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© Greg Ellis Lisa Kleypas é autora de 21 romances traduzidos para 12 línguas. Licenciada em Ciências Políticas, publicou o primeiro livro com 21 anos. Os seus livros figuram constantemente em listas de bestsellers como o NYTimes e a Publishers Weekly e conquistaram vários prémios RITA, o prestigiado galardão da RWA (Romance Writers of America).


“Uma contadora de histórias francamente talentosa.” Publishers Weekly

“Kleypas nunca falha. (…) Tem um especial talento para fazer os leitores rir, chorar e aplaudir, normalmente logo nas páginas de abertura.” Romantic Times


Paixão Sublime Lisa Kleypas Publicado em Portugal por: 5 Sentidos® Divisão Editorial Literária – Porto E-mail: delporto@portoeditora.pt Título original: Devil in Winter Copyright © 2006 by Lisa Kleypas Design da capa: Nor267 Imagens da capa: © Allan Jenkins/ Trevillion Images 1.ª edição em papel: junho de 2013 5 Sentidos® é uma marca registada da Porto Editora, Lda. Reservados todos os direitos. Esta publicação não pode ser reproduzida, nem transmitida, no todo ou em parte, por qualquer processo eletrónico, mecânico, fotocópia, gravação ou outros, sem prévia autorização escrita da Editora. Est e livro respeit a a s regra s do Acordo Ort ográ fico da Língua Port uguesa .

ISBN 978-989-745-005-1


Capítulo 1

Londres, 1843 Ao olhar para aquela jovem que acabara de irromper pela sua residência de Londres, ocorreu a Sebastian, Lord St. Vincent, que talvez tivesse tentado raptar a herdeira errada em Stony Cross Park, poucos dias antes. Ainda que o rapto não constasse, até bem recentemente, da sua lista de vilanias, a verdade é que devia ter sido mais inteligente. Pensando bem, Lillian Bowman tinha representado uma escolha errada, ainda que na altura lhe tivesse parecido a solução perfeita para o seu dilema. A família dela era abastada, enquanto Sebastian era um nobre irremediavelmente falido. Além disso, Lillian transmitira-lhe a ideia de poder vir a ser uma excelente parceira de cama, com a sua beleza morena e temperamento fogoso. Devia ter escolhido uma vítima menos impetuosa. Mas Lillian Bowman, a temperamental herdeira americana, tinha oferecido uma fortíssima resistência ao plano de Sebastian até se ver finalmente resgatada pelo noivo, Lord Westcliff. Miss Evangeline Jenner, a criaturinha angelical que agora se apresentava à sua frente, mostrava-se o extremo oposto de Lillian Bowman. Sebastian observou-a com velado desdém, tentando relembrar o que sabia acerca dela. Evangeline era a única filha de Ivo Jenner, dono de um famoso clube de jogo londrino, e de uma mãe que havia fugido com ele – depressa se apercebendo do enorme erro que cometera. Ainda que a mãe de Evangeline fosse oriunda de uma família decente, a verdade é que o pai pertencia à fina flor da escumalha. Não obstante a sua inglória linhagem, Evangeline poderia ser um excelente partido – não fosse pela sua extrema timidez, que resultava numa interação verdadeiramente tortuosa. Sebastian ouvira já vários homens comentarem que mais depressa envergariam um cilício até a pele ficar em carne viva do que tentariam entabular uma conversa com ela. E como é óbvio, o próprio Sebastian tudo fizera para a evitar de cada vez que se encontraram – tarefa nada difícil, uma


vez que Miss Jenner era conhecida por viver constantemente retirada em cantos escuros. Nem sequer tinham alguma vez conversado diretamente – circunstância que a ambos parecia agradar sobremaneira. Mas agora não havia como evitá-la. Por uma estranha razão, Miss Jenner tinha decidido visitar Sebastian em sua casa – sem ser convidada, e a horas absolutamente indecorosas. E para tornar a situação ainda mais comprometedora, viera sozinha – e qualquer meia hora passada sozinha com Sebastian era o suficiente para arruinar a reputação de uma rapariga. Ele era debochado, amoral e perversamente orgulhoso do seu estatuto. St. Vincent distinguia-se notavelmente na ocupação que escolhera – a de degenerado sedutor – e estabelecera um padrão de conduta a que poucos libertinos poderiam aspirar. Recostando-se descontraidamente, numa postura de falsa indolência, Sebastian ficou a ver Evangeline Jenner aproximar-se. A biblioteca tinha pouca luz, à exceção da oriunda de uma pequena lareira no centro da sala, e as chamas débeis brincavam agora com o rosto bonito da jovem. Não aparentava ter mais de vinte anos, a tez fresquíssima e os olhos cheios de uma inocência que apenas servia para intensificar o desdém do visconde. Sebastian jamais conseguira valorizar ou sequer admirar a inocência. Ainda que o seu cavalheirismo o incitasse a erguer-se da cadeira, parecia não fazer grande sentido, dadas as circunstâncias, prestar-se a quaisquer gestos de polidez. Assim, limitou-se a indicarlhe a cadeira à sua frente com um indolente gesto de mão. – Sente-se, se quiser – disse-lhe, secamente. – Ainda que, em minha opinião, não deva demorar-se. Aborreço-me facilmente, e a sua reputação não é propriamente a de uma conversadora brilhante. Evangeline não reagiu àquela grosseria. Sebastian não pôde deixar de pensar que tipo de educação a poderia levar a mostrar-se imune ao insulto, quando qualquer outra jovem da sua idade teria corado ou desatado num pranto incontido. Das duas, uma: ou ela tinha a sensibilidade de uma ervilha ou uns admiráveis nervos de aço. Despindo a sua capa, Evangeline poisou-a num dos braços da cadeira forrada a veludo, e sentouse sem a menor delicadeza ou hesitação. Encalhada, pensou Sebastian, lembrando-se de que ela era amiga não só de Lillian Bowman, como da sua irmã mais nova, Daisy, e de Annabelle Peyton. O grupinho de jovens convivera lado a lado em inúmeros bailes e soirées da última temporada, formando um desinteressante agregado de eternas Encalhadas. Contudo, tudo indicava que a sorte havia mudado para duas delas, já que Annabelle tinha finalmente conseguido casar-se, e Lillian acabara de ficar noiva de Lord Westcliff. Sebastian duvidava seriamente que aquela maré de sorte alguma vez se estendesse à criatura desastrada que se encontrava à sua frente. Embora se visse tentado a perguntar-lhe a razão da sua visita, Sebastian também temeu que isso desencadeasse um momento de prolongada gaguez que os atormentaria a ambos. Aguardou com indisfarçada impaciência, enquanto Evangeline parecia considerar o que tinha para dizer. Debaixo de um silêncio cada vez mais desconfortável, Sebastian ficou a vê-la sob a ténue luz da lareira, e notou –


não sem alguma surpresa – que ela era até… bastante atraente. Nunca tinha olhado para ela diretamente, tendo apenas a vaga ideia de uma ruivinha apagada e com péssima postura. Mas a verdade é que era… encantadora. À medida que a observava, Sebastian apercebeu-se de uma certa tensão nos músculos, e sentiu os pelos da nuca a eriçarem-se. Manteve-se recostado, mas fincou inconscientemente as pontas dos dedos nos braços aveludados da cadeira. Achou estranho nunca ter reparado naquela jovem, já que era nítido que ela tinha uma imensidão de atributos dignos de nota… O cabelo, do mais pálido tom de ruivo que ele alguma vez vira, parecia alimentar-se das chamas, reluzindo num calor incandescente. Os esbeltos contornos das sobrancelhas e a forte espessura das pestanas eram de um acobreado mais escuro, enquanto a pele era, essa sim, a de uma verdadeira ruiva: muito branca e levemente sardenta no nariz e nas bochechas. Sebastian deu por si a encantar-se com aquele alegre salpicado de pintas douradas, como que pulverizadas pela mão de uma fada amiga. Evangeline tinha lábios cheios – deselegantes e fora de moda – de um rosado natural, e uns enormes olhos azuis… bonitos, mas pouco emotivos, como os de uma boneca de cera. – Soube que a minha amiga Miss Bowman aca-cabou de se tornar Lady Westcliff – observou Evangeline, pausadamente. – Ela e o conde viajaram até Gre-Gretna Green pouco depois de ele o ter… confrontado. – De me ter dado uma sova das antigas seria uma escolha de palavras mais correta – disse Sebastian, bem-humorado, sabendo que ainda eram bem visíveis, no seu queixo, as marcas do punho certeiro de Westcliff. – Afigura-se-me que ele não aceitou muito bem eu ter levado emprestada a sua amada. – O se-senhor raptou-a – contrapôs ela, calmamente. – Levar emprestada implicaria que tencionava devolvê-la. Sebastian sentiu os lábios aflorarem-se num sorriso genuíno, algo que já quase se esquecera como fazer. A mocinha não era assim tão simplória, pelos vistos… – Seja… Raptei-a. E é essa, então, a razão da sua visita, Miss Jenner? Para me fazer um relatório sobre o feliz casalinho? Eu estou a par da situação. É bom que tenha algo de realmente interessante para me dizer, ou terei de lhe pedir que saia. – O senhor apenas desejou Miss Bowman por sabê-la herdeira. E por ne-necessitar de casar com alguém de posses. – É verdade – acedeu Sebastian, sem vacilar. – O meu pai, o Duque de Kingston, falhou na única responsabilidade que tinha na vida: manter a fortuna da família intacta para que eu a pudesse vir a herdar. A minha responsabilidade, por outro lado, sempre foi passar calmamente os meus dias a promover a ociosidade e a aguardar que ele morra. E tenho desempenhado esse papel na perfeição. O mesmo já não se pode dizer do Duque, lamentavelmente. Tem feito um péssimo trabalho na gestão das finanças da família e, presentemente, encontra-se imperdoavelmente falido. E o que é pior, são como um pero.


– O meu pai é abastado – disse Evangeline, sem quaisquer rodeios. – E às portas da morte. – Dou-lhe os meus parabéns. Sebastian estudou-a intensamente. Não tinha dúvidas de que Ivo Jenner reunira uma fortuna considerável com o clube de jogo. O Jenner’s era frequentemente visitado pelos cavalheiros mais abastados de Londres para jogarem, comerem e beberem bem, e com fácil acesso a rameiras baratas. O ambiente era extravagante, com um confortável toque de decadência. Vinte anos antes, o Jenner’s representara até uma alternativa de segunda ao lendário Craven’s – o mais famoso e bem-sucedido clube de jogo de toda a Inglaterra. Contudo, depois de o Craven’s ter sido devastado por um incêndio, o seu proprietário recusara-se a reconstruí-lo, tornando o Jenner’s a única alternativa viável, e elevando-o a uma posição de proeminência. Não que alguma vez pudesse ser comparado ao velho e grandioso Craven’s. Um clube era, antes de mais, o reflexo do estilo e personalidade do seu proprietário – algo de que Ivo Jenner manifestamente carecia. Derek Craven fora, indiscutivelmente, o Senhor Espetáculo, enquanto Ivo Jenner não passava de um rude e simplório brutamontes, um antigo boxeur que nunca se destacara em coisa alguma, mas que, por um milagroso golpe do destino, se tornara num homem de negócios extremamente bem-sucedido. E ali estava a sua única filha – e se, por acaso, ela se estava a preparar para lhe fazer a proposta que Sebastian desconfiava, isso era algo que ele não poderia recusar. – Não vim cá para ser f-felicitada – disse ela, secamente, em resposta ao seu comentário irónico. – O que pretende afinal, filhinha? – indagou ele, docemente. – Vá direita ao assunto, sim? Tudo isto já começa a aborrecer-me. – Quero poder acompanhar o meu pai nos seus últimos dias. A minha fa-família não me autoriza vê-lo. Tentei fugir para o clube dele, mas fui sempre apa-apanhada – e posteriormente punida. Desta vez não vou voltar. Eles têm planos para mim que não tenciono se-seguir – nem que isso me custe a própria vi-vida. – E que planos são esses? – Querem forçar-me a ca-casar com um dos meus primos, Mr. Eustace Stubbins. Ele não me quer e eu mal o conheço… mas sei que ele é um peão bastante solícito no esquema da mi-minha família. – Esquema esse que implica controlar a fortuna do seu pai quando ele falecer? – Sim. De início até considerei a ideia… porque pensava que Mr. Stubbins e eu iríamos ter a nossa própria ca-casa. A minha vida seria bem mais suportável vivendo afastada de to-todos eles. Mas Mr. Stubbins acabou por me confessar não ter intenção de se mudar para parte alguma. Quer continuar a viver sob o teto da fa-família… e eu sei que não vou suportar isso por muito mais tem-tempo. Confrontada com o silêncio aparentemente desinteressado de Sebastian, acrescentou em tom cauteloso: – Estou em crer que eles tencionam ma-matar-me assim que deitarem mãos ao dinheiro do meu pai.


O olhar de Sebastian não se desviou do rosto dela, ainda que o seu tom de voz revelasse alguma curiosidade: – Mas que falta de consideração da parte deles… E diga-me em que é que isso me pode remotamente interessar? Evangeline não reagiu ao desprezo dele, limitando-se a olhá-lo diretamente nos olhos – o que o fez pensar que nunca tinha visto uma tal dureza e tenacidade numa mulher. – Estou a propor-lhe que case comigo – disse ela. – Preciso da sua proteção. O meu pai está demasiado enfermo… demasiado fra-fraco para me poder ajudar, e eu não quero ser um fardo para as mi-minhas amigas. Sei que me acolheriam de bom grado, mas ainda assim eu teria de viver em permanente estado de alerta, com me-medo que os meus parentes me encontrassem e me forçassem aos seus intentos. Uma mulher solteira tem poucos recursos, so-social ou legalmente. Não é jusjusto… mas eu não posso dar-me ao luxo de lutar contra moinhos de vento. Preciso de um mamarido. E o senhor precisa de uma esposa com posses. Estamos ambos em situação de desespero, o que me leva a crer que aceitará a mi-minha pro-proposta. Nesse caso, gostaria de partir para Gretna Green ainda esta noite… Agora seria ainda melhor. Sei que os meus familiares já andam à mi-minha procura. O silêncio tornou-se pesado e tenso, enquanto Sebastian a observava com cara de poucos amigos. Não confiava nela. E depois do fiasco do seu plano de rapto da semana passada, ele não tencionava certamente repetir a experiência. No entanto, Evangeline tinha razão numa coisa: ele estava, de facto, desesperado. Como se poderia facilmente comprovar pelo seu extenso rol de credores. Sebastian era um homem que gostava de vestir bem, comer bem, viver bem. A mesada miserável que recebia do pai estava prestes a ser-lhe cortada, e ele não tinha dinheiro suficiente na sua conta para se aguentar até ao fim do mês. Para um homem que não via a menor objeção em optar pela saída mais fácil, aquela proposta era uma verdadeira bênção dos céus. Isto se a jovem ruivinha pretendesse realmente levar o seu plano avante. – Bem sei que a cavalo dado não se olha o dente – disse ele, cautelosamente –, mas quanto tempo resta exatamente ao seu pai? É que há quem se deixe ficar eternamente no leito da morte… o que, quanto a mim, resulta extremamente problemático para quem está à espera. – Não terá de esperar muito tempo – foi a resposta crispada da jovem. – Fui informada que ele partirá em menos de quinze di-dias. – E que garantias tenho eu de que não vai mudar de ideias antes de chegarmos a Gretna Green? Sabe perfeitamente que tipo de homem sou, Miss Jenner. Não preciso lembrar-lhe que ainda na semana passada tentei raptar e violar uma das suas amigas… Evangeline fulminou-o com o olhar. Ao contrário dos olhos dele, de um pálido tom de azul, os dela eram duas verdadeiras safiras escuras. – Tentou violar a Lillian? – indagou ela, nervosamente.


– Ameacei fazê-lo, sim. – E teria levado a ca-cabo a ameaça? – Não sei. Nunca o fiz, mas, como fez notar e muito bem, estou, de facto, desesperado. E já que aborda o assunto… o nosso casamento será exclusivamente de conveniência ou poderei esperar que durmamos juntos, ocasionalmente? Evangeline ignorou a questão, insistindo: – Tê-la-ia violado ou n-não? Sebastian olhou-a com uma expressão de escárnio. – Se lhe disser que não, Miss Jenner… como poderá saber que estou a falar verdade? Não… não seria capaz de a violar. É a resposta que queria ouvir? Acredite, então, se isso a faz sentir mais segura. E quanto à pergunta que lhe fiz? – Dormirei consigo uma vez – disse ela. – E apenas para legalizarmos o casamento. Mas jamais, depois disso. – Que maravilha… – murmurou ele. – Eu raramente durmo com uma mulher duas vezes. É um perfeito e absoluto tédio, depois de passada a novidade. Além de que jamais seria pequeno-burguês ao ponto de cobiçar a minha própria esposa. Isso significaria não ter talento para manter uma amante… Claro que existe a questão de a menina ter de me presentear com um herdeiro, mas… desde que seja discreta, estou-me pouco ralando para quem possa ser o pai da criança. Evangeline nem sequer pestanejou. – Exijo ape-apenas que uma parte da herança me seja destinada, numa conta fiduciária. Uma parte generosa, claro. Os juros destinam-se para meu uso exclusivo e gastá-los-ei como muito bem entender – sem ter de lhe responder por isso. Sebastian percebeu que ela não era nada lerda, ainda que a sua gaguez pudesse indiciar o contrário. Via-se que estava habituada a ser ignorada, subestimada… e ele percebeu que ela se aproveitava disso para mérito próprio sempre que podia. A constatação aumentou-lhe o interesse. – Confiar em si será uma enorme tolice da minha parte – disse-lhe. – Pode bem roer-me a corda a qualquer momento. Quanto a si, seria ainda mais tola em confiar em mim, visto que, depois de casados, poderei facilmente fazê-la passar por um inferno bem maior do que o que tem sido perpetrado pela sua família. – Bem sei. Mas prefiro ser eu a escolher o meu próprio carrasco – respondeu-lhe ela, plena de sarcasmo. – Antes o senhor que o Eustace. O comentário arrancou-lhe uma gargalhada. – Isso não abona muito a favor dele… Evangeline não lhe devolveu o sorriso, limitando-se a recostar-se ligeiramente na cadeira – como se tivesse sido aliviada de uma forte tensão – e fitou-o com uma resignação obstinada. Os olhares de ambos prenderam-se um no outro e Sebastian experienciou um estranho surto de consciência que o fez estremecer dos pés à cabeça.


Para ele não era novidade sentir-se facilmente excitado por uma mulher. Há muito que se sabia bem mais físico do que a maioria dos homens, sendo-lhe facílimo deixar-se inflamar sexualmente por determinadas mulheres – a um grau por vezes alarmante. E por alguma razão, aquela rapariga estranha e gaga parecia ser esse tipo de mulher. Estava louco para a levar para a cama. A sua fértil e sensual imaginação disparou-lhe imagens do corpo nu da ruivinha, a pele clara, as curvas que ainda não vira e a dureza curvilínea do seu traseiro assim que ele o aninhasse entre as mãos. Quis o cheiro dela inundando-lhe as narinas e a própria pele… o suave roçar do cabelo longo na garganta e no peito dele. Quis fazer inconfessáveis loucuras com a boca dela e com a dele. – Está decidido, então – murmurou ele. – Aceito a sua proposta. Temos ainda muita coisa a debater, claro está, mas ainda levaremos dois dias a chegar a Gretna Green. Temos tempo para isso. Sebastian levantou-se da cadeira e estirou-se ligeiramente, satisfeito por perceber que o olhar dela lhe percorria o corpo. Após uma bem ensaiada pausa, acrescentou: – Terei a carruagem pronta e mandarei o meu criado fazer-me as malas imediatamente. Partimos dentro de uma hora. Ah, já agora… caso decida quebrar o nosso acordo em qualquer momento da nossa viagem, aviso-a que conto estrangulá-la. A jovem ofereceu-lhe um sorriso desdenhoso: – Não estaria tão nervoso acaso não tivesse já tentado isto na semana passada… com uma vítima pou-pouco colaborante. – Touché. Isso faz de si uma vítima colaborante? – Digamos… uma vítima ávida – disse ela, olhando-o como se desejasse partir naquele mesmo instante. – Ah… as minhas preferidas – comentou ele, oferecendo-lhe uma breve vénia antes de deixar a biblioteca.


Capítulo 2

Assim que Lord St. Vincent deixou a biblioteca, Evie soltou um suspiro trémulo e fechou os olhos. O visconde não precisava preocupar-se com a eventualidade de ela mudar de ideias. Agora que o acordo estava consumado, a jovem sentia-se mil vezes mais impaciente do que ele para iniciarem a viagem. A simples ideia de ter o tio Brook e o tio Peregrine, naquele preciso instante, à sua procura, deixava-a aterrorizada. Quando conseguira fugir de casa, perto do final do verão passado, tinha sido apanhada à porta do clube do pai. E poucos minutos depois de o tio Peregrine a ter enfiado na carruagem de regresso a casa, tinha-a espancado até a deixar com um lábio aberto, um olho negro e os braços e costas cobertos de hematomas. Duas semanas trancada no quarto, a pão e água, completaram o pacote punitivo. Ninguém sabia da verdadeira extensão do martírio pelo qual tinha passado, nem mesmo as suas amigas Annabelle, Lillian e Daisy. A vida no seio da família Maybrick tornara-se um verdadeiro suplício. Os Maybrick, a sua família materna – e sobretudo o casalinho Stubbins, Florence, a irmã da mãe e Peregrine, o marido – haviam reunido esforços para combater a vontade dela. Mostraram-se furiosos e perplexos perante os problemas que ela naturalmente levantou… e a própria Evie ficara ainda mais perplexa. Nunca pensou poder vir a ser vítima de uma tal indiferença, de tanto ódio, de tão severas punições e, mais importante ainda, tudo isto sem se deixar ir abaixo. Talvez tivesse herdado do pai muito mais particularidades e atributos do que se imaginaria. Ivo Jenner tinha sido um pugilista de fibra e o segredo do seu sucesso, dentro e fora do ringue, não residia no talento, mas na perseverança. E Evie herdara dele a mesma teimosia e tenacidade. Evie queria muito ver o pai. Tanto que a demora e o anseio a magoavam fisicamente. Acreditava que ele era a única pessoa no mundo que a amava. Um amor negligente, talvez, mas era mais do que ela alguma vez recebera de quem quer que fosse. Entendia perfeitamente os motivos que o levaram a entregá-la aos Maybricks, logo após a mãe ter morrido no parto. Um clube de jogo não era o melhor ambiente para criar uma filha. E ainda que os Maybricks não pertencessem à nobreza, tinham boa


linhagem. Contudo, Evie não podia deixar de pensar se… acaso o pai soubesse como a iriam tratar, teria feito a mesma escolha? Tivesse ele a menor suspeita do ódio visceral que aquela família sentia pela sua única filha, será que… Mas era inútil pensar nisso agora. A mãe estava morta e o pai muito em breve se lhe juntaria… e havia muitas coisas que Evie desejava ardentemente perguntar-lhe antes de o deixar partir. E agora, a sua melhor oportunidade para escapar às garras dos Maybricks estava ali… personificada naquele insuportável aristocrata com quem estava prestes a contrair matrimónio. Evie ficara espantada perante a facilidade com que conseguira comunicar com St. Vincent – um dos seres mais intimidantes que ela jamais conhecera –, com a sua beleza dourada e gélidos olhos azuis, e uma boca concebida para beijar e mentir. Ele parecia um anjo caído do céu, dono de um tipo de beleza máscula tão temível que só o próprio Lúcifer poderia conceber. Era igualmente egoísta e sem escrúpulos – como ficara facilmente comprovado por aquela tentativa de estupro à noiva do melhor amigo. No entanto, ocorrera desde logo a Evie que um homem daqueles poderia facilmente representar um adversário à altura dos Maybricks. St. Vincent seria um péssimo marido, sem dúvida. Mas desde que Evie não alimentasse quaisquer ilusões quanto a ele, ficaria bem. Desde que continuasse a desprezá-lo, conseguiria facilmente manter-se cega às suas indiscrições e surda aos seus insultos. Que diferente seria o seu casamento quando comparado aos das amigas… Ao pensar nas Encalhadas teve vontade de chorar. Não era plausível que Annabelle, Daisy ou Lillian – especialmente Lillian – se mantivessem suas amigas depois de contrair matrimónio com St. Vincent. Piscando os olhos com força, para expulsar as lágrimas, engoliu em seco a dor aguda que lhe apertava a garganta. Não lhe servia de nada chorar. Ainda que aquela estivesse longe de ser a solução perfeita para o seu dilema, a verdade é que não tinha alternativa. Antecipando com algum prazer a fúria dos tios e tias ao saberem que ela – e a fortuna dela – estavam eternamente longe do seu alcance, Evie sentiu-se um pouco mais consolada. Tudo valia a pena desde que deixasse de viver sob o domínio deles. E qualquer sacrifício valia bem não ter de se ver resignada num casamento com o fraco e cobarde Eustace – que se confortava a si próprio comendo e bebendo alarvemente até quase não passar pela porta do próprio quarto. E mesmo odiando os pais tanto quanto Evie, a verdade é que Eustace jamais se atreveria a desafiá-los. Ironicamente, fora o próprio primo a incentivar Evie a fugir naquela noite. Tinha-lhe aparecido logo de manhã, exibindo um anel de noivado vulgaríssimo: uma fina anilha de ouro com uma pedra de jade. – Tome – dissera-lhe, algo timidamente. – A Mãe mandou-me dar-lhe isto e avisá-la de que não lhe será permitido sentar-se à mesa das refeições sem o ter posto. Os banhos serão anunciados na próxima semana, disse ela. Nada daquilo apanhara Evie de surpresa. Após três malogradas temporadas na tentativa de lhe arranjarem um noivo aristocrata, a família chegara finalmente à conclusão de que não seria através


dela que conseguiriam escalar socialmente. E à luz do facto de ela estar prestes a herdar uma fortuna considerável, haviam engendrado um esquema simples para preservarem a herança nas suas mãos: casando-a com um primo direito. Ao ouvir as palavras de Eustace, Evie sentira um assomo de fúria tal que a deixara incontrolavelmente enrubescida. E o primo tinha tido a ousadia de se rir dela, comentando com escárnio: – C’um caneco, a Evie fica de mais quando cora! O seu cabelo fica… literalmente cor de laranja! Engolindo uma resposta cáustica, Evie forçara-se a acalmar-se, concentrando-se antes nas palavras que redemoinhavam dentro dela como folhas secas num turbilhão. Finalmente conseguiu dolorosamente ordená-las e indagar, sem gaguejar: – Primo Eustace… se eu aceitar casar consigo… apoiar-me-á, mesmo indo contra o desejo de seus pais? Vai permitir-me visitar o meu pai e cuidar dele? O sorriso imbecil esmoreceu do rosto do jovem gordalhufo, as bochechas balofas descaindo, ao olhar a prima. Desviou o olhar e disse, de forma evasiva: – Ora, primita, sabe bem que eles não seriam tão duros consigo se não fosse assim… teimosa como uma mula! Perdendo a pouca paciência que lhe restava, Evie sentiu a gaguez levar-lhe a melhor ao reagir: – Quer fi-ficar com a minha for-fortuna sem me dar qual-qualquer retorno?! – E para que diabos precisa da sua fortuna, não me dirá? – indagara ele, desdenhoso. – Não passa de uma criatura tímida e gaguejante, que vive escondida de tudo e de todos. Não tem necessidade de roupas elegantes ou joias caras. Não serve sequer para conversar e… tem ar de ser um tédio na cama! Devia estar grata por eu me predispor a casar consigo, mas é demasiado estúpida para sequer entender isso! – E-eu… Eu n-n-não… A frustração deixara-a impotente. Não conseguira articular as palavras certas para sua defesa, apenas conseguindo gaguejar e corar ainda mais pelo esforço inglório. – Que perfeita idiota você me saiu, c’os diabos! – praguejou Eustace. Num rasgo de impaciência, atirou o anel ao chão, que rolou para debaixo de uma pesada cómoda. – Vê?! Perdeu-se! E a culpa foi toda sua por me ter humilhado! Acho bem que o encontre, ou morrerá à fome. E vou dizer à Mãe que já fiz a minha parte ao entregar-lho. Nessa noite Evie não desceu para jantar e, ao invés de procurar o anel, juntou uns quantos pertences numa malinha pequena. Fugindo por uma janela do segundo andar e escorregando por uma calha de chuvas, conseguiu atravessar o pátio a correr e, num rasgo de sorte, deparar-se com um coche de aluguer que ia a passar, assim que saiu pelo portão. Aquela seria provavelmente a última vez que veria Eustace, pensou ela, com enorme satisfação. Não era habitual encontrá-lo em eventos sociais – já que à medida que ia engordando se confinava cada vez mais às paredes de Maybrick House. E qualquer que fosse o seu destino, ela jamais se


arrependeria de ter escapado à tortuosa sina de se tornar sua mulher. Evie duvidava sequer que Eustace alguma vez se aventurasse a tentar levá-la para a cama… Não parecia possuir suficiente quantidade daquilo a que vulgarmente se chamava instinto animal. A sua paixão reservava-se exclusivamente à comida e ao vinho. Lord St. Vincent, pelo seu lado, já havia seduzido e comprometido demasiadas mulheres. E enquanto muitas delas consideravam irresistível aquele tipo de talento, a Evie enojava-a. Ainda assim, não poderiam restar quaisquer dúvidas de que o casamento entre eles fora completamente consumado. Sentiu um nó nervoso no estômago só de pensar naquela inevitabilidade. Nos seus sonhos, Evie via-se casada com um homem bondoso e sensível, de preferência com alma de rapazinho, que jamais zombaria dela por gaguejar. Seria meigo e delicado para com ela. Sebastian era completamente oposto ao noivo dos seus sonhos. Nada tinha de bondoso ou sensível… ou de remotamente inocente. Não passava de um predador que certamente adoraria brincar com a sua presa antes de a matar. Olhando para a cadeira vazia que ele há pouco ocupara, Evie deu por si a recordar-se da aparência do futuro marido à luz da lareira. Era alto e esguio, o seu corpo uma moldura perfeita para as vestes elegantemente simples que apenas lhe realçavam ainda mais a beleza fulva. O cabelo, num tom ouro velho de um ícone medieval, era espesso e levemente ondulado, com discretas e belíssimas madeixas âmbar. Os olhos, de um azul-pálido gelidamente penetrante, não espelhavam a menor emoção quando sorria. O próprio sorriso era o suficiente para deixar sem respiração quem o recebia… a boca sensual e cínica, a centelha luminosa dos dentes branquíssimos… Oh, St. Vincent era um homem deslumbrante. E ele sabia-o bem. Estranhamente, contudo, Evie não o temia. O belo visconde era sem dúvida demasiado inteligente para optar pela violência – quando uma acertada escolha de palavras era mais que suficiente para ferir as suas vítimas com total serenidade. Aquilo que Evie realmente mais temia era a brutalidade primária do tio Peregrine, para não falar nas mãos impiedosas da tia Florence – que adorava assentar-lhe estaladas impetuosas e dolorosos beliscões. Nunca mais, jurou Evie a si mesma, esfregando com expressão ausente as manchas do vestido deixadas pela fuligem do cano de drenagem. Sentiu-se tentada a mudar de vestido, bastando-lhe ir buscar um novo à malinha que deixara no átrio de entrada. Contudo, os rigores da viagem em breve a deixariam amarrotada e cheia de pó, pelo que não viu nisso qualquer utilidade. Um som vindo da porta de entrada despertou-lhe a atenção. Da porta da biblioteca deixada aberta, Evie viu uma governanta rubicunda sorrir-lhe timidamente e perguntar-lhe se desejaria refrescar-se num dos quartos de visitas. Pensando que a mulher parecia perfeitamente acostumada à presença de senhoras desacompanhadas naquela casa, Evie deixou que a criada lhe indicasse o caminho até um pequeno quarto do andar de cima. Tal como as outras divisões que lhe tinha sido permitido ver, o quarto estava limpo, bem arrumado e agradavelmente mobilado. As paredes eram forradas num papel de parede claro, com pagodes e passarinhos chineses pintados à mão. Para seu enorme prazer,


Evie viu uma antecâmara contendo um lavatório com água corrente, com torneiras em forma de golfinho e uma pequena cabina que se abria para uma retrete. Depois de satisfazer as necessidades íntimas, Evie dirigiu-se ao lavatório – onde lavou as mãos e o rosto e de onde bebeu sofregamente de um copo de prata. Entrou no quarto e procurou um pente ou uma escova, mas como não encontrou, limitou-se a ajeitar com as mãos a massa de caracóis ruivos apanhados na nuca. Não ouviu qualquer som, nada que anunciasse qualquer presença, mas sentiu algo que a fez voltar-se. À porta deparou-se com a bela figura de St. Vincent, de postura descontraída, com a cabeça levemente inclinada, a observá-la. Uma sensação estranha trespassou-a, uma suave onda de calor que a deixou subitamente fraca e trémula das pernas. Apercebeu-se de que estava estafada. E a simples ideia de tudo o que ainda a esperava… a longa viagem até à Escócia, o casamento precipitado, a consumação do dito, pouco depois… tudo isso lhe parecia extenuante. Endireitou os ombros e avançou um passo, mas ao fazê-lo, uma chuva de faíscas surgiu-lhe à frente dos olhos fazendo-a estacar e estremecer. Abanando a cabeça para aclarar a visão, Evie foi tomando lentamente consciência de que St. Vincent se encontrava à sua frente, as mãos segurando-lhe firmemente os cotovelos. Ela nunca tinha estado tão perto dele… e os seus sentidos viram-se desde logo impregnados pelo cheiro dele, pela sensação dele… o subtil apontamento a colónia cara, a pele lavada e coberta por camadas do mais puro linho, da mais suave lã. Ele irradiava saúde e virilidade. Profundamente enervada, Evie piscou os olhos com mais força, apercebendo-se de que os dele se encontravam bem mais acima do que ela poderia esperar. Surpreendeu-a ele ser tão alto – uma estatura que só era realmente percetível àquela curta distância. – Quando foi a última vez que comeu alguma coisa? – perguntou ele. – Ontem de ma-manhã, creio eu… Ele ergueu um sobrolho: – Não me diga que a sua família também a fez passar fome? – Olhou-a intensamente ao vê-la assentir. – Caramba, a sua história revela-se mais e mais assombrosa a cada minuto que passa! Vou pedir à cozinheira que prepare um cesto com sanduíches. Tome o meu braço… deixe-me conduzi-la para baixo. – Não preciso de ajuda, obriga-gada. – Tome o meu braço – insistiu ele, num tom agradável, ainda que algo frio. – Não vou deixá-la estatelar-se e partir esse belo pescoço ainda antes de entrarmos na carruagem. Herdeiras disponíveis são peças raras hoje em dia. Teria uma trabalheira dos diabos para arranjar uma que a substituísse. Evie devia estar bem mais fraca do que supunha, já que ao descer as escadas de braço dado com o visconde, sentiu-se grata pelo apoio. A meio das escadas, St. Vincent passou o braço pelas costas dela e, com a mão livre, segurou a dela, ajudando-a nos restantes degraus. Ela viu-lhe umas quantas escoriações nos nós dos dedos – sem dúvida resultado da luta com Lord Westcliff. Visualizando a


triste figura que aquele pomposo aristocrata certamente faria quando confrontado com o pesado corpanzil do seu tio Peregrine, Evie estremeceu ligeiramente, desejando estarem já em Gretna Green. Sentindo-lhe o tremor, St. Vincent estreitou-lhe o abraço nas costas, até alcançarem o patamar. – Sente frio? – quis saber. – Ou é dos nervos? – Só quero ver-me fo-fora de Londres – respondeu ela –, antes que os meus familiares me encontrem. – Têm algum motivo para suspeitar que a Evie veio ao meu encontro? – Oh, n-n-ão! – exclamou ela. – Ninguém jamais me julgaria demente a esse ponto. Ele não conteve uma gargalhadinha bem-disposta: – Graças a Deus que a minha autoestima está em alta. Caso contrário, tê-la-ia reduzida a cacos, por esta altura. – Estou certa de que já terá tido inúmeras mu-mulheres a alimentar-lhe a autoestima. Não necessita de mais uma. – Engana-se, minha linda… Preciso sempre de mais uma. É esse o meu problema. Ele levou-a de volta à biblioteca e fê-la sentar-se à lareira, por mais uns breves momentos. Precisamente no momento em que Evie se sentia já prestes a adormecer na cadeira, St. Vincent regressou para a levar para o exterior. Meio atarantada, Evie dirigiu-se com ele para uma bela carruagem lacada a preto, estacionada à porta de casa, e deixou que ele lhe tomasse a mão, para a fazer entrar para o espaçoso interior. Os felpudos estofos de veludo, em tom creme, eram pouco práticos, mas sublimes reluzindo sob a luz ténue do pequeno candeeiro interior. Evie experienciou uma sensação pouco familiar de bem-estar ao recostar-se sobre uma almofada com franjas de seda. A família materna vivia segundo regras de bom gosto extremamente estritas, desprezando tudo o que evidenciasse excessos ou pretensiosismo. Mas no mundo de St. Vincent, os excessos estavam sempre na ordem do dia, sobretudo no respeitante ao conforto físico. Um cesto feito de finas tiras de couro entrançadas havia sido deixado no chão da carruagem. Incapaz de lhe resistir, Evie pegou nele e abriu-o – para se deparar com a abençoada visão de uma série de sanduíches primorosamente embrulhadas em guardanapos. Desembrulhou uma delas, deleitando-se com as delgadas fatias de pão de brioche, cobertas de finas fatias de queijo e fiambre. O cheiro do fiambre fresquíssimo aguçou-lhe a fome de vários dias e a jovem devorou vorazmente duas sanduíches, quase se engasgando com tamanha sofreguidão. Ao entrar na carruagem, St. Vincent sentou-se no assento à frente dela, estirando o corpo longo e delgado, sorrindo à visão da jovem ruivinha devorando as últimas migalhas da segunda sanduíche. – Sente-se melhor? – Sem du-dúvida, obrigada. St. Vincent abriu um pequeno compartimento, engenhosamente concebido na parte interior de uma das portas, de onde retirou um pequeno copo de cristal e uma garrafa de vinho branco fresco, ali deixada momentos antes por um criado. Encheu o copo e estendeu-lho. Depois de um breve gole de


degustação na bebida fresca e agradavelmente adocicada, Evie bebeu-a de um trago só. Não era comum às jovens senhoras terem o privilégio de beber um vinho puro… regra geral era sempre diluído em água. Assim que esvaziou o copo, mal teve tempo de desejar outro, já que o visconde tratou logo de voltar a servi-la. Foi então que a carruagem arrancou com um suave solavanco, e os dentes dela bateram levemente no rebordo do copo – deixando-a visivelmente angustiada por temer entornar a bebida nos estofos de veludo. Suspirando, bebeu o segundo copo de uma vez só, despertando em St. Vincent uma risadinha contida. – Beba devagar, minha linda. Temos uma longa viagem à nossa frente. Vendo-o recostar-se descontraidamente contra as almofadas de seda, Evie sentiu estar na presença de um verdadeiro paxá dos tórridos romances que Daisy Bowman tanto adorava. Após uma pausa, ele indagou: – Diga-me, o que teria feito se eu tivesse recusado a sua proposta? Para onde iria? – Suponho que não me restaria alternativa senão ficar com a Annabelle e Mr. Hunt – murmurou ela, pensativa. A verdade é que pedir abrigo a Lillian e Lord Westcliff estava fora de questão, já que se encontravam atualmente em plena lua de mel. E teria sido inútil tentar abordar as Bowmans. Ainda que imaginasse a sua querida amiga Daisy a interceder fervorosamente a seu favor, os pais dela não haveriam de querer ter nada que ver com toda aquela lamentável situação. – E por que razão não foi essa a sua primeira opção? Evie encolheu os ombros: – Teria sido difícil, para não dizer impossível, os Hunts conseguirem evitar que os meus tios me levassem de volta. Estou bem mais se-segura como sua mulher do que como hóspede em ca-casa seja de quem for. O vinho estava a deixá-la agradavelmente entorpecida e ela afundou-se indolentemente no assento. Ele olhou-a com um sorriso gentil e inclinou-se para a descalçar. – Fica bem mais confortável sem isto… – murmurou-lhe. – Não se acanhe, rapariga! Cuidará que a vou violar dentro da carruagem? – Desapertou-lhe os cordões do sapato e prosseguiu, num tom meloso: – E convém recordar-se que em breve estaremos casados, por isso… descontraia. Ela suspirou e deixou-o descalçar-lhe o outro sapato, sentindo-se relaxar aos poucos – ainda que o roçar dos dedos dele no seu tornozelo a tivesse feito estremecer. – Porque não afrouxa um pouco as fitas do corpete? Tornará a sua viagem bem mais agradável, creia-me. – Não tenho cor-corpete – disse ela, sem olhar para ele. – Não?… Bom Deus! – Percorreu-lhe o corpo com olhos de espanto. – Mas que flausina bem proporcionada você me saiu! – Não me agrada essa expressão. – Flausina? Peço desculpa… é a força do hábito. Eu trato sempre as senhoras como flausinas… e


as flausinas como senhoras. – E tem sucesso nesse tipo de abordagem? – indagou ela, com um tom cético. – Oh sim! – retorquiu ele, num tom alegre e arrogante que a fez sorrir. – O senhor é um homem ho-horrível. – Verdade. Mas é um facto sabido que as pessoas horríveis conseguem sempre bem mais do que aquilo que merecem. Enquanto as decentes, como a Evie… Apontou para ela e para o interior da carruagem, como se a atual situação dela fosse a prova irrefutável da sua teoria. – Tal-talvez eu não seja tão decente como su-supõe… – A esperança é a última a morrer – disse ele, alegremente. Os seus olhos brilhavam de divertimento e Evie reparou que as pestanas dele eram indecentemente longas para um homem e uns tons acima do louro do cabelo. Não obstante a sua altura e a estrutura de ombros largos, havia qualquer coisa de felino nele… fazendo-o parecer um tigre pachorrento, mas potencialmente perigoso. – De que padece o seu pai, afinal? – perguntou-lhe ele. – Ouvi rumores, mas nada de muito concreto. – Sofre de tuberculose – murmurou ela. – Foi-lhe diagnosticada há seis meses e n-não o vejo desde então. Nu-nunca estive tanto tempo sem o visitar. Os Maybricks sempre me deixaram vi-visitálo, por não verem nenhum mal nisso. Mas no ano passado, a Tia Florence de-decidiu que as minhas hipóteses de arranjar marido diminuíam bastante devido à associação com o meu pai e, logo, que eu me devia distanciar dele. Qui-quiseram simplesmente que eu me esquecesse que ele existia. – Quem havia de dizer… – murmurou ele, num tom sarcástico, cruzando as pernas. – E porquê este seu súbito desejo de querer velá-lo no leito da morte? Pretende assegurar a sua inclusão no testamento, é isso? Ignorando-lhe o toque de malícia inerente à pergunta, Evie ponderou a resposta e falou num tom frio e desprendido: – Em menina era-me permitido vê-lo com frequência. Éramos muito próximos. Ele foi – ainda é – o único homem que se preocupou comigo. Eu… amo-o. E não quero que morra só. Pode escarnecer o que quiser, se isso o diverte, m-mas pouco me importa. A sua opinião não me interessa minimamente. – Calma, boneca… – A sua voz doce indiciava que a conversa o divertia. – Deteto em si um temperamento forte, algo que, sem dúvida, terá herdado do senhor seu pai. Já tive ocasião de lhe ver esse mesmo brilho no olhar quando lhe chega a mostarda ao nariz… – Conhece o meu pai? – perguntou ela, surpreendida. – Obviamente. Todo o homem amante do prazer já foi ao Jenner’s em busca de um ou outro… estímulo. O seu pai é um tipo decente, ainda que tão fiável quanto um barril de pólvora. E perdoe-me, mas não posso deixar de lhe perguntar… como diabos é que uma Maybrick foi casar com um pobre


assalariado? – Bom, tenho para mim que, entre outras coisas, a minha mãe tê-lo-á visto como um meio de escapar às garras da família. – Tal como nós, agora… – comentou St. Vincent, pensativo. – Há uma certa simetria nisto tudo, não acha? – Espero, sinceramente, que a si-simetria acabe aqui – retorquiu a jovem. – Uma vez que eu fui concebida logo após eles terem casado e a minha mãe morreu no parto. – Não conto encher-lhe o ventre se não o desejar – disse ele, em tom alegre. – Hoje em dia é facílimo evitar uma gravidez: camisas de vénus, esponjas contracetivas, irrigadores vaginais, já para não falar naqueles amuletos de prata que se compram nos… – Calou-se ao ver-lhe a expressão alarmada e não conteve uma gargalhada: – Meu Deus, os seus olhos parecem pratos! Assustei-a? Não me diga que nunca ouviu falar nestas coisas? Nem da boca das suas amigas casadas? Evie abanou a cabeça lentamente. Ainda que Annabelle Hunt a tivesse, ocasionalmente, esclarecido quanto a determinados mistérios da relação conjugal, jamais havia referido aqueles métodos de evitar uma gravidez, para ela absolutamente estranhos. – Duvido até que elas os conheçam – disse a jovem, fazendo-o rir novamente. – Terei o maior prazer em esclarecê-la, assim que chegarmos à Escócia. Os seus lábios curvaram-se naquele sorriso que as irmãs Bowman consideravam encantador – mas que agora se sombreava de um certo pendor calculista. – Minha querida, terá já considerado a possibilidade de vir a gostar da nossa… consumação, ao ponto de vir a querer repetir a experiência? Ela deu por si a pensar quão espantosa era a leviandade com que os termos carinhosos lhe saíam boca fora. – Não – disse, assertivamente. – Isso não irá acontecer. – Hmm… – O som assemelhou-se ao ronronar de um gato. – Eu adoro desafios. – Não nego a possibilidade de vir a gostar de me deitar consigo – disse-lhe ela, tentando não desviar os olhos dele ainda que se sentisse a enrubescer de desconforto. – Aliás, espero sinceramente que sim. Mas isso não irá alterar em nada a minha decisão. Porque sei bem do que o senhor é cacapaz. – Minha querida… – disse ele, num tom quase terno – Creia que não faz a mais pálida ideia daquilo de que eu sou realmente capaz.


Capítulo 3

Para Evie, que ainda não se recompusera totalmente das doze horas de viagem de regresso de Stony Cross – a propriedade de Lord Westcliff em Hampshire –, os dois dias da jornada até à Escócia representaram uma verdadeira tortura. Tivessem podido ir com mais tempo, mais calmamente, teria sido bem mais suportável. Contudo, e por insistência da própria Evie, foram diretos para Gretna Green, parando apenas de três em três horas para mudança de cavalos e cocheiro. Evie temia que os familiares lhe descobrissem o rasto, que estivessem na sua peugada… E, tendo em conta o resultado da briga entre St. Vincent e Lord Westcliff, ela tinha poucas esperanças de que o visconde saísse vitorioso num eventual confronto físico com o seu tio Peregrine. Ainda que instalados numa carruagem veloz e bem equipada, viajar àquela velocidade fazia o veículo abanar e dar tais sacudidelas e solavancos que a deixavam profundamente nauseada. Sentia-se exausta e não arranjava posição confortável para conseguir dormir. A cabeça batia constantemente contra a porta e, por mais que tentasse dormitar, via-se incessantemente despertada pelos abanões e solavancos. St. Vincent, obviamente, mostrava-se bem menos desconfortável do que ela, ainda que ostentasse, na sua aparência, algum cansaço da viagem. Quaisquer tentativas de conversa tinham sido há muito evitadas, prosseguindo ambos num silêncio estoico. Curiosamente, o visconde não soltara um único murmúrio de protesto ao longo daquele insuportável martírio, ainda que fosse nítida a sua urgência em chegar ao destino. Evie apercebeu-se de que St. Vicent tinha mesma urgência em chegar ao destino. Era do seu primordial interesse, talvez mais ainda do que do dela, certificar-se de que estariam legalmente casados o mais rapidamente possível. A carruagem seguia, seguia e seguia… abanando e estremecendo, saltando por estradas em mau estado, por vezes quase atirando Evie ao chão. O constante dormitar e despertar deixava-a extenuada. De cada vez que a porta se abria – com o visconde indo inspecionar a nova equipa de cavalos e cocheiro – uma brisa gélida enchia o interior do veículo. Enregelada, dorida e enfraquecida, Evie encolhia-se no seu canto, rezando para que tudo aquilo terminasse em breve.


Passou a noite, seguindo-se-lhe um dia de temperaturas desumanamente glaciais e de chuvas fortes, que deixaram Evie encharcada ao sair da carruagem para atravessar o pátio de uma pequena albergaria de estrada. O visconde deu-lhe o braço e conduziu-a a um quarto privado, onde ela devorou uma malga de sopa quente, depois de se ter refrescado e servido do bacio do quarto, enquanto ele supervisionava um novo turno de cocheiro e montadas. Só a simples visão da cama, ainda que modesta e estreita, deixou Evie morta de vontade de se enfiar dentro dela para não mais sair. Mas o sono podia esperar até chegarem a Gretna Green – onde se veria para sempre liberta do jugo da sua perniciosa família. No total, aquela estadia na albergaria durou menos de meia hora. De volta à carruagem, Evie tentou ver-se livre dos sapatos enlameados sem sujar os estofos de veludo da carruagem. St. Vincent subiu atrás dela e ajudou-a. Enquanto ele a descalçava, aliviando-a das cãibras dolorosas, Evie retirou o chapéu encharcado e atirou-o para o assento à sua frente. O cabelo caiu-lhe sobre os ombros, espesso e macio, os cachos ostentando todas as matizes, do âmbar ao champanhe. Sentando-se ao lado dela, St. Vincent contemplou-lhe o rosto cansado e triste, e levou uma mão à sedutora covinha da sua face. – É uma mulher espantosa, sabia…? Qualquer outra já teria dado comigo em doido com queixas e lamentações. – Não tenho co-como me queixar… – disse ela, tremendo violentamente. – Tendo sido eu a pedirlhe para viajarmos diretamente até à Escócia. – Já estamos a meio caminho. Só mais uma noite e um dia… e amanhã à noite já estaremos casados. – Os seus lábios esboçaram um sorriso amável. – Aposto que jamais se viu uma noiva tão desesperada por se lançar no leito nupcial. Os lábios trémulos de Evie curvaram-se num sorriso resignado, confirmando-lhe a ideia de que estava realmente ansiosa e necessitada de sono e não de sexo. Ao olhar o rosto dele, tão próximo do seu, perguntou-se como era possível que aqueles sinais de cansaço no rosto e aqueles papos debaixo dos olhos o tornassem tão atraente. Talvez por o fazer parecer mais humano, e já não tanto um belo e impiedoso Deus romano. Muita da sua aura aristocrática havia esmorecido, certamente para lhe reaparecer em breve, assim que obtivesse o tão desejado descanso. Por agora, contudo, o visconde parecia descontraído e acessível. Dava a ideia de se ter estabelecido um delicado vínculo entre os dois, ao longo daquela viagem infernal. O momento foi interrompido por um bater na porta da carruagem. St. Vincent abriu-a para se deparar com uma camareira, toda enlameada e debaixo de uma chuva intensa. – Aqui tem, my lord – disse ela, espreitando sob o capuz do casaco ensopado e estendendo-lhe dois objetos. – A bebida e o esquenta-pés, tal como pediu. St. Vincent procurou uma moeda na algibeira e deu-a à mulher, que agradeceu com uma vénia antes de correr para o interior da pousada. Evie estranhou quando o visconde lhe estendeu uma bacia de barro cheia de um líquido fumegante.


– O que é isto? – Algo para a aquecer por dentro – disse ele, mostrando-lhe depois um tijolo envolvido numa flanela cinzenta. – E isto é para os seus pés… Estenda as pernas sobre o banco, vamos. Noutras circunstâncias, Evie ter-se-ia recusado a deixá-lo manusear-lhes as pernas com um tal àvontade, mas naquele momento permitiu-lhe subir-lhe as saias e colocar-lhe o tijolo quente sobre os pés. – Ohhhh… – murmurou, estremecendo de puro conforto ao sentir um calor delicioso envolverlhe os dedos enregelados e moídos. – Ohhh… nunca senti nada tão maravilhoso! – É comum e frequente as mulheres dizerem-me isso – brincou ele. – Venha cá, encoste-se a mim… assim… Ela obedeceu, ficando meia recostada nele e sentindo-lhe os braços à volta dos ombros. St. Vincent tinha um peito sólido e duríssimo, mas que representava uma almofada perfeita para a cabeça dela. Levando a malga aos lábios, provou do caldo fumegante. Tratava-se de uma qualquer bebida espirituosa, diluída em água, adoçada e com um leve travo a limão. Ao bebê-la lentamente, Evie sentiu-se a ficar quente por dentro e soltou um longo e prazeroso suspiro. A carruagem arrancou com um solavanco, e St. Vincent desde logo a amparou nos braços, mantendo-a confortavelmente recostada no seu peito. A jovem deu por si a pensar como era possível que um tamanho inferno se tivesse tão abruptamente transformado num pedaço de céu. Evie jamais experienciara uma tal proximidade física com um homem – e parecia-lhe terrivelmente errado retirar disso tanto deleite. Por outro lado, teria de estar inconsciente para não sentir prazer. A natureza fornecera uma quantidade insensata de beleza masculina àquela desmerecedora criatura. E, melhor ainda, ele era inacreditavelmente quente. A jovem resistiu ao desejo de se aconchegar ainda mais contra aquele corpo. As suas roupas eram todas de tecidos requintados: um casaco da mais pura lã, um colete de seda pesada e fresca, uma camisa de linho suavíssimo. A combinação de odores a goma e a colónia cara misturava-se com o cheiro lavado e levemente salgado da sua pele. Temendo que ele quisesse afastá-la de si assim que ela acabasse a bebida, Evie esforçou-se para a fazer durar o mais possível. Mas, infelizmente para ela, acabou por dar o último gole e ele retiroulhe o recipiente das mãos e colocou-o no chão da carruagem. Evie ficou profundamente aliviada ao senti-lo recostar-se e aconchegá-la novamente de encontro ao peito. Ouviu-o bocejar e murmurar-lhe ao ouvido: – Veja se dorme. Ainda temos três horas até à próxima muda de cavalos. Empurrando os dedos dos pés contra a pedra quente, Evie voltou-se ligeiramente e aninhou-se mais profundamente nele, deixando-se cair nas convidativas profundezas de um sono leve. A restante viagem revelou-se uma mancha nebulosa de movimento, cansaço e rudes despertares. À medida que sentia a sua exaustão agravar-se, Evie tornava-se mais e mais dependente de St. Vincent: a cada nova paragem ele conseguia sempre trazer-lhe uma caneca de chá ou de caldo e


reaquecia-lhe o aquece-pés sempre que lhe era possível. Chegou mesmo a desencantar-lhe uma manta acolchoada, sabe Deus de onde, proibindo-a de lhe perguntar como a obtivera. Plenamente convencida de que sem ele já estaria há muito congelada, Evie foi rapidamente perdendo toda a inibição de se aconchegar a St. Vincent assim que o sentia entrar na carruagem. – Eu n-n-não estou a tentar seduzi-lo – disse-lhe, ao senti-lo estreitá-la pela enésima vez de encontro ao peito. – O senhor representa apenas uma fonte de calor disponível, nada mais. – Se a Evie o diz… – retorquiu ele, com ironia, estreitando mais a manta contra os dois. – Ainda que no último quarto de hora eu a tenha sentido roçar por partes da minha anatomia que ninguém ousou jamais tocar. – Du-duvido seriamente disso – disse ela, aconchegando-se mais contra o casaco dele, acrescentando em tom abafado: – Aposto que já foi mais ma-manuseado que um cesto de compras do Fortnum and Mason. – E a um preço bem mais razoável – brincou ele, estremecendo ao senti-la aconchegar-se. – Não ponha aí o joelho, querida… ou os seus planos de consumação do casamento podem vir a ficar seriamente comprometidos. Evie dormitou até à paragem seguinte e precisamente quando se sentia no melhor do seu estado letárgico, St. Vincent acordou-a, abanando-a suavemente: – Evangeline… – murmurou-lhe, retirando-lhe uma madeixa do rosto. – Acorde… Chegámos à última pousada. É altura de entrarmos por uns momentos. – Não quero – murmurou ela, mal-humorada, empurrando-o. – Tem de ser – insistiu ele, gentilmente. – Depois desta paragem espera-nos um longo esticão. Convém refrescar-se e utilizar os sanitários, porque tão cedo não terá acesso a nada disso. Evie preparava-se para protestar, alegando não precisar de nenhum sanitário, quando se apercebeu de que efetivamente precisava. Mas só a ideia de se levantar e ter de enfrentar a noite gelada e chuvosa quase a levou às lágrimas. Resignada e infeliz, endireitou-se, calçou os sapatos molhados e nojentos e tratou de os apertar. St. Vincent precipitou-se para tratar ele do assunto, e, de seguida, ajudou-a a sair da carruagem. Estava um frio de morte lá fora e Evie não conseguiu evitar estremecer e bater os dentes no curto percurso até à pousada. Com um braço rodeando-lhe os ombros trémulos, St. Vincent amparou-a, e comentou: – Creia-me, é preferível entrar aqui por uns minutos do que ter mais tarde de se aliviar à beira da estrada. E sabendo o que sei sobre as mulheres e as suas canalizações… – Conheço bem as minhas canalizações, muito obrigada. Não preciso que mas descreva. – Mas é claro. Perdoe-me se falo de mais, mas é apenas para tentar manter-me acordado. A mim e a si, diga-se. Apoiando-se na magra cintura dele, Evie percorreu o caminho enregelado e lamacento, tentando distrair-se pensando no primo Eustace e na felicidade que sentia por já não ter de casar com semelhante criatura. Jamais voltaria a viver sob o teto da família Maybrick. Aquele pensamento deu-


lhe um novo alento. Assim que se visse casada, terminaria definitivamente o jugo de todos eles sobre si. Bom Deus, como ela ansiava por esse momento… Depois de tratar do arrendamento temporário de um quarto, St. Vincent predispôs-se a conduzir Evie pelas escadas, observando-a ao enlaçá-la pela cintura. – Caramba, parece poder desfalecer a qualquer momento – comentou. – Minha querida, ainda há tempo para podermos repousar aqui uma ou duas horas. Porque não… – Não – interrompeu-o ela, friamente. – Prefiro prosseguir. Ele olhou-a com visível desagrado, comentando sem qualquer rancor: – É sempre assim tão teimosa? Levou-a até à porta do quarto e recomendou-lhe que se trancasse por dentro. – E tente não adormecer no bacio – aconselhou-a. Quando regressaram à carruagem, Evie seguiu o ritual que já começava a ser-lhe familiar. Descalçou-se e deixou que o visconde lhe aconchegasse o tijolo aquecido sobre os pés. Ele fê-la instalar-se entre as suas pernas afastadas e Evie sentiu literalmente o coração parar-lhe quando ele lhe segurou uma mão entre as suas e tratou de lhe massajar docemente os dedos enregelados. A mão dele era tão quente, as pontas dos dedos veludo puro, as unhas curtas e bem cuidadas… Uma mão forte, mas sem dúvida pertencente a um homem que vivia apenas do lazer e do prazer. Enquanto St. Vincent lhe massajava as mãos ela reparou que, ainda que ele tivesse uma tez clara, aparentava absorver facilmente o sol já que ostentava um ligeiro bronzeado. Assim que lhe sentiu as mãos quentes, ele deu por finda a suave massagem e manteve os dedos entrelaçados nos dela. Aquela não podia ser… a encalhada Evangeline Jenner, sozinha numa carruagem com um perigoso libertino, numa veloz corrida com destino a Gretna Green. Vejam só no que me tornei, pensou ela, atordoada. Voltou a cabeça de lado e repousou a face no linho fresco da camisa dele, indagando: – Como é a sua família? Tem irmãos ou irmãs? Os lábios dele brincaram com as ondas do cabelo dela, antes de responder: – Já não me resta ninguém, para além do meu pai. Não guardo quaisquer memórias da minha mãe – morreu de cólera, era eu ainda um bebé. Tive quatro irmãs mais velhas. Sendo o filho mais novo e único rapaz fui mimado para lá dos limites do razoável. Mas ainda em criança, perdi três irmãs de uma vez só, num surto de escarlatina. Recordo-me que me mandaram para o campo quando adoeceram e quando regressei… já elas tinham partido. A única que ficou – a minha irmã mais velha – casou, mas tal como a sua mãe, morreu no parto. E o bebé também não sobreviveu. Evie manteve-se praticamente imóvel ao longo daquele monólogo, algo recitado mas claramente angustiado. Estranhamente sentiu uma pena profunda do rapazinho inocente que Sebastian fora em tempos. A mãe e quatro irmãs, desaparecendo-lhe abrupta e cruelmente da jovem vida… Teria sido muito duro para um adulto assimilar uma perda tão desumana, quanto mais para uma criança. – Alguma vez se perguntou como teria sido a sua vida – deu por ela a perguntar-lhe –, se tivesse


mãe? – Não. – Pois eu penso nisso amiúde, e pergunto-me que conselhos me teria dado. A resposta sarcástica dele não tardou a ouvir-se: – Uma vez que a sua mãe acabou casada com um rufião como o Ivo Jenner, eu não daria muito crédito aos seus conselhos. Como se conheceram eles, afinal? Não é comum uma menina de boas famílias cruzar o seu destino com alguém da laia do Jenner. – É verdade… A minha mãe seguia com a minha tia numa carruagem – num daqueles dias de inverno em que o nevoeiro de Londres é de tal forma espesso que não se vê um palmo à frente. A carruagem desviou-se para evitar a carroça de um vendedor ambulante e acabou por atropelar o meu pai, que estava, por acaso, no passeio naquele momento. A pedido da minha mãe, o cocheiro desceu para se inteirar do estado dele. Estava apenas um pouco amachucado, nada mais. Creio… creio que o meu pai lhe deve ter despertado o interesse, uma vez que, no dia seguinte, a minha mãe mandou-lhe uma carta a perguntar novamente pelo seu estado de saúde. Começou aí a troca de correspondência entre eles – sendo que o meu pai pedia a outra pessoa que escrevesse por ele, visto ser profundamente iletrado. Desconheço outros pormenores… à exceção de que os dois acabaram por fugir para casar. Evie fez uma breve pausa e um sorriso de satisfação desenhou-se-lhe nos lábios ao imaginar a fúria dos Maybrick ao descobrirem que a sua mãe havia fugido com Ivo Jenner. – Tinha apenas dezanove anos quando morreu – acrescentou, num tom triste. – E eu tenho vinte e três. Parece-me tão estranho eu ter vivido mais do que ela… – Movendo-se entre os braços de St. Vincent, ergueu o olhar para ele. – Que idade tem, my lord? Trinta e quatro?… Trinta e cinco? – Trinta e dois… Ainda que neste momento me sinta com não menos que cento e dois. – Olhou-a com curiosidade: – Que diabos aconteceu à sua gaguez, queridinha? Desde que passámos Teesdale que praticamente desapareceu. – Deveras? – inquiriu ela, notoriamente surpresa. – Julgo que… me sinto confortável a falar consigo. Tendo a gaguejar menos com determinadas pessoas. Que estranho, pensou ela. A sua gaguez nunca desaparecia assim, tão completamente, a não ser quando conversava com crianças. O peito dele moveu-se sob a orelha dela, num sopro de divertimento. – Nunca ninguém me chamou confortável. E não sei porquê, não me agrada. Terei muito rapidamente de fazer algo de diabólico para lhe corrigir essa impressão. – Não duvido nada que o faça. – Evie fechou os olhos e aconchegou-se mais contra ele. – Devo estar demasiado cansada para gaguejar. Sentiu a mão dele acariciar-lhe a fronte, as pontas dos dedos massajando-lhe as têmporas. – Durma – sussurrou-lhe. – Estamos quase lá. E uma vez que nos aproximamos do inferno, meu amor, aposto que em breve se sentirá bem mais quente.


Infelizmente para ela, essa profecia não se realizou. Quanto mais para norte seguiam, mais frio se fazia sentir, até Evie desejar ardentemente ver-se entrar pelas portas do inferno. O povoado de Gretna Green situava-se no condado de Dumfriesshire, a norte da fronteira entre a Inglaterra e a Escócia. Numa atitude de puro desafio contra as estritas leis inglesas do casamento, centenas de casais haviam já percorrido a estrada para carruagens que saía de Londres para Gretna Green, passando por Carlisle. Muitos também vinham a pé, ou a cavalo, em busca de um qualquer santuário onde pudessem proferir os seus votos de casamento e regressarem a Inglaterra como marido e mulher. Depois de atravessar a ponte sobre o rio Sark e entrar na Escócia, um casal poderia contrair matrimónio em qualquer ponto do país. Uma declaração perante testemunhas era o que bastava. E aos poucos, Gretna Green tornara-se palco de um verdadeiro comércio de casamentos, com os residentes competindo entre si para providenciar cerimónias em casas particulares, estalagens ou até fora de portas. O mais famoso – e infame – local para um casamento Gretna era a ferraria, que tinha já proporcionado tantas cerimónias precipitadas e impulsivas que os seus enlaces eram apelidados de casamentos-bigorna. Esta tradição começara em inícios de mil e setecentos, quando um ferrador se estabelecera como o primeiro de uma longa linha de padres-ferreiros. Finalmente, a carruagem de St. Vincent chegou ao seu destino: uma estalagem que ficava paredesmeias com a ferraria. Parecendo temer que Evie pudesse desfalecer de fraqueza, o visconde rodeoulhe os ombros com o braço, enquanto ambos aguardavam que os instalassem. O dono da estalagem, um tal Mr. Findley, rejubilou de alegria ao saber que estava perante um casalinho fugitivo, e garantiulhes – sob piscadelas de olho cúmplices – que mantinha sempre um quartinho livre para situações daquelas. – Num é legal inté os xenhores conchumarem a cousa, sabiam? – informou-os, numa pronúncia literalmente incompreensível. – Xá tive de fazer uns pombinhos saírem pla porta de trách inquant’a famelg’ós pursseguia pla porta da freinte! O noibo inté fugiu descalço e tudo! O homenzinho riu-se alarvemente ao recordar o momento. – O que é que ele disse? – segredou Evie ao ouvido do visconde. – Não faço ideia – sussurrou-lhe ele de volta. – E o melhor é não perguntar mais nada. – Ergueu o olhar para o estalajadeiro e exigiu-lhe: – Quero um banho quente no quarto assim que regressarmos da casa do ferreiro. – Cum cheteza, my lod – disse o homem, recebendo as moedas que St. Vincent lhe estendia, e entregando-lhe uma pesada chave antiga. – D’sêja tamém uma bandeija c’o jantar? St. Vincent olhou para Evie com expressão inquisitória e ao vê-la negar com a cabeça respondeu: – Não. Mas conto com um primeiro-almoço reforçado amanhã de manhã. – Cum cheteza, my lod… Ides casar na ferraria, num ides? Si sanhôr! Num arranja milhor párco em Gretna Green c’o Paisley MacPhee! Um home letrado cumá pôcos… Vai fazer-lhes uma bela cirimónia e dar-lhes um certificado qué uma maravilha! – Obrigado.


Sem deixar de rodear os ombros de Evie com o braço, St. Vincent conduziu-a para fora da estalagem, até à residência do ferreiro. Um rápido olhar pela rua revelou uma fileira de casinhas e lojecas, bonitas e bem preservadas, com os candeeiros de rua já acesos para aliviar o lusco-fusco que se fazia sentir. À medida que se aproximavam da bonita ferraria caiada, St. Vincent murmurou-lhe: – Veja se se aguenta em pé só mais um instante, querida. Estamos quase. Aconchegando-se mais a ele, com o rosto parcialmente oculto sob o seu casaco, Evie ficou a vêlo bater à porta. Segundos depois, a porta abriu-se para revelar um homem corpulento, de cara redonda, grandes rosáceas e um elegante bigode que se unia a umas profusas e bem aparadas suíças. Felizmente, o seu sotaque escocês não era tão carregado quanto o do estalajadeiro e Evie conseguiu compreender o que ele lhes foi dizendo. – Mr. MacPhee? – perguntou St. Vincent friamente. – Ao seu dispor. O visconde tratou rapidamente das apresentações e explicou-lhe os seus intentos. O ferreiro esboçou um amplo sorriso, convidando-os de imediato a entrar: – Intão desejam casar, hã? Entrem, entrem, por quem sois! Ao entrarem, o homem indicou-lhes as suas duas filhas, um par de moreninhas rechonchudas, de seus nomes Florag e Gavenia, e conduziu-os para o interior da loja anexa à residência. Os MacPhees apresentavam a mesma jovialidade incessante do estalajadeiro – o que contrariava em muito tudo o que Evie ouvira dizer sobre a natureza reservada e macambúzia dos escoceses. – Importam-se que as’nhas mininas sirvam de testemunhas? – indagou o ferreiro. – Claro que não – disse St. Vincent, aproveitando para apreciar melhor a ferraria. A loja estava cheia de ferraduras, ferramentas de toda a ordem, equipamentos para carruagens e utensílios de quinta. A luz forte de um candeeiro a óleo realçava os traços belos e elegantes do jovem visconde, que se dirigiu ao ferreiro num tom frio e cortante: – Como pode, sem dúvida, verificar, a minha… – Fez uma pausa como que ponderando como referir-se a Evie – noiva… e eu estamos extremamente fatigados. Viajámos de Londres diretamente para cá e como tal desejamos apressar ao máximo os procedimentos. – De Londres, hein? – inquiriu o ferreiro, com visível interesse, dirigindo-se a Evie com um sorriso simpático: – E por que razão veio casar a Gretna Green, ‘nha filha? Os seus paizinhos num lhe deram ótorização p’ró matrimónio, foi? Ela sorriu-lhe de volta ao responder: – Infelizmente as coisas não são assim tão simples, senhor. – Nunca são – concordou ele, acenando sabiamente com a cabeça. – Mas tenho d’adverti-la, ‘nha jovem… nem sempre é bom casar às pressas… e os votos de casamento escoceses são um elo eterno e que num pode ser quebrado. Certifique-se de que o seu amor é puro e verdadeiro antes de… Interrompendo o que se previa ser um longo e sentencioso monólogo, St. Vincent proferiu, num tom assertivo:


– Não se trata de um casamento por amor, mas antes por conveniência – e entre nós não existe chama suficiente para sequer acender um fósforo. Avie-se com isto, por favor. Nenhum de nós dormiu convenientemente nos últimos dois dias. Fez-se silêncio, com MacPhee e as duas filhas visivelmente melindrados pela brusquidão do comentário. Por fim, as sobrancelhas espessas do ferreiro franziram-se numa expressão de desagrado: – Nã gosto d’si – declarou. St. Vincent olhou-o, sem esconder a exasperação: – A minha noiva também não. Mas uma vez que isso não a impede de casar comigo, gostaria que lhe seguisse o exemplo. Vamos a isto. MacPhee dedicou a Evie um vago olhar de comiseração, comentando: – A noiva nã tem flores – declarou, já determinado em criar um ambiente romântico para a cerimónia. – Florag, corre a colher um raminho d’ urze branca. – Ela não precisa de flores – atirou St. Vincent, mas a rapariga saiu a correr sem o ouvir. – É‘ma velha tradiçã escocesa, a noiva trazer um raminho d’urze branca – explicou MacPhee a Evie. – Quer saber perquê, filhinha? Evie assentiu, esforçando-se por disfarçar o seu divertimento. Não obstante o extremo cansaço – ou talvez por causa dele – a jovem começava a sentir um certo prazer malévolo por St. Vincent parecer tão inábil em controlar a sua irritação. Naquele momento, o homem mal-humorado, mal barbeado e mal dormido que se apresentava à sua frente não ostentava a menor semelhança com o pretensioso aristocrata que ela conhecera na temporada festiva de Hampshire, proporcionada por Lord Westcliff. – Há munto, munto tempo… – começou MacPhee, ignorando o grunhido impaciente do visconde –, viveu ‘ma noiva de sê nome Malvina. ‘Tava prometida a um jovem e brabo guerreiro chamado Oscar, q’havia conquistado o sê coração. Oscar pediu à sua amada q’aguardasse o sê regresso – e partiu à cunquista de fortuna. Mas num dia ‘maldiçoado, Malvina recebeu notícia de c’o seu amado fora morto em batalha. Repousava agora em eterno descanso nas montanhas longínquas… – Deus, como eu o invejo… – resmungou St. Vincent, esfregando os olhos cansados e carregados de olheiras. – Quando as lágrimas choradas de Malvina molharam a erva, qual gotas de orvalho… – prosseguiu o ferreiro – a urze roxa, ós sês pés, tornou-se branca. E é por isso c’as noivas escocesas trazem urze branca no dia do casamento. – É essa a explicação? – perguntou St. Vincent com expressão de escárnio. – A urze nasce das lágrimas derramadas de uma noiva pelo amante morto? – Sim. – Então por que diabos é isso considerado um bom presságio? MacPhee abriu a boca para responder, mas foi interrompido pela entrada de Florag, que entregou a Evie um ramo seco de urze


branca. Agradecendo-lhe com um sorriso, a jovem permitiu que o ferreiro a conduzisse até um altar colocado no meio da loja. – Temos aliança p’rá prometida? – quis saber o velhote, olhando para St. Vincent. Ao vê-lo negar com a cabeça, suspirou, acrescentando: – Gavenia, filha, traz a caixa das alianças. – Dirigindo-se a Evie, explicou: – Trabalho em metais p’ciosos, pr ’além do ferro… tenho lindas peças em ouro e… – Ela não precisa de… Um olhar desagradado de Evie fez St. Vicent calar-se. Soltando outro longo suspiro, o visconde aquiesceu: – Seja… escolha uma, mas seja breve. Retirando uma pequena bolsa de lã do interior da caixa, MacPhee abriu-a sobre o altar, espalhando uma boa meia dúzia de alianças sobre o tecido. Evie inclinou-se ligeiramente para melhor as observar. As alianças, todas em ouro e nos mais diversos tamanhos e padrões, eram tão requintadas e delicadas que parecia quase impossível terem sido criadas pelos dedos rudes e calejados do velho ferreiro. – Esta… é toda ent’laçada… – disse MacPhee, pegando num anel para que ela o observasse. – E esta é uma verdadeira obra d’arte, munto, munto apreciada. Tem o desenho de uma rosa Shetland. E esta… Evie pegou na aliança mais pequena de todas e experimentou-a no anelar da mão esquerda. Servia-lhe perfeitamente. Erguendo a mão aos olhos, inspecionou atentamente a linda aliança. Era a mais simples, lisa e em ouro polido, com uma inscrição dizendo Tha Gad Agam Ort. – Que significa esta frase? – perguntou ao ferreiro. – Significa tão simplesmente «Amo-te». St. Vincent não pareceu reagir. Evie sentiu-se corar perante o embaraçante silêncio que se seguiu e, retirando a aliança, arrependeu-se amargamente de ter demonstrado algum interesse por aquelas peças. O sentido daquela simples frase era de tal forma desfasado da realidade, da cerimónia fria e precipitada que ali iria ter lugar, que apenas lograva acentuar ainda mais o grotesco da situação. – Creio… que não quero nenhuma, pensando melhor – murmurou, colocando a aliança no meio das outras. – Ficamos com ela – disse St. Vincent, deixando-a incrédula. Pegou na aliança e ao ver a expressão confusa de Evie, acrescentou: – São apenas palavras… sem qualquer significado. Evie limitou-se a assentir timidamente com a cabeça, sentido acentuar-se-lhe o rubor nas faces. MacPhee observou-os a ambos, lenta e atentamente, cofiando o bigode bem desenhado. – ‘Ninas – disse, dirigindo-se às filhas com marcada alegria – queremos ouvi-las cantar. – Cantar? – protestou St. Vincent, levando desde logo uma cotovelada de Evie. – Deixemo-las – murmurou-lhe ela. – Quanto mais discutir, mais tempo tudo isto levará. Praguejando em silêncio, o visconde ergueu os olhos para o altar com visível impaciência, vendo as irmãs pigarrear antes de entoarem em harmonia:


Oh, o meu amor é uma rosa vermelha Que floresce no mês de junho Oh, o meu amor é uma melodia Por anjos docemente entoada Que bela és, minha amada, Quão enamorado estou por ti… E amar-te-ei assim, meu amor, Até secarem todos os oceanos… Ouvindo as filhas com visível orgulho, o ferreiro aguardou pelo final do cântico antes de as elogiar e aplaudir fervorosamente. Depois voltou-se para o casal em frente ao altar e proferiu em tom solene: – E agora t’rei de vos perguntar: sois ambos pessoas solteiras? – Sim – disse St. Vincent rapidamente. – E tem aliança p’rá noiva? – Acabámos de… O olhar pleno de expectativa de MacPhee fê-lo interromper-se. Era óbvio que se quisessem que a cerimónia fosse consumada, teriam de seguir as orientações do ferreiro. – Sim – grunhiu ele, exibindo a aliança que ainda segurava. – Tenho-a aqui. – Intão coloque-a no dedo da mecinha e dê-lhe a mão. Evie sentiu-se estranha e algo enjoada ao enfrentar St. Vincent. No momento em que ele lhe fez deslizar a aliança pelo dedo, o coração bateu-lhe mais forte e mais rápido, desencadeando uma corrente elétrica que lhe trespassou o corpo e que ela não conseguiu identificar: podia ser medo, ansiedade ou pura excitação. Não havia uma palavra que a pudesse descrever. As mãos de ambos juntaram-se, os seus dedos bem mais longos que os dela, a palma da mão dele suave e quente. Ele inclinou ligeiramente a cabeça, ficando com o rosto a escassos centímetros do dela. Ainda que se mostrasse inexpressivo, um ligeiro rubor aflorava-lhe as maçãs do rosto e a cana do nariz. E a sua respiração parecia mais acelerada que o habitual. Surpreendida por ter conseguido identificar nele algo tão íntimo quanto o ritmo normal da sua respiração, Evie desviou o olhar. Viu o velho ferreiro receber, das mãos de uma das filhas, uma fita de seda branca e estremeceu ligeiramente quando ele atou os pulsos de ambos com ela. Um murmúrio surdo comichou-lhe a orelha e ela sentiu a mão livre de St. Vincent afagar-lhe a nuca, esfregando-lha como se ela fosse um animal assustado. Sentiu-se relaxar ao toque dele, desfrutando do contacto ligeiro e sedoso dos seus dedos. MacPhee tratou rapidamente de dar um laço na fita que lhes unia os pulsos e declarou: – Pronto… Agora repita comigo, ‘nha filha… «Tomo-o como mê esposo.» – «Tomo-o como meu esposo.» – murmurou Evie. – M’lord? – instigou o ferreiro.


St. Vincent baixou o olhar para ela, os olhos frios e brilhantes como diamantes, revelando coisa nenhuma. E contudo, ela pressentiu-lhe igualmente uma certa tensão e uma carga elétrica que disparou entre ambos, forte como um relâmpago. A voz dele soou baixa e serena: – «Tomo-a como minha esposa.» O tom do ferreiro denotava grande satisfação: – Perante Deus e estas testemunhas, declaro-vos marido e melher. O que Deus juntou nenhum home há de separar. São oitenta e duas libras, três croas e um xelim, fachavôr. St. Vincent desviou – com visível dificuldade – o seu olhar do de Evie e encarou o ferreiro com um franzir de sobrolho. – Cinquenta libras d’aliança… – esclareceu-o MacPhee, perante a pergunta velada. – Cinquenta libras por um simples anel de ouro?! – Ouro escocês – retorquiu o homem, parecendo indignado por o preço estar a ser posto em causa. – E o restante? – Trinta libras p’los ritos, uma libra pelo uso da nha loja, um guinéu p’lo c’tificado de casamento – que terei prontinho amanhã de manhã – uma croa por cada testemunha… – O ferreiro indicou as filhas, que fizeram uma vénia por entre risadinhas tímidas. – Maizuma croa plas flores… – Uma coroa por um ramo de urze seca?! – exclamou St. Vincent, ultrajado. – Nã cobrei nada pla canção – concedeu o ferreiro, amavelmente. – Ah, e maizum xelim pla fita… que nã podem tirar inté o casamento ser consumado… ou as trevas do azar irão persegui-los eternamente… St. Vincent abriu a boca para ripostar, mas um breve olhar para o rosto exausto de Evie fê-lo mudar de ideias. Suspirando, levou a mão ao casaco para tirar o dinheiro. Os seus movimentos eram estranhos e algo torpes, visto ele ser destro e a única mão livre ser a esquerda. Retirou algumas notas e moedas da algibeira do casaco e deixou-as sobre o altar. – Aqui tem – resmungou, mal-humorado. – Não… Dê o troco às suas filhas. – E acrescentou num tom pleno de ironia: – Juntamente com o nosso profundo agradecimento pela linda canção. Um sonoro coro de agradecimentos irrompeu das bocas do pai e das filhas – que se sentiram inspiradas para os acompanhar até à porta entoando uns versinhos extra do tema do casamento: E amar-te-ei assim, meu amor, Até secarem todos os oceanos…


Capítulo 4

A chuva caía às catadupas, em lençóis de prata e negro, no momento em que o parzinho casado de fresco saiu da casa do ferreiro. Evie apressou o passo, reunindo o pouco que lhe restava das forças para regressar ao aconchego da estalagem. Sentia-se como se estivesse dentro de um sonho. Tudo lhe parecia desproporcionado – tinha dificuldades em fixar a visão, e o chão lamacento fazia-a resvalar a cada passo. Para seu enorme desagrado, St. Vincent deteve-a junto à fachada de um edifício, fazendoa abrigar-se sob o beiral encharcado. – O que foi? – perguntou-lhe, em tom débil. Ele levou a mão esquerda aos pulsos de ambos e tratou de desatar o laço da fita que os unia. – Vou livrar-nos disto. – Não! Espere… O capuz do casaco dela caiu-lhe sobre os ombros quando ela se inclinou para trás, querendo impedi-lo. Com uma mão prendeu a dele. – Esperar?… Porquê? O tom impaciente da voz dele traía-lhe o extremo cansaço. Gotas gordas e geladas caíam-lhe do beiral sobre o chapéu, enquanto olhava para ela. Caíra a noite, e a única iluminação provinha das chamas débeis dos escassos candeeiros de gás existentes na rua. Ainda que pálida, a luz dos candeeiros acentuava-lhe o azul dos olhos, fazendo-os brilhar – como que providos de iluminação própria. – Ouviu o que disse o Mr. MacPhee: dá azar desatar a fita. – É supersticiosa? – inquiriu ele, em tom incrédulo. Evie assentiu, quase lhe pedindo desculpa com o olhar. Não era difícil perceber que o temperamento dele estava preso por um fio bem mais ténue do que a fita que unia os seus pulsos. Ali de pé, tão próximos, no frio e no escuro, os braços erguidos formavam um ângulo estranho e algo sinistro. Evie sentiu-lhe os dedos da mão presa cravarem-selhe no pulso. Era a única zona do corpo que sentia quente, o ponto onde a mão dele apertava a sua. St. Vincent falou num tom de exagerada paciência e, estivesse ela na plena posse das suas


faculdades, teria certamente cedido de imediato aos intentos dele. – Pretende mesmo entrar assim na estalagem? Tudo aquilo era irracional, e Evie sentia-se demasiado exausta para procurar algum sentido nas suas emoções. Tudo o que sabia era que já havia tido má sorte suficiente na vida para agora se arriscar a atrair mais uma dose. – Estamos em Gretna Green, ninguém vai fazer julgamentos seja de que ordem forem. Além disso, cuidei que não se importasse com o que os outros pensam. – Nunca me importei em parecer depravado ou infame. Mas agrada-me pouco fazer figura de perfeito idiota. – Não! Por favor… – pediu-lhe ela num tom suplicante, ao vê-lo tentar desatar a fita. Desde logo se travou uma breve luta de mãos, os dedos dela enredando-se nos dele. Até que, subitamente, a boca dele tomou a dela, empurrando-a de encontro à fachada do edifício, imobilizando-a com o próprio corpo. Com a mão livre, ele envolveu-lhe a nuca, os dedos prendendo-se na humidade espessa do cabelo dela. A pressão inebriante da boca dele provocou nela uma descarga que lhe trespassou o corpo todo. Não sabia como beijar, o que fazer com a boca. Perplexa e trémula, pressionou os lábios fechados contra os dele, sentindo o coração bater descompassado e as pernas fraquejarem. Ele queria coisas que ela não sabia dar-lhe. Apercebendo-se do seu estado confuso, ele afastou a cabeça e encheu-lhe os lábios de beijos curtos e persistentes, a barba de dois dias arranhando-lhe suavemente o rosto. Os dedos dele afloraram-lhe a frágil estrutura dos maxilares, afagando-lhe o queixo, o polegar apartando gentilmente o lábio inferior do superior. Assim que ele anteviu uma breve abertura, selou a boca na dela. Evie conseguiu prová-lo, uma essência subtil e fascinante que a afetou como uma droga poderosa. A língua dele explorou-lhe a boca, brincando, provocando, penetrando mais profundamente ao perceber que ela já não oferecia resistência. Após um beijo exploratório assaz lascivo, ele recuou até que só as duas bocas se tocavam: os dois hálitos misturados em nuvenzinhas de vapor eram visíveis no ar gelado da noite. Ele fez deslizar outro beijo de boca semiaberta contra a dela… e mais outro, enchendo-a com sua exalação tépida. Aqueles beijos delicados estenderam-se pela face dela até ao orifício intrincado da orelha e ela ofegou, trémula, ao sentir a língua dele seguir a fímbria frágil, até que os dentes seguraram levemente o lóbulo macio. Evie contorceu-se de prazer e a sensação alongou-se até aos seios e ainda mais baixo, crescendo até sítios mais íntimos. Retorcendo-se contra ele, Evie procurava cegamente a sua boca quente e provocadora, o afago sedoso daquela língua. Ele deu-lha, num beijo terno, mas seguro. Ela enrolou o braço livre à volta do pescoço dele para não cair, enquanto ele segurava firmemente o outro pulso contra a parede, e ambos sentiram os pulsos juntos a latejar com força sob o atilho da fita branca. Mais um beijo profundo, ao mesmo tempo rude e reconfortante… comendo-lhe a boca, provocando-a e lambendo-a por dentro… aquele prazer ameaçava fazê-la perder a consciência. Não admira… pensava ela, aturdida. Não


admirava que tantas mulheres tivessem sucumbido àquele homem, tivessem abandonado honra e reputação por ele… e até mesmo – a crer nos rumores – tentado matar-se quando ele as deixara. Ele era a encarnação da sensualidade. Quando St. Vincent afastou o corpo do dela, Evie ficou surpreendida por não se sentir esboroarse até ao chão. Ele arfava tanto como ela; mais ainda: o peito dele subia e descia visivelmente. Ambos ficaram em silêncio enquanto ele desmanchava o atilho, o seu olhar azul de gelo completamente focado na sua tarefa. Tremiam-lhe as mãos e não conseguia olhá-la de frente; ela não conseguia perceber se era para não lhe ver a expressão ou para evitar que ela visse a dele. Já a fita branca caíra no chão e Evie sentia que ainda estavam ligados, já que o seu pulso retinha ainda a sensação de estar atado ao dele. Finalmente, lançando-lhe um olhar intenso, St. Vincent desafiou-a, em silêncio, a protestar. Ela mordeu a língua, tomou-lhe o braço e ambos dirigiram-se à hospedaria. Sentindo a cabeça a andar à roda, ela mal ouviu os parabéns joviais de Mr. Findley quando entraram no pequeno edifício. E foi com as pernas pesadas que ela subiu um patamar de degraus estreitos e escuros. E ali estava, num esforço de dentes cerrados para pôr um pé diante do outro, na esperança de não se ir abaixo das pernas. Chegaram a uma pequena porta no átrio do primeiro andar. Encostando-se à parede, Evie viu St. Vincent debater-se com a fechadura. A chave deu a volta com um rangido e ela titubeou até à porta aberta. – Espere – disse ele, fazendo menção de a pegar ao colo. Ela sentiu-se sem fôlego. – Não precisa de… – Por respeito à sua natureza supersticiosa – afirmou ele, erguendo-a como se de uma criança se tratasse –, sugiro que respeitemos uma última tradição. – Voltando-se de lado, transpôs a porta. – Dá azar a noiva tropeçar à entrada do lar. E eu já vi homens regressados de um bacanal de três dias menos trôpegos do que a Evie está agora. – Obrigadinha… – resmungou ela, quando ele a poisou no chão. – Meia croa, faxavôr… – brincou ele, fazendo-a sorrir, ao recordar o pároco-ferreiro que acabara de os casar. Mas o sorriso desde logo lhe esmoreceu ao olhar em volta do pequeno quarto que lhes fora destinado. A cama, suficientemente grande para dois, parecia limpa e confortável, ainda que com uma colcha visivelmente gasta de constantes lavagens. A cabeceira era toda em ferro e latão, com bonitas esferas douradas nas pontas. Uma luz levemente rosada emanava de um candeeiro de vidro rubi, colocado sobre a mesinha de cabeceira. Sentindo-se gelada, enlameada e entorpecida, Evie ficou de olhos fixos na banheira envelhecida de latão bordeada a madeira, que fora deixada em frente à pequena e tremeluzente lareira. St. Vincent trancou a porta e dirigiu-se a ela, estendendo a mão para o alfinete que lhe sujeitava a


capa. Evie pôde ler-lhe a consternação no rosto ao verificar que ela tremia de fraqueza. – Deixe-me ajudá-la – murmurou-lhe, tirando-lhe a capa dos ombros e deixando-a sobre uma cadeira junto à lareira. Evie engoliu em seco e tentou endireitar os joelhos que teimavam em vergar-se. Sentiu o aperto do medo no estômago, ao olhar para a cama. – Vamos ter de… – murmurou, sentindo a garganta seca. St. Vincent começou a desabotoar-lhe a frente do vestido, com gestos lentos e suaves. – Vamos ter de…? – repetiu ele, seguindo o olhar dela até à cama. – Bom Deus, é claro que não. – Os dedos ágeis moveram-se rapidamente pelo corpete, libertando a fileira de pequenos botões. – Por deliciosa que seja, minha querida, a verdade é que eu estou absolutamente esgotado. E sempre julguei impossível vir a dizer isto, mas… neste momento prefiro dormir a fornicar. Sentindo um profundo e infinito alívio, Evie soltou um suspiro trémulo. Viu-se forçada a agarrarse a ele para não cair, quando o sentiu despir-lhe o vestido pelas ancas. – Detesto essa palavra… – disse, num murmúrio abafado. – Pois é bom que se habitue – foi a cáustica resposta dele. – É uma palavra vulgarmente proferida no clube do seu pai. Nem acredito que nunca a tenha ouvido antes. – É claro que ouvi – disse ela, indignada, despindo o vestido pelos pés. – Só que não lhe conhecia o significado… até agora. St. Vincent baixou-se para lhe desapertar os sapatos e ela ouviu-lhe uma estranha fungadela, que a deixou preocupada cuidando que ele poderia estar a sentir-se mal. Mas para seu grande espanto, depressa se apercebeu que ele estava a rir. Era a primeira gargalhada genuína que lhe ouvia, e ela não fazia a menor ideia da razão. De pé em frente dele, de camisa e ceroulas, cruzou os braços e olhou-o com expressão desconfiada. Sem deixar de rir, ele descalçou-lhe um sapato, depois o outro, e desenrolou-lhe as meias até aos joelhos com notável eficiência. – Desfrute do seu banho, minha linda – conseguiu finalmente dizer. – Esta noite está segura comigo. Sou capaz de olhar, mas não toco. Vamos… Nunca tendo sido em toda a sua vida despida por um homem, Evie sentiu o rubor da timidez percorrer-lhe o corpo todo ao desatar os atilhos da camisa. Sensatamente, o visconde desviou o olhar e voltou-lhe costas, dirigindo-se ao lavatório com um jarro de água fervente que havia sido deixado ao lado da lareira. Vendo-o retirar do seu baú de viagem os utensílios de barbear, Evie tratou de acabar de se despir para rapidamente se enfiar na banheira. A água estava quente, maravilhosamente quente e, ao imergir, ela sentiu as pernas geladas e entorpecidas serem picadas por um milhar de agulhas. Num banquinho ao lado da banheira havia um frasco de sabão castanho e gelatinoso. Ela espalhou-o pelos braços e seios, deliciando-se com a textura suave e a essência agridoce. Sentiu as mãos trôpegas… não conseguia manusear os dedos eficazmente. Depois de mergulhar a cabeça na


água estendeu novamente a mão para o frasco de sabão, quase derrubando-o. Ensaboou o cabelo, soltou um gemido de desconforto ao sentir os olhos arder e lançou mãos-cheias de água no rosto. Rapidamente, St. Vincent aproximou-se da banheira com um jarro esmaltado de água limpa. – Deite a cabeça para trás… – disse-lhe. Ele enxaguou-lhe a cabeça com a água, limpou-lhe o rosto com uma toalha áspera e fê-la levantar-se. Tomando-lhe a mão, Evie deixou-se ajudar. Deveria ter ficado mortificada de vergonha ao expor-se assim, completamente nua, perante os olhos de um homem, mas a verdade é que tinha já alcançado um tal estado de exaustão que não podia dar-se ao luxo de se mostrar tímida. Enervada e tremendo de frio, deixou que ele a retirasse da banheira, incapaz de fazer outra coisa que não deixarse estar – não se importando, ou parecendo nem sequer reparar, se ele a observava. St. Vincent revelou-se bem mais eficiente que qualquer camareira pessoal, secando cada centímetro do corpo dela antes de lhe vestir a camisa de noite de flanela, que encontrara na sua pequena mala. Depois serviu-se de outra toalha seca para lhe retirar o excesso de água do cabelo e, finalmente, conduziu-a até ao lavatório. Evie constatou que ele lhe descobrira na mala a escova de dentes e que a tinha já preparada com pó dentífrico. Ainda algo trémula, Evie escovou cuidadosamente os dentes, bochechando com água limpa, sem parecer importar-se quando a escova lhe caiu dos dedos insensíveis. – A cama…? – murmurou, de olhos fechados. – Venha, minha querida, dê-me a sua mão – disse ele, conduzindo-a até à cama, onde ela se apressou a aninhar-se, qual animal ferido. A cama apresentava-se quente e seca, o colchão suave, o peso do lençol e da coberta de lã cobrindo-lhe os braços e as pernas dormentes. Enterrando a cabeça na almofada, Evie deixou escapar um longo suspiro. Sentiu uma ligeira pressão na cabeça e percebeu que St. Vincent tratava de lhe desenredar os nós do cabelo húmido. Aceitando passivamente os seus cuidados, deixou que ele a voltasse para lhe desembaraçar o outro lado. Quando acabou, St. Vincent dirigiu-se à banheira para finalmente poder lavar-se. Evie conseguiu manter-se acordada mais uns segundos, tempo suficiente para conseguir admirar, de olhos esbugalhados, a perfeição daquele físico. Era uma visão deslumbrante, os maravilhosos contornos daquele corpo à ténue luz da lareira. Os olhos fecharam-se-lhe precisamente no momento em que ele entrou para a banheira… e no momento em que ele se sentou, já ela adormecera. Não teve sonhos que lhe perturbassem o tão merecido repouso. Nada havia que não a doce e profunda escuridão, e uma cama macia, na quietude de uma vilazinha escocesa numa fria noite de outono. A única vez que ela se moveu foi ao nascer do dia, quando os sons lá de fora entraram pelo quarto… os alegres pregões do padeiro e do trapeiro, os cascos dos cavalos puxando carroças pelas ruas. Evie entreabriu os olhos e, à luz difusa que entrava pelas cortinas pardas e gastas, apercebeu-se, com espanto, de que alguém partilhava a sua cama. St. Vincent. O seu marido… Estava nu, ou, pelo menos, de tronco nu. Dormia de barriga para baixo, os braços, suavemente musculados, curvados sobre a almofada debaixo da cabeça. As linhas


amplas dos ombros e das costas eram tão perfeitas que pareciam ter sido esculpidas diretamente de uma pedra de âmbar báltico. O seu rosto em repouso era bastante mais suave do que quando acordado… os olhos frios fechados e a boca relaxada numa linha inocentemente sensual. Fechando os olhos, Evie deleitou-se com a ideia de ser agora uma mulher casada, e que muito em breve iria poder ver o pai – e ficar com ele o tempo que desejasse. E era muito pouco provável que St. Vincent se ralasse sequer com o que ela fazia ou onde estava – permitindo-lhe ser senhora da sua própria liberdade. Apesar das preocupações que insistiam em ocupar-lhe a mente, Evie sentiu-se invadida por algo muito parecido com uma onda de felicidade, que a fez suspirar, espreguiçar-se e adormecer novamente. Desta vez, sonhou. Caminhava por um trilho inundado de sol, ladeado por arbustos de ásteres púrpura e espigas douradas de arnica-do-mato. Era um caminho de Hampshire que ela havia já percorrido diversas vezes, com prados inundados e verdejantes, carregados de rainhas-dos-prados amarelas e de esvoaçantes espigas de solidago. Caminhou sozinha pelo prado húmido até se ver próxima do poço dos desejos, onde ela e as outras Encalhadas haviam lançado alfinetes, formulando os seus desejos. Sabendo da lenda local acerca do espírito do poço que vivia nas profundezas, Evie tinha pânico de se aproximar demasiado daquele buraco no chão. Rezava a lenda que o espírito aguardava conseguir capturar uma jovem inocente e arrastá-la consigo para o fundo, para viver eternamente como sua consorte. Todavia, no seu sonho, Evie era audaz e temerária, atrevendo-se até a descalçar-se e mergulhar os pés nas águas turvas e revoltas. E surpreendeu-a constatar que a água estava deliciosamente tépida. Sentada na margem do poço, Evie enfiou as pernas nas águas mornas, erguendo o rosto para o sol. Sentindo uma ligeira pressão nos tornozelos, deixou-se ficar muito quieta e sem o menor receio – mesmo ao pressentir algo a mover-se por entre os seus pés. Outro toque… uma mão… dedos longos acariciando-lhe ternamente os dedos, massajando-lhe as plantas doridas e fazendo-a suspirar de prazer. As mãos grandes e másculas foram subindo ligeiramente, afagando-lhe a barriga das pernas, os joelhos… até que um corpo forte e brilhante emergiu das profundezas do poço. O espírito assumira a forma de um homem para a conquistar. Os seus braços fortes envolveram-na, numa sensação estranha mas adorável que a fez manter os olhos fechados, temendo que ao olhar para ele pudesse fazê-lo desaparecer. Tinha a pele macia e quente, os músculos das costas ondulando entre os dedos dela. O seu amante sonhado murmurava-lhe palavras ternas, enquanto ela o abraçava, a boca dele brincando suavemente sobre a garganta. Cada toque daquelas mãos firmes e suaves deixava-a extasiada de prazer. – Posso levar-te comigo? – sussurrou-lhe, despindo-lhe cuidadosamente as roupas, expondo a pele dela à luz, ao ar e à água. – Nada temas, meu amor… E sentindo-a tremer e agarrar-se cegamente a ele, beijou-lhe a garganta, os seios, passando a língua pelos mamilos. As mãos dele deslizaram-lhe pelo regaço, tomando-lhe os seios, enquanto ela


soltava um suspiro pelos lábios entreabertos. A língua dele fê-la gemer e Evie enfiou-lhe os dedos por entre as madeixas de cabelo espesso. Abocanhando-lhe docemente um mamilo, ele provocava-a, lambendo e mordiscando, num círculo ritmado e experiente. Ela arqueava-se, arquejava, não conseguindo impedir-se de abrir as coxas à medida que o sentia aos poucos instalar-se entre elas… até que… Evie abriu subitamente os olhos. Sentiu a mente num turbilhão ao acordar num misto de desejo e confusão, ofegando violentamente. O sonho esmoreceu e ela apercebeu-se de que não estava em Hampshire, mas num quarto alugado de uma estalagem de Gretna e os sons da água não provinham de um poço de desejos, mas sim da chuva que caía lá fora em catadupa. Não havia sol, apenas as chamas crepitantes de uma lareira acabada de acender. E o corpo por cima dela não era o de um espírito, mas sim o de um homem verdadeiro… e quente. A cabeça dele sobre o seu estômago, a boca percorrendo lentamente os trilhos da sua pele. Evie reagiu, subitamente tensa, ao perceber que estava nua… e que St. Vincent se dedicava a fazer amor com ela – e ao que parecia, há já uns bons minutos. St. Vincent ergueu os olhos para ela. Com o ligeiro rubor que lhe aflorava as faces, os seus olhos pareciam maiores e mais brilhantes do que o habitual. O esboço de um sorriso relaxado, mas tortuoso, desenhou-se-lhe nos cantos da boca. – Estava difícil acordá-la… – disse-lhe num tom rouco, antes de baixar novamente a cabeça e, com uma mão, acariciar-lhe a coxa. Chocada, ela soltou um gemido rouco de protesto e tentou esquivar-se, mas ele acariciou-a com ambas as mãos, afagando-lhe as pernas e as ancas, pressionando-as contra o colchão. – Deixe-se ficar quieta… Não tem de fazer nada, meu amor. Deixe-me tratar de si. Sim… Pode tocar-me, se… oh, sim… Ele pareceu ronronar ao sentir os dedos dela afagarem-lhe o cabelo, depois a nuca, a firme curvatura dos ombros. Ele desceu sobre ela, as pernas fortes deslizando pelo interior das dela, fazendo-a aperceber-se de que ele tinha a cara sobre o triângulo de pequenos caracóis ruivos. Ardendo de vergonha e constrangimento, Evie levou instintivamente a mão à zona púbica, como que querendo protegê-la. A boca erótica dele desceu-lhe até à anca, e ela sentiu-lhe o sorriso contra a pele sensível. – Não devia fazer isso – sussurrou-lhe. – Quanto mais esconde uma coisa de mim, mais eu a desejo. Temo dizer-lhe que acabou de me encher a cabeça com os mais lascivos pensamentos e… é melhor tirar a mão daí, queridinha, ou ainda faço algo realmente depravado. Sentindo-a retirar a mão trémula, ele deixou que um dedo brincasse com o delicado tufo ruivo, provocando-a delicadamente: – Isso mesmo… obedeça ao seu marido – sussurrou-lhe perversamente, massajando-a mais intensamente. – Sobretudo na cama. Que bonita que é… Abra as pernas, meu amor. Quero tocar-lhe por dentro. Não, não tenha medo. Será que ajuda se eu a beijar… aqui? Fique quietinha, vamos… Evie teve um súbito frémito ao sentir a boca dele esquadrinhando o triângulo de pelo de um ruivo


intenso. Aquela boca quente, de uma tenacidade impiedosa, cedo encontrou o pequeno botão escondido por baixo da coifa vulnerável. O seu dedo, comprido e ágil, tenteou a entrada do corpo dela, mas foi momentaneamente desalojado pela convulsão sobressaltada de Evie. Segredando murmúrios apaziguantes junto da sua carne inchada, St. Vincent deslizou de novo o dedo para dentro dela, mais fundo desta vez. – Tão inocente, meu amor… – murmurou ele, e a sua língua titilou uma zona tão sensível que a fez estremecer, gemendo. Ao mesmo tempo o dedo dele continuava a acariciar aquela macieza tão íntima num ritmo lânguido. Ela bem tentava manter silêncio, rangendo os dentes, mas pequenos sons continuavam a escapar-lhe da garganta. – O que é que pensa que poderia acontecer – ouviu ela perguntar, num tom indolente – se eu continuasse a fazer isto sem parar…? Por cima do plano palpitante do seu ventre, o olhar toldado de Evie cruzou-se com o dele. Ela sentia as faces contorcidas e congestionadas… sentia fogo espalhar-se por cada centímetro da sua pele. Ele parecia esperar uma resposta, mas ela mal conseguia fazer passar as palavras pela garganta constrangida. – N-n-não sei… – acabou por murmurar. – Vamos experimentar, está bem? Ela não pôde responder, apenas esperar, atónita, enquanto ele apertava a boca contra a grenha cor de fogo. A cabeça descaiu-lhe para trás, ao sentir a língua dele bailando habilmente sobre a carne latejante. O coração batia-lhe, quase dolorosamente. Sentiu um ardor quando ele lhe enfiou um segundo dedo dentro dela, esticando-a docemente, e a seguir começou a chupar o pequeno bolbo rígido no sexo dela, aumentando o ritmo enquanto ela se torcia debaixo dele. Ele acompanhava-a, trabalhando-a com os dedos em investidas controladas, com a boca compulsiva e exigente… até que o prazer a inundou em ímpetos cada vez mais rápidos, e de repente ela ficou incapaz de se mexer. Esticada contra a boca dele, Evie gritou, arquejou e voltou a gritar. A boca dele abrandou, mas continuou no seu jogo habilidoso, guiando-a durante os prolongamentos da sensação, embalando o sexo dela com afagos até a ver estremecer violentamente. Ela sentia-se inundada de fadiga e, ao mesmo tempo, possuída por uma euforia física, como se estivesse embriagada. Sem poder controlar-se, contorceu-se tremulamente debaixo dele – e sem oferecer resistência quando St. Vincent a virou de barriga para baixo. A mão dele deslizou-lhe entre as coxas e os seus dedos entraram de novo nela. A boca do seu corpo estava dorida e, para seu vexame, abundantemente húmida. Contudo ele pareceu excitado, respirando avidamente contra a sua nuca sensível. Mantendo os dedos dentro dela, começou a beijá-la, mordiscando-a pelas costas abaixo. Evie sentiu o sexo dele roçar-lhe pelas pernas… estava duro e inchado, a sua pele queimava. Não ficou surpreendida por aquela mudança nele… Annabelle tinha-lhe confidenciado o bastante para lhe


dar a entender o que se passava no corpo de um homem durante um ato de amor. Mas a amiga nada lhe dissera sobre a centena de outras intimidades que tornavam a experiência não só física, mas capaz de mudar a própria alquimia da sua alma. Curvado sobre ela, St. Vincent afagou-a, titilando-a até sentir as ancas dela arqueando-se de desejo intenso contra a mão dele. – Quero entrar dentro de ti… – murmurou ele, beijando-lhe o lado do pescoço sobre a orelha. – Quero entrar bem fundo no teu corpo… vou ter cuidado, minha pomba… deixa-me voltar-te. Meu Deus, como és bonita… Voltou-a de costas na cama e instalou-se entre as coxas dela, amplamente abertas. O seu murmúrio tornara-se desgastado e pouco firme: – Toca-me, querida… põe a tua mão aqui… Inspirou profundamente quando os dedos dela se curvaram suavemente à volta da extensão rígida do seu sexo. Evie afagou-o, hesitante, mas depreendendo que a carícia lhe dava prazer, pelo súbito acelerar da respiração. Ele cerrara os olhos, as espessas pestanas tremiam-lhe ligeiramente contra as faces, os lábios abriam-se sob a força da respiração ofegante. Constrangida, Evie agarrou na pesada haste guiando-a para entre as suas coxas. A cabeça escorregou sobre a humidade do sexo dela e St. Vincent gemeu de frustração dolorosa. Tentando de novo, Evie posicionou-o, hesitante. Uma vez no caminho certo, ele acutilou com força o abrigo vulnerável. Doeu bastante mais do que os dedos dele e Evie retesou-se sob a dor. Embalando nos seus braços o corpo dela, o visconde aplicou-lhe uma investida poderosa… e outra e mais outra, e subitamente estava todo dentro dela. A jovem contorcia-se na tentativa de escapar àquela dolorosa invasão, mas parecia que cada movimento só o fazia penetrar mais fundo. Atestada, esticada e aberta, Evie forçou-se a ficar imóvel nos braços dele. Agarrou-se-lhe aos ombros, cravando os dentes no duro revestimento de músculos e tendões, e permitiu que ele a acalmasse com as mãos e a boca. Quando, de olhos semicerrados, ele se inclinou para a beijar, ela acolheu com inesperado prazer a humidade quente da sua língua, que ela chupou para dentro da própria boca com uma súbita volúpia que a ambos surpreendeu. Ele emitiu um som de surpresa e o seu membro agitou-se violentamente dentro dela numa série de espasmos ritmados. Um gemido rouco vibrou-lhe no peito, enquanto se vinha dentro dela e o fôlego lhe saía entre os dentes cerrados. As mãos dela deslizaram para o peito dele, tateando a superfície firme coberta de uma leve penugem dourada. Ainda dentro dela, St. Vincent manteve-se imóvel sob aqueles dedos exploratórios que em breve deslizaram até aos seus flancos enxutos, palpando o arqueado firme das costelas e o plano acetinado das costas. Os seus olhos azuis ampliaram-se largamente e ele deixou cair a cabeça na almofada ao lado dela, gemendo enquanto o seu corpo se animava dentro dela, num ímpeto novo e ele não pôde impedir-se de estremecer em dobrados tremores de êxtase. A boca dele juntou-se à dela com uma sofreguidão primitiva. Ela abriu mais as pernas, puxando-o pelas costas para lhe sentir o peso mais fundo e mais duro, apesar da dor. Apoiado nos cotovelos


para evitar esmagá-la, St. Vincent descansou a cabeça sobre o peito dela e o seu bafo quente afloroulhe um mamilo. O pelo da sua barba picou-a ligeiramente e a sensação contraiu-lhe os bicos dos seios. O sexo dele estava ainda dentro dela, embora mais brando. Ele estava calado, mas bem acordado, e as longas pestanas faziam-lhe sedosas cócegas sobre a pele. Evia mantinha-se também calada, os braços à volta da cabeça dele, os dedos brincando com o cabelo dourado. Sentiu mudar-se o peso dele e o calor húmido da sua boca procurando-lhe o seio. Os lábios dele fecharam-se-lhe em volta do mamilo e a sua língua traçava agora vagarosamente o bordo exterior da auréola intumescida, à volta e à volta, até que ele a sentiu agitar-se, inquieta, debaixo dele. Mantendo dentro da boca aquele tenso botão, Sebastian lambia firmemente, docemente, enquanto o desejo se acendia nos seios dela… e no ventre e nas entranhas… e a dor se dissolvia numa nova vaga de desejo. Deliberadamente, ele mudou para o outro seio, mordiscando, lambendo, sugerindo alimentar-se do prazer dela. Alçou-se um pouco para poder escorregar a mão entre os dois corpos, e os seus dedos experientes deslizaram para dentro do ninho húmido de pelos, achando a vibrante crista feminina e provocando-a habilmente. Ela sentiu-se conduzir para um novo clímax, e todo o seu corpo se entregou com volúpia à carne quente que se insinuava profundamente dentro dela. Arfando de surpresa, St. Vincent levantou a cabeça para a olhar como se ela fosse uma variedade de criatura que ele nunca vira antes. – Meu Deus… – murmurou ele. E a sua expressão não era tanto de agrado, mas de algo muito parecido com alarme.


Capítulo 5

Sebastian levantou-se e dirigiu-se, de pernas trémulas, ao lavatório. Sentia-se tonto, pouco firme, como se tivesse sido ele e não Evangeline a perder a virgindade. Há muito que desistira de vir a desfrutar de uma experiência nova. Enganara-se. Para um homem para quem fazer amor se resumia a um misto de técnica e coreografia, chocara-o o modo verdadeiramente apaixonado com que se entregara àquele momento. Ainda considerara retirar-se no último segundo, mas sentira-se de tal forma acometido de desejo que lhe fora impossível controlar-se. Raios! Tal nunca lhe tinha acontecido… Com mãos trémulas, pegou numa toalha de linho lavada e tratou de a embeber em água limpa. A respiração já tinha recuperado o ritmo normal, mas ele não se sentia minimamente calmo ou relaxado. Depois do que se passara, seria expectável sentir-se satisfeito por longas horas. Mas não… aquilo não fora suficiente. Sebastian havia experienciado o mais longo… o mais violento e arrebatador orgasmo da sua vida… e ainda assim, a necessidade desesperada de a possuir de novo, de a abrir e se enterrar dentro dela, não havia desaparecido. Era uma loucura. Mas porquê? Porquê… com ela? Evie tinha o tipo de figura amplamente feminina que ele sempre adorara: firme e voluptuosa, com coxas roliças e aconchegantes. E a sua pele era macia como veludo, salpicada de sardas doiradas. E o cabelo… tão ruivo e ondulado, tanto em cima quanto no pequeno triângulo púbico… sim, também ele era irresistível. Mas todas as opulências físicas de Evangeline Jenner não se comparavam ao extraordinário efeito que ela surtia nele. Sentindo uma nova e urgentíssima pontada de desejo, Sebastian esfregou-se violentamente com a toalha molhada e pegou noutra, seca e engomada. Levou-a até Evangeline que continuava deliciosamente aninhada no seu lado da cama. Para seu profundo alívio, não havia nela o menor vestígio de lágrimas ou lamentos virginais… olhava-o intensamente, como que a tentar decifrar um qualquer quebra-cabeças. Murmurando-lhe palavras doces, ele fê-la voltar-se de costas e lavou-lhe a mistura de sangue e fluidos de entre as coxas.


Não foi nada fácil para Evangeline deixar-se ficar assim, quieta, nua e desprotegida perante ele. Sebastian reparou no súbito rubor que lhe cobriu o corpo e não conteve um sorriso doce. Eram raras as mulheres que coravam perante a nudez – e ele sempre fizera questão de as escolher experientes e depravadas, pouco interessado nas mais inocentes. Não por questões morais, claro, mas porque as virgens revelavam-se, regra geral, profundamente entediantes na cama. Deixando a toalha de lado, Sebastian colocou as mãos ao lado de cada um dos ombros nus de Evangeline, as palmas deixando sulcos profundos no colchão. Os dois estudaram-se mútua e curiosamente. Evangeline mostrava-se confortável perante o silêncio – pensou ele – sem ter necessidade de o preencher como a maioria das mulheres fazia. Uma qualidade notável, a seu ver. Inclinou-se sobre ela, sem deixar de a fitar… mas assim que baixou a cabeça para a beijar, um sonoro rosnido interrompeu o silêncio. Era o estômago dela, protestando de fome. Ficando, se é que era possível, ainda mais corada, Evie bateu com as mãos na barriga, como que a silenciar aquele confrangedor resmungo. Sebastian sorriu e baixou-se ligeiramente para lhe beijar o estômago. – Vou já mandar vir o primeiro-almoço, minha pomba. – Evie – murmurou ela, cobrindo-se pudicamente com o lençol. – É assim que o meu pai e as minhas amigas me chamam. – Hmm… estamos prontos, então, para os primeiros nomes? – Um sorriso provocador desenhouse-lhe no canto dos lábios. – Sebastian… – acrescentou docemente. Evie estendeu os braços para ele muito lentamente – como se ele fosse um bichinho selvagem pronto a reagir se assustado, enfiando-lhe os dedos nas madeixas da frente com cautelosa leveza. – Agora estamos casados – disse, baixinho. – É um facto… que Deus a ajude – brincou ele, inclinando a cabeça para trás, visivelmente agradado com as carícias dela. – Regressamos a Londres ainda hoje? Ela assentiu com a cabeça. – Quero muito ver o meu pai. – Aconselho-a a escolher cuidadosamente as palavras quando me apresentar como seu genro – disse-lhe ele. – Ou receio que a novidade possa acabar com ele. Ela retirou a mão. – Quero mesmo apressar-me. Se o tempo melhorar, quem sabe não chegaremos até antes do previsto? Quero ir diretamente para o clube do meu pai e… – E lá chegaremos, descanse. Mas não podemos viajar à velocidade louca com que viemos para cá. Faço questão de passar pelo menos uma noite em cada pousada. – Vendo-a a abrir a boca para protestar, acrescentou, num tom que não admitia réplicas: – Não será benéfico para o seu pai vê-la chegar ao clube meia morta de exaustão. E pronto, tinha finalmente começado o exercício de autoridade marital – bem como a obrigação da esposa de lhe obedecer. Era óbvio que Evie desejava contestá-lo, mas, em vez disso, limitou-se a olhá-lo com um franzir de testa. Suavizando o tom de voz, Sebastian murmurou-lhe:


– Esperam-na dias difíceis, Evie. Ter-me como marido já é provação suficiente. E tratar de um tísico em fim de vida… vai exigir-lhe todas as forças. Não me parece razoável querer consumi-las antes sequer de chegar junto dele. Evie fitou-o com uma intensidade tal que o deixou desconfortável. Que olhos os seus… como se alguém tivesse pegado num pedaço de vidro azul para fazer refletir através dele os mais brilhantes raios de sol. – Preocupa-o o meu bem-estar? – perguntou-lhe ela. Ele esforçou-se por soar o mais imperturbável possível, fixando-a com olhos frios. – Mas é claro, minha bichinha. É do meu maior interesse mantê-la viva e com saúde até poder recolher o seu dote. Evie desde logo descobriu que St. Vincent – Sebastian – se mostrava tão àvontade nu como completamente vestido. Esforçou-se por reagir descontraidamente à visão daquele homem todo nu movimentando-se livremente pelo quarto. Mas lançou-lhe olhares subtis sempre que possível, até o ver retirar do baú uma nova toilette. Ele era alto e esbelto, de pernas compridas e bem torneadas, e músculos adoravelmente tonificados, muito provavelmente fruto de intenso exercício masculino como a equitação, o pugilismo e a esgrima. Tinha as costas e os ombros impressionantemente desenvolvidos, com os músculos ondeando sobre a pele flexível. Mas o mais fascinante era sem dúvida o seu torso, o peito que não era imberbe – como os que vulgarmente se via nas estátuas de bronze – mas ligeiramente coberto de pelos. Os pelos do peito – e de outras zonas – haviam-na deixado surpresa. Representava apenas mais um dos múltiplos mistérios do corpo masculino – que agora lhe estavam a ser literalmente revelados. Profundamente incapaz de se movimentar pelo quarto de um modo tão livremente exposto, Evie embrulhou-se num lençol da cama antes de se levantar. Dirigiu-se à sua pequena mala e dela retirou um vestido de lã castanho-escuro, bem como um conjunto lavado de roupa interior e – maravilha das maravilhas! – um novo par de sapatos. Os que ela trouxera calçados ao longo da interminável viagem encontravam-se num estado tão deplorável – gastos, encharcados e cheios de lama – que só a ideia de voltar a calçá-los lhe dava arrepios. Enquanto se vestia, sentiu o peso do olhar de Sebastian sobre ela. Apressou-se a enfiar-se na camisa interior, escondendo o corpo que, uma vez mais, começara a enrubescer. – É linda, Evie, sabia…? – ouviu-lhe o suave comentário. Tendo sido criada por familiares que sempre lhe haviam criticado o tom vivo do cabelo e a profusão de sardas, Evie dirigiu-lhe um sorriso cético. – A minha Tia Florence fazia questão de que eu esfregasse diariamente o corpo com uma loção para combater as sardas. Mas isso sempre se revelou ineficaz. Sebastian esboçou um sorriso prazenteiro enquanto se dirigia a ela. Levando as mãos aos ombros dela, lançou um longo olhar por aquele corpo, parcialmente oculto pela roupa interior. – Não quero que faça desaparecer uma sarda que seja, querida. Descobri-as nos locais mais encantadores… e até já elegi as minhas favoritas. Quer saber onde estão?


Desarmada e desconcertada, Evie abanou a cabeça e tentou esquivar-se dele. Mas ele não a deixou. Puxando-a para si, baixou a cabeça dourada e beijou-lhe o pescoço. – Que desmancha-prazeres… – sussurrou-lhe, sorrindo. – Mas eu digo-lhe na mesma. Os dedos dele fecharam-se em garra sobre a camisa, puxando-a para cima. Ela sentiu-se sem fôlego ao sentir-lhe os dedos acariciarem-lhe ternamente as coxas nuas. – Se bem me recordo… – disse ele, com a boca encostada à garganta dela – há um trilho de sardas no interior da sua coxa direita, que sobe pela… Um bater na porta interrompeu-os, e Sebastian ergueu a cabeça com um grunhido de desagrado. – O primeiro-almoço – murmurou. – E nem me arrisco a dar-lhe a escolher entre o sexo e uma refeição quente, já que a resposta não abonaria a meu favor. Vista-se enquanto eu abro a porta. Evie correu a obedecer-lhe e Sebastian abriu a porta a duas criadas que traziam bandejas com as mais diversas iguarias. Assim que deitaram o olho ao hóspede de rosto seráfico e cabelo cor de trigo, as duas entreolharam-se e soltaram uma risadinha incontrolável. E o seu nervosismo não melhorou em nada ao constatarem que ele estava apenas meio vestido, os pés nus debaixo das calças desbraguilhadas, a camisa branca aberta até ao peito e a gravata de seda displicentemente pendurada no pescoço. As criaditas enamoradas quase deixaram cair as bandejas sobre a mesa. Reparando na cama revolta, dificilmente controlaram uma nova onda de risinhos e olhares cúmplices – sem dúvida especulando sobre o que poderia ali ter ocorrido durante a noite. Aborrecida, Evie enxotou-as literalmente do quarto, atirando com a porta. Pelo canto do olho, tentou aperceber-se da reação de Sebastian àquela histérica manifestação, mas ele pareceu-lhe imperturbável. Era óbvio que aquele tipo de atitude já lhe era tão familiar que lhe passava despercebida. Um homem com os seus atributos e posição era uma eterna presa da cobiça feminina. Evie não tinha a menor dúvida de que isso seria extremamente perturbador para uma mulher que o amasse. Contudo, ela jamais se permitiria vir a sofrer de ciúmes ou do medo de ser traída. Convidando-a a sentar-se à mesa, Sebastian juntou-se a ela, e tratou de a servir primeiro. Havia papas de aveia fumegantes, com sal e uma noz de manteiga, já que para os escoceses era um sacrilégio adoçá-las com melaço. Havia também uns pãezinhos chamados bannocks, finas fatias de bacon, arenque fumado, uma taça grande de ostras fumadas e fatias de pão torrado barrado com marmelada. Absolutamente faminta, Evie devorou aquilo tudo, devidamente empurrado com diversas chávenas de chá forte. A refeição até era simples, quando comparada com o fabuloso English breakfast, servido na propriedade de Hampshire de Lord Westcliff, mas estava quente e saborosa e Evie estava demasiado esfaimada para se fazer de esquisita. Deixou-se ficar à mesa, plenamente satisfeita e de expressão sonhadora, enquanto Sebastian se barbeava e acabava de vestir. Guardando o estojo de barba no seu baú de viagem, fechou-o e dirigiu-se a Evie em tom casual: – Emale as suas coisas, lindinha. Vou descer e certificar-me de que a carruagem está pronta para partir.


– E o certificado de casamento que o Mr. MacPhee… – Também tenciono tratar disso. Tranque a porta quando eu sair. Precisamente uma hora depois, St. Vincent regressou para buscar Evie, enquanto um rapazinho forte e musculado lhes carregava as malas para a carruagem. Sebastian não evitou um sorriso ao reparar que Evie se servira de uma das suas gravatas de seda para apanhar o cabelo num elegante rabo de cavalo. A jovem tinha perdido a maioria dos ganchos na longa viagem desde Londres e, na sua urgência de partir, nem lhe tinha ocorrido trazer alguns a mais. – Com o cabelo assim parece demasiado nova para casar – murmurou-lhe ele, visivelmente maravilhado. – Acrescenta um toquezinho de deboche à situação e… isso agrada-me. Começando a habituar-se àquele tipo de comentários indecentes, Evie dedicou-lhe um olhar de resignada contenção e seguiu-o para fora do quarto. Desceram até à receção, onde se despediram do estalajadeiro, Mr. Findley. Quando os viu à porta da rua, o homenzinho acrescentou, alegremente: – Desêjo-lhe‘ma xlente biagem, Lady St. Vincent! Perplexa ao compreender que era agora uma viscondessa, Evie gaguejou-lhe um agradecimento. Sebastian conduziu-a até a carruagem que os esperava, com os cavalos resfolegando e batendo os cascos, ansiosos por exercício. – Sim – comentou Sebastian, em tom irónico – ainda que algo desacreditado, o título, agora, também é seu. Ajudando-a subir para o pequeno degrau amovível e para o interior do veículo, acrescentou: – Além disso, um dia ainda viremos a escalar mais alto, visto eu ser o primeiro na linha com vista ao ducado… ainda que lhe sugira que não espere ansiosamente por esse dia. Os homens da minha família tendem, lamentavelmente, a viver até tardíssimo, o que implica que nós dois não venhamos a herdar o título antes de estarmos já demasiado decrépitos para o gozar devidamente. – Se julga que… – começou Evie, calando-se subitamente. Estranhando, deparou-se com um objeto estranho no chão da carruagem. Tratava-se de um recipiente de cerâmica, amplo, e com uma abertura rolhada numa das pontas. De formato redondo, era plano de um dos lados, por forma a garantir a estabilidade quando colocado no chão. Evie lançou um olhar inquisitivo a Sebastian, antes de lhe tocar com a ponta do sapato – sendo recompensada com uma onda de calor que lhe subiu pela perna. – Um aquece-pés! – exclamou, perplexa. O calor da água a ferver que o recipiente continha duraria muito mais tempo do que o tijolo que ela experimentara anteriormente. – Onde foi desencantar esta maravilha? – quis saber, encantada. – Comprei-o ao MacPhee depois de o ver em casa dele – retorquiu o visconde, parecendo divertido com a excitação da jovem. – Naturalmente que ficou encantado com a ideia de me poder cobrar mais qualquer coisinha… Impulsivamente, Evie soergueu-se do assento para o beijar na face, que sentiu suave fresca sob os


lábios. – Obrigada. Foi extremamente gentil da sua parte. As mãos dele ampararam-lhe a cintura, impedindo-a de cair para trás. Depois, fê-la sentar-se suavemente ao seu colo, até os rostos de ambos ficarem tão próximos que os narizes quase se tocavam. O hálito dele acariciou-lhe a boca, ao murmurar: – Certamente que mereço um agradecimento mais… substancial. – Ora, não passa de um aquece-pés – protestou ela, divertida. Ele sorriu-lhe. – Devo adverti-la, minha querida, de que esta coisa acabará eventualmente por arrefecer. E aí, e uma vez mais, serei a sua única fonte de calor disponível. E eu não sou homem de partilhar indiscriminadamente do meu calor corporal. – Não é isso que consta – disse Evie, descobrindo um inesperado prazer naquela cumplicidade súbita. Ela nunca tinha brincado com um homem daquela maneira, muito menos experienciado o prazer de lhe negar algo que ele desejava e provocá-lo com isso. E verificou, pelo brilho no seu olhar, que também ele parecia encantado com a brincadeira. Parecia querer saltar-lhe para cima… literalmente. – Saberei aguardar o momento oportuno – disse ele. – O raio desta coisa não há de durar para sempre. Ele permitiu-lhe sair do colo e ficou a vê-la recostar-se e baixar a saia sobre o aquece-pés. Fechando os olhos de prazer enquanto sentia a carruagem arrancar com um solavanco, Evie desfrutou de um prazeiroso arrepio à medida que o calor lhe subia pelas coxas. – Deus do céu… isto é tão… Sebastian? – Sim, querida? – disse ele, de olhos vivos e brilhantes. – Se o seu pai é duque, por que razão o Sebastian é visconde? Não deveria antes ser marquês ou, no mínimo, conde? – Não necessariamente. É uma prática relativamente comum acrescentar-se um número de títulos menores quando é criado um novo. Como regra, quanto mais antigo for o Ducado, menos probabilidades há de o filho mais velho vir a ser marquês. E o meu pai, como é óbvio, adora fazer disso uma virtude. Desaconselho-a seriamente a falar-lhe nesse assunto, sobretudo se o vir com um grãozinho na asa, ou arrisca-se a levar com um entediante sermão sobre o quão afeminado e novorico é o termo «marquês» e como o título em si não é mais do que um embaraçante meio-degrau até ao ducado. – É um homem arrogante, o seu pai? Um sorriso amargo desenhou-se-lhe nos lábios, antes de responder: – Sempre cuidei que fosse arrogância, sim. Mas acabei por me aperceber de que trata mais de um profundo alheamento ao mundo exterior ao seu. Que eu saiba, ele nunca calçou as próprias meias ou colocou pó dentífrico na sua escova de dentes. Duvido até que sobrevivesse a uma vida sem honras


nem privilégios. Aliás, estou em crer que morreria à fome num salão de banquete acaso não estivessem presentes criados para o servirem à sua mesa. Para ele, fazer tiro ao alvo com um jarrão de valor inestimável ou atiçar o fogo de uma lareira com um casaco de peles são coisas perfeitamente naturais… Chega a manter os bosques em torno da sua propriedade permanentemente iluminados com tochas e candeeiros – não vá apetecer-lhe desfrutar de um passeio a meio da noite. – Não admira que ele esteja falido, Sebastian – disse ela, impressionada com tal esbanjamento. – Só espero que não seja assim tão perdulário. Ele abanou a cabeça: – Se há coisa de que não me podem acusar é de excessos financeiros irrazoáveis. Raramente jogo e não sustento amantes. O que não me impede de ter a minha dose de credores a farejarem-me os calcanhares. – E alguma vez considerou dedicar-se a uma profissão? Ele olhou-a inexpressivamente. – E para quê? – Para ganhar dinheiro…? – Deus seja louvado, nem pensar! Trabalhar revelar-se-ia uma distração extremamente inconveniente sobre a minha vida pessoal. Além de que raramente me levanto antes do meio-dia… – O meu pai não vai gostar de si. – Se a minha ambição na vida fosse cair nas boas graças dos outros, ficaria tristíssimo ao ouvir isso. Felizmente, não é. À medida que a viagem foi decorrendo – em amena cavaqueira e agradável companhia – Evie tomou, ainda assim, consciência de um misto contraditório de emoções em relação ao marido. Se bem que fosse dono de um encanto desmesurado, a verdade é que não via nele muita coisa digna de respeito. Era nítido que ele dispunha de um espírito ardente e entusiasta, mas que não era empregue em objetivos minimamente válidos. Além disso, o facto de ela saber que ele havia raptado Lillian e traído o seu melhor amigo nesse processo, deixava claro que ele não era digno de confiança. Contudo… era capaz de atos ocasionais de bondade e gentileza que ela muito apreciava. A cada paragem Sebastian tratou de suprir toda e cada uma das necessidades de Evie e, não obstante a ameaça de deixar arrefecer o aquece-pés, nunca deixou de o reabastecer de água fervente. Sempre que a via mais cansada, deixava-a repousar sobre o seu peito, amparando-a sempre que a carruagem abanava ou resvalava. Repousando nos braços dele, Evie concluiu que, para ela, aquele homem não representava senão a ilusão de algo que jamais havia tido. Um refúgio. Um porto de abrigo. As mãos dele acariciavam-lhe constantemente o cabelo, em afagos doces e protetores, e agradou-lhe imenso ouvi-lo murmurar, naquela sua voz de anjo das trevas: – Descanse, meu amor. Estou aqui para protegê-la.


Capítulo 6

Ainda que Sebastian estivesse ansioso por regressar a Londres para avaliar e ponderar, calmamente, as novas circunstâncias da sua vida, não lamentou a decisão de viajar mais lentamente no caminho de regresso. Agora, caída a noite, Evie mostrava-se cansada, pálida e pouco comunicativa – esgotadas as suas reservas de força, após as agruras dos últimos dias. Ela precisava de descansar. Tendo encontrado uma pousada agradável onde passar a noite, Sebastian reservou para eles o melhor quarto disponível, exigindo que uma boa refeição e um banho quente lhes fossem imediatamente providenciados. Evie tomou banho numa pequena banheira vitoriana, lindíssima, enquanto Sebastian tratava das acomodações para o cocheiro e da muda de cavalos para a manhã seguinte. De regresso ao quarto, pequeno, mas imaculado, com cortinas azuis, um tanto puídas, cobrindo as janelas, o visconde pôde constatar que a sua mulher terminara o banho e tinha já vestida a camisa de noite. Dirigiu-se à mesa de aspeto frágil, ergueu o guardanapo que cobria o seu prato e deparou-se com uma perna de frango assada, uma porção de legumes miniatura e um pequeno pudim – nada de aparência particularmente apetitosa. Notando que o prato de Evie estava vazio, ele dirigiu-se-lhe um sorriso irónico: – Que tal estava? – Melhor que nada. – Agrada-me saber que terei uma nova apreciadora dos talentos do meu chef de Londres – comentou, sentando-se à mesa e desdobrando o guardanapo no colo. – Estou em crer que irá apreciar as suas imaginativas criações. – Não conto vir a desfrutar de muitas refeições em sua casa – disse ela, em tom cauteloso. Espantado, Sebastian poisou o garfo que ia já a meio caminho da boca: – Como assim? – Pretendo instalar-me no clube do meu pai – prosseguiu ela. – Como já lhe referi, gostaria muito


de poder cuidar dele. – Durante o dia, claro que sim. Mas não quero que passe lá as noites. Ao fim do dia regressará a minha… nossa casa. Ela fixou-o com expressão imperturbável, insistindo: – A doença do meu pai não se retira à noite para reaparecer de manhã. Ele precisa de cuidados constantes. Sebastian mastigou um pedaço de frango e respondeu, sem disfarçar alguma irritação: – É para essas coisas que os criados servem. Podemos perfeitamente contratar alguém para cuidar dele. Evie abanou a cabeça com uma firme teimosia que ainda o deixou mais irritado. – Não é o mesmo que desfrutar dos cuidados de um ente querido. – E porque diabos a preocupa tanto a qualidade dos seus cuidados? Que fez ele por si, afinal? Nem sequer conhece o safado assim tão bem… – Não me agrada esse termo. – É uma pena. Porque é um dos meus favoritos e tenciono continuar a usá-lo sempre que muito bem me aprouver! – Então será uma bênção vermo-nos assim tão raramente quando regressarmos a Londres. Olhando para a mulher, cujo rosto doce e angelical ocultava uma inesperada disposição casmurra, Sebastian lembrou-se de que ela se dispunha facilmente a tomar medidas drásticas para obter o que queria. Só Deus e o diabo saberiam do que ela era capaz se ele a pressionasse demasiado. Forçando as mãos a não tremer enquanto empunhava o garfo e a faca, continuou a sua refeição. O frango bem podia ser sensaborão; nem que tivesse sido envolvido no mais apetitoso molho, para ele seria indiferente. A sua mente ardilosa fervilhava agora a um ritmo insano, procurando a melhor estratégia a adotar para lidar com Evie. Por fim, e adotando uma expressão de genuína preocupação, murmurou-lhe: – Meu amor… entenda que eu não posso permitir-lhe pernoitar num antro de bêbados, jogadores e mulherengos. Certamente que verá os perigos inerentes a uma tal situação. – Tratarei de que receba o meu dote o mais brevemente possível. E aí deixará de ter motivos para se preocupar comigo. A sólida contenção tão característica de Sebastian evaporou-se como água quente dentro de um forno. – Eu não estou preocupado consigo, c’os diabos! Apenas… raios, Evie, não é normal que a Viscondessa St. Vincent durma num clube de jogo nem sequer uma noite! – Não é normal? Nunca o julguei tão convencional – limitou-se ela a responder. Por uma estranha razão, a expressão feroz no rosto dele provocou-lhe um sorriso de divertimento. Ainda que subtil, o sorriso dela não passou despercebido a Sebastian, que passou automaticamente


da raiva para a perplexidade. Era só o que lhe faltava, ver-se gozado por uma virgem de vinte e três anos – ou quase virgem – que se mostrava ingénua ao ponto de acreditar que era minimamente importante para ele! O seu olhar de gélido desprezo deveria tê-la intimidado. – Nessa sua linda fantasia de enfermeira doce, angelical e protetora, acaso lhe ocorreu quem cuidará de si naquela espelunca? Passar lá a noite sozinha é um convite expresso a ser violada! E diabos me levem se lá fico consigo – tenho muito mais que fazer do que ficar sentado num clube de jogo de segunda à espera que o velho Jenner bata a pataleta! – Nem nunca me ouviu pedir-lhe que me acompanhasse – respondeu-lhe ela no mesmo tom. – Desembaraço-me muito bem sozinha. – Imagino… – murmurou Sebastian, pleno de sarcasmo. Poisou o garfo, tendo perdido completamente o pouco apetite que lhe restava. Lançando o guardanapo sobre o prato por acabar, levantou-se e tratou de despir o casaco e o colete. Sentia-se sujo, moído e ansiava por um banho. Com sorte, a água ainda estaria quente. Enquanto se despia, não pode deixar de pensar em todas as mulheres que, ao longo dos anos, haviam desejado casar com ele – todas lindas e bem dotadas, tanto física como financeiramente – e bem capazes de assassinar para lhe agradarem. Mas ele andara sempre demasiado ocupado nas suas devassas conquistas para sequer considerar uma relação séria com qualquer delas. E agora, devido a um conjunto de circunstâncias – e também à falta de sentido de oportunidade – acabara casado com uma criatura socialmente desajeitada, de linhagem muito duvidosa e temperamento obstinado. Reparando no modo como Evie evitava olhar-lhe o corpo nu, Sebastian mal conteve um sorriso perverso. Dirigiu-se à pequena banheira e imergiu na água morna, as longas pernas penduradas para fora, uma para cada lado. Ensaboando-se indolentemente, lançando mãos-cheias de água no peito e braços ensaboados, observou a sua mulher com olhos semicerrados. Agradou-lhe notar que parte da compostura dela se perdera enquanto ele se banhava. E viu-a ruborizar enquanto dedicava um particular – e muito suspeito – interesse pelo padrão da colcha da cama. O olhar de Sebastian recaiu então sobre a aliança de ouro escocês que ela exibia no anelar. Teve uma reação estranha àquela visão, uma necessidade quase incontrolável de se precipitar sobre ela, imobilizá-la na cama e possuí-la sem cerimónias. Quis dominá-la, rendê-la, forçá-la a admitir que lhe pertencia. Aqueles ímpetos de luxúria animalesca eram, no mínimo, alarmantes para um homem que sempre se considerara civilizado. Perturbado e excitado, acabou de se lavar, levou a mão a uma toalha seca e enxugou-se vigorosamente. Os sinais mais do que óbvios da sua excitação não passaram despercebidos a Evie – que ele ouviu soltar um arquejo do fundo do quarto. O mais displicentemente que lhe foi possível, enrolou a toalha à cintura e dirigiu-se ao baú de viagem. Procurou um pente, dirigiu-se ao espelho sobre o lavatório e penteou o cabelo ainda levemente molhado. O espelho ofereceu-lhe também uma visão parcial da cama e ele reparou, com agrado, que Evie o


observava. Sem se voltar, murmurou: – Será que me espera o mesmo destino do cão do açougueiro, esta noite? – O cão do açougueiro? – repetiu ela, confusa. – O cão que vive à porta do açougue e a quem não é permitido o menor naco de carne. – Essa com-comparação não é propriamente lisonjeira a nenhum de nós. Uma pausa praticamente impercetível no ato de pentear mostrou que Sebastian registara o regresso da gaguez. Ótimo, pensou. Afinal, ela não estava assim tão controlada como aparentava. – E não vai responder à minha pergunta? – Eu… peço desculpa, mas pre-preferia não voltar a ter relações ín-íntimas consigo. Perplexo e ofendido, Sebastian pousou o pente e voltou-se para a encarar. Jamais, em tempo algum, uma mulher o havia rejeitado. E o facto de Evie conseguir fazê-lo depois dos prazeres que ele lhe proporcionara naquela manhã, parecia-lhe impossível de acreditar. – Disse-me que não lhe agradava dormir duas vezes com a mesma mulher – lembrou-lhe, num tom levemente pesaroso. – Recordo-me de ter dito que resultava… extremamente entediante. – E, por acaso, pareço-lhe entediado? – indagou ele, notoriamente irritado, a toalha não conseguindo esconder os contornos de uma ereção cada vez mais acesa. – Julgo que… isso depende de que parte do seu corpo se observa – balbuciou ela, desviando o olhar para a colcha. – Cuido não ser necessário recordar-lhe que fizemos um acordo, my lord. – E tem todo o direito a mudar de ideias. – Mas não vou fazê-lo. – Essa sua recusa tresanda a hipocrisia, minha linda. Já a possuí uma vez, que diferença lhe faz à virtude que eu a possua de novo? – Não estou a recusá-lo a bem da virtude. – A gaguez desapareceu-lhe ao recuperar a compostura. – Tenho uma razão bem diferente. – Estou louco para a ouvir… – Autodefesa – disse ela, voltando o olhar para ele com manifesta dificuldade. – Não me oponho a que tenha amantes, se isso o deixa mais descansado. Mas eu não quero ser uma delas. O ato sexual nada significa para si, ao contrário do que acontece comigo. Não tenciono sofrer por sua causa e julgo que isso seria inevitável se estivesse de acordo em continuar a dormir consigo. Lutando para se manter aparentemente calmo, Sebastian fervilhava por dentro, num misto de desejo e ressentimento. – Não conto pedir desculpa pelo meu passado. Um homem que é homem deve ter experiência. – Pelo que me é dado a observar, já adquiriu a suficiente para dez homens. – E por que razão isso a incomoda? – Porque a sua… história romântica, para usar um eufemismo, é como a de um cão que gane a todas as portas traseiras, recolhendo os restos de cada lar. E eu não serei mais uma porta. Não é capaz


de ser fiel a uma única mulher – já o provou variadíssimas vezes. – Lá por nunca ter tentado não significa que não consiga, sua cachorra sentenciosa! Significa apenas que nunca o quis! O termo cachorra fê-la retesar-se instintivamente. – Gostaria que não usasse esse tipo de linguagem grosseira. – Pois a mim parece-me mais do que apropriada, tendo em conta a sua profusão de analogias caninas! – lançou-lhe ele. – O que, devo dizer-lhe, nem sequer se aplica a mim, visto que são as mulheres que me lambem os pés e não o oposto. – Então deve procurar uma delas. – Pode crer que o farei! – disse ele, num tom exasperado. – Assim que chegarmos a Londres, conto embarcar numa orgia selvática e debochada que apenas terminará com a prisão de alguém! Mas até lá… espera realmente que partilhemos a mesma cama esta noite – e amanhã à noite – como duas freiras numa visita turística? – Para mim isso não constituirá o menor problema – disse ela, cautelosamente, bem consciente de o estar a insultar gravemente. O olhar incrédulo que ele lhe lançou poderia ter incendiado a roupa da cama. Balbuciando um rol de impropérios que deixaria o mais reles carroceiro corado de vergonha, Sebastian deixou cair a toalha e foi apagar o candeeiro. Ciente do olhar dela sobre a sua insistente ereção, lançou-lhe uma mirada desdenhosa, antes de declarar: – A partir deste momento, tenho altíssimas esperanças de que qualquer proximidade a si me afete as zonas privadas do mesmo modo que um prolongado banho num lago siberiano.


Capítulo 7

O tempo melhorou substancialmente ao longo da viagem de regresso a Londres, com a chuva a dar finalmente tréguas. Ainda assim, as baixas temperaturas no exterior da carruagem viram-se largamente ultrapassadas pelo gélido ambiente que se estabeleceu no interior entre o casalinho recém-casado. Ainda que Sebastian continuasse a esforçar-se por manter quente o aquece-pés para Evie, deixou de a convidar para se enroscar nos seus braços ou dormir recostada no seu peito. E ela preferia as coisas assim. Quanto mais profundamente o ia conhecendo, a jovem sabia que qualquer intimidade entre os dois resultaria num autêntico desastre. Evie sabia-o perigoso para ela, em aspetos de que nem sequer tinha consciência. Tranquilizou-a o facto de saber que, assim que chegassem à cidade, iriam, de algum modo, separar-se. Ela ficaria instalada no clube, enquanto ele iria para casa – dedicar-se às suas habituais conquistas até ficar a saber do falecimento do sogro. E quando chegasse esse momento, o mais provável seria ele querer vender o clube de jogo e servir-se desse dinheiro – juntamente com a restante herança – para encher os depauperados cofres da família. A ideia de venderem o Jenner’s, que sempre representara a menina dos olhos do seu pai, enchia Evie de melancolia. Contudo, tinha de admitir que seria essa a opção mais razoável. Poucos homens detinham o talento necessário para gerir com êxito um clube noturno. O dono de um clube de jogo tinha de possuir um tipo de magnetismo muito particular, para atrair clientes para o seu estabelecimento, e a astúcia e imaginação necessárias para conseguir manter-lhes a assiduidade – de preferência com altas despesas. Já para não referir o sentido de negócio para reinvestir sensatamente os lucros. Ivo Jenner toda a vida possuíra as duas primeiras qualidades, mas quanto à terceira… deixava muitíssimo a desejar. Nos últimos tempos ele perdera uma fortuna em Newmarket, tornando-se uma presa fácil – na sua proveta idade! – para os rufiões cheios de lábia do submundo das corridas de cavalos. Felizmente, o clube representava uma máquina tão poderosa a nível financeiro que lhe permitiu absorver as terríveis perdas.


A insultuosa opinião de Sebastian de que o Jenner’s não passava de um clube de jogo de segunda era apenas parcialmente correta. De conversas passadas com o pai – que não era parco em palavras – Evie sabia que, ainda que o clube fosse bastante bem-sucedido, jamais havia atingido os altos padrões que ele toda a vida almejara. Ivo Jenner sempre sonhara conseguir rivalizar com o Craven’s, o lendário clube de jogo que ardera há muitos anos, mas jamais havia conseguido obter o talento e a astúcia absolutamente diabólica de Derek Craven. Dizia-se que o velho Craven conseguira apropriarse da fortuna de toda uma geração de ingleses. E o facto de o clube ter desaparecido em pleno auge do seu esplendor, só servira para lhe consolidar ainda mais o estatuto lendário, na memória coletiva da sociedade britânica. Mas se o Jenner’s não chegara aos calcanhares da glória do seu famoso antecessor não fora certamente por falta de esforço. Ivo Jenner chegara mesmo a mudar as instalações do seu clube, de Covent Garden para a King Street – que na época não passava de uma ruazinha de passagem para a mais distinta zona comercial e residencial da cidade, mas que atualmente representava uma das suas mais importantes artérias. Tendo adquirido uma significativa parte da avenida e demolido quatro edifícios, Jenner construiu então um clube amplo e extremamente elegante – podendo gabar-se de ter a maior banca de apostas de Londres. Quando um cavalheiro pretendia jogar alto, ia para o Jenner’s. Evie recordava-se do clube na sua infância, nas raras ocasiões em que a autorizavam a visitar o pai. Retinha-o na memória como um local sofisticado, ainda que algo pretensioso, e a menina adorava sentar-se com o pai na varanda interior do segundo piso e assistir à frenética atividade que tinha lugar lá em baixo. De sorriso orgulhoso, Jenner gostava de levar a filha a passear pela St. James Street e de a deixar entrar em qualquer loja que ela desejasse. Visitavam a perfumaria, a chapelaria, a loja de livros e estampas e a padaria de bolos e pãezinhos onde era sempre oferecido à menina um pão doce ainda quente, tão fresco que o açúcar da cobertura lhe derretia para os dedos. Ao longo dos anos, as visitas de Evie à King Street foram rareando cada vez mais. E ainda que ela culpasse os Maybricks por isso, percebia agora que o pai fora também parcialmente responsável por esse distanciamento. Tinha sido extremamente fácil para ele amá-la em criança, quando podia atirá-la ao ar e apanhá-la nos braços, despentear-lhe carinhosamente os caracóis ruivos, do mesmo tom dos seus, ou limpar-lhe as lágrimas, sempre recorrentes no momento da despedida, presenteando-a com um xelim enfiado à socapa na palma da mão. Mas quando a filha cresceu e se tornou uma jovem senhora, Jenner deixou de poder tratá-la com tanta intimidade – o que resultou num relacionamento mútuo bem mais embaraçoso e distante. – Este clube não é lugar p’ra ti, princesa – dissera-lhe um dia, muito ternamente. – Deves manterte a milhas de um velho burgesso como eu e encontrar um rapazinho decente p’ra casar. – Papá… – tinha-lhe ela implorado, gaguejando terrivelmente. – Não me man-mandes embora! Deixa-me fi-ficar contigo, por fa-favor! – Fofinha, o teu lugar é com os Maybricks. E nem penses em fugir p’ra cá, que eu mando-te logo de volta.


As lágrimas dela não foram suficientes para o convencer. Nos anos que se seguiram, Evie visitou o pai de seis em seis meses, ou mais. Quer fosse ou não para o seu bem, a jovem não conseguiu evitar sentir-se repelida e indesejada. E esse sentimento eterno e crescente fez com que se sentisse extremamente desconfortável junto dos homens – ciente de que também eles se haveriam de aborrecer dela, mais cedo ou mais tarde. A sua gaguez agravou-se – quanto mais lutava pelas palavras mais incoerente ela soava – até concluir que era bem menos penoso remeter-se ao silêncio e desaparecer de vista. E tornou-se uma Encalhada exímia. Nunca ninguém lhe pediu para dançar, nunca soube o que era beijar um rapaz, nunca foi cortejada ou sequer abordada por alguém. A única proposta que recebeu foi aquele relutante pedido do primo Eustace. Absolutamente encantada por aquele bendito revés de fortuna, Evie olhou para o marido – que mergulhara num silêncio total nas últimas duas horas. Ele semicerrou os olhos quando encontrou o olhar dela. Com aquela expressão fria e boca cínica, parecia completamente distinto do delicioso sedutor que com ela partilhara o leito dois dias antes. Evie desviou o olhar para a janela, vendo o cenário de Londres passar por ela. Dentro de breves momentos chegariam ao clube e ela poderia finalmente ver o pai. Já lá iam seis meses desde o último encontro e Evie estava preparada para se deparar com grandes mudanças no pai. A tuberculose era uma doença comum e toda a gente tinha consciência dos seus terríveis danos. A doença consistia na morte lenta do tecido pulmonar, acompanhada de febres altas e tosse violenta, significativa perda de peso e suores terríveis durante a noite. Quando a morte chegava, era geralmente considerada uma bênção para as vítimas, assim como para os seus entes queridos, já que representava o fim de um hediondo suplício. Evie não conseguia imaginar o seu robusto pai reduzido a um tão sinistro definhamento. Sentia-se dividida entre o desejo de cuidar dele e o pânico de o ver sofrer. Contudo não partilhou esse estado de espírito com Sebastian, temendo que ele zombasse das suas angústias. Sentiu a pulsação acelerar assim que a carruagem saiu da St. James e virou na King Street. A ampla fachada do Jenner’s, toda em mármore e tijolo cru, surgiu-lhe à frente, formando uma silhueta por entre os amarelos e vermelhos vivos de um pôr do sol magnífico. Olhando pela janela da carruagem, Evie soltou um suspiro ansioso enquanto passavam por um dos muitos becos que iam da principal via pública até às cavalariças e pátios traseiros da linha de edifícios. A carruagem deteve-se na entrada das traseiras, que representava uma alternativa bem mais sensata à porta principal do clube. O Jenner’s não era propriamente o local mais adequado a uma senhora decente. Um cavalheiro podia entrar no clube com a amante ou mesmo com uma prostituta de interesse puramente passageiro, mas jamais poderia ousar levar uma senhora respeitável para o seu interior. Evie apercebeu-se de que Sebastian a olhava com o mesmo interesse desapaixonado de um entomologista observando uma nova espécie de besouro. A súbita palidez dela, e os visíveis tremores, não lhe passaram certamente despercebidos, mas ele optou por não lhe dirigir uma palavra ou gesto de conforto.


Ajudando-a a sair da carruagem, Sebastian envolveu-lhe a cintura com um braço enquanto ela desceu o pequeno degrau. O cheiro daquele beco traseiro era o mesmo que ela retinha na memória – lixo e estrume misturados com o odor a álcool, a tabaco e fumo de carvão. Sem dúvida que Evie seria a única jovem senhora da alta sociedade londrina a reconhecer aquele cheiro como o seu lar. Mas, pelo menos, invadia-lhe as narinas de modo mais agradável do que o ambiente da casa dos Maybricks, que fedia a alcatifas bolorentas e colónia barata. Tolhida de dores musculares, devido à longa imobilização dentro da carruagem, Evie dirigiu-se à porta. As entradas para a cozinha e outras áreas de serviço localizavam-se mais adiante, ao longo do edifício, mas esta abria-se para umas escadas que davam diretamente para os aposentos do pai. O cocheiro tinha já chamado um empregado do clube – através de uns sonoros murros na porta – e agora aguardavam. Um jovem surgiu à porta e Evie suspirou de alívio ao reconhecê-lo. Tratava-se de Joss Bullard, uma figura bem familiar no clube, que lá trabalhava há muito anos como porteiro e coletor de dívidas. Era enorme, maciço e moreno, com a cabeça em forma de bala e um maxilar forte. Conhecido pelo seu mau-génio e aspereza no trato, sempre tratara Evie com o mínimo de cortesia quando ela visitava o clube. No entanto, ela sempre havia ouvido o pai elogiá-lo pela sua lealdade – e por isso lhe estava grata. – Mr. Bullard – disse –, vim ver o me-meu pai. Permita-me que entre. O jovem corpulento e sério não se moveu. – Ele nã a mandou chamar – disse-lhe, num tom pouco amistoso. Desviou o olhar para Sebastian, notando-lhe as roupas caras. – Sendo sócio, pode entrar p’la frente. – Idiota… – Evie ouviu o marido murmurar e, antes que ele pudesse continuar, interrompeu-o bruscamente. – E quanto a Mr. Egan?… Está dis-disponível? – indagou, algo nervosa. Referia-se ao «faz-tudo» do clube, que trabalhava para a família há mais de uma década. Fanfarrão e presunçoso, Egan também não era uma criatura particularmente simpática, mas Evie sabia que ele jamais se recusaria a deixá-la entrar no clube do próprio pai. – Nah… – O Mr. Rohan, então? – insistiu ela, já visivelmente desesperada. – Por favor, diga-lhe que Miss Je-Jenner está aqui. – Já lhe disse que… – Vá chamar o Rohan – silvou-lhe Sebastian, num tom que não admitia recusas, pondo uma bota na porta de forma a impedir que o outro a fechasse. – Aguardamos cá dentro. A minha mulher não vai certamente ficar aqui, no meio da rua! Parecendo perplexo pela expressão quase assassina daquele jovem de ar distinto, o empregado balbuciou um assentimento e desapareceu. Sebastian conduziu Evie para dentro de casa e olhou para as escadas no átrio de entrada: – Subimos?


Ela abanou a cabeça. – Achava preferível falar pri-primeiro com Mr. Rohan. Estou certa de que ele me porá a par do estado de saúde do meu p-pai. Alertado pelo regresso da sua gaguez, Sebastian levou uma mão tranquilizadora à nuca da mulher e acariciou-a docemente. Ainda que mantendo uma expressão quase gélida, a sua mão estava quente e calorosa e Evie sentiu-se relaxar quase involuntariamente. – Quem é esse Rohan? – perguntou ele. – O chefe dos croupiers, que trabalha cá desde garotinho. O meu pai contratou-o inicialmente como mensageiro. Estou certa de que se lembrará dele, caso o tenha conhecido. É um sujeitinho muito difícil de esquecer. Sebastian pareceu ponderar no comentário e murmurou: – É de raça cigana, certo? – Sim, é meio cigano, julgo eu. Da parte da mãe. – E a outra metade? – Ninguém sabe. – Evie lançou-lhe um olhar esquivo e acrescentou, num tom mais baixo: – Sempre acreditei que pudesse ser meu meio-irmão. A expressão dele espelhou um súbito interesse. – Alguma vez falou nisso ao seu pai? – Sim… e ele negou. A verdade é que Evie nunca ficara realmente convencida. O pai sempre havia mostrado uma tendência levemente paternal por Cam Rohan. E ela não era ingénua ao ponto de acreditar que o pai não teria por aí uns quantos filhos ilegítimos. Era um homem famoso pelos seus apetites sexuais, para além de jamais se importar minimamente com as consequências dos seus atos. Dando subitamente por ela a pensar se o próprio marido não seria também assim, perguntou-lhe em tom cauteloso: – Sebastian… será que também tem… – Não que eu tenha conhecimento – disse ele, percebendo de imediato onde ela queria chegar. – Toda a vida fiz questão de usar camisas de Vénus – não apenas para evitar a conceção, mas também para prevenir o contágio de certas doenças. Perplexa perante a declaração, Evie murmurou: – Ca-camisas de Vénus? O que são? E como assim, certas doenças? Está a querer dizer que ao fazermos… aquilo… podemos ficar doentes? Mas como é que… – Louvado seja Deus! – murmurou Sebastian, num tom incrédulo. Levou-lhe os dedos aos lábios para impedir um chorrilho de perguntas e disse apenas: – Explico-lhe tudo mais tarde. Não é propriamente um assunto digno de ser discutido à porta de estranhos. A aparição de Cam Rohan impediu Evie de fazer mais perguntas. Ao vê-la, um subtil sorriso surgiu na cara dele e fez uma vénia cortês. Mesmo sendo os seus movimentos e atitudes discretos, parecia haver nele um certo rasgo, uma sugestão de carisma físico. Era de longe o melhor croupier


do Jenner’s, embora o seu aspeto – o de um jovem pirata – não levasse ninguém a suspeitá-lo. Tinha, mais ou menos, vinte e cinco anos e um corpo que apresentava a esbelteza de um jovem adulto. A sua compleição escura e a cor do cabelo, de um negro profundo, traíam a sua etnia, para já não falar do primeiro nome, muito vulgar nos ciganos. Evie sempre gostara daquele rapaz insinuante, cuja devoção feroz ao seu pai tinha sido demonstrada muitas vezes ao longo dos anos. Cam estava bem vestido, de fato escuro e sapatos engraxados, mas, como de costume, o seu cabelo estava comprido de mais, com os espessos caracóis negros ondeando sobre o rígido colarinho branco. E os dedos finos e compridos ostentavam alguns anéis de ouro. Quando ele ergueu o rosto para ela, Evie viu brilhar um diamante numa das orelhas – um toque exótico que lhe assentava bem. Cam olhava-a com aqueles extraordinários olhos dourados que, por vezes, levavam certas pessoas a não contarem com o espírito sagaz por trás deles. Outras vezes, o seu olhar era tão penetrante que parecia trespassar as pessoas, como se estivesse a ler o que lhes ia na mente. – Gadji – disse Cam baixinho, numa versão carinhosa do termo que os ciganos davam a uma mulher não cigana. Cam tinha um sotaque peculiar: culto, mas com traços de londrino popular e uma espécie de ritmo diferente, tudo misturado num resultado invulgar. – Bem-vinda – disse ele, com um sorriso curto mas radioso. – O seu pai vai ficar feliz por vê-la. – Obrigada, Cam. Eu estava… com medo que ele já ti-tivesse… – Não – murmurou Cam, entristecido. – Ainda está vivo. – Hesitou antes de acrescentar: – Ele está a dormir a maior parte do tempo. Não quer comer. Julgo que não vai durar muito… Tem perguntado por si. Tentei mandá-la chamar, mas… – Os Maybricks não deixaram – murmurou Evie, com a boca tensa de raiva. Não se tinham dado ao trabalho de lhe dizer que o pai chamara por ela. E Joss Bullard tinha-lhe mentido. – Sabes… eu afastei-me deles, Cam. Casei. E aqui hei de fi-fi-ficar até ao meu pai… não preprecisar mais de mim. O olhar de Cam desviou-se para a expressão impassível de Sebastian. Foi claro que o reconhecera. E murmurou: – Lord St. Vincent… Se tinha alguma opinião acerca da união de Evie com um homem daqueles, não a revelou minimamente. Evie tocou na manga de Cam. – O meu pai estará acordado? Posso subir para o ver? – Claro. O cigano tomou ambas as mãos dela nas suas; os anéis de ouro estavam tépidos nas suas mãos. – Vou assegurar-me de que ninguém interfira. – Obrigada. De repente, Sebastian estendeu a mão entre eles e puxou para si umas das mãos de Evie, pousando-a resolutamente sobre o seu próprio braço. Embora tudo se tivesse passado de um modo


natural, a pressão firme dos seus dedos garantia que ela não iria tentar esquivar-se. Admirada por aquela demonstração de posse, Evie franziu o sobrolho. – Eu conheço o Cam desde a minha infância – disse ela, incisivamente. – Sempre foi como um irmão para mim. – Um marido gosta sempre de saber dos gestos de amizade para com a sua mulher – disse Sebastian, calmamente. – Até certo ponto, é claro. – Claro – murmurou Cam. E dirigindo-se a Evie: – Quer que eu a acompanhe lá acima, my lady? – Não é ne-necessário, eu conheço o ca-caminho. Podes voltar ao que estavas a fa-fazer. Cam fez nova vénia, trocando um olhar rápido com Evie, ambos fazendo entender, tacitamente, que iriam encontrar uma oportunidade para falarem mais tarde. – Não gosta dele por ser cigano? – perguntou Evie ao marido, a caminho das escadas. – Só raramente não gosto das pessoas por coisas que elas não podem mudar – disse ele, sarcástico. – Mas, em geral, elas fornecem-me motivos suficientes para não me agradarem, por outras razões. Ela tirou a mão do braço dele para segurar na saia. – Onde estará o gerente? – continuou Sebastian, pondo a mão na parte de trás da cintura dela ao começarem a subir as escadas. – Já estamos no princípio da noite. A sala de jogos e a sala de jantar estão abertas – ele devia andar por aí. – Ele… tem um problema com a bebida – comentou Evie. – Isso explica tudo acerca do modo como este clube é gerido. Sensível a qualquer comentário desagradável acerca do clube do pai – e desconfortável pela pressão da mão dele nas suas costas – Evie mordeu a língua para não responder rispidamente. Era fácil para um fidalgo mimado criticar o modo como agia um profissional. Se tivesse de gerir ele próprio um sítio daqueles – longe vá o agouro! – teria mais respeito pelo que o seu pai conseguira. Subiram até ao segundo andar e seguiram por uma galeria que dava a volta completa àquele espaço. Olhando sobre a balaustrada tinha-se uma vista completa do andar principal. Essa área, a maior do clube, estava dedicada inteiramente aos jogos de azar. Três mesas ovais, cobertas de feltro verde, marcado com riscas amarelas estavam rodeadas por dezenas de homens. Os sons que chegavam lá acima – o constante chocalhar dos dados, as exclamações baixas, mas intensas, de jogadores e croupiers, o deslizar suave das pazinhas de madeira recolhendo o dinheiro da mesa – eram algumas das recordações mais antigas e vívidas da infância de Evie. Ela voltou a ver a magnífica secretária esculpida no canto da sala onde o pai costumava sentar-se, aprovando créditos, concedendo cartões de sócio temporários e engrossando a banca de apostas, quando as jogadas de uma noite excediam o expectável. Naquele momento a secretária estava ocupada por um homem um tanto maltrapilho que ela nunca tinha visto. Ao olhar para o canto oposto, viu outro desconhecido que agia como supervisor geral, regulando os pagamentos e controlando o ritmo do jogo. Sebastian parou, olhando para baixo com uma expressão invulgarmente atenta. Ansiosa por ver o pai, Evie puxou-lhe o braço com impaciência. Mas ele não se mexeu. De facto, parecia mal dar por


ela, absorto nas atividades do piso inferior. – O que foi? – indagou Evie. – Está a ver qualquer coisa de estranho? Algo de errado? Abanando levemente a cabeça, Sebastian deixou de observar o salão principal. Olhou em volta, reparando nos painéis desbotados nas paredes, os frisos esbeiçados, os tapetes puídos. Em tempos, o Jenner’s apresentara-se luxuosamente decorado, mas à medida que os anos tinham passado, perdera muito do seu brilho. – Quantos sócios tem o clube atualmente, faz ideia? – perguntou. – Não contando com os membros temporários. – Costumava haver à volta de dois mil – respondeu Evie. – Não sei como é agora. – Puxou-lhe de novo pelo braço: – Quero ver o meu pai. Se tiver de ir sozinha… – Não vai sozinha a parte alguma – disse ele, fulminando-a com um olhar que a assustou. Os olhos dele eram como pedras de lua reluzentes. – Podia ser arrastada para um dos quartos de rebaldaria por um bêbedo qualquer – ou um empregado, porque não? – e ser violada antes que alguém se apercebesse da sua ausência. – Aqui estou em completa segurança – respondeu ela, irritada. – Ainda reconheço muitos dos empregados e conheço as entradas e saídas desta casa muito melhor do que o senhor! – Não por muito tempo – murmurou ele, e o seu olhar regressou quase compulsivamente ao andar de baixo. – Vou esquadrinhar esta casa polegada a polegada. Hei de ficar a conhecer todos os seus segredos. Surpreendida por aquela declaração, Evie olhou-o, perplexa, apercebendo-se de subtis mudanças nele desde que haviam entrado no clube… mas não sabendo como interpretar aquela estranha reação. O seu habitual modo lânguido fora substituído por uma inusitada vigilância, como se estivesse a observar a energia da atmosfera do clube. – Está a olhar o clube como se nunca o tivesse visto – observou ela. St. Vincent passou os dedos pelo corrimão, olhou a nódoa de pó resultante e sacudiu-a com uma expressão agora mais contemplativa do que crítica, respondendo: – Parece diferente, agora que é meu. – Ainda não é seu – respondeu Evie, rispidamente. Percebeu que ele devia estar a avaliar o espaço para uma venda futura. Era mesmo típico dele, pensar em dinheiro enquanto o pai dela jazia no seu leito de morte! – Nunca pensa em ninguém que não em si? A pergunta pareceu tirá-lo da sua absorção e o seu olhar tornou-se inescrutável. – Raramente, minha linda. Olharam-se um ao outro, os olhos de Evie acusatórios, os dele opacos, e ela percebeu que esperar dele um pouco de decência seria expor-se a um desapontamento constante. Aquela alma danificada jamais poderia ser restaurada por nenhuma benevolência ou compreensão da parte dela. Ele nunca se tornaria num daqueles libertinos convertidos que figuravam nos romances escandalosos que Daisy


Bowman secretamente colecionava. – Espero que entre na posse de tudo o que lhe interessa o mais breve possível – disse ela, com frieza. – Entretanto, vou ao quarto do meu pai. Desandou galeria fora sem esperar por ele, forçando-o a dar alguns passos largos para se juntar a ela. Ao chegarem ao apartamento privado que Ivo Jenner ocupava, Evie ouvia o seu sangue a circular loucamente nos ouvidos. O medo e a saudade, em partes iguais, faziam-na sentir as palmas das mãos húmidas e um vazio no estômago. Ao levar a mão à maçaneta da porta, a palma escorregou-lhe no bronze baço. – Dê-me licença – disse Sebastian, bruscamente, empurrando a mão dela para o lado. Abriu a porta, segurando-a para ela entrar, e seguiu-a pelo pequeno átrio de entrada, às escuras. A única luz vinha da porta aberta do quarto, onde uma pequena lamparina fornecia uma claridade apática. Ao chegar à porta do quarto Evie parou, piscando os olhos para se adaptar àquela atmosfera sombria. Mal dando conta da presença do homem a seu lado, aproximou-se da cama. O pai dormia, de boca entreaberta, a pele pálida brilhando com uma estranha delicadeza, como se ele fosse uma figura de cera. Linhas profundas cruzavam-lhe o rosto, dando às suas faces a aparência de persianas. Tinha metade do tamanho que outrora tivera, os braços apresentavam-se impressionantemente esqueléticos e toda a sua forma parecia mirrada. Evie lutou para reconhecer naquele estranho vulto franzino a imponente forma corpulenta que ela sempre conhecera. Uma ternura misturada de desgosto invadiu-a ao ver aquele cabelo ruivo, agora fortemente invadido pela cor de prata, por vezes espetado no ar como as penas eriçadas de um passarinho recém-nascido. O quarto cheirava a velas queimadas, a remédio e a pele mal lavada. Cheirava a doença e a morte próxima. Ela viu a um canto uma pilha de roupa de cama enxovalhada e um monte de lenços amachucados e sujos de sangue no chão. A mesa de cabeceira estava coberta por uma porção de colheres sujas e frascos de remédio de vidro colorido. Evie baixou-se para apanhar do chão alguma roupa suja, mas Sebastian agarrou-lhe no braço. – Não tem de fazer isso – sussurrou-lhe. – Uma das criadas encarregar-se-á do que há a fazer. – Pois – murmurou Evie, amargurada. – Estou a ver o belo trabalho que elas têm estado a fazer. Sacando abruptamente o braço da mão dele, apanhou do chão os lenços e largou-os sobre a pilha de roupa suja. Sebastian aproximou-se da cama e olhou o vulto definhado de Jenner. Pegou num dos frascos de remédio, passou-o sob o nariz e murmurou: – Morfina… Por qualquer razão obscura, Evie irritou-se ao vê-lo junto do pai indefeso, examinando os seus medicamentos. – Tenho tudo sob controlo – disse ela, em voz baixa. – Agora gostava que me deixasse só. – O que é que pretende fazer?


– Vou arrumar o quarto e mudar a roupa de cama. E a seguir vou… ficar aqui sentada junto dele. Aqueles olhos de um azul pálido estreitaram-se. – Deixe dormir esse pobre diabo. A senhora precisa de comer e de mudar essas roupas de viagem. Que bem pensa que lhe está a fazer ao ficar aqui sentada às escuras e… – Calou-se, murmurando uma praga ao ver a expressão obstinada dela. – Muito bem. Dou-lhe uma hora e depois vai partilhar uma refeição comigo. – Quero ficar com o meu pai – disse ela, sem rodeios. – Evie… A voz dele era baixa, mas continha uma nota inflexível de aviso que fez os nervos dela formigarem de receio. Ele aproximou-se, virou-lhe o corpo rígido para si com o mais leve toque de advertência, obrigando-a a olhá-lo. – Quando eu a mandar chamar, a senhora vem. Estamos entendidos? Evie sentiu-se estremecer de afronta. Ele pronunciara aquela ordem como se fosse dono dela. Meu Deus, ela, que tinha passado a vida inteira a ter de obedecer às ordens de tias e tios, tinha agora de se submeter ao marido?! Contudo, para ser justa, Sebastian ainda estava longe de igualar os esforços combinados dos Maybricks e dos Stubbins para lhe tornar a vida insuportável. E não se podia chamar disparatada nem cruel à sua exigência de que ela tomasse uma refeição com ele. Engolindo a sua revolta, Evie conseguiu esboçar um aceno de cabeça afirmativo. No olhar que ele lançou sobre o rosto extenuado dela, havia um estranho brilho, como as chispas que saltam do martelo de um ferreiro ao encontrar a chapa de metal fundido. – Bonita menina… – murmurou ele, com um sorriso trocista, saindo do quarto.


Capítulo 8

Por instantes, Sebastian sentiu-se tentado a deixar Evie no clube e dirigir-se à sua própria morada, a pouca distância a pé da St. James. Era difícil resistir à tentação da sua casa confortável, com canalização moderna, copa e despensa bem abastecidas. Só desejava jantar na sua mesa e descansar diante da lareira, vestido com um dos seus roupões de seda, forrados a veludo, que o esperavam no roupeiro do seu quarto. Raios partissem aquela mulher teimosa! Deixá-la-ia decidir pela sua cabeça e aprender a viver com as consequências… Contudo, ao vaguear discretamente pela galeria do segundo andar, tendo o cuidado de evitar ser visto pelos que se movimentavam no atarefado andar principal, Sebastian apercebeu-se de estar a ser dominado por uma curiosidade inoportuna que ele não podia negar. De mãos negligentemente enfiadas nos bolsos, encostado a uma coluna, observou os croupiers em plena ação, dando-se conta dos esforços displicentes do supervisor geral para dirigir o jogo e fazer seguir tudo a um ritmo satisfatório. Em todas as mesas de jogo, a atividade parecia um tanto apática. Era necessário haver alguém que mexesse as coisas e criasse uma atmosfera própria para animar os hóspedes a um jogo mais alto e mais rápido. As desmazeladas raparigas da casa passeavam-se preguiçosamente pela sala, parando para conversar com os frequentadores. Tal como as refeições no bufete da sala de jantar e o consumo na cafetaria sala de café do andar inferior, as mulheres constituíam uma prerrogativa grátis dos membros do clube. Sempre que um homem precisava de uma acompanhante para o consolar ou festejar, as prostitutas acompanhavam-no a um dos vários quartos dos andares superiores, reservados para esse efeito. Descendo até à sala de jogos de cartas, junto à cafetaria, Sebastian examinou o ambiente, apercebendo-se de que havia pequenos mas reveladores sinais de declínio daquele negócio. O visconde calculou que quando Jenner adoecera, não tivera ocasião de nomear um substituto de confiança. O seu faz-tudo, Clive Egan, revelara-se inapto ou desonesto – ou ambas as coisas. Sebastian tencionava ver os livros de contabilidade, os registos de despesas e receitas, as fichas


confidenciais dos membros, onde constavam os seus registos financeiros, e inteirar-se, igualmente, dos valores das rendas, hipotecas, empréstimos, créditos e dívidas daquela casa – tudo o que pudesse contribuir para um retrato completo do estado de saúde do clube. Ou falta dela. Ao dirigir-se de novo à escada, viu Rohan, o cigano, à espera num canto sombrio, assumindo uma expressão descontraída. Sebastian permaneceu estrategicamente calado, forçando o rapaz a falar primeiro. Rohan aguentou o olhar, dizendo com meticulosa cortesia: – Em que posso ajudá-lo, my lord? – Pode começar por me dizer onde está o Egan. – Está no quarto, my lord. – No quarto?… Em que circunstâncias? – Indisposto. – Ah – disse Sebastian, num tom calmo. – E ele está… indisposto com frequência, Rohan? O cigano não respondeu e os seus olhos amendoados mantinham-se na expectativa. – Quero a chave do escritório dele – disse Sebastian. – Tenciono dar uma olhadela pelos livros de contabilidade. – Há apenas uma chave, my lord – disse Rohan, observando-lhe a reação. – E é Mr. Egan que a traz sempre consigo. – Então vá-ma buscar. As sobrancelhas do rapaz ergueram-se quase impercetivelmente. – Deseja que eu vá… roubar um homem que está bêbado? – É muito mais fácil do que esperar que ele esteja sóbrio – salientou St. Vincent, ironicamente. – E não se trata de roubo, já que a chave é, para todos os efeitos, minha. O rosto do jovem endureceu: – A minha lealdade está com Mr. Jenner. E com a filha dele. – O mesmo se passa comigo – declarou Sebastian. O que não era verdade, claro. A maior parte da lealdade dele estava reservada para si próprio. Evie e o pai eram, respetivamente, um distante segundo e terceiro nome na lista. – Traga-me a chave ou prepare-se para seguir as pegadas do Egan, quando ele sair daqui amanhã de manhã. O ar estava carregado de desafio masculino. Após um momento, Rohan lançou-lhe um olhar de aversão, misturado com uma curiosidade relutante. Quando cedeu, dirigindo-se às escadas com passos largos e fluidos, não foi por obediência medrosa, mas pelo desejo de observar o que Sebastian ia fazer a seguir. Quando Sebastian despachou Cam Rohan com a ordem de trazer Evie para baixo, ela já arrumara o quarto do pai e assegurara-se do auxílio relutante de uma criada para mudarem a roupa de cama. Os lençóis estavam húmidos de suores noturnos. Embora o pai se movesse resmungando quando elas o fizeram rolar cuidadosamente, primeiro para um lado e depois para o outro, não acordou da sua


letargia, induzida pela morfina. O seu corpo de pele e osso, embrulhado nas pregas da camisa de noite, espantou Evie pela sua leveza. Dominava-a um sentimento de proteção e piedade angustiada, enquanto puxava os lençóis e cobertores lavados até ao peito do pai. Com uma toalha humedecida refrescou-lhe a testa. Ele suspirou, abrindo finalmente os olhos – que não passavam de fendas escuras e brilhantes entre os sulcos do seu rosto. Durante algum tempo o pai olhou-a sem compreender, até que um sorriso lhe esticou os lábios gretados, revelando os dentes manchados de tabaco. – Evie… – murmurou, numa espécie de grasnido lúgubre. Evie inclinou-se até ele, sorrindo enquanto o nariz e os olhos lhe ardiam com lágrimas que se esforçava por reter. – Estou aqui, pai – sussurrou-lhe ela. E depois, as palavras que desejara poder dizer durante toda a vida: – Estou aqui e nunca o vou deixar. Ele soltou um murmúrio satisfeito e fechou os olhos. Quando Evie julgava que ele adormecera, murmurou: – Para onde vamos passear hoje, querida? Vamos à padaria, aposto… Percebendo que o pai imaginava tratar-se de uma das suas longínquas visitas de criança, Evie respondeu baixinho: – Oh sim… – E, limpando rapidamente os olhos com as costas da mão, acrescentou: – E vou querer um pãozinho doce… e um saquinho de biscoitos… e depois quero voltar para aqui e jogar aos dados consigo. Uma risadinha saiu-lhe da garganta e ele tossiu um pouco. – Deixa o papá dormir um bocadinho antes de sairmos… e depois… – Sim, papá, durma… – murmurou ela. – Eu posso esperar. Ao vê-lo cair de novo no seu sono de drogado, ela engoliu as lágrimas que lhe restavam na garganta e procurou relaxar-se na cadeira ao lado da cama. Não havia outro lugar no mundo onde ela desejasse estar. Deixou-se descair um pouco e os ombros afundaram-se-lhe como se fosse uma marioneta cujos fios tivessem sido cortados. Era a primeira vez que ela se sentia útil e que a sua presença parecia ser importante para alguém. Embora o estado do seu pai a angustiasse terrivelmente, sentia-se grata por poder estar com ele naquelas últimas horas de vida. Não haveria tempo para chegar a conhecê-lo – seriam sempre estranhos um para o outro – mas era mais do que ela sempre esperara ter. Um bater à porta veio interromper os seus pensamentos. Levantou os olhos para ver Cam. Tinha os braços cruzados no peito, numa falsa postura de ociosidade. Evie ofereceu-lhe uma breve imitação de um sorriso, dizendo: – Su-suponho que foi ele que te mandou bus-buscar-me? Não havia necessidade de definir quem era ele. – Quer que vá jantar com ele numa das salas de jantar privadas. Evie abanou a cabeça com um sorriso cínico.


– Ouço e obedeço – murmurou ela, numa paródia de esposa obediente e submissa. Levantou-se e foi ajustar os cobertores sobre os ombros do pai. Cam não se afastou da porta quando ela se aproximou. Era mais alto do que o comum dos homens, mas não tão alto quanto Sebastian. – Como acabou casada com Lord St. Vincent? – perguntou ele. – Eu conheço a sua situação financeira – estivemos quase a recusar-lhe crédito na última vez que cá esteve. Foi ter consigo para negociar o casamento? – Como sabes que não é um casamento por amor? – troçou Evie. Ele respondeu com um olhar cínico: – A única história de amor é entre St. Vincent e ele próprio. Evie fez um esforço para disfarçar um sorriso ao responder, algo nervosa: – A verdade é que fui eu que f-fui ter com ele. Era a única ma-maneira de escapar aos Maybricks de uma v-v-vez por todas. – O sorriso desapareceu-lhe com a menção dos seus parentes. – Eles já cá vieram des-desde que eu desapareci, Cam? – Sim. Vieram ambos os seus tios. Tivemos de os deixar revistar o clube de uma ponta à outra para se convencerem de que não estava aqui escondida. – C’um caneco! – disse Evie, adaptando a praga favorita de Daisy Bowman. – A seguir aposto que vão ter com os meus amigos… Os Hunts, os Bowmans… E a no-notícia de que eu desapareci vai preocupá-los. Contudo, saber a verdade do que ela fizera ainda os preocuparia mais. Angustiada, puxou para trás o cabelo despenteado e abraçou-se a si mesma, desanimada. Ia ter de mandar recado a Annabelle e Daisy, dizendo que estava bem. Quanto a Lillian, que andava em viagem pelo Continente, não teria ouvido certamente a notícia do seu desaparecimento. Fica para amanhã, pensou. No dia seguinte resolveria o problema das repercussões da sua vergonhosa evasão. Pensou em atrever-se a mandar alguém a casa dos tios buscar o resto das suas roupas… ou se haveria alguma hipótese de eles a deixarem recuperá-las. Provavelmente não. Mais coisas para a sua crescente lista de assuntos pendentes… teria de arranjar roupa e calçado o mais breve possível. – Assim que os meus tios descobrirem que eu estou aqui – disse ela –, vão apa-parecer para me levarem. Até podem tentar anular o ca-casamento e eu… – Evie parou para engolir em seco. – Receio muito o que me po-possa acontecer, se for obrigada a ir c-com eles, – Mas… St. Vincent irá opor-se, certamente? – disse Cam, pousando uma mão no ombro dela para a sossegar. Era um gesto inocente, a palma da mão dele tocando na curva frágil da clavícula dela, mas bastou para a acalmar um pouco. – Sim, se cá estiver. Se não estiver em-embriagado. Se conseguir… – Ela olhou-o com um sorriso triste. – Se… e se…


– Eu estarei cá – murmurou Cam. – E estarei sóbrio e vou conseguir. Mas porque cuida que não poderá confiar em St. Vincent? – Trata-se de um casamento de conveniência. Não tenho ilusões de se-sequer lhe pôr a vista em cima, assim que ele entrar na po-posse do meu dote. Já me disse, até, que tem ma-mais que fazer do que ficar num clube de meia ti-tigela a aguardar que… que… Hesitou, olhando por cima do ombro para a cama do pai. – Quem sabe não terá mudado de ideias? – sugeriu Cam, levemente trocista. – Assim que eu lhe providenciei a chave do escritório, tratou logo de sacar dos livros-razão para os examinar, página a página. Assim que terminar, terá certamente analisado minuciosamente o clube inteiro. Evie arregalou os olhos perante aquela informação. – Mas de que diabo andará ele à procura? – indagou, mais a si própria do que a ele. Sebastian estava a comportar-se de forma inexplicável. Não havia razão para ele querer perscrutar a contabilidade do clube com tanta urgência, tendo acabado de chegar de uma longa e extenuante viagem. Nada iria mudar durante a noite. Ela lembrou-se da expressão compulsiva do seu olhar quando ambos observavam a atividade do salão de jogo, bem como o seu murmúrio: Vou esquadrinhar esta casa polegada a polegada. Hei de ficar a conhecer todos os seus segredos. Como se aquilo fosse mais do que um mero edifício cheio de tapetes desbotados e mesas de jogo. Intrigada, Evie seguiu Cam através de uma série de átrios e corredores mal iluminados que davam acesso às salas de jantar dos andares inferiores. Como era hábito na maior parte dos clubes de jogo, o Jenner’s tinha a sua cota parte de locais secretos – onde esconder-se, onde observar sem ser visto, onde fazer passar, clandestinamente, pessoas e objetos. Cam conduziu-a a uma saleta privada, abriulhe a porta e retirou-se com uma vénia quando ela se voltou para lhe agradecer. Ao entrar na sala, Evie ouviu a porta fechar-se subtilmente atrás de si. Sebastian estava instalado numa cadeira de braços – com a confiança relaxada de Lúcifer no seu trono – e servia-se de um lápis para tomar notas nas margens de um livro de contabilidade. Estava sentado a uma mesa carregada de pequenas travessas do bufete da sala de jantar. Desviando o olhar do livro-razão, Sebastian pô-lo de lado e levantou-se, afastando da mesa uma segunda cadeira. – Como está o seu pai? Evie respondeu cautelosamente, sentando-se na cadeira que ele lhe oferecia: – Acordou por um momento. Pareceu pensar que eu era uma menina pequena novamente… Ao ver uma travessa cheia de pedaços de aves de caça assados e outra com pêssegos e uvas de estufa, estendeu a mão para se servir. A sua fome avassaladora, acompanhada de cansaço, fez-lhe tremer as mãos. Ao vê-la em dificuldade, Sebastian transferiu para o prato dela alguns petiscos: ovinhos de codorniz, uma concha de aboborinhas cozidas, uma fatia de queijo, carnes frias, peixe e pão fresco. – Obrigada – disse Evie, cansada de mais para saber o que comia.


Levou o garfo à boca, mastigou qualquer coisa, fechando os olhos enquanto saboreava e engolia. Quando abriu os olhos, deu com o olhar de Sebastian fixo nela. Parecia tão exausto quanto ela, com olheiras profundas sob os olhos azuis. A pele sobre os malares parecia esticada e ele estava pálido sob a pele bronzeada pelo sol. A barba da noite, que geralmente crescia depressa, era uma sombra dourada. De certa maneira, o estado bruto do seu aspeto tornava-o ainda mais sedutor, emprestando uma textura máscula ao que, de outro modo, não passaria da perfeição gélida de uma estátua de mármore. – Ainda continua agarrada à ideia de ficar aqui? – perguntou ele, descascando habilmente um pêssego e retirando-lhe o caroço. Estendeu-lhe uma metade perfeita e dourada. – Oh, claro! Evie aceitou o pêssego e mordeu-o, sentindo o sumo agridoce escorrendo-lhe pela língua. – Era o que eu temia – replicou ele, secamente. – Mas sabe que é um disparate? Não tem ideia daquilo a que vai ficar exposta… as obscenidades e comentários soezes, os olhares libidinosos, as apalpadelas e beliscões… e isso em minha casa! Imagine o que seria aqui. Sem saber se havia de franzir a testa ou sorrir, Evie olhou-o com curiosidade. – Cá me hei de arranjar. – Com certeza, minha linda. Levando aos lábios um cálice com vinho, Evie bebeu-o sem tirar os olhos dele. – O que há nesse livro de contas? – Hmm… É uma verdadeira lição de registo criativo. Não ficará certamente surpreendida ao saber que o Egan tem exaurido as contas do clube. Vai rapando incrementos aqui e ali, em quantidades suficientemente pequenas para que os roubos passem despercebidos. Mas, no total, chegam a uma soma considerável. Deus sabe há quantos anos ele anda a fazê-lo. Até agora, todos os livros-razão que observei contêm inexatidões deliberadas. – Como pode ter a certeza de que são deliberadas? – Existe um padrão bem claro. – Folheou um dos livros e empurrou-o para junto dela. – O clube teve um lucro de aproximadamente vinte mil libras na terça-feira passada. Se se cruzar os números com o registo de créditos, depósitos bancários e gastos em numerário, logo se constatam as discrepâncias. Evie seguiu o dedo dele correndo ao longo das notas que tomara na margem. – Está a ver? Isto é o que deviam ser as quantias reais. Ele inflacionou as despesas generosamente. O preço dos dados de marfim, por exemplo. Mesmo contando com o facto de que os dados são apenas usados por uma noite e nunca mais, a despesa anual não deveria ultrapassar as duas mil libras, segundo o Rohan. A prática de utilizar dados novos em cada noite era comum em todos os clubes de jogo, de forma a afastar qualquer dúvida de poderem estar viciados. – E aqui… diz que se gastaram quase três mil libras em dados – murmurou Evie, apontando um


registo. – Exatamente – disse ele, recostando-se na cadeira e sorrindo preguiçosamente. – Eu enganei o meu pai da mesma maneira durante a minha juventude, quando ele me pagava uma mesada e eu precisava de mais dinheiro de bolso do que o que ele estava disposto a dispensar-me. – E para que é que precisava de mais dinheiro? – Evie não resistiu a perguntar. O sorriso alargou-se nos lábios dele. – Receio que a explicação necessite de uma dose de palavras que lhe seriam desagradáveis de ouvir. Espetando um ovinho no garfo, Evie meteu-o na boca. – E o que é que há a fazer com Mr. Egan? Ele encolheu leve e elegantemente os ombros. – Assim que estiver sóbrio bastante para conseguir andar, será dispensado. Evie afastou da face um fio de cabelo. – Mas… não temos ninguém para o substituir! – Temos sim. Até encontrarmos um gerente apropriado, serei eu a dirigir o clube. O ovo de codorniz atravessou-se-lhe na garganta e ela teve de pegar no copo e beber um pouco de vinho para o fazer escorregar. Finalmente olhou o marido, estupefacta. Como é que ele podia dizer uma coisa tão disparatada? – Isso não é possível! – Claro que é. Não posso ser pior do que o Egan. Há meses que ele não tem gerido coisíssima nenhuma… Em menos de um fósforo esta casa iria desmoronar-se sobre as nossas cabeças. – Mas… sempre me disse que detestava a ideia de trabalhar! – É verdade. Mas penso que devo experimentar pelo menos uma vez para ter a certeza. Ela estava tão aflita que começou a gaguejar: – Vai brin-brincar com isto durante uns di-dias e depois vai fi-fi-ficar farto! – Não posso dar-me ao luxo de me fartar, minha querida. Este clube ainda dá lucro, mas está em declínio. E o seu pai tem dívidas significativas a receber. Se as pessoas que lhe devem não conseguirem pagar em dinheiro, teremos de lhes extorquir propriedades, joias, obras de arte… o que elas tiverem disponível. E uma vez que detenho uma boa ideia do valor de todas essas coisas, poderei negociar os modos de pagamento. Mas há outros problemas… O seu pai apostou numa série de puros-sangues em Newmarket e perdeu uma fortuna. E também fez uns investimentos de loucura – por exemplo, investiu dez mil libras numa suposta mina de ouro em Flintshire – uma falcatrua que até uma criança teria descoberto. – Oh meu Deus… – murmurou Evie, esfregando a testa. – Ele tem estado doente, as pessoas aproveitam-se… – Pois. E agora, mesmo que quiséssemos vender o clube, não poderíamos – nunca antes de pôr as coisas em ordem. Se existisse uma alternativa, creia que a encontrava. Mas este clube é uma peneira


sem ninguém que seja capaz, ou tenha vontade, de tapar os buracos. Exceto eu. – O senhor não sabe nada sobre tapar buracos! – exclamou ela, estarrecida perante a arrogância dele. Sebastian respondeu com um sorriso afável e um ligeiríssimo arquear de sobrancelha. Mas antes que pudesse abrir a boca para responder, Evie tapou as orelhas com as mãos. – Ah! Não diga mais nada, por favor! Ao ver que ele se mantinha cortesmente calado, embora com um brilhozinho mefistofélico nos olhos, ela baixou, a medo, as mãos e indagou com um suspiro: – E se dirigisse este clube, onde é que contava dormir? – Aqui, evidentemente – foi a resposta prosaica. – Como assim, se eu fiquei com o único quarto de hóspedes disponível? – disse ela. – Todos os outros estão ocupados. E não, não vou partilhar a minha cama consigo. – Vários quartos vão ficar disponíveis a partir de amanhã. Tenciono mandar embora as raparigas da casa. A situação estava a mudar demasiado depressa para o titubeante cérebro dela poder seguir. O assumir de autoridade de Sebastian sobre o negócio do pai dela – e pelos vistos sobre todos os seus empregados – estava a tomar uma velocidade alarmante. Evie tinha a sensação enervante de ter trazido para o Jenner’s um gatinho domesticado e estava a vê-lo a transformar-se num possante tigre. E tudo o que ela podia fazer era observar, impotente, enquanto ele investia a torto e a direito. Mas talvez – pensou ela, desesperada –, se lhe permitisse agir à vontade durante uns dias, ele se cansasse da novidade. Entretanto, nada mais podia fazer senão tentar minimizar os estragos. – Está a pensar atirar para a rua as raparigas da casa? – perguntou ela, com uma calma forçada. – Vão ser dispensadas com uma soma generosa, como forma de recompensa pelo seu trabalho em prol do clube. – E pensa contratar novas raparigas? Sebastian abanou a cabeça. – Conquanto não tenha qualquer aversão moral pelo conceito de prostituição – de facto até sou completamente a favor – raios me partam se vou passar a ser conhecido como chulo! – Como… quê? – Chulo! Proxeneta! Alcoviteiro macho! Por amor de Deus, rapariga, enfiaram-lhe algodão nos ouvidos em criança? Nunca ouviu nada, nunca perguntou por que razão mulheres mal vestidas e de aspeto ordinário se pavoneavam pelo clube escada abaixo, escada acima a toda a hora? – Eu… só cá vinha durante o dia – disse Evie, com ar digno. – E apenas muito raramente as via trabalhar. Mais tarde, quando era suficientemente crescida para perceber o que elas faziam, o meu pai tratou de restringir ao máximo as minhas visitas. – Essa foi provavelmente uma das raras coisas acertadas que ele fez por si. – Sebastian mudou de assunto com um gesto impaciente. – Mas voltemos ao assunto em mãos… Não só não quero manter


prostitutas medíocres, como também não temos quartos para as acomodar. Em certas noites, quando todas as camas estão ocupadas, os sócios do clube são forçados a gozar os seus prazeres lá fora nos estábulos, c’os diabos! – A sério? – indagou ela, estarrecida. – Fa-fazem isso? – Pode crer. E naquele estábulo… arranha imenso. E tem muitas correntes de ar. Acredite. Sei-o por experiência própria. – Oh! – Contudo, há um bordel excelente duas ruas mais adiante. Tenho esperanças bem fundadas de conseguir chegar a um acordo com Madame Bradshaw, a patroa… Sempre que um membro do nosso clube desejar companhia feminina, só tem de se dirigir ao Bradshaw’s, aproveitar os seus serviços com desconto no preço e regressar aqui quando estiver… refrescado. Ele olhou-a, erguendo as sobrancelhas com um sorriso, como se esperasse que ela aprovasse a ideia. – O que é que acha? – Acho que continuaria a ser um… chulo – disse ela. – Só que por interposta pessoa. – A moralidade restringe-se à classe média, minha linda. As classes baixas não podem dar-se a esse luxo e as classes altas têm demasiado tempo livre para preencher. Evie abanava a cabeça lentamente, olhando para ele de olhos esgazeados. E nem sequer se mexeu quando ele se inclinou para lhe introduzir uma uva na boca aberta. – Não tem de dizer nada – murmurou ele, sorrindo. – É óbvio que está muda de gratidão com a ideia de me ter aqui para a proteger. Ela franziu o sobrolho, irritadíssima, o que o fez rir baixinho. – Se a sua preocupação é que eu possa ser dominado por um ardor masculino e violá-la num momento de fraqueza… tem razão. Posso. Se me pedir com bons modos. Evie espetou os dentes na polpa doce da uva e deitou fora as grainhas com um trejeito dos dentes e da língua. Observando a boca dela trabalhando sobre o fruto, o sorriso de Sebastian esmoreceu ligeiramente e ele recostou-se para trás. – Neste momento, é demasiado inexperiente para eu me dar a esse trabalho – continuou ele, friamente. – Talvez eu queira seduzi-la no futuro, depois de outros homens se darem ao trabalho de a educar. – Duvido – disse ela, mal-humorada. – Jamais seria burguesa ao ponto de dormir com o meu próprio marido. Ele soltou uma gargalhada: – Meu Deus! Deve ter estado à espera durante dias para poder atirar-me com essa…! Parabéns, criança. Ainda não estamos casados há uma semana e já está a aprender a lutar.


Capítulo 9

Evie nunca soube onde o marido tinha dormido naquela primeira noite, mas suspeitava que não tivesse sido num lugar confortável. Quanto a ela, o sono tinha sido tudo menos repousante. A preocupação tinha-a acordado com a regularidade de um relógio. Fora ver o pai várias vezes, dandolhe de beber, endireitando-lhe a roupa da cama, administrando remédios quando a tosse piorava. De cada vez que acordava, Jenner olhava a filha com uma surpresa renovada. – Estarei a sonhar? Estás aqui, princesinha? – perguntava ele. Ela respondia-lhe com um murmúrio, afagando-lhe o cabelo. Ao primeiro sinal da alvorada, Evie lavou-se, vestiu-se e prendeu o cabelo numa trança que enrolou na nuca. Chamou uma camareira e mandou vir ovos mexidos, caldo, chá e várias outras comidas de doente de que se lembrou, numa tentativa de vencer a falta de apetite do pai. As manhãs no clube eram calmas e silenciosas, pois a maior parte dos empregados dormia, após ter trabalhado até de madrugada. Mas havia sempre uma pequena equipa de criados para serviços ligeiros. Uma cozinheira ficava na cozinha após a partida do chef, preparando comida simples sempre que necessário. O som de uma farfalheira terrível vinha do quarto do pai. Evie correu para a cama e encontrou-o tossindo espasmodicamente para um lenço. Evie sentiu doerem-lhe os seus próprios pulmões ao ouvir as convulsões aflitivas do peito dele. Procurando entre os frascos sobre a mesa de cabeceira, encontrou o xarope de morfina, com o que encheu uma colher. Enfiou um braço por trás da cabeça suada e quente do pai, levantando-o para uma posição meio sentada. Chocada de novo, ao aperceberse de como ele estava leve, sentiu o corpo dele retesar-se quando tentava evitar um novo ataque de tosse, o que resultou num estremecimento da colher na sua mão e no derrame do xarope nas roupas da cama. – Oh pai, desculpe… – murmurou Evie, limpando o líquido pegajoso e enchendo de novo a colher. – Vamos tentar outra vez, papá. Ele conseguiu engolir o remédio, deixando ver o movimento das veias do pescoço sob a pele


exangue. A seguir, depois de alguma tosse residual, esperou, enquanto ela lhe entalava atrás das costas mais uma ou duas das almofadas de apoio. Evie fê-lo recostar-se, metendo-lhe na mão um lenço dobrado. Ao olhar para aquela cara emaciada, com a sua barba encanecida, tentava encontrar algum sinal do pai naquele desconhecido irreconhecível. Sempre tivera um rosto largo, robusto, corado… nunca conseguira manter uma conversa sem o uso expressivo das mãos, formando punhos, socando o ar, gesticulando do modo particular dos antigos boxeurs. Agora era uma pálida sombra do que fora, a pele das faces cinzenta e flácida, pela rápida perda de peso. Contudo, aqueles olhos azuis estavam na mesma… redondos e profundos, da cor do mar da Irlanda. Tranquilizada pela familiaridade daqueles olhos, Evie sorriu. – Mandei vir o pequeno-almoço – murmurou. – Deve estar a chegar. Jenner sacudiu ligeiramente a cabeça, indicando que não desejava comer. – Oh sim, papá… – insistiu Evie, sentando-se na cama ao lado dele. – Tem de comer alguma coisa. Pegando na ponta de uma toalha, limpou uma gota de sangue no canto da boca dele. Uma ruga acentuou-se-lhe entre as sobrancelhas. – E os Maybricks? – disse ele, num tom irritado. – E se eles te vêm buscar, Evie? Ela sorriu com uma satisfação implacável: – Deixei-os de vez. Há alguns dias fugi para Gretna Green e ca-casei-me. Agora já não têm poder nenhum sobre mim. – Com quem? – perguntou Jenner, de olhos esbugalhados. – Lord St. Vin-Vincent. Ouviu-se bater à porta e entrou a camareira, com um tabuleiro cheio de iguarias várias. Evie levantou-se e foi ajudá-la, libertando a mesa de cabeceira de algumas coisas. Viu o pai desviar a cara ao cheiro da comida e reagiu por simpatia: – Desculpe, papá. Vai ter de tomar um pouco de caldo, pelo menos. Pôs-lhe um guardanapo por cima do peito e levou uma chávena de caldo quente aos lábios dele. Ele bebeu uns goles e voltou a recostar-se, estudando o rosto dela, enquanto lhe limpava a boca. Percebendo que o pai esperava que ela o pusesse a par da situação, Evie sorriu pedindo desculpa antecipadamente. Já tinha pensado no assunto e concluído que não precisava inventar um caso de amor para seu benefício. O pai era um homem prático a quem, provavelmente, nunca ocorrera que a filha casasse por amor. Do seu ponto de vista, uma pessoa levava a vida como ela era, fazendo o que era necessário para sobreviver. Se, pelo caminho, encontrasse qualquer coisa de agradável, devia-se aproveitar e não queixar-se mais tarde, quando chegasse a altura de pagar o preço. – Quase ninguém sabe do casamento, ainda – disse ela. – Não é um mau partido. Entendemo-nos razoavelmente e… eu não tenho ilusões acerca dele. Jenner abriu a boca e ela enfiou-lhe uma colher de gemada. O pai ficou a meditar naquela informação, enquanto engolia, e a seguir arriscou:


– O pai dele, o Duque, é um cabeça de vento que não sabe onde tem a cara. – Lord St. Vincent, contudo, é um homem bastante inteligente, pai. – Um tipo frio… – observou Jenner. – Sim. Mas nem sempre. Quer dizer… Ela parou de repente, corando ao lembrar-se de Sebastian erguendo-se sobre ela na cama, do seu corpo rijo e quente, dos músculos das costas movendo-se sob os seus dedos… – É um mulherengo inveterado, isso sim – comentou Jenner, num tom desprendido. – Isso não me interessa – replicou Evie, no mesmo tom. – Nunca lhe pediria fi-fidelidade. Já tenho o que quero do casamento. E quanto ao que ele quer… – O que ele quer sei eu… – disse o pai, sem rancor. – Onde é que ele está agora? Evie deu-lhe mais uma colherada. – Ainda está na cama, de certeza. A criada, que ia a sair do quarto, parou à porta. – Perdão, mas não ‘tá a dormir, Miss… quer dizer, my lady. Lord St. Vincent acordou Mr. Rohan logo ao romper do dia e anda com ele d’um lado pró outro, a fazer perguntas e a dar-lhe listas de recados. Mr. Rohan está pior c’uma barata! – Lord St. Vincent tem esse efeito sobre as pessoas – disse Evie, secamente. – Listas de quê? – perguntou Jenner. Evie não se atrevera a admitir que Sebastian se propusera interferir na gerência do clube, algo que ela sabia que iria irritar o pai. Saber que a filha casara sem amor era algo que ele admitia sem reservas, mas qualquer coisa que tivesse relacionado com o seu negócio, iria ser motivo de grave preocupação. – Oh – disse ela, vagamente –, acho que encontrou um pedaço de carpete que precisa de ser substituída. E teve uma ideia para melhorar o menu. Esse género de coisas… – Hmm… – Jenner franziu o sobrolho, enquanto Evie lhe levava novamente à boca uma colherada de caldo. – Diz-lhe para não tocar em nada sem autorização do Egan. – Sim, papá… Evie trocou disfarçadamente um olhar com a criada, avisando-a de que não desse mais informações. Compreendendo a ordem, a criada fez uma vénia e saiu. – Não estás tão gaga como dantes – disse o pai. – Porque será, cabecinha de cenoura? Evie considerou a pergunta, consciente de que a sua gaguez tinha, de facto, melhorado consideravelmente durante a última semana. – Não sei bem. Acho que talvez o facto de estar afastada dos Maybricks pode ter-me feito sentir… mais calma. Reparei nisso logo que saímos de Londres. Passou depois a fornecer-lhe uma versão expurgada da sua viagem de ida e volta a Gretna Green, provocando no pai algumas risadas que o fizeram tossir. À medida que iam conversando, ela assistia


ao relaxamento da face do pai, graças ao efeito benéfico da morfina sobre as dores. Ela comeu uma torrada em que ele não tocara, bebeu uma chávena de chá e colocou a bandeja do pequeno-almoço junto à porta. – Papá – disse ela, resoluta – antes de adormecer vou ajudá-lo a lavar-se e a fazer a barba. – Não é preciso – disse ele, com uma expressão vaga, já do efeito da morfina. – Deixe-me cuidar de si – insistiu ela, dirigindo-se ao lavatório onde a criada deixara um jarro de água quente. – Verá que vai dormir melhor, com certeza. Mas ele estava demasiado cansado para discutir. Apenas suspirou e tossiu, vendo-a trazer um recipiente de porcelana e os objetos para a barba até à mesa de cabeceira. Evie entalou-lhe uma toalha em redor do peito e da base do pescoço. Nunca tendo barbeado um homem e começou por pegar no pincel, humedeceu-o na água e mergulhou-o, hesitante, na tigela com sabão. – Uma toalha quente antes, princesa – murmurou Jenner. – Para amolecer esta lanugem. Seguindo as instruções do pai, Evie molhou outra toalha na água quente e espremeu-a, aplicandoa suavemente sobre as faces e pescoço dele. Após um minuto, levantou a toalha e usou o pincel com o sabão de um lado do queixo. Decidindo barbear-lhe a cara secção por secção, abriu a navalha, observou-a com alguma desconfiança e curvou-se, cuidadosamente, sobre o pai. Antes que a navalha lhe tocasse no rosto, ouviu-se uma voz trocista vinda da porta. – Santo Deus! Olhando sobre o ombro, Evie descobriu Sebastian, que não se dirigia a ela, mas ao pai. – Hesito entre louvar a sua coragem ou perguntar se o senhor está bom da cabeça, ao deixar que ela se aproxime de si com essa lâmina! – Aproximou-se da cama e estendeu a mão para Evie: – Dême cá isso, minha linda. Da próxima vez que o seu pai tossir, vai decepar-lhe o nariz. Evie entregou-lhe a navalha, sem hesitação. Apesar da falta de sono, o marido parecia-lhe hoje muito mais em forma. Estava imaculadamente barbeado, cabelo lavado e penteado em camadas brilhantes. O corpo esbelto estava vestido com um fato de corte impecável, o casaco feito de uma fazenda negro-antracite que lhe valorizava o tom de pele dourado. E, tal como ela notara na noite anterior, desprendia-se dele uma sensação de energia vital, como se ele estivesse animado apenas pelo facto de estar no clube. O contraste entre os dois homens, um tão mirrado e doente, o outro tão robusto e saudável, era chocante. À medida que Sebastian se aproximava do seu pai, Evie experimentava uma vontade instintiva de se colocar entre os dois. O seu marido lembrava-lhe um predador aproximando-se da sua presa indefesa para acabar com ela. – Alcance-me o assentador de navalhas, querida – disse-lhe Sebastian, com um leve sorriso. Ela virou-se para obedecer ao pedido e, quando voltou do lavatório, já ele tinha tomado o lugar dela à beira do leito. – Devemos sempre afiar a navalha antes e depois do escanhoar – murmurou Sebastian, movendo a lâmina aberta sobre a tira de couro, para cá e para lá.


– Parece-me já bastante afiada – disse Evie, duvidosa. – Nunca pode estar afiada de mais, minha pomba. Ensaboe-lhe todo o rosto antes de começar. O sabão é que amolece a barba. Afastou-se enquanto ela espalhava a espuma na cara do pai; depois afastou-a levemente para se sentar no colchão. Brandindo a navalha, perguntou a Jenner: – Permite-me? Para espanto de Evie, o pai acenou com a cabeça, parecendo não ter quaisquer dúvidas em permitir que Sebastian o escanhoasse. Evie mudou-se para o outro lado da cama para ver melhor. – Deixe que a navalha faça o trabalho – disse Sebastian – em vez de usar pressão com a sua mão. Barbeie no sentido do pelo, na direção em que ele cresce, assim… E tenha cuidado de nunca passar a navalha num golpe paralelo. Comece pelos lados da cara, depois pelas bochechas… a seguir os lados do pescoço… assim… Enquanto Sebastian falava ia arrastando a lâmina sobre a barba grisalha, retirando-a em traços limpos. – E lave a lâmina frequentemente. Os seus dedos compridos moviam-se suavemente sobre a face do pai, variando de ângulo, esticando algumas secções da pele enquanto escanhoava. Os movimentos eram leves e hábeis, executados com a mais perfeita economia. Evie abanava ligeiramente a cabeça, sem poder acreditar que estava a ver Sebastian, Lord St. Vincent, a barbear o seu pai, com a destreza do mais hábil criado particular. Terminado aquele ritual masculino, Sebastian limpou os restos de sabão da cara impecavelmente lisa de Jenner. Havia só um minúsculo corte, na orla do maxilar. Apertando a toalha contra o local, Sebastian murmurou: – Este sabão precisa de mais glicerina. O meu criado faz um sabão muito melhor do que este… Vou dizer-lhe que lhe traga um pouco logo à tarde. – Obrigada – disse Evie, sentindo um doce calor dentro do peito ao olhar para ele. O olhar de Sebastian perdeu-se no rosto dela e o que quer que fosse que ele viu na sua expressão, pareceu fasciná-lo. – Os lençóis precisam de ser mudados – disse ele. – Eu ajudo. Evie abanou a cabeça, avessa à ideia de que ele visse o corpo definhado do seu pai – e consciente de que o pai se sentiria depois terrivelmente humilhado perante o marido. – Obrigada, mas não é necessário – disse ela, com firmeza. – Eu vou chamar a criada. – Muito bem. Olhou para Jenner: – Se me permite, Sir, virei visitá-lo mais tarde, quando estiver mais repousado. – Pois sim – concordou o pai, de olhar desfocado. Fechou os olhos e reclinou-se com um suspiro. Evie arrumou o quarto, enquanto Sebastian limpava a navalha, a afiava mais uma vez e a fechava no seu estojo de cabedal. Acompanhando Sebastian até à porta, Evie parou à sua frente, de costas para


a ombreira, olhando para o marido com uma expressão preocupada: – Já despediu Mr. Egan? Sebastian assentiu, apoiando uma mão na ombreira, por cima dela e inclinando-se um pouco. Embora a sua postura fosse solta e descontraída, Evie não deixou de se sentir subtilmente dominada. E para seu espanto, não foi uma sensação totalmente desagradável. – Inicialmente mostrou-se hostil – disse Sebastian. – Mas só até eu lhe dizer que tinha examinado detalhadamente os livros de contabilidade. Depois disso, ficou manso como um cordeiro, sabendo que tem muita sorte por termos decidido não apresentar queixa contra ele. O Rohan está a ajudá-lo a fazer as malas, assegurando-se de que ele partirá imediatamente. – Porque é que decidiu não apresentar queixa contra Mr. Egan? – Seria má publicidade. A mais pequena suspeita de dificuldade financeira iria criar dúvidas sobre a estabilidade do clube. É melhor, de longe, absorver as perdas e continuar daqui para diante. O olhar dele atentou nos traços fatigados dela enquanto disse, baixinho: – Volte-se de costas. – O quê? P-p-porquê? – respondeu ela, espantada. – Volte-se – repetiu Sebastian, esperando até ela obedecer, devagar. O coração dela começou a bater quando ele lhe agarrou os pulsos por trás e lhe levou as mãos até à ombreira. – Segure-se aí, querida. Aturdida, ela esperou, perguntando-se nervosamente o que iria ele fazer. Fechou os olhos e ficou tensa, ao sentir as mãos dele apoiarem-se nos seus ombros. Os seus dedos acariciaram-lhe levemente as omoplatas, como se procurassem alguma coisa… e então começou a massajar-lhe as costas, com movimentos suaves e seguros, aliviando o desconforto dos seus ombros. Dedos capciosos sondaram zonas de tensão dolorosa, obrigando-a a inspirar mais fundo. A pressão das mãos dele intensificouse: enquanto as palmas rolavam sobre as costas, os polegares deslizavam profundamente de cada lado da sua coluna. E Evie, vexada, deu por si a arquear as costas como um gato. Continuando agora o caminho para cima, Sebastian encontrou os músculos enovelados nas ligações entre ombros e pescoço e neles se concentrou, amassando e pressionando, até ela sentir um doce gemido que lhe subia da garganta. Uma mulher podia ficar escrava daquelas mãos experientes. Ele tocava-a com uma sensualidade perfeita, tirando um enorme prazer da sua carne magoada. Descaindo todo o seu peso contra a ombreira, Evie sentiu a sua respiração tornar-se mais lenta e mais profunda, enquanto os músculos das costas ficavam menos tensos e se alongavam sob aquela manipulação insinuante; e ela sentia-se tão maravilhosamente bem que só receava o momento em que aquilo parasse. Quando, finalmente, as mãos de Sebastian se afastaram do seu corpo, Evie ficou surpreendida por não se ter derretido num charco no chão. Voltou-se e olhou o rosto dele, esperando um sorriso escarninho ou uma observação sarcástica. Mas pelo contrário, embora estivesse mais corado, a sua


expressão era impassível. – Tenho uma coisa para lhe dizer – murmurou ele. – Em privado. Pegando-lhe por um braço, Sebastian levou-a dos aposentos do seu pai, conduzindo-a até ao quarto mais próximo que, por acaso, era o que Evie havia ocupado na noite anterior. Sebastian fechou a porta e cresceu sobre ela. O seu rosto estava impassível. – O Rohan tinha razão – disse ele, bruscamente. – O seu pai não tem muito mais tempo de vida. Só por um milagre durará mais um dia. – Sim. Penso… que isso é uma coisa óbvia para toda a gente. – Esta manhã tive uma longa conversa com o Rohan acerca do seu pai e ele mostrou-me um folheto que o médico deixou após fazer o diagnóstico. Sebastian tirou do bolso um pequeno papel dobrado, com letra miudinha impressa, e entregoulho. Evie leu no topo do folheto as palavras «Uma nova teoria sobre a tuberculose.» Como estava com os olhos cansados e a única luz daquele quarto provinha de uma pequena janela, ela abanou a cabeça. – Posso ler mais tarde? – Pode. Mas eu vou pô-la a par do cerne da teoria: A tuberculose é provocada por organismos vivos, tão minúsculos que são invisíveis a olho nu. Vivem nos pulmões doentes. E a doença é transmitida quando uma pessoa saudável respira parte do ar que o doente expira pelos pulmões. – Criaturas minúsculas nos pulmões? – repetiu Evie, sem expressão. – Isso é absurdo! A tuberculose é causada por uma predisposição natural para a doença… ou por se ficar demasiado tempo ao frio ou à humidade. – Como nenhum de nós é médico ou cientista, um debate sobre esse assunto seria um tanto inútil. Mas, pelo seguro… receio ter de limitar a proximidade e o tempo que conta passar com o seu pai. O folheto caiu-lhe da mão. Chocada com aquela declaração, Evie sentiu o coração bater numa velocidade furiosa. Depois de tudo o que ela suportara para estar com o pai, Sebastian estava a tentar recusar-lhe os últimos, poucos, dias que ela voltaria a ter com ele – tudo por causa de uma teoria médica não provada, impressa num folheto?! – Não! – disse ela, violentamente. A garganta apertara-se-lhe e as palavras saiam-lhe depressa de mais para a boca as conseguir exprimir. – Absolutamente, não! Vou passar com ele o tempo que me aprouver! O senhor não quer saber de mim nem dele para nada! Só quer ser… c-cruel p-para m-m-mostrar que tem poder so-sobre… – Eu vi a roupa da cama – disse Sebastian, secamente. – Ele está a cuspir sangue, muco e sabe o diabo mais o quê… E quanto mais tempo a senhora passar com ele, maior a probabilidade de apanhar também o raio da doença que o está a matar! – Não acredito nessa teoria idiota. Consigo encontrar uma dúzia de m-m-médicos que o fariam ppassar p-pelo ridículo!


– Não posso deixá-la correr esse risco. Raios a partam, quer achar-se numa cama daqui a seis meses com os pulmões a apodrecerem?! – Se isso ac-contecer, não tem nada que ver com isso. Ao confrontarem-se um contra o outro, no silêncio carregado de ira que se seguiu, Evie teve uma vaga suspeita de que as suas palavras amargas o haviam atingido mais fundo do que ela teria imaginado. – Tem razão – disse Sebastian, no auge da ira. – Se quer tornar-se numa tuberculosa, avance sem medo. Mas não se admire que eu me recuse a ficar sentado à sua cabeceira, torcendo as mãos de desespero. Nada farei para a ajudar. E quando ficar para aí a cuspir fora os pulmões, eu ficarei radiante como o diabo, a lembrar-lhe que a culpa é só sua, por ser tão teimosa e tão idiota! Concluiu o seu inflamado discurso com um gesto irritado com as mãos. Infelizmente, Evie tinha sido condicionada por demasiados embates com o tio Peregrine, para conseguir distinguir entre gestos de cólera e prenúncios de um ataque físico. Instintivamente estremeceu e estendeu os braços para proteger a cabeça. Quando o golpe esperado não surgiu, ela encolheu-se e baixou os braços lentamente, para encontrar Sebastian, na sua frente, olhando-a atónito. A seguir, a face dele como que se ensombrou. – Evie… – disse ele, com uma espécie de ferocidade reprimida que a assustou. – Pensou que eu ia… Meu Deus! Alguém lhe bateu. Alguém lhe bateu no passado – quem diabo foi? Teve um gesto súbito em direção a ela – demasiado súbito – e ela recuou, tropeçando e batendo com força contra a parede. Sebastian ficou imóvel. – Merda… – murmurou. Parecendo lutar contra uma poderosa emoção, olhou-a, absorto. Após um longo momento disse, baixinho: – Eu nunca bateria numa mulher. Jamais seria capaz de a magoar. Sabe isso, não sabe? Trespassada pelo brilho dos olhos claros que sustentavam os seus com tanta intensidade, Evie achou-se incapaz de se mover ou produzir qualquer som. Estremeceu, enquanto ele se aproximava dela, lentamente. – Está tudo bem – murmurou ele. – Deixe-me aproximar… Calma… Está tudo bem. Envolveu-a com um dos braços, servindo-se da mão livre para lhe afagar o cabelo e, de súbito, ela respirou, suspirando de alívio. Sebastian aproximou-a mais, a boca junto à têmpora dela. – Quem foi? – perguntou. – O m-m-eu tio – conseguiu ela dizer. O movimento da mão dele nas suas costas parou ao ouvi-la gaguejar. – Maybrick? – perguntou, pacientemente. – N-n-não, o outro. – Stubbins. – Sim.


Evie fechou os olhos de prazer, ao sentir-se enlaçada pelo outro braço. Apertada contra o peito firme de Sebastian, a face encostada contra o seu ombro, ela aspirou o cheiro lavado da pele masculina e o toque subtil da água-de-colónia com odor a sândalo. – Quantas vezes? – ouviu ela perguntar. – Mais do que uma? – Agora já não importa… – Quantas vezes, Evie? Percebendo que ele iria insistir até responder, Evie balbuciou: – Não tantas vezes c-c-como isso, mas… às vezes, quando eu lhe de-desagradava ou desobedecia à tia Florence, ele perdia a cabeça. Da última vez que eu t-t-tentei fugir, ele pôs-me um olho negro e ab-b-riu-me um lábio. – Ah sim…? Sebastian ficou silencioso durante muito tempo e depois disse, com uma suavidade gelada: – Vou arrancar-lhe os braços e as pernas. – Oh, não que-quero isso! – disse Evie, muito a sério. – Só q-q-quero estar livre dele. De todos eles. Sebastian afastou a cabeça para poder olhar a face corada dela. – Está a salvo, está livre… Levou uma das mãos ao rosto dela, afagando a linha do malar, deixando um dedo seguir o rasto de sardas doiradas que lhe atravessavam a cana do nariz. As pestanas dela vibraram para baixo, dando ocasião a que ele afagasse os arcos delgados das sobrancelhas e aninhasse o seu rosto na palma da sua mão. – Evie… – murmurou. – Juro pela minha vida que nunca sentirá dor vinda das minhas mãos. Posso vir a ser um marido dos diabos sob vários outros pontos de vista… mas nunca a magoarei dessa maneira. Tem de acreditar nisto. Os nervos delicados do seu rosto absorviam sensações avidamente… o toque dele, o bafo erótico da sua respiração nos lábios dela… Evie temia abrir os olhos ou fazer qualquer coisa que pudesse interromper aquele momento. – Sim… – conseguiu ela murmurar. – Sim… eu… Houve um doce choque de uma tentativa de beijo contra a boca dela… e outra… Com um ligeiro suspiro, ela abriu-se para ele. A boca dele era como seda quente, como fogo terno, invadindo-a com uma leve pressão, uma demanda suave. Os dedos dele procuraram-lhe o rosto, ajustando o ângulo entre eles. Ao senti-la vacilar, Sebastian tomou uma das mãos dela e levou-a à sua própria nuca. Imediatamente ela levantou a outra mão, agarrando-se ao seu pescoço e respondendo aos ternos beijos que só afloravam a pele. Ele começou a respirar mais depressa e os movimentos do seu peito roçavam sedutoramente os seios dela. De um momento para o outro, os beijos dele tornaram-se mais profundos, mais imperiosos, levando a paixão a uma urgência ardente que a fez roçar-se contra ele,


desesperada por uma proximidade maior com a dura forma masculina. Um som doloroso saiu da garganta de Sebastian, que afastou a boca da dela. – Não! – murmurou ele, desesperado. – Não… espere, meu amor… não era isto… eu só queria… Os dedos de Evie cravaram-se no casaco dele e ela escondeu a cara na brilhante seda cinzenta da sua gravata. A mão dele agarrou-lhe a nuca, suportando o peso incerto do corpo dela. – Eu não mudei de ideias quanto ao que disse antes. Se quer tratar do seu pai, tem que de seguir as minhas regras. Manter o quarto arejado – quero aquelas janelas e aquelas portas abertas todo o tempo. E não se sente demasiado perto dele. Além disso, sempre que estiver com ele, exijo que ate um lenço sobre a boca e o nariz. – O quê?! – Evie afastou-se subitamente dele, lançando-lhe um olhar incrédulo. – Para que aquelas criaturinhas invisíveis não voem para os meus pulmões? – perguntou ela, sarcástica. Ele semicerrou os olhos. – Não me ponha à prova, Evie. Estou quase a proibi-la de o visitar. De todo! – Sentir-me-ia ridícula com um lenço atado à cara – protestou ela. – Iria ofender os sentimentos do meu pai. – Não me ralo um chavo! Mas tenha em linha de conta que se me desobedecer não torna a vê-lo. Evie afastou-se com ímpeto, dominada por uma nova onda de raiva. – O senhor não é melhor do que os Maybricks – disse ela, com amargura. – Eu só me casei consigo para ganhar a minha liberdade. E, em vez disso, parece que troquei um carcereiro por outro. – Nenhum de nós tem completa liberdade, minha menina. Nem sequer eu. Cerrando os punhos, ela olhou-o com ódio. – Mas o senhor tem, pelo menos, o direito de fazer as suas próprias escolhas! – Sim. E as suas também – troçou ele, parecendo apreciar a chama de ódio que provocara nela. – Meu Deus, que espetáculo! Todo esse desafio tempestuoso… até me dá vontade de a levar para a cama. – Não volte a tocar-me! – rosnou ela. – Nunca mais! Irritantemente, ele começou a rir, dirigindo-se para a porta.


Capítulo 10

Quando Evie voltou ao quarto do pai, naquela tarde, percebeu, de imediato, que tinha chegado a hora dele. A pele estava cor de cera e os lábios azuis, pois os seus pulmões torturados já não conseguiam armazenar oxigénio suficiente. Como ela desejou poder respirar por ele! Pegando-lhe nas mãos frias, esfregou-lhe os dedos como se os pudesse aquecer e olhou-o com um sorriso fixo. – Papá… – murmurou. – Diga-me o que fazer. Diga-me o que quer… Ele olhou-a com afeto, enquanto os lábios sumidos na face enrugada lhe responderam com outro sorriso. – O Cam… – murmurou ele. – Sim, vou mandar chamá-lo. – Evie passou os dedos pelo cabelo. – Papá… – perguntou baixinho. – O Cam é meu irmão? – Ahhhh… – gemeu ele, enrugando os olhos. – Não, minha pequenina. E eu bem gostava… É um bom rapaz. Evie curvou-se para lhe beijar a mão e levantou-se. Alcançou a campainha e puxou várias vezes. Entrou uma criada, com uma rapidez pouco usual. – Sim, my lady? – Corre a chamar Mr. Rohan – disse ela, a voz levemente trémula. Evie hesitou, considerando se deveria ou não mandar chamar Sebastian também… Mas o pai não falara nele. E a ideia da presença calma e cerebral de Sebastian, em contraste chocante com as suas próprias emoções… não! Havia ocasiões em que ela podia apoiar-se nele, mas esta não era uma delas. – Vai depressa! – disse para a criada e voltou para junto do pai. Algum do seu pânico deve ter transparecido apesar do esforço para manter uma fachada tranquilizadora, porque o pai agarrou-lhe numa mão e puxou-a levemente para a aproximar de si. – Evie… – disse, num sussurro. – Eu… vou ter com a tua mãe, sabes… Ela convenceu-os a deixarem aberta uma porta das traseiras… para eu poder entrar no céu.


Ela riu baixinho, derramando algumas lágrimas. Cam entrou logo a seguir. O seu cabelo de azeviche estava em desalinho e as roupas amarrotadas, ao contrário do que era habitual, como se se tivesse vestido à pressa. Embora com um ar calmo e controlado, havia nos seus olhos dourados um brilho húmido quando encarou Evie. Ela levantou-se e recuou um pouco, tomando tempo para engolir em seco antes de falar: – Tens de te curvar sobre ele p-para ouvires o que ele diz. – disse ela, em voz rouca. Cam curvou-se sobre o leito, agarrando nas suas as mãos de Jenner, tal como fizera Evie. – Pai do meu coração… – disse baixinho o jovem cigano. – Fique em paz com todas as almas que deixa atrás de si. E saiba que Deus abrirá um caminho novo… na sua nova vida. Como Jenner lhe murmurasse qualquer coisa, o rapaz inclinou a cabeça e esfregou docemente as mãos do velho. – Pois sim… – disse Cam, a certa altura. Evie sentiu, pela tensão que via nos seus ombros, que não lhe agradou o que quer que fosse que o pai dela lhe estava a pedir. – Eu velarei para que isso seja feito. Logo a seguir, Jenner como que se descontraiu e fechou os olhos. Cam desviou-se da cama e empurrou levemente Evie na direção do pai. – Está tudo bem, vá… – murmurou o rapaz, sentindo-a a tremer. – A minha avó sempre disse: «Nunca tentes recuar ao chegares a uma estrada nova – não sabes que aventuras te esperam.» Evie tentou encontrar conforto naquelas palavras, mas toldaram-se-lhe os olhos de lágrimas e doía-lhe a garganta. Sentando-se ao lado do pai, pôs-lhe um braço à volta dos ombros e a outra mão carinhosamente sobre o peito. O estertor dele acalmou e ele fez um ligeiro som, como que agradecendo o toque da filha. Ao sentir a vida gradualmente retirar-se do seu corpo, a mão de Cam agarrou-lhe o antebraço, num toque amigo. No quarto reinava um silêncio doloroso. O coração de Evie batia quase audivelmente. Nunca enfrentara a morte antes e ter de enfrentá-la agora, perdendo a única pessoa que a amara, encheu-a de terror. Lançando um olhar para a porta, viu a figura alta de Sebastian ali em pé, com uma expressão indecifrável; e percebeu que, afinal, precisava mesmo que ele ali estivesse. Ao olhar para ela fixamente, com os seus olhos de pedra da lua, Evie sentiu qualquer coisa que, efetivamente, a ajudava a sentir-se em paz. Uma ténue exalação saiu dos lábios de Jenner… e a seguir não houve mais nada. Percebendo que tudo estava acabado, Evie encostou a cara à cabeça do pai, fechando os olhos. – Adeus… – murmurou ela, enquanto as suas lágrimas corriam sobre aquele cabelo outrora tão viçoso. Após um momento, Evie sentiu as mãos fortes de Cam afastando-a da cama. – Evie… – disse o rapaz, sem conseguir olhá-la. – Tenho de … tenho de preparar o corpo. Vá ter com o seu marido.


Evie assentiu e tentou mover-se, mas as suas pernas pareciam presas uma à outra. Sentiu Cam afagar-lhe o cabelo com a mão e a seguir o toque ligeiro dos lábios dele na sua testa, num beijo doce e casto. Ela virou-se e dirigiu-se cegamente para o marido. Sebastian avançou até ela rapidamente e meteu-lhe um lenço na mão, que ela aceitou com gratidão. Demasiado perturbada para saber – ou sequer querer saber – para onde iam, limpou os olhos e assoou-se, enquanto Sebastian a retirava dos aposentos de Ivo Jenner. O braço dele segurava-a firmemente por trás das costas, a mão fixa na cintura dela. – Ele tinha dores constantes – disse Sebastian. – Assim foi melhor para ele. – Sim… – conseguiu responder Evie, entorpecida. – Sim, claro. – Ele disse-lhe alguma coisa? – Mencionou… a minha mãe. – Aquele pensamento trouxe-lhe nova dor, mas conseguiu fazer aflorar um débil sorriso. – Disse que ela ia ajudá-lo a entrar no céu… pela porta das traseiras. Sebastian levou-a até ao quarto. Afundada na cama, Evie enterrou o nariz no lenço e enroscou-se para o lado. Nunca tinha chorado assim antes, aos soluços, numa desolação que lhe saía da garganta, enquanto a pressão do desgosto no seu peito se recusava a diminuir. Apercebeu-se vagamente que as cortinas se fechavam e Sebastian mandava uma criada trazer vinho e um jarro com água fresca. Embora Sebastian se mantivesse no quarto, nunca se aproximou; andou para lá e para cá, por alguns minutos, e eventualmente deixou-se cair numa cadeira perto da cama. Via-se bem que não desejava abraçar Evie enquanto ela chorava, recusando-se a uma tal intimidade emotiva. Ela podia abandonar-se nos seus braços na paixão, mas não no desgosto. Contudo, era óbvio que não tinha intenções de a abandonar. Quando a criada trouxe o vinho, Sebastian fez Evie sentar-se na cama e deu-lhe a beber um copo deliberadamente cheio. Enquanto ela bebia, ele pegou numa toalha e molhou-a na água fria, aplicando-lha docemente sobre os olhos inchados. Os seus modos eram carinhosos, mas estranhamente cautelosos, como se estivesse a lidar com uma criança muito pequena. – Os empregados… – murmurou Evie, após um momento. – O clube, o funeral… – Eu trato de tudo. – disse Sebastian, calmamente. – Vamos fechar o clube por umas semanas. E tratarei do funeral, sossegue. Quer que mande chamar alguma das suas amigas? Evie abanou a cabeça imediatamente. – Ia pô-las numa situação difícil. E não me apetece falar com ninguém. – Compreendo. Sebastian ficou com Evie até ela beber um segundo copo de vinho. Vendo que ele estava à espera de uma indicação da sua parte, Evie pousou o copo na mesa de cabeceira. Sentiu a língua pesada, enquanto dizia: – Acho que agora posso descansar um pouco. Não há necessidade de me vigiar quando há tanto para fazer. Ele lançou-lhe um olhar avaliador e levantou-se da cadeira.


– Mande-me chamar quando acordar. Jazendo na cama, meio tonta, meio adormecida e sozinha, Evie perguntou-se a si própria porque é que as pessoas diziam sempre que a morte de um ente querido era mais fácil de suportar quando se tinha tido tempo para se preparar. Porque a situação não parecia fácil. Essas mesmas pessoas podiam ter acrescentado que o seu desgosto deveria ser menor, pelo facto de ela nunca ter conhecido realmente o seu pai. Novo erro: esse facto tornava o seu desgosto maior ainda. Havia tão poucas recordações com que se reconfortar, fora tão pouco o tempo que haviam passado juntos… Com aquela tristeza, veio uma sensação infeliz de privação… e, logo depois, até um pouco de revolta: seria ela tão indigna de amor, para ter encontrado tão pouco disso na sua vida? Faltar-lhe-ia um qualquer dom essencial para atrair para si o sentimento de amor de outras pessoas? Consciente de que aqueles pensamentos a conduziam perigosamente para a autocomiseração, Evie fechou os olhos e concedeu-se um suspiro trémulo. Logo que Cam saiu dos aposentos de Ivo Jenner, St. Vincent veio ao seu encontro no hall. O seu olhar era carrancudo e havia na sua voz um tom de gélida arrogância. – Se a minha mulher encontra conforto em patetices ciganas de mau gosto, não ponho qualquer objeção a que lhas proporcione, mas se a beijar outra vez, por mais platónica que seja a forma, garanto que lhe corto os tomates. O facto de St. Vincent se rebaixar a uma manifestação de ciúme tão reles, quando Ivo Jenner ainda não tinha arrefecido no seu leito de morte, podia ter ultrajado qualquer homem. Cam, contudo, observou o autocrático visconde com um interesse estudioso. Calibrando deliberadamente a sua resposta, no intuito de testar o outro, o jovem cigano limitou-se calmamente a declarar: – Se jamais eu a tivesse desejado dessa forma, por esta altura ela já seria minha. Nos gélidos olhos azuis de St. Vincent houve um instante de aviso, que revelava um sentimento de uma profundidade que ele se recusava a admitir. Cam nunca vira nada como o desejo mudo que St. Vincent sentia pela sua própria mulher. Ninguém podia deixar de notar que, quando Evie entrava na sala, St. Vincent vibrava positivamente como um diapasão. – Saiba, Sir, que é possível ter afeição por uma mulher sem querer levá-la para a cama – explicou Cam. – Ao que parece, o senhor não acredita, ou está tão obcecado por ela que não consegue compreender que outro homem possa não sentir o mesmo. – Eu não estou obcecado por ela! – retrucou St. Vincent. Encostando um ombro contra a parede, Cam olhou fixamente nos olhos do homem à sua frente, cuja habitual reserva de autodomínio estava prestes a esgotar-se. – Claro que está. Qualquer pessoa consegue vê-lo. St. Vincent lançou-lhe um novo olhar de aviso, este mais intenso: – Mais uma palavra – disse ele, com esforço – e segues o mesmo caminho que o Egan.


Cam ergueu as mãos num gesto exagerado de autodefesa. – Considere-me avisado. A propósito… as últimas palavras de Ivo Jenner respeitaram o Bullard. Há uma doação financeira para ele no testamento e Mr. Jenner queria que fosse respeitada. St. Vincent franziu os olhos: – Por que diabo é que ele haveria de deixar dinheiro ao Bullard? Cam encolheu os ombros: – Não faço ideia, mas se eu fosse o senhor não iria contestar a última vontade do pai da sua esposa. – Se eu o fizer, não há muito que ele, ou seja quem for, possa fazer contra isso. – É verdade. Mas então correrá o risco de ter o fantasma dele a assombrar o clube, a pretexto de negócios por concluir. – Fantasma?! – St. Vincent lançou-lhe um olhar incrédulo. – Irra! Você não está a falar a sério, pois não? – Sou cigano – respondeu Cam, no seu tom mais natural. – Claro que acredito em fantasmas. – Só meio cigano. O que me leva a crer que a sua outra metade seja, pelo menos, marginalmente sã e racional. – A outra metade é irlandesa – disse Cam, como quem se desculpa. – Meu Deus! – disse St. Vincent, abanando a cabeça enquanto se afastava. Com o funeral para organizar, os negócios do clube em grande confusão e o próprio edifício em necessidade de obras, Sebastian deveria estar demasiado atarefado para dar atenção a Evie e ao seu estado de espírito. Contudo, Evie rapidamente se apercebeu que ele exigia do pessoal informações frequentes sobre o seu estado, como dormia, se tinha comido e as suas atividades em geral. Ao saber que Evie recusara o pequeno-almoço e o almoço, Sebastian mandou que lhe levassem um tabuleiro com o jantar, acompanhado de uma nota sua, muito concisa: My lady, Este tabuleiro será devolvido para minha inspeção dentro de uma hora. Se tudo o que aqui está não houver sido comido, eu próprio irei alimentá-la à força. Bon appétit, S. Para contento de Sebastian, Evie obedeceu. Com alguma irritação, ela perguntava-se se as suas ordens eram motivadas por alguma solicitude ou por um desejo de a vexar. Fosse como fosse, pouco depois, Sebastian teve ocasião de poder ter um gesto muito atencioso: pagar a uma modista o dobro do costume, para fazer três fatos de luto para Evie. Infelizmente, a escolha dos tecidos foi altamente inapropriada.


No primeiro ano de luto, as mulheres eram obrigadas a vestir-se apenas de crepe, um tecido baço, rugoso e áspero, feito de fios colados. Ninguém considerava agradável tal escolha, visto o crepe ser perigosamente inflamável e tender a encolher e quase desfazer-se com a chuva. Sebastian, no entanto, mandara fazer um vestido de voluptuoso veludo preto, outro de cambraia de lã e outro de cachemira. – Não posso usar isto – disse Evie, de sobrolho franzido, afagando os vestidos com as mãos. Colocara-os em cima da cama, sobre a colcha, onde jaziam como flores da meia-noite. Sebastian trouxera-os para cima ele próprio, logo que foram entregues no clube. Postara-se ao canto da cama, negligentemente encostado à coluna da cabeceira fortemente esculpida. Com exceção da camisa e colarinho brancos de neve, estava vestido de negro dos pés à cabeça. Como seria de esperar, ficava espantosamente bem-parecido naquelas roupas severas, cujo fundo sombrio fazia um contraste exótico com a sua pele clara e cabelo dourado. Mais uma vez, Evie perguntou-se se um homem com um aspeto tão notável poderia ter um caráter decente – sem dúvida teria sido estragado com mimos desde a mais tenra infância. – Qual é a sua objeção a estes vestidos? – perguntou ele. – São pretos, não são? – Bom, claro… mas não são em crepe. – Quer por força usar crepe? – Não é que queira, claro que não, ninguém gosta. Mas se as pessoas me vissem usar outra coisa, haveria uma onda de má-língua terrível. Sebastian arqueou uma sobrancelha. – Evie – disse ele, secamente –, a senhora fugiu de casa contra a vontade da sua família, casou-se com um conhecido libertino e está a viver num clube de jogos de azar. Que mais raio de má-língua pensa que pode gerar? Ela lançou um olhar sobre o vestido que usava, um dos três que levara com ela na noite em que fugira de casa dos Maybricks. Embora ela e as criadas tivessem feito o possível para o limpar, a lã castanha estava suja da viagem e encolhida nos sítios onde apanhara chuva e lama. E fazia-lhe comichão. Evie ansiava por usar qualquer coisa fresca, macia e limpa. Aproximou-se do vestido de veludo e acariciou-o, sentindo os dedos a traçarem sulcos no felpo macio. – Tem de aprender a não fazer caso do que dizem as pessoas. – murmurou Sebastian, aproximando-se. De pé, por trás dela, pousou-lhe ligeiramente os dedos nos ombros, fazendo-a tremer um pouco. – Assim será muito mais feliz – disse ele, divertido. – Fique sabendo que, enquanto a má-língua acerca dos outros é muitas vezes verdade, nunca o é quando é a nosso respeito. Evie estremeceu nervosamente ao sentir as mãos dele movendo-se pela fila de botões nas costas do vestido castanho. – O que está a fazer? – A ajudá-la a mudar de vestido. – Não quero. Agora não. Eu… oh, por favor, não!


Mas ele continuou, tendo passado uma mão para a frente da cintura dela para a impedir de sair do sítio, enquanto com a outra desapertava a fila de botões. Para não se expor a uma luta pouco senhoril, Evie corou e ficou quieta, deixando que um surto de pele de galinha lhe invadisse os ombros expostos. – Gostaria muito que não me tratasse dessa maneira arrogante. – A palavra arrogante implica indiferença – respondeu ele, puxando-lhe a saia para baixo das ancas. O vestido caiu no chão como um monte de trapos. – E não há nada de indiferente na minha atitude para consigo, minha querida. – Uma pessoa gosta de um pouco de respeito! – exclamou Evie, tiritando na frente dele, apenas em roupa interior. – Especialmente depois de… depois de… – A senhora não precisa de respeito. Precisa de conforto, abraços e possivelmente de uma prolongada cambalhota na cama comigo. Mas como não mo permite, vai levar uma massagem nos ombros e umas palavrinhas de aviso. Sebastian colocou as suas mãos quentes sobre os ombros dela, que estavam nus, exceto pelas alças da camisa. Começou a massajar-lhe os músculos rígidos, com os polegares em leque, desenhando fortes círculos sobre a parte de cima das costas. Evie soltou um pequeno gemido e tentou afastar-se, mas ele mandou-a calar e continuou a massajá-la com uma habilidade infinita. – A senhora já não é a mesma que era há alguns dias – murmurou ele. – Já não é uma encalhada, nem uma virgem, nem a criança indefesa que tinha de suportar uma vida de inferno com os Maybricks. É uma viscondessa com uma fortuna bastante considerável e um salafrário como marido. A que regras vai aderir agora? Evie abanou a cabeça, confusa e cansada. Descobria que, à medida que Sebastian fazia desaparecer a tensão das suas costas, o controlo sobre as suas emoções parecia desaparecer em simultâneo. Receava que se tentasse falar desatasse a chorar. Por isso, permaneceu calada, fechando os olhos com força e lutando para manter a respiração regular. – Até agora, passou toda a sua vida a tentar agradar aos outros – continuou ele. – Com muito pouco sucesso, diga-se. Porque não experimenta agradar-se a si própria, para variar? Porque não viver segundo as suas próprias regras? O que foi que obedecer às convenções lhe trouxe de bom? Evie ponderava sobre aquelas perguntas; a sua respiração gemeu de prazer quando ele encontrou um local particularmente dorido. – Eu gosto de convenções – disse ela, depois de um momento. – Não há nada de mal em ser-se uma pessoa comum, pois não? – Pois não… Mas a senhora não é uma pessoa comum – ou nunca teria vindo ter comigo e teria, isso sim, casado com o seu primo Eustace. – Eu… estava desesperada. – Não foi apenas essa a razão. – A voz dele baixou de tom até parecer o ronronar de um gato: – Tinha também uma… apetência pelo diabo.


– Não tinha! Nem tenho! – Gostou de me encurralar, a mim, um libertino famoso, na minha própria casa, com uma proposta que eu não podia recusar. Não tente negar – por esta altura já a conheço suficientemente bem. Por incrível que parecesse, apesar do seu desgosto e preocupação, Evie sentiu um sorrisinho subir-lhe aos lábios. – Talvez eu tenha gostado, sim… por um momento – admitiu ela. – Claro que gostei de pensar em quão furiosa ficaria a minha família ao saber do caso. A sombra do sorriso desapareceu e ela acrescentou, taciturna: – Como eu detestava viver com eles! Se ao menos o meu pai me tivesse querido a viver com ele… Podia ter pagado a alguém para tomar conta de mim. – Meu Deus! – exclamou Sebastian, pouco compreensivo. – Por que raio haveria ele de querer ter uma criança pequena no seu mundo? – Porque eu era a família dele. Porque era tudo o que ele tinha! Aquela ideia foi recebida com um decidido abanar de cabeça. – Os homens não pensam assim, amor. O seu pai achou – e com toda a razão – que seria melhor para si viver afastada dele. Sabia que jamais faria um bom casamento se não fosse educada num ambiente respeitável. – Mas se ele tivesse sabido como os Maybricks iriam ser para mim, o modo como fui maltratada… – E o que a faz pensar que o seu pai não a teria tratado da mesma maneira? – perguntou Sebastian, para enorme choque dela. – Ele era um ex-boxeur, por amor de Deus!… – acrescentou ele. – Não era conhecido por ser comedido. Provavelmente teria tido contacto familiar com as mãos dele na sua cara, acaso tivessem convivido mais. – Não acredito! – gritou Evie, indignada. – Não se exalte – murmurou Sebastian, pegando no vestido de veludo que estava sobre a cama. – Como já lhe disse, eu nunca poderia considerar bater numa mulher, fosse por que pretexto fosse. Mas o mundo está cheio de homens que não têm esse escrúpulo particular e é muito provável que o seu pai fosse um deles. Discuta, se quiser – mas não seja tão ingénua ao ponto de colocar Ivo Jenner num pedestal. No mundo em que ele vivia, das espeluncas, dos infernos do jogo, dos malandros, dos criminosos, dos vigaristas, era considerado um homem suficientemente decente; estou certo de que ele acharia essa expressão um elogio merecido… Levante os braços. Habilmente colocou-lhe o vestido de veludo acima da cabeça, puxou a saia que caiu numa onda macia sobre as ancas e ajudou-a a enfiar os braços nas mangas. – Mas essa vida não é para si – acrescentou, não sem simpatia. – A Evie ficaria bem numa grande propriedade no campo, sentada numa manta estendida sobre um relvado verde, comendo morangos


com chantilly. Desfrutando de longos e prazerosos passeios de carruagem… Visitando as suas amigas. Provavelmente um dia permitir-me-ia que lhe desse um bebé. Seria uma coisa agradável para a ocupar. E seria algo em comum com as suas amigas, que, sem dúvida, já começaram a procriar. Alarmada com a despreocupação com que surgira aquela sugestão, Evie olhou o belo rosto do marido, tão perto do seu. Quase se poderia pensar que ele acabava de lhe propor ir comprar um cãozinho para lhe oferecer! Seria ele realmente tão empedernido como parecia ser? – Teria qualquer interesse para si, um bebé? – Evie conseguiu fazer esta pergunta após engolir várias vezes em seco. – Não, minha linda. Sou tão pouco feito para ter mulher e filhos como era o seu pai. Mas velaria para que uma criança minha fosse sempre muito bem estimada. E com um brilhozinho malandro nos olhos, continuou: – E participaria entusiasticamente na procriação das crianças, ainda que menos na sua educação. Deslocou-se para trás dela para lhe apertar o vestido. – Pense no que realmente quer – aconselhou ele. – Há muito poucas coisas que não possa vir a ter… desde que se atreva a estender a mão para elas.


Capítulo 11

Qualquer sentimento amistoso que Evie pudesse ter sentido pelo marido desapareceu rapidamente na manhã seguinte, quando Sebastian saiu do clube pouco antes do meio-dia, ostensivamente para uma missão junto de Madame Bradshaw. Acabara de acordar os detalhes para o funeral de Ivo Jenner, que deveria ter lugar no dia seguinte, e agora a sua atenção voltava-se para assuntos e negócios envolvendo o clube. O Jenner’s ficaria encerrado por quinze dias, durante os quais haveria uma invasão maciça de carpinteiros, pedreiros e pintores, todos ocupados com obras de vulto no edifício. Sebastian tinha também começado a fazer mudanças decisivas no regime interno do clube, começando por promover Cam para uma posição de factotum. À luz da ascendência mestiça do rapaz, isto iria, certamente, constituir uma decisão controversa. Os ciganos eram universalmente acusados de serem mãos-leves e trapaceiros. Colocar Cam como responsável por, entre outras tarefas, cobranças e pagamentos envolvendo largas somas de dinheiro, bem como agir como árbitro sempre que uma jogada levantava dúvidas de legalidade, seria visto por alguns como pedir a um gato para tomar conta de um ninho de passarinhos recém-nascidos. A importância dessa posição era tal que ninguém, nem mesmo Sebastian, poderia pôr em dúvida a sua opinião sobre uma jogada. Contudo, Cam era uma figura familiar e simpática e Sebastian estava pronto a apostar em como a popularidade dele levaria os membros do clube a aceitá-lo neste novo posto. Além disso, nenhum dos outros trinta empregados do clube era minimamente qualificado para dirigir a sala de jogos de azar. Agora que as meninas da casa tinham partido, era urgente fazer qualquer coisa para que, quando o clube reabrisse, os membros pudessem desfrutar de companhia feminina. Para irritação de Evie, Cam concordara com Sebastian que um entendimento com Madame Bradshaw seria uma excelente solução para o problema. E claro, Sebastian tomara a seu cargo fazer a proposta à famigerada Madame. Conhecedora do famoso apetite sexual do marido, Evie tinha a certeza de que aquela visita incluiria, certamente, mais do que uma simples proposta de negócio. Sebastian não dormira com mais ninguém desde a estadia em Gretna Green. Com certeza estaria pronto, e ansioso, por se comprazer com qualquer fêmea de virtude fácil.


Evie dizia repetidamente para consigo que não queria saber. Ele podia dormir com dez mulheres… cem… mil… que ela pouco se ralava. Seria tola, aliás, se se ralasse. Sebastian era tão capaz de fidelidade como um gato vadio correndo as ruas, ansioso por folgar com qualquer gata de boa vontade que encontrasse no seu caminho. Fumegando de ira, por trás da sua fachada estoica, Evie escovou e prendeu o cabelo num carrapito complicado de tranças. Virando costas ao espelho sobre o toucador, Evie pousou a escova. O brilho da sua aliança de ouro prendeu-lhe o olhar; as palavras gravadas em gaélico pareciam troçar dela. – Amo-te… – murmurou amargamente, arrancando o anel do dedo. Não tinha lógica usar uma aliança de um falso casamento. Ia colocá-la sobre o toucador, mas pensou melhor e meteu-a no bolso, tencionando pedir a Cam que a guardasse no cofre do clube. Mesmo quando ia a sair, alguém bateu à porta. Não podia ser Sebastian, que nunca se dava ao trabalho de bater. Ao abrir a porta, Evie reconheceu as feições rudes de Joss Bullard. Conquanto Bullard não fosse ativamente detestado pelos outros empregados, era óbvio que a sua popularidade estava longe de se aproximar da de Cam. O infortúnio de Bullard era que, visto ele e Cam Rohan serem da mesma idade, sempre tinham sido comparados um com o outro. Já teria sido desleal comparar a maior parte dos homens com o belo moreno Cam, cujo subtil encanto e humor irónico faziam dele o favorito não só entre os outros empregados, como os clientes do clube. Para piorar a imagem, Bullard era um homem sem graça, insatisfeito com a sua sorte na vida, invejoso de todos aqueles a quem havia sido concedido mais. Sentindo que para ele era difícil tratá-la com consideração, Evie tratava-o com uma simples polidez bem medida. O olhar duro de Bullard cruzou-se com o dela. – V’sita na porta das traseiras. Qué falar consigo, my lady. – Uma visita?! – Evie sentiu um nó no estômago, suspeitando que os seus tios pudessem finalmente ter descoberto o seu paradeiro. As notícias da morte de Jenner, do encerramento do clube e da sua presença ali deviam ter viajado rapidamente através de Londres. – Quem? Q-q-que nome deu? – Mandaram’m d’zer c’o nome era Mrs. Hunt, my lady. Annabelle! O nome daquela amiga tão querida fez o coração de Evie bater mais depressa, de alívio e ânsia, embora se admirasse por Annabelle se atrever a vir a um clube de jogo. – Que bela notícia! – exclamou. – Por favor, leva-a lá acima ao primeiro andar, ao escritório do meu pai. – Mandaram’m d’zer c’a s’nhora é que tem qu’ir lá abaixo, à porta das traseiras, my lady. – Ah… Mas não podia ser! Uma menina tão recatada como Annabelle não deveria ser obrigada a esperar nas traseiras de um clube. Preocupada, Evie saiu do quarto e afastou-se, não pensando senão em ir ter


com Annabelle o mais depressa possível. Com Bullard nos calcanhares, desceu os dois longos lances de escada com a rapidez que podia, agarrando-se ao corrimão a espaços regulares. Quando chegou ao fundo, tinha o coração aos saltos. Lutando contra a pesada porta, abriu-a… e recuou surpreendida ao ver, não a figura airosa de Annabelle, mas o vulto pesado do tio Peregrine. Na mente de Evie fez-se um enorme vazio. Deitou-lhe um olhar sobressaltado que durou apenas uma fração de segundo, depois recuou, dominada pelo terror. Peregrine sempre fora dado a recorrer aos punhos para a obrigar a obedecer. De nada lhe valia ser agora Lady St. Vincent e, portanto, legalmente fora do alcance do tio. Ele iria vingar-se da pior maneira possível, começando por uma sova valente. Cega de pânico, Evie voltou-se para fugir, mas, para seu espanto, Bullard deu um passo e bloqueou-lhe o caminho. – Ele deu-m’uma libra d’ouro p’rá ir buscar. É mais do qu’ó qu’eu ganho num mês. – Não! – arquejou ela, empurrando-lhe o peito. – Não… Eu dou-te o que quiseres… não o deixes levar-me! – O velho Jenner fê-la estar co’eles todos estes anos – zombou o rapaz. – Não a qu’ria aqui, nem ninguém quer! Mau grado o grito de protesto de Evie, Bullard empurrou-a inexoravelmente para o tio, cuja cara façanhuda luzia de triunfo. – Pronto, já fiz o qu’pediu, – disse Bullard bruscamente para um homem atrás de Peregrine, que Evie reconheceu, de repente, como sendo o seu tio Brook. – Agora passe p’ra cá a massa! Com um ar desconfortável e vagamente envergonhado pela transação, Brook entregou-lhe a moeda de ouro. Peregrine agarrou Evie com mão firme, tornando-a tão indefesa como um coelho agarrado pela pele do cachaço. A sua cara quadrada estava rubra de raiva: – Sua estúpida, sua rameira sem préstimo! – gritava ele, sacudindo-a com força. – Se já não me servisses para nada, deitava-te fora, como um monte de lixo. Quanto tempo é que julgavas que te podias esconder? Vais ver como elas te mordem! – Bullard, acode-me por favor! – gritava Evie, debatendo-se como podia, enquanto Peregrine a arrastava para a carruagem que os esperava. – Não! Mas Bullard não se mexeu, observando tudo da porta, com um olhar cheio de ódio. Ela não conseguia compreender o que poderia ter feito para ele a odiar tanto. E porque é que não aparecia ninguém para a defender? Seria possível que ninguém ouvisse os seus gritos? Lutando desesperadamente, Evie tentava arranhar e acotovelar o tio, mas os seus esforços eram prejudicados pelo peso das saias: estava perdida. Furioso com a resistência dela, Peregrine rosnava: – Cala-te e obedece, criatura endiabrada! Pelo canto do olho, Evie viu um rapazito que saía da cocheira e que parou, surpreendido com o que se passava na viela. Evie gritou-lhe:


– Chama o Cam! Depre… Mas o seu grito foi abafado pela palma da mão de Peregrine, que se abateu sobre a sua boca e o seu nariz. Ela mordeu-lhe a mão, que sabia a pó, fazendo-o retirá-la com um grito de dor. – Cam! – gritou Evie, de novo, antes de ser silenciada por um forte murro na boca. Peregrine empurrou-a para o tio Brook, cuja face macilenta passou vagamente pela sua vista toldada. – Mete-a na carruagem – ordenou Peregrine, procurando no casaco um lenço para atar a mão que sangrava. Evie debatia-se em poder de Brook. Enquanto ele a empurrava com força para dentro da carruagem, ela contorceu-se e conseguiu acertar-lhe um golpe de raspão, mas eficaz, no pescoço. O impacto fez Brook ficar sem respiração e largá-la. Peregrine agarrou em Evie com as suas mãos enormes e atirou-a contra um dos lados da carruagem. A sua cabeça embateu no duro apainelamento lacado e ela sentiu uma explosão de centelhas diante dos olhos e uma dor aguda no crânio. Estonteada pelo impacto, só pôde debater-se fracamente, enquanto era atirada para dentro do veículo. Para seu espanto, o primo Eustace esperava-a lá dentro, corpulento e flácido, como se uma cria de cachalote tivesse sido carregada para cima do assento. Agarrou-a contra as triplas banhas mal cheirosas e maciças do seu tronco, mostrando uma força surpreendente ao apertar um antebraço carnudo à volta do pescoço dela. – Agarrei-te! – sibilou ele, arquejando do esforço. – Cabra impertinente, quebraste a promessa de casar comigo. Mas os meus pais já me disseram que eu é que fico com a tua fortuna e vão dar-ma. Eles farão o que tem de ser feito! – Já sou casada – murmurou Evie, meio sufocada pela montanha de carne humana que a cobria, como se estivesse a ser engolida inteira por uma qualquer exótica criatura marinha. – O casamento não vale. Vamos mandar anulá-lo. Por isso, como vês, o teu plano de estragar a minha vida não resultou. Eustace parecia um rapazinho malcriado ao continuar: – É melhor não me contrariares, prima. O meu pai disse-me que posso fazer o que quiser contigo quando estivermos casados. Que tal se eu te fechar num armário durante uma semana inteira? Evie não conseguia respirar ar suficiente para lhe responder. Os pesados braços dele comprimiam-na contra a massa enorme do seu estômago e barriga. Lágrimas de dor e desespero ardiam-lhe nos cantos dos olhos, enquanto tentava desvairadamente soltar-se da prisão à volta do pescoço. Através dos zumbidos nos seus ouvidos, ela ouviu novos sons no exterior, gritos e pragas. De repente a porta da carruagem foi arrancada dos gonzos – literalmente! – e alguém saltou lá para dentro. Evie contorceu-se para ver quem era. O fôlego que lhe restava foi expelido numa espécie de soluço, ao reconhecer o brilho familiar de um cabelo loiro.


Era Sebastian, como ela nunca o vira antes. Não desprendido e senhor de si, mas em poder de uma raiva que lhe estremecia os ossos. Os olhos estavam pálidos como os de um réptil e um olhar assassino focava-se em Eustace, cuja respiração começou a tremer nervosamente por trás das pregas rechonchudas do seu queixo. – Larga-a! – disse Sebastian, com voz rouca de fúria. – Já, meu monte de merda, ou arranco-te a cabeça! Parecendo acreditar que Sebastian estava ansioso por cumprir a ameaça, Eustace largou o pescoço de Evie, que se precipitou para os braços de Sebastian, aspirando ar com sofreguidão. Ele amparou-a com um murmúrio tranquilizador. – Pronto, querida, já está em segurança. Evie sentiu os frémitos de raiva que perpassavam continuamente pelo corpo dele. Sebastian lançou novo olhar assassino a Eustace, que tentava encolher a sua gelatinosa massa corporal na parte mais afastada do assento. – Da próxima vez que te vir – disse Sebastian, com ferocidade –, sejam quais forem as circunstâncias, mato-te! Não há leis, nem armas, nem o próprio Deus que consigam evitá-lo. Portanto, se tens algum amor à vida, não deixes que o teu caminho se volte a cruzar com o meu! Deixando Eustace num estado trémulo de pavor mudo, Sebastian tirou Evie do veículo. Ela ficou agarrada a ele, tentando normalizar a respiração, olhando ainda apreensivamente à sua volta. Ao que parecia, Cam fora alertado pelo barulho e mantinha agora os dois tios em sentido: Brook estava estendido no chão, enquanto Peregrine, vermelho de raiva e de surpresa, recuava aos tropeções, tendo sido visivelmente empurrado com violência. Evie voltou a cara sobre o ombro do marido. Sebastian parecia literalmente fumegar de raiva: o ar gelado batendo contra a sua face ao rubro, transformava-lhe a respiração em jatos de vapor branco. Olhou-a atentamente numa inspeção rápida, mas meticulosa, as mãos percorrendo-a levemente, o olhar concentrado na sua face pálida. E, num tom de voz espantosamente terno, murmurou: – Está bem, Evie? Olhe para mim, meu amor… isso. Querida, fizeram-lhe algum mal? – N-n-não – Evie não tirava os olhos dele. – O meu tio Peregrine… – sussurrou – … é muito forte. – Eu trato dele – assegurou Sebastian. E, chamando Cam: – Rohan! Vem buscá-la. O rapaz obedeceu imediatamente, aproximando-se de Evie com passos longos e fluidos. Começou a falar-lhe numa língua desconhecida, numa voz que lhe acalmava os nervos. Ela hesitou antes de o seguir, lançando um olhar preocupado para Sebastian. – Está tudo bem – disse ele, sem a olhar, fixando com os olhos gélidos a figura bovina de Peregrine. – Vá… Mordendo o lábio, Evie tomou o braço de Cam, deixando que ele a afastasse dali. – Que amável em fazer-nos uma visita, tio… – disse Sebastian. – Veio felicitar-nos, não é


verdade? – Eu vim buscar a minha sobrinha – rosnou Peregrine. – Está prometida ao meu filho. O vosso casamento ilícito não vai aguentar-se. – Ela é minha! – exclamou Sebastian. – E você não pode ser tão estúpido ao ponto de pensar que eu a deixaria ir sem retaliar. – Eu vou mandar anular esse casamento – assegurou Peregrine. – Isso só seria possível se o casamento não tivesse sido consumado. E eu posso garantir-lhe que foi. – Temos um médico que se comprometeu em testemunhar que o hímen dela ainda está intacto. – P’ró diabo que o carregue! – disse Sebastian, num tom arrepiante e jocoso. – Calcula o género de comentários que isso ia acarretar a meu respeito? Trabalhei muito para cultivar a minha reputação. Diabos me levem se permitir qualquer sugestão de impotência que me prejudique! Sacudiu fora o casaco com um movimento de ombros e atirou-o a Cam, que o apanhou com uma só mão. O olhar assassino de Sebastian nunca largara o rosto lívido de Peregrine. – Já lhe ocorreu que eu a possa ter engravidado? – Nesse caso, isso também tem remédio. Sem compreender totalmente o que o tio queria dizer com aquilo, Evie recuou para o braço protetor de Cam que a cingiu, olhando Peregrine com um raro brilho de ódio nos seus olhos dourados. – Não se preocupe, minha querida – murmurou ele para Evie. À vil sugestão de Peregrine, Sebastian corou e os seus olhos brilharam como vidro estilhaçado: – Encantador… – disse ele. – Pois saiba que preferia matá-la a deixá-lo ficar com ela. Perdendo qualquer vestígio de autocontrolo, Peregrine precipitou-se contra ele com um rugido: – Eu atravesso-te de lado a lado se for preciso, seu filho de uma rameira gabarolas! Evie estremeceu quando Sebastian se afastou do tio que avançava como um touro, esperando que ele invertesse a marcha. – Que estúpido… – ouviu ela Cam murmurar. – Devia ter-lhe passado uma rasteira. Mas o rapaz calou-se, enquanto Sebastian conseguia a custo bloquear o golpe do punho maciço de Peregrine, para a seguir lhe lançar um soco rápido e certeiro no maxilar. Demolidor como parecera ser o golpe, resultou ter pouco efeito sobre o volumoso tio de Evie. Horrorizada, ela assistiu à dupla trocando uma série de golpes e murros rápidos. Embora Sebastian fosse muito mais ágil, Peregrine conseguiu acertar uns tantos golpes duríssimos, obrigando Sebastian a recuar sob o impacto. Os empregados começaram a sair do clube, soltando gritos de encorajamento a Sebastian, enquanto alguns transeuntes curiosos se aproximavam da origem do barulho. À volta dos brigões formou-se um vasto círculo e o ar ressoava com gritos e apupos. Evie agarrou-se com força ao braço de Cam, que lhe rodeava cintura. – Cam, faz qualquer coisa! – pediu ela.


– Não posso. – Tu sabes lutar. O meu pai sempre disse… – Não! – disse Cam, severo. – A luta é dele. Se eu me intrometesse agora, iria parecer que ele não consegue bater-se sozinho contra o seu tio. – Mas é que não consegue mesmo! Evie estremeceu ao ver Sebastian tropeçar para trás após outra brutal revoada de socos de Peregrine. – Não lhe está a fazer justiça – disse Cam, que não tirava os olhos da luta, vendo Sebastian avançar de novo. – Ele… ora aí está! Grande gancho de direita! E um bom jogo de pés, também. Os homens daquela altura não costumam mexer-se tão depressa! Se ele ao menos conseguisse… bolas! Lá se foi uma oportunidade perfeita! De repente soltou um grito de aprovação, vendo Sebastian abater Peregrine com uma forte esquerda no queixo. – Ora aí está! – exclamou. – Ele tem força e tem pontaria… o que lhe falta é um treino decente. Reduzido a um monte de gemidos no meio do chão, Peregrine parecia nem se aperceber do homem de expressão dura que se encontrava de pé, junto dele. Apercebendo-se de que a luta acabara, os empregados do clube ousaram avançar com gritos de aprovação e palmadas nas costas de Sebastian, dizendo-lhe que, afinal, ele não era o peralvilho que todos julgavam. Sebastian recebeu aquele duplo elogio com uma expressão sardónica e despachou rapidamente o carregamento dos seus contendores vencidos para dentro da carruagem. Cam aproveitou para virar Evie para si. – Diga-me como começou tudo isto. Já, antes que o seu marido aqui chegue. Rapidamente, Evie explicou como Bullard a tinha levado a descer as escadas e, literalmente, a tinha entregado nas mãos dos tios a troco de uma libra de ouro. O seu relato tomou a forma de um gaguejar intermitente, mas Cam conseguiu seguir a atabalhoada explicação. – Pronto, está bem – murmurou ele, sem expressão no rosto. – Eu trato do Bullard. E agora vá ter com St. Vincent. Ele precisa de si… Os homens sentem-se sempre cheios de seiva depois de um bom combate. Evie, confusa, sacudiu a cabeça: – Seiva? Como assim? Não faço ideia do que estás a falar. Um súbito ar divertido brilhou nos olhos dele: – Mas vai fazer… creia-me. Antes que ela pudesse pedir mais explicações, Sebastian chegou junto deles. Ao que parecia não estava satisfeito por ver Evie nos braços de Cam. A sua expressão era carrancuda. – Quero saber o que aconteceu – disse ele, furibundo, puxando Evie para si com um gesto possessivo. – Ausento-me por duas horas numa calma manhã de domingo e dou com isto?! Mas


que… – My lady pode explicar – interrompeu Cam, olhando por cima do ombro de Sebastian e vendo alguém no pátio da cavalariça. – Com a vossa licença, tenho de ir tratar de uma coisa… Saltou habilmente por cima da cerca baixa e desapareceu no meio da multidão.


Capítulo 12

Cam encontrou Joss Bullard perto do pátio do estábulo e aproximou-se dele cautelosamente. Bullard arfava, de narinas abertas, o branco dos olhos exagerado. Os dois homens nunca haviam sido amigos. A relação entre eles fora sempre mais de irmãos-inimigos vivendo sob o mesmo teto, com Jenner como figura parental. Enquanto crianças, tinham brincado e brigado juntos. Como adultos, tinham trabalhado lado a lado. Depois dos muitos atos de generosidade que Jenner tivera com Bullard, Cam jamais teria esperado que ele se comportasse assim. Uma fúria confusa enredava-se dentro de si e abanava a cabeça ao olhar Bullard. – Não percebo como foste capaz de a entregar aos tios – começou Cam –, ou o que é que julgavas ganhar com isso… – Ganhei uma libra de ouro – disparou Bullard. – E ainda bem q’ue nos livrámos daquela gaga idiota. – Tu estarás doido?! – perguntou Cam, enraivecido. – Estamos a falar da filha do Jenner! Não tinhas o direito de o fazer, nem por uma fortuna! – Ela nunca fez nada p’lo Jenner – interrompeu Bullard, furioso – nem p’lo clube. Chega aqui no último momento, pr ’ó ver bater as botas e depois fica com tudo p’ra ela! Rai’s partam essa cabra emproada, mais o palerma do marido! Cam ouvira com atenção, mas não conseguia entender o motivo da inveja de Bullard. Um cigano raramente entendia o ressentimento contra os bens dos outros. O dinheiro só servia para o prazer temporário de o gastar. Na tribo errante a que Cam pertencera até aos doze anos de idade, ninguém se lembrara de desejar mais do que aquilo que lhe era necessário. Um homem só podia usar um fato ou cavalgar um cavalo de cada vez. – Ela era a única filha do Jenner – respondeu Cam. – Nem tu nem eu temos nada que ver com o que ele lhe deu. Mas nada é pior do que trair a confiança de uma pessoa que depende da nossa proteção. Traí-la… ajudar alguém a levá-la contra vontade… – Voltaria a fazê-lo! – disse Bullard, cuspindo para o chão entre os dois.


Cam olhou atentamente para o outro e percebeu que ele não parecia estar nada bem. Estava pálido e exausto, os olhos baços… – Estás doente? – perguntou Cam. – Se estás diz-me. Eu falo com Lord St. Vincent a teu favor, talvez consiga… – Rai´s te partam! Ainda bem q’ue estou livre de ti, meu cigano de merda! Livre de ti e de toda a gente! O ódio violento na voz de Bullard não deixava espaço para dúvidas. Quanto a ele, não havia como recuar. Agora, a única questão era se o devia agarrar pelos colarinhos e arrastá-lo para o clube ou deixá-lo fugir. Lembrando-se do brilho sinistro no olhar de St. Vincent, Cam percebeu que, na primeira oportunidade, o visconde poderia inclusivamente chegar a matar Bullard, o que acarretaria uma série de sarilhos para toda a gente, especialmente para Evie. Não, o melhor a fazer seria deixar que Bullard desaparecesse. Ao olhar para a cara plena de ódio do rapaz que ele tinha conhecido durante tantos anos, Cam abanou a cabeça, irado e desapontado. A sua gente chamava àquilo uma alma perdida… a essência de um homem apanhado na armadilha de um reino sombrio. Mas como podia ter aquilo acontecido a Bullard? E quando? – É melhor que não te aproximes do clube – murmurou Cam. – Se St. Vincent te apanha… – Esse canalha pode apodrecer no inferno! – rosnou Bullard, tentando dar-lhe um soco de raspão. Evitando o punho com um reflexo surpreendido, Cam encostou-se à parede do estábulo e viu o outro virar-se e fugir. A sua atenção foi desperta pelo relinchar nervoso de um cavalo preso a um poste ali perto e Cam estendeu a mão, afagando o pescoço acetinado do baio. Os anéis de ouro nos seus dedos cintilaram à luz da tarde. – Era um homem tonto – disse Cam suavemente ao cavalo, acalmando o animal com a voz e o toque. Mas um suspiro escapou-lhe ao pensar mais além. – Jenner deixou-lhe uma herança… e prometi que me encarregaria de lha entregar. E agora, o que é que eu vou fazer? Sebastian puxou Evie para dentro do clube, onde reinava um silêncio inquietante, após o tumulto na rua. Ela esforçava-se por acompanhar as passadas dele, ao ponto de ter a respiração entrecortada quando subiram à sala de leitura no andar principal. As prateleiras de mogno embutidas estavam cheias de volumes encadernados em pele. Encostados à parede, os mais variados jornais e revistas pendiam de armações feitas com filas de cavilhas amovíveis. Empurrando Evie para dentro do quarto, Sebastian fechou-se com ela com um bater de porta decisivo. – Alguém a magoou? – perguntou, áspero. – Não. – Evie tentou refrear as suas palavras, mas elas saíram-lhe num jato de ressentimento. –


Por que razão se ausentou durante tanto tempo? Eu precisei de si e o senhor não estava! – A senhora tinha trinta empregados para a proteger. E para começar, porque é que desceu dos seus aposentos? Devia ter permanecido lá até saber de certeza quem é que estava lá fora! – O Bullard disse-me que a Annabelle Hunt estava à minha espera. E quando me apercebi de que era o meu tio, o Bullard não me deixou voltar para dentro de casa. Foi ele que me empurrou, literalmente, para os braços do meu tio! – Meu Deus! – exclamou Sebastian, atónito. – Vou estripá-lo, esse raio desse… – … e enquanto tudo isso acontecia, – continuou Evie, enfurecida – o senhor estava na cama com uma prostituta! Mal aquelas palavras lhe saíram da boca, ela percebeu que isto era o mais grave de tudo… mais importante até do que a cilada de Bullard ou o ataque do tio: as suas emoções explodiam perante o facto de Sebastian a ter traído tão cedo com outra mulher. Sebastian olhou-a com uma súbita intensidade: – Como? Mas eu não estava… – Não minta! – disse Evie. E a fúria de ambos cruzou-se no ar. – Eu sei que estava! – E como raio pode ter a certeza? – Porque o senhor esteve em casa de Madame Bradshaw durante mais de duas horas! – Estivemos a tratar de negócios. A falar, Evie! Se não acredita pode ir para o raio que a parta! Porque se eu tivesse realmente dormido com alguém, garanto-lhe que estaria muito mais descontraído do que estou agora. Ao olhar para os olhos de Sebastian, que estavam tão duros como um lago gelado, Evie sentiu a sua indignação começar a desaparecer. Não tinha remédio senão acreditar nele – a sua ira de ofendido era óbvia. – Oh… – murmurou ela. – Oh? É tudo o que tem a dizer? – Acho que… suponho que não devia ter tirado conclusões precipitadas. Mas conhecendo o seu passado, calculei… Aquele pedido de desculpas tão desastrado pareceu gastar os últimos restos de autodomínio de Sebastian. – Pois os seus cálculos estavam errados! Se é que ainda não reparou, estou com um trabalho dos diabos a cada minuto de cada dia. Não tenho o raio do tempo para uma fornicadela. E se tivesse… Parou abruptamente. Qualquer parecença com o elegante visconde que Evie em tempos observara de longe no salão de Lord Westcliff, desaparecera. Ele estava amarrotado, magoado e furioso. Parecia respirar com dificuldade. – Se tivesse… – Parou de novo e uma vaga de rubor atravessou-lhe as maçãs do rosto e o nariz. Evie viu o momento exato em que em que o autodomínio dele lhe escapava. Alarmada, precipitou-se para a porta fechada, mas, mesmo antes de dar um passo, achou-se agarrada e cravada


contra a parede pelas mãos e pelo corpo de Sebastian. O cheiro a suor da roupa interior de um homem excitado encheu-lhe as narinas. Assim que a apanhou, Sebastian encostou a boca entreaberta contra a pele fina da têmpora dela. A respiração dele alterava-se. Após um instante de pausa, Evie sentiu o toque elétrico da língua dele na ponta da sua sobrancelha. Aquele arfar contra o pequeno ponto húmido provocou nela uma onda de frio e calor que lhe causou arrepios por todo o corpo. Devagar, ele levou a boca até à orelha dela, percorrendo-a com a língua. O murmúrio dele pareceu vir dos recantos mais escuros do pensamento dela. – Nesse caso… eu já teria despedaçado as suas roupas com as mãos e com os dentes, até a ver nua… Por esta altura, já a teria empurrado contra o tapete e posto as minhas mãos nos seus seios… para os levar à minha boca. Estaria agora a beijá-los… a lambê-los… até os bicos ficarem duros como pequenas framboesas e então iria mordê-las com muito jeito… com tanta meiguice… Evie sentiu que se abandonava num doce esvair, enquanto ele continuava num murmúrio – … iria beijá-la por aí abaixo, pelas suas coxas, pouco a pouco… e quando chegasse àqueles doces caracóis ruivos… continuaria a lambê-la mais fundo e mais fundo… até encontrar a pequena pérola do seu clítoris… onde descansaria a minha língua até o sentir latejar. E faria círculos com a língua… até me suplicar… então começaria a chupar. Mas não com força… Não lhe faria essa mercê… Seria tão leve e tão terno… que a faria gritar de necessidade de se vir… então enfiaria a minha língua toda dentro de si… saboreando-a… comendo-a. Não iria parar até todo o seu corpo estar molhado e a tremer. E quando a tivesse torturado a meu contento… iria abri-lhe as pernas e entraria dentro de si, possuindo-a… possuindo-a… Sebastian calou-se, colando-a contra a parede, ambos gelados, excitados, ofegantes. Por fim, perguntou-lhe, numa voz quase inaudível: – Está molhada, não está? Se fosse fisicamente possível corar mais, Evie teria rebentado. A sua pele ardia de pudor violado, ao compreender o que ele estava a perguntar. Inclinou o queixo numa confissão o mais tímida possível. – Desejo-a mais do que jamais desejei fosse o que fosse à face da terra… – Sebastian teve uma aspiração trémula. – Diga-me o que eu tenho de fazer para me deixar entrar na sua cama. Evie empurrou-o sem resultado, incapaz de aliviar o peso estimulante do corpo dele. – N-n-não há nada que possa fazer. O que eu quero é aquilo que não me pode dar. Q-quero que me seja fiel e nunca poderia sê-lo… – Posso, sim! Mas aquela afirmação soou fácil de mais. Tresandava a insinceridade. – Não me parece – murmurou ela. As longas mãos dele curvaram-se à volta do seu rosto, os polegares afagando-lhe as faces. A sua boca quase tocava a dela:


– Evie… não posso prestar-me à nossa combinação. Não posso viver consigo, vê-la todo o dia e… não a possuir. Não posso… Ao sentir as pequenas tremuras que passavam pelo corpo dela, ele baixou a cabeça e beijou-lhe o pescoço. Os sentidos dela responderam ao calor persuasivo da boca dele, tão erótico e tão terno… aos dedos inquiridores que roçavam a curva dos seus seios. Ao ouvir o seu gemido, St. Vincent tomou-lhe a boca num beijo fogoso. Debilmente, ela afastou a cara, com os lábios a tremer daquela fricção deliciosa. – Sebastian, não… Ele esfregou a cara no cabelo dela, contra o topo da cabeça. Qualquer coisa naquela situação, ou a sua própria reação, deve ter despertado o seu sentido de humor, porque ele deixou escapar um curto riso sardónico. – Vai ter de pensar como resolver isto, Evie. E pense depressa… porque de outra maneira… – Fez uma pausa para lhe mordiscar a orelha. – …de outra maneira estou prestes a fornicá-la desaustinadamente! Ela abriu os olhos de repente: – Essa palavra… – começou ela, indignada, mas ele calou-a com um beijo violento. Ao afastar-se, Sebastian olhou-a, exasperado e divertido: – É a palavra em si que objeta ou a ação a que ela se refere? Aliviada ao ver que ele tinha retomado pelo menos parte da sua sanidade mental, Evie retorceu-se, para se libertar da pressão entre a parede e o corpo dele. – Objeto o facto de o senhor me desejar unicamente porque não estou disponível – e isso, para si, é uma novidade… – Essa não é a razão – interrompeu ele. Evie lançou-lhe um olhar de dúvida: – Além d-d-disso, não quero fazer parte de um estábulo de mulheres que o senhor visita quando lhe dá na veneta. Subitamente Sebastian ficou calado, sem a ver, com o olhar perdido. Evie esperou, morta de impaciência por vê-lo admitir que ela tinha razão. Esperou e esperou, até ele erguer lentamente a cabeça e os seus olhos de um azul-inverno fitarem os dela. – Muito bem – disse Sebastian, em voz baixa. – Aceito as suas condições. Serei… mo… monógamo. Pareceu ter dificuldade com a última palavra, como se estivesse tentando falar uma língua estrangeira. – Não acredito – afirmou ela. – Meu Deus, Evie! Imagina quantas mulheres têm tentado obter de mim essa promessa? E agora que, pela primeira vez, me sinto preparado para experimentar a fidelidade, atira-me isso à cara? Admito que tenho tido um passado prolixo com as mulheres…


– Promíscuo – emendou-o Evie. Ele fungou impaciente. – Promíscuo, debochado, o que quiser chamar-lhe. Tenho-me divertido à grande e Deus me livre de dizer que estou arrependido. Nunca levei para a cama uma mulher relutante, nem, que eu saiba, deixei alguma insatisfeita. – Essa não é a questão – uma ruga cruzava a testa de Evie. – Eu não o censuro pelo seu passado… ou, pelo menos… não estou a querer castigá-lo por isso. Ele fez um gesto de dúvida que ela ignorou, continuando: – Mas a verdade é que isso não o torna um candidato muito credível à fidelidade, não acha? Ele respondeu mal-humorado: – Mas o que quer de mim, afinal? Que peça desculpa por ser homem? Um voto de castidade até que decida se sou digno dos seus favores? Impressionada com aquela ideia, Evie olhou para ele. As mulheres sempre haviam sido, para Sebastian, presas demasiado fáceis. Se ela o fizesse esperar, poderia ele perder o interesse? Ou seria possível que pudessem vir a conhecer-se um ao outro, compreenderem-se mutuamente de uma forma completamente nova? Evie precisava de saber se ele viria a apreciá-la para lá do interesse sexual. Queria ter a oportunidade de ser algo mais do que uma simples parceira na cama. – Sebastian – perguntou ela, cautelosamente –, alguma vez fez um sacrifício por uma mulher? Ele parecia um anjo triste, assim virado para ela, encostado à parede, com um joelho ligeiramente fletido. – Que género de sacrifício? Ela lançou-lhe um olhar irónico. – De qualquer género. – Não. – Qual foi o tempo máximo que esteve sem… sem… – Evie procurou uma palavra aceitável. – … fazer amor? – Eu nunca lhe chamo isso. O amor não é tido nem achado neste contexto. – Quanto tempo? – insistiu ela. – Talvez… um mês. Ela pensou por um momento. – Então, se conseguir não ter relações sexuais com uma mulher durante seis meses… aí sim, eu durmo consigo. – Seis meses?! – Sebastian esbugalhou os olhos e a seguir lançou-lhe um olhar de desafio: – Querida, o que é que a faz pensar que vale meio ano de celibato? – Talvez não valha – disse Evie. – Mas… o senhor é a única pessoa que pode responder a essa pergunta. Sebastian, obviamente, teria adorado poder informá-la de que ela não valia a espera. Mas ao ver


como o olhar dele a percorria dos pés à cabeça, Evie reconheceu o inequívoco brilho do desejo nos seus olhos. Ele desejava-a… e muito. – É impossível – retrucou ele. – Porquê? – Porque eu sou Lord Sebastian St. Vincent. Não posso praticar o celibato! Toda a gente sabe isso. Era tão arrogante e mostrava-se tão genuinamente indignado que Evie teve de morder o lábio para não rir. Por fim conseguiu dizer calmamente: – Certamente que não lhe faria mal tentar. – Claro que faria! – A sua explicação foi-se tornando visivelmente mais difícil: – A senhora não pode entender, por falta de experiência, mas alguns homens têm um impulso sexual mais forte do que outros. Acontece que eu sou um deles. Não posso passar longos períodos de tempo sem… – interrompeu-se impacientemente ao ver a expressão dela. – Co’s diabos, Evie, não é saudável para um homem não libertar a sua semente com regularidade! – Três meses – disse ela. – É a minha última proposta. – Nunca! – Então procure outra mulher – respondeu ela, categoricamente. – Mas eu desejo-a a si. Exclusivamente a si… só o diabo sabe porquê – disse ele, com ferocidade, de olhos semicerrados, quase fuzilantes. – O que eu devia fazer era violá-la. Não tem legalmente nenhum direito a recusar-me a sua cama. Por um instante o coração de Evie parou e ela sentiu-se empalidecer. Mas recusou-se a ceder perante ele. Qualquer coisa lhe dizia para o enfrentar de igual para igual. – Então, avance, por quem é… – desafiou ela, calmamente. – Viole-me. Viu nos olhos dele um raio de surpresa. Sebastian abriu a boca, mas ficou calado. E então… ela compreendeu. – Não é capaz! – disse ela, estupefacta. – O senhor nunca poderia ter violado a Lillian. Tudo não passou de… bluff. Não é capaz de violar uma mulher! – Subiu-lhe aos lábios um meio sorriso. – Ela nunca esteve em perigo nem por um momento, não é verdade? E o senhor não é, nem de longe, o patife que finge ser. – Vai ver como sou! Sebastian agarrou-a e beijou-a com fúria, cravando a língua dentro dela, assaltando a sua boca. Evie não lhe resistiu. Fechou os olhos e deixou-o fazer o que queria e, em breve, ele gemia com uma terna paixão que tirava prazer de cada nervo. Quando finalmente a largou, ambos tremiam dos pés à cabeça. – Evie… – disse ele, com voz rouca – Não… não me peça uma coisa daquelas. – Três meses de celibato – disse ela, assertiva. – E se falhar… Evie fez uma pausa para imaginar as consequências mais medonhas possíveis… qualquer coisa que o revoltasse até ao íntimo do seu ser.


– Se falhar, terá de ir falar com o seu antigo amigo, Lord Westcliff, e pedir-lhe perdão por ter raptado a Lillian Bowman. – Santo Deus! – É o meu preço. – O seu preço é demasiado alto, c’um raio! Eu nunca peço perdão. – Nesse caso, é melhor que não aceite o meu desafio. Ou, se aceitar, é melhor para si não perder. – Não tem maneira de saber se eu faço batota. – Eu saberei, creia-me. Passou-se um longo momento de silêncio. – Onde está a sua aliança? – perguntou Sebastian, repentinamente. O sorriso de Evie desapareceu subitamente. Envergonhada por ter de admitir que a tirara num momento de despeito, resmungou: – Tirei-a. – E o que é que lhe fez? Embaraçada, meteu a mão na algibeira, sentindo a aliança. – Está… tenho-a aqui. Posso voltar a pô-la, se quiser. – Dê-ma. Calculando que ele queria tirar-lha de uma vez por todas, Evie fechou os dedos com força à volta do anel. Subitamente, apercebeu-se de que tinha ficado bastante ligada àquela maldita aliança. Contudo, o orgulho impediu-a de lhe pedir que a deixasse ficar com ela. Relutantemente, tirou-a da algibeira, afagando disfarçadamente com o dedo o compromisso gravado: Tha Gad Agam Ort… Sebastian agarrou no anel e tentou enfiá-lo no próprio anelar, mas as suas mãos eram tão grandes, que o pequeno círculo só lhe servia – e mal – no dedo mindinho. Agarrando no queixo dela com uma força irresistível, dardejou-lhe em cheio um olhar de ferocidade. – Aceito a aposta – disse ele, implacável. – E vou ganhá-la, pode estar certa. E dentro de três meses, tenciono enfiar-lhe de novo este anel no dedo e levá-la para a cama e… fazer-lhe coisas que estão fora da lei no mundo civilizado. A intrepidez de Evie não a livrou do bater de coração alarmado que qualquer mulher, no uso da razão, sentiria ao ouvir uma declaração tão ameaçadora. Nem evitou que os seus joelhos ficassem feitos em gelatina, quando ele a apertou contra o seu corpo com violência e colou a sua boca à dela. As mãos de Evie, suspensas no ar, desceram até à cabeça dele num gesto trémulo de borboleta. A textura do cabelo dele – os caracóis tão espessos e frescos à superfície, tão quentes e húmidos nas raízes – revelou-se impossível de resistir. Ela enfiou os dedos naquelas camadas douradas e macias e puxou-o para si, ainda mais perto, deleitando-se irresistivelmente com a pressão urgente da sua boca. As línguas uniram-se, deslizando, afagando-se mutuamente, e a cada carícia dentro das suas bocas unidas, Evie sentiu um ardor quente no mais fundo da sua barriga… não… mais fundo ainda… no centro que se apertava e se derretia, onde antes ela tinha sentido a invasão do seu cetro rígido. Foi


para ela um choque aperceber-se do quanto desejava tê-lo de novo ali. Evie gemeu quando ele se descolou dela, criando em ambos uma terrível sensação de frustração. – Não disse que eu não podia beijá-la… – declarou Sebastian, com olhos brilhantes de prazer diabólico. – E é o que eu vou fazer, tantas vezes e durante o tempo que me aprouver… e a senhora não vai soltar nem uma palavra de protesto. É essa a concessão que me vai dar em troca do celibato. Rai’s a partam! Sem lhe dar tempo para concordar ou objetar, ele largou-a e dirigiu-se a passos largos para a porta. – E agora, se me permite, vou matar o Joss Bullard.


Capítulo 13

Sebastian encontrou Cam no hall de entrada para a sala de leitura. – Onde está ele? – perguntou o visconde, sem mais preâmbulo. Cam parou diante dele e disse secamente: – Foi-se. – Porque não o seguiste?! Sebastian estava lívido de raiva. Aquela notícia, acrescida do seu forçado voto de castidade, era a última gota. Cam, habituado a anos de convívio com o temperamento explosivo de Jenner, manteve-se sereno. – Não vi necessidade, na minha opinião. Ele não vai voltar. – Eu não te pago para agires segundo o raio da tua opinião! Pago-te para obedeceres ao que eu te digo. Devias tê-lo arrastado pelos cabelos até aqui e deixar-me a mim decidir o que fazer a esse canalha! Cam manteve o silêncio, após ter deitado uma olhadela subtil a Evie que, no seu íntimo, se sentia bastante aliviada com o rumo dos acontecimentos. Ambos sabiam que, se Cam tivesse arrastado Bullard de volta para o clube, haveria uma verdadeira possibilidade de Sebastian efetivamente o matar – e a última coisa que Evie desejava era uma acusação de assassínio sobre a cabeça do marido. – Quero que mo encontres! – disse Sebastian, com veemência, caminhando para cá e para lá na sala de leitura. – Exijo, no mínimo, dois homens contratados para o procurar dia e noite até mo trazerem! Faço questão que ele sirva de exemplo para quem quer que seja que sequer pense em levantar um dedo contra a minha mulher! Levantou o braço, apontando para a porta: – Traz-me uma lista de nomes dentro de uma hora! Quero os melhores detetives possíveis – e privados! – Não quero cá nenhum idiota da Polícia que estrague isto, como é hábito! Vai! Embora Cam tivesse, sem dúvida alguma, opinião para sugerir a este respeito, não o fez. Saiu da sala imediatamente, seguido pelo olhar feroz de Sebastian.


Tentando acalmar aquela ira crescente, Evie aventurou-se: – Não precisa descarregar a sua cólera sobre o Cam. Ele apenas… – Não tente defendê-lo! – disse Sebastian. – Sabe tão bem quanto eu que ele poderia perfeitamente ter apanhado aquela ratazana, se quisesse. E raios me partam se vou continuar a tolerar que o trate pelo nome próprio! Ele não é seu irmão, nem tão pouco um amigo da nossa intimidade. Não passa de um empregado e de hoje em diante a senhora vai passar a tratá-lo por Mr. Rohan. Entendido?! – Mas engana-se! O Cam é, efetivamente, um amigo – replicou Evie, indignada. – E já o é há muitos anos! – As mulheres casadas não fazem amizade com rapazes solteiros. – O senhor at-t-reve-se a insultar a minha honra com suspeitas que…? Evie viu-se incapaz de continuar, dada a quantidade de protestos que se levantaram dentro de si. – Nada fiz para merecer essa sua falta de c-c-confiança!… – Eu confio em si. A questão é que não confio em mais ninguém. Suspeitando que ele estivesse a fazer troça dela, Evie enfrentou-o, indignada: – O senhor está a comportar-se como se eu fosse habitualmente perseguida por uma procissão de homens, o que não é, manifestamente, o caso! Devo recordá-lo que em Stony Cross Park os homens fugiam de mim como o diabo da cruz – e o senhor era um deles! A acusação – se bem que verdadeira – pareceu chocar Sebastian. As suas feições endureceram e ele olhou-a com um silêncio oco e pesado. – A Evie não deixava que fosse propriamente fácil aos outros aproximarem-se de si… – disse ele, após um momento. – A vaidade de um homem é mais frágil do que se pensa. Para nós é mais fácil confundir timidez com frieza – e silêncio com indiferença. E também poderia ter feito um esforço, sabe? Um encontro breve entre nós… um sorriso seu… era todo o encorajamento de que eu precisava para saltar sobre si como um gato. Evie olhou-o espantada, pois nunca considerara o assunto visto àquela luz. Seria possível que ela própria fosse, em parte, responsável pela sua eterna sina de encalhada? – Suponho… – disse ela, pensativa –… que realmente poderia fazer um esforço para dominar a minha timidez, sim. – Faça como bem entender. Mas quando se vir na presença do Rohan – ou qualquer outro homem – é melhor que não esqueça que me pertence completamente. Tentando interpretar aquele comentário, Evie olhou-o com espanto. – O senhor tem… Será possível… que tenha ciúmes de mim?! Um súbito desconcerto passou pelo rosto de Sebastian. – Sim – concedeu, ainda que muito contrariado. – Tudo parece indicar que sim. E lançando sobre Evie um olhar meio perplexo, meio de desagradado, saiu da sala. O funeral decorreu na manhã seguinte. Sebastian preparara o evento da melhor forma possível,


tendo conseguido alcançar o equilíbrio perfeito entre uma dignidade sóbria e uma ligeira pompa teatral. Era o género de desfile que Jenner teria, sem dúvida, adorado, tão extenso que ocupava toda a largura de St. James Street. A carruagem fúnebre era preta e dourada, puxada por quatro cavalos, seguida por dois coches de luto, igualmente puxados por quatro cavalos, com as bridas ornamentadas com grandes plumas de avestruz tingidas de preto. O belíssimo caixão de carvalho, adornado com pregos de latão e uma lustrosa placa inscrita, era forrado de chumbo e soldado, para impedir a intrusão dos ladrões de tumbas, um problema grave e muito comum nos cemitérios londrinos. Antes de fechar a tampa sobre o corpo do pai, Evie vira nos dedos dele um dos anéis de Cam, uma oferta de despedida que muito a emocionou. Mas o que realmente a tocara fora ver Sebastian rapidamente a alisar com um pente o cabelo do pai, quando cuidava não estar a ser visto. O frio era terrível. Um vento gelado penetrava no pesado casaco de lã de Evie, que seguia a cavalo, enquanto Sebastian, a pé, se mantinha a seu lado, segurando as rédeas. Duas dúzias de homens servindo de pajens, cavalariços e cocheiros seguiam no fim do cortejo, os seus bafos como pequenas nuvens brancas no ar frio do princípio do inverno. Eram seguidos por um extenso cortejo de acompanhantes, numa curiosa mistura de gente abastada, negociantes, fidalguia duvidosa e delinquentes sortidos. Estavam presentes amigos e inimigos. Fosse qual fosse a ocupação ou a disposição, a tradição do enterro tinha de ser cumprida. Esperava-se que Evie não assistisse ao funeral, pois a natureza feminina era considerada demasiado delicada para aguentar tão dura realidade. Mas Evie insistira em participar. Sebastian começara por opor-se, até Cam intervir: – O Ivo Jenner necessita ser libertado dos grilhões do desgosto da sua filha – explicara o cigano a Sebastian, quando a discussão se tornara mais acesa. – Os Romani acreditam que se alguém chora demasiado por um ente querido morto, este será forçado a regressar para tentar consolá-lo. Se assistir ao funeral ajudar a sua esposa a deixá-lo partir… – calou-se, encolhendo os ombros. Sebastian fulminara-o com o olhar. – Lá vêm novamente os fantasmas… – resmungou, irritado. Mas deixou cair o assunto, cedendo ao desejo de Evie. Tendo chorado tudo o que havia para chorar, Evie conseguiu manter-se estoica durante o funeral, mesmo quando a terra foi lançada sobre o caixão. Apenas derramou algumas lágrimas teimosas no momento em que Cam se aproximou do caixão, com um pequeno frasco de prata. De acordo com a tradição da etnia cigana, verteu solenemente uma porção de brandy sobre a sepultura. Irado com aquele gesto, o velho clérigo que conduzia a cerimónia avançou um passo, ralhando: – Pare com isso! Não queremos aqui essas práticas pagãs! A conspurcar um local sagrado com álcool barato…por Deus! – Sir… – interrompeu Sebastian, dando um passo em frente e pousando a mão no ombro do padre. – Não me parece que o nosso amigo Jenner se tivesse importado. – E deixou que um sorriso


conspirador lhe assomasse aos lábios ao acrescentar: – Trata-se de brandy francês de uma excelente colheita. Permita-me mandar entregar algumas garrafas à sua residência, para que possa experimentá-lo? Apaziguado pelo derrame de charme e gentileza do visconde, o clérigo sorriu-lhe também: – É muita bondade sua, my lord. Agradeço-lhe. Quando a maior parte dos acompanhantes tinha já partido, Evie lançou um olhar sobre as lojas, as casas e a fábrica que rodeavam a praça. A sua atenção foi subitamente captada pelo rosto de um homem, de pé, sob um candeeiro, do outro lado da praça. Vestido com um casaco escuro e com um sujo gorro cinzento, não era reconhecível, até que um sorriso lento lhe descobriu as faces. Era Joss Bullard, verificou ela, alarmada. Poderia parecer que pretendia prestar uma última homenagem a Ivo Jenner, mesmo que só à distância, mas a sua expressão não era de luto. Parecia positivamente uma visão de maldade, o rosto torcendo-se numa expressão de malícia que fez a jovem sentir um arrepio na espinha. Olhando-a diretamente, passou um dedo na horizontal traçando o pescoço – um gesto inequívoco, que a fez dar, involuntariamente, um passo para trás. Ao reparar naquele movimento, Sebastian voltou-se instintivamente para ela, segurando-lhe os ombros nas mãos enluvadas de preto. – Evie?… – murmurou, preocupado ao reparar na palidez dela. – O que foi? Sente-se bem? Evie acenou afirmativamente, deixando que o olhar se voltasse de novo para o candeeiro. Bullard desaparecera. – Só t-tenho um pouco de f-frio… – respondeu, tremendo, enquanto uma rajada de vento lhe atirava para trás o capuz do casaco. Sebastian puxou-lhe imediatamente o capuz para cima, cingindo-lhe mais o casaco junto ao pescoço. – Vou levá-la para casa – disse. – Preciso apenas de distribuir rapidamente umas moedas pelos cocheiros e cavalariços e depois vamos para casa. Tirou do sobretudo uma pequena bolsa de cabedal e dirigiu-se ao grupo de homens que aguardavam respeitosamente perto do túmulo. Reparando no ar angustiado de Evie, Cam aproximou-se dela, ainda com um traço de lágrimas no rosto. Ela agarrou-lhe a manga e murmurou: – Acabo de ver o Bullard… Ali, junto ao candeeiro. Os olhos de Cam abriram-se de apreensão e acenou afirmativamente. Não houve oportunidade de dizer mais nada. Sebastian regressou, pondo a mão ao redor dos ombros de Evie. – A carruagem espera-nos, minha querida – disse ele. – Não era necessário carruagem alguma – protestou ela. – Eu podia ir a pé. – Disse-lhes para prepararem o aquecedor de pés – disse ele, sorrindo ao ver a reação dela. E depois para Cam: – Acompanha-nos na carruagem.


– Obrigado, sir – disse o rapaz, num tom frio, mas cortês. – Prefiro ir a pé. – Vemo-nos no clube, então. – Sim, my lord. Enquanto acompanhava Sebastian até à carruagem, Evie fez questão de não olhar para trás. Perguntava a si própria se Cam conseguiria encontrar Bullard e o que aconteceria se o encontrasse. Subiu para a carruagem e dispôs rapidamente as saias à volta do aquecedor, estremecendo de prazer ao sentir as vagas de calor subirem até aos joelhos. Sebastian sentou-se junto dela com um vago sorriso nos lábios. Recordando aquela louca viagem até Gretna Green – que não tivera lugar há tanto tempo quanto isso – Evie pensou que parecia já ter passado uma eternidade desde então. Encostou-se a Sebastian e ficou grata por ele não se desviar. – Aguentou-se bem, apesar de tudo – disse-lhe ele, docemente, quando a carruagem começou a andar. – Foi o funeral mais bonito e refinado que jamais vi – respondeu ela. – O Pai teria adorado. Sebastian respondeu, num tom levemente divertido: – Na dúvida, resolvi errar para o lado do excesso, esperando que lhe agradasse, a ele. Hesitou antes de continuar: – Amanhã vou mandar esvaziar completamente os aposentos do seu pai e descascar e revestir as paredes. Só assim nos veremos livres do cheiro a quarto de doente. – Uma excelente ideia. – O clube reabre dentro de quinze dias. Vou deixá-la ficar até lá, para ter tempo de se habituar à morte do seu pai. Mas assim que o Jenner’s reabrir, faço questão que se instale confortavelmente na minha casa da cidade. – Como? – Surpreendida com aquela declaração, Evie endireitou-se para o olhar de frente. – Aquela em Mayfair? – Sim. Está bem equipada e completamente fornecida de pessoal. Se não lhe agradar, podemos procurar outra coisa, mas entretanto vai ter mesmo de lá ficar. – E está a pensar… ir viver comigo? – Não. Eu mantenho-me no clube. É muito mais prático para tratar de todos os assuntos. Evie tentou interpretar aquela aparente indiferença. Qual seria a razão desta súbita frieza? Ela não o havia incomodado… tinha feito muito poucas exigências, não obstante o luto. Confusa e zangada, baixou os olhos, torcendo os dedos enluvados. – Eu… quero ficar – disse ela, em voz baixa. Sebastian abanou a cabeça. – Não há qualquer razão para isso. Não é precisa aqui. É melhor para todos que vá viver para uma casa normal, onde poderá receber as suas amigas e não ser acordada a altas horas pelo barulho infernal das salas de jogo. – Eu durmo bem. O barulho não me in-incomoda. E posso perfeitamente receber as mi-minhas


amigas no clube. – Não abertamente… Ele tinha razão, mas isso não fazia diferença. Evie ficou calada, enquanto aquela frase não é precisa aqui, lhe fazia um eco terrível na cabeça. – Quero que viva num ambiente seguro e respeitável – prosseguiu Sebastian. – O Jenner’s não é lugar para uma senhora e a Evie sabe disso. – Eu não sou… uma senhora – contestou Evie, optando por um tom de leve ironia. – Sou filha de um jogador profissional e… esposa de um salafrário. – Mais uma razão para a afastar da minha influência. – Mesmo assim… não estou disposta a ir embora. Talvez possamos discutir essa hipótese lá mais para a primavera, mas até lá… – Evie – disse ele, calmamente. – Não lhe pedi a sua opinião. Ela ficou rígida e afastou-se dele ligeiramente. Um quarto inteiro cheio de aquecedores não teria sido suficiente para derreter o gelo que lhe cobria as veias. O seu espírito procurava desesperadamente argumentos que o pudessem dissuadir… mas ela tinha de admitir que ele tinha razão: não havia motivos para ela permanecer no clube. Apertava-se-lhe a garganta ao pensar que, por esta altura, já deveria estar habituada a isto… a não fazer falta a ninguém, a estar só. Mas então, por que diabo aquilo ainda a magoava tanto? Como ela desejava ser como Sebastian, com uma placa de gelo a proteger-lhe o coração… – E o nosso acordo? – perguntou ela, abatida. – Pretende ignorá-lo ou… – Oh não! Vou viver casto como um monge, até chegar a altura de reclamar a minha recompensa. Mas será mais fácil para mim resistir à tentação consigo fora do meu alcance. – Talvez eu não resista à tentação – ouviu-se Evie murmurar. – Quem sabe não encontre um cavalheiro prestável para me fazer companhia… Não se importava, pois não? Até aquelas palavras lhe saírem da boca, nunca teria pensado ser capaz de as proferir. Mas a necessidade desesperada de o magoar, de o irritar, de o atingir nas suas emoções, revelara-se mais forte. Mas a tentativa falhara. Após um instante de silêncio, ela ouviu a resposta dele, num tom macio como seda: – Absolutamente nada, minha querida. Seria deveras egoísta da minha parte negar-lhe esse divertimento no seu tempo privado. Faça como melhor lhe aprouver… contanto que esteja livre quando eu precisar de si. * Por trás das ruas modernas e elegantes, das praças respeitáveis das áreas opulentas de Londres, havia um mundo oculto de vielas escuras e pardieiros em declínio, onde parte da humanidade vivia em total sordidez. O crime e a prostituição eram os únicos meios de sobrevivência naqueles lugares.


O ar fedia a lixo e canos de esgoto e os edifícios estavam tão apertados uns contra os outros, que por vezes só se conseguia passar entre eles caminhando de lado. Cam aventurava-se cuidadosamente entre o intrincado labirinto de ruas, atento à infinidade de ciladas e perigos que esperavam qualquer visitante incauto. Passando um arco escuro, entrou num pátio com cerca de quarenta metros de comprimento por três de largura, limitado por grandes estruturas de madeira, cujos botaréus superiores se inclinavam para dentro, confundindo-se com o pardo céu de inverno. Os edifícios eram meras choças remendadas, pardieiros de ladrões e vagabundos, ou reles quartos de aluguer, onde as gentes sem lar dormiam amontoadas, como cadáveres numa vala comum. Pedaços de cortinas apodrecidas pendiam dos botaréus. As ratazanas remexiam-se e corriam ao longo das paredes, desaparecendo nos buracos dos alicerces. No pátio comum não se via vivalma, à exceção de duas raparigas sentadas num degrau e umas tantas crianças esqueléticas que procuravam no lixo algum osso ou trapo perdidos. Ao verem Cam, lançaram-lhe olhares curiosos e desconfiados, desaparecendo num ápice pelo canto mais afastado do pátio. Uma das jovens prostitutas, de cabelo ruivo e encrespado, riu-se para ele, revelando restos de dentes partidos, e disse: – Qu’é q’um gajo alto e bem-parecido como tu vem fazer a Hangman’s Court? – Procuro um homem mais ou menos desta altura – Cam indicou um metro e setenta. – Com cabelo preto. Entrou neste pátio há menos de um minuto. As raparigas cacarejaram em uníssono, deliciadas. – Olha só prá conversa deste… – disse uma delas, trocista. – Lindo! – concordou a outra. – Vá lá, querido, p’ra que quer ’s tu um homem quando te podes deitar aqui com a Lulu Luxúria? Puxou a blusa para baixo, revelando um peito esquelético e uns seios descaídos. – Não queres dar uma voltinha c’migo? Aposto q’até gostas. Cam tirou do bolso uma moeda de prata, que ela seguiu com olhos esfaimados. – Diz-me para onde é que ele foi. – Digo-te, pois! Por duas dessas – disse ela. – Tens uns olhos bonitos, sabes? Nunca dei uma volta c’um rapaz com olhos assim bonitos… Uma gargalhada desagradável ecoou pelo pátio, seguida da voz trocista de Joss Bullard: – Nunca me hás de apanhar, mestiço nojento! Cam virou-se rapidamente, observando os edifícios onde dezenas de rostos sujos de fuligem assomavam a portas e janelas, ou espreitavam dos alpendres sem telhas. Não lhe foi possível reconhecer ninguém. – Bullard… – disse Cam, cautelosamente, voltando-se lentamente de modo a cobrir toda a cena. – O que é que tu queres com a filha do Jenner? Ouviu-se nova risada desagradável, esta parecendo vir de outra direção. Cam avançou para o centro do pátio, incapaz de localizar Bullard.


– Quero dar cabo dela! – Porquê? – Porqu’ela é uma sanguessuga q’me tirou tudo o qu’é meu! Quero vê-la morta! Quero qu’as ratazanas a comam até não haver s’não ossos! – Mas porquê?! – perguntou Cam, espantado. – Ela pediu-me para te ajudar, homem de Deus! Mesmo depois de a teres traído daquela maneira. Quer honrar o pedido do pai de te deixar o bastante para… – Rai’s partam aquela cabra! Cam abanava a cabeça, incapaz de compreender de onde vinha tanta hostilidade e o motivo pelo qual Bullard mostrava uma raiva tão tresloucada para com Evie. Ao ouvir um rangido atrás de si, o jovem cigano esquivou-se a tempo, no preciso instante em que uma tábua voava pelo ar e rasava o local onde, um segundo antes, estivera a sua cabeça. Porém, o seu atacante não fora Bullard, mas sim um varredor de rua que resolvera, num impulso, experimentar a sua sorte como assaltante de transeuntes indefesos. Tinha o aspeto peculiar de um jovem avelhentado que vivera na rua desde que nascera. Cam despachou-o em escassos e eficientes golpes, atirando-o ao chão como a um fardo. Uns quantos outros varredores surgiram do outro lado do pátio, tendo decidido, aparentemente, que o melhor seria atacar em grupo. Apercebendo-se do perigo, Cam retirou-se para o arco por onde entrara, seguido pela voz de Bullard: – Hei de apanhá-la, vais ver! – Nem lhe hás de tocar com a ponta de um dedo – respondeu Cam, pleno de raiva impotente, ao lançar uma última olhadela para o Pátio do Enforcado. – Mando-te para o inferno antes que lhe toques com um dedo, sequer! – E eu arrasto-te comigo! – foi a resposta maldosa de Bullard, que continuava a rir, enquanto Cam se afastava. Mais tarde, Cam procurou Evie, aproveitando o facto de Sebastian se encontrar ocupado com um grupo de carpinteiros que restauravam o parqué de padrão intrincado da sala de jantar. Encontrou a jovem no salão de jogo, remexendo, meio absorta, nas fichas de jogo, separando-as em pilhas do mesmo valor. Cam aproximou-se dela com o seu felídeo passo, leve e silencioso. Ela estremeceu ao ligeiro toque no braço e sorriu aliviada ao ver que era ele. Era raro ela deparar-se com Cam visivelmente perturbado; um rapaz da sua natureza prosaica não era dado a ansiedades e ao torcer de mãos. Cam recebia cada momento quando ele chegava, vivendo no presente sempre que possível. Contudo, os acontecimentos daquele dia tinham deixado marcas, revelando uma tensão que o envelhecia momentaneamente. – Não consegui apanhá-lo – disse Cam. – Desapareceu num pardieiro e falou-me lá de dentro, do escuro. O que ele disse não faz o menor sentido. Parece ter um sentimento forte contra si, gadji, e não entendo porquê. Uma espécie de insanidade. Vou ter mesmo de alertar o St. Vincent.


– Não, não faças isso! Por favor! – respondeu Evie, imediatamente. – Só serviria para o preocupar e enfurecer. Já tem bastante com que se preocupar, neste momento. – Mas se o Bullard tentar fazer-lhe mal… – Aqui eu estou segura, não é verdade? Ele não se atreveria a vir ao clube, Cam. Nunca com a cabeça a prémio, como o meu marido prometeu. – Existem entradas secretas no edifício. – Não podes… trancá-las? Tapá-las? Cam considerou a hipótese, de testa franzida. – Sim, algumas delas. Mas não se trata apenas de eu andar a vaguear por aí noite após noite, com um molho de chaves… – Eu sei. Mas… faz o que puderes – disse Evie, passando um dedo desanimado por uma fila de fichas. – No fundo, até nem tem importância, visto eu estar prestes a sair daqui. Lord St. Vincent quer que eu vá na próxima semana. Não vê necessidade que viva aqui no clube, agora que o meu Pai… E fechou-se num silêncio desolado. – Talvez ele tenha razão – disse Cam, suprimindo do seu tom de voz qualquer réstia de piedade. – Este não é o sítio mais adequado para si. Muito menos o mais seguro. – Ele não o faz por razões de segurança. Os dedos de Evie torceram-se à volta de uma ficha preta e ela fê-la girar como um pião sobre o tampo da mesa. – Fá-lo para… manter uma distância entre nós. Evie sentiu-se ao mesmo tempo frustrada e animada pelo sorriso de Cam. – Tenha paciência com ele… – aconselhou o jovem. E deixou-a a olhar para a ficha que girava, até o impulso se esgotar em imobilidade.


Capítulo 14

Evie sentiu-se muito satisfeita com a atividade frenética e constante no clube durante os quinze dias que se seguiram, já que a ajudava a distrair-se do seu desgosto. Quando disse a Sebastian que gostaria de se tornar útil, foi imediatamente remetida para o escritório, onde a correspondência e os livros de contabilidade se apresentavam em pilhas desorganizadas. Foi também incumbida de orientar pintores, decoradores, carpinteiros e pedreiros nas suas várias tarefas, uma responsabilidade que, em tempos, a teria aterrorizado. Falar com tantos estranhos revelou-se de início algo esgotante – e nos primeiros dias viu-se forçada a lutar contra a sua gaguez. Contudo, quanto maior foi o esforço, mais fácil se tornou. Beneficiou do facto de todos os trabalhadores a escutarem com um misto de paciência e respeito que nunca lhe haviam sido concedidos. A primeira coisa que Sebastian fez imediatamente após o enterro de Ivo Jenner, foi reunir-se com o comissário da polícia, para debaterem o recente aperto das leis do jogo. Usando o seu natural encanto persuasivo, Sebastian fez prevalecer a ideia de que o Jenner’s era um clube social, ao contrário de um clube especialmente dedicado aos jogos de azar. E por isso mesmo, não representava o género de local que devesse ser sujeito aos raids da polícia, visto os seus membros, como Sebastian solenemente os classificou, serem cavalheiros da máxima integridade. Influenciado pelo hábil raciocínio de Sebastian, o comissário prometeu que não haveria inspeções ao Jenner’s enquanto o clube mantivesse uma aparência de respeitabilidade. Ao saber do sucesso de Sebastian junto do Comissário, Cam Rohan comentou, com admiração: – Isso é que foi um truque catita, my lord! Começo a pensar que é capaz de persuadir seja quem for a fazer praticamente o que quer que seja. Sebastian sorriu, divertido, e olhou para Evie, que estava sentada ali perto. – Penso que Lady St. Vincent é a melhor prova disso mesmo. Tudo se passava como se Sebastian e Cam tivessem decidido formar uma aliança com o propósito de relançar o clube. As relações entre eles não eram propriamente amistosas, mas também já não eram hostis. Cam teria certamente tomado nota das qualidades de chefia de Sebastian que, a bem da


verdade, haviam sido preciosas naqueles dias após a morte de Ivo Jenner. Sebastian, por seu lado, abandonara os seus ares de indolência típicos das classes superiores e tomara nas suas mãos a direção do clube, com autoridade e espírito de decisão. Tal como seria de esperar, Sebastian era o género de homem que os empregados do clube desprezavam, vendo-o, inicialmente, como um daqueles anjinhos ou pacóvios que frequentavam casinos. Um aristocrata mimado e auto-complacente que não fazia a mais pálida ideia do que era o trabalho. Provavelmente, todos tinham partido do princípio, tal como Evie, de que Sebastian depressa se cansaria das responsabilidades que a direção de um clube de jogo acarretava. Mas ninguém se atrevia a desafiá-lo, quando era evidente que ele não hesitaria em despedir quem quer que fosse que lhe desobedecesse. Não podia ter havido declaração de autoridade mais clara do que o modo como ele despedira sumariamente Clive Egan. Para além disso, a forte dedicação e o empenho sincero de Sebastian para com o clube não podiam ser postos em causa. Interessava-se vivamente por tudo, desde o funcionamento da cozinha até aos problemas específicos que poderiam advir da exploração da sala de jogos. Apercebendo-se de que tinha ainda muito que aprender sobre o funcionamento dos jogos, Sebastian empenhou-se em compreender a matemática dos jogos de aposta. Uma noite Evie entrou, por acaso, no salão de jogo, para se deparar com Sebastian e Cam junto da mesa central, enquanto o jovem cigano fornecia ao marido uma explicação detalhada do sistema de probabilidades. – … há apenas trinta e seis combinações possíveis entre os dois dados e claro, cada dado tem seis faces. Quando se lançam dois dados simultaneamente, qualquer combinação a que se chegue chamase probabilidade acumulada – e as hipóteses de acertar são de trinta e cinco para um. Cam parou de falar e olhou para Sebastian, que fez um sinal com a cabeça, dizendo: – Continua. – Como qualquer jogador de jogos de azar sabe, à soma dos lados dos dois dados que ficam virados para cima chama-se um ponto. À laia de exemplo: dois uns somados são um ponto de dois. Dois seis somados, um ponto de doze. Mas as hipóteses de se obter uma certa soma variam, uma vez que só existe uma maneira de obter um dois e seis maneiras de obter um sete. – E o sete é um natural – murmurou Sebastian, concentrado. – E visto a maior parte das combinações resultarem num natural, as probabilidades de se obter um sete com um só lance são… – De dezasseis por cento – concluiu Cam, pegando nos dados. Os anéis de ouro nos seus dedos morenos captaram um reflexo de luz quando ele lançou os dados que foram rolando até ao outro extremo da mesa. Ricocheteando na base da mesa, os cubos de marfim pararam na baeta verde. Ambas as faces voltadas para cima mostravam um seis. – Por outro lado, a probabilidade de se obter um doze com uma jogada é de apenas três por cento. E, naturalmente, quanto mais vezes se lançarem os dados, mais crescem as probabilidades… de modo que, quando se lançam os dados cento e sessenta e seis vezes, as probabilidades de se ter obtido um doze são de noventa e nove por cento. Mas é óbvio que, com outros pontos, as probabilidades


serão diferentes. Posso demonstrá-lo com lápis e papel – é mais fácil de entender. Uma pessoa tem uma enorme vantagem à partida se souber calcular as probabilidades. Poucos jogadores o conseguem fazer – e é isso que distingue os ganhadores dos tansos. Os jogos de azar são ruinosos, mesmo quando jogados honestamente, porque a vantagem, na maioria das vezes, vai para a banca e… Cam interrompeu-se, respeitosamente, pela chegada de Evie junto da mesa. Um sorriso brilhou nos seus olhos escuros. – Boa noite, my lady. Sebastian franziu o sobrolho ao ver a cumplicidade palpável existente entre eles. – Boa noite – murmurou Evie, tomando um lugar à mesa ao lado de Sebastian. Levantou os olhos para ele, sorrindo. – É versado em números, my lord? – Sempre cuidei que sim – respondeu Sebastian, hesitante. – Até agora… Rohan, os outros croupiers também são tão versados quanto tu em cálculos de probabilidades? – Suficientemente versados, my lord. Estão bem adestrados… Todos sabem como induzir um jogador a apostar com vantagem para a casa, como identificar um bom e um mau jogador…. – Adestrados… por quem? – perguntou Evie. O sorriso de Cam era como um clarão branco no seu rosto cor de mel. – Por mim, claro. Ninguém domina os jogos de azar como eu. Evie sorriu para o marido: – Só lhe falta a confiança em si próprio. Mas Sebastian não reagiu à graça e disse abruptamente: – Quero uma lista, por ordem decrescente, de todos os empréstimos em curso e as datas em que se vencem. O livro-razão está na prateleira de cima do escritório. É uma boa altura para tratares disso. – Sim, my lord. Com uma ligeira vénia para Evie, Cam saiu com o seu habitual jeito ágil e descontraído. Vendo-se a sós com o marido naquela sala de jogo cavernosa e à meia-luz, Evie sentiu um aperto nervoso no estômago. Nos últimos dias, os contactos entre eles tinham sido frequentes, mas impessoais; e raras haviam sido as vezes em que tinham estado a sós. Curvou-se sobre a mesa para agarrar os dados largados e tratou de os guardar numa caixinha de cabedal. Ao endireitar-se, sentiu a mão de Sebastian roçar ligeiramente as suas costas, e os cabelos da nuca arrepiaram-se. – Já é tarde – disse ele, num tom muito mais suave do que o que usara com Cam. – Devia retirarse. Estará certamente exausta depois de tudo o que fez hoje. – Não fiz assim tanto como isso… Encolheu os ombros, pouco à vontade, e a mão dele fez, novamente, uma lenta e enervante investida pelas suas costas. – Fez sim… Anda a esforçar-se demasiado, querida. Precisa de descansar. Ela abanou a cabeça, com dificuldade em pensar com clareza enquanto ele a tocava.


– Estou feliz com esta oportunidade de trabalhar um pouco – conseguiu dizer. – Impede-me de pensar em… em… – Bem sei… E foi precisamente por isso que lho permiti. Os dedos longos de Sebastian curvaram-se à volta da nuca dela. A respiração de Evie tornou-se mais ofegante ao sentir o calor da mão dele passar para a sua pele. – Precisa de ir para a cama – continuou ele, e a sua voz era menos firme ao apertá-la um pouco. O seu olhar flutuou por momentos do rosto dela para o contorno redondo dos seus seios e novamente para o rosto, escapando-lhe um risinho leve e sem humor. – E eu também precisava de ir para lá consigo, diabos me levem! Mas como não me é possível… venha cá. – Para quê? – perguntou ela, inquieta ao senti-lo pressioná-la contra a mesa e as pernas dele avançarem entre as pregas da sua saia. – Apetece-me torturá-la um pouco… Evie fitou-o com os olhos redondos de apreensão, enquanto o coração parecia bombear fogo líquido nas veias. – Ao usar… – teve de tossicar um pouco e começar de novo: – Quando usa esse termo… torturar, espero que seja em sentido figurado… Ele abanou a cabeça. – Receio… que seja em sentido literal. – Como? – Meu amor – disse ele, com ternura –, espero, sinceramente, que não tenha partido do princípio de que os próximos três meses de sofrimento seriam só da minha parte… Ponha as suas mãos sobre mim. – O-onde? – Onde quiser Ele esperou, enquanto ela, hesitante, colocava as mãos nos ombros dele, por cima da lã fina do casaco. Olhando-a nos olhos, disse: – Enquanto este fogo arder em mim, Evie… vou atiçá-lo em si. – Sebastian… – ela procurou libertar-se, mas ele fincou-a firmemente contra a mesa. – Tenho pleno direito de a beijar – lembrou-lhe ele. – Sempre que me aprouver e durante o tempo que desejar. Foi esse o nosso acordo. Ela lançou em redor um olhar angustiado, que ele interpretou facilmente. – Não me ralo um chavelho que alguém nos veja! Estou com a minha mulher. – Um sorriso irónico atravessou-lhe os lábios: – A minha cara-metade… a melhor parte de mim mesmo. Curvando-se sobre ela, passou a boca nos finos cabelos despenteados sobre a testa dela, o seu hálito quente e macio sobre a sua pele. – O meu galardão… o meu prazer e a minha dor… o meu desejo sem fim. Nunca conheci ninguém assim, Evie… Nem jamais senti… isto.


A boca dele tocou-lhe no nariz e deslizou até à ponta. – Atreve-se a exigir de mim o que nenhuma outra mulher imaginaria pedir. E por agora vou pagar o preço, meu amor… Mas mais tarde, há de pagar o meu, uma e outra vez… Com as mãos em concha na sua nuca, prendeu nos seus lábios a boca dela, que tremia. Ele era um homem que adorava beijar, quase tanto como o ato de amor em si. Começou por um aflorar macio da boca fechada… aumentando a pressão até a conseguir entreabrir… e então Evie sentiu a intrusão subtil da língua dele. A sua cabeça descaiu, indefesa, na cova das mãos dele, o seu coração martelava-lhe o sangue através das veias, fazendo-a sentir-se quente e fraca. Ele apoderou-se ainda mais dela, beijando-a de todos os ângulos possíveis, trespassando-a cada vez mais fundo. Sebastian fez deslizar uma das suas mãos para a frente dela, passando-a levemente sobre os seios, procurando, em vão, a ponta do mamilo através da rigidez do corpete. Ansiando pela pele dela, tenteou com os dedos até ao pescoço, em busca do latejar rápido da pulsação. A boca dele resvalou ao longo do pescoço até encontrar o ponto latejante. Evie soergueu-se nas pernas e as suas mãos procuraram o apoio dos ombros dele. Com um murmúrio suave, Sebastian segurou-a mais firmemente contra o seu corpo e procurou de novo a boca dela. Ela já não conseguia reter os sons suplicantes que lhe saiam da garganta, não ansiando senão absorver mais do gosto dele, mais do gosto másculo e quente e sedoso da sua boca, mais… O som de um pigarrear embaraçado fez com que Evie se soltasse com um arquejo. Ao compreender que alguém entrara na sala, Sebastian puxou a cabeça dela contra o seu peito, afagandolhe a face com um dedo. Interpelou o intruso calmamente, embora Evie sentisse na face o bater desordenado do coração dele. – O que há, Gully? Jim Gully, um dos empregados da sala de jogos, respondeu nervosa e atabalhoadamente: – Mil perdões, my lord, mas… mas há sarilho lá em baixo. Os carpinteiros sacaram umas garrafas sabe Deus de onde e estão os três… bêbados como uns cachos. Dois deles já estão à pancada e o terceiro anda desaustinado, a quebrar a loiça toda do bufete. – O Rohan que se encarregue disso – resmungou Sebastian. – Mr. Rohan diz que está ocupado. – Está a decorrer lá em baixo uma desordem de bêbados e ele tem mais que fazer do que ocuparse do caso?! – indagou Sebastian, incrédulo. – Temo que sim, my lord… – Trata tu disso, então. – Perdão, my lord, mas não me é possível. – Mostrou um dedo entrapado. – Quebrei o polegar durante uma briga no beco, na noite passada, sir. – E onde diabos se meteu o Hayes? – Desconheço, my lord. – Estás a dizer-me – perguntou Sebastian, com perigo iminente na sua voz calma – que, dos trinta


empregados que aqui trabalham, não há um capaz de impedir três bêbados de darem cabo da sala de café, quando deviam, isso sim, estar a repará-la?! – Temo que sim, sir. Na pausa repleta de fúria, após a resposta de Gully, os sons da loiça a partir e dos móveis atirados contra as paredes causaram uma vibração que provocou um ligeiro tinir dos candelabros do teto. Berros indistintos acompanhavam o barulho crescente da luta. – Que raio! – praguejou Sebastian, entre dentes cerrados. – Que diabos estarão estes infelizes a fazer ao meu clube? Confusa, Evie sacudia a cabeça, olhando da cara furibunda do marido para a expressão cautelosamente inexpressiva de Gully. – Não fa-faço ideia… – murmurou. – Pois chame-lhe um ritual de passagem – disse Sebastian, bruscamente. E saiu a passos largos que em breve passaram a uma corrida. Segurando as saias, Evie precipitou-se atrás dele. Ritual de passagem? O que queria ele dizer com isso? E por que razão não ia Cam tentar resolver o assunto? Não lhe sendo possível seguir o passo afoito do marido, Evie seguiu-o cuidadosamente, segurando as saias para não tropeçar ao descer as escadas. O barulho aumentava à medida que ela se aproximava de uma pequena multidão congregada à volta da sala de café, com gritos e exclamações que atroavam o ar. Viu Sebastian despir o casaco e atirá-lo a alguém, para, logo de seguida, se embrenhar na escaramuça. Numa pequena clareira, três figuras à pancada giravam os braços, tentando, toscamente, empurrarem-se e agredirem-se uns aos outros, rodeados de espectadores curiosos que bramiam de excitação. Estrategicamente, Sebastian atacou aquele que parecia menos seguro nas pernas, fazendo-o girar, atingindo-o com socos e ganchos bem aplicados, até que a criatura, estonteada, cambaleou para a frente e desabou sobre a carpete. Os dois restantes voltaram-se de frente e atacaram Sebastian; um deles tentou segurar-lhe os braços, enquanto o outro avançava, revolvendo vigorosamente os punhos. Evie lançou um grito alarmado que, de algum modo, chegou aos ouvidos de Sebastian através do barulho da multidão. Desorientado, ele olhou na direção dela e foi imediatamente agarrado num clinch contundente, com o pescoço apanhado como num torno pelo braço de um dos adversários, enquanto o outro o atingia na cabeça com golpes fortes. – Não! – gritou Evie, tentando avançar, no que foi impedida por um braço de ferro que a agarrou pela cintura. – Espere! – disse uma voz familiar. – Dê-lhe a chance de retaliar. – Cam?! – Ela virou-se violentamente e o seu olhar em pânico encontrou aquela face exótica e familiar, com malares altos e pestanudos olhos dourados. – Eles vão magoá-lo! – disse ela, agarrando-o pelas bandas do casaco. – Vai ajudá-lo, Cam! Tens de o ajudar…! – Ele já se libertou – observou Cam, calmamente, fazendo-a virar-se. – Repare, não se está a sair


nada mal… Um dos adversários de Sebastian conseguiu soltar um poderoso golpe. Mas Sebastian esquivou-se e atingiu-o com um golpe fulminante. – Cam, por favor! – P-p-por que diabo não fazes nada para o ajudar? – Não posso. – Claro que podes! Tu estás habituado a andar à pancada muito mais do que… – Temos de lhe permitir desenrascar-se por si mesmo – A voz de Cam soou calma e firme ao ouvido dela. – De outro modo não terá autoridade. Os homens que aqui trabalham têm uma noção de liderança que requer ação tanto como palavras. St. Vincent não pode exigir deles nada que não esteja disposto a fazer ele próprio. E ele sabe-o. De outro modo não estaria a fazer o que está a fazer neste momento. Evie tapou os olhos quando um dos adversários se atreveu a aproximar-se do marido por trás – enquanto o outro o atacava com uma rajada de golpes. – Queres dizer que eles só lhe serão leais se ele estiver d-disposto a usar os p-unhos numa exibição de força bruta sem sentido?! – Basicamente, é isso mesmo. Eles querem saber de que cepa ele é feito. – Cam puxou-a pelo pulso. – Repare bem, Evie… – disse ele, com um súbito tremor de riso. – Ele vai ganhar isto. Mas ela não conseguia olhar. Voltou-se contra o peito de Cam, estremecendo a cada som de punhos em contacto com a carne, a cada gemido de dor. – Isto é int-t-tolerável – gemeu ela. – Cam…! – Ninguém o obrigou a despedir o Egan e a encarregar-se, ele próprio, de dirigir o clube – fez notar Cam, inexorável. – Isto faz parte do trabalho, minha querida. Ela entendeu: sabia perfeitamente que o seu próprio pai tinha posto termo a infinitas rixas alheias, ou até tomado parte em grande parte delas, durante toda a sua vida. Mas Sebastian não nascera para aquilo. Não tinha a brutalidade necessária, nem o apego à violência, que caracterizavam Ivo Jenner. Mas quando outro homem foi derrubado e Sebastian começou a circular cautelosamente à volta do seu último adversário, tornou-se evidente que, estivesse ou não na sua natureza, ele estava disposto a fazer o que era necessário para provar a sua fibra. O bêbado correu para ele e Sebastian abateu-o com uma súbita combinação de dois ganchos esquerdos e um direito. Desabando no chão, o infeliz apagou-se com um gemido. O grupo de empregados sancionou a vitória do patrão, com gritos de aprovação e uma sonora salva de palmas. Aceitando a aclamação com um gesto sombrio de cabeça, Sebastian olhou para Evie, envolta no semicírculo protetor do braço de Cam e lançou-lhes um olhar sombrio. Os contendores vencidos foram ajudados a sair pelos espetadores entusiasmados. Desde logo surgiram baldes e vassouras para limparem os escombros, enquanto vários membros da assistência lançaram a Sebastian olhares muito mais amistosos do que antes. Limpando à manga da camisa um pequeno rasto de sangue no canto da boca, Sebastian curvou-se para endireitar uma cadeira tombada


e colocá-la no sítio. Cam largou Evie e aproximou-se de Sebastian, enquanto a sala ia ficando vazia. – Luta como um cavalheiro, my lord – comentou. Sebastian lançou-lhe um olhar sardónico: – Porque será que isso não me soa a elogio? Enfiando as mãos nos bolsos, Cam observou, mansamente: – Resulta bem contra um par de borrachões idiotas… – Eram três, para começar – resmungou Sebastian. – Três borrachões idiotas, então. Mas para a próxima vez, talvez não tenha tanta sorte. – A próxima vez?! Se cuidas que eu vou fazer disto um hábito… – O Jenner fazia-o – respondeu Cam, serenamente. – O Egan fazia-o. Quase todas as noites há sarilho lá fora no beco, nos estábulos, nas salas de jogo, quando os nossos clientes já desfrutaram de suficientes horas de estímulo de jogo, de álcool e de mulheres. Todos nós fazemos turnos para tratar desses assuntos. E, a não ser que esteja disposto a levar uma carga de pancada uma vez por semana – pelo menos –, terá de aprender uns certos truques para acabar rapidamente com uma briga. Causa menos danos, tanto para o senhor como para os frequentadores, e mantém a polícia afastada. – Se te estás a referir ao género de táticas usadas em rixas de espeluncas e em brigas de becos entre gatos assanhados… – Creia-me, sir, que não lhe é bastante a meia hora semanal de exercício leve no clube de boxe – comentou Cam, azedamente. Sebastian ia ripostar no mesmo tom, mas ao ver Evie, que se aproximava, qualquer coisa no seu rosto se alterou. Foi uma reação à ansiedade que ela não conseguia esconder; a preocupação dela abalou a hostilidade dele, amansando-o. Olhando de um para o outro, Cam observava aquela ação recíproca com interessada astúcia. – Feriu-se? – perguntava Evie, observando o marido de perto. Para seu alívio, Sebastian parecia enervado e esguedelhado, mas sem estragos de maior. Ele abanou a cabeça, parando quando a viu erguer a mão para lhe afastar alguns fios de cabelo húmido que ameaçavam tapar-lhe os olhos. – Estou ótimo – murmurou ele. – Isto não é nada comparado com a bordoada que levei do Westcliff. Cam interrompeu com firmeza: – Vai haver mais bordoada, my lord, se não aceitar uns conselhos sobre como andar realmente à pancada. Sem esperar pelo assentimento de Sebastian, dirigiu-se à porta e chamou: – Dawson! Vem cá um instante… Não, não é para trabalhar. Precisamos que venhas aqui ensaiar uns sopapos em Lord St. Vincent. – Voltando-se para Sebastian observou, com ar inocente: – Ótimo, isto pareceu interessá-lo… Já aí vem.


Reprimindo um sorriso súbito, Evie afastou-se para um canto, compreendendo que a intenção de Cam era ajudar o seu marido; se Sebastian insistisse em lutar conforme as regras da aristocracia, não conseguiria defender-se eternamente dos ataques impiedosos com que, certamente, viria a confrontar-se no futuro. Dawson, um empregado jovem e encorpado, entrou na sala. – O Dawson é o nosso melhor lutador – esclareceu-os Cam. – Vai demonstrar-lhe umas quantas manobras básicas para abater um homem rapidamente… Vamos, Dawson, aplica a Lord St. Vincent um golpe de cruzes. Mas com cuidado… não vás partir-lhe a espinha. Radiante com a ideia de praticar um golpe sobre Sebastian, Dawson aproximou-se dele em três pesadas passadas, enroscou-lhe o braço musculado à volta do pescoço, agarrou-lhe no braço livre e lançou-o sobre o ombro, fazendo Sebastian voar, qual boneco de trapos, sobre a sua cabeça. Aterrou violentamente de costas no chão, soltando um gemido de dor. Dawson preparava-se para lhe saltar a pés juntos para cima da barriga, quando Cam intercedeu rapidamente, curvando-se para agarrar o rapaz pelo ombro. – Bravo, Dawson. Muito bem… Mas por ora chega. Afasta-te, por favor. Evie assistiu a tudo com um punho cerrado contra a boca. Cam baixou a mão para ajudar Sebastian a levantar-se. Desdenhando o auxílio, Sebastian rebolou agilmente e pôs-se de pé, olhando-o com uma expressão de tal forma carrancuda que faria hesitar o mais corajoso. Mas Cam tratou de lhe ignorar a ira, começando desde logo a instruí-lo na teoria: – É realmente um golpe muito simples, sir. Ao encontrarem-se ambos de perfil, enrole o braço à volta do pescoço do outro, agarre-lhe no braço mais afastado e rode o seu corpo assim… fazendo-o passar por cima da cabeça, até ele se estatelar de costas no chão… Dependendo da força com que o lance ao chão, ele pode ver-se incapaz de se mover durante alguns segundos. Venha, experimente comigo… Verdade seja dita, Sebastian exerceu bastante moderação quando experimentou o movimento em Cam. O visconde aprendia depressa, atirando o cigano ao chão com uma estranha mistura de eficácia e relutância. – Não posso lutar assim – murmurou ele. Cam ignorou-lhe o comentário. – Agora, se for agarrado pelas costas, pode contrapor-lhe uma cabeçada para trás. Comece com a cabeça baixa, queixo encostado ao peito. Cerre os dentes, feche a boca e atire com a cabeça para trás, num golpe rápido e forte, direito à cara do outro. Verá que nem necessita fazer pontaria. Quanto à cabeçada para a frente… já alguma vez o fez, my lord? Não?… Bem, a astúcia reside em não tirar os olhos do seu adversário durante todo o procedimento. Aponte à parte mais macia do rosto… evitando a todo o custo a testa ou o crânio. Utilize todo o seu peso para tentar atingir a zona de… aproximadamente dois centímetros acima das sobrancelhas do outro. Sebastian tolerava a lição com uma relutância reprovadora, enquanto os dois jovens iam


demonstrando golpes ao pescoço, pisadelas arrasadoras e outras técnicas para atingir as partes mais vulneráveis do corpo humano. Incitado a fazer o mesmo, ele participou, mostrando uma aptidão física que pareceu deixar Cam sobremaneira agradado. Contudo, quando um deles se propôs demonstrar os vários métodos para aplicar um pontapé nas partes baixas, desde logo deixou bem claro que a sua tolerância chegara ao fim. – Basta! – rosnou ele. – Isto acaba aqui, Rohan. – Mas ainda há uns truques que… – Quero lá saber! Cam trocou um olhar com Evie, que encolheu os ombros e abanou a cabeça; nenhum deles entendera a razão daquela explosão de raiva. Sem perder mais tempo, Cam dispensou Dawson com um agradecimento e enxotou-o dali. Voltando-se para Sebastian, que sacudia o casaco com uma violência inusitada, Cam perguntou calmamente: – Permita-me perguntar… qual é o problema, my lord? Sebastian fungou o seu desprezo: – Nunca pretendi ser um modelo de virtudes. E fiz coisas no meu passado que fariam o diabo virar-se do avesso. Mas há certas coisas que nem eu me aviltaria a fazer! Os homens da minha posição não pisam pés, não dão joelhadas nas virilhas do adversário, nem cabeçadas quando andam à pancada. Tão pouco dão murros na garganta, passam rasteiras ou… puxam pelos cabelos, por amor de Deus! Embora Evie nunca pensasse ser possível ver os olhos de Cam tornarem-se frios, subitamente tornaram-se duros como pedaços de âmbar gelado. – E qual é exatamente a sua… posição, se me permite a pergunta? – disse o cigano, em tom mordaz. – É membro da nobreza? É que não está a viver como se fosse um deles. Dorme num clube de jogo, num quarto que foi recentemente desocupado por um par de rameiras. É um cavalheiro do ócio e da boa vida? Acaba de terminar a sua noite desbaratando uma luta entre dois bêbados imbecis. Julgo ser já um pouco tarde para tantos pruridos, não será? – Culpas-me por ter princípios? – ripostou Sebastian, num tom gélido. – Não, sir, de todo. Culpo-o por ter dois tipos de princípios, contraditórios. A minha raça tem um ditado antigo que diz: «Com um só rabo, não se montam dois cavalos.» Se pretender viver aqui, vai ter que mudar, temo dizer-lhe. Não pode comportar-se como um aristocrata ocioso que se julga acima deste género de coisas. Que diabo, o senhor está a tentar assumir uma função que nem eu poderia desempenhar! Terá de lidar com jogadores profissionais, bêbados, ladrões, aldrabões, senhores do crime, advogados, polícias e mais de trinta empregados firmemente crentes – todos eles! – de que vai acabar por desistir e bater em retirada dentro de um mês. Agora que o Ivo Jenner morreu, o senhor assumiu o lugar dele, como um dos homens mais poderosos de Londres. Todos vão querer favores, ou tentar tirar vantagem de si, ou provar que lhes são superiores. E ninguém lhe vai contar a verdade completa seja do que for. Vai ter de aguçar os seus instintos, my lord. Vai ter de


fazer com que as pessoas tenham medo de o contrariar. Sem isso, as suas hipóteses de sucesso serão tão escassas como… Não acabou a frase. Era óbvio que Cam gostaria de ter dito mais, mas um olhar de soslaio para o rosto de Sebastian pareceu indicar-lhe que mais palavras seria inúteis. Passando bruscamente os dedos pelo seu cabelo negro em desordem, Cam saiu da sala. Um longo minuto passou antes que Evie se atrevesse a aproximar-se do marido. Sebastian olhava fixamente a parede, em pesada contemplação. Ela notou que, enquanto a maioria das pessoas tinham tendência a parecerem mais velhas quando cansadas ou sob pressão, Sebastian tendia a parecer muito mais jovem. Olhando-o nos olhos, ela murmurou: – Porque resolveu fazer isto? Não foi só pelo dinheiro, certamente. O que espera encontrar neste lugar? Inesperadamente, a pergunta de Evie acendeu um raio de divertimento sardónico pelo rosto de Sebastian: – Assim que descobrir… tratarei de lhe dizer.


Capítulo 15

Na tarde do dia seguinte, Sebastian foi encontrar Evie no escritório, onde ela se dedicava a somar recibos e a anotar números num livro-razão. – Tem uma visita – disse ele, sem mais preâmbulo. Os seus olhares cruzaram-se por cima de uma pilha de papéis. – Mrs. Hunt. Evie olhou-o admirada, com o coração aos pulos. Andara a debater-se com a dúvida de escrever ou não a Annabelle. Tinha saudades da amiga, mas duvidava da forma como seria recebida. Levantou-se lentamente. – Está seguro de que não é outro engano? – Seguríssimo – disse Sebastian, com uma leve ironia no tom de voz. – Ainda tenho as orelhas a arder com acusações e invetivas. Nem Mrs. Hunt, nem Miss Bowman acreditam que a senhora não foi raptada, violada e forçada a casar sob a ameaça de um punhal encostado à garganta. – Miss Bowman?… – repetiu Evie, um pouco alheada, pensando, por instantes, que não podia ser Lillian. Pelo casamento a amiga deixara de ser Miss Bowman e a juntar a isso, ainda se encontrava em lua de mel com Lord Westcliff. – A Daisy também cá está? – É pior que uma cobra! – confirmou ele. – Será de bom tom adverti-las de que agiu por sua livre vontade, uma vez que me parece que estão prestes a mandar chamar o polícia mais próximo para me arrastar para os calabouços! Com a excitação, os dedos de Evie apertaram o braço dele. – Não posso acreditar que se atreveram a vir aqui! E estou certa de que Mr. Hunt não sabe da vinda de Annabelle. Impossível! – Nesse ponto estamos de acordo. O Hunt jamais permitiria que a mulher se aproximasse dez milhas de mim. E os Bowman nunca aprovariam que a filha mais nova pusesse os pés num clube de jogo. Mas, se bem conheço as suas amigas, não duvido que tenham engendrado uma hábil artimanha


para conseguirem os seus propósitos. – Onde é que elas estão? Não me diga que as deixou à espera na porta das traseiras! – Foram convidadas a esperar na biblioteca. Evie estava tão ansiosa por ver as amigas que só a custo não desatou a correr mal saiu do escritório. Em passo acelerado, com Sebastian no seu encalço, chegou à sala de leitura e parou no limiar, hesitante. Lá estava Annabelle e o seu cabelo cor de mel penteado ao alto em caracóis resplandecentes e aquela pele tão fresca, como a das pastoras pintadas nas latas de bombons. Quando se haviam conhecido, a beleza de Annabelle, que sugeria a de uma rosa inglesa, tinha conseguido intimidá-la a tal ponto que Evie receara dirigir-se-lhe com receio de ser recebida com desdém por aquela criatura maravilhosa. Mas eventualmente descobrira que Annabelle era afetuosa, afável e até dotada de um sentido de humor que não hesitava em usar contra si própria. Daisy Bowman, a irmã mais nova de Lillian, tinha uma personalidade fortíssima, inesperada pela sua constituição física tão leve, quase etérea. Idealista e possuidora de uma tendência decididamente caprichosa, devorava romances sentimentalões, povoados de patifes e gente malvada. Contudo, a fachada diáfana de Daisy escondia uma inteligência perspicaz que a maior parte das pessoas desconhecia. Era muito branca, de cabelo escuro e olhos cor de canela… olhos travessos, com longas pestanas sempre em riste. À chegada de Evie, as amigas precipitaram-se para ela, com gritinhos muito pouco elegantes a que Evie respondeu com uma gargalhada guinchada, ao chocarem entre si num círculo de abraços apertados e beijos exuberantes. E, na excitação geral, as três raparigas continuaram em risos e exclamações, até que alguém irrompeu na sala. Era Cam, de olhos arregalados e respiração rápida, como se tivesse vindo a mata-cavalos. O seu olhar percorreu a sala, avaliando a situação e a pouco e pouco o seu corpo magro descontraiu-se. – Irra… – murmurou. – Julguei que tinha acontecido alguma coisa! – Está tudo bem, Cam – disse Evie, sorrindo, com um braço de Annabelle à volta dos seus ombros. – Foi a chegada das minhas amigas, apenas isso… Com uma olhadela para Sebastian, Cam comentou: – Tenho ouvido menos guinchos dos porcos no dia da matança… Verificou-se uma certa tensão suspeita à roda dos maxilares de Sebastian, como se se estivesse a esforçar por suprimir uma risada. – Mrs. Hunt, Miss Bowman, deixem-me que lhes apresente Mr. Rohan. Devem perdoar-lhe a falta de tato pois, na verdade, ele… – É um rufia? – sugeriu Daisy, candidamente. Desta vez Sebastian não pôde deixar de sorrir. – Na verdade ele não está habituado à presença de senhoras no clube. – Ah! É isso que elas são? – perguntou Cam, lançando um olhar duvidoso sobre as visitantes,


demorando-se sobretudo no rostinho inocente de Daisy. Ignorando-o ostensivamente, Daisy dirigiu-se a Annabelle: – Sempre ouvi dizer que os ciganos são conhecidos pelo seu encanto… Um mito sem qualquer fundamento, pelo que me é dado a constatar. Os olhos dourados de Cam estreitaram-se como os de um tigre estudando a sua presa. – Somos igualmente conhecidos por raptarmos donzelas gadji. Antes que a conversa azedasse mais, Evie interveio rapidamente: – My lord – disse ela, dirigindo-se ao marido. – Se não tiver objeções, gostaria de falar em privado com as minhas amigas. – Por quem sois – respondeu ele, com impecável cortesia. – Quer que mande servir um chá, meu amor? – Pois sim, fico-lhe muito grata. Assim que os homens se retiraram e as portas se fecharam sobre eles, Daisy explodiu: – Evie! Como pode falar assim com o St. Vincent depois do que ele fez? – Daisy… – começou Evie, em tom pesaroso. – Lamento tanto o que sucedeu a Lillian… – Não é só isso! – interrompeu Daisy, impetuosa. – Refiro-me ao que ele lhe fez a si! Abusando de si, forçando-a a casar com ele e depois… – Ele não me forçou a rigorosamente nada, queridas amigas. Evie desviou o olhar do rosto indignado de Daisy para a expressão preocupada de Annabelle. – É verdade! Não me forçou a nada! Eu é que fui ter com ele e propus… Mas porque não nos sentamos calmamente e eu conto-lhes tudo o que se passou…? Mas digam-me, antes de mais, como conseguiram chegar até ao clube? – Mr. Hunt ausentou-se em negócios – explicou Annabelle, com um sorriso matreiro. – E eu disse a Mr. e Mrs. Bowman que ia levar Daisy às compras em St. James Street. Ou seja, sou a sua dama de companhia. – E é verdade que fomos às compras! – exclamou Daisy, entrando no jogo. – Só que depois… fizemos um ligeiro desvio para estes lados. Nos minutos que se seguiram, as três sentaram-se bem juntas, com Annabelle e Evie no sofá e Daisy numa cadeira muito próxima. Gaguejando ligeiramente, de pura excitação, Evie encadeou os acontecimentos que haviam ocorrido após a sua evasão da casa dos Maybrick. Para seu alívio, as amigas não a condenaram pelos seus atos. Pelo contrário, mostraram-se preocupadas e solidárias, embora fosse claro que não estavam de acordo com as decisões que ela tomara. – Perdoem… – disse Evie a certa altura, ao ver a ruga implantada na testa de alabastro de Annabelle. – Bem sei que nenhuma de vós aprova o meu casamento com Lord St. Vincent. – Não é importante que eu aprove ou não – disse Annabelle. – Serei sempre sua amiga, faça o que fizer. A Evie até podia ter casado com o diabo em pessoa, que eu não me ralaria. – Que é sem dúvida parente próximo de St. Vincent – comentou Daisy.


Lançando um rápido olhar de censura a Daisy, Annabelle prosseguiu: – A questão é que, agora que estamos perante o facto consumado, tudo o que ansiamos é saber em que é que podemos ajudá-la. – Só preciso da vossa amizade – disse Evie, com um sorriso de gratidão. – Estava com tanto receio de a perder… – Isso é que nunca! – disse Annabelle, passando-lhe a mão pelos caracóis ruivos em desalinho. – Minha querida, espero que isto não lhe pareça presunçoso, mas como saiu de casa em grande alvoroço, estou certa de que não deve ter trazido muita roupa consigo. Por isso, trouxe-lhe algumas coisas… Como está de luto, tive de cingir-me a uns quantos vestidos pretos, cinzentos e castanhos e claro umas camisas de dormir, luvas… esse tipo de coisas… Se concordar, basta mandar trazê-las da carruagem. Somos praticamente da mesma altura e com um arranjo ou outro, estou certa de que… – Oh, Annabelle! – exclamou Evie, lançando-lhe os braços ao pescoço. – Como é possível ser-se tão boa? Mas não quero que sacrifique seja o que for do seu enxoval de recém-casada por minha causa… – Não é sacrifício algum – disse Annabelle, com um sorriso. – Muito em breve deixarão de me servir… Evie lembrou-se subitamente que, no mês anterior, Annabelle lhe confiara a sua suspeita de que poderia estar de esperanças. – Oh, pois claro! Ah, Annabelle, tenho andado tão p-preocupada com os meus p-problemas que me esqueci de perguntar como se sentia! Então é mesmo verdade? Confirmada pelo médico? – É verdade! – interrompeu Daisy, levantando-se para executar uma pequena dança de vitória, como se lhe fosse impossível estar quieta por mais tempo. – Agora é que as Encalhadas vão literalmente… ficar para tias! Evie também se levantou de um salto e ambas cabriolaram abraçadas, enquanto Annabelle as olhava, divertida. – Meu Deus, olhem-me só para isto – disse ela. – Se a Lillian aqui estivesse já teriam ouvido um comentário demolidor às vossas macacadas. À menção de Lillian, Evie reagiu como se tivesse levado com um balde de água fria. Foi logo sentar-se no sofá, olhando para Annabelle com crescente preocupação. – Cuida que ela alguma vez me p-perdoará por ter ca-casado com o St. Vincent, depois do que ele lhe fez? – Claro que sim… Bem sabe como ela é amiga das suas amigas. É capaz de lhe perdoar seja o que for. Mas quanto a perdoar o St. Vincent, já é algo completamente diferente… De testa franzida, Daisy puxou pelas saias para as endireitar. – Do que não restam dúvidas é que ele fez de Lord Westcliff um inimigo figadal o que nos vai tornar a vida difícil a todas… Uma criada entrou, trazendo o chá e interrompendo a conversa. Evie serviu Annabelle e a si


própria, mas Daisy preferiu deambular pela sala, passando os olhos pelas estantes carregadas de livros de alto a baixo. Inclinou-se sobre os títulos gravados nas lombadas de pergaminho de diversas cores. – Há uma profunda camada de pó sobre estes livros! – exclamou. – Dir-se-ia que ninguém os lê há séculos! – Eu até me atreveria a dizer que muito poucos – ou nenhuns – foram alguma vez lidos, minha querida. Não é provável que os cavalheiros que frequentam este clube se tenham jamais dado ao trabalho de pensar em livros quando há tantas outras… ocupações estimulantes à mão de semear. – Mas que sentido faz ter uma sala de leitura se ninguém gosta de ler? – disse Daisy, indignada. – Pois eu não consigo imaginar atividade mais estimulante do que a leitura. Por vezes chego literalmente a sentir o coração aos pulos quando leio uma história particularmente cativante. – Há uma coisa… – murmurou Annabelle, com um sorriso maroto. Mas Daisy, que continuara a avançar ao longo das prateleiras com livros, nem a ouviu. Sem tirar os olhos de Evie, Annabelle baixou a voz, dizendo: – Já que estamos a falar neste assunto, Evie… preocupa-me um pouco o facto de a menina não ter tido ninguém com quem falar antes da sua noite de núpcias. O St. Vincent foi… atencioso contigo? De faces em brasa, Evie respondeu com um aceno rápido: – Como já era de esperar, foi muito… competente. – Mas foi cuidadoso? – Sim… cuido que sim. – É um assunto delicado, não é verdade? – disse Annabelle, baixinho. – Mas se tiver alguma dúvida acerca dessa matéria, espero sinceramente que venha ter comigo. Sinto-me como se fosse sua irmã mais velha, sabe? – E eu sinto o mesmo – respondeu Evie, apertando-lhe a mão. – Creio que tenho algumas coisas que gostaria de perguntar, mas é tudo tão… – C’um caneco! – foi a exclamação de Daisy da outra ponta da sala. Evie e Annabelle olharam para ela e viram-na agarrada a uma das prateleiras de mogno. – Encostei-me a esta prateleira, ouvi uma espécie de estalido e esta coisa toda desatou a oscilar para fora…! – É uma porta secreta – explicou Evie. – Há várias portas escondidas e passagens secretas neste clube, para ocultar coisas no caso de uma inspeção da polícia. Ou para o caso de alguém precisar de sair de repente… – E esta, para onde dará? Receando que mais explicações encorajassem a curiosa Daisy, sempre aventureira, a arriscar-se numa exploração, Evie comentou em tom vago: – Ora, para lado nenhum de interessante… Um quarto de arrumações, quer-me parecer. É melhor fechar isso, querida.


– Hmm… E Daisy continuou a examinar os livros das prateleiras, enquanto Evie e Annabelle retomavam a sua conversa íntima. – A verdade – disse Evie –, é que Lord St. Vincent concordou em passar por um período de celibato para me agradar. E se ele conseguir esse feito, retomaremos então as nossas relações de marido e mulher. – O quê?! – murmurou Annabelle, de olhos esgazeados. – Meu Deus, não acredito que o nome St. Vincent e a palavra celibato tenham alguma vez feito parte da mesma frase! Como diabos conseguiu convencê-lo a concordar com uma coisa dessas, Evie?! – Ele disse-me… enfim, deu a entender… que me deseja suficientemente para tentar. Annabelle abanou a cabeça com um sorriso aturdido. – Isso não parece dele. Nem por sombras! Vai certamente fazer batota. – Pois… talvez. Mas eu creio mesmo que as intenções dele são sinceras – disse Evie. – O St. Vincent jamais será sincero. Nunca – retorquiu Annabelle. Evie não pôde deixar de recordar o anseio desesperado do abraço de St. Vincent, ali, naquela mesma sala. O modo como a respiração lhe tremia na garganta. A ternura apaixonada da boca dele na sua pele. E a verdadeira paixão na voz dele quando murmurara: Desejo-a mais do que alguma vez desejei fosse o que fosse na vida… Como podia ela explicar tudo aquilo a Annabelle? Com que palavras poderia justificar o seu instinto ao acreditar nele? Era ridículo pensar que ela, a desajeitada Evie Jenner, poderia subitamente ter-se tornado o objeto de desejo definitivo de um homem como Sebastian que poderia ter à sua disposição e escolha as mais belas e prendadas mulheres de Inglaterra. E, contudo, Sebastian já não era o mesmo homem que outrora deambulara tão arrogantemente pela mansão de Lord Westcliff, no Hampshire. Qualquer coisa nele tinha mudado… e continuava ainda a mudar. Teria o incentivo sido a sua tentativa falhada de raptar Lillian? Ou teria acontecido mais tarde, durante aquela deplorável viagem até Gretna Green? Ou, quem sabe, tivesse tão-somente que ver com o clube; o seu comportamento tornara-se estranho desde o momento em que ali pusera os pés. Parecia empenhado em qualquer coisa, algo sem nome que nem ele conseguia explicar… – Oh, não!… – disse Annabelle, desolada, olhando por cima do ombro de Evie. – Que foi?! – Evie voltou-se para seguir o olhar de Annabelle. Mas não foi necessária qualquer explicação: na sala estavam agora apenas ela e Annabelle e uma das estantes havia girado para fora do alinhamento das restantes. Não seria certamente de estranhar: Daisy seguira os apelos da sua insaciável curiosidade e desaparecera através da passagem secreta. – Aonde é que a passagem leva? – suspirou Annabelle, pousando relutantemente a sua chávena de chá. – Depende da direção que ela seguiu – respondeu Evie preocupada. – Aquilo é como em labirinto – cada passagem dá para direções distintas e… há escadas secretas que levam ao segundo andar.


Graças a Deus, o clube está encerrado a esta hora, o que minimiza os sarilhos em que ela se pode meter. – Lembre-se que é da Daisy Bowman que estamos a falar – disse Annabelle, secamente. – Se houver a mínima hipótese de sarilho, ela descobre-a de certeza. Tateando ao longo da passagem escura, Daisy sentia a mesma excitação de criança, quando ela e Lillian brincavam aos piratas na sua mansão da Quinta Avenida. Terminadas as lições, corriam para o jardim como um par de diabretes, fazendo rolar os arcos com as suas ganchetas, cavando buracos nos canteiros de flores. Uma vez tinham metido na cabeça criar uma cave secreta dos piratas e passaram o verão inteiro a escavar um túnel por dentro da sebe que limitava o jardim em frente da casa. Tinham furado e aparado diligentemente a sebe, até criarem um longo canal por dentro, por onde circulavam de um lado para o outro, como dois ratinhos. Tinham marcado assembleias secretas na «cave dos piratas», claro, e levado para lá um caixote de madeira que enchiam de tesouros e escondiam num buraco escavado nas traseiras da casa. Quando aquela travessura foi descoberta por um jardineiro irado, que ficara horrorizado ao ver a profanação da sua sebe, Daisy e Lillian ficaram de castigo durante várias semanas. Pensando, com um sorriso melancólico, na sua querida irmã mais velha, Daisy, sentiu-se levada por uma onda de saudade. Lillian e ela tinham estado sempre juntas, discutindo, rindo, causando sarilhos uma à outra e safando-se uma à outra sempre que possível. Sem dúvida que estava feliz por Lillian ter encontrado o seu par perfeito no voluntarioso Westcliff… mas isso não impedia que Daisy sentisse terrivelmente a falta da irmã. E agora que todas as outras Encalhadas, incluindo Evie, tinham arranjado marido, passando a fazer parte integrante do misterioso universo dos casados, Daisy sentia-se excluída. Tinha de arranjar marido e depressa. Um cavalheiro simpático e sincero que partilhasse o seu gosto pela leitura. Um homem que usasse óculos e gostasse de cães e de crianças. Tateando o caminho escuro, Daisy quase caiu por uns poucos degraus que, inesperadamente, lhe surgiram à frente. Uns passos mais além, uma luz ténue guiou-a em frente. Ao aproximar-se, viu que a luz desenhava a forma retangular de uma pequena porta. Curiosa sobre o que estava do outro lado, Daisy parou e ouviu um estranho som abafado de batidas repetitivas. Uma pausa… e novas batidas. A curiosidade levou-lhe a melhor. Colocando ambas as mãos contra a porta, Daisy empurrou-a com determinação e sentiu-a ceder. Fez-se luz na passagem e ela achou-se num quarto que continha umas poucas mesas e cadeiras vazias e um aparador com duas enormes urnas de prata. Espreitou pela porta e entendeu a origem das marteladas. Um homem reparava parte de uma moldura numa parede, acocorado, enquanto cravava pregos com hábeis golpes de martelo na estreita tira de madeira. Vendo abrir-se a porta, levantou-se rapidamente e a sua mão mudou de posição, empunhando o martelo como se pretendesse servir-se dele como arma. Era o cigano, aquele rapaz com olhos de pantera esfomeada. Despira o casaco e o colete… tirara a gravata também… de modo que o seu torso estava apenas coberto por uma fina camisa branca,


meio enfiada no cós das calças justas. Aquela perturbante visão máscula provocou em Daisy a mesma reação que ela sentira lá em cima – uma rápida picada no peito, seguida pelo bater descompassado do coração. Paralisada pela noção de que se encontrava sozinha no quarto com ele, Daisy olhou-o fixamente, enquanto o via aproximar-se lentamente. Ela jamais havia visto um ser humano dotado de uma tal beleza morena, exótica… a pele da cor do mel… os olhos cor de avelã, com pesadas pestanas pretas e um cabelo de azeviche que lhe pendia sobre a testa. – O que faz aqui? – indagou Rohan, em tom rouco e áspero. Avançou até estar tão perto dela que a jovem, instintivamente, recuou até sentir a parede tocar-lhe nas omoplatas. Ao longo da limitada experiência de Daisy, nenhum homem se aproximara dela tão diretamente. Obviamente, ele não tinha a mínima noção das boas maneiras em sociedade. – Ando em explorações… – balbuciou. – E quem lhe indicou a passagem? Daisy teve um ligeiro sobressalto quando ele se inclinou ligeiramente, apoiando as mãos na parede, uma de cada lado dela. Era alto, ainda que não excessivamente, e o seu pescoço bronzeado pelo sol ficava ao nível dos olhos dela. Tentando disfarçar a sua perturbação, ela respirou fundo e disse: – Ninguém. Encontrei-a sozinha… O seu sotaque é estranho. – O seu também. Americana? Daisy assentiu, com um aceno de cabeça. O controlo da voz abandonou-a ao ver um pequeno diamante cravado no lóbulo da orelha dele. Teve uma estranha sensação no estômago, quase de repulsa, mas ao mesmo tempo uma vaga de calor que a fez, para sua consternação, aperceber-se de que corava intensamente. Ele estava tão perto que ela podia sentir-lhe o cheiro a lavado, a sabão, misturado com uma sugestão a couro e a cavalos. Era um cheiro agradável, uma fragrância fortemente máscula, muito diferente da do seu pai, que cheirava sempre a água-de-colónia, a graxa de sapatos e a notas acabadas de imprimir. Constrangida, desviou os olhos para os braços dele, expostos pelas mangas arregaçadas da camisa… e parou subitamente, à vista de uma imagem que parecia ter sido desenhada à pena no seu antebraço. Era um pequeno cavalo preto com asas. Reparando no olhar fascinado dela, Rohan aproximou o braço para lhe facilitar a observação. – É um símbolo irlandês – murmurou ele. – Um cavalo da mitologia a que se chama um pooka. Aquela palavra absurda trouxe um vago sorriso aos lábios de Daisy. – E lavando, sai? – perguntou ela, hesitante. Ele abanou a cabeça, baixando as pálpebras sobre aqueles olhos extraordinários. – É um pooka, como Pégaso dos mitos gregos? – perguntou ela, apoiando o mais possível as costas contra a parede.


Rohan baixou o olhar sobre o corpo dela, numa espécie de inventário minucioso, como ela nunca recebera de nenhum homem. – Não. É bastante mais perigoso. Tem olhos cor de fogo, uma passada que transpõe montanhas e fala numa voz de homem, profunda como uma caverna. À meia-noite para em frente de sua casa e chama-a pelo nome, se desejar levá-la numa cavalgada. Se o montar, fá-la-á voar sobre a terra e sobre o mar… e se alguma vez voltar a sua vida nunca mais será a mesma. Daisy sentiu um arrepio por todo o corpo. Todos os seus sentidos a avisavam de que seria melhor por fim àquela conversa enervante e afastar-se dele o mais depressa possível. – Que interessante… – murmurou. E deu uma reviravolta dentro do círculo dos braços dele, procurando avistar a porta. Para sua consternação, verificou que ele a tinha fechado e a porta estava, agora, habilmente escondida entre os painéis verticais da parede. Em pânico, começou a empurrar a parede em vários sítios, tentando descobrir o mecanismo que a abria. Espalmou as mãos contra a parede ao sentir Rohan encostar-se a ela por trás, a boca enervantemente próxima do seu ouvido. – Não conseguirá descobri-la… Só há um ponto onde carregar para soltar o trinco… Um único ponto. A respiração dele roçava-lhe o pescoço de lado, enquanto a leve pressão do seu corpo a aquecia onde quer que lhe tocasse. – Porque não me mostra? – sugeriu Daisy, numa tentativa de imitar o tom sarcástico de Lillian, mas consternada ao verificar que a sua voz não podia soar mais desorientada e insegura. – Que favor pensa poder conceder-me em troca? Daisy esforçou-se por se mostrar indignada, mas o seu coração batia-lhe contra as costelas, qual ave bravia numa gaiola. Voltou-se para o enfrentar, lançando-lhe um assalto verbal que esperava que o fizesse desistir: – Oiça, Mr. Rohan, se está a insinuar que eu poderia… Bom, o senhor é o homem mais… indelicado que eu alguma vez encontrei. Ele nem estremeceu. Num sorriso largo, de dentes muito brancos, disse: – Mas eu sei onde fica a porta. – Quer dinheiro pela informação? É disso que se trata? – perguntou ela, arrogante. – Não. Daisy engoliu em seco. – Uma… liberdade, talvez? – Vendo que ele não compreendia, explicou, corando: – Tomar uma liberdade é… um abraço, ou um beijo… Nos olhos dourados dele perpassou algo de perigoso. – Seja… – murmurou ele. – Quero tomar uma liberdade. Daisy mal podia acreditar. O seu primeiro beijo… Sempre o imaginara como um momento


romântico, num jardim inglês… haveria luar, claro… e um homem loiro, com um rosto fresco de rapaz – que diria algo de belo, um trecho de um poema, antes que os seus lábios se juntassem aos dela… Não era suposto acontecer na cave de um clube de jogo e com um criado cigano! Mas, por outro lado, já tinha vinte anos e talvez fosse altura de começar a acumular alguma experiência. Respirando fundo, tentou controlar o ritmo galopante do seu coração, fixando os olhos na zona do pescoço dele revelada pela camisa parcialmente aberta. A sua pele brilhava como um cetim cor de âmbar, tensamente esticado. Quando ele se aproximou, o seu odor invadiu-lhe as narinas, numa onda picante de especiarias. Quando ele ergueu a mão, lentamente, até ao queixo dela, os nós dos dedos, acidentalmente, roçaram a ponta dos seus seios. Foi sem intenção, certamente, pensou ela estonteada, sentindo os mamilos contraírem-se subitamente sob o corpete de veludo. Os dedos dele alongaram-se pelo queixo dela, fazendo-o erguer-se para si. Fitando os poços escuros que eram agora os olhos dela, dilatadíssimos, ele levou os dedos até à sua boca, afagando a superfície macia dos lábios, até eles se afastarem, trémulos. A outra mão deslizou até à nuca, começando a acariciá-la, depois segurando-a, para suportar o peso da cabeça – o que só trouxe vantagens, porque a coluna dela parecia ter-se dissolvido como açúcar derretido. A boca dele juntou-se à dela, numa pressão terna, explorando-a com passagens rápidas e repetidas. Um prazer quente parecia derramar-se-lhe nas veias, percorrendo-a até que ela não conseguiu resistir ao impulso de apertar o corpo contra o dele. Em bicos de pés, agarrou os ombros dele com ambas as mãos e quase desmaiou quando sentiu os braços dele deslizarem à sua volta. Quando, finalmente, ele levantou a cabeça, Daisy percebeu, vexada, que estava agarrada a ele como se estivesse a salvar-se de morrer afogada. Largou-o subitamente, recuando até embater contra a parede. Confusa e envergonhada pela sua reação àquele beijo olhou, furiosa, para aqueles olhos selvagens do cigano. – Não senti nada – disse, friamente. – Embora creia que merece algum crédito pela tentativa. Agora diga-me onde fica a… Interrompeu-se com um grito de surpresa quando ele a agarrou de novo e ela percebeu, tarde de mais, que ele tomara aquela sua observação de repúdio como um desafio. Desta vez a boca dele era exigente e as mãos agarraram-na pela nuca. Com a surpresa da iniciação, sentiu o toque sedoso da língua dele, uma sensação que a fez contorcer de prazer. Estremeceu, enquanto ele lhe explorava a boca, intensamente, intimamente… como se o seu sabor fosse qualquer coisa de delicioso. Terminando o beijo com um último roçar de lábios, Rohan afastou-se para a olhar nos olhos, desafiando-a silenciosamente a negar a sua atração por ele. Ela reuniu os seus últimos farrapos de altivez ao responder: – Ainda nada… – sussurrou. Desta vez ele puxou-a vigorosamente contra o seu corpo, mergulhando a boca na dela. Daisy jamais imaginara que um beijo que pudesse ser tão profundo; aquela boca alimentava-se da sua, as mãos puxavam-na para cima, contra ele, sentiu os pés dele enfiarem-se entre os seus, o peito rijo


contra os pequenos seios dela, os beijos dele provocando-a, acariciantes, até ela ceder, trémula, como um animal preso nos seus braços. Quando ele a libertou, ela ficou muda e passiva, toda a sua consciência concentrada nas sensações que a empurravam para um fim desconhecido. Abrindo os olhos, Daisy olhou-o através de um véu de sensualidade. – Agora melhorou bastante… – conseguiu dizer, com alguma dignidade. – Ainda bem que consegui ensinar-lhe alguma coisa. Virou-lhe as costas, não sem antes lhe ter visto um riso divertido na cara. Ele estendeu a mão, carregando no botão escondido na parede e a porta abriu-se. Mas, para embaraço de Daisy, ele acompanhou-a pela passagem escura e seguiu-a pelas estreitas escadas acima, guiando-a como se conseguisse ver no escuro, como os gatos. Chegados ao topo, onde já era visível a luz que vinha da porta que dava para a biblioteca, pararam um atrás do outro. Sentindo-se de certo modo compelida a dizer qualquer coisa, ela murmurou: – Adeus, Mr. Rohan. Provavelmente, nunca nos tornaremos a ver. Era o que ela mais desejava – porque, sem sombra de dúvida, jamais seria capaz de o enfrentar. Ele inclinou-se sobre o ombro dela, até a sua boca quase lhe tocar a orelha, que zumbia. – Quem sabe eu lhe surja à janela um dia destes, à meia-noite… – murmurou ele. – Para a desafiar para uma cavalgada por terras e por mares… Com isto abriu a porta, empurrou Daisy ligeiramente para dentro da sala e fechou-a de novo. Piscando os olhos, meio confusa, ela reconheceu Annabelle e Evie e ouviu a voz da primeira em tom de censura: – Eu bem sabia que a menina não era capaz de resistir a uma porta secreta. Onde é que foi, podemos saber? – A Evie tinha razão – disse Daisy, sentindo ondas de rubor queimando-lhe as faces. – Para lado nenhum de interessante…


Capítulo 16

Embora as roupas que Annabelle lhe trouxera fossem mais próprias para um luto aliviado do que para um luto pesado, Evie optou por usá-las. Já tinha ido contra as convenções sociais, usando tecidos diferentes do crepe, mas pouca gente no clube estaria disposta a criticá-la por isso não fazia diferença se vestisse preto, castanho ou cinzento. Além disso, estava certa de que o pai não se incomodaria. Pegando na mensagem que Annabelle colocara nas roupas, Evie leu-a de novo, com um sorriso. «Tudo isto foi mandado fazer em Paris», escrevia Annabelle, com o seu habitual sentido de humor, «sem ter tomado em consideração a virilidade do meu marido. Quando chegar a altura de me servirem de novo, já estarão fora de moda. É o meu presente, querida amiga…» Evie experimentou um vestido de lã macia e forrado de seda, e descobriu que lhe servia perfeitamente. Mas sentiu o seu prazer levemente perturbado por uma onda de melancolia ao pensar no pai. Saindo do quarto, avistou Sebastian que falava com dois pedreiros cobertos de caliça. Como era bastante mais alto do que eles inclinava a cabeça para ouvir a resposta. A seguir disse um gracejo qualquer que suscitou gargalhadas entre os três. Ao olhar, fortuitamente, na direção de Evie, a sua expressão alterou-se, tornando-se mais doce. Despediu-se dos operários e aproximou-se dela, a passos lentos. Evie dominou-se para não correr para ele, receando revelar-se tontamente apaixonada, mas por mais que ela tentasse calcar os seus sentimentos para os fazer desaparecer, eles elevavam-se de novo no ar, como uma poeira de diamantes brilhando visivelmente na atmosfera à sua volta. Mas o estranho é que ele parecia igualmente agradado pela sua presença, tendo abandonado por uma vez o seu ar de inflexível libertino e sorrindo-lhe com genuína cordialidade. – Evie… – A sua cabeça dourada inclinou-se sobre a face erguida para si. – Está bem? – Estou… não. – Ela esfregou a testa, impaciente. – Estou cansada, aborrecida e esfomeada. Ele soltou um risinho: – Isso eu posso remediar.


– Não quero interromper o seu trabalho. – O Rohan pode tratar de tudo por agora. Venha, vamos ver se a sala de bilhar está livre. – Bilhar? – repetiu ela, relutante. – Que iríamos lá fazer? Ele lançou-lhe um olhar provocador: – Jogar, claro. – Mas as mulheres não jogam bilhar. – Em França jogam. – Segundo diz a Annabelle – replicou Evie –, em França as mulheres fazem muitas coisas que não fazem aqui. – É um facto. Os franceses são um povo muito evoluído. Enquanto que nós, ingleses, tendemos a encarar o prazer com profunda suspeita. A sala de bilhar estava, efetivamente, vazia. Sebastian mandou vir da cozinha uma refeição num tabuleiro e distraiu Evie com conversa, enquanto a via comer. Ela não entendia por que razão ele se dava ao trabalho de a entreter, quando havia tantas responsabilidades a exigir-lhe a atenção. E ao fim de tantos anos a ver nos olhos dos homens um ar vidrado de aborrecimento quando ela lhes dirigia a palavra, a confiança em si mesma estava reduzida a escassas migalhas do que deveria ser. Contudo, Sebastian escutava, atento e interessado, tudo o que ela dizia, como se a considerasse infinitamente interessante. Encorajava-a a dizer coisas audaciosas e parecia encantado com as suas tentativas de se bater com ele de igual para igual. Quando Evie acabou de almoçar, Sebastian levou-a até à mesa de bilhar e entregou-lhe um taco com a ponta em cabedal. Ignorando as suas tentativas iniciais de recusa, tratou de a instruir nas regras básicas do jogo. – E não tente alegar que isto é demasiado escandaloso para si – disse ele, com fingida serenidade. – Depois de fugir comigo para Gretna Green, nada lhe é impossível. Ainda para mais tratando-se de uma simples partidinha de bilhar… Incline-se sobre a mesa. Ela obedeceu, pouco à vontade, corando ao senti-lo curvar-se sobre ela. O corpo dele formava uma excitante gaiola, enquanto as suas mãos posicionavam as dela sobre o taco. – Agora – ouviu-o dizer –, curve o seu dedo indicador à volta da ponta do taco. Isso mesmo… Não aperte com tanta força, querida… relaxe… perfeito. A cabeça dele quase tocava na dela, da sua pele quente subia um leve aroma a sândalo e água-decolónia. – Tente imaginar um caminho entre aquela bola branca… e a encarnada. Vai ter de bater mais ou menos aqui… – E apontou para um sítio ligeiramente acima do centro da bola branca – para empurrar a bola encarnada para aquela bolsa de lado. É uma tacada a direito, está a ver? Baixe um pouco a cabeça. Puxe o taco para trás e tente bater num só movimento. Evie tentou, mas sentiu que a ponta do taco não fez um contacto limpo com a bola branca, enviando-a desastradamente para o lado. – Tacada em falso – disse Sebastian, apanhando habilmente a bola branca e voltando a posicioná-


la. – Sempre que isto acontecer, pegue de novo no giz e aplique-o na ponta do taco, com ar pensativo. Há que dar sempre a entender que a culpa é do equipamento e nunca da nossa habilidade. Evie sentiu um sorriso chegar-lhe aos lábios e curvou-se de novo sobre a mesa. Talvez aquilo não fosse correto, tendo o pai falecido tão recentemente, mas pela primeira vez desde há muito tempo, estava a divertir-se. Sebastian curvou-se novamente por trás dela, deslizando as mãos sobre as suas. – Deixe-me mostrar-lhe o movimento próprio do taco. Mantenha-o direito, assim… Juntos concentraram-se no deslizar firme e repetido do taco por dentro do apertado círculo formado pelos dedos de Evie. A alusão sexual do movimento não escapou a Evie que sentiu que corava violentamente desde o decote até às orelhas. – Que vergonha… – ouviu-o ela murmurar. – Uma menina bem-educada não devia ter pensamentos desses… Um risinho reprimido escapou-lhe dos lábios e Sebastian afastou-a para o lado, observando-a com um sorriso lento. – Experimente de novo, vamos. Focando a bola branca, Evie apontou e bateu com firmeza. Desta vez a bola encarnada mergulhou direta e certeira na bolsa lateral. – Consegui! – gritou ela. Sebastian sorriu pelo seu triunfo e continuou a orientá-la em variados tipos de tacadas, posicionando-lhe o corpo e ajustando-lhe as mãos… recorrendo a todas as desculpas possíveis para colocar os braços à volta dela. Extremamente divertida, Evie fingiu não notar as audaciosas carícias. Contudo, quando ele a fez falhar uma jogada pela quarta vez, ela virou-se para ele, acusadora: – Como é que alguém consegue dar uma boa tacada quando o senhor insiste em pôr a sua mão aqui?! – Estava apenas a tentar corrigir a sua postura – disse ele, prestimoso. Em resposta ao olhar dela, falsamente furioso, ele sorriu, sentando-se no rebordo da mesa de bilhar. – A culpa de eu me ver reduzido a este género de comportamento é sua – continuou ele. – Garanto-lhe que eu próprio me sinto consternado, porque o único prazer que retiro destes dias é acossá-la, como se não passasse de um jovem palaciano perseguindo uma criadita. – E o senhor perseguia as criadas quando era rapaz? – Meu Deus, claro que não! Como é que pode sugerir uma coisa dessas?! Sebastian parecia tão indignado que Evie começara a sentir-se culpada de injustiça, quando nesse instante ele acrescentou, num tom falsamente presunçoso: – Elas é que corriam atrás de mim. Evie ergueu o taco, como que para lhe aplicar uma traulitada. Ele segurou-lho o pulso rapidamente com a mão e tirou-lhe o taco dos dedos.


– Calma…! Não vá tirar-me o pouco juízo que ainda tenho. E depois, para que é que eu lhe servia? – Seria puramente ornamental – respondeu Evie, rindo. – Ah, bom… suponho que isso também tem o seu valor. Deus me livre e guarde de jamais perder a minha boa aparência. – Eu não me importava… – Como assim?! – disse ele, zombeteiro. – Se, por acaso… – Evie parou, subitamente embaraçada. – Se alguma coisa lhe sucedesse… que o deixasse… menos bem-parecido… a sua aparência não me faria diferença. De qualquer modo, eu… – fez uma pausa e concluiu, hesitante: – eu… ainda haveria de o querer por marido. O sorriso escarninho de Sebastian desfez-se lentamente. Lançou-lhe um longo olhar, pleno de intenção, com o pulso dela ainda firmemente seguro na mão. Pela sua expressão passou algo de estranho… uma emoção indecifrável, feita de calor e vulnerabilidade. Quando lhe respondeu, notavase na voz o esforço para manter o tom brincalhão e arrogante do costume: – Não há dúvida de que é a primeira pessoa que me diz uma coisa dessas. Espero, para seu bem, que não seja tão ingénua ao ponto de me querer dotar de características que eu não possuo. – Oh não, o senhor é bastante dotado… – respondeu Evie, antes de lhe ocorrer o duplo sentido daquela afirmação. De repente sentiu um rubor subir-lhe até às orelhas. – Q-quer dizer… eu não queria dizer… Mas, entretanto, já Sebastian recuperara da súbita tensão e ria calmamente, puxando-a para si. Como ela correspondeu avidamente, a brincadeira dissolveu-se como açúcar num líquido quente e ele começou a beijá-la longamente, roçando-lhe a face em afagos mais rápidos. – Evie… – murmurou ele. – É tão quente, tão bela… oh que raio… ainda tenho dois meses, treze dias e seis horas pela frente até poder arrastá-la para a cama… Sua diabinha! Isto ainda vai ser a minha morte. Subitamente arrependida do acordo que fizera com ele, Evie estreitou os braços em volta do seu pescoço e procurou-lhe a boca com a dela. Ele soltou um gemido rouco, beijando-a, estendendo o braço para fechar a porta da sala de bilhar. Encontrou a fechadura às apalpadelas, deu a volta à chave e caiu de joelhos diante dela. As costas de Evie ficaram de repente coladas à porta fechada e ela, totalmente imóvel, de espírito perdido em confusão e excitação. Ele levantou-lhe as saias, as suas mãos tateando entre as camadas de tecido, encontrando finalmente os atilhos das calcinhas… – Não, Sebastian… Não! – disse Evie, trémula, consciente de que se encontravam numa sala aberta ao público. – Por favor, não podemos… Ignorando-lhe os protestos, Sebastian aprofundava a busca por baixo das saias dela e finalmente puxou-lhe as calcinhas até aos joelhos. – Eu enlouqueço, se não tiver ao menos… isto! – Não… – murmurou Evie, mas ele já não a ouvia.


A mão dele segurava-a por um tornozelo e a sua boca chegara-lhe ao joelho, mordiscando e lambendo-a através da meia de seda. De repente, Evie sentiu uma sacudidela de desejo, com o coração batendo violentamente e a carne acesa de uma fome irresistível. Sebastian puxou-lhe a parte da frente das saias até à cintura e colou as mãos dela por cima do monte de tecido. – Segure… – murmurou ele. Ela não devia ter obedecido, mas as suas mãos pareciam ter vontade própria, agarrando as pregas de tecido contra a cintura. Sentiu as calcinhas serem puxadas até aos tornozelos, a boca dele divagando para cima e a respiração como bafos quentes de vapor contra a sua pele tenra. Evie exalou um som ávido e profundo quando ele afastou os caracóis íntimos entre as coxas dela. Os dois dedos que ele fez escorregar para dentro dela foram instantaneamente agarrados e acariciados por músculos internos que se movimentavam para o fazer avançar mais profundamente. Evie semicerrou os olhos e um rubor de paixão percorreu todo o seu corpo, em várias ondas cor de carmim. – Sebastian… – Shhh… Os dedos dele subiram mais, permitindo que a boca avançasse para lá das pregas inchadas do sexo dela. Ele atacava a protuberância tensa, lambendo-a num ritmo astuto contra a suave penetração dos seus dedos. Evie arqueava-se contra a porta, num esforço doloroso para não gritar. Ele nunca parou nem hesitou, não lhe dando espaço, nem por um momento, para tomar fôlego; só afagava e atormentava a sua pele quente e trémula, elevando a sensação cada vez mais alto até que, por fim, ela sufocou um grito, estremecendo de prazer. A boca dele manteve-se nela aproveitando a última onda de gozo, até que finalmente ela se aquietou, com a sua carne exausta e vazia de sensações. Então Sebastian levantou-se, encostando ao dela o seu corpo ainda excitado, apoiando a testa à porta por trás dela. Evie lançou-lhe os braços à volta da cintura estreita, de olhos fechados, repousando a face febril no ombro dele. – O nosso pacto… – murmurou ela. – Disse que podia beijá-la… – comentou ele, amável e traiçoeiro ao ouvido dela. – Mas não especificou onde, meu amor.


Capítulo 17

– Mandou-me chamar, my lord? Evie parou diante da secretária, no pequeno gabinete onde Sebastian estava instalado. A seu pedido, um dos empregados trouxera-a para baixo, acompanhando-a através do caos controlado de um clube repleto de gente. Na primeira noite da reabertura do Jenner’s, parecia que toda a gente que era, ou pretendia ser, membro do clube estava determinada a garantir entrada. Um monte de propostas de admissão empilhava-se sobre a secretária de Sebastian, enquanto pelo menos uma dúzia de cavalheiros esperava impacientemente no átrio de entrada, para obter aprovação. No ar misturava-se o som das conversas e o tilintar de copos com a música interpretada por uma orquestra instalada numa galeria do segundo andar. Em honra da memória de Ivo Jenner, o champanhe era servido constantemente para completar a atmosfera de prazer desinibido. O clube abrira novamente e tudo parecia correr de feição para os cavalheiros de Londres. – Pois mandei – respondeu Sebastian. – Por que diabo é que ainda cá está? Devia ter partido há já oito horas. Ela olhou-o, sem pestanejar. – Ainda estou a fazer as malas. – Há três dias que está a fazer as malas! Não tem mais de meia dúzia de vestidos. Esses poucos trapos cabiam bem numa mala pequena, c’os diabos! Tem andado a empatar Evie, admita de uma vez. – E que diferença é que isso lhe faz? – respondeu ela, de mau modo. – Durante os dois últimos dias tem-me tratado como se eu não existisse. Custa-me a crer que tenha sequer reparado que ainda cá estou. Sebastian cravou nela um olhar que parecia uma lâmina, enquanto lutava para recuperar o controlo da sua fúria. Não reparar?! C’os diabos, teria dado uma fortuna para que isso fosse verdade. Tinha sido uma verdadeira tortura estar constantemente consciente da cada palavra dela, de cada gesto dela, constantemente esfomeado pelo mais breve relance dela. Vê-la agora, e ao seu belo corpo


curvilíneo cingido no vestido de veludo preto, era o bastante para o pôr doido. O negro lúgubre do luto era suposto tornar as mulheres banais e pouco atraentes, mas pelo contrário, o preto tornava a sua pele fresca como leite e o cabelo escaldante como fogo. Só desejava levá-la para a cama e amála, até que aquela atração diabólica se consumisse pelo seu próprio calor. Sentia-se invadido por qualquer coisa de incontrolável, possuído por uma espécie de inquietação ardente que funcionava como uma doença… qualquer coisa que o fazia andar de sala em sala, esquecendo aquilo que procurava. Jamais se sentira assim… aturdido, impaciente, numa agonia de desejo. Tinha urgentemente de se ver livre dela. Evie tinha de ser protegida dos perigos e depravações daquele clube, tanto como dele próprio. Se ele pudesse mantê-la segura e vê-la dentro de certos limites… era a única solução. – Quero-a fora daqui o mais brevemente possível – disse ele. – Está tudo preparado para si em nossa casa. Ficará lá muito mais confortável. E não terei de me preocupar com qualquer género de sarilho em que possa meter-se. Levantou-se e foi até à porta, tendo o cuidado de manter a necessária distância física entre ambos. – Vou mandar vir uma carruagem. Quero vê-la lá instalada dentro de um quarto de hora. – Mas… ainda não jantei. Será demais pedir que me seja concedida uma última refeição? Sem a olhar, Sebastian conseguiu perceber a nota de desafio quase infantil na voz dela. Isso causou-lhe um aperto no coração… aquele coração que ele sempre julgara ser apenas um músculo eficiente. Não teve tempo para decidir se havia de a deixar ficar para a ceia ou não porque, naquele momento, viu que Cam se aproximava… acompanhado pela inconfundível silhueta do Conde Westcliff. Voltando-se de lado, Sebastian arrastou os dedos pelo cabelo. – Raios do inferno! – praguejou, entredentes. Evie aproximou-se imediatamente. – Que foi? Sebastian apagou do seu rosto qualquer expressão. – É melhor ir embora, Evie – disse, com secura. – Westcliff vem lá. – Eu não vou a parte nenhuma, – contrapôs ela, prontamente. – Lord Westcliff é demasiado cavalheiro para armar uma briga em frente de uma senhora. Sebastian largou uma gargalhada trocista. – Eu não preciso de me esconder atrás das suas saias, minha linda. E duvido que ele esteja aqui para armar contenda. Isso ficou arrumado na noite em que sequestrei Miss Bowman. – O que quererá ele, então? – Ou vem deixar um aviso ou vem verificar se a senhora necessita ser salva… Ou ambas as coisas. Evie ficou ao lado de Sebastian quando Westcliff entrou no escritório. Cam foi o primeiro a falar.


– My lord – disse ele –, eu mandei o conde aguardar, mas… – Ninguém manda o Westcliff fazer coisa alguma – disse Sebastian, secamente. – Está tudo bem Cam. Volta para as mesas de jogo, para não haver sarilhos. E leva contigo Lady St. Vincent. – Não! – disse Evie, imediatamente, olhando do rosto trocista de Sebastian para a cara impassível e dura de Westcliff. – Eu fico. Voltou-se para o conde, estendendo-lhe a mão. – My lord… tenho pensado tanto na Lillian! Encontra-se bem, como espero? Westcliff curvou-se sobre a mão dela, dizendo: – Está ótima. E desejando ardentemente que a senhora nos dê o prazer de passar uma temporada connosco, se lhe aprouver. Apesar de ter, minutos antes, exigido que Evie abandonasse rapidamente o clube, Sebastian viu-se repentinamente possuído por uma fúria violenta. Mas que cabrão arrogante! Se ele imaginava poder apresentar-se assim e levar Evie debaixo do seu nariz…! – Muito agradecida, my lord – disse Evie, com uma doçura firme, olhando-o de frente. Westcliff tinha cabelo preto e olhos tão escuros que era quase impossível distinguir as íris das pupilas. – É muita bondade sua – acrescentou ela, cordialmente. – E desejo visitá-los muito em breve. Mas não necessito da vossa hospitalidade neste momento. – Muito bem. Mas saiba que o convite se mantém em aberto… Deixe-me exprimir as minhas condolências pela sua perda recente. – Obrigada. Evie sorriu com afeto para Westcliff, o que produziu em Sebastian uma nova e fortíssima onda de ciúme. Como dono de um dos mais antigos e poderosos condados de Inglaterra, Marcus, Lord Westcliff, gozava da aura de um homem habituado a ver as suas opiniões escutadas e levadas em conta. Embora não fosse dotado de uma beleza clássica, Westcliff possuía uma vitalidade morena e um vigor masculino que o fazia sobressair em qualquer assembleia. Era um desportista exímio, emérito cavaleiro, conhecido por exigir de si próprio o máximo dos seus limites físicos – e até para além disso. De facto, Westcliff enfrentava desse mesmo modo tudo na vida, não se permitindo a si próprio menos do que a excelência em tudo o que se prestava fazer. Westcliff e Sebastian haviam sido amigos desde os dez anos de idade, tendo frequentado o mesmo colégio durante os seus anos de formação. Mesmo enquanto rapazes, a sua amizade havia sido estranha, pois Westcliff acreditava, por natureza, em princípios morais absolutos e não tinha qualquer dificuldade em distinguir o bem do mal. Sebastian, por outro lado, adorava pegar nos casos mais simples e torcê-los, até retirar deles qualquer coisa de exasperantemente complexo, como puro exercício mental. Westcliff escolhia sempre o caminho mais eficiente e direto, enquanto Sebastian seguia a rota tortuosa e mal cartografada que havia de conduzir a todo o género de sarilhos, antes de


finalmente chegar ao seu destino. Havia, contudo, entre os dois amigos muito em comum, tendo ambos crescido sob a influência de pais manipuladores e indiferentes. Haviam partilhado uma opinião pouco romântica acerca do mundo, constatando, desde cedo, que não havia muita gente em quem confiar. E agora, pensava Sebastian, desolado, destruíra a confiança de Westcliff para além de qualquer esperança de a poder recuperar. Pela primeira vez na vida, sentia uma angústia dolorosa que apenas podia identificar como remorso. Por que raio teria focado a sua atenção em Lillian Bowman? Quando percebera que Westcliff estava interessado na rapariga, por que razão não se dera ao trabalho de procurar outra herdeira com quem casar? E tinha sido um perfeito imbecil ao não reparar em Evie. Vistas agora as coisas, Lillian não valera a sabotagem de uma amizade. Sebastian era obrigado a reconhecer que a ausência de Westcliff na sua vida era como uma bolha num pé que o incomodava frequentemente e não havia maneira de sarar. O visconde aguardou que a porta se fechasse sobre Cam antes de passar um braço possessivo sobre os ombros de Evie. Finalmente, dirigiu-se ao seu ex-amigo. – E então… como foi a lua de mel? – perguntou, com expressão trocista. Westcliff ignorou-lhe a pergunta. – Em vista das circunstâncias – disse ele a Evie –, parece-me imperativo perguntar: houve coerção no seu casamento? – Não! – disse Evie, veementemente, aproximando-se de Sebastian como se o quisesse proteger. – Na verdade, my lord, a ideia foi minha. Dirigi-me a casa de Lord St. Vincent pedindo-lhe auxílio… e ele concedeu-mo. Sem parecer minimamente convencido, Westcliff comentou, secamente: – Haveria decerto outras soluções para si. – Nenhuma que conseguisse enxergar na altura. O braço dela deslizou, cingindo a cintura de Sebastian que, subitamente atónito, suspendeu a respiração. – E não lamento a minha decisão – ouviu ele Evie acrescentar, em tom firme. – Fá-lo-ia de novo sem hesitar. Lord St. Vincent não podia ter sido mais gentil para comigo. – É claro que ela está a mentir – disse Sebastian, com uma gargalhada cínica, sentindo o seu batimento cardíaco a vibrar mais furiosamente. Com o corpo suave de Evie aconchegado ao seu lado, sentia-lhe o calor e o cheiro da pele, mas não conseguia entender porque é que ela o defendia. – Tenho-a tratado da pior maneira possível – prosseguiu ele, categoricamente. – Felizmente para mim, Lady St. Vincent tem sido maltratada pela família desde há tanto tempo que não faz a mais pálida ideia do que é ser bem tratada. – Isso não é verdade – disse Evie a Westcliff.


Nem um nem outro olhavam para Sebastian, dando-lhe a ideia enfurecedora de estar a ser cortado da conversa. – Têm sido tempos difíceis, como calcula – continuou ela –, e eu não conseguiria ter sobrevivido sem o apoio do meu marido. Tem velado pela minha saúde e tem-me protegido tanto quanto possível. Além disso, tem trabalhado seriamente para manter o negócio do meu pai… E defendeu-me ferozmente quando os meus tios tentaram forçar-me a acompanhá-los contra minha vontade… – Agora está mesmo a exagerar, meu amor – interrompeu Sebastian, com uma satisfação perversa. – Westcliff conhece-me o bastante para saber que trabalhar não é comigo. Ou defender alguém desinteressadamente. Eu só me ocupo dos meus próprios interesses. Mas, para sua irritação, ninguém parecia dar atenção às suas palavras. – My lord – prosseguiu Evie, sem parecer escutar Sebastian –, pelo que conheço do meu marido, não creio que tivesse agido da forma que agiu com a Lillian acaso se tivesse apercebido de que o senhor estava apaixonado por ela. Claro que isto não chega para desculpar o seu comportamento, mas… – Balelas, ele não está apaixonado por ela! – rosnou Sebastian, empurrando Evie para longe de si. Subitamente pareceu-lhe que a sala estava a encolher, as paredes aproximavam-se tentando esmagá-lo num aperto fatal. Maldita mulher, a tentar justificá-lo! E maldita também por inventar um simulacro de afeição entre ambos! Com um olhar frio como o gelo, voltou-se para Westcliff: – Quantas vezes me disseste que o amor é uma ilusão dos homens que desejam tornar mais suportável a necessidade de constituírem matrimónio? – Eu estava enganado – disse Westcliff. – Mas por que diabos te vejo tão irritado? – Eu não estou… Sebastian interrompeu-se ao constatar que não dizia coisa com coisa. Olhou para Evie e ficou assustado ao ver a total inversão das suas posições… ela, a encalhada gaguejante, agora segura e firme… e ele, sempre tão calmo e senhor de si, reduzido a uma figura de idiota. E tudo na presença de Westcliff, que observava aquele curioso casal com visível interesse. – Mas o que será preciso para me ver livre de si, não me diz? – perguntou o visconde a Evie, com brusquidão. – Vá com Westcliff se não lhe apraz ir para a casa de Londres. Eu não quero saber, desde que não lhe ponha mais a vista em cima! Os olhos dela abriram-se mais e Evie estremeceu como se tivesse sido atingida por um dardo. Contudo, permaneceu composta: inspirou fundo e deixou o ar sair controladamente. Sebastian, que a observava intensamente, sentiu-se quase dominado pela vontade de cair de joelhos diante dela, pedindo-lhe perdão. Mas permaneceu gelado, enquanto a via dirigir-se para a porta. – Evie… – murmurou ele, por fim. Ela endireitou os ombros e saiu, sem o olhar. Sebastian seguiu-a com os olhos, de punhos dolorosamente cerrados. Vários segundos depois, fez


um esforço para encarar Westcliff. O seu velho amigo olhava-o, não com ódio, mas com algo muito semelhante a compaixão. – Eu não esperava isto, Sebastian – disse ele, em voz baixa. – Tu não estás em ti, rapaz. Havia anos que Westcliff não o tratava pelo nome próprio. Os homens, mesmo parentes ou amigos próximos, quase sempre se tratavam entre si pelo sobrenome ou pelo título. – Vai para o inferno! – rosnou Sebastian. – Era isso, sem dúvida, que vinhas dizer-me aqui, esta noite. Se assim é, vens com um mês de atraso. – Era de facto a minha intenção – admitiu Westcliff. – Mas agora decidi ficar e beber um brandy, enquanto aguardo que me expliques o que raio andas a fazer. Para começar, podes dizer-me por que razão embarcaste na aventura de administrar um clube de jogo? Com o clube tão cheio, era a pior ocasião para se sentarem a conversar. Mas subitamente Sebastian não quis saber! Passara-se já uma eternidade desde que ele havia tido oportunidade de falar com alguém que o conhecesse bem. E embora ele não tivesse ilusões quanto ao facto de a antiga amizade entre eles estar agora reduzida a farrapos, a perspetiva de conversar com Westcliff, mesmo com um Westcliff pouco amistoso, surgia-lhe como um alívio irrecusável. – Muito bem – murmurou. – Sim, vamos conversar. Não saias, eu volto já. Não posso deixar a minha mulher atravessar o clube sozinha. Saiu do escritório a passos largos e entrou no átrio. Não vendo sinal da silhueta de Evie, no seu vestido negro, deduziu que ela teria seguido por outro caminho, talvez pelo salão central. Parou sob uma das portas em arco e lançou uma olhadela pelo mar de cabeças. Graças ao cabelo flamejante de Evie, pôde localizá-la facilmente: ela dirigia-se para o canto onde Cam estava sentado. Quando ela avançou, vários membros do clube deram-lhe passagem, respeitosamente. Sebastian seguiu-a, primeiro devagar, depois com crescente velocidade. Sentia-se num estado de espírito peculiar e lutava por entender o que se passava consigo. Tinha sido sempre tão hábil a lidar com as mulheres… Por que diabos lhe fora impossível permanecer desprendido em relação a Evie? Estava separado daquilo que mais desejava, não por uma distância real, mas por um passado de deboche. Criar uma relação com ela…? Não, era impossível. A sua própria depravação iria saturá-la como tinta negra espalhada num pergaminho imaculado, até que todo o espaço em branco fosse obliterado. Ela tornar-se-ia cínica, azeda… e, à medida que o fosse conhecendo, iria desprezá-lo. Cam estava sentado num banco alto dominando as mesas de jogo e viu que Evie se aproximava. Virou-se no banco, em direção a ela, pondo um pé no chão. Levantou a cabeça e lançou uma vista rápida em volta da sala. Vendo Sebastian à entrada, fez-lhe um curto aceno de cabeça, para indicar que iria manter Evie debaixo de olho até que ele chegasse junto dela. A seguir, Cam deu uma nova vista de olhos pela sala, com uma ruga entre as sobrancelhas. Os seus ombros estremeceram ligeiramente, como se sentisse uma comichão na nuca e voltou-se rapidamente para olhar sobre o ombro. Vendo que não havia ninguém atrás de si instalou-se de novo no banco alto. Contudo, um instinto importuno fê-lo examinar melhor a multidão, como se o seu


olhar fosse atraído por um íman… Ergueu o olhar para as galerias do segundo andar e Sebastian viuo estacar subitamente, como se tivesse sido ferido com uma punhalada. Libertando-se da multidão, Sebastian seguiu o olhar do rapaz, descobrindo um homem moreno e atarracado, encostado ao balcão que dominava todo o salão central. Estava desgrenhado, sujo e o cabelo preto colava-se à cabeça, com a característica forma de bala. Sebastian reconheceu-o imediatamente: Joss Bullard! Mas como poderia ele ter entrado no clube sem ser notado? Devia ter usado uma entrada secreta. O clube tinha mais passagens e aberturas do que uma toca de coelhos. E ninguém conhecia aquele lugar como Bullard e Cam que lá tinham vivido desde a infância. Os pensamentos de Sebastian explodiram quando ele viu o brilho de luz, refletido no cano da pistola na mão de Bullard. Mesmo daquele ângulo, o objetivo da sua pontaria era nítido. O seu alvo era Evie que ainda estava a uns bons cinco metros de Cam. Levado por puro instinto, Sebastian saltou para a frente com a velocidade de um relâmpago e trespassado pelo terror. As formas de Evie tornaram-se tão nítidas e detalhadas na sua visão que até a penugem do vestido de veludo era percetível para ele. Todos os seus nervos e músculos se esforçavam por alcançá-la, cada batimento do seu coração trabalhava para enviar sangue aos seus músculos. Agarrando-a com as mãos frenéticas, Sebastian virou o seu próprio corpo para a proteger, aproveitando o impulso para a obrigar a cair no chão. O tiro ecoou estrondosamente na sala. Sebastian sentiu um impacto no flanco, como se tivesse levado um soco, a que se seguiu uma explosão de dor ardente, à medida que o chumbo rasgava a sua carne cortando, pelo caminho, uma rede de artérias. O duro impacto no chão atordoou Sebastian momentaneamente. Ficou meio deitado sobre Evie, tentando cobrir-lhe a cabeça com os braços, enquanto ela se debatia debaixo dele. – Quieta – arquejou ele, mantendo-a no chão, receoso que Bullard atirasse de novo. – Espere, Evie. Ela cedeu, obediente, enquanto o ar se enchia de barulho… um clamor de gritos e de passos em correria. Alçando-se de cima do corpo de Evie, Sebastian arriscou um olhar para o balcão do segundo andar. Bullard desaparecera. Com um gemido de dor, deixou-se rolar para o lado, verificando o estado de Evie, aterrado com a ideia de que a bala também a pudesse ter ferido. – Evie, meu amor… está ferida? – Porque é que me empurrou? – perguntou ela, em voz sumida. – Não, não estou ferida. O que foi aquele barulho? Com a mão trémula, ele tocou-lhe no rosto, desviando o cabelo que lhe caía sobre os olhos. Espantada, Evie conseguiu sair debaixo dele, ficando sentada no chão. Sebastian permaneceu deitado de lado, arquejando, sentido o sangue quente que lhe inundava o peito e a cintura. Tomadas pelo pânico, as pessoas precipitavam-se para fora do edifício, deixando o casal, caído no chão, em risco de ser pisado. De repente, um homem agachou-se junto deles, tendo lutado contra a


multidão para conseguir chegar ali. Usou o seu corpo como escudo, impedindo-os de serem atropelados, e Sebastian reconheceu Westcliff, agarrando-o pelo casaco. – Ele disparou contra a Evie – disse ele, em voz rouca. A boca estava a ficar-lhe entorpecida e ele teve de lamber os lábios antes de continuar. – Protege-a… protege… Evie soltou um grito trémulo ao ver o vermelho rútilo que se espalhava pela camisa de Sebastian, percebendo que ele estava gravemente ferido. Agarrou-se aos botões do casaco e do colete, quase arrebentando os bolsos, num súbito frenesim. Sem uma palavra, Westcliff despiu bruscamente o seu casaco e o colete que enrolou numa trouxa apertada. Evie rasgou a camisa de Sebastian, ensopada em sangue, e viu a ferida aberta no seu flanco. Empalideceu e os seus olhos ameaçaram lágrimas, mas conseguiu controlar-se, pegando na trouxa que Westcliff lhe estendia e que ela apertou firmemente sobre a ferida para estancar o sangue. A pressão causou em Sebastian uma dor tal que ele não pode deixar de gemer. Levantou uma mão, que ficou suspensa no ar, com os dedos semicerrados. O cheiro a sangue fresco saturava o ar. Westcliff inclinara-se sobre ele, procurando a ferida de saída da bala. – A bala entrou e saiu – ouviu ele dizer a Evie. – Não parece que haja estragos graves de veias ou artérias. Enquanto Westcliff mantinha a pressão sobre a ferida, Evie conseguiu aninhar, no seu colo, a cabeça de Sebastian, acomodando-a no suave veludo preto. Pegando-lhe na mão, apertou-lhe os dedos com força. O aperto da mão dela funcionou como uma âncora, servindo de contrapeso à dor lancinante que sentia. Sebastian fixou o rosto que se inclinava para ele sem conseguir decifrar a expressão de Evie. Havia, nos olhos dela, um brilho estranho, qualquer coisa como ternura ou pena… qualquer coisa de raro e infinito. Ele não sabia o que era. Nunca ninguém olhara para ele daquela maneira. Esforçou-se por dizer qualquer coisa para afastar aquela emoção perturbante do olhar dela. – Isto é o que se ganha por… – teve de parar, impedido de falar por novos acessos de dor – … tentar fazer figura de herói – terminou ele. – Julgo que prefiro fazer figura de vilão daqui em diante. É muito mais… seguro. Os olhos negros de Westcliff brilharam por um momento, com aquela tentativa de humor. – O tiro veio da galeria superior – disse ele. – Um antigo empregado nosso… Bullard… dispensado recentemente… – Estás absolutamente certo de que o alvo dele era Lady St. Vincent? – Estou. – Talvez ele julgasse que, atingindo-a a ela, seria a melhor maneira de se vingar de ti. Sebastian sentia a cabeça a começar a andar à roda, tornando-se difícil pensar claramente. – Não… – balbuciou. – Isso só faria sentido se ele achasse que eu gosto dela… mas toda a gente sabe que… não foi um casamento por amor. Westcliff lançou-lhe um olhar curioso, mas não lhe respondeu. Sebastian não podia imaginar


como é que ele e Evie pareciam naquele momento, ele agarrando com força à mão dela e deixandose embalar tão ternamente como uma criança ferida nos braços de sua mãe. Tudo o que ele sabia era que a ferida no seu flanco começava a doer insuportavelmente. Apoderara-se dele um tremor implacável que o fazia bater os dentes. Apercebeu-se vagamente de que Westcliff se afastou, berrando ordens e voltando com um monte de casacos: não era evidente se os seus proprietários os teriam cedido de bom grado ou não. Os casacos foram todos colocados por cima do corpo trémulo de Sebastian e Westcliff recomeçou a fazer pressão sobre o ferimento. Por momentos, Sebastian perdeu os sentidos e, quando voltou à realidade, sentiu a mão quente de Evie acariciando a sua face gelada e com suores frios. – O médico já aí vem – murmurou ela. – Quando o sangue estancar um pouco, vamos levá-lo lá para cima. A respiração dele estremecia entre os dentes cerrados. – Onde está o Rohan? – Vi-o a perseguir o Bullard imediatamente após o disparo – replicou Westcliff. – De facto, vi-o trepar por uma coluna até ao segundo andar. – Se ele não conseguir apanhar aquele patife, apanho-o eu. E então… – Shhh… – soprou Evie, e a sua mão livre insinuou-se por baixo do monte de casacos até chegar ao peito nu de Sebastian. A palma da mão dela parou sobre o bater fraco do coração do marido e os seus dedos encontraram a fina corrente de ouro que ele trazia ao pescoço. Percorrendo a corrente, ela descobriu a aliança do casamento ali pendurada. Sebastian não quisera que Evie descobrisse que ele usava a aliança por debaixo das suas roupas. Agitado, murmurou: – Isto… não tem nenhum significado especial. Queria apenas que… que ela não se perdesse. – Compreendo – murmurou Evie, continuando a afagar-lhe o peito. Ele sentiu a boca dela passar ao de leve sobre a sua testa. Evie sorriu-lhe: – Já terá certamente percebido, espero, que me forneceu um pretexto perfeito para eu aqui ficar. Vou tomar conta de si até que esteja suficientemente forte para me mandar embora pessoalmente. Sebastian não pôde corresponder ao sorriso dela. Sufocava-o a inquietação de saber que Evie não estava em segurança nem ali, nem em parte alguma, enquanto Bullard não fosse apanhado. – Westcliff… – suplicou ele. – Alguém tem de proteger a minha mulher… – Nada de mal lhe acontecerá, garanto-te – respondeu Westcliff, com firmeza. Ao olhar o seu velho amigo, o único homem verdadeiramente honesto que havia conhecido, viu que o rosto dele se mantinha cuidadosamente impassível. Ambos sabiam aquilo que Evie não tinha experiência para perceber: que, embora a bala não tivesse atingido nenhum órgão vital, era quase certo que a ferida iria infetar. Sebastian não morreria com a perda de sangue, mas era provável que sucumbisse a uma febre fatal. E se assim fosse, Evie ficaria sozinha e indefesa, num mundo repleto de


predadores. Homens idênticos a ele. Tremendo de frio e do choque traumático, Sebastian esforçou-se por proferir algumas palavras em desespero, chegando à conclusão de que precisava de recuperar o fôlego por diversas vezes para poder prosseguir. – Westcliff… o que eu te fiz… perdoa-me… perdão, meu amigo. Sentiu que os olhos já não se aguentavam abertos e olhando em frente lutou para não perder a consciência. – A Evie… protege-a. Por favor… Mergulhou num oceano de ondas reluzentes, cada vez mais fundo, até que as luzes se apagaram e ele se perdeu na escuridão. – Sebastian… – murmurou Evie, levando a mão inerte dele ao seu rosto, enquanto as lágrimas lhe corriam pelo rosto. – Sossegue… – dizia Westcliff. – Ele perdeu os sentidos, só isso. Vai voltar a si dentro em pouco. Ela deixou escapar mais um pequeno soluço, antes de retomar o controlo. – Ele pôs-se deliberadamente à minha frente – disse ela, após um momento. – Recebeu aquele tiro por mim. – Também me pareceu. Westcliff observava-a especulativamente pensado, entre outras coisas, que várias modificações interessantes haviam ocorrido, tanto em Sebastian como na sua insólita noiva, desde aquele não menos insólito casamento. Quando Lillian soubera que St. Vincent havia desposado Evangeline Jenner, tinha tido um ataque de fúria, horrorizada com a desgraça que podia ter atingido a sua amiga. – Esse monstro! – gritara Lillian, ao voltar a Londres, vinda de Itália. – Fazer uma coisa dessas à Evie, logo à Evie!… Ele não sabe como ela é frágil! Deve ter sido tão cruel para ela… que não tem defesas e é tão inocente… Meu Deus, eu mato-o! – A sua irmã garantiu que ela não parecia ter sido maltratada – disse Westcliff, usando da razão, embora ele próprio tivesse ficado preocupado ao imaginar uma criatura tão indefesa como Evie Jenner à mercê de St. Vincent. – Provavelmente teve medo das consequências – retorquira Lillian, andando furiosa de um lado para o outro. – Ele violou-a, com certeza! Ameaçou-a. Talvez até lhe tenha batido… Deus meu! – Não, não… – acalmara-a Westcliff, tomando nos braços o seu corpo tenso. – Segundo a Daisy e a Annabelle, houve ampla oportunidade para Evie lhes dizer se havia sido violada, mas ela não o fez. Se a deixar mais sossegada irei ter com ela ao Jenner’s, para lhe propor apoio… e refúgio. Pode ficar connosco no Hampshire, se quiser. – Durante quanto tempo? – murmurou Lillian, aninhando-se no abraço dele. – Indefinidamente, claro. – Oh, Marcus… – os seus olhos castanhos começaram a toldar-se de lágrimas. – Era capaz de


fazer isso por mim? – Tudo, meu amor – respondera ele. – Tudo para a ver feliz. E, assim, Westcliff aparecera no Jenner ’s naquela noite, para se certificar se Evangeline era, ou não, uma cativa relutante. Mas, ao contrário das expectativas, deparou-se com uma mulher que parecia feliz por ali estar e, mais importante ainda, que parecia ter uma evidente afeição por St. Vincent. Quanto a St. Vincent, tão eternamente altivo e indiferente… era difícil acreditar que o homem que tratava as mulheres com uma frieza tão arrogante, pudesse ser o mesmo que acabava de arriscar a própria vida. Ao receber o pedido de perdão de um homem que jamais exprimira o mais pequeno remorso e depois de o ouvir praticamente a suplicar proteção para a sua mulher, Westcliff chegou a uma inegável conclusão: St. Vincent aprendera, contra todas as expectativas, a preocupar-me mais com outra pessoa do que consigo próprio. Era uma situação extraordinária! Como era possível que alguém como Evangeline Jenner tivesse operado uma tal mudança em St. Vincent, o mais cínico dos homens? Era difícil de compreender. Contudo, Westcliff já aprendera que os mistérios da atração nem sempre podiam ser explicados através da lógica. Por vezes, as fraturas entre duas almas podem vir a ser a charneira que as mantém juntas. – My lady – disse ele, cautelosamente. – Evie, por favor – disse ela, aninhando a mão do marido contra o rosto. – Evie, tenho de perguntar… O que a levou a abordar o St. Vincent, entre todos os homens, com uma oferta de casamento? Pousando a mão de Sebastian, Evie exibiu um sorriso algo confuso. – Eu precisava de um meio para escapar à minha família de modo legal e permanente. Vi o casamento como a única solução. E, como certamente se terá apercebido, os pretendentes à minha mão não faziam fila no Hampshire… Quando soube o que o St. Vincent fizera à Lillian, fiquei estarrecida, mas também me ocorreu que ele era a única pessoa que conhecia que parecia estar tão desesperada quanto eu. Suficientemente desesperado para aceitar fosse o que fosse. – E também fazia parte dos seus planos que ele tomasse conta do clube do seu pai? – Não. Isso foi ele que decidiu, para minha grande surpresa. Para dizer a verdade, ele tem-me surpreendido, em todos os sentidos, desde que casámos. – Como assim? – Tem feito todos os possíveis para cuidar de mim, embora nunca deixe de proclamar a sua indiferença… – Evie desviou os olhos para o rosto inconsciente do marido. – Sebastian não é insensível, por mais que tente provar o contrário. – Pois não – concordou Westcliff. – Não é de facto insensível… embora eu próprio tivesse as minhas dúvidas até esta noite.


Capítulo 18

Embora Cam e Westcliff tivessem tomado todas as precauções, o processo de mudança de Sebastian para o andar superior enfraqueceu-o seriamente. Evie seguiu-os de perto, numa agonia de preocupação ao observar a palidez extrema do marido. Cam parecia atormentado, embora mantivesse controladas as suas emoções, mantendo-se focado em fazer o que era necessário. – Não sei como é que ele entrou – murmurava o rapaz. Evie percebeu que ele se referia a Bullard. – Conheço todos os pontos de entrada e de saída desta casa. Pensei que tinha tomado cuidado com … – A culpa não é tua, Cam – interrompeu Evie, em voz baixa. – Alguém o deve ter deixado entrar, embora eu tenha recomendado aos empregados que… – A culpa não é tua – repetiu ela; e o rapaz calou-se, embora fosse óbvio que não estava de acordo. Westcliff manteve-se em silêncio, exceto quando murmurou algumas instruções ao passarem uma esquina estreita. Ele carregava o tronco de Sebastian, enquanto Cam segurava as pernas. Embora Sebastian fosse um homem grande, ambos estavam em boa forma física e carregaram-no até ao quarto principal sem dificuldade. O quarto havia sido restaurado não há muito tempo e as paredes pintadas de cor creme. A velha cama fora substituída por uma nova, trazida de casa de Sebastian. Ninguém teria imaginado que este voltaria a ser novamente o quarto de um acamado, sobretudo tão cedo após a morte do pai de Evie Sob as indicações de Evie, duas criadas corriam de um lado para o outro, trazendo toalhas e água e rasgando lençóis para fazer ligaduras. O corpo inerte de Sebastian foi colocado na cama e Evie descalçou-lhe as botas, enquanto Cam e Westcliff tratavam de lhe despir as roupas ensopadas de sangue. Por acordo tácito, deixaram-lhe as bragas interiores de linho branco. Molhando um pano limpo na água morna, Evie lavou o sangue do corpo do marido; as manchas de sangue seco entre os pelos loiros pareciam ferrugem. Como se afigurava indefeso aquele corpo poderoso e elegante, agora reduzido a uma forma inerte de músculos trabalhados por uma constante


atividade física e com alguns vestígios de recentes escaramuças de viela. Westcliff pegou noutro pano e limpou, com cuidado, o ferimento da bala que ainda sangrava. – Pelo tamanho do buraco, calculo que o Bullard terá usado uma pistola de calibre cinquenta. – Eu tenho a arma em meu poder, sir – disse Cam, atento. – O Bullard deixou-a cair na galeria do segundo andar, depois do disparo. – Deixa-me vê-la – disse Westcliff. O rapaz tirou a pistola da algibeira do casaco e entregou-lha, de coronha para a frente. Westcliff observou-a com olhar entendido. – É uma pistola de duelo – disse ele –, com cano octogonal de nove polegadas, cano com mira… alça de segurança de platina, coronha gravada… uma arma muito dispendiosa e parte de um conjunto. Fabricada pela Manton and Son, de Dover Street. – E, após um olhar mais atento: – E esta placa em prata, com um brasão… tem gravada o nome do proprietário, suponho eu… Embora demasiado gasto se poder distinguir as letras. – Olhou para Cam, erguendo um sobrolho, enquanto guardava a arma no bolso. – Se me permites, fico com ela. Entendendo perfeitamente que a sua permissão não era, efetivamente, requerida, Cam respondeu secamente: – Por quem sois, my lord. E a conversa ficou por ali, com a chegada de Dr. Hammond, um excelente médico, com ótima reputação e que em tempos cuidara do pai de Evie. Cam e Westcliff saíram do quarto, enquanto o médico observava o paciente, limpava a ferida e a cobria com um penso leve. – Não obstante nenhum órgão vital ter sido atingido – disse o velho doutor a Evie, com uma expressão séria –, trata-se de um ferimento grave. A cura vai depender em grande parte da resistência do doente, da qualidade dos seus cuidados… e, como sempre, da graça divina. É quase certo que terá febre alta que terá de seguir o seu curso. Muitas vezes, em casos como este, sou obrigado a sangrar o paciente a fim de drenar tanto sangue mórbido quanto possível. Virei visitá-lo diariamente para determinar se e quando isso será necessário. Entretanto, mantenha-o limpo e repousado, dê-lhe água e caldo de carne e… este remédio se tiver muitas dores. Evie recebeu do médico um frasco com xarope de ópio que agradeceu com um murmúrio. Após a saída do médico, cobriu Sebastian com uma manta de lã, constatando que os efeitos do choque e da perda de sangue o faziam tremer descontroladamente. Ele abriu os olhos, focando-os nela com dificuldade. – Se eu precisar da graça divina… – murmurou, debilmente – … estou metido num grande sarilho. A não ser que consigamos desencantar de algures um anjo corrupto que se deixe subornar. Ela soltou uma risadinha nervosa. – Não diga blasfémias… – Abriu o frasco de xarope e encheu uma colher, erguendo-lhe cuidadosamente a cabeça com um braço na nuca. – Tome isto. Ele engoliu, fez uma careta e praguejou em surdina. Mantendo o braço por trás da cabeça dele,


Evie alcançou um copo de água com a mão livre e levou-lho aos lábios. – Beba – murmurou. Sebastian obedeceu, recostando-se de novo nas almofadas. – E o Bullard…? – O Cam não conseguiu apanhá-lo. Evie tirou um pouco de unguento de um minúsculo pote de loiça e aplicou-o com cuidado nos lábios de Sebastian, já gretados pela febre. – Ele e Lord Westcliff estão lá em baixo a falar com o polícia que mandaram chamar para a investigação. – Houve mais alguém ferido? – perguntou Sebastian, tentando soerguer-se. Um rasgo de dor fê-lo empalidecer e caiu para trás, soltando uma nova praga. – Não se mexa! – implorou-lhe Evie. – Vai sangrar de novo. Colocou a mão no seu peito, percorrendo com o dedo a fina corrente cintilante, terminando na aliança. – Não houve mais nenhum ferido – disse ela, em resposta à sua pergunta. – E assim que os membros do clube souberam que o assaltante havia escapado regressaram todos a correr. Pareciam muito entusiasmados e entretidos com o que acabara de se passar. Ele fez um sorriso vago. – Certamente bem mais divertido… do que eu havia planeado para os entreter. – O Cam garante que este incidente não irá prejudicar o negócio, bem pelo contrário. – Quanto às… medidas de segurança… – disse Sebastian, exausto pelo esforço de falar. – Peça ao Cam que… – Bem sei, ele já está a tratar de contratar mais homens. Não pense mais nessas coisas agora. O seu único objetivo é pôr-se bom. – Evie… As suas mãos trémulas procuraram as dela e seguraram-nas, juntas, contra o peito nu. A aliança na corrente apertava-se contra o palpitar incerto do seu coração. – Vá com o Westcliff… – murmurou, fechando os olhos – … depois. Depois de quê? Evie olhou o rosto dele, a sua face macilenta, e percebeu que ele se estava a referir à sua própria morte. Sentindo a mão dele escorregar, ela apertou-a firmemente. Aquelas mãos também haviam mudado… já não eram macias e cuidadas, mas mais duras e calejadas, com as unhas curtas. – Não… – disse ela, num tom quente e intenso. – Não vai existir nenhum depois. Eu vou ficar consigo para sempre. Vou guardá-lo comigo. Não vou deixá-lo partir, garanto-lhe. Subitamente sentiu a respiração tornar-se mais difícil, mais pesada, crescendo-lhe a pressão de pânico dentro do peito. Inclinando-se sobre ele, virou a mão para juntar as palmas de ambos, pulsos unidos, batendo um fraco e outro forte.


– Se o meu amor conseguir segurá-lo, ficará comigo. Sebastian acordou numa intensa névoa de dor, não só no ferimento, mas também na cabeça, ossos e articulações. Sentia-se seco e febril, como se lhe tivesse entrado fogo para debaixo da pele e contorcia-se numa inútil tentativa de escapar àquele calor abrasador. De repente, duas mãos suaves desceram sobre ele e sentiu uma toalha molhada passar-lhe pelo rosto. Um sopro de alívio escapoulhe dos lábios e ele estendeu a mão para aquela fonte de frescura, enclavinhando os dedos numa coisa macia. – Não, Sebastian, não! Esteja quieto, deixe-me ajudá-lo. Era a voz de Evie, transpondo aquela vaga de loucura. Arquejando, ele forçou-se a largá-la e deixou-se cair de novo sobre o colchão. A toalha fresca movia-se sobre ele em gestos largos, aliviando, momentaneamente, o seu tormento; cada passagem acalmava-o até que finalmente conseguiu manter-se quieto sob os cuidados dela. – Evie… – disse ele, em voz rouca. Ela deteve-se para lhe colocar entre os lábios algumas lâminas de gelo esmagado. – Sim, meu querido. Estou aqui. Surpreendido pela palavra carinhosa, ele ergueu as pálpebras e viu-a inclinada sobre ele. O gelo em breve se dissolveu na sua boca seca e, antes que ele tivesse de pedir, ela deu-lhe mais. Molhando e torcendo a toalha, Evie lavou-lhe o peito, os flancos, os braços… O quarto estava na penumbra, iluminado apenas pela luz proveniente de uma janela tapada, em parte, por um reposteiro. Uma brisa fresca soprava entre os caixilhos semiabertos. Notando a direção do olhar dele, Evie murmurou: – O médico disse para manter a janela fechada, mas pareceu-me que repousa melhor quando está aberta. Sebastian sentiu-se inundado de gratidão, enquanto Evie continuava a lavá-lo com a toalha fresca. O robe branco e a pele clara davam-lhe a aparência de um benevolente espírito antigo, tecendo sobre ele, no escuro, um feitiço benfazejo. – Há quanto tempo…? – murmurou ele. – Este é o terceiro dia. Sebastian, meu amor… se conseguisse voltar-se um pouco sobre o lado são… Deixe-me entalar aí uma almofada… assim. Com as costas dele expostas de lado, Evie pôde banhar-lhe a espinha e os ombros doridos, o que o fez gemer docemente. Sebastian lembrou-se vagamente das outras vezes em que ela lhe fizera aquilo… das suas mãos leves… da sua face serena à luz do candeeiro. No meio de todo aquele pesadelo de dor e confusão, ele estivera consciente de como ela o havia tratado, zelando pelas suas necessidades com uma intimidade assombrosa. Quando ele tremia de febre, ela cobria-o com cobertores e segurava nos seus braços o seu corpo tiritando de frio. Estava sempre presente, antes mesmo que ele precisasse de a chamar… compreendia tudo, como se pudesse penetrar no


emaranhado dos seus pensamentos. O seu maior receio sempre fora poder vir a ficar dependente de alguém daquela maneira. Sentia-se cada vez mais fraco, à medida que a ferida infetava e a febre subia raivosamente. Sentia a morte pairando, como um espetro impaciente, ávido por reclamá-lo assim que o visse desprovido de todas as suas defesas. Recuava quando Evie estava presente… sempre atento e aguardando, mas bem menos ameaçador. Sebastian só agora compreendia a força que Evie tinha. Mesmo quando assistira aos cuidados que ela dispensara ao pai, ele jamais suspeitara o que seria confiar nela, precisar dela… Nada lhe causava nojo, nada que lhe pedisse era, para ela, demasiado. Ela era o seu apoio, o seu escudo… e ao mesmo tempo, esforçava-se por mimá-lo com uma amizade terna – pela qual ele começava a ansiar tanto como a pretender escapar-lhe. Os braços delgados, mas fortes, de Evie ampararam-no enquanto o deslizava, de novo, para o colchão. – Um golinho de água… – sugeriu ela, soerguendo-lhe a cabeça. Sebastian recusou porque, embora sentisse a boca seca e pegajosa, estava igualmente ciente de que a menor gota de água o faria vomitar. – Por mim, vamos… – insistiu ela, levando-lhe o copo à boca. Sebastian lançou-lhe um olhar desagradado, mas obedeceu… e ficou chocado ao constatar que o aplauso dela lhe causou um frémito de prazer. – É um anjo… – murmurou ela, sorrindo. – Assim é que é. Agora descanse enquanto eu trato de o refrescar mais um pouco. Ele relaxou-se num suspiro prazeroso, enquanto o pano húmido deslizava suavemente sobre o seu rosto e pescoço. Afundou-se num oceano espesso e asfixiante de trevas, em sonhos que não lhe davam descanso. Ao fim do que poderiam ter sido minutos, horas ou dias, acordou num pico máximo de dor que o acutilava no flanco e que ardia e doía como se lhe tivessem cravado uma lança envenenada. A voz suave de Evie acalmou aquele seu desespero. – Sebastian, por favor… deite-se. O Dr. Hammond está aqui. Deixe-o examiná-lo. Sebastian apercebeu-se de que estava demasiado fraco para fazer qualquer gesto. Era como se estivesse imobilizado, atado com pesos de chumbo. – Ajude-me – murmurou, recusando-se a ficar deitado de costas. Evie, que o entendera imediatamente, apressou-se a levantar-lhe a cabeça, colocando uma almofada por baixo. – Boa tarde, my lord – soou uma voz de barítono. O corpulento doutor surgiu diante dele, com um ligeiro sorriso entre a barba prateada que lhe animava a face rubicunda. – Eu esperava por algumas melhoras – disse ele a Evie. – A febre não baixou? Ela abanou a cabeça tristemente. – Alguns sinais de apetite ou sede?


– Por vezes bebe um pouco de água, mas não consegue manter no estômago nem um pouco de caldo. – Muito bem. Vou agora examinar a ferida. Sebastian sentiu a roupa da cama ser-lhe puxada até às ancas e a ligadura totalmente retirada. Como se tentasse protestar contra a indignidade de ser exposto sem cerimónia, Evie pousou-lhe a mão sobre o peito, murmurando: – Não tem importância, meu querido. O Dr. Hammond só pretende ajudar. Fraco de mais para sequer levantar a cabeça, Sebastian fixou os olhos no rosto de Evie, enquanto ela e o médico olhavam a ferida exposta. A expressão de Evie não se alterou, mas ele percebeu, pelo duplo pestanejar dela, que o seu estado não havia melhorado. – Tal como eu receava – disse Hammond, calmamente – o ferimento infetou. Vê aqueles traços vermelhos estendendo-se em direção ao coração? Vou ter de retirar parte daquele sangue estragado do corpo dele. Vamos esperar que isso reduza parte da infeção. – Mas ele já perdeu tanto sangue… – disse Evie, insegura e angustiada. – Não vou retirar mais de um litro – replicou Hammond, em tom tranquilizador mas firme. – Não lhe vou fazer mal, my lady, pelo contrário, vai aliviar a compressão dos vasos sanguíneos devido à acumulação dos venenos. Sebastian sempre considerara duvidoso o processo da sangria, mas nunca como agora: o momento em que estava prestes a ser vítima de uma. Sentiu a pulsação acelerar até um fraco, mas desesperado, tamborilar nas suas veias e puxou pela mão de Evie. – Não…! – murmurou, com a respiração galopante. Uma tontura dominou-o numa nuvem de faíscas e ele deixou de ver. Não deu conta de ter perdido os sentidos, mas quando abriu de novo os olhos, descobriu que o seu braço esquerdo lhe havia sido atado às costas de uma cadeira ao lado da cama, com uma taça de porcelana colocada no assento. Não havia sangue dentro da taça, ainda, mas Hammond aproximava-se dele com um dispositivo semelhante a uma pequena caixa. – O que é isso? – quis saber Evie. Sebastian reuniu todas as suas forças para virar a cabeça na almofada e olhar para ela. – Chama-se escarificador – respondeu o médico – e é, de longe, o método mais eficaz para proceder a uma sangria, ao invés da antiga lanceta. – Evie… – murmurou Sebastian. Ela pareceu não o ouvir, com o seu olhar desconfiado fixo no médico, que continuava a explicar: – A caixa contém doze lâminas presas a uma rotativa. Com um toque no mecanismo, as lâminas produzem uma série de golpes que induzem a saída do sangue. – Evie…! Ela olhou Sebastian e o que viu no seu rosto fê-la contornar a cama para se aproximar dele. – Sim, meu querido, isto vai certamente fazer-lhe bem…


– Não! Aquilo ia matá-lo. Já era suficientemente difícil para ele lutar contra a febre e a dor. Enfraquecido por uma sangria demorada, não seria capaz de resistir mais tempo. Sebastian puxava, como podia, pelo braço esticado, mas a ligadura resistia e a cadeira nem estremecia. – Rai’s part’ó diabo…! – lançou a Evie um olhar angustiado, lutando contra uma nova sensação de desmaio. – Não… – gemeu ele. – Não permita… – Meu querido – murmurou Evie, curvando-se para o beijar, de olhos rasos de lágrimas. – Entenda que isto pode ser a solução… a sua última hipótese… – Eu vou morrer, Evie…! O terror toldava-lhe a visão, mas esforçava-se por manter os olhos abertos. O rosto dela começava a desvanecer-se. – Eu morro, Evie… – murmurou de novo. – Lady St. Vincent – soou a voz calma e firme do médico – a ansiedade do seu marido é perfeitamente compreensível. Contudo, o seu bom senso está afetado pela doença. Nesta altura, a senhora é a pessoa mais indicada para tomar decisões em seu benefício. Eu não recomendaria este tratamento se não acreditasse na sua eficácia. Deve deixar-me prosseguir. Duvido que Lord St. Vincent venha sequer a lembrar-se desta conversa. Sebastian fechou os olhos com um gemido de desespero. Se ao menos Hammond fosse um lunático evidente, com uma triunfante gargalhada de maníaco… Mas Hammond era um clínico respeitável, com a firme convicção de alguém que acredita que está a proceder da melhor maneira. O carrasco, ao que parecia, podia apresentar-se das mais variadas maneiras. Evie era a sua única esperança, o seu único paladino. Sebastian mal podia acreditar que isto lhe pudesse acontecer… a sua vida a depender de uma jovem inexperiente que iria provavelmente deixarse convencer pela autoridade do venerável doutor Hammond… Mas não havia mais ninguém a quem Sebastian pudesse apelar. Sentindo os dedos dela na sua face febril, olhou-a suplicante, incapaz de dizer uma só palavra. Oh meu Deus, Evie, não deixe que ele… – Está bem – disse ela, baixinho, olhando-o nos olhos. O coração de Sebastian parou, julgando que ela se estava a dirigir ao médico, dando-lhe permissão para o sangrar. Mas Evie dirigiu-se à cadeira e rapidamente desatou o pulso de Sebastian, começando a massajar a pele seca e enrubescida. Não pôde deixar de gaguejar ao dirigir-se ao médico: – Dou-doutor Hammond, Lord St. Vincent não de-deseja esse tratamento. Eu tenho de acatar a susua vontade. Para sua eterna humilhação, Sebastian não conseguiu reter um soluço de alívio. – My lady – replicou o médico, seriamente preocupado – rogo-lhe que reconsidere. A sua cedência aos desejos de um homem que está febril e fora de si pode significar a sua morte! Deixe que o ajude. Tem de confiar na minha opinião, visto eu ter, infinitamente, mais experiência no assunto!


Evie sentou-se calmamente na beira da cama, segurando no colo a mão de Sebastian. – Eu respeito, obviamente, a sua opi-pinião. – Parou, abanando a cabeça de impaciência com aquele seu gaguejar. – Mas o meu ma-marido tem o direito de tomar esta decisão sozinho. Sebastian torcia-lhe a saia com os dedos. Gaguejar era um claro sintoma da sua íntima ansiedade, mas ela não iria ceder. Apoiá-lo-ia. Soltou um suspiro trémulo e sossegou, como se a sua alma pecaminosa tivesse sido confiada à guarda de Evie. Hammond começou então a arrumar os seus pertences, abanando a cabeça. – Já que não permite que eu use os meus conhecimentos – disse, com calma e dignidade –, recusando-se a ter em conta a minha opinião profissional, receio não poder ser de utilidade para a senhora e para o seu marido. Não prevejo senão um final desastroso para esta situação, se não for posto em prática o tratamento adequado. Que Deus vos ajude. E o doutor saiu do quarto, deixando atrás de si um rasto de firme desaprovação. Extremamente aliviado, Sebastian estendeu os dedos sobre o colo de Evie. – Bons ventos o levem… – murmurou ele, enquanto a porta se fechava nas costas do doutor. Evie olhou para ele sem saber se havia de rir ou de chorar. – O senhor é teimoso como uma mula! – disse ela, com os olhos húmidos. – Conseguiu mandar embora um dos mais reputados médicos de Londres! Seja quem for que chamemos agora vai certamente querer sangrá-lo também. Quem é que havemos de chamar? Uma benzedeira? Um magocurandeiro? Uma cartomante? Com esforço, Sebastian conseguiu levar a mão dela aos seus lábios. – Não preciso de ninguém… – murmurou, beijando os dedos dela. – A não ser de si.


Capítulo 19

Mas Evie debatia-se com uma multitude de dúvidas acerca da sua decisão em não deixar que o doutor Hammond tratasse de Sebastian. Após a partida do médico, o estado dele piorara visivelmente, a ferida inchara e inflamara, e a febre insistia em subir. À meia-noite a lucidez abandonou-o. Os seus olhos ardiam-lhe diabolicamente na face afogueada e ele olhava para Evie sem a reconhecer, murmurando palavras incoerentes que ela nem sempre entendia, mas que, por vezes, exprimiam revelações sombrias que a enchiam de compaixão. – Shhh… – murmurava ela, por vezes. – Shhh, Sebastian, sossegue… Mas ele persistia naquele terrível desespero, o seu espírito mais e mais atormentado a cada minuto, até que, finalmente, ela parou de tentar acalmá-lo e agarrou as mãos dele nas suas, escutando pacientemente aquela amarga litania. No seu estado consciente, Sebastian jamais teria permitido, fosse a quem fosse, um olhar sobre o seu íntimo desprotegido. Mas Evie sabia, talvez melhor do que ninguém, o que era viver numa desesperada solidão… ansiando por ligar-se a alguém, por completar-se. E também intuía os abismos para onde a sua solidão o levava. Ao fim de algum tempo, quando a sua voz rouca se perdeu em murmúrios irregulares, Evie trocou-lhe a toalha fria na testa e aplicou pomada sobre os seus lábios gretados, mantendo uma mão sobre a dele, deixando que a barba crescente lhe arranhasse os dedos. No seu delírio, Sebastian virou o rosto para aquela palma de mão macia com um vago murmúrio. Bela, atormentada e pecaminosa criatura… pensou Evie. Haveria quem considerasse errado amar um homem assim, mas ao contemplar aquele corpo inerte, ela sabia que nenhum outro homem jamais significaria para ela o que aquele significava… pois apesar de tudo, ele tinha querido dar a sua vida por ela. Evie deitou-se na cama ao lado dele; encontrando sobre o seu peito a corrente de ouro, cobriu a aliança com a palma da mão e deixou-se adormecer por umas horas. Ao romper a manhã deu por ele imóvel, perdido numa letargia. – Sebastian…? Apalpou-lhe a cara e o pescoço. A febre estava no auge. Parecia impossível que a pele humana


pudesse ficar tão escaldante. Saltando da cama, correu para o cordão da campainha e puxou-o com toda a força. Com o auxílio de Cam e das criadas, Evie cobriu a cama com um oleado e colocou sacos de musselina cheios de gelo em volta do corpo dele. Sebastian permaneceu imóvel e silencioso durante todo aquele tempo. A esperança de Evie aumentou um pouco ao verificar que a febre pareceu baixar, mas em breve tudo voltou ao mesmo. Cam, que assumira as tarefas de Sebastian na administração do clube, acumulando-as com as suas, parecia tão exausto quanto Evie. Ainda vestido com o fato da véspera, aproximou-se dela que estava sentada numa cadeira ao lado da cama do marido. Evie nunca se havia tinha sentido tão desesperada como agora. Mesmo no pior dos seus tempos com os Maybricks, sempre acalentara alguma esperança. Mas se Sebastian não sobrevivesse, ela sentia que jamais voltaria a ter prazer na vida. Sebastian fora o primeiro a penetrar a sua prisão de timidez. E, desde o início, tomara conta dela como ninguém antes o fizera. Pensando no primeiro tijolo quente que ele lhe colocara debaixo dos pés, durante aquela louca viagem de comboio carruagem até à Escócia, Evie esboço um sorriso triste. Sem desviar o olhar da face lívida de Sebastian, murmurou: – Não sei o que mais possa fazer por ele… Qualquer médico que eu mande chamar há de querer sangrá-lo… e eu prometi-lhe que não o permitiria. Cam estendeu a mão para ela e alisou-lhe o cabelo sujo e emaranhado. – A minha avó era curandeira – disse ele, pensativo. – Recordo-me de que ela costumava lavar as feridas com água salgada e depois aplicar-lhes musgo de turfa seco. E quando eu tinha febre, faziame mastigar as raízes da planta maravilha. – Planta maravilha? Nunca ouvi falar… Ele pôs-lhe para trás da orelha uns fios de cabelo em desalinho. – Uma planta conhecida pelos seus poderes medicinais que cresce nas turfeiras. Evie afastou a cabeça, envergonhada, especialmente por saber a grande importância que os ciganos atribuem ao aprumo pessoal; ao contrário do que se dizia, havia entre os ciganos um grande número de rituais referentes à limpeza e higiene. – E cuidas ser possível encontrar isso? – A planta maravilha? – E o musgo. – Creio que sim, se me der algum tempo. – Receio que ele não tenha muito tempo, Cam – disse Evie, com a voz entrecortada. Aterrada com a ideia de ter perdido o controlo, endireitou-se na cadeira, afastando-se da mão consoladora de Cam. – Eu… estou bem. Só te peço que tragas… seja o que for que julgues útil… – Regresso em breve, descanse – ouviu ela dizer baixinho; e num instante ele desaparecera.


Evie permaneceu sentada junto à cama, num estado de incerteza e exaustão, consciente de que, provavelmente, deveria fazer algumas concessões ao seu próprio corpo quanto a descanso, alimentação e outros cuidados. Mas receava abandonar Sebastian, ainda que por poucos minutos. Não queria correr o risco de regressar para descobrir que ele se fora para sempre durante a sua ausência. Tentou afastar aquela névoa de cansaço apenas o tempo necessário para tomar uma decisão, mas o seu cérebro parecia ter-se desligado. Encolhida na cadeira, olhava fixamente o marido moribundo sem lhe vislumbrar qualquer movimento, a não ser o quase indetetável subir e descer do peito. Mas, gradualmente, apercebeu-se da presença, junto dela, de um homem cuja vitalidade e força lhe provocaram uma reação na atmosfera sonolenta daquele quarto. Erguendo os olhos, encontrou o rosto preocupado de Lord Westcliff. Sem uma palavra, ele inclinou-se e fê-la pôr-se de pé, amparando-a quando ela vacilou. – Trouxe-lhe uma pessoa – disse ele, baixinho. O olhar de Evie percorreu o quarto até encontrar a outra visita. Era Lillian Bowman – agora Lady Westcliff – radiosa e elegante, num vestido vermelho escuro. A sua tez clara estava ligeiramente corada pelo sol do sul de Itália e o cabelo, negro, preso elegantemente na nuca, com uma rede de seda e contas. Lillian era alta e delgada, aquele género de rapariga destemida que poderíamos imaginar como capitã do seu navio pirata – nitidamente talhada para atividades perigosas e pouco convencionais. Embora não possuísse a beleza romântica de Annabelle Hunt, Lillian gozava de uma atração indiscutível e de feições corretas que a denunciavam como sendo americana, mesmo antes de se ouvir o seu sotaque distintamente novaiorquino. Do seu círculo de amigas, Lillian era aquela de quem Evie se sentia menos próxima. Ela não possuía a ternura maternal de Annabelle, nem a alegria esfusiante de Daisy… Além disso, sempre a intimidara com a sua língua afiada e vivacidade picante. Contudo, Lillian era alguém em quem se poderia sempre confiar em caso de sarilho. Após um primeiro olhar ao aspeto abatido de Evie, Lillian aproximou-se dela sem hesitação e envolveu-a nos braços. – Oh, Evie… – disse ela, com ternura. – Em que é que a menina se foi meter? A surpresa e o alívio por se sentir abraçada com tanta firmeza por uma amiga que não esperava ver desarmaram completamente Evie. Sentiu os olhos a arder e a garganta apertada, até que não conseguiu mais conter as lágrimas. Lillian apertou-a nos braços com mais força. – Devia ter visto a minha reação quando a Annabelle e a Daisy me contaram o que tinha feito – disse ela. – Ia caindo redonda e a seguir roguei todo o género de pragas a St. Vincent por a ter sequestrado daquela maneira. Estive seriamente tentada a vir cá e abatê-lo, eu própria, com um tiro. Mas, ao que parece, alguém me poupou esse trabalho. – Mas eu amo-o, minha amiga… – murmurou Evie, entre soluços. – Não pode! – declarou Lillian, categoricamente.


– É verdade, amo-o e vou perdê-lo justamente como perdi o meu pai. Eu não aguento muito mais… sinto-me enlouquecer. Lillian suspirou, resmungando: – Só mesmo a menina para se apaixonar por este… pavão, egoísta e odioso, Evie. Oh, admito que é bastante atraente, mas faria melhor em se apaixonar por alguém capaz de amá-la também. – Lillian… – protestou Evie, em lágrimas. – Está certo, admito que não é bonito insultar um homem ferido e em desvantagem. Não vou dizer mais nada… para já. Afastou-se, para olhar a cara afogueada de Evie, e suspirou, antes de prosseguir: – As outras também queriam vir, claro. Mas a Daisy é solteira e não pode sequer espirrar sem estar acompanhada… e a Annabelle cansa-se facilmente, grávida como está. Mas aqui estamos nós, o Westcliff e eu, e vamos tratar de pôr tudo bem. – Não podem – fungou Evie. – Aquela ferida… ele está tão mal… Cuido até que já terá entrado em coma. Sempre com um braço à roda de Evie, Lillian voltou-se para o marido e perguntou com voz forte, pouco própria para um quarto de doente: – Isto é certo, Westcliff? Ele… está em coma? O conde, que se encontrava debruçado sobre o corpo prostrado de Sebastian, lançou-lhe um olhar de esguelha: – Duvido que alguém pudesse estar em coma com o alarido que para aí vai… – resmungou, de sobrolho erguido. – Não… Acaso estivesse em coma não conseguiria acordar e decididamente vi-o mexer-se um pouco ainda agora… quando vocês gritavam. – Eu não gritei, só elevei a voz – corrigiu Lillian. – Há uma diferença. – Haverá? – perguntou calmamente Westcliff, puxando para baixo a roupa de cama até às ancas de Sebastian. – Eleva a voz com tanta frequência minha querida que, confesso, já não sei distinguir. Lillian soltou uma gargalhada e largou Evie. – Sendo casada consigo, my lord, qualquer mulher… Meu Deus, que horror! Esta exclamação de Lillian coincidiu com o facto de Lord Westcliff ter retirado o penso da ferida de Sebastian. – De facto… – concordou o conde, visivelmente apreensivo ao ver a carne supurando sangue e pus, com raios vermelhos estendendo-se para fora. Evie aproximou-se da cama, limpando as faces molhadas. Westcliff, cavalheiro e eficiente como sempre, tirou um lenço limpo da algibeira e estendeu-lho. Ela limpou os olhos e assoou-se, olhando o marido. – Desde ontem à tarde que não dá sinal de si… Eu não permiti ao doutor Hammond sangrá-lo… Sebastian não queria. Mas agora estou arrependida. Quem sabe não lhe teria feito bem. Mas… foi apenas… eu não podia permitir que lhe fizessem o que quer que fosse contra a sua vontade! O modo


angustiado como ele olhou para mim… – Duvido que lhe tivesse feito bem – interrompeu Westcliff. – O mais provável seria que acabasse com ele, isso sim. Lillian aproximou-se, estremecendo ao ver a horrível ferida e olhando a seguir para a palidez anormal de Sebastian, perguntou. – O que havemos de fazer então? – Mr. Rohan sugeriu que lavássemos a ferida com uma solução de água e sal – disse Evie, cobrindo a ferida e puxando a roupa da cama até ao peito de Sebastian. – Ele também conhece uma planta que talvez consiga baixar-lhe a febre. Foi agora mesmo tratar de a arranjar… – Podíamos aplicar-lhe sumo de alho espremido – sugeriu Lillian. – Era o que a minha ama costumava fazer-nos quando fazíamos cortes e arranhões. Afianço-vos que curava tudo muito mais depressa. – E a minha velha governanta, Mrs. Faircloth, usava vinagre – murmurou Westcliff. – Ardia como o diabo, mas resultava. Vamos tentar fazer uma combinação das três coisas e juntar-lhe essência de terebintina. Lillian olhou-o, duvidosa: – Refere-se a resina de pinheiro? – Sim, destilada – respondeu Westcliff. – Já vi curarem assim uma gangrena. – Voltou Lillian de frente para si e plantou-lhe um beijo na testa. – Vou reunir tudo o que é necessário e calcular as porções – disse ele. Parecia preocupado, mas o seu olhar aqueceu ao encontrar o dela. – Entretanto deixo a situação entregue nas suas mãos competentes, minha querida. Lillian endireitou-lhe o colarinho, aproveitando para lhe roçar o pescoço com a ponta do dedo. – Então é melhor despachar-se, não vá dar-se o caso do St. Vincent acordar inerme nas minhas mãos. Aí sim, é bem capaz de se finar de susto. Esboçando um breve sorriso, Westcliff saiu. – Que criatura tão altiva e cheia de si… – disse Lillian, seguindo-o com um olhar deleitado. – Meu Deus, como eu o adoro! Evie parecia mal se ter nas pernas. – Como é que vocês … – Temos muito que conversar, minha querida – mas vamos ter de deixar isso para mais tarde. Está morta de cansaço e, francamente, a precisar de um bom banho. Dirigiu-se ao cordão da campainha e puxou-o. – Vou mandar encher a banheira para tomar um bom banho e de seguida… um belo chá com torradas. Evie sacudiu a cabeça e abriu a boca para replicar, mas Lillian pôs fim às suas eventuais objeções com firmeza.


– Eu trato do St. Vincent. Sem entender por que razão a amiga se oferecia para tratar do homem que a havia sequestrado e maltratado, Evie olhou-a, duvidosa. Lillian não era do género de perdoar facilmente e Evie – embora estivesse certa de que a amiga não faria mal a um homem indefeso e doente, prostrado numa cama – sentia-se um tanto inquieta por abandonar Sebastian às mãos da amiga. – Não posso acreditar que faria isso… depois do que ele lhe fez? Lillian esboçou um sorriso quase cínico. – Não o faço por ele, querida. Mas por si. E pelo Westcliff que, por qualquer razão que desconheço, se recusa a considerá-lo como uma causa perdida – disse. E continuou, revirando os olhos de impaciência: – Por amor de Deus, vá lá tomar banho. E faça alguma coisa a esse cabelo, por Deus… Não se aflija com o St. Vincent. Vou tratá-lo com o mesmo cuidado com que trataria o meu marido. – Obrigada – murmurou Evie, sentindo de novo as lágrimas assomarem-lhe aos olhos. – Oh, Evie… O rosto de Lillian tornou-se mais brando, com uma expressão de ternura que Evie nunca lhe tinha visto. Puxando Evie para si, abraçou-a novamente, falando-lhe para o cabelo emaranhado. – Ele não vai morrer, sabe? Só os santos e as pessoas boazinhas é que morrem cedo de mais. Os patifes egoístas como St. Vincent vivem para atormentar os outros durante décadas! Com o auxílio de uma camareira, Evie tomou banho e enfiou-se num vestido de dia, largo que não necessitava de corpete. Penteou o cabelo lavado numa longa trança que lhe descia pelas costas e enfiou os pés nuns chinelos de tricot. Voltando ao quarto de Sebastian, reparou que Lillian havia arrumado tudo e aberto as cortinas. Atara uma toalha à cintura, em jeito de avental, mas tanto a toalha como o peitilho do seu vestido estavam sujos e manchados. – Fi-lo tomar um pouco de caldo – esclareceu-a Lillian. – Foi o cabo dos trabalhos para o fazer engolir – a verdade é que ele não estava totalmente consciente, por assim dizer, mas eu teimei, até lhe conseguir enfiar mais ou menos um quarto de chávena pela goela abaixo. Creio até que ele só acabou por consentir por pensar que eu era um pesadelo que talvez desaparecesse se me fizesse a vontade. Evie ficou incrédula. Ela tinha sido incapaz de convencer Sebastian a beber fosse o que fosse desde a manhã anterior. – É a mulher mais maravilhosa… – Sim, sim, bem sei – interrompeu Lillian, desconfortável como sempre ao ouvir elogios. – Acabaram de trazer um tabuleiro para si. Está ali na mesinha ao pé da janela. Torradas e ovos mexidos. Coma tudo, querida, ouviu bem? Não me obrigue também a usar a força. Enquanto Evie se sentava obedientemente e trincava uma torrada, Lillian mudou o pano húmido sobre a testa de Sebastian. – Tenho de confessar que é difícil odiar uma pessoa que se apresenta tão mal – continuou Lillian.


– E também tem a seu favor o facto de ser ele quem está ali deitado, em seu lugar. Sentando-se à beira da cama, olhou Evie com franca curiosidade. – Gostava de perceber porque o fez. Egoísta como é… Não é de todo o género de criatura de se sacrificar por alguém. – Ele não é totalmente egoísta, acredite – murmurou Evie, bebendo o seu chá. – O Westcliff acredita que o St. Vincent está apaixonado por si. Sabia disso? Evie engasgou-se um pouco e não ousou levantar os olhos para a amiga. – P-p-por que razão pensa ele assim? – Conhece o St. Vincent desde a infância e sabe ler nas entrelinhas… Ele até vê uma certa lógica no facto de ser a Evie a conquistar finalmente o coração dele. Disse que uma rapariga como você acabaria por agradar… Hmm… como é que ele disse…? Não me recordo exatamente das palavras que usou, mas era algo como… a Evie acabaria, fatalmente, por encarnar a fantasia mais secreta e mais íntima de St. Vincent. Evie sentiu-se corar, enquanto uma mistura de dor e de esperança batalhavam no mais fundo do seu ser. Esforçou-se por responder com algum sarcasmo: – Pois eu diria que a sua maior fantasia era ter relações com o máximo de mulheres possível… Lillian respondeu-lhe com um sorriso irónico: – Minha querida, isso não é a fantasia de St. Vincent, é a sua realidade. A menina é, provavelmente, a primeira rapariguinha doce e decente com quem ele jamais se relacionou. – Mas ele passou bastante tempo consigo e com a Daisy no Hampshire – retorquiu Evie. Aquilo pareceu divertir ainda mais Lillian. – E eu sou tudo menos doce, querida. E a minha irmã tão-pouco… Não me diga que tem vivido com essa ideia absurda durante todo este tempo?! No momento em que Evie acabava a sua refeição, Lord Westcliff e Cam entraram no quarto, trazendo uma parafernália incrível de potes, garrafas, frascos com poções e vários outros artigos. Duas camareiras seguiam-nos, trazendo jarros de metal fumegantes e uma quantidade enorme de toalhas dobradas. Conquanto Evie se oferecesse prestamente para ajudar, ordenaram-lhe que recuasse enquanto dispunham os objetos à volta da cama e estendiam toalhas sobre os flancos, ancas e pernas de Sebastian, deixando exposta apenas e unicamente a zona da ferida. – Seria melhor ele tomar alguma morfina antes – disse Westcliff. Espantada, Evie viu-o enrolar firmemente uma tira de tecido à volta de uma haste de madeira, formando uma espécie de espátula forrada, antes de prosseguir: – Este tratamento vai, provavelmente, ser muito mais doloroso do que o tiro em si. – Cuido ser possível obrigá-lo a engolir uma colher de remédio – disse Lillian, decididamente. – Evie, posso? – Não, deixe que o faça. Evie aproximou-se da cama e mediu uma dose de xarope de morfina para dentro de um copo.


Cam surgiu a seu lado e estendeu-lhe um pequeno cartucho de papel dobrado, cheio com o que parecia ser uma cinza verde escura. – São raízes moídas de planta maravilha – esclareceu ele. – Encontrei-as no primeiro boticário a que me dirigi. O musgo de turfa foi algo um pouco mais difícil de encontrar, mas também logrei obter um pouco. Evie tocou-lhe no ombro, num agradecimento mudo. – Que quantidade de pó lhe hei de dar? – Para um homem da sua envergadura… cuido que duas colheres de chá, pelo menos. Evie misturou o pó com o líquido do copo que imediatamente se tornou preto. Sem dúvida iria saber ainda pior do que o aspeto que tinha. Evie só pedia que, se Sebastian consentisse em engoli-lo, lograsse manter aquela horrível mistela no estômago. Trepando para cima da cama ao lado dele, acariciou-lhe o cabelo húmido e a face ardente. – Sebastian… – murmurou, docemente. – Acorde. Tem de tomar o remédio… Ele não reagiu, nem mesmo quando ela passou o braço por trás dos ombros dele, tentando erguer-lhe a cabeça. – Não, não, não! – ouviu-se a voz firme de Lillian. – Está a ser demasiado meiga, Evie. Eu tive de o sacudir com força para o ver suficientemente desperto de modo a engolir um pouco de caldo. Eu mostro-lhe como se faz. Com licença… Subiu para a cama, ao lado de Evie, e abanou vigorosamente o homem semiconsciente até ele gemer, entreabrir os olhos e fixar as duas mulheres sem as reconhecer. – Sebastian… – disse Evie, com ternura. – Tenho um remédio para si. Ele tentou voltar-lhe as costas, mas o esforço causou pressão sobre o lado ferido e a dor provocou-lhe uma reação violenta. Evie e Lillian viram-se, de repente, varridas da cama com um único movimento de um braço possante. – Ai! – disse Lillian ao cair no chão, por cima de Evie que só por milagre conseguiu salvar o conteúdo do copo. Arquejante, gemendo em pleno delírio, Sebastian afundou-se na cama, todo o seu corpo abalado com tremores. Evie, ainda que consternada pela resistência dele, ficou extremamente satisfeita com aquele sinal de força – mil vezes preferível à imobilidade funesta das últimas horas. Mas Lillian não parecia partilhar do mesmo sentimento. – Vamos ter de o amarrar – afirmou, com firmeza. – Jamais conseguiremos mantê-lo quieto para lhe tratarmos do ferimento. – Não! Não quero que… – começou Evie, mas Cam surpreendeu-a ao concordar: – Lady Westcliff tem razão. Evie levantou-se do chão em silêncio. Ajudou Lillian a pôr-se de pé e ficou a olhar para o corpo tiritante de Sebastian. Estava de novo de olhos fechados e os dedos agitavam-se convulsivamente como se quisessem agarrar qualquer coisa. Era incrível como um homem tão forte e saudável


pudesse ver-se reduzido a esta figura exânime e lívida, de lábios gretados e olhos cercados de negro. Ela faria o que fosse preciso para o ajudar. Decidida, rasgou algumas tiras de um pano limpo e entregou-as a Cam, do outro lado do leito. Resolutamente, o rapaz atou rapidamente os braços e as pernas de Sebastian à armação da cama. – Deseja que eu próprio lhe administre o remédio, my lady? – perguntou a Evie. – Deixa comigo, obrigada – respondeu ela, trepando novamente para cima da cama, ao lado de Sebastian. Após lhe colocar uma almofada debaixo da cabeça, apertou-lhe o nariz com os dedos. Logo que Sebastian entreabriu os lábios e começou a arquejar, ela deitou-lhe o espesso remédio pela boca abaixo. Ele resistiu, debatendo-se, mas para satisfação dela, o xarope desceu pela garganta com o mínimo de perda. Impressionado pela eficiência dela, Cam ergueu as sobrancelhas, enquanto ouvia Sebastian praguejar, agitando-se, mas debalde. Curvando-se sobre ele, Evie acariciou-o, murmurando meiguices, bafejada pelas emanações de ópio provenientes da respiração dele. Quando, finalmente, ele acalmou, Evie levantou os olhos para Lillian que observava a cena com surpresa, semicerrando os olhos e sacudindo ligeiramente a cabeça – como que pasmada com a situação. Evie calculou que Lillian só conhecera Sebastian como aquele peralvilho arrogante, sempre vestido de forma sublime, que perambulava pela propriedade de Westcliff – o que tornava, sem dúvida, assombroso encontrá-lo agora nestas circunstâncias. Entretanto, Westcliff despira o casaco e arregaçara as mangas da camisa. Dedicava-se agora a preparar uma mistela que empestava o quarto com um horrível cheiro cáustico. Lillian, que era particularmente sensível aos cheiros, fez uma careta, arrepiando-se. – Esta é a combinação de cheiros mais horrível que eu alguma vez senti! – Essência de terebintina, alho, vinagre e mais uns quantos ingredientes que o boticário sugeriu, incluindo óleo de rosas – explicou Cam. – Recomendou também que, de seguida, se aplicasse uma cataplasma de mel, para impedir que a ferida infete. De olhos arregalados, Evie viu Cam abrir uma pequena caixa de madeira e retirar um funil de latão e um objeto cilíndrico com uma pega de lado e uma ponta bicuda do outro. – O que é isso? – perguntou. – É igualmente uma sugestão do boticário – disse Cam, levantando o objeto no ar e observando-o com olho crítico. – Uma seringa. Quando lhe descrevi o que iríamos fazer, ele afirmou que com uma ferida tão profunda a única forma de a irrigar de forma satisfatória seria com isto. Dispôs, então, em ordem uma série de objetos, frascos com substâncias químicas e uma pilha de toalhas e panos dobrados. De seguida, Westcliff aproximou-se da cama e dirigiu-se às duas mulheres: – Todo este processo irá revelar-se bastante desagradável – disse ele. – Assim sendo, se alguma das senhoras tem estômago frágil…


O seu olhar demorou-se significativamente sobre Lillian que fez uma careta. – É o meu caso, como muito bem sabe – admitiu ela. – Mas consigo dominar-me, se necessário. Um sorriso súbito surgiu na face impassível do marido. – Vamos poupá-la por ora, meu amor. Não prefere ir para outro quarto? – Vou sentar-me à janela – disse Lillian, afastando-se da cama. Westcliff olhou para Evie, com olhar interrogativo. – Onde quer que eu fique? – perguntou ela. – À minha esquerda. Vamos necessitar de bastantes toalhas e panos, por isso, pedia-lhe que fosse substituindo as sujas, sempre que necessário… – Com certeza. Colocou-se à esquerda dele, enquanto Cam se instalava à direita. Ao olhar o perfil resoluto de Westcliff, Evie subitamente achou admirável que aquele homem poderoso – e que ela sempre achara tão intimidante – estivesse disposto a fazer tudo para ajudar um amigo que o havia traído. Uma onda de gratidão apoderou-se dela e não pôde deixar de lhe puxar ligeiramente pela manga. – My lord, antes de começarmos, queria dizer-lhe… Westcliff inclinou a cabeça para ela: – Sim? Como ele não era tão alto como Sebastian, foi relativamente fácil para Evie pôr-se em bicos de pés e beijar-lhe a face. – O meu eterno agradecimento por ajudá-lo – disse ela, olhando firmemente para aqueles olhos surpresos. – My lord é o homem mais nobre que alguma vez conheci. Aquelas palavras fizeram subir o sangue às faces douradas pelo sol e pela primeira vez desde que ela o conhecera, o conde pareceu não encontrar palavras. Lillian que os observava sorriu do outro extremo do quarto. – Os motivos dele não são apenas beneméritos, Evie, querida – disse ela. – Estou mais do que certa de que lhe agrada, literalmente, ter a oportunidade de deitar sal nas feridas do St. Vincent. Ainda que notoriamente bem-disposta, Lillian empalideceu subitamente, agarrando com força os braços da cadeira onde estava instalada, quando Westcliff pegou numa fina lanceta e procedeu habilmente à abertura e drenagem da ferida. Apesar de ter ingerido uma dose forte de morfina, a dor fez Sebastian contorcer-se, enquanto protestos incoerentes lhe saíam, balbuciantes, da garganta. Cam ajudava a segurá-lo, para que o mínimo movimento fosse impossível. Mas a maior dificuldade surgiu quando Westcliff começou a lavar a ferida com água salgada. Sebastian gritou, debatendo-se qual fera enjaulada, enquanto a seringa era usada repetidamente, até que a solução salina que ia ensopando as toalhas debaixo dele começou finalmente a sair rosada, com sangue fresco e limpo. Westcliff trabalhava com precisão, firmeza e com uma eficácia enérgica que qualquer cirurgião teria invejado. De certo modo, Evie conseguiu dominar a sua própria angústia, enterrando-a sob camadas e camadas de entorpecimento,


enquanto trabalhava com o mesmo desprendimento aparente de Westcliff e Cam. Metodicamente, ela ia tirando para fora as toalhas ensopadas de sangue, substituindo-as por toalhas limpas que colocava debaixo do flanco do marido. E para seu enorme alívio Sebastian acabou por desmaiar, ficando inerte e sem reação ao tratamento. Uma vez a ferida limpa, para total satisfação de Westcliff, ele serviu-se da espátula ensopada na solução de terebintina e saturou bem a ferida. De seguida, deu lugar a Cam, que enrolou um pedaço de musgo de turfa num quadrado de musselina, ensopou-o em mel e, cuidadosamente, cobriu a área ferida. – Acabei – disse o rapaz, satisfeito consigo próprio, enquanto desapertava as ligaduras com que atara as mãos e os pés de Sebastian. – Agora resta-nos aguardar. A ferida vai começar a sarar por dentro. Teremos de repetir todo este processo durante alguns dias e depois dispensamos o musgo e deixamos que a ferida se feche. Foram necessários os esforços de todos para colocar uma ligadura de linho à volta da cintura de Sebastian e para mudar os lençóis, até a cama ficar limpa e seca. Quando aquilo finalmente acabou, Evie sentiu a autodisciplina que se impusera a abandoná-la totalmente e começou a tremer dos pés à cabeça. Verificou, não sem surpresa, que mesmo Westcliff parecia esgotado; com um longo suspiro, limpou o suor da cara com um pano limpo, enquanto Lillian acorria junto dele e o apertava num abraço rápido, murmurando-lhe ao ouvido uma palavra carinhosa. – Devemos mudar o penso duas vezes por dia, creio eu – comentou Cam para ninguém em particular, enquanto lavava as mãos com água e sabão. – Se a febre não abrandar até à noite, vamos reforçar a dose das raízes de planta maravilha. Fazendo sinal a Evie para se aproximar, lavou-lhe também as mãos e os braços. – Ele vai ficar bom, Evie, acredite… – disse-lhe ele, docemente. – Enquanto o conde lavava a ferida, eu achei-a com bastante melhor aspeto do que aquilo que francamente esperava. Evie abanou a cabeça exausta consentindo, com uma passividade infantil, que ele lhe secasse as mãos. – Não quero ter demasiada esperança em nada. Eu… A voz faltou-lhe, o chão pareceu ondular sob os seus pés e ela teria caído por terra se Cam não a tivesse agarrado e amparado contra o peito. – Para si, my lady, é a cama, e já! – anunciou ele, levando-a até à porta. – Sebastian… – murmurou ela. – Nós cuidaremos dele enquanto descansa. Nem ela tinha outra escolha, pois o seu corpo, privado de sono, recusava-se a funcionar mais um minuto que fosse. A sua última recordação foi a de Cam a conduzi-la até ao seu quarto, deitando-a na cama, puxando-lhe os cobertores e entalando-os dos lados, como se ela fosse uma criança. Logo que o calor do seu próprio corpo a envolveu debaixo dos lençóis gelados, a jovem afundou-se num sono


sem sonhos. Evie acordou e sentiu o calor estimulante de uma pequena chama. Uma vela ardia sobre a mesa de cabeceira. Alguém estava sentado na beira da cama… Lillian… que parecia descomposta e extenuada com o cabelo atado na nuca. Evie soergueu-se, lentamente, esfregando os olhos. – Já é noite? – balbuciou ela. – Devo ter dormido durante toda a tarde, certamente. Lillian sorriu-lhe, trocista: – Dormiu durante um dia e meio, minha amiga. O Westcliff e eu tratámos do St. Vincent, enquanto Mr. Rohan tem dirigido o clube. Evie engoliu em seco. O seu coração começou a bater mais forte enquanto se forçava a perguntar: – E Sebastian? Como é que ele…? Lillian pegou-lhe nas mãos com ternura e indagou: – O que é que prefere ouvir primeiro… a boa ou a má notícia? Sem conseguir falar, Evie abanou a cabeça, olhando fixamente a amiga, os lábios trementes de angústia. – A boa notícia – disse Lillian – é que a febre desapareceu totalmente e a ferida está a cicatrizar normalmente. – E acrescentou, com um sorriso pícaro: – E a má notícia é que… vai ter de suportar estar casada com ele para o resto da sua vida. Evie largou-se num pranto incontido. Os ombros tremiam-lhe com os soluços violentos e ela tapou os olhos com uma mão, enquanto sentiu que a outra era apertada com força pela amiga. – Pois é… – disse a voz trocista de Lillian. – Chorar era também o que faria, fosse ele meu marido – mas por razões bem diferentes. Isto provocou um soluço de riso entre o choro abafado de Evie que abanou a cabeça, limpando as lágrimas. – E ele está consciente? Já fala? – Sim. Perguntou por si repetidamente e ficou muito aborrecido quando me recusei a acordá-la mais cedo. Evie olhou a amiga com os olhos ainda enevoados: – Estou certa de que foi sem intenção de parecer ingrato, depois de tudo o que vocês fizeram… – Não tem de pedir desculpa por ele – disse Lillian, divertida. – Eu conheço-o bem… e é precisamente por isso que ainda não creio que ele consiga gostar de alguém a não ser dele próprio. E talvez um pouco – muito pouco – de si. Mas se ele a faz feliz, querida, creio que vamos ter de o tolerar. Franziu o nariz e começou a fungar, como se procurasse a origem de um cheiro desagradável, até que o encontrou nas mangas do seu vestido. – Uff!… Ainda bem que a minha família é dona de uma companhia de sabonetes, porque vou


precisar de uma dúzia deles para tirar este horrível cheiro do cataplasma… – Nunca vou poder agradecer-lhe o suficiente por ter tomado conta dele, Lillian – disse Evie, fervorosamente. Lillian levantou-se, espreguiçando-se. – Não pense mais nisso. Por um lado até valeu a pena, para ter o St. Vincent em eterna dívida para comigo. Nunca mais vai poder olhar para mim sem a recordação humilhante de eu o ter visto nu e inconsciente no seu leito de dor. – Lillian! Não me diga que… Viu-o nu?! – perguntou Evie, de sobrancelhas levantadas. Lillian já se dirigia para a porta: – Ora, vi-o de relance, de quando em vez – disse ela, com desembaraço. – Era impossível evitá-lo, dada a zona do corpo onde estava a ferida… Parando à porta, lançou a Evie um olhar malicioso. – Tenho de admitir, dados os rumores que correm por aí… que nem por sombras lhe é feita justiça. – Que rumores? – perguntou Evie, alarmada. Mas Lillian já saía do quarto, com um risinho cínico.


Capítulo 20

Ainda uma semana não tinha passado e já Sebastian provara ser o pior doente que se podia imaginar. A cicatrização da ferida revelava-se extremamente rápida, mas não o bastante para seu gosto e o irascível visconde arranjava maneira de se frustrar a si próprio, bem como a todos os outros, forçando todos os limites concebíveis. Teimava em querer usar a sua roupa habitual, comer a comida do costume… insistia em sair da cama e percorrer, claudicante, todas as salas do andar superior ignorando, teimosamente, os protestos exasperados de Evie. Embora soubesse que as suas forças não podiam ser obrigadas a regressar imediatamente e que iria ser necessário dar tempo e ter paciência, Sebastian não era capaz de se dominar. Nunca tivera de depender de ninguém e agora… o facto de dever a vida a Westcliff, Lillian, Cam – e, sobretudo, a Evie – faziam-no sentir-se atolado em sentimentos desconhecidos de vergonha e gratidão. Não era capaz de encarar nenhum deles olhos nos olhos e, assim, o seu único recurso era refugiar-se numa arrogância carrancuda. Os piores momentos eram quando estava sozinho com Evie. De cada vez que ela entrava no quarto, ele sentia-se preso numa relação assustadora, numa vaga de emoções desconhecidas contra as quais ia lutando – até aquela batalha o deixar extenuado. Seria preferível se pudesse provocar uma discussão com ela, fosse o que fosse que o ajudasse a estabelecer a necessária distância. O que era impossível, uma vez que ela ia ao encontro de qualquer exigência sua com uma paciência infinita. Nem podia acusá-la de estar à espera de uma mostra de gratidão, quando Evie nunca dera sequer a entender que isso lhe fosse devido. Não podia acusá-la de o afogar em atenções, pois ela tratava dele com eficiência e suavidade, mas deixava-o sozinho, cheia de tato, até ele tocar a campainha para a chamar. E ele, que jamais receara fosse o que fosse, vivia agora aterrorizado com o poder que ela tinha sobre ele. E pior ainda tinha medo do seu próprio desejo de a ter consigo a cada momento, de olhar para ela, de ouvir a sua voz… Ansiava pelo seu toque. A sua pele parecia absorver cada passagem dos seus dedos, como se cada contacto estivesse a ser urdido no tecido humano do seu corpo. Era


diferente de uma necessidade sexual… era uma espécie de vício total e absoluto para o qual não parecia haver cura. Além disso, havia outro tormento para Sebastian que consistia na obsessão de pensar que Joss Bullard tinha tentado matar Evie. E, com isso, a sua reação crescia num lugar primitivo no seu íntimo que a razão não conseguia dominar. Sebastian queria o sangue de Bullard. Queria estraçalhar aquele maldito em mil bocados. O facto de se encontrar impotente numa cama, enquanto Bullard se passeava à vontade por Londres era o bastante para o pôr doido. De nada serviam as declarações do inspetor da polícia que fora encarregue do caso, de que estavam a ser feitos todos os possíveis para encontrar Joss Bullard. E posto isto, Sebastian tinha chamado Cam ao seu quarto para lhe ordenar que contratasse mais investigadores privados – incluindo um antigo elemento dos Bow Street Runners, a primeira força policial profissional de Londres, cujo único encargo era perseguir e prender criminosos – a fim de conduzirem uma operação de busca intensiva. Mas, entretanto, não havia mais nada que Sebastian pudesse fazer e ele fervia em lume brando na sua forçada incapacidade. Cinco dias pós a febre ter desaparecido, Evie mandou vir uma meia-banheira para o quarto. Radiante com a possibilidade de poder tomar banho, Sebastian consolou-se na água quente, enquanto Evie o barbeava e o ajudava a lavar a cabeça. Uma vez limpo e seco, regressou à cama feita de lavado e permitiu que Evie lhe tratasse a ferida. O buraco da bala estava a fechar tão rapidamente que ela tinha deixado de aplicar o musgo de turfa, limitando-se agora a tapar a ferida com um penso ligeiro. Era ainda fonte de frequente comichão e picadas dolorosas, mas Sebastian sabia que, dentro de um ou dois dias, poderia regressar à maior parte das suas atividades. Exceto a sua atividade favorita que, em virtude do acordo infernal feito com Evie, permanecia interdita. Evie retirara-se temporariamente do quarto para mudar de vestido – visto que o seu ficara encharcado com o banho – e, movido por uma pura perversidade, Sebastian fez soar a sineta de prata que tinha na mesa de cabeceira, aproximadamente dois minutos após ela ter saído. Ouvindo-o, Evie enfiou um robe à pressa e voltou a entrar no quarto. – O que foi? Aconteceu alguma coisa? – Não… – É a ferida? Está a doer? – Não… Mudando de expressão, Evie aproximou-se da cama, tirou a sineta da mão do marido e voltou a colocá-la na mesa de cabeceira. – Sabe que mais? Estou a pensar seriamente em retirar o batente desta sineta até que aprenda a usá-la mais criteriosamente… – Toquei porque precisei de si – disse ele, com mau humor. – Sim… o que foi? – perguntou ela, num tom de infinita paciência. – Os reposteiros, as cortinas! Quero-os abertos. – E não podia ter esperado que eu me mudasse?


– Está demasiado escuro. Preciso de luz. Evie dirigiu-se à janela e afastou ao máximo os panos de veludo, ficando em silhueta contra a extensão pálida de um sol de inverno. Com o cabelo solto, os caracóis largos de cabelo ruivo que lhe chegavam quase à cintura, lembrava uma figura de um quadro de Ticiano. – Mais alguma coisa? – Está um mosquito no meu copo de água. Caminhando descalça até à cama, Evie levantou o copo, meio cheio de água, e examinou-o com olho clínico. – Não vejo mosquito algum. – Mas está! – insistiu Sebastian, rabugento. – Vamos ter de discutir o assunto, ou vai buscar-me água limpa? Engolindo uma resposta torta com um notável controlo de si própria, Evie foi até ao lavatório, despejou a água e voltou a encher o copo. Trouxe-o de volta, colocou-o sobre a mesa de cabeceira e olhou Sebastian com solicitude. – Mais alguma coisa? – Sim. A minha ligadura está apertada de mais. E a ponta solta está dobrada nas costas. Eu não chego lá. Quanto mais exigente ele se mostrava, mais enervantemente solícita Evie se tornava. Curvando-se sobre ele, murmurou-lhe que se voltasse um pouco e ele sentiu-a soltar cuidadosamente a ligadura para voltar a entalar as pontas. O roçar dos dedos dela nas suas costas, tão frescos e tão delicados, fez-lhe acelerar a pulsação. Um caracol de cabelo sedoso deslizou sobre o seu ombro. Deitado de novo de costas, Sebastian lutava contra a alegria desesperada que sentia com aquela proximidade. No auge da frustração, ele ergueu os olhos para ela, a poucos centímetros daquela linda boca em forma de coração, daquela pele de cetim, daquele irresistível salpico de sardas. Ela pousou-lhe levemente a mão sobre o peito, sentindo-lhe o bater descompassado do coração, e pôs-se a brincar com a aliança que ele trazia pendurada ao pescoço. – Tire-me isto! – rezingou ele. – O raio dessa coisa incomoda-me… impede-me de… – Impede-o de quê? – sussurrou Evie. Sebastian podia sentir o cheiro da pele dela, um cheiro quente e aromático… a mulher. De sentidos despertos, agitou-se sobre o colchão. – Tire-ma do pescoço e ponha-a em cima da cómoda – disse ele, com esforço. Ignorando aquela ordem, Evie sentou-se na cama e inclinou-se, até as pontas do seu cabelo solto roçarem o peito dele. Ele ficou como que petrificado, mas estremeceu por dentro ao senti-la passar um dedo pela curva do seu queixo. – Fiz um bom trabalho quando o escanhoei – disse ela, satisfeita consigo própria. – Talvez tenha falhado um pouco aqui ou ali… mas, pelo menos, não lhe fiz o mínimo corte. O que valeu também foi ter estado tão quieto…


– Senti-me demasiado aterrorizado para me mexer – disse ele, ao que ela respondeu com um risinho de satisfação. Incapaz de continuar a evitar o olhar dela, Sebastian forçou-se a procurar-lhe os olhos… tão luminosos, tão espantosamente azuis… – Mas por que que toca tão insistentemente aquela sineta? – sussurrou Evie. – Sente-se só? Basta dizer… – Eu nunca me sinto só – conseguiu ele dizer, com convicção. Mas, para sua consternação, Evie não fez menção de se afastar e o seu sorriso pareceu-lhe ligeiramente trocista. – Então deseja que eu saia, é isso? – perguntou ela, solícita. Sebastian sentiu um calor traiçoeiro subindo dentro de si, desenrolando-se, alastrando-se, espalhando-se por toda a parte. – Sim, é isso… saia – disse ele, fechando os olhos, absorvendo avidamente o cheiro e a proximidade dela. Mas Evie deixou-se ficar. O silêncio tornou-se tão intenso que parecia a Sebastian que o bater do seu coração ameaçava tornar-se audível. – Quer saber o que eu penso, Sebastian? – perguntou ela, finalmente. Foi-lhe necessário um esforço hercúleo para manter a voz controlada. – Não especialmente. – Penso que assim que eu sair deste quarto, vai voltar a tocar essa bendita sineta… Mas, por mais que toque, por mais vezes que eu acorra, nunca há de ser capaz de me dizer o que quer realmente. Sebastian entreabriu os olhos… o que foi um erro. O rosto dela estava muito perto, a sua boca a uma distância pecaminosa da dele. – Neste momento, o que eu quero é apenas paz e sossego – resmungou. – Por isso, se não se importa… A boca dela roçou a dele, sedosa, macia e quente… e ele sentiu o estonteante toque da sua língua. Acendeu-se-lhe, desde logo, a chama do desejo e ele deixou-se afogar num prazer imoderado, poderoso, como nunca havia sentido. Ergueu as mãos para afastá-la, mas os seus dedos, trémulos, curvaram-se à volta da cabeça dela, agarrando-a para si. As ondas fogosas do seu cabelo ficaram comprimidas entre as palmas das mãos dele, enquanto a beijava com uma urgência voraz, procurando com a língua a delícia cativante da sua boca. Sebastian ficou vexado ao perceber que estava a arquejar como um rapazinho inexperiente quando Evie terminou o beijo. A boca dela revelou-se rosada e húmida, as sardas brilhando como poeira de ouro sobre as suas faces rosadas. – E também penso… – disse ela, com a voz mal controlada – … que está prestes a perder a nossa aposta. Chamado à realidade por um rasgo de indignação, Sebastian abespinhou-se:


– Cuidará a senhora que estou em condições de perseguir outra mulher? A não ser que esteja a pensar em trazer-me alguém para a minha cama, não vejo como possa… – Não vai perder a aposta por dormir com outra mulher – disse Evie, interrompendo-o. E, com um brilho diabólico nos olhos, levou as mãos ao decote para, lenta e deliberadamente, começar a desabotoar a fila de botões, as mãos tremendo-lhe ligeiramente. – Vai perdê-la comigo. Incrédulo, Sebastian viu-a levantar-se e deixar cair o robe. Estava nua, as pontas dos seios erguiam-se, rosadas, no ar fresco. Perdera algum peso, mas os seus seios estavam ainda firmes e redondos, lindos… e as ancas ainda sobressaíam generosamente das curvas pronunciadas da cintura. Ao baixar os olhos para o triângulo de pelo ruivo entre as coxas dela, uma vaga de desejo ardente trespassou-o dos pés à cabeça. – Não pode fazer-me perder a aposta – sentiu-se ele próprio balbuciar. – Isso é… batota! – E eu nunca lhe prometi não fazer batota – disse Evie, com um sorriso travesso, enfiando-se com ele entre os cobertores. – Que raio, eu não vou colaborar… A respiração chiou-lhe entre os dentes ao sentir o suave corpo de Evie deslizar contra o seu, o aflorar elástico do corpo dela contra a sua anca, quando fez escorregar uma perna entre as dele. Afastou a cabeça quando ela tentou beijá-lo. – Evie, não posso… – Procurava astutamente um modo de a dissuadir. – Sinto-me tão fraco… Ardente e determinada, Evie agarrou-lhe na cabeça e voltou-lhe o rosto para o seu: – Meu pobre querido… – murmurava ela. – Sossegue que vou ser meiguinha consigo. – Evie… – disse ele, rouco, excitado, furioso e suplicante. – Tenho de provar que consigo estar três meses sem… oh, não, não faça isso… Raios a partam, Evie! Ela desapareceu entre os lençóis, espalhando beijos ao longo da linha rija do peito até ao abdómen, tendo o cuidado de não deslocar a ligadura. Sebastian tentou levantar-se, mas uma dor aguda na ferida obrigou-o a cair de costas, com um gemido de dor. E a seguir voltou a gemer, mas por uma razão totalmente diferente: Evie alcançou a extensão dorida do seu membro retesado e começou a lamber delicadamente a ponta. Tornou-se desde logo óbvio que Evie jamais fizera aquilo… desconhecia totalmente a técnica e sabia muito pouco acerca da anatomia masculina, mas isso não a impediu de continuar, com um ardor inocente, imprimindo pequenos beijos ao longo do membro sensível, demorando-se quando o ouvia gemer. As mãos quentes brincavam com os testículos; então experimentou de novo com os lábios e a língua, progredindo até à ponta latejante do órgão, para logo tentar descobrir quanto dele lhe podia caber na boca. Sebastian agarrava a roupa da cama em punhados, o corpo arqueado, como se estivesse estirado e imobilizado num estrado de tortura. O prazer percorria-lhe cada nervo, enviando ao cérebro desvairadas mensagens, tornando-lhe impossível pensar claramente. Todas as memórias de outras mulheres desapareceram, permanentemente banidas do seu


espírito… só existia Evie, o seu cabelo ruivo espalhado sobre a barriga e as coxas dele, os seus dedos irrequietos e a boca folgazã causando-lhe um prazer assoberbante, como nunca antes experimentara. Quando ele já não conseguia controlar os seus gemidos, ela trepou para cima dele, cautelosamente, cavalgando-o devagar, como uma leoa aquecida ao sol. Sebastian apenas conseguiu ter uma visão rápida do seu rosto ruborizado antes de ela lhe procurar a boca com beijos provocantes e absorventes. As pontas rosadas dos seios roçavam nos pelos do peito dele… ela esfregava-se nele, ronronando de prazer com o membro rijo e quente que tinha debaixo dela. A respiração dele prendeu-se-lhe na garganta, ao sentir a mão de Evie deslizar entre as ancas de ambos. Ele estava tão excitado que ela teve de descolar com força o sexo dele colado à barriga, para conseguir introduzi-lo entre as suas coxas. Os seus caracóis crespos excitavam deliciosamente a pele sensível dele, enquanto ela o guiava por entre as dobras quentes do seu corpo. – Não… – conseguiu Sebastian murmurar, lembrando-se do maldito acordo. – Agora não, Evie, não… – Para de protestar, por Deus! Não fiz nada que se parecesse com esse espalhafato quando nos casámos… e eu era virgem, recorda-te! – Mas eu não posso… oh, Deus, oh meu Deus…! Ela conseguira introduzir o sexo dele no seu e a sua carne era tão aconchegante e doce que lhe cortou a respiração. Literalmente. Evie contorceu-se um pouco, a sua mão guiando ainda a extensão do membro dele, tentando levá-lo mais longe. O simples constatar da dificuldade que ela estava a ter em acomodá-lo fazia-o inchar e engrossar ainda mais, todo o seu corpo intumescendo de prazer. E logo veio o lento e miraculoso deslizar, a firmeza da espada dentro do estojo de cetim. Sebastian deixou cair a cabeça na almofada, de olhos turvos pela intensidade do desejo, olhando o rosto dela. Evie emitiu um ronronar de satisfação, vindo do fundo da garganta e, de olhos fechados, concentrou-se em acolhê-lo mais fundo. Movia-se cautelosamente, demasiado inexperiente para encontrar ou manter o ritmo certo. Sebastian sempre havia sido relativamente discreto durante o sexo, mas quando ela soergueu o busto para depois se instalar, aprofundando a penetração, ele sentiu o seu membro abraçado e acariciado por aquela intimidade húmida e ouviu-se a si próprio a murmurar palavras de carinho, palavras de súplica, palavras de sexo, palavras de amor. Por fim, e sabe Deus como, Sebastian levou-a a apoiar-se mais sobre ele, encostando mais o seu corpo ao dela, ajustando o ângulo entre ambos. Evie resistiu por momentos, receando magoá-lo na ferida, mas ele agarrou-lhe a cabeça com as duas mãos. – Peço-te, querida – murmurou ele, com voz trémula. – Faz como te digo, amor, sim. Mexe-te em mim… peço-te… Quando Evie sentiu a diferença na posição, a fricção aumentada contra a cúspide do seu sexo, os seus olhos arregalaram-se. – Oh… – suspirou ela e a seguir inspirou violentamente. – Oh! Isto é tão… Calou-se enquanto ele marcava o ritmo, penetrando mais fundo, enchendo-a com golpes firmes.


O mundo inteiro reduziu-se ao lugar onde ele a invadia, onde os seus pontos mais sensíveis se encontravam. As longas pestanas de Evie baixaram-lhe às faces, escondendo o seu olhar desfocado. Sebastian contemplou a onda rosa que invadia o rosto dela. Sentia-se suspenso e maravilhado, inundado de uma ternura veemente ao servir-se do seu corpo para dar prazer ao dela. – Beija-me – murmurou ele, guiando a boca dela até à sua para a violar com a língua. Ela estremeceu, soluçando na libertação do clímax, colando sofregamente as suas ancas às dele, ao recebê-lo plenamente. A orla do seu sexo encaixou-se firmemente no dele e então Sebastian entregou-se àquela carne envolvente, enleante, latejante, deixando-a arrancar de si o êxtase em grandes vagas de volúpia. Ao senti-la relaxar-se sobre ele, tentando recuperar o fôlego, ele levou as mãos às costas dela e os seus dedos viajaram suavemente até à curva roliça do seu traseiro, numa indagação cortês. E, para seu regozijo, sentiu-a contorcer-se, apertando-o à sua volta, numa rendição incondicional. Se ele estivesse na posse do seu vigor habitual… oh, as coisas que ele lhe teria feito…! Mas, pelo contrário, a exaustão fê-lo cair de novo, com a cabeça à roda. Evie separou-se dele com dificuldade e repousou a seu lado. Com as forças que lhe restavam, Sebastian encheu uma mão com o cabelo dela, esfregando nas faces os caracóis flamejantes. – Tu matas-me… – murmurou ele, e sentiu o toque da boca dela no seu ombro. – Agora que perdeste a aposta – disse Evie, em voz baixa – vamos ter de pensar noutra penalidade, visto que já pediste desculpa a Lord Westcliff. Com efeito – e com enorme custo – Sebastian já tinha dirigido um discurso de arrependimento tanto a Westcliff como a Lillian, antes de os ver partir, descobrindo, na mesma ocasião, que a única coisa mais humilhante do que pedir perdão era ser-se perdoado. E, por isso mesmo, havia escolhido propositadamente uma ocasião em que Evie não estava presente para apresentar a Westcliff as suas desculpas. – A Lillian contou-me – disse Evie, lendo-lhe os pensamentos. E, num tom sonolento: – Perguntome qual poderá ser, então, a tua próxima penalidade… – Não duvido que há de pensar em alguma coisa… – disse ele, em tom lúgubre. E em poucos segundos tinha fechado os olhos e caído num sono profundo e reconfortante. Westcliff apareceu no clube na noite seguinte, manifestando surpresa ao saber que Sebastian já tinha visitado a sala de jogos principal pela primeira vez depois do tiroteio. – É um tanto cedo, não será? – perguntou, enquanto se deslocava, acompanhado por Evie, dos seus aposentos privados até à galeria do segundo andar. Foram cuidadosamente examinados por um empregado que Cam colocara na galeria, como medida extra de precaução. Até que Bullard fosse apanhado, todos os visitantes, sem exceção, eram vigiados com a mais discreta das atenções. – Ele abusa das próprias forças, Marcus – disse Evie, preocupada. – Não suporta a ideia de parecer diminuído – e além disso acha que nada pode ser feito corretamente sem a sua supervisão.


– Mas o seu interesse por esta casa parece genuíno – disse Westcliff, com um sorriso nos olhos escuros. – Confesso que nunca esperaria vê-lo assumir uma tal responsabilidade voluntariamente. Há anos que ele se tem mostrado fútil e sem objetivos, um desperdício total da sua considerável inteligência. Afinal, parece que tudo o que ele necessitava era de um objetivo apropriado aos seus talentos. Aproximando-se do balcão, ambos apoiaram os cotovelos no corrimão e olharam para baixo, para o salão principal que surgia apinhado de frequentadores. Evie avistou o brilho de ouro velho do cabelo de Sebastian, meio sentado na secretária do canto, relaxado e sorridente, conversando com a multidão de homens à sua volta. Os seus feitos de há dez dias para salvar a vida de Evie haviam gerado uma grande dose de simpatia e admiração pública, especialmente após um artigo publicado no Times em que o retratavam como sendo um herói. Isso – e saber-se que a sua amizade com o poderoso Conde Westcliff se havia renovado – foi o bastante para que Sebastian reconquistasse uma imediata e profunda popularidade. Uma chuva de convites chegava diariamente ao clube, solicitando a presença de Lord e Lady St. Vincent em bailes, soirées e outros eventos sociais, que eles amavelmente declinavam sob o pretexto do luto. Também chegavam cartas – e muitas – fortemente perfumadas e escritas por mãos femininas. Essas cartas haviam-se acumulado numa pilha no escritório, permanecendo seladas e intocadas, até que Evie se tinha sentido levada a fazer um comentário a esse respeito nessa mesma manhã. – Há uma grande pilha de correspondência por abrir no escritório, que lhe está endereçada – dissera ela ao marido, enquanto tomavam o pequeno-almoço juntos no quarto dele. – Está a ocupar metade do espaço livre. Que havemos de fazer com todas essas cartas? – E, com um sorrisinho irónico, perguntou: – Quer que lhas leia enquanto descansa um pouco? Ele semicerrou os olhos. – Queime-as, jogue-as no lixo e eu que sei… Ou melhor ainda, mande devolvê-las por abrir. Aquela resposta tinha causado em Evie uma onda de satisfação – que naturalmente se esforçou por esconder. – Eu não tenho objeções a que queira corresponder-se com outras mulheres – dissera-lhe ela. – Muitos homens o fazem sem que haja nisso nada de impróprio. – Mas eu não. – Sebastian olhara-a nos olhos com um olhar longo e deliberado, como que para se certificar de que ela o entendera perfeitamente. – Agora já não. Aproximando-se de Westcliff, Evie contemplou o marido com um prazer possessivo. Sebastian estava ainda muito magro, embora o seu apetite tivesse regressado totalmente, e o seus elegantes trajes de noite estavam ainda um pouco largos. Mas os seus ombros permaneciam amplos e fortes, a sua cor saudável e o peso perdido não fazia senão ressaltar a espetacular estrutura óssea do seu rosto. Embora ainda se movesse com alguma cautela, continuava a exibir aquela graça predatória que as mulheres admiravam e os homens se esforçavam, em vão, por imitar. – Obrigada por tê-lo salvado – disse Evie a Westcliff, ainda olhando o marido.


O conde lançou-lhe um olhar de soslaio. – Foi a Evie que o salvou na noite em que se ofereceu para casar com ele. O que prova, creio eu, que determinados momentos de loucura podem, ocasionalmente, levar a resultados positivos… Se me dá licença, vou lá abaixo fazer com ele o ponto de situação acerca das últimas informações referentes à busca do Bullard. – Já o encontraram? – Ainda não. Mas será em breve. Quando limpei as placas do brasão na pistola que ele usou, verifiquei ser impossível decifrar o nome gravado na coronha. Posto isso, levei-a à Manton and Sons e pedi-lhes informações. Concluíram que a pistola teria cerca de dez anos, o que levou a uma procura demorada entre muitas caixas de velhos registos. Finalmente, obtive hoje a informação precisa de que a arma foi fabricada especialmente para Lord Belworth que, por um feliz acaso, regressa justamente esta noite a Londres, para algum assunto parlamentar. Penso ir visitá-lo de manhã e informar-me sobre este caso. Se conseguirmos descobrir como é que o Bullard entrou em posse da pistola de Belworth, isso poderá ajudar a localizá-lo. Evie mostrou-se preocupada. – Afigura-se-me praticamente impossível localizar um homem que se esconde numa cidade com mais de um milhão de pessoas. – Quase dois milhões – retificou Westcliff. – E, contudo, não tenho dúvidas de que ele será encontrado. Temos os recursos e a determinação para o conseguir. Evie não pode deixar de sorrir ao pensar que ele se parecia muito com Lillian que jamais em tempo algum se confessava derrotada. Vendo que Westcliff levantara uma sobrancelha à vista do seu sorriso, ela explicou: – Estava somente a pensar como my lord representa o par perfeito para uma mulher determinada como a Lillian. A menção à sua adorada esposa trouxe um renovado brilho aos olhos do conde. – Pois eu diria antes que ela não é mais determinada nem mais enérgica do que a minha amiga – replicou ele, acrescentando com um sorriso irónico. – O que acontece é que ela é bastante mais barulhenta.


Capítulo 21

Enquanto Westcliff foi falar com Sebastian, Evie retirou-se para o quarto, para tomar um banho retemperador, acrescentando uma porção generosa de óleo perfumado na água, a fim de a suavizar. Após algum tempo, a sua pele estava macia e perfumada. Vestiu um dos roupões de seda de Sebastian, enrolando as mangas várias vezes para cima. Enroscada num cadeirão diante da lareira, penteou-se longamente, enquanto as criadas retiravam a banheira. Uma delas, uma moreninha de nome Frannie, ficara para trás, arrumando o quarto. Abriu a cama e passou uma escalfeta entre os lençóis para os aquecer. – Devo… preparar o seu quarto, my lady? – perguntou a rapariguinha, cautelosamente. Evie considerou a resposta. Era sabido entre a criadagem que ela e Sebastian mantinham quartos separados antes do incidente. Até então, nunca haviam partilhado a cama durante uma noite. Embora ainda não soubesse bem como iria entabular este assunto com Sebastian, após tudo o que tinha acontecido, ela não queria usar de mais artifícios óbvios com ele. A vida era demasiado incerta para perder tempo. Não havia garantias de que Sebastian lhe fosse fiel. Ela não tinha senão esperança – e o seu instinto dizia-lhe que embora o homem com quem casara não merecesse essa esperança, o homem em que ele se tinha tornado poderia vir a merecê-la. – Creio que não será necessário – disse ela à criada, continuando a passar a escova pelo cabelo. – Esta noite fico neste quarto, Frannie. – Sim, my lady. Mas caso deseje, posso… Frannie interrompeu-se ao aperceber-se da entrada no quarto da figura imponente de Sebastian. Ele parou logo à entrada, de costas apoiadas na parede, contemplando a sua mulher em silêncio. Não obstante o calor da lareira, Evie sentiu um arrepio por todo o corpo e um estremecimento erótico percorreu-lhe a espinha. Sebastian apresentava-se totalmente relaxado, de colarinho aberto e a gravata preta por apertar. A luz da lareira dançava sobre o seu vulto elegante e fazia incidir um brilho dourado sobre aquelas feições que poderiam ter pertencido a um antigo Deus idolatrado. Embora ainda não tivesse


recuperado todo o seu vigor, ele irradiava uma perigosa potência masculina que lhe fazia tremer os joelhos. E não melhorava em nada a situação ele manter-se totalmente silencioso, enquanto o seu olhar intenso a percorria com um vagar enervante. Sentindo-se indefesa ao recordar o toque acetinado da pele dele sob os seus dedos e os músculos rijos debaixo da roupa folgada, Evie corou até às orelhas. Frannie apanhou à pressa o vestido que Evie tirara e saiu do quarto, em marcha acelerada. Sebastian continuava a olhar intensamente Evie que pousara a escova endireitando-se com um murmúrio inarticulado. Avançou até ela e agarrou-a pelos braços, palpando-os através da espessura do roupão. O coração de Evie começou a bater descompassado, a sua pele formigando sob as camadas de seda. Fechou os olhos quando os lábios dele lhe roçaram a sobrancelha, a têmpora, a face… Aquelas carícias delicadas, no estado de excitação em que tanto ele como ela se encontravam, pareciam envolvê-los numa névoa abrasadora. Ficaram assim durante muito tempo, mal se tocando, sentindo simplesmente a excitante proximidade um do outro. – Evie… – o murmúrio dele agitou ao de leve os fiozinhos de cabelo na fronte dela. – Quero fazer amor consigo. O sangue dela transformou-se em mel ardente. A custo, conseguiu exprimir uma resposta titubeante: – Pen-pensei que n-nunca lhe chamava assim… Ele agarrou-lhe o rosto com ambas as mãos, explorando-a delicadamente com os dedos. Ela permaneceu dócil sob as mãos dele, enquanto o odor da sua pele, a lavado e a cravo-da-índia, a drogava como incenso. Levando a mão ao peito, Sebastian procurou debaixo da camisa, de onde tirou a aliança de casamento presa na sua corrente finíssima. Puxou por ela, quebrando os frágeis elos e deixando-a cair no chão, segurando a aliança. A seguir, procurou a mão esquerda de Evie e fez deslizar o aro de ouro pelo seu anelar. As suas mãos uniram-se, palma com palma, pulso com pulso, tal como acontecera na cerimónia de casamento. E ele encostou a cabeça à dela, murmurando: – Quero enchê-la, cada parte de si… respirar o ar dos seus pulmões… deixar a marca da minha mão na sua alma. Quero dar-lhe mais prazer do que possa suportar. Quero fazer amor consigo, Evie. Como nunca fiz com ninguém. Ela tremia tão violentamente que mal se tinha em pé. – Mas a sua fe-ferida… temos de ter cuidado. – Deixe isso comigo. A boca dele tomou a dela num beijo em combustão lenta. Largando-lhe a mão, ele apertou mais o corpo dela, fazendo pressões explícitas contra os ombros, as costas, as ancas, até a sentir completamente moldada contra ele. Evie desejava-o com um desespero tal que quase a assustou. Com a sua boca tentou agarrar a boca errante dele e começou a puxar-lhe pelas roupas com uma urgência tão desastrada que o fez rir


baixinho. – Devagar… – murmurou ele. – A noite ainda agora começou e eu vou amá-la durante muito tempo. Evie, que mal se tinha nas pernas, puxou-lhe pelo casaco com mais força. – Eu não po-posso aguentar muito ma-mais – balbuciou ela, como se estivesse a lamentar. Ela viu o largo sorriso dele, enquanto se via livre do casaco com um encolher de ombros, e ouviu o timbre rouco da paixão na voz dele, dizendo: – Vá, vá deitar-se na cama, meu amor. Evie obedeceu, agradecida, esgueirando-se para cima do colchão e ficando meio reclinada a vê-lo tirar o resto da roupa. A visão da ligadura branca que lhe rodeava os rijos músculos do abdómen recordou-lhe o quão próximo ela tinha estado de o perder. Sentiu-se presa pela emoção. Ele era-lhe tão infinitamente querido… a perspetiva de passar aquela noite com ele enchia-a de uma felicidade tão plena que sentia quase como uma angústia. Quando o peso dele encovou a cama, ela rebolou até ele e os seus corpos só ficaram separados pelo roupão de seda. Ela levantou a mão até ao tosão dourado no corpo dele e as pontas dos dedos enfiaram-se no pelo, até à pele rija que estava por debaixo. Ele acariciou com a boca a face dela e a sua respiração varreu-lhe a pele num sopro cálido que a fez estremecer. – Evie… durante estes últimos dias não pude fazer mais do que deixar-me ficar aqui deitado, pensando em coisas que tenho passado toda uma vida a evitar… Disse-lhe, em tempos, que não era feito para ter mulher e filhos. Que não estava interessado em ter um filho se acaso a Evie… – Ele hesitou durante um bom momento. – Mas… a verdade é que… eu quero muito que tenha o meu filho. Eu nem sabia quanto, até temer que jamais teria essa oportunidade. Pensei… – Interrompeu-se, sorrindo como quem troça de si próprio. – Bolas! Não sei ser pai, nem marido. Mas… como as suas expetativas, em ambos os aspetos, parecem ser reduzidas, quem sabe não terei alguma hipótese de lhe agradar… Mas, falando a sério: temos muitas maneiras de evitar que engravide. Mas se – e quando – decidir que está pronta… quero que mo diga. Evie calou-o com um beijo. Nos momentos ardentes que se seguiram, não seriam possíveis mais palavras. Ela sentiu-se deslizar para um êxtase de prazer, chegando até um ponto de interceção entre amor e desejo que parecia dilatar-lhe os sentidos até que qualquer som, toque ou sabor, se tornaram dolorosamente amplificados. Sebastian afastou-lhe o roupão para os lados do corpo e acariciou os seios expostos com toques leves, como asas de uma borboleta. Os mamilos incharam e endureceram, ávidos de contacto, e quando ele, finalmente, introduziu o bico duro no aveludado quente da sua boca, ela gemeu de alívio. Ele começou por usar somente a língua, assediando-a com uma subtileza que a fez arquear-se numa súplica incoerente. Foi-lhe oferecendo mais, mordendo, chupando, até ela começar a sentir nas entranhas um aperto correspondente a cada ataque. O roupão passou a ser uma opressão na sua carne


supersensível e Evie lutou para se ver livre dele, frustrada, tentando arrancar de si as pregas do tecido resistente. Com um murmúrio apaziguador, Sebastian curvou-se sobre ela para a ajudar, puxando-lhe as mangas dos braços, libertando as costas e as ancas daquele tecido renitente. Com um suspiro de alívio, ela enroscou-se nele, envolvendo-lhe os ombros nus com os seus braços. As mãos dele deslizaram suavemente sobre o corpo dela, induzindo novos arrepios nos nervos sensíveis. Ela não conseguia falar ou sequer pensar, só anuir, indefesa, enquanto Sebastian a acariciava e dispunha do seu corpo em posições cada vez mais reveladoras e com a boca percorria lentamente toda a sua pele. Dedos másculos e inquisitórios deslizaram entre as coxas dela, à procura do elixir da sua carne estimulada. Evie corava e gemia, enquanto ele espalhava aquela humidade em círculos eróticos, as pontas dos dedos mergulhando ligeiramente na entrada do seu corpo. – Sebastian… por favor, não posso esperar mais… Calou-se ao sentir que ele a voltava contra si, puxando-lhe as ancas para trás e para cima até ficarem de lado, encaixados um no outro. Os braços dele, fechados em torno dela, faziam-na sentirse segura e protegida, mesmo quando ele lhe separou as coxas, com uma mão suave, mas firme. Evie moveu-se, confusa, ao sentir a pressão do sexo dele e perceber que ele estava a penetrá-la por trás. Ofegante, voltou o rosto para o braço musculado que a segurava pelo pescoço. – Calma… – sussurrou Sebastian, afastando o cabelo que lhe tapava o pescoço e a orelha para a beijar. – Deixa-me amar-te assim, querida. Os seus dedos acariciaram-lhe o sexo, massajando-a docemente até ela condescender. Logo começou a provocá-la com a ponta do seu pénis, ameaçando entrar nela, para logo a seguir se retirar, quando ela cuidava que ia entrar completamente. Então, ela começou a baloiçar-se contra ele, fazendo pressão para trás com as ancas. Quando ele finalmente entrou todo dentro dela, Evie começou a gemer alto. Como aquela posição não permitia uma grande amplitude de movimentos, ele começou a atacar com estocadas firmes e profundas que ela acolhia arqueando-se freneticamente. Com um riso terno, ele começou a guiá-la carinhosamente. – Não sejas impaciente, amor – murmurava. – Não te debatas, deixa que o prazer venha ter contigo. Espera… descansa comigo. Agarrando-lhe numa coxa, puxou-a para cima dele, de modo que as pernas dela ficaram totalmente abertas, as ancas coladas às dele. Evie gemeu ao senti-lo penetrá-la mais fundo, enquanto os dedos dele a acariciavam num contraponto rítmico aos impulsos do seu membro. Alucinada, Evie contraiu todos os músculos, aguardando, enquanto ele construía o prazer dela a um ritmo calmo. Ele levava-a até ao limite, a seguir batia em retirada, depois fazia-a chegar mais perto do clímax… cada vez mais perto… fazendo-a esperar e esperar e esperar… até que finalmente a deixou explodir, numa série de convulsões que fizeram abanar a cama. Sebastian tinha ainda o seu sexo hirto quando se retirou dela. O seu cabelo revolto brilhava como ouro, quando ele a estendeu de costas na cama e passou a boca aberta pela barriga dela. Evie sacudiu a cabeça numa recusa estonteada quando ele, subitamente, lhe dobrou os joelhos, puxando-os para


cima. – Estou cansada… – balbuciou ela. – Eu… espere, Sebastian… A língua dele esquadrinhou a intimidade dela com lambidelas estranhamente tranquilizantes, persistindo até que acabaram os seus protestos e o seu coração abrandou para um batimento normal. Ao fim de longos minutos de paciência, Sebastian sugou de repente o botão inchado do clítoris dela para dentro da boca e começou a mordiscá-lo, a chupá-lo e a lambê-lo. Ela estremeceu com aquela agressão delicada da boca dele. Ele levou-a mais longe, agitando e revolvendo a língua, num esquema deliberado, os braços estreitamente apertados à volta das coxas dela. Pareceu a Evie que o seu corpo já não lhe pertencia, que existia apenas para suportar aquela tortura voluptuosa. Sebastian… ela não conseguiu pronunciar o seu nome, mas ele ouviu-lhe o apelo mudo e, como resposta, fez algo com a boca que a lançou numa série de clímax incandescentes. Sempre que Evie pensava que aquilo ia acabar, outra vaga de sensações abatia-se sobre ela, até estar tão exausta que teve de lhe suplicar que parasse. Sebastian soergueu-se sobre ela. Os seus olhos brilhavam no rosto escondido na sombra. Ela preparou-se para o receber, abrindo as pernas e estreitando os braços em volta das costas dele. Ele resvalou, docemente, para dentro da sua carne inchada, preenchendo-a completamente. Quando aproximou a boca do ouvido dela, Evie mal conseguiu distinguir o murmúrio dele por cima do martelar do seu coração. – Evie… – disse ele, numa voz rouca. – Quero uma coisa de ti… Quero que tenhas um novo clímax… só mais uma vez. – Não… – balbuciou ela. – Sim. Preciso que o sintas… comigo dentro de ti. A cabeça dela rolou na almofada, lentamente, numa negação desesperada. – Não posso… não posso mais…! – Podes, sim. Eu ajudo-te. A mão dele vagueou até ao ponto onde os dois corpos estavam unidos. – Deixa-me entrar mais fundo dentro de ti… mais fundo… Ela gemeu, indefesa, ao sentir os dedos dele no seu sexo, manipulando habilmente os seus nervos exaustos. E subitamente ela sentiu-o entrar ainda mais fundo e o seu corpo excitado a abrir-se para o aceitar. – Hmm… – murmurou ele. – Sim, é isso mesmo… oh, meu amor, és tão doce… Sebastian instalou-se entre os joelhos erguidos dela, no berço das suas ancas, movendo-se duro e firme dentro dela. Ela apertou-o completamente com os braços e as pernas, enterrando a cara no seu pescoço quente e gritou mais uma vez, enquanto a sua carne tremia e lhe estreitava o membro, levando-o ao êxtase mais avassalador. Ele estremeceu intensamente nos braços dela, mergulhando as mãos no mar quente dos seus cabelos, entregando-se a ela com cada parte do seu corpo e do seu espírito.


* Quando Evie acordou sozinha, naquela cama enorme, a primeira coisa que viu foi uma dispersão de manchas rosa sobre os lençóis brancos, como se alguém tivesse entornado vinho sobre a cama. Pestanejando, ergueu-se sobre um cotovelo e tocou numa das manchas com a ponta do dedo. Era uma pétala de rosa, de rosado leitoso, arrancada de uma flor e lançada displicentemente sobre o leito. Olhando à sua volta, descobriu que as pétalas haviam sido salpicadas sobre ela, como uma chuva ligeira. Um sorriso assomou-lhe aos lábios e voltou a deitar-se sobre aquele leito perfumado. Aquela noite de pesada sensualidade parecia ter sido parte de um prolongado sonho erótico. Ela mal podia crer nas coisas que deixara Sebastian fazer-lhe, as intimidades que ela jamais imaginara serem possíveis. E, no seguimento entorpecido da sua paixão, ele aninhara-a contra o seu peito e tinham conversado durante horas. Ela até lhe contara a história da noite em que ela, Annabelle e as manas Bowman se tinham tornado amigas, sentadas numa fila de cadeiras durante um baile. – Pensámos numa lista de potenciais candidatos a maridos e redigimo-la nos carnets de baile – contara Evie. – Lord Westcliff era o primeiro nome da lista, claro. E o Sebastian era o último, porque não era, obviamente, do tipo casadoiro. Sebastian rira, divertido, enroscando intimamente as suas pernas nuas nas dela. – Estive sempre à espera que fosse a Evie a convidar-me… – Ora, balelas! Nunca me lançou um olhar, sequer – replicou Evie, ressentida. – Não era o tipo de homem que quisesse dançar com encalhadas. Sebastian afagara-lhe os cabelos e ficara um momento silencioso. – De facto… não era – admitiu ele. – Fui um perfeito idiota em não reparar em si. Se me tivesse dado ao trabalho de passar cinco minutos na vossa companhia, a senhora jamais me teria escapado – brincou. Então Sebastian dedicou-se a seduzi-la, como se ela fosse ainda uma virgem encalhada, convencendo-a, pouco a pouco, a deixá-lo fazer amor com ela, até finalmente acabarem enrolados um no outro. Recordando aquelas horas de ardente ternura, Evie, sonhadora, procedeu à sua higiene matinal e vestiu um robe de lã, forrado a seda. Desceu à procura de Sebastian – que estaria provavelmente no escritório do clube, analisando as receitas da noite anterior. O clube estava deserto, apenas com os empregados de limpeza que o preparavam para a próxima noite e uma mão-cheia de operários que substituíam apressadamente as carpetes e retocavam pinturas. Ao entrar no escritório, Evie deparou-se com Sebastian e Cam sentados, um de cada lado da secretária. Ambos examinavam os livros-razão, riscando certos artigos com penas carregadas de tinta preta e fazendo anotações ao lado das longas colunas. Ambos ergueram a cabeça quando a sentiram entrar. Evie trocou um olhar breve com Sebastian, sentindo que era difícil para ela manter


uma certa compostura junto dele após as intimidades da noite anterior. Ele parou a meio de uma frase e olhou-a longamente, parecendo esquecido do que estava a dizer a Cam. Nenhum deles se sentia ainda confortável com os sentimentos demasiado recentes e fortes. Murmurando um bom dia a ambos, Evie pediu-lhes que ficassem sentados e foi pôr-se ao lado da cadeira de Sebastian. – Já tomou o pequeno-almoço, my lord? – perguntou. Sebastian abanou a cabeça, com um sorriso. – Ainda não. – Vou então até à cozinha ver o que está previsto. – Espere só mais um momento – pediu ele. – Estamos mesmo a terminar. Enquanto os dois homens discutiam os últimos pormenores do ofício que visava o potencial investimento num futuro bazar a ser construído na St. James Street, Sebastian pegou na mão de Evie que ela pousara sobre a secretária. Absorto, passou as costas da mão dela pela curva do seu queixo e junto à orelha, enquanto observava a proposta escrita. Embora Sebastian não se tivesse apercebido do grau de intimidade revelado por aquele gesto, Evie sentiu-se corar ao enfrentar o olhar de Cam, por cima da cabeça inclinada do marido. O rapaz lançou-lhe um olhar cómico de reprovação, como o de uma precetora que apanhou duas crianças a brincar aos beijos, e sorriu abertamente ao vê-la corar ainda mais. Inconsciente daquele aparte, Sebastian entregou a proposta a Cam que ficou instantaneamente sério. – Não me agrada lá muito tudo isto – comentou Sebastian. – Duvido que haja na região negócio suficiente para suportar um bazar inteiro, especialmente com rendas a este preço. Temo que, dentro de um ano, isto se possa tornar num elefante branco. – Um elefante branco?… – perguntou Evie. Da porta chegou uma nova voz, pertencente a Lord Westcliff: – Um elefante branco é um animal raríssimo – disse o conde, sorrindo. – Não só dispendioso, como também complicado de manter. Historicamente, quando um rei desejava arruinar alguém, oferecia-lhe um elefante branco. Westcliff entrou na sala, curvou-se sobre a mão de Evie e dirigiu-se a Sebastian. – A tua avaliação acerca do bazar está correta, na minha opinião. Foi-me dirigida a mesma proposta em tempos e eu rejeitei-a, pelas mesmas razões. – E sem dúvida que se vai provar que não tínhamos razão – disse Sebastian, irónico. – Nunca se devem fazer previsões que se refiram às mulheres e às suas compras. Levantou-se para apertar a mão do amigo. – A minha mulher e eu íamos justamente agora tomar o pequeno-almoço. Não queres fazer-nos companhia? – Posso tomar café, com certeza – disse Westcliff, agradecendo. – Perdoem-me a visita inesperada, mas tenho notícias a dar.


Todos olharam o conde com interesse, enquanto ele prosseguia: – Consegui finalmente encontrar-me com Lord Belworth esta manhã. Ele confirmou ter sido o primeiro dono da pistola usada contra ti, Sebastian. E disse-me, em confidência, que há aproximadamente três anos ofereceu esse par de pistolas de duelo, juntamente com algumas joias de família e outras miudezas, a Clive Egan, como suborno para o aliciar a conceder-lhe mais tempo para pagar as suas dívidas financeiras ao clube. Evie mostrou-se surpreendida ao ouvir mencionar o nome do antigo gerente do clube. – Mas então… é Mr. Egan que está a dar asilo a Bullard? – É possível. – Mas porquê?… Isso significa que foi Mr. Egan quem o contratou para executar um atentado contra mim?! – É o que iremos descobrir – disse Sebastian, com expressão fechada. – Tenciono fazer uma visita a Egan ainda hoje. – Eu acompanho-te – disse Westcliff, sem hesitar. – Arranjei maneira de saber a morada do Egan. Não é longe daqui, por acaso. Sebastian abanou a cabeça, determinado: – Obrigado pela colaboração, meu caro, mas não pretendo envolver-te mais neste assunto. Duvido que a tua mulher ficasse satisfeita por eu te fazer correr riscos… Eu levo o Rohan comigo. Evie preparava-se para objetar, sabendo que, naquela situação, o marido estaria certamente mais seguro na companhia de Westcliff. Sebastian mal tinha começado a recompor-se do ferimento. E se lhe viesse à ideia fazer uma tolice, não seria nada fácil para Cam refreá-lo; na realidade, Cam era empregado dele e pelo menos oito anos mais novo. Westcliff conhecia Sebastian muito melhor e tinha infinitamente mais poder para o influenciar. Mas antes que Evie pudesse dizer uma palavra, Westcliff replicou: – O Rohan é, na verdade, um rapaz muito eficiente e, por isso mesmo, devia ficar exclusivamente encarregado da segurança de Evie e ficar aqui com ela. Sebastian preparava-se para discutir, mas as palavras ficaram-lhe para trás quando Evie lhe apertou o braço, encostando-se a ele com uma breve pressão. – Eu também preferia… – disse ela. Ao olhar para baixo, para o rosto dela, a expressão do visconde atenuou-se a tal ponto que Evie teve, de repente, a ideia inebriante de que ele faria tudo o que estivesse ao seu alcance para lhe agradar. – Pois sim – murmurou ele. – Se a presença do Rohan a deixa mais sossegada, assim se fará. Parte da objeção de Sebastian em levar Westcliff consigo na visita a Clive Egan consistia no constrangimento residual entre eles. Não seria propriamente confortável passar um tempo significativo na companhia de um homem cuja mulher ele recentemente sequestrara. A consequente


sova que Westcliff lhe dera, contribuíra para aclarar os ares e as desculpas apresentadas subsequentemente por Sebastian também tinham ajudado. E agora, parecia que o casamento com Evie e a vontade inequivocamente demonstrada em sacrificar a sua vida por ela haviam predisposto o conde a olhá-lo com uma aprovação cautelosa que, com o tempo, os faria voltar à antiga amizade. Para um homem que, em tempos, se dedicara a viver numa ausência total de compromissos, Sebastian estava a ter indesejáveis dúvidas acerca de certos aspetos do seu passado. Os seus atos em relação a Lillian Bowman tinham sido um erro a todos os níveis. Que idiota fora, sacrificando uma amizade preciosa por causa de uma mulher que ele nunca sequer desejara! Se se tivesse dado ao trabalho de considerar alternativas, poderia logo ter descoberto Evie que sempre estivera debaixo do seu nariz… Mas, para alívio de Sebastian, a conversa com Westcliff revelara-se animada e amigável, enquanto a carruagem atravessava a parte oeste de Londres, até aos arredores, onde se desenvolviam habitações para a classe média mais elegante, inseridas em vastos espaços verdes. A morada de Clive Egan era manifestamente a de um homem possuidor de sólidos meios financeiros. Refletindo azedamente sobre quanto dinheiro Egan teria ganho durante anos a desviar e a extorquir os proveitos do clube, Sebastian contou a Westcliff tudo o que sabia acerca do antigo gerente. O assunto levou a uma troca de impressões sobre a atual situação financeira do clube e da necessária reestruturação dos investimentos. Foi um prazer confiar em Westcliff, dono de um dos melhores cérebros financeiros do país e que fornecia as perspetivas mais brilhantes no mundo dos negócios. E a nenhum dos dois escapou o facto de que aquela conversa celebrava uma drástica despedida do passado, dos tempos em que Sebastian tagarelava sobre escândalos e ligações amorosas – perambulações que terminavam, sempre, com sermões um tanto condescendentes da parte de Westcliff. A carruagem parou numa nova praça residencial, com pequenos pátios empedrados por trás. Todas as casas tinham três andares e eram muito estreitas, nenhuma delas mais larga dos que uns quatro metros. Uma decrépita e muito usada criada para todo o serviço abriu-lhes a porta, afastandose com um resmungo quando eles irromperam pela casa dentro. A casa pertencia àquele género de lares mobilados e decorados ao acaso, frequentemente arrendados a cavalheiros da classe média que ainda não haviam casado. Uma vez que toda a residência consistia em três salas e uma área de serviço, não foi difícil encontrar Egan. O antigo gerente estava instalado num cadeirão junto à lareira, numa sala que cheirava fortemente a álcool e urina. Uma série de garrafas ornamentava os peitoris de ambas as janelas e algumas mais jaziam vazias no chão, junto à lareira. Com a habitual expressão de olhos vidrados de eterno bêbado, Egan olhou os visitantes sem surpresa. Mantinha exatamente o mesmo aspeto de há dois meses, quando Sebastian o despedira, inchado e de higiene duvidosa, com os dentes cariados, um grande matacão encarnado no lugar do nariz e uma cara avermelhada, sulcada por uma teia de veias azuladas. Levou um copo à boca, bebeu longamente e sorriu, observando-os com olhos


turvos. – Ouvi dizer que tinha levado um tiro nas tripas – disse ele, para Sebastian. – Mas como não parece um fantasma, suponho que a história foi largamente exagerada. – Por acaso até é verdade – respondeu Sebastian, friamente. – Mas o diabo não me quis. A suspeita de que Egan pudesse ser responsável pela tentativa de assassinato da sua mulher tornava-lhe difícil ter o controlo suficiente para não se atirar àquele malandro. Apenas o facto de ele poder deter informações de que eles necessitavam que manteve Sebastian comedido. Egan expeliu um riso breve, fazendo um gesto na direção das garrafas. – Sirvam-se à vontade… Não é vulgar eu ser visitado por cavalheiros tão distintos. Westcliff, com toda a calma, tomou a palavra: – Não, obrigado. Viemos aqui fazer umas perguntas sobre uma pessoa que o visitou recentemente: Mr. Joss Bullard. Onde está ele? Tendo tomado outro gole do seu copo, Egan olhou-o, sem expressão. – Como é que raio eu havia de saber? Tirando do bolso a pistola feita de encomenda, Westcliff exibiu-a na palma da mão. Os olhos do bêbado quase lhe saíram das órbitas e o seu rosto ficou de repente de um roxo intenso. – Onde é que arranjou isso? – arquejou ele. – Foi o que o Bullard usou na noite do tiroteio no Jenner’s – disse Sebastian, lutando por se dominar, com cada nervo a zunir de raiva. – E conquanto eu duvide que essa excrescência que tem entre os ombros contenha algo de parecido com um cérebro a funcionar, até mesmo você deverá ser capaz de avaliar as consequências da sua implicação numa tentativa de assassinato. Que tal a perspetiva de passar uma longa estadia num cárcere de Fleet Ditch? Agrada-lhe? É que isso pode ser arranjado numa questão de… – St. Vincent… – murmurou Westcliff, num tom de calma advertência, enquanto Egan se engasgava e tossia. – Ele deve ter-ma roubado! – gritou Egan, entornando o copo no chão. – O canalha desse ladrão…! Eu não sabia qu’ele a tinha! A culpa não é minha, juro! Eu só quero é que me deixem em paz! Rai’s o partam! – Quando é que o viu pela última vez? – Talvez há três semanas, eu sei lá! Egan levantou do chão a garrafa e começou a mamar nela, como um bebé esfaimado. – Ele passava por cá de quando em vez, depois de sair do Jenner’s. Não tinha p’r ’onde ir, nem sequer o deixavam dormir c’os cavalos, depois de lh’aparecer a peste. Sebastian e Westcliff trocaram um olhar rápido. – Peste? – perguntou Sebastian, desconfiado, pois havia várias doenças diferentes a que o povo


apelidava de peste. – De que tipo? Egan olhou-o, com desdém. – Do piorio… Sifles… Da que leva à loucura. Mesmo antes d’ele sair do clube já havia sinais… a fala atrasada, as tremuras… as mossas na cara, o nariz a cair ós bocados. Só um cego é qu’não havia de reparar. – Não tenho por hábito examinar o rosto dos meus empregados tão de perto – disse Sebastian, sarcástico, enquanto vários pensamentos lhe acudiam ao espírito. A sífilis era uma doença tenebrosa, transmitida por contacto sexual – e não só – e altamente contagiosa. Resultava em loucura, por vezes paralisia parcial e uma horrorosa perda de tecido das partes moles do corpo, incluindo as faces e o nariz. Se Bullard fosse, de facto, vítima de sífilis e se a doença havia já progredido até este ponto, não havia esperança para ele. Mas por que razão é que, nas garras da demência, ele se fixara em Evie? – A esta hora o infeliz já deve ter perdido o tino por completo – disse Egan. Levou a garrafa aos lábios para mais um trago entorpecedor, piscou os olhos contra o fogo da aguardente e deixou cair o queixo sobre o peito. Olhando para Sebastian, prosseguiu num tom cansado: – O desgraçado veio cá na noite do tiro, a delirar, a gabar-se de o ter matado. Tremia como varas verdes e queixava-se d’óvir muito barulho e de dores cabeça. Vinha cheio d’ideias loucas. Já não havia nada a fazer. De modo qu’eu paguei a um tipo pró levar para uma ala de incuráveis – aquela perto da barreira da portagem, à entrada de Knightsbridge. E deve lá‘tar agora… morto ou num estado em que mais valia‘tar morto. Sebastian falou com uma impaciência em que não havia a mínima compaixão. – Mas por que é que ele tentou matar a minha mulher? Deus sabe que ela nunca lhe fez mal nenhum. Egan respondeu, taciturno: – Ele sempre a detestou… o pobre bastardo. Logo desde criança, quando ela vinha ao clube p’ra visitar o pai e o Bullard via a alegria com que o velho a recebia… ficava maldisposto e a praguejar durante dias. Fazia troça dela… Egan fez uma pausa e um sorriso reminiscente passou-lhe pelos lábios: – Era uma criaturinha engraçada, a pequena… sardenta, tímida e redonda com’uma maçã. Ouvi dizer qu’hoje é uma beleza, mas não estou a ver como… – O Bullard era filho do Jenner? – interrompeu-o Westcliff, de expressão impassível. Aquela pergunta inesperada surpreendeu Sebastian. Ouviu atentamente a resposta de Egan. – Talvez… A mãe dele, a Mary, jurava a pés juntos que sim. Cautelosamente, Egan aconchegou a garrafa no bolso do casaco e descansou os dedos enclavinhados sobre a plataforma bojuda da barriga. – Ela era uma rameira de bordel e a sorte dela foi ter calhado uma noite ao Ivo Jenner. Ela caiu-


lhe no goto e pagou à dona do bordel p’ra lha guardar p’ra seu uso exclusivo. Um belo dia, a Mary foi ter com ele, disse-lhe que estava prenhe e que a criança era dele. E o Jenner, qu’até tinha bom coração, deu-lhe o benefício da dúvida… Sustentou-a durante o resto da vida e deixou c’o gaiato trabalhasse no clube quando já tinha idade p’ra isso. A Mary já morreu há muitos anos, mas antes de dar o triste pio, disse ó Bullard qu’o Jenner era o seu pai. Quando o rapaz foi ter c’o pai, p’ra pedir satisfações, o Jenner disse-lhe que, fosse verdade ou mentira, era p’ra ficar em segredo. Ele nunca quis reconhecer o Bullard como seu filho. Por um lado, o fedelho nunca foi coisa que prestasse e por outro… o velho danado nunca quis saber de ninguém a não ser da filha. Queria que a Evie ficasse com tudo, quando ele batesse as botas. E Bullard, claro, ficou-lhe cá com uma osga…! Dizia que se não fosse ela o velho o teria reconhecido como filho e teria feito mais por ele, tinha-lhe dado muito mais. E não deixava de ter razão, cá na minha… Egan suspirou, tristemente, concluindo o seu relato a olhar para Sebastian: – Quando ela o levou até ao clube, my lord, o Bullard já‘tava doente com aquilo… e foi então c’a loucura começou. Um triste fim para uma triste vida. E, com júbilo malévolo, Egan acrescentou: – Podem encontrá-lo no Hospital de Tottenham, se desejam mesmo vingar-se de um pobre lunático. Gozem o que desejarem, my lords, mas, na minha opinião, o patrão lá de cima já maquinou p’ra ele o pior castigo qu’um corpo pode suportar.


Capítulo 22

Durante a ausência de Sebastian, Evie ocupou-se com tarefas menores relacionadas com o clube, organizando recibos e faturas, atendendo à correspondência e finalmente separando as pilhas de cartas por abrir dirigidas a Sebastian – de cariz pessoal. Claro que não resistira à tentação de abrir umas quantas. Vinham plenas de propostas galantes e de insinuações imbecis, e, em duas delas, chegava a insinuar-se que por esta altura, Sebastian já se teria fartado da sua nova esposa. A intenção era tão descarada que Evie chegou a sentir vergonha pelas autoras das cartas. Mas serviram, igualmente, para lhe fazer recordar o passado promíscuo do marido, quando a sua principal ocupação constituíra em dedicar-se a jogos de perseguições e conquistas amorosas. Não lhe era fácil depositar a sua confiança num homem daqueles sem experimentar a sensação de que a sua ingenuidade tocava as raias da estupidez. Especialmente à luz da certeza de que Sebastian seria sempre admirado e cobiçado pelas outras mulheres. Mas Evie sentia que Sebastian merecia a oportunidade de demonstrar quem era realmente. Estava em poder dela proporcionar-lhe o ensejo de começar de novo – e se a aposta que ela lhe propusera fosse coroada de sucesso, as recompensas para ambos seriam infinitas. Evie sentia ter força suficiente para se arriscar a amá-lo, a fazer-lhe exigências, a esperar do marido coisas que ele talvez considerasse difíceis de conseguir. E Sebastian parecia desejar ser tratado como um homem normal – ter alguém que enxergasse para além da beleza mortal daquela fachada e pedir-lhe algo mais do que as suas proezas eróticas. Se bem que – pensou Evie com um sorriso discreto – ela também fosse apreciadora da beleza dele e da sua perícia sexual. Após ter assistido – com um arrepio de satisfação – ao espetáculo daquelas cartas a serem reduzidas a cinzas na lareira, Evie sentiu-se sonolenta e dirigiu-se ao quarto principal para desfrutar de uma sesta. Mas não obstante a fadiga, foi-lhe difícil relaxar enquanto pensava em Sebastian. Os seus pensamentos giraram em espiral até o cérebro, cansado, pôr fim àquela preocupação inútil e deixar-se cair no sono. Quando acordou, uma hora depois, Sebastian estava sentado na cama ao lado dela, revolvendo um dos seus caracóis flamejantes entre o indicador e o polegar. Olhava-a atentamente e os seus olhos


eram do azul celeste de uma manhã de primavera. Evie sentou-se na cama, sorrindo, embaraçada. Sebastian afastou-lhe da testa o cabelo revolto. – Parece uma menina pequena quando dorme – murmurou. – Faz-me ter vontade de velar por si minuto a minuto. – Encontraram Mr. Bullard? – Sim e não. Mas, antes de mais, conte-me tudo o que fez na minha ausência. – Ajudei o Cam a arrumar o escritório… Ah, e queimei todas as cartas que lhe eram endereçadas de senhoras perdidas de amor. A chama era tão grande que só me admira ninguém ter chamado os bombeiros. Ele sorriu, mas o seu olhar perscrutava-a, atentamente. – Leu alguma? Evie ergueu um ombro despreocupado. – Uma ou outra. Havia quem quisesse saber se já estava cansado da sua nova esposa. – Não – disse ele, passando-lhe a mão pela coxa. – Estou cansado, isso sim, de noites inteiras das mesmas coscuvilhices e conversas ocas. Estou farto de encontros inúteis e sem sentido com mulheres que me aborrecem de morte. Para mim são todas o mesmo, não vê? Nunca me interessei fosse por quem fosse – a não ser por si. – Eu não as censuro por o desejarem, sabe… – disse Evie, lançando-lhe os braços ao pescoço. – Mas não me apraz partilhá-lo. – Nunca terá de o fazer. Tomou-lhe o rosto entre as mãos e plantou-lhe um beijo rápido na testa. – Conte-me o que se passou com Mr. Bullard – pediu ela, erguendo as mãos para lhe acariciar os pulsos. Sebastian descreveu-lhe o encontro com Clive Egan e as revelações acerca de Joss Bullard e a sua mãe. Evie não pôde deixar de sentir piedade: o pobre Bullard não tinha culpa das suas origens, nem do desamor paterno que lhe causara tamanha dor e ressentimento. – Que estranho… – murmurou ela. – Em pequena sempre desejei e até esperei que o Cam fosse meu irmão. Mas jamais me passou pela cabeça que o Joss Bullard pudesse sê-lo. Joss Bullard fora sempre tão esquivo e desagradável… e contudo talvez isso fosse o resultado de Ivo Jenner o ter, desde sempre, repudiado. Sentiu-se indesejado, considerado um segredo vergonhoso pelo homem que bem podia ser o seu pai… é claro que isso tornaria amargo quem quer que fosse. – Estivemos no hospital de Tottenham – prosseguiu Sebastian –, onde ele foi internado na ala dos incuráveis. Um local pavoroso, em absoluta necessidade de financiamento. Vi lá mulheres e crianças que… – Interrompeu-se com uma expressão de repulsa. – Enfim, prefiro não falar nisso. Mas um dos administradores do hospital afiançou-me que o Bullard foi admitido já no último grau da doença. – Quero ajudá-lo – disse Evie, resoluta. – Podemos certamente transferi-lo para um hospital melhor, não é verdade?


– Não, meu amor… – Sebastian passou gentilmente os dedos pelos finos contornos da mão da mulher. – Ele morreu há dois dias. Mostraram-nos o local onde ele e um outro doente foram enterrados… na mesma cova. Evie desviou a cabeça, assimilando aquela informação. Ficou admirada por sentir chegar lágrimas aos olhos e apertar-se-lhe a garganta. – Pobre rapaz… – disse ela, em voz baixa. – Tenho pena dele. – Pois eu não – disse Sebastian, categoricamente. – Se é verdade que cresceu sem a afeição dos pais, não é diferente de milhares de outros que se viram forçados a singrar sozinhos na vida. Foi certamente mais fácil do que para o Rohan, cujo sangue cigano sempre o tornou vítima de preconceito… Não chore, Evie. O Bullard não é digno de uma única lágrima sua. Evie suspirou, tremulamente. – Perdoe-me… não queria ser tão piegas. Mas a verdade é que estas últimas semanas têm sido difíceis para mim. Tenho os sentimentos à flor da pele e parece que não consigo dominá-los como devia. Ele estreitou-a contra o seu corpo quente e ela sentiu-se rodeada pelos músculos dele, aquela voz suave perpassando pelos seus cabelos. – Evie, meu amor, não peça perdão por se emocionar. Acaba de passar por um verdadeiro suplício… E só um brutamontes como eu consegue apreciar devidamente a coragem que é precisa para não disfarçar os seus sentimentos. A voz de Evie soou abafada contra o ombro dele: – Não é nenhum brutamontes… E custa-me dizer isto, mas… embora tenha pena de Mr. Bullard, a verdade é que me sinto aliviada por ele ter desaparecido. Por causa dele quase o perdi! A boca dele procurou por entre o cabelo dela até lhe encontrar o frágil lóbulo da orelha. – Não vai ter essa sorte, por enquanto… Mas Evie não conseguiu sorrir àquele gracejo. Afastou a cabeça para o olhar de frente. – Não brinque com essas coisas, peço-lhe… – E a sua voz vacilou, ao continuar: – Agora… creio que já não viveria sem si. Sebastian empurrou-lhe suavemente a cabeça contra o ombro, enterrando por momentos a cara no cabelo dela. – Ah, Evie… afinal de contas sempre devo ter um coração – ouviu-o ela dizer. – Porque neste momento dói-me como o diabo… – Só o seu coração? – perguntou-lhe ela, falsamente ingénua, fazendo-o rir. – E também outras partes de mim – confessou ele, fazendo-a reclinar-se na cama. – E como minha esposa o seu dever é aliviar-me de todas as dores. Ela ergueu os braços e puxou-o para si. *


Indiferentes aos problemas pessoais dos donos ou dos empregados do Jenner’s, os clientes continuaram a acorrer ao clube todas as noites, especialmente quando se soube que não seria possível aceitar mais membros, uma vez que o limite havia sido marcado nos dois mil e quinhentos. Quem almejasse tornar-se membro teria, agora, de se inscrever numa lista de espera, com esperança nalguma vaga. A curiosa associação entre um visconde falido e um clube de jogo em declínio havia resultado numa alquimia surpreendente. Os empregados eram absorvidos pela corrente de energia dinâmica de Sebastian ou rapidamente descartados. O Jenner’s era dirigido com uma eficácia impiedosa que a casa jamais conhecera. Nem Ivo Jenner nos seus melhores dias conseguira governar o seu pequeno império com tal mão de ferro. No passado, o ressentimento velado de Ivo Jenner contra a aristocracia levara-o a tratar muitos dos membros do clube com uma subserviência que apenas servira para os fazer sentir vagamente desconfortáveis. Mas Sebastian era um entre eles. Era descontraído e, ao mesmo tempo, tão intrépido que a sua presença parecia transmitir animação a todo o ambiente. Onde ele estivesse, os membros do clube riam mais, gastavam mais, conversavam mais, comiam e bebiam mais. Enquanto outros clubes do género serviam o eterno bife e tarte de maçã, o pródigo bufete do Jenner’s estava constantemente a ser reabastecido de manjares a cada dia mais sofisticados… salada quente de lagosta, casserole de faisão, camarões em leito de puré de aipo, codornizes recheadas de uvas e queijo de cabra… E a sobremesa favorita de Evie – um aveludado pudim de amêndoa sem farinha, coberto de merengue e framboesas. As ceias e os espetáculos de variedades do Jenner’s tinham melhorado a um ritmo tão rápido que as esposas lamentavam-se que os maridos passavam muito mais noites no clube. A natureza manipuladora de Sebastian parecia ter encontrado um perfeito escape no Jenner’s. Sabia como proporcionar um ambiente em que os homens podiam descontrair e divertir-se e, durante o processo, ele desapossava-os do seu dinheiro de forma fácil… e com prazer. Todos os jogos decorriam com escrupulosa honestidade, visto o jogo ser, em teoria, proibido por lei – ainda que praticado abertamente em toda a cidade. Dirigir um clube respeitável representava a melhor maneira de evitar um processo judicial. Embora no início Sebastian tivesse de aturar uns quantos comentários trocistas da parte dos seus amigos, isso rapidamente se alterou ao verem-se eles na posição de lhe pedir extensões de crédito ou de protelar o pagamento das suas dívidas. Para um homem que nunca tivera muito dinheiro, Sebastian revelou uma surpreendente habilidade em administrá-lo. Tal como Cam afirmara um dia, pleno de admiração, Lord St. Vincent demonstrava o talento de um cachorro ratoneiro em farejar uma conta bancária periclitante ou qualquer outra coisa que pudesse afetar a hipótese de pagamento de um membro em dívida. Uma noite em que se Evie se instalara atrás da secretária de Cam no salão principal – no intuito de observar como Sebastian presidia a um jogo particularmente intrincado – apercebeu-se da presença,


a seu lado, de um cavalheiro de certa idade. Ela voltou-se, reconhecendo-o como Lord Haldane que Sebastian lhe apresentara há cerca de uma semana. – My lord – murmurou Evie, enquanto ele se curvava sobre a mão dela –, que prazer vê-lo de novo por cá. Ele sorriu, agradado. – Creia que o prazer é todo meu, Lady St. Vincent. Ambos desviaram o olhar para a mesa principal, onde Sebastian acabava de soltar um gracejo, de forma a aligeirar a tensão do jogo. Um murmúrio de riso percorreu o grupo de jogadores e Evie admirou, em silêncio, quão natural o marido parecia neste seu recente papel – como se tivesse nascido para aquilo. Estranhamente, parecia até mais à vontade do que o pai dela no passado. Ivo Jenner, com a sua natureza excitável, sempre tinha tido sérias dificuldades em esconder a sua preocupação quando algum membro do clube gozava de uma onda de sorte extraordinária que ameaçava fazer estoirar a banca. Sebastian, pelo contrário, permanecia impávido e sereno, fossem quais fossem as circunstâncias. Lord Haldane ocupava-se, sem dúvida, das mesmas reflexões, já que, olhando a figura distante de Sebastian, murmurou pensativamente: – Jamais pensei ver de novo alguém da mesma cepa… – My lord?… – indagou Evie, com um meio sorriso, enquanto Sebastian, dando pela sua presença, decidiu juntar-se-lhe. Haldane parecia perdido em longínquas recordações. – Em toda a minha vida apenas conheci outro homem movimentando-se por um clube de jogo desta maneira… – O seu olhar prendeu-se em Sebastian que se aproximava. – Como se se tratasse do seu terreno de caça e ele o mais nobre e sedutor dos predadores… – Refere-se a meu Pai, presumo? – quis saber Evie, intrigada. Haldane sorriu, abanando a cabeça. – Oh, valha-me Deus, não! Seu pai…? Não, não… – Mas então, quem… – começou Evie, mas a conversa foi interrompida pela chegada de Sebastian. – My lady… – disse ele, repousando uma mão na cintura dela. – E, olhando fixamente Lord Haldane com um leve sorriso, continuou a dirigir-se à mulher: – Tudo indica ter de alertá-la, minha querida… para o facto de este senhor ser um lobo na pele de um cordeiro. Para surpresa de Evie, Haldane esboçou um sorriso vaidoso e satisfeito. – Tivesse eu vinte anos menos, seu rapazote descarado, roubava-lha sem mais aquelas… Apesar do seu charme tão gabado, não pode ser minimamente comparável ao que eu era então. – E pelo que me é possível constatar, a idade não o domesticou nem um pouco – respondeu Sebastian, com um sorriso largo, puxando Evie para si. – Perdoe-nos, my lord, enquanto eu levo a minha esposa para território mais seguro.


– É notório que este rapaz tão… invulgar foi firmemente apanhado na sua teia, my lady – comentou Haldane, dirigindo-se a Evie. – Vá, pois, tentar apaziguar este caráter tão ciumento. – V-vou ten-tentar – balbuciou Evie, embaraçada e – sabe-se lá porquê – ambos os homens riram, enquanto Sebastian abandonava o salão, sempre com Evie pela cintura. Enquanto caminhavam, ele baixou a cabeça para lhe perguntar: – Está tudo bem, minha querida? – S-sim… Eu… – Evie interrompeu-se com um sorriso e disse, atrapalhada: – Eu só queria… estar consigo. Sebastian estacou de repente por trás de uma coluna e não resistiu a roubar-lhe um beijo. Fitandoa, de olhos cintilantes, murmurou: – Que tal uma partidinha de bilhar? E soltou uma gargalhada rouca ao vê-la corar. A popularidade do clube aumentou ainda mais quando os jornais começaram a gabá-lo na sua prosa empolada: Finalmente o Jenner’s pode assumir o seu lugar entre os locais de eleição da elite londrina, distinguindo-se como um venerado pavilhão onde cada vergôntea e rebento da aristocracia aspira a figurar entre os seletos. A cuisine satisfaz os palatos mais argutos e a ampla seleção de vinhos regozija o mais exigente dos paladares… Ou, noutro editorial: Nada consegue fazer justiça à qualidade dos salões recentemente remodelados que fornecem uma elegante tela de fundo às reuniões de clientes caracterizados pela sua superioridade intelectual e pessoal. Não será pois surpresa saber que o número de candidatos ao quadro de membros do Jenner’s excede já, em muito, o número de vagas… Ou ainda noutro: Muitos têm sugerido – e poucos discordado – que o renascimento do Jenner’s só podia ter sido conseguido por certo cavalheiro que, com o seu encanto demoníaco, consegue estar a par de todos os mundos da moda, da política, da literatura e da aristocracia.


Referimo-nos, claro, ao a todos os títulos famigerado Lord St. Vincent, atual detentor de um clube de excelência que promete vir a ser uma instituição relevante na vida do West End… Instalada no escritório, Evie dedicava-se a ler os editoriais. Nunca esperara aquele nível de atenção pública que Sebastian e o clube estavam a despertar. Embora satisfeita pelo facto de ele estar a tornar o Jenner’s num estrondoso êxito, não podia deixar de se sentir apreensiva com o que poderia acontecer quando ela deixasse o luto e ambos começassem a fazer parte da sociedade londrina. Não havia dúvida de que seriam convidados para muitos eventos. Mas o facto é que, sendo ela uma encalhada, não tinha tido grandes oportunidades para praticar a vida em sociedade. Teria de controlar a sua timidez e desconforto, de aprender a dominar a arte da resposta pronta… de ser encantadora e plena de confiança em si mesma… – Parece-me preocupada, minha querida – observou Sebastian, vindo sentar-se sobre a secretária e olhando para ela. – Leu alguma coisa desagradável? – Pelo contrário – respondeu Evie, desalentada. – Toda a gente parece radiante com o clube. – Estou a ver. O dedo dele afagou, com ternura, os contornos do maxilar da sua jovem esposa. – E isso preocupa-a porque…? A explicação dela veio num jato: – Porque o senhor está a tornar-se famoso por razões distintas das habituais… de andar atrás de saias… e, por isso, prevejo que vá ser muito solicitado e muito em breve eu sairei do luto e isso significa que teremos de frequentar bailes e soirées… e eu não consigo evitar esconder-me nos cantos! – Suspirou para recuperar o fôlego e prosseguiu: – Porque a verdade é que ainda sou uma encalhada sabe e vou ter de aprender a ser espirituosa e sofisticada, a saber conversar com as pessoas, ou ainda me arrisco a que se zangue comigo ou ainda pior que tenha vergonha de mim e eu… – Evie! Meu Deus, acalme-se… Sebastian puxou com o pé uma cadeira próxima e sentou-se em frente dela, cingindo-lhe os joelhos com os seus. Agarrou-lhe as mãos, olhando-a com um sorriso. – Não consegue estar vinte minutos sem encontrar um motivo para se preocupar, não é verdade? Mas não vai ter de mudar rigorosamente nada daquilo que é, não vê? Baixou a cabeça para lhe beijar as mãos e quando a reergueu o sorriso desaparecera e os olhos revelavam preocupação. – Como poderia eu sentir vergonha de si…? – prosseguiu ele. – Sou eu o vilão desta história, minha querida. A Evie nunca fez nada de censurável em toda a sua vida. E quanto a esses truques e graças de salão… só espero, sinceramente, que jamais se transforme numa dessas tolinhas que tagarelam sem parar e nunca logram dizer o que quer que seja que tenha um mínimo de interesse.


Puxou-a para mais perto e mordiscou-a no pescoço, onde o decote do vestido tocava a pele. Saboreou-a levemente e de seguida sussurrou junto do ponto húmido que provocara, causando-lhe arrepios: – A Evie não é uma encalhada. Mas saiba que lhe dou licença para se esconder num canto sempre que sinta necessidade… desde que me leve consigo. Aliás, até insisto que o faça. Advirto-a de que me porto sempre muito mal nessas ocasiões – vou muito provavelmente acometê-la em mirantes, balcões, em vãos de escada e atrás de vasos com plantas. E se se queixar limitar-me-ei a recordá-la que foi muito imprudente em casar com um devasso sem consciência. Evie arqueou o pescoço ao toque dos dedos dele. – Eu nunca me queixaria… Sorrindo, Sebastian mordiscou-lhe ternamente o pescoço, murmurando: – Oh… que esposa tão cumpridora dos seus deveres… Vou ter sobre si uma influência terrível! E agora dê-me um beijo e suba ao quarto. Tome banho e assim que tiver terminado lá estarei à sua espera. * A meia-banheira estava apenas meio cheia quando Evie entrou no quarto. Frannie e outra criadita haviam já pegado nos grandes jarros de água com pegas de madeira e preparavam-se para mais uma viagem ao andar de baixo. Sentindo-se quente e consolada em consequência dos beijos de Sebastian, Evie tratou de desabotoar as mangas do seu vestido. – Logo que regresse com mais água quente tratarei de a ajudar a despir, my lady – disse Franny. – Obrigada –respondeu Evie, com um sorriso. Vagueando até ao toucador, pegou num frasco de perfume que Lillian lhe havia recentemente oferecido. Com o seu olfato invulgarmente sensível, Lillian adorava ocupar-se com essências e perfumes e tinha recentemente começado a experimentar as suas próprias combinações. Este perfume em particular era equilibrado e luxuriante, com essências de rosas e especiarias pungentes fixadas com âmbar. Evie verteu cuidadosamente umas gotas douradas na água do banho e aspirou com prazer o vapor aromático que se erguia no ar. Regressando ao toucador, sentou-se numa cadeirinha baixa e começou a descalçar sapatos e meias, procurando por baixo das saias para desapertar as ligas. Com a cabeça baixa não lhe era permitido ver grande coisa… quando um súbito arrepio gelado lhe percorreu a espinha e um passo abafado pela carpete lhe pôs em pé todos os pelos do corpo. Viu uma sombra deslizante passar a porta rapidamente. Evie endireitou-se, seguindo com o olhar o percurso da sombra, e um gemido de susto escapou-se-lhe dos lábios ao deparar-se com uma figura andrajosa dirigindo-se para ela. Saltou da cadeira que se estatelou atrás de si e voltou-se rapidamente para enfrentar o homem que lhe entrava pelo quarto – e que lhe falou numa voz sinistra:


– Nem uma palavra. Ou racho-te dos pés à cabeça. O homem empunhava uma longa faca ameaçadora. Estava muito próximo dela – poderia estripála com um só golpe, se quisesse. Nenhuma imagem repescada aos pesadelos, nenhum monstro criado pelos terrores infantis poderia competir com a visão da figura horripilantemente corroída do intruso. Evie aproximou-se milimetricamente da banheira, tentando colocá-la entre si e aquela demente criatura. A roupa que ele envergava pouco mais era do que um monte de trapos. Virava estranhamente para a frente o lado esquerdo do rosto, como se se tratasse de uma marioneta em desequilíbrio. Cada centímetro da pele exposta – mãos, rosto, pescoço – era uma ferida aberta exsudando líquido, como se a sua carne estivesse a apodrecer, separando-se dos ossos. O mais horrível, contudo, eram os restos esfarrapados do que outrora fora um nariz. Ele parecia uma quimera, uma coleção de carne e membros e feições sem qualquer relação uns com os outros. Não obstante a imundície, as chagas e o estado ruinoso do seu rosto, Evie reconheceu-o. Foi para ela um esforço hercúleo conseguir manter-se calma, quando todas as suas veias se esvaziavam de pânico. – Mr. Bullard… – murmurou ela. – No hospital di-disseram que tinha falecido. A cabeça de Bullard balouçava estranhamente sobre os ombros, enquanto ele continuava a fixá-la intensamente. – Fugi daquele poço do inferno – resmungou. – Parti uma janela a safei-me de noite. ‘Tava farto daqueles demónios a qu’rerem entornar-me mistelas p’la garganta abaixo! Começou a aproximar-se dela, coxeando. Muito lentamente, Evie rodeou a banheira, com o coração a querer saltar-lhe pela boca. – Mas eu não ia bater as botas naquele maldito lugar sem primeiro vos mandar a todos pró inferno! Oh, não! – Mas… porquê? – perguntou Evie, baixinho. Empregou todos os seus esforços para não olhar para a porta, onde acabara de vislumbrar um movimento pelo canto do olho. Era Frannie, certamente, pensou, febrilmente. A figura indistinta desapareceu silenciosamente e Evie rezou para que a criada tivesse ido a correr pedir auxílio. Entrementes, o seu único recurso era manter-se o mais possível afastada de Joss Bullard. – Despojaste-me de tudo – rosnou ele, rodando os ombros como uma fera encostada às barras de uma jaula. – Ele deu-te tudo, o velho maldito… só queria umas horas conversa fiada, quando eu era seu filho! Seu filho! E escondia-me como a um penico cheio de merda… Eu fazia tudo o q’uele mandava! Teria matado p’ra lhe agradar… mas isso nunca teve importância. Foste sempre tu que ele quis, parasita de um raio! – Lamento tanto… – disse Evie. O genuíno pesar na voz dela pareceu desorientá-lo momentaneamente. Parou, olhando-a com a cabeça inclinada daquela estranha maneira.


– Mr. Bullard… Joss… – prosseguiu ela. – O meu pai apreciava-o muito, creia-me. O seu último pedido foi, aliás, que o auxiliássemos, que tomássemos conta de si. – Tarde de mais p’ra isso! De súbito, ele arquejou, levando ambas as mão à cabeça, incluindo a que segurava a faca, como se sentisse uma dor insuportável dentro do crânio. Apercebendo-se de uma hipótese de fuga, Evie lançou-se para a porta. Mas Bullard agarrou-a de imediato, lançando-a violentamente contra a parede. Ao bater com a cabeça, pareceu-lhe que tinha havido uma explosão dentro do seu cérebro e a visão fragmentou-se num milhar de pontos luminosos. Gemeu, esforçando-se por focar a vista, pestanejando, numa luta contra si própria. Sentiu uma pressão desagradável no alto do peito e uma arranhadela aguda a um lado da garganta. Pouco a pouco apercebeu-se de que Bullard tinha um braço à roda do seu pescoço, com a longa faca a completar o círculo sobre a pele. O frio do aço comprimia-a mais a cada nova inspiração. Bullard respirava com esforço, soltando um rasto de morte e podridão. Ela sentia-o tremer e os esforços que ele fazia para dominar os músculos. – Vamos… juntinhos… fazer-lhe uma visita – sussurrou ele ao ouvido dela. – Uma visita…? A… q-quem? – murmurou Evie, recuperando lentamente a visão. – Ao nosso pai. Vamos visitá-lo ao inferno, tu e eu. – Soltou uma gargalhada rouca: – Ele vai‘tar a jogar à bisca c’o velho Grão-Tinhoso em pessoa! Picou-a ligeiramente com a ponta da faca, parecendo radiante com o modo como ela estremecia. – Vou t’abrir a goela – murmurou ele – e depois abro a minha. O velho Jenner é que vai ficar contente, a ver-nos entrar de braço dado p’la porta do inferno. Enquanto Evie tentava, desesperadamente, encontrar palavras que pudessem ainda que temporariamente chamá-lo à razão, ouviu uma voz calma vinda da porta: – Bullard… Era Sebastian, parecendo surpreendentemente calmo e imperturbável. Embora o perigo não tivesse abrandado, Evie sentiu uma profunda onda de alívio com a sua presença. Ele entrou no quarto, muito lentamente: – Aparentemente, os registos no Tottenham deixam um tanto a desejar – comentou, sem uma mirada para Evie. O olhar dele estava fixo sobre o rosto de Bullard, os seus olhos muito claros e hipnóticos não largando o outro nem por um segundo. – Julguei que lhe tinha metido uma bala nos costados – disse Bullard, rudemente. Sebastian limitou-se a encolher os ombros, numa atitude desprendida: – Um ferimento sem importância… Mas diz-me, como conseguiste entrar no clube? Temos homens em todas as entradas. – P’lo depósito do carvão. Tem um respiradouro que dá direitinho a Roger ’s Lane. Ninguém sabe dele, nem sequer aquele mestiço do Rohan. Saia daqui ou eu pico-a cum’um frango no espeto!


Esta última frase resultou do facto de Sebastian ter avançado um passo. O olhar do visconde saltou para a faca que Bullard esgrimia como se intentasse cravá-la no peito de Evie. – Está bem… calma… – disse Sebastian, recuando um passo. – Eu faço o que quiseres. A voz dele era calma e amigável, conquanto pequenas bagas de suor tivessem começado a escorrer-lhe pela fronte. – Bullard… – continuou ele, em voz calma – Joss… ouve-me. Não tens nada a perder em deixarme falar. Estás entre amigos. Tudo o que a… tua irmã e eu queremos é respeitar a vontade do vosso pai em ajudar-te. Diz-me o que pretendes. Posso providenciar-te morfina para as dores… e podes ficar aqui o tempo que desejares, com uma cama confortável onde dormir… boa comida e gente para cuidar de ti. Basta dizeres-me o que queres. – Você‘tá a querer enganar-me, mas’é! – disse Bullard, desconfiado. – Não estou. Juro-to. Posso dar-te o que quiseres… A não ser que faças mal a Evie – nesse caso nada poderei fazer por ti. Enquanto ia falando, Sebastian deslocara-se devagar em direção à janela, forçando Bullard a virar-se. – Vamos, deixa-a afastar-se de ti e… – Cale-se! – gritou Bullard, irado, com uma sacudidela brusca da cabeça. Começou a tremer e largou uma espécie de grunhido: – Maldito seja este barulho nos ouvidos… – Eu posso ajudar-te – disse Sebastian, pacientemente. – Necessitas de ser medicado. E de descansar. Baixa os braços, Joss… Não é preciso magoares ninguém… Estás em casa. Baixa os braços, vamos… eu posso ajudar-te. Incrédula, Evie sentiu o braço de Bullard começar a afrouxar à medida que ouvia a voz tranquilizante de Sebastian. Ao mesmo tempo, o sinistro homem voltou-se de frente para o visconde. Um estampido ensurdecedor rasgou o ar. Evie sentiu-se libertada com uma força que a fez cambalear para trás. E teve apenas um breve instante para registar a figura de Cam à porta, baixando uma pistola fumegante. Mudando subitamente de posição, Sebastian obrigara Bullard a mover-se e a apresentar-se a Cam como um alvo limpo. Antes que Evie pudesse olhar para o monte amarfanhado no chão, sentiu-se agarrada num rodopio e esmagada contra o peito de Sebastian. Toda a tensão que ela conseguira dominar tão completamente durante aqueles minutos soltou-se repentinamente em arrepios intensos, enquanto ele a cingia violentamente contra si, agarrando-a pelas costas, pelos braços, por grandes mãos-cheias de cabelo que se soltavam dos ganchos. Ela não conseguia falar, apenas ficar ali, de pé, impotente, enquanto ele praguejava e gemia no cabelo dela. Pareceu-lhe uma eternidade antes que a sua pulsação se aproximasse do normal. – Foi a Frannie… que o alertou? – conseguiu, finalmente, proferir. Sebastian acenou afirmativamente, metendo-lhe os dedos trémulos pelo cabelo até lhe apertar a


cabeça toda entre as mãos. – Ela disse-me que havia um homem no seu quarto. Mas não o reconheceu. Virando-lhe a cabeça para trás, viu o pequeno corte que o gume da faca lhe fizera no pescoço. O seu rosto pareceu exaurir-se de cor ao ver quão perto Bullard estivera da carótida. Curvou-se para beijar a estreita marca e logo passou a boca febrilmente por todo o rosto dela. – Diabos do inferno! – murmurou. – Oh, Evie… Evie… eu não consigo suportar isto… Ela voltou-se nos braços dele para encarar Cam, que acabara justamente de lançar o seu casaco sobre a cabeça de Bullard, no intuito de esconder aquela sinistra visão. – Cam… não tinhas de o matar – murmurou ela. – Ele ia largar-me, senti-o a baixar o braço… – Pois sim, mas eu é que não tinha a certeza – disse o rapaz, num tom sem expressão. – Tive mesmo de disparar assim que o tive na mira. Isto foi dito sem o menor sentimento, mas os seus olhos brilhavam com lágrimas por verter. Evie percebeu que Cam tinha sido forçado a abater um homem que conhecera desde a infância. – Oh, Cam… – começou ela, compassiva, mas ele fez-lhe sinal para que parasse, abanando a cabeça. – Foi melhor para ele assim – disse ele, sem a olhar. – Nenhum ser humano devia ser obrigado a sofrer daquela maneira. – Sim, mas tu… – Eu estou bem – declarou ele, de maxilas cerradas. Mas não estava. A sua palidez era visível sob o tom da pele tisnada do sol e parecia tão abalado que Evie não pôde evitar aproximar-se dele e pôr-lhe os braços à volta dos ombros, numa consolação maternal. Ele permitiu o abraço – embora não o devolvesse – e gradualmente o seu tremor abrandou e ele pôde sentir a brevíssima pressão dos lábios dela no seu cabelo. Mas tornou-se desde logo evidente que aquilo era tudo o que Sebastian podia permitir. Avançando para eles, recuperou Evie por um braço e falou bruscamente para Cam: – Trata de mandar chamar o homem da casa mortuária. – Com certeza – murmurou o rapaz, hesitante. – Mas alguém há de ter ouvido o barulho lá em baixo… O disparo… Temos de ter preparada alguma explicação. – Diz-lhes que estavas a limpar uma arma que disparou acidentalmente – disse Sebastian. – Diz que ninguém se feriu e, assim que o cangalheiro chegar, trá-lo cá acima pela porta de serventia. Ah… e paga-lhe para manter a boca fechada. – Sim, my lord. Mas se algum polícia pretender investigar… – Manda-o falar comigo no meu escritório. Eu trato dele. Cam assentiu e desapareceu. Levando Evie para longe daquele cenário arrasador, Sebastian fechou a porta com a chave e guardou-a no bolso. Depois, conduziu lentamente a mulher até a um pequeno quarto de hóspedes, no


fundo do corredor. Ela deixou-se levar, meio atordoada, tentando compreender tudo o que acabara de se passar. Sebastian mantinha-se silencioso, no seu perfil duro como granito, tentando ao máximo manter a compostura. Com todos os cuidados, fê-la entrar no quarto e sentar-se na cama. – Fique aqui – disse ele. – Vou mandar-lhe uma criada para cuidar de si. E um copo de brandy – que faço questão que beba até ao fim. Evie ergueu os olhos para ele, ansiosa: – E… vem ter comigo mais tarde? Ele assentiu, com um sinal breve. – Mas antes tenho de tratar de umas coisas. Mas naquela noite não regressou ao quarto. Evie esperou-o em vão e finalmente foi para a cama sozinha. O seu sono foi interrompido por despertares frequentes, tateando, com a mão, o espaço livre entre eles, procurando o corpo quente de Sebastian. A manhã chegou por fim encontrando-a preocupada e exausta, de olhos inchados, olhando a criada que acabara de entrar para acender a lareira. – Viste Lord St. Vincent esta manhã? – perguntou Evie, abatida. – Vi sim, my lady. My lord e Mr. Rohan estiveram a pé quase toda a noite, conversando. – Vai dizer-lhe que desejo vê-lo. – Sim, my lady. A criadita pousou um jarro com água quente sobre o lavatório e saiu. Saltando da cama, Evie executou as suas abluções matinais e alisou com as mãos os caracóis ariscos do seu cabelo. Escova, pente e ganchos haviam ficado no outro quarto, onde… Estremeceu de repulsa e piedade ao recordar os acontecimentos da véspera. Consolava-a a ideia de que o pai não vivera para ver o que acontecera ao pobre Joss Bullard. Tentava imaginar quais teriam sido os seus verdadeiros sentimentos acerca do rapaz, ou sequer se alguma vez se permitiria pensar que Bullard era seu filho. – Papá… – deu por si a murmurar, olhando no espelho os seus olhos azuis. Os olhos de Ivo Jenner… Levara tantos segredos para a sepultura e deixara tanto por explicar… Evie haveria de lamentar até ao fim dos seus dias o facto de não o ter conhecido melhor. Mas consolava-a a ideia de que ele ficaria feliz por saber que o Jenner’s haveria finalmente de conquistar o nível a que ele sempre aspirara… e que fora a própria filha a provocar os acontecimentos que resultariam na gloriosa salvação do clube. No momento em que os seus pensamentos se voltavam para Sebastian, ele entrou no quarto, ainda com a mesma roupa que usara na noite anterior. O seu cabelo era uma massa desordenada de ouro e âmbar e sombras escuras velavam os seus olhos claros. Parecia exausto, mas resoluto, com a expressão de um homem que teve de tomar decisões desagradáveis, mas determinado a cumpri-las na íntegra. O olhar dele envolveu-a.


– Como se sente? Evie quis correr para ele, mas qualquer coisa na sua expressão a demoveu. Ficou parada, junto do lavatório, olhando-o com curiosidade. – Um pouco cansada. Mas não tanto como o senhor parece… A criada disse-me que passou a noite em claro, conversando com o Cam. De que é que falaram? Sebastian esfregou a base da nuca. – Ele está com dificuldades em… assimilar o que sucedeu a noite passada. Mas há de passar-lhe. Evie observava-o, indecisa, curiosa por saber por que razão estaria ele a tentar aparentar indiferença. Mas ao olhar o vulto dela em camisa de noite, Sebastian não conseguiu esconder o clarão de desejo que lhe passou pelo olhar. Aquela visão sossegou-a. – Venha ter comigo… – murmurou ela. Ao invés de obedecer, Sebastian dirigiu-se à janela, afastando-se. Em silêncio, pôs-se a contemplar a rua lá em baixo, sulcada de carruagens, e as calçadas apinhadas de peões. Perplexa perante aquele comportamento, Evie observou o contorno longo e direito das costas dele e a postura rígida dos seus ombros. Finalmente, Sebastian voltou-se para ela com uma expressão cuidadosamente fleumática. – Estou farto disto – disse ele. – A senhora aqui não está segura – foi sempre o que eu afirmei desde o início. E esta prova de que eu estava certo já é uma prova a mais. Tomei uma decisão e advirto-a, desde já, de que nada me fará mudar de ideias: a senhora vai sair daqui amanhã. Vou mandá-la para o campo, e instalá-la na propriedade da nossa família durante uma temporada. O meu pai quer conhecê-la. Não será uma companhia desagradável e há várias famílias nos arredores que poderão proporcionar-lhe alguma diversão… – E a sua intenção é permanecer aqui, presumo… – declarou Evie, de sobrolho franzido. – Evidentemente. Continuarei a dirigir o clube e… tenciono visitá-la de tempos a tempos. Sem poder crer que ele lhe estava a propor uma separação entre os dois, Evie fitou-o de olhos arregalados. – Mas… porquê? – indagou, num murmúrio. A expressão no belo rosto do visconde era inabalável. – Não posso mantê-la num sítio destes, em angústia constante pelo que lhe possa acontecer. – Também me pode acontecer sabe Deus o quê no campo! – Não vou discutir consigo, Evie – disse ele, em tom ríspido. – A senhora vai para onde eu a mandar e ponto final! A antiga Evie teria ficado ferida e intimidada – tendo provavelmente cedido sem mais objeções. Mas a nova Evie era bem mais forte… para não dizer desesperadamente apaixonada. – Não creio que consiga ficar longe de si – disse ela, num tom calmo. – Especialmente quando não entendo qual a razão. A compostura de Sebastian sofreu um golpe e uma onda de cor subiu-lhe às faces, desde o


pescoço. Passou ambas as mãos pelo cabelo, num gesto brusco que lhe descompôs ainda mais as ondas douradas. – Ultimamente tenho andado tão terrivelmente tresloucado que não me sinto capaz de tomar uma decisão sobre seja o que for… Não consigo pensar com clareza. Sinto um nó no estômago, uma dor constante no peito… e sempre que a vejo a falar com um homem – qualquer um! – ou a sorrir seja para quem for, fico louco de ciúmes! Eu não consigo viver desta maneira. Eu… – Calou-se, de repente, olhando-a com expressão incrédula: – C’os diabos, Evie, o que há nisto para a fazer sorrir?! – Nada – disse ela, engolindo à pressa aquele súbito sorriso. – É só que… parece que está a tentar dizer que me ama. A palavra pareceu chocar Sebastian. – Não! – disse ele, violentamente, ruborizando ainda mais. – Nada disso! Não é disso que estou a falar. Preciso apenas de encontrar uma maneira de… – Parou subitamente, ofegando ao vê-la aproximar-se. – Evie, não…! Percorreu-o um arrepio quando ela levou as mãos a ambos os lados do rosto dele, numa carícia quase impercetível. – Não é o que pensa… – disse ele, incoerentemente. Evie sentiu vestígios de medo na voz dele. O medo que um rapazinho certamente sentira quando as mulheres que mais amava haviam desaparecido da sua vida, varridas por uma febre impiedosa. E ela não sabia como tranquilizá-lo, como consolá-lo por aquele seu tão remoto desgosto. Em bicos de pés, ela procurou a boca dele com a sua. Ele agarrou-lhe os cotovelos, como que para empurrá-la, mas não conseguiu obrigar-se a fazê-lo. Obstinada, ela beijou-lhe as faces, as maxilas, o pescoço. – Raios a partam! – disse ele, desesperado. – Tenho de a afastar daqui. – Não está a querer proteger-me… Está a querer proteger-se a si mesmo – disse ela, agarrando-se a ele. – Mas também pode forçar-se a correr o risco de amar alguém, não pode? – Não… – murmurou ele. – Sim. Tem de o conseguir. – Evie fechou os olhos e encostou o rosto ao dele. – Porque eu amoo, Sebastian… preciso que me ame também. E não aceito meios-termos. Ela ouviu-lhe a respiração sibilando entre os dentes, as mãos agarrando-lhe os ombros para logo se retirarem. – Tem de me deixar marcar os meus próprios limites, de contrário… Evie prendeu-lhe a boca com a sua e começou a beijá-lo lentamente, deliberadamente, até o ver sucumbir com um gemido. Ele abraçou-a, respondendo ao beijo dela desesperadamente, até cada parte dela ficar acesa com um fogo terno. Finalmente, afastou a boca da dela, arquejando. – Meios-termos…! Meu Deus, eu amo-a tanto que me sinto sufocar! E não consigo defender-me deste martírio! Já não me conheço, deixei de saber quem sou. Tudo o que sei é que, se me abandonar completamente a si… – Tentou controlar uma respiração anárquica. – A Evie significa tudo para mim


– terminou ele, desalentado. Evie acariciou-lhe o peito com a palma da mão, num círculo reconfortante. Ela compreendia bem aquele desespero, aquelas emoções tão poderosas e desconhecidas para ele que o subjugavam. Recordava-se de algo que Annabelle lhe confiara: que, no início do seu casamento, Mr. Hunt experimentara uma inquietação nervosa, devida à intensidade dos seus sentimentos para com ela e tinha levado ainda algum tempo para ele se acostumar àquele novo torvelinho de emoções. – Sebastian… – arriscou ela. – Não vai ser assim para sempre, sabe? Vai parecer… mais natural, mais seguro e confortável, ao fim de uns tempos. – Eu sei que não vai. Ele parecia tão apaixonado, tão obstinado que ela se viu forçada a esconder um sorriso no ombro dele. – Eu amo-o, Sebastian… – disse, de novo, sentindo um tremor de desejo que a fez gaguejar. – Pode man-mandar-me embora, para longe de si… mas não conseguirá evitar que eu volte a correr. Quero gastar consigo todas as horas do dia… Quero vê-lo a escanhoar-se de manhã… quero beber champanhe e dançar nos seus braços. Quero dormir consigo na mesma cama… noite após noite… e ter filhos seus. Creia que eu também tenho receio… que acorde uma be-bela manhã e me diga que está farto de mim. Quem sabe se todas aquelas co-coisas que agora lhe agradam em mim… não se venham a tornar exasperantes, insuportáveis… a minha ga-gaguez, as minhas sardas… – Não diga despautérios! – interrompeu-a ele, irritado. – A sua gaguez nunca me há de incomodar, pelo contrário, considero-a encantadora… E adoro as suas sardas. Sou louco por elas… – Faltou-lhe a voz e ele agarrou-se a ela com violência. – Diabo… – murmurou ele. E após um momento, acrescentou com desespero: – Desejava tanto não ser quem sou! – Porquê? – quis saber Evie, num murmúrio abafado. – Porquê?! O meu passado é um desastre, Evie. – Isso para mim não é novidade… – Mas jamais conseguirei pagar pelas coisas que fiz. Cristo, como eu desejava poder voltar atrás! Tentaria ser um homem melhor… só para si. Queria tanto poder… – Não tem de ser em nada diferente daquilo que é – interrompeu-o ela. Erguendo a cabeça, olhouo com doçura, através do brilho das suas lágrimas. – Não foi isso que me disse em tempos? Se consegue amar-me sem condições, meu querido, não poderei eu amá-lo da mesma maneira? Sei quem é… Creio até que nos conhecemos um ao outro melhor do que nos conhecemos a nós mesmos. Não se atreva a mandar-me embora, seu co-cobarde… Quem ficaria então para gostar das minhas sardas? Quem iria preocupar-se por me sentir com os pés frios? Que outro homem haveria para me… acometer sobre a mesa de bilhar? A resistência de Sebastian refluía pouco a pouco. Evie sentiu a mudança no corpo dele, o relaxar da tensão, os ombros curvando-se à volta dela, como se pretendesse incorporá-la dentro de si. – Todo o meu amor está em si… – murmurou ele.


E nesse momento ela soube que tinha ganho. Aquele homem tão imperfeito, tão extraordinário, tão apaixonado, pertencia-lhe. Entregara-lhe totalmente o seu coração para que ela o guardasse. E seria um encargo que ela jamais trairia. Assoberbada de alívio e ternura, Evie agarrou-se a ele, sentindo deslizar uma lágrima. Sebastian limpou-a com um dedo, olhando-a intencionalmente. E o que ela viu naquele olhar cintilante cortou-lhe a respiração. – Bom… – disse ele, com voz pouco firme. – Creio que marcou um ponto, meu amor… com essa ideia da mesa de bilhar. E ela sorriu quando ele a ergueu nos braços e a levou para a cama.


Epílogo

Estava-se quase no fim do inverno. Uma vez que o período de luto de Evie coincidia com o último período de gravidez de Annabelle, ambas haviam passado juntas grande parte do tempo. Estavam as duas impedidas, pelas convenções, de participar em eventos sociais tais como bailes ou jantares de cerimónia – algo que agradava às duas, visto o tempo ter estado muito frio desde o Natal e a primavera parecer querer tardar a chegar. Ao invés de passearem pela cidade, juntavam-se diante da grande lareira na luxuosa suite de hotel dos Hunts ou, a maior parte das vezes, reuniam-se com Lillian e Daisy numa das aprazíveis salas de Marsden Terrace, a residência londrina de Lord Westcliff. Liam, tagarelavam ou dedicavam-se aos trabalhos manuais ou ao desenho, consumindo inúmeras chávenas de chá. Uma tarde, Lillian, sentada a uma escrivaninha num canto, compunha laboriosamente uma carta para uma das suas cunhadas, enquanto Daisy se reclinava num canapé, com um romance nas mãos, envolta num xaile de cachemira. Annabelle ocupara um cadeirão de braços junto à lareira flamejante, uma das mãos repousando sobre a curva impante do ventre, enquanto Evie, sentada num banquinho em frente dela, lhe massajava os pés inchados e doloridos. Estremecendo e suspirando de prazer, Annabelle murmurou: – Oh… que sensação agradável! Por que razão ninguém me alertou para o facto da gravidez fazer doer os pés desta maneira?… Embora fosse de desconfiar, com todo este peso a mais que tenho de carregar… Obrigada, minha doce Evie. É a melhor amiga do mundo. Vinda do canto, ouviu-se a voz trocista de Lillian: – Ela disse-me a mesmíssima coisa, Evie, na última vez que lhe massajei os pés. A sinceridade dos seus elogios duram apenas de uma massagem para a outra. Confesse, Annabelle, que é uma leviana… Annabelle sorriu, preguiçosamente. – Espere só até também se ver grávida. Vai suplicar a quem quer que se encontre disponível que lhe massaje os pés. Lillian abriu a boca para responder, mas pensou melhor e bebericou de um cálice de vinho que


tinha sobre a mesa. Sem tirar os olhos do seu livro, Daisy comentou: – Oh, irmãzinha, vamos… conta-lhes também. Não suporto a expectativa! Annabelle e Evie voltaram-se simultaneamente para Lillian. – Contar-nos o quê? – disseram em coro. Lillian reagiu com um rápido e embaraçado encolher de ombros, lançando às amigas um sorrisinho por cima do ombro: – Oh… lá mais para o verão, o Westcliff irá finalmente ter o seu herdeiro… – A não ser que seja uma menina – acrescentou a irmã. – Oh, Lillian… muitos parabéns! – exclamou Evie, abandonando temporariamente Annabelle para ir abraçar a amiga com exuberância. – Que boa notícia! – O Westcliff não se tem em si de felicidade, embora se esforce por não o demonstrar – disse Lillian. – Poderia apostar a cabeça em como ele está, neste preciso momento, a contar tudo a Mr. Hunt e Lord St. Vincent. Até parece acreditar que a façanha é unicamente dele. – Bom, a verdade é que a sua contribuição foi essencial, não é verdade? – comentou Annabelle, divertida. – Pois sim, mas a parte substancial do… empreendimento é obviamente minha. Do seu canto, Annabelle lançou-lhe um sorriso: – Será certamente um sucesso, minha boa amiga. Perdoe-me não ir até aí aos pulos e aos saltos, mas baste-lhe saber que me sinto verdadeiramente radiante! Espero que venha a gerar o oposto do que eu tenho aqui…para que possamos arranjar um casamento perfeito! – E mudando rapidamente para uma vozinha de mimo: – Evie… volte para aqui, sim? Não me pode deixar com um pé tratado e outro por tratar… Abanando a cabeça com um sorriso de cómica de paciência, Evie regressou para junto da amiga. Olhou para Daisy, notando-lhe a expressão pensativa que dedicava à irmã mais velha e disse: – No meio de toda esta conversa sobre maridos e bebés, não podemos esquecer-nos de encontrar um cavalheiro para Daisy. – É uma querida, Evie – disse Daisy –, mas eu não me importo de aguardar serenamente pela minha vez. Alguma de nós teria de ser a última a desencalhar-se… Se bem que comece a duvidar se alguma vez hei de encontrar o homem ideal para casar comigo. – Com certeza que esse dia chegará! – exclamou Annabelle. – Não prevejo nenhuma dificuldade, Daisy. A verdade é que alargámos consideravelmente o nosso círculo de relações e asseguro-lhe de que faremos o necessário para encontrar o marido perfeito para si. – Mas por favor… não se esqueçam de que eu não quero desposar um homem como Lord Westcliff – disse Daisy. – É demasiado autoritário para meu gosto. E ainda menos como Lord St. Vincent; esse é demasiado imprevisível. – E que tal um como Mr. Hunt? – indagou Annabelle, dengosa.


Daisy abanou a cabeça decididamente. – Demasiado alto. – A menina está a ficar demasiado exigente, não acha? – Nem pouco mais ou menos! As minhas expetativas são muito razoáveis. Quero um homem simpático que goste de livros e de longos passeios… e que seja adorado por crianças, por cães e… – … e por todas as formas superiores da vida aquática e florestal – completou a irmã por ela. – Mas diz-me cá, querida, onde vamos nós desencantar esse modelo de perfeição? – Em nenhum dos bailes onde tenho ido até agora, isso sem dúvida – disse Daisy, melancólica. – Nunca pensei que fosse possível, mas a verdade é que a seleção este ano é ainda pior do que o ano passado. Começo a acreditar que os futuros maridos dignos de o serem não serão encontrados nesse género de eventos. – Creio que tens toda a razão – observou Lillian. – Há demasiada competição nessas ocasiões – e as melhores presas já foram caçadas. Chegou a hora de caçar noutros terrenos. – A secretaria do Jenner’s tem fichas detalhadas de todos os seus membros – lembrou Evie, entusiasmada. – São aproximadamente dois mil e quinhentos cavalheiros com algo de seu! Claro que a maior parte são casados, mas estou certa de que poderia compor uma lista de vários candidatos qualificados. – E cuida que Lord St. Vincent lhe permitiria ter acesso a uma informação tão privada? – inquiriu Daisy, em tom cético. – E porventura alguma vez o viste recusar-lhe seja o que for? – zombou Lillian. Evie, que suportava frequentemente gracejos relativos à devoção óbvia que Sebastian lhe dedicava, sorriu, à luz da lareira. – Raramente… – admitiu a ruivinha. O que arrancou a Lillian uma gargalhada sarcástica. – Alguém devia avisar St. Vincent que ele se tornou num verdadeiro cliché personificado: tornouse a encarnação de tudo o que se costuma afirmar dos libertinos reconvertidos. Annabelle recostou-se no cadeirão e voltou-se para Evie: – E ele já se reconverteu completamente, querida? Pensando no marido terno, apaixonado e depravado que a esperava lá em baixo, Evie sentiu o seu sorriso alargar-se despudoradamente. – Só o bastante – replicou de mansinho. E mais não disse.


Lisa kleypas a flor da pele 03 paixão sublime  
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