerável. Tão vulnerável como quando ele batia nela. – Eu preciso comer. Você consumiu com todas as minhas reservas – ele brincou.


– Garanto que você consumiu sozinho. – Ela bocejou, esticou os braços sobre a cabeça, enquanto o lençol caía dos seios soberbos. Os mamilos enrijeciam, ficando escuros; era impossível não notar. Comida. – De toda forma, estou pronto a abrir mão de comer – ele disse. – Para ficar com você. Ele a fez rolar de lado, dando uma palmada na bunda, fazendo-a rir. – Se formos sair daqui, um chuveiro viria a calhar, se não for um problema – ela disse, sentando ereta na beira da cama. – Eu vou cozinhar. – De verdade? – Ela olhou para ele por sobre o ombro. Caramba, os cílios dela eram os mais longos que ele já vira. Pare. Controle-se, cara. – Sim, de verdade. Acha que não sei cozinhar? – Você não parece muito acostumado com gente te esperando. – Tô acostumado. – Ele cruzou os braços sobre o peito. – E também faço as melhores panquecas que você já comeu. – Está me parecendo um desafio. – Experimente. Ela sorriu ironicamente. Ele não queria pensar por que aquilo o deixara tão feliz. Bem, talvez não feliz. Animado. Algo... Algo em que não iria pensar agora. Ele se levantou, desviando o olhar dela para se distrair. Pegou as calças de um pijama na cômoda e vestiu. – Nós podemos tomar banho mais tarde. Está com fome? Ah, sim, levá-la para o chuveiro... Ele tinha uma queda pelo chuveiro. Ver uma mulher molhada, com água correndo pelo corpo. O vapor subindo ao redor enquanto ele a inclinava e deslizava para dentro... Ele tinha um ótimo banheiro para o sexo. Era grande o bastante para dar uma festa dentro dele. Todo liso, granito claro, com um banco, três duchas, uma ileira vertical de jatos corporais. Ele endurecia ao pensar em Kara no chuveiro, com o corpo molhado... – Que bom que está planejando me alimentar – ela falou, arrancando-o de sua fantasia. – Estou com tanta fome que poderia comer um boi. – As panquecas terão de servir. Tome, isto será mais confortável do que o vestido. Ele lhe deu a parte de cima do pijama, que nunca usava. Ela deslizou a lanela azul-marinho pela cabeça. Ficou enorme nela, com a barra roçando


nas coxas; a parte da frente formou um grande decote em V entre os seios. Kara icava muito melhor no pijama do que ele. Ela estava incrível. Sexy pra caramba. – Está quentinho? – ele perguntou, tentando se lembrar que deviam comer. – Sim. Legal. – Ela icou ao lado dele. Kara continuava alta, mesmo sem os saltos. Aos seus olhos, as pernas pareciam particularmente nuas abaixo da barra da camisa do pijama. – Para a cozinha, mocinha. Você vai me ajudar. – Você é mandão, né? Virou-se para ela, fixando o olhar. – Sim. Eu sou, sim. Ela sorriu. Porém, ele viu suas feições tomarem um ar mais suave com esse pequeno lembrete da natureza do relacionamento entre os dois. Não que fosse um relacionamento. Não, ele somente se referia à dinâmica do sexo. Sim, era isso. Era somente aquilo para ele. Era melhor assim. – Tomara que você goste de xarope de bordo de Vermont. Venha comigo. Ele a conduziu pelo apartamento, com o piso escuro parecendo fresco aos pés descalços. A luz da tarde brilhava através das altas janelas, que abriam uma parede inteira para a cidade e outra para uma vista da baía de Elliott. – Que vista incrível – Kara falou, ao acompanhá-lo. – Foi por isso que comprei o apartamento. Principalmente por isso. – Ele lhe mostraria o banheiro mais tarde, quando terminassem de comer. – Gosto de ver a água durante o dia. E a cidade, à noite. – Dá pra ver tudo daqui, pois ica numa esquina. Nossa, sua cozinha é fantástica! Eles passaram para o outro lado do alto balcão, e Kara correu a mão sobre o granito preto e cinza. Para ele, os armários pretos reluzentes e os utensílios de aço escovado eram bacanas, mas Dante sempre desejou algo um pouquinho mais caloroso. – Na verdade, andei pensando em dar uma reformada – ele falou. – Não sei por quê. É maravilhoso. Ele deu de ombros, colocando pó na cafeteira e ligando. – É que não faz bem meu estilo. É meio frio, não acha? – É lindo, mas acho que entendi sua posição. É tudo bem liso, lustroso. Como é a cozinha dos seus sonhos, Dante? – Kara indagou enquanto ele pegava ingredientes do guarda-louça e da geladeira, uma grande tigela e o


mixer. – Gosto de madeira. Algo mais orgânico. Também gosto da estética moderna, mas precisa ter equilíbrio. Ele mediu a farinha, quebrou ovos, acrescentou baunilha e os ingredientes restantes. E lhe entregou a tigela. – Tome, prepare a mistura enquanto esquento a chapa. Ela pegou e ligou o mixer. Eles icaram em silêncio enquanto o aparelho funcionava, a cozinha ressoava o zumbido grave da máquina, os aromas quentes da baunilha e do café. Com uma sensação envolvente de familiaridade. Ele estava muito à vontade com ela. Não que chegasse a se sentir incomodado com alguém. Ele não era assim. No entanto, havia uma camada extra de conforto com ela. Dante abanou a cabeça, tirou o xarope do armário e botou numa panela com água quente para aquecer em banho-maria. Pegou os pratos, talheres, canecas e jogos americanos de uma gaveta. – Você pode pôr a mesa no balcão – ele disse, tentando retomar parte do controle. Tentando não se distrair demais com as pernas longas dela, com o cabelo um tanto despenteado, balançando as maçãs do rosto enquanto se movimentava. Ele derramou a massa na chapa e a observou criar bolhas, virando as panquecas num prato quando icavam prontas e despejando café nas canecas. – Você parece saber o que está fazendo – Kara comentou, pegando a caneca e bebendo. – Eu falei que gosto de cozinhar. E sempre sei o que estou fazendo. Ele olhou para ela, que abriu um sorriso largo. Kara estava sentada num banco alto, com os cotovelos sobre o balcão. Ela estava um tanto desgrenhada, com as bochechas rosadas. Ele gostava de vê-la assim. E gostava do fato de ela não ser o tipo de mulher que icava calada após o sexo. Deixando tudo mais importante do que deveria ser. Kara se sentia à vontade com ele. Perfeita pra cacete. Dante precisava parar de pensar naquilo. Ninguém é perfeito. Ele não estava atrás da perfeição. Não estava em busca de nada. Nunca esteve. Sua experiência com Erin tinha dado a ele uma bela lição anos atrás. Não era capaz de ser responsável por outra pessoa. Nada disso. Não, ele somente desejava a responsabilidade temporária a acompanhar o jogo BDSM. E quando a noite, o im de semana ou até mesmo alguns meses terminassem, todo


mundo faria as malas e voltaria para casa. Mas ele poderia curtir aquilo enquanto rolasse. Era sua intenção. Terminou a porção de panquecas e as colocou nos pratos, sentando ao lado de Kara, no balcão. Ela caiu matando. Ele também gostou daquilo, de ela não ser uma garota que come feito um passarinho ou, ao menos, assim finge. Ele gostava até da umidade de sua boca ao comer. – Isso tá muito gostoso, Dante! Não me lembro da última vez em que comi panqueca. Nunca comia quando criança, então eu não me lembro direito. – Nunca comia panqueca quando era criança? Ela deu de ombros, dando outra dentada e mastigando por alguns instantes. – É que... Meus pais não eram muito de... Eles não curtiam muito esse lance de serem pais. Minha mãe não cozinhava de verdade… Eu tive uma infância estranha. – Você parecia bastante normal no colegial. – Parecia? Que bom, acho. Meus pais não eram esquisitões nem nada. Só estavam absorvidos pelo trabalho. Concentrados. Quem sabe isso levou à exclusão do resto. Só acho que… a cabeça deles funciona num ritmo incrível, e os dois não sabem desacelerar. Eles são brilhantes, os dois são. – Filho de peixe, peixinho é. Ela enrubesceu. – Nada disso. Meus pais são gênios de verdade. Eu não herdei o QI genial. Foi uma grande decepção para eles. – Ela abaixou o garfo, limpando a boca cuidadosamente. – Deve ser muito di ícil crescer num ambiente desses. – Ela olhou para ele. Querendo ver se ele sentia pena dela, Dante pensou. Não era o caso. – Desculpe. Não queria abrir uma velha ferida. – Não, tudo bem. Não me importo em contar. Não como antes. Quer dizer, não costumo falar muito dessas coisas... Deus do céu, nem sei o que estou dizendo. Ele abaixou o garfo. – Kara, ontem à noite rolou sua primeira experiência com o jogo da dor. Às vezes, isso abre a pessoa. Acontece muito. Talvez você se sinta mais vulnerável hoje. Quem sabe tocando em questões antigas. Algumas pessoas até choram. Ela balançou a cabeça. – Não é nada disso. Não me sinto mal nem assustada. É só... alívio. Libertação. Como se tivesse superado alguma coisa. Aquela abertura. Está me deixando mais leve. Faz sentido? – Faz, sim. Estou feliz que você se sinta bem com isso, porque signi ica que, provavelmente, vai querer repetir a dose. – Ele abriu um sorriso largo, e ela retribuiu. Um sorriso maravilhoso. – Mas me avise se isso


mudar. – Pode deixar. Kara ainda não entendia por que tinha começado a contar para Dante sobre os pais, a infância. Ela não era assim. Não com um homem. E, principalmente, não depois do Jake. Abrir-se com ele o izera fugir. É lógico, porém, que Dante curtia, era adepto daquela prática, justamente o motivo por que Jake a condenara. Mesmo assim, a parte emocional era diferente. Kara costumava abordar esse tipo de assunto com Lucie, sua melhor amiga, não com um homem. – Dante... desculpa. Ele pôs a caneca de café no balcão. – Pelo quê? – Por contar essa história dos meus pais. Meus problemas com eles. Garanto que você não está nem um pouco interessado nisso. Desculpa por ser tão menininha. Ele abriu um sorriso largo. As covinhas voltaram, estimulando-a a tocálas. – Gosto que seja uma menina. – Mas eu não sou assim. Não precisamos ter essa discussão depois do sexo. Esse lance de vamos nos conhecer melhor. Podemos nos resumir ao sexo. Para mim, não tem problema. – Está bem. – Ele estava descon iado, como se não acreditasse na realidade. – Eu falo sério, Dante. Ele concordou com a cabeça. – Tudo bem, mas eu sou bom de papo. No mínimo, faz parte de ser um bom dominador. Mesmo que sejam apenas uns tapinhas, nada muito pesado. Conversar me ajuda a entender como sua cabeça funciona. Como pode reagir a coisas diferentes. – Então essa coisa, o que estamos fazendo... – BDSM –, ele completou a frase dela. – Sim. Parte desse jogo é psicológica? É o que você tá afirmando? – Sim, em sua maior parte. – Ele mastigou o último pedaço da panqueca. – Pense nisso. No sentimento de libertação, de alívio. Faz anos que não te vejo, mas só de conversamos alguns minutos eu sei que você provavelmente controla muito bem seu dia a dia. É con iante. Competente. Alguém que enfrenta tudo. A pessoa a quem os outros recorrem em busca de conselhos ou quando algo precisa ser feito. Estou certo? – Sim, com certeza. – Se entregar pra mim é uma vazão natural pra você. Não apenas se


entregar a mim, mas ao processo. Você não precisa decidir nada. Não precisa fazer nada. Você simplesmente se deita e deixa rolar. Você pareceu ter entendido tudo de imediato, o que me faz acreditar que você precisava muito disso. – Talvez. – Ela fez uma pausa, tentando processar toda aquela informação, como aquilo se aplicava a ela. – Mas em grande parte isso se deve ao fato de você curtir tanto essas coisas. Você não me julgou, nem por um segundo sequer. Ele concordou. – O que nos traz de volta à psicologia. – Ele fez uma pausa, abaixando o tom de voz. – Por que é tão importante não ser julgada, Kara? Ela congelou. Não desejava discutir o assunto com ele. Sobre a vergonha que o namoro com o Jake tinha deixado. A vergonha sentida com tanta frequência enquanto crescia com os pais brilhantes e para lá de bemsucedidos. Nunca boa o bastante. Porém, ali, com ele, ela se sentia muito bem. Pela primeira vez. Era demais para assimilar. E era apenas sexo casual. Kara precisava parar de pensar nisso em termos tão sérios. Ele chamava de “jogo”. Não passava disso. – Muito bem – ele disse após um minuto. – Você não precisa me contar. Eu tenho a tendência de fazer exigências, mas consigo controlar. Ele sorriu para ela, e Kara sentiu que a mudança era para deixá-la mais à vontade. – Você é um homem bacana, Dante. Era verdade. Ele era um bom homem. Um dos melhores que ela conhecera. Kara sabia disso durante o colegial. A tendência parecia apenas haver se acentuado. – Menos quando estou sendo malvado – ele provocou. – Não exatamente malvado. Apenas... perverso. – Mas você gosta disso. Ele alcançou o pulso dela, levantou-o e deixou um suave beijo nele. Mordeu sua carne, somente para ela sentir a ponta aguçada dos dentes. – Eu gosto – ela respondeu, tentando conter, sem sucesso, o tremor da luxúria na voz. Ela voltou a se incendiar por dentro, seu sexo quente outra vez. E ela via o desejo puro e simples no rosto dele. – Já comeu o bastante, Kara? – Por ora.


O tom de voz dele caiu uma oitava. – Então, por que não te carrego pro chuveiro? Ele não esperou a resposta. Pegou sua mão, enlaçou o outro braço ao redor da cintura dela e a conduziu ao banheiro, um dos poucos cômodos com paredes, ocupando boa parte dos fundos do loft. Ele tirou a camisa do pijama e ela icou nua, os mamilos endureceram com o ar frio e a excitação, enquanto ele entrava no boxe e abria o chuveiro. Ele baixou as calças, abriu uma gaveta do moderno armário de madeira bordô e puxou um pacote de camisinhas. – Ah, espero que você pretenda usar todas –, ela falou, enquanto o sexo ficava úmido. Ele abriu um sorriso largo, arreganhando dentes fortes e brancos, covinhas se mexendo e um desejo suave em torno da boca suculenta. Olhando para baixo, ela o viu duro, pronto. Kara estremeceu. – Pretendo fazer um monte de coisas com você ali – ele retrucou, puxando-a para perto. Inclinou-se para beijá-la, com a boca recendendo a café quente e xarope de bordo. Forte e doce, exatamente como ele. E, Deus do céu, ele sabia beijar. Os lábios eram macios, mas exigentes. A língua deslizou para dentro e tomou conta da boca, fazendo-a tremer de desejo, pequenas ondulações propagando-se pelo corpo de Kara. O peito dele era uma parede dura de músculos contra os seios. O abdome dele era igualmente sólido. E o pau rígido pressionando a barriga dela. Ele afastou os lábios dos dela o su iciente para chegarem ao chuveiro. E, então, tudo estava quente e úmido enquanto a água caía, aparentemente de todo os lados ao mesmo tempo. Ela somente sabia que eles estavam se ensopando, com os corpos coladinhos. Pele escorregadia, um aroma cítrico e algo sombrio... o almíscar que ele exalava, ela concluiu. Seu sabonete. O mero perfume dele fazia o corpo dela se incendiar, o sexo latejava de desejo. Então, ele se afastou, mantendo-a a seu alcance. – Nossa, você ica linda assim, Kara – ele disse. – Adoro isso. Ver sua pele molhada. Coberta de água. O chuveiro é outro fetiche meu. A água em si. – Ele correu um dedo entre seus seios, descendo para o centro da barriga dela. – Pele molhada. Eu deveria ter colocado você aqui numa de minhas camisas sociais brancas. Adoro isso. Observar o tecido icando opaco... – Ele tocou a ponta de um dos mamilos com o dedo. – Mas isso também é bom. Ver você endurecer. Observar o rosa escurecer quando você fica mais excitada.


Ela tomou fôlego. Adorava ouvi-lo dizer aquelas coisas. – Dante... – O que foi? – Vem... Ele riu, num tom grave e sensual. – Vem pra onde? – Vem me tocar de verdade. Quero sentir suas mãos em mim. Quero sentir como é diferente na água. Ele riu novamente, um riso baixinho. – Perfeitos pra cacete – ele sussurrou ao envolver ambos os seios com as mãos, deslizando-as pela pele. – Ah, isso é bom... – Ela fechou os olhos, se entregando à sensação. Era diferente. Ela já tinha transado debaixo de um chuveiro, mas nunca se se concentrado naquele aspecto escorregadio antes. Na diferença. Não com nenhum outro homem. Dante a fez ver as coisas de outra forma. Enxergar as coisas sob uma nova luz. E era esplêndido. – É assim que eu gosto – ele falou. – Não abra os olhos, Kara. Não se mexa. Ela se derreteu toda com a autoridade naquela voz. Com o fato de ouvir ordens. Talvez ele tivesse razão em relação aos efeitos em sua mente, mas ela não conseguia pensar nisso. O desejo era uma maré, luindo por ela em ondas como a água que corria sobre sua pele. – Fique aí, isso... e abra as coxas para mim. Boa menina. Um pequeno tremor ao ouvir aquilo. Boa menina. Ela não conseguia avaliar por que adorava ouvir tanto essas palavras. Mas ela não conseguia pensar em nada ao sentir um jato de água contra sua fenda. – Ah... – Parada, Kara – ele repetiu, e ela se forçou a parar de se contorcer. Ela deixou os olhos bem abertos por um momento, viu-o se ajoelhando diante dela, com o reluzente chuveirinho cromado numa das mãos e um sabonete na outra. E quando Kara fechou os olhos novamente, Dante começou a lavá-la. Ela nunca tinha experimentado algo do gênero. Ele a ensaboou com as mãos, os dedos escorregadios. Gostoso. Massageou os lábios da boceta até ela pensar que morreria de sensação. Kara precisou morder o lábio para conseguir icar parada como ele mandou. A respiração estava pesada, arquejante e estridente no peito.


– Você gosta disso – ele disse. – Eu sinto sua carne inchando ao toque. Tô vendo como seu grelo tá grande. Tão lindo. Ele massageou o clitóris, e ela arfou. – Ai! – Shh, Kara. Quieta. Fique paradinha para mim. Você consegue. O jato de água quente lavava a abertura, e o prazer era feito seda. Macio, sinuoso, trêmulo pelo corpo. Ela respirou e segurou, enquanto ele afastava a água e retomava o trabalho com a mão escorregadiça. – Abra mais – ele ordenou, e ela abriu as pernas sem hesitar. Ela percebeu a mente se dirigindo a algum lugar nebuloso, meio que se esvaziando. Ficando em silêncio. Feito um ruído branco suave dentro da cabeça. – Bom, Kara –Dante falou. – Fique quietinha. Novamente um jato de água no alto das coxas, mas desta vez mais forte, o martelar duro do ciclo de massagem direto no clitóris. Ela tinha de trancar as pernas, tinha de conter o clímax. – Você precisa gozar? – ele perguntou. – Sim... agora! – Agora não, Kara. Controle-se. Segure-se nesse limiar. Segure até eu dizer que quero ver você gozando. – Ai, meu Deus... Mas ela engoliu em seco, concordando. Juntou forças contra o ataque violento da sensação. – Pense em tudo que está sentindo. Diferencie cada sensação – ele instruiu, com voz suave. – A água do chuveiro lá em cima. Minha mão em você. Minha voz. A textura do sabonete. Já sentiu algo tão escorregadio na vida? Eu não. No sabonete e no quanto sua boceta tá molhada agora. É incrível. Ela tentou obedecer a ordem. Dentro da cabeça, Kara dedicou um tempo para reconhecer cada sensação por si só. O ato parecia fazer tudo se intensi icar, se multiplicar. Ela respirou profundamente, segurando o ar nos pulmões. – Boa menina, Kara. Isso. Pense no prazer crescendo dentro de você. Segure-o. contenha-o. Por mim, Kara. – Sim – ela sussurrou. – Por você. – Ah, é exatamente isso o que desejo de você. Um aumento do prazer no tom de sua voz. Por saber estar fazendo o que ele queria, o que exigia dela.


– Vou deixar você gozar num instante – ele falou. – Ah, por favor... Ele correu os dedos pelo seu sexo, o sabonete tornava o toque insuportavelmente escorregadio ao mover a mão para cima e para baixo. Mais e mais rápido. – Dante! – Segure, Kara! – Meu Deus... Ele continuou esfregando, a mão deslizante enviando desejo através dela, furando-a. Era incrível como o prazer era nítido ao toque da maciez dos dedos ensaboados. O clímax parecia um muro de prazer, esperando para desmoronar sobre ela. – Dante, por favor. Por favor – ela suplicou. – Quase, minha menina bonita. Os dedos dele deslizaram sem parar sobre o duro e desejante botãozinho de carne. Depois, ele parou. Uma respiração, duas. Ele beliscou com força. – Ah! – Dói, né, Kara? – Sim – ela ofegou. – O que mais? – ele perguntou, novamente num tom autoritário. – A sensação... é tão gostosa... Ele beliscou mais ainda, puxando com força ao mesmo tempo. – Ai, meu Deus, Dante! Eu não consigo... – Respire, Kara. Ela respirou, puxando o ar vaporoso para os pulmões, o corpo suspenso, ansioso. – Agora, Kara. Goze para mim, agora. Os dedos dele começaram aquele adorável deslizar novamente, e ela gozou quase na mesma hora em que ele deu a autorização. Parecia uma luz branca tremeluzindo dentro dela, fazendo o corpo se arquear, em choque. Ela gritou enquanto caía, e ele a segurou em seus braços. Ela ainda estava gozando. Tremendo. Os dedos dele continuavam a trabalhar entre as coxas. Ele sussurrou ao pé do ouvido dela: – Boa menina. Minha menina bonita. Muito bem, Kara. Quando os tremores mais fortes pararam, ela percebeu estar sentada no colo dele no chão do boxe. Os braços dela agarravam-se forte ao seu pescoço. E os braços de Dante a continham com força.


Ela ainda tremia um pouco, o último dos minúsculos estremecimentos do orgasmo rolando dentro de si. Ela se sentia maravilhosa. Tirando uma pequena parte do cérebro dizendo que aquilo era bom demais. Bom demais para durar. Bom demais para ela. O sexo. Dante. Não pense. Não pense. Ela mal conseguia raciocinar. A mente estava entorpecida demais para processar uma ideia por completo. – Ei, tudo bem, Kara? O que está acontecendo com você? – Dante perguntou. – Sim. Sim. Tudo bem. Desde que ela não fosse àquele lugar onde não era boa o suficiente. – Você é mais do que boa – ele a irmou, num tom de voz baixo e cheio de névoa. – Você é fantástica. Gozou tão forte. Eu adorei você ter simplesmente desmoronado assim. Nossa, ele falou a coisa mais perfeita, exatamente o que ela precisava ouvir. Aquela aprovação cristalina na voz. – Só que agora eu preciso comer você, Kara. – Ele pegou a mão dela e abaixou entre eles, enrolando seus dedos em volta de seu pau grosso. – Tá sentindo como eu tô duro por sua causa? Vem, faz um carinho nele. Ela o acariciou, movendo a mão por toda sua extensão. O pau era grande, a carne pesada, inchada. Ela lambeu os lábios, outra fagulha de desejo a incendiá-la como uma sequência de minúsculos fogos de arti ício explodindo por dentro. Ela adorava tocá-lo. Adorava senti-lo na mão. Havia um quê de poder nisso. Atordoante, ao senti-lo pulsar na palma. O poder consistia em ser capaz de lhe dar prazer. Em satisfazê-lo ela mesma. – Ah, como é bom – ele sussurrou, com as mãos movendo-se sobre ela. – Mas eu preciso ficar dentro de você. Ele se pôs de pé, agarrou-a e a levou junto. Pegou uma camisinha do pacote deixado numa das prateleiras embutidas no granito claro do boxe e, abrindo com os dentes, ele pegou a bainha de látex e a deslizou sobre a ereção. Ela não conseguia acreditar em como aquilo era completamente sensual, ao vê-lo manusear o pênis com tamanha habilidade. Enxergando como ele estava duro. – Abre as pernas pra mim, Kara. Isso, desse jeito. Ela separou as coxas, e ele pegou uma das pernas dela e passou ao redor da cintura, abrindo-a. Ela se segurou nos ombros fortes dele, e,


enquanto a água corria sobre o corpo dos dois, ele meteu fundo dentro dela. – Ai, Dante! – Que delícia. Nossa, Kara... O prazer era tão líquido quanto a água caindo do chuveiro: tão quente e sinuoso. A sensação se movia pelo corpo dela, em ondas, depois num crescendo enquanto ele metia nela, sem parar. A boca de Dante estava sobre a de Kara, a beijá-la, dando mordidinhas nos lábios. E cada incada dos quadris dele, cada mordida dos dentes a iados parecia um pequeno orgasmo em si mesmo. Era deliciosa a sensação dele entrando e saindo dela. Arrebatadora. Além disso, o corpo dela ainda sussurrava com o orgasmo. A cabeça zunia com as coisas que aprendera sobre si mesma, sobre a troca de poder que ele tinha tentado lhe explicar, a qual ela inalmente começava a compreender. A pele dele era incrivelmente macia sob suas mãos, e ela agarrava os ombros dele cravando as unhas na carne. Ela precisava disso, de alguma forma. Era intenso demais; ela não conseguia evitar. Não conseguia controlar a respiração resfolegante, seu quadril se arqueando ao encontro dele, querendo levá-lo ainda mais fundo. Enquanto o vapor crescia ao redor deles, envolvendo-os num abraço quente, os dois gozaram. Um dizia o nome do outro, com os quadris se batendo. Era uma mistura de necessidade e satisfação destruidora. Carne molhada e prazer espantoso, puro. E Kara largou mão de tudo – do corpo, da mente – e se deixou levar. Para dentro do Dante. Pela primeira vez, ela se deixou ficar completamente perdida.


CINCO

Kara se sentou à escrivaninha no escritório, bebendo o latte duplo, tamanho extra, tão necessário naquela manhã. Ela estava cansada, exausta e um pouco machucada após o fim de semana com Dante. Dante... Meu Deus, o homem era insaciável. E ela também. Eles mal deixaram a cama durante o im de semana inteiro, nem o chuveiro, onde transaram pelo menos quatro vezes. Dante tinha mesmo uma coisa com água. Ela não se importava. Na verdade, adorou. Adorou o aroma de limpeza do sabonete, do ar vaporoso. Ele a ensinou a realmente se ligar na sensação, e a água era incrível na pele dela. O simples fato de tomar banho de manhãzinha depois que ele a deixou tinha tomado uma aura sensual. Fora um im de semana incrível, e, quando ambos acordaram no começo desta manhã, ela não desejava que terminasse. Porém, era segunda-feira, e hora de trabalhar. Não que ela conseguisse se concentrar em alguma coisa. Ela quase não tinha dormido, estava acabada, suas zonas erógenas doíam. E pensando no Dante. Ele também não estava pronto para sua partida. Aquilo icou cristalino quando ele a acordou às 5h30 para transar. Invadindo-a quando ambos ainda estavam grogues, sonolentos; os quadris dele bombeando até os dois gozarem, ofegando seu prazer no silencioso ar matinal. Independentemente de quantas vezes tivessem transado no im de semana, ele continuava duro por ela. E havia alguma coisa que ela adorou naquele sexo antes do amanhecer, quando ambos ainda estavam quase dormindo. Ele estava irresistível, com o cabelo desgrenhado, a barba rala, escura e áspera no queixo. Dante parecia mais masculino. Mais primitivo. Havia um quê quase surreal naquilo. Quase romântico. Não comece. Ela engoliu o café, deixando o calor relaxá-la um pouco. Não era uma garota do tipo romântico. A última parte desse outro “eu” tinha se


aniquilado com Jake. Não importava o quanto o sexo era voluptuoso com Dante: ela se lembraria de que se tratava apenas daquilo, de sexo. O sexo mais picante e intenso que ela já pôde experimentar. Mas, ainda assim, nada além de sexo. Não se importava com isso. Era apenas uma intensa ligação química. Sem amarras. Como se conheciam havia tempo, também era confortável, mesmo que eles não tivessem mantido contato. Ele era familiar o bastante para não provocar a impressão de ela ter dormido com um estranho completo. Amistoso e casual, nada além disso. Porém, ela estava contente por Dante haver dito que lhe telefonaria hoje, que voltariam a se ver. Ela se deixou afundar na cadeira, tomando outro gole de café, e olhou pela janela que dava para o centro de Seattle. Ainda chovia um pouquinho. Kara não se importava. Aquilo lhe dava a sensação de estar protegida, de alguma forma. Olhando para baixo, ela via os guarda-chuvas movendo-se pela calçada, com as pessoas escondidas sob eles. Por que esta vista familiar parecia diferente hoje? Por que ela se sentia tão diferente? Seria o efeito colateral psicológico de que Dante tinha falado? Ela não se sentia mal. Apenas... um pouco mudada. Correu os polegares pelo grosso copo de papel, aproveitando o calor. Lembrando-se do calor das mãos de Dante na sua pele... Seu sexo icou úmido e ela cruzou as pernas, tentando conter aquele latejar. Dante... Kara podia descrever seu profundo olhar castanho, olhos tão intensos que ela, às vezes, mal conseguia suportá-los, mas, ao mesmo tempo, a atraíam. A boca era realmente suculenta demais para um homem. Ela gostava de como suavizava os traços angulosos, adorava o contraste da coisa. E as ordens autoritárias partindo daqueles lábios delicados... Era bom demais. Ela também se lembrou de como ele usava a boca. Por toda a pele dela, no meio das coxas. Suspirou, ficou excitada. E saltou quando o celular tocou. Ela passou a mão sobre o cabelo, como se alguém pudesse vê-la, antes de pegar o aparelho. – Alô? – Kara. A voz dele era profunda, rica. Sensual pra caramba. – Dante. Bom dia. – Sim, é. Como vai?


– Cansada, mas bem. – Dolorida? – Sim, um pouco. – Mas você gosta. – Era uma a irmativa, não uma pergunta. Ela também gostava daquilo. – Sim. – Ela riu. – Gosto bastante. – Que bom, então ainda está interessada em repetir a dose? – Talvez esteja. – Ah, é tarde demais para bancar a tímida comigo. Eu te vi gozar em minhas mãos hoje cedo. O corpo dela pegou fogo só de ouvir aquelas palavras. – Dante... – Sua mão tá descendo pra aquele lugar agora mesmo, né, menina bonita? Mas vou parar por aqui. Sei que precisa trabalhar. Ela respirou fundo, tentando se acalmar. – Também está no trabalho? – Sim. Primeiro dia num emprego novo. Belo escritório. Acho que vou gostar daqui. E existem ótimos lugares para comer neste bairro. Talvez possamos nos encontrar para almoçar nesta semana. Algum restaurante com toalha de mesa comprida. Tenho a fantasia de te fazer gozar debaixo da mesa. Em algum lugar meio público. O que me diz? Nossa, ela estava se encharcando. – Acho que é... muito interessante. Ele riu, parecendo satisfeito. – A que distância você trabalha? – ele perguntou. – Acabei de perceber que nunca perguntei o nome da empresa onde trabalha. Nós nos ocupamos demais com outras coisas. – É... – O ramal dela tocou. – Desculpe, Dante. O telefone da minha mesa tá tocando. Pode esperar um momentinho? – Sem problemas. Vou te deixar com esse pensamento e retorno à noite. Tenho uma reunião em questão de minutos. – Ok. – Tenha um bom dia. E, Kara, pense naquele almoço. – Hum, eu vou pensar. Eles desligaram, e ela pegou o telefone em cima da mesa. – Oi, Ruby. O que foi? – ela perguntou à secretária. – Eu iquei de lembrá-la sobre a reunião que começa em cinco minutos na grande sala de reuniões. – Ah, eu tinha me esquecido disso. Estou meio devagar hoje. Obrigada, Ruby. Já tô indo pra lá.


Ela engoliu um pouco do latte, abriu o espelho compacto que guardava na mesa para retocar o batom, se levantou e ajeitou a saia cinza. Hora de esquecer o Dante e se concentrar no trabalho. Ela abriu a porta da sala e entrou no corredor, os saltos ecoavam no assoalho. O escritório da Kelleher, Landers & Tate localizava-se num belo prédio clássico de tijolos, com janelas altas e toda a magní ica arquitetura antiga preservada. Kara gostava das molduras com formato de coroa no roda teto , do piso de tábuas largas e do fato de sempre mobiliarem o escritório com antiguidades ou, pelo menos, suas reproduções, dando a impressão de um ambiente da década de 1940 não fossem os computadores em cada mesa. O ambiente de trabalho se tornava mais aconchegante do que os escritórios muitas vezes estéreis e tão comuns em outros lugares. Enquanto entrava na sala de reuniões, ela se lembrou que iriam apresentar um novo sócio minoritário naquele dia. Tinha se chateado com isso na semana anterior. Para ela, seria mais justo contratar alguém da empresa. Não que estivesse quali icada; tinha pouco tempo de casa. Contudo, várias pessoas poderiam ser escolhidas. Theresa Jackson estava ali havia anos, fazendo muita hora extra. O mesmo também se dava com Gary Auerbach. Aparentemente, o novo sujeito era um bambambã roubado de outra irma, e por isso, imaginava, ainda não haviam anunciado quem era. Ela acenou com a cabeça para os outros advogados presentes no recinto e encontrou um lugar vago na enorme mesa de carvalho. Ruby entrou logo atrás dela e icou contra a parede, bloco de notas na mão. Ela sorriu para Ruby, que retribuiu com uma piscadela. Ruby era a mais jovem das secretárias e estava havia pouco tempo no escritório, mas sua e iciência era impressionante. Ela trabalhava para vários advogados da irma, mas sempre estava disponível quando Kara precisava de alguma coisa – ela era uma dessas pessoas incríveis. Kara gostava dela; as duas almoçavam juntas de vez em quando. Ruby era boa companhia. Kara pegou a jarra d’água no centro da mesa, encheu um copo e bebeu. Quase cuspiu a água quando o novo sócio minoritário entrou na sala acompanhando o chefe, Lyle Kelleher. Dante. Ela tomou outro gole de água, tentando não tossir nem atrair atenção para si mesma. Puta que... Ela engasgou, fazendo força para engolir, e Dante a viu. Ele levantou a


sobrancelha, mas, tirando isso, o rosto permaneceu sereno. Ela não conseguia acreditar naquilo. Respire, Kara! Ela inspirou, observando-o enquanto ele se sentava na outra ponta da longa mesa. Ao seu lado, Theresa perguntou, num sussurro: – Tudo bem, Kara? – Quê? Sim. Estou bem. Obrigada. Porém, por dentro, ela estava pegando fogo. Queimando com quantidades iguais de luxúria e ansiedade. Ele não podia ser o novo sócio minoritário. Ela não deveria gostar do novo sócio minoritário. Ele era o inimigo. O homem que tinha tirado o emprego de duas pessoas admiradas por ela, que mereciam ser promovidas. Sem sombra de dúvida, ela não deveria dormir com o novo sócio minoritário. Que diabos ela iria fazer? Kara deu uma olhada para Theresa, cujo rosto permanecia calmo. Entretanto, The​ resa sempre parecia tranquila; era uma das características a torná-la uma advogada tão boa. A única coisa a trair sua expressão serena e aparência impecável era o brilho nítido nos olhos castanhos e um leve tremor no coque perfeito. Kara estava tremendo por dentro. Ela entrelaçou as mãos no colo e tentou respirar profundamente. A cabeça estava a cem por hora. Não podia ser o Dante, mas Lyle o levava para se sentar ao seu lado, à cabeceira da mesa. O velhote estava sorrindo, com ar de satisfação, balançando a cabeça grisalha enquanto cochichava algumas palavras com o novo sócio minoritário. Merda. Os demais entraram e se sentaram, e Lyle se pôs de pé. Ele tinha quase setenta anos, mas se mantinha empertigado, um homem poderoso e elegante. – Gostaria de lhes apresentar Dante De Matteo, o mais novo sócio minoritário da Kelleher, Landers & Tate. Todos aplaudiram quando Dante se levantou e sorriu para o pessoal. Kara também tentou sorrir, mas sabia estar com o rosto congelado. Dante deu uma olhadinha nela, mas afastou o olhar rapidamente. Sua expressão não revelava nada. Certamente ele estava tão perplexo quanto ela. Será? Lyle prosseguiu: – Dante tem um currículo espantoso para um homem de sua idade e experiência. Tivemos muita sorte ao convencê-lo a se juntar a nós. Sei que vocês farão o possível para recebê-lo bem, ajudando-o a se


acostumar à nossa irma. E garanto que icarão tão contentes quanto eu com a sua presença. Esperamos grandes coisas deste rapaz. Grandes coisas. – Lyle sorriu satisfeito. Ah, sim, grandes coisas, no que dizia respeito a Dante... Meu Deus, ela não deveria pensar assim no trabalho! Mas não conseguia evitar. Enquanto o ressentimento pelo cargo não ir para Theresa ou Gary se diluía pelo organismo, sem falar no choque de ver Dante na sua empresa, o desejo tomava corpo em suas veias. Ele estava maravilhoso no terno cinza-escuro. A camisa tinia de branco, a gravata, num tom âmbar vivo, brilhante, fazia seus olhos quase parecerem ouro líquido. O homem sabia se vestir. E como sabia. Ela cruzou as pernas, tentando ignorar o repentino e agudo latejar entre elas. Isso não era aceitável. Ela não podia desejar um homem com quem trabalhava. Certamente, não poderia mais vê-lo. O caso estava fadado ao desastre. E ele era sócio minoritário, ou seja, trocando em miúdos, ela era sua subordinada. Merda, de novo. Ela precisava se acalmar. Resolver a questão. Devia voltar à sala dela, ligar para a Lucie e discutir o assunto. Kara não era do tipo de mulher que normalmente contava à melhor amiga todos os detalhes da vida sexual, mas ela não conseguiria lidar com a situação. Um desastre. Era isso mesmo. Lyle terminou de falar. A seguir, os outros sócios, Edward Tate e Charles Landers, um de cada vez, se levantaram e elogiaram as virtudes de Dante antes de a reunião terminar e todos poderem se apresentar e apertar sua mão. Kara se afastou, pressionando as mãos nos quadris para não terminar contorcendo os dedos feito uma velhinha ansiosa. Ruby se aproximou. – Sei que icou com raiva por Gary ou Theresa não receber a promoção – ela disse, num tom de voz baixo –, mas você parece muito chateada, Kara. – Quê? Estou bem. É que… Sim, estou chateada. Por eles. Ruby assentiu com simpatia, os cachinhos castanhos acariciando as bochechas. – Talvez ele meta os pés pelas mãos e os chefes vejam o equívoco. Kara fez que sim com a cabeça, sem tirar os olhos de Dante, que conversava confiante com o pessoal. – Não. Acho que não.


– Tudo bem com você? –Ruby questionou. – É lógico que sim. – Ela se virou para a colega. – É melhor eu dar um olá. – Kara sorriu languidamente e foi em direção do pequeno grupo reunido ao redor de Dante. Ele captou o olhar dela enquanto se aproximava, dando um sorrisinho. Então, ele estava levando numa boa. Boa ideia, ela sabia. Ainda assim, sentia um pequeno frio na barriga. Algo dentro dela desejava que ele a reconhecesse de alguma outra forma. Deixa de ser boba. Ela não podia contar com isso. Tratava-se de seu trabalho, de sua carreira. Um caminho desejado mais pelos pais dela do que por si mesma, mas ela deu o sangue na faculdade e depois para passar no exame da ordem, conquistando-o. E não seria agora que ela faria besteira ou arriscaria o emprego por causa de um homem. Theresa, de pé ao lado de Dante, pegou a mão de Kara. – Dante, esta é Kara Crawford. – É um prazer revê-la – ele falou suavemente. Ela precisou engolir em seco, captando a dica. – Igualmente. Faz bastante tempo. O colegial terminou há mais anos do que gosto de pensar. Tomara que goste daqui. Ele sorriu, as covinhas marcavam as bochechas. Lindo e charmoso como sempre. – Garanto que sim. Por que diabos ela se sentiu tão abalada? Poucos minutos atrás eles estavam se provocando pelo telefone. Poucas horas atrás os dois rolavam nus na cama dele. Ele era apenas um homem. Somente outro homem. Mentirosa, mentirosa... Ela precisava sair dali. Seu nariz está crescendo... – Se vocês me derem licença, preciso ligar para um cliente – ela conseguiu balbuciar. Kara acenou com a cabeça, abaixou o olhar e deixou a sala de reunião, indo o mais rápido que podia à privacidade de sua sala. Fechou a porta atrás de si, inclinou-se contra ela alguns instantes, tentando recuperar o fôlego. Depois, foi até a mesa, pegou o telefone e ligou para Lucie. Ela ouviu a linha chamando, o coração disparado, torcendo para Lucie não estar ocupada e poder conversar. A amiga tinha ampliado havia pouco tempo o serviço de bufê, Luscious, e vinha passando horas coordenando a reforma da nova cozinha que alugara, um passo enorme, Kara sabia.


– Anda, vamos logo – ela sussurrou, caminhando pela sala, o telefone agarrado aos dedos. – Alô? – Lucie! Graças a Deus você atendeu. – Minha nossa, Kara, tá tudo bem? – Por que todo mundo me pergunta isso? – Certo, e você tá bem? – Sim, tô. Acho que sim... – Ela fez uma pausa, respirando profundamente. – Não sei como estou. – Pode ser mais clara? Tem algo a ver com um hospital? – Quê? Não, nada disso. Não é nada sério. Digo, é sério, mas não tem ninguém morrendo. Só eu. – Ela foi para trás da mesa e se sentou na cadeira, tirando o cabelo do rosto. – Desculpe. Acho que não estou sendo clara, né? – Não. Pode tentar ser? – Lucie perguntou. – Está bem. Está bem. – Kara pegou a garrafa de água que mantinha na mesa e deu um gole. – Você se lembra daquela noite na festa na sua casa? – Bem, eu tomei muito vinho. Do que estamos falando especificamente? – Dante De Matteo. O simples fato de falar seu nome a esquentava toda. – Ah, sim. Vocês dois estavam na varanda conversando, eu saí e... Eu interrompi alguma coisa? – Lucie parecia triunfal. – Não muito. Não naquela hora. – Desembucha, Kara. O que aconteceu entre vocês? E nem tente negar que não rolou nada. Dá para sentir na sua voz. – Ah, eu não tô negando. Tô ligando pra contar. É que... Tô meio sem fôlego. – Foi tão bom assim, é? – Lucie… – E aí, foi? – Lucie a pressionou. Kara gemeu: – Sim. – Então, vocês passaram dos limites? Não tem nada de mais. Você não é virgem nem eu. Não vou julgá-la, querida. – Não é isso. – Kara deu outro gole na garrafa de água, desejando um cafezinho fresco. Ela pegou a xícara do latte, sacudiu-a e, como estava vazia, a colocou de volta na mesa, dando um breve suspiro. – Passamos o im de semana inteiro na casa dele. E foi... maravilhoso. Não tô dizendo que estou apaixonada pelo cara nem nada, só que o sexo foi incrível. Nós ficamos de nos ver novamente. E então hoje cedo… Ai, meu Deus.


Kara fechou os olhos, pressionando a testa latejante com a mão. – O que foi? Ele deu uma de cretino? Eu não me importo se fomos todos amigos no colegial, não será nenhum problema ligar para ele e soltar o verbo. – Ele não foi um cretino, e me deixou em casa pela manhã. Depois de transarmos ao nascer do sol. Pela centésima vez. Então, vim trabalhar... e ele está aqui. – Na sua sala? Ele passou no seu trabalho? – Não. Ele simplesmente estava... aqui. Ele trabalha aqui, Lucie. Não apenas trabalha aqui como também é novo sócio minoritário. – Quê? – Lucie ouvira Kara reclamar semanas sobre a firma se recusar a promover algum funcionário, então ela sabia o peso daquele cargo para ela. – Você tá brincando. – Quem me dera. – Deve ter sido um choque e tanto. E você não pode nem odiá-lo porque ele foi ótimo na cama, né? – Não – Kara suspirou. – De jeito nenhum. Por outro lado, também não posso voltar a vê-lo. E nós temos de falar sobre isso. Acho que hoje à noite depois do trabalho. Não tô muito animada com a perspectiva. E trabalhar com ele será muito desconfortável. Principalmente porque… eu adoraria continuar transando com ele. – Foi tão bom assim? De verdade? – Foi. – Uau! Mesmo naquele instante ela conseguia se lembrar, sentindo o martelar do coração, da sensação do corpo a pressioná-la. O cheiro masculino intenso de sua pele. As mãos de Dante a tocá-la. Sua boca … – Então, vai falar com ele hoje à noite? – Hum? Ah, sim, eu preciso. Falaria com ele antes, mas ele é o astro do show agora. Os sócios estão exultantes, apresentando ele como se fosse um cavalo premiado. Todo mundo tá bajulando. E eu tô trancada na minha sala, pra não precisar encará-lo diante de todos. – Vai icar muito mais fácil depois de você conversar com ele. Diga apenas que, como trabalham juntos, namorarem seria má ideia. – É ruim, né, Lucie? – Kara perguntou baixinho. – Sim. Você não tá pensando em... – Não. É claro que não. – Nem se ele a beijasse até ela perder o fôlego. Ainda que simplesmente estar ao lado dele fosse tão bom. Maravilhoso. Fosse estar segura, por um motivo que não conseguia compreender. Ela


olhou para a janela, lembrando-se da sensação de proteção com ele, durante o im de semana inteiro em seu apartamento, com o mesmo céu nublado lá de fora. Lembrou-se como as mãos dele eram quentes e fortes na carne dela... – Sem sombra de dúvida. – Ligue depois de conversar com ele, Kara. A gente podia marcar um almoço um dia desses. – Tá com tempo livre? Sei que você tá envolvida até o pescoço na reforma. – É claro. Os caras sabem se virar sozinhos durante uma hora. Além disso, tá quase icando do jeito certo. Eles devem estar cansando de eu controlar cada detalhe. E a nova cozinha não fica tão longe de você. – Seria ótimo. Eu me sinto... meio abalada com tudo isso. Não sei bem por quê. – A gente se fala pessoalmente. Falando nisso, alguns dos operários são muito bonitinhos. Que tal se eu arrumar um deles para você? Dizem que a melhor maneira de esquecer um homem é com outro. – Não tô a fim, mas valeu, Lucie. Ela ouviu a amiga provocá-la: – Você tá caidinha. – A gente se vê logo. – Tá bem. Aguente as pontas, querida. Tchau. Elas desligaram o telefone, Kara ligou a tela do computador e começou a examinar os e-mails. Lucie tinha razão. Ela superaria isso. Não se tratava de ela querer algo além de um pouco de sexo ótimo. Era mais legal estar com um conhecido, e só. Era confortável. Confortável, não, seguro. Mas segurança não signi icava que ele não izesse o pulso dela disparar, o coração bater com algo além de mera luxúria. Não. Era apenas química, nada mais. Dante apenas... tinha o aroma certo. Ela fez que não. Kara precisava parar de pensar nele daquele jeito, e mais como colega de trabalho. Um que ela veria todo santo dia. Suspirou novamente. Não ia ser fácil. Concentrou-se no monitor e na caixa de entrada. Duas mensagens de clientes. Vários de outros advogados da irma com quem dividia casos. Um punhado de e-mails da Ruby relembrando os telefonemas que deveria fazer, novos compromissos para anotar na agenda. E um do Dante, enviado há poucos instantes. Droga.


Ela mordeu o lábio e clicou nele. Almoça comigo? Estava assinado “D”. Ela começou a digitar que não seria uma boa ideia deixar o escritório, saber que já se conheciam depois de ingirem não se ver desde o colegial, de como tinha certeza de que os sócios gostariam de almoçar com ele para celebrar seu primeiro dia, a inal, e de como provavelmente não deveriam almoçar juntos, nunca. Depois, ela apagou tudo e recomeçou. Kara simplesmente escreveu que não achava ser uma boa ideia e que eles deveriam conversar mais tarde. Curto demais? Mas ele era um homem; eles geralmente gostavam de ir direto ao ponto em vez de ter uma conversa longa, demorada. E ele não icaria magoado. Ela tinha certeza de que também para ele tinha sido somente sexo. Principalmente depois de ele contar sobre aquele estilo de vida. Provavelmente ele icaria aliviado ao se livrar de uma enrascada sem precisar ter “a conversa” com uma mulher chorosa a respeito de como as coisas não estavam dando certo. Ela se viu fechando a cara. Não queria que ele se sentisse aliviado. Impossível. Nada mais iria acontecer entre ela e Dante. Era melhor assim. A inal, iria terminar cedo ou tarde. Porém, sem sombra de dúvida, ela iria sentir falta do sexo. Do sexo pegando fogo que serviu para realizar todas as fantasias sombrias que já tivera. Com o cara com quem sonhara desde o colegial. E, no fim das contas, se revelou ainda melhor do que jamais ousaria imaginar. Ela mordeu o lábio e clicou em “enviar”.


SEIS

Dante estava sentado no escritório novo, olhando a tela do com​ putador. Ela havia mesmo dito não? Isso pegou ele de surpresa, encontrar Kara no escritório, descobrir que o novo emprego era na irma onde ela trabalhava. Porém, para ele, tinha sido uma surpresa agradável. O único problema foi tentar não transparecer que sua cabeça foi imediatamente tomada por fantasias com ela se inclinando sobre a mesa... Está certo, trabalhar com uma mulher com quem você dorme poderia ser complicado. Contudo, por ora, ela lhe parecia do tipo lógico. Não das que se envolvem demais. Emotivas. Não que ela fosse fria. Nada disso. Ele percebeu nela uma independência que combinava com a sua. Tinha certeza de que ela saberia manter tudo casual entre eles. E continuava a pensar assim. Eles transaram o im de semana inteiro. Na cama, no chuveiro, no tapete da sala... Ele bateu nela, beliscou, meteu com tanta força que a região da pélvis estava dolorida. E ela havia adorado tudo. Kara nunca se mostrou carente, nunca pediu nada dele. Foi ele quem sugeriu que mantivessem contato, encontrando-se naquela semana. O que tinha dado nela agora? Deve ser a questão do trabalho. Porém, desde que ambos concordassem com nada além de um pouquinho de sexo amigável – está bem, mais do que um pouquinho – não precisaria haver problemas. Eles poderiam ser discretos. Talvez até servisse para manter as coisas interessantes. Muito interessantes... Ele quase desejava que ela fosse sua secretária, em vez de uma advogada da irma. Seria outra fantasia envolvendo o desempenho de um papel com que já brincara antes. Mas ele precisava admitir também que existia algo de atraente no poder da posição dela. Ele sempre preferia uma mulher tranquila, que fosse semelhante a ele em todos os aspectos. Levá-la à submissão no quarto tinha sido ainda mais satisfatório com aquele tipo


de mulher. Vencendo sua força. Era aí que o verdadeiro jogo de poder acontecia para ele. Kara era forte. Ele percebia isso dentro dela. Agora, ele queria vê-la em sua sala, pelada, deitada no seu colo... Sorriu para si mesmo enquanto digitava no teclado: Inaceitável. Nijo Sushi à uma da tarde. Espero ansioso. D. Ele enviou o e-mail e recostou-se na cadeira, feliz consigo mesmo. Kara pode ser forte, mas ele também conhecera seu lado submisso. E ele sabia como ela reagiria à mensagem, mesmo não querendo. Agora ele só precisava esperar até a hora do almoço, quando poderia vê-la. Falar com ela. Era um tanto ridículo ele se esforçar tanto com essa mulher, mas aquele tipo de sexo não aparece todo dia. Quente, primitivo e... de certa forma fácil entre eles. Não complica, cara. Ele correu a mão pelo queixo. Não precisava ser complicado. Então, eles trabalhavam juntos. E daí? O que acontece quando acaba e vocês precisam se ver todo dia? No entanto, ele não queria pensar nisso. Não conseguia. Somente podia pensar em ver Kara, tirando a beijos a teimosia de sua boca. Quem sabe lá no restaurante, com sushi e chá. Ele lidaria com o resto conforme as coisas fossem acontecendo. Por ora estava tudo bem. Tinha um novo emprego excelente, novos chefes que pareciam gostar dele, Kara Crawford somente a algumas portas de distância. E o cheiro dela ainda estava sobre ele, mesmo depois do banho matinal. Legal. Ah, sim, ele iria gostar dali. E Kara iria gostar de sua presença. Ele faria de tudo para que assim fosse. Dante chegou ao Nijo Sushi alguns minutos antes do combinado. Ficava longe o bastante do escritório para ter quase certeza de que não seriam avistados juntos, o lugar icava perto demais da orla turística para a maioria dos empresários. Ele tinha encontrado o melhor amigo, Alec, para jantar no mesmo restaurante poucas semanas atrás e apreciado a comida


e a elegante decoração urbana. A recepcionista o instalou numa mesa no fundo do recinto e ele pediu um bule de chá verde do garçom. Queria saquê, mas era um dia de trabalho. Geralmente não bebia durante o expediente. Ele não sabia ao certo por que a ideia tinha cruzado sua mente agora. Exceto pela vaga sensação de precisar se acalmar. Ela é apenas uma mulher, como qualquer outra. Aquilo era besteira. Ela não se parecia com ninguém que conhecia. Contudo, ele conhecia a Kara desde o colegial. Doce, inteligente e linda. Esses aspectos dela não haviam mudado. Agora, ela era uma mulher completa. Mais forte. Mais experiente. Mais bonita do que nunca. E ele estava bancando o idiota. Que diabos estava errado com ele? Quando o garçom voltou com o chá, ele pediu o maldito saquê. Olhou o relógio. Era uma hora e cinco minutos. Cedo demais para saber se ela viria. Ele tamborilou os dedos sobre a mesa, olhando distraído o recinto, absorvendo as paredes de tijolo à vista, a iluminação suave, as outras pessoas almoçando, conversando. Havia um bom número de pessoas, mas ainda assim existia algo tranquilo e íntimo no lugar, um dos motivos pelos quais ele o escolheu. Quando o saquê chegou, ele ignorou o chá, verteu a bebida gelada do decantador de porcelana branca num copo pequeno e tomou um gole. Olhou novamente o relógio: uma e dez. Será que ela o derrotara, a inal? Se fosse o caso, qual seria o próximo passo lógico? Certamente era uma experiência nova para ele, acostumado a estar no controle. De tudo. Ele preferia assim. Gostava, talvez necessitasse, estar no comando das coisas. Tudo funcionava melhor desse jeito. Chega de histórias tristes como aquela com Erin na faculdade. Nada de dar chance para aquilo acontecer. Desde que ele estivesse no controle, poderia se responsabilizar por tudo. Ser homem não se resumia a isso? Exatamente como seu pai tinha ensinado. Na verdade, martelado nos ouvidos. Porém, apesar das chantagens emocionais do pai sobre Dante e o irmão, Lorenzo, o coroa estava certo. Responsabilidade era o mesmo que controle. Era a mesma ideia, uma maneira de viver a vida. Método praticado por ele sem falhas desde a morte de Erin. Ele sentiu uma leve pontada no peito ao pensar em Erin. Tomou outro gole de saquê. No im das contas, aquilo terminaria passando, ele pensou. Por que estava pensando naquilo tudo agora? Na austeridade do pai, na namorada da faculdade, na antiga culpa.


Bastava dar um jeito nas coisas – em Kara – e ele estaria bem. Simplesmente bem. Ele olhou o relógio. Uma e quinze. Droga. Esvaziou o copo de saquê e encheu outro. Procurou o garçom para fazer o pedido. E a avistou parada do outro lado da mesinha. Kara estava meio despenteada, com o sedoso cabelo castanho desgrenhado. As bochechas se mostravam rosadas, provavelmente por conta do frio. Igualzinho a quando estava na sua cama. Pelada e ruborizada por conta do orgasmo. Ele icou de pau duro no ato. Só de ver Kara ali de pé, com os olhos brilhando de puro aborrecimento. Com a boca convidativa pronta. Ah, ela estava chateada. O que lhe deu mais satisfação do que deveria. Dane-se. Ela comeria direitinho em suas mãos, afinal. Ânimo, amigo. Ele se levantou, deu a volta na mesa e puxou a cadeira. – Não vai se sentar, Kara? Ela o encarou, tirou e lhe entregou o casaco, depois se jogou na cadeira. Ele a empurrou para ela, pôs o casaco no encosto de sua própria cadeira e sentou-se também. – Pedi chá pra você. Ou prefere saquê? – Não costumo beber durante o expediente – ela falou, ainda com uma expressão fechada. Ele nunca a vira zangada antes. Havia algo naquilo que ele achava atraente. – Nem eu. Geralmente. – Mas? – ela o desafiou. – Mas... – Ele deu de ombros. – Estou comemorando. O primeiro dia no meu novo emprego. Pensei que também gostaria de comemorar comigo. Ela deu um longo suspiro. – Minha nossa, Dante, por que eu iria querer comemorar? Nós estávamos perfeitamente bem até você entrar valsando na minha irma hoje cedo, o novo sócio minoritário. E agora nós simplesmente devemos... terminar. E por mim tudo bem, mesmo. Mas você não pode... me convidar para almoçar. Ela cruzou os braços sobre o peito. Ele se inclinou para frente e colocou chá no pequeno copo esmaltado, empurrando-o ao longo da mesa até ela. – Beba um pouco de chá, Kara. Você precisa se acalmar. – Estou bastante calma. Só estou pedindo que respeite o fato de que,


como colegas de trabalho, nós não podemos ter... um caso. – Por que não? Você parecia muito contente com isso hoje cedo. As bochechas dela se incendiaram, e ele adorou vê-la se iluminar daquele jeito, quer fosse por raiva ou paixão. Quem sabe um pouco de cada. Seja como for, ela era uma mulher maravilhosa. – Dante, você realmente não entende o problema? Vamos nos ver cinco dias por semana. É por isso que quem trabalha junto não deve transar. Quando tudo acabar, o ambiente de trabalho icará desconfortável para nós dois. – Mais desconfortável do que será agora, terminando deste jeito? Kara recostou-se na cadeira, bufando, dissipando parte da raiva. Ele tinha razão? Ele estava tão bonito, sentado ali na frente com o perfeito terno sob medida, numa pose casual e relaxada. O homem tinha a tendência de se jogar sobre os móveis como se fosse o dono deles. Ele tinha o costume de se comportar como se tudo lhe pertencesse. E se safava com isso. O que o deixava ainda mais atraente. Kara mordeu o lábio, tentando compreender tudo aquilo. – Dante, namorar colega de trabalho nunca é uma boa ideia – ela tentou protestar, mas pareceu uma desculpa meia boca até mesmo para ela. Ele se inclinou, tomou a mão dela, com o polegar afagando o pulso. Sua voz era tão baixa que ela precisou se inclinar para ouvi-lo. – Então, não namoramos. Vamos apenas ter o sexo mais incrível, safado e quente possível. Na minha casa. Na minha cama. No tapete persa da sala de estar. No balcão da cozinha. Ou quem sabe no clube, aonde eu adoraria levá-la. E se você for muito boazinha, minha menina bonita, na mesa do meu escritório. – Dante! – Ela puxou a mão de volta, com a pele pegando fogo. Kara não podia mentir para si mesma dizendo que o calor era outra coisa além de puro desejo. Ele sorriu, um pequeno levantar arrogante no canto da boca. – Ah, tô vendo que gosta da ideia. Não venha dar uma de santinha pra cima de mim agora, Kara. Ela fez que não. – Você é incorrigível. O sorriso se espalhou, fazendo as covinhas piscarem. – Mas você gosta disso em mim. Meu Deus, ela gostava de tudo nele, mas nunca iria lhe confessar aquilo. Ou que seu corpo inteiro estava se derretendo depois de ver aquelas covinhas, escutar o tom baixo e sexy de sua voz. E, principalmente, o fato


de ele não aceitar um não como resposta. Queria odiar ele por isso. Por fazê-la amar suas ordens, até mesmo agora. Por fazê-la necessitar disso, mas era impossível. Bebeu o chá tentando ganhar tempo, acalmar o pulso acelerado. A raiva se derreteu junto com seu corpo, fundindo os dois num calor líquido extremo que ela não negava e com que não sabia ao certo como lidar. Dante se aproximou, pôs a mão novamente sobre seu pulso. Para ela, o gesto pareceu inacreditavelmente íntimo. Ele falou baixinho: – Eu tô vendo, sabia? Sinto no seu pulso. Bem aqui, debaixo dos meus dedos. – Ele pressionou suavemente a pele. – A voz icou ainda mais baixa. – Você é muito persuasiva, não é, Kara? E pode ingir que tudo isso é raiva, mas não passa de uma bravata, não é? Não precisa me dizer pra eu saber no que isso vai dar. Talvez existam brincadeiras mais agressivas entre nós. Ou talvez não neste momento. E, assim, vamos continuar exatamente de onde paramos hoje cedo. Dá pra acreditar que ainda nesta manhã você tava pelada na minha casa? Gritando de prazer? Dizendo meu nome? Implorando por mim, Kara. Os olhos de Dante brilhavam enquanto falava. Tão sexy que ela mal conseguia aguentar. E emanavam poder. Ela queria resistir a ele. Concentrar-se em todos os motivos pelos quais não seria uma boa ideia, mas Kara não era capaz de desviar os olhos dos dele. Era tortura. Desejálo. Saber que ela não deveria fazer isso… – Ah, sim – ele continuou. – Você implorou pra eu te comer, pra eu te fazer gozar. E você adora implorar tanto quanto eu. Ouvir aquela entrega na sua voz. Ela puxou o braço. – Dante, nós devemos dar um fim nisso. Você precisa parar. Ele discordou, balançando a cabeça. – Só se for o seu desejo, mas não creio que seja o caso. – Você é advogado. Encontra um jeito de defender qualquer coisa. – O mesmo também se aplica a você. Ela olhou para ele, esfregando o pulso, onde os dedos dele encostaram poucos momentos antes. Era como se ele ainda a tocasse. Como se tivesse deixado uma marca, queimada a fogo. – Então, vamos continuar discutindo, Kara? Porque, como você bem disse, posso continuar o dia inteiro nesse esquema. E você também. Mas por que desperdiçar nossa energia numa discussão? Nós dois queremos a mesma coisa. Foi assim desde o começo. Talvez até mesmo no colegial. Só que não admitíamos naquela época. Eu posso admitir agora. E você?


Começou a fazer que não com a cabeça, mas havia alguma coisa no tom baixo e sereno de sua voz, no controle absoluto pelo qual se expressava, tocando fundo dentro dela, abalando-a até a alma. Ele tinha razão. Ela o desejava. Queria as coisas que fizeram juntos. E era por isso que estava tão irritada. Porque parecia um risco manter a relação. Sim, porque trabalhavam juntos. Só que havia algo a mais… um elemento de perigo com ele que Kara não pretendia analisar a fundo. – Diga-me o que está pensando, Kara – ele perguntou. Exigiu. – Que você... tem razão. Ela levantou os olhos para ele, mas não havia tripúdio em sua expressão. Não existia nada além de puro prazer em seu rosto, em seu sorriso. – Eu esperava que você reconhecesse o erro no seu comportamento. – Agora você tá me provocando. – Mas ela não se importava. – Sim. Eu não consigo evitar. Você ica corada tão belamente. Lembra a cor adorável da sua bunda quando bato nela. – Dante, precisa falar isso aqui? – Ah, sim. – Ele abriu um sorriso. – Sem a menor dúvida. – Você é um homem mau – ela afirmou, com um sorrisinho. – Eu me esforço. Kara sacudiu a cabeça. – Não vou almoçar, né? – Vou pedir alguma coisa. Quero que esteja bem-alimentada para o que tenho reservado para mais tarde. Era muito perigosa a forma que o corpo dela se incendiava com uma necessidade pura, ansiosa, simplesmente ao pensar em ir para a casa dele, ocupar novamente sua cama. Ou o balcão de sua cozinha. Ou o piso da sala de estar... – Talvez a gente devesse... pensar melhor nisso, Dante. – Talvez você pense demais. – Hum, bem, sim. Ele pegou novamente a mão dela, levou até os lábios e depositou um beijo suave na palma aberta. – Mais tarde, quando icarmos sozinhos, verei o que posso fazer pra essa sua mente brilhante reduzir o ritmo. Ficar vazia. Uns bons tapas parecem fazer isso com você, mas talvez esteja pronta para algo mais. – Tá tentando me assustar? ��� Tá funcionando? – Talvez. Ele sorriu, parecendo satisfeito consigo mesmo. – E talvez não – ela acrescentou. – Não tenho medo do que eu quero.


– Não tem? Não foi isso que te impediu de correr atrás dos seus desejos todos esses anos? – Não tenho mais. Mas era mentira. Ela desejava Dante. Mais do que gostaria de admitir. E isso a matava de medo. Contudo, ela o desfrutaria. E pensaria em tudo aquilo mais tarde. – Vamos alimentá-la. – Ele soltou a mão dela, acenou para o garçom e pediu sem nem olhar o cardápio. – Sempre faz isso? – ela indagou. – O quê? – Assumir o controle de qualquer situação? A pergunta pareceu surpreendê-lo. – Sim. Tem algum problema se eu pedir por você? Ela relaxou na cadeira, a madeira espetava um pouco os pontos machucados na bunda, fazendo-a sentir uma estranha descarga de prazer. Ela deu de ombros, desconsolada. – Eu gosto. Odeio admitir, mas gosto. Ele sorriu para ela. – Nós vamos nos dar muito bem. – Ela fez uma careta de aborrecimento, provocando uma risada dele. – É verdade. E tenho certeza de que temos outras coisas em comum. – Tipo o quê? Ele deu de ombros. – Nós dois somos advogados, então passamos pelo inferno que é o exame da Ordem. Foi a vez de Kara rir. – É verdade. A comida chegou. Ele pediu sushi de enguia, sashimi de salmão, salada de lula. Ela gostava de tudo. Os dois colocaram porções nos pratos, junto com inas lascas de gengibre picante. Numa tigela, Dante misturou molho de soja, wasabi e empurrou para perto do prato dela. Ela nem pensou em questionar. Kara já começava a se acostumar com ele assumindo o comando. Meio assustador, mas ela gostava. Não pense nisso. Aproveite. Aproveite-o. – Então, o que mais? – ele perguntou enquanto comia. – Como assim? – Ela engoliu um sashimi. – Ah, como isso é bom! – Do que mais você gosta? Além de sexo safado? – Ele sorriu, as covinhas faiscaram e os olhos cor de uísque cintilaram. – Um monte de coisa. – Arte? – Sim. Sempre – ela respondeu. – Mas você já sabia disso. E você? Pelo que vi no seu apartamento, tem um olho bom para as coisas. A não ser que


tenha contratado um decorador. – Não, as escolhas, boas ou ruins, são todas minhas. Gosto um pouco de tudo. Gosto de misturar as coisas. Não sei se alguém mais acha que funciona. Mas não me importa. Eu gosto. – Ele fez uma pausa para comer outro sushi. – Estou começando a me interessar por escultura moderna ultimamente. Obras abstratas. Eu não entendo. Só sei que gosto. – Pra mim, não é preciso entender a arte. Ela deveria ser mais... experiencial do que isso. Somente é preciso saber do que se gosta, como você disse. Acontece o mesmo com os filmes, acho eu. – Concordo. Existe algo pra todos, e ninguém mais pode julgar. Eu gosto de assistir a ilmes. Sempre gostei. Eu curto os velhos clássicos do cinema noir, fitas dos anos quarenta e cinquenta. – Sério? Esses estão entre os meus favoritos. – Por que a surpreendia eles terem tanto em comum? Ela icava surpresa e excitada. – Cidadão Kane, O falcão maltês. E tantos desses ilmes noir centrados numa mulher de moral questionável, o que me atrai, por algum motivo. – Sem dúvida. Pacto de sangue. Lana Turner em O destino bate à sua porta. Há quem ache o ritmo lento. É mais devagar. O estilo dos ilmes mudou, mas às vezes acho que preciso de ritmos mais lentos, mesmo. Gosto do contraste do preto e branco no cinema da mesma forma que gosto em fotografias. Quando fico acordado até tarde da noite, vivo trocando de canal até encontrar um dos velhos clássicos. Ou pego um DVD da minha coleção. – Também faço isso – ela disse. – É relaxante. Reconfortante. Há um quê de aconchegante e solitário ao mesmo tempo num ilme antigo às três da madrugada. Ele concordou com a cabeça. – Verdade. Tarde da noite ou, às vezes, de manhãzinha. Não sei por quê. Gosto dessas horas silenciosas, do clima delas. Às vezes levanto bem cedo, tipo às cinco, e saio de moto. Só vou rodando... pra qualquer lugar. Geralmente sozinho, mas às vezes convenço o Alec a me acompanhar. – Vocês dois têm moto? – Foi uma das coisas que nos uniram. Além da sacanagem – ele abriu um sorriso maroto. – O problema é ele ter um gosto deplorável por motos. Sou fã da BMW, e ele tem um gosto bizarro pela Ducati, mas, tirando isso, é um ótimo sujeito. Já viajamos pra todo canto juntos, em trilhas pelo interior ou cruzando o país. Ele me convenceu a fazer umas maluquices. Mas gosto de ele provocar isso em mim. E não existem muitas outras pessoas que me acompanhariam para mergulhar de um penhasco no México. – Acho isso empolgante.


– Acha? – Sim, sem dúvida nenhuma. Sempre quis fazer algo do gênero. Um desa io de verdade. O que mais? – ela perguntou. – Diga no que mais está interessado. – Fazendo exigências, Kara? – ele a provocou. Ela sabia que era provocação pelo brilho nos olhos dele, o sorrisinho brotando nos cantos da boca. – Tentando mudar o equilíbrio do poder? Por que aquilo a fez corar? E rir. – Seria tão ruim assim? – Desde que você saiba que o poder sempre voltará pra mim. – Ah, não esquenta. Não duvidaria disso nem por um segundo. Ele abriu um sorriso largo novamente, com as covinhas acentuando o viço masculino da boca. Ela não conseguia esperar até icarem sozinhos, até ele a beijar novamente. Tinha acontecido mesmo naquela manhã? Kara quase havia se esquecido de ter icado com raiva dele, de pensar que não poderiam mais se ver. Ela não conseguia esperar. Não conseguia se imaginar nunca mais sentindo seu toque. Ele bufou ao ouvir o celular tocar. – Droga. Desculpe. Eu preciso atender. – Colocou o telefone na orelha. – Dante falando... Oi, Ruby… Quê? Não, eu não esqueci. Já estou voltando. Me dá quinze minutos. Desligou e falou para Kara: – Eu me esqueci. Você me distrai demais. Não que eu me importe, mas tenho uma reunião com Ed Tate para conhecer os casos que vai me passar. E já me avisaram que provavelmente será uma noite longa. Ou seja, teremos de esperar para icarmos juntos. E amanhã à noite já tenho compromisso. – Ah, sem problemas. Kara não gostou do enorme fluxo de decepção que perpassou por ela. Ele é apenas um cara. Somente sexo. Mas sabia que era mentira. Uma mentira que não estava pronta para encarar. Ele se esticou, pegou sua mão e nela esfregou o polegar. O calor se espalhou pela pele de Kara. – Então, quarta à noite – ele disse, mais uma ordem. – Quarta-feira está bem. Ele sorriu novamente para ela. – Excelente. Dante pagou a conta e eles saíram, encarando o frio da tarde de janeiro. O céu estava nublado, pesado, prometendo chuva, mas por sorte ainda não começara. Ela estava apressada demais ao deixar a sala e ir ao encontro dele para se lembrar de levar guarda-chuva. Muito excitada, um pouco chateada por ter sido convocada por ele. O aborrecimento, no entanto,


desapareceu como se nunca tivesse existido. Dante chamou um táxi e abriu a porta para ela. – Presumo que pre ira manter as coisas no sigilo. Eu pego outro. – Obrigada. Pelo almoço. E por icar atento à... minha reputação. – Ela riu. – Meu Deus, estou falando como uma debutante dos anos cinquenta! Ele sorriu, inclinou-se e a beijou no rosto, somente um mero roçar de lábios. Ela começou a queimar por dentro no ato. – De nada. Nós nos vemos na firma. E na minha casa, quarta-feira à noite. Chegue às sete. Ela concordou com a cabeça, e icou muda pelo desejo pulsando no corpo. Dante a ajudou a entrar no táxi, e ela voltou ao trabalho, cruzando e descruzando as pernas, tentando diminuir aquele desejo agudo causado pelo beijo, latejando no ventre. São apenas dois dias. Esses dois dias vão parecer uma eternidade. De volta ao amigo vibrador, ela supôs. Porém, Kara sabia que ele apenas serviria para conferir o alívio mais básico. Nada ajudaria a acalmar o calor assolando seu corpo. Nada além do toque de Dante. Dante. Ela não deveria desejá-lo tanto. Certamente não deveria necessitar tanto dele. Mas assim o era. Tinha medo de ser mais do que os beijos exigentes, seu toque talentoso. O jeito como ele sabia do que ela precisava instintivamente. O sexo safado e fantástico. Mas Kara estava com mais medo de parar e analisar tudo, pois, se o izesse, teria de encarar o fato de Dante De Matteo ser um homem pelo qual ela se apaixonaria. Ela não pretendia se apaixonar mais. Kara havia se saído otimamente bem nesse quesito até agora. Mesmo com Jake, tinha mais a ver com ser fácil, descomplicado. Antes de qualquer coisa, tinha sido algo com que eles acabaram se deparando. Foi conveniente. Não havia nada de conveniente no Dante. Ele a desafiava. Ela adorava esse aspecto nele. Entretanto, não signi icava que ela iria se apaixonar por ele. Kara não era desse tipo de garota. Nunca tinha sido nem seria agora. Só não pare de ficar repetindo isso para si mesma.


SETE

Kara não sabia como conseguiu vencer os dois últimos dias. Na segundafeira, Dante desapareceu na sala de Ed Tate depois de almoçar com ela, e os dois continuaram lá dentro quando saiu da empresa. Ontem, Dante mandou uma mensagem pedindo seu e-mail particular, e ela o enviou, mas não teve mais notícias dele. Agora era o im do expediente na quarta-feira, e Kara se preparava para deixar o escritório. Ela conferiu o e-mail pela última vez, esperando alguma mensagem dele, ainda que fosse apenas uma confirmação do encontro daquela noite. Não havia nada na caixa de entrada. Droga. Ela suspirou e fechou o e-mail, desligando o computador. Por que ela estava agindo feito uma adolescente fascinada por um ídolo? Ela nunca tinha sido o tipo de mulher a esperar ao lado do telefone – ou do computador – por um homem. Nem com o Jake. Logo no início do seu relacionamento, ele lhe contou que um dos motivos pelos quais se sentira atraído por ela fora sua independência. Jake gostava de ter de correr atrás dela, de Kara nem sempre ter tempo para ele. Talvez ela estivesse dando mole demais para Dante. Quem sabe devesse recuar um pouco. Dizer que estaria ocupada naquela noite e que não poderia encontrá-lo. Ela sabia muito bem que não faria aquilo, pois mal se aguentava de vontade de vê-lo. Praticamente, ela tremia inteira de desejo. De vê-lo. De ele tocá-la. De simplesmente voltar a estar com ele. Ridículo. Mas ela não conseguia se controlar. Suspirando, pegou o casaco, a bolsa e saiu para o corredor. Kara não conseguiu se conter e olhou a porta fechada da sala de Dante a caminho do elevador. Então ele ainda estava trabalhando. Bom saber.


O celular tocou, e ela atendeu sem ver o identi icador de chamadas. Kara ainda não havia despregado o olhar da porta dele no im do longo corredor. – Alô? – Kara. Você já saiu do prédio? Dante. A barriga dela gelou, as pernas bambearam. A mesma necessidade instantaneamente se incendiava entre suas coxas. – Oi. Não, ainda estou aqui – ela falou. – Eu estava de saída. – Não saia. – Hum... está bem. Vai fazer serão? – Talvez fique até mais tarde. Ainda tem alguém aqui? – Sim, algumas pessoas. – E Ruby? – ele indagou. – Saiu faz mais ou menos uma hora. Por quê? – Porque quero que venha à minha sala. – Agora? – Sim, Kara. Agora. Não havia como argumentar contra aquele tom de voz. Ela não queria. E compreendia que ele não planejava rever casos com ela. Ela engoliu em seco. – Está bem. Já estou indo. Kara deu uma olhada ao redor da empresa. A porta de Gary estava aberta e ela o viu lá dentro, conversando com o assistente. Respirando fundo, ela voltou pelo corredor a caminho da sala de Dante. E quase esbarrou em Theresa, saindo de sua sala, enquanto vestia o casaco. – Vai trabalhar até mais tarde, Kara? – Ah, não. Bem, talvez. Eu só… preciso ver uma coisinha. – Seguro o elevador para você? – Quê? Não. Não, obrigada. Não precisa icar esperando. Deve demorar uns minutinhos. – Está bem. Até amanhã. – Boa noite. Ela entrou em sua sala, contou até trinta e espiou para saber se Theresa havia ido embora. Kara se sentia uma criança bisbilhotando depois da aula algo curiosamente excitante. Porém, a excitação tinha tudo a ver com Dante. Dante. Uma nova onda de desejo a inundou enquanto caminhava pelo corredor


até a porta dele, abria e entrava, e depois a fechando em silêncio. Ele estava sentado atrás da mesa, lindo pra caramba num terno preto, a camisa azul-escura contrastava com o castanho-dourado de seus olhos. Um sorriso lento iluminou sua face, e ele acenou com a cabeça para ela. – Tire o casaco, Kara. Nenhum cumprimento. Tão somente aquela ordem simples. Ela adorou. Deslizando o casaco dos ombros, Kara o colocou sobre o sofá de couro marrom recostado na parede, deixando a bolsa ao lado. – Venha cá – ele falou baixinho. Ele a observou atravessar a sala. Ela sentia o corpo esquentando sob seu olhar penetrante. Kara lambeu os lábios, aproximando-se da mesa. – Você ica ótima nessas saias justas– ele disse, com a voz fumegando de calor. – Esse visual sexy de mulher de negócios combina com você. – Ele se levantou, chegou perto, fazendo-a segurar o fôlego. – Sua bunda ica maravilhosa, mas quero uma visão melhor. Ele a segurou pela cintura e a girou até ela ficar de costas. – Isso – ele falou baixo. – Agora, incline-se e coloque as mãos sobre a mesa. Ela se viu atendendo ao comando, enquanto a mente se esvaziava numa velocidade alarmante. Não pense. Não pode pensar agora... – Linda, Kara. Perfeita. A curva da sua bunda nessa saia é... perfeita. Ele se aproximou dela por trás e deslizou a mão sobre o quadril. Ela sentia o calor emanando dele pelo algodão ino e macio da saia. Já estava molhada, o sexo palpitava sombrio no meio das coxas. Ele se inclinou até o hálito esquentar a bochecha dela. Dante sussurrou: – Agora não se mexa. Um tapa forte estalou, e ela gemeu. – Eu te surpreendi? Você deveria saber o que eu ia fazer quando te reclinei sobre a mesa. – Ainda tem gente aqui – ela disse, numa voz pequena, um quase protesto. – Sim, o que apenas deixa tudo mais excitante. – Não tranquei a porta da sala. – Ninguém vai entrar. Deve confiar em mim, Kara. Você confia em mim? – Sim – sussurrou. Ela con iava. Era preciso. Ela já estava entregue ao ataque do desejo, afogando-se nele.


– Bom. Muito bom. Ele deu outro tapa, a sensação era suavizada pelo tecido entre a mão dele e a bunda dela. – Ah! – Shh, Kara – Dante cochichou. Ele afastou os cabelos dela e beijou a nuca, fazendo-a estremecer. – Caramba, sua pele tá tão quente. Eu preciso tocá-la. Tocar você... Ela o sentiu recuar um momento enquanto levantava a saia, deslizando-a ao redor da cintura. – Ah, eu devia saber que você tava com essa tanguinha debaixo dessa saia justa. Adoro essa combinação com as botas. Ainda vou te comer com você só de botas. Ela tremia antes mesmo de ele a tocar. Depois, Dante passou suavemente a palma da mão sobre a bunda, e ela icou toda molhada. Kara precisava se segurar na beira da mesa, se forçar a ficar parada. Ele continuou correndo a mão sobre a carne nua, numa sensação suave e doce. Mas ela queria o toque mais forte. – Dante, por favor... – Ansiosa, menina bonita? Gosto disso. Mas você precisa esperar at�� eu ficar pronto. Inspire, expire. E espere. Kara gemeu baixinho. Ele deu uma risadinha perversa. Dante se manteve acariciando a pele dela, com a palma da mão e os dedos. Era maravilhoso. Era uma tortura. – Mergulhe no meu toque – ele disse. – Continue respirando. Isso, desse jeito. Ela tentou fazer como mandava. Depois de alguns instantes percebeu o que estava fazendo. Mergulhando. À deriva. De olhos fechados. Encolheu-se com a pancada pesada. Depois, o prazer inundou seu corpo, seu sexo. Prazer, intensidade e seu perfume sombrio a cercavam. Ela se viu indo ao encontro dele. Outra risadinha baixa de Dante. – Adoro que goste disso, que reaja dessa forma. Outra pancada. Dessa vez ela estava preparada. Mesmo assim doeu. Mesmo assim era maravilhoso. Feito algo que ela exigisse. Ele fez uma pausa para roçar aquela carne lamejante com a palma da mão, depois bateu outra vez. E de novo, e de novo. Com força su iciente para doer, para a ferroada reverberar nela com pequenas ondas de prazer... – Meu Deus, Dante...


– O que foi, Kara? – ele perguntou, enquanto a mão segurava os cabelos dela. Dante enterrou os dedos neles, agarrou irme junto ao couro cabeludo. Até mesmo aquilo foi puramente erótico para ela, aprofundando ainda mais a sensação dentro do corpo ansioso. – Por favor, Dante, me toque. Por favor. – Adoro que peça assim, com tanta gentileza. – Ele deslizou a mão pela cintura, a deixou escorregar e envolveu seu púbis. – Ai, Dante... A voz dele era um sussurro em seus ouvidos, seu hálito lhe aquecia a pele. – É disso que você precisa, menina bonita? Depois, ele deslizou os dedos sob a renda da calcinha, sentindo seu calor úmido. – Ai! – Você tá tão escorregadia, tão molhada – ele segredou, enquanto os dedos subiam e desciam pela fenda, tateando sua abertura e voltando a acariciar as pregas inchadas. – Gosta disso, Kara? Responda. Céus, aquele tom autoritário. – Sim, sim! Ele encontrou o duro botão do clitóris e esfregou a ponta com os dedos. Os quadris se mexiam num ritmo próprio, arqueando ao seu toque. – Ah, isso é bom, Kara. Dá sua carência pra mim. Se entrega pra mim. Ele pressionou o grelo e o prazer a invadiu, a respiração se tornou difícil, composta de arquejos irregulares. Quando Dante começou a esfregá-lo entre os dedos, ela mal conseguia respirar. – Dante... Eu vou gozar. – Ainda não. Ele deu uma porrada com a mão livre. O estalo pesado na bunda a fez morder os lábios para não gritar. A ardência aguda somente serviu para ela sentir mais nitidamente o limiar do prazer, elevando-o. – Espere, Kara. Espere aí. Pode gozar quando eu mandar – ele falou, com um desejo intenso na voz. Dante começou a bater de verdade, numa sequência de golpes rápidos. Nem alto nem forte demais, mas o ritmo enterrou a ardência no fundo da pele. E ele não descuidou do clitóris. Tudo parecia se fundir ao mesmo tempo: a mão na bunda, os dedos no grelo, a pequena e pecaminosa ameaça de serem pegos. Era uma sobrecarga de prazer que ela mal conseguia controlar. No entanto, Kara só poderia gozar quando ouvisse a ordem. Ela não gozaria. E aquilo era um prazer diferente em si. Ele bateu mais forte, e o desejo a levou a uma altitude estonteante. Ela se


equilibrava ali. Doloroso. Delicioso. – Dante… – Você está pronta? – Por Deus, sim! – Então, goza, Kara. Goza pra mim. Ele pressionou o clitóris, esfregando, esfregando, batendo a carne nua com a outra mão. Dor e prazer reunidos, fundidos numa sensação pura que a deslumbrou, cegando-a ao gozar. Espasmos duros, ininterruptos. Teve de morder o lábio para não gritar, para conter o grito que lutava com força para escapar da boca cerrada. Quando acabou, ela tremia, mal conseguindo ficar de pé, a beirada da mesa machucava a palma das mãos. Dante beijou sua nuca, afagou os cabelos com uma das mãos enquanto a outra, envolvendo a cintura, a mantinha de pé. – Muito bom, Kara. Incrível. Tô cheio de tesão por você, mas não vou te comer aqui. Vai ter de vir comigo. Agora mesmo. – Agora? – ela questionou, ainda sem fôlego. Ele a girou nos braços, esticando a bainha da saia sobre as coxas. Os olhos estavam escuros, cintilando em tons de dourado e castanho. Ele parecia perigoso, maravilhoso. – Ah, você tá tremendo pra valer, gostosa... Sabe o que isso faz comigo? Ela tinha acabado de gozar, mas ouvi-lo falar assim fazia ela querer mais, precisar dele. Se ao menos ele a jogasse sobre a mesa outra vez e deslizasse dentro dela... Mas o que ele fez foi quase melhor. Ele inclinou sua cabeça e a beijou, invadindo de verdade sua boca. Os lábios dele abriram os dela, a língua a invadiu. Dura e exigente. Escorregadiça e doce. Ela julgou ser capaz de gozar uma vez mais com o beijo. Não fazia sentido. Nem precisava. Ele a trouxe para perto, esmagando o corpo dela contra si. A ereção pressionava a coxa dela. Nossa, ela o desejava. Queria tocá-lo como ele a tocava. Queria pôr as mãos em volta daquele pau grosso e arregaçá-lo até gozar. Ela o queria dentro de si. Dante se afastou. Estava respirando pesado. Exatamente como ela. – Preciso que saia daqui agora – ele afirmou. – Sim. Ela estava empolgada por ele se mostrar igualmente ansioso. Dante a encarava com aquele olhar. Procurando. Concentrado. As sobrancelhas escuras retesadas. – Porra, Kara! – O que foi?


Ele ia mudar de ideia? Lembrou-se de outra reunião perdida? O coração dela disparou. – Não consigo acreditar no quanto eu preciso de você. É uma puta maluquice. Ela se sentiu aliviada. – É, sim. Não me preocupo. – Nem eu. Ele a puxou e a beijou outra vez. E ela jurava ser capaz de sentir o martelar duro do coração dele dentro do peito, pressionando com força contra o dela. – Me leva pra casa, Dante. Agora. Ele concordou, simplesmente. Era a primeira ordem dada a ele. E poderia muito bem ser a última. Ela não queria nem saber. Só pensava em senti-lo dentro dela. Em ele espancála novamente. Beijá-la. Abraçá-la. Fazer de tudo sem qualquer limite além dos impostos por ele sobre ela para realizar os desejos dos dois. Era loucura. Talvez ela estivesse perdendo a cabeça. Perdendo-se em Dante. Mas estava perdida demais para se preocupar. Dante não se lembrava direito de como chegaram à sua casa. Ele dirigiu, é claro. Provavelmente distraído demais pela necessidade pulsante, aguda, que sentia por ela para estarem inteiramente seguros. Não era do seu feitio correr riscos que envolvessem alguém além de si mesmo. Pilotar a moto. Como as loucuras cometidas por ele e Alec nas viagens. Mergulhar com tubarões. Voar de asa-delta. Ele não deveria arriscar o bem-estar de Kara naquele momento, mas se sentia tomado demais pela vontade para ser mais cuidadoso. Dar um tempo para relaxar. A inal, ele não sossegaria. Não até tê-la, nua e se contorcendo por causa de suas mãos, debaixo dele. Até fazer ela gozar, gozar e gozar. Até ele mesmo gozar no corpo macio e maravilhoso dela. De algum jeito, eles estavam no elevador do prédio, e Dante não conseguia desgrudar as mãos dela nem por um segundo sequer. Levá-la para casa e tirá-la do carro já tinha demorado um tempo excessivamente longo. O pau bem mais do que a meia-bomba nesse tempo todo. Ele a trouxe para perto, com o braço ao redor da cintura delgada, parando o su iciente para olhar seus brilhantes olhos cor de caramelo. Eles estavam mais para a prata do que para o dourado. Cintilando de calor. A pele ruborizada, as bochechas, rosadas. Os lábios estavam vermelhos, inchados, como se ele já a tivesse beijado como pretendia.


Ele a apertou com mais força, inclinando a cabeça e pressionando os lábios contra os dela. Ah, eram doces pra cacete. E havia algo selvagem nela. A forma como ela beijava, os braços se juntando no pescoço dele e se pendurando. Algo diferente das mulheres submissas comuns que tinha conhecido. Ele não conseguia pensar em mais ninguém agora. Somente em Kara. Impaciente, ele abriu o cinto do casaco dela e enfiou as mãos por baixo. Precisava tirar logo aquela droga de roupa. O elevador parou suavemente, a campainha soou e ele se afastou dela. Uma puta tortura. Tomando-a pela mão, ele a conduziu pelo corredor até a porta do apartamento, virando a chave na fechadura. Entraram a seguir, e ele ligou a luz do hall. Dante se recordou da primeira vez em que a levou para casa. De cair de boca nela contra a porta. Do gosto do oceano de Kara nos seus lábios. Novamente. Ela icou em silêncio enquanto Dante tirou seu casaco e, a seguir, o dele. Kara permaneceu de pé sem falar ao ser desnudada, revelando a pele branca sedosa uma peça de roupa por vez: saia, sutiã, tanga rendada, botas de camurça de cano alto. Dante a pegou nos braços e a levou ao sofá – a cama estava longe demais – e ela enlaçou novamente os braços ao redor do seu pescoço, pendurando-se. O corpo dela estava tão quente nos seus braços. Tão doce contra ele. Deixando-o duro feito aço. Ele a deitou no sofá, tentando ser gentil quando tudo que queria era jogá-la e envolvê-la por inteiro com as mãos. Com a boca. Sim. – Fica deitada, Kara – ele falou, com voz áspera. – Eu me encarrego de tudo. Tudinho... Ela obedeceu, com o cabelo castanho macio levemente desalinhado sobre as almofadas. Os olhos dela eram um raio metálico por entre as pálpebras abaixadas. Ele sabia que Kara estava mergulhando fundo no subspace, naquele espaço bruto e lutuante dentro da cabeça onde o submisso costumava entrar. Ela era suscetível pra cacete. Muito mais submissa do que pensava. Porém, havia uma força inegável nela para deixá-lo fazer isso, comandá-la desta forma. Mas Dante estava pensando demais. Basta tocá-la. Possuí-la. Ele pôs as mãos nas coxas, ela as abriu. Foi abrindo as pernas até ele


enxergar o rosa molhado de sua boceta. Nossa. Ele não se daria ao trabalho de tirar a roupa. Dante lambeu os lábios. Lindo demais. Ajoelhou-se no chão ao lado do sofá e se inclinou para saboreá-la. Ela se mostrou doce e fumegante enquanto Dante arrastava a língua numa longa lambida ao longo da abertura. Ele a ouviu respirar fundo. O suspiro silencioso ao soltar o ar. E degustou novamente. Dante empurrou mais fundo entre as dobras, achando sua entrada. Afastando mais as pernas, ele a abriu. Estendeu as pregas macias dos lábios íntimos. E enfiou a língua dentro dela. A respiração de Kara se transformou num arfar informe, abafado, enquanto ele passou a fodê-la com a língua. Os quadris se arquearam para cima, na direção do rosto dele, e ele os segurou com ambas as mãos, mantendo-a abaixada. Quando fez isso, Kara icou inacreditavelmente molhada, tentando se agarrar à sua boca, mas Dante não deixou, mantendo o controle. O prazer icou mais quente, deixando ele tão duro que mal se aguentava. E Dante precisava disso. Dar prazer a ela. Fazer ela gozar. Logo, ela estava resfolegando, mas ele não parou. Continuou chupando e usando a língua, saboreando-a, bem no fundo. Ela estremecia. Gemia. Ele adorava o fato de Kara não falar, nem para implorar. Quando ele soltou um lado do quadril para pressionar o grelo, ela se desintegrou. Ele não sabia descrever o acontecido de outra forma. A boceta apertou sua língua e as ancas pulavam, por mais que Dante tentasse segurá-las. Ela gemeu um som primitivo, nascido no fundo da garganta. E com a mesma intensidade com que ela gozou, seu pau latejou. Duro e doloroso. Mas ele não queria parar. Queria fazer ela gozar de novo. Precisava disso. Ele manteve o ritmo, agora lambendo o clitóris e fodendo ela com os dedos. Ela arfava, sem fôlego. Dante adorava. E enquanto en iava os dedos, retirava e voltava a meter, ele chupava o clitóris. Enrolava a língua na pontinha. Simplesmente precisava ouvi-la gozando outra vez. Ele precisava provar com a língua aquela torrente doce e salgada. Sim... Era uma necessidade propulsora, maior até do que seu próprio desejo. Senti-la se afogando nele. Submetida. Em pouco tempo, ela gozava novamente, desta vez gritando, berrando


até a rouquidão. E foi bonito pra cacete. Ela era bonita pra cacete. Ele precisava possuí-la. Agora. Dante recuou, percebendo o rosto corado, os peitos maravilhosos tingindo-se de rosa iguaizinhos às bochechas. Ele se esticou e beliscou os mamilos – não conseguiu se conter –, e o gemido dela se espalhou como um rastilho prestes a explodir dentro dele. – Não saia daí – ele mandou, subindo para pegar uma camisinha da caixa na mesa de cabeceira. Dante voltou, se livrou da roupa o mais rápido que pôde. Ela o observava, mantendo os olhos em seu corpo, observando o pau ser embainhado. Até mesmo o olhar dela era sexo puro. Tão intenso que ele precisou parar e se acariciar por um instante, com os dedos correndo para cima e para baixo daquele membro. O prazer era doce e aguçado em seu cacete, sua barriga. De boca aberta, a língua dela deslizava para banhar os lábios de pelúcia. E não deu mais para segurar, era demais para ele. Ele se abaixou sobre ela. Ou quem sabe caiu sobre ela. Não sabia. Aconteceu rápido demais. Descontrolado para estar dentro dela. Úmido, apertado e bom pra cacete: demais para acreditar. Então ele parou de pensar. Dante meteu sem parar, penetrando fundo. E a sensação era a de uma rajada de trovões, repercutindo dentro dele: no pau, na barriga. Na mente. Teve a vaga impressão de ouvir Kara gritando. Da textura macia de seus seios pressionados contra seu peito. Da delicadeza de sua pele ao mergulhar os dentes na carne do pescoço. Não existia mais nada além do prazer, a pele dela, seus membros enganchados. E a sensação aumentando momento após momento. Estocada após estocada. O pau era o ponto central, mas se espalhava pelo corpo inteiro: pele, músculos e ossos. Quando gozou, foi como uma luz brilhante jorrando nele. Ofuscando-o, fazendo gritar. – Kara! Ele não conseguia parar. Continuou martelando os quadris. E ela se erguia ao encontro dele, repetidas vezes. A seguir, Kara berrava, ofegante. Soluçando seu nome. – Dante... Meu Deus, Dante... Ele ainda se mexia, com o quadril arqueado, dentro dela, dentro dela, sem parar. O gozo já havia terminado, mas ele não conseguia penetrar fundo o bastante.


Perto o bastante. Teve uma sensação de rasgão no peito, na cabeça. Alguma coisa o estava abrindo. Algo desconhecido e não inteiramente bem-vindo. Ainda que doce. Algo que tinha tudo a ver com Kara. O pau ainda estava latejando. O corpo dela pulsava, prendendo-o com força: boceta, braços e pernas envoltos sobre Dante. E, de um jeito distante, ele entendia estar envolto nela. Corpo. Mente. Teve medo de se perguntar o que mais.


OITO

Quando Dante acordou ainda estava escuro lá fora. Uma olhada no relógio lhe informou que eram cinco da manhã. Ainda faltava uma hora e meia antes de ele se levantar para ir trabalhar. Kara dormia ao seu lado. A luz que ele tinha acendido no hall continua acesa, com um restinho de luminescência alcançando o quarto do loft, mas era o su iciente para, após alguns momentos, ele ser capaz de identi icar os traços dela. Kara era delicada, com maçãs do rosto altas e curvas. A boca, inacreditavelmente convidativa. Maravilhosa. Seu cabelo sedoso estava caído sobre o travesseiro. Ele adorava sua textura. Adorava o jeito como emoldurava o rosto dela quando estava desperta. Adorava o abandono com que estava esparramado agora. Ou durante o sexo. Ele abaixou os olhos, conseguindo identi icar a elevação sensual e a curva de seu corpo debaixo do cobertor. E lembrou-se da sensação do corpo dela nas mãos. O corpo dela sempre foi atlético, gracioso, toni icado, mesmo no colegial. Agora, ela contava com apenas algumas curvas a mais, um pouco mais de abundância. Feminilidade. E o rosto era praticamente o mesmo. Talvez mais bonito agora. Mas antes ela já era bonita. Kara ainda trazia frescor em si. A pele era perfeita. Suave como a de um neném. Com o dedo, ele acariciou seu queixo, subindo pela bochecha e os olhos se abriram. – Oi. – A voz estava rouca de sono e, para ele, com um minúsculo tom de desejo. Ou, quem sabe, ele quisesse se iludir. Dante se enrijecia só de olhála. Loucura. – Oi. Desculpe se te acordei. É que... sei lá. Queria te tocar. Ele não conseguia acreditar que tinha falado aquilo em voz alta. Vai ver ainda estava confuso de sono, mas ela sorriu; ele enxergava o brilho dos dentes no quarto quase às escuras.


– Tudo bem – ela respondeu. – Eu gosto que você me toque. Que você tenha me acordado. E ainda existe aquele silêncio de começo de manhã que adoro tanto. – Sim, mas... – O que ele queria dizer a ela? Dante não imaginava o que estava acontecendo com ele. – Eu estava olhando e pensando como você continua a mesma. Quase como se ainda tivesse dezesseis anos. – Faz tempo que não tenho mais dezesseis. – Eu sei. Mas é esquisito ver você depois de tantos anos. Não sei direito o que aconteceu com você nesse meio-tempo. Só o básico. Faculdade. O lance da carreira. – Por que era tão importante perguntar sobre a vida dela? Talvez apenas para icar a par, mas isso não explicava a necessidade de saber. – Não me aconteceu muita coisa. – Ela fez uma pausa, passando os dedos pelo cabelo longo. – Acho que só tava vivendo, como todo mundo. Faculdade e trabalho. Amigos. Relacionamentos que não deram certo. – E como acha que isso te afetou? Ela icou em silêncio por um momento. – Meu último relacionamento terminou muito mal. Acho que... iquei abalada de verdade. Não que eu tivesse loucamente apaixonada por ele porque, olhando pra trás, não estava. Vai ver... Envolvi muito meu ego nisso. Ele era um cara bonitão, bem-sucedido. Genial, na teoria. Para mim, icar com ele era o caminho a ser seguido. Meus pais se encantaram com ele. Ou com a ideia dele, a inal. Eles nunca reservaram um tempinho para conhecê-lo. Meu Deus, não sei por que tô te contando isto. – Porque eu perguntei – ele respondeu baixinho. – Costumo icar filosófico tão cedo pela manhã, quando ainda não clareou o dia. Ele sabia que era bobagem. Uma desculpa mal dada. Kara se deitou de lado, encarando-o. – Mas é esse tipo de coisa que queria saber? – Tudo que você quiser contar. Era verdade. Ele queria. – Muito bem. – Ela ajeitou o cabelo, afastando-o para trás do ouvido e desnudando o ombro. Ele deslizou a mão sobre a pele, sem conseguir se conter. – Não sei bem por que tô contando isso, em particular – ela disse. – Talvez porque ainda não tenha acordado direito. Ou porque ainda tá escuro, como você falou, e dá uma sensação de... segurança. – Quer me contar mais? Não precisa. Ela fez que sim.


– Quando Jake terminou comigo, iquei devastada. Pior, foi um golpe no meu ego. Na minha autoestima. E iquei chocada, pois nunca fui uma dessas garotas. Alguém cujo amor-próprio está completamente ligado a um homem. Pelo menos, nunca me vi assim. Mas ele me julgou tão duramente, tão de imediato. Digo, quando ele descobriu que eu queria apanhar, fazer algo diferente do mundo do sexo com que estava familiarizado, no qual se sentia à vontade, acho eu, acabou. Assim, sem mais nem menos. E levou um tempo até eu entender que minha reação ao rompimento não tinha tanto a ver com ele... Era uma reminiscência dos meus pais. De nunca estar à altura. E o fato de ele me deixar por esse motivo fez com que me sentisse suja, quando isso nunca me pareceu sujo. Nada ligado ao sexo já me pareceu intrinsecamente errado antes, desde que fosse entre dois adultos em comum acordo, entendeu? – Eu me sinto exatamente assim. Desse jeito. Ele adorou o fato de ela entender, de ambos terem a mesma visão a respeito do sexo. Mas Dante já suspeitava disso, de cara. – Eu iquei tão irritada – Kara continuou. – Com ele. Comigo mesma. Mas eu também estava... arrasada. E vendo agora, teve muito mais a ver com todo o lance com meus pais, com a maneira com que eles sempre me olharam e me consideravam carente. A forma como me sentia por dentro, por trás da máscara de con iança que construí e em que quase acreditei. Não quero parecer chorona nem patética, mas foi desse jeito que eu cresci, com essa sensação constante de ser rejeitada por eles. – Não te considero chorona nem patética – ele falou. – Tenho vinte e nove anos. Sinto que já deveria ter vencido isso agora. Já se sentiu assim, Dante? Meu Deus, me diz que não tenho a única história triste por aqui. Dante deu de ombros. – Eu tive um montão de problemas com meu pai. Ainda tenho. Não tenho uma ligação de verdade com ele. Meu pai sempre foi muito severo. Exigente. Um perfeccionista. Nunca perdoa uma fraqueza. Sabe, minha mãe sempre foi meio doente, e ele a condena por isso, creio eu, mesmo quando mantinha a pose pra mim, pro meu irmão. Ele sabe fazer você se sentir culpado como ninguém. Se não fazíamos a lição de casa ou não cortássemos a grama, coisa normal de moleque, ele pegava no nosso pé. A gente tinha que ser responsável, a gente tava desapontando nossa mãe. E, Deus me livre, se mostrássemos um ponto fraco. Nem quando tínhamos cinco ou seis anos podíamos chorar se nos machucássemos. Quebrei o braço ao cair da bicicleta aos dez anos, eu rangi os dentes quando o colocaram no lugar. Os enfermeiros me chamaram de


corajoso, mas não era isso. Eu não ousava chorar. Não me atrevia a reclamar. Ele se lembrava claramente. Do cheiro forte e enjoado dos remédios no pronto-socorro. Do olhar do pai. Da mãe ao lado do pai, olhando sobre seu ombro, com medo de falar alguma coisa. Temendo reconfortar o ilho. Um arrepio de asco o percorreu. Ele engoliu em seco, como sempre. Por que ele queria que Kara soubesse disso? Ele não conseguia compreender. Dante somente sabia que con iava nela como não con iava em ninguém mais, além do irmão, Renzo, em muito tempo. Ele nunca discutira seus problemas de família com Alec com tamanha profundidade, e ele era seu melhor amigo. Seus olhos haviam se acostumado à quase escuridão e conseguiam ver Kara a observá-lo. Não havia pena em seu olhar. Somente franqueza. – Não costumo ver meus pais com frequência porque, pra falar a verdade, mal suporto... – ele continuou. – Eu me sinto mal porque a minha mãe tá tão... acabada. Como se o meu pai tivesse sugado sua força vital. Sempre odiei isso, e a coisa só piorou com o passar dos anos. Odeio não poder protegê-la dele. Mas ela não me deixaria, a exemplo dele. – Sinto muito, Dante – Kara falou, com voz suave. – Caramba, não devia ter te contado isso. Não importa. – Ele correu a mão sobre o queixo, sobre a barba rala pontuda. – É claro que importa. As coisas que acontecem com a gente enquanto crescemos nos transformam em quem somos, para o bem ou para o mal. E, obviamente, essas coisas te transformaram num homem responsável. – É. Talvez. Vivo lutando pra ser responsável, mas conheço meus limites. Ele não estava tão chocado por ter se aberto tanto. O fato se devia a Kara ser a interlocutora. A isso e à camada de escuridão que servia como uma colcha protetora. Um casulo. Ele não estava acostumado com aquilo. – Dante... – O que foi? – Sinto que você ficou todo tenso. – Ei, esse é o meu trabalho – ele tentou brincar, mas soou esquisito. – Eu não tô te observando. Não desse jeito. Mas... no que mais está pensando? Ele não queria contar, mas se abriria. – Estou pensando nos meus limites. Em... Numa namorada que tive na época da faculdade. – Ouvi algo a respeito – Kara disse, com voz baixa e suave. – Que ela morreu num acidente.


– A culpa foi minha. – Não entendi. – Foi minha culpa – ele repetiu, com o maxilar tão apertado que doía. Contudo, Dante iria contar o resto da história. – Fiquei de levá-la pra casa naquela noite. Rolou uma festa, e eu iquei estudando... Quando cheguei lá, todo mundo tava bêbado, menos eu. Eu deveria ter levado ela, mas não quis ir embora. Deixei uma de suas amigas dar carona, e elas só estavam um pouquinho bêbadas por causa da cerveja. E ela se aborreceu por eu não querer icar com ela. Era verdade, eu não queria. Eu preferi icar curtindo com meus amigos. – Dante, você era um universitário. Todos nós éramos meio bobos nessa época. Ele suspirou. – Agora eu que tô soando patético. – Mais do que eu? – ela provocou, tentando desanuviar o ambiente. *** Enquanto Dante falava, Kara percebeu que talvez eles pudessem ter se aprofundado demais. Ainda que a sensação fosse boa, icar deitada na cama dele, com a alvorada iluminando o céu e mudando a cor das nuvens de preto para cinza. A sensação era boa, até ela não parar de pensar naquilo tudo. Até esse lance de um se abrir para o outro icar assustador demais para os dois. Ela sentia nele. E notava o próprio medo como alguma coisa comprimindo o fundo da garganta. Se eles fossem capazes de parar com esta parte, se conseguissem manter as coisas como estavam – sexo fantástico entre velhos amigos –, então ela aguentaria as pontas. – Não precisamos mais falar disso – ele afirmou. – Está bem. Sem problemas. Vamos mudar de assunto. Sem sombra de dúvida, os dois se sentiam da mesma forma, como se tivessem ido fundo demais. O que era bom. Não era? Ele a fez ficar de costas e deitou o corpo sobre o dela. – Pre iro fazer outras coisinhas com nosso tempo antes de trabalhar. – A voz estava cheia de segundas intenções. Cheia de vontade. Kara se excitou na hora, o desejo luía através dela graças à pressão do corpo dele, duro, sobre o dela. O aroma de Dante, sombrio como o céu do inverno. A mente dela desligou como que puxada de uma tomada. Estava grata por isso. Ela abriu as pernas para ele e, num segundo, o pau duro estava


encamisado e deslizando para dentro dela. As mãos dominavam seus seios, os lábios suculentos atacavam o pescoço. A sensação a dominou quando ele arqueou o quadril e se lançou dentro dela. Gostoso, voraz e doce a um só tempo. Então ela deixou tudo para trás, esqueceu as lembranças antigas e amargas, as dele e as dela. Esqueceu o medo que fazia o coração disparar de preocupação ao se permitir icar próxima demais dele. E ela se deixou perder em Dante mais uma vez. Os dedos de Kara tamborilavam na beirada do teclado enquanto ela olhava o relógio de sua sala pela décima vez naquela tarde. Ela esperava dar seis horas. O tempo não passava. Ela encontraria Dante às seis. Iria à sala dele, como ele tinha mandado. Dante também lhe dera outras instruções. E, obedecendo, tirou a calcinha depois do almoço. Passou o dia inteiro muito consciente daquela nudez debaixo do vestido-suéter preto. Eles já estavam naquela há três semanas. Encontravam-se na sala de Dante quando todos os outros haviam ido embora. A ideia de estar num local quase público era tão emocionante quanto o toque dele, seu comando sobre ela. Kara pegou uma caneta e a deixou rolar entre os dedos, lembrando da sensação. De sentir as mãos dele nela. Da cara que Dante fazia... Ela começou a rabiscar no bloco de notas ao lado do telefone, desenhando um olho. Mas não bastava. Ela rasgou a folha, amassou e recomeçou, delineando o rosto dele, os ombros largos. Como desenhar direitinho o ângulo harmonioso do seu queixo, das maçãs do rosto? E aquela boca carnuda, sua expressão... Ela tinha perdido a prática, mas foi bom desenhar. Quem sabe até melhor do que pintar. Ela não pensava nisso há muito tempo, mas Dante era tão bonito. Um homem como ele deveria ser retratado, ter a imagem preservada. Meu Deus, ele realmente estava mexendo com ela. Sua aparência trigueira. Seu toque. Tudo que faziam juntos. Ela deixou a caneta cair dos dedos. Suspirou. Sabia que eles corriam um pequeno risco com os empregos, embora ele tenha começado a trancar a porta da sala depois daquela primeira vez. E ela compreendia agora que aquilo era para pôr à prova sua con iança nele. Dante não precisava repetir a dose, correr aquele tipo risco. Ela sabia que


tudo aquilo era meio doido, mas não conseguia evitar. Kara começava a icar molhada só de pensar nisso. Os quinze minutos que teria de esperar seriam excruciantes. Ela ansiava, desejosa. Meu Deus, Kara tinha se transformado numa espécie de ninfomaníaca, o que a divertia mais do que a aborrecia. Na maioria das vezes, afinal. Dante nunca fodia no trabalho, mas jogava ela sobre a mesa ou a colocava no colo, sentando na cadeira, e batia nela. Os tapas nunca eram pesados, nunca brutos o bastante para fazê-la gritar. Ele não estava disposto a correr esse tipo de risco com Kara, atitude que ela apreciava. No entanto, era o bastante para lhe levar àquele limiar de dor misturado ao prazer. Dante batia nela, beliscava, fazia ela gozar com as mãos. Ela adorava. Adorava quando ele a deitava sobre o sofá de couro da sala dele e se reclinava sobre ela, mantendo o corpo parado, forçando o peso dela sobre as almofadas, fazendo-a se sentir completamente dominada. Kara ainda se surpreendia com o quanto adorava a dominação. Com a facilidade com que se entregava ao domínio. A ele. E quando Dante a levava para sua casa era ainda melhor. Ele era mais implacável, e ela se acostumou ao jogo BDSM. Kara podia encarar mais. Desejava mais. Eles até conversaram em ir ao clube que ele frequentava, o Pleasure Dome. Ela estava meio nervosa com aquilo, mas a ideia também a excitava. Principalmente o pensamento de levar a cabo o que faziam a sós com outras pessoas observando. Ela estremeceu e olhou o relógio novamente. Mais cinco minutos. Kara pegou o espelho da gaveta da escrivaninha e deu uma conferida. Seus olhos castanhos cintilavam, as bochechas estavam meio coradas. Passou a escova pelos cabelos, aplicou um pouco de gloss labial. Nada escuro demais, a inal, ele provavelmente o tiraria com o beijo. Ela sorriu para si mesma antes de fechar o espelho e levantar da cadeira. Ajeitou o vestido sobre o quadril, a barriga, ajeitou o cabelo. Hora de ir. Até ele. Dante. Quando abriu a porta do seu escritório, Dante estava ali de pé, mal deixando espaço para ela passar. Ele esticou a mão e fechou a porta. Kara sentiu seu perfume quase imediatamente, aquele almíscar sexy e sombrio. – Você chegou atrasada – ele disse. – Quê? São seis em ponto – ela protestou. Dante fez que não, com o olhar sombrio, brilhando de desejo e com uma pitada de safadeza. – Quase se passou um minuto. Terei de encontrar uma punição apropriada.


– Ah, tomara que sim – ela se viu ronronando. Ele nunca tinha feito o jogo da punição com ela. Kara icou surpresa com o quanto gostou da ideia. Como seu corpo reagiu. Porém, ela provavelmente reagia a Dante assim, com o desejo estremecendo na pele feito uma longa onda depois da outra, independentemente do que Dante falasse. Do que fizesse. Ele a agarrou e a segurou entre os braços, prendendo seu corpo com força contra o dele. Kara adorava como Dante era forte. Como icava diminuída diante dele. Ele a abraçou com tanta força que ela mal conseguia respirar. E a punição teve início com eles parados ali, a meio metro da porta. Ele a agarrou com um braço ao redor da cintura, enquanto a mão livre castigava sua bunda. Só algumas vezes; depois levantou o vestido e começou a beliscá-la, pequenos beliscões, cada vez mais fortes. Ela ouvia sua respiração arquejante. Dava para sentir o pau duro contra a barriga. E ela estava completamente molhada. Ele desceu a mão pela bunda, beliscando, beliscando. – Abre pra mim – ele ordenou. Ela afastou as coxas. Ofegou quando seus dedos espremeram os lábios de seu sexo. Era bom demais. Prazer e dor se digladiando, invadindo-a por baixo. Os mamilos se transformaram em dois botões rijos contra a renda do sutiã. Ela desejava senti-los contra o peito dele, queria os dedos castigadores beliscando-os mais forte. – Dante, por favor... – Adoro quando você implora – ele disse, dando outro apertão forte com os dedos na carne dela. – Me toca, Dante. Eu preciso de você. Eu preciso gozar. – Acha que gozar é uma punição adequada? – ele indagou. Ela, no entanto, percebeu o tom provocador em sua voz. – Sim. Ele riu, caminhando com ela ainda agarrada ao seu corpo grande. Largou-a brutamente sobre o sofá. E ela adorou ser tratada dessa maneira. Depois, ele estava sobre ela, a pressioná-la contra as almofadas, o couro frio contra o corpo nu. Ele abriu as coxas e mergulhou direto, usando as mãos para mantê-la completamente aberta enquanto lambia a boceta em pinceladas longas e adoráveis. – Ai, meu Deus, Dante... Ele en iou dois dedos dentro dela, fazendo-a ofegar. Ela tentou se movimentar no sofá, mas ele não deixou, indo mais fundo no corpo dela. Chupando com força o clitóris, mordiscando-o com os dentes. E ela gozou


num estremecer de puro prazer. Um calor ardente, brilhante. Ela mordeu o lábio para não gritar o nome dele. Ele se sentou e olhou para ela, a observou, como sempre fazia. Havia algo meio diferente na forma como ele a olhava. Algo sombrio nos olhos, como se realmente pensasse em alguma coisa. Avaliando alguma coisa. Enquanto o olhava, ela pôde jurar ter visto algo mudar, um raio de emoção, mas este desaparecera rápido demais para ter certeza. E Kara estava muito distraída pelo último clímax reverberando pelo organismo. Por sua beleza masculina. Ele estava tão lindo que ela mal conseguia suportar. Por mais que desejasse tocá-lo, ela sabia manter os braços imóveis. Para deixá-lo ditar o ritmo. E até mesmo isso a empolgava. – Você está pronta, Kara. – Sim – ela sussurrou. – Preciso sentir você dentro de mim, Dante. – Também pra isso. Quis dizer que você está pronta pra mais. Está pronta pro clube. Vou levá-la ao Pleasure Dome neste fim de semana. – Ah. A cabeça dela se agitou, cheia de imagens faiscantes de como o clube deveria ser. Corpos nus, o estalo de chicotes, uma antecipação sensual pesada no ar. – Gostou da ideia? Seu rosto acabou de corar. Lindamente. Do mesmo jeito que enrubesce quando escorrego a mão entre suas coxas. Desse jeito. E ele avançou, os dedos tateando a abertura, que pulsava. Ele sorriu. – Nossa, adoro te ver assim. Eu poderia icar aqui e te torturar a noite inteira, mas antes preciso jantar. Depois, preciso comer você. Te bater novamente. Mas agora vamos a um restaurante. Comer alguma coisa. E enquanto estivermos jantando, você pensará a respeito do clube. Sobre o que farei com você por lá. – Sim, Dante. – Ela mal conseguia raciocinar, todo pensamento era voltado ao clube, ao Pleasure Dome. De estar lá com Dante. Submetendo-se a ele de uma forma inédita para ela. – E, Kara... – Sim? – ela respirou ruidosamente. O corpo inteiro tremia. Com a última gota do clímax. Com a necessidade de repetir a dose. – Nada de calcinha no jantar. Talvez eu precise de você nua embaixo desse vestido lindo. – Ele pôs a mão sobre o quadril dela e se levantou, estendendo a mão para ajudá-la a ficar de pé. – Vamos andando?


O local era um grande restaurante italiano perto da baía. Boa comida, excelente carta de vinhos, mas Dante não pretendia beber hoje. Ele desejava permanecer concentrado em Kara. No que tinha em mente para ela naquela noite. Eles estavam sentados ao fundo, em um canto tranquilo, como ele pediu. Era um daqueles boxes com estofamento vermelho e toalha de mesa comprida. Perfeito. Kara estava um tanto reclinada sobre ele. Ainda relaxada por causa do orgasmo. Ele adorava vê-la desse jeito. Sem sua reserva habitual. Sossegada. Ele pediu o jantar – uma massa leve para ambos – depois a trouxe para mais perto. – Como vai, menina bonita? – ele foi perguntando. – Maravilhosa. – Você parece um tanto tensa. – Não. Bem. Só tô imaginando o que você esconde na manga. – Kara sorriu para ele. Estonteante. Sorriso divino. Rosto divino. – Ah. Você vai logo descobrir. – Você gosta de me fazer esperar. Por tudo e qualquer coisa. – Existe algo no esperar que forja a antecipação como nada mais. – Tudo que você faz é tão bem-planejado? Ele concordou. – Sim. Na verdade, é. – Você tem um problema com o controle, Dante. – E você gosta disso em mim. – Gosto. Ela abriu um sorriso largo. E ele também. Dante gostava dessas brincadeiras confortáveis entre os dois. Do fato de ela encarar tão bem a provocação. De às vezes também entrar na onda. – Então, o que tá acontecendo dentro dessa mente perversa hoje? – ela questionou, enrolando-se um pouco nele. O corpo dela estava quente, seu perfume estava no ar, num tom fresco e loral, em contraste direto com a força de sua personalidade, exibida para o mundo externo. Ele se aproximou e cochichou no ouvido dela: – Vou fazer você gozar aqui na mesa. E quero que goze antes da refeição chegar. – Dante? – Vai reclamar? Ele a ouviu soltar um longo suspiro. – Não. Dante se afastou e sorriu para Kara. Ela não devolveu o sorriso, mas o desejo tremeluzia em seus olhos. Na total vermelhidão da boca. Ele


continuou sorrindo ao colocar a mão debaixo da toalha da mesa, sob a bainha do vestido. E encontrou o calor úmido entre suas coxas. – Ah, perfeito – ele murmurou para ela. – Abre pra mim, Kara. Isso. Ela abriu as pernas, os olhos se arregalaram quando ele meteu os dedos dentro dela. A seguir as pestanas estremeceram, o olhar vitri icou enquanto ele começava a bombear suavemente. – Fique olhando para mim – ele disse baixinho. – Não preciso pedir para não deixar sua expressão entregar o que está acontecendo aqui. – Não, Dante – ela respondeu, arqueando um pouco o quadril na sua direção. – Nem mesmo agora – ele ordenou, apertando o grelo com o polegar. Ela mordeu o lábio. Ele arreganhou um sorriso. Dante estava duro como aço por ela, mas isso poderia esperar. O garçom trouxe as bebidas e Dante parou um instante, acenando com a cabeça. E retomou o ritmo assim que o garçom virou as costas. – Isso te excita, Kara? Ser tocada desse jeito diante de todas essas pessoas? – Sim. Meu Deus... – É capaz de gozar aqui, na frente delas? Ou isso é demais para você? – Eu não sei... Sim. É perfeito. Ele riu. – Você é perfeita – ele falou, metendo mais fundo os dedos, pressionando com força e circulando com o polegar. Kara tentava não ter contrações. Ele sentiu a tensão em seus músculos. Dante sentiu o apertar do sexo dela. Aqueles primeiros espasmos anteriores ao clímax. Ele acelerou o ritmo, mantendo a cabeça perto da dela. – Fique quieta, menina bonita – ele ordenou. – Pode encostar o rosto no meu ombro enquanto gozar. Goza agora. Nada além de um ofegar suave enquanto ela pressionava a face no ombro dele, justamente como ordenado. Mas ele podia sentir a gozada forte no corpo dela, naquele estremecer intenso, no agarrão apertado do sexo ao redor dos dedos ao chegar ao clímax. Nossa, ele estava duro feito rocha. O pau doía enquanto ela gozava na sua mão. Ele continuou a penetrá-la até ter certeza de que tinha acabado. Depois, removeu os dedos de dentro dela e inclinou seu queixo para que pudesse vê-la. As bochechas pegavam fogo, os olhos brilhavam, com as pupilas dilatadas. E enquanto ela observava, ele passou a ponta do dedo nos lábios e lambeu. – Seu gosto é melhor do que qualquer coisa servida aqui – ele a irmou


baixinho. – Você sabe o quanto adoro seu sabor. Não me farto. Ela sorriu, derrubando a cabeça sobre o ombro dele. Era verdade. Ele não se fartava dela. De seu gosto. De sua pele macia. De tudo. Loucura. Ele estava icando louco. Louco por essa menina. Tão louco quanto fora por ela nos tempos do colegial. Muito pior agora, que conhecia seu sabor. Conhecia seu corpo. E a sentira estremecer de desejo nos seus braços. Despedaçando-se de prazer. Ele precisava conter essa maluquice. Com certeza antes de levá-la ao Pleasure Dome. Possuí-la lá seria a realização de uma fantasia ardente. Muito mais do que com qualquer outra mulher. Porque era Kara. Ah, sim. Ele estava enlouquecendo. Perdendo a cabeça por ela. Dante não sabia como aquilo iria terminar. Ele nem sequer conseguia pensar naquilo agora. Tão somente podia pensar em Kara. Em possuí-la. Hoje. No fim de semana no clube. Ele precisava se recompor. E assim o faria. Bastava comer ela primeiro... O jogo dele se chamava controle. Sempre fora assim. E sempre seria. Ela levantou a cabeça para olhar para ele, dentro daqueles olhos metálicos – dourados, prateados e esverdeados – brilhando e cintilando na luz abafada. Nossa, ela era linda. Inteligente. Elegante. E ele se achava o máximo. Porque, pela primeira vez na vida, estava acontecendo uma coisa sobre a qual ele não tinha o controle completo. E essa coisa era Kara Crawford.


NOVE

Kara estava de volta à sua mesa no dia seguinte como se a noite com Dante nunca tivesse acontecido. Tirando os arranhões na bunda e nas coxas, que a faziam sorrir. Aquela sensação de ter ido até o limite no sexo. Ela adorava. Por que, então, Kara estava se sentindo tão agitada? Viu que estava tamborilando as unhas na beirada do teclado e parou. Kara estava no escritório há uma hora, mas não havia feito nada. Nem sequer respondeu aos e-mails. Tudo que fez foi icar sentada remoendo pensamentos. Ela girou a cadeira para olhar a janela atrás de si. O céu estava carregado, a chuva caía num borrifo suave, prometendo icar mais pesada ao longo do dia. Geralmente, a chuva e as nuvens lhe traziam um certo aconchego, mas hoje aquilo somente a deixava... sozinha. Solitária. O que estava havendo? Tinha acabado de passar outra noite maravilhosa com Dante. Na sala dele, no restaurante e, mais tarde, no apartamento dele. Eles não pegaram muito pesado; ele preferia resguardar as forças dela para a noite de sábado no clube. E Kara estava excitada com a ida. A ideia a empolgava. Por que, então, estava tão prostrada? Tinha acordado assim, uma hora antes de tocar o despertador de Dante. Como sempre, ele a deixou em casa para que pudesse se aprontar para o trabalho. E, como costumava fazer quando icavam juntos durante a semana, ela deixou o carro estacionando na frente do escritório, depois pegou um táxi pela manhã. Contudo, caminhar pelas ruas úmidas e cinzentas a deixou mal-humorada. Pensando bem, ela icou aborrecida na hora em que acordou. Dante ainda dormia ao seu lado, com seu grande corpo imóvel e em silêncio. Ela se aproximou somente para ouvir sua respiração. E se sentiu meio triste. Será que era algum resquício das profundezas de que tinha saído?


Ela fez que não e voltou a colocar a cadeira voltada para a mesa. Precisava parar de pensar, botar esses sentimentos estranhos de lado e trabalhar. Kara nunca foi de icar sentada se remoendo por causa de um homem e não era ali que iria começar a ser. Caso aquilo que estava sentindo tivesse como icar pior, ela daria um jeito, como deu em tudo que a vida lhe fez. Ser submissa não signi icava ser fraca. O próprio Dante lhe afirmara aquilo. Será que ela deveria ligar para ele e perguntar? Kara esticou a mão até o telefone, sem tocá-lo. Suspirou e tirou a mão dali. Dante. Tudo girava em torno dele ultimamente. E ela não gostava disso. Mordendo o lábio, Kara pegou novamente o telefone, mas desta vez ligou para Lucie. – Luscious. – Lucie, sou eu. – Oi, Kara. Como tem passado? Vivo pensando em você, mas tô muito ocupada com a reforma da cozinha. Quase terminou, e o bicho tá pegando por aqui. – Eu também tava pensando em te ligar, Lucie. Desculpe não ter ligado. Andei muito... absorvida. – Hum, por que tenho certeza de que você não tá se referindo ao trabalho? – Não mesmo. Tô saindo com Dante. Sei que falei que não iria, mas tenho passado muito tempo com ele, e isso tá icando... confuso. Podemos almoçar juntas? Preciso muito falar com alguém. – Tá tudo bem com ele? – Sim. E não. Tô questionando tudo hoje. E icando meio pirada. Tem tempo pra me encontrar? – Os operários vêm inalizar um trabalho hoje e preciso icar aqui. Não pode dar uma passada? Eu preparo uns sanduíches ou algo assim. – Por mim, ótimo. À uma hora está bem? – Perfeito. A gente se vê. – Obrigada, Lucie. Kara desligou. Ela não sabia ao certo como contar a Lucie sobre todas as coisas que vinha fazendo com Dante. As coisas que planejavam fazer. Mas ela não tinha outra forma de explicar seus sentimentos. Caramba, ela não conseguia explicar nem a si mesma. Todavia, esperava que se colocasse todas as cartas na mesa, Lucie talvez fosse capaz de ajudá-la a descobrir como agir, se sentir. Como recuperar a força, voltar a ser ela mesma.


Quem sabe aquele ego fosse fechado demais. Vai ver assim seja mais saudável. Por que, então, ela não se sentia melhor? Era horrível. Assustador. Kara olhou para o relógio. Ela parecia fazer muito disso ultimamente, icar contando as horas. Ainda faltavam quatro horas antes de conseguir ver a Lucie. Com outro suspiro, ela resolveu se recompor e trabalhar um pouco. Haveria tempo de sobra para ficar se remoendo mais tarde. Faltando vinte para uma, Kara se levantou da mesa, não tinha rendido quase nada no trabalho. Vestiu o casaco e o chapéu, pegou a bolsa e se encaminhou para a nova cozinha do bufê de Lucie. Não icava longe, mas ela teria de enfrentar o trânsito do centro da cidade. Por im, Kara estacionou na rua diante do depósito de tijolos, reformado recentemente e alugado por Lucie. O novo letreiro estava pendurado sobre a grande porta de metal escovado, a palavra “Luscious” belamente escrita em letra cursiva rosa-escuro, contornada por preto e dourado. Saindo do carro, Kara correu pela chuva, empurrou a porta pesada e entrou. Tirou o chapéu, removeu o cabelo do rosto e se livrou do casaco. Olhando ao redor, ela encontrou Lucie atrás de um balcão de madeira comprido e pintado com um branco imaculado. – Kara – Lucie a saudou com um sorriso –, que bom ver você. – A pequena loura deu a volta no balcão e lhe deu um abraço. – Então, o que acha? Kara examinou o teto abobadado, as paredes rosas e brancas, os dois antigos armários franceses caiados ladeando três sofás baixos de veludo dourado. – Sei que não é muito grande – Lucie comentou –, mas a cozinha nos fundos é enorme. Posso preparar centenas de cupcakes por dia. E também tô pronta pra fazer bolos de casamento, o que deve ajudar a estabelecer minha firma. É muito melhor do que tentar fazer tudo na minha casa. – É fantástico – Kara a irmou, aproximando-se do balcão e passando a mão sobre a super ície lisa. – Você fez um ótimo trabalho aqui. Adoro essa mistura de antiguidades num espaço industrial. E, você sabe, não entendo nada de cozinha, mas garanto que tá perfeito. Seus cupcakes são os melhores do mundo; você precisa disso pras coisas decolarem. Lucie sorriu, os olhos castanho-escuros brilhavam ao pegar o casaco de Kara e jogá-lo sobre o balcão. – Estou cheia de orgulho dele. É como se tivesse feito minha primeira pintura com os dedos no jardim de infância. – Ela tomou a mão da amiga e a levou aonde pudessem sentar. – Venha e ique à vontade enquanto busco o almoço. Pedi numa delicatéssen


excelente aqui do lado, pois ainda não tenho nada estocado aqui. Tomara que esteja com fome. – Nunca deixo de comer, aconteça o que acontecer. – Que bom. Eu já volto. O celular de Kara produziu um bipe enquanto ela se sentava, avisando que tinha chegado uma mensagem. Do Dante. Lucie voltou, carregando uma bandeja com sanduíches e duas garrafas do chá verde gelado que adoravam. Ela a apoiou na mesa de centro e ocupou um dos sofás. – É do seu namorado? Kara suspirou, confirmando com a cabeça. – Sim. – Por que não tá feliz com isso? Ela deu de ombros. – Sinceramente, não sei. Tudo tem sido ótimo entre nós. Lucie entregou a Kara seu sanduíche num prato de porcelana. – Tomara que goste. É de presunto de Parma e queijo brie. Então, qual é o problema? Não precisa se preocupar se os operários vão ouvir. Eles estão lá nos fundos almoçando. – Espero que você me ajude a entender direito. – Kara pegou o prato, esperando um pouco até organizar os pensamentos. – É... complicado. E acho que em parte são resíduos do Jake. Um pouco é, a inal. Mas principalmente se deve ao que tá acontecendo agora entre mim e Dante. – Ela parou e bebeu o chá. – Lucie esperava em silêncio, dando-lhe tempo para pensar. – Tá bem. Eu preciso contar uma coisa a respeito da... dinâmica entre nós. Não é um namoro casual comum. O Dante é… um dominador sexual. E nós estamos… fazendo uns lances bem radicais juntos, tornando as coisas muito intensas. – Ah. – Só isso? “Ah”? – Kara, querida, nenhuma de nós é virgem. E eu também curto uma sacanagem de vez em que quando. – Você nunca me disse isso. – Mas Kara não se surpreendeu por completo. Lucie era uma dessas mulheres que transpiravam sexo. A amiga deu de ombros. – O assunto nunca surgiu. Tô contando agora pra você entender que não precisa se preocupar se vou julgá-la. – Isso ajuda. Eu tava preocupada em revelar essa parte da história pra você. Não devia ter me preocupado. – Não te culpo por ser cautelosa, nem mesmo comigo. Sem problemas.


Kara mordeu o sanduíche, tentando decidir por onde começar. Tanta coisa acontecera nas últimas semanas. Ela engoliu e pôs o prato na mesa. – Então... – ela começou – nas últimas semanas tudo tem sido genial. O sexo é incrível. Ele me mostrou coisas, facetas minhas que eu nem pensava existir. Quer dizer, tenho tido desejos que nunca explorei antes e, desde o começo do nosso lance, eu me abri de maneiras inesperadas. E isso é bom. Mas também tá icando meio assustador. E não consigo entender o que tá me assustando. – Ele é muito exigente? Ele te obriga a fazer coisas que não deseja? – Não. Ele nunca faria isso. É completamente responsável e consciente dos seus atos. Sempre tá no controle, abrindo caminho para eu não estar, provavelmente pela primeira vez na vida. Quando estamos nesses papéis, ele me trata como se eu fosse... preciosa. As bochechas se incendiaram ao falar aquilo em voz alta. E com a lembrança da sensação de ser tratada bem. Valorizada. Por que, de repente, ela ficou com vontade de chorar? – É assim que deveria ser – Lucie falou, com os olhos castanhos ganhando contornos carinhosos. – Então, qual é a parte errada? – Talvez eu esteja errada – Kara respondeu. Foi dando um aperto no peito, na garganta, falar foi icando di ícil. Ela respirou fundo e soltou o ar. – Nunca quis um relacionamento, Lucie. Não tô à procura disso. A burrada que aconteceu com o Jake já me fez perder muito tempo. Como Dante também não quer, estamos de acordo. Ou estávamos. Mas de repente as coisas estão parecendo tão... sérias. Eu sei lá, vai ver não foi tão repentino. Alguma coisa tá tomando forma entre nós. A gente tá se conhecendo, e ele é uma pessoa incrível. É realmente... nobre. E gentil. Maravilhoso. Não consigo achar nada de errado nele, para falar a verdade. – E por isso você tá se culpando? Por ele ser tão “perfeito”, na falta de uma palavra melhor? Porque, e não falo isso pra parecer cruel, você tem a tendência de levar toda a culpa por tudo, Kara. Do que aconteceu com Jake. De nunca ter a aprovação dos pais. Nesses dois casos, você não fez nada de errado. E como você se sente em relação ao Dante não tá necessariamente errado. – Pra mim, está – Kara insistiu. – Eu não queria ter sentimentos por ele. Não preciso disso agora. E não consigo separar o quanto disso é uma... vulnerabilidade, pelas coisas que a gente tem experimentado, e o quanto é pra valer. De verdade. – Deixa eu te contar um pouco do que sei sobre relacionamentos com esse tipo de sacanagem. Essas coisas abrem você. Mas essa abertura traz à


tona a sua verdade, aquela que tá no seu interior. Isso não te faz imaginar coisas que já não existissem. – Mesmo sendo verdade, Lucie, eu não quero. – As lágrimas ameaçavam rolar novamente. Ela as controlou. – Não quero sentir alguma coisa por outro cara que, no fim das contas, vai terminar me rejeitando. – Querida, por que ele te rejeitaria? – Porque ele não deseja um relacionamento sério, justamente como eu. – Mas uma parte dentro de você quer – Lucie sugeriu baixinho. – Pois é. Merda. – Kara tirou o cabelo do rosto, dando um longo suspiro. – Falar em voz alta só piora as coisas. – Em algum momento você terá de escolher seu desejo, Kara. Caso pretenda ter um relacionamento e Dante não, então deve terminar com ele. Não quero te ver magoada de novo. – Nem eu. – Mas – Lucie continuou –, talvez ainda seja cedo demais pra saber. Existe alguma chance de ele estar sentindo o mesmo por você? – Eu não sei. Acho que não. Ele parece bastante decidido. Eu não passo da puta dele do momento. Nem imagino se já me viu de outra forma. E a gente nem sequer tá namorado. Ele não me leva ao cinema ou pra comer. Tirando o almoço no dia quando soube que ele trabalharia na minha irma. E ele só queria falar disso. E... ele me levou pra jantar na noite passada, mas ir ao restaurante foi… um lance sexual. Não foi pra namorar. Não foi romântico. – Ela fez uma pausa, lembrando das palavras ditas por Dante. Da maneira como a olhava. Ela suspirou. – Só no im o jantar foi romântico. Por uns momentos. Meu Deus, eu sei lá. Tô andando em círculos. Lucie se inclinou para a frente, tocando a mão de Kara do outro lado da mesa. – Se você tiver sentimentos de verdade por ele, Kara, e existir uma mínima chance de funcionar, então, talvez, devesse se permitir essa chance. Espere mais um pouco, a inal. Não tenho como te ajudar a tomar uma decisão, mas me parece que há algo a ser explorado nisso tudo. Não tô convencida de ele não ver nada além da putaria. Se fosse assim, ele seria um idiota. – Obrigada, Lucie. – Kara apertou sua mão. – Obrigada por me ouvir. Eu só preciso tomar uma decisão. E precisava ser logo. Eles pretendiam ir ao Pleasure Dome em poucos dias. E ela pressentia que o jogo iria icar muito mais sério. Ou seja, os sentimentos dela também poderiam ficar mais sérios. Kara queria ir ao clube. Desejava experimentar aquilo com Dante. Não havia a menor dúvida quando a isso. A questão era saber se ela


conseguiria controlar as emoções. Isso nunca tinha sido problema para ela antes. A relação com Jake tomou aquele caminho porque ela escolheu escancarar o coração para ele, mesmo nunca tendo se aberto por inteiro para o namorado antes. Foi um erro, sim, mas cometido por escolha sua. Será que continuar com Dante, correndo esse risco com o coração, iria valer a pena no im das contas? Ela não sabia. Porém, estava envolvida o bastante para aceitar o fato de não dar as costas para ele. Independentemente de quanto medo sentisse. Ela continuaria a vê-lo. E iria ao Pleasure Dome na sua companhia. Mesmo sabendo que, com ele, estava arriscando tudo. Dante andava de um lado para o outro diante da longa ileira de janelas da sala de estar, olhando o céu noturno. Não chovia, para variar, e as estrelas cintilavam, pontinhos minúsculos de luz contra um pano de fundo de aveludado negro. Ele aguardava Kara chegar para a noite no Pleasure Dome. Dante mandou que tomasse um táxi para sua casa. Ela deveria estar chegando, mas ele mal se aguentava. Não era apenas a empolgação de sempre causada pela antecipação de uma noitada no clube. Ele sentia um frio no estômago. Ansioso por tocá-la. Estar com ela. Chega. Se acalma, cara. Ele não queria pensar nela dessa forma. Nem em mulher nenhuma. Com uma necessidade tão forte. Dante sempre conseguia manter uma distância confortável em relação às mulheres com que saía. Era algo consciente, uma escolha. Ele tinha seus motivos e deles estava ciente. Entretanto, com Kara, a escolha fugia de suas mãos, pouco a pouco. Ele estava perdendo o controle. Ainda era di ícil de acreditar, e mais difícil ainda de aceitar. Será que ele conseguiria continuar a vê-la e manter algum controle aparente, além dos papéis desempenhados nos jogos de dominação? Ao menos ali, ele sabia que estava no comando. Na maioria das vezes. Droga. Forçou-se a parar de caminhar, olhando para a baía de Elliott abaixo dele. Estava escuro demais para realmente ver a água, mas tremeluziam as luzes dos barcos atracados. Era uma vista impressionante. Uma vista de


um milhão de dólares. Nos raros dias claros, o horizonte parecia não ter im, com a água cintilando, brilhando. E a visão noturna era um colar de joias – os barcos na água de um lado, a cidade de Seattle esparramada no panorama do outro. Contudo, ele não podia se importar menos naquela hora. Virou-se, passando a mão no queixo. Não pense tanto, caramba. Ele precisava manter a cabeça no lugar. Principalmente hoje. A primeira visita de Kara ao clube de BDSM poderia ser impressionante demais. Dante precisava ter controle total. Concentre-se no clube. No seu papel de dominador. Ele se sentia bem nessa posição. Sempre se sentiu. Concentrado. Forte. E tinha de ser assim hoje. Porque havia algo diferente em levar Kara até lá, ao Pleasure Dome. Na ideia de tirar sua roupa e brincar com ela na frente de tanta gente. Excitante pra caralho. Devia parar de pensar no que mais espreitava sob a super ície da emoção sexual, da vibração do jogo de poder. Ele respirou fundo, forçando mente e corpo a se acalmarem. A campainha disparou, e ele deu um pulo, assustado. Ela tinha chegado. Kara. Ele abriu a porta. Ela estava linda pra cacete. O longo cabelo castanho, uma mistura de chocolate e caramelo, estava solto sobre os ombros, à vista por causa do vestido que acompanhava um corselete de couro branco. Pintados de vermelho, os lábios o deixaram logo de pau duro; boca de mulher fatal num rostinho adorável, sempre com ar de inocência. Nossa. – Dante? – Quê? Desculpe. – Ele não havia percebido que a mantivera parada no corredor enquanto a olhava. – Entre. Ele tomou sua mão e a trouxe para dentro do apartamento. Ficou estático, olhando novamente para ela, absorvendo tudo. O vestido era curto, deixando à mostra um pedaço aveludado da coxa irme entre a barra e a parte de cima da bota branca de salto agulha. As pernas pareciam não ter im quando ela usava botas. Nossa, eram in indáveis mesmo quando descalça. Mas as botas icam fantásticas nela. Impecáveis. Ela estava em silêncio, parada na frente dele, com as mãos suspensas ao lado do corpo. Dante via que ela já caminhava para aquele subspace, um


lugar nevoento dentro de sua mente onde uma submissa começava a se entregar. Ele a levaria muito mais fundo antes de a noite terminar. Dante sentiu um latejo agudo no pau ao pensar nisso. Era melhor chegar ao clube o mais rápido possível. Se icassem mais um pouquinho no apartamento, ele rasgaria aquele vestidinho e comeria ela no chão do hall de entrada. E isso sem tirar aquelas botas brancas, tão sensuais... Ele pestanejou, percebendo que ela esperava uma atitude dele. Kara tinha o casaco nas mãos. Ele o tomou e colocou sobre os ombros dela, depois vestiu sua jaqueta de couro. – Está pronta, Kara? – Sim. Pronta. Excitada. E meio nervosa. Eu sabia que icaria, mas... É um pouco além da conta. Não sei direito o que esperar. – É normal. – Ele também poderia dizer o mesmo para si naquela noite. – Vai correr tudo bem, eu prometo. E se alguma coisa te deixar pouco à vontade, se começar a entrar em pânico, me avisa, e daí vamos embora. Eu nunca forçaria o ambiente do clube a ninguém. Mas também não te levaria lá se não estivesse convencido de que iria tirar de letra. Acho que você vai adorar. Ela consentiu, com um pequeno sorriso no rostinho amável. – Eu também acho. Estou pronta de verdade. – Boa menina. Vamos andando. Do lado de fora, ele parou um táxi, sem saber o quanto estaria exaltado no im da noite. Adrenalina. Endor inas. Ele não achava que fosse uma boa ideia dirigir. No curto trajeto ao clube, Kara icou em silêncio ao lado dele, mas foi se recostando nele, o corpo exalando calor através do pequeno vestido de couro, do casaco. Quando ele pôs a mão na coxa, ela estava pegando fogo. Aquela carne sedosa e quente era boa demais. Porém, o que aconteceria a seguir seria ainda melhor. Eles saltaram na frente do clube, um armazém antigo de tijolos cinza e porta vermelha pesada. Ele acenou para o porteiro, que, ao reconhecê-lo por conta das visitas frequentes, os deixou entrar. O interior do piso principal do clube estava levemente iluminado em tons de vermelho e âmbar, as paredes, escuras. Ao redor do recinto viam-se grandes equipamentos: as altas cruzes de Santo André, as mesas para bondage, os enormes frames de madeira para apoio, em que as pessoas bolavam padrões intrincados com corda, mantendo seus bottoms bem presos. O trabalho com as cordas era bonito, mas não o estimulava. Ele curtia mais o jogo de sensação.


Mantendo um braço ao redor da cintura de Kara, os dois foram em direção a uma ileira de bancadas para espancamento. Sim, era isso que ele adorava. E também sabia que ela iria adorar. Aquele calor sensual de sua mão deslizando sobre a pele. Ele adorava um brinquedo ocasional: chibata, chicote, pregadores. Com ela, porém, Dante simplesmente não conseguia extrair o bastante da carne sob as mãos. A cabeça de Kara estava girando. Ela vinha mergulhando no subspace desde que iniciara o ritual de se vestir, preparando-se para Dante. Era algo a que tinha se acostumado, o que acontecia sempre que se aprontava para encontrá-lo, mesmo quando entrava na sala dele no im do expediente. Contudo, estar no clube era diferente. Agora que estavam mesmo ali, no Pleasure Dome, a suave sensação de mergulhar ameaçava arrebatá-la por completo. Era maravilhoso e assustador ao mesmo tempo, e ela estava feliz pela estabilidade sólida do grande corpo de Dante ao seu lado. Com a irmeza que se prendia nela. Havia controle em seu aprisionamento, fazia com que se sentisse segura, e com muito mais vontade de estar ali. O clube era muito maior do que esperava, um depósito enorme com teto abobadado. Dezenas de pessoas já estavam ali, usando os equipamentos ou sentados em grupos nos sofás e cadeiras nos cantos do recinto. Tudo era escuro: as paredes, os móveis, a iluminação. De alguma forma parecia apropriado para aquele lugar. Havia uma música de fundo, uma batida consistente e sensual, que ajudava a criar uma atmosfera de tensão e expectativa. Mas ela notava todas essas coisas no limite da consciência. A mente e o corpo estavam realmente tomados pelo pensamento de Dante tocá-la. Espancá-la. Dominá-la. Ele a levou a uma parede em que amplas cadeiras revestidas de veludo vermelho escuro pontuavam uma ileira de spanking benches de couro. Ela compreendeu aonde iam, para que serviam; tinha pesquisado na internet muito tempo atrás e, novamente, nos últimos tempos. Como Dante soube de sua maior fantasia? Porém, quando ele a levou à cadeira e apoiou a maleta de couro que trazia consigo, os nervos a dominaram, fazendo-a tremer. Ela iria mesmo fazer aquilo? – Dante... – Psiu, vai ficar tudo bem – ele falou, acariciando seu cabelo.


Ele a ajudou a tirar a casaco, tirou o dele, e deixou ambos sobre o encosto da cadeira. Cada movimento era preciso, controlado. Kara respirou fundo, tentou se acalmar se concentrando em seu controle absoluto. Lembrando-se, ao pé da letra, de estar em boas mãos com ele. Ele pôs as mãos nos ombros dela e a encarou. As feições eram fortes, tão puramente masculinas. Lindas. – Kara – ele falou baixinho. Ela sentia o calor emanando dele, e se desesperou por um beijo. – Eu vou tirar sua roupa. – Ah... De alguma maneira, ela se sentiu chocada, sem saber bem por quê. Havia várias pessoas nuas no clube. Ela esperava por isso. Porém, a ideia a fez tremer num equilíbrio de nervosismo e uma pura e estimulante luxúria. Preciso dele. Preciso disso. Dante aproximou a boca de sua orelha. – Kara, respire fundo. Você só precisa me obedecer. Simplesmente faça como eu mandar. Eu vou tomar conta do resto. Ela concordou, sabendo que ele cuidaria dela no clube. A mente foi se esvaziando e, a seguir, se enchendo com uma camada de ruído branco suave. Ela se deixou cair naquilo quando Dante começou a despi-la. Ele colocou as mãos nas suas costas e abriu o zíper do vestido. Ela sentiu o toque frio do couro enquanto ele o removia sobre a cabeça. Por baixo, ela vestia apenas uma tanga rendada. – Bonita – ele sussurrou antes de também arrancá-la por cima das botas de cano alto. Por fim, ele também as tirou, ajudando-a a se livrar delas. O ar estava quente em sua carne nua. Ela nunca tinha se sentido tão nua na vida inteira como agora neste salão cheio de gente. A sensação a levava a estremecer de vontade, carência. Com uma forma estranha de orgulho. Os mamilos se apresentavam como dois picos duros. Dante esfregou novamente as palmas das mãos sobre os ombros, parando para pressionar. O su iciente para ela saber que ele estava no comando. A mente se esvaziou um pouco mais, o sexo umedeceu. – Kara, ique de joelhos – ele mandou, com a voz ainda mantendo aquele tom baixo e reconfortante. – Sei que ainda não izemos isso antes, mas é um belo símbolo da sua submissão. Você não é uma escrava. Não tô interessado nisso. Sua submissão tem a ver com o que tá acontecendo agora. Entendeu? – Sim, Dante... mas é que... Não sei se consigo. – Havia um nó inexplicável


dentro do peito. – Você consegue. Vai icar surpresa com o quanto isso pode ser libertador. Simplesmente deixe tudo em minhas mãos. Con ia em mim, Kara? – Sim, eu confio. – Então, ajoelhe, menina bonita. Meu Deus, ela iria mesmo fazer aquilo? A cabeça estava girando, rodando a cem quilômetros por hora, porém, por mais rápida que estivesse, a mente se encontrava praticamente vazia. Dante pegou na mão dela e, após um instante de hesitação, ela se ajoelhou no chão. As bochechas queimavam, mas não de vergonha. Era um calor emanando lá do fundo de seu corpo. Desejo. Intensidade. Ela não decifrava qual deles. Somente sabia que iria liberar tudo, o nó no peito se desfazendo, o corpo dando mostras de sua entrega. A ele. Dante. As mãos dele novamente tomavam seus ombros, icando atrás dela, pressionando para baixo. Mantendo-a parada, segura. Ele se inclinou e disse baixinho: – Boa menina, Kara. Respire. Solte o ar. E abandone. O controle. O medo. Estou bem aqui. Respire novamente. Isso mesmo. Dante ficou com ela, acompanhando-a durante a respiração, auxiliando-a a relaxar. A confiar. A cabeça dela zunia. – Vou soltá-la uns minutinhos para preparar as coisas. Quero que permaneça como está. Você ficará bem? – Sim, vou ficar bem. – Muito bom. Ela o sentiu se afastar, vagamente consciente do zíper de sua bolsa de couro se abrindo, sons baixinhos e abafados enquanto ele tirava coisas de dentro dela. Havia suspense em imaginar a respeito, no que ele poderia fazer, qual instrumento aplicaria nela. Essa combinação de desejo margeava o medo. Ela respirou profundamente, concentrando-se no ritmo da música, sentindo ela pulsar no ventre. Na sôfrega expectativa em seu sexo ansioso, em seus seios. Dante voltou passado um minuto ou dois e a ajudou a se levantar. – Venha, Kara. Vamos para a spanking bench agora. Ela fez uma pausa, tendo de apertar o maxilar para não arrancar a mão. Por que ela tinha a ânsia de sair correndo quando aquilo era o que mais queria, a experiência com a qual tinha fantasiado?


Talvez fosse por isso mesmo. Mas não conseguia racionalizar a ponto de entender. Ela tremia dos pés à cabeça. – Dante... não. – Ela balançava a cabeça lentamente. Não conseguia evitar. Ele icou em silêncio um instante, tocou a nuca dela com uma das mãos e a massageou com suavidade. – Está mesmo dizendo não, Kara? Se for realmente um não, então podemos parar. Me diz o que você deseja. – Eu... não sei. Não consigo parar de tremer. Ele a trouxe até ele, o braço irme ao redor da cintura. O rosto perto do dela. Dante falou bem calmamente: – Está na sua mão, Kara. Você decide. É aí que está o seu poder nisso tudo. Assim, me diz. Sim? Não? Ela se sentia à beira de um precipício. Deu uma parada. Esperando para cair na escuridão. No desconhecido. Ela desejava aquilo. Demais. Estava morta de medo. Sim. Não. A cabeça girava tanto que perdeu o fôlego. Naquele instante, ela nem imaginava qual seria sua resposta.


DEZ

A mão de Dante apertou a nuca de Kara. E de novo ela teve aquela sensação instantânea de segurança luindo através do corpo. E alívio intenso. – Kara, você está em minhas mãos – ele lhe disse, com a voz naquele adorável tom baixo que a reconfortava feito um bálsamo na pele. – Você vai ficar bem. Você vai ficar maravilhosa. Ele passou a outra mão por sua barriga, e ela sentiu um tremor de luxúria no sexo. Pulsando, pulsando. Ela olhou o aparelho, assustador e incrivelmente sedutor a um só tempo. Kara desejava que Dante se orgulhasse dela. Queria se orgulhar de si mesma. – Dante... eu... não quero deixar o medo atrapalhar. Eu quero isso. Sem sombra de dúvida. Eu só preciso... respirar um pouquinho. – Está certo. Então, respire novamente. Pronto. Ele se inclinou e a beijou na bochecha. E quando ela levantou o rosto em sua direção, ele girou seu queixo e a beijou nos lábios. Ela estava inundada de calor. Com o gosto dele, a textura suave de sua boca. Quando ele varreu por dentro com a língua, o calor e a vontade se inflamaram dentro dela. Ah.... quero isso... Ele se afastou para sussurrar colado aos lábios dela: – Você é bonita demais. Vai ser tão bom. Vou fazer ser bom pra você, Kara. Ela consentiu, a maior parte do medo foi embora levada pelo desejo a inundá-la. – Está pronta? – ele quis saber. – Sim. Sim. – Vai correr tudo bem. Basta seguir minhas ordens, Kara. Entregue-se a mim. Ela concordou novamente, relaxando os ombros, e o acompanhou.


A spanking bench parecia um cavalete para serrar madeira, mas ela era coberta de couro vermelho e tinha dois níveis. O de cima era uma coluna comprida, estreita e acolchoada, com braços dos dois lados. A parte mais baixa era composta de abas laterais estreitas, que Kara sabia servir para apoiar os joelhos e cotovelos. Espalhados aqui e ali existiam olhais para prender algemas ou cordas. Ou correntes. Ela estremeceu. – Suba, menina bonita. Eu te ajudo. Dante a segurou pela mão, mantendo a outra em sua cintura. E mesmo que uma parte dela não conseguisse acreditar que estivesse fazendo aquilo, ela trepou na bancada, deitando o corpo no nível superior e apoiando os cotovelos nos braços do móvel antes de colocar os joelhos nas abas inferiores. Kara percebeu de imediato que nessa posição a bunda icava empinada. O púbis pressionava o couro macio. E logo ela sentiu o impulso de pressionar com mais força, para amenizar um pouco aquele desejo. Mas não pretendia fazer nada sem que Dante pedisse. Ela pretendia apenas obedecê-lo. Dante se inclinou para ela. – Como é sua primeira vez, não vou vendá-la. Mas não deve se mexer se eu não mandar. Entendeu? – Sim. Eu entendi, Dante. As mãos dele estavam nas costas dela, varrendo a pela nua: ombros, descendo espinha abaixo até aquele ponto sensível na região lombar. Ela fechou os olhos. Kara estava extremamente consciente de cada toque, do ritmo das mãos deslizando sobre seu corpo, acompanhando a batida da música ao fundo. Pareceu demorar uma eternidade aquele toque. Enquanto isso, o sexo foi se esquentando mais e mais, até ela icar completamente molhada. Kara queria apanhar dele. Queria pedir por isso, mas permaneceu em silêncio. Deleitando-se em meio ao tremeluzente desejo abrasador ressoando pelo organismo, acendendo cada terminação nervosa. Uma das mãos de Dante desceu sobre a bunda e a parte de trás das coxas. A outra permaneceu naquela região, pressionando com gentileza, a medida que ela adorava. Kara sentia a estranha sensação de ter o corpo inteiro tocado por ele ao mesmo tempo. Menos onde mais precisava. Ficou mais e mais di ícil permanecer parada, com o sexo palpitando. Necessitando. Os mamilos enrijeceram contra a super ície lustrosa de couro do aparelho. E justamente quando ela pensou que não aguentava mais, sentiu o primeiro toque deslizando entre as pregas.


– Ah... – ela gemeu, se mexendo. – Não, Kara. Fique paradinha. Ela mordeu o lábio, forçando o corpo a se aquietar. Segurou o fôlego enquanto os dedos se movimentavam, escorregando pela umidade, subindo e descendo ao longo da boceta. O prazer era composto de longos ios líquidos sinuosos se entrelaçando pelos membros, pelos músculos, pela pele. Quando ele a penetrou com os dedos, ela suspirou. E quando mergulhou fundo dentro dela, ela gemeu, e os olhos se abriram. Do lado oposto a ela havia um homem. Jovem, dono de um rosto bonito. Um corpo incrível. Ele usava apenas jeans escuro e uma coleira de couro. Quando ela entendeu a situação, este homem lindo observando o que Dante fazia com ela, o sexo se inundou, quente e úmido, carente e numa intensidade nunca experimentada antes. Ela levantou o olhar. E enquanto um sorriso lento se abria em seu rosto, a mão de Dante desceu num tapa forte na bunda. – Ah! A palma da mão acariciou a pele em chamas, a reconfortá-la. Ele bateu novamente, seguido por outro doce golpe, e mais um. As sensações duplas tornavam tudo ainda mais agudo. Os dedos de Kara agarravam os braços almofadados do aparelho. O olhar penetrante do rapaz no dela era quase impossível de suportar. Dante enfiou mais profundamente os dedos nela. – Nossa, você tá toda molhada, minha menina. E tá adorando ser observada, né? Adora apanhar. Ficar vulnerável desse jeito. Eu também adoro. Ver você assim. Com plateia. Dividir com os outros o quanto você é linda na sua submissão. No seu desejo. Ela estremeceu com essas palavras, com o prazer no tom da voz. Dante deu outro tapa, de novo e de novo, criando um ritmo rápido, acentuado. Ele mantinha os dedos bombeando dentro dela. E ela estava tomada pelo desejo e pela dor, tudo de uma só vez. A sensação se fundiu até se tornar apenas uma coisa: necessidade. Pura. Capital. O prazer cresceu, prazer sobre a dor. A cabeça e o corpo se elevavam. Os tapas quentes da mão de Dante mesclados com os ataques dos dedos. O sexo inchou, e ela pressionou o púbis contra a bancada de couro; ela não conseguia se controlar. Pressionou até a força no clitóris se mostrar su iciente. Ela gozou, se fazendo em pedaços, gritando. Ele continuou com os tapas e metendo os dedos. A boceta era apertada como uma luva perfeita, precisando de mais, mais. E o rapaz bonito não tirava o olhar ixo


dela, estimulando seu gozo de um jeito inexplicável. – Meu Deus, Dante! Ela não conseguia parar de gozar. Estava tremendo, os abalos secundários do orgasmo pareciam durar para sempre. En im, o corpo começou a se acalmar. O estranho deu um último sorriso e foi embora. Ela sentiu as mãos de Dante no cabelo, acariciando as bochechas, os lábios. Ele estava ajoelhando na frente dela, inclinando seu rosto até ver os olhos. Eles brilhavam dourados na luz abafada. – Foi excelente – ele disse, com a voz baixa cheia de desejo. ��� Foi perfeito, Kara. Menina bonita. Ele a beijou. E aqueles lábios macios, seu gosto, o fato de saber ser Dante fizeram o desejo renascer dentro dela. – Minha menina – ele sussurrou contra a boca de Kara. Dele. Sim. Dante a beijou novamente, com mais força desta vez. Os lábios dele pressionavam os dela com força, a língua invadindo, mergulhando em sua boca da mesma maneira que os dedos penetraram seu corpo minutos atrás. Ela estava completamente relaxada, a pele queimava onde ele tinha batido, feito um lembrete amável dos tapas que levou. De como ele a tornara dele. Ele se afastou. – Venha, vamos tirar você daí. Ele icou novamente atrás dela, e Kara esperou por ele. Dante a agarrou pela cintura e a levantou, até ela icar de joelhos sobre a bancada. As mãos dele cobriram os seios, ela suspirou, arqueando em resposta ao toque. O corpo dele quente atrás do dela, as mãos ardiam na carne. Os mamilos estavam tão duros que até doíam. Ele os puxou, girando, esticando. Não tão forte, o su iciente para penetrar fragmentos da nova sensação no corpo dela. Deixando-a consciente do quanto estava molhada, do ar frio entre as coxas abertas. – Gosta de ter plateia, não é, Kara? Ninguém tá te observando especi icamente agora, mas consegue sentir? A energia no ar? Sua presença? – Consigo – ela sussurrou. O simples fato de saber que não estavam sozinhos era empolgante em si. Porém, não tanto como quando o estranho a observou. Ah, não. Aquela tinha sido a experiência mais intensa de sua vida. Queria repetir a dose, mas também desejava estar a sós com Dante. Era


como se precisasse receber dele uma sensação de segurança. Ela não compreendia. De imediato, estava tremendo, sacudindo. – Dante...? – Sim, eu tô sentindo. Deixa comigo, meu bem. Ele a tirou da bancada e se sentou com ela no colo na grande poltrona de veludo. Pôs um cobertor sobre seus ombros e a fez beber água da garrafa que encostou nos seus lábios. – Dante, eu... Ele esfregou os braços dela por cima do cobertor. – Quietinha, sim. Você me satisfez bastante. Você foi maravilhosa. Perfeita. Como ele sabia que era exatamente aquilo que ela precisava escutar tão desesperadamente? – Dante, não me sinto... eu mesma. – Não, é claro que não. É normal. É um pouco daquele lance das “profundezas”. Você vai ficar bem. Vou tomar conta de você. Quando foi que outra pessoa lhe disse aquilo? Quando foi que outra pessoa falou aquilo a sério? Lágrimas brotaram nos seus olhos. Eu o amo... Não. Era apenas a voz da experiência recentemente concluída. A leveza na cabeça. As profundezas. Por que, então, o corpo inteiro vibrou com a correção da ideia? Por que ela precisou morder o lábio para não lhe dizer? Meu Deus, Kara não podia falar aquilo. Não para ele. Não ela. Engoliu as lágrimas. Prometeu a si mesma lidar com aquilo – examinaria tudo – mais tarde, quando a cabeça voltasse a ficar no lugar. – Kara, você tá tão tensa. Vamos respirar um pouco, tentar fazer você relaxar novamente. – Não consigo. Ele a abraçou mais forte, até ela conseguir sentir o bater forte e constante do coração dele contra o seu peito. – Você consegue. Vamos juntos. Respire bem fundo. Com algum esforço, ela obedeceu. Por im, o pulso disparado se aquietou; a mente parou de girar. O exercício respiratório ajudou. Mas o que tinha ajudado mesmo foi o corpo dele perto dela. Seus braços ao redor dela. Seu aroma a envolvê-la, aquele aspecto masculino elementar e sombrio. Ele correu a mão pelas costas, os dedos acariciavam, golpeavam. Quando


chegou na parte antes da bunda, fez círculos de leve na pele. E, exatamente como antes, o toque começou a acender o corpo dela com desejo. Como Kara era capaz de sentir aquilo naquele momento, logo após essa pequena crise? Ela estava tão confusa. Mas era muito mais fácil simplesmente se entregar. Ao seu toque. Ao prazer inundando o corpo mais uma vez. Ao Dante. Ele cochichou para ela: – Eu preciso te levar pra casa. Pra te comer na minha cama. Vem, minha menina bonita. Outra pequena onda de calor a perpassou. Sim, na cama dele. Nos seus braços. Ela topava qualquer coisa que ele quisesse. Até mesmo se fosse ainda mais intenso do que antes, quando tinham usado o aparelho. Ela queria – precisava – estar o mais perto possível dele. Dante a colocou de pé e a vestiu. Cuidadosamente. Gentilmente. E Kara sentiu novamente a sensação de ser querida, de ser apreciada por ele. De forma inconsciente, ela sabia que tudo se resumia às dinâmicas do jogo de poder. Do papel dele como dominador. Mas aceitaria qualquer coisa que pudesse obter agora. Deixando para pensar mais tarde, quando ele terminasse com ela, como inevitavelmente aconteceria. No fundo do coração, ela sabia que nada bom assim poderia durar. A cabeça de Dante estava girando enquanto rodavam num táxi pelas ruas molhadas de volta à sua casa. Levar Kara ao clube foi quase um exagero para ele. Estava até desconcertado. Chegou perto de perder o controle com ela. De girá-la naquele aparelho e foder ali mesmo. Ela ficou incrivelmente excitada com aquele homem submisso a observálos. Nossa, ele também tinha icado. Não que gostasse de homens, mas adorava o exibicionismo. Tinha tanto orgulho da beleza e das reações de Kara. Ele icou tão duro que mal se aguentava. Teve que dar tudo de si para não apertar aquela bunda belamente rosada, abaixar as calças e meter direto nela. No entanto, Dante tinha prometido a si mesmo não agir dessa forma. Não na primeira vez dela no clube. E alguma coisa mudou quando Kara mostrou sinais de seu prazer mais profundo. Mesmo quando ela estava montada sobre o aparelho e ele teve a ereção de sua vida, ao pressionar as costas dela. Dante se tornou um quase protetor dela. E com isso nasceu a necessidade de tê-la por inteira para si mesmo. Uma


sensação de posse e um desejo que mal podia controlar, cada elemento fazendo o outro entrar em espiral, se elevando. Minha. Ele gemeu. Ainda estava duro feito uma pedra, o pau doía. E o lindo corpo dela coladinho ao seu, ainda relaxado por causa do orgasmo, ainda mergulhado no subspace. Era bom demais. Eles não conseguiam voltar a sua casa rápido o bastante. Dante olhou para Kara. Seus olhos estavam semicerrados, um breve vislumbre de ouro e calor vindo abaixo dos longos cílios. A boca vermelha, os lábios carnudos. Nossa, ela era linda. Ele se esticou e tocou um dos lábios suculentos. E sentiu um choque de luxúria atravessá-lo quando ela chupou o dedo para dentro da boca. Como se o interior da boca fosse feito de veludo macio e calor. Ele gemeu. A boceta dela era quase igual, só que mais apertada. Igualmente molhada. Ele deslizou a mão entre as coxas dela, sorriu quando seus olhos se abriram, se arregalando quando ele correu os dedos pela abertura úmida. Ah, sim, ela estava toda molhada, como ele supunha. Pronta para ele. – Fique parada – ele a irmou, mantendo a voz suave, mas incapaz de resistir. O motorista não prestava atenção neles, ouvindo alguma música cheia de interferências no rádio. Dante olhou de novo para Kara, observou os dentes se fecharem sobre o lábio inferior quando ele deslizou os dedos mais fundo e começou a bombear. Ela arqueou os quadris, mas ele fez que não. Kara relaxou imediatamente. Ah, ela era perfeita, essa garota. Não era a primeira vez que pensava nisso. Dante ouviu sua respiração rouca enquanto a castigava com a mão. Ele foi ficando cada vez mais duro. Pronto para explodir. – Tenho que te comer logo, minha menina – ele falou, num cochicho suave ao pé do ouvido dela. Ela piscou para ele, mas talvez tivesse ido longe demais para responder. Ele não se importou. Na verdade, adorou. O táxi parou diante da casa dele, e Dante tirou a mão de dentro dela. Ela deu um suspiro baixinho, resignado. Ele pagou o taxista, dando uma gorjeta para lá de generosa. Não importava. Ele simplesmente precisava levar Kara para o apartamento. Quando subiram, rapidamente ele tirou a roupa dela. Dante teve de


fazer uma pausa, para olhar para Kara, absorver o conjunto completo: as bochechas rosadas, os seios meio que cheios e pesados, os mamilos inchados num tom vermelho maravilhoso. Deliciosos. Ele mal conseguia esperar para vê-la completamente molhada. Ele começou a tirar as próprias roupas, desabotoando a camisa, e parou. Melhor ainda vê-la com sua camisa, com a água escorrendo sobre o tecido branco. Ele grunhiu. Num chute, se livrou dos sapatos, tirando tudo menos a camisa. Até mesmo a bainha no tecido de algodão ino roçando o pau duro era estimulante, enviando um pequeno choque de prazer através do corpo. Mas ficou melhor ainda quando tirou a camisa e a ajudou a vesti-la. Ela ainda não estava sob a água, mas seu pau pulsava na expectativa. Pronto para gozar a qualquer momento. Ele entrou no chuveiro, levando-a com ele. Dante não a possuíra ali ultimamente. E por que ainda não a tinha feito vestir uma de suas camisas? Vendo a água empapando o algodão sobre a pele dela, como acontecia agora. Ele gemeu. – Nossa, Kara. Você tá linda demais, gostosa demais desse jeito. Adoro ver sua pele debaixo do tecido molhado. A silhueta do seu corpo. Existe algo muito especial nisso pra mim. Nem sei explicar o que me leva a querer fazer com você. Ela estava calada, complacente, enquanto ele corria as mãos sobre os ombros, os seios, lindamente delineados sob o algodão branco molhado. Estava quase transparente agora, tão molhado, justamente como ele gostava. Dante correu as mãos embaixo da camisa, ao redor da barriga. Estremecendo junto com ela. Quando ele se inclinou e chupou um mamilo rijo através do tecido, o pau parecia prestes a explodir como um vulcão. Ele precisou se afastar, respirar fundo algumas vezes, obrigando-se a se acalmar. – Meu Deus, Dante! Isso é... Nunca senti nada assim antes. – Que bom que você tá gostando, meu bem – ele sussurrou, novamente cobrindo os seios com as mãos, envolvendo-os, amassando os mamilos. Ouvindo a respiração arfante dela. E a dele. Ele fez pressão contra ela, a sensação do algodão molhado e a curva da barriga quase a deixá-lo no limiar a todo tempo. Ele precisou interromper, respirar novamente, trincar os dentes para se prender a algum controle. Acalme-se. Preciso me acalmar.


Ele deu um passo para trás. Nossa, ela estava maravilhosa assim, mas ele precisava reduzir o ritmo ou tudo terminaria cedo demais. Dante apanhou a esponja grande e o sabonete preferido, uma mistura de aroma cítrico com almíscar, e a cobriu de espuma – apenas as coxas, a barriga debaixo da bainha da camisa. Ele adorava que ela icasse com o cheiro dele. Sem saber por quê. Mas não importava. Importante era como os mamilos escureceram, enrijeceram sob o tecido molhado. Os pequenos suspiros de Kara. A forma como ela o observava com desejo puro no rosto enquanto ele se lavava, deslizando a esponja ao longo do pau duro. Estava se ensaboando quando ela falou: – Dante, por favor. Me deixa... me deixa tocar você. Ele sorriu para ela, consentiu, e Kara tirou o chuveirinho dele, se ajoelhou e mirou a água em sua barriga, depois logo abaixo. A água quente produzia a sensação de mil agulhas suaves sobre a carne carente. Ele gemeu. Ela moveu o jato para o meio de suas coxas, e ele as abriu. Kara movimentou o chuveirinho, para a água atingir as bolas. – Ah, caralho, que gostoso – ele sussurrou, com o prazer o levando a se arquear numa corrente forte. Travou a mandíbula, tentando resistir. Ela envolveu o saco com a mão, massageando gentilmente, e ele achou que poderia morrer de prazer. As coisas que Kara fazia com ele, a visão dela na sua camisa, o tecido molhado grudando na pele. Dante colocou as mãos nos ombros dela, o cabelo molhado de Kara deslizava pelas costas. Ele começou a mexer um pouco o quadril, era impossível evitar. Ela olhou para ele, tinha as bochechas rosadas, o olhar em chamas. E, sem desviar o olhar, Kara segurou o pau na mão e esfregou a ponta por entre os lábios. – Ai, meu Deus, Kara... O prazer penetrava agudamente pelo corpo. E quando ela chupou a cabeça com a boca aveludada e quente, os joelhos bambearam como se ele fosse cair. Dante se agarrou à parede de granito do boxe, tentando respirar. Mas foi icando mais e mais di ícil enquanto ela girava a língua sobre a ponta, passando ela no buraquinho, depois engolindo tudo, levando-o para o fundo. – Kara, eu vou gozar se você continuar assim. Vou gozar agora mesmo, meu bem... Só que ele perdeu o controle da situação. Ela chupou com mais força, puxando-o para a garganta, depois deslizando para a cabecinha, depois engolindo de novo. A mão segurava o pau na base, sem soltar. E ela ainda


mantinha o jato nos testículos firmes. Ele estava perdendo a cabeça. Bombeando em sua boca. Provavelmente, bruto demais, mas ela aceitava. Perfeito... O prazer aumentou, aguçado e quase doloroso. Ela o manipulava sem pena nem dó, justamente como ele fazia com ela. Em instantes ele icou naquele limiar, seu tênue domínio. Sobre tudo: controle. Seu orgasmo. O dela. Ao gozar, ele disse o nome dela, várias vezes. Os quadris ondulavam contra a boca de Kara. Ela o chupava com tanta força que doía. Era fantástico. Ele nunca tinha gozado com tanta intensidade na vida. A seguir, ele tremia por inteiro. Kara se levantou e, na verdade, o ajudou a se sentar no banco dentro do boxe. Ele estava arquejante, esforçando-se ao máximo para recuperar o fôlego. E era Kara quem o reconfortava, sentada ao seu lado no banquinho enquanto a água caía sobre eles. Enquanto descia pela camisa de algodão grudada no corpo, sobre sua pele nua, formando regatos quentes e suaves. Ela o acariciava com as mãos, nos ombros, na bochecha. O toque dela era... terno. Levou um tempo até ele reconhecer o carinho. Era muito estranho uma mulher tocá-lo desta forma. Ele não costumava permitir. Era íntimo demais, longe dos limites dos papéis de dominador e submissa. Os limites do jogo de poder. O jogo de poder no qual ele era o dominador. Não que ela bancasse a dominadora, mas de alguma forma ele tinha baixado a guarda. Por causa de Kara. Ela o tinha levado a isso. E não se resumia ao prazer abrasador que sentia ao toque dela, ao simplesmente olhá-la. Era... apenas ela. Isso nunca lhe acontecera antes. Uma mulher o reduzindo a... isso. Um homem sem controle sobre o próprio desejo. Sobre o próprio prazer. Emoção. Ele teve um pouco de pânico. Entretanto, mesmo este era uma sombra vaga no limite da consciência, além do puro prazer que ainda sentia cintilando pelo organismo. Dante era incapaz de acreditar. Estava exausto demais para pensar. E a sensação, boa pra cacete, o impedia de se importar depois daqueles primeiros momentos surpreendentes. Nada o tinha feito se sentir melhor do que Kara. Nada. Ela era tudo em que Dante conseguia pensar. O resumo dos seus desejos. E tudo era bom demais para ele avaliar por que esse tipo de pensamento nunca lhe


ocorrera antes. Kara. Pela primeira vez, ele não queria mais nada – nem ninguém.


ONZE

Kara acordou no escuro, com o coração disparado. Demorou um tempo até ela se localizar. Lembrar onde estava. E quando recordou, o motivo que fazia seu coração palpitar voltou numa enxurrada, deixando-a em pânico. Ela o amava. Impossível, mas verdade. Droga. Ela se sentou, enfiando as mãos no cabelo. Aquilo não podia estar acontecendo. Não com ela. E, certamente, não com ele. Dante era o cara inalcançável. Ela deveria ter se ligado. Ela havia se ligado. Simplesmente foi longe demais na noite anterior para fazer algo a respeito. Para ele, não passavam de diversão e joguinhos. Um jogo sério, mas ainda assim um jogo. Dante tinha sido claro com ela desde o começo. E ela supôs que também seria clara. Chega de relacionamentos. Chega de abrir o coração. Chega de riscos com as emoções. E, agora, as emoções a loravam, penetrando extremamente fundo no coração. Como ela pôde pensar que poderia fazer aquilo, embarcar nesta aventura sexual radical sem se envolver? Ela era uma idiota. Ela o amava. Ele perceberia que algo estava acontecendo com ela. Dante era muito perceptivo, o que em parte explicava por que ele era tão bom como dominador. Contudo, isso não a reconfortava naquele instante. Largou as mãos no colo e olhou pelas janelas altas o céu noturno. A luz subia das ruas, um débil brilho âmbar e prateado, iluminando as nuvens a encobrir a Lua. Pareceu tão solitário para ela o mero pensamento de caminhar pela rua noturna, na escura e molhada Seattle. Intoleravelmente solitário. Porém, ela sentia um impulso terrível de ir embora. De


simplesmente se levantar, se vestir e cair fora. Antes de Dante acordar e perceber a existência de algo terrivelmente errado com ela. Era assim que parecia. Como se ela estivesse... doente. Ela gemeu e abraçou o próprio corpo. – Kara? Droga. A voz dele ainda estava grogue de sono. Ela não queria olhar para ele, sabendo que tudo acabaria ali. Kara sentiria com intensidade excessiva. E nem contaria a ele, o que seria um desastre completo. Ou ela teria de ir embora. Tem de. Partir e talvez nunca mais voltar. Ela sentiu uma dor aguda no peito com esse pensamento. – Kara – ele repetiu. – O que foi? Não consegue dormir? – Não – ela disse, apenas. Não sabia o que mais falar. Não con iava na firmeza da voz. – Venha cá – ele falou, sentando e esticando-se na sua direção. Ela o repeliu. – Kara? – Ela percebeu a confusão em sua voz. – O que está havendo? Sacudiu a cabeça. Estava estragando tudo. Já tinha estragado tudo com Dante ao se apaixonar por ele. Ela estava com raiva de si mesma. Com raiva dele, por motivos que nem sequer conseguia compreender. Dentro de si reinava apenas uma confusão sombria. – Vamos lá. Conte – ele insistiu. – Para você poder fazer seu serviço? – ela perguntou, num tom de voz amargo. Kara não conseguia evitar. Ela não iria se virar e olhar para ele. – Quê? Não! Eu... me diz o que tá acontecendo aqui. – Eu não sei. Só isso. Merda. Ou talvez eu saiba. Vai ver estou consciente demais de tudo isso ser em função de você desempenhar seu papel de dominante e eu representar a dócil garota submissa. – Nunca te vi dessa maneira. Sabe disso. Pensei que soubesse. – Tá bem. Talvez não. Mas você se vê assim. E o que eu preciso saber é... existe algo mais além disso, Dante? Ela engoliu em seco. Será que tinha mesmo falado essas coisas para ele? Dante icou em silêncio por tanto tempo que ela começou a sentir medo. Quem sabe ela o havia pressionado demais. Mas qual seria a reação dele? Pedir que fosse embora? Uma parte dela desejava isso. O resto queria que ele a tomasse nos braços e pedisse para ficar com ele. Para sempre. Não seja idiota.


A barriga dela doía. O coração doía. – Nossa, Kara... Chegou a hora. Ela jogou as cobertas e começou a se levantar, mas ele agarrou seu braço, forçando-a a encará-lo. – Aonde você vai? O que tá acontecendo aqui? Ela se encheu de uma raiva quente e poderosa. Raiva, medo e perda. Ela não conseguiria aguentar. – Vou embora, Dante. Mesmo no escuro ela pôde ver sua boca se abrir enquanto a soltava. Ele não conseguia entender. – Não vou mantê-la aqui contra a sua vontade – ele a irmou, num tom calmo, cuidadoso. – É claro que não, pois o abominável Dante De Matteo nunca faria nada para violar sua crença segura, sadia e consensual, mas também nunca faria nada para permitir a entrada de alguém, né? Ele a encarou, chocado. Ela também estava chocada. Então, suas sobrancelhas escuras se juntaram e ele falou muito baixinho, ela mal conseguiu escutar: – Não. Ela balançou a cabeça. – O que quer dizer com isso? – Que você tá certa. – Ele fez uma pausa, passando a mão pelo cabelo. – E isso é... nunca havia percebido antes... é uma fraqueza minha. Simplesmente encaro isso como necessário. E ainda penso que é assim. Na maioria das vezes. Talvez. Nossa, eu não sei mais, não, Kara. Ela abaixou um pouco a bola ao ouvir aquele tom autodepreciativo na voz dele. Ao perceber a verdadeira confusão. – Não sei o que tá acontecendo comigo – ele admitiu. – Mas tem a ver com você. E não gosto disso, posso garantir. Eu não entendo. Hoje, depois de voltarmos aqui… aconteceu alguma coisa comigo. – Ele parou de falar, balançando a cabeça negativamente. – Foi diferente. Novo. Não sei se quero pensar muito nisso. Eu tinha certeza de não queria pensar quando fomos dormir. Mas se a contrapartida é você ir embora daqui agora, então vou pensar a respeito. Farei o possível para entender melhor. – Dante... me desculpe. – Por quê? – Por reclamar desse jeito quando sinto a mesma coisa. Tem alguma coisa mudando, e eu tô assustada. Era por isso que queria ir embora. – Ainda quer? – Não, pois sei que me quer aqui. Apesar de tudo... isso, seja lá o que for. – Está bem.


Ele se esticou até Kara novamente, e desta vez ela aceitou o abraço. O coração dela parecia um pequeno martelo doendo dentro do peito, mas ela simplesmente deixaria estar, deixaria para lá. Era mais fácil, sabendo que ele estava tão confuso quanto ela com aquilo rolando entre os dois. Eles icaram sentados em silêncio por tanto tempo que ela começou a se perguntar se ele não havia pegado no sono, mas, então, Dante mudou de posição, deslizando até icar deitado de costas, arrastando-a até icar deitada sobre ele. Os seios foram pressionados contra a parede sólida do seu peito, a barriga nua dela contra a dele. Kara sentia a musculatura dali. Um pequeno espasmo de sua ereção no ponto de junção das coxas. E ela precisou respirar fundo para conter o desejo a varrê-la, feito uma onda. Tão líquido, tão poderoso. – Dante... – Shhh. Apenas me beije – ele falou, mansamente. O jeito como ele falou parecia uma onda de calor alvoroçando sua pele, espiralando no coração. Dante puxou a cabeça dela junto à dele, com as mãos nas bochechas. Quando ele a beijou foi surpreendentemente tenro. Os lábios alisavam os dela, suaves, mal a tocando. Um tremor leve a percorreu, criando uma nova camada de desejo sob aquela primeira onda aguda. Esta era diferente. Igualmente intensa, mas de uma maneira muito diversa. As coisas estavam diferentes entre eles. Ambos admitiram alguma coisa. Ambos se abriram. Contudo, com sua boca na dela, sua língua deslizando para explorar, para exigir de uma forma nova e terna, Kara não conseguia pensar no quanto aquilo era assustador. Ela tão somente era capaz de se entregar. Ao seu beijo. A ele. A ainda tênue e frágil ligação que existia entre os dois. Ela suspirou em sua boca, ouviu a respiração arfante dele em resposta enquanto o quadril se arqueava, pressionando a ereção contra o púbis a se umedecer. Ela abriu as coxas, permitindo que a ponta do pau deslizasse ao longo de sua abertura. Prazer puro, aquela sensação escorregadia. O toque aveludado do pau sobre o clitóris latejante. E sabia que era o dele. Dante. Ele começou a se mexer, arqueando, recuando para que o pau escorregasse entre as dobras úmidas da carne, avançasse sobre o clitóris e descesse novamente. Ele ainda segurava o rosto dela ao beijá-la, envolvendo as bochechas. E, esticando a mão, alisou a lateral do seio,


produzindo uma nova sensação com o toque. Kara se movimentou para ele poder envolvê-lo com a mão, e esfregou o mamilo com os dedos. E mesmo que o resto dos movimentos, das ancas, do pau e da boca, fossem gentis ao extremo, ele beliscou seu mamilo. Ela arfou. Sugando o ar dele. Mergulhou na dor que, de alguma maneira, nem sequer era dor, simplesmente um prazer profundo. Prazer a se combinar com a ternura de tudo aquilo que acontecia entre eles. Da sua boca na dela. O suave remexer dos quadris, pressionando o pênis contra ela. O contraste. Adorável. Ela pressionou o quadril contra o dele, fazendo força sobre a dura lecha de sua ereção. Ele não parou de beijá-la, de beijá-la, a língua dançando contra a dela. E a deliciosa tortura do mamilo provocava choques adoráveis através dela. O prazer cresceu, um enrijecer do seu sexo, do seu ventre, dos seios. Ela continuou se movimentando, com o quadril serpenteando contra o dele. Ele desencostou sua boca da dela o su iciente para cochichar: – Goza pra mim, minha menina bonita. E ela gozou. Simplesmente desmoronando, estremecendo por inteiro enquanto o clímax luía pelo corpo. Estimulado pela pressão forte de seu pau contra o clitóris. Ela gozou nele, se esfregando contra sua adorável carne rija, arfando em sua boca. Então, suas mãos a percorreram por inteiro, apalpando as costas, a bunda, as coxas. E cada toque irradiava uma nova onda deliciosa dentro dela. Ela ainda tremia com os espasmos do orgasmo quando Dante pegou uma camisinha, de alguma forma a vestiu e levantou o corpo dela sobre o dele. – Vamos lá, Kara – ele falou, com a voz grave de desejo. Dante manteve o corpo dela suspenso sobre o dele com as mãos fazendo força na cintura. Ela olhou em seus olhos. Eles eram dois pontos negros cintilantes no quarto escuro. Kara aguardou um sinal. Seu comando. E quando ele consentiu com o queixo, ela se derreteu um pouquinho ao se abaixar sobre ele. – Ah... Ela só pôde gemer enquanto ele a preenchia. Carne dura, quente dentro dela, avançando mais e mais fundo. Ele a segurou, fazendo seu corpo subir e descer com os braços fortes. Trazendo-a para baixo, sem parar, sobre o pau. Kara adorava perceber que, mesmo icando em cima de Dante, ele ainda estava irmemente no controle. Ele de inia o ritmo. Dante lhe propiciou


prazer e obteve o dele. E, enquanto bombava os quadris, mais e mais forte, o clima passou de carinhoso a selvagem. – Nossa, Kara – ele estava ofegante. – Eu preciso icar bem no fundo de você. – Sim, Dante... – Preciso ver você gozando de novo. Dá um jeito de gozar pra mim. Ela esticou a mão e apertou o clitóris duro, e a sensação a inundou. – Ai, Deus – ela sussurrou, tomada pela sensação: o pau, os dedos dela, a autoridade dele. – Vamos lá, menina bonita – ele arquejava, movimentando o quadril, o pau duro entrando e saindo dela. – Anda. Faz acontecer. Ela circulava os dedos, levantava o quadril para o pau atingir o ponto G. E, com um grito, gozou novamente. – Dante! Ah! Ela estava tremendo, esmagando o pênis com a própria mão. Seu sexo prendia com força aquela carne espessa em movimento. – Ah, Kara... – Ele metia nela, de novo e de novo, apertando seus quadris com mais força. – Caralho... Ele a puxou para baixo com brutalidade. Manteve-a perto. – Tão bom... bom demais... – ele murmurou junto ao cabelo dela. E, de repente, a ternura tinha voltado, mais intensa do que nunca, enquanto Dante a abraçava. Os dois ofegavam bastante, cobertos de suor. Ele ainda estava amolecendo dentro dela. Ela não queria que saísse. Não queria a separação de seus corpos. Dante beijou a bochecha, o pescoço, os lábios, fazendo uma carícia suave na pele, e, para ela, cada toque parecia uma con irmação do que existia entre eles. Kara não pretendia pôr um nome naquilo, mas era alguma coisa. Ficaram deitados durante um bom tempo, e ela dormiu um pouquinho, deitada sobre ele, os corpos pressionados. Era adorável dormir um pouco, acordar tão perto dele. O sol estava começando a nascer, deixando as nuvens do lado de fora das janelas laranja, rosa e douradas, feito uma aquarela do céu. Ela suspirou, feliz, se virou para ele, pressionando o rosto em seu pescoço, sentindo seu cheiro. Ele acordou, os braços a agarraram e, somente então, ela percebeu que mesmo adormecido, Dante não a soltou. Outra onda tomou conta de seu peito, com o coração batendo, esvoaçando com algo além do prazer.


– Meu bem – Dante segredou. – Minha menina... E num segundo o desejo se ativou novamente dentro dela. O pau endureceu sob seu corpo, e Kara abriu as coxas outra vez para ele. Ele mudou de posição o su iciente para pegar outra camisinha da caixa laqueada ao lado da cama e colocá-la. Depois, estava dentro dela. E desta vez rolou um adorável sexo matinal. O suave requebrar do quadril dos dois. Os gemidos dele, os suspiros dela. A sensação lenta, lamejando, e enfim chegaram ao clímax juntos, gritando e tombando novamente. Ele a beijou: no rosto, no cabelo, no queixo. Beijos suaves, adoráveis. Ao respirar, ela sentiu o aroma de sua pele. Do sexo. Deles dois juntos. Kara enlaçou os braços ao redor do pescoço dele, sentindo o calor de seu corpo contra o dela. O ritmo constante do coração. O sentimento de conexão. Uma parte dela ainda queria estar assustada, mas a sensação era boa demais. Isso era bom demais, e ela não podia negar aquele momento a si mesma. Apenas deixe rolar. Kara simplesmente não conseguia fazer nada, de verdade. Ela se sentia indefesa diante das sensações no corpo, no coração. O sinal de alarme foi silenciado por aquele sentimento. Por enquanto, a inal. E ela se permitia aquela entrega. À autoridade de Dante. Ao prazer de estar com ele. Até mesmo ao medo esmagador de estar apaixonada por ele. Não que ela devesse fazer algo a respeito. Ela nem sequer tinha de contar os sentimentos. Independentemente do quanto fossem fortes. Era um segredo delicioso que poderia esconder. Há duas semanas Kara sabia que estava apaixonada por Dante. Tornava-se mais e mais di ícil esconder o segredo. Ela não contara a Lucie, nem sequer dissera as palavras em voz alta, nem para si mesma. Kara temia deixar tudo ainda mais real caso o izesse. E o simples fato de permitir esse pensamento passar por sua cabeça já era o máximo de realidade que poderia suportar. Isso e o simples fato de estar com ele. Ela vinha desenhando Dante. E a cidade. As nuvens pairando sobre a vista da baía de Elliott tal qual a via das janelas do apartamento dele. As montanhas a distância. Uma fruteira na sua pequena mesa na cozinha. Ela tinha encontrado alguns lápis de carvão e um velho caderno para desenho. Kara ainda não ousara desenterrar as tintas. Era cedo demais.


Ela se sentia insegura em relação a isso. De se entregar àquela necessidade. Àquele desejo. Parecia... indulgente demais. Entretanto, Kara sabia ser por causa do Dante. Pela maneira com que ele a fazia se sentir. Em relação a ele. A si mesma. Ele começava a fazê-la questionar as ideias antigas, conceitos agora obsoletos, como havia percebido, em relação à vida e ao que deveria fazer. Em relação às escolhas tomadas. À forma como se restringira por temer demais o que poderiam achar dela. Principalmente seus pais. O que era ridículo. Ela era uma mulher adulta, mas o relacionamento com Jake não tinha ajudado nem um pouco. E ela permitiu que fosse assim. Deixou Jake e seu julgamento afetarem sua maneira de pensar. Vai ver ela não era uma mulher tão forte quanto imaginava. Ou quem sabe simplesmente não conseguia pensar claramente sobre nada disso. Talvez devesse deixar os lápis de lado. Esquecer a pintura... Ficou na frente das janelas de sua sala, olhando a cidade chuvosa, tranquilizando os pensamentos confusos. Automóveis espalhavam água na rua, uns poucos guarda-chuvas pontilhavam as calçadas. Um pedaço dela queria estar lá fora, sentindo o ar úmido de Seattle, sempre salpicado com um pouquinho de sal marinho da baía. Existia algo no aroma da cidade durante a chuva que a fazia se sentir em casa. Aconchegada, mesmo em meio a uma tempestade. Ela adorava a sensação de estar aquecida dentro do casaco, o ar úmido gelando os pés através das botas. Kara tremeu. Estar lá fora no familiar clima de fevereiro não era seu único anseio. Também havia Dante. Era sempre ele. Ela deixou a janela, voltou a se sentar em sua cadeira e pegou o celular. Haveria algum recado dele? Ele costumava mandar mensagens sensuais durante o dia quando não estava no tribunal. Ou, às vezes, quando estava, o que era uma atitude bem sacana. Algumas palavras dele bastavam para excitá-la toda num segundo. Dante sabia aquecer seu coração carente. Meu Deus, ela detestava se sentir assim. Ela não era assim, nunca tinha sido, mas com Dante ela não conseguia evitar. As últimas semanas foram maravilhosas e di íceis, tudo ao mesmo tempo, um tipo delicioso de tortura nunca experimentado antes. Eles icavam juntos quase toda noite e nos ins de semana. Nas noites em que não o via, ela tentava se ocupar. Às vezes levava trabalho para casa, saiu para jantar com Lucie uma vez, passeou sem pressa pela livraria preferida. No entanto, todo momento sem Dante acontecia de longe. Ela se sentia


afastada de tudo, menos dele. Lucie percebeu que estava rolando alguma coisa na noite do jantar, mas não forçou a barra. E Kara não ligava mais para ela com frequência. Tinha consciência de que Lucie não iria esperar para sempre até ela entregar o jogo, então parecia melhor evitá-la por enquanto. Mas ela não sabia por quanto tempo poderia guardar segredo. Toda noite com Dante ela temia o aparecimento da verdade. Kara tinha icado desapontada e aliviada por ele não a ter levado mais ao Pleasure Dome. O lugar era muito intenso; ela tinha certeza de que, se fossem lá, mergulharia demais no subspace para manter o controle, e as palavras escapariam, revelando o segredo. Kara não podia fazer isso. Caso lhe contasse, eles teriam de encarar os fatos e estaria tudo acabado. E era impossível não se lembrar da última vez em que revelou um segredo para um homem, ao contar ao Jake seus desejos mais pervertidos. Aquilo foi o im de tudo. E assim foi melhor, pois ele era totalmente errado para ela. Ainda assim, o problema era a ideia de divulgar o segredo, principalmente quando sabia que não devia revelá-lo. Ela suspirou, largou o telefone e abriu uma pasta na qual estava trabalhando na tela do computador. Era sexta-feira, e Kara devia entregar aquilo na segunda à tarde. Caso não se concentrasse para trabalhar, segunda-feira seria um inferno. Ela se forçou para se aplicar. Por im o cérebro mudou de ritmo, e Kara acabou mergulhando no trabalho. Eram quase cinco da tarde quando ouviu um bipe no celular, avisando a chegada de uma mensagem. Ela alisou o cabelo com a palma da mão, o coração disparado. Kara precisava se acalmar. Não era necessariamente uma mensagem dele. Mas era. Na minha casa hoje à noite. Às sete horas. Kara sorriu para si mesma. Eles não haviam combinado se encontrar naquela noite. Para ela, Dante havia planejado sair com o amigo Alec. Contudo, antes de conseguir responder, outro torpedo chegou. Deixa pra lá. Não consigo esperar. Venha à minha sala às seis. O sorriso se abriu, o corpo se esquentou. Os mamilos enrijeceram sob a


renda do sutiã. Uma hora. Uma hora inteira antes de poder vê-lo. E, então, quem sabe o que poderia acontecer? Ela adorava aquilo, de ele não largar do pé dela. Ela se maravilhava por não se ressentir com a marcação cerrada. E provavelmente a antiga Kara teria se ofendido. Porém, Dante lhe mostrava que abrir mão do poder por escolha própria não era um sinal de fraqueza. Era uma revelação para ela. Libertador. Exatamente como ele tinha sugerido no primeiro encontro. Na hora, Kara não conseguiu acreditar. Mas aquelas semanas ao seu lado a haviam modificado bastante. Ela não esperava que o caso com Dante levasse a alguma descoberta sobre si mesma. Olhando pra trás, Kara não sabia o que esperava. Quem sabe uma aventura breve com uma paixão antiga. Uma incursão nas fantasias mais safadas. Ela nunca pensou em se apaixonar tanto, a ponto de todos os momentos do seu dia serem consumidos pensando nele. Sexo com Dante. A grande cama de Dante. No corpo lindo de Dante. No veludo de sua pele. No comando de suas mãos, sua voz. Dante. Somente mais uma hora...


DOZE

Dante conferiu o relógio pela décima vez na última hora. Cinco para as seis. Somente mais alguns minutos até Kara estar com ele. Ele tinha parado de questionar o anseio constante por ela. Apenas decidiu que não precisava entender aquele desejo para desfrutá-lo. Em algum nível profundo da mente, ele sabia muito bem que estava evitando alguma coisa. Entretanto, simplesmente escolheu não examinar o sentimento mais de perto. E Kara era uma mulher fantástica; por que ele não deveria curti-la? Ela era sexy pra cacete. Tão inteligente quanto ele, provavelmente até mais, algo que não acontecia sempre. E o sexo... A sacanagem sempre se fazia presente, a troca de poder. Mesmo quando apenas transavam, sem nada radical, aquela dinâmica sempre existia. Sem dúvida, esse aspecto sempre se faria presente por ele ser quem era. Por quem tinha sido durante a maior parte da vida adulta. Mas parte também se devia a Kara. Ao jeito como ela reagia. Sua vontade de se entregar era muito profunda. E Dante adorava essa faceta, só que já não era tão importante como costumava ser. Ela estava certa quando o acusou de usar a perversão para manter as pessoas a certa distância. Ele podia admitir aquilo. E até mesmo o fato de continuar se portando daquela forma com ela, de alguma maneira. Porém, Kara tinha rompido aquelas barreiras e encontrado um jeito de entrar sob sua pele. Existiam diversas coisas boas entre eles. O sexo, até uma mera conversa com ela. Eles podiam conversar durante horas. E costumavam agir assim, icando acordados até tarde da noite depois de transarem. Ou numa manhã preguiçosa de domingo. Às vezes até icavam sentados juntos numa espécie de cumplicidade silenciosa, algo ainda mais estranho. Assustador, na verdade, se Dante se permitisse pensar a respeito; por isso, ele não costumava fazer análises. Não muito, a inal, mas agora, enquanto a esperava entrar pela porta, não havia como evitar.


Ela deveria chegar a qualquer momento. Um tremor de expectativa o percorreu. E isso não se resumia a simplesmente icar de pau duro. Pensava em dobrá-la novamente sobre sua mesa. Apenas concentre-se no sexo. No jogo de poder. Ele correu a mão pelo queixo, deixando o dedo se arranhar com a barba rala de fim de dia. Dante precisava se fixar numa sensação pungente. Estou perdendo a cabeça. Perdendo a cabeça por causa de uma mulher. Por causa da Kara. Às vezes, essa era a única coisa que conseguia fazer para manter a distância. Um bater suave na porta; a seguir, ela deslizou para dentro. Divina numa das saias justas que costumava vestir, que caíam feito uma luva. Esta era de um algodão vermelho ino. Ele adorava não ser o pretinho básico nem os tons neutros escolhidos pela maioria das pessoas na empresa. E ela geralmente se vestia dessa maneira. Como se soubesse que ele iria requisitá-la hoje. Como se escolhesse a saia mais safada de todas por sua causa. Talvez fosse isso mesmo. Ela sorriu, e ele se sentou na cadeira, sinalizando com o queixo para Kara se aproximar. Ele já estava duro. Mantenha o controle, cara. No entanto, enquanto ela atravessava a sala, Dante se fascinava com seu rebolado. Com o contraste entre a saia sexy, colada, e a blusa branca formal que estava usando. Com o quanto as pernas pareciam longas na meia-calça preta e no salto alto igualmente preto. – Dante... – Kara. – Ele parou para dar uma boa olhada nela. Adorava como ela se contorcia um pouco sob seus olhos. Adorava tudo nela. – Legal – ele murmurou antes de esticar o braço e pegar sua mão. Pense apenas no sexo. Em como ela sente... Ele a colocou no colo. A bunda era macia em suas coxas. Havia tecido demais atrapalhando, mas eles estavam na irma, e ele preferia nunca tirar todas as roupas dela ali. Era menos arriscado para ele, mesmo com a porta trancada. Se batessem, eles poderiam se recompor em questão de segundos. Dante nunca a despiu em sua sala. Embora seu maior desejo fosse arrancar suas roupas, abrir as coxas para cair de boca e chupá-la até o orgasmo. Uma onda de calor fez seu pau latejar pensando nessa imagem. Sim, concentre-se apenas nisso.


Ele adorava chupá-la. Não conseguia se fartar do gosto doce de sua carne. Fazê-la gozar com a boca. Era uma de suas atividades preferidas. E também parecia ser dela, esquentando ainda mais as coisas. – Como foi seu dia? – ele indagou, envolvendo a cintura com força suficiente para ela sentir um pouco de sua autoridade. Ele sentia seu poder novamente, com seu corpinho quente no colo, deixando ele ainda mais duro. – Foi... bom. – Bom? – Até você me mandar aquela mensagem. – Ah? Não se importou com ela? – Dante abaixou a outra mão e deu um beliscãozinho na parte interna da coxa. – Ah! É que... não conseguia esperar pra estar aqui com você. Não conseguia me concentrar em nada mais. Dante sorriu para ela. – Boa resposta. E o que desejava comigo, Kara? Ela suspirou suavemente. – Tudo. Ele sentiu outra pontada de prazer no ventre, no pau. – Ah, você é perfeita. Era verdade. Ela era perfeita. Kara se voltou sobre ele, a curva dos seios cobertos de seda pressionando seu peito. Ele jurou poder sentir o sexo dela se incendiando, até mesmo através das camadas de pregas, da saia, da sua calça. Que puta tortura. Ele não podia esperar mais um segundo sequer. – Levanta pra mim, Kara. Ela se levantou, sem pestanejar. Se ao menos soubesse o quanto se tornava submissa na hora em que ele sinalizou estarem nos papéis. Agora era automático para ela. Dante adorava aquilo. – Dá uma viradinha – ele ordenou e ela obedeceu. – Tira os sapatos. Boa menina. Ele avançou as mãos debaixo da saia e abaixou a meia-calça, enrolou a saia ao redor da cintura e a viu nua dali para baixo. – Ah, ótimo. Incline-se e segure-se contra a mesa. E abre essas coxas lindas pra mim. Ela atendeu ao pedido, agarrando-se à mesa, reclinando-se para ele conseguir ver os lábios rosados da boceta, brilhando com a umidade. A boca dele se encheu de água. Dante estapeou aquela bunda nua. Sentiu Kara estremecer. Quando deslizou os dedos por entre as pregas macias do sexo, viu que ela estava toda molhada. O pau latejou.


– Vira mais, assim, desse jeito. A bunda dela estava empinada, o sexo aberto para ele. E ele se inclinou na cadeira, mantendo-a aberta com a mão, para poder degustá-la. Doce salgado, como o mar e o puro néctar do desejo. Ele lambeu, numa longa pincelada ao longo da abertura, e ela arfou de imediato. Dante se afastou. – Fique quietinha, Kara. Ele se aproximou e lambeu novamente. As coxas dela ficaram rígidas, ele podia sentir o retesamento, o que também signi icava que ela já estava prestes a gozar. Dante se entregou ao trabalho, lambendo, lambendo. Usando os polegares para mergulhar dentro dela, depois subindo os dedos para pressionar o botão duro do grelo. Ela ofegava baixinho, fazendo força contra o rosto dele. – Dante... Ele continuou a lambê-la, enfiando a língua profundamente nela. – Eu vou gozar – ela sussurrou. Ele se afastou, parando para colocar a mão na bunda. Ela se arrebitou, sabendo o que ele iria fazer, e abriu ainda mais as pernas. E com os dedos encharcados com os sucos dela, Dante en iou um deles em seu ânus apertado. – Ah... – Ela mantinha a voz baixa enquanto ele a penetrava. – Que gostoso... Ele recuou, mantendo o dedo dentro do ânus enquanto se agachava para cair novamente de boca nela, lambendo, chupando os lábios macios, um por vez. Quando pressionou o clitóris com a outra mão, Kara explodiu, a boceta se inundou. O ânus apertou seu dedo com força. As pernas sacudiram. Ele estava tão duro que quase podia gozar, só por sentir o clímax dela. Sentindo a textura aveludada do ânus e da vagina ao mesmo tempo. Nossa. Acalme-se. Porém, o coração disparava, a cem quilômetros por hora. Ele estava prestes a perder o controle do qual se orgulhava tanto. Se não parasse de tocá-la, ele iria gozar naquela hora, feito um adolescente com a primeira garota. E se afastou dela, ousando manter apenas a palma da mão sobre a bunda. Sua respiração estava tão ofegante quanto a dela. – Vista-se – ele lhe falou secamente, icando de pé e pegando a meiacalça no chão.


Kara se virou para olhá-lo, mostrando confusão nos olhos castanhoclaros que ainda mantinham o itar do orgasmo. Ele não conseguiria se explicar. Em segundos ela vestiu a meia, os sapatos e ajeitou a saia ao redor do quadril. As bochechas estavam rosadas. – Dante, tá... tudo bem? – Sim. Não. Preciso tirar você daqui. Cacete, eu não me aguento, Kara. Preciso entrar em você. Não consigo esperar até voltar para casa. – Ele a puxou, pegou sua mão e a manteve um instante sobre o pau pulsante. Dante cochichou sobre sua face quente: – Vou comer você no meu carro. Pegue o casaco. Dante a ouviu engolir em seco. Ela não respondeu, mas, quando a encarou nos olhos, viu o desejo, quase tão forte quanto o dele. Kara consentiu em silêncio. Pareceu demorar uma eternidade até eles pegarem os casacos, as pastas. Depois descer as escadas e sair do edi ício, entrar no estacionamento ao lado e tomar outro elevador para chegar até seu veículo. Dante estacionou no quarto andar, que não estava totalmente vazio. Havia alguns carros deixando o edi ício, a maioria tomando seu rumo após o expediente. E escurecia a cada minuto. Ele não se importava. Simplesmente precisava possuí-la. Abriu a porta do passageiro de seu BMW prata e ela entrou. – Recline todo o banco pra trás – ele instruiu, inclinando-se sobre ela para pegar um pacote de camisinhas no porta-luvas. – E tire a meia de novo. Kara foi fazendo tudo o que ele pedia. Aquela complacência tornava tudo ainda melhor. Sua submissão. Sua confiança. Parado ao lado do carro, ele tirou o casaco e jogou no banco traseiro, dando outra espiada na garagem. Não havia ninguém. Não agora, ao menos. Ele estava duro demais para se incomodar. E também havia a emoção extra do exibicionismo, embora não houvesse ninguém ao redor no momento, com a qual estava acostumado a jogar no Pleasure Dome. Dante caminhou até a porta do motorista e entrou, pressionou uma alavanca e esperou o banco deslizar todo para trás, depois abaixou o respaldar até reclinar por completo. Ele abriu o zíper da calça e tirou o pau para fora, colocando rapidamente a camisinha. Até mesmo aquele toque breve lhe parecia demais para aguentar. – Vem cá, meu bem.


Ele se esticou na direção de Kara. Enquanto montava sobre ele, Dante viu seus olhos num mirar enevoado, metálico, brilhante. Ela estava no subspace. Impedi-la de falar a deixava assim. Mesmo que Dante mal a tivesse reclinado sobre a mesa. Aquilo tomava conta dela, a arrebatava. Kara mergulhava mais e mais fundo a cada momento. Era lindo. Entretanto, Dante mal podia pensar a respeito naquele instante. Praticamente não conseguia raciocinar enquanto ela se atarraxava nele, com a saia arregaçada ao redor da cintura. – Pare quietinha, Kara. Quero apenas... foder você. – Ele arqueou os quadris e deslizou para dentro dela, enquanto o prazer invadia seu corpo. – Ai, cacete, como você é gostosa! Nossa, Kara... ique paradinha, senão eu vou gozar. Ele segurou a respiração; o pau pulsando dentro dela. Depois de alguns instantes e algumas respirações profundas para se acalmar, ela perguntou: – Dante? – O que foi, meu bem? – Eu quero... pode me deixar comer você? Era muito bom o fato de ela perguntar aquilo, mesmo vindo do fundo da consciência. Ela ainda estava no subspace, apesar de ter acabado de fazer a pergunta. – Ah, assim você me mata, menina bonita. Mas, sim, pode me comer. Kara sorriu para Dante, mordendo o lábio ao apertar o pau dele. – Ah... O prazer era como uma corrente elétrica. Chocante. Aguçada. Ricocheteando no fundo de seu ventre. Dante precisou morder o lábio para não gozar. – Espere – ele ordenou, segurando sua cintura esguia ao respirar uma vez, depois de novo. Tentou se acalmar novamente. – Muito bem – Dante terminou falando. Ela começou a se movimentar, a bombear com as ancas. A vagina era uma bainha quente em volta dele, agarrando o pênis. Escorregando para cima e para baixo até ele ficar tonto com a sensação, cego. O prazer cresceu tanto que doía: no pau, no saco, no peito. – Kara... Ela se mexeu mais rápido, cavalgando com força. E ela era tão bonita que ele mal se aguentava. Seu rosto rosado, os lábios vermelhos. O cheiro de seu orgasmo anterior. Dante segurou o fôlego, impediu o orgasmo e esticou a mão entre os dois para beliscar o clitóris.


– Ai, Dante! Então, Kara gozou de novo. E ele gozava com ela, não dava para aguentar aquele apertão da boceta. – Kara... nossa! Ele gozou tão intensamente a ponto de icar tremendo. O corpo inteiro foi tomado por um prazer agudo, cortante. O peito cheio de... O quê? Dante não conseguia pensar. Entorpecido pela sensação. Pela percepção de Kara caindo nos seus braços. Alguma coisa tinha acabado de acontecer, mas ele não sabia que diabos era aquilo. Algo novo sempre lhe acontecia quando se tratava da Kara. De suas experiências com aquela mulher. Seus... sentimentos por ela. Dante a envolveu nos braços e a abraçou. Ela era quente contra ele, a respiração arfante pressionando os seios macios contra seu peito. Abraçála era delicioso. Até mesmo depois do orgasmo. Kara era mais gostosa do que tudo que tivera na vida. Havia alguma coisa no sexo... Não, não era o sexo. O sexo era incrível e os aproximou ainda mais, mas era incrível, em parte, por causa do que estava acontecendo entre eles em meio ao sexo. A cabeça de Dante girava. Ele tentava entender o que acontecia dentro dele. Algo novo, estranho; tinha problemas para compreender. Apenas tinha a consciência de que estar com ela era a coisa certa. Por ora, cara. Sim, por ora. E quem sabe por um tempinho adiante. Dante já havia pensando em outra mulher nesses termos? Ele já esteve com alguém quando seus pensamentos e planos duraram mais de uma semana? Mais de, talvez, um mês? Tentou manter relacionamentos algumas vezes, mas nunca deu certo. Porque ele não estava disposto a pensar no futuro. Nada além de planejar uma fugidinha de im de semana com dias de antecedência. Ou uma noite no Pleasure Dome. Ele tinha trinta e um anos. Quem sabe estivesse na hora. Até mesmo para ele. – Dante? – Hum? Desculpe. Minha cabeça tava vagando. Você tá desconfortável, meu bem? Precisa se mexer? – Um pouco desconfortável, mas não quero me mexer. Os braços dela se enrolaram em seu pescoço e algo surgiu dentro do seu peito. – Ei. Vamos jantar em algum lugar? – ele perguntou, sem estar pronto


para levá-la para casa. – Sim. Na verdade, estou morrendo de fome. – Tá certo. Ótimo. Vamos te vestir novamente. – Dante? – O que foi? – Foi... maravilhoso. Ele se voltou para olhá-la. Kara esboçava um sorriso pequeno, incerto, no rosto. Os olhos cintilavam. – Foi, sim – ele falou. Dante se esticou e tirou o cabelo do rosto dela. Ele era macio e liso feito cetim. O desamparo dentro do peito cresceu mais um pouquinho. Kara estremeceu. Ele estava sendo tão carinhoso. E continuou a acariciar a bochecha. E ela estava estupefata com isso. Com seu toque. Com ele. Mesmo dentro dos limites de outra experiência sexual sem pudores, algo novo e diferente estava acontecendo. Ele se sentia diferente. Os dois chegaram a uma espécie de novo patamar. Kara não conseguia pensar em tudo naquela hora. A cabeça e o corpo ainda zumbiam com o clímax. Ela sabia que ainda estava no subspace. Pensar, concentrar-se em qualquer coisa, era complicado demais. Mas ele a convidava para jantar, e parecia um encontro de verdade. Bem, para eles, a inal. Talvez a maioria das outras pessoas não desse início a um encontro com sexo oral na mesa de trabalho, acompanhado de uma trepada gloriosa no banco da frente do carro. No entanto, Dante era um homem singular. E Kara começava a aceitar ser uma mulher singular. Até gostava da ideia. Ela saiu do colo dele, sentando-se no couro macio do banco do passageiro, e eles se ajeitaram. – Comida tailandesa tá bom para você? – ele interpelou. – Sim, claro. Mas, Dante, você não ia encontrar o Alec hoje? – Merda. Sim. Espere aí, vou mandar uma mensagem pra ele. Era só um cineminha. Ele não vai reclamar se eu cancelar. Aquilo era diferente; Dante cancelando outros planos para icar com ela. E isso a deixou ainda mais consciente de alguma coisa ter mudado. Impossível ter acontecido enquanto transavam. Era somente sexo. O que estava ocorrendo com ele? Dante terminou a mensagem, deu a partida no motor e saiu do estacionamento. O Wild Ginger não icava longe, e logo os dois estavam


sendo conduzidos a uma aconchegante e isolada mesa com bancos nos fundos do restaurante. Kara se surpreendeu quando Dante se sentou ao seu lado e não do outro lado da mesa. Será que ele pretendia levá-la ao orgasmo, como naquele italiano? O coração dela disparou. Por ela, tudo bem. Mas parecia... desimportante. Contudo, em vez de colocar sua mão sobre a coxa, Dante a jogou sobre o ombro de Kara, trazendo-a para perto de si. – Tudo bem com você? – ele quis saber. – Sim, tudo. Por quê? – Só pra saber. É minha obrigação depois de colocá-la no subspace. Ela deu de ombros. – Certamente eu cheguei lá. Ainda antes de entrar na sua sala. – Adoro esse seu lado. Dante sorria com as covinhas à mostra. – Mas... hoje não foi apenas isso. O sorriso dele se desfez, os ombros icaram mais tensos sob o algodão enrugado da camisa azul leve, mas ele concordou. – Pois é, não foi. Existe alguma coisa diferente acontecendo entre nós. – Dante... eu gosto do que tá rolando entre nós. Tá mudando. E talvez seja bom, mas... quando me permito pensar demais nisso, eu ico... confusa. Meu Deus, eu nem deveria tocar nesse assunto. Tô sendo uma menininha novamente. – Não, sem problemas. Também andei pensando nisso. Ela mordeu o lábio, meditativa. – Você sabe que não tô procurando um relacionamento. Não depois do último. – Sim... – E também sei que você não tá procurando. Saiba apenas que entendo isso. – Tá certo. – Porém, ainda havia questionamento em sua voz, como se não soubesse direito aonde aquela conversa iria terminar. Talvez nem ela soubesse. – Acho que tô perguntando se tá bem pra você se nós apenas... formos tocando desse jeito. Porque eu acho bom. Muito bom, do jeito que está. – É, sim. E, logicamente, não vejo problemas nas coisas icarem como estão. É ótimo saber que pensamos do mesmo jeito. Em todos os aspectos. – Tá certo. Bom. Kara sorriu para ele, mas por dentro, o coração disparava, pois a conversa tinha um tom de mentira. Ela a irmava a Dante o que ele queria ouvir, não a verdade em si. Porém, o que mais ela temia: ele não segurar a


onda ou ela própria não segurar? Enquanto Dante pedia as bebidas, Kara percebeu a necessidade de entrar num assunto menos sério. Pensar era complicado demais naquele instante. – Então, que filme você ia assistir com o Alec? – Um de ação. Um lance de homem. – Ele sorriu, as covinhas surgiram novamente nas bochechas. – A namorada dele, Dylan, chama de “encontro de homem”. Kara riu. – Essa foi boa. – A gente não sai mais como antes. É estranho me acostumar ao fato do Alec ter namorada, mas eles combinam bem. Ela tem sido boa para ele. E o Alec é um desses caras de quem nunca pensei falar isso. Ou, vai ver, era. – Ele fez uma pausa, correndo os dedos pelo guardanapo de linho sobre a mesa, com o olhar fixo por um momento. – Ele era... como eu. Dante se voltou novamente para ela, os olhos escureceram, as sobrancelhas se aproximaram. O coração se acelerava dentro do peito dela. Isso não significa nada. Ele não está dizendo que também poderia mudar. – Ah, nossas bebidas chegaram. Saúde! – Ele pegou o uísque com gelo e bebeu. – Então, suponho que não seja uma grande fã de ilmes de ação, certo? Kara estava certa, não tinha signi icado nada. Ela suspirou por dentro. Será que desejava mesmo estar certa? – Dante, seu canalha. Os dois levantaram os olhos para um homem grandalhão de cavanhaque escuro – quase tão bonito quanto Dante – com a mão na cintura de uma mulher esbelta e um maravilhoso cabelo ruivo cacheado. – Alec. O que está fazendo aqui? – Quando você escreveu que não podia ir ao cinema, nós decidimos sair para jantar. – Ah. Eu fui... pego. – Dante se virou e sorriu para Kara. – Vai nos apresentar? – Alec perguntou, oferecendo a mão para Kara. Ela se sentiu baixinha perto dele. Um tanto assustada. – Sim, é claro. Kara, Alec e sua namorada, Dylan. Esta é Kara Crawford. Então, este era Alec. O melhor amigo de Dante. E Dante, aparentemente, nunca pensou em mencionar seu nome para ele. O coração dela se entristeceu um pouco. Entretanto, Kara tentou esconder o pesar ao apertar a mão de Alec e, depois, a de Dylan. – Muito prazer. – Dylan sorriu. Ela era uma mulher bonita, com traços delicados e pele branca, translúcida.


– Juntem-se a nós. – Dante apontou o banco vazio do outro lado da mesa. Alec concordou. – Boa ideia! Ele ajudou Dylan a tirar o casaco e a se sentar no boxe. A garçonete chegou sem demora, anotou as bebidas e levou os casacos. Kara observou que Alec fez o pedido por Dylan, da mesma forma que Dante agia com ela. Dylan nunca piscava os tranquilos olhos acinzentados. – Kara, no que você trabalha? – Dylan questionou. – Sou advogada. Dante e eu trabalhamos juntos na Kelleher, Landers & Tate. – Você nunca deveria sair com uma mulher tão inteligente quanto você – Alec disse a Dante, dando uma piscada. – Pode terminar tendo tudo quanto é tipo de problema. Dylan se virou para sorrir para ele. – Você está muito encrencado agora – ela afirmou, com um tom provocador na voz. – Há! Ela elevou uma sobrancelha para ele, que se inclinou e a beijou no rosto, deixando-a radiante. A garçonete trouxe as bebidas e anotou os pedidos dos homens. Havia algo estranhamente natural nesse aspecto para os dois e, novamente, Dylan não reagiu a nada. Então, Dante mencionou que ele e Alec se conheceram no Pleasure Dome, o que provavelmente significava que Dylan também curtia esse tipo de sacanagem. BDSM. As bochechas de Kara se esquentaram um pouco. Será que Alec e Dylan também icariam sabendo disso a seu respeito? Dante, entretanto, nunca a havia mencionado para o casal. Ela poderia muito bem ser apenas outra mulher com quem estivesse envolvido. Não importa. Aja com naturalidade. – E você, Dylan? – Kara perguntou. – E Alec? – Nós dois somos escritores – a outra mulher respondeu. – Eu escrevo literatura erótica e Alec, suspenses. – Ah! Você é Dylan Ivory. Eu li seus livros. Adorei A arte do desejo. Dylan enrubesceu. – Obrigada. É muita gentileza sua. – É verdade! Dylan sorriu calorosamente. Kara tinha a sensação de que gostaria dessa mulher, se tivesse a chance de conhecê-la. Mas eles eram amigos de Dante. Assim, era improvável que tivesse essa oportunidade. Seria um namorinho demais para ela e Dante. Kara não havia acabado de lhe dizer que não estava interessada num relacionamento, pretendendo manter as coisas como estavam?


Ela sentiu um nó na barriga, o pulso disparou. Tomou a bebida – uma taça de saquê gelado –, mas não bastou para acalmá-la. Por que estava tão assustada? – Poderiam me dar licença? Eu já volto. – Dante a deixou sair do boxe e ela se levantou, se sentindo boba. – Eu te acompanho – Dylan anunciou, também se levantando, e não restou alternativa a Kara além de aguardá-la. Elas caminharam para o banheiro feminino no fundo do restaurante. Lá dentro, Dylan pôs a mão no braço dela. – Você tá bem, Kara? – Quê? Sim, claro. – Espero que não se importe de eu falar isso, pois acabamos de nos conhecer, mas você parece meio pálida. E agitada. – Ah, eu só... – Ela abanou a cabeça. – Nem sequer consigo inventar uma resposta... – ela terminou dando uma risadinha nervosa. – E agora tô terrivelmente envergonhada. – Por causa do Dante? Kara fez que não, infeliz. Depois concordou. Era o Dante. Entretanto, ela nem sequer conhecia essa mulher, a namorada do melhor amigo de Dante. – Kara, provavelmente eu não deveria me meter, mas eu preciso dizer que nunca vi o Dante olhar pra alguém como olha para você. – Como assim? Dylan mordeu o lábio. – Não que eu o tenha visto com muitas mulheres, mas já topamos com ele algumas vezes. E ele costuma ser bastante reservado. Mas você... ele olha para você com como um olhar de cão sem dono. – Olha nada. – Olha sim! – Os olhos acinzentados de Dylan brilharam quando um sorriso iluminou sua face. – O cara tá apaixonado. – Quê? Ah, não. Garanto que não tá... apaixonado. – Kara correu a mão pelo cabelo. – A gente tá apenas... saindo. Mais ou menos. – Esse costuma ser o estilo dele. Você deve saber disso. Não sabe? – Sim, é claro. Dante foi bastante franco ao falar sobre sua visão de namoro e relacionamentos. – Meu Deus, me desculpe. Eu falei demais. Não é da minha conta. – Não, sem problemas – Kara falou, e não havia mesmo. Dylan estava sendo muito bacana com ela. Dylan sorriu, inclinando-se sobre a pia para lavar as mãos. – Tenho a tendência de ser abelhuda. Por favor, me desculpa, Kara.


– Tá tudo bem. E foi muita gentileza me acompanhar até aqui. Ver se eu estava bem. Dylan enxugou as mãos. – Vou voltar à mesa e dar um tempo pra você. Kara sorriu para ela, aliviada pelo fato de Dylan parecer saber instintivamente que ela precisava se recompor. – Obrigada. Dylan acenou com a cabeça e saiu. Kara olhou o re lexo no espelho. Os olhos estavam arregalados, as bochechas, ainda um tanto pálidas. O que estava errado com ela? Você está apaixonada por um homem que não vai corresponder. O coração bateu forte, um trovão doloroso dentro do peito. Mas Dylan falou que ele estava apaixonado... Não vá se encher de esperanças. Não, quanto mais esperança tivesse, mais arrasada se sentiria no inal. Ela não estava disposta a correr esse risco. Pena que agora era tarde demais.


TREZE

Dante reduziu a marcha enquanto estacionava na frente do prédio de Kara. Ele não sabia por que tinha decidido não levá-la para sua casa. Não era por já terem transado. Ele nunca se cansava daquilo, não com ela. Ele nunca se fartava dela. De simplesmente estar com Kara... Talvez fosse esse o motivo. Dante estava fascinado demais por ela. Obcecado demais. E a icha só foi cair com Alec e Dylan, uma enchendo a bola da outra. A maneira como se olhavam. A forma como se sentiu ao observá-las. Sua felicidade. A maneira como um pequeno pedaço de si ansiou por aquilo pela primeira vez. Era hora de terminar com tudo. – Obrigada pelo jantar – Kara falou, pegando o casaco, a pasta. – Ora, de nada. – Foi ótimo conhecer Alec e Dylan. Eles parecem gente boa. Ele concordou. – E são. Kara ficou sentada um pouquinho, a observá-lo. Ela mordeu o lábio. – Dante? Tá tudo bem? – Sim, é lógico. Por que pergunta? – ele não pretendeu soar tão vago. Tão indiferente. Frio. Mas sentia aquela velha muralha crescendo, como se feita de concreto armado. – Sei que não planejamos nos encontrar hoje, mas é... – Ela fez uma pausa, dando de ombros. – Bem, nós geralmente passamos o im de semana juntos e... Deixa pra lá. Não é importante. – Ela fez que não, depois se virou e procurou a maçaneta da porta. Dante agarrou sua mão. – Kara. Ela se virou para ele. Os olhos dela brilhavam sob a luz pálida do poste de luz, num dourado e prata abafados. As longas pestanas emoldurando os olhos arregalados. Eles estavam confusos. Ele não a culpava. Dante não explicara por que a estava deixando em casa numa sexta à noite. Nem ele


sabia ao certo. – Não vá – ele disse baixinho. – Como assim? Você... me trouxe pra casa e pensei que… – Eu sei – ele interrompeu. – Eu estava... Eu não sei no que estava pensando. Volte comigo pra minha casa. Kara mordia o lábio novamente, os dentes marcando a carne rosa suculenta. – Eu acho... talvez fosse melhor eu icar aqui hoje. Talvez seja uma boa ideia. Sim. É, sim. Eu posso aproveitar pra botar um trabalho em ordem. Fiquei de entregar na segunda-feira e praticamente ignorei esse fato hoje. – Ah. Tudo bem. Não sabia que tinha trabalho a fazer. Por que ele estava se sentindo um bundão? – Tá certo, então. Ela icou sentada e olhou por mais um instante. Ele levou a mão dela até os lábios, beijou as costas da mão, provocando um pequeno sorriso. – Eu ligo, Kara. Ah, sim. Ele era um bundão. Dante percebia a dor no rosto dela. Ele se odiou um pouquinho. Ela acenou a cabeça, saindo do carro. Ele a observou até que estivesse em segurança dentro do prédio, depois ficou ali parado mais um pouquinho. Dante nunca se preocupou antes quando precisava de espaço com uma mulher com quem estivesse saindo. Nunca tinha sido um problema. Não para ele, afinal. Por que agora? Por que com Kara? Ele pensou na conversa com Alec durante o jantar, quando as mulheres deixaram a mesa. Alec o acusou de estar perdidamente apaixonado. Dante rebatera, é claro. E, Alec, sendo quem era, não falou mais nada, apenas manteve a sobrancelha levantada para enfatizar o argumento. Alec tinha razão. Cacete. Ele ligou o carro e embicou na rua, acelerando um pouco forte demais ao dobrar a esquina. Isso não poderia estar acontecendo. Não com ele. Dante não era um cara de relacionamentos. Não tinha responsabilidade para tanto. Era óbvio. Olha só o que aconteceu quando desapontou uma mulher pela última vez. Erin estava morta, Deus do céu. Dante nem sabia como lidar com aquilo, decepcionando a própria mãe. Diabos, ele passou a vida inteira desapontando a mãe. Primeiro não sabendo como agir, depois porque desistira da esperança de um dia ser


capaz de fazer alguma coisa. Ele era um covarde. Pisou fundo no acelerador e a BMW voou sobre as ruas de Seattle. Dante não arrastaria Kara com ele. Ele pegou a estrada cinco e seguiu rumo ao norte, saindo da cidade. Dante precisava de um pouco do espaço aberto do interior ao seu redor. Necessitava parar e pensar. Havia uma pousadinha sossegada em Warm Beach. Quanto tempo demoraria até chegar lá? Dante podia muito bem pegar um quarto e passar o fim de semana. E fazer o quê? Ficar remoendo a dor de cotovelo? Ele respirou fundo. Estava sendo ridículo, novamente caindo na covardia. Teria de encarar Kara mais cedo ou mais tarde. E não só isso, seria preciso encarar o fato de ter sentimentos por ela. Dante ainda não estava pronto para lhes dar um nome. Talvez não fosse necessário, mas não poderia fugir deles. Porque, independentemente de Kara estar com ele ou não, o seu sentimento por ela continuaria ali, como um peso quente no peito, um peso que não iria embora. Caramba. Ele entrou na primeira saída e deu meia-volta, voltando para a cidade. Estava dirigindo rápido demais. Não parecia importar. A única coisa importante era voltar para Kara. Dante não conseguia acreditar que estava passando por aquilo. Não era do seu feitio. Ele não queria. Nem conseguia evitar. Ele gostava dela. Desejava estar ao seu lado, porra. E por que não estaria? Tão somente... estar com Kara. Quando retornou à rua dela, ele estava bastante perturbado. Achou uma vaga bem na frente do prédio e olhou para cima. As luzes estavam acesas, ela ainda estava acordada. Ele tentou imaginála, quentinha e segura dentro do apartamento, mas se tocou de que não o conhecia. Nem imaginava como era o lugar. Dante sempre preferiu levar as mulheres para a sua casa. Sempre. Para estar no controle de tudo, inclusive do ambiente. Talvez fosse hora de abrir mão de um pouco daquilo. De um pouquinho, afinal. E ele precisava vê-la. Precisava. Desceu do carro quando São Pedro abriu as torneiras. A chuva o atingiu em cheio enquanto corria pela rua. A porta dela icava ao lado da entrada de uma delicatéssen no velho prédio de tijolos. Ele apertou a campainha.


Silêncio. Tocou novamente. Onde ela estava? A porta de madeira estalou ao ser aberta. – Dante? O que faz aqui? Ela parecia surpresa. Na verdade, chocada. E linda pra caramba. Com um quê de inocente. Talvez pelo fato de o cabelo estar puxado para trás no rosto recém-lavado. Kara tinha tirado a maquiagem. Vestia a calça baixa do pijama de algodão e uma camisola ina, ambos num tom verde-claro, e, sob a luz fraca, aquele conjunto deixava seus olhos mais verdes do que nunca. Curiosamente, ela nunca se mostrou mais sensual. Ele encostou a mão na porta. – Posso entrar, Kara? – Eu... pode. Ela se afastou e ele passou, esperando para ela subir na frente pela escadaria estreita. Ele icou olhando o gingado sensual da bunda ao escalar os degraus. Não conseguia evitar. Mas não era por isso que ele estava ali. Não inteiramente. Por que, então, viera? Ele sabia que Kara desejaria ouvir uma resposta àquela pergunta. E merecia uma. No topo da escada, ela o levou por outra porta, entrando no apartamento. A casa era ela em estado puro, por algum motivo. Simplesmente parecia combinar, uma mistura de velho e novo, tradicional e moderno. Como o apartamento dele, na verdade, mas combinado num estilo mais feminino. Antiguidades talhadas e pesadas sobre as tábuas de madeira antiga e escura, um sofá branco, moderno e elegante, enfeitado com luxuosas almofadas de brocado. A mesa de centro era um velho forno coberto por uma folha de vidro. Havia uma coleção de fotogra ias P&B nas paredes, a maioria de detalhes arquitetônicos de prédios antigos. Provavelmente europeus. Mas ele estava se distraindo. Em relação ao que girava dentro da cabeça. Do corpo. Foi então que reparou em duas pinturas penduradas sobre um aparador antigo. Ele deu alguns passos em sua direção. Eram naturezas mortas, feitas com as grossas tintas a óleo que Dante se lembrava de Kara usar no colegial, mas a técnica claramente tinha se re inado desde então. Ele vislumbrou as iniciais no canto inferior direito: “KC”, numa graciosa letra cursiva. Ele esticou a mão, quase tocando uma delas. – Nossa. São suas. São boas. Muito boas. Você deveria pintar, Kara. Ela suspirou, sem responder nada.


Ele se virou para encará-la, se sentindo grande demais para a aconchegante sala de estar. Desajeitado, como se fosse o gigante que iria derrubar e quebrar tudo, caso se mexesse rápido demais. – Kara... Ela icou parada, de pé, a observá-lo, com os braços cruzados no peito. Ele podia ver o contorno de sua compleição irme, os mamilos, um tanto duros com o ar frio da noite. Dante não deveria reparar nessas coisas agora. Mas era inevitável. Kara era puro sexo para ele. Quando ela não era... todo o resto. Ele engoliu em seco. Tentou clarear as ideias. Diga alguma coisa, cara. Não seja tão idiota. Ele pigarreou. A cabeça zumbia. Por onde começar? Kara falou antes de ele conseguir. – É para isso que veio aqui? Para me dizer o que eu deveria fazer, Dante? Você é muito bom nisso, eu reconheço. Mas é por isso mesmo que está aqui? – Ela esboçou um risinho ferino. – Já percebeu que nunca entrou aqui, no meu apartamento? Havia raiva na voz dela. Ele não a culpava. Ela deu de ombros de um jeito tão impotente que doeu de ver. – Você simplesmente... me larga na porta como se eu fosse uma icante barata de uma noite só? Por que, Dante? Será que entrar na minha casa te deixa perto demais de mim? Não quer me conhecer tão bem assim? Isso é… insultante. Ou vai ver sua rota de fuga é mais fácil se tudo acontecer na sua casa. Você pode decidir quando tá na hora de eu ir embora. Quando já se fartou de mim. – Esse é o problema, Kara. – Ele deu um passo na direção dela, mas quando os seus ombros se retesaram, as feições endureceram, parou onde estava. Ele falou baixinho: – Nunca me farto de você. E morro de medo por causa disso. A respiração icou tensa. Era doloroso falar aquilo em voz alta. Admitir o fato para alguém, até para si mesmo. Os olhos de Kara brilhavam de emoção, e ela estava mordendo o lábio, abraçando o próprio corpo. Contudo, parte da tensão nos ombros sumiu. Mas ele permaneceu onde estava, não ousando assustá-la. – Também estou assustada – ela terminou falando. – Nunca estive tão assustada na minha vida. E eu não sou assim, uma mulher... enfraquecida pelo que sinto. – Comigo está acontecendo a mesma coisa – ele admitiu, odiando ter de ser assim. Entretanto, Dante tinha de falar. – E não tenho a menor ideia do que fazer com isso. Eu não posso... gostar de alguém dessa forma. Não eu.


– Por que não? – ela o questionou, revelando novamente raiva na voz. Do lado de fora, um trovão ressoava, grave e poderoso. Ele coçou o queixo. – Porque vou meter os pés pelas mãos. Como aconteceu com a Erin. Aquilo foi devastador. E eu nem sequer a amava. Quanto pior teria sido se eu a amasse? Não posso assumir tanta responsabilidade por ninguém. – Você assume responsabilidade pelas pessoas todo dia. No trabalho. Como dominador. – Eu consigo me desligar nessas situações. Eu não consigo... – Ele parou, sacudiu a cabeça. – Eu não consigo me desligar do que diz respeito a você, Kara. Como o poderoso caiu de quatro, né? Nessa hora, ela quase sorriu. – Sim. Eu também. Aquilo facilitou as coisas. Saber que ela se sentia do mesmo jeito. O fato de também ser complicado para ela. O corpo relaxou, e ele sorriu para ela. – Então, que merda a gente tá fazendo aqui? – ele perguntou, completamente perdido. Talvez pela primeira vez na vida desde a morte de Erin. – Eu sei lá. Acho que... você precisa me falar. E a questão não se resume a você ser o dominador. É que apenas... bem, sinceramente, Dante, em se tratando disso, você está em situação pior do que eu. É mais fechado. Não se ofenda. – Não. Você tá certa. É verdade. Eu reconheço. Só não sei como duas pessoas como nós, e, sim, como eu em particular, lidam com esses assuntos. Nós já tocamos nesse assunto... – De um jeito bem superficial – ela cortou. Ele passou a mão novamente sobre o queixo, reconhecendo ser um gesto que fazia quando estava estressado ou pensando demais, e se forçou a tirá-la dali. – Não sei como ter uma discussão por inteiro sobre essa questão. Sobre como icamos. Nós simplesmente fomos deixando tudo rolar, mas não deu muito certo. – O que você tá me pedindo, Dante? – Tô pedindo... Nossa, Kara, eu não posso manter esta conversa a dois metros de distância. – Ele andou na direção dela, observando se fugiria, mas ela não arredou pé. Num instante, ela estava nos braços dele. Ela recendia a lores, aquele aroma único de Kara. A pele estava quente ao seu toque. Ele a puxou para perto, e não soltou. Respirou fundo. – Me diz o que você deseja, Dante – ela exigiu, num tom suave, mas insistente.


– Desejo que seja a minha garota – ele respondeu. Dele. O coração de Kara acelerava a cem por hora. – Sua... como? Ela se afastou o su iciente para elevar os olhos até ele. Os olhos castanhos estavam mais escuros, queimando com um fogo que ela não sabia se entendia. – Eu não quero que a gente saia com outras pessoas – ele respondeu num tom feroz. – Nem que namore alguém. Transe com outro. Brinque com outro além de nós dois no clube. O coração de Kara batia forte, deixando-a com falta de ar. – Tá certo. Mais alguma coisa? – Eu não sei. Eu não sei o que mais isso vai signi icar. Nunca pedi algo semelhante a uma mulher antes. Podemos começar daí? Pode concordar com isso? Se ela poderia? A ideia era quase um alívio. Por mais que soubesse que queria mais – e queria tudo –, ela não estava tão certa de conseguir lidar com toda aquela situação de um jeito melhor do que Dante. Era um cego conduzindo outro cego, e ela se sentia incapaz de ver muito mais claramente do que ele. Talvez dar um passo por vez fosse o mais indicado. Ela concordou, soltando uma respiração profunda que não percebia estar segurando praticamente desde que Dante apareceu na sua porta. – Eu consigo fazer isso. Dante a apertou com mais força, segurando-a nos braços de um jeito reconfortante e absurdamente sexy ao mesmo tempo. Sua autoridade representava essas duas coisas para ela. E embora ele tenha demonstrado incerteza no rosto pela primeira vez, o ar de segurança estava de volta. Confiança absoluta. – Kara – ele falou, com voz baixa. – Eu preciso te levar pra cama. O corpo dela se acendeu imediatamente, o sexo icou úmido, simplesmente ao ouvir aquelas palavras. Esse era um aspecto que nunca tiveram de questionar. Ela se apertou contra ele, deixando-o saber em silêncio que também necessitava da mesma coisa: icar nua junto dele. Senti-lo dentro dela, perceber suas mãos sobre a carne. Ele gemeu ao se curvar para beijá-la, esmagando os lábios nos dela. A


língua deslizou para dentro, e ela sentiu o gosto do uísque que tinha bebido no jantar de forma vaga, doce, picante e masculina. Ou quem sabe aquilo fosse apenas ele. As mãos a percorriam por inteiro, arrancando o pijama, e, em segundos, ela estava pelada. Ela pressionou o corpo no dele, os mamilos raspavam sua camisa. Kara sentiu o cheiro da chuva nela, sentindo seu aroma misturado ao sabonete cítrico e de almíscar. Ela já tinha conhecido um homem tão cheiroso quanto ele? Um trovão estrondou do lado de fora, estremecendo as janelas, seguido pelo estalo agudo do relâmpago. O odor de ozônio chegou ao apartamento, misturando-se ao perfume dele. Era o aroma do poder. Combinando-se à perfeição com ele. Dante se afastou para murmurar: – Vamos lá, minha menina bonita. Onde é a sua cama? As mãos serpenteavam por ela, deslizando pela bunda, e ele a levantou. Kara entrelaçou as pernas ao redor da cintura dele e o beijou na boca, no pescoço, enquanto era transportada pelo corredor até o quarto, fracamente iluminado por um pequeno abajur na mesa de cabeceira. Ele a deitou na cama. Ela estava se preparando para deitar quando Dante tocou a campainha e teve de puxar a colcha estampada, branca e violeta, revelando os lençóis que se mostraram frios em sua pele. Dante se esticou para ligar o abajur do outro lado da cama. – Eu preciso ver você – ele falou, a voz rouca de desejo. Kara também queria vê-lo. Ela o observou tirar a camisa, descartando os sapatos e a calça. O corpo era composto de músculo rígido, delgado. Barriga de tanquinho e ombros largos. A ereção impressionante marcava o tecido da cueca boxer escura. O sexo dela se contraiu com força. Ela já estava molhada, só de olhar para ele, uma beleza masculina bruta. Tão molhada quanto as ruas lá de fora enquanto a chuva caía numa torrente, batendo nas janelas. Ele a observava, mantendo as feições completamente imóveis, mas estava duro feito pedra – o pau, os mamilos, duros e escuros contra a pele dourada. Ela lambeu os lábios e viu o pau latejando. O sexo dela reagiu, se contorcendo. Preciso dele dentro de mim... Ela abriu as pernas, movendo-se na sua direção, e ele sorriu, parando durante um respirar, seguido de outro. A seguir, ele estava sobre Kara, cobrindo o corpo dela com o dele, as mãos tocando o cabelo e o segurando com força. Ele a beijou de forma violenta, a língua deslizando para dentro,


girando em torno da dela, saboreando, exigente. Ela enlaçou as pernas em torno da cintura dele e se pendurou. Dante mexeu os quadris, o pau entre as coxas dela, pressionando a entrada. Escorregando nos sucos dela. Logo um arfava sua vontade na boca do outro. Meu Deus, ela poderia gozar apenas com aquilo, o adorável escorregar de carne contra carne. Ela contorcia o quadril, até o pau deslizar para dentro da boceta e subir sobre o clitóris, descendo e subindo novamente. O prazer serpenteava, uma pulsação acelerada marcando dentro dela. Mais alguns movimentos dos quadris de Dante e ela gozaria, gritando na boca dele. Tremendo por inteira. Quando Kara terminou, ele murmurou novamente: – Camisinha. Ela apontou para a mesa de cabeceira, e ele se esticou para abrir a gaveta de cima, encontrando as camisinhas e pegando uma. Dante rasgou a embalagem com os dentes e, juntos, os dois a deslizaram sobre o pau duro. Ele se ergueu sobre ela, olhando de cima para baixo. E, enquanto escorregava para dentro dela, Kara itava a intensa agonia no seu rosto, o prazer puro enquanto a preenchia e ela o agarrava dentro do corpo. – Meu bem, você é deliciosa. Gostosa demais. Nunca senti algo melhor do que você. Ele bombou, metendo mais e mais fundo, ainda se equilibrando sobre ela. Kara mantinha o itar naqueles olhos tão escuros, cintilando dourados em suas profundezas. E uma expressão que ela não conseguia compreender direito. Prazer e algo mais... Não importa... Não, a única coisa importante era ele ao seu lado, o desejo crescendo novamente, a elevá-la mais e mais. O pau enchendo ela, levando o prazer para o fundo de seu organismo. O rosto bonito ao gozar, gritando o seu nome. – Kara! E então seu próprio clímax, o prazer rugindo dentro dela feito uma luz branca. Brilhante. Deslumbrante. A seguir, ele a levantou, até ambos icarem sentados eretos, as pernas dela apoiadas sobre as coxas dele enquanto Dante se ajoelhava na cama. Ele a segurou juntinho, com a parede sólida de seu peito pressionando os seios. A respiração de Dante era um arfar entrecortado ao ouvido dela. – Nossa, Kara – ele sussurrou. O corpo dela ainda tremia por causa do gozo, da emoção, quando ele a virou com as mãos fortes, deitando-a sobre o colo.


Ele começou a bater nela, com força e velocidade. A mente se apagou rapidamente e Kara nem precisou pensar naquilo. Apenas a dor seguindo tão de perto o auge do prazer que tudo se mesclava numa coisa só. Numa só sensação. Calor, necessidade e amor por ele, tudo misturado. Eu o amo... Ela mordeu o lábio. Kara não falaria. Não se deixaria proferir nada além do resmungar abafado. Dante estendeu a mão sobre ela, debaixo dela, e a en iou entre as coxas, pressionando o clitóris. E, inexplicavelmente, ela gozava outra vez. Contorcendo-se no colo dele, o prazer trovejando dentro dela feito a tempestade lá fora. Ele a manteve assim com a mão na sua lombar, permitindo surfar as últimas ondas de prazer. Por im os tremores cessaram, e ela icou quieta. Kara ouvia a chuva caindo assim como sua respiração, ainda ofegante. Em silêncio, Dante a levantou em seus braços. Ela encostou a cabeça no ombro dele, inalando seu perfume novamente. Ela era dele. Dante havia acabado de lhe mostrar aquilo, de um jeito que talvez ninguém mais compreendesse. Mas eles sabiam. E somente aquilo importava. Kara respirou profundamente e soltou o ar. Pelo menos, era isso o que diria para si mesma por enquanto. Dante sentiu o corpo de Kara icar lácido em seus braços. Ela estava tão linda deste jeito que ele mal suportava olhá-la: as bochechas rosadas, cabelo desgrenhado, os lábios rosa-cereja separados. Os cílios descansavam sobre o rosto feito longos ferrões de seda escura. Nossa. Quando ele pensou numa mulher em termos tão poéticos? Contudo, esse era o efeito de Kara sobre ele. A poesia fodendo completamente com sua cabeça. De um jeito bom, no entanto. De um jeito desejado, pelo qual suspirava. Ela gemeu baixinho e se mexeu, virando o rosto para o peito dele, o fazendo sentir a bochecha, lisa e quentinha. Dante a desejava. O tempo todo. Em seus braços. Ele queria estar dentro dela. Comandá-la e ver sua reação. Era incrível. A emoção mais incrível já experimentada, sem contar as motocicletas e os mergulhos de penhascos. Suas outras aventuras com BDSM, com uma miríade de mulheres. Todas sem rosto agora. Talvez nunca tivessem tido um. Mas Kara ele via, transformando o jogo de poder numa experiência nova.


– Kara? – Hum? – ela levantou a cabeça, os olhos apresentavam um brilho sonolento por baixo das pálpebras semicerradas. Verde, dourado e prateado. Deslumbrantes. – Você é bonita pra caramba. Ela sorriu preguiçosa. – Era isso que queria me falar? – Sim. – Ele sorriu para ela. – E inteligente. Criativa. Ela não conseguia impedir o sorriso, quase inconsciente. – Já tô transando com você, Dante. Não precisa tentar me convencer. Ele riu, colocando-a na cama de modo que ambos icassem deitados de lado, um de frente para o outro. – Se já te convenci, vou encontrar outras maneiras. Seja lá o que iz antes, funcionou, aparentemente, mas eu falo sério, Kara. – Obrigada. – Ela icou em silêncio um instante. – Infelizmente, não sou mais criativa. Ele tirou o cabelo do rosto dela, curtindo a textura macia e lisa. Como ela. – Por que diz isso? E a sua arte? – ele a interrogou, realmente interessado. – Quê? Eu não pinto mais. Não de verdade. – Por que não? Ela deu de ombros, mas ele viu as bochechas enrubescerem. – Troquei por coisas mais... maduras. Como meu diploma de direito. – Entendo que você precise ganhar a vida. É di ícil viver de arte, mas, Kara, você sabe pintar de verdade. É realmente talentosa. Não é uma picareta fazendo qualquer coisa por dinheiro e se chamando de artista. – Eu não me chamo de artista de jeito nenhum – ela retrucou baixinho. – Por que não? – Ele não sabia por que a questionava tanto sobre esse tema. Vai ver acreditava de verdade no talento dela, pois a queria ver feliz. – Nunca vi motivo para isso – ela respondeu. – E não tem mais relevância, Dante. Eu praticamente parei com essas coisas. – Praticamente, mas não por inteiro. – Bem, não. Não por inteiro. – Isso não lhe diz algo? – Sim. Tenho um passatempo legal de vez em quando. Isso não faz de mim uma artista. – Não se você não tentar. Você já tentou pra valer, Kara? Ela suspirou. – Não, não tentei. Conseguir o diploma de direito não foi moleza. Construir uma carreira. Ele deu de ombros. – Eu encontro tempo para andar de moto. Viajar. Ela desviou o olhar. – Podemos mudar de assunto, por favor?


– Tá bem. Por enquanto. Só odeio ver um talento assim ser desperdiçado. Eu invejo quem consegue pintar desse jeito, ter esse tipo de paixão por algo. – Você é apaixonado pela sua moto. Ao menos parece ser. – Não é a mesma coisa. – Não é? E, além disso, não tenho mais essa paixão. Esse fogo. Sem fogo, não se corre atrás da arte, Dante. Abri mão dele quando entrei na faculdade de direito. Quando decidi encarar a vida mais seriamente. – A arte pode ser séria. Quem falou que não era? Ela o encarou. Piscando os olhos, um monte de emoções passando pelo rosto dele. – Dante, não íamos mudar de assunto? – Certo. Claro. – Ele levantou a mão dela, beijando os nós dos dedos. – Que tal isso... Pensei em algo essa semana. Quero te levar novamente ao Pleasure Dome. – Eu gostaria de ir. – Gostaria? – Por que ele se sentia um cachorrinho inseguro, pedindo seu consentimento? Precisando ouvir o sim de sua boca. – Andei pensando nisso, querendo voltar. Gostei de lá. Do que rola por lá. Da energia. – A energia é incrível. Tantas pessoas num só lugar. Desejando a mesma coisa. – Existe uma sensualidade nisso. Por mais que a atividade seja... explícita. Ele concordou. Ela assentiu. – Sim, exatamente. – Eu quero voltar – ela repetiu. – Com você. Somente com você, Dante. Ele sentiu um nó na barriga, mas foi uma sensação extraordinariamente agradável. Uma espécie de tensão requintada. A expectativa, ele percebeu. – Ótimo. Vamos amanhã à noite. Dante queria ir ao clube, não para se distanciar dela, agora percebia, mas para ficar mais perto. Aquele sentimento era outra novidade para ele. Tanta coisa era nova com Kara. Ele chegava a icar tonto. Era quase a mesma sensação sentida ao mergulhar pela primeira vez de um penhasco no México, voando no ar em direção à água. Perguntando-se se sobreviveria. Se iria se afogar. Dante estava se afogando agora. E voando. De toda forma, ele iria bater em algum momento, mas quer fosse um baque macio na água ou o impacto esmagador de atingir o chão sólido, ainda não sabia. Contudo, pela primeira vez, ele estava disposto a se arriscar.


CATORZE

O Pleasure Dome estava mais lotado do que quando Dante a tinha levado pela última vez, e isso a assustou e animou ao mesmo tempo. Havia a mesma iluminação vermelha e roxa, os cantos escurecidos. Gemidos abafados, o estalar de um chicote, o tinido metálico do deslizar de correntes sobre a música de fundo. Ela adorou tudo de cara, como da primeira vez. Contudo, por já ter ido lá antes, ela conhecia a vibração. Conhecia o medo. Tinha uma ideia do que esperar, tornando tudo melhor e mais di ícil. Enquanto atravessavam o salão principal e seguiam para as escadas, o coração de Kara começou a disparar, feito um martelo pequeno ressoando dentro do peito. Ela olhou para Dante, e ele pareceu perceber o que acontecia. O braço fez mais força ao redor de sua cintura. – Tá tudo bem. – O tom da voz era baixo, reconfortante. Ele inclinou a cabeça um pouco. – Eles já te amam, Kara. E nós nem sequer começamos. Estão observando você comigo lá do outro lado da sala. Esperando. Vê quantas cabeças se viram por sua causa? Esse vestidinho preto ajuda, mas, na verdade, é você. Não conseguem desgrudar os olhos de você, igualzinho a mim. Ele olhou ao redor enquanto passavam pelos vários ambientes. Homens e mulheres em estágios diferentes de nudez ou vestindo couro. Foi encarada aqui e ali, o que lhe provocou um ondular de excitação nas veias, agudo e quente. Kara tinha de desviar o olhar. O melhor era manter os olhos em Dante, deslumbrante e sólido ao seu lado, vestindo calça de couro e camisa preta, uma que marcava os ombros largos. Reconfortante, pela mera presença. Kara se virou para ele. – Não consigo olhar, Dante. Eu... gosto de saber, mas, agora, olhar é um exagero. Chega a ser opressor. – Então, orgulhe-se por saber, menina bonita. Ele apertou a cintura, e ela se deixou derreter nele, se deixou levar por


inteiro, icando toda menininha, de um jeito que somente a submissão a Dante lhe permitia. As paredes se fechavam; isso vinha acontecendo desde que entraram no clube. Antes até, na verdade, enquanto ela estava se vestindo em casa. Preparando-se para a noite que estava por vir. O que havia naquele pequeno ritual – tomar banho, passar loção e se perfumar, vestir-se para ele – para deixá-la no primeiro nível do subspace? Mas não dava para pensar nisso naquele momento. Eles estavam subindo as escadas, cruzando a primeira sala com a pista de dança e as barras de pole dance. Kara olhou para elas com desejo. Adoraria dançar para ele. Mexer o corpo no ritmo da batida pesada da música que tocava em todos os cantos do clube. Havia uma mulher numa das barras naquele instante, e Dante, novamente como que por instinto, parecia ter ciência de sua vontade de parar e assistir. A mulher era magní ica, pele de ébano, cabelo escuro ondulado, vestida apenas com um top feito de ita para bondage roxa brilhante e uma saia curta, justa feito uma segunda pele. Ela usava sapatos de salto alto inos no mesmo tom roxo. Agarrando o poste com as duas mãos, requebrava os quadris, a cabeça para trás, o cabelo caindo feito uma cortina negra. Enquanto a música tocava, ela a acompanhava, os quadris rebolando como a escrever um número oito. Ela se voltou, apoiando a cabeça contra a barra, e a deixou escorregar, os braços formando um arco gracioso acima do corpo, as mãos unidas. A dançarina olhou diretamente para Kara e sorriu, abrindo de forma lenta e sensual os lábios inteiramente vermelhos. Kara nunca tinha se interessado sexualmente por mulheres. Nem estava necessariamente interessada agora. Mas aquela criatura transpirava sexualidade. E ela não conseguiu se controlar, reagindo de um jeito primitivo, o pulso se aquecendo, a respiração se acentuando ao assistir à dança sensual da mulher. – Dante... – O que foi, meu bem? – Acabei de perceber... o que acontece aqui é tudo... hipersensualizado. Talvez, hipersexualizado, mas não de um jeito ruim. – Ela mal conseguia acreditar no fato de ter sido capaz de juntar duas sentenças já estando parcialmente no subspace. Com tudo aquilo acontecendo ao redor, levando-a mais e mais para o fundo. – Não é isso? Não é o que acontece aqui? Tô assistindo a essa mulher e vendo o que os outros talvez vejam quando me assistem. E isso é... excitante. Pensar por essa perspectiva. Faz


algum sentido para você? – Sem sombra de dúvida. Ele sorriu para ela, que se concentrou nele. Nos olhos escuros, dourados, no ângulo acentuado das maçãs do rosto. Na curvatura suculenta da boca, generosa e excitante ao mesmo tempo. Ela também sorriu, e Dante não desviou o olhar do dela. Instigante. Autoritário. E ainda que ele apenas a estivesse itando, o sorriso se desfazendo aos poucos, o rosto tomado pelo mesmo desejo a se formar dentro dela, Kara sentiu sua autoridade absoluta até o fundo dos ossos. Ela estremeceu. – Quer subir naquela barra, Kara? – ele perguntou baixinho. De forma íntima. – Pra se apresentar pra mim? Pras outras pessoas daqui? Houve um silêncio antes de ela conseguir responder. – Adoro a ideia de ser observada, ser vista, mas não é bem isso o que desejo. – Ah. – Ele fez uma pausa, sem deixar de olhá-la. – Acho que dá pra entender isso. Dante a conduziu a uma das grandes cadeiras aveludadas distribuídas nos cantos do cômodo, deixando a bolsa com brinquedos no chão ao lado deles. Ele se sentou numa grande otomana a talvez meio metro da cadeira. Esticando o braço, Dante a empurrou, até Kara icar entre ele e a cadeira. Ela sentia a maciez do couro na parte de trás dos joelhos. Usando uma das mãos, Dante segurou as duas dela. – Quero que faça uma coisa por mim, Kara. Por mim. Os outros também vão ver, eles vão estar assistindo, mas isso é por mim. Entendeu? – Sempre por você, Dante. É sempre por você. Por que o fato de falar para ele tornava a frase ainda mais verdadeira? – Boa menina. Não saia daí. Ele esticou a mão e puxou o zíper na frente do vestido de couro preto tipo espartilho, deslizando para cima de forma a mostrar parcialmente a parte anterior das coxas. O desejo cintilou pelo seu corpo, deixando-a meio tonta. Kara adorava o fato de não ter certeza do que aconteceria com ela. Do que ele faria com ela. Do mistério. Da sensação de ele estar no controle. Dante deslizou a mão sob a barra do vestido, abrindo mais o zíper, revelando mais do corpo dela até icar aberto por completo na cintura. As coxas e a barriga pareciam maravilhosamente nuas. E ele começou a alisála com a mão, a esfregar sua pele. – Abre um pouco pra mim, menina bonita – ele lhe falou. Ela atendeu ao pedido. A palma da mão acariciou a face interna das


coxas, umedecendo o sexo. Dante acompanhou com os dedos a renda da tanga preta e ela estremeceu. Quando en iou a mão por baixo, encontrando a boceta úmida, Kara gemeu baixinho. – Ah, você gosta disso. Me diz, Kara. – Sim, eu gosto. Adoro quando me toca. Ele sorriu, concentrando o olhar no alto das coxas. Dante se inclinou, pressionou os lábios na renda já molhada, e ela gemeu. – Você gosta mesmo disso, né? Sabe do que eu gosto? De ver você em ação. Quero que você se toque. Até gozar. – Aqui? Ele deu uma risadinha baixa. – Sim, aqui. Pra mim, Kara. Pra mim. Dante elevou os olhos até ela, com o itar escuro a penetrá-la, fazendo o corpo se esquentar com a necessidade de agradá-lo. – Meu Deus... – a voz saiu num suspiro ofegante, curto. Ele riu novamente. – Sei que você tá nervosa, mas vai me atender, não vai? – Sim – ela respondeu, a palavra grudando na garganta, comprimida pelo nervosismo e pelo desejo puro, latejante. – Vamos nos livrar disso. – Ele arrancou a tanga rendada num gesto ágil, deixando-a nua ao olhar aguçado, o vestido aberto da cintura para baixo. – Sente-se, Kara – Dante ordenou, empurrando-a com irme suavidade para a cadeira atrás dela. Ele a observava atentamente enquanto ela se reclinou na cadeira. Dante autorizou com o queixo e ela soube exatamente qual era o desejo. Kara abriu as coxas. Ele sorriu. – Perfeito, minha menina. Linda. Dá pra ver como você tá molhadinha. – Dante esticou a mão, alisou a boceta com os dedos, trouxe a mão à boca e a língua se projetou para lambê-los. – Seu gosto é delicioso. Adoro seu sabor, mas quero te assistir agora. Vamos lá, Kara. Mostra pra mim como você gosta, como prefere. Me mostra o seu prazer. Ele se sentou, observando-a em silêncio. Era como se o olhar dele a compelisse, a obrigasse a fazer as mãos acariciarem a parte interna das coxas, abrindo-as mais. Kara olhava o rosto dele, observava o prazer suavizar suas feições enquanto ela tocava o clitóris duro com a ponta do dedo. – Ah, é assim – ele disse baixinho. Ela abaixou o dedo sobre os grandes lábios, e Dante gemeu suavemente. O som a atingiu como uma rajada de calor puro. Mais.


Ela empregou as duas mãos para separar as pregas rechonchudas e, mantendo-se aberta para ele com a mão, enterrou dois dedos dentro de si. O prazer foi instantâneo, quente e aguçado. Adorável. Mais adorável ainda era o olhar de Dante sobre ela, a concentração vista neles. Kara abaixou os olhos e viu a saliência da ereção se distendendo sob a calça de couro preto. Ah, sim... Ela parou, icando completamente parada, permitindo ao corpo absorver o choque daquela necessidade. Depois, tirou os dedos e começou a acariciar, correndo-os para cima e para baixo da boceta, escorregando no próprio mel. Ela se provocava ao não tocar o clitóris, nem se penetrar. Provocava seu espectador. Os quadris começaram a se mexer num ritmo próprio enquanto Kara se arqueava contra a mão. – Olha pra eles, Kara – Dante falou, a voz baixa, num tom gutural. – As pessoas te assistindo. Elas estão tão excitadas quanto eu pelo que você tá fazendo. Posso sentir. Ela olhou ao redor e viu vários homens e mulheres a observá-la de pontos diferentes do cômodo. Uma dezena de pares de olhos brilhantes. Ela sentia o prazer desses indivíduos, quase tão pesado no próprio corpo quanto o dela. – Pra mim, Kara. A mão de Dante se projetou e ele a agarrou pelo pulso, forçando-a se acariciar com maior rapidez, controlando o movimento da mão. – Ai, meu Deus, Dante... – Você vai gozar? – Vou. – Ainda não – ele ordenou, afastando a mão e agarrando o rosto. – Não para, Kara, mas olha pra mim. Somente pra mim, agora. – Sim – ela cochichou, a necessidade de satisfazê-lo era mais poderosa do que a sensação a esquentar o organismo enquanto afagava sua carne ansiosa. O olhar dele queimava o dela. – Somos apenas nós, Kara. Somente você e eu. Nada mais importa. – Sim, Dante. Ele soltou o rosto e a mão desceu novamente entre as coxas, en iando os dedos dentro dela. Ah! Ele tirou e meteu novamente. – Você tem de fazer assim, minha menina.


Ele se sentou, afastando a mão. Ela enterrou dois dedos dentro de si novamente, mordendo o lábio enquanto a sensação a golpeava profundamente. – Mais fundo – ele ordenou. Ela apertou com força, afastou os dedos e os cravou novamente. A respiração era um arfar entrecortado. O prazer, um líquido quente luindo pelas veias. O olhar era ainda mais cálido, deixando-a toda mole e débil. – Vamos lá, Kara. Pode gozar pra mim, meu bem. Goza! Ela incou os dedos no fundo do sexo latejante e com a outra mão pressionou o grelo, em círculos. O clímax foi rápido e forte, fez com que ela gritasse, mexendo os quadris de forma selvagem. – Ah, que lindo, meu bem – Dante murmurou enquanto Kara estremecia onda após onda. Ela mal tinha terminado quando ele a pegou nos braços e começou a beijá-la, invadindo sua boca com a língua. Ele cravou os dedos no sexo ainda a latejar e os curvou para atingir o ponto G. E outro orgasmo trovejou, numa onda poderosa de puro e nítido prazer. – Ai, Deus! Dante a abraçou com irmeza enquanto ela sacudia com a força do clímax. – Meu bem... isso é... tão bom – ele sussurrou contra a boca de Kara. – Dante... – O que foi, menina bonita? – Somente você e eu aqui... – Ela arfou. – Sim. Somente você e eu. Kara nem sabia ao certo o que estava pedindo, mas ele realizava. Falando exatamente o que ela precisava escutar. Os braços a seguraram com força. – Foi perfeito, Kara. Perfeito – ele disse, com a voz cheia de névoa e desejo. – Mas preciso mais de você agora. – Sim. Qualquer coisa. Ele a mudou de posição no colo até ela icar montada sobre ele na ampla otomana, cada coxa pendendo sobre a lateral das pernas longas cobertas de couro, mantendo os braços ao redor do pescoço de Dante. – Incline-se pra mim. Boa menina. Vou te encher de porrada agora. Ela só conseguiu gemer baixinho enquanto ele arregaçava o vestido. Bastou um tapa ardido na carne nua para Kara se contorcer. O pau duro apertava diretamente o seu púbis, e ela o pressionava com igual intensidade.


Dante bateu de novo e de novo, numa sequência cortante de tapas na carne ardente. Era tão bom, o prazer e a dor se formando com tanta velocidade que, em segundos, ela voltava a ficar sem fôlego. Kara se contorcia, arrojada, lasciva, precisando gozar novamente. Ela precisava daquele pau grande e grosso dentro do seu corpo. Das suas mãos sobre a pele. Da boca. Tudo ao mesmo tempo. Kara estava arrebatada pela vontade, com o prazer negado, as pancadas adoráveis e torturantes na bunda. – Goza de novo, meu bem. Goza pra mim. Você consegue. Ele mantinha os tapas com uma das mãos, a outra tateava entre os corpos, invadia o vestido e beliscava com força o mamilo. – Ah! Ela esfregou a boceta na dura protuberância do colo, cavalgando aquela lança dura feito pedra, precisando de mais. E quando Dante esfregou o mamilo entre os dedos, a dor queimou dentro dela, marcando em brasa. E Kara gozou novamente num frenesi intenso. – Dante! Novamente, antes de acabar, ele a mudou de posição, deixando-a de pé desta vez e a tomando nos braços. Ela tremia. Frágil em seus braços. – Tenho que te comer agora, minha menina. Tenho que entrar em você. Em segundos, eles passaram a uma das alcovas acortinadas dispostas em todo canto do clube, e ele a deitava numa mesa almofadada alta. Às cegas, Dante procurou uma camisinha na tigela de uma prateleira alta, abrindo a calça de couro. O pau era uma peça bonita de carne, dourado e duro, mais escuro na cabeça. Ela mal se aguentava para senti-lo dentro de si. Dante a puxou com força para a ponta da mesa, abrindo suas coxas. E num tranco brutal, ele se enterrou fundo no sexo molhado. – Nossa, Kara. Meu bem... Ele manteve os braços dela sobre a cabeça segurando os pulsos com a mão. Dante a vigiava, o peito inchando a cada ofegar. Depois ele começou a se mexer, as mãos investindo com força contra as dela. Tão forte que doía, mas ela precisava disso, precisava dele. – Dante... por favor... Lágrimas marejaram seus olhos. Kara não entendia. Ela apenas sentia o prazer delicioso do corpo dele dentro do dela. Da necessidade latejante por mais, de alguma forma. – Dante – ela soluçou.


Ele puxou o corpo dela para cima, mantendo-a apertada nos braços enquanto metia com tudo. E enquanto Dante se retesava, inalmente, gritando o nome dela, o corpo dela estremeceu com outro clímax cortante e devastador, ela gritou no ombro dele, berrou. – Dante, Deus! Por favor, por favor... Dante... Ela se agarrava a ele. E Dante se agarrava a ela com a mesma intensidade. O mundo dela girou, descontrolado. Kara só sabia do corpo deles. Juntos. Apenas eles dois. O resto do mundo havia desaparecido. Ela não se recordava com muita clareza da viagem de volta a casa dele – era um borrão de postes de luz e chuva ina caindo, fazendo as cores se fundirem no para-brisa. Do cheiro dos bancos de couro no carro de Dante. Do aroma adorável, misterioso dele, misturado ao cheiro penetrante de prazer desgastado, moído. Contudo, enquanto Dante a tirava do carro, praticamente a carregando ao elevador, ela sentiu uma onda turbulenta de pânico crescente. Não fazia o menor sentido aquilo acontecer com Kara naquele instante, mas ela estava tomada de carência. Cheia de um medo intenso, trêmulo. – Dante... por favor, não se vá. – Quê? Não vou a lugar nenhum, meu bem. Só tô te levando pra dentro. Pronto, espere um segundo até eu abrir a porta da frente. Ela se vergou contra ele enquanto Dante fechava a porta do apartamento. Kara simplesmente se sentiu completamente enfraquecida. Talvez de alívio. Ele a amparou, com os braços sólidos ao seu redor. – Tá tudo bem – Dante garantiu, num tom reconfortante, calmo. – É apenas outra reação química ao jogo de hoje. Endor inas. Talvez até uma sobrecarga. Você vai icar bem. Vou tirar sua roupa e vamos nos deitar. Tudo bem? Ela assentiu em silêncio. Não conseguia raciocinar direito. Somente conseguia pensar na única coisa de que tinha certeza naquele instante, no fato de amá-lo. Depois dessa noite no clube, ela se sentia próxima dele como nunca. E não sabia por quanto tempo poderia esconder o sentimento. Kara se sentiu tonta com aquilo. Com o amor. Com sua necessidade por Dante – uma carência nítida e absoluta, como nunca antes sentida na vida. Em segundos, assim pareceu, ela estava nua e na cama dele, os lençóis frios e macios contra a pele nua. – Dante?


– Shh, meu bem, tô aqui. E ele estava mesmo, deslizando ao lado dela, passando o braço sobre seu pescoço. Ela girou e se apoiou de lado, pressionando seu corpo grande. Não era por sexo. Ela simples necessitava senti-lo. Ele removeu o cabelo do rosto dela, beijou a bochecha, os lábios, rapidamente. E Kara se derreteu toda. Com a sensação adorável de ser cuidada por Dante. Era o sentimento mais maravilhoso já sentido. Ela desejava pensar nisso, no seu possível signi icado. Deleitar-se com aquilo tudo, mas os olhos estavam pesados demais. – Dante – ela sussurrou –, eu tenho que te contar uma coisa. Não conte. – O que foi? Preciso falar... – É importante... Ele icou em silêncio. Esperando por ela, Kara percebeu, mas não conseguia manter os olhos abertos. Era incapaz de fazer a boca funcionar. Como se o corpo pesasse quinhentos quilos. – Hum... – Kara? Ela lutou para se manter acordada e revelar o que desesperadamente precisava contar, mas, em segundos, estava adormecida. Dante a vigiava, a velava, como uma espécie de guardião do seu sono. Ele mal conseguia decifrar a silhueta das maçãs do rosto, do queixo, na escuridão. Ainda assim, sabia o quanto Kara era bonita. Uma parte dele a queria acordada, sem nem saber por quê. Ele estava esgotado demais para a atividade sexual naquele momento. Ou, talvez, não. Seu desejo não tinha fim quando se tratava de Kara. Mas não era só isso. Por outro lado, Dante precisava de um tempo para pensar. Para pôr em ordem todas as ideias estranhas que estavam em sua mente. As coisas bizarras que vinha sentindo a noite inteira, que foram se desenvolvendo ao longo das últimas semanas. A cena com ela no Pleasure Dome tinha sido intensa. Para lá de intensa. Não houve nenhum jogo de dor pesado, nada além dos tapas usuais, o máximo aonde a tinha levado. Ele não precisava ir além para jogar duro com Kara. A questão não era mais essa. Embora sempre adorasse a troca de poder, o jogo de sensação, de observar a reação dela, Dante


simplesmente não tinha a necessidade de algo mais extremo, mais radical. Mas alguma outra coisa tinha acontecido naquela noite... Alguma coisa inédita sempre estava a acontecer entre eles dois. Havia um progresso constante nas coisas. Demais para pensar a respeito. Contudo, talvez fosse hora de pensar. Seria possível estar apaixonado por essa mulher? O pensamento atravessou sua cabeça, seu coração, como um raio brilhante de luz. Deslumbrante. Puro. O pulso acelerou, num baque firme e veloz dentro do peito. Não. Mas negar o sentimento não seria nada além da força do hábito? Ele coçou a barba rala do queixo. Tentou clarear a mente, mas não conseguia se acalmar. Dante desceu a mão sobre o peito, pressionando ali, como se aquele gesto pudesse reduzir a batida errática, acalmá-lo. Nossa. Ele não conseguia acreditar. Não estava pronto para crer. Dante sabia que estava sentindo alguma coisa por ela. Algo novo. Especial. Mas isso? Impossível. Aparentemente não. Ele trouxe o corpo adormecido dela para mais perto de si. Bastava apenas se acalmar. Estava tarde, e ele, cansado. Na verdade, não tinha de fazer nada a respeito. Podia muito bem dar um tempo para descobrir o que pensava daquilo tudo. Daquele todo... amor. Ele era um idiota. Comportando-se como um adolescente estúpido, um fato corriqueiro ao lado da Kara. Porra, ele a amava. Nossa. O pulso acelerou e, sem pensar a respeito, ele virou o rosto para sentir o cheiro do cabelo dela. Era reconfortante. Dante estava pirando. Tinha pirado. Já era. Ele não sabia como aquilo havia acontecido, mas, inalmente, estava apaixonado. Apesar de si mesmo. Apesar de todo o seu conhecimento a respeito do que era ou não capaz de fazer. Ele não tinha a menor ideia de como se comportar em relação a isso. Dante icou deitado, a cabeça dela apoiada no peito, ouvindo sua respiração. O som da chuva contra a janela. Um ou outro trovejar distante.


Ele desejava permanecer acordado. Tirar aquilo a limpo. Por im, no entanto, o ritmo suave da respiração dela o tranquilizou. Esse som e a chuva caindo foram criando uma espécie de casulo ao redor deles. O corpo relaxou, a mente zumbia pela sobrecarga sensorial. Em determinado momento, com a luz envolvendo um grupo de nuvens e as estrelas começando a desaparecer, ele dormiu. Somente algumas horas depois, aos primeiros raios do sol, eles acordaram. Em silêncio, ela se aconchegou entre seus braços. Ele rolou seu corpo composto de curvas macias contra si: os seios, a barriga, as doces coxas. Kara se abriu para ele, que a penetrou fácil como seda. Tão luido, tão suave. Ele a beijou ao arquear os quadris, e ela suspirou baixinho em sua boca. Doce pra caramba. Dante não se fartava dela. De Kara. Ambos se mexeram em conjunto, todo movimento de seus corpos era líquido, um ritmo perfeito sem envolver raciocínio. Nem esforço. Eles escorregaram rumo ao prazer. Ou este luiu sobre eles. Dante não sabia. Logo, porém, ela o estreitou com o sexo quente e caloroso. Incrível. Kara ofegou, o clímax foi tão suave quanto a primeira luz matinal. Depois ele gozou, estremecendo dentro dela. Dante a abraçou mais forte, os braços ao redor do corpo dela. E não pretendia soltá-la. Por im, lhe ocorreu que ele poderia a estar esmagando. Dante icou de lado e Kara se enrolou nele. Sua mão invadiu o cabelo dela. A respiração se acalmou ao flexionar os dedos nas mechas finas, como um tecido macio. – Kara – ele sussurrou. – Meu bem... O que ele queria dizer? Estava tão sonolento... E caiu novamente no sono.


QUINZE

Era tarde quando Kara acordou. Ela sabia a hora por causa da posição do sol nas janelas. Ainda estava um tanto entorpecida, com corpo e mente zumbindo. Ela se virou e encontrou Dante a observá-la. – Oi. – A voz dele estava baixa, fumegante. – Oi. Kara não sabia ao certo o que sentir. Em relação ao que houve na noite anterior. A respeito de como aquilo afetava seus sentimentos. Algo tinha acontecido entre eles. Novamente. As coisas passaram para um estágio completamente novo. Não apenas no clube, mas ali, na cama dele, no meio da noite. Kara lembrava como uma espécie de sonho adorável, mas tinha acontecido de verdade. Ela sentiu. Percebeu a profunda mudança dentro dele. Na forma como ele a tocava. Dante tinha sido tão, tão gentil. Tão carinhoso. Havia emoção de verdade, e ela sabia que não era a única a sentir aquilo. Ele se sentia... completamente aberto para ela, pela primeira vez. Agora, no entanto, ela estava... confusa. Quanto aos sentimentos de Dante. Se poderia acreditar no que havia percebido nele. Se ela podia confiar naquilo. – Você tá bem, Kara? – Ah, eu... tô, tô bem. Ele se apoiou sobre o cotovelo. Kara notou seu cabelo desalinhado, o que o deixava com cara de menino. – Você não parece bem. Ela deu de ombros, puxando o lençol sobre o peito. – Eu... – Interrompeu a fala, mordeu o lábio, depois olhou em seus olhos. – Dante, sinto que, novamente, alguma coisa se modificou. – Sim – ele falou baixinho. – Sim? – Pra mim também.


– Então, o que isso significa? Ele icou quieto por um bom tempo, e ela prendeu a respiração. Não poderia respirar até ouvi-lo, embora parte de si estivesse com medo de saber. Dante exalou o ar profundamente. – Significa, pra mim, afinal, que eu tô... eu tenho sentimentos com que não sei como lidar. E, acho, nem você. Kara mordeu o lábio com mais força. – Eu... – Por que o coração batia tão forte? Ela desejava lhe contar exatamente como se sentia, mas não conseguia. – Estou pensando coisas parecidas. E não tá fácil lidar com isso. – Então, novamente estamos no mesmo lugar – ele falou, juntando as sobrancelhas escuras com cara de dúvida, mesmo tendo falado de forma decisiva. Dante esperava a garantia, a certeza dela, Kara percebeu com um pequeno choque. Contudo, dizer a ele ainda parecia muito arriscado. Ela não seria a primeira a confessar o amor. Então, onde aquilo os deixava, se ele não falasse? Ou se não fosse capaz de reconhecer? Se, talvez, não fosse exatamente isso o que ele estivesse sentindo? O coração dela martelava o peito, batendo dolorosamente. Kara sentia o medo se in iltrando nela, como uma espécie de tóxico. De veneno. Transformando o medo em pânico. Ela tinha de sair. Kara se sentou na cama, rápido a ponto de icar tonta. Depois, jogou a coberta para trás e pôs as pernas para o lado de fora da cama. – Kara? O que você tá fazendo? – Eu preciso ir embora. – Quê? Você não pode ir agora. – Posso, sim. Eu preciso, Dante. – Ela se pôs de pé, o ar do inverno arrepiou a pele nua. A tontura a atingiu novamente, e Kara necessitou fazer uma pausa, cobrindo os olhos com a mão. A luz que entrava pela janela parecia brilhante demais. Iluminando em excesso. Ela sentia o sangue estrondando com força nas veias. Num instante, Dante estava ao seu lado. – O que tá acontecendo aqui? – Eu não sei – ela respondeu sem encará-lo, sem reconhecer a pressão no braço. – E talvez esse seja o problema. Eu não sei o que tá acontecendo, como agir. Não sei como você se sente em relação a nada. Você é tão vago, Dante. E não vou pedir explicações porque não tenho nem pra mim. Mas acho... que eu não aguento mais. Agora, não. Eu preciso pensar. Preciso… de um tempo pra mim.


– Não faz isso, Kara. Você tá surtando! Deve icar onde eu possa cuidar de você, garantir seu bem-estar. Ela deu meia-volta para encará-lo. A raiva a possuía, num luxo furioso e quente percorrendo o organismo. Ele era bonito demais, a luz do im da manhã tingia o cabelo escuro, revestindo-o de dourado. Contudo, ela não se permitiu a distração. – Isso é tudo o que tem a me dizer, Dante? Se for, então eu vou embora daqui. Tô indo embora. Não quero nem pensar nessa coisa de surto. Não acho que seja isso. No fundo, não é. – Então, o que é? Ele fez cara de confusão, mas ela não podia explicar mais sem revelar além do que pretendia. Kara balançou a cabeça. – Tô indo, Dante. Não tente me impedir. Agora, não. Ela começou a se vestir, se sentindo mais vulnerável com o vestido de couro usado no clube do que nua na frente de Dante. Ele não se mexeu, fechando as feições, nu e bonito de doer. Ele continuou a observá-la quando Kara calçou os sapatos, caminhando na direção da porta da frente, perto de onde o casaco descansava sobre um aparador. Ela deslizou os braços dentro dele, sentindo frio como nunca. Dante não se mexeu nem abriu a boca, o que a deixou irada. Completamente confusa. Mais um sinal de que deveria ir embora. Kara lhe deu mais um minuto, esperando com a mão na maçaneta da porta, mas Dante permaneceu parado, silencioso e lindo como uma estátua, a boca traçando uma linha amarga. Ela balançou a cabeça novamente. E saiu. Na rua, Kara logo parou um táxi, deu seu endereço ao motorista e sentou-se no banco pouco confortável. O queixo estava retesado, remoendo as lágrimas querendo aflorar, mas ela não permitiria o choro. Kara odiava o fato de que ser mulher muitas vezes signi icava reagir à raiva com lágrimas; ela se sentia frágil. Kara odiava se sentir frágil. Ela cerrou as mãos, até as unhas cravarem na carne. A dor deu irmeza, ajudou-a a não perder as estribeiras. Logo o táxi chegou ao destino. Kara pegou dinheiro do bolso do casaco para pagar o taxista, saiu e entrou no edi ício. As escadas pareciam infindáveis. Basta entrar, onde é seguro. Abriu a porta da frente, entrou e a fechou. Depois caiu contra a porta,


pressionando as costas na madeira, enquanto as lágrimas começavam a brotar. Droga. Ela não queria aquilo. Chorar por um homem. Ela não tinha chorado pelo Jake. Apenas icou presa num poço de autopiedade, julgando a si mesma, coisa que não ocorria desta vez. Ficar com Dante nunca a fez sentir necessidade de julgar-se. – Merda! – ela falou entre dentes. Kara se afastou da porta, pendurando o casaco. Ele caiu no chão, mas ela não deu a mínima. Continuou andando até o quarto, onde tirou a roupa e, nua, se jogou na cama. Na sua cama. Seu porto seguro. Contudo, nada lhe parecia seguro agora. Nada era familiar o bastante. Não tanto quanto a cama de Dante. Quanto seu corpo. Mas ele não a amaria. Então, qual a segurança de icar ao seu lado? Ela teria de deixar toda essa coisa de amor para trás. Simplesmente se livrar dele. A situação era impossível. Kara pegou um lenço na caixa sobre a mesa de cabeceira, assoou o nariz, limpou os olhos. Não adiantava, as lágrimas continuavam rolando. Lavando o rosto. E logo ela soluçava, soluços longos, arrastados, um queixume horrível vindo do fundo do peito, do corpo. Encolheu-se, com força. Mas somente os braços de Dante a reconfortariam. Ela estava perdida sem ele. E nunca o teria. Nunca. Não de verdade. Não da forma verdadeira e permanente como pretendia, pela primeira vez na vida. Os velhos sentimentos de não ser boa o bastante, de não ser merecedora o su iciente daquele amor voltaram a tomar conta dela. Todos os velhos problemas criados pelos pais frios e distantes. Kara nunca foi capaz de satisfazê-los, de fazê-los repararem nela, somente quando não aprovavam. E independentemente do caminho seguido, até mesmo estudar direito como eles desejavam, abrindo mão de sua arte – tirando uma ou duas pinturas às quais se permitia por ano –, nada era suficiente. Obviamente, ela não bastava para Dante. Mas, não, aquele era seu antigo “eu” falando. A raiva voltou a tomar conta de Kara. Ele não era o bastante para ela. Não se recusasse admitir os sentimentos por Kara. Não se não conseguisse amá-la. Ela não merecia isso, caramba? Mas a dor se alastrava pelo corpo como um peso enorme, sentido nos pulmões, nos braços e nas pernas. Kara não conseguia se mexer. Nem


pensar direito. Somente pensava no rosto de Dante, nos olhos escuros fechados, nas feições tensas enquanto ela aguardava sua resposta. Enquanto aguardava que a impedisse de ir embora, mesmo que a irmasse o contrário. Kara somente conseguia sentir perda e raiva, e aquela dor cortante, horrível, dentro do coração. Ela nunca tinha vivenciado o sentimento de ter o coração partido. Nunca tinha deixado ninguém chegar perto o bastante para magoá-la de verdade. Kara nem imaginava que doeria tanto assim, como se o coração fosse de vidro e tivesse se estilhaçado em mil pedaços, cada um deles a perfurá-la, penetrá-la. As lágrimas se transformam novamente em soluços. Com violência, eles brotavam de dentro dela, serpenteando dentro do peito antes de saírem rasgando pela boca aberta. Uma dor inacreditável, uma tristeza inacreditável. O sol já estava se pondo do lado de fora da janela quando ela recobrou alguma consciência. Fim de tarde. Kara jazia ali por horas, estava exausta. Esgotada. Enjoada. Sabia que era preciso sair da cama, beber um pouco de água. Lavar o rosto. Os olhos e as bochechas estavam inchados, sensíveis ao toque. Kara suspirou. Como ela foi deixar acontecer aquilo? Nunca mais deixaria aquilo voltar a ocorrer. Ela não sabia como iria sobreviver depois de tudo, mas seria a última vez. As lágrimas retornaram. Seu calor intenso era insuportável nas bochechas, os pequenos soluços a explodir dentro do peito dolorido. Como uma pessoa podia ter tantas lágrimas dentro de si? Mas até mesmo esse raciocínio pairou muito a distância, a mente obscurecida pela dor. Ela tentou engolir as lágrimas, lutar contra elas, mas não conseguia. Kara se enrolou feito uma bola, deixando que minassem, insensíveis à angústia. Por fim, adormeceu. Sonhou com Dante. Seu apartamento. Ele estava iluminado pela luz do sol, que parecia vir de todo lugar, dourada e suave. Dante apareceu atrás dela, Kara mais o sentiu do que viu. Ela conhecia a sensação de seus braços em sua cintura, conhecia sua força adorável ao trazê-la ao encontro de seu corpo. – Isso é o que você deveria estar fazendo, Kara. Sim, ela pensou. Estar com ele... Diante dela havia um cavalete com uma pintura pela metade, e ela segurava um pincel. Era a imagem da baía de Elliott da janela dele, azuis e verdes, luz do sol rasgando a cerração. A vista era da janela deles.


Adorável. Porém, ela não pintava mais. Não de verdade. Muito menos estava com Dante, não é? Tudo icou escuro, vazio, como se caísse num espaço em que... não havia nada. O escuro, o nada, cresceu ao seu redor, se aproximando. Embebendo-se dela. Kara gritou por ele: – Dante! Mas ele não estava lá. Nem nunca estaria. – Não – ela sussurrou quando a dor tinha passado. – Não! Kara acordou no escuro, tremendo por causa da umidade na pele, sentindo-a no fundo dos ossos. Estava acabado. Dante icou de pé itando a longa ileira de janelas, observando o tremeluzir dos barcos ancorados na baía de Elliott abaixo do apartamento. Ele estava praticamente entorpecido. E assim permanecia desde a partida de Kara naquela manhã. Está bem, isso é mentira. Talvez parte dele estivesse entorpecida. Já o restante estava destruído, como se tivesse passado por uma fragmentadora de papel. Em chagas, e doendo pra cacete. E essa parte estava totalmente desesperada. Dante passou os dedos pela barba rala e pontiaguda do queixo, pela nuca enrijecida. Estava todo teso. Tentou se deitar no sofá, exausto, mas estava nervoso demais para permanecer parado por muito tempo. Ele não dormiu um minuto sequer depois que ela tinha ido embora, e restavam poucas horas à frente antes de o dia começar. O pior, porém, não era a falta de sono, não era isso o que mais doía, mas a falta de Kara. Ter consciência de sua ausência. Ele estava... desolado. Exasperado. Irritado por ela ter ido embora. Revoltado por se importar pra cacete com aquilo. Indignado com a sensação amarga de impotência a se mover por dentro dele feito uma lama escura nas veias. Estava sem ação para mudar as coisas por Kara. Para modi icar a parte básica de si mesmo da forma necessária para lhe dar o que ela merecia. Estava impotente de amor por ela. Não havia absolutamente nada a ser feito em relação a isso. Impotente pra cacete.


Dante odiava essa parte acima de tudo. Sempre odiou. Odiava quando se mostrava incapaz de fazer alguma coisa para melhorar a vida da mãe. Odiou quando se sentiu completamente assim depois da morte de Erin. Muito tempo atrás, Dante havia concluído que a melhor maneira para não sentir essa impotência horrível era estar sempre no controle. Sendo o responsável. Estar no comando o fazia sentir parte de sua força pessoal. Como se seus atos tivessem importância no mundo, mesmo sendo apenas no trabalho ou no mundo BDSM. Como se nada inesperado pudesse acontecer, pois sua vida estava completamente imobilizada, firme no lugar. Porém, em algum lugar no fundo da consciência, ele reconhecia que isso era uma mentira conveniente. Que todo o controle no mundo, a mentira em si, nunca o faria se sentir por inteiro. E por não saber como agir a respeito, Dante deixou tudo por isso mesmo, permitindo-se viver em seu próprio engano. Kara o tinha desmascarado. Para si mesmo, como for. Ele não conseguiu revelar sua verdade para ela. A verdade de que ele a amava, pois a única coisa que o fazia se sentir completo era amá-la. Simplesmente, a ideia era grande demais para ser encarada. Ainda mais depois de ela deixar tão claro que não queria estar ao seu lado, por ele ter fodido tudo, justamente como esperava. Dante começou a andar de um lado para o outro, o céu escuro, a incandescência dos postes na rua passavam pelo limite da visão como um borrão. Ele se sentiu… esmagado por aquilo. Pela primeira vez na vida adulta, não sabia se conseguiria arcar com tudo isso sozinho. A única pessoa com quem gostaria de conversar a respeito era Kara, mas era impossível. Ele sabia que ela não o veria; Kara não o queria nem pintado de ouro, e Dante não podia culpá-la. Hora de recorrer ao amigo mais próximo. Ele e Alec não costumavam tocar em assuntos emocionais com frequência. Nunca chegaram tão longe. O mais perto disso foi quando Alec estava pirando por causa de Dylan, mas aquilo foi o máximo que Alec já tinha revelado de si mesmo. Dante nunca se abriu. E não tinha certeza de saber como aquilo funcionava. Mas, porra, se abrir com alguém devia ser melhor do que esse caminhar sem- im, esse ciclo in inito de pensamentos circulando pela cabeça apenas para deixá-lo do mesmo jeito lamentável. Quem sabe Alec pudesse lhe dar alguma perspectiva. Ajudá-lo a colocar a cabeça de volta no lugar. Ele se aproximou do aparador no hall de entrada, onde o celular estava


carregando. Soltou o fio e digitou o número de Alec. – Alô? – Alec, é o Dante. – Oi, e aí? Quase não tenho notícias suas. Imaginei que daria as caras depois de toparmos com vocês naquela noite. – Pois é, falando nisso... Nossa, por onde começar? Como fazem isso? – O que tá acontecendo, Dante? – Alec perguntou. – Não me diz que não é nada, porque dá pra sentir no seu tom de voz. – Sempre o dominador intuitivo. – Isso aí. Então, pode ir falando. Ele suspirou, voltando a andar em círculos. – Escuta, vamos tomar alguma coisa? – Agora? Dylan e eu estamos terminando de jantar. – Sim, agora. Por favor. Sinto muito pelo jantar, mas eu... Porra, dá ou não? – Sim. É claro. Sem dúvida. Onde te encontro? – Que tal no Back Room? Sabe onde é? – Era um boteco perto do seu prédio. Ele sabia que o lugar estaria tranquilo. Provavelmente não encontraria ninguém do serviço por lá nem um conhecido do clube. – Te vejo lá. Chego daqui a uns quarenta e cinco minutos. – Combinado. Eles desligaram, e Dante foi tomar uma ducha, algo que não tinha feito o dia inteiro. Havia lembranças demais de Kara por ali, seu corpo macio cercado de vapor. Kara usando sua camisa branca, a pele quase tão pálida quanto a camisa, mas com as bochechas rosadas, os olhos faiscando em tons de prata e ouro, tomados de desejo. Linda. Estonteante. Dante tinha levado um monte de mulheres ali. Mas apenas Kara importava. Ele não entendia o signi icado daquilo. Não gostava muito de suas implicações. Pouco depois, Dante saía porta afora. Decidiu caminhar as seis quadras até o bar. Precisava esfriar a cabeça, esticar as pernas. Descarregar um pouco dessa tensão insuportável. Tinha chovido novamente. As ruas estavam molhadas, re letindo imagens aquosas dos postes, do neon de restaurantes e vitrines. Ele se sentia assim. Borrado. Distorcido. E não gostava nem um pouco. Alec já estava no bar quando ele entrou, e Dante se sentiu grato por não ter de icar ali sozinho, embalando uma bebida e seus pensamentos. Ele não suportaria icar dentro da própria cabeça por nem mais a merda de


um minuto sequer. – Oi, Alec. – Oi. Pedi Chivas com gelo para você. Pensei em deixar o melhor para quando voltar a ser você mesmo. Dante ocupou o banco ao lado de Alec. – É tão óbvio assim? – É gritante. Pra mim, ao menos. Dante envolveu o copo com as mãos, bebeu e o pôs de volta no balcão. E não tirou os olhos dele. Alec estava em silêncio ao seu lado, tomando a bebida. Dante conhecia o amigo bem o bastante para saber que ele icaria ali a noite inteira se fosse necessário. Ele engoliu outro trago do uísque gelado, tentando saborear a ardência enquanto a bebida descia garganta abaixo. Mas Alec estava certo: ele não conseguia curtir. Não hoje. – Então... – Dante começou. – Nossa, eu não sei como fazer isso. Conversar. Falar de verdade. – É um pouco esquisito, mas você acaba se acostumando – retrucou Alec, com um quê de provocação na voz. – É melhor não. Alec deu de ombros. – Eu também pensava assim. Antes da Dylan. – Como ela tá? – Ótima. Surpreendente. Mas você tá mudando de assunto. Dante concordou, sorrindo com gravidade. – Pois é. Ele mandou para dentro o restinho da bebida, as pedras de gelo bateram nos dentes. Acenando para o barman, pediu outra dose. – Deve ser sério – Alec falou baixinho. – E é. – Ele fez uma pausa. – Então... acho que tô apaixonado pela Kara. – Isso é serio. Dante inspirou, segurando o ar nos pulmões um bom tempo, ainda olhando o copo. – É, sim. E é uma bobagem. Eu não penso que tô apaixonado por ela. Eu tô mesmo. Então, que merda que eu faço, Alec? Ele levantou os olhos para o amigo, querendo, desejando uma resposta. – O que você quer fazer? – Estar com ela. Mesmo me cagando de medo. Mesmo estando convencido de não conseguir fazer justiça ao relacionamento. – Eu também pensava assim. – Não sei se você tinha tantos motivos quanto eu – replicou Dante. – Talvez sim, talvez não. – Alec tomou um gole da bebida, baixou o copo no balcão e olhou para Dante. Seu olhar era direto. Mas, até aí, Alec era


sempre direto. E Dante contava com isso. – Será que você me procurou pra eu te convencer a não correr atrás dela? As entranhas se contraíram. – É possível. – Não vou dizer isso. – Não vai? – Não. E vou explicar por quê. Eu te conheço, Dante. Você precisa dar um tempo, esperar a poeira baixar. Se acalmar. Dar um tempo pra aceitar seus sentimentos por ela, pois sei que ainda não acredita nisso totalmente. E será preciso acreditar antes de vê-la. – Se ela aceitar me ver. – Ah. Bem. Mais um motivo pra dar um tempo. Kara provavelmente precisa esfriar a cabeça em relação ao que aconteceu entre vocês. Dante concordou. – Você tem razão. – Tomara que sim. Só Deus sabe o quanto pisei na bola com a Dylan, mas tô aprendendo. Ela me falou isso. Aquilo fez Dante sorrir. Um pouco. Ele não conseguiu evitar. Alec Walker não deixava que lhe dissessem nada. Não até a Dylan aparecer. Dante era igualzinho, mas desejava dar uma chance para essa coisa com a Kara. Ele esperaria uns dias, como Alec sugeriu. E se fosse preciso levar uma bela surra por causa do seu comportamento, sabia que merecia. Dante aceitaria. Enquanto isso, ia tentar respirar um pouco. Para deixar Kara respirar também. – Parece um bom plano – ele falou a Alec. – Valeu. – Claro. Quer ir pra outro lugar, quem saber acompanhar o im da temporada esportiva? – Não precisa. Sei que quer voltar para a Dylan. – Sabe? – Alec pareceu meio chocado. – Tá na sua cara, Alec. – Ah, porra... – Não, isso é bom. É legal ver você contente. Alec concordou, sorrindo. – Também gostaria de vê-lo feliz. – Eu não me importaria. Alec se levantou, jogando algumas notas de vinte no balcão. – Fique e beba mais se desejar. – Talvez eu fique. – E me avisa das novidades. – Pode deixar. Obrigado, Alec. – De nada. Alec partiu sem precisar dizer mais nada.


DEZESSEIS

Era manhã de quinta-feira, ou seja, dia de comer donuts na irma; era a ideia dos funcionários de manter o moral lá em cima no im de cada semana. Kara não conseguia se imaginar engolindo outra coisa além do chá com que vinha vivendo a semana inteira. Disse que estava doente e faltou na segunda-feira, cansada e chorosa demais para voltar. Na terça, Kara reuniu a coragem para ir ao escritório e descobriu, toda alegre, que Dante passaria o dia no tribunal. O mesmo aconteceu na quarta-feira. Talvez hoje ela tivesse a mesma sorte. Ainda não estava a fim de encará-lo. Nem sabia se um dia estaria. É nisso que dá se envolver com alguém do trabalho... Kara suspirou baixinho assim que saiu do elevador, entrando no saguão da irma. A recepcionista a cumprimentou, e ela ensaiou um olá com a cabeça aos colegas enquanto avançava cautelosamente pelo corredor na direção da sua sala. Ruby, a secretária que ela dividia com vários outros advogados, incluindo Dante, também entrou enquanto Kara tirava o casaco. – Oi, Kara. Os três bambambãs marcaram uma reunião para agora. Quem não estiver no tribunal precisa comparecer. – Ah. Quanto tempo eu tenho? – Ela olhou o relógio, divagando se acharia uma desculpa para não ir. Dante estaria lá? Ou passaria o dia outra vez no tribunal? Não havia algo urgente para fazer? – Está marcada para as 8h15, então você tem uns quinze minutos. Quer um donut? Guardei um daqueles bolinhos que você gosta. A barriga se revirou. – Obrigada, Ruby. É muita gentileza sua, mas eu tô... tentando cortar o açúcar. – Eu faria o mesmo, mas já comi dois donuts com geleia. Ruby deu um sorriso. – A gente se vê na sala de reunião daqui a uns minutinhos. – Obrigada, Ruby. Meu Deus, ele estaria lá? Ela não se julgava capaz de aguentar.


Kara respirou fundo, soltando o ar devagarzinho, tentando se lembrar da série de respiração para se acalmar que aprendeu nas aulas de ioga. Mas o coração estava disparado. Ela não conseguia fazer nada; era necessário ir à reunião. Simplesmente teria de lidar com isso. Onde foi parar toda sua força? Ela costumava ser tão forte, tão pé no chão. Desanimada, Kara balançou a cabeça enquanto colocava a bolsa e a pasta debaixo da escrivaninha, ligava o computador e o esperava terminar de carregar. E suspirou ao perceber que torcia por encontrar uma mensagem de Dante na caixa de entrada. Ele não tinha tentado falar com ela desde que deixou sua casa no domingo. Kara sabia que Dante teria uma semana puxada no tribunal, mas certamente poderia ter telefonado, mandado um e-mail ou até mesmo uma mensagem se quisesse conversar. Resumindo, ele não queria. Ela não desejava falar com ele. Ainda estava com raiva. Continuava arrasada. Queria, necessitava vê-lo com tanta intensidade que a pele doía. Kara odiava isso. Recomponha-se. Ela olhou outra vez para o relógio. Estava na hora de ir à reunião. Respirou fundo mais algumas vezes, o que pouco ajudou a acalmá-la, e se levantou. Arrepiada, Kara pegou o suéter jogado no encosto da cadeira durante aquela semana. Vivia sentindo frio ultimamente. Na verdade, desde que tinha deixado Dante, chocada e de lábios cerrados no domingo passado. Nu, lindo e com algo espreitando seus olhos que muito bem poderia ser dor... Não pense nisso agora. Sobreviva até o final do dia. Ela chegou ao corredor e Ruby já estava ali, primeiro a recebendo com um sorriso. Depois, a alegria se desfez. – Cruzes, Kara, você tá branca como papel. Tudo bem? – Vai ver ainda não me curei completamente da virose que me atacou na segunda-feira. – Vai ver... – Falou Ruby, levantando uma sobrancelha. – O que foi? – Kara perguntou de forma defensiva. Ruby olhou para a frente enquanto caminhavam pelo corredor. – Nada. Talvez. Só que Dante De Matteo tinha essa mesma cara toda manhã antes de sair para o tribunal. E sei que ele não está preocupado com o caso. – Ruby...


– Tudo bem, Kara. Não vou dizer nada a ninguém, mas trabalho pra vocês dois, então eu vejo coisas... Kara suspirou. – E? – Bem, tá na cara que tá rolando alguma coisa. Sei que não é da minha conta. – Ela parou, sacudindo a cabeça. – Desculpe. Eu devia ter icado de boca fechada. É que gosto muito de você. Eu te admiro. E odeio te ver tão... fatigada. Tão abatida. Kara teve de engolir em seco para segurar as lágrimas ardendo por trás dos olhos. Depois fungou. – Tá tudo bem, Ruby. – Ai, caramba, agora sim meti os pés pelas mãos. Sinto muito mesmo. – Ruby colocou a mão no braço de Kara. – Tá tudo bem. De verdade. É que... alguém mostrar simpatia faz tudo aflorar. Nem sequer falei com minha melhor amiga por causa disso. – Vou fechar minha boquinha, eu juro. Mas... me avise se precisar de alguma coisa, tá? Kara fez que sim com a cabeça. – Por que não dá um tempinho no banheiro antes da reunião? Eu dou um jeito. – Obrigada, Ruby. Vou fazer isso. E, Ruby… sabe se o Dante tá aqui hoje ou se vai ficar no tribunal? – Não tenho certeza. Não consegui conferir a agenda antes de receber o memorando do Sr. Kelleher e, depois disso, não parei mais de correr. Quer que eu verifique e avise antes de entrar na reunião? – Não, não dá tempo. A inal, ou ele vai estar lá ou não. E eu simplesmente preciso... encarar os fatos, não é? – Tá certo. A gente se vê lá dentro. Ruby apertou novamente o braço dela antes de deixá-la no corredor. Kara entrou rapidinho no banheiro e lavou as mãos, deixando a água quente acalmá-la. Ela tinha consciência de que não podia demorar demais, mas estava feliz por contar com um tempinho para recuperar o fôlego. Olhou seu re lexo no espelho. Ela estava um pouco pálida. Com tapinhas no rosto, tentou recuperar um pouco da cor, depois deu de ombros. Não havia muito a fazer. Precisava ir. A sala de reunião estava lotada, a maior parte da irma se espremia lá dentro, ombro a ombro ao redor da grande mesa, os funcionários administrativos e assistentes ocupavam o perímetro. A mesa estava cheia, então Kara icou ao lado de Ruby, que lhe deu um pequeno sorriso encorajador. Charles Landers estava em pé na frente da sala, sorrindo e


cumprimentando com a cabeça. Depois de um instante, a ele se juntaram Lyle Kelleher e Edward Tate. Lá estavam os três, como sempre, em perfeita harmonia, elegantes e serenos, trajando ternos escuros e gravatas coloridas, vibrantes, com os cabelos em tons diversos de grisalho. Lyle Kelleher pigarreou e Kara olhou ao redor aliviada. Dante não estava ali. – Temos um anúncio a fazer hoje, a um só tempo feliz e triste –a irmou o Sr. Kelleher. Ele fez um gesto apontando para uma das advogadas sentadas à mesa grande. – Infelizmente, Julie Dillard vai nos deixar mês que vem, mas por um bom motivo. Julie vai se mudar para Washington, DC. Ela trabalhou arduamente e foi um prazer contar com Julie desde a formatura na faculdade de direito, primeiro como assistente e, depois, como advogada. Nós queremos lhe agradecer, Julie, por toda sua contribuição a esta empresa e desejar boa sorte em seus desafios. Todos aplaudiram, e Julie, morena e baixinha, agradeceu com a cabeça e sorriu. – Julie, você vai trabalhar no ramo em DC? – alguém perguntou. – Na verdade, tô indo lá pra me casar. E... vou abrir uma loja de antiguidades, algo com que sonho há anos. Já achei o lugar onde abrir. Houve uma nova salva de palmas. – Não se entusiasmem tanto com a perspectiva de ela abandonar a nobre pro issão de advogado – protestou Charles Landers, os olhos azuis cintilavam com falsa indignação. O coração de Kara disparou. Estava feliz por Julie, de verdade, mas também se encheu de inveja. Julie iria atrás da felicidade: casamento, abrir um negócio. Ela corria atrás dos sonhos. Julie ousava persegui-los. Naquela hora, Dante entrou na sala lotada. Kara captou seu olhar. Sem intenção. Mas, como sempre, ela era imediatamente atraída por ele. Dante começou a sorrir, mas se conteve. E Kara icou chocada ao perceber o quanto doía simplesmente permanecer no mesmo recinto que ele. Por ele nem sequer poder sorrir para ela. Por ela estar isicamente incapaz de sorrir para ele. Ruby apertou rapidamente seu pulso e Kara icou grata com aquela pequena demonstração de apoio. O resto da reunião parecia um borrão enquanto Kara tentava não olhar para ele, mas sabia que Dante estava ali, sentindo profundamente sua presença. Dante.


Não pare de respirar. Sobreviva a isto. En im terminou, e todos saíram porta afora. Infelizmente, um dos outros advogados precisava da ajuda de Ruby, então Kara icou sozinha, rezando para Dante ter deixado a sala antes de precisar encará-lo. Ela o observou sair pela porta e icou aliviada. Kara acompanhou os colegas pelo corredor, depois todos se separaram, cada um adentrando sua sala. Ela mal tinha chegado à porta da sua quando ele surgiu ao seu lado. – Kara, podemos conversar? Para ela, foi como receber um soco no estômago. O mero fato de ouvir sua voz era demais para ela. E não conseguia suportar o calor do corpo dele a seu lado, seu perfume. – É melhor não – ela respondeu com severidade. – Eu entendo – ele disse, mantendo a voz baixa. – Mas trabalhamos no mesmo prédio, isso vai acontecer mais cedo ou mais tarde. Ela respirou fundo. – Sei disso. Dante ficou em silêncio. Kara se virou para olhá-lo. Ah, aquilo foi um erro. Ele estava bonito demais com aquele terno prata, a camisa cinza-escura e a gravata cor de carvão. Sofisticado. Ela se lembrou de como se sentiu na primeira vez em que o viu. Simplesmente... perplexa. Agora, não estava menos arrebatada. Kara tinha de se lembrar da raiva. Da dor que a acompanhou. – Podemos entrar na sua sala? – ele indagou. – Pode falar tudo que for preciso em relação ao trabalho aqui mesmo. – Qual é, Kara? Não tem a ver com trabalho. Não mesmo. Céus, ela não queria aquilo. Não queria falar com ele. – Dante, não consigo conversar com você aqui. Não tem como. Não é uma boa ideia e... simplesmente não dá. – Onde, então? Ela fez que não com a cabeça, mantendo os olhos ixos no chão. – Em lugar nenhum, Dante, porque nossa conversa não vai dar em nada. A gente já não tá se encaminhando pra isso mesmo? – Precisamos discutir isso. Conversar sobre por que você foi embora daquele jeito. Ela elevou o queixo, olhando para ele. A raiva a lorou, quente e brutal. – Sério, Dante? Se tava tão preocupado com isso, por que esperou a semana inteira para me falar? Ele coçou o queixo, soltando o ar. – Por que... não sei por quê. Nossa, Kara...


– Boa resposta, Dante. – Ela abaixou a cabeça, abriu a porta da sala e fechou, tomando cuidado para não batê-la. O coração disparava. O sangue fervia. E a mágoa era uma ferida em carne viva, recém-aberta. Ele não sabia? Aquilo era o melhor que podia fazer? Com passos largos, ela atravessou a sala, deixando-se cair na cadeira, passando as mãos no belo coque preparado naquela manhã. Kara não conseguia acreditar naquilo, mas iria inventar uma doença e voltar para casa. Tirando o telefone do gancho, discou o ramal de Ruby. – Ruby, é a Kara. Não tô me sentindo bem. Por favor, cancele todos meus compromissos de hoje. – Aconteceu alguma coisa? – Ah... mais ou menos. Preciso ir embora. Pode tomar conta disso para mim? – Sim, é claro. Eu seguro as pontas. Não se preocupe com nada. Faça o que for preciso, Kara. – Obrigada, Ruby. Por tudo. Ela desligou e se inclinou para pegar a bolsa e a pasta da parte de baixo da escrivaninha. Levantou-se e vestiu o casaco. Kara parou por um instante, com a mão na maçaneta, torcendo para Dante não estar por perto. E abriu a porta. O corredor estava vazio e Kara icou aliviada. E com raiva por Dante não ter se esforçado mais para conversar com ela. Mas ela mesma o tinha mandado embora. Por isso, não iria conversar com ele. Talvez ela fosse uma idiota. Mas achava realmente que era uma questão de sobrevivência. E ainda parecia ser. Kara suspirou, caminhando pelo corredor até o elevador e entrou. Nessa hora, viu Dante deixando a sala de Charles Landers. Ele a encarou, sério, enquanto as portas do elevador se fechavam. Ela continuou puxando ar para os pulmões com di iculdade até chegar ao térreo, caminhar até o carro e ir para casa. Quando chegou ao apartamento, o peito doía, numa dor tão aguda que quase não conseguia mais respirar. E as lágrimas queimavam atrás das pálpebras, na garganta. Kara se livrou do casaco, deixando este, a bolsa e a pasta no chão. No piloto automático, entrou na cozinha e preparou a chaleira para fazer chá. Ela não sabia que outra atitude tomar. O chá era um conforto antigo, familiar, e ela necessitava de consolo agora. Ela precisava de Dante.


Não. Apoiou-se na beira da pia, o velho azulejo branco parecia frio ao contato com os dedos. Servindo de apoio. Kara olhou os ladrilhos, a caixa de chá no balcão. As imagens se misturavam, borradas graças às lágrimas que marejavam os olhos. Não faça isso. Ela não podia mais chorar, não deveria se deixar vencer pelas lágrimas. Caso se entregasse novamente ao choro, tinha medo de não conseguir parar. A chaleira apitou e ela se deu um chacoalhão mental, derramou a água fervente numa das canecas azul-cobalto, mergulhou um saquinho de chá Earl Grey e esperou um pouco antes de tomar a caneca entre as mãos frias e levá-la para o quarto. Lá, ela tirou a saia feita sob medida, passando o suéter de gola rulê pela cabeça. Kara estremeceu com o ar do inverno. Precisava se esquentar. Entrar embaixo das cobertas com o chá e se enroscar. Quem sabe dormir até a dor passar. Puxou os cobertores, depois tirou o sutiã, a calcinha e estava pegando o roupão de algodão branco pendurado no banheiro quando ouviu baterem na porta da frente. Ela vestiu o roupão, amarrando a faixa ao redor da cintura enquanto caminhava pelo apartamento. O pulso disparava. De alguma forma, Kara sabia que era Dante. Como ele tinha passado pela portaria? Será que ela tinha deixado aberta na pressa de entrar em casa? Mas não conseguia pensar nisso, ela mal raciocinava. Quando abriu a porta, o coração se encheu de dor. Necessidade. Pavor. Dante. – O que você tá fazendo aqui? – ela exigiu saber com o máximo de força possível. Estava ofegante. Atordoada. Pelo fato de ele ter vindo atrás dela. Pela emoção estremecendo pelo corpo numa série de pequenos choques. E, por baixo de tudo aquilo, ainda estava furiosa pra cacete. – Eu precisava conversar com você, Kara. Percebi que era melhor mesmo não falar nada no trabalho. – Mas me deitar na mesa e me bater podia, né? Ele correu a mão sobre o cabelo escuro. – Aquilo era... diferente. Ela deu uma risada curta, ferina. – Era, sim. – Não te culpo por estar com tanta raiva de mim. Mas... me deixa entrar. – Ela começou a sacudir a cabeça, a fechar a porta, mas ele pôs a mão,


impedindo-a. – Por favor, Kara. A voz dele saiu suave. Ela não conseguia resistir. A raiva dentro dela até queria, desejava bater a porta na cara dele, berrar para ele cair fora e deixar ela em paz. Mas seu coração nunca desejou sua partida. Kara deu um passo para trás, deixando-o entrar no apartamento. Fechou a porta, apertando mais o roupão ao redor do corpo enquanto se virava para fitá-lo. Os olhos dele cintilavam de emoção, mas ela não sabia ao certo qual era. E, sob os olhos, havia círculos escuros nunca dantes avistados. Talvez fossem por causa do caso no tribunal. Vai ver ele estava preocupado, pode ter ficado acordado até tarde para trabalhar. Kara não desejava ter esperanças de que fosse por ela. De que ele, na verdade, gostava dela na mesma intensidade. Kara não conseguia acreditar que era verdade. Não ousava acreditar. – Muito bem – ela terminou falando. – Você está aqui. O que precisava tanto me falar que teve de vir até a minha casa durante o expediente? – Credo, Kara. Dane-se o trabalho. Isso é importante. – É? Por que, Dante? Você não conseguiu me contar lá na firma? Ele alisou o queixo. – Eu não te culpo por estar tão fechada pra mim agora. Eu não deveria ter te procurado no trabalho. E acho que sei por que você saiu da minha casa no domingo. Acho que sei. Mas preciso ouvir da sua boca. – Ele deu um passo na sua direção. – Na verdade, não con io em mim mesmo quando tem a ver com você. Minha cabeça tá meio doida. Meus instintos, também. Então posso estar muito errado. Ela não conseguia fazer outra coisa além de questioná-lo. Ainda havia raiva o bastante dentro de si. – Por que acha que fui embora, Dante? – Porque eu não... não me abri com você. Não do mesmo jeito como pedi para você se abrir comigo. E isso não é justo. Não tenho sido sincero com você. E sinto muito. Suas feições se suavizaram. Ela tremia. – Eu também me fechei pra você, Dante. – Você se abriu totalmente pra mim. Ela fez que não. – Nada disso. Era verdade. Kara não havia lhe dado a peça fundamental do quebracabeça que era seu relacionamento. Uma relação construída sobre os segredos que um guardava do outro, e sobre as con issões que se izeram. Se fosse para ser justa com aquilo, ela tinha de lhe contar a única verdade que faltava.


– Dante... – Ela olhou para ele, seu olhar capturando o dele, sem desviar. Os olhos de Dante tinham aquele tom amarronzado do uísque que ela passou a amar. Kara amava tantas coisas nele. Estava na hora de lhe falar. De ser sincera. De revelar sua verdade. Lembrar dos sentimentos por ele reduziu a resistência, relaxando-a por completo, a raiva foi embora, junto com a dor. Tudo já estava tão abalado entre os dois que talvez ela não tivesse nada a perder. – Dante, a única coisa que escondi de você é... Eu amo você. – Ela se rendeu, encolhendo os ombros, sem poder fazer nada. – De verdade. Eu amo você. Havia choque nos olhos dele. O coração dela se apavorou. Teria sido um equívoco? – Minha nossa, Kara... – E tem mais, Dante... – ela a irmou, assim que percebeu pela expressão totalmente destroçada no rosto dele que era verdade. – Você também me ama. – Ela estava tremendo, um tremor forte bambeando as pernas, mas se aproximou dele, até icar a poucos centímetros de distância. O su iciente para sentir seu perfume. Kara esperou uma reação dele. Sem nada acontecer, tentou novamente falando entre os dentes cerrados: – Você me ama, caramba. Eu sei. Eu sinto. Eu amo você, apesar de mim mesma. Então, sei como você tá se sentindo, mas tô colocando minhas cartas na mesa. Tô correndo o risco, que me parece enorme. Porque já amei antes. E perdi. Fui rejeitada. Pelos meus próprios pais. Pelo meu ex. E odiei como isso me deixa fraca. Impotente. Então, me rejeite também, se for preciso. Mas não vou fugir de novo até você me rejeitar. Porque isso realmente seria fraqueza. E eu me recuso a ser essa pessoa. Eu me recuso. Ele balançou a cabeça. O rosto estava sombrio, a expressão, muito bruta, ela nem imaginava o que viria a seguir. O coração dela trovejava no peito, o pulso batia a um milhão de quilômetros por hora. Mas era bom inalmente ter falado. Ter contado a verdade. Ela se sentiu mais forte sendo sincera. Verdadeira consigo mesma. En im, ele mexeu a cabeça e falou tão baixinho que ela precisou se esforçar para ouvir: – Você é muito mais corajosa do que eu, Kara. Ela esperava mais. No entanto, ele estava ali parado, os braços pendendo ao lado do corpo. Dante a observava, como tantas vezes anteriormente. E, depois de um tempinho, a raiva foi voltando, ondulando pelas veias. – Que merda, Dante! Diz alguma coisa! Como se sente a respeito? Em


relação ao que eu falei. Quanto a mim? Diz que me ama ou diz que não me ama, mas não vou te deixar fugir dos seus sentimentos. Nem dos meus. Principalmente dos meus. Eu mereço coisa melhor. – Merece, sim. Merece mais do que posso dar a você, Kara. – Você só pode estar de sacanagem. – Ele pareceu novamente chocado, a boca se abria como se fosse falar, mas ela não deixava. – É essa merda de sempre que vem repetindo há tanto tempo? Desde que perdeu a namorada da faculdade? Não quero parecer insensível, pois posso imaginar como deve ter sido horrível pra você, tendo ou não a amado. Mas por quanto tempo vai usar isso como desculpa? Aquilo pareceu congelá-lo. A boca se abriu, mas não conseguiu falar. Ele fechou a boca e piscou. E enquanto ela não desgrudava os olhos dele, as feições mudaram, se suavizaram, as sombras nos olhos desanuviaram. – Nunca mais – ele falou, segurando e prendendo os braços dela nas mãos, num aperto forte. – Cansei disso, você tá certa. É uma desculpa esfarrapada, velha. É uma sacanagem. Usei o que aconteceu com a Erin durante toda a minha vida adulta. Minhas próprias experiências familiares. Minha culpa por nunca ter sido capaz de ajudar minha mãe. Na verdade, ela nunca quis minha ajuda. Nem quando... Ele parou, e ela o sentiu tremendo um pouco por causa do aperto nos braços. E nos olhos havia aquela vulnerabilidade pura e simples, já observada antes. Anos atrás, quando ele bateu no Brady. E algumas vezes durante o sexo. O que será que aconteceria a seguir? – Kara, nunca falei isso antes pra outra pessoa, tirando meu irmão, Lorenzo, mas eu preciso te contar agora... Quando eu tinha dez anos, vi meu pai bater na minha mãe. Ele estapeou ela. Não lembro o motivo da discussão. Só aconteceu daquela vez, até onde eu sei. Kara assentiu com a cabeça. Não sabia o que falar. E ele não havia terminado. – Acho que meus pais acertaram as pontas. E, quando adulto, foram tantas as ocasiões em que quis falar a ela que a protegeria, mas não consegui. Contei ao Lorenzo uns anos atrás, e ele achava que tava tudo bem entre eles. E talvez esteja. Entendo esse aspecto da minha mãe desejar que meu pai tome todas as decisões. Devia haver... sei lá, alguma segurança naquilo pra ela. Ou talvez uma desculpa pra sua fraqueza. Eu sei lá. Mas eu me lembro da sensação de impotência. Daquele medo. Eu odiava. Ainda detesto. Virou uma força propulsora na minha vida. E meu pai... todas as porcarias que falava pra mim e pro meu irmão sobre termos de ser homens. Sermos responsáveis. Até mesmo quando tínhamos nove,


dez anos. É muita pressão pra uma criança, pelo amor de Deus! E, vai ver, sempre soube disso. Mas os pais costumam ter esse estranho domínio sobre nós. E tudo isso me tornou, com a minha permissão, um cara superresponsável. Não digo que ver aquele tapa tenha me levado a ser um dominador, mesmo na minha sexualidade. Mas foi uma forma de trabalhar aquela... impotência absoluta para ajudá-la. Minha mãe. Erin. Até isso precisei esconder. E também sempre soube disso. Eu não queria pensar nessa história, mas icar com você, Kara… Mudou tudo, me fez olhar mais no fundo de mim mesmo. Ela o observava, mal acreditando no que tinha acabado de ouvir. Querendo mais dele. Porém, Kara precisava reconhecer o fato de ele lhe dar aquela perspectiva interna. – Tudo faz sentido pra mim, Dante. Tenho pensando bastante nessas coisas ultimamente. Percebi o quanto que a imagem que tenho de mim mesma sempre esteve ligada aos meus pais. E do quanto precisei me afastar da opinião deles a meu respeito. Do que ganhei na forma como fui criada, do que precisava e nunca tive. – Ela fez uma pausa, mordendo o lábio, tentando raciocinar. – Eu preciso parar de sentir tanta pena de mim mesma. É isso mesmo. Não posso voltar atrás, não posso modi icá-los. Só posso mudar a mim mesma. Meu relacionamento com Jake enfatizou esses mesmos sentimentos de ser julgada e me decepcionar, mas, sabe... ele que se foda. Ele não merece tanta energia minha, e cansei de alimentar isso. Então, Dante sorriu para ela. – Ótimo. Que bom pra você, Kara, pois se ele não te julga por quem você é, pelos seus anseios, então a opinião dele não vale nada. E se ele não foi capaz de ver como você é uma mulher maravilhosa, as opiniões dele valem menos ainda. Ele é um idiota. Só que eu também fui um idiota. E não quero mais ser. Você é muito mais sensata do que eu, Kara. Você está certa em relação a tudo que falou. Sobre você. Sobre mim. Tudo. Porque eu amo você, Kara. Você tá certa. O coração dela disparou de vez. – Você acabou de falar que me ama? – Falei. Eu amo você. E vou repetir. E dizer outra vez. Até acreditar em mim. – Os olhos dele brilhavam. – Acho que vou ter que te falar centenas de vezes pra me redimir. E eu tô disposto. – Meu Deus, Dante... – Ela se viu tomada de alegria. Um luxo absoluto de emoção a bambear as pernas. Ainda bem que ele a segurava com tanta força. E Kara necessitava do contato, do calor de seu toque. – Diga de novo. Eu preciso escutar. – Eu amo você, Kara. Foi isso que vim lhe dizer. – Ele se inclinou e roçou a boca na dela. Ela nunca tinha sentido algo tão doce. – Eu amo você – ele


cochichou novamente contra os lábios dela. – Eu amo você, amo você... Então, ele a beijou de verdade, com a boca tão exigente como sempre. Mas, através daquele beijo, o que ele pedia era para ser amado. Ela se afastou. – Repete, Dante – ela falou, rindo em meio às lágrimas turvando sua visão. Ele a itou nos olhos, os dele possuíam um brilho castanho suave, feito fumaça dourada. Havia mais emoção neles do que ela jamais vira. Dante envolveu o rosto dela com as mãos, e Kara sentiu seu amor naquele simples gesto. – Amo você, Kara. Eu amo você mais do que jamais poderia amar alguém. Desta vez, quando a beijou, não havia apenas o calor do desejo. Havia uma paixão tão pura e profunda que ela a sentia na alma. Dante a abraçou com mais força, os corpos se juntaram. Pela primeira vez, ela conhecia o amor. E embora isso a encantasse, também a assustava. Era impossível não sentir medo. Kara não sabia como. Por ora, ela apenas se derreteria nele. Simplesmente se deixaria levar. Por ora, Kara havia parado de fazer questionamentos, de exigir respostas. De Dante. De si mesma. Pelo menos uma vez ela iria se deleitar naquele sentimento que fazia seus sentidos se elevarem de um jeito nunca experimentado. Ele me ama. Ela engoliu o medo. E retribuiu o amor.


DEZESSETE

Dante a abraçou com força, a ponto de conseguir sentir o coração dela batendo contra o seu. Sua boca era doce por demais. Saber que era amado por ela era mais doce do que tudo já sentiu. Era algo milagroso. Ele a trouxe para mais perto, precisando apertá-la contra si. Senti-la... Nem sequer sabia o que queria dizer com aquilo. Somente que não conseguiria ficar perto o bastante. – Dante – ela sussurrou contra sua boca, sua língua movendo-se lentamente sobre seus lábios, um toque lento, sensual, deixando-o ardendo de desejo. Tenho de possuí-la. Pelada. Aberta. Ele a ergueu e a carregou para o quarto, deitando-a na cama. Parado de pé, simplesmente a olhou por algum tempo. Estava estupefato com sua beleza. Com sua pele de porcelana. O cabelo longo indomado contra os lençóis verde-claros a fazer seu olhar metálico cintilar com pitadas de esmeralda e musgo. Havia uma inocência sedutora nessa imobilidade, naquele olhar a dizer que precisava dele tanto quando ele precisava dela, pois o desejo de Kara queimava com a mesma intensidade. Tanto contraste contra as longas pestanas. Dante notava o rubor rosado, febril, nas bochechas, entre os seios onde o roupão branco se abriu. Ele se inclinou sobre ela, um joelho na beira da cama, e desamarrou o robe. Afastou o tecido de algodão branco com a mão até deixar ele cair, mostrando o corpo nu que estava por baixo. Os mamilos eram duros e escuros, suculentos ao extremo. Quando ela lambeu os lábios, reparou que eram igualmente deliciosos. Dante não sabia por onde começar, nem por onde terminar. – Kara – ele falou, num sussurro bruto – me diz que temos o dia inteiro, a noite inteira. Me diz que não vamos a lugar algum. Eu preciso... ter você


inteira só pra mim. – Não vou a lugar nenhum. Não quero estar em nenhum lugar além de aqui ao seu lado. O coração dele disparou ao ouvir aquilo. Ele ficou duro feito uma pedra. Dante se abaixou e depositou um beijo nos seus lábios, abaixando-se mais para beijar os seios, aquela delicada elevação de carne macia e perfumada. Ela suspirou, num som suave de prazer, mas ele o assimilou como uma corrente elétrica. – Minha nossa, Kara... Ela tocou a face dele com as mãos, deixando as palmas tenras sobre as bochechas ao segurar a cabeça nos seios. Dante obedeceu a ordem silenciosa, abocanhando e chupando um mamilo. – Ai, Dante... Ele segurou a carne tesa na boca, girando a língua sobre a ponta. Kara gemeu, sem largá-lo, e ele sentiu que ela arqueava os quadris. A ideia de ela estar molhada, querendo sexo, era tentadora quase por demais. Contudo, ele pretendia prolongar aquilo, se demorar, para ser bom para ela. Dante levantou a cabeça e olhou dentro dos olhos de Kara. – Me diz o que você quer, meu amor. Me diz suas necessidades. – Eu preciso de você. Apenas... preciso que me toque. Que ique comigo. Eu preciso de... tudo. Ele sorriu, o corpo tomando de desejo, borbulhando calor nas veias. – Também preciso de você, minha menina bonita. Nem imaginava que poderia precisar tanto assim de alguém. – Tira a roupa para mim, Dante – ela pediu baixinho. Ele sorriu ao icar de pé para atender seu pedido. Havia um sorrisinho no rosto dela, e Dante sabia no que Kara estava pensando. Era uma pequena virada de jogo, embora o poder não estivesse em questão no momento. Eram apenas eles dois. O amor era o denominador comum. E aquele momento se resumia a isso. Não que os papéis de cada um não voltassem a ser interpretados. Eles se reapresentariam. Existia dentro deles o querer, a necessidade. Agora, no entanto, aquilo se resumia às coisas ditas por eles, às personalidades puras que haviam acabado de revelar. Enquanto tirava a jaqueta, a camisa, a calça, ele notou que aquilo vinha acontecendo há semanas. Que não havia exigido o sexo radical com Kara, aquele que empregava para se distanciar das outras mulheres. Ela era tudo que ele exigia.


Quando icou nu, Kara sorriu em aprovação. E ele se endureceu ainda mais ao notar seu olhar. Luxúria. Amor. Dante se inclinou novamente sobre ela, abocanhando o outro mamilo e a fazendo ofegar. Ela en iou os dedos pelo cabelo dele, segurando irme. E o aroma do desejo dela aumentava, a cercá-lo, invadindo seu organismo até se fundir com o dele. Eles eram um só pulso a troar. O dele. O dela. Em conjunto. Dante continuou deslizando a língua sobre a carne rígida, empregando as mãos para envolver os seios por completo, enquanto o polegar atacava o outro mamilo. Então, ele parou e olhou para Kara, para os olhos entreabertos. Os dentes dela desciam para morder o rosa suculento do lábio inferior. O vermelho escurecido dos mamilos. Depois, ele retomou o trabalho. Dante desejava provocá-la, excitá-la ao máximo possível simplesmente executando aquela rotina: chupando os mamilos, lambendo, amassando os seios. – Deus meu, Dante... é tão... Ah... Ele sorriu e continuou chupando, lambendo, acariciando. Quando ela arqueou o quadril com força, chegou até a pular da cama, a coxa raspou a cabeça do pau e ele gemeu. Mas Dante não se entregaria à própria necessidade. Não até satisfazer a dela. Ele respirou, inalando seu perfume, aquela fragrância de lores e desejo feminino. Dante ficava tonto com ela. Kara. Finalmente, ela era dele. Verdadeiramente dele. Kara se contorcia embaixo dele, descontrolada. Com o desejo queimando feito lava pelo corpo. Concentrado nos seios ansiosos enquanto Dante os torturava deliciosamente com sua boca de talento. Enviando ondas de prazer ao sexo dela. Criando um forte padrão rítmico nele. Desejo puro. Um querer que parecia vibrar na carne. E tudo aquilo por causa dele. Dante. Dela. O cabelo dele lembrava seda em suas mãos. A boca de Dante sobre ela era uma labareda líquida. O amor dele era o afrodisíaco mais selvagem que Kara poderia imaginar. Ela envolveu a perna ao redor de seu corpo, aproximando-o, precisando de mais. E quando a coxa dele se acomodou entre as dela, houve um choque de prazer. E com nada além daquilo, de sua coxa musculosa pressionada sobre a boceta úmida, a boca e a mão nos seios, ela gozou,


gritando. – Dante! Ai, meu Deus... Ela se inclinou contra ele num espasmo. Kara estremecia com ondas seguidas de prazer, como se fogos de arti ício explodissem sob as pálpebras fechadas. Quando Dante gemeu e pressionou o pau inchado sobre seu ventre, foi como gozar novamente ao sentir sua excitação. Ela abriu as coxas, as mãos deslizaram até suas fortes nádegas para aproximá-lo. – Nossa, minha menina, assim você acaba comigo. Espera um pouco. – Agora, Dante. Agora! Ele riu. – Precisamos de camisinha, meu amor. Espera! Iria demorar apenas alguns segundos, mas era demais para ela. – Anda logo, Dante. Eu não posso esperar. É sério, não dá. Ele sorria ao se segurar sobre ela. Os olhos cintilavam dourados na luz da tarde. Tão lindos. E enquanto ela o observava, suas feições se suavizaram, o sorriso se desfez. Seu rosto passou a expressar deslumbramento ao deslizar para dentro dela. – Meu amor – ele murmurou. – Amo você, Kara. Amo você, minha menina bonita. Você é minha. A cabeça dela girava, o corpo se consumia em sensações: prazer, uma carência por ele além de qualquer sensação física. – Eu também amo você, Dante. Amo você. Ele a envolveu nos braços e a deixou quase ereta, mantendo-a juntinho ao seu corpo enquanto a penetrava fundo. – Ah, Kara... – Ele saiu, meteu novamente, provocando prazer nela em ondas de trepidação. – Você é deliciosa, meu amor. Melhor do que tudo que já senti na vida. Os quadris dele se mexiam, pressionando com força, depois recuavam. Kara era preenchida, sem parar, pela carne dura dentro dela. Pesada. Quente. Ela fazia força contra Dante, desejando-o mais fundo. E o tempo todo o prazer crescia outra vez, em espirais, encrespando-se. – Kara – ele arfou contra seu cabelo. – Eu preciso gozar. Dentro de você... Ele se retesou, invadindo-a novamente, ofegante, gritando o nome dela. – Kara, meu amor... Kara! Ela o sentiu gozando, sentiu o calor do gozo dentro dela, sentiu seu prazer como se fosse o dela. E ela gozou com Dante, um milhão de luzes explodindo pelo corpo, pela mente. Ela se sentiu ofuscada, cega. Eles se abraçaram com força. Ela estremecia de prazer, com o espanto


vivenciado. Com o assombro do que Dante sentia por ela. Kara percebia o sentimento dele a cada carícia, a cada sussurro. O medo pretendia se reinstalar, mas ela não deixaria. Agora não. Agora Kara se entregaria à primeira sensação verdadeira de segurança experimentada com um homem, ou qualquer outra pessoa, em sua vida. Ela se deixou relaxar com o abraço de Dante, fechou os olhos e adormeceu. Eles acordaram mais tarde, gozando novamente. Desta vez não aconteceram preliminares, Dante apenas se virou para olhá-la, levantou a perna sobre ele e a penetrou. O encontro de seus quadris era um movimento suave, sua carne dura era socada dentro dela. E um calor latejante, lento, foi se formando pouco a pouco. Desta vez a sensação era uma ondulação adorável. O sol do entardecer vazava inclinado pelas cortinas, lançando luz e sombra sobre a pele nua. Calor. O corpo dele era lindo aos olhos dela, o rosto bonito quando a via gozar novamente. Então, quando Dante gozou, uma expressão de deliciosa agonia escureceu seus olhos. Depois, ele continuou dentro de Kara, beijando seu rosto e seus lábios. De repente ela se mostrou ansiosa. – Dante, me diz que não precisamos parar. Ele deu uma risadinha. – Eu posso precisar de alguns minutos de descanso, minha menina impaciente. – Não, eu falo disso, de a gente ficar junto. Dante olhou para ela, beijando-a novamente. – É isso o que eu quero, Kara. Você é o que eu quero. Os braços de Dante a enlaçaram, apertado, e ela encostou o rosto no seu peito, deixando sua pulsação reconfortá-la. Quando Kara acordou novamente, estava escuro do lado de fora, somente se via o brilho esmaecido dos postes de luz perto da janela. Dante ainda dormia a seu lado; ela sentia o sobe e desce suave de seu peito. Kara olhou para o céu, sem nuvens, repleto de estrelas. Como seria possível ela ter isso? Daria para con iar? Kara nunca tinha amado antes. Nunca se permitiu. E não sabia o que esperar. – Oi. – A voz dele estava grave, sonolenta. – Dá pra ouvir você pensando. Ela icou quieta um instante, não sabia como lhe contar aquilo, caso fosse possível abordar o tema. – Será que eu... posso pensar um pouquinho? – Hum... Só se você me der de comer. Tô morrendo de fome. – Eu também tô. – Era a primeira vez que sentia fome em dias, mas, de repente, ela estava esfomeada.


– Você tem ovos? – Dante perguntou. – Posso preparar uma omelete pra gente. – É mesmo? – Sou o cozinheiro aqui, não lembra? – Sim, eu me lembro. E também sabia que não era eu. Devo ter ovos. E, talvez, um pouco de queijo. – Só preciso disso. Vamos lá. Dante se levantou e a tirou da cama, e ela sorriu ao vestir novamente o roupão antes descartado, enquanto ele botava as calças. Estava um pouco frio, mas Dante não quis saber da camisa, deixando o torso nu, para ela admirar, como o izera tantas vezes; seus ombros largos, o peito, os braços musculosos, a bela barriga de tanquinho. Eles entraram na pequena cozinha e Kara pegou os ingredientes enquanto ele remexia no guarda-louça até encontrar a frigideira. Passaram-se poucos minutos até a refeição icar pronta; depois eles se sentaram à mesa para comer, conversando ou mastigando em silêncio. Era natural. Confortável. Novamente, ela teve de se perguntar se realmente poderia ter aquilo. Esse companheirismo relaxado. E a emoção palpitando por baixo daquilo tudo esquentava suas bochechas só de olhar para ele. Era uma mistura muito estranha. Maravilhosa. Incrível. Assustadora. Ela abaixou o garfo e respirou fundo. – O que foi, meu amor? Já acabou de comer? – Dante quis saber. Ela respondeu baixinho: – Ainda tô... meio assustada. Não tá com medo, Dante? – Ele também depositou o garfo no prato e a olhou nos olhos. A sinceridade que ela constatou no olhar era tão deslumbrante quanto o sexo, aquilo a deixava sem fôlego. – Tô morrendo de medo – ele admitiu. – Mas não quero deixar o medo me controlar. Não posso deixá-lo vencer. Não vou deixar. É por isso que tô aqui com você. O que fazemos aqui se não estamos dispostos a ter medo e continuar mesmo assim? As lágrimas arderam nos olhos dela. – E você ainda disse que eu era a forte. Não é verdade. – É, sim. Eu percebo em você, Kara. Sempre percebi. Ter medo não signi ica não ser forte. Apenas quer dizer que você é humana. Talvez nós não sejamos grande coisa nesse lance de relacionamento. Eu provavelmente não vou ser. Sabe disso, né? Ela precisou rir. – Sim, mas, provavelmente, eu também não.


– Tudo bem. Então, nós somos dois seres humanos falíveis e icamos juntos porque nos amamos. – Ele chegou perto dela. – Amo você, Kara. É o bastante pra mim. Tomara que também seja para você. Kara esticou a mão ao longo da mesa e a dele encontrou a sua no caminho, tomando-a por inteiro. O toque era quente. Reconfortante. – É, sim, Dante. Amo você e isso é o bastante. Eu tenho de con iar nisso, mas ainda tô aprendendo. – Então somos dois. Nós podemos aprender juntos. Não consigo imaginar de outra forma. – Nem eu. Não quero mais icar sozinha. Nem quero mais meus medos determinando quem eu sou. Como me permito sentir. Simplesmente quero sentir. E… eu quero pintar novamente. Não vou abandonar a advocacia, mas comecei a fazer uns rascunhos há pouco tempo e acho que tá na hora de pintar. – Que ótimo! – Ele sorriu para ela, o orgulho era visível no olhar castanho e na mão grande e quente segurando a dela. – A pintura é uma parte disso. Desta transformação. E a outra parte é o trabalho... Acho melhor procurarmos os sócios e contar que estamos juntos. – Sim, sem dúvida, vamos lhes contar. E eles vão aceitar. Não precisamos esconder mais nada. É amor de verdade, não um caso escandaloso. Tudo isso mudou. – Mudou. Nós dois. Eu. Tanta coisa se modi icou dentro da minha cabeça. A pintura é somente um sintoma disso. Dos bons. – Ela sorriu. – Mas tudo começou com você. Eu me cansei do medo. Talvez ele continue a existir, mas eu quero dar as cartas na minha vida. E quero icar com você, Dante. Eu amo você – Kara repetiu. Ela nem sequer sabia se conseguiria explicar o quanto. – Minha menina bonita – ele sussurrou, trazendo-a para perto. Dante a beijou, e naquele beijo ela sentiu seu amor, bem no fundo de sua alma. Kara sabia que ele a ajudaria naquilo. Que eles poderiam se ajudar. Que era assim que deveria ser. Ela se derreteu com aquele beijo, o calor, a necessidade, ambos voltando com uma força impossível de ser negada, de ser enfrentada. E Kara nem mais queria isso. Aquele antigo instinto de fugir tinha acabado. Dissolvido em amor. Dante resmungou, puxando suas mãos até ela estar em seu colo. Ele a beijou com mais intensidade. Sua língua, a pressão do pau duro lá embaixo a enchendo de calor, aquele calor adorável a invadi-la, produzido por uma mistura de desejo e amor.


Ele se afastou. – Meu amor, preciso icar com você no chuveiro. Sabe o quanto adoro isso. E com você... tem de ser com você. De algum jeito eles atravessaram o apartamento e entraram no pequeno banheiro. Ele a soltou apenas o necessário para ligar a água quente. – Não se mexa – ele falou. – Eu já volto. Dante voltou alguns instantes depois com um pacote de camisinhas na mão e um sorrisinho no rosto. Ele se aproximou e a beijou novamente, com gentileza, enquanto a livrava do roupão e tirava as calças. O vapor tomava forma ao redor dos dois, feito um cobertor delicado ao entrarem no boxe. Ele enlaçou as mãos na cintura dela, trazendo-a para debaixo da água. E beijou seu pescoço enquanto a água quente corria pelo cabelo, pelo corpo. Então, pegou o frasco de sabonete líquido e, cuidadosamente, a ensaboou da cabeça aos pés. As mãos eram escorregadias, incrivelmente suaves, ao deslizarem sobre a pele dela. Ele passou aos seios, e a fome, o apetite, se revelou como o vapor a cercá-los, tão brando, tão adorável. Os dedos desenhavam círculos ao redor dos mamilos, que icaram duros, rijos. Já a necessidade era um anseio sussurrante, urgente e, no entanto, doce. Ela não conseguia tirar os olhos de suas mãos enquanto ele as abaixava, sobre as coxas e, depois, entre elas. – Ah, Dante... Por causa do sabonete, o dedo deslizou facilmente ao longo de sua boceta, acariciando os lábios inchados, e ela abriu as coxas para ele. Dante massageou por ali, subindo até o clitóris, depois descendo. Sem parar, até ela chegar ao limite do clímax. Ele parou. Atrás dela, pegou o chuveirinho e tirou a espuma com o mesmo cuidado utilizado para ensaboá-la. Por im, Dante dirigiu o jato de água quente entre suas coxas. O ritmo sutil do chuveirinho atingiu o clitóris e ele o manteve assim com uma das mãos, enquanto a outra trazia o corpo dela para perto. Sua boca se fechou sobre a dela e, ao gozar, Kara gemeu o prazer contra seus lábios. Ela ainda tremia quando ele colocou a camisinha e, envolvendo uma das pernas de Kara ao redor da cintura, a penetrou. – Dante – ela arfou, e o pau grosso latejou dentro dela, levando-a novamente para aquele ápice. O prazer era estonteante. Feliz. Era transcendente tê-lo dentro do corpo e saber que era amada por ele. Percebendo seu amor de forma tão intensa que não podia duvidar dele. Sentindo-o no âmago de si. – Eu nunca senti isso antes... isso... Deus... Ele arqueou os quadris, mergulhando mais fundo. – Eu sei, meu amor.


Sei exatamente o que você quer dizer. É tão gostoso amar você desse jeito. Você é tão boa pra mim, Kara. – Ele a beijou, pressionando os lábios nos dela sem parar. – Nós estamos juntos, meu amor. Minha menina bonita. Era verdade. Ela sabia. E, a cada momento ao seu lado, o medo se tornava menor, até desaparecer. Enquanto o simples prazer de estar com o homem amado, sendo correspondida, crescia dentro dela, em espirais, Kara percebeu que o medo realmente tinha sumido. – Eu amo você, Dante – ela cochichou para ele enquanto seu corpo dava início àquela explosão adorável, como se todas as estrelas do céu noturno se acendessem bem no fundo do seu ser, a iluminá-la de prazer, de amor. – Amo você, minha menina. Minha menina. Ela pertencia a ele. Verdadeira e completamente. En im, Kara conhecia o amor. Sabia que deveria deixar-se embalar, mantendo seu coração a salvo. Por fim a salvo, com Dante.

CONTINUA...


Trilogia luxúria livro 02 no limiar do desejo eve berlin