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Charlotte Westing Chronicles Livro 1

Sleep No More “Dormir Nunca Mais”

APRILYNNE PIKE


Sinopse Charlotte Westing é um Oráculo. Atualmente, os Oráculos, em vez de usarem seus poderes, precisam combatê-los. E Charlotte sabe o preço de quebrar as regras: ela nota todos os dias a mãe na cadeira de rodas e a ausência do seu pai. Mas quando a visão da morte de um colega de classe supera suas defesas, Charlotte precisa decidir. Seguir as regras ou arriscar tudo — até mesmo sua sanidade — para lutar contra o assassino em série que está em sua cidade?


Esqueรงa o passado. Mude o presente. Lute com o futuro.


Dez anos antes Traduzido por I&E BookStore

S

ento-me no sofá comichoso e olho para os olhos da mamãe, desejando que eles se abram. Todo mundo me diz que ela vai acordar, mas já fazem dois dias. Tia Sierra prometeu e o médico também. Mas o papai não vai voltar. Nunca mais. Na minha visão, foi Sierra que morreu. Eu só estava tentando impedir

isso. Mas as coisas não aconteceram como eu pensava. Sierra está viva. E papai não. Uma senhora veio falar com ela. Elas estiveram no corredor por um longo tempo. Eu olho para a mamãe e, em seguida, deslizo para baixo do sofá e me esgueiro para a porta. Elas estão sussurrando, mas se eu colocar a minha orelha justo onde a porta não está completamente fechada, eu posso ouvi-las. — Era para ser eu — minha tia diz num sussurro irritado, e meu estômago começa a doer. Eu não quero que ela saiba. Agora ela vai descobrir que eu mudei as coisas. — Você? — Sim, isso deveria acontecer comigo e eu não fiz nada. Dê-me um pouco de crédito. — Então, quem? — a outra senhora pergunta. Eu cruzo meus dedos, mas Sierra ainda me delata. — Deve ter sido Charlotte. Isso deve ter apavorado ela. — Você sabe o quão grave essa infração é — a senhora diz, e eu não sei o que significa infração, mas sua voz não soa como se fosse algo bom. — Ela tem seis anos! — Ela quebrou as regras — diz a mulher. — Você é uma de nós, Sierra. E espero que algum dia essa menina seja também. Mas só se você mantê-la sob controle. — Eu tenho trabalhado com ela desde que ela tinha três anos! — exclama Sierra. — Então você vai ter que trabalhar mais, não é? Sierra diz algo, mas é tão baixinho que não posso compreendê-la. Então eu ouço o barulho alto de saltos altos. A senhora está indo embora. Sierra está voltando. Eu corro pelo chão escorregadio e salto para o sofá novamente justo quando Sierra empurra a porta aberta e enfia a cabeça para dentro. — Ei, querida — ela diz. — Está com fome?


Eu não estou, mas quando eu disse não durante todo o dia de ontem, Sierra ficou brava. Então, eu aceno. — Vamos fazer um lanche — ela diz, estendendo sua mão para mim. Mas ela não me leva para a lanchonete. Ela para em uma máquina de venda e compra um pacote de M&M e vamos para uma sala silenciosa e escura com uma grande cruz na frente. Parece uma igreja, mas parece estranho ter uma igreja no hospital. Eu acho que todo mundo acha estranho também, porque a sala está vazia. Talvez por isso Sierra me trouxe até aqui. — Charlotte — Sierra diz, — você teve uma visão sobre isso, não é? Meu lábio inferior treme, e lágrimas transbordam quando eu aceno. — E você tentou impedir. Concordo com a cabeça novamente, embora a maneira como ela disse não fosse realmente uma pergunta. Era ruim ter visões de tudo. Sierra está me ensinando como combatê-las desde que eu tinha três anos. Mas é difícil. E às vezes dói. Esta doeu muito. — Eu tentei salvá-la — eu sussurro, mas eu mal posso jorrar as palavras através das minhas lágrimas. Meu queixo cai para meu peito e eu sinto ela me puxar para o seu colo, onde as extremidades onduladas de seu belo cabelo loiro-avermelhado fazem cócegas na minha face. — Eu virei morar com você — ela diz, e eu estou tão surpresa que minhas lágrimas param com uma fungada alta. — Sua mãe vai precisar de muita ajuda, e... vou ficar de olho em você por um tempo — ela diz, e soa como uma coisa ruim. Ela levanta o rosto e esfrega minhas bochechas molhadas com seus polegares. — Sua mãe vai acordar — ela diz, com a voz muito séria. — E quando ela acordar, você não pode dizer a ela o que aconteceu. Você não pode dizer nada a ela. — Mas você disse... — Eu sei. Eu esperava que um dia pudéssemos. Mas este acidente mudou as coisas. Não podemos nunca dizer a ela agora. — Por que não? — eu pergunto. — Porque... porque ela pode ficar com raiva. De nós duas — diz Sierra depois de um longo silêncio, e meu peito dói só de pensar em mamãe com raiva de mim. — Charlotte, eu tenho medo que chegue a hora de você agir de um modo mais maduro do que você é. Vai ser difícil, mas você tem que trabalhar muito, muito duro para seguir as regras a partir de agora. Você entende? Concordo com a cabeça, embora eu realmente não entenda. Sierra olha para a porta que leva para a pequena igreja. — Diga-me as regras — ela diz. — Você sabe as regras — eu digo, esfregando os olhos com os punhos. — Diga-me de novo — ela diz, e sua voz é muito suave e gentil agora.


Eu fico olhando para ela, não sei por que eu tenho que fazer isso aqui, mas eu começo a recitar de qualquer maneira. — Nunca revele que você é um Oráculo para ninguém, exceto para outro Oráculo. — Ótimo. Dois? — Lute com suas visões com toda sua força. Nunca se renda. Nunca desista. Não feche os olhos. — Três? — Jamais, sob quaisquer circunstâncias, mude o futuro. — Sierra acena e uma única lágrima brilha em sua bochecha. Então eu entendo. Eu fiz isso. Papai está morto, porque eu não segui as regras. Eu enterro meu rosto na blusa da minha tia e começo a soluçar.


Um Traduzido por Yasmin Mota

O

que eu não daria para viver em um lugar sem neve. Não que já haja realmente alguma neve no chão. Apenas grama morta e ventos muito frios. Um frio horrível. Até eu abrir a porta da frente da escola e ser atingida por uma mistura de calor, umidade e ruído. O corredor está repleto de corpos, música e celulares apitando, mas eu abaixei a cabeça e andei por ele como se fosse um labirinto sinuoso. O espaço na frente do meu armário está cheio de gente e por um momento eu me permito fantasiar que eles estão esperando para falar comigo. Mas eu sei que não. Robert Jones é um dos caras mais populares da escola e seu armário é à minha direita, por isso a multidão. À minha esquerda é o de Michelle. Nós costumávamos ser amigas. Agora temos esse tipo de convivência cautelosa. Michelle olha na minha direção e mesmo eu percebendo que ela me viu — aquele ligeiro alargamento de seus olhos — ela aponta para as duas meninas que estão ao seu lado e saem andando juntas em direção ao refeitório. Tanto Faz. Eu uso meu corpo para afastar um cara grande conversando com Robert para fora do meu caminho para que eu possa chegar ao meu armário. Infelizmente, quando toco a superfície de metal riscada, eu sinto uma cócega na borda do meu cérebro. Uma visão. Fantástico. Apenas o que eu preciso, antes mesmo da escola começar. Agora é uma corrida para conseguir abrir meu armário para que eu possa agachar e me apoiar contra ele e parecer que estou fazendo alguma coisa. Outra coisa. Eu giro para o último número e puxo a alça do armário. Ele não se move. Caramba! Eu começo a experimentar a combinação novamente, mas é tarde demais. Eu vou ter que sentar no chão. Minhas pernas curvam, quase que facilmente, e eu caio duro de joelhos. Eu inclino a minha testa contra o metal frio e respiro lentamente, tentando não chamar a atenção. As visões em si não são grandes coisas; acabam geralmente em menos de um minuto. Mas eu odeio tê-las em público porque naqueles segundos sou cega para o mundo. Se ninguém fala comigo, eu fico bem — ninguém


nota e a visão eventualmente se dissipa, o mundo começa a girar novamente e a vida continua. Mas, se alguém tentar chamar a minha atenção, é um pouco difícil de não perceber o fato de que estou completamente indiferente. Depois disso, zombam de mim por dias. Ou costumavam zombar. É um pouco melhor agora que estou no ensino médio. As pessoas já sabem que eu sou uma aberração e apenas me ignoram. A parte ruim disso é que, é claro, todo mundo sabe que eu sou uma aberração. Não posso pensar nisso agora. Eu sugo o ar lentamente, como se estivesse respirando através de um canudo e olho para frente. Eu me visualizo agarrando uma cortina preta e puxando-a por cima do meu olho interior — meu “terceiro olho”, como Sierra sempre o chama — para bloquear a visão. Mentalizar visuais parece ajudar. Eu serei afetada pela predição de qualquer jeito, mas se eu escurecer minha mente e preenchê-la com a escuridão, então não a vejo. E se eu não posso ver, não serei tentada a fazer nada sobre isso. Como um bônus adicional, quando eu luto contra isso, a visão geralmente passa mais rapidamente. O que, quando estou na escola, é o objetivo número um. Sierra passou anos tentando métodos diferentes para me ajudar a bloquear minhas visões: um grande pincel preto; desligar um interruptor imaginário; até mesmo cobrir meu terceiro olho com mãos imaginárias. A cortina preta funciona melhor para mim. Mas ninguém pode ver o que estou fazendo por dentro; eles só veem o lado de fora. E do lado de fora, eu sou uma garota ajoelhada no chão sujo, minha cabeça contra o armário, completamente imóvel e com os olhos bem abertos. Eu não posso fechá-los. Fechar os olhos é um gesto de rendição. Eu me apego às palavras que uso para ressentir: Nunca se renda. Nunca desista. Não feche os olhos. Eu as falo de novo e de novo como um mantra, focando nas palavras em vez da força da visão lutando para entrar em minha cabeça. Uma visão chegando é como uma grande mão apertando seu crânio, tentando cravar seus dedos em seu cérebro. Você tem que empurrar para fora o mais forte que puder, com cada grama de concentração que você tem, ou ela vai encontrar um ponto fraco e entrar. A pressão cresce como uma febre e, em seguida, quando fica realmente doloroso, começa a desaparecer. Isso é quando você sabe que ganhou. Hoje, como de costume, eu ganho. É tão normal que nem sequer parece triunfante. À medida que a sensação se esvai, meu corpo pertence a mim novamente. Meus pulmões choram por ar e mesmo que eu queira respirar de uma vez, faço a respiração-pelo-canudo para que eu não hiperventile.


Cometi esse erro uma vez na quarta série e desmaiei. Não foi meu melhor momento. Mais alguns segundos e eu serei capaz de ver novamente. Ouvir novamente. O barulho entra como se tivesse aumentando o volume de um rádio e, assim que eu tenho a força, eu estico a coluna e deixo meus olhos vagarem cuidadosamente de um lado para o outro para ver se alguém notou. Ninguém está prestando atenção. Eu tento pegar a minha mochila e, em vez disso, minha mão toca em um sapato. Eu olho para cima e encontro Linden Christiansen em pé acima da minha cabeça e segurando minha mochila. Humilhação e prazer lutam para me afogar. Ele estende uma mão e gostaria que isso significasse outra coisa a não ser um cara legal ajudando uma garota a levantar. Mas assim que eu estou de pé, ele deixa cair seu braço. — Enxaqueca chegando? — pergunta ele, entregando minha mochila. A mentira que rege a minha vida. — Sim — eu murmuro. Ele está olhando para mim e eu me permito encontrar seu olhar e, consequentemente, me arrisco a me transformar em uma idiota balbuciante com a visão de seus olhos azuis que me fazem lembrar uma lagoa imóvel. — Eu t-tomei alguns remédios novos esta manhã — eu gaguejei, — mas acho que ainda não fizeram efeito. — Você quer ligar para a sua mãe? — pergunta ele, franzindo a testa com preocupação. — Ir para casa? Eu forço um sorriso e uma risada trêmula. — Não, eu vou ficar bem. Eu só preciso ir para a aula e sentar. Eles vão começar a fazer efeito logo. — Você tem certeza? Você quer que eu carregue sua mochila ou alguma coisa? Estou tentada a deixá-lo. Qualquer coisa para ter mais alguns minutos. Mas a visão passou, estou completamente bem agora. E meu ego se rebela contra fingir fraqueza para um cara. Até mesmo Linden. De quem eu gosto antes mesmo da minha idade atingir dois dígitos. Nunca vai acontecer. Mesmo que por algum milagre ele estivesse interessado, tem aquelas linhas sociais estúpidas que são praticamente paredes de pedra nos separando. Estou no lado artista, semi-nerd. Linden está no lado super-popular-sem-nem-mesmo-tentar. Apesar do fato de que ele é muito legal. E fala comigo às vezes. Na aula de coro principalmente. Quando ele está entediado. Ele não canta muito bem na verdade, ele só precisa de um crédito de artes. Mas ele não me convidaria para sair, nem nada. E o que eu faria se ele fizesse? Eu não posso namorar ninguém. O que eu diria ao cara quando ele perguntasse por que estou sempre tão tensa e nervosa? Que eu estou sempre em guarda para predições indesejadas do futuro? Sim, isso vai quebrar o gelo.


Que tal por que eu não quero ir ao cinema? Nunca. De alguma forma, dizer a alguém que eu não gosto de lugares escuros porque — como é semelhante a fechar os olhos — deixam as visões mais difíceis de serem evitadas, parece ainda mais constrangedor do que a mentira de que eu tenho medo do escuro. Que era o que eu tinha que falar para as amigas com quem eu costumavam passar a noite — só uma vez, é claro, antes de perceberem o quão estranha eu era — quando elas perguntavam por que eu dormia com a minha lâmpada de cabeceira acesa. Não a luz da noite. A lâmpada. — Você tem certeza? — Linden pergunta, e eu afirmo, odiando o fato de querer chorar por dentro. Ele me lança um sorriso, real e bonito, e diz: — Eu te vejo na aula de coro, então. Eu aceno devagar e o vejo ir embora. Eu gostaria de poder ser apenas normal. Mas eu não sou. Eu sou Charlotte Westing e eu sou um Oráculo. O tipo que você já leu que uma vez transmitiu sabedoria e aconselhou os grandes reis e rainhas e auxiliou bravos cavalheiros em suas missões. Mas esses Oráculos existiram há muito tempo. Quando eles realmente podiam revelar suas predições e usá-las para tornar a vida melhor. O mundo está diferente agora. E o nosso papel é diferente. Oráculos já trabalharam com os líderes da civilização para moldar, formar e mudar o futuro para o bem da humanidade. Mas a corrupção levou à várias catástrofes como a queda do Império Romano e a invasão Mongol à China, por isso os Oráculos retiraram seu poder. De lá para cá, os Oráculos têm seguido uma promessa antiga para permitir que o futuro se desdobre do seu jeito. Agora, Oráculos acreditam que é melhor ninguém ver o futuro. Assim ninguém fica tentado a mudá-lo. Assim ninguém morre porque um Oráculo não tem a força para resistir a essa tentação. Uma tristeza oca enche meu peito e eu a forço a se afastar. O passado já se foi. Ninguém, em nenhum lugar, pode fazer nada sobre o que já aconteceu. Mas o presente? Isso é o que eu tenho que lidar. As visões são parte da minha vida, têm sido desde a minha primeira com três anos de idade. Assim que me tornei capaz, minha tia Sierra começou a me ensinar como resistir a elas. Uma criança nunca deve ser sobrecarregada com o conhecimento do futuro, ela me disse, e tentei acreditar nela, embora na época eu estivesse animada que eu podia “fazer mágica”. Eu sei melhor das coisas agora.


Dois Traduzido por Yasmin Mota

E

u estou mais do que pronta para terminar o dia quando estou indo para a minha última aula — trigonometria. Nós vamos ter um teste de revisão hoje e eu estou tendo problemas para prestar atenção. Eu estou com uma sensação estranhamente abafada em minhas têmporas, uma sensação sutil que geralmente precede uma previsão. Mas eu acabei de ter uma esta manhã; duas vezes por dia é bastante incomum. E esta predição está sendo estranha. Eu nunca gosto de estranha. Estranha é imprevisível. Normalmente, uma vez que tenho a sensação, a visão acontece dentro de minutos, no máximo. Desta vez, a sensação está durando quase meia hora e ainda nada. A aula está quase no fim, quando a escuridão começa a descer em torno dos cantos dos meus olhos e é quase um alívio deitar minha testa em meus braços para que eu possa acabar com isso. Mesmo que todos os meus músculos estejam tensos e prontos, é como se uma força caísse sobre mim e eu tentasse não tremer enquanto um peso doloroso se instala no meu corpo. É uma sensação diferente desta vez. É uma armadilha que envolve toda a minha cabeça. Apertando, apertando. Um gemido se acumula na minha garganta e eu o afasto. Um Oráculo nunca perde o controle. A voz da minha tia ecoa na minha cabeça, mas suas palavras vão embora enquanto uma tempestade se debate dentro do meu cérebro como uma coisa física, batendo contra o meu crânio até que eu honestamente temo que meus ossos estejam prestes a quebrar. O que é isso?! Ao longe, sinto meus dedos apertarem as bordas da minha mesa e eu fico parada igual a uma estátua, percorrendo cada tática que minha tia me ensinou e as novas que eu mesma criei ao longo dos anos. Mas esta visão é muito forte. Joga de lado minhas defesas como se fossem papéis de seda tentando conter um pisoteamento. Em poucos segundos, a presença sem forma da predição pulsa ao meu redor. Ainda posso ouvir um pouco a Sra. Patterson respondendo a uma pergunta sobre o raio de convergência, mas a voz dela está ficando cada vez mais longe, enquanto eu luto contra um puxão que parece um rio, me levando embora em uma corrente giratória. Dentro da minha mente, sombras estão começando a surgir. Então eu estou girando, caindo. Não, não, não! Eu grito na minha cabeça, tentando segurar mais forte na minha mesa, respirar mais superficialmente ainda. Nenhum dos meus truques está funcionando.


Eu nunca tive uma visão tão forte. Mesmo quando eu era mais jovem e não sabia como controlá-las, não me sobrecarregavam tanto dessa maneira. Algumas pequenas partes de mim sabem que eu estou na escola, sentada em uma sala de aula cercada por outros jovens de dezesseis anos, mas no meio da visão, esses fatos parecem tão fantásticos como histórias de princesas e dragões. Então, com um brilhante flash de luz, a sensação de queda para e meu estômago parece que foi virado de cabeça para baixo. Meus pés estão em terra firme. Eu estou no campo de futebol da escola. Está escuro. Frio. Arrepios surgem nos meus braços, e o ar é frio e úmido como se eu estivesse de pé em um espesso nevoeiro. A visão me puxa para frente, obrigando-me a andar, me inclinando para a sua vontade, como se fosse uma coisa viva. Eu luto a cada passo, mesmo sabendo que é tarde demais. Ainda assim eu luto. Porque eu devo. Porque Sierra esperaria isso. Porque eu devo isso a minha mãe e ao meu pai, pelo menos tentar. Eu vejo os pés dela em primeiro lugar. Claramente dela — pés pequenos com sapatilhas de balé marrons com pequenos laços sobre os dedos dos pés. Eu me concentro nesses laços. Eu não quero ver o resto. Mas mesmo o olhar está fora do meu controle e meu olhar se move para cima de seu corpo. Pernas, tronco, ombros. Face. Na minha mente, eu sinto ânsia e espero que meu físico não sinta também. Seus olhos estão abertos, sem vida e de um azul intenso. A mancha de sangue no seu rosto é tão perfeita que quase se parece com glitter. Mas há uma piscina de um líquido vermelho-escuro sob seu pescoço, ainda escorrendo de seu corpo imóvel. A poça se espalha enquanto eu olho, e o corte do seu pescoço está escancarado como uma exibição grotesca que faz com que todo o meu corpo se rebele. Fuja! Eu quero correr — eu preciso correr — mas a visão ainda não terminou comigo. Concentro-me no resto do corpo dela, absorvendo as lesões menores que eu perdi na primeira vez. A blusa está rasgada em toda a sua barriga e um longo e sangrento arranhão decora a pele lá. Uma faca? Unhas? Eu não consigo deduzir. Seu tornozelo está torcido num ângulo anormal e sua mão está coberta de sangue, iniciando nas pontas dos dedos. Dela mesma? Do seu agressor? Não há nenhuma maneira de ter certeza. Charlotte. A voz é quase melódica. Chaaaaarlotte. — Charlotte!


Eu ergo a cabeça e o ar corre pelo meu nariz. Com uma chuva de faíscas maçante, minha visão física aparece novamente. — Sim, Sra. Patterson — eu digo assim que minha garganta para de convulsionar tempo suficiente para me deixar falar. Coaxar. — Número vinte e três — diz ela, com a mão na cintura, sua voz carregada de aborrecimento. Quantas vezes ela me chamou? Eu inclino meu pescoço para baixo; meus olhos têm dificuldade para se concentrar enquanto os números nadam no meu papel. — Cento e sessenta e sete vírgula oito — eu digo, finalmente encontrando minha resposta. Eu olho para cima e encontro seus olhos, esperando que ela apenas siga em frente. Nem me importo se eu acertei a resposta. Ela olha para mim por um momento. Uma batida. Muito longa? Muito curta? Eu não sei. — Jake? Vinte e quatro. Obrigada. Minha respiração volta ao normal, mas meus dedos ainda estão apertando o entorno da borda da minha mesa, com tanta força que estão brancos até a segunda junta. Eu os forço a relaxar, um de cada vez, mas quando puxo meus braços para trás e enfio minhas mãos no meu colo, eles doem pela tensão. Um brilho de suor brota da minha testa e pega a brisa do aquecedor, me fazendo tremer. Mais suor escorre pela minha espinha, se reunindo sob meus braços. Eu me sinto nojenta e desgastada e tudo que eu quero fazer é ir para casa e tirar um cochilo. E tomar ibuprofeno. E algo que me faça esquecer. Mesmo antes de eu ser melhor em bloquear predições, as coisas que eu via nem sempre aconteciam — o futuro é fluido e os vislumbres que Sierra e eu recebemos são simplesmente isso: vislumbres de como o futuro está atualmente definido. Mas meu registro é bastante sólido. Porque a menos que você faça algo para mudar o futuro, o que eu nunca faria de novo, ele provavelmente vai fluir para o caminho predito. Meu coração acelera quando tento lembrar cada detalhe. Mas é quase doloroso lembrar. A imagem completa do sangue espesso e viscoso ainda escorrendo do corte de seu pescoço faz meu estômago contrair. Pode não ter sido tecnicamente um corpo real, mas a menos que algo mude, será. O sinal toca — agudo e penetrante — alto o suficiente para me distrair pelo pequeno segundo que eu preciso. Eu puxo minha mente para longe e respiro fundo, empurrando de volta algumas das náuseas. Eu tenho que sair daqui, penso enquanto enfio meus livros e papéis na minha mochila. É só eu sair dessa sala de aula que vou ficar bem. Eu posso ir para casa. Tirar uma soneca. Esquecer tudo isso.


Puxo rápido o zíper para fechar a mochila e giro em direção à porta na parte de trás da sala de aula, esperando que eu possa caminhar de um jeito parecido com uma linha reta. Então eu congelo. Bethany ri e toca no ombro da sua amiga. Eu não pensei no rosto dela na visão. Não me preocupei em identificála. Tudo o que eu vi foi aquele corte. O sangue. Ela está viva. Por enquanto. Mas ela está usando aquelas sapatilhas marrons de balé.


Três Traduzido por Yasmin Mota

—C

heguei — eu falo quando entro pela porta da frente de casa. — Escritório! — mamãe grita de volta. Estou quase com medo quando me aproximo do quarto convertido em escritório em que ela faz a codificação médica de casa. Será que está aparecendo no meu rosto como estou estressada? Espero que não. Eu não posso falar com ela. Não sobre isso. Ela não sabe o que eu faço. Ela não pode saber nunca. Espreito a minha cabeça ao redor da entrada e sorrio, absorvendo o cabelo castanho brilhante da minha mãe que cai perfeitamente em ondas, ao contrário do meu, que é a mesma cor, mas frisado, não importa o quanto de produto que eu uso. Ela é magra e tem braços longos que alcançam os arquivos em uma direção, um lápis vermelho no outro, todos os movimentos fluidos quase como uma dança coreografada, em vez de um trabalho básico que ela nunca esperou para trabalhar. Ela parece perfeita, sempre foi. Se você não notar a cadeira de rodas, pode assumir que ela estava prestes a saltar e me dar um abraço. Mas isso não tem acontecido desde o acidente que a deixou paralisada. Aquele em que eu troquei a vida da minha tia pela do meu pai. Eu inspiro e jogo esse pensamento para longe, da mesma maneira que eu faço vinte vezes por dia. No mínimo. Mas é mais difícil hoje, depois de ter tido uma previsão que eu não pude impedir. Sobre outra morte. Essas são as piores. As pessoas gostam de elogiar heróis. Aqueles que correm, arriscam suas vidas para salvar alguém. E eu não estou dizendo que eles não merecem; eles merecem sim. Mas você sabe o que é mais difícil? Não fazer nada. Ficar quieta e deixar que as coisas ruins aconteçam. Deixar as pessoas morrerem porque devem. Eu me lembro de perguntar a Sierra uma vez, logo depois que ela se mudou, por que não agimos. — Nós poderíamos ser super-heróis — argumentei com ela. — Nós devemos ajudar as pessoas. Não é a coisa certa a fazer? — Olha o que aconteceu quando você tentou me salvar — ela disse com tanta delicadeza que eu não poderia ficar com raiva. Apenas triste. No fim das contas, não é a coisa certa. Nunca. E assim eu fico quieta. Antes de ganhar o controle, quando via minhas visões mais frequentemente, eu previa algumas mortes. Normalmente, eram algo como


acidentes de carro, ataques cardíacos, esse tipo de coisa. Coisas que eu provavelmente não poderia parar, mesmo que eu tentasse. Mas assassinato? Apenas uma palavra de aviso para Bethany. Para ser cuidadosa. Não faria nenhum mal, certo? Especialmente quando a outra opção é deixá-la morrer de uma forma terrível. — Você está com a sua “cara de pensamento”, Char — minha mãe diz, puxando a minha mente de volta para seu escritório bem organizado. Eu me faço sorrir. — Muita lição de casa — eu minto. Não que eu não tenha um monte de lição de casa. Só que não era o que eu estava pensando. Ela faz uma pausa e olha para mim, com o rosto tão suave e gentil que me faz querer chorar ao pensar em todas as mentiras e meias-verdades que digo a ela todo dia. — Você estuda tanto — diz ela em voz baixa. Eu mordo a ponta da minha língua. A última coisa que eu mereço é a sua empatia. Eu não escolhi aula de matemática e ciência avançadas e todas as classes avançadas que o conselheiro da escola me deixou entrar porque sou alguma gênia que é toda auto-motivada e ambiciosa. Eu faço isso porque se cansar minha mente o suficiente, eu não tenho tempo para pensar tanto. Sobre as visões, sobre a minha total falta de vida social, sobre o fato de que eu arruinei a vida da minha mãe e agora vamos envelhecer juntas, duas solteironas solitárias. Três, se Sierra permanecer conosco. — Tenho que entrar em Harvard — digo no tom mais leve que eu posso gerenciar. É outra mentira. Eu vou para Rogers, em Claremore, cerca de vinte quilômetros de distância, para que eu possa morar em casa. Por um milhão de razões. Porque mamãe precisa de mim e eu sou responsável por ela. Porque é perigoso eu dirigir até Massachusetts, pelo menos de vez em quando, na autoestrada, onde não posso encostar no primeiro sinal de uma previsão. Porque eu nunca poderia viver com companheiros de quarto. Mas minha mãe não precisa saber nada disso. Ainda não. — Sierra está em casa? — eu pergunto, mudando de assunto. Apesar da mamãe basicamente ser autossuficiente agora, Sierra nunca mais foi embora. E mesmo que eu espere que não seja porque ela ainda acha que tem que cuidar de mim, ela meio que faz de qualquer maneira. Eu não me importo. Muito. Isso significa que ela está lá para conversar, e nós três nos damos muito bem. Como Gilmore Girls mais uma. E um segredo gigantesco. Mamãe muitas vezes lembra a Sierra que, apesar de a amarmos e ela ser bem-vinda para ficar o tempo que quiser, não precisamos mais dela e ela pode sair e ter uma “vida de verdade”. Mas Sierra e eu sabemos a verdade: Sierra é um oráculo também, e sua “vida de verdade” está dentro de sua cabeça. Não há realmente uma


possibilidade de qualquer outra coisa para Oráculos. Casar? Tenho certeza de que um cônjuge iria notar todas as coisas estranhas que não estamos autorizados a explicar. Eu sempre tive a esperança de que talvez um dia Sierra fosse encontrar essa pessoa perfeita em que ela pudesse confiar o suficiente para dizer tudo. Mas, mesmo supondo que Sierra estivesse disposta a ir contra as regras, descobrir a verdade não iria afastar alguém? E se isso acontecesse, eles iriam manter sua boca fechada sobre isso? Não é provável. Ou, digamos que eles acreditassem nela — teria que ser uma pessoa muito boa para não começar a querer saber sobre o seu futuro. Todo mundo acha que gostaria de saber o futuro. Todo mundo está errado. Por isso, simplesmente... não daria certo. Da mesma forma, não há nenhuma alma gêmea perfeita no meu futuro também. Apenas uma vida de clandestinidade. Eu não escolhi isso. Eu não escolheria isto. Mas é o que eu tenho. É o que a Sierra tem. Algumas pessoas são pequenas, algumas têm sardas, algumas veem o futuro. É tudo genético. — Eu acho que sim — diz mamãe, e eu esqueci o que perguntei. Oh sim. Sierra. — Mas você sabe como ela é; ela sai e volta tão devagar que eu não ouço nada. — Mamãe sorri para mim por cima do ombro antes de voltar ao seu trabalho. — Verifique o escritório dela. Eu fecho a porta e caminho pelo corredor até a sala que mamãe sempre se refere como “o escritório de Sierra”; mas é realmente seu quarto/escritório/trabalho/vida. Quando o papai morreu, nós não tínhamos dinheiro para nos mudar — especialmente com todas as contas médicas — mas mamãe não conseguia mais dormir no quarto principal, então ela deu à Sierra. É um grande cômodo com uma pequena área de estar e banheiro privado e... bem, Sierra não sai de lá muito frequentemente. Pelo menos não quando estou em casa. Sua mesa fica na área de estar e cerca de metade do tempo eu trago o jantar para que ela não tenha que parar de trabalhar. As paredes estão cobertas de estantes recheadas, cheias de livros sobre história e mitologia e outras coisas sobre Oráculos que ela constantemente consulta para usar como referência. Quando eu tinha doze anos, perguntei o que ela faria se mamãe entrasse e realmente desse uma olhada em seus livros, mas Sierra deu de ombros e disse: — Eu diria a ela que é uma pesquisa. Então perguntei o que ela faria se eu começasse a entrar e pegar livros emprestados. Ela disse que começaria a trancar a porta. Dois dias mais tarde, quando me pegou com Oráculos de Roma, ela começou a fazer exatamente isso. Ela sempre sabe mais do que está disposta a me dizer. Ela diz que muito conhecimento torna o que podemos fazer excessivamente tentador e que ela só confia em si mesma por causa de anos de resistência durante suas


investigações. Eu nem tenho certeza do que isso significa. Eu acho que podemos ser tentadas a mudar o futuro, mas ela fala como se houvesse mais. E eu quero desesperadamente saber o que é mais. Eu não acho que seja justo. Eu realmente não posso acreditar em quaisquer outras fontes; são lendas na melhor das hipóteses. Mas a biblioteca de Sierra é demais. Livros antigos e manuscritos que não existem em nenhum outro lugar no mundo todo. Eu continuo tentando esgueirar olhares para eles, mas Sierra não é estúpida, ela percebe. É por isso que ela faz a maioria de suas pesquisas quando estou na escola. E se eu estou em casa, a porta está sempre trancada quando ela sai. Eu tento não ressentir. Afinal de contas, ela dedica tanto de sua vida a mim. Ela me ensinou tudo o que sabe sobre lutar contra predições, e é sempre paciente. Eu realmente nunca a vi perder a paciência. Mas todos esses livros... Ela diz que vai me deixar ler mais quando eu for um membro das Irmãs de Delphi. Como ela. Sierra é autora de vários textos sobre mitologia grega e o mundo invisível. Isso é o que ela faz para pagar as contas. E enquanto seus livros são provavelmente muito bons — eu mal posso entender os poucos parágrafos que li, mas ela ganha prêmios o tempo todo — é apenas para camuflar seu verdadeiro trabalho: historiadora das Irmãs de Delphi. As Irmãs é uma organização antiga de Oráculos que, basicamente, monitora todos os Oráculos do mundo. Todos os mais ou menos vinte de nós. Sierra não me diz muito sobre eles. O que parece estranho para mim já que há tão poucos de nós. Não deveríamos compartilhar nossas informações? Mas Sierra diz que quando eu tiver dezoito anos e for a hora de me juntar a elas, estarei pronta para saber mais. Sempre a promessa de mais. Mas não agora. Isso me deixa louca. Eu bato suavemente na porta de Sierra. Ela deve estar em casa; a porta não está apenas destrancada, mas aberta uma ou duas polegadas. — Entre. O espaço de trabalho de Sierra é luminoso e convidativo. As cortinas estão puxadas, deixando entrar a luz do sol, e há dois lustres altos de cada lado de sua mesa, que também estão ligados. A superfície da mesa é confusa e cheia de pilhas de papéis, livros e cerca de seis canecas de café, mas não há nenhuma poeira, e certamente não há escuridão. A escuridão é nossa inimiga. Sierra nem sequer olha para cima até que eu estou de pé ao lado de sua cadeira pelo que parece ser um tempo muito longo. — Charlotte — ela finalmente diz, empurrando tufos de cabelo do rosto com um sorriso. Seu cabelo é um marrom brilhante — assim como o meu e da minha mãe. Pelo menos por enquanto. Lembro-me de quando era loiro-morango, quando ela enrolava as pontas e dançavam em volta do seu rosto. Agora ela o tinge. Eu não sei por que alguém iria optar por marrom sobre aquele tom de morango lindo. Mas


quando eu perguntei a ela sobre isso há alguns anos atrás, ela pareceu tão triste que nunca perguntei de novo. Isso foi na época em que ela sempre estava bonita e bem arrumada. Agora não mais. Sem maquiagem, sem penteados extravagantes. Um único rabo de cavalo, uma trança pelas costas, às vezes um coque. Eu me arrumo mais do que Sierra, e isso quer dizer alguma coisa. Ela está me encarando, as sobrancelhas levantadas, à espera do que eu vou falar, e minha mente vacila. Confessar ou ficar quieta? Eu honestamente não sei qual é a melhor coisa a fazer. Eu queria conselhos, mas me sinto como uma criança novamente, confessando que não fui capaz de bloquear uma visão. Apesar do fato de que Sierra e eu somos próximas, ela ainda é minha mentora e espera muito de mim. — Quando foi a última vez que você viu uma visão? — eu finalmente deixei escapar. Isso chama a sua total atenção. Ela desliza seus óculos de leitura para cima sobre a testa e empurra sua cadeira para trás. — A última vez que eu lutei contra uma visão ou a última vez que uma visão ganhou? — ela pergunta baixinho. — Ambas — eu digo, após um momento de hesitação. Ela acena seus dedos no ar com quase um desdém. — Eu lutei contra uma esta manhã. Era pequena. Não era grande coisa. — Ela tira os óculos e coloca uma haste em sua boca, seus dentes mordendo o plástico com cliques audíveis. — A última vez que uma visão me ganhou foi há dez anos — ela sussurra como se estivesse confessando um crime. — Há dez anos? — eu ecoei no mesmo sussurro sagrado. E eu pensei que estava indo bem por quase seis meses sem uma visão me ganhar. — Fica mais fácil — diz Sierra, estendendo a mão para pegar a minha. — Você vai ficar mais forte. Concordo com a cabeça, embora a minha garganta esteja apertada agora e eu não posso realmente falar. — Teve uma difícil hoje? — pergunta Sierra, e seu polegar faz círculos na minha mão. Eu olho para ela e sei que pode ver a resposta em meus olhos. Eu sempre venho vê-la em dias difíceis de esgotamento quando bloquear uma visão leva tudo de mim. Alguns dias nós nem sequer nos falamos; eu simplesmente sento e compartilho o mesmo espaço com a única pessoa da minha vida que entende a luta que enfrento todos os dias. Ela hesita e eu tenho medo de ela perguntar se ganhei a minha luta ou não. Eu não sei como vou responder. — Sua adolescência é o momento mais difícil — ela finalmente diz, seu polegar ainda acariciando a palma da minha mão. — A vida é tão cheia de coisas para puxar sua atenção para longe de suas defesas, seu corpo ainda está mudando, os hormônios estão furiosos.


Ah, sim, por favor, fale sobre puberdade agora, eu penso, me forçando a não revirar os olhos. Eu puxo a minha mão de volta, porém, e cruzo os braços sobre o peito. Pelo menos ela não perguntou. Ela geralmente assume que eu ganhei. Porque eu quase sempre ganho. Talvez ela confie que eu diria a ela se não conseguisse. E ela deveria ser capaz de confiar. Mais culpa. Mas dez anos? Eu realmente sou horrível nisso. — As coisas vão se acalmar depois que você terminar a faculdade e puder se retirar mais do mundo — Sierra disse calmamente, uniformemente. Como se ela não tivesse acabado de me condenar a uma vida de reclusão. — Sierra — eu digo, após vários segundos de silêncio. — Seria realmente tão ruim se nós apenas deixássemos elas virem? — Seus olhos estreitam um pouco, mas eu continuo. — Não o tempo todo, apenas quando estou sozinha no meu quarto, em casa. — Eu não me lembro muito de quando eu não lutava, mas as visões que eu tinha eram, em sua maioria, pequenas coisas. Coisas com que eu não me importava. — Se eu não fizer nada sobre isso, é claro — acrescento, quando os lábios de Sierra apertam. Ela se inclina para frente, olhando para mim com os olhos castanhos escuros que parecem tanto com os da mamãe. — Eu sei que você acha que pode fazer isso, Charlotte, mas acredite em mim, a tentação vai se tornar muito grande. Você vai querer mudar as coisas. E isso não é uma coisa ruim; é porque você é uma pessoa boa e tem o desejo de ajudar as pessoas. — Ela franze as sobrancelhas e, em seguida, ela não está mais me encarando. — Você não sabe o quão ruim as visões podem ficar. Nem mesmo você. Nem mesmo eu? Nem mesmo a menina que teve seu pai morto tentando salvar sua tia? Quanto mais devastador do que isso poderia ficar? Mas talvez, ver uma adolescente assassinada seja pior. Isso me faz pensar no que Sierra tinha visto que provocou aquele olhar assombrado em seus olhos. Eu quero perguntar mais, mas eu não sei como, sem revelar o que eu vi hoje. E eu simplesmente não quero. Não quero admitir o quanto eu sou incapaz. Eu fico lá em silêncio por tanto tempo que, após alguns minutos, Sierra aperta minha mão, se volta para o computador e recomeça a trabalhar. Ando até a prateleira que abriga os livros mais antigos. Com meus braços cruzados, eu examino as lombadas e títulos — o mais perto que Sierra me deixa chegar. Meus olhos param em uma lombada de couro rachado impressa com as palavras REPARANDO O FUTURO FRATURADO. O ar desliza lentamente por entre meus dentes com um pequeno chiado. Este. Este é o que eu preciso. Eu olho para Sierra, mas ela está tão focada quanto quando eu cheguei. Meus dedos caminham lentamente para frente, esgueirando da mesma maneira que eu andaria na ponta dos pés por um corredor. Perto. Mais perto.


Meu dedo indicador engancha ao redor do topo da lombada e eu puxo lentamente, tirando o livro. Um sussurro das capas de couro se esfregando me faz congelar, mas depois de alguns segundos deixo a lombada se apoiar por todo o caminho em minha palma da mão. Agora eu só tenho que retirá-lo e... — Charlotte. Decepção se acumula na minha garganta. Ela não gritou — ela nunca grita — mas aquele tom de “você sabe que isso não vale a pena” na sua voz me faz derreter em uma poça de vergonha. Com os dentes cerrados, eu empurro o livro de volta para onde ele pertence — pelo menos ela não vai saber exatamente o livro que eu queria — e volto a olhá-la. Sierra suspira e se levanta de sua cadeira. Ela se aproxima e coloca o braço em volta do meu ombro, habilmente me dirigindo para a porta. — Você sabe que você não está pronta — ela sussurra. — Eu acho que você está errada — eu digo desafiadoramente, orgulhosa de mim mesma por expressar o que penso por pelo menos dois anos. — Eu estou errando no lado seguro neste momento — diz Sierra, inclinando a cabeça perto o suficiente para tocar a minha. — A última vez que eu não te observei bem de perto, toda esta família pagou por isso. Você não precisa de mais tentação em sua vida. E sem dizer mais nada, ela me empurra pelos últimos centímetros através da porta. No momento em que me viro, a porta está fechada e assim que levanto a minha mão para girar a maçaneta, eu ouço o som inconfundível da virada da chave, trancando-a. Ótimo. Talvez eu devesse ter dito a ela. Agora tenho que decidir o que fazer sozinha. E eu nem sei por onde começar.


Quatro Traduzido por Vivian Nantes

E

stá nos noticiários na manhã seguinte. Seu corpo está coberto com um lençol branco e o repórter está divagando sobre seus ferimentos, mas mesmo suas descrições horríveis não se comparam com a visão real. O que eu vi ontem. A mão da mamãe está fechada em torno de uma caneca de café, mas ela não a levantou à boca desde que ela ligou a televisão há dez minutos. — Quem poderia fazer isso? — ela finalmente sussurra depois do que parecem horas. Infelizmente, apesar da visão, essa é uma pergunta que não posso responder. Visões são inconstantes dessa forma, às vezes elas lhe dão a informação importante, e às vezes elas simplesmente... não dão. Sierra entra na cozinha visivelmente tensa. — O que está acontecendo? — ela pergunta, olhando entre mamãe e eu, e não parece notar que a TV está ligada, apesar de seu alto volume. Ela é assim, totalmente inconsciente de algumas coisas ao mesmo tempo em que é super consciente de outras. Provavelmente porque ela está constantemente em guarda para visões. Acho que vou ser assim um dia também. — Uma adolescente foi morta na escola na noite passada — sussurra mamãe, ainda olhando horrorizada para a televisão. — Garganta cortada. A cabeça de Sierra oscila para mim e ela me olha com perguntas brilhando em seus olhos. Eu me sinto como quando eu tinha seis anos. Eu não sei como ela sabia, mas ela sabia. E ela sabe agora. Sua expressão evoca a mesma terrível culpa, ainda que desta vez eu não tivesse feito nada. O que me faz sentir ainda mais culpada. Sierra enche a xícara de café com cuidado. Ela começa a sair da cozinha, mas pouco antes de ela desaparecer em torno da porta, ela balança rapidamente a cabeça, gesticulando para que eu me junte a ela. Eu paro. Eu tenho cerca de cinco mordidas de cereal agora encharcado no fundo da minha tijela, e eu as levo para a minha boca lentamente. Mas eu não posso evitar por muito tempo, eu tenho que ir para a escola em breve. Sierra está me esperando do lado de fora da porta de seu quarto. — Foi por isso que você estava fazendo perguntas sobre ontem, não é? Não há nenhum ponto em negar. — Você não me contou o que você realmente viu. Eu achei que você lutou. — Mesmo que sua voz seja suave, posso dizer que ela está com raiva. Irritada que eu não confiei nela? Pode ser.


— Eu lutei! — Para meu espanto, lágrimas começam a acumular-se em meus olhos. Eu não esperava que fosse acontecer tão cedo. Eu não estava pronta. — Eu lutei tanto — eu continuo, suplicante agora. — Foi diferente de tudo que já experimentei antes. Eu não consegui parar. Ela olha para mim por um longo tempo, mas, em seguida, seus olhos amolecem e ela simplesmente diz: — Eu gostaria que você tivesse me dito. — Por quê? — eu atiro de volta. Não exatamente com raiva, mas muito desamparada. — Então, você poderia fazer alguma coisa? — Sua mandíbula aperta, mas eu continuo. — Que bem teria feito em te dizer? Sierra olha pelo corredor em direção à cozinha, onde eu posso ouvir a notícia contínua sobre o assassinato. Ela caminha para perto e coloca a mão no meu ombro. — Charlotte, a vida de um Oráculo é muito solitária; temos sorte de ter uma a outra. Por favor, não me afaste porque eu tenho grandes expectativas de você. Eu não acho que você falhou, essas coisas acontecem. Mas isso significa que é hora de ser ainda mais vigilante. Seu olhar firme me deixa estranhamente nervosa e eu pego meu telefone e ilumino o relógio na minha tela inicial. — Eu tenho que ir. Depois de me vestir, eu ando até a cozinha e pego o meu conjunto de chaves da casa da cesta ao lado da porta de trás. Surpreendentemente o tinido é o que finalmente distrai minha mãe da cena horrível na tela. — Onde você está indo? — ela diz em um tom um pouco irritado. Eu pisco para ela, confusa. — Para a escola? Seu cabelo parece quase selvagem em torno de seu rosto enquanto ela balança a cabeça. — Você não pode ir à escola hoje. — Por que não? — As palavras saem da minha boca antes que eu perceba como elas são estúpidas. É claro que a minha mãe está preocupada com a minha segurança; uma adolescente que está em várias de minhas aulas acabou de ser assassinada nas dependências da escola. Ela não sabe que eu estou completamente segura. É uma espécie de segredo aberto entre os oráculos; todos nós sabemos como vamos morrer. Ou como eu, os que não sabem ainda é por que é muito no futuro. Quanto mais uma previsão é pessoal, mais ela é difícil de combater. E nada é mais pessoal do que a própria morte. Eu consegui tirar essa informação de Sierra uma vez quando eu perguntei por que ela não tentou mudar a sua própria morte na visão que ambas vimos quando eu tinha seis anos. Mas então ela se calou e não quis me dizer qualquer outra coisa. Eu nunca tive uma previsão sobre mim mesma. Tenho certeza de que isso significa que a minha morte está há anos, anos e anos no futuro. Meu solitário e excêntrico futuro. E isso significa que eu estou segura hoje. Mas minha mãe não sabe disso. — Eu sei que isso é terrível — eu digo, — mas eu tenho um teste de trigonometria hoje. Eu tenho que ir.


Mamãe me corrige com um olhar seco. — Tenho a sensação de que o teste será adiado. Como se ela pudesse controlar a televisão, o silêncio entre nós foi preenchido por uma voz que anunciou: — Devido ao fato de que William Tell High School é uma cena de crime que ainda não foi liberada pela polícia, as aulas foram canceladas. O Diretor Featherstone espera abrir o campus na segunda-feira, mas até então, por favor, mantenham seus filhos adolescentes em casa, onde eles estão seguros. Cancelada ou não, uma guinada rápida da câmera mostrou que os adolescentes de Coldwater, Oklahoma, certamente não estavam em casa. A cerca do campo de futebol está alinhada com os alunos e adultos, a maioria em lágrimas, enquanto assistem atrás de barreiras amarelas brilhantes de fita policial presas através do elo de correntes. — A polícia não divulgou o nome da vítima, no entanto — a repórter continua, captando a minha atenção novamente. — Só que ela era uma adolescente do sexo feminino. — Ela indica a multidão de pessoas, muitas em seus telefones. — Você pode imaginar o pânico que essas crianças devem estar sentindo enquanto eles mandam mensagens de texto a seus amigos e esperam ansiosamente por respostas. Para o canal seis, eu sou... — Mas aperto o mudo; eu não ligo para quem ela é. Meus olhos estão colados no corpo que agora está sendo levantado em uma maca com destino a uma ambulância à espera. Eles fazem um bom trabalho em manter o rosto coberto, mas uma rajada de vento gelado de dezembro arranca o lençol de um pé e uma sapatilha marrom aparece à vista. Um som de gritos vem de fora da tela e, como se atraída para a agonia, a câmera vai em direção à cerca e mostra uma morena alta encolhida no chão, cercada por um punhado de outras meninas. Rachel Barnett. Ela é a melhor amiga de Bethany. A que eu vi ontem. Ela saberia imediatamente a quem pertencia esses sapatos. Soluços agitam seu corpo enquanto a câmera de notícias se aproxima dela, invadindo sua dor privada. Eu não posso evitar me sentir como uma espiã enquanto Rachel geme e balança a cabeça. Eu nem percebo que estou chorando até que eu estou com falta de ar. Viro-me e deixo a cozinha, ignorando a minha mãe quando ela me chama. Eu fecho a porta do meu quarto o mais rápido que posso sem batêla. Meu quarto está muito escuro, mesmo com a luz do sol derramando pela janela, então eu acendo a lâmpada, e depois o abajur na minha cabeceira. Depois de chutar meus sapatos, eu mergulho embaixo do meu edredom, desejando que algo tão simples como um cobertor de penas fofo pudesse afugentar o frio dentro de mim. Eu poderia ter impedido isso. Não, isso não é exatamente verdade. Eu poderia ter sido capaz de parar isso. E eu nem sequer tentei. Mesmo que eu pudesse ouvir a voz da minha


tia gritando na minha cabeça que eu fiz a coisa certa, eu me sinto como uma pessoa terrível. E o pior é que eu realmente não tinha decidido o que fazer ainda. Eu pensei que tinha mais tempo. Eu ia tomar a decisão final neste fim de semana. E agora a escolha foi arrancada de mim. Eu não fiz nada. Não porque eu escolhi não fazer nada, mas porque eu não tomei nenhuma escolha. O pensamento me enjoa. Eu desejo que eu nunca tivesse tido a visão. Eu gostaria de ter lutado mais. Supondo que eu poderia ter lutado mais. A memória de como eu me senti drenada após o prenúncio me faz duvidar disso, mas talvez houvesse alguma coisa que eu pudesse ter feito. Mesmo sem uma visão, toda a ideia de um assassinato ainda parecia surreal. Coldwater é o tipo de lugar onde coisas como estas simplesmente não acontecem. Nós não somos muito pequenos; existem, tipo, dez ou quinze mil pessoas na comunidade. Vários agricultores, pessoas que dizem oi na mercearia, embora eles não saibam exatamente quem você é. Metade da cidade vai para os jogos de futebol da escola nas noites de sexta. Esse tipo de coisa. Nossa ideia de uma noite cheia de crime é um casal ficar bêbado e causar uma “perturbação doméstica”, ou talvez um estudante tentando roubar uma garrafa de tequila da loja de bebidas em um desafio. Não matar pessoas. Não matar crianças. Eu deveria tê-la avisado. Enfio minha cabeça debaixo do meu cobertor em um instinto há muito tempo esquecido, e depois a tiro de novo para fugir da escuridão. Quando os flashes de luz atravessam os meus olhos, eu tenho um pensamento aterrorizante: talvez esse fosse o motivo da visão ter oprimido todas as minhas defesas, porque eu deveria ajudá-la e eu falhei. Mas e se eu tivesse feito alguma coisa? Se eu a tivesse avisado para ter cuidado, ela poderia ter levado Rachel com ela. Em seguida, duas pessoas estariam mortas. E essa segunda morte teria sido inteiramente minha culpa. Não se trata de escolher entre o certo e o errado; trata-se de tentar prever a linha entre o errado... e o mais errado.


Cinco Traduzido por Vivian Nantes

S

egunda-feira é um verdadeiro inferno. Ainda pior do que a tortura que estive me colocando o fim de semana todo. Há uma enorme pilha de flores, velas e bichos de pelúcia em frente à escola. Não apenas de outros estudantes, de toda a comunidade. A sensação de segurança que permeou Coldwater está desaparecida. As pessoas estão com medo. Tristes e com medo. Vans dos noticiários vieram de Tulsa. Eu gostaria de pensar que é porque eles se importam — o que é, certamente, a fachada que eles estão tentando vender — mas parece intrusivo. Como estranhos que aparecem em um funeral estritamente familiar. Eu quero afastá-los e dizer-lhes que não é a perda deles. Mas eu não posso. Eu tenho que tentar me misturar — agir como se eu estivesse tão surpresa por este ato horrível de violência como todo mundo. Que eu sou tão normal como qualquer outra garota que flutua sem rumo pelos corredores hoje. Parada na frente do meu armário, eu quase não percebi Linden. É claro que ele não estava chamando qualquer atenção para si mesmo. Talvez ele estivesse mesmo conscientemente tentando evitar isso. Eu finjo estar procurando meu material na mochila enquanto eu o estudo. A luz e o brilho em sua postura e expressão que geralmente o definem, sumiram. Seus olhos estão vermelhos. Ele parece devastado. Eu esqueci que ele era um dos amigos de Bethany. Eu quero ir até ele, dizer algo para aliviar aquele olhar terrível em seus olhos. Me faz mal vê-lo desta forma. Eu provavelmente não deveria, mas eu faço de qualquer maneira. Eu me aproximo calmamente, não querendo estragar tudo e tornar a situação ainda pior para ele. — Linden? — eu digo suavemente. Ele se vira e por apenas um segundo é como se ele estivesse muito profundo na sua dor para me reconhecer. Então seu rosto suaviza. — Charlotte. Eu não vi você. — Tudo bem. Nós dois ficamos em silêncio por alguns segundos. — Eu sinto muito por Bethany. — E de alguma forma, apenas dizer as palavras “sinto muito” para alguém me faz sentir melhor. — Eu sei que ela era sua amiga — eu acrescento, em um murmúrio. Ele balança a cabeça rigidamente.


— Se eu puder... se você precisar, eu não sei, alguém para conversar ou algo assim — eu digo, meio envergonhada com o que eu estou dizendo. Ele olha para mim por vários segundos antes de um pequeno sorriso aparecer em sua boca. — Isso é muito gentil da sua parte. Eu... — Ele hesita e por um momento eu acho que ele vai realmente dizer alguma coisa, algo significativo. — Vou me lembrar de que você ofereceu. Obrigado — ele diz, e depois se afasta com um pequeno aceno de mão em vez de dizer adeus. Eu o vejo ir com uma dor no meu coração. De alguma forma, ver Linden machucado assim torna o meu remorso ainda pior. Ele não aparecer para o coral. Quando a escola acaba, eu sei que eu deveria correr para casa. Minha casa é literalmente dentro da vista dos portões da frente da escola e embora eu finalmente tenha convencido minha mãe a me deixar caminhar para a escola esta manhã, ela foi para a varanda da frente e me assistiu todo o caminho. Ela vai ficar preocupada até que eu entre pela porta. Mas eu preciso de alguns minutos. Eu caio contra a porta de metal desgastado do meu armário, deixando minhas costas escorregar para baixo até que a minha bunda bate no chão. Eu esfrego as têmporas. Eu estive em um borrão durante todo o dia, mas a minha cabeça está francamente doendo agora. Ah, não. Meus olhos se abrem. — Eu sou tão estúpida — murmuro para mim mesma. Eu estive tão distraída com a minha própria culpa e dor que eu não reconheci os sinais. A última coisa que eu quero fazer agora é lutar contra mais uma visão; é mais difícil quando estou me sentindo emocionalmente vulnerável. E há outra coisa. Algo novo: o medo. Após o horror da última visão um pequeno arrepio aperta meu estômago só de pensar em perder uma luta novamente. De ver algo assim de novo. Eu brevemente me pergunto se consigo andar todo o caminho de casa e entrar no meu quarto antes que ela tome conta de mim, mas mesmo se a pressão na minha cabeça não estivesse começando, eu suspeito que a minha mãe não me deixaria passar por ela sem pelo menos cinco minutos de conversa, ela não tem sido capaz de se concentrar em nada, exceto em Bethany, durante todo o fim de semana. Tudo bem, vai acontecer aqui no corredor. Posso lidar com isso. Eu posso fazer isso. Pelo menos eu não preciso me preocupar com alguém me olhando estranho. Todo mundo está fora de si hoje. Eu encosto minha testa nos joelhos e olho fixamente para o azulejo do chão, forçando um véu negro sobre a minha segunda visão. Forçando-me a mantê-la lá da maneira que Sierra me ensinou. Uma tempestade selvagem me rasga.


De novo não! Na minha cabeça, eu engasgo perante a escuridão e por apenas um segundo as cortinas imaginárias deslizam e se colocam no lugar e eu acho que ganhei. Talvez eu até pudesse ter vencido se eu já não estivesse exausta. Mas os últimos restos de minha força mental não são suficientes quando um punhado de dedos se esticam para frente e rasga a cortina, e novamente a visão da última semana aperta meu crânio até que eu quero gritar em agonia. Eu não posso erguer uma barreira forte o suficiente para bloqueá-la e, em seguida, os dedos estão avançando em minha mente, assumindo, e eu estou caindo para baixo do rio. Em seguida, caindo. Caindo. A escuridão foge, deixando-me de pé em uma escuridão cinzenta estranha. Está nevando. Esses flocos pesados e grossos caem em silêncio e se parecem como um cobertor que está sendo colocado sobre a terra. Minha visão dá um suspiro de alívio. Nós não chegamos a nossa primeira neve de verdade ainda. Tudo o que eu estou a ponto de ver, seja bom ou ruim, eu devo ter algum tempo. Não como Bethany. Quando a visão obriga os meus pés a andar, eu começo a resistir novamente. Lutando com toda a força que me resta. Não por causa da Sierra ou pelas regras. Porque eu estou apavorada. Eu nunca tive tanto medo do que pode estar esperando por mim. Eu sei o que uma visão tão forte pode trazer e eu não quero nunca mais ver algo assim de novo. Mas meus pés se mantêm caminhando pela neve felpuda. Há uma grande sombra escura na minha frente. Não uma pessoa, uma coisa. Uma caminhonete, eu percebo quando eu chego mais perto. A caminhonete está parada em uma estrada de terra, mas não há iluminação pública. O céu está nublado, por isso não posso dizer se a lua é cheia — o que teria sido útil; talvez eu pudesse olhar para cima. O luar filtrado e as luzes distantes da cidade estão refletidos na neve branca pura e as nuvens ondulantes acima, dando ao ar da noite um brilho alaranjado estranho que sempre vem com esse tipo de queda de neve espessa e silenciosa. A porta da caminhonete está aberta, e no começo eu não vejo ninguém no interior. Mas há algo... Eu suspiro, pois entendo que a mancha escura que eu estou vendo do outro lado do para-brisa é sangue. Enormes respingos de sangue decoram uma rachadura que se parece com uma teia de aranha no vidro. Eu engulo em seco enquanto o pavor atinge meu estômago, mas eu não posso parar minhas pernas de continuarem a me levar para o caminhão, meu pescoço espreitando pela porta aberta. E mesmo que eu aperte meus olhos, apenas minhas pálpebras físicas se fecham. Meus olhos da visão precisam ver.


Ele está de bruços através do banco, com a mão em volta do seu telefone. Tentando chamar por ajuda, eu suspeito. Eu tento não ver o resto, mas bile sobe na minha garganta enquanto eu forço um soluço e procuro os detalhes. Há ferimentos de bala desta vez, em vez de uma faca. Uma, duas, três, quatro, cinco delas em suas costas antes da verdadeira cratera em seu crânio me fazer balançar sobre os meus pés. Cada ferida é um buraco em sua pele através de seu casaco. Cinco círculos rasgados manchados de sangue ainda molhados que parecem pretos brilhantes. Sua cabeça... Eu quase não consigo focar. É demais. Seu cabelo está polvilhado com fragmentos de ossos e pequenos pedaços que eu tenho certeza que pertencem à parte interna de seu crânio. A bala deve ter feito isso, então continuei vendo pelo para-brisa do lado do passageiro — vendo a poça de sangue que vi primeiro. Ele nunca teve uma chance. Eu engulo em seco e me lembro de observar. Eu tenho que ser corajosa o suficiente para enfrentar este horror — descobrir de onde ele é, quem ele é. Eu não posso me mexer para onde eu quero, mas se eu esticar meu pescoço eu posso ver um pouco melhor. Eu me forço a olhar além da confusão sangrenta de seu cabelo e tento ver o seu perfil na penumbra. Eu lanço a minha mão sobre a minha boca. Ele é um dos que toca baixo em nosso coral. Um estudante do segundo ano, mais jovem do que eu. Matthew. Matthew Phelps. Ele estava em uma das minhas aulas de arte no ano passado também. Com os punhos cerrados, eu giro ao redor, tentando associar tudo. Eu não sei se eu posso fazer alguma coisa para salvá-lo, mas descobrir onde estamos é definitivamente o primeiro passo. Coldwater é uma comunidade bastante espalhada com uma floresta no extremo oeste da cidade. Eu acho que é onde estamos agora. Eu estou cercada por árvores finas, mas eu não estou no meio do nada. Apenas fora da estrada pavimentada. Há um bando de casas de gente rica que se estão nas montanhas em Oklahoma que não possuem estradas pavimentadas até elas. Talvez Matthew more lá. Talvez ele estivesse apenas indo para casa. E um cara pediu-lhe indicações. Em seguida, ele virou as costas e... Eu não sei. Eu olho para as árvores enquanto a visão começa a escurecer e forço-me a olhar, a memorizar, enquanto a visão se desvanece. Eu tenho que descobrir onde é isso. E o mais importante: quando. Eu não me importo o que Sierra pensa, eu tenho que fazer alguma coisa. Eu não tenho certeza se minha consciência pode lidar com outro desastre. Não algo que é ainda mais sangrento e violento do que a morte de Bethany. O corredor da escola lentamente entra em foco e estou tremendo incontrolavelmente. Eu me aconchego debaixo do meu casaco. É preciso alguns minutos antes de eu ter a força para levantar. Esta visão foi ainda mais difícil para mim do que a última e minhas pernas estão tremendo. Com


Bethany, eu senti como se estivesse submetida a uma punição, e hoje eu sinto como se tivesse apanhado. Machucada da cabeça aos pés. Eu manco até em casa e, é claro, a cadeira de rodas da minha mãe está na varanda e ela está enrolada em seu casaco mais quente, olhando para a tela do seu telefone. — Aí está você! — ela diz, estendendo a mão para mim. — Eu sinto muito — eu digo, apertando-lhe a mão antes de eu rodá-la para a casa quente e pelo corredor até seu escritório. — Tivemos uma reunião do coral depois da escola — eu minto levemente, — e eu pensei que ia ser, tipo, só cinco minutos, só que nunca acabava. Eu deveria ter mandado uma mensagem para você. Ela me dá um sorriso apertado. — Sim, você devia. Mas o importante é que você está aqui agora, e você está segura. Sento-me na cadeira em seu escritório que está sempre vazia para mim e apenas a observo. Ela está trabalhando, mas o ritmo suave da semana passada se foi. Ela escreve algumas coisas, então se vira para olhar para uma pequena TV que ela está em um banquinho ao lado de sua mesa. Está silenciada, os repórteres dizendo palavras que eu não preciso ouvir para entender. O corpo de Bethany, seu funeral adiado, entrevistas com seus pais, seus professores, seus amigos, quando eles podem segurar suas lágrimas tempo suficiente para falar. Eu vi tudo, mas eles continuam repetindo isso como algum terrível CD. Eu tenho que encontrar aquela floresta. Eu não posso deixar que isso aconteça novamente. — Você pode me emprestar o carro? — eu pergunto. Mamãe se vira e lança em mim um olhar surpreso, claramente chocada por eu pedir isso. — Eu só quero dar uma volta. Para pensar. Ela já está balançando a cabeça. — Mãe, por favor — eu imploro, tentando esconder o quão desesperada eu estou. — Eu vou ter cuidado. Eu vou manter as portas trancadas e não vou parar para alguém ou sair do carro nem nada. Eu só vou dirigir. — Até alguma estrada de terra que pode ou não levar a um local de um assassinato futuro no meio do nada. — Eu não quero que você saia de casa — minha mãe diz. — Não podemos deixar que isso nos deixe paranoicas — eu protesto irracionalmente. — Não é isso — retruca a minha mãe. Então, ela faz uma pausa e altera, — Não é só isso. — Ela se volta para a televisão silenciada ao lado de sua mesa. — A previsão está dizendo que vai nevar esta noite.


Seis Traduzido por L. G.

N

ão há nada no noticiário na manhã seguinte. Mas isso não me faz sentir melhor. O local era tão remoto; talvez eles não o tivessem encontrado ainda. Minha mãe se manteve firme na noite passada e o cara do tempo estava certo. Então eu sentei na janela do meu quarto até as primeiras horas da manhã, assistindo impotente a neve grossa e abafada cobrir o chão, certa de que era tarde demais. Sento-me na mesa do café, empurrando minha comida ao redor do meu prato e esperando o momento em que eu tenho que ir para a escola. Eu continuo esperando a sugestão de alguma coisa no noticiário, mas ainda é tudo sobre Bethany. As pessoas estão começando a ficar com raiva porque o médico legista não liberou seu corpo. Já se passaram cinco dias, e tudo o que sabemos é que não há nenhuma pista. Eu me pergunto se a descoberta de outro corpo os fará mantê-la por mais tempo ou liberá-la logo. Eu sinto como se todas as minhas entranhas estivessem se contorcendo e se apertando. Eu gostaria de poder fingir que estou doente. Mas, então, a notícia da morte de Matthew sairá e Sierra vai saber porque eu fiquei em casa. Eu não posso arriscar. Eu considerei contar a ela esta manhã — confessar antes que o corpo fosse encontrado — mas quando eu cheguei em seu quarto, sua porta estava fechada. Eu pensei em bater — até mesmo levantei minha mão — mas eu não consegui me forçar a fazer isso. Eu me senti como o pior Oráculo da terra. Eu saio de casa com um rápido olhar em direção à porta ainda fechada de Sierra, e a minha mãe vem até a varanda para me ver novamente. Amanhã ela não me deixará caminhar. Depois de hoje, eu terei sorte se ela me deixar sair de casa novamente. Eu estou pegando meu livro de trigonometria do meu armário quando eu o vejo de pé parado ali, sem a mínima ideia de que ele deveria estar morto. O livro pesado cai da minha mão e aterrissa no chão de linóleo com um barulho ensurdecedor que ecoa pelo corredor. As pessoas se viram para olhar para mim, mas eu já estou cambaleando em direção a Matthew, ignorando todo o resto.


— Ei — eu digo sem jeito, percebendo que eu estou tão focada no fato de que ele não está morto que eu não tenho nenhuma ideia do que dizer a ele. — Oi, Charlotte. — Ele me estuda, franze a testa e depois pergunta: — Você está bem? Melhor agora. — Hum, sim, eu só, eu... eu esqueci a minha partitura de “Winter Wonderland”. Você se importa se eu pegar a sua e fazer uma cópia dela rapidinho? — Oh, com certeza. É claro — ele diz, a preocupação apagada de seu rosto tão facilmente que eu quero chorar de alívio. Ele está vivo, ele não suspeita, e ninguém mais está olhando para nós. Ele me dá a partitura da música. — É só trazer para o coral com você. Sem pressa. — Obrigada — eu respondo, levando a partitura que eu não precisava de verdade. Hesito, mas as horas infernais que passei na noite passada não são algo que eu possa viver novamente. Eu bano a voz de Sierra da minha cabeça e digo: — Matthew, você vive tipo no meio do nada, não é? — Mais ou menos. Quero dizer, tem, tipo, quatro casas em nosso pequeno bairro, mas é na colina oeste da cidade. — Ele está confuso novamente. — Tenha cuidado — eu digo apressada antes de Matthew poder dizer alguma coisa. — Talvez eu esteja apenas sendo paranoica por causa de Bethany, mas esse cara ainda está lá fora em algum lugar e... tome cuidado, ok? — Eu giro para longe e fujo antes que ele possa responder. Antes que ele possa fazer qualquer pergunta. Pronto. Eu fiz alguma coisa. Quem sabe se será o suficiente? Mas eu avisei. Ser cuidadoso não pode machucar. E considerando a neve de ontem à noite, há uma chance de que ele fosse morrer, mas que o futuro mudou e não vai mais acontecer. O futuro é engraçado assim. Eu volto para o meu armário — que, é claro, eu deixei aberto com o meu livro de trigonometria caído no chão em frente a ele; não me admira que todo mundo pense que eu sou uma aberração — e junto todas as minhas coisas. Eu sei que eu devia me sentir culpada. Mas eu não consigo me fazer ficar nada, a não ser feliz. Enquanto eu recolho meu livro de trigonometria, meu celular ressoa e eu derrubo o meu livro de novo, ganhando mais olhares assustados. É um número que eu não reconheço. Você era a única que podia tê-la ajudado. Por que não ajudou?


O mundo gira e de repente eu não consigo respirar. Quem poderia ter escrito isso? Quem sabe o meu segredo? A montanha russa emocional que eu estive nessa manhã parece demais para os meus nervos e uma dor aguda começa na minha cabeça. O primeiro sinal toca e todos começam a se misturar em direção à classe da primeira hora, mas eu não consigo tentar ouvir a História da América agora. Simplesmente... não. Vou para a enfermaria ao invés. Uma das vantagens de ser estranha é que a enfermeira foi informada de que eu “tenho enxaquecas muito bruscas”. Eu não gosto da mentira, mas quando eu tenho uma dor de cabeça intensa, significa que eu tenho uma receita de Naproxeno ao invés dos dois comprimidos de Tylenol que a maioria das crianças tem. A enfermeira tira minha temperatura e franze a testa para o termômetro de um jeito que diz que minha temperatura está normal — embora eu pudesse ter predito isso sem as habilidades de Oráculo — ela me deixa deitar na última cama disponível e me dá um cobertor já gasto, porém macio, antes de puxar a cortina de privacidade ao meu redor. Eu deveria contar para Sierra; eu sei disso. Mas eu posso dizer a verdade sobre a visão que eu tive de Matthew e ainda esconder dela que eu disse a ele para tomar cuidado? Que eu quebrei a regra mais importante dos Oráculos? Nunca, em hipótese alguma, mude o futuro. Ela pode me ler tão bem — eu juro, ela simplesmente vai saber. Por que não ajudou? As palavras da mensagem nadam pela minha cabeça dolorida até que meu estômago começa a doer também. Eu tenho que descobrir isso. Talvez tenha sido outro Oráculo. Talvez ela tenha tido a mesma visão. Eu olho com meus olhos semicerrados através da pequena rachadura na cortina de privacidade e vejo a enfermeira sentada na frente do seu computador. Eu viro de costas para o vão e cuidadosamente puxo meu telefone. Eu acho o número da minha tia e depois mando para ela uma mensagem: Tem algum outro O em Coldwater?

Eu aperto ENVIAR antes que eu possa pensar muito nas consequências do que tinha acabado de fazer. Meu telefone vibra e eu cerro meus dentes ao ouvir o som, esperando que ninguém mais tenha ouvido. Não.

Útil, eu penso sarcasticamente.


Eu mando minha resposta com os dedos tremendo: Você tem certeza?

Passa algum tempo. Completamente. Nenhuma linhagem num raio de 800 quilômetros de nós.

Oráculos não são sempre mulheres, mas a capacidade é genética. Então não tem Oráculos saindo do nada. Pode pular uma geração — até duas ou três as vezes — mas sempre tem uma conexão. E um dos trabalhos da minha tia é rastrear a genealogia para as Irmãs. Ela, de todas as pessoas, saberia. Lá se vai essa ideia. Quero dizer, tecnicamente poderia ter sido alguém distante, mas se souberam de mim e viram o que eu tinha visto, eu tenho que assumir que é de algum lugar por perto. Então... provavelmente não outro Oráculo. Mas então como...? O meu telefone vibra novamente. Por quê?

Eu torço meu rosto e tento pensar em uma resposta razoável. Eu só estava imaginando se devêssemos encontrá-los e apoiá-los. Só isso.

Eu prendo minha respiração e espero que isso a satisfaça. Por sorte eu pergunto questões sobre Oráculos para Sierra o tempo todo — mesmo que ela nem sempre as responda frequentemente. Não é como se eu tivesse outra pessoa para recorrer e, além disso, ela sabe mais sobre Oráculos do que... provavelmente qualquer outra pessoa da Terra. Literalmente. Rolando para cima, eu volto para a outra mensagem. Não para lê-la; eu sei o que diz. As palavras estão cravadas em minha mente. Mais para me convencer de que é real. Eu agarro meus dedos ao redor do celular e pressiono contra meu peito enquanto eu curvo minha espinha, aperto meu estômago dolorido e tento ignorar o martelar na minha cabeça, lentamente se suavizando. Todos pensam que querem superpoderes. Para ser mágico, mais importante e mais especial do que todos os outros. Para ser extraordinário. Mas eles não querem realmente. Eles não entendem. Eu daria tudo para ser normal.


Sete Traduzido por Vivian Nantes

A

pesar do meu estresse, da culpa, preocupação e paranoia, eu consegui ter uma noite de sono ininterrupto antes de eu descobrir que Matthew estava morto. Minha mãe está chorando na cozinha, e o medo aperta meu coração com tanta força que eu tenho certeza que ele para de bater por alguns segundos. Eu não posso evitar de sentir uma raiva ardente enquanto eu assisto a notícia. O que ele poderia ter feito para ser morto assim, parado para fazer xixi na neve? Todo mundo tem tentado se manter em segurança, por que ele iria sair do seu carro? Eu disse a ele para ter cuidado. Não foi o suficiente. Eu falhei. Estou quase surda ao som do apresentador quando um detalhe aparece na minha cabeça. — Fomos informados que o menor de idade, que a polícia já identificou, mas cujo nome ainda não foi divulgado, foi baleado com uma arma que, embora registrada pelo seu pai, está gravada com seu nome. A arma foi deixada na cena do crime, e esperamos que seja a chave para a identidade deste assassino. Baleado com sua própria arma. Meus joelhos não me seguram e eu colapso em uma cadeira com questões correndo pela minha cabeça: Por que ele tinha uma arma em sua caminhonete? Será que ele começou a levá-la por causa do assassinato de Bethany? Ou porque eu disse a ele para ter cuidado? Eu sinto uma mão forte se envolver em torno do meu braço e me puxar para o corredor, mas a mensagem não chega nas minhas pernas a tempo e eu tropeço e cambaleio atrás de Sierra. Momentaneamente fora da vista da minha mãe, Sierra olha para minha cara, me estudando. Eu não tenho a energia para tentar esconder qualquer coisa. Eu simplesmente olho para trás, lágrimas trêmulas escorrendo pelo meu rosto. Sierra se endireita, parecendo satisfeita. — Este surpreendeu você — ela sussurra, sua mão esfregando meus braços. Seria reconfortante se eu já não me sentisse tão culpada. Concordo com a cabeça. É a verdade. Eu tinha acabado de começar a acreditar, a quase ter esperança de que ele viveria. Que eu tinha mudado seu destino. Eu estava surpresa. — Você não viu. Eu fecho os olhos e começo a chorar sério agora. Ela leva os meus soluços como uma resposta e me puxa contra o peito. — Esta é sempre a


parte mais difícil — ela murmura no meu ouvido enquanto seus dedos acariciam meu cabelo longe do meu rosto úmido. — Ver vidas inocentes sendo levadas e pensar que havia algo que poderíamos ter feito. — Ela me puxa para trás e olha para mim. — Charlotte, ouça. Não há nada que você poderia ter feito. Não para ele, não para aquela menina. Não sem colocar em movimento ondulações incontroláveis de consequências. Você é inocente. Inocente? Eu sou tudo menos isso. Se eu não tivesse dito nada, Matthew ainda estaria vivo? Foi algo que ele fez em nome da precaução que levou a isso? Não há nenhuma maneira de saber com certeza. Mas eu entrei em ação e agora, até certo ponto, eu assumi a responsabilidade. Estou muito longe de ser inocente. Mas eu aceno. Porque eu devo. Porque ela não vai me deixar ir até que eu o faça, e eu preciso voltar para a notícia, ouvir qualquer coisa que poderiam ter descoberto. O meu próprio método de tortura, talvez. Quando eu saio, Sierra não impede o meu caminho e eu volto para a cozinha. Eu como um tipo de cereal que eu não poderia ter identificado cinco minutos depois e ouço as notícias, com fome de algum pedacinho de evidência que pudesse me exonerar. Ou me condenar. Depois de uma hora, eu empurro minha tigela ainda meio cheia, e me distancio para o meu quarto. Tão rápido quanto eu posso, eu visto um jeans e a camiseta de ontem e enfio meus pés descalços em botas. Estou de volta no corredor em menos de um minuto, me dirigindo para a porta da frente. Minha mãe pode dizer o que eu tenho em mente no segundo que seus olhos caem nas minhas botas. — Charlotte, não. Você não vai para a escola hoje. Eu a ignoro e pego meu casaco da fila de ganchos na porta da frente. Há um estrondo vindo da cozinha e eu sei que mamãe está tentando manobrar a cadeira de rodas no corredor. Eu sou uma filha terrível por tirar vantagem de sua deficiência para fugir, mas eu faço isso. Eu arremesso a porta aberta e escorrego meus braços nas mangas do casaco pesado, então a porta se fecha com um baque. Estou quase na metade de um quarteirão de distância antes de ouvir a minha mãe chegar na varanda e começar a gritar o meu nome, mas eu abaixo minha cabeça e corro para frente, entrando na primeira esquina que eu chego para estar fora de sua vista. Ela não vai me perseguir em sua cadeira de rodas; ela sabe que ela nunca iria me alcançar. Vai ser um inferno para pagar quando eu chegar em casa, mas eu tinha que sair de lá antes que eu engasgasse. Eu nem sequer pensei sobre o fato de que eu fui em direção à escola. A “esquina” em que eu virei não é uma esquina qualquer; é a borda do estacionamento. Agora eu estou andando no meio de uma enorme praça de neve branca. Se eu fosse mais jovem, mais ignorante, menos culpada, eu


deitaria e faria um anjo de neve. Ou correria em círculos cheia de leviandade por ser a primeira pessoa a estragar o cobertor perfeito de pura brancura. Em vez disso, eu estou no meio do estacionamento, a neve intocada, exceto pela minha linha única de trilha no meio do caminho. Está quase na hora da escola começar. Mas ninguém está aqui. Bem, há um punhado de carros junto às portas da frente que provavelmente pertencem aos professores. Gostaria de saber se a escola será cancelada novamente. Meu telefone toca no meu bolso. Minha mãe. Eu fico olhando para a tela iluminada, uma vez que continua a tocar e me ocorre por que o dia de hoje é diferente do dia em que encontraram Bethany. Naquela manhã, uma multidão se reuniu em torno da cena do crime e o nome de quem havia sido morto vazou como fogo assim que Rachel viu os sapatos. Matthew foi morto em uma área remota. Mesmo as poucas pessoas que estavam lá foram mantidos longe do local por ambos os oficiais e as árvores. Eu sou a única aluna que sabe o nome da vítima. Eu posso imaginar exatamente o que está acontecendo agora em centenas de casas ao redor de Coldwater. Os alunos estão freneticamente ligando uns para os outros; verificando seus amigos, um por um. Eu posso imaginar as mensagens. Você está bem? Me responda de volta AGORA MESMO! Você não respondeu. Ligue assim que você ver isso. Ou até mesmo algo tão simples como: Outro garoto está morto. Por favor, me fale que não foi você. A única pessoa que me ligou foi a minha mãe. E eu não atendi. Eu mando uma mensagem simples para minha mãe: Eu estou na escola. Desculpa. E sigo em frente. Estou na metade dos degraus quando meu celular toca anunciando uma nova mensagem de texto novamente. — Eu sinto muito, sinto muito, sinto muito — murmuro enquanto pego meu telefone novamente. Um sentimento ruim envolve meu estômago quando vejo que não é da minha mãe, mas sim aquele mesmo número desconhecido de antes. Eu olho em volta, mas não vejo ninguém. O que é estúpido, porque não há razão para alguém estar me vendo mandar mensagens. Com as mãos trêmulas, eu desbloqueio meu telefone.


Minhas mãos estão tão frias que mal consigo fazer isso, então eu me aconchego no canto da porta de entrada e forço os olhos a olhar para a tela. Sua tentativa foi admirável, mas, obviamente, não funcionou. Eu posso mostrar-lhe como impedir que isso aconteça novamente. Ligue para mim quando você ficar desesperada o suficiente. Faça isso pelo pobre garoto. Por favor. Eu suprimo a vontade de arremessar o telefone no chão enquanto meus pulmões sugam o ar em suspiros rápidos e altos. Quem quer que seja essa pessoa, ela sabia. Mas quanto é que ela sabia? Ela está me observando? Ela sabia que eu tive a visão de Bethany, e que eu tentei avisar Matthew. E que eu falhei. Enfio meu celular no bolso e volto para o vento de manhã cedo. Eu não tenho certeza para onde estou indo. Eu não posso ir para casa. Eu simplesmente não posso. Eu não estou pronta. Não para enfrentar minha mãe ou Sierra. Eu passo pela escola, andando nas calçadas e estragando mais pedaços perfeitos de neve. Meus pés sem meias estão começando a formigar com o frio dentro de minhas botas, mas os ignoro. Minha mente joga perguntas e possibilidades ao redor do meu cérebro. Depois de meia hora, eu já circulei o mesmo bloco três vezes e eu estou sem neve nova para caminhar. Eu me sinto presa em minha cabeça enquanto minha mente se cansa. Ela deixa as teorias selvagens, os cenários de culpa, e em vez disso se concentra nas duas imagens que não vão deixar meus olhos, mesmo quando eu os fecho: o corte sangrando através da garganta de Bethany e o buraco na cabeça de Matthew. E eu percebo que não posso viver comigo mesma se isso acontecer novamente.


Oito Traduzido por L. G.

Q

uando eu volto para a minha casa, estou dura e tremendo e quase certa de que meus dedos estão congelados. Tomei o caminho mais longo e evitei a escola, então eu sinceramente não sei se estou tecnicamente matando aula ou não. Eu acho que eu estou com a mente desordenada hoje. Estou certa de que pareço patética quando chego na porta da frente e vou direto para o escritório da minha mãe para pedir desculpas. Mas ela olha uma vez na minha direção e eu sei que palavras não serão necessárias. Ela me ajuda a me livrar do meu casaco e tirar as minhas botas. Eu murmuro que sinto muito enquanto nós vamos até a sala, onde eu deito no sofá enquanto minha mãe esfrega minhas costas. É uma coisa que ela faz para mim quando eu fico doente desde que eu consigo me lembrar. Eu não estou fisicamente doente hoje, mas coração doendo são palavras que eu realmente consigo compreender agora. Eventualmente, minha mãe tem que voltar para o trabalho; garanto-lhe que eu vou ficar bem. Que eu só quero ir dormir. O que é absolutamente verdade. Mas dez minutos depois, eu ouço passos estalarem no corredor e o tinir das chaves antes da porta da frente abrir e fechar. Meu coração bate no meu peito enquanto eu levanto silenciosamente do sofá e espio pela janela para ver Sierra dirigindo para longe. Meus dedos formigam de medo e antecipação enquanto meu olhar viaja pelo corredor. A porta do quarto dela está fechada, mas isso não necessariamente significa alguma coisa. Eu não acho que ela saiba que estou em casa. Com um rápido olhar em direção à esquina que me leva para o escritório da minha mãe, eu me arrasto pelo corredor e coloco meus dedos sobre a maçaneta. Eu respiro, cruzo meus dedos e a testo. Está destrancada. Eu não tenho ideia de quanto tempo ela ficará fora. E se ela me pegar, ela ficará tão irritada. Mas é um risco que eu vou ter que correr. Eu corro para dentro e deixo a porta aberta alguns poucos centímetros para que eu possa ouvir quando ela voltar. Como se puxada por um imã, eu vou direto para a cópia antiga de


Reparando o Futuro Fraturado e puxo para fora, me sentindo a pior sobrinha do mundo, mesmo que minha mente fale que eu esteja completamente justificada. Por que eu não poderia ter permissão para saber o que Sierra sabe? Eu preciso disso. Sierra me disse que o conhecimento é perigoso, que ela tem uma posição muito arriscada como a historiadora para as Irmãs. Mas isso soa muito parecido com todos os argumentos que as pessoas dão para censurar e proibir livros e outras coisas. Eu não concordo com isso também. Eu sei que a Irmandade tem as funções básicas de encontrar Oráculos, treiná-los e protegê-los de maneiras que eu realmente não entendo. Mas, pelo que eu saiba, o principal objetivo que eles têm — pelo menos na minha vida — é reprimir todo o conhecimento dos Oráculos. E não só do mundo, mas de todos os Oráculos também. Me desfazendo dos meus pensamentos sombrios, eu cuidadosamente abro o livro. O título está estampado na capa de couro com gravação em relevo de ouro, mas para minha surpresa, o livro é escrito à mão. A caligrafia nas páginas amarelas é cheia de curvas e arabescos e por mais legal que pareça, vai levar anos para decifrar. Meu coração afunda. Eu precisaria de dias, no mínimo, e há uma boa chance de Sierra ter ido apenas buscar café no seu local favorito. Eu começo a ler tão rápido quanto eu posso e consigo terminar menos de duas páginas quando percebo que estou sendo estúpida. Há uma câmera no meu telefone. Não foi assim que o último livro do Harry Potter vazou? Eu puxo o meu telefone do meu bolso e agacho para colocar o livro no chão. Foco, tiro a foto, viro a página. De novo, de novo e de novo. Minha concentração está afiada como laser enquanto eu continuo a percorrer as páginas do livro, xingando baixinho quando a câmera do telefone tem problemas em focar os difíceis blocos de texto manuscrito. Quando o som de uma porta se abrindo ecoa na entrada da frente eu estou tão concentrada que quase me esqueço do que ela significa. Sierra. Em casa. Merda! Com uma pontada de arrependimento, eu fecho o livro com força e o enfio de volta no seu espaço escancarado na estante. Ouço Sierra saudando a minha mãe enquanto eu escorrego para fora de sua porta e a fecho atrás de mim o mais silenciosamente possível. Com passos silenciosos, eu corro pelo corredor e entro no meu quarto. Eu conto até cinco e então coloco a minha cabeça para fora como se eu estivesse casualmente dizendo oi. — Eu não sabia que você estava aqui — diz Sierra, se assustando um pouco quando vê meu rosto.


Ou então eu não teria saído, eu termino seu pensamento na minha cabeça. Eu mordo meu lábio, mas a voz de minha mãe escorre pelo escritório para me salvar. — Hoje está fadado a ser um dia difícil — ela diz. — Eu a deixei ficar em casa. — Oh. Ah, sim — Sierra diz como se só tivesse se lembrado agora de que outro adolescente tinha sido assassinado a menos de três quilômetros de casa. Ela se vira e segue pelo corredor até o quarto dela e enquanto ela vira a maçaneta, eu fico congelada, agarrando a porta para evitar que meus dedos tremam. Eu estou esperando alguma coisa acontecer. Por que eu achei que conseguiria escapar disso? Mas a porta de Sierra fecha com um clique suave. Minha mãe faz barulho em seu escritório. O mundo continua girando. Eu simplesmente não consigo respirar.


Nove Traduzido por I&E BookStore

O

s próximos dias passam em um borrão. Dez dias depois, o pior do choque passou. Não que nada tenha voltado ao normal. Mas estamos começando a se lembrar de como funcionar novamente. Hoje é o último dia de aula antes das férias de inverno, mas eu não me sinto festiva. Ninguém se sente. Eu nunca teria acreditado que as paredes sociais na escola iriam rachar, mas uma das Populares e um dos Nerds serem mortos com uma semana de diferença quebrou essa pedra inquebrável. Todo mundo chorou junto e apesar de eu ter certeza de que isso não pode durar, essa mistura de todos os grupos parecia uma maneira apropriada de homenagear os dois. Exceto por mim. Eu derivo pelos corredores, tão fantasma como Bethany e Matthew poderiam ser. Ninguém em toda a escola sabe o que eu sei, ninguém mais sente o peso de tal mistura de emoções. Mesmo diante deste sofrimento unido, eu estou sozinha. Duas mortes na escola aparentemente não me tornam menos que uma aberração. O mais impressionante em toda esta catástrofe é que, estranhamente, Linden está falando mais comigo. Não todos os dias, e geralmente ele só pergunta como estou, mas é um ponto brilhante no meu mundo muito escuro e ele me ajuda a me manter centrada. Neste ponto, os policiais não estão totalmente convencidos de que os dois assassinatos têm algo a ver um com o outro. Uma menina, um menino. Uma com uma faca, um com uma arma. Uma Popular, um Nerd. Uma branca e outro negro. Embora todo mundo estava certo no início de que eles tinham sido mortos pela mesma pessoa, não há nada que realmente ligue os dois adolescentes, exceto as suas idades e o fato de que ambos são da nossa pequena cidade. As pessoas estão começando a ter esperança de que foram dois incidentes bizarros isolados e que tudo vai voltar a ser como era. Eu não vou deixar que isso me pare. Eu coloquei uma senha no meu celular — apenas por precaução — e a cada noite, depois que eu fecho a porta, eu analiso as fotos que tirei. Eu tenho cerca de quarenta delas, mas depois de quase duas semanas eu mal consegui ler as vinte. Não é só que a caligrafia é difícil de ler, ele simplesmente não faz sentido. Ele fala sobre saltar em um plano sobrenatural, e há um desenho que parece uma sala com uma cúpula. Eu não sei o que isso significa, mas, aparentemente, uma vez que você está lá, você pode ver várias visões — múltiplos futuros — e talvez até mesmo alterá-los?


Mas não há nada sobre como fazer isso. Ou até mesmo se um Oráculo normal pode fazê-lo. Quer dizer, se eu tivesse um poder como este, eu não saberia alguma coisa sobre isso? Ou sobre este lugar no plano sobrenatural? Estou começando a me perguntar se este é um daqueles livros de lendas que na verdade não tem nenhum fundo de verdade, mas que Sierra comprou porque era um texto velho legal escrito à mão. Eu continuo lendo de qualquer maneira. Arrisquei muito para conseguir essas fotos, e pode haver algo mais útil na última metade das páginas. Não houve quaisquer novas mensagens do misterioso mandador de mensagens. Eu lia as duas que eu recebi pelo menos dez vezes por dia. Eu não iria tão longe quanto ligar, mas o número estava sempre lá. Apenas por precaução. O estacionamento na escola ainda está coberto de neve. Ele começa a derreter sob o sol da tarde, só para congelar novamente no frio da noite. Então não está mais mole e divertida, mas sim um afiado gelo implacável velado por uma fina camada de penugem. Eu estou justo no meio do estacionamento onde eu estava sexta-feira passada, quando eu senti o formigamento familiar de uma previsão. Depois de sacudir o terror do que pode estar vindo, eu olho em volta e depois me agacho ao lado de uma grande caminhonete e a deixo vir. Desde a visão da morte de Matthew, eu não tenho lutado com nem uma única visão, e eu tive umas dez ou mais. Parecia inútil — as visões de assassinato que eu tive sobre Bethany e Matthew me atropelaram de qualquer maneira, e as outras são tão insignificantes que resistir a elas não valiam a pena o esforço. E, apesar do medo borbulhando cada vez que eu sinto que vem uma, todas as visões desde aquela sobre Matthew eram chatas. Quem se importa que o carro do Sr. Johnson vai deslizar para fora da estrada na véspera de Natal? Ele vai ficar bem e é um carro velho de qualquer maneira; ele quer um novo. E uma senhora que eu não sei quem é está se preparando para servir o marido com os papéis do divórcio. O que diabos eu faria? Encontrá-los e dizer-lhes para obter aconselhamento? São apenas pequenos vislumbres da vida das pessoas de Coldwater — a maioria das quais eu não conheço. Então eu deixo as predições virem e depois as esqueço tão logo a visão acaba. Embora eu não me atreva a dizer a Sierra, eu estou feliz que eu parei de lutar. É tudo muito mais fácil agora. Mais fácil. Não fácil. Eu ainda estou fazendo as mesmas coisas que sempre fiz — me jogando em minhas aulas e estudando muito, então eu estou muito cansada para pensar quando me deito para dormir à noite. Mas pelo menos eu não estou tentando conservar energia para lutar com as visões. A escuridão começa a invadir as bordas da minha visão física e eu fecho minhas pálpebras antes mesmo de começar. Desistir. Deixo-me levar e me absorver.


Estou de pé em um campo aberto à noite e a neve suave está caindo levemente. Como algodão, e não como a pesada neve abafada que tenho recebido ultimamente. Este é o tipo de neve que tem sempre em filmes antes de os personagens principais se beijarem. Eu olho em volta e não vejo nada. Confusa, eu espero que a visão puxe os meus pés na direção que eles deveriam ir, mas depois de alguns segundos, eu ainda estou lá de pé. Com nada mais a fazer, eu tento dar um passo sozinha, mas meus pés estão colados no chão. Ok, há algo aqui que eu deveria ver. Em vez de olhar para a frente, eu olho para baixo e percebo que a superfície irregular a poucos metros à minha esquerda não é, de fato, um remendo coberto de neve de terra esburacada. É um casaco de cor creme. Eu sugo uma respiração congelante e até mesmo na minha visão o frio repentino me faz querer tossir. Eu levanto meu pé e ele me obedece agora. Com terror batendo no meu coração, eu ando para a frente um passo. Dois. Três. Quem quer que seja que está deitado de costas tão pacificamente parecia que estava dormindo. Eu engasguei um soluço e esperei com todo meu coração que ele seja apenas um cara bêbado que adormeceu e congelou até a morte. Não que eu gostaria que alguém morresse, mas isso seria melhor do que... melhor do que... Melhor do que um rosto adolescente olhando para mim com os olhos vagos e a pele coberta com uma pequena camada de flocos de neve. Uma rajada de vento afasta um pouco da neve e então eu vejo as contusões. É outra vítima. Seu casaco está com o zíper abaixado até a metade do peito e seu cachecol foi desamarrado e empurrado para o lado como se para mostrar o que o assassino fez. Retalhos de um roxo profundo cobriam seu pescoço, quase preto contra sua pele pálida ainda mais branca com a morte. Eu fico lá tremendo de frio, mesmo que eu não possa mais sentir o frio. Ele parece tão sereno que é quase pior do que as cenas sangrentas que testemunhei com Bethany e Matthew. Tão incrivelmente dissonante. Eu me forço a me concentrar — a visão não vai durar para sempre — e eu levanto os meus olhos para o seu rosto. — Jesse. — Minhas palavras se perdem no vento. Jesse Prince. Ele estava na minha aula de arte no semestre passado e acabamos sendo parceiros em um projeto. Ele tinha todo o talento; eu tinha toda a disciplina. O resultado final foi abaixo da média. Eu sugo uma respiração irregular e olho ao redor novamente. É um espaço vazio — um estacionamento? E eu estou debaixo de um poste alto com apenas uma luz funcionando. Talvez um parque? É isso. Um parque. E agora eu posso ver o contorno turvo de uma fileira de casas fora do círculo de luz. Há uma placa. É algum tipo de


condomínio. Mas, quando eu levanto os meus pés para chegar mais perto, a visão começa a desaparecer. Eu tento correr para chegar lá antes de tudo fica preto, mas eu só posso levantar meu pé alguns centímetros e, em segundos, está tudo acabado. Eu pisco devagar, com cuidado, a luz do sol invadindo meus olhos e fazendo-os picar após a escuridão pura. Infelizmente, porque eu estava sentada em um pedaço de gelo escorregadio, agora estou deitada completamente no chão ao lado da caminhonete enferrujada. Minha cabeça fica bem ao lado de uma poça de lama e eu posso sentir a umidade encharcando o meu cabelo e amortecendo meu couro cabeludo. Sento-me, mas não me preocupo em olhar ao redor. Não importa se alguém me viu; nada importa agora. Mechas úmidas de cabelo caem no meu rosto, mas eu as empurro para longe e empurro minhas mãos em meus bolsos, agarrando o meu telefone. Eu não paro, não penso, e não me deixo reconsiderar. Meus dedos gelados discam o número e, quando ele começa a tocar, eu levanto, me apoiando na caminhonete para me equilibrar. — Alô? Um homem. Eu estava esperando uma menina. Uma mulher. Apesar do que Sierra disse, no fundo eu tinha certeza de que tinha que ser outro Oráculo. — Alô? — Minha voz falha quando eu respondo e eu tenho que limpar minha garganta algumas vezes antes que eu possa falar com clareza. O homem do outro lado não diz nada, apenas espera. — É Charlotte — eu digo assim que eu consigo falar. Eu ouço uma respiração longa e lenta e ele sussurra: — Finalmente. — Tão baixinho que eu mal o ouvi. — Você viu o próximo? — ele pergunta com a mesma voz calma. — Sim — eu sussurro, as lágrimas ardendo em meus olhos. — Eu preciso encontrar com você. Eu engulo em seco e forço as minhas emoções para trás. — Como eu sei que você não é o assassino? Ele ri agora, um som suave e bizarro, considerando as circunstâncias. — Charlotte, o quão estúpido que eu teria que ser para tentar matar um Oráculo? Cada músculo do meu corpo enrijece. Nunca revele que você é um Oráculo para ninguém, exceto outro Oráculo. Ele faz uma pausa e quando eu não digo nada, ele continua: — Você sabe que você não vai morrer hoje, não é? Meu silêncio é resposta o suficiente.


— Se isso faz você se sentir melhor, você escolhe o lugar. Pode ser tão público quanto você quiser, desde que seja em algum lugar que possamos conversar sem sermos ouvidos. Ainda é tão cedo após a visão que o meu cérebro e meu corpo estão se movendo com metade da velocidade. Eu deveria ter esperado para fazer a ligação até depois que eu tivesse me recuperado. Mas, então, eu poderia ter mudado de ideia. — Na praça de alimentação — eu finalmente decido. — No shopping. — Quando? — Eu vou para lá agora. Como vou reconhecê-lo? — Eu vou te encontrar. Eu conheço você. A maneira como ele diz “eu conheço você” faz um pingo de medo tremer na minha espinha. Mas eu me censuro por isso. É claro que ele me conhece. Ele me conhecia bem o suficiente para saber o número do meu celular. Ele está me observando de perto o suficiente para saber que eu avisei Matthew. É claro que ele sabe quem eu sou. Mas as palavras tornam isso real. — Dez minutos — ele diz, e então a linha cai. O que eu fiz? Mas meus dedos apertam e eu empurro o meu telefone no meu bolso. — Alguma coisa — murmuro para mim mesma quando eu abaixo minha cabeça congelando e ainda úmida e viro na direção do shopping. — Eu estou fazendo alguma coisa. — É claro, a última coisa que eu fiz poderia ter tornado as coisas piores. Mas eu mando esse pensamento à distância. Eu não posso ter medo. Só leva cerca de 20 minutos a pé para o shopping, que é tempo de sobra para me sentir completamente congelada. O Shopping de Coldwater é mais como um corredor de um shopping de verdade, com uma mini praça de alimentação no final. Há cerca de dez mesas espalhadas em torno de uma alcova com várias claraboias que são muito bonitas no verão, mas fazem com que tudo pareça ainda mais frio no inverno. Eu escolho uma mesa na borda mais distante das lojas e restaurantes. Todo mundo pode me ver, mas o assento mais próximo é há cerca de três metros de distância. Vai servir. Sento-me lá como se eu estivesse apenas faltando a escola para me encontrar com um namorado da faculdade. Como se eu estivesse escapando para alguma travessura típica de adolescente, não para salvar vidas. Pelo menos eu espero que seja para salvar vidas. Se esse cara realmente puder me mostrar como acabar com isso, então tudo vai valer a pena. Porque eu não tenho certeza se minha mente pode lidar com um outro adolescente morrendo. Um adolescente assim como eu. Sento-me sozinha por alguns minutos antes de eu perceber que alguém está olhando para mim. Levanto a cabeça para meu primeiro olhar para o homem que acha que pode salvar a nossa cidade deste monstro.


Dez Traduzido por Vivian Nantes

E

u não tenho certeza do que eu estava esperando, nem tenho certeza se estava esperando alguma coisa. Mas ele é tão anódino que meus olhos deslizam para a direita após passar por ele a primeira vez, e ele só chamou minha atenção quando percebi que ele estava olhando para mim. Ele é basicamente médio: altura média, estatura média, idade média se tal coisa existe. Talvez no meio dos 30 anos, eu decido enquanto ele se aproxima. Mas o seu cabelo é prematuramente salpicado com cinza, então a princípio ele parece muito mais velho. Ele está vestindo jeans, do tipo que são muito escuros e uma jaqueta preta que se parece com a metade dos casacos de Coldwater. Ele não é nem bonito, nem simples, mas tem um estranho tipo de rosto no meio disso. Eu esperava que ele sorrisse quando nossos olhos se encontraram. Para que ele tentasse me deixar à vontade e me levasse a confiar nele. Mas a expressão sombria permaneceu lá enquanto ele caía no banco do outro lado da mesinha que eu estava. — Olá, Charlotte — ele diz, e eu instantaneamente reconheço a voz do telefone. — Eu não sei o seu nome — eu digo. É uma forma rude para cumprimentá-lo, mas uma vez que ele está ignorando as sutilezas no sentido de encontrar alguém pela primeira vez, eu vou seguir o exemplo. — Me chame de Smith — ele diz. — Não, não é meu nome real — ele acrescenta antes que eu possa franzir meu rosto com desconfiança, — mas você vai me perdoar se eu não estou inclinado a dar informações verdadeiras para um Oráculo cuja tia tem vínculos próximos com as Irmãs de Delphi. Eu recuo, olhando para ele com choque e medo. Uma coisa é saber sobre Oráculos, outra é saber sobre uma parente minha e o papel que ela desempenha em uma sociedade secreta. Uma sociedade secreta que eu mal sei algo sobre. — Não faça isso — diz Smith, levantando a mão. — As pessoas vão começar a olhar para nós. Fique neutra. — Como você sabe sobre a minha tia? E as Irmãs? — Eu sei de um monte de coisas. E vamos apenas dizer que suas Irmãs de Delphi não se importariam nada se eu deixasse de existir por causa disso. Me ajeito em silêncio, meus nervos tremendo. Ele não fala mais uma vez, não se apressa para preencher o silêncio, e eu percebo que ele não vai oferecer informações. Eu vou ter que perguntar. — Como é que você sabe sobre mim?


— Eu aprendi os sinais de um Oráculo muito tempo atrás, Charlotte. É desconcertante a forma como ele continua usando meu nome real quando nós dois sabemos que o que ele me disse é falso. — Como? Ele solta o cachecol, como se estivesse se estabelecendo para um longo bate-papo. Eu não tenho certeza se isso é uma coisa boa ou não. — Quando eu era muito jovem, vivi próximo da casa de uma menina que era um Oráculo. Éramos melhores amigos e, quando ela começou a ter predições, ela fez o que qualquer criança faria: ela disse ao amigo, Smith. — O início de um sorriso levanta os cantos de sua boca por cerca de meio segundo, mas o olhar assombrado em seus olhos o elimina. — A mãe dela era um Oráculo também, e logo que possível, começou a ensinar-lhe as mesmas coisas que eu imagino que você foi ensinada. — Ele acena com a mão em direção à mesa como se houvesse uma pilha de itens em exposição. — Lute com as visões, nunca conte a ninguém que não é um oráculo o que você pode fazer, nunca, jamais, mude o futuro. E ela era muito obediente. Com uma exceção. — Você? — eu digo depois de uma longa pausa. Ele balança a cabeça. — Eu a vi sofrer com o mesmo tipo de coisas que você provavelmente sofre: se distrair no meio da aula, todos achavam que ela era uma pessoa estranha, ela sentia-se como se nunca fosse ter amigos. Eu engulo, empatia enchendo meu peito enquanto eu comparo isso com a minha própria infância solitária. Minha vida solitária: não é como se essa parte houvesse terminado junto com os joelhos machucados e piolhos. — Eu fiz o que pude — ele diz, olhando para a praça de alimentação novamente. — Dei cobertura a ela quando ela tinha uma visão. Levei-a para o baile quando ninguém mais o faria. Apoiei suas mentiras quando ela disse às pessoas que era epiléptica. Mas no seu último ano algo aconteceu. Suponho que as Irmãs chegaram a ela. Ameaçaram-na de alguma forma. Ela encenou uma briga enorme no meio da escola. Eu sabia que era forçado, é claro, eu a conhecia melhor do que ninguém no mundo, mas depois disso, ela não falou mais comigo. Nem mesmo ao telefone. Quando saí para a faculdade, eu enviei cartas e todas foram devolvidas fechadas. Durante vários anos, eu pensei que a nossa amizade tinha simplesmente acabado. — Ela voltou? — eu pergunto, sabendo que o final desta história não é um “felizes para sempre” e desejando que fosse de qualquer maneira. Não por causa de Smith, necessariamente, mas por essa outra garota Oráculo. Mas eu sei melhor do que isso. Nós não temos finais felizes. Smith engole visivelmente e balança a cabeça. — Não. Mas os acidentes começaram. — Ele corre os dedos pelos cabelos já despenteados e parece decididamente desconfortável. — Eu não tenho nenhuma prova, é claro, mas eu acho que quando eu ficava tentando entrar em contato com ela, as Irmãs decidiram que se eu não fosse embora por conta própria, elas me fariam ir.


Eu quero dizer a ele que ele está mentindo. Que uma organização a qual minha tia pertenceria não iria realmente matar alguém, mas eu não consigo dizer as palavras. — O que isso tem a ver comigo? — eu pergunto. Sua cabeça sacode quase como se ele tivesse esquecido que eu estava lá. — Em algum momento, eu percebi que não ia durar muito tempo se eu não desaparecesse. Então eu comecei a viajar. Saltei de cidade em cidade. Eventualmente, eu vim parar aqui. Às vezes me pergunto se eu estava atraído por este lugar. Eu estava por aqui há umas duas semanas, quando eu passei pelo pátio da sua escola. Você devia ter nove ou dez anos. Eu não estava observando você, eu estava apenas vendo as crianças brincando e lembrando os momentos que tive com a minha amiga. E, em seguida, uma menina caiu do trepa-trepa. Ele me olha nos olhos e agora eu sei o que está por vir. É onde tudo com Linden começou. É uma das minhas memórias mais preciosas e isso faz eu me sentir mal por ouvi-la sair da boca de outra pessoa. — Ela ficou lá, olhando para o espaço. E eu conhecia aquele olhar em seu rosto. Eu o tinha visto centenas de vezes antes. A cena aconteceu assim como eu sabia que aconteceria. Todas as crianças se afastaram, tentando evitar a aberração. — Ele se inclina para frente, os cotovelos sobre os joelhos, os dedos entrelaçados. — Eu provavelmente teria fugido novamente, logo em seguida — ele diz. — Desapareceria, encontraria outra cidade sem Oráculos para viver. Mas eu vi um menino sentar ao seu lado e ajudá-la, antes dos professores intervirem quando perceberam o que estava acontecendo. Era eu e... e ela mais uma vez. Eu não conseguia desviar o olhar. — Ele dá de ombros e pigarreia. — Eu observei você de uma distância segura desde então. Eu fico olhando duro para ele, tentando decidir o quanto disso é verdade. Obviamente, algumas coisas são; como ele poderia saber essa história? E sei exatamente o que isso significava. Mas a ideia de que algum estranho está me observando desde que eu tinha dez anos me assusta. — Por que eu não o reconheço? — O que você quer dizer? — Se você estava ao redor — a palavra sai um pouco ironicamente, mas Smith não parece notar, — eu não devia reconhecê-lo? — Eu sou bom em me misturar — Smith responde. — Além disso, não é como se eu fosse algum perseguidor doente que segue você constantemente. A vejo a cada poucos meses. Muito casualmente. Ele não chega a soar verdadeiro. — Mas você sabia que eu vi a morte de Bethany. E você sabia que eu tentei avisar Matthew. Essas não são exatamente observações casuais — eu digo, ficando um pouco nervosa agora. — Eu realmente não sabia que você viu Bethany — ele diz, parecendo envergonhado. — Eu imaginei. — Você me mandou uma mensagem!


Sua mandíbula aperta. — Eu não deveria ter feito isso. Eu estava com raiva. Mas com o tempo eu pensei melhor, só que já era tarde demais. — Ele olha para cima e encontra meus olhos novamente. — Embora eu a assista mais de perto desde o assassinato dela. Eu finjo que sou pai de alguém na escola. — Ele aponta para o seu cabelo. — Eu pareço mais velho do que eu sou. E ninguém questiona estranhos no corredor antes e depois do horário escolar; muitos pais estão passeando com seus filhos todo o caminho dentro do prédio nos dias de hoje. Eu... eu vi o olhar em seu rosto quando você falou com o garoto negro e alto. Matthew. Você não pôde esconder o desespero. Eu sabia que algo ia acontecer com ele. E após o assassinato, quando relataram que era um adolescente, bem, não foi difícil juntar as peças. Eu deveria ter ido direto a você naquele dia, mas eu estava com medo que eu fosse te assustar. E ele o faria. — Eu quero acabar com isso, Charlotte. Caso contrário, eu teria que deixar você continuar em sua pequena vida de Oráculo fazendo o que todos os outros Oráculos no mundo fazem. — Você disse que você poderia me ajudar a parar. — Eu posso. A força dessas duas palavras — sua confiança, como ele diz — me deixa em silêncio. — Mas... mas você não é nada de especial. — Eu não me desculpo pelas palavras rudes. É a verdade. Ele não é um Oráculo, ele é só um cara. — Não — ele diz, sem vacilar com meu insulto. — Eu não sou. Mas eu conhecia alguém que era especial e que usamos para experimentar e explorar. Mais do que isso. Aprendemos coisas que ninguém mais no mundo inteiro sabe. — Ele toma uma respiração profunda. — Eu vou te ensinar, e você vai parar com isso. Eu fico olhando para ele por um longo tempo. Eu não posso simplesmente saltar até a falsa esperança. — Você é um estranho que sabe tudo sobre mim. Sem mencionar que você sabe muito sobre esses assassinatos. Eu tenho que dizer, isso não inspira confiança. Ele passa os dedos pelos cabelos, parecendo tão perturbado como eu me sinto. — Eu sei. Eu sei. Com o que mais posso convencê-la? O desespero em seus olhos é tão profundo, tão surpreendente que eu quase quero acreditar nele ali mesmo. Mas essa é uma decisão muito importante para ser tomada somente com base em dez minutos de conhecimento. — Eu só, eu tenho que pensar... Eu tenho que planejar... Eu tenho que... — Minha voz falha. Não é como se eu soubesse o que diabos eu estou fazendo também. Ele balança brevemente a cabeça, mas parece nervoso. — Eu posso lhe dar tempo, se é isso que você quer. Mas antes de fazer isso, você tem que prometer que vai guardar o meu segredo. — Ele encontra os meus olhos, a


intensidade brilhante de sua íris marrom-escura. — Você não pode dizer a sua tia sobre mim. Ou sobre qualquer coisa que fizemos. Minha vida está em jogo aqui. Se as Irmãs souberem... — Sua voz corta e ele se inclina para trás abruptamente, limpando a garganta. Um silêncio pesado se encontra entre nós por um longo momento. — Elas não podem me encontrar de novo — ele termina em um sussurro cheio de terror. — Eu não vou dizer — asseguro-lhe. — Mesmo sem você na parada, Si... minha tia ficaria furiosa que eu estivesse fazendo alguma coisa. Até mesmo pensando em fazer alguma coisa. — Eu não quero pensar sobre as Irmãs. Sobre o que elas poderiam fazer. A frieza que vem de dentro de mim me faz puxar meu casaco mais apertado e fico com calafrios. — Como exatamente você acha que pode me ajudar? Ele lambe os lábios e, em seguida, puxa a cadeira mais perto da mesa, inclinando a cabeça perto de mim. — Alguma vez você já revisitou uma visão? Eu só fico olhando para ele, sem saber o que isso significa. Ele enfia a mão em sua sacola e pega uma pequena pedra reluzente, amarrada em uma corrente de prata tão manchada que é quase inteiramente preta. — Esta é uma pedra do foco. Você já viu uma dessas antes? Eu balanço minha cabeça, mas estou fascinada pela joia brilhando que parece ser incolor e de todas as cores do mundo, tudo ao mesmo tempo. É do tamanho de uma grande uva e cortada em uma lágrima. Ele acaricia uma das grandes facetas da pedra enquanto ele continua. — Ela não tem nenhum poder por si só, na verdade. Ela ajuda a melhorar suas habilidades. — Que habilidades? — eu digo, mas eu tenho que me forçar a respirar de forma constante. Talvez seja isso que as páginas de Reparando o Futuro Fraturado estejam falando. O que eu sempre suspeitei era possível. Habilidades além de simples visões. Ele hesita. — Há tantas coisas que um Oráculo pode fazer. Não se trata apenas de ver o futuro; você pode ter um papel ativo na criação do futuro. Eu prendo a respiração agora, meus olhos fixados na pedra, mas eu não digo nada. — Esta pedra lhe permitirá revisitar uma visão que você já teve, e alterá-la. — Impedir a morte de Jesse — eu sussurro, compreendendo agora. Eu estendo as minhas mãos. — Eu posso? — Ele balança a cabeça e coloca a pedra em minhas mãos. É quente. Mais quente do que depois de alguns minutos em suas mãos deveria ficar. Isso me assusta e me anima ao mesmo tempo. — Onde você conseguiu isso? — Não fui eu. E-ela nunca me contou como ela conseguiu. Pensei que era um segredo muito perigoso até mesmo para eu saber. — Sua amiga Oráculo?


Ele balança a cabeça. — Qual era o nome dela? — Quando ele hesita, eu levanto minha sobrancelha. — Você quer que eu confie em você para me ensinar poderes proibidos e você nem vai me dizer o nome dela? — Shelby — ele sussurra como se doesse dizê-lo. Eu fico olhando para ele, me perguntando se ele está dizendo a verdade. Sobre tudo isso, na verdade. — Eu não posso fazer isso agora. Eu preciso pensar. Smith parece decepcionado, mas ele não discute. — Não espere muito tempo — ele diz. — Eu quero levar isso comigo — eu digo, enrolando meus dedos ao redor da pedra, quando ele estende a mão para ela. Sua mão se aperta em um punho por um segundo antes que ele a afaste e deslize sob a mesa novamente. — Eu não tenho certeza que você sabe o que está pedindo. — Ele inclina a cabeça em direção à pedra. — Esse é um dos itens mais poderosos sobre a face da Terra. Passei mais de uma década da minha vida escondendoa. Protegendo-a, na verdade. Se alguém a encontrasse — se sua tia vê-la — ambas as nossas vidas estarão em jogo. — Se você quer que eu confie em você, você precisa confiar em mim também. Deixe-me levar o colar, e eu vou tomar uma decisão. — Minha voz sai muito mais estável do que eu me sinto. — E de qualquer forma, eu vou devolvê-la. — Eu posso dizer que ele não gosta disso, mas eu o coloco em uma posição onde ele não tem escolha. Não se ele quer alguma chance de trabalhar comigo. Ainda assim, ele hesita. Em seguida, ele enfia a mão no saco de novo e tira um pequeno saco de veludo. — Tenha cuidado com ele — ele diz, com a voz baixa e grave. — E eu não recomendo tentar nada. Eu vou te ensinar tudo o que sei, se você decidir confiar em mim, mas você poderia se atrapalhar com um monte de coisas se você mergulhar nisso sozinha. Suas palavras me causam arrepios porque elas parecem muito verdadeiras. Poderosa e perigosa. É o que essa coisa é. A menos, é claro, que ele seja completamente louco. Então, é só um pedaço brilhante de bijuteria. Isso é o que eu preciso descobrir.


Onze Traduzido por L. G.

A

pesar de ter voltado correndo do shopping, eu chegarei atrasada para minha aula do segundo período. Estou correndo pelo corredor em direção ao coral quando ouço alguém chamar meu nome. — Charlotte, espere. Eu viro para encontrar Linden respirando com dificuldade depois de correr para me alcançar e tudo dentro de mim derrete e congela ao mesmo tempo. Talvez seja porque Smith estava falando sobre ele. Sobre nós. É uma história que eu penso quase todo dia, mas eu tenho certeza de que Linden se esqueceu. Por que ele lembraria? Para ele foi só um pequeno acidente no parquinho. Para mim, foi tudo. Eu ainda me lembro dos seus olhos me olhando com preocupação enquanto minha visão voltava. Ele tinha dito: — Eu perdi a consciência na semana passada quando eu caí da minha bicicleta. Está tudo bem. — E então ele estendeu sua mão. E eu aceitei. Professores chegaram cerca de dez segundos depois, mas por alguns poucos segundos era só eu e ele. Meu pequeno coração de dez anos de idade se apaixonou naquele dia. Acho que esqueci de me desapaixonar. — Eu só queria saber se você vai sair da cidade durante o Natal. Eu balancei minha cabeça, tentando me lembrar de como fazer minha boca formar palavras. — N-nós vamos ficar por aqui — eu finalmente consigo dizer. — Eu pensei que talvez nós pudéssemos nos encontrar algum dia durante as férias. Respire, respire, respire. — Claro — eu digo, puxando meu telefone. Nós trocamos números e eu me concentro muito para me certificar de que não vou estragar tudo e errar algum número. — Eu espero que você não ache isso estranho — Linden diz, guardando seu telefone no bolso, — mas é bom ter alguém com quem eu possa falar sobre alguma coisa — qualquer coisa — além de... você sabe. — É, é sim — eu concordo, apesar de que eu teria conversado com Linden sobre qualquer coisa no mundo. O sinal toca, assustando nós dois. — Desculpa; eu te atrasei.


— Confie em mim, ninguém vai se importar — eu digo, com um nó na minha garganta. — Ah, sim — Linden diz, e depois fica quieto. — Ei, Linden — eu deixo escapar, mais para mudar de assunto do que qualquer coisa, — você lembra daquele dia na quarta-série quando eu caí do trepa-trepa? Ele sorri. — Não. — Então ele fica sério. — Eu não te empurrei nem nada, não é? Eu rio da ideia. — Não, você me salvou. — Eu encolho os ombros. — Então, é, me ligue a qualquer hora, ok? — Obrigado — ele diz com sinceridade. — Eu agradeço. Eu viro e vou em direção a sala, mas só depois de ouvir os passos dele indo na direção contrária. Então eu paro e olho sobre o meu ombro e assisto ele ir embora, uma alegria fervilhante me aquecendo de dentro para fora. Isso que eu chamo de dia montanha-russa. Naquela tarde, quando eu chego em casa, eu falo oi para minha mãe e depois escorrego rapidamente para dentro do meu quarto e tranco a porta. Eu tenho que terminar de ler o resto das páginas no meu telefone antes que eu decida se posso ou não confiar em Smith. São duas horas apertando meus olhos antes que meus olhos cansados vejam as palavras pedra do foco. Eu sento ereta e dou zoom no parágrafo rabiscado. Embora a habilidade de entrar no plano sobrenatural exista entre todos os Oráculos, o uso de uma pedra do foco será quase certamente necessário para invocá-lo. Pedra do foco. É disso que Smith chamou o colar. Mas essa parte do livro não é sobre revisitar visões, é sobre ir para um lugar completamente diferente. Eu nem ao menos tenho certeza de que é em algum lugar dentro da mente de um Oráculo ou uma localização física real. O texto fala sobre pular, mas eu não sei quão literal é. Ainda assim, é alguma coisa. Talvez tenha alguma coisa a mais em ser um Oráculo do que eu imaginava. Talvez até mais do que Smith saiba. Mas isso significa que eu devo usar a pedra? Que eu deveria confiar em Smith? Mesmo que eu achasse uma explicação clara no texto sobre tudo o que Smith tinha falado, isso não me diria se eu posso ou não confiar nele. Eu tenho que decidir isso sozinha. Eu esfrego meus olhos cansados e desligo meu telefone, mesmo que eu só tenha conseguido ler apenas algumas páginas. Eu estou exausta e isso está gerando consequências graves na minha atenção. Eu saio para pegar um refrigerante e então vou para o escritório da minha mãe. — Oi, linda — diz a minha mãe. — Sente-se; eu estou apenas embalando as coisas.


Nós sentamos em silêncio por alguns minutos antes de eu dizer: — Linden tem conversado comigo. A mão da minha mãe para. — Linden Linden? — Sim. Ela sorri. — Ainda está apaixonada por ele? Eu dou de ombros. — Então isso é uma coisa boa, certo? — Acho que sim. Ele era amigo íntimo da menina que morreu e talvez ele só queira se distanciar disso. Eu realmente não tenho qualquer ligação com ela. Ela encolhe os ombros. — Amizades certamente já tiveram piores começos. — Eu só queria que ele gostasse de mim por mim. — Você não sabe se ele não gosta. — Acho que não — eu murmuro. — Mas... — Não se subestime. Você é muito boa nisso. Eu deixo mais alguns minutos se passarem em silêncio. — E se ele não ligar? — Parece um pouco bobo ficar pensando tão à frente, quero dizer, ele só pegou meu número essa manhã. Mas essa é a primeira coisa boa que me aconteceu em semanas. Então eu já estou analisando demais. É claro. Minha mãe se vira para olhar de frente para mim agora. — Então você não estará pior do que agora. — Mas eu ficaria muito desapontada. — Ele vale o risco? — Dã — eu digo com um sorriso. — Charlotte, a gente nunca sabe o que vai acontecer no futuro — minha mãe diz, e eu me encolho mentalmente. — Olhe para mim. Mesmo um dia antes do acidente, eu nunca teria acreditado que seu pai teria partido e eu estaria em uma cadeira de rodas. A culpa que me enche é como facas que cortam o meu estômago. — Mas eu não mudaria nada. Minha cabeça se levanta. — O tempo que tivemos fez valer todos os segundos de coração partido. — Ela fica quieta, seus olhos desfocam enquanto ela se perde em uma memória. Quando ela recupera a atenção, ela dá aquele sorriso forçado que me diz que ela está tentando não chorar. — Algumas coisas no mundo são tão maravilhosas que você tem que arriscar tudo para conseguir. Eu não me sinto como se ainda estivéssemos falando sobre garotos. — Além disso — minha mãe diz, soando mais genuinamente feliz, — mesmo que coisas ruins aconteçam, quando o momento chegar, você vai ser


forte o suficiente para lidar com isso. — Ela acaricia meu cabelo. — Você vem de um estoque bom e resistente. Eu ergo minha sobrancelha para ela, mas nesse momento eu sinto o começo de uma visão chegando. — Obrigada, mãe — eu digo, levantando. — Você provavelmente está certa. — Eu estou sempre certa — ela corrige brincando. — O jantar está no forno. Ele estará pronto em cinco minutos. Concordo com a cabeça sem dizer uma palavra e, em seguida, recuo para o meu quarto, fechando os olhos e me jogando na cama, esperando que seja algo pequeno que passe rapidamente. Mas essa parece muito estranha. Longe, talvez. Mas é só quando eu me encontro parada com o tornozelo afundado na neve que eu entendo o porquê. É a minha visão de Jesse. De novo. Eu nunca tive uma visão duas vezes. Alguma coisa deve ter mudado. Talvez ele vá viver. Mas não, lá está ele, deitado na neve ao meu lado. Segundos se passam e eu fico esperando por alguma coisa ficar diferente. Mas nada muda. Quando a luz na predição escurece e a cena desaparece, eu pisco até que minha visão física registre o crepúsculo obscuro no meu quarto novamente. Eu não entendo. Por que eu teria essa visão novamente? Um pensamento que eu venho tentando erradicar se contorce até a superfície e nesse momento eu me deixo permanecer nele. Talvez eu desejei fazer isso. Se tem mais coisas em ser um Oráculo do que eu jamais suspeitei, talvez nós devêssemos ajudar. É pensar demais achar que eu estou destinada a parar essas mortes? Se é por isso que as predições que eu tenho sejam tão fortes? E que foi por isso que essa veio até mim duas vezes? Acreditar em destino e fatalidade meio que anda de mãos dadas com ser um Oráculo. Então por que isso não pode ser meu destino? Ainda em conflito, eu alcanço minha mochila e tiro o colar que eu peguei emprestado de Smith. Novamente, ele parece muito quente. Eu o embalo em minhas mãos e encaro a pedra que parece ser de todas as cores e nenhuma cor ao mesmo tempo. Eu a seguro perto da luz, mas isso não faz as cores clarearem nenhum pouco. Na verdade, parece ainda mais multicor. É realmente uma pedra do foco? Ela pode ajudar a salvar as pessoas? Só há uma maneira de descobrir. E uma pessoa que pode me mostrar.


As palavras de minha mãe ecoam na minha mente: Algumas coisas no mundo são tão maravilhosas que você tem que arriscar tudo para conseguir. O que poderia ser mais maravilhoso do que salvar a vida de alguém? Eu imagino o rosto de Jesse na minha mente. Jesse vivo. Trabalhando junto comigo na minha casa, no nosso projeto de arte, um dos únicos colegas que vem aqui. E então eu o imagino morto na neve. Eu vejo as manchas roxas em seu peito e me pergunto como deve ser excruciante ser literalmente sufocado até a morte. Talvez eu não consiga, mas eu tenho que tentar.


Doze Traduzido por Vivian Nantes

E

stou nervosa. Nervosa como se fosse um primeiro encontro. Não que eu realmente saiba como é isso. Eu decidi que deveríamos nos encontrar em algum lugar mais privado neste momento. Então, eu escolhi a biblioteca, que tem salas de estudo privadas em que se podem fazer reservas. Eu deveria prever que Smith estaria lá antes de mim. — Você trouxe? Nenhum olá, nenhum estou tão feliz que você tomou essa decisão. — Sim — eu respondo com um pouco de dã no meu tom. Smith não parecia convencido, então puxei o saco do meu bolso e entreguei a ele. E ele ainda desatou os cordões e olhou dentro para verificar. — Talvez você precise aprender a confiar em mim — eu digo secamente. Ele não olha nos meus olhos enquanto ele concorda. — Eu sei. Eu sei — ele diz, quase para si mesmo. — Acabei de passar tantos anos... — Suas palavras falham enquanto desliza o colar para a palma da mão. — Devemos começar. Um choque de medo passa por todo o meu corpo, mas a decisão está tomada. Tudo o que ele tem para me ensinar, eu estou determinada a aprender. — Eu tive a visão de novo ontem à noite — eu digo depois de eu fechar e trancar a porta da sala de estudo e fechar as cortinas. — Aquela sobre Jesse. — Exatamente a mesma? — Acho que sim. — Conte-me sobre isso. Apesar de a porta estar fechada e as paredes serem grossas, eu me inclino para frente e baixo a minha voz a um sussurro. Digo-lhe sobre Jesse, as marcas de estrangulamento, o que eu me lembro sobre a cena. Smith tenciona os dedos e levanta-os aos lábios, contemplando por alguns segundos. — Eu posso ensiná-la a mudar a cena por conta própria, e eu vou — ele acrescenta. — Mas acho que para esta primeira vez eu deveria entrar em sua visão e treiná-la. — O que você quer dizer com “entrar em minha visão”? — pergunto, o medo voltando como uma vingança. — Com nós dois em contato com a pedra, eu posso entrar na visão com você. Eu não tenho poder lá, mas eu posso ajudar. Parece tão bizarro.


— Você realmente vai ter que confiar em mim. — Ok. — Ele deve ter ouvido a hesitação na minha voz. — Não apenas com os seus segredos. Eu preciso que você confie em mim para... entrar em sua cabeça, essencialmente. Vai ser apenas por alguns minutos, no máximo, mas você tem que se abrir inteiramente. Não resista a nada. — Você pode salvá-lo? — eu pergunto, deixando que a última gota de dúvida vaze. — Eu posso mostrar-lhe como salvá-lo. — Você tem certeza? — Sim. — Então eu confio em você. — Eu vou me fazer confiar nele. Por Jesse. — Ok — diz Smith, puxando sua cadeira para mais perto até que nossos joelhos estão se tocando. — Nós dois precisamos estar em contato com a pedra. Você, para que possa voltar para sua visão, e eu, para que eu possa ir com você. Mais uma vez o meu estômago aperta com o pensamento de qualquer outra pessoa vendo minhas visões. Minha vida, minha vida já bizarra, virou de cabeça para baixo. — Shelby e eu fizemos isso centenas de vezes — Smith diz quando eu não pego o colar. — Eu prometo, é seguro. Estranho, mas seguro. Concordo com a cabeça e, em seguida, coloco minhas mãos em cima das suas, então estamos segurando a pedra entre as duas palmas das mãos. — Não, não — diz Smith, movendo minha mão. — É mais fácil se você pode ver a pedra. Eu ajusto e começamos de novo. — Tudo bem, olhe para a pedra e pense na cena que viu de Jesse. Em seguida, coloque-se de volta nela. De volta nela? De volta para uma das experiências mais terríveis da minha vida? Mas é assim que eu posso mudá-la. Sem risco, não há recompensa. Aqui vai nada. Eu olho para a pedra que parece rosa agora e imagino a cena. Quando eu tenho certeza de tê-la fixa na minha cabeça, eu digo: — Tudo bem. — Não. Você está usando sua mente. Sua mente não é o seu... hum, você provavelmente o chama de seu “terceiro olho”? Talvez “segunda visão”? Eu olho para ele, minha testa enrugando. — Eu conheço as palavras, mas eu não sei o que você quer dizer. Ele suspira. — É difícil de descrever algo que você nunca realmente experimentou. Ok, quando você tem visões, e não as que você já lutou contra, aquelas que você realmente experimenta, mantém os olhos abertos, mas dentro de você... você vai para outro lugar e as trevas cobrem a sua visão física, certo?


Eu aceno, estranhamente com medo de que ele descreveu exatamente o que acontece. Como um estranho dizendo-lhe em detalhe como sua roupa de baixo é mesmo que você esteja completamente vestida. — Olhe para a pedra de novo, e, hum... a escuridão vai cobrir seus olhos físicos. E quando você... quando você luta, você tem algo que você joga sobre a visão para que você não possa vê-la? — Uma cortina — eu digo, ainda tentando empurrar de volta o horror em uma conversa que se parece de repente tão íntima. — Ótimo! Perfeito! — ele diz, se focando nisso. — Uma vez que sua visão física fica escura, exceto pela pedra bem no meio, puxe a cortina para o lado. Não basta espreitar por trás dela, é preciso afastá-la. Estar comprometida. Sua mente vai sentir se você tiver dúvidas. — Ok. — Eu tento novamente com apenas um pouco de ideia do que estou fazendo. Desta vez, em vez de me lembrar da cena com Jesse, eu imagino a escuridão na frente da minha visão física que uma visão sempre induz. Assim que eu o faço, eu quase perco inteiramente a concentração quando ele aparece à direita nas bordas da minha visão, mas sem a sensação de abafado que sempre acompanha uma previsão. Ok, eu penso, tentando me acalmar, eu apenas imagino e acontece. Quando eu me concentro mais uma vez, a escuridão avança estranhamente, começando nas bordas da minha visão periférica, um círculo lentamente, muito lentamente, se encolhendo da vista cercada pela escuridão. Eu amplio meus olhos e, estranhamente, parece ajudar. O círculo de luz diminui, diminui, diminui, até que só a gema, brilhando roxa agora, permanece. Um minúsculo centro apertado no meio de pura escuridão. Um instinto estranho entra em ação e eu sei que eu preciso levantar minhas mãos — não minhas mãos físicas, mas as mãos que eu raramente tenho o controle nas visões. Eu levanto os meus braços e estendo para o véu negro que cobre o meu terceiro olho. É como se essas mãos pesassem 30 kg cada uma, mas eu as levanto de qualquer maneira. Depois de alguns segundos, meus dedos encontram a borda e a puxam para o lado. Eu estou de pé na neve de novo, e o corpo de Jesse se encontra coberto por uma fina camada de flocos ao meu lado. Eu consegui! Eu quero gritar, celebrar, mas mesmo que eu tenha conseguido entrar em uma previsão de propósito pela primeira vez na minha vida, ainda há um adolescente morto no chão ao meu lado. Nada sobre isso mudou. Eu olho em volta de mim, e tudo é familiar e estranho ao mesmo tempo. Eu já estive aqui antes, tecnicamente eu sempre venho aqui durante as visões que eu não luto, mas não é um lugar que eu conheço. Não é um lugar que eu estava ciente que eu poderia conhecer. É um lugar que eu luto quase todos os dias para não vir — bem, costumava lutar. Estar aqui agora parece errado e estranho. Mas, mesmo assim, há um sentimento de possessividade que está brotando dentro de mim.


É a minha segunda visão; por que eu não deveria vir aqui? — Você está aí, eu posso dizer — uma voz suave diz em um ruído tênue e distante, que todos os ruídos externos assumem quando estou dentro ou lutando contra uma visão. Smith. — Agora vem a parte mais difícil. A parte mais difícil? Estou quase tremendo com o esforço de ter feito tudo isso. — O que eu tenho que fazer? — eu pergunto, mas o vento varre a minha voz para longe. Eu percebo que eu nunca tentei falar enquanto estava em uma visão antes. Nunca houve uma razão para isso. Será que a minha boca física fala quando estou neste outro plano? Smith pode saber que eu estou falando? — Eu vou ficar falando com você — diz Smith. — E não tente fazer perguntas; você está falando apenas dentro da sua visão. — Bem, isso responde a pergunta. — Primeiro eu vou colocar meus dedos em uma das suas têmporas. Isso vai parecer muito chocante, como se você estivesse em dois lugares ao mesmo tempo. Sua mente não vai gostar disso e vai querer que você escolha um ou outro. Você não pode deixar ela te mandar de volta. Ou nós vamos ter que começar tudo de novo. Eu não digo nada, apenas me preparo para seu toque. Assim que sua pele entra em contato com a minha, eu suspiro. Embora eu possa sentir a distância que são as pontas dos seus dedos tocando muito suavemente o lado da minha cabeça, na segunda visão é como se suas mãos já estivessem envolvidas em torno de toda a cena, movendo-se cada vez mais perto e ameaçando me sufocar. Minha mente grita para eu voltar para o mundo físico, mas eu me mantenho firme, focando meus pensamentos sobre a pedra, até que eu estou totalmente em minha segunda visão novamente. — Ok — diz a voz reverberando. — Eu deveria estar em sua cortina. Esta é a parte mais complicada. Eu preciso que você me deixe entrar. Eu o senti em pé do lado de fora da minha visão. Meu mundo inteiro quando estou na minha segunda visão. Mas eu estou percebendo agora que este espaço é realmente muito pequeno. Eu não acho que há espaço para nós dois. E... e é meu. Ele não deveria estar aqui. Ele não deveria... — Charlotte! Não me empurre para longe! — Sua voz está ficando cada vez mais longe. Ele está em pânico e agora ele me agarra de volta ao foco. — Eu não posso fazer esta parte; você tem que me deixar entrar. Olho para Jesse. Meu tempo na minha segunda visão já dura mais tempo do que a minha visão original e a neve começa a obscurecer suas feições. — Jesse — eu sussurro, lembrando-me que é por isso que eu estou aqui. Eu tenho que fazer isso. Eu tenho que confiar em Smith. Sinto Smith aos pés da cortina preta, esperando. Eu não tenho certeza do que fazer. Eu não vejo uma cortina. E não é como se eu realmente atravessei uma quando cheguei; eu apenas a puxei para o lado e em seguida, eu estava aqui. Talvez eu esteja tornando isso muito difícil. — Deixe-o entrar — eu sussurro no ar da noite.


Nada. Meu peito está apertado e meus músculos estão cerrados com tanta força que eu sei que vou estar dolorida amanhã. Eu não posso ficar neste limbo estranho por muito mais tempo. — Deixe-o entrar! — eu grito agora, levantando meu rosto para o céu. — Deixe-o... — Estou aqui.


Treze Traduzido por Vivian Nantes

E

u giro, assustada. Ele parece exatamente como ele é no mundo físico, até a roupa que ele está usando. Suas mãos estão nos bolsos e flocos de neve caem no seu cabelo enquanto ele caminha em direção a mim. Parece errado, como se algo estivesse invadindo o meu espaço e roubando meu ar. Eu fiz isso, eu me lembro. Eu o deixei entrar; foi a minha escolha. Mas isso não significa que eu não quero que isso acabe para que ele possa sair daqui. — Onde está a pedra? — Smith diz antes que eu possa falar. Eu não entendo o que ele quer dizer. O colar não está aqui; meu corpo físico está segurando-o. Mas, mesmo enquanto eu tenho o pensamento, eu percebo que há um peso na ponta dos meus dedos. Eu suspiro enquanto abro a minha mão e vejo o colar, vermelho e brilhante. — Coloque-o — diz Smith, claramente não surpreso. — Mas ele não está aqui. — E nem você. Tecnicamente. — Mas... — É a concretização do colar, assim como você é a concretização de si mesma. Tocá-lo ou usá-lo enquanto você está aqui é essencialmente apenas como segurá-lo no mundo físico. E você vai precisar dele. Eu o levanto sobre a minha cabeça e solto a joia na frente da minha blusa onde se assenta calorosamente contra a minha pele. — Por que você não tem um? — Assim como no mundo físico, há apenas um. E você é a única a usálo agora. Eu peguei carona com ele, essencialmente, mas eu sei como ficar aqui por minha conta. Você ainda é uma novata. Eu não compreendi completamente a sua resposta, mas, na verdade, eu não entendo metade do que ele fala. Ou o que eu fiz. — E agora? — eu pergunto, afastando minhas outras perguntas por enquanto. Smith fica em silêncio por alguns segundos. Ele passa por mim e se agacha ao lado do cadáver, olhando os olhos abertos sem vida de Jesse. — Temos que impedir isso. — Como? — eu pergunto, insistente. Eu quero fazer isso. Ele está de pé. — Volte a cena. Para começar, vamos ver se conseguimos descobrir quem é esse desgraçado. — Como eu... faço isso? — eu pergunto.


Sua testa franze. — Você deve ser capaz de simplesmente dizer a cena para voltar. Daqui para frente, para trás, parar coisas, isso é fácil. É aprender a afetar a cena real que é difícil. Só... diga para a visão retroceder. Eu levanto meu queixo e me concentro. Retroceda, eu mando na minha cabeça. Nada acontece. — Você quer que isso seja fácil — diz Smith, — mas... — Você disse que era apenas para falar para a cena retroceder. — Você está confundindo “simples” com “fácil” — Smith diz, e eu tenho que morder minha impaciência. — Eu não tenho certeza de qual técnica vai funcionar melhor para você; talvez imagine que a cena vai para trás em sua cabeça e, em seguida, force a sua mente para deixar. Eu já estou tão cansada. Smith está certo, eu subestimei o quão difícil isso seria. Sentindo-me mais do que um pouco autoconsciente, eu decido usar as minhas mãos como uma espécie de ponto focal. Com as palmas para fora na minha frente, eu mexo os braços da esquerda para a direita, como se eu estivesse paginando para trás através de um livro. — Retroceda — eu sussurro enquanto eu espero que a cena se mova no sentido inverso, desejando-o com toda a minha alma. No começo eu não vejo nada, mas depois de um tempo Jesse não está mais coberto de neve. Há terror na minha barriga e eu percebo que eu deveria ter considerado o evento que inevitavelmente virá em seguida. Eu perco meu foco por um segundo e os flocos de neve pausam ao meu redor. — Eu sei que você não quer ver isso, Charlotte, mas a única coisa que pode salvá-lo é voltar antes do assassinato. Você pode fazer isso — Smith diz por trás do meu ombro direito. Empurro o medo para longe — eu tento, pelo menos — e penso em salvá-lo. Salvá-lo. Salvá-lo. Os flocos estão voando para cima novamente. Talvez até mais rápido do que antes. A figura de preto caminha para trás, para a forma propensa de Jesse. Em segundos, ele está em cima do peito de Jesse, suas mãos de ferro em torno do pescoço dele, e Jesse luta com chutes tentando se livrar de seu assassino. — Pare! — eu grito, e tento correr para a frente. Mas, assim como em minhas visões habituais, os meus pés estão presos. Jesse está congelado com os olhos arregalados, com o rosto roxo, com a boca aberta num grito silencioso. É pior do que sangue e morte. Muito pior e todo o meu corpo treme em desgosto e desespero. — Pare ele! — eu grito com Smith quando eu ainda não posso me mover. — Você disse que você poderia impedir isso!


— Você tem que ir mais longe — diz Smith, seu comportamento calmo rompendo a minha racionalidade e dando-me um pedaço de sanidade. — Nós não podemos lutar contra ele, nós não estamos no mundo real. Estamos dentro de sua mente. Volte mais e nós vamos impedir Jesse de vir aqui. Isso é o que eu quis dizer quando eu disse que eu podia impedi-lo. — Mas — eu olho freneticamente para o atacante congelado, — o assassino! Ele está bem aqui. Não podemos tirar sua máscara e descobrir quem ele é? — Não é assim que funciona — diz Smith, e enquanto eu posso dizer que ele está tentando me acalmar, o frenesi dentro de mim se recusa a acalmar. — Nós não estamos fisicamente aqui; nós existimos apenas em sua mente. Através de seus poderes como Oráculo você pode afetar este mundo, mas não da maneira que você assume. Você precisa confiar em mim. Por favor, continue rebobinando. Respiro fundo e constante e forço-me a olhar para Jesse. Jesse congelado em sua luta pela vida, apenas segundos de distância da morte. Eu odeio que eu parei tudo aqui, uma foto macabra de quase-morte. Eu coloco minhas mãos na minha frente de novo, e é mais fácil para mover a cena neste momento. Provavelmente porque eu quero tão desesperadamente sair deste momento. A história em sentido inverso continua. Jesse vagueia, pouco visível de onde eu estou, e quase fora da vista do lugar que ele está destinado a morrer. Está usando fones de ouvido e há um baseado em sua mão. — Saindo para ficar chapado — murmuro para mim mesma. — Claro. — Eu imagino que ele está estressado, não é? — diz Smith, e eu odeio a pontada de empatia que sinto pelo erro descuidado de Jesse. — Ok — Smith diz enquanto Jesse continua andando para trás, quase no limite do avanço. — Devemos estar suficientemente longe. Você pode deixar a cena continuar de novo. Parar é mais como abrir mão do que forçar a cena a minha vontade. Eu dou uma breve trégua para recuperar o fôlego e esfrego os músculos trêmulos em meus braços, e eu tiro o máximo de proveito. — Você está pronta? — Smith pergunta baixinho, e eu percebo que ele está me dando tempo. Eu aceno com a cabeça que sim, embora eu não tenha certeza de que estou. — Você vai até ele. O ordene a ir para casa, da mesma maneira que você está fazendo com a cena, e então você vai usar o seu corpo físico, tecnicamente é uma forma de energia para empurrá-lo todo o caminho até sua casa. Quando o assassino vier, Jesse simplesmente não vai estar lá. — Espere, espere, espere — eu digo, acenando com as mãos na minha frente. — Praticamente nada disso é possível. Não posso me mover em minhas visões. Quer dizer, eu posso mover meu corpo, mas eu não posso andar. Tentei há dois minutos.


— Você tentou se mover por conta própria. Você precisa usar o poder da pedra para se mover. — Eu estou usando-a, não está ajudando. — O cansaço desesperado está rastejando em cima de mim. Smith franze os lábios e empurra o cabelo curto da testa. — Shelby disse que iria filtrar todas as suas energias através da pedra, e a pedra iria multiplicá-las, e é assim que ela tinha poder suficiente para se libertar. Eu cerro os dentes e penso sobre isso. Faz um estranho tipo de sentido, mas a ideia de que eu tenho uma dimensão inteiramente nova de habilidades que eu nunca tive qualquer indício é difícil de envolver em minha cabeça. Eu penso sobre a pequena seção que eu li sobre a pedra do foco de Reparar o Futuro Fraturado e me lembrei que, em algum lugar, de alguma forma, Oráculos têm usado pedras do foco por um longo tempo. — Tudo bem — eu disse, e eu gostaria que minha voz estivesse mais forte. — Estou pronta para tentar. — Alguma vez você já teve um daqueles sonhos onde você está tentando correr, mas você está se movendo em câmera lenta? — Sim. Eu odeio esses. — Você vai se sentir assim. Vai usar cada grama de energia mental que você tem, filtrada através da pedra do foco. — Tudo bem — eu digo, pronta para fazer a tentativa. Eu deixo de lado o último pedacinho de controle sobre a visão que eu ainda estava agarrando. A cena começa a avançar e eu levanto meu pé, decidida a acabar com isso. Mas o meu pé se levanta uma mera polegada. Em seguida, congela. — Você pode fazer isso — Smith sussurra quando eu paro. — Pense na pedra tornando-a mais poderosa. Eu me concentro na sensação de calor da pedra contra a minha pele. Distante eu posso quase sentir a pedra real pulsando contra meus dedos na minha mão física. E uma onda de... de algo correndo pelo meu corpo. Um novo tipo de energia me enche. Desta vez, meu pé se move. Eu dou um passo. Um único passo e eu já estou cansada. Olho para Jesse. Ele está vindo em minha direção. Eu levanto um pé novamente. Dois passos, três. A explicação de Smith estava certa e eu tenho a sensação surreal de estar em um sonho, em vez de uma visão. Eu continuo sofrendo através do ar que se parece gelatina, até que eu estou a apenas alguns metros de Jesse. — Diga a ele para ir para casa — Smith sussurra. — Jesse, vá para casa! — eu grito com toda a força e volume que posso reunir. — Na sua cabeça — Smith corrige. — É uma coisa mental. Eu fecho meus olhos por dois segundos, concentrando-me na pedra novamente. Vá! Eu grito na minha cabeça. Vá para casa!


Jesse para. Ele enfia a mão no bolso e tira o fino baseado. Ele considera o que é por um momento e, em seguida, olha para o poste de luz que está escuro de um lado. — Agora empurre — diz Smith. Minhas mãos não fazem contato com Jesse e, por um segundo, eu não acho que isso vai funcionar. Então Jesse está se virando, empurrando o baseado no bolso, e começando a marchar para casa. Eu continuo andando e empurrando ao mesmo tempo e eu sei com certeza absoluta que eu nunca poderia ter feito isso sem a pedra. Meus braços e pernas estão tremendo e eu estou com medo de olhar para além das costas de Jesse para ver o que me resta. Eu não quero saber. Depois do que parecem horas, chegamos a sua porta. — Isso deve ser o suficiente — diz Smith. — Descanse. Ao fim dessas palavras, eu deixo tudo — Jesse, a energia da pedra — e inclino-me sobre as mãos e os joelhos, com falta de ar. Todo o meu corpo parece elástico. É melhor que isso seja o suficiente, porque eu não tenho certeza se eu poderia continuar por mais um segundo. Ao som de uma porta se fechando, eu olho para cima. — Ele está lá dentro — eu digo, respirando com dificuldade. — Será que conseguimos? — Provavelmente — diz Smith. — Mas você sabe quão inconstante o futuro pode ser. Esperamos que, quando ele decidir ir por conta própria, ele mude de ideia. — E agora? — Puxe a cortina sobre sua segunda visão, que você usa quando você luta com as visões. Ela vai chutar nós dois para fora. Concentro-me no escurecimento do meu mundo visionário e quase que instantaneamente eu estou de volta na biblioteca, sentada em frente de Smith, olhando para a pedra do foco, com os dedos sobre as têmporas. — Caramba! — eu digo, afastando-me dele e deixando o colar cair com um barulho na mesa. — Isso realmente aconteceu? Smith olha para mim com uma sobrancelha levantada. Eu mexo os braços e as pernas, estico minhas costas. Eu estava absolutamente exausta alguns segundos atrás. Mas agora eu não me sinto cansada. O cansaço esmagador que me lembro tão claramente não é nada além de uma lembrança. Porque não era eu fisicamente, exatamente como Smith disse. — Será que deu certo? — eu pergunto. — Será que você realmente vai mudar o que vai aconteceria? Sim — diz Smith com certeza enquanto ele pega o colar e desliza-o para o pequeno saco de veludo. — Você se desgastou; você não será capaz de lutar com visões por uns dois dias. — Eu não tenho feito isso de qualquer maneira — eu digo, muito cansada mentalmente para perceber que eu não deveria admitir isso.


Mentir para alguém que estava dentro da minha cabeça? Eu balanço o pensamento para longe; isso parece errado em muitos níveis. — Isso é provavelmente bom — ele diz. — Se o universo lhe enviar mais visões que têm alguma coisa a ver com os assassinatos, você vai querer vê-las. — Por que você não está cansado? — Eu não fiz nada. Você tem que entender, Charlotte, eu sou como um... um manual de instruções. Eu sei o que fazer, mas eu realmente não tenho qualquer poder. Eu sou inútil sem você. — Então, é isso? — eu pergunto enquanto ele se levanta. — Por enquanto. Você salvou a vida dele, nunca desconsidere isso. Mas o assassino ainda está lá fora. — Você acha que é a mesma pessoa? Suas sobrancelhas franzem. — Eu pensei nisso mais de um milhão de vezes. Métodos diferentes, vítimas diferentes, e nenhuma... “assinatura”, eu acho que você pode chamar assim. — Ele se vira para mim agora. — Mas não parece que deve ser o mesmo cara? Concordo com a cabeça enquanto ele expressa a minha mesma suspeita. A suspeita que todos em Coldwater têm. — Talvez ele seja um marinheiro de primeira viagem e ainda não definiu um método. Talvez Bethany foi mesmo um acidente. Talvez ele não tivesse planos para matá-la ali mesmo. — Ele dá de ombros e passa um sapato por uma mancha no tapete. — Mas se é o mesmo cara, há uma boa chance de que ele vai matar de novo. — Mais depois de Jesse? — eu digo, e meu intestino aperta com uma centena de temores de uma só vez. Outra morte. Outra visão horrível. Outra estranha sessão na minha cabeça como a que acabei de passar. — Se você receber uma previsão dessas, você tem o meu número — diz Smith. Concordo com a cabeça e ele começa a se afastar. Em seguida, ele para, com uma mão na maçaneta da sala de estudos, gira para trás e me pergunta baixinho: — Ele sabe? Eu me assusto. — Quem? — O menino que ajudou você anos atrás? Linden. A história que ele não se lembra. O dia que eu me apaixonei por ele. O dia em que chamei a atenção de Smith. Uma melancolia queimando se enrola em meu estômago e eu sussurro: — Não. — Isso é provavelmente o melhor. Para todos. — E então ele passa através da porta e vai embora, combinando-se perfeitamente com a multidão esparsa de usuários da biblioteca.


Quatorze Traduzido por L. G.

N

o dia seguinte, eu acordo e corro para a televisão, mas não há nada. Dois dias depois, ainda nada. Na manhã da véspera de Natal eu estou começando a me sentir cautelosamente otimista. Eu acho que nós conseguimos. Nós o salvamos. Eu o salvei. Eu não ouço minha mãe de pé e se mexendo ainda, então eu me inclino sobre meus travesseiros, puxo meu edredom e me permito sentir como se tudo estivesse bem por mais alguns minutos. Eu tento me lembrar do sonho que eu tive na noite passada. Sobre Linden. Era um sonho bom, eu não consigo me lembrar muito. Luzes, música, danças. Mas não muito mais. Infelizmente, quanto mais eu tento lembrar, mais rápido se esvai. Quando eu finalmente calço algumas meias grossas e vou até a cozinha, minha mãe me cumprimenta com um abraço e com o cheiro de pão assando. Todo ano nós passamos a véspera do Natal fazendo dúzias e dúzias de pãezinhos de canela. Massa e açúcar de uma extremidade até a outra da cozinha. Depois nós embalamos os pães em bandejas de papel de prata e os entregamos pela região para a mesma lista de vizinhos e amigos que nós temos entregado desde que meu pai morreu. Foi a primeira tradição que escolhemos continuar depois do acidente. Ver a minha mãe coberta de massa até o cotovelo em nosso balcão da cozinha rebaixado traz de volta centenas de lembranças de nós fazendo exatamente a mesma coisa nos anos anteriores. Eu estive tão concentrada com os assassinatos, as visões e Smith que estou pronta para alguma normalidade. — Me dê apenas um segundo — eu digo, e corro de volta para o meu quarto para me vestir. Várias horas depois, nós duas cobertas de farinha, massa, e manchas pegajosas de glacê, meu celular toca. Nós rimos enquanto eu tento lavar minhas mãos rápido o suficiente para atender o telefone e não deixá-lo tão sujo. Eu vejo o nome LINDEN lampejar pela tela e minha alegria derrete, substituída por uma coisa exponencialmente melhor. — Alô? — eu consigo botar para fora. — Charlotte? — Eu quero pular, gritar e cantar, tudo ao mesmo tempo.


— Oi — eu digo, esperando que ele não possa ouvir as batidas do meu coração que enchem meus próprios ouvidos. — Como tem sido suas férias? — Boas — eu digo, deliciando-me com o quão divertido pode ser uma conversa fiada. Mesmo que meus nervos estejam crepitando sobre cada centímetro do meu corpo. — Sem mais problemas de enxaqueca? — Ah, não, sem mais problemas desse tipo. — E até hoje não houve. Duas visões pequenas desde sábado com Smith. Sem problemas de verdade. — Que bom. Fico feliz. Bem, de qualquer maneira, isso é meio que um pedido estranho, mas... você está ocupada hoje à noite? Eu sei que é véspera de natal e eu deveria ter te ligado antes, mas as coisas não estavam certas ainda e... — Eu ouço ele tomar fôlego e eu estou estranhamente aliviada por ele não ser sempre calmo e controlado. — Desculpa pelo pedido tardio, mas você acha que sua mãe pode deixar você sair? Eu olho para a minha mãe e penso sobre como foi difícil fazer ela me deixar ir para a livraria no sábado. À luz do dia. Mas é Linden. Ela vai entender. Não vai? — A que horas? — eu pergunto, enrolando. — Oito? Oito. Talvez possamos entregar os rolos de canela um pouco mais cedo. Quero dizer, é só duas horas e eles estão prontos, exceto por uma fornada que ainda está assando. E nós geralmente estamos em casa por volta das dez, de qualquer jeito. — Deixa eu checar. Eu cubro o bocal do telefone e olho para a minha mãe, com meus olhos arregalados. — Mãe, é Linden! — eu sussurro o nome dele. Só para garantir. Minha mãe levanta as sobrancelhas para mim. — Ah, é mesmo? — ela diz, brincando. — Ele quer saber se eu estou ocupada esta noite às oito. — Eu olho para ela, implorando com os meus olhos. — Nós já vamos ter acabado a essa hora? — O que ele quer fazer? Eu suspiro. — Isso importa? Seu rosto fica um pouco mais sério. — Sim — ela diz. — Eu não quero você fora de casa ou sozinha sem adultos por perto. Não porque eu não confie em você, porque eu confio, mas porque dois adolescentes morreram nas últimas três semanas. Ah, é. Vida real. O casulo de segurança que envolveu minha mãe e eu nas últimas horas instantaneamente se esvai. — Hum, Linden, o que você


quer fazer? Minha mãe está preocupada com minha segurança — eu acrescento, para que ele não ache que eu tenha quaisquer reservas. — Ah, a minha também! — ele atira de volta. — É por isso que eu esperei tanto tempo para ligar. É a festa anual da minha família na véspera de Natal. Eu ia te convidar na última sexta-feira, mas eles ainda estavam discutindo se deviam ou não dar a festa. Enfim, é por isso que eu peguei o seu número. Tudo dentro de mim se aquece. Não é uma coisa de última hora aimerda-preciso-de-uma-acompanhante. Ele estava pensando nisso, em mim, por quase uma semana. Talvez seja um encontro de verdade. Eu não sei com certeza — talvez ele só queria uma amiga — mas mesmo se esse for o caso, ainda assim ele me escolheu. — É meio chique, eu acho — Linden se atrapalha ao falar, provavelmente só preenchendo o silêncio um pouco constrangedor que eu deixei para ele, — é super tradicional e eles ainda querem fazer, mesmo com... — sua voz se corta e eu ergo minha mão até o meu peito, sentindo por ele. — Você sabe. — Ele continua depois de uma longa pausa. — Meus pais decidiram que esse ano, mais do que nunca, eles precisavam animar as pessoas. Mas eles estão sendo cautelosos. Diga a sua mãe que nós contratamos um manobrista para que ninguém tenha que ir até o carro sozinho e que meu pai contratou um segurança para patrulhar a casa. — Uau, eles realmente estão levando isso a sério — eu digo, realmente impressionada. — Vai ser sutil — Linden responde. — Mas eles querem que todos se sintam seguros. Que fiquem seguros. — Ele hesita e depois diz: — Ouça, Charlotte, espero que isso não soe muito estranho e não quero que você entenda errado, mas Bethany e eu éramos... nós éramos bons amigos, e ela era amiga de quase todo mundo que eu saía e nós estamos tendo um momento muito difícil e... — sua voz se corta e eu ouço ele tomar uma respiração profunda. — Eu preciso de alguém que não vá me fazer pensar sobre Bethany a noite inteira. E eu lembrei do que você disse logo depois... logo depois que ela morreu e eu sei que provavelmente não foi isso que você queria dizer, mas, eu só... — sua voz falha e eu tenho que piscar para conter as lágrimas ao ouvir. — Eu preciso de uma noite para não pensar sobre tudo isso. — Claro — eu digo logo que eu tenho certeza de que ele terminou de falar. — Eu disse a verdade quando eu disse que você poderia me ligar para qualquer coisa. — Minha mãe tinha ido até a minha frente e estava fazendo caretas, implorando por dicas, mas eu levantei o dedo de “espere um segundo”. — Vou falar com a minha mãe e te mando uma mensagem em alguns minutos, ok?


— Perfeito. — E então? — minha mãe pergunta assim que aperto ENCERRAR. — Ele precisa de mim — eu digo, a maravilha do fato se espalhando através das minhas veias como calda de chocolate quente. Minha mãe tenta insistir em me deixar na festa, mas quando eu digo tudo sobre a coisa do manobrista e do segurança, ela cede e me deixa pegar o carro. — Com uma condição — ela diz com firmeza, e eu me preparo. Mas ela não consegue segurar uma cara séria por muito tempo, então ela dá um sorriso e diz, — tire algumas fotos com o seu celular. Eu sempre quis ver a casa dos Christiansen e eu ouvi dizer que eles capricham na decoração dessa festa. Sierra sai do seu quarto para me ajudar a ficar pronta também. É quase um choque vê-la. Eu tenho evitado ela desde que eu invadi o seu quarto e especialmente depois de quebrar todas as regras que eu sabia — e várias outras que eu claramente não sabia — com Smith. — Já era em tempo de você ter uma boa noite — ela sussurra no meu ouvido enquanto me abraça. Eu a abraço de volta com força, desejando que eu pudesse contar a ela tudo o que tem acontecido, e prometendo a mim mesma que irei ao menos considerar contar a ela algum dia. Só não hoje. Com toda a confusão que minha mãe e Sierra estão fazendo, você pensaria que eu estivesse indo para o baile de formatura ou algo assim. Esta é a triste prova de quão escassa é a minha vida social, onde um convite para uma festa de natal — na verdade, simplesmente um favor — justificava tanto excitamento. — Se lembrem, não é um encontro de verdade — eu digo a minha mãe quando ela borrifa seu melhor perfume no meu pescoço. — Quem disse? — ela diz com um sorriso. — Linden disse — eu respondo. — Eu disse a ele algumas semanas atrás que ele poderia me ligar para qualquer coisa, e ele ligou. Isso é tudo. Minha mãe pega as minhas duas mãos. — Isso pode ser tudo por enquanto. Mas você mesma disse; ele está falando mais com você esses dias. Talvez ele esteja começando a ver o que eu sempre vi. O quão especial você é. Eu sorrio e pisco para conter as lágrimas por tantas emoções misturadas que eu mal posso começar a separá-las: culpa, orgulho, amor, arrependimento. E eu não posso evitar querer que meu pai estivesse aqui. Enquanto eu entro no carro, uma melancolia me envolve e eu tenho que conscientemente afastar pensamentos sobre o meu pai. Ao invés, eu


penso em Linden. Eu penso nele durante todo o caminho coberto de neve. Quando sua casa fica à vista, eu não posso conter um pequeno ruído de satisfação. Minha mãe estava certa — esse lugar é absolutamente lindo. É uma daquelas casas com portas ridiculamente grandes e um beiral enorme que cobre a gigante pista circular de entrada de automóveis. E cada centímetro do seu paisagismo perfeitamente bem cuidado está coberto de luzes cintilantes que parecem especialmente mágicas na neve. Eu tento me visualizar vindo aqui casualmente para passar um tempo com Linden, mas eu não consigo nem ao menos imaginar. Eu não me encaixo. Mas eu estou eternamente grata que, por uma noite, é aqui que eu pertenço. Linden não estava brincando sobre o manobrista. Há um pouco de espera para subir até as ornamentadas portas da frente que estão escancaradas para permitir a entrada dos convidados, mas, quando eu chego, um cara com um paletó preto abre minha porta, pega minha chave, e me entrega um pequeno bilhete de reivindicação. Chi. Que. Eu ando pelas portas da frente e me pergunto se eles esperam que eu mostre um convite. Certamente alguém está checando para ter certeza de que completos estranhos não estão subindo e invadindo a festa. Mas todos na multidão parecem conhecer uns aos outros — parecem saber quem deveria estar aqui. Enquanto eu tento olhar ao meu redor sem encarar ninguém — ou pior, cobiçar — eu estou cem por cento certa de que eu sou a única convidada com menos de cinquenta anos. E não somente eu não pertenço a ali, como lentamente está começando a ficar evidente que as pessoas ao meu redor estão começando a reparar. Quando eu estou pronta para sair pela porta da frente, Linden aparece para me resgatar. — Muito obrigado por ter vindo — ele diz, pegando minha mão e colocando-a na dobra de seu braço em um movimento suave que parece — e tem a sensação — como se tivesse saído de um filme. Eu estou um pouco instável enquanto olho para ele e sorrio. — Você está muito bonita — ele diz, e apesar de seu sorriso ser um pouco triste, ao menos ele está lá. — Você também. Quero dizer, não b-bonita, obviamente — eu gaguejo, sentindo meu rosto corar. — Bem — eu acrescento. — Você parece bem. — Como se bem fosse um sinônimo para estonteante e extraordinariamente lindo. Ele está usando uma calça cinza-carvão que lhe cai perfeitamente bem em todos os lugares e uma camisa de botões cuidadosamente passada, mas com as mangas arregaçadas e o colarinho desfeito. A coisa toda está coberta por um colete que combina com as calças. É como se um estilista o tivesse vestido.


Eu estou usando um vestido preto com alças largas e um tecido de seda por cima. É um pouco formal — de um casamento de dois anos atrás — mas vem só até o meu joelho, então tem um pouco de casual também. Eu fiquei me decidindo entre esse e algo mais simples por quase meia hora depois que minha mãe e eu acabamos de entregar os pães de canela. Mas eu estou contente de que eu tenha ouvido o conselho da minha mãe de que é melhor arriscar estar um pouco arrumada demais do que de menos. Eu deixei um pequeno sorriso passar pelo meu rosto quando decidi que a roupa de Linden e a minha ficavam bem juntas. Ele me acompanha para uma mesa cheia de taças de champanhe espumantes e sorri antes de me perguntar. — Falso ou verdadeiro? — Falso — eu respondo. — Estou dirigindo. — O que não é exatamente o motivo, mas “eu prometi do fundo do meu coração para a minha mãe que não beberia álcool” não soa tão bem. Ele caminha comigo por meio da multidão de pessoas, me apresentando aqui e ali pela primeira hora. Eu não falo muito e percebo que ele foi muito honesto comigo no telefone essa tarde; eu não estou aqui para ele e eu nos conhecermos melhor, ou até mesmo porque ele esteja interessado em sermos “apenas amigos”. No momento, eu sou a pessoa responsável por preencher o espaço ao seu lado para que ninguém pergunte onde está seu par. Para que ele não precise sofrer por causa de piadas inoportunas sobre arranjar uma namorada. Eu sou a válvula de escape. Mas está tudo bem. Eu lhe ofereci qualquer tipo de ajuda que ele precisasse e eu posso ver o quão mais fácil eu estou tornando as coisas para ele. Além de que, ele continua deixando a minha mão repousada em seu braço e algumas vezes a cobre com a sua, especialmente quando ele está me apresentando para alguém. Isso faz cada centímetro do meu corpo se sentir lindo e aquecido enquanto ele me apresenta para as pessoas. E minha mãe está certa. Isso poderia ser um ponto de partida. Toda relação tem que começar com algum pequeno passo de algum lugar. Talvez esse seja o nosso primeiro passo. Finalmente quando os músculos do meu sorriso estão ficando um pouco cansados, Linden me leva até uma mesa elaborada cheia de aperitivos chiques e me entrega um brilhante prato com bordas de ouro. — Por que não pegamos um pouco de comida e escapamos para a varanda de trás por um momento? Eu olho para a mesa e mal sei por onde começar: pequenas bolachas com um arco-íris de coberturas cremosas colocadas por cima, massas de casquinhas cheias de frutas e chocolates, rolos de carne que parecem


conchinhas, pequenos profiteroles com chocolate granulado e uma seção inteira dedicada a um tabuleiro de xadrez de trufas e queijos. Eu quero experimentar um de cada, mas eu acho que isso daria uns três pratos. Eu escolho cuidadosamente e quando eu tenho um prato cheio em uma mão e um refil de cidra espumante na outra, Linden inclina sua cabeça na direção dos fundos da casa. Eu esperava que estivesse frio fora da casa e julgando pela pequena quantidade de convidados por lá, todos também achavam. Ao invés, eu fui recebida por um calor que irradiava de cima. Eu olho para cima admirada e Linden ri. — Aquecedores infravermelhos — explica ele. — Minha mãe e meu pai instalaram ano passado, mas ninguém vê, então ninguém nunca vem aqui para fora. Melhor para mim. Para nós — ele acrescenta, para o meu deleite, e depois vai em direção até o final da varanda. Eu coloco meu prato na mesa e Linden puxa uma cadeira para mim. De novo, uma coisa que eu somente havia visto em filmes. Eu definitivamente poderia me acostumar com isso, e quando eu olho para o céu nublado e vejo uma estrela se esforçando para aparecer, eu peço um rápido desejo para que eu talvez tenha a chance. — Estou morrendo de fome — Linden diz com um suspiro e percebo que, enquanto meu prato está cheio, o seu está amontoado. A formalidade da festa se derrete e eu sorrio enquanto ele afunda em seu prato. Por alguns minutos, nenhum de nós fala. — Mais uma vez obrigado por ter vindo. E com um convite tão em cima da hora — diz Linden, uma vez que ele diminui o ritmo. — É claro — eu quase engasgo ao responder. Eu tomo um segundo para realmente engolir e depois faço um gesto na direção de sua casa. — É muito bonita. — Minha mãe e meu pai amam o Natal — ele diz suavemente. — Eles sempre dão tudo de si. Eu só... não consegui entrar no espírito esse ano. Eu concordo sombriamente e um movimento chama a minha atenção pelo canto do meu olho. Linden percebe e nós dois assistimos enquanto um segurança uniformizado anda pelo caminho gasto coberto de neve que segue o perímetro da varanda e depois desaparece na esquina. — Mas isso é uma adição nova — diz Linden, e eu ouço aquele tom em sua voz que ouvi no telefone hoje mais cedo. — Eu só não consigo acreditar que ela se foi. Eles se foram. Os dois. E que não tenham encontrado uma única coisa para ajudar a capturar o assassino. Talvez até mesmo assassinos. — Ele ri ironicamente. — Assassinos. — Ele se vira e olha para mim. — É uma sensação surreal, não é mesmo? Falar sobre assassinato em Coldwater? Concordo com a cabeça, mas o deixo falar.


— Todas as manhãs eu acordo e corro para a internet para olhar as notícias. Eu fico esperando alguma coisa acontecer. Ou encontrarem alguma evidência ou... algum outro garoto morrer. — Sua voz é um sussurro e ele finaliza e toma o que restou de sua bebida. — Não era sobre isso que eu pretendia falar — ele diz, e muda o assunto apontando para uma fatia em miniatura de queijo no meu prato. — Você deveria experimentar esse, é o meu favorito. Eu pergunto a ele sobre as outras comidas que eu ainda não provei e ele me diz o que são. Quando ele aponta para a bolacha com cobertura de creme e me desafia a colocar o pedaço inteiro na minha boca eu coloco — e engasgo antes de cuspir tudo para fora. — Patê de ouriço — ele diz depois que se recupera de rir. — Um dos favoritos do meu pai. Para ele, quanto mais gosto de peixe, melhor. Eu odeio isso. Pior do que caviar. Ele serve isso em todas as ocasiões. Eu tiro o gosto da minha boca com uma trufa ou duas... ou três, antes de Linden se levantar e esticar seus longos braços sobre a cabeça e dizer: — De volta ao combate. Ele estende a mão para mim e quando eu deslizo meus dedos dentro dos dele, eles são quentes e suaves. Ele me puxa para cima com muita delicadeza. Estendo a mão para o meu prato, mas ele me garante que eu deveria deixá-lo lá para a equipe de buffet. — Nós vamos pegar outro para carregar por aí se você dividir — ele sussurra em meu ouvido. Seu hálito encontra com a ponta da minha bochecha e se enrola em torno dela como uma carícia. Ele sorri para mim antes de novamente colocar minha mão na dobra do seu braço. Quando ele me leva da varanda mal iluminada para o mundo brilhante de luz de candelabros e cristais que espera por nós dentro de casa, eu me sinto como a Cinderela.


Quinze Traduzido por Vivian Nantes

E

u acordo com os últimos vestígios do meu sonho perfeito ainda voando nas bordas da minha consciência. Está começando a desaparecer, mas eu ainda tento segurá-lo e o aperto como um ursinho de pelúcia. No meu sonho era o dia de Natal, assim como hoje, mas eu estava na casa de Linden. E havia beijos. Um monte de beijos. Que Natal perfeito seria. Eu fecho os olhos e começo a imaginar a cena mais uma vez quando eu ouço uma batida na minha porta. — Sério, Char, você pensaria que eu sou a menininha e você é a mãe. Venha aqui! Minha mãe é como uma criança no interior. Especialmente quando se trata de presentes de Natal. — Estou indo — eu digo, e viro meu edredom de lado, agarrando o meu roupão de banho, meus dedos avançando em direção aos meus chinelos. É quando a escuridão começa a fechar. A pressão que se acumula na minha cabeça é quase instantânea, ameaçando explodir dentro de segundos. Eu alastro de volta para baixo na minha cama e fecho os olhos. Estou aprendendo a reconhecer a força violenta das previsões verdadeiramente horríveis, mesmo enquanto elas se formam, e esta absolutamente é uma delas. Eu tento relaxar e deixar a visão me ultrapassar, apesar de ter certeza do que eu estou prestes a ver vai ser horrível. Eu não estou do lado de fora desta vez; eu não tenho certeza de onde estou. A visão parece estar tendo problemas de estabilização e eu espero a cena ficar totalmente em foco. Quando isso acontece, um grito sobe na minha garganta enquanto eu vejo paredes salpicadas com a profunda cor marrom de sangue fresco e úmido. Mesmo o teto tem listras horríveis o cruzando. Minha respiração está instável enquanto deixo o meu foco cair de volta para o chão. A minha visão começa a vomitar incontrolavelmente quando vejo alguém deitado em vários montes sangrentos no chão de concreto. Eu acho que é uma menina. Mas é difícil dizer. Não sem ver todas as peças. Eu dou dois passos dolorosamente lentos. Meus ombros batem em uma parede e minhas mãos se espalham na superfície atrás de mim para me segurar. Só para encostar em algo úmido e pegajoso. Minha respiração irregular soa como um soluço através da minha garganta e eu empurro minhas mãos e olho para a faixa de sangue em meus


dedos. Eu fecho os olhos. Certamente eu vi o que eu preciso ver. Agora eu quero sair. Sair! — Por favor, deixe-me sair! — eu grito. Dois segundos depois, o meu quarto entra em minha vista. Estou encharcada de suor, apesar de que uma olhada para o meu relógio me diz que nem sequer durou um minuto inteiro. Ouço ruídos externos na minha porta. Ruídos felizes. Por um momento, eu não consigo descobrir como no mundo alguém poderia estar alegre em um mundo onde alguém cometeu a violência que eu acabei de ver. Então eu me lembro. — Isso ainda não aconteceu — eu sussurro. — Smith. — Eu quase caio fora da minha cama, pego o meu celular e começo a percorrer os meus contatos. Espere. Eu não posso telefonar. Alguém — vamos ser honestos — Sierra, pode me ouvir. Eu digito uma mensagem de texto rápida. Mais uma vez. É pior. Eu preciso de sua ajuda. Faço uma pausa, em seguida, acrescento: Mande mensagem, não me ligue. Eu tiro minha camiseta úmida sobre a minha cabeça e coloco outra para que eu possa sair do meu quarto e fingir estar animada sobre a manhã de Natal com a minha família. Quanto mais cedo isso acabar, mais cedo eu posso ligar para Smith e impedir que essa terrível visão se torne realidade. Durante a próxima hora, eu decido que eu tenho uma vocação como atriz. Nem minha mãe nem Sierra parecem suspeitar de nada. Mesmo quando eu retiro meu telefone para encontrar a simples mensagem: Onde? Quando? Diga-me e eu vou estar lá. Eu apenas sorrio e digo que é um amigo do coral me desejando um Feliz Natal. Tão rápido quanto eu posso, eu mando de volta algumas ruas transversais e um horário o qual eu realmente espero que possa me safar. Assim que o último presente está aberto, e assim que eu tenho certeza que eu atuei o suficiente para evitar suspeita, meu telefone vibra de novo, e eu olho para baixo, esperando uma outra mensagem de texto de Smith. Você se divertiu na noite passada? Eu estou totalmente confusa até que eu percebo que é de Linden. Apesar de tudo, uma pequena bolha de felicidade cresce em meu peito. Eu respondo de volta: Muito.


Eu também. Alguma chance de sua mãe deixar você vir aqui mais tarde hoje? Respiro profundamente. Fico feliz que ele mandou uma mensagem em vez de me ligar. Eu soaria como uma idiota agora. — Você está bem? — minha mãe pergunta, e eu aceno tão forte que eu provavelmente pareço como uma idiota total. Mas eu não me importo. — É Linden — eu digo. — Ele quer saber se eu posso ir lá mais tarde. Minha mãe levanta um lado de sua boca em um sorriso de “eu te disse”. — Ele deve ter gostado de sua companhia na noite passada. — Acho que sim — murmuro um pouco apreensiva agora. — Tudo bem? Ela olha para Sierra procurando um conselho. Sierra vira para mim e eu tento parecer tão inocente quanto possível. Infelizmente só me ocorreu agora que se elas disserem sim, eu poderia usar isso como uma oportunidade para me encontrar com Smith. Eu forço meu rosto para ficar neutro enquanto Sierra continua a me estudar. — Os pais de Linden parecem muito protetores, a julgar pela festa da noite passada — diz Sierra, as palavras soam como se alguém estivesse arrastando-as para fora dela. Mas eu poderia beijá-la de qualquer maneira. — Eu quero você de volta antes de escurecer, por garantia — diz minha mãe, e meu coração pula enquanto eu percebo que ela acabou de dizer que sim. — Claro — eu digo calmamente, meus polegares coçam para responder Linden. E, em seguida, responder Smith. Linden e eu temos uma breve conversa por mensagem e concordamos ao meio-dia. Mas eu digo a minha mãe que combinamos às onze. Uma hora deve ser tempo o suficiente para Smith. Eu acho. Estou longe de ser uma especialista aqui. — Mãe, tem mais rocambole de canela? — eu pergunto. — Nós sempre não temos um monte de sobras? — ela responde. — Por quê? Eu dou de ombros e sorrio. — Eu pensei em talvez levar alguns para Linden. — Oh — diz minha mãe. — Isso seria muito... atencioso. — Ela levanta do chão e senta em sua cadeira de rodas para ir para a cozinha e preparar uma dúzia deles ela mesma. — Você acha que ele vai querer com cobertura extra? — minha mãe gritou da cozinha. — Ele é um cara, não é? Eu tomo um banho longo e olho para o meu armário por uns bons cinco minutos, tentando decidir o que vestir. Chique? Super casual? O que este convite quer dizer, realmente?


Eu não faço ideia. Depois de peneirar todo o meu guarda-roupa duas vezes, eu decido usar meus jeans favoritos e uma blusa bonita que eu não tenho usado para a escola por um tempo. Quando eu verifico o espelho, eu decido que estou com uma boa aparência, mas a verdade é que eu estou tendo problemas para reunir entusiasmo. Vou me sentir melhor depois de ver Smith e ter mudado as coisas. Eu vou ficar animada novamente. Em um paralelo estranho da noite passada, tanto a minha mãe como minha tia me levam para fora, me advertindo de forma muito rigorosa para só ir para a casa de Linden e dirigir até a porta, e pelo amor de Deus olhar bem ao redor do carro antes de sair e trancar as portas, e cerca de um milhão de outras precauções que eu tenho cumprido desde que eu tinha, tipo, quatro anos. Eu fico um pouco irritada enquanto eu continuo cantarolando: — Eu sei, eu sei, eu sei — mas eu pego um vislumbre da preocupação que minha mãe está tentando esconder, e eu fico sóbria quando percebo que algumas das alegrias desta manhã eram falsas para ela também. Uma vez que eu estou no carro, eu tenho que dirigir para o sul, embora o local em que pedi para Smith me encontrar é ao norte, porque eu sei que tanto a minha mãe quanto Sierra vão ficar na varanda me olhando até que o carro está fora de vista. Três quarteirões depois, eu faço duas voltas rápidas à direita e vou em direção ao lugar onde eu deveria pegar Smith. É engraçado como ele parece exatamente o mesmo que as duas últimas vezes. As mesmas calças jeans escuras, o mesmo casaco, embora ele esteja vestindo um chapéu de esqui preto hoje. Eu sinto uma pontada de culpa enquanto eu encosto e abro a porta para ele. Está claro e fresco hoje, o que é uma boa maneira de dizer que está congelando. Smith não perde tempo. — Diga-me o que você viu — ele diz, puxando as mãos dos bolsos e soprando sobre elas para gerar calor. — Foi... foi horrível. Havia pedaços, Smith. Foi a coisa mais assustadora que eu já vi na minha vida. — E eu não estou envergonhada das falhas na minha voz. — Entre na próxima à direita — ele diz, apontando. Ele me leva até a estrada que eu não estou familiarizada até um pequeno parque que é pouco mais do que um parque de estacionamento de três carros e uma clareira pequenininha. — Você pode fazer isso no carro? — Hum, eu não deveria ser capaz disso? — eu pergunto, completamente perdida. — Acho que sim. Eu acho que eu estou perguntando se você está quente o suficiente e se você pode relaxar aqui. Você precisa estar à vontade. — Ficarei tão à vontade quanto eu vou estar com essa imagem na minha cabeça.


— Isso é o melhor que vai conseguir, eu acho. Aqui. — Ele puxa o colar do bolso e ele cai em meus dedos. Eu sinto o seu calor natural e uma pequena parte de mim suspira de alívio. Eu percebo que eu senti falta disso. Eu não tenho tempo para analisar isso. — Assim como da última vez? — eu pergunto, a pedra situada em minhas mãos. — Exceto que deve ser mais fácil. Você vai se surpreender com a rapidez com que você vai melhorar nisso. — Espero que sim — eu digo, em dúvida. Mas lembro-me dos dois passos minúsculos que eu fui capaz de dar durante a visão esta manhã. Usei toda a força que eu tinha, mas eu fiz isso. Mesmo sem a pedra. Concentro-me na pedra com os olhos bem abertos e lembro-me da sensação de entrar na minha segunda visão da última vez. Quando eu me encontro de pé na sala sangrenta novamente apenas alguns segundos mais tarde, eu estou chocada com o quão fácil foi. Essa parte, de qualquer maneira. — Você está pronta para mim? — a voz de Smith pergunta. — Eu estou pronta — eu digo em voz alta, rapidamente colocando a pedra do foco em volta do meu pescoço. — Deixe-o entrar. — Eu não tenho que gritar neste momento. Eu simplesmente murmuro as palavras e, em seguida, Smith está ao meu lado. Eu começo a comentar sobre como foi fácil desta vez, mas Smith não está olhando para mim. Ele está olhando para a carnificina. Ele dá um passo mais perto de um dos montes de carne cortada que parece que pode ser a cabeça, e se abaixa. — Você sabe quem é? — ele pergunta. Eu balanço minha cabeça. — Eu acho que é uma menina. A... — eu paro por um segundo, em seguida continuo falando. — A blusa é roxa. — Embora, eu percebo, Linden estava vestindo uma camisa roxa na noite passada. Não é no mesmo tom de roxo, eu digo a mim mesma, tentando acalmar minha respiração rouca. E ele é muito grande. Muito alto. Esta é uma pessoa pequena. — O que eu faço? — eu digo em voz alta quando eu encontro a minha voz. Smith se inclina sobre os calcanhares e empurra o casaco de volta para deslizar as mãos nos bolsos. Sua testa está cheia de rugas. — Uma terceira morte. Eu acho que, tecnicamente, poderia ter sido a quarta se não tivéssemos desviado Jesse. Este tem de ser o mesmo cara. — Ele olha para a bagunça ensanguentada e balança a cabeça. — Vamos evitar este novamente — ele diz depois de uma longa pausa. — Mas não podemos continuar fazendo isso para sempre. — Você quer desistir? — eu digo, mas Smith me corta.


— Você está me entendendo mal. Nós não podemos simplesmente continuar evitando o assassino. Da próxima vez, nós vamos ter que tomar medidas para pegá-lo. — Oh — eu digo, sentindo-me muda. Ele me mostrou como salvar a vida de Jesse e ele está prestes a me ajudar a salvar esta menina também. É claro que ele não vai apenas desistir. — Então, o que vamos fazer agora? — Primeiro vamos descobrir onde estamos. — Smith começa a andar ao redor da cena com uma facilidade que eu invejo. Parece que eu estou carregando pesos de dez libras em torno de meus tornozelos. Eu toco a pedra e me lembro de que sua liberdade é só porque ele é impotente aqui. Eu tenho que canalizar toda a minha energia e concentração, porque o que eu faço muda as coisas. Eu entro na sala, observando o chão de cimento e as paredes feitas de gesso. O telhado vai para ambos os lados e é feito de algum tipo de metal. — É um galpão ou uma oficina, eu acho. Eu lentamente começo a caminhar em direção a um conjunto de portas de um lado, e Smith acena com a cabeça em aprovação. — Você está ficando cada vez melhor — ele diz, enquanto eu chego nas portas de metal deslizantes. Mas mesmo que eu possa sentir as portas sob minhas mãos, eu não posso abri-las. — Nós não estamos fisicamente aqui, Charlotte — diz Smith, assustando-me para longe da minha tarefa. — Lembre-se. Nós somos um impulso, uma compulsão, nada mais. — Eu vou ter que voltar atrás, a fim de ver alguma outra coisa, então — eu digo. Mentalmente, eu digo a cena para retroceder. Embora ela comece lentamente, logo ela pega velocidade, indo mais rápido do que eu jamais consegui com Jesse. Eu assisto, meu estômago se apertando, enquanto a mesma figura mascarada vestida de preto entra em cena e extermina a garota em sentido inverso com uma espada de sessenta centímetros de comprimento. Eu nunca vou ser capaz de dormir de novo.


Dezesseis Traduzido por L. G.

E

u cerro os dentes, grata que, pelo menos no sentido inverso, o corpo da menina está se reintegrando. Só quando chegamos ao golpe inicial do facão que eu sou capaz de descobrir quem é, porque a primeira coisa que o monstro faz é atravessar seu rosto com a lâmina. Minha garganta convulsiona, mas eu encaro sem piscar enquanto a garota é curada. — Nicole — eu sussurro. — Nicole Simmons. — Ela é parte da liderança do conselho estudantil e lê os anúncios no canal de TV da escola todos os dias. Eu a via todas as manhãs do meu primeiro ano. Todos os alunos da escola iriam reconhecê-la. Pergunto-me brevemente se o assassino sabe disso. Se ele cortou o rosto primeiro porque era tão identificável. Ou foi apenas casualidade? Mas minha relação pessoal com ela vai bem além disso. Nicole costumava viver duas casas abaixo da minha. Nossas mães eram amigas. Nós brincávamos juntas o tempo todo. O negócio de ser Oráculo nem foi a razão pela qual nós paramos de ser amigas. Nossos pais costumavam fazer coisas como casais e então de repente um deles tinha morrido e o outro estava em uma cadeira de rodas. Coisas como essas são demais para uma amizade casual. E quando os pais seguem em frente, geralmente as crianças também seguem. Mesmo assim, agora que eu sei quem ela é, isso parece muito mais pessoal. Mais importante. Talvez ela não seja tão minha amiga atualmente, mas ela era. Ainda, em reverso, o assassino arrasta Nicole do galpão pelo seu cabelo e finalmente as portas se abrem e Smith e eu podemos sair da oficina transformada em matadouro: ele, rapidamente; eu, com meus passos lentos e cansativos. — De jeito nenhum — eu respiro enquanto o assassino leva Nicole direto à sua porta. Poucos segundos depois, ela está a salvo em sua própria casa e o assassino está tocando a campainha. Eu paro a cena e, depois de algumas respirações ofegantes, viro para Smith. — Ele vai levá-la de sua própria casa! — eu digo em choque. — Esse tempo todo nós todos pensávamos que se estivéssemos em casa estaríamos seguros. Isso vai começar um pânico. Pessoas vão ficar com medo não importa onde estiverem. Elas vão...


— A menos que você o impeça — Smith interrompe, me trazendo de volta ao momento. — Volte um pouco mais. Eu aposto que os pais dela não estão em casa. Eu engulo e confirmo com a cabeça, e concentro toda a minha energia em empurrar a cena ainda mais para trás. De fato, em um tempo surpreendente curto, nós vemos dois adultos deixarem a casa em um sedan preto. — Ok, pare agora — Smith diz. Eu paro e nós estamos de pé em frente a uma porta de garagem metade levantada, vendo os pais de Nicole partirem. — Tem um outro carro lá dentro? — Smith pergunta. Eu me abaixo e olho por baixo da porta da garagem. — Sim, tem mais um. Smith assopra em suas mãos e depois as esfrega forte uma na outra. — Eu acho que a coisa mais simples é fazê-la ir até a casa de um amigo assim que seus pais saírem. — Não seria mais fácil fazer ela sair com seus pais? — Possivelmente, mas não sabemos aonde eles estão indo. Talvez seja para algum lugar que ela não possa ir. Em um encontro? Para um bar? Você só tem uma chance nisso e você quer escolher o caminho que seja mais fácil de obter sucesso. — Ele faz uma careta. — “Menos provável de falhar” é mais preciso. Ele tem um ponto. — Ok. Ela está no conselho estudantil. Ela provavelmente é amiga de outra garota de lá. Sara Finnegan. — Isso deve funcionar. — Ele está com seus braços cruzados em cima do peito, observando a cena. — Como você não pode afetar nada fisicamente, você vai precisar entrar por baixo da porta da garagem, reverter a cena novamente, e deslizar pela porta para dentro da casa enquanto os pais estiverem saindo. — Você não vem comigo? — Eu vou ficar aqui de olho nele — diz Smith, apontando para um SUV cinza indefinível estacionado cerca de metade de uma quadra ao lado de um banco de neve. O medo aperta meu estômago. — É ele o assassino? — É ele. Se ele chegar aqui antes de você terminar o seu trabalho, eu grito para você. — Você pode fazer isso? — Gritar? — Smith pergunta, parecendo confuso. — Não, ficar aqui. Quero dizer, você está na minha segunda visão, não deveria ter que ficar comigo?


Sua testa enruga. — Eu não tenho certeza. Mas se eu ficar aqui, se você me deixar aqui, parece que eu posso. — E se eu precisar de sua ajuda? Smith sacode a cabeça. — Já faz mais de duas semanas, Charlotte. Supondo que tudo isso tenha sido o mesmo cara — e eu realmente acho que sim — então ele está mais do que pronto para matar novamente. Nós sabemos que ele teria matado Jesse. Ele provavelmente está planejando esse crime agora mesmo. Ele vai ficar frustrado. E as pessoas que estão frustradas são imprevisíveis. E se ele de repente muda de ideia? Ou vier mais cedo? Então sua visão não é mais precisa. Eu acho que um de nós precisa vigiar o seu carro. E como eu não posso realmente fazer alguma coisa... — ele deixou suas palavras morrerem. Eu olho pela estrada abaixo onde eu mal posso distinguir uma forma escura através do para-brisa. O assassino, a poucos metros de distância. Só que ele não é real, ele está somente na minha cabeça. Mas este é o seu futuro. Smith está certo; alguém precisa ficar de olho nele. — Você tem a pedra — ele me lembra suavemente. — Eu vou fazer isso acontecer — eu me comprometo e me enfio sob a porta da garagem. É estranho andar perto do carro congelado, sentindo-me como se assim que eu recomeçasse a cena, eles pudessem me ver. — Eu não estou realmente aqui — eu sussurro. — Não estou aqui. Eu me posiciono do lado da porta de trás e me concentro em movimentar a cena para trás novamente. O senhor e a senhora Simmons quase me atropelam quando eles andam de ré para dentro da casa e enquanto a porta se fecha — abre, tecnicamente — eu escorrego para dentro. Eu paro a cena, e antes que eu deixe recomeçar novamente, eu tomo várias respirações fortificantes. Smith acredita que eu posso fazer isso sozinha e ele parece estar certo; eu só vou ter que me alimentar de sua confiança. Quando estou o mais preparada que consigo, eu vou em frente e começo a cena novamente. Assim que a porta da garagem se fecha, Nicole espreita através de uma porta rachada e depois corre para a janela da frente para vêlos ir embora. Eu fico bem do seu lado e grito em seu ouvido: — Vá para a casa de Sara Finnegan! — Há uma quantidade insana de pensamentos e vontades por trás dos meus gritos, mas eu já estou tão desgastada que é fácil de vocalizar bem. Eu não sei em que tipo de encrenca Nicole pretendia se meter, mas quando eu grito a ela, ela se endireita e faz uma cara estranha. — Vá para a casa de Sara agora! — eu grito a palavra agora o mais alto que posso. Então eu começo a empurrar com o mesmo fluxo de energia que usei com Jesse. E Nicole se mexe. Devagar. Quase como se ela estivesse lutando


comigo, mas ela está indo. Eu foco na pedra — em toda a minha energia passando por ela e ficando maior, mais forte, e juntas, nós andamos. Nós estamos na metade da cozinha quando ela de repente se vira e eu quase choro de decepção, sabendo que eu terei que pegá-la e coloca-la de volta no caminho. — Não! Casa de Sara! — eu grito atrás dela, os meus passos lentos não tão rápidos quanto a sua quase corrida pelo corredor. Mas alguns segundos depois, ela aparece com um conjunto de chaves tilintantes em suas mãos e o alívio passa por mim. Está tudo bem; está dando certo. Eu começo a empurrar novamente. Eu dou um impulso, eu empurro e pela segunda vez hoje eu começo a suar e sinto minhas roupas umedecerem, mas eu não desisto. Estou tão perto. Nicole faz uma pausa por um segundo na porta da garagem, olha para a Suzuki branca e pequena, e depois olha para baixo dubiamente para as chaves em suas mãos. Ela vai mudar de ideia. Ela não tem motivo algum para ir para a casa de Sara. Mas eu a imagino com o corpo mutilado em minha mente, especialmente aquele primeiro golpe que destrói seu rosto, e coloco cada grama da minha vontade no meu comando enquanto eu grito o nome de Sara mais uma vez e empurro com toda a minha força. Dez segundos depois, Nicole está em seu carro e a porta da garagem está se levantando. Estou de joelhos, muito cansada até mesmo para ficar de pé. Eu sei que não estamos fora de perigo ainda, mas não tem nada mais que eu possa fazer a não ser continuar gritando para ela ir para a casa de Sara. Somente quando seu carro começa a se mexer que eu percebo que eu tenho que sair da garagem ou eu vou ficar presa do outro lado da porta de Smith. Eu não quero deixar minha visão sem saber o que ele viu. Eu rastejo pelo cimento. Uma mão, um joelho, a outra, o outro. Devagar eu saio da garagem enquanto Nicole vai embora. A porta se fecha a centímetros de me atingir, e seu pequeno carro vai pela estrada de neve na direção do centro da cidade. Eu me ajoelho na neve na frente da casa e deixo a cena continuar a rodar. Por um segundo, eu não vejo Smith em nenhum lugar. Depois eu avisto ele correndo pela estrada, logo a frente do SUV cinza. — Charlotte — diz Smith, ofegante, quando ele me alcança. — Ele acabou de ver Nicole sair. Ele está furioso. O SUV para bem na borda do quintal, abrindo caminho através do banco da neve. Um homem mascarado salta para fora e eu ouço um grito sobrenatural emanar de sua boca que faz com que cada gota de sangue em minhas veias vire gelo afiado. O grito de um monstro.


Eu me ergo de um salto quando ele se aproxima. Alguma coisa assobia na minha cabeça, eu ouço um baque forte e viro minha cabeça bruscamente para a oficina. O facão. Ele está jogado para dentro do abrigo em que escavou apenas o suficiente para se prender e oscila loucamente para frente e para trás. Ele volta para o seu carro e, depois de algumas tentativas, retira a pilha de neve, dirigindo lentamente pela estrada na direção oposta à Nicole. — Ele estava esperando — eu sussurro, meus olhos ainda colados no facão. — Ele tinha tudo isso planejado. — Parece que sim — Smith diz firmemente. — Ela está segura agora. Vamos sair dessa cena. Leva menos que um pensamento para nos tirar da minha segunda visão. Então nós estamos de volta no Corolla da minha mãe, o calor soprando forte em nós dois e o toque dos dedos de Smith bem leves em minhas têmporas antes que ele deixe suas mãos caírem e se incline forte contra seu acento. — Consertar isso — capturar esse cara — vai dar trabalho, Charlotte. — Obrigada, senhor Estraga-Prazeres. Não podemos ter dois segundos para celebrar a vitória que a gente teve? — eu pergunto com meus dentes batendo apesar do calor sufocante do carro. — Um, dois — Smith conta mecanicamente. — Eu fui até o carro desse cara e ele já estava mascarado com o facão no assento ao seu lado. — Ele se vira para mim. — Ele estava pronto. Nós não sabemos o quanto ele planejou antes, mas ele está definitivamente planejando agora. E ele parecia estar com fome de matar. — Então, o que devemos fazer? — Como eu disse antes, nós temos que pegá-lo. Deixar o facão para trás, sem mencionar as marcas de pneus foi, no mínimo, um ato idiota. Da próxima vez... — ele pausa, depois segura as suas duas mãos em um movimento calmante. — Só pense sobre isso um momento, ok? Na próxima vez eu acho que podemos deixar a vítima ser atacada, mas não morta. Eu sei que isso soa difícil — ele se apressa quando eu engasgo, — mas isso não vai só aliviar um pouco da pressão que está crescendo dentro do assassino, mas também quem quer que seja vai poder chegar perto de ver alguma coisa. Pegar uma marca da digital cheia de DNA, você sabe, esse tipo de coisa. — Ele pausa. — Talvez os policiais pudessem até pegá-lo no ato se nós prolongarmos o suficiente. Eu acho que vale a tentativa. Eu odeio que isso faça sentido. — Eu vou pensar sobre isso — eu finalmente digo. O carro é silencioso enquanto eu dirijo por quase um quilômetro de volta para onde eu peguei Smith. Ele começa a pegar a maçaneta da sua


porta, e depois para e se volta para mim. — Você foi bem lá dentro. E se nós tivéssemos um ano para fazer isso, eu acho que você se daria muito bem sozinha. Mas nós não temos, então eu acho que você tem que ficar com isso. Ele estende o saco velho de veludo e, apesar de tudo, eu respiro excitada quando toca a minha mão. — Use o pingente quando você dormir — Smith diz. — Tem todo um plano de existência que contém todas as possíveis visões para os possíveis futuros. Eu não sei se é na sua cabeça ou em qualquer outro lugar, mas Shelby costumava falar sobre ir até lá em seus sonhos quando ela usava o colar. Ela sempre descrevia como uma cúpula interminável cheia de visões do futuro. A sala da cúpula. Do livro. O plano sobrenatural. Puta merda! É real. Meu sangue corre com excitamento, mas eu tento parecer calma. — Ela disse que poderia praticar alterar a realidade e tudo o mais durante a noite e nunca ficar cansada de manhã. Não era um lugar que eu podia ir, então eu não posso te ajudar com isso, mas tente e se você for dedicada, eu sei que você vai ficar mais forte. — Ele cerra a mandíbula. — E você vai ter que ficar mais forte para conseguir pegar esse cara. — É só usar isso e ir dormir? Parece fácil demais. — Pense em ir para lá antes de você ir dormir. Vai parecer como um sonho, mas um em que você esteja completamente no controle e consegue se mexer à vontade. — Eu não vou... mudar as coisas? — eu pergunto, nervosa por fazer alguma coisa e deixar pior do que já está. Sem mencionar ser pega por Sierra. Isso vai tão além de quebrar as regras que eu não tenho ideia do que ela faria. — Não quando você estiver dormindo — Smith diz, puxando minha atenção de volta. — Você não vai estar entrando em uma visão específica, vai ser como um plano sobrenatural em geral. Shelby disse que era como ver todos os futuros possíveis de uma só vez. E porque ela sabia que não podia realmente mudar o futuro no seu sonho, era lá que ela poderia praticar. Eu mal posso sequer compreender tal lugar, no entanto, Shelby provavelmente não conseguia antes de ir. — Ok — eu digo, deslizando o saco do colar para o meu bolso mais fundo. — E obrigada. — O que quer que você faça, não deixe a sua tia ver. Promete? — Smith pergunta. Eu rio amargamente. — Acredite em mim, Smith, essa é a única coisa que você não tem com que se preocupar. — Ok. — Ele abre a porta e sai, enfiando o seu cachecol de volta para a frente do seu casaco. Ele começa a fechar a porta, mas depois para e se inclina para que eu possa ver seu rosto novamente. — E seja cuidadosa,


como os outros adolescentes precisam ser. Eu sei que vocês Oráculos supostamente sabem antes quando vão morrer e tudo mais, mas se alguma coisa acontecer com você... — Ele fecha os olhos e treme. — Ninguém aqui sabe disso exceto eu — ele diz sóbrio, — mas nós estamos todos dependendo de você. Você é a única pessoa que está entre o monstro e os seus amigos. E se você morrer... Sua voz falha, mas ao invés de terminar sua sentença depois de alguns segundos, ele se ergue e fecha a porta. — Mensagem recebida — eu sussurro para as suas costas enquanto ele vai embora.


Dezessete Traduzido por Vivian Nantes

E

u não estou me sentindo especialmente alegre enquanto eu ando até a porta de Linden — obrigada Smith — mas, pelo menos, Nicole está segura. Ela vai viver. A exibição doentia da carnificina na oficina nunca vai acontecer. E seus pais nunca vão ter que encontrá-la. Eu tenho um último arrepio ao pensar nisso e toco a campainha. A porta se abre dois segundos depois. — Eu vi você vindo — Linden diz com um sorriso, — mas eu não fui rápido o suficiente. Estou encarando-o; eu tenho certeza disso. Seu sorriso praticamente irradia luz solar enquanto ele fica no hall de entrada, suas calças jeans frouxas equilibradas em seus quadris e uma camisa preta de mangas compridas abraçando suas costelas perfeitas. Por anos, eu vi com inveja ele flertando com outras meninas, mas isso, isso é algo completamente diferente. Linden em casa. Casual e à vontade. — Você quer entrar? — ele pergunta, segurando a porta aberta. — S-sim — eu gaguejo, mas ele nem sequer abre um sorriso. — Eu trouxe isto para você — eu digo, entregando a bandeja de pães de canela quando a porta fecha o frio fora da casa. Os olhos de Linden ampliam. — Cara, são pães de canela? — Minha mãe e eu os fazemos todo ano. — Espere, espere, você fez isso? Tipo, a partir de farinha, açúcar e outras coisas? Eu o olho estranhamente, e ele começa a rir. — Desculpe, isso soou estranho. — Ele se inclina para mais perto e sussurra: — Minha mãe não faz nada além de rabanada. E eu quero dizer, ela usa pão comprado em loja, o mergulha em ovos batidos e ela coloca um pouco de canela. Isso faz ela se sentir doméstica. Eu sorrio de volta e sigo Linden para a cozinha, um dos cômodos que eu não consegui ver ontem à noite. Eu acho que eu não estou realmente surpresa que tudo está completamente limpo menos de vinte e quatro horas depois, mas eu me pergunto quantas pessoas foram necessárias para isso. Linden coloca a bandeja sobre o balcão e olha para ela por alguns segundos antes de olhar para mim com uma expressão de culpa. — É muito “seis anos de idade” se eu perguntar se eu posso comer um desses agora? Eles parecem deliciosos. — Não, por favor, coma! — eu digo, sorrindo de orelha a orelha. — Embora você tenha que comê-los do jeito certo.


Ele me olha com ar de dúvida. — Há um jeito certo para comer um rolo de canela? — Sim! Rolo quente, cobertura fria, comer com os dedos — eu digo, com uma risada. No final, eu deixo que ele use um garfo, mesmo que eu o informe que está perdendo a melhor parte da experiência. Ele dá uma grande mordida e, em seguida, fecha os olhos e geme. — Oh, cara, isso é tão bom. Eu não estou dizendo isso só porque você está aqui. Eles são surpreendentes. — Seus olhos se abrem e ele engole. — Eu sou um idiota, deixe-me dar um para você. — E ele está se voltando para pegar um prato antes que eu possa pará-lo. — Não, não, não — eu digo, colocando a mão em seu caminho enquanto ele tenta me entregar um rolo de canela. Meu estômago ainda está apertando da experiência horrível que eu tive apenas alguns momentos antes. A este ritmo, eu não vou ser capaz de comer pelo resto do dia. — Eu juro que eu comi uma dúzia nos últimos dois dias. Eu honestamente não quero um. — Isso soa convincente, certo? — Fique à vontade — diz ele, dando outra mordida. — Mas eu vou ser rude e continuar comendo isso na sua frente, porque literalmente eu não consigo parar. Eu rio enquanto ele continua a comer e nós conversamos um pouco sobre os nossos presentes de Natal. Eu sinto a tensão da última hora ir embora. Ele dá de ombros para a sua nova moto de neve quando meu queixo cai com o pensamento de dar algo tão caro, e ele sorri no momento certo, quando eu lhe conto sobre a túnica que minha mãe fez para mim. Eu não sei como Linden consegue ser ainda mais perfeito na vida real do que em minha cabeça. Mas, de alguma forma, ele consegue. Quando ele larga o garfo sobre o prato vazio, eu já consegui limpar meu peito do medo e tensão da minha sessão com Smith. — Mais uma vez obrigado por ter vindo ontem à noite — diz Linden, e sua voz está calma agora. — Eu realmente me diverti muito. Mais do que eu pensei que o faria. Não que eu não achava que eu me divertiria com você — ele corrige, parecendo quase nervoso. — Mas eu... eu me diverti. Ele coloca o prato fora do caminho e se inclina em frente ao bar com os cotovelos no balcão. Seu nariz está, literalmente, a menos de quinze centímetros de distância do meu, e parece que tem minhocas querendo sair do meu estômago. — Eu também — eu respondo, muito fraca para me inclinar para mais perto. E se este tipo de proximidade é normal para ele? E se isso não significar nada? — E eu estou feliz que você veio hoje — ele diz. Desta vez eu tenho certeza que não é a minha imaginação e que ele se inclina para a frente mais alguns centímetros. — Porque eu te trouxe rolos de canela? — pergunto provocando. Acabei de flertar com ele? Uhul!


— Um bônus — ele diz, e desta vez eu posso sentir sua respiração no meu rosto. Concordo com a cabeça. Não existem palavras dentro de mim. Minhas mãos se sentem inúteis pousadas no balcão até que seus dedos deslizam para cobri-los. — Quando a gente voltar para a escola, eu espero que nós possamos sair mais. — Eu vou pensar sobre isso — eu digo, mas é como se cada nervo do meu corpo estivesse ligado às minhas mãos. Espero que elas não comecem a suar. — Eu acho estúpido que as pessoas evitem você porque você tem problemas de saúde. Não é como se a culpa fosse sua. Olá, realidade. Meu estômago torce e eu gostaria que ele tivesse dito qualquer outra coisa que não fosse isso. — Ei, ei, não fique assim — diz Linden, e ele levanta meu rosto com dois dedos abaixo do queixo. — Não temos que falar sobre isso. Sinto muito. Ele sente muito? Porque eu sou uma mentirosa? Eu me forço a sorrir. — Está tudo bem. Eu estou acostumada com isso. — Faço uma pausa por alguns segundos e, em seguida, sentindo-me encorajada pelo toque de sua mão na minha, eu pergunto: — Você já se sentiu fora do controle da sua vida? — Ele ri, e eu protesto. — Estou falando sério! — Eu também — diz Linden, ainda sorrindo. — Mas não é isso que é ser um adolescente? Eu juro que meus pais monitoram cada passo que dou. — Sério? — eu pergunto um pouco surpresa. Isso não é um problema que eu tenho. Eu nunca considerei a minha mãe sendo excessivamente confiante, mas talvez ela seja. — Claro. E eles querem planejar minha vida. Eu não estou nem no último ano ainda e meu pai já tem uma faculdade escolhida para mim. E a pós-graduação. Quer que eu seja um advogado como ele. — É isso o que você quer? Ele bufa. — Trabalhar nas horas dele? Defender a escória que ele defende? De jeito nenhum. — O riso desapareceu de sua voz e posso dizer que isso é algo que ele realmente sente. — Eu não sei o que eu quero, mas não é a vida dele. — Eu também — eu digo, pensando em Sierra. Os planos que ela tem para mim com um grupo secreto que ela não me diz muito sobre. O futuro que eu não tenho certeza se quero. — Sua mãe? Sério? — Minha tia. Ela mora com a gente. — Devemos fazer um pacto — diz Linden, e seu sorriso está de volta. — Que nós dois vamos fazer o que queremos após o colegial. E que vamos nos ajudar. — Seu tom é leve, mas ele soa principalmente sério, como se ele realmente estivesse à procura de uma cúmplice. Ele não sabe o quão sério esse tipo de promessa é para mim. Ou quão atraente.


Meu coração dispara quando eu puxo minha mão. — Feito — eu digo, esperando soar sedutora, não nervosa. Ele desliza a mão na minha e a agarra com força. — Isso é uma promessa — diz ele em voz baixa. — Promessa — eu repito, e algo em dizer isso em voz alta me faz sentir como se eu pudesse tomar o controle do meu futuro. Agarrá-lo com as duas mãos e fazer do meu jeito. — Devemos selá-lo, de alguma forma — diz Linden, estudando meu rosto. Eu levanto uma sobrancelha. — Você não vai me fazer cuspir na minha mão, não é? Ou picar meu dedo com uma agulha? — Isso não era realmente o que eu tinha em mente — ele diz, e enquanto ele se inclina para a frente, ele puxa nossas mãos juntas, me trazendo para mais perto dele. — Só para torná-lo oficial — ele sussurra. Em seguida, seus lábios encontram os meus suavemente. Não por muito tempo. Ou apaixonadamente. É apenas a simples sugestão de lábios contra lábios. E é perfeito. Sua boca é quente e ele tem gosto de açúcar e canela e outra coisa inteiramente sua. Eu sei que não é o primeiro beijo de Linden, mas é o meu. E é tudo — tudo — o que sonhei que poderia ser.


Dezoito Traduzido por Vivian Nantes

Q

uando eu chego em casa da casa de Linden — infelizmente não houve mais beijos, nem mesmo quando ele se despediu, eu vou direto para o meu quarto e começo a estudar as fotos de Reparando o Futuro Fraturado desde o início. Enquanto o céu fora da minha janela escurece, eu estou começando a entender pelo menos uma pequena parte do que o livro está dizendo. Aparentemente, o plano sobrenatural é um lugar que existe fisicamente, mas em uma dimensão ligeiramente alterada da realidade. Mas você não desaparece deste mundo para ir para lá. Você projeta uma versão física de si mesmo com a sua mente. Eu acho que é como o que eu tenho feito na minha segunda visão quando eu revisitei minhas visões. Eu acho. Ou isso é o que o autor do livro acha. Tudo soa um pouco ficção científica para mim. Mas o que parece claro é que é um lugar diferente da minha segunda visão, onde eu vejo as minhas visões. Minha segunda visão definitivamente existe dentro da minha cabeça. De acordo com isso, para chegar ao plano sobrenatural você “pula” para a dimensão alternativa com o seu eu físico projetado. Seja lá que diabos isso signifique. É difícil obter informações muito mais decentes do texto. Talvez porque eu não estive lá. Eu não o vi. Ainda. Naquela noite, quando eu vou para a cama, eu tranco a porta do quarto. Está se tornando um hábito e não um que eu gosto. Mas a minha vida é cheia de segredos agora. Bem, sempre foi cheia de segredos, mas agora eu estou escondendo-os até mesmo de Sierra. Eu deito na cama com meus dedos cruzadas sobre o colar, à espera do sono me levar. E espero. E espero. O sono nunca vem fácil quando você realmente quer. Mas em algum lugar no meio do meu virar e virar, os cobertores começam a me envolver de uma forma distintamente não realista. Eu não estou completamente consciente, mas a sensação é de estar em um sonho que você de alguma forma suspeita de que é, de fato, um sonho. Eu estou flutuando, não, mais como nadando através da água espessa. E eu estou alcançando, alcançando algo que eu não posso ver. Eu quero tanto chegar lá. Estou quase lá e então... A luz solar penetra através das minhas pálpebras.


Eu acordo me sentindo como se eu realmente não tivesse dormido. Descansada, eu acho. E há um sentimento de decepção que quase me oprime. Eu não sei por que. Eu não cheguei ao plano sobrenatural... pelo menos eu acho que não. Mas talvez eu estivesse indo para lá? Eu estou puxando uma blusa sobre a minha cabeça quando minha mãe chama meu nome animadamente. Isso me deixa nervosa. Eu odeio que esta seja a minha vida agora. É Nicole. Ela está em todos os noticiários. Mas é porque ela está viva. — Eu apenas tive essa sensação — Nicole repete uma e outra vez para cada repórter que pergunta. — Meus pais tinham acabado de sair e eu tinha essa sensação que eu deveria ir para a casa da minha amiga Sara. Eu sabia que tinha que sair — ela diz muito séria enquanto suas mãos agarram seu colar de cruz. A implicação não é perdida por ninguém. Seus olhos azuis brilhantes estão amplos, tanto o horror do que poderia ter acontecido quanto a emoção de seus quinze minutos de fama. Não haveria nenhuma emoção se ela realmente soubesse o que estava para acontecer. A imagem mental ainda acaba com o meu apetite. As câmeras continuamente voltam para a faca, ainda presa na parede do galpão, enquanto a polícia a circunda e tira foto após foto. Os rastros de onde o assassino havia caminhado sobre o monte de neve também são registrados, embora a polícia dissesse que eles não esperavam ser capazes de recuperar qualquer evidência útil deles. Minha mãe está tão animada que alguém escapou do assassino, mas eu sinto que há uma contagem regressiva clicando na minha cabeça. Apesar do fato de que evitamos esse, Smith está certo, temos que fazer mais. Havia menos de doze horas entre eu ter a visão e o evento acontecer realmente. As poucas visões que tive e fui capaz de acompanhar na minha vida sempre foram com dias de antecedência, no mínimo. Eu me lembro quando eu tinha seis anos, esperando quase duas semanas para todos os sinais acontecerem que eu vi na visão de Sierra morrendo. Eu nunca tinha tido uma visão que aconteceria em menos de um dia antes desse cara começar a assassinar crianças. Ele está tão bravo. Eu tremo. Eu tenho que ficar melhor nessa coisa de mudar o futuro. Eu tenho que detêlo. De volta ao meu quarto, eu pego meu telefone para começar a estudar o texto do Oráculo novamente quando ele começa a vibrar na minha mão e eu surto e o solto no chão. Talvez meus reflexos não sejam muito felinos. O nome de Linden pisca na tela, e meu coração volta a bater rápido, mas por uma razão completamente diferente desta vez. Estou entediado. O que você vai fazer hoje?


Eu gemo e deito de volta na minha cama. Durante seis anos, eu queria que Linden mostrasse algum tipo de interesse por mim. Por que toda essa porcaria tem que estar acontecendo ao mesmo tempo? Eu fico olhando para a tela do telefone por um longo tempo tentando decidir a probabilidade de que a minha mãe me deixe sair de casa hoje. Não tenho certeza se minha mãe vai me deixa fazer algo. *Minha* mãe ainda tem o cara da segurança. ;) Eu levanto uma sobrancelha e respondo: Isso pode ajudar a convencê-la. Quer ir andar de moto de neve? Parece o céu. Mas, sério? Eu aperto o botão de ligar para Linden, para que possamos realmente falar em sentenças completas. — Bom dia — eu digo, quando ele atende, e me sinto de alguma forma íntima por cumprimentá-lo assim enquanto estou deitada na cama. — Então, o que você acha? — ele pergunta. — A minha nova máquina está morrendo para um teste de corrida. — É seguro? — pergunto em um sussurro, apenas no caso de minha mãe estar a uma distância que possa ouvir. Eu não deveria ter que me preocupar. Eu devo ter uma visão antes que o assassino ataque novamente. Mas eu não sei disso com certeza. Ainda assim, gostaria de saber se a minha própria morte está vindo, certo? É no que tenho dependido estas últimas semanas. — Você duvida das minhas habilidades como motorista? — Não é isso que eu quis dizer — eu digo. — Deveríamos estar sozinhos enquanto o... o assassino ainda está lá fora? Quero dizer, depois da coisa com Nicole? Linden fica em silêncio por vários segundos e eu me sinto culpada. Eu sei que ele gosta que eu o ajude a esquecer sobre os assassinatos, mesmo que apenas temporariamente. Mas temos que ser razoáveis. — Eu acho que o meu equipamento é rápido o suficiente para que eu possa ficar longe de qualquer um que possa se aproximar de nós. E eu vou nos manter seguros. Isso faria você se sentir melhor? — Eu espero que ele soe aborrecido, mas ele não o faz. Ele soa como se ele realmente quisesse que eu me sinta bem. Eu rio secamente. Quem dera. — Não é a mim que você tem que convencer, é a minha mãe. — Eu coloco a cabeça para fora da minha porta e olho para os dois lados do corredor antes de perguntar em voz baixa: — E se eu disser a ela que vou para a sua casa?


Ele ri e o som brilhante afugenta minha melancolia. — Faça o que tiver que fazer. Só... só venha, ok?

*** Eu nunca andei em uma moto de neve antes. Sinto que estou voando! Eu seguro firme em Linden e grito quando ele bate em um monte de neve que nos lança a poucos metros no ar apenas para pousar suavemente em um monte de neve, e, em seguida, nós estamos deslizando novamente. Eu estou vestida com um casaco de neve de corpo inteiro que não serve mais em Linden há muito tempo. E estou grata pelo calor enquanto o ar gelado nos atravessa. Nós ficamos um total de duas horas entrecruzando acres sobre acres de neve perfeita, intocável e quando entramos na garagem para seis carros de seus pais, eu estou explodindo de alegria e emoção, apesar das minhas bochechas estarem tão frias que eu não as sinto. — Isso foi incrível — eu digo quando Linden desata meu capacete para mim e eu o retiro, o mundo incrivelmente brilhante sem a viseira na frente dos meus olhos. — É uma boa máquina — diz Linden, olhando para a moto de neve brilhante e, em seguida, passando a mão ao longo do lado dela. Saindo dos nossos trajes para neve é quase tão engraçado como quando os colocamos, Linden novamente tem que me ajudar com metade dos meus fechos. — Eu me sinto como se eu tivesse quatro anos — eu digo, rindo. — Eu preciso de muita ajuda. — Você vai se acostumar com isso — diz Linden tão casualmente que faz meu coração pular uma batida. Sua premissa simples, certo que nós vamos fazer isso de novo. Em breve, e muitas vezes, o suficiente para que eu acostume com o traje para neve bobo. — Você está fria — diz Linden, e levanta a mão para empurrar uma mecha úmida de cabelo do meu rosto. Ele encontra meus olhos e sua mão congela. Por um momento, eu acho que ele pode me beijar de novo. Um beijo de verdade, não um beijo de selação de um negócio. Mas depois de alguns segundos de tensão, ele sorri, sua mão cai, e ele inclina a cabeça. — Vamos para dentro. Nós paramos na cozinha e Linden aperta um botão em uma coisa brilhante muito tecnológica e poucos minutos depois nós dois estamos segurando copos cheios de vapor de um delicioso cappuccino. — Isso é tão legal — eu digo, minhas mãos sendo aquecidas em torno da minha caneca. — É como uma Starbucks em casa. Ele me leva para uma sala de recreação onde há uma enorme televisão e através da parede há um sofá grande o suficiente para assentar pelo menos dez pessoas. Linden cai sobre o sofá embutido e dá um tapinha no espaço ao lado dele.


Não é o assento ao lado dele, mas o espaço na mesma almofada dele. Com uma rápida conversa interior de você pode fazer isso, eu cuidadosamente me sento ao lado dele para que eu não derrame meu café. Nossas coxas tocam e os nossos ombros se esfregam enquanto eu timidamente coloco meus pés em cima do sofá perto do dele. Enquanto eu saboreio meu café espumoso, eu sutilmente analiso o espaço em volta de mim. A decoração é bastante escassa e quase inteiramente preta e branca. Almofadas coloridas em tons profundos de joias são os únicos pontos coloridos na sala inteira. É tão elegante e bonito. Mas me preocupo em derrubar o café em alguma coisa. Eu não tenho certeza se eu gostaria de viver com tal formalidade. Eu estudo o perfil de Linden e me pergunto se ele acha sufocante. Antes que ele me pegue olhando, eu me afasto e enquanto eu o faço meu olhar encontra um espelho de comprimento e largura grandes montado acima do sofá na parede adjacente. Eu suspiro e coloco a mão no meu cabelo. Cabelo capacete é o mínimo que eu estou. É como se o capacete e a cama tivessem despenteado o meu cabelo em uma bagunça. Linden olha para mim ao meu som de consternação. Quando ele percebe por que eu estou chateada, ele ri. — Você sabia! — eu o acuso, apontando o dedo para ele. — Ah, vamos lá. Está fofo — diz Linden. Eu coloco o meu café na mesa e levanto para tentar trazer algum tipo de ordem para a bagunça em cima da minha cabeça. Algo me atinge nas costas e me viro para ver uma das almofadas no chão. Eu pego a almofada mais próxima de mim e a jogo nele. Ele coloca as mãos para cima para bloquear o que teria sido um lançamento perfeito em seu rosto, em seguida, lança-a para mim de novo, seguindo imediatamente com outra. Eu grito e nós dois rimos e jogamos almofadas até que todas as decorações anteriormente perfeitamente situadas estão no chão. Linden me agarra pela cintura e voltamos ao sofá, me puxando contra ele. Ele passa os dedos sobre o meu cabelo bagunçado, arrumando alguns dos fios. — Você fica adorável assim. — E então, quase sem aviso, os seus lábios estão nos meus e ele está puxando meu quadril apertado contra o dele e eu mal posso respirar. Este é um beijo de verdade. É quente, macio e proposital de uma forma que o beijo de ontem não foi. Uma mão corre para o lado das minhas costelas, até meus quadris, coxas, em seguida, ele conecta os dedos sob o meu joelho e puxa minha perna para cima e através dele, os nossos corpos tão perto que ele me aquece ainda melhor do que o cappuccino cremoso. Depois de um longo e suave beijo, ele se afasta e inclina a cabeça em um cotovelo para me olhar no rosto, embora ele mantenha o aperto na minha perna para que nossos quadris estejam pressionados deliciosamente perto.


— Por que eu não reparei em você antes? — ele sussurra, e corre um dedo no meu rosto. Faço uma pausa enquanto sinto um déjà vu engraçado que suas palavras provocam. Será que é porque eu imaginei essa conversa acontecendo cerca de mil vezes? Ou será que eu realmente sonhei com uma cena como esta? Eu sorrio para ele quando ele abaixa o rosto para o meu novamente. Tudo parece tão divertido e surreal e eu não sei o que fazer. Honestamente, parece meio rápido. Mas não para mim, para ele. Eu tenho sonhado com isto durante anos. Talvez Linden apenas se mova mais rapidamente. Não posso dizer que eu me importo. Seus dedos encontram a pele nua das minhas costas, entre a minha cintura e a blusa. Ele hesita, como se ele não tivesse certeza do que fazer. Em seguida, os dedos deslizam pela minha espinha e me puxam ainda mais apertada contra ele. Eu deixei todas as minhas preocupações irem embora. Não importa. Hoje, agora, tudo parece maravilhoso. Tudo parece certo.


Dezenove Traduzido por Vivian Nantes

—V

ocê não viu isso acontecendo? — As palavras de Smith me chocam me acordando. — O quê? Smith? — eu digo groguemente. — Por favor, me diga que você não viu isso, e não que você decidiu não me contar. — Ver o quê? — A incerteza está começando a clarear, mas ainda não se foi. Há um longo silêncio na outra extremidade. — Vá assistir ao noticiário — ele diz com um desespero em sua voz que me acorda por completo. — Me ligue mais tarde. — Ele desliga sem dizer adeus. A sensação de vazio no estômago é uma premonição melhor do que minhas habilidades de Oráculo no momento. Enfio meus chinelos em meus pés, não me preocupo com o meu roupão, e quase corro do quarto para a cozinha. Ninguém está acordado ainda. É o raiar do dia, dois dias depois do Natal, e uma sexta-feira para aproveitar. Eu deveria estar dormindo. Eu ligo a televisão e mantenho o som baixo, em pé, com o rosto perto da tela, tudo dentro de mim se transformando em geleia. Alguém está morto e eu não tive nenhum aviso. Por que eu não tive uma visão? Eu deveria ter tido uma. Não deveria? Eu estudo a cena do crime — o que eu posso ver dela — e eu não sei o que pensar. Parece um estacionamento vazio, e eu não vejo nenhum sangue. Há um corpo envolto no meio de um monte de neve com grama rala marrom saindo, mas o corpo parece, graças a Deus, em uma única peça. Há pegadas por toda parte, mas eu não posso dizer quais as que já estavam lá e quais pertencem aos policiais. O repórter fala sobre como a polícia tem vindo trabalhando na cena durante toda a noite e há quanto tempo eles acham que a vítima foi morta. Eu ouço a hora e percebo com o ácido da vergonha queimando na minha garganta que o assassino provavelmente cometeu esse assassinato enquanto eu estava ocupada beijando Linden ontem. Completamente sem força, eu afundo em uma cadeira e luto contra as lágrimas. Racionalmente, eu sei que não há nada que eu poderia ter feito sem uma visão. E eu me lembro de que eu salvei dois outros adolescentes de mortes terríveis. Mas nada disso parece importar agora. Eu não salvei este.


Eu tenho que fazer melhor. Eu tenho que fazer mais. Estou tão perdida na minha autopiedade que mamãe me pega de surpresa e eu pulo quando ela toca no meu braço. Ela vê as lágrimas que eu não tive tempo de limpar e seu aperto no meu braço fica mais forte. — Qual é o problema? Faço um gesto sem palavras para a televisão sem volume. — Ah, não — minha mãe diz, parecendo mais um som arranhado em sua respiração do que uma fala de verdade. — De novo não. — Mesmo em sua cadeira, ela visivelmente fica mais fraca e nós duas nos aproximamos e olhamos para a tela. Eu tenho certeza que existem detalhes que estamos perdendo, porque não podemos ouvir, mas eles não parecem ter muita importância no momento. O que poderia ser mais importante do que o simples fato de que outra criança como eu está morta? Eu inclino minha cabeça quando a câmera se move para uma cena gravada atrás do repórter. — Eles trouxeram o FBI — eu digo, vendo as letras acentuadas na parte de trás de um punhado de jaquetas pretas. Minha mãe hesita, e, em seguida, aumenta o volume. — ...diferentes métodos usados para matar cada uma das vítimas, a polícia está dizendo agora que há outros sinais que apontam para a mesma pessoa ser responsável por todos os três assassinatos. Agente Johnson, você pode nos contar um pouco mais sobre isso? A câmera gira para um homem em um terno que parece cansado e amarrotado. — Há algumas coisas que já observamos em todos os três casos. A primeira é uma completa falta de provas de DNA, impressões digitais, etc. A segunda é que o tamanho do assassino é aproximadamente o mesmo em todos os três casos, e em terceiro lugar, os métodos de matança não tem nenhuma hesitação. Eles têm precisão marcada e falta de hesitação. Estamos oficialmente declarando que este é um assassino em série, e os nossos agentes estão sugerindo que ele é um assassino de primeira viagem, mas que este indivíduo tem planejado estes ataques, possivelmente por anos. — Obrigado, Agente Johnson. — Ela se vira para a câmera. — Nós vamos ter uma cobertura permanente do Assassino de Coldwater assim que os detalhes forem surgindo. Assassino de Coldwater? Eles lhe deram um nome. Eu não sei por que isso me deixa tão irritada. Talvez porque soe como alguém que interpreta um assassino na televisão, não um psicopata na vida real que iria cortar uma menina de dezessete anos de idade em pedaços. — Um serial killer de verdade agora — minha mãe diz fracamente. — E ninguém pode argumentar que os nossos policiais não precisam de ajuda. Esta não é exatamente a sua área de especialização. Mamãe e eu nos sentamos juntas enquanto o sol começa a subir, sem dizer nada enquanto as mesmas cenas aparecem de novo e de novo. Quando meus olhos estão cansados demais para olhar mais, eu os esfrego e me


levanto, pensando que eu vou tentar afogar meus sentimentos em um banho quente. Enquanto estou indo, eu pego Sierra encostada na porta como se ela não tivesse a força para manter-se em pé. Estou chocada ao ver lágrimas brilhando em seus olhos. Sierra passou toda sua vida lutando para manter suas emoções escondidas, porque é mais fácil combater visões quando você está calma. Ela sempre me pareceu tão forte, tão no controle. E cansada. Passei 13 anos me preparando contra visões e isso me deixa cansada todos os dias. Sierra vem fazendo isso há mais de trinta anos. Eu me pergunto se ela acorda cansada. Eu tento não ver o meu futuro nela. É muito deprimente. Mas em dias como hoje, eu não posso evitar. Sierra encontra meus olhos e os abaixa imediatamente, como se ela tivesse vergonha de ter sido pega em um momento tão vulnerável. Mas ela não sabe, nem posso pensar em alguma maneira de expressar, o quanto eu sou grata por este sinal de que ela ainda sente. A água fumegante, que geralmente ajuda a esclarecer meus pensamentos, não está fazendo seu trabalho hoje. Tudo parece estar piorando. Eu estava meio convencida de que eu estava destinada a ajudar a capturar o assassino, convencida de que era por isso que as visões eram tão fortes. Mas, se isso fosse verdade, eu não deveria ter visto este? Ou talvez este assassinato fosse apenas um acaso? Uma matança por impulso? Ainda assim, eu não deveria ser capaz de ver uma matança por impulso? Eu vi um monte de coisas não planejadas em minhas visões. Esta não deveria ser diferente! Nada disso faz sentido. E isso me faz duvidar, o que é pior. Pensando nisso, eu não fiz qualquer progresso em chegar ao plano sobrenatural na noite passada. Mas eu tinha a sensação de nadar através da água espessa novamente. Eu não sei se eu deveria esperar mais depois de apenas duas noites de sono com o pingente, isso é tão inútil. Estava um pouco mais claro e a necessidade de chegar onde eu estava indo era mais urgente. Eu não sei se isso significa que eu estava mais perto ou não. Hoje à noite eu vou usar o pingente de novo com mais foco. Não que eu saiba exatamente como eu devo me concentrar quando estou dormindo. Smith disse que é para pensar sobre o plano sobrenatural antes de eu ir dormir. Eu vou fazer isso. Mas eu fiz isso nas duas últimas noites também. Talvez eu me deixei me empolgar demais com Linden ontem. Eu certamente esqueci sobre os assassinatos por uma ou duas horas. Talvez eu tenha que me focar em nada além de atingir o plano sobrenatural, mesmo quando estou acordada, a fim de chegar lá. Eu não tenho certeza de como imaginar um lugar que eu nunca estive.


Já se passaram várias horas desde que Smith ligou; eu tenho que ligar de volta. Mas eu não tenho ideia do que dizer. Para onde vamos a partir daqui? Eu penso sobre a sua ideia de pegar uma vítima perto, certamente perto o suficiente para ficar ferida, mas não morta. Toda vez que eu considerava, eu empurrava a ideia para longe. Isso tudo deveria ser sobre salvar as pessoas, não feri-las. Mas o assassino é tão cuidadoso. Sempre mascarado, sempre com luvas. O próprio cara do FBI disse: nenhuma evidência de DNA. E ele acha que ele está planejando isso há muito tempo. Eu tenho que ficar melhor em manipular minhas visões. É a única resposta. Eu tenho que chegar a esse plano sobrenatural. Enquanto a água está se esvaindo e estou enxugando meu cabelo, eu tenho uma ideia. O texto de Reparando o Futuro Fraturado fala sobre a importância de dormir levemente. Uma soneca em plena luz do dia não seria um sono mais leve do que à noite? Poderia ser? É algo que faz sentido. No mínimo, vale a pena tentar. E, tendo chegado tão cedo esta manhã, eu tenho uma boa desculpa. Supondo que eu possa me acalmar, porque assim que eu pensei nisso, estou nervosa e animada. Não é exatamente a melhor maneira de se preparar para dormir. Eu queria que eu pudesse colocar minhas mãos no resto do livro! Se Sierra deixasse, eu poderia ser capaz de olhá-lo novamente. Inferno, eu estou a ponto de pegar o livro e arriscar que ela perceba. Se ao menos eu pudesse falar com ela. Mas eu cheguei tão longe com as minhas mentiras que eu não posso dizer a ela sem confessar tudo que eu fiz. Tudo o que eu ainda pretendo fazer. E eu não acho que eu tenho a coragem de fazer isso. Além disso, não é como se ela fosse me ajudar. Eu estou quebrando todas as regras que eu já ouvi falar. Ela me pararia, estou certa disso. Eu vou ter que fazer isso por conta própria. — Eu não posso encontrar com você — eu sussurro no telefone quando eu estou finalmente corajosa o suficiente para ligar de volta para Smith. — Minha mãe está tão paranoica que ela mal me deixa ir ao banheiro sem supervisão. — Eu espreito na minha porta fechada. — Eu até tentei fazer com que ela me deixasse dirigir direto para a casa do meu... — eu hesito. — Para a casa do meu namorado, que tem, tipo, toneladas de seguranças e foi um não absoluto. Acabei de chamar Linden de “meu namorado”? Bem, quando você passa uma hora fazendo... o que fizemos ontem, não é isso o que ele significa? — Além disso — eu continuo, colocando esse pensamento de lado no momento, — o que podemos fazer? — A vontade de chorar começa a se formar na minha garganta novamente, mas a empurro de volta. — Eu não tenho uma visão para entrar. Eu não tive nada desta vez.


— Então eu acho que esperamos até você ter — diz Smith, e eu posso ouvir a frustração em sua voz. Eu posso sentir empatia; eu odeio me sentir tão impotente também. Mas eu me senti assim em toda a minha vida; ele ainda está se acostumando a isso. — Smith? — eu digo, ainda mais baixo do que antes. Porque o que eu estou a ponto de dizer eu queria que eu pudesse esconder de mim mesma, assim como da minha mãe. — Sua sugestão de termos uma vítima atacada, mas não morta? Eu acho que você está certo. Que nós vamos ter que fazer algo como isso para obter qualquer coisa útil sobre esse cara. — Tem certeza de que você está pronta? — Smith pergunta, como se não fosse a sua ideia. — É um grande passo. E uma decisão difícil. — Você acha que eu não sei disso? — Isso está rasgando meu coração em dois só por dizer, mas eu não vejo outra maneira. — Eu só estou dizendo que você precisa estar totalmente comprometida. Vai exigir muita habilidade e não uma pequena quantidade de risco. Você já foi dormir com a pedra? — Sim — eu digo rapidamente. — Mas eu não tenho certeza que ela está ajudando. Eu não acho que eu estou chegando lá. Estou perto, sei que estou perto. — Bem, continue tentando. Espero que você seja capaz de gerenciá-la em breve. — Eu estou indo tentar tirar uma soneca — eu digo, sentindo como se eu tivesse que me defender. — Talvez eu vá dormir mais leve dessa forma e ser capaz de me concentrar melhor. — Ouça — diz Smith, — me ligue assim que tiver outra visão e vamos tentar fazer um plano, ok? — Claro — eu concordo com indiferença, depois desligo. Eu deito de costas contra a minha cabeceira e esfrego meu nariz dolorido. Eu não tinha chorado tanto em um dia em tanto tempo e tudo dói. Eu olho para baixo em surpresa quando meu telefone vibra, e eu encontro uma mensagem de Linden. Você está bem??!!!!! Ele provavelmente acabou de acordar e descobrir sobre o terceiro assassinato. Uma sensação de calor desliza através de mim. Desta vez, alguém está verificando se estou bem. Mas, então, eu suspiro, e me sinto culpada de novo. Eu mando uma mensagem de volta: Eu estou bem.


Eu não tenho a energia para enviar qualquer outra coisa. E, aparentemente, Linden também não. E mais de uma hora depois meu telefone vibra novamente, e eu não me movi um centímetro. Ninguém sabe quem é ainda. Você ouviu alguma coisa? Eu mando um “não” de volta e, em seguida, apesar de me sentir mal com isso, desligo meu telefone. Ele sabe que eu estou viva; além disso, ele vai viver por algumas horas. Tenho que me concentrar, eu tenho que trabalhar. Eu me arrasto para fora do meu quarto e para o escritório da minha mãe para colocar o meu plano em movimento. — Eu não me sinto bem — eu digo, apenas metade de uma mentira. — Você está mal por tudo isso? — ela pergunta com simpatia, embora seus olhos estejam vermelhos também. — Talvez — eu digo, miserável por eu não precisar fingir. — Ou talvez seja simplesmente isso — eu acrescento. — Vou deitar e tentar tirar uma soneca, e só queria que você soubesse para que você não venha bater na porta e me acordar. Levantei muito cedo. Eu volto para o meu quarto e descubro o quão difícil é dormir quando você realmente tenta. Enchi meu quarto com todos os tipos de distrações para me ajudar a não dormir muito profundamente, música tocando suavemente em meus fones de ouvido, cortinas puxadas largamente para deixar a luz entrar, mas elas estão me impedindo de ir dormir. Eu começo a me concentrar na minha respiração, fechando os olhos e impedindo o ruído de fora enquanto eu conto até dez. Todo o tempo eu me concentro no desenho da cúpula do livro de Sierra que parece estranho demais para ser verdade. De repente eu estou nadando. Meus braços se movem lentamente, mas desta vez, quando eu tento, eu ando. Eu posso sentir uma superfície muito acima de mim e eu chuto com as minhas pernas e puxo com meus braços. Eu pisco e vejo uma luz com a mesma qualidade de todas as cores e nenhuma que a pedra do foco tem e de alguma forma eu sei, eu simplesmente sei, que é onde eu estou tentando chegar. Eu saio do estranho ar/água, e meus joelhos batem em uma superfície dura e plana. Eu fico lá em minhas mãos e joelhos, ofegante. E quando eu olho para cima, eu sei que consegui.


Vinte Traduzido por Nina

E

u me levantei e dei um passo hesitante para frente. Parece que eu estava certa sobre cochilar e a coisa toda envolvendo a concentração, porque eu definitivamente estou aqui. O chão é como um espelho, e está cercado por uma cúpula enorme preenchida com fileiras e mais fileiras de imagens — todas passando em um volume baixo que soava como um zumbido quando elas se misturavam. Apertando os olhos, eu me concentro em uma imagem por alguns segundos e a cúpula se movimenta e amplia, trazendo essa imagem mais próxima de mim. Isso me desorienta e me faz cair de joelhos completamente, minhas mãos se espalham na superfície lisa do piso para me lembrar qual direção é para cima, e qual é para baixo. Eu me sinto perdida e tenho tonturas. Eu não gosto disso. Mas eu estou aqui agora. O que eu faço? Eu começo preparando a mim mesma. Sento-me, empurro meus pés na minha frente, e afunilo meus dedos no chão vítreo. — Para baixo — eu digo a mim mesma. — Isso é para baixo, e agora eu não vou me perder. Lembro-me da pedra do foco e quando eu inclino minha cabeça, lá está ela, pendurada no meu pescoço. Provavelmente porque é onde estava quando eu adormeci. Eu aperto-a em meu punho, segurando-me à única coisa familiar neste mundo estranho. Então eu olho para trás para dentro da esfera infinita de imagens acima de mim e escolho uma aleatoriamente. Concentro-me em como a rotação das imagens vai diminuindo e uma imagem para na minha frente. É uma menina da escola, em casa brigando com seus pais. Eu assisto por cerca de um minuto, mas a menos que esta menina seja a pessoa que acabou morta ontem, eu não estou interessada. Smith me disse que eu deveria ser capaz de manipular as coisas no meu sonho mais facilmente do que em visões. Desde que eu finalmente consegui manter algum tipo de foco, eu decidi tentar isso. Posso obter as respostas que eu preciso aqui? Smith disse que certamente isso funciona para o futuro, mas e quanto ao passado? Posso ver o passado também? Eu penso sobre o relatório da notícia que eu assisti hoje cedo. Imagino a cena em minha mente e tento compreender cada detalhe que me lembro. A grama verde apontando para cima em meio à neve, a repórter em um campo de lama preenchido com dezenas de pegadas. Quando abro os olhos


a cúpula de imagens está rolando novamente e a cena do crime está vindo em minha direção. Eu tento conter a minha empolgação pelo sucesso e foco na imagem. Não é exatamente a mesma que vi no noticiário — esta não está editada. A repórter está enxugando os olhos com um lenço de papel enquanto uma assistente retoca seu rosto com um pincel de pó. A repórter acena depois de um momento e a assistente cobre o nariz ligeiramente avermelhado da repórter com maquiagem. Em seguida, ela respira, se firmando e se vira para a câmera. Isso é o passado? A cena parece diferente. Então, isso me atinge como um soco no estômago. O corpo desapareceu. Isso não é o passado. Pode ser o presente. Então onde está o corpo? Como se respondendo à minha pergunta, os rolos de imagens da cúpula giram e eu tenho que me abraçar nos meus braços para não perder a perspectiva de novo. Uma sala bem iluminada aparece diante de mim e eu percebo que é o necrotério. Eu procuro em torno da sala por um relógio e ele aponta para 6:20 horas. Provavelmente da tarde. Eu consegui. É o futuro. Um futuro próximo, com certeza, mas só o futuro. Não é o passado. Caramba! Eu não posso seguir a trilha desta vítima para trás, para o assassino. Não a menos que eu tenha uma visão. Eu quero uivar para a injustiça de tudo isso. Mas talvez eu possa descobrir quem é a vítima. A cena é movimentada com tantas pessoas em jalecos, todos curvados sobre o corpo; eu não posso ter uma visão bastante ampla e mesmo quando eu me levanto de joelhos e estico meu pescoço, eu não posso ver através deles. Smith disse que Shelby entrava nas cenas. Talvez eu possa fazer isso também. Mas e se eu ficar presa naquilo? Smith falou sobre este lugar como se fosse um campo de jogos para treinamento, mas deve ser mais do que isso pelo que se via no livro de Sierra. Para ela mantê-lo em segredo. Eu sei tão pouco sobre isso: e se eu estragar tudo? Mas então eu me lembro de falar com a minha mãe. — Sem risco, sem recompensa — eu sussurro para mim mesma. Eu acalmo meus nervos e subo a partir do piso de vidro lentamente, pressionando meus dedos no chão até o último segundo para me certificar de que eu posso manter o meu equilíbrio quando eu me endireito. Eu fico olhando para a cena na minha frente, usando-a para me ajudar a ficar de pé. Um passo, dois. Eu oscilo, mas permaneço de pé. O barulho fica mais alto enquanto eu aproximo e quando eu realmente passo para dentro do quadro e entro na cena a sensação que se sente é como estar em um ambiente aconchegante, como se houvessem cascatas de água em cima de mim.


E então eu estou simplesmente ali, no necrotério. Quando eu olho para trás, eu ainda posso ver o estranho brilho arco-íris de onde quer que seja que eu comecei, mas é um pequeno círculo, e eu sou muito grande para passar. Eu enrugo minhas sobrancelhas para ele em preocupação e dou um passo para trás, e quanto eu o faço, o círculo cresce e eu percebo que não estou presa. Ele está esperando por mim. Confiante que posso voltar, eu me viro e dou mais alguns passos para o necrotério. Eu gosto da sensação de estar em uma das cenas. O chão aqui é sólido e opaco e parece muito mais real do que o plano por trás de mim. Concentro-me no que está em cima da mesa a apenas dois metros e meio de distância. Na pessoa deitada lá. Eu me convenço de que eu não estou realmente aqui, e que nada que eu faça pode afetar qualquer coisa no mundo físico. Mas ainda é um pouco assustador quando os homens e mulheres caminham estranhamente virando para me evitar. Como se eu estivesse lá. Como se eles pudessem me ver. No entanto, ninguém fala comigo ou tenta me impedir de me aproximar do corpo, então eu tenho certeza que eu não sou realmente visível. Quando eu chego à mesa, eu fico decepcionada ao ver que o rosto está coberto. Mas isto não é apenas uma visão. Talvez... Eu me aproximo e toco a borda do pano grosso e branco com o meu dedo. Meus dedos acariciam os fios ásperos, deslizando até chegar a borda. Eu levanto longe do rosto sem vida e olho para baixo. Eddie Franklin. Meu coração afunda. Ele é um sênior. Ele estava cursando ciências comigo. Ele sempre era realmente calado e um dia no início do semestre nos designaram para trocar quizes. Ele errou cada uma das perguntas. Eu acertei cada uma das perguntas. Eu encontrei ele depois da aula e disse a ele que poderíamos trabalhar juntos se ele quisesse. Ele me chamou de vadia intrometida e me disse para cuidar da minha vida. Mas duas semanas mais tarde, depois de uma grande prova, ele veio até mim e pediu desculpas. E perguntou se a oferta ainda estava de pé. Ficamos estudando durante o almoço, escondidos em seu carro com o aquecedor. Ele me contou um pouco sobre sua vida em casa com um pai alcoólatra, e o quanto ele queria fugir disso. Mas se ele não aprovasse nessa matéria, ele não iria se formar. Eu não diria que éramos amigos, exatamente — ele nunca falou comigo na hora do almoço, e as nossas sessões de estudo pararam depois que Bethany foi morta — mas nós tínhamos uma atitude de respeito. Eu me pergunto se ele passou nas provas finais. Então percebo que não importa.


Ele era uma espécie de garoto solitário, sem muitos amigos. Talvez por isso ninguém soubesse que foi ele que foi morto. Eu começo a tremer o queixo e olho para baixo para seu corpo pálido. O lado esquerdo de seu rosto está uma massa de contusões, como também está a garganta. Parece que Eddie foi estrangulado. Como Jesse supostamente foi. Mas com Jesse, as contusões estavam centralizadas em torno da garganta e o corpo foi descartado uma vez que a vida se foi. O assassino não estava satisfeito com apenas matar Eddie. Sua cabeça tinha um formato estranho de um lado, fazendo meu estômago apertar. Aposto que seu crânio está afundado por baixo. Ambos os braços e as pernas estão dobrados em ângulos repugnantes e um lado de seu peito cedeu. Eu tenho que desviar o olhar antes de eu vomitar. Se ao menos eu pudesse ter feito alguma coisa. Eu me afasto, ansiosa para estar em qualquer lugar — até mesmo na cúpula que me deixa com náuseas — do que aqui. Eu tropeço em meus próprios pés enquanto eu cambaleio para fora do círculo que me leva de volta para o chão espelhado, mas eu não me importo. Eu apenas fico lá, desejando que tudo ao meu redor desapareça. Porque mesmo que aquela cena no necrotério esteja em algum lugar no futuro próximo, a morte de Eddie não está. Ele se foi, e as habilidades de um Oráculo são impotentes contra o passado. Eu preciso pensar em alguma coisa boa antes de eu me afogar em desespero. Eu fecho meus olhos e a imagem de Linden me centraliza. Por longos minutos, deixo-me concentrar em nada, com os olhos fechados, até eu sentir que estou pronta para abrir os olhos de novo. Quando eu o faço, eu estou cercada por visões de Linden. Ele comigo, ele sozinho, ele com outra pessoa, seus pais, professores, amigos, outras garotas. — Cada uma em um futuro possível — eu sussurro. Eu pego um vislumbre de mim mesma acima de minha cabeça, ao lado direito, e me concentro nela. Eu sei o que fazer neste momento, e conforme a cena se aproxima, eu levanto rapidamente e entro nela, precisando de algo reconfortante após o necrotério. Aqui estamos nós, sentados juntos no sofá, rindo. Eu ando para a frente e quando me aproximo, ele diz algo que eu não consigo escutar e a cena se desfaz em borrões, em seguida, se divide e me oferece dois novos cenários. Uma escolha? Eu não tive uma escolha no necrotério. Talvez não havia escolha a fazer. Não há futuro para Eddie. Eu fico olhando para as duas cenas na minha frente. Em uma delas, nós estamos obviamente brigando, então eu passo para a outra. Durante os próximos vários minutos, eu ando para a frente, com um sorriso nos lábios enquanto eu viro em uma cena emoldurada, depois outra, criando um futuro para Linden e eu. Às vezes, quando os dois quadros aparecem, apenas por


diversão, eu não escolho o melhor. Mas se eu vejo alguma cena da gente se beijando logo à frente, eu fico geralmente seduzida a escolher essa. Eu vejo cenas de inúmeros beijos e carícias ou longas conversas ao telefone. O momento de apresentá-lo à minha mãe, de ir ver seu dormitório na faculdade pela primeira vez. Eu quero chorar com o quão melhor é isso do que seguir um assassino através de suas vítimas. Mas então meu pensamento me desperta para a realidade de dentro da ilusão do meu estado de felicidade e eu reparo que toda a minha cúpula foi preenchida com Linden quando eu me concentrei o bastante. Será que eu poderia fazer a mesma coisa com o assassino? Eu olho melancolicamente para a próxima escolha que eu tenho com Linden. Se eu lidar com as coisas direito, porém, eu não precisarei de momentos roubados no sobrenatural — eu vou ter Linden na vida real. Viro-me e me concentro na cúpula e o círculo que vai me levar lá aparece instantaneamente. Quando eu chego ao piso vítreo, eu me sento no chão novamente e penso no assassino. Eu não tenho nada especificamente para me concentrar, mas eu me concentro no que eu tenho. Os terríveis rostos e corpos mutilados de suas vítimas, a figura de Smith e o que eu vi na minha visão de Nicole. E aquele grito. Aquele terrível, terrível grito. De alguma forma, eu posso sentir quando eu tive êxito. Há um mal quase tangível me rodeando. Uma maldade crua. Encolhendo-me, eu abro meus olhos. Tudo está escuro. A cúpula está coberta com uma variedade de rostos sombrios. Às vezes ele está correndo, às vezes esfregando um pano de cima para baixo em uma faca, às vezes apenas em pé e assistindo. Mas cada cena é obscura. Muito escura para eu ver. Concentro-me em uma cena um pouco mais brilhante e começo a movêla para perto, então passo para dentro dela, antes que eu me perca pelo meu nervosismo. Estou segura aqui, eu tento me lembrar, mas não consigo manter o meu corpo firme. Ele está sentado em um canto, observando uma tela de televisão. Mas seu rosto está em plena sombra e não importa como eu movimente sua cadeira, eu não posso ver as suas características. Depois de alguns minutos, eu desisto e volto para fora do círculo brilhante e tento uma outra cena. Ele está andando neste momento, e independentemente do quão rápido eu corro, o quão duro eu me esforce, eu não consigo alcançá-lo. E mesmo se eu pudesse... ele está usando uma máscara. Eu volto para o círculo brilhante e tento novamente. E mais uma vez. Mas cada vez que tento, ele está muito rápido, ou as sombras passam cobrindo todo o seu rosto, ou ele está mascarado, ou a visão simplesmente é trêmula e sem foco. Nenhuma das cenas me oferece uma escolha da forma


como fizeram com as de Linden. É como se alguém, alguma coisa, estivesse me impedindo. Será esta uma regra de Oráculo que eu não sei? Ou será que é simplesmente pelo fato de que se eu soubesse quem ele é, iria mudar o futuro de forma extrema, de um modo que eu não poderia fazê-lo em um sonho? Encaro todas as imagens do monstro, desejando que eu pudesse fazer alguma coisa. Mas mesmo aqui, no plano sobrenatural, sua identidade permanece um mistério. Sinto uma ondulação quase imperceptível percorrendo o centro da cúpula e eu percebo que eu estou começando a acordar. Eu estou pronta, eu suponho. Eu descobri sobre Eddie. E eu acho que eu também pude treinar bastante nas cenas com Linden; Smith disse que tudo ajudaria. Mas eu não posso evitar de sentir como se estivesse perdendo alguma coisa. Alguma forma que eu pudesse encontrar para ajudar se eu soubesse mais. Concentrome de volta em Linden, em cada um dos momentos — de modo que pelo menos eu não acorde diretamente sentindo os últimos momentos da presença negra do assassino — quando um flash colorido me chama a atenção. É um rápido reflexo e desaparece por um momento, mas depois ele está de volta. É uma porta. Uma porta na parede da cúpula. Quanto mais eu olho para ela, mais sólida ela fica, até que quase parece que toda a cúpula está inclinada em direção a ela. Parece longe, mas eu começo a andar nessa direção. Tal como eu, a porta parece recuar. Estou me aproximando, mas não tão rapidamente como eu deveria estar. Estou a cinco metros de distância, e depois de andar, parece que estou a quinze metros e então, de repente, eu ganhei mais três. Estou quase lá quando a ondulação estranha acontece novamente. Poucos segundos depois, os meus olhos físicos vibram abertos e eu estou de volta ao meu quarto. O relógio me diz que eu estive dormindo apenas por uma hora, mas pareceu muito mais tempo. Smith estava certo, afinal: eu não me sinto cansada. Eu penso sobre a porta que eu não podia alcançar e uma estranha sensação ruim estoura dentro de mim. Talvez eu seja capaz de chegar nela esta noite, agora que eu sei que ela está lá. Mas, primeiro, eu tenho que enviar uma mensagem. Eu ligo o telefone e digito o número de Linden. Eu lhe envio uma única linha de uma mensagem de texto. É Eddie Franklin. Enfio o telefone no meu bolso e me pergunto quanto tempo minha mãe vai me deixar dentro do meu quarto. Eu provavelmente deveria, pelo menos, destrancar minha porta, deixar aberta uma fresta para que ela não se preocupe comigo. Mais ainda.


Eu estou apenas começando a me levantar quando o formigamento nas minhas têmporas entra em erupção. À medida que a pressão na minha cabeça cresce, transformando-se em um furacão dentro do meu crânio, eu sei que tem que haver uma outra visão de assassinato. Rangendo os dentes, eu me sento na cama e a deixo vir, já odiando-a. Conforme a visão se firma e eu encontro-me em pé em um túnel sombrio, eu sou tomada pela surpresa de notar o quão mal eu me sinto por no fundo desejar que eu não estivesse aqui. O quanto eu desejaria que não fosse eu — que eu não fosse um Oráculo. Que outra pessoa tivesse sido escolhida para este trabalho. Porque, quem quer que seja a vítima nesta visão, eu não vou salvá-la. Vou colocá-la diretamente no caminho do perigo, a fim de chegar mais perto do assassino. A visão me puxa para a frente, obrigando-me a tomar passo a passo em direção a um monte no chão, na entrada do túnel arredondado. Estou prestes a descobrir de quem será a vida que eu vou arriscar para pegar um monstro.


Vinte e Um Traduzido por L. G.

—V

ocê tem certeza? — Smith pergunta quando eu ligo para ele do meu quarto com música ligada para encobrir o som dos meus sussurros frenéticos. — Como pode ser hoje à noite? Ele acabou de matar ontem! — Eu não sei, ok? — eu assobio. — Mas vai acontecer hoje à noite e nós temos que fazer alguma coisa. — O que você sugere? Tenho a sensação de que sua mãe não vai te deixar sair do nada. — Eu não sei — eu digo, quase alto demais. — Eu estava meio que esperando que você tivesse um plano. Foi ideia sua. Há uma longa pausa e eu consigo ouvir ele murmurando baixinho, mas eu não consigo identificar as palavras. — Ouça — Smith diz, finalmente audível. — Você tem a pedra. Você acha que consegue entrar na visão sozinha? — Você disse que seria muito difícil. — Vai ser. Você vai deixar isso te amedrontar? — Não — eu protesto, sentindo-me estranhamente culpada por ele sequer me perguntar. — Eu só quero que isso funcione. — Então concentre-se. Mais forte do que você já se concentrou em uma visão antes. — Eu consigo fazer isso — eu digo tremendo. — Quando você chegar lá, volte o máximo que você conseguir e tente descobrir por que ela estava andando sozinha em um túnel de trem, ok? — Entendi. — E você não viu nenhum sinal de uma arma ao redor dela? — Clara — eu enfatizo, necessitando dar a ela um nome para manter isso real e pessoal, — não tinha nenhuma marca de faca ou feridas de bala. Mas isso não significa necessariamente que ele não tenha alguma coisa. Talvez um bastão de baseball? Você sabe, alguma coisa que cause danos, mas não corte. — Ok. Eu acho que você vai ter que fazê-la lutar contra ele, ou correr. Fazê-la pegar seu celular logo antes de ele chegar. Talvez ela consiga ligar para a polícia. Ou para outra pessoa para que ela ouça o ataque e ligue para a polícia.


Eu suspiro levemente. — Essa é uma boa ideia. E os policiais já estarão trabalhando depois dessa manhã mesmo, tenho certeza. — Reze bastante para que eles estejam — Smith diz. — Me ligue se você precisar de mais alguma coisa, ok? Você quer que eu vá no túnel na vida real? Só para vigiar ela? Clara — ele acrescenta. — Talvez, mas... isso não vai mudar as coisas? — Pode ser. E se eu chegar antes? — Eu não sei, Smith. Não quero piorar as coisas. — Tudo bem. Vou ficar em casa. Me ligue quando acabar. Eu tenho três horas antes de realmente acontecer. Nós tivemos sorte com a localização. A estação de trem tem relógios colocados em todos os lugares junto às atualizações de rotas e tal — é assim que eu sei que seria essa noite. Eu acho que Smith teve uma boa ideia com o telefone. Mas se o assassino a ouvir falando no telefone, ele ainda vai atacar? Eu sinto como se tudo estivesse balançando na ponta da faca. Um movimento imperfeito e tudo pode dar errado; ela vai morrer ou nós vamos perder a oportunidade inteiramente. Não sei o que seria pior. Quem sabe quantas pessoas mais irão morrer se eu não fizer isso? Quando eu saio do meu quarto, minha mãe está batendo as panelas ao redor da cozinha em seu modo clássico de dizer que está brava. Espero que não comigo. — Você está bem, mãe? — eu pergunto da porta da cozinha. Eu respiro rápido quando eu vejo ela se levantando; se levantando em seus próprios pés e se inclinando para pegar uma vasilha que ela teria que estender o braço em sua cadeira de rodas. Minha boca está seca e eu mal posso acreditar nos meus olhos. Eu pisco. E ela está de volta em sua cadeira. Muito rápido para ter se movido de lá. O que acabou de acontecer? Minha mãe olha na minha direção e repousa a frigideira que ela estava batendo. — Acho que sim — ela gesticula vagamente para o hall. — Sierra saiu. — Hoje à noite? — eu pergunto. — O que ela estava pensando? — Minha mãe resmunga e eu fico consternada ao ver lágrimas nervosas correndo pelas suas bochechas. Eu quero contar a ela que ninguém está atrás de Sierra, que vai ser outro adolescente, mas eu não posso. — Vai ficar tudo bem, mãe — eu instantaneamente asseguro a ela, apesar de não ter jeito de dizer a ela porquê. — Ela é inteligente — eu


adiciono, como se isso significasse alguma coisa. — E... tem a idade errada — eu acrescento. — Até agora — minha mãe resmunga. — Mas quem sabe o que esse psicopata vai fazer a seguir? Eu dou um passou hesitante para onde ela está reunindo ingredientes para alguma coisa que eu ainda não reconheço; ela é uma cozinheira furiosa. — Posso ajudar com alguma coisa? — eu ofereço, minha mente gritando para ela dizer não. Ela para e realmente olha para mim pela primeira vez desde que eu entrei. Por um momento, estou com medo de que ela vá dizer que sim, que isso está prestes a virar uma noite de mãe e filha. E que Clara vai morrer por causa disso. Mas ela se vira e alcança a vasilha que ela estava procurando. A mesma que ela estava se inclinando para pegar há alguns minutos atrás. Não, isso não pode ser verdade. Não foi real. Não pode ter sido. — Eu estou bem — minha mãe diz. — Eu só preciso bater alguma massa por um tempo. Se estiver bom para comer quando eu terminar, vamos ter pizza hoje à noite. — Parece ótimo — eu digo, então eu saio da cozinha e tento não produzir nenhum som enquanto eu desço para o corredor. Para a porta de Sierra. Eu olho para os dois lados segurando minha respiração e viro a maçaneta. Trancada. Lágrimas frustradas emergem na superfície e eu tenho que respirar fundo algumas vezes antes de conseguir detê-las. Essa é a primeira vez que eu a vejo sair de casa desde que eu tirei as fotos do livro Reparando o Futuro Fraturado. Eu me pergunto brevemente se eu conseguiria uma chave de fenda para tirar toda a maçaneta. Se Sierra reservou um tempo para dizer à mamãe que ela estava saindo, provavelmente é mais do que correr atrás de um café. Com certeza ela vai ficar fora por pelo menos uma hora. Clara ou o livro? Eu retiro minha mão lentamente. Eu acredito em presságios, anda de mãos dadas com ser um Oráculo. Sierra sair de casa é a oportunidade perfeita para ou invadir seu escritório ou mudar a visão. Mas eu tenho que escolher. O que o universo está tentando me dizer? Eu preciso daquele livro? Se eu deixar Clara morrer essa noite, mas eu tiver recursos para salvar a próxima pessoa, isso vale a pena? Mas e se não tiver nada de útil no resto do texto? E se eu estiver errada? Então uma garota inocente é morta e eu volto para estaca zero. Eu volto para o meu quarto. Hoje à noite eu vou pelo caminho seguro.


Depois de dar uma ouvida rápida no corredor, eu deito de bruços e pego o pingente do seu esconderijo dentro da mola da minha cama. Depois eu sento de pernas cruzadas no chão e me envolvo nos travesseiros. Eu seguro o colar nas minhas mãos e fixo meu olhar nele. Ele cintila com brilhos vermelhos, azuis e roxos e, quando eu continuo encarando, amarelo e laranja aparecem também. Depois eu estou no túnel. Tão fácil que é quase surpreendente. Eu estou convencida de que de algum jeito nós Oráculos devemos fazer esse tipo de coisa. É muito fácil para não ser nosso caminho natural. É como se uma parte de mim tivesse despertado da primeira vez que Smith me mostrou como entrar nas minhas visões e agora estou pronta para cumprir o seu potencial. Mas primeiro Clara. Eu ando para frente e é como escalar uma montanha, mas nem de perto tão difícil como era antes. Enquanto eu me aproximo do local do crime, eu começo a reverter a cena na minha cabeça. A primeira coisa que eu tenho que fazer é descobrir o que Clara Daniels está fazendo sozinha, de noite, no mesmo dia que um assassinato foi descoberto. Eu assisto o mais sem emoção que consigo enquanto o assassinato brutal ocorre em reverso. Eu estava certa sobre a arma; o assassino mascarado empunha o que parece ser um pequeno bastão com uma eficiência doentia e logo nós alcançamos o ponto em que os dois estão vivos. Eu estou aliviada e surpresa quando Clara anda para trás sozinha noite afora alguns segundos depois. Ele realmente apenas a viu e a atacou. Ou ele o fará em algumas horas. Mas o que poderia fazê-la andar sozinha? No escuro. Com um assassino à solta. Eu a sigo, ficando cada vez mais intrigada enquanto ela anda em reverso pela estação de trem, bem no meio do bairro mais sórdido de Coldwater e, em seguida, ao redor de algum condomínio em desenvolvimento. Daí, nós continuamos até um bom bairro de classe média. Eu não sei muito de Clara fora da escola, mas depois da visão, eu achei que ela morasse perto do trem e talvez seus pais não tivessem um carro. Porque aí sim faria sentido ela estar andando por ali. Mas eu a sigo sobre os degraus de uma boa casa de dois andares, a uns bons meio quilômetros de distância do local do crime, e quando eu escorrego pela porta atrás dela, ela tira seu casaco e anda de ré até sentar em um sofá. Agora eu vou ver alguma coisa, eu digo para mim mesma. Uma briga com seus pais, uma mensagem ou ligação estranha. Mas eu não vejo nada. Ela apenas lê. Preocupada com o tempo — quem sabe quanto tempo que vai levar até a minha mãe me chamar para jantar — eu sigo em frente e


deixo a cena rolar. Mas assistir em tempo real não me dá mais respostas do que mais rápido ao reverso. Na verdade, levanta mais questões. Ela está lendo um livro — um romance, nem ao menos um trabalho da escola ou algo assim — e então, muito abruptamente, ela olha para cima, inclina a cabeça para um lado, e levanta do sofá. É a coisa mais estranha que eu já vi. Ela não diz nada. Ela simplesmente veste o seu casaco e sai pela porta da frente. Novamente, caminhamos lado a lado, como se fôssemos amigas em um passeio, por todo o caminho de volta ao túnel. Duas vezes, Clara para e olha para trás pelo caminho que viemos, mas toda vez ela se vira para frente e começa a caminhar novamente. Nós estamos muito perto da estação de trem quando eu percebo que a estive olhando com tanto cuidado que eu quase perdi minha deixa. Eu não sei quem são seus amigos, então enquanto eu caminho ao lado dela, eu digo: — Ligue para sua mãe. Agora mesmo. Pegue o seu celular e ligue para a sua mãe. Seus passos ficam mais lentos e ela parece confusa, mas ela não pega o celular dela. — Ligue para o seu pai então — eu grito. — Ligue para alguém, agora! Ela faz uma pausa nesse momento, e eu quase morro de alívio quando ela alcança o seu bolso e tira o seu telefone. E depois somente o encara. Por que isso é tão difícil? Eu posso andar, eu poderia provavelmente empurrá-la se eu realmente tentasse, mas ela não está seguindo meus comandos. Eu grito instruções passo-a-passo para ela, desejando que ela as siga com todas as fibras do meu ser, até que ela finalmente aperta LIGAR e leva o telefone para o ouvido. Assim que ela o faz, ela continua andando, como se puxada por uma corda invisível. Ela não diz nada e eu meço os passos restantes com meus olhos, esperando que alguém atenda antes que seja tarde demais. Sua cabeça estala em um movimento não natural e ela diz: — Oi pai, eu... eu... — ela pausa e todo o seu rosto se enruga em confusão. — Eu não sei o que eu... E então ele está lá. Eu consigo tirar Clara um pouco para fora do caminho para que o primeiro golpe, que era para ser direto em sua cabeça, seja em seus ombros. Ela deixa escapar um grito agudo de agonia, e culpa estilhaça dentro de mim. Teria sido tão fácil desviá-la. Salvá-la. Mas eu não posso pensar nisso agora. Eu tenho que mantê-la a salvo até que os policiais cheguem. Esse grito foi tão alto que eu tenho certeza de que seu pai está ligando para o 911 agora mesmo. Eu a empurro o mais rápido que eu posso, embora meu esforço colossal leve apenas à pequenas mudanças nos movimentos de Clara. Seus gritos continuam enquanto ela


continua apanhando e apanhando, seus braços, suas pernas, mas eu estou conseguindo proteger sua cabeça. Até que o assassino fica esperto e atinge as duas pernas com um ataque baixo que eu não consigo bloquear. Ele fica em cima dela e mesmo que eu não possa ver seu rosto, eu sei pela risada baixa e doentia que emana da sua garganta que ele deve estar sorrindo. Não! Eu agonizo quando eu vejo ele levantar seu bastão para dar o golpe que certamente vai ser mortal. Eu não posso ter feito tudo isso por nada. Mas eu não posso fazer nada. Eu não posso afetar o mundo fisicamente — Smith disse que não. Mesmo assim, enquanto o bastão desce, eu me jogo sobre o corpo amassado e soluçante de Clara, e levanto minha mão para bloquear o golpe. Ele bate no meu braço com uma força que sacode os meus ombros e irradia até a minha espinha, a dor explodindo dentro de mim. Ele estava errado, eu percebo enquanto o assassino pausa para olhar para o seu bastão confuso. Smith estava errado! Eu posso salvá-la! Eu cubro o corpo de Clara e absorvo o próximo golpe duro, um grito se rasgando de minha garganta enquanto uma dor como eu nunca senti antes se espalha pelas minhas costas devido ao golpe feroz. Mais dois golpes em minhas costas e depois a cena está oscilando. É demais. Eu estou perdendo a força mental para permanecer. Mais uma vez o bastão me atinge, na parte de trás da minha cabeça agora, e nos momentos finais antes de eu perder minha consciência, eu olho para cima e vejo uma figura escura em um casaco familiar correndo em minha direção. Smith, eu percebo. Ele está vindo me salvar. Não, salvá-la. Enquanto a visão se esvai, eu ouço o som mais bonito do mundo inteiro. Sirenes.


Vinte e Dois Traduzido por Nina

E

u solto um gemido no meu próprio quarto. Tudo dói. Espera. Isso não está certo. É um tipo estranho de dor que está lentamente se afastando como as ondas de uma linha costeira. Estou deitada no chão do meu quarto e meu rosto está molhado de lágrimas, mas eu estou aqui. Eu estou fora da visão. Eu fui expulsa porque eu perdi a consciência ou porque eu não conseguia segurar por mais tempo? Eu não estou realmente certa qual razão veio primeiro. A sensação de uma dor profunda no braço me fez sentir o impacto desse primeiro golpe duro e eu o movi com cuidado. Na minha visão, eu tinha certeza de que o assassino implacável tinha quebrado o osso, mas não é o que parece agora, pois consigo movê-lo em linha reta e não faz mal quando eu começo a movê-lo de um lado para outro. O resto das minhas dores estão lentamente desaparecendo também. Como uma dor fantasma. — Foi tudo na minha cabeça — eu sussurro. Eu nunca, nunca senti nada parecido com isso e eu tinha certeza que eu ia morrer com Clara. Mas não morri. Poderia tê-la salvado. Eu não tenho certeza de quão bem eu me saí. Eu estava lá com ela e eu não vi uma única característica distintiva no assassino. Mas as sirenes. As sirenes estavam chegando. Eu me enrolo e puxo meus joelhos no meu peito, tentando processar tudo o que aconteceu. Eu bloqueei seu bastão. E o assassino sabia! Lembrome de forma tão clara, a maneira como ele fez uma pausa, tudo em sua postura indicando surpresa, quando o golpe que visava a cabeça dela bateu em algo, mas não nela. Isso afetou o mundo físico. Isso significa que na próxima vez eu posso arrancar a máscara. É possível que eu possa segurá-lo até a polícia chegar. Talvez ligar pelo telefone em uma denúncia anônima para me certificar de que eles venham. Isso muda tudo. O fato é que eles podem pegar o desgraçado esta noite. Mas se eles não puderem — se ele se safar mais uma vez — então eu posso acabar com isso da próxima vez. Olho para o relógio. Há provavelmente uma hora antes de Clara sair de casa. Parte de mim queria ir se esconder e ver a visão por fora, mas eu não posso. Eu não posso arriscar mudar até mesmo o mais ínfimo pormenor. É melhor ficar aqui.


Espere, eu acho que, procurando na minha memória difusa. Eu vi outra pessoa. — Eu vi Smith! — eu sussurro em voz alta. Eu dou uma risada e balanço a cabeça. Ele disse que confiava em mim, mas é claro que ele não seria capaz de simplesmente deixar que tudo isso acontecesse. Ele é muito maníaco por controle. Eu deveria ter sabido que ele iria verificar tudo. Mesmo que ele não soubesse ainda. Me divertindo por saber algo que ele não sabe, eu pego meu telefone e disco o número dele. — Está feito — eu sussurro, quando ele atende. — Diga-me exatamente o que aconteceu — diz Smith. — Desde o início. — Foi estranho — eu digo, ainda sussurrando. — Segui Clara de volta todo o caminho até a casa dela e não havia nenhum motivo sério para ela sair. Ela estava sentada no sofá lendo e, em seguida, ela se levantou e saiu pela porta. Era como... — Faço uma pausa, odiando a comparação. — Era como o que nós fazemos. Como se alguém estivesse falando com ela em sua cabeça e dizendo-lhe para ir, e então ela o fez. Por algumas vezes ela até parou e olhou para trás e parecia muito confusa, mas ela continuou. — Charlotte? Tem certeza de que não há outros Oráculos em Coldwater? Ou em qualquer lugar perto de Coldwater? — Não há. Eu perguntei a minha tia há algumas semanas atrás. O radar de Delphi segue tudo tão de perto, é quase impossível para alguém passar despercebido. — E quanto a sua tia? Eu bufo. — Oh, por favor. — Não é incomum para os Oráculos ficar louco depois de lutar a vida inteira. A bisavó de Shelby ficou totalmente insana quando ela completou setenta anos e, eventualmente, as Irmãs... elas a colocaram em nocaute por falta de um termo mais amigável. Porque ela estava machucando pessoas. — Isso não é engraçado, Smith. — Não, não é — ele responde. — Mas o que você descreveu parece outro Oráculo guiando alguém. — Eu não estou dizendo que não pode ter outro Oráculo envolvido. Eu só estou dizendo que não é a minha tia. Talvez haja alguém fora do radar de Delphi. Ou não é daqui. Você já pensou nisso? — Onde está a sua tia? — Smith pergunta suavemente. Eu me recuso a admitir a ele que ela não está aqui. Afinal de contas, se ela estivesse fazendo algo, o que é uma ideia completa e absolutamente ridícula, ela poderia fazê-lo a partir de seu quarto. — Eu tenho mais para te contar. Clara caminhou para o túnel nas linhas do trem e eu fiz ela ligar para o pai dela e ele atendeu logo antes que o assassino atacasse. Foi perfeito! — Excelente — diz Smith. — Então o quê?


— Ele bateu nela com um bastão e eu fiquei empurrando ela ao redor, tentando evitar. Mas ele era muito forte e ele tinha os pés firmes debaixo dela e ele ergueu o bastão para acabar com ela e eu o parei! — O que você quer dizer com você o parou? — Eu estendi a minha mão e ele me bateu no lugar dela. Isso o afetou fisicamente, Smith! — Você conseguiu salvá-la? — Você está ouvindo? — eu prossigo. — Eu fiz o que você disse que eu não podia fazer. Isso muda tudo! — Você conseguiu salvá-la? — Eu... eu não sei ao certo. Eu acho que sim — eu digo baixinho. — Eu ouvi sirenes. — Você ouviu? — Pouco antes de eu apagar. Eu tenho certeza que é isso que me empurrou para fora da visão. Eu estava deitada e depois eu perdi a consciência, mas eu... — A culpa me encheu. — Eu realmente não sei. — Você viu alguma coisa? — Smith pressiona. — Qualquer outra coisa que poderia ser útil? Eu penso em vê-lo correndo na cena. Devo dizer a ele? Talvez eu não deveria. Eu não quero fazê-lo mudar o futuro, ao decidir não ir e então arruinar tudo o que eu trabalhei. — Não, nada mais. — Eu posso praticamente ouvir seus pensamentos agora. Ela não tem certeza que ela a salvou — então é eu melhor ir olhar tudo para ter certeza. A verdade é que há uma chance de que Smith no último momento possa salvá-la. Então eu não digo a ele. Esta é uma coisa que eu vou simplesmente deixar de fora. — Eu sei que ela... — eu digo, quando o silêncio fica pesado. — Ela estava em quatro das minhas aulas no último semestre. — Vocês são amigas? — Smith pergunta, parecendo confuso com o que eu estou lhe dizendo. — Não, não realmente. Mas se eu... se eu não fosse, você sabe, eu, eu acho que seríamos. É algo que eu tenho pensado muito, uma vez que continuamos tendo aulas juntas. Nós gostamos das mesmas coisas, nós duas somos juniores avançadas, eu acho que nós duas nos daríamos muito bem. — Há algum propósito nisso? Eu hesito, não tenho certeza que estou pronta para expressar algo que está me incomodando desde que eu vi pela primeira vez o rosto de Clara na visão. — Eu conheço todas essas vítimas. Bem, Bethany eu mal conhecia, mas diferente disso, todas elas desempenharam um papel na minha vida. E isso não é pouca coisa já que eu não tenho muito uma vida social. — Charlotte — diz Smith, e seu tom paternalista me faz cerrar os punhos. — Você frequenta uma pequena escola secundária. É claro que você conhece todo mundo. — Não é tão pequena — eu digo na defensiva.


— Eu não tenho tempo para teorias malucas — diz Smith, e eu posso ouvir os nervos em sua voz. Meu papel está terminado; ele ainda está decidindo se ele deve interpretar o seu. — Nós apenas temos que esperar e ver o que acontece — ele finalmente diz. — É. — Eu olho de volta para o meu relógio e vejo que só se passaram três minutos. — Vai ser uma longa noite contando os minutos — eu digo, tanto para mim como para ele. — Eu acho que nós conversamos amanhã. — Tudo bem — eu digo, empurrando para os meus pés o amontoado de roupas de cama totalmente desarrumada enquanto eu revisitava minha visão. — E Smith... — eu acrescento, pouco antes de desligar. — Está frio lá fora hoje à noite. Eu passei as próximas horas lutando contra o desejo de ir para a estação de trem, mas mesmo se eu pudesse sair da casa sem que ninguém percebesse, eu estou com medo de que qualquer pequena mudança possa apagar o que eu fiz. Considero brevemente tentar invadir o quarto de Sierra, mas ela já se foi por mais de uma hora — eu não posso arriscar. Está me matando ter o livro há somente três metros de distância e ainda assim, completamente inacessível. Mas ele não pode ajudar Clara agora. Além disso, há uma boa chance de que eles vão pegar o assassino esta noite e, em seguida, eu não preciso me apressar. Eu vou ser capaz de esperar até que ela deixe sua porta destrancada novamente. Finalmente eu entro e me sento no escritório da minha mãe. Ela está atolada de trabalho por causa de todo o drama, então ela só me dá um sorriso e continua a trabalhar. Tenho uma breve conversa por SMS de meia hora de duração com Linden, mas isso parece tão vazio em relação a passar o tempo com ele em pessoa, e quando eu finalmente digo boa noite para ele, eu não estou mais calma do que eu estivesse antes. Eu penso em Clara. E em Eddie, Jesse, Matthew e Nicole. Eu não me importo com o que Smith diz; eu acho que é estranho que eles são todos pessoas presentes na minha vida. Bethany rompe o padrão... mas desde então? É estranho. Quem me conheceria bem o suficiente para conhecer as pessoas que significam algo para mim ou poderiam significar algo para mim? Eu tinha praticamente esquecido de cerca de metade deles. Mas alguém se lembrava. Quão louca essa teoria é, realmente? Às oito e meia eu sei que o ataque já passou e eu continuo olhando para minha mãe enquanto ela assiste a um programa de TV, esperando chegar a notícia que relate algo. Quer dizer, se eu salvei Clara, seria porque a polícia chegou. E eles iriam passar isso no jornal, certo? Quando a porta se abre, eu estou tão nervosa que quase quero gritar, mas é apenas Sierra. Eu olho para ela e odeio observar o tempo e perceber que Sierra poderia facilmente ter ido na estação de trem. — Onde você estava? — eu pergunto


antes que ela possa me parar. Eu só quero ouvir a sua resposta. Isso é tudo. Eu não estou realmente colocando-a como suspeita. Eu não estou. — Eu saí — diz ela, sem dar mais detalhes. — Eu tenho que dizer — ela diz, enquanto ela desliza para fora do casaco, — está muito frio lá fora hoje à noite. As mesmas palavras que eu disse para Smith. Coincidência? Como poderia ser? A menos que eu realmente achasse que ela está... o quê? Me espionando? E ainda assim eu me pergunto. Eu odeio que Smith tenha plantado esta semente de dúvida, mas ele está certo sobre uma coisa: parece haver outro Oráculo envolvido que está obrigando as vítimas a ir encontrar o assassino. E não que eu acabei de perguntar a mim mesma, mas quem poderia me conhecer o bastante para estar ciente de quem fez parte do meu passado? A notícia finalmente é relatada no jornal cerca de uma hora mais tarde. Eu sinto uma estranha mistura de decepção e antecipação enquanto escuto dizer que o assassino fugiu, mas só depois de uma longa perseguição, durante a qual ele deixou cair o bastão. Os federais estão por todo o lugar e seu porta-voz está falando sobre vestígios de provas da cena, teste de DNA e outras coisas. Onde estava Smith? Talvez ele acabou não indo depois de tudo. Talvez eu parecesse muito confiante durante a nossa conversa por telefone e ele mudou de ideia. Mas essa não é a parte que eu estou mais preocupada. A condição de Clara é crítica. A julgar pelo relato do médico que eu apenas consigo parcialmente compreender, eu suspeito que o assassino deu mais de uma boa batida na cabeça dela. Ela está em cirurgia agora e eu não gosto do tom do porta-voz do hospital quando questionado sobre suas chances de sobrevivência. Ele diz apenas que ainda é muito cedo para especular. Seus pais não estão no local. Obviamente, eles estão com Clara no Hospital — mas, de resto, as coisas correram exatamente como eu imaginei que seria. Seu pai recebeu uma ligação, ouviu gritos e chamou a polícia. Eles foram capazes de rastrear o telefone de Clara, porque ele ainda estava ligado, e chegaram justo depois que eu perdi a consciência. Dez segundos atrasados demais. Eles colocam uma reportagem de seu pai repetindo uma e outra vez que ele não tinha ideia de por que sua filha iria sair de casa. Que ele estava no andar de cima e não ouviu ela saindo pela porta. Mais uma foto pisca na tela, os pais de Clara chorando e segurando um ao outro como apoio, e meu estômago se sente mal com culpa. Eu poderia tê-la salvo. Mesmo que eu não pudesse tê-la impedido de sair de casa, eu poderia ter tentando impedir que ela seguisse para o túnel. Eu fiz a coisa certa? Ou eu tornei tudo pior?


Se o assassino tivesse sido pego, eu teria me confortado com o velho jargão: os fins justificam os meios. Mas, e neste caso? Será que a evidência que o assassino deixou para trás seria o suficiente? E se ela morrer? Eu tremo um pouco enquanto eu me lembro da sensação desses golpes caindo sobre mim. Clara levou mais deles do que eu levei. Quanto tempo eu levaria para me recuperar se tivesse sido o meu corpo físico? Mesmo se ela acordar, ela vai ter a memória da experiência desse pesadelo para assombrála para o resto de sua vida. Encaro a televisão enquanto o repórter repete tudo de novo. Parecia muito mais simples quando Smith e eu traçamos o plano. Imaginei que Clara iria se machucar pouco — como um osso quebrado ou dois. Que ela seria aclamada como uma heroína ainda mais do que Nicole foi. Isso teria feito valer a pena. Mas agora? Eu pensei que o cenário de pior caso seria a morte. Talvez não seja; talvez seja isso. Pela primeira vez desde que tudo isso começou, eu duvido de tudo o que Smith e eu tínhamos feito. Gostaria de saber o quanto estragamos tudo. Eu pensei que este era o meu propósito: o meu destino. Talvez seja apenas a minha derrocada.


Vinte e Três Traduzido por Nina

E

u me tornei uma prisioneira na minha própria casa. Mesmo quando a minha mãe me deixa ir até a loja com ela — em plena luz do dia, é claro, os menores têm um toque de recolher em toda a cidade agora — eu não estou autorizada a sair da sua vista. Todo lugar que eu olho eu vejo policiais. Eles trouxeram algum tipo de reforço policial de outras cidades nos arredores e tenho certeza que cada equipe espera ser eles quem vão pegar o assassino. Não simplesmente para receber elogios, mas porque todo mundo realmente quer acabar com esse pesadelo. E isso é o que é: um pesadelo vivo. Sem Linden. Nós mandamos muitas mensagens de texto um ao outro, mas eu não tinha que viver com uma tonelada de mensagens de texto antes e eu não sou boa nisso. Eu não entendo as abreviaturas, e Linden gasta metade de nossas conversas explicando. Nós falamos por telefone também. Geralmente uma vez por dia, e isso é melhor... mas não é o mesmo. Eu quero ser capaz de sentir as suas mãos, a sua pele. Ver o seu sorriso fácil, que faz todas as minhas preocupações sumirem. É estranho sentir falta de alguém que vive a apenas alguns quilômetros de distância, que quer te ver tanto quanto você quer ir vê-lo. Este é o meu terceiro dia sem uma visão. Mesmo antes de tudo isso começar, parece um longo tempo. Smith diz que é porque o assassino tem que ser cuidadoso. Não só com os policiais extras em torno, mas porque agora os federais têm provas contra ele. Eu não sei por que deveria parar de ter visões de coisas comuns. A falta de visão é um pouco desconcertante em face de todo o resto. — Talvez ele saia da cidade — sugeri ontem para Smith. — Eu duvido — disse Smith. — Ele vai ver isso como um desafio. Baseado no DNA do bastão que correspondia com dois minúsculos fios de cabelo do casaco de Clara, os policiais confirmaram que o assassino é um homem. Eu soltei um pequeno suspiro de alívio quando isso aconteceu e queria jogar insinuações ridículas para Smith sobre Sierra o resto do tempo. Mas o olhar vago no rosto de Clara quando ela se levantou e saiu de casa ainda me assombra. Porque parecia com o rosto de Jesse quando eu o empurrei de volta para sua casa, e o rosto de Nicole quando ela saiu para ir à casa de sua amiga. Só porque uma mulher não está empunhando a arma não significa que ela não possa ser cúmplice. Eu odeio ter que considerá-la suspeita, mas é verdade.


Não precisa ser Sierra. Eu me recuso a acreditar que é Sierra, mas de alguma forma, não tem como não ter um Oráculo envolvido. Sierra não sai de casa desde aquela noite. Nenhuma oportunidade para tentar conseguir olhar o livro. Durante as últimas três noites, eu consegui entrar no plano sobrenatural, mas é mais difícil de se concentrar quando estou dormindo profundamente, nas imagens eu só vejo Linden e às vezes consigo desviar para a observação de outras pessoas. É mais como uma combinação de novelas e eu escolhendo a minha própria aventura do que um reino sobrenatural. Eu sempre tento pegar um vislumbre do assassino, mas assim como da primeira vez, seu rosto me escapa como se ele tivesse uma mente própria. A porta ainda está lá. Eu não tentei alcançá-la novamente. Quando estou dormindo profundamente, eu não consigo ter a concentração de exercer qualquer tarefa por muito tempo. Talvez eu consiga chegar à porta esta noite. Isso me incomoda. Parece que ela não pertence àquele lugar. Mas então, o que eu sei? Eu percorri um pouco do texto do livro procurando a menção de uma porta, mas não há nada. Eu estou perdida em meus pensamentos, me arrastando ao lado da minha mãe até o balcão de alimentos do mercado e empurrando o carrinho quando eu escuto o meu nome. — Charlotte, espera! Sou quase atropelada por Linden me puxando para um abraço violento. Eu jogo meus braços em torno dele. Eu estou tão feliz de vê-lo. Cara-a-cara. Segurando-o, peito a peito. Ouvindo o seu batimento cardíaco declarando vida. — Eu senti tanto a sua falta — ele sussurra em meu ouvido, me apertando até doer e eu não me importo. É tão bom fugir de tudo para os braços de Linden por alguns segundos. Eu ouço a minha mãe limpar a garganta, mas não posso deixar Linden ir ainda. Ele representa mais do que beijos suaves e formigamentos de pele. Ele é a personificação de tudo o que nossas vidas não são mais. E a esperança de que um dia elas podem ser normais de novo. Eu finalmente consigo fazer Linden me soltar. Dou-lhe um sorriso radiante. — Estou tão, tão feliz em vê-lo. — Eu também — ele sussurra, e aperta minha mão. — Linden, esta é a minha mãe — eu digo, fazendo um gesto para ela. — Sra. Westing — diz Linden, com um toque de formalidade, e estou aliviada por ele não tentar falar em voz alta para ela, ou fazer algo como se inclinar para baixo para chegar em sua altura, como você costuma fazer com uma criança pequena. Mamãe detesta isso. Ele só estende a mão. Ainda mais razões para adorá-lo. — É bom finalmente conhecê-lo, Linden — ela diz, e o sorriso que paira em torno de sua boca me diz que ela aprova a pessoa que Linden se


tornou. Muito mais bonito do que aos doze anos de idade, quando eu costumava apontá-lo durante programas de música da escola quando estávamos no fundamental. — Eu sei que isto é meio que uma necessidade no momento — Linden diz, ainda abordando a minha mãe, — mas meus pais contrataram para mim um segurança pessoal. — Ele faz uma pausa para coçar as costas de seu pescoço demonstrando o quanto ele está envergonhado e, em seguida, faz gestos para um cara em um uniforme azul claro. Eu me forço a segurar uma risada, porque, realmente, é engraçado, mas eu entendo por que ele está envergonhado. — E eu me perguntava se a senhora se importaria se eu... bem, fosse na sua casa. Eu iria mandar uma mensagem de texto mais tarde perguntando de qualquer maneira — ele continua, — mas encontrar com vocês duas é... — Seu rosto irrompeu em um grande e amplo sorriso e ele jogou um braço em volta dos meus ombros. — É mais do que sorte. — Isso seria ótimo — diz a minha mãe. — Eu espero que você entenda por que eu não posso deixar Charlotte ir para a sua casa. Ele balançou a cabeça. — Eu entendo. E está tudo bem. Então ele me lança um olhar tão latente que, se fosse possível, literalmente, eu me derreteria em uma poça bem ali no meio do supermercado. — Além disso — ele diz, quebrando o nosso contato com os olhos para olhar para a minha mãe de novo, — meu guarda-costas vai me levar para a sua casa e, em seguida, ficar na frente o tempo todo, então você e Charlotte estarão mais seguras também. — Sim, sim — minha mãe diz alegremente, mas com um toque de melancolia que eu sei que se deve ao fato de aceitar essa situação. — Talvez amanhã? — ele diz. — Eu conheço um ótimo restaurante italiano e eu posso trazer a comida para viagem. — Ele olhou para mim de novo, com uma sobrancelha levantada. — E, em seguida, que tal assistirmos um filme? — — Parece perfeito — eu disse, sentindo-me melhor do que eu jamais me senti desde o ataque de Clara. Nós conversamos um pouco mais, e então Linden diz que vai deixar-nos para as nossas compras. Ele hesita por um segundo e seus olhos encaram a minha mãe, e então, antes que ele se afaste, ele me dá um beijo rápido nos lábios, na frente de todos. De. Mais! Estou completamente envergonhada quando eu viro e o observo caminhando todo o caminho até ele desaparecer de vista, parecendo levar um pouco da luz do dia com ele. — Bem, Charlotte — minha mãe diz, e eu olho de volta para ela, depois de ter quase esquecido por um momento que ela estava lá. Ela me dá um leve tapa no braço. — Você escolheu bem — ela diz com um sorriso cheio de energia.

***


Essa é a noite em que eu vou chegar à porta. Eu a vejo assim que eu encaro o piso reflexivo. Eu começo a correr, mas parece ficar cada vez mais longe de mim quanto mais rápido eu corro. Então eu paro e começo a andar, mantendo um ritmo constante. Isso mudou, eu percebo, conforme me aproximo naquele mesmo tipo estranho de resultado onde eu dou dois passos para frente e pareço voltar um atrás. Quando eu vi pela primeira vez, era uma porta com acabamento precário, mas sólida feita de vigas longas, grossas, de madeira pesada. Ultimamente tem havido janelas. Duas noites atrás, uma janela, e ontem à noite haviam duas. Agora a porta é preenchida com quatro janelas longas e finas de vidro que cobrem quase toda a superfície. Eu estou a um metro de distância, quando eu inclino para a frente e miro para a maçaneta da porta. Isso faz a porta se afastar e amplia a distância. Então eu espero e caminho, e logo eu estou tão perto novamente que eu quase posso tocá-la. Eu não paro de andar, mas eu levanto minha mão e, lentamente, estendo para a maçaneta da porta. Somente quando os meus dedos são envolvidos em toda a volta da maçaneta que eu finalmente a seguro. E a porta para, como se ancorada pelo contato com a minha mão. Uma coisa eu sei com certeza; eu não vou soltar a maçaneta. Eu giro a maçaneta e ela está trancada. Eu deveria ter imaginado isso. Mas essas janelas. Dou um passo mais perto da porta e através dos painéis de vidro chanfrado. Do outro lado há uma sala semelhante à minha, abobadada, mas infinitamente menor que a minha. Para não falar mais escura. Há um punhado de cenas expressas no teto, mas eu não posso enxergar qualquer detalhe a partir daqui. Uma estranha energia pulsa ao redor da porta, quase como vibrações de música alta e eu não tenho ideia do que isso significa. Eu vejo uma agitação de movimento por trás do vidro levemente ondulado. Tem alguém aí? Outra pessoa no meu plano sobrenatural? Isso não faz sentido. Mas alguém trancou a porta. Eu bato na superfície áspera da porta e o que se movimentou recua até que eu não posso vê-lo mais. — Ei! — eu grito. Este é o meu mundo; pelo menos eu deveria ser capaz de controlar as pessoas ao redor. Em um esforço para convencer quem está lá para voltar, eu levanto as duas mãos para bater ainda mais forte, mas logo a minha pele perde o contato com a maçaneta da porta, e a porta desliza, se afastando. — Droga! — eu grito. Eu fico olhando para a porta, querendo saber se eu posso alcançá-la em um tempo menor, se eu começar a andar agora. Mas antes que eu possa tomar uma decisão, a cúpula em torno de mim escurece. Não completamente. Apenas o suficiente para eu perceber. Há um brilhante quadrado no alto, e sem foco ou esforço da minha parte, ele rola


para baixo da parede esférica e chega mais perto, até que fica bem na minha frente, me convidando para entrar. — Linden — eu arfo, e entro na cena, esquecendo-me da porta. Amanhã eu entrarei na porta, eu penso. Linden está andando em minha casa, com um sorriso no rosto, trazendo caixinhas em seus braços, e pedaços de neve caindo em seu cabelo. Enquanto mamãe aparece e se oferece para ajudar com alguma coisa, eu me vejo deslizar minha mão na sua, entrelaçando nossos dedos. Eu olho para aqueles dedos, desejando estar vivendo a cena, não apenas assistindo. Desejando e querendo com tanta força que eu começo a sentir o calor contra minha palma. E então eu olho nos olhos de Linden enquanto ele aperta minha mão. Ele lidera o caminho para a cozinha, deixando-me ali com o ar frio do lado de fora, soprando flocos de neve. Eu estou na cena. Vivendo meu próprio papel. Eu levanto uma mão hesitante para empurrar a porta e fico um pouco surpresa quando ela se move. Um sorriso enche meu rosto. A única coisa melhor do que um encontro perfeito é poder vivê-lo duas vezes. Sem outro pensamento, eu me jogo totalmente na cena, desesperada para me divertir por uma vez. Eu mal posso acreditar que isso não é real enquanto eu degusto um bocado amanteigado de molho em minha boca, mordendo uma crosta crocante de pão, provando o tom amargo do expresso no tiramisu. Não há nada que não pareça real na refeição e o filme então começa. Não que Linden ou eu estejamos vendo muito do filme. Essa é a beleza de um mundo de sonho. Posso fazer a cena sutilmente conforme meus caprichos. É claro que eu escolho a opção com mais beijos. Que mal pode fazer? Eu sei que amanhã, quando na realidade estivermos na minha casa, no meu sofá, com a minha mãe no mesmo ambiente, eu não vou ser ousada o suficiente para fazer todas as coisas que eu posso fazer no meu sonho, então hoje eu me deleito com ele. — São os meus pais — diz Linden, quando seu telefone apita uma mensagem de texto. — Hora do Sr. Guarda-Costas me levar para casa. — Ele me puxa para perto e coloca seus lábios contra meu pescoço. — Eu prefiro ficar aqui. — Ele me beija de novo, longo e persistente, antes de se levantar. — Eu vou acompanha-lo até o carro — eu digo. — Não — diz Linden, tão rapidamente que me assusta. — O cara vai vir até a porta — ele diz. Eu me viro muito solenemente. — Você está com medo? — eu pergunto, sabendo que eu nunca teria coragem de perguntar algo tão pessoal na vida real. Ele fica quieto por um segundo e vejo os músculos do seu rosto se apertando. Faz com que ele pareça mais jovem. — Por você? Sim. — Por você mesmo? — eu pressiono.


— Às vezes — ele diz. Ele se vira e corre as pontas dos dedos no lado do meu rosto. — Mas eu passaria qualquer perigo para vê-la. — Ele se endireita e abre a porta, deixando-me sem um beijo. Mas sua confissão parece de alguma forma ainda mais íntima do que um beijo e uma pequena parte oca de mim lamenta que não seja real. Quando a porta se fecha atrás dele, meus olhos se abrem para a luz solar do meu quarto através das minhas cortinas semi-abertas e eu suspiro sonhadora.


Vinte e Quatro Traduzido por Vivian Nantes

A

vida real me acerta no meio da cara assim que eu saio do meu quarto. A porta de Sierra está fechada, mas a minha mãe está trabalhando no escritório com sua pequena televisão ligada. Mais sobre Clara. Já faz quatro dias e agora os médicos ainda não podem dar uma resposta sólida sobre se ela vai ou não viver até amanhã, muito menos os próximos cinquenta anos. Seus pais conseguiram sair do quarto dela e fazer declarações breves e cada canal só mostra mais e mais esses clipes. Agradecendo as pessoas pelo seu apoio, um pedido para encontrarem o monstro que fez isso com sua filha. Eu sou esse monstro, pelo menos em parte? Eu tentei protegê-la do ataque o tanto quanto foi possível, mas eu sei que eu poderia ter feito mais. Mas então, qual teria sido o custo? Outra matança que eu não teria conseguido uma visão, como a de Eddie? E se eu tivesse ignorado a visão totalmente? Clara estaria morta. Mas eu odeio que eu tomei essa decisão por ela. Eu não tenho certeza se posso sobreviver a mais um dia enfiada em casa com a televisão constantemente me lembrando do que eu fiz. De que adianta ter poder sobre o futuro, quando a tragédia está no passado? Eu desejo que eu possa voltar para a cama e dormir o dia inteiro, mas mesmo eu consigo dormir até um certo tempo. Eu me viro para passar as horas jogando o meu novo jogo Lua Cheia, tentando reler meu livro favorito, e tirando um cochilo. É a primeira vez na minha vida em que eu gostaria de ter trabalhos de casa. Eu estou pensando em fazer as lições do meu livro de trigonometria apenas para anestesiar meu cérebro. Finalmente, é hora de Linden chegar e eu fico nervosa, esperando que eu não tenha arruinado as coisas só por viver em uma versão do que esta noite poderia ter sido. Eu me repreendo por ser boba, a vida real é sempre melhor do que os sonhos; é como os livros e filmes. Mas, mesmo assim, eu escolho a roupa diferente do que eu estava usando no plano sobrenatural na noite passada. Só para provar que eu posso. A sensação de déjà vu estranha não me incomoda quando Linden entra com exatamente a mesma comida que ele trouxa na noite passada, e, especialmente, não quando ele é tão bom na vida real. Minha tia se junta a nós e eu faço as apresentações.


Isso é uma mudança. Eram apenas nós três no meu sonho noite passada. Eu tento não ler qualquer significado nisso, mas eu não posso evitar me perguntar se ela está me observando. Se de alguma forma ela estava me observando na noite passada. Eu não sei como isso seria possível. Mas eu estou começando a questionar cada pequena coisa. Sierra fica em silêncio em uma das extremidades da mesa, enquanto Linden mantém todos nós alegres com novas piadas e histórias que todas nós ainda não ouvimos várias vezes. Eu nunca tinha considerado que a vida de três pessoas solteiras todas presas vivendo juntas poderia ser um pouco, bem, chato, mas depois da luz e energia que Linden trouxeram para a nossa mesa esta noite, gostaria de saber o que vai custar para fazer a casa não parecer vazia. Assim que a comida se foi, Sierra pede desculpas com um murmúrio e um sorriso rápido, e minha mãe pega uma pasta do trabalho. Com um olhar significativo em minha direção, ela declara que vai se acomodar em seu escritório, em vez de se juntar a nós para o filme. Sem supervisão de um adulto, há uma chance de que a realidade de hoje à noite possa chegar perto da emoção do sonho da noite anterior. Perto. Certamente eu não sou tão corajosa como eu era ontem à noite em minha própria cabeça. Passamos por minha coleção de DVDs, debatendo os méritos deste filme ou daquele, mas os olhares que trocamos me fazem ter certeza que nenhum de nós vai realmente ver muito de qual seja nossa escolha. Nós nos acomodamos com A Princesa Prometida — nada como um clássico — e procedemos a ficar ocupados não assistindo ao filme. — Eu senti tanto sua falta — diz Linden, a ponta de seu nariz correndo ao longo da borda da minha orelha e enviando um arrepio enorme de prazer na minha espinha. — Você deve estar ficando louca enfiada aqui o dia todo, todos os dias. — Praticamente — eu sussurro de volta tentando parecer calma. Provavelmente pela centésima vez, fico maravilhada com o quão estranho é que as melhores e piores coisas que já aconteceram na minha vida estão acontecendo simultaneamente. Mas hoje eu empurro tudo de lado e apenas deixo-me estar com Linden. Amando a sensação de suas mãos enquanto elas exploram meu corpo e o sussurro de seus lábios na minha pele, no meu cabelo, e, claro, nos meus lábios. Apesar da vida sobrenatural que eu vivo, e o isolamento que eu sei que está esperando por mim no futuro, essa experiência é tão nova e fresca, que eu me sinto como uma garotinha. O filme está quase no fim e os meus nervos estão profundamente exaustos, embora de uma forma agradável, quando um barulhinho chama nossa atenção. Linden puxa seu telefone e a tela ilumina seu rosto na escuridão.


— São meus pais — Linden diz. — Hora do Sr. Guarda-Costas me levar para casa. — Os sinos de alarme começam a soar muito suavemente na parte de trás da minha cabeça enquanto ele aninha seus lábios contra meu pescoço. — Eu prefiro ficar aqui. — Seus lábios encontram os meus, mas eu mal posso responder enquanto ele me beija. Quer dizer, eu sabia que a cena que eu estava na noite passada é um futuro possível, e é parecido com esta noite. Mas o diálogo palavra-por-palavra é um pouco desconcertante. Eu rio por dentro da minha paranoia. Não tem que ser assim. Foi apenas um sonho de visão, e eu não tenho que fazer o meu papel. Então eu tento não falar, para manter minha boca fechada, mas as palavras saem de qualquer maneira. — Eu vou levá-lo até o carro. Espera. Não. Isso não está certo. Eu ainda deveria ter uma escolha. — Não — diz Linden, assim como na noite passada. — O cara vai vir até a porta. Eu não quero você exposta a nenhum perigo nem por um segundo. Eu olho para o rosto dele e de novo eu luto para manter minha boca fechada. Eu não preciso lhe perguntar isso. Eu não preciso. — Você está com medo? O que há de errado comigo? A hesitação — a flexão de seus músculos faciais. Elas me fazem querer chorar. — Por você? Sim. — Da onde é que essas palavras vêm? São dele e eu simplesmente as ouvi antes do tempo ontem à noite, ou eu fiz isso acontecer? — Por você? — Às vezes — ele diz. E antes que seus dedos façam contato com meu rosto, eu já estou familiarizada com o sentimento. — Mas eu arriscaria um monte de perigo para ver você. Eu fico na porta e vejo o guarda-costas escoltá-lo até o carro. Ele faz uma pausa antes de deslizar em seu assento e eu sei que ele está me esperando para fechar a porta da frente. Ele não vai sair até que eu faça isso. Fiz todas essas escolhas na noite passada. Eu decidi que caminho seguir. Então, é a minha escolha quando eu ando para trás e fecho a porta, ou eu ditei meu próprio futuro em meus sonhos na noite passada? O cenário era diferente. Eu não era uma terceira pessoa como eu fui todas as outras vezes. Eu estava me jogando na cúpula. Isso muda as coisas? E a maneira que eu fui para a cena em primeiro lugar, a forma como ela foi acontecendo sem meu desejo. Será que eu fiz isso? Será que outro alguém fez isso? E se fosse só eu, tudo o que Linden disse e fez esta noite é uma mentira? Eu marcho pelo corredor, quase esquecendo que minha mãe ainda está acordada. Ela vira a cadeira ao redor com um sorriso. — E então? — ela pergunta. Eu tenho que sorrir para ela. Eu tenho que fazer as bordas da minha boca irem para cima mesmo que eu sinta como se meu mundo estivesse


desmoronando em minhas mãos. — Eu acho que eu o amo — eu digo, chocada comigo mesma quando as palavras saem. Eu gostaria de poder leválas de volta. Que diabos minha mãe vai achar disso? Mesmo que ela saiba sobre a minha “paixonite”, ela não entende os anos de desejo, de querer, de saber que eu nunca o teria. Apenas para tê-lo no final de tudo. E não sei se é real. A festa de Natal, eu digo a mim mesma. Isso foi antes de eu descobrir sobre a minha segunda visão. Eu não poderia ter feito isso acontecer. Mamãe simplesmente sorri para a minha declaração e diz: — Você está brincando? Estou meio apaixonada por ele eu mesma. Eu rio, mas por dentro eu quero chorar, especialmente quando ela pega a minha mão e a aperta. — Já era hora de você ter alguém em sua vida. E Deus sabe que podemos usar um pouco de felicidade agora. Isso pode ser verdade, mas alguns de nós merecem isso mais do que outros. Eu estou virando para sair quando a minha mãe acrescenta: — Os médicos estão dizendo que a condição de Clara passou para estável, mas que, se ela não acordar logo, ela provavelmente não vai. Eu saio de seu escritório, lenta e silenciosamente, no caso de que ela me ouça e decida dizer outra coisa. Eu não posso lidar com mais esta noite. No meu quarto, eu coloco calças de ioga elásticas e uma antiga e desbotada camiseta, e entro debaixo do meu edredom. Quando eu acordei esta manhã, eu não pensei muito sobre o fato de que eu tinha me colocado realmente em cena com Linden no plano sobrenatural. Será que isso faz alguma diferença? Será que eu dito meu próprio futuro, porque eu me coloco na cena? Ou eu simplesmente vivo o que ia acontecer de qualquer maneira? Mas era tão exato! Claro, eu era capaz de usar uma roupa diferente, e Linden disse de antemão que ele estaria trazendo comida italiana. E havia outras diferenças. Mais notavelmente, Sierra se juntou a nós. Mas aquela conversa. Não só foi palavra por palavra, eu me senti como se eu não pudesse deixar de dizer as palavras. Era como uma estranha compulsão. Foi assim que Smith sempre descreveu o que fazemos em minhas visões. Havia um Oráculo usando seus poderes em mim, de alguma forma. Mas era outra pessoa, ou era apenas eu? Uma pequena centelha de uma ideia começa a brilhar dentro da minha mente. Se eu posso me colocar em um cenário de sonho e torná-lo realidade, eu não deveria ser capaz de me colocar em uma visão real? Uma que eu sei que vai acontecer? Eu não acho que eu possa simplesmente criar um cenário no meu plano sobrenatural que me faça revelar o assassino, até mesmo a cúpula só mantém futuros possíveis a partir desse momento. Eu não acho que eu possa inventar um futuro a partir do nada. Mas se eu conseguir uma visão do próximo


assassinato e tomar o lugar da vítima nele, posso dobrar o futuro para a minha vontade. Não posso? Eu cavo o pingente de debaixo da minha cama e o enrolo em torno do meu pescoço com a pedra agarrada no meu punho. Eu tenho que praticar colocando-me em meus cenários de sonho esta noite. Porque se eu posso me colocar em uma visão de sonho, com certeza eu posso me colocar em uma visão do futuro. E isso é fundamental para o meu plano. Um plano que só vai funcionar se eu puder fazer as duas coisas que eu acho que eu posso, as duas coisas que Smith me disse que eu não podia: afetar o mundo físico enquanto estou em uma previsão, e mudar o futuro enquanto sonho em meu plano sobrenatural. O que me pergunto é: Smith realmente não sabia, ou ele estava mentindo esse tempo todo?


Vinte e Cinco Traduzido por Nina

E

u acordo na manhã seguinte de um sono sem sonhos. Não, isso é errado, eu estava meio grogue enquanto eu tentava sacudir as teias de aranha dos meus pensamentos. Eu deveria ter ido para a minha segunda visão ontem à noite; eu estava usando o colar. Eu precisava praticar! Minhas mãos voam para o pingente — talvez ele caiu. Mas não, ele ainda está lá. Em volta do meu pescoço. Por que está molhado? Eu olho para baixo e um grito com toda força. Estou coberta de sangue. Tanto sangue, mas não um vermelho berrante, e sim um marrom profundo. Há poças no meu colo, na minha cama e se espalhando por todos os lençóis. Eu me esforço por ar quando a minha mão toca algo frio e minhas mãos sentem o punho de uma faca. A lâmina está endurecida com sangue que já estava seco. Arremessando a faca longe de mim, eu pulo da cama para o chão, onde a minha mão direita deixa uma marca de mão vermelha perfeitamente desenhada no tapete bege. — Charlotte! Você está bem? — eu escuto a voz da minha mãe do fundo do corredor e os passos correndo de Sierra. Eu salto de pé e paro na porta, esperando bloqueá-las antes que elas pudessem chegar a mim, mas minhas pernas estavam emaranhadas em minha cama e até mesmo da maneira como eu estou, eu terminaria me arrastando pelo chão, espalhando o sangue mais ainda. A porta se abre, quase acertando a minha cabeça, e minha mãe e Sierra olham para mim com os olhos arregalados. — Eu posso explicar! — eu disse, embora eu soubesse que eu não poderia. Elas só olharam para mim. Para o quarto. Até que a minha mãe finalmente perguntou: — Você por acaso caiu da sua cama? — Com uma pitada de riso em seu tom. Estou rigidamente parada, com os olhos arregalados em confusão, e então eu olho para mim mesma. O sangue desapareceu. Eu olho para trás para a cama, para os lençóis espalhados e para todo o chão. Limpos. O que aconteceu? Eu sei o que eu vi. Eu senti a faca. Não era um sonho e não era uma visão. O que está acontecendo? — Sim, eu meio que cai — eu finalmente solto. A montanha-russa emocional finalmente consegue o melhor de mim e lágrimas de alívio


escorrem pelo meu rosto. Um riso maníaco quer escapar da minha garganta, mas eu me seguro. — Um pesadelo — eu concluo. — Oh, Charlotte — minha mãe diz suavemente. — É claro que você está tendo pesadelos. — Ela se inclina e me puxa de joelhos e envolve seus braços em volta de mim. Ela me mantém por um longo tempo enquanto eu tento parar os soluços e choramingo e decido fingir que estou chateada pela razão que ela pensa que eu estou. Eu olho para cima e Sierra ainda está lá. Eu começo a me contorcer um pouco sob o seu olhar intenso. — Charlotte? — minha mãe diz com uma voz hesitante, e todo o meu corpo parece instantaneamente congelar. — Eu sei que você já está chateada, mas devo dizer isso antes de você descobrir: Houve outro assassinato. Um garoto. Eles disseram que ele é um adolescente, mas seu nome não foi divulgado. Eu só... acho que depois de um pesadelo como este provavelmente é melhor você ouvir isso de mim, em vez de saber pelos noticiários. Ou mesmo por Linden. — Linden! — eu grito. — Tomei a liberdade de telefonar para a mãe dele. Não era ele. Não posso me mover. Não posso respirar. — Quando? — eu suspiro. — Eles dizem que foi no meio da noite. Ninguém sabe por que ele estava fora. — Como ele morreu? — A pergunta me assusta mais do que qualquer coisa que já me aconteceu até agora, mas eu tenho que perguntar. — O que você quer dizer com como? — O que... o que é que o assassino usou? Que tipo de arma? Minha mãe acaricia meu cabelo. — Querida, eu não quero que você fique tão chateada. Talvez devêssemos desligar os noticiários do dia... — Uma faca — minha tia interrompe. — Sierra! — minha mãe repreende. — Ela fez a pergunta; ela merece a resposta — minha tia diz uniformemente. O silêncio da minha mãe, bem como o aperto firme de seus dedos nas minhas costas me fazem saber que ela não concorda, mas é tarde demais para tomar as palavras de volta. Eu fico paralisada. Uma faca. O que está acontecendo? Isso é um tipo diferente de visão? Ou é a minha realidade? Talvez eu tenha ido longe demais. Talvez eu tenha mexido com minhas habilidades ao ponto de elas estarem... com defeito? Eu olho para a minha tia e a minha mãe, as duas mulheres que compõem a maior parte do meu mundo, e me sinto de repente tão sozinha. A luz da manhã filtrada parece iluminá-las com um brilho escuro e eu percebo o quão cedo ainda é. — Eu estou bem — eu digo. — Honestamente, agora que eu me acalmei, eu acho que eu gostaria de simplesmente voltar para a cama. — Eu


me forço a sorrir, embora eu saiba que deve parecer forçado na melhor das hipóteses. — É a noite de Ano Novo. Eu não quero cair no sono antes da meia-noite. — Eu não quero cair no sono de novo nunca mais. Minha mãe olha para mim de um jeito engraçado, mas acena com a cabeça, e conduz sua cadeira de rodas pelo corredor em direção à cozinha. Minha tia não saí. Depois de um olhar para a minha mãe — sua irmã, a pessoa que ela está escondendo seus segredos por toda a sua vida — ela diz: — Uma visão? Eu não sei o que dizer, então eu aceno. Era uma visão, tecnicamente. Só não era o tipo de visão que ela está se referindo. — Você sabia sobre a faca — diz ela, e não é uma pergunta. — Será que a visão...? — Foi um tipo diferente de visão — eu acabo explodindo diante da necessidade de contar a alguém. Necessidade de dizer a ela, a mulher que tem sido a minha confidente durante todo o tempo que me lembro. — Não houve nenhum aviso, nem desmaio, apenas vivenciei! — Eu sei que ela pensava que eu estava tentando dizer que vi o assassinato e não que eu estava coberta de sangue, mas eu não poderia confessar mais do que isso. Eu tenho medo. Ela fica olhando para mim com os lábios franzidos. Em seguida, o seu rosto amacia e ela diz: — Tudo, tudo, fica mais difícil em tempos de crise. — Ela colocou a mão no meu ombro e acariciou. — Você nem sempre vai ganhar, mas continue lutando. — É tão difícil — eu sussurro. — Eu sei, elas também têm me abatido. — Sério? — Eu não sei porque eu estou surpresa; claro que Sierra estaria recebendo visões semelhantes às minhas. Oráculos sempre têm visões sobre os acontecimentos mais relevantes da sua comunidade. E esta é a casa dela também. Mas ela é forte o suficiente. Mesmo se eu estivesse tentando lutar contra as visões, eu não estou. Elas me abatem. — É tão importante fechar sua mente, Charlotte. Mesmo que não queria, sua segunda visão é vulnerável e mais poderosa do que você jamais poderia imaginar. Minhas lágrimas cessaram com suas palavras e por um segundo eu me pergunto se ela iria continuar. Mas ela só passa a mão na minha testa, colocando meu cabelo atrás da minha orelha. — Seja vigilante, Charlotte. Lute. Em seguida, ela sai e eu permaneço ajoelhada no meio do meu chão me sentindo como a maior fracassada do mundo. Eu sinto as lágrimas pinicarem de novo, e pela primeira vez, eu faço exatamente o que eu disse que iria fazer. Eu empurro a minha porta, pego a minha roupa de cama do chão e puxo sobre a minha cabeça, e me lanço de volta para um sono sem sonhos.


Eu fico olhando para o nome de Smith brilhando na tela do meu telefone por um longo tempo, enquanto eu decido se deveria ou não atender ao seu chamado. Eu não gosto das suspeitas que tenho sobre ele. Ele mentiu para mim sobre o que eu posso e o que eu não posso fazer no plano sobrenatural e sobre minhas visões. Ele parece saber muito. Como ele poderia não ter sabido o que eu posso fazer lá? Ou ele mentiu, ou ele não é tão experiente como ele finge ser. De qualquer maneira, isso me faz questionar sobre ele. E eu não gosto das dúvidas que ele plantou em minha mente sobre a minha tia. Eu desejaria muito ter uma visão sobre ele. Respirando fundo, eu decido agir com coragem e honestidade. Eu deslizo o botão para atender o telefone e digo: — Eu não estou realmente convencida de que eu quero falar com você. Silêncio. Eu tinha chocado ele. — O que é que você acha que eu fiz? — ele pergunta em voz baixa. — Eu não tenho certeza — eu digo em um sussurro. — Eu estou tão cansado de me justificar a você quando eu tentei apenas ajudar. Não deixe este monstro fazer você ficar paranoica. Você precisa ser capaz de pensar com clareza. — Para fazer o quê? — eu assobio. — Não só eu não tive uma visão deste o último assassinato, como também quando eu acordei, eu não tinha nenhuma lembrança de estar no plano sobrenatural. Mesmo eu dormindo com a pedra. E então... — eu pauso antes que eu possa dizer mais. Eu não queria dizer a ele sobre o sangue. Sobre a faca. Eu não queria dizer a ninguém, mas, naquele momento, eu particularmente não queria dizer a ele. — Smith — eu digo no lugar disso. — Ele é melhor do que nós. Não podemos mais fazer isso. Estamos machucando as pessoas. — Estamos salvando as pessoas! — ele grita. — Talvez você tenha esquecido de Jesse e Nicole, mas eu não. Você pode realmente sentar e deixar que as pessoas morram? — Eles estão morrendo de qualquer jeito. Ou pior, olhe para Clara. Nós fizemos isso! — O que aconteceu com Clara é horrível. Eu não vou mentir para você sobre isso. Mas isso nunca vai parar se você não ajudar. Eu não sei o que pensar. O que fazer. As esperanças e planos que tive ontem à noite parecem um milhão de milhas impossíveis agora. Como é que eu vou pegar um serial killer brilhante que pode, de alguma forma, ter um Oráculo do seu lado? Eu não acho que eu deveria sequer sonhar mais. Eu não posso arriscar. Alguém está me controlando lá. Vou ter que encontrar outra maneira. Isso me lembra algo. — Smith? — eu digo timidamente. Eu não tenho certeza se quero confiar nele, mas eu não tenho ninguém para perguntar. — Alguma vez


você foi para o plano sobrenatural com Shelby enquanto ela estava dormindo? — Não. Ela só podia me convidar para dentro de suas visões quando ela estava acordada. — Mas ela te contava sobre elas? — Muitas vezes. — Como eram as dela? Ele hesita, então parece perceber que isso é um teste — ele dá, eu dou. — Uma sala com um piso de vidro — ele diz. — E uma cúpula infinita. Um vasto horizonte mostrando cada futuro do mundo. Eu sempre quis ir para lá. — Há... há uma porta na minha. — O que você quer dizer? — No limite da minha cúpula — no meu chão, talvez — há uma porta. — Você pode passar por ela como os cenários aos quais você pode entrar? — Não. Eu não posso passar. Está trancada. — Eu não sei por que estou tão focada nesta porta, mas tanto o texto de Reparando o Futuro Fraturado como Smith descrevem o plano sobrenatural da mesma maneira. E nenhum deles menciona uma porta. Ela não se encaixa, e qualquer coisa que não se encaixa é suspeita em minha mente. Ele fica em silêncio por vários segundos. — Essa porta é provavelmente um lugar onde você não deveria ir e sua mente está lhe dizendo isso. — A de Shelby tinha uma porta? — Shelby nunca viu uma porta. Eu espero, deixando um minuto inteiro passar enquanto eu tento resolver meus pensamentos. — O que eu devo fazer? — pergunto, o desespero ganhando da minha teimosia. — Vamos esperar por uma outra visão e tentar novamente. É tudo o que temos. — Mas e quanto ao assassinato da noite passada? — É passado, Charlotte, e você é uma mestre do futuro. Frustrada, eu desligo sem dizer adeus. Mestre do futuro, eu penso cinicamente enquanto eu olho para o meu telefone. Que mestre. E então eu percebo que eu ainda estou usando o pingente e agradeço ao universo que Sierra não percebeu. Quando eu me abaixo para colocá-lo de volta em seu esconderijo, minha mão encosta em algo frio. Eu seguro aquilo e puxo para trás quando então algo pica na minha pele. Puxando meu dedo cortado para a minha boca, eu me ajoelho ao lado da cama e enxergo com mais cuidado neste momento. É a faca.


EstĂĄ limpa agora, mas ĂŠ definitivamente a mesma faca que eu joguei para longe de mim quando eu acordei coberta de sangue esta manhĂŁ. O que diabos eu estava fazendo na noite passada?


Vinte e Seis Traduzido por Nina

E

u estava sentada na mesa da cozinha quando a próxima visão me atingiu. A minha casa tem sido sempre um dos lugares mais perigosos para ter uma visão porque a minha mãe pode me ver. E, desde que eu parei de lutar contra as predições, é duplamente arriscado porque Sierra poderia me pegar também. E se Sierra souber que eu estou apenas deixando-as vir — especialmente agora — seria um inferno para prestar contas. No mínimo. Eu brevemente me pergunto o que ela poderia ser capaz de fazer, antes de eu colocar minha cabeça para baixo já que eu estou exausta e deixar a visão me levar. Eu estou tão cansada de ficar de pé na neve que é a primeira coisa em minhas visões; isso está arruinado para mim para sempre. A neve costumava me fazer pensar em trenós sendo puxados, crianças brincando e também nos feriados. Agora eu só me lembro como o vermelho brilhante do sangue escorria em sua superfície espumante e branca. É dia. Isso me confunde. Talvez esta será uma visão normal. Mas eu afasto essa esperança para longe. Essa visão tem a mesma pressão quase insuportável dentro do meu crânio. Vai ser violenta, isto é tudo que eu sei com certeza. Mas no meio do dia? Eu olho para o céu e começo a deduzir que não pode ser mais de uma ou duas horas da tarde. Quem assassinaria alguém em plena luz do dia? Em uma cidade que já está em estado de alerta? Talvez eu tenha chegado tarde demais. Talvez, por algum motivo cruel, sádico, o universo só quer me permitir ver os corpos depois que eles já estão mortos. Para me mostrar o quão impotente eu realmente sou. Eu olho para a minha direita quando vejo uma vibração de algo preto no canto da minha visão. Uma figura vira uma esquina na calçada. — Smith? — eu sussurro. Mas tudo o que eu vi foi um casaco preto. Existem milhares de casacos pretos em Coldwater. Ainda assim, eu poderia jurar... Eu saio correndo atrás dele e fico um pouco surpresa quando minha visão me permite fazer isso, sem nenhum esforço adicional. Aparentemente, é para onde eu deveria ir. Meus pés não deslizam no cimento liso e eu corro por um bom tempo, mas quando eu me apresso para virar a esquina, a calçada em frente está vazia. Ando devagar e nada se move. Ninguém está à vista; não há vozes que sejam ouvidas. É como uma cidade moderna fantasma e congelada.


Mas, no entanto, não é isso que Coldwater tornou-se com quatro adolescentes mortos? O que mais poderíamos ser? Eu continuo caminhando para a frente simplesmente porque é isso que minha visão está me sugestionando a fazer. Eu vejo o movimento de novo, desta vez marrom. Não é a mesma pessoa. Corro em direção a ela de qualquer maneira. Meus passos ecoam na calçada nua, e a menina no casaco marrom gira enquanto eu me aproximo. E sorri para mim. Meus pés travam. Isso é estranho. Ninguém em minhas visões jamais foi capaz de me ver. Exceto quando eu me coloquei em cena com Linden. Mas este não é o plano sobrenatural. Isso é outra coisa completamente. — Oi, Charlotte. Você não poderia ser mais reprimida? Charisse, do coro. Nós nos sentamos lado a lado, mesmo eu cantando alto e ela cantando como segunda soprano, porque a Sra. Simkins disse que nós duas somos vozes fortes, cantoras boas o suficiente para lidar com isso. Um elogio para cada uma de nós — somos amigáveis desde então. — Eu sei que não deveria estar aqui — confidencia Charisse, — mas você não está ficando louca? Concordo com a cabeça. — Totalmente — eu sussurro, o que significa mais do que a sua pergunta pretende. — Eu escapei. Meu pai está longe a negócios e minha mãe foi chamada para trabalhar no último minuto. Ela me fez jurar um bilhão de vezes sobre tudo, desde a alma morta do meu avô até o menino Jesus que eu iria ficar em casa e não atender a porta para ninguém. — Ela se vira e aponta para uma casa do outro lado da rua. — Eu moro lá, e depois que ela saiu, eu não consegui me conter — ela finaliza com um encolher de ombros. Ela toma uma respiração profunda e abre os braços. — Valeu a pena. Além disso — ela diz, depois que ela empurra as mãos nos bolsos e começa a andar de novo, — quem vai tentar matar alguém em pleno meio do dia? — Eu... — eu digo olhando para seu ombro. Eu pego seu cabelo e começo a torcê-lo para trás, expondo sua garganta. Ela fica tão chocada que ela não faz nenhum som até que eu puxo a faca pelo seu pescoço e, em seguida, já é tarde demais. Ela segue viva por mais um ou dois segundos, quando eu a deixo na neve com sangue escorrendo sobre o peito, e ela olha para mim com olhos que perguntam claramente: — Por quê? Eu me desperto da minha visão e eu estou respirando tão forte que eu sinto como se houvesse corrido milhas e milhas desde que eu coloquei minha cabeça sobre a mesa apenas alguns minutos atrás. Minha visão ainda está um pouco preta, mas meus pés estão tão frios como se eu realmente estivesse andando na neve. Eu tremo; todo o meu corpo está congelando.


Minha mão parece ter uma memória muito própria, uma vez que lembra a sensação da faca tão vividamente, como se eu estivesse segurando ela. Eu pisco e a luz do sol finalmente invade minha visão. Eu grito e me lanço para trás. Eu estou do lado de fora. De meias e casaco. E a faca está na minha mão. Eu instantaneamente a coloco sob a minha blusa e fora de vista. Minha cabeça se vira, em busca de alguém que possa estar olhando para mim; qualquer um que testemunhou minha atitude... seja o que for que aconteceu. — Não — eu sussurro. — Não é possível. Não foi isso o que aconteceu! Mas quase todas as visões que eu já tive tornaram-se realidade. E por que eu estava do lado de fora? Pior ainda, como é que eu fiz isso sem a minha mãe ou Sierra perceber? A porta dos fundos. É mais próximo da cozinha e mais distante do escritório da mamãe. É a minha melhor saída enquanto mamãe não decide cozinhar novamente. Eu avanço para o portão de trás e corro. Eu entro e fecho a porta atrás de mim, mas eu ouço um zumbido de mamãe caminhando pelo corredor. Minha tigela de chili ainda está sobre a mesa e eu deslizo pelo linóleo para a mesa e me jogo na cadeira no exato momento em que ela vira do corredor. — Você não terminou ainda? — ela pergunta enquanto eu enfio uma enorme colher fria na minha boca para que eu não tenha que falar. Mas ela realmente não parece tão interessada na resposta já que ela lê uma impressão de e-mail enquanto desembrulha um bagel. Depois de desembrulhar, pelo o que parece ser uma eternidade, ela lentamente caminha para fora da cozinha e de volta ao seu escritório sem me dar uma segunda olhada. Assim que ela está fora de vista, eu despejo meu chili no lixo e corro para o meu quarto. Agarro minha almofada para me aquecer e envolvo meus pés antes de puxar a faca debaixo da minha roupa. — Ninguém está morto ainda — eu sussurro, olhando para a lâmina brilhante e afiada. Mas como Oráculo, é difícil até mesmo considerar que o futuro que eu vi não se tornará realidade. Quero dizer, não é real ainda, com certeza, mas é o futuro. Eu já estou a um passo para cometer um assassinato. Então, qual o meu lado mais forte? O Oráculo, ou o ser humano? E quanto tempo tenho até eu descobrir? De alguma forma, alguém está tomando o controle das minhas habilidades e até eu descobrir quem, e como, eu não posso usá-las. O que mais eu poderia fazer? Não havia nenhuma indicação na minha visão de quando eu deverei matar Charisse. Mas ela falou sobre estar trancada em casa, o que significa que o assassino ainda está foragido. Talvez essa seja a minha resposta. Se eu conseguir encontrar o assassino antes da morte de Charisse, eu posso atrapalhar o destino e parar tudo. Mudar tudo.


Completamente assustada, eu escondo a faca debaixo da minha cama. Ocorreu-me então o pensamento de que, se eu fui capaz de me esgueirar para fora da nossa casa tão facilmente no meio do dia, quão menos difícil seria para um assassino? Ou para Sierra deslizar para fora no meio da noite. Ontem à noite. Mas eles disseram que o assassino era um homem. Tudo na minha vida virou do avesso. Eu retiro o meu laptop e confiro as histórias sobre o mais recente assassinato. Uma faca, assim como Sierra disse. E eles já divulgaram seu nome: Nathan Hawkins. Meu coração afunda. Eu conheço ele também. Nós dois estávamos em uma aula avançada experimental na oitava série. Há cerca de setecentas pessoas na nossa escola; depois de quatro homicídios e quatro vítimas potenciais adicionais em minhas visões, você pensaria que pelo menos uma delas seria um estranho para mim. Mas a parte mais preocupante é a declaração do diretor do FBI alguns parágrafos abaixo: Há algo diferente neste assassinato. O assassino parece ter hesitado; há uma série de golpes não-fatais, cortes rasos, como se ele ainda não estivesse convencido pela sua mente se deveria tirar a vida deste jovem rapaz. E a pior parte, a parte que me arrepia direto nos meus ossos: Há uma chance de que podemos estar diante de um assassino imitador. Tremo inteira, o espasmo toma todo meu corpo enquanto eu fecho meu laptop, incapaz de ler mais uma palavra. É possível que eu matei esse cara? É por isso que eu não me lembro de ontem à noite? Por que eu acordei com visões de sangue em cima de mim? E por isso que eu estava do lado de fora depois da visão com Charisse? Fazer as coisas das quais não me lembro é aterrorizante, considerando as circunstâncias atuais. Poderia outro Oráculo me fazer matar alguém? Me manipular para fazer isso? A centelha mais ínfima de luzes de esperança cresce em minha mente. Se um Oráculo poderia fazer isso comigo, talvez eu pudesse fazer com o assassino. Fazer com que ele se entregue. A menos que eu seja o assassino. A única assassina. Não. Mesmo se eu estiver envolvida, não pode ser apenas eu. Eu estava com Linden quando Eddie Franklin foi morto. Provavelmente. A ciência às vezes erra. — Charlotte? Eu quase grito ao som repentino da minha mãe batendo na minha porta. — Posso entrar? — Claro — eu digo, enquanto meu coração começa a abrandar. É apenas a minha mãe. Eu olho para cima e um grito mudo fica preso na minha garganta. Sua cabeça está caída quase em seus ombros, os olhos cegos, o


sangue de seu pescoço cortado escorrendo pelo peito, pingando em sua roupa. — Charlotte, você está bem? Eu pisco. O sangue desapareceu. Ela está de volta ao normal e saudável, preocupada, com os olhos voltados para mim. — Você me assustou, isso é tudo — eu digo, mas eu não posso esconder o tremor da minha voz. Gostaria de saber se ela pode notar que todo o meu corpo está tremendo. Sua mão está descansando em minha maçaneta enquanto ela me analisa. — Charlotte, precisamos sair da cidade? Talvez devêssemos ir ver a sua prima Jennifer até a escola voltar. Essa coisa toda está realmente começando a afetá-la, não que eu te culpe — ela acrescenta com as palmas de suas mãos para fora em direção a mim, como se aplacasse uma criança. — Isso está tendo um efeito sobre mim também. Eu a encaro silenciosamente. Se eu for, eu não posso ajudar a capturar o assassino. Mas se eu ficar, eu poderia ser a assassina. Estou tentando correr do meu destino? Mudar as coisas que não podem ser mudadas? Pelo que eu sei, nós poderíamos sair amanhã, chegar em Henderson Park, o carro então poderia quebrar, e é assim que eu me deparo com Charisse. Sierra me disse uma vez que o futuro é como um velho teimoso, que sempre consegue o que quer, mesmo que ele tenha que ir para o fim do mundo e voltar para fazer isso acontecer. Olhe para os assassinatos. Sim, nós salvamos Jesse e Nicole, e eu até poderia argumentar que nós salvamos Clara, mas Eddie e Nathan? Eu nem sequer tive visões deles. Será que eles ainda teriam morrido, se eu tivesse deixado o assassino matar Jesse e Nicole? Eu não estaria simplesmente trocando a morte de uma pessoa por outra? Pela primeira vez, eu percebo que posso não estar mudando nada. Não realmente. Eu tenho me convencido da ideia de que o futuro é fluido, mas talvez algumas coisas são imutáveis. Talvez se eu tenho que puxar essa lâmina através da garganta de Charisse, de uma forma ou de outra, eu tenho que fazer. Não importa o quão impossível pareça. — Eu não sei — eu finalmente digo, incapaz de tomar uma decisão. Mamãe franze os lábios por alguns segundos e depois assente. — Vou ligar para Will e Saundra e ver quais são os seus planos nesta próxima semana e vamos ver a partir disso. Concordo com a cabeça fracamente, sentindo-me como uma covarde completa por desistir. Quando a porta se fecha atrás dela, eu quase me convenço de que eu estou fazendo a coisa certa quando de repente o formigamento familiarizado começa em minhas têmporas e uma outra visão me atinge.


Vinte e Sete Traduzido por Vivian Nantes

O

jantar é um assunto doloroso. Minha mãe tenta sorrir e fala sobre a viagem que vamos fazer amanhã, como se fosse um período de férias normal em vez de uma tentativa desesperada de proteger sua filha do pesadelo que nossa pequena cidade se tornou. Eu posso ver em seus olhos que ela prefere ir imediatamente, mas fugir na véspera do Ano Novo parece bastante extremo. Além disso, eu não posso ir. Ainda não. Porque se eu fizer isso, Michelle vai morrer. E mesmo que ela tenha me abandonado no ano passado, nós éramos amigas há muito tempo. Com qualquer outra pessoa eu continuaria a justificar que ir embora era melhor do que tornar as coisas piores. Mas não com ela. Tenho certeza que vai ser hoje à noite. Na visão que tive quando minha mãe saiu do meu quarto, Michelle olha para fogos de artifício deslumbrantes no céu. Não são da cidade — eles foram cancelados. Mas um monte de gente em torno da cidade ainda vai celebrar pela mesma razão que os pais de Linden decidiram realizar a sua festa de Natal: para mostrar ao assassino que não temos medo. Mesmo que temos. Eu não disse a Smith. Eu não tentei entrar na minha visão e mudar as coisas. Se há outro Oráculo envolvido, eu vou ter que fazer as coisas da maneira antiga. A maneira arriscada, mas também da maneira humana. Passei o dia inteiro em reclusão. Eu nem sequer mandei mensagens para Linden, embora eu precise dizer a ele que estamos deixando a cidade. Assumindo que ainda iremos depois de hoje à noite. Às onze horas eu digo a minha mãe que eu decidi que prefiro dormir na virada para o Ano Novo, e me retiro para o meu quarto. Eu tranco a porta e pego debaixo da minha cama o casaco, gorro e cachecol que escondi lá mais cedo. Hesito, e em seguida, pego o pingente também. A pedra é um brilhante vermelho sangue esta noite e eu tento não tomar isso como um presságio. Eu não sei o que esperar do colar, mas me faz sentir mais forte de alguma forma. E eu pego a faca. Isso não me faz sentir mais forte, mas eu poderia precisar dela. É simplesmente a verdade. Eu não apago a luz do meu quarto, minha mãe sabe que eu sou estranha e durmo com ela acessa. O ideal é que ela não tente verificar, mas se o fizer, eu vou ter a esperança de que ela vai decidir que eu só quero minha privacidade.


Se não... eu vou ter que lidar com isso mais tarde. Eu não posso pensar nisso agora. Eu calço minhas botas macias e uma vez que eu estou agasalhada, eu abro minha janela e rastejo por ela. Acontece que é mais difícil escapar por uma janela do que os filmes nos fazem acreditar. Especialmente com um casaco. Mas, eventualmente, eu consigo. E caio imediatamente sobre na neve. Xingando baixinho, vou para fora e cuidadosamente me viro para fechar a janela, certificando-me que ela ainda vai estar aberta para mim. Abaixando minha cabeça contra o vento gelado, eu começo a ir em direção a um bairro apenas cerca de um quilômetro da minha casa. Eu não sei que horas exatamente Michelle estará passando e é possível que eu já a tenha perdido. Eu fico sob um poste de luz com o rosto enterrado no meu cachecol por quase uma hora antes de eu vê-la. Eu não sei por que ela está toda bem arrumada, mas quando ela se aproxima, ela é a própria Garota Americana em um casaco de lã verde e cabelo encaracolado. Eu ando em sintonia com ela enquanto ela passa. Eu não sei o que dizer. — O que você está fazendo? — eu finalmente resolvo falar. Michelle não reage, não se assusta, parece não ter sequer me ouvido. — O que você está fazendo? — eu pergunto mais alto desta vez, puxando o braço dela para fazê-la me encarar. — Você não deveria estar aqui fora. Sozinha, especialmente. Seus olhos estão vagos por alguns segundos e eu a seguro mais apertado. Em seguida, com algumas piscadas lentas, seus olhos entram em foco. Ela se afasta e diz: — O que diabos você está fazendo comigo? — Está tudo bem, eu estou aqui para ajudar — eu digo, colocando minhas mãos para cima para mostrar a ela que não quero lhe causar nenhum dano, mesmo que o que eu quero fazer é agarrá-la e ter certeza que ela não enlouqueça. — Onde estou? — ela pergunta, e eu posso dizer que ela está prestes a derreter. — Você foi... — De alguma forma eu não acho que o termo “controle da mente” vai ajudar agora. — Hipnotizada — eu decido falar, — para fora da sua casa e eu estou aqui para lhe levar de volta. — Eu gentilmente coloco a mão em seu braço, mas ela se empurra para longe. — Fique longe de mim. Aberração — ela acrescenta. Mesmo sabendo que as palavras são abastecidas principalmente pelo pânico, elas esfaqueiam meu coração como a faca que eu estou tentando esconder dela. — Tudo bem — eu digo com um suspiro. — Eu sou uma aberração, mas você é a única no meio da noite com um serial killer à solta, Michelle. Por que você está aqui? Ela hesita, incapaz de contrariar a verdade nua e crua das minhas palavras. — Eu não sei — ela diz, e eu posso ouvir a tensão em sua voz. — Eu estava... eu estava em casa. Alguém estava vindo me ver.


— Você deve voltar. Você está perto. Você apenas tem que se virar e ir por aquela rua. — Por que você está aqui? — ela diz, e é claramente uma acusação. — Para salvar você — eu digo simplesmente. Ela me olha e eu posso ver o medo e a desconfiança em guerra em seus olhos. — Devo chamar a polícia? Por mais tentador que seja apenas dizer sim, deixar os policiais resgatarem nós duas, eu já os chamei com informação suficiente para leválos para o lugar certo, na hora certa. Eu espero. Michelle chamá-los agora iria estragar tudo. — Não. Por favor, não. — Se você está dizendo — ela diz com ar de dúvida, mas começa a se virar, claramente ansiosa para estar dentro de casa. E longe da louca examiga. — Oh, só um segundo — eu digo, com uma mão em seu ombro. Hesito, e por um momento eu quero voltar atrás — parar todo o meu plano, apenas correr para casa e ir para debaixo dos meus cobertores. Mas eu não posso. Eu tenho que fazer isso. — Troca de casaco comigo. — Eu já estou deslizando meus braços para fora do meu. — Por quê? — Michelle pergunta, agarrando-se a seu belo casaco verde-esmeralda, um presente de Natal, eu aposto. — Porque eu estou indo tomar o seu lugar — eu digo baixinho. Ela olha duro para mim por alguns longos segundos, mas algo na minha cara — talvez aquela conexão de anos, eu não tenho certeza — a convence e ela começa a soltar seus botões. Nos trocamos rapidamente. Ela anda para longe, mas não vai embora — parece estar esperando por algo. — Ouça, Michelle, eu sei que não nos damos mais bem, mas eu preciso que você não conte a ninguém sobre isso. Sobre o que nós fizemos. Ninguém. Nunca. — Eu falo com a minha voz dura como uma rocha. Ela fica quieta. Eu estava me coçando para ir, mas eu tenho que saber o que ela vai dizer primeiro. — Há algo de errado com você — ela diz friamente. Então ela se vira e vai embora andando até chegar a um ponto e começar a correr. Ela não olha para trás. Eu espero até que ela esteja fora de vista antes de tomar o seu lugar em sua rota. Acho melhor me apressar se eu vou encontrar com o assassino na hora certa. Eu acelero a pé até que eu estou a um quarteirão de distância da cena que eu vi na minha visão. Então eu forço meu caminho para diminuir o ritmo quase no mesmo que Michelle estava usando. Eu juro que meu coração está tão alto como um bumbo quando me aproximo da quadra de basquete no parque público, onde eu assisti Michelle ser agredida na minha visão esta tarde. Só que agora eu sou a garota no casaco verde.


Continuo caminhando, seguindo o caminho que eu me lembro dela seguindo, pronta para pular com qualquer som, qualquer movimento. Mesmo assim, estou despreparada quando um braço se envolve em torno do meu pescoço e me puxa para trás contra um peito duro. Eu vejo o brilho do aço antes que eu possa até mesmo ter uma respiração completa para gritar e eu me pergunto por que diabos eu pensei que esta era uma boa ideia. Pelo menos isso significa que eu não vou matar Charisse, eu penso enquanto o assassino levanta meu queixo da mesma maneira que eu fiz na visão com Charisse. — Charlotte? Meus olhos se abrem enquanto o assassino me empurra. — Smith? — Eu tenho que forçar minha voz para fazer um som bastante alto para ser ouvido enquanto tudo o que eu achava que sabia quebra em um milhão de pedaços. Mas mesmo que minha mente esteja gritando que eu não posso ter sido tão profundamente traída, a parte racional de mim reconhece a estatura média, a altura, a absoluta normalidade que faz Smith se misturar tão suavemente, seus olhos deslizam para a direita. Um camaleão humano. É tarde demais para negar, então Smith não se incomoda com pretextos e tira sua máscara. Seus olhos queimam como brasas ardentes, me queimando com sua fúria. — O que você fez? — ele cospe em mim. — Acabou — eu digo, levantando-me muito lentamente de pé. — Os policiais estão a caminho, eles podem estar assistindo agora. — Você está mentindo — diz Smith, mas eu ouço a dúvida em sua voz. — Eu liguei para eles antes de eu sair de casa. — Uma denúncia anônima? E você acha que eles vão acreditar nisso? — ele zomba, mas sua amargura é atada com desespero. — Com quatro adolescentes mortos, com os federais na cidade e o assassino ainda a solta, eu acho que eles estão levando tudo a sério — eu digo, tentando parecer mais confiante do que eu estou. Ele faz uma pausa, em seguida, concentra-se muito em mim. — E o que é que eles vão fazer quando tudo o que encontrarem for uma adolescente empunhando uma faca com vestígios de sangue nela, e um nome falso de alguém que ela jura que existe? — ele pergunta com um sorriso cruel, e eu estou horrorizada ao perceber que minha mão está fora do meu bolso e segurando a faca, apontando-a para Smith. Eu tento colocar meu braço para baixo, para esconder a faca de novo, mas não posso me mover. — Como você está fazendo isso? — eu pergunto, trêmula. — Você não é um Oráculo. — Oh, não, Charlotte. Eu sou o que um Oráculo sonha na mais escura das noites. — O que você é? — eu sussurro. — Eles me chamam de Alimentador — ele diz. — Eu moro na energia das suas visões. As que você não luta contra. Você tem alguma ideia de


quanto mais forte você me tornou nas últimas três semanas? — Ele sorri, uma expressão que faz meu coração disparar. — Ninguém pode me parar agora. Especialmente você. — Ele se vira e começa a correr. — Pare! — eu grito, mas não com a minha boca. Eu grito na minha cabeça, com o mesmo tipo de comando que eu uso na minha segunda visão. Estendo a mão para ele com as mesmas mãos que puxam a cortina de lado na minha segunda visão. Em um instinto que eu não entendo, eu imagino o futuro que é apenas alguns segundos — mas é o futuro, apesar de tudo — e vejo Smith parado, girando. Voltando. Ele faz uma careta, mas alguns segundos intermináveis mais tarde, funciona. Ele volta a ficar na minha frente com os dentes cerrados com tanta força que os músculos estão se destacando dolorosamente em sua mandíbula. — Você não pode continuar assim por muito tempo — ele diz. — Você tem muito menos controle do que eu. — Você não quer que nenhum de nós seja pego — eu digo. — Você vai me sacrificar, se você tiver, mas você sabe que eu sou inocente. E eles vão descobrir isso também. — Você é? — ele pergunta, e seu sorriso se aprofunda como lâminas de terror através do meu coração. — Se você é tão inocente, então onde você estava na noite passada? Meu controle se estilhaça. Smith aproveitou o pequeno lapso e se vira para correr novamente. — Não! — Eu não posso deixá-lo fugir, eu não posso! Naquele momento, eu não tenho ideia do que estou fazendo; não há nenhum pensamento, apenas um impulso que não reconheço. Eu envolvo meus dedos ao redor do pingente, nos puxo para fora da realidade e entramos... em outro lugar. Deito no chão de espelho atordoada, olhando para a minha cúpula. Meu plano sobrenatural. E Smith está aqui comigo. Ele levanta e começa a correr e me leva apenas um segundo para perceber que ele está indo para a porta na borda do meu piso reflexivo. A qual ele afirmou não ter conhecimento. E mais um segundo para entender: ele esteve aqui antes. Ele aumenta a velocidade e por algum motivo a porta não regrediu para ele, e enquanto eu estou em seu enlaço, para mim também não. Ele é mais rápido do que eu, ele a alcança em primeiro lugar e por um segundo eu me pergunto o que ele acha que ele vai fazer. Está trancada. Mas ele nem sequer hesitou enquanto ele agarra a maçaneta da porta, puxa-a aberta, e desaparece. — Não! — eu grito, e mergulho para a porta, enquanto ela está se fechando. Chego tarde demais e eu bato na superfície dura, mas meus dedos se fecham em torno da maçaneta, forçando a porta. Está trancada.


Trancada para mim. É a porta de Smith. Ela sempre foi dele. As profundidades de suas mentiras fazem eu me sentir furiosa e estupida ao mesmo tempo. Eu aperto a maçaneta como se minha vida dependesse disso — e eu suspeito que depende mesmo — e percebo que ela mudou novamente. Quase toda a porta é um painel de vidro, com apenas uma moldura de madeira fina em torno. Eu posso ver claramente agora, mas a maçaneta ainda não gira. Eu tenho que chegar lá. Eu tenho que encontrar Smith e impedi-lo de sair da minha segunda visão de novo ou ele vai ser capaz de controlar seu corpo físico e se safar. E me deixar aqui deitada, sem ver. Eu fico olhando através do vidro chanfrado a sala sombreada que está por trás dele. Este é o meu mundo e eu certamente não convidei Smith para sequer entrar, muito menos para fazer seu próprio esconderijo dentro dele. Eu preciso... eu preciso... De um martelo. Algo como um martelo. Eu deveria ser capaz de controlar este mundo, por que não devo ser capaz de convocar um objeto? Tento imaginar um martelo aparecendo na minha mão, mas isso é muito fácil e de alguma forma eu sabia que era. Eu tento pensar como um Oráculo. Para refletir sobre o que eu aprendi durante minhas noites aqui. Eu considero a cena com Linden a primeira noite que cheguei à porta. A forma como ele simplesmente apareceu. Deve ter sido Smith, tentando me distrair da porta. Bem, se ele criou um futuro para mim, então eu certamente posso criar um também. Eu olho para a cúpula e imagino o futuro muito próximo e uma cena iluminada começa a rolar no meu caminho. Vai ser complicado, eu preciso dar um passo apenas a meio caminho da cena, enquanto ainda estou segurando a maçaneta da porta, mas eu puxo o futuro próximo bem perto. Não é uma cena completa. Sou simplesmente eu, de pé na escuridão, segurando não exatamente um martelo, mas sim um tipo de taco ou um daqueles cassetetes que os policiais têm sempre na TV. Vai funcionar. Eu coloco um pé na cena, e como na noite em que eu me coloquei no meu próprio lugar na cena com Linden, vou ser a pessoa que eu estou vendo. E não largo a maçaneta. Demora alguns segundos para que o futuro me alcance, mas em alguns momentos, o taco está na minha mão e eu o balanço na porta com toda a minha força. O vidro estilhaça com um estrondo que ecoa por toda a cúpula eterna e eu mergulho no domínio de Smith.


Vinte e Oito Traduzido por Vivian Nantes

T

udo está escuro e pequeno. É como se meu plano sobrenatural fosse uma miniatura desbotada — uma cópia menor do meu próprio mundo. Eu mantenho o taco apertado em minha mão. Eu não sei onde Smith está ou o que ele está fazendo neste pequeno recanto no meu cérebro. Eu não sei de nada. Mesmo as poucas coisas que eu descobri sobre o plano sobrenatural são incertas por causa das mentiras de Smith. O ar escurece ainda mais e eu sinto meu estômago torcer enquanto eu ergo os olhos para as cenas em torno de mim. São os assassinatos. Todos eles. Até mesmo os que eu não vi. Bethany fugindo da vestimenta preta de Smith. Ele circula um braço em volta do pescoço dela e a puxa contra seu peito. A faca. Vermelha. Eddie, Smith está de pé sobre ele, um curto bastão em sua mão. Ele se move acima de sua cabeça como um machado, trazendo-o para baixo no corpo de Eddie com toda a sua força. Matthew, a parte de trás de sua cabeça explodindo. Nathan... Nathan! Dou um passo em direção a sua cena. Há uma figura escura segurando uma faca, mas eu não posso dizer se é Smith. Ou eu. Eu corro para frente, pronta para atirar-me na cena, mas assim que eu pulo, a cúpula se move e uma risada sombria emana do espaço que me rodeia. Eu tropeço e caio sobre uma superfície de cascalho que é fria, mas não de neve. O vento sopra a franja na minha testa enquanto eu me levanto. Estou na colina ao lado de uma ponte da autoestrada com vista para um trecho da estrada perto da minha casa. A sensação de vazio engole meu coração enquanto eu percebo onde estou. Eu estou de pé ao lado de um caminhão cinza claro Chevy, e sei sem olhar que sua placa é AYT 247. Minha respiração vem em suspiros enquanto eu olho no assento do motorista para o homem que eu nunca conheci e sempre odiei. Ele não está sozinho. Há duas pessoas. Ele. E Smith. Eu assisto Smith apontar até a estrada e, em seguida, deslizar rapidamente para fora do banco do passageiro. Assim que a porta pesada do caminhão se fecha, o caminhão decola, pulverizando seixos que picam contra a minha pele.


Eu não posso olhar. Eu não posso não olhar. Minha respiração está irregular, enquanto eu assisto a batida do Chevy cinza no carro branco, que contém os meus pais, Sierra e eu com seis anos de idade, com um barulho ensurdecedor. Eu vi isso uma vez antes em uma visão. Quando eu tinha seis anos. Mas nesse momento, o caminhão bateu no capô do nosso carro, balançando-o ao redor de onde outro veículo bateu na porta mais próxima de Sierra. Eu vejo agora, minha garganta asfixiada, enquanto o caminhão cinza vai para a porta do passageiro, empurrando o carro apenas o suficiente para o veículo que passa bater na porta do lado do motorista, prendendo meus pais em uma armadilha mortal verdadeira e deixando Sierra e eu quase ilesas. Eu com seis anos de idade faço a alteração — eu nos atraso mais de dez minutos e derramo suco por toda a minha blusa. Deveria ter sido mais do que suficiente e eu sempre me perguntei por que não foi. Isso era importante. Mas não tinha sido importante. Não foi um acidente — ele estava esperando por nós. Eu giro em torno de volta para a visão. Smith. — Você fez isso! — eu grito, mesmo que eu sei que ele não pode me ouvir. Ele não está realmente aqui; ele é apenas um fantasma. Uma memória. Eu fico lá, mal conseguindo ficar em pé. Tudo o que eu sempre pensei que eu sabia estava errado. Eu não matei meu pai. Smith o matou. E todo o meu mundo fica fora de forma. — Como você pôde? — eu sussurro. Ele fica lá, em silêncio, fora da vista do local do acidente, com um pequeno sorriso de satisfação nos lábios. Eu quero feri-lo, dar um soco em sua boca presunçosa, e minhas mãos estão fechadas em punhos dolorosamente apertados quando ele se vira, olha diretamente para mim e sorri. Meus dois segundos de surpresa dão-lhe vantagem e na hora que eu olho para ele, ele já está se afastando. Eu pulo, mas um segundo depois, eu estou afundando através do solo e entrando em outra cena. Procuro Smith, me perguntando onde eu estou, mas ele se foi. Eu tento andar para frente, mas algo me segura. Eu olho para os meus braços e há fios grossos de barbante preto amarrado em torno deles. Em minhas mãos, meus cotovelos, meus pés, meus joelhos. Eu tento tirá-los, mas eles só apertam mais dolorosamente até que eu deixo escapar um gemido agonizante e paro de tentar. — Assim é melhor. — A voz de Smith diz novamente. Mas não em torno de mim como antes; está definitivamente vindo de cima. Eu olho para cima e vejo o rosto de um gigante Smith, enormes dedos segurando algo. Todas as cordas estão conectadas a ele e leva apenas alguns segundos para


eu perceber que ele está me colocando em um cenário de fantoches/marionetes bizarro. — Isso não é real — eu sussurro em confusão. Essas cordas, esta configuração estranha, não é realmente real. Não pode ser. Sua cúpula é um pouco diferente da minha. Ela mostra o passado. Ela mostra cenários fisicamente impossíveis. Eu não entendo nada disso. Mas minhas mãos estão se movendo e agora que eu posso ver além das cordas, eu percebo que eu estou na minha casa. Eu estou fazendo café. Coloco a mão no bolso e tiro uma pequena garrafa de vidro escuro. Eu acrescento algo na bebida e em seguida, enrolo as minhas mãos em torno da caneca fumegante. O calor do café se infiltra através da cerâmica e queima as palmas das minhas mãos, mas eu não posso soltá-la. Lágrimas picam meus olhos com a dor insuportável, mas as cordas apenas guiam os meus pés pelo corredor até o quarto da minha tia. — Pensei que você precisaria de um café fresco — diz a minha boca contra a minha vontade, enquanto eu coloco a caneca na mesa da minha tia e finalmente sou capaz de liberar a minha dor ardente. — Oh, obrigada, Charlotte — Sierra diz com um sorriso, e toma um gole. As cordas me puxam para trás e eu caio de bunda, rangendo minha espinha. Mas, ainda assim, eu vou para trás, para trás, até que a iluminação muda e eu estou em uma nova cena. Uma sepultura. Eu estou do lado da minha mãe enquanto ela soluça. Eu não quero olhar, mas as cordas viram minha cabeça e eu vejo o nome de Sierra sobre a pedra. — Não — eu sussurro. — Eu não vou fazer isso. — Você vai fazer o que eu quero que você faça — diz Smith de cima. Eu tento correr. Mas eu dou apenas dois passos antes das cordas puxarem-me para trás novamente. Eu agarro a grama, minhas unhas rasgando contra o solo pedregoso, mas mesmo assim as cordas me arrastam. Meu banheiro desta vez. O ar está úmido e vejo a cadeira vazia da minha mãe ao lado da banheira profunda. Ela está deitada na água morna com os olhos fechados, uma vela rosa ardente na borda da banheira. Minhas mãos estão subindo na frente de mim mesma, mesmo que eu tente empurrá-las para baixo. Estou em silêncio, apesar dos gritos em minha mente, e ela nem sequer abre os olhos até que eu peguei a cabeça dela com as duas mãos. Ela está chocada demais para resistir quando eu bato seu crânio contra a barra para deficientes físicos do chuveiro com todas as minhas forças. O sangue jorra, mas ela luta agora. Eu tenho muita vantagem; estou inteira e em terra firme. Meus braços a empurram sob a superfície e a seguram lá enquanto ela se debate. Eu grito, eu imploro para que acabe, mas eu não consigo nem fechar os olhos enquanto seu corpo vibra, dá um puxão final, e depois relaxa. — Você não pode me obrigar a fazer isso! — eu grito para Smith e, finalmente, as palavras escapam da minha boca, sacudindo os meus dentes.


— Eu posso fazer você fazer tudo — Smith não diz em uma voz vitoriosa, mas simplesmente declarando um fato: como o céu é azul, e a grama é verde. — Não! — Eu cerro os dentes e estendo a mão para a água que está ficando vermelha do sangue da minha mãe. Eu tenho que resgatá-la! Antes que eu possa tocá-la, as cordas puxam-me para longe e de repente eu estou balançando a partir delas, balançando violentamente para trás e para frente. Eu olho para cima enquanto a parede do banheiro com azulejos corre em minha direção e me preparo para o impacto duro. Não há nenhum. Smith me oscila em outra cena em que juntos, nós torturamos alguém que eu não reconheço. Então, o tempo está passando rapidamente e cenários piscam por mais de uma montagem de fotos individuais. Logo fica claro que eu estou crescendo em poder e riqueza. E influência. Em todos os lugares as pessoas agradam a mim. Eu falo; eles obedecem. Eu me vejo segurando o colar enquanto eu mudo o futuro ao meu favor, ganhando influência e me livrando de inimigos. Mas agora, no fundo, tão anódino aos olhos de todos que passam, eu vejo Smith. Dentro do comprimento do braço o tempo todo enquanto nós matamos, enquanto fazemos favores, enquanto atropelamos os mais fracos, os menores, até que eu estou sentada atrás de uma enorme mesa em um escritório ornamentado em algum lugar, assinando documentos. O texto é borrado — é claro que ele não quer revelar suas verdadeiras intenções para mim agora. Mas eu sei que o que eu vou assinar não por ser bom. Deve significar destruição, agonia, morte. Smith está de pé perto do meu cotovelo, silenciosamente, mas agora ele se adianta, se dirige a mim diretamente. — Este é o nosso futuro, Charlotte. — Não é o meu futuro — eu digo com os dentes cerrados enquanto minha mão rabisca minha assinatura através de outro papel. Eu não luto contra isso. Eu não posso vencê-lo fisicamente. Tem que haver outra maneira. — Elas — eu digo, apontando para as cordas em meus braços, — elas não são reais. Todo mundo ia vê-las. Isso — eu digo em tom cáustico, apontando para a faca gigante de Smith acima das nossas cabeças, — obviamente, não é real. Cada visão em minha cúpula tem a possibilidade de realmente acontecer. Esta é uma versão distorcida do meu futuro, e eu posso dizer a diferença. Seus lábios se apertam e eu sei que eu disse algo certo. — Estes são os seus desejos — eu continuo, caminhando no que eu espero que seja a direção certa. — E... suas memórias — eu acrescento, lembrando-me da cena do acidente do meu pai. Não-acidente. Então eu entendo. — Você não tem nenhum poder real de Oráculo aqui. Você não pode afetar o futuro em sua cúpula. Só eu posso fazer isso. Espero outro olhar irritado, mas ele sorri. — Você acha que você é tão esperta. Tão invencível. Eu controlei você agora. Eu tenho envolvido


minúsculas cordas em torno de você por semanas desde que você me deixou entrar em sua segunda visão. A cada hora que você gastou usando o colar vindo aqui fortaleceu minha força em você. Você realmente pensou que você estava apenas praticando? Vergonha queima através de mim — isto é exatamente o que eu pensava. Ele me circunda como um abutre enquanto eu caio, incapaz de me mover. — Você diz que essas sequências não são reais, mas elas podem muito bem ser. Estamos vinculados com tanta força, você não pode resistir a mim. — Uma risada baixa escapa de sua garganta. — E você não tem ninguém para culpar além de si mesma. Na primeira vez que você me deixou entrar em sua mente, você fez a porta. E cada vez que você usou o colar com meu feitiço nele, a porta se tornou maior. Meu mundo se tornou maior. E isso está puxando o seu mundo para dentro sem qualquer ajuda minha. É tarde demais para me parar, você teve sua chance na primeira noite que você chegou à porta. Mas o que foi que você fez? Você foi e teve um encontro com o seu namoradinho. E agora não existe equilíbrio. — Não. — Mas a palavra é calma, um não de rendição. Eu me solto em minhas cordas e sinto vontade de chorar. O que eu fiz? Mas... eu trouxe Smith aqui. E o seu mundo é muito menor do que o meu. Como ele pode ter o poder? Não faz nenhum sentido. Eu o trouxe aqui com o colar. Ele fala sobre a pedra como se ela só o ajudasse, mas ela me ajudou também. Ela me deu o poder para puxá-lo para o meu plano sobrenatural. Contra sua vontade. Eu ainda tenho a mão superior. Ou, pelo menos, eu tenho com a pedra do foco. Eu a sinto pulsando contra meu peito e sei que devo estar certa. É a minha única chance. Eu passo a mão lentamente, esperando que ele não note. Ela está pendurada dentro do meu casaco entre a minha blusa e meu casaco. Eu preciso tocá-la, agarrá-la. — Por que eu? — eu pergunto, mantendo a renúncia na minha voz. Qualquer coisa para manter sua atenção para longe da minha mão. Ele ri e o som me assusta tanto que eu quase esqueço do colar. — Porque, senhorita Charlotte, você é a minha vingança perfeita. Você vai ser tudo que Shelby não era. — Ele dá uma respiração profunda como se ele estivesse cheirando um perfume delicioso e eu não entendo novamente. — Essas pequenas visões que você não podia lutar contra, eu as alimentei por muitos anos. Mas só um pouco. Agora eu festejarei como um rei. — O que aconteceu com ela? O que aconteceu com Shelby? — Eu arremesso as palavras para ele desesperadamente. Ele se preocupa com Shelby, eu sei. E quanto mais emocional, melhor. Seu rosto fica sombrio e eu sinto um pouco de emoção da vitória. — Eu não consegui quebrá-la — ele diz, com a voz tranquila. — Eu não consegui ir até o fim. Eu não terei esse problema com você.


Lutando contra o barbante amarrado em meus braços, meus dedos se enrolam ao redor da pedra e uma onda de poder funciona através de mim. Imagino as cordas se quebrando e com um salto de fé, eu me jogo para a frente, imaginando-me forte e poderosa. Mais forte do que ele. Por um momento, as cordas se esforçam contra mim e eu acho que eu vou falhar. Então, como se fossem uma só, elas se quebram e eu estou livre. Os olhos de Smith estão largos enquanto eu o enfrento. Ele estende as mãos para atenuar sua queda contra uma parede arredondada, mas quando meu peso se choca contra ele, nós afundamos em outro lugar. Vozes gritam em volta de mim e uma delas soa como Smith, mas posso senti-lo lutando debaixo de mim e o som está vindo de algum lugar à minha direita. Smith se acalma quando uma mulher grita algo que eu não entendo muito bem. Eu olho para cima para ver um Smith mais jovem, seu cabelo escuro, sem nenhum sinal de cinza, seu braço estendido em direção a uma mulher alta, magra, talvez um pouco mais velha que eu, com cabelo loiro avermelhado que cai pelas costas em brilhantes ondas. Eu não consigo ver o rosto dela, mas posso dizer que há... há algo errado com ela. E então eu percebo que seus membros estão andando em direção a Smith como se ela estivesse tentando se impedir. É uma sensação que eu entendo muito bem. A expressão do jovem Smith é estranha também, como se ele estivesse lutando contra ele mesmo. Quando ela chega perto o suficiente, uma carranca aparece em seu rosto e sua mão se ergue e ele bate com tanta força que a cabeça dela vira de lado. E eu vejo seu rosto. Sierra. Shelby. Sierra é Shelby. Você não sabe o quão ruim as visões podem ficar, ela me disse quando essa coisa toda começou. Nem mesmo você. Eu fico lá imobilizada de choque enquanto uma versão mais jovem de minha tia soluça, seus ombros tremendo. Então, em uma demonstração de força, que ela não parece capaz, de alguma forma ela se arranca livre de seu controle e pula em cima dele. Por alguns segundos, punhos e unhas voam, mas Smith a empurra e, em seguida, ele está acima dela. Suas mãos se apertam em torno de seu pescoço. Eu grito enquanto o seu corpo começa a se contorcer, a face roxa. Mas, assim que eu tenho certeza que ela está prestes a morrer, as mãos de Smith caem. Seu corpo entra em colapso e se contorce, e um pequeno filete de sangue sai de sua orelha enquanto Sierra engasga e tosse. A cena se desvanece e empurro violentamente Smith e mal consigo manter meus dedos cerrados em torno do colar. Smith se levanta e olha para mim e eu estendo minha mão com a corrente de prata na minha frente como um talismã.


— Você acha que isso vai te salvar? — Smith diz, e a fúria em seus olhos me tira o fôlego. Eu não deveria ver essa cena. Eu não deveria saber o segredo dele. O segredo dela. — Eu sou mais poderosa do que você — eu digo, desejando ser verdade, apesar da minha voz trêmula. Ele sorri e estende a mão para minhas pernas. Eu tento chutar longe, mas suas mãos são tão fortes e ele me puxa pelo chão para ele. Seu nariz está a centímetros do meu e eu estou congelado de medo quando ele diz: — Você acha que está no controle? Mesmo os seus poderes não são mais seus. — Então ele ergue dois dedos, coloca-os contra a minha testa e me empurra. Eu voo em torno da sala, através de uma parede, e espero pousar em outra cena, outro sonho grotesco de Smith, mas só há escuridão. E eu estou caindo. Um grito sai de mim e eu agito meus braços tentando encontrar algo em que possa me agarrar. Mas eu simplesmente caio. Caio. Caio. Até que eu caio no chão com um som de ossos se quebrando.


Vinte e Nove Traduzido por I&E BookStore

L

uzes piscam em meus olhos quando eu os pisco para abrir lentamente. — Ela está viva! — Senhorita, senhorita, você pode me dizer seu nome? — Uma lanterna está brilhando nos meus olhos e um dedo de luva de borracha levanta uma pálpebra e depois a outra antes que eu possa finalmente concentrar-me na luz brilhante. O que aconteceu? Ele me empurrou para fora. Smith me empurrou para fora do meu próprio plano sobrenatural. Ou é dele agora? Esse pensamento faz o terror bombear gelado em minhas veias. — Eu estou bem — eu digo, empurrando as mãos para longe. Eu não posso ficar aqui. Eu tenho que ir até Sierra. Mas o que eu vou dizer? — Senhorita, qual é o seu nome? — Charlotte — eu digo, pressionando meu corpo a levantar para eu me sentar. — Charlotte Westing. — Por favor, fique quieta — o cara com a lanterna diz, tentando me empurrar de volta para baixo. — Eu não estou machucada. — Você pode não se sentir machucada agora, mas quando o choque passar, você pode estar gravemente ferida — ele insiste, empurrando com mais força. — Você acha que me empurrando para baixo vai ajudar? — pergunto em voz alta, jogando suas mãos para longe de mim. — Eu não estou machucada. Em seguida, outra voz. — Senhorita... — Charlotte — um paramédico oferece muito solícito para o policial que andava até mim. — Charlotte — o policial altera, — você acabou de sobreviver a um ataque. Eu acho que você deve ficar. Eu abro minha boca para dizer-lhes que não fui atacada, mas percebo os problemas que iria causar e fecho a minha boca novamente. Sem memória, isso é o que eu vou ter que dizer. E eu o faço. Uma e outra vez. Para cada policial que vem até mim. Eu não sei como eu cheguei aqui, eu não me lembro de sair da minha casa, a última coisa que eu me lembro é que estava na minha própria cama. Eu ouço


a imprensa começando a se reunir e eu viro meu rosto, esperando além da esperança de que as costas de todos os policiais sejam capazes de me impedir de aparecer nas câmeras. Smith não teve a mesma sorte. Eu não tenho certeza se ele me chutou para fora do plano sobrenatural ou não, mas ele está sentado na neve, algemado, com dois policiais apontando suas armas para ele. Ver Smith aqui no mundo físico me sacode como um golpe de um enorme martelo, me tremendo da cabeça aos pés. Ele olha para cima, encontra meus olhos e eu congelo. Eu sinto que ele deve estar olhando para mim com ódio, traição, raiva, no mínimo. Mas ele parece complacente. Quase como se ele tivesse ganhado. Eu tenho que virar meu rosto. Até mesmo olhar para ele parece como um golpe de uma faca. A faca! Cadê? Eu não estou com ela. Eu acho que não estou com ela. Mas onde foi que eu a coloquei? Se eles encontrarem a faca, minha vida essencialmente acabou. Tento olhar ao redor da cena, enquanto os paramédicos medem a minha temperatura, pressão arterial, pulso e fazem tudo até bater um pequeno martelo em meu joelho. Mas eu não a vejo em nenhum lugar. Eu tremo na traseira da ambulância e uma vez que os paramédicos parecem ter acabado, eu encolho os ombros em meu casaco. O casaco de Michelle. E sinto um peso desconhecido. Eu cuidadosamente toco em um bolso interno para ter certeza. Aqui está. Escondida. As coisas que meu subconsciente faz. Eu não consigo reprimir um estremecimento e chamo a atenção dos paramédicos. — Você está bem? — Eu só quero ir para casa — eu resmungo. — Eu estou bem, certo? — Ele hesita antes de admitir que ele não encontrou nada de errado comigo. Eu lanço o cobertor azul de lado e caminho para um policial antes do paramédico poder me parar. — Policial — eu pergunto, tocando no ombro de um homem que eu acho que eu reconheço como um verdadeiro policial de Coldwater. — Você pode por favor me levar para casa antes que as câmeras me encontrem? Eu preciso dizer a minha mãe que estou bem. E dizer a Sierra que eu sei. — Sim, nós devemos fazer isso — o policial diz gentilmente, e eu espero e rezo para que eu tenha encontrado a pessoa certa para me tirar daqui. O policial verifica com alguns dos outros policiais e eles olham para mim com desconfiança até que eu falo as palavras que sempre dizem na televisão. — Eu sou menor de idade — eu digo, tentando soar confiante, — por isso não posso dizer mais nada até que eu esteja com a minha mãe.


O jovem policial não tenta disfarçar ao revirar os olhos e posso dizer que vários dos outros policiais estão pensando algo como “garota espertinha”, mas eles sabem que eu estou certa. — Eu a levo — disse um policial que parecia perto das ofertas de aposentadoria. — Minha viatura está estacionada ali perto. — Ele aponta para outro policial que se une a ele e eles me flanqueiam de cada lado. Eu não escapo totalmente ilesa — os meios de comunicação estão tirando fotos de tudo o que se move, mas eu acho que o meu rosto pode ter ficado bloqueado pelos dois policiais e as janelas da viatura são bem escuras. Eu mantenho a minha cabeça inclinada para o meu peito de qualquer maneira. Uma vez que tínhamos nos afastado da multidão, eu inclino a minha cabeça contra o encosto de cabeça e tento descobrir o que diabos eu vou dizer a minha mãe. Eu não tenho muito tempo para descobrir. Leva cerca de quatro minutos de carro do parque para a minha porta. — Você pode me deixar aqui — eu tento, mas, como eu suspeitava, eles não compram por nem um segundo sequer. O rosto da minha mãe está branco quando ela abre a porta para me ver de pé entre dois policiais. O momento em que eu vejo o terror em seus olhos é o mais próximo que eu chego a lamentar tudo que eu fiz. Até que eu vejo Sierra também, seu roupão de banho amarrado às pressas, de pé atrás com os braços cruzados sobre o peito. A raiva e empatia lutam para subir dentro de mim. Eu não sei o que sentir. Mas o fato mais importante no momento é que Smith está atrás das grades, ou estará em breve. Eu peguei o Assassino de Coldwater. Os medos muito temporários da minha mãe são um preço pequeno a pagar por isso. — Eu estou bem, mãe — eu digo antes que qualquer policial possa dizer uma palavra. — Mais do que bem — o policial mais velho diz, seu tom francamente jovial. — Sua filha sobreviveu a um ataque do Assassino de Coldwater e foi fundamental em sua captura e prisão! — Eu posso vê-lo praticamente tocando os polegares através de seus suspensórios, ele está muito animado. — Obrigada, Senhor — diz a minha mãe com a mão sobre o coração, embora é claro que ela não entende realmente. — Vamos deixá-las em paz esta noite, mas vocês vão nos ver muito nos próximos dias. Vamos precisar obter uma declaração oficial e tenho certeza que os federais vai querer falar com a sua filha — ele diz. — Obrigada — minha mãe repete, quase automaticamente. Eu deslizo passando pela cadeira da minha mãe para casa. Depois que a porta se fecha, minha mãe se vira. — Bem — ela diz, e mesmo nessa única sílaba, sua voz está tremendo.


Eu não sei o que dizer. Eu poderia contar a mesma história que eu contei a polícia? Eu acho que é o melhor. Eu vou ter que contar bastante essa história. — De quem é esse casaco que você está vestindo? Bem, merda. — Eu não sei. — Sai tão facilmente como todas as mentiras sobre a minha “condição”. Eu acho que eu comecei a mentir bem depois de tantos anos. Não é realmente algo que eu me orgulhe. — O que você quer dizer com você não sabe? — minha mãe pergunta, claramente não acreditando. Eu lanço um olhar para Sierra e ela está me olhando com calma, com os olhos brilhando em estado de alerta. — Tudo o que eu sei é que eu fui para o meu quarto para ir para a cama; fui dormir e quando acordei eu estava em um parque rodeado por policiais. Isso é tudo que eu sei — eu digo, um pouco da minha auto-aversão escorregando para fora e me fazendo parecer com raiva. Minha mãe suspira e esfrega o rosto com as mãos. — Eu nem percebi que você saiu. — Eu posso ouvir a culpa em sua voz e eu quero tanto que ela saiba que isso não é culpa dela de nenhuma maneira. Mas eu não posso. Porque a verdade iria machucar ainda mais. — Você está bem? — Eu estou bem. Eu não estou machucada. Nós três ficamos quietas e silenciosas por um momento antes da minha mãe começar a chorar e as rodas irem para frente para ela jogar seus braços em volta de mim. Eu agacho ao lado da sua cadeira. A culpa me enche, transborda, e logo eu estou chorando também. De remorso, sim, mas também de alívio, da traição, da adrenalina diminuindo — um pouco de tudo. Eu olho para cima e meus olhos molhados encontram os da minha tia. Ela não acreditou na minha história. Ela me dá um olhar que me diz que ela vai me ver em breve, e se vira e vai embora. — Está tarde — diz minha mãe, indo para trás com uma fungada e os olhos avermelhados. — Podemos falar sobre isso amanhã. Estou feliz que você está bem. — Ela aperta a minha mão. — Vá para a cama. Concordo com a cabeça, mas não consigo reunir todas as palavras. Mamãe me observa todo o caminho para o meu quarto e até mesmo vai até a minha porta para que ela possa fechar a porta atrás de mim. Eu suspeito que ela se senta na minha porta por um tempo, apenas ouvindo. Mas isso me dá mais alguns minutos para me preparar para Sierra. De fato, cerca de quinze minutos depois, ouço uma batida muito fraca e a porta se abre o suficiente para permitir que Sierra passe. Ela a fecha e nós olhamos fixamente uma para a outra. — A quem pertence o casaco verde, Charlotte? E não me diga que você não se lembra, porque nós duas sabemos que é uma mentira. — Sierra nunca se incomodou com sutileza.


— Michelle — eu digo simplesmente, não que eu espere que Sierra realmente se lembre quem é ela. — Ela deveria morrer hoje à noite, não é? Concordo com a cabeça e meus olhos se enchem de lágrimas novamente, não porque eu estou triste ou com medo, ou mesmo porque Sierra me faz sentir como uma criança desajeitada novamente, embora ela o faça. É simplesmente que, apesar de tudo ter acabado bem, agora eu sei que eu estraguei tudo regiamente. Eu fui contra tudo o que foi ensinado. Eu deixei um assassino entrar em minha cabeça e ele saiu em uma matança. Se eu tivesse lutado com cada visão e ignorado as que recebi, menos pessoas teriam morrido. Mesmo com o fato de que eu descobri o segredo de Sierra, da minha raiva por ela não me dizer, não me avisar, não se sobrepõe ao fato de que as pessoas nesta cidade estão mortas por minha causa. — Você trocou de lugar com ela, não é? Concordo com a cabeça mais uma vez e agora as lágrimas estão escorrendo pelo meu rosto e eu me sinto como se eu tivesse cerca de cinco centímetros de altura. — E o que você esperava que aconteceria? Que você seria morta? — Eu liguei para a polícia antes de eu sair — eu solto. — E se eles tivessem chegado dois minutos mais tarde? Você teria sido morta. E depois? Eu enterro meu rosto em minhas mãos e ouço Sierra suspirar, e depois sinto o seu peso afundar sobre o fim da minha cama. — Charlotte, eu sei o quão difícil é não fazer nada. Mas você precisa entender que o que você fez esta noite foi errado, mesmo que o assassino tenha sido pego. — Como se você não tivesse feito a mesma coisa quando você tinha a minha idade — eu falo de volta. — Por que você não veio até mim quando você estava com problemas? — ela pergunta baixinho. — Talvez porque você tenha estado mentindo para mim toda a minha vida! — eu explodo em um sussurro afiado. — Você espera que eu seja esse Oráculo perfeito; você me diz que eu posso fazer isso, que eu sou forte o suficiente. Mas você fez todos os tipos de coisas que você não me deixa fazer. O rosto dela está absolutamente parado agora, embora seus olhos se mecham com medo. — Com quem você tem estado falando? — ela sussurra. Está na hora. Agora que Smith está atrás das grades, é hora de confessar. Estou surpresa com o quanto eu quero dizer a ela, as consequências que se danem. Abro a boca, mas as palavras ficam presas na minha garganta. De repente, eu não quero dizer a ela. Não quero que ela saiba nada sobre Smith. Não! Isso não é o que eu quero! Mas alguma coisa... algo está dizendo ao meu cérebro que é o que ele quer. Eu estou tão cansada e não posso sequer pensar direito.


— Charlotte, isso não é engraçado. Você não tem ideia do que está em jogo aqui. — Sierra agarra meus ombros, segurando-os com tanta força que dói. Eu não acho que ela está mesmo ciente de que ela está fazendo isso. — Um homem tem estado falando com você? Você tem que me dizer! — Não — eu digo, a mentira saindo de mim contra a minha vontade. — Eu... eu... — A meia-verdade se forma sem pensar. — Eu passei por seu quarto enquanto você estava fora. Seu corpo inteiro despenca em alívio. — Meus diários estúpidos — ela diz em voz baixa. Ela balança a cabeça para trás e para a frente algumas vezes, em seguida, senta-se ereta. — Podemos discutir isso amanhã — ela diz, com a voz fraca. — Depois que nós duas dormirmos um pouco. Eu fico em silêncio, mesmo que eu esteja desesperada para dizer alguma coisa. Eu não sei por que a minha boca não forma as palavras. Mas eu estou tão cansada de repente. Muito, muito cansada. Meus olhos estão se fechando por conta própria. — Vejo você de manhã — diz Sierra, então desliza para fora da porta. No momento antes de ela desaparecer de vista, uma mancha escura aparece nas suas costas e sangue marrom-escuro começa a escorrer entre suas omoplatas, manchando sua blusa rosa. Com um suspiro eu jogo os cobertores de lado e corro para a porta para abri-la. Mas tudo o que eu vejo são as costas da minha tia — inteira e ilesa — percorrendo os poucos passos finais para seu quarto, onde ela fecha a porta atrás dela. O som da trava deslizando no lugar preenche todo o corredor silencioso.


Trinta Traduzido por Nina

U

m federal está na nossa porta às oito da manhã seguinte. Foi um inferno absoluto enquanto eles faziam as mesmas perguntas repetidamente, em palavras ligeiramente diferentes, e tudo o que eu podia fazer era repetir uma e outra vez: — Eu não me lembro de nada. Eles não precisam de mim, eu digo a mim mesma. Não precisam do meu testemunho. A evidência forense ligará Smith — cujo nome verdadeiro eu imagino que vou descobrir em breve — aos crimes e o testemunho trêmulo de uma adolescente, provavelmente, não vai mesmo ser necessário. Mas eu ainda assim odeio mentir. Era meio-dia antes de eles nos deixaram em paz e minha mãe tinha participado de cada sessão, de modo que ela começou a fazer perguntas para mim, também. Sierra estava ali ao redor, silenciosa. Eu quero falar com ela, mas agora ela está me evitando, afastando-se sempre que tento me aproximar dela. Hoje à noite. Vou dizer a ela hoje à noite. Vou tentar. Senti muito medo na noite passada. Estava muito cansada. Muito tensa. Hoje à noite vamos conversar. Com certeza. Nós, obviamente, tivemos de cancelar nossos planos de viagem, por isso tenho ainda uma outra tarde interminável se estendendo diante de mim. Eu estou pensando em voltar para a cama, chorar até dormir, e tirar uma longa soneca, quando meu telefone vibra e meu coração dispara ao ver uma mensagem de texto de Linden. Você acha que sua mãe deixaria você vir agora? Ele é o meu herói. Mas o que vou dizer a ele? Parte de mim não quer dizer nada. Eu só quero estar com ele. Vou decidir isso mais tarde. Foi preciso um pouco de súplica para convencê-la, mas, finalmente, a minha mãe decidiu que mereço algumas horas fora... porém eu devo estar de volta antes do sol se pôr. Aparentemente, vai levar algum tempo para a paranoia se desgastar. Eu paro na entrada da frente e meu estômago afunda quando percebo que Michelle ainda está com o meu casaco. Mas a necessidade de ver Linden supera qualquer sentimento de culpa ou hesitação e eu retiro o belo casaco debaixo da minha cama onde eu escondi ontem à noite e coloco a minha cabeça para fora da porta. É uma sensação estranha estar livre novamente.


Poder ir a algum lugar, para qualquer lugar, sem um adulto pairando ao redor. Eu fiz isso; eu fiz isso acontecer. Eu não estou longe da minha casa quando eu sinto o começo de um formigamento nas minhas têmporas. Tento afastar o instinto e acelero mais para o lado da estrada. Mas em apenas dez segundos eu tenho que tomar a decisão, eu me sento paralisada pela indecisão. Será que a minha vida vai voltar a como costumava ser? Devo lutar contra a visão? Seguir o conselho da minha tia? As regras das Irmãs? Quando a pressão sobe na minha cabeça e me dá vontade de gritar com a dor súbita, eu sei que eu não tenho escolha. Cada visão de assassinato que eu tive pareceu mais forte do que a anterior, mas esta é tão intensa que eu não acho que eu poderia sequer gritar se eu quisesse; é exponencialmente mais forte e tudo o que posso fazer é deixá-la me oprimir. Vagar pelo meu corpo. A última sensação que tenho do mundo físico é quando eu me sinto caindo para a frente sobre o volante. Em seguida, a escuridão total. Eu ouço um riso antes de eu ver qualquer coisa, mas uma vez que o mundo finalmente ilumina, estou surpresa ao descobrir que está vindo de mim. Como a visão com Charisse, eu não estou vendo a visão, eu sou a visão. Eu sinto tudo em um grau que é um passo além da vida real; a neve é ultra branca, o ar fresco e frio parece ainda mais fresco, e a minha mão está macia e quente além de qualquer coisa que eu já senti realmente. Linden. Eu estou andando com Linden pela neve e estamos rindo. Olho para os nossos dedos entrelaçados e percebo que estou vestindo o casaco verde. Estranho. Talvez Michelle não vá querer de volta. Eu viro minha atenção de volta para Linden e a conversa desaparece como se alguém estivesse girando o volume em uma televisão. Não é nada excitante; discutimos sobre a escola, que estará recomeçando em breve. Nós dois ficamos sombrios quando falamos sobre os colegas de classe que farão falta. Mas não há nada fora do normal e eu não consigo descobrir por que uma visão de uma conversa casual, como essa era, poderia criar uma tal pressão febril na minha cabeça. E então Linden se vira para mim e pega as minhas duas mãos nas suas. — Eu posso encarar isso com você — ele diz, e seus olhos são tão graves, tão intensos, que eu aperto as mãos tão forte quanto eu posso. — É difícil. Eu acho que vai ser difícil por um longo tempo. — Ele se inclina ligeiramente para baixo, e descansa sua testa contra a minha. — Mas você me faz sentir forte e eu não sei o que eu estaria fazendo agora sem você. — Ele ri, um riso colorido com auto-depreciação. — Eu provavelmente estaria com medo e escondido no meu quarto, para ser honesto. Em vez disso, eu estou aqui na neve caminhando com uma bela garota, e apesar de tudo, eu estou bem. E eu sou muito grato a você. Em seguida, ele levanta a mão e inclina meu queixo para cima em direção a ele e me beija. Eu me inclino para o beijo e o puxo para mais perto. Mais perto.


Muito juntos. Eu encravo a faca em seu estômago e Linden engasga com a dor e se afasta apenas a tempo de retirar a lâmina já sangrenta. Sangue escorre pelo seu peito e seu corpo, e os seus olhos azuis encontram os meus enquanto ele cambaleia para trás e cai na neve. Leva apenas alguns segundos antes de seu pulso parar e os olhos ficarem cegos. Abro a boca para gritar, mas a visão está desaparecendo, me puxando de volta para o mundo físico, onde o som gutural do que eu estou fazendo enche o carro. Isso é pior do que a visão com Charisse — muito pior. Não posso matar Linden. Por que eu iria matar Linden?! Eu não entendo por que isso está acontecendo. Eu sei que Smith tinha algum tipo de poder sobre suas vítimas, mas não há nenhuma maneira de ele poder fazer nada parecido com isso. Não comigo. Não sem acesso ao meu plano sobrenatural. Certo? Mas ele entrou na noite passada. Eu começo a tremer com a possibilidade de que ele poderia acessar minha visão por conta própria. Meu Deus. Estaciono na beira da estrada por dez minutos com o aquecedor ligado no ar quente para tentar fazer meu corpo parar de tremer. Eu não posso ir para a casa de Linden. Eu não tenho certeza se eu posso falar com Linden novamente, e apenas o pensamento me faz querer chorar. Eu simplesmente não posso correr o risco de que a visão horrível se torne realidade. Sierra pode falar sobre o certo e o errado o quanto ela quiser, mas eu vou lutar contra esta visão com cada pingo de vontade que eu tenho pelo resto da minha vida. Eu preferia virar a faca para mim do que matar alguém que eu amo. Lembro-me da sensação de envenenar Sierra, de bater a cabeça da minha mãe contra a barra de apoio. Nunca mais. Nunca. Mais. Eu coloco a mão no bolso para tirar meu telefone e enviar uma mensagem para Linden e meus dedos se enrolam ao redor de outra coisa, algo frio e duro, e eu sei o que é mesmo antes de eu puxar para fora do bolso profundo para verificar. A faca. O casaco verde. Eu queria jogar a faca em uma lixeira na noite passada, mas não tive uma oportunidade, não sem deixar tanto os policiais, minha mãe ou Sierra ver o que era. Eu vou fazer isso agora e, em seguida, ir para casa. Eu vou dizer à Linden que eu estou doente até que eu possa descobrir algo mais. Eu coloco a faca no assento ao meu lado, mudo a direção do caminho para e dirijo, decidindo ir para alguns quarteirões de distância, onde há vários locais de fast-food no qual todos compartilham um mesmo estacionamento. Certamente haverá uma porção de lixeiras ao redor. Eu chego ao cruzamento onde eu deveria virar à direita e minhas mãos começam a girar o volante conduzindo a roda para a esquerda. — O quê? — eu sussurro baixinho enquanto eu tento forçar minhas mãos para corrigir o erro.


Mas elas ficam firmes no volante. Com um flash de horror eu percebo para onde estou indo. Eu estou indo para a casa de Linden. — Não! — eu grito para as minhas mãos. — Não, não, não! — Mas elas não param, não liberam seu domínio sobre a roda. Minha mente fica repetindo de volta as palavras que Smith falou para mim ontem à noite. Você acha que está no controle? Até mesmo os seus poderes não são completamente seus. Eu venci ontem à noite por tê-lo preso, ou pelo menos eu pensei que eu havia vencido. Mas agora eu entendo o sorriso que ele me deu. Ganhei a luta, mas Smith tem toda a intenção de ganhar esta guerra. Eu penso em como eu não poderia enfrentar a minha tia ontem à noite, mesmo que eu quisesse. Mesmo assim, ele me controlou; eu estava muito cansada para pensar nisso. Ele me deixou muito cansada para pensar nisso. Estou lutando enquanto minhas mãos seguem ao volante em direção à casa de Linden e giro o meio-círculo da garagem. Agora que eu estou aqui, eu paro de tentar puxar minhas mãos do volante e começo a tentar me prender dentro do carro. Talvez eu possa ficar aqui no carro. E não sair. Nunca mais. Mas meus dedos já estão soltando o cinto de segurança e minha mão direita pega a faca no assento ao meu lado. Eu não consigo vencer enquanto minha mão empurra a lâmina em meu bolso. Então eu estou empurrando a porta do carro aberta e subindo sem controle dos meus pés. Eu nem sequer preciso tocar a campainha; Linden está na porta esperando por mim. Eu olho para ele e vejo que ele está lá com sangue escorrendo da ferida escancarada em seu pescoço, assim como na visão. Cheguei muito tarde? Mas eu pisco e o vermelho horrível do sangue simplesmente desaparece. Exatamente como as visões estranhas da minha mãe e Sierra. Simplesmente... sumiu. Neste momento, meu coração sofre com a realidade de Linden. Alto e magro, olhos perfeitos, cabelo perfeito, aquele sorriso que faz com que faíscas comecem a se inflamar dentro do meu peito toda vez que eu o vejo. Tudo isso parece tão devastador hoje. Eu sinto como se houvessem cordas como as de um fantoche conforme eu me arrasto em meus passos, e Linden, que parece que não percebe nada de errado, me embala em seus braços. Eu tento andar, mas Linden me para e eu vejo seu casaco caído sobre seu braço. — Eu sei que está um pouco frio, mas podemos caminhar? Estou tão cansado de ficar enfiado dentro de casa. — É claro — meus lábios dizem enquanto minha cabeça grita, Não! — Eu estou cansada disso também. Em um movimento fluido, ele coloca seu casaco preto e envolve minha mão na sua e começamos a andar pela calçada cheia de neve.


— Casaco bonito — ele diz, seus olhos me observando com uma adoração. Eu teria adorado em quaisquer outras circunstâncias. Agora só me dá vontade de chorar. — Você ganhou de Natal? Algo assim. — Sim — eu digo brilhantemente e lanço um sorriso vitorioso, um contraste cruel com a maneira com a qual eu me sinto por dentro. Eu sei que se eu não posso lutar com Smith neste cenário, eu nunca vou vencê-lo novamente. Ele vai ser mais forte do que eu. E nada, nada está funcionando. Eu nem sequer tenho o colar. Lembrome do que Smith disse quando eu perguntei se ele era um Oráculo: Eu sou o que os Oráculos sonham na mais escura das noites. Nós caminhamos em silêncio por alguns minutos. — Eu não posso acreditar que acabou — diz Linden depois de um tempo, as suas palavras são como um sopro que paira no ar por um segundo. Isso nunca vai acabar para mim. Eu começo a chorar por dentro. — O noticiário está dizendo que ele atacou uma menina e ela lutou com ele tempo suficiente para a polícia chegar — diz Linden quase casualmente. Bem, isso é um resumo do que aconteceu. — Ela lutou com ele totalmente. Eu queria... eu queria... não importa. — Eu ouço a dor em sua voz e isso me rasga por dentro em dois. — Você não pode mudar o passado. Eu só estou feliz que alguém o parou. Ela deve ter sido muito corajosa. Eu posso ouvir o eco distante de Smith rindo na minha cabeça. Não faça isso, eu imploro. É o que eu faço, uma voz ecoando responde. Eu farei qualquer coisa. Sim, você fará. Por favor. Silêncio. — A escola começa em três dias — diz Linden. A conversa da minha visão está começando. Minha boca forma as respostas que eu ouvi na minha visão, mesmo que eu tente prender meus dentes fechados contra elas. Estou espantada quão alegre meu riso soa. Como uma pessoa despreocupada. Em seguida, vem o momento em que eu estava temendo. Meus músculos estão doendo de tanto combater os movimentos que eu sou forçada a fazer, mas ainda assim eu luto com tudo o que tenho para resistir quando Linden me puxa para perto. Não está funcionando. — Eu posso encarar isso com você — ele diz, e meus olhos começam a lacrimejar quando eu aperto sua mão com força, tentando me impedir de pegar a faca. — É difícil. Eu acho que vai ser difícil por um longo tempo. — Assim como na minha visão, ele se inclina para baixo e nossas testas se tocam. — Mas você me faz sentir forte, e eu não sei o que eu estaria fazendo agora sem você.


Ele ri, e minhas lágrimas estão vindo para valer agora, enquanto eu sinto o meu movimento na mão direita em direção ao meu bolso, pegando a alça fria da faca. — Eu provavelmente estaria com medo e escondido no meu quarto, para ser honesto. Em vez disso, eu estou aqui caminhando na neve com uma bela garota e, apesar de tudo, eu estou bem. E eu sou muito grato a você. Estou engasgada com meus soluços agora, mas Linden não parece notar enquanto eu o puxo para mais perto, mais perto. — Não! — eu me viro para gritar, mas minha mão ainda atira para fora, apunhalando a faca em seu abdômen. O impulso é pequeno. Eu lutei o suficiente para fazer o corte ser profundo, mas talvez não fatal. Linden está apenas lúcido o suficiente. Ele está de joelhos segurando ao seu lado, olhando para mim com horror e confusão. — Linden! — eu grito, mas meu corpo não me pertence. Eu dou a volta atrás dele, a lâmina da minha faca já cheia de sangue, e eu agarro seu cabelo e forço o seu rosto para o céu. Eu forço meu braço através de seu corpo e começo a puxar para trás como um violinista em uma curva, a faca deslizando em direção ao seu pescoço nu. — Charlotte, pare!


Trinta e Um Traduzido por Vivian Nantes

M

eu braço hesita e é o momento em que eu preciso recuperar uma pequena porção de controle. Eu não posso liberar Linden; eu não posso nem tirar a faca de onde ela repousa contra sua garganta, mas eu ainda posso pará-la, apesar de todos os músculos do meu corpo estarem gritando em protesto. — Charlotte, você não tem que fazer isso. Eu quase perco meu aperto de controle quando vejo Sierra movendose rapidamente em direção a mim. Ela para quando ela vê a faca contra a garganta de Linden. Eu quero falar, mas é como tentar forçar a voz para trabalhar depois de ter o vento batido contra você. Quando o som finalmente escapa, ele sai em um grito: — Sierra, me ajude! — Charlotte, ouça. Eu sei que você acha que ele é mais forte do que você, mas é uma mentira. É sua melhor mentira. Ele é o parasita, ele está se alimentando de você. Ele nunca vai ser tão forte quanto você. Você tem que bloqueá-lo e você tem o poder de fazer isso. — Eu não posso — eu digo com a mesma voz que é mais um grito, que parece ser o único tom que eu posso falar no momento. — Olha o que ele já me fez fazer. Os olhos de Sierra seguem até Linden. Até sua camisa ensanguentada. — Eu sugiro que você não se mova — ela diz a ele. — Isso vai acabar em breve. Acabar em breve. Acabar para ele ou para mim? Ou para os dois? Meus dedos pressionam a faca e eu não posso lutar contra isso enquanto meu braço começa a passar a faca através da garganta de Linden novamente. Eu o ouço suspirar, de medo ou de terror, eu não tenho certeza, mas é uma consciência distante. Então eu ouço o clique. — Eu vou matá-la. Você faz isso e eu vou matá-la antes de eu deixar você usá-la! Eu olho para a minha tia e estou apavorada ao ver uma arma apontada para a minha cabeça. — Sierra? — Eu sei que você pode me ouvir, Jason. Você não pode vencer. Não hoje. Jason. Seu nome verdadeiro. Não é uma mentira. Por alguma razão isso permite que o brilho mais ínfimo de confiança dentro de mim comece a brilhar.


Sierra dá mais um passo para frente e para nos meus olhos. — Olhe para o meu rosto. Não pense por um segundo que eu não vou fazer isso. Se Linden morrer, ela morre. E se ela morrer? — Então ela ri; um som escuro tão parecido com Smith que eu tremo. — Eu era muito forte para você, e ela também. Não há vingança aqui para você hoje. — Sierra dá mais um passo para frente. — Se você tentar alguma coisa eu vou sacrificá-la para pará-lo. — Charlotte — ela diz em voz baixa agora, — eu entendo que isso é difícil, mas você tem que saltar para o seu plano sobrenatural. Ele não pode lutar com você em duas frentes e ele não vai matar Linden, desde que eu tenha essa arma apontada para você. Eu não estou com o colar. Eu nem tenho certeza de como eu pulei na noite passada. — Eu não consigo. Lutar. Faca — eu mal consigo dizer. — Linden — diz Sierra, voltando sua atenção para ele agora, — quando eu lhe disser, empurre a mão de Charlotte com toda sua força. Charlotte, prepare-se para saltar. Eu cerro os dentes e aceno, tentando reunir foco. E se eu falhar? Será que Sierra vai me matar para salvar Linden? Espero que sim. Eu não quero viver se minha vida for o inferno que eu vi no mundo de Smith na noite passada. — Charlotte, quando você chegar lá, você tem que encontrar o seu mundo — diz Sierra, puxando-me de volta para ela. — Vai estar em algum lugar. — Eu estive no mundo dele — eu engasgo entre os dentes cerrados. Eu vejo um flash de medo em seus olhos e posso dizer que não era o que ela queria ouvir. Mas ela se recupera rapidamente. — Vá para o mundo dele e o destrua. Esmague-o. Tudo o que você tiver que fazer. Não importa o quanto ele tente impedi-la. Você tem que destruir tudo. Especialmente ele. Você tem que bani-lo. Ela olha para Linden. — Você está pronto? — Eu noto que ela não me pergunta. Porque eu nunca vou estar pronta para isso. Eu sinto que Linden acena muito ligeiramente contra o meu braço. Sierra diz: — Agora! — E as grandes e fortes mãos de Linden se envolvem em torno do meu braço, ainda segurando a faca em sua garganta. Ele se empurra para trás alguns centímetros. Mais centímetros. E até onde ele pode forçar o meu braço para longe, mas é o suficiente. — Pule, Charlotte! — Sierra ordena. — E se apresse. Ele precisa de um médico. Salve Linden, eu penso e seguro a imagem de seu rosto enquanto eu deixo todo o meu corpo relaxar e eu alcanço meu plano sobrenatural, querendo, desejando mais do que qualquer coisa que eu já quis na minha vida inteira. É preciso muita vontade e esforço para dar o salto, que eu tropeço antes mesmo de eu chegar lá e um segundo depois, eu estou esparramada no chão reflexivo. Mas minhas pernas estão penduradas em um abismo.


Um abismo que não estava lá antes. Eu olho para um abismo com o mesmo tipo de nada negro que Smith me jogou na noite passada e eu procuro um apoio no instável piso escorregadio. Eu me viro para colocar uma perna sobre a borda e me puxo para o chão espelhado que costumava me desorientar tanto. Deixo-me olhar para trás por um instante. A escuridão é mais profunda do que a minha cúpula é alta e posso imaginar que engolirá todo o meu plano sobrenatural. Eu sinto um formigamento perto dos meus pés e, em seguida, os dedos dos pés estão pendurados sobre a borda novamente. Eu suspiro e me esforço para um local mais seguro e olho para a ponta do meu piso reflexivo. Está lentamente, muito lentamente, se desintegrando. Caindo na escuridão. O poço está literalmente comendo o meu mundo. Isto é o que Smith fez para mim. Raiva quente se espalha através de mim. Agora eu percebo o quanto de mim existe neste mundo, o quanto este mundo sou eu, e a concha vazia que serei se Smith roubá-lo. Levanto e ando em frente, olhando para a porta. É mais do que uma porta agora; é um largo e enorme portão que está aberto, sugando minha cúpula para ele. E então a terrível verdade cai em cima de mim, o buraco atrás de mim não está comendo minha cúpula; é o vazio deixado do meu mundo que está sendo sugado pela porta para o mundo de Smith. E a destruição parece estar ganhando velocidade. Eu olho para a porta, e, em seguida, para a escuridão atrás de mim e eu percebo que isso está dominando. O mundo de Smith será o infinito, o poderoso; o meu será pequeno e escuro, e cercado pelo vazio eterno. Uma pequena prisão em minha mente que vai me manter cativa, tão certo como barras de aço. Mas Sierra estava certa; agora eu sou mais forte. Meu mundo é maior, e eu ainda mantenho meus poderes de Oráculo. Eu posso vencê-lo. Eu só tenho que descobrir como. Eu começo a andar até o portão e, embora ele tente recuar, ele não tem tanto espaço como antes, porque o meu mundo encolheu bastante. Faço uma pausa por alguns instantes e, em seguida, lembrando que eu posso afetar a realidade aqui, eu olho para uma cena acima da minha cabeça. Eu fico olhando para ela com tanta força que os meus olhos começam a doer enquanto eu imagino um futuro em que eu estou lutando com Smith — lutando e vencendo. Destrua-o, Sierra disse. A cena rola para baixo e me vejo empunhando um enorme martelo, acima da minha cabeça. Isso, eu penso com uma faísca de humor sombrio. Eu passo para a cena e caminho até mim mesma. Eu respiro fundo e depois passo para os meus próprios pés e coloco minhas mãos em torno do martelo enorme.


Eu o levanto com uma facilidade natural. Viro-me e olho para trás para minha cúpula diminuindo rapidamente. — Meu mundo, minhas regras — eu digo antes de apertar o meu domínio sobre o martelo e sair de cena. Durante três semanas, Smith tentou me convencer dos poderes que eu não tenho — mentindo para mim sobre o meu potencial, e aumentando o seu próprio. Mas, enquanto eu me afasto da cena, o martelo ainda apertado na minha mão, eu estou em chamas com um segredo que ele queria desesperadamente manter longe de mim; eu sou realmente a mestre do meu mundo. Aqui, especialmente em meu estado desperto, eu posso fazer tudo. Eu começo a caminhar em direção ao portão. Mas eu não apenas ando; eu olho para ele e o fixo no lugar. Não é fácil, mas o portão fica onde está, permitindo que eu me aproxime. Vou até o aço e elevo meu martelo. Mas antes que eu possa acertar, uma pequena dúvida aparece na minha mente. A porta foi ficando cada vez maior desde a primeira vez que a vi. E meu mundo está encolhendo cada vez mais rapidamente. Especialmente desde que eu quebrei o vidro ontem. Eu abaixo o martelo. Se eu quebrar o portão, ele vai permitir que Smith drene o meu mundo ainda mais rápido. Eu tenho que entrar e destruir o seu mundo primeiro. Um profundo resmungo dentro do mundo de Smith me diz que estou certa enquanto eu ando através do portão e o fecho atrás de mim. Agora eu estou presa aqui até um de nós ganhar. Seu mundo é muito maior do que quando eu estava aqui na última vez, apenas doze horas atrás, e eu estou imediatamente desanimada ao trabalho na minha frente. Mas não é só pela vida de Linden que eu estou lutando, é pela minha também, e através de mim, milhões de pessoas cujos futuros Smith estaria mais do que feliz em mudar. Em destruir. Eu levanto meu martelo sobre o meu ombro e o balanço na cena mais próxima e ela se quebra, como uma tela de televisão. A imagem dentro distorce, depois escurece, e eu passo para a próxima, e para a próxima. Em um quadro eu levanto meu martelo, mas eu vejo a minha mãe, andando em nosso corredor. Hesito e a voz de Smith é de repente tudo ao meu redor. — Não é como quando você estava aqui da última vez, Charlotte. Estes não são simplesmente os meus sonhos e memórias mais. Eu tenho o suficiente do seu mundo, o suficiente do seu poder, estes são todos os futuros possíveis. Você vai destruir esta possibilidade para sua mãe? Lembre-se, você está acordada, e tudo que você faz no mundo de hoje vai realmente afetar o futuro. Faço uma pausa, olhando para a visão da minha mãe andando e minhas mãos tremem. — Eu poderia ajudar para que isso aconteça — diz a voz de Smith. — Pagar o tipo de pesquisa com a fortuna que vamos fazer. Não há nenhuma


necessidade para nós não termos uma relação simbiótica. Eu ficarei feliz por me comprometer e negociar. — Eu implorei para que você não me fizesse machucar Linden — eu grito. — Você chama isso de compromisso? — E enquanto um pedaço do meu coração se quebra em pedaços, eu balanço minha marreta e ela mergulha no rosto da minha mãe. Cada respiração é dolorosa enquanto a imagem desaparece de vista. — É uma vergonha — diz a voz de Smith. — Em dez anos a cirurgia poderia ter estado disponível. Eu não digo nada. Mentiras, eu me lembro. Ele nunca me disse nada além de mentiras. A próxima tela apresenta uma figura em branco, de pé ao lado de um homem alto que só pode ser Linden. Eu quase não me reconheço na mulher ao lado dele. Seu amor me tornou mais bonita do que eu jamais pensei que poderia ser. Mais feliz. Completa. Eu tenho que fechar meus olhos enquanto eu levo o martelo para baixo nela. Sierra sorrindo e feliz. Minha mãe e um novo marido. Eu na minha faculdade favorita. Cena após cena eu quebro até que o meu rosto esteja tão molhado de lágrimas que eu as sinto escorrer no meu pescoço. Mas não é o suficiente. Eu olho para cúpula escura de Smith. Eu estou parando o fluxo de meu mundo no dele, mas levaria anos para eu passar por cada cena que ele pudesse inventar aqui. Isso não é nada além de controle dos danos — eu tenho que encontrar Smith. Eu tenho que destruí-lo. Eu me lembro da última vez que estive aqui. Pode ser o mundo dele, mas assim como ele tem controle limitado sobre o meu, eu tenho algum controle sobre seu. Até que um de nós assuma, ambos compartilhamos os meus poderes. Eu olho para o teto e me concentro em uma nova cena. Uma cena de Smith sentado em sua cela na prisão. Apenas alguns segundos no futuro. A cena se aproxima e eu levanto meu martelo novamente, mas em vez de quebrar a cena, eu entro nela. Smith fica com a cabeça encostada na parede da cela e me assiste com olhos sem emoção. Eu sei que ele está aqui no plano sobrenatural, o que significa que seu corpo físico na cela está impotente. Posso afetar seu corpo físico daqui? Se eu puder fazê-lo recuperar a consciência em sua cela, seu eu projetado terá que deixar a minha segunda visão. Meu martelo ainda está preparado acima da minha cabeça e, lembrando-me que eu não sou nada mais do que uma compulsão no mundo mortal, eu trago o martelo para baixo, apontando para seu crânio. Uma mão se estende por trás de mim para empurrar o martelo fora do curso, e eu sinto um choque de sucesso enquanto eu viro e vejo a sua forma se afastar. Não o seu corpo físico, o corpo aqui do plano sobrenatural. A parte dele que pulou aqui. Quando eu ameacei seu eu físico, eu puxei-o para


fora de seu esconderijo e ele está aqui neste cenário comigo, em algum lugar. Ele não pode sair a não ser que ele possa sair dessa cena. E só há uma saída. A cena muda e eu viro, tentando olhar em todas as direções ao mesmo tempo. Sua cela está desaparecida e a imagem de seu eu físico com ela. Agora é uma antiga mansão decrépita com dezenas de enclaves sombrios para esconder. Espelhos sujos para refletir luz e me confundir. Há até mesmo um leve vento para manter os pedaços irregulares de cortinas balançando para esconder qualquer movimento de Smith. É um lugar perfeito para brincar de esconde-esconde. Ele quer que eu o procure. Então essa deve ser a resposta errada. Espio atrás de mim, a saída não é exatamente pequena, mas está guardada. Como uma criança perseguindo a base, eu ando para trás e para frente, o meu martelo levantado. — Eu sei que você está aqui! — eu grito. — Por que você está fazendo isso? — eu pergunto, esperando que eu seja capaz de achar sua localização. Uma risada na direita, uma janela quebrando a minha esquerda. — Para destruir você. E você está tão perto — ele acrescenta com triunfo em sua voz. — Por que você acha que todas as vítimas foram os seus amigos? Não amigos — potenciais amigos em sua outra existência solitária e patética. Eu me recuso a deixar que suas palavras me deixem triste. Eu não deixo. Eu tenho que encontrá-lo. — Por que acabar com o garoto que você foi apaixonada desde a escola? Para quebrar sua mente e sua resistência até que você não seja nada mais do que a minha marionete. Uma vez que você me deixou entrar em sua cabeça, eu vasculhei seu passado — encontrei pessoas que você gostava, até mesmo que as que você realmente não sabia. Isso é tudo culpa sua, Charlotte. Todos eles morreram por causa de você. É uma mentira, é uma mentira. Smith os matou. Não é minha culpa. — Então, por que começar com Bethany? — eu pergunto, e eu tenho certeza de que, apesar do eco, sua voz é proveniente da minha direita. — Para tirá-la do caminho de Linden. Você acha que ele realmente gostava de você, Charlotte? Você acredita nisso? Meu coração racha em dois e meus braços se sentem fracos, tremendo contra o peso da enorme marreta. Eu não posso... eu não posso... — Tão estúpida. Menininha estúpida. Suas palavras fazem algo acender dentro de mim. Ele cometeu um erro. Agora eu estou com raiva. — Eu vi você — eu grito. — Na noite em que Clara foi atacada. Eu vi você em seu casaco correndo em nossa direção. Como poderia haver dois de você? — Não era o meu eu físico — diz Smith, e agora eu juro que está vindo da esquerda. Dirijo-me sutilmente nessa direção. — Eu estava em sua


segunda visão. Entrei em sua cabeça e você nem percebeu. Eu assisti você mudar a visão. Mas, admito que fez melhor do que eu esperava, então quando você começou a perder a consciência, corri para me avisar para sair. É claro que ele não estava salvando Clara, ele estava salvando a si mesmo. — Por que agora? Ele não respondeu de imediato. A cena vacila e eu percebo que eu encontrei uma fraqueza. Eu me lembro dele dizendo que ele alimentava a energia das visões que eu não podia lutar. — Eu estava ficando muito boa, não é? Estava mais e mais lutando entre as visões. Você estava ficando fraco. — E a lógica cai sobre mim como uma onda do mar. — Então você tinha que fazer algo grande o suficiente para que eu não fosse capaz de lutar contra as visões. Era a única maneira que você poderia sobreviver. — Eu faço o que eu tenho que fazer, Charlotte. Você não estava pronta quando eu encontrei você. Você era muito jovem. Esse foi o erro que cometi com Shelby. Com Sierra. — Então, você começou a matar pessoas para se alimentar — eu digo causticamente. Seu suspiro é quase estrangulado. — Eu tentei outras coisas, mas Sierra era uma boa instrutora. Eu quase perdi minha janela perfeita. Tinha idade suficiente para ter realmente suas habilidades, mas as Irmãs que poderiam tê-la avisado sobre mim ainda não haviam avisado. Sobre as pessoas como eu. — Você precisa de mim. Você sempre precisou de mim — eu sussurro. Ele fica em silêncio novamente, e eu sei que estou certa. Ele não é nada sem mim. Mas eu tenho que fazê-lo falar novamente. — Você não estava preocupado que eu teria uma visão sobre você? Descobrir quem você era? — Preocupado? Você não tem ideia de como foi difícil — ele estala, e sua voz esta ecoando menos agora. Ele está perdendo a energia e a concentração para fazer seus pequenos truques de salão. Ele está com raiva por ele não poder sair. E irritado que, pelo menos no momento, eu estou ganhando. — Eu usei aquela máscara dia e noite durante semanas! Eu não podia nem pensar em arriscar em pensar em meus assassinatos sem a maldita máscara. As únicas vezes que eu não usava era quando eu estava com você. Então, se você tivesse uma visão sobre mim, você só iria nos ver trabalhando juntos. Eu dou um passo a minha direita novamente quando eu ouço algo tombar e quebrar. — Eu nunca mais vou fingir de novo — ele grita. — Eu nunca mais vou me esconder, ou correr, ou morrer de fome. Não por causa dela e não por causa de você!


Em seguida, a partir do lado oposto, ele está correndo na direção da extremidade do quadro. Eu visualizo o martelo na minha mão se transformando em um longo gancho. Eu prendo seus pés e ele cai no chão. Eu salto sobre ele em um instante. Seu cotovelo bate em meu nariz e a dor explode em meu rosto. Este não é o meu corpo físico, eu me lembro, lembrando da dor paralisante dos golpes de Smith na noite em que salvei Clara. Eu posso aguentar. Eu sou mais forte do que ele jamais me deixou acreditar, eu digo a mim mesma, tentando não me render à dor excruciante. Eu aperto meus braços ao redor do pescoço de Smith enquanto suas unhas se fincam na minha pele. Ele joga a cabeça para trás, os nossos crânios se conectando e, por um segundo, eu vejo estrelas e solto meu aperto. Ele me arremessa para longe, tentando recuperar o fôlego e quando ele vira há uma arma em sua mão e ele dispara. Sinto um calor através do meu ombro e eu olho para baixo para ver o sangue. Minha visão embaça, mas o som de um segundo tiro me joga de volta à ação. Eu rolo e ele perde alguma façanha de pura sorte. Eu vou até ele, jogando meu ombro não lesado em sua barriga e ele traz a coronha da arma nas minhas costas com uma estalar. Uma, duas, três vezes e eu sinto o sangue escorrendo de onde minha pele se quebra. Cada parte de mim dói, mas quando eu ouço o clique da arma e percebo que Smith vai atirar de novo, eu sei que não posso simplesmente evitar seus golpes. Ele vai me matar neste plano sobrenatural. E a única maneira de salvar a mim mesma é matar ele primeiro. Tão logo eu penso nessa conclusão na minha cabeça, eu sinto a vara longa que de alguma forma ainda está apertada em meu punho e se transformou em uma faca. Uma faca muito familiar. Sem hesitar, eu balanço a lâmina para ele, cortando qualquer coisa que eu posso encontrar. Eu estou esperando, me preparando, para outra bala, mas a minha faca conecta com algo mais duro do que a pele, e Smith deixa escapar um suspiro de dor. O barulho da arma pesada no chão é o som mais doce que eu ouvi o dia todo. Eu não sei em quanto tempo Smith pode fazer outra arma. Então eu continuo apontando cegamente para ele, acidentalmente esfaqueando a faca em minha própria coxa em um ponto e forçando-me a ignorar a dor escaldante. Por fim, eu fico livre. Quase cega pela agonia e raiva, eu pulo em cima de Smith enquanto ele tropeça e eu pego a faca ensanguentada e lisa em ambas as mãos e levo-a até o seu peito, onde ela afunda. Arranco-a, tentando bloquear o som de gelar os ossos. Mergulho novamente. Arranco, mergulho, arranco, mergulho, ignoro as lágrimas que caem como chuva enquanto a minha inocência é verdadeiramente arrancada, e Smith lentamente deixa de se contorcer, em seguida, fica imóvel abaixo de mim.


Trinta e Dois Traduzido por Nina

E

u pisco e ainda que meus olhos físicos possam vagamente ver o céu azul brilhante, eu permaneço de alguma forma presa na minha segunda visão. Mas não na cúpula do meu plano sobrenatural; estou no que eu normalmente classifico como uma visão, exceto que eu não sinto a pressão na minha cabeça, ou a tempestade no meu cérebro. Eu estou na mesma cena que eu estava com Smith há poucos minutos. Mas esta é real, é Smith de verdade, sentado na prisão no mundo físico. Não há indicações específicas, eu apenas sei. Eu o encaro e por um segundo eu espero ele saltar para cima e me atacar. Mas ele se senta, caindo contra a parede, com os olhos desfocados, como antes. Fico confusa por um momento até eu ver o sangue que está saindo de seus ouvidos. Não é como na memória com Sierra. O sangue jorra. De alguma forma, sua ligação de anos atrás não era tão forte. Ambos sobreviveram. Mas não hoje. Ele está morto. De verdade. Ele amarrou nossas mentes tão apertado na minha segunda visão que ele, literalmente, não poderia existir sem mim. Ao lançá-lo para fora do meu mundo no plano sobrenatural, eu cortei sua força vital. As palavras que minha tia disse para mim enquanto eu segurava a faca na garganta de Linden voltam para mim: Ele está se alimentando de você. Ele nunca vai ser tão forte como você. Você tem que bani-lo. Ela sabia que isso aconteceria. Que ele realmente iria morrer se eu o derrotasse. Deve ser por isso que ela estava tão preocupada quando soube que eu estive no seu mundo, ela sabia que a ligação era mais forte desta vez. Mas ela me poupou o conhecimento de antemão. Se eu soubesse verdadeiramente o que aconteceria, eu não acho que eu poderia ter feito isso. A visão desaparece e minha visão física surge novamente. O céu está tão brilhante. Eu tremo contra ele depois da escuridão do mundo de Smith. — Oh, graças a Deus — ouço Sierra sussurrar, e então eu vejo o seu rosto acima do meu. Meus dedos voam para o meu ombro, onde Smith atirou, mas assim como após o ataque contra Clara, eu estou bem. — Linden — eu murmuro. Meus olhos voam para onde ele está deitado em um banco de neve, a faca ensanguentada ao lado dele. Embora eu veja uma marca vermelha em seu pescoço não parece como se eu realmente tivesse cortado sua pele. Mas o sangue da ferida do seu lado aparece através de seu casaco.


— Nós temos que ajudá-lo — eu digo, rastejando sobre o chão. Eu retiro meu cachecol e enrolo em uma bola pressionando contra o corte jorrando sangue. — Linden — eu digo, com a cabeça para o lado. Eu puxo o seu rosto para mim, deixando impressões digitais sangrentas em seu rosto, e ele abre os olhos lentamente. — Apenas olhe para mim, Linden. Sierra, o que vamos fazer? — eu grito, mas não consigo tirar os olhos dos dele. — A ambulância vai estar aqui a qualquer momento — Sierra diz calmamente, seu tom de voz de volta ao timbre calmo à que eu estou acostumada. — Eu os chamei imediatamente antes que você voltasse à si. Assim que você deixou cair a faca — ela acrescenta, e a culpa agita no meu estômago. Ela me protegeu colocando em risco a vida de Linden. — Eu acho que ele vai ficar bem — Sierra diz, como se estivesse lendo meus pensamentos. Eu ouço o som fraco de uma sirene. — Eles estão vindo, Linden — eu digo, e os olhos dele se abrem novamente. — Eles estão quase aqui. Fique acordado. Menos de um minuto depois, estamos cercados por paramédicos vestidos de azul. Dou um passo para trás, deixando-os trabalhar. — Você está bem? — um dos paramédicos pergunta. — O quê? — eu respondo, me perguntando por que ele se preocupa comigo. — Você está coberta de sangue. É tudo dele ou você está machucada também? Eu olho para mim mesma. Estou coberta de sangue. Parece particularmente apropriado que o sangue de Linden esteja cobrindo minhas mãos. Se ele morrer, eu vou ser uma assassina. — Eu não estou machucada — eu digo, e o paramédico olha para mim de um jeito engraçado. Eu não entendo por que até que de repente eu vagamente o reconheço de ontem à noite. Eu disse a mesma coisa. Eu me pergunto o que ele pensa de mim. E percebo que eu não me importo. — Posso ir com ele? — eu pergunto, começando a entrar em pânico quando os paramédicos começam a fechar as portas da ambulância. E se eu nunca mais vê-lo novamente? — Sim, você pode vir e nós vamos te limpar a caminho, só para ter certeza que você não está ferida. Estou entrando na ambulância quando percebo que eu deixei a faca lá jogada na neve. Eu olho para trás, mas o local onde eu larguei a faca está vazio. Com pegadas que conduzem direito até Sierra. Eu olho para longe enquanto as portas se fecham, muito culpada para sentir qualquer gratidão por algo. Eles vão levá-lo para a cirurgia imediatamente.


Eu sinto como se toda a minha tivesse sido rasgada em pedaços. Smith está morto e por isso eu nunca vou saber com certeza se eu matei ou não Nathan Hawkins. Smith levou esse segredo com ele. Eu sempre vou me culpar, sempre vou sentir o peso disso. Eu não vou ser capaz de viver comigo mesma se eu tiver matado Linden. Não importa que eu estava sob controle de outra pessoa, Smith pegou a vítima certa. Se Linden morrer, eu estarei destruída. Os pais de Linden vêm correndo minutos depois que o médico fala comigo. Eu digo a eles o que ele disse, mas quando eles me perguntam o que aconteceu, tudo que posso dizer é: — Eu não sei — enquanto lágrimas sem fim rolam pelo meu rosto. A mãe de Linden aperta minha mão e sussurra algo reconfortante, mas eu não mereço seu conforto. Eu não mereço sequer estar no mesmo lugar que ela. Faz uma hora desde que o médico saiu. Quando ele fala de Linden, eu estou tão perto de desmaiar que eu mal consigo escutar. — Nenhum dos órgãos vitais foi atingido — ele diz, — apenas algumas paredes musculares. Um corte bastante raso. Ele vai ter uma cicatriz para se gabar de sua valentia para as meninas — ele acrescenta enquanto pisca para mim. Eu quero afundar ali. Os pais de Linden e eu vamos para o seu quarto onde me sento e espero Linden recuperar a consciência. Cada segundo parece uma eternidade enquanto eu me sento lá olhando para a sua forma pálida. Finalmente seus olhos piscam lentamente, como fizeram na neve. Todos nós saltamos para cima e cercamos sua cama, seus pais alcançando cada uma de suas mãos. Eu me sinto como uma traidora; eu não deveria estar aqui. Mas eu tenho que estar. Eu tenho que saber. Uma enfermeira entra com um sorriso e nos enxota de seu lado. Ela pega um gráfico. — Bem — ela diz em um tom demasiado sedutor para o meu gosto, — você sabe o seu nome? — Linden Christiansen — ele diz, e embora sua voz esteja um pouco rouca, ela sai forte. Ela faz a ele mais algumas perguntas, o seu aniversário, quantos anos ele tem, que ano escolar ele está. Em seguida, ela pergunta o que ele se lembra sobre hoje. Eu estou de pé perto da cabeceira da sua cama na direção oposta de onde ele está encarando — eu não estou realmente certa de que ele sabe que estou aqui. Quando ele começa a falar, eu encolho ainda mais para trás. — Minha namorada veio. — Meu coração dá um pequeno salto com a palavra namorada, embora eu saiba que eu nunca mais vou ouvi-la novamente. — Qual é o nome da sua namorada?


— Charlotte. Charlotte Westing. Fomos dar uma caminhada. Saímos da calçada e então... Eu prendo a minha respiração e me preparo para o meu mundo virar de cabeça para baixo. Para todos voltarem seus olhos para mim cheios de acusação e ódio. Exatamente do jeito que eu completamente mereço. — Eu acho que tropecei e caí em algum tipo de rocha pontuda ou algo assim. Eu não sei. Mas foi um acidente — ele diz, e sua voz está sólida com certeza. Eu nunca teria acreditado que ele estava mentindo. — É claro que foi. Deve ter sido uma rocha muito acentuada. Os médicos disseram que a ferida é estreita e rasa. Quase como uma faca. — Ela ri, cansada. — Esperamos que nossos dias de facadas tenham acabado. Com o Assassino de Coldwater atrás das grades, eu lhe digo que nós poderemos enfim viver mais do que felizes por estarmos de volta aos poucos acidentes que nossa cidade sempre teve. — Amém — a mãe de Linden diz calmamente. Meus joelhos estão tão fracos que eles mal suportam o peso do meu corpo. Por que Linden mentiu por mim? E por quanto tempo podemos esconder isso? Mesmo se eles acreditarem e não investigarem isso, há sempre um preço. A enfermeira explica que como já é noite, eles gostariam de mantê-lo durante a noite para observação. — Podemos ficar? — a mãe dele pergunta. — Certamente — a enfermeira diz. — Mas eu tenho receio que Charlotte terá que ir, já que o horário de visitas terminou. Ela não é da família. A cabeça de Linden se vira para o lado. Eu estava certa. Ele não sabia que eu estava aqui. As emoções em seus olhos são como um flash de tão rápido que passam, e eu não posso nem começar a tentar ler cada uma. Eu esperava que ele falasse, então me pergunto se eu devo dizer algo primeiro. Mas eu não consigo fazer a minha boca se abrir e, no final, eu simplesmente balanço minha cabeça e saio de seu quarto. Estou a dez passos da porta antes de eu ouvir alguém chamar meu nome. Eu não quero parar. Não quero explicar nada disso para ninguém. Mas eu finalmente me viro quando eu percebo que não é a mãe de Linden ou a enfermeira. É Sierra. Ela caminha até mim timidamente, como se eu fosse um animal arisco que irá atacar se ela se mover muito rápido. Eu fico olhando para ela, essa mulher que eu nunca entendi muito bem, mas que tem mais empatia por mim do que qualquer outro ser humano em todo o mundo. Ficamos ali por alguns segundos, a poucos centímetros de distância. Em seguida, ela levanta seus braços — um pequeno movimento — mas o suficiente para que a barreira entre nós se estilhace. Lanço-me em seus braços e soluço.


Trinta e Três Traduzido por Nina

M

ais uma vez, todos os canais foram interrompidos por noticiários com repórteres encarando sem pestanejar a câmera e relatando a morte inesperada do Assassino de Coldwater. O homem que não está em nenhum banco de dados, que não carregava nenhuma identificação. Aquele que, antes de morrer, se recusou a identificar-se por qualquer nome além de Smith. A causa da morte é citada como uma maciça hemorragia cerebral espontânea. Ele está morto. Eu o matei. Qualquer um poderia argumentar que foi autodefesa; no final, realmente era ele ou eu. Mas nos meus pesadelos ontem à noite — cada vez que eu conseguia pegar no sono — eu não via nada além de mim mesma cravando aquela faca em Smith várias vezes. A sensação do punho atacando, escorregadio com o seu sangue; o barulho da lâmina ricocheteando suas costelas; sua vida vazando para fora dele em jorros de marrom escuro. Gostaria de saber quanto tempo levará até que eu possa dormir em paz novamente. São nove horas da manhã, mas eu sinto como se fosse o meio da noite. Eu estou tão cansada, mas não me atrevo a fechar os olhos. Sierra me deixou sozinha até agora. Acho que ela está esperando eu chegar até ela. Deixando ser a minha escolha. Mas ainda não. Estou exausta demais. Eu coloco minha cabeça em cima da mesa e aproveito a sensação fresca da superfície da madeira. Meu telefone toca e todos os músculos do meu corpo apertam de medo quando vejo que é Linden. — Oi — eu digo, apenas alto o suficiente para eu ouvir. Eu nem tenho certeza de que foi alto o suficiente para ele ouvir. — Oi, Charlotte. O telefone fica em silêncio por vários segundos até que ambos falam ao mesmo tempo. — Escute, Linden... — Eu estava me perguntando se... Nós dois rimos e é como pregos em um quadro, tornando tudo pior. — Vá em frente — eu digo, para acabar com o riso falso. — Estou sendo liberado ao meio-dia e os meus pais foram pegar algumas coisas para mim. Eles não vão estar de volta por uma ou duas horas. Eu sei o que está por vir e eu quero chorar. Eu esperava que eu pudesse fingir que as coisas seriam normais entre nós, pelo menos mais um dia.


— Eu esperava que talvez você pudesse vir me ver antes de eu ir para casa.

*** — Oi — eu digo, colocando minha cabeça pela porta em seu quarto de hospital. Ele parece completamente normal — ele está vestindo uma camiseta que é muito grande para ele, provavelmente do pai dele, e ele conseguiu sua calça jeans de volta. Ele está sentado na cama, meio reclinado, e parece como se ele estivesse já na casa dele. Em sua própria cama. Meu rosto fica vermelho com esse pensamento e eu o escondo girando e empurrando a porta para se fechar atrás de mim. Eu o encaro novamente, mas mantenho minhas costas contra a porta, eu não estava pronta para dar mais um passo para a frente. Ainda não. Linden sorri e eu pisco de surpresa. Não é o seu sorriso vencedor habitual; ele parece triste. Eu esperava raiva, acusação, até mesmo rejeição. Mas tristeza? Eu não tenho certeza do que fazer com isso. — Venha aqui — ele diz, e dá um tapinha em um lugar na cama ao lado dele. — Linden, eu tenho que... — Por favor — ele interrompe. — Eu primeiro. Antes de me agradecer por algo que eu não mereço. Até onde eu sei, ele merece tudo. — Eu estava ficando sem coragem de falar com você sobre isso quando fomos na nossa caminhada ontem e tudo... deu errado. O eufemismo do século. Ele se mexeu na cama, esticando-se um pouco mais. — Ontem, quando eles mostraram que Smith foi o cara que matou a todos, eu me apavorei um pouco, porque eu o reconheci. Acho que foi no início de dezembro, eu estava andando por um corredor na loja de ferragens quando ele me parou e me entregou algo. Ele disse que eu tinha deixado cair. Eu não pensei muito nisso, exceto que ele era estranho e insistiu para que eu pegasse uma ferramenta que eu tinha certeza que eu não tinha deixado cair. E o cabelo dele — me lembrei de seus cabelos grisalhos, porque ele não parecia velho o suficiente para o seu cabelo ser tão cinza. Concordei com a cabeça timidamente, lembrando-me que tive a mesma primeira impressão dele. Vagamente eu me lembrei que era marrom na cena dele com Sierra jovem. Gostaria de saber se o que ela fez com ele naquele dia o transformou em cinza. Eu engulo em seco e forço minha atenção para Linden. — Honestamente, eu não teria pensado sobre isso novamente, exceto que todas as manhãs, por razões que eu não entendia — ou não questionei no momento — eu coloquei essa ferramenta no meu bolso. Carreguei-a


durante todo o dia. — Ele junta os dedos, aperta e os separa. — E foi aí que eu comecei a falar com você na escola. Estou confusa, não seguindo a sua lógica. — Charlotte, eu não disse a ninguém isso, mas eu... Bethany e eu estávamos saindo. Nós não havíamos dito nada ainda, foi por cerca de duas semanas e estávamos desfrutando do nosso pequeno segredo. — Ele olha timidamente para o seu colo, claramente envergonhado. — Mas já que estamos sendo sinceros, eu gostava dela já faz um tempo. Há anos. Eu aceno; eu conheço exatamente esse sentimento. — Nós estávamos juntos na noite em que ela morreu. Eu solto uma respiração rápida de surpresa. — Mais ou menos — Linden esclarece. — Estávamos juntos e então eu apenas... eu a deixei. Eu não sabia o porquê. Mas eu o fiz. Quando eu descobri que ela estava morta, foi como se alguém abrisse um buraco no meu peito e pegasse meu coração. Mas depois que eu comecei a sair com você, a dor era mais suportável. Houve momentos em que eu não pensava em Bethany por uma ou duas horas. E então até um dia inteiro. Eu fiquei entorpecido — ele termina e olha para mim com ar culpado. — Mas eu só me sentia assim quando eu estava com você e então eu continuei falando com você. E mandando mensagens de texto. Eu não tive a intenção de ser um idiota — eu realmente acho que eu estava apaixonado por você. Mas não sei mais se era mesmo isso, exatamente, era mais como... eu não sei como explicar isso. — Uma compulsão? — eu sugiro, a verdade devastadora caindo em mim como uma tonelada de pedras. Você achou que ele realmente gostava de você, Charlotte? Você acreditou? — Sim — ele diz com um aceno de cabeça. — Exatamente. E depois que eu vi uma foto de Smith, eu comecei a juntar as coisas. Eu sei que isso vai parecer loucura, mas acho que de alguma forma ele estava me controlando — ele inclina os olhos e a intensidade que eu vejo lá me assusta novamente, — da mesma forma que ele controlou você com a faca. Minha boca está tão seca que minha garganta dói e eu não posso falar. Sento-me lá, congelada de medo, a dor da realidade me batendo no estômago. — Eu não sabia que você tinha alguma coisa a ver com isso, é claro. Eu apenas pensei que era eu. E talvez foi assim também que ele conseguiu algumas de suas outras vítimas. Mas quando você tirou a faca, eu poderia dizer que não era você. Quando sua tia falou diretamente com ele, eu sabia, eu sabia que ele estava controlando você também. Olhando para trás, deve ter sido por isso que abandonei Bethany naquela noite. Ele me fez agir assim. Concordo com a cabeça e quando eu pisco uma única lágrima desliza pelo meu rosto. Linden se inclina para frente e a limpa com o polegar.


— É por isso que eu menti — ele disse. — Eu não poderia fazê-la sofrer por algo que você não escolheu, quando eu basicamente havia sido completamente falso com você pelas últimas três semanas. — Eu não me importo que foi falso, Linden — eu digo com um sorriso trêmulo. — Eu amei cada minuto disso. Eu esperava que as minhas palavras o fizessem se sentir melhor, mas ele olhava com culpa para suas mãos. — Há... há mais. — Ele escava em seu bolso, em seguida, estende sua mão para mim. Eu abro a minha mão e ele deixa cair uma pedra nela. Com uma rachadura no meio. Eu a olho e aperto os olhos vendo seu núcleo brilhante no meio que eu tenho certeza que não pertencia a uma pedra normal. — Smith deu a você — eu digo, e não é uma pergunta. Eu coloco minha mão em meu próprio bolso e meu punho se fecha em torno do colar. Eu retiro e abro a minha palma. A pedra sobre a corrente de prata tem uma pequena rachadura nela também. E o mesmo tipo estranho de metal reluzente no meio. Eu não percebi isso quando eu agarrei ela e empurrei no bolso esta manhã. Toda vez que você usar o colar com meu feitiço nele, a porta se torna maior, Smith disse. Este é o feitiço que ele de alguma forma colocava dentro da pedra. Nos mantinha unidos. A cada hora que você usava o colar meu poder sobre você fortalecia. Agora eu sei como. — Sua coisa de controle da mente desapareceu. Quando acordei da cirurgia ontem, eu estava sobrecarregado de tristeza por Bethany — Linden diz, e me dá aquele sorriso triste novamente. — Foi quando eu tive certeza de que eu tinha sido controlado. E que tudo estava acabado. Isso que você fez conseguiu quebrá-lo. Não apenas para você, mas para mim também. Ele toma uma respiração longa e trêmula. — Eu sei que foi há quase um mês, mas, para mim, parece que Bethany acabou de morrer. — Ele engole em seco. — Eu sei que isso é uma coisa totalmente horrível de se dizer depois de, basicamente, ter saído com você na semana passada, mas eu não estou pronto para namorar alguém. Preciso de um tempo para lamentar por Beth. E... — Ele faz uma pausa e pisca rapidamente várias vezes. — E eu não sei quanto tempo isso vai levar — ele diz, terminando em um sussurro. — Eu entendo. — É a verdade. Entendo mais do que ele poderia imaginar. Mais do que ele jamais saberá. Ele se adianta. — Talvez dentro de alguns meses, se eu estiver pronto e se você estiver pronta, talvez poderíamos tentar ser amigos e então... em seguida, ver onde vai dá. Por um pequeno instante, eu acho que posso dizer que sim. Mas por apenas um instante. — Linden — eu digo, e eu coloco minha mão em seu joelho, esfregando os dedos lentamente até sua coxa pela última vez. Porque mesmo que ele decidisse um dia que ele está pronto, mesmo se ele achar que ele me quer de verdade, eu sempre vou me perguntar se não é uma influência


persistente de Smith. Ele saberia que uma vez, quando tinha dezesseis anos, eu tentei matá-lo. E eu sempre terei que esconder que sua namorada — a sua verdadeira — morreu pela simples razão de que o monstro me caçando a queria fora do caminho. Na minha mente, eu vejo a tela do mundo de Smith, onde eu sou uma noiva cintilante sorrindo para uma versão bonita e um pouco mais velha de Linden. Abrir minha boca e forçar as palavras a sair agora é tão difícil. — Eu acho que nós tivemos a nossa oportunidade. Vejo alívio caindo sobre o seu rosto e nesse momento eu sei que fiz a coisa certa. — Obrigada por me dizer — eu digo, enquanto eu me levanto da cama. — Isso significa muito. — Eu dou de ombros, e forço um sorriso. — E obrigada por não dizer a eles — eu digo, inclinando a cabeça para a porta, me referindo aos médicos, aos pais, ao mundo. — É o nosso segredo — ele diz. Eu hesito. — Eu não conhecia Bethany, na verdade — eu coloco pra fora, — mas se você gostava tanto dela, ela deve ter sido maravilhosa. — Ela era — ele sussurra. — Sinto muito que você a perdeu. Ele balança a cabeça, então ele olha para cima e encara meus olhos e há outra emoção lá que eu não tenho certeza se entendo o que é. — Eu estou feliz que eu encontrei você. Mesmo que tenha sido por apenas um tempo. — Eu também. E ele não sabe, enquanto eu me viro e sorrio para ele antes de abrir a porta, que o meu coração está fragmentando em pedaços. Que mesmo aqueles estilhaços estão quebrando ao meio, deixando quase nada do meu coração para bater a vida em mim.


Trinta e Quatro Traduzido por I&E BookStore

E

u hesito do lado de fora do quarto da minha tia. Estou cheia de uma mistura tão estranha de curiosidade, excitação... e medo. Eu não tenho certeza do que pensar das últimas semanas. Eu não posso evitar de sentir que fiz algumas coisas certo. Smith estava especificamente matando pessoas para chegar a mim, então agora eu sei que se eu não tivesse começado a quebrar as regras, mais pessoas teriam morrido. Ele teria matado dezenas para chegar até mim se ele precisasse. Mesmo que apenas para se alimentar. Mas será que morreram mais pessoas do que precisava? Será que Nathan morreu desnecessariamente? Eu finalmente reúno coragem suficiente para levantar o meu punho e bater levemente. — Entre — Sierra diz na mesma voz calma que ela sempre usa. Isso costumava me incomodar. Até mesmo me assustar, porque eu sempre achava que eu iria acabar como ela. Mas agora ela comanda um grau de respeito. Eu percebi que eu nunca vou ser inteiramente como a minha tia. E isso é bom. Mas há uma série de coisas em que eu quero imitá-la. Eu fecho a porta atrás de mim, algo que raramente faço. Mas eu não estou indo dar desculpas desta vez; vamos botar essa coisa toda para fora. Está na hora. Fico surpresa de encontrá-la sentada no sofá na frente da janela da baía, com uma xícara de café na mão. É onde eu costumo me sentar quando estou aqui. — Você estava esperando por mim — eu digo antes de eu realmente pensar nisso. Ela balança a cabeça. — Charlotte, hoje não há nada mais importante do que você. — Ela faz uma pausa, olhando para o seu café. — Ouvi dizer que você foi ver Linden. Concordo com a cabeça. Agora que eu estou aqui, minha língua parece pesada e desajeitada. — Nós terminamos. — Mesmo depois que ele mentiu por você? — Ele disse... — eu hesito. — Ele disse que poderia dizer que eu estava sendo compelida por uma força externa — eu digo. — Ele não queria que eu tivesse que levar a culpa por algo que não foi a minha escolha. — Isso é muito compreensivo da parte dele. Concordo com a cabeça. Nós duas ficamos em silêncio por alguns segundos. — Ele tinha acabado de começar a namorar com Bethany — eu


digo em um sussurro, que é a única maneira de eu poder falar quando as lágrimas estão tão próximas. — Smith a matou para tirá-la do caminho. Os olhos de Sierra fecham por um longo tempo, e quando ela os abre há um oceano de culpa lá. — Eu sinto muito — ela diz em voz baixa. — Eu sinto muito por tê-lo trazido para a sua vida. Para a sua e a de Linden. Para a de todo mundo. — Você não fez isso — eu digo, avançando com um solavanco. — Você não teve intenção — eu altero. Mas eu entendo porque ela se sentia assim. Como Smith a fazia se sentir assim. — Eu ainda sou a responsável — diz Sierra, forçando um sorriso corajoso. — Venha, sente-se. Eu sento ao lado dela e, embora ainda haja segredos a serem compartilhados, as paredes entre nós desmoronaram. — Seu nome é Shelby mesmo? — eu pergunto, a cabeça encostada em seu ombro. — Era. — Você vai trocar agora? Ela balança a cabeça. — Eu estive sendo Sierra por tanto tempo que eu quase não me lembro o que significa ser Shelby. — O que você disse a minha mãe quando você trocou de nome? — A verdade. Que alguém tinha tentado me matar e que eu precisava fazer isso para me esconder. Eu acho que ela se esqueceu com o tempo. É apenas um nome. Eu estendo a mão e toco uma mecha de seu cabelo. — Você vai deixar crescer o loiro? Ela me dá o sorriso mais relaxado que eu já vi nela há um longo tempo. — Provavelmente. — Então, depois de cortada a sua ligação com Smith, você veio ficar com a minha mãe e o meu pai? — Morar com os recém-casados? — Sierra diz com uma risada. — Dificilmente. — Mas ela fica sóbria. — Jason conhecia sua mãe, então eu não podia ficar com ela. Não poderia nem mesmo falar com ela durante anos. Eu fui fundo para me esconder, mudei meu nome, e me afastei apenas para me manter segura. Quando seu pai conseguiu um emprego a 10 milhas da cidade que eu estava vivendo foi ótimo porque, de repente, tínhamos que nos ver outra vez. Fazia pouco mais de cinco anos e eu achei que era seguro. — Ela faz uma pausa. — Ele me disse que vocês se conheceram quando crianças e que eram melhores amigos. — É verdade. Eu não sei o que ele realmente entendeu que ele era naquele ponto. Alimentadores pulam tantas gerações — dez, até mesmo vinte — que eu imagino que ele teve que descobrir tudo sozinho. — Ela hesita. — Eu tenho essa teoria de que os Alimentadores permanecem


latentes até que sejam despertados pela presença de um Oráculo. Como um portador do gene. E então eles são atraídos por eles. — Ele disse que se alimenta da energia das visões? — eu pergunto. — Em termos mais literais, sim. Estas criaturas roubam os poderes dos Oráculos. Quando você não é capaz de lutar contra uma visão, um fio de energia é liberado e um alimentador pode sobreviver por meses — só que muito mal — desse modo. Ele era muito forte enquanto nós éramos amigos, porque eu secretamente me rebelei e raramente lutava contra as visões. E ele praticamente morava na minha segunda visão. Eu imagino que ele estava perigosamente fraco quando ele começou a matar para passar por suas defesas. — De onde é que eles vêm? Ela se move para que ela possa olhar para mim. — Quando Oráculos começam a desgastar a si mesmos e usa seus poderes fora da esfera política, você pode imaginar que os governantes do mundo ficam muito chateados. — Ela estremece. — Diz a lenda que eles recrutaram Bruxas para fazer experimentações em Oráculos cativos e o resultado foi uma criatura que poderia, em alguns aspectos, imitar os poderes tanto das bruxas como dos Oráculos, mas a um terrível, terrível custo. — Ela se inclina e coloca uma mão no meu joelho. — Eles são criaturas desprezíveis. — Eu vi uma cena em que Smith engasgou você e, em seguida, você fez alguma coisa, e ele, tipo, caiu para fora. — O rosto de Sierra fica pálido, mas ela não me interrompe. — Ele estava sangrando pelos ouvidos, mas, obviamente, ele sobreviveu. Quando eu fiz isso, Smith morreu. — Eu engulo em seco, revivendo aqueles momentos na minha cabeça. — A ligação de Smith com você era mais forte do que a que nós dois compartilhávamos. Ele literalmente não poderia viver sem você. O problema é que ele tinha mais controle. Ele teria eventualmente obtido o controle total. — Mas ele só entrou em minha segunda visão há duas semanas! — eu protesto. — Ele esteve na sua por anos. — Ele não te amava — Sierra sussurra. — Assumir a mente de alguém é uma coisa muito brutal. Meu palpite é que ele nunca teve a vontade de me assumir verdadeiramente. Ele era forte o suficiente, mas ele nunca foi em frente completamente. — Você estava apaixonada? — eu pergunto, tanto horrorizada como com empatia. Ela não responde. Ela não precisa. — No meu último ano eu finalmente comecei a perceber o que ele era. O que ele estava fazendo. Eu não entendia os detalhes, é claro, tudo isso eu soube mais tarde. Mas eu sabia que era errado. Tivemos o confronto que você viu, e eu quase morri. Ele quebrou alguns ossos do meu pescoço e eu fiquei no hospital por um longo tempo. — Ela ri sombriamente. — No fim das contas, foram as Irmãs que me protegeram, que me ajudaram a consertar meu plano sobrenatural, e,


eventualmente, fizeram todos os arranjos para eu ir para um esconderijo. Devo-lhes muito. — Ela acrescenta em um sussurro. — Eu me juntei a elas e decidi viver por suas regras, como eu deveria ter feito desde o início. Aprendi por mim mesma que o seu caminho é o melhor caminho. Eu luto contra a vontade de me contorcer. Talvez seja o melhor caminho para ela, mesmo depois de tudo isso, eu ainda não estou convencida de que é o melhor caminho para mim. — Eu fui tão cuidadosa no começo. Mas depois de alguns anos, eu percebi que ele tinha que ser morto. Eu lentamente entrei em contato com seus pais de novo — comecei a viver. Eu não sei exatamente quando ele me encontrou, mas eu suspeito que foi através da sua mãe — ela diz, e sua voz está rouca. — A culpa é minha de novo. — Então ela fica em silêncio por um longo tempo e eu não a pressiono. — Eu o subestimei e você pagou o preço. Eu engulo em seco. — Ele tem estado em torno há um longo tempo, na verdade. Ele fez com que o acidente de mamãe e papai que eu tentei parar ainda acontecesse. — Minha voz está instável, mas eu digo a ela sobre a cena que eu vi nas memórias de Smith. — Uau — minha tia sussurra. — Eu não tinha ideia. — O brilho de culpa em seus olhos me faz perceber que ela vai se sentir responsável pela morte do meu pai da mesma forma que eu senti nos últimos dez anos. De certa forma, eu tinha sido exonerada. Mas agora Sierra tem um problema totalmente novo para trabalhar. Eu não invejo ela. Vão ser alguns meses árduos para nós duas. Sierra se inclina para frente. — Com suas origens tão ricas em bruxaria, esses alimentadores muitas vezes encantam um item para criar uma conexão entre si e seu Oráculo escolhido. Smith te deu alguma coisa? Algo que ele lhe disse para você segurar? — Sim. — Eu coloco minha mão no bolso e meus dedos tocam tanto a pedra como o colar. Mas eles se fecham em torno da pedra. Parte de mim não quer dar o colar. Ainda não. Ele me salvou, mas o mais importante é que ele me dá acesso aos meus outros poderes. Os que eu não deveria saber. Eu não estou pronta para desistir deles. Então eu puxo a pedra rachada e a solto na mão de Sierra sem realmente dizer uma palavra. Ela a aceita com um olhar tanto de interesse como de decepção no rosto. — Fascinante — ela sussurra. — Não é a pedra em tudo, mas o núcleo brilhante que você pode ver no meio. Ele deve ter encantado por si mesmo. — Ela suspira e depois diz: — Eu esperava que ele pudesse ter lhe dado um pingente de cristal. — Por quê? — eu pergunto, tentando soar neutra. — É meu. Eu acho que tecnicamente pode ser seu agora. É o que usamos quando eu era mais jovem. Quando a minha luta com Smith acabou, o colar desapareceu. Eu não sei se ele o pegou, ou alguém o encontrou.


Honestamente, eu não tenho certeza ainda se Smith entende o quanto ele é importante. É uma pedra do foco excepcionalmente poderosa que aumenta todas as habilidades que os Oráculos não usam mais. — Ela range sua boca. — Isso pode inteiramente não fazer sentido para você. Mas faz. Isso explica tudo. Como eu fui capaz de saltar para o meu plano sobrenatural na noite que eu encurralei Smith, e como o levei comigo. Como eu fui capaz de evitar o ataque na minha visão da noite que Smith tentou matar Clara. Esse colar salvou a minha vida na primeira noite que eu fui para o mundo de Smith. Mas eu não digo nada. — Você vai me dizer como Ja... Smith se envolveu com você? — ela pergunta. Parte de mim quer dizer não. Estou tão envergonhada e constrangida por eu ter sido enganada tão facilmente. Mas então, quem iria entender melhor do que Sierra? Então eu começo do início, com a visão da morte de Bethany e eu digo-lhe tudo. Todas as coisas que agora eu percebo que eu deveria ter dito a ela antes. Todas as coisas que eu queria dizer a ela duas noites atrás que Smith não me deixou dizer. — Nos últimos dias, tudo ficou louco — eu digo. — Eu tinha umas visões estranhas de mim coberta de sangue, de você e mamãe mortas, de Linden. O que era isso? — A forma como um alimentador assume sua mente é primeiro entrar, é claro. — Meu rosto cora; eu fiz isso completamente sozinha. — E então eles têm que destruir você. Smith, obviamente, tentou fazer isso matando pessoas próximas de você, mas eu imagino que ele também tentou apenas fazer o caos. Para fazer você questionar tudo até que você, literalmente, enlouquecesse. Ela diz isso com tanta calma, mas eu estava à beira da insanidade agora mesmo — neste quarto confortável com o braço de Sierra em volta dos meus ombros — e isso me aterroriza. — Eu tive uma visão de matar um amigo meu. — Ele provavelmente só inventou isso. Assim que ele entra, um Alimentador pode exercer muito poder sobre você. Eu deveria ter preparado você. Ensinado você. — Ela suspira. — Charlotte, eu sei que você não vai gostar disso, mas eu preciso contar para as Irmãs. — Por quê?! — Eu não estou pronta para este grupo misterioso. Não estou pronta para me juntar a elas, não estou pronta para elas saberem as coisas que eu fiz. Apenas não estou pronta. — Uma das coisas que eu passei meses fazendo depois que eu parei Smith foi limpando meu plano sobrenatural. — O que você quer dizer com limpando? — Você cortou a energia de Smith, mas o seu mundo ainda mantém seu mundo morto. Uma das líderes de Delphi foi para o meu plano


sobrenatural comigo e me mostrou como destruir o que restava para restaurar a minha cúpula. — Mas você sabe como; você não pode me mostrar como fazê-lo em vez disso? — eu pergunto desesperadamente. — Não sem uma pedra do foco — Sierra diz suavemente. — Eu vou ter que pedir emprestado uma delas. E eu vou ter que dizer a elas o porquê. Eu cerro os dentes e desvio o olhar. As irmãs ou meu segredo? O que é mais importante? Depois de alguns segundos, eu enfio a mão no meu bolso novamente e trago para fora o colar manchado. Eu o seguro em minha palma e não digo nada. Sierra olha para ele e emoções que eu não posso começar a interpretar atravessam o seu rosto. Eu não sei o que eu estava esperando. Raiva? Traição? Ela estende a mão, mas pouco antes de seus dedos tocá-lo, eu fecho minha mão e o puxo de volta, segurando o colar no meu peito. Eu não posso desistir. Não agora. Ela olha para mim, longa e severamente. — É meu agora — eu sussurro. — Ele me deu. Eu esperava que ela discutisse, que o exigisse de volta. Mas depois de alguns segundos, ela simplesmente suspira e diz: — Existe mais alguma coisa que você gostaria de me contar? — Não. Sim! — Eu respiro fundo e depois apenas deixo escapar: — Eu não quero ser uma Irmã. Ainda não — eu acrescento. Depois de tudo que eu vi, tudo que eu fiz, eu não tenho certeza se posso viver por suas regras. Ela olha para mim em silêncio. Segundos se passam. Talvez até mesmo um minuto. Em seguida, ela assente. — Você merece fazer essa escolha. Mas podemos fazer um acordo? Eu a olho, mas não digo nada. — Você vai adiar a tomar essa decisão com certeza até que você tenha dezoito anos e se torne elegível? Eu penso sobre o quanto eu menti para ela nas últimas três semanas. Talvez eu deva isso a ela. — Tudo bem — eu sussurro. Em seguida, — Contanto que você me mostre como limpar meu plano sobrenatural e não envolva elas. Ela sorri, mas é um sorriso triste. — Combinado. No entanto, antes de começar — e não vamos começar hoje — ela diz, parecendo muito cansada, — eu quero que você entenda que quando você me deixar entrar em seu plano sobrenatural, você está me dando o mesmo acesso e poder que você deu a Smith. Eu não vou esconder esse fato de você. Toda vez que você deixar alguém entrar, você lhes dá uma chave mestra, por assim dizer. E não há nenhuma maneira de pegá-la de volta sem prejudicar essa pessoa, como nós duas fizemos com Smith. Embora eu confie nela para não usá-lo, uma das Irmãs mais antigas teve acesso ao meu plano sobrenatural para me auxiliar dezoito anos atrás. Se eu o destruísse, ela ficaria tão frágil que ela quase certamente morreria.


— Posso deixar qualquer um entrar? — eu pergunto, horrorizada com o quanto de poder que eu dei a Smith. — Não — Sierra diz rapidamente. — Isso é algo que eu deveria ter dito a você. Então você teria sabido imediatamente que Smith não era quem dizia ser. Mesmo com a permissão de um Oráculo, os seres humanos normais não podem viajar para o plano sobrenatural. Somente as criaturas sobrenaturais. — Como o quê? — eu pergunto, sentindo que ela está aludindo a mais do que apenas Oráculos e Alimentadores. Ela hesita, e por um momento eu não acho que ela vai responder. — Bruxos — ela finalmente diz. — Feiticeiros e Magos. Há outros. Minha boca cai. — Você está falando sério? — eu pergunto em um sussurro. — E você sabe sobre eles? — Você saberá também — ela diz, mas sua voz está tensa. — A razão pela qual tudo isso aconteceu é que eu a mantive no escuro. Estou acendendo a luz. Todos os meus livros — diz Sierra, indicando suas paredes de estantes com um gesto. — Todas as coisas que você queria saber que eu não iria lhe dizer, as perguntas que você fez que eu não quis responder. Eu não vou mais fazer isso. Minha respiração está mais rápida agora e eu tento escondê-la ficando de pé e caminhando muito lentamente para a prateleira mais próxima e correndo os dedos ao longo das lombadas antigas. Ela está me oferecendo seu mundo. E reconheço que ela também está me oferecendo uma escolha. Não apenas ajuda na limpeza do meu plano sobrenatural. Ela está me oferecendo conhecimento que poderia mudar a maneira como eu conduzo minha vida de Oráculo. Para seguir as minhas próprias regras. E ela sabe disso. — Obrigada. O silêncio se estende enquanto eu olho os títulos avidamente. Eu sei qual eu vou pegar primeiro. Estou morrendo de vontade de ler todo o Reparando o Futuro Fraturado. Mas eu não quero ser uma idiota completa, tirando vantagem da sua oferta naquele exato segundo. Vou dar-lhe um ou dois dias para deixar ela se acostumar com a ideia. E então eu tenho que começar. Eu tenho uma vida de aprendizagem para acompanhar. — Eu vou me sentar com a mamãe — eu digo, não olhando para Sierra. Eu tenho que sair deste quarto ou não vou ser capaz de resistir à tentação. — Talvez eu saia em breve também — ela diz, e eu ouço um sorriso em sua voz. As coisas já estão melhorando. Eu caminho para fora, mas faço uma pausa na porta. — Como você sabia que devia ir salvar Linden? — É a pergunta que eu mais queria perguntar, mas era também a que eu mais temia.


Ela olha para mim, seu olhar intenso, por um longo tempo. Ela suspira e seus ombros caem. — Eu tive uma visão — ela diz, como se admitindo uma grande falha. E depois de mais de uma década de nunca perder, eu acho que ela vê isso dessa forma. — Você realmente teria me matado? — eu pergunto. — Eu estou feliz que eu não tive que descobrir. — Mas você já tinha visto isso — eu protesto, muito familiarizada com sua postura inflexível em não mudar o futuro. — Você foi porque você viu na visão, certo? Você viu a si mesma indo em meu socorro. Seu longo silêncio faz minhas mãos tremerem. — Não — ela finalmente diz. — Eu fui porque eu vi que você perdia. E eu sabia que nunca poderia deixar isso acontecer. Eu sugo uma lufada de espanto. — Você mudou o futuro? Suas bochechas coram e isso é resposta o suficiente. Concordo com a cabeça e escorrego para fora de seu quarto. Eu tenho meses — senão anos — de cura na minha frente. E ainda há muita incerteza. Será que os policiais e agentes federais perderam o interesse em mim agora que o Assassino de Coldwater está morto? Será que eu vou lembrar o que realmente aconteceu na noite que Nathan Hawkins morreu? Será que Clara acordará e terá alguma chance de ter uma vida normal? Será que Michelle manterá o nosso segredo? Eu vou ter que obter respostas para estas perguntas ou aprender a lidar com nunca saber. Enquanto eu ando pelo corredor, eu deixo minha mão deslizar pelo meu bolso e aperto o pingente. É meu agora, para melhor ou pior. Eu vou estudar todos os livros na biblioteca de Sierra. Eu vou aprender com ambos os erros e triunfos dos Oráculos do passado. Para decidir por mim mesma se e quando o futuro deve ser visto. Deve ser alterado. Mas eu não vou mais lutar. Nada disso. Não com minhas visões, e não com minhas habilidades, e não com os poderes do pingente. Porque o mundo pode vir a precisar de um Oráculo novamente. Um verdadeiro Oráculo. E eu vou estar pronta.

Fim!


Próximo Livro: Sleep of Death (Sono da Morte) Oráculos podem ver o futuro, mas juraram nunca interferir. Charlotte Westing aprendeu essa li��ão da maneira mais difícil — mas depois de uma série de assassinatos em sua pequena cidade, ela está começando a se perguntar se ela aprendeu bem demais. Há alguns futuros que Charlotte tem a responsabilidade de mudar? Quando uma nova garota com poderes estranhos aparece na escola no mesmo dia em que Charlotte tem uma visão de um duplo homicídio macabro, Charlotte deve decidir se chegou a hora de libertar-se das regras das Irmãs de Delphi de uma vez por todas. Mas qual será o preço?


Aprilynne pike série charlotte westing chronicles #1 sleep no more (dormir nunca mais)