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Prazer Especial — Cathy Williams Ao ver as deliciosas curvas de Bethany Maguire em um vestido sedutor, Cristiano De Angelis se surpreende. Além disso, as socialites de Roma não costumam tratá-lo como uma pessoa comum, mas como um marido esperando para ser conquistado. Diante dele estava uma mulher inigualável, e conquistá-la seria delicioso... Segredos Passionais — Abby Green Angel Kassianides pode ser apenas uma garçonete, mas tem segredos a guardar. Descobrir que o másculo e deslumbrante desconhecido que lhe tirou o fôlego é Leo Parnassus, o herdeiro dos arqui-inimigos de sua família é um choque, mas saber que não consegue resistir a ele é ainda pior...

DIGITALIZAÇÃO E REVISÃO; Marina .C


CAPÍTULO UM Metido no caixote frio que era o seu Mercedes preto, Cristiano De Angelis observava a agitação das ruas calorentas que o cercavam, por trás de óculos escuros de grife. Aquela área de Roma era familiar para ele, assim como a cobertura londrina onde vivia grande parte do ano, de vez em quando reservando um tempo para visitar sua família, na Itália. Cresceu lá, onde também frequentara a escola, e aproveitou muito bem a vida como membro da elite italiana, mas finalmente abriu suas asas ao sair de casa para cursar a universidade na Inglaterra. Voltar era uma delícia, mas também um pouco claustrofóbico, mesmo que apenas por uma semana, e sempre era um alívio retornar ao relativo anonimato que as ruas de Londres ofereciam. Franziu a testa ao pensar na conversa que acabara de ter com a mãe e o avô durante um almoço suntuoso, servido com formalidade desnecessária na opulenta sala de jantar da casa do avô. Falaram sobre a passagem do tempo, e de como isto o afetava. Fora um assalto, duplo, com precisão militar. Sua mãe de um lado, quase retorcendo as mãos ao discorrer sobre seu desejo materno de que ele assentasse, fosse feliz, parasse de levar a vida na brincadeira; enquanto seu avô atacava por outro lado, falando sobre sua saúde frágil e sua velhice, como se fosse um decrépito senhor centenário, não o homem de 78 anos em ótima forma, capaz de atrair a atenção de todos, sem dizer uma palavra. cathy williams — Conheço uma menina muito interessante... — disse a mãe, tentando imaginar se aquela informaç|p casual fora semeada em solo fértil. Mas Cristiano não entendia. Mesmo sabendo que um dia poderia se casar com alguém interessante, aquele dia ainda não chegara. Foi firme na sua resposta e, claro, sentiu-se mal ao ter de encarar os rostos desanimados dos dois. Mas, obviamente, logo que tivesse chance, eles se provariam mais implacáveis que


um trem à velocidade máxima. Caso tivessem percebido um mínimo de abertura por parte de Cristiano, teriam lhe apresentado várias candidatas em poucos minutos. Um sorriso relutante e irônico fez curvar a sua boca ao mesmo tempo em que movimentava as mãos tentando livrar-se da lembrança da conversa familiar. Observava as centenas de compradoras que se amontoavam nas ruas de lojas elegantes, como se ninguém nesse lado do mundo tivesse medo de gastar. Sem tempo para pensar, bateu no vidro que o separava do motorista e se curvou para dizer a Enrico que desceria ali mesmo. — Leve o carro de volta para casa — disse Cristiano, fazendo uma careta ao perceber que teria de enfrentar o terrível sol de verão, mas reconhecendo que, se não fizesse isso, ficaria parado no trânsito ainda por um bom tempo. Mesmo que o interior do Mercedes fosse muito confortável, não poderia perder tempo sentado mais meia hora. — Tenho que entregar isto para a minha mãe e irei mais rápido a pé. Para voltar, eu pego um táxi. — Mas, senhor, o sol... Enrico, motorista da família desde que Cristiano se conhecia por gente, olhou preocupado para o seu passageiro, que estava a ponto de mesclar-se ao sol escaldante, mas Cristiano forçou um sorriso. prazer especial — Não sou uma moçoila vitoriana prestes a desmaiar, Enrico — respondeu, seco. — Acho que posso aguentar meia hora nas ruas. Olhe só para tantos compradores. Ninguém parece a ponto de morrer de calor. — Mas, senhor, elas são mulheres. Foram feitas para as compras, seja qual for a estação do ano, e nunca são afetadas... Cristiano ainda sorria ao sair para o sol inclemente, com os óculos de sol de volta ao seu lugar. Ele notava, mas preferia ignorar, os olhares das mulheres que passavam perto. Sabia muito bem que, caso diminuísse o passo, não demoraria muito até que uma linda mulher de longas pernas, rica, de cabelos negros se aproximasse. Mesmo não morando na cidade, seu rosto era bem conhecido em certos círculos. Suas visitas a Roma eram repletas de convites, muitas vezes não aceitos, de mulheres que adoravam sua companhia, pois, ao contrário do pensava sua mãe, ele sabia


muito bem fazer suas escolhas. Ao sair do quarteirão de compras lotado, começou a pensar nas escolhas que ela fizera para ele. ' Não tivera qualquer envolvimento sério com mulheres. Não tinha nada contra o casamento. Nem pensava em ter uma vida sem filhos, mesmo que antes tenha tentado livrar-se deste pensamento com um movimento brusco de mão. Cristiano só pensava no quanto fora afetado pelo casamento feliz de seus pais. Seria possível? Não deveria funcionar de outra maneira? Os dois foram muito unidos enquanto era criança, combinavam perfeitamente, como se fossem personagens de um conto de fadas, e viveram vidas completamente felizes, até que seu pai morreu, há cinco anos. Sua mãe ainda se vestia de preto, carregava fotos do marido na bolsa e costumava se referir a ele usando o tempo presente. Em uma época de divórcios rápidos, alpinistas sociais e mulheres com bom olho para não perder a oportunidade de cathy williams se casar com um homem rico, que chance ele teria de conseguir um casamento parecido com o dos pais? Não tardou vinte minutos e estava em pé na frente de um lindo edifício de apartamentos onde deveria entregar uma delicadíssima orquídea a uma mulher que, duas semanas antes, ajudara em um evento de caridade. Era um presente atrasado em agradecimento à sua contribuição. Sua mãe saíra de Roma para passar um tempo na casa de campo e a orquídea, ela mesma dissera, não esperaria pelo seu retorno. Mas não confiaria em outro mensageiro, pois aqueles meninos desastrados eram inúteis para entregar qualquer objeto de natureza frágil. Mas Cristiano enxergava aquilo como uma forma encontrada pela mãe de revidar sua negativa de se encontrar com qualquer pretendente que tivesse escolhido. Caso fosse verdade, era um preço baixo a pagar por escapar tão facilmente. E a caminhada não fora tão desconfortável quanto ele imaginara. Pouquíssimas vezes caminhava, onde quer que fosse, pensou. Sua vida em Londres comportava o luxo de ter um motorista particular todas as horas do dia. Além do mais, andar por andar era uma perda de tempo em sua vida tão agitada. O porteiro do edifício lhe indicou o caminho do elevador sem nada perguntar. Mesmo vestindo roupas casuais, Cristiano exalava uma aura de riqueza, poder e confiança que lhe


possibilitava entrar em qualquer local. O porteiro não pediu que se identificasse, e Cristiano se incomodaria caso seus passos fossem questionados. Em vez de usar o elevador, decidiu subir a pé os três andares até o apartamento. Não era uma escada qualquer. Estava coberta por um carpete turquesa e o papel de parede era sofisticado e delicado. Imaginou que o apartamento seria parecido. Mas, após tocar a campainha várias vezes, não teve resposta. Nem quando ele ligou para o celular de sua mãe, não conseguiu avisar que a missão fora perda de tempo. O que deveria fazer? Estava ali, com uma flor caríssima nas mãos, em busca de uma casa. Irritado consigo mesmo por ter caído naquela armadilha, finalmente decidiu bater na porta. Como em todos os apartamentos luxuosos do mundo, o hall estava em silêncio absoluto. Sabia, por experiência própria, que as pessoas ricas não costumam dividir seu tempo com os vizinhos. Ele mesmo não tinha tempo para conversas furadas nas escadas ou em elevadores, e ficou feliz ao ver que contava com um elevador privativo para a sua cobertura. Bateu mais uma vez na porta, desta vez bem forte, e foi recompensado com o som de passos. Sob circunstâncias normais, Bethany, ao ouvir aquelas batidas ridiculamente altas e incrivelmente rudes, teria corrido para a porta, pronta a dar à visita indesejada um bom pas-sa-fora, mas de alguma maneira ela sabia que não era uma circunstância normal. Na verdade... Olhou o que vestia e ficou nervosa. O vestido, que deve ter custado o preço de um carro popular a quem o comprou, moldava-se perfeitamente ao seu corpo, dando-lhe leveza e graça. Era extremamente bonito, tão bonito nela quanto no armário, onde estava há apenas 15 minutos. Ah, meu Deus, por que, por que sucumbira à tentação de vesti-lo? Conseguira resistir por três dias, por que justo agora? A verdade, ela pensou, frenética, é que fazia tanto calor lá fora, que quando voltou ao apartamento tomou um longo e luxuriante banho na esplêndida banheira de mármore e depois passara ao closet, três vezes maior que o quartinho que alugava na universidade. Então passou a mão naqueles tecidos ma-


ravilhosos, nos vestidos, casacos, jaquetas, e parou naquela espetacular criação. Foi incapaz de resistir ao impulso. Tendo ignorado a campainha, o insistente visitante passou a bater como louco na porta, e ela sabia que não poderia ser Amy, que fora à Florença passar o fim de semana com o namorado. Nem poderia ser um vendedor, pois não eram permitidos além do hall do prédio. Portanto, só poderia ser um... morador, ou pior, um amigo. A quarta batida a fez voltar à realidade, interrompendo seu pensamento de que seria despedida do trabalho, e que isto poderia gerar uma perseguição por raivosos policiais italianos e uma temporada na cadeia. Parou atrás da porta e abriu-a muito lentamente, assegu-rando-se de que nenhuma parte do seu corpo vestido naquela roupa roubada seria visto. Seus olhos o observaram de baixo para cima, duas vezes. Dos caros óculos escuros à calça e camisa polo cor de creme, observou seus braços morenos com pelos negros coroados por um relógio de prata muito caro... além do rosto mais bonito que já vira em toda a sua vida. Na verdade, o estranho do lado de fora da porta era tão incrivelmente bonito que, por alguns segundos, Bethany ficou sem ar. Mas logo voltou à realidade e lembrou-se de onde estava. Aquele apartamento não era seu, e a roupa que vestia também não. Escondeu-se ainda mais atrás da pesada porta, em busca de segurança. — Sim. Posso ajudá-lo? Não queria encarar o homem, mas era quase impossível resistir. Não apenas por sua altura, devia ter mais de 1,80m, nem pela perfeição de seu rosto nem pelos músculos esculpidos de seu corpo. Era a aura de poder e incrível segurança que faziam dele um homem com sex appeal potente, quase sufocante. Cristiano, no início assustado com a mulher que lhe abrira a porta — uma jovem, quando esperava uma senhora de idade —, estava ocupado olhando para o rosto em forma de coração, de linhas delicadas, para os lábios carnudos, os brilhantes olhos e cabelos longos que caíam até quase a cintura. — Está se escondendo! — ele perguntou e ficou fascinado ao perceber que suas bochechas coraram. Ela não reagia como as mulheres costumavam fazer à sua presença, com sorrisos e piscadelas, dando todos os sinais de interesse.


— Se estou me escondendo? — A voz de Cristiano era muito parecida com ele: profunda, tranquila e confiante. — Não estou me escondendo. — E deslizou um pouco mais para que nenhum pedacinho do vestido ficasse à mostra. Não conhecia aquele homem, mas caso vivesse ali ou fosse um amigo, saberia que ela não era Amélia Doni, a dona do apartamento, já com quarenta e poucos anos. No entanto, notaria que aquele vestido incrivelmente caro não poderia pertencer a uma menina de 21 anos que trabalhava na casa. — Estou só um pouco surpresa... pela visita... Sinto muito, não sei qual o seu nome... — Cristiano De Angelis — ele respondeu, esperando um sinal de reconhecimento, pois qualquer mulher que fosse dona daquele apartamento já teria ao menos ouvido falar na família De Angelis. Ficou imaginando por que nunca antes a vira em um dos eventos da alta sociedade dos quais inevitavelmente participava sempre que vinha a Roma visitar sua família. Certamente se lembraria daquele rosto. Não era a beleza italiana clássica, mas seu italiano era fluente. Ela parecia... Logo percebeu porque nunca antes a vira, e sorriu, mudando imediatamente do italiano ao inglês. — Agora que já me apresentei, talvez você possa me dizer se toquei no apartamento certo... Signora Doni? — Sinto muito. Você não me disse o que está fazendo aqui. Cristiano mostrou a orquídea, de cuja existência se esquecera por um tempo. — São por parte da minha mãe. Bethany ficou olhando muda para ele enquanto os nervos do seu cérebro começavam a voltar à vida. Neste momento, percebeu que não ele tinha ideia de como seria o rosto de Amélia Doni. Portanto, não perguntaria nada sobre o que estava fazendo ali, usando aquelas roupas. Relaxou e esticou o braço para pegar a planta. — Ótimo. Obrigada. Ótimo? Obrigada? Não deveria convidá-lo a entrar? Pelo menos demonstrar algum interesse em saber de quem se tratava? — E um pouco ridícula esta conversa — disse Cristiano. — Por que não me convida para entrar? Afinal de contas, passei os últimos 25 minutos sob um sol de rachar caminhando até aqui para entregar essa orquídea. Adoraria aceitar algo refrescante para beber.


Cristiano não acreditava ao ver que ela continuava debatendo consigo mesma se deveria ou não abrir a porta e deixá-lo entrar. — Talvez nunca tenha ouvido falar de mim, mas posso garantir que De Angelis é uma família muito conhecida na Itália. Não precisa temer por seus objetos. Desde quanto dava explicações a alguém sobre sua família? Na verdade, quando foi a última vez que se viu na companhia de uma mulher que o olhava como se ele fosse capaz de atacar a qualquer momento? Na verdade, jamais acontecera antes. — Não posso — ela disse, respirando um pouco mais aliviada. — Fui instruída a não abrir a porta para estranhos. — Eu me apresentei. Sendo assim, já não sou um estranho. E você deve conhecer a minha mãe, mesmo que de forma casual... Ele sorriu e todo o sistema nervoso de Bethany pareceu derreter-se. Seus pelos ficaram eriçados, sua garganta seca e seus seios hipersensíveis de um momento a outro; sentia os mamilos rígidos e a respiração ofegante ao mesmo tempo. Não era uma reação costumeira em seu corpo. Na verdade, sempre se sentia confortável frente ao sexo oposto. Podia conversar com os homens, brincar, e mesmo avaliá-los sem aquela sensação estranha. Encurralada entre a sua irmã mais velha, inteligente, e a mais nova, cuja beleza radiante deixava os garotos permanentemente pendurados na porta de casa, Bethany se acomodou muito bem no meio, sendo razoavelmente inteligente e, pelo menos aos seus olhos, medianamente atraente. De sua posição confortável, pode observar Shannia, em seu mundo elitista de livros e namorados altamente intelectuais, e Melanie, que alternava de um rapaz a outro com a mesma rapidez que outras mulheres trocam de roupa. Aprendera a conversar com os dois tipos de homens. Por isso estava um pouco chocada e paralisada pela forma como aquele italiano alto, moreno e maravilhosamente lindo conseguia tirá-la do sério. — Tudo bem, acho que você pode entrar um momento — disse, nervosa. — Está muito quente aqui. Posso oferecer um copo de água, se quiser... —Abriu a porta e afastou-se para que ele passasse. Olhando para baixo, percebeu que usava sandálias nos pés. Uma pena que a dona da casa não calçasse o mesmo número que ela.


— Que bonito — disse Cristiano, observando o apartamento. Fora criado em ambientes em estilo palaciano, por isso as casas de outros ricos nunca chegavam a impressioná-lo. — Há quanto tempo mora aqui? Deu uma volta e ficou olhando-a, e o impacto de tal visão foi tamanho que o mundo pareceu deixar de girar por um milésimo de segundo. Seus olhos eram do verde mais claro que já vira em sua vida e seus cabelos castanhos soltos faziam um contraste enorme com a palidez de sua pele. As sardas, paradoxalmente, adicionavam frescor à sua beleza, salvan-do-a de ser apenas mais um rosto atraente. Não entendia por que se escondera atrás da porta. Seu corpo era maravilhoso. Magro, mas com seios fartos e, julgando pelo vestido, era uma mulher de muito bom gosto. — Há quanto tempo moro aqui? — ela repetiu, como um papagaio. — Não muito. Vou pegar um pouco de água para você. Se quiser... me esperar aqui. Não demoro... — Você parece vestida para sair. Cheguei na hora errada? — perguntou, olhando-a com olhos brilhantes, tentando entender seu comportamento estranho e ao mesmo tempo pensando que gostaria de transformar o encontro casual em algo mais recompensador. Poucas vezes se via no papel do caçador. E quase nunca se sentia atraído tão rapidamente. Estava gostando das duas experiências. — Vestida para sair? — ela fez um grande esforço e tirou os olhos dele, tentando dar impulso aos joelhos e seguir para a cozinha. — Você é sempre assim, nervosa? Bethany, que pegava água na geladeira, percebeu sua aproximação e teve um sobressalto. — Você se importaria de não me seguir assim? Tome, a sua água — disse, estendendo o copo. Depois cruzou os braços. — Posso saber o seu nome, srta. Doni? — Conseguir arrancar alguma informação daquela mulher era tudo o que Cristiano queria; seus dentes rangiam de irritação. — Por que quer saber o meu nome? Várias possibilidades passavam por sua mente, sempre ideias claras. Perderia o trabalho ao ser descoberta por um parente da dona da casa. Bethany não sabia muito bem por que tinham deixado toda a responsabilidade nas mãos de Amy, mas Amy


repassara tudo a Bethany, pois encontrara um namorado e não queria perder uma semana de seu verão presa em Roma. Bethany gostou da ideia. Poderia praticar italiano na cidade mais bonita do mundo, com acomodação grátis num tipo de casa que nunca vira igual, onde jamais imaginou que poderia viver. E ainda seria paga por tudo isso. Revelar sua identidade seria o primeiro passo para muitos problemas, grandes para ela e ainda maiores para Amy. Sentiu-se mal e fechou os olhos, apoiando-se na pia da cozinha. — Você está bem? Quando abriu os olhos, percebeu que ele estava muito perto, e ficou sem ar, corada. — Tudo bem. Estou bem — disse, afastando-se um pouco. E Cristiano franziu a testa ao perceber sua tentativa de fugir. — Você não parece bem. Está sem cor. Talvez seja culpa do calor. As mulheres italianas estão acostumadas ao calor de Roma no verão, mas você não é italiana, certo? Fala italiano fluente, mas... — disse, olhando para a cozinha perfeitamente montada, com sinais de ser um lugar pouco usado. — Este é um apartamento de férias? Bethany mal podia olhar para ele. Quem teria um apartamento de férias como aquele? Com mármore por todo lado? Pinturas pelas paredes que custavam o olho da cara? Um clo-set lotado de roupas de costureiros famosos? — Eu tenho várias. — Várias? — ela perguntou e ficou aliviada quando ele afastou os olhos para tomar um gole de água. Cristiano deu de ombros. — Aqui. Em Paris. Nova York. Barbados. Claro, as de Paris e Nova York são as mais usadas, pois viajo muito a trabalho para lá. É ótimo não ter que depender de reservas de hotel quando estou fora — disse, deixando o copo na pia, determinado a retomar a conversa sobre ela. — Então... qual é o seu nome? — Amélia — respondeu, cruzando os dedos por trás do corpo. — E mora aqui, Amélia Doni? — Em Londres. — Não é uma pessoa muito receptiva, certo, srta. Amélia Doni? Imagino que seja uma senhorita... Não vi nenhuma aliança na sua mão... — Se já terminou de beber sua água...


Mais do que afastá-lo, ela parecia querer fazer com que saísse do apartamento, e ao notar isso, Cristiano trincou ainda mais os dentes. — Há quanto tempo está aqui? — ele perguntou, pois, quanto mais desinteressada ela parecia em prosseguir com a conversa, mais ele se mostrava determinado a tentar quebrar sua invisível barreira de silêncio. Bethany respirou fundo e murmurou algo como não muito. — Imagino que tempo suficiente para envolver-se em uma campanha de caridade. — Campanha de caridade? — A orquídea? A que está neste momento na mesa do hall? É um presente de agradecimento da minha mãe. Você deve conhecer os trabalhos que ela faz por caridade, e acho que o último levantamento de fundos foi um sucesso. Ela mesma queria trazer a orquídea, mas vai para o campo hoje à tarde e demora um pouco para voltar. — Para o campo... — ela repetiu, sabendo que começava a soar como alguém com problema mental. — Temos uma casa de campo — explicou, intrigado com a total falta de interesse que ela demonstrava em tudo o que dizia. — E bem mais fresco nas montanhas que na cidade... — Sei, sei. Imaginei que fosse. Peço que lhe agradeça pela... pela... planta... — Qual foi o seu papel no evento de caridade? — Eu... bem... na verdade, prefiro não falar sobre o que já passou. Sou o tipo de pessoa que gosta de viver o dia de hoje... — O meu tipo de mulher. Só volto amanhã para Londres. Jante comigo hoje. — O quê? Não! Não, não, não...! — Bethany ficou perdida entre a sensação de estar sendo descoberta e a vontade de aceitar o convite. Não sabia se era por estar na Itália, longe do conforto familiar, mas tudo o que sentia e fazia não tinha nada a ver com o seu caráter habitual. — Você tem que ir embora — disse, com urgência. — Por quê? Está esperando alguém? Um homem? Está envolvida com alguém? — Não — ela respondeu, e começou a andar em direção à porta de entrada. Mentir não era algo natural para ela, e sabia que seria questão de tempo até que começasse a se enrolar.


— Então vamos direto ao assunto. Você não está envolvida com ninguém. Não está esperando ninguém. Por que não aceita jantar comigo? — Eu... eu... Acho que é um pouco rude da sua parte entrar aqui e me convidar para jantar... — Você quer dizer que não está lisonjeada? — Quero dizer que não lhe conheço... — Então o jantar será uma ótima oportunidade de resolver esse problema! Cristiano notou que, de alguma maneira, fora levado em direção à porta, e que a pálida e pequena mão daquela menina estava firmemente agarrada à maçaneta. Ficou olhando, incrédulo, enquanto ela abria a porta. Ela estava, literalmente, colocando-o porta afora! — Não tenho tanta certeza, mas ainda assim muito obrigada pelo convite. E... também pela planta. Vou cuidar dela, apesar de nunca ter sido muito boa nisso. — Engraçado. Nem eu — Cristiano disse, apoiando-se contra a porta, para que ela não conseguisse abri-la. — Já temos algo em comum. — Você faz isso muitas vezes? — ela perguntou, com o coração batendo forte, pois havia algo nele que deixava seu sistema nervoso a mil. — Entra na casa de estranhos convidando para um jantar? Certo, talvez não seja uma atitude tão rude, mas você tem que admitir que é um pouco estranho. Quero dizer... você não me conhece. Eu poderia ser qualquer pessoa] — Certo — ele respondeu, pensativo —, você poderia ser qualquer pessoa. Uma assassina, psicopata... — e abriu um pequeno sorriso que lhe tirou o fôlego. — Pior, poderia ser uma mulher em busca do meu dinheiro... Mas você tem certas credenciais, especialmente o seu contato com minha mãe e... — deu uma olhava em volta, depois para ela... — o fato de ser dona de um lugar como esse. Assassinos, psicopatas e alpinistas sociais não costumam participar de eventos de caridade nem têm apartamentos nas melhores áreas de Roma. Por isso, deixarei meus medos de lado. Bethany começava a sentir-se mal com tudo o que a estava envolvendo. Credenciais? Conhecia sua mãe? Dona do apartamento? — E, diga a verdade, você vai ter que comer alguma coisa.


— Eu... na verdade, eu não gosto de jantar fora. Prefiro comer em casa. Cozinhar. Tenho tanta coisa boa aqui. Adoro experimentar. — Ótimo. Eu venho aqui, então. — Você não pode — ela respondeu, olhando para aquele rosto perigosamente lindo que a encarava, e em seu corpo brotou a sensação de estar andando à beira de um precipício. A vista era linda, mas cair era uma possibilidade real. — Claro que posso — ele disse, dando de ombros. Abençoado com uma mistura letal de beleza, inteligência e riqueza, já vencera várias mulheres que tentaram resistir ao seu charme, e se recusava a acreditar que aquela menina à sua frente seria uma exceção. — Posso vir aqui ou passo para lhe pegar às oito. — Por quê? Por que quer me levar para jantar? Sua mãe pediu que fizesse isso? — E deveria? — perguntou Cristiano, franzindo as sobrancelhas. — Minha mãe não tem qualquer envolvimento na minha vida pessoal; na verdade, já estará na casa de campo quando eu vier aqui, esta noite. — E afastou-se da porta, olhando fixamente para ela. Tinha uma pele maravilhosa. Translúcida, mesmo sem maquiagem. Nada a ver com as outras lindas morenas com quem costumava flertar. Sua mãe falara pouco sobre ela, mas deveria ter dito algo? Provavelmente seria a amiga da amiga de uma amiga que fora sequestrada ao evento de caridade. Por isso a orquídea, uma demonstração de agradecimento cara, mas ainda assim bastante impessoal. De qualquer maneira, foi melhor não saber nada, pois talvez tivesse perdido o interesse de antemão. — Todas as mães estão envolvidas com as vidas dos filhos — disse Bethany, pensando na própria mãe, que ainda enviava comida pelo correio da Irlanda para o caso de a filha estar a ponto de morrer de fome. — Quando o assunto é mulher, mantenho as rédeas nas minhas mãos — ele disse, abrindo a porta, não deixando chance para que ela começasse um debate no qual poderia vencê-lo. Nunca fora vencido nesse sentido. Além do mais, tinha ótima antena e percebia certo interesse por parte dela. Não entendia por que tentava lutar contra algo tão inocente quanto um jantar, mas, seja qual fosse sua razão, seus olhos arregalados o intrigavam. Claro que podia apenas estar bancando a difícil, mas


de alguma forma ele duvidava que fosse esse o motivo. Na verdade, nunca vira um rosto tão expressivo desde... francamente, não se lembrava de ter visto algo assim. — Devo avisar que normalmente consigo o que quero — disse, sem uma pitada de vaidade. — E quer jantar comigo, antes de ir embora amanhã. — Finalmente! — Ele olhou para Bethany, abrindo mais um daqueles sorrisos incríveis. — Chegamos a um ponto comum — disse, pegando uma de suas mãos e virando a palma para que pudesse dar um beijo rápido na pele suave. Gesto aparentemente puro, mas muito italiano, que fez com que Bethany tremesse. — Acho que sim. Mas... preciso dormir cedo... — disse, nervosa. — Você quer dizer que gostaria de voltar para casa antes da meia-noite, antes de se transformar em abóbora? Bethany ficou vermelha. Honestamente, não sabia dizer o que a levara a aceitar o convite para jantar, mas estava muito nervosa, dos pés à cabeça, e seus olhos verdes o encaravam, fascinados. Nem mesmo aquela história sobre meia-noite e abóbora a fez relaxar, e ainda se sentia meio tonta, mesmo que eleja tivesse ido embora. Mas quando se viu refletida no espelho do quarto percebeu o seu estado e ligou para o celular de Amy. Precisou conter a frustração quando a voz animada de Amy atendeu a chamada, falando sem parar sobre sua última conquista e sobre as lindas paisagens de Florença, que ainda não tinha visto bem porque a cama estava provando ser um lugar muito acolhedor. Bethany esperou que parasse de falar e disse, honestamente: — Tenho um pequeno problema por aqui. Ainda usava o vestido que fora testemunha de seu momento de loucura. — Meu Deus! Não me diga que o apartamento está em chamas! — Ainda não. Mas um homem esteve aqui... este é o problema... — O vestido, que antes parecia tão bonito, tão tentador, olhava para ela no reflexo do espelho enquanto contava à amiga o que se passara. Estava um pouco perdida, pois não saía de sua cabeça a imagem daquele homem estranho, moreno, com rosto incrivelmente sexy, algo invasivo e ao mesmo tempo muito


excitante, nada a ver com os outros homens que costumavam olhar para ela. — Então você vai sair para jantar com ele... Meu Deus, deixa eu ver... certo, certo... talvez seja melhor mesmo... — Por quê? Meia hora depois tirou o vestido e colocou-o sobre a cama, pois deveria ser lavado a seco na manhã seguinte, e pensou nas várias mentiras que contara. Catrina, a verdadeira governanta da casa de Amélia Doni — que partira em um cruzeiro, a quilômetros de distância de Roma —, estava em Londres, em um tratamento de reabilitação. Por isso a tarefa de cuidar da casa caiu nas mãos de Amy, mas, sendo quem era, permitiu que o amor invadisse sua mente e deixou a missão de lado. Por sorte, Bethany estava por perto, sempre confiável. Era o tipo de menina que adorava ler livros em italiano à noite e para quem três taças de vinho de qualidade significavam uma festança. Olhando o vestido na cama, imaginou o que poderia acontecer a ela. A maior loucura que fizera nos últimos tempos fora vestir aquilo, e o fez porque realmente gostava de se sentir bem algumas noites, às vezes lendo um bom livro e tomando uma caneca de chocolate quente. Mas aceitara o convite para jantar vindo de um homem extremamente sexy e ultra sofisticado. Seria apenas uma noite, e se antes agira como uma personagem, como a dona de um apartamento de luxo que usa roupas caras, se fingira ser o tipo de mulher incapaz de usar algo mais barato que aquilo, por que não deveria aceitar o convite? E não haveria problema para Amy, pois ninguém poderia entrar em contanto com Catrina em seu leito de hospital na Inglaterra. E, acima de tudo, a última coisa que queria era ver um italiano bem relacionado começando a fazer muitas perguntas. Sentiu uma onda de excitação em seu corpo. Claro, qualquer coisa que usasse aquela noite seria lavada a seco. Não era tão irresponsável. Só passaria algumas horas se divertindo... o que poderia haver de errado nisso? CAPÍTULO DOIS -Então... por que não me fala de você...


Era um pedido inevitável, mas ainda assim deixou Be-thany nervosa porque, após a euforia inicial de pensar em como seria viver a vida de outra pessoa por uma noite, veio a realidade de que, na verdade, passaria algumas horas na companhia de um deus do sexo, mas usando identidade falsa. Entre a saída de Cristiano do apartamento e sua voz no interfone, horas mais tarde, teve tempo suficiente para pensar que um homem como ele — sofisticado, lindíssimo — nunca olharia para uma garota como ela, em circunstâncias normais. Na verdade, sob circunstâncias normais nunca teriam se encontrado. Bethany antes procurou algo entre suas coisas. Sair de casa com roupa de outra pessoa seria demasiado luxo? — Teve de pensar em como responder essa pergunta. Finalmente encontrou uma resposta vaga e sem sentido, aliada à ideia de ser um espírito livre. — E o que isso significa? — perguntou Cristiano, olhando para ela, intrigado. Por isso desejava aquele jantar mais do que qualquer outro encontro em sua vida. E ela não o estava desapontando. Quando as portas do elevador se abriram e Bethany cruzou o piso de mármore na sua direção, ele literalmente ficou paralisado. Talvez tivesse todo o dinheiro do mundo à sua disposição, mas deixara de lado as pérolas e diamantes, o costumeiro vestido preto que grita o nome do estilista e os saltos altos mortíferos. Em vez disso, usava jeans e mocassim rasteiro cor de bronze, além de um lenço azul sobre os ombros. Cristiano gostou. Parecia uma mulher confiante, que preferia o conforto a um visual sexy. — O que isso significa! — ela repetiu, e o calor humano transpareceu em seu sorriso. Ela falava, não apenas balbuciava como uma adolescente perdida, e começou a relaxar um pouco e aproveitar o momento. — Você parece ter passado grande parte de sua vida numa bolha. — Viver numa bolha... — Cristiano olhava para ela, pensativo. — Acho que realmente cresci numa espécie de bolha. Nascer em um ambiente privilegiado tem seu preço. Mas você deveria fazer certas coisas... — O quê? — perguntou Bethany. — Não me diga que não viveu o mesmo. Que não teve de encaixar-se em certo estilo de vida, de uma forma ou de outra...


Bethany pensou em sua criação irlandesa, na casa sempre cheia de amigos e familiares, namorados, nos dois cachorros e três gatos e no caos, em geral feliz, que marcou seus anos de formação. Conformar-se era um conceito distante em sua vida. — Sou mais do tipo não conformista —- respondeu, sendo sincera. — Quero dizer, não sou rebelde, nem nada parecido, mas nunca me disseram que deveria me comportar dessa ou daquela maneira. — Talvez as coisas sejam diferentes na sua parte do mundo — ele murmurou. — Aqui, na Itália, sempre soube que o meu futuro já estava escrito. E os dois foram para a rua, numa quente noite de verão. — Deve ter sido duro. — Duro? Por quê? — ele estava fascinado ao ver que uma mulher era capaz de empregar o adjetivo duro para qualquer aspecto de sua vida. Mesmo a mais rica que já namorara ficara impressionada com o seu poder e privilégio. — Desde quando é ruim ter o mundo à sua disposição? — Ninguém tem o mundo à disposição! — respondeu, sorrindo, e os dois começaram a andar lentamente em direção ao carro, que ele estacionara na única vaga livre, no final da rua. — Você vai se surpreender. Por trás do seu timbre suave de voz, ela foi capaz de detectar a rude marca de um homem acostumado a conseguir tudo o que quer, e estremeceu. — Você imagina ter o mundo aos seus pés porque todos ao seu redor estão dispostos a concordar com o que diz. E uma das desvantagens de ter tanto dinheiro... — Tanto dinheiro? Não acredito que estou ouvindo isso da boca de uma mulher — ele disse, espantado ao ver alguém com provavelmente muito dinheiro falando de forma lírica sobre os problemas da riqueza, uma pessoa que parecia ter consciência social. Bethany pensou que, se ele estava se abrindo, por que não abrir-se um pouco? O que poderia perder? Instintivamente, percebeu que não se tratava de um homem com muita experiência em ter suas opiniões questionadas. A forma como a convidara para jantar e sua recusa em aceitar uma negativa indicavam que a tal crença em ter o mundo aos seus pés era absoluta.


— Com que tipo de mulheres você se envolve? — perguntou, fascinada ao ver que aquele homem lindo, dono de uma beleza exótica, olhava-a, perdido. Seus olhos eram negros, com os cílios mais longos que já vira, e a forma como seus cabelos negros se encaracolavam junto à gola da camisa, num corte um pouco longo demais para ser convencional, mas não tão longo a ponto de parecer desleixado, a deixava louca. Cristiano sorriu e se aproximou, tocando um fio de seu cabelo. — Sempre morenas — ele murmurou. — Por que será? Esta é a cor verdadeira do seu cabelo? — Claro que sim! -— respondeu, nervosa após o toque casual, com seus olhos verdes arregalados. — Não é qualquer uma que consegue esta cor comprando um tubo de tinta! — Mas muitas tentam — ele disse, sentindo aqueles cabelos como seda entre os seus dedos. — Então, em outras palavras, você só sai com morenas que pintam o cabelo? — Elas costumam ter outras características além do cabelo pintado... — respondeu, com uma vontade louca de se aproximar e deixar o acaso tomar conta do que poderia acontecer. — ... pernas longas. Rostos bonitos. Boa família. — Boa família? Cristiano deu de ombros. — É importante — ele admitiu. — A vida pode ser muito estressante, e não seria legal ficar duvidando se a mulher com a qual divido a cama está interessada no meu dinheiro ou na minha companhia. Bethany sentiu o estômago se revirar, mas estava certa de que não se encontrava ali pelo dinheiro. — Talvez você seja um pouco inseguro. — Um pouco inseguro? — Cristiano ficou olhando para ela, incrédulo. — Não. Insegurança nunca foi um problema para mim — ele disse, satisfeito. — E, por favor, não me diga que vai passar toda a noite tentando me analisar. — Onde vamos jantar? — perguntou, mudando de assunto. E quando ele disse o nome de um restaurante muito famoso por seus preços astronômicos, bem como pela qualidade dos pratos, ela deu uma olhada para a calça jeans. Lição número um sobre como os super ricos se comportam: esqueça as convenções sociais.


Cristiano claramente não dava a mínima para como ela estava vestida. Ele mesmo usava calça escura com camisa branca, que poderia ser uma roupa comum em qualquer outro homem do planeta, mas que parecia incrivelmente sexy em seu corpo. — Mas eu estou vestindo jeans, sapato baixo e um lenço — disse Bethany. Também suspeitou que entrar em um lugar desse tipo de braço dado com um homem como ele atrairia todos os olhares, e ela jamais gostou de estar sob os holofotes, especialmente quando tais holofotes tinham uma carga a mais de intensidade. E se a apresentasse a outra pessoa? O mundo rarefeito dos ricos e famosos é pequeno. Em Roma, seria provavelmente do tamanho de uma quadra de tênis. Em pouco tempo seu segredo seria revelado. — Você está tão... charmosa. — Não o suficiente para entrar nesse restaurante — disse Bethany, culpando a si mesma por ter aceitado o convite. — Não se preocupe. Eu conheço o dono. Acredite em mim, ele não se importaria se eu levasse uma mulher para jantar vestida com um saco de lixo. — Simplesmente porque você consegue resolver tudo, não significa que tem direito de seguir em frente sozinho... Ele não entendeu, e deixou isso claro em sua expressão perdida. — Por que não? — Porque é importante respeitar os demais — ela respondeu, repetindo o mantra que escutou toda a sua vida. Cristiano a olhava como se estivesse se transformando em um ser de outro planeta, e Bethany ficou corada, desconfortável. Estava começando a entender outra norma não escrita dos ricos: não deveria ficar corada como uma criança. — Uma socialite com princípios — ele murmurou, com um sorriso que a deixou sem ar e ainda mais insegura sobre o que estava fazendo. — Gosto disso. E muito raro encontrar alguém assim no meu mundo, uma mulher que não está preparada para dizer tudo o que pensa... Na verdade, sempre saía com mulheres que não ligavam a mínima para o que acontecia ao redor. Eram ricas e tinham vivido entre paparicos, acostumadas a aceitar a adulação de homens e a subserviência de todos.


Mas essas mulheres não ousariam pôr os pés em Chez Nico se não estivessem vestidas para matar. Na verdade, essas mulheres não seriam capazes de ir a nenhum lugar se não estivessem vestidas para matar, pois aparência, para elas, era tudo. — Não sou uma socialite — retrucou, desconfortável. — Não? E aquele apartamento monstruoso no centro de Roma, que usa para passar férias? Você participa de projetos de caridade. Tem menos de trinta anos. Odeio dizer isso, mas são as qualidades perfeitas de uma socialite. — Eu já dissç, as coisas nem sempre funcionam assim... lá de onde eu vim. — E de onde veio? — Ah... talvez você nunca tenha ouvido falar — ela respondeu, sendo sincera. — Uma pequena cidade da Irlanda... no meio do nada... — Uma cidade pequena, mas com um palácio ancestral? — Sim, tem um palácio ancestral por lá... — Onde, anos atrás, sua mãe trabalhara fazendo limpeza para conseguir um dinheiro extra para o Natal. Era uma linda mansão cinza com torres e aparência desolada, caída no esquecimento. — Então você deve ser metade italiana... que metade? Bethany sorriu. — Você sempre se interessa tanto pelas companhias que escolhe para jantar? — Não. Não costumo cavar informações de minhas companhias. Mas é fato que grande parte das mulheres adora falar sobre si mesma. — Para impressioná-lo, você quer dizer? — Quer ouvir a verdade ou prefere que a trate como uma princesinha da falsa modéstia? — Você tem um ego enorme, certo? — Prefiro chamar senso de realidade — ele disse, adorando tudo aquilo. Fora trabalhoso conseguir que aceitasse o convite, e agora descobria que se tratava de uma companhia muito diferente. — Você não sente necessidade de me impressionar? — murmurou, e suas palavras demonstraram uma intimidade sensual que fez um calafrio percorrer a espinha de Bethany. — Deveria? — ela perguntou, sentindo outro arrepio na espinha. Não era uma simples e excitante noite com um es-


tranho. Era como se estivesse abrindo portas que nem sabia que existiam. — Eu sinto uma vontade louca de impressionar você — ele disse, e pensou que também tinha uma vontade louca de saber mais sobre ela. Louca porque essa vontade não existia quando a convidou para jantar. Ele a vira, sentiu-se curiosamente atraído, e não pensou em nada mais, além de uma noite de amor. Não costumava fazer isso, mas seria um completo hipócrita caso se deixasse levar por uma série de razões para não se entregar a uma noite de paixão com uma mulher que talvez nunca mais voltasse a ver. No entanto, o seu objetivo de vida, até então, nunca fora encontrar um amor eterno. — Por que não me conta... Sua voz era uma carícia, bem como a expressão questionadora de seus olhos, mas ela notava certa distância. Ele permanecia meio encostado na porta, com suas pernas longas marcando um espaço entre os dois. Bethany não começou a noite imaginando que poderia terminar numa cama, e caso ele tentasse invadir seu espaço, saberia como afastá-lo, mas a verdade é que havia algo selvagemente erótico nele. Era interessante perceber que provavelmente não se aproximaria caso conhecesse a sua vida real. Talvez considerasse a si mesmo um homem do mundo, e sem dúvida era um homem do mundo: um animal fantasticamente sofisticado, mestre em tudo o que vivera. Mas não tinha vivido tanto, certo? — Podemos caminhar... — ela disse. — Roma está cheia de lugares magníficos. Depois poderíamos ir a um lugar simples e acolhedor para comer. Uma pizzaria. Eu conheço uma maravilhosa, não muito longe do Coliseu. — Claro! Por que não? Não como nessa área da cidade desde a adolescência. Na verdade, acho que conheço essa pizzaria. Tem um toldo de listras azuis e brancas do lado de fora? Um interior escuro? Garrafas de vinho vazias e com velas nas mesas, estilo anos 1960? Um dono acima do peso com um bigode generoso? — Deve ter perdido um bom peso ao longo dos anos — disse Bethany,.sorrindo. — Mas o bigode continua lá. Você costumava frequentar esse lugar? Com os seus amigos? —Antes de a vida real tomar conta de tudo — disse Cristiano, seco.


— O que você quer dizer com vida real? — Universidade e depois assumir a vida do meu pai. Pizzarias não costumam fazer parte da vida de um homem de negócios. — Ele sorriu, era bom estar ao lado de uma mulher tão franca. Os jogos femininos costumavam cansar depois de certo tempo. — Então agora você só pode ir a bons restaurantes. — Onde a pizza não faz parte do menu. — Pobre Cristiano — ela disse, sorrindo, e seus olhos se encontraram. Sentiu um calafrio, pois foi capaz de enxergar um convite sexual naqueles olhos negros. — Eu sei... — e fez uma cara de pena, mas sem nunca desviar os olhos dela — ... estou condenado a nunca mais comer pizza. Imagino que sinta pena de mim. Certo, eu entendo. Aceito a pizza, mas não o passeio. Enrico ganha muito bem, como eu mesmo sempre digo a ele. E por que pagar para alguém que não faça nada? — Quem é Enrico? — O motorista da minha mãe, claro. Não me diga que você não tem um motorista em Londres? — Vários — disse Bethany, pensando nos motoristas dos ônibus entre o seu apartamento e a universidade. — Certo. Então estamos combinados. Bethany se sentiu como uma princesa ao entrar no banco de trás daquele Mercedes preto. Uma princesa cujas roupas não combinavam muito bem com os luxuosos bancos de couro, mas e daí? Teve de conter-se para não passar as mãos pelos bancos. Deveria estar acostumada a tudo aquilo, não? Vista daquela perspectiva, através das janelas de um carro que as pessoas seguiam para ver se conduzia alguém conhecido, a cidade parecia sua. Por isso Cristiano carregava aquele sentimento de ser dono de tudo nos ombros, como um manto invisível! Quinze minutos naquele carro e ela já começava a se sentir da realeza! Mesmo instalados numa mesa nos fundos da agitada pizzaria, ela ainda se surpreendia com os olhares de todas as mulheres, tentando ver quem era aquele homem tão sexy e sua companheira. Cristiano parecia não notar nada. Estava ocupado percebendo as mudanças sofridas pela pizzaria desde a última vez que


estivera por ali, quase duas décadas antes, e ela se contentava em concordar com tudo o que dizia, finalmente concluindo que era um esnobe ao informar que o mínimo que o proprietário poderia ter feito seria trocar as toalhas de mesa, pois aquilo soava como uma tola recusa em aceitar a passagem do tempo. — Eu? Esnobe? — perguntou, revigorado ao ver que ela argumentava, pois as mulheres não costumavam argumentar com ele, e ficou surpreso ao ver como resumira seu caráter em uma única palavra. Ela sorria ao dar seu veredito, e seus olhos verdes lançavam sinais que o deixaram ainda mais louco por ela. — Sim, você! — Naquele momento ela já bebera uma taça do vinho que fora servido. — Muita gente vem a este lugar em busca de comida simples, feita com coração e muito, muito boa... — Que poderia ser melhorada com um investimento na decoração... — Você gosta de garçons impecavelmente vestidos e de linho branco, mas nem todos no mundo compartilham o mesmo gosto... — Mas gostariam, caso tivessem a chance de provar... — Eu prefiro ambientes rústicos... — Quão rústicos? Tenho certeza que reconheço algumas dessas garrafas de vinho com velas, devem estar aqui desde a última vez... cem anos atrás. — Estou jantando com um senhor de idade! — retrucou, com cara de asco, enquanto ele servia mais vinho em sua taça, demonstrando que gostava daquele jogo. — Você ficaria surpresa com o que este senhor de idade é capaz de fazer—disse Cristiano, em tom suave, com um sorriso nos lábios ao perceber a face rosada de sua acompanhante. — O quê, por exemplo...? — ela perguntou, sem fôlego. Seus pelos estavam eriçados e ela se sentia muito diferente, como se tivesse assumido uma nova vida, uma vida onde as regras habituais de comportamento não serviam. E ela, de certa maneira, agia dessa forma, teve de admitir. Ainda que só um pouco. — Ah... administrar um império com sedes nas principais cidades do mundo... desgasta. Além dos meus interesses por esportes. A rotina normal de ginástica, sem falar no esqui, polo e nas vigorosas partidas de squash aos fins de semana.


— Sim, é impressionante, sobretudo para um paciente ge-riatra... — comentou, despreocupada... pelo menos era como pretendia soar; mas por dentro crescia uma atração sexual que nunca sentira antes por homem algum. Na verdade, nunca fora muito sexual, não se permitia nada além de uns beijos em encontros casuais. Nunca entendeu por que deveria desperdiçar sua virgindade, jogando-a pela janela simplesmente porque todas as pessoas da sua idade já tinham feito aquilo. Mas, com Cristiano, essa tentação invadia todo o seu corpo e a fazia se sentir como se já não fosse capaz de controlá-lo. — E, além disso tudo, está o sexo... — disse, sem nunca tirar os olhos dela. — Nunca reclamaram... — Credo... — ela disse, com as bochechas coradas e pegando nervosamente a taça de vinho, que bebeu. — Estávamos falando sobre o fato de você ser um esnobe... — ela o lembrou, e Cristiano baixou os olhos, em uma retirada técnica. — E eu estava lutando para provar minha inocência. Seria complicado encontrar alguém menos esnobe! — ele declarou. O sistema nervoso de Bethany ficou um pouco mais calmo, pois já não estava sob a mira daqueles olhos fabulosos. — Certo. Então você jamais come em lugares baratos? — Você está falando dessas redes de fast food onde as pessoas comem carne reconstruída com molho? Não. — Cinema? Cristiano franziu a testa. — Recentemente, não — ele admitiu, surpreso ao perceber que, na verdade, não ia ao cinema há anos. Talvez quando ainda estava na universidade. — Mas vai ao teatro? À ópera? — Certo — disse, levantando as duas mãos, como quem se rende. — Sou um esnobe idiota. E a comida chegou à mesa sem que ele percebesse. Nem ela. Na verdade, o farto prato de massa cheirava muito bem, mas era um intruso naquela conversa. — Mas, sério... — ele disse, provando o espaguete, que não tinha nada a ver com as pequenas porções servidas nos restaurantes caros. Era uma porção generosa, coberta com o melhor molho de frutos do mar que já comera — ... você está querendo me dizer que é complicado ser uma liberal de esquerda quando se tem o conforto do dinheiro para apoiar seus ideais?


— O que você quer dizer? Por um segundo, Bethany quase se esquecera do seu personagem. Mas logo se lembrou quando ele começou a explicar. — É fácil assumir o papel de espírito livre, não atado ao mundinho dos ricos e privilegiados... mas você sabe, lá no fundo sabe, que poderia recorrer ao outro lado, sempre que quisesse. Sim, você frequenta uma pizzaria como esta, mas se ficar entediada, poderá ir no primeiro táxi a um restaurante com estrelas do guia Michelin mais próximo. E não vamos esquecer o seu apartamento. O dinheiro pode comprar o luxo de pretender ser uma pessoa comum, sem o peso da realidade que isso acarreta. Bethany abriu a boca para contradizê-Io, mas fechou-a rapidamente. Entendeu a ironia em sua observação, mas não poderia responder, então disse, envergonhada: — Não sou uma radical de esquerda. Acredite em mim. — E eu não sou esnobe. Acredite em mim — disse, abrindo mais um daqueles sorrisos que a deixavam sem ar. — Boa comida. Devo voltar mais vezes aqui. — Você acha que o tipo de mulheres com as quais sai gostariam de vir aqui? — perguntou, percebendo que não se importaria de vê-lo com outra companhia. Com uma daquelas mulheres com pernas longas, morenas glamourosas de cabelo tingido, do tipo que ele mencionou antes. Na verdade, o tipo de mulher que se encaixa muito melhor no seu perfil. — Talvez não — ele respondeu. — E é isso que a faz tão única. — Não creio... Você deveria vir outras noites aqui, tem sempre fila para conseguir mesa. Se eu sou única, também são únicas as centenas de pessoas que tentam entrar aqui em todos os dias do ano. — Você sabe do que estou falando. Ela sabia. — Você diz que não é esnobe... mas se sentaria na minha frente caso eu não fosse única'? — O quê? — Vamos supor que eu fosse... uma mulher comum. Uma menina comum, filha da classe trabalhadora, como todas as outras aqui presentes... ainda estaria sentado no mesmo lugar? Parecia uma hipótese estranha, mas Cristiano aceitou a brincadeira, pois, francamente, jamais conhecera ninguém como


ela. Uma mulher perfeitamente intocada por sua riqueza e com uma conversa imprevisível, mas ainda assim dona de um apelo irresistível. Além do mais, ninguém conversara sobre essas coisas com ele antes. Cristiano franziu a testa, refletindo sobre a pergunta. — Provavelmente não, para ser honesto. — Por quê...? — Porque, como eu disse, um homem rico precisa tomar muito cuidado. Nunca me envolveria com uma mulher que não fosse financeiramente independente. Quem se arrisca a um casamento assim pode terminar num tribunal, fazendo a partilha do dinheiro que juntou trabalhando duro. Mas por que vamos perder um tempo valioso conversando sobre uma situação nada relevante? — Concordo totalmente — ela disse. Já que vestira a fantasia de princesa, não perderia a noite com argumentos que não chegariam a lugar nenhum. Era uma Cinderela no baile, por que insistir em transformar-se em abóbora se ainda não era meia-noite? Cristiano tinha opiniões fortes e estava decidido a proteger sua fortuna, mesmo que à custa de se privar de muitas experiências. — Então — disse Cristiano, mantendo os olhos fixos nela enquanto pedia a conta a um garçom —... terminamos nossa conversa filosófica? Podemos passar a algo mais leve? Ou então, por que não vamos... — Para onde? Não conheço muitas casas noturnas em Roma — e provavelmente não teria dinheiro para frequentá-las, caso conhecesse. — Estava pensando em um lugar mais... aconchegante. Minha casa está a menos de dez minutos daqui. Seu semblante era quente e faminto, e não deixava qualquer dúvida que terminariam a noite na cama. Uma noite e nada mais. Suas irmãs ficariam chocadas. Os pais horrorizados. Seus amigos pensariam que extraterrestres a teriam sequestrado e tomado o seu corpo, falando com a sua voz, mas vivendo uma vida completamente diferente. Tudo o que sempre defendeu seria perdido ao render-se àquele sentimento novo e irresistível. Ele a fazia sentir-se sexy ao olhar para ela, como se fosse a única mulher na face da Terra. Seus mamilos ficaram rígidos por baixo do sutiã.


— Claro que também posso pedir a Enrico que a deixe na porta do seu apartamento — disse Cristiano, que nunca foi o tipo de homem que força mulheres relutantes, mesmo tendo dado todos os sinais possíveis, desde que a buscara em casa. — Você ficaria muito chateado? — Precisaria de uma chuveirada fria. Bethany imaginou aquele homem tomando uma chuveirada, com seu corpo grande e musculoso sob a água, seu lindo rosto erguido, os olhos fechados. Era complicado respirar ao mesmo tempo em que pensava nisso. — Não quer dormir cedo? — ela perguntou e Cristiano sorriu. — Eu nunca durmo cedo. Durmo pouco, quando durmo... E Bethany pensou nos dois fazendo amor várias vezes seguidas, deitados em uma cama enorme, com lençóis de algodão egípcio finíssimos, não os tecidos baratos a que estava acostumada. Parecia transformada em uma criatura sexual. Nunca precisou lutar contra tais urgências, por isso fora fácil manter o celibato entre os seus maiores princípios. — Mas... só uma coisinha... Cristiano podia sentir o cheiro da rejeição. Porém, mesmo sabendo que não seria o fim do mundo, surpreendeu-se ao perceber que seu desapontamento era muito maior que o esperado. Ainda assim, a noite fora ótima. Normalmente conversas com mulheres eram apenas um falatório ao qual ele não prestava muita atenção, apenas o necessário. Mas naquela noite conversara com ela, gostara do prazer de sentir uma parceira que o podia fazer sorrir e questioná-lo com perguntas que o levavam a pensar. — Sou todo ouvidos — ele disse, pegando a conta, dispensando a oferta de Bethany de pagar sua parte e oferecendo toda a sua atenção. A noite fora cheia de imprevistos, a começar pela forma como a convidara a jantar. Ser dispensado também seria uma novidade. — Eu... eu não... não sou a pessoa mais experiente do mundo... Cristiano ajeitou-se na cadeira, pois não era exatamente o que esperava ouvir. — Não entendo. — O que você não entende? — ela perguntou, na defensiva.


— Não entendo o que está querendo me dizer. — Não entende porque não está me ouvindo com atenção suficiente. — E o nervosismo deixou sua voz ainda mais grave. — Certo. Imagino que tenha uma ideia sobre quem sou eu... um apartamento caro em Roma, casa de campo na Irlanda, vários motoristas que não fazem nada além de dar voltas em carros de luxo para que eu não estrague meus dedos... mas não tenho nada a ver com as outras mulheres com as quais você se envolveu. Respirou fundo e por alguns segundos pensou em contar a verdade. A confusão com as roupas, as mentiras bobas... Ele terminaria sorrindo? Ele a perdoaria? Não Seria a resposta imediata. Ficaria horrorizado; Cristiano não se aproximaria de mulheres como ela. Mulheres que não são do mesmo mundo privilegiado dele. Mas Bethany não queria perder a oportunidade. Não sabia muito bem por que sentia tão intensamente, mas não destruiria sua noite com aquele homem. Ele conseguira entrar no seu corpo e ela queria mantê-lo ali. — E o seguinte — Bethany anunciou, falando claramente. — Eu sou virgem.

CAPÍTULO TRÊS -Eu sou virgem... Estas foram provavelmente as únicas três palavras verdadeiras que lhe disse ao enganá-lo completamente com a sua história. Cristiano, estacionado no Land Rover verde-escuro que alugara em Limerick, observava friamente o entorno, vendo um rancho ao melhor estilo cartão-postal no final da estrada. Já se passaram cinco meses desde que ela fora embora sem avisar, e cinco semanas desde que descobrira que tudo fora uma grande mentira. Amelia Doni não era aquela menina inocente, de olhos verdes e cabelos castanhos, com vontade de brincar com ele a ponto de fazer com que cancelasse seu retorno a Londres e a levasse a Barbados por duas semanas. A verdadeira Amelia Doni, que acidentalmente conhecera na casa de sua mãe, no Natal, era uma loira de quarenta anos que, como lhe contou em detalhes, estivera fora num cruzeiro, recuperando-se de uma desilusão amorosa. Era o retrato fiel de uma mulher rica, dona


de um apartamento no edifício mais afamado de Roma; a típica dondoca que o faria morrer de tédio em poucos minutos. E daquela vez também fez com que sentisse ainda mais raiva, ao perceber que a mulher que encontrara em seu apartamento não passava de uma impostora. Não fora apenas enganado, mas levado pela mão, numa história mirabolante, que aceitou por completo. Bastou uma semana para que descobrisse o endereço de uma certa Bethany Maguire, e passou outras duas tentando se esquecer de tudo aquilo, dizendo a si mesmo que não valeria a pena. Mas por fim se deu conta de que não descansaria até encontrar aquela mulher e verbalizar toda a sua raiva. Não sabia o que pretendia ganhar confrontando-a, o que seria completamente oposto à sua personalidade, pois sempre fora capaz de controlar suas emoções com facilidade, era um homem orgulhoso de seu autocontrole. Na verdade, nunca antes fora enganado tão profundamente por uma mulher capaz de virar sua cabeça. Com o carro desligado, começava a ficar frio enquanto o sol de inverno desaparecia. Mais dez minutos e a linha de casas à sua frente, pintadas em cores fortes, se transformaria em uma imagem cinzenta. Ainda havia tempo de voltar ao hotel, jantar e tomar o primeiro avião da manhã para Londres. Por outro lado, fazendo isso, resolveria a dor profunda que consumia o seu estômago feito um tumor? Saiu do carro e começou a caminhar pela estrada, entrando na vila de conto de fadas. Não fazia o seu género. O local parecia ter sido projetado por uma criança que recebera uma tela e carta branca para enlouquecer. Chegou mesmo a imaginar que poderia entrar em uma casa de açúcar a qualquer momento. A casa no final da rua não era exceção. As árvores estavam sem folhas e o jardim sem cor, mas imaginou que no verão estaria repleto de estereótipos perfeitos para livros infantis. Macieiras, flores por toda a parte, um muro de pedra através do qual os vizinhos conversariam ou pendurariam suas roupas cantando cantigas. Engoliu em seco ao ignorar a campainha e bater com força na porta da frente. Bethany, buscando ingredientes na geladeira para cozinhar para os seus pais a receita que, de forma entusiasta, prometeu que faria três horas antes, estava sem fôlego, pois deixara tudo


para a última hora e não poderia sair para conversar com ninguém. Tendo morado os dois últimos anos em Londres, ela se esquecera como a vida funciona em pequenos vilarejos, mesmo que tenha passado toda a sua vida em um deles. As pessoas ficavam paradas nas ruas. Conversavam. Tomavam intermináveis xícaras de chá. Fora pior nos primeiros meses após sua volta, mas ainda era surpreendida por velhos vizinhos que apareciam e ficavam ofendidos caso não se sentasse para tomar chá com biscoitos por horas. Imaginou se poderia fingir não estar em casa, talvez se escondendo debaixo da mesa da cozinha até que a pessoa desistisse, mas não valeria a pena, pois metade do lugarejo sabia que seus pais estavam na associação local e que ela escapara dizendo não estar se sentindo bem aquela manhã. A vida era assim naquele lugar, e ela teria de se acostumar, pois ficaria ali um bom tempo. Deixou os ingredientes na mesa da cozinha e correu para a porta antes que o estranho batesse mais uma vez. Na sua cabeça, ficou imaginando quem poderia ser. Vários de seus ex-companheiros de escola nunca deixaram o vilarejo no qual cresceram, casando-se ridiculamente cedo, e já tinham família. Era grata pelo apoio que lhe ofereciam e tentava com todas as forças não se sentir claustro-fóbica. Sentira falta de Shanie e Melanie, que voltaram às suas casas em Dublin, após duas semanas no Natal. Talvez fosse a sra. Kelly, que morava algumas casas mais adiante, uma visita frequente que normalmente se arrastava por todo o dia. Bethany segurou um grito de desespero ao abrir a porta, depois ficou olhando para a visita, paralisada, descrente. Piscou os olhos, pensando que poderia ser uma alucinação, mas quando voltou a abri-los ele ainda estava ali; não fora uma loucura de sua mente. — Você! — disse, num tom esganiçado que mal reconhecia como seu. — O que está fazendo aqui! — perguntou, tapando a boca. — Nem pense em desmaiar na minha frente — disse Cristiano entredentes. Deu um passo à frente e abriu a porta, entrando na casa enquanto ela permanecia em estado de choque. Seus olhos estavam arregalados e imaginou estar à beira de um colapso.


Bethany ouviu a porta bater ao ser fechada com força, o que pareceu o som do seu carrasco. Ocupada tentado organizar seus pensamentos, ao ver a imagem agressiva daquele homem alto, ficou sem ação. — Cristiano — disse, finalmente. — Que surpresa. Somente a parede, contra a qual pressionava o corpo, mantinha Bethany de pé. — A vida é cheia de surpresas. Eu mesmo descobri isso, sozinho. — O que está fazendo aqui? — perguntou, querendo seguir a conversa por outro caminho. — Ah... estava aqui perto e achei que seria interessante passar um tempo com você... Amélia. Não, Amélia não, Bethany, certo? — Estou me sentindo mal, de verdade — disse, colocando a mão na testa e respirando fundo. — Acho que vou ficar doente. — Tudo bem. Eu espero aqui até você ficar boa outra vez — ele disse, aproximando-se, fazendo o coração de Bethany acelerar a cada passo. — Como... como você... me encontrou? — Depois, depois — disse Cristiano, em tom de ameaça. — Não é um pouco rude da sua parte não me oferecer nem uma xícara de café? Estamos aqui, de pé, quando poderíamos estar sentados, conversando sobre os bons tempos, em um lugar mais confortável... Após a viagem longa que fiz para vê-la... Ele não tinha pressa. E a deixava sem ar ao ficar tão perto, mesmo percebendo que destroçava seu sistema nervoso. Bethany se lembrou que estava em casa sozinha naquele momento, mas que seus pais voltariam dentro de uma hora, e até lá, ele teria que desaparecer. Quanto mais tempo ficasse em estado de choque, mais tempo ele permaneceria ali, e não pretendia que ele encontrasse seus pais. Outra onda de náusea ameaçou levá-la diretamente ao banheiro, mas ela se controlou e limpou a garganta. — Certo. Vou pegar uma xícara de café, mas se você veio até aqui para que eu me desculpe, dispenso seu esforço. Sinto muito, peço desculpas. Está satisfeito? — De maneira nenhuma. Por que não começamos com o café e depois conversamos calmamente? Aliás, você sabe que fingir ser outra pessoa é crime?


Bethany ficou pálida e Cristiano, que pensara aquilo no momento, abriu um sorriso ameaçador. — Do que mais se apropriou quando esteve no apartamento de Doni? Além de assaltar seu armário? Sua mão era mesmo tão leve? Pelo que me lembro, aquele lugar estava cheio de preciosidades. — Como você ousa...? — Eu sei. Sou mau, certo? Mas pensaria duas vezes antes de me culpar se eu fosse você. Esperava que ela ficasse perdida ao vê-lo chegando ali, na sua porta. Mas não. Também imaginou que ficaria na defensiva, chocada, mas nunca imaginou ver tamanha apreensão em seus olhos, ela parecia em pânico. Mais uma vez, demonstrava ser uma mulher de reações inesperadas, e suas palavras e ações não poderiam ser facilmente avaliadas. Bethany se sentia como um ratinho, acuada por um predador cujo objetivo era torturá-la antes de esmagar seu corpo. Quando fugiu, mais por covardia que qualquer outra coisa, não esperava ser assustada dessa forma. Imaginou tratar-se de um homem que nunca se rebaixaria correndo atrás de uma mulher que o enganara sem qualquer explicação. Seu orgulho o impediria de fazer isso. Mas, infelizmente, ela não pensou no que Cristiano poderia fazer caso descobrisse que a mulher que o deixara plantado era tão falsa como uma nota de três. Pelo menos aparentemente. Sim, ele partiu para o ataque. — Não estava tentando apelar para a moral — respondeu Bethany, presa contra a parede, pois Cristiano estava tão perto que ela podia sentir seu hálito quente e raivoso. — Só estava querendo dizer que não sou uma ladra. — Agora entendo porque é sempre tão complicado acreditar no que você diz... Como não havia como argumentar e tentar provar sua inocência parecia inútil, ela decidiu que era hora do café. Merecia aquela raiva e a aceitaria com a cabeça baixa, culpada. Depois ele iria embora e sua vida voltaria à mesma rotina de sempre. — O café... Vou preparar uma xícara... Se... se quiser esperar na sala... é por ali...


— E deixar você fora do meu campo de visão? Nem pensar. Você poderia ser capaz de escapar pela janela dos fundos. Parece ser boa nisso. — Sinto... muito. Já lhe disse. — E olhou para o chão, mas nem assim escapava à sua presença, pois via o couro polido de seus sapatos. Mesmo quando postou-se atrás dela, Bethany pôde sentir sua presença, como se estivesse agarrando seu corpo tenso para que parasse de sacudir como vara verde ao vento. — Bonita casa — ele disse, mas em nenhum momento Bethany pensou que poderia estar diminuindo sua raiva em favor de uma aproximação mais razoável, e assim ter finalmente suas perguntas respondidas. Estava apenas desfrutando o momento, brincando com ela. — É divertido, você me disse que morava em Londres. — E morava — disse, de costas para ele enquanto ligava a cafeteira. Infelizmente, não poderia se refugiar nessa tarefa. Em algum momento teria de virar o corpo e, mesmo que de forma relutante, perceberia que Cristiano estava sentado em uma das cadeiras de pinho da mesa da cozinha. Era uma cozinha razoavelmente grande, o bastante para aquela mesa enorme, mas ainda assim ele conseguira reduzi-la ao tamanho de uma cela de cadeia.

Pousou a xícara na frente de Cristiano e sentou-se na cadeira mais distante. Aquele estranho, que a olhava com olhos frios e forte antagonismo, não se pareciam nada com o homem sexy, divertido e inteligente que a tirara do sério, a ponto de arrastá-la a uma noite de amor que durou duas semanas, numa viagem a um paraíso tropical. Martelava em sua cabeça a insinuação de que poderia ser presa por fingir ser outra pessoa. Seria verdade? Isso poderia acontecer? Não podia seguir pensando assim, e tentou focar a mente na humilhação que lhe esperava. Claro que a merecia. Pensou várias vezes em contar toda a verdade, mas sempre desistia, pois não queria terminar o caso que estavam vivendo. Driblava perguntas capciosas, mascarava a verdade e normalmente se saía bem, dando todos os indícios que


poderia ter sido uma grande artista. Hou-dini estaria orgulhoso dela. Mas ele acabou roubando seu coração, e se a tivesse pedido que ficasse na ensolarada Barbados por mais uma noite, ela saberia estar simplesmente adiando o fim inevitável. Sua punição foi taxativa e conclusiva. Cristiano tomou conta de seu corpo e não havia um único dia no qual não pensasse nele e no fato de que nunca mais o teria de volta. Nunca. — Pare de me olhar assim — Bethany murmurou. — Assim como? Como gostaria que olhasse para uma ladra mentirosa? — Eu já disse que não roubei nada de Amélia Donil — Mas certamente conseguiu arrancar algo de mim nos jantares, roupas, passagens de primeira classe para o outro lado do mundo... — Você não está entendendo... — Então me explique — pediu, inclinando-se na cadeira, fazendo com que ela se afastasse instintivamente, mordendo os lábios, nervosa, com um olho preso ao relógio acima da porta da cozinha. — Eu queria contar a verdade... — A estrada até o inferno está cheia de boas intenções — disse, repetindo o provérbio em tom frio. — Quando foi que as boas intenções desapareceram? Quando percebeu que seria muito mais recompensador aproveitar-se de minha generosidade? Sexo com todas as despesas pagas? — Não seja cruel! — Quando decidiu sair de Londres? — O quê...? Confusa com a repentina mudança de assunto, Bethany o olhava abobada, mas logo sua mente voltou ao normal e ela entendeu o que ele estava querendo dizer. Em vez de a pegar para matar, ele a torturaria, deixando-a quase morta antes de partir, para depois voltar exatamente quando ela estivesse se recuperando. Tentava invadir suas defesas e deixá-la sem tempo para reconstruí-las. — Londres... Por que decidiu sair de lá? Largou a universidade? E voltou para cá, para o meio do nada?


Imaginou que Londres seria muito pequena para nós dois? Ou tinha a consciência pesada, achando que poderia esbarrar comigo a qualquer momento, em qualquer lugar? Bethany ficou pálida ao ouvir aquelas perguntas inesperadas. — Como... como você me encontrou, Cristiano? — perguntou, voltando à questão original. — E por quê? Cristiano deu de ombros, de forma elegante. Mesmo no nível mais alto de sua raiva, quando seu rosto era uma máscara fria de desdenho, ela ainda era capaz de notar seu magnetismo. Tudo o que vinha dele era gracioso, muito masculino, e sua memória não fizera justiça ao seu sex appeal abundante. Ficou envergonhada ao ver que tinha isso marcado em sua mente, em um lugar no qual poderia voltar uma e outra vez, no futuro. Estava sendo encurralada pelo homem que um dia lhe dissera nunca ter sentido o que sentia por ela frente a outra mulher, e ainda assim, ela permanecia refém de sua beleza. — Por quê? — ele devolveu a pergunta, usando um tom de voz que fez um arrepio percorrer a espinha de Bethany. — Boa pergunta. Eu não queria. Você deve ter feito algo comigo, mas acho que sou homem suficiente para lidar com um caso de orgulho ferido... — Queria dizer como ela o fizera sentir, o impacto que causara. A sua imagem invadira a vida de Cristiano, o fizera perder a concentração naquele encontro casual, mas a esqueceria, tinha certeza de que a esqueceria em alguns meses. E se não sentira vontade de olhar para nenhuma outra mulher desde que a encontrara, tudo fazia sentido. Na verdade, isso sinalizava uma certa sabedoria, pois só um idiota voltaria a pular na água tão rapidamente após ter sido duramente atacado por um tubarão. — O que vem fácil, vai fácil... — disse. — Mas agora, veja bem... Há uma diferença entre a mulher que vai embora e a mulher que me faz de bobo. Bethany ficou em silêncio, já tinha se desculpado o bastante para saber que suas palavras não aplacariam a raiva de Cristiano. Outro pensamento tomou de assalto sua mente. E se ele tivesse ido até lá por algo mais que uma explicação? E se fosse para recuperar todo o dinheiro que gastara com ela? Sim, comeram e compraram roupas. O que ela aceitou, alegando ter precisado enfiar tudo na mala sem pensar, porque a viagem a Barbados fora inesperada. Chegou à praia sem uma roupa de


banho, e quando ele sugeriu comprar algo, Bethany, mesmo culpada, concordou e chegou a oferecer-se a pagar. Sexo com todas as despesas pagas. Suas palavras reverberavam na cabeça de Bethany como ácido e a faziam sentir-se mais barata que banana na feira. Claro que levou consigo todas as roupas quando voltou a Londres, e deu muita coisa à caridade, mas nunca imaginou que ele acreditaria nisso, e como poderia revidar dizendo algo tão insignificante quando estava sendo culpada por uma fraude muito maior? O remorso a atingiu diretamente. Também havia a questão dos voos. Primeira classe. Não tinha ideia dos preços, mas sabia que seriam caríssimos. Ficou pálida ao pensar quanto lhe devia. E nem tinha emprego! Em duas semanas começaria a trabalhar numa escola local, cobrindo uma licença maternidade, mas aquilo não seria suficiente para conseguir o dinheiro que precisava. A caixa registradora em sua cabeça bateu com tanta força que ela escondeu o rosto nas mãos e gemeu, em desespero. — Sim, eu sei — disse Cristiano, sem qualquer traço de compaixão. — Os pecados normalmente voltam para nos assombrar. — Não entendo como descobriu onde vivo... — Você fez questão de que fosse um segredo? Encontrei a verdadeira Amélia Doni na casa da minha mãe. Imagine a minha surpresa quando descobri que era uma loira de quarenta e tantos anos e com um punhal levantado em direção ao sexo masculino. — O que você disse a ela? — perguntou Bethany, imediatamente pensando em sua amiga Amy. Olhava para ele, com os olhos arregalados e nervosa. — Nada. Claro. Não comentei sobre isso com ninguém. Mas consegui descobrir quem deveria estar cuidando da casa, e desenrolar a linha com a ajuda do meu pessoal foi só uma questão de tempo. — Seu pessoal? — Você ficaria surpresa com a eficiência que eles demonstraram ao me trazer as respostas que buscava. Fareja-dores natos. — Amy pediu que eu cuidasse da casa -— disse, imediatamente. — E Catrina... estava em Londres...


— Em tratamento de reabilitação. Eu sei. — Não queria que Amelia descobrisse. E não há nada de errado no que fizemos. — Você acha que eu me preocupo com uma viciada? — Não, mas só estou tentando lhe dizer que... bem... — Vamos direto ao ponto? Quando eu cheguei no apartamento, por que não me disse imediatamente quem você era? Cristiano ficou vermelho de raiva ao lembrar-se o quão rapidamente fora envolvido por ela, como um adolescente que cai de amores pela rainha do baile de formatura, a mesma menina que juraria ter encontrado nele o centro do seu mundo e ao mesmo tempo em que saía com vários outros garotos. — Você chegou na hora errada... — ela murmurou, em tom triste. — Eu estava... estava... — Deixe que eu a ajude. Brincando de ser a dona da casa? Usando um vestido emprestado? Fingindo? — Não! — Não o quê? Ah, claro, esqueci que você tem um problema com a verdade. — Eu... certo, eu tinha saído naquele calor, voltei ao apartamento e tomei um bom banho, e imaginei que seria divertido experimentar algum daqueles vestidos. Fiquei tentada. Você nunca ficou tentado a fazer algo que não deveria? — Mesmo que pareça estranho, sei diferenciar o certo do errado! — Não me parecia errado naquele momento! — Não? Então me diga... quando começou a parecer errado? Ou nunca pareceu? — Não imaginei que apareceria alguém — murmurou Be-thany. —Até que você se convidou para entrar... — Nem pense em jogar sua culpa para mim! — Não estou fazendo isso! — ela retrucou imediatamente. Olhou para o relógio da cozinha e percebeu que, nos últimos meses, as horas tinham passado lentamente, e que naquele momento pareciam voar. — Vai a algum lugar? — perguntou Cristiano, sem perder nenhum detalhe. — Algum encontro interessante com rapazes que pensam que você é quem na verdade não é? Bethany cruzou as mãos e ignorou a interrupção sarcástica.


— Só estava tentando explicar... você entrou e eu não sabia como explicar por que estava usando a roupa de outra pessoa. Na verdade, nem deveria estar ali! Não queria ver minha amiga em' perigo e nem conheço Catrina, mas imagino que, caso Amélia, sua madrinha, soubesse que ela estava em tratamento... — Então, como você é uma pessoa tão bem intencionada, imaginou que seria inteligente manter... — Nunca imaginei que as coisas terminariam assim — disse Bethany, numa explosão de defesa. Mais cinco minutos tinham se passado desde a última olhada no relógio. E ele tomara apenas alguns goles do café que fizera questão de pedir! — Você quer dizer... na cama...? — Sim. — Naquele momento, não deve ter pensado que eu, um dia, gostaria de saber a verdadeira identidade da mulher que levava para a cama... — Eu não fingia quando estava ao seu lado. — Outra vez a mesma história? — Sinto muito, sério... Você tinha de saber a verdade, mas eu fiquei com medo de que... que... — Que poderia nunca ter a chance de provar o gostinho de uma vida luxuosa? — Não! Eu não sou assim! — Perdoe-me caso esteja me obrigando a pensar outra coisa. — Eu era... virgem! — ela murmurou, tremendo. — E...? O que isso significa, exatamente? — Ficou nervoso ao ver que aquele processo lógico o afastava do ataque planejado. Ela era uma mentirosa, mas ainda tinha o poder de atraí-lo com sua voz melosa e mãos trêmulas. — Sua virgindade deveria servir como desculpa para o fato de ter mentido para mim duas semanas? Talvez, na verdade, trocar sua virgindade por um momento de diversão com um homem rico tenha parecido um bom negócio. — Se você é capaz de dizer isso, é porque não me conhece! — Os acontecimentos sugerem outra coisa. Por que não me disse a verdade quando tudo terminou? Por que desapareceu? Bethany abriu e voltou a fechar a boca. Como poderia dizer que teria sido capaz de confessar tudo caso não estivesse tão envolvida? Se tivesse sido capaz de deixar tudo para trás, oferecendo-lhe o papel de conquistador barato,


teria dito tudo, pois a sua reação não seria importante para ela. Mas se apaixonara e a reação de Cristiano teria sido importante. De qualquer forma teria ido embora, mas não quis ficar com uma imagem ruim dele. Nunca perdoaria a si mesma. Por isso escolhera partir na calada da noite. Literalmente. Já estavam outra vez na Itália e, após o jantar, de volta à pizzaria onde tiveram seu primeiro encontro, e onde ele lhe disse que percorreria toda a cidade de Londres atrás dela, Bethany arrumou suas malas e fugiu. — Deveria ter deixado um bilhete — ela disse, triste. -— Deveria ter explicado tudo em um bilhete. Cristiano sentiu um espasmo de raiva. — Claro, claro... já falar na minha cara seria um trabalho muito duro. — Eu sabia como você iria reagir. Desta forma. — Diga, estou curioso. Quanto da sua verdadeira personalidade precisou esconder para montar o seu personagem? — Não escondi nada. — Só adaptou, para se ajustar à trama. — Não! — Então você realmente é... doce, única, tem bom papo... Sabe... é difícil acreditar nisso... — Não vamos chegar a lugar nenhum assim — ela disse, levantando-se e passando a mão na testa. Os ingredientes para o jantar prometido aos pais continuavam esquecidos por ali. — Foi um erro terrível e não posso dizer nada mais do que sinto muito. Eu entendo a sua raiva. — Uma lágrima ameaçou escapar, mas ela pressionou os dedos contra os olhos, mandando-a de volta ao lugar de onde viera. Era um pesadelo. Nunca imaginou que Cristiano fosse aparecer naquele cantinho do mundo onde vivia. — Vai continuar olhando para o relógio? — perguntou Cristiano, de repente. — E a quarta vez em 15 minutos. — E ficou imaginando se a história do encontro que ele mesmo inventara não seria certa. E preciso confiar na própria imaginação, especialmente com as mulheres, e cravou os dentes ao pensar nela com outro homem. Alguém daquele vilarejo, que certamente esperara pela sua volta.


Alguém que, pelo menos, conhecia a mulher com quem se envolvia, que não estava nas mãos de um personagem fictício fabricado com uma mistura de mentiras e teatro. — Sério? Não percebi. — E para quem é essa comida? — perguntou, apontando com a cabeça na direção da pilha de vegetais. — Está se divertindo? Por isso deixou a universidade e voltou para cá? Ele sabe de nós dois? — Do que está falando? — ela perguntou, mas um tom nervoso em sua voz sabotou qualquer tentativa de soar genuinamente inocente, e Cristiano franziu a testa. Um pressentimento ruim passou pela sua cabeça como veneno. Nunca perca a cabeça com as mulheres, pensou, e ficou imaginando que aquela menina virgem o poderia ter usado como trampolim para conseguir outra coisa. Um rompante de ciúme deixou-o com uma série de imagens de Bethany oferecendo seu corpo para o prazer de outro homem. — Fico imaginando o que o seu queridinho local diria sobre uma mulher que passa duas semanas ao lado de um homem... antes de voltar aos seus braços... Hã? Poucos homens perdoariam algo assim. Na verdade, acho que nenhum. Então, você contou a ele sobre as suas aventuras do outro lado do mundo? Ou simplesmente me usou para ganhar experiência na cama? — Não seja ridículo! — Bethany explodiu, com o rosto vermelho frente a tantas acusações loucas e às imagens que ele fazia reviver em sua mente. Imagens deles dois juntos em sua aventura no paraíso. Fora até lá virgem, mas no final de duas semanas se transformara em uma mulher explorada meticulosamente em cada centímetro do corpo, e que também provara o prazer de explorar cada centímetro do corpo de Cristiano. Na verdade, todas as noites recriara tais lembranças mentalmente. — Estou sendo ridículo? Por que outro motivo voltaria? Por que deixar Londres e sua carreira? Só mesmo por um homem... Um silêncio reinou quando ele se calou, tal como um elástico estirado ao limite. — Nem tudo o que as mulheres fazem é motivado por homens — ela disse, lutando para soar o mais natural possível, mas sua voz estava embargada.


— Na maior parte do tempo, sim. Pelo menos sempre foi essa a minha experiência. Ela resistiu e não voltou a olhar para o relógio. Mas era difícil. — Certo, eu conto, prometi fazer o jantar para os meus pais. Eles foram ao centro cultural... uma espécie de levantamento de dinheiro para campanhas com crianças africanas. Voltarão logo. Imagino que não queira estar por aqui quando eles voltarem... Ele não se moveu. Bethany nem ao menos sabia se acreditara no que ela tinha dito. Mas não importava, pois o som da porta da frente se abrindo teve o impacto de uma bala nos seus pensamentos revoltos e ela ouviu a voz familiar de sua mãe dizendo: — Querida? Bethany? Chegamos!

CAPÍTULO QUATRO Por alguns segundos desesperadores, Bethany ficou imaginando se poderia esconder Cristiano, que se levantara e a deixava sem fôlego. Poderia colocá-lo em um armário ou no quintal e trancar a porta, deixando seu rosto, agora curioso, longe dali. A única vantagem da chegada dos seus pais foi ter conseguido provar que não esperava um homem. Correu para recepcioná-los e os encontrou tirando os casacos e reclamando do tempo, que aparentemente estava piorando. Poderia nevar. — Mas o evento foi um sucesso — disse Eillen Maguire, sorrindo para a filha. — Conseguimos quase quinhentos. Não parece muito, mas ajuda. Havia um sujeito interessante lá, Bethany. Ele falou sobre o destino do dinheiro. Não era interessante, John? Fiquei com vontade de convidá-lo para jantar, pois o pobre homem teria de se alimentar com sanduíches na pousada, já que a dona foi visitar sua filha... A mãe parou no meio de uma frase, o que não acontecia muitas vezes, e Bethany nem precisou procurar saber o que estava acontecendo. Podia sentir a presença de Cristiano na sala, logo atrás dela. Por que não ficou na cozinha mais um minuto? Por que não dera tempo de explicar a visita surpresa aos pais?


— Mãe... pai... — disse, relutante, enquanto Cristiano se aproximava. Ela não mentira. Não havia qualquer homem a ponto de chegar, como ele suspeitava. Pelo menos não naquele momento. Só não entendia por que tanto drama, quando poderia ter dito que seus pais estavam pof vir. Deveria ter ido? Não sabia. Após ter sido envolvido por uma mentirosa tão experiente, deveria estar curioso para conhecer seus pais. Mas, na verdade, não poderia estar na companhia de duas pessoas mais normais. Pareciam ter seus cinquenta e muitos anos, talvez um pouco mais. — Eu... — Sabemos quem você é, meu filho, e estamos felizes por finalmente conhecê-lo. Certo, Eillen? Ela também está contente — disse John Maguire, sorrindo e estendendo a mão. — Ela mesma vai dizer quando parar de engolir em seco como um peixe fora d'água. — E apertou a mão de Cristiano afetuosamente, piscando para a filha, paralisada e com o rosto corado. — Na verdade, deveríamos ficar contentes ao ver Eillen sem palavras. Como Beth provavelmente já lhe disse, isto é muito raro. Na verdade, mais estranho para Bethany era ver Cristiano sem palavras, e ele estava assim, embora não o pudesse culpar. Nem poderia imaginar o que estaria passando em sua cabeça, ainda que respondesse ao aperto de mão de seu pai com segurança, e tivesse levado a mão de sua mãe à boca para um beijo, puro gesto de cavalheirismo italiano, deixando aquela senhora corada como uma adolescente. — Meu Deus — disse, olhando para Bethany. — Você nos disse que era elegante, mas não que era tão cavalheiro] — Elegante? — perguntou Cristiano, olhando-a de uma forma que deve ter parecido inocente aos olhos de seus pais, mas na verdade era um olhar repleto de questionamentos de natureza altamente desconfortável. — Acho que não vou conseguir terminar o jantar... — disse Bethany, mudando de assunto para ouvir um coro de não se preocupe, nós entendemos perfeitamente vindo de seus pais. — Você deveria ter ligado para a gente, querida! — disse Eillen, movendo-se em sua saia cinza, aproximando-se de Cristiano e tomando suas mãos. — Viríamos mais rápido para casa! Não.


Não seria boa ideia, certo, John? — E olhou para o marido como se ele tivesse feito a sugestão tola, e John deu de ombros, resignado. —Acho que vocês dois, que são jovens, têm muito o que conversar! Bethany, fique aqui com Cristiano... que nome adorável... Não, melhor, porque não leva Cristiano à sala de estar... John, querido, você toma conta do fogo...? E... — Boa ideia, mamãe! — Não se preocupe com a comida, Beth... — disse John, olhando para Cristiano e sorrindo. — Eu já disse mil vezes a essa menina que... — Pai! Por favor. Tenho certeza de que Cristiano não quer ouvir essas histórias chatas... — Chatas? Se já descobri alguma coisa sobre a sua filha, foi que chata não é uma palavra que possa ser aplicada a ela. Certo, Bethany? — Sua voz era aveludada, mas teria soado sempre tão cortante como desta vez? Talvez fosse impressão só dela. — Vamos à sala de estar agora, e por que você e mamãe... não se trocam... e podemos... — Nos conhecer melhor! — disse o pai, e Bethany sorriu para ele. — Vou preparar algo para comermos. Algo rápido, simples... — disse, olhando para Cristiano, que ganhou mais pontos convidando todos para jantar fora. Mas lhe responderam que estava a ponto de nevar. Seria melhor ficar em casa. — Neste caso, nada melhor que uma comidinha simples. Sua filha deve ter dito que sou um homem de gostos simples. O pai de Bethany bateu nas costas de Cristiano e, para seu horror, agora que pensava que aquela situação não poderia ficar pior, disse: — Claro, os riscos que você corre com o que faz talvez o obriguem a ser assim, certo? Cristiano sorriu e não disse nada. Sua vida, até encontrar a mulher ao seu lado, fora completamente organizada. Trabalho. Mulheres. Tudo em seu devido lugar. Era um desses homens que imaginam que, tendo tudo em ordem e controlado, podem limitar as surpresas desagradáveis. E até então acreditava na sua filosofia. Mas no final das contas ficara mal preparado para a sensação de pisar em terreno movediço, o que estava fazendo naquele exato momento. Riscos? Claro, assumia vários em seu trabalho, mas de alguma forma imaginava que os riscos a que se


referira o pai de Bethany não se aplicam aos associados às suas finanças. A que poderia estar se referindo? E como sabiam seu nome antes mesmo de serem apresentados? Bethany, de pé atrás dele, pigarreou e Cristiano se virou quando seus pais desapareceram nas escadas, conversando em voz baixa, animados. Mesmo em seu próprio território, naquela casa modesta a milhares de quilômetros de qualquer loja de estilista famoso e bares modernos, ainda poderia ser uma mulher capaz de estar ao lado de qualquer homem sofisticado sem que este notasse que não nascera em berço de ouro. Bethany nunca olharia torto para alguém que tivesse ar inferior, o que sempre lhe pareceu irritante em muitas das mulheres que conhecera. Bethany, por sua vez, parecia apenas refinada. Algo nela exalava essa sensação. Talvez fosse a cor vibrante de seus cabelos que caíam sobre os ombros. Ou seus olhos perfeitamente claros. Ou quem sabe a maciez de sua pele, intocada pela maquiagem que revestia o rosto de várias mulheres, loucas para camuflar seus complexos. Poderia também ser a forma como levava a vida. Equilibrada, orgulhosa e assertiva, mas de forma suave, silenciosa. Ficou nervoso consigo mesmo por ter enxergado em Be-thany mais do que uma mulher que não temera brincar com a sua vida, e olhou-a com ar ameaçador. Como sempre, o silêncio provou ser seu aliado e Bethany abriu a boca, desviando os olhos enquanto o guiava à sala de estar. Ele ouviu, sem dizer uma palavra, enquanto ela falava sobre seus pais, que aparentemente eram pilares daquela comunidade, envolvidos em todas as causas de caridade possíveis, praticamente uns santos. Enquanto ouvia, percebia tudo ao seu redor, da profusão de fotos de família aos ornamentos colecionados durante toda uma vida e obviamente muito queridos. Ainda que fosse uma casinha de interior, era bem espaçosa, e na parte de baixo contava com vários cômodos pequenos que se intercomunicavam. Em um deles, deitado em uma cadeira, um gato malhado tirava uma soneca. Mas não saía de sua cabeça a imagem da casa familiar que ela descrevera. — Então — ele disse, em tom tranquilo, ao chegarem à sala de estar, já sentando em uma poltrona confortável. — Muito


charmosa a casa dos seus pais. Tão diferente da mansão que você descreveu... Bethany corou. Não fora completamente tocada por aquele lado frio de Cristiano, embora soubesse que existiria, pois todos os homens poderosos são invariavelmente rudes. Era complicado unir as duas personalidades: o homem lindo e sexy que a sequestrara até uma ilha paradisíaca e o estranho de olhar frio que a encarava com uma curva cruel estampada nos lábios. Lembrou a si mesma que nunca teria conhecido aquele homem lindo e sexy caso tivesse sido apresentada como Bethany Maguire. Provavelmente não teria sido tão frio, mas ela poderia apostar que não passaria de um Senhor Indiferente. — Nunca disse que a tal mansão pertencia aos meus pais. Apenas disse que havia uma delas em minha cidade natal, e existe. — Sinto muito, mas não consigo apreciar a fina distinção entre uma mentira sincera e o uso econômico da verdade. — Não consegue porque nunca tentou. — E por que deveria tentar? Você tinha razão quando disse que não valeria a pena remover histórias antigas. Não nos levaria a lugar nenhum. Então vamos mudar de assunto, certo? — perguntou, abrindo um sorriso gélido que enviou uma espiral de medo por todo o seu corpo. Cristiano, percebendo isso, abriu ainda mais o sorriso e relaxou. Precisava vê-la cara a cara para que pudesse exorcizar sua fúria por ter sido enganado e caído em sua armadilha. Também passou a sentir necessidade de terminar o que considerava um assunto deixado em aberto: a relação que tiveram. As duas semanas que passaram em Barbados levaram a uma perda total do seu autocontrole. Agira como um aluno exemplar que, de um momento a outro, passava para o lado dos bagunceiros. Naturalmente, ela não percebera isso, não sabia que fora a primeira vez em sua vida que saía das rígidas fronteiras por ele mesmo impostas. Cristiano não sabia muito bem como ela conseguira tudo aquilo, mas a verdade é que fora capaz. Quando voltaram à Itália, ele não estava pronto para vê-la longe de sua vida. Ao se reencontrarem, sentiu um efeito negativo ao perceber que ainda se sentia atraído por ela. Imaginava que não sentiria nada, apenas desilusão e desprezo,


mas as revelações não foram tão fortes a ponto de extinguir um sentimento que não alimentara nem buscara, mas que permanecia muito vivo. Ao olhar para ela, no outro lado da sala, mergulhada na poltrona como uma criança, com seu enorme suéter cobrindo as mãos, sentia-se ao mesmo tempo excitado e enfurecido. Como um matemático diante de um complicado problema, Cristiano levou sua mente fria e lógica à uma situação completamente ilógica.

Que melhor maneira de pôr um fim em sua raiva e frustração que conseguindo o que lhe fora negado? Seria capaz de fingir ter tolerado a enorme decepção levando-a para a cama e saciando o desejo que ainda corria em suas veias, sabotando todos os esforços para que sua vida voltasse aos trilhos? Teria que pensar, mas relaxou pela primeira vez desde que chegara ali. Pelo simples fato de vislumbrar uma solução ao caso, mesmo que decidisse não pô-la em uso, foi capaz de restabelecer o controle sob aspectos que, com a chegada repentina dos pais, parecia ter perdido definitivamente. Além do mais, gostava da natureza dessa solução. Não conseguira apagar o rosto de Bethany da memória, não se esquecera de como ela gemia sob ele, em cima dele, na enorme banheira de sua casa em Barbados, na piscina, em vários lugares, e também na praia particular onde apenas as estrelas e a lua testemunhavam sua interminável paixão. Seria uma vingança doce tomá-la outra vez nos braços, mas só no momento certo, e quando ele dissesse. Desviou-se de seus pensamentos inesperados e percebeu que ela estava sentada na beira da poltrona, olhando-o intensamente. — Você me ouviu? Cristiano franziu a testa. — Repita. Estava pensando em outra coisa. Bethany imaginou que, após destilar toda a sua fiiria, ele devia estar desejando ir embora, voltar para a sua vida privilegiada e maravilhosa — a mesma vida que erroneamente imaginara que ela estivesse acostumada. Bethany adoraria levá-lo para dar uma volta fora de casa... mas o que diria aos seus pais? A rede de mentiras que começara


a tecer ao aceitar o convite para aquele jantar, meses atrás, só crescia à sua volta. Também estava descobrindo que a ideia de vê-lo mais uma vez, pela última vez, começava a parecer interessante para ela. Tentou afastar este pensamento de sua mente e disse, firme: — Eu estava dizendo que preciso lhe contar uma ou duas coisas antes que mamãe e papai voltem. A antena de Cristiano ficou alerta, imediatamente. — Além de explicar como os seus pais pareciam me conhecer antes mesmo que qualquer apresentação fosse feita? — Bem... eu... falei sobre você com eles. — Sério? E o que disse exatamente? Eu gostaria de saber, considerando sua enorme capacidade de mascarar a verdade... E seus olhos baixaram do rosto de Bethany em direção aos seus seios, que ele conhecera intimamente. Não fazia qualquer diferença que estivessem bem escondidos sob o pesado suéter. Sua memória era boa o suficiente para recriar a imagem daquele corpo saboroso por baixo de todo o pano. A mente de Bethany ameaçou entrar em colapso. — Eu disse a eles... você sabe... que nos encontramos quando eu estava na Itália... — Ah, então eles sabem que você esteve na Itália. Isso é um início promissor. Também sabem que esteve cuidando da casa de uma pessoa e que resolveu se passar por ela? — Sim, eles sabem que estive cuidando de uma casa! — Deixe de lado este tom de santa, Bethany. Ele não cai muito bem em você. E posso imaginar que não tenha dito nada sobre a história de se fazer passar pela srta. Amélia Doni... Certo? Bethany sentia a palma de suas mãos suadas, mas as manteve cobertas pelas mangas do suéter. — Não — admitiu. — Eu já imaginava. Seus pais não parecem o tipo de pessoas que aprovariam essa brincadeira. Então o que exatamente contou a eles sobre mim? — Certo. Tudo bem — ela disse, limpando a garganta e esticando o corpo. — Sei que deve parecer estranho o fato de eu ter falado sobre você com eles, pois as coisas não terminaram bem. — Foi a história do ano, não acha?


— São pessoas de forte moral. Acreditam na santidade das relações... — Obviamente um traço de personalidade que não passaram à filha. — Você não vai deixar barato, não é? — E deveria? — Só acho que não é uma hora apropriada para discutir — disse, e olhou para a porta, mas os pais continuavam no andar de cima. Conhecendo-os como os conhecia, estariam fazendo hora para que ficasse sozinha com Cristiano. Sentiu-se mal ao lembrar-se de sua louca mentira. — O que os valores morais dos seus pais têm a ver com tudo isso? — ele perguntou, de repente.

Perito em ler nas entrelinhas, sabia que neste caso dois e dois talvez não somassem quatro. Mesmo sendo Bethany mentirosa, provavelmente ladra, oportunista de marca maior e imprevisível, havia coisas em sua conversa que não se encaixavam, e ele não entendia. — Acredita que nunca imaginei que você apareceria aqui desta maneira, saindo do nada? — perguntou Bethany, com o coração quase pulando do peito, a ponto de explodir. — Quero dizer que você é um homem sofisticado. Imaginei que olharia para trás e não veria nada, além de um caso sem importância. Nunca pensei em como poderia reagir se alguma vez descobrisse... você sabe... Cristiano farejava uma trapaça, mas esperava, pois mais cedo ou mais tarde ela teria de responder às suas perguntas. As mesmas que driblava naquele momento. — Elegante. — O quê? — Elegante. Não foi esta a palavra que sua mãe usou para se referir a mim? — Sim. Foi. Elegante. E aventureiro. — Elegante e aventureiro? Ela fez que sim com a cabeça, triste. — Por que tudo isto está começando a parecer surreal para mim? — ele perguntou, levantando-se e começando a andar pela sala, parando para olhar as fotos de uma família feliz em


molduras dispostas na mesa, na estante, na mesinha ao lado da janela. Mostravam pais orgulhosos de sua filha. Em poucos metros quadrados, estavam representadas as felizes memórias de uma família. — Sei que pode soar um pouco louco... — Um pouco? — ele repetiu, virando-se e olhando para ela, deixando-a cravada à poltrona com uma intensidade brutal. Era complicado lembrar-se da versão anterior de Cristiano. E ela percebeu que lidar com a realidade era muito difícil. Enquanto lutava para colocar seus pensamentos em ordem e encontrar uma forma de explicar aquela situação surreal, Cristiano aproximou-se e se curvou, apoiando-se nos braços da poltrona e fazendo com que cada terminação nervosa do corpo de Bethany ficasse alerta.

Seu cheiro limpo, masculino, penetrou em suas narinas e inflamou seus sentidos. Elegante não fazia justiça àquele rosto bronzeado, lindo, de feições perfeitas. Cheia de medo e em pânico, sentiu seu corpo reagir à proximidade de Cristiano, seus mamilos se excitaram ao lembrar-se de todo o prazer que sentira ao seu lado. Sua boca ficou seca. Olhou imediatamente para baixo, mas Cristiano pôde perceber a reação inconsciente de seu corpo. Sentiu uma pontada de satisfação. Algo fora real. Poderia ter mentido sobre todas as outras coisas, mas não mentira ao demonstrar sua atração por ele. Quando caiu em seus braços, fora verdadeira. Além do mais, se ele ainda a quisesse, ela acabaria cedendo. — Então, sou elegante — ele disse, com uma voz que demonstrava satisfação consigo mesmo — ... e aventureiro. — Por favor, poderia parar de se inclinar para cima de mim? — pediu Bethany, mas Cristiano ancorou-se com ainda mais força contra a poltrona. — Por quê? Isto faz com que você se sinta pouco confortável? Sua consciência culpada a incomoda quando chego assim tão perto? Ou quem sabe... — E sentiu um desejo selvagem, nada bem-vindo naquele momento, ao ver que sua libido tomava conta


da situação — ... você está horrorizada ao perceber que gostaria de ter seu ex-amante elegante e aventureiro ainda mais perto? Foi recompensado com um olhar direto, olhar que confirmou o que já suspeitava. Satisfeito, levantou-se e voltou à sua poltrona. Se aquilo era um jogo, tinha acabado de marcar o primeiro ponto. — Então... você estava me contando por que sentiu um desejo louco de falar sobre o nosso curto caso aos seus pais... Desta vez foi Bethany quem se levantou. Caminhou até a porta entreaberta e fechou-a. Seus pais estavam fazendo hora, mas a qualquer momento desceriam para um momento em família, e não precisava que ouvissem aquela conversa. Quando voltou sentou-se no sofá ao lado da poltrona de Cristiano, próximo o suficiente para falar sem precisar levantar a voz, apesar de seu corpo temer tanta proximidade. Não queria insistir no mortificante fato de que ele entendera tudo, que percebera o seu desejo. Teria notado o quão profundo era este desejo? Na verdade, era tão forte que vencia tudo: sua hostilidade, reprovação e postura fria. Não poderia culpá-lo, dadas as circunstâncias, por usar suas fraquezas a seu favor, contra ela. Caso tivesse tentado beijá-la, Bethany provavelmente não resistiria. Mas o fato de ter chegado àquele ponto para depois retroceder, deve ter oferecido ao menos um pouco de orgulho ao seu ego ferido, e ela tentou com todas as forças focar-se neste ponto de vista. Era justo, no final das contas. O que não significa que Bethany não tenha notado a rejeição. — Sim. Certo. — E, fale a verdade, que história é essa de aventureiro? Bethany respirou fundo. — Você não acreditaria. — Fico surpreso ao ver que seria capaz de pintar um quadro de nossa vida sexual aos seus pais — ele disse, irônico. — O quê? — Bem... — disse Cristiano, dando de ombros, ainda se sentindo superior por ter uma prova irrefutável do que Bethany sentia por ele, e também por ter exercido seu poder contra ela. — Se os seus pais são tão cheios de moral quanto me disse, fico surpreso por você poder contar sobre sua vida sexual a eles. Ou


na verdade se trata de uma mãe acolhedora ou de um papo entre irmãs? — Claro que não falei sobre nossa vida sexual com a minha mãe! Ela ficaria chocada! — Então sobre o que estiveram conversando? — Sobre o que você faz! Naquele momento, Cristiano olhou-a, desorientado. Mesmo para ele, aquilo era demais. — E o que eu faço? — Muito dinheiro — ela respondeu, fervorosa. — Controla o seu império, mas claro, você sabe, isto não é suficiente... — Não? — perguntou, e sua mente estava mais perdida que nunca. Tampouco gostava da forma como Bethany evitava olhar diretamente para ele. Deve ter mentido todo o tempo que estiveram juntos, mas nunca antes evitara o contato olho no olho. Agora, pass^a a evitá-lo a todo custo. — Não — ela suspirou, e pensando que era inevitável, seguiu falando em tom mais natural. — Você não estava satisfeito construindo impérios, por isso resolveu embarcar em um projeto de boas ações. — Projeto de boas ações! Sinto muito, mas estou confuso. — Eu sei. Imaginei. E também sei que não vai gostar de ouvir o que tenho a dizer, mas não posso evitar. Bem, isso provavelmente poderia... — Vá direto ao ponto, Bethany! Ficou olhando para ele um momento. Queria guardar aquela imagem em sua cabeça. Não era uma ótima imagem porque ela estava com muita raiva dele, embora não tanto quanto no momento em que ele chegou ali. No entanto, provaria ser uma imagem muito mais reconfortante do que a que teria quando ela terminasse de falar. — Disse aos meus pais que você estava envolvido na construção de todo o tipo de coisas... em... lugares perigosos... lugares nada amenos... por exemplo, a África profunda ou zonas destruídas por guerras... você sabe, fazendo a sua parte para diminuir o sofrimento das vítimas do mundo... Cristiano balançou a cabeça, pois imaginava que assim entenderia a história confusa de Bethany. Depois passou os dedos pelos cabelos e ficou olhando para ela, perplexo.


— Eu construo todo o tipo de coisas em lugares perigosos! Que tipo de coisas? — Não sei! Coisas. Escolas! Centros comunitários! Facilidades médicas! — Na Africa profunda! —Algumas das coisas, sim. E outras em áreas de conflito, por assim dizer. —Não entendo. Você ficou louca? Deve ser uma mentirosa compulsiva, mas com o que imaginava estar brincando? — Você não deveria descobrir nada disso! — Talvez eu não esteja entendendo bem, mas qual o objetivo de me transformar em uma espécie de salvador da pátria? Não, espere, quero perguntar algo mais fundamental. Por que falou sobre mim com os seus pais? Eles nunca descobririam nada, e mesmo que descobrissem, estamos no século XXI. Por mais moralistas que sejam, devem entender que homens e mulheres se relacionam, e que alguns relacionamentos não duram para sempre! Você tem duas irmãs! Vai me dizer que as duas passaram toda a vida esperando pelo cara certo e até então nunca se relacionaram com ninguém? — Não, claro que não! — Então por que inventou uma confissão tão elaborada para duas pessoas que poderiam ter ficado sem saber de nada? Por que não apenas maquiou os fatos? Você conheceu um cara. Se divertiram por algumas semanas. E acabou. Um silêncio se seguiu à fala de Cristiano, e nesse meio tempo Bethany ficou vermelha enquanto rezava para que um buraco se abrisse no chão e ela fosse engolida pela terra. Ou melhor: queria fechar os olhos, e quando voltasse a abri-los, que ele já não estivesse ali, e todos os meses passados não fossem nada além de um sonho ruim. — A sua obsessão com a mentira é mesmo tão descontrolada? — perguntou Cristiano, olhando-a com a testa franzida enquanto tentava entender suas loucuras. — Se for assim, você precisa buscar ajuda. — E se levantou. — Não quero continuar ouvindo tanta mentira. Bethany se levantou e agarrou a mão de Cristiano. O contato físico fez um calafrio percorrer todo o seu corpo e ela imediatamente soltou sua mão.


— Espere! Não terminei! — Não? — ele perguntou, e sua boca se curvou em um sorriso zombeteiro. — Ainda tem mais? Além do serviço missionário em lugares do mundo onde nunca estive? O que estará por vir? Eu poderia usar como boas recomendações em meu currículo? — Podemos nos sentar outra vez? Por favor? Você deve estar imaginando que entrou em uma casa de loucos... mas tem mais que... você precisa saber... Só pelo fato de ela estar particularmente atraente com aquele olhar desesperado estampado no rosto... e, enfim, como esta mulher nasceu para ser uma espécie de montanha russa, por que não oferecer-lhe mais alguns minutos... ? Bethany ficou aliviada ao ver que Cristiano a escutava. Após ter olhado várias vezes para o relógio antes de seus pais chegarem, olhou mais uma vez, percebendo que poderiam descer as escadas a qualquer momento, entrando na sala de estar e levar aquela conversa para Deus sabe onde. De repente, o tempo passou a ser um bem muito escasso nas suas mãos. — Falei tudo isso porque... o que tivemos foi muito mais importante para mim do que a reação dos meus pais. Mas, antes de explicar o que estou querendo dizer... Bethany esperava que Cristiano a interrompesse dizendo qualquer coisa, acusando-a, e não que ficasse observando-a em silêncio, esperando apenas. Suas mãos, mais uma vez protegidas na manga do suéter, estavam suadas. — Antes de explicar o que estou querendo dizer... — ela repetiu, demorando o máximo possível para terminar a frase. — Quero que saiba que o enviei a todos esses lugares... — África central, por exemplo? E áreas de guerra? Bethany fez que sim. — Mandei você para esses lugares pois seria mais fácil que desaparecesse assim... — Fácil... para... que eu desaparecesse. — Quero dizer. Poderia ter dito que você estava em Nova York, Tóquio ou mesmo do outro lado do planeta, na Nova Zelândia, talvez, mas isto complicaria a situação... Cristiano ficou chocado ao saber que as coisas poderiam ser mais complicadas do que já estavam. Bethany, olhando para outro ponto na sala, aliviada por estar contando tudo, o que sempre soube que uma hora teria de fazer, desde o momento em


que abriu a porta de casa para ele, não deve ter notado sua expressão de choque. — Se você estivesse baseado, vamos dizer... no Congo... nossa relação poderia ter terminado. Quero dizer, que casal sério conseguiria manter uma relação tão distante? — Casal sério! Mais uma vez Bethany olhou para ele, fez que sim com a cabeça e esticou a mão para mostrar um discreto anel de noivado. — Não é verdadeiro, claro, mas eu precisava mostrar algo aos meus pais. Ele não notara o anel. Na verdade, não prestara muita atenção às suas mãos e agora pensava no quanto ela estava tentando escondê-las nas mangas do suéter. Cristiano ficou olhando-a, incrédulo. — Você acha que estou louca, certo? — Louca? Isso é pouco. — Certo. Escute. Sei que pode estar com um pouco de raiva... — Ela notou a aproximação dos pais. Era agora ou nunca, e nunca não seria uma opção válida. — Precisei contar essa mentirinha... — Mentirinha? Por favor, é uma mentira bem grande, seja sincera! — Porque, como eu já disse, meus pais são muito conservadores e teriam ficado altamente desapontados se soubessem que sua filha, após passar duas semanas com um cara no exterior, acabava de voltar grávida para casa.

CAPÍTULO CINCO Cristiano finalmente soube o que era ver uma bomba sendo detonada no epicentro de sua vida. Ficou olhando para ela em silêncio, estarrecido, e podia sentir a cor desaparecendo de seu rosto. Para Bethany, era como se fosse um homem que acabara de pular de um avião, mas que se esquecera de vestir o para-quedas. Sentia-se assim: em queda livre. Deixava de ser desimpedido, solteiro, transformando-se em noivo, com um filho a caminho. Tudo no espaço de algumas horas. Pior: estava noivo


de uma mulher que considerava uma mentirosa compulsiva de olho em uma grande oportunidade. Poderia ser pior? Naquele exato momento, os pais surgiram em cena, adiando o final da história. Bethany ficou aliviada, ainda que tivesse sido melhor resolver tudo de uma vez. Estariam nas mãos dos seus pais, que tinham várias histórias para contar sobre a sua infância, quando o dinheiro precisava ser esticado ao limite, especialmente com três filhas e vários bichos de estimação. Quando a mãe desapareceu para buscar algo para comerem, o pai convidou Cristiano para tomar um drinque e contar-lhe sobre suas viagens. — África — ele disse, sentando-se no sofá para uma longa conversa. — Nunca estive por lá. Deve ter sido uma experiência dura para você. Mas fico feliz por ainda haver jovens preocupados com a situação... Bethany engoliu em seco quando seu pai tombou a cabeça para um lado, olhando para Cristiano com muito interesse. — O Cristiano... — ela disse, limpando a garganta e sorrindo ao pai. — Ele... ele não gosta de falar sobre esses trabalhos... na África... e em outros lugares... É muito modesto... você sabe. E deu uma risada alta, um sorriso que morreu no silêncio da sala. Graças à crença de seus pais de que estavam noivos, ela acabou sentada ao lado de Cristiano no sofá, o que era muito irônico, considerando que ele só estaria assim tão perto dela se fosse para estrangulá-la. Mas pegou sua mão e até acariciou-a um pouco. — Isso é muito gentil de sua parte, Bethany... — disse, olhando para ela e percebendo que estava como um gato numa bacia de água fria. Seu pai culparia tanto nervosismo pela chegada inesperada do noivo. — Mas você não se lembra das fotos que lhe mostrei...? — Fotos? — ela perguntou, virando-se para ele e tentando sem sucesso soltar sua mão. — Sim,.as fotos... as fotos do meu álbum, meu álbum da Africa. — Ah, claro. — Por que não dá uma dica para o seu pai sobre o que eu fazia lá...? —'perguntou, apertando outra vez a sua mão e sentindo as unhas de Bethany cravadas em sua palma. Finalmente soltou-a, para depois pousar a mão na sua coxa, num típico gesto de


demonstração de afeto. Seu sorriso de encorajamento demonstrou o quando queria ver como se sairia entre tantas mentiras. Bethany percebeu tais intenções no seu olhar e naquele sorriso que era tudo, menos encorajador. Respirou fundo e cruzou os dedos atrás das costas ao começar uma floreada descrição do centro comunitário. Na verdade, totalmente baseado em um programa que vira recentemente na televisão. Quando parou de falar, ouviu Cristiano dizer, em tom suave: — Acho que isso merece um aplauso! — E olhou para John. — Sua filha é muito persuasiva com as palavras. Poderia vender neve a esquimós... certo, querida? Bethany encarou seus olhos, tão frios quanto o seu sorriso. E abriu um sorriso forçado em retribuição. Pelo menos enquanto estivesse na frente dos pais deveria fingir estar feliz pela aparição repentina do noivo. Vista de outro ângulo, a farsa poderia ser muito divertida. Infelizmente, como estava no meio do furacão, era muito mais tragédia que uma comédia. — Não sei — murmurou Bethany, mas Cristiano estava determinado. — Quero dizer... — ele falou, olhando para o pai de Bethany, com a mão firmemente agarrada à sua coxa, num lembrete gentil de que estava ali, ao seu lado no sofá, e que não a deixaria escapar até que estivesse satisfeito... — ... quando ela descreveu esta casa, aqui na Irlanda, eu quase tive a impressão de que se tratava de um castelo! — Nada mais distante da realidade, como você pode ver! — disse John, balançando a cabeça e sorrindo para a filha. — Mas você tem razão. Sei que ela vai fazer uma careta para o que vou dizer, mas Bethany sempre foi a primeira da turma em inglês! — Eu imagino. — Mas agora as circunstân... Bethany ouviu a mãe chamando da cozinha e respirou aliviada. Seu pai foi na frente, o que lhe deu uma chance de se afastar de Cristiano ao levantar-se do sofá. — Pare! — ela murmurou. — Parar? O quê? —- De me tocar!


— Por que está pedindo isso agora? — A voz de Cristiano era tão dura quanto seus dedos. — Você é uma mentirosa profissional e eu devo fazer o papel de noivo feliz. Eles não deveriam esperar contato físico? E, corrija-me se estou errado, mas nada foi dito sobre a sua tal gravidez. Interessante, né? — O que está querendo dizer? Mas ficou sem resposta, pois os seus pais os chamaram para entrar na cozinha. De mãos dadas, como um casal amoroso. Bethany se lembrou que não deveria confiar nas aparências, nunca. E sabia que o homem ao seu lado pensava o mesmo. — Só esquentei um frango que estava na geladeira — disse Eileen, quando todos se sentaram à mesa, cuja superfície estava marcada pelo trabalho do passado. — Diga o que você acha, Cristiano... — E olhou-o ansiosa, muito feliz quando ele começou a elogiar educadamente enquanto, ao seu lado, Bethany se torturava imaginando o que ele estaria querendo dizer com nada foi dito sobre a sua tal gravidez. Interessante, né? Estaria pensando que era mentira? Que Bethany inventara tudo aquilo? E se ele deixasse escapar um comentário infeliz como nunca pensei em ter filhos"? Ficou revolvendo a memória para se lembrar se alguma vez Cristiano dissera algo parecido. Nunca sentira tanta falta de um pouco de bebida alcoólica, nem que fosse apenas para sobreviver às perguntas de sua mãe sobre onde tinham se encontrado, e como. Nenhuma tentativa de desviar a conversa a outro tema aplacou a curiosidade da senhora. Bethany agradecia por seu pai já não perguntar sobre suas ações maravilhosas na Africa. O que parecera ser uma boa ideia em algum momento, uma forma de evitar o desapontamento e a angústia dos pais ao receber de volta sua filha grávida e solteira, retornava agora para assombrá-la. Quase pior era a realidade: Cristiano estava ganhando seus pais. Tirava histórias divertidas da cartola como um mágico. Mas quando estavam limpando a louça, Bethany teve um lampejo de inspiração e disse, em voz alta: — Agora vocês entendem o que eu queria dizer com elegante! — Ah, querida. Estou muito feliz por você. Claro, é uma pena que não tenha podido terminar a universidade, mas ele parece


um rapaz adorável. Acho que não se importaria se, em algum momento, você resolvesse terminar seus estudos, certo? Bethany se apoiou na pia da cozinha, com os ouvidos em alerta para localizar os passos do homem elegante em questão, que fora à sala com o seu pai. — Bem, eu deveria mesmo... — O quê? — perguntou Eillen, olhando para a filha, preocupada. — Quero dizer... — E o som de outra mentira, amontoan-do-se na pilha das várias que já contara, chegou como um cavalo galopante, sem controle, fazendo-a suspirar. — Nada. Só queria dizer que... é sempre bom ter um diploma debaixo do braço. — Mas não se esqueça que agora você tem outras obrigações, querida. Bethany fez uma careta. — Impossível esquecer isso. Na verdade, gradualmente se acostumara à ideia de ter um filho. O que no início fora um choque enorme, depois se acomodou, quando finalmente percebeu que não se livraria da gravidez, teria de lidar com ela. Foi uma benção ter seus pais como apoio, pois seguir na universidade estava fora de questão e ela não gostaria de continuar morando em Londres sendo mãe solteira. — Falei ao seu pai que não mencionasse nada sobre o bebê — disse Eileen, mais feliz que pinto no lixo. — Imaginei que gostaria de discutir isso com Cristiano a sós, e não tinha certeza se ele j á sabia... — Obrigada, mamãe. — Você não parece tão animada com a chegada de Cristiano como eu pensei que ficaria, Beth — disse sua mãe, preocupada. — Sei que imaginava que permaneceria preso vários meses, terminando seu projeto de construção... — Mas estou aqui! Por trás delas, deixando escapar essa observação certeira, surgiu a voz de Cristiano. Ele parou atrás de Bethany e passou o braço sobre os seus ombros, aproximando-a de seu corpo. Relutante, Bethany abraçou a cintura de Cristiano. Por trás de sua camisa, pôde sentir seu corpo musculoso, e um calafrio percorreu sua espinha.


— E, como disse a John na sala, sou portador de boas notícias, minha querida. — O quê? — perguntou Bethany, olhando para ele, horrorizada, pois seus pais os observavam com olhos de águia. Podia ouvir o silêncio de expectativa de sua mãe, que praticamente não respirava. — Se acabaram os projetos... Bethany ficou perdida, e somente quando sua mãe bateu palmas percebeu o que ele estava dizendo. — Que bom! — disse, tentando colocar um pouco de entusiasmo na voz ao ver que as últimas desculpas por tê-lo afastado de sua vida caíam por água abaixo. — É isso mesmo — disse Cristiano, para deixar claro que todos tinham entendido muito bem o que dizia. —- Minhas prioridades agora estão aqui. Certo, querida? Aqui, com você... e com o nosso filho. De repente o mundo ficou cor de rosa. Pelo menos para os seus pais. Sua mãe mal podia conter a emoção, e enquanto as vozes ressoavam ao seu redor, Bethany sentiu perder o controle de tudo. Teria imaginado que seria capaz de persuadi-lo a desaparecer de seu mundo? Ele não a amava. E ainda por cima descobrira que seria pai de uma criança que já tinha quatro meses, contra a sua vontade, com uma mulher que desprezava que considerava uma mentirosa profissional e sabe-se lá mais o quê. Quem diria que Bethany terminaria grávida de um homem que não sentia nada além de desprezo por ela? Que mulher sonharia com isso? — Não sei se Bethany mencionou que... — Ficamos chocados quando ela nos contou... — Mas agora que o conhecemos, não poderíamos pensar em um genro melhor... — Papai! — Claro que não vamos invadir a vida de vocês — disse Eillen. — Mas terão de nos desculpar, pois somos antiquados nesses assuntos... — Minha mãe é igual... Estaria Cristiano pensando que a gravidez era uma mentira? Bethany mentira sobre muitas coisas, sobre quase tudo, mas nesse ponto estava sendo sincera. Duas semanas de diversão sob


o sol e ele pagaria a conta pelo resto da vida. Que escolha teria? Era uma confusão, mas não poderia livrar-se dela. Tentou imaginar como sua mãe e seu avô reagiriam, e por alguns segundos entendeu a necessidade de Bethany de fabricar tais mentiras. Sua mãe ficaria louca caso aparecesse em Roma com uma criança, sendo pai solteiro. — Você precisa nos contar sobre ela... sobre sua família... Bethany foi um pouco econômica nas informações... Sua filha, ele pensou, foi econômica em muitos assuntos. — Mas agora... — disse John, passando o braço em sua esposa, demonstrando afeição — ... Eillen e eu vamos para o ninho. — Podemos ser um pouco antiquados — disse Eillen, sorrindo para Cristiano — mas não a ponto de colocar vocês dois em quartos separados... — Mas, mãe! — E a voz de Bethany saiu esganiçada. — Você nunca deixou Shania e Melanie trazerem seus namorados para casa e dormirem no mesmo quarto! — A situação agora é um pouco diferente. Certo, querida? — É verdade, mas não há motivo... Quero dizer, não quero desrespeitar... — Ainda bem que nos livramos daquela sua cama de solteira há alguns anos! Lembra como você ficou chateada ao perder aquele espaldar? — disse, agora olhando para Cristiano. — Ela tinha uma coleção de adesivos colados nele desde muito pequena! Acredita que descolou todos e pôs em um álbum! Bethany estava ficando vermelha. Será que sua mãe, de alguma maneira, imaginava que assim ela pareceria mais doce"? Não enxergava que, na verdade, Cristiano a via como uma fruta amarga? Não, Bethany respondeu a si mesma, triste. Por que sua mãe pensaria que sua filha amada e agora noiva não gostaria de dividir um quarto com seu sexy, elegante e aventureiro noivo, que provavelmente não via a hora de arrancar suas roupas? Ainda rindo e conversando um com o outro, seus pais saíram, deixando para trás um silêncio brutal. — Então... — disse Cristiano, postando-se à sua frente. — Por onde começamos...


— Podemos começar pelo fato de que não vou dividir um quarto com você. Pode ficar no quarto da Shania. Meus pais nunca vão saber, basta eu levantar cedo e arrumar tudo. — Seria um ótimo começo — disse, andando em direção à cozinha e fechando a porta. Depois, assegurando-se de que ela não poderia fugir, ficou de pé em frente à porta fechada, determinado. —Aliás, você ficou grávida de propósito? Bethany ficou horrorizada com o insulto. Cerrou os punhos, olhando firme para Cristiano. — Isso é a coisa mais idiota que já ouvi! — Então a sua vida sempre foi muito tranquila — disse Cristiano, cortante. — Aqui onde estou, vejo alguém que conseguiu entrar na minha vida... — Entrar na sua vida? Foi você quem bateu na minha porta, lembra-se? — Na sua porta? — Certo, na porta! — disse, tirando o cabelo do rosto. — ... e, ao chegar na minha cama, notou que aquela era uma chance muito boa para deixar escapar. E existe melhor maneira de agarrar um homem que ficando grávida? Bethany riu, incrédula. — Você acha que eu planejei isso? Realmente acha que eu queria abandonar os estudos, a minha independência, para ter um bebê? Seus olhos estavam arregalados, sua boca seca; sentia-se à beira de um ataque de nervos. Mal se notava sua barriga, mas aquilo não saía de sua cabeça. Viva cada dia, sem ousar pensar no futuro. O sonho de sair da cidade em que nascera se arruinara, e por isso não conseguia pensar em mais nada. Era como se o plano A, em torno do qual construíra sua vida, tivesse se transformado em outro, e já não pudesse fazer nada. Onde estaria nos próximos seis meses? Um ano? Onde estaria vivendo? Não poderia ficar para sempre na casa dos pais, com um bebê, morando no mesmo quarto de sua infância. Mas para onde iria? Como pagaria as despesas de duas pessoas? E ouvir aquela pergunta de Cristiano foi o fim! — Você se acha irresistível, não é? — E, raivosa, afastou-se da pia onde até então se apoiava. — Arrogante, cruel, esnobe! —


disse, levantando um dedo para ele. — Você honestamente acha que eu seria capaz de jogar fora o meu futuro para viver com um homem que me despreza, que me considera uma mentirosa? — perguntou, limpando uma lágrima do rosto. — Pareço ser tão triste... tão desesperada? — Calma! Você está começando a ficar histérica. — Arrogante, cruel e esnobe? Não era ela quem deveria estar sendo atacada? Afinal, Cristiano fora completamente honesto, como ousava acusá-lo? — É impossível conversar com você — disse Bethany, ainda mais enfurecida pelo fato de Cristiano ser tão frio. Percebeu que, se não desaparecesse naquele momento, explodiria, e essa explosão acordaria seus pais, e talvez toda a cidade. — Você não está falando. Está ficando histérica. — Você me deixa histérica! — disse, cruzando seu olhar com o dele e sentindo-se tonta. Por que provocava isso? Por que balançava seu coração quando tudo o que queria era sentir nojo dele? — Você não parece grávida. — O quê? — Não deveria estar mais gordinha? Bethany ficou desconcertada com a mudança brusca de assunto. — Algumas pessoas não engordam tão rápido, e eu sou uma delas. Por que mudou de assunto? — Porque você não deveria ficar tão nervosa na sua... condição. — E como deveria me sentir quando você fica aí, parado como um bloco de gelo, me acusando de ter armado tudo isso? — E respirou fundo, pensando. A histeria não resolveria nada. — Se eu fosse louca o suficiente para engravidar de propósito, não deveria ter entrado em contado com você desde o primeiro momento? — E por que não fez isso? — Pela mesma razão que... esqueça. Não sou a mulher rica e conhecedora do mundo que você imaginou que eu fosse. Não sou ninguém, sou o tipo de pessoa para quem você nunca olharia duas vezes numa situação normal. — Não se menospreze — disse Cristiano, censurando-a e franzindo a testa.


— Não estou me menosprezando, Cristiano. As coisas são assim. Você me disse que não sairia com uma mulher que não viesse do mesmo mundo, pois nunca saberia se ela estaria apenas correndo atrás do seu dinheiro. — Nunca disse isso! Cristiano parecia ter perdido o controle sobre a conversa, e não sabia para onde Bethany o conduzia. — Disse! — Certo. Talvez tenha dito, mas não estou convencido. — Então, quando descobri que estava grávida, logo percebi que não poderia dizer nada a você. Como teria se sentido se eu aparecesse na sua porta... uma certa Bethany Maguire, grávida, sem ter para onde ir e sem um centavo no bolso? Não me diga que soltaria fogos de tanta felicidade! — Mas essa não é a questão. — Qual é a questão, pode dizer? — Eu tinha direito de saber. Quando se trata de uma criança, não se pode pensar no que vamos sentir, a única coisa que importa é essa criança. Você alguma vez pensou em me ligar para dizer que eu seria pai? Bethany desviou os olhos. Sempre que pensava em ligar para ele, para explicar a situação, desistia imediatamente. — Eu, por exemplo, teria contado. Na hora. Provavelmente. — Foi a resposta de Cristiano, imediata. Não poderia seguir aquela linha de ataque, mas na sua mente imaginou uma história na qual a criança cresceria sem a sua presença, transformando-se no filho adotado de outro homem, que em algum momento entraria na vida de Bethany. Isso o deixou louco. Só de pensar em Bethany nos braços de outro homem, ficava louco. Tirou essa imagem da cabeça e resolveu ser mais prático. Fora complicado entender suas razões para mentir. Mas isso, naturalmente, não era desculpa para aquela manipulação da verdade. No entanto, tentaria esquecer, pois havia coisas muito mais importantes a serem discutidas. — Fico surpreso por não ter me matado — disse, brincando, e Bethany olhou para ele, mais uma vez chocada com a mudança de tom. De fria e raivosa, sua voz ficou mais aveludada e doce. Isso fez com que os pelos de sua nuca se eriçassem e algo dentro dela se retorcesse, deixando-a vulnerável, exposta.


— Não sou tão ruim — ela disse, já sem poder respirar. — Além do mais, melhor assim, já que você apareceu aqui. Explicar a aparição repentina de um noivo que está longe já é complicado. Explicar a ressurreição seria impossível. — Com sua raiva um pouco diluída, Bethany percebeu o quanto estavam próximos. Praticamente se tocavam. Deu alguns passos para trás e disse que iria para a cama. — Onde estão suas roupas? — ela perguntou. Seus pais não notaram a ausência de mala, e ela só notou naquele momento. — Estão em um hotel, a poucos quilômetros daqui. — Ah, certo. A mansão convertida em hotel, claro. Teria dito que voltasse para lá, mas o que isso resolveria? Seria estranho aos pais que o casal recém-reunido passasse a noite separado, especialmente quando eles demonstraram um liberalismo incrível, permitindo que ficassem no mesmo quarto. — Então você não tem roupa aqui... Posso saber como vai dormir? — Toe, toe. Não me diga que sua memória é tão curta? Suas bochechas ficaram vermelhas ao lembrar-se das noites que passaram juntos. Sem roupa. Para ela, era uma novidade. Nunca antes dormira nua, e ficou muito envergonhada na primeira vez, pois era algo quase mais íntimo do que fazer amor. Mas Cristiano, por sua vez, nem tinha pijama. — Não. Por favor, ande. Vou subir agora. Cristiano não hesitou em segui-la. Não estava muito certo sobre qual fora a conclusão da conversa. Ela poderia ser Bethany Maguire, Amélia Doni ou a rainha^da Inglaterra, mas permanecia sendo a mulher que argumentava, imprevisível, exatamente como ele se lembrava. Sentia-se metido em uma lavadora de roupas ligada na velocidade máxima. Além do mais, estava interessado em ver o que aconteceria quando chegassem ao quarto. Olhou sua bunda pequena, arredondada, enquanto ela subia a escada. Nunca esquecera sua delicadeza. Movia-se com a graça de uma bailarina, mesmo que nunca tenha ido a uma aula de balé na vida. Era difícil julgar se guardava alguma barriginha debaixo daquele suéter, mas de costas seu corpo parecia exatamente igual. Pela primeira vez, Cristiano enxergou o bebê que ela carregava como um grande crédito à sua flexibilidade e força de caráter,


pois não se sentia mal ou acorrentado. Sua mãe e seu avô ficariam perdidos, isto é certo. Talvez não tenha acontecido da melhor maneira, como eles teriam gostado, mas o resultado final seria bem-vindo, de braços abertos. Chegaram ao topo da escada e Bethany olhou-o, apontando para o corredor. — Meu quarto é o último à direita — disse, num tom ras-cante. — Volto em um minuto, nesse meio tempo, prepare sua cama no chão. Vou trazer um cobertor e você poderá usar um dos meus travesseiros. Cristiano não disse nada. Seguiu até o quarto, lentamente, aproveitando para olhar os outros quartos pelos quais passava, sem dúvida pertencentes às irmãs, e poderia dizer onde dormia cada uma delas. Aquele com vários livros era o de Shania, e o repleto de potes de maquiagem e cremes, de Melaine. Mais um detalhe sobre o qual Bethany não mentira. Seu quarto era o maior de todos, com grandes janelas nas paredes e decorado em tons pastéis. A mobília era velha e pesada, não combinava com o gosto de Cristiano, mas tinha a ver com o quarto, e a cama era grande, com quatro travesseiros gordos, mas nenhum deles acabaria no chão. Tirou os sapatos, livrou-se das meias e deitou-se na cama, aliviado, com as mãos atrás da cabeça; pensava qual seria a reação de Bethany ao vê-lo assim. Não teve de esperar muito. Cinco minutos mais tarde ela entrou no quarto, parando na porta para acender a luz, o que ele não fizera. E imediatamente viu que estava deitado na cama. Sentiu vontade de bater a porta, mas resistiu ao impulso e fechou-a com um clique. — O que você está fazendo? — perguntou, jogando o cobertor para ele, que por sua vez, atirou-o ao chão. — Estou aproveitando este maravilhoso colchão. Muito mais confortável que o do hotel, o que demonstra que o dinheiro nem sempre compra o melhor. — Certo, agora que já o experimentou, levante-se e comece a arrumar sua cama. Peguei um pijama do meu pai também. Vista. — Por quê? Você já me viu nu. — Antes, agora não quero. — Pense em cavalos, portas de estábulo...


— Eu não ligo a mínima para o que você está pensando! — gritou, quase chorando de frustração. —Ande... vista este pijama... — e Bethany respirou fundo. — O banheiro fica ao lado... — Certo — disse Cristiano, levantando-se e esticando o corpo. — Mas no chão eu não durmo. — Então durmo eu\ — Não, você não. — E Cristiano não sorriu ao aproximar-se dela. — Você vai dormir nesta cama, assim como eu. Não quero ver você grávida dormindo no chão. — Então durma você no chão. Eles cruzaram os olhares e ela perdeu a respiração. — Nenhum de nós dois vai dormir no chão, e se eu voltar aqui e notar que fez algo com esse cobertor além de guardá-lo no armário, vou ficar chateado. — Ah, e a sua chateação é importante, naturalmente! Ele abriu um sorriso falso e pensou que já tinha se esquecido como ela ficava linda com os olhos raivosos, toda corada. — Então concordamos em um ponto. Já é um começo. Quando saiu do quarto, levando a toalha que ela trouxera e tropeçou em uma cadeira, Bethany passou três segundos enfurecida. Depois se moveu como se fosse dirigida por um foguete. Já com o rosto lavado e os dentes escovados, ela vestiu seu pijama velho, de flanela, do tipo que ninguém gostaria de ser vista usando, e se deitou na cama, certificando-se de puxar as cobertas até o queixo e posicionou um dos travesseiros como barreira entre os dois. Depois virou as costas à porta e fechou os olhos, com força. Mas nada a protegeu de escutar a porta se abrindo, dez minutos depois. Ele se movia tão lentamente que ela só notou que já deitava na cama quando o colchão afundou, quase fazendo com que o seu corpo caísse para o outro lado. — Sei que não está dormindo — ele disse, em tom informal — e gostaria que aceitasse o fato de que nenhum de nós dois vai dormir no chão, como um adolescente em concerto de rock. Não gosto desse travesseiro entre nós — disse, pegando-o e atirando ao chão. — Está bem melhor assim. Agora precisamos conversar. E rolou na cama, fazendo com que Bethany tremesse ao sentir sua pele nua contra seu corpo. Estava na ponta da cama, olhando na direção dele, mas mal podia ver seu rosto.


— E o pijama do meu pai? — Está no chão. Estou de cueca, não se preocupe. Reinou o silêncio entre os dois, e a cada segundo Bethany sentia seus nervos mais e mais estirados. — Você sabe que precisamos ter uma conversa séria, não é? — disse Cristiano, calmo. — Quero dizer, uma conversa nada histérica. Mesmo notando a barreira que ela impusera entre os dois com o seu pijama de flanela, Cristiano percebia que seu corpo seguia ferrenho em suas intenções. — Este não é um bom lugar para conversar. — Não...? Imaginei que todos os casais conversassem assim. Na cama. — Não somos um casal. — Então defina o que somos, e não se esqueça que estamos noivos. Quando seus olhos se acostumaram à falta de luz no quarto, Bethany pode vê-lo com mais clareza, e sentiu seu corpo dolorido pela tortura de estar a poucos centímetros dele. Sua cama poderia ser grande para uma pessoa, mas parecia mínima quando Cristiano ocupava mais da metade do colchão. — Gostaria que parasse de me lembrar isso — ela murmurou. — Certo. Vou mudar de assunto. Até porque não quero causar dano à sua frágil consciência... então, posso fazer uma pergunta? Seu corpo mudou? — O quê? — Seu corpo — ele murmurou, com voz rouca. — Mudou? Quero tocar sua barriga. Quero sentir meu bebê — disse, esticando o braço e metendo-o sobre a parte de cima do pijama de manga comprida, muito quente para ser usado naquela cama. — Deve concordar que tenho direito... CAPÍTULO SEIS -O que você está fazendo? — perguntou Bethany, com uma ponta de protesto, tentando fugir daqueles dedos longos, mas havia pouco espaço para manobras, por isso teve de contentar-se com uma luta inútil. — Você a esconde bem — disse Cristiano ao sentir seu ventre arredondado e liso. Não acreditava que não percebera antes que


ela lhe contasse, mas a verdade é que não chegou a olhar muito bem. — Não... — disse Bethany, ficando sem ar, com o corpo corado e arfando enquanto ele continuava a acariciar sua barriga com a palma da mão. — Não? Mas eu tenho todo o direito, certo? Afinal de contas, sou o futuro pai pródigo que acaba de voltar de sua aventura perigosa nos confins da África. — Isso não tem graça. —Não, você tem razão. Não tem mesmo. Vinte e quatro horas atrás eu era um homem sem qualquer responsabilidade sobre ninguém, exceto comigo mesmo... — disse, tirando a mão da barriga arredondada, tomado pela magnitude da situação. — Vinte e quatro horas atrás você era um homem que corria para esta casa querendo jogar na minha cara todas as mentiras que contei! — E mal sabia a profundidade de tais mentiras. — Mas nunca teria me procurado se não soubesse de nada; certo, Cristiano? Estaria esperando que ele negasse? Suas bochechas coraram ferozmente ao perceber que, sim, ela era uma boba, pois ainda queria ouvir algo indicando que o caso deles fora mais que um interlúdio de duas semanas em sua agenda complicada. — E você esperava que eu viesse? — Claro que não! Mas será que isso lhe dá o direito de me culpar simplesmente por ter aparecido aqui quando eu descobri estar grávida? Será que pode me culpar por não ter entrado em contato com você ao receber a boa notícia? — Não tenho qualquer intenção de me transformar em cúmplice justificando seus atos. — Você é tão... superior] — ela disse, cerrando as mãos em punhos, rangendo os dentes, evitando falar alto, o que acabaria atraindo seus pais ao quarto. — Se com isso você quer dizer que confronto as pessoas, sim, é verdade. — Você nunca fez algo que não deveria, Cristiano? — Claro quefiz. Passei duas semanas em Barbados com uma mulher que mal conhecia. Olhando para trás, posso dizer que foi um dos meus maiores erros. — Que horror!


Cristiano sabia que foi horrível o que dissera. Também sabia que era mentira, mas jamais confessaria que aquelas duas semanas roubadas estavam entre as melhores de sua vida. Não daria espaço àquela voz na sua cabeça que lhe dizia que sim, poderia ter tentado entrar em contato com ela, fossem quais fossem as circunstâncias de sua fuga. Afinal, que tipo de homem persegue uma mulher que foge dele? Não se colocaria nessa categoria. — Peço desculpas. —Ah, claro, então tudo bem — disse Bethany, dando uma risada, com a respiração pesada. Ela deitou e ficou olhando para o teto, percebendo a respiração de Cristiano e o fato de o seu braço estar a poucos centímetros. No pesado silêncio, Cristiano sorriu ao ouvir aquela resposta. Certo, sua vida mudara de cabeça para baixo. E a dela também. Qualquer outra mulher, frente a um raivoso ex-amante, um homem com poder e dinheiro para mover montanhas, um homem que fora enganado e abandonado, teria ao menos tido a decência de ser humilde. Mas Bethany, não. Como sempre, estava botando lenha na fogueira, e aquilo não resolveria nada. — Então agora que eu apareci em cena, sem qualquer sinal de malária, fome ou ferida de arco e flecha, o que pensa em fazer comigo? Como ele esperava, um silêncio terrível seguiu-se à questão, e Cristiano deixou que o silêncio se prolongasse até que pudesse sentir a tensão subindo em ondas. — Felizmente, estou preparado para fazer a coisa certa. Bethany virou o corpo, olhando para ele, surpresa. — A coisa certa? Do que você está falando? — Você está grávida de um filho meu, e eu sou um homem honrado... um homem que assume suas responsabilidades com seriedade. Naturalmente, não tenho outra opção além de me casar com você. — Casar comigo? Você ficou louco? — perguntou Bethany, liberando uma espécie de risada. E por que ele deveria imaginar que Bethany aceitaria sua oferta generosa por se tratar de um homem honrado, que assume suas responsabilidades com seriedade e que por isso chegava à conclusão de que poderia colocar um anel em seu dedo por não haver outra opção? — O que você está dizendo?


Com uma das mãos Cristiano alcançou a mesa de cabeceira e acendeu a luz. Imediatamente, o pequeno espaço entre eles ficou maior. Ele se levantou é olhou-a com cara de fria incompreensão. — Estou dizendo... — Ela se levantou, pois era muito estranho seguir aquela conversa deitada — ... que não vou me casar com você! Não vivemos no século XIX, Cristiano! — Mas considerando que você precisou inventar um noivo imaginário para os seus pais quando voltou para casa... grávida... Era difícil para ele acreditar que Bethany não aceitava sua proposta! Pelo que sabia, era um em um milhão! — Fabricar um noivo imaginário é muito diferente de sair de uma igreja casada com um homem que nem mesmo gosta de mim! — E inútil tentar colocar sentimentos nessa situação. — Inútil? Como assim? — Mantenha o tom de voz baixo ou seus pais virão aqui ver o que está acontecendo! Bethany contou até dez, bem lentamente. — Certo. Vou falar baixo pois não quero fazer uma cena e preocupar meus pais. Mas não vou me casar com você, Cristiano. Nunca. Fizemos uma coisa estúpida... não tomamos o cuidado que deveríamos, mas seria mais estúpido ainda sacrificar nossas vidas pelo bem deste bebê. Com olhos flamejantes, Cristiano saiu rápido da cama e caminhou até a janela. E a visão de um homem lindo e seminu atraiu o olhar de Bethany como um ímã. — Não entendo por que reage assim. Grande parte das mulheres teria adorado sua proposta... mas aonde isso o levaria? Terminaria preso em um casamento que se transformaria em uma prisão para você... para nós dois... Cristiano era um homem de muita libido, e não é preciso ser gênio para saber que dois e dois inevitavelmente somavam quatro. Não sentia nada por ela e não sentiria nunca. Bethany não seria nada além da mãe de seu filho; fidelidade não estaria em jogo. — Então — ele disse, em voz suave: — O que você sugere? Cristiano percebeu que era importante manter um tom prático naquela conversa, mas lhe custava toda a disciplinado mundo


não se deixar levar pelo temperamento. Quase no exato momento em que soube de toda a história chegou à conclusão do que deveria ser feito. Ficara chocado ao ver que sua oferta de casamento fora recusada. Ela obviamente não estava pensando com clareza, e ficou inclinado a culpar os hormônios, que aparentemente afetam algumas mulheres na gravidez, mas foi forçado a admitir que sua mente realmente não funcionava como a dele. Nem como de grande parte da raça humana, pelo menos do contingente feminino. Bethany recuou no momento em que qualquer mulher teria aceitado imediatamente. Bethany não foi capaz de evitar. Sentiu uma pontada de desapontamento ao ouvir o plano de Cristiano. Teria proposto casamento como forma de limpar sua consciência? Um cara decente, que cumpre seu dever, mas vê que a oferta não é aceita: hora de ir embora. Ela foi quase capaz de prever um sinal de alívio no ar. — Bem, você terá de ficar por aqui um dia ou dois, eu acho. Ou seria um pouco estranho... Cristiano cruzou os braços e inclinou a cabeça para um lado. Era de sua natureza contradizer a estupidez do que ela estava dizendo, mas também era inteligente o suficiente para saber que verbalizar suas opiniões poderia provocar outro drama e seu afastamento imediato. Bethany mordeu os lábios e ficou olhando-o, em busca de um encorajamento verbal. Sem encontrar nada, continuou, falando devagar: — Então você terá que voltar para Londres... você sabe, não poderá ficar aqui para sempre... Meus pais sabem que é um homem de negócios, antes de mais nada... — E onde você entra nessa história? — Eu fico aqui, claro. — Claro? E seus pais não achariam estranho que eu a deixasse para trás? Havia mais buracos nas histórias de Bethany do que num queijo, e ele teve de driblar o sarcasmo que lutava para sair de sua boca. — Eu poderia dizer que é mais... que é melhor tê-los ao meu lado, já que o seu trabalho o leva a várias partes do mundo, a qualquer hora. — Mas eu já disse que os projetos estão encerrados, não?


— Certo... mas você viaja, não é? — ela perguntou, irritada. — Por que não me ajuda? Não vê que estou tentando fazer o que é certo para nós dois? — Acho que é hora de dormirmos. Ele começou a andar de volta até a cama, e Bethany seguia seus movimentos com o olhar, ansiosa. — Mas não resolvemos nada. — Estou cansado. Vou dormir. Sinta-se livre para dar asas à sua imaginação fértil sobre o que será dessas pessoas. E se deitou na cama, virando-se para o seu lado, dando as costas para ela, ignorando seus movimentos frenéticos enquanto tentava conseguir um pouco mais do lençol para si mesma. Cinco minutos mais tarde, Bethany começou a sentir a respiração suave de um homem que caíra no sono. Demorou uma hora para que suas pálpebras começassem a pesar, e neste meio tempo lutou para manter-se acordada o máximo possível. Quando voltou a abrir os olhos viu que estava cara a cara com Cristiano, praticamente tocando seu nariz no dele. Enquanto dormiam, tinham se aproximado. Sua perna estava entre as coxas dele e o braço de Cristiano envolvia seu corpo. Os olhos de Cristiano estavam fechados e seu rosto de ângulos marcados mal podia ser visto na escuridão. Como um ladrão, Bethany aproveitou a oportunidade para observá-lo. Ele não a via. Sentiu vontade de tocar e traçar o contorno de sua boca e nariz. Costumava fazer isso quando eram amantes. Para ele,era divertido, gostava da forma como ela o olhava, como se fosse o homem mais incrível da face da terra. Ela nunca vira ninguém tão bonito. Estava pensando em tudo o que lhe parecia tão atraente nele quando Cristiano abriu os olhos. Depois dormiu outra vez. Para voltar a abrir os olhos, alerta, no minuto seguinte. Bethany engoliu em seco e tentou se afastar, mas ele se aproximou. — Está acordado! — ela murmurou, em tom acusador, e Cristiano abriu um sorriso forçado. Ele passou os dedos nos cabelos e aproximou-se ainda mais. Bethany já não tentava se afastar, ele percebeu. Mas até então não notara o quanto era calmo aquele lugar, no meio do campo. Estava acostumado ao barulho constante, mesmo nas primeiras


horas da manhã. Era tudo tão tranquilo que ele podia ouvir a respiração de Bethany. A excitação veio rápida e forte, e notou que ela percebeu, pelo lamurio que soltou. Mesmo que tivesse passado apenas uma noite em sua companhia, fora uma experiência intensa e ele parecia capaz de ler suas mínimas reações. Como a forma com que aproximou seu corpo um milímetro dele. Ficou surpreso ao ver que prendia a respiração, pois não queria desperdiçar aquele momento. — Senti sua falta—ele confessou, em tom rude. — Desde que foi embora, não consegui tirar você da minha cabeça. Bethany sentiu como se uma lufada de ar a tivesse tirado do lugar. Suspirou, contorceu o corpo e fechou os olhos, jogando a cabeça para trás com um leve gemido quando a mão de Cristiano tocou sua barriga, recomeçando a gentil exploração do dia anterior, mas desta vez chegando aos seus seios. — Sonhei várias vezes em tocar seu corpo — disse Cristiano, tomando um dos seus seios na mão, sentindo seu peso, agora mais pronunciado. — Eles cresceram. — Sim — disse Bethany, quase sem voz. — E os mamilos também, não? Estão maiores? — Cristiano... As suas palavras faziam a pulsação de Bethany aumentar. Sentia-se como alguém pego de surpresa. Era um fogo que aumentava de tamanho desde o momento em que ele entrara pela porta daquela casa. — Quieta... — ele pediu, caindo sobre ela e vendo que seus lábios se abriam. O beijo foi profundo, urgente, e ela imediatamente quis livrar-se daquele pijama idiota que vestira como barreira protetora entre os dois, como forma de frear sua sexualidade. — Quero ver você — ele disse, com voz rouca. E não deu tempo para que ela respondesse. Sua reação era doce e submissa, e ele não queria lhe dar nenhuma oportunidade para que mudasse de ideia e assumisse posição de ataque. Tirou a parte de cima de seu pijama e se perdeu olhando para aqueles seios. Ficou pensando em como sua vida voltaria ao normal quando estivesse outra vez em Londres. Aquilo estava gravado em sua mente há meses. Qual era o poder daquela mulher? Fazia com que perdesse o controle, já não lutava contra o seu desejo.


Ao contrário, passou a língua em seus mamilos excitados, mais escuros e grandes que antes. Seu corpo se preparava para o nascimento do bebê, e pensar naquilo só fazia aumentar o desejo de Cristiano. Sua boca tomou o lugar da língua quando sugou um dos mamilos, adorando a forma como ela se contorcia embaixo dele. Com uma das mãos tocou o outro seio e com a outra explorou mais abaixo, na área da barriga, que antes estivera praticamente invisível debaixo do pijama, mas que se mostrava decididamente arredondada agora que estava nua. Passou a mão pelo elástico da cintura da calça do pijama, que desceu. Bombardeada por sensações, Bethany arqueou o corpo. Sentir que Cristiano lhe sugava os seios parecia algo de outro mundo. Passou os dedos entre seus cabelos negros e grossos,forçando a cabeça de Cristiano em direção ao outro seio. Era como se não pudesse aguentar tudo aquÉo. Quando ele levantou a cabeça para perguntar se era seguro fazerem aquilo ali, ela fez que sim com a cabeça, na verdade pedindo: não pare. Fez comentários sobre o seu corpo, as alterações, e as palavras murmuradas eram tão eróticas como as mãos que o percorriam. Ela ofegava enquanto ele lambia sua barriga. Depois, a língua entrou em seu corpo, contorcendo-se até que ela chegasse ao limite. Já fizera isso com Bethany, levando-a à beira do prazer para depois retroceder, mas não seria capaz de parar naquele momento e, antes que pudesse fazer qualquer coisa, Bethany sucumbiu às sensações. Ondas de prazer enviaram tremores para todo o corpo, e quando ela se acalmou, Cristiano postou-se em cima dela e perguntou: — Tudo bem? Bethany murmurou algo parecido com um choramingo, e ele sorriu ainda mais. — Não deveríamos ter feito isso — ela disse, fraca. — Por que está falando no passado? Não permitiria que ela voltasse a si. Já estivera pensando muito. Silenciou-a com a boca, beijando-a profundamente. — Você fica muito sexy grávida — ele murmurou. — Não é verdade. — Para mim é — disse, separando suas coxas com as mãos, sentindo o calor que emanava dali, numa indicação de quanto estava excitada. — Nós, homens, somos criaturas simples — ele


murmurou, tentando-a com sua virilidade, e fazendo com que ela se aproximasse, tocando-a em seu ponto sensível. — A evidência da nossa virilidade é uma prova satisfatória. Se preferir, pode chamar de loucura de macho. Nunca antes se sentiu tão liberado como quando a penetrou, primeiro gentilmente, depois mais fundo e mais duro, aumentando o ritmo. Desde a primeira vez que fizeram amor, seus corpos se mostraram extremamente compatíveis, e nada mudara naqueles meses em que estiveram separados. Moviam-se como um único corpo. Talvez por isso, fazer amor com ela sempre fora uma experiência tão maravilhosa. O clímax atingido naquele momento foi imediatamente parar entre uma das melhores experiências de sua vida. Cristiano rolou de costas, feliz ao ver que tudo funcionava bem entre eles. — Foi um erro. As palavras dela bateram de frente com o bom humor de Cristiano, que demorou certo tempo para processá-las, depois virou-se para ela, talvez pensando que poderia não ter entendido bem. — No que está pensando? — Não deveríamos ter feito amor. Agora vou tomar um banho e morrer de frio porque o aquecimento central está desligado. Fez um movimento indicando que sairia da cama, mas a mão de Cristiano alcançou sua cintura, detendo-a. — Não tão rápido — ele disse. — Não fuja da nossa conversa. Que diabos você quis dizer com não deveríamos ter feito amor? Não me lembro de ter ouvido qualquer reclamação cinco minutos atrás. — Não estou negando que sinto atração por você — ela murmurou, mas não ousou olhar diretamente em seu rosto. — Mas isso não significa nada. — Você não sabe o que está falando. — Não pretenda me conhecer melhor do que eu mesma — Bethany disse, dura, profundamente envergonhada por ter caído em seus braços. Quando mais precisava manter a cabeça fresca, deixou-se levar pelas emoções e voltou àquela montanha-russa, como seja não tivesse tido o suficiente. — Mas eu realmente a conheço melhor — Cristiano disse, seguro. — Sei, por exemplo, que não tem ideia de como lidar com esta situação.


— Como ousa dizer isso? — Preciso pensar por nós dois — ele completou, tranquilo. — E não me diga nada. Eu ouvi tuao o que você tinha a dizer. Agora vai deitar e me escutar, escutar a voz da razão e do bom-senso. — Não acredito no que estou ouvindo. — Pois trate de acreditar. E vou deixar as coisas claras. Você está grávida e, goste ou não, eu não vou desaparecer em uma viagem longa a lugar nenhum. Não vou convenientemente desaparecer no Afeganistão para construir um centro médico. Não vou voltar à África central para ver como uma comunidade imaginária está se saindo. Nem vou me transformar no ex-amante que não se importa em deixar sua noiva grávida sozinha por meses, com a desculpa de que só assim a relação poderia funcionar, pois quem gostaria de viver com um idiota? Encare estes fatos e talvez nós chegaremos a algum lugar. — Certo. Talvez você não tenha que desaparecer. Só espero que se envolva... —Ah, não, isso é muito generoso da sua parte — disse Cristiano, com um tom de sarcasmo. — Você está sugerindo que eu venha até aqui uma vez ao mês para ver como vão as coisas? — Isso não é complicado. As conexões por terra ou ar são bem simples. — Não são simples o suficiente. Eu moro em Londres, e é lá que você tem que estar, goste ou não — Cristiano disse, passando os dedos pelos cabelos e suspirando, frustrado. Qual era o problema dela? Por que tentava com tanta força lutar contra ele, em todos os sentidos? — Você acha que conseguirá algo me carregando pela mão, Cristiano? — Carregando pela mão? Eu ofereci casamento e você não aceitou, mesmo que esta seja a única solução razoável, pelo menos do meu ponto de vista. E não é verdade que não existe atração entre nós dois. Ela existe. Você pode dizer o que quiser, pode dizer que foi um erro fazermos amor, mas fizemos o que duas pessoas fazem quando se desejam. — E, de acordo com o seu ponto de vista, sexo prazeroso e dever são razões suficientes para realizar um casamento? Então, se você, digamos, acidentalmente, engravidar outra mulher, a


solução seria a mesma? Casamento de conveniência pelo bem do bebê? — Está é uma pergunta hipotética, e não estou interessado em responder perguntas hipotéticas. Mas de alguma maneira aquilo ficou gravado em sua mente. Mesmo que não estivesse acostumado a ser autoindulgente, nem a fazer introspecções inúteis, ficou um pouco chocado ao perceber que tinha dúvidas se, em circunstâncias similares, teria se comprometido a casar-se com outra mulher que conhecera no passado, mesmo com as mais finas credenciais. Talvez porque nenhuma delas fora tão desafiadora, talvez porque tal relacionamento não tenha tido tempo de seguir seu curso natural. Mas pensar nisso não adiantaria nada. Estavam envolvidos em uma situação especial, e fim de conversa. — Você me ataca quando a peço em casamento. Já parou para pensar que nosso filho se beneficiaria tendo os pais por perto? Eu venho de uma família extremamente convencional, tive o benefício de ter sempre meu pai e minha mãe por perto. E me parece inconcebível que você julgue a falta de um dos pais como algo positivo. — Nunca disse que se trata de algo positivo. Você está colocando palavras na minha boca... — Estou colocando ideias sensatas na sua cabeça... Bethany ficou pensando em como seria ter crescido sem seu pai, e percebeu que Cristiano tentava fazer com que se sentisse egoísta. Egoísta por querer uma vida que não envolvia estar casada com um homem que não gostava dela nem a respeitava, um homem que a enxergava somente como uma obrigação. Ele casualmente concordou que o sexo era bom, e talvez tenha visto a criança como um bônus temporário. Se não estivesse apaixonada, quem sabe aceitaria a proposta? Mas ela estava apaixonada, e aceitar ser trocada como uma mercadoria por conta de um tradicionalismo seria como abrir uma ferida e jogar sal dentro. — Não é sensato jogar fora a sua vida em nome de uma tradição. Duas pessoas infelizes não formam um ambiente saudável para uma criança. Sim, ter os dois pais é a cena ideal, mas um casal feliz.


— Estávamos muito felizes alguns minutos atrás — disse Cristiano — e tenho certeza de que, caso tivéssemos chance, poderíamos voltar a ser felizes outra vez. — Não, poderíamos fazer amor outra vez! O que não vai acontecer. Foi um momento de loucura e... — ... tivemos muitos desses momentos em Barbados, se me lembro bem. Tudo tem um preço. — Espero que a possamos ser... amigos... — disse, deitada na cama, após ter feito amor com ele, e quase caiu numa gargalhada histérica. — Espero... que você possa fazer o possível para satisfazer sua consciência. Cristiano trincou os dentes, mas não respondeu nada. Aquele raciocínio altamente feminista não dizia nada a ele. Tinham um problema. Ele apresentara a solução, e não via razão para que ela não aceitasse, ainda mais com aquela série de argumentos sem sentido. Sempre com aquela história de amizade. O fato de os dois sentirem atração um pelo outro anulava essa possibilidade. Bethany esperou que Cristiano dissesse algo, mas ele não disse nada, e ela continuou: — Quero dizer... não vamos negar a nós mesmos a chance de sermos felizes com outras pessoas... — disse, e fez um esforço enorme para tentar imaginar a si mesma sendo feliz com outra pessoa, mas na sua cabeça só via o rosto lindo de Cristiano. — O que isso significa? — Pode haver um cara lá fora me esperando, alguém que queira se casar comigo por quem eu sou, não por dever...! Cristiano sentiu sua habilidade para pensar de forma racional sendo ferozmente agredida. Era um esforço permanecer deitado naquela cama, ao seu lado, com os olhos fixos no teto, as mãos presas atrás da cabeça. Pensar nela com outro homem era completamente inaceitável. — Que tipo de homem? Alguém daqui? — Talvez... Bethany tentou pensar friamente, ainda conhecia alguns dos caras que frequentaram o colégio com ela, que continuavam morando ali, ou por perto. Mas eles nunca se aproximariam de uma mulher com um filho, e isto era depressivo. Porém, ainda mais depressivo era saber que não seria capaz de olhar para


outro homem. Por que se preocupar com peixes pequenos quando um tubarão predatório ronda as águas? Por que preocupar-se em ser sensata quando ela sabia que por ali tudo estava à flor da pele? — Apenas um santo se comprometeria com uma mulher grávida de outro homem — disse Cristiano, tentando controlar a raiva para manter o tom de voz. Naquele momento, mais do que nunca, parecia impossível que ela não aceitasse a proposta de casamento. Ele não ficaria sentado vendo alguém usurpar seu papel de pai. Ciúme e possessão eram dois sentimentos muito caros, mas Cristiano sabia, com os instintos de uma pessoa experiente, que tentar impor sua personalidade a ela seria péssima ideia. Bethany devia estar pensando em alguém dali disposto a assumir tudo. Mas se enganava, pois Cristiano não permitiria isso. Teve de se conter para não falar o que, para ele, era uma verdade absoluta: Bethany era uma cabeça-dura, explosivamente imprevisível. Assustaria muitos homens, mas tinha sorte por Cristiano não ser um homem comum. Porém, Bethany não escutaria a voz da razão, e Cristiano teria de adotar um tom diferente. Queria atingir o mesmo resultado, mas com técnica diferente. E sentiu certo orgulho do nível de tolerância que — ultimamente — vinha demonstrando. — Sabe... — disse, afastando-se dela, ficando em área mais escura — ... eu concordo com a história da amizade. Goste ou não, vamos ser pais e não vou permitir que sejamos pais em guerra. Agora vou dormir um pouco. E afastou-se um pouco mais. Mas quando sentiu a pressão da perna de Bethany sobre as suas costas notou que fizera um movimento admirável. Ao ver que seu mundo caía, ele rapidamente voltou a si e enxergou as vantagens da instituição do casamento, que antes não lhe despertava qualquer interesse. Ofereceria o ambiente ideal para a criação do seu filho, que poderia ser feliz e bem balanceada. Também satisfaria todos os membros da família, inclusive sua mãe, que receberia a notícia com entusiasmo, ele teve certeza absoluta. E teria Bethany. Detalhe que parecia vital para ele, provavelmente porque seu desejo só crescera após ver recusada sua proposta de casamento. Após uma longa história ao lado de mulheres que fariam tudo por ele, finalmente encontrara uma


que, aparentemente, não abriria mão de nada só para agradá-lo. Exceto na cama, onde perdia todo o controle. Ao pensar nisso Cristiano quase destruiu a calma que reinava em sua mente. Considerando todos esses detalhes, ele se sentia bem no momento em que caiu no sono. Quando acordou, havia uma luz tênue que mal conseguia atravessar as cortinas pesadas; a cama estava vazia. Dormira profundamente e sentia-se renovado. Acostumado a nunca aventurar-se sem seu computador, BlackBerry e sem nenhum acesso ao mundo exterior, percebeu que estava distante da civilização, pelo menos até que voltasse ao hotel no final da manhã. Mas, surpreendentemente, não se sentia mal. Virou-se na cama e notou que Bethany estava na porta, usando uma saia longa e um suéter grande, desta vez de outra cor. Ficou pensando em como conseguia fazer com que uma roupa sem forma ficasse tão tentadora. Lembrou-se vividamente do que sentia aoter os seios de Bethany em suas mãos, e do gosto de seus mamilos em sua língua, e de como o seu corpo respondia a tudo aquilo. — Vejo que já está acordado — ela disse, entrando no quarto e fechando a porta bem devagar, pois sabia, por experiência própria, que as paredes da casa de seus pais tinham ouvidos. Adiara o máximo possível sua volta ao quarto. Na verdade, esperou até o momento em que sua mãe pediu que acordasse Cristiano para que pudesse servir o café da manhã irlandês preparado especialmente para ele. Cristiano evitou a brincadeira de admitir que estava acordado em mais de um sentido. Em vez disso, disse que há muito tempo não dormia tão bem. Bethany, que se sentia uni pouco tonta pela noite mal dormida, fez uma careta. — Você não tem roupa — ela disse, observando aquele torso bronzeado, que ele não fazia qualquer tentativa de esconder. — O que vai vestir? — Posso voltar ao hotel e pegar minha roupa. — Já olhou pela janela? Cristiano saiu da cama, deixando-a atenta ao fazer isso. Nevara e a vista era espetacular. Os campos nos fundos da casa eram de um branco total. O céu estava cinzento, ameaçador, ainda muito pesado. Fechou a cortina e olhou para ela.


— Então... — Cristiano disse, abrindo os braços, nem um pouco perturbado, pela expressão de seu rosto — ... o que você quiser fazer. Você manda... CAPÍTULO SETE Logo descobriu o que fariam. Após um café da manhã completo, do tipo que não tomava desde a adolescência, com um apetite insaciável e muito tempo livre, percebeu que tinha muitas coisas a fazer, e que Bethany provavelmente fora a responsável por aquela lista, que montara com satisfação. A maior parte das tarefas necessitava que estivesse fora de casa, mas como não tinha outra roupa além da que trouxera consigo, e que estava sendo lavada, teria de encarar o frio com a roupa do pai de Bethany, que era muito curta nos braços e nas pernas, e muito folgada na cintura. — Dirija com cuidado... e compre sal... leite e pão na loja da esquina... — ele disse, lendo a lista, depois apoiou-se na porta, olhando para ela. — Tem certeza de que é tudo? Talvez eu deva fazer mais alguma tarefa lá fora... Bethany estava ocupada lavando a louça. Uma imagem de vida doméstica normal, exceto pela expressão em seu rosto. Ela se aproximou, pegou a lista, que leu atentamente, com a testa franzida, e depois lhe devolveu, dizendo: — Não. Por enquanto, isso é tudo. Por quê? Você acha que a imagem do Sr. Perfeito pode sair um pouco arranhada após tanto trabalho na rua? Na verdade, seu charme fora um êxito no café da manhã. Demonstrou-se útil na cozinha, mesmo com a mãe de Bethany dizendo que não precisava de ajuda, e conquistou pai dela com o seu conhecimento sobre política irlandesa, corrida de cavalos e investimentos em fundos de pensão, que parecia ser sua mais recente preocupação. Nesse processo praticamente ignorou Bethany, e ela teve de lembrar a si mesma que isso era um ponto positivo, pois naquele momento não passavam de amigos. Falou tudo que quis e virou as costas. Situação perfeita. Fabulosa. Claro, teria de pensar como explicaria aos pais que o casamento não aconteceria, mas se ocuparia disso depois. Era hora de aproveitar.


Tinha tudo o que queria. Seu respeito! Ele entendera a situação e não voltaria a insistir para que sucumbisse a todas as suas vontades. Cristiano estava mantendo distância, e se os seus pais não pareciam notar a mudança de ares, ela notava, e muito. Já não haveria trocas de olhares, mãos entrelaçadas nem nada parecido. — Sr. Perfeito...? Devo considerar isso como um elogio, certo? Bethany, por um momento, gostaria que seus pais estivessem por perto, pois o olhar de Cristiano era inacreditável. Elá precisou fincar os pés na terra e trancar uma porta em sua mente para espantar o desejo de passar seus dedos por baixo da camisa de Cristiano, para sentir o calor de sua pele. A roupa que arrumara para ele, após dizer aos seus pais que se esquecera das malas no hotel em que se hospedara pois ela talvez não estivesse em casa quando ele chegou, deveria ter reduzido seu sex appeal a zero. Era uma camisa velha do pai. Algo que ele usava para jardinagem, de mil anos atrás. Uma camisa de flanela com dois botões faltando. Tão gasta que era impossível saber a cor original. Nada a ver com as camisas italianas feitas à mão que sempre usava. A calça era quase tão antiga quanto, e precisava de um cinto. Seus sapatos de couro foram trocados por outros verdes, e a roupa impermeável era pesada e sem forma. Ela também insistiu, como uma namorada preocupada, que usasse um gorro de lã para combater a neve e o frio penetrante. — Não vai querer morrer aí fora — disse# sorrindo ao entregar-lhe todas aquelas roupas. — Andamos protegidos neste lado do mundo. Não temos tempo para brincar com roupas. — Entendido — ele respondeu, curvando-se, de forma que ela pôde sentir seu hálito quente na bochecha. — E eu entenderia tudo sobre roupas de estilistas fúteis caso tivesse passado tanto tempo na África, não é? Bethany olhou para ele e cruzou os braços. — Sei que provavelmente nunca teve um dia de trabalho duro em sua vida... Mas ele a cortou antes que pudesse terminar a frase: — E suas suspeitas são baseadas em que... exatamente? —Você é um homem de negócios, Cristiano —- Bethany disse, levantando o queixo. — Vive sentado atrás de uma mesa.


— Todos os verões, quando estava na universidade, trabalhava num canteiro de obra — informou-a, sucinto. Ele se aproximou, afastando-se da porta. — Sempre pensei que os trabalhos que mexem com o corpo são bons para a mente e ótimos para manter a saúde balanceada. Mesmo hoje, tento me assegurar que minhas visitas à academia sejam tão duras quanto. Por favor, poupe-me de seus julgamentos. — E vestiu o chapéu, fazendo com que Bethany pensasse que jamais ficaria tão bem em seu pai. — Na verdade, quando resolver tudo isso, quero ajudar seu pai nos campos. Por que você não banca a boa menina e vai ver se as minhas roupas estão bem lavadas? — Como você ousa... — O quê? — Cristiano perguntou, sorrindo zombeteiro. — Julgá-la? Algumas horas mais tarde, quando passava a roupa, ela ainda ruminava a forma como ele conseguira virar a mesa. —As mulheres j á não fazem isso — reclamou com a mãe, dando por certo que as roupas deveriam ser entregues a Gris tiano passadas, como se tivessem acabado de sair da loja, do alfaiate ou de onde quer que as tivesse comprado. — Se você estiver cansada, eu não me importo e continuo passando — disse sua mãe, tranquilamente, parando um pouco o tricô que fazia. — Tudo bem — murmurou Bethany. — Só estava dizendo que os dias de passar camisas e calças de homens ficaram para trás. — Ah, não me parece pedir muito que Cristiano saia daqui com a roupa limpa, bem passada, certo? Ele está sendo tão prestativo, e agora quando provavelmente deve estar muito cansado após passar tudo que passou. Seu pai disse que lhe deu o melhor conselho que já ouviu até hoje sobre suas economias, muito melhor que os conselhos do contador de Lamerick. Bethany rangeu os dentes ao ouvir o que a mãe dizia. Por isso deixou o ferro um momento em cima da camisa, fazendo uma marca indelével. — Ele certamente é ótimo em finanças — disse, e tendo, terminado de passar a roupa, deixou o ferro esfriar. — Parece ser ótimo em tudo — concordou sua mãe, sorrindo. — Um sujeito raro. Eu ficaria muito feliz se suas irmãs trouxessem alguns desses como candidatos a genro.


Em pouco tempo, estaria falando sobre casamento e lua de mel. Bethany podia sentir o assunto pairando no ar.

— Mãe... estou com algumas dúvidas... você sabe... sobre me casar com Cristiano... — disse, sentindo seu rosto corar, ainda mais quando sua mãe largou o tricô e ficou olhando-a, de boca aberta. — Eu não ia dizer nada... Mas aquilo tinha de ser feito. Quanto mais tempo a história continuasse de pé, mais complicado seria sair desta situação, e o que faria quando ele retornasse a Londres? Voltaria com ele? E onde viveria? No seu apartamento? Como trabalhariam sua amizade se ela estava cada dia mais atraída? Teria de ficar sentada vendo-o com outras mulheres? Fingindo que não se incomodava, porque a única coisa importante no mundo era aquele filho que geraram juntos, acidentalmente? — Sente-se Beth, vou preparar um chá para nós. — Estive pensando — ela disse, aquecendo as mãos na xícara de chá. — Tudo aconteceu muito rápido com Cristiano. Sei que vai me dizer que com papai foi igual, mas é diferente hoje. Casamento não é a única opção. Acho que não o conheço o suficiente para... — Bethany dizia, e percebeu a expressão de sua mãe, que passava de preocupada a desapontada. — Mas vocês se amam... Bethany optou por evitar qualquer comentário. — Só acho importante evitar maior envolvimento apenas porque estou grávida... — Mas ele é o pai... O que poderia ser mais natural...? — Eu sei, eu sei, e nunca negaria seus direitos como pai, mas ficamos tão pouco tempo juntos que agora seria melhor manter a calma que forçar uma situação... eu... nós... sinto muito se desapontamos você e o papai... — disse, dando de ombros, triste. Dissera o que queria. Sem a obrigação do casamento, Cristiano voltaria a Londres, pois já não poderia chantageá-la frente aos pais. Sentia o alívio de tirar um grande peso das costas, mas ao mesmo tempo um vazio a invadia. Seu êxito ao driblá-lo fora muito menos satisfatório do que esperava. Além do mais, sua mãe não entendia como podia ter dúvida frente a alguém tão espetacularmente perfeito. Bethany podia ver


no seu rosto. Cristiano pusera um pé na sua frente, e era terrível pensar que sua própria mãe a poderia culpar por ser tão pouco razoável. A atmosfera pesava no momento em que a porta se abriu e Cristiano entrou, junto a uma lufada de ar frio e neve. Bethany estava pronta, esperando. Vestira seu suéter mais grosso, que passava de sua cintura, seu chapéu de lã e botas de couro, e sequestrou Cristiano antes que entrasse na cozinha, já invadida por um cheiro maravilhoso. — Preciso falar com você'— Bethany disse, vestindo as luvas e pousando sua pequena mão no ombro dele. — Não pode esperar um pouco? Preciso tomar um banho. — Não, não posso — disse, contagiada pela vitalidade do corpo de Cristiano, que talvez, antes de chegar ali, não tenha imaginado tudo o que aconteceria, mas se adaptara bem. Apresentara uma solução que poderia ser apropriada a ela, e muito mais comprometedora do que a maioria dos homens poderia ter proposto sob as mesmas circunstâncias. E ganhara seus pais com o explosivo dom da palavra, que sempre era muito bem visto na Irlanda. Deus sabe o quanto lhe custou familiarizar-se com tudo aquilo, e mesmo com a neve que, ainda caindo forte, ele conseguira limpar da frente de casa, abrindo um caminho seguro. Cristiano franziu a testa. Sentira-se bem nas horas anteriores. O desafio proposto pela terra era mais recompensador e imediato do que imaginara, e teve uma ideia sobre o que era voltar para casa após um longo dia de trabalho. Lareira, esposa devotada, filhos. Naturalmente, teria de se esquecer de tudo aquilo, pois Bethany nunca seria uma esposa clássica. — Vou ajudá-lo com a lenha, que está nos fundos da casa, depois conversamos. — Por que tenho a sensação de que o papo será sobre sua curiosidade acerca da minha manhã? A casinha que guardava a lenha era surpreendentemente grande, mas com apenas um ponto fraco de luz. Ainda assim, Crisitano percebeu a expressão dura de Bethany. — Passei bem nas primeiras provas? Ou vou precisar de outras para atestar meu valor? — Você não precisa provar nada.


— Certo, você tem razão. Não preciso mesmo. E fico feliz ao ver que finalmente entendeu isso. Ela se apoiava em uma das paredes, com as mãos por trás do corpo, com várias camadas de roupa, todas grandes para ela. Parecia pequena e indefesa, mas Cristiano sabia que era uma falsa impressão. Era a mulher que mentira para ele, para os pais, guardara uma gravidez em segredo, que descobrira por puro acaso. Era a mesma Bethany que lutava com unhas e dentes desde que ele chegara ali, e mesmo sua cumplicidade na cama, fora curta. Momentos após terem feito amor, negara seu afeto com recriminações e toda aquela bobagem de serem amigos. Ele lhe propusera uma solução aos problemas, fora capaz de passar por cima de sua decepção; mesmo assim, ela atirou tudo de volta em sua cara. Ele dizia uma coisa e ela imediatamente dizia o contrário. Ele seguia numa direção, ela girava o volante e tomava o caminho oposto. — Tive uma longa conversa com minha mãe — disse, quebrando o silêncio. Teria sido mais confortável conversar em casa, mas queria dar tempo para seus pais digerirem o que ela dissera antes. A casa de lenha era o lugar menos confortável do mundo, pois estavam muito perto um do outro, e ela sentiu seus olhos caindo nos dele. Adoraria saber como fora sua manhã, adoraria ter podido preparar um chá para ele na cozinha enquanto lhe contava tudo, mas em vez disso tinha a mandíbula cerrada, e depois disse: — Disse a eles que não vai haver casamento algum. Cristiano não esperava por isso. Estava tão focado no êxito que não pensou que ele poderia não se concretizar. — Por que fez isso? — perguntou, mantendo o tom baixo, doce e interessado, o que Bethany não gostou nada, pois por baixo da calma exterior notava que Cristiano estava pronto a recusar todas as suas considerações, jogando-as no lixo. — Você sabe por quê. Já expliquei que ter um bebê não é razão suficiente para duas pessoas se casarem. — E sua mãe não se espantou com esta decisão tão repentina? — Eu expliquei que... talvez tenha sido um erro, nos envolvemos rápido demais... — E livrou-se da mentira, em outras palavras.


— Você vai ter que voltar a Londres, Cristiano, e seria loucura se eu fosse com você. Como poderia dizer aos meus pais que tudo estava perfeito, que tudo é cor-de-rosa entre nós? Ele não disse nada. Mas manter-se tranquilo não resolveria. E deixaria claro que não abandonaria seu filho a visitas esporádicas enquanto Bethany tentava encontrar o cara certo. Aproximou-se e Bethany sentiu os pelos da nuca eriçados. — O que... está fazendo? — Não vou lutar contra você. Ela tentava, esconder seu desejo mas, ele notava, era um desejo que vinha em ondas. Pousou os braços na parede, olhando diretamente para ela. Bethany tentava imaginar como ele era capaz de fazer com que sentisse tudo aquilo, e suspirou fundo. — Então você concorda que nós... podemos discutir... quero dizer... como adultos? Não vamos fingir que... somos um casal feliz frente aos meus pais... — disse, mal reconhecendo sua voz. — Claro que podemos discutir como adultos... se você quiser. O cheiro masculino de Cristiano entrava por suas narinas e ela fechou os olhos por um momento, embriagada, até ficar com a cabeça rodando. Os olhos de Cristiano estavam um pouco tapados por seus pesados cílios negros. Seu olhar era perigosamente erótico. E o corpo de Bethany respondeu imediatamente. Seus seios pesaram só de pensar em tudo que sentira na noite anterior, quando foi tocada, sugada. Sentiu um calor no corpo, mesmo com tanto frio lá fora. Queria voltar, mas não sabia para onde. — Claro que eu... quero falar sobre isso... você sabe... — disse, tentando controlar a respiração, mas sua pulsação era muito forte. — Então... quando vai voltar a Londres? — Com tanta neve caindo é complicado pensar nisso — disse, coçando a nuca. — Diga, por que você quer que eu vá embora? Frente a uma pergunta tão direta, Bethany corou e olhou para os pés. Ele lutava pelo bebê. — Você deve estar querendo voltar para casa — ela respondeu, olhando para longe, com meio sorriso. — Você não respondeu minha pergunta.


— Bem... eu adoraria voltar agora. Mas a neve... quando neva aqui... é complicado prever... Ela ficou horrorizada ao perceber que poderia perdê-lo para sempre. Claro que faria visitas de vez em quando, e seria corretíssimo com a pensão, disto ela tinha certeza, mas... — Você quer que eu vá embora, certo? Como ela hesitou em responder, Cristiano pousou as mãos em sua cintura. Ignorou seu pesado suspiro. Tentara ser um cara legal, esperaria o tempo que fosse necessário, mas se ela nem pensava em admitir o que sentia, caberia a ele refrescar sua mente. Bethany não teria chance de construir outra barreira entre eles. — Sim... você sabe que sim... — E você poderia ficar no seu mundinho perfeito, aqui... Enquanto falava, suas mãos invadiam o suéter de Bethany, entravam por baixo de sua camiseta, sentindo o calor das camadas de roupa que usava. Quantas seriam? Bethany emitiu um som entre um grunhido e um gemido. Enquanto Cristiano permaneceu um pouco mais distante do corpo dela, ele pode mais ou menos manter a cabeça fria e o bom-senso, mas no minuto que a tocou, entrou em chamas. Conseguira vencer todas as camadas de roupa e seus dedos estavam contra a pele de Bethany, quentes e insistentes, sob as costelas e seios. Ela não usava sutiã... os antigos tinham ficado apertados e não se preocupara em comprar novos. —Nós poderíamos... ser amigos... — ela disse, sem fôlego, quando os dedos de Cristiano encontraram seus mamilos rígidos e começaram a acariciá-los em movimentos circulares. —Acho que essa história de amizade não serve para mim. Cheguei a pensar no caso, mas não consigo tirar a imagem de você, nua e excitada, da minha cabeça. Eu a desejo... E, para enfatizar, levantou as várias camadas de roupa e agarrou seus seios com as mãos, ainda acariciando os mamilos e levando-a a um frenesi de paixão e desejo. — Pare — ela pediu, tremendo. — Você não está sendo justo... — Eu sei... — disse, virando o rosto e começando a beijar sua nuca ao mesmo tempo em que ela se arqueou para encontrar sua boca. — Essa era outra coisa que não vinha funcionando bem para mim ultimamente.


Bethany deixou cair um pouco a guarda e buscou sua boca de olhos fechados, colapsando quando ele a beijou, movendo sinuosamente sua língua contra a dela. Não deu tempo para que mudasse de opinião, o que Bethany não pensou em fazer. Mal podia ficar de pé e suas mãos balançavam no ar, aproxi-mando-o de seu corpo. Ele murmurava palavras em italiano, sem dúvida, muito sexies, mesmo que sua voz fosse baixa e rouca a ponto de ela mal poder ouvir. Quando ele parou um pouco com sua fome de desejo, uma voz que ela não reconhecia, martelou em sua mente. Só mais uma vez, Bethany pensou, mas tal pensamento logo foi reduzido a nada pela dura realidade: sucumbiria muitas vezes mais. Ele sugava toda a sua força, mental e física. Cristiano claramente podia separar sentimentos e deveres, mas para ela tudo estava mesclado, e se odiava por não conseguir manter-se distante de seu forte apelo, mesmo sabendo que não seria nada bom. — O que foi isso? — Cristiano perguntou, com a boca curvada em um sorriso conquistador. — Não quero que pare e o odeio por me fazer dizer... — Você não me odeia. Eu apenas a desafio, e você acha que deve lutar contra isso, mas não deve. Caso sirva de consolo — ele continuou, em tom rude —, você também me desafia, e já percebi que lutar contra isto não é bom. Por que não paramos de negar o que queremos? — Você não sabe o que eu quero — ela protestou, enfraquecida. — Sei exatamente o que você quer. Confie em mim — disse, tirando o gorro e mergulhando o rosto em seus cabelos abundantes. Bethany sempre teve cheiro de flores, fresca e limpa, e de certa forma inocente, e ele se deixou levar, feliz, por aquele cheiro. Com uma das mãos por trás da sua cabeça, conseguiu aproximar-se de sua boca, e com a outra mão acariciava as curvas femininas do seu corpo, chegando ao final da saia, que depois levantou, abrindo suas pernas, para que pudesse deslizar os dedos para dentro do corpo. Cristiano não entendia o poder que aquela mulher tinha sobre ele. Desde a primeira vez que fizeram amor, sentiu-se como um


faminto frente a um banquete. Tocá-la parecia a coisa certa a ser feita. — Cristiano, não... por favor... — ela disse, enquanto os dedos dele mergulhavam, enviando todo o tipo de sensações ao seu corpo. Tinha os olhos fechados, a cabeça caída para trás e a boca semiaberta — Não pare... Poucos minutos depois, estava de joelhos frente à suplicante. Bethany olhou para ele, perdida, passou os dedos entre os seus cabelos e gemeu só de imaginar o que Cristiano estava a ponto de fazer. Sentiu-o abrindo suas pernas, depois tremeu compulsivamente quando sua boca substituiu os dedos exploradores. Ela perdeu o ar e queria gritar, mas não podia. Em vez disso, deu pequenos grunhidos de satisfação e encorajamento, remexendo-se sobre a sua boca ao mesmo tempo em que ele a testava com um ritmo de parar e recomeçar que a levava à beira do êxtase, retrocedendo no último minuto. Bethany soltou um grunhido de frustração quando ele parou, pressionando seu corpo contra o dela para que pudesse sentir sua excitação. Caso tivesse alguma dúvida, levou a mão de Bethany à sua calça e ela mordeu os lábios ao sentir sua virilidade. — Eu a quero inteira — ele murmurou, enquanto Bethany tentava abrir seu zíper. — Mas não aqui. Não me entenda mal. Nunca fui o tipo de cara avesso a uma aventura, mas aqui seria um pouco exagerado... — Não podemos entrar...! Meus pais estão lá e eu... nós... — Não temos muita escolha, querida. Não podemos ficar nus aqui e eu, pelo menos,preciso disso... preciso de você... Ele não deu tempo para que Bethany pusesse os pensamentos em ordem. Em vez disso, ficou relembrando o que queria e desejava — o que os dois queriam e desejavam —, passando a mão mais uma vez sobre o seu seio e os dedos nos mamilos. Ele sabia que estava voltando a táticas antigas, mas nem ligava. — Podemos entrar pelos fundos... mas não sei por quê... não deveríamos estar fazendo isso... — disse Bethany, com as mãos trêmulas e se levantando, sentindo um raio de excitação em seu corpo. Como uma adolescente que usa a casa dos pais enquanto estão fora, queria chegar ao quarto o mais rápido possível.


Queria tirar a roupa de Cristiano... ficou tonta só de pensar nisso, e a sensação piorou ao se lembrar que esta deveria ser a última coisa que poderiam fazer juntos. Acabara de contar à mãe uma longa história sobre reconsiderar o casamento, dera uma lição a Cristiano sobre a bobagem que seria sacrificar suas vidas pelo bem do bebê, fora quase lírica ao insistir na história da amizade. Mas desde quando amigos fazem sexo como adolescentes desesperados? Nada disso a impediu de caminhar de mãos dadas com ele ao voltarem para casa, entrando pela porta de serviço, que sempre era mantida destrancada para acesso rápido em dias de frio, pois era o caminho mas curto para buscar lenha. Na verdade, sentir seus dedos entrelaçados aos dele era incrível. Ao longe, podiam ouvir vozes na sala de estar; tiraram suas botas na entrada, caminharam sem fazer barulho. Subiram as escadas. Mal fecharam a porta do quarto e já estavam um sobre o outro. As roupas, no chão. — Não se meta nas cobertas — disse, antes que ela pudesse buscar refúgio. — Estou gorda! — Está linda. E estava. Ela o emocionava. Ali, deitada, com seus braços pálidos esticados e seus cabelos revoltos sobre o travesseiro. Seu estômago estava decididamente arredondado, seus seios cheios, seus mamilos maiores e mais escuros. Naquele momento ele pode ver tudo bem melhor. Era a experiência mais erótica de sua vida. Quando pensou no bebê que crescia dentro dela, ficou louco. — Você também — ela admitiu, imediatamente. — Um elogio... — ele disse, com um meio sorriso que a deixou louca. — Eu gosto. Muito. — Culpa do seu ego do tamanho de uma casa — ela respondeu, com os olhos arregalados e a respiração entrecortada ao vê-lo cruzar o quarto em direção à cama. — Agora — ele disse, mergulhando ao seu lado —, quero que me lembre onde paramos.... Ah, claro... Como poderia esquecer? — disse, abrindo suas pernas e posicionando-se entre elas, prendendo-as em seus ombros para que a tivesse por todos os lados. E quando respirou, foi diretamente ao ponto mais


feminino. A forma como ela gemeu suavemente, como se já não pudesse controlar os sons que emanavam do seu corpo, o deixou louco. Como poderia pedir que fosse embora quando os dois sabiam exatamente o que queriam? Provou todo o seu corpo, depois, temporariamente saciado, voltou a postar sua cabeça entre os seios de Bethany, que arfavam, pesados. Ela precisou colocar um pequeno travesseiro na boca para evitar um grito no momento em que ele levou um mamilo à boca, sugando-o, deixando-o, depois voltando a sugar. No momento em que Bethany tocou o outro seio, ele afastou sua mão para que pudesse seguir com a boca até ali. Olhando-o com desejo, pôde ver a trilha deixada pela boca de Cristiano ao sair de um seio em direção ao outro, e voltou a fechar os olhos, entregando-se à luxúria enquanto ele devotava sua atenção ao segundo mamilo e brincava com os dedos entre as suas pernas. — Você está bem? — perguntou, olhando para cima e cruzando seus olhos com os dela. Bethany parecia uma marionete seguindo o controle de seu mestre. Pior: não sabia o que estava fazendo. Tudo o que queria era tê-lo com ela, dentro dela, ao seu lado. Agarrou-a quando seu corpo já não podia mais aguentar e deixou-a em cima dele. Cristiano, perdendo o controle, gemeu no momento em que ela começou a se mover sobre a sua virilidade. Seus seios balançavam enquanto ela se movia, cada vez mais rápido, até o momento em que ele não aguentou mais e soltou um grunhido de satisfação. Sentiu o corpo de Bethany arquear quando uma onda de orgasmo a invadiu. Olhando-a neste momento, vendo a cor que tomava conta de seu rosto e seus olhos fechados com força, ele voltou a se aproximar, e ela perguntou, sorrindo e com um dedo apontado para o seu peito: — Nunca fica satisfeito? — Quando o assunto somos nós dois, acho que não. E você, sente o mesmo? — perguntou, com voz lenta, mas com olhos afiados para ela, que mantinha o rosto contra o seu peito. Bethany fez que sim, e aquilo para ele foi uma descarga de adrenalina. — Ótimo. Fico feliz porque é assim que deve ser. Quando parar de lutar contra mim, começará a gostar do fato de que serei um


elemento permanente na sua vida. Se não quiser se casar comigo, vou respeitar, mas ainda assim seguiremos juntos. — Seguirei sendo a sua amante grávida? — perguntou, engolindo em seco. — Prefiro não usar rótulos quando o assunto são relacionamentos — disse Cristiano, beijando seus cabelos. — Especialmente quando essa etiqueta é de "amigo". Acho que você concordará comigo: trata-se de um rótulo completamente irrelevante... CAPÍTULO OITO No seu tedioso passado, Cristiano nunca se envolvera pessoalmente com a compra de presentes para mulheres. Primeiro, porque não tinha tempo para perder em lojas, buscando jóias e pedindo ajuda a vendedores. Depois, porque não podia pensar em nada mais triste que buscar o presente mais adequado a qualquer mulher. Para esta tarefa tinha sua secretária pessoal. Uma mulher comprando presente para outra. Fazia sentido.

Nos últimos seis meses, no entanto, deixara de lado a secretária em troca de um toque mais pessoal, e a tarefa passou a ser menos árdua do que ele esperava. Na verdade... descobriu o quanto era bom andar pelas lojas em busca de algo que colocaria um sorriso no rosto de Bethany, que tinha gostos bem originais. Tendo cometido o erro de comprar jóias num primeiro momento, algo que a maior parte das mulheres adora, jóias caríssimas com diamantes, mas que ela aceitava com um sorriso para depois devolver, educadamente, ele mudou de estratégia. Bethany disse que não ligava para jóias, especialmente as caras. — Imagino que seja o tipo de coisa que está acostumado a dar de presente às suas namoradas — disse, e fez uma cara de desgosto quando ele se defendeu dizendo que nunca antes alguém lhe devolvera um presente. — Por quê? Os homens ricos nunca sentem a necessidade de serem imaginativos?


Cristiano, que nunca abrira mão de um desafio, teve de exercitar a imaginação. Levou-a para assistir peças alternativas em festivais de teatro, comprou a primeira edição de um livro em italiano com mais de quinhentas páginas, mesmo que tenha sido obrigado a assegurá-la que nunca o leria, ainda que falasse italiano fluentemente, mas que se um dia tivesse problemas para dormir usaria o livro como sonífero. Ela adorou o presente, e Cristiano adorou ver sua cara de satisfação. Aceitara sua paixão repentina por um cachorro de pelúcia do tamanho de um sofá e não ficou ofendido quando ela riu, dizendo que ele era um velho ranzinza. Quase nada parecia capaz de ofendê-lo, exceto porque seguia se recusando a casar-se com ele. E tampouco aceitara viver com ele, mesmo que mais uma vez Cristiano tenha enumerado todas as razões de ser uma decisão inteligente. Pelo menos já não falavam mais sobre serem somente amigos. Cristiano não entendia. Se ele estava preparado para fazer um sacrifício, por que ela não estava? Quanto mais argumentava, mais ela dava mostras de que não desistiria. Resolveu seguir um caminho mais tortuoso. Como nunca antes precisou agradar uma mulher, suas tentativas nem sempre tiveram êxito. Vários jantares caros também bateram em um muro. Ficar em casa era a opção preferida. E a cozinha, ela dissera, deveria ser um local compartilhado. Bethany comprou um livro de receitas e ele muitas vezes se viu cozinhando, pensando no que sua mãe acharia disso. Detalhes como esses foram taticamente omitidos quando contou a novidade à família. Não comentara a falta de casamento, dizendo vagamente que era algo que poderia acontecer a qualquer momento, mais adiante. Talvez tenha dito que Bethany poderia chegar ao altar após ter o bebê, quando tivesse recuperado sua forma. Sua mãe acreditou em tudo, mas ele ficou pensando o que Bethany diria se soubesse dessa pequena mentirinha. E não importava se o volume e o tamanho de suas mentiras colocassem o pequeno pecado de Cristiano no sapato. Ele ficou muito preocupado porque Bethany estava carregando o seu filho. Sob circunstâncias normais não havia dúvida de que tudo seria bem diferente. Ele a teria confrontado, como qualquer


homem que não gosta de ser enganado. Caso não estivesse grávida, nunca alcançaria o luxo de ganhar moral por si mesma. A gravidez fora sua salvação. Sem ela, teria sido duramente repreendida, caído de joelhos frente a Cristiano pedindo perdão e, dali em diante, quem sabe o que poderia acontecer? Muito provavelmente ele a teria expulsado de seu mundo e voltado à vida de sempre. Mas, naquele momento, as memórias dessa tal vida de sempre pareciam muito distantes. Ficou fascinado com a rápida expansão da barriga de Bethany e com os jogos de futebol que pareciam acontecer lá dentro. Leu, de uma ponta a outra, um livro sobre gravidez, algo bem mais divertido que as várias noites passadas no trabalho. Pensava nela quando não estavam juntos. Não parecia nada natural, mas se acostumara a isso. Além da mudança total em seu estilo de vida, Cristiano estava orgulhoso com a forma como manejava a situação. Tocou a campainha do apartamento de Bethany. A cada dia, parecia mais incrível que tivesse concordado com essa situação. Mesmo colocando-a no apartamento mais próximo possível, o fato de não apenas ter se recusado a casar com ele, por razões que desafiam a lógica e que ele já nem procurava entender, mas também a insistência em viverem em casas separadas eram uma constante fonte de insatisfação.

Ninguém poderia dizer que ela não gostava de dormir com ele, fazendo amor em posições francamente engenhosas, especialmente com o grau avançado de sua gravidez, nem sempre envolvendo penetração. Ele conhecia as mulheres, e ela não fingia nada. Taticamente, parou de insistir por uma resposta que fizesse sentido. Mas as perguntas martelavam todo o tempo em sua mente. Seria sua forma de manter as opções em aberto? Estaria tão enganada a ponto de não perceber que sua vida estava ligada à dele? Realmente pensava poder enganá-lo temporariamente, ter o bebê, e depois desaparecer da frente do Sr. Perfeito? Estava tão ocupado em seus pensamentos que demorou um tempo para perceber que ela não atendera a porta. E não era


capaz de pensar em uma única razão para que estivesse fora de casa. Ele estivera longe nos dois últimos dias, mas falaram várias vezes ao telefone e Bethany sabia que Cristiano viria. Onde estaria? Tocou mais uma vez a campainha, desta vez sendo mais insistente, e na falta de resposta, imediatamente ligou para o seu celular. Era o aparelho mais moderno do mercado, que lhe comprara assim que chegaram a Londres, pois estava preocupado que seu antigo celular poderia ficar ruim a qualquer momento, exatamente quando um precisasse se comunicar com o outro. Deixou tocar algumas vezes. Desligou e tentou outra vez. Começava a ficar preocupado. Passou os dedos pelo cabelo. Seu instinto pedia que derrubasse a porta, mas se freou ao notar que não seria capaz. Na verdade, ele mesmo trocara a porta antiga por outra, mais robusta, pois em Londres nunca se sabe... Franziu a testa, telefonou mais uma vez e estava a ponto de partir para o plano B quando ela atendeu, num tom de voz que Cristiano mal reconhecia. — Onde você está? — ele perguntou, imediatamente. — Estou aqui! — ela respondeu. Não acordara com o som da campainha, mas o insistente telefone fizera esse trabalho. Olhou para o relógio e percebeu que caíra no sono por grande parte do dia e da noite. — Aqui onde? — Aqui! Em casa! — Então por que não abriu a porta? E o que aconteceu com a sua voz? Percebeu as trancas sendo abertas ao terminar de perguntar tudo aquilo, e a preocupação que viera do nada e diminuíra no momento em que ela atendeu ao telefone voltou com toda a intensidade ao vê-la tão pálida, com os olhos semife-chados e o cabelo despenteado. Olhou-a em pânico, um sentimento nada familiar o atingiu como um trem em alta velocidade. — Não me sinto muito bem — ela respondeu, dizendo o óbvio ao virar-se e voltar a caminhar em direção ao quarto. Vindo diretamente do aeroporto, Cristiano pegou sua maleta e a seguiu. Seu coração batia forte, muito forte.


— Só preciso dormir — ela disse, deitando-se na cama e puxando a coberta, deixando apenas sua cabeça visível. — Nada de dormir, você precisa de um médico — disse, abrindo o celular e baixando um pouco a coberta, para ver melhor o seu rosto. — Está queimando. Por que não me ligou? — E disse algo em italiano ao telefone, depois desligou e devotou toda a sua atenção a ela. — Estava bem quando conversamos ontem à noite — disse, em tom acusatório. — Não preciso de médico, Cristiano. — Eu decido isso, certo? — E só um resfriado, passará em 24 horas — ela disse, grunhindo e voltando a se aninhar no cobertor, mas ele não a deixou. — Preciso descansar, só isso. Eu estava bem ontem, mas hoje me levantei meio mal... — Falamos hoje de manhã e você não me disse nada. — Você estava em Nova York, Cristiano. O que poderia ter feito? Talvez pense ser capaz de fazer qualquer coisa, mas você não é o Super-homem. Não teria vestido uma capa vermelha e cruzado o oceano. — Esse não é o tema. Bethany grunhiu. — Mereço saber como vai a sua saúde todo o tempo. Só de pensar nela sozinha naquele apartamento, tão fraca a ponto de não conseguir sair da cama, ficou ainda mais nervoso. — Você está grávida — terminou, levantando-se e andando pelo quarto, xingando o amigo por ainda não ter chegado. Não lhe dissera para vir imediatamente'?

Claro que estava preocupado! Estava preocupado porque ela estava grávida, carregava sua carga mais preciosa. As quatro semanas anteriores deram a Bethany a impressão de uma falsa segurança, chegara a pensar que ele estava tão solícito por sua causa. Mas Cristiano deixava claro que só pensava em uma coisa: fazer com que ela entendesse seu ponto de vista, que concordasse com o que propusesse. Insistindo, ela conseguiu ter o seu espaço, imaginando que assim garantiria algum distanciamento entre eles. Mas não percebeu como ele conseguira driblar tudo aquilo.


Ia fazer compras com ela sem reclamar. Comprara alguns presentes, e ela percebia que pensava antes de comprar. Por duas vezes cozinhou com um livro de receitas que ela lhe comprara, ainda que os resultados finais não fossem tão bonitos e coloridos quanto nas fotos. Mas ele tentava. Como sempre, sem reclamar. Mais importante: estava sempre perto. Não poderia fazer comparações nesse sentido, mas apostaria que Cristiano sempre fora do tipo que coloca seu trabalho à frente de tudo e de todos. Porém, estava sendo tão pontual quanto um relógio com ela, passando pelo apartamento no início da noite, exceto um par de vezes quando esteve fora do país, mas ainda assim, sempre ligava com regularidade. Foi preciso força de Hércules para que Bethany mantivesse suas defesas frente a tão forte e silenciosa agressividade, mas ela se convencera de que venceria. Que tola! Quando percebeu que Cristiano fazia tudo aquilo por causa de sua gravidez, e não por ela, percebeu que seu amor não serviria para nada. Ela o adorava, só de olhar para ele ficava sem ar. Era duro admitir, mas ele trouxera à tona seu lado obsessivo. Depois de muito caminhar pelo quarto, Cristiano parou e ficou olhando-a. — Vejo que minhas viagens ao exterior terão de ser suspensas até o nascimento do bebê. Nunca pensou que algum dia seu trabalho seria deixado de lado por uma mulher, mas este dia chegara. Precisava saber que ela estava bem, e sabia que, caso colocasse os pés fora do país, ficaria martelando em sua mente a possibilidade de uma catástrofe, algo sobre o que ela manteria silêncio para que ele não se preocupasse. Era tão obstinada e independente que, mesmo tendo concordado com a mudança para Londres, por alguns segundos Cristiano pensou que tais tratos com ela eram menos que o ideal. Não queria sua obstinação nem valorizava sua independência. Jamais gostou de mulheres submissas, mas naquele exato momento não poderia haver nada melhor que tê-la nesta posição, que o procurasse sempre que surgisse algum problema. — Não seja ridículo. Imediatamente, Cristiano se aproximou da cama. Não queria ficar muito em cima dela, mas era importante que entendesse suas preocupações, suas muito razoáveis preocupações.


— Não sou ridículo, Bethany. Estou sendo racional. Um de nós tem de ser. Bethany abriu a boca e terminou num bocejo. — E ser racional cai muito bem em você. Cristiano abriu um sorriso amarelo e sentou-se na beira da cama, para que pudesse se debruçar sobre ela. Tirou alguns fios de cabelo do seu rosto e disse: — Dois minutos fora do país e olha só o que acontece. Bethany lembrou a si mesma que aquela aparência de preocupação só tinha uma razão de ser: ela carregava o seu filho. Sem energia para responder, contentou-se em dizer, triste: — Como eu já disse, Cristiano, você não é o Super-ho-mem nem opera milagres. Caso estivesse por aqui, eu teria ficado resfriada da mesma maneira. Acho que peguei isso no supermercado, outro dia, quando estivemos lá. Parei para conversar com aquela menina que estava com o nariz pingando. Acontece. — Deveria ficar o mais longe possível de qualquer pessoa com germes! — E o que você me sugere? Talvez devesse me enclausurar nos próximos meses. Cristiano foi interrompido pela campainha, e por isso não respondeu imediatamente, embora aquela talvez fosse uma sugestão muito sensata. Apresentou seu amigo, o dr. Giorgio Tommasso, de trinta e poucos anos, a Bethany. E rapidamente Cristiano passou ao italiano para reclamar da demora. — Não ligue para ele — murmurou Bethany quando o médico se sentou na cama, ao seu lado. — Por fim surgiu uma mulher capaz de desafiar meu amigo, esse homem tão bruto. Agora vou ouvir o bebê, para me assegurar de que está tudo bem...

Como um guarda-costas, Cristiano ficou parado na porta, observando seu amigo, que fazia perguntas em voz baixa a Bethany, e deve ter dito algo divertido, pois ela sorriu. Neste momento, Cristiano sentiu vontade de lembrar-lhe que estava ali para examiná-la, não para bancar o piadista. Finalmente, quando terminou a consulta, caminhou em direção à cama. — Então? Diagnóstico?


— O bebê está bem, Cristiano — disse Tommasso, sorrindo e tocando seu amigo gentilmente no braço. — Não precisa ficar assim. — Acho que você não está entendendo: estou preocupado, só isso — respondeu friamente. Era óbvio que, mesmo grávida, ainda era capaz de atrair as pessoas. Giorgio sorria. O que poderia ser tão divertido? — Erro meu, então — disse, lutando para não rir enquanto seguiam para a porta. — O que Bethany tem é um simples resfriado. Vai ficar assim alguns dias, mas é forte e se recuperará. A pressão está normal e o coração do bebê bate perfeitamente. Não precisa se preocupar com nada. Que tal uma sopa? E levantou as sobrancelhas, espantando, quando Cristiano respondeu que poderia experimentar, já que suas habilidades na cozinha melhoravam a cada dia. — Queria ver a reação da sua mãe, Cristiano. Ela não vai acreditar na domesticação do seu filho! Aquilo o fez ficar atento. Um passo para a frente, sem que ele notasse, transformavam-se em dois para trás com Bethany. Ao voltar, encontrou-a no quarto, sentada, pois acabara de tomar um remédio receitado por Giorgio, e que segundo ele a deixaria melhor e não afetaria o bebê. — Eu não disse? — ela perguntou, deixando o copo de água na mesa, e depois cruzou os braços. — Nada mais que um simples resfriado. Descansar por alguns dias. E tudo voltará ao normal. Ele não respondeu. Em vez disso, foi ao seu armário, abriu as portas e passou os olhos nas roupas ali dependuradas. Numa prateleira acima estava sua mala, que pegou em silêncio. Bethany o observava com a boca aberta. — O que está fazendo? — O que você acha? — perguntou, olhando-a um momento. — Nem pense em se levantar. Repouso absoluto. — Você não vai fazer a minha mala! — Não? — disse, abrindo uma gaveta e pegando um punhado de calcinhas, que empilhou com roupas na mala. Depois guardou alguma maquiagem, ainda que não houvesse muita coisa, pois ela não era adepta da maquiagem pesada. Tarefa cumprida, ele se virou e olhou para ela com os braços cruzadas, dizendo em tom gélido:


— Quero que me escute bem. Aceitei o nosso acordo, mas não está funcionando. — Eu não tenho culpa por ter ficado resfriada! A pílula que tomara fizera efeito rápido ou a adrenalina que corria em suas veias a estava deixando em melhor estado. Cristiano ignorou, e continuou: — Antes de mais nada, goste ou não, você não poderá se cuidar sozinha aqui. Mal pôde chegar à porta para me atender. E se cair quando estiver sozinha? Pense nas consequências... — Eu nunca... nunca faria nada — disse, mas ficou pálida ao imaginar a cena descrita por ele. Cristiano não tinha a chave da porta. Ela se recusara, pois queria manter sua independência, mas e se alguma coisa acontecesse e ele não pudesse entrar no apartamento? Estaria tão determinada a ponto de arriscar-se a perder o bebê? Estaria realmente protegendo a si mesma ou penalizando-o por não a amar? — Não posso confiar em você — disse, fechando a mala com força. — Em vez de me ligar no momento em que começou a se sentir mal, você foi para a cama, puxou o cobertor e fingiu que o mundo exterior não existia. Se tivesse me ligado, talvez eu não pudesse mesmo ter vindo de Nova York em minutos, mas poderia ter ligado para Giorgio, que chegaria rápido, quando ainda pudesse se levantar para atendê-lo. Entende o que quero dizer? Estou sendo claro o suficiente? — Eu o odeio! — ela gritou, e lágrimas rolaram de seus olhos. Já não estava ali ò homem delicado que cuidava dela. Voltara o homem frio e estranho que aparecera na porta da casa dos seus pais com um caminhão de acusações. — Mas isso não é o que sinto quando estamos juntos na cama. — O sexo é a única coisa que importa para você? — O sexo simplesmente me diz que você não me odeia — disse, dando de ombros e pegando o celular. Ligou para o seu motorista. Bethany escutou quando pediu que fosse buscá-los e que dali em diante ela ficaria no seu apartamento. Disse a si mesma que seria por um período mínimo, o menor possível, mas nem assim conseguiu aliviar a sensação de estar sendo aprisionada. — O motorista chegará em uma hora. Acho que você poderia tomar um banho. Assim vai se sentir melhor.


— Não quero tomar banho. — Esqueça o mau humor, isso não muda nada — disse, seguindo em direção ao banheiro. Bethany rangeu os dentes ao ver que ele ligava a água. Voltou alguns minutos mais tarde e sem fazer cerimônia tirou-a da cama, ignorando seus protestos, carregando-a até o banheiro. Ela gostava de banheiros grandes. Talvez porque crescera tendo de dividir o banheiro com as irmãs, que sempre parecia estar ocupado quando precisava usá-lo. Ele concordara em encontrar um apartamento com um banheiro ridiculamente grande, o suficiente para abrigar uma grande cadeira acolchoada onde a sentou. — Sua febre diminuiu e a cor está voltando ao seu rosto. Mas ainda não sei se poderia entrar no chuveiro sem cair. — Não seja ridículo! — disse Bethany, ainda com raiva de sua decisão de dar-lhe um banho e com a história de que não poderia odiá-lo, pois eram amantes. Olhou-o com ressentimento. Ele ignorou. Sua cabeça girava. Fechou os olhos com força quando ele começou a abrir os botões de sua camisola, na verdade, uma das duas únicas camisolas nas quais ainda se sentia confortável. Podia sentir o cheiro da lavanda do banho, mas não admitiria que sim, queria tomá-lo, longamente. Também disse a si mesma que era loucura ter pudores com o corpo quando ele a conhecia perfeitamente. A quem queria enganar? No entanto, quando ele a ajudou a entrar na banheira com gentileza incongruente a um homem tão grande e poderoso, ela tomou consciência do peso de seus seios e da sensibilidade de seus mamilos. Entrou na água morna com os olhos ainda fechados, mas percebeu que Cristiano aproximava a cadeira para ficar ao seu lado. — Estou bem agora — ela disse. — Certo, mas não vou lhe dar nenhuma chance. Além disso, ele gostava do que fazia. Sem alternativa, Bethany fora encurralada, mas não sentia culpa alguma, pois ele fazia apenas o que deveria fazer. Sua barriga, debaixo da água, estava incrivelmente sexy, e também seus mamilos, pontiagudos.


Cristiano observava tudo aquilo pensando que ela não percebia, pois tinha os olhos fechados. Bethany poderia dar todos os sinais exteriores de desaprovação, mas ele sabia que era apenas fachada. Apostaria sua enorme fortuna que, caso se curvasse e tomasse um dos seios nas mãos ou um dos mamilos na boca, ela se dissolveria mais rápido que uma vela em combustão. — Como se sente? — ele perguntou, perdido em seus pensamentos e notando que seu corpo se enrijecia ao vê-la naquela banheira. — Não vou continuar na sua casa quando melhorar deste resfriado — ela disse, decidida, mas quando abriu os olhos e olhou para ele, Cristiano deu de ombros, de forma elegante. — Deixe que eu a ensaboe. Meu motorista chegará em pouco tempo. — Melhor não. — Por quê? Não gosta de fazer o que dizem que deve ser feito? Mesmo sendo para o seu próprio bem? Sente-se. Bethany olhou-o duramente, e ele levantou as sobrancelhas, divertindo-se com a cena e pegando o sabonete. — Aproveite... pois da próxima vez que eu a ensaboar será um prelúdio... Ele poderia tomar um banho frio? Não teria tempo, mas seria a primeira coisa a fazer quando chegasse em casa. Começou a ensaboá-la, lentamente, deslizando as mãos pelos ombros e seios. — Isto é a coisa mais arrogante que... que jamais ouvi em minha vida... — e sentiu um arrepio quando ele tocou seus mamilos, que se enrijeceram imediatamente, deixando sua fala totalmente sem sentido. — Será? — ele murmurou, deixando o sabonete de volta no lugar e levantando-se para buscar uma toalha. — Você não gosta de ser cuidada? — Sua voz, quando começou a secá-la, era como uma melodia doce, fazendo com que a mente de Bethany se fundisse. — Posso ser um dinossauro, mas este não é o sonho de qualquer mulher? — Não sei qual é o sonho da maior parte das mulheres. Mas sei que não é o meu — disse, pegando a toalha felpuda que ele colocara ao lado da banheira e enrolando-a bem firme em volta do seu corpo, mantendo os olhos bem longe dos dele.


Estaria sendo tola ao esperar ser amada? Era pedir demais? Pensou que se largasse esse sonho para trás talvez terminasse sem nada. Sim, ele seria um marido responsável e um bom pai, mas, para ela, seria triste. Não queria um casamento baseado em obrigações, ou um homem que cedo ou tarde a veria como um fardo. — Eu me recuso a morder a isca, Bethany — disse, lembrando a si mesmo que ela não estava se sentindo bem, que seus pensamentos poderiam estar um pouco fora de lugar. Sentia uma raiva de frustração nascendo dentro dele, louca para escapar. — Como preferir — disse, permitindo que a ajudasse a sair da banheira, tarefa que estava se tornando cada dia mais complicada. — Você — ele disse, entredentes — pode ser a mulher mais chata da face da terra. Cheguei ao ponto da insanidade ao seu lado, e ainda assim você insiste em atirar tudo na minha cara. Bethany sentiu uma pontada de culpa, mas pensou que não queria um homem acomodado, queria um homem adorável, que subiria a montanha mais alta e desceria aos abismos mais profundos por ela. Mas argumentar não os levaria a nenhuma parte, e ela não queria brigar, então não disse nada. — Por que quer se casar comigo se posso ser tão chata? — ela perguntou. Para Cristiano, ela parecia perguntar com uma falta total de lógica, algo bem feminino. Ficou olhando-a em silêncio enquanto se vestia, de costas para ele, depois ela se virou e o encarou com uma expressão desafiadora no rosto. — Por quê? — ela pressionou, odiando-se por persistir neste assunto, mas não querendo deixar escapar a oportunidade. — Como você está se sentindo? — Você não me respondeu. — E não pretendo responder. '» — Por quê? — Porque sua pergunta não merece resposta — disse, pegando a mala sem fazer esforço, como se não pesasse nada e caminhando em direção à porta. Depois esperou por ela e gentilmente segurou-a pelo braço enquanto desciam, pois o motorista os esperava.


— Não lhe incomoda que você não seja o meu sonho? — ela perguntou, sentindo os olhos cheios de lágrimas. Era inútil, mas ela queria machucá-lo da mesma forma como, mesmo sem saber, ele a ferira. — Pode me chamar de prosaico, mas sonhos românticos nunca foram meu forte — disse, levando-a para o carro, estacionado na frente do prédio. — Somos obrigados a enfrentar certas situações na vida, e isso é tudo. Fim de papo. Mas quem seria o homem dos seus sonhos? Era difícil para ele lidar com a raiva que nascia com as críticas injustas que ouvia. Lidou com a última com particular graça e consideração. — Estou começando a ficar cansada — ela disse, sentando-se no banco de trás do carro, já sem energia, que fora usada para argumentar com ele. — Meu ombro está aqui — ele disse. — Pode se apoiar. E apoiou. Fechou os olhos e depois caiu em mais um de seus sonos leves. Sua mente ficara cansada e perdida. Cristiano queria que se apoiasse nele, e ela também queria tanto que, por alguns momentos, antes que se apoiasse, Bethany ficou pensando por que se dava ao luxo de lutar tanto com ele. Seria seu ponto de vista mais importante que o dele nesse assunto? Ele oferecia a presença de ambos os pais ao seu filho e um acordo estável. Como mencionara várias vezes, eram ótimos na cama. Quanto tempo duraria ela não sabia, mas não seria melhor aproveitar um pouco, ainda que a oferta não fosse um pacote completo? Ainda revolvia aqueles pensamentos confusos quando o carro finalmente parou e ela foi ligeiramente perturbada em seu sono nada confortável. Piscou os olhos, sonolenta, e olhou para ele. Por alguns segundos, ficou sem fôlego ao ver que a encarava. — Você caiu no sono — ele disse. — Pode me dizer o que sonhava? Bethany ficou vermelha, mas manteve o silêncio. A porta foi aberta e ela saiu do carro com a ajuda do atencioso motorista de Cristiano. As perguntas que estivera fazendo a si mesma ao cair no sono ainda estavam vivas, atrapalhando suas convicções. Junto a isto, pensava em seus pais, que adorariam que cedesse e se casasse com o homem que aceitaram como seu próprio filho... sua mãe


estaria na fila de várias pessoas felizes, que incluía suas irmãs, que também ficaram encantadas ao conhecê-lo e depois desapontadas com sua decisão de esperar um pouco, e não se casar imediatamente com um homem que talvez não fosse o ideal para ela... — Precisamos conversar — ela murmurou, demonstrando certa incerteza na voz. — Você acabou de dizer as duas palavras menos desejadas no meu vocabulário — ele disse, ameaçador. E mantinha a mão ao redor do seu corpo quando entraram no elevador em direção à sua cobertura, no alto. — Acho que essa conversa não será tão ruim para você... CAPÍTULO NOVE -Nada de papo até você estar na cama—ele disse, apressando para que ela entrasse na sua cobertura, que fazia o bom apartamento de Bethany parecer uma casinha de boneca. O piso importado da Itália, que cobria todo o chão, era interrompido sem cerimônia pelas cores vibrantes de caríssimos tapetes. Com quase nenhuma porta quebrando o limpo espaço do vasto apartamento, a vista era de tirar o fôlego. Mesmo sentindo-se tão mal, Bethany parou, como todas as vezes que entrou ali, para absorver o impacto do lugar. Nunca deixou de se maravilhar com a forma desinteressada como ele aceitava aquele nível de opulência. Parecia não notar as lindas pinturas originais nas paredes, cada uma valendo mais dinheiro do que a maior parte das pessoas poderia juntar em uma vida inteira de trabalho duro. Ele não era esnobe. Sua riqueza fabulosa era um fato aceito por seu passado privilegiado e uma prova de por que sempre fora tão importante para ele conhecer o pedigree das mulheres com as quais se relacionava. Até a chegada de Bethany, deixando tudo fora de controle. O quarto era tão impressionante quanto todo o resto da casa. Persianas de madeira o isolavam do resto do mundo, e dominando a cena estava a cama, feita à mão, pois queria algo maior que uma king-size normal. Cada lençol de linho fora desenhado especialmente e suas cores creme e chocolate impregnavam o espaço com uma estampa decididamente masculina.


Quando, de forma obediente, ela se colocou debaixo das cobertas, percebeu um buquê de flores que, de forma impulsiva, comprara para ele três dias antes, dizendo que sua cobertura era muito masculina. As flores foram parar no seu quarto, num vaso acima da cômoda. Ver aquelas flores fez com que seus pensamentos se ordenassem. Lutou muito tempo por sua independência. Recusou o casamento simplesmente porque seria guiado por seu tradicionalismo, e imaginou ter a disputa ganha, já que ele não falava mais no assunto, mas estava cansada e duvidava dos próprios argumentos. Sentira sua falta quando ele esteve fora, mesmo que preferisse morrer antes de assumir este fato. Também sentira falta de sua presença quando começou a passar mal, da forma como ele sempre tomava conta de tudo, fazendo-a sentir-se a salvo. Uma sensação falsa, claro, pois a salvo era a última coisa que sentiria ao lado dele. Conseguira driblar sua insistência de que o casamento seria a única forma de lidar com as circunstâncias, mas, na verdade, quando pensou em Cristiano concordando com os seus termos, foi tomada por um sentimento de pânico. As flores lhe deram a esperança de que, se ele não a amava, deveria sentir o carinho necessário para tratá-la com respeito quando a novidade da explosão sexual entre os dois se transformasse em algo rotineiro. Agarrou-se a esta frágil esperança quando ele saiu, para voltar minutos mais tarde com um copo de água, pois a última coisa que ela precisava, segundo ele, era ficar desidratada. A verdade era que, talvez, e só talvez, havia uma chance de que passasse a sentir algo por ela. E esse tipo de coisa acontecia, claro que sim! Mas, se não acontecesse com eles, o banquete prometido ao casamento se transformaria em migalhas e ela teria de aprender a lidar com isso. — Então... — disse Cristiano, sentando-se na cama perto dela, abrindo espaço para mais uma daquelas conversas que o fariam trincar os dentes e gritar até que ela enxergasse tudo à sua maneira — ... você disse que queria conversar. — Vi que as flores estão aqui. Cristiano virou os olhos para a cômoda e ficou corado. — Não me lembro de nenhuma mulher que me tenha comprado flores — disse, encolhendo os ombros.


— Mas posso apostar que já comprou muitas rosas para mulheres na sua vida. — Era sobre isso que queria conversar? Se for, acho que o assunto pode esperar. — Eu... eu queria conversar sobre... sobre o seu cuidado comigo. Caso eu tenha parecido pouco grata... — Você quer dizer que sente muito... Desculpas aceitas. Percebeu que era estranho ela estar pedindo desculpas. Claro, já pedira antes, quando Cristiano apareceu pela primeira vez na sua porta, mas naquele momento o pedido de desculpas tinha algo de desafio. Agora parecia sincero. Ele gostava do que ouvia. Na verdade, gostava tanto que tentou dirigir a conversa em benefício próprio. Sempre oportunista, considerava um crime não aproveitar a chance. — E duro ter que ficar sempre sozinho — ele murmurou, persuasivo, pegando uma das mãos de Bethany e brincando distraidamente com seus dedos enquanto tentava pensar em como transformar aquele momento, quando ela parecia ter baixado a guarda, em uma vantagem. — Veja bem o que está acontecendo esta noite — ele continuou, numa voz suave, sexy, que invadia seus ouvidos como ondas do mar. — Você não estava bem, e eu admito que chamar um médico talvez não fosse tão necessário. Mas não é bom saber que cuido de você? — Eu não dependo de você... — Claro que não! E nunca pediria isso... — Ainda que a ideia fosse interessante, mas ele não admitiria. — Porém, isso não quer dizer que aceitar uma mão amiga seja prova de fraqueza. — A conversa parecia ficar frouxa, e ele resolveu tomar as rédeas. Não voltaria ao velho papo de serem amigos. — Já estivemos nesta situação antes, Bethany, mas acho que chegou a hora de você enxergar que seria muito mais fácil enfrentarmos isso como um casal. Ficou encorajado com a falta de reação de Bethany. Esqueceu-se do desconforto por ele, acostumado a ter sempre tudo nas mãos, mesmo que tivesse de usar todos os truques disponíveis para dobrar aquela mulher. Subestimara, e muito, o impacto que ser pai solteiro causaria nele!


— E pense em nosso bebê — disse, com voz grave. — Se não formos homem e mulher, o que ele pensará quando souber que lhe negamos o privilégio de ter os dois pais juntos, simplesmente porque você não aceitou esta ideia? Bethany franziu a testa e disse: — Não sou capaz de pensar num futuro tão distante. — E nem precisa. Eu sou capaz. Sentia como se estivesse sendo cercada quando, após dez minutos, ele pintou um quadro no qual ela aparecia como uma mulher sem consideração, sem razão e egoísta. Mas, desta vez, não sentiu vontade de lutar contra as acusações ditas pela língua ácida de Cristiano. — Não tem nada a dizer? — ele perguntou, frente ao silêncio de Bethany. — Estou cansada. — Deveria estar descansando — ele disse, imediatamente. Cristiano sabia o momento certo de sair bem de cena. Plantara a semente e desta vez ela parecia ter caído em solo fértil. No tempo certo, regaria e tinha certeza que um dia germinaria. Na verdade, germinaria mais rápido do que ele imaginava. — Vou pedir comida. O que gostaria de comer? — Esta é a sua maneira de me lembrar o quanto preciso ter você ao meu lado, Cristiano? Ele pareceu afrontado e se levantou. — Só estou tentando fazer o melhor possível. E sinto fome, caso você não sinta — disse, mas foi obrigado a pontuar: — Ainda assim, mesmo sem fome, você vai ter que comer. E bem provável que tenha comido mal enquanto eu estive fora. O que você quer? Comida chinesa? Indiana? Posso pedir ao meu motorista que traga algo do Savoy Grill. Quer saber? Eu mesmo vou providenciar. Você não pode comer porcaria. Uma sopa e pão fresco, pode ser? — Você não precisa... —Não preciso o quê? — ele perguntou, cortante, pois algo no tom de voz de Bethany o fez sentir-se desconfortável. — Pedir comida. Aceito o que tiver na sua geladeira. — Estive fora por dois dias e, antes disso, mal ficava nesta casa. Não quero comprometer sua saúde com o que tenho na minha geladeira.


Ali estava ele outra vez, ela pensou: sempre o bebê em primeiro lugar. — Na verdade, o que eu quis dizer, o que quero dizer... é que você tem razão e não deve se aproveitar das minhas necessidades para atingir o que realmente quer. Já entendi. Casar-se é a atitude mais sensata. Então, se a sua oferta permanece de pé... Tendo manobrado a situação para chegar a este ponto, Cristiano ficou reduzido a alguns segundos de puro choque. — Em outras palavras... — ela disse, dando de ombros, para deixar claro que era apenas uma concessão — ...você venceu. Considerando que era o vencedor, Cristiano não ligou para aquela fraseologia, mesmo sem antes parar e pensar o que realmente aquilo tudo queria dizer. — Fico feliz. Na verdade, ficara ridiculamente feliz, o que era perfeitamente compreensível, sendo ele um homem que não gostava de situações-limite. Olhou para ela, sorrindo. — Na verdade, estou muito mais do que apenas feliz. — Fico surpresa de que não tenha dito nada nas entrelinhas, algo sobre saber que eu recuperaria minha sã consciência, no final das contas. — Eu sabia que no final das contas você recuperaria sua sã consciência. Para alguém que escutara mil e uma razões emocionais e ilógicas sobre por que eles não poderiam se casar, Cristiano ficou desconcertado com aquela súbita mudança de opinião. Sabia que era melhor não tocar no assunto, mas sentou-se ao seu lado na cama, franzindo a testa, tentando organizar seus pensamentos. — O que a levou a mudar de ideia? — E isso importa? — Provavelmente não, mas por que você não sacia minha curiosidade? Bethany deu de ombros. Era a sua oportunidade de mostrar que poderia ser tão fria quanto ele no que se referia àquela situação. — Acho que, ao ficar doente, percebi que sou mais vulnerável do que imaginava. Talvez tenha chegado ao ponto no qual é preciso deixar as minhas loucuras de lado. Esta é a minha vida.


Estou grávida, para o bem e para o mal. Você foi honrado ao me propor casamento. Seria a saída mais sensata, então... Bethany repetia tudo o que ele dissera no passado, quase com as mesmas palavras, mas Cristiano sentia-se nervoso com aquela resignação. — Certo... — ele disse baixinho. — Mas fico pensando no que teriaiacontecidp com todas aquelas ideias românticas de não querer se casar com o homem errado. — O homem errado. Nunca três palavras soaram tão ácidas para sua língua. Ele não entendia por que estava tão nervoso. Passara um bom tempo buscando aquele resultado. Mas gostaria que ela demonstrasse um pouco mais de entusiasmo. Ele passara várias semanas tentando fazer tudo para agradá-la e nada daquilo parecia ser considerado. Bethany curvou o lábio inferior. Cristiano, cuja personalidade agressiva o levara a aferrar-se à necessidade de casar-se com ela, respondia deixando-a mais e mais nervosa. Ele dissera que estava feliz, mais que feliz. Mas não parecia. Ao pensar que Cristiano poderia ter mudado de ideia, que poderia ter passado a encarar a situação como ela, apesar de tudo o que dissera no passado, Bethany ficou mal. Ou tudo o que ele queria era manter a pressão pelo casamento, para desta forma seguir insistindo no seu papel moralista? Insistira que fosse à sua casa. Talvez enxergasse a mudança como necessária naquele ponto de sua gravidez. Ou talvez, mesmo sem perceber, ele já aceitara que a mudança seria temporária, até que o bebê nascesse, e toda aquela conversa de Bethany sobre manterem suas independências poderia ter surtido algum efeito. Bethany queria voltar atrás, dizer a Cristiano que, caso mudasse de ideia, não haveria qualquer problema. Mas o que disse foi: — Não estou pensando em uma saída prática. Se ainda está interessado no casamento, tudo bem, estou pronta a aceitar, mas com algumas condições. Pronta a aceitar? Algumas condições? Ela parecia estar sujeita à tortura, não a uma vida tendo tudo o que sempre desejou. — E que condições seriam essas? — Cristiano perguntou. — Sei que seria um casamento de conveniência, mas... mas... — Baixou as cobertas e ficou olhando fixamente para os próprios dedos enquanto tentava controlar a respiração e soar o mais


normal possível. Dois adultos sendo racionais. — Espero que você... não mude de comportamento tão rapidamente caso se canse de brincar de família feliz. Os olhos de Cristiano ficaram gelados. Caminhou até a janela, tentando ganhar um pouco de tempo para controlar a fúria que crescia dentro dele. — Que tipo de pessoa você acha que sou? — perguntou, num tom de voz cortante. — Acha que sou tão sórdido? — Não acho que seja sórdido — Bethany respondeu, levantando o queixo e olhando para ele. — Eu considero você um homem com... necessidades... e quando se cansar de mim, talvez seja tentando a... — Então cabe a você não deixar que a vida fique chata, certo? Aquela foi uma pergunta sórdida, mas Cristiano não sentia vergonha dela. Nada estava acontecendo como ele esperava. — Isso é uma ameaça? — ela perguntou, firme. — Quer fazer o que lhe der na telha, inclusive encontrar-se com outras pessoas? — Você está colocando palavras na minha boca, e eu não gosto disso. — Peço desculpas por tentar derrubar algumas barreiras por aqui, mas elas afetam a minha vida! — Você não está derrubando nenhuma barreira. Está se protegendo para o caso de algo dar errado. — Eu não vejo desta forma, e caso não concorde com o meu pequeno pedido, talvez fosse melhor nos prepararmos para um acordo de custódia para o bebê. Cristiano não acreditava: estava ouvindo exatamente o que não queria ouvir. Aquelas palavras — acordo de custódia — fizeram reviver em sua mente as imagens de Bethany com outro homem. Fez um esforço brutal para controlar seu temperamento. Ela concordara em se casar, mesmo que sem entusiasmo, e ele trabalharia aquilo. — Nós nos casaremos — ele disse, sendo direto. — Não falei bobagens, nem você. Além do mais, sei que fará tudo o que puder para que o nosso casamento funcione. Não vou tolerar nada que possa atrapalhar. Ela percebeu que, frente ao mundo, apresentariam a imagem de um casal perfeito. Ela sabia que era agora ou nunca. Caso concordasse, seu destino estaria selado. Caso negasse, ele nunca mais tentaria convencê-la a seguir ao seu lado. Se veriam


durante a gravidez e depois ele se afastaria. Não do filho, mas dela. Bethany ficou nervosa ao admitir para si mesma que não gostaria de vê-lo com outra mulher. Não podia sequer pensar em que ele poderia olhar para outra pessoa, provavelmente fantasiando como seria fazer sexo com ela. Ela gesticulou um sim e não disse nada. Quando voltou a olhar para ele, Cristiano parecia mais relaxado. Pegou o celular, discou um número e ofereceu-lhe o aparelho. — Seus pais. Chegou a hora de espalhar a boa notícia. Depois eu ligo para a minha mãe. — Já? — ela perguntou, em voz alta, porém nervosa, mas podia sentir uma excitação percorrendo seu corpo. Suas mãos tremiam quando pegou o telefone. Quinze minutos mais tarde, devolveu o aparelho. Ele permanecera no quarto, de pé, com as pernas um pouco afastadas, os braços cruzados, dando a impressão de que estava ali para assegurar-se de que ela não fraquejaria no último momento. — Sua vez. Cristiano fez uma careta. Bethany aceitara seus desejos, mas havia uma tensão entre eles que desaparecera desde a chegada a Londres. Cristiano sentia como se ela tivesse desistido, aceitado o inaceitável e que agora tinha aquela história atravessada na garganta. Graças a ele, fora forçada a abandonar seus sonhos românticos em favor da praticidade. A felicidade não parecia presente em seu horizonte, mesmo que tivessem sido perfeitamente felizes antes, na cama e fora dela. — Vou ligar mais tarde. E não precisa ficar com essa cara de miserável frente ao casamento. Vou lhe oferecer toda a segurança que um dia poderia ter sonhado — disse, olhando-a com grande frustração. — Eu sei. Segurança! O casamento, que deveria ser uma troca de amor, chegava até ela como uma oferta de segurança. Odiava a si mesma por amá-lo tanto a ponto de ser capaz de abrir mão de seus princípios. Odiava a si mesma por saber que, por mais errado que fosse este casamento com Cristiano, ainda seria melhor que uma vida longe dele, vendo-o em dias combinados, observando-o com outras mulheres, esperando o dia que se


apaixonaria por alguém. E odiava outra terrível verdade: se não se casasse, Cristiano mais cedo ou mais tarde se cansaria, e neste momento ela não teria mais qualquer peso em sua vida. Seria sempre fiel a ele porque não tinha escolha. Era prisioneira de seus sentimentos. Cristiano, por outro lado, insultado por ela ter simplesmente pensado em confiná-lo a ser fiel, não se prenderia a tais laços emocionais. Estaria condenada a uma vida desconfiada. Quantos homens com libido tão poderosa como ele, capazes de atrair qualquer mulher a qualquer momento, aceitariam a monogamia quando a esposa com a qual se casara deixasse de ser uma novidade? Ele a queria naquele momento, sua gravidez parecia sexy naquele momento, mas no que dizia respeito a calendários, aquele momento passaria mais rápido que um piscar de olhos. E ali estava ele, franzindo a testa, exigindo que fosse feliz! Pior que isso, Bethany tinha vontade de acariciar seu rosto, mas precisava lutar contra essa tentação. — Você estava feliz — disse Cristiano, como se fosse uma verdade absoluta. Bethany ficou corada porque sim, estava feliz. Fora feliz na pequena bolha que criaram desde a chegada em Londres. Recebia devoção total 24 horas por dia. Mas passou a sentirse confusa com a sua decisão. — O que mudou? — ele perguntou. Era difícil entender seu novo estado de ânimo. Tinham bom sexo, ela aceitara sua proposta de casamento. Então por que parecia tão perdida? Cristiano passou os dedos pelos cabelos e começou a caminhar no quarto. — Nada — Bethany murmurou, triste. Deitou-se e fechou os olhos, pois simplesmente olhar para Cristiano era desolador. Passado um tempo, forçou-se a abrir os olhos e dar um sorriso amarelo. — E a tal sopa com pão que tinha me prometido? Cristiano não queria interromper a conversa, embora não tivesse ideia de onde poderiam chegar. Ele a forçara para que aceitasse o casamento, quanto a isso não havia dúvida, e abrira mão de uma ou duas coisas. Caso parecesse um tirano, fazia isso pelo bem dela, como Bethany descobriria em pouco tempo. Disso ele tinha certeza. Qualquer pensamento de que se comportara de outra forma não poderia vir à tona, pois quanto mais tempo passasse ao seu lado,


mais convencida estaria de que terminaria desejando-o só para si. Permitiu-se retribuir o sorriso de Bethany, pois não havia motivo para criar uma situação desconfortável. Ela já admitira que fora feliz ao seu lado, e não havia razão para que não voltar a ser. — Vou providenciar — ele disse, em tom suave, feliz por ter conseguido sair daquele humor ruim. — Um casamento simples... certo? Mas, claro, caso prefira algo mais tradicional, eu ficaria feliz em aceitar. — Vestida de branco e a ponto de ter um bebê? Isso não combina, não é? — Para mim, sim — ele respondeu, seco. — Qualquer coisa combinaria... O rosto de Bethany ficou vermelho. A nuvem negra que pairava sobre Cristiano parecia ter desaparecido. Voltara ao normal. Estaria realmente feliz com o casamento? Ele escondia muito melhor seus sentimentos que ela. — Agora — ele disse, antes que seus olhos fossem atraídos por Bethany, o que sempre acontecia quando estava na sua presença —, vamos comer e dormir. Bethany tomava seu café olhando para o cenário londrino de pessoas fazendo compras na hora do almoço e trabalhadores tentando aproveitar ao máximo sua hora longe do escritório. Com apenas mais umas poucas semanas de gravidez pela frente, estava muito pesada para fazer compras ou algo parecido. Mas mantinha a determinação de caminhar tudo o que pudesse, o que a fez chegar àpatisserie da pracinha logo após a King's Road, onde ela desenvolveu o hábito agradável de tomar um café e lanchar. De seu ponto de vista privilegiado, atrás do vidro, pensava em seu casamento, que aconteceria três semanas após o nascimento do bebê. Enquanto isso, o mundo seguia seu curso natural. Cristiano, que preferia fazer tudo um pouco mais rápido que a velocidade da luz, decidira que se casariam assim que arrumasse alguém que os pusesse casar, mas Bethany se manteve firme. Só pensava se casar uma vez na vida e não se submeteria à pressa, mesmo num casamento de conveniência. Fingia para si mesma que tudo acontecia normalmente. E desde quanto isso era crime? Um casal discutia na rua, e Bethany ficou observando a cena, perdida em seus pensamentos.


Já desistira de qualquer defesa contra Cristiano. Com sua personalidade dura, ele se provou indispensável. Era atencioso, apoiava tudo, um sonho, e mesmo que nunca, nenhuma vez, tenha dito que a amava, poderia se tratar de um caso de omissão. Ela, por sua vez, mantinha suas emoções contidas, e assim, silenciosamente, aceitou a esperança de que ele, milagrosamente, de um momento para o outro, mudaria, aceitando estar apaixonado. Era a impressão que Cristiano dava ao mundo. No recente final de semana que passaram na Irlanda com seus pais, mostrou-se a perfeita imagem do marido devotado, e Bethany tinha certeza de que, ao encontrar-se com a mãe dele, duas semanas mais tarde, agiria da mesma forma. Mas ela não queria seguir o mesmo caminho. Quando pensava na real situação, entrava em uma espiral de pânico. Por isso desenvolveu uma prática de jogar tudo para a parte traseira de sua mente. O casal que discutia fora embora. Bethany olhou para o relógio, pensando nas várias reuniões que Cristiano teria naquele dia, enquanto ela saboreava seu chocolate quente com bolo. Ele voltaria tarde, pois sua agenda estava lotada. Levantou os olhos, com um meio sorriso, pois só de pensar nele ficava feliz como uma adolescente apaixonada. Mas, ao focar os olhos, curvou o corpo para a frente e deixou o bolo cair no prato. Seu coração acelerou ao reconhecer Cristiano, lindo em seu terno italiano impecável, com uma das mãos no bolso da calça, onde estaria brincando com uma moeda perdida, como sempre. Ele sorria, curvando seu corpo em direção à loirinha à sua frente, totalmente concentrado no que ela dizia. Outro hábito seu. Bethany foi ficando sem ar. Olhou para a mulher que o acompanhava. Tinha um rosto delicado, olhos grandes e os cabelos loiros cortados rente ao pescoço. Vestia roupas casuais. Cristiano disse que estaria em reuniões. Não teria nenhum tempo livre. Beijou aquela mulher no nariz, divertindo-se, pois sabia que seria um gesto provocador, dizendo que não deveria se preocupar com nada, depois passaria à sua boca, dizendo como gostaria de driblar as convenções, levando-a diretamente à cama.


Estava claro que teria o dia ocupado, só não lhe dissera exatamente como. Bethany ficou olhando para a cena que se desenrolava no mesmo local onde antes o casal discutia. Estava tão concentrada que só percebeu o quanto seus punhos estavam cerrados quando a palma de suas mãos começou a doer sob a pressão dos dedos. Esteve a ponto de se levantar quando ele agarrou o braço daquela mulher de forma tão familiar, depois começou a andar, ainda sorrindo, parecendo muito feliz consigo mesmo. O monstro que ela conseguira espantar voltara a assombrá-la. Exatamente como sempre temera. Com Bethany já convencida sobre o casamento, Cristiano voltava a notar as várias outras mulheres que existem no mundo. Trabalhariam juntos? Trabalharia para ele? Não importava. Tudo o que importava era que Cristiano mentira para ela, uma mentira com grande significado. Que tipo de reunião acontece próximo a um café chique ao lado da King's Road? Que tipo de mulher de negócios se vestia como ela estava? Seria uma dessas reuniões secretas, pensou, do tipo que ele não poderia contar com detalhes. Passou as horas seguintes arrasada. Mas quando, pouco depois das dez, ouviu a porta da frente se abrir e ser batida com força, seu corpo tremeu inteiro. Ele tirava a gravata quando chegou ao quarto. E se aproximou, como se nada estivesse errado, como se simplesmente acabasse de chegar de mais um dia duro no trabalho, abrindo um sorriso lindo, sua marca registrada, do tipo que fazia todo o seu corpo tremer. — Você está acordada — ele disse, confirmando o óbvio. Curvou-se e deu um beijo na boca de Bethany, que deixara o livro que estava lendo cómicamente aberto em cima de sua barriga. O cheiro de Cristiano era tão bom que ela quase retribuiu o beijo. — Teve um bom dia? — Um dia cheio. Vou tomar um banho. Não se mova. Volto em 15 minutos. Não fechou a porta do banheiro nem foi modesto ao tirar a roupa na frente dela, que ficou observando a cena com desejo, até virar-se de lado, a única posição que a deixava confortável naqueles dias.


Cristiano, já de banho tomado, voltou ao quarto com a toalha amarrada à cintura e parou na porta. Sua antena sinalizava que algo estava errado. E ele não gostava do que sentia. Seus dias de indiferença total sobre como as mulheres interpretavam seu comportamento eram coisa do passado. Caminhou lentamente até a cama, que circundou, até que Bethany estivesse completamente sob seu campo de visão. Ela percebeu suas pernas se aproximando e também a ponta da toalha branca, que mal podia tapar sua impressionante masculinidade. Tivera algumas horas para decidir o que faria quando o visse. Pensou em não dizer nada, mas rejeitara tal opção porque não saber exatamente o que estava acontecendo seria terrível, acabaria com ela. Mas não ficaria histérica. Cristiano não fazia dramas. Sentou-se na cama. — Você comeu? — ela perguntou, mantendo os olhos afastados do seu lindo corpo, que ainda tinha o poder de fazer com que se sentisse tonta, mesmo lutando com todas as forças para evitar tal sensação. — Tínhamos alguns sanduíches na mesa de reunião esta noite — respondeu, olhando para seu rosto preocupado, para a forma como tentava não olhar para ele. — Você está pensando em algo. Por que não me diz logo, em vez de ficar ruminando aí na sua cabeça? — Como passou o seu dia? Cristiano balançou a cabeça, impaciente, e caminhou até a cômoda, deixando cair a toalha e vestindo uma cueca boxer. — Trabalhei. E o que faço. Sento na frente de homens chatos vestidos em ternos e discutimos vários assuntos. No meio tempo, fico de olho em relatórios para ver se tudo anda bem, se não há alguma crise a caminho. Às oito e meia uma das secretárias saiu para comprar sanduíches. Eu comi dois. E voltei para casa. Você estava bem quando saí esta manhã. Não imaginei que ao voltar estaria com outro humor. — Não estou com outro humor, só estou perguntando como foi o seu dia. — E já disse. A menos que queira um relatório mais detalhado. — Talvez só um detalhe — ela disse, respirando fundo. Cristiano ficou olhando-a, seco. Não tinha ideia de onde


queria chegar, mas descobriria. Era grandinha, estava a ponto de se casar e ter um filho. — O quê? — O que você fazia na hora do almoço com outra mulher? E não tente negar, pois eu o vi. CAPÍTULO DEZ Cristiano ficou louco. Teria de manter-se calmo, pois não queria estressar Bethany. Até então, nenhuma mulher jamais questionara seus movimentos. — Não tenho razão para negar nada — ele disse. Não permitira ser questionado por ninguém. Já tinha conversado muito com Bethany, mas chegara ao limite. As linhas tinham sido demarcadas, fronteiras essenciais estabelecidas. Suas palavras destruíram qualquer esperança de que haveria uma explicação razoável para o que ela vira. Para Bethany, foi como receber um soco na cara. — Você é demais, Cristiano — ela murmurou. — Demais. — E o que isso significa? — Significa que não posso seguir em frente com essa história de casamento. — Isso é ridículo — ele disse, mantendo a voz baixa e razoável, mas demonstrando poder. — E você não precisa ficar assim a esta altura do campeonato. — Fico assim quando eu quiser! Ele só se preocupava com a sua saúde por conta do bebê. Lágrimas de tristeza, frustração e desapontamento rolavam em seu rosto, e Bethany mordeu os lábios para evitar a desvantagem de deixar-se levar pelo lado emocional. Cristiano rangeu os dentes, e disse: — E isso, Bethany? Vou ter que aceitar suas mudanças de planos sempre que ficar um pouco chateada com algo? — Não estou um pouco chateadf, Cristiano! Só estou pedindo que me explique por que mentiu para mim sobre o que faria hoje. Isso é pedir muito? — Isso é dizer que não confia em mim — ele respondeu, tranquilo. — Você está me acusando de ter um caso, e eu estou lhe dizendo que não tenho. E não vejo por que seguir com essa história.


Então por que, ela pensou, por que não lhe dizia exatamente o que fazia com aquela mulher ao seu lado? Talvez tecnicamente estivesse dizendo a verdade. Talvez não estivesse envolvido em uma situação de rompante sexual com aquela mulher, mas... e se estivesse pensando na possibilidade! Talvez ele não contasse um flerte como infidelidade, mas ela contava. Bethany não queria que olhasse para nenhuma outra mulher. Nunca. Aqueles pensamentos ecoavam na cabeça de Bethany como centenas de vozes. Tentou entender algo. Sabia que Cristiano tinha razão, que não poderia ficar mudando de ideia sobre o casamento todo o tempo. Mas ele não a amava, então como poderia confiar nele? — Certo — murmurou Bethany, triste. Ela desistira, pensou Cristiano, mas não por muito tempo. Conhecia aquela mulher como nenhuma outra, conhecia sua determinação em obter as respostas que queria. Na verdade, eram bem parecidos nesse aspecto. Mas ele não daria o braço a torcer. Disse a si mesmo que se responsabilizaria enquanto ela estivesse naquele estado, e não se deixaria levar por seus pedidos de explicação para que Bethany pudesse, enfim, satisfazer sua imaginação fervilhante. Não fizera nada de errado, e fim de papo. Tendo chegado a essa conclusão, deveria estar se sentindo melhor, mas Cristiano permanecia fora de si. — É tarde — ele disse. — E discutir até as primeiras horas da manhã não vai fazer bem para você, que precisa dormir. — Pare de me dizer o que devo ou não fazer. — Por quê? Eu tenho razão — ele respondeu, como se tratasse de uma verdade absoluta. — Arrogante! Como poderia ficar ali, de pé, tratando-a como uma criança? Seria assim no futuro? Para cada preocupação de Bethany, Cristiano diria apenas: confie em mim, eu tenho razão. Bethany não parava de pensar na mulher que sorrira para ele. Caso estivesse vestida como uma mulher negócios qualquer, talvez não fosse complicado acreditar nele, mas que mulher de negócios sai à rua com aquela calça? Essa imagem não desgrudava de sua cabeça, sentia vontade de se afogar em lágrimas.


Cristiano a observava. Seu corpo estava rígido. Não entendia por que ela fazia tanto barulho por nada, mas recusou-se a dar o braço a torcer. Em vez disso, disse, em voz conciliatória: — Vou ao escritório, trabalhar um pouco. Assim você poderá se acalmar. — Não quero ficar calma, quero conversar! — Tudo o que pode fazer é confiar, ou não, em mim. Sim, eu me encontrei com uma mulher no almoço. Mas não, não fui para a cama com ela. Agora vou deixá-la sozinha para que possa descansar um pouco. Não fique preocupada se acordar e eu não estiver aqui. Acho que deveríamos dormir em quartos separados hoje. Logo que saiu do quarto, Bethany caiu em lágrimas. Estava errada? Queria respostas e ninguém poderia dizer que se tratava de um pedido pouco razoável. Mas, se estava com a razão, por que se sentia como se o seu mundo tivesse virado de pernas para o ar? Resistiu à tentação de segui-lo ao escritório e retomar a conversa onde tinham parado. O orgulho a prendeu à cama. Mas a verdade é que ele não diria nada além do que já dissera. Cristiano era muito independente e seguia sua vida de acordo com as próprias leis. Abrira mão de muita coisa por ela. Lembrou-se que suas visitas frequentes deveriam ser um eterno choque com sua agenda de workaholic. Acusara-a de falta de confiança e ela pensou que sempre seria assim, enquanto não a amasse. E isso terminou levando-a de volta aos mesmos medos e questionamentos de sempre. Junto a esse terrível mix, havia um elemento extra: dúvida. Quantas vezes Cristiano mentira para ela? Na verdade, quanto a isto, é justo dizer que ela era especialista. Mas ainda assim, não hesitava em chamá-lo de mentiroso ou, pelo menos, encobridor da verdade. Finalmente caiu no sono, perdida, pois em algum momento a conversa falhara e ela acabou se sentindo culpada. Acordou às sete e meia da manhã e notou que estava sozinha na cama. Ficou em pânico e lavou rapidamente o rosto e escovou os dentes, o que naquele momento era uma operação lenta, muito lenta, graças à gravidez avançada.


Onde estava Cristiano? Mesmo com seus pensamentos confusos, ela dormira como um bebê. Não o ouvira entrar no quarto em nenhum momento. Teria realmente dormido num dos quartos de hóspedes? Mas não havia qualquer sinal naqueles quartos. Talvez tenha saído cedo para o trabalho. Discava seu número com dedos trêmulos ao sair do quarto, e quase morreu de susto quando ele atendeu ao primeiro toque. — Onde você está? Cristiano notou certa urgência na voz, e ficou satisfeito. Todo aquele questionamento fora chato, mas conseguira manter-se firme, para que seus movimentos não passassem a ser monitorados constantemente. Na verdade, passara a noite sentindo como se alguém tivesse dado um soco perfeito. Em certa hora ridícula da madrugada, entrou no quarto para observá-la. Queria deitar-se na mesma cama, mas preferiu não arriscar despertá-la. Talvez voltasse com a mesma história de antes. — Você está de pé. — Onde você estava? Por que não me respondeu? — Um minuto. Bethany ouviu o barulho de um telefone desligado e fechou imediatamente o seu aparelho. Seu coração batia como um tambor. Olhou para o celular na sua mão e, quando voltou a olhar para Cristiano, ele estava de pé na cozinha. Não o ouvira, provavelmente porque teria passado a noite trabalhando no escritório, que ficava no final do corredor. Aliviada por vê-lo, ela ficou sem ar. Queria correr para ele, cair nos seus braços, dizer o quanto o amava. Mas tudo o que fez foi perguntar: — Dormiu bem? E ficou olhando enquanto ele se aproximava. Estava simplesmente lindo. Ficou imaginando se algum dia se acostumaria com o enorme impacto físico que ele sempre causava nela. Cristiano não sorria, o que a deixou nervosa, pensando se ainda estava remoendo suas perguntas do dia anterior. Estivesse ou não com a razão, ela percebeu que não queria aquilo. Até onde iria, ela ficou imaginando, ao aceitar tudo o que Cristiano pedia que fizesse? Comportava-se dessa maneira porque o amava? — Não. Aquela resposta simples a deixou sem ar.


— Você não parece um homem que teve uma noite mal dormida. — Eu me saí bem... — O que... você estava fazendo? Não queria fazer essa pergunta, mas ela saiu sem pensar. — Trabalhei grande parte da noite. Bem aqui, caso queira saber. Sozinho. Cristiano tivera horas para pensar nas perguntas de Be-thany, horas para analisar sua resposta imediata, e em poucos minutos chegou à conclusão de que, mesmo tendo sido encurralado, gostava daquilo. Gostava do fato de ela ter se mostrado ciumenta, pois do ciúme vem a necessidade, o que seria positivo. O hábito o levara a dar aquela primeira resposta, imediata. Era hora de dizer adeus aos hábitos, mesmo aos mais antigos, que demoram mais a morrer. — Venha e sente-se — ele disse, fazendo com que Bethany entrasse na cozinha. — Vou preparar o café da manhã. — Por quê? — Você não tem fome? — Por que não está chateado comigo? — perguntou. Imaginava que ele estaria com medo deque o bebê nascesse antes do tempo, se pressionasse Bethany. Cristiano sempre só se preocupava com a gravidez. — E deveria estar? — Sim, por que... por que... — e sentou-se em um dos bancos da cozinha, observando-o enquanto ele preparava uma deliciosa torrada. — Você tem todo o direito de me perguntar o que eu estava fazendo na companhia de outra mulher — disse Cristiano, deixando um prato com a torrada na frente dela, e pegando uma cadeira para que se sentar. Bethany pegou a faca, não olhava para Cristiano, até que ele gentilmente levantou seu rosto. — Escolha entre comer ou olhar para mim. Bethany resolveu concentrar-se na torrada. Ele estava ficando muito bom na cozinha. — Eu confio em você — ela murmurou, com voz trêmula. — Mas estava... — Com ciúme? — ele perguntou, interrompendo a busca de Bethany por um adjetivo que casasse com seus sentimentos. ..


Houve um momento de silêncio e ela deixou a torrada no prato, olhando para baixo, para o que parecia o único ponto a focar. Cristiano pegou sua mão e Bethany arriscou um rápido olhar. — Eu também ficaria com ciúme de você — ele admitiu, com voz áspera. — Sério? — Sim, claro. — Está dizendo isso porque você é o tipo de cara que enxerga as mulheres como objetos de posse. — Posso dizer que a sua opinião está muito longe da verdade — Cristiano retrucou, levantando-se abruptamente e tirando o prato da mesa. Não queria que ela se distraísse com nada, mas que estivesse concentrada apenas nele. — Não vou fingir que não tive as mulheres que quis... — disse, de costas para ela enquanto lavava o prato, depois alguns talheres, esfregando-os com força. Ao terminar se virou e olhou-a diretamente, apoiando-se na pia, com os pés cruzados na altura do calcanhar. Deu de ombros ao perceber o olhar de Bethany pousado no seu, mais uma vez com aquele ar de ciúme. Por muito que tentasse negar, era mais forte que ela. — ... e nunca permiti que nenhuma delas ditasse a minha vida. — Eu não estava... — Tudo bem. Mas me deixe terminar — Cristiano disse, fazendo um gesto em direção à sala de estar, esperando até que ela se instalasse confortavelmente no sofá. Depois sentou-se e continuou: — Sempre governei a própria vida. As mulheres tinham uma escolha: aceitar ou ir embora. Minhas regras eram simples. Primeiro o trabalho, e nada de dramas. Nada de esperar mais do que eu estava preparado a oferecer. Falando sobre todas as regras que ela quebrara, Bethany ficou um pouco tonta. Ela chegou a quebrar a chamada regra número um: nada de trapaças. Antes ele aceitara tudo isso, mas será que Cristiano se cansara de ter paciência com ela? Passou os dedos entre os cabelos e olhou-a, deixando-a muito nervosa. — Certo. Acho que quebrei uma ou duas regras. — Esqueceu-se de outra: não me interrompa. Muito menos quando eu estiver pensando no que devo dizer. — Que é...? — A voz de Bethany saiu como um fraco sussurro.


— Que é... — ele repetiu, encarando-a. Havia uma sensação estranha dentro dele. Sentia-se horrorizado, animado, absolutamente convencido de qual seria o seu destino. — Que é... você pode quebrar as regras que quiser. Na verdade, se não estou enganado, já quebrou quase todas, e eu não ligo. — Não precisa me dizer essas coisas. — O que você quer dizer? — Sei que não quer me chatear porque estou grávida, mas isto não significa que você deva... deva... Cristiano abriu um sorriso cálido e deixou Bethany sem fôlego. — Você é linda. Eu já lhe disse isso? Eu me envolvi completamente, desde o primeiro minuto que coloquei os olhos em você. Até mesmo quando cheguei na Irlanda, pronto para destruí-la, você pareceu irresistível. Bethany nada disse. Na verdade, não queria interromper aquela torrente de informações emocionadas. Não queria que aquele momento terminasse. Ficou imaginando se estragaria tudo, caso dissesse que ele também era lindo. — Deveria ter perdido a cabeça quando você me disse que estava grávida. Nunca pensei em mudar meu estilo de vida. Nas poucas vezes que pensei em casamento e filhos, imaginei que poderia seguir minha vida sem qualquer grande alteração. Bobagem! Imaginei que teria uma mulher doce sempre por trás, fazendo o que era preciso em casa, e me deixando livre para viver como sempre vivi. Bethany estava fascinada com a vulnerabilidade que enxergava no rosto de Cristiano. Aproximou-se para tocá-lo, e ele agarrou sua mão. — Quando me ofereceu a opção de não nos casarmos, no entanto, logo pensei que nunca aceitaria. Queria você por inteiro — disse, encarando-a. — Não queria ser pai apenas meio período, nem participar de metade de sua vida. Certo, é duro para mim dizer isso, na verdade, jamais disse isso antes: — Eu a amo. Acho que me apaixonei naquelas duas semanas em Barbados. Mas como saber ao certo? Jamais tinha me apaixonado antes, e para dizer a verdade, nunca imaginei que o amor poderia ser assim tão complicado, imprevisível, turbulento. Imaginei que fosse apenas desejo, algo passageiro. Depois chamei a nossa situação de dever. Dei todos os nomes a ela, menos o correto.


— Você me ama! — Não fique tão chocada — Cristiano respondeu, defensivamente. — Tudo o que fiz nos últimos meses prova isso. Era verdade. Bethany o abraçou e teria repetido mil vezes que também o amava, caso ele não a tivesse interrompido, sorrindo. — Sinto muito por não ter falado nada sobre Anita — ele disse, sem dar muita importância. — Você se sentiu encurralado — disse Bethany, em tom suave. — Não queria soar como uma mulher ciumenta. — Você tinha todo o direito. Prefiro isto a saber que não se importaria ao me ver com outra, porque eu até mataria, caso visse você com outro homem. Daria um soco na cara dele. Ainda nas nuvens, Bethany soube que a mulher com roupas casuais pela qual fizera tanto drama, Anita, era coordenadora de projetos de caridade na Africa. — Queria que fosse uma surpresa. Estou envolvido no projeto de construção de um vilarejo na África profunda... será o primeiro de muitos — disse, sorrindo ao ver a expressão no rosto de Bethany. — Não fique tão maravilhada — Cristiano disse, dando um beijo caloroso em seus lábios. — Afinal de contas, você não contou aos seus pais que estou envolvido em projetos de caridade mundo afora? Acho que poderá decidir onde será o próximo... Sei que é boa instigadora... E não se preocupe com Anita... Ela é homossexual. A filhinha de Cristiano e Bethany nasceu sem problemas, duas semanas mais tarde. Cristiano anunciou, com uma sinceridade que fez Bethany sorrir, que se apaixonara mais uma vez. Helena Grace era gorducha, com os cabelos fartos da mãe e os lindos olhos escuros do pai, com incríveis cílios. Os avós ficaram loucos com a primeira neta de ambos os lados, os planos de casamento foram discutidos em detalhes, com Cristiano e Bethany observando, animados, e contribuindo com tudo o que fosse necessário, mas sempre loucos para voltar à sua cama, todas as noites. Com a filha entre os dois, antes de ser cuidadosamente transferida ao moisés, que era sempre deixado ao lado da cama, discutiam sobre deixar Londres e viver em um lugar não muito distante, mas menos agitado. —Nunca imaginei — disse Cristiano, pensando alto mais de uma vez — que algum dia pensaria em escapar da vida frenética


do meu trabalho em Londres. A culpa é sua, minha bruxinha querida... Bethany estava tão feliz, que assumiu essa culpa.

Abhy Green SEGREDOS PASSIONAIS Tradução Wilma Fernandes PRÓLOGO Leonidas Parnassus girou o rosto em direção à janela do seu jato particular e avistou o aeroporto de Atenas, onde o avião acabara de pousar. Com o coração apertado dentro do peito, ele insistia em se manter no assento, embora a porta de saída da aeronave já estivesse aberta. O pai lhe dissera que precisava conversar com ele. Leo não tinha a mínima vontade de estar ali, mas não poderia deixar de atender ao pedido do pai, que lhe telefonara dizendo que precisava conversar pessoalmente com ele. O homem mais velho partira para Atenas a fim de resgatar a fortuna e o bom nome da família, que havia sido ultrajada anos antes. O sangue grego corria nas veias de Leo, embora jamais tivesse visitado a Grécia. A família fora exilada do país antes do nascimento dele; o pai havia retornado há alguns anos e agora revelava triunfante que conseguira finalmente libertar o nome da família da acusação de um crime terrível e recuperar grande parte da riqueza e do patamar social de antes. Leo sentiu sua aftargura aumentar no instante em que se lembrou da querida avó. Agora era tarde demais para que ela pudesse retornar ao lar. Falecera em um país estrangeiro no qual nunca se acostumara. E embora a avó o incentivasse a ir para Atenas assim que tivesse oportunidade, Leo detestava até citar o nome da cidade de onde foram expulsos e odiava o lugar por


causa dos sofrimentos que a pobre mulher tivera que suportar. Por isso jurara que jamais poria os pés na Grécia. Contudo, Atenas ainda era o lar da família Kassianides, responsável por toda a tragédia que sua família sofrera e que agora recebia o troco merecido. O terrível acontecimento lançara uma sombra de tristeza na infância de Leo e o prejudicara de inúmeras maneiras. E, apesar de tudo, ali estava ele, prestes a desembarcar no lugar onde essa tragédia se originara. Algo na voz do pai o teria feito fraquejar, ou então, Leo teria desejado provar que não mais se deixaria intimidar pelas mágoas do passado. Porque era justamente por causa desse sentimento que a mãe tivera uma morte prematura. Ele estava determinado a encarar a antiga mansão da família sem temor. Mas antes disso, precisava lidar com o fato de que seu pai desejasse que ele tomasse posse do Parnassus Shipping Business, que lhe pertencia por direito de herança. Leo havia desistido desse direito há muito tempo e abraçado o espírito empreendedor americano. Agora estava estabelecido com uma empresa que cuidava de financiamentos e aplicações no ramo imobiliário. Recentemente adquirira um quarteirão inteiro de antigos casarões no lado leste da cidade de Nova York e pretendia modernizá-los. Ele apoiara o pai, alguns anos antes, na missão de resgatar o nome da família e obrigar Tito Kassianides, o último patriarca da família, a assumir as consequências dos atos de seus ancestrais. Essa era a única razão que mantinha Leo e seu pai unidos: o desejo de vingança. Leo queria ter o prazer de presenciar a falência dos Kassianides, graças a uma fusão que seu pai conseguira com Aristotle Levakis, um dos mais poderosos magnatas da indústria na Grécia. H agora que estava a ponto de presenciar a ansiada vingança, Leo perdera o entusiasmo. Não conseguia deixar de pensar na avó e no quanto ela esperara por aquele momento e nem tivera a chance de testemunhá-lo. Um pigarro discreto o tirou desses devaneios. — Já chegamos senhor. Ele olhou irritado para o comissário de bordo que gesticulava na direção da porta e sentiu vontade de ordenar que fechassem a maldita porta e regressassem para Nova York imediatamente.


Porém, o bom-senso imperou e ele se ergueu do assento e caminhou contrariado pelo corredor estreito sob o olhar curioso de seus tripulantes. Leo estava acostumado a suportar os olhares dos subordinados e isso não o incomodava. Mas, naquele instante, sentiu a raiva aumentando. Porém, logo ao sair do jato particular e sentir o sol de Atenas aquecer-lhe o corpo, um estranho sentimento de familiaridade o sacudiu. Como isso poderia acontecer? Era a primeira vez que respirava o ar da Grécia e sentia o coração bater forte e emocionado. Leo imaginara que iria sentir uma espécie de traição com a memória da avó. Mas, por incrível que pudesse parecer, Leo intuía a presença dela como se a avó o estivesse impulsionando para a frente. Para um homem guiado pela lógica e pelo intelecto, aquela era uma sensação perturbadora. Leo tinha o pressentimento de que sua vida estava a caminho de uma mudança imprevisível... Enquanto isso, outro drama se desenvolvia no lado oposto da cidade de Atenas. — Precisa respirar fundo e depois me contar o que está errado, Delphi! Não posso ajudá-la se não me disser o que aconteceu! Aquelas palavras só intensificaram ainda mais o pranto da irmã mais nova de Angel que, entre soluços, desabafou: — Eu... Eu não queria que isso tivesse acontecido... Angel. Ainda estou cursando a Faculdade de Direito. Angel afastou a mecha de cabelos que encobria parte do rosto da irmã e a prendeu atrás da orelha. Depois falou com voz suave: — Seja o que for, nós acharemos uma solução, querida. Ela era uma garota calma e tímida. E se tornara ainda mais introvertida depois do trágico acidente acontecido seis anos antes, que roubara a vida da sua irmã gêmea. Após a tragédia, ela dedicara sua vida apenas aos estudos. Por isso, quando ela revelou que estava grávida, Angel ficou tão surpresa que apenas a fitou por alguns segundos, como se não tivesse entendido o que a irmã acabara de lhe contar. — Você me ouviu, Angel? — insistiu Delphi. — Estou grávida! Isso é o que há de errado comigo!


Angel tomou as mãos de sua meia-irmã entre as suas e fitou os olhos de tom castanho-escuro, completamente diferente dos dela, que eram claros e azuis, embora fossem filhas do mesmo pai. — Como permitiu que isso acontecesse, Delphi? A irmã enrubesceu. — Bem... Você sabe que eu e Stavros nos gostamos há muito tempo e... de repente... concluímos que era o tempo certo para iniciarmos algo mais íntimo. Angel entendia perfeitamente o que a irmã lhe transmitia, por que era o que ela também desejara um dia. — Nós usamos proteção... — Delphi corou novamente, embaraçada por revelar sua intimidade a Angel. — Mas acontece que o preservativo se rompeu. E agora... — Stavros já sabe? Ela assentiu com um gesto de cabeça. — No dia do meu aniversário, no mês passado, ele me pediu em casamento. Angel não ficou surpresa. Sabia que os dois estavam apaixonados desde muito jovens. — E ele falou sobre isso aos pais dele? Delphi assentiu e novas lágrimas rolaram pela face enrubescida. — O pai dele ameaçou deserdá-lo se Stavros se casasse comigo. Você sabe que aquela família nunca nos aceitou... Angel concordou balançando a cabeça de maneira vagarosa. Stavros fazia parte de uma das mais tradicionais famílias da Grécia e os pais dele eram pessoas arrogantes e orgulhosas. — O pior — prosseguiu Delphi — é que a família Parnas-sus está de voltaem Atenas. E todos sabem o que aconteceu e como nosso pai está à beira da falência... Um sentimento de vergonha se apoderou de Angel quando a irmã mencionou o nome Parnassus. Muito tempo atrás, sua família acusara os Parnassus de um homicídio horrendo. E só recentemente o caso ficou esclarecido através do bilhete deixado pelo seu tio-avô Costas, antes de se suicidar, confessando que fora ele quem cometera o crime. E agora que a família Parnassus recuperara a honra e a riqueza, buscava vingança. O escândalo que sacudiu a cidade de Atenas e a pressão da família rival abalaram os alicerces do pai delas, Tito


Kas-sianides, que ficava cada vez mais vulnerável e estava na iminência de falir. Parnassus não teria sossego até que todos da cidade soubessem o quanto a família Kassianides abusara do poder contra os Parnassus da maneira mais odiosa possível. — Stavros propôs uma fuga para nos casarmos, mas eu não aceitei. Não quero ser responsável por ele ser excluído da herança. Sei o quanto Stavros deseja entrar na política e isso arruinaria as chances dele. Angel ficou comovida com a bondade da irmã. Porém não deixaria de comentar sobre a situação em que ela se colocaria. — E quanto a você, Delphi? Também merece ser feliz e ter um pai para o seu bebê. Naquele instante, a porta de entrada no andar térreo foi aberta e depois trancada com um barulho estrondoso. — Ele chegou... — Delphi sussurrou apavorada ao ouvir o som das pisadas cambaleantes na escadaria, por conta da bebedeira do pai delas. Subitamente, Angel se deu conta de que precisava a qualquer custo proteger a irmã mais nova que agora estava grávida. Delphi não poderia suportar a vergonha de um escândalo ou perder seu amado Stavros. — Você fez a coisa certa em me contar sobre a gravidez — Angel declarou apoiando as mãos sobre os ombros da irmã. — Apenas aja como se tudo estivesse normal e descobriremos alguma solução. — E se o papai ficar fora de controle enquanto minha mãe estiver fora? — Shh... Sempre estive ao seu lado, não estive? Confie em mim — Angel sussurrou. Delphi a olhou desconfiada. Angel não estivera ao lado dela quando ela mais precisara. E isso acontecera quando Damia, a irmã gêmea, morrera no acidente. E fora por esse motivo que Angel fizera a promessa de não se afastar de casa até que Delphi conquistasse a própria independência. — Só quero que cuide de você e do bebê. Deixe a preocupação por minha conta -—Angel tranquilizou a irmã e Delphi se apressou em abraçá-la e agradecer o apoio. Em alguns meses sua irmã caçula estaria com o ventre avolumado e Angel precisava se assegurar de que Delphi e


Stavros já estivessem casados quando isso acontecesse. Delphi nunca tivera a mesma segurança da irmã gêmea. — E se o papai descobrir...? — Ele não descobrirá. Eu prometo. E agora por que não vai para a cama e tenta descansar? Eu cuidarei de tudo. CAPÍTULO UM Eu cuidarei de tudo. Aquelas palavras ainda reverberavam na mente de Angel uma semana depois. Ela tentara falar pessoalmente com o pai de Stavros e ele nem mesmo se dignara a atendê-la. Nem seria preciso deixar mais claro o quanto ele desprezava os membros da família Kassianides... A voz do chefe interrompeu esses pensamentos. — Preciso que você desça até a piscina e verifique se a água está limpa e as mesas perfeitamente arranjadas. Ela murmurou uma desculpa pela distração e apressou-se em cumprir as ordens. Estava tão estressada que nem se deu conta de que a festa que ajudava a organizar no palacete localizado nas colinas de Atenas pertencia à família Parnassus. E se tratava de uma recepção de boas-vindas para Leonidas Parnassus, filho de Georgios Parnassus. Enquanto descia a escadaria, ouvia murmúrios dos colegas sobre o fato de que Leonidas Parnassus teria se tornado um empresário bem-sucedido na América e que agora estava em Atenas para recuperar os negócios da família. Então ela estava mesmo na residência dos Parnassus? A família que odiava os Kassianides? Ela estacou por um segundo e levou a mão ao peito. Aquele era o pior lugar do mundo onde Angel poderia estar. Quanta ironia... Ela estava ali para servir drinques para a família Parnassus e seus convidados... Só de imaginar o que o pai faria com ela se ficasse sabendo disso fez com que transpirasse de desgosto. Angel beliscou o lábio inferior e forçou-se a prosseguir. Suspirou aliviada ao chegar na área da piscina e descobrir que ainda não havia ninguém por lá. E nem haveria razão para isso, embora alguns convidados estivessem hospedados na mansão, com certeza ainda era cedo para estarem prontos para a festa.


Um arrepio percorreu-lhe a espinha ao dar-se conta de que não poderia se esquivar de trabalhar naquela noite. Ela e as colegas garçonetes tinham sido levadas por um micro-ôni-bus até o palacete sem serem avisadas a quem pertencia a residência na qual festa seria realizada. Essa era uma norma da empresa e todos os funcionários já estavam cientes dessa conduta. E Angel sabia muito bem que se recusasse o trabalho naquela noite, com certeza perderia o emprego. E não poderia permitir que isso acontecesse. Principalmente pelo fato de que o salário que recebia era a única maneira de ajudar a manter os estudos da irmã e a própria sobrevivência. Ela procurou tranquilizar a mente com o pensamento de que seu chefe era inglês e havia se mudado recentemente para Atenas. Por conta disso, não sabia nada sobre a rivalidade da família dela com a família dos Parnassus. E, por sorte, naquela noite nenhum dos funcionários contratados morava em Atenas. O único receio de Angel era que, eventualmente, algum dos convidados pudesse reconhecê-la. Porém, conhecendo o esnobismo daquelas pessoas, ela sabia que, estando uniformizada como garçonete, ninguém prestaria atenção nela. E também, quem sabe ela não pudesse permanecer a maior parte do tempo na cozinha preparando as bandejas e evitando... Angel pensava enquanto verificava as mesas. De repente os devaneios foram interrompidos pelo ruído de braçadas na água, próximo de onde ela se encontrava. Havia alguém na piscina... Angel girou o corpo para verificar de onde vinha barulho, quando se deparou de repente com um homem alto, musculoso e de pele bronzeada que acabava de sair da piscina e caminhava na direção dela. Ela sentiu os joelhos bambearem diante da imagem fantástica que parecia um deus grego. Gotas espessas de água escorriam dos ombros poderosos como se fosse uma cascata iluminada pelos raios agonizantes do sol ardente de Atenas. Deuses gregos não existem na verdade, pensou ela. Aquele era um homem de carne e osso... No instante em que Angel percebeu que estava paralisada e com o olhar fixo no corpo magnífico do homem, entrou em pânico.


Começou a recuar alguns passos, insegura do que deveria fazer em seguida. Para piorar, tropeçou em uma espreguiçadeira e teria se estatelado sobre a cadeira se o estranho não fosse muito ágil e a agarrasse antes que ela caísse para trás. Em vez disso, Angel caiu para a frente, direto contra o peito dele, com as palmas das mãos apoiadas nos ombros imensos. Por um momento, ela tentou enganar-se de que aquilo não estava acontecendo... Não podia acreditar que estivesse com o corpo literalmente "colado" no peito nu e encharcado qüe mais parecia uma muralha de músculos. Os lábios quase tocando os pelos escuros e fartos do tórax masculino. Com grande esforço ela conseguiu libertar-se do abraço forçado. Um rubor intenso coloriu seu rosto. Quando endireitou os ombros e o encarou, o espanto foi maior: "Deus!", ela exclamou em pensamento, o rosto dele era simplesmente devastador... Cabelos negros e espessos, olhos escuros e um brilho dourado e a boca... incrivelmente sensual. Uma linha fina formada pòr uma cicatriz antiga se estendia a partir do lábio superior até a base do nariz reto e perfeito. Angel precisou conter a vontade absurda de tocar na marca sutil e perguntar-lhe o que havia acontecido. Mas por qual razão lhe interessaria saber dos problemas de um completo estranho? Subitamente, com um sorriso esplêndido, ele perguntou: — Você está bem? Ela apenas moveu a cabeça com um gesto positivo. Angel notou que ele falava com sotaque americano. Provavelmente seria um dos convidados. E ao lembrar-se da festa, imediatamente retornou à realidade de onde estava. — Obrigada. Estou bem — ela agradeceu, assim que conseguiu falar. Ele ergueu as sobrancelhas demonstrando surpresa. — Você não é grega? — Sou grega, mas também me considero irlandesa. Passei a maior parte da vida em um internato na Irlanda. Por isso, minha pronúncia não é bem definida. Ele baixou os olhos para o uniforme dela e perguntou curioso: — E por que razão trabalha como garçonete?


Angel se deu conta de que deveria ter mantido a boca fechada. Apenas as garotas de famílias ricas da Grécia eram enviadas para estudar no exterior. Sem saber o que dizer, ela fitou um ponto qualquer na região do ombro dele e falou casualmente: — Desculpe-me, mas preciso voltar ao trabalho. — Está bem — respondeu ele com um sorriso matreiro. — Mas é melhor secar a blusa antes de começar a servir os drinques. Angel acompanhou o olhar dele e descobriu que sua blusa parecia transparente por estar ensopada. Os mamilos enrijecidos salientavam-se por trás do tecido rendado do sutiã branco. Mortificada pela vergonha, ela deu um gemido de espanto e recuou, quase trombando na espreguiçadeira outra vez... Um pouco mais tarde, Leonidas Parnassus corria os olhos pelo salão lotado de convidados tentando avistar a garçonete que conhecera na beira da piscina. Sentia-se contrariado com a ansiedade em querer vê-la novamente. Enquanto estava embaixo do chuveiro, ele sorrira com a lembrança da face corada e o espanto ostentado nos lindos olhos azuis, que o observavam como se nunca tivessem visto um homem antes. Talvez ela tivesse se assustado com a aproximação dele. Leo notara que ela estava tão distraída e até preocupada com o que fazia, que nem mesmo o notara. E ele não estava acostumado a ser ignorado pelas mulheres. Onde será que ela está? — Leo se perguntava. Naquele instante o pai se aproximou com um amigo e Leo forçou um sorriso. Ficou impressionado de ver como o pai havia enfraquecido desde a última vez que o vira. Um profundo senso de responsabilidade o sacudiu. Leo precisava ficar ali e ajudar o pai a manter o império que pertencia aos Parnassus. Será que se acostumaria a chamar Atenas de "lar"? O coração se acelerou. Lembrou-se da cobertura que mantinha em Nova York, bem no meio dos arrojados arranha-céus. E também da amante loura e sofisticada que costumava visitar de vez em quando. O que aconteceria se resolvesse abandonar tudo aquilo? Nada. Uma voz interior o avisava.


Atenas conseguira despertar algo em seu interior que o identificava com a cidade, embora ele não pudesse entender com clareza. De súbito, ele avistou no fundo do salão uma figura familiar. Com os cabelos presos no alto da cabeça e o andar inseguro, Leo não tinha dúvidas de que se tratava da garçonete que conhecera naquela tarde. Angel procurava manter a cabeça baixa e não encarar ninguém. Permanecera na cozinha o maior tempo possível preparando as bandejas, porém o chefe lhe havia pedido para ajudar no salão, uma vez que ela era a garçonete mais experiente do grupo. No momento em que avistou Aristotle Levakis num canto do salão — o homem que havia sido amigo do pai dela e agora passara para o lado dos Parnassus —, sentiu o estômago enjoar e entrou em pânico. Seria um desastre se o homem a reconhecesse. Estacou tão de repente, que a outra garçonete que passava por ela naquele mesmo instante, sem querer trombou com Angel, fazendo com que ela perdesse o equilíbrio da bandeja em que carregava quatro taças de vinho tinto. Para seu total desespero, as quatro taças entornaram o líquido e uma grande parte atingiu o vestido branco da convidada mais próxima. E no instante em que a mulher olhou para as manchas vermelhas deixadas pelo vinho na roupa de grife, começou a gritar com histeria: — Garota estúpida! Garota estúpida!... Logo a gritaria chamou a atenção das pessoas ao redor e Angel viu o homem que conhecera na piscina se posicionar ao seu lado. O coração de Angel pareceu perder o ritmo. Ele afastou a mulher para um lado e começou a falar com ela em voz baixa. O chefe de Angel chegou no instante seguinte e, tomando o comando da situação, acompanhou a mulher para uma saída nos fundos do salão. Angel ouviu quando o chefe garantiu que a garçonete responsável pelo acidente seria sumariamente despedida. Porém, mais intimidante que as palavras do chefe, era a imagem do homem vestido num deslumbrante smoking e que pacientemente tirara a bandeja da mão dela entregando-a para outra garçonete. A sujeira do chão provocada pelo derramamento do vinho já estava sendo limpa.


Angel teria protestado para que ela mesma fizesse a limpeza, se fosse capaz de falar... Todos os serviçais pareciam intimidados com a presença do homem que ela conhecera na piscina e se apressavam em colocar ordem na bagunça. Enquanto isso, Leo segurou um cotovelo de Angel e a conduziu para uma porta lateral que levava a um enorme terraço. O ar fresco significou um alivio para Angel, que sentia o calor subir-lhe ao rosto por conta do embaraço. Para aliviar a tensão, apoiou as mãos na balaustrada, enquanto percebia que o homem trancava as portas da varanda para proporcionar-lhes um pouco de privacidade. Com um sorriso nos lábios e as mãos nos bolsos da calça, Leo aproximou-se dela e comentou: — Então nos encontramos de novo... Ele era tão bonito e gentil que Angel sentiu o corpo estremecer outra vez. — Eu sinto muito... Deve estar pensando que não passo de uma desastrada. Mas garanto que não sou assim. Obrigada por me ajudar — ela agradeceu, gesticulando na direção do salão. — O vestido daquela senhora ficou imprestável. Com certeza meu chefe pretenderá recuperar o prejuízo descontando do meu salário. O que levará no mínimo um ano, para conseguir pagar uma roupa tão cara. Leo retirou uma das mãos do bolso para repousá-la em um ombro dela em um gesto de apoio. — Não se preocupe. Eu sou testemunha de que foi um acidente. — Não gostaria de envolvê-lo. Nem mesmo o conheço — ela argumentou. — Eu não diria isso. Acho até que estivemos bem próximos esta tarde — ele afirmou sorrindo provocante, lem-brando-a de como seus corpos ficaram colados por instantes. E, movendo a mão que mantinha num ombro dela, afagou com o polegar a curvatura delicada do pescoço de Angel. — Sabia que não parei de pensar em você desde aquele momento? Pela segunda vez em um mesmo dia, Angel se sentiu paralisada. Não conseguia pensar direito e nem mesmo falar, de tão extasiada com a proximidade daquele homem espetacular. Diante do silêncio dela, ele prosseguiu:


— O que acha que aconteceria se eu lhe desse um beijo exatamente agora? Leo começou a inclinar a cabeça e ela pensou em cobrir a própria boca com a palma da mãos. Mas os lábios dele estavam tão próximos e pareciam tão sedutores, que ela apenas fechou os olhos. Ele ergueu o queixo feminino para ajustar a posição dos lábios e quando o beijo estava para acontecer, o som da porta do terraço sendo aberta e o chamado de uma voz feminina o interrompeu: — Sr. Parnassus? Angel reconheceu a voz de Olympia Parnassus, a atual esposa do anfitrião da festa. Sabia disso, por ter ouvido a mulher ministrar instruções específicas para o grupo de funcionários que atenderia os convidados, poucos minutos antes de a festa ter início. Angel nem mesmo saberia dizer como conseguira se afastar tão rápido dos braços masculinos. — Leo, querido — a mulher falou em tom meigo. — Seu pai está esperando por você. Está na hora dos discursos. — Dê-me apenas dois minutos, Olympia. A mulher murmurou algo e se afastou, trancando as portas depois de sair. Então o homem que ela conhecera na piscina era na verdade Leonidas Parnassus? Chocada com a inesperada descoberta, Angel sentiu que precisava sair dali o mais rápido possível. Ele esboçou um sorriso sensual e comentou: — Perdoe a interrupção. Mas onde estávamos mesmo?

Angel permanecia horrorizada por quase ter sido beijada por Leonidas Parnassus. O homem que pertencia à família que expunha seu pai a um escândalo público e à falência iminente. E tudo pela ganância por vingança. Por um instante pensou na irmã e na situação delicada em que se encontrava. Delphi não merecia pagar por algo que acontecera décadas antes.


— Eu não sei o que está planejando. Mas eu preciso voltar ao trabalho. Se o meu chefe souber que estou aqui fora com você, ele terá uma razão extra para me despedir. Leonidas Parnassus a olhou por um longo momento antes de recuar um passo. — Peço-lhe desculpas — ele falou friamente. — Eu jamais teria me atrevido se não tivesse a certeza de que você desejava ser beijada. — E aproximando-se novamente ergueu-lhe o queixo, forçando-a a encará-lo. —A quem pensa que engana? Eu conheço os sinais de excitação nos olhos de uma mulher. E foi exatamente p que presenciei na borda da piscina e poucos minutos atrás. — Não seja ridículo! — ela exclamou, irritada com a arrogância dele. — Só quero que saia do meu caminho para que eu possa voltar ao trabalho. — Farei isso — ele afirmou. — Mas antes, quero provar que estou certo. Antes que Angel pudesse ter qualquer reação, Leo amparou o rosto dela entre as próprias mãos e capturou-lhe os lábios num beijo avassalador. Ela ainda tentou afastá-lo com as palmas das mãos erguidas. Contudo, o peito que parecia ser feito de aço não se moveu um milímetro sequer. Vencida pelo sabor do beijo caloroso, Angel partiu os lábios e relaxou os braços. A língua masculina aproveitou para explorar os cantos mais remotos do interior da boca pequena. Foi um beijo tão íntimo que a tirou da realidade. Tudo o que ela ainda podia distinguir era uma sensação inebriante de prazer que a fazia se dissolver nos braços de Leo. E, justamente no instante em que ele avidamente devorava os lábios e a levava a uma espiral de sentimentos até então desconhecidos, Leo interrompeu o beijo e recuou um passo. O rosto estava completamente corado pela emoção, ou talvez pelo orgulho de ter provado que ela o desejava. Mortificada pela própria fraqueza, Angel tentou recompor o equilíbrio e acalmar sua frustração pelo inesperado rompimento da carícia. Com o coração ainda acelerado, ela permaneceu em silêncio enquanto ele a observava.


Uma tosse discreta ecoou próxima deles e a voz grave de um funcionário se seguiu: — Desculpe-me, senhor. Seu pai está solicitando sua presença no salão. Leonidas tornou a olhar para Angel. O rosto impassível e muito diferente do que ela testemunhara antes do beijo. — Logo estarei de volta. Espere-me aqui mesmo — Leo falou em tom de comando e se afastou na direção do salão, alisando os cabelos com as próprias mãos. Angel o seguiu com os olhos e por um instante admirou a figura imponente do homem que se destacava na multidão. Ela mal podia acreditar no que acabara de acontecer. E para comprovar a realidade tocou com um dedo os lábios inchados pela pressão da boca masculina. E, para ser sincera consigo mesma, ela admitiu que em nenhum momento do relacionamento que tivera com Achilles provara tamanha sensação. Nem nos instantes de maior paixão... Ela se sentiu aborrecida por estar se recordando de coisas passadas, como se já não bastassem os problemas que enfrentava agora. Entrou sorrateiramente no salão e rumou para a cozinha a fim de apanhar suas coisas e ir embora daquele lugar. Sabia que não poderia mais contar com o emprego. O incidente com o vinho já selara sua sorte de qualquer jeito. O envolvimento com o homenageado da festa apenas seria um motivo extra. Se o seu chefe ainda não sabia quem ela era, seria apenas uma questão de tempo para que descobrisse. E Angel não queria estar ali para expor-se àquele embaraço. Leo encontrava-se ao lado do pai e ouvia o inflamado discurso que ele proferia. Georgios Parnassus não fez segredo de sua intenção de passar para o filho as rédeas de alguns negócios. Leo não pretendia concordar tão facilmente, mas não podia negar o desejo de tomar de volta o que lhe pertencia por direito e lhe fora arrebatado. Eleja sabia que era essa a intenção do pai, quando lhe pedira para ir a Atenas pessoalmente. Porém, não lhe daria o gosto de vencer tão facilmente. O pai terminou o discurso e foi amplamente aplaudido. Contudo, Leo não conseguia tirar da cabeça a imagem da mulher que ele deixara no terraço. Espiou na direção das portas envidraçadas que ora se encontravam abertas e não conseguiu


avistá-la. Sentiu-se irritado ao imaginar que ela tivesse ido embora. Leo lhe pedira que o esperasse. Embora estivesse enfrentando um momento crucial que poderia modificar toda a sua vida, ele não conseguia parar de pensar na garçonete sensual que o atraíra tanto. Eleja conhecera mulheres que fizeram de tudo para despertar-lhe o interesse e de nada adiantara. As amantes que ele tivera eram mulheres maduras e experientes. Conheciam muito bem o esquema de Leo: nada de sentimentalismo ou pretensão de compromissos duradouros. Mas com a garçonete acontecera algo muito diferente. Leo jamais sentira um desejo tão intenso de beijar uma mulher. E não seria apenas para provar que ela estava errada. Havia algo muito maior que despertara dentro dele e por isso desejara deixar sua marca nos lábios dela. — Georgios não poderia ter sido mais claro. Está pronto para morder a isca, Parnassus? Leo estava tão mergulhado nos próprios pensamentos que levou algum tempo para retornar ao presente. As pessoas que estavam ao seu redor já haviam se locomovido para outro lugar qualquer. Ele piscou e viu que Aristotle Levakis, sócio de seu pai, o olhava curioso e esperava por uma resposta. Leo gostava de Ari Levakis. Eles haviam trabalhado juntos em uma fusão de empresas, com sede em Nova York. Entretanto, esforçava-se para lembrar o que Ari lhe havia perguntado. Não conseguia se livrar da tensão ao imaginar se por acaso a garçonete tivesse ido embora, e ele nem mesmo sabia o seu nome para poder procurá-la. Com um sorriso forçado, disfarçou: — Acho melhor discutirmos sobre negócios pela manhã. Ari concordou com um gesto de cabeça e mudou o assunto. Mesmo assim, Leo não conseguia se concentrar em nenhuma palavra do que o outro lhe dizia. Por um instante ele captou algo que o interessou nas palavras de Ari e perguntou: — Desculpe-me, mas poderia repetir o que acabou de dizer? — Disse que eu estava surpreso em ver Angel aqui. Eu vi quando você a levou para o terraço. Admito que ela seja muito corajosa — Ari comentou balançando a cabeça. — Sobre quem está falando?


— Angel Kassianides. A filha mais velha de Tito Kassia-nides. Estava trabalhando como garçonete. Foi aquela que derrubou vinho no vestido de Pia Kyriapoulos. Quando a levou para o terraço, presumi que estivesse fazendo isso para pedir discretamente que ela fosse embora. Naquele ponto, Ari espiou ao redor e concluiu: — Como não a vi mais por aqui, presumi que o que você disse a ela funcionou perfeitamente. Leo reagiu com surpresa ao ouvir o nome Kassianides mencionado pelo amigo. Aquele nome representava a dor e humilhação que sua família suportara por muito tempo. — Então aquela garçonete é filha de Tito Kassianides? — Você não sabia? Leo meneou a cabeça. De que modo ele poderia saber como se pareciam os filhos de Tito Kassianides se nunca tivera contato com aquela família? Um pensamento incômodo lhe ocorreu no momento em que analisou a questão. Se Ari sabia quem ela era, então outros convidados também deveriam saber. Leo nunca se sentira tão vulnerável. Será que ela teria planejado seduzi-lo e depois dizer que não se interessava por ele, apenas com o intuito de provocá-lo? Será que tudo não passava de um jogo, desde o instante em que o vira na piscina? E a surpresa que ela demonstrara nos imensos olhos azuis, será que ele confundira com desejo? Só esse pensamento o deixou furioso. Naquele instante, ele observou que o pai se aproximava com um grupo de homens. Leo não teria tempo agora para processar o que acabara de descobrir. Pelo restante da noite precisaria se comportar de maneira gentil e polida. Mas, tão logo tivesse oportunidade, procuraria por ela e exigiria algumas respostas. Nova York, uma semana depois. Leo permanecia estacado diante da imensa janela de seu escritório, de onde se podia avistar o centro de Manhattan. A vista lhe era familiar, contudo ele nem mesmo a observava. E desde que deixara Atenas, a única imagem que lhe povoava a mente era o rosto bonito de Angel e os olhos azuis que o fitavam com aparente desejo. Ele deu uma risada sarcástica e procurou afastar os pensamentos de tudo que se referia a Atenas.


Não admitira para ninguém e muito menos para o pai, que Atenas mudara algo dentro dele de maneira radical. Nova York estendida aos seus pés não significava mais nada além de uma floresta de prédios de concreto. Leo até decidira romper com a amante atual. Ela protestara com lágrimas e súplicas, porém ele não voltara atrás na decisão de terminar o relacionamento. Agora se sentia mais aliviado para poder pensar em Angel. Ele não tivera tempo de procurá-la porque precisara retornar com urgência para Nova York por causa de um problema que não poderia ser adiado. A crise na empresa parecia ainda ter que ser administrada por mais algumas semanas. E aquilo o deixava irritado. E o pior era que o excesso de trabalho não tinha a capacidade de interromper os pensamentos que ele mantinha em Angel. O sentimento de que talvez ela o tivesse feito de tolo ainda o perseguia. E se fosse o pai dela quem tivesse engendrado o plano para que a filha se aproximasse dele, então Tito Kassianides estava brincando com fogo. E, se não fosse ideia do pai dela, como ela ousara desafiá-lo daquela maneira? E principalmente na sua noite de apresentação para a sociedade de Atenas? Seria muita audácia... Parecia evidente que a família Kassianides não pretendia deixar o passado para trás. Talvez desejassem lutar até o último fôlego para reconquistar o poder. Leo franziu o cenho. Será que contavam com o apoio de alguma antiga elite da cidade de Atenas? Talvez essa hipótese devesse ser investigada. Ou talvez não fosse nada disso e o encontro com Angel se tratasse de pura coincidência. Contudo, a voz interior insistia: Também seria coincidência o fato de que, dentre tantas outras mulheres, ela fora a única que lhe despertara interesse? Leo fechou as mãos em punho e decidiu que não a deixaria impune por tê-lo provocado. Retornou para a mesa de trabalho e fez um telefonema rápido. Quando terminou a conversa, voltou para junto da janela.


Leo acabara de resolver regressar para Atenas e tomar conta do Parnassus Shipping. Assim que terminasse de resolver suas pendências em Nova York, embarcaria para Atenas. Angel Kassianides não era a principal razão de sua decisão em retornar para Atenas, mas com certeza o primeiro problema a ser esclarecido. CAPÍTULO DOIS Um mês depois. Angel sentiu o coração bater desordenado e um suor frio espalhou-se pelo corpo. Pela segunda vez em apenas duas semanas, ela se encontrava no pior lugar do mundo: a mansão dos Parnassus. Sentiu um frio na barriga quando olhou para o terraço e se recordou do que acontecera ali entre ela e Leo Parnassus. Fechou os olhos e respirou fundo. Não queria lembrar-se de Leo e de como fora difícil esquecê-lo. Abriu os olhos novamente e tentou descobrir onde se localizaria o escritório particular de Georgios Parnassus. Evitava acender as luzes para não chamar muita atenção. Porém, ficava mais difícil caminhar na penumbra do anoitecer. Para sua tranquilidade, o lugar parecia completamente vazio. As notícias dos jornais estavam corretas. Georgios Parnassus estava com a saúde abalada e recentemente decidira descansar em uma pequena ilha grega que adquirira recentemente. Ela vasculhou a bolsa que usava para certificar-se de que pegara o documento que era a razão de estar ali. E acreditava que estava fazendo a coisa certa. Angel havia lido nos jornais, dois dias antes, a notícia de que Leo Parnassus decidira tomar as rédeas do Parnassus Shipping Fleet e estava retomando para Atenas de maneira definitiva. No dia anterior, quando ela retornara de seu novo emprego para casa, encontrara o pai sentado e debruçado sobre a mesa da cozinha, completamente alcoolizado e segurando um documento na mão. No instante em que ele percebeu a presença dela, ergueu a cabeça e sacudiu as folhas de papel no ar: — Você sabe o que é isso, Angel? Ela meneou a cabeça.


— Isso, minha cara, é o meu passaporte para sair da falência. E um dos mais profundos segredos da família Parnassus. Trata-se do testamento de Georgios Parnassus. — Ele deu uma pausa para tomar fôlego e prosseguiu: — Agora sei de todos os seus bens e quanto valem. E como ele planeja distribuí-los. E também, que a primeira esposa dele cometeu suicídio e eles encobriram o fato. — E alargando o olhar, ele acrescentou: — Pode imaginar o que aconteceria se esse documento fosse parar nas mãos das pessoas certas? Eu posso derrotá-los com isso. Eu posso derrotá-los com isso... Aquelas palavras revelavam que apesar das amarguras pelas quais os Parnassus haviam passado, seu pai ainda desejava prosseguir com a rixa. Estava tão cego pela ira que não conseguia enxergar o mal ainda pior que poderia ocasionar para a própria família. Sem mencionar a dor que infligiria para os Parnassus se revelasse os segredos de família se a história do suicídio estivesse correta. — Como conseguiu esse documento? O pai abanou uma das mãos no ar em um gesto de descaso. — Isso não importa. — Pagou alguém para entrar na residência dos Parnassus e roubar o documento? O rubor que coloriu a face do pai confirmou a temível suspeita de Angel. — E se eu fiz isso? O que lhe interessa? Agora saia da minha frente! Cada vez que olho para você me lembro da vadia que era sua mãe! Ela já estava acostumada ao palavreado vulgar do pai quando se referia à linda esposa irlandesa que os havia deixado e abandonado Angel com apenas dois anos de idade. Acabou decidindo abandonar a cozinha e esperar algum tempo para retornar. Logo o pai adormeceria ali mesmo, como era costume quando estava bêbado. E foi o que aconteceu. Ele praticamente desmaiara debruçado sobre a mesa com uma das mãos ainda segurando a garrafa vazia de uísque. O pior era que ele havia repousado a cabeça sobre o documento. Porém,


não fora difícil para Angel puxar as folhas devagar até conseguir apanhá-las sem que o pai percebesse. Ela guardou os documentos e resolveu que os levaria com ela para o trabalho no dia seguinte, e depois que saísse passaria pela mansão dos Parnassus e tentaria entrar sem ser vista para devolver o documento. Só não contava com os seguranças. Angel inventara a desculpa de que trabalhara como garçonete na última festa e de que se esquecera de algo importante dentro da casa. Para seu alívio, após uma consulta através de um celular para algum superior, eles permitiram que ela entrasse na mansão. Bastaria localizar o escritório e deixar o documento em uma das gavetas da escrivaninha e sair rápido daquele lugar. Angel não podia permitir que o pai despertasse mais ódio entre as famílias rivais. Seria ainda mais desastroso para o drama que Delphi enfrentava. Stavros prosseguia insistindo na ideia de fugirem juntos para se casarem, mas Delphi se recusava a se sentir responsável por arruinar os planos de carreira dele, além da inevitável ruptura familiar. Porém, a probabilidade de Delphi ser aceita pela família rival parecia cada vez mais improvável. Angel a ouvia chorar quase todas as noites e sabia que se algo não mudasse logo aquela situação, provavelmente o jovem casal permaneceria separado para sempre. E, para piorar, Delphi precisava se preparar para a prova anual na Faculdade de Direito. Os problemas a serem enfrentados eram tantos que por um minuto Angel se sentiu atordoada. Estacou e tentou acalmar os nervos. Não podia entrar em desespero. Sua respiração já estava começando a ficar ofegante. Faça o que tem de fazer e acabe logo com isso! Uma voz interior censurava e encorajava Angel a prosseguir. Notando uma porta semiaberta ao longo do corredor, ela parou para sondar o aposento. Empurrou a porta bem devagar e suspirou aliviada ao ver que se tratava do escritório que procurava. A luz do luar que penetrava através da janela parecia suficiente para se aproximar da escrivaninha e colocar o testamento em uma das gavetas. Abriu a bolsa e apanhou o documento. Porém, no instante em que acabava de depositar o documento em uma


gaveta, as luzes da sala foram acesas. Angel assustou-se e deu um passo para trás e nem teve tempo de fechar a gaveta. Leonidas Parnassus estava próximo da porta e mantinha os braços cruzados na frente do peito. — Que diabos você está fazendo aqui? Angel piscou repetidas vezes e precisou lutar contra a sensação de desmaio que a ameaçava. Só não conseguia falar. Essa habilidade parecia ter desaparecido no instante em que se encontrava a alguns passos de Leo Parnassus. Trajando calças escuras e uma camisa azul em tonalidade clara, ele parecia ainda mais bonito do que ela se lembrava nos sonhos que a atormentaram nas últimas sete semanas. Com passos largos ele cruzou o espaço que os separava e estacou na frente dela. Angel se mantinha paralisada. Abrira a boca por duas vezes, mas a voz não a socorrera. — Muito bem, Kassianides. Vamos ver o motivo que a atraiu até aqui. Ela observou calada enquanto Leo apanhava o documento da gaveta e examinava o conteúdo. Ouviu uma exclamação de surpresa quando Leo descobriu do que se tratava. — Por que razão está interessada no testamento do meu pai? Você pretendia roubá-lo ou apenas copiá-lo? Angel meneou a cabeça e estranhou o fato de Leo tê-la chamado pelo nome de Kassianides. — Você... Você sabe quem eu sou? Ele endureceu as feições e não respondeu. Apenas jogou o testamento sobre a mesa de trabalho e, segurando um braço de Angel, forçou-a a contornar a escrivaninha e se acomodar em uma cadeira posta num canto da sala. — Eu já deveria saber, desde sua última atuação, que você não tem nenhum escrúpulo sobre ultrapassar limites e invadir espaços onde não é bem-vinda. Leo não havia respondido à pergunta, mas estava evidente que ele sabia exatamente quem era ela, Angel deduziu. Talvez algum convidado a tivesse reconhecido e contado a ele depois de Angel ter saído. Ela sabia que provavelmente ele não acreditaria, mesmo assim, resolveu falar: — Se eu soubesse onde teria que trabalhar naquela noite jamais teria aceitado. Quando descobri, já era tarde demais.


— Por favor... Você pode enganar outra pessoa com esse jeito de inocente, mas não a mim. Depois do que acabei de presenciar, eu a considero uma pessoa desesperada para recuperar o prestígio. Assim como toda a sua família. Angel não considerou justo que ele a condenasse pelo erro de seus ancestrais ou de seu próprio pai. — Você está enganado! Eu não vim aqui para roubar nada. Acontece que... Ele a interrompeu erguendo uma das mãos no ar e pedindo silêncio. Angel se calou e entendeu a inutilidade de seus argumentos. Fora flagrada em uma situação constrangedora e não poderia culpar Leo pelo que ele poderia estar pensando. Ela o observava caminhar de um lado para o outro, como se estivesse indeciso sobre o que deveria fazer. De repente estacou na frente dela. Os olhos escuros a estudavam de maneira fria. — O que... O que pretende fazer? — ela perguntou temerosa. — Está pensando em chamar a polícia? Leo ignorou a pergunta que ela lhe fazia e caminhou até o pequeno bar, ao lado da estante de livros, e serviu-se de uma dose de uísque. — Seu pai a mandou naquela noite da festa para sondar a casa e descobrir onde ficava o escritório, ou você agiu por conta própria? Ela cruzou as mãos sobre o colo para disfarçar o nervosismo. — Eu já lhe disse. Na noite da festa eu não tinha ideia de onde seria realizada. Eu prestava serviços para uma empresa especializada em organizar eventos sociais e eles não costumavam fornecer dados pessoais dos clientes para seus contratados antes de nos encontrarmos no local. Leo deu uma risada sonora. — E agora? Qual é a desculpa? — ele perguntou assim que parou de rir. — Sabe o que eu acho? Assim que você e seu pai souberam que Georgios Pamassus tinha viajado, aproveitaram a oportunidade para tentar furtar o testamento. Só não contavam com a minha presença na casa. — N... Não havia essa previsão nos jornais... Leo ergueu uma das sobrancelhas com evidente insinuação. Angel percebeu que o comentário ingênuo soara de maneira


equivocada. Deveria ter mantido a boca fechada, ela concluiu em pensamento. Não pretendia confessar-lhe que lia diariamente os jornais para acompanhar os movimentos dele apenas por curiosidade. — Decidi vir para Atenas uma semana antes do combinado. Pelo fato de estarmos em um momento de transição na posse de empresas importantes, pretendia surpreender certas pessoas. — Então você já sabia que eu estava na mansão. O segurança ligou do celular para obter sua autorização, não foi? Leo apenas gesticulou na direção de um painel no fundo da sala. Angel comprovou a existência de um sistema de monitoramento dos portões e do interior da residência. Ele provavelmente acompanhara todos os movimentos dela. Angel envergonhou-se da própria ingenuidade. Estava claro que ela jamais se aproximaria daquela casa de maneira tão fácil se ele não tivesse concordado. Angel tornou a encará-lo e assustou-se com a severidade que viu no rosto de Leo. O homem na sua frente estava a quilômetros de distância do estranho sedutor que ela conhecera à beira da piscina. — Sua audácia é espantosa! E parece claro que tem esperanças de recuperar as mordomias que desfrutava no passado, mesmo sabendo que aquela posição social não lhe pertence mais. Angel teria rido se ele tivesse alguma razão. Tito Kassia-nides realmente fora um homem rico, mas não passava de um déspota que conduzia a família com mãos de ferro. E não se tratava de audácia o motivo pelo qual ela estava ali e sim um desejo de evitar dissabores para ambas as famílias. — Eu juro que não vim aqui para roubar nada. Leo ignorou o protesto dela e apontou um dedo na direção do testamento sobre a escrivaninha. — O que esperava fazer com isso? Tito Kassianides pretendia usar as informações para prejudicar os negócios do meu pai ou tencionava algum tipo de chantagem? E quanto a você? Queria obter informações valendo-se do beijo que compartilhamos naquela noite? Angel corou violentamente quando Leo mencionou o beijo que trocaram no terraço. Então se lembrou das palavras insensatas do pai na noite anterior. Tito Kassianides pensaria da mesma


maneira se soubesse a respeito do beijo entre ela e Leo Parnassus. Uma vez mais, Angel se convenceu de que não adiantaria dizer a verdade. Leo jamais acreditaria na inocência dela. Principalmente quando as circunstâncias comprometedoras eram tão evidentes. O que ela faria de melhor seria ir embora dali o mais rápido possível. — Ouça-me, por favor. Você está com o testamento e eu peço desculpas por ter ultrapassado os limites. Prometo que, se me deixar ir embora, nunca mais me verá ou ouvirá falar de mim. Angel nem queria pensar na reação que seu pai teria quando soubesse o que ela fizera. E por certo não poderia garantir que ele não tentasse alguma coisa estúpida de novo. Ela, porém, pretendia manter sua boca fechada. Leo provou o uísque e a seguir depositou o copo no balcão do pequeno bar. Angel acompanhava os movimentos dele em silêncio. E quando ele girou o corpo e se aproximou dela novamente, Angel notou que os olhos escuros de Leo ostentavam um brilho dourado. Exatamente o mesmo que ela vislumbrara na noite da festa antes de acontecer o beijo. Por um instante ela observou que ele percorria o olhar pelo jeans surrado que ela usava e depois para o top e a jaqueta, ambos na cor preta. Além dos tênis de tecido leve e na mesma cor. A intenção de não ser notada no escuro era óbvia. Angel sentiu o coração se acelerar e começou a pensar em uma maneira de sair dali. Se ela apenas se erguesse e caminhasse para a porta, talvez ele não a impedisse. Afinal, ela não entrara na mansão sem a permissão do segurança. Porém, no instante em que se levantou da cadeira, Leo segurou um braço dela com tanta rapidez que Angel perdeu o equilíbrio. Ele a enlaçou pela cintura com o braço livre e a amparou contra o próprio peito. Ela sentiu o ar lhe faltar e Leo amenizou a força com que a segurava. Contudo, manteve uma das mãos repousada nas costas femininas e a outra sob o queixo miúdo, forçando-a a encará-lo. — Sabe que me fez um favor, Kassianides? — ele declarou com sarcasmo. — Economizei tempo. Eu pretendia mesmo procurá-la


para tirar satisfações. Por acaso não achava que poderia espionar naquela festa e sair dela sem nenhuma consequência, achava? Angel nada respondeu e ele avançou um passo. O imenso tórax continuava pressionando o busto feminino. — Eu também estava pensando em não ser tão rigoroso por você ter servido como garçonete naquela festa. Não seria justo condená-la apenas pelo fato de ser filha de Tito Kassianides. Naquele ponto, Angel sentiu um lampejo de esperança de que ele pudesse entender os motivos reais de ela estar ali. Porém, antes que abrisse a boca para explicar, Leo prosseguiu: — Infelizmente, no minuto em que a surpreendi tentando roubar documentos importantes para prejudicar minha família, o meu conceito a seu respeito mudou completamente. A sua ingenuidade chega a ser patética. Acredita mesmo que se eu não estivesse aqui, você teria acesso tão fácil? As poucas esperanças que ela tivera antes acabavam de ruir. Angel se debateu para tentar livrar-se do abraço forçado. E foi ainda pior. Leo a aprisionou com mais força. Os seios dela ficaram ainda mais pressionados contra o peito que parecia ser de aço. A boca masculina estava tão próxima que ela podia sentir o calor da respiração ofegante. — Pensa que conseguirá se safar tão fácil, Kassianides? — O que pretende fazer? — Havia mais uma razão para que eu a procurasse. — E qual era? — ela perguntou, enquanto mergulhava o olhar nas profundezas dos olhos escuros que ainda mantinham o brilho dourado, mas ostentavam uma determinação implacável. — A sua imagem me manteve acordado por semanas. E quanto mais eu tentava afastá-la da minha mente, mais eu a desejava. Embora desprezasse a mim mesmo por não ter conseguido esquecê-la, tinha a intenção de confessar que eu a queria, Angel. Ela não conseguia entender o que Leo queria dizer e nem a razão de ter ficado tão emocionada por ele chamá-la de Angel. Seria possível que em todas aquelas noites em que sonhara com ele, Leo também pensava nela? Ele inclinou a cabeça e sussurrou num ouvido dela: — Você veio aqui naquela noite apenas para tentar humilhar minha família. E agora voltou para nos roubar. Não sairá impune, Angel. Não pode brincar com fogo sem se queimar.


Angel entrou em pânico. — Mas eu não queria... Antes que terminasse a frase, Leo a silenciou com um beijo devastador. Até mesmo rude. Ele estava zangado e pressionava os lábios dela com fúria. Angel sentiu algumas lágrimas rolarem pelo rosto, e com as mãos de punhos cerrados tentava afastar a muralha de músculos que a mantinha cativa. Quando ele finalmente interrompeu o beijo, Angel podia sentir o peito gigante inflar e recolher-se repetidas vezes por conta da respiração acelerada. Ela deveria estar assustada, mas isso não acontecia. Era como se já esperasse por isso. E que, de alguma maneira, tudo aquilo estivesse correto. Leo afastou uma lágrima do rosto dela com um polegar e afirmou: — As lágrimas são desnecessárias, Angel. Pare de fingir que não me deseja! Ela fez um movimento involuntário e acabou ainda mais encaixada nos contornos da musculatura poderosa. Ofegou quando sentiu a excitação masculina roçar-lhe o ventre. Não podia acreditar que ainda sentia a mesma atração do primeiro dia em que o vira na piscina e ficara hipnotizada com o corpo magnífico do "deus grego". Quando Leo inclinou a cabeça novamente o beijo foi mais suave. Ela partiu os lábios para permitir que a língua masculina lhe proporcionasse carícias mais intensas. Leo pressionou ainda mais o corpo viril contra o dela enquanto explorava os recantos da boca feminina. Angel começou a mover os quadris sem saber exatamente o que estava fazendo. Apenas ansiava por mais... Leo segurou com firmeza na bainha do top que ela usava e o ergueu até a linha do busto. Desatou o fecho do sutiã e acoplou as palmas enormes nos seios fartos e livres. Com os polegares roçou os mamilos rígidos. Angel beliscou o lábio inferior. Devia estar louca para permitir que ele a desnudasse com tanta facilidade. O fascínio que sentia era tão poderoso que a impedia de esboçar qualquer reação. Quando ele abandonou o beijo para capturar um dos botões intumescidos e sugá-lo com vigor, ela agarrou firme nos ombros largos e jogou a cabeça para trás.


Angel sentia-se no limiar de um ponto desconhecido e do qual não havia retorno. A ânsia pelo prazer era tanta que ela temia perder completamente a noção de tempo e espaço. Leo introduziu um joelho entre as coxas femininas forçando-as a se apartarem. Em seguida, afagou o centro sensitivo por cima do jeans. Apesar da barreira que o tecido oferecia, os dedos grossos e hábeis pareciam saber como e onde tocá-la. Ao mesmo tempo, Leo prosseguia sugando os mamilos, um de cada vez. A tortura era tamanha que Angel gritou em desespero. A esperança de recuperar o autocontrole estava perdida. O mundo lá fora deixara de existir para dar lugar a uma única realidade: o prazer indescritível que aquele homem lhe proporcionava. De repente, com uma rudeza que quase beirava a crueldade, Leo interrompeu o que estava fazendo e sem nenhuma explicação ajustou o sutiã e travou o fecho. Em seguida desceu o tecido do top até que voltasse ao lugar certo. Angel permaneceu imóvel enquanto Leo rearranjava-lhe as roupas. O suor umedecia sua pele enquanto um sentimento de humilhação crescia dentro dela. Simplesmente não podia acreditar no que acabara de acontecer. Subitamente os joelhos bambearam e ela quase caiu aos pés dele. Leo praguejou algo e a ergueu nos braços. Seguiu até o canto da sala e a acomodou na mesma cadeira de antes. Incapaz de articular uma só palavra, ela baixou a cabeça, pouco se importando com as mechas de cabelo que lhe encobriram o rosto. Leo resolvera humilhá-la e ela não levara mais do que um segundo para se derreter nos braços dele. Como ele deveria estar se divertindo à custa dela... Leo a acusara de roubo pouco antes de beijá-la. E o que ela fez? Desmanchou-se feito geleia... Angel sentia as faces-tão quentes que pareciam estar em brasa. Ela nunca tivera uma experiência amorosa tão emocionante. Acreditava que estivesse apaixonada pelo namorado nos tempos de colégio. Mesmo assim nunca lhe dera a liberdade que acabara de conceder a um completo estranho. — Angel... A voz de Leo ecoou tão de repente que ela se assustou e se ergueu da cadeira num salto instintivo.


Tarde demais ela viu que Leo estava com o braço estendido e segurava um copo com uma bebida que pretendia lhe oferecer. Com o movimento brusco do corpo, ela acabou trombando na mão dele. O copo que Leo segurava saltou-lhe das mãos e foi parar no outro canto da sala e acabou se estilhaçando contra a parede. O líquido se espalhou provocando nódoas escuras no carpete claro. — Eu sinto muito... — Poderia apenas ter recusado, Angel. Eu jamais a forçaria. Por isso, não precisa bancar a virgem inocente. Se ele soubesse...! As palavras dele apenas a confundiram. Angel até achou conveniente o incidente para esfriar os ânimos. Ainda sentia o corpo tremer pela emoção. E ao mesmo tempo em que gostaria de socá-lo, queria que ele a tomasse nos braços e a beijasse outra vez. Com enorme esforço, ela empinou o nariz e avisou: — Eu não vi o copo na sua mão. Sinto muito. Vou limpar a sujeira agora mesmo. Ela seguiu para o canto da sala e começou a apanhar os cacos de vidro. — Deixe isso. Vou chamar alguém para limpar o lugar — ele ordenou, segurando um braço dela para impedi-la de prosseguir. Algo lhe chamou a atenfão e ele baixou os olhos para a mão dela: — Você está sangrando! Leo retirou cuidadosamente o pedaço de vidro que ela ainda segurava e o colocou sobre a escrivaninha, enquanto mantinha a pequena mão repousada sobre a dele. Com a mão que estava livre, ele apanhou o telefone sobre a mesa de trabalho e, após discar um número, ditou instruções em grego para a pessoa do outro lado da linha. Em seguida, ele liderou no caminho até um banheiro grande e fez com que ela se acomodasse na poltrona do toucador. Abriu o gabinete colocado acima da pia e procurou por um antisséptico e bandagem. Angel ficou impressionada com a preocupação e gentileza com que ele a tratava. E, espantou-se ainda mais, quando Leo fincou os joelhos no chão e pediu que ela lhe estendesse a mão ferida. Após uma minuciosa inspeção, ele declarou:


— O corte é profundo, mas acredito que não precisará de bandagem. — E, após uma rápida assepsia, espalhou um pouco de pomada cicatrizante. Em seguida, Leo a conduziu até uma sala de repouso no outro lado do hall e gesticulou na direção de um sofá. No mesmo instante em que se acomodava, Angel avistou uma mulher que passava no corredor carregando um balde e outros acessórios de limpeza. Provavelmente estaria a caminho do escritório para cuidar da desordem ocasionada com a quebra do copo. Leo ofereceu-lhe um drinque e Angel aceitou. Porém, não tinha coragem de olhar nos olhos dele. Não estava acostumada com bebidas alcoólicas, mas, diante das circunstâncias, o líquido forte seria bem-vindo. CAPÍTULO TRÊS Leo observou que Angel se apressou em tomar um gole da bebida. O gesto que revelava insegurança o comoveu. E ao mesmo tempo em que gostaria de torcer o pescoço bonito e delicado, também desejava pressioná-la contra o encosto do sofá e terminar o que haviam começado. Mas não com a mesma fúria com que agira no escritório. O impulso que o levara a beijá-la daquela maneira tinha sido uma maneira de puni-la pela raiva que sentia por tê-la flagrado tentando furtar o testamento. Ele odiava admitir que a tivesse julgado de maneira branda demais por conta da atração que sentia por ela. E vendo a prova da ganância dela bem na sua frente o fizera sentir-se um tolo. Angel não era nenhuma garota inocente. E, enquanto se acomodava na poltrona oposta ao lugar em que ela se encontrava, dizia a si mesmo que o fato de antecipar o retorno a Atenas não tinha nada a ver com Angel. E agora que sabia exatamente as intenções dela, estava decidido a tirá-la da sua mente de uma vez por todas e seguir os projetos que fizera para sua nova vida na Grécia. Angel mantinha o copo entre as mãos e se sentia como uma condenada à espera da sentença final. Leo provou um gole da bebida que preparara para si mesmo e depois repousou o copo na mesinha ao lado. O silêncio na sala começava a produzir uma espécie de tensão no ar.


Angel tentava controlar o nervosismo que sentia. Afinal o que mais poderia acontecer de pior? Mas, quando pensou em Delphi, concluiu que o pesadelo estava apenas começando. — Por que você resolveu se introduzir na festa daquela noite? Angel suspirou incrédula. Não era possível que precisasse repetir tudo aquilo outra vez... — Eu já lhe disse. Não tinha ideia de onde seria a festa em que deveria servir como garçonete. E, quando descobri, não poderia simplesmente virar as costas. Isso faria com que eu perdesse o meu emprego. — Mas perdeu o emprego de qualquer maneira... Angel segurou o fôlego. Como ele sabia disso? Não que precisasse ser profeta para deduzir o que aconteceria depois do "desastre" daquela noite. Será que Leo também descobrira que ela agora trabalhava como camareira no suntuoso hotel Grand Bretagne e fazia turnos dobrados? Sem dúvida ele adoraria saber que ela era obrigada a trabalhar em áreas em que seu nome não precisasse ser investigado a fundo. Angel estava consciente de que precisava ajudar no pagamento da faculdade que a irmã cursava e não poderia se arriscar a chamar a atenção da imprensa por ter sido rejeitada em um cargo de categoria mais elevada por causa de seu nome. Leo bebeu outro gole de uísque antes de falar. — Minha foto estava em todos os jornais de Atenas, quando cheguei à cidade pela primeira vez. E você quer me enganar que não sabia quem eu era quando me viu na piscina? Angel meneou a cabeça. Ela realmente não tinha ideia de quem ele era. Tinha estado tão preocupada com o drama da irmã que nem mesmo acompanhara os jornais naquela semana. Segurando o copo de bebida com força, ela se moveu para a beirada do sofá. Uma onda de fúria a invadiu diante da arrogância do comportamento de Leo. —Acredite ou não, eu não sabia quem você era. Já não está satisfeito por sua família ter conseguido arruinar a minha? Leo deu uma risada debochada. — Satisfeito? — Ele também se moveu para a beirada da poltrona com o olhar faiscando de ira. — Ainda pretende bancar a vítima? Nós não fizemos nada para afetar sua família. A própria


ambição e incapacidade do seu pai é que o está levando à falência. Nós apenas nos associamos com a Levakis Enterprises e a empresa de seu pai não suportou a concorrência. Angel engoliu em seco. O que ele dizia era a pura verdade. Não podia culpar Leo ou Georgios pelo sucesso financeiro que alcançaram por mérito próprio. Seu pai deveria ter feito o mesmo em vez de culpá-los por sua incapacidade. — Entretanto, eu acabei em um dilema — prosseguiu Leo. — Enquanto nós conseguíamos obter sucesso e ao mesmo tempo assistir a fortuna dos Kassianides se reduzir a quase nada, imaginei que ficaria feliz com a dupla vitória. Contudo, o que senti foi apenas uma sensação de vazio. Mas depois de comprovar a extensão da sua audácia, eu desejei algo mais substancial. — Eu considero a falência algo muito substancial — ela revidou. —A falência é culpa do seu pai. Estou falando sobre fatos como o do meu tio-avô ser acusado de estuprar e matar uma mulher grávida que pertencia a uma das famílias mais ricas de Atenas. Isso é substancial. Tanto quanto uma família inteira precisar se exilar do país por causa da ameaça de uma investigação criminal e a possibilidade de o meu tio-avô ser condenado à pena de morte. Sem mencionar o escândalo que arrasou o nome da família. — Já chega, por favor! — Angel conhecia muito bem a história e esse fato sempre a envergonhara. Mas Leo não estava motivado a lhe dar trégua: — Você sabia que meu tio-avô nunca superou o fato de ter sido acusado injustamente de um homicídio horrendo como aquele e acabou tirando a própria vida? Angel sacudiu a cabeça. O drama da família Parnassus fora maior do que ela imaginara. — Não. Eu não sabia. — Meu tio-avô amava sua tia-avó. Mas sua família não podia suportar que ela se unisse a um simples marujo e por isso fizeram o possível para acabar com o romance. — Eu sei o que aconteceu — ela murmurou. Leo ostentou um sorriso amargo.


— Agora todos sabem. Graças a um velho bêbado que não conseguiu conviver com a culpa de ter cometido o assassinato e o crime ter sido acobertado com o dinheiro do seu bisavô. Angel forçou-se a enfrentar a censura que vislumbrava nos olhos de Leo e argumentou: — Eu não tenho culpa do que eles fizeram. — E nem eu. Mesmo assim, eu paguei por isso. Nasci num país estranho e aprendi o inglês em lugar do grego. Assisti a agonia da minha avó por saber que nunca mais retornaria ao seu lar... Angel queria implorar para que ele parasse, mas a voz não saia. E Leo prosseguia falando sobre a infelicidade pela qual sua família passara. — Meu pai ficou tão consumido pela dor que isso afetou nosso relacionamento e custou a vida de minha mãe. Eu amadureci muito rápido por assistir a injustiça que minha família havia sofrido. — Naquele ponto ele deu uma pausa e intensificou o olhar. — Por isso, enquanto você fazia amigos na escola e vivia sua vida tranquila em casa, eu estava do outro lado do mundo me perguntando como as coisas poderiam ser diferentes se meu pai e minha avó não tivessem sido forçados a abandonar a Grécia. Com certeza eu teria tido um pai "presente" e não amargurado o tempo todo. E o que a minha família fizera de errado para merecer tamanha punição? — ele se interrompeu para respirar e olhar no fundo dos olhos dela. — Você tem ideia do que é crescer não sabendo exatamente onde é seu lugar? Como se não tivesse direito a fincar suas raízes no lugar a que tem direito? Ela meneou a cabeça, mas não disse nada. Por certo, ele nem a ouviria se lhe contasse sobre a solidão que sentira quando o pai a mandara estudar em um colégio interno e conservador no oeste da Irlanda. De alguma maneira, ela sabia que a pior de suas experiências não chegaria nem perto do que ele havia passado. E, não suportando mais ouvir a história triste da família que havia sido prejudicada pelos seus ancestrais, Angel resolveu falar: — Por favor, apenas me diga o que quer ou me deixe ir embora. Leo moveu-se ainda mais para a frente. O copo seguro entre as mãos e o olhar indiferente. — O que quero é muito simples — finalmente revelou:


— Eu a desejei desde o primeiro instante em que a vi e a quero agora. Mesmo sabendo quem você é na verdade. — Isso não será possível! — ela exclamou e ergueu-se. Um tremor involuntário percorreu-lhe a espinha. Com cuidado, ela depositou o copo na mesinha e esperava que ele não notasse os seus dedos trêmulos. Leo ergueu-se também e por alguns segundos os dois permaneceram frente a frente como dois rivais prontos para o ataque. — Sente-se, Angel. Eu ainda não terminei o que tenho a lhe dizer. Angel balançou a cabeça com um gesto negativo e Leo deu de ombros, como se a vontade dela não importasse. Ela tentou passar por ele e sair dali, mas Leo a impediu com o corpo imenso bloqueando-lhe a passagem. O olhar intimidador. — Você vai me recompensar por todo o mal que me causou. E fará isso na minha cama. Como minha amante. Angel quase explodiu em uma risada irônica para aliviar o pânico. Mas impediu-se no instante em que detectou a determinação nos olhos escuros de Leo. — Não posso acreditar que esteja falando sério! — Claro que estou falando sério. Eu não brinco com coisas desse tipo. Acha que sou tão ingênuo a ponto de permitir que seu pai fique à vontade para engendrar o plano que quiser a fim de prejudicar a minha família? Eu a desejo e quero mantê-la em um lugar onde possa vigiá-la. E isso quer dizer longe de seu pai e das maquinações dele. E se existe atração física entre nós, acho que não representará nenhum sacrifício. — Está querendo dizer que quer dormir comigo? — Entre outras coisas — ele afirmou, com um brilho ameaçador nos olhos bonitos. — Mas... — Não tem nada de "mas". Todos os convidados nos viram juntos naquela festa. E agora que estou de volta, não pretendo ignorar a sua intenção de me humilhar perante a sociedade. Principalmente depois do que aconteceu hoje. Você teve a audácia de vir duas vezes na minha casa a fim de prejudicar o nome da minha família. Agora terá que pagar por isso. — Mas o meu pai... Ele a interrompeu abanando uma das mãos no ar.


— Não estou preocupado com o seu pai. Depois de saber que ele está planejando usar informações para arruinar a minha família, o que mais quero é vê-lo humilhado ao saber que sua preciosa filha é amante de um Parnassus. Angel o fitou com incredulidade. Não era possível que a conversa entre eles tivesse tomado um rumo tão cruel. Havia tantos problemas acontecendo a um só tempo que Angel sentiu vontade de gritar. Gostaria de rebater as palavras frias e calculadas de Leonidas Pamassus dizendo que não sentia nenhuma atração por ele. Abriu a boca, mas não conseguiu falar. Estava temerosa pela reação dele. E, também, não poderia negar que havia se derretido nos braços dele, quando Leo a beijara no escritório, pouco tempo antes. Angel acabara tão pressionada por ele que decidiu sair do torpor em que se encontrava e reagir: — Não pode me obrigar a ser sua amante — ela declarou empinando o nariz. Se ele quisesse chamar a polícia, que o fizesse. Seria preferível enfrentar um processo sobre a tentativa de roubar um documento do que prosseguir ouvindo as palavras duras dele. Leo a olhou com cinismo. — Você tem razão. Não posso obrigá-la a ser minha amante. Mas tenho certeza de que acabará concordando por espontânea vontade. Não há como disfarçar o desejo que sentimos um pelo outro. Você praticamente se desmanchou em meus braços quando a beijei, momentos atrás. Ela se sentiu tão mortificada pelo fato de Leo enfatizar a maneira como ela cedera tão fácil aos encantos dele, que começou a caminhar na direção da porta, orando para que ele não a impedisse. Quando alcançou a porta e se sentiu mais segura, ela girou a cabeça na direção dele e respondeu: — Isso não acontecerá porque você é o último homem na face da terra com quem eu desejaria dormir — ela despejou essas provocações e endireitou o pescoço outra vez. Porém, no instante em que colocava uma das mãos sobre a maçaneta da porta, ouviu a voz dele soar logo atrás dela. — Pensava mesmo que eu a deixaria sair, sem mais e nem menos? Angel odiou-se por não ter aproveitado a oportunidade antes e ter aberto a porta. Agora, era tarde demais.


Leo estava bem ao lado dela, com as pernas musculosas levemente apartadas e os pés firmes no chão. Ostentava um sorriso. Mas ela sabia que por trás daquele sorriso se escondia uma implacável determinação. — Não pode me impedir. — Sim, eu posso. — Por acaso está pensando em me sequestrar? — Sequestrá-la? — ele repetiu com descaso. — Está assistindo novelas demais. Só acho uma pena ter que chamar a polícia como única alternativa de não deixá-la sair impune. Nosso relacionamento ficará ainda mais abalado quando a imprensa descobrir que a flagrei roubando um documento particular dentro da minha própria casa. Não se esqueça de que tenho as câmeras de segurança para comprovar todos os seus passos. — Nós não temos um relacionamento — enfatizou Angel, e sentiu alívio pelas câmeras não terem captado o instante em que ela retirou o testamento da bolsa. Ela seria obrigada a explicar onde o teria conseguido. Mesmo assim, isso não a livrava de ter de esclarecer os motivos de se encontrar na mansão dos Parnassus e ser encontrada no escritório de Georgio Parnassus, abrindo uma das gavetas da escrivaninha dele. Por fim, decidiu mandar para o inferno as atitudes erradas do pai e o desejo impetuoso dela em tentar evitar futuras complicações. Angel estava a ponto de abrir a boca para dizer a Leo que preferia enfrentar a polícia a ter que ceder aos interesses dele, quando pensou em Delphi. Um escândalo nos jornais só dificultaria ainda mais a possibilidade de a irmã ser aceita na família Eugenides. — Eu acredito que temos um relacionamento desde a noite da festa, Angel. E, por isso, resolvi investigar algumas coisas e acabei descobrindo preciosas informações a seu respeito. — Que tipo de informação? — ela perguntou e aos poucos libertou a mão que segurava a maçaneta da porta. Leo começou a relatar o que sabia vagarosamente, usando voz polida: — Descobri que você cursou a Faculdade de Artes e se especializou em Design de Jóias. Contudo, apesar de formada, nunca se aventurou a exercer essa profissão. Preferiu arranjar qualquer outra coisa desde que


pudesse permanecer em casa. O que me leva a admitir um laço forte de amizade com seu pai. Angel preferiu não rebater as conclusões dele. Na verdade, os laços de amizade que a prendiam em casa eram com a irmã e não com o pai. Após a morte de Damia, quando Angel retornou da escola na Irlanda, ela e Delphi se tornaram muito próximas e sabiam que tinham apenas uma à outra como apoio, coisa que jamais tiveram por parte dos pais. Leo prosseguiu com pretensa solidariedade estampada nas feições severas: — E por causa da falência iminente de seu pai, você precisou enfrentar o trabalho naquela empresa de organização de eventos e agora como uma camareira no Grand Bretagne. — Fitando o azul dos olhos dela, ele argumentou com ironia: — Deve ser difícil precisar trocar os lençóis de cama para as pessoas que costumava encontrar nos eventos sociais... Eu também me perguntei por qual razão alguém que tivesse sua formação iria se submeter a trabalhos menos qualificados? Então deduzi que seria para evitar uma investigação maior acerca de seu nome. Sem dúvida tencionava retornar aos patamares sociais e quem sabe encontrar um marido rico para substituir o nome Kassianides que acabou perdendo o prestígio. Angel sentiu a cor sumir de suas faces no instante em que constatou que Leo já sabia onde ela trabalhava e a razão de aceitar serviços simples para evitar a inevitável investigação rigorosa de seus precedentes. Embora ela não tivesse apretensão de arranjar um marido rico para encobrir o nome Kassianides como ele afirmara com cinismo. Os sonhos de Angel se limitavam a conseguir o próprio ateliê de design de jóias, tão logo conseguisse economizar algum dinheiro. Porém, o sonho parecia cada vez mais distante por conta de tantas despesas que assumira. — Você entendeu tudo da maneira errada — Angel tentou contestar, mas ele a ignorou. — A mais interessante de todas as minhas descobertas — ele prosseguiu — foi saber que Stavros Eugenides e sua irmã estão apaixonados e pretendem se casar. Entretanto, o pai dele é contrário a essa união. — Como sabe disso?


— O que importa é saber o quanto você está interessada no casamento deles.

Angel sentiu os joelhos bambearem e a cabeça girar de emoção. Procurou disfarçar o nervosismo para impedir que ele notasse o quanto ela ansiava para que o casamento da irmã com Stavros acontecesse. E, se Leo soubesse disso, com certeza faria o que pudesse para impedir. Ela forçou um sorriso de descaso. — Na minha opinião, eles são jovens demais para se casarem. — Está mentindo, Angel. Na verdade, o seu maior desejo é ver sua irmã casada com Stavros. Caso contrário, por que se daria ao trabalho de tentar falar com Dimitri Eugenides? Angel sentiu o corpo todo estremecer. Como ele poderia saber de tudo isso? Por acaso Leo seria um vidente? — Eu... — Angel pensou em negar a evidência, mas decidiu calar-se. — O que acho é que sua irmã está procurando se assegurar com um marido rico antes que vocês percam tudo o que possuem. E você também deveria pensar no assunto antes que a falência de seu pai se torne pública. Angel meneou a cabeça para discordar do que ele dizia. Mas Leo prosseguiu de maneira implacável: — Não posso culpá-las. Afinal são duas pobres garotas tentando resgatar a posição social que perderam. Infelizmente, vocês parecem não ter consciência de que a maioria das pessoas trabalha duro para enfrentar a vida. Angel não conseguiu conter sua indignação e partiu para cima dele com as mãos fechadas em punho. Antes que ela conseguisse socar-lhe o peito, Leo segurou os pulsos dela e os aprisionou. Angel ergueu o queixo e o fuzilou com os olhos. — Você não tem o direito de falar essas coisas. Não sabe absolutamente nada sobre nós! Nada, entendeu? Leo baixou o olhar por um longo momento e estudou as feições zangadas de Angel. Depois observou que o busto feminino exibia os bicos rígidos por baixo do tecido fino do top que ela vestia. A reação do instinto masculino foi imediata. Quem ela pensava enganar? Como ousava falar com ele daquela maneira?


Ele segurou os dois pulsos dela com apenas uma das mãos e com a outra aproximou o corpo feminino do seu. Inclinou a cabeça e aproximou os lábios dos dela, sussurrando: — Ainda não terminei, Angel. — Não quero ouvir mais nada. Só preciso sair daqui! Leo notava o tremor na voz dela e desejou beijar os lábios macios, mas preferiu recuar. — Ainda não ouviu minha oferta. Não acho que terá coragem de recusá-la. Angel finalmente conseguiu libertar-se dos braços dele e recuou. Com os braços cruzados frente ao peito, revelou: — Não há nada que possa dizer que eu deseje ouvir... — Eu posso persuadir Dimitri Eugenides a concordar com o casamento de Stavros com sua irmã. Ela odiou esticar o assunto, mas não conseguiu deixar de perguntar: — De que maneira faria isso? Leo percebeu o interesse de Angel despontar e ironizou." — Ah! Já não está tão certa de que os acha jovens demais para se casarem? — Apenas responda a minha pergunta — ela quis saber, ostentando uma segurança que de fato não sentia. — Muito simples. Dimitri está louco para fazer negócios comigo. Na última vez que ele esteve aqui me contou sobre o -romance do filho com a sua irmã. Acredito que pensou em me agradar, quando revelou que desaprovava o casamento por saber a história de como os Kassianides prejudicaram os Parnassus. Naquele dia eu não dei muita importância para o que ele me dizia. Mas agora, estou interessado. Posso lhe garantir que assim que ele souber que você é minha amante, ficará com receio de prosseguir desaprovando a sua irmã. E também, eu posso impor a condição de só negociar com ele se permitir que o filho se case com a sua irmã. Angel negou com um gesto de cabeça, mas seu coração se encheu de esperanças. — Dimitri jamais faria isso. Ele odeia a nossa família. Leo abanou a mão em sinal de descaso e afirmou: — Dimitri fará qualquer coisa que eu pedir. Está desesperado para participar dos negócios com os Parnassus.


Angel ficou tão atordoada que se sentou na cadeira mais próxima. Sua cabeça zunia. Com um simples estalar de dedos Leo poderia lhe proporcionar o que ela mais desejava no mundo: as coisas se acertarem a favor de Delphi. Ergueu os olhos para Leo, que mais parecia um guerreiro prestes a vencer uma batalha e exibia orgulho pelo triunfo. Porém, ela pouco se importava com o que ele pensasse desde que a promessa fosse uma verdade. Ergueu-se da cadeira e declarou: — Presumo que a condição para que você faça isso é que eu concorde em ser sua amante. Ele estreitou os lábios e um lampejo de fúria brilhou no fundo dos olhos escuros. — Não banque a vítima inocente. Sei que me deseja na cama tanto quanto eu a desejo. Apenas insiste em negar esse fato. — Mas não ajudará Stavros e Delphi a menos que eu concorde em ser sua amante, não é? Leo encolheu os ombros. — Vamos dizer que eu não me importo com o fato de eles se casarem ou não. Por que me intrometeria em um problema que não é meu se não tivesse um benefício com isso? — E o beneficio seria eu me tornar sua amante, certo? Angel faíou como se a ideia de dormir com ele não a atraísse. Mas a maneira como os hormônios provocavam um rebuliço no interior de seu corpo diziam o contrário. Ela não podia se enganar dizendo que era imune aos encantos dele e estaria infeliz com aquela proposta. E nem poderia dispensar a oportunidade de proporcionar para Delphi e Stavros a união tão sonhada. Não importava o preço que precisasse pagar. Além do mais, Delphi já estava no final do primeiro trimestre da gravidez e não seria necessário que todos soubessem disso no dia do casamento. — Eu concordarei em ser sua amante com uma condição. — Estou ouvindo. — A de que Delphi e Stavros se casem assim que a papelada esteja pronta. O jeito cínico que Angel já começava a reconhecer com facilidade nas feições de Leo reapareceu: — Não pense que tão logo eles estejam casados isso significará o final do nosso caso. Não permitirei que vá embora antes que eu esteja satisfeito e resolva liberá-la.


Angel sentiu uma pontada na barriga. Como será que ele reagiria quando soubesse que ela era virgem? Leo não parecia ser o tipo de homem que apreciava mulheres inexperientes em sua cama, a julgar pelo jeito como a olhava naquele instante. — Só que eu não iniciarei a minha promessa a não ser que você concorde em ser minha desde agora. Por isso, se deseja que sua irmã se case com Stavros, eu ordenarei ao meu motorista que a leve até sua casa a fim de que arrume seus pertences e volte para a mansão imediatamente. Angel empalideceu. Como se tudo fosse tão simples... CAPÍTULO QUATRO Pouco menos de três horas depois, Angel se encontrava no hall de sua casa e a mala estava aos seus pés. Quando deixara a vila dos Parnassus ficara desorientada ao ver que o dia estava amanhecendo. Por sorte o pai não estava em casa. A madrasta a informara de que Tito havia seguido para Londres na noite anterior para tentar obter um empréstimo com os primos. Angel imaginava como ele deveria estar furioso. Naquela altura já sabia que ela lhe tomara o testamento. Ela já estivera no quarto da irmã e lhe contado o que estava acontecendo. Embora tenha omitido a verdadeira razão pela qual Leo pedira que ela se mudasse para a mansão dos Parnassus. Delphi respondera preocupada: — Mas os pais de Stavros odeiam a nossa família! De que maneira acha que poderá convencê-los a mudar de ideia tão rápido? Angel odiava ter de mentir para a irmã. Explicara em poucas palavras como conhecera Leo Parnassus na festa e a prevenira de que não deveria contar nada para o pai delas. — Não quero que se preocupe com nada, Delph. Apenas confie em mim. Sei o que estou fazendo. A última providência fora ligar para o hotel em que trabalhava como camareira e avisar que estava se demitindo. Com um profundo suspiro ela apinhou a mala do chão. Era hora de partir...


— Seu pai não estará de volta em breve? — Angel quis saber, com o olhar espantado diante do luxo fantástico da suíte principal. Algo que o pai dela jamais se importara em cultivar. Era o tipo de homem que nunca proporcionara um ambiente sofisticado e confortável para a família, nem mesmo nas melhores épocas financeiras. Leo se ocupava em mostrar a conexão entre os aposentos e acabava de abrir a porta do outro quarto quando ela lhe fez a pergunta, mais para distrair o pânico do que qualquer outra coisa. Ele se interrompeu e girou o corpo de maneira a encará-la. — Meu pai permanecerá na ilha por tempo indeterminado — revelou e ao mesmo tempo reclinou um ombro imenso contra o batente da porta. — Os médicos recomendaram que ele ficasse longe dos negócios. O que seria impossível se ele permanecesse em Atenas. Angel captou uma ponta de amargura no tom de voz que ele usava e lembrou-se do que Leo lhe havia contado sobre o relacionamento dele com o pai. Sentiu uma culpa irracional invadi-la e evitou qualquer comentário de apoio para que ele não a considerasse hipócrita. Leo prosseguiu mostrando-lhe o outro aposento. Só o banheiro era maior que o quarto dela na casa do pai. E, naquele instante, ele apontava para o closet vazio. — Eu já agendei com um estilista para entrar em contato com você e providenciar para que o armário fique lotado de roupas adequadas para a mulher que será vista ao meu lado de agora em diante. Angel lançou um olhar na direção da cama king que ocupava o centro do quarto e murmurou: — O fato de lotar o armário com roupas bonitas e sofisticadas servirá para que eu tenha mais segurança na atuação de cumprir a minha parte no acordo. Ele se aproximou dela de maneira tão ameaçadora que Angel quase entrou em pânico. — Não acredito qüe será preciso muita atuação da sua parte — ele afirmou com um sorriso cínico. — Sua indiferença me surpreende. Pensei que ficasse feliz por eu tê-la escolhido para ser minha amante. Esqueceu-se de que eu venho de Nova York, que é o reduto das "caçadoras" de homens ricos?


Angel procurou palavras para revidar a ofensa, mas não conseguiu elaborá-las a tempo. E para maior constrangimento, Leo apenas consultou o relógio de pulso e avisou em tom ríspido: — Preciso ir até o escritório. Por que não aproveita para descansar? Parece exausta. E sem esperar uma resposta, ele abandonou o quarto. Assim que ficou sozinha, Angel seguiu para o banheiro e, movendo-se como um robô, despiu-se e entrou no boxe envidraçado. Uma ducha quente a ajudaria a relaxar, pensou. Após o banho, ela rumou para o quarto e fechou as cortinas. Depois se enfiou embaixo dos lençóis. O colchão era tão macio e aconchegante que Angel logo caiu em um sono profundo. — Angel... Ela ouviu uma voz sussurrar-lhe o nome e um toque gentil sacudir-lhe um ombro. Esforçou-se para abrir as pálpebras ainda pesadas de sono e deparou com os olhos escuros de Leo, sentado à beira da cama. A realidade retornou imediatamente. Ela estava na mansão dos Parnassus e concordara em ser amante de Leo Parnassus. Ela puxou a coberta até o pescoço em um gesto instintivo, embora estivesse usando uma camisola de tecido fino que trouxera na mala. — Que horas são? — ela perguntou, imaginando há quanto tempo ele a estaria observando. Ele consultou o relógio de pulso e respondeu. — São oito horas da noite. Angel assustou-se, e de um salto sentou-se na cama, ainda segurando a coberta. — Está me dizendo que dormi o dia todo? Leo assentiu com a cabeça e erguendo-se da cama seguiu até a janela e afastou as cortinas. Angel observou que o sol desaparecia no poente. Sentiu-se completamente embaraçada por ter dormido tantas horas. Ele seguiu na direção da porta. Mas, antes de sair, lançou um olhar rápido para Angel e avisou: — O jantar será servido em vinte minutos. Eu a aguardarei no salão. Enquanto aguardava Angel, Leo admirava as janelas em estilo francês que emprestavam ao ambiente um toque de sofisticação.


As portas duplas que conduziam ao terraço estavam abertas. O mesmo terraço onde ele estivera com Angel na noite da festa. Mal podia acreditar que retornara a Atenas há menos de 24 horas e já havia conseguido com que ela estivesse residindo na mansão dos Parnassus. Embora de maneira bizarra, a presença dela parecia ser o certo. Quando Leo se sentara na beirada da cama para acordá-la, por um instante sentiu um desejo enorme de beijá-la nos lábios. O mesmo desejo que sentira na noite da festa, quando estavam no terraço. Porém, quando Angel abriu os olhos ele percebeu que ela ainda se sentia confusa. Na agitação do sono, as alças da camisola escorregaram dos ombros roliços que ficaram parcialmente cobertos pelos cabelos longos e revoltos. Ela lhe parecera extremamente sexy, embora reagisse com pudor. Durante as três horas que ele esperara pelo retorno dela da casa dos Kassianides, chegara a imaginar que ela não viria. Afinal, ele a flagrara tentando roubar um documento importante com a finalidade de prejudicar sua família... O pensamento desagradável fez com que ele fechasse as mãos em punho. Apesar de tudo o que ele lhe oferecera, Angel ainda se sentia no direito de desafiá-lo. Ele afastou os pensamentos e liberou os dedos da tensão involuntária. Preferiu concentrar-se na atração física que sentia por ela. E nessa noite ele pretendia satisfazer seus desejos e ao mesmo tempo provar que Angel não era diferente das mulheres que conhecera e que acreditavam poder manipulá-lo através de armadilhas sensuais. Leo ouviu um ruído na porta de entrada do salão e girou a cabeça devagar. Estava na hora de Angel começar a enfrentar as consequências dos seus atos, ele concluiu. Angel sentiu a pele do corpo se arrepiar quando foi conduzida pela sorridente governanta para dentro da imensa sala, e observou que Leo estava em pé no terraço, de costas para a entrada do salão, e agora girava a cabeça para encará-la. Ela não tinha a mínima ideia de como deveria se conduzir nas atuais circunstâncias. Tanto que levara muito tempo para escolher a roupa que deveria usar no jantar. Optou por um vestido tubinho preto e sandálias com saltos altos e finos.


E ficara frustrada ao ver que Leo usava calças jeans, que se ajustavam perfeitamente às coxas musculosas, e uma camiseta polo branca que fazia o tom castanho dos olhos dele parecer ainda mais escuro. Os ombros largos exigiam o máximo da elasticidade do tecido e os poderosos bíceps pareciam saltar das mangas curtas da camiseta. — Venha dar uma espiada na vista, Angel — ele gritou. Eu já estou apreciando uma visão fantástica! — ela teve vontade de responder, impelida por uma súbita excitação. Ao invés disso, caminhou calada ao encontro dele. — Está muito elegante! — Leo exclamou assim que ela se aproximou. Angel corou. — Se eu soubesse que você estava vestido de maneira casual, eu também teria usado jeans. — Eu gosto de usar roupas confortáveis quando estou em casa. E você também poderá fazer a mesma coisa. Até andar nua, se achar melhor. Angel corou ainda mais com o tom jocoso que ele usava. — Essa não é uma boa ideia. — Que pena... — ele gracejou. Depois se aproximou da mesa posta na varanda e encheu duas taças com vinho branco e ofereceu uma delas para Angel. Ela se apressou em aceitá-la e provou um gole da bebida. Qualquer coisa serviria para ajudá-la a tomar coragem. — O que achou da vista? E fantástica, não é? Angel estava distraída observando o perfil de Leo. Descobriu uma leve protuberância no nariz masculino, além da fina cicatriz acima dos lábios. Desviou o olhar rapidamente, antes que ele a surpreendesse estudando-lhe o rosto. — Sim. E maravilhosa. E a qualquer momento... Espere aí — pediu ela e consultou seu relógio de pulso. — Está bem na hora de... Olhe ali! — ela apontou com um dedo da mão direita na direção da antiga Acrópole que acabava de ser iluminada, promovendo um espetáculo ímpar. Ela notou que Leo quase perdeu o fôlego ao vislumbrar a fantástica vista da Acrópole iluminada. Por um momento ela se sentiu desconfortável ao pensar que estava acostumada a


desfrutar daquela magnífica visão todos os dias e que Leo fora impedido de crescer junto das belezas de sua terra de origem. Ela sentiu um profundo alívio ao avistar a governanta surgir na sala, carregando uma bandeja para lhes servir o jantar. Leo gesticulou para que Angel o precedesse. Enquanto ele a seguia, observava a maneira graciosa como ela havia prendido os cabelos e improvisado um elegante penteado. E quando baixara os olhos para as pernas bem torneadas, sentiu o sangue correr acelerado nas veias. Após se acomodarem na mesa, Leo notou que Angel estava tão nervosa, que seria impossível fingiu o tempo todo. Embora ele tivesse conhecido mulheres que qualquer um poderia jurar que estivessem sendo sinceras e no final acabassem sendo descobertas como golpistas de primeira linha. A cada vez que Leo tentava olhar nos olhos dela, Angel desvirava a atenção para uma coisa qualquer: o guardanapo, o copo... Ela deveria estar tramando algo, ele pensou. Afinal, Angel não era nenhuma criatura inocente. Ele a flagrara tentando roubar um documento importante. E, talvez, quando fora em casa para apanhar seus pertences, o pai a tivesse instruído de que modo deveria agir. Leo praguejou em pensamento. O fato de não confiar em Angel não era a questão principal. Então por que razão deveria perder seu tempo tentando analisar a conduta dela? O único comportamento que o interessava era como ela se conduziria como sua amante quando estivesse com ele na cama. Angel fazia o possível para desfrutar do jantar que aparentava estar delicioso. Mas a cada bocado que engolia, o alimento parecia ser feito de areia, roçando-lhe a garganta. Ela não conseguia parar de pensar nfj homem sentado no lado oposto da mesa. Não descolava o olhar das mãos fortes que seguravam os talheres e imaginava como seria senti-las afagando-lhe o corpo... Leo parecia entretido no que fazia e não demonstrava interesse em conversar. O que era uma pena. Angel gostaria de fazer-lhe algumas perguntas. Principalmente se ele tinha a intenção de dormir com ela naquela noite. E o que aconteceria quando ele descobrisse que ela ainda era virgem? Será que a rejeitaria da mesma


maneira como Achilles fizera no passado? E por que razão ela se sentia tão deprimida só de pensar nisso? Afinal, por que deveria prosseguir se torturando, quando fora ele que a forçara a aceitar a condição de amante com uma chantagem? Angel nunca se sentira tão confusa e vulnerável ao mesmo . tempo. O silêncio dele parecia uma maneira de Leo recordá-la qual era o propósito de ela estar ali. Quando Angel sentiu algo roçar-lhe as pernas por baixo da mesa, sem querer deu um grito alarmado e deixou cair o garfo que segurava em uma das mãos. O talher provocou um barulho estridente no instante em que se chocou contra o chão. Calista, a governanta, surgiu imediatamente e apanhou o garfo do chão e também o seu gato que escapara da vigilância dela. E, após substituir o garfo por outro limpo, implorou desculpas e se retirou da sala. Então se tratava apenas de um gato! Ela exclamou em pensamento e sentiu o calor subir à face. Leo depositou os talheres ao lado do prato e comentou: — Por que está tão tensa, Angel? — Eu... — Ela se sentia incapaz de articular uma única frase. — Está sem apetite? Angel assentiu. Embora soubesse que aquele não era o motivo de seu nervosismo. Leo fixou o olhar nos lábios dela e Angel sentiu um arrepio percorrer-lhe toda a .extensão da espinha. Deus! Por que ela não conseguia ser imune ao charme dele e apenas levantar e gritar que se ele tentasse tocá-la ela chamaria a polícia? O bom-senso a avisou de que uma atitude dessas seria uma besteira. Leo provavelmente seria o primeiro a concordar em chamar a polícia e contar que a surpreendera tentando roubar o inventário de seu pai. E o pior seria suportar o escândalo na mídia. Delphi e Stavros poderiam esquecer os sonhos de um casamento. E, apesar de todas aquelas razões, Angel finalmente tomou consciência do principal motivo que a levara a aceitar a chantagem. Ela também desejava Leo com todas as suas forças. Ficara fascinada por ele desde o dia em que o vira sair da piscina. E também quando a beijara no terraço.


Desde o dia da festa, ela acordava no meio da noite por causa dos sonhos que tinha com Leo e chorava de tristeza. Mas ela preferia morrer a ter que admitir que também o desejava. Leo ergueu-se e declarou: — Acho que também perdi o apetite. Quando ele lhe estendeu a mão, Angel hesitou antes de aceitá-la. Depois tentou confortar a si mesma com a ideia de que essa era a parte que lhe cabia no acordo. Estava assegurando a felicidade de Delphi e Leo não faria nenhuma acusação que prejudicasse a sua família. Ela só precisava... Angel sentiu uma tontura ao pensar no que a aguardava e tropeçou a caminho do quarto. Teria caído, não fosse a intervenção ligeira de Leo, que a apanhou nos braços. Ao avistar Calista que se apressava em saber se eles precisavam de alguma coisa, Leo explicou que se tratava apenas de cansaço e Angel precisava apenas repousar. Angel enrubesceu. E assim que a mulher se distanciou, ela comentou: — Ela é uma mulher experiente e sabe que planejamos fazer amor. — Você é minha amante e é justo que ela suponha o que deve acontecer entre nós. E se as fofocas se espalharem da maneira como acontece em Nova York, pela manhã, metade da sociedade de Atenas saberá que Angel Kassianides é amante de Leo Parnassus.

CAPÍTULO CINCO Angel se manteve em silêncio enquanto Leo entrava na suíte com ela nos braços. Ela sabia que não teria escolha. Sempre existe uma escolha. Uma voz interior a orientava, enquanto Angel se inebriava com o perfume da loção de barba que Leo usava e o impacto da massa muscular dele contra o seu peito. Seria possível que ela estivesse usando Delphi como desculpa para justificar o próprio desejo em fazer amor com Leo? Ficou desgostosa ao descobrir que essa era uma possibilidade que não poderia ser descartada. E agora que o momento crucial


estava próximo, ela tornou a se preocupar com o fato de ainda ser virgem. — Ponha-me no chão — ela pediu. — Não quero ser jogada em sua cama como uma concubina. Ele apertou os lábios com visível contrariedade antes de falar: — Existe uma palavra mais moderna para isso: amante. E é exatamente o seu papel nesta casa. Ele a colocou sobre os próprios pés e Angel aproveitou para se afastar alguns passos de onde Leo se encontrava. — Não precisa se comportar com tanta timidez. Sei que já passou por isso outras vezes — ele afirmou com um sorriso malicioso. — Ainda bem que não estava com ninguém quando a conheci. — Como sabe que eu não tenho um namorado ou um amante? Leo cobriu o espaço entre eles com duas longas passadas. — Porque eu tenho obtido informações sobre você desde que saí de Atenas. E aposto que está morrendo de vontade de provar um pouco da vida luxuosa que perdeu por causa da ganância do seu pai. — Ele segurou as mãos dela e apontou as asperezas causadas pelas limpezas que ela fazia como camareira. Angel olhou para as próprias mãos e lembrou-se de que enquanto polia as torneiras das toaletes sonhava com o dia em que estaria polindo alguma joia que tivesse criado. Sem imaginar o que se passava na mente de Angel, ele levou as mãos dela até os próprios lábios e as beijou. Ela sentiu o coração se acelerar. Por qual motivo ele contratara alguém para segui-la? — Não pode negar que esteja ansiosa por uma vida mais confortável outra vez — ele prosseguiu. — Eu posso proporcionar isso, Angel. Leo não tinha a mínima ideia de como ela era na verdade, Angel pensou e decidiu que seria melhor prosseguir dando a impressão de que realmente era uma pessoa gananciosa. — Sei disso. Mas é uma pena que seja por pouco tempo. Ele arqueou uma sobrancelha e baixou as mãos dela, embora prosseguisse segurando-as. — Isso dependerá do quanto você me agradará na cama... Cama? Angel tornou a entrar em pânico ao ouvir aquela palavra. Ele realmente acreditava que ela era uma mulher experiente. E,


como Leo investigara a vida pregressa dela, deveria ter tido informações sobre o círculo de amigas que Angel mantinha na época e que eram todas muito experientes com relação a homens. Entretanto, ela e Delphi não procediam da mesma maneira, graças à educação severa que Tito impusera e que fora a causa da revolta de Damia que acabou em um trágico final. E também, Angel passara a maior parte da adolescência trancada no internato para onde tinha sido mandada pelo pai. — Eu não acho que você possa entender... Ele lhe ergueu o queixo com a ponta de dois dedos da mão direita e fitando a boca pequena argumentou: — Não existe nada para ser entendido a não ser isso... — Em seguida capturou-lhe os lábios antes que ela dissesse mais alguma coisa. Angel libertou as mãos que ele mantinha seguras para repousá-las sobre o peito másculo. Não conseguia entender como Leo conseguia provocar uma resposta tão instantânea de seus instintos naturais. Enquanto a língua exigente explorava o interior úmido da boca feminina, Angel se lembrava de como ele a provocara quando estavam no escritório do pai dele e da maneira como ele a abandonara tão de repente. Porém, agora ela não tinha tempo de sentir-se humilhada, já que uma nova excitação se apoderava de seu corpo. Leo moveu as mãos para as costas do vestido que ela usava e abriu o zíper, puxando-o até abaixo da cintura. O tecido deslizou na pele sedosa e se amontoou aos pés dela. Angel retirou um pé de cada vez para livrar-se da roupa. A respiração se acelerava e o coração parecia querer saltar do peito. Ao mesmo tempo, Leo deslizava as palmas das mãos em movimentos de vaivém na pele nua das costas miúdas. Sensações eletrizantes a faziam estremecer enquanto os mamilos se tornavam rígidos como pedra. Leo abandonou o beijo para recuar um passo e livrar-se das próprias roupas. Angel sentiu que as coisas estavam indo rápido demais. E, quando abriu a boca para protestar, as palavras não a acudiram. Os olhos estavam fixados na nudez masculina bem na sua frente. O peito musculoso e os ombros largos já a haviam cativado no dia em que o vira na piscina. Mas quando ela desceu


o olhar para a parte abaixo da linha da cintura do corpo esplendoroso, quase perdeu o fôlego. Após o abdome plano, prosseguindo na trilha de pelos escuros, despontava uma intimidante virilidade. Angel havia visto apenas uma vez um homem nessas condições, mas não se comparava nem um pouco com o que vislumbrava agora. Leo parecia um guerreiro orgulhoso: pernas apartadas e coxas musculosas. Transpirava masculinidade por todos os poros. Ela permanecia de calcinha e sutiã e seus cabelos estavam espalhados sobre os ombros. Num gesto instintivo estendeu um braço sobre o busto e com a mão que estava livre cobriu a parte íntima entre as coxas. Leo riu divertido. — Não há necessidade de bancar a inocente... — Mas eu... — Chega de conversa fiada — ele avisou e a seguir tomou-lhe os lábios num beijo ardente. Afastou os braços femininos para colar o corpo nu contra o dela. Angel quase enlouqueceu quando sentiu a pressão da potente virilidade contra o seu abdome. Apesar da poderosa excitação que a acometia, Angel não se sentia preparada para a experiência que viria a seguir. As esperanças de que a virgindade pudesse não ser um obstáculo tão evidente, agora a abandonavam. Leo a direcionava para a cama e ficava cada vez mais difícil evitar a rapidez com que tudo acontecia. Ela precisava arranjar uma maneira de controlá-lo, porém o contato com a masculinidade pujante a impedia de raciocinar com clareza. Angel não poderia suportar chegar ao mesmo ponto onde chegara com Achilles e ver Leo a olhar com aquele mesmo horror ao descobrir que era virgem. Não queria sentir a mesma humilhação que Achilles a submetera ao recusar-se a prosseguir com o ato amoroso. E ainda esbravejara por ela não tê-lo prevenido, caso contrário jamais teria se aproximado dela. E se a rejeição de Achilles a magoara tanto, seria ainda mais insuportável se o mesmo acontecesse com Leo.


Assim que ele conseguiu com que ela se deitasse na cama e posicionasse o corpo sobre ela, Angel plantou as palmas das mãos no peito de Leo e o afastou. — Não, eu não quero! — ela gritava ao mesmo tempo em que o rejeitava. Leo ficou imóvel e completamente surpreso. Ela o fitou e tudo que podia ver nas feições dele era uma profunda contrariedade. E também o esforço que ele fazia para controlar a respiração acelerada. — Eu... Eu' preciso lhe confessar uma coisa — Angel murmurou hesitante. Leo estendeu um braço e acendeu o abajur na mesinha de cabeceira da cama. Em seguida se ergueu e com gestos bruscos apanhou o jeans do chão e o vestiu. Sentindo-se exposta demais, ela se sentou no colchão e puxou o lençol para cobrir o corpo. Ele estacou na frente dela e apoiou as mãos nos quadris. O cós da calça permanecia aberto e permitia a visão da poderosa virilidade. Ela sabia que não era justo interrompê-lo naquele momento. Mas temia não conseguir satisfazê-lo da mesma maneira como o faria uma mulher experiente. — E então, Angel? Espero que tenha uma boa explicação para o que acabou de fazer. Ela baixou o olhar por um instante a fim de ganhar coragem. Por fim, ergueu o rosto e declarou em tom baixo. — Eu sou virgem. — O que disse? — Leo gritou tão alto que o som da voz potente ecoou pelo quarto. Ela engoliu a saliva antes de responder. — Eu disse que ainda sou virgem. Ele balançou a cabeça e repetia como se estivesse falando consigo mesmo. — Não acredito. Simplesmente, não acredito. E impossível! Angel pressentiu que a humilhação poderia ser pior do que imaginava. E num impulso, ajustou o lençol sobre o corpo e ergueu-se da cama. — Sinto desapontá-lo, mas é a verdade. Não sou o que você pensava. Nunca fui amante de ninguém. Ele a olhou com suspeita.


— Se esse é algum tipo de jogo, devo avisá-la que não gosto de brincadeiras desse tipo. — Nem eu. Embora não acredite, acho que não levaria muito tempo para que você mesmo descobrisse a verdade. Leo estreitou os olhos e as mãos se fecharam em punho. Para escapar da intensidade do olhar dele, Angel baixou os olhos e sem querer percebeu o quanto ele ainda estava excitado. Sentiu que lhe devia desculpas: — Acho que escolhi o momento errado para... — Estava tão mortificada, que não conseguiu prosseguir. — Deveria ter-me contado que era virgem no momento em que eu revelei que a queria para amante. — O tom de voz, antes furioso, agora soava frio e distante. — E de que maneira esperava que eu fizesse isso? Apenas revelando minha intimidade, sem mais, nem menos? Ele a estudou por um tempo e depois desabafou: — Que droga, Angel! Deveria ter-me prevenido! Ou decidiu dormir comigo depois de discutir o caso com seu pai e resolver sacrificar sua virgindade? Ela sacudiu a cabeça violentamente. — Como pode pensar uma coisa dessas? Meu pai nem sequer estava em casa. Ele havia partido para Londres na noite anterior. Leo correu os dedos .pelos cabelos escuros e Angel podia notar-lhe a indignação. Era evidente que ele não desejava ter o trabalho de tirar-lhe a inocência. Subitamente, ela sentiu que não poderia suportar a humilhação por mais tempo e declarou: — Vou para o meu quarto. — Acho que é uma ótima ideia — ele concordou com sarcasmo no tom de voz. Leo apenas assistiu quando ela apanhou o vestido largado no chão e caminhou em silêncio até o quarto que ocupava. Uma sensação de que poderia estar sendo enganado o torturava. Será que a história da virgindade era verdade? Mas, se não fosse real, por que razão ela teria dito que ele não tardaria a descobrir o fato por si mesmo? E, se ela estivesse sendo sincera, ao notar o quanto ele estava excitado, seria natural que temesse ser machucada. Por outro lado, considerando que Angel ainda fosse virgem, então ela não teria tido inúmeros amantes como ele presumira.


Pelo menos, esse era um dos aspectos da personalidade dela que ele precisaria rever. Por um segundo ainda suspeitou de que pudesse haver alguma trama por trás disso tudo. Talvez o pai a tivesse incentivado a seduzi-lo. Porém, a maneira como Angel ficara desapontada com a acusação que ele fizera ao pai dela lhe parecera bem convincente. Além do que, Angel afirmara que o pai nem sequer estava em casa quando ela chegou para apanhar seus pertences e que teria partido para Londres na noite anterior. E esse era um fato que Leo poderia comprovar facilmente, se desejasse. Uma sensação de desconforto o atordoou e Leo sentou-se na borda da cama e repousou a cabeça entre as mãos. "Por que diabos alguém como ela permaneceria virgem até os 24 anos de idade?" De súbito, ele se lembrou de quando estavam no escritório do pai dele, na noite anterior. Leo quase conseguira que ela chegasse a um orgasmo e de repente ficara contrariado consigo mesmo por ocasionar esse prazer para a mulher que acabara de flagrar tentando roubar documentos importantes para prejudicar sua família. No momento em que ele recuou e notou que ela ficara arrasada, acreditou que não passasse de representação. Mas, se o que ela acabava de revelar fosse mesmo a verdade, então a reação de embaraço que ela demonstrara seria plenamente justificável. Inclusive o nervosismo que a fez trombar com ele e provocar o incidente com o copo que Leo segurava. Naquele instante, ele olhou para a porta do quarto que Angel ocupava e se convenceu de que ela dizia a verdade. Ninguém conseguiria sustentar uma história de virgindade por muito tempo. Leo estava zangado consigo mesmo por não ter percebido isso antes. Julgava-se tão experiente com as mulheres e nem mesmo identificara uma mulher virgem quando a beijara. O tamanho do ego o impedira de enxergar a verdade. Essa era a questão. Ficara tão empolgado pela sua atração física por Angel que deixara o cérebro ser conduzido pelos hormônios. Estava evidente que todos os caminhos os levariam para a cama. E, no momento em que ela o afastou, Leo precisou exercer um controle maior do que imaginava possuir para conseguir abandonar o que fazia e erguer-se da cama.


Só de se lembrar das curvas generosas do corpo escultural, Leo sentiu o calor novamente aquecer-lhe o sangue. E o fato de saber que nenhum homem descobrira os caminhos secretos da intimidade de Angel o excitava ainda mais. Era virgem e Leo tinha o poder de torná-la exclusivamente sua. No instante em que Angel entrou embaixo do chuveiro, lágrimas sentidas escorreram na face ainda aquecida pela vergonha, seguidas de soluços .abafados com a palma de uma das mãos, para que Leo não os ouvisse. Não podia acreditar que estivesse se sentindo tão mortificada por causa de um homem que mal conhecia. Tinha todas as razões do mundo para desprezá-lo e, no entanto, ela o queria desesperadamente. Já não lhe bastava ter conquistado a confiança dele a ponto de Leo não ter chamado a polícia? Por que se importava tanto em querer que ele a desejasse também? Quando saiu do banho e ainda secava os cabelos com a toalha, notou as mãos trêmulas, embora estivesse quente. Apanhou o robe pendurado atrás da porta do banheiro e o vestiu. Sentia um imenso vazio dentro do peito. Achilles se afastara dela a partir do instante em que descobrira que ela era virgem, sem nem mesmo se perguntar se ela seria capaz de agradá-lo na cama. Só que Achilles era apenas um garoto e Leo Parnassus um homem experiente. Estava óbvio que Leo não queria perder tempo com uma principiante. Será que o fato de ser virgem a fazia parecer tão repulsiva? Mas que outra razão ele teria para desistir tão fácil? Para um homem com tamanha virilidade, impedir-se de fazer amor com ela por causa da virgindade só poderia ser justificado pelo fato de não ter interesse em ser o primeiro amante na vida dela. Ela nem queria considerar a hipótese de que Leo pudesse ter agido daquela maneira pela razão de ela tê-lo pego de surpresa. Seria preciso que ele fosse um homem com pretensões de um relacionamento duradouro. E ela sabia muito bem que Leo Parnassus era conhecido por ser um solteirão inveterado, sempre acompanhado de mulheres famosas e bonitas. Ela não tinha ideia de como seria dali em diante. Talvez Leo prosseguisse com as amantes em segredo, enquanto a apresentasse em público como sua única amante, apenas para se vingar do pai dela. Sem dúvida aquilo representaria uma humilhação a mais. Porém, o fato de Leo se recusar a manter relações íntimas com


ela, abalara sua autoestima de tal maneira que Angel já nem se importava mais com o desejo dele por vingança. O pior ela já suportara naquela noite. Assim que saiu do banheiro, apagou as luzes do quarto também. Não notou a presença de outra pessoa enquanto se encaminhava na direção da cama até que quase trombou com o corpo gigantesco de Leo. Será que estaria sonhando? Ele estava bem na frente dela, ainda usando o jeans com o primeiro botão da calça aberto e um olhar insinuante que lhe tirava o fôlego. Ou a fazia parecer ainda mais patética. Ele lhe estendeu a mão. — Venha comigo, Angel. Ela hesitou. O fato de Leo estar ali não significava que ele tivesse mudado de ideia. Angel não queria se iludir mais uma vez. Ele tomou a face dela entre as mãos e a beijou com suavidade. Depois afastou os cabelos úmidos dela e os prendeu atrás das orelhas, declarando: — Você é agora minha, Angel, de ninguém mais. Ela ergueu os olhos, mas não conseguiu falar. O momento era grandioso demais. Leo desatou o nó que prendia o robe na cintura dela e afastou o tecido pelos ombros delgados. Ela apenas observava enquanto a única peça que usava deslizava até seus pés e Leo olhava com admiração o seu corpo nu. Ele despiu o jeans novamente e Angel o admirou com a mesma volúpia de antes. Sentia uma enorme vontade de tocá-lo e sentir a masculinidade pujante. Como se tivesse sido capaz de adivinhar-lhe os pensamentos, Leo a incentivou: — Não se envergonhe por isso, Angel. Pode me tocar. Com o coração na boca, ela estendeu um braço e circulou com os dedos o volume erétil. A sensação foi emocionante e ela ousou um pouco mais através de movimentos com a mão para explorar toda a extensão do órgão masculino. Quando ele liberou um suspiro de agonia, ela ergueu os olhos e notou-lhe as feições contraídas e o rosto corado.


Leo, gentilmente, afastou a mão dela e Angel temeu que tivesse feito ajgo errado. — Se persistir nisso, nossa festa acabará antes mesmo de começar. — Ele a preveniu sorrindo. Ela enrubesceu e sentiu um imenso alívio por saber que não havia feito nada insensato. Leo a tomou pela mão e a conduziu para a cama. Ela deitou-se e sentiu um tremor de ansiedade quando ele sobrepôs seu corpo imenso sobre ela. Quando ele fizera o mesmo na primeira vez, ela se sentira de certa maneira subjugada. Mas agora, ele a tratava com uma gentileza que a deixava extasiada. No instante em que ele se apossou dos lábios dela, Angel apoiou as mãos nas costas volumosas e contorceu o corpo de maneira instintiva como se quisesse sentir cada centímetro da musculatura poderosa. Leo abandonou o beijo para abocanhar um dos mamilos rijos. Ela gemeu enquanto enterrava os dedos trêmulos nos cabelos escuros dele. Ele moveu uma das mãos para o meio das coxas macias e a incentivou a apartá-las. Então passou a afagar o centro da feminilidade ao mesmo tempo em que sugava o outro mamilo. Ela beliscou o lábio inferior com ferocidade, para impedir que liberasse um grito de delírio. Leo moveu a cabeça na direção do ventre feminino e começou a espalhar uma trilha de beijos ao redor do umbigo delicado. Angel ergueu a cabeça e murmurou com o olhar incendiado de desejo: — Leo... Por favor... — Acha que está pronta, Angel? Ela respondeu com um murmúrio e um aceno de cabeça. Quando ele recolheu a mão que mantinha no centro palpitante e úmido da intimidade feminina, ela gemeu desconsolada. Leo se afastou por um instante e Angel ouviu o ruído de uma embalagem sendo rasgada. Um preservativo, concluiu. Logo ele estava de volta e ela sentiu novamente o conforto do calor másculo. — Abra-se para mim, Angel. Ela separou as pernas para permitir que ele se introduzisse no espaço abrasado pela excitação.


Ao sentir o primeiro impacto da penetração, embora ele estivesse sendo cuidadoso, ela soltou um gemido de dor. — Tenha paciência Angel... Logo vai passar — ele pediu com a voz sussurrante e em seguida a beijou com suavidade para tentar confortá-la. A dor ainda permanecia, mas já não estava tão forte quanto antes. Ele abandonou os lábios femininos para perguntar: — Está tudo bem? Ela assentiu com um gesto de cabeça. Leo a penetrou um pouco mais e Angel, sem querer, retraiu a musculatura interior. O medo de que a dor se intensificasse a inibia. De repente, o desconforto foi aos poucos sendo substituído por um prazer surpreendente. — Agora já está tudo bem, Leo. E foi somente naquele instante que ela percebeu o esforço que ele fazia para se conter. Os ombros largos estavam estremecidos e a testa coberta de suor. Com um grunhido, Leo deu a estocada final e Angel ofegou. Ela não conseguia falar por conta da emoção, mas erguia os quadris para incentivá-lo a prosseguir. Ele iniciou o ritmo compassado de maneira lenta nas primeiras vezes, a fim de permitir que a musculatura sutil se amoldasse à rigidez masculina. Porém, ao sentir uma ânsia inexplicável por um prazer maior, Angel suplicou: — Por favor, Leo... — Está bem. Acompanhe-me. Com os corpos cada vez mais suados, ele prosseguiu as investidas de maneira mais rápida enquanto ela fincava os dedos nas costas amplas e erguia os quadris instintivamente a cada nova penetração. No instante em que Angel provou um êxtase profundo que jamais imaginara poder existir, quase parou de respirar. Era como se tivesse sido transportada para outro universo. Ele aproveitou para dar a investida final e acompanhá-la no clímax prazeroso. Um pouco depois, Leo permanecia deitado de costas no colchão, um braço enlaçando o corpo de Angel.


Ela mantinha uma perna repousada sobre o corpo dele e Leo podia sentir a pressão do busto feminino contra a lateral do seu peito. Embora ele tivesse acabado de fazer amor com ela, já começava a sentir que estava pronto para uma nova jornada amorosa. Na verdade, Leo nunca sentira uma excitação tão imediata depois do ato de amor. Ele percebia as batidas do coração de Angel começarem a se estabilizar. A respiração estava menos ofegante e ela parecia adormecida. Apesar de ter tido numerosos casos amorosos, Leo nunca havia sentido o que acabara de provar com Angel. Seria pelo fato de ela ser virgem? Por que se não fosse isso... Ela se moveu e ele interrompeu os devaneios. Angel sentiu aos poucos a consciência retornar de um sono profundo. Percebeu que estava aninhada junto ao peito musculoso de Leo e que ele mantinha um braço ao redor do corpo dela. Um sorriso de felicidade brotou nos lábios ainda empolados pelos beijos afetuosos ao lembrar-se de que ele não a rejeitara. Leo a transformara em mulher... Só de recordar as recentes sensações de prazer, ela sentiu a umidade retornar ao centro da feminilidade e torná-la pronta para recebê-lo outra vez. Estendendo um braço ela começou a provocar os pelos sedosos que cobriam o tórax masculino e sentiu a musculatura do peito dele reagir de imediato. Nem era preciso usar palavras para demonstrar que ela o queria novamente. Ele sobrepôs uma das mãos sobre a dela e interrompeu-lhe os movimentos. — Você ainda deve estar sensível, Angel. Ela sacudiu a cabeça num gesto negativo. Sabia que ainda deveria estar com a região, dolorida, mas nada que não pudesse suportar. Leo disse algo que ela não conseguiu entender e se movimentou tão rápido que em segundos ela estava com as costas repousadas no colchão e ele se introduzindo no meio das coxas femininas.


Quando Angel acordou novamente, as cortinas estavam abertas e os raios de sol penetravam pela janela e iluminavam o quarto. Leo não estava na cama. Era impressionante como sua vida havia se transformado em questão de horas. No dia anterior ela ainda era virgem e à noite Leo a transformara em uma mulher. Contudo, ela não podia ignorar o fato de que Leo não fizera isso por amor e sim por uma questão de satisfação própria, além do desejo de puni-la. Com a mente confusa, Angel apenas fitou o teto por alguns minutos. Leo lhe tirara a inocência com tanta preocupação e cuidado que ela até se esquecera da razão pela qual estava na casa dele. Um sentimento de "vazio" dentro do peito a sacudiu e ela decidiu sair da cama. Apanhou o robe que ainda estava no chão e o vestiu. Sem nem mesmo pensar o que deveria fazer em seguida, aproximou-se da porta de conexão entre os quartos que se mantinha fechada. Após hesitar por um segundo, girou a maçaneta e escancarou a porta. Em seguida entrou no quarto de Leo. Estacou no instante em que o viu diante do espelho do armário, terminando de ajeitar o nó da gravata. E ao notar a presença dela, ele apenas lançou um olhar indiferente através do espelho e prosseguiu o que fazia. Angel não sabia bem o que esperava, mas com certeza não seria toda aquela frieza que ele demonstrava. Leo parecia tão distante e autoritário naquele terno escuro e camisa branca, que nem de longe lembrava o amante gentil da noite anterior. Ele tornou a fitá-la através do espelho e ela corou pela maneira fria como ele a tratava: — Deseja alguma coisa, Angel? Não achava possível que fosse o mesmo homem que a levara até o paraíso algumas horas antes... Talvez, o que para ela tivesse significado a maior aventura de sua vida, para Leo não passasse de mais uma noite de sexo como tantas outras, apesar do fato de ela ainda ser virgem. Angel empinou o nariz e se esforçou para que a voz saísse firme.


— Eu só queria saber a que horas o estilista disse que viria. Leo girou a cabeça e a fitou com a mesma expressão de indiferença. — Essa noite você representou apenas uma principiante ansiosa. Mas eu posso antecipar que nosso relacionamento ficará bem mais interessante... Angel sentiu o sangue ferver com a maneira sarcástica de como ele se referia ao comportamento dela na cama e tentou revidar: — Bem... Como não tenho a mesma experiência que você, até concordo que a noite foi razoável... Leo deu uma gargalhada e depois se aproximou dela. Ergueu-lhe o queixo com dois dedos de uma das mãos e assegurou: — Eu sei exatamente o que essa noite significou para você. Acompanhei cada segundo dos seus orgasmos. Por isso, não me venha com essa história de razoável. Ela afastou a mão que ele mantinha sob seu queixo e acrescentou: — Como eu disse, você é o mais experiente. Embora eu tenha certeza de que essa novela não durará por muito tempo. Leo tornou a segurar-lhe o queixo. Dessa vez com maior firmeza. — Eu não penso dessa maneira. Existe muito fogo por baixo dessa aparência angelical e estou louco para acender as brasas. Essa noite foi apenas uma pequena amostra. — Depois daquelas palavras, ele liberou o queixo delicado e consultou o relógio de pulso. — O estilista chegará aqui ao meio-dia e estará acompanhado de uma esteticista para lhe oferecer alguns tratamentos de beleza. Hoje à noite acontecerá a festa em que tomarei posse do cargo de presidente da Parnassus Shipping e quero que me acompanhe. Será nossa primeira apresentação juntos e em público. — E com um sorriso debochado adicionou: — Será divertido para você. O evento será realizado no Grand Bretagne, onde você já estava acostumada a trocar os lençóis usados. E não se esqueça de usar algo apropriado para a sua primeira apresentação como minha amante. Estou ansioso para começar a acertar algumas diferenças assim que a virem ao meu lado. Até mais tarde.


Ela permaneceu imóvel enquanto o via sair pela porta, sem nem mesmo dar uma última olhada para trás. CAPÍTULO SEIS Enquanto participava da reunião dos novos membros eleitos para a diretoria da Parnassus Shipping, Leo não conseguia se concentrar na discussão das novas metas que o grupo pretendia implantar. A única coisa em que podia pensar era em Angel e no que acontecera na noite anterior. E, naquela manhã, quando ela entrara em seu quarto, apesar da vontade instintiva de tomá-la nos braços e beijá-la, Leo procurou manter-se distante para evitar um envolvimento emocional além daquele que ela representaria como sua amante. No começo da noite, Angel se encontrava acomodada ao lado de Leo, no banco traseiro da limusine da família Parnassus. Sentia um nó de angústia bloqueando-lhe o ar na garganta ao se lembrar do que acontecera pela manhã. Não conseguia tirar do pensamento a frieza com que Leo a tratara. Imaginava que não teria coragem de deixar que ele a tocasse outra vez. E, como se fosse apenas para provocá-la, Leo sobrepôs uma das mãos sobre a que ela repousava sobre o próprio joelho. — Você está muito linda! — ele exclamou. — Bem... Você pagou por isso, não foi? — Dinheiro não tem nada a ver com beleza. E você é realmente muito bonita, Angel. E Leo estava sendo sincero. Quando ele entrara no quarto dela um pouco antes para chamá-la, Angel se encontrava de frente para a janela e de costas para ele. No instante em que ela girou o corpo para encará-lo, Leò sentiu o ar faltar. O vestido longo turquesa confeccionado em seda pura evidenciava as curvas perfeitas do corpo delgado. O decote em V revelava parte da junção dos seios erguidos e provocantes. Os cabelos foram torcidos no alto da cabeça em um penteado profissionalmente elaborado, que exibia como arremate uma flor exótica na mesma cor do vestido. Leo se remexeu no banco do carro e apertou a mão miúda de Angel quando resolveu perguntar:


— Como acha que seu pai irá reagir quando ler as manchetes dos jornais pela manhã e descobrir que estamos juntos? Angel estremeceu e tentou liberar a mão da dele, porém Leo a.segurou com mais força. Ela o odiou naquele instante. A única coisa que a impediu de pedir para o motorista parar e descer do carro fora a lembrança do telefonema de Delphi, que recebera pela manhã, no qual ela informava toda feliz de que seu casamento com Stavros tinha sido marcado para o próximo mês. Leo estava cumprindo a palavra mais cedo do que Angel imaginava. —Acho que você sabe muito bem como ele deverá reagir. Com certeza se sentirá humilhado. Leo ergueu uma sobrancelha. — Será mesmo, Angel? Ou vocês dois já haviam planejado como deveria ser o acordo entre nós? Odiando o sarcasmo no tom de voz que ele usava, Angel revidou para espicaçar: — Se eu e meu pai realmente costumamos planejar possíveis acordos você nunca irá saber, não é? — Engana-se, minha querida. De agora em diante eu terei o relatório completo de todos os seus movimentos. Por isso se você e seu pai tiverem qualquer ideia brilhante para prejudicar minha família, podem esquecer. — Mas nós não temos... A frase foi interrompida no instante em que Leo capturou-lhe os lábios. Angel ficou tão atordoada com a intensidade daquele beijo que nem mesmo se deu conta de que o motorista acabava de estacionar o carro. Apenas quando Leo ergueu a cabeça, Angel abriu os olhos e notou que já haviam chegado ao hotel. Sentia o peito arfar e o corpo arder em chamas. Leo mantinha um sorriso triunfante e com o olhar fixo no busto de Angel murmurou: — Perfeito! Ela baixou os olhos e notou os mamilos enrijecidos e salientes despontarem por baixo do tecido fino. O estilo ousado do vestido não comportava o uso de sutiã. Antes que ela respondesse qualquer coisa, Leo desceu do veículo e depois a ajudou a sair.


Do lado de fora uma multidão de repórteres os aguardava e várias luzes de flashes de cameras dispararam ao mesmo tempo. Naquele instante Angel percebeu que havia se transformado na mais recente aquisição do poderoso magnata. Um pouco mais tarde, Angel permanecia acomodada em uma mesa solitária num canto do salão e sentia-se completamente deslocada. Ela ficara tanto tempo no internato e depois cursando a faculdade que nem tivera tempo de se entrosar na sociedade de Atenas. Apesar disso, Angel conhecia algumas pessoas que estavam presentes no salão e odiou notar os olhares censuradores que elas lançavam em sua direção. Quando tinha ido ao toalete um pouco antes, ouvira sem querer a conversa entre duas mulheres que dividiam o uso da pia. — Você consegue acreditar que Leo veio com ela? — Sei o que quer dizer. Ele não deveria nem chegar perto dela ou daquela família depois do que eles fizeram... — Já imaginou a cara do pai dela quando descobrir que eles estão juntos? — Eu não ficaria surpresa em saber que Leo Parnassus está com ela apenas para se vingar de Tito Kassianides. Você percebeu que Leo praticamente a ignorou durante toda a noite? — Eu não me importaria de ficar com um homem daqueles, ainda que fosse por vingança... Angel lembrou-se da conversa que ouvira e cerrou os dentes. Talvez fosse mesmo para humilhá-la que Leo tivesse se mantido afastado o tempo todo. Provavelmente isso faria parte de sua vingança. Naquele instante, Angel viu Lucy Levakis erguer-se da mesa onde o marido e Leo se encontravam, e caminhar na sua direção. Lucy era inglesa e havia se casado com Aristotle Levakis, sócio de Leo Parnassus. E ela era a única pessoa que se mostrara gentil com Angel. Talvez pelo motivo de não saber da história que marcara a rivalidade entre as famílias Kassianides e Parnassus. Quanto a Ari Levaskis, ele não parava de lhe lançar olhares suspeitos. Angel lembrava-se de tê-lo visto na festa em que ela servira como garçonete na mansão dos Parnassus. Será que ele sabia algo sobre a ideia de vingança de Leo?


Lucy se acomodou na cadeira do lado oposto da mesa em que Angel estava e comentou: — Você parecia tão solitária que resolvi lhe fazer companhia. Francamente... Os homens parecem esquecer o mundo quando estão falando de negócios. Angel sorriu. — Não precisava se preocupar comigo. Estou bem. Não me importarei se quiser voltar para junto de seu marido. Lucy meneou a cabeça. Então Angel reconheceu o colar que a outra usava. — Desculpe-me Lucy, mas onde comprou esse colar? — Foi um presente de Ari e eu gostei tanto do colar que ele resolveu me propor casamento com ele. — Lucy tocou a joia com a ponta de dois dedos da mão direita e declarou: — Eu o uso como aliança de casamento. Angel exibiu um sorriso orgulhoso. — Fui eu quem projetou esse colar. — Você o quê? — Eu cursei a faculdade de Design de Jóias e esse colar fazia parte da coleção que apresentei por ocasião da minha formatura. Foi a única peça vendida. As outras eu dei de presente para algumas amigas. Algumas que sobraram ficaram para a minha irmã. — Mas poderia ter feito uma fortuna com elas! — exclamou Lucy. Angel apenas sorriu. Estava consciente da ironia daquela situação. Nunca imaginara que logo após a formatura sua vida mudasse de maneira tão drástica. E por conta disso, precisasse virar as costas para a profissão dos seus sonhos. Caso contrário, teria mantido sua coleção intacta. Antes que Angel tivesse oportunidade de dizer qualquer coisa, Lucy a puxou pela mão e insistiu que a acompanhasse até a mesa onde estava o marido. Angel permaneceu calada enquanto Lucy fazia um alarido e contava para o marido que Angel quem projetara o colar que ela usava como aliança de casamento. Ari olhou para Leo, mas ele não demonstrou a mínima emoção. Sem dúvida achava que Angel inventou aquela história apenas para marcar pontos com Lucy.


De súbito, Lucy olhou no relógio que mantinha em um pulso e avisou que precisava voltar para casa a fim de liberar a babá. Angel a ouvira contar que eles tinham dois filhos pequenos. Ficou comovida quando viu Ari se levantar e apresentar desculpas para poder se retirar e acompanhar a esposa, apesar da insistência dela em que ele ficasse. Após o casal se retirar, Angel imaginava que Leo ainda teria algo para se ocupar e fez menção de retornar para a mesa que ocupava antes. — Onde pensa que vai? — Leo perguntou em voz alta. — Ficar sozinha na outra mesa para que todos possam ver o quanto você está me ignorando. — Pare com essa tolice, Angel. —Tolice? Não é exatamente o que planejou? Uma demonstração em público do quanto me despreza? — As palavras eram despejadas de sua boca sem que ela tivesse o mínimo controle. — E* se lhe servir de incentivo, eu acabei de ouvir alguns comentários no toalete de que você está me ignorando de propósito para conseguir me humilhar em público. Leo franziu o cenho. — O que foi que ouviu? — Isso não importa. Leo abriu a boca para protestar, mas foi interrompido por um homem que se aproximava naquele mesmo minuto. Para surpresa de Angel, ele não largou a mão dela. Depois de apresentá-la ao outro homem, fez questão de que ela participasse da conversa. E, pelo restante da noite, Leo a manteve por perto. Quando estavam no carro, retornando para a mansão, Leo decidiu perguntar: — E verdade que você criou o design do colar de Lucy? — Claro que é verdade. Por que razão eu mentiria? Leo a estudou por um longo momento. — E uma linda obra de arte. — Obrigada. — E por que você não prosseguiu com as criações depois que se formou? — Eu não tive condições de montar um ateliê.


— Mas se você sempre trabalhou em alguma coisa, com certeza teve oportunidade de juntar o suficiente para alugar algum espaço. —As ferramentas e a matéria-prima de que necessito para poder realizar as criações são muito caras. Leo reclinou as costas no banco do carro e falou pensativo: — Você deve ter-se sentido péssima em ter que prestar serviços tão elementares e precisar abandonar o seu verdadeiro talento. — Eu não tive escolha. Leo se perguntou mentalmente por que Angel não tinha se aventurado em participar da sociedade ateniense e tentado encontrar um marido rico que pudesse lhe proporcionar os sonhos que alimentava? Era evidente que a irmã fizera isso. Ao mesmo tempo, ele também se questionou a razão de Angel permanecer virgem. Uma virgem que não tinha interesse em arranjar um marido rico para sustentá-la. Agora ela não era mais virgem e lhe pertencia, Leo concluiu com orgulho. Um sentimento primitivo de posse fez com que ele a enlaçasse pela cintura e gentilmente a fizesse se acomodar em seu colo. Ela tentou resistir, porém Leo a dominou com um beijo caloroso. E quando notou o corpo pequeno relaxar em seus braços, aproveitou para descer uma das mãos até a barra da saia e introduzi-la entre as coxas macias. Com os dedos hábeis torturou o centro da feminilidade até sentir a umidade brotar e Angel gemer de ansiedade. No momento em que se aproximavam da mansão, ambos já estavam prontos para outra noite de amor.

Antes do final daquela mesma semana, a sociedade de Atenas já tinha conhecimento de que Leo Parnassus tomara Angel Kassianides como amante. Os paparazzi praticamente acamparam próximo dos portões da mansão dos Parnassus. Cada vez que o casal saía para participar de algum evento ou simplesmente um jantar, os repórteres se atropelavam para conseguir alguma notícia de como estava indo o relacionamento entre eles. As manchetes dos jornais exibiam a situação com palavras sensacionalistas:


Parnassus e Kassianides enterram setenta anos de inimizade embaixo dos lençóis. Outras manchetes mais maldosas sugeriam que Leo Parnassus estava sendo recompensado com favores sexuais. Embora de maneira vexatória, as notícias estavam sendo espalhadas'da forma como Leo planejara. Em uma determinada manhã, quando Angel desceu para o desjejum, ficou surpresa de que Leo ainda não tivesse saído e aproveitou para perguntar: — Como está seu pai? Os comentários não o abalaram? — Meu pai está ciente da situação, mas não costuma se intrometer nos meus relacionamentos amorosos. — Mas ele não deve estar contente em ver o nome da família constantemente citado nos jornais. — Isso é exatamente o que eu pretendia. E se meu pai soubesse que eu a flagrei roubando o testamento dele, com certeza endossaria os meus métodos. Angel pensou em como o pai dela deveria estar se sentindo em relação a todo aquele escândalo. Como se tivesse adivinhado os pensamentos dela, Leo perguntou: — E quanto ao seu pai? Já conversou com ele? Angel negou com um gesto de cabeça. Ela soubera através de Delphi que o pai delas agora vivia em constante estado de embriaguês e culpava Angel por sua desgraça. A viagem que ele fizera a Londres não adiantara nada. — Não. Nós não nos falamos há muito tempo — Angel respondeu e orou em silêncio para conseguir mais paciência. Assim que Delphi se casasse com Stavros, ela estaria livre para morar onde desejasse. Leo a olhou com suspeita, porém Angel fez seu melhor para disfarçar suas reais intenções. Angel mirou-se no espelho grande do quarto e notou a aparência cansada. E ela estava realmente exausta. Desde o momento em que aceitara ser amante de Leo, ele não lhe dava uma noite de descanso. Apesar disso, ela não podia dizer que realmente conhecia o homem com quem convivia. Nem mesmo sabia a origem da cicatriz exibida acima dos lábios masculinos.


Tentando afastar os pensamentos nebulosos, ela girou o corpo para apreciar o vestido que acabara de colocar. Era uma das roupas mais extravagantes que já usara. Confeccionado em tecido brilhante, sem alças e o comprimento um palmo acima dos joelhos. Um par de brincos em formato de argola e sandálias de saltos altos e finos. Um ruído fez com que ela girasse a cabeça na direção da porta. Leo estava reclinado contra o batente e a estudava em silêncio. Já se encontrava perfeitamente vestido com um terno escuro e uma camisa de seda branca. Ela se sentiu vulnerável ao notar que estava sendo observada. Mas essa era a maneira como Leo gostava de conduzir a vida. Ele saía para o trabalho bem cedo e quando Angel acordava ainda sentia o corpo dolorido pelo vigor sexual de Leo. E na maioria das vezes, ele chegava tarde da noite e o ritual se repetia. Não havia nenhuma emoção envolvida naquele relacionamento e a conversa entre eles se limitava ao mínimo indispensável. Ela havia notado que Leo ficara tenso na noite anterior, quando eles estavam participando da inauguração de uma galeria de artes, ao observar um casal tendo uma discussão em público. Ficou surpresa com a irritabilidade que ele demonstrara nas feições. A reação parecia desproporcional diante de uma cena de desentendimento entre um casal estranho. Contudo, ela não se importava com o que Leo achava correto ou não. Só lhe interessava saber que estava conseguindo facilitar as coisas para Delphi. Com um olhar desafiante na direção dele, Angel repousou uma das mãos num lado dos quadris e perguntou: — O que acha? Estou suficientemente sexy para uma amante? Ele apertou o maxilar e estreitou os olhos. —Não me provoque, Angel. — E percorrendo o olhar por toda a extensão do corpo feminino, ele declarou: — Sim. Está perfeito. É exatamente o tipo de roupa que os jornalistas estarão esperando que você use. Vamos embora. CAPÍTULO SETE Quando se encontravam no carro, a caminho do salão de festas de um hotel luxuoso no centro de Atenas, onde Leo era esperado


para iniciar a cerimônia para angariar fundos para uma entidade beneficente, ele se mostrava profundamente contrariado. Com o canto dos olhos espiava as coxas bonitas de Angel expostas por conta do vestido curto. Pouco tempo antes, quando ele a vira no quarto, a vontade que sentira era a de forçá-la a trocar a roupa extravagante por outra mais discreta. De preferência com gola alta e saias longas. Contudo, a ambiguidade de propósitos o atordoava. Por um lado, ele se sentia desconfortável pela maneira como ela estava vestida, o que sem dúvida revelava a sua posição como amante dele. Por outro lado, essa era exatamente a imagem que ele desejava que ela demonstrasse em público. Leo também estava contrariado pelo fato de saber que, apesar de dormir todas as noites com ela, isso não diminuía o apetite sexual que sentia por Angel. Ao contrário. A cada vez que faziam amor, o desejo se intensificava espontaneamente. E a par disso tudo, Leo precisava se desdobrar para conseguir administrar os negócios em Atenas e Nova York ao mesmo tempo. Por um breve momento ele considerou que ter trazido o inimigo para debaixo de seus lençóis fora um grande erro. Angel parecia exercer um controle inconsciente sobre ele e muito mais poderoso do que Leo poderia imaginar. No decorrer da festa, Angel precisou esforçar-se para manter a postura diante dos olhares cobiçosos que os homens lançavam na direção de suas pernas. Sentia-se exposta e zangada consigo mesma por ter escolhido um vestido tão ousado para aquela noite. Ela apenas tivera a intenção de provocar Leo, mas acabara recusando-se a trocá-lo por outro, depois de ouvi-lo mencionar que o traje estava perfeito. Angel havia decidido provocar Leo de alguma maneira, desde quando ele se tornara frio e distante. Todas as noites ele vinha até a cama dela e faziam amor. Mas assim que o ato sexual terminava, Leo erguia-se da cama e seguia para o próprio quarto sem dizer uma única palavra. Nada de gentilezas ou carícias. Nem sussurros no meio da noite, como ela imaginava que um amante faria. — Nossa! Você parece estar a quilômetros de distância, Angel! — A exclamação ruidosa de Lucy Levaskis a tirou dos devaneios.


— Eu não a culpo — afirmou, gesticulando na direção do marido e de Leo, que conversavam animadamente. — Eu sei muito bem como está se sentindo. Eu também costumava sentir essas coisas quando namorava Ari. — Ela deu uma nova espiada na direção do marido e acabou por confessar: — Eu ainda o vejo como se fosse o único homem existente no salão. Angel sorriu e comentou: — Qualquer um pensaria que vocês ainda estão em plena lua de mel e não com duas crianças em casa. Antes que Lucy respondesse qualquer coisa, uma amiga a puxou pelo braço e a forçou a acompanhá-la. No instante em que Angel ficou sozinha novamente, Leo ergueu uma das mãos no ar e acenou para que ela se aproximasse. Com passos hesitantes ela caminhou até onde os dois homens se encontravam. Leo antecipou com um sorriso: — Ari tem algo a lhe dizer, Angel. O amigo olhou para Leo e então para Angel. — Na verdade, o que eu desejo é pedir-lhe um favor. — Se houver algo que eu possa fazer por você, será um prazer — Angel respondeu com gentileza. — Eu gostaria que você criasse algumas peças para Lucy. Nosso aniversário de casamento será daqui a dois meses. E como ela adorou o colar, acho que ficaria muito feliz em ganhar algum complemento. Eu estava pensando em um bracelete e talvez um par de brincos. O que você acha? Angel corou ao sentir uma onda de felicidade percorrer-lhe a espinha. — Bem... Eu me sinto honrada pelo pedido e adoraria atendê-lo. Mas, infelizmente, ainda não disponho das ferramentas necessárias para poder executar o design de novas jóias. Naquele minuto, Leo resolveu intervir: — Não se preocupe, Ari. Eu me encarregarei de que Angel tenha tudo o que precisar para realizar o trabalho com as jóias. Angel ficou boquiaberta e olhou espantada para Leo. Porém, Ari já estava respondendo: — Então está combinado. — E fitando Angel, prosseguiu: — Será que você poderia comparecer ao meu escritório amanhã cedo para discutirmos os detalhes?


Ela retornou a atenção para Ari, sentindo como se um vento repentino a tivesse desequilibrado. — Sim, é claro. Lucy surgiu naquele instante e lembrou o marido de que precisavam ir para casa a fim de liberar a babá. Assim que Ari e Lucy saíram, Angel ergueu os olhos para Leo e protestou: — Você não deveria ter-se comprometido com Ari de que eu poderia aceitar a encomenda. Não tem ideia de como as ferramentas especiais são caras. Além do mais, eu não tenho um espaço adequado para realizar esse tipo de trabalho. — A mansão tem muitos aposentos vagos e eu não tenho intenção de negar a um amigo algo que ele deseje com tanta vontade. Angel sentiu uma ponta de ciúme ao notar a afeição que Leo demonstrava pelo amigo. Angel estacou no vão da porta do aposento que ficava nos fundos da mansão e olhou perplexa para o ambiente transformado em estúdio de arte num piscar de olhos. Aquele era um dos milagres que o dinheiro podia fazer acontecer de um minuto para o outro. Angel caminhou até a mesa de madeira polida posta no centro do recinto e admirou as inúmeras ferramentas e metais nobres que constavam da lista que ela havia entregue a Leo. Ela nunca chegara nem perto de um acervo como aquele nem nos tempos de colégio. Dava até pena de imaginar que o estúdio tão bem montado teria de ser desfeito assim que o acordo entre eles terminasse. Com certeza, Leo ordenaria para que o aposento fosse restabelecido como era antes. Ela suspirou profundo. — O que foi? Não gostou do estúdio? Angel girou a cabeça na direção da porta com uma das mãos sobre o peito: — Você me assustou! Não sabia que estava em casa! Leo permanecia com o corpo reclinado no batente da porta e as mãos nos bolsos da calça. A camisa aberta na altura do colarinho. — Da maneira como você suspirou, eu só posso deduzir que detestou o ateliê. Angel balançou a cabeça.


— Nada disso! Eu o adorei! Você deve ter tido muito trabalho com isso. Ele deu de ombros. — Que nada. Apenas ordenei que o equipamento fosse da melhor qualidade. Ela deu um sorriso amarelado com o aparente descaso. — Bem, posso garantir que o material é de primeira qualidade. Só espero que não precise gastar muito para desmontar o estúdio quando for o momento certo. Por um longo momento, ele apenas a fitou em silêncio. Depois murmurou: — Não precisa se preocupar com isso. Leo teve um estranho pressentimento ao ouvi-la falar de maneira tão casual em relação ao final do acordo entre eles. Ela parecia tão sexy no jeans apertado e o top preto. E sem que pudesse impedir, as palavras apenas jorraram de sua boca: — Não alimente ilusões com Ari. Ele é um homem bem casado. Leo havia notado a maneira carinhosa como Ari se dirigira a Angel para pedir que ela criasse as jóias. E também notara o olhar de felicidade que Angel mantinha quando retornara do escritório de Ari. Leo havia decidido trabalhar em casa naquele dia e vira o momento em que ela chegara muito contente. Mas no instante em que ela o vira, sua expressão mudara. Angel protestou indignada: — Eu sei muito bem que Ari está feliz com Lucy e as crianças. E posso lhe garantir que se eu tivesse algum interesse nele, o que não é o caso, Ari não teria problemas em acreditar na minha inocência quanto a tentar roubar o testamento de seu pai. — O que seria impossível — Leo argumentou estufando o peito. Mais tarde, quando eles retomaram da festa de inauguração de um restaurante, Angel se sentia tão exausta que tropeçou no topo da escadaria e teria rolado pelos degraus se Leo não fosse ligeiro o suficiente para ampará-la nos braços. Enquanto entrava no quarto com ela nos braços, ele baixou o olhar e perguntou: — O que há de errado com você? — Nada. Apenas estou cansada. Leo a colocou em pé e avisou: — Então vá dormir, Angel. Eu preciso fazer alguns telefonemas para Nova York e estarei ocupado por pelo menos duas horas.


Angel concordou com um gesto de cabeça e tentou disfarçar o desapontamento. E antes de entrar no quarto que ocupava, lembrou-se de avisar Leo: — Amanhã estarei fora o dia todo. Eu e minha irmã iremos ao shopping para escolher nossos vestidos. — E acrescentou com hesitação na voz: — Eu nunca o agradeci por ter acelerado as coisas para que o casamento de Delphi e Stavros acontecesse tão rápido. — Não precisa me agradecer. Isso faz parte do nosso acordo. Angel apenas balançou a cabeça bem devagar e depois seguiu para o seu quarto. Leo sabia que os telefonemas para Nova York eram importantes. Os assessores aguardavam suas ordens. Contudo, Leo não conseguia tirar Angel de sua mente. Os anéis escuros em tomo dos olhos revelavam o estado de exaustão em que ela se encontrava. Talvez ele tivesse exagerado em submetê-la a todas aquelas noites de sexo. Parecia que a única coisa que lhe importava era o fato de saber que Angel Kassianides era sua amante. O desejo de vingança o consumira desde a noite em que a flagrara roubando o testamento de seu pai com a intenção de prejudicar sua família. Ele ficara comovido com o agradecimento que Angel lhe fizera por ter conseguido arranjar o casamento de Delphi com Stavros. Afinal, ele apenas tinha se apressado em assegurar o principal objetivo pelo qual Angel aceitara servir como amante dele. Leo também sabia que, apesar das inúmeras oportunidades, ela não havia procurado pelo pai. E isso era uma prova de que o pai dela não estava envolvido em nenhuma das decisões de Angel. Mas ele seria muito tolo se afastasse totalmente as suspeitas. Apenas tinha certeza de uma coisa: quanto mais se envolvia com Angel, na cama ou fora dela, menos lógico seu raciocínio se tornava. Talvez estivesse na hora de terminar com aquele relacionamento e se dedicar a outros objetivos. E com essa determinação, Leo apanhou o telefone e iniciou as ligações para Nova York que perduraram pelas próximas duas horas, enquanto ele fazia o possível para esquecer que Angel estava adormecida e tão próxima do seu alcance.


Uma semana depois, Angel permanecia solitária na cama. Leo havia avisado de que estaria ocupado no escritório e só retornaria tarde da noite. As desculpas se repetiram por todas aquelas noites. Mas, ao invés de se sentir aliviada, Angel estava cada vez mais frustrada. Leo se mostrara tão interessado desde o primeiro instante em que se conheceram, que era um choque para Angel perceber a distância em que ele se colocara nos últimos dias. Um ruído no quarto ao lado prendeu-lhe a atenção. Ela podia perceber o som dos passos de Leo se movimentando de um lado para o outro. Ela segurou o fôlego e aguardou pela presença dele. Contudo, à medida que o tempo passava e Leo não aparecia, ela girou o rosto para o lado da janela e fitou a escuridão. Ela não se conformava com o fato de que ele passara a desprezá-la daquela maneira. Ao mesmo tempo se odiava por seu corpo ansiar dolorosamente pelo corpo dele. Fechou os olhos e os reabriu em seguida com medo das imagens eróticas que a perseguiam. Ela nunca imaginara que o sexo poderia ser tão excitante. Até parecia um vício que não conseguia evitar. Desde o instante em que virá Leo pela primeira vez, seus hormônios se agitaram e ela perdera totalmente o controle no que dizia respeito a resistir a ele. Bastava um olhar dele para que seu corpo se abrasasse em chamas. Angel suspeitou que a postura que Leo adotara naquelas últimas noites fazia parte dos planos de vingança dele. Quando os ruídos silenciaram no quarto ao lado e Leo não apareceu, Angel desistiu de esperar e tentou dormir. Os pensamentos nãó lhe davam trégua e ela se sentou na cama. Talvez um chá de ervas a ajudasse a se acalmar. Ergueu-se da cama e rumou para a cozinha. Não acendeu as luzes e caminhou com os pés descalços sobre o carpete a fim de não acordar Leo. Quando se aproximou da cozinha e notou a luz acesa, descobriu que ela não era a única que não conseguia dormir. Leo estava sentado diante da mesa da cozinha e servia-se de um lanche. No instante em que percebeu a presença dela, ergueu a cabeça e a fitou com o olhar surpreso. — Desculpe-me, não tinha a intenção de assustá-lo—Angel murmurou.


— Também está sem sono? — Ele quis saber e gesticulou para que ela se aproximasse. Ela assentiu e declarou: — Pensei em preparar um chá — ela respondeu e notou que ele ainda estava vestido com roupas sociais. Deveria mesmo ter trabalhado até tarde da noite como ele já havia avisado. — O que está comendo? Parece creme de amendoim e geleia? — Angel perguntou ao mesmo tempo em que se sentava na cadeira do lado oposto de onde ele se encontrava. Leo confirmou com um gesto de cabeça enquanto dava uma mordida no sanduíche. Logo depois, ele limpou a boca com um guardanapo de papel e ofereceu: — Quer que eu lhe prepare um lanche? — Não, obrigada. Estou sem apetite. — Minha avó foi quem me acostumou a essas pequenas refeições no meio da noite. Dizia que o creme de amendoim com geleia era a única coisa que levantava seu estado de espírito. Preparava os sanduíches enquanto me contava histórias sobre a Grécia. Angel sentiu o coração se apertar. — Parece que era uma pessoa adorável. — Além disso, ela era muito saudável. Conseguiu dar à luz ao meu tio mais jovem, um dia depois de embarcarem no navio que os levara da Grécia. O parto foi difícil e ambos quase morreram. Sem saber o que dizer, Angel resolveu confidenciar também: — Eu também era muito apegada à minha avó, embora não vivêssemos na mesma casa. Meu pai e ela não se entendiam muito bem. Por isso, ela raramente nos visitava. Porém, quando alcançamos idade suficiente para poder vê-la na hora em que desejássemos, tanto eu quanto Delphi e Damia não saíamos da casa dela. E nossa avó costumava nos ensinar tudo sobre plantas e ervas e como prepará-las no estilo tradicional grego, já que Irini, minha madrasta, não se interessava por isso. — Quem é Damia? — Leo perguntou com o cenho franzido. — Damia era gêmea de Delphi. — Era...? Angel assentiu. — Ela morreu em um acidente de carro quando tinha 15 anos. — E com um sorriso amargurado, revelou:


— Damia atravessava uma fase de rebeldia. E eu não estava aqui para... — Ela se interrompeu. Para quê ficar falando sobre isso agora? Leo não deveria ter o mínimo interesse em ficar ouvindo aquela história. — E por qual motivo você não estava aqui? — Leo perguntou. Ela o estudou por um momento e deduziu que Leo parecia realmente interessado em saber o que acontecera. Então decidiu prosseguir: — Meu pai me mandou para um internato na Irlanda quando eu tinha 12 anos para permanecer lá até terminar o colegial. Eu tive a oportunidade de aprender sobre a parte irlandesa da minha herança genética e visitar minha mãe algumas vezes. — Angel preferiu ocultar a verdade sobre a conveniência do pai em se livrar da presença dela na casa onde morava. — A parte pior foi ter que abandonar minhas irmãs e minha avó. Quando minha avó faleceu, pouco depois de um ano da minha partida, eu não pude comparecer ao velório por causa da distância de onde me encontrava. O mesmo aconteceu quando Damia sofreu o acidente que lhe tirou a vida. Eu não tive condições de estar presente para apoiar Delphi. — E por que sua mãe abandonou o lar? Angel entristeceu o olhar. Ela nunca havia comentado sobre a mãe com ninguém. Nem mesmo com Delphi. Os sentimentos conflitantes que ela nutria pela mãe pareciam sufocá-la cada vez que pensava nela. Pela primeira vez sentiu vontade de confidenciar a Leo sobre sua frustração. — Ela foi embora quando eu estava com apenas dois anos de idade. Minha mãe costumava trabalhar como modelo, em Dublin. Acho que o fato de se ver casada com um grego conservador e enfrentar um estilo de vida doméstico foram demais para ela. — E sua mãe não quis levá-la com ela? Angel meneou a cabeça. — Não. Acho que a responsabilidade de tomar conta de uma criança pequena a assustou. Ela voltou para a Irlanda e retomou a vida glamourosa que levava antes de se casar. Eu consegui que o diretor do internato permitisse que eu a visitasse algumas vezes. E foi só isso. Angel sentiu sua voz soar insegura. Era muito difícil confessar que sua própria mãe não a amava o suficiente para tê-la levado com ela. E se não fosse pelo nascimento das gêmeas, Angel


nunca saberia o que representava o verdadeiro amor entre membros da família. — E como você se sentia em relação ao internato? Ela esboçou um sorriso sombrio. — O internato se localiza em Connemara. E um dos mais lindos lugares da Irlanda, porém muito distante da capital. Antigamente era um mosteiro. E quando eu entrei no prédio pela primeira vez estava chovendo e... — Angel não conseguiu impedir um calafrio. — Parecia que estava tendo um pesadelo? — Isso mesmo — ela concordou surpresa de que Leo a tivesse compreendido. Houve um silêncio e Angel se sentiu péssima. Ela acabara de contar a Leo muito mais do que teria desejado. No instante em que ele se ergueu para guardar a geleia e o creme de amendoim no refrigerador, Angel aproveitou para fazer-lhe a pergunta que a incomodava desde o dia em que encontrara o pai alcoolizado e com o testamento nas mãos. Estava com receio de parecer intrometida, mas como já havia compartilhado com ele os segredos que nunca revelara a ninguém, parecia justo que ele também confiasse nela. — E quanto à sua mãe? O que aconteceu com ela? Leo acomodou os alimentos em uma das prateleiras e, depois de fechar a porta do refrigerador, retornou para o mesmo lugar que ocupava antes. — Por que está perguntando sobre a minha mãe? — ele questionou em tom áspero. Angel não se intimidou. Afinal estava fazendo a mesma pergunta que ele lhe fizera antes. E não estava disposta a mentir apenas para agradá-lo. — E verdade que ela cometeu suicídio? Ele enrijeceu as feições. — Onde você obteve essa informação? Ela não poderia ocultar a verdade, ainda que Leo a mandasse para o inferno. — No testamento do seu pai. Ela observou o tom castanho dos olhos dele se tornar ainda mais escurp. Em seguida o olhar ficou tão distante que Leo parecia nem tomar conhecimento da presença dela. E então um sorriso sarcástico escapou dos lábios dele.


— Ah! O testamento... é claro! Como eu pude esquecer? É verdade. Eu acredito que o suicídio da minha mãe está relatado no inventário. Embora os detalhes chocantes devam ter sido omitidos. Angel desejou pedir que ele parasse quando sentiu que Leo a olhava e ao mesmo tempo não a via. Porém, não conseguiu impedir que ele prosseguisse: — Eu a vi. Ninguém percebeu que eu estava na sala, mas eu a vi. Minha mãe amarrou a ponta de um lençol em um dos balaústres no topo da escadaria e a outra ponta enrolou no pescoço e se atirou no espaço vazio. Eu vi o corpo dela balançando no ar. Angel podia ver o horror estampado nas feições dele, ao se lembrar. Preferiu permanecer em silêncio até que Leo se acalmasse. Ele respirou fundo e prosseguiu^ — O casamento dos meus pais foi apenas um acordo de negócios entre os meus avós. O problema era que minha mãe estava perdidamente apaixonada por meu pai, enquanto para ele a única coisa que interessava era recuperar as empresas e a mansão que ficara em Atenas. Minha mãe não conseguia conviver com a indiferença dele e se tornou cada vez mais histérica para conseguir chamar a atenção dele. No início eram apenas explosões emocionais que de nada adiantavam. Quanto mais ela chorava, mais ele se afastava. Depois começaram as lamentações e acusações injustas. Quando percebeu que nada mais que fizesse surtia o efeito desejado, ela decidiu tomar a atitude tresloucada de se enforcar. Angel sentiu o sangue congelar nas veias. Que coisa horrível para uma criança testemunhar. Naquele instante ela se lembrou da reação exagerada de Leo diante do casal que discutia em público na noite em que compareceram para a inauguração de uma exposição. Agora ela entendia o motivo do desgosto que ele sentia quando presenciava uma briga de casal. Ela se levantou da cadeira e murmurou: — Eu... — O que poderia dizer que não soasse inútil? — Eu sinto muito, Leo. Nenhuma criança mereceria ter visto uma cena tão trágica... Ele apenas balançou a cabeça para concordar com o que Angel dizia. No fundo, ele sabia que Angel seria a única pessoa capaz


de liberar a tensão de seu corpo. E Leo a evitava por acreditar que ela estava ganhando controle sobre ele. E preferia negar o prazer a si mesmo do que permitir que Angel soubesse o quanto ele precisava dela.

CAPÍTULO OITO Os dias se passavam rapidamente enquanto Angel se ocupava em terminar o design das jóias que havia prometido para Ari. Agora faltava apenas uma semana para a data do casamento de Delphi com Stavros. Talvez Leo aceitasse que o acordo entre eles estivesse terminado e a liberasse após a cerimônia ter sido realizada. Com certeza, ele substituiria todas aquelas roupas que havia comprado para ela, por outras de tamanho e estilo diferentes para uma nova amante. De preferência uma amante com a qual ele não precisasse planejar rienhuma espécie de vingança. Angel entrou embaixo do chuveiro e permitiu que os jatos de água morna relaxassem a tensão da atribulação daqueles dias. Pelo menos ela se sentia feliz por ter conseguido com que Delphi e Stavros se casassem e estava orgulhosa pelo design que criara para as jóias qué Ari daria de presente para Lucy no aniversário de casamento. E o fato de ter ocupado a mente com aquela criação a impedira de ficar pensando em Leo e no lado sensível da personalidade dele, quando ele lhe confessara alguns segredos do seu passado infeliz, na noite em que conversaram na cozinha da mansão. Angel tivera a oportunidade de ver um lado completamente diferente do homem arrogante que conhecia. Finalmente chegou o dia do casamento de Delphi e Angel estava se arrumando em seu quarto na mansão dos Parnassus.


Ela havia combinado com Delphi que o melhor a fazer seria evitar o pai a qualquer custo. Pelo menos tinham a esperança de que Tito Kassianides não faria nenhuma cena na igreja por estar ciente de que grande parte da sociedade de Atenas estaria presente e atenta a cada movimento dele. Leo tinha ido para o escritório e combinado que depois de despachar alguns itens importantes, seguiria direto para a igreja. Angel finalmente sentia o gosto do dever cumprido ao testemunhar a felicidade da irmã, que fora a razão principal por ela ter aceitado o acordo com Leo um mês antes. Ela se tornara amante dele em troca da promessa de Leo em conseguir a aprovação do pai de Stavros para que o filho se casasse com Delphi. Tudo acabara como ela planejara. No entanto, Angel sentia um vazio inexplicável no peito. Sozinha em seu quarto ela acabara por admitir que ainda não se sentia preparada para o que estava prestes a acontecer. Por mais masoquista que pudesse parecer, Angel já havia se acostumado com a presença de Leo. E aquela poderia ser a oportunidade que ele esperava para concluir sua vingança. Após ter lhe mostrado o paraíso, descartaria a amante como um objeto usado. E o paraíso a que Angel se referia não tinha nada a ver com luxo e riqueza. Era um paraíso de sensações. O paraíso de ser transformada em mulher e a descoberta de sua sensualidade. O paraíso que Leo lhe Oferecera e que Angel sabia que nenhum outro homem seria capaz de fazê-la sentir-se da mesma maneira. Ela se mirou no espelho do armário de roupas e assustou-se com o fulgor que os olhos grandes e azuis exibiam. Desde aquela noite na cozinha da mansão, Angel rebatia os próprios sentimentos. Tentava convencer a si mesma de que apenas estava com pena de Leo pelo que ele havia passado na infância. Ela olhou para a própria imagem refletida no espelho e franziu o cenho. Havia um nome adequado para o que ela sentia. Era amor. A palidez que ela demonstrou ao tomar conhecimento dos próprios sentimentos era visível no espelho. Como ela podia ter


se apaixonado por Leo Parnassus quando ele demonstrara nada além de um envolvimento friamente calculado? Talvez porque ela justificasse a atitude dele ao acreditar que ela estivesse roubando o testamento de seu pai para prejudicar a família. Ela não teria feito diferente se estivesse no lugar dele. Principalmente com a história de rivalidade entre as famílias. Seria perfeitamente concebível que Angel estivesse tentando salvar sua família através de qualquer meio possível. E, apesar de tudo, Leo ainda era capaz de manter gentilezas admiráveis. Como a de providenciar um carro, que deveria chegar a qualquer momento, para apanhá-la e levá-la até a igreja. E o que mais importava no momento, era o fato de Delphi estar se casando com o homem por quem se apaixonara, desde os tempos de criança. Quanto a Angel, ela não mantinha esperanças em relação a Leo. Ele não conseguia compartilhar a cama com uma mulher por uma noite inteira, quanto mais compartilhar sua vida. Um ruído na porta do quarto a alertou. Ela imaginou que se tratasse de Calista que tinha vindo para avisá-la de que o carro chegara. Mas, quando girou a cabeça, avistou Leo reclinado contra o batente da porta. Ele estava magnífico no terno de cor cinza e camisa branca, complementados com uma gravata de seda. O coração de Angel quase lhe subiu à boca. As palmas das mãos se umedeceram pela emoção. — O que está fazendo aqui? — Parece feliz em me ver... Acho que vou surpreendê-la mais vezes — ele gracejou. Angel enrubesceu. Ela sabia o que acabara de passar em sua mente e sentiu o ar lhe faltar quando imaginou que ele estivesse ali para falar sobre... A voz dele interrompeu-lhe os pensamentos. — Eu resolvi vir buscá-la pessoalmente. E melhor se apressar ou chegaremos atrasados. Angel saiu do estado estático em que se encontrava e decidiu dar uma última olhada no espelho.


O vestido de madrinha que escolhera era confeccionado em tecido de seda na cor rosa pálido, sem alças e a saia cobria até o final dos joelhos. Os cabelos estavam presos no alto da cabeça e alguns fios soltos emolduravam o rosto bonito. Angel apanhou a manta que combinava com o vestido e, caminhando com passos cautelosos por conta dos saltos altos, seguiu ao encontro de Leo. Felizmente Angel conseguiu evitar se aproximar do pai o máximo possivel durante a cerimônia de casamento. Contudo, podia sentir o olhar de ira que ele lhe lançava de vez em quando. No instante em que o sacerdote abençoou Delphi e Sta-vros no altar, Angel não conseguiu conter as lágrimas de felicidade que lhe inundaram o rosto. Procurou evitar o olhar de Leo durante toda a cerimônia, com medo de que ele visse a emoção estampada no rosto dela. Angel sabia que Leo via o casamento como algo que jamais faria parte da vida dele e por isso não pretendia que descobrisse o quanto estava emocionada.

Quando a cerimônia religiosa terminou e os convidados já se preparavam para sair da igreja a fim de seguirem para o salão de recepção, Stavros procurou por Angel para dizer-lhe o quanto ele e Delphi estavam agradecidos por ela tê-los ajudado para que o casamento fosse possível. Principalmente por ter sido realizado tão depressa e antes que a gravidez de Delphi se tornasse visível. As palavras de Stavros e a felicidade estampada no rosto de Delphi fizeram com que Angel sentisse que todo o seu empenho valera a pena. Leo a aguardava na entrada principal da igreja para acompanhá-la até o salão onde seria realizada a festa de recepção para os convidados. Para seu alívio, o pai não parecia inclinado a fazer nenhuma cena. Sem dúvida, sabia muito bem que Leo Parnassus representava o centro das atenções dos figurões da sociedade ateniense, quase como se ele fosse o noivo a ser homenageado. Dimitri Stephanides, pai de Stavros, contratara um serviço de bufê dos mais renomados e que seria servido no salão de festas


de um dos mais luxuosos hotéis de Atenas. Não havia dúvida de que o homem desejava impressionar Leonidas Parnassus. O salão de festas, que ficava no último andar do prédio, estava completamente lotado. Angel notou que a reação das pessoas havia mudado muito desde a primeira vez em que ela aparecera ao lado de Leo Parnassus como amante dele. Havia menos sussurros e olhares furtivos. As manchetes nos jornais já não falavam mais sobre o assunto. E, aos poucos, as pessoas se acostumavam em ver Angel e Leo juntos. — Vamos dançar? Angel ergueu os olhos e percebeu que Leo estava na frente dela com a mão estendida. Ela se ergueu da cadeira onde estava acomodada e permitiu que ele a conduzisse até a pista de dança, onde Delphi e Stavros acabavam de promover a abertura oficial da cerimônia, através da primeira dança que estava sendo dedicada aos noivos. A música que se seguiu era romântica e Leo colou o rosto no de Angel enquanto acompanhavam o ritmo lento da melodia suave. — Sua irmã não é exatamente como eu esperava que ela fosse — Leo sussurrou em um ouvido de Angel enquanto dançavam. — O que você pretende dizer com isso? Leo sacudiu os ombros por baixo do tecido fino da camisa que usava. Ele descartara o paletó e a gravata. Os três primeiros botões do colarinho estavam soltos e permitiam uma pequena visão da pele bronzeada, logo abaixo do pescoço largo. — Ela parece tão... meiga — Leo concluiu com um sorriso matreiro. — Se eu não soubesse da verdade, acreditaria que ela realmente está apaixonada por Stavros. Angel se sentiu tão ofendida que tentou libertar-se dos braços dele. Porém, Leo a abraçou com mais força e impediu que se afastasse. Ela protestou em voz baixa, para que ninguém a ouvisse além de Leo. — Delphi realmente é apaixonada por Stavros. Eles se amam desde os tempos de criança.


— Que bom! — Leo exclamou em tom de voz irônico. Certamente, não estava nem um pouco convencido daquela história. Angel hesitou por um momento. Depois resolveu revelar a verdade. — A razão de desejarem um casamento rápido é porque Delphi está grávida de quase quatro meses. A família de Stavros não aceitava que ele se casasse com uma Kassianides. Stavros havia proposto a Delphi que fugissem para se casar, mas ela não concordara com essa ideia. Leo ergueu uma sobrancelha e Angel beliscou o lábio inferior. Ela já havia ido longe demais para poder retroceder. Por isso decidiu continuar: — O pai de Stavros prometeu deserdá-lo e afastá-lo do círculo familiar se ele insistisse em se casar com uma Kassianides. Angel percebeu o olhar cínico de Leo quando ela se referiu ao fato de Stavros ser deserdado e corou violentamente. — Não é nada do que está pensando. Delphi nunca deu a mínima para a herança de Stavros. Mas ela sabia que ele tinha a intenção de entrar para a política, e também não queria se sentir responsável pela ruptura familiar que aconteceria se Stavros se casasse com ela. — Bem... Apesar de toda essa história, acho que agora ela está bem segura com toda a riqueza do marido. Angel conseguiu puxar os braços com firmeza e se libertar do abraço de Leo. Estava desapontada com o sorriso cínico que ele mantinha nos lábios. —Acredite no que quiser, Leo. Alguém como você jamais se convencerá da existência do amor puro e verdadeiro. E antes que ele pudesse abraçá-la de volta, Angel girou nos calcanhares e abandonou a pista de dança. Leo passou a mão pelos cabelos e notou que algumas mulheres se aproximavam dele ao notar que o "caminho estava livre". Tremendamente irritado, ele abriu caminho em meio à multidão e seguiu para o bar. Enquanto estava acomodado na banqueta junto ao balcão do bar, avistou o casal de noivos que havia decidido por uma mesa num canto discreto do salão. Stavros mantinha uma das mãos repousada sobre o abdome de Delphi e ambos trocavam olhares de incomensurável ternura.


Por um instante, Leo sentiu um arrependimento despontar em seu interior por ter feifc um julgamento tão precipitado. Delphi se parecia com Angel em altura e constituição física. Torém, eram diferentes quanto à aparência. Delphi parecia ter herdado as linhas severas e os olhos escuros do pai, enquanto Angel era dotada de olhos claros e feições delicadas, que provavelmente se assemelhariam às de sua mãe. Leo estava imaginando como deveria ter sido difícil para elas a perda da irmã gêmea de Delphi, quando notou que Ari e Lucy Levaskis se aproximavam. Ficou feliz em poder manter uma conversa com os amigos a fim de distrair a mente. Quando Angel se sentiu recuperada emocionalmente, retornou ao salão. Ficou surpresa ao ver Leo participando de uma dança grega tradicional com outros homens. Ainda estava zangada com ele, mas acabou se derretendo com o sorriso magnífico que ele lhe lançava. Leo parecia tão sensual nos gestos que fazia para acompanhar a dança que Angel não conseguiu fazer outra coisa que não fosse sorrir de volta para ele. Sem que esperasse, Angel sentiu alguém lhe enlaçando um dos braços. Girou a cabeça para descobrir quem a tocara e deparou com a figura do pai. — Precisamos ter uma pequena conversa, Angel. Tenho sentido sua falta e vejo que anda muito ocupada desde a última vez que nos vimos. O cheiro do álcool provocava náuseas em Angel e ela tentou libertar o braço que o pai segurava. — Não adianta fugir, Angel. Não vou deixá-la escapar com o testamento de Georgio Parnassus. Eu o quero de volta! Naquele instante, Delphi se aproximou e ajudou Angel a libertar o braço que o pai segurava. Angel suspirou aliviada e as irmãs se afastaram deixando o pai bêbado para trás, ostentando um olhar furioso. Agora que Delphi iria morar com Stavros, Angel estava feliz em saber que a irmã não precisaria mais se confrontar com o pai, a menos que quisesse. No mesmo momento,' o líder do conjunto que animava a festa anunciou que era chegado o momento de as mulheres apresentarem a dança grega tradicional. Elas começaram a se reunir no meio do salão e os homens se sentaram.


Angel tirou os sapatos e riu divertida quando trombou com Delphi. Ela captou o olhar de Leo e não conseguiu desviar a atenção dele, ao mesmo tempo em que executava os passos da dança que já sabia de cor. Todos os gregos decoravam os passos da dança tradicional desde muito pequenos. Quando a dança terminou, Delphi aproximou-se de Angel e declarou com um sorriso malicioso: — Se aqueles olhares que você e Leo trocaram significam o que estou pensando, ele nem vai esperar você se despedir dos convidados. Angel sabia que a irmã estaria saindo no dia seguinte em viagem de lua de mel, por isso não a veria nas próximas semanas. Por um instante ficou desolada por saber que se sentiria solitária demais sem a irmã por perto. Um inesperado sentimento de autopiedade se instalou no coração de Angel. A mãe a abandonara quando tinha dois anos de idade; o pai sempre a tratara com desprezo; e a qualquer momento Leo a avisaria de que já estava cansado do relacionamento e a dispensaria para poder arranjar uma nova amante. Angel se sentia como uma peça que poderia ser descartada e substituída a qualquer momento. Naquele mesmo instante, Leo se aproximou e ela notou que ele vestira o paletó. — Está pronta para irmos embora? Angel assentiu. De súbito estava se sentindo extremamente cansada. E também não queria arriscar ter um novo e desagradável encontro com o pai. Apanhou os sapatos que deixara num canto do salão e os calçou. Depois aceitou a mão que Leo lhe oferecia e deixou que ele a conduzisse para fora do salão. Dois dias depois da cerimônia do casamento de Delphi com Stavros, Leo entrou na mansão e, após guardar a valise no escritório particular, seguiu para o aposento que fora transformado em ateliê a fim de ter uma conversa com Angel. Ele chegara mais cedo no dia anterior e ela mal notara a presença dele. Angel parecia cada vez mais distante e encerrada em seu próprio mundo.


Toda a sorte de pensamentos contraditórios invadia a mente de Leo. Ele havia visto Angel conversar com o pai por um breve momento na festa do casamento. E a conversa lhe parecera bastante tensa. E, depois disso, observara os olhares de cumplicidade que as irmãs trocaram. Apesar de Leo ter refeito sua opinião a respeito dos motivos que levaram Delphi a se casar com Stavros, agora ele começava a duvidar da sinceridade dela novamente. Quanto a Angel, ele ainda não conseguira esquecer que a flagrara roubando o testamento de seu pai. E esse era um detalhe que jamais conseguiria apagar da memória sem mais nem menos. Enquanto Leo caminhava na direção do estúdio, encontrou Calista que vinha no sentido contrário e mantinha nas feições uma aparente preocupação: — O senhor já conversou com a dona Angel? — Ainda não, por quê? — Ela está na cozinha e parece não se sentir bem. — A governanta revelou e depois se afastou na direção de um dos aposentos. Leo permaneceu onde estava e apenas a acompanhou com o olhar. O que estaria acontecendo com Angel? As dúvidas que o assaltavam começavam a ficar cada vez mais fortalecidas. Talvez ele estivesse sendo feito de tolo mais do que poderia supor. Angel e Delphi haviam conseguido o casamento que planejavam. Será que agora Angel e o pai estariam empenhados em alguma nova trama? Indignado com os próprios pensamentos, Leo disparou na direção da cozinha. Estacou no vão da porta quando avistou Angel, de costas para ele, debruçada sobre o balcão da pia. Ela usava jeans e camiseta. Leo consultou o relógio de pulso. Eles eram esperados em uma inauguração que aconteceria em menos de uma hora e ela ainda estava com roupas casuais. Embora ele soubesse que Angel seria- capaz de vestir-se mais rápido que qualquer mulher que já tivesse conhecido, ela nunca o fizera esperar até que se arrumasse.


Ele caminhou até onde ela estava e notou que Angel mantinha os ombros tensos. Os cabelos estavam soltos e ela nem mesmo olhara para trás. — Você se esqueceu da inauguração a que prometemos comparecer? Angel não fez menção de encará-lo. Apenas respondeu em voz baixa. — Se não se importa de ir sozinho, eu preferiria ficar em casa. Estou me sentindo exausta. Por um momento ele se sentiu contrariado. Se Angel pensava em começar a fazer encenações para chamar-lhe a atenção, então estava muito equivocada. — Nós temos um acordo, Angel. O fato de sua irmã ter conseguido o casamento que desejava, não significa que sua atuação como minha amante está terminada. Angel girou o corpo e lançou-lhe um olhar rápido, mas sem encará-lo. — Eu me sinto realmente exausta. E estou pedindo que me libere apenas por esta noite. A tensão que ele notava no tom de voz que ela usava o preocupou. Algo estava errado. Instintivamente ele estendeu um braço e tocou num ombro dela. A rigidez era tanta que Leo franziu o cenho. — Diga a verdade, Angel. O que está acontecendo com você? Ela baixou a cabeça e Leo colocou dois dedos da mão direita embaixo do queixo feminino e a obrigou a encará-lo. De repente, algo lhe chamou a atenção e por um segundo ele não acreditou no que via. Então um grito escapou da garganta de Leo: — Que diabos é isso?

CAPÍTULO NOVE


Angel fechou os olhos enquanto Leo colocava a ponta dos dedos sobre o rosto dela para analisar o ferimento. Ela não queria que ele a visse assim. Imaginava que Leo apenas concordaria e avisaria que iria sem ela. Mas, não. Ele tinha que insistir... Angel sabia que ele estava lhe observando o queixo inchado e dolorido. Ela ainda.tentou se esquivar, mas Leo a impediu. Ele afastou os cabelos dela e os colocou atrás das orelhas para conseguir uma visão melhor do machucado. — Você colocou gelo sobre o ferimento? Pela primeira vez, Angel fitou os olhos dele. — Não. Tive medo que doesse ainda mais. Leo discordou, meneando a cabeça. — Só nos primeiros segundos. Depois a dor acalma — ele revelou e gentilmente moveu o queixo miúdo de um lado para outro. Ela gemeu e Leo afirmou: — Não está quebrado, mas será melhor confirmarmos com um médico, no hospital. Ela sacudiu a cabeça com uma negativa. — Não. Não quero ir para o hospital. É apenas um machucado. Leo a conduziu até a cadeira mais próxima e insistiu para que ela se acomodasse. Então, foi até o refrigerador e apanhou alguns cubos de gelo e os enrolou em um pano de prato limpo. Caminhou até onde ela se encontrava e com suavidade repousou a improvisada bolsa de gelo sobre o queixo inflamado. Ela tentou se mover, mas ele apoiou uma das mãos num ombro dela e a impediu de se movimentar. Pouco depois, Angel sentiu a dor diminuir, porém ficou horrorizada quando algumas lágrimas começaram a rolar pelo rosto, sem que pudesse impedi-las. — Sinto muito. Eu só... — Os soluços a impediram de prosseguir. Ela estava tentando segurar a emoção desde o acontecimento desagradável, mas agora, sentia as pernas tremerem de maneira incontrolável. Leo chamou pela governanta e Calista não tardou a aparecer na cozinha. A mulher tinha insistido em ligar para Leo, porém Angel não permitira.


A governanta preparou uma bebida que tinha a aparência de conhaque e a entregou para Leo. Ele dispensou a mulher e insistiu para Angel provar um pouco do líquido. O efeito foi imediato. Ele apanhou um lenço de papel da caixinha sobre o balcão da pia e com suavidade enxugou as lágrimas do rosto de Angel. Após esperar mais alguns minutos para que a bebida fizesse pleno efeito, Leo retirou o pano que continha as pedras de gelo do queixo dela e chamou a governanta outra vez. Quando Calista se aproximou, Leo pediu que a mulher ligasse para a assistente dele e comunicasse que ele não estaria disponível e que ela providenciasse alguém que o representasse na inauguração daquela noite. Depois ele conduziu Angel para a sala de estar e fez com que ela se acomodasse em um dos sofás. Ela não parava de protestar: — Você precisa comparecer à inauguração! E importante para os seus negócios! Leo tomou a colocar o pano contendo cubos de gelo sobre o queixo dela e, fitando os olhos azuis que ainda brilhavam por conta das lágrimas recém-derramadas, respondeu: — Acha mesmo que eü ficaria tranquilo por mais de duas horas participando de uma festa, sabendo que você estaria em casa com todo esse sofrimento? Pouco tempo depois, ele retirou a bolsa de gelo improvisada e a repousou em uma bandeja sobre a mesinha de centro. Em seguida inspecionou o ferimento e ficou aliviado ao verificar que o inchaço diminuíra. — Está bem melhor — ele avisou. — E agora, vai me contar quem foi que a socou? Angel mordiscou o lábio inferior. Não queria mentir. Além do mais, Calista já sabia da verdade e com certeza contaria para Leo a qualquer momento. E como se estivesse lendo os pensamentos dela, Leo advertiu: — Nem pense em tentar proteger quem quer que seja que tenha feito isso com você. Angel sentiu a cor sumir de seu rosto e Leo praguejou. Depois insistiu para que ela ingerisse mais um pouco da bebida.


Ele ergueu uma sobrancelha e aguardou em silêncio. Não iria desistir enquanto ela não revelasse a verdade. Percebendo que não teria alternativa, Angel começou a falar: — Meu pai veio me visitar hoje, pela manhã. Nós discutimos e... — ela baixou o olhar, envergonhada por ter que admitir o comportamento insensato do pai. E envergonhada por ainda se sentir magoada pela falta de amor paterno, mesmo após todos aqueles anos. Leo gentilmente fez com que ela erguesse a cabeça e o encarasse. — Foi seu pai quem fez isso? Ela admitiu com um aceno de cabeça. — Ele estava completamente alcoolizado. Veio até aqui para me dizer que eu desrespeitei o nome da família. Eu sempre consegui evitar que ele me atingisse, mas... ele aproveitou uma distração minha e... Eu não consegui ser ligeira o bastante para me livrar do soco. Eu nunca imaginei que ele tivesse a ousadia de vir até aqui... A voz de Leo soou indignada: — Ele já fez isso antes? Ela assentiu e as faces coraram pela vergonha de ter que admitir sua desgraça. Sentia-se tão humilhada... — Nunca de forma tão violenta. Mas quando eu era criança, ele costumava me bater com o cinto. Vivia me culpando pelo fato de eu ser parecida com a minha mãe e isso o fazia lembrar-se da humilhação que ela o tinha feito passar quando abandonara o lar. Eu aprendi como evitá-lo, mas hoje... —Angel se interrompeu para não revelar que estava preocupada defendendo Leo quando o pai a pegou de surpresa. Uma porção de coisas começou a fazer sentido na mente de Leo. O que ele vira na festa do casamento de Delphi com Stavros; o fato de Angel ter sido enviada para um internato em um lugar distante de casa... — Então é por isso que você não visitou sua casa desde quando veio morar na mansão? Ela balançou a cabeça bem devagar. Como se carregasse um peso enorme dentro do peito, Leo perguntou com a respiração acelerada:


— Então não foi seu pai quem a enviou naquela noite em que eu a surpreendi no escritório do meu pai? E nem mesmo na noite da festa? Ela meneou a cabeça. O coração batia tão rápido que Angel até sentiu uma leve tontura. — Então o que você veio fazer na mansão dos Parnassus? — Na noite da festa, aconteceu da maneira como eu já lhe contei inúmeras vezes. Eu não tinha ideia de onde a festa seria realizada. A empresa de eventos para a qual eu trabalhava não costumava revelar esses detalhes para os funcionários. Quando descobri que estava na mansão dos Parnassus, era tarde para voltar atrás. Eu tentei me manter na cozinha preparando as bandejas, mas meu chefe ordenou para que eu ajudasse a servir no salão. — Naquele ponto ela enrubesceu. — Quando eu o vi na piscina, não tinha ideia de quem você era na verdade. Eu estava tão envergonhada que evitava ler as notícias sobre a volta da família Parnassus para Atenas. — Ela se interrompeu por um momento. Não podia acreditar que Leo estivesse prestando atenção no que ela dizia. Há quanto tempo ela desejava que ele acreditasse nas palavras dela... Encorajada por ver que ele aguardava ansioso que ela prosseguisse, Angel continuou: — E na noite em que você me surpreendeu no escritório do seu pai, eu não estava tentando roubar o testamento. Eu estava tentando devolvê-lo. Leo franziu as sobrancelhas. — Devolvê-lo? Como assim? — Uma noite antes, quando eu retornei do trabalho para casa, encontrei meu pai na cozinha com o testamento nas mãos. Foi quando eu o ouvi falar sobre o suicídio da sua mãe. Ele deveria ter pago alguém para roubar o testamento. Não tenho certeza de como ele fez isso, mas suponho que tenha sido dessa maneira. E para evitar dissabores para a sua família e para a minha, eu resolvi tomar o documento dele, aproveitando o momento em que ele adormecera na própria cadeira junto da mesa da cozinha, como sempre costumava acontecer quando estava bêbado, e o coloquei na bolsa. Quando saí do trabalho no dia seguinte, decidi vir até a mansão e tentar colocar o testamento em uma gaveta qualquer do escritório do seu pai.


Angel desviou o olhar por um segundo e depois tornou a fitar os olhos escuros de Leo. — Eu me sentia tão mal por tudo que a sua família havia passado e ao mesmo tempo não queria que meu pai fosse o responsável por ocasionar maiores problemas. E então você apareceu e... — Eu já sei o resto da história — Leo falou com evidente constrangimento. Angel nunca o vira tão compenetrado. Ele balançou a cabeça vagarosamente e começou a falar: — Angel, eu... Ela o interrompeu. — Eu sei exatamente como a cena me fazia parecer culpada. E entendo que você não tenha acreditado em mim a princípio. Por isso eu não insisti em me defender. Sabia que seria inútil. As evidências conspiravam contra mim. — Infelizmente foi preciso que o seu pai a agredisse para que eu enxergasse a verdade. — Por favor, Leo. Não se sinta culpado. Eu provoquei toda essa confusão. — Se eu tivesse imaginado por um segundo que seu pai fosse capaz de uma coisa dessas... — Ele tocou um lado do rosto de Angel e murmurou: — Você deve estar se sentindo exausta. Angel concordou com um aceno de cabeça. — Um pouco. Mas não quero ir para a cama. A ideia de dormir a apavorava. Parecia que as imagens do que acontecera a esperavam para desfilar em sua mente durante o sono. A maneira repentina como seu pai chegara e a esbofeteara de forma tão violenta fizera com que Angel apagasse por alguns instantes. Quando acordara ela ouvira barulho no escritório e quando se aproximara da porta assistira o pai enfurecido, vasculhando as gavetas da escrivaninha. Ainda bem que Calista estava por perto e já havia chamado o segurança, que se apressou em escoltar o pai dela para fora da mansão. — Não quero que você pense que eu... — Eu sei, Leo. Não estava imaginando isso. Apenas não quero dormir. Tenho medo de sonhar com o que aconteceu. Ele balançou a cabeça demonstrando que a entendia. Minutos depois Angel estava acomodada numa confortável poltrona na sala de tevê e agasalhada com uma manta de lã, enquanto Leo estava na cozinha, aguardando que Calista


preparasse uma refeição ligeira. Logo depois ele estava de volta e auxiliava Angel a provar a sopa, já que não conseguia mastigar alimentos sólidos. Depois que Leo terminou sua refeição, a governanta recolheu a louça e retornou para a cozinha. Leo sentou-se ao lado de Angel e ligou a tevê pelo controle remoto. Ele estendeu um braço ao redor dos ombros de Angel e ela repousou a cabeça no peito másculo. Leo olhou com ternura para o rosto angelical e percebeu que ela acabara de cair em sono profundo. Mantinha um braço largado sobre o peito dele num gesto de plena confiança. Havia tantas questões que ainda o martirizavam e tantas recriminações... Ao observar o queixo delicado ferido pela fúria do pai dela, Leo tinha vontade de encontrar Tito Kassia-nides e esganá-lo. Contudo, o bom-senso o obrigava a acalmar-se. Só de pensar nele, sua cabeça zunia. Um pensamento insidioso o atormentava: será que tudo aquilo não passava de uma armação? Será que faria parte de um plano para ganhar sua simpatia e confiança em Angel? Não. Não podia ser um plano. Por Deus! Ela era virgem! Ele sorriu satisfeito ao lembrar que era o único homem da vida dela. Além do mais, muitas peças daquele quebra-cabeça se encaixaram perfeitamente com as explicações que ela lhe dera pouco antes. Leo estava desgostoso consigo mesmo por ter achado que Angel seria capaz de desejar manter controle sobre ele, apenas por saber que o agradava na cama. Talvez os horrores que presenciara na infância o tivessem tornado exageradamente desconfiado. Disposto a afastar todas as dúvidas insensatas, Leo desligou a tevê e apanhou Angel nos braços, tomando cuidado para não perturbar seu sono. Leo a carregou até a cama dele e a acomodou. Após livrá-la dos tênis e do jeans, despiu as próprias roupas e deitou-se ao lado dela. Puxou as cobertas e em seguida apagou a luz do abajur. Angel acordou quando a claridade da manhã iluminou o quarto. Notou que se encontrava na cama de Leo e estava apenas com a calcinha e a camiseta. Ele deveria ter despido o jeans que ela usava para deixá-la mais confortável. Estava deitada de lado;


Leo mantinha posição semelhante e um braço enlaçado na cintura dela. Angel sabia que Leo não gostava de compartilhar sua cama, por isso, tentou mover-se com cuidado para não acordá-lo e seguir para o próprio quarto. Porém, quando tentou afastar a mão que ele mantinha sobre a cintura dela, ouviu um grunhido: — Fique onde está! Angel interrompeu os movimentos e tentou erguer a cabeça para espiá-lo. Porém a dor no queixo a impediu e sem querer ela soltou um gemido. Imediatamente, Leo se sentou no colchão e com um gesto cuidadoso estendeu uma das mãos para forçá-la a girar o rosto na direção dele, a fim de poder examinar de perto o ferimento. A julgar pelo olhar assustado e a maneira como ele praguejava baixinho, Angel imaginou que a situação não estaria nada encorajadora. — Está muito mal? — ela arriscou. — Parece que você ganhou uma bela coloração azulada com pinceladas em tom roxo — ele gracejou. Depois, assumindo uma postura severa, declarou: — Vou levá-la ao hospital, Angel. E não adianta protestar. Ela permaneceu em silêncio. Sabia que ele estava falando sério. Por um instante, um sentimento de gratidão pela preocupação que Leo demonstrava a comoveu. Talvez fosse mais do que gratidão o que Angel sentia. Para que tentar se enganar? Naquele mesmo momento ela se deu conta de que amava Leo mais do que poderia imaginar. Sem nem mesmo pensar, Angel ergueu um braço e traçou com a ponta de um dedo a cicatriz acima do lábio superior masculino. — Como conseguiu essa cicatriz? Leo capturou o dedo que ela mantinha no rosto dele e o beijou. — Gostaria de lhe dizer que foi por defender uma criança de um perigo iminente. — Foi mesmo? Ele riu com zombaria. — Estou brincando. Eu caí da bicicleta quando estava treinando o equiííbrio. Nem me lembro muito bem. Tinha apenas três anos de idade. Angel teria rido se o queixo não estivesse tão dolorido. — Agora volte a dormir, Angel. Precisa descansar.


— Está bem. Mas se quiser que eu vá para a minha cama, é só dizer. — O que eu quero é que você relaxe e durma. Mais tarde eu a levarei ao médico. Duas semanas depois Angel polia o bracelete e os brincos que estavam terminados e prontos para serem entregues a Ari. O brilho das jóias era tão intenso que dava até para se mirar neles como espelhos. Angel moveu o queixo de um lado para o outro e o tocou com as pontas dos dedos de uma das mãos. Notou que o inchaço havia desaparecido, restando apenas uma cor amarelada que poderia ser disfarçada com um pouco de maquiagem. Leo a havia levado a uma clínica particular e o médico descartara a possibilidade de uma fratura. Apenas atestou que o hematoma produzido exigiria alguns cuidados. Desde aquele dia, Leo a tratava com uma atenção tão exagerada que até desmarcara compromissos para ficar em casa, com ela. E apesar dos protestos de Angel, eles nem mesmo jantavam fora, como costumavam fazer de vez em quando. Em uma daquelas noites, Leo dispensara Calista e ele mesmo preparara o jantar para lhe fazer uma surpresa. E o pior era que Angel se sentia cada vez mais apaixonada e temia que seu amor nunca pudesse ser correspondido por Leo. Com certeza ele se sentia culpado por tê-la julgado de maneira errada e tentava consertar o erro através de atitudes gentis. Leo insistira para que dormisse com ele todas as noites, entretanto não a tocava. Na noite anterior, Angel sentiu-se frustrada por perceber que ele estava excitado, mas insistia em tratá-la como se fosse uma boneca de porcelana. E não suportando mais a própria necessidade de fazer amor com ele, ela avisou: — Eu já estou bem, Leo. Pare de me tratar como se eu fosse intocável! Ele entendeu o recado e a posicionou sobre o próprio corpo, auxiliando-a a despir a camisola. Eles fizeram um amor tão intenso que pareciam dois perdidos no deserto que finalmente haviam encontrado um oásis.


O problema era que Angel tomara a iniciativa e não Leo. Ela sacudiu a cabeça para afastar essa recordação e tornou a prestar atenção no polimento das jóias. Um ruído na porta a alertou e ela girou a cabeça para ver quem era. Leo estava estacado no vão da porta e mantinha o corpo reclinado sobre o batente como costumava fazer. Ele exibia um sorriso tão natural e cativante que nada tinha a ver com o magnata arrogante ou o homem que a chantageara de maneira fria e calculista. Pouco depois, ele resolveu entrar no estúdio e olhou para as jóias que Angel estava polindo. Ela ficou nervosa só de pensar em qual seria a opinião dele em relação ao trabalho dela. Leo apanhou o bracelete e os brincos para examiná-los de perto. Por fim, devolveu as jóias para a mesa e declarou: — Seu trabalho é uma perfeição, sabia? Ela encolheu os ombros para disfarçar o embaraço. — Isso é o que eu adoro fazer. Se pudesse ganhar a vida com essa profissão, eu seria muito feliz. Leo traçou com a ponta de um dedo o queixo feminino e comentou: — Está quase curado. Ela concordou com um gesto de cabeça e acrescentou: —- Eu poderei aplicar um pouco de maquiagem amanhã à noite, antes de sairmos para encontrar Lucy e Ari no restaurante combinado. Leo balançou' a cabeça para confirmar a ideia e depois abandonou o recinto. Angel poderia jurar que ele pretendia dizer algo mais. Mas logo se esqueceu do assunto e prosseguiu efetuando os últimos retoques nas jóias. Na manhã do dia seguinte, pretendia ir até o centro da cidade para comprar uma embalagem apropriada antes de entregar a encomenda. No dia seguinte, Leo se encontrava diante da janela de seu escritório em Atenas e apreciava a vista. Porém o pensamento estava centrado em Angel. Ela conseguia virar sua vida de cabeça para baixo. Para alguém que só pensava em acordar e saber que tinha uma mulher na cama à sua disposição, ele estranhava o fato de


apenas se sentir relaxado quando sabia que Angel seria a primeira pessoa que ele veria quando acordasse. Ainda se sentia culpado pelo fato de seu comportamento desconfiado o impedir de protegê-la contra a agressividade de Tito Kassianides. Ela implorara para que ele não fizesse nada contra o pai dela. Por isso, Leo acabara por apenas ignorar o homem, embora tivesse vontade de esganá-lo. Nos dias que se seguiram após o infeliz acontecimento, tinha sido mais fácil para Leo se abster de fazer amor com Angel. A preocupação com a saúde dela superara a libido. Contudo, aquela aproximação o fez descobrir algo mais alarmante. Um sentimento de profunda empatia com ela. O que o fazia lembrar-se da época em que jurara jamais permitir que alguém chegasse perto o suficiente para conseguir que esse sentimento brotasse em seu interior. Ele sacudiu a cabeça com vigor. Detestava se sentir tão introspectivo. Uma suave batida na porta interrompeu-lhe os devaneios. — Pode entrar — ele gritou. A assistente de Leo entrou na sala e avisou: — O sr. Ari Levaskis está perguntando se poderá recebê-lo agora. — Peça que ele entre, Thalia. Leo sorriu ao ver Ari e pediu que ele se acomodasse em uma das poltronas postas na frente da escrivaninha. Ari se sentou e eles iniciaram uma discussão sobre nego-cios que durou cerca de uma hora. Leo pediu que a secretária trouxesse um café a fim de que ambos relaxassem. Enquanto apreciavam a bebida quente e saborosa, Ari comentou com casualidade: — Ontem eu liguei para Angel e ela me disse que já havia terminado o trabalho e que me entregaria as jóias quando nos encontrássemos no jantar programado para hoje à noite. Espero que ela não tenha sofrido muita pressão para terminar o trabalho em tão pouco tempo. Como nós não temos visto vocês ultimamente, fiquei com medo de que você a tivesse escravizado. Leo sorriu divertido.


— Claro que não. Ambos concordamos em tirar umas férias das atividades sociais. E verdade que ela trabalhou com intensidade, mas Angel adora criar jóias. E aquela era a pura verdade. Ele até se acostumara a chegar do trabalho e ter de brigar com ela para poder tirá-la do estúdio para jantar e descansar. — Engraçado... — Ari comentou. — Quando eu soube que vocês estavam juntos, tive minhas dúvidas. Afinal, ela é uma Kassianides e você havia me contado que a flagrara tentando roubar o testamento do seu pai. Leo olhou para Ari com uma contrariedade estampada nas feições do rosto e o amigo abriu os braços em sinal de protesto. — Por que está me olhando dessa maneira? Não pode me culpar, Leo. Todos estão pensando a mesma coisa. Atenas está lotada de mulheres bonitas e você foi justamente se encantar com a filha de Tito Kassianides. Por que razão tinha que se envolver justamente com alguém da família que prejudicou os Paraassus de maneira tão cruel? Ari não sabia nem metade da história. O que ele acharia se Leo lhe contasse toda a verdade? Será que Ari também se precipitaria em condenar Angel sem nem mesmo lhe dar oportunidade de se defender? Será que o amigo teria a mesma coragem dele em usar seu poder para chantageá-la a fim de conseguir com que ela se tornasse sua amante? Leo ergueu-se da poltrona de executivo que ocupava, sentindo-se subitamente agitado por um pensamento que lhe ocorrera naquele mesmo instante. Será que Angel se tornaria sua amante por vontade própria se ele lhe tivesse proposto? Ele se esforçou para articular uma resposta que não denunciasse a atitude desonrosa que tivera com Angel. — O que eu acho é que o relacionamento que eu e Angel mantemos é problema nosso. E enquanto ele se manifestava, sem querer, lembrou-se da primeira vez em que fizera amor com Angel e a maneira como precisara controlar a própria libido para não machucá-la. Angel bateu na porta da sala de entrada do escritório de Leo para anunciar sua presença e entrou. Thalia ergueu a cabeça e sorriu de maneira simpática ao reconhecê-la.


Leo havia apresentado Thalia para Angel em uma ocasião em que ele precisara que a assistente fosse até a mansão, a fim de poderem trabalhar juntos no escritório particular dele até altas horas da noite e conseguirem finalizar um projeto urgente. — Olá, Angel! Leo está ocupado com Ari Levakis, mas acredito que eles já devem estar terminando a reunião. Eu estou saindo para o almoço. — A secretária declarou e ergueu-se da cadeira. Em seguida contornou a escrivaninha e acrescentou: — Eu já o avisei, mas caso ele esqueça, será que faria o favor de lembrá-lo de que estarei de volta às duas da tarde? — Claro que sim, Thalia. Sem problemas. Eu apenas trouxe um lanche para Leo. Angel esperou que Thalia saísse para colocar sobre a escrivaninha a embalagem de papelão e começou a dar um pequeno passeio pela sala de espera. Admirou o requinte do ambiente. Na verdade, o prédio inteiro revelava a riqueza e o prestígio da empresa dos Parnassus. Angel tinha ido até o centro da cidade para comprar a embalagem adequada para as jóias e decidira fazer uma visita surpresa para Leo. Ela nunca tinha estado no escritório dele antes e se sentia agitada e ansiosa ao mesmo tempo. Fitou a embalagem de papelão que deixara sobre a escrivaninha e sorriu. Ela havia comprado um sanduíche de geleia e creme de amendoim. Talvez se tratasse de uma tolice, mas queria que ele soubesse o quanto ela prestara atenção na história que ele lhe contara sobre a avó. Angel sentiu um sobressalto quando ouviu o ruído da maçaneta e a porta da sala de Leo ser aberta, mas não por inteiro. A reunião deveria ter terminado. Ela segurou o fôlego, mas ninguém saiu. A porta permanecia entreaberta e ela podia ouvir a voz de Ari: — Eu e Lucy gostamos muito dela. Angel não tinha a intenção de ficar espreitando a conversa mas, sem saber o que fazer, apenas permaneceu imóvel e ficou em silêncio. A resposta de Leo se seguiu: — Eu sei disso. Mas acontece que o meu caso com Angel é temporário. Não tenho a intenção de me acomodar com a primeira mulher a cruzar meu caminho em Atenas.


— E uma pena, Leo. Eu acho que Angel daria uma excelente esposa. Leo deu uma estrondosa gargalhada e Angel sentiu como se tivesse levado uma punhalada no coração. — Está brincando? Isso mataria o meu pai! E não foi você mesmo quem disse que Atenas está lotada de mulheres bonitas? Ari sorriu com ironia. — Você não deixa escapar nada, não é? E Angel sabe o que você pensa a respeito do relacionamento entre vocês? A voz de Leo se tomou fria como o gelo quando ele respondeu. — Angel sempre soube o que deveria esperar do nosso relacionamento. — Bem, como já afirmei, eu e Lucy gostamos muito dela. Espero que Angel realmente saiba o que está fazendo. Nós detestaríamos vê-la magoada. — Trata-se de um aviso, Ari? — Entenda como quiser, Leo. Eu só acho que Angel não é como as dondocas do seu círculo de amizades. Eu já a julguei dessa maneira, mas depois de conhecê-la melhor... Leo o interrompeu: — Você não tem que se preocupar com isso. Eu e Angel sabemos exatamente as condições de nosso compromisso. — Bem, se é como está dizendo... Então está tudo certo. Nós nos veremos no jantar. Estou ansioso para ver as jóias. Angel não esperou mais nada. Com passos cambaleantes e o coração apertado dentro do peito, ela saiu da sala de espera e correu em direção aos elevadores. E só quando estava no andar térreo foi que se lembrou de que tinha esquecido a embalagem com o lanche em cima da escrivaninha da assistente de Leo. Não queria que ele encontrasse o lanche e descobrisse que ela estivera no escritório. Contudo, não tinha a mínima vontade de voltar àquela sala. Assim que as portas do elevador foram abertas, ela disparou na direção da rua. Queria distanciar-se o mais rápido possível daquele prédio. Um pouco depois, enquanto Angel terminava de ajeitar as jóias dentro das caixinhas revestidas com tecido aveludado na cor azul, a conversa que ouvira entre Ari e Leo não lhe saía da mente. Mas também, o que ela realmente esperava? Que Leo de alguma forma milagrosa passasse a ter sentimentos de amor


verdadeiro por ela? Angel era amante dele e deveria contentar-se pelo fato de Leo desejá-la na cama. E por causa disso é que ela conseguira com que ele se empenhasse em convencer o pai de Stavros a aceitar o casamento do filho com Delphi. Leo a havia forçado a ser amante dele para se vingar de um crime que ela não cometera. Depois de convencê-lo da verdade, Angel imaginava que o relacionamento entre eles se tornaria melhor. Porém, depois de ouvir aquela conversa no escritório de Leo, ela descobrira que ele não pensava dessa maneira. Ela havia sido muito ingénua em acreditar que a gentileza que ele demonstrara naquelas últimas semanas significasse algo mais, além de compaixão. Angel repousou uma das mãos sobre o ventre e beliscou o lábio inferior. Naquela noite em que ela praticamente suplicara que fizesse amor com ela, Leo não tivera tempo de apanhar um preservativo. Porém, ela lhe assegurara de que não estava etrf período fértil. Agora já não tinha tanta certeza. O pensamento de que pudesse estar grávida a estremeceu. Principalmente depois da conversa que ouvira no escritório dele. Um fato estava claro como cristal: o relacionamento deles estava por um fio. E quanto mais cedo terminasse, menor seria o sofrimento. Angel sabia que Leo não gostaria de saber que seria pai de uma criança com o sangue dos Kassianides. E pior seria se ele pensasse que ela engravidara de propósito. Angel tinha um forte pressentimento de que Leo ainda não confiava nela completamente. O telefone tocou e ela levou um susto. Ainda não havia se acostumado com o aparelho de telefone instalado no estúdio, por insistência de Leo. Quando ela atendeu a ligação, ouviu a voz de Leo soar alegre. — Por que você não me esperou? Angel sentiu o coração saltar no peito e apertou os dedos contra o fone. — Eu... precisava cuidar das jóias. Só passei para lhe dar um alô, mas você estava ocupado. — Obrigado pelo lanche. Angel deu uma risada contida, que soou falsa até aos próprios ouvidos. — Ah... Não foi nada!


— Você é um doce, Angel. Ela deu graças a Deus por estar sozinha e não ter ninguém por perto para presenciar a raiva que ela sentiu e que foi capaz de corar sua pele dos pés à cabeça. — Estarei em casa às sete da noite. Um beijo. O coração de Angel batia descontrolado. Ela o amava e estava sendo feita de tola. Se era verdadeiro o ditado "o melhor é quem ri por último", Leo Parnassus tinha o prazer de ser o melhor. CAPÍTULO DEZ Naquela noite, depois que retomaram do jantar, Angel se sentia péssima. Pela primeira vez na vida, a alegria de ver o sucesso de sua criação de jóias fora ofuscado pela indignação que sentia por causa de Leo. Ela não se conformava com o fato de os homens conseguirem entrar num relacionamento sem envolver sentimentos e, ainda por cima, fazer a mulher se sentir como se fosse a única na vida dele. Leo se comportara de maneira gentil durante toda a noite. Angel dizia a si mesma que aquilo não passava de um show para impressionar os amigos. — Por que está tão calada? — Leo perguntou assim que Angel se sentou na beirada da cama e começou a tirar os sapatos. Ela ergueu os olhos e falou com casualidade: — Estava pensando se Lucy irá gostar dos brincos e do bracelete. E a primeira vez que atendo uma encomenda e... Ele se aproximou e ergueu o queixo dela com dois dedos da mão direita. — Tenho certeza de que Lucy irá adorá-los. Ari gostou muito. Você é extremamente talentosa, Angel. Ela enrubesceu e ficou furiosa por não conseguir esconder o embaraço. Por que Leo tinha de ser tão persuasivo? Ele moveu a mão até tocar um dos cotovelos dela e sugeriu: — O que acha de um último drinque? — Não sei... Ele insistiu: — Por favor... — Está bem — ela concordou e o seguiu até a sala de estar. Seu coração batia acelerado. Ela imaginou que Leo tinha algo a lhe dizer.


Ele perguntou o que ela queria beber e Angel escolheu um licor. Leo serviu-se de um uísque e entregou-lhe um cálice com licor de menta. Assim que eles se acomodaram no sofá principal, Leo foi o primeiro a falar. — Eu acho que nós dois sabemos que nosso acordo já não tem mais nenhum valor. E eu não quero impedi-la de ir embora da mansão, se quiser. Angel sentiu o coração se apertar tanto que imaginou que fosse até desmaiar. Os dedos seguraram a taça com mais força do que o necessário e ela se sentiu aliviada por estar sentada. — Eu... — ela começou, mas Leo já estava falando novamente. — Só quero que saiba que eu não quero que você vá embora, Angel. — Você não quer que eu vá embora? — ela perguntou e a voz saiu aguda demais. Ele meneou a cabeça. — Não. Eu ainda a desejo. Eu ainda a desejo. Eram as palavras exatas dele. Nada sobre amor ou sentimentos. E, também, o que ela poderia esperar depois de ter ouvido a conversa dele com Ari, no escritório? — Você poderá usar o estúdio enquanto estiver comigo, Angel. Depois de ter recebido a encomenda de Ari, e com um investimento adequado em propaganda, tenho certeza de que ficará lotada de encomendas. Esse poderá ser o início de uma verdadeira carreira para você. Na verdade, Leo não estava pedindo que ela ficasse com ele porque a amava. E aquela atitude a magoava. Mas Angel se recusava a deixar que ele percebesse o quanto estava sofrendo. — Pelo que entendi você está dizendo que se eu permanecer com você até o momento em que por acaso se canse de mim, você me ajudará para que eu deslanche na minha carreira? E se eu lhe disser que não quero ficar? Os olhos de Leo se escureceram e seu maxilar ficou tenso. — Não acho que terá problemas em se arranjar sozinha, mas não pode negar que a oportunidade que lhe ofereço é um trampolim que a colocará em um nível mais alto, em pouco tempo.


Apesar de Leo estar lhe oferecendo o céu e as estrelas, Angel se sentia frustrada. Ele estava certo. Com o patrocínio que ele lhe oferecia, sua carreira estaria garantida. Mas como ela poderia aceitar um tratado daqueles? Compartilhar a cama dele até o dia em que ele se cansasse e a mandasse embora, com o direito de levar uma carreira brilhante como prêmio de consolação? Subitamente, toda a ambição que Angel sentia pelo sucesso na carreira deixou de interessá-la. Ela teria preferido mil vezes que ele tivesse oferecido apenas seu amor em vez da promessa de lhe garantir uma carreira brilhante. Uma carreira é algo que se pode perseguir a qualquer momento, mas o mesmo não acontece com o amor verdadeiro. Porém, como era óbvio, amor não era uma palavra que fizesse parte do vocabulário de Leo. E se ele um dia resolvesse se acomodar com alguém, provavelmente seria com uma mulher mais sofisticada que ela. Angel sentiu que seu coração se partia em milhares de pedacinhos. Ergueu a taça esaboreou o licor bem devagar. Depois ergueu os olhos azuis e argumentou: — Você sabe a única razão que não me deixava sair da casa do meu pai? Sem dúvida, deve ter pensado por qual razão eu insistia em permanecer em casa quando era evidente que meu pai me odiava. — Ela deu uma pausa intencional e depois prosseguiu: — Eu permaneci naquela casa por causa de Delphi. Depois da morte de Damia, ela se sentiu perdida e se encerrou em seu mundo interior. Irini, a mãe dela, pouco se importava com a filha e meu pai era ainda pior... A pobre Delphi se enterrava nos livros e se afastava do mundo cada vez mais. E quando eu retornei da Irlanda, prometi a ela que não importava o que acontecesse, eu ficaria com ela até que estivesse pronta para abandonar aquela casa. Eu tinha esperanças de que, após concluir a faculdade, conseguisse persuadi-la a morar comigo em outro lugar qualquer, mas aconteceu de a empresa do meu pai começar a ter prejuízo e ficamos sem dinheiro. Delphi estava cursando a faculdade de Direito e eu me comprometi a pagar seus estudos e ajudar nas despesas da casa. E isso significou o final dos sonhos de tentar sair de lá. Leo permanecia em silêncio e imóvel como uma estátua.


— Eu tenho esperado muito pela minha liberdade, Leo. E agora que Delphi está casada com Stavros, eu posso finalmente viver minha própria vida. — E é isso o que prefere? Apesar do que eu posso lhe oferecer? Angel acenou com a cabeça e forçou um sorriso. — Conseguir terminar a encomenda de Ari significou mais do que possa imaginar. E acho que agora você deve ter percebido que eu nunca representei bem o papel de uma verdadeira amante. Leo não demonstrava nenhuma emoção nas feições bonitas do rosto. Finalmente declarou: — Eu preciso ir para Nova York amanhã para cuidar de alguns negócios. E devo permanecer na cidade por duas semanas. Só peço que pense mais um pouco sobre a minha oferta, antes de tomar uma decisão definitiva. Não quero pressioná-la. Angel assentiu vagarosamente. — Está bem. — Então, era isso. Angel ergueu-se do sofá e colocou a taça que segurava na bandeja sobre a mesinha de centro. Depois o encarou e falou: — Estou exausta. Vou para a cama. — Durma bem, Angel. Ela abandonou a sala, sabendo que essa seria a última vez que veria Leo Parnassus. Leo entrou na mansão duas semanas depois e teve o pressentimento de que Angel não estava mais naquela casa. Ele nunca imaginara que uma'mulher fugiria dele dessa maneira. Em sua suprema arrogância, ele não acreditava que isso seria possível. E, embora ele não tivesse ligado ou tentado fazer qualquer outro tipo de contato, não aceitava a ideia de que ela poderia ter decidido partir. Caminhou até o estúdio e entrou. Estava tudo limpo e preparado para ser retirado. As ferramentas de trabalho dela estavam empilhadas e separadas. Ela deixara um bilhete em cima da mesa de trabalho. Querido Leo, Eu deixei tudo limpo e separado para facilitar a mudança.


Eu sei que pode parecer estranho lhe dizer isso, após tantos acontecimentos desagradáveis, mas lhe agradeço por tudo que fez por mim. Espero que seja muito feliz. Angel. Ele leu a mensagem e ficou imóvel por um momento, com a cabeça baixa e uma tristeza infinita no olhar. De repente, deu um grito de raiva e socou a mesa com tanta força, que as ferramentas praticamente voaram e se espalharam pelo recinto. Três meses depois... Angel sentiu uma pontada na parte inferior das costas, e após colocar as duas mãos no local da dor, endireitou os ombros. Depois reclinou o corpo para alongar a coluna. Estava grávida e seu ventre começava a ficar proeminente. Um dia depois de ter a última conversa com Leo, ela tivera um sinal de sangramento e achara que seu período estava atrasado. Mas não. E só quando o próximo período também falhou foi que Angel começou a ficar preocupada. Após fazer os exames adequados, teve certeza de que estava grávida. — Você deveria se sentar um pouco, querida. Precisa aliviar o peso de cima dos seus pés. Angel sorriu para Mary, a mulher com quem trabalhava no pequeno café que servia aos turistas nos arredores do antigo mosteiro, onde funcionava o internato que ela frequentara na Irlanda. — Eu não vou entrar em trabalho de parto por causa de uma dorzinha à toa nas costas. Mary, a mulher mais velha, que Angel conhecia desde os tempos em que frequentara o internato, e que trabalhava como cozinheira, sorriu e comentou: — Não. Acho que não. Então, nesse caso, você poderia atender o nosso último freguês que acabou de chegar e está viajando sozinho. Eu acho que é o último do dia. O próximo ônibus de turismo só chegará amanhã. Angel apanhou seu bloco de notas e uma bandeja para limpar alguma eventual sobra e seguiu para o fundo do salão. Estava ansiosa para chegar à casa que dividia com a sobrinha de Mary e tomar um banho quente para relaxar.


Ao se aproximar da mesa onde um homem alto e forte estava sentado, ela tentou olhar o rosto dele, mas um raio de sol que entrava por uma das janelas impedia que ela lhe distinguisse as feições. Quando chegou mais perto, nem mesmo precisava olhar o rosto do homem. Sua intuição já lhe avisava que se tratava de Leo. O que ele estava fazendo ali? Angel sentiu uma emoção tão grande que pensou que fosse desmaiar. O corpo balançou desequilibrado e antes que pudesse saber o que acontecia, já estava acomodada em uma cadeira e Leo abaixado olhando para ela. Mary também tinha ido correndo ao ver que Angel quase perdera o equilíbrio. — Você está bem, Angela? Eu lhe disse que seus pés estavam cansados por conta do peso. Não sei por que costuma ser tão teimosa. Angel ficou com medo de que Mary começasse a falar demais e ergueu uma das mãos no ar para impedi-la de prosseguir. — Eu estou bem, Mary. Foi só uma pequena tontura. — E notando que a mulher olhava para Leo, ela se apressou em avisar: — Eu conheço esse homem. Trata-se de um velho amigo meu. Porém, a astuta irlandesa olhou para Angel e depois para Leo e não tardou em exibir um sorriso que revelava sua des confiança de que havia algo mais entre eles. Angel podia notar a malícia contida nos olhos claros de Mary. — Já que disse estar bem, prefere que eu os deixe a sós? Angel acenou positivamente com a cabeça, embora preferisse que a mulher ficasse onde estava. Contudo, ela precisava tomar coragem e encarar o pai de seu filho da maneira mais sensata. — Eu realmente estou bem, Mary. Você pode ir para casa que eu me encarregarei de fechar o bar. — Mas como fará para ir embora? Você não tem carro e sua bicicleta está em casa. — Eu me encarregarei de levá-la — Leo falou pela primeira vez. A mulher o olhou com desconfiança, mas depois decidiu ir embora. Leo ergueu-se. Angel reparou que ele usava jeans, uma camiseta preta e a jaqueta de couro na mesma cor.


Sem querer, sentiu um lampejo de atração tornar a invadi-la. Ficou aliviada em saber que o avental largo encobria o ventre avolumado e os seios que prontamente reagiram à aproximação do corpo masculino. Leo a olhou surpreso e perguntou: — Ela a chamou de Angela? Angel explicou que nos tempos em que frequentara o internato, as freiras decidiram que o nome Angel não era muito apropriado e resolveram chamá-la pelo nome de Angela. E, como Mary trabalhava como cozinheira no internato e a conhecia desde aquela época, persistia em chamá-la por aquele nome. — Ela disse que você tem uma bicicleta? E você vem pedalando sozinha por essas estradas perigosas? — Sim. Eu sei que parece perigoso, mas depois que a gente se acostuma... — Perigoso? Andar de bicicleta por essas estradas é praticamente suicídio! Havia tanta censura no olhar dele, que Angel resolveu protestar: — Acho que você não veio de tão longe para discutir sobre os perigos das estradas irlandesas, não é? E, a propósito, como descobriu onde eu estava? Ele passou a mão pelos cabelos antes de revelar: — Depois de um mês de constante insistência, sua irmã finalmente resolveu me contar para onde você havia se mudado. Angel baixou a cabeça e sentiu uma tristeza profunda. Ela havia permanecido em Atenas por mais de um mês depois que saíra da mansão. E quando teve certeza de que Leo não fizera nenhuma questão de encontrá-la, ela se sentira profundamente rejeitada. Apesar de ter-lhe dito que não se interessava pela oferta que ele lhe havia feito, por algum tempo manteve esperanças de que ele a procurasse. Mas quando isso não aconteceu, Angel resolveu mudar-se para longe de Atenas e de Leo. — Eu não planejava vir para a Irlanda, mas quando descobri... — ela se calou. Angel tinha intenção de contar-lhe sobre a gravidez, porém, quando a distância entre eles aumentou, decidiu prosseguir sua vida como estava. Não imaginava ter que encará-lo tão cedo. E


também não tinha coragem de revelar a verdade depois de ter ouvido a conversa que ele tivera com Ari no escritório. Angel moveu a cabeça para um lado, a fim de evitar o olhar de Leo. Ele ergueu o queixo dela com dois dedos de uma mão e a forçou a encará-lo. — O que você descobriu, Angel? Ela sentiu um movimento no interior de seu ventre. Dava a impressão de que o bebê a pressionava para que contasse a verdade ao pai dele. — Descobri que estava grávida — finalmente ela confessou. Por alguns minutos aconteceu um silêncio embaraçoso. E então Leo fez a última coisa que Angel imaginava que ele faria. Apesar de ela não saber bem o que esperar dele. Apenas achava que seria uma reação de desgosto ou algo parecido. Leo aproximou-se dela e, tomando-lhe as mãos, obrigou-a a erguer-se. Depois girou o corpo dela de maneira que ficasse de costas para ele e libertou os botões que prendiam o avental. Em seguida, fez com que a peça deslizasse pelos ombros dela até cair no chão. Fez o contorno ao redor do corpo feminino até estacar na frente dela. Então se abaixou até conseguir fincar um joelho no chão e posicionou as mãos gigantescas ao redor do ventre avolumado. Angel prendeu a respiração e arregalou os olhos ao vê-lo prostrado aos pés dela. O calor das palmas imensas sobre seu ventre fazia com que antigas emoções ressurgissem em sua mente. Ela podia presenciar as feições de satisfação exibidas no rosto de Leo, mas não queria correr o risco de estar enganada e sofrer uma nova decepção. — Por que você veio me procurar, Leo? Ele balançava a cabeça enquanto movia as mãos e alisava o volume precioso. — Você deveria ter contado sobre a gravidez... Angel sentiu uma culpa repentina. Ver Leo desapontado era pior do que vê-lo arrogante e dominador. — Eu só descobri que estava grávida há dois meses. E quando fiquei sabendo... A verdade era que Angel sentira vontade de sair correndo até a mansão e contar para Leo sobre o filho que esperava.


Contudo, o receio de encontrá-lo com outra mulher seria muito difícil de suportar. Então, como uma covarde, ela preferiu fugir para o lugar mais distante possível. Leo fez um esforço para afastar as mãos do ventre feminino e ergueu-se. — Ouça, Leo. Nosso relacionamento acabaria de qualquer maneira em algum momento. Mesmo se eu tivesse aceitado a sua oferta e continuado como sua amante. — E após um suspiro para tomar coragem, revelou: — Quando eu estive no seu escritório, ouvi, sem querer, a conversa que você teve com Ari Levakis a meu respeito. E por isso fiquei sabendo que nosso relacionamento poderia findar a qualquer instante. Ela ergueu os olhos e notou que a expressão de Leo se mantinha inalterada. Era como se ele não estivesse ouvindo sequer uma palavra do que ela lhe dizia. Então Angel resolveu pressioná-lo: — Se você veio até aqui para pedir que eu volte a ser sua amante... Ele cruzouos braços frente ao peito e apontou com o olhar o ventre de Angel: — Acho que já fomos muito além desse ponto, não acha? — Eu quero deixar uma coisa bem clara para você, Leo. Não vou me submeter a qualquer tipo de casamento por conveniência pelo fato de estar grávida de um filho seu. Eu ouvi quando você disse para Ari Levakis que não tinha intenção de se acomodar comigo no futuro. E posso até entender como você poderia se sentir só de imaginar o fato de permanecer com uma Kassianides... — Pare de falar, Angel! Ela ficou calada e se assustou quando viu Leo se aproximar de maneira ameaçadora. Teria recuado se não houvesse uma mesa logo atrás dela. Ela ergueu as mãos no ar e implorou: — Não, Leo! Por favor! — Não o quê, Angel? Não quer que a toque? O que mais? Não quer que eu a procure? Sinto muito em lhe dizer isso,mas eu iria até o fim do mundo para encontrá-la se fosse necessário. Angel sentiu o coração bater feito um tambor e gritou:


— Pare com isso, Leo! Não pense que irá me intimidar apenas porque me encontrou grávida! Leo parecia ignorar completamente os protestos de Angel e, aproximando-se um pouco mais, estendeu um dos braços e retirou o prendedor que segurava os cabelos, permitindo que eles caíssem livres sobre os ombros dela. — Parece que você está decidindo por nós dois — declarou ele, enrolando uma mecha dos cabelos claros em dois dedos da mão direita. Angel ficou paralisada, enquanto ele se aproximava mais e mais, até que ela sentiu o ventre tocar no corpo dele. Um arrepio de emoção que há muito tempo não sentia percorreu toda a extensão da espinha feminina. — Quando você me abandonou, Angel... — ele começou a falar com a voz enrouquecida. — ... eu quase enlouqueci. Angel o fitou com descrédito. — Verdade? Ele assentiu movendo a cabeça lentamente. — Quando eu retornei de Nova York, fui direto ao estúdio para encontrá-la. Então li o bilhete e descobri que você havia me abandonado. Fiquei tão furioso que atirei para o ar todas as ferramentas que você usava para esculpir as jóias. Depois decidi retornar para Nova York, onde permaneci mais de um mês. Costumava frequentar um bar irlandês todas as noites — e com um sorriso irônico, ele salientou: — Cada mulher que eu olhava, eu só via você na minha frente. Então resolvi voltar para Atenas. Contudo, eu me tornei tão amargurado, que até fiz Calista chorar várias vezes. Despedi inúmeros funcionários sem nem mesmo saber por quê. E agora, nem mesmo Ari e Lucy querem mais falar comigo. Angel se admirou: — Seus melhores amigos não falam mais com você? Ele balançou a cabeça com enorme pesar. — E foi só depois de dois meses de sofrimento que eu finalmente admiti que era por causa de sua decisão de ter preferido ir embora do que ficar comigo. E eu precisei insistir com sua irmã para convencê-la a me fornecer seu endereço. Angel respirou fundo antes de falar.


— Você nunca me pediu para ficar com você. Apenas disse o que me ofereceria se eu ficasse. Soava como se fosse uma chantagem. Leo liberou a mecha de cabelos dela que ele segurava com dois dedos e fitou os olhos dela com intensa profundidade. — Eu não tinha coragem de pedir que ficasse, por medo de que você me rejeitasse. Eu não lhe dei uma escolha na primeira vez. Por isso achava que a única maneira de segurar você ao meu'lado seria através de uma oferta generosa. Angel meneou a cabeça. — Para ser honesta, acho que eu o abandonaria de qualquer maneira. Leo baixou a cabeça e deixou à mostra a tristeza que o inundava. Angel tomou uma das mãos dele e levou-a até o peito, obrigando-o a sentir as batidas aceleradas do coração dela. — Está sentindo, Leo? Eu não ficaria com você porque ficar com você era o que eu mais desejava na vida. Entendeu? Angel sentiu as primeiras lágrimas deslizarem, mas não se importava mais em ocultá-las. Não com o bebê crescendo dentro dela. — Eu o amo, Leo. E não poderia suportar o pensamento de que a qualquer momento você poderia se cansar de mim e decidir arranjar uma nova amante ou uma esposa. Leo deu um gemido e abraçou Angel com força. Depois afastou as lágrimas do rosto dela com os polegares. — Oh, Angel... Minha doce Angtl... Não chore, por favor. .. Você não pode chorar agora por que eu preciso que repita tudo o que me disse mais uma vez. Entre lágrimas e soluços, ela conseguiu pronunciar a frase que há muito tempo estava entalada em sua garganta: — Eu... o... amo, Leo. E sempre amarei. E estou muito feliz por carregar um filho seu. Ele a abraçou de novo e a única coisa que conseguia fazer era repetir sem parar que ele também se importava com ela. No instante em que as lágrimas secaram e só restavam alguns soluços que se tornavam cada vez mais enfraquecidos, Leo a conduziu até a cadeira onde ela estava sentada antes e trouxe-lhe um copo com água.


Angel sentia que despejara tudo o que sentia. Desde os seus sentimentos de amor até a raiva contida pelo que havia escutado na conversa que Leo tivera com Ari. Leo também havia lhe dito muitas coisas, inclusive se entusiasmado com a gravidez dela. Contudo, ele não dissera em nenhum momento que a amava. Quando ela esvaziou a água contida no copo que ele trouxera, Leo aproveitou para dizer: — A conversa que você ouviu naquele dia em que esteve no escritório era o retrato de um homem covarde. A verdade é que desde que eu a vi à beira da piscina no dia da festa na mansão dos Parnassus, fiquei atraído por você. Mas quando eu descobri quem você era, as coisas mudaram. Eu tinha vindo para Atenas a fim de me vingar de tudo que havia passado por causa de uma acusação falsa, feita contra a minha família. E, de repente, descobri que você era um dos meus inimigos. Leo sacudiu a cabeça antes de prosseguir: — Isso não justifica as minhas atitudes, mas, quando eu notei que você estava a ponto de ir embora da minha vida, eu me lembrei de Dimitri Stephanides. Eu estava determinado a me utilizar de qualquer recurso para conseguir que você ficasse ligada a mim. Então usei Delphi e Stavros, porque sabia que o casamento deles era importante demais para você. Leo apanhou uma das mãos de Angel e gentilmente beijou a parte inferior do pulso delicado. — Quando Ari me confrontou naquele dia, eu estava nervoso por que tinha acabado de descobrir que o que eu sentia por você era muito mais sério do que uma simples atração. Durante toda a minha vida eu evitei esse tipo de emoção, porque tinha medo de sofrer como já havia sofrido quando era criança. E quando Ari começou a elogiá-la, fiquei com ciúmes. Ciúmes por ele se achar no direito de proteger você contra mim. Leo repousou as mãos novamente sobre o ventre dela e a fitou ternamente. — O medo que sentia quando era criança não significa nada, se for comparado ao medo que tenho agora de viver a vida sem você ao meu lado. Eu amo você, Angel. E também amo esse bebê. E quero que você volte comigo para casa. Quero que se case comigo e seja minha querida esposa.


Angel abriu a boca para falar, mas ele já estava respondendo o que provavelmente ela iria perguntar. — E não é só por causa do bebê. — Ele se inclinou e beijou o ventre dela. Depois se ergueu novamente. — O fato é que eu não consigo viver sem você. E se não voltar comigo para Atenas, então eu me mudarei para este lugar para ficar com você. Só não quero perdê-la outra vez. Angel tomou o rosto de Leo entre as mãos e afirmou: — Na noite em que você saiu daquela piscina roubou o meu coração. Eu nunca mais fui a mesma. Por isso quero que faça o pedido de casamento mais uma vez. — Só se me der um beijo antes... — ele gracejou. — Deus! Como eu senti a sua falta, Angel! Com o coração na boca, ela esperou que Leo inclinasse a cabeça e beijou-lhe os lábios com suavidade. Ele puxou Angel mais junto dele e aprofundou o beijo. Quase sem fôlego, Angel conseguiu interromper o beijo e falou: — Faça o pedido outra vez, Leo. Com o olhar fixado nos olhos dela e uma das mãos repousada no ventre feminino, ele pediu: — Quer se casar comigo, Angel Kassianides? — Sim. Eu quero me casar com você, Leonidas Parnas-sus. E também quero morar com você, em Atenas. De repente, Angel teve um pensamento desagradável e beliscou o lábio inferior. — O que foi Angel? — ele perguntou, notando que algo a incomodava. — Estava pensando no seu pai. Ele deve me odiar. Não vai apoiar nosso casamento. Leo sorriu. — Você sabe que eu sempre critiquei meu pai por ter se casado com Olympia cedo demais? Eu considerei isso como falta de respeito com a memória da minha mãe. E de certa maneira eu o admirava porque eu mesmo jamais consegui aceitar qualquer tipo de compromisso por medo de brigas e discussões. E eu estava errado. As discussões aconteciam porque ele não amava a minha mãe da maneira como ama Olympia. Agora meu pai está mais velho e cansado, e adora ficar em casa com a mulher que ama. Tenho certeza de que está disposto a perdoar as diferenças


que aconteceram entre nossas famílias e, com certeza, não a considerará culpada de nada. — E com um sorriso, ele finalizou: — Será que agora poderemos sair daqui e ir para casa? — Sim. Por favor. — Angel permitiu que Leo a ajudasse a vestir o casaco. O outono irlandês estava começando cedo. A chuva começava a cair e as nuvens escuras pairavam no céu no instante em que eles saíram do bar. Angel segurou a mão de Leo e apontou para o lugar onde ficava o velho mosteiro. — Quando eu estava no internato, costuma sonhar com um príncipe encantado que chegasse para me resgatar e me levasse com ele para casa. Leo moveu Angel para mais perto de seu corpo a fim de agasalhá-la melhor. Com o canto dos olhos espiou para o ventre volumoso e sorriu com felicidade. Eles agora formavam uma família. — Bem, se você não se importa de que o príncipe está chegando um pouco atrasado, eu gostaria de resgatá-la e levá-la para casa comigo. — Leo brincou. Angel sorriu. — Eu não gostaria de ser resgatada por nenhum outro homem no mundo que não fosse você. Ainda que tivesse que esperar por muito tempo.


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