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O Diรกrio Secreto da Senhorita Miranda Cheever (Bevelstoke 01)

Julia Quinn


ARGUMENTO

2 de março de 1810. . . Hoje, eu me apaixonei. Na idade de dez anos, Miranda Cheever não mostrava indícios de ser uma grande beleza. E inclusive aos dez, Miranda aprendeu a aceitar as expectativas que a sociedade tinha para ela... Até a tarde em que Nigel Bevelstoke, o bonito e charmoso visconde Turner, beijou sua mão solenemente e prometeu que um dia ela se converteria nela mesma, que um dia seria tão bela como inteligente. E inclusive aos dez anos, Miranda soube que o amaria para sempre. Turner sempre considerou Miranda como da família. Depois de um desastroso matrimônio, Turner sabe que o amor que poderia sentir foram destruídos pelas infidelidades da falecida esposa. Mas apesar de seu cinismo, Turner se surpreende ao dar‐se conta do incontrolável desejo que Miranda começa a despertar nele.


Prólogo Quando tinha dez anos, a Senhorita Miranda Cheever não mostrava sinais de grande beleza. Seu cabelo era castanho, infelizmente igual aos olhos; e suas pernas extraordinariamente longas, negavam‐se á aprender qualquer coisa que pudesse ser nem remotamente chamado graça. Sua mãe costumava comentar que definitivamente andava a pernadas pela casa. Desgraçadamente para Miranda, a sociedade em que nasceu dava grande valor à aparência feminina. E embora, só tivesse dez anos, sabia que a esse respeito era considerada inferior à maioria das outras garotas que viviam nas cercanias. As crianças sempre encontravam uma forma de inteirar‐se destas coisas: normalmente, graças a outras crianças. Na festa do décimo aniversário de Lady Olivia e o honorável Winston Bevelstoke, os dois filhos gêmeos do Conde e Condessa de Rudland, ocorreu um incidente verdadeiramente desagradável. A casa de Miranda ficava bem próxima a Haverbreaks, a velha casa dos Rudland, perto de Ambleside, no distrito dos Lagos de Cumberland, e sempre compartilhou as lições com Olivia e Winston quando estavam na residência. Converteram‐se em um trio bastante inseparável e raramente se incomodavam em brincar com outras crianças da região, muitos dos quais viviam quase à uma hora de distancia. Mas uma dúzia ou assim de vezes ao ano, especialmente nos aniversários, todas as crianças da nobreza e a alta burguesia local se reuniam. Foi por esta razão que Lady Rudland deixou escapar um grunhido nada próprio de uma dama; dezoito diabinhos estavam deixando barro após pisarem com grande regozijo por toda sua sala de estar, depois que a festa dos gêmeos no jardim foi interrompida pela chuva. —Tem barro na bochecha, Livvy — disse Miranda, elevando a mão para limpar. Olivia deixou escapar um dramático suspiro pesado. —Será melhor que vá ao banheiro, então. Não quero que mamãe me veja assim. Ela detesta sujeira, e eu detesto ouvi‐la dizendo o quanto a aborrece. —Não vejo como teria tempo para reclamar por um pouco de lama em seu rosto quando tem por todo o tapete. —Miranda olhou William Evans, que deu um grito de guerra e se lançou sobre o sofá. Apertou os lábios; ou de outra forma, sorriria.


—E os móveis. —É a mesma coisa, será melhor que faça algo com isto. Deslizou para fora do aposento, deixando Miranda perto da entrada. Miranda observou a comoção durante um minuto ou mais, muito contente de estar em seu lugar habitual como observadora, até que, pela extremidade do olho, viu que alguém se aproximava. —O que trouxe para Olivia por seu aniversário, Miranda? Miranda virou para ver Fiona Bennet diante ela, elegantemente vestida com um vestido branco com uma faixa rosa. —Um livro – respondeu. —Olivia gosta de ler. O que você trouxe? Fiona elevou uma caixa vistosamente pintada amarrada com uma fita prateada. —Uma coleção de fitas para o cabelo. Seda e cetim, muito suave. Quer ver? —OH, mas eu não gostaria de estragar a embalagem. Fiona deu de ombros. —Tudo o que tem que fazer é desfazer o laço com cuidado. Eu o faço cada Natal — deslizou o laço e levantou a tampa. Miranda conteve o fôlego. Sobre o cetim negro da caixa descansavam ao menos duas dúzias de fitas para o cabelo, todas elas requintadamente amarradas em um laço. —São lindas, Fiona. Posso ver uma? —Fiona semicerrou os olhos. —Não tenho barro nas mãos. Olhe. —Miranda sustentou as mãos no alto para que as inspecionasse. —OH, muito bem. Miranda baixou a mão e levantou uma fita violeta. O cetim parecia pecaminosamente lustroso e suave em suas mãos. Colocou o laço contra o cabelo. —O que você acha? Fiona revirou os olhos. —Violeta não, Miranda. Todo mundo sabe que fica melhor com o cabelo loiro. A cor virtualmente desaparece contra o castanho. Você obviamente não pode usar um. Miranda estendeu de volta a fita. —Que cor combina com o cabelo castanho? O verde? Minha mamãe tem o cabelo castanho e a vi usar fitas verdes. —O verde seria aceitável, suponho. Mas fica melhor com o cabelo loiro. Tudo


fica melhor com o cabelo loiro. Miranda sentiu uma faísca de indignação elevar‐se em seu interior. —Bom, então não sei o que você irá fazer então, Fiona, já que seu cabelo é tão castanho quanto o meu. Fiona retrocedeu com um ofego. —Não é! —Sim é! —Não é! Miranda se inclinou para frente, com os olhos entrecerrados de maneira ameaçadora. —É melhor que de uma olhada no espelho quando estiver em casa, Fiona, porque seu cabelo não é loiro. Fiona devolveu à fita violeta a caixa e fechou a tampa de repente. —Bom, costumava ser loiro, enquanto que o seu nunca foi. E, além disso, meu cabelo é castanho claro e todos sabem que é melhor que castanho escuro. Como o seu. —Meu cabelo castanho escuro não tem nada de mau! —protestou Miranda. Mas já sabia que a maior parte da Inglaterra estava em desacordo com ela. —E — acrescentou Fiona com malícia — tem os lábios grandes! A mão de Miranda voou até sua boca. Sabia que não era bela; sabia que nem sequer a consideravam bonitas. Mas nunca antes tinha visto nada de mal em seus lábios. Levantou a cabeça e olhou para aquela garota que sorria com satisfação. —Você tem sarda! —gritou. Fiona retrocedeu como se a tivessem esbofeteado. —As sardas somem. As minhas sumirão algum dia antes que complete os dezoito. Minha mãe põe suco de limão todas às noites. —Soprou pelo nariz com desdém. —Mas não há remédio para você, Miranda. Você é feia. —Não é! Ambas as garotas se viraram para ver Olivia, que voltava após ter se lavado. —OH, Olivia — disse Fiona. —Sei que você e Miranda são amigas porque vivem muito próximas e compartilham as lições, mas deve admitir que não seja muito bonita. Minha mamãe diz que nunca conseguirá um marido. Os olhos azuis de Olivia brilharam perigosamente. A única filha do conde de Rudland sempre foi excessivamente leal e Miranda era sua melhor amiga. —Miranda conseguirá um marido melhor que o seu Fiona Bennet! O pai


dela é um barão enquanto que o seu é um simples senhor. —Ser a filha de um barão não faz muita diferença a menos que alguém tenha beleza ou dinheiro — recitou Fiona, repetindo as palavras que obviamente ouviu em casa. —E Miranda não tem nenhum dos dois. —Cale‐se, estúpida! —exclamou Olivia, batendo o pé contra o chão. —Esta é minha festa de aniversário e se não puder ser amável, vai embora! Fiona engoliu sem seco. Sabia bem que não deveria ofender Olivia, cujos pais tinham o status mais alto da região. —Sinto muito, Olivia — murmurou. —Não se desculpe comigo. Desculpe‐se com Miranda. —Sinto muito, Miranda. Miranda ficou em silêncio até que por fim Olivia lhe deu um chute. —Aceito suas desculpas — disse a contra gosto. Fiona assentiu e saiu correndo. —Não posso acreditar que a chamou de estúpida — disse Miranda. —Tem que aprender a se defender sozinha, Miranda. —Estava me defendendo sozinha muito bem antes que você aparecesse, Livvy. Só que não em voz tão alta. Olivia suspirou. —Mamãe diz que não tenho nenhum pingo de autocontrole, nem de sentido comum. —É verdade — conveio Miranda. —Miranda! —É verdade, não tem. Mas adoro você de todas as formas. —E eu também adoro você, Miranda. E não se preocupe pela tola da Fiona. Pode se casar com Winston quando crescer e então seremos verdadeiras irmãs. Miranda olhou ao outro lado do aposento e observou receosa Winston. Estava puxando o cabelo de uma garota pequena. —Não sei — disse duvidosa. —Não estou segura de querer me casar com Winston. —Tolices. Seria perfeito. Além disso, olhe, acaba de derramar ponche em cima do vestido da Fiona. Miranda sorriu abertamente.


—Venha comigo — disse Olivia, agarrando pela mão. —Quero abrir meus presentes. Prometo que gritarei mais forte quando chegar o seu. As duas garotas caminharam de volta ao aposento e Olivia e Winston abriram os presentes. Felizmente, na opinião de Lady Rudland, terminou as quatro em ponto, à hora em que as crianças deveriam voltar para casa. Nenhum menino foi recolhido por serventes; um convite a Haverbreaks era considerado uma grande honra, e nenhum dos pais queriam perder a oportunidade de acotovelar‐se com o conde e a condessa. Nenhum pai, exceto o de Miranda. As cinco ainda estavam na sala, avaliando os presentes de aniversário com Olivia. —Não posso imaginar o que terá ocorrido aos seus pais, Miranda — disse Lady Rudland. —OH, eu sim — replicou Miranda jovialmente. —Mamãe foi a Escócia visitar a mãe dela e estou segura de que papai se esqueceu de mim. Faz frequentemente, sabe? Quando está escrevendo um manuscrito. Ele faz traduções do Grego. —Eu sei — sorriu Lady Rudland. —Grego antigo. —Sim — disse Lady Rudland com um suspiro. Aquela não era a primeira vez que Sir Rupert Cheever perdia a filha. —Bom, terá que ir para casa de alguma forma. —Irei com ela — sugeriu Olivia. —Você e Winston precisam guardar seus novos brinquedos e escrever as notas de agradecimento. Se não o fizerem esta noite, não recordarão quem lhes deu o que. —Mas não pode mandar Miranda para casa com um criado. Não terá ninguém com quem conversar. —Posso falar com o criado — disse Miranda. —Sempre falo com eles em casa. —Não com os nossos — sussurrou Olivia. —São estirados e calados e sempre me olham com desaprovação. —A maior parte do tempo merece ser olhada assim. —Interpôs Lady Rudland,


dando a filha um carinhoso tapinha na cabeça. —Faremos um acordo, Miranda. Por que não fazemos que Nigel a leve para casa? —Nigel! —chiou Olivia. —Miranda, que sorte. Miranda elevou as sobrancelhas. Não conhecia o irmão mais velho de Olivia. —De acordo — disse lentamente. —Eu gostaria de finalmente conhecê‐lo. Fala dele tão frequentemente, Olivia. Lady Rudland mandou que uma criada fosse chamá‐lo. —Não o conhece, Miranda? Que estranho. Bom, suponho que só costuma vir no natal e você sempre está na Escócia durante as férias. Tive que ameaçar deserdá‐lo para conseguir que viesse ao aniversário dos gêmeos. Entretanto, não participou da festa por medo de que uma das mães tentasse casá‐lo com uma menina de dez anos. —Nigel tem dezenove e é muito desejável. —Disse Olivia prática. —É um visconde. E é muito atraente. Parece‐se comigo. —Olivia! —disse Lady Rudland com reprovação. —Bom, é assim, mamãe. Eu seria muito atraente se fosse um menino. —Você é bastante bonita sendo garota, Livvy. —Disse Miranda leal, olhando os cachos loiros da amiga com um pingo de inveja. —Igual a você. Toma, pegue um dos laços da tola da Fiona. De todas as formas, não preciso de todos. Miranda sorriu ante aquela mentira. Olivia era uma boa amiga. Olhou às fitas e teimosa, escolheu o de cetim violeta. —Obrigado, Livvy. Porei isso para a aula da segunda‐feira. —Chamou mãe? Ante o som da grave voz, Miranda virou o rosto para a entrada e quase ofegou. Ali estava a criatura mais esplêndida que tinha contemplado. Olivia disse que Nigel tinha dezenove anos, mas Miranda o reconheceu imediatamente como o homem que realmente seria. Seus ombros eram maravilhosamente largos e o resto dele era esbelto e firme. Tinha o cabelo tão escuro como o de Olivia, mas com reflexos dourados, dando mostras do tempo passado sob o sol. Mas a melhor parte decidiu imediatamente Miranda, eram seus olhos, de um brilhante azul claro, como os de Olivia. Também brilhavam com malicia.


Miranda sorriu. Sua mãe sempre dizia que alguém podia conhecer uma pessoa pelos olhos e o irmão de Olivia tinha bons olhos. —Nigel, poderia, por favor, escoltar Miranda para casa? —perguntou Lady Rudland. —O pai dela parece ter se entretido. Miranda se perguntou por que ele fez uma careta quando a mãe falou o nome dele. —Claro que sim mamãe. Olivia teve uma boa festa? —Magnífica. —Onde está Winston? Olivia deu um encolher de ombros. —Está lá fora brincando com o sabre que Billy Evans lhe deu de presente. —De mentira, espero. —Que Deus nos ajude se fosse. —Adicionou Lady Rudland. —De acordo, Miranda, hora de ir para casa. Acredito que sua capa está no aposento do lado. Desapareceu através da entrada e emergiu segundo depois com o prático casaco de Miranda. —Podemos ir, Miranda? —A criatura com aparência de um deus lhe estendeu a mão. Miranda se encolheu dentro de seu casaco e colocou a mão sobre a dele. Era o paraíso! —A verei na segunda‐feira! —gritou Olivia. —E não se preocupe pelo que Fiona disse. Só é uma estúpida. —Olivia! —Bom, é que o é, mamãe. Não quero que volte. Miranda sorriu enquanto permitia ao irmão de Olivia guiá‐la para o vestíbulo, as vozes de Olivia e Lady Rudland foram se apagando lentamente. —Muito obrigada por me levar para casa, Nigel — disse brandamente. Ele voltou a fazer uma careta. —S... Sinto muito — disse rapidamente. —Devia ter dito milord, não é? É só que Olivia e Winston sempre se referem a você por seu nome e eu... —Baixou os olhos tristes para o chão. Só estava ha dois minutos em sua esplêndida companhia, e já havia metido os


pés pelas mãos. Ele se deteve e se agachou para que ela pudesse ver seu rosto. —Não se preocupe pelo "milord", Miranda. Direi um segredo. Os olhos de Miranda aumentaram e esqueceu respirar. —Desprezo meu nome de batismo. —Isso não é tão segredo, Nig... Quero dizer, milord, digo, como é que deseja ser chamado? Faz careta cada vez que sua mãe o diz. Ele sorriu. Sentiu um aperto no coração quando viu aquela garota com expressão muito séria brincando com sua indomável irmã. Era uma pequena criatura de aspecto gracioso, mas havia algo verdadeiramente adorável em seus grandes e comoventes olhos castanhos. —Como o chamam? —perguntou Miranda. Ele sorriu ante seu modo direto. —Turner. Por um momento, acreditou que ela talvez não respondesse. Simplesmente ficou ali, totalmente quieta à exceção do piscar de seus olhos. E então, como se tivesse chegado por fim a uma conclusão, disse: —É um nome agradável. Um pouco estranho, mas eu gosto. —É muito melhor que Nigel, não acha? Miranda assentiu. —Você escolheu? Sempre acreditei que as pessoas deveriam escolher seus próprios nomes. Acredito que muitos escolheriam diferente ao que têm. —E qual você escolheria? —Não estou segura, mas não seria Miranda. Algo mais singelo, eu acredito. As pessoas esperam coisas diferentes de uma Miranda e quase sempre os decepciono quando me conhecem. —Tolices — disse Turner energicamente. —É uma Miranda perfeita. Ela sorriu radiante. —Obrigada, Turner. Posso chamá‐lo assim? —É obvio. E não o escolhi, receio. É só um título de cortesia. Visconde Turner. O uso ao invés de Nigel desde que fui a Eton. —OH. Creio que combina com você. —Obrigado — disse ele gravemente, completamente enfeitiçado por aquela séria menina. —Agora, me dê de novo à mão e poderemos seguir caminho. Ele levantou a mão para ela. Miranda rapidamente trocou a fita da mão direita à esquerda.


—O que é isso? —Isto? OH, uma fita para o cabelo. Fiona Bennet deu de presente duas dúzias a Olivia e Olivia disse que poderia ficar com uma. Os olhos de Turner se entrecerraram ligeiramente quando recordou as últimas palavras de Olivia. “Não se preocupe pelo que Fiona disse”. Tirou a fita da mão dela. —As fitas são para os cabelos, acredito. —OH, mas não combina com o vestido — disse Miranda em um frágil protesto. Ele já a tinha colocado no alto de sua cabeça. —Que tal está? —sussurrou ela. —Esplêndido. —De verdade? — aumentou os olhos duvidosos. —Sério. Sempre pensei que as fitas violetas brilhavam especialmente bem com o cabelo castanho. Miranda se apaixonou ali mesmo. O sentimento foi tão intenso que quase se esqueceu de agradecer pelo elogio. —Vamos? —disse ele. Ela assentiu, sem confiar em sua voz. Saíram da casa e foram aos estábulos. —Acredito que teremos que ir a cavalo — disse Turner. —Faz um dia muito bom para ir de carruagem. Miranda voltou a assentir. Fazia um dia anormalmente quente para março. —Pode pegar o pônei de Olivia. Estou segura de que não se importará. —Livvy não tem um pônei — disse Miranda, encontrando por fim a voz. Agora tem uma égua. Eu também tenho uma em casa. Não somos bebê, sabe? Turner conteve um sorriso. —Não, já vejo que não. Que tolo da minha parte. Não estava pensando. Poucos minutos depois, os cavalos estavam selados e se colocaram em marcha para o caminho de quinze minutos até a casa dos Cheever. Miranda permaneceu em silêncio o primeiro minuto ou algo assim, muito perfeitamente feliz para estragar o momento com palavras. —Foi boa a festa? —perguntou finalmente Turner. —OH, sim. A maior parte foi encantadora. —A maior parte?


Viu‐a fazer uma careta. Era óbvio que se arrependia de ter dito muito. —Bom — disse com lentidão, capturando o lábio entre os dentes e logo o soltando antes de continuar — uma das garotas me disse algumas coisas desagradáveis. —Sim? Sabia que não devia ser muito curioso. E obviamente, estava certo, porque quando Miranda falou, recordou um pouco a sua irmã, olhando‐o com olhos francos enquanto as palavras saíam com firmeza de sua boca. —Foi Fiona Bennet — disse, com grande aversão — e Olivia a chamou de estúpida, e devo dizer que não sinto que o tenha feito. Turner manteve a expressão apropriadamente grave. —Eu tampouco, se Fiona disse coisas desagradáveis de você. —Sei que não sou bonita — soltou Miranda. —Mas é descortês dizê‐lo, sem mencionar que é claramente malvado. Turner a olhou durante um longo momento, não de todo seguro de como consolar à pequena. Não era bela, isso era verdade, e se tentasse lhe dizer que era ela não acreditaria. Mas não era feia. Simplesmente era... Um pouco... Elegante. Salvou‐se, entretanto, de ter que dizer algo devido ao seguinte comentário de Miranda. —Acredito que é este cabelo castanho. Ele elevou as sobrancelhas. —Não está na moda — explicou Miranda. —E tampouco meus olhos castanhos. Sou muito magra e meu rosto é muito longo, e também sou muito pálida. —Bom isso é verdade — disse Turner. Miranda virou para olhá‐lo, os olhos grandes e tristes no rosto. —Certamente tem os olhos e o cabelo castanhos. Não há como dizer o contrário. —Inclinou a cabeça e fingiu examiná‐la completamente. —É magra, e seu rosto é de fato um pouco longo. E definitivamente é pálida. Os lábios tremeram e Turner não pôde mais brincar com ela. —Mas acontece — disse com um sorriso — que eu mesmo prefiro as mulheres com o cabelo e os olhos castanhos. —Não é verdade! —É sim. Sempre preferi. Também gosto das magras e pálidas. Miranda o olhou com receio.


—E o rosto longo? —Bem, devo admitir que nunca pense muito nisso, mas com certeza não me importa um rosto longo. —Fiona Bennet disse que tenho os lábios grandes — disse quase desafiante. Turner engoliu um sorriso. Ela suspirou pesadamente. —Nunca me dei conta de que tinha os lábios grandes. —Não são tão grandes. Ela lançou um olhar receoso. —Só diz isso para que eu me sinta melhor. —Na realidade sim que quero que se sinta melhor, mas não o digo por isso. Ea próxima vez que Fiona Bennet diga que tem os lábios grandes, diga a ela que se engana. Que tem os lábios cheios. —Qual é a diferença? –o olhou impaciente, com seus escuros olhos sérios. Turner respirou fundo. —Bom — andou com rodeios. —Os lábios grandes não são atraentes. Os cheios sim. —OH. —Aquilo pareceu satisfazê‐la. —Fiona tem os lábios finos. —Os lábios cheios são muito melhores que os finos — disse Turner enfaticamente. Gostava muito daquela divertida pequena e queria fazê‐la sentir‐se melhor. —Por quê? Turner ofereceu uma silenciosa desculpa aos deuses da etiqueta e o decoro antes de responder: —Os lábios cheios são melhores para beijar. —OH. —Miranda ruborizou, e logo sorriu. —Bem. Turner se sentiu absurdamente feliz, consigo mesmo. —Sabe o que penso Senhorita Miranda Cheever? —O que? —Acredito que só precisa crescer — arrependeu‐se no mesmo minuto em que disse. Certamente lhe perguntaria o que queria dizer, e não tinha nem ideia do que responder. Mas a precoce pequena simplesmente inclinou a cabeça a um lado enquanto sopesava sua declaração. —Espero que tenha razão — disse por fim. —Olhe só minhas pernas. Uma discreta tosse mascarou a risada que brotou da garganta de Turner. —O que quer dizer?


—Bom, são muito longas também. Mamãe sempre diz que começam nos ombros. —Parece que começam apropriadamente em sua cintura. Miranda riu como uma menina. —Dizia‐o metaforicamente. Turner piscou. Aquela menina de dez anos tinha de fato um vocabulário extenso. —O que quero dizer – continuou — é que minhas pernas têm um tamanho equivocado comparadas com o resto de mim. Creio que é por isso que não posso aprender a dançar. Sempre estou pisando nos pés de Olivia. —Os pés de Olivia? —Praticamos juntas — explicou Miranda com energia. —Acredito que se o resto de meu corpo fosse igual as minhas pernas não seriam tão lerdas. Então creio que tem razão. Tenho que crescer. —Esplêndido — disse Turner, dando‐se conta com felicidade de que de algum jeito pode dizer exatamente o adequado. —Bem, parece que chegamos. Miranda elevou a vista para a casa cinza de pedra que era seu lar. Estava localizada em uma das muitas ruas que conectava aos distritos dos lagos, e as pessoas tinham que cruzar por uma pequena ponte empedrada para chegar à porta principal. —Muito obrigada por me trazer para casa, Turner. Prometo que nunca o chamarei de Nigel. —Também promete beliscar Olivia se me chamar de Nigel? Miranda soltou um risinho e colocou a mão na boca. Assentiu. Turner desmontou e então se virou para a pequena e a ajudou a desmontar. —Sabe o que acredito que deveria fazer Miranda? —disse de repente. —O que? —Acredito que deveria fazer um diário. Ela piscou surpreendida. —Por quê? Quem ia querer lê‐lo? —Ninguém, tola. Para você mesma. E talvez algum dia, depois que morra, seus netos o lerão e saberão como foi quando era jovem. Ela inclinou a cabeça. —O que acontece se não tiver netos? Turner elevou a mão, impulsivo e a despenteou. —Faz muitas perguntas, gatinha. —Mas o que acontecerá se não tiver netos? Deus era persistente.


—Talvez seja famosa. –Suspirou. —E as crianças que a estudem na escola irão querer saber coisas sobre você. Miranda lançou um dúbio olhar. —OH, muito bem, quer saber a verdadeira razão de por que acredito que deveria ter um diário? Ela assentiu. —Porque algum dia vai crescer e será tão bonita como já é. E então poderá olhar para trás em seu diário e se dar conta de quão tolas são as meninas pequenas como Fiona Bennet. E rirá quando recordar a sua mãe dizendo que suas pernas começam nos ombros. E talvez me guarde um pequeno sorriso quando recordar a agradável conversa que tivemos hoje. Miranda o olhou, pensando que devia ser um daqueles deuses gregos sobre os que seu pai sempre lia. —Sabe o que acredito? –sussurrou. —Acredito que Olivia é muito afortunada de te ter como irmão. —E eu acredito que é muito afortunada ao tê‐la como amiga. Os lábios de Miranda tremeram. —Guardarei um grande, grande sorriso para você, Turner — sussurrou. Ele se inclinou e beijou graciosamente o dorso da mão dela como se fosse à dama mais bela de Londres. —Se ocupe de que assim seja, gatinha. Sorriu e assentiu antes de subir ao cavalo, levando a égua de Olivia atrás. Miranda o olhou até que desapareceu depois do horizonte e logo ficou olhando durante uns bons dez minutos mais. Mais tarde aquela noite, Miranda entrou no estúdio de seu pai. Este estava inclinado sobre um texto, inconsciente da cera da vela que jorrava sobre a escrivaninha. —Papai, quantas vezes tenho que te dizer que vigie as velas? —suspirou e pôs a vela em seu suporte adequado. —O que? OH, querida. —E necessita mais de uma. Está muito escuro aqui para ler. —Sim? Não tinha me dado conta. —Piscou e semicerrou os olhos. —Não passou já á hora de ir à cama? —A babá diz que podia ficar acordada meia hora mais esta noite. —Sim? Bem, o que ela diga então. —Inclinou‐se sobre o manuscrito outra vez,


despachando‐a efetivamente. —Papai? Ele suspirou. —O que foi Miranda? —Tem um caderno sobrando? Como os que usam quando está traduzindo, mas antes que copie o rascunho final? —Creio que sim. —Abriu a última gaveta da escrivaninha e remexeu nela. — Aqui. Mas o que deseja fazer com ele? É um caderno de qualidade, sabe? E não um barato. —Vou escrever um diário. —Agora? Bem, suponho que é um esforço elogiável. —Estendeu o caderno. Miranda sorriu radiante ante o elogio de seu pai. —Obrigada. Deixarei saber quando acabar o espaço e necessite outro. —De acordo, então. Boa noite, querida. —Voltou para seus papéis. Miranda abraçou o caderno contra o peito e correu escada acima para seu quarto. Tirou um pote de tinta e uma pluma e abriu o caderno na primeira página. Escreveu a data, e depois de muito pensar, escreveu uma única frase. Parecia ser tudo o necessário. 2 de Março de 1810 Hoje me apaixonei.

CAPÍTULO 1

Nigel Bevelstoke, mais conhecido como Turner por todo aquele que se preocupava em tentar agradá‐lo, sabia muitas coisas. Sabia ler latim e grego, e sabia como seduzir uma mulher em francês e italiano. Sabia atirar em um objetivo em movimento do alto de um cavalo em movimento, e sabia exatamente quanto podia beber antes de perder a dignidade. Podia dar um soco ou defender‐se como um perito, e podia fazer ambos enquanto recitava Shakespeare ou Donne. Resumindo, sabia tudo o que um cavalheiro tinha que saber, e, conforme se dizia, sobressaía‐se em todas as áreas. As pessoas o olhavam. As pessoas elevavam os olhos para observá‐lo.


Mas nada nem um segundo de sua proeminente e privilegiada vida o preparou para aquele momento. E nunca sentiu tanto o peso de um olhar como agora, enquanto dava um passo à frente e jogava um pouco de terra sobre o caixão de sua esposa. Sinto tanto, seguia dizendo as pessoas. Sinto muito. Sentimos muito. E enquanto isso, Turner não podia evitar pensar se Deus o castigaria, porque tudo no que podia pensar era: Eu não. Ah, Letícia. Tinha tanto que agradecer a ela. Vejamos. Por onde começar? É obvio, estava a perda de sua reputação. Só o demônio sabia quantas pessoas eram conscientes de que lhe pôs chifres. Várias vezes. Em seguida estava a perda de sua inocência. Era difícil recordar nesse momento, mas uma vez tinha dado à humanidade o benefício da dúvida. Em geral, acreditou no melhor das pessoas, que se tratassem os outros com honra e respeito, eles fariam o mesmo com relação a ele. E logo havia a perda de sua alma. Porque enquanto retrocedia, juntando as mãos rigidamente atrás dele enquanto escutava o sacerdote enviar o corpo de Letícia ao chão, não podia escapar do fato de que desejou aquilo. Quis livrar‐se dela. E não choraria sua morte. —É uma pena — sussurrou alguém a suas costas. A mandíbula de Turner se contraiu. Aquilo não era uma pena. Era uma farsa. E agora passaria o próximo ano vestindo‐se de preto por uma mulher que chegou a ele levando o filho de outro homem. Tinha enfeitiçado‐o, atormentado até que não pode pensar em outra coisa que não fosse possuí‐la. Disse que o queria, e sorriu com suave inocência e deleite quando ele declarou sua devoção e prometeu sua alma. Ela tinha sido seu sonho. E mais tarde seu pesadelo. Perdeu o bebê, que apressou o matrimônio. O pai era um conde italiano, ou ao menos era o que Letícia dizia. Estava casado, ou eram pouco convenientes ou talvez ambas as coisas. Turner esteve preparado para perdoá‐la; todos cometiam erros, e não quis ele também seduzi‐la antes da noite de núpcias? Mas Letícia não quis seu amor. Não sabia que demônio queria, poder, talvez,


a embriagadora sensação de satisfação quando outro homem caía sob seu feitiço. Turner se perguntava se Letícia havia sentido isso quando ele sucumbiu. Ou talvez tenha sido simplesmente alívio. Estava grávida de três meses quando se casaram. Não tinha tempo que perder. E agora aqui estava ela. Ou bem, ali estava ela. Turner não estava muito seguro de que pronome de lugar era mais adequado para um corpo sem vida. O que fosse. Só lamentava que ela passasse a eternidade em seu solo, descansando entre os Bevelstoke passados. Sua lápide levaria o nome dele, e em umas centenas de anos, alguém olharia a gravura no granito e pensaria que foi uma boa mulher, e que era uma tragédia que tivesse morrido tão jovem. Turner elevou a vista para o sacerdote. Era um tipo jovem, novo na paróquia e pelo que se dizia ainda convencido de que poderia fazer do mundo um lugar melhor. —Cinzas as cinzas — disse o sacerdote, e elevou os olhos para o homem que se supunha ser o aflito viúvo. OH sim, pensou Turner mordaz, esse seria eu. —Pó ao pó. Atrás dele até alguém sorveu com ruído. E o sacerdote, seus brilhantes olhos azuis com aquele horrível e imerecido brilho de simpatia, seguiu falando: —Confiando na ressurreição... Bom Deus. —Á vida eterna. O sacerdote olhou Turner e de fato estremeceu. Turner se perguntou o que era exatamente o que viu em seu rosto. Nada bom isso estava claro. Houve um coro de améns, e nesse momento terminou o serviço. Todos olharam o sacerdote, e olharam Turner e em seguida todos observaram o sacerdote segurar as mãos de Turner nas suas e dizer: —Sentimos muito. —Eu —disse Turner entre os dentes apertados — não. Não posso acreditar que disse isso. **** Miranda baixou a vista às palavras que acaba de escrever. Naquele


momento, estava na página quarenta e dois de seu décimo terceiro diário, mas aquela era a primeira vez, a primeira desde aquele fatídico dia, nove anos antes, que não tinha nem ideia do que escrever. Inclusive quando os dias eram aborrecidos, e estavam acostumados a ser, conseguia escrever apressadamente uma anotação. Em Maio, quando tinha quatorze anos... Despertei. Vesti‐me. Tomei o café da manhã: torradas, ovos, bacon. Li Razão e sensibilidade , autor, dama desconhecida. Escondi Razão e sensibilidade do meu pai. Comi: frango, pão, queijo. Conjuguei verbos franceses. Escrevi uma carta à vovó. Jantei: bife, sopa, pudim. Li mais de Razão e sensibilidade , a identidade da autora ainda desconhecida. Retirei‐me. Dormi. Sonhei com ele. Este não devia confundir‐se com a anotação de 12 de Novembro do mesmo ano... Despertei. Tomei o café da manhã: ovos, torradas, presunto. Fiz um grande alarde de leitura da tragédia grega. Em vão. Passei a maior parte do tempo olhando pela janela. Almocei: peixe, pão, ervilhas. Conjuguei os verbos em Latim. Escrevi uma carta à vovó. Jantei: assado, batatas, pudim. Levei a tragédia à mesa (o livro, não o evento) Papai não se deu conta. Retirei‐me. Dormi. Sonhei com ele. Mas agora, agora que algo enorme e transcendental ocorreu, o que nunca havia acontecido, não tinha nada a dizer, exceto...


Não posso acreditar que disse isso. —Bem, Miranda — murmurou, observando a tinta seca na ponta da pluma — não será famosa como novelista. —O que disse? Miranda fechou de repente o diário. Não se deu conta de que Olivia havia entrado no quarto. —Nada — disse com rapidez. Olivia caminhou pelo tapete e se deixou cair sobre a cama. —Que dia tão horrível. Miranda assentiu, girando no assento para poder estar de cara com a amiga. —Alegra‐me que esteja aqui — disse Olivia com um suspiro. — Obrigada por ficar o resto da noite. —É obvio — replicou Miranda. Não houve perguntas, não quando Olivia disse que precisava dela. —O que escreve? Miranda olhou o diário, só para dar‐se conta de que suas mãos descansavam protetoras sobre ele. —Nada — disse. Olivia tinha estado com os olhos fixos no teto, mas ante isso moveu a cabeça em direção a Miranda. —Isso não pode ser verdade. —Tristemente, é. —Por que é triste? Miranda piscou. Olivia estava acostumada fazer as perguntas mais óbvias, e as que tinham respostas menos óbvias. —Bom — disse Miranda, não precisamente para ganhar tempo, já que na realidade, era mais porque estava tentando pensar enquanto o fazia. Moveu as mãos e olhou o diário como se a resposta correta estivesse magicamente inscrita na capa. —Isto é tudo o que tenho. É o que sou. Olivia a olhou duvidosa. —É um livro. —É minha vida. —Por que será —opinou Olivia— que as pessoas me chamam de dramática? —Não digo que seja minha vida — disse Miranda com um tom de impaciência, — só que a contém. Tudo. Tenho escrito tudo. Desde que tinha dez anos. —Tudo?


Miranda pensou nos muitos dias em que registrou obedientemente o que comeu e pouco mais. —Tudo. —Eu nunca poderia ter um diário. —Não. Olivia virou e ficou de lado, escorando a cabeça com uma mão. —Não tem por que estar de acordo comigo com tanta rapidez. Miranda simplesmente sorriu. Olivia se deixou cair para trás. —Creio que vai escrever que tenho um curto lapso de atenção. —Já escrevi. Silêncio, então: —Sério? —Acredito que disse que se aborrecia com facilidade. —Bom — replicou sua amiga, com um único momento de reflexão — é bastante certo. Miranda voltou a baixar o olhar à escrivaninha. A vela derramava brilhos de luz sobre o secante, e se sentiu repentinamente cansada. Cansada, mas felizmente, não sonolenta. Esgotada, talvez. Intranquila. —Estou exausta — declarou Olivia, deslizando para fora da cama. A criada havia deixado a roupa de dormir sobre as mantas e Miranda virou a cabeça respeitosamente enquanto Olivia se trocava. —Quanto tempo acha que Turner ficará aqui? —perguntou Miranda, tentando não morder a língua. Odiava ficar ainda tão desesperada por vê‐lo embora fosse fugazmente, mas assim foi durante anos. Inclusive quando ele se casou e ela se sentou em um banco da igreja durante o casamento e o observou, quer dizer, o viu olhar a noiva com todo o amor e a devoção que ardiam em seu próprio coração... Ainda o olhava. Ainda o queria. Sempre o faria. Era o homem que a fez acreditar em si mesma. Ele não tinha nem ideia do que lhe fez — o que fez por ela— e provavelmente não saberia nunca. Mas Miranda ainda suspirava por ele. E provavelmente suspiraria sempre. Olivia engatinhou para cama. —Ficará acordada por muito tempo? —perguntou, a voz pesada pelo inicio do torpor. —Não muito. —Assegurou Miranda.


Olivia não podia dormir com uma vela acesa tão perto. Miranda não podia entender, já que o fogo da lareira não parecia incomodá‐la, mas viu Olivia se mexer e virar com seus próprios olhos, e por isso, quando se deu conta de que sua mente estava ainda funcionando e que "não muito" tinha sido um pouco mentiroso. Inclinou‐se para frente e soprou a vela. —Levarei isto a outro lugar — disse Miranda, colocando o diário sob o braço. —Obrigada — murmurou Olivia, e no momento em que Miranda lhe pôs uma coberta e chegou ao corredor, já estava dormindo. Miranda segurou o diário sob o queixo e o encaixou contra o esterno para liberar as mãos e poder amarrar o roupão à cintura. Era uma convidada noturna frequente em Haverbreaks, mas ainda assim, não era questão de vagar pelos corredores da casa de outra pessoa com nada mais que uma camisola. Era uma noite escura, como única guia tinha a luz da lua que se filtrava através das janelas, mas Miranda poderia ter feito o caminho do quarto de Olivia até a biblioteca com os olhos fechados. Olivia sempre dormia antes que ela — tinha muitos pensamentos na cabeça, dizia Olivia— e por isso Miranda estava acostumada a levar o diário a outro aposento para guardar seus pensamentos. Supunha que poderia ter pedido um quarto para ela, mas a mãe de Olivia não acreditava em extravagâncias desnecessárias e não via razão para esquentar dois quartos quando com um era suficiente. Miranda não se importava. De fato, agradecia a companhia. Sua própria casa estava muito silenciosa aqueles dias. Sua querida mãe tinha morrido fazia quase um ano e Miranda ficou sozinha com o pai. Devido à dor, seu pai se trancou com os preciosos manuscritos, deixando que a filha se arrumasse por conta própria. Miranda foi aos Bevelstoke em busca de amor e amizade, e eles a acolheram com os braços abertos. Olivia inclusive se vestiu de negro durante três semanas em honra à Lady Cheever. —Se uma de minhas primas morresse me veria obrigada a fazer o mesmo — disse Olivia no funeral— E de verdade, gostava da sua mãe muito mais que a qualquer de minhas primas. —Olivia! —Miranda estava comovida, mas ainda assim, pensou que deveria estar surpreendida. Olivia revirou os olhos. —Conheceu minhas primas? E Miranda riu. No funeral de sua própria mãe, riu. Mais tarde se deu conta de


que era o presente mais precioso que sua amiga poderia ter lhe devotado. —Amo você, Livvy — disse. Olivia segurou a mão dela. —Sei que sim — disse brandamente. — E eu a você. – Em seguida ajeitou os ombros e assumido sua postura usual. — Seria bastante incorrigível sem você, sabe? Minha mãe costuma‐me dizer que é a única razão pela qual não cometi alguma ofensa irredimível. Era provavelmente por essa razão, refletiu Miranda, que Lady Rudland se ofereceu para ser sua madrinha durante a temporada em Londres. Ao receber o convite, seu pai suspirou com alívio e adiantou com rapidez os recursos necessários. Sir Rupert Cheever não era um homem excepcionalmente rico, mas possuía o suficiente para cobrir uma temporada em Londres para sua única filha. O que não possuía era a paciência necessária — ou para ser franca, o interesse — para levá‐la ele mesmo. A estréia de Miranda e Olivia se atrasou um ano. Miranda não pôde ir durante o período de luto de sua mãe, e Lady Rudland decidiu permitir a Olivia esperar também. Com vinte anos o fariam tão bem como com dezenove, declarou. E era verdade; ninguém estava preocupado se Olivia conseguiria um grande partido. Com sua incrível beleza, vivaz personalidade, e, como Olivia assinalava ironicamente, o enorme dote, estavam seguros de que teria êxito. Mas a morte da Letícia, além de ter sido trágica, foi particularmente inoportuna; agora teriam que guardar outro período de luto. Entretanto, a Olivia bastaria apenas seis semanas, já que Letícia não era irmã de sangue. Chegariam só um pouco tarde para a temporada. Não podia evitar. Secretamente, Miranda estava contente. Pensar em um baile em Londres a atemorizava completamente. Não porque fosse tímida precisamente, porque não achava que fosse. Era só que não gostava de grandes multidões e pensar em tantas pessoas olhando‐a e julgando‐a horrível. Não se pode evitar, pensou enquanto descia as escadas. E em todo caso, seria ainda pior ficar presa em Ambleside, sem Olivia como companhia. Miranda fez uma pausa ao pé das escadas, decidindo aonde ir. O salão ao oeste tinha a melhor escrivaninha, mas a biblioteca tendia a estar quente e fazia um pouco de frio aquela noite. Por outro lado... — Hmmm... O que foi isso?


Inclinou‐se para um lado, esquadrinhando o salão. Alguém estava com o fogo aceso no estúdio de Lorde Rudland. Miranda não podia imaginar que alguém estivesse ainda levantado e por aí, os Bevelstoke sempre se retiravam cedo. Moveu‐se em silencio pelo tapete do corredor até que chegou à porta. —OH! Turner elevou a vista da cadeira do pai. —Senhorita Miranda — disse alargando as palavras, sem reajustar nem um músculo de sua preguiçosa postura. — Quelle surprise. Turner não estava seguro de por que não estava surpreso de ver a senhorita Miranda Cheever de pé na entrada do estúdio de seu pai. Quando ouviu os passos no vestíbulo, de algum jeito soube que era ela. É verdade que sua família tinha tendência a dormir como troncos, e era quase inconcebível que um deles pudesse estar acordado e por aí, perambulando pelos corredores em busca de um aperitivo ou um pouco de leitura. Mas foi algo mais que o processo de eliminação o que o conduziu até Miranda como a escolha óbvia. Ela era uma observadora, sempre ali, sempre observando a cena com aqueles olhos de coruja. Não podia recordar quando a viu pela primeira vez, provavelmente antes que a mocinha deixasse de usar laços. Na realidade era um elemento fixo, de alguma forma sempre ali, inclusive em momentos como esse, que deveria ter sido só familiar. —Irei — disse ela. —Não — respondeu ele, por que... Por quê? Porque se sentia como se estivesse fazendo uma travessura? Porque tinha bebido muito? Porque não queria ficar sozinho? —Fique — disse, fazendo amplos gestos com a mão. Certamente havia algum lugar mais onde sentar‐se ali. — Tome algo. Ela arregalou os olhos. —Não acredito que pudessem ficar maiores — murmurou ele. —Não posso beber — disse ela. —Não? —Não deveria — corrigiu‐se, e ele acreditou ver como juntava as sobrancelhas. Deus, a irritou. Era bom saber que ainda podia provocar uma mulher, inclusive


uma ignorante como ela. —Está aqui — disse ele com um encolhimento de ombros. — Bem poderia tomar um brandy. Ficou quieta por um momento, e ele pôde jurar que podia ouvir como lhe dava voltas o cérebro. Finalmente, deixou o pequeno livro em uma mesa perto da porta e se adiantou. —Só um — disse. Ele sorriu. —Porque conhece seu limite? Os olhos de ambos se encontraram. —Porque não conheço meu limite. —Que sabedoria em alguém tão jovem — murmurou ele. —Tenho dezenove — disse ela, não desafiante, mas sim como estabelecendo um fato. Ele elevou uma sobrancelha. —Como dizia... —Quando você tinha dezenove... Sorriu sarcástico, notando que ela não tinha terminado a frase. —Quando eu tinha dezenove — repetiu por ela, estendendo uma generosa porção de brandy — era um idiota. Olhou o próprio copo, igual em volume que o de Miranda. Apurou‐o em um longo e satisfatório gole. O copo aterrissou sobre a mesa com um som surdo e Turner se reclinou para trás, deixando descansar a cabeça contra as palmas de suas mãos, os cotovelos dobrados para fora. —Como todas as crianças de dezenove anos, deveria acrescentar — terminou. Olhou‐a. Ela não havia nem tocado na bebida. Nem sequer havia se sentado ainda. —A presente companhia talvez pudesse ser excluída — emendou. —Achava que o brandy deveria ser servido em copos para conhaque — disse ela. Ele a observou enquanto se sentava cuidadosamente. Não estava perto dele, mas tampouco estava na outra ponta. Seus olhos nunca deixavam os dele e não pôde evitar perguntar‐se o que pensava que poderia fazer a ela. Equilibrar‐se sobre ela? —O brandy — anunciou como se estivesse falando com um público de mais


de uma pessoa— é mais bem servido no que se tem à mão. Neste caso... — Elevou o copo e o olhou, observando como a luz da lareira dançava em sua superfície. Não se incomodou em terminar a frase. Não parecia necessário, e, além disso, estava ocupado servindo‐se de outro gole. —Saúde. —E bebeu. Olhou‐a. Ainda estava sentada ali, observando‐o. Não podia dizer se o desaprovava; sua expressão era muito inescrutável para isso. Mas desejou que dissesse algo. Qualquer coisa, na realidade, inclusive mais tolices sobre taças, seria suficiente para tirar sua mente do fato de que ainda eram onze e meia e de que restavam trinta minutos para que pudesse declarar terminado aquele miserável dia. —Assim me diga Senhorita Miranda, desfrutou do serviço? —perguntou, desafiando‐a com o olhar a que dissesse algo além do que costumava a dizer em situações assim. A surpresa se registrou no rosto dela, a primeira emoção da noite que Turner era claramente capaz de discernir. —Refere‐se ao funeral? —O único serviço do dia — disse ele, com considerável desenvoltura. —Foi... Er... Interessante. —OH, vamos, Senhorita Cheever, pode fazê‐lo melhor. Ela capturou o lábio inferior entre os dentes. Letícia costumava fazer aquilo, o recordou. Quando ainda pretendia ser inocente. Deixou de fazer quando o anel ficou a salvo em seu dedo. Bebeu outro gole. —Não acred...? —Não — disse ele energicamente. Não havia suficiente brandy no mundo para uma noite como aquela. E nesse momento elevou a mão, pegou o copo e tomou um gole. —Acredito que foi esplêndido. Maldita fosse. Tossiu e balbuciou, como se fosse ele o inocente, tomando seu primeiro gole de vinho. —Perdão? Ela sorriu placidamente. —Pode ser que ajude se tomar goles menores. Fulminou‐a com o olhar. —É estranho que alguém fale honestamente de um morto — disse ela. —


Não estou segura de que seria o lugar mais apropriado, mas... Bom... Não era uma pessoa muito agradável, não é verdade? Parecia tão serena, tão inocente, mas seus olhos... Eram perspicazes. —Ora, Senhorita Cheever — murmurou ele. — Acredito que na realidade sim tenha uma veia vingativa. Deu um encolher de ombros e tomou outro gole de sua bebida, um pequeno, o notou. —Que nada — disse, embora ele estivesse seguro de que acreditava. — Mas sou uma boa observadora. Ele riu entre dentes. —Totalmente de acordo. Ficou rígida. —Desculpe? Tinha alterado‐a. Não sabia por que achou tão satisfatório, mas não pôde evitar sentir prazer com isso. Passou muito tempo desde que não fazia nada que lhe desse prazer. Inclinou‐se para frente, só para ver se podia envergonhá‐la. —Estive observando‐a. Ela empalideceu. Ele pôde ver inclusive à luz da lareira. —Sabe o que vi? —murmurou ele. Os lábios dela se entreabriram e negou com a cabeça. —Você esteve me observando. Ela se levantou o repentino do movimento quase jogou a cadeira ao chão. —Devo ir — disse. — Isto é totalmente pouco ortodoxo e está tarde, e... —OH, venha, Senhorita Cheever — disse ele, ficando em pé. — Não se preocupe. Você observa todo mundo. Acha que não me dei conta? Alargou a mão e a segurou pelo braço. Ela paralisou. Mas não virou. Os dedos dele apertaram mais. Só um toque. Só o suficiente para evitar que se fosse, porque não queria que o fizesse. Não queria ficar sozinho. Restavam vinte minutos mais, e queria que ela se zangasse como ele estava zangado, como esteve durante anos. —Me diga, Senhorita Cheever — sussurrou, colocando dois dedos na parte inferior do queixo dela. — Alguma vez a beijaram?

CAPÍTULO 2


Não teria sido um exagero dizer que Miranda sonhou com este momento durante anos. E em seus sonhos, sempre parecia saber o que dizer. Mas na realidade, pelo visto, estava longe de ser eloquente e não podia fazer outra coisa exceto olhá‐lo fixamente, sem respirar —literalmente— pensou, literalmente sem respirar. Gracioso, sempre pensou que fosse uma metáfora. Sem respirar. Sem respirar. —Pensei que não — estava dizendo ele, e Miranda mal podia ouvir por cima da corrida frenética de seus pensamentos. Deveria começar a correr, mas estava paralisada e não deveria fazer isto, mas desejava, ao menos pensou que na verdade o quis desde que tinha dez anos e particularmente ainda não sabia o que esteve querendo e... E seus lábios tocaram os dela. —Adorável — murmurou ele, lhe dando uma chuva de beijos delicados, sedutores, ao longo da bochecha até que alcançou a linha da mandíbula. Sentia‐se como no céu. Sentia‐se de uma maneira que nunca conheceu. Sentiu uma agitação interior, uma tensão estranha, enrolando‐se e alongando‐se e não estava segura do que significava, assim ficou ali quieta, aceitando os beijos enquanto ele se movia por seu rosto, ao longo da maçã do rosto, retornando a seus lábios. —Abra a boca — pediu, e ela o fez, porque ele era Turner e ela queria isto. Não o quis sempre? A língua dele se inundou dentro de sua boca e se sentiu atraída mais firmemente contra ele. Os dedos estavam exigindo e em seguida a boca exigia, e então se deu conta de que estava equivocada. Este não era o momento com o qual sonhou durante anos. Ele não a desejava. Não sabia por que a beijava, mas não a desejava. E certamente não a amava. Não havia ternura neste beijo. —Me beije de volta, maldita seja — grunhiu ele, e pressionou seus lábios contra os dela com insistência renovada. Foi duro e estava zangado, e pela primeira vez na noite, Miranda começou a sentir‐se assustada. —Não — tentou dizer Miranda, mas sua voz se perdeu contra a boca dele. A mão dele de algum jeito encontraram suas nádegas e estava apertando‐a, pressionando‐a para cima contra ele na maioria dos lugares íntimos. E não entendia


como podia ter procurado isto e não desejá‐lo, como podia fazê‐la sentir uma comichão e fazer que se assustasse como podia amá‐lo e o odiar ao mesmo tempo, em igual medida. —Não — disse ela outra vez, interpondo as mãos entre eles, as palmas contra o peito. — Não! E então ele se afastou com brutalidade, sem o mais leve indício de querer ficar. —Miranda Cheever — murmurou com o que realmente era um tom cansado, — quem diria? O esbofeteou. Seus olhos se entrecerraram, mas ele não disse nada. —Por que fez isso? —perguntou sua voz tranquila embora o resto dela tremesse. —Beijá‐la? –deu um encolher de ombros. — Por que não? —Não. —tornou‐se para trás, horrorizada pela nota de dor que detectou em sua própria voz. Desejou estar furiosa. Estava furiosa, mas queria que ele notasse. Queria que ele soubesse. — Não pode optar pela saída mais fácil. Perdeu esse privilégio. Ele riu baixo, o condenado, e disse: —É tão divertida como uma dominatrix. —Chega — gritou Miranda. Ele seguia falando a respeito de coisas que ela não entendia e o odiou por isso. — Por que me beijou? Você não me ama. Cravou as unhas nas palmas das mãos. Estúpida, garota estúpida. Por que disse isso? Mas ele só sorriu. —Me esqueci de que só tem dezenove anos e não se dá conta de que o amor nunca é um requisito prévio para um beijo. —Não acredito que eu goste disso. —Tolices. É obvio que sim. —Piscou, como se tratasse de recordar quando, exatamente, a conheceu. — Bem, certamente não me produz aversão. —Não sou Letícia — murmurou ela. Em um segundo meio, uma mão se enrolou ao redor da parte superior de seu braço, apertando quase ao extremo da dor. —Não mencione seu nome nunca mais. Ouviu? Miranda ficou olhando‐o fixamente, assombrada pela crua ira que emanava de


seus olhos. —Sinto muito — disse precipitadamente. — Por favor, deixe‐me ir. Mas ele não o fez. Afrouxou o apertão, mas só ligeiramente, e quase era como se visse através dela. A um fantasma. Ao fantasma de Letícia. —Me solte, por favor — murmurou Miranda. — Está me machucando. A expressão dele se suavizou e deu um passo atrás. —Sinto muito — disse. Olhava para outro lado, à janela? Ao relógio? — Minhas desculpas — disse bruscamente. — Por agarrá‐la. Por tudo. Miranda engoliu saliva. Deveria ir. Deveria esbofeteá‐lo outra vez e logo deveria ir, mas se comportou de forma miserável e não podia perdoá‐lo pelo que disse. —Sinto que ela o fizesse tão infeliz. Seus olhos voaram para os de Miranda. —As intrigas viajam até chegar às salas de aula, é assim? —Não! —disse Miranda rapidamente. — É só que... Posso explicar. —OH? Miranda mordiscou o lábio, perguntando o que deveria dizer. Houve fofocas na sala de aula. Mas, além disso, viu por si mesma. Estava tão apaixonado no dia do casamento. Seus olhos tinham brilhado com amor, e quando olhava Letícia, Miranda pôde virtualmente ver o mundo desaparecer. Eram como se estivessem em seu próprio pequeno universo, somente eles, e ela estivesse olhando do exterior. E a seguinte vez que o viu... Foi diferente. —Miranda – ele a apressou. Olhou para cima e disse com delicadeza. —Qualquer um poderia dar‐se conta de que seu matrimônio o fazia infeliz. —E como é isso? —Turner baixou o olhar para ela e havia algo tão urgente em seus olhos que Miranda só podia lhe dizer a verdade. —Costumava rir — disse brandamente. — Você costumava rir e seus olhos brilhavam. —E agora? —Agora é frio e duro. Ele fechou os olhos e por um momento Miranda pensou que estivesse sofrendo. Mas ao final lhe dirigiu um olhar fixo e penetrante, e um canto de sua boca se curvou para cima em uma paródia sardônica de sorriso.


—Sou — cruzou os braços e se apoiou insolentemente contra uma estante. — Rogo que me diga Senhorita Cheever, desde quando se tornou tão perceptiva? Miranda engoliu saliva, lutando contra a decepção que subiu por sua garganta. Seus demônios tinham ganhado outra vez. Durante um instante, quando seus olhos estavam fechados, quase pareceu como se a tivesse ouvido. Não suas palavras, mas sim o significado que havia atrás delas. —Sempre fui — disse Miranda. — Você costumava fazer comentários a respeito disso quando eu era pequena. —Esses grandes olhos marrons — disse com uma desumana risada afogada. — Seguindo‐me a todas as partes. Acha que não me dei conta de que estava apaixonada por mim? As lágrimas arderam os olhos de Miranda. Como podia ser tão cruel para dizer isso? —Foi muito amável comigo quando era criança — disse brandamente. —Suponho que fui. Mas isso faz muito tempo. —Ninguém se dá conta disso mais do que eu. Não disse nada e Miranda tampouco. E depois finalmente... —Vai. Sua voz soou rouca, doída e cheia de angústia. Ela se foi. E essa noite não escreveu nada em seu diário. Na manhã seguinte Miranda despertou com um objetivo claro. Queria ir para casa. Não se importava perder o café da manhã, não importava se os céus se abrissem e tivesse que avançar com dificuldade através da chuva torrencial. Simplesmente não queria ficar aqui, com ele, na mesma casa, na mesma propriedade. Era muito triste. O Turner que conheceu o Turner que adorou se foi. Ela havia sentido, é obvio. Tinha sentido em suas visitas a casa. A primeira vez foram seus olhos. A seguinte sua boca e as linhas brancas de cólera gravadas nos cantos. Havia sentido, mas até agora verdadeiramente não se permitiu saber. —Está acordada. Era Olivia, completamente vestida e brilhando encantadora, inclusive com


seu negro de luto. —Infelizmente — murmurou Miranda. —O que diz? Miranda abriu a boca, logo recordou que Olivia não ia esperar para obter uma resposta, para que gastar energia? —Bem, ande depressa — disse Olivia. — Se vista e enviarei minha donzela para os toques finais. É sem dúvidas, mágica com o cabelo. Miranda se perguntou quando Olivia se daria conta de que não tinha movido um só músculo. —Levante‐se, Miranda Miranda quase ficou de pé de um salto. —Meu Deus, Olivia. Ninguém te disse que é de má educação gritar no ouvido de outro ser humano? O rosto de Olivia apareceu acima do dela, bastante perto. —Não parece muito humana esta manhã, para falar a verdade. Miranda se virou. —Não me sinto humana. —Se sentirá melhor depois do café da manhã. —Não tenho fome. —Mas não pode perder o café da manhã. Miranda apertou os dentes. Tal vitalidade deve ser ilegal antes do meio‐dia. —Miranda . Miranda colocou um travesseiro em cima da cabeça. —Se disser meu nome uma vez mais, terei que te matar. —Mas temos trabalho a fazer. Miranda fez uma pausa. A respeito de que diabos, Livvy estava falando? —Trabalho? —repetiu. —Sim, trabalho — Olivia arrancou o travesseiro e o jogou ao chão. — Tive a ideia mais maravilhosa. Sobreveio‐me em um sonho. —Está brincando. —Muito bem, estou brincando, mas me veio esta manhã quando estava na cama. Olivia sorriu com um tipo de sorriso, bem felino, realmente do tipo que significava que teve um brilho de genialidade ou destruiria o mundo tal e como o conheciam. E então Olivia esperou, tratava‐se da primeira vez que esperava e Miranda a premiou com um...


—Muito bem, qual foi? —Você. —Eu. —E Winston. Por um momento, Miranda não pôde falar. Logo disse. —Está louca. Olivia deu um encolher de ombros e se recostou. —Ou muito, muito inteligente. Pensa nisso, Miranda. É perfeito. Miranda não podia imaginar pensar em ter uma relação com algum cavalheiro nesse momento, muito menos um com o sobrenome Bevelstoke, mesmo que não fosse Turner. —O conhece bem e está na idade — disse Olivia, enumerando os motivos com os dedos. Miranda negou com a cabeça e escapou para o outro lado da cama. Mas Olivia era ágil e esteve ao seu lado em questão de segundos. —Você realmente não quer uma temporada — continuou. — Disse em numerosas ocasiões. E odeia conversar com pessoas que não conhece. Miranda tratou de esquivá‐la e escapuliu para o guarda‐roupa. —Posto que conheça Winston, como já disse, isso elimina a necessidade de conversar com desconhecidos, e, além disso – o rosto sorridente de Olivia se fez visível — significa que seremos irmãs. Miranda estava imóvel, seus dedos agarrando firmemente o vestido de dia que havia tirado do guarda‐roupa. —Isso seria encantador, Olivia — disse, porque realmente, que outra coisa poderia dizer? —OH, estou emocionada de que esteja de acordo! — Exclamou Olivia, e abraçou Miranda. — Será maravilhoso. Esplêndido. Mais que esplêndido. Será perfeito. Miranda ficou quieta, perguntando‐se como diabos conseguiu se meter em tal enredo. Olivia retrocedeu ainda radiante. —Winston não terá a menor ideia do que estar por vim. —O propósito disto é o de igualar ou simplesmente se trata de algum jeito de superar seu irmão?


—Bem, ambos são obvio — admitiu Olivia com franqueza. Soltou Miranda e se deixou cair em uma cadeira próxima. — Tem importância? Miranda abriu a boca, mas Olivia foi mais rápida. —É obvio que não — disse. — O que importa é ficar igualado, Miranda. — Verdadeiramente estou surpreendida de não ter tido estes sérios pensamentos antes. Como estava atrás de Olivia, Miranda se deu o gosto de fazer uma careta. É obvio que não pensou seriamente. Esteve muito ocupada sonhando com Turner. —E vi o Winston te olhando ontem à noite. —Só havia cinco pessoas no aposento, Olivia. Poderia muito bem não estar olhando para mim. —Tudo está em como — persistiu Olivia. — Estava como se nunca tivesse te visto antes. Miranda começou a vestir‐se. —Estou convencida de que está equivocada. —Não estou. Vire‐se, fecharei os botões. Nunca me engano a respeito destas coisas. Miranda permaneceu de pé pacientemente enquanto Olivia fechava o vestido. E então lhe ocorreu. —Quando teve a ocasião de saber que tem razão? Estamos aqui enterradas no campo. Não é como se tivéssemos sido testemunhas de que alguém caísse apaixonado. —É obvio que o fomos. Há Billy Evans e... —Tiveram que casar Olivia. Sabe. Olivia acabou de fechar o último botão, moveu as mãos para os ombros de Miranda e a virou até que ficaram cara a cara. Sua expressão era de superioridade, inclusive para Olivia. —Sim, mas por que tiveram que casar? Porque se amavam. —Não recordo suas predições sobre o casamento. —Tolices. É obvio que as fiz. Você estava na Escócia. E não pude lhe dizer isso por carta, isso teria feito que tudo, parecer completamente sórdido. Miranda não estava segura de que esse fosse o caso, uma gravidez imprevista era uma gravidez imprevista. Escrever sobre não mudaria as coisas. Mas apesar de tudo, Olivia tinha um pouco de razão. Miranda ia à Escócia durante seis


semanas cada ano para visitar seus avôs maternos, e Billy Evans se casou enquanto ela não estava. Olivia veio com o único argumento que ela não poderia refutar. —Vamos tomar café da manhã? — perguntou Miranda com desalento. Não havia maneira de evitar deixar‐se ver, e, além disso, Turner esteve um tanto estranho a noite anterior. Se houvesse justiça no mundo, então estaria como uma cuba em sua cama com a cabeça palpitando toda a manhã. —Não até que Maria arrume seu cabelo — decidiu Olivia. — Não devemos deixar nada ao azar. Agora seu trabalho é ficar maravilhosa. OH, não me olhe fixamente. É mais bonita do que pensa. —Olivia... —Não, não, foi uma má escolha de palavras. Você não é bonita. Eu sou bonita. Bonita e insípida. Você tem algo mais. —Um rosto longo. —A verdade é que não. Não tanto como quando era pequena, pelo menos. Olivia inclinou a cabeça. E não disse nada. Nada. —O que foi? —perguntou Miranda com receio. —Acredito que ficou maior. Era o que Turner disse há tantos anos antes. Algum dia irá crescer e será tão bela como agora é inteligente. Miranda odiou a lembrança. E realmente o odiou até o ponto de querer gritar. Olivia, vendo a emoção em seus olhos empanados, disse abraçando‐a apertadamente. —OH, Miranda. Eu também te quero. Seremos as melhores irmãs. Não posso esperar. Quando Miranda chegou a tomar o café da manhã (exatamente trinta minutos inteiros mais tarde, juraria que nunca tinha demorado tanto em arrumar o cabelo, e depois jurou que nunca o faria outra vez) o estômago rugia. —Bom dia, família — disse Olivia alegremente enquanto pegava um prato do aparador. — Onde está Turner? Miranda elevou uma silenciosa oração de agradecimento pela ausência dele. —Ainda na cama, imagino — respondeu Lady Rudland. — O pobre. Sofreu uma comoção. —Foi uma semana terrível. Ninguém disse nada. A nenhum deles gostava de Letícia.


Olivia aproveitou o silêncio. —Correto — disse. — Bem, espero que não esteja muito faminto. Tampouco jantou conosco ontem à noite. —Olivia, a esposa dele acaba de morrer — disse Winston. — Com o pescoço quebrado, nada menos. Rogo um pouco de benevolência. —Porque o amo é o motivo de que eu esteja preocupada com seu bem estar, — disse Olivia, com a irritabilidade que reservava só para o irmão gêmeo. — Não come. —Pedi que subissem uma bandeja ao quarto — disse sua mãe, pondo fim à rixa. — Bom dia, Miranda. Miranda avançou. Esteve ocupada olhando Olivia e Winston. —Bom dia, Lady Rudland — disse rapidamente. — Confio que tenha dormido bem. —Tão bem como pode esperar‐se. — A condessa suspirou e tomou um gole de chá. — São tempos duros. Mas devo agradecê‐la outra vez que tenha passado a noite aqui. Sei que foi um consolo para Olivia. —É obvio — murmurou Miranda. — Fico feliz por ter ajudado. Seguiu Olivia para o aparador e se serviu um prato de café da manhã. Quando retornou à mesa, viu que Olivia lhe deixou um assento ao lado de Winston. Sentou‐se e contemplou os Bevelstoke. Todos estavam sorridentes, Lorde e Lady Rudland de forma totalmente benevolente, Olivia com um indício de astúcia, e Winston... —Bom dia, Miranda — disse afetuosamente. E seus olhos... Tinham... Interesse? Meu Deus! Olivia teria razão? Havia algo diferente na forma que a estava olhando. —Bom dia — disse Miranda, completamente perturbada. Winston era quase seu irmão, não? De maneira nenhuma podia pensar que o agradava, e ela tampouco. Mas se ele podia então, ela podia? E... —Tem intenção de ficar em Haverbreaks toda a manhã? — perguntou Winston. — Pensei que poderíamos dar um passeio. Talvez depois do café da manhã? Deus querido. Olivia tinha razão. Miranda sentiu que seus lábios se abriam com surpresa. —Eu, isto, não decidi ainda.


Olivia lhe deu um chute por debaixo da mesa. —OH! —Se engasgou com a cavala? —perguntou à senhora Rudland. Miranda negou com a cabeça. —Sinto muito — disse, clareando voz. — Ehrm, eu acredito que era uma espinha. —Esse é o motivo pelo qual nunca como peixe no café da manhã — declarou Olivia. —O que diz Miranda? —insistiu Winston. Sorriu preguiçosamente, uma obra prima de inocência, que certamente tinha quebrado mais de mil corações. — Damos um passeio a cavalo? Miranda afastou cuidadosamente as pernas do alcance de Olivia e disse. —Receio não ter trazido meu traje de montar. —Era a verdade, e era realmente uma lástima, porque começava a pensar que uma excursão com Winston era justamente o que necessitava para desterrar Turner de sua mente. —Pode usar um dos meus — disse Olivia, sorrindo docemente por cima da torrada. — Só ficará um pouquinho grande. —Então, está decidido — disse Winston. — Será esplêndido passear de dia. — Passou muito tempo desde que tivemos a oportunidade. Miranda se encontrou sorrindo. Era tão fácil estar com Winston, inclusive agora, quando estava confusa a respeito das intenções dele. —Acredito que passaram vários anos. Sempre estou na Escócia quando você volta para casa da escola. —Mas não hoje — anunciou ele felizmente. Tomou o chá, sorridente por cima da xícara, e Miranda sentiu um choque pelo muito que se parecia com Turner quanto este era mais jovem. Winston tinha agora vinte anos, exatamente um a mais que Turner quando ela se apaixonou por ele. Quando se encontraram pela primeira vez, corrigiu‐se. Não havia se apaixonado por ele. Simplesmente pensou que estivesse. Agora tinha melhor critério. 11 DE ABRIL DE 1819


Hoje desfrutei de um esplêndido passeio com Winston. É muito parecido ao irmão, se seu irmão fosse amável e atento e ainda tivesse senso de humor. ****** Turner não dormiu bem, mas não o assombrou; agora raramente dormia bem. E certamente, pela manhã ainda estava irritável e zangado, sobre tudo consigo mesmo. Em que diabo, esteve pensando? Beijando Miranda Cheever. A garota era virtualmente sua irmã menor. Estava zangado, e talvez um pouco bêbado, mas essa não era desculpa para tão mau comportamento. Letícia matou muitas coisas dentro dele, mas por Deus, ainda era um cavalheiro. De outra maneira, o que restava? Nem sequer a desejava. Não realmente. Sabia o que era o desejo, conhecia essa força que retorcia as vísceras com a necessidade de possuir e reclamar, e o que sentiu por Miranda... Bem, não sabia o que era, mas não tinha sido isso. Eram aqueles grandes olhos marrons dela. Viam tudo. Desconcertavam‐no. Sempre o fizeram. Inclusive quando era uma menina, parecia incrivelmente sábia. Quando esteve no estúdio de seu pai, se sentiu exposto, transparente. Era somente uma jovenzinha, recém saída da sala de aula, mas viu através dele. A intrusão foi exasperante, assim foi que repartiu golpes a torto e a direito do único modo que lhe pareceu apropriado então. Exceto que, nada poderia ter sido menos apropriado. E agora teria que se desculpar. Meu Deus, mas em nisso pensar era intolerável. Seria mais fácil fingir que nunca ocorreu e a ignoraria para o resto de sua vida, mas isso claramente não iria redimi‐lo, não se pretendesse manter relação com sua irmã. E, além disso, esperava que ficasse algum farrapo de decência cavalheiresca. Letícia matou a maior parte da bondade e inocência que havia nele, mas certamente tinha que restar algo dentro dele. E quando um cavalheiro ofendia uma dama, um cavalheiro se desculpava. Quando Turner desceu para tomar o café da manhã, sua família já havia saído, o que o satisfez. Comeu rapidamente e engoliu o café, tomando‐o preto,


como penitência e sem estremecer quando desceu quente e amargo por sua garganta. —Deseja algo mais? Turner contemplou o lacaio, que permanecia imóvel ao seu lado. —Não, agora não. O lacaio deu um passo atrás, mas não saiu da sala e Turner decidiu nesse instante que era o momento de ir embora de Haverbreaks. Havia muitas pessoas ali. Inferno, sua mãe provavelmente tinha dado instruções a todos os serventes para que o vigiassem de perto. Ainda com o cenho franzido, separou‐se de um empurrão a cadeira e caminhou a grandes passos saindo para o vestíbulo. Avisaria ao ajudante de quarto que iria a toda pressa. Poderiam ir á uma hora. Tudo o que restava fazer era encontrar Miranda e conseguir se livrar do irritante assunto e uma vez feito voltaria a esconder‐se em sua própria casa e... Risadas. Elevou a vista. Winston e Miranda acabavam de entrar, as bochechas rosadas e viçosas por causa do ar fresco e o sol. Turner arqueou uma sobrancelha e parou, esperando ver quanto tempo demoravam em notar sua presença. —E assim — estava dizendo Miranda, claramente chegando ao final de uma história, — foi como soube que Olivia não era de confiança com o chocolate. Winston riu seus olhos examinando‐a calorosamente. —Mudou Miranda. Ela ruborizou o bastante. —Nem tanto. Apenas cresci. —Sim, tem razão. Turner pensou que talvez fosse engasgar. —Pensou que poderia ir à escola e me encontrar exatamente igual a quando me deixou? Winston sorriu abertamente. —Algo assim. Mas devo dizer que estou satisfeito com o resultado. —Ele tocou seu cabelo, que tinha sido enrolado em um coque rígido. — Creio que não voltarei a lhe dar nenhum puxão. Miranda ruborizou outra vez e, de verdade, isto simplesmente não podia tolerar.


—Bom dia — disse Turner falando alto, sem incomodar‐se em mover‐se de seu lugar no vestíbulo. —Acredito que já é de tarde — respondeu Winston. —Para quem não está acostumado, possivelmente — disse Turner com um sorriso meio zombador. —Em Londres a manhã dura até as duas? —perguntou Miranda serenamente. —Só se a noite anterior resultou decepcionante. —Turner — disse Winston com recriminação. Turner deu um encolher de ombros. —Preciso falar com a Senhorita Cheever — disse, sem incomodar‐se em olhar o irmão. Os lábios de Miranda se separaram pela surpresa, supôs Turner, e talvez também com um pouco de aborrecimento. —Parece que isso depende de Miranda — disse Winston. Turner manteve os olhos em Miranda. —Me informe quando estiver pronta para retornar para casa. Irei acompanhá‐ la. A boca do Winston se abriu com consternação. —Olhe — disse rigidamente. — É uma dama e faria bem em oferecer a cortesia de lhe pedir permissão. Turner virou para o irmão e fez uma pausa, ficando com o olhar fixo até que o mais jovem se sentiu envergonhado. Turner olhou de novo Miranda e disse novamente. —Irei acompanhá‐la até sua casa. —Tenho... Ele a cortou com um olhar penetrante e Miranda aceitou com um assentimento de cabeça. —É obvio milord — disse os cantos da boca excepcionalmente apertados. Virou‐se para Winston. — Turner tem que analisar um manuscrito iluminado com meu pai. Tinha me esquecido completamente. Inteligente Miranda. Turner quase sorriu. —Turner? —disse Winston duvidando. — Um manuscrito iluminado?


—É minha nova paixão — disse Turner brandamente. Winston olhou de Turner a Miranda e dela a Turner novamente, depois finalmente se rendeu com uma rígida inclinação de cabeça. —Muito bem — disse. — Foi um prazer, Miranda. —Certamente — disse ela, e por seu tom, Turner soube que não mentiu. Turner não abandonou sua posição entre os dois jovens apaixonados e Winston lhe lançou um olhar irritado, depois virou para Miranda dizendo. —A verei outra vez antes que retorne a Oxford? —Espero que sim. Não tenho planos marcados para os próximos dias, e... Turner bocejou. Miranda clareou a voz. —Estou segura de que poderemos fazer planos. Talvez Olivia e você possam tomar um chá. —Gostaria muito. Turner conseguiu proclamar seu aborrecimento com o aspecto de suas unhas, a qual inspecionou com uma significativa falta de interesse. —Ou se Olivia não puder fazer uma visita — continuou Miranda, com a voz impressionantemente acerada — talvez você possa ir. Os olhos do Winston aumentaram quentes e com interesse. —Ficaria encantado — murmurou, inclinando‐se sobre a mão de Miranda. —Está preparada? —Ladrou Turner. Miranda não moveu nem um músculo quando disse com um esforço: —Não. —Bem, apresse‐se então, não tenho todo o dia. Winston se virou para ele com incredulidade. —O que ocorre contigo? Foi uma boa pergunta. Quinze minutos antes, sua única meta era escapar da casa de seus pais a toda pressa, e agora estava insistindo todo o tempo em escoltar Miranda para casa. Muito bem, ele insistiu, mas tinha suas razões. —Estou bastante bem — disse Turner dando a volta. — Melhor que do que estive em anos. Desde 1816, para ser preciso. Winston com desconforto mudou seu peso de um pé ao outro e Miranda se moveu esgotada. 1816 foram todos sabiam o ano do casamento de Turner. —Junho — adicionou, com um toque perverso. —Perdão? —disse Winston com rigidez. —Junho. Junho de 1816. —E então Turner sorriu a ambos, um sorriso claramente falso, o tipo de sorriso de auto‐satisfação. Virou‐se para Miranda.


— Esperarei no vestíbulo dianteiro. Não se atrase.

CAPÍTULO 3

Não se atrase? Não se atrase?! Por que, Miranda se perguntou pela décima sexta vez enquanto guardava suas roupas. Não tinham marcado uma hora. Nem sequer pediu para escoltá‐la a casa. Ele ordenou e logo, depois de ordenar que dissesse quando estivesse pronta para ir, não se incomodou em esperar uma resposta. Estava tão impaciente de que se fosse? Miranda não sabia se ria ou chorava. —Já vai? Era Olivia, saindo do corredor. —Tenho que voltar para casa — disse Miranda, escolhendo esse momento para colocar o vestido pela cabeça. Não desejava especialmente que Olivia visse seu rosto. — Seu traje de montar está sobre a cama — acrescentou as palavras amortecidas pela musselina. —Mas, por quê? Seu pai não sentirá sua falta. Que amável de sua parte mencionar isso, pensou Miranda pouco caridosamente, embora ela tivesse expressado a mesma opinião a Olivia em inumeráveis ocasiões. —Miranda — persistiu Olivia. Miranda ficou de costas para que Olivia pudesse fechar os botões. —Não desejo ficar mais tempo do que o devido. —O que? Não seja idiota. Minha mãe faria que vivesse conosco se fosse possível. É o que fará, de fato, uma vez que formos a Londres. —Não estamos em Londres. —O que tem isso a ver? — Nada. — Miranda apertou os dentes. —Discutiu com Winston? —Claro que não. —Porque na realidade, quem poderia discutir com Winston? Além de Olivia.


—Então, qual é o problema? —Não é nada. —Miranda conseguiu acalmar seu temperamento e começou a por as luvas. — Seu irmão deseja perguntar a meu pai sobre um manuscrito iluminado. —Winston? —perguntou Olivia duvidosamente. —Turner. —Turner? Céu ficaria alguma vez sem perguntas? —Sim — respondeu Miranda. — E planeja ir logo, assim precisa me escoltar agora. A última parte era completamente inventada, mas Miranda acreditou estar bastante inspirada, sob as circunstâncias. Além disso, talvez agora ele tivesse que voltar para seu lar em Northumberland e o mundo poderia voltar para sua posição normal, inclinando‐se com satisfação em seu eixo, girando ao redor do sol. Olivia se inclinou contra o marco da porta, situando‐se de tal modo que Miranda não podia ignorá‐la. —Então, por que esta de um humor tão espantoso? Sempre gostou de Turner, não é? Miranda quase riu. E logo quase gritou. Como se atrevia a lhe dar ordens como a uma teimosa prostituta? Como se atrevia a fazê‐la sentir tão miserável aqui, em Haverbreaks, onde era mais um lar para ela após estes anos do que foi para ele? Afastou‐se. Não podia deixar que Olivia visse seu rosto. Como se atrevia a beijá‐la se não queria. —Miranda? —disse Olivia brandamente. — Está bem? —Estou perfeitamente bem — cortou Miranda, passando rapidamente ao lado dela enquanto fugia para a porta. —Não soa... —Estou triste por Letícia — soltou Miranda. E estava. Qualquer um que fizesse Turner miserável certamente merecia ser compadecida. Mas Olivia, sendo Oliva, não se deixaria convencer e enquanto Miranda se apressava descendo pelas escadas para o vestíbulo dianteiro, ela estava justa em seus calcanhares. —Letícia! —exclamou. — Deve estar brincando.


Miranda patinou pelo patamar, agarrando forte ao corrimão para evitar sair voando. —Letícia era uma velha bruxa desagradável — continuou Olivia. — Fez Turner espantosamente infeliz. Precisamente. —Miranda! Miranda! OH, Turner. Bom dia. —Olivia — disse cortesmente, outorgando uma pequena inclinação de cabeça. —Miranda diz que se compadece de Letícia. Não é isso insuportável? —Olivia! —ofegou Miranda. Turner podia ter detestado a falecida esposa, o suficiente para dizer inclusive no funeral, mas havia certas coisas que estavam além dos limites da decência. Turner simplesmente olhou Miranda, uma de suas sobrancelhas se elevou em uma maliciosa expressão. —OH, tolices. Ele a odiava, e todos nós sabíamos. —Justa como sempre, querida irmã — murmurou Turner. —Você sempre disse que não desfruta da hipocrisia — respondeu. —Bastante certo. —Olhou Miranda. — Vamos? —Vai levá‐la para casa? —perguntou Olivia, embora Miranda acabasse de dizer. —Tenho que falar com o pai dela. —Não pode levá‐la Winston? —Olivia! —Miranda não estava segura do que a envergonhava mais, que Olivia estivesse se fazendo de casamenteira ou que o estivesse fazendo na frente de Turner. —Winston não precisa falar com o pai dela — disse Turner brandamente. —Bem, ele não pode ir? —Não em minha caleche. Os olhos de Olivia se voltaram redondos de desejo. —Vai levar sua caleche? —Era recém construída, alta, rápida, de linhas puras e Olivia tinha estado morrendo por segurar as rédeas. Turner fez uma careta, e por um momento quase pareceu de novo ele mesmo, o homem que Miranda conheceu e amou todos aqueles anos atrás. Isso funcionou, também. Olivia fez um som estranho e borbulhante, como se estivesse afogando‐se em sua própria inveja.


—Obrigado, querida irmã! —disse Turner com um sorriso de satisfação. Deslizou seu braço pelo de Miranda e a atraiu para a porta. — A verei mais tarde... Ou talvez você me veja. Quando passar. Miranda engoliu uma risada enquanto se dirigiam pelas escadas para a entrada. —É terrível — disse. Ele deu um encolher de ombros. —Ela merecia. —Não — disse Miranda, sentindo que devia defender sua mais querida amiga, mesmo que tivesse se divertido com a cena em um grau impróprio. —Não? —Muito bem, sim, mas ainda assim é terrível. —OH, absolutamente — concordou e enquanto Miranda o deixava ajudá‐la a subir na caleche, perguntou‐se como tinha ocorrido tudo isto, estava sentada ao lado dele e estava realmente sorrindo e pensando que talvez não o odiasse e talvez pudesse ser redimido. Conduziram em silencio durante os primeiros minutos. A caleche era muito fina, e Miranda não pôde evitar sentir‐se tremendamente elegante enquanto ia a uma grande velocidade, alto por cima da estrada. —Fez toda uma conquista esta tarde — disse Turner finalmente. Miranda ficou rígida. —Winston parece bastante atraído por você. Ainda assim, ela não disse nada. Não havia nada que pudesse dizer nada que pudesse deixá‐la com a dignidade intacta. Poderia negar e soaria como uma coquete, ou poderia ficar de acordo e soaria presunçosa. Ou zombadora. Ou Deus a perdoasse, como desejaria deixá‐lo com ciúmes. —Suponho que devo te dar minha bênção. Miranda virou para olhá‐lo surpresa, mas Turner manteve os olhos no caminho enquanto acrescentava: —Certamente seria um vantajoso matrimônio para você, e indubitavelmente ele não poderia fazê‐lo melhor. Pode carecer dos recursos que um filho menor necessita, mas o compensa com sentido comum. E sensibilidade, na realidade. —OH. Eu... Eu... —Miranda piscou. Não tinha a menor ideia do que dizer. Era um elogio, e nem sequer um ambíguo, mas mesmo assim, não sortiu o efeito desejado. Não queria que ele desvairasse sobre suas qualidades primordiais se a única razão era junta‐la com seu


irmão. E não queria ser sensata. Por uma vez queria ser bela, ou exótica, ou cativante. Céus! Sensata. Era uma triste denominação. Miranda se deu conta de que ele estava esperando que ela finalizasse sua hesitante resposta, assim murmurou. —Obrigada. —Não desejo que meu irmão cometa os mesmos enganos que eu. Ela o olhou quando disse isso. O rosto estava abatido, os olhos apontando resolutamente ao caminho, como se um único olhar em sua direção pudesse fazer que o mundo se derrubasse a seu redor. —Enganos? —repetiu brandamente. —Engano — disse com voz cortante. — Singular. —Letícia. —Já estava. Havia dito. A caleche foi mais devagar, logo parou. E finalmente, a olhou. —Efetivamente. —O que fez a você? —perguntou brandamente. Era muito pessoal e altamente inapropriado, mas ela não pôde deter‐se, não quando seus olhos estavam tão intensamente concentrados nos dela. Mas foi algo inoportuno a dizer. Claramente, porque a mandíbula esticou e se afastou dela enquanto disse. —Nada que seja adequado para os ouvidos de uma dama. —Turner... Virou‐se para olhá‐la no rosto, os olhos ardentes. —Sabe como morreu? Miranda estava negando com a cabeça inclusive quando disse: —O pescoço. Caiu... —De um cavalo — cortou. — Foi jogada de um cavalo... —Sei. —Montando para encontrar‐se com o amante. Isso, ela não sabia. —Também estava grávida. Bom Deus. —OH, Turner, sinto... Cortou‐a. —Não o diga. Eu não. Sua mão cobriu sua boca aberta.


—Não era meu. Ela engoliu com dificuldade. O que podia dizer? Não havia nada que dizer. —O primeiro não era meu, tampouco — acrescentou. As narinas se alargaram, seus olhos se estreitaram, e havia uma curva em seus lábios, quase como se a estivesse desafiando. Desafiando‐a silenciosamente a responder. —T... —Tentou dizer seu nome, porque pensava que devia falar, mas a verdade era que esteve benditamente agradecida quando a cortou. —Estava grávida quando nos casamos. É o motivo pelo qual nos casamos, se quer saber. —Riu causticamente por isso. — Se quer saber — disse de novo. — Gracioso, considerando que eu não sabia. A dor em sua voz a atravessou, mas não tanto como sua auto depreciação. Perguntou‐se como ele chegou a isto, e agora sabia... E sabia que nunca poderia odiá‐lo. —Sinto muito — disse, porque o sentia, e porque algo mais teria sido muito. —Não foi você... —Cortou a si mesmo, clareou garganta. E logo, depois de vários segundos, disse. — Obrigado. Agarrou de novo as rédeas, mas antes que pudesse pô‐los em movimento, ela perguntou. —O que fará agora? Ele sorriu ante isso. Bom, não realmente, mas a comissura de sua boca se moveu um pouco. —O que farei? —repetiu. —Irá a Northumberland? A Londres? Voltará a casar? —O que farei? — murmurou. — O que me agrade, suponho. Miranda clareou a garganta. —Sei que sua mãe estava esperando que se apresentasse em Londres durante a temporada de Olivia. —Olivia não necessita minha ajuda. —Não. —Engoliu com dificuldade. Dolorosamente. Era seu orgulho deslizando por sua garganta. — Mas eu sim. Virou e a avaliou com as sobrancelhas elevadas. —Você? Pensei que tinha meu irmão menor cuidadosamente envolto com um laço. —Não — disse ela rapidamente. — Quero dizer, não sei. É bastante jovem,


não acha? —É mais velho do que você. —Por três meses. —Respondeu no ato. — Ainda está na universidade. Não vai desejar casar‐se logo. Ele inclinou a cabeça e seu olhar ficou penetrante. —E você sim? —murmurou. Miranda lutou contra o impulso de saltar por um lado da caleche. Com segurança havia algumas conversas que uma dama não devia ter que agüentar. Certamente esta tinha que ser uma delas. —Eu gostaria de me casar algum dia, sim — disse hesitantemente, odiando que suas bochechas estivessem ficando quentes. Ele a olhou. E a observou. E logo olhou um pouco mais. Ou talvez fosse apenas uma olhada. Realmente já não podia dizer, mas estava mais que aliviada quando finalmente ele quebrou o silêncio, tanto como tinha durado, e disse. —Muito bem. Considerarei. Devo‐te isso, ao menos. Bom senhor, sua cabeça dava voltas. —Me dever o que? —Uma desculpa, para começar. O que aconteceu a passada noite... Foi imperdoável. Foi por isso que insisti em te escoltar para casa. — clareou a garganta, e durante o mais escasso dos momentos afastou o olhar. — Devo uma desculpa, e pensei que preferiria que o fizesse em particular. Ela olhou adiante. —Uma desculpa pública requereria que disséssemos a minha família exatamente por que estava me desculpando — continuou. — Não acredito que quisesse que soubessem. —Quer dizer que você não quer que saibam. Ele suspirou e passou a mão pelo cabelo. —Não, não quero. Não posso dizer que esteja orgulhoso de meu comportamento, e preferiria que minha família não soubesse. Mas também estava pensando em você. —Desculpas aceitas — disse brandamente. Turner deixou escapar um longo e esgotado suspiro. —Não sei por que o fiz — continuou. — Nem sequer era desejo. Não sei o que


era. Mas não foi tua culpa. Ele a olhou. Não era difícil de decifrar. —Ah, merda... —Deixou escapar um irritado suspiro e afastou o olhar. Brilhante trabalho, Turner . Beijar uma garota e logo lhe dizer que não o fez por desejo. — Sinto muito, Miranda. Isso soou mal. Estou sendo um imbecil. Mas parece que não posso evitar, estes dias. —Talvez deva escrever um livro — disse glacial. — Cento e uma maneiras de insultar uma jovem dama. Atrevo‐me a dizer que está pelo menos no número cinqüenta por agora. Ele inspirou profundamente. Não estava acostumado a desculpar‐se. —Não é que não seja atraente. A expressão de Miranda se voltou incrédula. Não ante suas palavras, deu‐se conta, mas sim ante o mero fato de que tivesse dizendo‐as, de que estava sendo obrigada a sentar‐se ali e escutar enquanto ele envergonhava a ambos. Deveria parar, sabia, mas a dor nos olhos dela despertou um doloroso recanto de seu coração que manteve fechado durante anos e tinha a estranha compulsão de fazer as coisas certas. Miranda tinha dezenove anos. Sua experiência com os homens consistia em Winston e ele mesmo. Os quais tinham sido até agora figura fraternais. A pobre garota devia estar infernalmente confusa. Winston de repente tinha decidido que ela era Vênus, rainha Isabel e a Virgem Maria tudo em uma, e Turner virtualmente fez de tudo exceto forçá‐la. Não era exatamente um dia normal na vida de uma senhorita do campo. E mesmo assim aqui estava ela. As costas retas. O queixo alto. E não o odiava. Deveria, mas não o odiava. —Não — disse, tomando de verdade sua mão na dele. — Deve me escutar. É atraente. Totalmente. Olhou no rosto dela e pela primeira vez em anos lhe deu uma boa olhada. Não tinha uma beleza clássica, mas havia algo, em seus enormes olhos marrons, que era bastante atraente. A pele era perfeita e elegantemente pálida, lhe proporcionando um contraste luminoso com o cabelo negro, que era, notou de repente Turner, espesso, com apenas a mais ligeira tendência a enrolar. Parecia suave, também. Havia tocado a noite anterior. Por que não recordava como era ao tato? Certamente se deu conta de sua textura. —Turner — disse Miranda. Estava olhando‐a. Por que estava olhando‐a?


Seu olhar se moveu para baixo até os lábios quando ela disse seu nome. Tinha uma boca sensual. Lábios cheios, para beijar. —Turner? —Totalmente — disse ele brandamente, como se estivesse chegando a uma incrível compreensão. —Totalmente o que? —Totalmente atraente. —Sacudiu a cabeça ligeiramente, saindo do feitiço que de algum modo ela lhe jogou. — É completamente atraente. Ela deixou escapar um suspiro. —Turner, por favor, não minta para não ferir meus sentimentos. Isso mostra uma falta de respeito a minha inteligência, e isso é mais insultante que tudo que possa dizer sobre minha aparência. Ele encostou para trás e esboçou um sorriso. —Não estou mentindo. —Soou surpreso. Miranda agarrou o lábio inferior nervosamente entre os dentes. —OH. —Soou tão surpreendida como ele. — Bem, obrigada então. Acho. —Eu não costumo ser tão desajeitado com os elogios que não podem ser identificados. —Estou segura de que não — disse ela asperamente. —Bom, por que de repente me sinto como se estivesse me acusando de algo? Os olhos dela se abriram. Tinha sido seu tom tão frio? —Não sei do que está falando — disse rapidamente. Por um momento pareceu como se quisesse lhe perguntar algo mais, mas então deve ter se decidido ao contrario, já que agarrou as rédeas e lhe ofereceu um sorriso calmo enquanto dizia. —Vamos? Seguiram adiante durante vários minutos, Miranda olhando Turner furtivamente quando podia. Sua expressão era indecifrável, inclusive plácida, e era mais que um pouco irritante, quando seus próprios pensamentos estavam tão confusos. Disse que não a tinha desejado, mas então, por que a beijou? Qual foi a razão? E então deixou escapar. —Por que me beijou? Por um momento pareceu como se Turner estivesse afogando‐se, embora com o que, Miranda não podia imaginar. Os cavalos desaceleraram um pouco, sentindo a falta de atenção de seu condutor e Turner a olhou com evidente surpresa.


Miranda viu sua angústia e decidiu que ele não podia encontrar a maneira de responder a sua pergunta. —Esquece o que perguntei — disse rapidamente. — Não importa. Mas ela não esquecia o que ela perguntou. O que tinha a perder? Ele não ia zombar dela e não ia contar histórias. Tinha só o abafado deste único momento, e isso não podia comparar‐se com a vergonha da noite anterior, assim... —Fui eu — disse ele de repente. — Só eu. E você estava infelizmente perto o bastante de mim. Miranda viu a desolação em seus olhos azuis e colocou a mão em sua manga. —Está tudo bem que esteja zangado com ela. Ele não fingiu não saber do que estava falando. —Está morta, Miranda. —Isso não quer dizer que não fosse uma pessoa excepcionalmente horrível quando estava viva. Olhou‐a com estranheza e logo começou a rir. —OH, Miranda, às vezes diz as coisas mais impossíveis. Ela sorriu. —Definitivamente tomarei isso como um elogio. —Me lembre de nunca te propor o posto de professora da escola dominical. —Nunca dominei totalmente a virtude cristã, temo. —OH, de verdade? —Pareceu divertido. —Ainda guardo rancor da pobrezinha Fiona Bennet. —E ela é? —A garota horrível que me chamou feia na festa do décimo primeiro aniversário de Olivia e Winston. —Deus querido, quantos anos faz disso? Me recorde de não te zangar. Ela arqueou repentinamente uma sobrancelha. —Ocuparei de que não o faça. —Você, minha querida moça, tem decididamente carências no que se refere à natureza caridosa. Encolheu os ombros, maravilhando‐se de como ele conseguiu fazê‐la sentir tão despreocupada e feliz em tão curto espaço de tempo. —Não o diga a sua mãe, acredita que sou uma Santa. —Comparada com Oliva, estou seguro que é. Miranda meneou o dedo para ele. —Não fale mal de Olivia, se for tão amável. Sou bastante leal a ela.


—É tão fiel como um cão, se me perdoar à comparação. —Adoro cães. E foi então quando chegaram à casa de Miranda. Adoro cães. Esse seria seu comentário final. Maravilhoso. Durante o resto de sua vida, ele a associaria com cães. Turner a ajudou a descer e logo olhou o céu, que havia começado a escurecer. —Espero que não se importe se não a acompanho para dentro — murmurou. —É obvio que não — disse Miranda. Era uma garota prática. Era uma tolice que ele se molhasse quando ela era perfeitamente capaz de entrar em sua própria casa. —Boa sorte — disse ele, saltando de volta a caleche. —Com o que? —Londres, a vida. – deu um encolheu de ombros. — Com o que deseje. Ela sorriu tristemente. Se ele soubesse. 19 de Maio de 1819

Chegamos a Londres hoje. Juro que nunca vi algo assim. É grande barulhenta e cheia de pessoas. Na realidade, bastante fedorenta. Lady Rudland diz que chegamos tarde. Muitas pessoas já estão na cidade, ea temporada começou faz um mês. Mas não há nada a fazer, Livvy teria parecido terrivelmente mal educada por sair quando deveria estar de luto por Letícia. Ainda assim, fizemos um pouco de besteira e viemos antes, embora só para as provas e os preparativos. Não iremos a nenhum evento até que o luto esteja terminado. Graças a Deus só se requeriam seis semanas. O pobre Turner devia guardar um ano. Já o perdoei, tenho medo. Sei que não deveria, mas não posso me obrigar a desprezá‐lo. Certamente devo ter alguma espécie de recorde pelo período mais longo de amor não correspondido. Sou patética. Sou um cão. Sou um cão patético. E desperdiço papel incrivelmente.


CAPÍTULO 4

Turner tinha planejado passar a primavera e o verão em Northumberland, onde poderia negar‐se a chorar a morte de sua esposa com algum grau de privacidade, mas sua mãe empregou um número assombroso de táticas. A mais letal, fazê‐lo se sentir culpado, é obvio; para que desse o braço a torcer e obrigá‐lo a viajar a Londres para apoiar Olivia. Não cedeu quando indicou que era a cabeça da família, e ante a sociedade sua presença no grande baile de Olivia asseguraria a participação dos melhores cavalheiros. Não cedeu quando lhe disse que não deveria desmoronar no campo e que lhe faria bem sair e estar entre amigos. Entretanto, teve que se render, quando apareceu em sua soleira e disse, ainda sem o benefício de uma saudação: —É sua irmã. E por isso ali estava na Casa Rudland em Londres, rodeado por quinhentas pessoas, se não o mais seleto do país, ao menos o mais pomposo. De todos os modos, Olivia teria que encontrar um marido entre todos eles, Miranda, também, e Turner seria maldito se permitisse a qualquer uma delas fazer um matrimônio tão desastroso como foi o dele. Londres formigava com equivalentes masculinos de Letícia, muitos dos quais começavam seus nomes com Lorde Isto ou Sir Aquilo. E Turner duvidava bastante de que sua mãe estivesse em dia sobre as mais acidentadas fofocas que atravessavam seus círculos. Ainda assim isto não significava que necessitassem que fizesse muitas aparições. Estava aqui, no baile de debutantes e as acompanhava de vez em quando, talvez houvesse algo no teatro que realmente gostasse de assistir, e, além disso, observaria o progresso dos acontecimentos. Para o final do verão, teria se cansado de todas estas tolices, e poderia retornar a... Bem, poderia voltar para o que fosse que esteve pensando e planejando fazer. O estudo da rotação de cultivos, talvez. Reatar o arco e flecha. Visitar o pub local. Gostava bastante da cerveja. E ninguém jamais fazia perguntas sobre o recente desaparecimento de Lady Turner. —Querido, está aqui! —Sua mãe de repente encheu sua visão, encantadora


em seu vestido púrpura. —Disse que chegaria a tempo — respondeu, terminando a taça de champanha que estava sustentando na mão. — Não lhe avisaram de minha chegada? —Não — respondeu algo distraidamente. — Estive correndo por toda parte como uma louca com todos os detalhes de último instante. Estou segura que os criados não desejaram me incomodar. —Ou não puderam encontrá‐la — comentou Turner, explorando ociosamente a multidão. Era uma multidão desenfreada, um êxito desde todo ponto de vista. Não viu nenhuma das convidadas de honra, mas por outro lado, ficou bastante contente de permanecer nas sombras durante vinte minutos ou o tempo que estava ali. —Consegui permissão para a valsa para ambas as moças — lhe disse Lady Rudland, — assim, por favor, você cumpra com seu dever com ambas. —Uma ordem direta — murmurou. —Especialmente com Miranda — acrescentou, não tendo ouvido seu comentário aparentemente. —O que quer dizer, especialmente com Miranda? Sua mãe virou com olhos sérios. —Miranda é uma moça notável e a quero muitíssimo, mas ambos sabemos que não é do tipo que a sociedade normalmente favorece. Turner lhe dirigiu um agudo olhar. —Também sabemos que a sociedade raramente é uma excelente conhecedora do caráter. Letícia, se recordar, foi um grande êxito. —Como Olivia, se o desta tarde serve de algum indício — respondeu asperamente sua mãe. — A sociedade é caprichosa e recompensa ao mau tão freqüentemente como ao bom. Mas nunca recompensa o aborrecido. Foi naquele momento que Turner divisou Miranda. Estava de pé perto de Olivia na porta do vestíbulo. Perto de Olivia, mas em mundos separados. Não era que Miranda estivesse sendo ignorada, porque certamente não estava. Estava sorrindo a um jovem cavalheiro que apareceu lhe solicitando uma dança. Mas não tinha nada parecido à multidão que rodeava Olivia, quem, Turner tinha de admitir, brilhava como uma radiante jóia colocada no engaste


apropriado. Os olhos de Olivia faiscaram, e quando sorriu, a música pareceu encher o ar. Havia algo cativante em sua irmã. Inclusive Turner tinha que admitir. Mas Miranda era diferente. Olhava. Sorria, mas era quase como se tivesse um segredo, como se tomasse apontamentos em sua mente sobre as pessoas que encontrava. —Vá dançar com ela — animou sua mãe. —Com Miranda? — perguntou surpreso. — Pensei que desejaria que concedesse minha primeira dança a Olivia. Lady Rudland assentiu. —Será um êxito enorme para ela. Não dançou desde... Nem sequer posso recordar. Muito antes de Letícia morrer. Turner sentiu a mandíbula apertar e teria dito algo, se não fosse porque sua mãe de repente ofegou, o que não foi nem a metade de surpreendente, do que seguiu o que, estava completamente seguro. Era o primeiro indício de blasfêmia que alguma vez cruzou seus lábios. —Mãe? —requereu —Onde está seu bracelete? —sussurrou urgentemente. —Meu bracelete — disse, com um pouco de ironia. —Por Letícia — acrescentou, como se ele não soubesse. —Acredito ter dito que escolhi não ficar de luto por ela. —Mas isto é Londres — vaiou. — E é a estréia de sua irmã. Deu um encolher de ombros. —Meu casaco é negro. —Seus casacos são sempre negros. —Talvez esteja de luto perpétuo então — disse brandamente — pela inocência perdida. —Criará um escândalo — vaiou limpamente. —Não — disse intencionadamente — Letícia criava escândalos. Eu simplesmente rejeito me afligir por minha escandalosa esposa. —Desejas arruinar sua irmã? —Minhas ações não repercutirão sobre ela nem a metade de mal que minha falecida esposa teria feito. —Isso não tem nada a ver, Turner. A verdade é que é sua esposa morreu e... —Vi o corpo — replicou, parando com eficácia seus argumentos. Lady Rudland retrocedeu. —Não há necessidade de ser vulgar sobre isso.


A cabeça de Turner começou a palpitar. —Peço perdão por isso, então. —Desejaria que reconsiderasse. —Eu preferiria que não ficasse angustiada — disse com um pequeno suspiro, — mas não mudarei de opinião. Pode me ter aqui em Londres sem o bracelete, ou pode me ter em Northumberland... Também sem o bracelete — terminou depois de uma pausa. — É sua decisão. Sua mãe apertou a mandíbula e não disse nada. Então simplesmente deu um encolher de ombros e disse: —Me reunirei a Miranda, então. E o fez. Miranda estava na cidade há duas semanas, e embora não estivesse segura que pudesse qualificar‐se como um êxito, não pensava qualificar‐se como um fracasso tampouco. Estava justo onde tinha esperado estar... Em algum lugar intermediário, com um cartão de dança que estava sempre cheio pela metade e um diário transbordante de observações do néscio, o insano, e ocasionalmente, o doloroso. Esse seria Lorde Chisselworth, quem tropeçou com um degrau na festa de Mottram e torceu o tornozelo. Dos néscios e insanos, havia muito que contar. Em geral, considerava‐se bem dotada para o jogo com os particulares talentos e atributos que Deus tinha lhe dado. Em seu diário, escreveu: Propus afiar meu dom de pessoas, mas como Olivia assinalou o bate‐papo ocioso nunca foi meu forte. Mas aperfeiçoei meu doce e vácuo sorriso, e parece ter funcionado o truque. Tinha três candidatos para me acompanhar no jantar! Ajudava, certamente, que sua posição como amiga íntima de Olivia fosse bem conhecida. Olivia tomou à sociedade por assalto, como todos sabiam que faria, e Miranda se beneficiava por associação. Havia cavalheiros que chegavam ao lado de Olivia muito tarde para garantir uma dança, e outros que simplesmente estavam muito aterrorizados para falar com ela. Em tais casos, Miranda sempre parecia uma opção mais cômoda. Mas ainda com toda a transbordante atenção, Miranda permanecia sozinha quando ouviu uma voz dolorosamente familiar. —Nunca diga que a peguei sem companhia, Senhorita Cheever. Turner. Não pôde menos que rir. Estava devastadoramente bonito com o escuro traje de noite e a luz da vela piscava dourada contra seu cabelo.


—Veio — disse simplesmente. —Pensou que não viria? Lady Rudland havia dito que planejava vir, mas Miranda não estava tão segura. Ele deixou claro como o cristal que não queria participar da sociedade este ano. Ou possivelmente em nenhum ano. Era difícil dizer agora. —Entendo que tiveram que chantageá‐lo para que viesse — disse enquanto adotavam posições um ao lado do outro, ambos olhando ociosamente para a multidão. Ele fingiu ofender‐se. —Chantagem? Que palavra tão feia. E incorreta neste caso. —OH? Inclinou‐se ligeiramente para ela. —Era culpa. —Culpa? — crispou os lábios e virou para ele com o olhar malicioso. — O que você fez? —É o que não fiz. Ou bem o que não estava fazendo – disse, dando um despreocupado encolher de ombros. — Disseram que você e Olivia seria um êxito se oferecesse meu apoio. —Creio que Olivia seria um êxito mesmo que não tivesse dinheiro e nascesse no lado errado da cama. —Eu não me preocuparia com você, tampouco — disse Turner, sorrindo para ela de uma maneira irritantemente benévola. Então franziu o cenho. — E poderia me dizer com o que me chantagearia minha mãe? Miranda sorriu. Gostou que estivesse descontraído. Sempre parecia tão controlado diante dela, enquanto que seu coração sempre conseguia palpitar três vezes mais onde quer que o veja. Por sorte, os anos colaboraram para que se sentisse cômoda com ele. Se não o conhecesse de tanto tempo, duvidava que fosse capaz de conseguir conversar na presença dele. Além disso, ele certamente suspeitaria de algo se ficasse muda cada vez que se encontravam. —Ah, não sei — pretendeu refletir. — Histórias de quando você era pequeno e isso... —Mas, se eu era um perfeito anjo. Ela levantou suas sobrancelhas com receio.


—Você deve pensar que sou muito crédula. —Não, somente muito cortês para me contradizer. Miranda revirou os olhos e se voltou para a multidão. Olivia estava dando audiência através do salão, rodeada por seu grupo habitual de cavalheiros. —Livvy tem um talento natural, não é? — disse. Turner cabeceou assentindo. —Onde estão todos seus admiradores, senhorita Cheever? Acho difícil de acreditar que não tenha nenhum. Ruborizou com o elogio. —Um ou dois, suponho. Tendo a me misturar com o moveis quando Olivia está perto. Ele disparou para ela um olhar incrédulo. —Me deixe ver seu cartão de dança. A contra gosto, entregou. Ele a examinou rapidamente, logo a devolveu. —Tinha razão — disse. — Está quase cheio. —Muitos deles encontraram o caminho para mim só porque estava de pé ao lado de Olivia. —Não seja tola. E não é nada pelo que ofender‐se. —Ah, mas não o estou — respondeu ela, surpreendendo‐se de que sequer ele pensasse. — Por quê? Pareço alterada? Ele retrocedeu e a inspecionou. —Não. Não, não parece. Que estranho. —Estranho? —Eu nunca conheci uma dama que não desejasse que uma manada de jovens candidatos a rodeasse em um baile. Miranda se arrepiou com a condescendência de sua voz e não foi capaz de guardar a insolência, quando disse: —Bem, agora sim. Mas ele só riu entre dentes. —E como, querida moça, você irá encontrar um marido com essa atitude? Ah, não me olhe como se a estivesse subestimando. Só fez que seus dentes chiassem mais duro. —Você mesma me disse que desejava encontrar um marido esta temporada. Tinha razão, caramba que homem! Que a deixou sem outra coisa que dizer. —Me faça o favor de não me chamar "querida moça". Ele sorriu abertamente.


—Ora, Senhorita Cheever, detecto um pouco de caráter em você? —Eu sempre tive caráter — disse ela um pouco zangada. —Pelo visto assim é. —Ainda sorria quando disse o que era ainda mais irritante. —Acreditava que você era mal‐humorado e ameaçador — queixou‐se. Ele deu um encolher de ombros. —Você parece tirar o melhor de mim. Miranda lhe dirigiu um olhar mordaz. Tinha esquecido a noite do funeral de Letícia? —O melhor? —Falou quase arrastando as palavras. — Realmente? Ao menos teve a graça de parecer envergonhado. —Ou de vez em quando o pior. Mas esta noite, só o melhor. —Ao elevar as sobrancelhas, acrescentou: — Devo cumprir aqui meu dever para com você. Dever. Uma palavra tão formal e aborrecida. —Me entregue seu cartão de dança. Ela entregou. Era um pequeno cartão de festa, com florzinhas e um pequeno lápis preso com uma fita no canto. Os olhos de Turner deslizaram pelo cartão, logo os semicerrou. —Por que você deixou todas suas valsas livres, Miranda? Minha mãe disse bastante expressamente que tinha assegurado a permissão à valsa tanto para você como para Olivia. —Ah, não é isso — apertou os dentes por uma fração de segundo, tratando de controlar o rubor que sabia ia começar a subir por seu pescoço em poucos segundos. — É só que, bom, para que saiba... —Fale Senhorita Cheever. —Por que sempre me chama Senhorita Cheever quando zomba de mim? —Tolices. Também a chamo Senhorita Cheever quando a repreendo. OH, bem, aquilo era uma melhora. —Miranda? —Não é nada — resmungou. Mas não a deixaria. —Obviamente é algo, Miranda. Você... —OH, muito bem, para que saiba, esperava que você dançasse a valsa comigo. Ele retrocedeu, seus olhos demonstraram sua surpresa. —Ou Winston — disse ela rapidamente, porque era seguro, ou ao menos escasseavam as possibilidades de passar vergonha... —Somos trocáveis então? —murmurou Turner.


—Não, certamente que não. Mas como não sou perita na valsa, me sentiria mais cômoda se minha primeira vez em público fosse com alguém que conheço — improvisou apressadamente. —Alguém que não se ofenderia mortalmente, se pisasse em seus pés? —Algo assim — resmungou. Como tinha conseguido meter‐se neste apuro? Saberia que estava apaixonada por ele ou pensaria que era uma imbecil assustada por dançar em público. Mas Turner, bendito seu coração, já estava dizendo. —Será uma honra dançar uma valsa com você. —Tomou o pequeno lápis e estampou seu nome no cartão de baile. — Agora está comprometida comigo para a primeira valsa. —Obrigada. Esperarei com impaciência. —Bem. Eu também. Deixará me anotar outra? Não posso pensar em ninguém mais aqui com quem me preferiria ver forçado a conversar durante os quatro minutos no auge da valsa. —Não tinha idéia que fosse uma tarefa para você — disse Miranda, fazendo uma careta —OH, não é! —assegurou. — Mas todas as demais sim o são. Aqui tem, dançaremos a última valsa, também. Terá que defender você mesma o resto delas. Não devo dançar com você mais que duas vezes. Céus, não! Miranda pensou incisivamente. Alguém poderia pensar que foi intimidado para dançar com ela. Mas sabia o que se esperava dela, assim sorriu firmemente e disse: —Não, certamente que não. —Muito bem, então — disse Turner, com o tom terminante que os homens gostam de usar quando definitivamente estão preparados para terminar uma conversa, sem reparar se alguém mais está. — Vejo o jovem Hardy vindo para reclamar a seguinte dança. Vou conseguir algo para beber. A verei na primeira valsa. E logo a deixou de pé no canto, murmurando saudações ao senhor Hardy enquanto partia. Miranda fez uma cumprida reverência a seu acompanhante de dança e logo tomou sua mão enluvada seguindo‐o à pista de dança para uma equipe. Não se surpreendeu quando, depois de comentar sobre seu vestido e o tempo, perguntou por Olivia. Miranda respondeu suas perguntas tão corretamente como foi capaz,


tratando de não animá‐lo excessivamente. Julgando a multidão que havia ao redor de sua amiga, as possibilidades do senhor Hardy eram escassas de verdade. A dança terminou com uma velocidade misericordiosa, e Miranda rapidamente se encaminhou para Olivia. —Ah, Miranda, querida! —exclamou. — Onde esteve? Estive falando com todos sobre você. —Não o fez — disse Miranda, levantando suas sobrancelhas incredulidade. —De verdade que sim, não é assim? —Olivia acotovelou um cavalheiro a seu lado, e ele imediatamente assentiu. —Eu mentiria? Miranda escondeu uma risada. —Se isso satisfizesse seus objetivos. —OH, para! É terrível. E onde esteve? —Necessitava um pouco de ar fresco, assim escapei a um canto para tomar um copo de limonada. Turner me fez companhia. —Ah! Chegou, então? Terei que guardar uma dança para ele. Miranda duvidou. —Não acredito que tenha nenhuma livre para guardar. —Isso não pode ser — Olivia olhou para seu cartão de dança. — OH, querida. Terei que tirar um destes. —Olivia, não pode fazer isso. —Por que não? Escuta Miranda, devo te dizer... — Deteve‐se de repente, recordando a presença de seus muitos admiradores. Deu a volta, sorrindo esplendorosamente a todos eles. Miranda não teria ficado surpreendida se tivessem caído no chão, um por um, como proverbiais moscas. —Cavalheiros, a algum de vocês importaria me trazer uma limonada? — perguntou Olivia docemente. — Estou completamente sedenta. Houve um amontoado de promessas, seguida por uma rajada de movimento, e Miranda só podia fixar‐se sobressaltada enquanto os observava escapulir em manada. —São como ovelhas — sussurrou. —Bom, sim — esteve de acordo Olivia, — exceto porque são bem mais parecidos a cabras. Miranda teve aproximadamente dois segundos para tentar decifrar isso antes


que Olivia acrescentasse: —Brilhante de minha parte, não é verdade, nos liberar de todos imediatamente. Digo, estou levando bastante bem tudo isto. Miranda assentiu, sem incomodar‐se em falar. Realmente, era inútil tratar de incluir algo próprio, quando Olivia estava contando uma história... —O que ia dizer — seguiu Olivia, inconscientemente confirmando a hipótese de Miranda, — é que realmente, a maior parte deles é espantosamente aborrecida. Miranda não pôde resistir a dar a sua amiga uma pequena espetada. —Com certeza ninguém nunca seria capaz de dizer te olhando em ação. —Ah, não estou dizendo que não esteja desfrutando — Olivia lhe dirigiu um olhar vagamente sardônico. — Quero dizer, realmente, não atiraria pedras contra o telhado de minha mãe. —O telhado de sua mãe — repetiu Miranda, tratando de recordar a origem do provérbio original. — Em algum lugar alguém certamente está derrubando‐se em sua tumba. Olivia inclinou a cabeça. —Shakespeare, talvez? —Não. —Maldição, agora não seria capaz de deixar de pensar nisso. — Isso não foi Shakespeare. —Maquiavel? Miranda esgotou mentalmente sua lista de escritores famosos. —Não acredito. —Turner? —Quem? —Meu irmão. Miranda levantou de repente a cabeça. —Turner? Olivia se inclinou um pouco a seu lado, estirando o pescoço enquanto se esforçava por olhar atrás da Miranda. —Parece bastante decidido. Miranda olhou para seu cartão de baile. —Deve ser o momento de nossa valsa. Olivia inclinou a cabeça a um lado em uma espécie de pesado movimento. —Está esplêndido também, não é? Miranda piscou e tratou de não suspirar. Turner estava bonito. Quase


insuportavelmente. E agora que era viúvo, certamente cada mulher, solteira e todas as mães, teriam isso em vista. —Pensa que se casará outra vez? —murmurou Olivia. —Eu... Não sei. —Miranda engoliu. — Acho que deveria, não? —Bom, sempre há Winston para proporcionar um herdeiro. E se você... Uf! O cotovelo de Miranda. Em suas costelas. Turner chegou junto a elas e saudou elegantemente. —Encantada de te ver, irmão — disse Olivia com um amplo sorriso. — Quase tinha renunciado a sua presença. —Tolices. — Mamãe teria me cortado em pedaços. —Seus olhos entrecerrados quase imperceptivelmente, mas claro, Miranda tendia a notar tudo sobre ele, e perguntou: — por que Miranda bateu nas suas costelas? —Não o fiz! —protestou Miranda. E então, quando seu fixo olhar se tornou bastante duvidoso, resmungou: — Foi só um tapinha. —Cotovelada, tapinha, isto tem tudo para ser uma conversa que é a primeira vista mais divertida que qualquer coisa neste salão de dança. —Turner! —protestou Olivia. Turner a descartou com um movimento rápido de sua cabeça e se virou para Miranda. —Você acha que objeta minha linguagem ou é meu julgamento dos seus acompanhantes de dança como idiotas? —Penso que era sua linguagem — disse Miranda brandamente. — Ela disse que a maior parte, eram uns idiotas também. —Não é o que disse — interpôs Olivia. — Disse que eram aborrecidos. —Ovelhas — confirmou Miranda. —Cabras — acrescentou Olivia com um encolhimento de ombros. Turner começou a parecer alarmado. —Bom Deus, falam vocês duas uma linguagem própria? —Não, estamos sendo perfeitamente claras — disse Olivia,— mas me diga, sabe quem disse primeiro, "Não cuspa para o alto que pode cair na cara"? —Não estou seguro de entender a conexão — murmurou Turner. —Isso não é Shakespeare — disse Miranda. Olivia sacudiu a cabeça. —Quem outro poderia ser? —Bom — disse Miranda — qualquer um dos milhares de notáveis escritores de língua inglesa.


—Foi por isso que, ehh, bateu nas costelas dela? — perguntou Turner. —Sim — respondeu Miranda, apanhando a oportunidade. Infelizmente, Olivia ganhou por segundo meio com um: —Não. Turner olhou de uma a outra com expressão divertida. —Era sobre Winston — disse Olivia com impaciência. —Ah, Winston — Turner olhou ao redor. — Está aqui, não? — Então arrancou o cartão de dança de Miranda de seus dedos. — Por que não reclamou uma dança ou três? Não estavam vocês dois planejando juntar‐se? Miranda apertou os dentes e recusou responder. O que era uma opção absolutamente razoável, embora soubesse que Olivia não permitiria deixar passar à oportunidade. —Certamente não é nada oficial — estava dizendo — mas todos estamos de acordo em que seria um casal esplêndido. —Todos? — perguntou Turner brandamente, olhando Miranda. —E quem não? — respondeu Olivia com o rosto impaciente. A orquestra levantou seus instrumentos e as primeiras notas de uma valsa flutuaram no ar. —Acredito que esta é minha dança — disse Turner, e Miranda compreendeu que seus olhos não se afastaram dos seus. Ela tremeu. —Vamos? —murmurou ele e ofereceu seu braço. Ela assentiu, necessitando um momento para recuperar a voz. Compreendeu que sentia algo. Algo estranho, tremores que a deixava sem fôlego. Só tinha que olhá‐ la, não na forma usual como quando conversavam, mas sim realmente olhá‐la, deixar os olhos postos nos seus, profundamente azuis e intuitivos, e se sentia nua, a alma descoberta. E o pior de tudo... Ele não tinha nem idéia. Ali estava ela, com cada emoção exposta, e Turner provavelmente não via nada mais que o moreno embotado de seus olhos. Era a pequena amiga de sua pequena irmã, e segundo todas as probabilidades, era tudo o que sempre seria. —Vão me deixar aqui absolutamente sozinha, não é? — disse Olivia, não irritada, mas com um suspiro.


—Não tenha nenhum medo — assegurou Miranda — não ficará sozinha por muito tempo. Acho que estou vendo sua multidão voltar com a limonada. Olivia fez uma careta. —Alguma vez notou Turner, que Miranda tem um senso de humor bastante estranho? Miranda inclinou a cabeça de lado e suprimiu um sorriso. —Por que suspeito que seu tom não fosse precisamente elogioso? Olivia fez uma pequena onda depreciativa. —Vá logo! Que tenha um agradável dança com Turner. Turner tomou o cotovelo de Miranda e a conduziu à pista de dança. —Sabe, realmente tem um senso de humor bastante estranho — murmurou. —Tenho? —Sim, mas isso é o que mais gosto de você. Por favor, não mude. Miranda tratou de não sentir‐se absurdamente satisfeita. —Tentarei senhor. Ele estremeceu quando pôs seus braços ao redor dela para a valsa. —Senhor, agora é assim? Desde quando se tornou tão formal? —É por todo este tempo em Londres. Sua mãe esteve insistindo sobre a etiqueta —riu docemente — Nigel. Ele franziu o cenho. —Acredito que prefiro senhor. —Eu prefiro Turner. A mão dele apertava sua cintura. —Bom. Deixe‐o assim. Miranda soltou um pequeno suspiro enquanto ficavam calados. Enquanto a valsa seguia bastante formal. Não havia giros ofegantes, nada que pudesse deixá‐la tensa e tonta. E isso lhe deu a oportunidade de saborear o momento, saborear a sensação de sua mão na dele. Aspirou ao aroma, sentiu o calor do corpo dele, e simplesmente desfrutou. Tudo parecia tão perfeito... Tão perfeitamente correto. Era quase impossível imaginar que ele não sentisse também. Mas não o fazia. Não se enganava, desejaria que ele a desejasse. Quando elevou a vista para ele, olhava a alguém na multidão, o olhar só um pouco turvo, como se estivesse lutando com um problema em sua mente. Esse não era o olhar de um homem apaixonado. E tampouco era o que seguiu, quando finalmente olhou atentamente para ela e disse: —Não é ruim com a valsa, Miranda. De fato, realmente é bastante perita. Não vejo por que estava tão inquieta sobre isto. Sua expressão era amável. Fraternal.


Era dilacerador. —Não tive muita prática recentemente — improvisou ela, já que ele pareceu esperar uma resposta. —Inclusive com Winston? —Winston? — Repetiu. Seus olhos se mostraram divertidos. —Meu irmão menor, se você recordar. —Claro — disse. — Não. Quero dizer, não, não dancei com Winston em anos. —Sério? Elevou a vista para ele rapidamente. Havia algo estranho em sua voz, quase, mas não o suficiente, uma débil nota de prazer. Não de ciúmes, infelizmente, não pensou que se preocupasse de uma ou outra maneira se dançava com seu irmão. Mas tinha a estranha sensação que estava felicitando a si mesmo, como se houvesse predito sua resposta corretamente e estivesse contente por sua astúcia. Meu Deus estava pensando muito, estava chegando muito longe... Olivia sempre a estava acusando disso, e por uma vez, Miranda teve que lhe dar razão. —Não vejo freqüentemente Winston — disse Miranda, esperando que a conversa a frearia de obcecar‐se sobre perguntas completamente incontestáveis... Como o verdadeiro significado da palavra sério. —OH? —provocou Turner, acrescentando um toque de pressão na parte baixa de suas costas enquanto giravam para a direita. —Geralmente está na universidade. Inclusive agora não terminou todo o trimestre. —Suponho que o verá bastante durante o verão. —Isso eu espero — pigarreou. — E, quanto tempo planeja ficar? —Em Londres? Ela assentiu. Ele fez uma pausa, e fizeram um encantado e pequeno giro à esquerda antes que finalmente dissesse: —Não estou seguro. Não muito tempo penso. —Entendo. —Suponho que estou de luto de todos os modos. Mamãe estava horrorizada porque não pus o bracelete. —Eu não — declarou. Ele sorriu e desta vez não foi fraternalmente. Não estava cheio de paixão e


desejo, mas ao menos era algo novo. Era ardiloso e conspirativo e fez que se sentisse parte de uma brincadeira. —Por que, Senhorita Cheever — murmurou maliciosamente — detecto uma raiz de rebeldia em você? Seu queixo se elevou uma polegada. —Nunca entendi a necessidade de vestir‐se de negro por alguém com quem não está familiarizado, e certamente não vejo a lógica do luto por uma pessoa a quem se acha detestável. Durante um momento o rosto dele permaneceu sem nenhuma expressão, e logo sorriu abertamente. —Por quem se viu forçada a levar luto? Os lábios dela se deslizaram um sorriso. —Um primo. Ele se inclinou aproximando‐se de seu cabelo. —Alguma vez alguém lhe disse que é impróprio sorrir quando se fala da morte de um familiar? —Nunca conheci o homem. —Ainda assim... Miranda soltou um bufo elegante. Sabia que estava ferroando, mas estava muito divertido para frear‐se. —Viveu sua vida inteira no Caribe — acrescentou. — Não era estritamente a verdade, mas em sua maior parte o era. —É uma pequena donzela sanguinária — murmurou. Ela deu um encolher de ombros. Vindo de Turner, parecia um elogio. —Acredito que você será um membro bem recebido na família — disse. — A condição de que possa tolerar meu irmão menor por larguíssimos períodos de tempo. Miranda tentou conseguir um sorriso sincero. O casamento com Winston não era seu método preferido para converter‐se em membro da família Bevelstoke. E apesar das tentativas e maquinações de Olivia, Miranda não acreditava que o casamento estivesse próximo. Havia numerosas e excelentes razões para considerar casar‐se com Winston, mas havia uma poderosa razão para não fazê‐lo, e essa estava de pé diretamente diante ela. Se Miranda fosse se casar com alguém que não quisesse, esse não seria o irmão do homem que amava.


Ou quem acreditava amar. Continuava tentando se convencer de que não o amava que tudo foi um amor de adolescente, e que poderia superá‐lo... Que já havia superado e simplesmente não se deu conta ainda. Tinha o hábito de pensar que estava apaixonada por ele. Isso era tudo. Mas então ele fez algo completamente odioso, como sorrir e todas suas difíceis tarefas voaram pela janela, e teve que começar de novo. Um dia conseguiria. Um dia despertaria e compreenderia que teve dois dias de sensatez sem pensar em Turner e logo magicamente seriam três e logo quatro e... —Miranda? Elevou a vista. Ele a estava olhando com uma expressão de regozijo, e poderia ter parecido condescendente, exceto porque seus olhos estavam franzindo‐se nos cantos... E durante um momento, pareceu aliviado, jovem e talvez, satisfeito. E ela estava ainda apaixonada por ele. Ao menos pelo resto da noite não poderia convencer‐se do contrário. À manhã seguinte, começaria outra vez, mas por esta noite, não ia se incomodar em tentar. A música terminou e Turner deixou sua mão, retrocedendo para executar uma elegante reverencia. Miranda fez uma reverência ao seu tempo, e logo tomou seu braço enquanto a conduzia ao perímetro do salão. —Onde supõe que poderíamos encontrar Olivia? —murmurou, estirando o pescoço. — Creio que terei que apagar um dos cavalheiros de seu cartão para dançar com ela. —Por Deus! Não faça que soe como um trabalho — declarou Miranda. — Não somos tão terríveis. Ele deu a volta e a olhou com um pouco de surpresa. —Não disse nada sobre você. Não me importaria seguir dançando com você nem um pouco. Como elogios eram mornos no máximo, mas Miranda ainda encontrou um modo de sustentá‐los perto de seu coração. Mas como, pensou miseravelmente, era prova de que se afundou tão baixo como podia. O amor não correspondido, estava descobrindo, era muito pior quando realmente via o objeto de seus desejos. Tinha passado quase dez anos sonhando acordada com Turner, esperando pacientemente qualquer notícia ocorrida aos Bevelstoke deixada cair no chá da tarde, e logo tratando de ocultar sua sorte e alegria, para não mencionar o terror de ser descoberta, quando vinha de


visita uma ou duas vezes por ano. Pensou que nada poderia ser mais patético, mas parecia que, estava equivocada. Isto era definitivamente pior. Antes, era inexistente. Agora era um velho sapato cômodo. Cáspita! Deu uma olhada a ele. Não estava olhando‐a. Não estava olhando‐a e certamente não estava evitando olhá‐la. Simplesmente não estava olhando‐a. Não lhe perturbava absolutamente. —Aí está Olivia — disse suspirando. Sua amiga estava rodeada, como sempre, por um grupo ridiculamente grande de cavalheiros. Turner contemplou a irmã com olhos entrecerrados. —Não parece como se algum deles se comportasse mal, não é? Foi um dia longo, e preferiria não ter que brincar de velho irmão feroz esta noite. Miranda se elevou sobre seus pés para observar melhor. —Penso que está a salvo. —Bem. E logo se deu conta de que tinha inclinado a cabeça e olhava a irmã de uma maneira estranhamente objetiva. —Hmmm. —Hmmm? Virou‐se para Miranda, que estava ainda em seu lado, olhando‐o com aqueles olhos marrons sempre curiosos. —Turner? Ouviu‐a, e respondeu com outro: —Hmmm? —Parece um pouco estranho. Não disse: sente‐se bem? Ou está indisposto? Só: parece um pouco estranho. Isso o fez sorrir. E o fez pensar quanto na realidade gostava desta moça, e como esteve enganado com ela no dia do funeral de Letícia. Isso o fez querer fazer algo agradável por ela. Olhou a sua irmã uma última vez, e logo disse, girando‐se lentamente. —Se fosse um homem mais jovem, o que não sou... —Turner, não tem ainda trinta anos. Sua expressão se tornou impaciente... Naquela controlada forma que ele achava estranhamente entretida, e lhe dando de presente um preguiçoso


encolher de ombros respondeu: —Sim, bom, sinto‐me mais velho. Ancião estes dias, para falar a verdade. — Quando compreendeu que estava olhando‐o com expectativa, clareou a garganta e disse: — Simplesmente tentava dizer que se eu estivesse farejando ao redor da ninhada de novas debutantes, não acredito que Olivia apanhasse meu olhar. As sobrancelhas de Miranda se elevaram. —Bom, é sua irmã. Além das ilegalidades... —OH, pelo amor de... Estava tentando elogiá‐la — interrompeu‐o. —OH. — ela clareou a garganta. Ruborizando um pouco, embora fosse difícil estar seguro com tão pouca a luz. — Bem, nesse caso, por favor, siga adiante. —Olivia é bastante formosa — seguiu. — Inclusive eu, seu velho irmão, posso ver isso. Mas há alguma coisa de carência atrás de seus olhos. O que obteve um imediato ofego. —Turner, que coisa terrível está dizendo. Sabe tão bem como eu que Olivia é muito inteligente. Muito mais que a maior parte dos homens que se aglomeram ao seu redor. Olhou‐a indulgente. Era uma jovem tão leal. Não tinha dúvida de que mataria por Olivia se alguma vez surgisse a necessidade. Era uma boa coisa que estivesse aqui. Além de qualquer tendência calmante que tivesse sobre sua irmã, mas suspeitava que a família Bevelstoke inteira tivesse uma enorme dívida de gratidão por isso. Miranda era bastante segura, a única coisa que faria seu tempo em Londres suportável. Deus sabia que não queria vir. A última coisa que necessitava neste mesmo momento era que as mulheres estivessem à caça de sua posição, tentando encher os pequenos e miseráveis sapatos de Letícia. Mas com Miranda, ao menos se assegurava uma conversa decente. —Certamente que Olivia é inteligente — disse com voz apaziguadora. Permita‐ me reformular. Pessoalmente não a acharia fascinante. Ela franziu os lábios, e a tutora voltou. —Bem, essa é sua prerrogativa, suponho. Ele sorriu e inclinando‐se, insinuou:


—Acredito que seria mais provável que me encaminhasse em sua direção. —Não seja tolo — resmungou. —Não o sou — assegurou. — Mas repito, sou mais velho que a maior parte daqueles idiotas que estão com minha irmã. Talvez meus gostos, amadureceram. — Mas o ponto é discutível, suponho, porque ao não ser um jovem, não está farejando na ninhada de debutantes deste ano. E não está procurando uma esposa. — Isto era uma declaração, não uma pergunta. —Deus, não — soltou. — Que diabos eu faria com uma esposa? 2 DE JUNHO DE 1819

Lady Rudland anunciou no café da manhã que a festa de ontem à noite foi um estupendo êxito. Não pude menos que sorrir ante sua escolha de palavras, não acredito que alguém rejeitaria seu convite, e juro que o salão estava tão lotado como nunca. Certamente me senti diminuída entre toda uma sorte de perfeitos estranhos. Acho que devo ser uma moça de simplório coração, porque não estou tão segura que deseje alguma outra vez intimar tanto com meus próximos masculinos. Disse‐o assim no café da manhã, e Turner cuspiu o café. Lady Rudland lhe lançou um olhar assassino, mas não posso imaginar que seja porque esteja apaixonada por seu jogo de mesa. Turner tem a intenção de permanecer na cidade durante só uma semana ou duas. Fica conosco na Casa Rudland, o que é encantador e terrível ao mesmo tempo. Lady Rudland divulgou que alguma velha viúva duquesa mal‐humorada, foram suas palavras, não as minhas, e não revelaria sua identidade em qualquer caso, disse que eu estava agindo muito familiar com Turner e que as pessoas poderiam conceber uma idéia incorreta. Disse que indicou à velha viúva mal‐humorada (o que vem como anel ao dedo) que Turner e eu somos quase como irmãos. E que é natural que confiasse nele para minha estréia na festa, e que não há nenhuma idéia incorreta a ser levada em conta. Pergunto‐me se haverá alguma vez uma Idéia Correta em Londres. CAPÍTULO 5

Uma semana ou mais depois, o sol brilhava tão deslumbrantemente que


Miranda e Olivia, tendo saudades suas habituais estadias no campo, decidiram passar a manhã explorando Londres. Ante a insistência de Olivia, começaram pelo bairro comercial. —Na realidade não necessito outro vestido — disse Miranda quando passeavam rua abaixo, suas criadas seguindo‐as a uma distância respeitosa. —Nem eu, mas sempre é muito divertido olhar, e por outra parte, talvez encontremos algumas quinquilharias ou algo do estilo para comprar com nosso dinheiro para gastos menores. Seu aniversário chegará antes que nos demos conta. — Deve comprar um presente. —Talvez o faça. Ambas perambularam por lojas de roupas, chapelaria, joalherias e confeitarias antes que Miranda encontrasse o que sem saber tinha estado procurando. —Olhe isso, Olivia — suspirou. — Não é magnífico? —O que não é magnífico? —replicou Olivia, examinado a vitrine elegantemente decorada da livraria. —Isso. —Miranda assinalou com o dedo a uma cópia requintadamente encadernada de A Morte D'Arthur do Sir Thomas Malory. Parecia caro e precioso, e Miranda não desejava nada mais que inclinar‐se através da janela e inalar o ar que flutuava ao redor deste. Pela primeira vez em sua vida, viu algo que simplesmente devia possuir. Esquecendo‐se de sua economia. Esquecendo‐se de seu espírito prático. Suspirou profunda, expressiva e urgentemente, logo disse: —Acredito que finalmente compreendo seus sentimentos para os sapatos. —Sapatos? —Repetiu Olivia, olhando os pés. — Sapatos? Miranda não se incomodou em explicar mais. Estava muito ocupada em inclinar a cabeça para poder admirar o pão de ouro que decorava as páginas. —Já lemos este — insistiu Olivia. — Acho que foi há dois anos, quando a Senhorita Lacey foi contratada como nossa tutora. Não recorda? Estava consternada porque ainda não tínhamos lido. —Não me importa se já lemos — disse Miranda, aproximando‐se muito mais do vidro. — Não é o objeto mais belo que viu? Olivia observou a amiga com uma expressão vacilante. —Hein... Não. Miranda sacudiu a cabeça ligeiramente e levantou o olhar para Olivia. —Suponho que isto é o que converte à arte em algo importante. O que pode fazer que uma pessoa entre em êxtase ou pode falhar em comovê‐lo.


—Miranda, é um livro. —Esse livro — Miranda determinou com firmeza — é uma obra de arte. —Parece muito antigo. —Eu sei. —Suspirou felizmente Miranda. —Comprará? —Se tiver o dinheiro suficiente. —Achei que poderia. Não gastou seu dinheiro para gastos menores em anos. Sempre o guardou naquele vaso de porcelana que Turner enviou por seu aniversário faz cinco anos. —Seis. Olivia piscou. —Seis o, que? —Foi há seis anos. —Faz cinco ou seis anos, qual é a diferença? —exclamou Olivia, parecendo bastante exasperada pela exatidão de Miranda. — A questão é que tem dinheiro suficiente guardado, e se deseja sinceramente esse livro, deve comprá‐lo para celebrar seu vigésimo aniversário. Nunca compra nada para você mesma. Miranda virou para a tentação que a chamava na janela. O livro tinha sido colocado em um pedestal e estava aberto em uma página do centro. Com brilhantes cores uma ilustração retratava Arthur e Guinevere. —Deve ser caro — disse ela infeliz. Olivia lhe deu um pequeno empurrão e disse: —Nunca saberá se não entrar e perguntas. —Tem razão. Farei! — Miranda lhe brindou um sorriso que oscilava entre o entusiasmo e o nervosismo, logo se dirigiu à loja. A confortável livraria estava decorada em tons ricos e masculinos, abarrotada com cadeiras de couro colocadas em lugares estratégicos para aqueles que possivelmente quisessem sentar e folhear um volume. —Não vejo o proprietário — cochichou Olivia na orelha de Miranda. —Justo ali. —Miranda fez gestos com a cabeça para um homem magro e parcialmente calvo próximo à idade de seus pais. — Olhe, está ajudando aquele homem a encontrar um livro. Esperarei até que esteja desocupado. Não desejo incomodar. As duas damas esperaram pacientemente durante uns poucos minutos enquanto o livreiro estava ocupado. De vez em quando, dirigia‐lhes um olhar carrancudo, que desconcertou muito Miranda, tanto ela como Olivia se vestiam apropriadamente e obviamente podiam permitir comprar a maior parte da mercadoria. Finalmente, ele terminou sua tarefa e se dirigiu apressadamente para elas.


—Perguntava‐me, senhor... — começou a dizer Miranda. —Esta é uma livraria para cavalheiros — disse ele com voz hostil. —Ah. —Miranda retrocedeu um pouco intimidada pela atitude. Mas como desejava desesperadamente o livro do Malory, engoliu seu orgulho, sorriu docemente, e continuou. — Desculpe‐me. Não me dei conta disto. Mas esperava que... —Já disse que esta é uma loja de cavalheiros. —Os pequenos e brilhosos olhos se estreitaram. — Rogo que parta. Rogar? Ela o olhou fixamente, os lábios abertos com assombro. Rogar ? Com esse tipo de tom? —Vamos, Miranda — disse Olivia, agarrando pela manga. — Devemos ir. Miranda apertou os dentes e não se moveu. —Queria comprar um livro. —Estou seguro que assim é — disse o livreiro. — E a livraria para damas fica tão somente um quarto de milha. —A livraria para damas não tem o que desejo. Ele sorriu zombeteiramente. —Então estou seguro que você não deveria lê‐lo. —Não acredito que esteja em posição de emitir esse julgamento, senhor — disse Miranda friamente. —Miranda — murmurou Olivia, com olhos abertos. —Só um momento — respondeu ela, sem afastar os olhos do pequeno e repulsivo homem. — Senhor pode assegurar que possuo amplos recursos. E se você só me permitisse revisar A Morte D'Arthur, talvez possa persuadi‐lo a separar‐se deste. Ele cruzou os braços. —Não vendo livros a mulheres. Na verdade, isso tinha chegado muito longe. —Desculpe? —Vá embora — grunhiu, — ou terei necessariamente que expulsá‐las. —Isso seria um engano, senhor — contradisse Miranda bruscamente. — Sabe quem somos nós? —Não lhe era habitual aproveitar seu nível superior, mas não se opunha a fazê‐lo se a ocasião pedisse. O livreiro não estava impressionado. —Certamente eu não me importo. —Miranda — suplicou Olivia, extremamente incômoda.


—Sou a Senhorita Miranda Cheever, filha do Sir Rupert Cheever, e esta — disse Miranda com um floreio, — é Lady Olivia Bevelstoke, filha do Conde de Rudland. Sugiro que volte a considerar sua política. Ele igualou seu altivo olhar. —Não me interessa se você for à maldita Princesa Carlota. Saia de minha loja. Miranda semicerrou os olhos antes de mover‐se para sair. Era o suficiente mau que ele a tivesse insultado. Mas tamanha afronta à memória da princesa, estava além dos limites. —Você não escutou o final desta conversa, senhor. —Fora! Ela tomou o braço de Olivia e deixou o local em um arranque de fúria, fazendo que a porta desse um bom golpe. —Pode acreditar? — disse uma vez que estavam seguras do lado de fora. Isso foi horroroso. Criminal. Foi... —Uma livraria para cavalheiros — interrompeu Olivia, olhando‐a como se de repente tivesse brotado uma cabeça a mais. —E? Olivia se esticou ante seu tom quase agressivo. —Há livrarias para cavalheiros e livrarias para damas. É a maneira habitual. Miranda fechou com força os punhos. —É uma maldita e estúpida maneira, se me perguntar isso. —Miranda! —ofegou Olivia de forma audível. — O que acaba de dizer? Miranda teve a graça de ruborizar ante sua linguagem vulgar. —Observa quanto fez para me transtornar? Jamais antes me ouviu amaldiçoar em voz alta. —Não, e não estou segura de querer saber quantas maldições tem em mente. —É absurdo — fumegou Miranda. — Absolutamente absurdo. Ele tem algo que desejo comprar, e eu tenho o dinheiro para pagar por isso. Deveria ter sido um assunto simples. Olivia olhou furtivamente ao caminho. —Por que simplesmente não vamos à livraria para damas? —Não há nada que desejaria em circunstâncias mais ou menos normais.


—Preferiria não freqüentar essa espantosa loja para homens. Mas duvido que tenham uma cópia similar de A Morte D'Arthu r, Livvy. Estou segura que é um artigo singular. E o pior... —Miranda elevou a voz quando a injustiça de tudo aquilo a embargou mais firmemente. — E o pior... —Há algo pior? Miranda a fulminou com um olhar cheio de irritação, mas, entretanto, respondeu: —Sim. Há. O pior é que se inclusive houvesse duas cópias, o que estou segura não há, a livraria para damas provavelmente não teria uma, de todos os modos, porque ninguém pensaria que uma dama desejaria um livro semelhante! —Não o fariam? —Não. Provavelmente esteja repleta de Byron e novelas da senhora Radcliffe. —Eu gosto de Byron e as novelas da senhora Radcliffe — disse Olivia, soando vagamente ofendida. —Eu também — assegurou Miranda, — mas também desfruto de outro tipo de literatura. E com segurança não acredito que esse homem esteja em posição — assinalou enojadamente com um dedo para a vitrine da livraria — de decidir o que posso ou não posso ler. Olivia a olhou fixamente por um momento, então cortesmente perguntou: —Deseja‐o muito? Miranda alisou suas saias e sorveu pelo nariz. —Muito. Olivia virou para a livraria, e logo lhe dirigiu um olhar de lastima sobre o ombro antes de colocar uma mão consoladora no braço de Miranda. —Conseguiremos que papai o compre para você. Ou Turner. —Essa não é a questão. Não acredito que compreenda quanto isto me afeta. Olivia suspirou. —Quando se converteu em uma guerreira, Miranda? Achava que era eu a desinibida do dueto. A mandíbula de Miranda começou a doer de tanto apertá‐la. —Suponho — quase grunhiu — que nunca desejei tanto algo antes deste contratempo. A cabeça de Olivia foi levemente para trás. —Me lembre de tomar precauções para evitar alterá‐la no futuro.


—Conseguirei esse livro. —Excelente, faremos que... —E ele saberá que o obtive. —Miranda deu à livraria um último e agressivo olhar, logo deu longos passos para casa. —É obvio que comprarei o livro para você, Miranda — disse Turner com condescendência. Tinha desfrutado de uma tarde bastante tranqüila, lendo o jornal e ponderando a vida como um cavalheiro sem compromissos, quando sua irmã entrou como uma explosão na sala, anunciando que Miranda necessitava desesperadamente um favor. Tudo isto era muito entretido, realmente, especialmente o olhar mortal que Miranda tinha dado a Olivia ao usar a palavra desesperada. —Não quero que você o compre para mim — particularizou Miranda. — Quero que você o compre comigo. Turner se recostou na cômoda cadeira. —Há alguma uma diferença? —Um mundo de diferença. —Um mundo — confirmou Olivia, só que ela sorria, e ele suspeitou que não visse nenhuma diferença. Miranda lançou outro olhar encolerizado e desta vez Olivia realmente retrocedeu e exclamou. —O que? Estou te apoiando! —Não acredita que é um equívoco — Miranda continuou ferozmente, retornando a sua diatribe e dirigindo‐se a ele — que não possa fazer compras em certa loja simplesmente porque sou uma mulher? Ele sorriu preguiçosamente. —Miranda, há certos lugares onde as mulheres não podem ir. —Não pretendo entrar em um de seus preciosos clubes. Somente desejo comprar um livro. Não há nada remotamente inapropriado nisso. É uma antiguidade, por Deus Santo. —Miranda, se esse cavalheiro for o proprietário dessa loja, pode decidir a quem venderá e a quem não. Ela cruzou os braços. —Bem, talvez não devesse ser mimado. Possivelmente deveria existir uma lei que diga que os livreiros não podem impedir a entrada das mulheres em seus estabelecimentos. Ele levantou uma irônica sobrancelha.


—Você não esteve lendo a essa Mary Wollstonecraft, ou sim? —Mary quem? —perguntou Miranda com uma voz distraída. —Bem. —Não mude de assunto, por favor, Turner. Concorda ou não que devo comprar esse livro? Turner suspirou bastante esgotado ante sua inesperada teimosia. E tudo por um livro. —Miranda, por que deveriam lhe permitir a entrada em uma livraria de cavalheiros? Você nem sequer pode votar. Sua explosão de indignação foi colossal. —E isso é outro ponto... Turner se deu conta rapidamente que tinha cometido um engano tático. —Esqueça que mencionei o direito ao voto. Por favor. Irei com você comprar o livro. —Irá? —Seus olhos se iluminaram com um suave brilho marrom. — Obrigada. —Está bem na sexta‐feira? Não acredito ter nenhum compromisso nessa tarde. —Ah, eu também quero ir — interrompeu Olivia. —Absolutamente não — disse Turner firmemente. — Uma de vocês é tudo o que posso dirigir. Meus nervos, já sabe. —Seus nervos? Deu‐lhe um olhar. —Vocês os põem a prova. —Turner! —exclamou Olivia. Ela virou para Miranda. — Miranda! Mas Miranda ainda estava concentrada em Turner. —Poderíamos ir agora? —perguntou ela, dando a impressão de não ter ouvido uma palavra de sua briga. — Não quero que esse livreiro se esqueça de mim. —Julgando pelo relato de Olivia de sua aventura — disse Turner ironicamente — duvido que isso aconteça. —Mas, por favor, poderíamos ir hoje? Por favor. Por favor. —Dá‐se conta de que está suplicando? —Não me importa — disse ela imediatamente. Ele refletiu sobre isso. —Ocorre que poderia utilizar esta situação a meu favor.


Miranda o olhou entreabrindo os olhos. —O que é o que quer dizer? —Ah, não sei. A gente nunca sabe quando talvez necessite um favor. —Já que não tenho nada que você possa desejar, o aconselho a esquecer de seus inócuos planos e simplesmente me acompanhar à livraria. —Muito bem. Façamos. Ele acreditou que ela talvez saltasse de felicidade. Deus bendito. —Não fica longe — dizia ela. — Podemos ir andando. —Está seguro de que não posso ir com vocês? —perguntou Olivia, seguindo‐os ao vestíbulo. —Fique — ordenou Turner benignamente quando observou que Miranda cruzava a porta. — Alguém precisará chamar a guarda quando não retornarmos. Dez minutos depois, Miranda se detinha frente à livraria da qual tinha sido expulsa mais cedo nesse dia. —Calma Miranda — escutou Turner murmurar a seu lado. — Parece um pouco atemorizante. —Bem — respondeu ela sucintamente e deu um passo para frente. Turner colocou uma mão tranqüilizadora no braço dela. —Me permita entrar antes de você — sugeriu com um brilho de diversão no olhar. — A mera visão de você pode ocasionar ao pobre homem uma apoplexia. Miranda franziu o cenho, mas permitiu que ele passasse. Não havia maneira de que o livreiro ganhasse desta vez. Vinha acompanhada com um verdadeiro cavalheiro e uma sã dose de raiva. O livro era quase dela. Uma campainha tilintou quando Turner entrou na loja. Miranda o seguia de perto, quase pisando seus calcanhares. —Posso ajudar senhor? — perguntou o livreiro, todo com aduladora cortesia. —Sim, estou interessado em... — Suas palavras se desvaneceram enquanto ela jogava um olhar pela loja. —Esse livro — disse Miranda firmemente, assinalando para o mostrador na vitrine. —Sim, esse. —Turner ofereceu ao livreiro um amável sorriso. —Você! —balbuciou o livreiro, seu rosto ruborizou com a ira. — Fora! Saia de


minha loja! —Agarrou o braço de Miranda e tratou de arrastá‐la a porta. —Pare! Disse para parar! —Miranda não permitiria ser maltratada por um homem que considerava um idiota, agarrou sua bolsa e o golpeou na cabeça. Turner gemeu. —Simmons! —gritou o livreiro, chamando o ajudante. — Chame a polícia. Esta senhorita é desequilibrada. —Não sou desequilibrada, sua grande cabra! Turner avaliou suas opções. Realmente, não podia haver um bom resultado. —Sou um cliente que vai pagar — continuou Miranda acaloradamente. — E quero comprar A Morte D'Arthur! —Morrerei antes que chegue a suas mãos, sua rameira mal educada! Rameira? Isso era realmente muito para Miranda, uma senhorita cuja suscetibilidade era usualmente mais modesta que a dela possivelmente adotasse a sua atual conduta. —Você vil... Vil homem — vaiou. Ela levantou sua bolsa outra vez. Rameira? Turner suspirou. Era um insulto que realmente não podia deixar passar. Além disso, não podia permitir que Miranda atacasse o pobre homem. Agarrou a bolsa de sua mão. O fulminou com o olhar devido á interferência. Semicerrou os olhos e lhe deu um olhar de advertência. Ele clareou a garganta e se virou para o livreiro. —Senhor eu devo insistir em que se desculpe com a dama. O livreiro cruzou os braços desafiadoramente. Turner olhou Miranda. Seus braços estavam cruzados da mesma maneira. Olhou para o homem mais velho e disse, um pouco mais fortemente: —Se desculpará com a dama. —Ela é uma ameaça — disse o livreiro amargamente. —Porque você... —Miranda teria se jogado contra ele se Turner não tivesse agarrado rapidamente a parte traseira de seu vestido. O ancião apertou os punhos e assumiu uma postura ameaçadora que era bastante díspar com sua aparência livresca. —Fique calada — vaiou Turner a ela, sentindo retalhos de fúria desatando‐se no peito. O livreiro a fulminou com um olhar triunfante. —Ah, isso foi um engano — disse Turner. Santo Deus, não tinha o homem sentido comum? Miranda se equilibrou para frente, o que significou que Turner tinha que sustentar o vestido ainda mais firmemente. O que fez que o livreiro assumisse um sorriso mais afetado o que significava essa merda de farsa daria voltas em espiral até converter‐se em um furacão a grande escala se Turner não solucionasse o assunto imediatamente.


Brindou o livreiro seu mais frio e mais aristocrático olhar. — Se desculpará com a dama, ou farei que se arrependa muito, de verdade. Mas o livreiro era claramente um idiota delirante, porque não aceitou a oferta que Turner lhe dava, em sua estimativa, muito generosamente. Em vez disso, jogou para frente à mandíbula agressivamente e anunciou: —Não tenho nada do que me desculpar. Essa mulher veio a minha loja... —Ah, demônios — murmurou Turner. Agora não havia forma de evitar a desgraça. —... Perturbou a meus clientes, insultou‐me... Turner apertou a mão em um punho e a dirigiu diretamente ao nariz do livreiro. —Ah, Deus Bendito — suspirou Miranda. — Acredito que quebrou o nariz dele. Turner a fulminou com um olhar mordaz antes de baixar o olhar para o livreiro no chão. —Acredito que não. Não sangra o suficiente. —É uma pena — murmurou Miranda. Turner a agarrou pelo braço e a arrastou para ele. A sanguinária e pequena donzela ia conseguir que a matasse. —Nenhuma outra palavra até que saiamos daqui. Os olhos de Miranda se alargaram, mas fechou sabiamente a boca e lhe permitiu tirá‐la da loja. Quando passaram pela vitrine, entretanto, ela vislumbrou A Morte D'Arthur e exclamou: —Meu livro! Isso foi o cúmulo. Turner se deteve intempestivamente. —Não quero ouvir outra palavra a respeito de seu condenado livro, você me ouviu? A boca de Miranda se abriu. —Entende o que acaba de acontecer? Bati em um homem. —Mas, por acaso não concorda que ele necessitava que o golpeassem? —Não tanto como você necessita que a estrangulem! Ela retrocedeu claramente ofendida. —Ao contrário do que for que você pensa de mim — exclamou ele, — não passo meus dias refletindo sobre quando e onde aplacarei minha agressividade. —Mas... —Mas nada, Miranda. Você insultou o homem... —Ele me insultou! —Estava solucionando o assunto — disse entre dentes. — Por isso me


trouxe aqui, para solucionar tudo. Não é assim? Miranda franziu o cenho e moveu o queixo com um brusco e resistente movimento. —Que demônios, o problema era com você? Que se esse homem tivesse tido menos restrição? Que se... —Pensou que mostrava restrição? —perguntou ela, atônita. —Ao menos tanto como você teve! —Agarrou‐a pelos ombros e quase a começou a sacudir. — Bendito Deus, Miranda, dá‐se conta de que há muitos homens que não piscariam antes de golpear uma mulher? Ou algo pior — adicionou‐o de maneira significativa. Esperou sua resposta, mas ela o olhava fixamente, seus olhos imensos e impassíveis. E teve o maior pressentimento de que via algo que ele não via. Algo nele. —Perdão, Turner — disse ela então. —Devido ao que? —perguntou ele menos que amavelmente. — Por fazer uma cena em meio de uma tranqüila livraria? Por não se calar quando devia fazê‐lo? — Por... Por transtorná‐lo — disse baixinho. — Sinto muito. Não está bem o que fiz. Suas suaves palavras cortaram limpamente sua irritação, e ele suspirou. —Simplesmente não faça outra vez, promete? —Prometo. —Bem. —deu‐se conta de que ainda a sustentava pelos ombros e afrouxou o aperto. Então se deu conta de que gostou do toque dos ombros dela. Surpreso, soltou de uma vez. Ela inclinou a cabeça a um lado quando uma expressão preocupada cruzou seu rosto. —Pelo menos acredito que prometo. Na verdade tratarei de não fazer nada que o altere como nesta ocasião. Turner teve uma repentina visão de Miranda tentando não transtorná‐lo. A visão o contrariou. —O que aconteceu? Dependemos de sua sensatez. Só Deus sabe que salvou Olivia mais de uma vez de um problema. Ela apertou fortemente os lábios, e logo disse: —Não confunda sensatez com mansidão, Turner. Não é a mesma coisa. E com


certeza não sou submissa. Notou que ela não era desafiante, simplesmente indicava um fato, um que suspeitou sua família havia inadvertido por anos. —Não se preocupe — disse com cansaço — se alguma vez tive a noção que você era submissa, tenha a segurança de que me desenganou disso esta tarde. Mas que Deus o ajudasse, ela não estava convencida. —Se vir algo que é obviamente uma injustiça — disse seriamente — não posso me sentar e não fazer nada. Ia matá‐lo. Estava seguro disso. —Só tente afastar‐se do obviamente errado. Poderia fazê‐lo por mim? —Mas não acredito que isto seja algo particularmente errado. E fiz... Ele elevou a mão. —Nada mais. Nem outra palavra sobre o assunto. Tirará dez anos de vida falar sobre isto. – Pegou‐a pelo braço e se dirigiu para casa. Querido Deus, o que estava errado nele? Seu pulso ainda estava acelerado, e ela nem sequer esteve em perigo. Não realmente. Duvidava que o livreiro pudesse dar um bom soco. E, além disso, por que diabo estava tão preocupado com Miranda? É obvio que se interessava por seu bem‐estar. Era como uma irmã pequena para ele. Mas então tratou de imaginar Olivia no lugar dela. Tudo o que podia sentir era uma aprazível diversão. Algo estava muito errado se Miranda podia deixá‐lo furioso assim.

CAPÍTULO 6 —Winston estará aqui em seguida. —Olivia entrou majestosamente no salão rosado com aquela declaração, oferecendo a Miranda um de seus sorrisos mais alegres. Miranda elevou a vista de seu livro, uma manuseada e decididamente nada glamorosa copia de Morte d'Arthur que pegou emprestada da biblioteca de Lorde Rudland. —Sério? — murmurou, mesmo sabendo muito bem que era esperado que Winston chegasse àquela tarde. —Sério? — imitou Olivia. —Isso é tudo o que pode dizer? Perdão, mas


tinha a impressão de que estava apaixonada pelo garoto, oh, me desculpe, agora é um homem, não é assim? Miranda voltou para sua leitura. —Disse que não estava apaixonada por ele. —Bom, pois deveria estar — replicou Olivia. — E estaria, se te dignasse há passar algum tempo com ele. Os olhos de Miranda, que estavam se movendo com determinação pelas palavras da página, detiveram‐se de repente. Elevou a vista. —Perdão, mas, não está em Oxford? —Bom, sim — disse Olivia, tirando importância do comentário com um movimento da mão como se as sessenta milhas de distância não tivessem transcendência, — mas esteve aqui na semana passada, e quase não ficou com ele. —Isso não é verdade — replicou Miranda. — Demos um passeio a cavalo pelo Hyde Park, fomos ao Gunter tomar sorvete, e inclusive tomamos um barco pelo Serpentine aquele dia em que fez tanto calor. Olivia se deixou cair em uma cadeira próxima, cruzando os braços. —Não é suficiente. —Ficou louca — disse Miranda. Agitou ligeiramente a cabeça e a virou de volta a seu livro. —Sei que vai querer Winston. Só precisa passar um pouco de tempo na companhia dele. Miranda apertou os lábios e manteve os olhos firmemente sobre o livro. Aquela não era uma conversa que pudesse chegar a nada sensato. —Estará aqui só durante dois dias — meditou Olivia. — Vamos ter que trabalhar rápido. Miranda passou a página de repente e disse: —Faz o que quiser Olivia, mas não tomarei parte em suas intrigas. —Então elevou a vista com alarme. — Não, mudarei de idéia. Não faça o que quiser. —e deixasse as coisas em suas mãos, terminarei drogada e de caminho a Gretna Green antes de me dar conta. —Uma idéia intrigante. —Livvy, nada de se fazer de casamenteira. Quero que me prometa isso. A expressão de Olivia se tornou maliciosa. —Não farei uma promessa que talvez não possa manter. —Olivia.


—OH, muito bem. Mas não pode parar Winston se ele tiver em mente se fazer de casamenteiro. E a julgar por seu atual comportamento, bem que poderia ser. —Enquanto você não interfira... Olivia sorveu pelo nariz e tentou parecer ofendida. —Dói que pense sequer que eu faria uma coisa assim. —OH, por favor. —Miranda voltou para o livro, mas era quase impossível concentrarem‐se na trama quando sua mente estava continuamente contando para trás... Vinte... Dezenove... Dezoito... Certamente, Olivia não seria capaz de ficar em silencio durante mais de vinte segundos. Dezessete... Dezesseis... —Winston seria um marido encantador, não acha? Quatro segundos. Era extraordinário, inclusive para Olivia. —Obviamente é jovem, mas nós também somos. Miranda a ignorou cuidadosamente. —Turner provavelmente também teria sido um bom marido se Letícia não tivesse aparecido e o arruinado. Miranda levantou a cabeça de repente. —Não acha que esse é um comentário bastante desagradável? Olivia lhe dirigiu um pequeno sorriso. —Sabia que estava me escutando. —É quase impossível não fazê‐lo — murmurou Miranda. —Só estava dizendo que... —Olivia elevou o queixo, e seu olhar se moveu para a entrada a costas de Miranda. — E aqui está ele. Que coincidência. —Winston — disse alegremente Miranda, virando no assento para poder dar uma olhada por cima do encosto do sofá. Exceto que não era Winston. —Sinto decepcioná‐la — disse Turner, uma das comissuras de sua boca se retorceu em um preguiçoso e extremamente suave sorriso. —Sinto muito — resmungou Miranda, sentindo‐se inesperadamente tola. — Estávamos falando dele. —Também estávamos falando de você — disse Olivia. — Recentemente, de fato, por isso fiz alguns comentários a sua entrada. —Coisas diabólicas eu espero. —OH, é obvio — disse Olivia. Miranda arrumou para sorrir apesar de ter os lábios fechados enquanto ele se sentava a seu lado. Olivia se inclinou para frente e descansou o queixo coquetemente sobre a


mão. —Estava dizendo a Miranda que achava que seria um marido horrível. Ele pareceu divertido enquanto se reclinava para trás. —É bastante certo. —Mas estava a ponto de dizer que com a formação adequada — continuou Olivia— poderia se reabilitar. Turner ficou de pé. —Vou. —Não, não vá! —gritou Olivia rindo. — É obvio, só estou tirando o sarro. Já é muito tarde para te redimir. Mas Winston... Bom, Winston é como um pedaço de argila. —Não direi a ele que disse isso — murmurou Miranda. —Não diga que não está de acordo comigo. —Provocou Olivia. — Não teve tempo de ficar horrível, como fazem o resto dos homens. Turner olhou a irmã com manifesto assombro. —Como é possível que esteja aqui sentado te escutando dar um sermão sobre como dirigir os homens? Olivia abriu a boca para replicar, algo inteligente e engenhoso, com certeza mas justo então apareceu o mordomo na entrada e o economizou a todos. —Sua mãe requer sua companhia, Lady Olivia. —Voltarei — advertiu Olivia enquanto saía excitada do aposento. — Estou impaciente para terminar esta conversa. —E então, com um sorriso travesso e uma sacudida de seus dedos, foi. Turner suprimiu um gemido, sua irmã seria a morte de alguém, só esperava que não fosse á dele e olhou Miranda. Parecia um novelo sobre o sofá, os pés sob o corpo e um enorme e poeirento livro no colo. —Uma leitura densa? —murmurou ele. Ela elevou o livro. —OH — disse ele, os lábios crisparam. —Não ria — advertiu ela. —Nem em sonhos. —Tampouco minta — disse ela, sua boca assumiu aquela expressão de tutora que parecia saber fazer tão bem. Ele se recostou para trás com um risinho. —Bom isso não pode prometer.


Durante um momento, simplesmente ficou ali sentada, parecendo dura e severa a partes iguais, e então mudou a expressão do rosto. Nada dramático, nada alarmante, mas suficiente para deixar claro que ela tinha estado debatendo algo em sua mente. E que chegou a uma conclusão. —O que pensa sobre Winston? —perguntou. —É meu irmão — disse ele. Ela estendeu a mão e fez um movimento rápido com o pulso, como dizendo: Que mais? —Bom — disse, tentando ganhar tempo. Realmente, o que esperava que dissesse? — É meu irmão. Ela elevou os olhos para cima sarcasticamente. —Bastante revelador de sua parte. —O que está perguntando exatamente? —Quero saber o que pensa dele — insistiu. O coração parou no peito sem uma razão que pudesse identificar. —Está me perguntando —inquiriu com cautela — se acho que Winston seria um bom marido? Dirigiu aquele solene olhar dela, e então piscou, e do mais estranho foi quase como se estivesse esclarecendo antes de dizer, em um tom do mais normal: —Parece que todo mundo tenta nos juntar. —Todo mundo? —Bom pelo menos Olivia. —Não é precisamente a pessoa a quem pediria conselhos românticos. —Então não acredita que devesse me propor a conquistar Winston — disse ela, inclinando‐se para frente. Turner piscou. Conhecia Miranda e a tinha conhecido durante anos, por isso estava bastante seguro de que não havia modificado sua postura com a intenção de exibir seus surpreendentemente adoráveis seios. Mas resultou ser uma grande distração. —Turner? —murmurou. —É muito jovem — deixou escapar. —Para mim? —Para qualquer uma. Por Deus, só tem vinte e um anos. —Na realidade, ainda tem vinte. —Exato — disse incômodo, desejando que houvesse alguma forma de reajustar o lenço sem parecer idiota. Estava começando a sentir calor e estava ficando mais difícil manter a atenção concentrada em algo mais que Miranda sem ser óbvio.


Ela chegou para trás. Graças a Deus. E não disse nada. Até que ele não pôde evitar dizer: —Então, tem a intenção de persegui‐lo? — Winston? — pareceu pensar— Não sei. Ele bufou. —Se não sabe, então claramente não deveria. Ela se virou e o olhou diretamente aos olhos. —Isso é o que pensa? O que o amor deveria ser óbvio e claro? —Quem falou de amor? —sua voz soou ligeiramente cruel, o que lamentou, mas certamente ela entendia que aquela era uma conversa insustentável. —Hmmm. Teve a desagradável sensação de que o julgou e de que saiu perdendo. Uma conclusão que foi reforçada quando voltou sua atenção ao livro que tinha no colo. E ali se sentou, como um completo idiota, simplesmente olhando‐a ler seu livro, tentando idear algum tipo de comentário engenhoso. Ela levantou a vista, seu rosto irritantemente plácido. —Tem planos para esta tarde? —Nenhum. — Respondeu bruscamente, ainda que tivesse a intenção de dar um passeio a cavalo. —OH. Espera que Winston chegue logo. —Estou informado. —Por isso falávamos dele — explicou como se importasse. — Virá para meu aniversário. —Sim, é obvio. Inclinou‐se para frente uma vez mais. Que Deus o ajudasse. —Recorda? —perguntou. — Vamos ter uma refeição familiar amanhã de noite. —É obvio que me lembro — murmurou ele, embora não se lembrava. —Hmmm — murmurou ela — enfim, obrigada por sua opinião. —Minha opinião — repetiu. De que demônio falava agora? —Sobre Winston. Há muitas coisas a levar em consideração e de verdade desejava sua opinião. —Bom. Agora já a tem. —Sim. —Ela sorriu. — Alegro‐me. Porque sinto um grande respeito por você. De alguma forma estava conseguindo fazê‐lo se sentir como se fosse algum tipo de relíquia antiga. —Sente um grande respeito por mim? —as palavras deslizaram


desagradavelmente de sua língua. —Bom, sim. Achava que não? —Francamente, Miranda, a maior parte do tempo não tem nem idéia do que pensa — espetou. —Penso em você. Os olhos dele voaram aos dela. —E em Winston, claro. E em Olivia. Como se as pessoas pudesse viver na mesma casa com ela e não pensar nela. —Fechou o livro de repente e ficou em pé. — Imagino que deveria ir procurá‐la. Ela e sua mãe não estão de acordo sobre alguns vestidos que Olivia quer encomendar e prometi ajudá‐la em sua causa. Levantou‐se e a escoltou até a porta. —Na de Olivia ou na de minha mãe? —Caramba, na de sua mãe, é obvio — disse Miranda rindo. — Sou jovem, mas não tola. E com aquilo, partiu. 10 DE JUNHO DE 1819

Tive uma estranha conversa com Turner esta tarde. Não era minha intenção fazê‐lo sentir ciúmes, embora suponha que poderia interpretar dessa forma, se alguém conhecesse meus sentimentos por ele, o que é obvio ninguém faz. Entretanto, sim era minha intenção inspirar certas noções de culpa no relacionado À Morte d'Arthur. Nisso, não acredito que tive êxito. Mais à tarde, Turner voltou depois de cavalgar pelo Hyde Park com o amigo Lorde Westholme, só para encontrar Olivia rondando pelo salão principal. —Chis! — disse. Era suficiente para que qualquer um ficasse curioso, e por isso Turner foi imediatamente ao seu lado. —Por que estamos tão calados? —perguntou, negando‐se a sussurrar. Ela lançou um olhar de aborrecimento. —Estou bisbilhotando. Turner não podia imaginar a quem, posto que estivesse aproximando‐se com cautela à escada que descia para a cozinha. Mas então ouviu o tom melodioso de uma risada. —Essa é Miranda? —perguntou. Olivia assentiu.


—Winston acaba de chegar e estão descendo juntos. —Por quê? Olivia lançou uma olhada pelo outro lado do canto e se virou repentinamente para ficar frente a Turner. —Winston tinha fome. Turner tirou as luvas. —E necessita que Miranda lhe dê de comer? —Não, desceram pelas bolachas de manteiga da senhora Cook. Ia me juntar a eles, pois odeio ficar sozinha, mas agora que está aqui, acho que deixarei que você me faça companhia. Turner lançou um olhar para a parte de abaixo do salão, mesmo que fosse impossível ver seu irmão e Miranda. —Eu também estou bastante faminto — murmurou pensativo. —Abstenha‐se — ordenou Olivia. — Necessitam tempo. —Para comer? Ela revirou os olhos. —Para se apaixonarem. Havia algo bastante mortificante em receber tal olhar de desdém da irmã menor, mas Turner decidiu que tomaria, se não o caminho mais longo, ao menos um intermédio, e por isso lhe dirigiu um olhar de superioridade e devolveu sucintamente: —E têm a intenção de fazer tudo isso com as bolachas e o chá em uma só tarde? —É um começo — replicou Olivia. — Não te vejo fazer nada para juntar o casal. Aquilo pensou Turner com inesperada contundência, era porque qualquer idiota podia ver que seria um péssimo casamento. Queria muito ao Winston, e o tinha em tão alta estima como qualquer um poderia ter a um menino de vinte anos, mas estava claro que era o homem errado para Miranda. Era verdade que só chegou a conhecê‐la bem nessas poucas semanas passadas, mas inclusive ele podia ver que ela era madura para sua idade. Necessitava alguém que fosse mais maduro, mais velho, que soubesse apreciar suas magníficas qualidades. Alguém que pudesse ter mão firme quando seu caráter fizesse uma de suas estranhas aparições. Winston, supunha, poderia ser esse homem... Em dez anos. Turner olhou a irmã e disse, com firmeza: —Necessito de comida. —Turner, não! —Mas Olivia não pôde detê‐lo. Quando tentou, ele já estava a meio caminho do vestíbulo.


Os Bevelstoke sempre tiveram uma casa relativamente informal, ao menos quando não entretinham a convidados, e por isso, nenhum dos criados se sentiu particularmente surpreso quando Winston apareceu pela cozinha, abrandando a cozinheira com sua doçura, com sua expressão de cachorrinho, e logo se deixou cair na mesa com Miranda. Para esperar enquanto a cozinheira preparava com rapidez algumas de suas mais famosas bolachas de manteiga. Acabava de deixá‐las sobre a mesa, ainda fumegantes e cheirando a glória, quando Miranda ouviu um audível bater de porta atrás dela. Virou, piscando, para ver Turner de pé na base das escadas, com aparência de libertino, envergonhado e totalmente adorável, tudo de uma vez. Suspirou. Não pôde evitar. —Desci as escadas de dois em dois — explicou, embora ela não estivesse totalmente segura da importância daquilo. —Turner — grunhiu Winston, muito ocupado comendo a terceira bolacha para lhe dar as boas‐vindas de forma mais eloqüente. —Olivia me disse que estavam aqui — disse Turner. — Cheguei a um bom momento. Estou esfomeado. —Temos um prato de bolachas, se quiser. —Disse Miranda, fazendo um gesto para o prato que estava sobre a mesa. Turner deu um encolher de ombros e se sentou a seu lado. —A senhora Cook que fez? Winston assentiu. Turner pegou três, logo se virou para a cozinheira com a mesma expressão de cachorrinho que Winston havia adotado antes. —OH, muito bem — soprou, adorando claramente a atenção. — Farei mais. Justa então Olivia apareceu na entrada, os lábios apertados enquanto fulminava o irmão maior com o olhar. —Turner — disse com voz irritada. — Disse que queria te mostrar o novo livro que tenho. Miranda afogou um gemido. Havia dito a Olivia que deixasse de tentar forçar a união. —Turner — disse Olivia com os dentes apertados. Miranda decidiu que se Olivia perguntasse alguma vez por aquilo, diria que simplesmente não se pôde conter, assim elevou a vista, sorriu docemente, e


perguntou. —E que livro seria? Olivia a fulminou com o olhar. —Já sabe qual. —Poderia ser aquele que fala do Império Turco, ou o sobre Trapaceiros no Canadá, ou aquele que fala da filosofia de Adam Smith? —Esse do Smith — respondeu bruscamente Olivia. —Sério? —perguntou Winston, virando para sua gêmea com renovado interesse. — Não tinha nem idéia de que você gostasse desse tipo de coisas. Este ano lemos A Riqueza das Nações. É uma mescla bastante interessante de filosofia e economia. Olivia sorriu apertadamente. —Estou segura de que sim. Assegurarei de te dar minha opinião uma vez termine de lê‐lo. —Até onde leu? —Perguntou Turner. —Só umas poucas páginas. Ou ao menos isso foi o que Miranda acreditou ouvir. Era difícil estar segura devido ao apertado dos dentes de Olivia. —Quer uma bolacha, Olivia? —perguntou Turner, e em seguida sorriu de maneira fugaz e zombadora a Miranda, como dizendo: Nos dois estamos juntos nisto. Parecia um jovenzinho. Brilhava com um jovem. Parecia... Feliz. E Miranda se derreteu. Olivia cruzou o aposento e se sentou ao lado de Winston, mas pelo caminho se inclinou e sussurrou na orelha de Miranda: —Estava tentando te ajudar. Entretanto, Miranda ainda estava se recuperando do sorriso de Turner. Sentia como se o estômago tivesse caído aos pés, à cabeça dava voltas, e parecia como se seu coração estivesse pulsando em uma sinfonia completa. Ou estava apaixonada ou tinha pegado a gripe. Jogou um olhar furtivo ao cinzelado perfil de Turner e suspirou. Todos os sinais apontavam para o amor. —Miranda. Miranda! Elevou a vista para Olivia, quem dizia seu nome impacientemente. —Winston quer conhecer minha opinião sobre As Riquezas das Nações quando acabar de lê‐lo. Disse que você o leria comigo. Estou segura de que poderemos conseguir outra cópia.


—O que? OH, sim, de acordo, eu adorarei lê‐lo. —Foi só quando viu o sorriso de satisfação de Olivia que Miranda se deu conta do que acabava de aceitar. —Ha, Miranda — disse Winston, inclinando‐se sobre a mesa e dando palmadinhas na mão com a dele. — Tem que me contar se está desfrutando da temporada. —Estas bolachas estão deliciosas — declarou Turner em voz alta, alargando a mão para pegar uma. — Perdoe Winston, poderia mover o braço? —Winston devolveu o braço a sua antiga posição, e Turner pegou uma bolacha e a colocou com rapidez na boca. Sorriu amplamente. — Maravilhosas como sempre, senhora Cook! —Prepararei outro prato para você em apenas alguns minutos — assegurou‐a, radiante ante a adulação. Miranda esperou que terminasse a troca e então disse a Winston. —Está sendo adorável. Apenas gostaria que você estivesse aqui mais freqüentemente para desfrutar conosco. Winston se virou para ela com um preguiçoso olhar que deveria ter feito seu coração pular. — Eu também gostaria — disse — mas ficarei durante a maior parte do verão. —Não terá muito tempo para as damas, receio — interpôs Turner amavelmente. — Pelo que me lembro, minhas férias do verão passava de farra com os amigos. Era muito divertido. Não irá querer perder isso Miranda o olhou de forma estranha. Turner soava quase muito alegre. —Estou seguro de que foi — respondeu Winston. — Mas também gostaria de ir a alguns dos eventos da sociedade. —Boa idéia — disse Olivia. — Irá querer adquirir um pouco de saber estar entre a sociedade. Winston virou para ela. —Tenho suficiente saber, muito obrigado. —É obvio que sim, mas não há nada como a experiência real para refinar um homem. Winston ruborizou. —Tenho experiência, Olivia.


Miranda arregalou os olhos. Turner ficou de pé em um único e fluido movimento. —Acho que esta conversa está se deteriorando com rapidez até um nível nada adequado para ouvidos tenros. Winston pareceu como se quisesse dizer algo mais, mas por sorte para a paz familiar, Olivia uniu as mãos com um alentador: —Bem dito! Mas Miranda a conhecia muito para confiar nela, ao menos quando se tratava de se fazer de casamenteira. E era certo que logo se encontraria sendo a receptora final do sorriso mais matreiro de Olivia. —Miranda — disse quase muito encantada. —Er, sim? —Não me disse que queria levar Winston a aquela loja de luvas que vimos na semana passada? Têm as melhores luvas que já vi — continuou Olivia, dirigindo o comentário para Winston. — Tanto para homem como para mulher. Pensamos que talvez necessitasse um par. Não estávamos seguras de que tipo de qualidade era a que se encontrava em Oxford, sabe? Era um tipo de discurso pouco sutil, e Miranda estava segura de que Olivia sabia. Lançou um olhar furtivo ao Turner, quem estava observando o procedimento com um ar de diversão. Ou talvez fosse desgosto. Às vezes era difícil discernir. —O que diz, querido irmão? — disse Olivia com sua voz mais encantadora. — Iremos? —Não posso pensar em nada que me agrade mais. Miranda abriu a boca para dizer algo, então viu a futilidade de fazê‐lo e a fechou. Mataria Olivia. Ia entrar no quarto dela e matar a intrometida garota. Mas por agora, sua única opção era dizer que sim. Não desejava fazer nada que pudesse levar Winston a acreditar que tinha sentimentos românticos por ele, mas seria o cúmulo da insensibilidade tentar escapar do passeio justo na frente dele. E por isso, quando se deu conta de que três pares de olhos estavam concentrados e espectadores nela, não pôde mais que dizer: —Podemos ir hoje. Seria estupendo. —Irei com vocês — anunciou Turner, ficando decisivamente de pé. Miranda virou para ele surpreendida, igual à Olivia e Winston. Turner nenhuma vez mostrou interesse em acompanhá‐los a nenhuma de suas saídas quando estavam


em Ambleside, e na realidade, por que deveria fazer? Era nove anos mais velhos que eles. —Necessito um par de luvas — disse ele simplesmente, seus lábios se curvaram ligeiramente como se dissesse: por que outra razão iria? —É obvio — disse Winston, ainda piscando ante a inesperada atenção por parte de seu irmão maior. —Que bom de sua parte o sugerir — disse Turner bruscamente. — Obrigado, Olivia. Ela não pareceu alegrar‐se muito. —Será genial que nos acompanhe — disse Miranda, talvez um pouco mais entusiasta do que tinha sido sua intenção. — Não se importa, não é, Winston? —Não, claro que não. —Mas parecia como se importava. Ao menos um pouco. —Terminou com seu leite e bolachas, Winston? — perguntou Turner. — Deveríamos nos pôr em caminho. Parece que a tarde ficará nublada. Winston alargou a mão para agarrar outra bolacha, a maior da mesa. —Podemos levar uma carruagem fechada. —Irei procurar meu casaco — disse Miranda, ficando de pé. — Vocês dois podem decidir a carruagem. Nos encontramos no salão? Em vinte minutos? —A acompanharei para acima — disse rapidamente Winston. — Preciso pegar algo de minha mala de viagem. O casal abandonou a cozinha, e Olivia se virou em seguida para Turner com uma expressão que era positivamente felina. —O que ocorre contigo? Olhou‐a de maneira insossa. —Desculpe? —Estive trabalhando com cada fôlego de meu corpo para que esses dois fiquem juntos e você está arruinando tudo. —Não fique dramática — disse com um breve movimento de cabeça. — Só vou comprar luvas. Não deterá um casamento, se de verdade houver algum iminente. Olivia franziu o cenho. —Se não o conhecesse bem, pensaria que está com ciúmes. Por um momento, Turner não pôde fazer outra coisa que olhá‐la. E então encontrou o sentido comum , e a voz, e disse bruscamente:


—Bom, conhece‐me bem. Assim que agradeceria que não fizesse acusações infundadas. Com ciúmes de Miranda. Bom Deus, o que seria a seguinte coisa em que pensaria Olivia? Ela cruzou de braços. —Bom, certamente está agindo de forma estranha. Durante toda sua vida, Turner tratou a jovem irmã de diferentes maneiras. Em geral, de forma benignamente descuidada. Às vezes, adotava um rol mais amistoso, surpreendendo‐a com presentes e adulações quando era conveniente para ele fazê‐lo. Mas a distância entre as idades assegurou que nunca a tratasse como a igual, que nunca falasse sem primeiro considerá‐la uma menina. Mas agora, ao acusá‐lo daquilo, de desejar Miranda, de todas as coisas, arremeteu contra ela sem medir suas palavras, sem reduzir sua magnitude nem seus sentimentos. E sua voz foi rude, cortante e afiada quando disse: —Se olhasse além de seu próprio desejo de ter Miranda constantemente a sua disposição, veria que ela e Winston são extremamente incompatíveis. Olivia ofegou ante o inesperado ataque, mas se recuperou com rapidez. —A minha disposição? — repetiu furiosa. — Agora quem faz acusações infundadas? Sabe tão bem como qualquer um que adoro Miranda e não quero mais que sua felicidade. Além disso, falta a ela beleza e um dote, e... —OH, pelo amor de... —Turner fechou a boca com força antes de amaldiçoar diante de sua irmã. — A menospreza — espetou. Por que as pessoas insistiam em ver Miranda como à desajeitada moça que tinha sido? Talvez não se ajustasse ao atual padrão de beleza da sociedade como Olivia, mas possuía algo muito mais profundo e interessante. Era possível olhá‐la e saber que havia algo atrás de seus olhos. E quando sorria, não era algo praticado, não era de maneira zombadora, OH, muito bem, às vezes sim era de forma zombadora, mas poderia aceitar, já que possuía exatamente o mesmo senso de humor que ele. E realmente, apanhados em Londres para a temporada como estavam, estavam obrigados a encontrar‐se com um montão de coisas dignas de brincadeira. —Winston seria um excelente par para ela — continuou Olivia com veemência. — E ela para... — deteve‐se, ofegou, e colocou a mão com força sobre a boca. —OH, e agora o que? — disse Turner irritado. —Isto não é pela Miranda, não é? É por Winston. Não acha que ela seja boa


o suficientemente para ele. —Não — replicou instantaneamente com uma estranha e quase indignada voz. — Não — voltou a dizer medindo desta vez as palavras com mais cuidado. — Nada poderia estar mais longe da realidade. São muito jovens para casar. Especialmente Winston. Olivia se sentiu imediatamente ofendida. —Isso não é verdade, somos... —É muito jovem — cortou com frieza — e não precisa olhar além deste aposento para ver por que um homem não deveria casar‐se tão jovem. Não o entendeu no ato. Turner viu o momento exato em que sim, viu a compreensão, e logo a compaixão. E ele odiava a compaixão. —Sinto muito. —Deixou escapar Olivia. As duas palavras lhe garantiram que voltariam a colocá‐lo uma vez mais sobre a margem. E então voltou a dizer. — Sinto muito. E fugiu. Miranda tinha estado esperando no salão rosado durante vários minutos quando apareceu uma criada na entrada e disse: —Peço que me desculpe senhorita, mas Lady Olivia me pediu que lhe dissesse que não descerá. Miranda deixou em seu lugar a estatueta que tinha estado examinando e olhou à criada com surpresa. —Sente‐se indisposta? A criada pareceu vacilar e Miranda não desejou pô‐la em uma posição difícil quando simplesmente podia ir ver Oliva ela mesma, assim disse: —Não importa. Perguntarei eu mesma. A criada se inclinou em uma reverência, e Miranda se voltou para a mesa que estava ao seu lado para assegurar‐se de que havia devolvido a estatueta de volta a antiga posição, então, lançando uma última olhada. Sabia que lady Rudland gostava que fizesse ornamento de sua curiosidade, mas deixando as coisas em seu lugar— caminhou para a porta. E chocou contra um longo corpo masculino. Turner. Soube inclusive antes que falasse. Poderia ter sido Winston, ou um lacaio, ou poderia ter sido — que Deus a ajudasse, que vergonha — Lorde Rudland, mas não era. Era Turner. Conhecia seu aroma. Conhecia o som de seu


fôlego. Sabia como era o cheiro do ar o seu redor quando estava perto dele. E foi então quando soube, com total segurança, que aquilo era amor. Era amor, e era o amor de uma mulher por um homem. A jovenzinha que havia pensando nele como em um cavalheiro de brilhante armadura já não existia. Agora era uma mulher. Conhecia suas falhas e via seus defeitos, e ainda assim o queria. Amava‐o e queria curá‐lo, queria... Não sabia o que queria. Queria‐o por completo. Queria tudo. Ela... —Miranda? As mãos dele estavam ainda em seus braços. Levantou a vista, inclusive embora soubesse que seria quase insuportável enfrentar o azul de seus olhos. Sabia o que não veria ali. E não viu. Não havia amor, nem revelação. Mas parecia estranho, diferente. E ela sentiu calor. —Sinto muito — gaguejou, inclinando‐se para se afastar. — Deveria ter mais cuidado. Mas não a liberou. Não imediatamente. Estava olhando‐a, a sua boca, e Miranda pensou por um adorável e bendito segundo que talvez quisesse beijá‐la. Conteve o fôlego, e entreabriu os lábios, e... E então tudo acabou. Ele se afastou. —Minhas desculpas — disse, com inflexão de nenhum tipo. — Também deveria ter mais cuidado. —Ia procurar Olivia — disse, sobre tudo porque não tinha nem idéia de que mais dizer. — Acaba de mandar me avisar que não irá descer. A expressão dele mudou apenas o suficiente e com o suficiente cinismo para que soubesse que sabia que algo ia mal. —Deixa‐a — disse. — Ficará bem. —Mas... —Por uma vez — disse cortante — deixe que Olivia se encarregue de seus próprios problemas. Os lábios de Miranda se abriram com surpresa ante seu tom. Mas se livrou de ter que responder graças à chegada de Winston. —Preparados para irmos? — perguntou jovialmente, completamente


inconsciente da tensão no aposento. — Onde está Olivia? —Não virá — disseram Miranda e Turner ao uníssono. Winston olhou a um e logo ao outro, ligeiramente desconcertado por sua resposta coletiva. —Por quê? — perguntou. —Não se sente bem — mentiu Miranda. —O que vamos fazer — disse Winston, sem soar particularmente triste. Sustentou o braço em alto para Miranda. — Vamos? Miranda olhou Turner. —Ainda virá? —Não. — E nem sequer demorou mais de dois segundos em responder.

11 DE JUNHO DE 1819 Hoje foi meu aniversário, encantador e estranho. Os Bevelstoke celebraram um jantar familiar em minha honra. Foi realmente doce e amável, especialmente porque meu próprio pai provavelmente se esqueceu de que hoje é outra coisa além do dia em que certo estudioso grego realizou certo cálculo especial matemático ou alguma outra coisa muito importante. Da parte de Lorde e Lady Rudland: um belo par de brincos cor verde mar. Sei que não deveria aceitar algo tão caro, mas não poderia armar um escândalo na mesa e de fato disse: "Não posso..." (embora com um pouco de falta de convicção) e fui categoricamente sossegada. Da parte de Winston: um conjunto de preciosos lenços. Da parte de Olivia: uma caixa de escrivaninha, com meu nome gravado. Anexou uma pequena nota que advertia: "Só para você", e dizia, "Espero que não possa usar isto durante muito tempo!". O que claramente significava que esperava que meu nome logo fosse Bevelstoke. Não fiz comentários. E da parte de Turner, um frasco de perfume. Violetas. Imediatamente pensei no laço violeta que colocou em meu cabelo quando tinha dez anos, mas é obvio não se recordou de uma coisa assim. Não disse nada sobre isso; teria sido muito embaraçoso revelar algo tão sentimental. Mas acredito que é um presente muito doce e encantador. Não parece que possa dormir. Passaram dez minutos desde que escrevi a frase


anterior, e embora boceje com freqüência, não sinto as pálpebras nem um pouco pesadas. Acho que descerei à cozinha para ver se posso conseguir um copo de leite quente. Ou talvez não vá à cozinha. Não é provável que haja ninguém lá embaixo que possa ajudar. E embora seja perfeitamente capaz de esquentar um pouco de leite, é provável que o chef tenha palpitações quando vir que alguém usou uma das panelas sem seu conhecimento. E o que é mais importante, já tem vinte anos. Se quiser posso tomar um copo de xerez para que me ajude a dormir. Acho que isso é o que farei.

CAPÍTULO 7

Tendo terminado uma vela e depois de três copos de brandy, Turner se encontrava sentado na penumbra do estúdio de seu pai, olhando através da janela, escutando o rangido das folhas de uma árvore próxima que, açoitadas pelo vento, golpeavam o vidro. Aborrecido, talvez, mas justo nesse momento se apegava ao aborrecimento. Um pouco aborrecido era precisamente o que desejava depois de um dia como o que teve. Primeiro foi Olivia, acusando‐o de desejar Miranda. Em seguida foi Miranda, e ele havia... Deus querido tinha desejado‐a. Sabia o momento exato que compreendeu. Não foi quando se chocou contra ele. Não foi quando lhe rodeou com as mãos a parte superior dos braços para estabilizá‐la. Havia se sentido bem, sim, mas não levou em conta. Não dessa forma. O momento... O momento que muito provavelmente foi sua perdição ocorreu meio segundo mais tarde, quando ela levantou a cabeça. Foram os olhos dela. Sempre foram seus olhos. Simplesmente tinha sido muito estúpido para dar‐se conta disso. E enquanto permaneciam ali, durante o que pareceu uma eternidade, sentiu


como mudava. Sentiu que seu corpo se enrolava e que sua respiração cessava tudo ao mesmo tempo, e logo apertou os dedos e os olhos dela... Aumentaram mais ainda. E a desejou. Desejou‐a como nunca pôde imaginar de uma forma que não era nem apropriada nem boa. Nunca ficou tão zangado consigo mesmo. Não a amava. Não podia amá‐la. Estava bastante seguro que não poderia amar ninguém, não depois da morte que Letícia tinha gravado em seu coração. Era luxúria, pura e simples, e era luxúria pela mulher que provavelmente seria a menos conveniente de toda a Inglaterra. Serviu‐se outro gole. Diziam que o que não matava um homem o fortalecia, mas isto... Isto ia matá‐lo. E então, quando estava ali sentado, pensando em sua própria debilidade, a viu. Era uma prova. Só podia tratar‐se de uma prova. Alguém em algum lugar estava decidido a provar seu temperamento como cavalheiro, e ele ia falhar. Tentaria, se conteria tanto tempo quanto fosse possível, mas muito profundamente em seu interior, em um pequeno canto de sua alma que não tinha um interesse particular em examinar, sabia. Falharia. Movia‐se como um fantasma, quase brilhando vestida com algum tipo de ondulante camisola branca. Era lisa e de algodão e estava seguro que era recatada, apropriada e perfeitamente virginal. Fez que se desesperasse por ela. Agarrou os lados da poltrona e se sustentou com todas suas forças. Quando Miranda entrou no estúdio de Lorde Rudland, sentia‐se um pouco intranqüila, mas não tinha encontrado o que estava procurando no salão rosa, e sabia que havia uma garrafa em uma prateleira próxima à porta. Em menos de um minuto poderia entrar e sair; com certeza que alguns meros segundos não constituíam uma invasão à privacidade. —Então, onde estão esses copos? — murmurou, deixando a vela na mesa. — Aqui estão. — Encontrou a garrafa de xerez e se serviu um pouco. —Espero que não esteja habituando‐se a isto — disse uma voz pausada. O copo se deslizou de seus dedos e aterrissou no chão com um forte estrépito.


—Tsk, tsk, tsk. Seguiu a voz até que o viu, sentado em uma poltrona, com as mãos estranhamente agarradas aos braços da mesma. A luz era tênue, mas ainda assim, podia ver a expressão de seu rosto, sarcástica e seca. —Turner? — sussurrou tolamente, como se fosse possível que se tratasse de outra pessoa. —O próprio. —Mas, o que está... Por que está aqui? —Avançou um passo. — Ai! —Uma lasca de cristal perfurou a pele da sola do pé. —Pequena tola. Desceu descalça. — levantou‐se da poltrona e atravessou o aposento a grandes passos. —Não tinha planejado quebrar um copo — respondeu Miranda à defensiva, se inclinando e tirando a lasca. —Não importa. Pegará um resfriado de morte brincando de correr por aí dessa forma. — Levantou‐a nos braços e a separou dos vidros quebrados. Nesse momento cruzou pela mente de Miranda que estava mais perto do céu do que jamais esteve em sua curta vida. O corpo dele era quente e podia sentir o calor fluindo através da camisola. Fazia‐lhe cócegas a pele por sua proximidade e o fôlego começou a sair em pequenos e anômalos ofegos. Era o aroma dele. Devia ser isso. Nunca antes ficou tão perto dele, nunca o suficientemente perto para cheirar sua essência extraordinariamente masculina. Cheirava como madeira quente e brandy, e um pouco de algo mais, algo que não podia precisar exatamente. Algo que era simplesmente Turner. Agarrando o pescoço dele, permitiu‐se aproximar a cabeça ao seu peito só o suficiente para poder inalar profundamente seu aroma uma vez mais. E então, quando estava convencida de que a vida era a mais perfeita que se podia pedir, a jogou bruscamente no sofá. —Por que fez isso? —Perguntou, lutando para sentar‐se reta. —O que está fazendo aqui? —O que você está fazendo aqui? Sentou‐se em uma mesa baixa na frente dela. —Eu perguntei primeiro. —Parecemos um par de crianças — disse, sentando‐se sobre as pernas. Mas não obstante, respondeu. Parecia absurdo discutir sobre semelhante assunto. — Não podia dormir. Pensei que um copo de xerez poderia me ajudar a conseguir. —Porque chegou madura e anciã idade de vinte anos — disse ele de brincadeira.


Mas ela não mordeu o anzol. Só inclinou a cabeça com um gracioso movimento de reconhecimento e disse: —Exatamente. Ele riu. —Pois, não faltaria mais, me permita assisti‐la em sua queda. —Ficou de pé e caminhou para o próximo móvel. — Mas se for beber, então, Por Deus, faça‐o adequadamente. Um brandy é o que necessita, preferentemente do francês que se obtém de contrabando. Miranda o observou enquanto pegava duas taças da prateleira e as punha sobre a mesa. Suas mãos eram firmes e... As mãos podiam ser bonitas? Ao servir duas consideráveis medidas. —Quando era pequena, minha mãe, ocasionalmente, me dava brandy. Quando pegava chuva — explicou. — Só um golinho para me esquentar. Turner se virou a olhá‐la, embora estivesse escuro sentia que seus olhos a perfuravam. —Tem frio agora? —Não. Por quê? —Está tremendo. Miranda desceu a vista a seus braços traidores. Estava tremendo, mas não era o frio o que o causava. Abraçou a si mesma, com a esperança de que não seguisse com o tema. Ele voltou para seu lado e lhe entregou o brandy, seu corpo imbuído de uma enxuta elegância masculina. —Não o vire de um gole. Antes de tomar um gole, Miranda lhe lançou um olhar extremamente irritado pelo tom de condescendência que havia em sua voz. —Por que está aqui? — Perguntou. Sentou‐se na frente dela e preguiçosamente apoiou um tornozelo sobre o joelho oposto. —Tinha que discutir uns assuntos da fazenda com meu pai, assim convidei a mim mesmo a compartilhar um gole com ele depois da refeição. E não fui embora. —E esteve aqui sentado sozinho na escuridão? —Eu gosto da escuridão. —Ninguém gosta da escuridão. Riu com vontade, fazendo‐a sentir terrivelmente imatura e jovem. —Ah, Miranda — disse, ainda rindo. — Obrigado por isso.


Ela semicerrou os olhos. —Quanto bebeu? —Uma pergunta muito impertinente. —Há, por isso deve ter bebido muito. Ele se inclinou para frente. —Parece que estou bêbado? Ela se afastou involuntariamente, não estando preparada para a intensidade de seu olhar. —Não — disse lentamente. — Mas você é muito mais experiente que eu, e imagino que sabe como beber. Provavelmente possa beber oito vezes mais que eu sem que pareça absolutamente que bebeu. Turner riu asperamente. —Muito certo tudo o que disse. E você, querida menina, deveria aprender a permanecer afastada de homens que são "muito mais experimentes" que você. Miranda tomou outro gole de sua bebida, resistindo apenas o impulso de engoli uma vez. Mas a queimaria, e certamente engasgaria, e logo ele começaria a rir. E ela quereria morrer de vergonha. Tinha estado de mau humor toda a noite. Cortante e zombador quando estavam a sós, e silencioso e desanimado quando não estavam. Amaldiçoou seu traiçoeiro coração por amá‐lo tanto; teria sido muito mais fácil adorar Winston, cujo sorriso era alegre e aberto, e que se mostrou encantador com ela toda a noite. Mas não, desejava ele. Turner, cujos humores eram como o mercúrio e em um instante estava rindo e brincando com ela, e no seguinte a tratava como se a odiasse. O amor era para os idiotas. Os tolos. E ela era a maior tola de todos. —Em que está pensando? — demandou ele. —Em seu irmão — disse, só para ser perversa. De todas as formas, era um pouco verdade. —Ah — disse ele, acrescentando mais brandy a sua taça. — Winston. Boa pessoa. —Sim — respondeu. — Um pouco desafiante. —Alegre. —Encantador. —Jovem. Ela deu um encolher de ombros. —Eu também sou. Talvez sejamos um bom par.


Não disse nada. Ela terminou sua bebida. —Não está de acordo? —perguntou. Ele continuou sem falar. —A respeito do Winston — pressionou. — É seu irmão. Quer que seja feliz, não é? Pensa que seria boa para ele? Pensa que poderia fazê‐lo feliz? —Por que está me perguntando isso? — perguntou ele, com a voz baixa e quase alheia no silêncio da noite. Miranda deu um encolher de ombros, logo deslizou o dedo dentro da taça para recolher as últimas gotas. Depois de lamber a pele, levantou a vista. —Ao seu serviço — murmurou ele, e lhe serviu dois dedos mais de brandy na taça. Miranda assentiu em forma de agradecimento e logo respondeu sua pergunta. —Quero saber —disse simplesmente, — e não sei a quem mais perguntar. Olivia está tão ansiosa de me ver casada com Winston, que dirá qualquer coisa que pense que me levará mais rapidamente ao altar. Esperou, contando os segundos até que ele falou. Um, dois, três... E logo tomou fôlego entrecortadamente. Foi quase como uma rendição. —Não sei Miranda. — Soava cansado, aflito. — Não vejo razão para que não o faça feliz. Faria feliz a qualquer homem. Até você? Miranda morria por dizer essas palavras, mas em troca perguntou. —Pensa que ele me fará feliz? Tomou ainda mais tempo responder essa pergunta. E logo finalmente, em um tom lento e moderado disse: —Não estou seguro. —Por que não? Que tem que errado com ele? —Não tem nada de errado. É simplesmente que não estou seguro de que vá te fazer feliz. —Mas, por quê? — Estava sendo impertinente, sabia, mas se pudesse fazer que Turner lhe dissesse por que Winston não a faria feliz, talvez se dessa conta de que ele sim conseguiria.


—Não sei Miranda. — Passou a mão pelo cabelo até que as mechas douradas ficaram em um ângulo desajeitado. — É necessário que tenhamos esta conversa? —Sim — disse ela com intensidade. — Sim. —Muito bem. — Ele se inclinou para frente, entrecerrando os olhos para prepará‐la para lhe dar notícias desagradáveis. — Não entra nos modelos de beleza que a sociedade estima atualmente para ser considerada bela, é muito sarcástica para não dizer mais e não gosta particularmente de sustentar uma conversa educada. Francamente, Miranda eu não posso imaginá‐la desejando um típico casamento social. Ela engoliu com força. —E? Ele afastou a vista por um longo minuto antes de voltar finalmente a olhá‐la de frente. —E a maioria dos homens não a apreciariam. Se seu marido tratar de moldá‐la a algo que não é, será espetacularmente infeliz. Houve uma corrente elétrica no ar, e Miranda foi bastante incapaz de tirar os olhos de cima dele. —E você acha que aí fora haverá alguém capaz de me apreciar? —Sussurrou. A pergunta‐a pendurou pesadamente no ar, hipnotizando os dois até que Turner finalmente respondeu. —Sim. Mas seus olhos desceram para a taça, e logo acabou o resto do brandy. Seu olhar era o de um homem satisfeito pela bebida, não o de um homem concentrado no amor e o romance. Ela afastou a vista. O momento se alguma vez houve um, se não foi só produto de sua imaginação tinha passado, e o silêncio que seguiu não foi um silêncio cômodo. Era embaraçoso e torpe, e ela se sentiu envergonhada e torpe, e assim, ansiosa por encher a distância entre eles, balbuciou a primeira coisa corriqueira que lhe passou pela mente. —Pensa assistir ao baile dos Worthington na próxima semana? Ele se virou uma de suas sobrancelhas arqueada a modo de interrogação pela


inesperada pergunta. —É provável. —Eu gostaria que o fizesse. Sempre tem a amabilidade de dançar comigo duas vezes. Se não fosse assim me faltariam muitos pares. —Estava balbuciando, mas não estava segura de que importasse. Em qualquer caso, não parecia capaz de deter‐se. — Se Winston pudesse ir, não o necessitaria, mas ele teria que retornar a Oxford pela manhã. Turner a olhou estranhamente. Não era um verdadeiro sorriso, e não era uma brincadeira, e nem sequer era um gesto irônico. Miranda odiava que fosse tão inescrutável; não lhe dava absolutamente nenhum sinal de como proceder. Mas de todas as formas continuou. A essas alturas, o que tinha a perder? —Irá? —Perguntou. — Apreciaria muito. Olhou‐a por um momento, e logo disse: —Lá estarei. —Obrigada. Fico muito agradecida. —É um prazer ser de utilidade — disse ele com secura. Ela assentiu seus movimentos guiados mais por uma energia nervosa que por qualquer outra coisa. —Só deve dançar comigo uma vez, se isso for tudo o que pode tolerar. Mas se o fizesse a princípio, apreciaria. Os outros homens parecem seguir seu exemplo. —Estranho como posso parecer — murmurou ele. —Não é tão estranho — disse Miranda lhe dedicando o encolhimento de um só ombro. Estava começando a sentir os efeitos do álcool. Ainda não estava desequilibrada, mas se sentia bastante quente, talvez um pouco atrevida. — Você é bastante bonito. Turner pareceu não saber o que responder. Miranda se felicitou. Era muito estranho engenhar para desconcertá‐lo. O sentimento foi impetuoso, assim tomou outro gole de seu brandy, e desta vez tomou cuidado de deixá‐lo deslizar‐se lentamente pela garganta, e disse: —É bastante parecido ao Winston. —Desculpe‐me. Seu tom foi escarpado, e provavelmente ela deveria ter tomado como uma advertência, mas parecia não ser capaz de sair do poço que estava cavando rapidamente a seu redor.


—Bom ambos têm olhos azuis e cabelo loiro, embora suponha que o dele é um pouco mais claro. E também sua postura é similar, embora... —É suficiente, Miranda. —Oh, mas... —Disse que é suficiente. Calou‐se ante o tom cáustico, logo murmurou: —Não há necessidade de sentir‐se ofendido. —Bebeu muito. —Não seja tolo. Não estou nada bêbada. Estou segura que você tomou dez vezes mais que eu. Ele a olhou com um enganoso olhar indolente. —Isso não é de tudo certo, mas como disse antes, tenho muita mais experiência que você. —Eu disse isso, verdade? Acredito que tinha razão. Não acho que esteja nem um pouquinho bêbado. Ele inclinou a cabeça e disse com suavidade. —Bêbado não. Só um pouquinho atordoado. —Atordoado, hein? —Murmurou ela, provando a palavra na língua. — Que descrição mais interessante. Acredito que eu também estou atordoada. —Certamente deve estar, ou teria ido de volta para o andar de cima no momento que me viu. —E não deveria tê‐lo comparado com Winston. Seus olhos brilharam com uma cor azul resistente. —Definitivamente não deveria ter feito isso. —Não o incomoda, não é? Houve um longo e mortal silêncio, e por um momento Miranda pensou que tinha ido muito longe. Como podia ter sido tão tola, tão presunçosa para pensar que ele poderia desejá‐la? Por que em nome de Deus importaria a ele que ela o comparasse com seu irmão menor? Para ele, não era mais que uma menina, a pequena menina rústica com a qual tinha feito amizade porque sentia pena. Nunca deveria ter sonhado que talvez algum dia chegasse a afeiçoar‐se a ela. —Desculpe‐me — murmurou, ficando desajeitadamente de pé — passei dos limites. —E logo, como ainda estava ali, terminou o resto do brandy e saiu correndo para a porta. —Aaaah! —Que demônios? —Turner ficou de pé de um salto. —Esqueci dos vidros — choramingou. — Os vidros quebrados. —OH, Cristo, Miranda, não chore. —Caminhou rapidamente atravessando o aposento e pela segunda vez essa noite a levantou nos braços.


—Sou tão estúpida. Tão condenadamente estúpida — disse com um soluço. As lágrimas se deviam mais à perda da dignidade que à dor, e por essa razão eram mais difíceis de controlar. —Não amaldiçoe. Nunca a escutei amaldiçoar antes. Terei que lavar sua boca com sabão — brincou, levando‐a de volta para o sofá. Seu tom gentil a afetou mais do que as palavras severas poderiam fazer jamais, e tomou dois profundos fôlegos, tratando de controlar os soluços que se abatiam em algum lugar no fundo de sua garganta. Deixou‐a suavemente de volta no sofá. —Agora me deixe ver esse pé, o que acha? Ela negou com a cabeça. — Posso arrumar isso sozinha. —Não seja tola. Está tremendo como uma folha. — Foi para a prateleira onde estavam os licores e recolheu a vela que ela tinha deixado antes. Miranda o observou enquanto cruzava o aposento para retornar a seu lado e deixar a vela no extremo da mesa. —Bem, aqui temos um pouco de luz. Deixe‐me ver o pé. Relutantemente, deixou que ele segurasse seu pé e colocá‐lo sobre o colo. —Sou tão estúpida. —Quer deixar de dizer isso? É a mulher menos estúpida que conheço. —Obrigada. Eu... Ai! —Fique quieta e deixe de se retorcer. —Quero ver o que está fazendo. —Bom, a não ser que seja contorcionista, não tem como, assim terá que confiar em mim. —Falta pouco? —Pouco. — Colocou o dedo ao redor de outra lasca de vidro e atirou. Ela se esticou pela dor. —Ficam só uma ou duas. —O que acontece se não tira todas? —Farei. —E se não? —Bom Deus, mulher, alguma vez lhe disse que é muito insistente? Ela quase sorriu. —Sim. Ele quase devolveu o sorriso.


—Se deixar uma, provavelmente sairá sozinho em poucos dias. As lascas geralmente são assim. —Não seria lindo que a vida fosse tão simples como uma lasca? — disse ela tristemente. Turner elevou a vista. —Encontrando seu próprio caminho em poucos dias? Assentiu. Sustentou‐lhe o olhar outro instante, e logo voltou para seu trabalho, arrancando uma última lasca de vidro de sua pele. —Aí tem. Estará como nova em pouco tempo. Mas não fez nenhum movimento para retirar o pé de seu colo. —Sinto ter sido tão desajeitada. —Não sinta. Foi um acidente. Era sua imaginação ou ele estava sussurrando? E seus olhos se viam tão tenros. Miranda se retorceu e se dobrou para poder sentar‐se mais perto dele. —Turner? —Não diga nada — disse ele roucamente. —Mas eu... —Por favor! Miranda não entendia a urgência de sua voz, não reconhecia o desejo entrelaçado em suas palavras. Só sabia que estava perto, que podia senti‐lo, que podia cheirá‐lo... E que desejava saboreá‐lo. —Turner, eu... —Não diga mais — disse asperamente e a atraiu para ele, esmagando os seios contra seu firme e musculoso torso. Seus olhos brilhavam com ferocidade, e subitamente se deu conta, subitamente soube, que nada ia impedir a lenta descida de seus lábios para os dela. E então a beijou, sentia seus lábios quentes e famintos contra a boca. Seu desejo era intenso, cru e devorador. Desejava‐a. Não podia acreditar, mal conseguia reunir a presença de ânimo para pensar, mas sabia. A desejava. Fez sentir‐se atrevida. A fez sentir feminina. Resgatou algum tipo de conhecimento secreto que tinha estado enterrado nela, talvez desde antes de nascer, e lhe devolveu o beijo, movendo os lábios com ingênua incerteza, a língua disparando para provar o quente sabor salgado de sua pele. As mãos do Turner lhe pressionaram as costas, aprisionando‐a contra ele, e então já não puderam permanecer erguidos e se afundaram nas almofadas, Turner cobrindo o corpo de Miranda com o dele.


Tornou‐se selvagem. Estava enlouquecido. Essa era a única explicação, mas parecia que não se saciava dela. Suas mãos vagaram por todos os lados, provando, apalpando, apertando, e em tudo o que podia pensar — quando era capaz de pensar— era em que a desejava. Desejava‐a de todas as maneiras possíveis. Desejava devorá‐la. Desejava adorá‐la. Desejava perder‐se dentro dela. Sussurrou seu nome, gemeu contra sua pele. E quando ela respondeu sussurrando o dele sentiu que suas mãos se moviam por vontade própria para os pequenos botões da gola da camisola. Cada um parecia derreter‐se debaixo da ponta dos dedos até que abriram todos, e tudo o que faltava era que deslizasse o tecido sobre sua pele. Podia sentir o inchaço de seus seios debaixo da camisola, mas desejava mais. Desejava seu calor, seu aroma, seu sabor. Percorreu‐lhe a garganta para baixo com os lábios, seguindo a elegante curva da clavícula, justo onde a borda da camisola se encontrava com a pele. Correu a borda para baixo, saboreando uma nova polegada dela, explorando a suave e salgada doçura, e estremecendo‐se de prazer quando a lisa parte do colo deu lugar à suave turgidez de seu seio. Deus querido desejava‐a. Cavou a mão sobre ela através da roupa, pressionando‐a para cima, aproximando‐a de sua boca. Ela gemeu, e ele mal pôde conter‐se, quase não pôde forçar seu desejo a avançar lentamente. Aproximou a boca, aproximando‐se para o prêmio mais cobiçado, ao mesmo tempo em que deslizava a mão por debaixo da ponta da camisola, deslizando‐a sobre a sedosa pele da panturrilha. Quando sua mão alcançou a coxa, ela quase lançou um grito. —Shhh — cantarolou, silenciando‐a com um beijo. — Despertará os vizinhos. Despertará meus... Pais. Foi como se lhe jogassem um, balde de água fria. —OH, Deus. —O que acontece, Turner? —Sua respiração saía em ofegos entrecortados. —OH, Deus. Miranda. —Disse o nome com toda a agitação que lhe alagava a mente. Foi como se tivesse estado adormecido, sonhando e tivesse despertado e...


—Turner, eu... —Silêncio — sussurrou ele bruscamente, e rodou para sair de em cima dela com tanta força que aterrissou no tapete a seu lado. — OH, Deus querido — disse. E logo outra vez, porque merecia ser repetido. — OH. Deus. Querido. —Turner? —Levante‐se. Tem que levantar‐se. —Mas... Baixou a vista para ela, o que foi um grande engano. A camisola ainda estava enrolada perto dos quadris e as pernas dela — Deus querido, quem teria pensado que seriam tão adoráveis e longas — e ele só desejava... Não. Estremeceu com a força de sua própria negativa. —Agora, Miranda — grunhiu. —Mas eu não... Deu‐lhe um puxão e a pôs de pé. Não tinha nenhum desejo de tomar a mão; francamente, não confiava em si mesmo para tocá‐la, por muito pouco romântico que fosse o puxão. Mas tinha que pô‐la em movimento. Deveria tirá‐la dali. —Vai — ordenou. — Pelo amor de Deus, se tiver um pouco de sentido comum, vai. Mas ela simplesmente ficou ali de pé, olhando‐o atordoada, com o cabelo desordenado, os lábios inchados e ele desejando‐a. Deus querido, ainda a desejava. —Isto não voltará a ocorrer — disse, com a voz tensa. Ela não disse nada. Observou‐o com cautela. Por favor, por favor, não permita que comece a chorar. Manteve‐se ferozmente imóvel. Movia‐se, era provável que a tocasse. Não seria capaz de evitar. —Será melhor que suba — disse em voz baixa Ela assentiu com uma sacudida de cabeça e fugiu para seu quarto. Turner ficou olhando fixamente a porta. Maldito inferno sagrado. O que ia fazer? 12 de Junho de 1819 Estou sem palavras. Absolutamente.


CAPÍTULO 8

Turner despertou à manhã seguinte com uma abrasadora dor de cabeça que não tinha nada que ver com o álcool. Desejava que tivesse sido pelo brandy. O brandy teria sido um inferno muito mais simples que isto. Miranda. Em que diabos, ele esteve pensando? Em nada. Obviamente não estava pensando absolutamente. Ao menos não com a cabeça. Tinha beijado Miranda. Infernos, quase tinham machucado‐a. E era difícil imaginar que poderia existir em qualquer parte da Bretanha uma jovem menos conveniente para seus cuidados que a Senhorita Miranda Cheever. Ia arder em algum lugar por isso. Se fosse um bom homem, supunha, casaria com ela. Uma jovem poderia perder sua reputação por bem menos que isso. Mas ninguém os viu, uma pequena voz em seu interior insistiu. Ninguém sabia além deles dois. E Miranda não diria nada. Não era desse tipo. E ele não era um bom homem. Letícia se ocupou disso. Ela matou o bom e amável que havia em seu interior. Mas ainda havia sensatez. E não permitiria se aproximar de Miranda outra vez. Um engano podia ser compreensível. Dois seria sua perdição. E três... Bom Deus, não deveria estar pensando em três. O que precisava era distanciar‐se. Distância. Estava longe de Miranda, não poderia tentar e ela poderia esquecer seu encontro ilícito e encontraria por si mesmo a algum moço jovial e agradável para casar. A imagem dela nos braços de outro homem de improviso era desagradável, mas Turner decidiu que era porque era muito cedo na manhã, e estava cansado e tinha beijado‐há só fazia seis horas ou algo assim e... E poderia haver umas cem razões diferentes, nenhuma delas importantes o bastante para examinar mais de perto. Enquanto isso teria que evitá‐la. Talvez devesse deixar a cidade. Escapar. Poderia sair do país. Realmente não tinha pensado permanecer em Londres


muito tempo de todos os modos. Abriu os olhos e gemeu. Não possuía nenhum autocontrole? Miranda era uma jovenzinha inexperiente de vinte anos. Não era como Letícia, conhecedora em todas as habilidades femininas e disposta a utilizá‐las para sua vantagem. Miranda poderia ser tentadora, mas resistível. Turner era o suficiente homem para manter a cabeça quando estivesse perto dela. Em todo caso, provavelmente não deveria estar vivendo na mesma casa. E enquanto fazia as mudanças, talvez fosse hora de inspecionar as mulheres da alta sociedade este ano. Havia muitas discretas e jovens viúvas. Fazia muito tempo que não ficava em companhia feminina. Se algo podia fazer esquecer uma mulher, era outra. —Turner está de mudança. —O que? —Miranda estava arrumando as flores em um vaso de porcelana. Foi só pelas ágeis mãos e a enorme boa sorte que a preciosa antiguidade não se estatelou contra o chão. —Já foi — disse Olivia com um encolhimento. — Seu ajudante de quarto está empacotando suas coisas agora mesmo. Miranda pôs o vaso de volta sobre a mesa com doloridos e cuidadosos dedos. Devagar, constante, inspira, espira. E então finalmente, quando esteve segura de que podia falar sem tremer, perguntou: —Abandona a cidade? —Não, não acredito — disse Olivia, sentando‐se sobre o divã com um bocejo. — Não tinha pensado permanecer na cidade tanto tempo, por isso irá alugar um apartamento. —Irá alugar um apartamento? —Miranda lutou contra o horrível vazio que sentia estar afundando em seu peito. Alugava um apartamento. Tão somente para afastar‐se dela. Teria se sentido humilhada se não estivesse tão triste. Ou talvez fossem ambas as coisas. —Isto é provavelmente o melhor — continuou Olivia, esquecendo a angústia de sua amiga. — Sei que diz que nunca voltará a casar outra vez...


—Ele disse isso? —Miranda congelou. Como era possível que não soubesse? Sabia que havia dito que não procurava esposa, mas certamente não pensou que fosse para sempre. —OH, sim — respondeu Olivia. — Disse o outro dia. Foi bastante firme. Pensei que mamãe teria um ataque por isso. Por assim dizer, esteve muito perto de desmaiar. —Sua mãe? —Miranda tinha dificuldade em imaginar. —Bom, não, mas se seus nervos tivessem sido menos fortes, certamente teria feito. A maior parte do tempo Miranda desfrutava das divagações da amiga, mas neste momento queria estrangulá‐la. —De todos os modos — disse Olivia, suspirando enquanto se recostava, — disse que não se casará, mas estou completamente segura de que reconsiderará. Simplesmente deve passar o sofrimento sobre isso. — Fez uma pausa, olhando de soslaio Miranda com uma expressão sardônica. — Ou a falta dela. Miranda sorriu tensamente. Tão tensamente, de fato, que estava segura o bastante de que outra pessoa era quem o fazia. —Mas apesar do que diz — adicionou Olivia, recostando‐se e fechando os olhos, — com certeza não encontrará uma noiva enquanto viva aqui. Céus como poderia alguém fazer a corte na companhia de uma mãe, um pai e duas irmãs mais jovens? —Duas? —Bem, uma, certamente, mas você poderia ser contada como uma segunda. Com segurança não pode comportar‐se de nenhuma outra forma como gostaria de comportar‐se enquanto está em sua presença. Miranda não sabia se devia rir ou chorar. —E inclusive se não escolher uma noiva a qualquer momento, logo — acrescentou Olivia, — deverá tomar uma amante. Certamente isto o ajudará a esquecer Letícia. Miranda não viu que podia dizer a isso. —E certamente não pode fazê‐lo enquanto esteja vivendo aqui. —Olivia abriu os olhos e se apoiou sobre os cotovelos. — Por isso realmente, é tudo para melhor. Não está de acordo? Miranda assentiu com a cabeça. Porque tinha que fazer. Porque se sentia


muito aturdida para chorar. 19 de junho de 1819

Ele se foi faz uma semana e estou além de mim mesma. Se simplesmente tivesse ido, poderia perdoá‐lo, mas não retornou! Não me procurou. Não me enviou uma carta, e embora ouça sussurros e intrigas de que reata suas atividades normais e está sendo visto em sociedade, é certo que nunca o vejo, se estiver em um evento, ele não está. Uma vez pensei tê‐lo visto do outro lado de um recinto, mas não posso estar segura, porque só vi suas costas enquanto efetuava a saída. Não sei o que fazer com tudo isto, não posso procurá‐lo, poderia estar à altura do impróprio. Lady Rudland proibiu até Olivia de visitá‐lo; está em The Albany e é estritamente para cavalheiros. Nenhum familiar ou viúvas. —O que planeja vestir para o baile desta noite dos Worthington? —Perguntou Olivia, jogando três torrões de açúcar em seu chá. —É esta noite? — Os dedos de Miranda se apertaram ao redor da xícara de chá. Turner tinha prometido que iria ao baile dos Worthington e dançaria com ela. Certamente não faltaria a uma promessa. Ele estaria ali. E se não estivesse... Ela simplesmente teria que garantir de que não faltasse. —Colocarei meu vestido de seda verde — disse Olivia. — A não ser que queira usar o seu vestido verde. Fica realmente adorável com o verde. —É o que pensa? —Miranda se endireitou. De repente era imperativo que se, visse absolutamente bela. —Mmm‐hmm. Mas seria bom não usarmos a mesma cor, por isso terá que se decidir logo. —O que me recomenda? —Miranda não estava desesperada por andar na moda, mas nunca teria um olho tão perito como Olivia. Olivia inclinou a cabeça para um lado enquanto examinava a amiga. —Com sua tez, realmente sinto que não possa usar algo mais vivo, mas mamãe diz que ainda somos muito novatas. Mas talvez... — levantou‐se de um salto,


arrebatando sabiamente um travesseiro verde pálido de uma cadeira próxima e a sustentou sob o queixo de Miranda. — Hmmm. —Está planejando me redecorar? —Segura isto — ordenou Olivia, e deu vários passos para trás, soltando um elegante. Euf! Quando seu pé se enganchou em uma perna da mesa. — Sim, sim — murmurou, mantendo o equilíbrio com o braço do sofá. — É perfeito. Miranda olhou para baixo. E logo para cima. —Devo usar um travesseiro? —Não, usar meu vestido de seda verde. Este é precisamente a mesma cor. Annie vai buscá‐lo hoje. —Mas então, o que você irá vestir? —OH, alguma outra coisa — disse Olivia com um movimento de mão. — Algo rosa. Os cavalheiros parecem ficar loucos pelo rosa. Faz que me veja como um doce, dizem. —Não te importa ser um doce? — Porque Miranda odiaria. —Não me importa o que pensem — corrigiu Olivia. — Ajuda‐me. Há freqüentemente uma vantagem na subestimação. Mas você... — Negou com a cabeça. — Você necessita algo mais sutil. Sofisticado. Miranda recolheu seu chá para tomar o último gole, então parou, alisando a suave musselina de seu vestido de dia. —Deveria ir provar agora — disse ela. — Para dar tempo a Annie de fazer as modificações. E, além disso, tinha um pouco de correspondência que atender. Turner descobriu, enquanto atava a gravata da fantasia com dedos ágeis, que seu talento para o ataque verbal era mais amplo e profundo do que percebeu. Encontrou umas cem coisas malignas desde que recebeu, nessa mesma tarde, a maldita nota de Miranda. Mas, sobretudo, amaldiçoava, acontecesse o que acontecesse, o maldito sentido da honra que ainda possuía. Ir ao baile dos Worthington era o cúmulo da insensatez, a coisa mais néscia que possivelmente poderia fazer. Mas é claro que sim que não poderia romper a promessa à jovenzinha, inclusive se era por seu bem. Santo inferno. Isto não era o que necessitava agora mesmo. Voltou a olhar a nota. Tinha prometido dançar com ela se lhe faltassem companheiro não foi? Bem, isto não deveria ser um problema. Simplesmente se asseguraria de que tivesse mais companheiros do que soubesse o que fazer com


eles. Seria a mais bela do baile. Supôs que já que deveria ir á festa, devia seguir em frente e examinar às jovens viúvas. Com um pouco de sorte, Miranda veria exatamente onde planejava dedicar seus cuidados e compreenderia que devia olhar em outra direção. Estremeceu. Não gostava do pensamento de contrariá‐la. Infernos ele gostava da jovenzinha. Sempre gostou. Moveu a cabeça. Não ia magoá‐la. Não muito, de todos os modos. E, além disso, a ressarciria. A bela do baile recordou enquanto entrava em sua carruagem e se preparava duramente para o que certamente seria uma velada extremamente difícil. A. Bela. Do. Baile. Olivia descobriu Turner no momento em que entrou. —OH, olhe — disse, dando uma cotovelada em Miranda. — Meu irmão está aqui. —Sim? —Respondeu Miranda ofegando. —Mmm‐hmm. — Olivia se endireitou, juntando as sobrancelhas. — Não o vejo há séculos, agora que penso nisso. E você? Miranda negou com a cabeça distraidamente enquanto estirava o pescoço, tentando divisar Turner. —Está falando com Duncan Abbott — informou Olivia. — Pergunto‐me do que estarão falando. O senhor Abbott é totalmente um político. —É? —OH, sim. Eu gostaria de ter um debate com ele, mas provavelmente não gostaria de falar de política com uma mulher. Isso sim que é molesto. Miranda esteve a ponto de assentir com a cabeça quando Olivia franziu o cenho e disse com voz irritada. —Agora se dirige á lorde Westholme. —Olivia é permitida ao homem falar com quem quiser — disse Miranda, mas por dentro, ela também estava se irritando por Turner não ir em direção a elas. —Sei, mas deveria vir e nos saudar primeiro. Somos sua família. —Bem, você é ao menos. —Não seja tola. Você também é família, Miranda. — A boca de Olivia se abriu


com um pequeno oh de indignação. — Está vendo isto? Vai em direção oposta. —Quem é esse homem para quem se dirige? Não o reconheço. —O Duque de Ashbourne. O tipo é infernalmente bonito, não é? Acho que esteve no estrangeiro. Estava de férias com a esposa. Pelo que sei, são muitos devotos um do outro. Miranda pensou em que era um sinal positivo ouvir que ao menos um matrimônio da alta sociedade era feliz. De todos os modos, Turner certamente não pediria sua mão se não pôde se incomodar em atravessar o salão de baile para dizer olá. Ela franziu o cenho. —Me perdoe Lady Olivia. Acho que esta é minha dança. Olivia e Miranda levantaram a vista. Um belo jovem cujo nome nenhuma das duas podia recordar estava de pé ante elas. —Certamente — disse Olivia rapidamente. — Que tola sou por ter esquecido. —Acho que tomarei um copo de limonada — disse Miranda com um sorriso. Sabia que Olivia sempre se sentia incômoda quando ia dançar e deixava Miranda sozinha. —Está segura? —Vai. Vai. Olivia flutuou para a pista de dança e Miranda iniciou seu caminho para o lacaio que servia a limonada. Como sempre, tinha sido requerida só para aproximadamente a metade das danças. E onde estava Turner, poderia perguntar‐se, depois de que prometeu dançar com ela se carecia de companheiros? Horrível, horrível homem. De algum modo, sentia‐se bem o amaldiçoando em sua mente, inclusive se realmente não acreditasse. Miranda tinha percorrido a metade do caminho para a limonada quando sentiu uma firme mão masculina sobre seu cotovelo. Turner? Virou‐se, mas se decepcionou ao encontrar um cavalheiro que não conhecia, mas cujo rosto lhe era vagamente familiar. —Senhorita Cheever? Miranda assentiu. —Posso ter o prazer desta dança? —Pois sim, é obvio, mas não acredito que tenhamos sido apresentados. —OH, me perdoe, por favor. Sou Westholme.


Lorde Westholme? Não era o cavalheiro com quem Turner esteve conversando tão somente alguns instantes antes? Miranda sorriu, mas em sua mente franzia o cenho. Nunca tinha sido uma grande crente das coincidências. Lorde Westholme demonstrou ser um bailarino excelente e o par girou sem esforço pelo piso. Quando a música se aproximou do final, ele se inclinou elegantemente e a escoltou ao perímetro do recinto. —Obrigada pela adorável dança, Lorde Westholme — disse Miranda gentilmente. —Sou eu quem deveria agradecer Senhorita Cheever. Espero que logo possamos repetir este prazer. Miranda notou que Lorde Westholme tinha conseguido depositá‐la tão longe da limonada como era possível. Foi uma mentira piedosa quando disse a Olivia que tinha sede, mas agora realmente estava bastante sedenta. Com um suspiro, compreendeu que teria que abrir caminho de volta através da multidão. Não tinha dado dois passos para os refrescos quando outro extremamente elegante jovem elegível parou frente a ela. Reconheceu‐o imediatamente. Era o Senhor Abbott, o cavalheiro politicamente importante com quem Turner também esteve conversando. No prazo de alguns segundos, Miranda estava de volta a pista de dança e certamente sua irritação crescia. Não é que pudesse pôr falta os seus companheiros. Se Turner achou necessário subornar aos homens para que dançassem com ela, ao menos escolheu os belos e educados. Entretanto, quando o Senhor Abbott a tirava da pista de dança e viu o Duque de Ashbourne abrindo caminho para ela, Miranda se retirou rapidamente. Pensou que ela não teria nenhum orgulho? Pensava que apreciaria que enrolasse a seus amigos pedindo que dançassem com ela? Isto era humilhante. E ainda pior era a implicação de que conseguia que aqueles homens dançassem com ela porque ele mesmo não podia se incomodar em fazê‐lo. As lágrimas começaram a se formar nos olhos e Miranda, aterrorizada por derramá‐las no salão do baile à vista da alta sociedade, saiu correndo para um corredor deserto. Apoiou‐se contra uma parede e tomou grandes baforadas de ar. A rejeição dele não doía. Apunhalava‐a. A feria como balas. E sua pontaria era precisa até certo ponto. Isto não se parecia com todos aqueles anos quando a tinha visto como uma menina. Então ao menos ela podia se consolar dizendo que não sabia o que estava


errado. Mas agora sabia. Agora sabia exatamente o que estava errado e ele não se preocupava nem um pouco. Miranda não podia permanecer no vestíbulo toda a noite, mas não estava preparada para voltar para o baile, por isso saiu ao jardim. Era uma pequena zona verde, mas bem proporcionada e apresentada com bom gosto. Miranda se sentou sobre um banco de pedra no canto do jardim que estava em frente á parte de atrás da casa. Grandes portas de vidro se abriam no salão de baile, e durante alguns minutos olhou às damas e cavalheiros girarem com a música. Sorveu o nariz e tirou uma das luvas para poder limpar o nariz com a mão. —Meu reino por um lenço — disse com um suspiro. Talvez pudesse fingir que estava doente e ir para casa. Provou com uma pequena tosse. Talvez estivesse realmente doente. Realmente, não tinha nenhum sentido permanecer o resto do baile. O objetivo era ser bonita, sociável e cativante, não? Não havia nenhum modo que ela pudesse conseguir qualquer destas coisas nesta festa. E então viu um brilho dourado. Cabelo frisado de dourado, para ser mais exata. Era Turner. Certamente. Como não seria ele quando estava sentada, pateticamente sozinha? Caminhava pelas portas francesas que conduziam ao jardim. E havia uma mulher em seu braço. Um estranho nó rodou por sua garganta e Miranda não sabia se ria ou chorava. Não lhe economizaria nenhuma humilhação? O fôlego ficou preso na garganta, moveu‐se a toda pressa para a beira do banco onde ficaria mais oculta pelas sombras. Quem era? Tinha visto antes. Lady Algo ou outra. Uma viúva escutou que era muito rica e independente. Não parecia uma viúva. E verdade seja dita, não parecia muito mais velha que Miranda. Murmurando uma desculpa pouco sincera, Miranda aguçou os ouvidos para ouvir a conversa. Mas o vento levava as palavras em direção contrária, assim só se inteirou de pedaços vazios. Finalmente, depois do que soou como "não estou segura", Turner se inclinou e a beijou. O coração de Miranda se rompeu. A Lady murmurou algo que não pôde ouvir e retornou ao salão de baile. Turner permaneceu no jardim, as mãos sobre os quadris, olhando enigmaticamente


para a lua. Parte quis gritar Miranda. Vamos! Encontrava‐se ali presa até que partisse e tudo o que queria era ir para casa e enroscar‐se em sua cama. Mas esta não parecia ser uma op��ão neste mesmo momento, estando na beira mais afastado do banco, tentando ocultar‐se inclusive mais nas sombras. A cabeça de Turner virou bruscamente em sua direção. Maldição! Ouviu. A olhou de esguelha e deu um par de passos em sua direção. Então fechou os olhos e devagar negou com a cabeça. —Maldita seja, Miranda! —Disse com um suspiro. — Por favor, me diga que não é você. Até aqui a tarde tinha estado indo muito bem. Conseguiu evitar Miranda completamente, finalmente conseguiu ser apresentado à encantadora viúva Bidwell de só vinte e cinco anos e o champanhe não foi muito ruim tampouco. Mas não, os deuses claramente não se inclinavam a lhe conceder alguns favores. Ali estava ela. Miranda. Sentada sobre um banco, olhando‐o. Presumivelmente vendo‐o beijar a viúva. Por Deus! —Maldita seja, Miranda! —Disse com um suspiro. — Por favor, me diga que não é você. —Não sou eu. Ela tentava soar orgulhosa, mas sua voz sustentou uma borda oca que o atravessou. Ele fechou os olhos um momento por que, maldição, supunha‐se que não estaria ali. Imaginava que ele não teria este tipo de complicações em sua vida. Por que algo por única vez não poderia ser simples e fácil? —Por que está aqui? —Perguntou. Ela deu um encolher de ombros. —Queria um pouco de ar fresco. Deu alguns passos para ela até que esteve profundamente encaixado nas sombras como estava ela. —Estava me vigiando? —Deve ter uma opinião muito alta de si mesmo. —Fazia? —Exigiu. —Não, certamente que não — replicou, retraindo o queixo com cólera. — Não me inclino para a espionagem. Deveria inspecionar os jardins com mais cuidado a próxima vez que planeje um encontro. Ele cruzou os braços. —Acho difícil de acreditar que estivesse aqui fora e que não tenha nada a ver


com minha presença. —Me diga, então — respondeu ela, — se te segui até aqui, como cheguei até o banco sem que você se dessa conta? Ele ignorou a pergunta, sobretudo porque tinha razão. Passou a mão pelo cabelo, agarrando uma mecha e espremendo, a sensação de estar arrancando de seu couro cabeludo de algum modo ajudava a refrear seu gênio. —Está puxando o cabelo — disse Miranda com irritabilidade na voz. Ele suspirou. Dobrou os dedos. E sua voz foi quase estável quando exigiu. —O que é isto Miranda? —O que é isto? —Ela ecoou, ficando de pé. — O que é isto? Como se atreve! Isto é sobre não falar comigo durante uma semana e me tratar como algo que tem que ser varrido para baixo de um tapete. É sobre você pensar que tenho tão pouco orgulho que apreciaria que subornasse seus amigos para dançarem comigo. É sobre sua grosseria, egoísmo e sua incapacidade para... Ele colocou a mão sobre sua boca. —Pelo amor de Deus, fala baixo. O que ocorreu a semana passada foi um equívoco, Miranda. E é uma idiota por exigir o pagamento das minhas promessas me obrigando a vir esta noite. —Mas você atendeu — sussurrou ela. — Veio. —Vim —cuspiu — porque procuro uma amante. Não uma esposa. Ela se tornou para trás. E o olhou fixamente. Olhou‐o fixamente até que pensou que esvaziaria os olhos sobre ele. E logo finalmente com uma voz tão baixa que doía, disse‐lhe: —Eu não gosto de você neste momento, Turner. Isto estava bem. Ele tampouco gostava muito a si mesmo nesse momento. Miranda levantou o queixo, mas tremia enquanto dizia. —Se me perdoar. Tenho uma dança. Graças a você, tenho um importante número de companheiros de dança e não quereria ofender nenhum deles. Observou‐a enquanto partia furiosamente. E então olhou a porta. E logo partiu. 20 DE JUNHO DE 1819

Vi que a viúva estava outra vez esta noite depois de que retornei ao salão de baile.


Perguntei a Olivia quem era e me disse que seu nome era Catherina Bidwell. É a condessa do Pembleton. Casou‐se com Lorde Pembleton quando ele tinha quase sessenta anos e rapidamente teve um filho, Lorde Pembleton passou desta para melhor há pouco tempo e agora ela tem o poder completo de sua fortuna até que o moço seja maior de idade. Uma mulher muito simpática. Tem muita independência. Provavelmente não quer casar outra vez, como estou segura que convém ao Turner perfeitamente. Tive que dançar com ele uma vez, Lady Rudland insistiu nisso, e depois, como se a tarde não pudesse piorar, ela me afastou para comentar minha repentina popularidade. O Duque de Ashbourne dançando comigo! (Sinal de admiração dela). Ele é casado, certamente e muito felizmente, mas de todos os modos, não esbanja seu tempo com pequenas senhoritas, Lady Rudland estava emocionada e muito orgulhosa de mim. Pensei que fosse começar a gritar. Agora, entretanto, estou em casa e estou tentando decidir algum tipo de enfermidade para não sair durante alguns dias. Uma semana, se puder conseguir. Sabe o que mais me incomoda? Lady Pembleton não é considerada como bonita, OH, não é desagradável de olhar, mas não é nenhum diamante de primeira categoria. Seu cabelo é simplesmente castanho e seus olhos também. Justo como os meus.

CAPÍTULO 9

Miranda passou a seguinte semana fingindo ler tragédias Gregas. Era impossível manter a mente concentrada em um livro o suficiente para ler um de verdade, mas posto que tivesse que olhar as letras na página de vez em quando, e pensou que bem poderia escolher algo de acordo com seu humor. Uma comédia a teria feito chorar. Uma história de amor, que Deus a perdoasse, a teria feito desejar morrer imediatamente. Olivia, a quem nunca foi conhecida por sua falta de interesse nos assuntos de outras pessoas, foi incessante na busca da razão que havia atrás do mau humor de Miranda. De fato, as únicas vezes em que não interrogava Miranda, era quando tentava alegrá‐la. Olivia estava na metade de uma dessas sessões de ânimo, entretendo Miranda com histórias sobre certa condessa que tinha jogado a seu marido de casa até que este aceitou deixá‐la comprar quatro pequenos poodles como mascotes, quando Lady Rudland chamou brandamente à porta. —OH, bem — disse, colocando à cabeça pela porta. — Estão as duas aqui.


Olivia, não se sente dessa forma. Não é próprio de uma dama. Olivia ajustou submissamente sua postura antes de perguntar. —O que ocorre, mamãe? —Queria informá‐las de que fomos convidados à casa da Lady Chester para uma visita campestre na próxima semana. —Quem é Lady Chester? —inquiriu Miranda, deixando seu novo manuseado volume de Tosquio sobre o colo. —Nossa prima — respondeu Olivia. — Terceiro ou quarto grau, não posso recordar. —Segundo – corrigiu lady Rudland. — E aceitei o convite em nome de todos. Seria de má educação não aceitar, já que é um familiar tão próximo. —Turner vai? —perguntou Olivia. Miranda quis agradecer mil vezes a amiga por ter perguntado o que ela não se atrevia a expressar. —É melhor que vá. Conseguiu escapar das obrigações familiares durante muito tempo — disse Lady Rudland com incomum dureza. — Se não o fizer, terá que responder ante mim. —Céus — disse Olivia impassível. — Que idéia tão terrível. —Não sei o que acontece com esse menino — disse Lady Rudland com um movimento de cabeça. — É quase como se estivesse nos evitando. Não, pensou Miranda com um sorriso triste, só a mim. Turner dava tapinhas impaciente com o pé enquanto esperava que sua família descesse. Pela décima quinta vez essa manhã, encontrou‐se desejando parecer mais ao resto dos homens da alta sociedade, muitos dos quais ignoravam as mães ou as tratavam como fragmentos de penugens. Mas de alguma forma, sua mãe conseguiu que aceitasse ir aquela condenada festa de fim de semana no campo, a qual é obvio Miranda também iria. Era um idiota. Esse dia estava conseguindo que o fato se voltasse cada vez mais claro. Um idiota que aparentemente tinha ofendido o destino, porque logo que sua mãe chegou ao vestíbulo, disse: —Terá que ir com Miranda. Aparentemente os deuses tinham um mórbido senso de humor.


Clareou a garganta. —Acha que é boa idéia, mãe? Ela lhe dirigiu um olhar de impaciência. —Não vai seduzir à garota, não é? Maldita fosse! —Claro que não. É só que terá que ter em conta sua reputação. O que dirão as pessoas quando nos vir chegar à mesma carruagem? Todo mundo saberá que passamos várias horas a sós. —Todo mundo pensa em vocês como se fossem irmão e irmã. Encontrar‐nos‐ emos a uma milha de Chester Park e trocaremos, e assim chegará com seu pai. Não haverá nenhum problema. Além disso, seu pai e eu precisamos falar a sós com Olivia. —O que fez agora? —Aparentemente chamou Georgiana Elster de tola. —Georgiana Elster é uma tola. —Na cara, Turner! Disse na cara. —Desajuizado da parte dela, mas nada que requeira uma repreensão de duas horas, em minha opinião. —Isso não é tudo. Turner suspirou. Sua mãe estava decidida. Duas horas a sós com Miranda. O que tinha feito para merecer aquela tortura? —Chamou sir Robert Kent “arminho muito grande". —Na cara, suponho. Lady Rudland assentiu. —O que é um arminho? —Não tenho a menor idéia, mas suponho que não seja um elogio. —Um arminho é uma doninha, acredito — disse Miranda enquanto entrava no vestíbulo com um vestido de viagem azul nata. Sorriu aos dois, irritantemente composta. —Bom dia, Miranda — disse Lady Rudland energicamente. — Vai com Turner. —Sério? —Quase se afogou com suas próprias palavras e teve que encobrir com um pouco de tosse. Turner achou uma juvenil satisfação nisso. —Sim. Lorde Rudland e eu precisamos falar com Olivia. Esteve dizendo algumas coisas bastante inapropriadas em público. Escutou‐se um gemido das escadas. Três cabeças giraram ao redor para


olhar Olivia enquanto descia. —É realmente necessário, mamãe? Não pretendia fazer mal. Nunca teria chamado de bruxa miserável lady Finchcoombre se soubesse que ia se vingar. O sangue abandonou o rosto de Lady Rudland. —Chamou lady Finchcoombre de miserável? —Não sabia? — Perguntou fracamente Olivia. —Turner, Miranda, sugiro que vão já. Nos veremos em algumas horas. Afastaram‐se em silencio até a carruagem que os esperava, e Turner sustentou a mão no alto para ajudar Miranda enquanto subia. Os dedos enluvados dela pareciam elétricos sobre os dele, mas ela não devia ter sentido o mesmo, posto que soasse singularmente imutável quando murmurou: —Espero que minha presença não seja uma prova muito dura para você, milord. A resposta de Turner foi uma mescla entre grunhido e suspiro. —Eu não planejei, sabe? Sentou de frente a ela. —Sei. —Não tinha nem idéia de que... —Ela levantou a vista. — Sabe? —Sei. Minha mãe estava bastante resolvida a falar a sós com Olivia. —OH. Obrigada por acreditar, então. Ele deixou sair o ar contido, olhando pela janela durante um momento enquanto a carruagem ficava em movimento. —Miranda eu não acredito que seja algum tipo de mentirosa e incorrigível. —Não, claro que não — disse ela com rapidez. — Mas parecia bastante furioso quando me ajudou a subir à carruagem. —Estava furioso com o destino, Miranda, não contigo. —Que bom — disse ela friamente. — Bom, se me desculpar, trouxe um livro. — retorceu‐se de forma que a maior parte possível de suas costas estivesse de rosto a ele e começou a ler. Turner esperou ao redor de trinta segundos antes de perguntar. —O que é isso que está lendo? Miranda ficou gelada, logo se moveu lentamente, como se estivesse completando a mais odiosa das tarefas. Levantou o livro. — Ésquilo. —Que deprimente.


—Igual ao meu humor. —OH querida, isso foi um dardo envenenado? —Não seja condescendente, Turner. Nestas circunstâncias, é pouco apropriado. Ele elevou as sobrancelhas. —E o que significa isso exatamente? —Significa que depois de tudo o que... Ehh... Ocorreu entre nós, sua atitude de superioridade já não é justificada. —Caramba! Essa sim que foi uma frase longa. Miranda deixou que seu olhar respondesse por ela. Aquela vez, quando voltou a segurar o livro, cobriu inteiramente o rosto. Turner riu entre dentes e inclinou para trás, surpreso pelo muito que estava se divertindo. As mais caladas eram sempre as mais interessantes. Miranda talvez nunca escolhesse por si mesma colocar‐se no centro das atenções, mas podia defender‐se em uma conversa com inteligência e estilo. Fazê‐la fisgar o anzol era altamente divertido. E não se sentia culpado nem um pouco por isso. Apesar de sua mal‐humorada forma de agir, Turner não tinha dúvidas de que ela desfrutava de cada farpa de seus enfrentamentos verbais tanto quanto ele. Talvez aquela viagem não fosse tão terrível. Só tinha que assegurar‐se de mantê‐la ocupada naquele tipo de divertida conversa e não olhar os lábios dela muito tempo. Gostava muito daqueles lábios. Mas não ia pensar nisso. Reataria o bate‐papo e tentar desfrutar igual fazia antes que de se envolverem em toda aquela confusão. Sentia bastantes saudades da velha amizade com Miranda, e supôs que já que ficariam presos juntos naquela carruagem durante duas horas, então veria o que poderia fazer para ajeitar as coisas. —O que está lendo? —perguntou. Ela levantou a vista, irritada. —Ésquilo. Não me perguntou isso já? —Queria dizer, que livro de Ésquilo — improvisou ele. Para sua diversão, ela teve que baixar a vista ao livro antes de responder: —As Euménides. — Ele piscou. —Você não gosta? —Todas essas mulheres furiosas? Não acredito. Dê‐me uma boa história de aventuras um dia qualquer.


—Eu gosto de mulheres furiosas. —Sente uma forte empatia? OH, querida, não, não aperte os dentes, Miranda, você não gostaria de ter que ir ao dentista, juro isso. A expressão dela foi tal, que ele não pôde fazer mais que rir. —OH, não seja tão sensível, Miranda. Ainda fulminando‐o com o olhar, ela murmurou: —Sinto muito, milord. E logo conseguiu de algum jeito fazer uma reverencia total ali no meio da carruagem. A risada de Turner explodiu em divertidas gargalhadas. —OH, Miranda — disse, enxugando os olhos. — É uma jóia. Quando se recuperou por fim, ela estava olhando‐o como se ele estivesse louco. A ele ocorreu durante um segundo levantar as mãos como se fossem garras e soltar algum tipo de som animal estranho, só para confirmar suas hipóteses. Mas ao final, simplesmente se recostou para trás e sorriu de orelha a orelha. Ela sacudiu a cabeça. —Não o entendo. Ele não respondeu, sem desejar que a conversa voltasse para águas mais sérias. Ela voltou a elevar seu livro, e aquela vez, ele se dedicou há cronometrar quantos minutos passava antes que virasse a página. Quando o resultado foi de cinqüenta segundos, desenhou um sorriso. —Uma leitura difícil? Miranda baixou lentamente o livro e lançou um olhar mortal em sua direção. —Perdão? —Muitas palavras grandes? Ela simplesmente o olhou. —Não mudou de página desde que começou. Ela deixou escapar um forte grunhido e com grande determinação, passou a página. —É em inglês ou em grego? —Perdão? —Se estiver em grego, isso explicaria sua velocidade. Os lábios dela se abriram. —Ou a falta dela — disse ele com um encolhimento de ombros. —Sei ler grego — disse ela entre dentes apertados. —Sim e é um lucro elogiável. Ela baixou a vista a suas mãos. Estavam apertando o livro com tanta força,


que os nódulos estavam ficando brancos. —Obrigada — disse forçada. Mas ele não tinha acabado. —Pouco comum para uma mulher, não acha? Aquela vez, ela decidiu ignorá‐lo. —Olivia não pode ler em grego — disse ele conversador. —Olivia não tem um pai que não faz outra coisa que não seja ler em grego — Miranda respondeu sem levantar a vista. Tentou concentrar‐se nas palavras da parte superior da nova página, mas não tinham muito sentido, posto que não tivesse terminado de ler à anterior. Nem sequer havia começado. Deu tapinhas com um dedo enluvado contra o livro enquanto fingia ler. Não acreditava que houvesse maneira alguma de voltar para a página anterior sem que ele notasse. Tampouco importava muito, pois duvidava que conseguisse ler nada mais enquanto ele estivesse olhando com aquele olhar de cílios espessos para ela. Era mortal, decidiu. A fazia arder e estremecer ao mesmo tempo, ela estava completamente irritada com o homem. Estava totalmente segura de que ele não tinha interesse em seduzi‐la, mas apesar de tudo, estava fazendo um bom trabalho. —Um talento peculiar, esse. Miranda aspirou aos lábios e levantou a vista para ele. —Sim? —Ler sem mover os olhos. Ela contou até três antes de responder. —Alguns de nós não temos a necessidade de articular as palavras quando lêem Turner. —Touché, Miranda. Sabia que ainda ficava alguma faísca. Cravou as unhas com força no assento acolchoado. Um, dois, três. Segue contando. Quatro, cinco, seis. A aquele passo, teria que chegar até cinqüenta se quisesse controlar seu caráter. Turner a observou mover a cabeça ligeiramente ao som de algum ritmo desconhecido e sentiu curiosidade. —O que faz? Dezoito, dezenove... —O que? —O que faz? Vinte. —Está ficando extremamente incomodo Turner.


—Sou persistente. —Sorriu zombador. — Acreditei que você, de todas as pessoas, apreciaria esse traço. E agora, o que estava fazendo? Estava meneando a cabeça de uma forma da mais curiosa. —Se quer saber — disse cortante — estava contando interiormente para assim poder controlar meu temperamento. Ele a olhou durante um momento, então disse: —Sinto calafrios somente em pensar o que poderia ter me dito se tivesse deixado de contar antes. —Estou perdendo a paciência. —Não! —disse ele com fingida incredulidade. Agarrou o livro uma vez mais, tentando ignorá‐lo. —Deixa de torturar esse pobre livro, Miranda. Nos dois sabemos que não está lendo. —Vai me deixar em paz? – Ela explodiu por fim. —Até que número chegou? —O que? —Que número? Disse que estava contando para assim não ofender minha tenra sensibilidade. —Não sei. Vinte. Trinta. Não sei. Deixei de contar faz mais ou menos uns quatro insultos. —Chegou até trinta? Mentiu Miranda. Não acredito que tenha perdido sua paciência comigo absolutamente. —Sim, perdi — disse ela com os dentes apertados. —Não acredito. —Aaaargh! — atirou o livro nele. Bateu em um lado da cabeça. —Ai! —Não seja menino. —Não seja tirana. —Deixa de me provocar! —Não estava te provocando. —OH, por favor, Turner. —OH, de acordo — disse petulante, esfregando o lado da cabeça. — Estava te provocando. Mas não teria feito se não tivesse me ignorado. —Me perdoe, mas achei que queria que te ignorasse. —De onde diabo tirou essa idéia? A boca de Miranda se abriu de repente.


—Está louco? Me evitou como a uma praga durante ao menos os últimos quinze dias. Até evitou sua mãe para me evitar. —Bom, não é verdade. —Diga a sua mãe. Ele piscou. —Miranda, eu queria que fôssemos amigos. Ela sacudiu a cabeça. Havia palavras mais cruéis na língua inglesa? —Não é possível. —Por que não? —Não pode ter ambas as coisas. —Continuou Miranda, usando cada gota de energia para evitar que sua voz tremesse. — Não pode me beijar e logo me dizer que quer que sejamos amigos. Não pode me humilhar como fez nos Worthington, e logo declarar que gosta de mim. —Temos que esquecer o que aconteceu — disse ele brandamente. — Devemos deixar para trás, se não pelo bem de nossa amizade, então pelo de nossa família. —Você pode fazer isso? — Exigiu Miranda. — De verdade pode esquecer? Porque eu não. —É obvio que posso — disse, um pouco facilmente. —Careço de sua sofisticação, Turner — disse, e logo acrescentou gelidamente. Ou talvez, não sou tão superficial como você. —Eu não sou superficial, Miranda. —Devolveu com rapidez. — Sou sensato. Deus sabe que um de nós tem que ser. Miranda desejou ter algo que dizer. Desejou ter alguma mordaz resposta que o humilhasse, que o deixasse sem palavras, deixando‐o como um montão sujo e gelatinoso de patética podridão. Mas em lugar disso só tinha a si mesmo e as horríveis e furiosas lágrimas que lhe ardiam atrás dos olhos. E nem sequer estava segura de poder fulminá‐lo adequadamente com o olhar, assim olhou a outro lado, contando os edifícios enquanto passavam pela janela e desejando estar em qualquer outro lugar. E com qualquer outra pessoa. E aquilo era o pior, porque em toda sua vida, inclusive com uma melhor amiga que era mais bonita, mais rica, e tinha melhores conexões que ela, Miranda


nunca desejou estar com ninguém mais do que com quem estava. Em toda sua vida, Turner fez coisas das quais não estava orgulhoso. Tinha bebido muito e vomitado sobre um tapete valioso. Apostado dinheiro que não possuía. E inclusive uma vez montou seu cavalo com muita dureza e pouco cuidado e deixou o animal manco durante uma semana. Mas nunca havia se sentido tão baixo como enquanto olhava o perfil de Miranda, dirigido de forma tão decidida para a janela. Tão decididamente longe dele. Não falou durante um longo momento. Deixaram Londres para trás, atravessando os subúrbios onde os edifícios se tornavam mais escassos e longínquos entre si, e finalmente alcançaram o ondulado campo aberto. Ela não o olhou nem uma vez. Sabia. Tinha estado olhando‐a. E por isso, por fim, posto que não pudesse tolerar outra hora mais de silêncio, nem podia chegar a expor o que era exatamente o que significava aquele silêncio, falou. —Não pretendia te insultar, Miranda — disse em voz suave, — Mas sei quando algo é uma má idéia. E ter uma confusão amorosa contigo é uma idéia extremamente má. Ela não se virou, mas a ouviu dizer: —Por quê? Olhou‐a, incrédulo. —No que está pensando, Miranda? Não importa nada sua reputação? Se correrem rumores sobre nós, estará arruinada. —Ou teria que se casar comigo — disse com voz baixa e maliciosa. —O que não tenho intenção de fazer. Sabe. —Jurou em voz baixa. Deus santo, aquilo estava saindo tudo errado. — Não quero me casar com ninguém. —Explicou. — E isso também sabe. —O que eu sei — a devolveu com rapidez, os olhos com brilhos de evidente fúria — é que... — e então parou, fechando com força a boca e cruzando os braços. —O que? —exigiu ele. Ela voltou a virar para a janela. —Não o entenderia. —E logo adicionou. — Nem me escutaria. Seu tom depreciativo foi como se tivesse unhas lhe arranhando sob a pele. —OH, por favor. A petulância não combina com você.


Ela se virou com rapidez. —E como deveria agir? Diga‐me, como se supõe que tenho que me sentir? Os lábios dele se curvaram. —Agradecida? — Agradecida ? Ele se sentou para trás, seu corpo inteiro era uma prova viva de insolência. —Poderia ter te seduzido, sabe? Com facilidade. Mas não o fiz. Ela ofegou e se tornou para trás, e quando falou, sua voz foi baixa e letal. —É odioso, Turner. —Só estou te dizendo à verdade. E sabe por que não fiz mais? Por que não retirei a camisola de seu corpo, a deitei, e tomei ali mesmo naquele sofá? Ela arregalou os olhos, e sua respiração ficou audível e ele soube que estava sendo cru, grosseiro, e sim, odioso, mas não podia deter‐se, não podia deter sua franqueza, porque, maldita fosse, ela tinha que entender. Tinha que compreender quem era ele na realidade, e do que era e não era capaz de fazer. E aquilo... Aquilo. Por ela. Conseguiu fazer o honrável por ela, e não estava sequer agradecida? —Direi isso — virtualmente vaiou. — Contive‐me pelo respeito que tenho a você. E te direi mais... — deteve‐se, perjurou e ela o olhou interrogante, atrevida, provocadora, como dizendo: nem sequer sabe o que quer dizer. Mas esse era o problema. Sabia, e esteve a ponto de dizer o muito que a tinha desejado. Que se estivesse em qualquer outro lugar que não fosse a casa de seus pais, não estava seguro de ter se detido. Não estava seguro se poderia ter parado. Mas ela não precisava saber aquilo. Não saberia. Não necessitava aquele poder sobre ele. —Pode acreditar — murmurou, mais para si mesmo que para ela. — Não queria arruinar seu futuro. —Meu futuro é da minha conta — respondeu zangada. — Sei o que faço. Soprou desdenhoso. —Tem vinte anos. Acha que sabe tudo. Ela o olhou zangado. —Quando eu tinha vinte, acreditava que sabia tudo — disse ele dando um encolher de ombros. Os olhos dela se entristeceram. —Eu também — disse brandamente. Turner tentou ignorar o desagradável nó de culpa que se retorcia em seu estômago. Nem sequer estava seguro de por que se sentia culpado, e de fato, todo


aquilo era ridículo. Não deveria sentir‐se culpado por não tomar a inocência dela e tudo o que conseguiu pensar em dizer foi: —Algum dia me agradecerá por isso. Ela olhou incrédula. —Soa igual a sua mãe. —Está ficando áspera. —Pode me culpar? Está me tratando como uma menina, quando sabe muito bem que sou uma mulher. O nó de culpabilidade fez que crescessem os tentáculos. —Posso tomar minhas próprias decisões — disse desafiante. —É óbvio que não. — inclinou‐se para frente, um perigoso brilho em seus olhos. — Ou não teria me deixado descer o vestido na semana passada e beijar seus seios. Ela ruborizou com o carmesim profundo da vergonha, e sua voz tremeu com acusação quando disse: —Não tente dizer que é minha culpa. Ele fechou os olhos e passou ambas as mãos pelo cabelo, consciente de que acabava de dizer algo muito, muito estúpido. —É obvio que não é sua culpa, Miranda. Por favor, esquece que disse isso. —E quer que esqueça que me beijou também. —Sua voz estava desprovida de toda emoção. —Sim. — Olhou‐a e viu uma espécie de falta de vida em seus olhos, algo que nunca tinha visto antes em seu rosto. — OH, Deus, Miranda, não faça isso. —Não faça isto, faz aquilo. — Gritou. — Esquece isto, não esqueça aquilo. Seja claro, Turner. Não sei o que quer. E acredito que você tampouco. —Sou mais velho que você nove anos — disse com voz imponente. — Não me menospreze. —Sinto muito, sua alteza. —Não faça isso, Miranda. E o rosto dela, que tinha estado tão reservado e gélido, de repente estalou com emoção. —Deixa de me dizer o que tenho que fazer! Alguma vez te ocorreu que eu queria que me beijasse? Que queria que me desejasse? E me deseja, sabe. Não sou tão tola para que possa me convencer do contrário.


Turner só pôde olhá‐la fixamente, sussurrando: —Não sabe o que diz. —Claro que sim! — Os olhos cintilavam e as mãos curvaram tremulas e em punhos, e ele teve uma terrível, horrível premonição de que aquele era o momento. Tudo dependia daquele momento, e soube, sem nem sequer pensar no que ela diria, e no que responderia que não terminaria bem. —Sei exatamente o que estou dizendo — disse ela. — Desejo você. O corpo dele se esticou e o coração apertou no peito. Mas não podia permitir que aquilo continuasse. —Miranda, só acha que me deseja — disse com rapidez. — Nunca beijou ninguém antes e... —Não me trate com condescendência. —Seus olhos o olharam diretamente, e estavam ardendo de desejo. — Sei o que quero e desejo você. Ele aspirou de forma irregular. Merecia ser santificado pelo que estava a ponto de dizer. —Não. Não me deseja. É uma teimosia. —Maldito seja! — Explodiu. — Está cego? Está surdo, tolo e cego? Não é teimosia, idiota! Amo você! OH, Meu Deus. —Sempre te amei! Desde que nos vimos a primeira vez há nove anos. Amei todo este tempo, a cada minuto. —OH, Meu Deus. —E não me tente dizer que é um amor infantil porque não é. Pode ser que foi em algum momento, mas já não. Turner não disse nada. Só ficou ali sentado como um imbecil e a olhou. —Eu só... Conheço meu coração e te amo, Turner. E se tiver o menor pingo de decência, dirá algo, porque disse tudo o que talvez pudesse dizer e não posso suportar o silêncio e... OH, Por amor de Deus! Vai pelo menos piscar? Ele nem sequer foi capaz de fazer aquilo. CAPÍTULO 10

Dois dias mais tarde, Turner parecia continuar um pouco aturdido. Miranda não tinha tentado falar com ele, nem sequer se aproximou, mas de vez


em quando o pegava olhando‐a com expressão insondável. Sabia que o deixou agitado uma vez que ele nem sequer tinha a presença de ânimo de afastar o olhar quando seus olhos se encontravam. Só ficava olhando fixamente durante um longo tempo, então piscava e se afastava. Miranda continuava esperando que em algum momento assentisse. Não obstante, deu um jeito de não estar no mesmo lugar ao mesmo tempo durante a maior parte do fim de semana. Se Turner saía para cavalgar, Miranda explorava a estufa. Se Miranda dava um passeio pelos jardins, Turner jogava cartas. Realmente civilizados. Muito adultos. E, pensava mais de uma vez, totalmente dilacerador. Não se viam nas refeições. Lady Chester se orgulhava de suas habilidades como casamenteira, e posto que fosse impensável que Turner e Miranda se envolvessem romanticamente, não os colocava perto. Sempre estava rodeado por um grupo de jovens e preciosas jovenzinhas, e Miranda a maioria das vezes se via relegada a fazer companhia a viúvas da terceira idade. Imaginava que Lady Chester não tinha muito boa opinião sobre sua habilidade para apanhar um marido desejável. Em troca, Olivia estava sempre sentada com três homens extremamente atraentes e ricos, um a direita, outro a esquerda e outro do outro lado da mesa. Miranda aprendeu bastante sobre remédios caseiros para a gota. Lady Chester, entretanto, deixou os casais ao azar para um de seus planejados eventos, e aquele era a busca anual do tesouro. Os convidados deveriam procurar em equipes de dois. E já que o objetivo de cada convidado era casar ou embarcar em uma aventura (dependendo, é obvio do status marital de cada um), cada equipe seria formada por um homem e uma mulher. Lady Chester escreveu os nomes dos convidados em pedacinhos de papel e colocou todas as damas em uma bolsa e os cavalheiros em outra. Naquele momento estava colocando a mão em uma daquelas bolsas. Miranda sentiu desejos de vomitar. —Sir Anthony Waldove e... — Lady Chester introduziu a mão na outra bolsa. — Lady Rudland. Miranda soltou o ar, sem se dar conta de que até esse momento esteve contendo o fôlego. Faria qualquer coisa para ser par do Turner e tudo para evitar.


—Pobre mamãe — sussurrou Olivia em seu ouvido. — Sir Anthony Waldove é bastante lerdo. Ela que terá que fazer todo o trabalho. Miranda levou um dedo aos lábios. —Pode nos ouvir. —O senhor William Fitzhugh e... a senhorita Charlotte Gladdish. —Com quem deseja formar par? — perguntou Olivia. Miranda deu um encolher de ombros. Se não fosse atribuída a Turner, realmente não importava. —Lorde Turner e... — o coração de Miranda deixou de pulsar... — Lady Olivia Bevelstoke. Não é doce? Levamos fazendo isto cinco anos e esta é nossa primeira equipe irmão e irmã. Miranda começou a respirar outra vez, sem estar segura de se estava decepcionada ou aliviada. Olivia, entretanto, não tinha dúvidas de seus sentimentos. —Que desastre! — murmurou, em seu tipicamente assassinado francês. Todos esses cavalheiros, e me coloca com meu irmão. Quando terei outra oportunidade que me permita vagar por aí sozinha com um cavalheiro? É uma pena, digo‐lhe isso, uma pena. —Poderia ser pior — disse Miranda pragmática. — Nem todos os cavalheiros que estão aí são, é..., Cavalheiros. Ao menos sabe que Turner não tentará te violar. —É pouco consolo, lhe garanto. —Livvy... —Shhh, acabam de nomear lorde Westholme. —E quanto às damas... —Lady Chester estava emocionada. — A senhorita Miranda Cheever! Olivia lhe deu uma cotovelada. —Que sorte! Miranda só deu um encolher de ombros. —OH, não aja como uma tola — repreendeu Olivia. — Não acha que é divino? Daria meu pé esquerdo por estar em seu lugar. Diga‐me, por que não trocamos de lugar? Não há regras contra isso. E depois de tudo, você gosta do Turner. Só que muito, pensou Miranda com tristeza.


—E então? Fará? A menos que também esteja de olho em lorde Westholme? —Não — respondeu Miranda, tentando não soar consternada. — Não, claro que não. —Então vamos trocar — disse Olivia excitada. Miranda não sabia se devia aproveitar a oportunidade ou correr para o quarto e esconder‐se no armário. De qualquer forma, não tinha nenhuma boa desculpa para negar à petição de Olivia. Livvy certamente iria querer saber por que não queria ficar a sós com Turner. E então o que diria? É apenas que disse a seu irmão que o amava e receio que ele me odeie? Não posso ficar a sós com Turner porque receio que tente me violar? Não posso ficar a sós com ele porque tenho medo de tentar violá‐lo? O pensamento a fez querer rir. Ou chorar. Mas Olivia estava olhando‐a espectadora, daquela maneira que Olivia havia aperfeiçoado à idade de, oh, três anos, e Miranda se deu conta de que na realidade não importava o que dissesse ou fizesse, terminaria sendo o par de Turner. Não é que Olivia fosse uma mimada, embora possivelmente fosse um pouco. Era só que qualquer tentativa por parte de Miranda para evitar o assunto se encontraria com uma pergunta tão precisa e tão persistente que era provável que terminasse revelando tudo. Caso no qual teria que fugir do país. Ou ao menos, encontrar uma cama onde esconder‐se. Durante uma semana. Assim suspirou. E assentiu. E pensou na parte boa e em dias melhores, e deduziu que nenhum era visível. Olivia lhe agarrou a mão e deu um apertão. —OH, Miranda, obrigada! —Espero que Turner não se importe — disse Miranda com cautela. —Oh, não se importará. Provavelmente ficará de joelhos e agradecerá por não ter que passar a tarde inteira comigo. Acha que sou infantil. —Não é verdade. —Sim é. Freqüentemente me diz que deveria ser mais como você. Miranda se virou surpreendida. —Sério? —Sim. —Mas a atenção de Olivia tinha retornado à Lady Chester, quem estava completando a tarefa de unir homens e mulheres. Quando finalizou, os homens se levantaram para procurar suas companheiras.


—Miranda e eu trocamos de lugares! —exclamou Olivia quando Turner se aproximou. — Não se importa, não é? —Claro que não — disse. Mas Miranda não teria apostado sequer um quarto de penny a que estava dizendo a verdade. Depois de tudo, o que outra coisa podia dizer? Lorde Westholme chegou pouco depois, e embora fosse o suficientemente educado para tentar ocultar, parecia encantado com a mudança. Turner não disse nada. Olivia lançou a Miranda um perplexo cenho, o qual Miranda ignorou. —Aqui está sua primeira pista! — gritou Lady Chester. — Poderiam os cavalheiros, por favor, aproximarem‐se e pagar seus envelopes? Turner e Lorde Westholme caminharam até o centro do aposento e retornaram alguns segundos depois com envelopes brancos. —Vamos abrir o nosso lá fora — disse Olivia a lorde Westholme, lançando um breve e malicioso sorriso a Turner e Miranda. — Eu não gostaria que ninguém nos espiasse enquanto discutimos nossa estratégia. Aparentemente, o resto de competidores teve a mesma idéia, porque um instante depois, Turner e Miranda se encontraram em total solidão. Ele respirou fundo e plantou as mãos nos quadris. —Eu não pedi a ela que trocasse — disse Miranda com rapidez. — Olivia pediu que eu trocasse com ela. — Ele elevou uma sobrancelha. —Não fui eu! — protestou. — Livvy está interessada em Lorde Westholme e acha que você pensa que ela é uma criança. —É uma criança. Naquele instante Miranda não se sentiu particularmente inclinada a dissentir, mas ainda assim disse: —Dificilmente poderia saber o que fazia quando nos juntou. —Poderia ter se negado a trocar — disse ele sem rodeios. —Oh? Argumentando o que? — exigiu Miranda irritada. Ele não tinha por que estar tão aborrecido porque acabaram como companheiros. — Como sugere que explique a ela que não podemos passar a tarde juntos? Turner não respondeu por que não tinha resposta, supôs. Simplesmente deu meia volta sobre os calcanhares e saiu com passo irado do recinto. Miranda o observou um momento, e então, quando se fez aparente que não


tinha intenções de esperá‐la, deixou escapar um pequeno ofego e se apressou atrás dele. —Turner, não corra tanto! Ele parou em seco, os movimentos de seu corpo mostravam claramente sua impaciência para ela. Quando Miranda chegou a seu lado, o rosto dele sustentava uma aborrecida e incomoda expressão. —Sim? — disse alargando a palavra. Miranda fez o que pôde para controlar‐se. —Podemos ao menos ser civilizado um com o outro? —Não estou zangado contigo, Miranda. —Bom, certamente finge muito bem. —Estou frustrado — disse de uma forma que ela estava totalmente segura de que ia destinar a chocá‐la. E logo se queixou. — De muitas formas que poderia imaginar. Miranda podia imaginar, fazia isso freqüentemente e ruborizou. —Abra o envelope, sim? — murmurou. Ele o estendeu, e ela o rasgou. —Encontrem sua seguinte pista sob um sol em miniatura — leu. Ela o olhou. Ele nem sequer estava olhando‐a. Não é que não estivesse olhando‐a em particular, era só que estava olhando ao vazio, parecendo como se estivesse em outra parte. —A estufa de laranjas — declarou ela, quase sem se importar se ele ia participar ou não. — Sempre pensei nas laranjas como pequenas peças de sol. Ele assentiu bruscamente e fez um gesto com o braço para que ela fosse em frente. Mas havia algo bastante descortês e condescendente em seus movimentos, Miranda sentiu uma entristecedora urgência de apertar os dentes e grunhir enquanto se adiantava com passo irado. Sem dizer uma palavra, saiu da casa para a estufa. Realmente ele não podia esperar que acabasse de uma vez com aquela maldita busca do tesouro, verdade? Bom, ela ficaria feliz de satisfazê‐lo. Era o suficientemente inteligente; aquelas pistas não deveriam ser muito difíceis de decifrar. Poderiam estar de volta em seus respectivos aposentos em uma hora. Em efeito, encontraram uma pilha de envelopes sob uma laranjeira. Sem uma palavra, Turner se inclinou para pegar um e o estendeu. Com igual silêncio, Miranda rasgou o envelope. Leu a pista e logo passou ao Turner. OS ROMANOS PODERÃO TE AJUDAR A ENCONTRAR A


SEGUINTE PISTA. estava ficando irritado por seu silencioso comportamento, não demonstrou. Só dobrou o pedaço de papel e a olhou com expressão de aborrecida espera. —Está sob um arco — disse ela em tom prático. — Os romanos foram os primeiros em usá‐los como arquitetura. Há vários no jardim. Assim foi. Dez minutos depois, recolheu outro envelope. —Sabe quantas pistas temos que conseguir antes de finalizar? — perguntou Turner. Era a primeira frase desde que havia começando, e concernia a quando se livraria dela. Miranda apertou os dentes ante o insulto, negou com a cabeça e abriu o envelope. Tinha que permanecer serena. Se o deixasse fazer sequer uma brecha em sua fachada, romperia completamente em pedaços. Dominando seus traços para permanecer impassíveis, tirou a parte de papel e leu: —Precisarão caçar para a próxima prova. —Algo relacionado com a caça, supõe — disse Turner. Ela elevou as sobrancelhas. —Decidiu participar? —Não seja mesquinha, Miranda. Ela deixou sair o ar, irritada e decidiu ignorá‐lo. —Há um pequeno pavilhão de caça ao Leste. Levará a menos quinze minutos caminhar até lá. —E como descobriu esse pavilhão? —Estive caminhando um pouco. —Sempre que estou dentro de casa, suponho. Miranda não viu razão para negar aquela declaração. Turner semicerrou os olhos para o horizonte. —Acha que Lady Chester nos enviaria tão longe da casa principal? —Até agora não me equivoquei — replicou Miranda. —É verdade — disse com um aborrecido encolhimento de ombros. — Vamos. Caminharam penosamente entre as árvores durante dez minutos quando Turner lançou um duvidoso olhar ao céu escurecido. —Parece que vai chover — disse laconicamente. Miranda levantou o olhar. Estava certo. —O que quer fazer? —Agora? —Não, na próxima semana. É obvio que agora, imbecil. —Imbecil? — Sorriu seus brancos dentes quase a cegaram. — Me fere. Miranda semicerrou os olhos.


—Por que de repente está sendo tão agradável comigo? —Estava? — murmurou, e ela se sentiu mortificada. — OH, Miranda, talvez eu goste de ser agradável contigo — continuou, com um condescendente suspiro. —Talvez não. —Talvez sim — disse. — E talvez às vezes, você simplesmente torna as coisas difíceis. —Talvez — disse com igual arrogância, — chova, e deveríamos nos mover. Um trovão abafou sua última palavra. —Talvez tenha razão — respondeu Turner, fazendo uma careta ao céu. — Estamos mais perto do pavilhão ou da casa? —Do pavilhão. —Então vamos andar depressa. Eu não gostaria de ser apanhado em uma tempestade com relâmpago no meio do bosque. Miranda não pôde discordar, apesar de sua preocupação pela propriedade, assim começou a caminhar mais rápido para o pavilhão de caça. Mal andaram dez metros quando caíram as primeiras gotas de chuva. Outros dez metros e era um aguaceiro torrencial. Turner a agarrou pela mão e começou a correr, arrastando‐a pelo caminho. Miranda ia tropeçando atrás dele, perguntando‐se se servia de algo, posto que já estivessem encharcados até os ossos. Poucos minutos depois se encontraram frente ao pavilhão de caça de dois aposentos. Turner segurou a maçaneta e virou, mas a porta não se moveu. —Que droga! — murmurou. —Está fechada? — perguntou Miranda batendo os dentes. Ele assentiu bruscamente com a cabeça. —O que vamos fazer? Ele respondeu batendo o ombro contra a porta. Miranda mordeu o lábio. Isso tinha que doer. Tentou uma janela. Fechada. Turner voltou a empurrar a porta. Miranda caminhou pelo lado da casa e tentou outra janela. Com um pequeno esforço a deslizou para cima. Ao mesmo tempo, ouviu Turner cair do outro lado da porta. Por um momento Miranda considerou engatinhar através da janela de todas as maneiras, mas em seguida decidiu ser magnânima e a desceu. Ele teve por um montão de problemas para derrubar a porta. O mínimo que ela podia fazer era


deixá‐lo acreditar que era seu cavalheiro da brilhante armadura. —Miranda! Ela voltou correndo para frente. —Estou aqui. — Apressou‐se para o interior da casa e fechou a porta atrás dela. —Que diabo, estava fazendo lá fora? —Sendo uma pessoa muito mais amável do que poderia imaginar — murmurou, desejando nesse momento ter cruzado a janela. —Hein? —Só estava dando uma olhada — disse. — Estragou a porta? —Não muito. Embora o ferrolho de segurança esteja quebrado. Ela fez uma careta de dor. —Machucou o ombro? —Estou bem. —Tirou o empapado casaco e o pendurou em um gancho que havia na parede. — Tire isso... — Com um gesto indicou o leve casaco. — Seja lá como chama isso. Miranda colocou os braços ao redor do corpo e negou com a cabeça. Ele lhe dirigiu um olhar impaciente. —É um pouco tarde para modéstias de donzela. —Poderia entrar alguém a qualquer momento. —Duvido — disse. — Imagino que todos estão a salvo e quentes no estúdio de Lorde Chester, observando as cabeças que estão penduradas na parede. Miranda tentou ignorar o nó que acabava de se formar na garganta. Tinha esquecido que Lorde Chester era um ávido caçador. Inspecionou rapidamente o aposento. Turner estava certo. Não havia nenhum a vista. Não era provável que alguém tropeçasse com eles logo, e pelo que se via lá fora, a chuva não tinha intenção de amainar. —Por favor, me diga que não é uma dessas damas que escolhem a modéstia acima da saúde. —Não, claro que não. — Miranda tirou o casaco e o pendurou no gancho próximo ao dele. — Sabe como acender o fogo? —perguntou. —Sempre que tivermos lenha seca. —OH, mas deve haver alguma por aqui. Depois de tudo, é um pavilhão de caça — levantou a cabeça e olhou Turner com olhos esperançados. — A maioria dos homens não gosta de estar aquecidos enquanto caçam? —Depois que caçam — corrigiu distraidamente enquanto procurava lenha. —E a maioria dos homens, incluindo Lorde Chester, crê ser preguiçosa o


suficientemente para preferir a curta viagem de volta à casa principal do que esforçar‐se em acender um fogo aqui. —OH — Miranda permaneceu quieta por um momento, observando como ele se movia pelo recinto. Então disse. — Vou ao outro cômodo para ver se há roupa seca que possamos usar. —Boa idéia. —Turner observou suas costas enquanto ela desaparecia de sua vista. A chuva havia colocado a camisa ao corpo dela e pôde ver os quentes e rosados tons da pele através do tecido úmido. Suas partes baixas, que estavam incrivelmente geladas devido à chuva, ficaram quentes e duras com notável velocidade. Amaldiçoou e em seguida começou a levantar a tampa de uma arca de madeira para procurar madeira. Deus misericordioso, o que fez para merecer aquilo? Se lhe dessem uma pluma e papel e ordenassem que escrevesse a tortura perfeita, nunca teria imaginado aquilo. E isso porque tinha uma imaginação ativa. —Encontrei madeira aqui! Turner seguiu a voz de Miranda até o cômodo seguinte. —Está aqui — indicou uma pilha de lenha perto de uma lareira. — Acredito que Lorde Chester prefere usar esta lareira quando está aqui. Turner olhou a larga cama com o suave edredom e travesseiros macios. Tinha uma verdadeiramente boa idéia de por que Lorde Chester preferia aquele aposento e não incluía à corpulenta Lady Chester. Imediatamente pôs lenha na lareira. —Não acha que deveríamos usar o outro cômodo? — Perguntou Miranda. Ela também tinha visto a larga cama. —É óbvio que esta parece mais usada. É perigoso usar uma lareira suja. Poderia estar entupida. Miranda assentiu lentamente, e ele pôde ver que estava tentando com todas suas forças não parecer incomodada. Continuou procurando roupa seca enquanto Turner se encarregava do fogo, mas tudo o que encontrou foram umas velhas mantas com áspera aparência. Turner a olhou enquanto colocava uma sobre os ombros. —Casimira? — Disse ele alargando a palavra. Miranda arregalou os olhos. Ele se deu conta de que ela não havia percebido de


que a estava olhando. Sorriu, ou na realidade, foi bem mais mostrar os dentes. Talvez se sentisse incomodada, mas maldita fosse, ele também. Achava que era fácil para ele? Havia dito que o amava pelo amor de Deus. Por que demônio fez tal coisa? Será que não sabia nada dos homens? Era possível que não entendesse que essa era a única coisa garantida para aterrorizá‐lo? Ele não queria que ela lhe confiasse seu coração. Não queria essa responsabilidade. Já foi casado. Teve seu próprio coração espremido, chutado e jogado em um montão de lixo queimado. A última coisa que queria era custodiar o de outra pessoa, especialmente o de Miranda. —Usa o edredom da cama — disse com um encolher de ombros. Tinha que ser mais cômodo do que o que ela encontrou. Mas ela negou com a cabeça. —Não quero enrugá‐lo. Não quero que ninguém saiba que estivemos aqui. —Mmm, sim — disse ele com crueldade. — Então teria que me casar contigo, não é assim? Pareceu tão afligida que ele murmurou uma desculpa. Bom Deus estava tornando‐se alguém que particularmente não gostava. Não queria feri‐la. Só queria... Droga, não sabia o que queria. Nem sequer podia pensar no futuro além de dez minutos, justo nesse momento, não podia concentrar‐se em outra coisa que não fosse manter as mãos quietas. Manteve‐se ocupado com o fogo, deixando sair um grunhido satisfeito quando uma pequena chama amarela por fim se curvou sobre uma lenha. —Tranqüila — murmurou, colocando com cuidado um pequeno ramo perto da chama. — Aí vamos, aí vamos... E... Sim! —Turner? —Acendi o fogo — resmungou, sentindo‐se um pouco tolo por sua emoção. Endireitou‐se e se virou. Ela ainda estava sujeitando a puída manta ao redor dos ombros. —Não te fará bem se ficar molhada graças a camisa – comentou‐o. —Não tenho muito que escolher, não é? —Isso depende de você, suponho. Quanto a mim, vou me secar. —Seus


dedos foram para os botões da camisa. —Talvez devesse ir a outro cômodo — sussurrou ela. Turner notou que não se moveu nem um centímetro. Deu um encolher de ombros, e em seguida tirou a camisa. —Deveria ir — sussurrou de novo. —Então vá — disse ele. Mas seus lábios se curvaram. Ela abriu a boca como se fosse dizer algo, mas a fechou. —Eu... —interrompeu‐se, um olhar de horror cruzou suas feições. —Você o que? —Devo ir. —E desta vez o fez, deixou o quarto com prontidão. Turner sacudiu a cabeça quando se foi. Mulheres. Alguém as entendia? Primeiro dizia que o amava. Logo dizia que queria seduzi‐lo. E mais tarde o evitava durante dois dias. Agora parecia aterrada. Voltou a menear a cabeça, desta vez mais rápida, seu cabelo jogou água pelo quarto. Envolvendo uma das mantas ao redor dos ombros, parou em frente ao fogo e se secou. Entretanto, sentia as pernas condenadamente incômodas. Olhou de soslaio a porta. Miranda a tinha fechado quando se foi, e dado seu presente estado de virginal vergonha, duvidava que entrasse sem bater. Tirou a calça com rapidez. O fogo começou a esquentá‐lo imediatamente. Voltou a dar uma olhada à porta. Só por via das dúvidas, baixou a manta e a enrolou ao redor da cintura. De fato, parecia bastante a um kilt. Voltou a pensar de novo na expressão do rosto dela antes que saísse correndo do quarto. Vergonha virginal e algo mais. Era fascinação? Desejo? E o que esteve a ponto de dizer? Não foi "deveria ir” que foi o que na realidade disse. Se houvesse se aproximando, tivesse pegado seu rosto entre suas mãos e sussurrado, "Diga", o que ela teria dito? 3 DE JULHO DE 1819. Quase volto a dizer. E acho que ele soube. Acho que ele sabia o que eu ia dizer.

CAPÍTULO 11


Turner estava tão ocupado pensando em quanto gostaria de tocar Miranda ‐ em qualquer e por toda parte — que esqueceu por completo que ela deveria estar congelando o traseiro no outro cômodo. Só quando se deu conta de que por fim estava aquecido lhe ocorreu que ela não estava. Amaldiçoando uma e outra vez e dez vezes mais por ser um idiota, levantou‐se e caminhou a passos largos para a porta que ela tinha fechado entre ambos. Abriu de um puxão e proferiu outra fileira de maldições quando a viu aconchegada no chão, tremendo violentamente. —Pequena tola — disse. — Tenta se matar? Ela levantou a vista, seus olhos se alargaram ao vê‐lo. Turner lembrou de repente que estava semi‐vestido. —Merda — murmurou para si mesmo, então sacudiu a cabeça com exasperação e a puxou até colocá‐la de pé. Miranda saiu de seu atordoamento e começou a lutar. —O que está fazendo? —Te devolvendo um pouco de sentido comum. —Estou perfeitamente bem — disse, embora seus estremecimentos fossem a prova de que mentia. —Estou vendo como. Estou congelando, só de falar contigo. Venha para junto do fogo. Ela olhou com desejo as alaranjadas chamas que chispavam no cômodo ao lado. —Só se ficar aqui. —Bem — disse ele. Tudo para que ela ficasse aquecida. Com um empurrão pouco amável, dirigiu‐a na direção adequada. Miranda se deteve perto do fogo e estendeu as mãos para frente. Um baixo gemido de felicidade escapou de seus lábios, viajando ao outro lado do quarto e o golpeando diretamente no estômago. Deu um passo para frente, fascinado pela pálida e quase translúcido pele do dorso de seu pescoço. Miranda voltou a suspirar então se virou para esquentar as costas. Afastou alguns centímetros de um salto, sobressaltada ao vê‐lo tão perto. —Disse que iria — acusou. —Menti. —Turner deu um encolher de ombros. — Não tenho o menor pingo de fé de que irá se secar apropriadamente. —Não sou uma menina. Ele lançou uma olhada aos seios dela. O vestido era branco e grudou na pele como estava, poderia distinguir a escura cor róseas de seus mamilos. —É óbvio que não.


Os braços dela voaram aos seios. —Vire‐se se não quer que a olhe. Ela o fez, mas não antes de ficar com a boca aberta ante sua audácia. Turner observou suas costas durante um longo momento. Era quase tão adorável como era parte da frente. A pele do pescoço era de alguma forma bela e poucos cachos de cabelo haviam escapado do penteado e se curvavam devido à umidade. Cheirava como rosas umedecidas, e custaram todas suas forças não elevar a mão e deslizá‐la ao longo daquele braço. Não, não pelo braço, pelos quadris. Ou talvez pela perna. Ou talvez... Ele respirou de forma entrecortada. —O que foi? — Ela não se virou, embora sua voz soasse nervosa. —Nada absolutamente. Está esquentando? —OH, sim — mas inclusive enquanto dizia aquilo, estremeceu. Antes que Turner desse a si mesmo a oportunidade de pensar nisso, elevou a mão e desabotoou a saia. Da boca dela emergiu um estrangulado grito. —Nunca ficará aquecida com esta coisa grudada a você como um pedaço de gelo. — Começou a puxar o tecido para baixo. —Não acho que... Sei que... Isto realmente... —Sim? —É uma má idéia. —Provavelmente. — A saia caiu ao chão em um montão empapado, deixando Miranda vestida unicamente com a fina blusa, que estava grudada como uma segunda pele. —OH, Meu Deus. —Tentou se cobrir, mas obviamente não sabia por onde começar. Cruzou os braços, logo baixou uma mão para cobrir o lugar onde se uniam as pernas. Então deve ter se dado conta de que não estava nem sequer de cara com ele, assim levou as mãos aos lados e as colocou sobre o traseiro. Turner quase esperou que o apertasse. —Poderia, por favor, simplesmente ir? — Disse em um mortificado sussurro. Queria fazê‐lo. Querido Deus, sabia que deveria obedecer ao pedido. Mas suas pernas se negavam firmemente a mover‐se, e não podia afastar os olhos da visão do requintadamente redondo traseiro coberto pelas esbeltas mãos. Mãos que tremiam de frio. Amaldiçoou outra vez, recordando o porquê tirou a saia dela.


—Aproxime‐se mais do fogo — ordenou. —Mais perto e entrarei na lareira! — espetou. — Somente saia daqui. Ele retrocedeu um passo. Gostava mais quando expulsava fogo. —Fora! Caminhou até a porta e a fechou. Miranda ficou totalmente quieta durante um momento, então por fim deixou cair à manta que tinha ao redor dos ombros enquanto se ajoelhava ante o fogo. O coração de Turner pulsou com força no peito, tão alto, de fato, que se surpreendeu de que não tivesse delatado sua presença. Miranda suspirou e se sentou. Turner ficou inclusive mais duro, uma proeza que não achava possível. Ela afastou as pesadas tranças do pescoço e moveu a cabeça ao redor languidamente. Turner gemeu. O coração de Miranda deu um pulo. —Patife! —Cuspiu, esquecendo de se cobrir. —Patife? —Teve que elevar uma sobrancelha ante a antiquada palavra. —Patife, libertino, demônio, como quiser chamar. —Culpado, receio. —Se fosse um cavalheiro, sairia daqui. —Mas você me ama — disse, sem estar seguro de por que recordava isso. —É horrível por falar disso — sussurrou ela. —Por quê? Miranda o olhou duramente assombrada de que tivesse perguntado. —Por que te amo? Não sei. Certamente não merece. —Não — concordou ele. —De todas as maneiras, não tem importância. Não acredito que continue te amando — disse rapidamente. Algo para preservar seu machucado orgulho. — Tinha razão. Foi uma teimosia de colegial. —Não, não foi. E não se deixa de estar apaixonada por alguém com tanta rapidez. Miranda arregalou os olhos. O que Turner estava dizendo? Queria seu amor? —Turner, o que quer? —Você. — As palavras foram apenas um sussurro, como se com muita dificuldade tivesse coragem suficiente para dizê‐las. —Não, não é verdade — disse, mais por nervos que por outra coisa. — Você disse.


Ele deu um passo a frente. Iria ao inferno por aquilo, mas primeiro iria ao céu. —Quero você — disse. E era verdade. Desejava‐a com mais força, com mais ardor e intensidade do que sequer poderia compreender. Aquilo ia mais à frente do desejo. Além da necessidade. Era inexplicável, e certamente era irracional, mas estava ali e não podia ser negado. Lentamente, diminui a distância entre ambos. Miranda ficou paralisada junto ao fogo, seus lábios se entreabriram, a respiração ficou superficial. —O que vai fazer? —sussurrou. —Deveria ser óbvio neste momento. — E em um único e fluido movimento, inclinou‐se para frente e a levantou. Miranda não se moveu, não lutou contra ele. O calor do corpo de Turner era embriagador. Encheu‐a, derretendo os ossos, fazendo‐a se sentir deliciosamente lasciva. —OH, Turner — suspirou. —OH, sim. —Os lábios dele desenharam uma linha pela mandíbula dela enquanto a deixava com suavidade e reverência sobre a cama. No último momento, antes de cobrir seu corpo com o dele, Miranda só pôde olhá‐lo, pensando que sempre o amou que cada um de seus sonhos, cada pensamento ao despertar, tinha conduzido aquele momento. Ele ainda não havia pronunciado as palavras que fariam que seu coração voasse, mas agora aquilo não parecia importar. Os olhos dele resplandeciam brilhantes, com tanta intensidade que Miranda pensou que devia gostar dela ao menos um pouco. E aquilo pareceu ser suficiente. Suficiente para fazer aquilo possível. Suficiente para que fosse correto. Suficiente para que fosse perfeito. Miranda se afundou no colchão quando o peso dele se assentou sobre ela. Elevou a mão para tocar o espesso cabelo. —É tão suave — murmurou. — Que desperdício. Turner levantou a cabeça e baixou a vista para ela com assombro. —Desperdício? —Em um homem — disse com um sorriso tímido. — Como os cílios longos. As mulheres matariam por isso. —Matariam, não é verdade? — Ele sorriu. — E como qualificaria meus cílios?


—Muito, muito longos. —E você mataria por cílios assim? —Mataria pelos seus. —Sério? Não acha que são um pouco claro para seu cabelo escuro? Ela bateu nele de brincadeira. —Quero seus cílios piscando contra meu rosto, não em minhas pálpebras, tolo. —Acaba de me chamar tolo? Ela sorriu abertamente. —Sim. —Acha que isto é ser tolo? — Moveu a mão para cima por sua perna nua. Ela negou com a cabeça, o fôlego abandonou seu corpo em segundos. —E isto? — A mão dele se fechou sobre o seio. Ela gemeu incoerentemente. —É? —Não. — Ela conseguiu dizer. —Como se sente? —Bem. —Isso é tudo? —Maravilhoso. —E? Miranda respirou de forma irregular, tentando não concentrar‐se no dedo indicador dele, que riscava preguiçosos círculos através da fina seda que cobria seu enrugado mamilo. E disse a única palavra que parecia descrever. —Faiscante. Ele sorriu com surpresa. —Faiscante? A única coisa que pôde fazer foi assentir. O calor dele a tocava em toda parte e era tão sólido, tão duro e tão masculino... Miranda se sentia como se estivesse deslizando pela borda de um precipício. Estava caindo, caindo, mas não queria ser salva. Só queria levá‐lo com ela. Ele estava mordiscando sua orelha, em seguida a boca estava no vão de seu ombro, os dentes puxando o fio fino da blusa. —Como se sente? —Perguntou ele com voz rouca. —Ardendo. — Era a única palavra que parecia descrever cada centímetro de seu corpo. —Mmmm, bom. Assim é como eu gosto. — A mão penetrou sob o sedoso tecido e embalou um seio nu. —OH, Deus! OH, Turner! —Arqueou as costas para ele, lhe dando sem


querer um melhor acesso. —Deus ou eu? — Disse ele zombador. A respiração de Miranda saía em curtos ofegos. —Não... ... Sei. Turner deslizou sua outra mão sob a ponta da blusa e a empurrou para cima até que sentiu a suave curva do quadril. —Dadas as circunstâncias — murmurou contra o pescoço, — acredito que sou eu. Ela sorriu fracamente. —Por favor, nada de religião. — Não necessitava que recordassem que suas ações iam contra qualquer princípio que lhe foi ensinado na igreja, no colégio, em casa e em qualquer outro lugar. —Com uma condição. Ela abriu os olhos como pratos, interrogante. —Tem que tirar esta condenada coisa. —Não posso. — Afogou‐se com as palavras. —É adorável e suave e comprarei centenas delas, mas se não se livrar dela agora mesmo disto, a deixarei em farrapos. — Para demonstrar sua urgência, apertou seu quadril mais perto dela, recordando a intensidade de sua excitação. —Simplesmente não posso. Não sei por que. — Engoliu saliva. — Mas você pode. Um dos cantos da boca de Turner se elevou em um ardiloso sorriso. —Não era a resposta que esperava, mas certamente é uma resposta que aceito. — Ajoelhou‐se sobre ela e empurrou a camisa mais e mais acima até que deixou os seios a mostra e a deslizou pela cabeça. Miranda sentiu o ar frio soprar sobre a pele nua, mas, por estranho que parecesse, já não sentia a necessidade de cobrir‐se. Parecia perfeitamente normal que aquele homem pudesse ver e tocar cada centímetro de seu corpo. Os olhos dele varreram possessivos, sua pele acesa e se sentiu excitada ante a ferocidade da expressão dele. Queria pertencer a ele de todas as maneiras que uma mulher poderia pertencer a um homem. Queria perder‐se em seu ardor e força. E queria que ele se entregasse a ela com igual totalidade. Ele levantou a mão e a colocou contra seu peito, deixando que as pontas dos dedos roçassem o plano mamilo marrom. Ele se estremeceu em resposta. —Fiz algo de errado? — Sussurrou ansiosa. Ele negou com a cabeça. —Outra vez — disse em tom áspero.


Imitando a carícia prévia, agarrou a ponta do mamilo entre o polegar e o indicador. Endureceu sob sua carícia, fazendo‐a sorrir de prazer. Como se fosse uma menina descobrindo um brinquedo novo elevou a mão para um lado para brincar com o outro. Turner, dando‐se conta da rapidez que estava perdendo o controle sob os curiosos dedos dela, pôs a mão sobre as dela, mantendo‐as imóvel. Olhou‐a durante um minuto inteiro, com os olhos azuis ferozes. Seu olhar era tão intenso que Miranda teve que lutar contra a urgência de afastar o olhar. Mas se obrigou a manter o olhar ao nível do dele. Queria que soubesse que não estava assustada, que não sentia vergonha. E mais importante ainda, que dizia a sério quando disse que o amava. —Me toque — sussurrou. Mas ele parecia congelado no lugar, a mão ainda sustentando o seio. Parecia estranho, dividido, quase... Assustado. —Não quero te fazer mal — disse rouco. E ela não sabia como terminou se assegurando que tudo ficaria bem, mas murmurou. —Não o fará. —Eu... —Por favor — rogou. Necessitava‐o. Necessitava‐o agora. Seu apaixonado rogo abriu passo pelas reservas de Turner, e com um grunhido a empurrou para cima contra ele para beijá‐la com dureza antes de voltar e descê‐la até a cama. E desta vez desceu junto com ela, a dura longitude de seu corpo pressionava seus seios. As mãos dele estavam por toda parte, estava gemendo seu nome, cada carícia e cada som parecia atiçarem a chama em seu interior. Precisava senti‐lo. Cada centímetro. Puxou o improvisado kilt, desejando desfazer‐se da última barreira entre eles. Sentiu a fricção enquanto deslizava e então não houve nada mais ali... Exceto Turner. Ofegou ante a excitação dele. —OH, Meu Deus. E aquilo, o feito rir. —Não, só eu. — Enterrou o rosto no vão do pescoço dela. — Já disse isso. —Mas é tão... —Grande? —Sorriu contra ela. — É sua culpa, céu.


—OH, não. —Retorceu‐se baixo ele. — Não posso ter feito isso. Ele se pressionou mais firmemente contra ela. —Shhh. —Mas quero... —Fará. —Silenciou‐a com um ardente beijo, não completamente seguro do que acabava de prometer. Uma vez que a teve gemendo outra vez, afastou a boca da dela e forjou um ardente atalho até o umbigo. Sua língua riscou um círculo ao redor e se introduziu escandalosamente dentro. As mãos estavam em suas coxas, abrindo‐as com facilidade, estendendo para sua invasão. Queria beijá‐la. Devorá‐la, mas não achou que estivesse pronta para uma intimidade assim e em lugar disso, empurrou uma de suas mãos... E deslizou um dedo no interior dela. —Turner! — gritou, e ele não pôde evitar um sorriso de satisfação. Moveu levemente o polegar sobre as suaves e róseas dobras, revelando‐se na forma em que ela se retorcia embaixo dele. Teve que manter os quadris parado com a mão livre para evitar que caísse da cama. —Se abra para mim — gemeu, arrastando sua boca de volta a dela. A ouviu soltar um pequeno grito de prazer e suas pernas pareceram quase derreter‐se, deslizando‐se ainda mais longe até que a ponta de sua ereção pressionou contra ela, provando sua suavidade. Turner moveu os lábios até sua orelha e sussurrou. —Agora vou te amar. Ela assentiu, sem fôlego. —Vou fazê‐la minha. —OH, sim, por favor. Moveu‐se lentamente para frente, paciente contra a apertada inocência. Estava matando‐o, mas ia se segurar. Queria mais que nada no mundo afundar‐se nela com fortes e furiosos embates, mas aquilo teria que esperar para outro momento. Não na primeira vez. —Turner? — Sussurrou, e ele se deu conta de que tinham permanecido quieto alguns segundos. Apertando os dentes, retirou‐se lentamente até que unicamente sua ponta ficou dentro dela. Miranda se agarrou com força a seus ombros.


—OH, não, Turner. Não vá! —Shhhh. Não se preocupe. Continuo aqui. —Voltou a entrar. —Não me deixe — sussurrou ela. —Não o farei. —Alcançou sua virgindade e grunhiu ante a resistência. — Isto vai doer, Miranda. —Não me importa. —Seus dedos lhe cravaram na pele. —Talvez depois importe. —Pressionou um pouco mais à frente, tentando‐o com tanto cuidado como podia. Ela arqueou‐se embaixo dele, gemendo seu nome. Os braços envoltos ao redor de seu corpo, e seus dedos pressionando espasmodicamente em suas costas. —Por favor, Turner — rogou. — OH, por favor. Por favor, por favor. Incapaz de continuar se controlando, Turner se afundou até o final, estremecendo‐se ante a deliciosa sensação dela apertada a seu redor. Mas Miranda ficou rígida embaixo dele e a viu fazer uma careta de dor. —Sinto muito — disse com rapidez, tentando ficar quieto e ignorar as dolorosas demandas de seu corpo. — Sinto muito. Sinto muito. Dói? Ela apertou os olhos e negou com a cabeça. Ele apagou as pequenas lágrimas que estavam se formando no canto de seus olhos com beijos. —Não minta. —Só um pouco — admitiu em um sussurro. — Foi mais a surpresa que outra coisa. —Melhorará — disse ardentemente. — Prometo. — Apoiou‐se em seus antebraços para mantê‐la livre de seu peso, e se moveu de novo lentamente, com embates seguros, cada um trouxe uma sacudida de desejo com sua suave fricção. Enquanto isso tinha a mandíbula apertada com concentração, cada músculo do corpo tenso e apertado com a tensão de manter‐se controlado. Dentro e fora, dentro e fora, recitava para si mesmo. Se saísse do ritmo só por um segundo, perderia o controle por completo. Tinha que manter por ela. Não estava preocupado por ele, sabia que alcançaria o céu antes que a noite acabasse. Mas sim por Miranda... Tudo o que sabia é que sentia uma intensa responsabilidade por garantir que ela também encontrasse o êxtase. Nunca esteve com uma virgem, assim não estava seguro até que ponto seria possível, mas por Deus, ia tentar. Temia que inclusive, falar o fizesse estalar, mas conseguiu dizer: —Como se sente?


Miranda abriu os olhos e piscou. —Bem. — Soava surpreendida. — Já não dói. —Nem um pouco? Ela negou com a cabeça. —Sinto‐me muito bem... E faminta. — Fez correr seus dedos vacilantes pelas costas dele. Turner se estremeceu ante seu toque leve como a pluma e sentiu como escapava o controle. —Como se sente você? — Sussurrou ela. — Também está faminto? Ele grunhiu algo que ela não pôde entender e começou a mover‐se mais rápido. Miranda sentiu seu abdômen apertar‐se, logo uma insuportável tensão. Começaram a lhe formigar os dedos das mãos e dos pés, e então, quando esteve segura de que seu corpo se romperia em centenas de pequenas peças, algo em seu interior se partiu, e os quadris elevaram para fora do colchão com tanta força que inclusive o levantou. —OH, Turner! — Chiou. — Ajude‐me! Ele bombeou para frente mais lento. —Farei — gemeu. — Juro. — E então gritou, seu rosto se contorceu como se sentisse dor, e por fim, exalou, derrubando‐se contra ela. Jazeram unidos durante alguns minutos, úmidos pelo esforço. Miranda adorou o peso dele sobre ela, adorou o sentimento de lânguida satisfação. Tocou ociosamente o cabelo com a mão, desejando que o mundo ao redor deles simplesmente desaparecesse. Durante quanto tempo poderiam permanecer assim, a salvo no pequeno pavilhão de caça, antes que sentissem falta deles? —Como se sente? —Perguntou ela brandamente. Os lábios dele se curvaram em um juvenil sorriso. —Como acha que me sinto? —Bem, espero. Rodou em cima dela, apoiou‐se sobre um cotovelo e a agarrou por debaixo do queixo com dois dedos. —Bem, sei — disse, enfatizando deliberadamente a última palavra. Miranda sorriu. Não podia esperar nada melhor que aquilo. —Que tal você? —Perguntou em voz baixa, a preocupação marcando seu cenho franzido. — Está dolorida?


—Não acredito. —Moveu‐se para verificar seu corpo. — Talvez depois. —Ficará. Miranda franziu o cenho. Então, tinha muita experiência em desflorar virgens? Havia dito que Letícia já estava grávida quando se casaram. E afastou o pensamento de sua mente. Não queria pensar em Letícia. Agora não. A esposa morta do Turner não tinha lugar na cama com eles. E se encontrou fantasiando com bebês. Pequenos loiros, com brilhantes olhos azuis, sorrindo com regozijo. Um Turner em miniatura, isso é o que queria. Supunha que um bebê poderia parecer‐se com ela e ter que carregar com sua singular cor, mas em sua mente, era todo Turner, dos pés à cabeça. Quando finalmente abriu os olhos, viu‐o olhando‐a, e a tocou a boca, junto à comissura que se esteve curvando para cima. —Porque você estava tão absorta? — Murmurou, com a voz carregada de satisfação. Miranda evitou seu olhar, envergonhada pela direção de seus pensamentos. —Nada importante — murmurou. — Ainda chove? —Não sei — respondeu, e se levantou para dar uma olhada pela janela. Miranda empurrou os lençóis sobre seu corpo nu, desejando não ter perguntado pelo tempo. Se tivesse deixado de chover, teriam que voltar para a casa principal. Certamente, a essas alturas já tinham sentido falta deles. Poderiam afirmar que tinham procurado refúgio sob a chuva, mas aquela desculpa soaria falsa se não voltassem assim que tempo melhorasse. Turner voltou a colocar as cortinas no lugar e se virou para ficar frente a ela, e Miranda conteve o fôlego ante a pura e masculina beleza dele. Tinha visto desenhos de estátuas nos muitos livros de seu pai, e inclusive possuía uma miniatura da estátua de David. Mas nada se comparava ao homem vivo de pé ante ela, e baixou a vista ao chão, temendo que o mero fato de vê‐lo voltasse a seduzi‐la. —Ainda chove — disse sereno. — Mas está limpando. Deveríamos limpar nossa... Hein desordem, assim estaremos preparados para ir ao momento em que a chuva passe. Miranda assentiu. —Poderia pegar minha roupa? Elevou uma sobrancelha. —Modéstia agora? Ela assentiu. Talvez fosse algo tolo, depois de seu comportamento lascivo, mas


não era tão sofisticada para levantar‐se nua da cama com alguém mais no aposento. Inclinou a cabeça para a saia, que estava ainda sobre o chão em um monte. —Poderia, por favor? Recolheu‐a e a estendeu. Ainda estava úmida em alguns lugares posto que Miranda não se preocupasse em estendê‐la, mas ficou perto o suficientemente do fogo, não seria tão horrível. Vestiu‐se com rapidez e arrumou a cama, apertando com cuidado e esticando bem os lençóis, com viu as donzelas fazerem em casa. Foi um trabalho mais duro do que esperava, pela cama estar contra a parede. Quando por fim tanto eles como o pavilhão estavam apresentáveis, a chuva havia diminuído até converter‐se em uma vaga garoa. —Suponho que nossas roupas não se molharão muito mais do que já estão ‐ disse Miranda enquanto colocava a mão pela janela para avaliar a chuva. Ele assentiu, e se colocaram a caminho de volta à casa principal. Não disse nada, e Miranda tampouco foi capaz de romper o silêncio. O que ia acontecer agora? Tinha que casar‐se com ela? Deveria, é obvio se era o cavalheiro que sempre pensou que fosse, faria, mas ninguém sabia que foi comprometida. E ele a conhecia o suficientemente bem para não se preocupar de que contasse a alguém para apanhá‐lo em matrimônio. Quinze minutos depois, encontravam‐se diante dos degraus que conduziam à porta principal de Chester House. Turner fez uma pausa e, olharam Miranda, seus olhos sérios e decididos. —Ficará bem? —Perguntou amavelmente. Ela piscou várias vezes. Por que estava perguntando isso agora? —Não poderemos conversar uma vez estejamos lá dentro — explicou Turner. Ela assentiu, tratando de ignorar a sensação de desgosto de seu estômago. Algo não ia bem. Ele clareou a garganta e puxou a gola como se a gravata estivesse muito apertada. Voltou a clareou a garganta, e voltou a fazê‐lo uma terceira vez. —Irá me notificar se surgir alguma situação pela qual devamos agir com rapidez. Miranda assentiu uma vez mais, tentando discernir se aquilo tinha sido uma afirmação ou uma pergunta. Um pouco de ambas, decidiu. E não estava segura de por que isso importava. Turner respirou fundo.


—Necessitarei um pouco de tempo para pensar. —No que? — Perguntou, antes de ter a oportunidade de pensar melhor. Não deveria ser tudo simples agora? O que ficava para pensar? —Sobre mim mesmo, principalmente — disse, com a voz ligeiramente rouca, e possivelmente um pouco distante. — Mas a verei dentro de pouco e arrumarei tudo. — Não tem que se preocupar. E então, posto que Miranda estivesse farta de esperar, e farta de ser tão malditamente conveniente, deixou escapar. —Vai casar comigo? Porque Por Deus, era como se o homem estivesse falando através da névoa. Ele pareceu surpreso pela estridente pergunta dela, mas ainda assim, disse bruscamente. —É obvio. — E enquanto Miranda esperava o júbilo que sabia que deveria sentir, ele acrescentou. — Mas não vejo razão para nos apressarmos a menos que se apresente uma razão de peso. Ela assentiu e engoliu saliva. Um bebê. Queria casar com ela só se houvesse um bebê. Faria acontecesse o que acontecesse, mas quando acontecesse. —Se nos casarmos agora mesmo — disse — seria óbvio porque temos que fazê‐lo. —Que você tem que fazer — murmurou Miranda. Ele se inclinou para frente. —Umm? —Nada. — Porque seria humilhante voltar a dizer. Porque já era humilhante ter dito uma vez. —Deveria entrar — disse ele. Ela assentiu. Estava ficando uma perita em assentir. Sempre um cavalheiro, Turner inclinou a cabeça e segurou o braço de Miranda. Então a conduziu ao salão e agiu como se não tivesse nada pelo que se preocupar. 3 DE JULHO DE 1819 E depois do que aconteceu, não voltou a me dirigir a palavra nenhuma única vez.


CAPÍTULO 12

Quando no dia seguinte Turner retornou para casa, retirou‐se a seu estúdio com um copo de brandy e a mente turvada. A festa na casa de Lady Chester não estava programada para terminar até dentro de alguns dias, mas inventou uma história a respeito de assuntos urgentes que tinha que tratar com seus advogados na cidade e foi embora antes. Estava bastante seguro de poder comportar‐se como se nada tivesse acontecido, mas não estava tão seguro de que Miranda poderia. Era inocente? Ao menos tinha sido? E não estava acostumada a esse tipo de fingimento. E em consideração a reputação dela, tudo deveria parecer escrupulosamente normal. Lamentava não ter tido oportunidade de explicar as razões de sua partida prematura. Não pensava que ela pudesse sentir‐se ultrajada; depois de tudo, disse a ela que precisava de tempo para pensar. Também disse que iriam se casar; certamente não poriam em dúvida suas intenções por tomar poucos dias para refletir a respeito da inesperada situação. Não lhe escapava a enormidade de seus atos. Tinha seduzido uma jovem dama solteira. Uma que gostava de verdade e que respeitava. Uma que sua família adorava. Para um homem que não desejava voltar a se casar, era evidente que não esteve pensando com o cérebro. Gemendo, afundou‐se em uma poltrona e recordou as regras que ele e seus amigos tinham estabelecido anos atrás quando deixaram Oxford para inundar‐se nos prazeres de Londres e da alta sociedade. Só eram dois. Não envolver‐se com damas casadas, a não ser que fosse extremamente óbvio que ao marido não importava. E sobre todas as coisas, nada de virgem. Nunca, nunca, nunca seduzir uma virgem. Nunca. Tomou outro gole da bebida. Bom Deus. Necessitava‐se uma mulher, havia dúzias que teriam sido mais convenientes. A adorável e jovem condessa viúva esteve freqüentemente o agradando. Katherine teria sido a amante perfeita e não haveria necessidade de casar com ela.


Matrimônio. Havia tentado uma vez, quando possuía um coração romântico e estrelas nos olhos e isso o destruiu. Era realmente gracioso. No casamento, as leis da Inglaterra davam absoluta autoridade ao marido, mas nunca se sentiu com menos controle de sua vida do que quando esteve casado. Letícia enterrou seu coração na terra e o converteu em um homem colérico e desalmado. Alegrava‐se de que tivesse morrido. Alegrava‐se. Em que tipo de homem o convertia isso? Quando o mordomo o encontrou em seu estúdio e vacilando informou que houve um acidente, e que sua esposa estava morta, Turner nem sequer se sentiu aliviado. O alívio ao menos teria sido uma emoção inocente. Não, o primeiro pensamento do Turner foi... Graças a Deus. E sem importar quanto desprezível pudesse ter sido Letícia, sem importar quantas vezes desejou não ter se casado com ela, não deveria ter sentido algo mais caridoso ante sua morte? Ou ao menos, algo que não fosse tão inteiramente pouco caridoso? E agora... E agora... Bom, a verdade era que não desejava casar. Era o que tinha decidido quando trouxeram o corpo morto de Letícia para casa e foi o que voltou a ratificar quando esteve ante sua sepultura. Teve uma esposa. Não desejava outra. Ao menos não em um futuro próximo. Mas apesar dos melhores esforços de Letícia, aparentemente não tinha matado tudo o que era bom e correto nele, porque aqui estava planejando casar com Miranda. Sabia que era uma boa mulher e sabia que nunca o trairia, mas, Deus querido, sim podia ser ela teimosa. Turner se lembrou dela na loja de livros, atacando o proprietário com a bolsa. Agora se converteria em sua esposa. Corresponderia a ele mantê‐la separada dos problemas. Amaldiçoou e tomou outro gole. Não desejava esse tipo de responsabilidade. Era muito. Só desejava descansar. Isso era pedir muito? Um descanso de ter que pensar em alguém mais que não fosse ele mesmo. Um descanso de ter que preocupar‐se, de ter que proteger seu coração de outro golpe. Era isso ser muito egoísta? Provavelmente. Mas depois de Letícia, merecia um pouco de egoísmo. Certamente, era necessário. Mas por outro lado, o matrimônio poderia trazer alguns benefícios


oportunos. Apenas pensar em Miranda, começou a lhe fazer cócegas pela pele. Na cama, debaixo dele. E logo quando começou a imaginar o que poderia trazer o futuro... Miranda. De volta na cama. E outra vez na cama. E outra vez na cama. E outra vez... O que estava pensado? Miranda. Casamento. Com a Miranda. E raciocinou, terminou o resto da bebida, realmente gostava mais que quase todo o resto das pessoas. Era certamente mais interessante e mais amena para conversar que qualquer das outras damas da alta sociedade. Dever‐se‐ia ter uma esposa, provavelmente poderia ser Miranda. Era uma maldita melhor visão que qualquer outra. Ocorreu que não estava enfocando este assunto de uma maneira terrivelmente romântica. Necessitaria mais tempo para pensar. Talvez devesse ir à cama com a esperança de que sua mente estivesse mais clara pela manhã. Com um suspiro, deixou o copo na mesa e ficou de pé, logo o pensou melhor e voltou a levantar o copo. Outro brandy poderia ser justo o que necessitava. À manhã seguinte, a cabeça de Turner pulsava e certamente sua mente não estava mais disposta a lutar com o assunto que tinha entre mãos do que esteve a noite anterior. É obvio, ainda planejava casar‐se com Miranda... Um cavalheiro não comprometia uma dama de bom berço sem pagar as conseqüências. Mas odiava o sentimento de estar sendo apressado. Não importava que este enredo fosse inteiramente culpa dela; precisava sentir que solucionou todas as coisas a sua própria satisfação. Foi por isso que, quando desceu para tomar o café da manhã, a carta de seu amigo Lorde Harry Winthrop foi uma distração muito bem‐vinda. Harry estava considerando comprar uma propriedade em Kent. Gostaria que Turner fosse dar uma olhada para lhe oferecer sua opinião. Turner partiu em menos de uma hora. Era só por poucos dias. Encarregar‐se‐ia de Miranda na volta.

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Miranda não se importou muito de Turner ter abandonado a festa antes do tempo. Se pudesse ela teria feito o mesmo. Além disso, podia pensar mais claramente na ausência dele e embora realmente não houvesse muito que debater. Comportou‐se de forma contrária a cada principio pelos quais foi educada, e se não se casasse com Turner, estaria desonrada para sempre. Ao menos era um pequeno alívio sentir‐se parcialmente com o controle de suas emoções. Alguns dias depois quando retornou a Londres, Miranda tinha plena esperança de que Turner desse a cara imediatamente. Realmente não tinha intenção de forçá‐lo a casar, mas um cavalheiro era um cavalheiro e uma dama era uma dama, e quando ambos se juntavam em geral o que seguia era um matrimônio. Ele sabia. E havia dito que se casaria com ela. E certamente queria fazer isso. Havia se sentida profundamente comovida pela intimidade compartilhada... Ele devia ter sentido algo também. O sentimento não podia ter sido unilateral, ao menos não completamente. Quando perguntou à Lady Rudland onde ele estava, conseguiu manter um tom casual, mas ela respondeu que não tinha nem a menor idéia, só sabia que tinha deixado a cidade. Miranda sentiu o aperto no peito, e murmurou: "OH" ou "Já vejo" ou algo assim, antes de subir correndo as escadas para meter‐se no quarto, onde chorou tão silenciosamente como pôde. Mas logo apareceu seu lado otimista, e decidiu que talvez tenha sido chamado para ocupar‐se de uma emergência nos assuntos da fazenda. Havia um longo caminho até Northumberland. Certamente estaria fora ao menos por uma semana. Uma semana chegou e passou, e no coração de Miranda cresceu a frustração da mão do desespero. Não podia perguntar pelo paradeiro dele. Ninguém da família Bevelstoke percebeu que tinha uma estreita relação, Miranda sempre foi considerada amiga de Olivia, não de Turner. E se perguntasse repetidamente onde ele estava, seria suspeito. E não era necessário dizer que Miranda não tinha uma razão lógica para ir pessoalmente à morada do Turner perguntar por ele. Isso arruinaria completamente sua reputação. Ao menos agora sua desonra ainda era um assunto particular. Entretanto quando passou outra semana, decidiu que já não podia suportar ficar em Londres por mais tempo. Inventou uma enfermidade para o pai e disse aos Bevelstoke que devia retornar a Cumberland imediatamente para cuidar dele.


Todos estavam terrivelmente preocupados, e Miranda se sentiu um tanto culpada quando Lady Rudland insistiu que viajasse na carruagem com dois criados e uma donzela. Mas tinha que fazê‐lo. Não podia permanecer em Londres nem um minuto mais. Era muito doloroso. Poucos dias depois, estava em casa. Seu pai estava perplexo. Não sabia muito a respeito de mulheres jovens, mas lhe asseguraram que todas queriam temporadas em Londres. Mas ele não se importava; certamente Miranda nunca foi um incomodo. A metade do tempo nem sequer se dava conta de que ela estava ali. Assim que lhe afagou a mão e retornou a seus apreciados manuscritos. Quanto a Miranda, quase se convenceu de que estava contente de estar de volta ao lar. Tinha sentido saudades dos prados verdes e do ar puro dos Lagos, o sereno transportar do povoado, o costume de levantar e deitar cedo. Bom, talvez isso não... Sem compromissos e sem nada que fazer dormia até o meio‐dia e ficava acordada até tarde na noite, rabiscando furiosamente em seu diário. Só dois dias depois da chegada de Miranda, chegou uma carta de Olivia. Miranda sorriu enquanto a abria... Estava segura de que a impaciência de Olivia a levou a lhe enviar uma missiva imediatamente. Antes de lê‐la, os olhos de Miranda voaram sobre a carta procurando o nome de Turner, mas não o mencionava. Sem estar segura de se sentia desiludida ou aliviada, voltou para o princípio e começou a ler. Olivia escrevia que Londres era aborrecido sem ela. Não tinha se dado conta de quanto desfrutava das secas observações de Miranda quanto à sociedade até que já não as teve. Quando voltava para casa? Seu pai estava curado? Se não fosse assim, estava melhorando ao menos? (sublinhado três vezes, em um estilo típico da Olivia). Miranda leu essas frases sentindo uma pontada na consciência. Seu pai estava no andar de baixo, no estúdio, examinando seus manuscritos sem nem sequer o menor dos resfriados. Com um suspiro, Miranda empurrou sua consciência a um lado e dobrou a carta de Olivia, deixando‐a na gaveta da escrivaninha. Disse que uma mentira não era sempre um pecado. Certamente havia desculpas para algo que teve que fazer para escapar de Londres. Onde tudo o que podia fazer era permanecer sentada, esperando com desejo que Turner se decidisse a passar por ali. É obvio, que tudo o que fazia no campo era sentar‐se e pensar nele. Uma noite


se obrigou a contar quantas vezes aparecia seu nome no diário, e para seu absoluto desgosto, o total era de trinta e sete. Evidentemente a viagem ao campo não estava clareando a mente. Logo, depois de uma semana e meia, chegou Olivia em uma visita surpresa. —Livvy, o que está fazendo aqui? —Perguntou Miranda enquanto se apressava a entrar na sala onde a esperava sua amiga. — Há alguém ferido? Aconteceu algo de errado? —Não aconteceu nada — respondeu Olivia animadamente. — Só vim buscá‐la. É necessária desesperadamente em Londres. O coração de Miranda começou a pulsar erraticamente. —Quem? —Eu! —Olivia entrelaçou o braço com o dela e a levou para a sala de estar. Santo Deus eu sou um completo desastre sem você. —Sua mãe te deixou abandonar a cidade no meio da temporada? Não posso acreditar. —Virtualmente me empurrou pela porta. Desde que partiu me comportei horrivelmente. Miranda começou a rir apesar de si mesma. —Certamente não deve ter sido tão mau. —Não estou brincando. Mamãe sempre disse que é uma boa influência, mas acredito que não se deu conta de quão certo era até que foi. —Olivia lhe dedicou um sorriso culpado. — Parece que não sou capaz de conter a língua. —Nunca foi. —Miranda sorriu e liderou o caminho para o sofá. — Você gostaria de tomar chá? Olivia assentiu. —Não entendo por que me meto em tantos problemas. A maioria das coisas que digo não é nem a metade mal do que você diz. É a língua mais malvada de Londres. Miranda puxou o cordão para chamar uma criada. —Não sou. —OH, sim, é. É a pior. E sei que sabe. E nunca se mete em problemas por nada disso. É terrivelmente injusto. —Sim, bom, talvez não diga as coisas tão escandalosamente como você ‐ respondeu Miranda, reprimindo um sorriso. —Tem razão — suspirou Olivia. — Sei que tem razão, mas ainda assim é


imensamente incomodo. Você verdadeiramente tem um senso de humor malicioso. —OH, vamos, não sou tão má. Olivia deixou escapar uma curta risada. —OH, sim é. Turner também sempre fala, assim não sou só eu. Miranda engoliu com força o nó que estava formando rapidamente na garganta ante a menção de seu nome. —Então, voltou para a cidade? — Perguntou, Oh tão casualmente. —Não. Faz séculos que não o vejo. Está em algum lugar de Kent com os amigos. Kent? As pessoas não podiam viajar muito mais longe de Cumberland e ainda permanecer na Inglaterra, pensou Miranda melancolicamente. —Está ausente há bastante tempo. —Sim, assim é não é verdade? Mas, bom, está com Lorde Harry Winthrop, e Harry sempre foi algo mais que um pouquinho selvagem, se entende o que quero dizer. Miranda temia entender. —Estou segura que se deixaram levar pelo vinho, as mulheres e coisas desse tipo — continuou Olivia. — Certamente nenhuma dama decorosa vai freqüentar. Rapidamente o nó reapareceu na garganta de Miranda. O pensamento de Turner com outra mulher era extremamente doloroso, especialmente agora que sabia que tão perto podiam estar um homem e uma mulher. Inventou todo tipo de razões para sua ausência... Seus dias estavam cheios de raciocínios e desculpas em sua defesa. Era, pensou amargamente, seu único passatempo. Mas nunca pensou que estava com outra mulher. Ele sabia quão doloroso era ser traído. Como podia fazer o mesmo a ela? Não a amava. A verdade a golpeou e a esbofeteou, enterrando as pequenas e sujas unhas justo no coração. Não a amava, e ela ainda o amava tanto que doía. Era algo físico. Podia sentir, apertando e cravando, e graças ao céu, Olivia estava examinando o vaso grego premiado de seu pai, porque não pensava que pudesse ocultar a agonia de seu rosto. Com algum tipo de comentário resmungado que não foi dito com a intenção de ser entendido, Miranda ficou de pé e rapidamente cruzou o recinto até a


janela, pretendendo olhar o horizonte. —Bom, deve estar divertindo‐se — conseguiu dizer. —Turner? —Escutou a suas costas. — Certamente, ou não ficaria tanto tempo. Mama está desesperada, ou estaria se não estivesse tão ocupada se desesperando por mim. Agora, incomodaria que ficasse aqui contigo? Haverbreaks é muito grande quando não há ninguém em casa e está cheio de correntes de ar. —É obvio que não me incomoda. — Miranda permaneceu na janela poucos instantes mais, até que pensou que era capaz de olhar Olivia sem começar a chorar. Ultimamente estava muito emotiva. — Será um grande prazer para mim. — Aqui é um pouco solitário com apenas meu pai para me fazer companhia. —OH, sim. Como vai? Melhorando, espero. —Meu pai? —Miranda se sentiu agradecida pela interrupção provocada pela donzela que veio em resposta sua demanda. Antes de dar a volta para Olivia, ordenou o chá. — Ehm, está muito melhor. —Deveria procurá‐lo para desejar melhoras. Além disso, mamãe me pediu que mandasse lembranças. —OH, não, não deveria fazer isso — disse Miranda apressadamente. — Não gosta que o recorde sua enfermidade. É muito orgulhoso, já sabe. Olivia, que nunca foi do tipo que medisse as palavras, disse: —Isso é muito estranho. —Sim, bom, é uma doença masculina — improvisou Miranda. Tinha ouvido tantas vezes a respeito das doenças femininas; certamente os homens deviam ter algum tipo de padecimento que fosse exclusivamente deles. E se não fosse assim, estava segura que Olivia não saberia. Mas Miranda não tinha contado com a insaciável curiosidade da amiga. —OH, sério? — Suspirou inclinando‐se para frente. — O que é exatamente uma doença masculina? —Não deveria falar disso — disse Miranda rapidamente, dando a seu pai uma silenciosa desculpa. — Envergonharia enormemente. —Mas... —E sua mãe se desgostaria muito comigo. Realmente não é um tema adequado


para ouvidos inocentes. —Ouvidos inocentes? — Bufou Olivia. — Como se seus ouvidos fossem menos inocentes que meus. Podia ser que seus ouvidos fossem, mas o resto dela certamente não o era, pensou Miranda sarcasticamente. —Não falemos mais desse assunto — disse firmemente. — Deixarei a sua magnífica imaginação. Olivia resmungou um pouco, mas finalmente suspirou e perguntou: —Quando voltará para casa? —Estou em casa — recordou Miranda. —Sim, sim, é obvio. Esta é sua casa oficial, sei, mas te asseguro que toda a família Bevelstoke sente saudades, então quando voltará para Londres? Miranda apanhou o lábio inferior entre os dentes. Obviamente nem toda a família Bevelstoke sentia saudades, ou certo membro dela não teria permanecido tanto tempo em Kent. Mas ainda assim, retornar a Londres era a única maneira que poderia lutar por sua felicidade, e ficar sentada aqui em Cumberland, chorando com seu diário e olhando mal humoradamente pela janela, a fazia sentir como uma imbecil exímia. —Sim, sou uma imbecil — murmurou para si mesma, — ao menos deverei me converter em uma imbecil substancial. —O que foi o que disse? —Disse que sim retornarei a Londres — respondeu Miranda com grande decisão. — Papai está bem o suficientemente para se arrumar sem mim. —Esplêndido. Quando partimos? —OH, penso que em dois ou três dias. —Miranda não era tão valente para não desejar pospor o inevitável por poucos dias. — Preciso empacotar minhas coisas, e certamente está cansada pela viagem através do país. —Estou um pouco cansada. Talvez devessem ficar uma semana. Assumindo que a estas alturas não esteja cansada da vida do campo. Não me importaria ter um breve descanso da congestão de Londres. —OH, não, isso está bem — assegurou Miranda. Turner podia esperar. Certamente não ia casar com ninguém no ínterim, e ela podia usar esse tempo para reforçar sua coragem. —Perfeito. Então vamos cavalgar amanhã pela tarde? Morro por um bom galope.


—Isso soa ideal. — Chegaram o chá, e Miranda se ocupou de servir o fumegante líquido. — Acredito que uma semana é perfeita.

***** Uma semana depois, Miranda estava convencida além de toda dúvida de que não podia voltar para Londres. Jamais. Seu período, que era tão regular que certamente era mensal, não tinha aparecido. Deveria ter sangrado alguns dias antes da chegada de Olivia. Os primeiros dias venceram as preocupações, dizendo a si mesma que era só porque estava deprimida. Logo com a excitação da chegada de Olivia, esqueceu‐se do assunto. Mas agora tinha mais de uma semana de atraso. E esvaziava seu estômago cada manhã. Miranda tinha levado uma vida protegida, mas era uma garota do campo, e sabia o que isso significava. Deus querido, um bebê. O que ia fazer? Deveria dizer ao Turner; não havia como evitar. Embora não queria usar uma vida inocente para forçar um matrimônio que obviamente não estava destinado a acontecer, como podia negar ao filho seu direito de nascimento? Mas o pensamento de viajar a Londres era pura agonia. Já estava doente de persegui‐lo e esperá‐lo, de ter esperanças e rezar para que talvez algum dia ele chegasse a amá‐la. Por uma maldita vez, bem que ele poderia ir a ela. E ele o faria, não é? Era um cavalheiro. Poderia não amá‐la, mas certamente ela não poderia tê‐lo julgado tão completamente mal. Ele não evitaria sua responsabilidade. Miranda sorriu fracamente para si mesma. Assim estavam as coisas. Ela era um dever. Teria... Depois de tantos anos de sonhar, na verdade conseguiria ser Lady Turner, mas não seria mais que uma obrigação. Colocou a mão no estômago. Este deveria ser um momento de alegria, mas, entretanto, tudo o que desejava era chorar. Soou um golpe na porta de seu dormitório. Miranda levantou a vista sobressaltada, mas não pronunciou uma palavra. —Miranda! —A voz de Olivia era insistente. — Abre a porta. Posso ouvir que está chorando. Miranda tomou um profundo fôlego e caminhou para a porta. Não seria simples ocultar o segredo de Olivia, mas tinha que tentar. Olivia era extremamente leal e nunca trairia a confiança de Miranda, mas não obstante, Turner era seu irmão. Não podia prever o que Olivia faria. Miranda não se


surpreenderia que ela mesma pusesse uma pistola nas costas e o fizesse partir para o norte. Miranda deu uma rápida olhada no espelho antes de dirigir‐se à porta. Podia enxugar as lágrimas, mas teria que culpar o jardim do verão pelos olhos avermelhados. Inspirou profundamente várias vezes, colocou o sorriso mais alegre que pudesse em seus lábios e foi abrir a porta. Não enganou Olivia nem por um minuto. —Santo céu, Miranda — disse, apressando‐se a rodeá‐la com os braços. — O que aconteceu? —Estou bem — assegurou Miranda. — Meus olhos sempre ardem nesta época do ano. Olivia se afastou, olhou‐a por um momento, logo fechou a porta com o pé. —Mas está muito pálida. A Miranda começou a revolver‐se o estômago e engoliu convulsivamente. —Penso que peguei algum tipo de... —Ondeou a mão no ar, com a esperança de que essa ação terminasse a oração por ela. — Talvez devesse me sentar. —Não pode ter sido nada que tenha comido — disse Olivia ajudando‐a a alcançar a cama. — Ontem mal tocou a comida, e em qualquer caso, eu comi o mesmo que você e mais. —Inclinou Miranda para frente para acomodar os travesseiros. — E me sinto tão bem como sempre. —Talvez tenha me resfriado — murmurou Miranda. — Possivelmente deveria retornar a Londres sem mim. Não desejo que também caia doente. —Tolices. Não posso deixá‐la sozinha estando assim. —Não estou sozinha. Estou com meu pai. Olivia a olhou. —Sabe, não tenho intenção de desmerecer seu pai, mas penso que com muita dificuldade saberá o que fazer com uma pessoa doente. A metade do tempo, nem sequer estou segura de que recorde que estamos aqui. Miranda fechou os olhos e se afundou entre os travesseiros. Olivia tinha razão, é obvio. Adorava o pai, mas sinceramente, quando se tratava de assuntos que envolviam uma interação com outro ser humano, era um caso completamente


perdido. Olivia subiu na beira da cama, afundando o colchão com seu peso. Miranda tratou de ignorá‐la, tentou fingir que não notava, apesar de ter os olhos fechados, que Olivia a estava olhando fixamente, simplesmente esperando que reconhecesse sua presença. —Miranda, por favor, me diga o que está acontecendo — disse Olivia brandamente. — É seu pai? Miranda negou com a cabeça, mas justo, nesse momento, Olivia mudou de posição. O colchão ondulou debaixo delas, de forma parecida com o movimento de um bote, e embora Miranda nunca tivesse padecido de enjôos nenhuma única vez em sua vida, seu estômago começou a revolver‐se, e subitamente se tornou imperativo... Miranda se levantou de um salto, jogando Olivia ao chão. Conseguiu chegar bem a tempo a bacia que havia no recinto. —Deus seja louvado — disse Olivia, mantendo uma respeitosa conservadora distância. — Quanto tempo faz que você está assim? Miranda evitou responder. Mas seu estômago fez arcadas em resposta. Olivia deu um passo atrás. —Er, eu posso ajudar em algo? Miranda sacudiu a cabeça, agradecida de que seu cabelo estivesse preso para trás. Olivia a observou durante alguns instantes, logo foi para a tigela e umedeceu um pano. —Aqui tem — disse, sustentando‐o diante dela, com o braço completamente estirado. Miranda tomou agradecida. —Obrigada — sussurrou, limpando o rosto. —Não acredito que isto seja um resfriado — disse Olivia. Miranda sacudiu a cabeça. —Estou bastante segura de que o pescado de ontem à noite estava perfeitamente bem e não posso imaginar... Miranda não precisou ver o rosto de Olivia para interpretar seu ofego. Sabia. Podia ser que ainda não acreditasse de tudo, mas sabia. —Miranda? Miranda permaneceu imóvel em seu lugar, inclinada pateticamente sobre a bacia. —Está... Por acaso você...? Miranda engoliu convulsivamente. E assentiu.


—OH, Senhor. OH, Senhor. OH, OH, OH, OH, OH... Era, talvez, a primeira vez em sua vida que Miranda via Olivia ficar absolutamente sem palavras. Miranda terminou de limpar a boca, e logo, com o estômago ainda um pouco revolto, finalmente se separou da bacia e se sentou um pouco mais reta. Olivia ainda a estava olhando fixamente como se tivesse visto um fantasma. —Como? — Perguntou finalmente. —Como de costume — replicou Miranda. — Garanto que não há motivo para informar à Igreja. —Sinto muito. Sinto muito. Sinto muito — disse Olivia apressadamente. Não tinha intenção de transtorná‐la. É só que... Bom... Deve saber... Bom... É só que isto é uma tremenda surpresa. —Também me surpreendeu — respondeu Miranda com uma voz certamente apagada. —Não pode ter sido tanta surpresa — disse Olivia sem pensar. — Quero dizer, se fez... Esteve... —Deixou que as palavras se desvanecessem, dando‐se conta de que falou de mais. —Ainda assim foi uma surpresa, Olivia. Olivia ficou calada por um momento enquanto absorvia o impacto. —Miranda, eu devo perguntar... —Não o faça! — Advertiu Miranda. — Por favor, não me pergunte com quem. —Foi Winston? —Não! —Replicou violentamente. E logo murmurou. — Por Deus. —Então, quem? —Não posso dizer — disse Miranda, quebrando a voz. — Foi... Foi alguém totalmente inadequado... Não... Não sei no que estava pensando, mas, por favor, não volte a me perguntar. Não quero falar disso. —Está bem — disse Olivia, evidentemente dando‐se conta que seria imprudente pressioná‐la mais. — Não voltarei a perguntar, prometo. Mas, o que vamos fazer? Miranda não pôde evitar sentir‐se um pouco animada pelo uso da palavra vamos. —Digo Miranda, está segura de que está grávida? — Perguntou Olivia de súbito, com os olhos brilhando de esperança. — Poderia ser só um atraso. A minha atrasa todo o tempo. Miranda deu uma significativa olhada a bacia. E logo sacudiu a cabeça e disse:


—Eu nunca atraso. Jamais. —Terá que ir a algum lugar — disse Olivia. — O escândalo será espetacular. Miranda assentiu. Planejava enviar uma carta a Turner, mas isso não podia dizer a Olivia. —O melhor que podemos fazer é tirá‐la do país. Ao continente, talvez. Que tal está seu francês? —É triste. Olivia suspirou afligida. —Nunca foi muito boa com os idiomas. —Nem você tampouco — disse Miranda. Olivia decidiu não se dignar a responder isso, em troca sugeriu: —Por que não vai a Escócia? —Com meus avôs? —Sim. Não me diga que a rejeitarão devido a sua condição. Sempre está dizendo quão bons são. Escócia. Sim, essa era a solução perfeita. Notificaria Turner e ele poderia encontrá‐la ali. Poderiam casar‐se sem publicar as admoestações e então, tudo ficaria ao menos bem. —Eu a acompanharei — disse Olivia decididamente. — Ficarei todo o tempo que puder. —Mas, o que dirá a sua mãe? —OH, direi que alguém adoeceu. Funcionou antes, não é assim? — Olivia dedicou a Miranda um olhar penetrante, um que claramente dizia que sabia que inventou a história a respeito de seu pai. —Isso é uma quantidade incrível de pessoas doente. Olivia deu um encolher de ombros. —É uma epidemia. Mas raciocine para que ela permaneça em Londres. Mas, o que dirá a seu pai? —OH, qualquer coisa — respondeu Miranda tirando importância. — Não dá muita atenção ao que faço. —Bom, por uma vez isso é uma vantagem. Partiremos hoje. —Hoje? —Disse Miranda como um eco. —Depois de tudo, já empacotamos, e não há tempo a perder. Miranda olhou seu estômago que ainda estava plano. —Não, creio que não. 13 DE AGOSTO DE 1819


Olivia e eu chegamos hoje a Edimburgo. A vovó e o vovô ficaram bastante surpresos ao me ver. Ficaram ainda mais surpresos quando disse o motivo de minha visita. Estavam muito silenciosos e sérios, mas nem por um momento me fizeram ver que estavam decepcionados ou envergonhados de mim. Sempre os amarei por isso. Livvy mandou uma nota a seus pais dizendo que tinha me acompanhado a Escócia. Cada manhã me pergunta se veio o período. Como eu já havia previsto, não aconteceu. Me encontro olhando o ventre constantemente. Não sei o que espero ver. Certamente não irá crescer da noite para o dia, e certamente não tão precocemente. Devo dizer ao Turner, sei que devo fazer isso, mas parece que não posso escapar de Olivia e não posso escrever a carta na presença dela. Por muito que a adore, terei que espantá‐la. Certamente não posso tê‐la aqui quando Turner chegar, que certamente virá uma vez que receba minha nota, assumindo, é obvio que alguma vez seja capaz de enviar. OH, céus, ai vem ela.

CAPÍTULO 13

Turner não estava seguro de por que permaneceu tanto tempo em Kent. A excursão de dois dias prontamente se prolongou quando Lorde Harry decidiu que na verdade queria adquirir a propriedade, e não só isso, mas também queria convidar alguns amigos imediatamente para realizar uma festa. Não havia forma de que Turner pudesse livrar‐se educadamente, e para ser honesto, na realidade não tinha desejo de partir, não quando isso significava retornar a Londres para enfrentar suas responsabilidades. Não é que estivesse tramando uma forma de evitar casar com Miranda. De fato, era absolutamente o contrário. Uma vez que se resignou à ideia de voltar a se casar, já não parecia um destino tão horrendo. Mas ainda assim, não se decidia a retornar. Se não se apressou a sair da cidade argumentando o mais corriqueiro das desculpas, poderia ter esclarecido o assunto imediatamente. Mas quanto mais tempo pospôs, mais desejava continuar pospondo‐o.


Como demônio ia explicar sua ausência? Assim que a viagem de dois dias se converteu em uma festa campestre de uma semana de duração que a sua vez se transformou em uma festa sem restrições de nenhum tipo de três semanas de duração. Com caçadas, corridas e abundantes mulheres dissolutas a quem lhes deu rédea solta dentro da casa. Turner tomou cuidado de não envolver‐se com estas últimas. Podia ser que estivesse fugindo da responsabilidade para com Miranda, mas o mínimo que podia fazer era permanecer fiel. Logo chegou Winston a Kent e procedeu a unir‐se à festa com um desenfreio tão temerário que Turner se sentiu obrigado a ficar e oferecer alguns conselhos fraternais. Isto requereu outras duas semanas de seu tempo, que outorgou alegremente, já que mitigava algo da culpa que esteve sentindo. Não podia abandonar seu irmão, não é verdade? Se não vigiasse Winston, o pobre moço provavelmente terminaria com um severo caso de sífilis. Mas finalmente se deu conta que não podia adiar o inevitável por mais tempo, e retornou a Londres, sentindo‐se um imbecil. Provavelmente Miranda estivesse xingando. Teria sorte se o recebesse. E com isso em mente e não sem sentir‐se um pouco agitado, subiu os degraus da casa de seus pais e sem esperar ser recebido entrou no vestíbulo principal. O mordomo se materializou imediatamente. —Huntley — disse Turner a modo de saudação. — Encontra‐se a Senhorita Cheever? Ou minha irmã? —Não, milord. —Hmmm. Quando são esperadas de volta? —Não sei milord. —Pela tarde? Na hora do jantar? —Imagino que não voltarão até dentro de várias semanas. —Várias semanas! —Turner não tinha previsto isto. — Onde demônios estão? Huntley ficou rígido ante a imprecação de Turner. —Na Escócia, milord. Escócia? Maldito inferno. Que demônios estavam fazendo lá? Miranda tinha amigos em Edimburgo, mas se tinha feito planos para visitá‐los, não o informou. Espera um momento, não estaria Miranda prometida a algum cavalheiro escocês relacionado com seus avôs? Se esse fosse o caso certamente alguém teria informado‐o. Miranda, antes de qualquer um. E Deus sabia que Olivia era incapaz de manter um segredo.


Turner caminhou a longos passos para o pé das escadas e começou a vociferar. —Mãe! Mãe! —virou‐se para Huntley. — Imagino que posso assumir que minha mãe não as seguiu até Escócia? —Não, ela está residindo aqui, milord. —Mãe! Lady Rudland se apressou a descer. —Turner, em nome do céu, o que acontece? E onde esteve? Partindo ao Kent sem nem sequer nos dizer isso. —Por que Olivia e Miranda estão na Escócia? Ante seu interesse, Lady Rudland arqueou as sobrancelhas. —Uma enfermidade na família. Quero dizer na família de Miranda. Turner evitou assinalar que isso era óbvio, já que os Bevelstoke não tinham parentes na Escócia. —E Olivia foi com ela? —Bom, já sabe como são unidas. —Quando retornam? —Não posso dizer nada a respeito da Miranda, mas já escrevi a Olivia, insistindo em que retorne. A esperamos em poucos dias. —Bem — murmurou Turner. —Estou segura que se sentirá feliz por sua devoção fraternal. Turner semicerrou os olhos. Havia certa nota de sarcasmo na voz de sua mãe? Não podia estar seguro. —A verei logo, mãe. —Estou segura de que o fará. OH, e Turner? —Sim? —Por que não tenta passar mais tempo com seu ajudante de quarto? Parece um pouco maltrapilho. Quando Turner se foi estava grunhindo. Dois dias depois, Turner foi informado que sua irmã tinha retornado a Londres. Turner se apressou a sair para sua casa imediatamente. Se havia uma coisa que odiava era esperar. E se havia algo que odiava ainda mais, era sentir‐se culpado. E se sentia malditamente culpado por ter feito Miranda esperar pelo que agora se converteu em um período de mais de seis semanas.


Quando chegou, Olivia estava em seu quarto. Em vez de esperá‐la na sala de estar, Turner subiu a escada e bateu na porta. —Turner! —Exclamou Olivia. — Valha‐me Deus! O que está fazendo aqui? —Sinceramente, Olivia, costumava viver aqui. Recorda? —Sim, sim, é obvio. —Sorriu e se voltou a sentar. — A que devo este prazer? Turner abriu a boca, e logo a fechou, sem estar seguro do que queria perguntar. Não podia simplesmente sair com, "Seduzi sua melhor amiga e agora preciso endireitar as coisas, assim consideraria apropriado que fosse procurá‐la à casa de seus avôs enquanto um deles está doente?" Voltou a abrir a boca. —Sim, Turner? Fechou‐a, sentindo um tolo. —Queria me perguntar algo? —O que achou da Escócia? —Balbuciou. —Linda. Esteve lá alguma vez? —Não. E Miranda? Olivia duvidou antes de responder. —Está bem. Manda saudações. De alguma forma, isso parecia duvidoso a Turner. Tomou fôlego. Devia proceder com cautela. —Está de bom ânimo? —Her, sim. Sim, está. —Não estava desanimada ao perder o resto da temporada? —Não, é obvio que não. Para começar nunca desfrutou muito. Você sabe. —Correto. —Virou‐se para ficar de frente à janela, tamborilando com a mão contra uma de suas pernas em sinal de impaciência. — Retornará logo? —Imagino que não o fará até dentro de alguns meses. —Então, sua avó está bastante doente? —Bastante. —Deveria enviar minhas condolências. —Não chegou a isso ainda. —Apressou‐se a dizer Olivia. — O doutor diz que levará algum tempo, ehh, ao menos meio ano, talvez um pouco mais, mas pensa que se recuperará. —Já vejo. E exatamente, que enfermidade padece? —Uma doença feminina — disse Olivia, sua voz soou talvez um pouquinho petulante em excesso. Turner arqueou uma sobrancelha. Uma doença feminina em uma avó. Extremamente intrigante. E suspeito. Voltou a se virar.


—Espero que não seja contagioso. Eu não gostaria que Miranda adoecesse. —OH, não. A, er, enfermidade que há nessa casa definitivamente não é contagiosa. —Quando viu que Turner não desviava o olhar penetrante de seu rosto, acrescentou. — Olhe para mim. Estive ali uma quinzena e estou sã como um cavalo. —Sim, está. Mas devo dizer que estou preocupado com Miranda. —OH, mas não deveria estar — insistiu Olivia. — Ela está bem é sério. Turner semicerrou os olhos. As bochechas de sua irmã se puseram um pouco rosadas. —Há algo que não está me dizendo. —Eu... Eu não sei do que está falando — gaguejou. — E por que você está me fazendo tanta pergunta a respeito de Miranda? —Também é uma boa amiga minha — respondeu em um tom suave como a seda. — E sugiro que trate de me dizer a verdade. Enquanto ele se aproximava a grandes passos, Olivia se deslizou velozmente por cima da cama, atravessando‐a. —Não sei do que está falando. —Está envolvida com um homem? —Demandou. — Está? É por isso que inventou esta história tão óbvia a respeito de um familiar doente? —Não é uma história — protestou. —Me diga a verdade! Fechou a boca com força. —Olivia — disse ameaçadoramente. —Turner! —Sua voz adquiriu um tom histérico. — Eu não gosto do olhar que tem nos olhos. Vou chamar a mamãe. —Mamãe é da metade de meu tamanho. Não será capaz de evitar que te estrangule, pirralha. Ela arregalou os olhos. —Turner, ficou louco. —Quem é ele? —Não sei! — Estalou. — Não sei. —Assim sim há alguém. —Sim! Não! Já não mais! —Que demônio está acontecendo? — O ciúme, puro e ardentemente violento, percorreu‐no por inteiro. —Nada! —Me diga o que aconteceu com Miranda. — Rodeou a cama até que


abandonou a Olivia. Um sentimento de temor muito primitivo brincava de correr por seu corpo. Medo ante a possibilidade de perder Miranda e medo de que de alguma forma estivesse ferida. E se tinha acontecido algo com ela? Nunca teria imaginado que o bem‐estar de Miranda poderia lhe causar esse tipo de preocupação que fechava sua garganta, mas ali estava, e Cristo, era espantoso. Nunca quis preocupar‐se tanto por ela. A cabeça de Olivia se disparava de direita à esquerda procurando um meio de escape. —Ela está bem, Turner. Juro. Ele colocou as grandes mãos sobre os ombros da irmã. —Olivia — disse em voz muito baixa, com os olhos azuis cintilando de fúria e de temor. — Vou dizer isto só uma vez. Quando éramos crianças, nunca te batia, apesar, poderia acrescentar, de ter tido suficientes razões. — Fez uma pausa, inclinando‐se ameaçadoramente. — Mas não tenho inconvenientes em começar a fazê‐lo nesse mesmo instante. — O lábio inferior dela começou a tremer. —Se não me disser neste mesmo instante em que tipo de confusão Miranda se meteu, posso assegurar que se arrependerá profundamente. Cem emoções diferentes cruzaram o rosto de Olivia, a maioria delas relacionadas de certa forma com o pânico e o medo. —Turner — suplicou — é minha melhor amiga. Não posso trair sua confiança. —O que está acontecendo? — Pressionou. —Turner... —Me diga! —Não, não posso, eu... — Olivia ficou pálida. — OH, Meu Deus. —O que? —OH, Deus — resfolegou. — É você. Uma expressão que Turner nunca tinha visto antes, não em sua irmã, nem dado o caso, em ninguém mais, apoderou‐se de seu rosto, e então... —Como pôde! —Gritou, esmurrando a parte superior de seu corpo com seus pequenos punhos. — Como pôde? É uma besta! Escutou? Um animal! E é certamente ruim de sua parte deixá‐la assim. Turner permaneceu imóvel durante toda a enxurrada, tratando de encontrar


sentido as palavras e a fúria da irmã. —Olivia — disse pausadamente. — Do que está falando? —Miranda está grávida — vaiou. — Grávida. —OH, Meu Deus. —As mãos de Turner caíram, afastaram‐se dos braços dela e se deixou cair afundando‐se na cama, atordoado. —Presumo que você seja o pai — disse com frieza. — Isso é repugnante. Por amor de Deus, Turner. Virtualmente é seu irmão. Ele jogou fumaça pelo nariz. —Dificilmente. —É mais velho que ela e mais experiente. Não deveria ter se aproveitado. —Não vou justificar minhas ações ante você — cuspiu friamente. Olivia bufou. —Por que não me disse isso? —Se por acaso não lembra, estava em Kent. Bebendo, fornicando e... —Não estava fornicando — disse bruscamente. — Não estive com outra mulher depois de ter estado com Miranda. —Me desculpe se acho difícil de acreditar, irmão mais velho. É desprezível. Saia do meu quarto. —Grávida. — Voltou a pronunciar a palavra como se repeti‐la fizesse mais fácil de acreditar. — Miranda. Um bebê. Deus. —É um pouco tarde para rezar — disse Olivia glacialmente. —Seu comportamento foi do pior, vai além do reprovável. —Não sabia que estava grávida. —Acaso importa? Turner não respondeu. Não podia responder, não quando sabia que tinha atuado tão absolutamente mal. Deixou cair à cabeça entre as mãos, sua mente ainda retrocedia ante a comoção. Deus querido, quando pensava em quão egoísta tinha sido... Adiou enfrentar Miranda simplesmente devido a que era muito indolente. Imaginou que quando retornasse, estaria aqui o esperando. Por que... Por que... Porque isso era o que ela fazia. Não o esperou durante anos? Não lhe disse... Era um idiota. Não podia haver outra explicação nem outra desculpa. Simplesmente tinha assumido... E logo se aproveitou... E... Nunca, nem em seus sonhos mais selvagens imaginou que ela poderia ter ido umas trezentas milhas para o norte, aguentando uma gravidez inesperada que


logo se converteria em um filho ilegítimo. Disse a ela que o notificasse se algo assim ocorresse. Por que não lhe escreveu? Por que não lhe disse algo? Baixou a vista e olhou as mãos. Viam‐se estranhas, alheias e quando flexionou os dedos, sentiu os músculos tensos e torpes. —Turner? Pôde ouvir sua irmã sussurrar seu nome, mas por algum motivo não pôde responder. Podia sentir sua garganta movendo‐se, mas não podia falar, nem sequer podia respirar. Tudo o que pôde fazer foi permanecer ali sentado sentindo um tolo, e pensando em Miranda. Sozinha. Estava sozinha e provavelmente aterrada. Estava sozinha, quando deveria ter estado casada e confortavelmente instalada em seu lar em Northumberland com ar fresco, comendo comida saudável e onde ele pudesse vigiá‐la. Um bebê. Era gracioso, sempre pensou que deixaria que Winston continuasse o sobrenome da família. E agora o que desejava mais que qualquer outra coisa era tocar o ventre inchado de Miranda, sustentar seu filho nos seus braços. Esperava que fosse uma menina. Esperava que tivesse olhos marrons. Podia ter um herdeiro mais a frente. Com Miranda em sua cama, já não o preocupava o tema da concepção. —O que vai fazer a respeito? — Demandou Olivia. Lentamente Turner levantou a cabeça. Sua irmã estava de pé como um militar, na sua frente, com as mãos nos quadris. —O que pensa você que farei a respeito? — Rebateu. —Não sei Turner — e por uma vez a voz de Olivia carecia de fio. Turner se deu conta que não era uma réplica mordaz. Não era uma provocação. Era certo que Olivia não estava convencida de que tivesse a intenção de fazer o correto e que fosse casar com Miranda. Turner nunca se sentiu menos homem. Com um profundo e tremente suspiro, ficou de pé e clareou a garganta. —Olivia, seria tão amável de me dar o endereço de Miranda na Escócia? —Com prazer. — Foi para a escrivaninha e arrancou um pedaço de papel no qual rapidamente rabiscou umas poucas linhas. — Aqui está. Turner tomou o pedaço de papel, dobrou‐o e o pôs no bolso.


—Obrigado. Olivia muito intencionadamente, não respondeu. —Acredito que não a verei por algum tempo. —Tenho esperanças de que ao menos seja por sete meses — replicou ela. Turner cruzou a Inglaterra até Edimburgo correndo, completando a viagem em um incrível lapso de quatro dias e meio. Quando chegou à capital escocesa, estava cansado e poeirento, mas isso não parecia importar. Cada dia que Miranda passava sozinha era outro dia em que poderia... Infernos, não sabiam o que era capaz de fazer, mas tampouco queria averiguar. Antes de começar a subir os degraus voltou a comprovar o endereço. Os avôs de Miranda viviam em uma casa relativamente nova em um setor elegante de Edimburgo. Uma vez ouviu que eram pessoas ricas e que tinham propriedades mais ao norte. Suspirou aliviado de que estivessem passando o verão aqui embaixo perto da fronteira. Não teria ficado satisfeito ter que continuar a viagem internando‐se nas Highlands. Já tendo chegado até ali estava exausto. Golpeou a porta com firmeza. Um mordomo abriu a porta e o saudou com o acento nasal que alguém poderia encontrar‐se na residência de um Duque. —Vim ver a Senhorita Cheever — disse Turner com um tom cortante. O mordomo olhou desdenhosamente a roupa enrugada de Turner. —Não está em casa. —Não está? — O tom de Turner implicava que não acreditava. Não o surpreenderia que tivesse dado sua descrição a toda a casa com instruções de que proibissem sua entrada. —Terá que retornar mais tarde. Entretanto, ficaria encantado de transmitir uma mensagem, se você... —Esperarei — Turner passou ao lado do mordomo, entrando em um pequeno salão do vestíbulo principal. —Como se atreve, senhor! — Protestou o mordomo. Turner tirou um de seus cartões e entregou. O mordomo olhou seu nome, o olhou, e logo voltou a olhar seu nome outra vez. Obviamente não esperava que um Visconde tivesse uma aparência tão desgrenhada. Turner sorriu com secura. Havia vezes em que um título podia resultar malditamente conveniente. —Se deseja esperar, milord — disse o mordomo em um tom algo mais contido. — Farei que uma criada traga o chá. —Por favor.


Quando o mordomo saiu, Turner começou a vagar pelo recinto, examinando lentamente os arredores. Obviamente os avôs de Miranda tinham bom gosto. Os móveis eram simples e de estilo clássico, estilo que nunca parecia desconjuntado nem irremediavelmente passado de moda. Enquanto examinava ociosamente o quadro de uma paisagem, refletiu como fez umas mil vezes desde que deixou Londres, a respeito do que diria a Miranda. O mordomo não chamou a guarda ao escutar seu nome. Isso era um bom sinal, ou isso supunha. Alguns minutos depois chegou o chá e quando Miranda não apareceu em seguida, Turner decidiu que o mordomo não estava mentindo a respeito de seu paradeiro. Não importava. Esperaria o que fosse necessário. Ao final sairia com a dele... Não tinha nenhuma dúvida a respeito. Miranda era uma moça sensível. Sabia que o mundo era um lugar frio e desumano para uma criança ilegítima. E para a mãe. Sem importar quão zangada estivesse com ele e estaria disso não restava dúvida não desejaria relegar o filho a uma vida tão difícil. Também era seu filho. Merecia o amparo de seu sobrenome. Tanto como Miranda. Realmente não o agradava a ideia de que ela permanecesse muito mais tempo liberada a sua sorte, mesmo que seus avôs tivessem aceitado acolhê‐la neste difícil momento. Turner permaneceu ali sentado com seu chá por meia hora, arrasando ao menos seis bolachas das quais haviam lhe trazido. Tinha sido uma longa viagem de Londres, e não se deteve muito frequentemente para comer. Estava se maravilhando com o fato de que o sabor destas fosse muito melhor que qualquer coisa que tivesse provado na Inglaterra quando ouviu que se abria a porta principal. —MacDownes! A voz de Miranda. Turner ficou de pé, com uma bolacha ao meio comer entre os dedos. Soaram passos no vestíbulo, presumivelmente pertencentes ao mordomo. —Poderia me ajudar com alguns destes pacotes? Sei que deveria ter pedido que fosse enviada a casa, mas estava muito impaciente. Turner ouviu o som de pacotes trocando de mãos, seguido da voz do mordomo. —Senhorita Cheever, devo lhe informar que tem um visitante esperando‐a no salão. —Um visitante? Eu? Que estranho. Deve ser um dos MacLean. Sempre fui


amistosa com eles quando estou na Escócia, devem ter se informado que estou na cidade. —Não acredito que seja de origem escocesa, senhorita. —Realmente, então quem... Turner quase sorriu quando sua voz se alargou pela comoção. Quase podia ver como ficava boquiaberta. —Foi do mais insistente, senhorita — continuou MacDownes. — Tenho seu cartão justo aqui. Houve um longo silencio depois do qual Miranda disse finalmente: —Por favor, diga que não estou disponível. —Sua voz tremeu na última palavra, e logo se lançou escada acima. Turner saiu ao vestíbulo a pernadas bem a tempo para se chocar com MacDownes, que provavelmente estava desfrutando com a ideia de jogá‐lo para fora. —Ela não deseja vê‐lo, milord — cantarolou o mordomo, não sem o mais leve indício de um sorriso. Turner o empurrou para abrir‐se caminho. —Maldição se não o fará. —Não acredito milord. — MacDownes o agarrou pela jaqueta. —Olhe amigo — disse Turner, tratando de soar friamente simpático, se tal coisa fosse possível. — Não tenho inconveniente em golpeá‐lo. —E eu não tenho inconveniente em golpeá‐lo. Turner examinou o homem mais velho com desdém. —Saia de meu caminho. O mordomo cruzou os braços e manteve sua posição. Turner franziu o cenho e tirou a jaqueta das mãos de um puxão, logo caminhou a pernadas até o pé da escada. —Miranda! — Gritou. — Desça agora mesmo! Agora mesmo! Temos coisas a disc... Thwack! Bom Deus, o mordomo lhe deu um murro na mandíbula. Aturdido, Turner acariciou a pele. —Está louco? —Não, nenhum pouco milord. Levo meu trabalho com muita seriedade.


O mordomo tinha adotado uma posição de luta com a soltura e a graça de um profissional. Podia contar com Miranda para contratar um mordomo treinado para boxear. —Olhe — disse Turner em tom conciliador. — Preciso falar com ela imediatamente. É de suma importância. A honra da dama está em jogo. Thwack! Turner cambaleou por um segundo murro. —Isso, milord, é por implicar que a Senhorita Cheever é algo menos que honorável. Turner semicerrou os olhos ameaçadoramente, mas decidiu que não teria nem a menor oportunidade contra o mordomo louco de Miranda, não quando já estava no extremo oposto a dois golpes atordoantes. —Diga à Senhorita Cheever — disse em tom mordaz — que retornarei e será melhor que me receba. — Saiu da casa e desceu os degraus dando furiosas pernadas. Absolutamente furioso porque a garota se negou categoricamente a vê‐lo, se virou para olhar para a casa. Ela estava de pé em uma janela aberta do andar superior, cobrindo a boca nervosamente com os dedos. Turner a olhou com o cenho franzido e então se deu conta que ainda estava sustentando a bolacha meio comida. A lançou com força através da janela, e bateu totalmente no meio do peito. Encontrou certa satisfação nisso. 24 DE AGOSTO DE 1819 OH, céus. Nunca enviei a carta, é obvio. Passei um dia inteiro redigindo‐a e justo quando estava pronta para enviá‐la, fez‐se desnecessária. Não soube se me regozijar ou se começava a chorar. E agora Turner está aqui. Deve ter tirado a verdade — ou melhor, dizendo, o que costumava a ser a verdade — de Olivia à força. De outra forma ela nunca teria me traído. Pobre Livvy. Podia ser aterrador quando ficava furioso. Coisa que, aparentemente, ainda estava. Atirou uma bolacha em mim. Uma bolacha! É algo difícil de compreender.


CAPÍTULO 14

Turner voltou duas horas mais tarde. Desta vez, Miranda estava esperando‐o. Abriu a porta dianteira de um puxão antes que ele pudesse sequer bater. Entretanto, ele nem mesmo vacilou, somente permaneceu ali com sua postura perfeita, o braço meio levantado, a mão formando um punho pronto para entrar em contato com a porta. —OH, pelo amor de Deus — disse irritada. — Entra. Turner arqueou as sobrancelhas. —Estava me esperando? —É obvio. E como sabia que não podia adiar por mais tempo, partiu para a sala de estar sem olhar para trás. Ele a seguiu. —O que quer? — Exigiu. —Que boas‐vindas tão agradáveis, Miranda — disse ele brandamente, estando agora limpo, engomado, arrumado, absolutamente cômodo e... OH! Desejava matá‐lo. — Quem esteve a ensinando boas maneiras? Atila o Huno? Ela fez chiar os dentes e repetiu a pergunta. —O que quer? —Vim casar contigo, é obvio. Era, é obvio o que Miranda esperou desde o primeiro momento em que o viu. E nunca em sua vida se sentiu tão orgulhosa de si mesma como quando disse: —Não, obrigada. —Não... Obrigada? —Não, obrigada — repetiu descaradamente. — Se isso for tudo, o acompanharei à porta. Mas quando tentou deixar o aposento, Turner a agarrou pelo pulso. —Não tão rápido. Podia fazê‐lo. Sabia que podia. Tinha seu orgulho e já não existia uma razão que a compelisse a casar com ele. E não deveria. Sem importar quanto doesse o coração, não poderia ceder. Ele não a amava. Nem sequer a apreciava o suficiente


para ter se comunicado com ela uma única vez no mês e meio que passou desde que estiveram juntos no pavilhão de caça. Era possível que se comportasse como um cavalheiro, mas certamente não era um. —Miranda — disse sedosamente, e soube que estava tentando seduzi‐la, não para levá‐la para cama, mas sim para obter sua conformidade. Ela tomou um profundo fôlego. —Veio até aqui, fez o correto e eu recusei. Já não tem nada porque se sentir culpado, assim pode retornar a Inglaterra com a consciência tranquila. Adeus, Turner. —Não acredito, Miranda — disse, apertando seu pulso. — Temos muitas coisas para discutir. —Hein, não muito na realidade. Não obstante, obrigada por sua preocupação. — O braço formigava no lugar onde ele a segurava e sabia que se quisesse manter sua resolução, deveria livrar‐se dele antes o possível. Turner fechou a porta com o pé. —Discordo. —Turner, não! — Miranda puxou o braço e tratou de ir para a porta para voltar a abri‐la, mas ele bloqueou seu caminho. — Esta é a casa dos meus avôs. Não os envergonharei com nenhum tipo de comportamento impróprio. —Diria que deveria preocupar‐se mais com a possibilidade de que escutem o que tenho a dizer. Ela deu uma olhada a sua expressão implacável e fechou a boca. —Muito bem. Diga o que for que tenha vindo dizer. Com um dedo, começou a desenhar preguiçosos círculos na palma da mão dela. —Estive pensando em você, Miranda. —Sério? Isso é muito adulador. Ele ignorou o tom sarcástico e se aproximou. —Não pensou em mim? OH, Deus querido. Se ele soubesse. —De vez em quando. —Somente de vez em quando? —Raramente. A puxou e deslizou a mão sinuosamente pelo braço.


—Quanto tão raramente? — Murmurou. —Quase nunca. — Mas sua voz estava suavizando e soava muito menos segura. —De verdade? — Arqueou uma sobrancelha assumindo uma expressão de incredulidade. — Acredito que toda esta comida escocesa confundiu sua mente. Esteve comendo Haggis? —Haggis? — Perguntou ela sem fôlego. Podia sentir que seu peito aliviava, como se o ar tivesse se convertido em algo intoxicaste, como se pudesse embebedar‐se somente respirando na presença dele. —Mmm—hmm. Acho que é uma comida horrível. —Não... Não é tão ruim. Do que ele estava falando? E por que estava olhando‐a dessa forma? Seus olhos pareciam safiras. Não, eram como o céu iluminado pela lua. OH, céus. Essa que saía voando pela janela era sua determinação? Turner sorriu indolentemente. —Sua memória é um pouco escorregadia, querida. Acho que necessita um aviso. — Os lábios dele desceram suavemente sobre os dela, estendendo rapidamente o fogo por todo seu corpo. Miranda se afrouxou contra ele, suspirando seu nome. Ele a apertou mais firmemente contra seu corpo, pressionando a força de sua ereção contra ela. —Pode sentir o que me faz? — Sussurrou. — Pode? Miranda assentiu trêmula, apenas consciente de que estava no meio do salão de seus avôs. —Somente você pode me deixar assim, Miranda — murmurou com a voz rouca. — Só você. Esse comentário alcançou uma corda discordante em seu interior e ficou rígida nos braços dele. Não acabava de passar mais de um mês em Kent com seu amigo Lorde Harry como—qualqer—que—seja—seu—sobrenome? E por acaso Olivia não lhe disse alegremente que as celebrações incluiriam vinho, uísque e mulheres? Mulheres fáceis. Um monte delas. —O que aconteceu querida? As palavras foram sussurradas contra sua pele e uma parte dela desejou voltar a derreter‐se contra ele. Mas não a seduziria. Não desta vez. Antes que


pudesse mudar de opinião, plantou as palmas das mãos contra o peito dele e o empurrou. —Não tente fazer isto comigo — advertiu. —Fazer o que? —Seu rosto era a imagem da inocência. Se Miranda tivesse um vaso nas mãos, o teria jogado nele. Ou melhor, ainda, uma bolacha meio comida. —Me seduzir até que me dobre a sua vontade. —Por que não? —Por que não? — Repetiu com incredulidade. — Por que não? Porque eu... —Porque você...Por que, o que? — Estava sorrindo agora. —Por que... Oh! — Fechou as mãos formando punhos aos lados do corpo e de fato golpeou o chão com o pé. O que a deixou ainda mais furiosa. Ser reduzida a isto... Era humilhante. —Bom, bom, Miranda. —Não me venha com "bom, bom" para o meu lado, seu altivo, despótico... —Está zangada comigo, já vejo. Ela semicerrou os olhos. —Sempre foi inteligente, Turner. Ele ignorou o sarcasmo. —Bom, aqui vai... Sinto muito. Nunca tive a intenção de permanecer tanto tempo em Kent. Não sei por que o fiz, mas assim foi e sinto muito. Estava programado para ser uma viagem de dois dias de duração. —Uma viagem de dois dias de duração que durou quase dois meses? — Zombou ela. — Desculpa se acho difícil de acreditar. —Não estive em Kent todo o tempo. Quando retornei a Londres, minha mãe disse que estava atendendo um familiar doente. Não foi até que Olivia retornou que soube que não era assim. —Não me importa quanto tempo esteve... Onde quer que tenha estado! — Gritou ela, cruzando firmemente os braços sobre o peito. — Não deveria ter me abandonado dessa forma. Posso entender que necessitava de tempo para pensar, porque sei que nunca quis casar comigo, mas, pelo amor de Deus, Turner. Precisava de sete semanas? Não pode tratar uma mulher dessa forma! É grosseiro, desconsiderado e... E francamente pouco cavalheiresco! Era isso o pior que lhe ocorria dizer a ele? Turner resistiu ao impulso de sorrir. Isto não seria nem a metade do ruim que pensou que seria. —Tem razão — disse brandamente.


—E mais ainda... O que? — Piscou. —Que tem razão. —Tenho? —Não quer ter razão? Ela abriu a boca, fechou e então disse: —Deixa de tentar me confundir. —Não estou fazendo isso. Caso não tenha notado, estou te dando razão. — Dedicou seu sorriso mais atraente. — Aceita minhas desculpas? Miranda suspirou. Deveria ser ilegal que um homem tivesse semelhante quantidade de encanto. —Sim, está bem. Aceito. Mas, o que — perguntou suspicaz, — estava fazendo em Kent? —Principalmente me embebedando. —Isso é tudo? —Um pouco de caça. —E? —E quando Winston chegou ali proveniente de Oxford, fiz o possível para evitar que se metesse em problemas. Essa tarefa me entreteve uma quinzena a mais, para que saiba. —E? —Está tentando me perguntar se havia mulheres lá? Ela afastou os olhos do rosto dele. —Talvez. —Sim. Miranda tratou de engolir o enorme nó que subitamente se formou em sua garganta e se colocou de lado para desocupar o caminho para a porta. —Acho que deveria ir — disse tranquilamente. Turner a segurou pela parte superior dos braços e a forçou a olhá‐lo. —Nunca toquei em nenhuma delas, Miranda. Nenhuma. A intensidade de sua voz foi suficiente para que ela sentisse vontade de chorar. —Por que não? — Sussurrou ela. —Sabia que ia casar contigo. Sei o que se sente ao ser traído. – Clareou a garganta. — Não te faria algo assim. —Por que não? — As palavras foram apenas um suspiro. —Porque me preocupo com seus sentimentos. E a tenho na mais alta estima. Separou‐se dele e caminhou para a janela. Era a primeira hora da tarde, mas durante o verão escocês os dias eram longos. O sol estava alto no céu, ás pessoas


ainda seguiam indo e vindo, terminando seus afazeres diários como se não tivessem nenhuma única preocupação no mundo. Miranda desejava ser uma dessas pessoas, desejava caminhar pela rua afastando‐se de seus problemas e nunca retornar. Turner queria casar‐se com ela. Tinha sido fiel. Deveria estar dançando de alegria. Mas não podia deixar de lado a sensação de que estava fazendo isto por obrigação, não por que sentisse amor ou afeto por ela. Além do desejo, é obvio. Estava absolutamente claro que a desejava. Uma lágrima desceu por seu rosto. Não era suficiente. Poderia ser, se ela não o amasse tanto. Mas isto... Era muito desigual. Lentamente a debilitaria, até que não fosse mais que uma triste e solitária casca. —Turner, eu... Eu aprecio o incomodo que teve ao vir até aqui para me ver. Sei que foi uma longa viagem. E foi realmente... — Procurou a palavra adequada. —... Honrável de sua parte se manter afastado de todas essas mulheres em Kent. Estou certa de que eram muito bonitas. —Nem a metade de sua beleza — sussurrou ele. Miranda engoliu compulsivamente. Isto estava ficando mais difícil com cada segundo que passava. Agarrou‐se ao parapeito da janela. —Não posso me casar contigo. Silêncio de morte. Miranda não se virou. Não podia vê‐lo, mas podia sentir a fúria emanando de seu corpo. Por favor, por favor, só saia do recinto, suplicou silenciosamente. Não venha até aqui. E por favor... OH, por favor, não me toque. Suas preces não foram atendidas e as mãos dele desceram brutalmente sobre seus ombros, fazendo‐a girar para enfrentá‐lo. —O que foi que disse? —Disse que não posso me casar contigo — replicou trêmula. Baixou o olhar ao chão. Seus olhos azuis estavam perfurando‐a com ardor. —Olhe para mim, maldita seja! No que está pensando? Deve se casar comigo. Negou com a cabeça. —Sua pequena tola. Miranda não sabia que dizer a isso, assim não disse nada. —Esqueceu disto? — A agarrou com força puxando‐a contra ele e saqueou seus lábios com os dele. — Esqueceu? —Não. —Então, esqueceu que disse que me amava? — Exigiu.


Miranda desejava morrer ali mesmo. —Não. —Isso deveria servir de algo — disse sacudindo‐a até que algumas mechas de cabelo saíram das forquilhas. — Não é assim? —Disse alguma vez que me amava? – Contra atacou ela. Ele a olhou emudecido. —Me ama? —Tinha as bochechas ardendo de fúria e vergonha. — Diga? Turner engoliu com força, subitamente sentindo que se afogava. As paredes pareciam mais próximas e não pôde dizer nada, não podia pronunciar as palavras que ela queria ouvir. —Já vejo — disse ela em voz baixa. Um músculo saltou espasmodicamente em sua garganta. Por que não podia dizer? Não estava seguro de amá‐la, mas tampouco estava seguro de não fazê‐lo. E certo como o inferno que não queria feri‐la, assim, por que simplesmente não dizia essas duas palavras que a fariam feliz? A Letícia havia dito que a amava. —Miranda — disse vacilante. — Eu... —Não diga se não sente! — Estalou, enfatizando as palavras com a voz. Turner girou sobre os calcanhares e cruzou o recinto para onde tinha visto uma garrafa de brandy. Havia uma garrafa de uísque na prateleira que estava debaixo desta e sem pedir permissão, serviu‐se de um copo. O tomou de um veemente gole, mas não o fez sentir muito melhor. —Miranda — disse, desejando que sua voz soasse um pouco mais firme. — Não sou perfeito. —Imaginava que seria! — Gritou. — Sabe quão maravilhoso foi para mim quando era pequena? E nem sequer se esforçava. Foi simplesmente... Simplesmente você. E fazia com que eu me sentisse como se não fosse essa coisinha torpe. E em seguida mudou, mas pensei que pudesse voltar a te mudar. E tentei, Oh, como tentei, mas não foi suficiente. Eu não fui suficiente. —Miranda, não é você... —Não invente desculpas para mim! Não pude ser o que necessitava e te odeio por isso! Está me ouvindo? Odeio você! — Esgotada, virou‐se e abraçou a si mesma, tratando de controlar os tremores que sacudiam seu corpo.


—Você não me odeia. — Sua voz era suave e estranhamente tranquilizadora. —Não — disse, afogando um soluço. — Não o odeio. Mas odeio Letícia. Se já não estivesse morta, eu mesma a mataria. — Ele elevou a comissura de sua boca formando um sorriso inclinado. —Faria lenta e dolorosamente. —Realmente tem uma veia maligna, menina — disse, oferecendo um sorriso satisfeito. Ela tentou sorrir, mas seus lábios se negaram a obedecê‐la. Houve uma longa pausa antes que Turner falasse outra vez. —Tentarei de fazê‐la feliz, mas não posso ser tudo o que você quer que seja. —Eu sei — disse amargamente. — Pensei que poderia, mas estava equivocada. —Mas mesmo assim podemos ter um bom casamento, Miranda. Melhor que a maioria. "Melhor que a maioria" podia significar unicamente que falariam um com outro ao menos uma vez ao dia. Sim, talvez pudessem ter um bom casamento. Bom, mas vazio. Não achava que conseguiria suportar viver com ele sem seu amor. Sacudiu a cabeça. —Maldição, Miranda! Deve se casar comigo! — Quando não atendeu seu estalo, gritou. — Pelo amor de Deus, mulher, está grávida do meu filho! Aí estava. Sabia que essa tinha que ser a razão de que tivesse viajado tão longe e com um propósito tão determinado. E por mais que apreciasse seu sentido da honra, mesmo que fosse um tanto tardio, não havia forma de ignorar o fato de que o bebê já não existia. Tinha sangrado e em seguida retornou seu apetite, e sua bacia voltou a recuperar seu uso habitual. A mãe dela tinha contado a respeito disso, disse que ocorreu com ela exatamente a mesma coisa duas vezes antes de ter Miranda e três vezes depois. Talvez tenha sido um assunto pouco adequado para uma jovenzinha que nem sequer tinha saído da sala de aula ainda, mas Lady Cheever sabia que estava morrendo e desejou passar a filha tanto conhecimento de sua feminilidade quanto fosse possível. Havia dito a Miranda que não se lamentasse se ocorresse o mesmo a ela, que sempre sentiu que esses bebês perdidos não estavam destinados a nascer. Miranda umedeceu os lábios e engoliu com força. E em seguida, em voz baixa e solene, disse:


—Não estou grávida. Estava, mas já não estou. Turner não disse nada. E logo: —Não acredito. Miranda ficou aturdida. —Desculpe? Ele deu um encolher de ombros. —Não acredito em você. Olivia disse que estava grávida. —Estava, quando Olivia esteve aqui. —Como sei que não está simplesmente tentando se desfazer de mim? —Porque não sou idiota — disse com brutalidade. — Pensa que recusaria me casar contigo se estivesse grávida? Turner pareceu considerar por um momento e logo cruzou os braços. —Bom, ainda assim sua virtude está comprometida, por isso se casará comigo. —Não — disse irônica. — Não o farei. —Oh, sim o fará — disse, com os olhos brilhando cruelmente. — Só que ainda não sabe. Separou‐se dele. —Não vejo como poderá me forçar. Ele deu um passo adiante. —Não vejo como poderá me deter. —Gritarei pedindo ajuda ao MacDownes. —Não acredito que o faça. —Farei. Juro. — Abriu a boca e então o olhou de lado para ver se compreendia sua advertência. —Vá em frente — disse, dando um encolher de ombros casualmente. — Desta vez não me pegará despreparado. —Mac... Pôs a mão sobre a boca com assombrosa velocidade. —Pequena tola. Além do fato de que não tenho nenhum desejo de que seu velho mordomo pugilista interrompa minha privacidade, parou para considerar que sua irrupção aqui só apressaria nosso matrimônio? Não quer ser apanhada em uma situação comprometedora, ou sim? Miranda resmungou algo contra a mão dele e logo lhe deu murros no quadril até que a afastou. Mas não voltou a gritar chamando MacDownes. Por muito que resistisse a admitir, ele tinha um pouco de razão.


—Então, por que não me deixou gritar? — Provocou. — Hmmm? Não é um matrimônio o que deseja? —Sim, mas pensei que poderia preferir entrar nele com um pouco de dignidade. Miranda não tinha uma resposta a isso, assim que cruzou os braços. —Agora quero que me escute — disse em voz baixa, tomando o queixo dela com a mão e forçando‐a a olhá‐lo. — E me escute com cuidado, porque só direi isto uma vez. Vai casar comigo antes que termine esta semana. Já que convenientemente fugiu para Escócia, não necessitamos uma licença especial. Tem sorte de que não a arraste a uma igreja neste preciso instante. Consiga um vestido e algumas flores porque, carinho, vai obter um novo nome. Ela o fulminou com um olhar mordaz, incapaz de pensar em nenhuma palavra adequada para expressar toda sua fúria. —E nem sequer pense em fugir outra vez — disse preguiçosamente. — Para sua informação, aluguei aposentos só a duas portas daqui e farei que vigiem a casa as vinte e quatro horas do dia. Não conseguirá chegar nem ao final da rua. —Deus — suspirou. — Ficou louco. Ele riu ante isto. —Pense nessa declaração, se quiser. Se trouxesse dez pessoas a este recinto e lhes explicasse que tomei sua virgindade, e pedi que se casasse comigo e você recusou a quem acha que consideraria louca? Estava tão encolerizada, que pensou que poderia explodir. —Não a mim! — Disse ele vivamente. — Agora seja otimista menina e olhe o lado bom. Faremos mais bebês e o passaremos esplendidamente bem os fazendo, prometo nunca bater em você, nem proibi‐la de fazer nada a não ser que seja algo absurdo e finalmente será irmã de Olivia. O que mais poderia desejar? Amor. Mas não pôde pronunciar a palavra. —Considerando tudo, Miranda, poderia te encontrar em uma situação muito pior. Continuou calada. —Muitas mulheres estariam encantadas de trocar de lugar contigo. Perguntou‐se se haveria alguma forma de apagar a expressão satisfeita de seu rosto sem lhe provocar um dano permanente. Ele se inclinou para frente sugestivamente.


—E posso prometer que estarei muito, muito atento as suas necessidades. Ela entrelaçou as mãos nas costas porque estavam começando a tremer pela frustração e ira. —Algum dia me agradecerá por isso. E isso foi muito. —Aaaaargh! — Gritou incoerentemente, lançando‐se contra ele. —Que demônios? — Turner se virou, tentando afastar ela e seus punhos dando golpes nele. —Nunca, nunca volte a dizer, "Algum dia me agradecerá por isso" — demandou, golpeando‐o furiosamente no peito. —Acalme‐se, querida. Prometo que nunca voltarei a usar esse tom condescendente contigo. —Está usando agora — assegurou‐a. —Não, não é assim. —Sim, estava. —Não, não estava. —Sim, estava. Bom Deus, isto estava ficando entediante. —Miranda, nós estamos agindo como crianças. Ela pareceu crescer e seus olhos adquiriram um olhar selvagem que deveria ter lhe causado temor. Sacudindo a cabeça cuspiu: —Não me importa. —Bom, talvez se começar a agir como uma adulta deixará de falar no que você chama de tom condescendente. Ela semicerrou os olhos, e grunhiu do fundo da garganta. —Sabe de uma coisa, Turner? Às vezes age como um completo imbecil. Dizendo isto, formou um punho com a mão, puxou o braço para trás e o deixou voar. —Santo maldito inferno! —Turner levou a mão ao olho e tocou a ardente pele sem poder acreditar. — Quem demônio te ensinou a dar um soco? Miranda sorriu satisfeita. —MacDownes. 24 DE AGOSTO DE 1819— MAIS TARDE ESSA NOITE


MacDownes informou à vovó e vovô que hoje recebi uma visita e eles prontamente adivinharam quem era ele. Vovô balbuciou perto de dez minutos a respeito de como poderia esse filho de algo que é impossível escrever, aparecer por aqui, até que finalmente vovó o acalmou e perguntou por que tinha vindo. Não posso mentir para eles. Nunca fui capaz de fazê‐lo. Disse‐lhes a verdade... Que tinha vindo para casar‐se comigo. Reagiram com grande alegria e até com grande alívio até que disse que o recusei. Vovô se lançou a outra surriada, só que desta vez o objetivo era eu, e minha falta de sentido comum. Ou ao menos acredito que isso foi o que disse. É das Highlands, e embora fale o inglês do Rei com um acento perfeito, seu acento escocês se faz evidente cada vez que está perturbado. Estava, para dizer o menos, particularmente perturbado. Assim agora estou com eles três aliados contra mim. Receio que é provável que esteja liderando uma batalha perdida.

CAPÍTULO 15

Dada a oposição contra ela, foi extraordinário que Miranda resistisse tanto tempo como fez que foram três dias. Sua avó lançou o ataque, utilizando a abordagem doce e sensata. —Bom minha querida — havia dito. — Entendo que Lorde Turner esteve talvez um pouquinho lento em seus cuidados, mas cumpriu com os requisitos e bem, você fez... —Não precisa dizer — tinha replicado Miranda, avermelhando freneticamente. —Bem, fez. —Eu sei. Que o céu caísse sobre ela. Raramente podia pensar em algo mais. —Mas realmente, doçura, o que há de errado o visconde? Parece um homem bastante agradável e nos assegurou que será capaz de manter e cuidar de você apropriadamente. Miranda apertou os dentes. Turner se deteve na tarde anterior para apresentar‐se a seus avôs. Crédulo em obter que sua avó se apaixonasse por ele em menos de uma hora. Aquele homem devia ser afastado das mulheres de


qualquer idade. —E eu o acho tão atraente, — continuou sua avó. —Você não acha? É claro que eu penso. Afinal, ele não é o tipo de homem que algumas pensam que é bonito e outras não. Ele é o tipo que todo mundo acha atraente. Você não concorda? Miranda estava de acordo, mas não ia dizer. —É obvio de aparência agradável é como ser atraente e tanta gente de aparência agradável tem mentes deformadas. Miranda nunca ia igualar aquilo —Mas parece ter a cabeça em seu lugar e é bastante afável, também. Pensando bem, podia fazer muito pior. —Quando sua neta não replicou, disse com inusitada severidade. — E não acredito que consiga melhor. Isso ardia, mas era verdade. Ainda assim, Miranda disse — Poderia ficar solteira. Posto que sua avó não contemplasse aquilo como uma opção viável, não o dignificou com uma resposta. —Não estou falando de seu título — disse severamente. — Ou sua fortuna. Seria um bom partido se não tivesse um centavo. Miranda encontrou uma forma de responder que implicava um som evasivo, uma leve sacudida de cabeça, girá‐la um pouquinho e encolher os ombros brevemente. E aquilo, esperava, seria tudo. Mas não foi. O final não estava nem muito menos à vista. Turner empreendeu o seguinte assalto para tentar apelar a sua natureza romântica. Grandes buques de flores chegavam a cada duas horas ou assim, cada um com uma nota dizendo "Case‐se comigo, Miranda" Miranda fez o que pôde para ignorá‐los, o que não foi fácil, porque logo encheram cada canto da casa. Ele fez grandes avanços com sua avó, entretanto, quem estava empenhada em seu propósito de ver Miranda casada com o encantador e generoso visconde. Seu avô tentou depois, sua estratégia foi muito mais agressiva. —Pelo amor de Deus, moça! — Rugiu — perdeu a cabeça? Já que Miranda não estava exatamente segura de conhecer a resposta a essa pergunta, não replicou. Turner voltou de novo, desta vez cometendo um engano tático. Enviou uma nota dizendo "A perdôo por me bater". A princípio Miranda ficou furiosa. Era aquele tom condescendente o que a fez dar um murro nele em primeiro lugar. Depois reconheceu pelo que era... Uma tenra advertência. Ele não ia resistir sua teimosia muito mais tempo. No segundo dia do assédio, ela decidiu que necessitava um pouco de ar fresco... Na realidade, o aroma de todas aquelas flores era verdadeiramente


enjoativo... Assim Miranda pegou seu chapéu e se dirigiu para o Jardim de Queen Street. Turner começou a segui‐la imediatamente. Não estava brincando quando lhe disse que sua casa estava sendo vigiada. Não tomou o incomodo de mencionar, entretanto, que não havia contratado profissionais para fazer a guarda. Seu pobre e atormentado ajudante de quarto foi que teve aquela honra, e após oito horas consecutivas olhando fixamente pela janela, ficou muito aliviado quando a dama em questão finalmente saiu, e ele pôde abandonar seu posto. Turner sorriu enquanto Miranda percorria o caminho ao parque com rápidos e eficientes passos, depois franziu o cenho quando se deu conta de que não levava uma donzela com ela. Edimburgo não era tão perigoso como Londres, mas sem dúvida uma gentil dama não se aventurava pela rua sozinha. Este tipo de comportamento deveria cessar uma vez que estivessem casados. E eles se casariam. Fim da discussão. Ele ia, não obstante, ter que abordar este assunto com certo grau de sutileza. Em retrospectiva, a nota expressando seu perdão provavelmente foi um engano. Demônio soube que a incomodaria inclusive enquanto a escrevia, mas não pareceu ajudá‐lo. Não quando, cada vez que se olhava no espelho, era saudado por seu olho roxo. Miranda entrou no parque e andou a passos largos durante vários minutos até que encontrou um banco desocupado. Sacudiu o pó, sentou‐se e tirou um livro da bolsa que levou com ela. Turner sorriu desde sua vantajosa posição cinqüenta metros mais longe. Gostava de olhá‐la. Surpreendeu‐se de como se sentia contente simplesmente ficando ali sob uma árvore, vendo‐a ler um livro. Seus dedos se arqueavam delicadamente enquanto ela passava cada página. Teve uma repentina visão dela sentada atrás da escrivaninha da sala anexa a seu quarto em sua casa de Northumberland. Estava escrevendo uma carta, provavelmente a Olivia e sorrindo enquanto relatava os acontecimentos do dia. De repente Turner se deu conta de que este matrimônio não só era o correto, era, além disso, uma boa coisa e ele seriam totalmente feliz com ela. Assobiando baixinho, passeou devagar para onde ela estava sentada e se deixou cair ruidosamente perto dela. —Olá, princesa. Ela levantou a vista e suspirou, pondo os olhos em branco ao mesmo tempo. —Oh, é você.


—Decididamente espero que ninguém mais empregue palavras carinhosas contigo. Ela fez uma careta enquanto contemplava seu rosto. —Sinto sobre seu olho. —Oh, já te perdoei por isso, se você não se lembra. Ela ficou rígida. —Lembro. —Sim — murmurou ele. — Estava inclinado a acreditar que o faria. Ela esperou durante um momento, mais provavelmente por esquecê‐lo. Depois voltou intencionadamente ao livro e anunciou. —Estou tentando ler. —Percebi. Muito bom para você, sabe. Eu gosto de uma mulher que educa sua mente. — Recolheu o volume de seus dedos e o girou para ler o titulo. — Orgulho e Preconceito. Esta gostando? —Estava. Ele ignorou seu dardo enquanto dava uma olhada à primeira página, mantendo a folha com o dedo indicador. —É uma verdade universalmente conhecida — leu em voz alta — que um simples homem em posse de uma boa fortuna deve procurar esposa. Miranda tentou recuperar o livro, mas ele o moveu para fora de seu alcance. —Hmm — refletiu. — Um pensamento interessante. Sem dúvida alguma eu estou procurando uma esposa. —Vá pra Londres — replicou ela. — Encontrará um monte de mulheres lá. —E estou em posse de uma boa fortuna. — Inclinou‐se para diante e sorriu abertamente. — Só em caso de que não tenha se dado conta. —Não posso dizer como me tranqüiliza saber de que você nunca passará fome Ele riu entre dentes. —OH, Miranda, por que não renuncia simplesmente? Não pode ganhar desta vez. —Não acho que haja muitos sacerdotes que casem um casal sem o consentimento da mulher. —Você consentirá — disse ele em um tom agradável. —OH? —Você me ama, lembra? A boca de Miranda se esticou. —Isso foi muito tempo atrás.


—O que, dois, três meses? Não faz tanto. Voltará a amar. —Não da forma em que está agindo. —Que língua mais afiada — disse ele com um malicioso sorriso. E depois se inclinou para frente. — Para que saiba, é uma das coisas que mais gosto em você. Ela teve que flexionar os dedos para se segurar e não colocá‐los ao redor do pescoço dele. —Acho que estou farta do ar fresco — anunciou ela, segurando o livro com força contra o peito enquanto se levantava. — Vou para casa. Ele se levantou imediatamente. —Então a acompanharei, Lady Turner. Ela deu a volta. —Do que acaba de me chamar? —Só provava o nome — murmurou ele. — Fica muito bem, acredito. Deveria se acostumar a isso o mais rápido possível. Miranda sacudiu a cabeça e reatou o caminho a casa. Ela tentou manter uns poucos passos a frente dele, mas as pernas dele eram mais longas e não teve dificuldade em seguir com ela. —Eu não gosto de como soa. —Isso é uma mentira, assim não conta. Ela pensou durante poucos segundos, ainda caminhando tão rápido como podia. —Não necessito seu dinheiro. —É obvio que não. Olivia me disse no ano passado que sua mãe te deixou um pequeno legado. Suficiente para viver. Mas é um pouco curto de idéias recusar se casar com alguém porque não deseja ter mais dinheiro, não acha? Ela chiou os dentes e seguiu caminhando. Chegaram aos degraus que levavam a casa de seus avôs e Miranda subiu. Mas antes que pudesse entrar, a mão de Turner estava sobre seu pulso com pressão suficiente para lhe assegurar que ele tinha perdido a frivolidade. E, contudo estava ainda sorrindo quando disse. —Vê? Nenhuma simples razão. Ela deveria estar nervosa. —Talvez não — disse com muita frieza — mas não há razão para fazê‐lo. —Sua reputação não é uma razão? — Perguntou ele brandamente. Os olhos dela encontraram os dele com cautela. —Mas minha reputação não está em perigo. —Não está?


Ela tomou fôlego —Não o faria. Ele deu um encolher de ombros, um minúsculo movimento que enviou um calafrio por sua coluna. —Geralmente não sou descrito como desumano, mas não me subestime, Miranda. Casarei contigo. —Por que quer ainda? — Gritou ela. Ele não tinha que fazer isso. Ninguém estava obrigando‐o. Miranda praticamente lhe devotou uma saída em bandeja de prata. —Sou um cavalheiro — resmungou ele entre dentes — cuido dos meus pecados. —Sou um pecado? — Sussurrou ela. Já que o ar tinha sido arrancado de seus pulmões, tudo o que pôde emitir foi um suspiro. Permaneceu de pé frente a ela, olhando‐a tão incômodo como nunca o tinha visto. —Não deveria ter seduzido você, deveria ter tido melhor critério. E não deveria ter abandonado‐a durante tantas semanas seguidas. Para isto não tenho desculpa, salvo meus próprios defeitos. Mas não permitirei que minha honra seja destroçada. — E você se casará comigo. —Você me quer ou quer sua honra? — Sussurrou ela. Ele a olhou como se ela se tivesse perdido uma lição importante. E então disse. —É o mesmo. 28 AGOSTO 1819 Casei com ele. Foi um casamento pequeno. Minúsculo, na realidade. Os únicos convidados foram os avôs de Miranda, a esposa do vigário e, ante a insistência de Miranda, MacDownes. Por empenho do Turner, partiram para seu lar em Northumberland diretamente depois da cerimônia, o que, também por insistência dela, foi celebrada há uma hora terrivelmente adiantada assim poderia sair à boa hora para retornar a Roseadle, a reitoria da época da Restauração que o novo casal chamaria de lar. Depois que Miranda se despediu, ele a ajudou a subir na carruagem,


demorando com as mãos na cintura dela antes que ela lhe desse um empurrão. Uma estranha e desconhecida emoção o invadiu, e Turner estava ligeiramente confuso para dar‐se conta de que estava contente. Casar‐se com Letícia foi muitas coisas, menos pacífico. Turner havia entrado naquela união com um vertiginoso apresso de desejo e excitação que se tornou rapidamente em um desencantado e entristecedor sentido de perda. E quando aquilo terminou tudo o que restou foi raiva. Gostava bastante da idéia de estar casado com Miranda. Podia depositar sua confiança nela. Nunca o trairia, com seu corpo ou com suas palavras. E embora ele não sentisse a obsessão que sentiu com Letícia, desejava‐a com uma intensidade que ainda assim não podia acreditar totalmente. Cada vez que a via, sentia seu cheiro, escutava sua voz... A queria. Queria pôr a mão em seu braço, sentir o calor de seu corpo. Queria arrastá‐la para perto, absorvê‐la enquanto cruzavam os caminhos. Cada vez que fechava os olhos, voltava até o pavilhão de caça, cobrindo o corpo dela com o seu impulsionado por algo poderoso dentro dele, algo primitivo e possessivo, e francamente um pouquinho selvagem. Ela foi dele. E seria outra vez. Entrou na carruagem detrás dela e se sentou no mesmo lado, embora não diretamente junto a ela. Não queria nada mais que acomodar‐se a seu lado e pô‐la em seu colo, mas sentia que ela necessitava um pouco de tempo. Ficariam muitas horas na carruagem naquele dia. Podia permitir‐se tomar seu tempo. Observou‐a durante vários minutos enquanto a carruagem se afastava de Edimburgo. Ela estava apertando com força as dobras de seu vestido de casamento cor verde menta. Os nódulos estavam ficando branco, um testemunho de seus tensos nervos. Duas vezes, Turner estendeu a mão para tocá‐la, depois se conteve inseguro de se sua proposta seria bem‐vinda. Depois de poucos minutos, não obstante, disse suavemente. —Se quiser gritar, não a julgarei. Ela não se virou. —Estou bem. —Esta? Ela engoliu. —É obvio, acabo de me casar não? Não é o que toda mulher quer? —É o que você quer?


—É um pouco tarde para preocupar‐se com isso agora, não acha? Ele sorriu com ironia. —Não sou tão horroroso, Miranda. Ela soltou uma nervosa gargalhada. —É obvio que não. Você é o que eu sempre quis. Isso é o que esteve me dizendo durante dias, não foi? Sempre te amei. Achou‐se desejando que as palavras dela não tivessem um tom tão zombador. —Venha aqui — disse ele, agarrando‐a pelo braço e arrastando‐a para seu lado da carruagem. —Eu gosto de ficar aqui... Espere. Oh! Ela estava firmemente apertada contra seu flanco, o braço dele era uma barra de aço a seu redor. —Isto é muito melhor, não acha? —Agora não posso ver pela janela — disse ela amargamente. —Não há nada que não tenha visto antes. — Afastou a cortina e deu uma olhada lá fora. — Pode ver mar, árvores, pasto, uma cabana ou duas. Tudo coisas bastante vulgares. —Tomou a mão na dele e ociosamente lhe acariciou os dedos. — Você gostou do anel? — Perguntou. — É algo simples, eu sei, mas as alianças de ouro simples são um costume em minha família. A respiração de Miranda se acelerou enquanto as mãos ficavam enfraquecidas por suas carícias —É lindo. Eu... Não queria nada ostentoso. —Não achei que quisesse. Você é uma criaturinha bastante elegante. Ela ruborizou, dando voltas com nervosismo no anel ao redor de seu dedo. —OH, mas é Olivia quem escolhe todos meus modelos. —Tolices. Estou seguro de que não a deixaria escolher nada chamativo ou estridente. Miranda o olhou de soslaio. Estava sorrindo brandamente, quase com benevolência, mas seus dedos estavam fazendo coisas eróticas em seu pulso, enviando palpitações e faíscas até seu coração. E então levantou a mão até sua boca, pressionando um irresistivelmente suave beijo na parte interna do pulso. —Tenho outra coisa para você — murmurou. Ela não se atrevia a olhá‐lo outra vez. Não se quisesse manter sequer um farrapo de compostura. —Vire‐se — ordenou ele com suavidade. Pôs dois dedos sob seu queixo e inclinou seu rosto para ele. Rebuscando em seu bolso, extraiu uma caixa de


jóias recoberta de veludo. — Com toda a pressa desta semana, esqueci te dar um anel de compromisso adequado. —OH, mas isso não é necessário. — Disse ela rapidamente, não querendo dizer na realidade. —Cale‐se princesa — disse ele com um sorriso zombador. — E aceite seu presente com elegância. —Sim, senhor — murmurou ela, tirando a tampa da caixa. Dentro reluzia um diamante de corte oval e emoldurado por duas pequenas safiras. — É lindo, Turner ‐ sussurrou ela. — Combina com seus olhos. —Essa não era minha intenção, lhe garanto — disse ele com voz rouca. Tirou o anel da caixa e o deslizou no fino dedo. — Encaixa? —Perfeitamente. —Está segura? —Muito segura, Turner. Eu... Obrigada. É muita consideração. Antes que ela pudesse falar mais disso, inclinou‐se e lhe deu um rápido beijo na bochecha. Ele capturou seu rosto com as mãos. —Não serei um marido tão terrível, você verá. — Aproximou o rosto até que seus lábios acariciaram os dela em um delicado beijo. Ela se inclinou para ele, seduzida por sua afabilidade e os suaves murmúrios de sua boca. — Tão suave — sussurrou ele, tirando as forquilhas do cabelo dela até que pôde deslizar as mãos através dele. — Tão suave, e tão doce. Nunca sonhei... Miranda arqueou o pescoço para permitir um melhor acesso dos lábios. —Nunca vez sonhou o que? Ele moveu os lábios ligeiramente através do pescoço dela. —Que você seria assim. Que eu te desejaria assim. Que isto poderia ser assim. —Eu sempre soube. Sempre soube. As palavras escaparam antes que pudesse considerar a sabedoria de dizê‐las, e depois decidiu não preocupar‐se. Não quando ele estava beijando‐a assim, não quando sua respiração estava saindo em ofegos irregulares juntado com os dela mesma. —É tão inteligente — murmurou ele. — Deveria tê‐la escutado há muito


tempo. Começou a afrouxar o vestido dos ombros, depois pressionou os lábios contra a parte alta de seus seios e o fogo disso demonstrou ser muito para Miranda. Arqueou para baixo contra ele, e seus dedos foram aos botões do vestido, ela não ofereceu resistência. Em segundos, seu vestido deslizou para baixo e a boca dele encontrou a ponta de seu seio. Miranda gemeu pela surpresa e o prazer. —OH, Turner, eu... — Suspirou. — Mais... —Uma ordem que eu estou encantado em obedecer. — Os lábios se moveram ao outro seio, onde repetiram a mesma tortura. Ele beijou e sugou, e todo o tempo, suas mãos vagavam. No alto de sua perna, ao redor de sua cintura... Era como se estivesse tentando marcá‐la, marcá‐la para sempre como dele. Sentiu‐se lasciva. Sentiu‐se feminina. E sentiu uma necessidade que queimava desde algum estranho, acalorado lugar, profundo dentro dela. —Amo você — disse ela em voz baixa, os dedos enterrados no cabelo dele. — Quero... —Os dedos dele se passearam mais acima, para sua mais sensível carne.— Quero isso. Ele riu entre dentes contra seu pescoço. —Ao seu serviço, Lady Turner. Ela nem sequer teve tempo de surpreender‐se por seu novo nome. Ele estava fazendo algo, Deus querido, nem sequer sabia o que e tudo o que podia fazer era não gritar. E então ele afastou, não os dedos; ela o teria matado se tivesse tentado, mas sim sua cabeça, apenas o suficiente longe para baixar o olhar até ela com um delicioso sorriso. —Sei outra coisa que você gostará. — Zombou. Os lábios de Miranda se separaram com entrecortada surpresa enquanto ele afundava os joelhos no chão da carruagem. —Turner? — Sussurrou, porque sem dúvida ele não poderia fazer nada dali debaixo. Sem dúvida ele não poderia... Ela ofegou enquanto a cabeça dele desaparecia sob suas saias. Depois ofegou outra vez quando o sentiu quente e exigente, beijando um atalho ao longo de sua coxa.


E depois não houve mais dúvidas de sua intenção. Seus dedos, os que tinham estado fazendo tão magnífico trabalho excitando‐a, mudaram de posição. Estava mantendo‐a aberta, ela violentamente se deu conta, separando‐a, preparando‐a para... Seus lábios. Depois daquilo houve muito pouco pensamento racional. Tudo o que havia sentido a primeira vez, e a primeira vez foi muito boa, de fato, não era nada comparado com isto. A boca era malvada e ela estava enfeitiçada. E quando ela parecia despedaçada, era com cada pingo de seu corpo, cada gota de sua alma. Céu pensou tentando encontrar o fôlego desesperadamente. Como podia alguém sobreviver a algo como isto? O sorridente rosto de Turner apareceu de repente diante dela. —Seu primeiro presente de casamento — disse ele. —Eu... Eu... —Obrigada será suficiente — disse ele, descarado como sempre. —Obrigada — sussurrou ela. Ele a beijou brandamente na boca. —De nada. Miranda o observou enquanto ele arrumava o vestido, cobrindo‐a cuidadosamente e acabando com uma platônica carícia no braço. Sua paixão parecia ter esfriado completamente, enquanto que ela ainda se sentia como se uma chama estivesse lambendo‐a de dentro para fora. —Você não... Er não há... Um irônico sorriso tocou seus traços. —Não há nada que queira mais, a menos que queira sua noite de núpcias em uma carruagem em movimento, encontrarei uma forma de me abster. —Isso não foi uma noite de núpcias? —Perguntou ela duvidosamente. Ele sacudiu a cabeça. —Só um pequeno prazer para você. —OH. Miranda estava tentando recordar por que foi contra o casamento tão ferozmente. Uma eternidade de pequenos prazeres soava bastante delicioso. Com o corpo esgotado, sentia uma frouxidão descendo sobre ela, e se acomodou sonolenta ao lado dele. —Faremos de novo? — Resmungou ela, enrolando‐se na suavidade dele. —OH, sim — murmurou sorridente enquanto a observava dormir. — Prometo isso.


CAPÍTULO 16

Roseadle era, para os níveis aristocráticos, de dimensões modestas. A cálida e elegante casa tinha estado na família Bevelstoke durante várias gerações, e era costume para o filho mais velho usá‐la como sua casa senhorial antes de se tornar conde e a mais magnífica Haverbreaks. Turner amava Roseadle, amava suas paredes simples de pedra e torre ameada. E sobre tudo, amava a paisagem selvagem, domesticado só pelas centenas de rosas que haviam sido plantadas com abandono ao redor da casa. Chegaram bem tarde na noite, tendo parado para um relaxado almoço perto da fronteira. Miranda adormeceu fazia muito, advertiu que o movimento da carruagem sempre a deixava sonolenta, mas Turner não se importou. Gostava da tranquilidade da noite, com apenas os sons dos cavalos, a carruagem e o vento no ar. Gostava da luz da lua, que chegava pelas janelas. E gostou de jogar uma olhada a nova esposa, que não era nada elegante em seu sono... Sua boca estava aberta, e a verdade seja dita, roncava um pouco. Mas gostou. Não sabia por que, mas assim era. E gostou de saber. Desceu da carruagem, colocou um dedo sobre seus lábios quando uma das escoltas se aproximou para ajudar, logo atraiu Miranda e a tomou nos braços. Nunca tinha ido a Roseadle, embora não ficasse longe dos Lagos. Esperou que chegasse a gostar como ele. Pensou que o faria. Conhecia‐a bem, estava começando a compreendê‐la. Não estava seguro de quando ocorreu, mas podia olhar algo e pensar, Miranda gostaria disto. Turner parou em seu caminho a Escócia e os criados foram instruídos para ter a casa pronta. Estava, embora não tivesse mandado recado sobre a exata data da chegada, portanto, o pessoal não estava reunido para apresentar‐se ante a nova viscondessa. Turner se alegrou disto; não iria querer despertar Miranda. Quando entrou em seu quarto, notou agradecido que o fogo estava ardendo na lareira. Poderia ser agosto, mas as noites de Northumberland tinham um frio característico. Enquanto colocava Miranda suavemente sobre a cama, um par de lacaios trouxe sua exígua bagagem. Sussurrou ao mordomo que sua nova esposa poderia conhecer o pessoal pela manhã, ou talvez pela tarde, e logo fechou a porta.


Miranda, que tinha passado do ronco ao balbuciou intranquilo, mudou de posição e aproximou um travesseiro do peito. Turner voltou para seu lado e sussurrou brandamente em seu ouvido. Pareceu reconhecer sua voz no sono; soltou um suspiro satisfeito e imediatamente virou. —Não durma justo agora — murmurou. — Vou livrá‐la destas roupas. — Ela estava de lado, por isso começou a trabalhar nos botões que desciam pelas costas. — Pode se mantiver sentada só um momento? Assim posso tirar seu vestido? Como uma criança sonolenta, permitiu que a sentasse. —Onde estamos? — Bocejou não totalmente acordada. —Roseadle. Seu novo lar. — Moveu as saias mais acima dos quadris de modo que pudesse tirá‐la pela cabeça. —Oh! É agradável. — Caiu para trás sobre a cama. Ele riu indolentemente e lutou para sustentá‐la. —Só outros poucos segundos. — Com um hábil movimento, tirou o vestido pela cabeça, deixando‐a vestida com a camisa. —Bom — murmurou Miranda, tratando de arrastar‐se sob os lençóis. —Não tão rápido. — Apanhou seu tornozelo. — Aqui não dormimos com roupa. A camisa se uniu ao vestido no chão. Miranda, mal compreendendo que estava nua, aninhou‐se finalmente sob os lençóis, suspirou com total satisfação e rapidamente caiu no sono. Turner riu em silêncio e sacudiu a cabeça quando observou a esposa. Tinha notado antes que seus cílios eram tão longos? Talvez só fosse a luz da vela. Também estava cansado, assim se despiu com movimentos rápidos e eficientes e se arrastou para a cama. Ela estava deitada de lado, enroscada como uma criança, assim estendeu um braço a seu redor e a atraiu ao centro da cama, onde ele poderia aconchegar‐se contra seu calor. A pele dela era insuportavelmente suave e ociosamente deslizou a mão sobre o estômago. Algo que deve ter feito cócegas, já que soltou um suave gemido e virou. —Tudo vai ficar bem — sussurrou ele. Eles tinham o afeto e a atração, e isto era mais do que tinham muitos casais. Inclinou‐se para frente para beijar a sonolenta boca, delineando seu contorno ligeiramente com sua língua. Suas pálpebras bateram asas. —Você deve ser a Bela Adormecida do bosque — murmurou. —


Despertada por um beijo. —Onde estamos? — Perguntou sua voz atordoada. —Em Roseadle. Já me perguntou isso. —Sim? Não lembro. Totalmente incapaz de conter‐se, inclinou‐se e a beijou outra vez. —Ah! Miranda é muito doce. Soltou um pequeno suspiro de satisfação pelo beijo, mas era óbvio que estava tendo problemas para manter suas pálpebras abertas. —Turner? —Sim, princesa? —Sinto muito. —O que lamenta? —Sinto muito. Só não posso... Isto é, estou tão cansada. — Bocejou. — Não posso cumprir com meu dever. Ele riu ironicamente quando a envolveu entre seus braços. —Shhh — sussurrou, inclinando‐se para beijar a têmpora dela. — Não pense nisso como um dever. É muito esplêndido para isso. E não sou tão canalha para forçar uma mulher que está esgotada. Temos tempo de sobra. Não se preocupe. Mas ela já estava dormindo. Roçou os lábios contra seu cabelo. —Temos uma vida inteira. Miranda despertou a primeira hora da manhã seguinte, soltando um imenso bocejo quando abriu os olhos. A luz do dia se filtrava pelas cortinas, mas definitivamente não era o sol o que fazia que a cama fosse tão acolhedora e quente. O braço de Turner caiu sobre sua cintura em algum momento durante a noite, e estava aconchegada contra ele. Senhor, o homem irradiava calor. Escorregou ao redor para permitir uma melhor vista dele enquanto dormia. Seu rosto sempre mostrava um encanto juvenil, mas dormindo o efeito se acentuava. Parecia um anjo perfeito, sem um rastro do cinismo que às vezes enchia seus olhos. —Temos que agradecer Letícia por isso — murmurou Miranda suavemente, tocando sua bochecha. Ele se revolveu, resmungando algo em seu sono. —Não ainda, meu amor — sussurrou, sentindo‐se bastante valente para usar


palavras carinhosas quando sabia que não podia ouvi‐la. — Eu gosto de vê‐lo dormir. Turner dormia e o escutava respirar. Isto era o céu. Finalmente se mexeu o corpo se alongando a caminho de despertar antes que levantassem as pálpebras. E logo ali estava ele, olhando‐a com olhos sonolentos, sorrindo. —Bom dia — disse aturdido. —Bom dia. Bocejou. —Faz muito que está acordada? —Só um pouquinho. —Está com fome? Poderia fazer subir algo para tomarmos café da manhã. Ela sacudiu a cabeça. Ele bocejou outra vez e em seguida riu dela. —Está muito rosada pela manhã. —Rosada? — Não podia evitar ficar intrigada. —Mmm, mmm. Sua pele... Resplandece. —Não. —Sim. Confie em mim. —Minha mãe sempre me dizia para que suspeitasse do homem que dissesse: "Confie em mim". —Sim, bom, sua mãe nunca me conheceu muito bem — disse sem pensar. Tocou os lábios dela com o indicador. — Estão rosados, também. —De verdade? — Perguntou ela em um fôlego. —Mmm, mmm! Muito rosados. Mas acho que não tão rosados como algumas outras partes tuas. Miranda ficou absolutamente corada. —Estas, por exemplo — murmurou, roçando as palmas sobre os mamilos. A mão rodou e suavemente a cavou na bochecha dela. — Estava muito cansada ontem à noite. —Sim, estava. —Muito cansada para atender alguns assuntos importantes. Ela engoliu nervosamente, tratando de não soltar um pequeno gemido enquanto a mão dele se arrastava brandamente por suas costas. —Acho que é o momento de consumar este matrimônio — murmurou ele, os lábios quentes e perversos em seu ouvido. E logo a impulsionou contra ele, e


ela compreendeu quanto logo queria cuidar do assunto. Miranda lhe dirigiu um sorriso cheio de humor. —Cuidamos bastante disso, faz algum tempo. Um pouquinho antes de tempo, se você não se lembra. —Não conta — disse alegremente, agitando‐a com seu comentário. — Não estávamos casados. —Se não contasse, não estaríamos casados. Turner admitiu o argumento com um sorriso libertino. —Ah, bem, creio que tem razão. Mas tudo se resolveu ao final. Depois pode se zangar comigo por ser tão tremendamente viril. Miranda poderia ser bastante inocente, mas sabia o suficiente para arregalar os olhos ante isto. Não poderia mencionar, entretanto, quando a mão dele se moveu para seus seios e fez algo à ponta que ela poderia jurar que sentiu entre suas pernas. Sentiu‐se deslizar, pegar o travesseiro e pôr sobre suas costas, sentiu‐se escorregadia por dentro, além disso, com cada toque parecia derreter outra polegada de seu corpo. Ele beijou seus seios, seu estômago, suas pernas. Parecia não haver nenhuma parte dela que não o interessasse. Miranda não sabia o que fazer. Recostou‐se sob a exploração das mãos e boca, retorcendo‐se e gemendo quando as sensações começaram a afligi‐la. —Você gosta assim? — Murmurou Turner, enquanto examinava a parte de trás de seu joelho com os lábios. —Eu gosto de tudo — ofegou ela. Moveu‐se pegando a sua boca e deixou cair um beijo sobre ela. —Não posso te dizer quanto me agrada ouvi‐la dizer isto. —Isto não pode ser apropriado. Ele sorriu abertamente. —Não menos que o que fiz na carruagem. Ela ficou vermelha com a lembrança, logo mordeu o lábio para impedir de pedir que fizesse outra vez. Mas ele leu sua mente, ou ao menos seu rosto e soltou um ronrono de prazer enquanto beijava um caminho ao longo do corpo em direção a sua feminilidade. Seus lábios tocaram primeiro o interior de uma coxa, logo a outra.


—OH, sim! — Suspirou ela, além da vergonha agora. Não se preocupou se isso a fazia parecer uma maliciosa descarada. Somente queria o prazer. —Tão doce — murmurou ele, e colocou uma de suas mãos sobre o suave pêlo e a abriu ainda mais. O fôlego quente lhe tocou a pele, e esticou as pernas, ainda quando sabia que queria isto. — Não, não, não — disse, com regozijo na voz quando gentilmente as separou. Em seguida se inclinou e beijou aquela parte mais sensível de carne. Miranda, incapaz de dizer algo coerente, chiou ante a absoluta sensação de seus beijos. Era prazer ou dor? Não estava segura. Suas mãos, que haviam se fechado em punhos aos lados, voaram à cabeça de Turner e se enredaram em seu cabelo. Quando seus quadris começaram a retorcer‐se debaixo ele, ele fez um movimento como se fosse levantar, mas suas mãos sustentaram a cabeça dele firmemente no lugar. Finalmente se soltou e se moveu por seu corpo até que os lábios ficaram a nível com os dela. —Pensei que não fosse me deixar tomar ar — murmurou. Miranda não achou possível em sua posição, mas ruborizou. Ele mordiscou a orelha. —Você gosta assim? Balançou a cabeça, incapaz de expressar as palavras. —Há muitas, muitas coisas para aprender. —Eu poderia...? —OH, como perguntar? Ele sorriu indolentemente. —Poderia o que? Ela engoliu a vergonha. —Eu poderia tocá‐lo? Em resposta, ele tomou sua mão e a dirigiu para baixo por seu corpo. Quando alcançaram sua virilidade, sua mão se sacudiu com um reflexo. Estava muito mais quente do que tinha esperado e muito, muito duro. Turner pacientemente voltou a levar a mão para ele e desta vez fez algumas carícias vacilantes, maravilhando‐se de quão suave era a pele. —É tão diferente — maravilhou‐se. — Tão estranho. Ele riu em silêncio, em parte porque era o único modo em que podia conter o desejo que corria por ele. —Nunca me pareceu estranho.


—Quero vê‐lo. —OH, Deus, Miranda! — Disse com os dentes apertados. —Não, sério. — Ela empurrou os lençóis até que ele ficou nu ante seus olhos. — OH, Meu Deus! — Disse em um sussurro. Isto encaixaria nela? Mal podia acreditar. Ainda imensamente curiosa, fechou sua mão ao redor e com cuidado apertou. Turner quase caiu da cama. Ela o deixou imediatamente. —Te machuquei? —Não — grasnou. — Faça outra vez. Os lábios de Miranda se curvaram em um sorriso de satisfação quando repetiu as carícias. —Posso beijá‐lo? —Melhor não — disse ele com voz rouca. —OH! Pensei que, já que você tinha me beijado... Turner soltou um grunhido primitivo, virando‐a sobre as costas e se colocou entre suas coxas. —Mais tarde. Pode fazê‐lo mais tarde. — Incapaz de controlar mais tempo sua paixão, sua boca desceu sobre a dela com contundente força, reclamando‐a como dele. Empurrou a coxa com seu joelho, forçando‐a a abrir‐se mais. Miranda instintivamente inclinou seus quadris para facilitar a entrada. Deslizou dentro dela sem esforço e ela se maravilhou que seu corpo cedesse para encaixá‐lo. Começou a acariciá‐la devagar entrando e saindo, entrando e saindo, movendo‐ se dentro dela com um ritmo lento, mas implacável. —OH, Miranda! —Gemeu. — OH, Deus! —Sim. Sim. A cabeça sacudia de um lado ao outro. O peso dele estava sujeitando‐a, e ainda assim não podia ficar quieta. —É minha — grunhiu ele, intensificando o ritmo. — Minha. Ela gemeu em resposta. Ainda a sujeitava, os olhos estranhos e penetrantes enquanto dizia. —Diga.


—Sou tua — sussurrou ela. —Cada polegada sua. Cada deliciosa polegada. Daqui — cavou seu seio — até aqui — deslizou seu dedo ao longo da curva de sua bochecha — até aqui. —retirou‐se até que só a ponta dele ficou dentro dela e logo bombeou dentro até o punho. —OH, Deus sim! Turner. Tudo o que quiser. —Quero você. —Sou tua. Juro. —De ninguém mais, Miranda. Prometa‐me isso. —Outra vez se retirou quase até ficar fora. Ela se sentiu completamente despojada sem ele dentro dela e quase gritou. —Prometo — ofegou. — Por favor... Volta para mim agora mesmo. Ele retrocedeu, lhe provocando de uma vez um suspiro de alívio e um ofego de desejo. —Não haverá nenhum outro homem. Ouviu? Miranda sabia que suas prementes palavras derivavam da traição de Letícia, mas estava muito imbuída na paixão para pensar em repreendê‐lo por compará‐la com a anterior esposa. —Nenhum juro! Nunca quis ninguém mais. —E nunca o fará — disse firmemente, como se pudesse fazê‐lo verdade simplesmente dizendo. —Nunca! Por favor, Turner, por favor... Preciso de você. Necessito... —Sei o que necessita. Seus lábios se fecharam ao redor de um dos mamilos enquanto apressava seus movimentos dentro dela. Ela sentiu a pressão alagando seu corpo. Os espasmos de prazer estavam disparando‐se por seu ventre, sob os braços e pelas pernas. E logo, de repente, soube que talvez não suportasse outro momento sem explodir no ato, seu corpo inteiro se convulsionou, apertando‐se ao redor de sua virilidade como uma luva de seda. Gritou o nome dele, agarrando‐se por seus braços quando seus ombros se elevaram da cama pela força do clímax. A pura sensualidade da liberação empurrou Turner sobre a borda e gritou com voz rouca quando no último minuto se inundou dentro dela, metendo até o punho. Seu prazer era intenso, e não podia acreditar na rapidez com a qual se


derramou nela. Derrubou‐se sobre ela, completamente exausto. Nunca foi tão bom, nunca. Nem sequer a vez anterior com Miranda. Era como se cada movimento, cada toque se intensificasse agora que sabia que era dele e só dele. Estava sobressaltado por sua possessividade, aniquilado pelo modo em que a fez jurar sua fidelidade, e repugnado pelo fato de que manipulou sua paixão para satisfazer suas infantis necessidades. Estava zangada? Odiava‐o por isso? Levantou a cabeça e examinou seu rosto. Seus olhos estavam fechados e os lábios curvados em um meio sorriso. Parecia uma mulher satisfeita em cada centímetro, e rapidamente decidiu que se ela não estava ofendida por suas ações ou perguntas, não ia discutir com ela. —Está ruborizada, princesa — murmurou, acariciando sua bochecha. —Ainda? — Perguntou preguiçosamente, ainda sem abrir os olhos. —Inclusive mais. Turner sorriu, apoiando‐se sobre os cotovelos para aliviar um pouco de seu peso sobre ela. Passou o dedo ao longo da curva da sua bochecha, começando no canto da boca e logo terminando na sensível pele próxima ao olho. Tocou os cílios. —Abra os olhos. Ela levantou as pálpebras. —Bom dia. —Assim é. — Ele sorriu aberta e juvenilmente. Ela se retorceu sob seu intenso olhar. —Não está muito incômodo? —Eu gosto de estar aqui em cima. —Mas seus braços... —É forte o bastante para me sustentar um instante mais. Além disso, desfruto te olhando. Timidamente, ela afastou seu olhar. —Não, não, não. Não fuja. Volte a me olhar. — Tocou seu queixo e a atraiu até que o enfrentou outra vez. — É muito bela, sabe. —Não sou — disse com uma voz que significava que ela sabia que ele estava mentindo. —Não irá discutir comigo sobre este ponto. Sou mais velho que você e vi muitas mulheres. —Viu? — Perguntou com receio. —Isso minha querida esposa, é realmente outro assunto, e um que não


requer discussão. Simplesmente quis indicar que sou provavelmente um pouco mais conhecedor que você e deveria aceitar minha opinião sobre a matéria. Se digo que é bela então você é bela. —Realmente, Turner, é muito doce. Inclinou‐se até apoiar o nariz sobre o dela. —Está começando a me irritar, esposa. —Meu Deus! Eu não quereria fazer isso. —Eu achava que não. Seus lábios se curvaram em um sorriso travesso. —É muito bonito. —Obrigado — disse magnanimamente. — Agora, viu quão amavelmente aceitei seu elogio? —Arruinou um pouco o efeito assinalando suas boas maneiras. Ele sacudiu a cabeça. —Que boca a sua. Terei que fazer algo sobre isso. —Beijá‐la? — Disse esperançosa. —Mmm, não é um problema. — Sua língua se lançou e desenhou o contorno dos lábios. — Muito agradável. Muito saboroso. —Não sou um bolo de fruta, sabe — replicou ela. —Aí está essa boca outra vez — disse ele suspirando. —Imagino que terá que continuar me beijando. Ele suspirou como se fosse uma grande tarefa. —OH, está bem! Desta vez, empurrou em sua boca e deslizou a língua ao longo da superfície lisa de seus dentes. Quando levantou sua cabeça outra vez e olhou para seu rosto, ela estava acesa. Essa parecia ser a única palavra para descrever o resplendor que emanava de sua pele. —Deus, Miranda — disse com voz rouca. — Realmente é bela. Desceu, rodou para o lado e a envolveu em seus braços. —Nunca vi ninguém brilhar assim, como faz você neste instante — murmurou, puxando‐a mais forte contra ele. — Deite‐se aqui assim por um momento. Ela foi adormecendo, pensando que este era um modo excelente de começar um casamento. 6 DE NOVEMBRO DE 1819


Hoje celebrei a décima semana de casamento e a terceira desde quando deveria ter menstruado. Não deveria estar surpresa de ter concebido outra vez tão rapidamente... Turner é o marido mais atento. Não tenho do que me queixar. 12 DE JANEIRO DE 1820 Quando entrei no banheiro esta tarde, poderia jurar que vi um leve inchaço em meu ventre. Acredito agora. Acredito que está aqui para ficar. 30 DE ABRIL DE 1820 OH! Estou enorme. E faz quase três meses. Turner parece adorar minha redondez. Está convencido que será uma menina. Sussurra: “Amo você” a meu ventre. Mas somente ao meu ventre. Não a mim. Para ser justa, eu não disse as palavras, mas estou segura que ele sabe que o amo. Depois de tudo, disse antes de nosso matrimônio, e ele disse uma vez que uma pessoa não se desapaixona tão facilmente. Sei que se preocupa comigo. Por que não pode me amar? Ou se o faz, por que não diz?

CAPÍTULO 17

Os meses passaram e os recém casados se assentaram em uma rotina cômoda e carinhosa. Turner, que tinha vivido um inferno com Letícia, estava constantemente surpreso por quão agradável podia ser o casamento, uma vez assumido, com a pessoa correta. Miranda era um total prazer para ele. Adorava observá‐la ler um livro, pentear‐se, dar instruções à governanta, adorava observá‐la fazer qualquer coisa. E tirava o chapéu constantemente procurando desculpas para tocá‐la.


Assinalava uma invisível bolinha de pó sobre o vestido e logo a escovava para tirá‐la. Uma mecha de cabelo escalpou, murmurava enquanto voltava a colocá‐lo no lugar. E a ela nunca parecia incomodar. Às vezes, se estivesse ocupada com algo, afastava‐lhe a mão com um tapinha, mais freqüentemente meramente sorria e às vezes movia a cabeça, só um pouco, o suficiente para descansar a bochecha em sua mão. Mas em algumas ocasiões, quando não se dava conta de que estava observando‐a, pegava olhando‐o com grande saudade. Sempre afastava o olhar, com tanta rapidez que freqüentemente não podia sequer estar seguro se o momento tinha ocorrido mesmo. Mas sabia que sim, porque quando fechava os olhos de noite, via os dela, com aquele brilho de tristeza que lhe rasgava as vísceras. Sabia o que ela queria. Teria sido tão fácil. Três simples palavras. E realmente, não deveria dizê‐las? Mesmo se não as sentisse, não valeria a pena só para vê‐la feliz? Havia momentos em que tentava dizer, tentava fazer com que sua boca formasse as palavras, mas sempre aparecia àquela sensação de sufoco, como se estivessem comprimindo a própria respiração na garganta. E a ironia era... Que achava que a amava. Sabia que não ficaria nada se algo ocorresse com Miranda. Sim, claro estava, tinha acreditado que amava Letícia, e olhe onde o levou aquilo. Adorava tudo a respeito de Miranda, da forma em que o nariz se elevava ligeiramente na ponta até seu mordaz engenho o qual nunca regulava com ele. Mas, isso era o mesmo que amar á pessoa? E se a amasse, como diria? Desta vez queria estar certo. Queria algum tipo de prova científica. Tinha tido fé no amor antes, acreditando que aquela vertiginosa mescla de desejo e obsessão tinha que ser amor. Porque, que outra coisa poderia ser? Mas agora tinha mais idade. Também era mais sábio, o que era bom, e muito mais cínico, do que antes. A maior parte do tempo era capaz de manter afastadas aquelas preocupações da cabeça. Era um homem, e francamente, aquilo era o que faziam os homens. As mulheres podiam discutir e ruminar (e era provável que seguissem discutindo) tudo o que desejassem. Ele preferia ponderar o assunto uma vez, talvez duas e pronto. É por isso que era particularmente mortificante que parecesse incapaz de


deixar de lado aquele tema em particular. Sua vida era encantadora. Feliz. Deliciosa. Não deveria estar perdendo valiosos pensamentos e energia refletindo sobre o estado de seu próprio coração. Merecia ser capaz de desfrutar de muitas bênçãos e não ter que pensar nisso. Estava fazendo precisamente aquilo — concentrando‐se em por que não desejava pensar em tudo aquilo — quando ouviu um golpe na porta do escritório. —Entre! A cabeça de Miranda apareceu pela soleira. —Incomodo? —Não, claro que não. Entre. Empurrou para abrir o resto da porta e entrar no recinto. Turner teve que suprimir um sorriso quando a viu. Ultimamente sua barriga parecia preceder ao resto do corpo ao entrar em um recinto por bons cinco segundos. Ela viu seu sorriso e se olhou com tristeza. —Estou enorme, não é? —É verdade. Ela suspirou. —Deveria ter mentido para não ferir meus sentimentos e dizer que não estou tão grande. As mulheres na minha condição ficam muito sensíveis, sabe? Caminhou até uma cadeira perto da escrivaninha dele e pôs as mãos sobre os braços da cadeira para ajudá‐la a sentar. Turner ficou de pé imediatamente para ajudá‐la. —Acho que eu gosto de grande. Ela bufou. —Só você gosta de ver a prova tangível de sua própria virilidade. Ele sorriu ante isso. —Ela te chutou em algum momento hoje? —Não, e não estou tão segura de que seja ela. —É obvio que é. É perfeitamente óbvio. —Devo supor que está planejando abrir um consultório sobre partos? As sobrancelhas do Turner se elevaram. —Vigia sua boca, esposa. Miranda arregalou os olhos e elevou um pedaço de papel. —Hoje recebi uma carta de sua mãe. Pensei que você gostaria de lê‐la. Turner pegou a carta da mão dela, caminhando de forma distraída pelo recinto enquanto lia á missiva. Demorou tanto quanto pode contar a sua família


sobre o casamento, mas depois de dois meses, Miranda o convenceu de que talvez não pudesse evitar mais. Como era de esperar, surpreenderam‐se (com exceção de Olivia, que teve uma vaga idéia do que estava ocorrendo), e Turner se apressou em seguida a Roseadle para inspecionar a situação. Ouviu sua mãe murmurar umas poucas centenas de vezes: "Nunca teria imaginado...", e o nariz de Winston ficou um pouco deslocado, mas em geral, Miranda fazia uma suave transição de Cheever a Bevelstoke. Depois de tudo, já era praticamente parte da família. —Winston se colocou em problemas em Oxford — murmurou Turner, os olhos movendo‐se com rapidez sobre as palavras de sua mãe. —Sim, bem, era de esperar, imagino. Levantou a vista para olhá‐la com expressão de assombro. —O que significa isso? —Não pense que nunca ouvi falar sobre suas façanhas na universidade. Ele sorriu abertamente. —Agora sou muito mais maduro. —Isso eu espero. Turner caminhou para ela e deixou um primeiro beijo em seu nariz e logo outro em seu ventre. —Desejaria ter ido a Oxford — disse ela com desejo. — Teria me encantado escutar todas essas aulas. —Nem todas. Acredite algumas eram péssimas. —Ainda assim acredito que teria gostado. Turner de um encolher de ombros. —Talvez. Certamente é terrivelmente mais inteligente que a maioria dos homens que conheci lá. —Depois de ter passado quase uma temporada em Londres, devo dizer que não é terrivelmente difícil ser mais inteligente que muitos dos homens da alta sociedade. —Excluindo a presente companhia, espero. Ela assentiu cortesmente. —É obvio. Sacudiu a cabeça enquanto voltava para escrivaninha. Aquilo era o que mais gostava de ele estar casado, com ela aquelas pequenas e extravagantes conversas que enchiam seus dias. Voltou a sentar‐se e levantou o documento que esteve examinando com atenção antes que ela entrasse. —Parece que terei que ir a Londres.


—Agora? Ainda há alguém lá? —Muito poucos — admitiu. O Parlamento não estava reunido, e a maioria da alta sociedade tinha deixado a cidade para ir a suas casas no campo. — Mas um bom amigo meu está lá e precisa da minha ajuda para uma empresa comercial. —Quer que vá contigo? —Não há nada eu gostaria mais, mas não farei você viajar em um momento assim. —Estou perfeitamente saudável. —Eu acredito, mas parece imprudente correr riscos desnecessários. E devo dizer que se converteu em algo... – Clareou a garganta. — Difícil de dirigir. Miranda fez uma careta. —Pergunto‐me que outra coisa poderia ter dito que pudesse me fazer sentir menos atraente. Os lábios dele crisparam, inclinou‐se para frente e a beijou na bochecha. —Não ficarei durante muito tempo. Não mais de uma quinzena, acho. —Uma quinzena? —Disse ela tristemente. —São ao menos quatro dias de viagem em cada sentido. Com toda a chuva recente, é certo que as estradas estarão fatais. —Vou sentir saudades. Ele fez uma pausa um momento antes de responder. —Eu também sentirei sua falta. A princípio Miranda não disse nada. E logo suspirou um pequeno e melancólico som que espremeu o coração dele. Mas então a atitude dela mudou e pareceu um pouco mais ativa. —Creio que há muitas coisas para me manter ocupada — disse com um suspiro. — Eu gostaria de redecorar a sala oeste. A tapeçaria está totalmente desbotada. Talvez convide Olivia para uma visita. É muito boa com este tipo de coisa. Turner sorriu calidamente. Sentia grande prazer por ela estar chegando a amar sua casa tanto como ele fazia. —Confio em seu julgamento. Não precisa de Olivia. —Entretanto, desfrutaria da companhia dela enquanto você não esta. —Então claro que sim, convide‐a. —Lançou uma olhada ao relógio —Tem fome? Passa bastante do meio‐dia. Miranda esfregou o estômago de forma ausente. —Não muito, acho. Mas poderia comer um bocado ou dois.


—Mais de dois — disse firmemente. — Mais de três. Já não come só para você mesma, já sabe. Miranda baixou tristemente os olhos a inchada barriga. —Acredite em mim, eu sei. Ficou em pé e avançou a passadas para a porta. —Irei correndo à cozinha e conseguirei algo. —Pode simplesmente chamar para pedir algo. —Não, não, será mais rápido assim. —Mas eu não... — Muito tarde. Já tinha saído correndo pela porta e não podia escutá‐la. Sorriu enquanto se sentava e curvava as pernas embaixo dela. Ninguém podia duvidar que Turner se preocupasse com seu bem‐estar e a do bebê. Via‐se na forma em que afofava os travesseiros para ela antes que fosse deitar. Na forma que se assegurava para que comesse bem, comida saudável, e especialmente na maneira em que insistia em pôr a orelha no estômago para ouvir como o bebê se movia. —Acho que deu um chute! — Exclamava excitado. —É provável que tenha sido um arroto — havia brincando Miranda uma vez. Turner não percebeu a brincadeira e elevou a cabeça, a preocupação lhe nublava os olhos. —Pode arrotar aí dentro? É normal? Ela tinha deixado sair uma suave e indulgente gargalhada. —Não sei. —Talvez devesse perguntar ao médico. Tinha pegado a mão dele e o empurrado para cima até que ficou deitado ao seu lado. —Estou segura de que tudo está bem. —Mas... —Se manda procurar um médico, vai pensar que está louco. —Mas... —Simplesmente vamos dormir. Isso é tudo, me abrace. Forte. —Suspirou e se aconchegou perto dele. — Aqui. Agora poderei dormir. De volta ao estúdio, Miranda sorriu enquanto recordava a conversa. Fazia coisas assim centenas de vezes ao dia, demonstrando quanto a queria. Verdade? Como podia olhá‐la com tanta ternura e não querê‐la? Por que estava tão insegura de seus sentimentos?


Porque nunca disse em voz alta, replicou em silêncio. Oh, fazia elogios e frequentemente fazia comentários sobre quão contente estava por ter se casado com ela. Era uma das formas mais cruéis de tortura, e Turner não tinha nem idéia do que fazia. Acreditava que estava sendo amável e atento, e era verdade. Mas cada vez que a olhava, e sorria com daquela cálida e misteriosa forma, ela pensava... Por um intenso segundo pensava que ele se inclinaria e sussurraria... Amo você. ...E cada vez, quando não ocorria, e simplesmente roçava a bochecha com seus lábios, ou lhe despenteava o cabelo, ou perguntava se havia desfrutado da maldita sobremesa, pelo amor de Deus... Miranda sentia que algo desmoronava em seu interior. Um pequeno apertão, criando somente uma pequena ruga, mas todas aquelas dobras em seu coração estavam somando, e cada dia parecia um pouco mais duro fingir que sua vida era precisamente como havia desejado. Tentava ser paciente. O último que queria dele era falsidade. Amar era totalmente devastador quando não havia nenhum sentimento por trás. Mas não queria pensar nisso. Não naquele momento, não quando estava sendo tão doce e atento, e ela deveria estar total e completamente feliz. E estava. De verdade. Quase. Era só a pequena parte dela que abria caminho para diante, e estava ficando incomoda, de verdade, porque Miranda não queria esbanjar todos seus pensamentos e energia pensando em algo sobre o que não tinha controle. Só queria viver o momento, desfrutar de suas muitas bênçãos sem ter que pensar nisso. Turner entrou no momento oportuno, entrando a grandes passos no aposento e deixando um suave beijo sobre a cabeça dela. —A senhora Hingham diz que fará subir um prato de comida em alguns minutos. —Disse que não deveria ter se incomodado em descer – repreendeu Miranda. — Sabia que não haveria nada preparado. —Se não tivesse descido eu mesmo — disse em tom prático, — teria que esperar que chegasse a donzela para ver o que queria, então teria que esperar que descesse à cozinha, e logo teria que esperar enquanto a senhora Hingham


preparava a comida, e depois... Miranda sustentou uma mão no alto. —Já é o suficiente! Entendi o que quer dizer. —Assim chegará antes. — Turner se inclinou para frente com um sorriso diabólico. — Não sou uma pessoa paciente. Nem ela tampouco, pensou Miranda tristemente. Mas seu marido, inconsciente de seus tormentosos pensamentos, simplesmente sorriu enquanto olhava pela janela. Uma ligeira camada de neve cobria as árvores. Um lacaio e uma donzela entraram no recinto, trazendo a comida e a deixaram sobre a escrivaninha do Turner. —Não está preocupado com seus papéis? —Perguntou Miranda. —Ficarão bem. — Colocou‐os formando uma pilha. —Mas não irão se misturar? Ele deu um encolher de ombros. —Tenho fome. Isso é mais importante. Você é mais importante. A donzela deixou escapar um pequeno suspiro ante as românticas palavras. Miranda sorriu firmemente. O pessoal da casa provavelmente pensava que Turner professava seu amor sempre que estavam fora do alcance deles. —Então vamos — disse Turner energicamente. — Há guisado de carne de vitela e vegetais. Quero que coma isso tudo. Miranda olhou duvidosa à sopeira que Turner colocou frente a ela. Seria necessário um pequeno exército de mulheres grávidas para comer tudo. —Está brincando — disse. —Absolutamente. — Inundou a colher no guisado e a sustentou na frente de sua boca. —De verdade, Turner eu não posso... Colocou com rapidez a colher na boca. Afogou‐se surpreendida durante um segundo, então mastigou e engoliu. —Posso comer sozinha. —Mas assim é muito mais divertido. —Para você, que... A colher entrou uma vez mais. Miranda engoliu. —Isto é ridículo. —Absolutamente. —É alguma forma de me ensinar a não falar tanto? —Não, embora perdesse uma grande oportunidade com essa última frase.


—Turner, é incorri... Colocou outra vez. —Incorrigível? —Sim — balbuciou ela. —OH, querida — disse. — Tem um pouco no queixo. —Você é quem dirige a colher. —Sente‐se quieta — inclinou‐se para frente e lambeu a gota de molho de sua pele. — Mmm, delicioso. —Toma um pouco — disse ela inexpressiva. — Há muito. —OH, mas não quero privá‐la de tão valiosos nutrientes. Ela soprou em resposta. —Aqui tem outro pouco... OH, querida, acho que tornei a falhar outra vez — sua língua voltou a sair e limpou o desastre. —Fez de propósito! – Acusou ela. —E esbanjar de propósito a comida que alimentaria minha esposa grávida? — colocou uma mão ofendida no peito. — Que canalha pensa que sou! —Talvez não um canalha, mas sim um pequeno e furtivo... —Vitória! Moveu seu dedo para ele. —Mmph grmphng gtrmph. —Não fale com a boca cheia. É de má educação. Ela engoliu. —Disse que me vingarei você... — Deixou de falar quando a colher fez conexão com seu nariz. —Olhe o que fez — disse, sacudindo a cabeça com um movimento exagerado. — Moveu‐se tanto que voltei a falhar. Agora fica quieta. — Ela franziu os lábios, mas não pôde evitar que escapasse a insinuação de um sorriso. — Boa garota — murmurou ele, inclinando‐se. Capturou a ponta do nariz em sua boca e chupou até que o molho de carne desapareceu. —Turner! —A única mulher no mundo com um nariz susceptível — soltou um risinho. —E tive o sentido comum de me casar contigo. —Pára, pára, pára.


—De te pôr molho no rosto ou de te beijar? O fôlego ficou apanhado na garganta. —De me pôr molho no rosto. Não necessita uma desculpa para me beijar. Ele se inclinou para frente. —Não? —Não. —Imagina meu alívio. — Seu nariz tocou a dela. —Turner? —Hmm? —Se não me beijar logo, acredito que vou ficar furiosa. Atormentou‐a com o mais leves dos beijos. —Está bom assim? Ela negou com a cabeça. Ele aprofundou o beijo. —E agora? —Receio que não. —O que precisa? — Sussurrou sua ardente voz contra os lábios de Miranda. —O que precisa você? — Respondeu ela. Suas mãos deslizaram para cima até os ombros dele, e como era costume, começou a massageá‐los. E aparentemente o ardor dele se esfumou instantaneamente. —OH, Deus, Miranda — gemeu, relaxando o corpo. — Isso é maravilhoso. Não, não pare. Por favor, não pare. —É extraordinário — disse ela com um leve sorriso. — É massa entre minhas mãos. —O que quiser — gemeu. — Simplesmente não pare. —Por que está tão tenso? Ele abriu os olhos e lhe lançou um irônico olhar. —Sabe muito bem. Ela ruborizou. O médico havia informado durante a última visita que era o momento de parar as relações maritais. Turner não parou de grunhir durante uma semana. —Nego‐me a acreditar — disse, levantando os dedos dos ombros dele sorridente quando gemeu em protesto — que eu seja a única causa de suas horríveis dores nas costas. —Estresse por não ser capaz de fazer amor, excessivo esforço físico por ter que carregar seu agora enorme corpo escada acima...


—Nunca teve que me carregar escada acima! —Sim, bom, pensei e certamente foi suficiente para me dar dor nas costas. Justo... — Fez girar seus braços ao redor e apontou um lugar das costas. —... Aqui. Miranda franziu os lábios, mas ainda assim começou a esfregar onde ele havia indicado. —Você, milord, é um menino grande. —Mmm... mmm... — concordou ele, a cabeça virtualmente inclinada para o lado. — Importa‐se se me sento? Será mais fácil para você. Miranda se perguntou como tinha conseguido manipulá‐la para que lhe esfregasse as costas sobre o tapete. Mas estava gostando também. Adorava tocá‐lo, memorizar o contorno de seu corpo. Sorridente, tirou a camisa do cinto das calças e deslizou as mãos debaixo para poder tocar a pele. Era quente e suave como a seda, e não pôde evitar mover suas mãos ligeiramente sobre ela, só para sentir a excelente suavidade que era única nele. —Eu gostaria que você me esfregasse as costas — ouviu‐se dizer. Tinham passado semanas desde a última vez que foi capaz de deitar sobre o estômago. Ele virou a cabeça para que ela pudesse ver seu rosto e sorriu. Então, com um pequeno grunhido, sentou‐se. —Sente‐se reta — disse brandamente, virando‐a para poder massagear as costas. Era o paraíso. —OH, Turner — suspirou. — É delicioso. Ele emitiu um som, um estranho, e se virou o melhor que pôde para poder ver o rosto dele. —Sinto muito — disse, fazendo uma careta quando ela viu o desejo e o controle lutando em seus olhos. — Eu também sinto falta, se servir de consolo. Apertou‐a contra ele, abraçando‐a tão forte como pôde sem pressionar muito forte contra sua barriga. —Não é culpa sua, princesa. —Não, eu sei, mas ainda assim sinto. Sinto terrivelmente falta de você. — Baixou o tom de voz. — Às vezes está tão dentro de mim, que parece como se estivesse me tocando o coração. Isso é o que mais sinto falta. —Não diga isso — disse ele com voz rouca. —Sinto muito.


—E pelo amor de Deus, pare de pedir perdão. Ela quase riu. —Eu... Não, retiro. Não sinto. Mas sim sinto que você, hein, esteja em tal estado. Não parece justo. —É mais que justo. Em troca tenho uma esposa sã e um bebê precioso. E tudo o que tenho que fazer é me conter por poucos meses. —Mas não deveria fazê‐lo — murmurou sugestivamente, sua mão vagou para os botões de suas calças. — Não tem por que. —Miranda, detenha‐se. Não poderei suportar. —Não deveria fazê‐lo — repetiu enquanto empurrava para cima a já tirada camisa pelo peito e beijava o plano estômago. —O que... Oh, Deus, Miranda — deixou escapar um gemido irregular. Os lábios dela se moveram inclusive mais abaixo. —Oh, Deus! Miranda! 7 DE MAIO DE 1820. Sou uma descarada. Mas meu marido não se queixa.

CAPÍTULO 18 À manhã seguinte, Turner posou um suave beijo na testa de sua esposa. —Está certa de que ficará bem sem mim? Miranda engoliu e assentiu, contendo as lágrimas que prometeu não derramar. O céu ainda estava escuro, mas Turner queria partir cedo a Londres. Ela estava sentada na cama, as mãos descansando em seu ventre enquanto o olhava se vestir. —Seu ajudante de quarto terá um ataque de apoplexia — disse, tentando brincar com ele. — Sabe que acha que não sabe como se vestir apropriadamente. Vestido só com a calça, Turner caminhou para seu lado e se sentou na beira da cama. —Está segura que não se importa que eu vá? —Claro que me importa. Preferiria te ter aqui. — Um sorriso cambaleante


tocou seu rosto. — Mas ficarei bem. E talvez adiante mais trabalho sem você aqui me distraindo. —Oh? E sou tão incomodo? —Muito. Embora — sorriu envergonhada — não posso ser "distraída" muito ultimamente. —Mmm. Triste, mas certo. Eu, infelizmente, estou distraído todo o tempo. — Cavou seu queixo com os dedos e desceu os lábios sobre os dela em um apaixonado e tenro beijo. — Cada vez que a vejo — murmurou. —Cada vez? — Perguntou ela duvidosamente. Ele assentiu solenemente. — Mas pareço uma vaca. —Mmm‐hmm — os lábios dele nunca deixaram os dela. — Mas uma vaca muito atraente. —Desgraçado! — Empurrou‐o e golpeou divertidamente no ombro. Ele sorriu malvadamente em resposta. —Parece que esta viagem a Londres será benéfica para minha saúde. Ou pelo menos para meu corpo. Sou afortunado de não me machucar facilmente. Ela fez uma careta e mostrou a língua. Ele estalou a dele antes de levantar e cruzar o aposento. —Vejo que a maternidade não trouxe maturidade consigo. Seu travesseiro cruzou o quarto. Turner esteve de volta ao seu lado em um instante, seu corpo estendido na cama sobre o dela. —Talvez devesse ficar só para ter rédea firme sobre você. —Talvez devesse. Beijou‐a de novo, desta vez mal reservando paixão e emoção. —Te disse — murmurou enquanto seus lábios exploravam o suave e liso rosto, — quanto adoro estar casado contigo? —Hoje não. —É cedo ainda. Sem dúvida pode desculpar meu descuido. — Capturou o lóbulo de sua orelha entre seus dentes. — Certamente disse isso ontem. E no dia anterior, pensou Miranda agridocemente. E no dia anterior a esse também, mas nunca havia dito que a amava. Por que sempre era "Amo estar contigo" e "Amo fazer coisas contigo" e nunca "Amo você"? Parecia ser capaz de dizer, "Adoro você". "Adoro estar casado contigo", era obviamente mais seguro. Turner captou o melancólico olhar em seus olhos.


—Há algo errado, princesa? —Não, não — mentiu. — Nada. É só... Vou sentir saudades, isso é tudo. —Eu também vou sentir saudades. — Beijou‐a uma última vez e logo se levantou e colocou a camisa. Miranda o observou enquanto se movia pelo quarto, reunindo seus pertences. Suas mãos se apertaram sob os cobertores, enroscando os lençóis em espirais de raiva. Não diria nada a menos que ela fizesse primeira. E por que ele deveria? Obviamente estava perfeitamente contente com as coisas como estavam. Teria que forçar o assunto, mas estava tão assustada. Tão assustada de que não a arrastasse a seus braços e dissesse que só esteve esperando que ela dissesse quanto o amava outra vez. Mas sobre tudo, estava aterrorizada de que engolisse incômodo e dissesse algo que começasse com: "Sabe quanto eu gosto de você Miranda..." Esse pensamento foi tão gelado que tremeu a respiração tomada por um suspiro temeroso. —Está segura de que se sente bem? — Perguntou Turner em um tom de voz preocupado. Quão fácil seria mentir. Só umas poucas palavras e ficaria ao seu lado, sustentando‐a carinhosamente de noite e beijando‐a tão meigamente que quase podia acreditar que a amava. Mas se havia uma coisa que precisava entre eles, era a verdade, assim só assentiu. —Estou bem Turner, sério. Foi só um tipo de despertar tremulo. Meu corpo ainda está adormecido, suponho. —Como deveria estar o resto. Não quero que se sobrecarregue enquanto não estou. Sairá de contas em menos de dois meses. Ela sorriu ironicamente. —Um fato que é pouco provável que esqueça. —Bem. Tem meu bebê aí, depois de tudo. — Turner colocou seu casaco e se inclinou para lhe dar um beijo de despedida. —É meu bebê, também. —Mmm, eu sei. — Endireitou‐se disposto a partir. — É por isso que já a amo tanto. —Turner! Ele se virou. Sua voz soou estranha, quase temerosa. —O que foi Miranda? —Só queria dizer... Isso queria que soubesse...


—O que foi Miranda? —Só queria que soubesse que te amo. — As palavras explodiram de sua boca em uma pressa brusca, como se estivesse temerosa de que se diminuísse a velocidade perdesse a coragem. Ele congelou e se sentiu como se seu corpo não fosse o dele. Tinha estado esperando por isso. Não era assim? Não era uma boa coisa? Não queria seu amor? Seus olhos encontraram com os dela, e pôde escutar o que estava pensando... Não rompa meu coração, Turner. Por favor, não o rompa. Os lábios de Turner se separaram. Esteve dizendo a si mesmo nos últimos meses que queria que ela dissesse outra vez, mas agora que tinha feito, sentiu‐se como se uma corda se apertasse ao redor de seu pescoço. Não podia respirar. Não podia pensar. E certamente não podia ver bem porque tudo o que podia ver eram aqueles grandes olhos marrons que brilhavam tão desesperados. —Miranda, eu... — Engasgou‐se com as palavras. Por que não podia dizer? Não sentia isso? Por que era tão difícil? —Não, Turner — disse com voz tremula. — Não diga nada. Só esqueça. Algo deu tombos em sua garganta, mas conseguiu dizer. —Sabe quanto carinho eu sinto por você. —Divirta‐se em Londres. Sua voz era calma, extraordinariamente, e soube que não podia deixá‐la assim. —Miranda, por favor. —Não fale! — Gritou. — Não quero ouvir desculpas e não quero ouvir suas trivialidades! Não quero ouvir nada! Exceto te amo. As palavras não ditas pairavam no ar entre eles. Turner pôde senti‐las deslizando longe e mais longe dele, e se sentia impotente para deter o buraco que se abria entre eles. Sabia o que tinha que fazer, e não deveria ser difícil. Eram sós três pequenas palavras, por Deus. E queria dizê‐las. Mas estava parado na beira de algo, e não podia dar esse último passo a frente. Não era racional. Não tinha sentido. Não sabia se estava assustado por amá‐la ou por que ela o amasse. Não sabia se estava assustado. Talvez só estivesse morto por dentro, seu coração muito golpeado por seu primeiro matrimônio para comportar‐se de uma forma lógica e normal. —Carinho — começou, tratando de pensar em algo que a fizesse feliz de novo.


Ou se não fosse possível, pelo menos que levasse algo da devastação de seus olhos. —Não me chame assim — disse em uma voz tão baixa que quase não pôde ouvi‐la. — Chame‐me por meu nome. Queria gritar. Quis chiar. Queria sacudi‐la pelos ombros e fazê‐la entender que ele não entendia. Mas não sabia como fazer nenhuma dessas coisas, assim só assentiu e disse: —Então a verei em poucas semanas. Ela assentiu. Uma vez. E logo olhou ao longe. —Espero que sim. —Adeus — disse suavemente e fechou a porta atrás dele.

******** —Há muito que pode fazer com o verde — disse Olivia enquanto apontava às cortinas desfiadas no salão oeste. — E sempre ficou bem de verde. —Não vou vestir as cortinas — replicou Miranda. —Sei, mas queremos luzir o melhor possível em seu salão de desenho, não acha? —Creio que sim — respondeu Miranda, incomodando Olivia por seu afetado discurso. —OH, chega. Se não quer meu conselho não deveria ter me convidado. —Os lábios de Olivia se curvaram em um sorriso ingênuo. — Mas me alegro tanto que o tenha feito. Senti saudades de você terrivelmente, Miranda. Haverbreaks é terrivelmente aborrecido no inverno. Fiona Bennet não deixa de me visitar. —Uma horrível circunstância — concordou Miranda. —Fiquei tentada a aceitar seus convites por puro aborrecimento. —OH, não o faça. —Não está ainda rancorosa pelo incidente da fita em meu décimo aniversário não é? Miranda sustentou o polegar e indicador afastados por perto do meio centímetro. —Só um pouco assim. —Deus, esqueça isso. Depois de tudo, conseguiu Turner. E justo debaixo de


nossos narizes. — Olivia ainda estava ligeiramente chateada de que o irmão e a melhor amiga estivessem se cortejando sem seu conhecimento. — Embora deva dizer, é uma bestialidade por parte dele ir a Londres e deixá‐la aqui sozinha. Miranda sorriu forçadamente enquanto manuseava o tecido da saia. —Não é tão ruim — murmurou. —Mas seu tempo está tão próximo — protestou Olivia. — Não deveria ter deixado você sozinha. —Não deixou — disse Miranda firmemente, tentando mudar de assunto. — Você está aqui, não é assim? —Sim, sim, e ficaria para o nascimento se pudesse, mas mamãe diz que não é apropriado para uma dama não casada. —Não posso pensar em nada mais apropriado — replicou Miranda. — Não é como se não fosse estar nesta mesma situação em alguns anos. —Primeiro preciso de um marido — recordou Olivia. —Não vejo nenhum problema com isso. Quanta oferta recebeu este ano? Seis? —Oito. —Então não se queixe. —Não estou, é só... Oh, esquece, ela diz que devo ficar em Roseadle. Só que não permite que eu fique contigo. —As cortinas — recordou Miranda. —Sim, claro — disse Olivia energicamente, outra vez de volta aos negócios. — Se colocarmos o tapete verde, as cortinas podem ser uma cor que contraste. Talvez uma cor secundária da fábrica de tapeçaria. Miranda assentiu e sorriu quando era apropriado, mas sua mente estava longe. Em Londres para ser exata. Seu marido importunava seus pensamentos cada segundo do dia. Falava de um assunto com a governanta quando seu sorriso dançava ante seus olhos. Não podia terminar o livro que estava lendo porque o som de sua risada seguia flutuando em seus ouvidos. Á noite, quando estava quase dormindo, o suave toque de pluma de seu beijo brincava com seus lábios até que ela ansiava o quente corpo ao lado dela. —Miranda? Miranda! Miranda ouviu Olivia repetir seu nome impacientemente. —O que? Oh, sinto muito Livvy. Minha mente estava a quilômetros de


distância. —Sei. Raramente parece estar em Roseadle nestes dias. Miranda fingiu um sentido suspiro. —É o bebê, imagino. Deixa‐me sentimental. — Em outros dois meses, pensou tristemente, não poderia culpar o bebê de seus momentâneos lapsos de razão e então, o que faria? Sorriu brandamente a Olivia. — O que queria me dizer? —Simplesmente estava dizendo que se você não gostar do verde, talvez pudéssemos refazer a sala em uma cor rosa cinzento. Poderia chamá‐lo de sala rosa. O que combinaria com Roseadle. —Não acha que seria muito feminino? — Perguntou Miranda. — Turner usa também um pouco esta sala. —Hmm. Isso é um problema. Miranda nem sequer se deu conta de que estava apertando os punhos até que as unhas cravaram em sua palma. Gracioso, como se a mera menção de seu nome pudesse incomodá‐la. —Por outro lado — disse seus olhos entrecerrados perigosamente. — Sempre gostei do rosa cinzento. Façamos. —Está segura? — Agora Olivia duvidava. — Turner... —Esquece Turner — Miranda disse com suficiente veemência para fazer Olivia levantar as sobrancelhas. — Se ele quisesse dizer algo sobre a decoração, não deveria ter ido a Londres. —Não deveria se exaltar — disse Olivia pacificamente. — Estou segura de que ele sente muita saudade. —Tolices. Provavelmente não pensou em mim para nada.

*****

Ela estava atormentando‐o. Turner tinha pensado, depois de quatro intermináveis dias em uma carruagem fechada, que poderia afastar Miranda de seus pensamentos quando chegasse a Londres e a todas suas distrações. Mas estava equivocado.


A última conversa se reproduzia em sua mente, uma e outra e outra vez, mas cada vez que Turner tentava afastar tais pensamentos, de pretender dizer algo mais, que tinha pensado em algo mais a dizer, toda a questão desaparecia. A lembrança se dissolvia e tudo o que ficava eram seus olhos, grandes e marrons e cheios de dor. Era uma emoção pouco familiar, a culpa. Queimava e formigava, e o agarrou pela garganta. A raiva era muito, muito mais fácil. A raiva era limpa. Era precisa. E nunca era a respeito dele. Tinha sido a respeito da Letícia. Era a respeito de seus muitos homens. Mas nunca foi a respeito dele. Mas isto... Isto era algo mais. E não havia forma de que pudesse viver assim. Podiam ser felizes outra vez, não? Ele certamente tinha sido feliz antes. Ela também. Podia queixar‐se a respeito dos sentimentos dele, mas sabia que havia sido feliz. E ela seria feliz de novo, prometeu. Uma vez que Miranda aceitasse que se importava em cada forma que conhecia. Poderiam voltar para a confortável existência que forjaram desde o casamento. Teriam o bebê. Seria uma família. Fariam amor com as mãos e lábios, contudo menos com palavras. Tinha conseguido ganhar antes. Poderia fazê‐lo outra vez. Duas semanas depois, Miranda estava sentada em seu novo salão rosa tentando ler um livro, mas passando muito mais tempo olhando pela janela. Turner havia dito que chegaria aos próximos dias e ela não podia controlar o correr de seu coração cada vez que escutava um som que soava como uma carruagem subindo pela entrada. O sol deslizou sob o horizonte antes que se desse, conta de que não tinha virado uma única página do livro. Um preocupado servente lhe trouxe o jantar que havia se esquecido de pedir e Miranda mal tinha terminado o prato de sopa antes de adormecer no sofá. Horas depois, a carruagem pela qual esteve esperando tão diligentemente fez um alto diante da casa e Turner, cansado da viagem embora ansioso para ver a esposa, saltou para fora. Alcançou uma de suas bolsas e retirou um pacote, deixando o resto da bagagem no veículo para que o lacaio a trouxesse. Olhou a casa e notou que não havia luz em seu quarto. Esperava que Miranda não estivesse já dormindo, não tinha coração para despertá‐la, mas realmente queria falar com ela essa noite e tratar de compensá‐la. Chutou o chão nos degraus dianteiros, tentando tirar o barro das botas. O


mordomo, que estava esperando‐o quase tanto tempo como Miranda, abriu a porta antes que Turner pudesse tocar. —Boa noite, Brearley — disse Turner afavelmente. —Posso ser o primeiro em lhe dar as boas‐vindas, meu senhor? —Obrigado. Minha esposa ainda está acordada? —Acredito que está no salão rosa, meu senhor. Lendo, acredito. Turner retirou o casaco. —Certamente gosta de fazer isso. —Somos afortunados de ter uma dama tão educada — adicionou Brearley. Turner piscou. —Não temos um salão rosa, Brearley. —Temos agora, meu senhor. No que antes era o salão oeste. —Oh? Então ela o decorou. Bom; bom para ela. Quero que pense neste lugar como seu lar. —Como todos nós, meu senhor. Turner sorriu. Miranda tinha despertado uma feroz lealdade entre o pessoal da casa. As criadas positivamente a adoravam. —Irei surpreendê‐la agora. — Andou a pernadas através do corredor dianteiro, girando à direita até que alcançou o que costumava ser o salão oeste. A porta estava ligeiramente entreaberta, e Turner podia ver o brilho de uma vela. Mulher tola. Deveria saber que necessitava mais de uma vela para ler. Ele empurrou a porta alguns centímetros mais e colocou a cabeça. Miranda estava deitada no sofá, a boca suave e ligeiramente aberta enquanto dormia. Um livro estava sobre o ventre e uma refeição meio terminada estava na mesa perto dela. Parecia tão adoravelmente inocente, seu coração doía. Tinha sentido saudades dela em sua viagem, pensado nela, e sua desfavorável partida, quase cada minuto de cada dia. Mas não havia pensado que se deu conta de quão profundo e elementar era seu desejo até nesse mesmo momento, quando a viu de novo, os olhos fechados, o peito subindo e descendo suavemente no sono. Havia dito a si mesmo que não a despertaria, mas isso, raciocinou, foi quando pensou que estaria no quarto. Teria que acordá‐la para ir para cama, assim poderia ser ele quem a levasse. Caminhou até o sofá, empurrou o jantar a um lado e o pôs em cima da mesa,


deixando seu pacote descansar em seu colo. —Acorda cari... — Deteve‐se, tardiamente recordando como havia ordenado que não usasse mais apelidos carinhosos. Tocou seu ombro. — Acorde Miranda. Ela piscou. —Turner? — Sua voz soava aturdida. —Olá, princesa. — Que o pendurassem se não queria que a chamasse assim. Queria usar um apelido, e faria. —Eu quase... — Bocejou. — Quase desisto de te esperar. —Disse que chegaria hoje. —Mas as estradas... —Não estavam tão mal. — Sorriu a ela. Sua mente adormecida não recordava ainda que estivesse incomodada com ele, e não via nenhuma razão para lembrar. Tocou a bochecha dela. — Senti saudades. Miranda bocejou outra vez. —Sentiu? —Muita. — Fez uma pausa. — Sentiu saudades? —Eu... Sim. — Mentir não tinha propósito, entendeu. Ele já sabia que o amava. — Foi tudo bem em Londres? — Perguntou educadamente. —Preferiria que estivesse comigo — replicou, e soou muito moderado, como se suas orações estivessem cuidadosamente escolhidas para não ofender. E logo na mesma voz educada. — Ficou bem enquanto não estive? —Olivia veio por um par de dias. —Sério? Miranda assentiu. E logo disse: —Além disso, entretanto, tive muito tempo para pensar. Houve um longo silencio, e logo: —Percebo. Ela olhou enquanto deixava o pacote, parava e logo caminhava onde a solitária vela estava consumindo‐se. —Está um pouco escuro aqui — disse, mas havia algo afetado a respeito disso, e ela desejava poder ver o rosto dele enquanto levantava a vela e usava sua luz para iluminar mais.


—Dormi enquanto ainda caia o crepúsculo — disse, por que... Bom, porque parecia haver certo acordo tácito entre eles para manter tudo cordial, cuidadosa e civilizadamente e todo o resto que significava que evitavam algo real. —Sério? — Replicou. — Anoitece mais cedo agora. Devia estar muito cansada. —É exaustivo carregar uma pessoa extra em mim. Ele sorriu. Finalmente. —Não será por muito tempo. —Não, mas quero que este último mês seja o mais prazeroso possível. As palavras penduraram no ar. Ela não quis dizer inocentemente e ele não interpretou mal. —O que quer dizer com isso? — Perguntou cada palavra tão suave e precisa que ela não pôde perder sua séria intenção. —Quero dizer... — Engoliu nervosamente, desejando estar de pé com as mãos nos quadris, ou os braços cruzados, ou algo, menos nesta posição completamente vulnerável deitada no sofá. — Significa que não posso continuar como estávamos antes. —Pensei que éramos felizes — disse com cautela. —Éramos. Eu era. Quero dizer... Mas não era. —Era ou não era, princesa. Um ou outro. —Ambos — disse, odiando o tom sem caráter de sua voz. — Não entende? —E logo o olhou. — Não, vejo que não. —Não entendo o que quer que eu faça — disse rotundamente. Mas ambos sabiam que estava mentindo. —Preciso saber onde estamos Turner. —Maldita seja mulher. É minha esposa. O que mais precisa saber? —Preciso saber que me ama! — Explodiu, ficando em pé com estupidez. Ele não replicou, ele só ficou parado ali com um músculo retorcendo em sua bochecha, então ela acrescentou. — Ou preciso saber que não ama. —Que demônio significa isso? —Significa que quero saber o que sente Turner. Preciso saber o que sente por mim. Se não... Se não... — Ela apertou os fechados olhos e retorceu as mãos, tentando entender exatamente o que era que queria dizer. — Não importa se não se preocupa — disse finalmente. — Mas devo saber. —De que diabo está falando? — Arrastou seus dedos furiosamente por seu cabelo. — Cada minuto do dia eu digo que te adoro.


—Não diz que me adora. Diz que adora estar casado comigo. —Qual é a diferença? — Quase gritou. —Talvez só goste de estar casado. —Depois de Letícia? — Cuspiu. —Sinto muito — disse, porque sentia. Por isso. Mas não pelo resto. — Há uma diferença — disse em uma voz baixa. — Uma grande. Quero saber se importa comigo, não só pela forma em que te faço sentir. Ele descansou as mãos no parapeito, inclinando‐se pesadamente enquanto olhava pela janela. Ela só podia ver suas costas, mas o ouviu dizer claramente: —Não sei do que está falando. —Não quer saber — explodiu. — Tem medo de pensar nisso. Você... Turner se virou e a calou com um olhar que era tão duro como nenhum que alguma vez tivesse visto. Inclusive na noite quando a beijou pela primeira vez, quando estava sentado sozinho, embebedando‐se depois de sepultar Letícia, não o viu assim. Andou para ela, com movimentos lentos e fervendo de raiva. —Não sou um marido dominante, mas minha indulgência não se estende a ser chamado de covarde. Escolha suas palavras com grande cuidado, esposa. —E você pode escolher suas atitudes com maior cuidado — respondeu, seu tom se deslizou ao longo de suas costas. — Não sou uma pequena tola — seu corpo inteiro tremeu enquanto lutava pelas palavras — como se pudesse me tratar como se não tivesse cérebro. —OH, pelo amor de Deus, Miranda. Quando a tratei assim? Quando? Diga‐me, porque estou condenadamente curioso. Miranda gaguejou incapaz de fazer frente ao desafio. Finalmente disse: —Eu não gosto que falem comigo em tom arrogante, Turner. —Então não me provoque — sua expressão estava perigosamente perto da gozação. —Que não o provoque? — Estalou incredulamente, avançando para ele. Você não me provoque! —Não fiz nada, Miranda. Um minuto pensei que éramos felizmente felizes e no


próximo vem para mim feita uma fúria, me acusando de Deus sabe que horrível crime, e... Detiveram‐se quando sentiu os dedos dela freneticamente cravados em seus braços. —Pensava que éramos felizes? — Sussurrou Por um momento, quando a olhou era quase como se estivesse meramente surpreendida. —É obvio que sim — disse. — Digo isso todo o tempo. — Mas logo se deu uma sacudida, arregalou os olhos e a empurrou longe. — OH, esqueci. Tudo o que fiz tudo o que disse... Nada importou. Não quer saber que sou feliz contigo. Não se importa se eu gosto de estar contigo. Somente quer saber como me sinto. E logo, porque ela não podia evitar não dizer, sussurrou: —Como se sente a respeito de mim? Foi como se o tivesse arrebentado com um alfinete. Tinha sido todo movimento e energia, as palavras derramando‐se em tom zombador de sua boca, e agora... Agora só ficou ali, sem fazer um ruído, só contemplando‐a como se tivesse liberado a Medusa em sua sala. —Miranda, eu... Eu... —Você o que Turner? Você o que? —Eu... Oh, Cristo, Miranda, isto não é justo. —Não pode dizer. — Seus olhos se encheram de horror. Até esse momento tinha conservado a esperança de que ele simplesmente soltasse que talvez só estivesse pensando muito duramente a respeito disso, e quando o momento fosse correto e suas paixões fossem altas, as palavras se derramariam de seus lábios, e se daria conta de que a amava. — Deus — suspirou Miranda. A pequena parte de seu coração que sempre acreditou que a amaria murchou e morreu no espaço de um segundo, destroçando a maior parte de sua alma com ela. — Deus — disse outra vez. — Não pode dizer. Turner viu o vazio em seus olhos e soube que a tinha perdido. —Não quero te ferir — disse fracamente. —É muito tarde. —Suas palavras se agarraram a sua garganta, e caminhou lentamente à porta. —Espere! Deteve‐se e virou. Ele a alcançou e levantou o pacote que havia trazido consigo. —Tome — disse, embotado e plano. — Trouxe isto. Miranda tomou o pacote de sua mão, contemplando suas costas enquanto


saía a grandes passos da sala. Com as mãos tremendo, desembrulhou‐o. A Morte d'Arthur. A mesma cópia que tinha desejado tão ferventemente da livraria de cavalheiros. —Oh, Turner — sussurrou. — Por que tinha que ir e fazer algo tão doce? Por que não pode somente me deixar te odiar? Muitas horas depois, quando limpou o livro com seu lenço, encontrou‐se esperando que suas salgadas lágrimas não tivessem arruinado permanentemente a capa de couro. 7 DE JUNHO DE 1820 Ladies Rudland e Olivia chegaram hoje para esperar o nascimento do "herdeiro", como todo o clã Bevelstoke o chama. O doutor não parece pensar que o terei até dentro de um mês, mas Lady Rudland disse que não queria nenhum risco. Estou segura que notaram que Turner e eu não compartilhamos mais o quarto. É pouco comum, é obvio que os casais casados compartilhem o quarto, mas a última vez que estiveram aqui o fazia e está segura que se perguntam a respeito da separação. Passaram duas semanas já desde que mudei meus pertences. Minha cama está cheia de correntes de ar e fria. Odeio. Não estou nem sequer emocionada pelo nascimento do menino.

CAPÍTULO 19

As seguintes semanas foram horríveis. Turner começou a pedir que enviassem sua comida ao estúdio, ficar sentado do outro lado de Miranda durante uma hora cada tarde era mais do que podia suportar. Desta vez a tinha perdido, era uma agonia olhar dentro de seus olhos e vê‐los tão vazios e carentes de emoção. Se Miranda já não era capaz de sentir nada mais, nesse momento Turner sentia muito.


Sentia‐se furioso com ela por colocá‐lo em uma situação crítica e que tentasse forçá‐lo a reconhecer emoções que não estava certo de sentir. Estava furioso já que ela havia decidido abandonar o matrimônio depois de determinar que ele não passasse em algum tipo de prova que dispôs para ele. Sentia‐se culpado de fazê‐la tão miserável. Estava confuso a respeito de como tratá‐la e aterrorizado de não poder reconquistá‐la jamais. Estava zangado consigo mesmo por sua incapacidade para dizer simplesmente que a amava e a considerava, de algum jeito, inadequado não saber como fazer até determinar se estava apaixonado. Mas sobre tudo, sentia‐se sozinho. Estava sozinho e triste pela esposa. Sentia falta dela e de todos seus pequenos comentários graciosos e expressões estranhas. De vez em quando cruzava com ela no corredor e se obrigava a examinar seu rosto, tratando de vislumbrar a mulher com a qual se casou. Mas ela se foi. Miranda havia se convertido em uma mulher diferente. Parecia que já não se preocupava. Por nada. Sua mãe, que veio para ficar até que o menino nascesse, o procurou para lhe dizer que Miranda mal se encostava à comida. Ela deveria dar‐se conta de que era mau para sua saúde. Mas não se sentia com coragem suficiente para procurá‐la e lhe inculcar um pouco de sentido comum. Simplesmente deu instruções a alguns dos criados para que mantivessem um olho vigilante sobre ela. Davam informações diariamente, geralmente, no começo da tarde, quando se sentava em seu estúdio, considerando o álcool e os efeitos amnésicos deste. Esta noite não era diferente; ia por seu terceiro brandy quando ouviu um brusco golpe na porta. —Entre. Para grande surpresa dela, sua mãe entrou. Saudou‐a com a cabeça cortesmente. —Veio me repreender, imagino. Lady Rudland cruzou os braços. —E exatamente por que pensa que necessita ser repreendido? Seu sorriso careceu de todo humor. —Por que não me diz você? Estou seguro que tem uma extensa lista. —Viu sua esposa ao longo da semana passada? — Exigiu. —Não, não acredito que... Ah!... Ah! Espera um minuto. —Tomou um gole do brandy. — Cruzei com ela no corredor faz alguns dias. Acho que foi na terça‐feira.


—Está de mais de oito meses de gravidez, Nigel. —Asseguro que sou consciente disso. —É um canalha por deixá‐la sozinha em um momento de necessidade. Ele tomou outro gole. —Só para esclarecer as coisas, ela me deixou sozinho, não ao contrário. E não me chame de Nigel. —Chamarei como malditamente me agrade. Turner elevou as sobrancelhas ante o uso da primeira blasfêmia que em toda sua vida ouviu escapar dos lábios de sua mãe. —Felicidade se rebaixou a meu nível. —Me dê isso! — Equilibrou‐se para frente e agarrou o copo de sua mão. O líquido âmbar salpicou sobre a escrivaninha. — Está me deixando horrorizada Nigel. É tão malvado como quando estava com Letícia. É odioso, grosseiro... —ficou sem acabar quando a mão dele se envolveu ao redor de seu pulso. —Nunca cometa o engano de comparar Miranda com Letícia — disse ele com voz ameaçadora. —Não o fiz! — Seus olhos se abriram de par em par pela surpresa. — Jamais me ocorreria. —Bem. — Soltou‐a de repente e caminhou para a janela. A paisagem era tão rude como seu humor. Sua mãe permaneceu silenciosa um momento, mas então perguntou: —Como fará para tentar salvar seu casamento, Turner? Ele soltou um desalentado suspiro. —Por que está tão segura de que sou eu quem precisa fazer algo por salvá‐lo? —Pelo amor de Deus, só olhe à moça. Está claramente apaixonada por você. Seus dedos agarraram o batente até que os nódulos ficaram brancos. —Não vi nenhuma indicação disso ultimamente. —Como poderia? Não a viu em semanas. Por seu bem, espero que não tenha matado o que fosse que ela sentia por você. Turner não disse nada. Só queria que a conversa terminasse. —Não é a mesma mulher que era faz alguns meses — seguiu sua mãe. — Era tão feliz. Faria tudo por você. —As coisas mudaram mãe — disse concisamente. —E podem voltar a mudar — disse Lady Rudland com voz suave embora


insistente. — Venha jantar conosco esta noite. É terrivelmente incômodo sem você. —Será muito mais incômodo comigo, eu garanto. —Me deixe ser o juiz nisto. Turner ficou de pé erguido, fez uma longa e tremula inalação. Sua mãe estava certa? Poderiam ele e Miranda resolver suas diferenças? —Letícia ainda está nesta casa — disse sua mãe brandamente. — Deixe‐a ir. Deixe que Miranda te cure. Ela faria isso e você sabe se somente lhe desse a chance. Sentiu a mão de sua mãe em seu ombro, mas não se virou, ele era muito orgulhoso para deixá‐la ver sua dor. A primeira dor apertou seu ventre aproximadamente uma hora antes de descer para jantar. Assustada, Miranda colocou a mão sobre o abdômen. O doutor havia dito que muito provavelmente daria a luz em duas semanas. —Sim, parece que vai adiantar — disse suavemente. — Só fique aí dentro para o jantar, está bem? Realmente estou faminta. Não estive durante semanas, já sabe, e necessito um pouco de alimento. O bebê chutou em resposta. —Então será desse modo, não é? — Sussurrou Miranda com um sorriso mudando seus traços pela primeira vez em semanas. — Farei um trato contigo. Você me deixa passar o jantar em paz e prometo não te pôr um nome como Iphigenia. Sentiu outro chute. —Se for uma garota, é obvio. Se for um menino, então eu prometo não te chamar... Nigel! — Riu o som pouco familiar e... Agradável. — Prometo não te chamar de Nigel. O bebê ficou quieto. —Bom. Agora, vamos nos vestir, vamos? Miranda chamou a criada e uma hora mais tarde, descia a escada para a sala de jantar, segurando fortemente o corrimão em toda a descida. Não estava segura de por que não queria dizer a ninguém que o bebê estava a caminho, talvez só fosse sua natural aversão a armar alvoroço. Além disso, salvo por uma dor a cada dez minutos mais ou menos, sentia‐se bem. Certamente não tinha nenhum desejo de ser confinada na cama ainda. Só esperava que o bebê pudesse conseguir refrear‐se durante


a refeição. Havia algo vagamente abafadiço a respeito do parto, e ela não tinha nenhum desejo de inteirar do por que diretamente na mesa da sala de jantar. —Ah, aí está, Miranda — gritou Olivia. — Estávamos justamente bebendo no salão rosado. Se junta a nós? Miranda assentiu com a cabeça e seguiu a amiga. —Parece um pouco estranha, Miranda — continuou Olivia. — Sente‐se bem? —Só grande obrigada. —Bom, encolherá logo. Mais logo do que qualquer um se daria conta, pensou Miranda ironicamente. Lady Rudland lhe deu um copo de limonada. —Obrigada — disse Miranda. — De repente tenho muita sede. — Desatendendo as boas maneiras, Miranda bebeu de um gole. Lady Rudland não disse uma palavra enquanto enchia o copo novamente. Miranda bebeu aquele quase igualmente rápido. — Acha que o jantar estar pronto? — Perguntou. — Estou terrivelmente faminta. — Esta era, na realidade, só a metade da história. Daria a luz ao bebê na mesa da sala de jantar se atrasassem muito mais tempo. —Certamente — respondeu Lady Rudland levemente desconcertada pela impaciência de Miranda. — Vá à frente. Depois de tudo, esta é sua casa, Miranda. —Assim é. — Curvou a cabeça bruscamente e sujeitou o abdômen como se isto pudesse contê‐lo e saiu ao corredor. Caminhou diretamente para Turner. —Boa noite, Miranda. Sua voz era rica e rouca, e ela sentiu que algo revoava profundamente em seu coração. —Confio que esteja bem — disse. Assentiu com a cabeça, tentando não olhá‐lo. Tinha passado o mês anterior treinando para não derreter em um atoleiro de paixão e desejo cada vez que o visse. Tinha aprendido a educar seus traços em uma máscara impassível. Todos sabiam que ele havia destroçado‐a; não precisava que todo mundo notasse cada vez que ele entrava em um recinto. —Me desculpe — murmurou, passando por diante dele para a sala de jantar. Turner agarrou seu braço. —Me permita que a escolte, princesa. O lábio inferior de Miranda começou a tremer. O que ele estava fazendo? Se


estivesse sentindo‐se menos confusa — ou menos grávida — provavelmente teria feito uma tentativa de se soltar dele, mas tal como estava, consentiu e permitiu que ele a conduzisse a mesa. Turner não disse nada durante os primeiros pratos, o que foi melhor assim para Miranda, que estava contente de evitar toda conversa em favor de sua refeição. Lady Rudland e Olivia tratou de envolvê‐la na conversa, mas Miranda sempre conseguia ter a boca cheia. Salvou‐se de responder mastigando, engolindo e depois murmurando: —Realmente estou muito faminta. Isto funcionou para os três primeiros pratos, até que o bebê deixou de cooperar. Pensou que estivesse conseguindo muito bem não reagir ante as dores, mas deve ter se estremecido, porque Turner olhou bruscamente em sua direção e perguntou: —Há algo errado? Sorriu palidamente, mastigou, engoliu e murmurou: —Absolutamente. Mas realmente estou muito faminta. —Já percebemos — disse Olivia secamente, ganhando um reprovador olhar de sua mãe. Miranda tomou outro bocado do frango com amêndoas e logo estremeceu de novo. Desta vez Turner estava seguro de ter visto. —Fez um ruído — disse firmemente. — Ouvi. O que está acontecendo? Ela mastigou e engoliu. —Nada. Embora esteja muito faminta. —Talvez esteja comendo muito depressa — sugeriu Olivia. Miranda se lançou sobre a desculpa. —Sim, sim, deve ser isso. Irei mais devagar. — Por sorte, a conversa mudou de direção quando Lady Rudland fez Turner entrar em um debate sobre o projeto de lei que ele tinha apoiado recentemente no Parlamento. Miranda estava agradecida de que sua atenção estivesse ocupada em outra parte; esteve olhando‐a muito atentamente, e lhe era difícil manter o rosto sereno quando sentia uma contração. Seu ventre se apertou de novo, e desta vez perdeu a paciência. —Pare — sussurrou olhando para baixo, a cintura. — Ou com certeza será Iphigenia. —Disse algo, Miranda? — Perguntou Olivia. —OH, não, acho que não.


Passaram outros poucos minutos, e sentiu outro apertão. —Pare Nigel — sussurrou. — Tínhamos um acordo. —Estou certa de que disse algo — disse Olivia bruscamente. —Chamou‐me precisamente de Nigel? — Perguntou Turner. Gracioso, pensou Miranda, como ao chamá‐lo de Nigel parecia transtorná‐lo mais do que sua partida da cama de casamento. —É obvio que não. Está imaginando coisas. Mas juro que estou cansada. Acho que irei me retirar, se nenhum de vocês se importarem. — Começou a levantar, então sentiu uma corrente de líquido entre suas pernas. Voltou a sentar‐se. — Talvez espere à sobremesa. Lady Rudland se desculpou, afirmando que estava fazendo um regime e que não podia suportar vê‐los comer o pudim. Sua partida tornou mais difícil para Miranda evitar a conversa, mas fez todo o possível, pretendia ficar concentrada na refeição e esperou que ninguém lhe fizesse uma pergunta. Finalmente, o jantar terminou. Turner ficou de pé e caminhou para seu lado, lhe oferecendo o braço. —Não, acho que ficarei sentada aqui durante um momento. Estou um pouco cansada, já sabe. — Podia sentir um rubor subindo ao longo de seu pescoço. Céus! Ninguém tinha escrito alguma vez um livro de boas maneiras concernente ao que fazer quando o bebê de alguém queria nascer em uma sala de jantar formal. Miranda estava completamente mortificada, e tão assustada que parecia impossível levantar‐se da cadeira. —Quer outra porção? — O tom de Turner foi seco. —Sim, por favor — respondeu ela com voz gasta. —Miranda, está certa de que se encontra bem? — Perguntou Olivia quando Turner mandou chamar um servente. — Está muito estranha. —Faz que venha sua mãe — grasnou Miranda. — Agora. —É...? Miranda assentiu com a cabeça. —OH, Meu Deus! — Disse Olivia engolindo saliva. — É o momento. —Que momento? — Perguntou Turner com irritação. Então espionou a expressão aterrorizada de Miranda. — Por todos os Santos! Esse momento. Cruzou com longos passos a sala e pegou a esposa nos braços, inconsciente do modo em que suas saias empapadas manchavam a fina malha de sua jaqueta. Miranda se agarrou ao poderoso corpo, esquecendo todos seus votos de permanecer indiferente diante dele. Sepultou seu rosto na curva de seu pescoço, permitindo que sua força se filtrasse nela. Ia necessitá‐la nas horas vindouras. —Pequena tola — murmurou. — Quanto tempo você está aí sentada com


dores? Decidiu não responder, sabendo que a verdade só lhe proporcionaria uma reprimenda. Turner a levou para um quarto de convidados que havia sido preparado para o parto. No momento em que a deitou na cama, Lady Rudland se precipitou dentro. —Muito obrigada, Turner — disse rapidamente. — Mande chamar o médico. — Brearley já se encarregou disso — respondeu, olhando para baixo, Miranda com expressão ansiosa. —Bem, então, vá se mantiver ocupado. Tome uma taça. —Não tenho sede. Lady Rudland suspirou. —Tenho que lhe explicar isso mais detalhadamente, filho? Vai! —Por quê? —Turner parecia incrédulo. —Não há lugar para os homens em um parto. —Certamente houve suficiente lugar para mim antes — resmungou. Miranda ruborizou com um profundo carmesim. —Turner, por favor — rogou. Ele a olhou. —Quer que eu vá? —Sim. Não. Não sei. Ele colocou as mãos nos quadris e confrontou a mãe. —Acho que deveria ficar. Também é meu filho. —OH, muito bem. Só se aproxime daquele canto e fique fora do caminho. — Lady Rudland agitou seus braços, espantando‐o. Outra contração pegou Miranda. —Eeeengh — gemeu. —O que foi isso? — Turner saiu disparado para o lado dela de um salto. — Isto é normal? Se ela estiver... —Turner, cale‐se! — Disse Lady Rudland. — Vai preocupá‐la. — Inclinou‐se para Miranda e pressionou um pano úmido em sua testa. — Não de ouvidos, querida. É absolutamente normal. —Eu sei. Eu... — Fez uma pausa para tomar fôlego. — Poderia tirar este vestido?


—OH, Meu Deus! É obvio. Sinto tanto. Esqueci por completo. Deve estar tão incômoda. Turner venha aqui e me dê uma mão. —Não! — Exclamou Miranda bruscamente. Ele parou em seco e seu rosto ficou frio. —Quero dizer, ou faz você ou ele — disse Miranda a sogra. — Mas não ambos. —É o parto o que fala — disse Lady Rudland docemente. — Não está pensando com claridade. —Não! Ele pode fazê‐lo, se você quiser, por que... Viu‐me antes. Ou você pode fazê‐lo porque é uma mulher. Mas não quero que me olhe enquanto ele me vê. Não entende? — Miranda agarrou o braço da mulher mais velha com uma força inusitada. Atrás, no canto, Turner reprimiu um sorriso. —Deixarei que faça as honras, mãe — disse mantendo a voz inexpressiva para assim não começar a rir. Com uma brusca inclinação de cabeça, deixou o recinto. Obrigou‐se a andar até a metade do corredor antes de deixar‐se levar pela risada. Que pequena coleção de escrúpulos tão graciosos tinha sua esposa. De volta ao quarto, Miranda estava apertando os dentes ante outra contração quando Lady Rudland lhe tirou o vestido estragado. —Ele foi? — Perguntou. Não confiava em que ele não desse uma olhadinha. Sua sogra assentiu com a cabeça. —Não nos incomodará. —Não é um incomodo — disse Miranda, antes que pudesse pensar bem nisso. —É obvio que é. Os homens não têm lugar durante o parto. É sujo e doloroso, e nenhum deles sabe o que fazer para ser útil. O melhor, é deixar que se sente do lado de fora e que reflitam todos os modos em que eles deveriam nos recompensar pelo árduo trabalho. —Comprou‐me um livro — sussurrou Miranda. —Ele? Estava pensando em diamantes. —Também seria agradável — disse Miranda fracamente. —Deixarei cair uma indireta em seu ouvido. —Lady Rudland terminou de colocar Miranda na camisola e afofou os travesseiros atrás dela. — Pronto. Está cômoda?


Outra dor agarrou seu ventre. —Não. Realmente — apertou entre dentes. —Foi outra? — Perguntou Lady Rudland. — Meu Deus! Vêm muito seguidas. Este pode ser um nascimento extraordinariamente rápido. Espero que o Doutor Winters chegue logo. Miranda conteve o fôlego quando remontou outra onda de dor, assentindo com a cabeça seu acordo. Lady Rudland tomou sua mão e a apertou com seu rosto enrugado com empatia. —Se a faz sentir‐se um pouco melhor — disse, — isto é muito pior com gêmeos. —Não o faz — ofegou Miranda. —A faz se sentir um pouco melhor? —Não. Lady Rudland suspirou. —Não pensei que o faria realmente. Mas não se preocupe — acrescentou animando‐se um pouco. — Tudo acabará logo. Vinte e duas horas mais tarde, Miranda queria uma nova definição da palavra logo. Seu corpo inteiro estava sacudido pela dor, sua respiração vinha em estertores irregulares e sentia como se verdadeiramente não pudesse abastecer de suficiente ar a seu corpo. E as contrações continuavam vindas cada uma pior que a última. —Sinto que vem uma — gemeu. Lady Rudland imediatamente esfregou sua testa com um pano frio. —Só empurra, amor. —Não posso... Estou muito... Droga! — gritou usando o epíteto favorito de seu marido. No corredor, Turner ficou rígido quando a escutou gritar. Depois de conseguir que Miranda mudasse o vestido manchado, sua mãe o levou para fora do alcance do ouvido e o convenceu de que seria melhor para todos se ficasse no corredor. Olivia havia trazido duas cadeiras de uma sala próxima e diligentemente lhe fazia companhia, tentando não estremecer quando Miranda gritava de dor. —Isso soou mal — disse nervosamente, tentando conversar. Ele a fulminou com o olhar. Que palavras mais inoportunas! —Estou segura que tudo terminará logo — disse Olivia com mais esperança


que certeza. — Não acredito que isto possa piorar muito. Miranda gritou outra vez, claramente em agonia. —Ao menos não acho que tanto — acrescentou Olivia fracamente. Turner enterrou o rosto nas mãos. —Não vou voltar a tocá‐la jamais — gemeu ele. —Não vai voltar a me tocar jamais! — Ouviram o rugido da Miranda. —Bom, não parece que terá muita discussão com sua esposa sobre esse assunto — gorjeou Olivia. Deu uma tapinha no queixo com os nódulos. — Anime‐se, irmão mais velho. Está a ponto de se converter em pai. —Logo, espero — resmungou. — Não acho que posso suportar isto muito mais. —Se você pensar que é ruim pense em como Miranda deve sentir‐se. Cravou um penetrante olhar letal nela. De novo palavras inoportunas. Olivia fechou a boca. No quarto do parto, Miranda sustentava a mão de sua sogra em um apertão firme. —Faça que pare — gemeu. — Por favor, faça parar. —Terminará logo, lhe garanto. Miranda puxou‐a para baixo até que estiveram quase cara a cara. —Disse isso ontem! —Desculpe Lady Rudland? Era o Doutor Winters, que tinha chegado uma hora depois de as dores tivessem começado. —Poderia falar com você? —Sim, sim, é obvio — disse Lady Rudland, resgatando com cuidado sua mão da Miranda. — Voltarei. Prometo. Miranda assentiu sacudindo a cabeça e se aferrou aos lençóis, necessitava algo que apertar quando a dor alcançava seu corpo. Sua cabeça caiu de um lado ao outro enquanto tentava respirar fundo. Onde estava Turner? Será que ele não se dava conta de que precisava dele? Necessitava seu calor, seu sorriso, mas sobre tudo, necessitava sua força porque não achava que teria bastante por ela mesma para passar por esta dura prova. Mas era obstinada e tinha seu orgulho, e não se sentia com ânimo para


perguntar à Lady Rudland onde ele estava. Em lugar disso apertou os dentes e tentou não gritar de dor. —Miranda? — Lady Rudland estava olhando‐a com um gesto de preocupação. —Miranda, querida, o Doutor diz que tem que empurrar mais forte. O bebe precisa de um pouco de ajuda para sair. —Estou muito cansada — gemeu. — Não posso fazê‐lo mais. —Preciso do Turner. Mas ela não sabia como dizer as palavras. —Sim, pode. Se empurrar só um pouco mais forte agora, acabará muito mais rapidamente. —Não posso... Não posso... Ohhhh! —Isso, Lady Turner — disse o Doutor Winters energicamente. — Impulso agora. —Eu... Oh, isto dói. Dói. —Impulso. Posso ver a cabeça. —Pode? — Miranda tentou levantar a cabeça. —Shhh, não estire o pescoço — disse Lady Rudland. — De todos os modos não será capaz de ver nada. Confia em mim. —Continue empurrando — disse o Doutor. —Estou tentando. Estou tentando. — Miranda sujeitou fortemente seus dentes juntos e apertou. — É... Você pode... — Tomou umas baforadas gigantescas de ar. — Qual o sexo? —Não posso dizer ainda. — Respondeu o Doutor Winters. — Espere. Espere um minuto... Aqui estamos. — Uma vez que a cabeça surgiu, o corpo pequeno deslizou rapidamente. — É uma menina. —É? — Miranda respirou e suspirou cansadamente. — É obvio que é. Turner sempre consegue o que quer. Lady Rudland abriu a porta e colocou a cabeça ao corredor enquanto o Doutor olhava o bebê. —Turner? Elevou a vista com o rosto gasto. —Terminou Turner. É uma menina. Tem uma filha. —Uma menina? — Repetiu Turner. A longa espera no corredor tinha consumido‐o, e depois de quase um dia inteiro escutando a esposa gritar de dor, não podia acreditar totalmente que havia terminado, era pai.


—É linda — disse sua mãe. — Perfeita em todos os sentidos. —Uma menina — disse ele outra vez, sacudindo a cabeça maravilhado. Virou‐ se para a irmã, que permaneceu ao seu lado ao longo da noite. — Uma menina. Olivia eu tenho uma menina! — E logo, surpreendendo ambos, jogou os braços a seu redor e a abraçou. —Eu sei, eu sei. — Inclusive Olivia tinha problemas para conter as lágrimas nos olhos. Turner lhe deu um último apertão, então voltou o olhar a mãe. —De que cor tem os olhos? São marrons? Um divertido sorriso se estendeu pelo rosto de Lady Rudland. —Não sei querido. Não cheguei a olhá‐la. Mas os olhos dos bebês freqüentemente mudam de cor quando são pequenos. Provavelmente não saberemos com certeza até dentro de algum tempo. —Serão marrons — disse Turner com firmeza. Os olhos de Olivia aumentaram ante o repentino conhecimento. —Você a ama. —Hmm? O que disse pirralha? —A ama. Ama Miranda. Maravilha, mas aquele aperto na garganta que sempre sentia ante a menção da palavra havia desaparecido. —Eu... — Turner parou em seco, sua boca abriu ligeiramente em assombrada surpresa. —A ama — repetiu Olivia. —Acho que sim — disse perplexo. — A amo. Amo Miranda. —Já era hora que se dessa conta — disse sua mãe descaradamente. Turner se sentou com a boca aberta, assombrado pela facilidade que sentia tudo nesse momento. Por que levou tanto tempo para dar‐se conta? Deveria ter sido claro como o dia. Amava Miranda. Amava tudo dela, desde as sobrancelhas delicadamente arqueadas até as habituais brincadeiras sarcásticas e a forma que inclinava a cabeça quando sentia curiosidade. Amava seu engenho, a calidez, a lealdade. Inclusive gostava da forma que seus olhos ficavam levemente unidos. E agora havia lhe dado uma filha. Tinha jazido naquela cama e parido durante horas sob uma tremenda dor, tudo para lhe dar uma filha. As lágrimas brotaram de seus


olhos. —Quero vê‐la. — Quase se afogou com as palavras. —O doutor terá a menina pronta em um momento — disse sua mãe. —Não. Quero ver Miranda. —OH. Bom, não vejo nada de mau. Espere só um segundo. Doutor Winters? Ouviram uma maldição em voz muito baixa, e então deixaram o bebê nos braços da avó. Turner abriu de repente a porta. —O que houve? —Está perdendo muito sangue — disse o Doutor com voz grave. Turner olhou a esposa e quase tropeçou pela dor. Havia sangue por todos os lados; parecia sair dela e tinha o rosto mortalmente pálido. —OH, Deus — disse com voz estrangulada. — OH, Miranda. Dei a luz hoje. Ainda não sei seu nome. Não me deixaram segurá‐la. Achava que poderia te colocar o nome de minha mãe. Era uma mulher encantadora e sempre me abraçava com força na hora de dormir. Seu nome era Caroline. Espero que Turner goste. Nunca falamos de nomes. Estou dormindo? Posso ouvir todo mundo ao meu redor, mas parece que não posso dizer nada. Tento lembrar estas palavras em minha cabeça para assim poder escrevê‐las logo. Acho que estou dormindo.

CAPÍTULO 20

O doutor conseguiu estancar a hemorragia, mas estava sacudindo a cabeça enquanto lavava as mãos. —Perdeu muito sangue — disse com seriedade. — Ficará debilitada. —Mas irá se recuperar? — Perguntou ansioso Turner. O doutor Winters elevou os ombros em um melancólico encolhimento. —Só podemos ter esperanças. Não gostando daquela resposta, Turner o empurrou para passar e se sentou em uma cadeira junto à cama da esposa. Pegou a flácida mão e a sustentou na dele. —Irá se recuperar — disse em voz rouca. — Tem que fazê‐lo. Lady Rudland clareou a garganta.


—Doutor Winters, tem alguma ideia do que causou tanto sangue? —Poderia ser um rasgo no útero. Provavelmente ao expulsar a placenta. —É algo comum? O doutor assentiu. —Creio que devo ir. Há outra mulher na região que está esperando e preciso dormir um pouco se quero atendê‐la apropriadamente. —Mas Miranda... — As palavras de Lady Rudland se apagaram quando olhou a nora com consternação e medo. —Não há nada mais que possa fazer por ela. Só podemos esperar e rezar para que seu corpo cure o rasgo e não volte a sangrar. —E se sangrar? — Perguntou Turner monotonamente. —Se o fizer, pressionem ataduras limpas contra ela como eu fiz. E mande alguém me buscar. —Se o fizermos, há alguma maldita possibilidade de que chegue a tempo? — perguntou Turner mordaz, a dor e o terror rompendo toda cortesia. O doutor decidiu não responder. Inclinou a cabeça. —Lady Rudland. Lorde Turner. Quando a porta se fechou, Lady Rudland cruzou o aposento até chegar ao lado do filho. —Turner — disse em tom tranquilizador. — Deveria descansar um pouco. Esteve de pé toda a noite. —Igual a você. —Sim, mas eu... — suas palavras se apagaram. Se seu marido estivesse moribundo, ela quereria estar com ele. Plantou um beijo no alto da cabeça de Turner. — O deixarei sozinho com ela. Ele se virou, seus olhos brilhavam perigosamente. —Maldito seja tudo, mãe! Não estou aqui para me despedir. Não há necessidade de falar como se ela estivesse morrendo. —Claro que não. — Mas seus olhos, cheios de piedade e pena, diziam algo diferente. Deixou o recinto em silêncio. Turner baixou a cabeça e olhou o pálido rosto de Miranda, um músculo se moveu espasmodicamente em sua garganta. —Deveria ter dito que te amava — disse com voz rouca. — Deveria ter dito isso. É tudo o que queria escutar, não é? E fui muito estúpido para me dar conta. Acho que a amei todo este tempo, meu amor. Desde o começo. Desde aquele dia


na carruagem quando me disse por fim que me amava. Estava... Deteve‐se, acreditando ter visto um movimento em seu rosto. Mas foi só sua própria sombra movendo‐se por sua pele enquanto se balançava para frente e para trás. —Estava tão surpreso — disse, uma vez que voltou a recuperar a voz. — Tão surpreso porque alguém pudesse me amar e não desejar nenhum tipo de poder sobre mim. Tão surpreso de que pudesse me amar e não querer me mudar. E eu... Eu não pensei que pudesse voltar a amar. Mas estava enganado! — Flexionou as mãos nervosamente, e teve que resistir a urgência de tomá‐la pelos ombros e sacudi‐la. —Eu estava enganado droga, e não foi tua culpa. Não foi sua culpa, amor. Foi minha. Ou talvez de Letícia, mas definitivamente não sua. — Elevou outra vez a mão e a levou aos lábios. — Nunca foi sua culpa, amor — disse de maneira suplicante. — Assim volta para mim. Por favor. Juro está me assustando. Não quer me assustar, não é? Garanto que não é um espetáculo bonito. Não houve resposta. Desejou que ela tossisse, ou que se inquietasse, mudasse de posição, ou qualquer coisa. Mas só continuou ali deitada, tão quieta, tão imóvel que um momento de absoluto terror desceu sobre ele e frenético girou sua mão para sentir a pulsação no interior de seu pulso. Turner suspirou aliviado. Ali estava. Era fraca, mas estava ali. Deixou sair um bocejo cansado. Estava esgotado e as pálpebras fechavam, mas não se permitiria dormir. Precisava estar com ela. Precisava vê‐la, ouvi‐la respirar, simplesmente ver a forma em que a luz brincava com sua pele. —Está muito escuro — murmurou, ficando de pé. — Isto parece um maldito necrotério. — Procurou pelo quarto, revolvendo gavetas e armários até que achou algumas velas mais. As acendeu rapidamente e as pôs nos suportes. Ainda continuava muito escuro. Aproximou‐se a grandes passos até a porta, abriu‐a de repente e gritou — Brearley! Mãe! Olivia! Imediatamente oito pessoas responderam a sua chamada, todas temendo o pior. —Preciso de mais velas — disse Turner, sua voz desmentia seu terror e seu cansaço. Umas quantas donzelas correram com prontidão. —Mas isto já está bastante iluminado — disse Olivia, colocando a cabeça no


quarto. Conteve o fôlego quando viu Miranda, sua melhor amiga desde a infância, deitada tão quieta. — Vai ficar bem? — Sussurrou. —Vai ficar bem — espetou Turner. — Sempre que pudermos ter um pouco de luz aqui. Olivia clareou garganta. —Eu gostaria de entrar e dizer algo. —Ela não vai morrer! — Explodiu Turner. — Ouviu? Não vai morrer. Não há necessidade de falar dessa forma. Não tem que lhe dizer adeus. —Mas se o faz — persistiu Olivia, as lágrimas lhe rodavam bochechas abaixo. — Sentir‐me‐ia... O controle de Turner quebro, e empurrou a irmã contra a parede. —Não vai morrer — disse com voz baixa e mortífera. — Apreciaria se deixasse de agir como se fosse. Olivia assentiu a puxões. Turner a soltou de improviso e logo olhou as mãos como se fossem objetos estranhos. —Meu Deus — disse confuso. — O que está acontecendo comigo? —Não ocorre nada, Turner — disse Olivia tranquilizadora, tocando‐o com cautela no ombro. — Tem todo o direito de estar tenso. —Não, não é verdade. Não quando necessita que seja forte por ela. — Voltou a entrar em passadas no recinto e se sentou uma vez mais com a esposa. — Agora mesmo não importa — murmurou, engolindo compulsivamente. — Nada importa exceto Miranda. Uma criada com cara de sono entrou no quarto com algumas velas. —Acenda todas — ordenou Turner. — Quero que aqui dentro esteja tão iluminado como se fosse dia. Ouviu? Iluminado como o dia. — Virou‐se de volta para Miranda e passou a mão pela testa dela. — Sempre gostou dos dias ensolarados. – Ficou horrorizado ao ouvir‐se e olhou freneticamente a irmã. — Quero dizer, adora os dias ensolarados. Olivia, incapaz de ver o irmão em tal estado de tristeza, assentiu e partiu em silêncio. Poucas horas depois, Lady Rudland entrou no recinto levando um pequeno vulto envolto em uma suave manta rosada. —Trouxe sua filha — disse brandamente.


Turner elevou a vista, emocionado ao dar‐se conta de que se esqueceu por completo da existência daquela pequena pessoa. Olhou‐a com incredulidade. —É tão pequena. Sua mãe sorriu. —Os bebês normalmente chegam assim. —Eu sei, mas... Parece‐se com ela. — Alargou seu dedo indicador para a mãozinha. Seus pequenos dedos o agarraram com surpreendente firmeza. Turner elevou a vista para a mãe, a maravilha ante aquela nova vida escrita em seu sombrio rosto. — Posso segurá‐la? —Claro. — Lady Rudland colocou o vulto nos braços dele. — É sua já sabe. —É não é verdade? — Baixou a vista para o rosado rosto e tocou o nariz. — Tudo bem? Bem vinda ao mundo, princesa. —Princesa? — Disse Lady Rudland divertida. — Que apelido tão gracioso! Turner negou com a cabeça. —Não, não é gracioso. É absolutamente perfeito. — Voltou a subir a vista para a mãe. — Por quanto tempo será assim pequena? —OH, não sei. Ao menos por um tempo. — Cruzou o quarto até a janela, e abriu as cortinas. — O sol está começando a sair. Olivia me disse que queria um pouco de luz no quarto. Assentiu sem poder tirar os olhos de sua filha. Ela deixou de retocar a janela e se virou de novo para ele. —OH, Turner... Tem os olhos marrons. —Sério? — Voltou a olhar o bebê. Tinha os olhos fechados, dormia. — Sabia que seria assim. —Bom, não iria querer decepcionar o papai em seu primeiro dia, não é mesmo? —Ou a mãe. — Turner passeou a vista sobre Miranda, ainda mortalmente pálida, logo abraçou aquele novo bebê mais perto. Lady Rudland olhou diretamente os olhos azuis de seu filho, tão parecidos com os dela, e disse: —Creio que Miranda esperava olhos azuis. Turner engoliu saliva, incômodo. Miranda o quis durante tanto tempo e tão bem, e ele a tinha rejeitado. Agora talvez a perdesse e ela nunca saberia que ele se deu conta de quão idiota tinha sido. Nunca saberia que a amava. —Suponho que sim — disse com voz afogada pela emoção. — Terá que esperar o próximo. Lady Rudland mordeu o lábio.


—É obvio querido — disse consoladora. — Pensou em nomes? Elevou a vista surpreso, como se a ideia de um nome nunca tivesse lhe ocorrido. —Eu... Não. Esqueci. — Admitiu. —Olivia e eu pensamos em alguns nomes bonitos. O que você acha de Julianna? Ou Claire. Sugeri Fiona, mas Olivia não gostou. —Miranda nunca permitiria que sua filha se chamasse Fiona — disse sem entusiasmo. — Sempre odiou Fiona Bennet. —Aquela pequena que vivia perto de Haverbreaks? Nunca soube. —É um ponto discutível, mãe. Não vou pôr um nome nela sem consultar Miranda. Lady Rudland voltou a engolir. —É obvio querido. Eu... O deixarei agora. Para que possa ficar um tempo a sós com sua família. Turner olhou a esposa e em seguida a filha. —Esta é sua mamãe — sussurrou. — Está muito cansada. Custou grande esforço te fazer sair. Não sei por que. Não é muito grande. —Para demonstrar seu argumento, tocou um de seus pequenos dedos. — Não acho que tenha te visto ainda. Sei que gostaria. A sustentaria abraçaria e te beijaria. Sabe por quê? —enxugou uma lágrima com estupidez. — Porque te ama, essa é a razão. Apostaria que te ama mais do que me ama. E acho que deve me amar bastante porque nem sempre agi como deveria. Lançou um furtivo olhar a Miranda para garantir que não havia acordado antes de acrescentar. —Os homens podem ser idiotas. Somos tolos e estúpidos e raramente abrimos os olhos o suficiente para ver as benções que temos na frente de nossas caras. Mas eu te vejo — acrescentou sorridente a filha. — E vejo sua mãe, e espero que seu coração seja o bastante forte para me perdoar pela aquela última vez. Entretanto, acho que sim o é. Sua mamãe tem um grande coração. O bebê gorjeou, fazendo Turner sorrir de prazer. —Vejo que está de acordo comigo. É muito inteligente para ter só um dia. Mas claro, não vejo por que teria que me surpreender. Sua mamãe também é muito inteligente. O bebê fez gorjeios.


—Adula‐me, princesa. Mas desta vez, deixarei que pense que eu também sou inteligente. — Olhou Miranda e sussurrou. — Só um de nós precisa saber quão idiota fui. O bebê fez outro som, levando Turner a acreditar que a filha deveria ser a menina mais inteligente de todas as Ilhas Britânicas. —Quer conhecer sua mãe, princesa? Bom, por que não a apresentamos. —Seus movimentos eram torpes, pois nunca antes tinha sustentado um bebê, mas de algum jeito conseguiu colocar a filha na curva do braço de Miranda. — Aqui vamos. Mmm está quentinha aí, hein? Eu gostaria de mudar meu lugar contigo. Sua mamãe tem uma pele realmente suave. — Alargou a mão e tocou a bochecha do bebê. — Embora não tão suave como a tua. Você, pequena, é assombrosamente perfeita. O bebê começou a remover‐se e depois de um momento deixou sair um forte pranto. —OH, querida — murmurou Turner, completamente perdido. Recolheu‐a e a embalou contra o ombro, tomando grande cuidado em segurar a cabeça como viu sua mãe fazer. — Calma; calma. Shhh. Cala. Está bem. Era óbvio que suas súplicas não estavam sortindo efeito porque a pequena bramou em seu ouvido. Bateram na porta e Lady Rudland olhou dentro. —Quer que a segure, Turner? Negou com a cabeça, pouco disposto a separar‐se da filha. —Acho que tem fome. A ama de leite está no quarto do lado. —OH. Claro. — Pareceu vagamente envergonhando enquanto entregava o bebê a sua mãe. — Aqui está. Estava a sós de novo com Miranda. Ela não se moveu para nada durante toda sua vigília, exceto pelo leve movimento de ascensão e descida do peito. —É de amanhã, Miranda — disse, tomando suas mãos entre as dele novamente e tratando de fazê‐la voltar a si. — É hora de acordar. Fará? Se não o fizer por você, então faça por mim. Estou terrivelmente cansado, mas você sabe que não posso ir dormir até que você acorde. Mas não se moveu. Não virou em seu sono e não roncou, estava aterrando‐o. —Miranda — disse, ouvindo o pânico em sua voz. — É suficiente. Ouviu? É


suficiente. Necessita... Derrubou‐se, incapaz de seguir em frente por mais tempo. Apertou a mão dela e afastou o olhar. As lágrimas nublaram sua visão. Como seguiria em frente sem ela? Como ele criaria a filha, sozinho? Como saberia que nome lhe pôr? E o pior de tudo, como poderia viver com ele mesmo sabendo que morreu sem ter escutado o quanto a amava? Com clara determinação, secou as lágrimas e se virou para ela. —Amo você, Miranda — disse forte, esperando poder penetrar em sua bruma, inclusive embora nunca despertasse. Sua voz soou premente. — Amo você. Você. Não pelo que faz por mim nem pelo que me faz sentir. Simplesmente te amo. Um leve som saiu dos lábios dela, foi tão suave que a princípio Turner pensou que tivesse imaginado. —Disse algo? — Seus olhos inspecionaram freneticamente seu rosto, procurando algum sinal de movimento. Os lábios dela tremeram de novo e o coração dele saltou de emoção. — O que foi Miranda? Por favor, só diga outra vez. Não a ouvi da primeira vez. Aproximou a orelha a seus lábios. Sua voz era frágil, mas a palavra soou forte e clara. —Bom. Turner começou a rir. Não pôde evitar. Como podia Miranda ser tão sábia enquanto se supunha estar em seu leito de morte? —Ficará bem, não? O queixo dela só se moveu um milímetro, mas era definitivamente um assentimento. Dando rédea solta a sua alegria e a seu alívio, correu para a porta e gritou as boas notícias para que o resto da casa as ouvisse. Como era lógico sua mãe, Olivia e muitos dos serventes vieram correndo até o corredor. —Ela está bem — ofegou, sem ter em conta que seu rosto estava úmido pelas lágrimas. — Está bem. —Turner. — A palavra veio como um grasnido da cama. —O que foi meu amor? Ficou ao seu lado.


—Caroline — disse brandamente, usando toda sua força para curvar os lábios em um sorriso. — Chame‐a Caroline. Ele levantou a mão dela com as suas e depositou um cortês beijo. —Caroline será. Deu‐me uma menina perfeita. —Sempre consegue o que quer — sussurrou ela. Olhou‐a com carinho, dando‐se conta de repente da extensão do milagre que a trouxe de volta da morte. —Sim — disse roucamente. — Parece que sempre consigo. ***** Dias depois, Miranda já se sentia melhor. Tal e como pediu, foi levada à cama que ela e Turner compartilharam durante o primeiro mês de casamento. Os arredores a reconfortavam e queria mostrar ao marido que queria um verdadeiro casamento. Deviam estar unidos. Era simples assim. Ainda estava de cama, mas havia recuperado grande parte da força e suas bochechas estavam tingidas com um saudável rubor rosado. Embora isso pudesse ser porque estava apaixonada. Miranda nunca havia se sentido daquela forma antes. Turner parecia não poder dizer duas frases sem mencionar isso e Caroline tirou tanto amor de ambos, que era indescritível. Olivia e Lady Rudland a mimaram em excesso, muito, mas Turner tratava de não deixá‐las se intrometer muito, querendo a esposa completamente para ele. Estava sentado ao seu lado um dia quando ela despertou de uma sesta. —Boa tarde — murmurou. —Tarde de verdade? — Ela deixou escapar um bocejo. —Passa do meio‐dia, ao menos. —Meu Deus. Nunca antes me senti tão descansada. —Merece isso — assegurou os olhos azuis brilharam com intenso amor. Cada um dos minutos. —Como está o bebê? Turner sorriu, ela conseguia fazer essa pergunta dentro do primeiro minuto de


qualquer conversa. —Muito bem. Tem muito bons pulmões, devo dizer. —É muito doce, não? Ele assentiu. —Igual á mãe. —OH, não sou tão doce. Ele deu um pequeno beijo no nariz dela. —Sob esse grande temperamento que tem, é muito doce. Acredite em mim. Eu a saboreei. Ela ruborizou. —É incorrigível. —Sou feliz — corrigiu‐a — verdadeiramente e realmente feliz. —Turner? Olhou‐a atentamente, escutando a excitação na voz dela. —O que meu amor? —O que aconteceu? —Não estou seguro de entender o que quer dizer. Ela abriu a boca e logo a fechou, obviamente tentando encontrar as palavras certas. —Por que... De repente se deu conta...? —De que a amo? Ela assentiu em silêncio. —Não sei. Acho que esteve dentro de mim todo este tempo. Só que estava muito cego para ver. Ela engoliu nervosamente. —Foi quando quase morri? Não sabia por que. Mas a idéia de que ele não pudesse dar‐se conta de que a amava antes que fosse separada dele não lhe caiu bem. Ele negou com a cabeça. —Foi quando teve Caroline, eu a senti chorar e o som foi tão... Tão... Não posso descrever, mas a amei imediatamente... Oh Miranda, a paternidade é a coisa mais incrível. Quando a tenho em meus braços... Desejaria que pudesse sentir o que significa para mim. —Creio que seja como a maternidade. — Disse ela inteligentemente. Tocou‐lhe os lábios com seu dedo indicador. —Espera um momento. Deixe‐me terminar minha história. Tenho amigos que têm crianças e eles disseram quão extraordinários era ter uma nova vida que


formasse parte de nós, de sua própria carne e sangue. Mas eu... – Clareou a garganta. — Dei‐me conta de que não a amava porque era parte de mim, mas sim a amava porque era parte de você. Os olhos de Miranda se encheram de lágrimas. —OH, Turner. —Não, me deixe terminar. Não sei o que fiz ou disse para te merecer, Miranda, mas agora que a tenho, não vou deixá‐la ir. Amo muito você — engoliu saliva, afogando‐se com as palavras — Muito. —OH, Turner, eu também te amo. Sabe disso, não? Ele assentiu. —Agradeço por isso. É o presente mais maravilhoso que pude receber. —Seremos verdadeiramente felizes, não é? Ele sorriu vacilante. —Além do imaginável, amor, além do imaginável. —E teremos mais filhos? A expressão dele se tornou severa. —Só com a condição de que não volte a me dar outro susto como este. Além disso, o melhor caminho para evitar os filhos é a abstinência e não acho que possa ser capaz de conseguir isso. Ela ruborizou, mas também disse: —Bom. Aproximou‐se dela e lhe deu um beijo tão apaixonado quanto provocador. —Devo deixá‐la descansar — disse a contra gosto afastando‐se dela. —Não, não. Por favor, não vá. Não estou cansada. —Está segura? Que maravilhoso era ter alguém cuidando dela. —Sim, estou segura. Mas queria que me trouxesse algo. Se não importar? —Claro que não. O que é? Ela assinalou com o dedo. —Há uma caixa coberta de seda em minha escrivaninha na sala de estar. Dentro há uma chave. Turner levantou as sobrancelhas interrogativamente, mas seguiu as instruções. —A caixa verde? — Perguntou. —Sim. —Aqui está — disse enquanto voltava para o quarto trazendo a chave. —Bem. Agora se voltar para minha escrivaninha, encontrará uma grande caixa de madeira na parte traseira da gaveta.


Ele voltou para a sala de estar. —Aqui tem. Deus, como pesa. O que tem aqui? Pedras? —Livros. —Livros? Que tipo de livros é tão apreciado para tê‐los sob chave? —São meus diários. Reapareceu, carregando a caixa com ambas as mãos. —Seus diários? Nunca soube. —Foi sua sugestão. Ele se virou. —Não foi. —Sim foi. Quando nos conhecemos. Falei a respeito de Fiona Bennet e de quão horrível era e me disse que escrevesse um diário. —Fiz? —Mmm‐mmm. E lembro exatamente tudo o que me disse. E te perguntei por que devia ter um diário e me disse: "porque algum dia crescerá interiormente e será tão bela como agora é inteligente. E então poderá voltar a olhar seu diário e se dar conta de quão tolas são as meninas pequenas como Fiona Bennet. E rirá quando recordar que sua mãe dizia que suas pernas começavam dos ombros. E talvez reserve algum sorriso para mim quando lembrar o bonito bate‐papo que tivemos hoje". Ele a olhou impressionado, feixes de lembranças vieram a ele. —E você disse que guardaria um grande sorriso para mim. Ela assentiu. —Memorizei palavra por palavra. Foi à coisa mais doce que ouvi de alguém. —Meu Deus, Miranda — respirou reverente. — De verdade me ama, não é assim? Ela assentiu. —Desde aquele dia. Traga a caixa aqui. Deixou a caixa sobre a cama e lhe deu a chave. Ela abriu a caixa e tirou alguns livros. Alguns deles eram de pele de couro e alguns outros estavam encapados com um tecido floral de menina, mas ela pegou o mais simples de todo um pequeno caderno parecido aos que ele costumava usar quando era estudante. —Este foi o primeiro — disse ela, passando os dedos na capa de modo


reverente. — De verdade te amei todo este tempo. Veja. Ele olhou a primeira página. 2 DE MARÇO DE 1810. Hoje me apaixonei. Uma lágrima brotou dos olhos dele. —Eu também, meu amor, eu também.

FIM



Bevelstoke 01 o diario secreto da senhorita miranda cheever